CLIFFORD KNIGHT
O CARANGUEJO
ESCARLATE
(LIVRO PREMIADO COM A "RED BADGE")
TRADUÇÃO DE
HAMÍLCAR DE GARCIA
EDIÇÃO DA LIVRARIA DO GLOBO
Porto Alegre
A Jessamine Paret Knight
Seriam três horas de uma tarde de quarta-feira quando
aquela estranha cabeça apontou, sobre o muro branco e
resplandescente do jardim. Era uma cabeça bem
conformada, um tanto redonda, e de cabelos loiros. Um
bigode nítido, também loiro, pouco mais espesso que a
sobrancelha de uma moça que acaba de ser apresentada na
sociedade, alojava-se sobre os lábios cheios e vermelhos; as
faces estavam muito bronzeadas e o nariz era bem
masculino. Mas o que mais espantava na brusca e inesperada
aparição de tal cabeça, era o seu extraordinário ar de
seriedade.
— Diga, o sr. é Bartktt, não é? — foi a pergunta que me fez
sem mais aquela.
Senteirme rapidamente no cobertor em que estivera deitado
ao brilhante sol da Califórnia e, seguindo pensava, no
recinto privado do pátio.
— Pois... é, sou — respondi. -— Esse é meu nome.
— O sr., segundo parece, é ornitologista. — A cabeça
arredondada ergueu-se mais e um par de ombros amplos,
metidos numa camisa-de-pólo cor de limão, deixou-se ver.
Encolhi as pernas para baixo do corpo. O calor do sol
acariciava-me as costas nuas. Eu não conhecia aquele sujeito
do muro, que procurava conversar comigo de maneira tão
abrupta. Mas ele havia feito a afirmação, quase a acusação, de
que eu era ornitologista, e a sua atitude era de quem
duvidava que eu pudesse negar tal coisa com êxito.
— É mais ou menos isso, respondi. É como quem diz um
amador. Trata-se apenas de uma mania que tenho.
— O sr. é o homem que procuro. Sou Lanfrey... Carlos
Lanfrey — e moveu a cabeça na direção da casa, cujo
telhado vermelho aparecia entre os carvalhos robustos que
se viam acima do muro.
— Sim — disse eu, agora que meu cérebro se punha mais
ativo. — Vi uma fotografia ou coisa parecida no Times de
Los Angeles, esta manhã. Qualquer coisa sobre uma ex-
pedição...
— Isso! — exclamou ele, fazendo um gesto com o punho
grosso. — É por isso que estou aqui. Da janela do meu
quarto, vi alguém que tomava banho de sol. Pensei que fosse
o sr. e vim em seguida para ver se está disposto a fazer uma
pequena viagem comigo. Telefonei a Chandler, o diretor do
Museu, pedindo-lhe que me recomendasse um ornitologista,
e ele me indicou o sr. Veja só. O sr. morando aqui ao lado e
eu toda a manhã preocupado com o que fazer! Pode
aprontar-se agora mesmo?
— Eu não me vou aprontar para fazer coisa alguma. Onde
era mesmo que...
Oh! É até as Galápagos — disse ele, esperançado. — Por um
par de meses, talvez. Mais tempo, se resolvermos. Tínhamos
um camarada que sabia tudo a respeito de pássaros. Do
Museu...
— Risner?
— Isso mesmo. Adoeceu ontem à noite. Foi operado esta
manhã e antes de seis semanas não estará livre. Não
podemos esperar. Todas as armadilhas dele estão a bordo.
Apanhe as roupas necessárias, que eu levo o sr. até o porto,
quando for. Partimos às seis.
— Para as Galápagos?
— Sim. Nunca esteve por lá?
— Estive uma vez. É muito interessante, mas estou muito
bem aqui em San Marino. Andei pensando em ficar no sul
da Califórnia até o outono.
O homem pareceu desapontado e um tanto incrédulo.
— O sr. não está sofrendo de alguma coisa? Fisicamente? É
por isso que precisa de banhos de sol? — perguntou ele.
— Não.
— Gorell vai conosco, vão French e Ardleigh. Homens de
grande projeção nas suas especialidades — continuou ele,
novamente esperançado.
O sol aquecia-me as costas; a tranquilidade do pátio com as
suas flores já me havia encantado: os suaves contornos das
montanhas de San Gabriel, - que reluziam para além da casa
de Carlos Lanfrey, acima do muro, eram um calmante. Lá
estava Lanfrey, sportsman e cientista amador, debruçado
sobre o muro, a pedir-me que eu deixasse o retiro pacífico
de San Marino e partisse para uma expedição científica com
um aviso de última hora. Dispunha eu de bastante comodi-
dade. E nunca fora dado a ações precipitadas. Não era
questão de que, por assim dizer, eu entrasse no papel de se-
gundo violino nos planos de Lanfrey. Pois Risner era, sem
dúvida alguma, o melhor homem a ser escolhido para seme-
lhante trabalho. E afinal de contas, no que me dizia respeito,
os pássaros eram apenas uma mania cultivada inicialmente
no ginásio e mantida durante os anos que se seguiram.
Pouco se me daria que o Museu tivesse recomendado
Corbin ou Hal Trimble. Eles seriam tão bons quanto eu, até
onde se tratasse do trabalho científico a ser feito.
Carlos Lanfrey fez uma volta sobre qualquer coisa em que se
apoiava, no outro lado do muro, e desviou os olhos de mim.
Depois, esfregou a testa com a mão direita, num gesto de
quem está sem o que dizer. Ocorreu-lhe, porém, um
argumento final. Uma sombra passou-lhe pelo rosto e uma
expressão de quem se acusa apareceu nos seus olhos azoes.
— Peço-lhe desculpas — disse ele. — Eu devia ter pensado
nisso antes. Mas eu estava tão interessado em trazê-lo
comigo que me esqueci. Mas, por favor, esteja à vontade
para levar consigo a pessoa que quiser. (O seu rosto ilu-
minou-se.) A sua esposa. . . há bastante lugar no Cyrene.
Minha esposa vai. Gorell também leva a mulher. Há ainda
outra moça... Alice Wilmer... pintora científica...
— Muito agradecido, mas eu não sou casado.
— Bem, qualquer outra pessoa, então. A sua irmã. Um
amigo. Um camarada. Há bastante companhia para quem vá.
Huntoon Rogers, da Universidade...
— Não o Hunt Rogers?
— Sim, ele mesmo. Conhece-o?
— Sim. Mas o que faz um professor de inglês numa
expedição científica?
— Oh! Hunt vai mais ou menos como lastro. Gosto dele, e
ele precisa de descanso. Tem trabalhado muito.
-— Ora, o maganão — exclamei. — E eu que tenho andado
à procura dele para conversar...
O rosto de Carlos Lanfrey iluminou-se convidativamente: o
seu sorriso mudou-se em risada. E ele fez um movimento
como se fosse desaparecer por trás do muro que separava a
sua casa da de minha irmã, com quem eu parava.
-— Virei buscá-lo daqui a uma hora mais ou menos —
disse ele. — Preciso descer a San Pedro o mais depressa
que puder.
Com estas últimas palavras, a sua cabeça desapareceu
completamente. Eu não tinha dito, positivamente, que iria.
Apenas dissera que precisava falar com Hunt Rogers. Mas
por que não? Era somente por um par de meses. Outros
planos que eu estivera a desenvolver lentamente, esses
podiam esperar. Pelo menos eu não me sentiria só, pois
Hunt Rogers era um dos membros da expedição, e eu
sempre pensara voltar uma segunda vez às ilhas Galápagos.
A voz de minha irmã Marjory chegou-me através do hall
superior, perguntando:
— Que barulho é esse, Benny? Perdeste alguma coisa?
Talvez eu estivesse, mesmo, a fazer um reboliço consi-
derável enquanto reunia as minhas coisas.
— Não é nada — gritei para tranquilizá-la. — Eu é que
estou fazendo as malas.
— As malas? Para que?
— Vou viajar.
-— Para onde?
— Até as Galápagos por uns dois meses, com Carlos Lanfrey.
Por um momento não houve bulha alguma, mas depois os
passos resolutos de minha irmã soaram no soalho do seu
quarto e vieram pelo hall superior até os meus aposentos.
Levantei os olhos e vi no limiar da porta a figura delgada de
Marjory. Marjory, que é moça e linda, tem qualquer coisa de
Sibarita, e abomina a idéia de lugares primitivos. Ela me.
encarou quase com um ar de desafio.
— Será que eu ouvi bem? — perguntou ela.
— Acho que sim.
— Mas tu acabas de voltar do México.
— E que tem isso?
Marjory mudou de tática;
— Não sabia que conhecias Carlos Lanfrey.
— E não conheço. Nunca o vi nem soube de sua existência
até que trepou no muro dos fundos do quintal e apresentou-
se.
— Carlos vai no tal de iate dele?
— Não perguntei. Nem sei se ele tem um iate. Mas
provavelmente deve haver coisa parecida para levar os
expedicionários.
— Carlos acaba de casar novamente. Faz oito meses. É a
número três.
— Ele disse que levava a mulher.
— A número dois divorciou-se dele porque ele sempre
estava a viajar para lugares esquisitos. E acho que fez muito
bem.
— Interessante — comentei. — Mas sem importância.
Marjory apanhou os meus cigarros e acendeu um.
-— Quando é que partes? Amanhã?
— Não. Hoje. Dentro de poucos minutos -— respondi,
olhando para o relógio.
— Que há de tão interessante assim, lá nas Galápagos?
— Flora e fauna estranhas. A questão até agora sem resposta
de como isso foi dar lá. Conchas. Peixes. Pássaros. Répteis.
O paraíso de um naturalista. . .
Fui interrompido pelo som do carrilhão da porta da frente, e
ouvi os passos do criado filipino que foi atender, enquanto
eu enfiava a última camisa na minha bolsa de viagem e
fechava-a.
— Mas, Benny. (A voz de Marjory tinha uma nota súbita de
consternação.) Os Fernalds vêm jantar conosco e jogar
bridge. Trazem a Betty por tua causa. . .
— Telefona para o Eric Meeker — disse eu. — Ele que me
substitua. Good-bye.
Beijei-a e desci as escadas para uma das mais estranhas e
terríveis aventuras por que jamais passou homem algum.
Não sou homem do mar, e os navios nunca foram para mim
mais do que meios de transporte. Mas, assim mesmo, não
sou insensível aos seus encantos. Quando avistamos o
Cyrene II atracado na sua doca, deixei escapar uma
exclamação de prazer. A beleza pura de suas linhas, a
atrevida elegância do porte, o claro que devia ter aberto na
conta bancária de Lanfrey pasmaram-me. Os olhos de Carlos
Lanfrey desviaram-se do iate para mim, e um lento sorriso
apareceu nos seus lábios carnudos e vermelhos.
— Gosta do barco? — perguntou ele orgulhosamente.
— É simplesmente uma beleza — respondi.
— Tem razão. Duzentos e oito pés de comprimento —
esclareceu ele.
Mas pude perceber que o espírito de Lanfrey estava ocupado
em outras coisas, como de fato o estivera durante quase
todo o trajeto de San Marino até o porto. Viera ele ao
lado do chauffeur, conferindo uma série de papéis que trazia
no bolso, e tinha deixado o assento traseiro para mim e a
minha bagagem.
Entramos com o carro pela porta aberta do cais, chegamos
até a prancha e Lanfrey saltou.
— Clark levará a sua bagagem para bordo — disse-me ele,
indicando o chauffeur. — E fique à vontade. Estarei ocupado
por algum tempo. Farei as apresentações na hora do jantar.
Isso será depois de termos saído do quebra-mar.
E com estas palavras deixou-me. Acompanhei as minhas
malas para bordo, onde um steward as recebeu. Era este um
homem esmerado, de voz macia, com trinta e cinco anos
aparentes, cabelos loiros e dois dentes de ouro que
apontavam quando ele sorria. Dava uma impressão de
extraordinária eficiência.
— Sou Starr, o taifeiro — disse ele, levando a mão ao boné.
— O sr. está no camarote n.° 10. Já lhe mostro — e segurou
a minha bagagem.
— Pode levar as malas — mandei. — Mais tarde irei ver o
camarote.
— Muito bem, cavalheiro. Às suas ordens. — E retirou-se,
vergando ao peso dos volumes.
Ainda chegavam provisões para bordo. Coisas de última hora
que atravancavam o cais já quase no momento da partida.
Algumas pessoas caminhavam pelo cais, vendo-se entre elas
as que evidentemente faziam parte da excursão. Avistei
Ardleich e abanei-lhe do alto da amurada. Enquanto eu ali
estava, um pequeno coupé aproximou-se velozmente pela
estrada e entrou nas docas. Duas pessoas desembarcaram,
um homem e uma mulher. Poucos minutos mais tarde o
automóvel retirou-se e entrevi o eficiente Starr, sem que eu
soubesse como ele chegara até lá, curvado sob a carga da
bagagem, conduzindo os recém-chegados à prancha.
O homem era moço, trinta anos talvez, musculoso, alto e
moreno. Tinha sobrancelhas espessas e o lábio inferior lhe
tremia. A mulher era jovem. Quase uma garota, com efeito.
Mas o seu aspecto era de quem anda a negócios, e ela
avançava segura e confiante. Era deslumbrantemente linda:
uma loira perfeita, com olhos azuis que pareciam falar.
Quando ambos passavam por mim, ela se voltou para o
companheiro, dizendo:
— Todas as tuas coisas estão a bordo, Jack?
— Estão — respondeu ele. — Desde manhã. No laboratório.
Arranjaram-me um estúdio e tanto. Precisas ir ver.
— Sim, eu quero ver... mais tarde.
E os dois desapareceram, deixando-me a refletir sobre o tom
agradável da voz dela. Ali estava uma moça que eu desejava
conhecer, e, coisa curiosa, eu me sentia satisfeito com a
presença dela a bordo.
Os drs. Gorell e French embarcaram. French era meu
conhecido. Foi ele quem me apresentou a Gorell, um ho-
mem avelhentado, rechonchudo, de rosto escuro e feições
de máscara. Os seus olhinhos cintilavam por trás dos óculos
de aros de ouro. French era para mim uma espécie de enig-
ma — um enigma de elevada estatura, cabelos ruivos, Sar-
dento, e tão silencioso como um surdo-mudo. Tinha cerca
de trinta e cinco anos, era um trabalhador formidável e ho-
mem de extraordinárias ambições. Era um naturalista com-
pleto, mas ultimamente se limitava a vida marítima. Tanto
Gorell como French vinham da Universidade, e lembrei-me
de que o primeiro era o chefe do departamento a que ambos
estavam ligados.
Estávamos a conversar quando Mrs. Gorell surgiu à procura
do marido. Gorell apresentou-me a ela. Era mulher que
começava a passar de madura, tinha um rosto polposo, es-
curo; gorda e baixa, de corpo. Sua maneira de falar era
brusca e quase agressiva. Não me foi difícil imaginar que ela
se havia conduzido sozinha em mais de uma batalha social
entre os universitários e o corpo docente. Os seus olhinhos
escuros trespassaram-me.
— Bartlett? -— fez ela, repetindo o meu nome. O sr. é dos
Bartlett de San Marino?
— Minha casa é em San Marino — respondi-lhe eu.
— Hum! — grunhiu ela, sem que eu pudesse saber se com
aprovação ou reprovação. A dama acabou por levar consigo
French e Gorell, e eu voltei a contemplar a cena do cais.
O sol já mergulhara por trás da serrania lisa e parda que fica
ao ocidente de San Pedro, e uma luz dourada cintilava no
céu para além daqueles suaves perfis. A última lingada foi
deposta no convés, os guinchos cessaram de ranger, os
estivadores nos deixaram, recolheu-se a escada, o apito soou
e soltaram-se as amarras. Fizemos a volta na baía, executa-
mos uma lenta manobra e metemos a proa pelo canal princi-
pal, rumo ao mar aberto. A grande frota cinzenta, os barcos
de Tio Sam, estavam ancorados no porto externo, e cin-
tilavam aos últimos raios do sol poente.
— Sempre fico emocionada quando os vejo — disse ao meu
lado uma voz agradável, uma voz deliciosamente suave. —
Eu queria poder entrar para a Marinha.
Voltei-me para ver quem era a pessoa, companheira de
viagem, que falava de modo tão entusiástico sobre a nossa
marinha de guerra, sabendo, é claro, que devia ser a moça de
ar comercial e alerta que subira para bordo em companhia
do jovem que ela chamara de Jack.
— Nunca experimentou? — perguntei-lhe. — Os rapazes da
marinha têm licença para casar assim que deixam Annapolis.
A moça me encarou, mas continuou onde estava. Passamos
pelos canhões do New México e do Pennsylvania, com-
pridos e poderosos fuzis que espichavam o pescoço nas
torres cinzentas, como se estivessem sequiosos por um
inimigo distante. Dentro em pouco eles ficavam para trás de
nós. Passamos pelo farol do quebra-mar e o Cyrene II
mergulhou a proa numa longa onda verde que chegava do
mar largo. Para o ocidente, o grande disco vermelho do sol
poente já estava meio cravado no horizonte. Um bando de
gaivotas, à espera dos restos da cozinha de bordo, esvoaçava
pela popa.
— Não se sente emocionado? — perguntou-me a moça,
falando tanto com os seus eloquentes olhos azuis como
pelos lábios.
— Por partir?
— Sim, por isso.
— Acho que sim. Comumente, quando saio de minha terra
natal, sempre fico meio solene. Como agora.
A rapariga olhou diretamente para mim, procurando os
meus olhos com os dela. Uma levíssima sombra de desassos-
sego passou-lhe pelo rosto; sua mão deixou a amurada e
esboçou um gesto até o pescoço.
—Oh! o sr. está brincando — disse ela, e riu. — Andei tão
alvoroçada nestes dias que ma! tenho dormido. Quando o dr.
French me disse que eu ia, atirei-me no pescoço dele e
beijei-o. Ficou embaraçadíssimo. Não é maravilhoso sair
para uma espécie de aventura num iate como este? Não é?
— insistiu ela.
— É, sim. Mas, vejam só... gastando beijos em French.
Ela nada respondeu a este comentário. Um cheiro de carne
assada vinha das bandas da cozinha, na proa, de mistura com
a brisa marinha. O sol tinha sido tragado pelo mar enquanto
falávamos, embora os seus raios ainda se demorassem sobre
os dois picos da ilha de Santa Catalina, à nossa direita, bem
como na cadeia de San Gabriel, agora distante, para o norte.
— Qual é a sua especialidade? — perguntou a moça. — Já
fui apresentada a todos menos ao sr. Está no lugar do dr.
Risner, não é?
— Estou. Farei o possível para substituí-lo.
— Como se chama o sr.?
— Bartlett. Benny, para os amigos.
— O meu nome é Alice Wilmer — disse ela.
— Posso perguntar o que faz?
— Sou pintora e desenhista. Pinto para o dr. French os
bichos estranhos do fundo do mar. Apanho as cores tênues
e difíceis antes que elas desapareçam. . .
—Ah, sim. Havia um rapaz que embarcou com a
senhorita...
— Jadi Quigley?
— Ouvi chamá-lo de Jack. Que faz ele?
— É fotógrafo. Tira fotografias paradas e de movimento. Mr.
Lanfrey trouxe-o de um dos estúdios de Hollywood.
Morávamos na mesma casa de apartamentos em Hollywood.
Foi a irmã dele que nos levou a San Pedro. Ela e eu
morávamos no mesmo apartamento.
— Veja se conheço os nomes de todos os que estão a bordo.
Gorell e senhora. French. Ardleigh. A senhorita, Jack
Quigley. E Lanfrey.
— Falta só Mrs. Lanfrey.
— É verdade. Já a viu?
— Não, mas Mrs. Gorell disse que ela estava a bordo.
— Pode confiar em Mrs. Gorell para saber se. . .
— Ah, sim, vai também um homem esquisito de roupa
marrom. Tem umas orelhas engraçadas. . .
— Hunt Rogers — exclamei. Ora, como fui esquecer-me de
Hunt? Tem certeza de que ele está a bordo?
— Tenho. Ele estava no beliche, gemendo, quando
passávamos pelo canal. Eu até perguntei se lhe podia ser útil
em alguma coisa, e ele respondeu que sim, que o deixasse e
ele ficaria muito agradecido. Para quem está enjoado, foi
muita delicadeza.
— É Hunt, não há dúvida. Ele, quando vê um balde d'água,
já vai ficando pálido.
— Quem é ele?
— Ensina inglês na Universidade.
— Por que o levam na expedição?
— Fiz essa pergunta a Carlos Lanfrey. Disse-me que Hunt
precisa mudar de ares. Esteve a trabalhar demais.
— Acho que vou gostar de você — disse a moça, mudando
de tratamento, e bruscamente.
— E será correspondida — ajuntei eu, tendo realmente essa
intenção.
— A princípio pensei que não ia ser assim. Você se parecia
muito com um caranguejo. E qualquer coisa me dizia que
era riquíssimo...
— Nem riquíssimo, nem muito rico. Não posso ter um iate
como este.
- Ora... — exclamou ela. — Ninguém a não ser Carlos
Lanfrey pode ter um barco como este. Vale milhões, não
é?
— Com fome? — perguntei-lhe eu, enquanto o cheiro
tantalizante da cozinha nos chegava mais uma vez no ar
salgado.
— Eu comeria de boa vontade.
— Lanfrey disse que jantaríamos assim que saíssemos do
quebra-mar.
A moça voltou os olhos para a esteira que deixávamos à
popa, e para o cais que desaparecia rapidamente. As sombras
azuladas da noite reuniam-se acima das montanhas, que, ao
fundo, se erguiam cada vez mais. Uma figura alta surgiu pelo
convés em nossa direção. Alice Wilmer exclamou:
— Alô, Jack. Aqui, Mr. Bartlett. Mr. Quigley, Mr. Bartlett.
Apertamos as mãos. O rapaz tinha uma maneira agradável e
franca que me impressionou como Sendo a de um homem
decidido e confiante em si próprio, desses que podem abrir
caminho sozinhos.
— O jantar já está servido, Jack? — Perguntou a moça.
— Quase — respondeu Quigley. — Vim pela sala de jantar
agora, e parece que não falta grande coisa.
— Oh! Ouçam! — exclamou Miss Wilmer.
As notas suaves de um gongo vinham do interior do iate.
Um momento mais tarde, Starr aparecia no convés a bater
levemente no prato de bronze com o martelinho apro-
priado, e passava rápido por nós.
Poucas expedições científicas já se fizeram ao mar de modo
mais luxuoso que o nosso. Minha viagem anterior às ilhas
Galápagos tinha sido feita num navio de préstimo mas de
acomodações acanhadas e comida aquém de trivial; houvera
muita eficiência e algo que sugeria disciplina. Mas, ali no
Cyrene II, a minha única impressão era a de estar num
cruzeiro de luxo. A mesa, quando entramos na sala de
refeições belamente apainelada, resplandecia de pratas e
cristais. Todavia, essa era a ocupação de Carlos Lanfrey.
Sendo êle muito rico, tinha a mania de levar pequenas
expedições científicas a lugares remotos num iate palacial, e
nada havia contra isso. Meus pensamentos foram
interrompidos por Alice Wilmer, que estava ao meu lado.
— Quem sou eu para criticar? — murmurou ela.
— Arranje-se — respondi-lhe eu. — Esta sala é uma das
dificuldades que você terá de aguentar.
Ela sorriu com isto, e eu fiquei ainda mais certo de que ia
gostar dela.
Mas, falando seriamente, ao tomar o meu lugar, pus-me a
imaginar se era possível que alguma coisa de valor pudesse
ser realizada com tal ambiente esplendoroso.
À cabeceira da mesa, alto e empertigado nos seus galões
dourados, Carlos Lanfrey esperava que tomássemos os
nossos lugares. Presumo que êle tivesse planejado dizer
alguma coisa à guisa de saudação formal no momento de
nossa primeira reunião. Mas se assim o foi, a oportunidade
ficou perdida quando Mrs. Gorell ergueu o seu copo e
propôs um brinde ao sucesso da expedição, ao gênio dos
homens, ali reunidos, a Carlos Lanfrey, na qualidade de
intrépido condutor de homens, ao valoroso barco, aos entes
queridos e à bandeira nacional. Notei que uma expressão
irritada passava pelas feições de máscara de Gorell enquanto
este ouvia o brinde decidido, mas inoportuno da esposa.
Quando ela por fim acabou, bebemos aquilo tudo, e então
nos sentamos. Imagino que teria havido outros brindes, não
fossem eles tão inteiramente esgotados por Mrs. Gorell.
No momento em que sentávamos, uma estranha mulher
apareceu entre nós, passou por trás de mim e ocupou um
lugar vago. Era uma pessoa de aparência impressionante e
devia estar na casa dos trinta. Morena, um tanto delgada para
a sua altura, que era acentuada. Vestida simplesmente, havia,
contudo, nela um certo ar de inefável elegância. Talvez fosse
o nariz afilado, ou quem sabe se a pequena mecha cinzenta,
no lado direito, penteada para trás, e que entrava nos seus
cabelos negros; em suma, qualquer coisa a definia como um
puro sangue por si mesmo se define.
— Minha cara — disse Carlos Lanfrey, olhando diretamente
para ela com um sorriso acolhedor mos seus lábios carnudos
— quero que conheças esta gente interessante. Mrs. Lanfrey
— disse ele, dirigindo-se para nós.
Começou pela direita e fez a volta da mesa com as
apresentações. Os olhos castanhos de Mrs. Lanfrey
encontraram-se com os meus quando meu nome foi
pronunciado, mas neles não havia calor, senão uma
avaliação fria e algo indiferente.
— Mr. Bartlett — disse Lanfrey, falando comigo, quando a
formalidade tinha findado. — O sr. talvez precise ser
apresentado a alguém. . .
— Não se incomode, capitão — respondi-lhe. — Já conheço
por mim mesmo todos os presentes.
— Está bem. Assim é que é. Desde que vamos estar juntos
por um período de dois meses ou mais — começou Lanfrey,
olhando intensamente para o grupo reunido à mesa —
espero que todos bem depressa cheguemos a esse senti-
mento de camaradagem mútua que, segundo a minha expe-
riência, é o resultado inevitável de uma expedição desta
natureza. Temos um trabalho considerável já delineado.
Parte dele será bem áspero. Os temperamentos podem
chocar-se às vezes, os interesses podem manifestar-se e de
certa maneira entrar em pequeno conflito, mas espero que
todos nós saiamos dessas dificuldades com a amizade intacta.
Quero fazer tudo o que estiver em meu alcance para lhes dar
conforto; desejo fazer tudo o que possa afim de que o
trabalho seja um sucesso. Se a qualquer momento um dos
presentes puder sugerir-me algo que contribua para
melhorar a nossa tarefa, ou se alguém não estiver satisfeito
com as suas acomodações, dirija-se a mim e terei o maior
prazer em servi-lo. Somente porque estou no comando, não
quero que nenhum dos expedicionários ache que não sou
um dos seus. Sou cientista pelo coração, já que não o sou
pelo saber e experiência, e não apenas um yachtsman. Sinto-
me satisfeito em tê-los como hóspedes. Há, sem dúvida,
uma certa disciplina marítima que deve ser observada, mas
isso incomodará o menos possível.
Era provavelmente esse o discurso que Lanfrey tencionava
fazer quando Mrs. Gorell disparou o seu brinde um tanto à
queima-roupa. E agora que ele o tinha feito, todos nós
batemos palmas enquanto o orador agradecia. Quigley, com
algo da intrepidez da juventude, e em vista do esforço
anterior de Mrs. Gorell, propôs um brinde final ao capitão
Lanfrey, e o brinde foi feito.
— Por amor de Deus — murmurou uma voz ao meu lado. —
Morro de fome!
— As loiras sempre estão famintas? — perguntei a Alice
Wilmer.
— A do seu lado está.
— Aí chegou Starr, o amigo Starr, com a comida — disse
eu, enquanto o eficiente criado punha um prato diante dela.
Se ele me ouviu não deu nenhum sinal, pois, auxiliado por
um rapaz, continuou a servir os outros comensais.
Não foi senão quando estávamos à espera da sobremesa e já
o fumo dos cigarros perfumava o ambiente que a genera-
lidade da mesa voltou ao assunto da expedição. Desta vez,
era Ardleigh. De muito que Ardleigh vinha sendo na
Universidade a eminência em geologia. Eu próprio tinha
estudado com ele e conhecia o velho, pelo menos julgava
conhecê-lo. Este sábio já havia passado dos sessenta anos,
mas afora uns poucos cabelos grisalhos e umas ligeiras rugas
na pele do rosto, que era como uma maçã que começa a
murchar, nada havia nele que indicasse a sua avançada
idade. Tinha os olhos entre verdes e cinzentos, penetrantes,
sobrancelhas altas, o nariz curvado como um gancho, os
lábios duros de uma tartaruga, e o seu corpo alto e magro
parecia temperado com aço.
— Ele é tão ruim como parece? — sussurrou-me Alice
Wilmer.
— Ao contrário. Fora do seu terreno, é ver um gatinho.
Mas, no terreno dele, que ninguém pise!
— Que faz ele?
— É geólogo. Conhece o assunto de fio a pavio.
— De todos os daqui — disse ela em voz baixa — acho que é
do dr. Gorell que gosto menos. E a mulher dele...
— Intuição feminina?
Ela sacudiu a cabeça e acendeu um cigarro.
— Estive a pensar, capitão Lanfrey. . . (O dr. Ardleigh
punha-se a falar no tom mais ou menos arrastado que cos-
tumava usar em aula, ao passo que sacudia a cinza do cigar-
ro.) Há aqui alguns que ignoram o modo exato por que
principiou esta expedição. Talvez, também, a finalidade, a
finalidade precisa da expedição deva ser exposta para sua
melhor compreensão.
— Perfeitamente — interrompeu Lanfrey, rápido,
terminando de beber um gole d'água. — Até Mrs. Lanfrey,
aqui, (e o capitão indicou a esposa com um gesto) mal sabe
de que se trata. Tive tanta pressa em organizar tudo, que. . .
— Oh! sei que é alguma coisa relacionada com ilhas desertas
— disse Mrs. Lanfrey, num tom que parecia revelar um
esforço para ser alegremente comunicativa.
— Sim, minha cara — disse Lanfrey, sorrindo
divertidamente para ela. — Ilhas desertas.
Depois, os seus olhos azuis buscaram os meus. O capitão
continuou:
— E Bartlett, três horas antes de sairmos, não sabia que
vinha conosco. Devo-lhe alguma desculpa por tê-lo trazido
tão bruscamente para isto... pelo menos, uma explicação. E
há outros, Miss Wilmer, Mr. Quigley, que gostariam de
saber...
— Chandler esteve pensando nisto durante muito tempo —
interrompeu Ardleigh. — A sua coleção no Museu achava-
se incompleta.
— Sim. Foi Chandler quem teve esta idéia — prosseguiu
Lanfrey. — Falei com ele no Museu, há seis ou oito
semanas, e ele me disse que lhe faltavam alguns espécimes -
na sua coleção das Galápagos. Nessa ocasião, Charley Risner
chegou e passamos a conversar sobre o problema das Galá-
pagos, que data do tempo de Darwin, talvez de antes. Ha-
veria ou não uma ponte de terra com o México ou a Amé-
rica Central, em tempos remotos, ponte pela qual passaram a
flora e a fauna dessas ilhas, ou essa flora e fauna são de
origem oceânica? Uma coisa puxa outra. E começamos a
falar sobre os homens que podiam ser mandados com
proveito ao arquipélago. Foi então que eu disse ter dois ou
três meses disponíveis e estaria pronto a oferecer o meu iate
se ele designasse os membros da expedição. De sorte que foi
mais ou menos assim que isto começou. . .
— Naturalmente — disse Ardleigh, falando vagarosamente, e
sacudindo a cinza do cigarro — esta expedição não está
preparada para resolver o velho problema de como o
arquipélago recebeu a sua flora e fauna, se por uma remota
ponte de terra, ou por via marítima. . .
O dr. Gorell, que até então permanecera calado, ergueu
bruscamente o queixo. Os seus óculos de aros de ouro, à
cavaleiro do nariz, pareciam cintilar ao clarão dos seus
olhinhos, que luziam belicosamente.
— Há somente uma explicação para a manifestação da vida
nessas ilhas. (A sua voz parecia morder.) Foi por transporte
marítimo. A Corrente de Humbolt, outras correntes talvez,
em tempos pré-históricos, e o próprio homem...
— Ora, deixe-se disso, Gorell — balbuciou Ardleigh, com
um ligeiro sorriso nos lábios ásperos. — Há, por exemplo, a
tartaruga das Galápagos. É um animal terrestre. Não pode
nadar. Não poderia ser levada para ali em árvores
desarraigadas. E mesmo que assim fosse, não poderia
sobreviver às centenas de milhas que tais árvores precisavam
percorrer para chegar às ilhas em questão. . .
— É que não usas o cerebro, Ardleigh — retrucou Gorell.
— Esqueces a circunstância de que a tartaruga das Galápagos
é um prato saboroso para qualquer homem, moderno ou
pré-histórico. Há por todo o Pacífico provas da existencia do
homem pré-histórico, e dos seus movimentos. Suponha-se
que eles levaram as tartarugas para as ilhas como uma
reserva de alimentos, exatamente como, em tempos mais
modernos, o capitão Cook e os navegadores dos seus dias
deixaram cabras, porcos e gado em várias ilhas dos Mares do
Sul....
—- É possível que isso pudesse ter acontecido com as
tartarugas — disse Ardleigh, apertando no cinzeiro a ponta
do cigarro com mais energia do que era necessário..
— É plausível — disse French, falando pela primeira vez. —
Mudanças de adaptação, sem dúvida. . .
— Plausível? — exclamou Gorell, quase a gritar. Não pode
ser contestado. Transporte marítimo e adaptação é a
resposta. É razoável, e muito mais do que a existência de
uma ponta de terra entre o continente e o arquipélago. Por
que recuar tanto na era geológica, quando isso de forma
alguma é necessário? É tolice, Ardleigh. É rematada tolice!
Uma mão tocou-me no braço e uma voz cochichou-me ao
ouvido:
— Acha que êle se zanga assim com todos?
— Aceita o meu bolo? — perguntei, passando-o para Alice
Wilmer, a fim de mantê-la calada.
Mas, na verdade, ela fizera a pergunta que me ocupava o
espírito. O dr. Gorell metera-se em algo mais do que uma
discussão amistosa; havia arascibilidade ali, quase má
intenção. Notei que uma rápida expressão de cólera passava
pela fisionomia de Ardleigh. French mexia-se inquieto na
cadeira. Mais interessante, porém, do que qualquer destas
maneiras de revelar sentimentos ocultos, era o rosto escuro
e gorducho de Mrs. Gorell. Tinha os lábios unidos, os olhos
quase lampejavam; nervosa e distraidamente, ela cortava o
bóio com a colher, como se a cada talho estivesse a
descarregar um ferimento mortal num inimigo.
Aquilo me intrigava. Tenho visto nervos cansados reagirem
ao tédio das expedições demoradas, e observado o choque
de personalidades tornadas explosivas pelo acúmulo de
pequenas irritações. Mas tais incidentes somente se
verificam para o fim ou no fim, não logo no começo. Havia
muito que existiam duas escolas sobre como as ilhas
vulcânicas do Arquipélago de Galápagos haviam adquirido
vida animal e vegetal. Estas escolas tinham professado
pontos de vista opostos desde pelo menos uns quarenta
anos. De sorte que agora não era o momento para que os
ânimos se exacerbassem em torno de um tema tão
acadêmico como este.
Fiquei a pensar na coisa, sozinho, no convés, para onde fui
depois de terminado o jantar. Tendo por companhia o
cigarro e o suave borbulhar da esteira, comecei a pensar se
eu não fora precipitado em aceitar o convite de Carlos
Lanfrey para fazer parte da expedição. Muito ao longe, no
horizonte sombrio, via-se no céu o clarão meio indistinto
formado pelas luzes da enorme área de Los Angeles e das
cidades portuárias. Se logo de início, faltava harmonia na ex-
pedição, que coisa poderia ser realizada?
Passou por mim um vulto que fazia a volta pelo convés da
popa. Chamei-o.
— Pronto! — responderam-me em seguida.
— É você, Starr
— Sim, senhor, Mr. Bartlett. Precisa de alguma coisa?
— Linda noite.
— Excelente, dr.
O Stewart aproximou-se de mim, no escuro.
— Ainda está de serviço?
— Eu sempre estou de serviço, sr., se precisar de alguma
coisa.
— Mas esta hora é sua, não é?
— Sim, sr. Estou fazendo o meu exercício.
— Depois de toda a bagagem, e de ter servido o jantar?
— Sim, sr. Preciso manter-me em forma. Já fui lutador de
box.
— De que classe?
— Peso médio, dr., mas a coisa só dava carne de porco e
feijão, de maneira que fiquei muito satisfeito em vir tra-
balhar para Mr. Lanfrey. Tenho economizado. . .
— Muito bem, Starr, continue com o seu exercício. Não
quero atrapalhá-lo. Mas primeiro diga-me em que camarote
encontrarei o professor Huntoon Rogers.
— No 17, dr.
— Thank you, Starr. Boa noite.
— Good night, dr.
Continuei no convés por mais algum tempo. Talvez fosse
característico de Carlos Lanfrey, pensava eu, aquilo de
transformar um boxeur de semelhante tipo em taifeiro do
seu iate. Atirei o cigarro por cima da amurada — uma sim-
ples centelha que riscou a vasta- escuridão lá em baixo.
Acendi outro e retomei o fio dos meus pensamentos.
De quando em quando, eu ouvia algumas vozes. Não eram
vozes de quem está em palestra, senão de quem conversa
apenas com monossílabos e somente a intervalos. O ruído
parecia vir da vigia de popa do convés inferior. Caminhei
para mais adiante na amurada, afim de não ouvi-las, pois
aquelas vozes perturbavam os meus pensamentos, incon-
sequentes como eram. Eu não podia esquecer a cena do
jantar, quando Gorell tanto se acalorou por uma simples
diferença d« opinião. Havia dez anos que Ardleigh era meu
conhecido. French era uma relação mais nova, mas já de três
anos. Quanto a Gorell, nunca lhe tinha posto os olhos até
aquela noite, mas conhecia-o de reputação como sendo um
naturalista eminente, especializado em concologia. Também
fazia parte da Universidade. Isto me fez lembrar que Hunt
Rogers provavelmente o conhecia. E eu ainda não tinha
visto Hunt.
Joguei o meu cigarro pela amurada, percorri a curta distância
até a escada e desci para o convés inferior. Starr dissera-me
que Rogers estava no camarote n.° 17. Quando eu punha o
pé no convés, observei que a porta de um camarote estava
meio aberta. Não muito, mas o suficiente para, quando
passei, deixar-me ver praticamente todo o aposento.
Camarote de quem, não o sabia, mas achei que fosse o de
Quigley, pois ele estava lá. Não me demorei no corredor; vi
apenas o que vi ao passar. Na verdade, eu não podia ter
deixado de ver.
Quigley, metido num robe-de-chambre, estava no camarote.
E Starr, mais o rapaz que o ajudara a servir o jantar, e um
jovem estranho, que, a julgar-se pela roupa, fazia parte da
tripulação. Todos os quatro estavam inclinados sobre uma
mesa coberta por uma colcha, e jogavam os dados. Quigley
sacudia-os na mão fechada, junto à orelha. Em seguida,
atirava-os à mesa. Havia bastante dinheiro em cima da
colcha.
Continuei a caminhar para o camarote de Rogers. O jogo a
bordo era coisa inevitável, pensei eu. Tenho falado com
marinheiros que me disseram algo sobre o jogo entre os
tripulantes logo no começo da viagem, e, depois, sempre
que haja algum dinheiro. E mais de uma vez, no salão de fu-
mar, tenho tomado parte num jogo entre amigos. Mas eis o
que me perturbou quando passei pelo corredor. Quigley era
membro da expedição, não dos membros principais, mas,
mesmo assim, importante, de vez que era o fotógrafo. Era de
muito mau gosto aquilo dele começar a jogar com a tri-
pulação. Não podia ser desculpado com a mocidade, pois
parecia ter trinta anos; e não apenas isso, pois aparentemen-
te ele já tinha a experiência necessária para conhecer o seu
lugar.
Com o espírito perturbado como já, passei da porta do
camarote de Rogers e tive que voltar sobre os meus passos.
Bati. Bati uma segunda vez.
— Entre — murmurou uma voz apagada.
Abri a porta e entrei. A figura abatida do professor Huntoon
Rogers sentava-se à beira da cama, tendo a cabeça entre as
mãos. A luz que vinha da mesa fazia uma sombra escura no
seu rosto. Aproximei-me dele e pus-lhe a mão no ombro.
— Sente-se melhor, meu velho? — perguntei.
Ao som de minha voz os seus músculos relaxados con-
traíram-se um pouco. Lentamente, o professor levantou a I
cabeça e os seus olhos procuraram o meu rosto.
— Quem...? — começou ele; e depois: — Bartlett? Benny?
Que estás...?
— Sou eu mesmo. Não estás vendo fantasmas. Entrei aqui
apenas por um momento. Se não te sentes bastante bem,
não ficarei.
— Oh! estou muito bem... acho que estou — disse ele,
incerto. — Senta-te.
Sentei-me numa cadeira ao lado da mesa. Hunt Rogers
continuou sentado onde estava, na beira da cama, com a
cabeça novamente apoiada nas mãos. Lembrei-me da
descrição de Alice Wilmer sobre "um homem esquisito de
roupa marrom, que tinha orelhas engraçadas". As orelhas de
Hunt eram pequenas e muito apartadas da cabeça. Mas
depressa esse defeito era esquecido. Usava óculos de lentes
um tanto grandes, um pouco mais espessas do que de
ordinário, pois ele sempre sofrera dos olhos, que de certa
maneira pareciam estar fora das órbitas. O cabelo ruivo
começava a escassear-lhe no alto da cabeça, embora ele
ainda fosse um homem moço, e o nariz era comprido. Tinha
um arcabouço poderoso e andava perto de um metro e
noventa de altura.
Todavia, no momento em que me sentei na cadeira, pouco
se via de tais características. O homem dava mais ou menos
a impressão de uma ruína. Sem óculos, desgrenhado,
escondendo com as mãos as orelhas salientes, ainda por
cima tinha o porte amplo alquebrado no mais profundo
abatimento.
— Agora me sinto melhor — disse ele, esperançado. — Mas
conta-me por que estás aqui.
— Muito fácil. Fui convidado e aceitei o convite —
respondi, e narrei-lhe como Carlos Lanfrey me havia impor-
tunado naquela tarde, por cima do muro do jardim.
—Carlos é assim mesmo — comentou ele. — É um homem
de ação; é mais guerreiro do que poeta lírico... o espírito
contemplativo anda muito longe dele.
— Linda maneira para descansares, esta. O enjôo opera
verdadeiros restabelecimentos... — comecei eu, com
atenuada zombaria.
— Ora, deixa-te disso, Benny — protestou ele. — Isto passa.
Sempre acabo por me restabelecer quando começo a pensar
ao contrário. (Forçou um sorriso.) Já passei desse ponto há
meia-hora.
— Eu vinha falar contigo a respeito do pessoal desta
expedição, mas vejo que é preciso esperar um pouco. . .
— Há um prato de carne fria e bolachas aí nessa mesa —
disse ele.
— Estou vendo.
— Alcança-me por obséquio. Foi Starr quem o deixou aí.
Tenho o estômago vazio.
Passei-lhe o prato, ele apanhou uma bolacha e pôs-se a roê-
la. Dentro em pouco acabava com ela. Depois, atacou uma
fatia de carne. Deixei-me ficar. Eu via que ele melhorava. O
barco jogava suavemente e havia menos mar do que na hora
do jantar. Ele não parecia notar isso, agora. Por fim, disse:
— É o cheiro que há no porto, um cheiro desagradável...
São as primeiras horas a bordo. . . É a espera do enjôo que
me faz enjoar... Quando estou bem longe de terra e já passou
o primeiro ataque, então é que fico perfeitamente bem. Já
estou com certa disposição para subir agora ao convés.
Hunt apanhou os óculos, botou-os, e penteou o cabelo.
Levei a carne fria e as bolachas, e juntos saímos pelo corre-
dor e subimos para o convés de popa. A porta do camarote
de Quigley estava fechada quando passamos, mas ouvi lá
dentro um murmúrio de vozes e concluí que o jogo conti-
nuava.
— Estamos bem longe de terra, não estamos? — perguntou-
me Rogers, quando descansávamos os cotovelos na amurada.
— Bastante.
Já não se via mais o clarão das luzes de terra. Afora as poucas
partes iluminadas do convés, havia por tudo uma vasta
escuridão que nos envolvia; o navio, sob as estrelas fracas e
distantes, avançava no que parecia ser o puro nada.
— Que é que ias perguntar sobre o pessoal da expedição? —
inquiriu Rogers, falando com a boca cheia de bolacha.
— Já conheces todos?
— Não sei. Acho que não. Quais são eles, se é que os
conheces todos?
— Muito bem, Hunt. Quando eu disser o nome de alguém
que não conheças, interrompe-me. Carlos e Mrs. Lanfrey, o
dr. Ardleigh, o dr. French. . .
— French é um simples conhecido.
— Dr. Gorell e esposa, Jack Quigley e Alice Wilmer —
continuei.
— Não conheço Miss Wilmer.
— Vou apresentar-te. Parece interessante.
— Obrigado. Estão todos?
— Acho que sim. . . afora nós dois.
— E sobre quem é que ias fazer-me perguntas?
— Gorell.
Hunt ficou silencioso. Ouvia-se apenas ele mastigar as
bolachas. Repeti o nome.
— Já ouvi. Por que te referes a ele?
Ouvi, no escuro, a risadinha de Hunt.
— Ele parece. . . — comecei.
— Ele não parece apenas, é — interrompeu-o Hunt, rindo.
— Quando Carlos me falou que Gorell vinha conosco, eu
disse a ele que isso era um erro. Ele me respondeu que o
homem fora indicado por Chandler e que ele tinha combi-
nado aceitar as indicações de Chandler, nada se podendo
fazer.. Esta objeção, tu compreendes, não é feita no terreno
científico. Gorell tem grande valor, é um sujeito brilhante.
Mas é uma criatura estreita, e ás vezes penso se o dele é o
que se chamaria de temperamento científico. Que fez ele?
— Uma pequena cena ao jantar — respondi, contando-lbe a
discussão, — Não havia necessidade daquilo.
Absolutamente. Pareceu-me que ele estava disposto a brigar
e nada mais.
Rogers nada disse por um momento. Senti a sua mão apalpar
o que restava da carne fria. Afinal, observou:
— Isso é característico. Se nós não fôssemos velhos amigos,
Benny, e se tu fosses dos que levam ou trazem mexericos,
eu não te diria o que vou dizer. Mas a verdade é que,
embora Gorell tenha algo de gênio, é, contudo, um asno
muito maior, um asno irritante. Se me permites uma metá-
fora, direi que há muito tempo ele vem sendo um espinho
no flanco do corpo docente da Universidade. E a mulher,
mesmo que eu mão devesse dizer tal coisa, ainda é pior do
que ele. Têm uma filha que está em dificuldades com o ma-
rido, mas ela não está a bordo e, de qualquer maneira, isso é
outra coisa. Eu nunca a vi. Não sei quem é o seu marido.
Pronto, já sabes quem são os Gorell.
— Thanks. Eu desconfiava disso.
— Gorell é irritante. A gente pode viver bem com ele
andando afastado dele o mais possível, e nunca discutindo
sobre coisa alguma.
— Estás melhor agora?
— Já estou bom novamente. Vamos caminhar.
Eternos uma volta pelo convés. Rogers tinha recuperado as
suas pernas de mar em pouquíssimo tempo: não era mais o
indivíduo lúgubre que eu havia pouco encontrara no seu
camarote. Eu já estava disposto a arar muito antes dele, mas
ele me arrastou para ainda outra volta pelo convés.
— Vou gostar deste cruzeiro — observou ele em dado
momento.
— Claro, seu grandalhão — exclamei eu. — Não tens
nenhuma responsabilidade. Vais apenas como sobrecarga
num cruzeiro de luxo.
— Trouxe o meu Gibbon e um volume com as obras
completas de Shakespeare. Vou ler ambos, de ponta a ponta,
se o cruzeiro durar o tempo suficiente — disse ele, e pôs-se
a rir. — Há muito tempo que eu tencionava fazer isso.
— São férias esplêndidas.
— Ah! isso me serve muito bem. Quando vocês estiverem
a subir montanhas em ilhas vulcânicas, estarei deitado na
sombra, lendo.
Longe, na direção do porto, apareciam francamente as luzes
de um navio, tênue bruxoleio na escuridão. Paramos à
amurada e observamos os pontinhos luminosos, mas nada
pudemos deduzir.
— Provavelmente é um vapor costeiro — disse Rogers. —
Estamos bem longe, imagino. Carlos disse que íamos
diretamente para as ilhas. Se tocarmos no Panamá, ou em
qualquer porto do México ou da América Central, será na
volta.
Onde estávamos, no convés, ficávamos exatamente acima
das vigias do camarote de Quigley. Lá em baixo as vozes de
súbito se ergueram. Contudo, não reconheci nenhuma.
Bruscamente, uma delas se fez aguda e acusadora; outras
vozes procuravam acalmá-la. A seguir ouvimos um ruindo
de briga, de tapas, e pragas das piores. Bateram com uma
porta. Atrás de nós, alguém subiu a escada rapidamente.
Voltamo-nos para observar o vulto que fugia, vindo do
convés inferior. Este encolheu a cabeça para o ombro,
quando nos viu, e correu ao longo da amurada. Apareceu e
desapareceu tão rapidamente, que nos deixou a pensar se
afinal de contas tínhamos ou não visto alguém. Lá em baixo,
tudo ficou tranquilo por um momento, depois uma porta se
abriu e tornou a fechar-se. Não sabíamos se alguém saíra ou
não do camarote. Depois de um instante, fomos até a escada
e olhamos para baixo. Não havia ninguém. Se alguém tinha
saído, dirigira-se para a proa pelo convés inferior, com os
passos abafados pela passadeira de borracha que cobria o
corredor.
— É esquisito — comentou Rogers, quando tudo ficou
novamente tranquilo.
— Jogatina — expliquei. — No camarote de Quigley. Fazia
algum tempo que estavam de jogo.
— Mas o sujeito que passou correndo por nós. Já o vi em
alguma parte.
— Deve ser da tripulação. Correu para a proa.
— Sim, eu sei. Mas o seu rosto. . . Vi-o na luz, no momento
em que ele chegou ao alto da escada. Já o vi antes em alguma
parte.
— Provavelmente foi no cais, antes de embarcarmos.
— Não, não foi. Eu vim para bordo e fui diretamente para a
cama. Se estou bem lembrado, este sujeito não faz parte da
tripulação... bem...
— Achas que devemos investigar?
— Duvido que isso seja de nossa conta, Benny. Estou
satisfeito em deixá-lo como está.
— E eu também.
Pouco depois, Rogers observou que já estava tarde e sentia
sono.
— Muito bem. Também estou com sono.
Dirigimo-nos juntos para a escada e descemos para os nossos
camarotes.
Se na manhã seguinte havia alguns sinais da briga da noite
anterior no camarote de Quigley, eram com efeito bem
leves. Contudo, eram significativos. Quando Starr me serviu
o café, notei que um dos nós dos dedos de sua mão direita
estava ligeiramente inchado. O seu ajudante achava-se junto
ao bufete, fazendo alguma coisa com os talheres. O rapaz
estava abatido e carrancudo.
— Linda manhã — observei, relanceando os olhos para
Quigley através da mesa.
— Muito linda — replicou ele sem entusiasmo.
Na luz, verifiquei que havia no rosto do fotógrafo um ponto
levemente esverdeado e que parecia ter escapado de uma
escoriação por bem pouco. Percebi o antagonismo existente
entre Quigley e Starr; mas da parte deste nada transparecia,
pois, além de ser mais ou menos um lutador de box, o
homem dava a impressão de possuir também o talento de
um ator ao esconder os seus sentimentos para com Quigley.
Porque se me afigurava que ele tinha em desfavor o homem
a quem servia.
Nada, porém, foi dito a tal respeito; aparentemente, nada
houve naquele dia em consequência do reboliço da noite
anterior. Huntoon Rogers não mencionou o fato quando
conversei com ele depois do café, ao fazermos os nossos
exercícios pela coberta. Parecia-me que se tratava de uma
dessas coisas que talvez sejam importantes no momento,
mas que, mais tarde, desaparecem.. Deixei Rogers. Este
afundou-se numa cadeira e abriu o seu Shakespeare, ao passo
que eu descia para examinar o material que Risner tinha
mandado para bordo e era necessário ao trabalho que ele
pensava fazer si não tivesse adoecido.
E fora o equipamento para as coleções, que incluía muitos
rótulos com os dizeres "Expedição de Carlos Lanfrey às
Galápagos", havia uma lista um tanto longa de vários
exemplares que Risner esperava encontrar e trazer em
pássaros terrestres e marítimos. De acordo com as suas
extensas preparações, era evidente que ele planejara fazer
uma busca total nas ilhas para encontrar espécimes. Isso
representava um trabalho rude e muitas ascensões num
áspero terreno vulcânico. Contudo, se eu fora precipitado
em aceitar o convite de Carios Lanfrev, nada havia agora que
fazer. E afinal de contas, eu na verdade não o lamentava.
Agora que estivemos no mar e com a expedição já iniciada,
eu começava a sentir de certo modo a ansiedade, a
expectação dos demais membros do grupo.
Julgara ter sido eu o único dentre toda a companhia que, no
momento da partida, não sentira tal ansiedade. Foi o que tive
oportunidade de dizer para Mrs. Lanfrey, quando estávamos
na amurada nessa tarde. Ela se dirigira a mim quando eu
estava ao tombadilho e batera na amurada, ao seu lado, como
em convite para que me detivesse ali.
— O sr. não parece tão excessivamente compenetrado —
observou-me ela, oferecendo-me um cigarro da cigarreira
que trazia no bolso de suas calcas masculinas e escarlates. —
O sr. até nem se parece com um cientista.
— Muito obrigado. A sra. está fugindo deles, não é?
— Sim. Aborrecem-me a matar.
Acho que levantei as sobrancelhas diante de tal afirmação:
pelo menos, olhei para ela um tanto fixamente.
— Oh! eu sei — disse ela a rir. — Está pensando em Carlos.
Ele sabe que eu detesto as expedições científicas. Ele
também sabe que eu vim só para lhe causar prazer.
— Então, afora isso — observei eu — está sem saber o que
fazer na viagem?
— Exatamente — respondeu ela com um sorriso lento que
deixou ver os seus dentes brancos e parelhos.
Era uma bela mulher. Tinha lindos olhos, e as feições tão
precisamente delineadas como as de um camafeu; havia algo
de quase régio no modo com que ela aprumava a cabeça nos
ombros. E, contudo, eu sentia pena dela. Porque havia
qualquer coisa de patético naqueles seus olhos, uma
inquietação, uma fome insatisfeita. Ela era uma mulher que
nunca havia encontrado a si mesma, e que provavelmente
jamais se encontraria. A vida estendia-se diante dela como
uma estrada de descontentamento. Além disso, ela não sus-
peitava de tal; jamais daria com semelhante coisa.
— Sou um cientista — disse eu — se é que afinal sou alguma
coisa. Sou um caçador de pássaros. . .
— Não deixe que isso lhe tome conta como uma febre, se
deseja ser meu amigo.
— Eu...
Mrs. Lanfrey fixou-me de súbito com os olhos, como se
estivesse a lembrar-se de algo esquecido havia muito tempo.
— Não tem uma irmã chamada Marjory?
— Tenho.
— Eu costumava vê-la no Coconut Grove, na cidade. Acho
que era tão linda como jamais alguém se atreveu a ser.
— A menina tem boa aparência — respondi eu, um tanto
satisfeito, pois Marjory é algo de que a gente se pode
orgulhar.
— Que é feito dela?
— Casou-se.
— Oh!
O interesse de Mrs. Lanfrey dissipou-se instantaneamente,
nossa conversação parou por alguns momentos. Estávamos a
fumar o nosso segundo cigarro quando Quigley apareceu no
convés com um ar de quem procurava alguma pessoa.
Assim que nos avistou, dirigiu-se diretamente para a
amurada. Cumprimentei-o com um aceno de cabeça e ele
ficou a olhar um momento para mim, como se jamais me
houvesse visto.
— Conheces Mr. Bartktt, não conheces, Jack? — perguntou
Mrs. Lanfrey.
— Conheço, sim. Como está? — fez ele, fixando os olhos em
mim por um breve instante.
Aceitou um cigarro que ela lhe ofereceu, e acendeu-o no
dela. Notei que a mão dele tremeu um pouco.
— Está-se divertindo? — perguntou Mrs. Lanfrey, com
preguiçosa indiferença.
— Sim, estou — respondeu Quigley, e pôs-se a olhar para o
mar.
Havia qualquer coisa no seu espírito, alguma coisa
importante. Ele parecia hesitar sobre o que fazer.
Bruscamente, voltou-se para Mrs. Lanfrey e falou numa voz
que era dirigida exclusivamente a ela, mas que eu não pude
deixar de ouvir.
— Escuta, Reba — disse ele, — Tenho que falar contigo.
Agora mesmo. Em qualquer parte. Nalgum lugar onde eu
possa falar só contigo.
-— Pois não, Jack. Onde quiseres. Vamos ao salão. Ele
tomou-lhe o braço e afastou-se da amurada.
— Mr. Bartlett vai desculpar-nos, não é verdade? — disse
Mrs. Lanfrey.
— À vontade.
Não notei, no momento em que eles saíam, que Carlos
Lanfrey estava próximo de nós. Mas quando voltei as costas
as deck afim de olhar para o -mar deserto, vi que ele estava
perto. Observava a mulher e Jack Quigley enquanto estes se
dirigiam para o saião. Pouco depois dirigiu-se para mim e
inclinou-se contra a amurada: o sol brilhava nos alamares
dourados do seu uniforme. Trocamos cumprimentos. Ele
não parecia ter nada em particular para me dizer.
— Está bem instalado nos seus aposentos, Bartlett? —
perguntou-me ele.
— Muito bem. Thank you. O seu arco é magnífico.
— Não há dúvida, mesmo. Estamos fazendo dezessete nós.
— É uma excelente marcha.
O capitão franziu os lábios carnudos, e os seus olhos se
apertaram. Parecia estar resolvendo algum assunto no
espírito. Por fim, disse:
— Bartlett, não sabes por acaso se houve algum jogo entre
membros da expedição os homens da tripulação?
Carlos Lanfrey olhava para o oceano, com o ombro en-
costado ao meu, esperando uma resposta.
— Sim — disse eu — mas...
— Compreendo — interveio fie apressadamente. Não lhe
peço que seja um leva-e-traz. Apenas procuro chegar ao
fundo de certa coisa. Um dos tripulantes tem uma moeda de
ouro. E não quer dizer onde a obteve. Ernest, o rapaz que
ajuda Starr, está carrancudo. A notícia é de que ontem à
noite houve jogo num dos camarotes e que o jogo terminou
em briga. Sinto muito e lhe peço desculpas por metê-lo
nisto. . .
— Dá-me licença para chamar Rogers aqui? — perguntei.
— Hunt Rogers?
— Sim. Ele está numa das cadeiras do convés...
Carlos Lanfrey voltou o corpo para descobrir Rogers e
chamou:
— Hunt! Oh, Hunt! Chega aqui um momento. Hunton
Rogers veio até onde estávamos, junto à amurada.
Logo a seguir, Lanfrey começava:
— Conversávamos aqui, Hunt, sobre qualquer coisa que
aconteceu ontem à noite. Sabes algo sobre uma briga num
dos camarotes?
— Sei — disse Rogers, olhando interrogativamente para
mim. Depois, continuou: — Houve uma briga ou coisa pa-
recida.
— Vamos ver o que sabes.
— Oh! eu não estava lá — exclamou ele a rir. -— Tenho uma
testemunha. Benny e eu estávamos na coberta da popa,
quando houve a coisa, logo abaixo de nós.
E Rogers prosseguiu, detalhando os ruídos de luta que
tínhamos ouvido no camarote de Quigley: os golpes, as
pragas, a batida da porta, o tripulante que arremeteu pela
escada e correu para a proa.
— Quigley — disse Lanfrey absorto. — Provavelmente foi
um jogo de dados que deu em briga.
— Desde que o sr. procura tirar isto a limpo — disse eu —
acho que é justo contar-lhe o que vi. Eu tinha passado antes
pela porta de Quigley, quando ia ver Hunt. A porta estava o
suficientemente aberta para deixar-me ver a maior parte do
camarote quando eu passava. Quigley, Starr e Ernest, o
rapaz, mais um membro da tripulação que eu ainda não
tinha visto, estavam lá. Quigley sacudia os dados e atirava-
os à mesa, onde havia bastante dinheiro. Sem nenhuma
conclusão ou atenuação, ou esforços para deduzir ou para
enredar ou perdoar — pois nada disso me compete — essa é
a história tal como a sabemos. O sr. pediu, aí está.
O capitão Lanfrey ficou a olhar para o mar durante um bom
pedaço. Finalmente, disse:
— Muito obrigado, cavalheiro. Vamos deixar a coisa como
está. A menos que isso torne a acontecer. Não deixarei que a
disciplina da tripulação seja abalada.
Dito isto, fechou as maxilas, endireitou o corpo todo e
caminhou para a frente.
Tudo isto não parece digno de ser mencionado. Num caso
ordinário, suponho, devia ser omitido. Mas diante do que
estava para suceder, é necessário incluí-lo. Ademais, o
Cyrene II não era um barco de passageiros no sentido de
um navio de carreira; era um iate particular ocupado numa
expedição científica, e os membros responsáveis deviam
algo mais do que uma simples obrigação de passageiros ao
capitão, que tomava a peito o bem-estar e o sucesso da
expedição.
— Quigley não devia ter começado um jogo dessa natureza
— disse Rogers.
Este último ainda estava inclinado sobre a amurada, com um
dedo no seu volume de Shakespeare e o comprido nariz a
apontar para o mar como uma figura de proa.
— Claro que não devia.
Depois de um momento, Rogers observou:
— Quigley, sabes, é um substituto de última hora, como tu.
— Não, não sabia disso.
— Pois é. O homem que Carlos esperava tirar do estúdio foi
chamado à última hora para retomar uns trechos do filme
em que trabalhara. E Quigley foi mandado no lugar dele.
— As coisas não parecem ter corrido muito bem para
Lanfrey, ou estou enganado?
— Não. Não correram bem. Acho que nunca correm.
— Quigley parece ser relacionado com Mrs. Lanfrey.
Pensei, naturalmente, que isso de certo modo contribuíra
para ele estar aqui conosco.
—- Não, acho que não. Se ela o conhece, o fato dele estar a
bordo ê provavelmente uma mera coincidência. Nada mais.
Estávamos apenas a tagarelar em vão. A vida de bordo
presta-se peculiarmente aos mexericos. Como um grupo,
ainda não havíamos chegado ao ponto em que a curiosidade
de uns pelos outros fica satisfeita. Enquanto falávamos,
olhando agora para a água, novamente com as costas para a
amurada, Mrs. Lanfrey apareceu no tombadilho sozinha;
caminhava fumando um cigarro. Passou por nós sem falar e,
depois, subitamente, parou e voltou atrás. Ficando um pouco
à distância, disse ela a Rogers:
— Talvez eu esteja sendo um pouco descuidada, Mr. Rogers,
na qualidade de esposa do capitão. Ainda não lhe perguntei
se está bem acomodado. Está?
— Estou perfeitamente bem, Mrs. Lanfrey, muito obrigado.
— E o sr„ Mr. Bartlett?
— Da mesma forma, agradecido.
Ela sorriu, e com uma unha polida bateu habilmente a cinza
do cigarro sobre a amurada. Havia mais alguma coisa que ela
desejava dizer, mas hesitava; depois, ex-abrupto, disse:
— Carlos não joga. Ele detesta o jogo. Não estou pedindo
desculpas por essa falta nele, os senhores compreendem. Eu
simplesmente queria dizer que, se souberam qualquer coisa a
respeito de algum jogo já verificado aqui, façam o obséquio
de nada dizer a Carlos, sim?
Fez-nos um sorriso e antes que eu ou Rogers pudéssemos
responder, retirou-se.
Na manhã seguinte já estávamos a grande distância da costa
da Baixa Califórnia. Nas primeiras horas matutinas o Cyrene
II, deslizando, branco, num mar azul e deserto, possuía
uma atmosfera de solidão. Os tombadilhos estavam vazios;
no salão e na sala de jantar não se via ninguém. Toda vida
parecia ter desaparecido.
— Onde estão todos? — perguntou-me Alice Wilmer,
chegando para o café.
Eu estava sozinho quando ela entrou. Ardleigh e o capitão
Lanfrey já haviam tomado o seu café e saído, pois a louça
não estava mais nos respectivos lugares.
— Que é que você espera de uma expedição científica? Uma
recepção, um chá com tagarelice?
— O que não espero é um silêncio de túmulo — respondeu-
me ela.
— Pois bem. Veja só. Carlos Lanfrey leva muito a sério as
suas obrigações como capitão e como chefe. Ele tem muito
trabalho que fazer no seu escritório, na ponte de comando.
O seu piloto, o segundo piloto, o chefe das máquinas e os
foguistas são homens muito ocupados. Eles têm lá o seu
serviço, e de qualquer maneira a gente não espera vê-los.
Mrs. Lanfrey representa a sua própria lei. Os membros
científicos da expedição trouxeram consigo alguma coisa
para fazer. O dr. Gorell está escrevendo algo, e a sua mulher
o ajuda. Ardleigh está revisando o texto do seu livro sobre
geologia. French trabalha na confecção de um livro.
Huntoon Rogers, quando não está fazendo o seu exercício,
está lendo. Você, Jack Quigley e eu somos, ao que parece, os
únicos desocupados neste cruzeiro de luxo. . .
— Viu Jack esta manhã? — perguntou-me ela, cujo rosto
está extraordinariamente fresco e lindo àquela hora da
manhã.
— Não.
Ela ergueu os olhos azues para Starr, quando este chegou
com os ovos e torradas:
— Mr. Quigley ainda não tomou café, Starr?
— Ainda não, Miss Wilmer.
— Jack vai tirar fotografias de todos esta manhã — disse ela,
voltando-se para mim. — É coisa oficial. Todos no convés,
às dez e meia. Ele me avisou ontem à noite.
— Os retratos são inevitáveis. A gente tem que se deixar tirar
e ainda por cima gostar. . .
— Mas eu gosto.
— Não é uma vez, são muitas.
— All right. Quanto mais, melhor.
— Com você não se pode.
Ela riu e ambos começamos a ficar alegres. Esqueci aquela
sensação de soledade que mais cedo eu havia notado no iate.
Talvez fosse muito bom termos começado o dia dessa
maneira; mais tarde haveria o suficiente para contrabalançar
de sobra qualquer alegria à hora do café.
Contudo, não foi senão pouco antes das dez horas que o
ajudante Ernest desceu a escada e bateu à porta do camarote
de Quigley. Bateu duas vezes, segundo disse depois, entrou e
viu que Quigley não estava ali. O rapaz voltou ao capitão
Lanfrey e informou-o de que não tinha podido encontrar o
fotógrafo. Lanfrey queria combinar com Quigley as
fotografias dos membros da expedição que desejava mandar
tirar.
— Vá lá na proa e veja se ele não está no alojamento dos
tripulantes — mandou Lanfrey ao rapaz.
Estando por acaso ao alcance da voz de Lanfrey, ouvi estas
instruções. Passou-me pelo cérebro a idéia de que Quigley,
na sua devoção para com os deuses da fortuna, tinha
invadido o castelo-de-proa à procura de parceiros. Lanfrey
não estaria pensando a mesma coisa?
Ernest voltou em poucos minutos, dizendo que Quigley não
estava no alojamento da tripulação.
— Vá procurá-lo. Peça a Starr que o ajude — disse
Lanfrey.
O rapaz hesitou um momento e disse depois:
— A cama de Mr. Quigley está como estava ontem de
noite, capitão.
Carlos Lanfrey encarou o rapaz por um instante sem
nenhuma alteração no rosto bronzeado.
— Você devia ter dito isso em seguida. — E depois,
peremptoriamente: — Bem, traga-o aqui.
— Yes, Sir.
Lanfrey aproximou-se de mim na amurada, onde eu estava
encostado, a gozar o sol.
— Este tal de Quigley — disse ele sem preâmbulos —
começa a tirar-me da paciência.
— Ele é moço — respondi.
— Demasiado moço e incapacitado para este serviço,
segundo me parece.
— Vai tirar fotografias do pessoal da expedição esta manhã?
— perguntei.
— Sim. A propósito, Bartlett, enquanto esperamos
Quigley, poderias avisar os outros membros da expedição
que subam ao convés? Não queremos detê-los por muito
tempo. Quigley provavelmente já está com tudo pronto.
—Pois mão, capitão — respondi eu, atirando o meu cigarro
pela amurada, e dirigi-me para a escada.
Bati à porta do camarote de French e ele respondeu com
maus modos. Mas, prontamente, pediu-me desculpas
quando reconheceu a minha voz. Mrs. Gorell, desconfiada,
abriu a porta dos seus aposentos, meteu para fora o rosto
moreno e polposo quando eu me aproximei, pois me ouvira
falar com French.
— Para o convés, por obséquio, para tirar fotografias oficiais
— disse-lhe eu de passagem.
Encontrei Ardleigh no salão a ler uma revista. Huntoon
Rogers estava na sua cadeira do tombadilho enrolado num
cobertor, com os olhos num livro e os pensamentos sem
dúvida numa fonte cristalina onde crescem avencas. Alice
Wilmer estava na proa, olhando para o mar. Vindo pelo
corredor de bombordo, escuro àquela hora, encontrei Mrs.
Lanfrey. Ela me viu e estendeu impulsivamente a mão para
deter-me.
— O sr. viu Jack Quigley esta manhã? — foi a sua pergunta.
— Não. Mas ele daqui a pouco vai tirar fotografias no convés.
— Estou. . . preocupada — disse ela. — Eu. . . eu não pude
encontrá-lo esta manhã.
— Starr e Ernest foram procurá-lo.
— Naturalmente, nada lhe aconteceu — observou ela, mais
para tranqüilizar-se do que para puxar conversa comigo. —
Mas ele é uma criança. E é impulsivo, também. . .
— Teme que ele esteja metido em dificuldades?
— Não. .. Não sei. Ele é um verdadeiro demônio para o jogo
e tem um temperamento arrebatado. . .
— Quanto mais cedo haja uma explicação, Mrs. Lanfrey, será
melhor para o sucesso e tranquilidade da expedição. Isto fica
entre nós. O capitão vai falar às claras com ele, agora.
Starr aproximava-se rapidamente pelo convés enquanto
falávamos. O seu rosto estava sério. Mrs. Lanfrey chamou-o.
— Achaste Mr. Quigley, Starr?
Havia um tom de cuidado, quase de alarma na sua voz,
como se a intuição dela se antecipasse aos acontecimentos.
— Não, madame — respondeu Starr, detendo-se.
— Precisas encontrá-lo. Vê por toda a parte.
Starr relanceou os olhos para ela com surpresa, levou a mão
ao boné e continuou. Por um momento, ficamos em
silêncio. Todavia, ela me olhava cuidadosamente, creio-o, e
sem ver-me. Havia uma expressão curiosa nos seus olhos,
uma luz estranha que me intrigava.
-— Vamos para o sol, no outro lado — disse ela. Já devem
estar prontos para as fotografias.
No outra lado, escavam prantos, isto é, os que iam ser
fotografados achavam-se à espera. O dr. Gorell e esposa
estavam encostados à amurada. Ardleigh e French
conversavam. Hunt Rogers tinha posto o livro de lado e
conversava com Alice Wilmer. Mas não se via Quigley. Mrs.
Lanfréy evitou o casal Gorell e dirigiu-se para Alice Wilmer
e Rogers. Mas a sua conversação foi pouco mais do que uma
troca de gentileza. Eu não podia deixar de sentir no ar uma
tensão crescente. Pensei a princípio que isso fosse devido à
interrupção sofrida pelos que estavam ocupados em seu
trabalho. Os Gorell já se impacientavam. Ardleigh, nesse
momento, comentava francamente a situação:
— Esse rapaz só tem uma coisa a fazer. Parece que ele podia
cuidar melhor do seu trabalho.
Sua voz arrastada chegou até Mrs. Lanfrey, e notei nela uma
expressão de impaciência.
Neste momento Starr apareceu no convés, dirigindo-se para
nós. Fez para Rogers um sinal com a cabeça, e depois para
mim, e parou a pouca distância de nós. Fomos até ele. Starr
esperou até que estivéssemos bem perto e disse-nos:
— O Capitão Lanfrey pede que os srs. dois cheguem até a
ponte.
Sem falar, Rogers e eu nos encaminhamos para a escada da
ponte, subimos e encontramos Lanfrey à porta de seu
escritório. Pediu que entrássemos. Não nos sentamos. Ele
não nos convidou a isso. Lanfrey começou simplesmente a
falar.
— Ouçam — disse êle. — Saibam disto. Alguma cousa
aconteceu. Esse Quigley devia estar a bordo, mas cu não
posso encontrá-lo, agora que preciso dele. Ignoro se ele está
a esconder-se propositadamente ou se lhe aconteceu alguma
coisa. Hunt, conheces bem todo o navio. Leva Benny
contigo. Comecem a procurá-lo da proa para a popa em toda
a parte. Starr e eu começaremos da popa para a proa. Starr e
Ernest dizem tê-lo procurado por todo o navio, mas eu
quero ter certeza.
Rogers e eu descemos da ponte do comando e fomos
para os tombadilhos inferiores. Não sei o que Rogers estava
pensando, pois ele não falava enquanto caminhávamos
juntos. Invadimos o alojamento da tripulação. Três homens
dormiam nos seus beliches. Viramo-los e depois mandamos
que continuassem a dormir.
O capitão Lanfrey havia dito que Rogers conhecia todo o
navio. Este último levou-me em lugares que eu não pensava
que existissem em um navio maior do que o Cyrene II.
— Bem — disse Rogers, ao passarmos por um corredor —
se Carlos pensa que ele talvez se encontra metido no
castelo-de-proa, está enganado.
— Então supões que. . .
— Não suponho coisa alguma — interrompeu-me Rogers.
Encontramos o primeiro maquinista na sua pequena, cabine.
O oficial até levantou o seu beliche para que víssemos, e
abriu a porta do camarote do imediato. Examinamos estes
aposentos desarranjados e fomos até a cozinha. Não
deixamos escapar nenhuma polegada. Entrevimos Starr e
Lanfrey juntos quando nos aproximamos do centro do na-
vio. Com um gesto que indicava nenhum resultado, desce-
mos para a casa das máquinas. Andamos pelas carvoeiras,
batemos em caixotes do porão, e arredamos provisões de
bordo, esforçando-nos por não deixar sem examinar um
único desvão do navio que pudesse esconder um homem.
Encontramos o Capitão Lanfrey e Starr na casa das má-
quinas. Lanfrey olhou para nós e sacudiu a cabeça.
— Nada — disse ele.
Durante um momento os quatro ficamos onde estávamos.
Starr descansava inquieto ora num ora noutro pé, e vi
quando êle humedecia os lábios. Rogers tirou um enorme
lenço branco do bolso e enxugou a fronte. O Capitão Lan-
frey apertou os lábios lenta e pensativamente.
— Bem — disse ele, depois de um instante, e, voltando-se,
subiu para o tombadilho.
Seguimo-lo em silêncio; os nossos pés faziam algum ruído
na escada guarnecida de metal. Quando chegamos ao convés
cm que ficavam os camarotes, Lanfrey deteve-se como se
estivesse indeciso, e depois encaminhou-se para o camarote
de Quigley, sobre a popa. Abriu a porta bruscamente, como
se suspeitasse que Quigley estivera a pregar uma peça a todos
nós. Mas o quarto estava vazio. A cama, segundo fora
previamente informado, não tinha sido desfeita. As roupas
de Quigley, penduradas num armário, balouçavam-se
suavemente ao jogo vagaroso do navio. O seu relógio e
algum dinheiro estavam sobre a mesinha. A comprida
cinza de um cigarro queimado até o fim estava na beira do
vidro da mesinha
Os olhos de Lanfrey percorreram o quarto. O capitão foi até
a cama, bateu de leve nela com a mão fechada, pôs um
joelho em cima, levantou a ponta do colchão e olhou para
baixo. O espaço estava vazio. Sempre calado, Lanfrey saiu à
nossa frente, encaminhando-se para o convés superior. O
pequeno grupo de companheiros de viagem que tínhamos
deixado à espera de ser fotografado ainda estava ali. Mrs.
Gorell, aboletada na cadeira de Rogers, folheava a esmo o
livro deste. O seu marido e French conversavam encostados
à amurada. Ardleigh e Mrs. Lanfrey passeavam juntos. Alice
Wilmer estava a caminhar sozinha para as bandas da proa.
O nosso aparecimento no meio deles, um tanto desgre-
nhados com a batida que fizéramos, produziu o efeito de um
pequeno choque elétrico. Mrs. Gorell pôs o livro de lado.
Goerll e French levantaram o rosto. Mrs. Lanfrey apressou o
passo e veio para nós. Eu via que Mrs. Lanfrey desejava falar,
mas foi Ardleigh quem disse a primeira palavra.
— Então — disse ele, com leve aspereza na voz — quando é
que o nosso jovem fotógrafo vai agraciar-nos com a sua
presença?
Houve um silêncio que começou a ficar pesado. Depois o
capitão Lanfrey informou sem se perturbar.
— Ele não vem mais.
Mrs. Lanfrey levou a mão ao rosto. Comprimiu os lábios
com lenço, como paca sufocar um grito que ia escapar.
— Que houve? — perguntou French.
— Mr. Quigley desapareceu.
Coisa curiosa, aquela sensação de solidão que eu notara mais
cedo parecia ter-se manifestado outra vez no navio. No
momento em que as palavras do capitão Lanfrey penetraram
na consciência dos que estavam em volta de nós,
experimentei •novamente aquela sensação com todo o peso
do mar deserto por onde navegávamos sozinhos.
— Quer dizer que não pôde achá-lo em parte alguma? —
começou Gorell, espichando o queixo.
— Mr. Quigley desapareceu — repetiu o capitão Carlos
Lanfrey.
— Oh! não, Carlos! — exclamou Mrs. Lanfrey.
— Mas ele deve estar em alguma parte... — começou Alice
Wilmer, quase em desespero.
— Eu já disse que ele não se encontra a bordo deste navio.
— Mas onde poderia ter ido ele, capitão? — perguntou
Gorell, com o suar a porejar-lhe na testa.
— Onde? — repetiu Lanfrey. — Para o mar.
O Cyrene II avançava sob Um céu sem nuvens. Não havia
uma vela, nenhuma leve mancha de fumo em qualquer lado
do horizonte; não havia nenhum ponto de referência por
onde medir o nosso interminável progresso. Afora o balanço
vagaroso e o ligeiro ruído da água pelos costados do navio,
nada havia para indicar-nos que afinal avançávamos para a
meta distante da expedição, o Arquipélago das Galápagos.
Pela amurada, ninguém olhava agora para o mar. O mar
tinha ficado imensamente pavoroso, proibido. Porque
Quigley, o nosso jovem fotógrafo, rinha desaparecido. Per-
dido pela borda. Não tenho dúvida de que no espírito do
capitão Carlos Lanfrey, naqueles primeiros instantes de cer-
teza de que um dos nossos companheiros caíra pela borda,
passou a idéia de voltar em procura de Quigley. Era apenas
um impulso humano e natural. Baldado impulso! Quem quer
que, ao longe, em terra, tenha visto a mancha minúscula que
é a cabeça de um nadador em coisa tão vasta como o mar
aberto, percebe a futilidade que seria voltar. Além disso,
fazia horas que Quigley não tinha sido visto. Ele não fizera a
refeição da manhã. A sua cama estava intacta. Tudo leva a
presunção de que ele tinha caído pela borda durante a noite.
Alguém fez a pergunta:
— Ele sabia nadar?
Houve um momento de silêncio, e depois Alice Wilmar, a
pintora, disse com um tom estranhamente seco na voz:
— Não. Ele não sabia nadar... muito bem.
O capitão Lanfrey fez meia volta e dirigiu-se para a ponte de
comando. Os outros, como impelidos por alguma forca,
saíram vagarosamente para os seus respectivos camarotes,
deixando Huntoon Rogers e eu sozinhos no convés. Fiquei
junto a amurada, de costas para o mar, ao passo que Rogers
se afundava na sua cadeira de tombadilho, puxava o cobertor
para os pés e apanhava o livro.
— Mesmo sendo um professor de inglês, sentes disposição
para ler agora, Hunt? — perguntei.
— Não.
Rogers ficou um momento em silêncio, passou o polegar, ao
longo do seu comprido nariz, e retomou:
— Não sei. Mas que mais se pode fazer? O homem
desapareceu. Ação numa situação como esta é coisa
absolutamente fútil. Se pudéssemos fazer alguma coisa para
ajudar, dar quaisquer passos, naturalmente todos
desejaríamos fazê-lo. Não invejo a posição de Carlos. A
única coisa que nos resta a fazer é continuarmos dentro dos
planos traçados. É difícil compreender como um homem
jovem e ativo como Quigley pode ter caído pela amurada.
Estivemos a conversar durante meia hora, discutindo a
situação, ao passo que o iate continuava a abrir caminho para
a frente, avançando sobre o horizonte que nos fechava e
parecia recuar sempre. Decorrido esse tempo, o capitão
Lanfrey desceu da ponte e veio pelo convés, no lado onde
estávamos. Os seus olhos azuis encararam-nos
pensativamente por um momento.
— Radiografei para a família de Quigley — disse ele.
Talvez isso era tudo o que ele tinha a dizer-nos; ignoro-o.
Ele já fazia menção de continuar quando Rogers levantou-se
da sua cadeira.
— Carlos — disse ele. — Eu estava pensando. Sem dúvida,
isso também te ocorreu. A bagagem toda de Quigley deve
ser reunida e guardada até a nossa volta. Posso fazer isso.
— Muito bem, Hunt. Obrigado — respondeu rápido o
capitão. — Eu ia pôr Starr nesse serviço, mas está bem que
te encarregues dele. Olha, é melhor irmos lá agora. Vamos,
Bartlett.
Os três caminhamos até a escada da popa e descemos ao
camarote de Quigley. O aposento estava conforme o tí-
nhamos deixado. O relógio e o dinheiro achavam-se em
cima da mesinha. As roupas dependuradas no armário ainda
se balançavam suavemente ao jogo do navio. A cama estava
intacta. Ficamos no quarto a olhar em volta de nós, relu-
tando em iniciar a tarefa que significava o encerramento de
uma vida.
— Como diabo aconteceu isso? — disse o capitão Lanfrey
subitamente, numa voz tensa.
Nem Rogers nem eu respondemos em seguida; depois,
Rogers falou, dizendo:
— Ele era moço e fisicamente forte. Parecia também uma
pessoa muito normal. Naturalmente, um acidente pode
acontecer a qualquer um.
— Poder, pode — disse o capitão Lanfrey. — Mas aconteceu
mesmo?
— Que queres dizer, Carlos? — perguntou Rogers.
O capitão não respondeu. Foi até o armário e correu a mão
pelas roupas ali dependuradas. Tirou uma pequena mala que
também estava ali e voltou à mesinha onde se achavam o
relógio e o dinheiro. Lanfrey estava resolvendo alguma coisa
a fazer. De súbito, falou:
— Escuta, Hunt. Tu e Benny examinem todas as coisas de
Quigley e tornem a colocá-las na bagagem dele, fechem as
malas e tragam-me as chaves. É melbor fazer um rol do que
encontrem. E qualquer dinheiro (Lanfrey indicou o maço de
notas que estava na mesinha) entreguem-me que é para
botá-lo em lugar seguro.
Lanfrey relanceou os olhos pelo camarote a fim de cer-
tificar-se de que não esquecia alguma coisa, e ajuntou:
— É só isso.
Dirigiu-se, depois, à porta, apertou pensativamente os seus
lábios vermelhos e disse:
— Acho que é melhor conversarmos sobre o assunto depois
do meio-dia... os outros também. — E fez um gesto com a
sua mão enorme, como para incluir'os demais membros da
expedição. Suas costas desapareceram e ouvimo-lo subir a
escada.
Rogers foi até a porta, fechou-a e voltou para onde eu estava,
junto à mesinha, a olhar para a comprida cinza de um
cigarro queimado até o fim, que estava em cima do vidro.
— Estive pensando sobre isso, Benny — disse ele. — Deve
ser um cigarro que Quigley acabava de acender quando o
deixou aí.
— Ele já tinha tirado uma ou duas baforadas — comentei eu.
— Olha aqui — e Rogers esfregou um lado do narigão —
Acho que nisto aqui podemos usar um pouco a força do
raciocínio.
— Possivelmente.
— Sempre notei que um homem, a menos que esteja
extraordinariamente preocupado, nunca perde o interesse
por um cigarro que acaba de acender. Ele fuma um bom
pedaço até chegar o ponto em que o deixa esquecido no
cinzeiro. Ora, ele deixará um cigarro recém-aceso, digamos,
para tirar a gravata ou a camisa, mas tornará apnhá-lo. Ou
então ele o deixará se for interrompido no que está fazendo,
digamos, para atender o telefone ou alguém que bateu à
porta. Mas voltará a apanhá-lo e continuará fumando. . .
— E no caso em questão, que quer dizer tudo isto? —
perguntei, percebendo aonde êle ia chegar.
— Quer dizer que Quigley acendeu um cigarro. Foi
interrompido por alguma coisa, talvez por alguém que
batesse à porta. Depôs o cigarro na mesinha. . . — Rogers
calou-se.
— E acompanhou ao convés a pessoa que veio procurá-lo —
terminei eu. — E não voltou mais.
— Eu não disse isso — protestou ele. — Eu não pretendia
chegar a nenhuma conclusão. Estava apenas enumerando
algumas coisas que me ocorreram.
— All right, Hunt. — Por onde começamos?
— Por que não botarmos as roupas nessa mala? Tira o que
houver nos bolsos para ser examinado depois.
— Está bem.
Começamos o trabalho. Havia quatro pares de sapatos, três
ternos de roupa, cujos bolsos tinham apenas lenços,
fósforos, um canivete, um molho de chaves, uma nota de
dólar e trinta e um cents em moeda. A mala continha duas
sweaters, uma mochila de caqui e uns sapatões, que Quigley
não havia desembrulhado. E nas gavetas da mala havia
camisas, gravatas, colarinhos, lenços, roupa branca e meias.
Examinávamos tudo e Rogers tomava nota do que
encontrávamos, de corpanzil curvado sobre a mesinha que
havia no canto do camarote. Restava uma valise no armário.
Continha mais camisas, meias, gravatas e roupa branca.
Também encontramos uma pequena câmera de fabricação
alemã, popular entre os estudantes mais sérios da arte
fotográfica. Havia três rolos de filme para essa máquina. No
bolso lateral da valise encontramos alguns papéis de carta e
envelopes, e uma livreta de cheques, usada em parte. Rogers
sentou-se na cama e folheou os canhotos. Depois, disse:
— Quigley retirou duzentos e cinqüenta dólares. No canhoto
está escrito "Dinheiro para a viagem às Galápagos." A julgar
por estes canhotos, ele era muito cuidadoso em questões de
dinheiro. Provavelmente tinha um livro de assentamentos.
— Há qualquer coisa aqui na gaveta da mesinha que pode ser
um livro de notas — observei eu.
— Vamos ver.
Sentei-me ao lado de Rogers e entreguei-lhe o que achara.
Era um livrinho vermelho, quase novo e com a maioria das
páginas em branco. Havia meia dúzia de endereços tele-
fônicos de Hollywood, aparentemente tomados às pressas.
Havia uma página com a rubrica "Range Country", abaixo da
qual, algumas notas. "De Mike D. $82. De Pete H. $18.
Curley deve $56. Total dos dados $156." Estas notas tinham
sido riscadas a lápis, como se as transações ali representadas
tivessem sido anuladas.
— São talvez as suas notas de jogo — disse Rogers. — Há
alguns meses foi lançado uma fita chamada "Range Coun-
try." Provavelmente ele trabalhou nela como cameraman.
Rogers folheou algumas páginas em branco e depois, er-
guendo a voz, disse:
— Aqui há qualquer coisa. A rubrica é "Expedição às
Galápagos". Logo abaixo, lê-se: Sacado do banco, $250. No
bolso, $1.31. Do rapaz, $10. Starr, $380. Jay C., $18. Total
d.m. noke de quarta-feira, $408.
Rogers olhou pensativamente para mim durante um
momento.
— Dan. — observei — quer dizer "dados de marfim". Em
outras palavras, isso é o resultado do seu jogo de dados da
noite atrasada.
— Acho que não há dúvida a esse respeito — replicou
Rogers pensativo. — O nome de Starr está aqui. "O rapaz"
provavelmente é o ajudante Ernest. "Jay C.", o marinheiro.
Ficamos um instante calados, refletindo sobre a maneira por
que Quigley registrava os seus assuntos particulares.
— Podíamos conferir esse dinheiro dele e ver se está tudo
aqui.
— Eu pensava justamente nisso, Benny.
Rogers levantou-se e foi até a mesinha do canto, apanhou o
maço de notas e voltou para a cama. Contou cuida-
dosamente as notas, na maioria de dez dólares.
— Duzentos e setenta e oito dólares — disse ele. — E mais
um dólar e trinta e um cents que encontramos na sua roupa.
São $279.31.
— Não confere.
— Não.
Rogers fez uma conta numa página em branco, tirada do
livrinho de notas, escrevendo algarismos difíceis com o seu
lápis muito grosso.
— Faltam trezentos e oitenta dólares — disse ele.
— Quem sabe se Starr não conseguiu desquitar-se — sugeri.
Rogers olhou-me atentamente afim de descobrir que havia
por trás de semelhante observação.
— Talvez — disse ele. — A nota diz que Starr perdeu essa
quantia nos dados.
Hunt levantou-se tornou a pôr o dinheiro sobre a mesinha,
e começou a examinar as gavetas. Havia ali ou em outras
partes mais algumas poucas coisas associadas com Quigley.
Uma carteira de cigarros ainda fechada e várias outras dentro
da gaveta; um fino relógio suíço, agora parado; uma caixinha
de botões de colarinho, botões de punho, correntinhas de
gravata, botões de camisa e casaco; linha e agulhas; um
pequeno calendário e um relógio de viagem, ainda a andar.
Na cesta de papéis, o suplemento esportivo de um jornal de
Los Angeles, datado do dia em que deixamos San Pedro; no
cinzeiro, cinco cigarros fumados cujas pontas tinham sido
cuidadosamente apertadas.
— Acho que isso é tudo, Benny — disse Rogers, quando
tínhamos reunido as coisas. — Vai dizendo que eu vou
anotando.
Durante o quarto de hora seguinte fui apanhando cada coisa
em separado, designando-a, e deitando-a na valise enquanto
Rogers, com a lista nos joelhos, em cima do jornal tirado da
cesta de papéis, olhava primeiro para o objeto e depois
tomava nota.
— Há algo de patético nas posses terrenas de uma pessoa
morta recentemente. Coisas simples e inanimadas como são,
contam uma história, Benny; não é assim?
— Acho que sim, se a gente se faz sentimental. . .
— Aqui está um homem — disse ele, ignorando a ênfase de
minha observação — jovem, ativo, inteligente...
aparentemente um tanto jogador. . .
— Como somos todos, de um jeito ou doutro.
— Talvez tenhas razão. (Rogers silenciou por um
momento.) Mas falta aqui alguma coisa, Benny.
— O que?
— Não há robe-de-chambre, nem chinelos, nem dados de
marfim. Um jogador de dados, suponho, sempre traz
consigo os seus dados.
Rogers tinha razão. Não havíamos encontrado estas coisas.
E, no entanto, todas elas eram indispensáveis para um
homem como Quigley. Com efeito, eu vira Quigley em
robe-de-chambre na noite do jogo.
— Bem, aí temos o quadro de Quigley — disse eu. — Ele
estava aqui no seu camarote. Vestia o seu robe-de-chambre
e calçava chinelos. Veio até aqui à mesinha, tirou um cigarro
e acendeu-o. Tinha tirado uma ou duas baforadas quando
alguém bateu à porta. Ele depôs o cigarro ali, provavelmente
endireitou o nó da gravata, foi até à porta, e dali ao
tombadilho.
Huntoon Rogers sacudiu a cabeça como se estivesse a ver a
cena, garatujou algumas notas na lista de objetos e assinou o
nome.
— É melhor assinares também, Benny. Não sei se isso é
realmente necessário, mas não há razão para que o não
façamos. Vou começar a fechar isto.
Assinei na lista e depois ajudei Rogers a fechar a mala. Ele
apanhou também a valise e, depois de procurar as chaves no
molho, fechou a mala e a valise. Deixamo-las no centro do
camarote, levamos a nossa lista, o dinheiro, o livrinho
vermelho, o relógio e as chaves, e nos dirigimos para a
ponte de comando.
O capitão Lanfrey estava no seu escritório.
— Já fizeram tudo? — perguntou ele, ao entrarmos.
— Já — respondeu Rogers.
— Digam-me então o que acharam.
Alice Wilmer deteve-me no lado de fora do salão. O seu
lindo rosto estava sério e o seu aspecto, um tanto deprimido;
ela parecia perdida num estranho rriar de acontecimentos.
— Que é que vai haver agora? — perguntou-me ela.
— Nada para que você fique alarmada — respondí,
tranquilizando-a.
— Eu pareço alarmada? Essa história me abalou tanto...
— O capitão Lanfrey apenas quer fazer algumas perguntas,
esperando esclarecer um pouco mais o acidente.
— Oh! — exclamou ela com um pequeno suspiro de alívio.
— Você acha.que foi mesmo um acidente?
— Não podia ter sido outra coisa.
—- Então para que falar a esse respeito?
— É idéia do capitão e não minha. Já vai entrar?
— Sim.
Entramos no salão juntos e achamos um lugar confortável
no amplo divã, entre grossas almofadas. Dei um cigarro a
Miss Wilmer e notei que a sua mão tremia. Ardleigh, com as
suas compridas pernas dobradas miraculosamente por baixo
da cadeira, já estava no salão, bem como o dr. Gorell e a
esposa. French, com o seu cabelo ruivo mais desarranjado
do que de costume, entrou, fez um aceno com a cabeça e
descansou o corpo flexível numa poltrona. Acendeu um
cigarro e ofereceu a carteira aos outros, que não aceitaram.
A seguir veio Mrs. Lanfrey, vestida como estava no dia
anterior: calças masculinas de cor escarlate. Sobre os seus
cabelos escuros, ura lenço branco. Hesitou um momento
na porta e, depois, avistando-me em companhia de Alice,
atravessou o salão e sentou-se ao lado desta última.
— Isto é idéia de Carlos — disse ela. — Ele de modo
nenhum dispensa as formalidades. Vida marítima, é a ex-
pressão dele. Tudo deve ser de acordo com a vida marítima.
— É uma excelente qualidade, penso eu.
Ela olhou para mim e os seus olhos castanhos fixaram-se nos
meus. Finalmente, disse:
— O sr. está-se transformando numa dessas pessoas
desagradáveis que fazem as coisas só porque as coisas devem
ser feitas?
Aonde esta conversação teria levado, ignoro-o.
Provavelmente a parte alguma, pois era apenas a procura de
uma palestra que enchesse a espera. Justamente nesse
instante Huntoon Rogers entrou no salão, seguido pelo
capitão Lanfrey. Um silêncio não solicitado, mas bem
definido estabeleceu-se entre nós. Rogers procurou um lugar
para sentar e achou-o ao lado de French. Por consentimento
tácito, uma grande poltrona que ficava na extremidade do
salão foi deixada para o comandante.
Lanfrey não perdeu tempo. Sentou-se, depôs o boné com
enfeites dourados numa pequena mesa ao seu lado, correu os
dedos grossos pelo seu curto cabelo louro e começou a falar
em seguida:
— Pedi aos membros da expedição que viessem a esta
reunião para ser feito um inquérito sobre as circunstâncias
que cercaram a perda de um dos nossos elementos, ontem à
noite, pela amurada. A morte de Mr. Quigley é muitíssimo
lamentável e desventurada. Todavia, para o sucesso da
expedição, felizmente o seu lugar pode ser preenchido aqui
pelo professor Rogers, que tem sido um amador interessado
em arte fotográfica. O professor Rogers ofereceu-se muito
gentilmente para fazer o trabalho de Mr. Quigley, afim de
que os outros membros da expedição não se preocupem
com as fotografias necessárias.
— Mas — continuou ele — isto está fora do assunto. Esta
reunião é a respeito da morte de Mr. Quigley. Eu gostaria de
estabelecer para o diário de bordo a hora aproximada da sua
morte, e se possível, de que maneira teria ele caído pela
borda, isto é, pois semelhante acidente poderia ter
acontecido.
— Dr. Ardleigh -— disse ele, voltando para o velho geólogo
à sua direita — se não lhe faz diferença, começarei pelo sr.
Quando foi que viu Mr. Quigley a bordo pela última vez?
O dr. Ardleigh tinha inclinado a cabeça para trás quando o
seu nome fora mencionado. Os seus ásperos olhos de cor
verde-cinza, sob espessas sobrancelhas, procuravam os pai-
néis do tecto do salão. Mas ele hesitou somente um instante
e, deixando de olhar para o tecto, voltou os olhos para o ros-
to bronzeado do capitão Lanfrey.
— Eu lhe direi quais os meus movimentos depois do jantar
— começou ele com a sua voz um tanto arrastada — hora
em que Mr. Quigley e todos nós aqui estávamos presentes.
Dei um breve passeio e estive a fumar um pouco no
tombadilho da popa. Mrs. Lanfrey e Mr. Quigley passaram
por mim. Falamos, mas eles não se detiveram para
conversar. Poucos minutos depois, vim aquí para o salão,
achei um exemplar da Autobiografia de Benjamim Franklin
ali na biblioteca (Ardleigh fez um gesto na direção dos armá-
rios de livros, no fundo do salão) e sentei-me a ler durante
talvez uma hora. Pus o livro no lugar, saí e dei uma volta
pelo convés. Passei por Mr. Quigley e esta jovem aqui, Miss
Wilmer, que estavam conversando junto á amurada, e em
seguida fui para a cama.
Percebi que um tremor passou pelo corpo de Alice Wilmer
quando Ardleigh mencionou o nome de Quigley em co-
nexão com o dela, mas, demonstrando o seu controle, Miss
Wilmer inclinou-se para a frente a fim de deitar a cinza do
cigarro num cinzeiro.
— E a que hora foi isso, dr. Ardleigh? — perguntou o capitão
Lanfrey.
— As nove e trinta e cinco, capitão — respondeu ele,
passando os dedos compridos pela face enrugada. — Lem-
bro-me porque tirei o relógio do bolso e botei-o na mesinha
de cabeceira no momento em que entrei no meu camarote.
— Muitíssimo obrigado, doutor.
Diminuiu sensivelmente a tensão que havia no ambienta.
O tom natural de palestra do dr. Ardleigh, a narratiya
simples das suas atividades na noite contribuíram para aliviar
um tanto a atmosfera pesada que sobreviera, embora
fôssemos um grupo íntimo e reduzido.
— Dr. Gorell.
O capitão Lanfrey dirigira-se ao concologista que estava
junto a esposa, nas cadeiras que ficavam ao lado do divã
Gorell podia esperar que Lanfrey o interrogasse
imediatamente depois de Ardleigh, mas nem por isso deixou
de parecer sobressaltado. Somente quem olhava para seu
rosto naquele instante é que poderia percebê-lo. Eu que por
acaso olhava, pude ver semelhante reação estampar-se
brevemente no seu rosto de máscara. Engoliu em seco,
pigarreou discretamente e, antes que Lanirey pudesse
formular uma pergunta, começou um relatório de suas
atividades, após o jantar da noite anterior, fazendo-o com
um tom irritado na voz:
—. Posso falar por Mrs. Gorell e por mim mesmo, pois
passamos o serão juntos. Demos uma volta pelo convés, vi-
mos que o salão estava vazio e descemos para o nosso cama-
rote. Jogamos algumas partidas de paciência para dois, como
é nosso costume, e depois Mrs. Gorell recolheu-se. Estive
durante uma hora a examinar um trabalho que tenho em '
preparo e depois também me recolhi. Mrs. Gorell tem o
sono pesado. Ela raramente ouve qualquer ruído durante a
noite, e nada sabe do que aconteceu.
— E o senhor?
— Eu não durmo muito bem. Na verdade, levantei-me de
noite, capitão. Eu... (Gorell olhou para o grupo e tornou a
engolir) eu... estava sem sono e subi um instante ao
tombadilho.
— Quando foi isso?
— Ouvi a sineta bater seis vezes quando eu subia as
escadas...
— Quanto tempo esteve levantado?
— Coisa de vinte minutos, acho.
— O sr. viu ou ouviu alguma coisa fora do comum?
— Não, Mr. Lanfrey.
A personalidade grosseira de Mrs. Gorell projetou
bruscamente sobre nós.
— Nós vimos Mr. Quigley e Mrs. Lanfrey passeando ao
convés, conforme disse o dr. Ardleigh.
Isto parecia uma arremetida deliberada, cujo propósito
era obscuro, mas cujo tom era confundível. Observei que
Mrs Lanfrey ficou muito tranquila; os seus dedos, que
batiam inquietamente no cigarro, deixaram de mover-se. O
capitão Lanfrey, com um sorriso desarmante, voltou-se
imediatamente para Frendi.
- Doutor — começou ele — nos dois estivemos a conversar
sobre peixes e pescarias desde o jantar até as nove horas. O
sr. pode esclarecer alguma coisa sobre os últimos
movimentos de Quigley?
— Cousa nenhuma — respondeu o nosso ictiólogo, cujo
silêncio era habitual. — Não o vi depois do jantar. Quando
eu saí do seu escritório, na ponte, desci, olhei aqui pelo
salão, vi Ardleigh a ler, e fui para o meu camarote. Li até
perto das onze horas e depois me deitei. Dormi até as sete
desta manhã. E fez um gesto com a mão sardenta, indicando
que aquilo era tudo.
—E tu, Rogers? — disse o capitão Lanfrey, voltando-se para
o professor Huntoon Rogers.
Rogers esfregou o narigão com o dedo comprido e sorriu um
pouco.
— Acho que Bartlett e eu temos a história mais simples para
contar. Ficamos juntos no meu camarote depois do jantar,
discutindo de tudo um pouco, desde Shakespeare até
cachimbo de barro. Depois pelas dez horas, demos umas
duas ou três voltas pelo convés e tornamos a descer. Deixei-
o na porta do seu camarote e em seguida entrei no meu e fui
para a cama.
— Não te lembras da hora em que voltaram para os
camarotes?
— Dez e meia.
— Obrigado, Hunt. Bartlett, é isso o que também tem a
dizer?
— Eu poderia dizê-lo mais concisamente, capitão.
— Algum dos dois viu Quigley quando passeavam pelo
tombadilho?
— Sim. Ele estava à amurada de estibordo.
— Sozinho?
— Não. Com Miss Wilmer. Parece-me que conversavam.
O capitão virou-se bruscamente de mim para Alice Wilmer.
— Perdoe-me, Miss Wilmer — começou ele. — Não foi
intencional de minha parte o deixá-la por último. Eu
simplesmente fiz a volta ao círculo formado pelos que estão
aqui. Se as respostas dos outros parecem ter estabelecido que
a senhorita foi a última a ver Mr. Quigley com vida, espero
que não o interprete mal. . .
— Mas, capitão — disse Alice, sorrindo para ele,
perfeitamente calma e senhora de si. — Eu não tenho nada
que explicar. Talvez eu fosse a última pessoa a vê-lo com
vida; mas não poderia deixar de ser assim, pois ele foi bater à
minha porta e convidou-me para subir consigo ao convés.
Então?
— Perfeitamente, Miss Wilmer. Tudo quanto procurei dizer
foi que a senhorita não deve magoar-se comigo se. . .
— Absolutamente, capitão.
— Muito bem, então diga o que tem a dizer.
— Conforme eu comecei a dizer, — principiou ela, ao passo
que as cores lhe vinham às faces sob a maquillage — Mr.
Quigley bateu à minha porta cerca das nove horas. Eu tinha
descido para o camarote, mas ainda não estava recolhida. Ele
queria que eu subisse ao convés para conversar consigo, e eu
subi. Demos umas voltas pela coberta e depois ficamos
juntos à amurada. Mais tarde, não foi muito depois de Mr.
Bartlett e o professor Rogers passarem por nós, dei boa noite
ao Jack e desci para o meu camarote. . .
— Então Mr. Quigley ficou no convés quando a senhorita
desceu?
— Ele disse que ainda não tinha sono, e que ficaria um
pouco mais no tombadilho.
— Há alguma coisa mais? Não sabe se ele desceu?
— Sim, desceu. Passou pelo meu camarote quando a porta
ainda estava aberta. Disse-me "Good Night, Alice", e eu
respondi "Good night, Jack.
— Sabe a hora?
— Exatamente, não. Talvez fosse quinze minutos depois de
eu ter descido.
— Então, até onde a senhorita sabe, Mr. Quigley dirigiu-se
para o camarote dele?
— Sim.
— Ouviu alguma coisa depois disso?
— Ouvi-o entrar e fechar a porta. Depois, mais tarde —
talvez meia hora — quando eu estava lendo, ouvi alguém
bater numa porta e vozes. Reconheci a voz de Jack.
— Que diziam?
— Não sei. Eu só pude distinguir a voz dele entre as duas.
Não procurei ouvir o que estavam dizendo.
— A que horas foi isso?
— Não sei. O tempo é sempre uma coisa mais ou menos
vaga para mim, capitão.
Lanfrey ficou em silêncio por um instante afim de calcular,
creio eu, o tempo total incluído na narração de Alice
Wilmer.
— Já não seriam umas onze e meia quando a senhorita
ouviu baterem à porta?
— Com efeito, capitão, eu não sei.
— Muito obrigado, Miss Wilmer. (Lanfrey olhou para o seu
relógio de pulso, e depois olhou em torno como se tivesse
terminado.) Muito obrigado a todos — disse ele.
— Carlos! — exclamou Mrs. Lanfrey, levantando-se de
súbito do divã. — Não me perguntas nada?
— Perdão, minha querida — disse ele a sorrir. — Mas eu sei
onde estavas. . .
— Mas os outros não sabem. E eu insisto em ser ouvida.
— Então, está muito bem, Reba. Tens a palavra.
Mrs. Lanfrey riu levemente, como se tivesse ganho um
ponto contestado. Um riso que, diante da solenidade da oca-
sião, pareceu um pouco fora de tom.
— Estive a caminhar com Jack Quigley pelo convés,
conforme disseram o dr. Ardleigh e Mrs. Gorell. Pobre ra-
paz, estava tão preocupado com um incidente. . . bem, para
ser franca, houve jogo na noite anterior. Ele não sabia o
quanto Carlos é exigente a esse respeito, e como já tinha jo-
gado achava-se muito perturbado e queria o meu conselho
sobre o que fazer. Deixei-o pelas nove horas e desci para o
meu camarote, o meu marido acabava de entrar e estivemos
a conversar um pouco antes de nos deitarmos. Isso é tudo —
terminou ela, como se tivesse muito pouco tempo.
— Thank you, my dear — disse o capitão Lanfrey, que pôs
o seu boné, mas pensou depois noutra pergunta: — Alguém
dos presentes sabe se Quigley, afora a evidente preocupação
devido ao incidente do jogo, era um indivíduo melancólico,
dado a idéias de suicídio?
Lanfrey esperava que alguém falasse. Um instante depois, o
dr. Ardleigh dizia descansadamente:
— Eu mal falei com o homem, capitão.
— Miss Wilmer — perguntou Lanfrey, num leve tom de
troça — a senhorita ontem à noite descobriu nele alguma
tendência para o suicídio?
— Não, capitão — respondeu Alice Wilmer enfaticamente,
chegando mais para a frente no divã e pondo os pés
firmemente no assoalho. — Nem ontem à noite nem em
tempo algum. Eu o conhecia em Hollywood. Conhecia-o
havia um ano. Ele sempre foi otimista e cheio de ambições.
Queria ser alguma coisa.
— Muito obrigado, Miss Wilmer. (Lanfrey pôs-se em pé.) É
só isso, senhoras e cavalheiros. Agradeço-lhes a cooperação.
O capitão curvou-se para nós, meteu o boné firmemente na
cabeça e deixou rápido o salão.
No lado de fora do salão, Huntoon Rogers deu-me o braço e
caminhou comigo para a ponte de comando. Carregou-me
consigo, quisesse eu ou não. Quando já os outros não nos
podiam ouvir, Hunt disse-me:
— À investigação vai continuar no escritório de Carlos, na
ponte. Ele quer interrogar alguns membros da tripulação, e
pediu-me que te trouxesse comigo.
Dirigimo-nos para a escada e subiu até a ponte. O escritório
de Carlos Lanfrey era pequeno; todavia, para usar a
expressão que a sua mulher lhe aplicara, estava de acordo
com a vida marítima. Sendo assim, era possível que não
apenas Lanfrey Rogers e eu ali nos pudéssemos sentar con-
fortavelmente, mas ainda havia mais uma cadeira onde os
tripulantes seriam interrogados, um de cada vez. Estávamos
tranquilos, sentados. Eu fumava um cigarro. Rogers tomava
algumas notas sobre a investigação que acabava de ter sido
feita no salão. Uma sombra apareceu à porta e, erguendo os
olhos, vimos o ajudante Ernest.
O sr. mandou-me chamar, capitão... — disse ele para
Lanfrey.
— Sim. Entre, Ernest. Sente-se aí — e indicou-lhe a cadeira
restante.
Ernest era um rapaz de dezoito ou dezenove anos, estatura
média, olhos azuis, rosto agradável. Quando falavam com
ele, erguia serenamente os olhos. Era cortês e inteligente.
Durante um momento o capitão Lanfrey deixou que Ernest
continuasse sentado, enquanto ele seguia folheando o
livrinho vermelho. Depois, levantou os olhos rapidamente e
dirigiu-se para o rapaz:
— Você sabe que Mr. Quigley caiu ao mar ontem à noite,
não é verdade, Ernest?
— Sei, sim senhor.
— Até que horas esteve de serviço ontem à noite?
— Até as dez horas, capitão. Mr. Starr disse que eu podia
descansar.
— Que fez você, quando deixou o serviço?
— Fui para a proa, capitão, e deitei-me no meu beliche.
— Sabe de alguma cousa que possa esclarecer a morte de Mr.
Quigley?
-— Não, capitão; não sei.
O capitão Lanfrey apanhou o livro e tornou a folhá-lo,
enquanto Ernest, respeitosamente sentado, esperava a
próxima pergunta. De súbito, Lanfrey deixou o livrinho.
— Ernest — disse ele — na noite de anteontem você esteve
num jogo de dados no camarote de Mr. Quigley e perdeu
dez dólares para ele, não é verdade?
O rapaz corou, em seguida, até a raiz do cabelo, mas hesitou
apenas um momento, dizendo:
— Sim, senhor, capitão; é verdade.
— Como foi esse jogo?
— Pois — o rapaz engoliu em seco. — Eu desci com um
cocktail que Mr. Quigley tinha pedido, capitão, e fie me
convidou para ficar. Mr. Starr chegou e depois veio um
marinheiro chamado Cranston, e Mr. Quigley perguntou se
não queríamos jogar dados. E foi assim que o jogo começou,
capitão.
— Que houve lá?
— Eu não fiquei no jogo muito tempo, capitão. Dez dólares
era tudo o que eu tinha. Saí do jogo e depois Cranston saiu
porque também tinha perdido. Então Mr. Starr e Mr.
Quigley continuaram a jogar. Mr. Starr ganhou um pouco, e
depois Mr. Quigley principiou a ganhar e ganhou tudo que
Mr. Starr tinha, que era muito dinheiro. Exatamente, não sei
quanto, capitão. Depois Cranston zangou-se e disse que os
dados eram chumbados, e Mr. Quigley deu-lhe um soco, a
briga começou e eu sai do camarote, capitão.
O capitão Lanfrey abriu a gaveta central da sua escrivaninha,
tirou uma nota e entregou-a ao rapaz, que hesitou ura
momento antes de aceitá-la.
— Aqui estão seus dez dólares. E enquanto estiver a bordo
deste navio, Ernest, absolutamente não deve jogar.
— Sim, capitão. Muito obrigado. Lamento que isto tenha
acontecido. Gosto de ser um dos tripulantes deste navio e
prometo-lhe que não jogarei outra vez, capitão.
— Está bem, Ernest. É só. Diga a Mr. Davis que mande
Cranston aqui.
— Sim, senhor.
O rapaz levantou-se rapidamente da cadeira e desapareceu.
Por um momento, nenhum de nós falou, depois Rogers
disse:
— Ele parece um bom rapaz, Carlos.
— Ele é um bom rapaz. O pai é meu jardineiro em San
Marino. É norueguês. O rapaz quer seguir a vida marítima e
eu o incluí na tripulação. Ele nada sabe a respeito do
desaparecimento de Quigley.
— Isso é bem evidente. Segundo o depoimento de Miss
Wilmer, sabemos que Quigley ainda estava vivo até as onze
e trinta da noite de ontem, quando alguém foi até o seu
camarote.
— Isso é o que parece — disse Lanfrey, apertando os seus
lábios carnudos e vermelhos.
As suas mãos grandes e peludas brincavam com a livreta
vermelha, e a sua atenção parecia estar muito longe dali,
enquanto nós esperávamos Cranston, o marinheiro. Dentro
em pouco este apareceu à porta e esperou que o mandassem
entrar. O capitão Lanfrey levantou os olhos.
— Entre, Jay — disse ele. — Sente-se aí — e inclinou a
cadeira.
Cranston era homem de cerca de vinte e cinco anos. De
construção reforçada, meio atarracado, tinha os músculos
salientes. Era moreno, quase tisnado. Uma feia contusão
abaixo do seu olho direito havia escurecido considerável par-
te dessa região. O olho, inchado, estava meio fechado, o
que dava ao homem um aspecto repugnante. Os seus modos
eram de indiferença geral; nada havia nele de semelhante à
vivacidade do rapaz que o precedera na cadeira. O capitão
Lanfrey começou a falar em seguida.
— Estavas no quarto de Mr. Davis ontem à noite, Jay?
— Estava.
— Então eras o vigia, não?
— Era.
— Não podes chamar-me de capitão? Sou o comandante
deste navio — exclamou subitamente Carlos Lanfrey, ao
passo que as cores lhes subiam ao rosto.
— Está bem, se o tio Carlos quer: capitão.
Os olhos azuis do Capitão Lanfrey continuaram a fixar o
rapaz. Passado um longo momento, continuou sem um traço
de violência:
— Mr. Quigley caiu pela amurada, ontem à noite. É
provável que isso não tenha ocorrido antes do teu quarto.
Ouviste ou viste alguma cousa, quando estavas de vigia, que
possa ter ligação com esta tragédia?
— Não, capitão.
— Viste Mr. Quigley no convés quando estavas de vigia?
— Não, capitão. Não havia ninguém na coberta.
— Quem foi que te fez isso no olho?
Por um instante Jay Cranston ficou a olhar para o capitão,
como se não pudesse decidir-se a responder, mas depois
disse:
— Quigley. Eu disse que os dados estavam chumbados e ele
me deu um soco no olho antes que eu pudesse abaixar-me.
— Está bem, Jay. Dize a Starr que venha aqui.
— O rapaz desapareceu rapidamente, sem dúvida alguma
satisfeito por não lhe ter acontecido nada de pior. Quando
ele já não nos podia ouvir, o capitão Lanfrey voltou-se para
nós, dizendo:
— O nome desse rapaz é Jay Cranston. É meu sobrinho
político. Filho da irmã da minha segunda esposa, é
praticamente um inútil. Ele está a bordo porque deu outro
nome ao agente que contratou a minha tripulação para esta
viagem. Isso explica o seu "tio Carlos" para mim. Não foi
uma impertinência.
— Eu pensei que havia qualquer coisa de familiar na cara
desse rapaz, Carlos — disse Rogers. — Falei disso para
Benny na noite de anteontem, quando Jay, fugindo da briga,
passou por nós no tombadilho.
Nossa conversação foi interrompida por Starr, que
evidentemente estivera por ali, à espera de ser chamado. En-
trou no escritório sem ser convidado, e sentou-se na cadeira,
O seu rosto sério indicava que ele estava advertido da natu-
reza do interrogatório.
— Starr — disse em seguida o capitão Lanfrey — estamos
procurando esclarecer o caso de Quigley. Ninguém parece
saber como ou quando ele caiu ao mar. Sabemos que ele
ainda estava vivo até mais ou menos às onze e meia de
ontem à noite...
— Até as onze quarenta e cinco, capitão — disse Starr. Os
três encaramos por momentos o stexmrd.
— Como sabes isso, Starr?
— Mr. Quigley pediu um whisky-and-soda, capitão, e eu fui
levá-lo. Eram onze e quarenta e cinco, faltando dois minutos
talvez.
— Você ficou a conversar com ele?
— Não, capitão. Ele me convidou a entrar, mas eu disse que
o meu tempo era escasso e que eu precisava dormir. Ele riu
e disse: "Está bem. Starr, não se demore então. Não posso
arranjar quem venha conversar comigo, de maneira que
acho que tenho de ir para a cama." Foi isso o que ele disse,
capitão.
— Ele parecia melancólico, como um homem que está
pensando em suicídio? — perguntou Lanfrey.
— Não, capitão. Ele parecia muito bem disposto.
— Que fizeste depois disso?
— Fui para o meu beliche, capitão, e dormi até que o
despertador me acordou hoje de manhã.
—Sabes qualquer coisa — sondou o capitão — que possa
esclarecer o desaparecimento de Quigley?
— Não, capitão. Lamento isso, mas não sei. É um mistério
para mim, isso de um homem moço como ele ter caído pela
borda com um mar tão calmo como este, capitão.
Houve um momento de silêncio. O capitão Lanfrey, com
um olhar distante nos seus olhos azues, brincava com o
livrinho de notas vermelho. A livreta lembrou-lhe outra
linha de interrogatório e ele a seguiu.
— Levaste um whisky-and-soda para Mr. Quigley. Por que
o copo não foi achado esta manhã no seu camarote, quando
o professor Rogers e Mr. Bartlett examinaram tudo o que
havia lá?
— Eu já tinha ido retirar o copo, capitão.
— Retirar? Quando?
— Pouco depois do café, capitão, quando descobri que o
camarote de Mr. Quigley estava desocupado.
— Starr — rompeu de súbito o capitão Lanfrey — perdeste
trezentos e oitenta dólares num jogo de dados no camarote
de Mr. Quigley, anteontem à noite.
— Perdi, capitão — disse Starr, sem o menor tremor de
apreensão na sua voz séria.
Por um longo instante os olhos de Lanfrey penetraram o
rosto que estava em sua frente. Depois, continuou:
— O professor Rogers e Mr. 'Bartlett, no exame que fizeram
nas coisas de Quigley, verificaram que ele tinha uma escrita
acurada dos seus assuntos financeiros. Tinha anotado nesta
livreta aqui (Lanfrey passou a Starr o livrinho, aberto na
página da nota em questão.) as quantias ganhas de ti, de
Cranston e Ernest, mais o dinheiro que trazia quando a
viagem foi iniciada. Contudo, o dinheiro achado é
exatamente menos trezentos e oitenta dólares do que diz a
escrita. Que acha disto?
Depois de uma breve olhadela, Starr devolveu o livrinho ao
capitão. Entrecerrou um pouco os olhos, como se estivesse -
a concentrar-se, e disse depois:
- Eu lhe direi como foi isso, capitão. Esta manhã, quando
fiquei certo de que Mr. Quigley morrera afogado, pensei
que, por direito, o que tinha sido meu ainda era meu. Quero
ser honesto com o senhor, capitão, porque o sr. sempre foi
direito comigo.
Num movimento rápido, Starr meteu a mão no bolso, tirou
um maço de notas e o depôs na escrivaninha de Lanfrey.
— Aí está, capitão, todo o dinheiro. Quando tive a certeza
que Mr. Quigley tinha caído pela amurada, fui ao quarto
dele, capitão, e tirei o que era meu; só o que era meu,
capitão.
Houve um breve silêncio no escritório. De fora, vinha o
som do vento num ventilador e os passos do oficial na
ponte. Repentinamente, o capitão Lanfrey inclinou-se para
diante, apanhou o dinheiro com os seus dedos grossos e
devolveu-o ao criado.
— Fique com isto, Starr. Pode ir.
Nos dias que se sucederam, a tragédia de Jack Quigley
começou a afastar-se da conversação. O seu lugar à mesa
fora, está claro, eliminado. O camarote que ele tinha ocu-
pado permanecia fechado. Todavia, a morte do fotógrafo era
para nós uma lembrança sombria enquanto o Cyrene II se
adiantava por mares mais azuis dentro do mesmo horizonte
limitado e interminável. Dávamos as nossas voltas diárias
pelo convés. Comíamos, dormíamos, conversávamos e
trabalhávamos sempre que podíamos achar qualquer cousa
para fazer nos camarotes. Era sempre o mar e o céu, e o
mesmo navio branco a avançar, com o eterno borbulhar da
água ao longo dos seus costados lisos.
Numa manhã clara, o professor Huntoon Rogers alinhou-
nos no tombadilho ensolarado e tirou as fotografias oficiais
dos membros da expedição. Rogers lia agora menos e
passava mais tempo num compartimento do convés inferior
em que ficavam os camarotes; ali tinha sido instalado um
estúdio fotográfico.
— Olha esse filme empilhado aí — disse-me Rogers uma
tarde, quando eu tinha entrado no laboratório para ver. em
que se ocupava ele. — Para uma expedição como esta, há
filme de sobra por um mínimo de seis meses.
— Há filme para cinema, também, não? — perguntei eu,
olhando para as latas.
— Sim, há isso, também. Eu não tenho tanta experiência
com fotografia animada, mas acho que dou um jeito.
— Se eu entendesse alguma coisa disso, Hunt, ofereceria os
meus serviços. De qualquer maneira, ofereço-os.
— Obrigado, Renny; talvez não sejam necessários. Acho
que posso arranjar-me. Se eu precisar de auxílio, talvez Car-
los me deixe trazer Jay Cranston.
— O sobrinho?
— Sim. Carlos esteve falando comigo, ontem, a respeito
dele. O rapaz tem tido uma carreira vária, quase de tudo um
pouco. Andou um certo tempo em torno das câmeras num
estúdio de Hollywood.
— Achas que podes confiar nele?
— Não sei. Ele te faz pensar assim?
— Faz.
Rogers pôs-se a assobiar baixinho enquanto mexia aqui e ali
numa câmara grande.
— Talvez seja melhor que eu diga mais alguma coisa a
respeito do rapaz, Benny — disse ele, continuando o
"trabalho". — Carlos ontem falou bastante a seu respeito.
Não foi confidencial. Se Carlos achasse que já te conhecia
um pouco mais, ele te diria o mesmo que me disse. Porque
ele é um esplêndido sujeito. Nunca tive melhor amigo. Eu
toda a vida fui pobre, e ele rico, mas isso não faz a menor
diferença.
— Ele leva esta coisa — a expedição — muito a sério, não?
— Naturalmente. Mas voltemos ao sobrinho. Carlos sempre
está procurando fazer alguma coisa por ele, embora os laços
conjugais entre Carlos e a sua segunda esposa — que era o
parentesco com o rapaz — tenham sido desfeitos e ele tenha
voltado a casar. Ele arranja alguma coisa para o rapaz fazer,
Jay arranja complicações e vai embora. Quando Jay soube da
expedição, foi ter com Carlos e pediu-lhe para vir. Carlos
disse-lhe que não. A próxima vez que o viu foi na manhã
seguinte à partida de San Pedro, quando encontrou Jay
como tripulante.
— Achas que de um homem assim se pode esperar um
depoimento acurado?
— Referes-te ao que ele disse a noite do desaparecimento de
Quigley?
— Sim.
Rogers ficou uns instantes em silêncio. — Não sei. Mas, se
é que estiveste a pensar nisso, Carlos interrogou todos os
outros tripulantes que estiveram de quarto naquela noite.
Não apenas no quarto de Cranston, mas também no
antecedente. Tanto Mr. Getty, o piloto, como, Mr. Davis, o
segundo piloto, que estiveram de vigia, e todos os outros
membros da tripulação do navio, até o cozinheiro e os
homens da casa de máquinas, todos foram interrogados.
Carlos foi minucioso. E ninguém tinha nada a dizer a
respeito de Quigley depois das onze e quarenta e cinco,
quando Starr diz ter levado a ele um whisky-and-soda.
Contudo, Carlos, estou certo, acha que Quigley ainda estava
muito depois dessa hora. Ele não diz em que se baseia para
pensar assim. O mar estava perfeitamente calmo naquela
noite, segundo reza o diário de bordo. Ninguém diz ter
sentido um vagalhão ou qualquer outra coisa que pudesse
fazer um homem perder o equilíbrio a ponto de cair ao mar.
—Vamos ao convés — disse eu. Isso, se já terminaste de
remexer nessas câmeras.
— Vamos, isto já terminou — respondeu-me Rogers,
levantando-se da cadeira. — Tens alguma idéia?
— Vamos dar uma volta pelo tombadilho, junto á amurada e
procurar ver o que aconteceria se um homem, estando ele à
amurada, subitamente se sentisse tonto ou desmaiasse.
Subimos e, começando pela popa, fizemos a volta completa
do tombadilho. Não sei por que não tínhamos pensado em
fazer isso antes. Paramos no fim de nossa volta, e ficamos a
olhar para o mar, com os cotovelos apoiados na amurada.
— Não há nenhuma falha na amurada, nenhuma abertura
— disse eu. — E a amurada é alta. Tu és alto, Hunt, e precisa
espichar-te um pouco para apoiar os cotovelos aí. Ora, que
aconteceria se um homem, estando encostado à amurada,
desmaiasse?
— Cairia no convés, dentro da amurada.
— Exatamente.
Guardamos silêncio por um momento. Um bando de porcos
marinhos, a um quarto de milha de distância, acompanhava
o navio. Os peixes saltavam regular e sinuosamente numa
única fila e tornavam a mergulhar, de sorte que pareciam
uma gigantesca serpente marinha.
— E então? — disse Rogers dali a pouco.
— Quigley ou saltou — respondi — ou então foi atirado por
alguém.
O silêncio entre nós prolongava-se. O cardume de porcos
marinhos desaparecera completamente. Rogers esfregou o
seu narigão c assestou os óculos mais firmemente.
— Benny, eu esperava que não fosses dizer isso — observou
ele suavemente.
-— Alguém irá dizê-lo mais cedo ou mais tarde.
— Sim, sei disso. Mas essa coisa propõe uma questão ainda
mais difícil de resolver do que as que temos procurado
sondar. O quando e o como do desaparecimento de Quigley
estão excelentemente estabelecidos, O porquê é coisa que,
segundo espero, não teremos que aprofundar. Pessoalmente,
prefiro pensar que foi um acidente.
Comigo acontecia o mesmo. Durante muito tempo depois
que Rogers me deixou só, fiquei à amurada fitando o mar.
Julgar que aquilo fora acidente seria bem melhor para todos
nós. Pensamentos semelhantes atravessavam-me o espírito
quando a figura baixa e gorda de Mrs. Gorell meteu-se ao
meu lado, junto a amurada. Relanceei-lhe os olhos e falei-
lhe.
— Eu estava querendo falar com o sr., Mr. Bartlett — disse
ela, aproximando-se até que o seu rosto ficou junto ao meu
ombro.
— Espero que eu não tenha deixado de prestar-lhe
consideração — respondi-lhe. (Ela me olhava como se eu
fosse culpado de petulância.) — Asseguro-lhe que não faria
isso intencionalmente.
Ela ignorou a minha observação, puxou o lenço, tirou os
óculos e começou a limpar as lentes embaciadas pelo ar
salino.
— Detesto o mar — disse ela. — A gente tem que estar
sempre limpando os óculos.
Eu não disse nada. Ela terminou de limpar as lentes, tornou a
colocar os óculos no nariz, humedeceu os lábios e enfiou o
lenço no bolso do casacão.
— Então o sr. é dos Bartlett de San Marino — começou ela.
— Infelizmente, sim — repliquei. Ela tornou a olhar-me
como se eu estivesse fazendo pouco nela.
— Por que infelizmente?
— Somos uma família tão irresponsável. Nós os filhos
sempre temos sido um grande trabalho para os nossos pais.
— O sr. não está falando seriamente comigo, Mr. Bartlett —
acusou-me ela.
— Perdão.
— Então conhecia Carlos Lanfrey antes de que a expedição
fosse planejada?
— Ao contrário. Três horas antes da expedição partir, eu
não sabia da existência de Lanfrey.
— Ah — disse ela, e pareceu perder o interesse na con-
versação. Eu queria perguntar-lhe algo a respeito de Mrs.
Lanfrey.
— Creio que é uma dama encantadora — disse eu,
percebendo depois que ela esperara ouvir outra coisa.
— Ela parecia ter muita familiaridade com Mr. Quigley.
Tratavam-se por tu. Acha que eles se conheciam antes de
começar a viagem?
— Não tenho a menor idéia, Mrs. Gorell. A gorducha
senhora começava a aborrecer-me.
— Este é o segundo, casamento dela, e o terceiro dele. Não
fiz nenhum comentário. Ela esperou um momento e
depois acrescentou:
— Ao que sei, ela era bem alegre em Hollywood. Talvez
trabalhasse no cinema, não sei. O sr. sabe?
— Não.
Mrs. Gorell calou-se e permaneceu ao meu lado, olhando
para o mar, que o sol transformava em grande parte numa
enorme pradaria bronzeada, onde fulgurava uma luz exótica.
Não notei que a esposa de Gorell ansiava por fazer-me uma
pergunta; de quanto eu lhe tinha visto, já supunha que fazer
perguntas era nela uma segunda natureza. Mas agora penso
de modo diverso, quando relembro os impressionantes e
estranhos acontecimentos daquela excursão às Galápagos.
Ela aproximou-se de mim ainda mais e baixou a voz, abrindo
« fechando os lábios duas vezes, antes de poder falar.
— Diga-me, Mr. Bartlett — começou ela confidencialmente
— o que pensam sobre a morte de Mr. Quigley. O sr.
parece estar mais ao par do que alguns de nós. Acham que
foi acidente ou que foi. . . crime? — Mrs. Gorell hesitou
antes de pronunciar esta última palavra.
Não respondi imediatamente. Havia qualquer coisa nos seus
olhos escuros, quando olhei para ela, que me
sobressaltavam, obrigando-me a um silêncio temporário,
qualquer coisa de estranho e temeroso. Somente lhe posso
comparar os olhos aos de um animal surpreendido em seu
covil pelo caçador. Desviei os olhos para o mar por
momentos, antes de responder.
— Se a senhora se refere ao que pensa o capitão Lanfrey,
não sei. Não sei o que pensa ele. Não discuti o assunto com
ele. Pessoalmente creio que a morte de Quigley foi um
acidente. — Esse era o lado formal, ortodoxo; e era no qual
eu preferia acreditar.
A minha resposta foi o que ela queria ouvir. Respirou mais
profundamente. Estava por deixar-me, agora que tinha feito
a pergunta, mas ficou para dizer uma palavra de egresso:
— Obrigada, Mr. Bartlett. Eu estava certa de que o sr.
saberia. O doutor também ficará satisfeito em saber. Isso lhe
aliviará o espírito.
E com isto retirou-se. Observei-a até que a sua figura
gorducha desapareceu na escada de popa, e fiquei a conside-
rar sobre a fé infantil com que ela aceitara a minha opinião
como definitiva: isto revelava um espírito
extraordinariamente ansioso por tal explicação. E além do
mais, essa explicação aliviaria o espírito do marido. Aqueles
dois intrometidos estariam preocupados com a coisa, meio
temerosos da verdade e ansiosos por abocanhar a
confortadora asserção que esperavam, como um peixe
faminto abocanha a isca?
Isto me deu que pensar enquanto fiquei à amurada,
contemplando a estranha luz do sol poente na área
bronzeada e obscura do mar.
Ouvi passos rápidos pelo convés e voltei-me para observar
qual era a pessoa capaz de mostrar semelhante energia no
fim do dia. Avistei Alice Wilmer. Ela abanou-me e sorriu,
mas não alterou o passo. Contudo, falou sobre o ombro,
como se eu exigisse uma explicação pela sua conduta.
— Exercício! — disse ela e desapareceu da minha vista. Em
poucos minutos reapareceu, caminhando para mim, depois
de ter completado a volta pelo tombadilho. Vestia uma saia
marron e um pullover branco; os seus pés calçados de
branco pareciam tilintar enquanto ela caminhava. A luz
morrente do sol brilhava-lhe no cabelo loiro. Novamente
ergueu a mão e abanou-me, e desta vez atirou-me a palavra
"preguiçoso", e sorriu, mas não parou.
Reuni-me a ela na terceira volta, e fiz que ela diminuísse um
tanto o passo.
— Que é isso? Está aleijado ou coisa parecida?
— Não. É a velhice que se aproxima.
Ela riu a esta débil gracinha, com olhos vivos. Era o primeiro
riso genuíno que tinha ouvido desde a tragédia de Quigley.
— Eu esperava encontrá-lo lá em baixo junto com a turma
do cocktail — disse ela, zombando comigo.
— Já a esta hora?
— Mrs. Lanfrey encarregou-se do dr. Ardleigh.
— Não diga que o velhote, com toda a idade, já está na
frente dos outros.
— Por que não? Eu já tomei um. . . — Quem é que está lá?
— Mrs. Lanfrey, os drs. Ardleigh e French, e o capitão.
— Pois eu não achava que o French deixasse o trabalho e
arranjasse tempo para isso.
— Você não conhece o dr. French — disse ela. — Ele pode
ser o mais alegre de todos, quando quer.
— Os Gorell estão lá?
— Não. Você não esperava que estivessem, esperava?
— Provavelmente não.
Demos quase uma volta completa pelo convés antes de
dizermos outra coisa. Depois, ela falou:
— Jack Quigley foi empurrado nisto.
— "Empurrado nisto"! Que quer dizer?
-— Só um dia antes é que êle soube que vinha.
— Não há como fugir ao nosso destino, não é?
— Ora, por favor, não comece com isso — disse ela; o seu
rosto perdeu o sorriso. Com o braço delgado, fez um gesto
na direção do mar. — Estou procurando esquecer-me disso.
Há qualquer coisa de terrível no mar. Isso me assusta
quando me permito pensar em tal. Talvez eu não devesse ter
falado em Jack para você. Nós todos estamos procurando
esquecer.
— Contudo, antes de deixarmos o assunto... ele tinha
família? Era casado?
— Sim e não. Tinha a esposa. Estavam separados havia muito
tempo. Ela andava com o processo de divórcio, mas o caso
ainda não tinha sido resolvido. Oh, mas ela estava muito
ressentida com ele. E a família, também, acho eu.
— Quem era ela? Alguém que conhecemos?
Alice meneou a cabeça.
— Acho que não. Eu nunca soube quem era ela antes dela
casar. Vi-a uma vez. Uma linda moça. Jack foi morar no
apartamento onde a irmã dele e eu vivíamos, depois que a
mulher o deixou.
Abandonamos o assunto. Quanto mais dizíamos, mais
parecia que nós metíamos um tanto impropriamente em de-
talhes que pouco nos diziam respeito. O nosso período de
exercício cessou e ficamos à amurada a contemplar o sol que
deslizava para um nevoeiro baixo, onde se fez de púrpura e
finalmente desapareceu de vista. O mar perdeu a sua côr
viva, tornou-se baço e cinzento, e em seguida a escuridão
nos envolvia.
— Você quer andar pelo convés comigo alguma outra vez?
— perguntou-me de súbito a moça. Tinha enfiado um braço
delgado nas grades da amurada e inclinava o corpo para um
lado.
— Com muito prazer.
Os seus olhos pareceram dançar.
— Já era tempo de vestir-me para o jantar — disse ela. —
Good-by.
— Até já — respondi-lhe, e fiquei a olhar para ela, que se
apressava para a escada. Havia nela algo de muito atraente. E
era muito linda, também. Desejei que ela não se tivesse ido.
A porta do salão abriu-se antes que eu voltasse para à
amurada, e o dr. Gorell apareceu. Vestia uma roupa escura,
muito flácida no seu corpo rechonchudo. Trazia boné bran-
co. Entre os lábios, um cachimbo preto. Parecia estar à
procura de alguns momentos de solidão, mas quando me
avistou, dirigiu-se para a amurada.
— Good evening, Barden — começou ele gentilmente,
erguendo os cotovelos para apoiar-se na amurada. — O sol já
se foi, segundo vejo.
— Boa noite, doutor — respondi-lhe eu.
Por alguns instantes ele se contentou em fumar. Em vez do
espírito irascível que havia mostrado até então, agora parecia
calmo e atencioso. Dentro em pouco, observou:
— Começamos ficar bem ao sul.
— Segundo entendo, podemos esperar um desembarque
dentro de um ou dois dias.
— Creio que sim. (Tirou uma baforada do cachimbo.) O sr.
tem sorte, meu rapaz, em estar nesta expedição. Risner
contava muito com ela. Durante dias não falou noutra coisa.
Encontrou as suas listas dos espécimes que o Museu quer?
Ele as fez e deixou-me ver o que tinha feito.
— Sim. Vou estar muito ocupado em colecionar tudo aquilo.
— Bem — e o dr. Gorell lançou-me um olhar perscrutador
— o sr. é jovem e forte. Invejo-lhe o físico e a juventude.
— Pretende fazer uma vasta coleção de conchas, dr.?
— Sim... (hesitou) isto é, bem vasta. Alguns dos tipos
conhecidos, e também novos se forem encontrados, já se vê,
mas particularmente quaisquer conchas em terra e nas
maiores altitudes.
— Isto vai exigir muita escalada, dr., sobre antigas camadas
de lava.
— Sim, sei disso — suspirou ele. — Estou ficando velho, é
verdade, mas ainda não estou demasiado velho para isso.
— Naturalmente que não está.
— Talvez o sr. venha comigo num dos meus arrastamentos
— observou ele. Havia um convite no seu tom de voz, uma
nota esperançosa que traía um sério desejo de que eu assim
o fizesse. Tinha ficado demasiado patente que Ardleigh e
Gorell não eram muito amigos. Aquele atrito à mesa, na
primeira noite a bordo, deixara-o bem claro. Desde então
eles pareciam evitar-se. E eu imaginei que o irritável e velho
concologista, afora a companhia de sua esposa, haveria de
ficar um tanto isolado na expedição.
— Terei prazer em juntar as minhas forças às suas, doutor,
sempre que eu for para o interior.
— Obrigado, Bartlett. Começo a ficar, ansioso pela refrega. Já
deixamos a nossa terra bem longe, e estou mais ou menos
como um velho cavalo de bombeiro que ouviu o alarma.
Trouxe bons sapatos consigo? — inquiriu ele solicitamente.
— Sim. Vários pares. Já estive antes nas Galápagos, dr.; sei
como a lava aguda corta as solas.
— Bem, isso é excelente. Estimo que tenha estado. Eu nunca
estive nas Galápagos. Mas o Risner esteve, e fez com que eu
arranjasse sapatos apropriados. A propósito, há um doutor na
expedição, um médico? Não me lembro de ter encontrado
um. Doenças ou acidentes são bem prováveis numa viagem
como esta. — Gorell bateu o seu cachimbo na amurada e
tirou do bolso um estojo de couro onde o colocou.
— O sr. já encontrou o médico — disse eu.
— Quem é? Não me lembro. . .
— O capitão Lanfrey — disse eu, repetindo a informação
que tivera de Huntoon Rogers. — Ele é diplomado, foi
interno e praticou durante dez anos, e mantém-se em dia
com a profissão, embora se haja retirado da clínica.
— É pasmoso, Bartlett, pasmoso. Quero dizer que Lanfrey é
um homem espantosamente versátil. Fala de concologia
comigo quase como um veterano e governa este navio. Não
é um capitão de brinquedo, desses que trazem um mestre
para navegar. Ele mesmo é quem dirige. Sinto-me bem
humilde com o meu único talento.
— O sr. tem razão, dr. Gorell; Carlos Lanfrey é um homem
muitíssimo versátil.
Starr, com o seu gongo do jantar, vinha pelo tombadilho,
chamando-nos para a refeição da noite.
— Tenho fome — disse Gorell. — Vamos entrar.
Estava bem escuro quando fui' novamente ao convés; a
escuridão do mar aberto e solitário andava por toda a parte.
Era aquilo um impressionante contraste com a cena que
acabava de deixar atrás de mim no salão de jantar
lindamente mobiliado, onde os membros da expedição
tinham jantado bem, e onde algo quase próximo da alegria se
havia manifestado. O dr. French, o lacônico, o silencioso,
derretera-se a ponto de contar uma história divertida e fazer
com que nos empenhássemos em leves zombarias com Mrs.
Lanfrey, cuja missão a bordo, obvia e designada por ela
própria, era quebrar a rigidez de nossa variada coleção de
personalidades científicas. Até o dr. Gorell, num momento
de puro abandono, oferecera um fósforo a Ardleigh, e este
aceitara-o com um sorriso, dizendo: "Obrigado, meu velho".
O jantar findou com um brinde ao sucesso da expedição,
proposto por Mrs. Lanfrey.
Dessa 'maneira e oficialmente, pareceu-me, ao caminhar
no escuro pelo tombadilho, que ficava terminado o período
de
depressão que se seguira à perda de Jack Quigley, o nosso
fotógrafo. Por indução, as memórias que nos restassem da
tragédia seriam consideradas recordações particulares e que
não se deveriam manifestar outra vez em companhia. Nada,
evidentemente, fora dito a éste respeito; estava implícito em
nossas ações.
Mas não sei por que, enquanto andava, não me era possível
afastar esse assunto dos meus pensamentos. Quigley tinha
desaparecido, e lá estava a teimosa questão que, segundo
dissera Huntoon Rogers, era mais difícil do que as outras que
tínhamos procurado aprofundar, a questão do porquê... por
que havia Jack Quigley desaparecido pela amurada?
Acreditávamos saber qual a hora em que ele fora visto com
vida pela última vez, sabíamos que o seu desaparecimento
do navio só poderia significar que ele morrera afogado. Mas
por que?
Quando eu fazia a volta pelo convés de vante, uma figura
alta, sob a luz de uma lâmpada elétrica, chamou-me a
atenção. Era French. Sem motivo que eu soubesse, ele pa-
recia ter-se detido ali por um breve instante. As suas costas
estavam voltadas para mim. Havia uma curiosa espécie de
concentração em cada linha do seu corpo flexível; tão absor-
vido estava ele em alguma coisa que tinha nas mãos que não
me ouviu chegar.
— French — disse eu.
Ele se voltou rápido ao som de minha voz. Ao mesmo
tempo as suas mãos sardentas dobraram a leve folha de papel
que estava a olhar. Pô-la despreocupadamente no bolso.
Estou certo de que o sobressaltei, mas disto não houve
nenhum indício em sua voz.
— Bartlett, estive a pensar — começou ele. Não ampliou os
seus pensamentos, por um longo instante. — Fiquei a pensar
nisso durante o jantar. Perdemos pela amurada um membro
de nossa expedição. A nossa disposição coletiva à hora das
refeições voltou agora ao nível que atingira no primeiro
jantar que tivemos a bordo. Como um grupo, parece que
estamos procurando esquecer alguma cousa, forçosa e
voluntariamente esquecer.
— Refere-se à morte de Quigley, Flench, está claro?
— Sim. Você, Bartlett, sabe que deve haver alguma razão
para uma coisa dessas. Qualquer pessoa inteligente percebe
esse fato, e, além disso, sabe que nenhum bom motivo foi
sugerido para explicar por que desapareceu Quigley.
— Um acidente, talvez. . .
— Que espécie de acidente? — instou ele.
— Alguma coisa inevitável. . . tropeçou e caiu....
- Ora, Bartlett, Você tem mais inteligência do que essa.
— Que é que você quer que eu diga, Frendi?
Houve um momento de silêncio.
— Caminhamos um pouco para fazer exercício? — sugeriu
ele. Comecei a andar ao seu lado. Dentro em pouco ele me
dizia, em voz designada somente para os meus ouvidos:
— Como sabe, houve jogo e Quigley ganhou uma quantia
considerável. De membros da tripulação. Não é possível que
Quigley andasse distraído pelo tombadilho enquanto todos
dormíamos e que alguém de quem ele tivesse ganho direito
fizesse um esforço para recuperá-lo? E no caso de recusa,
não poderia haver uma briga na qual Quigley ficasse
malferido, de sorte que o seu antagonista, num momento de
susto pelo que tinha feito e pelas consequências, atirasse
Quigley pela amurada?
Andamos vários metros antes que eu respondesse.
— É possível — admiti.
— Mas provável?. . . Não acha que uma explicação como
esta seja provável, Bartlett?
Tínhamos dado a volta pelo tombadilho e aproximávamo-
nos do convés de proa.
— French — comecei eu. — Hesito em dizer qualquer
coisa.
Ele me deteve como faz um homem quando levado por um
ponto de vista. Meus olhos percorreram o seu rosto escuro,
ensombrado pelo boné, abaixo de cuja pala somente eram
visíveis o nariz delgado e os lábios carnudos.
— Não tenho a direção deste barco — principiou ele. —
Não sou o capitão Lanfrey. Mas se fosse, acho que faria
investigações dentro dessa linha. A lei, como você sabe, se-
gue um navio que está no mar; ninguém pode escapar às
consequências do seu ato criminoso. . .
Detive French com um gesto, adiantei-me para a amurada e
olhei para o convés inferior, que era aberto e sem proteção
nas bandas da proa. Sob a luz mortiça de uma única lâmpada
elétrica, eu tinha visto ali qualquer coisa que atraíra a minha
atenção.
— Se houve crime, Bartlett, eu diria que. . .
— Um momento, French — disse eu, mterrompendo-o. Há
qualquer coisa ali no convés de baixo.
— Que é?
French veio até o meu lado e olhou. Abaixo de nós, no
convés, havia um homem deitado. Sua atitude não era a de
um homem que está deitado à vontade; ao contrário, a
posição dos braços e pernas sugeria que ele tinha caído ou
fora atirado ali.
Pulei para a escada e desci rapidamente, acompanhado por
French. Em seguida estávamos ao lado do homem e nos
abaixamos junto dele.
— Está ferido? — perguntou French, tocando-lhe
suavemente o ombro. O homem mexeu-se e gemeu. — É
um dos marinheiros, Bartlett, não é?
— Sim — disse eu. — Chama-se Cranston. É melhor
chamarmos o capitão.
Durante várias horas Jay Cranston ficou inconciente numa
das cabines de proa; recobrou depois os sentidos mas
continuou, pelo tempo de um dia ou mais, muito doente. Só
havia uma conjectura sobre o que teria acontecido. O capi-
tão Lanfrey achava pouco acertado interrogar o homem en-
quanto o seu estado permanecesse incerto. Entrementes, o
Cylene II avançava continuamente para o nosso destino nas
Galápagos, agora muito próximo. Já podíamos esperar para
breve a nossa chegada às "Islas Encantadas", nome que de-
ram ao arquipélago os descobridores espanhóis.
— Cranston está sendo um motivo de embaraço para Carlos
— observou Huntoon Rogers, ao sair do pequeno quarto
escuro do estúdio fotográfico. Trazia consigo alguns pés de
filme úmido cujo tamanho era mais ou menos o de um
negativo cinematográfico.
— O rapaz não parece ser outra coisa — comentei. —
Tínhamos estado a conversar enquanto Rogers ocupava-se
disto e daquilo, preparando-se para o seu futuro trabalho
como fotógrafo.
— Acho que, se fosse possível, Carlos haveria de passá-lo
para outro navio c mandá-lo de volta. Na certa. Mas estamos
muito perto das ilhas para encontrarmos um navio, afora
algum barco de pesca, que seja capaz de levá-lo.
— Tens alguma idéia sobre o que aconteceu a Cranston?
— Nada de positivo. Não. Mas acho que não foi mais do que
uma briga na qual Cranston levou a pior. Provavelmente foi
derribado por algum tripulante. Carlos disse-me que porá o
rapaz junto com os_passageiros quando éle ficar bom; vai
afastá-lo completamente da tripulação.
— Isto quer dizer, segundo suponho, que o terás como
auxiliar no teu trabalho fotográfico.
— Sim — respondeu Rogers, olhando-me por um momento
através de suas grossas lentes, e esfregando pensativamente
um lado do nariz. — Nós nos entenderemos. Eu já disse a
Carlos que terei prazer em fazer o que possa para inculcar no
rapaz maneiras menos violentas. Talvez isso não passe de
extremo otimismo de minha parte. Mas creio que tudo o que
faz falta ao rapaz é interesse nalguma coisa de que ele
gostou. Talvez essa coisa seja a fotografia.
— Tomara que seja. Como vai passando ele?
-— Melhor. Não é nada de sério. Ele é jovem e forte.
Enquanto, examinava o filme posto a secar junto a uma
lâmpada elétrica, Rogers assobiava uma breve canção.
— Que estás fazendo agora, Hunt? — perguntei-lhe eu.
— Oh, nisto aqui?
— Sim.
— Lembras-te da pequena câmera alemã que encontramos
nos objetos de Quigley?
— Lembro-me, sim.
— Este é o filme que havia nela. Ali está a câmera.
— Para que?
— Algum de vocês vai precisar de uma máquina nas
excursões. Eu não posso ir com todos, nem Cranston, se já
estiver levantado. Pensei que esta seria boa para ti.
— Grande idéia. Eu não trouxe máquina comigo.
— Carlos permitiu-me tirar esta da bagagem de Quigley.
Havia nela um rolo de filme que estou revelando.
Rogers pôs o filme contra a luz da lâmpada que ficava acima
da mesa de trabalho, examinando as pequenas fotografias.
Percorreu-as apressadamente e deteve-se na última. Depois
de um momento de inspecção, tirou uma lente da gaveta e
assestou-a sobre a última fotografia, ficando a estudá-la por
alguns instantes.
— Opa! — exclamou ele, soltando a lente e esfregando o
narigão. -— Havia mais de ano que Quigley não tirava uma
fotografia com esta máquina.
— Como o sabes?
— Fácil. A última do rolo é a de um vaso de guerra japonês
no porto de San Pedro. Lembro-me quando o navio esteve
lá. Eu próprio tomei uma fotografia quase idêntica.
— Estás certo disso?
— Estou. (A sua voz ergueu-se um tanto com a ligeira
surpresa que a minha pergunta lhe causava.) No mês passado
fez um ano.
— Quigley não era o que se pode chamar de entusiasta da
fotografia, ou era?
— Talvez não — respondeu Rogers, pendurando o filme na
estante que havia acima da mesa. — Muito provavelmente
ele apanhou a câmera no seu quarto quando fazia a bagagem
e colocou-a na mala, pensando que talvez viesse a usá-la
nesta viagem.
Levantei-me da cadeira onde estava e aproximei-me do
filme; passei a lâmpada para trás dele e empunhei a lente. Os
negativos eram do tipo comum característico dos amadores
da fotografia. Havia diversas vistas tomadas sem dúvida pela
sua beleza cênica, ou para rememorar algum incidente a elas
ligado. Também havia várias pessoas que me eram
desconhecidas, um ou dois estudos de retrato, e um grupo
de quatro pessoas que a princípio deixei passar e depois
voltei a examinar como quem é levado por um estranho
impulso. Observei-o tão detidamente que Rogers se chegou
a mim.
— Que foi que encontraste?
— Vê tu mesmo — disse eu, passando-lhe a lente. Rogers
empunhou-a e, enquanto eu segurava a lâmpada elétrica por
trás do pequeno negativo, examinou-o cuidadosamente.
— Opa! — resmungou ele. — Há neles qualquer coisa de
familiar, não é verdade?
— Perfeitamente. Sabes quem são?
— Dois deles. . . o casal mais velho. Sim, e o rapaz também.
Mas não posso reconhecer a moça.
— Tampouco eu, mas dos outros três estou inteiramente
certo.
Rogers deixou a lente e eu soltei a lâmpada, que ficou a
balançar-se no seu fio. Rogers olhava-me com uma curiosa
expressão no rosto. Tornou a apanhar a lente e examinou
mais uma vez a fita de negativos. Finalmente, disse:
— Vou ampliar esta, Benny. Interessa-me. — E começou a
preparar o ampliador.
— De que maneira é que essa fotografia te interessa?
— Não sei se o notaste ou não, mas não vi nenhuma vez os
Gorell falarem com Quigley, nem Quigley falar com eles.
Ignoravam-se.
— Admito não o ter notado, Hunt, mas ocorreu-me uma
sugestão.
— Qual?
— Quero que Alice Wilmer veja esta ampliação. (Rogers
olhou-me fixamente por um instante.) Há uma
probabilidade de que ela possa reconhecer a moça dessa
fotografia — ajuntei.
— All right. Vai buscá-la.
Encontrei Alice no convés. Estava a olhar para o horizonte e
protegia os olhos com a mão espalmada.
— Olá! — exclamei, aproximando-me dela.
— Oh! Alô! Mr. Bartlett.
— Benny, se faz favor.
— Está bem — fez ela, atirando-me um sorriso. — Está bem.
E eu, como sabe, sou Alice. Pode chamar-me de você. Mr.
Getty acaba de dizer-me que talvez avistemos terra nesta
manhã.
— Já avistou?
— Ainda não.
— Talvez você não a reconheça, quando avistar. Ela riu.
— Imagine! Eu, um marinheiro d'água doce.
— Um lindíssimo marinheiro d'água doce. Lançou-me um
olhar rápido e desviou os olhos; um leve rubor assomou-lhe
às faces.
Havia cerração, mas não se avistava terra alguma. Viam-se
alguns pássaros à distância; julguei ter reconhecido um
albatroz. A terra, sem dúvida, não estava muito longe.
— Sou capaz de apostar que você não conhecerá a terra
quando a avistar.
— Está apostado.
— Que é que vamos apostar?
— Um jantar em Hollywood, quando voltarmos.
— Vamos fazer com que seja uma série de jantares —
emendei eu. — E longos passeios. Só nos dois.
Houve um trejeito nos olhos dela e um fulgurante sorriso
apareceu-lhe nos lábios.
— Combinado — disse ela.
— Escute, Alice: a terta estará no lugar dela, quer você olhe
ou não. Se você pode dispor de um momento, quero
mostrar-lhe uma coisa.
— Que é?
Deixamos a amurada e voltamo-nos para a escada.
— É lá em baixo, no estúdio fotográfico. Rogers está lá.
— Mas que é?
— Paciência.
Rogers achava-se no quarto escuro quando entramos.
— És tu, Benny? — perguntou ele.
— Sou. Alice veio comigo.
— Que é que vocês dois estão tramando? — perguntou
Alice, sentando-se.
— Trata-se de uma coisa que, segundo acha Benny, talvez
lhe interesse, Miss Wilmer — disse Rogers. — Já vou levar
aí. Rogers saiu do quarto escuro trazendo uma fotografia
grande. Deitou-a na mesa de trabalho e fez sinal para que
nos aproximássemos.
— Oh! — exclamou Alice discretamente, com os olhos
fixos na fotografia.
— É uma excelente fotografia — disse Rogers. — A máquina
faz um belo trabalho, Benny. Vê como são bem claros os
detalhes.
— É trabalho de Quigley — disse Alice Wilmer. — Não está
esplêndido? E os Gorell... o doutor e a esposa. . .
— Conhece a moça. . . ?
— Esperem! — exclamou ela, detendo-me com a mão. —
É, sim. Ora. . .
— Quem é ela? — perguntou Rogers.
— A mulher do Jack.
Durante um momento ficamos em silêncio. Rogers olhava-
me por cima da cabeça loira de Alice. Havia uma curiosa
expressão em sua face.
— Tem certeza, Miss Wilmer? — perguntou ele. — Faz
alguns anos que conheço os Gorell, mas nunca ví a filha
deles.
— Sim, não há dúvida nenhuma, estou certa — respondeu
ela, voltando-se para encarar Rogers. — Não esqueço
fisionomias. Vi-a em Los Angeles há um mês e um dia,
quando eu estava com Edith Quigley. . . a irmã do Jack.
Edith disse-me: "Ali vai a Betty, Alice. Olha depressa!"
— Isso foi depois que Quigley e a mulher se separaram? —
perguntei eu. — Quando Quigley foi morar no mesmo
apartamento que você ocupava com a irmã dele?
— Foi, sim. Eles estavam separados havia talvez um ano.
Mas por que estão assim entusiasmados com esse assunto? —
perguntou ela, olhando de mim para Rogers. Esperei que
Rogers respondesse; por fim, disse êle, vagarosamente:
— Achamos essa fotografia muito interessante — disse êle
com um ar de despreocupação. — Se a senhorita observar
bem, verá um traço de família muito acentuado entre a
moça e os Gorell.
Alice segurou a fotografia, olhando-a fixamente.
— Há mesmo, não é? — disse ela. — Mas. . . é engraçado.
(O seu rosto estava intrigado.) Ora. . . mas.... então Jack
Quigley era genro dos Gorell, não é isso?
— Parece que sim — disse eu.
— Eles estavam tão indignados com o Jack. Pois. . . Edith
Quigley até me disse que o sogro do Jack estava tão
encolerizado com ele que uma noite quis disparar-lhe um
tiro. E teria disparado, se Jack, não lhe tivesse tomado a
pistola.
— Opa!
A exclamação foi de Rogers, que apanhou a fotografia e
meteu-a numa das gavetas da mesa de trabalho. O silêncio
começou a pesar sobre nós. Quanto teria durado, que
pensamentos particulares teriam sido expressos nos
seguintes instantes, é o que não sei. Porque nesse momento
houve um reboliço no convés. Ouvimos passos rápidos e o
som de vozes abafadas que gritavam:
— Terra! Terra!
Os três saímos do estúdio e corremos para a escada. Che-
gamos ao tombadilho e encontramos os membros da
expedição e vários tripulantes no convés de vante, a
estibordo. Olhavam quase que bem em frente. French,
avistando-nos, indicou com a mão sardenta:
— Terra pela frente! Estão vendo?
— Não, eu não vejo doutor. Onde? Mostre-me — pediu
Alice.
Bati-lhe no ombro, dizendo:
— Eu lhe disse que você não reconheceria a terra quando
avistasse.
Ela riu.
— E você está vendo — desafiou-me ela.
— Sim, estou vendo. Fixe os olhos naquela nuvem, Bem
acima, na frente. Siga as duas linhas delgadas que avançam
para o mar. Naquele trecho escuro. Está vendo? Parece uma
cunha embotada, saindo das profundas do inferno. É a Ilha
Infatigable, Santa Cruz para os latinos, uma das maiores do
Arquipélago de Galápagos.
— Agora estou vendo — disse Rogers.
— E eu também! — exclamou Alice.
Huntoon Rogers, ao meu lado, sussurrou-me qualquer coisa
ao ouvido. Olhei-o interrogativamente e ele repetiu:
— É como disseste, Benny. Das profundas do inferno. Um
augúrio de morte.
À tardinha, lançamos âncora no ângulo formado pela ilha de
Santa Cruz com as ilhotas Seymour. As máquinas pararam; a
constante trepidação de dias a fio, o interminável rumorejar
da água nos costados do navio e o som do vento cessaram
por completo. Flutuávamos em mar calmo e liso como um
espelho. O silêncio nos incomodava os ouvidos; e a súbita
firmeza do tombadilho tirava-nos a segurança no andar.
Tínhamos chegado ao Arquipélago de Galápagos, esse
arquipélago vulcânico que é geralmente pouco conhecido e
fica abaixo da linha equatorial, a cerca de quinhentas ou mais
milhas ao largo da costa do Equador. Para ali fora levado
Robinson Crusoé pelos corsários que o salvaram do seu
exílio solitário em San Juan Fernandez. Piratas, baleeiros e
corsários ali se encontravam num passado distante. Mais de
um século antes de termos deitado âncora naquela tarde, um
jovem inglês tinha visitado as Galápagos, estudado a sua vida
e partido com um livro que influenciou profundamente o
pensamento científico do mundo.
O Cyrene II, tão graciosamente flutuando no seu
ancoradouro, equipado com todos os luxos que os armadores
lhe puderam prodigalizar, apresentava nos meus
pensamentos, enquanto eu estava encostado à amurada pelo
tranquilo pôr-do-sol, um vivo contraste com os
desconfortos que Darwin devia ter sofrido a bordo do
pequeno veleiro H.M.S. Beagle. Nós não éramos Darwins,
nenhum de nós o era; tínhamos vindo reunir exemplares
para um museu; fazer, se possível, quaisquer descobertas que
outros cientistas tivessem deixado escapar; estudar em
primeira mão os problemas apresentados pelo esquisito
quadro da vida silvestre encontrada nas diversas ilhas e nos
mares em derredor.
A nossa viagem de San Pedro para as ilhas tinha sido mais
um cruzeiro de luxo do que uma expedição científica. Fora
agradável e sem incidentes, excetuando-se, naturalmente, a
perda de Jack Quigley, o nosso fotógrafo, pela amurada, na
segunda noite. Todavia, esta excepção cada vez se fazia
maior no meu espírito; a miúde, sobrepujava tudo o mais, e
estou certo de que assim acontecia ao espírito de outros
membros da expedição. O capitão Lanfrey tinha dirigido um
inquérito que deixara estabelecida a maneira pela qual Jack
Quigley devia ter caído para a morte, e o tempo aproximado,
mas a própria natureza das circunstâncias deixara dúvidas no
espírito de alguns de nós. Havia a questão do motivo por
que um homem jovem, vigoroso e sadio como Quigley tinha
encontrado um acidente do qual resultara o seu afogamento;
como poderia ter acontecido semelhante coisa?
— Pedi que viesses, Benny — disse-me o capitão Lanfrey,
tratando-me agora por tu, "quando entrei no seu escritório.
— Nós quatro queremos conversar tranquilamente... sobre
Quigley.
O jantar estava terminado. Depois dele houvera uma
conferência geral durante a qual os vários membros da
expedição tinham indicado os seus planos para o dia
seguinte, que seria o nosso primeiro dia em terra. French ia
percorrer o litoral num pequeno barco. Ardleigh planejava
fazer não sei o que de pouco tangível. Gorell iria à procura
de conchas nos ostreiros da costa. Eu esperava apanhar nas
proximidades da praia uns pássaros que desejava, e Rogers
propunha-se tirar algumas fotografias de caráter geral.
Rogers foi quem me sussurrou ao ouvido, quando terminou
a conferência: "Carlos quer falar contigo no escritório dele,
daqui a meia hora mais ou menos." Assim me dissera ele,
sem contudo explicar de que se tratava. Todavia, não foi
surpresa pata mim ouvir, quando entrei no escritório do
capitão, que Quigley era o assunto de nossa conversação.
Porque, parecia-me, Quigley era exatamente o assunto que
teríamos escolhido para uma discussão séria.
Relanceei os olhos pelo escritório lindamente mobiliado. A
graciosa figura de Mrs. Lanfrey estava encolhida num
explêndido divã. Lanfrey ocupava uma cadeira junto à
mesinha. Ocupei o lugar que me foi indicado entre ele e
Rogers. Sentèi-me e Lanfrey começou em seguida a falar,
dizendo:
— Quigley, conforme é claro, desapareceu. Nada poderá
trazê-lo de volta. Fui até onde parecia possível ir na
investigação e de modo positivo só determinei o fato de que
Starr foi a última pessoa a ver Quigley com vida — às onze e
quarenta e cinco — quando foi levar-lhe o whisky pedido.
O fato de que Quigley desapareceu pela amurada é demasia-
do patente — ele não se encontra a bordo. Mas por que? Por
que desapareceu Quigley pela amurada? Sempre estou a
repetir esta pergunta para mim mesmo.
— Não és o único, Carlos — disse Rogers, descansando os
cotovelos nos braços da cadeira e aproximando do rosto as
pontas dos dedos unidas umas às outras. — Tenho pensado
bastante sobre isso.
— E sem dúvida isso também acontece contigo, Benny —
disse Lanfrey, voltando-se para mim.
— É verdade. Não posso achar que fosse um acidente.
— Um suicídio, então? — perguntou Lanfrey lentamente.
— Não, tampouco suicídio.
Os quatro ficamos silenciosos. Mrs. Lanfrey apanhou um
cigarro de sobre a mesinha ao lado do seu divã, e começou a
bater distraidamente a ponta contra o seu pulso esquerdo.
Disse finalmente Lanfrey:
— Reduzes o fato a uma terrível conclusão, Benny.
— Jack tinha um gênio agradável e infantil; não era
briguento nem quando estava bêbedo — disse Mrs. Lanfrey
com os seus olhos castanhos fixos em mim. — Eu o conhe-
cia — acrescentou ela. — Tínhamo-nos divertido juntos em
Hollywood antes do meu casamento com Carlos.
— Eu não vou defender a minha conclusão, capitão — disse
eu, — É uma conclusão pessoal. É por esse motivo que não
creio ser necessário defendê-la. É uma simples conclusão;
tão ousada como o pode ser qualquer outra coisa. Cheguei a
ela pelo mesmo processo mental que está à disposição de
qualquer outra pessoa de bordo.
— Concordo com Benny, Carlos — disse Rogers. — Não se
pode fugir dessa conclusão.
— Bem — disse o capitão Lanfrey com uma expressão
estranha nos seus olhos azuis. — Eu concordo contigo, mas
não quero fazê-lo. É uma coisa terrível; é uma mancha na
minha expedição, e eu daria tudo para afastá-la. Contudo,
tenho um dever a cumprir. Não posso fugir às
responsabilidades do meu posto de chefe desta expedição e
capitão deste navio. O que me proponho fazer agora é
explorar as possibilidades nesta situação, tratando o que
aconteceu como um... assassinato.
Fez-se entre nós quatro um extraordinário silêncio. A
palavra "assassinato" acabava de ser usada pela primeira vez
desde que a bordo surgira a noção de que Jack Quigley desa-
parecera pela amurada. Mrs. Lanfrey deixou finalmente de
bater o cigarro no pulso e acendeu-o. Semelhante ação ser-
viu para romper o nosso silêncio. Roger ainda com as pontas
dos dedos unidas diante do rosto, observou:
— A maneira prática de começar, Carlos, é, segundo me
parece, dividir-nos em duas divisões naturais, a tripulação e
os membros da expedição.
— Perfeitamente.
— E quanto à tripulação, acho que o assunto se limita aos
três que estavam jogando com Quigley na primeira noite da
viagem. Jogo, perda de dinheiro, acusação de usar dados
falsos e a consequente irritação que ferve e finalmente
explode, isto já tem sido a base de muito assassinato. É mo-
tivo suficiente para certas naturezas.
— Sim, Hunt — replicou Lanfrey. Concedo-o. Mas vê quem
são esses três. Ernest, por exemplo. O pai é meu jardineiro
desde que o rapaz nasceu; conheço-o desde pequeno; coisa
alguma como a violência de um assassínio está no seu feitio.
Ponho as mãos no fogo por ele.
— Estou certa de que ele é um rapaz às direitas, professor —
disse Mrs. Lanfrey, batendo a cinza do cigarro.— É claro
que eu não conheço o rapaz há muito tempo. Mas... bem,
isso simplesmente não é possível.
— Muito bem, então — disse Rogers, continuando no seu
franco tom de palestra. — Eliminaremos Ernest do quadro.
Mas e a respeito de Starr?
Interrompi a conversa nesta altura afim de dizer algo que
estivera frequentemente nos meus pensamentos desde que
Starr atirara os trezentos e oitenta dólares no escritório do
capitão Lanfrey, na manhã da investigação.
— Starr — disse eu, olhando para Lanfrey — chamou-me a
atenção quando respondia as suas perguntas. Pareceu-me um
sujeito muito ingênuo ou muito finório. . .
— Referes-te, Benny — atalhou Rogers — à maneira franca
por que ele admitiu que tinha tirado o dinheiro do camarote
de Quigley quando teve certeza de que o homem se havia
afogado?
— Sim. O que tinha sido dele ainda o era depois da morte de
Quigley. Muito provavelmente poderia haver uma intenção
por trás dessa franqueza aparente. Ele não pode provar que o
dinheiro lhe voltou dessa maneira... .
— Vamos, deixem-me contar-lhes uma coisa — interrompeu
Lanfrey, vigorosamente. — Starr está comigo há seis anos.
Encontrei-o entre lutadores de segunda ordem que andavam
em volta de um ring do Leste e onde ele procurava um lugar
de sparring. Ele tinha recebido educação e falava
corretamente. E, além disso, havia nele qualquer coisa que
agradava. Mas ele era um tipo de empregado que não
pertencia ao tablado de box; a sua instrução era contrária a
isso, mesmo tendo ele peso e resistência. E de qualquer
maneira, era então um homem já velho para esse esporte.
— Desde então Starr tem tido milhares de oportunidades
para roubar-me, desde somas pequenas até grandes. Ele
esteve comigo em lugares onde me poderia ter derrubado
com um golpe na cabeça e fugido sem que nenhuma
suspeita o acompanhasse. Falei com ele cruamente antes de
empregá-lo. Disse-lhe que se algum dia eu o apanhasse em
algo de desonesto ou numa mentira, ele estava despedido.
Starr tem sido direito: jogo franco. Quando me entregou o
dinheiro, foi apenas mais um exemplo de que ele pôs todas
as suas cartas na mesa.
A defesa de Starr pelo capitão Lanfrey foi um tributo à
honestidade e lealdade do steward, e por um momento teve
o efeito de aquietar as minhas dúvidas sobre o homem, mas
Rogers falou a seguir, sopesando cuidadosamente as palavras:
—Mas não é o valor da honestidade ou da lealdade, Carlos,
que tem significação particular. . .
— Mas, Hunt. . .
— Espera um momento, Carlos — e Rogers interrompeu-o
com um gesto. — Starr, segundo ele próprio admite, foi a
última pessoa a ver Quigley com vida... numa hora um tanto
avançada. Não sabemos o que teria acontecido entre Quigley
e Starr na sua pequena sessão de jogo, ou depois dela, que
pudesse transformar Starr num assassino, a despeito de sua
lealdade e de sua honestidade...
— French — comecei eu, interrompendo Rogers — estava
fazendo hipóteses comigo, ontem à noite. A tragédia pode
ter ocorrido em consequência de uma briga sobre a de-
volução do dinheiro; Quigley teria sido derrubado e malfe-
rido, e o seu adversário, não tendo querido ir tão longe,
ficou tomado de pânico e atirou Quigley pela borda.
Rogers apanhou imediatamente as minhas palavras, dizendo:
— Bem poderia ter havido mais do que uma conversa entre
Quigley e Starr, quando este lhe foi levar o whisky. Uma
luta pode ter ocorrido no camarote. ...
— Oh! — exclamou Lanfrey, com um movimento exas-
perado de sua cabeça loira. — Ora, vocês. . . Admito que
sempre haverá uma primeira vez ou então não haveria assas-
sinos. Mas o que digo é isto: agora mesmo, com esta certeza
que tenho, eu seria testemunha de boa conduta e caráter de
Starr, se ele estivesse sendo julgado por assassinato.
— Mas tu nos concederás este ponto, Carlos: Starr não será
eliminado de consideração?
— Pois não. Perfeitamente. Mas sabes qual a minha opinião.
Tome um cigarro, Benny, — disse ele, dirigindo-se agora
para mim e tranquilízando-se. —- Sirva-se daqui. — Lanfrey
apanhou um cigarro e acendeu-o.
— Resta-nos, pois, mais um da tripulação — insistiu Rogers.
— Referes-te a Jay Cranston — comecei eu, sem terminar o
que pensava dizer. Porque Mrs. Lanfrey endireitou-se de
súbito no seu divã e ficou muito quieta. Havia algo de
beligerante na sua reação. Rogers olhou para Lanfrey com
uma expressão curiosa. Um silêncio incômodo foi rompido
por este último.
— Sim, Jay Cranston — disse ele — o rapaz...
Mrs. Lanfrey sentou-se bruscamente no divã, pousando os
pés no chão com firmeza; havia uma ponta de cólera nos
seus olhos castanhos, mas a sua voz estava bastante calma.
- Carlos — disse ela num tom decidido — tu me prometeste
que não deixarias que esse rapaz viesse neste cruzeiro. . .
— Eu pensei estar mantendo a promessa, minha cara —
disse o capitão com tranquilidade. — O rapaz falsificou o
meu nome num bilhete e Thurton inscreveu-o.
— Mas ele não é teu sobrinho; é sobrinho de Ada, e sabes
perfeitamente qual o nosso acordo sobre a segunda Mrs.
Lanfrey e os seus parentes. . . seus parentes, não teus.
— Sei, minha querida. Expliquei-te como foi que Jay veio
para bordo. Eu pretendia dizer-te antes, mas tenho andado
com tantas coisas no espírito. Nem conheces o rapaz de
vista. Não acho que êle vá incomodar-te deste ou daquele
modo. E a situação é tal que teremos de ficar com êle até
voltarmos. Sinto muito.
— Bem, eu não quero que se faça nada com êle. Dize-lhe
que se afaste do meu caminho — retrucou ela, e recostou-se
novamente entre as almofadas do divã.
Na pausa contrafeita que se seguiu, Rogers quebrou o
silêncio.
— Suponho, Carlos, que o rapaz pode ser eliminado de
conisderação — disse Rogers perfuntoriamente.
— Sim. Está eliminado — respondeu o capitão.
Abandonamos o melindroso assunto de Jay Cranston,
embora o rapaz tivesse saído do jogo de dados com um olho
inchado, admitidamente causado pelo punho de Jack
Quigley. E mesmo naquele momento êle se achava acamado
na sua cabine em consequência de um misterioso ataque
ainda não explicado.
Indistintamente, chegou-nos o som de quatro pancadas na
sineta de bordo. Rogers olhou para o seu relógio de pulso.
Uma tranquilidade engolfante parecia haver-se instalado no
navio. Mrs. Lanfrey dava a impressão de se ter afastado
completamente de nós, embora permanecesse no divã. O
capitão Lanfrey extinguiu no cinzeiro o fogo do seu cigarro.
Rogers estava outra vez com as mãos junto ao rosto, unidas
as pontas dos dedos. Parecia termos chegado a um impasse
em nossa exploração sobre as estranhas e cerradas
circunstâncias em torno da morte de Jack Quigley.
Finalmente, falei eu, dizendo:
— Capitão, há os membros da expedição. Suponho que os
presentes acham-se exceptuados. Mrs. Lanfrey, o sr. Rogers
e eu estamos eliminados. . .
— Estamos? Estou eu? — perguntou Lanfrey. Havia nos seus
lábios um repuxamento sombrio, que parecia acentuado pelo
bigode pequeno e híspido.
— Bem — recomecei eu, um tanto embaraçado no mo-
mento — prefiro considerar assim. . .
— Continue, Benny; Carlos está brincando — disse Mrs.
Lanfrey.
— Todas as mulheres, está claro, acham-se automaticamente
eliminadas — disse eu. — Quigley era um homem forte e
pesado, com pelo menos 70 quilos. Nenhuma das mulheres
teria força para levantar pela amurada um cadáver com esse
peso.
— Isso nos deixa Ardleigh, French e Gorell — disse Rogers.
— Por que não examinamos em seguida o caso de Gorell,
Hunt? — perguntou Lanfrey. — Segundo o que me disseste
esta tarde, há mais razão para interrogá-lo a respeito de
Quigley do que os outros dois.
— Concordo contigo, Carlos. Ardleigh e French podem ser
eliminados quase pelas mesmas razões por que eliminamos
as mulheres. . .
— Que há sobre Gorell? — perguntou Mrs. Lanfrey voltando
subitamente à conversação. Com um movimento rápido da
mão, atirou para trás a massa negra dos seus cabelos com a
mecha branca sobre as têmporas. Olhava ela para Rogers.
— Conta-lhe, Benny — disse Rogers. — Tudo i questão de
começar.
— A história é muito simples — comecei eu. — Esta manhã,
pouco antes de avistarmos terra, veio à luz qualquer coisa
que liga o dr. Gorell com Quigley. . .
— Acho que sei o que quer dizer, mas continuo....
— Hunt revelou um rolo de filme da câmera de Quigley. E
entre outras, havia uma fotografia de quatro pessoas que,
quando ampliada, mostrou bem claramente o dr. e Mrs.
Gorell, Quigley, e uma moça que Alice Wilnier pôde
identificar como sendo a mulher de Quiglcy, que vivia
separada dele. O consenso foi que, diante de uma forte
semelhança de família, a moça era filha dos Gorell. Em ou-
tras palavras, Quigley era genro do dr. e Mrs. Gorell. Alice
pôde acrescentar ainda esta interessante informação:
Quigley dissera a ela, certa vez, que o seu sogro procurara
disparar-lhe um tiro e que o teria feito se éle, Quigley, não o
houvesse desarmado. E Hunt, aqui, está inclinado a acreditar
que Quigley e os Gorell evidentemente estavam e evitar-se a
bordo. Os Gorell estavam, segundo Miss Wilmer, muito
indignados com Quigley.
— Sim, sei disso — observou Mrs. Lanfrey, com ar casual.
— Sabes disso, Reba — perguntou o capitão Lanfrey, com
alguma surpresa.
— Sim — respondeu ela. — Jack contou-me.
— Ele mesmo te contou isso? Quando estava a bordo?
— Sim, sim, naturalmente. Os senhores deveriam ter-me
procurado se realmente queriam saber. Isso teria poupado
todo esse trabalho de detetive...
— Mas, Reba...
— Escuta, meu tolo — começou Mrs. Lanfrey, com a voz
levemente divertida diante da súbita preocupação que
transparecera no capitão. — Eu conhecia Jack Quigley.
Disseste isso. Fomos bons amigos por muito tempo. Pobre
rapaz, estava tão acabrunhado. Êle percebeu que tinha caído
no teu desagrado, Carlos, devido ao incidente do jogo.
Queria que fizesse o que podia para ajudá-lo junto a ti, inter-
cedesse, caso fosse necessário, afim de arranjar as coisas.
— Que disse ele a respeito dos Gorell? — perguntou Lanfrey.
— Tanto Jack como eles tiveram a maior surpresa quando
descobriram que iam para as Galápagos e estariam juntos por
vários meses.
— Ele disse mais alguma coisa?....
— Os cavalheiros estão muito sôfregos — disse ela, en-
quanto arranjava para si uma posição mais confortável no
divã. Os seus olhos castanhos olhavam-nos divertidamente.
— Conheci Betty Gorell, a mulher de Jack. Uma fera per-
feita. Fez de Jack um infeliz. Não o culpo por tê-la
abandonado. Mas os pais eram todos por ela e contra Jack. É
natural, não há dúvida. Jack disse-me na última vez que o vi:
"Que é que vou fazer, Reba? O velho Gorell ameaçou-me...
— Ameaçou-o? A pergunta foi feita por Lanfrey e Rogers ao
mesmo tempo.
— Sim. "Reba, disse ele, que é que vou fazer? Vês a minha
posição. Não quero ser a causa de mais complicação do que
já fui com os dadinhos. Mas o velho disse em palavras bem
claras que me apanhará antes que o nosso cruzeiro termine.
Aí está, cavalheiros. É tudo quanto sei.
— Muito obrigado, querida — disse o capitão Lanfrey,
tranquilamente.
O silêncio prolongava-se enquanto refletíamos sobre o que
Mrs. Lanfrey havia dito. Ali estava qualquer coisa de
tangível. Ali estava uma ameaça que, presumindo-se ter sido
executada, explicava a tragédia. Todavia, irascível e de mau-
humor como era o homem, para mim se tornava difícil
acreditar que Gorell tivesse assassinado o seu genro. E,
contudo, eu não podia deixar de pensar na maneira
sobressaltada por que o dr. Gorell detalhara os seus passos e
os da esposa quando do inquérito formal no salão, após o
desaparecimento de Quigley.
— Há qualquer coisa — comecei eu, rompendo o silêncio —
há qualquer coisa que só neste momento é que me ocorreu.
Não lhe tinha visto a significação até agora.
— De que se trata, Benny? — perguntou Rogers. O capitão
Lanfrey e a mulher voltaram-se interrogativamente para
mim.
— Mrs. Gorell — disse eu. — Qualquer coisa que ela disse há
uns poucos dias.
— Isso terá relação com que Reba acaba de nos contar? —
perguntou o capitão.
— Deixarei que o sr. o julgue. Há umas poucas noites Mrs.
Gorell aproximou-se de mim, na amurada. Depois de alguma
conversa, ela atacou o que aparentemente estava em seu
espírito. Queria ela saber a sua opinião, Mr. Lanfrey, sobre
se a morte de Quigley fora ou não um acidente. Respondi-
lhe que não tinha discutido o assunto com o sr. E disse-lhe
que pessoalmente eu preferia encarar o fato como acidental.
Parece-me que ela apanhou esta opinião como oficial;
apertou-a nos braços, por assim dizer, e disse isto — lembro-
me exatamente: "O doutor também vai ficar satisfeito em
saber; isso aliviará o espírito dele".
— Opa! — fez Rogers discretamente. — E segundo o próprio
Gorell admitiu; ele andou pelo convés às três horas da
manhã.
— Parece que o casal de velhos é culpado.... ela sabe disso
tanto quanto ele, não é assim, Carlos? — perguntou Mrs.
Lanfrey.
— É, isso é esquisito — admitiu Lanfrey, olhando para o seu
relógio. — Esta noite parece que chegamos a alguma
conclusão — observou ele. — De qualquer maneira, disse-
mos tudo o que sentíamos e sabíamos. Mas eu não sei o que
fazer. Juro que não sei. Ainda que ele pareça culpado, eu não
vou pôr o velho a ferros. Afinal de contas, tudo o que
aventamos aqui são apenas suspeitas. Não acredito que isso
possa ao menos ser chamado de prova circunstancial. Eu não
sou detective. Não sei como obrigá-lo a confessar o crime,
se é que foi ele o autor, e não sei se o faria se soubesse. Isso
é com as autoridades quando voltarmos. Estou procurando
dirigir uma expedição científica e quero ser enforcado se
deixar que mesmo um assassinato lhe prejudique o sucesso.
Se Gorell for o criminoso, de qualquer maneira voltará
conosco quando regressarmos. E quaisquer provas que
tenhamos então serão examinadas pelos meninos do porto.
Rogers levantou-se da cadeira.
— Então isso é tudo, Carlos, não é assim? — perguntou ele.
— Acho que sim. E muito obrigado aos dois por terem
vindo. Tenho que ir olhar o meu doente, e depois vou
deitar-me.
Os três saímos juntos do escritório; Rogers e eu demos boa-
noite a Mrs. Lanfrey, que ficou preguiçosamente no divã.
Do escritório de Lanfrey à cabine transformada em hospital
quando Jay Cranston fora encontrado sem sentidos no con-
vés por mim e French, a distância era pequena. O capitão
abriu a porta e olhou para dentro. Rogers e eu teríamos
prosseguido até os nossos camarotes não Fosse pela exclama-
ção que teve Lanfrey quando olhou para a cabine.
— Então! — disse ele. — Então! Que é isso?
Rogers entrou atrás de Lanfrey e eu depois dele.
A figura sólida de Jay Cranston estava sentada à beira da
cama. O rapaz comia das frutas que tinham sido colocadas
numa mesa próxima. Cranston ergueu os olhos para nós; o
rosto moreno estava carrancudo.
- Tenho fome — disse ele, mordendo uma laranja.
— Ótimo — observou Lanfrey. — Guarde o apetite e poderá
comer de verdade no primeiro almoço de amanhã.
— E por que não agora? — perguntou o convalescente.
— Você esteve bem doente (Lanfrey sentou-se, olhou
penetrantemente para o rapaz). Como se sente, Jay?
— Muito bem. E nós onde estamos? Por que paramos?
— Estamos nas Galápagos.
O rapaz terminou de comer a laranja, espichou-se depois na
cama e puxou as cobertas.
— Vou levantar-me amanhã — anunciou ele. — Já estive
muito tempo na cama.
— Bem, talvez possa. — Lanfrey ficou em silêncio por um
momento e depois acrescentou: — Quem foi que te bateu
naquela noite, Jay?
— Starr — respondeu Cranston prontamente.
— Por que?
— Uma pequena discussão.
— Sobre que?
— Ele tem os dados do Quigley. . .
— Os dados de Quigley? — fez Lanfrey, com a voz um tanto
erguida pela surpresa.
— Sim. É certo. E os dados são chumbados. Ele ia "limpar" a
tripulação com eles. Eu disse a ele: "Starr, eu também tenho
parte nisso, ou então..."
— Então o que? A voz de Lanfrey tornara-se áspera.
— Que acha que podia ser? Ou ele me dava parte no negócio
ou eu contava para o capitão que ele tinha os teceu?
— Entendo — disse Lanfrey. — E depois, que aconteceu?
— Ele me deu um soco e eu caí.
O capitão Lanfrey levantou-se da cadeira, parecendo muito
alto dentro do camarote.
— Está bem. Durma agora. Vamos ver se você pode
levantar-se amanhã. Já lhe posso dizer agora que você não
vai voltar para a tripulação. Você ficará junto com os
membros da expedição. Entenda que isto não é uma
recompensa. Você causará menos incômodo aqui dentro do
que lá com a tripulação, pelo menos assim espero. E quando
você se levantar passará a ajudar o professor Rogers nas
fotografias.
— Formidável, tio Carlos, formidável! — exclamou
Cranston, soerguendo-se nos cotovelos. — Isso foi o que eu
sempre quis.
— Boa noite — e Lanfrey saiu do camarote, levando por
diante a mim e Rogers.
Durante um momento nós os três ficamos no corredor. Eu
estava a pensar sobre o que dissera Cranston a respeito dos
dados de Quigley. Rogers, ao que me parece, estava a ponto
de dar boa-noite a mim e Lanfrey quando este último nos
disse em voz baixa:
— Venham comigo; vamos ver Starr. — Havia no seu tom
de voz uma nota sombria, e na sua atitude uma aspereza
facilmente perceptível no corredor obscuro.
O capitão foi à frente e entrou pela porta da cozinha. O
reflexo desta sala vivamente iluminada incidiu no corredor;
um ventilador elétrico agitava maciamente o ar morno da
cozinha, onde os fogões apagados iam perdendo aos poucos
o calor. A uma mesa, no canto da sala, achava-se Starr, que
jogava cartas com o cozinheiro. Este, cujo nome era
Webber, era um homem de cabeça redonda, cabelo muito
negro e olhos aguados. Foi ele quem nos viu primeiro e
levantou-se, cochichando qualquer coisa para Starr que ime-
diatamente se pôs em pé, sorrindo e mostrando os seus dois
dentes de ouro.
Lanfrey adiantou-se, arrastou uma cadeira e sentou-se.
Rogers. e eu sentamo-nos sobre uma mesa, onde ficamos a
balançar as pernas. Severamente, Lanfrey disse para Starr e
Webber:
— Sentem-se!
Ainda assim Starr não perdeu o seu sorriso, o seu ar aliciante
de serviçal, embora fosse incomum a entrada de nós os três
em hora tão avançada. Durante um momento o silêncio não
foi interrompido. Starr continuava a olhar para. o seu patrão
como quem espera uma ordem.
— Starr — começou Lanfrey.
— Pronto, capitão. — O criado endireitou-se ligeiramente
na cadeira.
— Há algumas noites atrás, Mr. Bartlett, aqui, juntamente
com o dr. French, encontraram Jay Cranston sem sentidos
no convés. Eles me chamaram e Cranston foi posto num dos
camarotes. Desde então êle esteve muito doente, mas agora
convalesce.
— Yes, sir.
— Eu acabo de falar com êle. Perguntei-lhe quem o tinha
derrubado. E ele diz que teve uma discussão com você e que
você o esmurrou. Isso é verdade?
— É, sim, senhor — respondeu Starr sem hesitação.
— Conte-me como foi isso.
— Pois foi assim, capitão. Tivemos uma troca de palavras e
ele me disse um palavrão que eu não posso aguentar de
homem nenhum, capitão. Fui para ele e atirei-lhe uma
direita, e ele caiu, batendo com a cabeça no anteparo,
capitão. Procurei fazê-lo voltar a si, mas ele continuava
deesmaiado, de maneira que o levei para o ar fresco do con-
vés e deixei-o lá, capitão, e depois fui procurar o senhor.
Mas não o encontrei em seguida e quando voltei ao lugar
onde eu tinha deixado Cranston, capitão, o senhor e outros
cavalheiros já o levavam para o camarote, e o senhor deve
estar lembrado que eu corri à frente e abri as portas, capitão,
e arranjei a cama.
— Lembro-me, sim. E que mais?
— Isso é tudo, capitão.
— Qual foi a discussão?
— Cranston... — começou ele.
— Mr. Cranston — corrigiu o capitão. — Você sabe, Starr,
que Jay Cranston é sobrinho de minha segunda mulher.
— Sim, capitão; mas, o sr. vê, ele estava com a tripulação, e
nós tínhamos deixado de dar senhoria entre os nossos,
capitão.
— Jay não está mais na tripulação. Está na lista de
passageiros para o resto da viagem. Não se esqueça disto.
Continue...
- Sim, senhor. Terei presente o que o sr. diz. (Starr hesitou
um momento, como se estivesse a reunir pensamentos
esparsos, sorriu depois para nós e prosseguiu.) Como eu
tinha começado a dizer, Mr. Cranston sabia que eu tinha os
dados de Mr. Quigley, capitão. Aqui estão eles.
A esta altura, Starr espichou a perna direita de modo que
com a maior facilidade pôde meter a mão no bolso das
calças, e em seguida um par de dados de marfim rolava sobre
a mesa, entre as cartas de jogar. O capitão Lanfrey apanhou-
os e voltou-os nas mãos, mas nada disse, esperando que o
steward continuasse.
— Mr. Cranston, capitão, pensava desde o princípio que os
dados eram chumbados. Eu também pensei assim certa vez.
Mas não são. Contudo, parece que Mr. Quigley podia fazer
com eles o que quisesse. Mas eu não posso. E Mr. Cranston,
pensando que com esses dados nós poderíamos ganhar o
dinheiro dos tripulantes, sugeriu que o experimentássemos,
e quando eu disse que já estava farto de jogo, ele começou a
discutir, e uma coisa puxa outra....
— Compreendo. Por que não me veio dizer que fora você
quem quase matara Mr. Cranston?
— Eu... capitão, eu não fui interrogado. Eu estava
inteiramente certo de que isso seria sabido quando Mr.
Cranston se restabelecesse. Tendo experiência de box, eu
sabia que ele não estava mortalmente ferido, capitão.
Lanfrey continuava a brincar com os dados.
Experimentando-os, atirou-os várias vezes sobre a mesa. Na
última vez os dados caíram no chão e o cozinheiro imediata-
mente abaixou-se na cadeira e os repôs na mesa, com o rosto
vermelho pelo esforço feito.
— Como é que arranjaste estes dados, Starr?
— Eram de Mr. Quigley, capitão. Ele me deu.
— Deu?
— Sim, senhor.
— Você não disse nada a esse respeito na manhã da
investigação.
— Não, senhor. O capitão compreende, os dados nada
tinham com a tragédia que eu pudesse ver de maneira que
eu não disse nada a respeito deles: e o sr. não me perguntou
se os tinha comigo, capitão.
— Que queres dizer com isso de que eles nada tinham com a
tragédia?
— Nada podiam ter, capitão. Mr. Quigley deu-me os dados
uma tarde antes de ter desaparecido pela amurada. Eu fui ao
quarto dele, capitão, levar umas frutas que ele tinha pedido.
E quando eu estava no quarto, ele me disse: "Starr, vês isto
aqui?" e tirou os dados do bolso. "Sim, Mr. Quigley, estou
vendo", disse eu. "Fica com eles, Starr. Não quero saber mais
de jogo. Já causei bastante incômodo neste navio." "Sim, Mr.
Quigley", respondi, "mas eu também não quero mais saber
de jogo. Sei que o capitão não gosta disso." Ele riu e disse:
"Bem, leva-os; e se não os quiseres, joga-os pela borda." De
maneira que eu fiquei com eles, capitão.
— E como foi que Mr. Cranston soube que você os tinha?
— Ele viu os dados no meu beliche, capitão. Estavam na
minha caixa e ele os reconheceu.
O capitão Lanfrey levantou-se. Deteve-se um momento,
como se para verificar se tinha feito todas as perguntas que
pensara fazer, e depois disse:
— Boa noite, Starr.
Alice Wilmer, a artista, era uma pessoa diferente da Alice
Wilmer que eu tinha conhecido como passageira a bordo do
Cyrene II cm nossa viagem até as Galápagos. No sol das
primeiras horas da manhã, antes que ninguém estivesse
pronto para desembarcar naquele primeiro dia, descobri-a,
vestindo blusa e shorts, no convés de vante à frente de um
cavalete, auxiliada por um marinheiro transformado em
pescador para os propósitos de seu trabalho. A sua mão era
rápida, decidia as cores sem hesitação e o resultado na tela
era admirável.
Ergueu os olhos para mim, sorriu e voltou ao seu trabalho.
O sol fazia nos seus cabelos um efeito áureo.
— Você pode ficar aqui, se não fizer muitas perguntas,
Benny — disse-me ela. — Apanhou outro? — perguntou ela
ao marinheiro, que acenou afirmativamente e atirou um
peixe para o convés. Era um peixe magnificamente colorido,
cujo corpo em forma de torpedo flamejava como um sol e
quase permitia que os olhos se fixassem nele. Outro peixe da
mesma espécie, com as cores escurecidas como fogo extinto,
jazia no convés.
— Estão caindo hoje, não? — perguntei ao marinheiro.
— Estão, sim, senhor. Até parece que não tinham o que
comer.
— Que peixe é esse?
— Não sei, não, senhor. É a primeira vez que venho a estas
ilhas.
Olhei por sobre os ombros de Alice enquanto ela trabalhava.
Um instante depois, ela relanceou os olhos e disse:
— É um atum dourado.
— Lindo peixe — observei eu. Ela continuou a trabalhar
rapidamente.
— As cores desaparecem muito depressa — disse ela, quase
com um lamento na voz.
Afastei-me um pouco e contemplei os picos distantes e
cobertos de nuvens da ilha desabitada de Santa Cruz. A linha
da costa era irregular, quase inóspita, embora houvesse aqui
e ali praias de areias brancas entre as escuras rochas
vulcânicas e bosques de guaparaíbas.
— Apanhou outro? — perguntou Alice ao marinheiro. —
Este aqui está perdendo as cores tão depressa que não posso
usá-lo.
— Não, senhora, não peguei nenhum. Deixaram de picar de
um momento para outro.
Alice pendurou a palheta no cavalete e espreguiçou-se.
Aproximei-me dela.
— Que pressa é essa? — perguntei-lhe?
— Oh! só para agradar o dr. French... para provar que a
menina Alice merecia ser trazida...
— Isso não é necessário — disse eu. — Tenho estado
deliciado com a sua simples presença entre nós. E quanto a
agradar esse cientista de cabeça ruiva chamado French,
bem...
— Ah! não sei, não. Então, todo vestido para excursão, não
é? — disse ela a brincar. — Você se parece com um belo
explorador de florestas ou coisa semelhante.
— Nada de mentiras, menina Alice. Ah! e a propósito —
ajuntei, baixando a voz de maneira que o marinheiro não me
ouvisse — a sua informação sobre a mulher do Quigley ser
filha dos Gorell é exata. Mrs. Lanfrey conheceu-a. Ela o
confirmou ontem à noite.
Os olhos expressivos de Alice agrandaram-se um tanto, e ela
perguntou a seguir:
— Vocês, detectives nomeados por si mesmos, estiveram a
remexer mais neste assunto?
— Oh!. . . talvez. Mas, não há nada de novo. Receio que
como detectives não somos nem mais nem menos do que
amadores.
— Nada ainda, sr. marinheiro? — perguntou Alice.
— Não, senhora; eles saíram de perto do navio.
Ouvi passos no tombadilho e voltei-me para ver a figura alta
de French. O icteologísta vestia uma roupa caqui; fumava
um cigarro. Tinha visto as preparações d« Alice ao sair do
salão de jantar e aproximava-se. para examinar o trabalho.
— Bom dia, doutor — disse Alice, quando French chegou.
— Bom dia, Miss Wilmer; bom dia, Bartlett. Que é que fez?
French dirigiu-se para o cavalete.
— Levantei-me cedo — explicou Alice — e vi o marinheiro
pescando. Apanhei as minhas coisas e vim praticar um
pouco.
— É um trabalho excelente para ser guardado, French
— disse eu. — Isso não é obra de praticante.
— Miss Wilmer é muito modesta com a sua habilidade —
observou French, tranquilamente. Examinou a tela com
cuidado. — Excelente. Atum dourado. Muito comum nestas
águas. Cores inacreditáveis. Seria muito difícil fotografá-lo
com êxito. Este é o único modo de fixá-lo — e indicou o
quadro com a mão sardenta.
— Estávamos falando sobre Jack Quigley, antes do sr.
chegar, doutor — começou Alice.
— Que há a respeito dele?
— Sabia o sr. que ele era genro do dr. Gorell?
French pareceu estudar a sua resposta; os raios do sol sobre
os seus cabelos ruivos quase que os mudavam em coisa viva;
carregou o senho e disse:
— Parece-me que ele era genro de alguém. De alguém da
Universidade. Acho que era do velho Gorell. (Houve uma
levíssima ponta de desprezo no seu tom de voz.) Por que?
Há algo de novo sobre Quigley?
— Não — respondi eu. É que o afogamento do rapaz sempre
surge aqui ou ali. Não sei como é que o assunto surgiu esta
manhã...
— Foi você mesmo quem começou — observou Alice
— dizendo que Mrs. Lanfrey sabia que ele era aparentado
por casamento com o dr. Gorell.
— Mrs. Lanfrey? (A voz de French ergueu-se levemente).
Ela o conhecia?
— Sim.
French não parecia estar particularmente interessado; os
seus pensamentos ocupavam-me mais com o fato de termos
chegado ao local dos nossos trabalhos, com a manhã, com o
mar e as ilhas em torno de nós.
— O que posso dizer — observou êle — é que não creio
que se tenha falado nisso. Pelo menos, em alguma discussão
que eu estivesse presente. Quigley prometia como
pesquizador no laboratório de invertebrados da
Universidade. Poderia ter feito nome. Ele trabalhou comigo
por uns tempos, mas depois deixou tudo e foi para o cinema.
Mas... . (e French olhou para o relógio)... já estão por
desembarcar. Vais à terra no primeiro barco, não é, Bartlett?
- Vou, sim.
— Quanto à senhorita, Miss Wilmer, não é preciso que
venha comigo esta manhã. Eu vou sozinho num pequeno
barco. Se quiser ficar e terminar este trabalho aqui, está
muito bem. Isso pode levar o resto da manhã, se os peixes
não estiverem picando.
— Ficarei aqui — disse Alice — se alguém pescar para mim.
— Eu posso pescar para a senhora — disse o marinheiro.
— Muito bem, então — disse French, voltando-se. —
Vamos, Bartlett?
French e eu caminhamos para a popa. A lancha estava sendo
arriada. Huntoon Rogers, com a eâmera e um pacote, saiu
pela porta do salão de jantar.
— Já almoçaram, amigos? — perguntou ele.
Respondi afirmativamente e alcancei-o. French desceu para
o seu camarote.
— Acho que todos vamos à costa hoje. Ardleigh mudou de
resolução e também vai — informou-me Rogers.
— Bom dia, Mr. Bartlett.
Olhei em volta ao som do meu nome e vi o dr. Gorell.
O velho envergava uma roupa grossa, calçava sapatões
atacados até em cima e trazia um capacete de. cortiça. Os
seus óculos, firmemente a cavaleiro do nariz, pareciam
quase desafiantes. Entre os dentes, apertava o cachimbo.
— Bom dia, doutor — respondi eu.
— Então, reunimos as forças esta manhã, nós os dois? Mrs.
Gorell também vem.
— Se o sr. quiser — repliquei. Contudo, eu provavelmente
não me vou afastar muito da costa. Talvez possa apanhar
alguns exemplares — e bati no saco de tela que trazia às
costas.
— Acho que primeiro caminharei pela costa. Vou ver o
que posso encontrar,
O dr. Gorell parecia estar com excelente disposição de
ânimo. Todos os traços da irritabilidade que ele havia de-
monstrado a princípio tinham desaparecido.
— Aí vem Mrs. Gorell — disse o velho, puxando-me pela
manga. Voltei-me e avistei a gorda figura de sua esposa
metida numa roupa quase igual à do marido. Sorriu e
cumprimentou. De súbito, senti-me monopolizado pelos
Gorell e desejei não ter concordado tão prontamente em
reunir forças com eles. Entrevi Rogers a olhar-me
divertidamente.
Com não pouca excitação, poucos minutos depois o grupo
estava acomodado na lancha. Alice Wilmer, o capitão
Lanfrcy e a mulher eram os únicos a permanecer no convés,
excepto French que, conforme ele o dissera, dentro de pou-
cos instantes ia tomar um pequeno barco para um trabalho
qualquer nas águas baixas das proximidades da costa.
Estivemos alegres e com excelente bom-humor durante a
breve travessia de lancha para a costa. Tínhamos por fim
alcançado a nossa meta; o trabalho para o qual vivíamos
estava diante de nós. Não havia uma única sombra do que
em breve se seguiria: não tínhamos a menor intuição de que
o horror ainda não nos deixara.
Durante uma hora mais ou menos, depois de termos
desembarcado, adiamos o começo de nossa atividade como
cientistas, e cada um de nós preferiu olhar para aquela ilha
deshabitada e deserta com os olhos de um Robinson Crusoé.
Uma foca e o seu filhote brincavam na praia. Não tinham
nenhum medo de nós; aliás, manifestavam um ligeiro
interesse em nossa chegada e aproximaram-se para ver o
nosso desembarque. Um ostraceiro de plumas brancas e
negras e bico escarlate veio a trotar pela admirável areia
branca e ficou a poucos metros de nós, todo curiosidade.
Quase a primeira coisa a alegrar os nossos olhos foi uma
sombra escarlate sobre a face escura de uma rocha de lava à
beira d'água. Não era bem uma sombra, pois sendo dema-
siado brilhante, não podia merecer esse nome; contudo
movia-se como uma sombra quando as dezenas de
caranguejos escarlates que a formavam correram
ruidosamente por sobre a lava. O Grapsus grapsus grapsus,
para lhe dar o seu esquisito nome científico, era bem a coisa
mais vivamente colorida que íamos encontrar no
arquipélago.
Avançamos sobre as ostreiras reunidas na praia pelas ondas;
havia ostras tão numerosas, de formas tão belas e coloridas
que nos mudavam em auxiliares voluntários do velho
concologista que só fazia parar e abanar a cabeça diante de
tamanha riqueza. Diversos pássaros aproximaram-se para
examinar-nos, zombadores, espevitados e de olhos
brilhantes. -Também estes, como os primeiros, não nos
tinham medo algum.
Um enorme lagarto amarelo, à sombra de um cactus, olhava-
nos sonolentamente; fugiu somente quando Ardleigh
adiantou-se demasiado rapidamente para ele.
A lancha voltou ao navio para o capitão e Mrs. Lanfrey ou
para quaisquer outros que tivessem planejado ir à costa mais
tarde, e nós paulatinamente fomos tratando de nossas várias
tarefas. O dr. Ardleigh foi o primeiro a afastar-se do grupo;
dirigiu-se sozinho para o interior da ilha, através dos matos
de cactus, sem nada dizer de suas intenções, e em seguida
perdia-se de vista no difícil caminho. Huntoon Rogers
começou a tomar fotografias, e eu fiquei a andar pela praia
em pesquisas concológicas, acompanhado pelos Gorell, que
não me perdiam ide vista.
Encontrei mais tarde um lugar sombrio e sentei-me.
Pássaros zombadores vieram fazer-me companhia, pulando
pelos meus pés, mirando-me como se fossem míopes,
pousados num algodoeiro silvestre a um metro de distância.
Um pequeno papa-moscas reuniu-se ao bando e, enquanto
me fitava, as penas de sua crista subiam e desciam arrepiadas.
O meu abrigo ficava perto da praia. A uns quarenta metros
do largo da costa, nas águas pouco profundas, estava o dr.
French, num pequeno barco de fundo de vidro, que obser-
vava a vida abaixo da superfície.
— O sol está muito quente, Bartlett — disse uma voz atrás
de mim.
Dei-me volta e vi o casal Gorell que, como um par de cães
dachshunds, afanavam-se em chegar até onde eu estava e
vinham a cheirar cada fenda, cada ponta de rocha na
expectativa de cobras. Chegaram por fim e sentaram-se; o
velho tirou o seu capacete de cortiça e começou a abanar o
rosto vermelho e quente.
— Está um calorão! Aquilo lá em cima é sol equatorial.
— Na sombra está melhor — disse eu.
— Está, sim. Entendo que neste arquipélago nunca faz calor
de verdade. A Corrente de Humbolt e os alísios temperam o
sol.
— Nunca senti calor quando estive aqui da outra vez,
doutor, senão quando me achava no interior de alguma das
ilhas ou onde batia o sol e não havia brisa.
Conversamos vadiamente. A lancha partiu do iate e
desembarcou os seus passageiros na costa. Desceram atrás de
uma ponta de rocha, de sorte que não vimos quem eram.
French no seu barquinho estava feito uma figura pintada em
tela. Dentro em pouco Mrs. Gorell levantou-se.
— Vou até a praia, doutor — disse ela. As conchas na areia
são muito lindas; sempre me fascinam — e deu-me para
admirar um caurim de cores raras.
— Cuidado, Clara — disse Gorell à esposa, que caminhava,
em superfície desigual.
— Tenho cuidado, sim — respondeu ela, falando pelo
ombro.
Gorell tirou o cachimbo do bolso e encheu-o com o fumo da
bolsinha. Lembrou-se de alguma coisa e gritou para a
mulher:
— Clara, se a lancha veio, faz sinal para nós. Mrs. Gorell
continuou a andar sem responder.
— Ela ouviu, sim — disse o velho. — Ainda tem um bom
ouvido. (Acendeu o cachimbo e atirou o fósforo apagado na
relva grossa. Um pássaro lançou-se a ele, apanhou-o e
tornou a voar.) — Nunca vi pássaros tão mansos — ob-
servou o concologista.
— É verdade. A gente precisa ser um pouco sem coração
para matá-los, ainda que seja para adquirir espécimes: são tão
amigos.
— Sabe, Bartlett? Gosto de você — disse de súbito o velho.
Relanceei os olhos por ele; os seus olhos penetrantes e
negros, cercados pelos enormes óculos de aros de ouro, esta-
vam fixos em mim. Não havia como saber o que se escondia
por trás daquele brusco arroubo de confidência. Os seus
lábios estavam apertados no cachimbo; os seus músculos fa-
ciais, fixos e em forma de máscara.
— Bem, doutor... — comecei. — Alegro-me em saber isso.
Posso dizer que a simpatia é mútua.
A polidez em face de opinião contrária tem sido a minha
fraqueza. Eu não desgostava exatamente do homem, mas ele
não me atraía.
O velho compôs o peito.
— Simpatizei com você desde a primeira vez que a vi.
Você é um cavalheiro e um homem lúcido, um homem que
não precisa de conselhos, se é que não me engano. E acho
que não estou enganado. Eu raramente me engano ao julgar
o caráter de um homem.
— Doutor — disse eu — o sr. me lisonjeia. Lembre-se de
que sou moço e semelhante elogio pode prejudicar-me.
O concologista voltou rapidamente o olhar para mim, como
se estivesse incerto quanto ao meu tom de voz, e depois,
concluindo que eu não zombava dele, retornou ao cachimbo
e puxou uma forte baforada. Ele ia dizer qualquer coisa; via-
se isto em sua atitude, agora que já tinha dito aquelas
primeiras palavras.
— Escute... — recomeçou ele, bruscamente. — Este
assunto do Quigley. Está sempre presente. Continua na su-
perfície. Não me importo de lhe dizer, Bartlett, que isso tem
sido um pesadelo para mim.
— E para todos nós, doutor.
— Mais cedo ou mais tarde eu serei envolvido nele. Não
gosto de semelhante perspectiva, mas não vejo maneira de
evitá-lo.
— Mas. . .
— Oh! sei o que você vai dizer. Mas aquilo não foi um
acidente. Foi asasssínio. Entre os membros da expedição, já
se cochicha que foi assassinato. Sabia você que eu era sogro
de Quigley?
— Sabia, sim. . .
— Como é que sabia disso? — Havia no seu tom de voz um
um traço de irritação.
— Foi Mrs. Lanfrey quem o disse. French, também. Alice
Wilmer, Huntoon Rogers e eu o deduzimos de uma
fotografia.
E expliquei como Rogers tinha feito a descoberta ao revelar
o filme que havia na pequena máquina fotográfica de
Quigley. Mostrei-lhe a câmera, que estava em meu bolso,
mas Gorell mal olhou para ela, fazendo-o sem curiosidade.
— French? — disse ele quando eu terminei de falar.
— Sim. Ele forçosamente tinha que saber. E Mrs. Lanfrey,
como o soube ela?
— Por intermédio de Quigley. Ela o conhecia antes de
começar a expedição.
— Hum! — fez ele. — E ela terá contado todos os
mexericos que sabe a meu respeito?
Gorell não fez nenhuma menção, mas não era difícil
adivinhar que tinha em mente a conversa sobre fato de ter
ele ameaçado a vida de Quigley. Nossa palestra foi dimi-
nuindo, cessou de todo por alguns instantes, mas eu via na
expressão definida do seu rosto que ele ainda não havia
revelado o que pensara revelar quando começou a conversa
comigo. Compôs o peito uma vez mais e soltou outra ba-
forada.
— Escute... . — principiou o velho. Escute, Bartlett. . . estou
em má situação. O fato deixou-me em posição muito difícil.
Se eu tivesse sabido que Quigley vinha na expedição, não
teria posto os pés naquele navio que ali está — e com a mão
escura, de veias grossas, indicou o Cyrenne II, que flutuava
com leveza sobre a água. — Eu não matei Quigley, mas já
transpirou o suficiente para que haja circunstâncias contra
mim. Quando estou encolerizado digo coisas que não
pretendo fazer; faço ameaças sem a menor intenção de
executá-las. . .
— Dizem — observei tranquilamente — que o sr. ameaçou
Quigley de morte. . .
— E ele disse isso a essa mulher do Lanfrey, não foi? —
acrescentou ele meio acalorado, com o queixo proeminente.
Desejei calar. O velho tomou o meu silêncio por as-
sentimento e calou-se também. Mrs. Gorell tinha desapa-
recido da praia, pois fizera a volta de uma penedia que não
nos deixava avistar a lancha. Os dois estávamos sós. Gorell
bateu o seu cachimbo e colocou-o no estojo de couro.
— Bartlett, vou dizer-lhe uma coisa. Não quero que você a
repita. Eu não lhe diria, se pensasse ao contrário. . .
— Acha que deve dizê-la, dr. Gorell? — atalhei eu, não
desejando acumular confidências que servissem de emba-
raço, mas ainda assim curioso por saber o que mais teria ele
para dizer. O velho pareceu sopesar cuidadosamente a mi-
nha pergunta, e depois respondeu:
— Sim, acho que devo, Bartlett. No caso de que. . .
Até a minha esposa ignora o que lhe vou dizer. Você sabe...
a minha posição é muito difícil... gosto e com efeito observo
os preceitos da delicadeza. Sou, instintivamente, um
cavalheiro. Tenho presente que também sou hóspede do
capitão Lanfrey. É por esse motivo que tenho guardado estas
coisas para mim. Mas quero o seu conselho e por isso vou
dizer-lhe o que ia dizer.
— Perfeitamente, doutor, como quiser.
— É o seguinte: Você estará lembrado de, que, quando o
capitão Lanfrey nos interrogava na manhã em que foi
descoberto o assassínio de Quigley, eu admiti que tinha ido
ao convés cerca de vinte minutos antes das três horas da
madrugada.
— Lembro-me, sim.
— Disse eu que não tinha visto ninguém. Não é verdade.
Senti-me obrigado a trair a verdade nesse ponto porque essa
verdade envolvia uma senhora muito mais do que ela
gostaria, segundo imaginei.
Gorell lançava-me um olhar estranho.
— Miss Wilmer — comecei — declarou que. . .
— Não foi Miss Wilmer. Foi Mrs. Lanfrey. Ela e Quigley
estavam juntos na amurada, conversando. . .
— Mrs. Lanfrey? — fiz eu. — Às três horas da manhã...
— Sim. Eles não me viram. Eu estava com roupão de banho
escuro e em chinelas. Não fiz ruído algum quando fiquei a
olhar, na escada. Eles estiveram todo o tempo à amurada,
sem olhar em volta. Um marido, Bartlett, tem lá os seus
direitos... O capitão Lanfrey poderia. . . Não sei... .
— Que quer dizer, doutor?
— Não me faço suficientemente claro, Bartlett? Pois bem —
continuou ele. — Serei mais preciso. Sei que o capitão
Lanfrey e a sua esposa têm aposentos muito suntuosos neste
navio; além do salão particular, cada um tem o seu
dormitório separado. Mrs. Lanfrey poderia sair muito
facilmente e ir encontrar-se com o seu amante às três horas
da madrugada sem que o capitão o soubesse.
— Compreendo qual seja a conclusão. . .
— Pois, naturalmente. Repare, Bartlett, que eu não estou
acusando o capitão Lanfrey de ter assassinado Quígley. Mas
quando se vê a rede das circunstâncias a cercar-nos, como
eu a vejo em torno de mim, é natural que procuremos des-
vendar a verdade. A história verdadeira ainda não foi con-
tada.
— Talvez não.
— Escute, então, Bartlett. Isto foi estritamente confidencial.
Não tenho a menor intenção de dizer qualquer coisa a esse
respeito, a menos que...
Um ruído de passos sobre a relva, atrás de nós, fechou os
lábios de Gorell como uma armadilha, Voltamo-nos para ver
quem se aproximava, esperando ver alguém do navio que
tivesse chegado até nós sem ser anunciado. Mas à vista da
elevada figura que estava atrás de nós, ambos ficamos mudos
de espanto. Um homem com roupas esfarrapadas, chapéu
preto, sapatos em tiras, olhava para nós. O seu rosto estava
quase preto de tão queimado pelo sol; as mãos eram
descarnadas, ásperas, quase garras. Tinha, contudo, um sor-
riso agradável e dentes brancos e parelhos; sua atitude era
amiga, mesmo naquele nosso primeiro momento de
surpresa.
— Olá — disse eu.
O homem sacudiu a cabeça, e aproximou-se mais.
— No sabe — respondeu ele.
— Procure falar com ele em espanhol — alvitrou o dr.
Gorell. — Eu não conheço a língua.
O homem conhecia um pouco de espanhol. Com esse pouco
que sabia, ficamos à par de quem era ele e como viera parar
ali.
—Quem é ele? — perguntou Gorell, depois que eu tinha
trocado algumas palavras com o desconhecido.
— É um norueguês. Deu nesta ilha há três semanas.
— Naufrágio?
— Tinha um pequeno barco a vela. Vem da ilha de S.
Cristobal. As correntes e o vento trouxeram-no aqui e ele
naufragou.
Enquanto falávamos, o homem acocorou-se no chão diante
de nós, e procurava seguir a nossa conversação, olhando de
Gorell para mim com um ar de confiança em que as suas
dificuldades estivessem terminadas. Indicou o Cyrene II e
perguntou-me se era o nosso navio.
— Sim — disse eu. — Está com fome?
O homem fez uma careta e esfregou a mão na barriga.
Lagartos e ovos de pássaros, segundo fui informado, era tudo
o que ele tinha comido depois de esgotar as suas provisões.
Conversávamos ainda quando Mrs. Gorell apareceu na praia
e acenou para nós.
— Que diz se o levarmos até a lancha, doutor? — perguntei.
— Lá está Mrs. Gorell a abanar. Eles têm boa comida e este
camarada está faminto.
— Sim, certamente. Vamos levá-lo, nem ha dúvida.
Uma história mais detalhada foi ouvida do náufrago quando
se descobriu que Ernest podia falar com ele em sua língua
materna. O homem chamava-se Knutsen e tinha sido
marinheiro de um barco de pesca de atum partido de San
Diego, e no ano anterior havia solicitado e obtido a sua
dispensa de bordo para reunir-se a vários compatriotas seus
que já estavam na ilha de S. Cristobal, nas Galápagos. Tinha
saído desta ilha havia três semanas para um curto cruzeiro
de pesca, encontrara fortes correntes e ventos que o afasta-
ram da sua derrota, levando-o para o noroeste da ilha de
Santa Cruz, onde naufragara. Tudo o que pedia era que o
capitão Lanfrey o levasse de volta à ilha de San Cristobal, o
que Lanfrey prometeu fazer assim que nos avizinhássemos
dela.
Knutsen sabia muita coisa de interessante a respeito das
ilhas, principalmente sobre peixes e lugares onde
poderíamos encontrar tartarugas. Em horas várias, durante
quase dois dias, ele foi interrogado por vários membros da
expedição por intermédio de Ernest; French,
particularmente, achou-o de grande utilidade. E deu-lhe
alguma roupa, de que tanto necessitava o homem, pois
ambos eram quase do mesmo porte.
O trabalho científico já estava bem começado. Apanhei
muitos espécimes, pois a lista de Risner incluía praticamente
uma coleção completa dos pássaros do arquipélago. Quando
eu não estava na costa, encontrava-me no laboratório de
bordo, dissecando e tirando a pele de pássaros, catalogando,
preparando as peles para a viagem até o Museu, e
escrevendo notas rápidas. Os outros estavam igualmente
ocupados. French, muito queimado do sol, andava constan-
temente atarefado nas águas rasas e nas lagunas formadas na
costa pelas marés. Ele fornecia trabalho para Alice Wilmer e
também dirigia as atividades de alguns tripulantes que saíam
em excursões de pesca.
Ardleigh tratava do seu trabalho e passava os seus dias no
litoral. (Planejava subir a montanha da Santa Cruz pelas
fraldas de lava, mas Knutsen informou-o de que a escalada
era mais fácil do outro lado da ilha.
No segundo dia de excursão Mrs. Gorell fez uma bolha no
pé e foi proibida pelo marido de descer à costa para tra-
balhar. Gorell afastava-se cada vez mais da praia na sua
procura de conchas. Rogers estava constantemente ocupado,
quer no seu estúdio, quer em terra. Lanfrey empenhava-se
em fazer que a expedição corresse perfeitamente (os seus
galões dourados tinham sido substituídos por um uniforme
mais prático) e o tempo que tinha livre gastava-o na costa
em procura de cactus e nopais, sua distração particular. Mrs.
Lanfrey foi duas vezes à costa, queixou-se do calor e da falta
de interesse e voltou para as suas leituras a bordo.
Todos estávamos assim muito ocupados quando aconteceu
uma coisa que ainda me parece incrível. Diante da
ignorância da monstruosa verdade que estava para romper
entre nós, aquilo foi mais horroroso ainda. Causa-me arre-
pios o lembrar-me disso.
Aquela terceira manhã da nossa estada na ilha de Santa Cruz
começou com a habitual precipitação para o primeiro
almoço, seguida da viagem de lancha até a costa. Jay
Cranston pela primeira vez teve permissão para ir com os
expedicionários. Estava ele sob as ordens de Rogers e levava
uma câmera, parecendo inteiramente restabelecido do seu
recente abalo às mãos de Starr. O ar carrancudo e de poucos
amigos que eu lhe tinha observado desaparecera e ele se ilu-
minava com a perspectiva de aventura; não havia dúvida que
a sua inclusão entre expedicionários e não junto aos tripu-
lantes já tivera o seu efeito.
Com excepção de Mrs. Gorell e Mrs. Lafrey, todo o grupo,
inclusive Knutsen, o náufrago, e vários membros da
tripulação, achava-se em terra naquela manhã. French,
como sempre, estava no seu barco de fundo de vidro, não
muito distante da praia. Ao desembarcar, afastamo-nos em
várias direções, para encontrarmo-nos somente à hora do
lanche, na praia, pois era essa a combinação que melhor nos
servia. Se alguém quisesse, poderia ir lanchar a bordo
quando o barco regressasse ao navio. Mas o lanche que Starr
trazia para a costa, e que se servia sob uma tenda armada
para esse fim, era lauto e delicioso.
Vinha eu com excelente apetite, naquele meio-dia, ao voltar
à praia depois de uma longa caminhada pelos campos de
lava. Alice Wilmer, que tinha estado a trabalhar no seu
cavalete sob um enorme pára-sol, não muito longe do ponto
de desembarque, aproximou-se de mim, trazendo na mão
uma estrela do mar.
— Que é isso? — perguntei-lhe eu.
— Como é linda! — exclamou ela, erguendo-a. — Estive a
pintá-la.
— Nunca vi uma igual — disse eu. As suas pontas compridas
e delicadas, de cor creme, tinham uma ourela doirada em
cada sexto segmento. Sob a coloração creme, havia manchas
purpurinas.
— É nova para a ciência — disse Alice. — Não faz muito que
é conhecida... se está interessado, trata-se de uma
Ophiopiocus hancocki. Mas eu estou com fome. Tens al-
guma coisa boa que se coma, Ernest? — perguntou ela, diri-
gindo-se para o rapaz, que trazia os cestos com a comida.
Ernest fez um sinal afirmativo.
— Onde está Starr? — perguntei eu.
— Chegamos um pouco cedo, doutor, e Starr pensou que
ainda não viria ninguém, e foi dar um passeio. Em seguida
estará de volta.
Knutsen veio pela costa, trazendo qualquer coisa. Dirigiu-se
direito para nós, sorrindo, e deteve-se.
— Que é aquilo que ele traz? — perguntou Alice, e
depois ela mesma respondeu: — Oh! é um caranguejo
escarlate.
O caranguejo estava bem vivo, agitando violentamente as
pernas. Knutsen deitou-o no chão e nós nos reunimos
em torno dele. Ernest aproximou-se e completou o círculo.
Falou com Knutsen em norueguês.
— Ele diz que o caranguejo é amigo dele — traduziu Ernest.
Na verdade o caranguejo era incomum em determinado
respeito; não fugiu como os outros diante da aproximação de
seres humanos. Parecia ter algo da curiosidade destemida
dos pássaros. Ficou no chão, onde Knutsen o depusera, agi-
tando as pinças em forma de colher, movendo os seus olhos
cômicos como para nos inspecionar individualmente.
— Oh! vejam — disse Alice. — Está cumprimentando;
olhem!
E o curioso era que o caranguejo abaixava as pinças a
intervalos regulares, exatamente como se estivesse a fazer
uma saudação. Knutsen disse qualquer coisa e Ernest
traduziu-a:
— Ele diz que o caranguejo se fez amigo dele no primeiro
dia do seu naufrágio. Mas ele quer dá-lo de presente a Miss
Wilmer.
— Para mim? — fez Alice, olhando para o náufrago, que
acenou com a cabeça e sorriu. — Oh! muito obrigada. Vou
chamá-lo de Jimmy. . .
Rogers e Cranston aproximavam-se agora pela praia.
Detiveram-se para observar o caranguejo.
— Estes bichos geralmente têm medo do homem — disse
Rogers batendo na carapaça do caranguejo com os dedos;
diante disto, o caranguejo cumprimentou violentamente. —
Mas se um deles se faz amigo, eu não ficaria surpreendido.
Esta terra é estranha.
Avistei French a remar em nossa direção. O professor
atracou o seu barquinho na praia e dirigiu-se para o nosso
círculo. Ernest voltou para os cestos de comida, e em pou-
cos minutos a figura alta e delgada do dr. Ardleigh apareceu
entre nós quase como por um passe de mágica, seguido pou-
co depois pelo capitão Lanfrey. Ernest estava servindo o
lanche quando Starr apareceu, um tanto sem fôlego, sorri-
dente, mas cheio de calor. Ao olhar interrogador de Lan-
frey, respondeu o stexvard;
— Eu pensei demorar-me apenas uns minutos, capitão, mas
torci o, tornozelo nessa lava e tive que sentar-me para
descansar um pouco.
— É melhor descansar mais um pouco, Deixe que Ernest
sirva — disse Lanfrey, olhando asperamente para Starr.
— Todos tiveram uma boa manhã? — perguntou Lanfrey. Eu
tive, Encontrei dois cactus que nunca tinha visto antes.
Podem ser novos, podem não ser.
— Onde está o dr. Gorell? — perguntou Alice, depondo a
cocara no chão, ao seu lado.
Ninguém respondeu em seguida, e foi Rogers quem falou
depois:
— Vi-o há mais ou menos duas horas. Estava bem afastado,
na praia. — E indicou o oeste.
— Acho que ele daqui a pouco estará aqui — disse o capitão.
— Starr, não volte ao navio antes que o dr, Gorell apareça
para o lanche.
— Muito bem, capitão.
— Não vais esperar muito, Starr — observou French
zombeteiramente, enquanto estendia a mão sardenta para
outro sandwich. — Já notei que Gorell não tarda muito
quando é hora de meter o bornal. . .
— Ele gosta de comer, não é verdade? — disse Hunt, rindo.
Mas quando a lancha saiu às duas horas, o dr. Gorell ainda
não tinha vindo. Deixamos Starr na costa com alguns
alimentos, e Ardleigh Lanfrey e eu voltamos ao navio. Os
outros espalharam-se novamente, voltando às suas tarefas.
Eu tinha um trabalho para fazer no laboratório; naquela
manhã, apanhara um atobá de pés vermelhos, outro de pés
azuis, uma fragata que figurava sublinhada na lista de Risner
para o Museu; apanhara também um phalaropus fulicarius,
pássaro pequeno que não esperava encontrar, embora fosse
ele assinalado nas Galápagos. Eu queria preparar estes
pássaros, e tinha notas de vários dias para escrever.
Encontrava-me, pois, muito, ocupado, quando Rogers
apareceu, ao passar para o seu estúdio, que era contíguo ao
meu laboratório.
— Já terminaste? — perguntei-lhe.
— Já? — repetiu êle. — São quatro e trinta. Sempre há
alguma coisa para revelar. . .
— Ora, eu estava apenas brincando. Mas não imaginei que
fosse tão tarde... .
— Escuta... (Rogers eijtrou na sala. Havia uma expressão
esquisita no seu rosto.) Gorell não tinha aparecido no ponto
de desembarque quando deixamos a costa.
— Afinal, não foi lanchar?
— Não. Starr ainda está à espera dele.
— Meio engraçado, não achas? É o primeiro lanche que o
velho perde, segundo me parece.
— É, é estranho, sim. Acabo de falar com Carlos. Diz ele que
se Gorell não surgir dentro de meia hora, vai começar a
procurá-lo.
Às cinco horas o dr. Gorell ainda não tinha aparecido na
praia. Antes das seis horas estávamos, não apenas muito
preocupados com a sua segurança, mas organizados em gru-
pos e saíamos em procura do homem desaparecido. O pôr-
do-sol e a escuridão não estavam muito distantes quando nos
separamos. French, Ardleigh e Cranston foram pela esquer-
da, ao longo da costa, antes de penetrar no interior da linha;
o capitão Lanfrey com Starr e um marinheiro foram para a
direita, pela praia, O piloto Getty com um marinheiro e
Knutsen, e Rogers comigo e Ernest fomos direito para o
interior, espalhando-nos em leque. Esperamos percorrer
antes da noite o terreno no qual trabalhara a expedição, o
que era duvidoso, mesmo que andássemos bastante.
— Devíamos ter começado mais cedo — disse Rogers, sem,
contudo, pretender criticar o capitão Lanfrey.
— A única coisa que pode ter acontecido — observei — é
Gorell ter levado alguma queda, ferindo-se. Ele não é tão
jovem e ativo como alguns de nós.
— Sim. Mas ele podia ter gritado. Com certeza que alguém o
teria ouvido.
Ernest caminhava à nossa frente, carregando um pacote com
foguetes.
— Talvez seja alguma coisa pior, doutor — gritou ele para
nós.
Depois de um momento de hesitação, Rogers respondeu:
— Bem, talvez seja. Espero que não.
Fazíamos caminho vagarosamente por um terreno cada vez
mais amplo, cheio de agudas rochas de lava e com cerrada
vegetação de cactus e buseráceas, cruzando para a frente e
para trás, afim de não deixar nenhum lugar inexplorado.
O sol mergulhou no horizonte. Muito ao alto, nos últimos
raios refletidos pelas alturas do céu, voava um par de
flamingos, batendo as asas vermelhas em vôo de regresso.
Acompanhamo-los com o olhar € quando eles se sumiram
ouvimos, próximo de nós, para a esquerda, uma voz que
gritava. Escutamos e distinguimos a voz de French a chamar
por Gorell. Rogers caminhou alguns metros e depois parou.
— Não é má idéia, agora que o sol desceu — disse ele. E
imediatamente ergueu a sua voz robusta, gritando pelo
homem desaparecido. Ouvimo-la à nossa direita. E depois,
mais longe. Os gritos, assustadores, chegavam-nos
debilmente por sobre desolado e anfractuoso.
— Se ele apenas quebrou uma perna e não pode caminhar,
poderia responder-nos — disse Ernest, cuja voz soava
estranhamente na luz que esmorecia.
— Dentro de pouco teremos que sair daqui — gritou Rogers,
aproximando-se de nó. Em seguida, começou a usar a sua
lanterna, cujos raios brilhavam em coisas estranhas daquela
ilha deserta. Acendi também a minha e a luz incidiu num
lagarto amarelado que se parecia com um dragão. Durante
um rápido momento os olhos do animal brilharam como
jóias de fogo, e ele levantou a cabeça e olhou para nós;
depois, com um salto brusco, procurou refúgio na sua toca.
Estávamos ao sopé de uma colina de lava em rujos lados o
terreno anfracto dava a impressão de uma calçada de
gigantes; lagartixas fugiam atarantadas pelas rochas quando
alcançadas nela luz de nossas lanternas; pássaros,
perturbados nos seus poleiros, olhavam-nos sonolentos do
alto dos ramos. Rogers, encontrando um lugar mais fácil de
subir, foi até o cimo da colina. Ernest continuou a explorar
por alguns minutos e depois se encaminhou para o nosso
lado.
— Pouco poderemos fazer agora — disse Rogers. E
enquanto falava falseou um pé numa lasca de lava, grande
como uma bandeja, que se desprendeu e caiu a tinir como
um ferro.
— Sim — disse eu — e se não tomarmos cuidado, pode
acontecer uma coisa como essa e alguém mais ficar ferido.
—- O sr. vai suspender a busca, Mr. Rogers? — perguntou
Ernest de onde estava.
— Sim, Ernest. É melhor ficar aí. Daqui a pouco estaremos
a voltar para o navio. Quero somente dar uma olhadela por
aqui, agora que está escuro, e ver se fazem algum sinal.
— Sim, senhor.
— Que sinais? — perguntei. — Ouvi Lanfrey dar-te algumas
instruções sobre sinais no caso de Gorell ser encontrado...
— Um foguete quer dizer que ele foi encontrado ferido e
precisando de socorro. O sinal seria respeitado com
intervalos de cinco minutos — disse Rogers.
— E...?
— Dois... se estiver morto.
Ficamos na colina de lava, olhando para a cena em redor. Lá
no seu ancoradouro, o Cyrene II cintilava cheio de luzes.
Parecia convidativamente confortável e seguro, mas não nos
esquecíamos do regresso até a praia através do terreno
áspero e difícil. Na praia, um ponto luminoso indicava a
lancha. No resto, escuridão compacta. Não havia lua e as
estrelas ainda não luziam. Os gritos intermitentes dos
exploradores tinham cessado e parecia ter caído o silêncio
mortal da natureza; uma quietude tumular nos envolvia. Na
pesada tranquilidade, Ernest riscou um fósforo lá em baixo e
acendeu o cigarro. O ruído e o lampejo foram impressio-
nantes. Rogers ia dizer alguma coisa; ouvi-o tomar fôlego.
— Eu... — começou ele. A sua mão desceu pesadamente
sobre o meu ombro.
Mas eu tinha visto o que o interrompera. À oeste de onde
estávamos, uma comprida linha de fogo, sinuosa e esver-
deada, subia lentamente no céu escuro. Dava a impressão de
que nunca ia parar; subia, subia enquanto nós sustínhamos a
respiração.
— Um! — disse Rogers em voz baixa, quando a linha de
fogo terminou a sua longa ascensão e desapareceu em si-
lêncio. — Agora esperemos cinco minutos. O sinal será re-
petido... . — A sua voz deteve-se bruscamente, pois do
mesmo lugar a comprida linha sinuosa e esverdeada
começou mais uma vez a sua longa escalada.
— Dois! — contei eu.
— Então... . Gorell está morto!
Huntoon Rogers e eu descemos cuidadosamente da colina
de lava, escolhendo com as lanternas os lugares mais seguros
de pisar. Fragmentos de lavas rolavam aos nossos pés com
um ruido metálico; superficies ásperas feriam-nos as mãos
quando nelas procurávamos apoio.
O dr. Gorell estava morto, e a noite se havia fechado sobre
nós. Eu podia fechar os olhos e ver aqueles dois foguetes a
subir, um após o outro, no céu obscuro, trazendo-nos a
terrível nova de que um dos nossos tinha encontrado a
morte nesta ilha deserta e solitária.
— Deve ter sido uma queda — disse Rogers, quando nos
dirigimos para a praia, com Ernest em nosso encalço.
— Ele era um homem velho — observei. — Talvez fosse o
calor, ou um ataque qualquer; talvez o coração...
— Sim — disse Rogers lentamente — acho que deve ter sido
uma dessas coisas.
— Continuamos por momentos a andar em silêncio,
procurando o caminho à luz das lanternas, cujos fachos
eram como setas. Éramos picados por espinhos; matos, bos-
quetes de cactus e rochas enormes bloqueavam-nos o
caminho e tínhamos que fazer voltas. Atingimos depois um
caminho mais suave.
—- Este é outro golpe para a expedição — ohservou Rogers.
— Eu estava justamente pensando nisso. Gorell era uma
notabilidade em concologia. Infelizmente, não podemos
substituí-lo dentro da expedição.
— É. . . Não há ninguém entre nós que seja capaz de
assumir o trabalho dele, excepto French. Ele e Gorell
trabalharam juntos há alguns anos, mas não se entenderam.
Ninguém se podia dar bem com Gorell. French é um na-
turalista geral. Mas quer concentrar-se em ictiologia. É
importante para a expedição que ele empregue todo o seu
tempo nos peixes. . .
— Lembro-me agora de algo que foi dito por Gorell —
interrompi eu. — Falava ele, não há muito, sobre a ver-
satilidade de Lanfrey, e de como o capitão discorria sobre
concologia como um veterano.
— Sim, eu sei — redarguiu Rogers vagarosamente. — Mas
Carlos não pode fazer tudo. Ele já faz mais do que três de
nós.
— Mrs. Gorell, naturalmente, não pode ser considerada —
disse eu. — Ela estava a ajudá-lo como um menino pode
ajudar, se não estou enganado. Provavelmente pouco sabe
do assunto além de umas tinturas de terminologia. E de
qualquer maneira, mesmo que ela fosse capaz de fazer o
trabalho, a morte do marido torna-o impossível. O corpo
não ficou perdido como o de Quigley.
Rogers não falou em seguida. Quando falou, disse:
— Sim. Alguma coisa terá que ser feita.
— Não vão enterrá-lo aqui, vão, Mr. Rogers? — perguntou
Ernest, com voz amedrontada.
— Oh! não. Isso não é necessário, Ernest. O corpo pode ser
conservado no navio até regressarmos.
Chegamos de súbito à praia, onde caminhar era infini-
tamente mais fácil. A lancha não estava muito longe e pros-
seguimos até ali, encontrando Mr. Davis, o segundo piloto,
que estava encarregado da embarcação.
— Os senhores naturalmente já sabem, cavalheiros — disse
ele.
— Vimos o sinal — respondi.
— Exatamente. Lá está outra vez! — e apontou para o céu.
Vimos os foguetes, agora quase juntos, a subir na escuridão.
Nenhum de nós falou antes que as linhas luminosas
desaparecessem silenciosamente no céu. Rogers perguntou
depois:
— Que é que estão fazendo, Mr. Davis?
— Mandei um homem com uma padiola assim que foi visto
o primeiro sinal. Mr. Getty e os seus dois homens já foram
para lá. Daqui ainda se avista a luz das lanternas na praia.
— Obrigado — disse Rogers. — Acho melhor irmos
também lá. Podem precisar de nós.
Fomos pois os três pela praia, onde, em nossa frente,
brilhavam as lanternas do piloto e seus dois homens. Dentro
em pouco as luzes desapareceram atrás das rochas e nós
continuamos sem a sua indicação até chegarmos a um lugar
onde, a uma certa distância pelo mato, avistamos o fraco
bruxoleio de uma fogueira.
Deixamos a praia neste ponto e seguimos a luz tênue, que às
vezes parecia quase tão difícil de localizar como o fulgor de
um vagai ume.. Rogers tropeçou e caiu pesadamente entre
rochas agudas. Ficou quieto por um momento, não
querendo levantar-se ou confuso pela queda. Ernest e eu
ajudamo-lo a levantar-se e verificamos que não se tinha
ferido. Sugerimos voltar com ele para a lancha.
— Não — disse êle. — Não é nada. Vamos continuar. — E
reencetou o caminho na direção da fogueira, que agora ardia
mais próxima.
A umas dezenas de metros antes de chegarmos, avistamos as
figuras de vários homens perto do fogo, cujas sombras
cresciam na noite. Uma voz nos gritou do escuro, à nossa
direita.
— Pronto — respondi.
— Sou eu, doutor; Morton.
Esperamos que o homem chegasse até as nossas luzes; o
nome dado por êle era o de um dos tripulantes. Avançava
com dificuldade pelo terreno difícil e trazia ao ombro um
comprido objeto branco.
— Eu estou com a padiola, doutor — disse ele, chegando.
— Pensei que já estivesses no local do acidente, Morton —
disse Rogers.
— Já devia estar, doutor, mas eu me perdi no caminho.
Quebrei a minha lanterna. Caiu na rocha quando a padiola
ficou presa nuns espinhos. Aqui é ruim de andar a pé.
— Vamos ajudá-lo disse eu.
Seguramos a padiola e continuamos na direção do fogo, -
chegando finalmente à cena da tragédia.
O capitão Lanfrey veio ao nosso encontro no sopé de uma
colina de lava igual à que já havíamos subido na mesma
noite. Ao avistar-me e a Rogers, sacudiu a cabeça tris-
temente, e por um momento não se decidiu a falar. Rogers
segurou-lhe de leve o braço e disse:
— É bem triste. Não há dúvida de que ele está morto?
— Nenhuma.
— Isso é terrível — disse Rogers, e à luz da fogueira
esfregou um lado do seu narigão. — Eu esperava que talvez
tivéssemos entendido mal os sinais.
— Não entenderam mal, não. Starr encontrou-o no
momento em que ia escurecendo. — Lanfrey indicou a coli-
na com um movimento de cabeça.
— Como foi?
— Instantaneamente, sem dúvida alguma. . .
— Ataque do coração? Congestão?
— Nem um nem outro — respondeu Lanfrey. Outros
figurantes do grupo reuniram-se a nós enquanto falávamos,
e ouviam em silêncio as palavras da tragédia. French,
Ardleigh e Cranston chegaram quase atrás de nós, pois nos
tinham seguido de perto desde a praia e através do mato.
— Acha então que foi a queda? — perguntou French. A luz
da fogueira, brilhando no seu rosto queimado de sol e
destacando a sua cabeça ruiva e descabelada, dava-lhe entre
nós o aspecto de uma aparição. Parecia abalado com a
notícia da morte de Gorell ao olhar para uns e outros de nós,
tendo os olhos cintilantes com o reflexo do fogo.
— Eu não disse que ele levou uma queda, French —
observou estranhamente. — Ao que parece, ele subiu nessa
colina e escorregou.
— Torceu o pescoço? — perguntou Ardleigh, cujo rosto,
onde se destacavam os lábios duros de tartaruga e o nariz em
gancho, apareceu por sobre o ombro de French.
— Não. Venham aqui. (Lanfrey afastou-se do círculo).
Ainda ninguém tocou no corpo.
Seguimos as costas amplas do capitão, pela intensa escuridão,
longe da fogueira. A sua lanterna alumiava o caminho;
outras acenderam-se e ficou menos escuro. O corpo de um
homem jazia estendido na base da colina, entre as rochas
havia muito caídas e amontoadas em desordem pelo chão.
Reconheci os sapatões amarrados até o meio da perna, a
roupa grossa e desbotada, o rosto breve e gorducho que jazia
tão tragicamente silencioso no terreno cruel. Os óculos de
aros de ouro ainda estavam no seu nariz; o queixo apontava
para a frente, como eu tantas vezes o vira em vida.
- Vou mostrar-lhes o que o matou — disse Lanfrey.
— Vejam aqui... — e dirigiu a luz da lanterna para o cadáver.
— Esse lugar na cabeça, bem ao lado da orelha. O crânio está
fraturado. Ele provavelmente bateu numa ponta de rocha
quando rolou.
Vários de nós, depois de um rápido olhar, afastamo-nos
daquela vista horrível e fomos, para o calor e vivacidade da
fogueira. Ouvi Rogers fazer uma pergunta:
— Quando achas que foi isso, Carlos?
— Deve ter sido antes do meio-dia. A condição do corpo
indica-o.
French falou serenamente, dizendo:
— Lembram-se, camaradas, que falamos do seu apetite na
hora do lanche. . . Brincávamos, file não tinha faltado a uma
refeição.
— Bem — disse Rogers — reunidas as duas coisas, o fato de
que ele sempre estava presente às refeições e a condição do
seu corpo, segue-se que ele deve ter morrido antes do meio-
dia.
Reunimo-nos novamente ao pé do fogo, satisfeitos em estar
longe do cadáver, embora soubéssemos que este se achava
ali atrás, na escuridão, às nossas costas. Alguém deitou mais
lenha à fogueira e o fogo flamejou brilhantemente, lançando
grandes sombras negras sobre a fantástica cena. O mundo
que conhecíamos em nossa terra parecia agora vago e
longínquo, como algo com que tivéssemos sonhado. O fogo
iluminava o rosto moreno do náufrago, que estava diante de
mim: havia um fulgor estranho nos seus olhos atarantados,
que pareciam transtornados. Ele não podia acompanhar a
nossa conversa; somente podia adivinhar-nos as palavras,
mas devia ser bem patente o motivo por que falávamos
junto ao fogo. De súbito, Jay Cranston rompeu o breve
silêncio. O rapaz estivera calado desde que se nos reunira,
mas olhava agora para Starr através das chamas.
—Esta manhã, pouco antes do lanche, estiveste por aqui,
Starr — disse ele. — Eu te vi. (Havia um tom ofensivo na
sua voz.)
As suas palavras foram como um golpe que nos deixou
atordoados. Pareciam não ter sentido. Por um momento não
houve comentário algum. Notei que os lábios de Starr se
entreabriam como se ele tivesse ficado profundamente con-
fuso. O capitão Lanfrey, num movimento vagaroso, voltou-
se para o rapaz que estava ao seu lado.
— Precisamente, que é que queres dizer com isso -—
perguntou ele áspero.
— Starr é quem deve dizer — retrucou Jay Cranston.
— Não tenho nada para dizer — replicou Starr, sorridente.
—- Dei um passeio, conforme já lhes disse. Estive mais ou
menos por aqui. Talvez estivesse neste lugar, mas talvez não
estivesse. O terreno parece igual em toda a parte. Torcí o
tornozelo e sentei-me um pouco....
— Chega, Starr — disse Lanfrey bruscamente e voltou-se
raivoso para Cranston, com o rosto congesto. Agarrou o
rapaz pela frente da sweater e puxou-o para junto de si. —
Outra palavra como esta — disse ele, agitando o punho de
ferro diante do rosto trigueiro de Cranston — e eu te parto a
cabeça com esta mão. O dr. Gorell morreu acidentalmente.
Não há dúvida nenhuma; e eu não tolerarei acusações como
esta só porque você não gosta de Starr. Lembre-se disto.
Soltou a sweater e Cranston retirou-se para a sombra.
Jamais eu tinha visto um homem tão indignado, tão raivoso,
tão justo em sua cólera e contudo tão controlado. Se ele
tivesse partido Cranston em dois com as suas mãos perante
os nossos olhos, isso teria parecido um ato justificável. E
contudo, se soubéssemos o que um homem dentre nós, ali
ao lado do fogo, nos poderia ter contado — um homem que
ignorava a significação do que sabia — e se pudéssemos
encaixar o seu conhecimento no quadro da tragédia em sua
verdadeira perspectiva, teríamos sido poupados de novo
horror, e a cadeia dos medonhos acontecimentos não teria
chegado ao seu pavoroso elo final.
De súbito, Carlos Lanfrey falou. As suas palavras foram
ásperas; aos nossos ouvidos, quase a chicotada de um raio.
— Vamos — disse ele. — Agora poremos o corpo na
padiola. Voltamos para o navio.
Acordei-me cedo na manhã seguinte com a sensação de que
o navio se movia. Durante um momento fiquei algo
atordoado. Saltei depois da cama e fui à vigia. Estávamos
bem distantes de nosso ancoradouro no ângulo formado
pelas pequenas ilhas Seymour com a Santa Cruz; os picos
cobertos de nuvens desta última pareciam remotos e longín-
quos, como se pertencessem a um outro mundo.
Enquanto me vestia, pensei no que havia acontecido e por
que estaríamos deixando o nosso ancoradouro. Tínhamos
subido para bordo, com o corpo do dr. Gorell, cerca das dez
horas da noite anterior. O capitão Lanfrey precedera-nos na
escada a fim de levar a triste notícia à viúva, e fazer com que
ela não presenciasse a cena da subida do cadáver de seu
marido. Lanfrey estava no portaló quando Rogers e eu
subimos a escada.
— Mr. Lanfrey está com ela agora- — disse ele, serena-
mente. — Está claro que foi um choque, mas ela está-se por-
tando um tanto filosoficamente.
Houvera entre nós uma pequena conversa depois que o
corpo tinha sido levado para baixo, mas nada fora dito sobre
os planos para o dia seguinte.
Barbeei-me e vesti-me ao ritmo do navio em movimento,
sentindo que qualquer coisa tinha findado. Terminara a
expedição? Lanfrey teria durante à noite resolvido voltar
para San Pedro?
No primeiro almoço encontrei Alice Wilmer, sozinha, a
beber o seu café. Estava linda e atraente e parecia um pouco
solitária. Diante dela, os lugares de Ardleigh e French
indicaram que eles já tinham feito a refeição e saído. Alice
confirmou-o nas suas primeiras palavras.
— Quer almoçar comigo, Mr. Bartlett. . . e conversar? Os
seus distintos colegas — e indicou os lugares vazios — eram
duas esfinges surdo-mudas. . .
— Pois não. Certamente. Mas por que essa formalidade,
Alice?
— Eu ainda lhe tenho um pouco de medo, Benny — disse
ela. Medo talvez de que você se transforme num caranguejo;
ou de que você me trate com superioridade quando
voltarmos a San Pedro... .
— Ao contrário, sou seu amigo para toda a vida. . .
— Bom amigo, sincero e verdadeiro?
— Absolutamente.
— Coma das minhas torradas então, e café?
Alice ia passar-me a bandeja de prata onde estavam as
torradas e o bule de café.
— Não, muito obrigado. Vou comer ovos com presunto
esta manhã. Onde anda o Starr?
—i Ernest é que está atendendo. Aí vem ele — disse ela, no
momento em que o rosto agradável e jovem do rapaz
apareceu à porta.
— Por que é que o navio está andando, e para onde, Ernest?
— perguntou Alice.
— Não sei, não senhora. Não ouvi dizer.
— Você sabe, Benny?
— Não. Não falei com o capitão esta manhã.
— Para onde iremos?
— Só posso fazer suposições. Acho que nenhum de nós
terminou o que pretendia fazer na Santa Cruz.
— Foi isso o que disse o dr. French.
— Ele mão sabia para onde vamos?
— Não.
Mas o mistério foi explicado em breve quando Rogers
entrou e sentou-se à mesa.
— Diga-nos para onde vamos e por que, professor Rogers —
ordenou Alice, depois de termos trocado os cumprimentos.
— Acabo de falar com Carlos na ponte do comando —
respondeu ele, esfregando o lado do narigão. Tirou os ócu-
los e limpou as lentes. — Vamos para a ilha de San Cristobal.
— Para que...? — perguntou a moça.
— Vamos lá por diversas razões. A principal é comunicar a
morte do dr. Gorell ao governador das ilhas e evitar
quaisquer complicações que possam surgir se tal não for
feito. Em segundo lugar — e Rogers assumiu por hábito o
seu tom professoral enquanto nos dava os motivos do ca-
pitão — o náufrago, Knutsen, pode ser ao mesmo tempo
devolvido à sua ilha. Segundo me parece, foi dessa ilha que
ele veio, pois é uma das poucas ilhas habitadas do arquipé-
lago. E em terceiro lugar, Carlos acha que será melhor para
os membros da expedição ter este intervalo de inatividade
até que seja resolvido o problema de que fazer com Mrs.
Gorell.
Ficamos silenciosos por alguns instantes depois que Rogers
terminou de falar. Percebi que a conversação entre Alice
Wilmer e eu, antes de chegar Rogers, tivera por motivo
afastar o assunto da tragédia; tínhamos procurado um breve
descanso. Mas agora o assunto instalava-se novamente.
— Suponho que a expedição fique mais ou menos no ar —
disse Alice pensativamente — até saberem o que fazer com
Mrs. Gorell. Que acha que acontecerá, professor Rogers?
— Não sei. Carlos vai conversar com ela depois de avistar-se
com o governador.
— Acha então que isso representa o fim da expedição?
— Não — disse Rogers vagarosamente — eu não diria isso.
É provável que o nosso trabalho fique interrompido por
alguns dias, pois não acredito que Mrs. Gorell consinta em
permanecer ainda dois meses a bordo com o corpo do
marido, de maneira que... — e concluiu bruscamente com
a mão espalmada para cima.
Jay Cranston entrou e sentou-se conosco. Olhou desafiante
pela mesa e disse "Bom dia" com um ar quase insolente.
Respondemos o seu cumprimento e ele perguntou para
onde ia o navio.
— Para a ilha de San Cristobal - respondeu Rogers.
— Por que?
Rogers explicou-lhe o motivo, mas o jovem pareceu pouco
interessado. Pediu um lauto almoço e estava a servir-se
quando nós terminamos o nosso e saímos do salão.
— Quer andar um pouco? — perguntou-me Alice Wilmer
quando pisamos no tombadilho.
— Ora, pois não. — E começamos a caminhar pelo convés.
— Esse tal de Cranston... — disse ela.. — Puf! É algum
parente do capitão?
— É... por casamento do capitão, com a segunda Mrs.
Lanfrey, parece-me. Você não simpatiza com ele?
— Não. E não confio nele. Ontem procurou falar comigo
sobre Mrs. Lanfrey... a atual Mrs. Lanfrey. Indiretas.
Pequenas alusões pouco limpas. Eu disse a ele: "Escute, onde
quer chegar o sr.?" Ele sorriu daquele seu modo desagradável
e foi embora. E noutra vez, antes dessa, chegou-se para mim
e disse: "A senhora é bem parecida, mas é muito superior
comigo; isso não presta..." Respondi: "Eu mesma escolho
com quem associar-me, Mr. Cranston", e deixei-o plantado.
Um homem assim é uma coisa muito desagradável — disse
ela, com divertida seriedade.
— Ele é mais do que isso — ajuntei — é um problema para o
capitão. Mas abstive-me de contar-lhe o incidente ocorrido
junto à fogueira quando Cranston praticamente acusara Starr
de ter assassinado o dr. Gorell.
Continuamos a caminhar pelo convés, parando às!vezes para
olhar a paisagem que ia mudando enquanto o navio
avançava ao largo da ilha de Santa Cruz. Fragatas e proce-
larias voavam sobre nós; solenes pelicanos observavam-nos
judiciosamente ao passar próximos. Atobás esvoaçavam em
volta de nós, enquanto que tubarões nadavam ao nosso lado.
— Como foi que morreu o dr. Gorell? — perguntou-me
subitamente Alice.
— Acidentalmente — respondí, e contei-lhe em poucas
palavras o descobrimento do corpo do velho concologista.
Alice respirou fundo.
— Se isso tinha que acontecer, estou satisfeita por ter sido
um acidente. Eu não podia suportar a idéia de outro
assassinato.
Mrs. Lanfrey, vestindo uma saia azul de crochê, blusa e
trunfa brancas, apareceu no convés e dirigiu-se para nós.
— Bom dia — disse ela, sorrindo. Estávamos junto à
amurada e Mrs. Lanfrey parou ao nosso lado. — Novamente
juntos — disse ela. — Mas desta vez é só uma viagem curta
até a San Cristobal.
— Foi o que nos disse Mr. Rogers — disse Alice. — A
senhora hoje está deslumbrante, Mrs. Lanfrey — ajuntou ela
com diplomacia.
— Obrigada, minha cara. Mas você deixa-me longe. Se eu
tivesse a sua tez adorável. . .
— Senhoras, senhoras. . . protestei eu.
— Estiveram a caminhar? — perguntou Mrs. Lanfrey.
— Estivemos, sim.
— Eu também tenho que fazer isso. As minhas linhas. . . —
e indicou com as mãos brancas e delgadas o seu porte
perfeito. — Mrs. Gorell — disse ela abruptamente e abanou
a cabeça. — Coitada, tenho muita pena dela. Eu quis trazê-la
agora para tomar um pouco de ar, mas ela não quis vir. Só
sabe ficar sentada no seu camarote. . .
— A dor é tão terrível.... começou Alice.
— Tenho imaginado se é dor ou apenas raciocínio. . .
— Raciocínio? — perguntei eu. — Que quer dizer, Mrs.
Lanfrey?
— Não sei — respondeu ela. — Ela só sabe ficar sentada e
parece estar pensando. Não houve uma lágrima nos seus
olhos; ontem à noite e esta manhã quando estive com ela.
Às vezes penso que ela tem medo.
— Medo. . . ? — repetiu Alice.
— Sim. Medo.
— Não acha — sugeri eu — que, nesta região solitária onde
estamos, o terrível isolamento em que o marido morreu,
tenha despertado outras emoções que não a dor, talvez até
uma espécie de medo?
Mrs. Lanfrey refletiu um momento.
— Talvez — disse ela. — Não entendo muito dessas coisas.
Apenas sei que as suas reações não me parecem normais.
— Ela disse alguma coisa sobre o que pretende fazer agora. .
. a respeito do marido?
— Não... (Mrs. Lanfrey tirou uma fina cigarreira do bolsinho
da blusa; o sol brilhou nos diamantes ali incrustados.) Ela
não me disse nada. E eu não lhe perguntei. Estou deixando
isso para o Carlos. (Ofereceu-nos um cigarro e serviu-se de
um). Isso é com ele. Fiz tudo o que pensava fazer. Fiquei
junto dela e irei lá de quando em quando. Mas Carlos daqui
por diante pode fazer essa tarefa desagradável. Ele é o
capitão desta banheira. Bem, fiquem em boa companhia,
meus amigos — disse ela. Aceitou o fogo que lhe ofereci, e
com um sorriso afastou-se pelo convés, deixando atrás de si
uma leve espiral de fumaça azul.
Às primeiras horas da tarde lançamos âncora em Wreck Bay,
na ilha de S. Cristobal. A lancha foi arreada e o capitão
Lanfrey, Rogers e eu descemos pela escada e fomos levados
para a costa. Pouco falamos até desembarcarmos.
Aproximando-nos da praia, descobrimos que a nossa
chegada tinha sido antecipada. Vários homens estavam à
nossa espera, entre os quais um homenzinho moreno, de
meia-idade e aspecto tristonho. O capitão Lanfrey, que lhe
era conhecido de visitas anteriores, chamou-o de
governador e ambos apertaram-se as mãos efusivamente. O
governador falava inglês irregularmente, mas com obstinada
persistência achava as expressões, que vinham tarde mas
eram precisas. O capitão apresentou-nos e conversamos por
alguns minutos antes que Lanfrey tivesse dito:
— Quero comunicar, sr. governador, a morte de um dos
membros da minha expedição, o dr. Gorell, na Santa Cruz,
ontem cerca do meio-dia.
E prosseguiu, fazendo um minucioso relato do acidente ao
passo que o governador ouvia com atenção e um olhar de
simpatia no seu rosto expressivo. Quando Lanfrey terminou,
êle sacudiu a cabeça tristemente e apresentou as suas
condolências.
— É muito triste, meu amigo — disse êle. — Muito triste. O
sr. naturalmente quer levar o morto para o seu país, não é
verdade?
— Sim, é isso mesmo.
— A viúva, sem dúvida, não quererá que seja de outra
maneira?
— Não.
— Não haverá dificuldade, meu amigo. Quer vir até a minha
casa, capitão? E os senhores, também?
— Muito obrigado, sr. governador — respondeu Lanfrey. —
Há ainda outra coisa. Encontramos na ilha de Santa Cruz um
homem que se diz chamar Knutsen. . .
— Ah! Encontraram? Chris Knutsen? Pensávamos que ele
estivesse morto! Então o sr. o trouxe?
— Sim. — E Lanfrey ajuntou o pouco mais que havia para
dizer a respeito do homem. — Vou desembarcá-lo, sr.
governador. O capitão dirigiu-se para a lancha e deu ins-
truções para que desembarcassem Knutsen.
Num velho automóvel desengonçado, percorremos as cinco
milhas de péssima trilha até a aldeia Progresso, onde mais da
metade da população do arquipélago vive em casas com
telhados de palha e paredes de bambu. Chegados à casa do
governador, este nos serviu um excelente vinho. Sentou-se
um instante ao seu escritório e depois disse a Lanfrey:
— Tudo está arranjado, meu amigo. Não há dificuldades para
o senhor. Estimo bastante que o capitão tenha vindo aqui
em vez de zarpar diretamente. Muitos capitães não fariam
isso. Esqueceriam que estou aqui na ilha de San Cristobal. . .
— Eu viria de qualquer maneira, sr. governador —
interrompeu Lanfrey. — Eu desejava que o sr. soubesse que
estávamos nas ilhas e o que fazíamos. Todavia, lançamos
âncora na Santa Cruz por uns poucos dias antes de virmos
vê-lo. (O capitão olhou para o seu relógio, pois o sol
descambava.) Agora que este triste assunto está resolvido, sr.
governador, quer dar-nos o prazer de vir a bordo para jantar
conosco?
— Com a maior satisfação — respondeu o governador,
vivamente. — Estarei pronto em poucos minutos.
Levantou-se agilmente e desapareceu no interior da casa.
Ouvimos a sua voz abafada, a dizer alguma coisa, e dentro de
poucos instantes ele estava de volta e subíamos para a
caranguejola, dirigindo-nos para a baía. Em caminho
encontramos a figura alta e laboriosa de Knutsen, metido nas
roupas que French lhe dera. Quando nos ouviu ergueu a
mão para que parássemos, e numas poucas palavras de espa-
nhol tornou a expressar os seus agradecimentos por ter sido
salvo e vestido. Desejamos-lhe boa sorte e dissemos-lhe
adeus com mão, ignorando as circunstâncias em que
haveríamos de encontrá-lo novamente.
O jantar a bordo do iate naquela noite foi excelente, como
de hábito; o vinho era especial, e os nossos espíritos
porfiavam em escapar ao peso da tragédia. Ao subir a bordo,
o governador tinha ido ao camarote de Mrs. Gorell, em
companhia de Lanfrey, a fim de apresentar os seus pêsames.
Ao jantar, o seu temperamento espanhol soube fazer jus a
vinhos e pratos; o seu inglês melhorava com a prática, ao
passo que Mrs. Lanfrey e Alice Wilmer cumulavam-no de
perguntas; ficamos à mesa por mais tempo do que costumá-
vamos. Ele nos contou muitas coisas a respeito das ilhas, de
sua história, dos habitantes, de suas vidas ermas, da terrível
desolação das ilhas vulcânicas desabitadas, cuja prova
tivéramos em Santa Cruz.
Assim, aproximavam-se as dez horas quando acompa-
nhamos o governador ao portaló e desejamos-lhe boa-noite.
Saímos da amurada quando as luzes da lancha afastaram-se
do navio. Ardleigh, French, Alice, Mrs. Lanfrey e Cranston
desapareceram. Rogers, Lanfrey e eu ficamos mais um
pouco. Ainda havia uma questão para ser resolvida; ela
estava no espírito de todos, mas a responsabilidade era do
capitão. Enquanto estávamos ali, uma figura baixa e
gorducha subiu para o convés pela escada de popa e entrou
no salão. O capitão murmurou alguma coisa em voz baixa.
— Mrs. Gorell — disse Rogers. Que será que ela quer no
salão?
Lanfrey encaminhou-se para ali. Rogers e eu ficamos onde
estávamos, e Lanfrey, vendo-nos, hesitou, voltou-se e disse:
— Venham, amigos, preciso de apoio; vou falar com ela
agora.
Mrs. Gorell estava perto do armário de livros, na extre-
midade do salão, quando entramos. Continuou sem olhar-
nos até que Lanfrey lhe dirigiu a palavra.
— Oh! — disse ela, como se a sua presença exigisse Uma
explicação. — Eu queria ler alguma coisa, capitão. Alguma
coisa que....
— Sim, eu sei, Mrs. Gorell — disse Lanfrey serenamente.
— A sra. quer sentar-se por uns momentos? Precisamos
conversar um pouco.
Mrs. Gorell, com aparente relutância, afastou-se do armário.
Quando nos viu, a mim e Rogers, hesitou.
— É melhor sairmos, Carlos — disse Rogers, empur-rando-
me suavemente na direção da porta. Mas Mrs. Gorell
observou pouco depois.
— Se o capitão deseja que os cavalheiros fiquem, não tenho
nada a opor. Estou certa de que nada temos para dizer que os
srs. não possam ouvir.
Lanfrey empurrou uma poltrona para a viúva e ajudou-a a
sentar-se.
— Não, Mrs. Gorell — disse ele — não temos nada para
dizer que todos os passageiros do navio não possam ouvir.
Nós todos sentimos a sua dor. Apenas quero comunicar-lhe
as minhas atividades na costa. . . e falar um pouco consigo. .
.
— Estou às suas ordens, capitão.
— Meu objetivo em terra foi informar o governador das
ilhas sobre a morte do seu esposo. Não que fosse fazer
qualquer diferença particular, talvez, o fato de termos levan-
tado ferro sem dizer nada a ninguém. Mas sempre acredito
que se deva observar as formalidades numa situação como
esta, chegando quase à lisonja em nossas delicadezas.
Lamento que o dia tenha parecido perdido. . .
— Perdido? — repetiu Mrs. Gorell um tanto grosseiramente.
— Ora, de maneira nenhuma. Eu sei que estas coisas têm
que ser feitas.
— E agora, Mrs. Gorell, desejo saber qual a sua vontade
quanto ao assunto da morte do seu esposo.
Mrs. Gorell, abrindo e fechando o livro que tinha no regaço,
pensou um momento.
— Minha vontade, capitão — disse ela por fim — pode...
suponho que deva ser subordinada a. . .
— Vamos, Mrs. Gorell, não falaremos de subordinar a sua
vontade. O que eu quero saber é o que deseja a senhora que
eu faça. Se a sra. tiver a bondade de dizer-mo, indicarei
então outras coisas que também devem ser levadas em
consideração.
— Sem dúvida, capitão Lanfrey, numa hora destas, eu
naturalmente desejo voltar para a minha terra. Mas
Galápagos...
— Galápagos fica muito longe de nossa terra, não é isso?
— Muitíssimo longe, capitão. E o trabalho científico apenas
começou.
— É bem verdade, Mrs. Gorell. Mas de momento dei-
xaremos isso de lado. É a respeito do seu problema que que-
remos falar.
— O doutor — disse ela — estava tão entusiasmado em vir.
Foi uma das suas maiores satisfações saber que realmente
vinha colecionar nas Galápagos. E sei que esta expedição
também deve significar muita coisa para os outros membros
também... o dr. Ardleigh, o dr. French e Mr. Bartlett aqui.
Não gostaria que os meus assuntos pessoais servissem de
estorvo. . .
— Vamos, Mrs. Gorei — atalhou Lanfrey gravemente —
não é esta a conversa que lhe serve. A sra. sofreu uma
grande perda pessoal. Isso lhe dá precedência sobre tudo o
mais na expedição. Até que o problema surgido com essa
perda seja resolvido com a sua inteira satisfação, a expedição
vai marcar passo.
— Mas, capitão... San Pedro fica tão longe... Não posso lhe
pedir que dê volta com o navio.
— Tal coisa eu não lhe poderia oferecer, Mrs. Gorell;
felizmente, a sra. o compreende. Não há modo de ir a sra.
diretamente daqui para San Pedro. Algum barco de pesca
nestas águas, dos que saem dos portos do sul da Califórnia,
podia levá-la, mas os seus movimentos são incertos, e as
acomodações para uma senhora provavelmente não são
confortáveis. Mas eu lhe direi o que vou fazer. Com
satisfação. O Panamá não fica muito longe daqui... dois e
meio ou três dias ao nordeste para este navio. Levo-a até lá e
passo-a, juntamente com o corpo de seu esposo, para algum
navio de passageiro das linhas costeiras. O tráfego é
frequente. A sra. não se demorará por mais de um dia ou
dois.
Algo como uma onda de alívio passou pelo rosto gorducho
de Mrs. Gorell; sentou-se mais à vontade na poltrona e
como que suspirou.
— Capitão Lanfrey — disse ela. — Isso é tudo o que eu lhe
poderia pedir. É muita generosidade sua. Ficarei
inteiramente satisfeita. Se não podemos voltar diretamente.
. .
— Não posso pensar em voltar para San Pedro. Seria muito, e
a sra. não me pediu tal. Mas desta outra maneira, até
Panamá... isso estou certo de que farei.
— Muito obrigada, capitão. O sr. é muitíssimo bondoso.
Sinto que isto tudo é um terrível prejuízo para a expedi...
— Vamos, Mrs. Gorell — interrompeu Lanfrey, levantando-
se. Rogers e eu também nos levantamos. — Não falaremos
disso. A viagem redonda até Panamá não atrasará muito a
expedição quanto ao tempo. A perda da expedição,
realmente irreparável, é a falta do seu esposo; seu trabalho
era inestimável. Não há entre nós ninguém que o possa
substituir. E agora, se me dá licença, tratarei do que resol-
vemos. . .
— Esta noite, capitão? Partimos esta noite para o Panamá?
— Não, esta noite não. Estas águas são perigosas à noite.
Partiremos de madrugada.
— Oh! — fez ela. E apertou fortemente os lábios, abrindo-os
somente para dizer: — Bem, estou pronta, capitão.
— Boa noite, então, Mrs. Gorell — e Lanfrey, fazendo-lhe
uma curvatura, deixou o salão. Ouvimos os seus passos
rápidos, dirigindo-se para a proa pelo convés de estibordo.
No momento em que eu ia sair do salão, acompanhando
Huntoon Rogers, Mrs. Gorell chamou-me. Tinha-se
levantado da cadeira e ainda segurava nas mãos o livro que
escolhera na biblioteca.
— Mr. Bartlett — disse ela — Mr. Bartlett.
Havia um timbre de ordem na sua voz algo rude e um tanto
de pedido de auxílio. Rogers olhou-me, escondendo um
sorriso no canto dos lábios.
— Belos sonhos, Benny — disse-me ele, e desapareceu.
— Mr. Bartlett — repetiu Mrs. Gorell.
— Pois não, Mrs. Gorell. Esperei que ela chegasse até onde
eu estava, pois a viúva se dirigia para a porta.
— Quer ter paciência com uma velha — pediu-me ela — e
acompanhá-la em segurança até o seu camarote?
— Pois não, com certeza. Alguma coisa que eu possa fazer....
— Eu me sentirei mais segura — confiou-me ela, e os seus
dedos agarraram-se com tal força ao meu braço que não
ousei retirá-lo. Ela ofegava ao caminhar ao meu lado, e fez
apenas uma observação até chegarmos ao seu camarote.
— O capitão Lanfrey é um homem de ação, não é? — disse
ela.
— É, sim.
Ficamos diante da porta. Ela tirou a chave da bolsa e abriu-a.
O quarto estava vivamente iluminado; todas as lâmpadas
tinham sido deixadas acesas durante a sua ausência. Abri os
lábios para dizer-lhe boa-noite.
— Entre — disse ela, ofegando ligeiramente. — Quero ficar
certa de que estou só.
Fui arrastado para o seu camarote contra a minha vontade,
embora eu me abstivesse de deixar que ela o entrevisse.
— Quero ter certeza — repetiu ela, soltando-me o braço
para curvar-se e olhar em baixo da cama. Foi depois ao
quarto de banho e certificou-se de que estava vazio, e voltou
para revistar os armários.
— Sente-se segura agora? — arrisquei-me a perguntar. Ela se
voltou bruscamente para mim, quase de modo hostil, no
centro do camarote.
— Não, não me sinto segura. (Durante um longo instante os
seus olhinhos escuros fitaram os meus.) Sente-se, Mr.
Bartlett.
Olhei para uma cadeira, mas antes de sentar-me ainda
procurei livrar-me.
— Mas não há nada de que ter medo, Mrs. Gorell, posso
garantir-lhe.
— Poderá mesmo? — disse ela, com um misto de esperança
e de sarcasmo no seu tom de voz. — Sente-se.
Sentei-me. Havia naquela mulher qualquer coisa que eu não
podia sondar o que fosse. Quando eu a vira pela primeira vez
a bordo, catalogara-a de intrometida. Agora os seus modos
eram estranhos. A morte de um companheiro de toda a
vida, raciocinei, causa reações inesperadas, impulsos
estranhos no esposo que fica. A morte do seu marido nestas
ilhas desertas devia ter sido um terrível abalo para aquela
senhora idosa — um abalo do qual ela ainda sofria. Eu per-
cebia obscuramente que ela estava assustada de tudo, que era
presa de uma espécie de terror mortal.
Mrs. Gorell sentou-se à beira de uma cadeira e olhou-me
demoradamente. Depois falou, dizendo:
— O doutor gostava do sr., Mr. Bartlett. E eu também
gosto...
— Ora, Mrs. Gorell...
— É por isso que eu quero falar consigo. Quero que o ST. me
conte a morte do doutor naquela ilha. . .
— Mas, Mrs. Gorell, a senhora com certeza já sabe. . .
— O capitão Lanfrey contou-me a história dele. Quero que ó
sr. me conte a sua.
Meu protesto de nada serviu, embora eu tivesse feito notar
que o meu relato não poderia diferir da história do capitão.
De sorte que lhe contei minuciosamente a minha conexão
com o acidente, e ela ouviu, mostrando no rosto gorducho
uma expressão fixa, um olhar estranho, enquanto
acompanhava a minha história.
— Acha de fato que tenha sido acidente? — perguntou-me
ela incrédula quando terminei.
— Estou bem certo de que foi.
— Não poderia ter sido alguma outra coisa... assassinato
talvez?
— Impossível...
— Não acredito; e o sr. não acredita em si mesmo. (Nada do
que eu lhe disse serviu para demovê-la de tal opinião.) Não
lhe parece esquisito, Mr. Bartlett, que o capitão Lanfrey
fosse o único a encontrar o meu marido?
— Não acho.
Com um movimento súbito, Mrs. Gorell puxou a sua cadeira
para junto da minha e pôs a mão no meu braço.
— O doutor não era um tolo — disse ela. — file tinha as suas
idéias próprias a respeito da morte de Quigley. Talvez o sr.
se surpreenda se eu lhe dizer de quem suspeitava ele. . .
— De modo algum. O dr. Gorell participou-me as suas
suspeitas. . .
— Disse-lhe que era. . . do capitão?
— Mrs. Gorell! — exclamei de repente diante daquela
obstinada mulher. — Não vou ficar aqui para falar sobre
tolices. O seu marido estava enganado. Não sei quem matou
Quigley, mas o capitão Lanfrey é o último homem de quem
eu suspeitaria.
— Alguém o matou — insistiu ela com obstinação.
— Sim — concordei eu, levantando-me.
— E alguém matou o meu marido.
— A senhora não pode afirmar tal coisa, Mrs. Gorell.
— Tenho certeza — disse ela solenemente — tenho tanta
certeza como de estar aqui falando com o senhor. '
—- Mas e a prova. . .
— Não preciso ter provas. Numa situação destas a gente
sabe das coisas intuitivamente. . .
Fiquei ali no meio da sala, olhando para a mulherzinha gorda
que respirava tamanha vingança que me eriçava os cabelos.
Percebi o ódio acerbo, o medo que se apoderava dela, e
aquilo me atingiu estranhamente. Senti um vago alarma
diante dela; eu estava quase persuadido de que a sua intuição
era certa.
— Preciso dormir um pouco — disse eu. — Dê-me a sua
licença, Mrs. Gorei....
— Não, não vá — suplicou-me ela.
— A sra. não tem motivo para ter medo — afirmei, tentando
tranquilizá-la. — Em hipótese alguma.
Ela não respondeu: simplesmente ficou sentada como es-
tava, com o olhar fixo em mim; e eu novamente entrevi nos
seus olhos o temeroso fulgor de um animal encurralado. Re-
tirei-me para a porta e abri-a rapidamente, temendo que ela
de súbito me retivesse. Assim que fechei a porta atrás de
mim, ouvi-a dar volta à chave. A velha senhora devia ter
saltado através do camarote para fechar a porta com tamanha
presteza, impelida pelos terrores que a afligiam.
A sua ação foi tão impressionante que eu quase perdi a
significação da figura de um homem no corredor. Ele pare-
cia caminhar sem ruído algum; era uma figura delgada que
descia pelo corredor na semiobscuridade. Deteve-se diante
de uma porta, enfiou a chave na fechadura, torceu-a
rapidamente e desapareceu no camarote às escuras. Era o
camarote de Ardleigh, e era Ardleigh o vulto que eu vira.
Não eram horas de ele estar em pé, e não pude deixar de
perguntar a mim mesmo se ele estivera ou não a ouvir a
minha conversação com Mrs. Gorell. Não sei por que
desejaria ele escutar à porta, nem sei por que pensei eu que
ele tivesse escutado ou não.
Segui até a porta do meu camarote e quando levei a mão ao
trinco verifiquei subitamente que não tinha sono algum.
Meus pensamentos estavam perturbados. Mrs. Gorell acaba-
va de afastar-me o sono por várias horas. Assim, ao invés de
abrir a porta, prossegui até a escada e subi para o convés
superior.
Tudo estava escuro no navio, exceto os sinais luminosos.
Estávamos ancorados num mar preto e a noite era escura.
Uma escuridão mais densa e profunda indicava a estibordo a
ilha de San Cristobal, que íamos deixar pela madrugada.
Riscaram um fósforo junto a amurada, a poucos metros de
distância, e á luz da chama, quando esta se aproximava do
rosto do fumante, reconheci French. O seu cabelo ruivo
ficava estranhamente acobreado à luz do fósforo; o nariz
delgado e os lábios carnudos sobressaíam esquisitamente.
Tossi e dirigi-me para ele.
— É Bartlett — disse eu.
— Venha — foi a pronta resposta. — Ótimo que esteja aqui.
Deus do céu, como é solitário este lugar! Nem uma luz em
parte alguma, exceto as nossas. Eu não podia dormir — disse
ele.
— Tampouco eu.
— Para onde é que vamos agora? Soube alguma coisa?
— Sim. Vamos ao Panamá.
— Panamá? — repetiu ele. — Ah! sim. . . Mrs. Gorell....
— Sim. Lanfrey vai levá-la até lá. Vai baldeá-la para algum
navio costeiro. Isso poupa uma viagem de iate até San Pedro.
Ele não quis fazer isso.
— E não é para censurar-se. Bem. . . (a ponta do seu cigarro
brilhou mais fortemente). . . isso não nos deterá muito
tempo aqui nas Galápagos. A propósito, por que é que ele
não deixou que alguns de nós desembarcássemos? Podíamos
continuar com o trabalho enquanto o navio fosse ao
"Panamá. Acho que eu preferiria isso.
— Suponho que ele não tenha pensado em tal. . .
— Bem. . . provavelmente talvez seja a mesma coisa. A
gente sempre pode trabalhar no laboratório.
— Pode.
A imensidade da escuridão, o enorme silêncio pareciam
esmagar-nos com o seu peso. French fumou o seu cigarro e
atirou num arco luminoso às trevas lá em baixo. Este simples
ato pareceu um fenômeno prodigioso.
— Que pensa sobre a morte de Gorell — perguntei-lhe eu.
Ele demorou a responder.
— Que quer dizer?
— Acidente?... Ou alguma outra coisa?
— Ora, acidente, sem dúvida — respondeu-me; com uma
nota de surpresa na voz. — Quer dizer que.... — começou
ele. — Escute, Bartlett — disse ele com reprovação. — Você
deixa-se dominar por esse assunto do Quigley. Está
entendido que foi crime, pelo menos, ao que me parece, é
como está entendido. Mas eu afastei tal assunto do meu es-
pírito. É deplorável... simplesmente deplorável, a morte de
Gorell. Ora, ele era chefe do meu departamento na
Universidade. Não podíamos perdê-lo, está claro. Mas eu
não vou deixar que isso interfira no meu trabalho.
Simplesmente não posso deixar. E você tampouco, Bartlett.
A morte de Gorell foi um acidente. Tudo o indica. Quanto a
isso, dei-me por satisfeito ontem à noite quando vi o corpo
junto à colina de lava de onde o velho tinha caído. E aquele
desatino do Cranston. . . você viu qual foi a reação do
capitão Lanfrey. Seria melhor para todos nós se
esquecêssemos o que aconteceu. . . sobre Quigley... e
especialmente deixássemos de lado o que sucedeu ao Gorell.
Creio, como todos crêem, que foi um acidente. . .
— Já foi sugerido, aliás insistido, que a morte de Gorell foi
outra coisa. ...
— Sim. . . Cranston... — interrompeu ele.
— Não me refiro a Cranston.
— A quem, então? — a sua voz tinha uma nota de cautela.
— Mrs. Gorell.
Por um momento ele ficou sem responder. Pensei que
talvez não me tivesse ouvido. Disse ele depois:
— Ora, vamos, Bartlett. Isso não é importante. Trata-se de
uma velha a ver fantasmas: ela normalmente suspeita de
tudo... eu a conheço... ela ainda não se restaurou do
abalo. É capaz de dizer tudo. . .
— Talvez — respondi, quase persuadido de que ele tinha
razão. Porque o seu ponto de vista era alheado: ele não tinha
sido apanhado pela viúva como eu, nem imbuído de
estranhas, injustas suspeitas. — Talvez você tenha razão,
French.. .
— Tenho plena certeza a esse respeito, Bartlett. Seguramente
é preciso descontar o que ela diz agora.
Ficamos silenciosos por uns instantes, e disse eu depois:
— Mas, além disso, French, há alguma outra coisa; há ama
sensação de tragédia neste navio. Não posso explicá-lo. É
como o peso fofo e sufocante de um monstro horrível que
nos aperta em sonhos. Há uma sensação de que ainda
outras coisas nos podem acontecer, coisas medonhas. Não
gosto disto. Eu queria que estivéssemos livres de tal. . .
French riu em tom baixo.
— Esqueça-se disso, Bartlett — recomendou ele, descan-
sando a mão no meu braço. — Você está deixando que as
suas emoções lhe tomem conta. Por que não desce e vai
dormir um pouco? Eu já vou.
— Irei daqui a pouco.
— Eu já vou. Boa noite, meu velho. Amanhã estará mais
bem disposto.
— Boa noite — respondi-lhe eu.
Ouvi os seus passos perderem-se na escuridão e poucos
momentos depois, tão silencioso estava, que percebi o ruído
da sua chave na fechadura do camarote.
Revolvia-me inquieto na cama. O primeiro e leve ruído das
máquinas lá em baixo no navio despertou-me de uma
modorra, e embora a vigia estivesse escura, percebi que a
alva já rompia e que a Cyrene II estava prestes a zarpar para
o Panamá. Várias horas depois, quando subi ao tombadilho,
a ilha de S. Cristobal era apenas uma escura linha azul no
horizonte atrás de nós, e o barco subia e descia
continuamente com as ondas de alto mar.
Almocei em companhia de Mrs. Lanfrey. Todos os outros
pareciam já ter descido para a refeição, dispersando-se
depois pelo resto da manhã, ou terem resolvido não ir ao sa-
lão. Starr servia-nos, um tanto solícito por que provássemos
os ovos, mas depois meteu-se na copa.
— O Panamá é alguma coisa pelo menos — disse Mrs.
Lanfrey, esperando que assim fosse. — Lá há cafés, vida,
gente. Aqui nestas ilhas esquecidas de Deus, que estávamos
deixando para trás, não há coisa alguma. Não é loucura
minha ter casado com um homem como Carlos Lanfrey?
— Provavelmente — respondi. — Já que a sra. assim o diz. .
.
— Assassinatos e acidentes. . . morte no mar. . . morte em
ilhas desertas. . . Puf! Quero ver alguma coisa que tenha
vida. Eu queria estar agora em Paris. Ah! mas acontece uma
coisa: Carlos não vai arrancar-me do Panamá antes que eu
me divirta bastante. ...
— Embora isso vá de encontro à ciência?
— A ciência que vá para o diabo — disse ela, rindo e
mostrando os seus belos dentes brancos e parelhos. — Sou
feita para a animação. Pouco me importam os leões
marinhos, os caranguejos escarlates, cactus, os seus atobás de
pés azuis, garças cinzentas e corvos marinhos que não voam.
Você é um desapontamento, Benny!
— Como assim?
— Revelou-se para mim um cientista aborrecido. Quando
não está depenando pássaros, está junto com esse pesadão do
Rogers a remexer na morte de Quigley.
— Sinto muito.
— Não, você não sente nada. Você está no melhor dos seus
mundos. Aquela sua linda irmãzinha lá em San Marino não
está desapontada com você? Você não é uma dificuldade
social aos olhos dela?
— Não sei, mas acho que a sra. tem razão. Penso que assim
ela me disse uma vez. Estava quase esquecido.
— Vocês homens! Vocês cientistas! Abandono-os — disse
ela com um desespero zombeteiro, erguendo os lindos
braços à cabeça. — Mas você às vezes fala comigo — disse
ela. — Você é muitíssimo melhor do que alguns dos outros
que poderia indicar. French, por exemplo; você não está
perdido de todo que não possa haver alguma esperança.
— Obrigado.
Mrs. Lanfrey empurrou a sua xícara de café e atirou o
guardanapo sobre a mesa.
— Bem, adeuzinho, Benny — disse ela, acendendo um
cigarro e levantando-se da mesa. — Não vou perder as
esperanças até transformá-lo numa borboleta social.
Ergui-me e fiz uma curvatura, ao passo que ela saía do salão
no seu caminhar quase realengo. Sentei-me após e terminei
o meu almoço.
— As mulheres são criaturas estranhas, Starr — disse eu,
olhando para o criado. Ele me devolveu solenemente o
olhar por um instante.
— Eu nunca tenho nada com elas, Mr. Bartlett. É a melhor
maneira de lidar com elas.
— Talvez sejas um sábio, Starr. A propósito, que fim levou
o caranguejo escarlate que Knutsen deu a Miss Wilmer na
Santa Cruz? Parece-me ter ouvido dizer que ela te
encarregou de cuidá-lo.
— Oh! o Jimmy? Ainda está comigo, Mr. Bartlett.
Está na cozinha. Ainda continua muito camarada. É muito
notável, Mr. Bartlett.
— Realmente, é assim, Starr.
— Mas ele esta manhã está com Miss Wilmer. Ela está
pintando o seu retrato. Mandou buscá-lo depois de ter
almoçado.
Encontrei Alice Wilmer no convés muito ocupada com as
suas tintas. Jimmy, o caranguejo escarlate, achava-se em
cima de uma mesinha ao seu lado. Quando me aproximei, os
seus olhos torceram-se para melhor me enxergar, e ele
ergueu as suas patas em forma de colher, fazendo um movi-
mento de vaivém que muito se parecia a um cumprimento.
— Ele está dando bom-dia — disse Alice a rir.
— É verdade, Jimmy — fiz eu, batendo suavemente nas
costas do animalzinho, que, segundo eu tinha aprendido, era
a melhor maneira de agradá-lo; com efeito, o caranguejo
parecia gostar desta forma de atenção, pois moveu as patas
violentamente.
— Ele é um colosso — disse Alice.
— Você está linda hoje.
— Mas olhe para o Jemmy — disse ela provocante, — ele
ainda está abanando para você. Não é engraçadinho?
— É, ele é engraçadinho. E você é linda. É a moça mais linda
que eu já vi. . .
— Ora, Benny... — protestou ela, corando.
— Insisto em dizer.
Alice fez uma graciosa careta e ameaçou-me com a ponta de
um pincel molhado em tinta.
Deixei-a em paz e olhei para o trabalho na tela. Ela havia
desenhado o corpo esquisito do caranguejo e começava
colori-lo de escarlate vivo, uma cor que quase feria os olhos.
O dr. Ardleigh vinha pelo convés, balançando-se
levemente, e dava o seu passeio matinal. Deteve-se e
aproximou-se depois, metendo o nariz em bico e os lábios
duros de quelônio por sobre o meu ombro: examinava o
trabalho.
— Tem um motivo esplêndido, Miss Wilmer —- disse ele,
com um tom de voz onde havia algo do seu modo arrastado
e professoral.
— Este caranguejo é quase a coisa mais colorida que o
arquipélago tem para oferecer. Gorell podia dizer-lhe o
quanto é velha essa espécie; é muitíssimo velha. Mas Gorell
não está aqui.
Endireitou-se, cruzou as mãos às costas e foi embora. Alice
olhava-o ir, com uma expressão de ressentimento nos seus
olhos azuis.
— Por que lembrar essas coisas? — disse ela com repro-
vação.
— Ele sabe tanto quanto Gorell sabia a respeito da árvore
genealógica de Jimmy — disse eu. — Esquisito que tenha
feito essa observação agora.
Não havia sentido algum naquilo, a menos que, enquanto ele
andava pelo tombadilho estivesse a lembrar-se de Gorell.
Assim o concluí.
Mais além, no convés, Mrs. Lanfrey estava encostada à
amurada, olhando para o azul profundo do mar tropical;
fumava preguiçosamente um cigarro, com a cabeça
recostada numa das mãos. Peixes voadores saltavam de
quando em quando do mar e deslizavam pela superfície da
água, mas ela não parecia vê-los. Enquanto Mrs. Lanfrey ali
estava, avistei a figura sólida de Cranston aparecer no
tombadilho, divisar a senhora do capitão e deter-se hesitante
por um momento. Depois o rapaz caminhou resolutamente
para ela e encostou-se à amurada, ficando ao seu lado. Mrs.
Lanfrey, alheada, ergueu os olhos para ele e continuou
fumando. Estávamos muito longe para ouvir o que diziam.
Alice Wilmer observou a chegada de Cranston. Continuou a
pintar com o escarlate por uns momentos e depois disse
com um ar casual:
— Não me deixe, Benny. Não quero que aquele sujeito
venha para cá e comece a aborrecer-me.
— Ninguém parece gostar dele — disse eu. — Mrs. Lanfrey
também tem a sua opinião sobre o rapaz.
— Mas está conversando com ele — observou Alice
tranquilamente, momentos depois, desviando os olhos da
tela.
Huntoon Rogers apareceu no tombadilho, com um livro na
mão. Escolheu uma cadeira à seu gosto e sentou-se.
atirando-nos um cumprimento.
— Estou ficando atrasado nas minhas leituras — disse ele.
Não quero perder esta oportunidade. Acho que podia ir
revelar fotografias, mas também penso que elas podem
esperar. French e Miss Wilmer são os únicos trabalhadores
ambiciosos que temos a bordo esta manhã.
Rogers parecia estar muito bem disposto. Esfregou um lado
do nariz, assestou firmemente os óculos e abriu o livro.
Ardleigh fazia novamente a volta do convés, passou por nós
quase sem olhar-nos e falou com Rogers somente quando
este levantou os olhos do livro e fez uma observação sobre o
dia. Mrs. Lanfrey e Cranston continuavam na sua conversa.
Naquela altura, agora que estávamos em mar alto e que a
escuridão da noite em Wreck Bay na ilha de S. Cristobal era
coisa passada, a vaga sensação de tragédia iminente que eu
sentira e tinha confessado a French parecia-me um sonho
remoto. O sol brilhante dançava no mar azul e doirava os
metais polidos do iate que assim luziam como ouro. Muito
longe de ser o navio fúnebre que era, o elegante barco fazia
a impressão de um iate pintado num oceano pintado,
rumando para alegres aventuras.
— Pobre Mrs. Gorell. Como se sentirá ela esta manhã... —
disse Alice, apartando os olhos do seu trabalho. As suas
palavras debandaram os meus brilhantes pensamentos.
— Não soube como ela está — disse eu.
— Quando eu terminar o retrato de Jimmy, vou descer e
ficar um pouco com ela.
— Isso está muito bem em você. Mas não vá deixar-se
aborrecer por ela. Não deixe que ela lhe encha o espírito de
suspeitas.
Alice olhou demoradamente para mim com os seus lindos
olhos azuis.
— Que é que você quer dizer com isso?
Hesitei, considerando a minha resposta. A suspeita de Mrs.
Goreli quanto ao seu marido ter sido assassinado já tinha ido
muito longe, e eu pensava em como evitar que ela chegasse
aos ouvidos de Alice quando fomos interrompidos pelo
estalo de uma bofetada.
— Oh! Olhe! — exclamou Alice. — Está vendo?
Vi em seguida de que se tratava; eu tinha os olhos em Mrs.
Lanfrey quando ela levantava o braço e esbofeteava o rosto
de Cranston pela segunda vez com a mão aberta.
Rogers deixou o livro e mexeu-se ligeiramente na sua
cadeira. Um instinto qualquer pôs-me em pé, mas continuei
no meu lugar. Mrs. Lanfrey, depois da segunda bofetada,
afastou-se um pouco de Cranston, a sua atitude era de
completa indignação, todo o seu corpo vibrava de raiva.
Parecia indecisa quanto a esbofeteá-lo pela terceira vez, de-
pois, bruscamente, deixou Cranston sozinho à amurada e re-
tirou-se. Dentro em pouco, já a correr, desaparecia de vista
no outro lado do convés; ouvi os seus passos na escada da
ponte de comando. Um momento depois, ouvi a batida de
uma porta que se fecha, e deduzi que fosse a do camarote do
capitão Lanfrey.
Jay Cranston safou-se, deixando-nos os que ficamos no
convés e tínhamos testemunhado o incidente, a olhar uns
para os outros, fazendo perguntas mudas sobre aquela cena
incomum.
— Deve ter doído um bocado — disse Rogers, falando
conosco.
— Não a censuro — disse Alice; subiam-lhe as cores ao
rosto. — Eu também queria fazer a mesma coisa nesse tipo.
— Ela deve ter sido gravemente provocada para fazer isso —
observou Rogers. — Não há dúvida de que deu com
vontade. (Riu levemente.) Agora teremos coisa. Ela foi
diretamente ao Carlos.
A predição de Rogers fora certa. Sem tardar muito, o capitão
Lanfrey apareceu no convés. Todas as fibras do seu corpo
avantajado estavam tensas; o seu rosto estava lívido. Quando
nos viu, encaminhou-se diretamente para nós, descansando
os pés no tombadilho como se estivesse disposto a beber
sangue.
— Onde está Jay Cranston? — perguntou-nos ele.
Por um momento nenhum de nós falou, depois Rogers pôs
o seu livro de lado e levantou-se da cadeira.
— Estava aqui há poucos instantes, Carlos. Não vi para onde
foi ele depois que Mrs. Lanfrey o esbofeteou...
— Ah! tu viste, não foi? Viste Reba esbofeteá-lo?
— Sim. Deu-lhe duas bofetadas.
— Devia tê-lo matado. Vem, ajuda-me a encontrá-lo. O
capitão voltou-se, e Rogers seguia atrás dele. Ambos
desapareceram para os lados da proa.
Alice mergulhou o seu pincel no boião escarlate e ficou com
ele no ar em vez de voltar ao retrato de Jimmy.
— Vai haver qualquer coisa — disse ela. — Estou satisfeita
por não ser Jay Cranston.
— O rapaz é um moleque.
— Você acha que o capitão vai matá-lo?
— Não seja absurda — disse eu, vendo depois o leve sorriso
que se escondia nos seus lábios. — Mas ele provavelmente
precisava disso. . . Olhe! Aí vêm eles!
Rogers, Cranston e o capitão caminhavam em nossa direção.
A enorme mão de Lanfrey agarrava o braço de Cranston. O
rapaz caminhava aos trancos, empurrado contra a sua
vontade. Nenhum dos três falava. Havia uma expressão
sombria no rosto bronzeado do capitão; no de Cranston,
algo de raiva e de preocupação de aspecto carrancudo.
Chegaram à porta que dava para a escada da proa; Rogers
adiantou-se e abriu-a. Cranston e Lanfrey passaram. Rogers
ficou por ali um momento, como se estivesse indeciso, e de
repente caminhou para nós, com os olhos cheios de vivo
interesse. Numa voz que era pouco mais do que um cochi-
cho de palco, disse-nos:
— Carlos vai encerrá-lo num dos camarotes.
Naquela noite depois do jantar, que parecia ter sido uma
refeição apressada e desinquieta, Huntoon Rogers e eu
ficamos à ré, encostados à amurada, vendo os restos de um
crepúsculo de púrpura que agora se mudava num cinzento
frio. Respondendo-me uma pergunta, disse Rogers:
— É prisão a pão e água para Cranston até chegarmos ao
Panamá. Depois Carlos lavará as mãos. Coloca-o num barco
para San Pedro. Êle já teve o bastante. Não quer saber de
mais nada. E eu não o censuro.
— Cranston é um sujeito impossível em boa companhia.
— Sabes o que houve entre êle e Mrs. Lanfrey?
— Não. Não ouvi nada a esse respeito.
— Cranston procurou aplicar-lhe uma chantagem....
- Chantagem? — repeti atônito.
— Sim. O incrível rapaz procurou extorquir dinheiro dela.
— Baseado em que?
— Carlos contou-me tudo esta manhã quando estive a
conversar com ele. Não estou repetindo uma confidência;
ele não me disse que eu ficasse calado e não hesito em
contar-te. Isso não passará adiante, naturalmente.
— Claro que não.
— Cranston, na sua conversa desta manhã com Mrs.
Lanfrey, afirmou que, quando estava de vigia na noite em
que Quigley desapareceu pela. borda, vira Quigley e Mrs.
Lanfrey .juntos, conversando à amurada. Isso foi, disse êle,
às três horas da madrugada. Cranston evidentemente tinha
descoberto que nós não havíamos encontrado ninguém que
houvesse admitido ter visto Quigley com vida depois que
Starr foi levar-lhe um whisky às onze e quarenta e cinco
daquela noite, e acusou Mrs. Lanfrey de ter escondido esse
fato ao marido e a todos nós. Queria que Mrs. Lanfrey lhe
desse cem dólares pelo seu silêncio. Do contrário, ele ia
informar Carlos.
— E foi então que Mrs. Lanfrey esbofeteou-o?
— Precisamente. Sabes que ela não se importa com o que
ele diga. Agora, se Cranston viu de fato Mrs. Lanfrey e
Quigley no convés, juntos, àquela hora, ou se apenas
inventava isso, é o que não sei como saber. . .
— É bem provável que Cranston os tivesse visto.
— Sabes alguma coisa a esse respeito — perguntou Rogers.
— Sim. (Meus pensamentos voltaram à conversação que eu
tivera na Santa Cruz com o dr. Gorell.) Eles foram vistos
juntos por mais alguém.
— Por quem?
— Gorell. E contei-lhe como o velho concologista me
dissera que não podia dormir naquela noite e, de roupão e
em chinelas, tinha estado na sombra da escada e visto Mrs.
Lanfrey e Quigley a conversar no convés.
Por um longo instante, Rogers nada disse. Esfregou
pensativamente um lado do narigão, fitando o céu frio e
cinzento. Por fim disse:
— Mrs. Lanfrey foi indiscreta. Acho que não se faz questão
do fato. Mas, mesmo assim, estou certo de que ela não
deixou de contá-lo a Carlos. Previamente, Carlos dissera-me
ter certeza de que Quigley estava ainda vivo muito depois
das onze e quarenta e cinco daquela noite. Mrs. Lanfrey
provavelmente contou-lhe esse encontro tardio, e ambos
deixaram de mencionar o fato, uma vez que, segundo
parece, nada tinha em particular a respeito de quem matou
Quigley.
— É perfeitamente natural; perfeitamente compreensível —
concordei.
— Não estou a defender nenhum deles, Benny. Estou
simplesmente raciocinando. Acho que isto tenha sido a.
causa para esta ação sumária quanto a Cranston. Sem dúvida,
Cranston é mentiroso e patife. Lembra-te de que ele disse a
Carlos na manhã seguinte ao desaparecimento de
Quigley que naquela noite não tinha visto ninguém a não ser
o vigia. Imagina só! Desde aquele momento ele estava
preparando uma extorsão contra Mrs. Lanfrey!
— Ele não presta mesmo.
Rápidas desceram as trevas sobre o mar; afora as estrelas, as
poucas luzes de bordo e uma ligeira fosforescência na água,
o mundo estava negro. Era o momento para confidências: a
hora em que as dúvidas e suspeitas erguem-se e reclamam
um ouvido amigo.
— Gorell está morto — disse eu finalmente. — Ele não pode
mais voltar a este mundo. O velho não era tolo, Hunt. No
dia em que esteve sentado à sombra comigo, expressou uma
suspeita da qual zombei. Mas não posso afastar isso do
espírito. Ele falou muito francamente do assassinato de
Quigley; disse que muitas coisas pareciam indicar-lhe o
criminoso; mas negou enfaticamente que ele o tivesse
matado...
— Isso é muito interessante. Assim em primeira mão, a
notícia é um tanto assombrosa — disse Rogers.
— Sim. O velho tomou-se de amizade por mim. Disse-me
querer que eu o soubesse para estar informado no caso de
que houvesse alguma coisa.
— Que queria dizer com isso?
— Não sei. Talvez tivesse um pressentimento de que sua
morte estava próxima, talvez não. Ele não acusou ninguém,
mas disse o nome de um possível matador de Quigley.
O silêncio prolongou-se entre nós enquanto Rogers esperava
que eu dissesse quem era, e quando viu que eu hesitava
perguntou:
— Quem era?
— O capitão Lanfrey.
— Lanfrey? Carlos Lanfrey.
— Sim.
— Isso é impossível, Benny.
— Foi o que eu disse a Gorell.
— Não — observou Rogers lentamente é impossível. Por
que motivos?
— Gorell deu a entender que talvez Quigley se houvesse
interposto entre Lanfrey e a sua esposa. Reação natural nu-
ma situação como essa, disse ele. Gorell disse-o como um
homem que está inocente e contudo vê a trama das
circunstâncias fechar-se gradualmente sobre si. Ele achava
que a verdadeira história ainda não tinha sido contada.
— Ainda não foi, Benny. Disso não se duvida.
— E Mrs. Gorell... — comecei a dizer.
— Que há com ela?
— Gorell participou-lhe a sua suspeita, e ontem à noite a
velha declarou acreditar que Lanfrey era o culpado da morte
de Quigley. E não apenas isso: ela diz que o marido foi
assassinado; acha saber disso por meio de algum sentido
intuitivo. Deu-me a entender que era uma circunstância
suspeitosa o fato de que Lanfrey fosse o único a descobrir o
corpo de Gorell.
— Ora, vamos, Benny... tudo isto é bobagem... rematada
tolice! A morte de Gorell foi um acidente.
— E se não foi? E se o crânio de Gorell foi quebrado por
alguém com uma pedra e não em consequência de uma
queda. E se a morte de Gorell está ligada à de Quigley?
— Não posso acreditar nisso.
— Tampouco eu. Mas deve haver alguma resposta para a
pergunta sobre quem matou Quigley.
— Deve haver, está claro. Não obstante o que acabaste de
dizer a respeito de Gorell ter negado que fosse ele o
assassino de Quigley, as probabilidades são de que ele o
tivesse matado. E agora que ele encontrou a morte por aci-
dente, executou-se uma espécie de justiça poética.
Concedendo, porém, que a morte de Gorell não foi acidental
e que ele estava inocente da morte de Quigley, ainda seria
mais difícil encontrar a resposta. Todos estavam em terra
naquela manhã, e em dado momento qualquer um de nós
poderia, sozinho, ter encontrado Gorell no mato.
— Todos, exceto French — lembrei-lhe eu.
— Sim, menos ele. Ele só desembarcou para o lanche. Ficou
sempre naquele barco de fundo de vidro. Não se podia olhar
e deixar de vê-lo no barco.
— Até Starr, na costa, afastou-se da vista por um certo
tempo durante o qual poderia ter encontrado Gorell e dar-
lhe morte.
Rogers ficou subitamente silencioso. Por fim, na escuridão,
ao meu lado, disse com vagar:
— Vamos deixar este assunto, Benny. Já tive o suficiente.
Não somos detectives. Podemos não somente prestar um
péssimo serviço à expedição com estas especulações, mas
também prejudicar realmente algum indivíduo inocente
com suspeitas injustas, se estas tiverem circulação. A morte
de Quigley será destrinçada; a de Gorell foi um acidente,
sem dúvida. Carlos pode chamar um detective quando
chegarmos a San Pedro; as autoridades federais também
prestarão o seu concurso, uma vez que a morte de Quigley
ocorreu em alto-mar. A coisa poderá ser resolvida sem que
nós cansemos os miolos com ela.
— Talvez tenhas razão, Hunt — concordei. — Mas sabes
como é isso. A gente fica pensando umas tantas coisas e não
descansa enquanto não se livra delas.
— Sei, sim,
Acendi um cigarro, atirei o fósforo ao mar e continuamos
junto à amurada. Longe, a bombordo, um relâmpago riscou
o horizonte. Passos, ou antes uma presença, deslizaram por
nós e continuaram pelo tombadilho, reaparecendo pouco
depois.
— Boa noite — disse Rogers e a voz arrastada de Ardleigh
respondeu:
— Boa noite cavalheiros. (O geólogo deteve-se por um
momento.) Temos tormenta por aí; abaixo do horizonte.
Provavelmente vamos encontrá-la.
Tendo dito isto, estendeu o braço comprido à luz fraca, e
tornou a andar com os seus passos sem ruído.
Falamos disto e daquilo sobre a nossa terra; houve longos
intervalos de silêncio. Ardleigh desapareceu. Finalmente,
Rogers desencostou-se da amurada, espreguiçou-se e bo-
cejou.
— Estou ficando com sono, Benny — disse ele. — Vou
entrar.
— Boa noite, Hunt. — Eu ainda não vou.
— Boa noite, Benny. — E retirou-se rapidamente.
Terminei o meu cigarro e atirei-o pela borda. Eu não tinha
sono, mas de súbito quis estar só no conforto do meu
camarote. Desci, pois, fechei a minha porta e pus-me a ler.
Era meia-noite quando deixei o livro e deitei-me. Nem um
som de movimentos humanos perturbavam a tranquilidade
de bordo. Somente o leve ruído das máquinas lá em baixo
chegava-me aos ouvidos. Lá fora o vento parecia ter
aumentado. Ardleigh tinha dito que haveria tormenta.
Lembro-me de ter pensado nisso e depois em mais nada até
que os sonhos vieram perturbar-me; sonhos vagos pesavam-
me com uma sensação intolerável de desassossego e
finalmente me despertaram de todo. Soergui-me nos
cotovelos, acendi a luz e olhei para o relógio. Eram duas
horas. O vento uivava. Uns respingos de chuva entravam
pela vigia e eu me levantei para fechá-la. O iate jogava
violentamente e de quando em quando se ouviam ásperos
estalidos na forte construção do navio. Às vezes, um trovão
ensurdecedor.
Não sei que insondável motivo me impeliu a chegar a minha
porta, abri-la e espiar para fora. O corredor na obscuridade
estava deserto. Fiquei um momento à porta e depois saí para
o corredor e caminhei ao longo dele até a escada de popa,
voltando novamente para o meu quarto. Nada vi, nada ouvi,
mas eu me sentia oprimido por uma sensação de ansiedade e
que algo não ia bem. Entrei no meu camarote e fechei a
porta, meti-me na cama uma vez mais e apaguei a luz.
Durante o resto da noite dormi pouco, revolvendo-me
frequentemente em procura de sono. Lá fora a tempestade
aumentava, bátegas de chuva chicoteavam o convés. Enfim
cai numa espécie de modorra que não trazia descanso, mas
da qual não me despertei até que a luz cinzenta do dia
penetrou as vigias.
Fiquei demoradamente à beira da cama, procurando
despertar-me por completo; o camarote estava fechado.
Tínhamos deixado a Corrente de Humbolt para trás e
sentíamos agora o calor opressivo das águas tropicais.
Finalmente, despertei-me de modo suficiente para apanhar
uma toalha e uma muda de roupa. Barbeei-me com
movimentos inseguros e lentos, indiferente ao tempo e sem
sentir fome para o primeiro almoço que em breve seria
servido.
Foi quando eu dava o laço à gravata que ouvi um grito; um
som que gelou-me o sangue como se uma faca gelada fosse
enterrada nas minhas entranhas. Houve uma exclamação e o
baque de um corpo. Por um momento, fiquei paralisado,
incapaz de mover-me; no instante seguinte eu já tinha
aberto violentamente a porta.
No corredor, a pouca distância, vi no chão um corpo de
mulher e ao lado dela, em pé, a figura delgada de um
homem com uma comprida faca na mão. Além dos meus,
outros passos se precipitaram. Caminhei, ou corri — não o
sei — dizendo para comigo; "Não Mrs. Lanfrey! Mrs.
Lanfrey é que não!"
— Que é isso? — gritou alguém.
— Mrs. Lanfrey desmaiou — disse o dr. Ardleigh, olhando
para a faca que continuava a empunhar.
Rogers desceu aos pulos a escada e gritou:
— Mas essa faca está ensanguentada, dr. Ardleigh.
Notei então que Mrs. Lanfrey jazia à porta do camarote de
Mrs. Gorell e que o dr. Ardleigh estava no limiar da mesma
porta.
— Sim, já vi — disse Ardleigh, tornando a olhar para a faca,
com uma estranha expressão no rosto cheio de rugas. — Foi
isso que fez Mrs. Lanfrey desmaiar. Façam alguma coisa por
ela, rápido. — E voltou a contemplar a faca.
— Que foi que aconteceu — perguntei eu, aproximando-me.
Os olhos cinzentos-esverdeados do dr. Ardleigh fitaram-me
vivamente. A seguir, respondeu-me na sua voz arrastada: -
Mrs. Gorell foi assassinada!
Naquele momento de terror que nos senhoreava a todos ali
no corredor, o dr. Ardleigh continuava em pé, empunhando
numa calma transida a faca ainda vermelha do sangue de
Mrs. Gorell.Ninguém falava; ouvia-se apenas o ruído de pas-
sos precipitados convergindo para o grupo que formávamos.
Avistei o cabelo ruivo de French a coroar-lhe o rosto
sobressaltado, no momento em que o mesmo saía do seu
camarote. Os passos de Starr ressoaram no salão; Ernest
vinha atrás dele. Como um trovão, seguiu-se o capitão
Lanfrey, em cujo rosto estampava-se uma tormentosa
interrogação.
— Mrs. Gorell foi assassinada — disse Rogers, inflexio-nando
estranhamente a última palavra.
— Que foi isto? — perguntou Lanfrey, cuja voz vibrou-nos
ao ouvido. Mas antes que obtivesse resposta, avistou o corpo
da esposa no chão. Q seu alto porte abaixou-se
instantaneamente ao lado dela.
— Reba! — exclamou ele. — Reba! O que foi? Fala!. . .
Depois, subitamente, ocorreu-lhe ao espirito em confusão
que Reba tinha desmaiado. Levantou-a nos braços, fez uma
volta brusca e levou-a para os seus aposentos, deixando-nos
confusos, incertos sobre o que fazer, não querendo e
incapazes de nos afastarmos do lugar.
Nesse instante, às nossas costas, logo abaixo no corredor,
além do camarote de Mrs. Gorell, irrompeu uma série de
violentas pancadas no anteparo; o ruído era ensurdecedor e
desviou-nos a atenção da terrível arma na mão de Ardleigh.
Olhamos uns para os outros, ao passo que o barulho conti-
nuava. O ruído desordenado mudou repentinamente em
golpes decididos de um punho resoluto a bater numa porta.
Rogers foi o primeiro a reagir contra a surpresa; caminhou
até a porta e torceu a chave que estava na fechadura, pelo
lado de fora. A pancadaria cessou imediatamente. Rogers
abriu suficientemente a porta para que nos deixasse ver o
rosto trigueiro de Cranston.
— Que reboliço é este? — perguntou o rapaz. — Alguém
deu um grito agora mesmo. Que foi que houve?
— Entra, Jay — disse Rogers quase a silvar. — Deixa de fazer
semelhante barulho. Isso é uma indecência.
— Mas o que foi que houve? — perguntou ele mais
tranquilamente.
— Mrs. Gorell foi assassinada. . .
— Assassinada? Aquela velha..?
— Sim.
— Quem é que deu cabo dela?
— Não sabemos. . .
— Bem, então me deixe sair daqui
Os dedos de Cranston agarraram-se subitamente à beira da
porta. Mas Rogers nesse preciso momento bateu com a porta
e os dedos safaram-se a tempo; ouviu-se através da porta
espessa uma praga abafada.
— Não, você não sai — disse Rogers com firmeza, torcendo
a chave na fechadura. — Espere até que o capitão abra.
Rogers afastou-se da porta e reuniu-se a nós. Nenhum ruído,
porém, ouvia-se do camarote de Cranston.
Em tempo incrivelmente rápido o capitão Lanfrey estava
outra vez conosco. Ao avançar pelo corredor, gritou por
Ernest.
— Pronto, capitão — respondeu o rapaz ao ouvir o seu
nome.
— Vá procurar Miss Wilmer. Diga-lhe que Mrs. Lanfrey
desmaiou e quê eu quero que ela lhe faça companhia nos
meus aposentos. Diga a Miss Wilmer que Mrs. Lanfrey virá a
si daqui a pouco e que não fique alarmada. Quero apenas que
ela lhe faça companhia,
— Muito bem, capitão — e Ernest saiu apressadamente.
— As mulheres deverão ficar longe disto — murmurou o
capitão, depois, erguendo a voz: — Então, que foi isto? Que
aconteceu? Por que está com essa faca ensanguentada na
mão, Ardleigh? — perguntou ele severamente.
Ardleigh fez um gesto frouxo como se fosse soltar a arma,
mas continua a empunhá-la.
— Achei-a — disse ele, falando com voz desigual. — Na
cama. Ali. — E apontou para a porta entreaberta, que se
movia ligeiramente com o balanço do navio.
— Como é que você entrou aí? — perguntou Lanfrey com
rispidez.
— Fu-fui dar bom-dia. (Ardleigh batia com os dentes. O seu
rosto agora estava branco.) Eu... Eu ia para o almoço. A
porta estava aberta, capitão. Assim — e dirigiu-se
novamente para a porta. — Eu disse "Bom dia, Mrs. Gorell".
Pensei que tivesse respondido...
— E respondeu?
— Não o poderia fazer, capitão. Digo que pensei que ela
tivesse respondido. Meti a cabeça para dentro, um pouco, a
fim de certificar-me. E vi então que acontecia alguma coisa.
Aquele caranguejo escarlate que Miss Wilmer estava
pintando outro dia encontrava-se no chão. O animal estava
morto. Alguém tinha pisado em cima dele. Senti um cheiro
de sangue. Havia qualquer coisa no ar. Abri mais a porta e
avistei a coitada. Não sei. . . — e ergueu a faca. — Isto estava
sobre a cama. Não sei por que a segurei. A gente faz coisas
assim sem pensar. Eu ia saindo, com a intenção de avisá-lo,
capitão... estou certo de que era o que eu ia fazer. Mas
encontrei-me com Mrs. Lanfrey bem aqui na porta. Antes
que eu pudesse impedir, ela viu o corpo. Deu um grito e caiu
desmaiada...
— Deixe-me ver a faca — disse Lanfrey, segurando-lhe a
mão. Inevitavelmente, aproximamo-nos mais quando
Ardleigh deu a faca ao capitão. Lanfrey tomou-a na mão e
olhou perfuntoriamente para a terrível lâmina
ensanguentada. — É uma faca da cozinha — disse ele.
Com a faca na mão, Lanfrey dirigiu-se para a porta
entreaberta e entrou no camarote. Rogers seguiu-o e eu logo
atrás. Creio que depois entrou Starr e a seguir French.
Ardleigh permaneceu no corredor, caminhando
nervosamente. O tremendo silêncio da morte pairava no
camarote. Todas as luzes estavam acesas. Os vidros das vigias
eram círculos de luz cinzenta onde ziguczagueavam gotas de
chuva. Uma pequena cadeira de balanço movia-se
suavemente com o jogo do navio. O corpo esmagado de
Jimmy, o caranguejo escarlate que Alice Wilmer tinha
pintado ainda no dia anterior, estava no chão perto da
cadeira. Sobre a cama jazia um pavor em gordura que fez o
capitão Lanfrey entrecerrar visivelmente os olhos ao
aproximar-se.
— De orelha a orelha — disse Rogers, depois de uma
eternidade, e numa voz cava. Lanfrey sobressaltou-se a este
som e logo após se restabeleceu.
— É por isso que há tanto sangue — disse ele irritadamente.
Eu permanecia junto à porta; French estava ao meu lado. As
suas mãos sardentas tremiam levemente quando ele tirou
um cigarro da sua cigarreira e levou-o aos lábios. Não
acendeu-o: ficou a olhar vagarosamente pelo quarto, fitando
as paredes, contemplando tudo menos o corpo da mulher
assassinada. Não me cabia censurá-lo por isso. Eu próprio
estava levemente nauseado. Era meu desejo estar fora do ca-
marote, mas fiquei por um tempo que me pareceu
interminável, ouvindo o vento a zunir lá fora pelas obras
mortas do navio.
Finalmente Carlos Lanfrey voltou-se do seu exame e indicou
com os olhos que a peça devia ser evacuada. No momento
de sairmos do camarote, Starr adiantou-se e apanhou um
objeto branco que estava sobre a cama, pondo-o discre-
tamente no braço. Vi os olhos azuis do capitão brilharem
quando percebeu a significação daquilo. Subitamente, ele es-
tendeu a mão para o objeto, segurou-o e puxou-o das mãos
de Starr.
— Não, nada disso — disse ele asperamente. — Deixe isto
comigo.
Starr deixou-o fazer e Lanfrey examinou por um momento a
coisa, antes de metê-la em baixo do braço. Vi então que era
uma jaqueta branca com botões de metal, igual à que Starr
usava quando no desempenho das suas funções de taifeiro.
O homem disse explicativamente, quase desesperadamente:
— Eu não a encontrei esta manhã quando me vesti, capitão.
Esta que eu tenho....
— Espere! — ordenou Lanfrey. — Haverá muito tempo para
falarmos sobre isto mais tarde.
Saímos para o corredor e Lanfrey fechou a porta atrás de
nós. Sem mais uma palavra, afastou-se para a proa. Os que
permanecemos ali ficamos incertos por um momento. Starr,
encontrando o meu olhar, disse de repente:
— Juro, Mr. Bartlett, apesar da minha jaqueta estar lá dentro,
que não sei nada sobre este assunto... — e fez um gesto
impreciso na direção da porta.
— É melhor esperar, Starr, conforme disse o capitão —
aconselhei eu. — Haverá muito tempo mais tarde.
— Bem... talvez seja assim... — disse ele, forçando um
sorriso que mostrou os seus dois dentes de ouro. — Sei que
posso justificar-me — acrescentou. Fez um movimento para
retirar-se, pareceu pensar em alguma coisa, deteve-se,
reconsiderou o movimento e encaminhou-se para a porta da
sala de jantar onde fez uma pausa e disse para nós: — O
almoço está servido, cavalheiros. . .
Semelhante idéia causou-me náuseas. Ardleigh praguejou
violentamente e agitou o punho para o criado que desa-
parecia na porta, dirigiu-se para o seu camarote, abriu a por-
ta, entrou e fechou-se.
— Vamos sair deste lugar, Benny. Estou ficando nervoso —
disse-me Rogers serenamente. Caminhou à minha frente até
o salão. Segui atrás dele com uma sensação de alívio por
estar longe do horror que havia dentro daquele camarote,
satisfeito até em ver a chuva cinzenta através das janelas do
salão.
O navio metia a proa em mar agitado. Não havia horizonte;
tudo era cinzento e chuva a cair, grossas ondas com grandes
abertas de espuma e borrifos arremessados como chumbo
miúdo. O salão estava abafado e cheirava a fumaça velha; a
temperatura era opressiva. Rogers dirigiu-se para um
comutador, ligou os ventiladores, e a sala ficou mais
confortável. Depois, ainda em pé, olhou para mim,
esfregando pensativamente o narigão. Assestou os óculos e
finalmente falou.
— Então, Benny. . . — disse ele.
— Vamos, fala....
— Quigley. Gorell. Mrs. Gorell. . .
— Agora já são três — observei, irritadamente.
— Estamos num navio misterioso. . . Agora não há dúvida de
que é assassínio. . .
— Não há dúvida a respeito da morte de Mrs. Gorell...
— Tampouco há a respeito de Quigley. . . se ainda restavam
algumas dúvidas... e a morte de Gorell não foi um
acidente... não pode ser agora ...
— Acho que tens razão, Benny.
O Cyrene II fez um grande círculo até voltar a aguda proa
contra o vento e as ondas, e a sua velocidade, diminuiu,
ficando em marcha suficiente para aguentar a tormenta.
Ardleigh reunira-se a nós no salão; veio depois French,
seguido por Alice Wilmer, pálida e de aspecto ansioso.
Dirigi-me para ela.
— Como está a nossa doente? — perguntei-lhe.
— Oh! Mrs. Lanfrey, está muito melhor. Ela voltou a si
rapidamente. Mas por que nos reunimos aqui no salão?
— O capitão pediu-nos, e não disse o motivo.
Estando ela ao meu lado, tomei-lhe a mão entre as minhas.
Estava fria como gelo. Alice olhou-me inquisidora-mente.
— Benny, não me deixe sozinha; estou com medo — disse
ela.
— Não se preocupe — aconselhei eu. — As coisas serão
arranjadas.
— Mas. . . Mrs. Gorell. . .
— Psiu! Não adianta falar nisso.
Mr. Getty, o piloto, entrou: o seu rosto era uma máscara.
Olhou pelo salão e fez uma inclinação com a cabeça, mas
não abriu os lábios. Ernest entrou com uma caixa de cigarros
e distribuiu-os pelas cigarreiras de mesa. Ele ainda estava no
salão quando o capitão Lanfrey entrou.
Lanfrey deteve-se no limiar da porta e olhou em volta da
sala. O seu rosto era, grave; os olhos azues pareciam penetrar
os rostos das pessoas presentes, como se ele fosse tirar os
segredos mais profundos que escondessem atrás deles.
Depois do que pareceu um longo momento, o capitão
entrou e ficou em pé, alto, diante de nós.
— Desejo que todos estejam sentados — disse ele bre-
vemente. Distribuímo-nos pelas cadeiras, enquanto Lanfrey
ia até as janelas e ficava a olhar para o mar tormentoso. Já
havia alguns instantes que o silêncio pairava entre nós antes
que o capitão se voltasse, fixando-nos firmemente com o
olhar. Á sua voz descera para um tom grave e parelho, mas
por trás das suas palavras havia infinita aspereza.
— Dei volta ao navio — disse ele. Viramos a popa; não
vamos a parte alguma por enquanto. A tormenta não é nada,
contudo; a manobra nada tem com ela. Posso governar este
navio com qualquer vento nestas águas. Esqueçam-se, pois,
disso. (Fez uma pausa e fitou-nos pensativamente por um
longo instante.) Os senhores e eu vamos decidir uma coisa
antes que o navio se dirija para alguma parte. Foi por isso
que lhes pedi para virem aqui. Não preciso lembrar-lhes o
que aconteceu ontem à noite, nem o que mais tem
acontecido depois que deixamos San Pedro. Estão bem ao
par disso. Sabem tanto como eu que a sombra do assassínio
paira neste navio. E o criminoso está neste momento a.
bordo, em alguma parte.
— Vejamos, pois — e a voz de Lanfrey se fez um pouco
mais áspera. — Quero considerar as medidas que podemos
tomar. Íamos ao Panamá, a fim de baldear Mrs. Gorell e o
corpo do seu marido para algum navio que os levasse à nossa
terra. Em vista do que aconteceu, não vou mais ao Panamá...
— Na verdade, não há mais necessidade disso, Carlos —
disse Rogers, quebrando o silêncio dos ouvintes do capitão.
— Tens razão, Hunt; não é mais necessário. O corpo de Mrs.
Gorell pode ser embalsamado como o do seu marido. Há na
tripulação um homem que entende disso, um marinheiro
que tinha essa profissão antes de embarcar. Mas que vamos
fazer? Podemos dar a expedição por terminada, voltar para
San Pedro agora, e lá as autoirdades poderão entrar em ação,
apertar os parafusos em todos os ocupantes deste navio e
espremer da pessoa culpada o segredo dos seus crimes. Isso é
uma resolução. A outra é voltar às Galápagos e reiniciar o
nosso trabalho, desfalcados como estamos com a perda do
dr. Gorell, e fazer algumas coisas das que pensávamos fazer
quando começamos a viagem. . . voltando, está claro, para
San Pedro e para o inevitável quando tivermos terminado o
nosso trabalho científico. Quero que manifestem uma
opinião; quero que me auxiliem a resolver o que faremos.
Dr. Ardleigh, que diz o sr.?
O dr. Ardleigh endireitou-se subitamente na cadeira, e
umedeceu os duros lábios de tartaruga com a ponta da
língua. Compôs o peito e falou numa voz algo ansiosa.
—Se voltarmos às Galápagos, capitão, teremos alguma
garantia de que as nossas vidas estarão em segurança?
— Não teríamos mais do que durante a viagem até San
Pedro.
Ardleigh ficou em silêncio por um instante.
— Há muitas coisas que eu pretendia observar, capitão,
naquelas ilhas. Não cheguei nem a começar nos poucos dias
em que lá estivemos. E se voltarmos para San Pedro agora,
não é provável, na minha idade, que eu venha a realizar essa
aspiração.
— Então está inclinado a voltar ao arquipélago, doutor?
— Bem, sim; o assunto da segurança pessoal é o que me
impede de votar por essa resolução.
— Qual a sua opinião, French? — perguntou Lanfrey,
voltando-se para o ictiologista. French bateu vagarosamente
a ponta do cigarro no braço da cadeira antes de responder.
— Eu sou mais ou menos fatalista, capitão — disse ele por
fim. Se for a minha vez, é a minha vez, quer eu esteja nas
Galápagos, quer a caminho de San Pedro. Pessoalmente,
prefiro regressar ao arquipélago e voltar ao trabalho. Há
muito que fazer lá; para um ictiologista, é um paraíso. Mas
enquanto isso não se poderia fazer alguma coisa? A respeito
dessas mortes? Não poderíamos atormentar todas as pessoas
de bordo até descobrirmos o criminoso? Não me parece que
precisamos esperar até voltar para os Estados Unidos a fim
de fazer isso.
— Isso será feito, French; não ficaremos de braços cruzados.
Não há nenhum Sherlock Holmes a bordo, mas pelo menos
podemos fazer alguma coisa — disse o capitão som-
briamente. — E de uma coisa pode ficar certo: se voltarmos
às Galápagos, lá não haverá nenhum navio para o assassino
escapar. É a morte pela fome em qualquer das ilhas desa-
bitadas; nas outras, ele seria apanhado rapidamente. Que
dizes, Bartlett?
Havia um certo horror naquele encontro no salão; ambições
de cientistas estavam sendo pesadas com possibilidades de
uma morte violenta às mãos do assaltante desconhecido, e a
balança se inclinava em favor das ambições. O perigo de
uma morte violenta às mãos de um maníaco homicida não
identificado que já por três vezes tinha atacado era real, tão
real que pairava sobre as nossas cabeças como o machado de
um carrasco. Era natural que a gente se quisesse ver fora de
semelhante situação. O capitão Lanfrey, cuja figura
corpulenta recostava-se contra as janelas dianteiras através
das quais se podia ver a chuva cinzenta e o mar agitado,
esperava a minha resposta.
— Capitão Lanfrey — disse eu depois de refletir um instante
— o sr. sabe tanto como eu que entrei na expedição à última
hora. Não tenho grande entusiasmo para voltar às Galápagos;
já estive lá antes. Minhas ambições como colecionador são
as de um amador, quase as de um diletante; eu não sentiria
muito se não tornasse a ver aquelas ilhas, interessantes como
são elas. Mas, ainda assim, entrei para a expedição e quando
entrei foi para ir até o fim. E não vou ficar assustado, ainda
que se trate de um maniaco homicida. Como todos sabem,
quando estou trabalhando, levo uma arma comigo para
abater os espécimes. Sei como fechar a minha porta contra
os medos noturnos. Já estive em situações perigosas antes
disto e sei como cuidar de mim. Se eu puder ter a certeza de
uma coisa, direi que voltemos. . .
— Obrigado, Benny — disse Lanfrey com simpatia na voz.
— E que coisa é essa?
— Eu gostaria de que as duas mulheres restantes a bordo
ficassem garantidas contra qualquer ataque.
— Bem — o capitão deteve-se pensativamente por um
momento. — Não vejo por que não possamos tomar as
precauções necessárias para isso. Afinal de contas, há entre
nós um número suficiente de não-suspeitos que podem
tratar disso.
— Então voto pela volta ao arquipélago, capitão.
— Gosto da sua disposição, Benny — disse ele. — E agora,
Míss Wilmer, a senhorita é um membro importante desta
expedição; e é uma das duas mulheres a bordo. Quer ser
bem franca e dizer-nos o que desejaria que fizéssemos?
Alice Wilmer, que sentava ao meu lado no divã, ficou
calada; senti que os músculos do seu corpo entravam em
tensão; as cores do seu rosto avivaram-se um tanto e ela
respondeu com voz firme:
— Voltemos às Galápagos, capitão Lanfrey.
Durante um momento fez-se silêncio entre nós. Até o
capitão Lanfrey parecia aturdido com esta resposta
inequívoca.
— Mas. . . Miss Wilmer... . a senhorita não está assustada? —
perguntou ele.
— Sim, estou. . . um pouco. Mas quero voltar às ilhas.
O dr. French ergueu subitamente as mãos e aplaudiu a
coragem da moça. Rogers imitou-o e em seguida todos
estávamos a bater palmas, ao passo que Alice corava ao meu
lado. Abriu os lábios, dizendo:
— Mas. . . mas — começou ela. — O que foi que eu disse?
— A senhorita disse o que alguns de nós não tiveram a
coragem de dizer, Miss Wilmer — observou Lanfrey.
A figura alta do dr. Ardleigh desenroscou-se da cadeira e o
professor ficou em pé.
— Capitão — começou ele. — Sinto-me bem humilde na
presença de tamanha bravura mostrada por Miss Wilmer.
Não estou hesitando mais. Reúno-me a ela, um pouco assus-
tado, mas voto pela volta às ilhas.
— Muito obrigado, doutor. E agora há alguém aqui que não
esteja satisfeito e deseje voltar para San Pedro? A opinião
deve ser unânime.
O capitão esperou que alguém falasse, mas por um momento
houve silêncio. Depois Rogers observou:
— É unânime, Carlos.
— Sim, acho que é. — O capitão voltou-se para o seu piloto,
que estivem durante todo o tempo sem falar, e disse: — Mr.
Getty, quer ter a bondade de traçar o rumo para Ilha de
Santa Cruz mais uma vez?
O oficial levantou-se e retirou-se, enquanto que o capitão
Lanfrey continuava junto às janelas dianteiras; a sombria
gravidade parecia ter deixado a sua fisionomia, mas a sua
maneira não tinha ficado menos decidida.
— Quero manifestar a todos os meus profundos
agradecimentos — disse ele. — Como sabem, esta expedição
sempre teve o meu grande apreço. Eu lamentaria muitíssimo
vê-la abandonada sem fazer tudo o que nos é possível para
transformá-la num sucesso. E para ser justo com os
expedicionários e em atenção ao estabelecimento de nossa
segurança comum, dou-lhes a minha palavra de que farei
tudo o que estiver em meu poder para descobrir a identidade
do assassino, pô-lo em ferros e levá-lo de volta ao destino
que merece. Como eu já disse, não há nenhum Sherlock
Holmes a bordo. Faremos o que de melhor pudermos. Hunt
Rogers e Benny Bartlett já me concederam tempo e auxílio
valiosos, infelizmente sem sucesso, no assunto da morte de
Mr. Quigley. A morte do dr. Gorell tinha sido considerada
até agora como um acidente. Daqui por diante, proponho-
me a encará-la como assassinato. Quer-me parecer que haja
alguma misteriosa ligação entre estas três pessoas e a maneira
por que morreram.
— Por que não começar agora, Carlos? — perguntou Rogers.
— Há alguma objeção quanto a procedermos imediatamente
a um inquérito? — perguntou Lanfrey, olhando pelo salão.
Ninguém falou. O capitão Lanfrey foi até uma caixa de
cigarros e serviu-se de um. Acendeu-o. Voltou-se e es-
colheu um lugar confortável para sentar-se. Houve uma
pausa geral entre nós: mudança de posições, acender de
cigarros, murmúrio de conversação. Neste momento senti a
vibração das hélices, o navio começou a avançar e a aguda
proa a fazer um largo círculo pelo mar grosso. Estávamos a
caminho do Arquipélago de Galápagos.
— Dr. Ardleigh — começou o capitão — o sr. pode fazer
alguma luz sobre a morte de Mrs. Gorell? Alguma coisa que
ainda não seja sabida? — A sua voz tranquila, o seu ar casual
indicavam que a formalidade tinha sido posta de lado e que
nos tínhamos reunido como um grupo que vai conversar a
respeito de coisas inconsequentes.
— Receio que não possa, capitão — replicou Ardleigh, na
sua voz arrastada. — A última vez que vi Mrs. Gorell com
vida foi ontem à tarde. Bati à sua porta, ela me pediu que
entrasse e eu lhe fiz uma breve visita. . .
— Então, doutor, viu-a com vida depois disso? Ou disse ela
alguma coisa enquanto conversavam que prenunciasse o que
aconteceu?
Ardleigh refletiu um instante, cruzando os compridos braços
sobre o peito, ficando com os seus lábios duros mais duros e
finos antes que se abrissem para falar.
— Não, à primeira pergunta, capitão. Não a vi com vida
depois que deixei o seu camarote. Quanto à sua segunda
pergunta... — Ardleigh fez uma longa pausa —
...dificilmente sei como responder-lhe. Ela não disse
precisamente que esperava ser assassinada na noite passada.
A esse respeito não houve ao menos uma sugestão de que
ela jamais esperasse o acontecimento de tal coisa. A morte
do seu marido foi um grave abalo para Mrs. Gorell; ela não
se restabeleceu dele. Havia, creio eu, uma amargura
injustificada nos seus pensamentos, e algo que não posso
chamar de outra coisa senão de uma estranha espécie de
medo. Isto nunca parecia deixar de transparecer, capitão; vi-
o muitas vezes nos seus olhos, ou observei-o na inflexão de
sua voz. Ora, se isto era medo de um fim violento, é o que
não tenho meio de saber. Nunca lhe fiz perguntas diretas
sobre tal coisa. Talvez eu as devesse ter feito;
voluntariamente, ela nada dizia. Isto é tudo que lhe posso
dizer, capitão, a menos. . . bem, eu não gostaria de descrever
a minha descoberta do crime nesta manhã . . .
— Não, não descreva, doutor. . . isso não é necessário — O
capitão Lanfrey inclinou-se, apertou num cinzeiro o seu
cigarro fumado até a metade.
— Capitão — falei eu — não quero antecipar a minha vez,
mas. . .
— Adiante, Benny, que tens para dizer? .
— Não é muito. Contudo, eu estava a pensar que, se é
necessário estabelecer uma determinada hora em que Mrs.
Gorell foi vista pela última vez com vida, talvez eu lhe possa
poupar tempo dizendo o que sei. . .
— E que é?
— Estive a ler ontem até meia-noite e depois deitei-me.
Levantei-me às duas horas. Não sei por que. Não podia
dormir. Chovia e o vento aumentava. O mar ficava mais
picado. Uma dessas estranhas sensações de que algo não
estivesse correndo bem, impeliu-me a deixar o meu
camarote e caminhar ao comprido do corredor. Tudo dava a
impressão de estar perfeitamente bem; o meu desassossego
pareceu aquietar-se e voltei para o meu camarote, metendo-
me na cama. Eu agora estava a pensar que, aparentemente,
tendo o assassino de Mrs. Gorell deixado a porta aberta ao
sair do camarote, pois estava entreaberta quando o dr.
Ardleigh descobriu a morta, o fato de que a porta estivesse
fechada às duas horas indicaria que Mrs. Gorell estava viva a
essa hora.
—Perfeitamente — disse Lanfrey com vagar. — Obrigado.
Direi que se a porta estava fechada Mrs. Gorell ainda estava
viva, com toda a certeza. Isso nos avança até as duas horas.
Alguém mais sabe de algum detalhe semelhante quanto às
perguntas que fazemos? (Sem que ninguém respondesse, o
capitão percorreu o círculo de rostos). Que dizes, French? És
mais ou menos uma ave noturna. Não mataste a velha,
mataste? — A atitude do capitão exagerava a pergunta,
sombriamente humorística.
French puxou uma lenta fumaçada do cigarro, inclinou a
cabeça ruiva para trás e vagarosamente exalou uma nuvem
de fumo. Um claro sorriso brincava nos seus lábios carnu-
dos; bateu a cinza do cigarro e depois respondeu no mesmo
tom da pergunta de Lanfrey.
— Não, exceto se foi dormindo, capitão. O sonambulismo,
entretanto, não é, que eu saiba, uma das minhas qualidades.
— Quando te deitaste?
— Cerca das onze horas.
— Trabalhas demais, French.
— Não, trabalho o suficiente. Deixei o meu serviço às dez e
meia e escrevi uma carta com a intenção de enviá-la do
Panamá.
Rogers interrompeu. Esfregou um lado do narigão,
pensativamente, e depois disse:
— Carlos, não estaremos perdendo tempo...?
— Por que, Hunt?
— Aqui não há ninguém que possa ser culpado desses
crimes. E havia certas coisas no camarote de Mrs. Gorell,
esta manhã, que muito bem poderiam ser chamadas de indí-
cios. Sabemos aproximadamente a hora em que ela terá mor-
rido. . . a hora não parece ser importante; a forma da sua
morte é certamente óbvia. Não seria bom vermos aonde
levarão esses indícios?
— E quais os indícios a que te referes, Hunt?
- À faca, que aparentemente pertencia à cozinha; à jaqueta
branca na cama, que Starr admitiu ser dele; e o caranguejo
escarlate esmagado no chão. . .
— Oh! Jimmy? — exclamou Alice. — Jimmy está morto?
O som da sua voz atraiu-lhe a atenção geral. Durante um
momento ninguém falou, depois Rogers disse solenemente:
— Sim, também êle foi vitimado; pisaram-lhe em cima. O
capitão Lanfrey silenciava enquanto esperávamos que ele
falasse. Lá fora a chuva fustigava as janelas do salão, e
o vento zunia; o iate deslizava por uma onda montanhosa e
retardava-se bruscamente quando metia a proa na onda
seguinte.
— Nada sei sobre o caranguejo — disse Lanfrey, olhando
rapidamente para nós. — Não tenho certeza sobre a faca.
Mas a jaqueta que Starr admite ser dele parece coisa
demasiado óbvia. Tudo indica que Starr é o responsável pelo
assassínio. Todos os senhores ficaram a pensar desse modo
desde que o crime foi descoberto esta manhã. Mas isto é
demasiado, afirmo eu. Então Starr, resolvido a matar, teria
ido ao camarote, assassinado Mrs. Gorell, abandonado a faca
em vez de atirá-la ao mar, despido a sua jaqueta e atirado
com ela à cama da morta? O caranguejo não tem sentido
algum, a menos que haja seguido o assassino e fosse
acidentalmente esmagado. Isso é demasiado óbvio, Hunt, as
coisas todas apontam com demasiada força para Starr; é por
isso que elas me parecem um tanto vesgas. O assassino está
procurando lançar o crime sobre Starr. . .
— Isso é bem possível, Carlos... quase provável, poderias
dizer. Mas é preciso que seja bem esclarecido — objetou
Rogers.
— Sim, com certeza. Será bem estabelecido. Mas enquanto
isso estou interessado em descobrir se há mais alguma coisa
que possa ser revelada aqui e auxilie a fazer luz sobre o caso.
Que diz a senhorita, Miss Wilmer? Os homens estiveram a
falar todo o tempo. A senhorita não tem alguma coisa para
acrescentar?
Alice apertou o lenço nos olhos e por momentos olhou para
o capitão por cima do seu pequeno punho.
— Duvido que saiba alguma coisa de importância, capitão
Lanfrey — começou ela. Visitei Mrs. Gorell no seu camarote
ontem à noite, depois do jantar. Estive mais de uma hora
com ela.
— A que horas mais ou menos? .
— Das oito até as nove.
— Como estava ela?
— Que quer dizer?
— Oh. . . mentalmente. Estava refeita e em paz com o
mundo ou estava, como disse o dr. Ardleigh, um tanto
amarga e com medo?
— Estava amarga, áspera, quanto à morte do marido, mas foi
só no fim da visita que falamos nisso. Ela esteve a conversar
sobre Jack. Quigley, dando os motivos da sua desavença com
o dr. Gorell.
— Sim, sim — disse Lanfrey, apanhando um cigarro.
— Acha que ela estava com medo de alguma coisa... de
alguma coisa que lhe pudesse acontecer?
— Sim. Tinha medo. Disse que havia alguém neste navio que
era inimigo dela. Esperava chegar ao Panamá antes que
acontecesse alguma coisa. Disse que fora por esse motivo
que preferira ir ao Panamá, ao invés de insistir em que o sr. a
levasse diretamente para San Pedro. O Panamá fica mais
perto.
— Muito bem, agora é que estamos encontrando alguma
coisa — disse Lanfrey, riscando o fósforo.
— Apesar de eu procurar afastar-lhe o espírito para outros
assuntos, ela insistia em dizer-me que o dr. Gorell fora
assassinado. Perguntei-lhe como sabia disso e ela respondeu
que não tinha prova alguma, mas que nem por isso deixava
de sabê-lo. Argumentei com ela, dizendo que todos julga-
vam ter sido um acidente, e que ela devia aceitar a sua pala-
vra, capitão, porque o sr. tinha estado lá e feito as investi-
gações.
— Que disse ela a esse respeito?
— Insistiu em que estava com a razão e eu lhe disse: "Mrs.
Gorell, se a sra. continuar a falar desta maneira terei que
retirar-me." E pouco depois deixei-a e fui para o meu
camarote e não ouvi mais nada a não ser a tormenta... até
o grito de Mrs. Lanfrey.
O capitão Lanfrey apertou os seus lábios carnudos e ver-
melhos; o seu rosto estava pensativo. Fumava o seu cigarro
com os olhos fitos nas janelas do salão batidas de chuva.
— Miss Wílmer — disse ele — retrocedamos um pouco. A
senhorita disse que Mrs. Gorell tinha medo de alguém neste
navio. Ela mencionou o nome?
— Sim. E como disse o dr. Ardleigh ainda há pouco, era fácil
ver-se que alguma coisa a assustava. A sua voz às vezes
tremia. Estava tão nervosa que saltava ao menor ruído...
quase. E os seus olhos... os seus olhos me assustaram. De
quando em vez, ficavam muito estranhos.
— Sim, sim — disse Lanfrey. — Coitada. Torturada pelo
temor do que ia acontecer. Ela indicou achar que a sua vida
estava em perigo?
—Não; dizia apenas esperar que chegássemos ao Panamá
antes que acontecesse qualquer outra coisa.
— E agora — começou Lanfrey, estudando a espiral de fumo
que subia do seu cigarro — diga-nos se ela designou a pessoa
de quem tinha medo?
— Mas, capitão. . . — Alice interrompeu-se. O seu rosto
vinha empalidecendo lentamente enquanto ela falava, e
agora diante da pergunta direta, parecia espantada, horrori-
zada com a idéia de revelar aquele nome.
— Vamos, Miss Wilmer, diga-nos de quem Mrs. Gorell tinha
medo. Não há ninguém que se oponha. Haverá? — e
percorreu o círculo com o olhar, mas ninguém respondeu.
— Mas eu não quero dizer-lhe, capitão Lanfrey... é...
— Numa situação destas, Miss Wilmer, quando estamos
procurando descobrir um crime tão diabólico, qualquer
informação tem o maior valor. . .
— Mas. . .
— Miss Wilmer, não posso colocar mais firmemente a
questão do que quando digo que, doa a quem doer, é seu
dever dizer-nos de quem tinha medo Mrs. Gorell.
Um longo silêncio seguiu-se, durante o qual os olhos de
Alice Wilmer estiveram sempre fixos no capitão Lanfrey.
Pensei por um instante que ela não ia falar, que se recusaria
a divulgar o nome. Dentro em pouco ela engoliu com
dificuldade, abriu os lábios, que humedecera com a língua, e
disse numa voz quase inaudível:
— Ela acusou o senhor, capitão Lanfrey!
Durante um momento o silêncio só foi quebrado pela chuva
e o vento a cair e a uivar lá fora. Lanfrey olhava para a moça,
com o cigarro a queimar entre os seus dedos grossos.
— A mim? — fez ele afinal.
Alice Wilmer assentiu com a cabeça. E falou subitamente:
— Ela disse que o sr. tinha matado Mr. Gorell, que o sr. tinha
matado Jack Quigley, e que ela sentia medo do sr., capitão.
Respondi que ela estava doida; disse-lhe que não mais
ouviria acusações tolas. Levantei-me e saí.
— Muito obrigado, Miss Wilmer — disse Lanfrey
simplesmente. — Aprecio a sua atitude em minha defesa...
Rogers saltou bruscamente da cadeira.
— Eu quero dizer uma coisa — exclamou ele, olhando para
nós. Quero dizer que, segundo penso, a mente de Mrs.
Gorell estava desequilibrada. Agora que ela está morta, é o
que se pode dizer de mais delicado. Também havia qualquer
coisa quanto a Mrs. Gorell e o seu marido. . . Benny Bartlett
pode dizer-te que o próprio Gorell tinha uma certa idéia
esquisita de que tu fosses o criminoso, Carlos. . . Refiro-me à
morte de Quigley. . . Os Gorell não tinham isto muito no
lugar — disse ele, batendo na testa.
— Obrigado, Hunt, mas. . .
— Não, um momento, Carlos, ainda não terminei. Se há aqui
alguém que te acha culpado desses crimes, direi que esse
alguém está doido. — E, acalorado, girou ridiculamente o
indicador na altura da orelha.
— Aqui não há ninguém que pense isso, Rogers — disse
French, rompendo com voz áspera. — Tal coisa é absurda;
Esqueçamo-la e procuremos em alguma outra parte o
assassino, não no capitão Lanfrey. É ridículo.
— Muito obrigado, French — disse Lanfrey, jogando fora o
cigarro. — E obrigado, Hunt. Estou certo de que aprecio a
tua atitude. Compreendo que não devo estar acima de
suspeitas. Se sou suspeito e acham que não estou falando a
verdade, submeto-me a qualquer recurso dos senhores.
Dou-lhes, porém, a minha palavra de que não sou o
assassino nem sei coisa alguma sobre a sua identidade, em-
bora peça a Deus que venha a saber.
Por um momento ficamos silenciosos, depois Rogers
perguntou:
— Há mais alguma coisa, Carlos, sobre a qual desejes
conversar agora?
— Não, muito obrigado. (O capitão pôs-se em pé.) Muito
obrigado a todos pelo tempo que me concederam. Espero
poder chamar qualquer um dos presentes no caso de que
haja necessidade de auxílio para desvendar esta coisa.
E com uma leve curvatura, deixou-nos.
Muito depois de se terem retirado os outros, Rogers e eu
ficamos no salão a conversar; parecia-nos que o problema
desafiava qualquer solução.
— Não chegamos a parte alguma, quanto à morte de Quigley
— observei eu.
— Não — disse Rogers a esfregar pensativamente um lado
do seu narigão. — Até agora li uma meia dúzia de novelas
policiais. Esse é o meu único diploma de detective... e
contudo, Benny, deve haver alguma solução para este caso.
— Rogers deteve-se e levantou os olhos. Ernest estava à
porta. — Que é, Ernest? — perguntou ele.
— O capitão está chamando na ponte de comando.
— Obrigado. A nós dois?
— Sim, senhor.
Por causa da chuva no convés, subimos para a ponte de
comando pela estreita escada interna, e da ponte fomos à
pequena sala onde Lanfrey tinha o seu escritório. O capitão
ergueu os olhos para nós quando entramos, e convidou-nos
a sentar.
— Vou falar com Weber, o cozinheiro. Ele estará aqui
dentro de alguns instantes.
Um momento depois Weber, ofegante com a subida desde a
cozinha, tendo no rosto gordo e vermelho como beterraba
uma expressão de ansiedade, estava no limiar da porta.
— Entre, Weber. Sente-se aí. — E Lanfrey indicou a
cadeira restante. O cozinheiro sentou-se, fixando os seus
olhos aguados no capitão, com um certo medo. Apoiava fir-
memente as pernas no chão afim ide manter o seu corpanzil
contra o jogo do navio.
— O sr. mandou-me chamar, capitão? — disse ele por fim.
— Sim, Weber — respondeu Lanfrey, aboletando-se com
mais firmeza na sua cadeira. — Você sabe que um dos
passageiros deste navio foi assassinado ontem à noite. . .
Mrs. Gorell. . .
— Sei, sim, capitão; e é terrível.. . é medonho. Lanfrey
meteu a mão numa gaveta aberta e depôs a faca
ensanguentada em cima do seu escritório, perto de Weber.
Os olhos inquietos do homem quase saltaram das órbitas
ante aquele objeto.
— Essa faca é minha — disse êle sem respirar. — É minha.
Não pude encontrá-la esta manhã, capitão. Foi esta. . . esta. .
. que matou a senhora? — O cozinheiro olhou
temerosamente para Lanfrey, tornou a olhar para a faca e
"depois voltou os olhos para mim. — É terrível, senhor.
Estou no mar há vinte anos e nunca me aconteceu isto
antes.
— Admite que esta faca é sua, Weber?
— Sim, capitão; com toda a presteza, mas sem admitir que
sou o culpado do crime. Não sou um assassino, capitão;
nunca fiz mal a ninguém em toda a minha vida.
— Onde é que você guardava a faca?
— Na cozinha, capitão; no gancho que fica atrás do cepo de
cortar carne.
— Deixa a cozinha fechada quando não está trabalhando?
— Deixo, sim senhor.
— Alguém mais tem a chave?
— Starr tem uma, capitão.
— Alguém mais?
— Que eu saiba, não, capitão.
— E o seu segundo cozinheiro?
— Ele perdeu a chave dele, capitão; caiu n'água no primeiro
dia e ele agora não tem nenhuma.
— A cozinha estava fechada hoje de manhã quando você
entrou para preparar o almoço?
— Não, senhor; Starr já estava lá dentro.
Lanfrey silenciou por um momento, parecendo ruminar a
informação recebida, e fez depois outra pergunta:
— Sabe alguma coisa a respeito deste assassinato, Weber?
Viu ou ouviu alguma coisa que lhe despertasse suspeitas?
— Nada, capitão; ignoro o que houve tanto como os outros
todos. E estou falando a pura verdade, capitão. (A sua voz
estava pejada de ênfase.)
Lanfrey ficou mais à vontade na cadeira.
— Muito bem, Weber — disse ele. É só. Diga a Starr que
venha aqui em seguida.
—Sim, senhor — disse o cozinheiro a ofegar, içando-se da
cadeira e saindo com cuidado da sala.
O capitão Lanfrey empurrou-nos a cigarreira, e recolocou a
faca na gaveta do escritório. Ergueu a voz e dirigiu-se ao
piloto que estava à ponte:
— Estamos navegando um pouco melhor, não acha Mr.
Getty?
— Sim, capitão Lanfrey. A tormenta está amainando.
Starr apareceu subitamente à porta e ficou à espera de ser
convidado a entrar. Lanfrey indicou-lhe a cadeira que
Weber tinha ocupado.
— O sr. queria interrogar-me, capitão, sobre o assassinato
de Mrs. Gorell — disse prosaicamente o criado.
— Isso mesmo, Starr. Queremos. . .
— Eu posso explicar tudo. . .
— Vamos, espere um momento. — Lanfrey interrompeu-o
bruscamente. — Eu falarei. Você responderá as perguntas.
— Sim senhor.
O rosto sério do taifeiro sulcou-se de rugas ansiosas; Starr
passou nervoso a mão pelos lábios e ficou à espera. .
— Starr — começou Lanfrey, cuja voz se fazia mais áspera
— a sua situação não é boa. Você incorreu em considerável
suspeita quando da morte de Quigley; há ainda mais quanto
à morte de Mrs. Gorell. Há algumas coisas que exigirão
muitas explicações.
O capitão meteu a mão numa gaveta e apresentou uma
jaqueta branca com botões de metal, atirando em cima do
escritório.
— A sua jaqueta, Starr — disse ele.
— Sim, senhor.
— Foi encontrada no camarote com o corpo de Mrs. Gorell.
Em cima da cama, aliás. Que diabo de idéia foi a sua em
deixá-la onde ela foi encontrada?
— Eu não a deixei lá, capitão — disse Starr, com a voz a
subir.
— Como é que ela foi parar ali?
— Não sei, capitão. Dei falta dela esta manhã quando me
vesti para servir o almoço. De noite, deixo a minha jaqueta
num cabide da cozinha. Não estava lá quando fui buscá-la. . .
— Você matou Mrs. Gorell, Starr?
Durante um momento o criado olhou para Lanfrey como se
estivesse a duvidar dos próprios ouvidos. Depois falou,
pálido, dizendo quase num guincho:
— Não, capitão; juro-lhe que não, capitão. Eu não poderia
fazer uma coisa dessas.
Ficou onde estava na sua cadeira, olhando desamparada-
mente ora para um ora para outro de nós; no seu lábio supe-
rior, borbulhas de suor.
— Onde foi você, Starr, naquele meio-dia, na costa. . . no
dia em que o dr. Gorell foi assassinado?
— Assassinado?! — repetiu aterrorizado o steward. —
Pensei que fosse acidente, capitão.
— Não se importe com o que tenha pensado. Onde foi você?
— Eu só andei um pouco pela praia, capitão, e pelo mato. Eu
tinha estado muito pouco tempo em terra, e não pude
resistir à tentação de ver como era uma ilha deserta, pois eu
tinha chegado cedo com a lancha e ainda restava um tem-
pinho. Torci o tornozelo, capitão, e tive que sentar-me um
pouco até que a dor passasse e eu pudesse andar.
— Você viu alguém?
— Só Mr. Cranston a alguma distância. Ele me abanou e eu
abanei para ele.
— Viu o dr. Gorell?
— Não, senhor.
— Você o matou?
— Matá-lo? (Uma expressão de sofrimento passou pelo rosto
do criado.) Capitão, o sr. não está dizendo que eu sou o
criminoso, está? Juro-lhe, capitão, juro-lhe que nada fiz.
— Muito bem, Starr. E agora, que sabe sobre esta faca? — e
Lanfrey mais uma vez tirou a arma da gaveta, colocando-a
ao lado da jaqueta branca.
— É a faca do cozinqeiro, capitão.
— Onde é que ele a deixa?
— Na cozinha, atrás do cepo de cortar carne.
— Você tem uma chave da cozinha?
— Tenho; sim, senhor.
— E o segundo cozinheiro? Também tem uma?
— Não, senhor; ele perdeu a dele e Weber não lhe deu
outra.
— A cozinha estava fechada hoje de manhã quando você foi
vestir a sua jaqueta?
Starr ficou um momento em silêncio, procurando recordar-
se com o cérebro atormentado.
— Acho que não, capitão. Lembro-me. . .
— Quem é que fecha a cozinha à noite?
— Eu é que devo fechar, capitão. Habitualmente sou o
último. . .
— Você a fechou ontem à noite?
Starr não respondeu imediatamente; depois, levantou com
vagar os olhos.
— Acho que não, capitão. Eu ia fechar. Agora me lembro
de que não fechei. Peço desculpas.
Lanfrey ficou silencioso; pegou o cigarro que tinha deixado à
beira do escritório e puxou uma longa baforada antes de
tornar a falar.
— E a respeito daquele caranguejo? — disse ele, olhando
para o criado.
— O caranguejo escarlate, capitão? — começou este. — Bem
o sr. compreende. Eu hoje de manhã ia perguntar a Miss
Wilmer se ela não o queria de volta. Se ela não quisesse eu ia
jogá-lo pela borda. Era um incômodo, capitão.
— De que maneira?
— Sempre estava nos pés da gente. A todo o momento eu
pensava que ia pisar nele, embora ele sempre saísse a tempo.
Seguia-me como um cachorro, capitão.
— Quer dizer que ele o seguiu até o camarote de Mn. Gorell?
— Não, senhor —- respondeu ele, com uma súplica no
olhar. — O animalzinho começava a seguir-me da cozinha e
eu o fazia voltar.
— Onde é que o deixava?
— Ele ficava na cozinha, capitão, debaixo da geladeira,
exceto quando Miss Wilmer pedia que o levasse para ela
pintá-lo.
— O caranguejo ficava fechado na cozinha durante a noite?
— Ficava; sim, senhor. Aquilo era de fato um incômodo. Os
caranguejos estão muito bem numa ilha deserta, mas não
têm lugar num iate como o Cyrene II, capitão, quando
Ernest e eu estamos no serviço; pelo menos, não na cozi-
nha, procurando seguir a gente até o salão de jantar.
— Provavelmente, tens razão a esse respeito, Starr. E esse
caranguejo seguiria mais alguém a não ser você?
— Sim, capitão. Seguia Ernest ou o cozinheiro tanto quanto
a mim. O cozinheiro tinha ameaçado transformá-lo em
guisado, capitão, se eu não lhe desse um sumiço. O jeito do
caranguejo torcer os olhos deixava Weber arrepiado.
Lanfrey apagou o cigarro, apertando-o no cinzeiro, e os seus
olhos se fixaram longamente no teto antes de tornar a falar.
— Sabe algo, Starr, que o faça suspeitar de alguma pessoa
com relação a estes crimes?
— Não, capitão; tenho pensado muito a esse respeito, mas
não posso pensar em ninguém que fosse capaz de seme-
lhante coisa.
— Há alguém a bordo que, sendo seu inimigo, procurasse
envolvê-lo nesta coisa?
Uma curiosa expressão de embaraço estampou-se no rosto
de Starr; o criado hesitou em falar. Por fim, disse:
— Com a sua licença, capitão, mas Mr. Cranston e eu não
nos temos entendido desde aquele jogo de dados no ca-
marote de Mr. Quigley. Mas de qualquer maneira, Mr.
Cranston não poderia ter procurado envolver-me neste
assassínio porque, como o sr. sabe, ele está fechado no
camarote.
—Sim, é assim mesmo, Starr. Perfeitamente, Starr. . .
Lanfrey meteu a jaqueta e a faca na gaveta. — É só.
Rogers fechou atrás de nós a porta do camarote, e ficamos
no quarto que havia pouco encerrara o medonho corpo de
Mrs. Gorell. Todos os sinais de assassinato tinham sido
retirados; a cama estava sem o colchão, mas, em mais nada
fora tocado. Nenhum de nós disse palavra nos primeiros
momentos depois que tínhamos isolado o resto do navio de
nós e de nossa tarefa; os nossos olhos percorriam o camarote
amplo e lindamente mobiliado que, depois dos aposentos do
capitão Lanfrey, era o mais cubicado de bordo.
— Por que um ser humano mata outro ser humano, Benny?
— perguntou Rogers gravemente. Quais são os motivos,
afora a cólera de uma luta ou a mania homicida de algum
doido?
Sentei-me numa cadeira. Rogers continuou em pé, no
centro do camarote.
— Li esses motivos em alguma parte — respondi eu. — Não
creio que agora me possa lembrar da lista completa. A
vingança é um.
— Sim, a vingança é provavelmente o mais elementar de
todos... é a cólera que passa a sangue frio, premeditação,
nutrindo-se numa profunda sensação de ofensa.
— Lembro-me que o dinheiro e as mulheres são
mencionados. . . e o ciúme. O ódio também, suponho-o.
— Qualquer uma das baixas paixões, Benny, pode resultar
num assassinato. Há depois a morte por necessidade.
— Que queres dizer?
— Digo que, tirada uma vida, o assassino, afim de garantir-
se contra a descoberta de sua ação, é obrigado a tirar a vida
de outra, de duas ou de três. . . talvez mais. . . pessoas que
possam ter qualquer conhecimento do seu crime original ou
fortes suspeitas de sua culpa.
— Achas que seja este o caso? — perguntei eu. Rogers
estava sentado à minha frente, diante de uma mesa que
havia na outra extremidade do camarote.
— Eu estava pensando que o assassínio de Mrs. Gorell
poderia ter sido uma morte por necessidade. . .
possivelmente também a do dr. Gorell. . .
— Dado que Gorell soubesse quem matou Quigley?
— Sim.
— Tenho plena certeza de que Gorell não p sabia. Acredito
que ele o teria confiado a mim, naquele dia, na Santa Cruz,
no caso de que o soubesse.
— Talvez não soubesse. A idéia ocorreu-me. Foi só isso.
— Qual achas que possa ter sido o motivo do crime
original... a morte de Quigley?
— Seria fácil se o soubéssemos. Mas, cá entre nós, Benny, só
para argumentarmos e não porque eu acredite nisso,
positivamente não acredito, mas suponha-se que Carlos
tenha matado Quigley. Voltando à declaração de Gorell
sobre o encontro de Mrs. Lanfrey com Quigley no
tombadilho, às três da manhã, teríamos o motivo
"mulheres", ou ciúme, ou o marido enganado, ou como se
quiser classificá-lo. Então, dado que Gorell fosse descoberto
como sabendo demasiado, ele teria de ser eliminado. Além
disso, uma vez que Mrs. Gorell tão insistentemente
declarava que o seu marido tinha sido assassinado e parecia
querer atirar a acusação contra Carlos, a sua morte era
inevitável. Por mais que possamos especular sobre a morte
de Quigley e Gorell, não penso um momento sequer que
Mrs. Gorell fosse assassinado porque o matador tivesse medo
dela. Um assassino, um assassino reincidente,
provavelmente - motivado por mais de uma razão. Ele pode
matar por um motivo e tornar a matar por ainda outros
motivos. Desde que ele só pode morrer uma vez, torna-se
friamente calculista depois do seu primeiro crime, pois os
crimes subseqüentes não podem aumentar a pena.
— Provavelmente, tens razão. Hunt, contudo. . .
— Estou certo de que tenho razão. Mas. . . que ias dizer?
-— Podes raciocinar da mesma maneira pondo Starr ou
Cranston no lugar de Lanfrey, apenas dando-lhes motivos
diferentes. Em qualquer dos outros dois, seria dinheiro...
paixões despertadas pelo jogo de dados e que ainda não
houvessem resfriado. Cranston estava de vigia naquela noite.
Não é improvável que, tendo avistado Gorell a caminhar
pelo convés às três horas da manhã, temesse que o velho
tivesse visto quando ele cometia o crime; o mesmo a
respeito de Starr. . .
— Naturalmente — interrompeu-me Rogers — estando
Cranston encerrado ontem à noite, o rapaz acha-se fora de
cogitação no que diz respeito a Mrs. Gorell. . .
— Assim é, Hunt. Mas. . . Vamos tratar do que Lanfrey nos
pediu e sair daqui. Ocorrem-me lugares mais alegres do que
este.
Rogers levantou-se rapidamente.
— Muito bem — disse ele. — Vamos emalar tudo e fazer a
lista, exatamente como fizemos com as coisas de Quigley,
deixando de lado qualquer coisa que possa ser ajudar a
resolver este crime.
Começamos a trabalhar metodicamente. A bagagem era
considerável e havia uma grande quantidade de objetos
pessoais; examinamos tudo muito cuidadosamente,
arrolando e guardando as coisas em duas malas grandes e três
valises.
— Que pensas de Starr? — perguntei a Rogers, depois de
termos estado um bom tempo naquele trabalho. — Acre-
ditas que ele seja o criminoso?
— Não sei. Se ele matou Mrs. Gorell, é o mais estúpido de
todos os assassinos ou então o mais esperto.
— Pensas nos indícios que ele deixou para trás, suponho eu.
— Sim. A sua jaqueta ficou em cima da cama porque ele foi
demasiado idiota para perceber o que estava fazendo, ou
deixou-a propositadamente para o fim especial de fazer que
acreditássemos que algum outro havia morto Mrs. Gorell e
procura incriminá-lo.
— Starr é astuto — observei,
— Eu também acho. A faca, está claro, não tem valor algum
como indício — continuou Rogers, pondo uma roupa num
cabide e metendo-a numa das malas grandes.
— Mesmo que estivéssemos habilitados a descobrir
impressões digitais, o que não acontece, tantas mãos já
tocaram na faca que isso já não adiantaria nada... Weber,
Starr, Lanfrey, Ardleigh, o segundo cozinheiro, talvez
Ernest... todos deixaram as suas impressões nela.. . Como
vês, nada mais se pode fazer com ela.
— Os indícios desapareceram — comentei. — Somente o
caranguejo escarlate esmagado. . .
— Não acho que isso represente um indício, Benny —
replicou Rogers, continuando a emalar os objetos. —
Mesmo que o caranguejo estivesse vivo, ele não poderia
indicar a identidade do criminoso; presumivelmente, seguiu-
o até aqui e foi pisado em cima por acidente. E, esmagado,
qual é a sua utilidade?
— Nenhuma.
— Levaram-no daqui, não levaram?
— Acho que sim. Não o vejo por aqui. Trabalhamos mais
meia hora antes de fazer outra pausa.
As roupas tinham sido todas arroladas e emaladas. Restavam
algumas cartas dirigidas a Mrs. Gorell, um livro de notas no
qual o velho concokigista escrevera algumas rápidas
observações, algumas páginas dactilografadas que eram um
desenvolvimento de suas notas, regular quantidade de papel
em branco para máquina, um caderninho com notas de suas
despesas pessoais, quatro livros de referência, um dicionário
de bolso, um diário com uma linha para cada dia, que
provavelmente era de Mrs. Gorell. Rogers volteou
rapidamente as folhas.
— Manteve-o até a noite passada — disse ele, olhando para
mim. Escuta isto: "O navio dirige-se para o Panamá — para a
segurança. Isso não será tão cedo. Cada vez sinto mais medo
do capitão. O dr. Ardleigh visitou-me à tarde. Jantei no meu
camarote. Miss Wilmer visitou-me à noite.
— Pode haver algum indício ai, Hunt.
— Sim- Terá que ser bem examinado. Vamos entregá-lo a
Carlos. Haverá mais alguma coisa nestas bugigangas que
valha a pena ser posta de lado, Benny?
— Duvido-o. Eu só me interessaria pelo diário.
— Como é que o assassino teria entrado aqui ontem à noite,
Benny? — perguntou-me Rogers subitamente. Atirou o
diário sobre a mesinha, foi até a porta e começou a examinar
a fechadura.
— A chave está aí?
— Está. (Rogers tirou-a da fechadura, observou-a
atentamente e tornou a colocá-la onde estava.)
Aparentemente, tudo está em ordem. Esta porta não tem
ferrolho. Na minha tampouco não tem. . .
— Lanfrey — observei — provavelmente não pensava em
assassinos a bordo nos seus cruzeiros. Uma chave deveria ser
o bastante para qualquer dos seus convidados.
— É isso mesmo. Acho que qualquer pessoa, com um
instrumento de arrombador, poderia torcer a chave pelo
lado de fora.
— Evidentemente. E a tempestade de ontem à noite abafaria
o ruído que fizessem ao entrar aqui. Além do barulho do
mar e do vento, havia os trovões.
— Muito provável — concordou Rogers.
— E a velha também poderia esquecer-se de torcer a chave;
poderia, digo eu, embora tal coisa não seja provável.
— Não.
Rogers voltou ao trabalho, auxiliou-me a guardar o resto das
coisas, exceto o diário, e fechamos tudo a chave. Assinamos
a lista dos objetos todos, Rogers dobrou as folhas e meteu-as
no bolso juntamente com o diário.
— Que é que Lanfrey vai fazer quanto à tripulação, Hunt?
Sabes se ele está investigando ou não?
— Sim, sei. Ele e Getty, segundo me disse Carlos,
interrogarão severamente um de cada vez afim de ver se
descobrem alguma coisa. Pessoalmente, não acho que
ninguém da tripulação, exceto Starr, possa ser o criminoso.
Isso de sempre estar a julgar alguém e executá-lo por
sua'conta é típico de maníaco homicida. Essa pode ser a
explicação para o caso em questão. . .
— E também pode não ser — objetei. — Se o dr. Gorell e
Mrs. Gorell não fossem marido e mulher, e se Quigley não
fosse genro deles, em vésperas de não mais o ser devido ao
seu divórcio em andamento, eu diria que a explicação estava
em haver a bordo um maníaco homicida. Mas há entre eles
essa relação, o que sugere um motivo comum para a morte
de todos os três. Porque um maníaco homicida matar estas
determinadas pessoas, impelido apenas pelo desejo insano de
matar, é coisa que está fora das leis da probabilidade. Ou
quase inteiramente fora.
— Imagino que tens razão, Benny — disse Rogers
pensativamente. — Bem, então achas que nós agora estamos
seguros?
— Sim. Até o assassino descobrir que alguém mais sabe o seu
segredo. Então ele novamente tentará o assassinato.
— Isso é possível, Benny.. . e incômodo — disse ele,
abanando a cabeça. Abriu a porta, esperou que eu passasse,
fechou-a a chave e pôs esta no bolso.
Quando saímos, a figura alta e delgada do dr. Ardleigh
passava pelo corredor, dirigindo-se para o seu camarote.
Caminhava sem ruído, e não se voltou para ver quem tinha
saído do camarote de Mrs. Gorell. Não me pude furtar à
idéia de que ele estivera escutando à porta. Talvez fosse
injustiça minha, mas essa idéia senhoreou-me.
Íamos tomar a direção do escritório do capitão Lanfrey
quando os olhos de Rogers deram com a porta do camarote
fronteiro, e observei que ele se detinha um instante, como
tolhido por um pensamento súbito. Hesitou um momento,
atravessou depois o corredor e bateu de leve à porta. Espe-
rou um pouco e tornou a bater fortemente. Desta vez al-
guém se mexeu no camarote, e a voz de Cranston
perguntou:
— Que desejam?
Rogers apertou a chave ainda na fechadura, do lado de fora,
torceu-a rapidamente e abriu a porta. Cranston, inteiramente
vestido, estava deitado na cama, soerguido num cotovelo,
como se tivesse despertado naquele momento.
— Entra — disse-me Rogers, e eu o acompanhei. Cranston
contemplou-nos carrancudamente até fecharmos a porta
atrás de nós, e depois repetiu:
— Que desejam?
— Queremos conversar com você, Jay — disse Rogers,
sentando-se numa cadeira próxima da cama.
Cranston estirou-se no leito e ficou a olhar para o teto.
— Quando é que vou sair daqui? — perguntou ele.
— O capitão Lanfrey é o seu carcereiro, Jay. Quando ele o
mandar sair, você sairá.
—- Que querem, então?
— Sabia você que alguém matou Mrs. Gorell ontem à noite. .
. bem aqui defronte, não é verdade?
— Soube esta manhã.
— Que é que você sabe?
— O que é que posso saber, fechado aqui?
— Ouviu alguma coisa durante a noite; algum ruído
estranho, gritos, barulho de chaves, alguém a caminhar sus-
peitamente pelo corredor?
— Com toda a barulhada da chuva e do vento?
— Sim, apesar disso.
— Não, não ouvi.
Rogers levantou-se e parecia a ponto de retirar-se, de sorte
que eu também me ergui. Notei que os olhos escuros de Jay
Cranston acompanhavam Rogers enquanto este caminhava
através do camarote. Rogers foi até a porta; por um
momento pensei que estivesse interessado nos gonzos, mas
ele os deixou após um instante de hesitação, deu uma volta
pelo quarto e voltou para junto de Cranston. Ficou em pé a
olhar para o rapaz, que assumiu um aspecto ameaçador. De
súbito, quase como uma cobra a dar o bote, Cranston
ergueu-se na cama e avançou o rosto para Rogers.
— Que é que você quer agora? — perguntou ele
insolentemente.
Durante um longo instante Rogers não respondeu; ficou a
olhar fixamente para Cranston, e depois, subitamente, disse
numa voz aspérrima:
— Você esteve fora deste camarote ontem à noite, va-
gueando por aí. . .
— Como é que...?
— Você tirou os pinos das dobradiças dessa porta, não foi,
Jay, e abriu a porta por dentro. Não foi?
— E se foi?
— Você tirou, não? — insistiu Rogers.
— Tirei, sim. Estive fora deste raio de camarote ontem de
noite. E daí? Que é que vai fazer com isso?
À tardinha a chuva tinha cessado e o vento diminuía,
embora o mar continuasse agitado. O esbelto e branco
Cyrene II, rompendo com aguda proa a crista de enormes
ondas, que se dividia em bandas lisas de espuma, abria
caminho para o seu destino, o Arquipélago de Galápagos.
— Talvez sejamos tolos e talvez não — disse Carlos Lanfrey,
esfregando o rosto bronzeado com a sua manopla e
bocejando prodigiosamente. No seu escritório da pequena
cabine de junto à ponte de comando estava o diário que
Rogers e eu tínhamos tirado dos objetos pessoais de Mrs.
Gorell. O corpo da pobre senhora jazia agora num porão, ao
lado do cadáver cio marido, esperando o momento de
voltarmos para San Pedro. — Mas a sorte está lançada —
continuou o capitão. — Correremos todos os riscos.
Enquanto isso — e Lanfrey completou de modo mais
vigoroso: — vamos descobrir quem é esse assassino. (A cada
uma de suas palavras, dava uma punhada no escritório.)
Deixemos este diário de lado, por enquanto — disse ele,
pondo-se em pé. Estou mais interessado no que me dizem a
respeito de Jay Cranston. Ele o admitiu, não é verdade?
— Sim — respondeu Rogers, levantando-se. — Admitiu que
esteve fora do camarote ontem à noite, e, além do mais, quis
saber que era que eu ia fazer com isso.
— Vou mostrar-lhe o que é que vamos fazer — disse
Lanfrey, com ar sombrio. — Venham os dois, vamos descer
e tratar disso em seguida.
Lanfrey saiu à frente, dirigindo-se para o camarote de Jay
Cranston. Sem a menor advertência, torceu a chave e abriu
a porta. Rogers e eu entramos atrás dele. Fechei a porta.
Cranston estava sentado à beira da cama. Levantou
carrancudamente os olhos quando avançamos para ele, mas
não disse palavra. Lanfrey puxou uma cadeira para junto da
cama e sentou-se. Rogers e eu também fizemos o mesmo.
Ninguém falara ainda. Cranston só tinha olhos para o ca-
pitão; olhava-o como se estivesse fascinado. Finalmente, não
pôde resistir o escrutínio de Lanfrey e exclamou:
— Então, que deseja o sr.?
— E isso? — perguntou o capitão.
— Isso o que?
— Não me minta. Você saiu deste camarote ontem à noite.
— Quem é que disse?
— Você mesmo. Disse para Rogers em presença de Bartlett
que tinha saído. . . não disse? — e voltou-se para nós,
pedindo confirmação.
— Disse — respondeu Rogers.
— Então, Jay, como foi isso?
— Sim, saí. E que é que vai fazer «agora?
— Assim é melhor. Agora você verá o que vou fazer. Ontem
à noite houve um assassinato neste navio. Mrs. Gorell, bem
aqui defronte o seu camarote. . .
— O sr. não vai atirar isso às minhas costas — disse
Cranston, falando rapidamente, em atitude quase de pânico.
— Pode ser e também pode não ser — disse Lanfrey,
friamente. — Que sabe a respeito do assassinato?
— Não sei coisa nenhuma. Só hoje de manhã é que vim a
saber o que houve, quando começaram a fazer um berreiro
do inferno aí no corredor.
— A que horas saiu você daqui?
— Como é que vou saber? — retrucou Cranston.
Lanfrey saltou da cadeira e bateu no rosto do rapaz com a
mão aberta. Imediatamente Cranston ficava furioso; atirou-
se ao capitão de punhos fechados, mas Lanfrey segurou-o
com as suas poderosas mãos, forçando-o a deitar-se na cama.
Bateu-lhe outra vez e a agressividade de Cranston
desapareceu, embora nos seus olhos escuros luzisse um fogo
de raiva.
— Agora quero que você me diga a verdade — rosnou
Lanfrey. — A que horas saiu deste camarote?
— Três — respondeu Cranston de má vontade.
— Quanto tempo se demorou lá fora?
— Meia hora.
— Esteve fazendo o que?
— Nada. Andei por aí. Arranjei alguma coisa pata comer na
cozinha. O sr. não me mata de fome a pão e água?
— E agora, a respeito de Mrs. Gorell? — prosseguiu Lanfrey.
— Não tive nada com isso, estou dizendo. — A voz de
Cranston ficou alarmadamente aguda.
— A porta do camarote dela estava fechada ou aberta?
— Aberta. Não, fechada. Não sei bem.
Lanfrey inclinou-se ameaçadoramente.
— Como é que estava?
— Aberta — respondeu o rapaz, evidentemente assustado.
— Que é que você foi fazer lá?
— Eu não fui no camarote, estou dizendo. Por que é que eu
ia entrar nesse camarote? A porta tanto me fazia estar aberta
como fechada. Era só uma velha. . .
Rogers levantou-se subitamente da sua cadeira, saltou para
Cranston, inclinou-se e segurou-o pelo tornozelo direito,
puxando-o tão rapidamente que o rapaz foi atirado sobre a
cama. Com o pé livre, Cranston procurou inutilmente
desvencilhar-se de Rogers. Saltei por minha vez e apanhei-o
pelo tornozelo esquerdo; ainda assim, as poderosas pernas de
Cranston sacudiam-nos para aqui e ali.
— Que é que querem comigo? — perguntou êle, esten-
dendo-se na cama ao passo que lutava por safar-se. -— Que
é que querem fazer?
— Estás vendo isso, Carlos? — disse Rogers por entre os
dentes enquanto que virava a sola do sapato de Cranston
para Lanfrey ver. — Está vendo, não?
— Sim.
Cranston esperneou violentamente.
Rogers fez sinal que soltássemos os pés de Cranston e
deixamo-los ao mesmo tempo, pulando para trás, à medida
que as pernas do jovem procuravam-nos inutilmente.
Cranston endireitou-se.
— Aí não há coisa nenhuma — ameaçou êle.
— Não — disse Lanfrey, reassumindo a sua atitude
ameaçadora. — Digo-lhe o que há na sola do seu sapato, Jay.
Há um pedaço de carapaça, um resto de caranguejo escarlate
no vão do salto. Eoi você quem pisou naquele caranguejo,
não foi?
Jay Cranston não respondeu. Levantou o pé direito e
descansou-o à beira da cama, voltando-o para verificar a
existência da prova afirmada. Raspou-a com a unha do
polegar e uma casquinha escarlate que tinha sido parte da
carapaça de Jemmy, o caranguejo escarlate, caiu no chão.
— Estou falando com você, Jay — insistiu asperamente o
capitão. — Você pisou em cima daquele caranguejo, no
camarote de Mrs. Gorell?
O rosto de Cranston empalideceu e o rapaz engoliu em seco.
Nos seus olhos escuros havia uma expressão transtornada.
Olhou para nós como se estivesse aterrorizado e procurasse
escapar aos seus algozes. Depois encarou Lanfrey e disse
numa voz rouca:
— Vou dizer. Mas não fui eu que matei a velha. Juro por
Deus que não. . .
— Vamos, diga duma vez — rosnou Lanfrey.
— Bom, eu estava com fome, não é? O sr. queria matar-me a
pão e água, e eu precisava comer alguma coisa. Foi por isso
que abri a porta tirando os pinos das dobradiças. Eu tinha
que comer alguma coisa. E então fui até a cozinha...
— A cozinha estava aberta quando você entrou?
— Estava, sim — respondeu Cranston, na defensiva.
— Continue.
— Então encontrei o que comer na geladeira, e comi
bastante, Fiquei sentado lá e fumei dois cigarros.
— E que fez depois?
— Voltei para o meu camarote, e quando passava aí pelo
corredor — indicou a sua porta com a cabeça — aquele
diabo de caranguejo apareceu atrás de mim. Tinha vindo
atrás de mim desde a cozinha. Então ele correu pela porta do
camarote de Mrs. Gorell.
— A porta estava aberta?
— Eu já disse que estava, não disse? — retorquiu Cranston
irritadamente.
— Estava aberta quando saíste daqui?
— Estava.
— E você não olhou para dentro.
— Não.
— Adiante — disse Lanfrey.
— Bom, fiquei diante da porta para ver onde é que o
caranguejo ia. As luzes estavam todas acesas. Eu pensava que
a velha podia ter-me ouvido sair do meu camarote e queria
falar com ela para ela não ir contar. Olhei para dentro e vi a
mulher toda ensanguentada. . . — Cranston fechou os olhos
como se quisesse afastar um quadro horrível.
— E depois?
— Pensei em voltar para o meu camarote e não dizer nada
do que eu tinha visto. Depois me lembrei que Starr tinha
procurado atrapalhar a minha vida. Para vingar-me, voltei à
cozinha, peguei a jaqueta dele, que estava lá, e a faca do
cozinheiro também. Voltei ao camarote, botei a jaqueta em
cima da cama e manchei a faca no sangue. Quando eu ia
saindo pisei em cima daquele raio de caranguejo que ainda
estava no quarto. Depois vim para cá e coloquei a porta no
lugar. Juro que esta é a pura verdade, tio Carlos. Sei que eu
não devia ter encrencado o Starr daquele jeito, mas o sr.
sabe como são as coisas quando a gente está com raiva de
um sujeito.
Jay Cranston parou de falar, e durante um longo instante
houve silêncio no camarote.
— Você é capaz de jurar isso no tribunal, Jay?
— Sim, sr. Vou jurar.
A medida que falava, a atitude de Jay Cranston tinha
abrandado: de atrevido e carrancudo, passara a um modo
mais franco e livre, na justa esperança de ser acreditado — o
que era visível em sua fisionomia. Agora era quase um
penitente. O capitão Lanfrey observou-lhe a mudança e foi
atingido por ela; sua voz foi menos áspera quando ele
replicou, quase sem rispidez, embora não deixasse dúvida de
que dominava a situação.
— Vamos recapitular um pouco, Jay — disse ele.
— Sim, senhor.
— Mrs. Gorell estava morta quando você entrou no
camarote dela, não é? E também diz você que voltou à
cozinha e trouxe a faca do cozinheiro?
— Sim, senhor.
— A faca estava limpa... tinha alguma mancha de sangue
quando você a tirou de perto do cepo?
— Estava limpa. Eu tinha cortado presunto com ela. Depois
limpei e botei no lugar. Foi quando eu estava cortando o
presunto que me lembrei de trazer a faca junto com a
jaqueta.
Ali estava uma coisa misteriosa. Mrs. Gorell tinha sido morta
a faca. A faca da cozinha fora, segundo se julgava, o
instrumento usado pelo assassino; mas agora já não mais era
considerada como a arma mortal.
— Bem... Jay... O pescoço de Mrs. Gorell estava cortado,
quando você a viu às três horas da manhã, não estava?
— Que dúvida... — fez Cranston com uma careta.
— Não compreendo. . . O assassino deve ter levado consigo
a faca que usou. Provavelmente atirou-a ao mar.
— Não, não atirou — disse Cranston.
— Não atirou? — repetiu o capitão.
— Não senhor. Estava em cima da cama. . .
— Onde é que está essa faca, agora? — perguntou Lanfrey.
— Está comigo — disse Cranston, levantou-se da cama e
dirigindo-se para o armário. — Eu ia atirá-la ao mar, mas as
ondas estavam passando por cima da vigia e não era possível
abrir.
— Não! — opôs-se Lanfrey enfaticamente. — Queremos
essa faca para prova.
Cranston voltou trazendo um pequeno bisturi de cabo
preto.
— Está aqui — disse ele, entregando-o ao capitão Lanfrey;
O capitão pegou com cuidado a lâmina manchada de sangue.
Sentindo que os cabelos se me arrepiavam, percebi o que
Lanfrey tinha nas mãos.
— De quem é isto? — perguntou ele, voltando-se. (Abri os
lábios para falar.) — Há um "B" gravado no cabo.
— esse bisturi é meu, capitão — disse eu, numa voz que
soava muito longe dos meus ouvidos. — Uso-o para tirar a
pele e dissecar pássaros... no laboratório.
Os olhos azuis do capitão Lanfrey estavam fixos nos meus.
Por um instante os seus lábios apertaram-se levemente,
depois separaram-se; o capitão abriu os lábios,, por fim, e
disse com humor sombrio:
— Bem, Benny, estás comigo na lista dos suspeitos.
— Mas... — comecei eu, mas ele me deteve com um gesto.
— Esquece-te disso. Eu estava brincando. O laboratório não
fica fechado. Qualquer pessoa de bordo pode entrar lá.
Quem planejava assassinar Mrs. Gorell naturalmente
preferiria usar a faca de outra pessoa. . .
— Obrigado, capitão, mas quero dizer o seguinte. . . quero
dizê-lo aqui em presença dos três como testemunhas. . . que
o fato de Cranston ter mostrado essa lâmina agora foi uma
completa surpresa para mim. Eu não matei Mrs. Gorell ...
— Claro que não — resmungou Rogers.
— Aliás, eu não tinha dado pela falta da faca. Desde que
deixamos a Santa Cruz, não tive nenhuma oportunidade de
me servir dela. Botei-a numa gaveta quando terminei de
preparar os últimos espécimes que apanhei na ilha.
— Bem... — e o capitão Lanfrey se pôs em pé. — Como já
disse, esquece-te disso, Benny. Não tens que explicar coisa
nenhuma.
Rogers e eu levantamo-nos também. Jay Cranston, quando
nos dirigíamos para a porta, procurou sair conosco. Diante
disto, Lanfrey voltou-se para o rapaz, dizendo firmemente:
— Você fica aqui.
— Não. Eu quero sair daqui.
Lanfrey virou-se para ele em atitude ameaçadora.
— Se for necessário, mandarei pôr correntes pelo lado
de fora da porta, para que você fique ai.
— Mas eu não matei a velha. . . — protestou Cranston.
— Você não foi acusado — retorquiu o capitão. Foi posto
aqui por outro motivo. O conselho que lhe dou é meditar
nas qualidades de um cavalheiro enquanto ficar aí. Quando
sair, nunca mais se aproxime de Mrs. Lanfrey: Você não
sabe coisa alguma a respeito das ações dela na noite em que
Quigley desapareceu pela borda, que eu já não saiba.
Lembre-se disto.
— Bem, mas quando é que vou sair daqui?
— Quando eu estiver disposto a soltá-lo.
Lanfrey bateu com a porta e torceu a chave, deixando
Cranston novamente encerrado. Caminhamos para a escada
que conduzia à ponte de comando. Ao pé dela, detivemo-
nos como se nos fôssemos separar. Rogers falou, dizendo:
— Carlos, eu gostaria de dar uma olhadela no diário de Mrs.
Gorell, se o tempo não te faz diferença. . .
— Venham os dois, rapazes; não tenho nada a fazer que seja
mais importante do que estudar esta coisa.
Na cabine do capitão, sentamo-nos novamente. Lanfrey
abriu uma gaveta do seu escritório e tirou o pequeno diário
encadernado em marroquim, segurando-o na mão por um
momento. Atirou-o depois a Rogers.
— Você é o literato de bordo, Hunt. Examina-o. Lê em voz
alta se quiseres. — O capitão serviu-se de um cigarro,
acendeu-o e recostou-se na cadeira, com os pés sobre o es-
critório.
Rogers esfregou pensativamente o nariz, assestou firme-
mente os óculos e apanhou o diário.
— Não tive tempo de examiná-lo, Carlos, quando Benny e
eu o encontramos no camarote de Mrs. Gorell, de maneira
que posso não entender bem e gaguejar um pouco.
— Lê. Não me importa a maneira por que leias, uma vez que
tu nos dês o suco da coisa.
Rogers folheou rapidamente as páginas, detendo-se aqui e
ali, e depois, continuando a folhear, observou;
— Bem, para começar, não há lá muita coisa. É uma livreta
relativamente nova. O início data de um mês atrás.
— Tanto melhor, disse Lanfrey.
— Bem... —; começou Rogers — aqui está o primeiro dia
depois da partida de San Pedro, onde diz: "No mar. O dr.
está muito satisfeito. Este navio é esplêndido. Muito luxuoso.
Conversei com Miss Wilmer. Gostei dela. O pequeno atrito
do dr. com Ardleigh ontem à noite já está esquecido, quanto
ao dr. Ele não guarda rancores. Joguei paciência de dois com
o dr. à noite. Fomos dormir.
— Aí não há muita coisa, Hunt. Continua — disse Lanfrey,
soprando uma nuvem de fumo por cima do escritório.
— Muito bem — disse Rogers, continuando a ler. — Dia
seguinte: No mar. John Quigley desapareceu pela borda
ontem à noite. Todos julgam que foi acidente. O capitão
Lanfrey fez uma investigação. Não dou muito por ele. A
morte de John resolverá o problema de Betty sem divórcio
no tribunal. O dr. trabalhou à noite no seu manuscrito.
— Quem é Betty? — perguntou Lanfrey.
— Segundo Miss Wilmer — respondi — é a filha de Mrs.
Gorell; estava separada de Quigley quando este morreu.
— É, agora me lembro — disse Lanfrey. — Continua, Hunt.
— Bem. . . Dia seguinte: "No mar. O dr. está preocupado
com alguma coisa. Não me disse o que é. Acho que ele
acredita que a morte de Quigley foi assassínio e não
acidente. Estou um pouco assustada. O dr. trabalhou no seu
precioso manuscrito na maior parte do dia. Jogo de paciência
a dois, de noite.
— Até agora, nada que já não saibamos — observei.
Lanfrey e Rogers não fizeram comentários.
— A data seguinte está em branco — prosseguiu este último
— exceto a notação "no mar". No dia seguinte: "No mar. O
dr. trabalhou muito na sua obra-prima, procurando afastar a
sua preocupação. Ele ainda não me disse o que é. Tenho a
impressão de que há qualquer coisa neste navio. Conversei
com Mr. Bartlett. Parece um rapaz sensato. Disse-me que a
morte de John foi acidente. Não acredito nisso. Deve haver
um assassino a bordo."
O capitão Lanfrey bateu a cinza do cigarro e disse com um
leve sorriso:
— Estás melhor do que eu, Benny. Mrs. Gorell disse que não
dava muito por mim, ao passo que você é um rapaz sensato.
Deves ter encantado a velha.
— Benny é muito simpático — concordou Rogers, piscando
um olho. Voltou ao diário, lendo rapidamente aqui e ali. —
Pura repetição do que já foi escrito — disse ele pouco
depois. — O dr. Gorell continuou a trabalhar no seu ma-
nuscrito e a preocupar-se com uma certa coisa, enquanto
que ela confessa estar assustada. Aqui está algo... um tanto
dramático: "Na Ilha de Santa Cruz, o dr. é assassinado."
Rogers levantou os olhos.
— Nada no dia seguinte — disse êle. Depois vem a última
página: "No mar. O navio dirige-se para o Panamá — para a
segurança. Não será tão cedo. Cada vez tenho mais medo do
capitão. O dr. Ardleigh visitou-me à tarde. Jantei no meu
camarote. Miss Wilmer visitou-me à noite."
— Eu já H isso para ti, Benny, no camarote dela... —
concluiu Rogers.
— Estou lembrado.
Lanfrey apagou o cigarro, apertando-o, e deitou-o no
cinzeiro.
— E isso é tudo que há aí? — perguntou ele.
— É. Não li todas as palavras. Saltei alguns dias. Mas todos
eram a mesma coisa, repetições de fatos semelhantes,
conforme observei.
— Deixa-me ver.
Lanfrey recebeu o diário das mãos de Rogers. Folheou as
páginas, por alguns momentos, seguindo com o grosso
indicador as linhas escritas; testa enrugada. Finalmente,
devolveu-o e serviu-se de outro cigarro. — Bem — disse ele,
depois de acendê-lo — não acho que isso possa auxiliar
nalguma coisa. Que pensam?
— É, não há grande coisa — respondi eu. Rogers não
replicou imediatamente. Por fim, descerrou os lábios,
dizendo:
— Não estou certo de concordar com vocês. Em todas as
datas Mrs. Gorell refere-se ao doutor mencionando um
manuscrito no qual ele trabalha. Chamou-o numa vez de
obra-prima. A palavra é hoje tanto arcaica, mas parece-me
que indica muito claramente como é que os dois Gorell o
consideravam. Devia ser alguma coisa importante para eles,
afinal de contas. . . E possivelmente para alguém mais.
— E onde está isso, Hunt? — perguntou o capitão.
— Não achamos nenhum manuscrito, não foi, Benny?
— Não, não achamos — respondi, procurando lembrar-me.
Lanfrey tomou a lista que fizéramos dos pertences dos
Gorell e correu o dedão pelas linhas.
— Aqui não está — disse ele.
— Estou bem certo de que não havia nada disso. . .
— E então, mais uma vez pergunto onde estará esse
manuscrito — disse Lanfrey.
— Acho que devemos procurar encontrá-lo. Pode ser
importante... Com efeito... estou pensando que... —
Rogers deteve-se, os seus olhos agrandaram-se. — Nossa Se-
irhora! deve ser.
— Deve ser o que? — perguntou Lanfrey.
— Correu na Universidade, durante um pouco tempo, que
Gorell estava trabalhando em algo grandioso. . .
— Em que?
— Ninguém sabe. Ele nunca o disse. Mas pode ser que ele o
trouxesse consigo nesta viagem. É exatamente a coisa que
precisamos para fazer muita luz sobre o que tem acontecido
neste navio. . .
Rogers deteve-se, olhando primeiro para Lanfrey, depois
para mim. Por um longo momento, ninguém disse palavra.
Lanfrey foi quem finalmente rompeu o silêncio, dizendo:
— Adiante, então. Tu e Benny podem tomar as medidas
que quiserem para descobrir esta coisa.
Descemos a escada para o tombadilho. Nuvens baixas e
longas corriam pelo céu; aqui e ali viam-se nesgas azuis. A
medida que avançamos em nosso rumo, o mar ia serenando.
O tombadilho já estava seco e, assim, fomos andar pelo
convés de popa, afim de tomar um pouco de ar antes de ata-
car o trabalho que tínhamos pela frente.
— Qual é o plano, Hunt? — perguntei eu.
— A primeira coisa da qual quero ficar certo é verificar se
não esquecemos o manuscrito que Gorell estava elaborando.
Se o manuscrito deve ter alguma significação, afinal de
contas, precisamos provar que ele não está no lugar em que
provavelmente deveria estar, que é o camarote. Se estiver lá,
perderá automaticamente qualquer significação que possa
ter.
— Não creio que nós o tenhamos esquecido.
— Não. Pelo menos nos lugares indicados. Não examinamos
nenhuma das malas em procura de fundos falsos.
Apanhamos coisas dobradas como camisas e colocamo-las
nas malas sem desdobrar. Os velhos poderiam ter posto em
lugar semelhante a coisa que procuramos.
— Compreendo.
Entramos no camarote, fechamos a porta e encerramo-nos.
Ligamos o ventilador, pois tudo estava fechado.
—- Então achas que a coisa é importante, Hunt? — disse eu,
tirando o casaco.
— Sim. Não em si mesma, mas para resolver estes crimes.
Começamos a trabalhar. Em primeiro lugar examinamos
minuciosamente a peça e o banheiro contíguo. Os quadros
das paredes foram retirados e as molduras abertas afim de
nos certificamos de que o misterioso manuscrito não se
achava escondido neles. Passamos depois ao tapete,
rasgando-o num canto que nos pareceu suspeito. Arrastamos
a mobília, tiramos todas as gavetas do armário e da
penteadeira. Tão completamente como o faria a polícia
secreta, reviramos tudo antes de examinar a bagagem.
— Benny, sabes que a velha estava com medo. Isto se acha
estabelecido — disse-me Rogers, solene. — É bem evidente
que ela e o doutor estimavam muitíssimo esse manuscrito,
fosse ele o que fosse. Se ela temesse que alguma coisa viesse
a acontecer ao manuscrito depois da morte do doutor, é bem
provável que o tenha escondido pelo tempo que durasse a
viagem até o Panamá. Ela dessa maneira se sentiria segura, se
quisesse sair um pouco do camarote.
— Se é assim, Hunt — disse eu, aborrecido — a coisa não
está aqui, a menos que a tenhamos deixado escapar quando
emalamos a bagagem.
Sentamo-nos um pouco, olhando para as malas reunidas no
centro do camarote e desejando tê-las revistado em primeiro
lugar.
— Vamos a isso — disse Rogers, levantando-se e volteando
num dedo o molho de chaves.
— Espero que tenhamos mais sorte.
— De que modo? Que é ter sorte neste caso, Benny?
— Verificar alguma coisa de positivo.
Trabalhamos uma hora, retirando tudo das malas,
examinando estas para ver se não tinham fundos falsos, e
depois tornamos a pôr tudo onde estava, examinando
meticulosamente cada objeto. Afinal, levantamo-nos com
um suspiro de alívio.
— Bem, descobrimos alguma coisa de positivo, Benny - disse
Rogers. — Isto é, descobrimos que o manuscrito não está
aqui. (Apanhou o casaco e enfiou-o vagarosamente, perdido
nos seus pensamentos.) Aqui estava um manuscrito a que a
mulher do autor chamava de obra-prima. Não há dúvida de
que ambos o guardavam ciumentamente. Ambas as pessoas
com maior interesse nele estão mortas... assassinadas. O
manuscrito desapareceu. Logo, Benny, estamos na pista de
algo importante. Pela primeira vez. . .
— Há um motivo, Hunt. . . novo.
— Sim, é isso mesmo. O manuscrito tinha valor e im-
portância para alguém mais além dos Gorell... e esse alguém
estava disposto ao assassinato afim de apoderar-se dele.
Ficamos no centro do camarote a olhar um para o outro.
Falei por fim, dizendo:
— E agora, Hunt, que fazemos?
Rogers consultou o relógio.
— Já quase passa da hora do jantar. Vamos comer alguma
coisa e depois falar novamente com Carlos.
Terminado o jantar, subimos para a ponte de comando pela
estreita escada interna. O capitão ocupava-se em escrever,
mas ao ver-nos, disse:
— Entrem. Que descobriram?
— Nada exatamente, Carlos — disse Rogers. Não des-
cobrimos nem o rastro do manuscrito mencionado por Mrs.
Gorell no seu diário. Pelo menos, no camarote.
— Esperavam encontrá-lo?
— Não. Francamente, eu não esperava. E o fato de que ele lá
não se encontra, creio, assume determinada importância.
Pelo menos, é preciso investigar. O manuscrito pode não
explicar coisa alguma, mas também pode levantar o véu de
toda esta sangrenta história.
— Assim o espero — disse Lànfrey, passando a mão na testa
como se tudo aquilo lhe pesasse. — Vou mandar procurar a
coisa. . .
— Não. Não faças isso! (Rogers ergueu vivamente a voz.) No
momento em que isso for determinado — disse ele em voz
mais baixa e confidencial — que haverá de mais fácil para o
ladrão. . . talvez assassino deva ser a palavra. . . do que atirar
a coisa pela borda? E então como ficaremos nós?
Completamente desnorteados.
— Creio que tens razão, Hunt. Não se fala mais nisso. Vamos
mantê-lo em segredo. Mas poderemos fazer o seguinte:
Quando chegarmos à Santa Cruz, poderemos reunir todos na
costa e dar uma busca nos seus aposentos enquanto eles
estiverem lá. É bem capaz que Jay Cranston tenha apanhado
a coisa quando estava arranjando maus momentos para Starr.
Ele tem o senso suficiente para calcular valores, isto é, a sua
espécie de valores, algo com que possa extorquir alguém sob
promessa de devolução. Isto é apenas uma idéia.
Durante alguns momentos continuamos a especular as
possibilidades, percebendo que em tal situação a coisa
representava uma dinamite e advertidos da maneira por que
ela poderia explodir, arrebatando a vida de uma pessoa
inocente. Uma idéia me ocorreu.
— Sem querer mudar muito de assunto, capitão — comecei
eu — há circunstância da qual nos esquecemos,
— Qual é, Benny?
— Alice Wilmer.
— Que fez ela?
— Trata-se do que ela disse. Esta manhã, por ocasião do
interrogatório, quando o sr. lhe perguntou a respeito da
conversa dela com Mrs. Gorell, ontem à noite.
— Que disse ela? Não me lembro.
— Meu Deus, Benny! — interpôs Rogers. — Lembro-me de
ter pensado que havia alguma coisa que precisava ser
detalhada. Mas quando Miss Wilmer disse que Carlos era
quem Mrs. Gorell julgava ser ò assassino, esqueci-me da
coisa. Era algo sobre o desentendimento entre o dr. Gorell e
Quigley, não era?
— Exatamente.
O capitão Lanfrey olhou para o seu relógio de pulso.
— Não é muito tarde. Acho que Miss Wilmer ainda não se
deitou. Vamos mandar chamá-la aqui e fazer-lhe algumas
perguntas.
— Vou buscá-la — disse eu, levantando-me.
O salão estava deserto, com excepção de Ardleigh, cuja
figura alta e magra achava-se metida numa poltrona. Ele
nem ao menos tirou os olhos do livro que lia quando abri a
porta e olhei para dentro. Desci ao camarote de Alice e bati
à porta, mas ninguém respondeu. Passei adiante e bati à
porta dos aposentos de Mrs. Lanfrey. Depois de um instante,
Mrs. Lanfrey abriu-a.
— Alô — disse "ela, que já não mostrava resto algum do
choque sofrido pela manhã.
— Estou à procura de Alice.
— Não está aqui, Benny. Esteve mas saiu há uns vinte
minutos. Há alguma coisa?
— Não. É o triunvirato da ponte que deseja interrogá-la.
— Talvez esteja no convés.
— Ela não devia andar sozinha. Vou ver. Muito obrigado.
Subi ao tombadilho. À amurada, num lugar escuro abrigado
do vento, descobri a moça que procurava.
— Por que tão solitária? — perguntei-lhe.
— Oh. . . Benny? — respondeu ela, sobressaltada.
— Sim. Escute aqui — repreendi-a — já houve demasiadas
tragédias a bordo. Estar aqui sozinha é correr perigo.
— Estou satisfeita por você ter-me encontrado — disse ela,
um tanto contrita.
— Queria ser encontrada?
— Sim, acho que queria.
—Sei...
— As idéias da gente de vez em quando ficam tão sombrias.
Eu queria estar só. Não pensei no perigo. Depois de dois
minutos aqui, comecei a desejar que você aparecesse e
viesse conversar comigo.
— Escute, você vai conversar conosco e seremos quatro.
— Quatro?
— Sim. O capitão, o professor Rogers, cu e você. Na cabine
do capitão, na ponte de comando.
— Mas. . . que há? — perguntou ela um tanto alarmada.
— Ora, Ora, nada disso! Não é nada de sério.
Mas os cães policiais estão latindo muito esta noite. O
capitão quer que você responda umas perguntas sobre o que
Mrs. Gorell lhe disse ontem à noite.
— Oh! — fez ela, afastando-se da amurada. — Muito bem.
Vamos.
Caminhamos ao longo do convés. A noite estava escura.
Aqui e ali, pelas nesgas das nuvens, espiavam as estrelas. O
navio estava definitivamente fora da tormenta, o mar tinha
serenado. Conduzi Alice pela escada da ponte de comando e
levei-a à pequena cabine onde Lanfrey e Rogers estavam à
nossa espera. Ambos se levantaram e o capitão ofereceu-lhe
uma cadeira.
— Espero que Benny não a tenha tirado da cama, Miss
Wilmer — disse o capitão a brincar.
— Não, capitão.
— Não se trata de grande coisa. (Lanfrey sentou-se). Um
cigarro? — e estendeu-lhe a cigarreira.
— Não. Agora não, capitão. Lanfrey olhou para a moça.
— O que queremos — começou ele — são mais alguns
detalhes sobre algo que a senhorita disse esta manhã, quando
fazíamos o interrogatório no salão. Benny lembrou-o não faz
muito. Hunt Roger e eu esquecemo-nos. . .
— Sobre que é, capitão? (A sua voz era bem nítida e
tranquila.)
— A senhorita disse qualquer coisa sobre Mrs. Gorell,
informando que ela lhe falou sobre os motivos do
desentendimento entre o dr. Gorell e John Quigley.
— Sim, disse. Mrs. Gorell falou bastante a esse respeito.
— Repita-nos o que lhe disse.
Alice, com a cabeça levemente curvada, esteve a pensar um
instante. A luz suave brilhava nos seus lindos cabelos,
dando-lhe um estranho tom de ouro. Desfez-se do
casaquinho que trazia por sobre os ombros e levantou os
olhos.
— É difícil de começar — disse ela. — Como sabem, uma
coisa puxa outra e dentro em pouco há uma conversação
sobre algum assunto que a gente não sabe como principiou.
— É assim mesmo — observou Rogers, acomodando-se
melhor na cadeira.
— De qualquer modo — continuou Alice — acho que a
princípio ela falou sobre a filha e Jack Quigley. Eles não se
davam bem; incompatibilidade de temperamento, ou coisa
semelhante. Acho que a moça era insípida, ao passo que
Jack tinha um temperamento artístico. . .
— Isso é um tanto estranho, não?... Refiro-me a Quigley —
atalhei. — Lembro-me de French ter dito que ele tinha uma
têmpera de cientista. Foi mais ou menos um pesquisador até
que deixou subitamente os seus estudos e entrou no cinema.
— Sim, eu sei — disse Alice Wilmer. — Mrs. Gorell falou
nisso. Jack não estava satisfeito com as suas pesquisas. Disse
ela que ele casou muito cedo com a sua filha Betty. O dr.
Gorell pensava que Jack iria fazer grandes coisas em matéria
de ciência, mas eles não se entenderam. Refiro-me à filha
dos Gorell e Jack; e quando eles começaram a brigar, o dr.
Gorell interveio e as coisas não puderam ser. consertadas.
Mas antes que isto chegasse a tal ponto, Jack tinha deixado a
Universidade, onde tinha uma cadeira, como instrutor,
livre-docente ou coisa parecida, e ido para Hollywood.
— Perfeitamente — disse Lanfrey.
Quanto a mim, senti-me desapontado diante do pouco que
Alice tinha para relatar.
— Mrs. Gorell — continuou ela — disse que Jack Quigley
tinha idéias brilhantes, mas não tinha a paciência necessária
para organizá-las cientificamente. Disse-me ela que o dr.
Gorell interessou-se muito por uma dessas idéias, e que eles
começaram a trabalhar nela, mas apenas tinham principiado,
Betty e Jack começaram a desentender-se, veio a desavença
em família e Jack deixou de trabalhar com o dr. Gorelf. . .
— Perfeitamente — disse Lanfrey, cerrando os olhos. E qual
era essa idéia na qual eles trabalhavam juntos?
— Não sei. Mrs. Gorell não me disse. Perguntei-lhe o que
era, mas ela começou com evasivas. Disse que era demasiado
técnico para que ela o explicasse, e que aquilo era seco como
poeira.
— Então a senhorita não sabe de que se tratava? — interveio
Rogers.
— Não, não sei. Lembro-me dela ter dito que o dr. Gorell
tinha grandes esperanças nesse trabalho. Disse-me também
que ele lhe dissera que aquilo o tornaria mais famoso do que
Charles Darwin com A Origem das Espécies.
— Mrs. Gorell disse isso, disse? — perguntou Rogers,
inclinando-se para a frente.
— Disse.
Recostamo-nos um pouco em nossas cadeiras. Os cintilantes
olhos azuis de Alice Wilmer buscavam-nos como para
inquirir a significação de suas palavras. Finalmente, disse o
capitão Lanfrey:
— Muito obrigado, Miss Wilmer, por ter vindo aqui.
— Tive o maior prazer, capitão, se foi para auxiliar nalguma
coisa.
— Muito obrigado. Mrs. Gorell disse-lhe mais alguma coisa?
Alice pensou um momento, e abanou lentamente a cabeça,
dizendo:
— Não, acho que não, capitão.
— Miss Wilmer — interrompeu Rogers — acho acon-
selhável que não diga a mais ninguém nada do que Mrs. Go-
rell lhe disse e que a senhorita acaba de repetir aqui. E por
obséquio, tenha a bondade de não dizer que esteve aqui na
ponte de comando esta noite.
— Não direi, professor, se acha que assim é melhor.
— É melhor, sim.
Alice Wilmer e eu caminhamos pelo convés, dirigindo-nos
para os lados da popa. Depois das fortes luzes da cabine do
capitão, a noite parecia muito escura. Nenhum de nós falou
sobre onde havíamos estado ou sobre do que disséramos.
Continuamos a andar, fazendo a volta do tombadilho, pela
proa.
— Vamos fazer um pouco de exercício? — convidei.
— Vamos, sim.
A sua mão entregou-se à minha; era suave, tépida e cheia de
vida. Fizemos três vezes a volta pelo convés e depois
paramos num lugar abrigado, junto à amurada.
— Você teria vindo nesta expedição, se soubesse que tantas
coisas terríveis iam acontecer? — perguntou-me ela.
— De certo que não. Ninguém teria vindo. Mas por que falar
nisso? Espero que chegará o tempo, em que olharemos para
trás. . . ou, melhor ainda, não nos lembraremos mais disto
do que de um pesadelo esquecido. Eu nunca lhe lembrarei
semelhante coisa quando algum dia for bater à sua porta em
Hollywood e perguntar se posso entrar.
— Você virá ver-me quando voltarmos? — perguntou-lhe
sofregamente.
— Você quer que eu vá?
— Oh! sim, quero, quero muito, Benny. . .
— Pois irei, Alice.
— Você ficou zangado comigo, há pouco, quando me
encontrou sozinha no convés?
— Não. Apenas um pouco assustado com o perigo que você
corria.
— Perdão.
— Quando alguém chega a ser precioso para a gente...
— E eu sou... (fez uma pausa para respirar)... preciosa para
você?
— Mais do que preciosa. No momento em que voei entrou a
bordo, em San Pedro, fiquei gostando de você.
As coisas às vezes acontecem com surpreendente rapidez;
foi só alguns momentos depois que notei ô beijo que lhe dei.
Quando eu a apertava nos braços, parecia-me que eu sempre
a conhecera e gostara dela. Disse-lhe isto, não uma senão
muitas vezes enquanto ela ficava nos meus braços. Depois
de um longo instante, ela sussurrou:
— Você gosta de mim mesmo. . . um pouquinho, gosta?
— Não, tolinha — respondi, um pouquinho, não. Gosto
muito, muitíssimo de você.
— Eu gosto de você — disse ela, suave, enfaticamente,
atirando-me os braços ao pescoço.
Quantas léguas de oceano equatorial o iate atravessou
enquanto ficamos a conversar baixinho, é o que não sei. De
um modo vago, eu tinha a noção de que uma sombra parecia
deslizar por nós em intervalos regulares, sem ruído, quase
fantasmal, à medida que fazia a volta ao convés.
— Quem é? — perguntou Alice, alarmando-se quando ergui
a cabeça por um momento a fim de olhar para a figura alta
que passava.
— Ardleigh — respondi.
— Deve ser bem tarde — disse ela, como que protestando
contra aquela intrusão.
— E é. Você vai descer agora para o seu camarote.
— Não podemos ficar um pouquinho mais, Benny?
— Não. Vamos — respondi, tomando-lhe firmemente a
mão e conduzindo-a até a escada de proa. Deixei-a diante do
seu camarote.
— Tenha sonhos bonitos.
— Ah! serão lindos, maravilhosos — replicou ela e es-
tendeu-me os lábios para um beijo de despedida. — Boa
noite, querido.
— Boa noite, Alice.
Afastei-me com a intenção de ir para o meu camarote, mas
os pés conduziram-me e tornei a subir a escada para o
tombadilho. Eu não tinha sono; achava-me subitamente
mergulhado em abismos de amor. Era transbordante; eu,
Benny Bartlett, a quem minha irmã Marjory tinha
energicamente procurado casar durante vários anos, estava
apaixonado. Depois de passada a primeira e perdida onda de
emoção, houve oportunidade para longos, demorados
pensamentos. O tempo nada queria dizer; tempo era coisa
que não havia. E sono tampouco.
Por quanto tempo fiquei encostado à amurada, num lugar
escuro, não o sei eu. Notava que Ardleigh ainda vagueava
pela coberta como um fantasma, incansável, obstina-
damente, como se algum grave problema o impelisse a
andar, andar sempre. Eu estava talvez a uns sete ou oito
metros afastado da sua órbita; o meu posto não era agora o
que eu tinha ocupado antes com Alice. Tenho certeza de
que Ardleigh ignorava a minha presença no tombadilho;
creio que ele pensava que eu tinha descido e não tornara a
subir.
Na última de suas inumeráveis voltas ele parou à amurada,
talvez a uns dez metros do lugar onde eu estava. Por muito
tempo ele parecia estar olhando para a escuridão do mar;
achava-se tão imóvel que era quase invisível na luz incerta
de uma distante lâmpada elétrica. O seu longo e continuado
passeio pelo convés havia despertado a minha curiosidade; a
sua atitude diante da amurada fez-me ficar alerta. Pensei em
falar com ele, mas um recôndito sentimento de cautela
impedia-me abrir os lábios.
'Finalmente, notei que ele tinha alguma coisa entre as mãos.
Era um objeto assaz volumoso que ele havia tirado do bolso.
Teve-o nas mãos por tempo que pareceu uma eternidade. A
luz escassa torturava-me os olhos, pois esforçando-me por
ver o que ia ele fazer, o seu vulto desaparecia à minha vista
atormentada e reaparecia novamente. Esfreguei os olhos e
fixei o olhar, mas assim fazendo quase perdi a significativa
ação que se seguiu.
De súbito percebi que êle não tinha mais o objeto nas mãos,
que se inclinava levemente para diante, como se estivesse a
fitar alguma coisa pela amurada. Instintivamente, inclinei-
me, procurando ver o que os olhos de Ardleigh deviam estar
a seguir. Lá em baixo, tudo era escuridão. Fiquei a olhar por
um longo momento, ao que me pareceu, de repente avistei
um objeto branco, oblongo, de tanianho regular; que brilhou
à altura de urna vigia. Por um instante ficou bem visível,
rodando lentamente, ao passar pela luz da vigia; depois
desapareceu. A imensa escuridão envolveu-o.
Um momento depois ouvi o ruído que ele fez ao cair à água.
Depois, silêncio. Levantei os olhos e vi Ardleigh deslizando
sem ruído pelo convés. A pasmosa significação daquele ato
não me ocorreu inteiramente em questão de momentos.
Que fora atirado à água? Por que motivo ele o atirara? Por
que razão pensara tanto antes de arremessar o envelope?
Agindo num impulso, pulei do meu esconderijo e saí atrás
dele pelo tombadilho. Não sei por que não lhe gritei alguma
coisa. Um obscuro intento de surpreender Ardleigh e exigir-
lhe que me dissesse o que havia feito apoderava-se de mim.
Quase antes de que eu o notasse, o ruído dos meus passos
sobressaltou-o e ele se pôs a correr como se fugisse da
morte. Acelerei o passo e quando cheguei à volta do convés
percebi que não o via mais. Para onde fora ele é o que eu
não sabia. Voltei cautelosamente, pensando que ele talvez se
tivesse metido nalgum canto enquanto eu passava por ele.
Havia lugares onde ele se poderia ter escondido, mas esses
lugares estavam vazios. Ardleigh escapara-me. Eu poderia
descer e ir bater violentamente à porta do seu camarote,
exigindo uma explicação. Mas a barulheira despertaria todo o
navio e de nada valeria, pois aquilo que Ardleigh jogara fora
achava-se fora do alcance humano.
Caminhei para a proa e subi a escada da ponte de comando.
Mr. Davis, o segundo piloto, estava de quarto; à roda do
leme, um marinheiro. Este e Davis olhavam para a escuridão
vazia que lhes ficava à frente. Voltaram-se surpreendidos
com a minha entrada.
— Alô, Mr. Bartlett — disse Davis. — Ainda está acordado a
esta hora?
— É verdade. Não podia dormir. Da mesma forma que mais
alguém de bordo.
— Mais alguém andava caminhando por aí?
— É... O dr. Ardleigh. (Pensei em dizer-lhe o que tinha
visto, mas concluí que era melhor não fazê-lo.)
- Desceu agora mesmo. Quando é que tornaremos à ver as
ilhas?
— Cerca das três horas, amanhã a tarde.
— Santa Cruz?
— Ordens do capitão.
— O sr. provavelmente tem bastante tempo para pensar,
Mr. Davis — observei eu. — Qual é a sua solução para esta
coisa... estes assassinatos, para falar francamente?
Ele assobiou baixinho, caminhou até o canto de estibordo e
voltou. Finalmente, disse:
— Não é ninguém da tripulação, Mr. Bartlett. Estou certo de
que não é. Auxiliei a interrogar os homens juntamente com
o capitão e Mr. Getty. E não andamos com panos quentes.
Cheguei a dizer ao capitão que, por amor de Deus, não fosse
tão severo ou teríamos um motim a bordo. Não, é entre os
passageiros que se deve procurar.
— E entre eles...?
Mr. Davis abanou a cabeça.
— Sou um marinheiro. Mr. Bartlett, não um detective. Se eu
tivesse uma solução bem calafetada, diria. Mas como não
tenho, não posso dizer nada.
— Sim, compreendo. A tormenta foi embora, não? —
perguntei eu para mudar de assunto.
— Oh, sim. Ao amanhecer haverá bom tempo. Essa
tormenta foi bem para o sul. Apanhamos apenas a cauda de
uma outra que passou bem ao norte.
— Bem — disse eu, levantando-me — acho que vou voltar
ao meu beliche e tratar de dormir. Boa noite, Mr. Davis.
— Boa noite, Mr. Bartlett — respondeu ele.
E desci a escadinha a refletir sobre o desassossego que o
amor causa num rapaz.
Quando eu caminhava para a escada de popa, cinco pancadas
soaram na sineta da ponte de comando. Eu não havia notado
que era tão tarde, embora começasse a sentir cansaço nos
músculos. O terrível dia que começara com a descoberta do
assassinato de Mrs. Gorell, o subseqüente interrogatório, a
longa busca no camarote da mulher assassinada, as diversas
conferências de que eu participara, o novo mistério
representado pela estranha ação de Ardleigh, e por fim
(o que era um princípio), a declaração de amor feita a uma
moça e a que ela me fez, tudo isso era bastante para derrear
o homem mais vigoroso.
Não obstante, eu avançava pelo tombadilho em movimentos
algo vigorosos, dirigindo-me para o meu camarote e para o
sono que me esperava. Passei pela porta que dava para a
escada de vante, detíve-me um instante, mudei de idéia e
continuei para a escada que levava à coberta da popa. Eu
estava mais habituado a esta última, além de que, por ali,
passaria diante da porta de Alice ao encaminhar-me para o
meu camarote.
Um estranho sentido advertiu-me subitamente de uma vaga
presença na minha proximidade, de um espírito maligno
saído para o mal ou mesmo para a morte. Esquivei-me de
repente, e esse movimento, breve como foi, salvou-me. A
seguir um golpe terrível atingiu-me a cabeça. Oscilei
estonteado, estendo as mãos para apoiar-me, mas
encontrando apenas o ar. A imensidão negra do mar e do
céu, o navio fracamente iluminado, o cheiro do ar salino,
tudo começou a rodar, a turvar-se, a misturar-se e eu caí
numa rápida e impenetrável inconsciência.
Mãos afofavam o meu travesseiro, pousavam-me de leve na
testa; outras mãos seguravam-me os pulsos, e um martelo
gigantesco com rítmica persistencia batia-me dentro do
crânio. Alguém disse judiciosamente, mas com infinita
bondade:
— Ele vai indo bem.
— Ficará bem bom, capitão? — perguntou tremulamente
uma voz que me era familiar.
—Sim, de certo, Miss Wilmer. Agora é melhor que a
senhorita vá descansar um pouco. Esteve em pé quase toda a
noite.
Alguém saiu do camarote, mas os vagos movimentos-
continuaram, ruídos de alguém a sentar-se, a mexer com os
pés. Pouco depois alguém observou em voz suficientemente
alta para que eu a ouvisse a-pesar-dos zumbidos que me
soavam no crânio:
— Não tenho a menor dúvida, Carlos, de que agora estamos
na pista certa. Se descobrirmos quem tirou o manuscrito de
Mrs. Gorell, descobriremos quem a matou, matou Quigley e
Gorell. . . e procurou dar cabo de Benny.
— Tens razão, Hunt. Mas quem foi? Esta é que é a grande
pergunta.
Algo dentro de mim impelia-me a falar. Movi os lábios mas
não houve som algum. Suspendí o meu esforço e refleti.
Como é que se dizia Ardleigh em voz alta? Ardleigh. Esse
era o nome. Ardleigh tinha jogado fora alguma coisa. Jogado
ao mar, pela borda. Um envelope. As vozes continuavam a
falar; era impossível; eu não podia dizer Ardleigh.
— A que distância estamos agora de Santa Cruz, Carlos? —
perguntou alguém.
— Acho que a umas cincoenta milhas. Por que?
— Não podíamos mudar o nosso rumo para a San Cristobal?
— Podíamos. Porquê?
Pareceu decorrer muito tempo antes que dissessem mais
alguma coisa, depois a palestra continuou.
— Vou dizer-te, Carlos. Estive refletindo em tudo nestas
horas que passamos aqui junto de Benny. É engraçado, mas
às vezes devemos obedecer os palpites. Acredito nisso.
Sentado aqui, comecei a lembrar-me do caranguejo
escarlate. Não posso deixar de pensar nele. . .
— No caranguejo escarlate?
— Sim, no caranguejo que tínhamos a bordo, e que foi
esmagado no camarote de Mrs. Gorell por Jay Cranston,
segundo ele próprio o disse.
— E então?
— O caranguejo lembrou-me a Santa Cruz e a Santa Cruz
lembrou-me Knutsen, o náufrago. Recordas-te de que ele
trouxe o caranguejo para a lancha no dia em que o dr. Gorell
foi morto?
— Sim, recordo-me, Hunt.
— Quero falar com Knutsen.
— Achas que ele sabe alguma coisa?
— Não sei. Talvez saiba. Mas há nesta coisa um ângulo do
qual ainda não investigamos. Eu gostaria de observar por
esse lado. Knutsen estava em terra naquele dia. Ele é o único
com quem não falamos. Ele pode saber alguma coisa. Não
quero atrapalhar-te, Carlos. . .
— Disseste que desejas falar com ele; isso resolve a questão.
Houve novos movimentos na peça. Fiz um esforço
extraordinário e o gigantesco martelo de dentro do meu
crânio bateu terrivelmente. Contudo, consegui pronunciar:
— Ardleigh.
Houve um momento de silêncio no camarote, embora isso
em nada diminuísse a inferneira que ia dentro da minha
cabeça.
— Que foi? — perguntou alguém. — Foi Bartlett quem
falou?
— Pensei que fosse.
Alguém se aproximou e pôs-me de leve a mão no rosto.
— Ardleigh — tornei a dizer.
— Que há com Ardleigh, Benny?
Tive que pensar um momento.
— Foi ele quem te atacou ontem à noite?
A pergunta confundiu-me, o martelo bateu mais forte
dentro do meu crânio.
— Ardleigh — repeti.
— Que há com Ardleigh, Benny? — perguntou-me alguém
lenta e precisamente.
— Atirou uma carta ao mar — respondi.
Houve silêncio novamente, depois de um longo instante,
alguém disse:
— Ele talvez esteja delirando um pouco, Hunt. Não tem
importância; está voltando a si. Não tem febre nenhuma; o
pulso está bom. Vou à ponte mudar o nosso rumo para a San
Cristobal. Provavelmente haverá tempo para encontrar esse
tal de Knutsen antes que seja noite cerrada.
— Muito bem, Carlos. Ficarei aqui com Benny.
— Sim, isso mesmo. Não vás sair sem fechar a porta a chave.
Quem quer que o tenha atacado ontem à noite, pode querer
terminar o que começou. . .
— Não penso deixá-lo sozinho. Ele pode vir a si dentro em
pouco, e talvez tenha a solução desta coisa. Ele ontem à
noite descobriu qualquer coisa que quase lhe custou a vida.
— Voltarei daqui a pouco.
— A porta abriu-se e fechou-se e tudo ficou tranquilo
novamente. Com o silêncio tornou-se mais leve a pancadaria
na minha cabeça. Acho que dormi um pouco. Vozes
acordaram-me. Senti-me bem melhor; a estranha e extática
sensação de voltar à vida e ao vigor corria-me pelas veias. As
vozes continuaram:
— Ele está bem, French •— disse uma delas que reconheci
como a de Huntoon Rogers.
— Alegro-me muitíssimo com isso. Vim só para saber como
ia ele. Bom sujeito, este Bartlett. Eu não gostaria de vê-lo
levar o fim que alguns de nós levaram. Não acho que ele
saiba quem foi que o atacou ontem à noite.
— Não. . — respondeu Rogers vagarosamente — duvido
que saiba.
— Quem foi que o encontrou, afinal? Quando foi isso?
— O vigia encontrou-o. Ouviu o golpe, disse ele, e correu
imediatamente. Eram mais ou menos duas e trinta.
— Não me demorarei mais, Rogers. Estava ansioso por saber
como ele ia. Foi uma sorte o vigia estar alerta. Do contrário,
Bartlett poderia ter sido atirado ao mar enquanto estava
desacordado.
— Sim, foi uma sorte, French. Até logo.
A porta fechou-se e o silêncio reinou novamente. Eu podia
ouvir a água a deslizar nos costados do navio; o
martelamento no meu crânio mudara-se em uma respeitável
dor de cabeça. Tornei a adormecer e dormi por muito,
muito tempo. Quando despertei as coisas não me pareceram
familiares. O navio não mais jogava às grandes ondas do
Pacífico; se avançava, era em águas tranquilas. As vigias
estavam inundadas de sol da tarde quando abri os olhos. Ao
pé de mim estava a figura familiar de Huntoon Rogers.
Esfregava pensativamente um lado do nariz.
— Está melhor, meu velho?
— Muito melhor — respondi, e para meu alívio notei que o
martelo havia cessado de bater.
— Escapaste por pouco, ontem à noite — observou êle com
um ar casual.
— Acho que sim.
— Tens alguma idéia sobre quem te atacou?
— Não.
— Hoje falaste um pouco, provavelmente deliravas.. .
— Não delirava, não — protestei. Eu simplesmente não
podia falar. Queria dizer-te o que aconteceu ontem à noite.
— Escuta, Benny. Não estou certo de que possas falar agora.
— Sinto-me bem — insisti. — Eu estava querendo falar-te
sobre Ardleigh.
— Que há com Ardleigh.
— Ele atirou um volumoso envelope ao mar, ontem à noite.
Vi-o quando passou pela luz de uma vigia. Ouvi quando caiu
ao mar. Era um envelope fechado. Rodava lentamente ao
cair. Ardleigh correu quando eu saí atrás dele. Lá no convés.
Ele não sabia que eu estava perto dele no escuro.
— Ardleigh! — disse Rogers. — Perseguiste-o então?
— Sim. Mas escapou-me. Meteu-se nalguma parte. Não
estou certo de que ele soubesse que era eu. Cheguei até a
ponte, demorei-me um pouco ali e depois comecei a voltar
para o meu camarote...
— E Ardleigh esperou-te e procurou matar-te?
— Não digo isso. Talvez fosse Ardleigh, talvez fosse algum
outro.
— Vou comunicar o que disseste ao Carlos. . .
— Onde estamos agora? O navio está parado, não está?
— Estamos ancorados em Wredk Bay outra vez. Ilha de San
Cristobal. Lançamos a âncora pouco antes de teres acordado.
(Sentou-se à beira da cama e baixou a voz.) Carlos e eu
vamos desembarcar dentro de poucos minutos. Queremos
falar com Knutsen.
— Talvez seja difícil encontrá-lo.
— Talvez. Não sabemos onde ele vive. Provavelmente em
Progresso, ou nalgum outro lugar do interior. Não há muitos
habitantes na San Cristobal, mas estou certo de que o
encontraremos.
— Ele sabe alguma coisa?
— Pode saber. Se souber, Benny, e se isso resolver estes
crimes, tu e eu podemos escrever a coisa em nossos livros
com o título de "O caranguejo escarlate"; porque durante
todo o dia estive constantemente a pensar naquele ca-
ranguejo. Era mais do que um simples palpite: era como uma
obsessão. Do caranguejo passei para Knutsen. Eu já disse que
o caranguejo absolutamente não tinha significação como
indício; com efeito, não é um indício, é mais ou menos
como um dedo a indicar o caminho, como o elo de uma
cadeia... se — e acentuou este "se" — se Knutsen souber
alguma coisa. Isso me impressionou de tal forma esta ma-
nhã, que pedi a Carlos para mudar de rumo da Santa Cruz
para a San Cristobal.
— Caranguejo ou não, Hunt, não podemos mais continuar
assim. Não quero outra pancada destas na cabeça. . .
— Eu tampouco, nem pessoa alguma. Mas... não sou um
otimista. Quanto a Knutsen. É apenas uma chance. Se Gorell
foi assassinado, nada temos para prová-lo. Qual é a
probabilidade de impressões digitais do assassino numa lasca
de rocha de lava? Porque foi provavelmente assim que
Gorell morreu. Knutsen nada sabe a respeito dos dois outros
crimes; ele nem estava a bordo quando estes foram
cometidos. De forma que a probabilidade é bem pequena
...
— Achas que podia ter sido Ardleigh? — perguntei.
— Talvez. Ele sempre contou uma história correta; nunca
pareceu ser o provável assassino. Contudo, Benny, este
assunto do envelope é mau. Provavelmente era o ma-
nuscrito que procurávamos. Ele poderia ter notado que nós
estávamos na pista certa, e atirado a coisa ao mar. Se o ca-
pitão apertar com o homem, talvez isso nos poupe o traba-
lho de encontrar Knutsen. Vou dizer a ele. Be... — O ruído
da porta interrompeu-o. Aí está ela... estive procurando Miss
Wilmer. Ela prometeu ficar aqui contigo enquanto nós
estivermos em terra. Até logo, Benny.
A porta fechou-se atrás dele. Eu sentia outra presença no
camarote. — Benny? — disse uma voz suave. — Estás bem,
querido?
— Estou, minha querida — respondi, e a seguir os seus
braços estreitavam-me o pescoço e os seus lábios tocavam
nos meus.
A luz do dia esmaeceu nas vigias; o crepúsculo tropical caiu
rapidamente. A bordo havia um ar de expectativa que
chegava até o camarote onde Alice e eu estávamos. Ruídos
de passos pelo tombadilho, lá em cima, vozes ocasionais,
portas que se abriam e fechavam no corredor.
— Não vês nenhum deles ainda, Alice? — perguntei-lhe eu.
Alice foi à vigia de onde podia avistar a lancha que esperava
na praia a volta do capitão Lanfrey e Huntoon Rogers. Era a
quinta ou sexta vez que eu lhe perguntava tal coisa.
— Não, querido. A lancha ainda está parada.
Fez-se escuro e Alice acendeu as luzes. Chamou Starr e
quando este veio consultou-o sobre o jantar. -— Vamos
comer aqui Starr — disse ela.
— Sim, senhora. O jantar regular.
— Sim. Mr. Bartlett disse há pouco que estava com fome.
Achas que podes comer normalmente, Benny? — disse ela,
voltando-se para mim.
— Por que não? Tenho uma fome enorme. Traga o jantar,
Starr, e veremos.
— Sim, senhor.
— O capitão e o professor Rogers ainda não voltaram?
— perguntei.
— Não, senhor. Não faz muito, a lancha ainda estava na
praia. Provavelmente estão atrasados no que estiverem
fazendo. O sr. me desculpe, Mr. Bartlett — ajuntou Starr
com mostras de ousadia — mas o sr. não tem nenhuma idéia
sobre quem foi que o atacou ontem à noite?
— Não, Starr.
— Esse que trouxe todas estas dificuldades é bem esperto,
Mr. Bartlett, não há dúvida. Ouvi o vigia dar o alarma ontem
à noite, levantei-me e ajudei-o a trazer o senhor para cá.
Depois dei uma busca pelo navio, Mrs. Bartlett, para ver se
encontrava o criminoso.
— Muito obrigado, Starr. Eu não sabia quem era que me
havia trazido para cá.
— Sim, senhor; fui eu e Morton, o vigia, e Mr. Davis. Mr.
Davis chamou o capitão e começaram a tratar do senhor.
— Muito obrigado, Starr. E agora veja se nos arranja alguma
coisa para comer e terá os nossos agradecimentos.
— Sim, senhor. Servirei aqui primeiro, antes de bater a sineta
para o jantar no salão. Ernest desembarcou com o capitão
Lanfrey e Mr. Rogers.
O criado retirou-se e Alice puxou uma mesa para junto da
cama.
— Por favor, querida, põe a mesa sob a luz, naquele canto.
Vou levantar-me e vestir-me... se você quiser atirar-me
aquele robe-de-chambre que estava em cima dessa cadeira.
— Achas que podes levantar, Benny? — perguntou ela
ansiosamente.
— Sim. Sinto-me perfeitamente bem. Esta atadura na minha
cabeça não é nenhum enfeite, irias ficará onde está.
Fui ao banheiro e lavei-me com quanta água podia sair da
torneira. Olhei deploravelmente para a minha barba, cres-
cida, mas decidi usar das prerrogativas de um enfermo e não
me barbeei. Vesti-me e voltei. Starr e Alice serviam um
jantar que me fez vir água na boca.
— Ao nosso primeiro jantar a sós — disse ela, segurando um
copo de vinho.
— E aos incontáveis jantares nas mesmas condições para
todo o sempre — respondi.
— Estás tão engraçado com a cabeça amarrada —— disse ela
a sorrir.
— Não me incomodes, criatura. Preciso comer. Caímos
sobre o jantar, e a cada bocado parecia-me adquirir força
renovada. Quando terminávamos a sobremesa, ouvi ò ruído
de um bote no costado do navio.
— Que é isso? — perguntou Alice.
— Provavelmente é Lanfrey e Rogers que voltam. Poucos
momentos depois bateram à porta e Alice abriu.
Era Rogers.
— Muito bem! Alegro-me em ver isto. (Entrou e fechou a
porta.) Estou mesmo muito satisfeito em ver isto, Benny.
— Obrigado, Hunt. Teve sorte?
— Nenhuma — fez ele, sacudindo a cabeça.
— Conta-nos o que houve.
— Nada houve para contar. Simplesmente não encontramos
o homem. Está nalgum lugar da ilha... pelo menos, assim
acreditam. Contudo, há uma possibilidade de que tenha
saído nalgum outro cruzeiro de pesca...
— Para encontrar novamente o destino de um náufrago?
Hunt abanou a cabeça.
— É possível. Mas deixamos o governador à procura dele. O
homem disse que vai saber se Knutsen embarcou mesmo. Se
estiver na ilha, vai trazê-lo. aqui esta noite. A propósito —
continuou ele — Carlos quer saber se poderás estar presente
a uma reunião no salão. Se não puderes, a reunião será aqui
no. camarote. Ele disse que, se não estiveres em condições,
adiará até que estejas.
— Irei ao salão. A que horas?
— Logo depois de jantarmos alguma coisa.
— Qual é o assunto, desta vez?
— Oh. . . Um interrogatório sobre o que te aconteceu
ontem. Vejo-te depois. Mais ou menos às oito horas, no
salão.
— Muito bem.
Alice Wilmer olhou para mim, através da mesa, com certa
ansiedade nas suas lindas feições.
— Que achas que vá acontecer? — perguntou-me ela.
— Nada — respondi. — Parece que não descobriremos
nada. Knutsen não saberá coisa alguma, mesmo que o en-
contrem. Como é que poderá saber?
Às oito horas Alice e eu entramos juntos no salão
escolhemos um lugar confortável no divã. Mrs. Lanfrey
chegou um instante depois e perguntou como eu estava.
— Otimamente — respondi.
— E. . . — começou ela — vocês dois parecem muito felizes
com alguma coisa. Não sei, Benny, se a sua irmãzinha lá em
San Marino não terá... não ficará muito satisfeita com alguma
coisa...
— Precisamente — respondi. — Quando eu lhe disser, ela é
capaz de desmaiar.
— Parabéns — disse ela, com um sorriso no seu rosto
aristocrático; e você, minha cara — voltou-se para Alice —
o seu rosto positivamente não pode esconder a sua
felicidade. (Inclinou-se e beijou-a.) Façam-me lugar, quero
sentar junto de vocês.
A figura alta de French entrou no salão. Olhou em volta, fez
uma curvatura e sentou-se.
— Alegro-me em vê-lo aqui, Bartlett — disse-me ele.
— Muito obrigado, French.
Huntoon Rogers entrou, seguido logo após pelo capitão
Lanfrey; Starr vinha com êle, e atrás Jay Cranston e Ernest.
Mr. Getty entrou e sentou-se junto à porta, e dentro em
pouco seguiu-se Mr. Davis, o segundo piloto.
— Estão todos aqui? — perguntou Lanfrey, olhando para
nós.
— O dr. Ardkigh ainda não veio — disse Rogers.
— Onde está ele — perguntou Lanfrey.
— Aqui. Ouvi mencionar o meu nome, capitão? A figura alta
e magra de Ardleigh aparecia à porta.
— Entre, doutor. Sente-se.
Lanfrey indicou-lhe uma cadeira próxima. Ardleigh sentou-
se, cruzou os braços sobre o peito e enganchou nervo-
samente um pé na perna da cadeira.
Durante um momento houve silêncio. Nenhum som do
navio nem dos que estávamos reunidos no salão. Finalmen-
te, Lanfrey descerrou os lábios.
—Pedi a todos que viessem aqui esta noite — disse ele com
ar casual. — Parece que é melhor falarmos sobre algumas
coisas que nos interessam a todos. Outro companheiro nosso
foi atacado ontem à noite por um assaltante ignorado... sem
dúvida pelo assaltante ignorado que foi o causador de tantas
tragédias que tivemos de sofrer. Felizmente, além de uma
forte contusão na cabeça, Mr. Bartlett nada mais sofreu; com
efeito, restabeleceu-se mais rapidamente do que eu esperava
quando o examinei esta manhã. Mr. Bartlett — disse o
capitão, voltando-se para mim — eu não tive oportunidade
de conversar com o sr. Quer ter a bondade de responder
umas poucas perguntas agora?
— Certamente, capitão. Às suas ordens.
— Onde esteve e para onde ia ontem à noite quando foi
atacado?
— Estive na ponte, capitão, conversando com Mr. Davis. Eu
não tinha sono e estivera um tempo considerável no
tombadilho, antes de chegar até a ponte. Concluí finalmente
que devia ir para a cama, desci da ponte e caminhava para a
popa, por bombordo, dirigindo-me para o meu camarote,
quando algo me bateu na cabeça. Quase nem o percebi;
experimentei uma sensação súbita de que ia acontecer
alguma coisa. Esquivei-me ou tentei fazê-lo, e isso é tudo
que sei.
— Que horas eram?
— Acabavam de bater as cinco.
— Peço-lhe que retroceda para uma hora antes, no
tombadilho.
Percebi diante desta pergunta que Lanfrey tinha falado com
Rogers quanto às estranhas ações do dr. Ardleigh. Relanceei
os olhos para o velho geólogo. Continuava sentado, braços
cruzados sobre o peito, com os seus delgados lábios de
tartaruga bem apertados, com o nariz em gancho
nitidamente destacado pela luz da lâmpada que ficava atrás
dele.
— Diga-nos o que aconteceu.
— Miss Wilmer e eu estivemos conversando no convés por
algum tempo — comecei eu. Depois, conduzí-a até o seu
camarote e voltei ao tombadilho.
— Viu mais alguém lá?
— Sim, havia outra pessoa que ainda estava a caminhar. Era
bem tarde. Não me lembro da hora, mas fiquei encostado à
amurada, num lugar escuro, e êle continuou a andar de cá
para lá. Finalmente, deteve-se diante da amurada, não muito
longe de mim, e poucos instantes depois tirou alguma coisa
do bolso e atirou-a ao mar.
— Que era?
— Era um envelope grande, muito grosso e volumoso.
Estava fechado. Vi-o à luz de uma das vigias. Ouvi quando
caía à água. Levantei os olhos e vi que a referida pessoa se
retirava. Comecei a perseguí-la. Ela começou a correr. Corri
atrás, mas ela me enganou e escapou-se.
Terminei no meio de profundo silêncio. Durante um
momento ninguém se mexeu. Depois French inclinou-se
para a frente e apanhou um cigarro da caixa que estava ao
seu lado. Riscou um fósforo e levou-o ao cigarro antes que
alguém falasse.
— Quem era essa pessoa, Bartlett? — perguntou o capitão.
— O dr. Ardleigh — respondi.
Houve um movimento entre os que não estavam ao par do
segredo. Ardleigh não moveu um único músculo; o seu
rosto, que era murcho como uma maçã que começa a secar,
permaneceu com uma sombria máscara de um réptil;
continuou de braços cruzados sobre o peito. No silêncio que
se prolongava, percebemos afinal que os olhos de Lanfrey
estavam fixos em Ardleigh.
— Que havia nesse envelope, dr. Ardleigh? — perguntou
finalmente o capitão.
— Não sei — respondeu o velho geólogo, devolvendo o
olhar fixo do capitão e falando na sua maneira professoral.
— Por que é que o atirou ao mar?
— Pediram-me que assim o fizesse.
— Quem?
— Mrs. Gorell.
Durante um longo instante, em silêncio, olhamos para
Ardleigh; depois o capitão Lanfrey falou um tanto
asperamente.
—- Mais detalhes. Por que é que ela lhe deu o envelope?
Que havia nele? Por que motivo ela desejava destruí-lo?
Ardleigh considerou a múltipla pergunta que o capitão lhe
fizera. Umedeceu os lábios e subitamente pareceu voltar à
vida.
— Digo-lhe. Toda esta pasmosa coisa. Cheguei a suspeitar o
que estava no envelope. Lutei comigo antes de finalmente
executar os desejos de Mrs. Gorell. Declarei no
interrogatório da manhã de ontem que estivera com Mrs.
Gorell no seu camarote, na tarde do dia anterior. Gorell e eu
não éramos amigos, mas não podia fazer coisa mais decente
do que visitar-lhe a viúva. Durante a conversação ela tirou
um envelope fechado que estava na sua valise e deu-me.
Disse ela: "Dr. Ardleigh. Quero que o sr. faça uma coisa para
mim. Cuide disto até chegarmos ao Panamá. Não diga a
ninguém que isto está consigo. Quando chegarmos ao Pana-
má, devolva-me. No caso de que eu não chegue lá com vida,
o sr. tem ordem estrita para destruí-lo sem abrir. Deve jurar-
me que fará isso. O sr. é o único homem em quem posso
confiar neste navio. Ninguém suspeitará que eu lhe confiei
isto porque o sr. e meu marido não eram amigos."
A voz de Ardleigh deteve-se por um momento. Tirou a
perna que tinha enganchado na cadeira, e olhou pelo salão
com ar casual e continuou:
— Foi uma luta tremenda. Por isso é que Bartlett me viu a
caminhar pelo convés, ontem à noite. Eu não podia decidir-
me. Gorell era um gênio. Dou-lhe o que lhe é devido. Era
um cientista de coração, embora às vezes o seu mau-humor
obscurecesse este fato. O que para os outros poderia parecer
desejo de engrandecimento pessoal, era, estou certo, apenas
uma precaução extraordinária para certificar-se de que estava
certo antes de publicar as suas descobertas. Era como um
cão de guarda a defender o que era seu até poder oferecê-lo
ao mundo.
— Digo que quero ser justo com Gorell — prosseguiu ele. —
Percebo que lhe fiz um grande mal. Agora estou certo de
que a sua esposa nunca deveria ter-me pedido que destruísse
a obra dele. Censuro-a em primeiro lugar, e depois a mim
mesmo. A ética da ciência nunca significou coisa alguma
para Clara Gorell, ela vivia num mundinho egoísta e seu.
Mas o juramento que se presta... dou-vos a minha palavra de
que, quando ela me fez jurar que eu destruiria o envelope,
não suspeitava eu a natureza do seu conteúdo. Contudo,
agora que a obra de Gorell está perdida, tenho a certeza de
que naquele envelope estava revelado o mecanismo de
adaptação das espécies. Estou certo de que era nisso que ele
estava a trabalhar.
— Como disse, a luta foi tremenda. Estive a lutar com o
problema durante horas. Afinal, dominado pela fadiga física
e mental, fraquejei... — Ardleigh interrompeu-se
bruscamente.
— Você me assustou, Benny — disse ele prosaicamente —-
ontem à noite quando eu ouvi os seus passos a correr atrás
de mim. Pensei que estivesse sozinho. Eu não sabia quem
era que me seguia. Entrei na porta do salão. Foi por isso que
você não me encontrou.
Ardleigh tinha terminado de falar. Humedeceu os lábios de
quelônio e continuou a olhar para o capitão.
—Muito obrigado, doutor — disse por fim o capitão. — O
sr. de maneira nenhuma atacou Bartlett?
— Não, Deus do céu! — exclamou Ardleigh com os olhos
cinzento-esverdeados fixos em Lanfrey. — Fui para cama
depois. Estava cansado, exausto.
O capitão Lanfrey apanhou um cigarro. Houve um certo
movimento no salão, gestos, cigarros que se acendiam.
Depois disto, Lanfrey cruzou as pernas e tirou uma longa
baforada do cigarro.
— Isso mais ou menos explica certas coisas — disse ele com
ar de despreocupação — mas quero retroceder até a morte
do dr. Gorell na ilha de Santa Cruz. Estavas em terra,
naquele dia, não é verdade, Ardleigh?
— Não irei negá-lo.
— Quando vieste para o lanch, chegaste da direção geral
onde foi encontrado o corpo do dr. Gorell.
— Pode ter sido — respondeu o geólogo, com um tom de
ressentimento na voz; os seus olhos começavam a brilhar
perigosamente.
— Bem, então... — principiou Lanfrey.
— Então não vá acusar-me do assassinato de Gorell —
exclamou Ardleigh acaloradamente, apontando um dedo
comprido para o capitão. — Admiti que não era amigo dele,
mas a minha inimizade não chegava até o assassínio. . .
— Bem. . . — Lanfrey olhou pelo círculo de pessoas como se
estivesse aturdido..
Nesse momento houve um ligeiro reboliço na porta do
salão. Os olhos do grupo seguiram os do capitão Lanfrey e
vimos a melancólica figura do governador das ilhas, e atrás
dele, alto, queimado do sol, Knutsen, o náufrago. Lanfrey
saltou da cadeira e foi recebê-los.
— Muito obrigado, sr. governador, muito obrigado. . .
— É um grande prazer, capitão — respondeu o governador
no seu inglês vagaroso. — Eu lhe disse que se Chris Knutsen
estivesse na ilha eu o traria aqui. — Terminou com um gesto
de quem nos oferecia o norueguês a guisa de holocausto.
— Muito obrigado. É só uma ou duas perguntas que
desejamos fazer-lhe. Estávamos aqui — explicou Lanfrey —
discutindo alguns aspectos das nossas dificuldades,
governador; esperando resolver o mistério de vários crimes
que amaldiçoaram este navio. Não sei o que possa caber
Knutsen. As suas respostas, quando nós o interrogarmos,
poderão ter grande significação; por outro lado, podem não
servir para nada. Mas fico-lhe profundamente grato, sr.
governador, pelo incômodo que se deu em trazê-lo aqui...
- É um prazer, capitão Lanfrey — disse o governador,
curvando-se.
— Sentem-se, por favor — pediu Lanfrey, indicando-lhes as
cadeiras.
Enquanto os dois tomavam assento, Rogers chegou-se a
mim, inclinou-se e cochichou-me tão de leve ao ouvido que
mal pude escutar:
— E se Ardleigh é o assassino? — disse ele. — O envelope
atirado ao mar poderia ser um outro, e ele poderia ter
guardado o verdadeiro.
Rogers voltou para a sua poltrona e eu inclinei a cabeça para
ele. A idéia que me confiara era assustadora. O dr. Ardleigh
teria sido o sinistro herói de toda aquela história? Comecei a
sentir-me inquieto ao pensar nas possibilidades, quando de
repente a voz de Lanfrey interrompeu as minhas
conjecturas.
— Hunt -— disse ele com ar casual. — Eu gostaria que
resumisses brevemente as coisas a fim de que o governador
saiba onde estamos.
— Muito bem, Carlos — respondeu Rogers, afundando-se na
poltrona e descansando os cotovelos nos braços e unindo as
pontas dos dedos diante dos olhos. — Serei o mais breve
possível. Em primeiro lugar, perdemos John Quigley, o
nosso fotógrafo, desaparecido pela borda. Durante vários
dias pareceu tratar-se de um acidente, depois chegamos à
conclusão de que não poderia ter sido outra coisa senão
assassinato. O dr. Gorell morreu na ilha de Santa Cruz.
Novamente, pareceu tratar-se de um acidente, embora
sejamos agora forçados a concluir que também foi assassínio.
Depois Mrs. Gorell foi assassinada brutalmente no seu
camarote, quando rumávamos para o Panamá.
— Acontece o seguinte: — continuou Rogers. — O dr.
Gorell e Mrs. Gorell eram marido e mulher; John Qui-gley
era genro deles. Não há muito tempo, John Quigley
trabalhou como pesquisador na Universidade. Ele e o dr.
Gorell estavam a trabalhar num problema. Tiveram uma
briga e separaram-se. O dr. Gorell continuou a trabalhar no
que evidentemente considerava a sua obra-prima. Trouxe-a
consigo nesta viagem para dar-lhe os retoques finais.
Todavia, tendo alguém descoberto o que Gorell estava
fazendo, embarcou conosco em San Pedro e resolvido a
cometer uma série de assassinatos, a fim de eliminar as três
pessoas que tinham conhecimento da obra de Gorell, e
assim colher os louros do trabalho de Gorell.
— Ora, isto é uma hipótese; com efeito, é o motivo dos
crimes. Até ontem tinha sido impossível descobrir um
motivo que explicasse estes três assassinatos; mas agora tudo
se encaixa nisso. É a única explicação para uma série de
mortes entre nós. O criminoso foi bem inteligente. . .
— Perfeitamente resumido — interrompeu Lanfrey. —
Acho que agora estamos chegando a alguma parte. Mas con-
tinua, Hunt; podes fazer as perguntas.
Houve um momento de silêncio, depois Rogers afastou os
dedos da frente dos olhos, endireitou-se na sua poltrona e
relanceou os olhos pela roda.
— Muito bem, Carlos — disse ele. E de súbito, voltou-se
para o velho geólogo, perguntando um tanto asperamente:
— Ardleigh, onde esteve na manhã em que Gorell foi
morto?
Os olhos de Ardleigh mais uma vez brilharam com
ressentimento. Mordeu os lábios.
— Estive no interior da ilha — retrucou ele. Segui pelas
colinas de lava. O trabalho era duro, fiquei com fome. Pelos
onze horas voltei para a praia afim de almoçar.
— Obrigado, Ardleigh. E, Benny — os olhos de Rogers
buscaram os meus — tu também estava em terra nesse dia,
não é verdade?
— É.
— E tu, Carlos?
— Também, Hunt.
— Jay Cranston?
— Estava; sim, senhor.
— Starr?
— Também.
Huntoon Rogers deteve-se; depois de um momento, ajun-
tou:
— Eu também estava em terra. Todos aqui, praticamente,
excepto French, estavam em terra. French fora da praia, na
água, durante toda a manhã. Eu o vi. Tu o viste, Carlos. Nós
todos o vimos. Parte do tempo, ao longo da costa; outra
parte, muito ao largo, file não precisa de um álibi. Não é
assim, French?
— Uma correção — disse French a sorrir: — esse é o meu
álibi.
— Mas Ardleigh... — Rogers voltou-se novamente para o
geólogo. Os dois se entreolharam demoradamente. Vi os
lábios quelônios do meu velho professor tremerem de emo-
ção suspensa. Durante uns tensos dez segundos, ambos se
olharam fixamente; depois os olhos de Rogers voltaram-se
para Ernest, que esperava no fundo do salão.
— Ernest — disse ele — pergunte a Knutsen que é que ele
esteve fazendo em terra naquela manhã. Na manhã em que
o dr. Gorell foi morto. Onde estava ele? Que fazer?
O rapaz fez a pergunta ao norueguês. O homem participava
da reunião, sem jeito, sentado à beira de uma poltrona.
Diante da pergunta que lhe fez Ernest, começou a falar. A
medida que o som da língua estrangeira enchia o salão
silencioso, a expectativa tornou-se quase intolerável. De
súbito, ocorreu-me que naquelas palavras estava selado o
destino de um de nós.
— Ele diz — Ernest endireitou-se, olhando para Rogers —
diz que foi até a praia para pegar um caranguejo escaríate
que fizera amizade com ele enquanto ele estava sozinho na
ilha, afim de levá-lo para Miss Wilmer. Enquanto ele estava
na praia, o dr. French remou até junto dele e pediu-lhe que
desse umas voltas no barco por um momento. Pediu-lhe por
meio de sinais. Ele não sabe para que. Remou mais ou
menos meia hora enquanto o dr. French entrava sosinho na
ilha. . .
De repente, um assombroso clamor rompeu no salão. O
capitão Lanfrey saltou da cadeira, e Rogers também.
— French! — gritou Lanfrey numa voz estranha. Por um
instante, French ficou aturdido onde estava; umedecia com
a língua os lábios secos.
— É mentira — disse êle numa voz rouca, mas era evidente
que não esperava ser acreditado. No momento seguinte o
seu corpo fino esgueirou-se da cadeira e ele saltou para a
porta num doido esforço por escapar para a costa da ilha de
San Cristobal e fugir para a região deshabitada. Mas Starr, no
limiar da porta, subitamente descarregou o punho. O ruído
soou-nos ao ouvido como um trovão, e o corpo de French,
com os braços soltos, foi catapultado para o meio do salão,
abatendo-se por uma cadeira e rolando aos nossos pés.
O capitão Carlos Lanfrey relanceou os olhos pelas folhas
datilografadas que Rogers lhe trouxera, deixando-as depois
sobre a mesa. Meditando, apanhou uma carteira de cigarros,
tirou um, bateu-o vagarosamente contra o pulso grosso e por
fim acendeu-o. O iate jogava suavemente às longas ondas do
mar largo. Para um certo lado, no nevoeiro, bem a
estibordo, estava a litoral do México.
— Estou satisfeito, Hunt, com o teu trabalho em induzir
French a escrever tudo. Ah, seu Sherlock Rogers. . . ajuntou
ele a sorrir.
— Não, não sou — protestou Rogers. — Não sou nenhum
detective. Sou professor de inglês, mas isso não é razão para
não empregar um pouco a matéria cinzenta.
— Nunca pensaste seriamente em Starr como sendo o
criminoso, não, Hunt? — perguntei-lhe eu.
— Seriamente, nunca pensei em Cranston, Benny. O rapaz
nunca me pareceu preencher o papel de um super
criminoso. Mas Starr era diferente. A sua oportunidade era
excelente, por exemplo, quando levou o whisky para
Quigley aquela hora da noite. O motivo era suficiente: jogo,
a perda de suas economias, a acusação sobre dados
chumbados e briga que se seguiu. Ele pôde contar uma
história plausível, mas não substanciosa, sobre como
recuperou as suas economias, e como obteve os dados de
Quigley. Mesmo depois de ter sido descoberto que Quigley
estava no convés até as três horas da manhã, a oportunidade
continuava e o motivo era suficientemente forte.
— Cerca da hora em que Gorell morreu na Santa Cruz, Starr
caminhava sozinho pela ilha. Cranston acusou Starr de ter
estado nas proximidades do lugar onde o corpo de Gorell foi
encontrado, e Starr não pôde negá-lo. Se Starr era assassino
de Gorell, o motivo teria que ser o de um criminoso em
perigo — assassinato para esconder assassinato; presumindo-
se, porém, que Starr temia que Gorell o tivesse visto a atirar
Quigley pela borda e assim fosse obrigado a matá-lo. Mas há
aqui um ponto fraco. Gorell não teria motivos para esconder
a informação, se de fato tivesse testemunhado a morte de
Quigley, embora uma suspeita de que Gorell o tivesse visto a
matar Quigley podia muito bem ter atormentado o cérebro
de Starr até que ele matasse Gorell.
— Mas não há nenhum motivo razoável para ligar Starr ao
assassínio de Mrs. Gorell. Isso não tem sentido. A jaqueta de
Starr sobre a cama foi apenas um esforço grosseiro feito por
alguém para incriminar Starr. E assim foi Starr afastado como
o possível assassino de Quigley e Gorell.
— E o que dizer quanto a Gorell como o assassino de
Quigley? — perguntou Lanfrey.
— Havia uma excelente razão para suspeitar dele, Carlos —
respondeu Rogers. Ele teve ampla oportunidade para tal,
como também todas as outras pessoas de bordo. Se a polícia
entrasse em ação, ao voltarmos para casa, provavelmente ele
ficaria sendo suspeito. Mesmo depois de sua morte, se esta
fosse um acidente, ele ainda poderia ser julgado como o
assassino de Quigley. Mas quando a sua mulher foi assas-
sinada, esboroaram-se as suspeitas contra ele, bem como
contra Starr.
— Então, suponhamos agora que um maníaco homicida está
solto entre nós — continuou Rogers. — Qual a pro-
babilidade de que ele mate estas três pessoas em particular:
marido e mulher, e seu genro? A probabilidade é demasiado
remota para que seja levada em conta antes que todas as ou-
tras soluções possíveis sejam examinadas.
— Tome-se outro motivo que frequentemente figura em
crimes: mulheres. . . — e os suaves olhos azuis de Rogers
brilharam ligeiramente quando olhou para o capitão.
Suponhamos, Carlos, conforme acusaram os Gorell, que
Quigley estivesse entre ti e a tua esposa. Tinhas então um
motivo clássico e, sem dúvida, amplas oportunidades. Mas,
és meu amigo, Carlos, e sei que não tens nada do que
caracteriza um assassino, de maneira que esta solução foi
posta de lado. ...
— Obrigado, Hunt — disse Lanfrey, estendendo a mão para
bater no cinzeiro a cinza do seu cigarro. Hesitou e depois
acrescentou: — Entendendo-se que isto não irá adiante,
digo-te que eu sabia que Reba e Quigley tinham-se
encontrado muito tarde no tombadilho. Reba informou-me
disso pela manhã, antes que fosse descoberto o
desaparecimento de Quigley. Ambos estavam sem sono e
foram para o convés. Não se ganharia nada em divulgar este
fato.
— Tem razão, capitão — disse eu. — Isto não irá adiante.
— Não irá — disse Rogers. Hesitou um instante a coordenar
os seus pensamentos e depois retomou o fio. — Devia haver
um motivo diferente de todos os que tinham sido sugeridos
para explicar esta série de assassinatos. Então, suponha-se
que num grupo de cientistas um deles esteja empenhado
numa obra de genuína importância e que a autoria seja
cubicada por um outro. Suponha-se que este último esteja à
par das circunstâncias que cercam o desenvolvimento do
trabalho... que Mrs. Gorell poderia ser considerada como
sabedora de algo a respeito desse trabalho, que Quigley, o
genro, tenha conhecimento dele. Muito bem, então;
suprima-se essas três pessoas, obtenha-se a obra, dado que
esta se encontre num manuscrito, espere-se uma
oportunidade favorável e está ganho o renome, a fama. É um
motivo plausível entre cientistas. . .
— Plausível, Hunt — interrompeu o capitão — se o
assassino traiu o altruísmo que caracteriza o cientista.
— Exato, Carlos — disse Rogers. Segundo essa hipótese, de
quem se poderia suspeitar? Evidentemente de Ardleigh,
French, Benny e tu, Carlos, que és um pouco mais do que
amador. Pus vocês dois de lado, provisoriamente, e apliquei-
me em Ardleigh e French, que eram mais provavelmente
suspeitos. Estive mais inclinado para Ardleigh do que
French. French tinha aquele álibi aparentemente inabalável
quanto à morte de Gorell. Ardleigh, por outro lado, tinha
jogado fora um manuscrito que facilmente poderia ter sido
falso.
— Mas mudaste muito rapidamente, Hunt — disse eu —
logo no momento em que pensei que fosses acusar Ardleigh.
Qual foi o motivo?
— Uma expressão nos olhos de French, apenas um brilho
denotador de excessiva confiança, depois que êle me cor-
rigiu a respeito do álibi — respondeu Rogers. — Dei-lhe a
isca e ele mordeu. Houve ali um informe assombroso.
French tinha um álibi; êle o admitia. Ninguém mais tinha
pretendido possuir um. Além disso, eu tivera por algum
tempo um palpite de que Knutsen conhecia a chave da
solução. Mas French escreveu toda a história. O seu relato
coincide na maior parte com o meu raciocínio, se é que se
pode chamar de raciocínio o que me ocorreu no breve
instante em que passei de Ardleigh para French; vi toda a
'coisa a encaixar-se. Compreendi o motivo por que French
tinha passado no bote durante tanto tempo. . . Mas eu vou
ler para vocês a confissão dele.
Rogers apanhou as páginas dactilografadas que estavam no
escritório de Lanfrey, firmou os óculos no nariz e começou
a ler. Era um estranho documento. A sua terrível frieza
enrege!ava-me o sangue à medida que a voz de Rogers repe-
tia a história de French.
— Não sou um cientista — começava a confissão. — O
progresso da ciência nunca significou alguma coisa para
mim. Sempre trabalhei pelo que podia conseguir em dinhei-
ro ou renome. Para usar uma frase dita por Gorell a meu
respeito, sou um egoísta atacado de amok entre os princípios
do alheamento científico.
"Gorell sugeriu-me o problema, e juntos projetamos a linha
de pesquisa. Comecei a trabalhar, mas um dia em que eu o
tinha irritado — coisa sempre fácil de fazer — arrancou-me
tudo, no interesse da disciplina, disse êle. Gorell era o chefe
do departamento. Podia fazer isso. Mas o que não podia era
disciplinar em mim o alheamento científico. Eu não o tinha.
Ele nunca mais me deixou saber do problema, embora eu
lhe pedisse repetidamente. Em vez disso, associou-se a
Quigley. Quigley sugeriu uma linha diferente, soube-o eu, e
depois continuaram um pouco no ponto em que estava o
trabalho quando saí dele. Depois, quando Quigley foi
embora, Gorell prosseguiu sozinho e terminou-o.
Quando partimos de San Pedro, estava chegando o
momento de agir. Gorell dissera-me no cais que tinha escri-
to o seu trabalho, que trazia o manuscrito consigo para re-
tocá-lo antes da sua publicação. Assinou a sua própria sen-
tença de morte e a dos outros quando me disse tal coisa. To-
dos os que tinham um conhecimento essencial do trabalho
tinham que morrer.
Quigley foi o primeiro. Segui-o até o seu camarote depois
que Mrs. Lanfrey e ele se separaram no convés, cerca das
três horas da manhã. Ele me fez entrar quando bati à porta, e
um golpe seco que lhe desferi com a mão sobre a nuca pô-lo
fora de si. Carreguei-o até o convés e atirei-o à água, pela
amurada.
"Gorell foi fácil. Dei umas roupas a Knutsen não apenas
porque o homem estava necessitado, mas porque eu o via
como poderia usá-lo. Eu poderia estar fazendo coisas mais
importantes do que flutuar ao largo da costa por vários dias
num barco de fundo de vidro, mas, para ter um álibi, eu
queria imprimir a minha locação no cérebro de todos os
expedicionários. Além disso, do barco eu podia observar os
movimentos de todos. Alice Wilmer poderia ter-me visto
quando remei para a praia naquele dia afim de matar Gorell.
Mas ela não tirou os olhos do seu cavalete. Knutsen estava a
brincar com um caranguejo vermelho na praia. Pedi-lhe que
entrasse no barco c remasse um pouco. Fui depois ao mato
onde vira Gorell entrar, encontrei-o e matei-o com uma
lasca de lava. Também tive sorte quando troquei de lugar
com Knutsen no barco. Ninguém nos viu.
"Mrs. Gorell também foi fácil. Com um alicate comprido e
pontudo, agora no fundo do mar, torci a chave na fechadura
no momento em que se ouvia um longo trovão. Ela dormia.
Matei-a com o bisturi de Bartlett, tirado do laboratório.
Depois de matá-la, não pude encontrar o manuscrito de
Gorell. Eu já tinha dado uma breve busca no camarote,
vários dias antes de ter morto Gorell. Esgueirei-me do jantar,
certa noite, para esse fim. Eu estava muito ansioso.
Percebia, sem dúvida, que assim punha em perigo todo o
meu plano. Subi para o convés, trazendo o que eu pensava
ser o manuscrito de Gorell, mas eram apenas páginas
suplementares de bibliografia e não a obra completa que eu
buscava. Eu estava ansioso por ver o que tinha conseguido e
detive-me no primeiro lugar iluminado que encontrei.
Bartlett surpreendeu-me, mas estou certo de que nessa
ocasião não suspeitou de nada. Raciocinei que, depois, ele
naturalmente haveria de ter uma idéia do que eu estava
lendo. E assim assinalei-o para a morte. Quando surgiu a
oportunidade naquela noite, ele pulou no momento em que
eu ia atingi-lo em cheio. O vigia ouviu o barulho, e não
houve tempo para dar cabo dele.
"Mentiras são coisas fáceis de dizer... e necessárias ao
assassínio. Eu não corria perigo de ser descoberto. Uma
atitude de inocência de minha parte, um louvável interesse
na descoberta do assassino, uma hipótese sobre como
Quigley teria morrido, hipótese sugerida certa noite para
Bartlett, que, estava eu certo, haveria de levá-la para
Lanfrey, e em outra ocasião a minha insistência em
convencer Bartlett de que eu acreditava ter sido acidental a
morte de Gorell, ajudaram a robustecer a opinião geral de
que eu não poderia ser o criminoso. No dia em que Gorell
morreu, procurei afastar antecipadamente a suspeita,
zombando do seu apetite. Comecei a gritar por Gorell na
noite da procura, sabendo que ele estava morto e que eu o
tinha matado. No camarote onde jazia o corpo de Mr.
Gorell, as minhas mãos tremiam. Olhei por toda a peça, mas
não olhei para o cadáver. Isto foi feito propositadamente.
Iniciei o aplauso à coragem de Miss Wilmer em votar pela
volta às ilhas. Eu estava representando um papel; eu tinha
que representar um papel. Todo assassino procura o papel de
um ator.
"Mas cometi dois enganos; um inofensivo, outro fatal. Fui
demasiado sôfrego em implantar a hipótese do acidente na
morte de Gorell, e pus as palavras na boca do capitão
Lanfrey. Ele observou o fato, mas nada decorreu disso. O
erro fatal foi não ter dado cabo de Knutsen quando eu pode-
ria ter encontrado uma oportunidade para isso. Quando per-
cebi a necessidade de fazer tal, já ele tinha sido desembar-
cado à ilha de San Cristobal. Percebi também que Rogers me
descobrira naquele assunto do álibi; eu sabia que ele não o
ignorava. Mas, de qualquer modo, já tudo estava acabado.
— Por mais cuidadosamente que eu tivesse preparado tudo,
não previ que Mrs. Gorell me burlaria dando o manuscrito a
Ardleigh para ser destruído; a imensidade do egoísmo dessa
mulher estava além dos meus cálculos. Para que alguém não
se aproveitasse indevidamente do trabalho de seu marido,
ela preferiu destruí-lo.
Rogers parou de ler. O olhar de Lanfrey, que estava fixo no
nevoeiro azul de alto mar, voltou-se para a cabine. Apanhou
a confissão que Rogers deixara cair sobre o escritório, virou-
se na cadeira e depositou-a no cofre que lhe ficava às costas.
Fechou a pesada porta, manobrou a combinação da
fechadura e tornou-se para nós. Tirou uma última baforada
do cigarro, apertou-o no cinzeiro e disse tranquilamente:
— E assim foi, meus amigos. Depois de amanhã estaremos
em San Pedro, e isso não me entristece.
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Edgar Madruga
Salvador/BA
Lançamento Gênesis do Conhecimento O Caranguejo Escarlate - Clifford Knight links ao final da mensagem digitalização - Vitório formatação e revisão - Lucia Garcia Sinopse: Seriam três horas de uma tarde de quarta-feira quando aquela estranha cabeça apontou, sobre o muro branco e resplandescente do jardim. Era uma cabeça bem conformada, um tanto redonda, e de cabelos loiros. Um bigode nítido, também loiro, pouco mais espesso que a sobrancelha de uma moça que acaba de ser apresentada na sociedade, alojava-se sobre os lábios cheios e vermelhos, as faces estavam muito bronzeadas e o nariz era bem masculino. Mas o que mais espantava na brusca e inesperada aparição de tal cabeça, era o seu extraordinário ar de seriedade. — Diga, o sr. é Bartktt, não é? — foi a pergunta que me fez sem mais aquela. Senteirme rapidamente no cobertor em que estivera deitado ao brilhante sol da Califórnia e, seguindo pensava, no recinto privado do pátio. — Pois... é, sou — respondi. — Esse é meu nome. — O sr.segundo parece, é ornitologista. — A cabeça arredondada ergueu-se mais e um par de ombros amplos, metidos numa camisa-de-pólo cor de limão, deixou-se ver. Encolhi as pernas para baixo do corpo. O calor do sol acariciava-me as costas nuas. Eu não conhecia aquele sujeito do muro, que procurava conversar comigo de maneira tão abrupta. Mas ele havia feito a afirmação, quase a acusação, de que eu era ornitologistae a sua atitude era de quem duvidava que eu pudesse negar tal coisa com êxito. — É mais ou menos isso, respondi. É como quem diz um amador. Trata-se apenas de uma mania que tenho. — O sr. é o homem que procuro. Sou Lanfrey... Carlos Lanfrey — e moveu a cabeça na direção da casa, cujo telhado vermelho aparecia entre os carvalhos robustos que se viam acima do muro. — Sim — disse eu, agora que meu cérebro se punha mais ativo. — Vi uma fotografia ou coisa parecida no Times de Los Angeles, esta manhã. Qualquer coisa sobre uma expedição... — Isso! — exclamou ele, fazendo um gesto com o punho grosso. — É por isso que estou aqui. Da janela do meu quarto, vi alguém que tomava banho de sol. Pensei que fosse o sr. e vim em seguida para ver se está disposto a fazer uma pequena viagem comigo. Telefonei a Chandler, o diretor do Museu, pedindo-lhe que me recomendasse um ornitologistae ele me indicou o sr. Veja só. O sr. morando aqui ao lado e eu toda a manhã preocupado com o que fazer! Pode aprontar-se agora mesmo? LINKS: RAPIDSHARE: https://www.rapidshare.com/files/453831550/O_Caranguejo_Escarlate_-_Clifford_Knight.doc MEDIAFIRE: http://www.mediafire.com/download.php?11r1dwt4twesdfd PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento: http://www.4shared.com/dir/epEGd3QW/Lanamentos_Amigos_da_Leitura.html http://rapidshare.com/users/KPGYUD http://www.mediafire.com/?6fb860mbm5ieq Este e-book representa uma contribuição do grupo Genesis do Conhecimento para aqueles que necessitam de obras digitais como é o caso dos Deficientes Visuais e como forma de acesso e divulgação para todos. É vedado o uso deste arquivo para auferirdireta ou indiretamente, benefícios financeiros. Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autor, adquirindo suas obras INFORMAÇÃO: * Página inicial do grupo: http://groups.google.com.br/group/genesis_do_conhecimento * Endereço de e-mail do grupo: genesis_do_conhecimento@googlegroups.com | |||
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