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Lançamento Gênesis do Conhecimento - No País das Sombras Longas - Hans Ruesch


HANS RUESCH


Tradução de
RAUL DE POLILLO

7ª EDIÇÃO

EDITORA RECORD


ÍNDICE

Fatos Irredutíveis

PRIMEIRA PARTE
1. Os Homens
2. Caça à Mulher
3. Os Fatos da Vida
4. A Barganha
5. Homem Branco em Terra Branca
6. A Estrada Para o Norte

SEGUNDA PARTE
7. A Longa Jornada
8. Fim de um Homem
9. Fim de uma Mulher
10. A Semente
11. O Fruto
12. Tetarartee
13. A Proscrita
14. O Regresso


FATOS IRREDUTÍVEIS

Todo aparecimento de qualquer das minhas histórias
relativas a esquimós, em revista norte-americana ou de
outras partes do mundo, provocou um dilúvio de cartas,
perguntando se os temas de que faço uso possuem base nos
fatos. Por isto, desejo, agora, assentar, de antemão, que os
hábitos sociais, sexuais e alimentares, bem como as crenças
religiosas, as práticas médicas, além de outros modos e
maneiras descritos neste livro — embora circulem sob a
bandeira de ficção — constituem fatos antropológicos
concretos. E aplicam-se, principalmente, aos esquimós do
setor central. Tais fatos são corroborados (com as devidas
variações decorrentes de costumes regionais e tribais) por
homens da envergadura de Fritjof Nansen, Kaj Birket-Smith,
Knud Rasmussen, Peter Freuchen, Franz Boas, G. de
Poncins, e outras autoridades reconhecidas em assuntos do
Ártico e dos seus habitantes. Recomendo encarecidamente
os relatos dessas autoridades a toda pessoa interessada em
evidências documentais sobre o assunto — coisa que fica
fora da finalidade desta novela.
A felicidade plena e a eufórica alegria dos esquimós são fatos
tão inegáveis e inegados como inexplicáveis e inexplicados.
Há autores que preferem atribuí-las à dieta vivificante. As
escaramuças ocasionais, entre missionários cristãos e a
população nativa — bem como as presunções de cientistas
modernos, segundo as quais devem existir depósitos de
minério de urânio por baixo da calota de gelo do Ártico —
não são meras invenções convenientes, concebidas com o
propósito de acentuar o aspecto dramático de uma narrativa.
O caso dos esquimós que comeram seus próprios pés
congelados, a fim de sobreviver — e que assim o
conseguiram — é ocorrência que encontrou seu caminho
para a imprensa cotidiana, que o divulgou.

PRIMEIRA PARTE

CAPÍTULO I
OS HOMENS

Quando Ernenek punha sua cabeça para fora do saco de
dormir, seus pensamentos corriam imediatamente para o
monte de peixe e de carne que apodrecia para amaciar-se,
por trás da lâmpada de óleo de foca.
Não hoje, porém. Agora, vendo Siksik curvada por cima das
peles de urso de seu marido, a um canto do pequeno iglu,
ele tomou uma resolução súbita, antes de dar atenção às
exigências do seu estômago. Visto que contribuía com mais
do que a sua parte para a manutenção do pequeno conjunto
doméstico, sentia-se disposto a solicitar plena co-
participação também nos direitos maritais de Anarvik; por
esta forma, não precisaria mais ter de pedir permissão, toda
vez em que se sentisse disposto a rir um pouco com Siksik,
ou em que precisasse que lhe fossem costuradas novas luvas,
ou lhe fossem remendadas as botas. Teria, pelo menos, uma
esposa própria, ao seu redor, para lhe obedecer as ordens e
isto era coisa que ele nunca tinha conhecido, seja porque era
moço, seja porque ali, no extremo norte, as mulheres eram
tão escassas como era abundante o urso. Ernenek, todavia,
conhecia a importância da posse de uma esposa para o pró-
prio uso — para descarnar as peles de animais conseguidas,
bem como para costurar as vestimentas necessárias e para
ficar ouvindo as pilhérias do marido, durante a noite.
Principalmente quando a noite dura seis meses.
Mesmo agora, Ernenek teria gostado de trocar umas poucas
risadas com Siksik, antes de sair para a caçada. Contudo, ele
distinguia o que era correto do que era incorreto; distinguia-
o tão bem como qualquer outro homem; e, assim, sabia que
seria extremamente impróprio servir-se da esposa de outro
homem, sem, antes, solicitar permissão ao marido.
E Ernenek raramente praticara algo de impróprio.
Entretanto, estava cansado de pedir. Não que Anarvik já o
tivesse recusado: o ato da recusa, em se tratando do
empréstimo de uma esposa, ou uma faca, constituía sinal de
intolerável mesquinhez. Por outro lado, também, o ato de
pedir favores constantemente acabava sendo indigno de
todo indivíduo pertencente a uma raça tão orgulhosa de si;
de uma raça cujos membros se denominam a si próprios
simplesmente inuítes, ou homens — deixando com isso
implícito que, por via de comparação, ninguém, dentre
todos os indivíduos de todas as outras raças, é homem
verdadeiro. Mesmo a despeito de o resto do mundo preferir
denominá-los esquimós. Esta palavra procede de um
vocábulo algonquiano que significa comedores-de-carne-
crua. Se esta derivação ocorreu com o propósito de
zombaria, ou devido ao impulso da inveja, é coisa que não
ficou estabelecida.
Siksik tinha preparado chá, servindo-se para isto da lâmpada
de cozinhar, feita de pedra-sabão, ou esteatita. Ela encheu
uma tigela; e, bamboleando-se, ou seja, caminhando à
maneira pela qual se locomovem os pombos — devido às
botas de pele anelada de foca, que lhe chegavam até à parte
superior da coxa — ofereceu a bebida a Ernenek com um
sorriso. O homem e a mulher se vestiam desta mesma
maneira. Ambos eram atarracados e musculosos; ambos
possuíam o mesmo tipo alegre, largo e achatado, de rosto;
pareciam iguais, com exceção dos cabelos; Ernenek usava-os
longos e desencaracolados, ao passo que os de Siksik se
erguiam num arranjo nítido, em forma de torre, no cocuruto
da cabeça, rebrilhando de unto feito de óleo de baleia, e
alfinetados com espinhas de peixes.
— Onde é que está Anarvik? — indagou Ernenek.
— Não é impossível que tenha ido à caça de focas na Baía
da Morsa Cega. Acontece que você e ele, no decorrer da
dormida passada, devoraram uma foca inteira — acrescentou
ela, com uma risadinha; e Ernenek respondeu-lhe com a
risada fácil, espontânea e sempre pronta, que caracteriza a
sua raça.
O chá estava quente — o que significava excessivamente
quente para ele. Não podia beber nada que fosse muito
quente. Soprou contra a infusão, olhando para a mulher por
cima do aro da tigela. Depois, bebeu o chá; comeu as suas
folhas, e engatinhou para fora do seu saco de dormir. Por
cima da vestimenta feita de aves, com as penas voltadas para
o lado de dentro, envergou outra vestimenta feita de pele de
urso, com os pêlos voltados para o lado de fora, e enfiou a
parte inferior das calças por dentro de suas botas de pele de
foca. Curvando-se embaixo da parede abobadada de gelo,
cortou para seu uso grandes nacos de carne deteriorada, com
sua faca circular; e empurrou-os para dentro da própria boca,
forçando-os com a palma da mão.
Engatinhando para fora do túnel estreito, puxou consigo o
líder dos cachorros esquimós ainda sonolentos, e o resto da
matilha o acompanhou, bocejando, ganindo e sacudindo a
geada branca, formada sobre seu pelame espesso. Logo
depois, já os cães estavam emitindo o característico latido
agudo com que pedem alimento; punham à mostra os
dentes; estes tinham sido achatados com o emprego de
pedras, a fim de que não se pusessem a morder os seus
donos e a cortar as respectivas rédeas; todos eles se
assemelhavam mais a lobos do que a cães, devido ao focinho
pontudo e ao fulgor amarelo dos olhos.
Ernenek fez massagens com gelo nos corredores, e atrelou o
trenó. A seguir, pôs os arneses nos cães; certificou-se de que
todos os animais estavam munidos dos pequenos calçados
que lhes protegiam os pés contra a agudeza das arestas do
gelo, bem como contra a salinidade do mar; recolheu a
âncora do trenó; e subiu para dentro do veículo. Sob ação do
chicote, os cães se espalharam em leque, atrás do seu líder,
esticando os arreios, por meio dos quais cada qual era
individualmente vinculado ao trenó, e ganindo por trás dos
tufos brancos de vapor que emanavam de cada focinho.
A temperatura era aconchegante; talvez 30 graus Fahrenheit
— ou uns 34 graus centígrados — abaixo de zero; assim,
Ernenek não precisava correr a pé atrás do trenó, para se
aquecer; ao contrário, podia nele ficar sentado, gozando,
com alguma opulência, o prazer aa viagem. O céu do lado
sul, refletindo um sol ausente, tinha uma leve cor azul, que
se esbatia e mudava de matiz, tendendo para o púrpura, ao
norte. Sob esta amplidão pálida, a terra afigurava-se plana e
dessangrada, destituída de sombras e de nuanças — como
normalmente ela aparece aos olhos dos cachorros, os quais
não fazem distinção entre as cores.
O Oceano Glacial, sobre o qual ele viajava, estava coberto
por uma camada de gelo duro, mais espessa do que a altura
de um homem; a superfície atapetava-se de neve
endurecida, cortante; e ostentava ainda o rasto nítido
deixado pela passagem do trenó de Anarvik. À direita, viam-
se cabeços e colinas, todos baixos, esbranquiçados e sem
vida. À esquerda, só a névoa da primavera indicava os
limites do oceano.
Ernenek não se virou sequer uma vez para dar uma olhada
ao iglu solitário que estava deixando atrás de si. O iglu não
passava de pequena bolha de gelo, emergindo por cima do
topo do mundo. Seus pensamentos estavam correndo lá para
adiante, para a grande baía da ilha seguinte, aonde Anarvik
fora caçar focas. Ernenek esqueceu-se até de levar consigo
óleo de baleia, para lhe servir de combustível e proporcionar
luz; e levar esse óleo constituía a primeira regra do viajor.
Este estava excessivamente preocupado, concentrado no seu
próprio problema.
Havia duas respostas para cada interrogativa; e cada uma
apresentava seus riscos. Isto, pelo menos, Ernenek sabia. Se
a resposta de Anarvik fosse "sim", Ernenek perderia
considerável prestígio, e ficaria com a cara no chão, por se
lhe garantir a concessão de ainda mais um favor. Anarvik era
orgulhoso; um homem de verdade; e havia toda
probabilidade, à vista de sua índole, de mortificar Ernenek
com a aceitação pronta de sua exigência. Para se colocar par
a par com ele, Ernenek teria, então, de redobrar seus
esforços de caçador, a fim de, por sua vez, mortificar o seu
parceiro com intermináveis presentes de víveres.
Se a resposta fosse "não", Ernenek poderia, com efeito,
escarnecer da falta de compostura do seu amigo, que era
quem, nesse caso, ficaria com a cara no chão; isto, porém,
constituiria, para Ernenek, pequeno consolo, pois teria de
dirigir-se a outro lugar, em busca de companheira; teria
então de viajar desconfortadoramente só, talvez durante
todo um ano, rumo ao sul, para o ponto de onde o sol e as
mulheres procediam, e no qual a terra era povoada de tribos
cujos costumes e modos de vida continuavam estranhos aos
esquimós polares, e, conseqüentemente, desagradáveis para
ele. Fosse qual fosse a maneira pela qual se encarasse o
assunto, a vida estaria sempre sobrecarregada de incertezas e
de riscos, desde que a questão fosse formulada.
Ainda assim, a decisão não poderia mais ser adiada: durante
dois anos, Anarvik estivera anunciando a chegada, que dizia
iminente, de seu irmão, Ooloolik.
— Ele tem duas filhas já crescidinhas, e você poderá
proceder à sua escolha — observou-lhe Anarvik, rindo.
As estações do ano, porém, tinham chegado e passado;
Ernenek tinha esperado em vão; e Anarvik tinha
simplesmente encolhido os ombros, dizendo:
— Ele deverá chegar lá pelo fim do próximo inverno.
Um inverno a mais ou a menos era coisa que se afigurava
destituída de importância para Anarvik, que tinha visto
muitos e muitos invernos. Mas já não o era para Ernenek,
que tinha visto poucos. Que aconteceria se Ooloolik não
aparecesse nunca? Poderia ter mudado de idéia. Ou ter
morrido. Ou outros homens talvez lhe houvessem ficado
com as filhas.
E Ernenek estava cansado de esperar.
O trenó de Anarvik apareceu na forma de pequeno ponto —
de pequena cabeça de alfinete, na vasta planície; e Ernenek
espicaçou a sua matilha, com o chicote e com gritos.
Devagar, a cabeça de alfinete foi aumentando; transformou-
se em linha; a seguir, o trenó se tornou discernível; afinal,
surgiram Anarvik e seus cães. Os cachorros estavam
tumultuados, compondo uma barulheira infernal de latidos,
e puxando furiosamente através de seus arreios.
Ernenek atirou a âncora do trenó para fora; amarrou a
matilha; e caminhou, gingando, por cima do mar gelado. A
despeito de toda a sua impaciência, ele atravessou o gelo
com passo leve, por decorrência de hábito; se assim não o
fizesse assustaria e afugentaria as focas que se encontrassem
por baixo da espessura de gelo. Anarvik, ajoelhado em cima
de uma pele de caribu, para não se enregelar e ficar preso ao
chão, estava de costas para Ernenek.
— Um homem tem alguma coisa para pedir — disse
Ernenek, carregando o sobrolho.
— Quieto! — disse Anarvik, sem virar a cabeça: — Um
homem ao trabalho não pode dar ouvido a perguntas. Uma
coisa por vez.
Desinflado, Ernenek deteve-se ao seu lado, curioso para ver
o que ele estava fazendo. Anarvik estava ocupado com sua
faca de pederneira, mas, a despeito disto, concentrava a
atenção, de quando em quando, numa forma branca, que se
encontrava Já adiante. A forma era um urso enorme.
E o urso estava faminto.
Meses e meses seguidos de caça insignificante haviam
reduzido muito a carne acumulada durante a estação do
verão; e os longos pêlos do animal, crescidos no inverno,
pendiam, soltos, nos lados de suas ancas descarnadas. O urso
polar não tinha hibernado. Enquanto todos os seres vivos
emigravam para o sul, ou se abrigavam em iglus, ou em
tocas, para descansar e se aquecer, ele, sozinho, permanecia
ao largo o inverno inteiro, caçando e pescando,
incansavelmente; caçava e pescava para si mesmo e para a
sua companheira, que despejava o filhote numa caverna
cavada na camada de gelo que recobria o mar.
Algum tempo antes, durante uma de suas andanças pela ilha,
aquele mesmo urso tinha farejado um arminho-mãe;
retirara-o de sua toca; rasgara-o ao meio; e devorara-o,
juntamente com o feto palpitante do filhote que se
encontrava em seu ventre. Agora, com a fome aguçada, o
urso se encontrava observando os dois homens. Mas não se
sentia tranqüilo.
Naquela região, toda forma de vida era exclusivamente
carnívora. O urso era a maior presa do homem. Aqui, ainda
não estava decidido se era o homem ou se era o urso a coroa
da Criação.
— Não é impossível que alguém abata um urso — disse
Anarvik. Trêmulo pela ansiedade de caçar, pela volúpia da
caçada, Ernenek ajoelhou-se ao lado do amigo:
— Vamos soltar os cães contra ele, e acabar logo com isto.
Anarvik meneou a cabeça:
— Ele poderá matar muitos cães; e nós não temos nenhum
de sobra. Não, Ernenek. Alguém terá de apanhar o urso pela
maneira usual, já comprovada.
Descrevendo círculos e farejando, o urso ia aproximando-se
devagar e cada vez mais.
Com sua faca de pederneira, Anarvik tinha tirado longa lasca
de uma costela arqueada de baleia, aguçando-lhe as
extremidades. Encurvou-a com uma das mãos, e soltou-a,
depois, de súbito, a fim de lhe verificar a resiliência. Depois,
tomou um pouco de graxa de óleo de baleia, que estivera
aquecendo no interior de suas roupas, de encontro ao
estômago. Amassou a graxa, até dar-lhe a forma de uma bola;
fê-lo com rapidez, antes que a sua substância pudesse
enregelar-se outra vez; e empurrou para dentro dessa bola a
Tasca de costela de baleia, bem encurvada. A bola de graxa
feita de óleo de baleia endureceu imediatamente, ao contato
com o gelo.
Anarvik começou a mover-se para a frente, de gatinhas; e o
urso recuou, rosnando; o recuo fazia-se pelo processo de o
animal dar pequenos pulos, impelindo para trás as ancas de
pele caída e mole, cobertas de pêlos compridos, e espiando
de soslaio por cima dos próprios ombros. Anarvik deteve-se
e pôs-se a chamá-lo, por meio de acenos, de movimentos e
de sinais de arrulho; o urso voltou, às apalpadelas,
aproximando-se por um trajeto que descrevia meio círculo.
Os bigodes ralos de Anarvik tremeram, quando ele atirou a
isca, que era a Dola de graxa com aquela espécie de mola
dentro; atirada com força, rolou por cima do delgado lençol
de neve.
A bola amarela foi parar a poucos passos de distância do
urso.
Intrigado, o animal aproximou-se dela, devagar,
cautelosamente, esticando o focinho para a frente, e como
que choramingando um pouco, devido à incerteza. A fome
ditou-lhe que comesse; outro instinto, mais profundo e mais
misterioso, aconselhava a desconfiar de fosse lá o que fosse
que procedesse daqueles pequenos seres, de maneira tão
assustadoramente intencional.
Anarvik esperou, estendido e imóvel, com as pernas e os
braços espalhados sobre o gelo. Atrás dele, Ernenek, com a
respiração contida, contemplou o urso, enquanto este pôs
para fora uma longa língua azul; com ela, o animal lambeu a
isca; recuou; tornou a lamber, e recuou de novo, com
movimentos resolutos. Contudo, era-lhe impossível resistir à
tentação para sempre. Os ursos são apenas humanos. Com
um movimento encapelado, seu focinho se atirou
subitamente para a frente e engoliu a isca, fazendo com que
ela fosse cair naquela espécie de poço sem fundo que era a
sua barriga.
Simultaneamente, Anarvik e Ernenek puseram-se de pé,
num salto, com risos e gritos de alegria, porque o urso já era
deles. Quase.
Ao súbito irromper dos homens que se ergueram, o urso
pulou para trás. Mistificado, começou a descrever círculos;
depois, sentou-se sobre os próprios quartos traseiros; e ficou
a estudar os indivíduos, por algum tempo. Por fim,
recomeçou a aproximar-se.
Os homens estavam preparando-se para a retirada, quando,
de inopinado, o animal pulou para a frente; nesse momento,
emitiu um lamento, longo e angustiado, que repercutiu, sem
encontrar obstáculos, por cima do grande mar, silenciando,
de espanto, os cães; a seguir, se enrolou sobre si mesmo,
pondo-se a rugir selvagemente.
— A bola de graxa derreteu-se em seu estômago — gritou
Anarvik, triunfante. — E a lasca de costela abriu-se como
molal
De súbito, o urso virou sobre suas patas traseiras e afastou-se,
caminhando desajeitadamente e gemendo a altos uivos.
As trevas já se esboçavam, porquanto o dia ainda era curto,
nessa época; nessa quadra, a luz iluminava o topo do mundo
apenas durante umas poucas horas, a cada giro do Sol. Sem
proferir palavra, Anarvik e Ernenek agarraram suas lanças e
saíram atrás de sua presa; foram ambos assim, olhando um
para o outro e rindo; riam apenas devido à alegria da caçada;
tudo o mais estava esquecido.
Tropeçando e uivando de dor, o urso desviou-se em direção
à costa, ao mesmo tempo em que os homens manobraram
para lhe cortar a retirada para os campos marinhos, que
constituíam o seu elemento e o seu refúgio. Depois de
atingir os primeiros sopés da terra, o animal começou a
deter-se freqüentemente e a olhar furtivamente por cima
dos próprios ombros, a rim de observar se a perseguição
ainda prosseguia; fios de baba pendiam-lhe do peito. Seu
covil deveria ficar ali por perto; mas ele não iria atrair os
seus perseguidores para aquele ponto. Com relutância,
continuou para a frente, subindo pelos flancos gelados da
colina acima.
As plantas de suas patas, recobertas de pêlos cerrados,
permitiam-lhe caminhar com firmeza por cima do gelo, ao
passo que as botas dos homens dispunham de pouco
agarramento sobre os declives escorregadios. E eles
precisavam ter o cuidado de não se esforçar, nem começar a
transpirar, porque isto significaria enregelar-se e morrer de
frio. Todavia, a trilha do urso era insegura e errática; e os
homens, por isto, conseguiam manter-se no seu encalço
percorrendo apenas metade do chão.
A temperatura fez-se mais fria, lá nas alturas, com 50 ou 60
graus Fahrenheit, ou 45 ou 51 graus centígrados, abaixo de
zero; o querido vento de temporal soprou; e Anarvik e
Ernenek sentiram-se felizes, porque estavam caçando. Nem
sequer por um instante se preocuparam com as provisões
abandonadas; nem com os cães; nem com a mulher. Não
estavam com fome naquele momento; os cães mostravam-
se, em todo caso, sempre famintos, fossem ou não alimen-
tados; e a mulher se arranjaria de alguma forma, como as
mulheres sempre fizeram. Esta era a Caçada — a pura
essência da vida.
Os homens não comeram nada, além das dejeções do urso,
que se apresentavam estriadas de sangue; e, depois que o
animal se esvaziou de tudo, menos de terror e de
sofrimento, bem como depois que a fome começou a bater
nas paredes do estômago dos homens, Ernenek disse:
— Alguém está com fome.
Estas foram as suas primeiras palavras proferidas, desde
quando a caçada se iniciara.
Anarvik meneou a cabeça, concordando.
Ainda assim, nunca, nem sequer por um momento, eles
pensaram em voltar.
Quando se ergueram mais uma vez, às apalpadelas, uma
rajada de vento, procedendo do Oceano Glacial, sacudiu a
neve rasa para o ar; assim, o céu, já pálido, se fez cor de
cinza bem escura; e ao longo de alguma distância, os
homens perderam de vista a sua presa, em meio a nevasca
de cegar; e então se atiraram para a frente, tomados de
alarme súbito.
Os dois amigos foram reconduzidos ao rasto do urso por via
dos lamentos do animal; e quase deram de chofre com ele.
Os dois encontraram o jeito de lhe aplicar uma boa pancada
nas costelas, com suas lanças de ponta de chifre; fizeram-no
como que apenas para fazer com que o animal ficasse
sabendo que não estava sonhando. Um rugido de fúria se
ergueu da grande sombra, espiralou no turbilhão da neve, e
foi absorvido e levado para longe pelo vento; daí por diante,
os homens se mantiveram tão próximos da presa, que
podiam até perceber-lhe o cheiro — o cheiro amargo do
medo, que emanava do seu pelame.
Uma poucas vezes, o urso virou sobre si mesmo, enfurecido;
e carregou contra os homens; estes desviaram-se a toda
pressa, gritando de terror, tropeçando e escorregando pela
falda da colina abaixo — até que o urso se sentou nos
quartos traseiros, meneando a própria cabeça; no instante
em que o perigo passou, os homens se puseram a rir.
A segunda noite foi a pior. A nevasca fez-se mais violenta e
mais espessa, obrigando os homens a seguir o urso bem mais
de perto, quase que grudados aos seus calcanhares, para
maior segurança; então, as pancadas da fome se fizeram
sentir com mais intensidade, enfraquecendo-lhes os joelhos
e aumentando-lhes o perigo da transpiração. Entrementes, o
urso, que parecia ser dotado de cem vidas, prosseguiu a sua
trilha furiosa, para cima e para baixo, pelas faldas
intransitáveis.
Quando, porém, a fome e a saraivada turbilhonante se
impuseram aos dois homens, estes deixaram que seus
espíritos atirassem uma âncora, através do oceano, até ao
iglu distante — oiglu que lá estava, tranqüilo, aconchegado
e aquecido. A luz cor de âmbar, que sabia a intimidade; o
sinistro monte de carne e de peixe que se deteriorava por
trás da lâmpada; o rumor tranqüilo da descarnação das peles;
o tendão de cariou que ia sendo alinhavado através de botas
e de vestimentas...
De uma feita, eles chegaram à distância de apenas breve
marcha, em relação à localização de um dos montes de
carne que mantinham espalhados pela terra e pelo mar.
— Talvez ele siga por aqueles lados — disse Anarvik. —
Então, um de nós poderá ir buscar provisões.
Procuraram impelir o uso na direção correta para tal fim;
mas não obtiveram sucesso. O urso nada sabia a respeito dos
montes.
Quando esta esperança se dissipou, já se haviam passado
quatro dias a partir daquele em que eles tinham tido
repouso, dormido e comido; agora, a força de vontade tinha
de compensar as energias enfraquecidas do corpo de cada
um. E visto que a idéia de abandonar a caçada nem sequer
por um instante lhes passou pela mente, a sobrevivência se
tornou irrevogavelmente vinculada a captura do urso; por
isto, a impetuosidade da caçada foi exaltada pelo terror da
condenação derradeira, acusada pelo animal.
Eles perderam a noção do tempo, até quando a saraivada
amainou, revelando que um novo dia tinha raiado. Os dois
se encontravam bem lá em cima, no topo dos cabeços,
dominando com a vista o mar gelado. Ao sul, o céu estava
luminoso; e a terra silenciosa se afigurou doce e macia, com
a promessa da primavera.
A este tempo, o urso já estava muito doente. A sua maneira
claudicante, ele prosseguiu avançando em ziguezague; e ia
empurrando, de arrasto, no chão, uma cabeça que já se lhe
havia tornado excessivamente pesada. Por vezes a cambalear
de sono e a cair de joelhos, os homens continuaram
perseguindo o animal; estavam como que petrificados; o riso
já havia desaparecido; linhas de fadiga lhes enrugavam as
faces untadas; seus olhos estavam vermelhos, como que
injetados de sangue, emoldurados por um friso de geada. A
fome tinha desaparecido. Os estômagos se naviam posto a
dormir. Nem sequer apanhavam mais punhados de neve. As
bocas mantinham-se fechadas; os ventres, esquecidos; e no
espírito de ambos todos os pensamentos e todas as memórias
já tinham perecido. Entre a pele a carne, a gordura tinha
sido queimada e dissipada incessantemente, sem ser
substituída. O movimento já não aquecia mais aqueles
^^gjdois homens; eles tremiam um pouco; e sentiam que o
frio lhes cortava o corpo, entrando como faca pela garganta
abaixo, a cada movimento de respiração.
E, não obstante, poderia haver alguma coisa maior do que
isto — dar caça ao urso branco, na superfície do topo do
mundo?
O fim ocorreu subitamente. Em dado momento, e de uma só
vez, o urso renunciou. Como se houvesse decidido que, se
tivesse de morrer, seria melhor fazê-lo com dignidade, ele se
agachou, apoiando-se em seus quartos traseiros; pôs as patas
dianteiras no regaço, e ficou à espera. Ao redor do seu
pescoço, via-se uma espécie de guardanapo cor-de-rosa,
feito de geada. Manteve as orelhas em pé, e os dentes à
mostra, como em sinal de escárnio. Já não se lamentava
mais. Só as nuvens brancas da sua respiração emanavam,
rápidas e dissonantes; e seus pequenos olhos, injetados de
sangue, se moviam, como que atarantados.
Os dois homens aproximaram-se, devagar. Ernenek, pela
frente; Anarvik, por um lado; os dois, prontos para pular, se
o animal se debatesse, ou vibrasse tapas com as patas. O urso
agarrou a lança de Anarvik, e quebrou-a como se fora feita
de um fio de palha, no instante em que Ernenek o golpeou
com sua lança, num golpe firme e direto, através da parte
superior da garganta, logo abaixo da mandíbula, onde os
pêlos eram mais finos.
Os dois homens mal comeram, depois do abate do animal;
estavam, a essa altura, com o estômago dormindo a bom
dormir; ademais, sentiam-se ansiosos em extremo para
mostrar a presa intacta, em casa. Ernenek sugou apenas o
sangue que saía do ferimento, a fim de manter as próprias
energias, embora isso mal lhe aquecesse os lábios; e Anarvik
sugou o cérebro do urso, através de um pequeno furo feito
na parte traseira do pescoço. A seguir, separaram as vísceras,
antes que se congelassem; arrastaram a presa nelas encostas
abaixo, até ao mar; envolveram-na em neve, junto à linha da
costa; e, felizes, caminharam, embora arrastadamente, de
volta.
Em linha reta, foi-lhes necessário o tempo de meia volta do
Sol, para chegar aos trenós; os dois caminharam rindo
barulhentamente pela trilha, cada qual vibrando pancadas,
com a mão, às costas enormes do outro. O rato de os cães
famintos não se haverem devorado uns aos outros, àquela
altura, se deveu exclusivamente ao embotamento dos
respectivos dentes; mas esses mesmos cães se debateram
furiosamente em torno do envoltório de pele que continha
peixes, no trenó de Anarvik; e alguns estavam lambendo o
sangue gelado que lhes havia escorrido dos ferimentos.
O apetite dos homens se havia despertado pelo gosto dos
miolos e do sangue; e, ao longo de todo o caminho para a
presa envolta em neve, bem como ao longo de todo o
caminho de regresso à casa, eles se puseram a mastigar
pedaços de pele de foca, a fim de atenuar as pancadas
vibradas pela fome; do contrário, começariam a comer a
presa.
Durante a ausência dos dois homens, um segundo iglu fora
construído ao lado do seu; e cachorrinhos desconhecidos se
encontravam brincando diante do túnel,
Siksik apareceu, seguida pelo irmão de Anarvik, Ooloolik,
que, afinal, tinha chegado com a esposa, Powtee, e com suas
duas filhas casadouras, Imina e Asiak.
Aquela foi uma chegada rumorosa, porque sete já compõem
uma multidão. De início, todos trocaram saudações, com
grande quantidade de atos de cerimônia, cada qual
procurando sorrir mais do que os outros, enquanto todos
faziam reverências e trocavam apertos de mãos, bem alto,
por cima das respectivas cabeças; a seguir, passaram a
esfregar uns nos outros os narizes arreganhados. Feito isto, a
família de Ooloolik formulou louvores irrestritos à caça
realizada; que foram expressos por meio de exclamações
como estas: "Ele não é pequeno!" — ao mesmo tempo em
que os caçadores procuravam, por modéstia, reduzir o valor
da presa, com todos os meios ao seu alcance; e isto para
mostrar que seriam capazes de feitos ainda bem maiores:
"Trata-se apenas de um filhote; ninguém queria abatê-lo;
mas ele insistiu em ser apanhado."
Depois, todos engatinharam para dentro do iglu de Anarvik.
Ao baço do urso, dependurado a um poste de madeira, uma
faca e uma agulha de costurar foram acrescentadas, na forma
de presente para o urso morto; dessa maneira, a alma do
animal poderia contar, aos outros animais semelhantes, ò
tratamento excelente que recebera, a fim de os tornar
ansiosos de ser mortos por sua vez.
Então, o banquete começou.
Comeram a noite toda, mordiscando as provisões que se
encontravam na despensa, enquanto esperavam que o urso
degelasse. Anarvik retirou a pele do animal, assim que o seu
pelame se amaciou. Pertencia-lhe, porque fora ele quem
primeiro avistara o urso; visto, porém, que Ernenek
manifestara sua admiração por ele, Anarvik humilhou-o,
induzindo-o a ficar com aquilo.
O fígado pertencia a Ernenek, porque fora ele que vibrara o
golpe de morte — o que abatera o urso; e assim que o animal
degelou, ele presentou o fígado a Anarvik, a fim de se
colocar taco a taco com ele. Anarvik não estava disposto a
suportar esta humilhação; por isto, passou o fígado para
Powtee, e esta, esposa submissa que era, o entregou a
Ooloolik; Ooloolik, porém, com toda a galantaria, ofereceu-
o a Siksik, que o devolveu a Ernenek; este, por sua vez,
procurou passá-lo às duas moças; mas estas eram jovens
demais, e não poderiam aceitá-lo.
Não obstante, todos trataram de liquidar depressa o fígado, a
partir do momento em que Ooloolik, sentindo o apetite
superar a conveniência das boas maneiras, abocanhou um
bom pedaço dele; af, todos os outros, quase que
simultaneamente, se atiraram ao fígado, com dentes e facas.
Ernenek provocou longos momentos de exclamações e de
gargalhadas, quando, em sua ansiosa voracidade, cortou,
com sua faca, uma das faces de Powtee, no instante em que
ela arrancava um pedaço do fígado com os poucos dentes
que lhe restavam na velha boca.
Impelidos pela alegria, todos comeram o que quiseram das
entranhas macias, ao passo que os nacos mais duros foram
acrescentados ao monte de carne e de peixe, para apodrecer
e amolecer; ao mesmo tempo, a língua do urso foi
dependurada, para secar, por cima da fumaça da limpada.
Eles alternaram a carne adocicada de urso com o tutano
esverdeado e de aspecto de mofo e com sebo rançoso, que
ajudavam a descer ao estômago por meio de goles de zurrapa
de chá; e tomaram o cuidado de não tocar em peixe,
enquanto comiam carne, a fim de não provocar a ira dos
espíritos. E o pequeno iglu ficou sendo tudo, e muito mais
do que haviam concebido, em pensamento e em lembrança,
no decorrer da caçada: estava cheio, até ao teto, de gente
festiva, enquanto que cachorros e cachorrinhos se
movimentavam por entre as pernas dos presentes; a parede
circular, manchada de sangue, espelhava a labareda cor de
salmão, que subia do pavio e flutuava por cima do óleo de
baleia que se derretia; o aroma rico da carne fresca de urso,
pesado e doce, misturava-se à fragrância sutil da
deterioração; o gelo ressoava o barulho da mastigação e das
engolidas, bem como dos estalidos dos ossos, das narrativas
valentonas e das gordas risadas.
Quanto mais Anarvik e Ernenek comiam, tanto mais
famintos se tornavam. Despidos até à cintura, e radiantes de
felicidade e de quentura, os dois continuaram a
empanturrar-se, a expandir o ventre, com as faces a pingar
sangue. Quando se sentiram extremamente pesados, a ponto
de não poderem sequer erguer uma das mãos, deitaram-se
de costas, e deixaram que as mulheres lhes fizessem cair, na
boca, pedaços escolhidos, deitando-lhes goles de chá à gar-
ganta, entre uma ingestão e outra.
Aquilo é que era a vida!
Com os olhos como que a flutuar em gargalhadas, Ernenek
olhava de uma das filhas de Ooloolik para a outra, enquanto
as duas se curvavam por cima dele, proporcionando-lhe
nacos de carne e sorrisos. Aquelas eram mulheres que
sabiam como um homem devia ser tratado; e deveriam
saber, também, com toda certeza, como se descarnavam
peles de animais, como se costuravam botas, e como se
faziam outras coisas — de que ele viesse a sentir
necessidade. Entretanto, quanto àquela que teria de
escolher, não foi capaz de decidir-se: Imina era mais bonita;
mas Asiak era mais ardorosa.
Ernenek sentiu-se de todo contente — e em paz com o
mundo. Quando se tornou incapaz de engolir, fechou os
olhos e a boca; e o bulício ao seu redor como que se
desvaneceu. Iria dar, ao alimento, o tempo necessário para
ser digerido; depois, estaria pronto para mais. Estendeu a
mão, para se assegurar de que Anarvik se encontrava ao seu
lado.
Lá estava ele, já roncando como uma ninhada de morsas.
Ocorreu, vagamente, ao espírito de Ernenek, que havia algo
sobre o que gostaria de fazer-lhe algumas perguntas. Essa
fora a razão pela qual ele se pusera a caminho, desde o
início, havia já alguns giros do Sol. Entretanto, em vão deu
tratos à memória.
O pensamento estava morto, enterrado e esquecido.
CAPÍTULO II
CAÇA A MULHER

Depois de períodos cada vez maiores de luz do dia, o Sol,
mais uma vez, deu volta à Terra, durante todas as vinte e
quatro horas; e, embora nunca se haja erguido muito alto, e
todas as sombras tenham sido longas, em conseqüência dos
raios obliquados, ainda assim o brilho do gelo refletia uma
luz fulgurante; simultaneamente, o comprimento do dia
explicava a espécie do tempo, que se tornava
intoleravelmente quente para os esquimós polares, ainda que
o seu calor não bastasse sequer para degelar o mar.
Qualquer homem teria percebido que a simples chegada de
Kidok — mercador corpulento, alegre, de andar gingado, e
que, sem demora, começara a arrastar a asa ao redor das
filhas de Ooloolik — clamava que já era tempo para uma
decisão pronta.
Qualquer homem, menos Ernenek.
Ernenek era caçador obstinado, porém mau amante. Sabia
como abater o grande urso, e como lancear a grande foca;
mulher, todavia, era caça muito pesada para ele. Ernenek
apenas meditava, com tristeza, que a vida era assim mesmo.
Por vezes, durante anos, ninguém aparecia; depois, de
súbito, todos juntos, no transcurso da mesma estação do
ano, dois e até mesmo três grupos chegavam — e um
homem passava a defrontar-se com um dilema do tamanho
de uma baleia.
Ao longo do verão inteiro, Ernenek namorou ociosa e
indiscriminadamente tanto a Imina como a Asiak — as quais
o afastavam de si, com gracejos e brincadeiras, mas também
com valentia. Até que, ao regressar de uma incursão solitária
de caçada, quando já o Sol se encontrava na iminência de se
desvanecer, ele viu um pequeno traço, no horizonte branco;
aquilo significava matilha e trenó; alguém que vinha, ou
alguém que ia; um grande acontecimento, fosse qual fosse o
prisma pelo qual se preferisse encará-lo.
Arrastou para fora do seu trenó a caça ainda a gotejar sangue,
e engatinhou para dentro do iglu. Anarvik e Ooloolik
estavam tomando chá, com as respectivas esposas e Asiak.
Imina, porém, não se encontrava ali.
— O que aconteceu foi que Kidok partiu — anunciou
Ooloolik — levando consigo, na qualidade de esposa, a filha
sem valer para alguém. Você não poderia decidir-se; por
isto, ele resolveu.
Todos riram, menos Ernenek, que se manteve inteiramente
imóvel, com o queixo caído e com uma expressão de
estupefação em seus olhos amendoados. Por fim, ao cabo de
algum tempo, ele deixou escapar:
— Mas aconteceu que alguém queria Imina; e irá buscá-la de
volta, e matar o ladrão que a roubou!
— Ele nos deu uma nova serra — disse Anarvik, a entender
que, assim, o casamento era legal; e Powtee acrescentou:
— Por que é que você não toma a nossa pequena Asiak? Ela
é igualmente sem valor, naturalmente; mas nada há que
Imina possa fazer, por você, que Asiak não o possa também.
Asiak ruborizou-se; deu umas risadinhas; e escondeu o rosto
por trás do punho; mas Ernenek bateu o pé.
— Alguém quer Imina e não Asiak!
Siksik encolheu os ombros; e disse:
— Ela estava aí, para quem a pedisse.
Ernenek cuspiu, zangado, e mergulhou no túnel; em
seguida, o grupo todo engatinhou atrás dele, contagiado pela
excitação, mas rindo.
— A matilha de alguém está cansada, mas é ainda mais
rápida do que a de Kidok. Será fácil alcançá-lo.
Ele, porém, não partiu antes de considerável delonga.
Tornou a arrear a matilha; inspecionou-lhe os calçados;
emitiu ordens e pedidos para que lhe pusessem mais
provisões no trenó; e houve grande animação no lugar;
todos se moviam, de um lado para outro, com os pés um
pouco virados para dentro, à maneira de pés de pombos; e
todos gritavam e riam.
Quando o trenó e os cães ficaram prontos, Ernenek achou
que estava com sede; e então engatinhou de novo, para
dentro do iglu, em busca de uma tigela de chá. De todo
indiferente à sua pressa, a cocção permaneceu quente longo
tempo; provando-lhe a temperatura com o dedo, ele se
queimou, pondo-se, depois, a pular para baixo e para cima, e
proferindo imprecações. Enquanto esperava que o chá
esfriasse, estofou as bochechas com peixe congelado; falava
entre um bocado e outro — principalmente para si mesmo,
como era seu costume.
— Alguém vai enfiar uma faca gelada no estômago de
Kidok, e arrancar-lhe o fígado, cortar-lhe as orelhas e
empurrar tudo isso pela garganta dele abaixo. Depois, vai
cortar-lhe a cabeça, e a colocará por cima do corpo; cortar-
lhe os olhos, e os porá por cima da cabeça. Isso o ensinará a
roubar!
Anarvik ergueu um dedo admoestador:
— Se o matar, ninguém mais permitirá, nunca, que você
entre em seu iglu outra vez.
— Nem mesmo você?
— Nem mesmo eu.
Isto fez com que Ernenek se pusesse a meditar, coisa que
não lhe ficava bem: o ato de pensar punha-lhe uma carranca
pesada no semblante por outros aspectos sereno. A expulsão
de uma comunidade constituía a única condenação, numa
terra em que não existiam leis, nem juízes, nem mesmo
chefes; e, embora a companhia humana fosse tão apreciada
como a própria vida, Ernenek ficou surpreso ao verificar que
um simples assassínio poderia acarretar uma retribuição tão
severa; não via nada de mal no ato de matar alguém. Era o
que qualquer foca ainda jovem faria, ao atacar uma das focas
machas idosas, pela posse de sua fêmea.
E o que era bastante bom para a foca era bastante bom para
Ernenek.
— Se é por esse modo que você encara a coisa — disse ele,
finalmente, emburrado — alguém irá apenas buscar de volta
Imina e aplicar, em Kidok, uma pancada de porrete, para
que ele se recorde. Se, entretanto, ele opuser resistência,
terá de ser morto, como uma focal
— Se você hão puder deixar de o matar, não se esqueça de
comer um pequeno pedaço de fígado dele, a fim de conciliar
o seu fantasma e torná-lo inofensivo — esclareceu Anarvik,
que era homem de experiência. — Um fantasma zangado é
muito perigoso.
A esta altura, o chá estava frio. Ernenek engoliu-o
barulhentamente, acompanhando-o com umas fatias de
peixe congelado; estalou os lábios, e engatinhou para fora.
Embora os cães de sua matilha proclamassem, alvoroçados, a
sua fome, ele evitou dar-lhes de comer — porque cães com
fome são cães velozes. A matilha uivava e latia, zangada;
mesmo assim, ele subiu para o trenó, a fim de partir para a
maior das viagens.
— Leve Asiak consigo — disse-lhe Ooloolik, empurrando
para a frente a filha que continuava a dar as suas risadinhas.
— Isso tornará mais fácil a realização de sua troca com
Kidok. Ele pagou por uma das nossas filhas destituídas de
valor; e terá de receber uma delas.
Ernenek hesitou durante um momento, antes de a admitir,
com um aceno da mão, em seu trenó. Mal ela se sentou, ele
acionou o chicote contra os cães; estes se abriram em leque,
uivando e ladrando.
O trenó de Kidok se havia reduzido à aparência de mera
ponta de alfinete, na imensidão branca, devido à neve que
recobria, com uma camada fina e fofa, todo o Oceano
Glacial. Esta região era extremamente fria, e não
proporcionava precipitação excessiva de chuvas, nem
mesmo nas fases de verão. Aqui e acolá, em meio ao mar
plano, alguma tempestade submarina, ou algum sistema
poderoso de correntes, havia erguido as águas petrificadas,
formando cabeços de formas esquisitas e de conformações
caprichosas, dando ao todo o aspecto de uma lendária
cidade-fantasma de arranha-céus derrocados. Longe, na
distância, situava-se a terra, também revestida de neve,
cortada por espinhaços de rocha nua, que se erguiam,
rústicos e íngremes, com sua cor escura, de encontro ao céu
verde-pálido. Fazia calor; apenas uns 10 ou 15 graus
Fahrenheit, abaixo e zero, correspondendo a uns 23 ou 25
graus centígrados, ou Celsius, abaixo de zero. Emenek
despiu-se, ficando nu até à cintura, e ostentou, então, o
físico robusto ao vento. Tinha deixado no iglu sua
vestimenta exterior de pele de urso; estava usando apenas a
sua vestimenta interna, feita de pele de aves.
— Dentro de pouco tempo, alguém terá alcançado Kidok —
disse Emenek, jactancioso, depois de se reduzir a excitação
inicial da matilha; a esta altura, ele poderia ouvir-se a si
mesmo, ao falar.
— É possível — disse Asiak, sentada plácidamente atrás dele,
com os braços cruzados sobre o peito — que, a esse tempo,
Kidok já tenha percorrido distância igual.

O tempo era medido pela marcha do Sol; este flutuava
pálidamente por cima da fímbria do horizonte, erguendo-se
um pouco mais ao meio-dia, e afundando-se um pouco mais
à meia-noite. Ainda assim, a todas as horas, a luz solar,
aguada, refletida pelo gelo, era ofuscante; e os viajores
faziam uso de óculos. Os óculos eram feitos de tiras de
madeira, com uma fenda estreita, correspondendo ao lugar
de cada um dos olhos do usuário; e os seres humanos tinham
enegrecido suas pálpebras e suas narinas, com fuligem, a fim
de quebrar o clarão.
Todavia, o Sol afundava-se um pouco mais a cada novo giro;
logo desapareceria; e, lá em cima, no topo do mundo, a
noite deveria chegar — e permanecer.
— Por que é que você quer alcançar Kidok? — perguntou
Asiak, com voz branda, depois de breve tempo.
— Para arrancar-lhe Imina. Não sabe você disto?
— Alguém sabe somente que você se transformará apenas
em objeto de riso de toda gente, durante anos e anos
vindouros. Quem é que já ouviu falar de um homem a
correr atrás de uma mulher?! E, como você sabe, a foca tem
prazer de ser apanhada somente por homens que são bem
sucedidos com as mulheres. Você verá que, assim que a
notícia desta caçada a Imina se espalhar no seio dos grupos
de focas, estas o desprezarão e evitarão.
— Você é apenas uma mulher supersticiosa, difundindo
hipóteses sem o menor sentidol — retrucou Ernenek,
zangado, chicoteando os seus cães, um a um. — Sei muito
bem o que me caberá fazer, para que as focas nunca venham
à saber do caso.
Depois de o Sol percorrer meio caminho ao seu redor, os
viajores e os respectivos cães começaram a dar sinais de
fadiga; os cães ofegavam mais e puxavam menos, tropeçando
freqüentemente; mas a ponta de alfinete que estavam
perseguindo aumentava de tamanho; e aumentava
rapidamente.
— Ele deve ter parado para descansar a sua matilha — disse
Ernenek, piscando um dos olhos.
— E também a nossa matilha está começando a ficar
cansada.
Ernenek, porém, dava chicote, em substituição a alimento e
a repouso; até que chegou um momento em que os
pequenos animais se puseram a cambalear e a estrebuchar;
de quando em quando, um ia de encontro ao outro, a fim de
fugir aos golpes do chicote; assim, baralhavam as correias
dos arreios; e Ernenek via-se obrigado a fazer alto e a ir
desembaraçá-las. Os cães rosnavam e vibravam dentadas às
luvas do homem; e o homem punha-os cada qual em seu
lugar, com pontapés e tapas. Mais tarde, quando Ernenek
proporcionou à matilha o indispensável alimento, na forma
de escassos nacos de carne congelada e peixe, os cães
engoliram-nos inteiros, com os ossos e tudo; enquanto
engoliram, debateram-se selvagemente, embaraçando de
novo os arreios; e o homem teve de desembaraçá-los outra
vez. Depois, Ernenek abocanhou punhados do mesmo
peixe, e atirou um pouco daquilo a Asiak.
A esta altura, os pequenos animais já se tinham deixado cair
sobre os respectivos ventres, escondendo o focinho entre ás
patas dianteiras e recusando-se a mover-se dali. Ernenek
tornou-se aborrecido; e procurou fazer com que a razão
predominasse entre eles, pondo em ação um porrete.
— Nós temos de deixar que eles descansem — arriscou-se a
dizer Asiak.
Ernenek pulava para baixo e para cima, com os pés no gelo,
tomado pela impaciência; e, a fim de que a parada não fosse
desperdiçada, ele resolveu tornar a gelar os cães da matilha.
Descarregou o trenó, e virou-o de borco, sempre
resmungando de si para si. Dete-ve-se apenas para derreter
neve em sua própria boca e esguichá-la em cima de um rabo
de raposa; a seguir, passou a cauda nevada por cima dos cães
da matilha; passou-a rapidamente, acompanhando-a logo
com suas luvas, a fim de que a coDertura de gelo se
formasse, toda por igual. Depois de tornar a carregar o trenó,
ele achou, de súbito, que estava cansado.
Deitou-se ali mesmo, para tirar uma soneca; e pediu para ser
acordado pouco mais tarde, sem falta.
Quando acordou, fê-lo por sua própria conta. Os cães
estavam transformados em montes ouriçados de neve
gelada; Asiak cochilava placidamente; o Sol tinha girado para
o lado oposto do horizonte; e o trenó de Kidok já se havia
traiçoeiramente dissipado do panorama.
Ernenek proferiu blasfêmias e cuspiu; pulou por ali, ao léu,
alucinadamente; aplicou pontapés à matilha, pondo-a de
pronto em atividade; e, antes que Asiak pudesse esfregar os
próprios olhos e dissipar os sonhos de sua mente, a
perseguição entrou novamente em curso.
Viajaram deslizando por cima do oceano, seguindo a trilha
deixada pela matilha de Kidok; comeram, no trenó, e
apanharam neve, com a mão em concha, para derretê-la,
formar água e beber, como também faziam os cães com a
boca aberta. Quando, depois de longo tempo, o trenó de
Kidok reapareceu à vista, Ernenek emitiu gritos e mais
gritos, numa algazarra de alegria.
— Por que é que você está dando caça a ele? — perguntou
Asiak, languidamente.
— Você deve ser mulher estúpida, ou surda — disse
Ernenek, irritado. — Alguém já lhe disse antes: para
arrebatar Iminal
A situação não se modificou, exceto quanto à despensa, que
se reduziu. A onda de calor já havia passado; o ar tornou-se
de novo respirável; a temperatura passou a ser de uns 30 ou
40 graus Fahrenheit abaixo de zero, ou uns 34 ou 40 graus
centígrados, ou Celsius, abaixo de zero; por vezes, ocorria
uma lufada de vento gelado, recordando, a Ernenek, os seus
amados temporais de inverno; e ele passou a resmungar,
com volúpia, para si mesmo, como fazia sempre que se
encontrava de bom humor.
Ou de mau humor, quanto a isto.
Ernenek ficou exaltado, ao verificar que Kidok tinha parado.
Aproximando-se ainda mais, viu a razão daquela parada:
Kidok estava pescando. Tinha aberto um buraco, no oceano,
e, agora, curvado sobre ele, com a sua lança de pesca posta
em posição, pronta para golpear, espiava para dentro da
profundidade; sua parte traseira se empinava no ar, e seu
nariz tocava na superfície do mar, cuja água havia enchido o
buraco, depois da retirada do gelo dali. Kidok virou a cabeça,
rápido, quando a sua matilha deu o alarme; mas voltou à sua
ocupação, nela permanecendo entretido até ao último
momento; até ao momento em que Ernenek correu contra
ele. Aí, Kidok pulou, correu para o seu trenó, que Imina
estava conservando de prontidão, e lá se foram todos, como
flocos de neve numa nevasca.
Ernenek passou, como que voando, por cima do buraco de
pesca, emitindo gritos de encorajamento e fazendo estalar o
chicote. De súbito, porém, ele se deteve. Havia a cabeça de
uma truta enorme, naquele buraco; a carne da truta
apresentava-se vermelha como sangue; e viam-se ossos e
cabeças menores espalhados por ali.
— De que é que se trata, agora? — perguntou Asiak.
Ernenek desceu do trenó, e ficou batendo ora com um pé,
ora
com outro, tomado de indecisão:
— Estas águas contêm peixes que não são pequenos — disse
ele.
— Kidok não é pequeno pescador.
— Se Kidok lanceou um peixe como este, alguém pode
lancear um ainda maior.
— Poderá você fazer isso? — indagou Asiak, duvidosa.
— Você terá a prova disso, dentro de muito pouco tempo
— declarou Ernenek, zangado. — Kidok não irá muito
longe. Mas não caminhe no gelo, e conserve também os
cães parados; do contrário, os peixes irão para outro lugar.
Ele estendeu uma pele de caribu junto ao buraco de pesca;
ajoelhou-se em cima dei a; e aproximou da água o próprio
nariz, enquanto que o seu assento ficou apontando para o
céu. Na sua mão direita, a lança de pesca ficou pronta para
golpear, enquanto que, com a mão esquerda, manobrou um
engodo, preso à extremidade de uma linhada feita de tendão:
o engodo era um peixe pequeno, esculpido em osso, que
batia as barbatanas quando Ernenek aplicava puxões à linha.
Ernenek estava demasiadamente empenhado em sua tarefa,
de modo que não notou quanto tempo transcorreu. Grandes
peixes, translúcidos, se moviam, folgados, no fundo e no
azul puro do oceano.
Depois de muito tempo, um deles abocanhou a isca e foi
puxado para a superfície. Ernenek abaixou delicadamente a
sua lança; depois, vibrou o golpe; e puxou de novo a lança,
que agora vibrava devido às contorções de um salmão negro,
que ele atirou por cima do gelo do chão. O salmão arfou,
respirou pesado, debateu-se de um lado para outro; depois,
pôs-se em imobilidade gelada. Rindo, Ernenek sopesou o
peixe com as mãos; a seguir, atirou-o a Asiak.
Asiak, porém, encolheu os ombros e disse:
— Não é grande. Você não apanhará nunca um peixe do
tamanho daqueles que Kidok apanha; assim, não perca mais
tempo, se tem o propósito de alcançá-lo.
Ernenek olhou por cima da planície de gelo:
— Ele não foi para muito longe; e será mais fácil alcançá-lo
quando os cães estiverem descansados.
E abaixou outra vez o nariz até ao nível da água.
Sentada no trenó, com os pés balançando, Asiak sorriu, com
aquelas suas faces rosadas e agradáveis, que estavam como
que a explodir de gordura. Com a ponta de sua faca de neve,
ela retirou os ossos do salmão, e passou a mastigar-lhes a
carne, devagar, sorrindo, sonhadoramente, para si mesma.
O tempo passou; e também os peixes passaram; mas Ernenek
não conseguiu apanhá-los. Podia vê-los; estavam flutuando e
cruzando-se uns aos outros, aos pares; outros, ainda, em
cardumes; mas nenhum chegou bem a distância de poder
ser lanceado. De uma feita, todo um cardume se aproximou;
então, ele vibrou uma lançada selvagem, procurando golpear
vários peixes ao mesmo tempo; mas todos se dispersaram,
incólumes.
— Você fez um buraco na água — disse Asiak. — Alguém
ouviu que os peixes estavam rindo.
Isto fez com que Ernenek se zangasse; e então resolveu
partir.
A temperatura caiu ainda mais. Os cães da matilha trotaram,
de nariz bem abaixado, acompanhando o faro; Ernenek e
Asiak puderam tirar algumas sonecas no trenó. Precisavam
de pouco sono dormido, no verão; poupavam-no para a
longa noite de inverno. Por vezes, porém, precisavam dar
descanso à matilha. Nessas ocasiões, Ernenek cortava um
buraco no oceano, com sua faca de gelo, ou, então, com a
serra; depois, tratava de lancear algum peixe; certa vez,
quando não se encontravam muito longe da orla do mar, ele
conseguiu abater uma raposa com uma flecha. Asiak
preparou-a, e serviu as tenras entranhas assim que esfriaram;
a carne mais dura foi por ele posta de lado, a fim de que se
sazonasse; e conservou o couro, para embrulhá-la.
Foi a raposa, com os seus primeiros fios brancos no pêlo,
que anunciou a aproximação do inverno — muito mais do
que o mundo que ia escurecendo, e ao qual os seus olhos já
se iam ajustando. A primeira brisa glacial punha estremeções
de deleite no corpo exposto de Ernenek. O bom humor
voltou a ele, e então houve grande
Q
uantidade de jactâncias. Asiak zombou dele, por causa da
matilha e cães, assegurando que aquilo nunca, nem mesmo
através de centenas de verões, alcançaria o outro trenó;
zombou dele, igualmente, por causa da caça de peixes,
esclarecendo que os peixes por ele apanhados não poderiam
nunca comparar-se aos peixes apanhados por Kidok, cujas
cabeças e espinhas se achavam como que semeados ao longo
da trilha. Ele lhe pagou com igual moeda, dizendo que ela
não sabia como atrelar um trenó, porquanto os arreios que
ajustara, enquanto ele estivera ocupado na caça do seu
almoço, se quebraram freqüentemente, e, de modo especial,
precisamente quando o trenó de Kidok aumentava de
tamanho e se tornava relativamente fácil de alcançar.
Uma das cadelas teve cria na trilha. Tinha sido atrelada com
as rédeas mais curtas, para que os seus companheiros de
matilha não lhe devorassem os filhotes. Asiak curvou-se
para baixo, em plena corrida, e, um a um, apanhou os
pequenos seres fumegantes. Com os dentes, ela abriu as
primeiras cinco peles que envolviam os animaizinhos; eram
frias, nos pontos em que tinham entrado em contato com a
neve, porém bastante quentes do lado de cima; Asiak
espalhou cada uma das peles, gelatinosas, pegajosas, e de
sabor adocicado por cima do beiral do trenó; depois, enfiou
os cachorrinhos úmidos para dentro de sua jaqueta. Uma
cadela, em marcha, não poderia criar mais do que cinco; por
isto, Asiak não abriu os quatro envoltórios seguintes, que
foram caindo na neve; conservou-os, porém, no trenó, para
serem utilizados à maneira de comida para as matilhas. Os
quatro logo se endureceram, expostos como foram ao vento
da corrida.
O Sol tinha dado vários giros; talvez sete ou oito; isso não
importava propriamente; o número exato pouco significava,
numa região em que o tempo era sempre longo; foi aí que
irrompeu uma nevasca, e que Ernenek começou a falar
consigo mesmo, tomado por uma exaltação extrema.
A escuridão estreitava o horizonte. Um vendaval, soprando
de alturas distantes, varreu a superfície do Oceano Glacial,
erguendo do chão, nuvens acinzentadas de poeira de neve, e
empurrando-as, horizontalmente, por cima da vasta
planície. Ernenek e Asiak acrescentaram mais óleo de baleia
às respectivas faces; piscavam os olhos, e curvavam-se para a
frente, contra as rajadas. O trenó de Kidok foi outra vez
perdido de vista; os cães da matilha de Ernenek não
concordavam mais com o rumo do faro; e ele teve de parar e
apear várias vezes, até conseguir descobrir, com os
calcanhares, as pegadas que tinham desaparecido por baixo
do lençol de neve recente.
O trenó e a matilha oscilavam sob a pressão do vento; e
Ernenek começou a sentir falta da sua jaqueta exterior, com
aquele capuz enorme, que deixava a descoberto apenas os
olhos. O gelo dependurava-se às suas sobrancelhas, e
enchia-lhe as orelhas.
Ainda assim, ele não poderia deter-se nunca, a menos que
ocorresse algum acidente.
A fim de dominar o vento e puni-lo por sua insolência,
Ernenek começou a surrá-lo com o seu chicote, bem como
a cortá-lo e a perfurá-lo com sua faca. O vento, entretanto,
não somente se recusava a mostrar-se intimidado, mas
também se irritava; com efeito, com uma lufada de furacão
virou de borco o trenó, e varreu-o ao longo de uma distância
de vintenas e vintenas de metros; nessa virada, fardos e
viajantes foram espalhados ao léu, acontecendo o mesmo
com os cães da matilha; tudo se esparramou por cima do
mar, numa desordem furiosa, acabando por empilhar-se,
afinal, de encontro a uma barreira de gelo. Os cães ladravam.
Ernenek proferia blasfêmias. Asiak ria-se. Em vão ele e ela
tentaram desvencilhar e reunir os cachorros; em vão
procuraram recolocar o trenó na devida trilha; o vento
virava tudo de novo, antes de o trenó ser outra vez
carregado.
— Perdoe a uma mulher, por ela falar; mas, assim, o trenó
poderá partir-se; e então você não alcançará nunca Kidok —
gritou Asiak, para dentro de uma das orelhas de Ernenek, de
uma orelha repleta de neve. — Deveríamos fazer alto aqui.
Se nós não podemos viajar, também ele não deve poder
viajar.
Os dois empurraram o trenó para junto da barreira de gelo;
com as facas, cortaram as correias dos arreios,
inextricavelmente emaranhadas; e, enquanto os cães se
reuniam, formando como que uma trouxa só,
choramingando e vasculhando freneticamente, Ernenek
começou a construir um abrigo.
Por cima de um monte compacto de neve soprada pelo
vento, ele traçou um círculo, com a lança; o círculo tinha
diâmetro pouco maior do que a sua altura, isto é, do que a
altura do próprio Ernenek. Pondo-se de pé, dentro do
círcuJo, cortou grandes cubos de neve por baixo de si
mesmo; e foi colocando os cubos ao seu redor, sobre a linha
traçada. Extraiu debaixo dos seus próprios pés os cubos desti-
nados aos renques mais altos, assim cavando e construindo
ao mesmo tempo. Recortou o último cubo de cada renque,
com sua faca de neve, a fim de ajustá-los a rigor ao espaço
restante, para fechá-lo hermeticamente. Cada fila de cubos
foi sendo construída um pouco mais estreita do que a fila
inferior, até que um único bloco de gelo, ou cubo, foi
suficiente para completar e fechar a abóbada.
Do lado de fora, entrementes, com uma pá feita de pele
congelada de foca, Asiak ia surrando a compacta neve
soprada pelo vento, a fim de reduzir a poeira fina; uma vez
reduzida a poeira, ela a atirava de encontro ao iglu que
estava sendo construído; por essa forma, ela vedava as
frestas que ficavam nas juntas entre um cubo de gelo e
outro. O abrigo completo emergia apenas um metro, ou um
metro e meio, acima da superfície do oceano; tinha aspecto
esférico, compacto, e não oferecia aresta alguma ao agarre
das intempéries; o resto ficava por baixo.
Acima de sua cabeça, Ernenek abriu um pequeno orifício,
para que a fumaça pudesse evolar-se. Depois, construiu o
divã de neve, bem como o túnel de vento; o túnel era
concebido para permitir a entrada do ar, mas não do vento;
ademais, tinha capacidade para abrigar a matilha de cães. A
seguir, enquanto Asiak carregava as provisões para dentro do
iglu, juntamente com os petrechos domésticos e cobria o
divã com peles, ele foi para fora, a fim de enterrar o trenó.
Feito isto, engatinhou de volta ao interior do iglu, batendo e
soltando cuidadosamente o pó de gelo formado à superfície
de suas roupas, antes de se acomodar, deitado, em cima do
divã.
No escuro, ele ouviu Asiak preparar a lâmpada, produzir
uma faísca no pavio feito de cogumelos secos, e acender a
mecha feita de musgo; logo depois, a graxa de óleo de baleia
começou a derreter-se na vasilha rasa; a pequena labareda
cresceu, fazendo com que a parede circular do abrigo
fulgurasse, ao mesmo tempo difundindo calor. Entretanto,
visto que a ventania e a fina poeira de neve prosseguiram
soprando através de alguns pontos das juntas nem sempre
bem vedadas da parede construída com material rústico e
deteriorável, Ernenek degelou a superfície interna, com
auxílio da lâmpada; assim que ele removeu a lâmpada, o que
fora degelado volveu a congelar, tornando, pois, a parede à
prova de penetração de ventania.
Asiak, entrementes, preparou um varal de secagem, por
cima da lâmpada, com o emprego de duas lanças enfiadas na
parede; e atirou, por cima do varai, a sua roupa exterior, toda
molhada. Puxando com as mãos e com os dentes, ela
descalçou as botas empapadas de Ernenek, e inspecionou-as.
Estavam descosturadas, como que estouradas, em dois
lugares; então ele as secou com aplicação de neve; e
consertou-as com a agulha feita de osso de baleia que ela
costumava trazer sempre metida entre os cabelos e cordão
feito de tendão de caribu. Depois juntou as botas às roupas,
para que também secassem, lá no varal.
O varal, ou, no caso, o cabide de secagem, a lâmpada, a
despensa e o bloco de neve de beber, a pederneira de
produzir faísca, a madeira seca, para fazer lume, e todos os
outros implementos de ordem doméstica — tudo isto foi
disposto de acordo com uma determinada ordem mais antiga
do que a História: cada item ficou ao alcance da mão com o
braço estendido, podendo ser facilmente encontrado no
escuro; desta maneira, qualquer atividade caseira poderia ser
levada a cabo, sem que a pessoa abandonasse o divã. Este
iglu era idêntico àquele que os dois haviam deixado, e
também o iglu seguinte, que iriam construir, ou em que
iriam morar; e seus utensílios tinham sido feitos de modo a
se adequarem a ele. Devido ao fato de não haver espaço
suficiente para movimentação de pessoas, a machadinha de
pederneira tinha cabo curto; e a faca de uso caseiro, feita de
ossos de caribu, era de forma circular, requerendo, para ser
manobrada, apenas um movimento do punho.
Asiak tinha centenas de coisas a fazer, como têm todas as
mulheres, no interior de suas casas. Sempre havia alguma
costura para ser efetuada. A mecha tinha de ser
continuamente aparada, para que não se apagasse. As roupas,
que estavam no varal de secagem, tinham de ser viradas. A
água, para o chá, precisava ser derretida. O verdadeiro
trabalho, porem, ainda se encontrava à sua frente: teria de
ser feito quando as peles, depois de secas, devessem ser
descarnadas e mastigadas, para que se tornassem macias.
O barulho adormecedor da alinhavação, o fulgor da lâmpada,
da cor do crepúsculo, projetado de encontro à parede de
gelo, e o cheiro da mecha que flutuava em meio ao óleo
derretido de baleia fizeram com que Ernenek desejasse
dormir. De súbito, porém, ele se sentiu
desconfortadoramente gelado. Tinha despendido muita
energia e comido insuficientemente, como fazem sempre os
homens, quando perseguem mulheres; e, naturalmente, ele
não seria Ernenek, se não se houvesse esquecido de alguma
coisa de muita importância, como, por exemplo, das roupas
adequadas. Sua vestimenta exterior estava secando no varal;
e ele se enfiou para dentro do saco de pele de rena,
mantendo, porém, os pés um pouco mais altos do que o
resto do corpo, de maneira que o ar quente pudesse elevar-
se até os dedos das suas extremidades inferiores; mas nem
mesmo este recurso, de eficiência comprovada, conseguiu
aquecê-lo; em conseqüência, o sono lhe fugia. Usualmente,
Ernenek auferia prazer do ato de cair no sono, estando com
o corpo meio gelado. Mas isto não aconteceu agora.
Através das pestanas, ele observou Asiak. Depois de algum
tempo, ela deixou de alinhavar. Chupou inteiro um peixe
congelado. Tapou o orifício feito no teto, com pele de
ptármiga, espécie de perdiz ártica. Bocejou um pouco.
Depois, sem pedir permissão, juntou-se a Ernenek, no
mesmo saco de dormir em que ele se encontrava.
Ernenek fingiu estar dormindo como um tronco de árvore;
e não deu mostras de tomar conhecimento da sua intrusão.
Após algum tempo, a mecha não aparada começou a
fumegar; depois, crepitou; e a seguir se apagou. A fúria da
nevasca fazia-se ouvir, mas abafada, através da espessa
parede de gelo. Tendo Asiak no saco, o calor foi formando-
se; e, antes que o percebesse, Ernenek já se encontrava
profundamente adormecido.
Ele acordou ao rumor de esfregamento de peles. A
tempestade tinha amainado um pouco. Asiak sorriu, vendo-
o deslizar para fora do saco de dormir. Ela estava amaciando-
lhe as botas com raspadores de osso; e fazia uso dos próprios
dentes nos lugares mais duros. As roupas dele estavam secas.
Ernenek estava com fome. O chá frio já se encontrava à sua
espera. O homem bebeu o chá, acompanhando-o com nacos
de peixe e goles de óleo de baleia congelado. Ao tempo em
que ficou cansado de ingerir alimentos, pouca coisa restava.
— Alguém irá tratar de Kidok, antes dele partir de novo —
disse Ernenek, palitando os dentes e lambendo os dedos.
— É possível que uma mulher se encontre com ele. Kidok
não pode estar muito longe.
Uns poucos cachorros ladraram e ganiram quando foram
pisados, no túnel; mas a maior parte deles se encontrava
excessivamente cansada; e, por isto, nem tomou
conhecimento dos pisões. O temporal continuava ainda
forte; o céu, carregado; a temperatura, rigorosa.
Descobrindo, com os calcanhares, as trilhas deixadas no gelo
pelo trenó de Kidok, espiando através da poalha de gelo, e
curvando-se contra o vento, Ernenek e Asiak afinal
descobriram um pequeno iglu como que a encolher-se para
se proteger contra o vento, e quase que cancelado da
existência pelas rajadas de neve.
Os dois foram saudados pelo rosnar dos cachorros, no túnel.
Dentro, o iglu de Kidok era exatamente igual ao de Ernenek,
com os mesmos implementos, todos dispostos na mesma
ordem. Kidok sorriu, num arreganho, para os visitantes,
pondo a cabeça para fora do seu saco de dormir; e as duas
irmãs deram risadinhas e se farejaram reciprocamente.
— Alguém veio para levar de volta a Imina — anunciou
Ernenek, sem a menor cerimônia.
— Nós os vimos enquanto nos perseguiam; mas pensávamos
que queriam brincar — disse Kidok sorrindo. — Você,
Ernenek, sempre desafiou a minha matilha.
— Não. Não se tratava de brincadeira; tratava-se era de
alcançar Imina.
— Por que é que você não fica com Asiak? Pois então ela
não sabe raspar peles e costurar botas, e fazer todas as
demais pequenas coisas que as mulheres fazem?
— Sim. Ela raspa e alinhava — concebeu Ernenek — mas
alguém quer a Imina, porque... — E ele chegou ao limite de
sua astúcia.
Não lhe ocorreu que talvez quisesse Imina meramente
devido ao fato de Kidok haver ficado com ela. Ruborizado e
embaraçado, Ernenek apanhou um pedaço de carne que
jazia no chão e cortou dele um naco, para comer. Os outros
três riram; e Ernenek foi fazendo-se cada vez mais
vermelho.
— Ninguém pode forçar uma mulher — disse Kidok, por
fim, dando provas de ser homem de maior sabedoria. — A
Imina pode ir com você, se o desejar. Mas, neste caso, Asiak
se juntará, talvez, a um caçador destituído de méritos, mas
que não deseja viajar sozinho...
Dizendo isto, olhou para Asiak; e Ernenek também olhou
para ela.
— Sem dúvida — declarou Asiak, rindo.
Ernenek franziu a testa. Sentiu-se tão infeliz, que teve de se
curvar repetidamente sobre a despensa, a fim de conseguir
consolar-se; e a única manifestação, de sua parte, ocorria
quando cuspia os ossos, ou quando chupava os dedos entre
uma posta de carne e outra, ao passo que os outros
cavaqueavam; eles cavaquearam e contaram coisas, até que a
tempestade passou.
Quando o trenó de Kidok acabou de ser carregado e
atrelado, eles resolveram retornar ao iglu, para tomar uma
ultima tigela de chá, bem como para travar uma última
conversação e fazer outra série de brincadeiras; e isto
significou mais ou menos outra semana de tempo.
Lá não havia nunca despedidas; somente as chegadas eram
motivos de festividades. As separações eram sempre tristes,
numa região em que o companheirismo era raro; assim, as
partidas passavam como que não notadas, e mesmo
ignoradas. No máximo, eles por vezes diziam Aporniquinati,
quando alguém partia de um iglu:
— Agora, amigo, tome cuidado para não bater com a cabeça
de encontro a abóbada do túnel.
Desta maneira, teria ficado bem, da parte de Ernenek,
ignorar inteiramente a partida de Kidok e Asiak, e
permanecer no interior do iglu. Entretanto, ao invés disso,
ele os acompanhou até ao exterior, e manteve-se de pé junto
ao trenó, com os maxilares tensos e os olhos trágicos; assim
como os cães da matilha se desalinhavam, fazendo com que
os arreios se distendessem e estalidassem, assim também
Ernenek se atirou, com todo o peso do corpo, contra o líder
da matilha; em conseqüência, deteve o trenó com tamanho
ímpeto e tamanha subitaneidade, que as cargas e os
passageiros tombaram
S
ara a frente, numa completa baralhada, em meio a um
torvelinho e latidos, blasfêmias e gargalhadas.
Kidok conseguiu recompor-se e pôr-se de pé, sacudindo as
roupas; e caminhou, gingando, na direção de Ernenek.
— Alguém, afinal de contas, preferiria ficar mesmo com
Asiak — resmungou Ernenek, com aspecto de infeliz. —
Tome de volta a Iminal
Kidok riu. Ernenek deveria ter perdido a razão. Como se
uma mulher não fosse tão boa como outra! Eram todas
iguais, para Kidok, contanto que Ernenek tomasse uma
resolução definitiva.
Ernenek tomou.
Por punição, ele teve de refazer o carregamento do trenó; e
fê-lo com alacridade, cantarolando alegremente para si
mesmo enquanto o fazia; pelo menos desta vez, sentiu-se
satisfeito por ver um trenó partir.
Levou Asiak de novo para o interior do iglu, e começou a
farejá-la e acarinhá-la, com esfregamentos das mãos, sem
perder tempo. Ela, porém, vibrou-lhe uma pancada sonora
por cima de uma das orelhas, com um salmão congelado.
— Você esteve perseguindo a Imina, durante muitos giros
do Sol, antes de tomar a sua resolução final; por isto, terá de
perseguir outra mulher, inteiramente destituída de valor,
pelo menos por um tempo tão longo como aquele, antes de
possuí-la — disse ela, meio zangada, meio divertida. — E
bem possível que uma mulher tola não seja tão fácil de caçar
como um urso.
Ernenek ficou como que de crista caída, em presença da
inesperada virada dos acontecimentos; e sentiu-se
grandemente alarmado, ao pensamento relativo à maneira
de como a foca interpretaria esta sua nova derrota. Depois,
Asiak deixou cair a surpreendente interrogativa:
— Por que foi que você perseguiu Kidok?
E visto que Ernenek não lhe deu resposta, ela mesma acres-
centou, com uma pequena risada:
— Você deve ser estúpido, homem!

CAPÍTULO III
OS FATOS DA VIDA

Quando, na melancolia do outono, eles retornaram ao
acampamento, Ernenek deu de presente, aos pais de Asiak,
uma lâmpada; e os pais permitiram que ele ficasse com
Asiak.
Ernenek sentia-se orgulhoso, porque, na qualidade de
homem casado, se encontrava, agora, na possibilidade de
retribuir, a outros maridos, todos os pequenos favores que
havia recebido. Quando ele deixava discretamente o iglu,
aludindo ao fato de que talvez Anarvik gostasse de passar
uns poucos momentos rindo em companhia de Asiak,
ocorria um novo empeno na posição de sua cabeça, junta-
mente com um novo enquadramento dos seus ombros. Por
fim, Ernenek passara a ser um homem, na mais plena
expressão da palavra. Não permitia que Siksik se tornasse
uma estraga-festas; ignorava-lhe as insinuações, quando ela
lhe sugeria que, desde muitas estações do ano já, Anarvik se
vinha revelando incapaz de rir, ou mesmo de ter apenas
uma casquinada com uma mulher.
O velho Ooloolik morreu no inverno seguinte, sem que
houvesse, para isso, nenhuma razão especial. Ele fora
dormir; depois, esquecera-se de acordar. Isto foi uma coisa
desafortunada. Se os seus parentes tivessem tido ainda que
fosse uma vaga idéia da sua morte iminente, poderiam tê-lo
vestido com suas roupas de sepultamento; poderiam tê-lo
transladado para um simulacro de abrigo, uma vez que a
sombra do defunto contamina o iglu — de modo que o iglu
teve de ser abandonado. Assim, na calada da noite, eles
mudaram de acampamento, apagando as próprias pegadas,
na medida em que caminhavam; foram construir novos iglus
bem longe dali, a fim de ficarem livres da vingança do
homem morto; até Ernenek achava que devia ser assim —
ele, que não tinha medo de nenhum homem vivo.
Porque um esquimó morto é um mau esquimó. O esquimó
morto enfurece-se por estar morto, enquanto que os seus
caros se conservam vivos; por isto, ele lhes faz mal e os
incomoda, com todas as suas forças. Visto como o terror
para com o fantasma de Ooloolik era muito grande, os
lamentos da pranteação foram muito altos e abundantes,
num esforço destinado a conciliá-lo. Para maior precaução
ulterior, cada um dos sobreviventes construiu ciladas e
armadilhas fingidas, ao redor das respectivas moradias, a fim
de assustar e afugentar o fantasma, no caso de ele desejar
aparecer.
Os mortos tornavam as coisas difíceis para os vivos; mas os
vivos também faziam a mesma coisa para os mortos.
Anarvik e Siksik migraram para o sul, ao romper do dia; mas
a mãe de Asiak, Powtee, se sentia excessivamente velha,
para viajar; Ernenek e Asiak permaneceram em sua
companhia.
Eles eram bondosos para com a velha mulher, que já não
tinha mais ninguém neste mundo, depois que Ooloolik
morrera e que Imina partira para junto da tribo de Kidok.
Durante um ano inteiro, eles cuidaram dela,
proporcionando-lhe atenções e afeto, e dando-lhe roupas e
comida, muito embora os dedos rígidos da anciã fossem
incapazes de costurar e descarnar couros; ademais, os seus
dentes, usados até às gengivas, eram incapazes, já agora, de
amaciar qualquer tipo de pele de animal. Eles lhe davam
pedaços escolhidos e tenros de carne; Asiak alimentava-a,
boca a boca; retribuía-lhe, por essa forma, o que dela tinha
recebido em sua infância — uma justa recompensa. Um fim,
porém, teria de ser posto a tudo aquilo; e isto era tão certo
como a chegada do inverno.
E aconteceu.
A velha mulher sabia o que aquilo significava — quando foi
como que empacotada, posta no trenó e conduzida por cima
do oceano batido pelo vento, e luminoso devido às estrelas.
Ninguém falou, durante a excursão, nem quando se fez alto;
e Ernenek fez com que a velha mulher se sentasse em cima
de uma pele de cachorro, que ele estendera em meio do
campo de gelo marinho, para uso dela — a fim de que
pudesse morrer com todo o conforto. Acabrunhado, ele
voltou gingando de novo para o trenó, murmurando alguma
coisa com os seus botões, e fingindo estar muito ocupado
com as trelas.
Asiak, desejando ocultar o seu desconforto, pusera-se a
ralhar com os cães da matilha, com mais intensidade do que
teria pretendido; e vibrava pontapés, com grande precisão,
nos focinhos pontudos dos pequenos animais, quando eles
se entregavam à sanha de puxar uns aos pêlos dos outros.
Nesse ínterim, sentada, toda composta, em cima da pele de
cachorro, Powtee ficou olhando para a filha, com olhares
preocupados.
Asiak estava grávida; e, provavelmente, não tinha a menor
idéia de como já se achava próxima, para ela, a tarefa de dar
à luz. Asiak não tinha assistido nunca ao nascimento de
seres humanos; por outro lado, ninguém que tivesse
assistido a tais nascimentos estaria à seu lado agora; e Powtee
ficou a imaginar sobre se sua filha já havia ou não aprendido
o suficiente a respeito dos fatos da vida, através do que
acontecia com os cães das matilhas.
— Aproxime-se bastante, pequena. Uma velha mulher
inútil tem algo para lhe comunicar.
Asiak acedeu e, com todo o respeito, se pôs a ouvir as
palavras da mãe.
— É possível que você logo deva dar nascimento a uma
criança. Agora, você deve saber que a criança se mostra
impaciente para ver o mundo. Esta é a razão pela qual você a
sente dando pontapés no interior do seu ventre. E é preciso
que a ajude, com todas as suas forças, a percorrer o caminho
que ela tem de percorrer. Se lhe acontecer estar no iglu
quando chegar o momento, remova as peles de animais do
chão, a fim de não as sujar; depois, ponha-se de joelhos, que
é a melhor posição para dar à luz; e cave um buraco por
baixo de você mesma, a fim de proporcionar espaço à
criança. Acontece, entretanto, que a criança, no último
instante, se assusta; fica com medo de sair; e, depois de já
haver vindo ao mundo, ela ainda se apega a você — ao
contrário dos cães que tem visto, que nascem inteiramente
livres. Assim, precisará cortar o cordão que prenderá a
criança a você, para que a separação aconteça; faça isso
imediatamente; do contrário, a criança morrerá, e você
morrerá com ela. Compreendeu o que alguém lhe
comunicou?
— Quase que tudo. Como você é sábia!
— Agora, ouça com cuidado. Assim que a criança nascer,
olhe para ver se se trata de menino ou menina. Se se tratar
de menino, tudo estará em ordem. Lamba-o com a sua
língua até que ele fique bem limpo; depois, esfregue-o com
óleo de baleia. Não tenha medo de esfregar com força; o
menino não se quebrará. Somente depois de um sono ou
dois, você deverá começar a lavá-lo em urina. Se,
entretanto, se tratar de menina, você deverá desvencilhar-se
dela imediatamente, antes de se apaixonar; ou, então, sentá-
la em cima do gelo, enchendo-lhe a boca com punhados de
neve — para que ela morra depressa.
— Por que é que alguém precisa fazer isso?
— Porque, durante o tempo em que der de mamar a uma
criança, você ficará estéril; e isto significa que, por estar
criando uma menina, retardará a chegada de um menino; e é
necessário que você crie depressa um varão em sua família.
Será ele que irá buscar alimento, quando você e seu marido
se fizerem idosos; e a velhice acontece muito, mas muito
depressa. Depois de ter um menino, poderá criar também
uma menina, se assim o quiser. Mas você deverá saber que
muitos pais esclarecidos permitem que sua filha viva
somente se houver alguém que, antes mesmo do seu
nascimento, prometa casar-se com ela, e que proporcione
meios para a sua criação, enquanto ela cresce. Está tudo isto
bem claro, para você, minha pequena?
— Está, minha querida.
— Alguém se sente satisfeita por ser assim.
E, como que para dar, à filha, a oportunidade de partir, a
velha desviou para longe o seu olhar; e ficou como que a
contemplar o outro lado da distância branca e solitária; a
olhar para as sombras longínquas, que denotavam a
existência de terra firme, tudo confuso e embaçado, na
quase escuridão da noite ártica. A velha era defensora e
sustentadora daquelas normas antigas do saber viver, que
mandavam que as partidas tinham de ser ignoradas. Desta
maneira, teria sido falta de polidez, da parte de Asiak e de
Ernenek, apresentar despedidas, como também teria sido
falta de cortesia, da parte da velha Powtee, tomar
conhecimento da partida.
Quando, porém, o jovem casal deslizou para fora da cena de
sua vida, deslizou apenas em sonoridade, em barulho.
Mentalmente, os dois moços continuaram perto da velha, de
tão familiarizada que a velha estava com o padrão de vida —
padrão este que não se modificara desde a sua juventude, e
que, de resto, era inalterável. A velha sentia-se
envergonhada pelo fato de, ao fim da sua longa vida, ainda
não se mostrar satisfeita com o seu quinhão, alimentando,
como alimentava, mais um desejo: o de ver, ouvir e
sustentar, ainda uma vez, em suas mãos nodosas, um bebê
recém-nascido, que teria de vir. E, enquanto se conservava
ali, sentada, à espera da morte, seus pensamentos rumaram
para o pequeno iglu onde, exatamente naquela fase, o
milagre do nascimento estava realizando-se. Ela, a velha,
conseguia imaginar, com precisão, tudo o que estava
acontecendo em sua ausência.
Quase tudo.
Mesmo enquanto Powtee se encontrava à espera da morte,
em cima da pele de cachorro, a criança ia chegando para
Asiak, como se estivesse sendo apressada, em sua chegada ao
mundo, pela grande tristeza da velha. Já durante a viagem de
volta a sua casa, Asiak se sentiu acometida pelas dores do
parto, embora nenhum lamento emanasse dos seus lábios.
Cachorrinhos de olhos sonolentos saíram, latindo e
tropeçando, do túnel; saíram sacudindo a neve acamada
sobre seus longos pêlos. Enquanto Ernenek desatrelou a
matilha, Asiak não hesitou em proceder ao descarregamento
do trenó; mas lhe aconteceu cair de borco sobre a neve; e,
então, com alguma dificuldade, esgueirou-se através do
estreito túnel de entrada do iglu. Ela se desfez de sua
vestimenta exterior; acendeu a lâmpada e estendeu-se toda
no divã de neve.
Ernenek seguiu-a de perto.
Sua presença perturbou a moça. Ela teria gostado de estar
sozinha, no transcurso do episódio que se encontrava na
iminência de se registrar.
— Lembra-se você — disse ela, conservando fechados os
olhos — do flanco do boi almiscarado que nós empilhamos,
no grande golfo, na primavera passada?
Ernenek exultou, a essa lembrança:
— Não era, de forma nenhuma, um boi almiscarado
pequeno!
— Claro. Você sempre teve todas as coisas de maior
tamanho. Agora, tudo deverá transcorrer linda e
suavemente.
O rosto enorme de Ernenek assumiu aspecto grave e sério:
— Trata-se de uma longa viagem, e alguém está com sono.
— Uma mulher amalucada deseja um pouco daquela carne.
Ernenek oscilou a sua corpulência achatada e robusta, com a
cabeça levemente curvada para baixo, sob a abóbada de gelo.
— Há foca bem gorda e congelada na despensa — disse ele,
tentadoramente — e há também fígado que está
deteriorando-se desde o verão.
— Alguém não quer saber de foca bem gorda e congelada —
disse Asiak, sem se deixar impressionar — e também não
quer fígado, pouco importando o seu estado de deterioração;
o que alguém quer é lombo de boi almiscarado.
Nos últimos tempos, ela tivera muitos daqueles caprichos
súbitos; e teria sido fácil, para Ernenek, silenciá-la com um
simples tapa — a qualquer momento em que se sentisse em
boa forma para isso. O homem ficou a matutar sobre a razão
pela qual nunca fizera aquilo; mas não encontrou resposta
alguma. Havia muitas outras interrogativas às quais Ernenek
não conseguia responder. Ele bateu o pé; cuspiu; resfolegou;
e proferiu blasfêmias. Depois de tudo isto, passou a untar o
próprio rosto com óleo de baleia; tratou de atrelar de novo o
trenó; e lá se foi ele, em busca da carne de flanco de boi
almiscarado.
Com o pé, Asiak empurrou para o devido lugar o bloco de
gelo que vedava a entrada do iglu; e isto porque ela sentia
tremores, muito embora, até àquele instante, a gravidez a
houvesse conservado aquecida — mais aquecida do que o
estaria se se protegesse com duplo jogo de pele de urso. A
seguir, quebrou um pedaço de neve de beber, tirando-o do
bloco; derreteu-o por cima da lâmpada, numa vasilha rasa,
de pedra-sabão; e bebeu avidamente, sem sequer abandonar
o divã. A criança impaciente como que vibrava punhaladas
no interior do seu corpo, fazendo com' que Asiak cerrasse
os dentes, ao mesmo tempo em que, no interior de suas
botas, os dedos dos pés se encurvavam. Os golpes da criança
induziam-na a sentir-se mal o estômago; e os seus cabelos
úmidos lhe caíam por cima da fronte. Ela mordeu os
próprios lábios, até feri-los e sangrá-los.
A mecha de musgo, que flutuava no óleo derretido de baleia,
na lâmpada, começou a crepitar, emanando espirais negras
de fumaça na direção da abertura que havia no teto, e
chamando a atenção da moça para que ela fosse apará-la.
Asiak, porém, ignorou o chamado. Pôs-se de pé, removeu as
peles que se encontravam espalhadas no chão, e, com um
raspador de couro de vestimenta, abriu um buraco na neve.
Ajoelhou-se por cima do buraco; baixou os calções até aos
joelhos; e ficou esperando; enquanto isto, descansou, com
um cotovelo em cima do divã e o outro em cima do bloco
de neve. A luz cor de albricoque atenuou-se; fez-se
amarronada; depois, virou cor de púrpura, azul, cinzenta,
negra.
E, na escuridão, a criança primogênita de Asiak caiu de
ponta-cabeça no buraco cavado na neve.
No ponto em que havia alguma coisa que a puxava, ela se
curvou e cortou, com uma forte mordida, o cordão que a
prendia à criança; e assim que a criança ficou livre, uma
forte rajada encheu o iglu; então Asiak correu a acender a
lâmpada, a fim de ver o que acabava de pôr no mundo.
Era um garoto, e o poder de sua voz fez com que ela risse
um pouco, porque lhe recordava o vozeirão de Ernenek. Ela
lambeu aquele monte frouxo de carne, de cor acastanhada e
pálida, até que se apresentou imaculado, limpo e brilhante,
menos quanto àquele ponto mongólico, azul, na base da
espinha; depois, secou tudo com um esfregão de pele de
raposa; untou a criança com óleo de baleia; e, sem perda de
tempo, enfiou-a para o lado de dentro do seu saco de
dormir, feito de pele de rena, porque as pancadas dolorosas
de após o parto estavam começando a acossá-la.
Passadas as pancadas, ela sentiu uma vontade ansiosa de
comer; e engoliu um pedaço enorme de carne de foca,
congelada. Depois disto, uma grande paz e um imenso
contentamento lhe invadiram o ser inteiro. Ela se despiu e
enfiou-se também dentro do saco de dormir.
O pequeno caçador agitava-se e gritava freneticamente. Ela
lhe tapou a boca com o seio; e ele começou a sugar o leite,
com todas as suas forças; em sua ansiedade, chegava a
machucá-la de leve; e isto lhe dava uma sensação que lhe
lembrava vagamente, por se assemelhar muito, o prazer
sexual.
E isto marcou também a revivescência dos seus desejos
sexuais — desejos que, como acontece com os animais
silvestres e selvagens, se haviam adormecido no dia da
concepção. Este adormecimento fizera com que todo o seu
ser se esforçasse, concentrando-se dentro de si mesmo, para
se manter na defensiva contra o mundo exterior.

E o longo período de continamente intrigara Ernenek, que
tinha conhecimento do poderio primigenio do sangue de
Asiak, que lhe impunha tão poucas exigências, como estava
acontecendo.
- Quando Ernenek voltou, com as guloseimas, deteve-se
como que pregado no chão, de gatinhas, na passagem de
entrada; o grande queixo do homem ficou como que a
pender-lhe do rosto; e ele se manteve imóvel, como que
tomado de encantamento. Uma pequena madeixa de cabelo
bem preto emergia da extremidade do saco de dormir, ao
lado do rosto de Asiak.
— Aconteceu que uma mulher deu à luz uma criança —
disse ela, meio envergonhada. — Mas não é bem bonitinho?
— acrescentou, erguendo o recém-nascido no ar,
triunfalmente.
Ernenek meneou a cabeça, duvidando:
— Alguém já viu filhotes de ursos que tinham aparência
mais agradável.
Ele se ergueu, pondo-se de pé; e esqueceu-se de sacudir a
poalha de gelo de suas vestimentas.
— O menino melhorará na medida em que for crescendo —
declarou Asiak, com firmeza. — Mas ele já tem tudo de que
necessita. Seu nome é Fapik.
— Como é que você sabe que o nome dele é Papik? —
indagou Ernenek, estupefato.
— Porque acontece que alguém gosta desse nome.
Assim, Ernenek esparramou Papik em cima da neve, e
contemplou-o, de olhos bem arregalados; contemplou-o
estando no divã, sem se sentir ainda preparado para a
paternidade.
— Ele pode não se sentir aquecido, todo nu como está, em
cima da neve — sugeriu Asiak; e Ernenek ergueu o menino,
pondo-o em cima dos seus joelhos...
A seguir, o novo pai começou a inspecionar o bebê, dos pés
à cabeça, sacudindo-se todo de riso à vista do pequeno
tamanho de cada uma das partes daquele corpinho; e Asiak,
por isto, se sentiu um pouco contrafeita e zangada. E isto
porque, na verdade, o pequeno caçador se apresentava de
compleição robusta, com ombros quadrados, peito grande,
braços curtos, porém fortes, e zigomas amplos; ademais, os
olhos levemente em oblíqua se mostravam bem negros,
bem vivos, no pequeno rosto inteiramente untado de óleo
de baleia.
Ernenek assegurou-se de que tudo se encontrava ali. As
unhas, tenras e miúdas, nas mãos de dedos de ponta
embotada. O nariz breve, quase que desaparecendo entre as
faces que pareciam explodir, de tão bojudas que se
apresentavam. A boca, rica, redonda, com a pequena
língua..?
— Asiak!
Ernenek ergueu-se, pondo-se ereto, de peito empolado, com
a cabeça a bater na abóbada do iglu; e balançou o filho,
agarrando-o por um dos pés; o recém-nascido rompeu num
choro estridente, ao mesmo tempo em que suas faces se
faziam vermelhas, de um vermelho escuro.
Os olhos de Asiak arregalaram-se:
— De que é que se trata?
— Ele não tem dentes!
Seguiu-se a consternação. Asiak apalpou as gengivas do
filho, sem se incomodar com a sua gritaria. Ernenek tinha
razão: nenhum vestígio de dentes. E, pela primeira vez,
Ernenek viu, nos olhos dela, algumas lágrimas que não eram
produzidas pelo riso.
— Você deve ter violado algum tabu — disse-lhe ele, com
severidade.
— Não que eu saiba.
— Comeu você algum animal marinho, juntamente com
algum animal terrestre? Ou talvez terá posto produtos do
mar e produtos da terra na mesma panela?
— Naturalmente que não.
— Então você deve ter tentado lancear uma foca, ou matar
algum caribu branco, ou costurar fora da estação do ano. Por
que é que você não confessa?
— Porque não fiz nada disso! E que é que me diz de você
mesmo haver violado algum tabu? Pense. Pense bem!
— Uma estúpida mulher a falar por essa forma ao seu marido!
A que ponto está o mundo chegando?
— A coisa importante é esta: que é que se pode fazer quanto
ao caso?
Ela mordeu firmemente um dos seus próprios dedos,
enquanto travava esta discussão ociosa: porque, como era
lógico, sabia o que precisava ser feito.
E também Ernenek o sabia. Ele se desviou para um lado;
tossiu; disse umas blasfêmias; e resmungou para consigo
mesmo. Depois, riu grosseiramente, fingindo indiferença.
Asiak antecipou-se a ele:
— Nós vamos sentá-lo lá fora, em cima do gelo. Quanto
mais cedo, tanto melhor.
Ernenek foi acarinhar-lhe os cabelos e farejá-la:
— Nós haveremos de ter outras crianças; e, talvez, teremos
dentes nelas.
Embora um pouco entorpecida ainda devido ao parto, Asiak
quis ir em sua companhia na excursão; e eles percorreram a
mesma rota pela qual haviam chegado, um giro da Lua antes.
Powtee podia estar ainda viva se algum urso ainda não
houvesse ido buscá-la; e para Asiak, o pensamento de que o
seu pequeno Papik não entraria sozinho na Eternidade, e
sim nos braços de sua avó, constituía algo assim como um
motivo de consolo.
Nenhum urso tinha aparecido para buscar a velha mulher;
ela se encontrava onde eles a haviam deixado: sentava-se,
bem composta, em meio à imensidão branca, como a Rainha
do Mar. A velha apresentava-se um pouco entontecida,
devido à exposição do corpo a tamanha quantidade de ar
livre; quando, porém, finalmente se sentiu capaz de mover o
queixo coriáceo, moveu-o para proferir uma comunicação
surpreendente:
— Uma velha e inútil mulher sabe como fazer para que os
dentes do menino nasçam.
Aquilo deveria exigir tempo; até ao verão, explicou ela; só
então as Forças dos Ventos e das Neves, com as quais ela, na
qualidade de mulher anciã, se encontrava em excelentes
termos de relações pessoais, se curvariam ao seu pedido; no
fim, contudo, o pequeno apik receberia os seus dentes. E,
embora Asiak e Ernenek não se sentissem muito
convencidos de que a velha tivesse consciência do que
estava dizendo — porque as mulheres velhas costumam
pairar a respeito de toda espécie de coisas tão alheias à
realidade como alheio é o gelo em relação à Lua — os dois
se apegaram àquela possibilidade.
Viajaram de volta ao iglu, com a velha e com a criança;
Ernenek, por isto, teve de construir outro iglu, de neve
fresca, encostado e com comunicação para o seu; nesse
novo iglu, Powtee poderia retirar-se, em companhia do
neto, uma vez que desejava não ser perturbada em suas
conversações com as Forças dos Ventos e das Neves. E
Asiak permaneceu ansiosa, por trás da entrada bloqueada, à
espera de ser chamada para alimentar a criança.
Além do leite materno, Papik recebia óleo de baleia para
sugar; sugava-o do dedo de Powtee; recebia também suco de
fígado; o suco era-lhe espremido dentro da boca. A velha
mulher mal tomava algum alimento para si mesma. Foi,
assim, tornando-se cada vez mais magra; de modo que o
nariz passou a saltar-lhe cada vez mais entre as duas faces
encovadas, riscadas por muitas rugas profundas. Seus olhos,
porém, acusavam muito mais vida do que uma parelha de
focas na água.
O menino crescia notavelmente; mas, visto como Asiak
continuava a explorar-lhe as gengivas — e a explorar-lhe em
vão — ela se ficou mal-humorada e taciturna; e muitas vezes
Ernenek, acordando ao rumor contido dos seus soluços,
punha a sua mão, pequena para fora do saco de dormir, e
acarinhava-lhe o rosto molhado, na escuridão.

Com indiferença, Asiak costurava, empregando agulha
triangular e tendão de caribu, o berço de pele de animal, de
rodízios, e destinado ao transporte do filho; costurava,
igualmente, com os mesmos recursos, as vestimentas para o
pequerrucho, que se faziam de couro de animais jovens; e
também as pequenas botas brancas, elaboradas com pele de
filhote de foca. Com igual indiferença, curtia as peles, com
água humana; e depois as raspava, para que se tornassem
macias. Sempre que o vento norte soprava, ela saía ao ar
livre, em plena noite estrelada, e caminhava ao léu,
pousando os pés à maneira de pés de pombo; e, por vezes,
surpreendia-se a si mesma, falando alto, exatamente como
acontecia com Ernenek.
O corpo de Asiak, bem-feito, porém algo robusto e tornado
um pouco pesado em conseqüência da vida ao ar livre vivida
no verão, começou a adelgaçar-se. Isto seria normal no
inverno. O caso é que ela precisava dormir mais, como
dormiam mais Ernenek e todas as outras pessoas que ela
conhecia, principalmente naquela estação do ano. Ao invés
de dormir, ela cochilava, desassossegada; e, de quando em
quando, nem chegava a cochilar.
Aquela pequena cúpula de gelo bem que poderia ser uma
habitação feliz. O iglu era pequeno, por motivos de
facilidade de aquecimento; mas possuía todo o conforto
imaginável: a despensa continha abundância de graxa de
óleo de baleia para ser usada como combustível, a fim de se
cozinhar e produzir luz; e possuía, além disto, alimento
suficiente para durar o inverno todo. Quando, através da
espessa parede de gelo, se ouvia o vendaval uivando lá fora,
aquela cúpula, aquele iglu, era quente e aconchegante, com
a sua luz pálida de arrebol, com a sua fragrância do óleo de
baleia queimado, e com o seu cheiro de carnes postas para se
abrandarem. Coroando tudo, havia aquele destemido
caçador que era Ernenek, a roncar no saco de dormir.
Asiak, porém, ansiava pela chegada do Sol; quando este
tornasse a repontar, poderiam rumar todos juntos para o sul,
a fim de se encontrar com os bandos de animais; a vida,
então, passaria a consistir de ocupações animadas que a
ajudariam a esquecer; de caça ao caribu e ao boi almiscarado;
de preparação de ciladas e armadilhas; talvez então ocorresse
o encontro de grandes grupos de outros homens;
possivelmente, umas oito ou dez pessoas; com essas pessoas,
seria viável a realização de caçadas e de diversões.
No coração de Asiak, a esperança da recuperação de Papik
durara pouco tempo; e ela já começava a lamentar o fato de
haver tomado de volta o menino sem dentes.
Agora, a separação seria insuportável.

A primavera apareceu; a longa madrugada; a aurora lenta; as
estrelas pálidas; a atmosfera que se tornava cor de púrpura,
que se tomava clara, que se transformava em dia, e, por fim,
ao cabo de longa espera — o Sol E Asiak, de acordo com um
costume consagrado pelo tempo, extinguiu o lume; jogou
fora o combustível de iluminação; reabasteceu a lâmpada
com graxa fresca de óleo de baleia; e aplicou-lhe nova
mecha.
Acompanhando o sopro de vida que reaparecia, procedendo
do fundo do horizonte, a dormência dissipou-se do corpo
dos homens; que clamou por alimentação de carne; e o
sangue passou a pulsar através das veias; em conseqüência,
eles se fizeram inquietos; e, por isto, se puseram a
inspecionar e a reinspecionar os arreios dos trenós, bem
como as pontas molhadas de suas lanças e flechas; e
entregaram-se também à tarefa de esticar os tendões que
serviam de corda aos seus arcos.
Com o corpo musculoso a brilhar de graxa, Ernenek ficou de
pé, em meio às luzentes paredes de gelo.
— Na nossa primeira parada, nós abandonaremos os dois.
— Entretanto, alguém se tomou de amores para com Papik
— esclareceu Asiak, ao sentir que o seu coração se fazia mais
frio do que um iglu abandonado. — Mesmo quando se fizer
maior, uma mãe tonta poderá mastigar o alimento para ele,
em sua própria boca.
— E que acontecerá quando você morrer? Os homens
zombarão e as mulheres escarnecerão dele, durante toda a
vida. Não, não! Ele não está capacitado para viver.
Dizendo isto, Ernenek deu meia volta e saiu para atrelar os
cães da matilha; e fez tudo isso resmungando.
Quando o trenó recebeu sua carga e os cães se puseram a
latir, impacientes, Powtee emergiu do iglu, carregando Papik
nos braços.
— Você poderá levá-lo consigo, sem mim. O que acontece
é que os dentes dele já começaram a crescer.
Lá estavam eles, os dentes, sob o dedo pesquisador de Asiak:
eram dois pequenos e agudos pedaços de dentes; Powtee
prometeu que mais dentes surgiriam depois; formariam uma
fila inteira; uma fila completa, com um conjunto sem falhas,
todos brancos. Como foi que ela fez aquilo, ou o que foi que
ela fez, para que aquilo acontecesse, é coisa que ninguém
sabe. Mas o caso é verdadeiro; porque Ittimangnerk, o
comerciante, que viu a família de Ernenek no verão
seguinte, e que barganhou chá, trocando-o por algumas de
suas peles de raposa, contou isso a alguém que nunca o havia
colhido dizendo mentira — a não ser por motivos de
negócios.
Asiak atirou-se ao pescoço da mãe; cheirou o rosto, agora de
cor de avelã, de Powtee; esfregou o próprio nariz no dela; e
lavou-o. Ernenek, por sua vez, pulou mais alto do que
pularia a foca jovem, que estivesse fazendo demonstrações
para ser notada pelo seu companheiro; e produziu barulhos
semelhantes aos produzidos pelas focas.
— Você precisa ficar em nossa companhia, querida — disse
Asiak a Powtee. — Que acontecerá se os nossos filhos
seguintes nascerem também sem dentes?
— Não se preocupe. As Forças dos Ventos e das Neves
prometeram que todos os seus filhos serão dotados de dentes
— mesmo que, desde logo, não nasçam com eles. Alguma
velha mulher já está cansada destas longas jornadas. Ela se
sente estonteada, desgastada, fraca. A primavera já não lhe
açoita o sangue.
Como, neste ponto, a despedida seria coisa imprópria, eles
abriram uma trouxa e voltaram ao interior do iglu, para
preparar algum chá; queriam, ademais, cavaquear um pouco
e rir bastante, devido à presença dos dois dentinhos de
Papik; queriam puxá-los mais para fora; queriam atirar, na
boca do pirralho, alguns pedaços de guloseimas; de uma
feita, na verdade, Asiak teve de afundar dois dedos na boca
do menino e retirar, de sua garganta, dois pedaços
relativamente grandes de carne, que ali se haviam detido.
Ernenek e Asiak beberam, comeram e divertiram-se — até
que Asiak, tendo dormido pouco naquele inverno, foi
acometida de fadiga súbita; por isto, deitou-se, a fim de
descansar. Ernenek continuou a estofar as próprias
bochechas com carne, e a quebrar ossos, a fim de lhes retirar
o tutano; até que também ele se sentiu com sono; e deitou-
se no chão, rosnando.
Powtee ergueu-se, sem fazer barulho, e deslizou para fora do
iglu. A matilha latiu, ao vê-la; mas ela fez sinal aos cães para
que se aquietassem; a fim de silenciar os mais
barulhentamente demonstrativos, ela vibrou-lhes golpes à
cabeça, com sua faca de cortar neve. A velha deixou atrás de
si sua vestimenta interna, feita de pele de mergulhão; ela
poderia ainda ser muito útil a Asiak, ou ao menino; era
preciso muito trabalho de costura, para se ajustarem umas às
outras todas as peles indispensáveis para a formação de um
traje protetor interno; a anciã vestiu-se apenas com as
vestimentas feitas de pele de cachorro; eram vestimentas
que, de tão usadas, já mal ostentavam um ou outro pêlo à sua
superfície.
Um vendaval a saudou, com violência, sob um céu de
chumbo. O avanço tornava-se laborioso para o seu velho
corpo encarquilhado, que tinha queimado as melhores
energias durante todo o inverno, dispondo de
reabastecimento muito escasso. Não se ouvia rumor algum,
afora as suas próprias passadas, dadas com as botas sobre a
neve; ouvia-se, também, distante, por baixo dos pés, o
rumor abafado das águas do mar, do mar aquecido, do bom e
rico mar, todo cheio de bons e gordos peixes.
A velha caminhou para a frente, até que começou a suar;
suar era coisa que ela fora treinada para evitar, desde a
primeira infância — a menos que se encontrasse metida em
seu saco de dormir. Mas ela continuou a avançar, trôpega,
com toda a força da sua vontade já debilitada; esforçou-se;
transpirou. Em cima de um cabeço de gelo, em meio ao mar,
ela parou. O iglu já não era visível aos seus olhos cansados.
Ela se sentou no gelo; e esperou, placidamente, que o suor,
que lhe cobria o corpo, se transformasse em gelo.
O tempo passou. Ela não soube quanto tempo; nem
ninguém jamais o soube, nem se incomodou por saber; nem
isso importou coisa alguma a ninguém.
No começo, a geada, em torno do seu corpo, foi coisa
penosa. Ela sentiu a frigidez do gelo esfriar-lhe as carnes, os
ossos, os pensamentos. A capacidade de sentir dissipou-se e
desapareceu; o espírito fez-se tardo acompanhando a
pesadez do sangue lento; e uma tontura gostosa se
manifestou. Dentro de pouco tempo a velha não sentiu mais
frio; o que aconteceu foi que ela se sentiu aconchegada e
satisfeita.
Powtee distinguiu a forma de um urso brincando em cima
dos campos formados pelo mar gelado; e pensou na alegria
que Ernenek provaria, se avistasse um animal grande como
aquele. O urso aproximava-se dela, devagar, como que
refreando os seus quatrocentos e cinqüenta quilos de fome;
mostrava-se desconfiado de tudo quanto apresentasse forma
de homem, porque este tinha muito do aspecto do urso.
Moveu-se, por cima do gelo, com uma cautela tão ponde-
rada, que se fazia evidente: caminhou com as orelhas em pé,
com o amplo nariz movendo-se de um lado para outro, e
com os olhos, que pareciam pontas de alfinetes, bem
atentos. A grande cabeça, de forma triangular, produzia sons
surdos, gorgolejantes; e as narinas expeliam novelos de
vapor, devido à respiração na atmosfera fria.
Powtee não pôde deixar de sorrir um pouco, com sua boca
desdentada, em presença do fato segundo o qual uma
simples forma humana era suficiente para manter acuada
uma fera tão enorme. E ela refletiu: o urso tinha razão para
ser cauteloso; porque, sem dúvida nenhuma, algum dia
Ernenek se encontraria com ele, face a face, por cima do
mar branco; nessa oportunidade, Ernenek induziria o urso a
engolir uma bola de graxa de óleo de baleia, com uma mola,
feita de osso de costeleta de baleia, em seu interior; depois,
Ernenek o seguiria, enquanto perambulasse, sofrendo; até
que, afinal, o mataria. Diante de um novo iglu, gritos de
alegria se ergueriam, quando o caçador retirasse o couro do
animal caçado; e o seu companheiro de aventura removeria
as entranhas do bicho, antes que se congelassem; depois, o
pirralho morderia o fígado fumegante da besta, com duas
tilas perfeitas de dentes de marfim; até que, daquela presa,
branca e enorme, nada mais restasse, afora as manchas de
sangue nas paredes do iglu.
Powtee sabia o futuro, porque conhecia o passado; a sua
familiaridade com os fatos da vida lhe permitiam
compreender, e por isso aceitar, sem amargura, a tragédia
eterna da Natureza: a carne precisa morrer, para que a carne
possa viver. Ela tinha de morrer, para que o urso pudesse
viver, ate que um dia Ernenek o matasse, para alimentar
Asiak e Papik.
E, assim, ela voltaria aos seus caros.
Ao tempo em que o urso fechou o cerco, quase todos os
sentidos já a haviam abandonado; e foi com uma vaga
sensação de dor — se é que o foi — que ela passou para
dentro das regiões do sono constante tranqüilo.

CAPÍTULO IV
A BARGANHA

Enquanto permaneciam entre as sempre-verdes, os
esquimós polares definhavam e morriam; medravam em
cima do gelo perene, No inverno, eles erigiam seus iglus, de
metro e meio de altura, sobre a crosta petrificada do oceano;
esta crosta, devido às águas que lhe ficavam por baixo, era
mais quente do que a terra firme. Na rase da primavera, eles
emergiam do torpor da longa noite escura; despiam suas
vestimentas; raspavam a sujidade encardida, acumulada em
seu corpo, e comiam-na; acasalavam-se promiscuamente,
trocando de parceiros; cantavam e dançavam, em
homenagem ao dia que repontava; pescavam nos buracos
abertos na neve; lanceavam a foca anelada; e davam caça ao
urso branco, a não ser quando viajavam para as áreas do sul,
a fim de encontrar os bandos de animais e de recolher
preciosos restos de madeira que haviam vogado ao léu no
oceano liquefeito.
A busca de alimento constituía a sua principal preocupação.
E visto que, onde quer que as pessoas aparecessem, a caça
logo se tornava escassa, os esquimós se viam forçados a
evitar a companhia humana; mudavam constantemente de
zona de caça; e mantinham-se perpetuamente em mudança.
Quando eles amontoavam reservas de carne — carne que
por vezes lhes sobrava generosamente — para que, depois,
essa carne lhes servisse, em fases de escassez, não o faziam
em conseqüência de preocupação relativamente ao dia de
amanhã. Faziam-no porque nem podiam consumir aquela
carne, na hora, nem transportá-la, sentindo-se, entretanto,
impacientes para mudar-se para outro lugar. Os esquimós
não se preocupavam com o futuro, como também não se
preocupavam com o passado; só pensavam no presente que,
para eles, tinha sentido de perenidade.
Ao passo que muitas outras tribos de esquimós foram
atingidas ou influenciadas pela civilização, a dispersão dos
esquimós polares — que confinavam sua existência ao
Ártico Central, nas proximidades do Pólo Magnético, que é
região excessivamente remota e proibitiva, de modo que o
homem branco não vai até ela — não lhes tinha modificado
o modo primitivo e rústico de viver; e o seu modo de viver
continuava sendo o mesmo desde o tempo em que o mundo
era jovem. Eram como crianças: diretas, impiedosas e
alegres. Na Idade dos Tanques, eles ainda caçavam com arco
e flechas de ponta de pedra; partilhavam o fruto de sua
caçada; e eram tão ingénuos, tão descomplicados, que não
conseguiam mentir. Até este ponto eram eles primários.
Ernenek e Asiak poderiam continuar vivendo por esta
forma, indefinidamente, se, por acaso, Ittimangnerk, o
mercador e vendedor viajante, não houvesse plantado a
semente da curiosidade em seus corações.
Ittimangnerk era híbrido e mestiço — meio nativo e meio
alienígena, meio caçador e meio mercador, meio peixe e
meio ave. As circunstâncias da vida o haviam atirado, ainda
no começo da existência, à trilha dos homens brancos; estes
o infeccionaram com suas paixões e com a sua luta perpétua
pela vida, mas não destruíram de todo o que nele havia de
esquimó. Estava condenado a oscilar para sempre entre o
homem branco e o homem esquimó; a não ser feliz nem
com o primeiro, nem com o segundo; e a não ser amado por
ninguém.
O outono já havia difundido a aguda luz solar do verão,
tingindo o Oceano Glacial de um tom malva acinzentado,
quando Ittimangnerk e sua esposa, Hiko, avistaram o iglu de
Ernenek. O iglu brilhava vagamente, a distância, na
penumbra da noite que se aproximava.
Ernenek, inteiramente despido, só conservando no corpo as
meias, e apresentando-se todo untado e lustroso de graxa,
estava brincando com esse brinquedo inquebrável que era o
pequeno Papik; puxava-o e empurrava-o, de um lado para
outro, no chão, em meio a espinhas e a cabeças mastigadas
de peixes. Deu as boas-vindas, em altas vozes, aos visitantes;
trocou com eles apertos de mãos; cutucou, com um dedo, o
estômago de Ittimangnerk, para verificar se ele estava com
fome; ao passo que Asiak deixou os seus afazeres
domésticos, a fim de preparar um pouco de chá. Ela partiu
um pouco de neve de beber; colocou o pedaço em cima da
lâmpada, porque tudo, fosse lá o que fosse, que os esquimós
polares bebessem precisava, primeiro, ser derretido. A
seguir, Asiak retirou umas vestimentas exteriores de seus
hóspedes; retirou-lhes também as botas; e inspecionou tudo,
à cata de desalinhavamentos para remendar.
Nada havia, porém, para remendar: os recém-chegados
tinham, por certo, parado a pouca distância dali, e trocado
suas vestimentas de viagem por outras mais novas, antes de
entrar no iglu; isto explicava por que elas se encontravam
secas, não apresentando nenhuma das marcas
inconfundíveis, reveladoras das longas marchas. Hiko era
mulher digna de ser vista. Enquanto que seu marido estava
vestido quase como um homem normal, regular, ela calçava
botas macias, de pele de fêmea de rena, ornadas de caudas
de arminho; sua jaqueta era de delicada e vaporosa pele de
raposa; e havia, em seus cabelos, contas e fitas coloridas, de
tal ordem que Asiak nunca tinha visto coisa semelhante; e
isto a deixou grandemente intrigada.
Ittimangnerk não perdeu tempo; demonstrou logo que,
senão as suas vestimentas, pelo menos as suas maneiras eram
alheias àquela região. Não convidou os seus hospedeiros a
revistar e a saquear os seus fardos, como mandava o costume
do Ártico Central; nem atacou por sua vez a despensa do
iglu que o hospedava, como a tradição local permitia.
Apresentava-se chocantemente ciumento de suas posses e
dos seus bens; e recusou-se a receber presentes, a fim de não
se sentir obrigado a coisa alguma. Estava, porém, sempre
pronto a efetuar barganhas — processo que tinha aprendido
dos homens brancos.
Ittimangnerk não tinha lazeres para dedicar a amenidades de
ordem social; e também não se dava ao gosto ou ao luxo de
rir
e comer durante toda uma quinzena, antes de expor o
motivo real de sua visita. Assim, depois de apenas algumas
horas, passadas saboreando chá frio e a comer alguns dos
seus próprios peixes congelados; de algumas horas em que se
contaram as mais recentes piadas obscenas, em meio a
tumultuosas gargalhadas, e em que ele tirou uma longa
soneca — apresentou suas mercadorias: folhas de chá preto,
empacotadas na bexiga seca de uma fêmea de alce; e um rolo
de pavio.
— Você tem algumas peles de raposa? — perguntou ele,
olhando ao redor.
— Talvez existam algumas, ali atrás da lâmpada — disse
Ernenek. — Tome todas as que desejar.
Ittimangnerk examinou as peles:
— Alguém pode fazer uso apenas destas sete. Em troca,
você
pode ficar com um pacote de chá e com quatro
comprimentos de raço, de pavio. Trata-se de nova espécie
de pavio, feito de algodão de tundra; produz uma labareda
mais clara; e dura mais do que as mechas usuais de musgo.
Se você conservasse as peles limpas, e não as usasse como
esfregões, alguém lhe daria mais chá e mais pavio.
A isto, Ernenek quase que se arrebentou de rir. Quando
voltou a estar em condições de falar, disse:
— Mas alguém não quer mais chá, nem mais pavio!
— Espere. Você verá algo que irá querer — advertiu
Ittimangnerk.
O mestiço mergulhou no túnel; e voltou logo, arrastando um
embrulho oblongo. Retirou do embrulho o envoltório de
pele; e então apareceu uma arma de fogo. Era um rifle
militar Martini, de venerável data de fabricação; mas poderia
ser do último modelo, pelo menos do ponto de vista dos
conhecimentos de Ernenek, que nunca tinha ouvido falar de
armas de fogo.
— Você come isso? — perguntou Asiak.
— Isto é uma espingarda; c a arma de fogo do homem
branco
— explicou Ittimangnerk, com certo ar de importância. —
Com isto, até uma criança pode matar um urso grande; e,
fazendo uso disto, você não precisará fazer primeiro o urso
ficar doente, para dar-lhe caça depois, até quando ele ficar
pronto para ser abatido. Você apenas bole nesta alavanca; e
o urso vira logo de costas, sem discutir.
E visto como a familiaridade de Ittimangnerk com as armas
de fogo era apenas um pouco maior do que a de Ernenek,
ele se apoiou talvez com peso excessivo sobre o gatilho; e a
coisa disparou, escurecendo a pequena moradia, devido à
fumaça, e fazendo estremecer a atmosfera.
Durante um momento, todos se olharam uns aos outros,
como que aterrorizados por um trovão; e Papik começou a
chorar. Depois, Ittimangnerk, tomado pelo súbito frenesi
dos homens, disparou mais uma vez, mais outra vez; assim,
o iglu, em seu interior, foi ficando cada vez mais escuro; e as
balas silvaram ao redor, acompanhando as paredes
circulares, lascando o gelo — até que o pente de balas ficou
vazio.
Quando a fumaça se dissipou bastante, escapando através da
abertura que havia no teto em cúpula do iglu, Ernenek,
atarantado, mostrou um pequeno orifício que fora feito em
sua nádega, onde uma bala, ricocheteando, se havia alojado.
Agora, foi Ittimangnerk que teve um instante de diversão
aloucada. Sacudiu-se todo, em cima do divã, segurando o
próprio ventre; enquanto isso, sua esposa, Hiko, ecoava
obedientemente o seu divertimento; e Ernenek sorriu, em
resposta, um pouco descoroçoado.
Asiak, porém, não conseguiu perceber o que havia, naquilo,
para rir. Com seu pequeno dedo apalpou o ferimento;
extraiu a bala com a ponta de sua faca de neve; e fechou o
orifício, que tinha começado a sangrar mais livremente, com
óleo de fígado de peixe; este óleo havia sido endurecido e
transformado em algo pastoso.
O rosto grande de Ernenek não acusou emoção alguma,
durante toda esta operação. Quando a operação ficou
completada, ele tornou a sorrir; mas Asiak olhou, com
expressão irritada, para Ittimangnerk.
— Alguém queria apenas demonstrar como esta coisa
funciona — disse Ittimangnerk, pedindo desculpas. —
Como é que se poderia saber que a bala pularia para trás? Isto
lhes mostra a força da espingarda. Ela mata qualquer animal,
a grande distância, desde que você não atinja primeiro uma
parede.
Ernenek tomou o rifle em suas mãos; e Asiak apressou-se a
lançar os braços ao redor do pequeno Papik.
— Não tenha medo — avisou Ittimangnerk. — As balas já se
acabaram; e outras balas só podem ser conseguidas no posto
de comércio.
— Que é que você quer por isto? — perguntou Ernenek,
espiando para dentro do cano da arma.
— Muitas peles de raposa, a mais do que você agora tem.
Entretanto, assim que tiver reunido uma quantidade
suficiente delas, e se dispuser a ir ao posto de comércio, o
homem branco lhe dará uma arma igual a esta.
— Quantas peles são necessárias?
— Cinco vezes um homem, contado até o fim.
Ernenek meditou sobre essa resposta, com a fronte franzida;
e estremeceu. Como a contagem dos dedos dos pés e dos
dedos das mãos constituía a única base de enumeração por
ele conhecida, aquilo de "cinco vezes um homem, contado
até o fim" significava, para cada homem, vinte — que era o
número mais elevado conhecido ali. Cinco homens,
contados até ao fim, compunham quantidade que ia muito
além de tudo quanto Ernenek conseguiria visualizar. Ainda
assim, ele percebeu que aquilo significava muita coisa.
— Alguém poderia também levar peles de boi almiscarado e
de caribu — disse ele, esperançoso.
— O homem branco quer somente peles de raposa. O gosto
dele é um pouco esquisito, mas ele sabe o que deseja. O
cérebro do homem branco não é muito arguto; mas a cabeça
dele é muito dura.
Ernenek e Asiak queriam ouvir mais coisas a respeito do
homem branco, bem como das estranhezas dele; enquanto
ouviam, prestando ouvidos com ar concentrado, os dois iam
distribuindo postas tenras de foca que, agora, uma vez
concluídas as conversações de negócio, passaram a ser
aceitas. Todos abocanharam e engoliram, estofando-se de
comida e de chá, entre as narrativas, as perguntas e as
respostas; de quando em quando, Asiak colocava seus lábios
em cima dos lábios de Papik, e soprava, para dentro da boca
do pimpolho, carne mastigada, que o pequerrucho ruminava
sujando-se todo, e salpicando o queixo de sangue coagulado.
Ernenek deu um mundo de risadas com Hiko; o mesmo foi
feito por Asiak com Ittimangnerk. Não admira, assim, que o
casal solitário do norte desejasse que os seus hóspedes
permanecessem mais tempo, a fim de animar a monotonia
da noite polar. Ittimangnerk, entretanto, era homem
ocupado; e, depois de um sono de quarenta e oito horas,
partiu dali, em companhia de Hiko, mostrando, pelo menos
desta vez, que poderia fazer uso de boas maneiras, desde que
o quisesse; mostrou-o através do ato de tudo remexer
furtivamente, com grande cautela, enquanto os seus
hospedeiros dormiam, e de apoderar-se da mais curtida e
mais saborosa coxa de urso que havia na casa.
Talvez que isso constituísse um esforço no sentido de
manifestar a sua admiração para com o maior caçador, que
era Ernenek.
A árvore da curiosidade ganhou raízes, e foi crescendo,
crescendo.
Embora houvesse, num iglu de inverno, abundância de
coisas para fazer, entre uma dormida e outra, ainda assim, o
chamado da sereia da aventura e os mundos a descobrir
faziam com que o casal se tornasse inquieto. O que havia a
fazer era isto: Ernenek precisava preparar os utensílios,
molhar as armas e reparar os arreios; Asiak tinha de costurar
vestimentas e alimentar o pequeno Papik, que costumava
mamar mesmo dormindo.
Ernenek continuava maravilhando-se do magnífico barulho
produzido pelo rifle; Asiak ficava a matutar, horas e horas
sem fim, sobre a vida que se deveria viver no posto de
comércio; no posto a respeito do qual Hiko e Ittimangnerk
lhe haviam despertado a curiosidade, sem, entretanto,
satisfaze-la.
— O homem branco — disse ela, divertidamente — não
gosta de peixe congelado, nem de carne deteriorada. Estraga
toda a comida, mantendo-a em cima do fogo.
— Mas ele tem muitas espingardas — disse Ernenek,
erguendo-se em defesa do seu irmão branco — e você não
seria capaz de imitar o estampido de suas armas, ainda que o
tentasse.
— Ele vive numa enorme casa de madeira, anda pegajoso de
calor, e sofre o tempo todo devido ao frio.
— Mas ele tem mais balas do que você tem juízo; cada bala
pode abater um urso, assim, batata. Ele deve comer fígado e
língua e urso a vida toda.
Quando o dia e a primavera, juntamente com a vida,
voltaram ao topo do mundo, Ernenek não viu buracos de
peixes no gelo; não ficou a ouvir junto aos orifícios
respiradouros das focas; nem viajou para o sul, a fim de se
encontrar com os bandos de animais que pastavam comendo
o líquen que havia por baixo da neve; e nem mesmo a visão
distante de um urso a retirar-se furtivamente por cima dos
gelados campos marinhos, ou a dançar por um iceberg
abaixo, o estimulava mais. Se ele abandonava o Oceano
Glacial e ia viver numa tenda de peles, fazia-o apenas para
realizar o que até então tinha considerado trabalho de
mulher: preparar ciladas e cavar armadilhas, por entre a
vegetação anã onde com grande esforço conseguia rastejar,
depois de repontar à superfície, procedendo da parte inferior
da crosta invernal. As ciladas eram preparadas com tendões,
ramos e ossos; as armadilhas, com molas e alçapões, bem
como com nós, à maneira de forca. Fazia, igualmente,
profundas bocas-de-lobo, onde colocava iscas formadas de
bolas de graxa de óleo de baleia, ou de carne; e quando
avistava uma raposa andando à solta, corria desajeitadamente
atrás dela, atirando-lhe as flechas de ponta de pedra.
Nesse entretempo, Asiak viajava para os montes longínquos
de carne em conservação, a fim de retirar, das provisões
reservadas, aquilo de que precisava; retirava as folhas que
podia cozer para fazer o seu chá; punha-se à procura de
pintas; ou colhia fungos que, secados ao sol,
proporcionavam madeira apodrecida para o lume.
No verão, enquanto caçava, ou enquanto cuidava das
armadilhas, tanto Ernenek como Asiak dispensavam quase
que inteiramente o sono; todavia, alimentavam-se
prodigiosamente; naquele ano, alimentaram-se mais do que
nunca: Ernenek, porque corria atrás de raposas, sem poupar
energias; Asiak, porque se encontrava grávida; Papik, porque
estava em fase de crescimento; e os cachorros, por nenhuma
razão especial. E, embora eles comessem toda migalha das
raposas abatidas e esfoladas, as provisões de reserva foram
reduzindo-se rapidamente; em conseqüência, Asiak
começou a preocupar-se.
— Quando chegar o inverno, não haverá muita coisa para
buscar.
— Então a gente terá de comer um pouco menos —
respondeu Ernenek, com amargura, como se fosse ele o
único que teria de apertar o cinto. — Entretanto, assim que
tivermos uma espingarda, será tão fácil caçar animais, que
você se tornará duas vezes mais gorda do que o é agora.
Dar caça a tão grande número de raposas não era assunto
para rir. Havia abundância de caça mais fácil, como, por
exemplo, focas, morsas e, a apenas um ano de distância, para
o sul, bois almiscarados e caribus. Contudo, nenhum animal
era mais astuto, mais raposa, do que a própria raposa, na
tarefa de evitar captura — exceto, naturalmente, o carcaju.
Por vezes, a raposa apanhada fugia, deixando atrás de si uma
perna. Por vezes, uma fila inteira de armadilhas era
acionada, apenas por pura diabrura, por obra dos carcajus
amalucados e enlouquecedores — carcajus estes que se
evadiam, ilesos, mas não sem retirar a isca. Acontecia que,
quando uma raposa era apanhada pela armadilha, o carcaju,
agindo como que por brincadeira, destruía essa armadilha,
reduzindo-a a pedaços; ou, então, levava consigo a raposa.,
arrastando a armadilha atrás.
Se Ernenek conseguisse, ainda que fosse uma única vez, pôr
as mãos num carcaju vivo! Considere-se que ele raramente
tivera a visão de uma dessas feras, pequenas, impudentes e
sanguinárias, que se tornavam invisíveis, a não ser quando
em movimento; eram excessivamente espertas, e não se
moviam, quando havia gente ao redor; e conservavam-se,
pelos modos, em atividade o dia todo, fazendo coisas pelas
quais não recebiam recompensa alguma, além do fato de
impor vexames ao homem.
Contudo, pelo processo de mudar constantemente de área
de preparação de armadilhas, bem como pelo de fazer
alçapões de ação mais rápida do que os movimentos de fuga
do carcaju — e de percorrer e visitar todas as armadilhas
antes que as raposas pudessem mastigar suas próprias pernas,
ou antes que os carcajus destruíssem as mesmas armadilhas
— Ernenek acabou caçando o número requerido. Por essa
época, ele já tinha formado a sua reserva de carne doce e
adstringente de raposa; já tinha reduzido bastante os montes
de carne em conservação; e quase que já tinha também
liquidado com o que havia na despensa. Apesar de tudo,
porém, Ernenek podia sacudir as peles diante do nariz de
Asiak, toda vez que ela, com o seu alarmismo bem
feminino, predizia morte pela fome e extinção completa
inevitável do pequeno Papik; a extinção de Papik seria
seguida pela extinção dela mesma, e, finalmente, pela de
Ernenek; este último morreria sozinho, abandonado e
devorado pelo remorso.
A esse tempo, o Sol já havia espiralado para baixo do
horizonte, nas suas férias de seis meses; e as primeiras
estrelas já estavam começando a irromper através do véu
impenetrável da noite. Ernenek desejava partir a caminho
do posto de comércio, sem mais tardança. Aqui, porém,
Asiak se opôs a isso, resolutamente.
— Primeiro, teremos de dormir uns poucos meses, porque
alguém está tornando-se meio tonta da cabeça, depois de um
verão muito cansativo — disse ela.
— Se partirmos dentro de uns poucos meses, não
chegaremos ao posto de comércio antes do começo do
grande degelo. Lá, o mar se degela e se derrete todos os
anos. A época de se viajar para o sul é agora.
— Se o mar se derrete, esperaremos em terra firme, até que
ele se congele de novo. O mar sempre torna a congelar-se,
você bem o sabe.
— Sei. Mas nós perderemos tempo.
— Nós temos tempo para perder.
— Mas alguém não gosta de perder tempo! — disse
Ernenek, com firmeza.
Asiak, todavia, permaneceu inamovível; e Ernenek não
sabia de recurso algum pelo qual lhe fosse possível modificar
a decisão daquela mulher, fora do saco de dormir. Por isto,
ele foi pescar peixes e caçar focas, na penumbra do outono;
foi indiferente, olhando a toda hora, com escárnio e mau
humor, para o seu arco e sua flecha.
Quando o inverno se tornou escuro, impelindo parte da caça
para o sul, e forçando outra parte a enfurnar-se ou hibernar
— e obrigando o próprio Ernenek a envergar sua segunda
vestimenta exterior, feita de pele de urso, bem como a
passar uma dupla camada de gordura de peixe na face, a fim
de se proteger contra a mordida das frieiras — os dois
abandonaram a terra inóspita e proibida; rumaram para o
mar, onde construíram seu pequeno iglu em cima do calor
aconchegante da água. Estava-se na quadra do repouso, bem
como das tranqüilas tarefas domésticas; e Asiak teve a
esperança de que Ernenek acabaria dissipando, no sono, a
sua energia.
Entretanto, ele prosseguiu resmungando nervosamente a
respeito da espingarda, num cochilo espasmódico.
Na calada da noite, Asiak disse, de súbito:
— Prosseguir desta maneira significa perder tempo. Uma
mulher mal pode dormir; e, por outro lado, não consegue
concentrar o espírito em seu trabalho. Talvez que as coisas
se resolvam se viajarmos para o posto de comércio.
Ittimangnerk disse que o posto fica a apenas um par de luas
de distância, desde que se viaje depressa.
Rápido como um acidente, Ernenek se pôs de pé; verificou
rédeas e arreios; apressou a desenterrar da neve o trenó, e a
preparar os cães corredores; enquanto isso, Asiak se pôs a
reunir os utensílios domésticos e as provisões, tudo enrolado
em peles de animais; não deixou nada atrás, a não ser os
restos de comida no chão.
Os cachorros, uma vez dissipada a tontura do sono
interrompido, começaram a combater-se uns aos outros; e o
seu líder teve de agir contra eles, a fim de colocá-los em
linha de formação. Ernenek matou os quatro cachorrinhos
menores; e picou-os em pedaços bem pequenos, a fim de
poder levá-los consigo, à guisa de alimento para a matilha.
Ittimangnerk não poderia ter descrito mais claramente a rota
a percorrer:
— Cruze a Baía da Foca de Um Olho Só; passe por entre as
duas ilhas pontudas, conhecidas pela denominação de
Colmilhos do Diabo; acompanhe a terra à esquerda; percorra
a estreita passagem denominada Canal da Língua de Urso;
depois, siga a baixa unha costeira à direita. Afaste-se desse
litoral, porque o povo da Hinterlândia, com toda
probabilidade, os matará e comerá, se vocês ali se detiverem;
ao contrário, continue viajando por cima do oceano, até
chegar a uma longa fila de elevações. Ali, conserve os olhos
abertos, à procura de aberturas de rios. O posto de comércio
fica no rumo do quarto rio acima, na segunda curva, bem na
margem. Não poderá deixar de encontrá-lo.
Asiak e Ernenek não poderiam deixar de encontrá-lo; nem
nada lhes poderia acontecer durante a jornada, porque se
achavam generosamente assegurados contra as cacetadas da
sorte: levavam consigo um tufo de pêlos de coelho branco,
contra o aparecimento de frieiras; um rabo de arminho,
contra saraivadas; uma garra de urso, contra o relâmpago;
um dente de caribu, contra a fome; uma pele de lemingue,
do pequeno roedor das regiões árticas, contra doenças; uma
pata de carcaju, contra a loucura; uma cabeça de raposa,
contra artimanhas traiçoeiras; uma alca ressecada, para dar
sorte na pescaria; uma orelha de rena, para dar bom ouvido;
um piolho, para dar invisibilidade em presença de inimigos,
visto como os piolhos são mestres na ocultação; um
punhado de fuligem, para dar resistência, uma vez que a
fuligem sobrevive ao fogo; e um olho de foca, contra o mau-
olhado e vários espíritos hostis. Até os cães da matilha
usavam amuletos. Não admira, pois, que o conjunto pros-
seguisse suavemente em sua viagem, sem obstáculo algum, à
frente de um vento favorável — o vento norte, que, durante
o inverno inteiro, só de raro em raro, se tanto, abrandava.

Na medida em que a matilha se animava, sua velocidade
crescia. O frio, a despeito da sua agudeza, não conseguia
atravessar a lupla vestimenta dos viajores, nem a dupla
camada de pêlos que os es tinham começado a deixar crescer
no outono; mas esse mesmo frio endurecia a graxa de óleo
de baleia que havia nas faces dos viajores, transformando-a
em crosta; sua respiração punha-lhes geada nas narinas e nas
pestanas; quando eles cuspiam, a saliva se congelava em
pleno ar; e, quando a saliva congelada caía no chão, tilintava.
Papik, amarrado às costas da mãe, dentro do seu berço de
rodízio, e protegido pelo capuz materno, nada
experimentava, afora o calor aconchegante do corpo dela.
Sempre que os viajores notavam que a geada lhes penetrava
no corpo, pulavam para fora do trenó, e corriam ao lado
dele, até se aquecerem. Tiravam suas sonecas, durante a
viagem; mas, quando a matilha acusava sinais de fadiga,
Ernenek atirava a âncora ao chão; e mandava que se fizesse
alto.
Aproveitava as paradas para tornar a esfregar com neve os
cães da matilha — ou para pescar. Como era impossível
transportar provisões suficientes para tantas bocas, numa
viagem tão demorada, fazia-se indispensável pescar alimento
do oceano. Isto não era coisa fácil no inverno. Somente
perto dos promontórios e ao redor de icebergs é que se
podiam encontrar trechos em que a camada de gelo não era
excessivamente espessa, podendo, portanto, ser perfurada;
depois da perfuração, porem, requeria-se longo tempo de
espera, a espiar por cima do buraco aberto; e muitos luares
se passaram, antes que Ernenek apanhasse alguns salmões da
cor do Sol, ou, então, algumas trutas vermelhas como
sangue.
Assim que um alto foi determinado, os cães caíram em suas
trilhas. Visto que não havia neve suficiente, no chão, para
que nela se enterrassem e se aquecessem, os pequenos
animais se reuniram num só grupo, como que enrolados,
formando algo assim como uma bola bem redonda de pêlos;
por essa forma, os cães ficaram com o focinho atrás das patas
e com as costas voltadas para o vento. Logo depois, já nada
mais eram do que um monte imóvel; e foram necessários
muitos pontapés e muitos golpes de rédeas, para os pôr de
novo de pé e cheios de animação. Perpetuamente
esfomeados, os cachorros poderiam devorar, todos os dias,
uma quantidade de alimento equivalente ao seu próprio
peso, espalhando-se, como pequenos balões inflados, pelo
chão. Entretanto, eram treinados para passar sem
alimentação durante três ou quatro dias, quando se achavam
em viagem, e durante dez dias, quando não trabalhavam.
Uma vez que nunca recebiam alimento bastante para saciar-
se, nunca se tornavam preguiçosos; e trotavam ao longo da
trilha inteira, com a cauda erguida ao ar.
Em viagem, os cães mostravam-se sempre cheios de vida e
prontos para travessuras. Quando o seu dono se afastava,
deixando o trenó sem o recurso de fixação representado pela
âncora, o cachorro-chefe era capaz de ladrar o sinal para a
partida; então, a matilha inteira arrancava para a frente, a
toda velocidade; e Ernene, e Asiak quase que se matavam,
no esforço de alcançá-los.
Durante a maior parte do tempo, o céu apresentava-se sem
nuvens; e eles viajavam sob um dossel rutilante, em cuja
cúpula se via a Estrela Norte, fulgurando, central e suprema;
nessas ocasiões, o vento era fragrante, impregnado do aroma
da ozona. Quando a Lua se erguia, permanecia acima do
horizonte durante mais de uma semana de cada vez. A linha
costeira, de aspecto fantasmático, que os viajores tomavam o
cuidado de nunca perder de vista, ficava, então, nitidamente
recortada de encontro ao céu brilhante; e os icebergs, os
cabeços e as ilhas projetavam sombras de um azul profundo
por cima da paisagem cor de pérola.
Por vezes, os viajores conseguiam ouvir o estalidar das
massas de gelo, acomodando-se no seu movimento
intranquilo e perpétuo; então eles passavam a prestar o
máximo de atenção a barulhos e a obstáculos, mantendo-se
prontos para deter a matilha. Muitas fendas de gelo podiam
ser puladas pelos cães e transpostas pelo trenó; de uma feita,
porém, encontraram uma brecha, no chão de gelo, que era
excessivamente larga, e não podia ser pulada. A brecha era
de formação recente, porquanto ainda se podia ouvir a água
batendo de encontro às paredes lisas de gelo, três ou quatro
metros abaixo do nível da superfície, e fazendo pressão para
subir à tona; dessa vez, tiveram de descrever um giro amplo,
para contornar a brecha, antes de retomar o curso normal.
Em alguns lugares, a crosta de gelo se havia encurvado para
cima, como bolha, sob a pressão de correntes submarinas;
assim, formavam-se grandes elevações, através das quais era
preciso encontrar as trilhas de passagem; e o avanço, então,
se fazia tão difícil como sobre terra firme.
Quando uma das raras saraivadas de inverno se declarou,
ululando, enchendo o ar de uma poeira de gelo capaz de
cegar a gente, e varrendo o teto do mundo, para nele não
deixar nada, nada do que se movia, e quase nada do que não
se movia, os viajores detiveram-se; construíram, a toda
pressa, um abrigo. Ernenek cortou os blocos de gelo, pondo-
os imediatamente nos devidos lugares; Asiak ficou acertando
os blocos do lado de fora, até que o pequeno abrigo ficou
bem fortemente colado ao gelo do chão, com a cúpula mal
apontando por cima da superfície do oceano: aquilo
constituía um escudo contra as intempéries — um
aconchego destinado a conservar o calor do corpo humano.
No interior do abrigo, eles comeram algum peixe congelado;
mastigaram um pouco de neve; rastejaram para dentro dos
seus sacos de dormir; e foram convidados a dormir, pelo
barulho distante da tempestade que rugia, nas alturas, e das
águas do oceano que tumultuavam nas profundidades. Asiak
era sempre a primeira a acordar, na atmosfera cinzenta que
se formava depois que a lâmpada se extinguia. Em primeiro
lugar, ela raspava a crosta de hálito gelado que lhe recobria o
rosto. Depois, sem abandonar o divã de gelo, preparava o
chá; tomava as roupas secas e as botas enxutas, do cabide de
secagem; e começava a amaciá-las, fazendo uso de ras-
padores e dos próprios dentes.
Antes que o chá se congelasse, ela acordava Ernenek.
A neye, no chão, aumentava de espessura, na medida em
que os viajores avançavam para o sul; a neve incomodava os
cães, que não tinham recurso algum para proteger a cara
contra ela; um pouco antes de chegar ao posto de comércio,
os viajores passaram a sentir tamanho calor que Ernenek se
despiu até à cintura, e viajou de peito nu, ao léu daquele
insuportável calor de cerca de uns 45 graus Fahrenheit,
abaixo de zero, equivalentes a uns 25 graus centígrados, ou
Celsius, também abaixo de zero.
Pararam, pasmados, para avistar o posto do homem branco,
de longe, antes de entrar na sua área. Ittimangnerk não
havia exagerado. O seu tamanho! Que beleza! Que luxo!
Tratava-se da cabina de uma sala, toda feita de troncos
enegrecidos pela fumaça, com duas janelas esbatidas de
fuligem, das quais pendiam pequenos pingentes de neve. Ao
longo das paredes se viam duas linhas duplas de beliches de
navio, uma por cima da outra; havia também um balcão,
várias caixas e várias prateleiras, um biombo, um fogareiro e,
como se tudo isso não fosse bastante, uma mesa com várias
cadeiras. Tudo era feito de madeira — do mais raro e do
mais valioso dos materiais; e tudo rutilava, iluminado por
uma lâmpada a querosene.
E a quantidade de gente que se aglomerava e se apinhava no
lugar! Exatamente, um homem, contado até ao fim — o
número redondo de vinte, como Asiak verificou, depois de
uma contagem lenta e laboriosa. A contagem, porém, não
compreendia as crianças existentes por baixo dos capuzes
das mulheres. E a fala daquela gente! Coisa fascinante,
porque era freqüentemente impossível entendê-la; o que se
falava se salpicava de palavras estrangeiras, de modo quê, até
certo ponto, se fazia ininteligível para ela. Muitos homens
lhe sorriram, com expressão de admiração; e ela dera
risadinhas, em resposta, embaraçada em face daquela
novidade.
Depois, o homem branco apareceu, procedendo da parte de
trás do biombo.
O homem branco era estranho, por muitas razões: pelo seu
porte, pelo seu modo de andar, por suas mãos enormes, por
suas roupas nada práticas, e, mais do que por qualquer outra
coisa, pela barba vermelha que lhe pendia do rosto magro e
sem sorriso. Os nativos tinham o costume de arrancar, por
meio de puxões, todos os raros pêlos que lhes cresciam no
queixo, a fim de evitar que neles se acumulasse a geada;
apenas uns poucos indivíduos deixavam crescer um bigode
relutante.
— Alguém esperava que ele fosse branco como a neve —
murmurou Asiak, desapontada — depois de toda aquela
conversa a respeito de o homem branco ser branco.
Entretanto, ele é mais escuro do que nós, desde que
raspemos a crosta de graxa do nosso rosto.
— Aconteceu — disse Ernenek, dirigindo-se ao homem
branco, não tomando conhecimento da tagarelice de sua
esposa, e passando logo a tratar de negócios — que alguém,
enviado por Ittimangnerk, trouxe consigo umas poucas peles
de raposa.
E ficou à espera, cheio de esperança.
O homem branco, porém, não deu sinal algum de
compreender. E chamou:
— Undik!
E um esquimó, já de cabelos grisalhos e rosto tão enrugado
como uma geleira, ostentando bigode que lhe dava aspecto
de morsa, e que lhe pendia perpendicularmente pelo queixo
abaixo, aproximou-se, bamboleando como um urso sobre
suas pernas curvas. Calçava botas nativas e vestia calças que
faziam parte dos costumes locais; mas envergava jaqueta
estrangeira, de couro, por cima de uma camisa de lã,
xadrezada.
— Que é que o traz aqui? — indagou ele. — O homem
branco não fala a língua dos homens.
Ernenek e Asiak trocaram um olhar e romperam numa
torrente de risadas. Depois de algum tempo passado assim, o
homem branco bateu o pé no chão; e Undik indagou,
impaciente:
— Que é que você quer? Parece que citou o nome de
Ittimangnerk.
Ernenek reprimiu a gargalhada e esclareceu a razão de sua
visita.
— Traga suas peles — disse Undik. — Ele dará uma olhada
nelas.
Toda a gente se aglomerou, quando Ernenek abriu seus
fardos e espalhou as peles ensangüentadas no chão. O
homem branco inspecionou-as, uma por uma, com um
enrugamento da fronte e rosto sério. Por fim, disse,
dirigindo-se a Undik, com ar grave:
— Ele diz que essas peles não são bem as que desejava —
traduziu Undik — mas deixará que você, mesmo assim, leve
uma espingarda.
Undik foi para o lado de trás do biombo, e de lá voltou com
uma espingarda antiga, a avó daquela que Ittimangnerk lhe
havia tão eficazmente demonstrado no iglu; e entregou-a a
Ernenek.
— Se você quiser balas, terá que trazer mais peles. Há uma
bala na espingarda, para mostrar que ela funciona. Mas você
precisa levá-la para fora daqui, se quiser prová-la.
Da porta de entrada do estabelecimento, Ernenek deflagrou
um tiro para dentro da noite; e voltou-se, radiante:
— Esta faz ainda mais barulho do que a outra — disse ele a
Asiak, enquanto o vento soprava para o interior do posto de
comércio a fumaça da pólvora queimada. Depois, Ernenek
voltou-se para Undik:
— Diga ao homem branco que, se ele quiser rir com a esposa
de alguém, será bem-vindo da parte dela.
Ele olhou para Asiak, que ruborizou e deu algumas
risadinhas.
— Não, não — disse Undik — ele não gosta de rir com as
mulheres dos homens; e também não permite que nenhuma
outra pessoa ria em sua presença. Desta forma, trate de
tomar cuidado.
Ernenek e Asiak mostraram-se perturbados, confusos e
mortificados; e Undik acrescentou, para suavizar:
— Vocês poderão descansar aqui, se estiverem cansados.
Eles estavam cansados, mas não com disposição para
repousar. Naquela casa, fabulosa para eles, aconteciam coisas
excessivamente numerosas; e não queriam perder nada do
que ali se passasse. O pequeno Papik também era todo olhos
e ouvidos; mas era tímido, e apegava-se as calças de sua mãe.
O povo, naquele lugar, comia comidas estranhas, retiradas
de latas de folha de zinco, e aquecidas em cima de fogões;
esse mesmo povo bebia chá extremamente quente —
fumegante. Não somente os seus costumes relacionados com
o comer e beber, mas também tudo o mais que aqueles
indivíduos tinham, ou faziam, ou diziam, era de deixar a
gente intrigada. Possuíam facas de metal reluzente, que
cortavam carne como se cortassem graxa; a vantagem disto
era obvia; mas os jogos de cartas que eles jogavam, bem
como todos os outros itens e hábitos que tinham adquirido
do homem branco, permaneceram constituindo mistérios
para os dois esquimós polares.
Todos os homens, ali, se revezavam uns aos outros, no
esforço de iluminar o casal acaipirado que procedera do
norte; procediam a longas e complexas explicações, para lhes
ensinar quais eram os princípios do comércio, bem como
para lhes esclarecer o que era uma venda, uma compra e
uma barganha.
Alguns dos indivíduos que se achavam no posto de
comércio estavam bebendo um líquido marrom, retirado de
garrafas de vidro; e como era aquela a primeira vez que
Ernenek via vidro, ele apalpou a garrafa; em conseqüência, o
seu dono sorriu e perguntou:
— Quer você prová-la?
Se Ernenek houvesse tomado apenas um golezinho, e não
uma valente talagada de imediato, aquilo o teria golpeado
menos duramente; nesse caso, porém, ele não seria
Ernenek. Sabido era que conseguia engolir espinhas de
peixe, sem sofrer dano algum; mas o gole procedente
daquela garrafa o atingiu fundamente, como se se tratasse de
uma lança atirada contra a sua garganta. Sentiu-se sufocado;
tossiu; cuspiu; sua face se fez de cor carmesim; e seus olhos
se encheram de água; enquanto isso, o posto de comércio, a
cabina em que o posto se achava instalado, estremecia de
gargalhadas. Quando as risadas cessaram, Ernenek presumiu
que uma brincadeira havia sido feita com ele; por isto,
também tentou rir, muito embora considerasse aquilo uma
brincadeira de mau gosto.
— Você ainda se acostumará a isto — disse o dono da
garrafa. — Isto se chama água-de-fogo. Não tem gosto
agradável; mas conserva a gente aquecida.
— Alguém já está excessivamente aquecido — escarneceu
Ernenek, começando a livrar-se das próprias vestimentas.
Aqui, porém, Undik pôs uma mão comedidora sobre seu
ombro.
— O homem branco não aprova gente despida.
Ernenek olhou ao redor, atônito. Aquilo não lhe havia
ocorrido antes; a verdade, contudo, é que toda gente se
encontrava completamente vestida, embora o ambiente
estivesse a explodir de calor.
No sul, o inverno era a estação do ano preferida para viajar e
visitar amigos; e isto porque, ali, o grande degelo restringia a
realização de grandes jornadas; os caçadores e os
armadilheiros, juntamente com as respectivas esposas,
desejavam tirar o maior proveito possível da própria
presença no posto de comércio. Cavaqueando, comendo e
bebendo, todos os presentes prosseguiram ali, durante algum
tempo, até que o homem branco se retirou por trás do
biombo, e Undik anunciou que era tempo de se apagarem as
luzes.
Ernenek e Asiak foram convidados a experimentar os
beliches. Asiak aceitou o convite; Ernenek, porém,
desconfiado de novas brincadeiras, achou mais seguro
deitar-se no chão, ao lado de outros homens deixados sem
beliches. As faíscas do fogão esbraseado eram as únicas
coisas visíveis na escuridão. Alguns dos homens continua-
ram falando de negócios e de compras, durante algum
tempo, antes de se juntar ao coro dos roncadores.
Lá fora, o vento norte ululava, e a cabina estralejava em sua
estrutura.

Asiak estava perfeitamente acordada. O ar mantinha-se sufo-
cante, devido ao calor, bem como aos cheiros, para ela não
familiares, do querosene, do carvão, do tabaco e dos
alimentos cozidos; ademais, ela encontrava-se entontecida
pela vertiginosa variedade das experiências. Apertou Papik
ao peito, e cheirou-o, sentindo-se completamente alheia,
num mundo alheio.
— Ernenek — chamou ela — você está acordado?
— Estou — respondeu Ernenek, lá do chão.
— Há algo que não está certo.
— O que é?
— Alguma coisa está errada, em relação ao homem branco.
Por que é que ele não sabe que um iglu pequeno é mais
rápido de ser construído e mais fácil de se manter aquecido,
do que uma casa enorme? Ele é obrigado a caminhar até
onde estão as coisas de que precisa, ao invés de lhe bastar
apenas, para ter essas coisas, o ato de estender a mão; outras
vezes, ele nem sequer encontra o que procura, a despeito da
luz fulgurante. Pode ele ter grande quantidade de
espingardas; mas alguém duvida que as espingardas valham
alguma coisa para matar a caça; se assim não fosse, por que
motivo deveria ele comer aquelas coisas malcheirosas que
retira de latas de ferro? E por que é que ele bebe água-de-
fogo, que queima a garganta da gente? E por que é que ele
não permite que a gente tire as roupas, quando faz excesso
de calor? E por que é que nunca sorri? E por que é que ele
não ri com as mulheres dos homens, e se opõe até contra o
fato de os outros rirem?
— Que é que você quer significar com toda essa conversa?
— disse Ernenek, irritado, a fim de pôr em evidência a sua
autoridade. — Uma mulher fazendo barulho!
— Sim. Desculpe a uma tola mulher o fato de falar diante de
tantos homens; mas ela pensa que, se o homem branco é
estúpido, a gente não deveria aceitar tantos presentes da
parte dele; e, se ele é maluco, a gente não deveria ter nada
que ver com ele, porque a loucura é contagiosa. Parece
aconselhável abandonar este lugar, e nunca mais voltar.
— Mas será necessário voltar, para trazer as peles e obter as
balas.
A esta altura, todos os roncos tinham cessado; e todos os
homens estavam ouvindo, com grande deleite.
_ Bem, então — disse Asiak, tomando una resolução súbita e
pulando fora do beliche — você pode obter as suas balas, e
uma mulher tratará de obter novo marido.
Ela tropeçou na mobília, no escuro, e pisou no nariz de
algum indivíduo. Isto não poderia acontecer num iglu,
pensou ela, procurando localizar sua vestimenta exterior.
Encontrou-a, não sem dificuldade; envergou-a; e abriu a
porta, deixando entrar uma lufada gélida.
— Uma mulher sem valor está procurando um novo marido
— anunciou ela, à sala toda. — Uma mulher estúpida, feia e
velha, mas, por vezes, com muita sorte na tarefa de
descarnar e de curtir couros; uma mulher que sabe trabalhar
na costura, com pequenos pontos, e que faz finos trabalhos
de agulha; uma mulher que faz todas as outras pequenas
coisas que proporcionam conforto a um homem.
Entretanto, o novo marido devera ser bom fornecedor de
provisões; porque a mulher em questão tem um filho às suas
costas, mais outro em seu ventre.
Dito isto, ela deu uma volta, e caminhou desajeitadamente
para dentro da noite.
Uma lâmpada de pedra-sabão, dada por Ernenek aos pais de
Asiak, fora suficiente para chancelar o seu casamento; e uma
lâmpada de pedra-sabão, na cabeça do seu marido, deveria
ser suficiente para quebrar aquilo — sendo que "aquilo"
poderia significar a cabeça, a lâmpada ou o casamento.
O céu estava encoberto, e ela teve dificuldade em encontrar
a matilha, entre as muitas matilhas que se achavam como
que enoveladas em cima da neve. Curvando-se contra a
ventania, e oscilando ao sabor das lufadas, Asiak começou a
preparar o trenó.
Partindo da cabina do posto de comércio, um homem a
alcançou na escuridão.
— Alguém pode ficar em companhia de uma mulher —
gritou ele, emitindo a voz contra o vento. — Desde que a
minha esposa desapareceu numa fenda do chão de gelo,
descobri que uma mulher é tão necessária como uma
matilha de cães. Não me importo de nunca mais voltar ao
posto de comércio.
- Você é bom caçador? — perguntou Asiak, procurando
atravessar a noite com o olhar; ele não era lá um vulto muito
bem delineado nas trevas. — Você tem ainda todos os seus
dentes?
O estranho riu de boca fechada e bochechas um tanto
cheias:
— Eu sou um caçador tão bom, que não somente possuo
uma espingarda — e a exibiu diante do nariz de Asiak —
mas também possuo balas que bastam para uma vida inteira.
E, ademais, tenho todos os meus dentes, menos dois.
Algum outro indivíduo estava aproximando-se. Asiak
reconheceu Ernenek, seja pelo andar gingado, seja pela
corpulência volumosa; e respondeu, erguendo bastante a
voz:
— Eu irei com você, se se apressar. Ernenek, a essa altura, já
os havia alcançado:
— Vá embora — regougou ele, para o estranho, que
regougou em resposta:
— Você ouviu a mulher falar. Saia do meu caminho,
homem! Ernenek fora incapaz de encontrar sua faca de
cortar neve, na
escuridão da cabina do posto de comércio; estava, por isto,
desarmado; em conseqüência, aproximou-se de punhos
cerrados.
O estranho sorriu de boca fechada. Pôs a espingarda como se
fosse para fazer uso dela à maneira de lança; colocou o cano
da arma contra o peito de Ernenek; e deflagrou o tiro.
A maior parte do valor daquela arma residia na cortina de
fumaça que fazia. Depois que a ventania dissipou a cortina
de fumaça assim formada, Asiak viu Ernenek esparramado
no chão de neve; por sua vez, o estranho estava como que
dobrado sobre si mesmo, devido ao soco para trás dado pela
espingarda; e apertava o próprio estômago.
O impulso da fúria apoderou-se da mulher. Ela agarrou a
espingarda que o homem tinha deixado cair ao chão; com
ela, vibrou valente pancada em sua cabeça vezes e vezes
seguidas. A espingarda quebrou primeiro, a coronha voou
pelos ares, em pedaços; e o estranho trotejou dali para longe,
choramingando.
Depois, ela se ajoelhou junto de Ernenek.
Um feixe de luz bateu, procedendo da cabina do posto de
comércio; e todas as matilhas, acordadas pelo tiro, latiram,
ulularam, uivaram e ganiram. O homem branco, seguido
pelos esquimós, correu, blasfemando, para a cena; apareceu
portando uma lâmpada de furacão, que se sacudia toda,
enquanto ele corria. O tiro tinha queimado um furo na
jaqueta de couro de Ernenek; e a bala detivera-se, depois de
penetrar fundo na clavícula. Desta vez ele se contorceu e
resmungou, quando Asiak lhe apalpou o ferimento com a
ponta de sua faca de cortar neve.
— Uma vez que você ainda é capaz de mover o braço,
podemos deixar a bala onde ela está. Pelo menos —
acrescentou ela — daqui por diante, você poderá dizer
sempre que possui uma bala.
Ernenek pôs-se de pé, um pouco estonteado, a sorrir
acarneiradamente.
— Vamo-nos embora — disse Asiak. — Por favor, apanhe a
vestimenta exterior dele.
— Este é Ernenek — disse Ernenek — e não o homem com
quem você deseja ir-se embora.
Asiak encolheu os ombros, dizendo:
— O outro fugiu; e um é tão mau como o outro.
Houve gritos de alegria, sorrisos e gargalhadas, que partiram
do círculo dos espectadores, à vista da pequena família
empoleirada no topo dos fardos. Nem mesmo o homem
branco pôde deixar de rir; e Undik bateu uma palmadinha
no ombro de Ernenek, dizendo:
— Volte para a terra a que você pertence, homem, e fique
por lá. Depois, Undik e os outros se voltaram, afastando-se
dali.
Os cães da matilha puxaram; o trenó pôs-se em movimento,
com um solavanco que fez com que os viajores
cambaleassem. Mas o trenó ainda não havia percorrido uma
distância muito grande, quando Ernenek ordenou alto.
— Está acontecendo que alguém esqueceu a sua espingarda
— disse ele, coçando a cabeça.
— Uma mulher desgraciosa quebrou a espingarda do
estranho batendo na cabeça dele; então, ela disse a Undik
que lhe desse a sua. Se, entretanto, tivermos de comer carne
de raposa, outra vez, durante todo um verão, a fim de
comprar outra espingarda, então será melhor você ir buscá-
la de volta agora mesmo.
Ernenek ponderou sobre o caso; a seguir, sacudiu a cabeça:
— A espingarda não presta. Não se pode matar nada com ela.
— Uma mulher estúpida vinha sabendo disso o tempo todo.
Agora, tratemos de pôr alguma distância entre nós e o posto
de comercio; depois, pararemos e construiremos um iglu.
Não dormimos sequer uma semana durante o inverno todo.
— Nós nos livramos das nossas peles de raposa, mas não
conseguimos possuir uma espingarda... Que grande negócio
foi este! — chasqueou Ernenek.
— Aquilo foi uma barganha — disse Asiak, pensativa.
Ernenek gritou e fez estalar o chicote; os cachorros latiram e
puxaram, abrindo as fileiras em leque, ofegando, ganindo e
soprando golfadas nervosas de vapor pelas narinas.

CAPÍTULO V
HOMEM BRANCO EM TERRA BRANCA

O contato que tinham tido com o homem branco fora tão
fugaz, que, por vezes, Ernenek e Asiak duvidavam de que tal
contato houvesse ocorrido em algum lugar, a não ser em sua
imaginação. Mas eles não se preocuparam indevidamente a
tal propósito. Não por enquanto. Ernenek andava ocupado
com a caça, e Asiak com os assuntos de família.
Recordando-se de que a amamentação ao seio, inibindo a
menstruação, pode conservar a mulher infecunda por muito
tempo depois do parto, Asiak estava disposta a dar de mamar
ao seu filho, por muitos anos vindouros, como, aliás, faziam
todas as mulheres com as quais ela se havia encontrado; e
isto porque a vida que elas viviam tornava extremamente
incômoda a gravidez, e, assim, impedia a formação de
grandes famílias. Contudo, antes de Papik completar três
anos de idade, Asiak se viu compelida a desmamá-lo. A
razão foi a de que, na sua ânsia de comer carne, o pirralho
passou a ferir-lhe o seio com os seus dentes pequenos e
agudos.
Pouco tempo depois da visita ao posto de comércio, Asiak
pôs no mundo uma menina, a quem deu o nome de Ivaloo.
A esse tempo, Papik já se havia desenvolvido
consideravelmente; fizera-se corpulento e robusto. Um
verdadeiro pequeno homem, que dava sinais de vir a ser,
algum dia, um valente caçador. E como poderia ser de outro
modo, com um meninote que andava com o seu ressecado
cordão umbilical por dentro das roupas? Com tal meninote
que, com os seus primeiros dentinhos, fora induzido a
comer uma cabeça de cachorro, a fim de que a sua própria
cabeça pudesse crescer esclarecida e bem forte? Com um
meninote que, em seu punho, carregava o pênis de uma foca
selvagem, que lhe assegurava a futura habilidade como
caçador de focas, ao passo que os pedaços de pele de urso,
que havia em suas calças, garantiam a sua formação na
qualidade de valoroso caçador de ursos?
E Papik estava destinado a precisar de todos os amuletos e
talismãs de que pudesse lançar mão, agora que um novo
perigo estava aumentando os perigos do norte.
O novo perigo tinha a denominação de homem branco.
Quando Ivaloo fez dois anos, um grupo de exploradores
penetrou tão longe, para o norte, bem além do Círculo
Ártico, que chegou a tocar na unha de caça que mais ao sul
ficava para os esquimós polares. Ernenek e Asiak avistaram o
acampamento do homem branco na primavera; e não
puderam resistir à tentação de visitá-lo.
A expedição dos exploradores compunha-se de oito homens
brancos, com a companhia de mais esquimós do que um
homem contado até ao fim. Também desconcertante era o
número dos seus trenós, bem como das suas matilhas de
cães: dezenove trenós e inúmeros cachorros — muito mais
do que Ernenek e Asiak poderiam contar.
Os esquimós procediam de tribos sulinas distantes, que
também se denominavam homens, embora Ernenek não os
denominasse assim Tais esquimós pareciam tão amalucados
como carcajus: comiam as comidas do homem branco;
macaqueavam os hábitos dos homens brancos. Os homens
brancos acreditavam que aqueles esquimós os poderiam
guiar ao longo de vastas distâncias, por cima da terra gelada;
mas Ernenek sabia muito mais do que isso. Ao que se lhe
afigurava, os esquimós do sul não sabiam muita coisa mais do
que o homem branco — e o que o homem branco sabia não
era grande coisa; por vezes, os esquimós do sul sabiam ainda
menos do que o pouco sabido pelo homem branco.
Quando Ernenek começou a esgaravatar no interior das
caixas dos exploradores, um daqueles homens lhe bateu nos
dedos com um bastão; e isto fez com que Ernenek se
acolhesse, resmungando, a um canto. Quando, mais tarde, os
exploradores lhe ofereceram um pouco de aguardente —
água-de-fogo — ele ficou sabendo que aquela gente toda era
decididamente hostil; e então resolveu abandonar o lugar.
Teria sido melhor se houvesse abandonado o lugar. Todavia,
Asiak sentia-se cansada; o tempo estava proibitivo; e então
os dois decidiram construir um iglu, e ali deitar-se para uma
soneca.
Asiak acordou Ernenek, com uma notícia jubilosa:
— Temos um hóspede!
Um dos homens brancos, rapaz mal nutrido, com cara de
lemingue e ombros caídos, acabava de engatinhar para
dentro do iglu, e estava sacudindo a neve de suas roupas. O
frio tinha feito com que seu rosto se tornasse azul, o nariz
vermelho, e as orelhas todas tomadas por frieiras. Ernenek,
sentindo-se honrado com o fato, mostrou-se satisfeito e
sorriu para ele.
O visitante agachou-se no beliche, e pôs-se a olhar ao redor,
com evidente curiosidade. Quando, porém, descobriu que
tinha sentado nas dejeções dos filhotes de cachorros,
mostrou-se bastante aborrecido. Asiak limpou-o com uma
pele de raposa; fez isso rindo; e disse:
— Trata-se apenas de sujidade.
Não obstante, o homem branco procurou, caprichosamente,
um pequeno lugar limpo, antes de se sentar de novo; depois,
puxou para fora uma tabuinha e um lápis; e começou a
rabiscar, enquanto as crianças o contemplavam, de boca
semi-aberta e olhos arregalados. De tempos a tempos, o
homem branco apanhava o lápis e a seguir traçava algumas
linhas na sua tabuinha. Ernenek e Asiak ficaram-se a espiar,
por cima do ombro daquele visitante, o que ele ia
rabiscando. Ele riscava desenhos, bastante acurados, tanto
do iglu como do que ele continha. Contudo, a expressão de
sofrimento nunca lhe saía do semblante.
Quando Ernenek empurrou por baixo do seu nariz um
pedaço deteriorado de fígado, ele não estalou — como
qualquer homem bem educado teria estalado — a língua;
nem lambeu os lábios; ao contrário: sacudiu a cabeça para
longe daquilo, como se fosse para recusar a iguaria oferecida;
e seu rosto se arreganhou numa careta de desgosto, em
presença do oferecimento seguinte, que Ernenek lhe fez:
um lindo pedaço de miolo, de mais de um ano de
envelhecimento, a formigar de bichinhos.
O bom humor de Ernenek ia dissipando-se.
— Será que o homem branco deseja insultar-nos? —
perguntou ele a Asiak.
— Talvez ele esteja habituado a comidas diferentes.
— Talvez ele tenha deixado longe, atrás de si, as boas
maneiras.
— Agora, lembre-se de que ele é nosso hóspede; por isto,
não se transforme em urso, nem lhe quebre alguns dos ossos
— advertiu Asiak. — Ficaríamos desmoralizados se você
fizesse isso.
Ernenek fez uma última tentativa, utilizando-se de uma
saborosa iguaria que tinha reservado para si próprio: uma
mistura totalmente mastigada de olhos de caribus, de
dejeção de ptármiga, lodo de mergulhão e cérebro
fermentado de urso; mas também isto de nada valeu.
— Mas então, por que é que ele entrou no nosso iglu, se não
aprecia as nossas comidas? — gritou Ernenek, enquanto o
sangue lhe afluía às faces.
— Talvez ele não esteja com fome. Talvez queira apenas rir
em companhia de uma mulher sem valor.
— Lembra-se do homem branco, no posto de comércio?
Ele não quis rir.
— Alguns querem, alguns não querem. Andei perguntando,
em meio a outras mulheres; e parece que alguns homens
brancos gostam muito de rir em companhia das mulheres
dos homens. Eles até lhes dão belos presentes, depois. Dão
os presentes também aos maridos delas.
— Talvez seja isso o que ele quer — disse Ernenek, como
que iluminando outra vez o próprio rosto. — Faça-se então
bonita.
Dando risadinhas à socapa, Asiak desatou os cabelos,
deixando-os cair pelos ombros abaixo; arregaçou as mangas;
e mergulhou os braços na lata de urina; depois, passou os
dedos por entre os cabelos, até que estes ficaram íisos e
brilhantes. Espelhando-se na lata, ela, com o emprego de
uma espinha de peixe, penteou os cabelos, rearranjando-os
por uma forma diversa da anterior. A seguir, apanhou uma
mancheia de graxa de óleo de baleia, daquela que se encon-
trava na lâmpada, onde se apresentava já quase derretida,
devido ao calor da labareda; esfregou-a no rosto, e sentou-se
no beliche, ao lado do homem branco; este, aliás, lhe havia
acompanhado os movimentos esquisitos, com olhar bastante
curioso. Quando ela se sentou ali, ele recuou, com expressão
de espanto no rosto; e ela avançou para ele, oferecendo-se,
sorridente e ruborizada.
— Não faça cerimônias — disse Ernenek, sorrindo, ao
homem branco. — Um marido está levando as crianças, a
fim de que elas dêem um breve passeio.
Depois, lembrando-se de que o hóspede não conhecia a
linguagem dos homens, fez um sinal, com as mãos,
significando que iria sair dali.
A isto, o homem branco atirou-se ao chão, procurando fugir
à investida. Ernenek, porém, com os olhos em brasa,
agarrou-o pela parte do assento das calças, no momento em
que ele tentava esgueirar-se pelo túnel de saída do iglu; e
atirou-o de novo ao beliche, onde Asiak, extremamente
mortificada, rompeu em lágrimas.
— Filho de uma cadela sem cauda, e de uma morsa sem
dentes! — trovejou Ernenek, dirigindo-se ao hóspede
renitente. — Como é que você ousa insultar um homem?
Agarrou-o e ergueu-o outra vez; depois, bateu-o
repetidamente de encontro à parede de gelo do iglu, ate que
a cabeça do explorador ficou bamba, e que o seu crânio
produziu um barulho lúgubre, ao dar naquela parede; na
última pancada, a cabeça produziu uma grande mancha de
sangue no gelo; somente então é que Ernenek o largou,
deixando-o cair ao chão; e disse:
— Que isto lhe sirva de lição!
O homem branco não iria nunca mais insultar a esposa de
ninguém. O homem branco estava morto. Sangue e
substância cerebral escorriam do seu crânio fraturado,
manchando as peles.
— Agora, veja o que foi que você fez — disse Asiak, ainda
choramingando, ao mesmo tempo em que as crianças,
chorando e gritando, se agarravam às suas calças.
— Alguém não teve a intenção de matá-lo — disse Ernenek,
abrindo os braços desconsoladamente.
— Agora, porém, os companheiros dele ficarão zangados
conosco. Talvez eles nos expulsem daqui.
Ernenek ficou meditando durante algum tempo:
— Se nós formos embora, eles não nos poderão expulsar.
— Então, tratemos de ir embora imediatamente. E, visto que
ninguém sabe que espécie de devastação o espírito de um
homem branco é capaz de infligir, não se esqueça de comer
um pedaço de fígado dele; corte-lhe, ademais, um dedo do
pé e um da mão; e ponha-os na boca, para aplacar-lhe a
sombra.
— Você pensa que eu não sei como devo comportar-me? —
gritou Ernenek, zangado.
E, enquanto ele começou a pôr em prática o cerimonial do
assassino, de acordo com o costume venerado, Asiak
apressou-se a cobrir todos os recipientes que continham
líquidos, ou alimentos — antes que o fantasma do morto
pudesse contaminá-los.
Depois de atrelada a matilha e de carregado o trenó, um dos
homens brancos apareceu por ali, a fim de observar; e
Ernenek sorriu para ele, nervoso; mas os esquimós não
tomaram conhecimento da sua partida. Assim, Asiak e
Ernenek levantaram a âncora e partiram de volta às suas
regiões, onde estariam a salvo de insultos da parte dos
homens brancos.
Ou foi isso o que eles pensaram.
Os homens brancos alcançaram Emenek em meados do
verão. Com a mandíbula de um tubarão, ele serrara um
quadrado no chão de gelo, que dava para a superfície das
águas do mar e não degelava nunca; e, ajoelhando-se por trás
de um pára-vento formado por blocos de neve, ficara
espiando com tamanha concentração para dentro das águas
verde-escuras, à espera de peixes, que deixara de notar os
dois homens que se haviam aproximado dele com armas de
fogo apontadas; os dois aproximaram-se até que acusaram a
sua presença ralando:
— Ernenek, ponha-se de pé! — gritou-lhe o homem mais
velho. Este era alto, com olhos de um azul aguado, e rosto
amarelado. O outro, mais moço, era mais robusto, de
compleição sadia e faces brilhantes. Os dois recém-chegados
tinham barba.
Ernenek pulou, pondo-se de pé. Não se mostrava, de forma
nenhuma, visivelmente preocupado por causa dos fuzis; e o
seu rosto enorme se derramou num sorriso que lhe reduziu
os olhos a duas estreitas frestas trêmulas.
— Quem é que jamais ouviu falar de homens a viajar por
uma área situada tão ao norte como esta?
— Nós percorremos a distância toda, por sua causa, somente
por sua causa — disse, com severidade, o homem alto; falou
em língua esquimó, de certo modo.
— Verdade? — exclamou Ernenek; e o seu rosto sangüíneo
como que se iluminou de alegria. — Nunca vi você, antes
deste momento; mas bem me lembro de ter visto esse outro,
no grupo dos homens brancos exploradores, há coisa de
umas poucas luas.
— Exato — concordou, com solenidade, o homem mais
moço.
— Eu os guiarei até onde quiserem que guie; primeiro,
porém,
preciso ir buscar meus amuletos de viagem lá na minha
tenda, que ica no interior, bem perto daqui, e onde vocês
serão meus hóspedes. Depois, nós poderemos também fazer
uso do meu trenó, que está com minha mulher; ela está
tratando das armadilhas.
— Você virá conosco imediatamente — disse-lhe o homem
alto.
— Nós temos o nosso próprio trenó, que deixamos atrás da
ilha, quando o avistamos; se assim não fizéssemos, você
poderia desaparecer subitamente, ao certificar-se da nossa
aproximação.
— Mas por que razão desejaria alguém desaparecer?
— Você matou um homem branco, Ernenek; e mutilou-lhe
o cadáver, horrivelmente; agora, pois, você terá de
responder por isso
— sublinhou o homem mais moço, à sua maneira grave e
ponderosa.
Ernenek riu.
— Posso responder-lhe agora mesmo. Não somente eu
estava com a razão, como também ele estava errado!
— Você explicará isso àqueles que irão julgá-lo — disse o
homem alto.
Ernenek franziu a testa:
— São eles parentes do homem morto?
— Não. O que há é que qualquer indivíduo que mata um
homem branco recebe julgamento justo; depois disto, e
amarrado ao topo de uma árvore, com uma corda ao redor
do pescoço, até que morra.
Os dois homens brancos falavam execravelmente a língua
dos homens; e esta deveria ser a razão, pensou Ernenek,
pela qual não percebiam o que ele tencionava dizer.
— Eu estava certo, quando o matei — repetiu Ernenek, com
paciência. — Ele insultou abominavelmente a minha
mulher.
— Poupe suas falas. Nós temos boa matilha de cães, que nos
levará ao lugar do seu julgamento; o julgamento deverá dar-
se em qualquer dia, lá pelo fim do próximo inverno. Então,
você poderá falar durante algum tempo, antes de ser
enforcado.
— Alguém não acredita que vocês queiram matá-lo —
declarou krnenek, tomando a sorrir. — Seria tolice levar um
homem para uma viagem tão longa, durante a qual ele
poderá causar-lhes aborrecimentos, ao invés de matá-lo
agora mesmo; e vocês não são bobos; ou será que são?
— Estas são as nossas normas de ação — disse o homem
alto, com o propósito de pôr ponto final à discussão.
Ele tinha ouvido isso antes; Ernenek tinha ouvido que se
presumia que todos eram obrigados a obedecer às normas
dos homens brancos, sendo que estes não reconheciam as
normas de ação de ninguém. Ernenek não refletiu se isto
estava certo ou errado. Apenas ficou a meditar sobre se eles,
aqueles homens que ali se encontravam, poderiam retirar-se
dali, levando-o. Levando a ele, Ernenek.
Enquanto os homens brancos fossem dois, e enquanto
tivessem espingardas, poderiam.
O homem mais moço apanhou a faca de cortar neve, que
Ernenek havia preparado laboriosamente, fazendo-a de osso;
apanhou também a serra, a machadinha de sílex, a talhadeira
de gelo e a lança; e atirou aquilo tudo no buraco de pesca.
Destruir ferramentas que proporcionavam alimentos e
abrigo, e que eram tão difíceis de fazer, constituía pecado; e
isto era uma das coisas em torno das quais Ernenek tinha
absoluta certeza. Ernenek, por isto, começou a dar voltas ao
cérebro, num esforço enorme; mas não conseguia pensar
em coisa nenhuma que fosse maior, nem mais importante,
do que as duas espingardas que o ladeavam.
A neve fresca formava uma camada de cerca de quinze
centímetros de espessura no Oceano Glacial; e, em
conseqüência, o progresso da viagem era lento. A Unha da
costa, o horizonte e as ilhas cônicas, bem como os icebergs
que emergiam dos campos marinhos, estavam parcialmente
apagados pela névoa de verão — névoa esta que se erguia
em meio a uma luz solar de tom aguado. Nem um fio de
vegetação se tornava visível, fosse lá onde fosse.
O trenó dos homens brancos, pesadamente carregado, todo
construído de madeira, com guarnições de metal reluzente,
que não precisava de congelamento, nem de esfregação com
neve, estava ancorado atrás da ilha. O homem alto era quem
guiava o trenó. Ernenek, sentado em cima de uma caixa,
entre os dois homens brancos, procedeu a uma consideração
crítica da matilha em ação: dezessete cães, enrijecidos por
duro trabalho na trilha, e respondendo a ordens de comando
dadas na língua dos esquimós. Os cães não estavam atrelados
ao trenó por meio de arreios individuais para cada animal; os
arreios individuais permitem que os cães se espalhem em
leque; atrelados, por meio de um arreio só para todos, os
cães se mantêm em linha, disciplinadamente. Isto era
conveniente para se viajar através de regiões dotadas de
vegetação; mas um único cachorro que falhasse afetaria a
matilha toda. Como era natural, os homens brancos não
sabiam como é que se viaja no Oceano Glacial.
Não obstante, de início o conjunto viajou rapidamente, sob
o Sol que nunca se põe. De uma feita, uma família de focas,
aquecendo-se à superfície do gelo, à luz cálida do dia, olhou,
surpresa e ingênua, para a procissão que passava; e, antes que
os membros daquela família pudessem mergulhar nos seus
buracos, para garantia de suas vidas, um par deles foi
prostrado, silvando e espadanando no próprio sangue, à
deflagração de tiros de espingarda.
A boca de Ernenek fez água, à vista de toda aquela carne
fresca abandonada à beira da trilha, só porque os homens
brancos repudiavam o que era melhor. Quando o trenó se
deteve e os viajores fincaram sua tenda de pano, foi o
alimento que os homens brancos lhe deram — feijões
retirados de latas, aquecidos à labareda de um fogareiro
Primus — que deprimiu Ernenek; deprimiu-o muito mais do
que qualquer outra coisa; os únicos vegetais que ele tolerava
eram os encontrados no estômago do boi almiscarado.
Ernenek pediu um pouco de carne congelada de peixe,
como que orvalhada de neve, que estava sendo
proporcionada aos cães da matilha; mastigou peixes, com
cabeça e espinhas, enquanto a neve ia estalidando, esmagada
entre os seus dentes; só então é que se sentiu de todo
contente.
Até que os homens brancos prepararam os próprios sacos de
dormir.
Foi aqui que eles cometeram o seu mais grave abuso:
acorrentaram Ernenek, como se fora um cão. Puseram-lhe
uma corrente ao redor das mãos, e uma corda ao redor dos
pés; depois, beatifica-mente, caíram no sono.

Quando eles acordaram, Ernenek estava furioso. O fato de
ele ser desacorrentado logo após não lhe melhorou o humor.
Não se incomodava de não ter dormido, porque, no verão,
podia passar semanas a fio sem dormir; mas o insulto, a
injustiça representada por tudo aquilo, era demasiado
grande, aos seus olhos; e ele achou que alguma coisa
precisava ser feita a tal propósito.
Enquanto o homem mais moço estava amarrando as caixas
por meio de correias, e o homem mais velho, depois de pôr
às costas a espingarda, passando a correia pelo próprio
ombro, se preparava para entrar no trenó, Ernenek virou
como um torvelinho; e desceu, com o máximo de força, o
seu punho cerrado em cima da cabeça deste. Houve um som
surdo; o homem cambaleou; Ernenek arrancou-lhe dos
ombros a espingarda; apontou-a contra o outro homem; e
puxou o gatilho. Mas a espingarda negou fogo. Ernenek
tinha deflagrado apenas um tiro, em toda a sua vida; e havia,
em circulação, uma grande quantidade de armas de fogo, a
respeito das quais ele não sabia um mundo de coisas. Ao
tempo em que ele resolveu fazer uso da espingarda como
porrete, já era tarde: o homem mais moço tinha agarrado a
sua própria arma, que se achava encostada de encontro a
uma caixa; apontou e atirou. Ernenek sentiu uma pancada e
uma dor pungente num dos braços. Depois, seus dedos se
fizeram rijos de dor; e a arma escorregou-lhe para fora da
mão, caindo ao solo.
A esta altura, o homem mais velho, que havia sido prostrado
pelo soco sofrido à cabeça, recuperou-se do abalo. Vibrou
um pontapé ao tornozelo de Ernenek, por trás, fazendo-o
cair; a seguir, golpeou-lhe o rosto, também a pontapés, até
que o verão se tornou inverno. Quando a luz do dia voltou
para Ernenek, o homem mais moço lhe disse:
— Tente fazer isso mais uma vez, e você será baleado
através da garganta.
O homem moço rasgou e puxou para baixo a manga de
Ernenek; havia sangue inundando-lhe o braço e escorrendo-
lhe para baixo, até às calças; mas Ernenek nem sequer
pestanejou sob o efeito da dor lancinante que sentiu quando
o ferimento foi pensado e vedado com tiras de pano branco.
Antes de a viagem ser retomada, Ernenek foi de novo
acorrentado; e, dali por diante, suas mãos passaram a ser
soltas somente nas horas das refeições.
O Sol deu vários giros — nove, ou dez, ou onze. Ernenek
perdeu-lhe a conta. No seu braço, a dor ardia, alfinetava,
latejava, irradiando para o ombro e para o peito; em
conseqüência, ele mal tocava no peixe que lhe era atirado
como alimento. O tempo estivera quente, até então:
ligeiramente abaixo do ponto de congelamento; e isto lhe
aumentava o desconforto. Ademais, houvera nevada
acompanhada de vento. A seguir, a temperatura caiu. A
bruma ergueu-se, dissipando-se; os tufos de vapor, da
respiração, fizeram-se mais brancos; Ernenek podia ouvir o
baque, no chão, quando cuspia; a dor atenuou-se; e, na
medida em que ele foi tornando-se mais alegre, foi
revertendo aos antigos hábitos de murmurar ou de
resmungar consigo mesmo, durante o dia todo — e aquele
foi um longo dia.
Um vendaval, que piorou o clima, como que pisoteou a
neve do chão; e, nos remoinhos leitosos, os viajores mal
conseguiam, com a vista, alcançar a cabeça dos cachorros
que se encontravam na extremidade dianteira da comprida
matilha atrelada. De quando em quando, pensava Ernenek,
ele teria parado e construído um abrigo. Aqueles homens
brancos, porém, escolhiam sempre a maneira mais difícil de
fazer as coisas, abrindo caminho para não se sabia onde.
Ernenek notou que o homem que guiava o trenó traçava o
seu curso acompanhando a linha da costa, provavelmente
desejando procurar abrigo por baixo de algum cabeço, ou de
alguma caverna no rochedo; então ele começou a sentir-se
alarmado, porque os homens brancos estavam rumando
diretamente para um promontório onde, devido às fortes
correntes subterrâneas e submarinas, havia o perigo de se
encontrarem fendas, com água a céu aberto, durante uma
tempestade.
— Vocês têm, pelo menos, todos os seus amuletos consigo?
— perguntou Ernenek, ao homem que se encontrava atrás
dele.
O homem meneou a cabeça, em sinal negativo. Viajar sem
amuletos — esta era a últimas das loucuras!
O homem que guiava o trenó virou-se, e, dando
palmadinhas em sua espingarda, disse:
— Estes e que são os nossos amuletos.
— Para viajar com segurança, sobre o oceano, vocês
precisam de pelo menos um rabo de arminho e um olho de
foca. Se tirarem as correntes de alguém, esse alguém
construirá, para vocês, um iglu.
Os homens brancos, porém, mostravam-se surdos à voz da
razão; e Ernenek começou a proferir frases mágicas, a toda
pressa; enquanto as proferia, tocava nos próprios órgãos
genitais, a fim de evitar desastres.
Foi, porém, muito tarde.
O cão-líder da matilha oscilava, ziguezagueava e imprimia
arrancos com tamanha brutalidade súbita, que o segundo e o
terceiro cães da linha passaram para a frente, também
ziguezagueando e arrancando abruptamente; desta maneira,
as correias dos arreios se entrelaçaram; e os outros cães, que
se situavam atrás, tropeçaram nos tirantes de couro,
originando-se confusão total. Em meio ao bolo formado
pelas pernas e barrigas dos cães, foi de roldão o pesado
trenó, indo parar de nariz numa fenda profunda do solo,
inundada de água até à orla.
Ernenek, com os olhos esbugalhados de espanto e de medo,
foi o primeiro a pular para fora do trenó; e o homem mais
moço, colocado atrás dele, seguiu-lhe o exemplo. Mas o que
guiava o trenó, sentado em cima da caixa, foi para o fundo,
com o veículo.
Seis cachorros da matilha se arrancaram, separando-se dos
arreios; e ficaram de pé, à beira da fenda profunda, latindo
inutilmente para dentro da água que ondulava. Na fenda,
que media uns três metros de largura, e que se alongava até
onde os olhos podiam ver, cães e arreios se puseram a
flutuar ao redor do rosto azulado e ofegante do homem
branco alto, que agitava os braços, na mais completa
impotência.
— Ajude-me a puxá-lo para fora — gritou ele.
Ernenek sorriu para aquela nova maluquice.
— Aquele é um homem morto. Além do mais, o mar ficaria
zangado conosco, se nós o retirássemos de onde se
encontra.
Um golpe, vibrado com a coronha da espingarda, lembrou a
Ernenek que os homens brancos não obedecem; mandam.
Desta forma, ele se deitou no chão, com a barriga para baixo,
e estendeu os braços, por cima da fenda, enquanto o homem
branco mais moço lhe segurava as pernas. O homem que se
debatia na água conseguiu agarrar-se à corrente das mãos de
Ernenek; contudo, as roupas encharcadas de água tinham
aumentado prodigiosamente de peso; e o homem só pôde
ser puxado para fora depois de grandes dificuldades.
O homem salvo foi posto de pé; mas não disse palavra.
Enquanto ele se manteve exposto ao vento frio e cortante,
as roupas encharcadas se enrijeceram quase que
instantaneamente; a água dos pêlos dos couros que ele usava
se congelou em miríades de gotículas de gelo; e o seu rosto
ficou como que enluvado por uma crosta de geada, através
da qual os olhos cintilavam, vidrados e como que
engrandecidos. O seu companheiro começou então a
retalhar-lhe as roupas congeladas com sua faca de caça; a
roupa retalhada ia sendo no mesmo instante atirada fora do
corpo do homem; cada pedaço era aberto, separado do resto,
e jogado no chão. Aconteceu, porém, que também o corpo
do homem estava como que embutido em gelo. Dos seus
joelhos machucados começou a jorrar sangue; que, com o
seu calor, degelava a crosta de gelo, começando pelo lado de
dentro, e colorindo o gelo de uma cor vermelha brilhante.
Depois, também o sangue se congelou.
Ernenek meneou a cabeça. Seria que também para morrer os
homens brancos costumavam escolher a maneira mais
difícil? Pelo menos, porém, aquele homem branco morreu
de pé. Quando ele caiu no gelo, o seu corpo produziu um
barulho semelhante ao tilintar de um objeto de cristal.
O companheiro sobrevivente ali ficou, de pé,
completamente atordoado.
Ernenek sorriu, numa careta, com ar triunfal:
— A nossa posição não é boa — anunciou ele, com
expressão parecida com a de regozijo; e acrescentou: —
Quando alguém vai a terras estranhas, deve levar consigo a
própria esposa, mas não as próprias leis.
Sem proferir palavra, o homem branco rolou o seu
companheiro, devolvendo-o à água. Depois, passou a
proceder ao inventário.
— Temos seis cães e uma faca de caça — disse ele, com um
súbito sorriso amargo, como que gritando contra o vento. —
Nós comeremos os cachorros, e continuaremos a viagem a
pé.
Ernenek respondeu com uma enorme gargalhada; porque o
homem branco falava como se estivesse ainda em posição de
comandar. E ele, Ernenek, gargalhou, porque estava livre.
Na distância, até onde a vista podia alcançar, e ainda mais
para além, não havia coisa nenhuma, a não ser o oceano
pavimentado de gelo, as ilhas capeadas de gelo, e uma terra
safara, nua, em estado de congelamento profundo.

CAPÍTULO VI
A ESTRADA PARA O NORTE

— Alguém vai tomar o seu próprio rumo — disse Ernenek.
— Você pode seguir o seu caminho, ou vir comigo, como
preferir. Mas a minha tenda fica muito mais perto do que o
seu posto.
O vendaval empurrava-os de um lado para outro; e a poalha
branca apegava-se-lhes às sobrancelhas e às narinas,
formando pequenas goticulas de gelo que causavam dor ao
serem removidas.
— Minhas mãos são dois pedaços de gelo — disse o homem
branco. — As luvas devem ter tocado na água.
— Foi coisa estúpida deixar que isso acontecesse. Tão
estúpida como o ato de atirar o seu amigo de novo ao mar,
sem lhe tirar a faca e as roupas.
— Por quê?
— Você poderia comer-lhe as roupas; pelo menos o que
delas fosse feito de lã ou de pele de animal. E se vocês,
indivíduos do povo branco, tivessem roupas como as dos
homens, que são à prova de água e costuradas com tendões,
que se inflam quando ensopadas, de modo a tornar as
costuras impenetráveis à água, o seu amigo estaria vivo
ainda. Daqui por diante, será melhor você tomar cuidado
com os passos que der; porque o seu próximo erro poderá
ser o último de sua parte. E recorde-se: um rasgão, em suas
roupas ou em suas botas, significará o fim, uma vez que não
temos petrechos de costura.
— Que é que é preciso fazer?
— Em primeiro lugar, tire-me estas algemas. Depois, alguém
lhe mostrará como é que se faz amizade com a geada,
induzindo-a a ajudar-nos, ao invés de molestar-nos.
Depois que as algemas foram removidas, Ernenek atirou-as
ao mar. A seguir, puxou para fora as luvas do homem
branco; virou-as pelo avesso, expondo uma crosta fina de
gelo.
— Dê-me a sua faca, e fique com suas mãos dentro dos
bolsos, onde elas ficarão mais aquecidas.
Ernenek raspou a parte interna, virada, das luvas; fê-lo com
meticuloso cuidado; secou-as, em seguida, com neve; e
certificou-se, com o seu lábio superior, de que elas estavam
livres de geada.
— Minhas mãos já não têm mais tato nenhum — disse o
homem branco; já agora, toda a sua petulância se havia
dissipado. - Elas estão como se fossem mortas!
— Não ainda. Não completamente.
Ernenek chamou os cachorros. Os animais recusaram-se a
aproximar-se. Quando ele procurou apanhá-los, fugiram. Ele
se sentou e pôs-se a falar-lhes, com ares de brincar, sempre
mastigando um pouco de neve. No momento que um dos
cachorros se aventurou a aproximar-se ao alcance de sua
mão, ele o agarrou pelos pêlos do congote; abriu-lhe
completamente o ventre; e, enquanto isto, os outros
cachorros ficaram latindo e uivando.
Obedecendo às ordens de Ernenek, o homem branco
mergulhou as mãos no ventre fumegante do animal
desventrado, e manteve-as ali.
— Meus dedos estão doendo terrivelmente — disse o
homem branco, depois de alguns momentos — como se
inúmeras agulhas os estivessem picando.
O homem branco sentia-se envergonhado porque, a
despeito dos esforços no sentido de se controlar, percebeu
que navia lágrimas em seus olhos. Aquela era a dor mais
aguda que jamais provara.
— Esse é o aviso de que a vida está voltando às suas mãos —
explicou Ernenek — e, com a vida, a dor volta. Só a morte é
sem dor.
Nesse entretempo, por baixo da pele do ventre do cachorro,
ele encontrou um pouco de gordura, com que untou as suas
faces como as do homem branco. A seguir, extraiu o fígado
fumegante do animal desventrado; mordeu-o
voluptuosamente; e passou o resto para o seu companheiro.
— Coma isso antes que ele se congele — disse Ernenek,
sorrindo, com a boca tornada cor de púrpura por causa do
naco de fígado abocanhado; e o homem branco mordeu
também o fígado, com decisão.
A seguir, Ernenek puxou para fora as entranhas do animal.
Por certo, também ele já havia saboreado coisa melhor,
como, por exemplo, as entranhas da rena, sempre estofadas
de liquens; todavia, seria loucura, da parte do homem
branco, recusar fosse lá o que fosse, num momento como
aquele.
— Nós precisaremos da carne para a construção de um
trenó — explicou Ernenek, dando as tripas para a matilha.
Ele retirou o couro do cachorro, fazendo correr a faca entre
a carne e a pele, e puxando pelo pelame. Correndo contra a
direção da geada, que estava invadindo os tecidos, ele
desossou a carcaça; cortou a carne em tiras finas; separou
cuidadosamente os tendões, pondo-os por dentro de suas
calças, a fim de mantê-los aquecidos e flexíveis. Depois,
sentando-se em cima da pele, começou a descarnar o osso
esterno com sua faca.
O tempo passava. O Sol, pálida bola de fogo, continuava
descrevendo círculos por cima do horizonte. O homem
branco trotejava ao léu, a fim de se manter aquecido.
Ernenek trabalhava, cantarolando para si mesmo. A faca de
aço tornava a descarnagem mais fácil do que a lasca aguçada
de pederneira, com que estava acostumado a trabalhar; mas
percebeu que precisava tomar cuidado ao lidar com ela; do
contrário, poderia quebrá-la; de resto, já havia feito um
dente em seu gume.
Com o osso, ele fez uma ponta de lança, primitiva e cheia de
rebarbas. Depois molhou a pele do cachorro em água;
estendeu-a sobre o gelo; e enrolou-a, a seguir, bem apertada,
premendo-a bem, enquanto ela se congelava; ao mesmo
tempo, ia enfiando a ponta de lança numa extremidade, e
ligando-a com os tendões. A pele molhada congelou-se
rapidamente. Ele soldou a haste da lança na ponta, com
outro rápido mergulho na água; e ficou com mais uma lança,
feita de pele e de osso de cachorro.
— No nosso caminho por aí abaixo, não muito longe daqui,
acontece que alguém ouviu o bramido de uma foca — disse
ele, atirando a carne do cachorro ao ombro, e caminhando
para a frente, por cima do mar. — O vendaval apagou as
trilhas deixadas pelo treno, mas os cães nos guiarão.
Embora os cachorros tivessem tido, antes, medo dos
homens, agora estavam com medo de ser deixados entregues
à sua sorte; e seguiram os homens; logo após, seguindo o
próprio faro, que ficara da passagem anterior por ali, os cães
passaram a preceder os homens.

As focas de que Ernenek ouvira o bramido se encontravam a
pouca distância dele; mas a grande distância do seu bando.
Encontravam-se em território descampado, onde poderiam
vigiar a aproximação de algum urso. Quando os cães pararam
e começaram a latir e a cavar o chão, Ernenek pousou sua
carga; orientou os cães para trás, a favor do vento; e deu-lhes
ordem de ficar calados. Os pequenos animais
choramingaram, ganiram um pouco antes de ficar quietos; e
acalmaram-se.
Com a mão, Ernenek removeu, cuidadosamente, a neve da
superfície, até descobrir um buraco algo maior do que o
tamanho de sua mão.
— Este é um respiradouro.
— Tão pequeno? Como é que uma foca pode subir,
atravessando o gelo espesso?
— O buraco alarga-se por baixo, até ficar mais largo do que a
altura que você tem. Agora, alguém vai ficar à espera de que
uma foca venha à superfície, enquanto você vai caminhar ao
redor, em círculo. Isso impelirá a foca para o centro, e,
portanto, para longe dos outros buracos.
Obediente, o homem branco se pôs a caminhar por ali, e
Ernenek ficou à espera, imóvel, com a lança em posição de
ataque, olhos fitos na abertura. Contemplou o buraco, que se
fechava; o gelo ia enchendo-lhe o centro. Na última água,
uma tira de película trêmula apareceu; depois, viu-se a pele
opaca da geada.
De súbito, Ernenek sentiu-se cansado e com frio; e isto o
assustou. Nunca se sentira daquele jeito. Mas tinha comido
muito pouco, durante muito tempo. Ele, que poderia
devorar um filhote inteiro de foca, de uma assentada, nada
mais havia comido além de um poucochinho de comida de
cachorro, durante muitos giros do Sol, depois de ter sido
maltratado, surrado, manietado e ferido. E tudo isto porque
algumas pessoas não portavam amuletos, nem talismãs, não
queriam cuidar dos seus próprios assuntos, e mostravam-se
incapazes de cuidar de si próprios.
Os pensamentos de Ernenek encontravam-se no nível mais
baixo de sua maré, quando se ouviu um rumor estilhaçante,
acompanhado de um silvo; logo após, um pequeno jorro de
água, ar e fragmentos de gelo foi-lhe atirado ao rosto. Por
um instante, uma cabeça lustrosa, negra, lisa e sem pêlos,
apontou para fora; e um par de olhos enormes olhou para
ele, estupefato. A surpresa foi recíproca. A cabeça
desapareceu de pronto; desapareceu tão depressa, que
Ernenek poderia pensar que aquilo houvesse sido sonho —
se não fosse pela agua que ainda ondulava no buraco recém-
aberto.
Ernenek como se congelou naquela imobilidade. Quase que
parou de respirar, esforçando por varar, com os olhares,
aquelas águas escuras, uma vez que não tinha consigo o seu
flutuador, para lhe assinalar quando a foca se aproximava da
superfície de gelo. Ela não tinha necessidade alguma de
voltar à tona por aquele mesmo caminho, porquanto
mantinha abertos vários buracos ao mesmo tempo, a fim de
conseguir ar. A foca é sábia. Mas é também curiosa.
Ademais, é simplesmente humana; e Ernenek estava
convencido de que a curiosidade acabaria levando a palma
no fim das contas.
Ele estava certo, absolutamente certo, de que aquelas duas
manchas, que vira como que luzindo por baixo da superfície
da água, eram os olhos enormes da foca — e não uma
excrescência da sua própria imaginação excitada. Ernenek
proferiu uma prece rápida, nesse sentido, ao espírito que era
o seu guarda pessoal; a esse espírito, todo homem reverte,
quando fica como que suspenso entre a vida e a morte;
vibrou o golpe.
A lança acertou o alvo; apanhou a foca no ponto em que
Ernenek havia visado; e também no ponto em que mais
resultado poderia produzir: para dentro do lábio superior.
Tratava-se de uma foca macho, pesada, abundantemente
embigodada; e Ernenek gritou, pedindo auxílio; enquanto
gritava, segurava firmemente a haste da lança com as duas
mãos, ao mesmo tempo em que a presa se debatia. O
homem branco apressou-se, trotejando rigidamente em seu
auxílio; ajudou-o a matar a foca; e a alargar o buraco, com
emprego da faca; em seguida, os dois, juntos, puxaram para
cima a caça.
Em primeiro lugar, Ernenek retirou um dos olhos da cabeça
do animal; e enfiou-o pelo lado de dentro de sua jaqueta.
— Agora estamos a salvo! — exultou ele. — Este olho nos
protegerá contra futuros contratempos.
Dali por diante, nada poderia abater-lhe o ânimo
consideravelmente elevado.
— Por que é que você derrete neve na boca e a cospe
depois para dentro da boca da foca? — perguntou-lhe o
homem branco, que conservava a curiosidade perpétua de
sua raça, a despeito do frio e do desconforto.
Ernenek meneou a cabeça, em face de tão abismal
ignorância. Até uma criança sabia por quê.
— A alma deste animal vai agora dizer, à dos outros, que
recebeu um gole de água doce; assim, os outros animais
também virão à tona e procurarão ser apanhados por nós, na
esperança de também receber o seu gole. As focas andam
sempre com muita sede, uma vez que vivem na água
salgada.
Ernenek sugou o sangue, negro e oleoso, da ferida
fumegante; espostejou a caça; deu aos cães, para que os
comessem, uns poucos pedaços de pele; e retirou o
estômago da foca, do qual recolheu alimento marinho vivo;
um alimento que até mesmo o homem branco apreciou,
temperado como estava com os sucos avinagrados do estô-
mago. O homem branco apreciou um pouco menos o fígado
e o coração da foca; e recusou, terminantemente, as tripas,
grossas e gordas — a despeito das afirmativas de
Ernenek, que comeu vários metros delas, no sentido de que
aquilo era um prato que sabia a mexilhões.
— Agora, vá para a linha do mar e consiga um pouco de
turfa
— disse Ernenek. — Remova a neve com as botas; depois,
use uma pedra para raspar a turfa, retirando-a do chão
congelado. Não será fácil.
— Por que é que você vai precisar de turfa?
— Faça o que lhe é dito, sem discutir. A discussão consome
grande quantidade de energia.
— Quando percebo a razão, é-me fácil obedecer. Sinto-me
muito cansado.
— Alguém está fazendo um trenó; mas a neve que há no
chão se colará aos rodízios, a menos que os rodízios sejam
calçados com gelo. O gelo não pega nos rodízios; a turfa
pega. Assim, os rodízios são primeiro revestidos de turfa; a
seguir, a turfa pode ser revestida de gelo; e os rodízios
deslizarão sem fricção. Agora você está percebendo a razão.
Enquanto o homem branco foi dar conta do seu recado,
mantendo-se sempre rígido, Ernenek cortou a carne e a
gordura em tiras, como já havia feito com o cachorro;
durante todo esse tempo, ficou vibrando golpes de faca
contra os cães da matilha, famintos e vorazes, que não lhe
davam paz. Depois, cortou a pele da foca em duas partes, ao
comprido; mergulhou as duas metades no buraco do res-
piradouro; enrolou-as e comprimiu-as, enquanto elas se
congelavam; e assim preparou os rodízios para o seu trenó.
Ele precisava, porém, de outra foca, para fazer as rédeas e as,
correias destinadas a atrelagem da matilha; e, depois de uma
espera que poderia ter parecido excessivamente longa aos
que medem o tempo com base na unidade da hora, ao invés
da unidade da estação do ano, ele caçou outra; era uma foca
menor do que a primeira; sua pele foi por ele retalhada em
fitas; as fitas foram amarradas umas as outras, enquanto ainda
se encontravam quentes e flexíveis. Estendeu as tiras de
carne de través, entre os rodízios, à maneira de travessões;
amarrou-as umas às outras, com as fitas de pele de foca; e
como que soldou as juntas borrifando água por cima oleias,
por meio da cauda do cão morto.
Ossos de baleia serviam para se fazerem rodízios mais finos;
a madeira atirada às praias pelo mar servia para se fazerem
travessões mais leves; mas não muito mais leves.
A esta altura, já o homem branco se encontrava de volta,
com dois bolsos cheios de turfa como que reduzida a pó.
Ernenek misturou a turfa com urina quente, e aplicou a
pasta assim preparada, em camada espessa, ao lado inferior
dos rodízios; enquanto a aplicou, foi alisando-a com a sua
luva. Depois, tendo esgotado a sua urina, derreteu neve na
boca, borrifou-a por cima da cauda de cachorro, e como que
vidrou os rodízios com uma camada toda igual de gelo.
Ernenek trabalhou, durante todo este tempo, com grande
concentração de espírito, e também com a testa franzida. A
camada de lama deveria ser espessa, porém muito lisa. A
água precisava não ser muito quente, porque, do contrário,
derreteria a lama; precisava também não ser muito fria,
porque, se assim fosse, se congelaria antes de acabar de ser
estendida. A camada de gelo precisava não ser
excessivamente grossa, porque, se o fosse, não pegaria; e
também não podia ser extremamente fina, porque, então, se
racharia.
Quando Ernenek ficou satisfeito com o próprio trabalho,
atrelou os cachorros à sua maneira peculiar, atirando as
correias, ao léu, ao Tedor do peito dos animais, e amarrando
cada um dos animais, individualmente, ao trenó. O cachorro
do centro foi atrelado com a correia mais longa; os
cachorros laterais, com os arreios mais curtos. Mas ele não
entrou no trenó antes de devolver à água do mar os ossos da
foca; fazendo isto, mostrou estar cônscio de um entendi-
mento havido entre os homens e o mundo das focas, desde
tempos imemoriais; por esse entendimento, os matadores de
focas se obrigavam a devolver ao mar os esqueletos das focas
matadas; do contrário, as focas não se deixariam nunca mais
apanhar. Ernenek espicaçou, com a ponta da lança, o
cachorro mais próximo; o animal ganiu alto, eletrizando os
seus companheiros de matilha e pondo-os em ação, além de
induzi-los a perceber que era melhor começar a puxar o
trenó, com o máximo da energia que possuíam, ainda que
arrastando o ventre pela neve, se é que ainda tinham amor
aos próprios ossos. Assim, o trenó começou a deslizar em
cima do oceano.
Rumo ao norte.

Os dois homens viajaram para a frente, durante longo
tempo. No começo, sentiram-se fortes e aquecidos, com a
carne e a gordura da segunda foca, e com a ventania a
deslizar para os lados de suas faces recentemente untadas de
gordura. Entretanto, com o início de uma sensação de fome,
o frio começou a dar as suas mordidas através de suas carnes;
isto os obrigou a pular para fora do trenó, com alguma
freqüência, e a trotejar atrás da matilha, a fim de ganhar
calor. Quando os cachorros começaram a tropeçar, Ernenek
mandou que se fizesse alto.
— Precisamos deixar que descansem. Não podemos dar-nos
ao luxo de perder nenhum desses cachorros.
— Eu gostaria de tirar uma soneca — disse o homem
branco.
— Não durma sem abrigo. Se o fizer, não acordará mais.
Agora, de resto, já não estamos longe.
— Não chegarei nunca à sua tenda. O meu cansaço é tão
enorme como o oceano.
— Alguém vai lancear outra foca; e bastará que você se
empanturre de sangue, de gordura e de fígado, para se sentir
outra vez com forças e bem aquecido. O alimento substitui o
sono.
O Sol, todavia, já tinha dado dois giros completos; e eles
tinham parado várias vezes, para dar descanso à matilha; só
depois disto é que os cachorros farejaram outro campo de
respiradouros de focas. Enquanto Ernenek se conservava à
espera, o homem branco conduziu o trenó ao léu,
descrevendo círculos ao seu redor. Mas nenhuma foca
aflorou no buraco respiradouro. As focas podiam ser
ouvidas;
porque silvavam e tossiam, em todos os buracos; menos
naquele em que Ernenek se encontrava de atalaia.
— Pronto! — gritou ele, alarmado, desistindo da caça,
depois de longa espera. — Já deve ter sido espalhada a
notícia de que houve gente que matou foca, sem lhe
devolver os ossos ao mar; foi isso o que você fez, estando no
seu trenó; e, agora, as outras focas se recusam a ser
apanhadas!
Entretanto, o homem branco não ouviu a acusação; tinha
cochilado; e os cachorros não comandados estavam, agora,
mordendo selvagemente os travessões do trenó.
Ernenek pulou, zangado, e blasfemou à loucura daquele
indivíduo que havia deixado que os cachorros conservassem
a agudeza dos próprios dentes. Sacudiu o homem branco,
pondo-o de novo em estado de acordado; depois passou a
agir contra a matilha, quebrando os dentes dos cachorros
com o cabo da faca, enquanto o seu companheiro lhes
conservava as mandíbulas abertas por meio de uma pequena
haste de lança.

Os viajores deslizaram por ali, sem alimento e sem sono
dormido, através do dia sem fim, expostos aos grandes
ventos que varriam o teto da Terra. Ernenek acabou
comendo o seu olho de foca, que lhe servia de talismã;
comeu também os seus amuletos de pesca; presumiu que
isso não faria diferença alguma, pouco importando ue os
usasse por dentro ou por fora do seu próprio corpo. Depois
isto, mastigou um pedaço de pele de foca, e induziu o
homem branco a fazer o mesmo, porquanto sabia, devido à
longa experiência ue adquirira, que nada navia que fosse tão
vivificante como a pele os animais marinhos. Nesse
entretempo, Ernenek ia maldizendo Asiak, sua mulher, pela
inteireza dos seus atos; se não fosse ela uma confeccionadora
tão meticulosa de vestimentas, ele agora encontraria pedaços
de carne ressecada, do lado de dentro da indumentária de
couro; entretanto, por obra da meticulosidade de Asiak, a
parte interna do couro de suas vestimentas estava lisa,
brilhante; Asiak havia amaciado, curtido, raspado e
mastigado demais todas as peças de couro.
Ernenek precisava da vista da linha costeira, a rim de
estabelecer os pontos de referência por meio dos quais teria
de definir o seu curso; e, por isto, nunca perdeu de vista a
referida linha. Por vezes, uma nevasca forçava os viajores a
fazer alto, bem como a improvisar um iglu, não dispondo,
para isso, de nada mais além de uma pequena faca de aço;
outras vezes, eram induzidos a abrigar-se numa caverna das
colinas.
O homem branco seguia obstinadamente o que Ernenek
mandava. Tinha emagrecido; as linhas do esforço e do
desgaste já se viam, bem fundas, em seu rosto abobalhado.
Suas costeletas estavam tomadas pelo gelo; as orelhas,
intumescidas; os lábios, crestados; os membros, endurecidos;
mas o homem ainda se sentia bastante forte, a ponto de se
recusar a morrer.
O homem branco costumava admitir que nada mais tinha a
aprender, a respeito da terra branca — não somente porque
tinha tido notícia de que temperaturas baixas, de até 98
graus Fahrenheit, abaixo de zero, equivalentes a uns 72
graus centígrados, ou Celsius, abaixo de zero, se haviam
registrado naquela região — mas também porque soubera
que a altitude do Sol era de 27 graus, ao meio-dia, e de 11
graus à meia-noite. Soubera, igualmente, que uma família de
quatro pessoas, como a de Ernenek, possuía,
estatisticamente, 1.600 milhas quadradas — equivalentes a
uns 4.160 quilômetros — de território. Soubera, ainda, de
outros fatos e de outros números, relacionados com aquela
região. Aprendera, ademais, a fazer distinção entre o gelo
doce das precipitações e os rios; os rios eram brilhantes e
sempre cheios de bolhas de ar; a crosta do oceano,
congelada, era sempre de uma cor feia, cinzenta, suja e
opaca. Contudo, os seus conhecimentos práticos não iam
muito longe. Em conseqüência, o homem branco não sabia
que a neve velha, de granulação grosseira, contém mais
água, e possui sabor mais doce do que a neve fresca. Como
também não sabia que a água do mar perdia o seu conteúdo
de sal, transformando-se em água própria para se beber,
depois de estar congelada por determinado período de
tempo.
Muito menos ainda reconheceria ele as focas mortas, nos
cômoros nevados, junto das quais Ernenek se deteve,
dizendo:
— Estas são as focas que você abateu, na sua viagem de ida.
Ernenek pôs à mostra, com a faca, um couro marrom, cheio
de cicatrizes; e acrescentou:
— Precisaríamos dispor de uma machadinha.
Vibrou violentos pontapés contra a carcaça; mas não
conseguiu soltá-la do gelo, nem soerguê-la do chão ao qual
se encontrava colada pelo congelamento. Ele apenas obteve
êxito na tarefa de cortar a ponta de uma nadadeira, que se
degelou em sua boca, depois de lhe retirar as barbatanas.
Aquilo continha boa quantidade de gordura; a boca de
Ernenek encheu-se de água; e, na ânsia de conseguir mais,
quebrou a faca e acabou fazendo um corte na mão.
Enquanto os cachorros lambiam o seu sangue caído no chão,
e lançavam olhares cobiçosos à sua luva ensopada de sangue,
ele arrancou um punhado de pêlos de sua jaqueta, e aplicou-
o ao ferimento, a fim de estancar a hemorragia. Depois,
tornou a colocar a luva; e juntou-se aos cachorros, em cima
do gelo, raspando e mordendo a carcaça.
Era como estar sugando uma pedra; e ele logo desistiu
daquilo; mas teve de atarefar-se muito para persuadir os cães
aloucados a recolocarem-se nos respectivos postos; os
pequenos animais arreganhavam o focinho, mostrando os
dentes, e imprimiam safanões aos arreios, toda vez que ele
procurava pôr alguma ordem naquele atropelo.
Os cachorros encontravam-se em mau estado. Um estava
mancando; outro apresentava um olho fechado, devido a um
golpe recebido; um outro, ainda, tinha ulcerações na boca; o
quarto choramingava incessantemente; e todos possuíam
frieiras, ou tinham cortes nos pés desprotegidos, uma vez
que já tinham desgastado totalmente as sapatilhas protetoras;
ademais, o sal do gelo do mar penetrava-lhes nas chagas.
Depois de algum tempo, o quinto animal, que estava sendo o
menos afetado até ali, estendeu-se no chão, de flanco, e
recusou-se a mover-se mais; ficou inteiramente insensível
aos estímulos da parte de Ernenek.
Sentados em seus traseiros, e com a boca babando, os outros
quatro cachorros ficaram a olhar para longe, com os seus
olhos amarelos, enquanto Ernenek se pôs como que a
raciocinar com o cão deitado, e a reforçar o raciocínio com
o concurso da lança. Um pouco de sangue apareceu no
ponto em que a lança golpeou. Como que a um sinal
combinado, os companheiros da matilha se lançaram sobre o
cachorro ferido. E não houve mais o problema de pará-los
— nem Ernenek tentou detê-los. Pacientemente, o
cachorro moribundo olhou para o dia que ia escurecendo.
Quando os cães da matilha passaram a comer mais
lentamente, Ernenek cortou-lhe a língua, com o pedaço que
lhe restava da faca. Os ventres dos cães estavam estofando-
se, devido ao fato de eles arrancarem pedaços do corpo do
cão morto, e de os engolirem sem mastigação prévia; os
famintos abocanhavam a carne, com o couro, partindo os
ossos, com os dentes despontados; e continuaram assim, até
que naJa mais restou: nem uma migalha, nem sequer dos
arreios do cão morto. Então, os cães aconchegaram-se e
dormiram. Ernenek deixou-os dormir.
Por um pouco de tempo.

O Sol deu vários giros, antes de eles abandonarem o Oceano
Glacial e subirem para a terra firme. Ali, as rampas e o chão
irregular impediram que o trenó fosse puxado por um grupo
de cães tão reduzido e tão fatigado. Então, Ernenek
arrebentou o trenó contra uma rocha; poupou a carne; e
deixou que os cães comessem os rodízios.
Os travessões, rígidos, devido ao congelamento, não podiam
ser mastigados; só podiam ser sugados devagar. E Ernenek
desejou matar um dos cães; como, entretanto, os animais se
mantinham em guarda outra vez, tornou-se-lhe impossível
aproximar-se deles; e então amaldiçoou a sua própria
loucura, que consistira no fato de os livrar cedo demais dos
arreios que os prendiam.
De súbito, porém, o rosto de Ernenek como se iluminou, e
ele olhou, animado, para o seu companheiro, para o homem
branco.
— Alguém acaba de se lembrar de que, não muito longe
daqui, formou uma pilha de carne, há já alguns anos!
— Mas a carne deverá estar congelada e dura, como aquela
da foca; e não conseguiremos fazer uso dela — comentou o
homem branco, desanimado.
— Alguém sempre corta a carne, antes de a enterrar no gelo;
e coloca pedras por baixo da carne, a fim de impedir que ela,
pelo congelamento, se solde ao chão.
Ernenek foi para diante; o homem branco caminhou, com
dificuldade, atrás dele, sombrio e taciturno.
Uma torrente de invectivas anunciou que Ernenek
encontrou o lugar que estava procurando — mas que o
monte de carne tinha desaparecido. Uma família de carcajus
estivera lá antes deles; cavara o chão, forçando as pedras
pesadas a rolar pela encosta da colina abaixo, uma a uma; e
tinha feito um banquete com o achado, nada mais deixando,
ali, além de um punhado de ossos roídos e mastigados, mais
as pegadas de suas garras.

Quando Ernenek se cansou de dizer coisas nada lisonjeiras a
respeito de carcajus, e desejou retomar a marcha, percebeu a
existência de uma raposa ali pelas proximidades. Andou à
procura do seu rasto, até que o encontrou; e seguiu-o, na
esperança de que assim seria guiado à furna onde deveriam
encontrar-se os seus filhotes ainda incapazes de atos de
astúcia. Ao invés disto, ele foi guiado para um monte de
filhotes de torda mergulheira, que a raposa havia formado
nos rochedos de pássaros, para o seu próprio inverno; e
aquela carne cor de púrpura, bem deteriorada, constituiu
grande conforto para o seu estômago; a refeição encheu-o
outra vez de energias e de bom humor. O homem branco,
porém, não pôde ser persuadido a tocar naquele alimento;
ademais, suas botas cheias de pregos lhe proporcionavam
pobre agarramento nas encostas. Ele escorregava com muita
freqüência; e recusou-se a ir até lá em cima.
— Você costuma desistir com muita facilidade — comentou
Ernenek, zombando do homem branco. — Certa noite, um
homem que alguém conhece se perdeu na nevasca; comeu
seus próprios pés, que, em todo caso, já se haviam tornado
inúteis, por se haverem congelado; e comeu-os a fim de
conseguir a energia necessária para voltar ao lar. Nós ainda
nos rimos bastante, toda vez que ele conta o caso.

Ernenek carregou o homem branco aos ombros; mas logo
teve de pousá-lo outra vez no chão; o cansaço estava
começando a fazer-se sentir em seu corpo.
— Alguém irá à frente; guiará os cães até lá, com um pedaço
da carne do trenó; deste modo, os animais não o atacarão.
Sugue este travessão, enquanto isto; e não caia no sono
enquanto alguém não voltar, trazendo comida e cachorros
descansados.
E Ernenek caminhou, com dificuldade, afastando-se dali.
Ele encontrou a sua tenda de peles, no lugar em que a havia
deixado, no sopé de um outeiro enorme; e a sua matilha
doméstica lhe deu rumorosamente as boas-vindas; depois,
farejou, desconfiada, os quatro cachorros, magros, com ares
de mendigos, que o acompanhavam.
Em primeiro lugar, o pequeno Papik saiu para fora da tenda,
mais largo do que alto, metido em suas vestimentas de pele e
em suas botas brancas, pulando e gritando de alegria. A
seguir, apareceu Asiak. Ela aumentara de corpo e de espírito,
durante os poucos anos passados; mas os seus olhos
ardentes, amendoados, sorriram, agradáveis, em meio à
gordura de suas faces. Por cima do seu ombro, Ivaloo,
seguramente amarrada às costas maternas, olhava para a
frente, tomada de mudo espanto, contemplando a grande
figura humana, corpulenta e pesadona, que se dizia ser seu
pai.
— Você esteve longe daqui muitas e muitas dormidas —
disse Asiak, assim como que por acaso. — Você deve ter
apanhado grande quantidade de peixes grandes. Uma mulher
vai preparar o trenó, de modo que poderemos trazer para cá
a sua pescaria.
— Alguém não fez mais do que uma pescaria miserável —
confessou Ernenek, pela primeira vez em sua vida.

O homem branco não estava adormecido quando Ernenek e
Asiak foram buscá-lo. Nem caiu no sono, em cima da cama
de musgo e de peles que havia na tenda. Nem tampouco
depois de Asiak lhe servir tigelas de chá da tundra, além de
carne assada por cima da labareda da lâmpada. O homem
branco tinha passado sem dormir um tempo muito maior do
que aquele que considerara possível; em conseqüência,
alguma engrenagem, algum fio, dentro dele, se tornara
defeituoso; e, assim, a despeito de toda a sua fadiga — apesar
do imenso cansaço do seu corpo — o que havia era uma
flórida vivacidade em seu cérebro; o sono lhe tinha
desaparecido, de maneira completa.
Não aconteceu isso, porém, com Ernenek, cujo corpo e
memória se haviam endurecido, apressando-se a descartar as
árduas experiências passadas. Ele não perdeu tempo. Pôs-se,
de imediato, a fartar-se com toda a carne que se encontrava
à mão, estivesse ela em que estado estivesse; e à carne
acrescentou sebo para ajudar a digestão. Quando se sentiu
pesado demais, a ponto de não conseguir ficar de pé,
estendeu-se, de costas, e mandou que Asiak lhe pusesse à
boca mais algum alimento ainda. Quando se sentiu incapaz e
engolir mais, caiu no sono roncando.
Não o perturbou, de maneira alguma, o fato de Asiak,
debatendo-se com mãos e dentes, lhe descalçar as botas;
como também não lhe alterou sequer a clave do ronco, no
sono, o fato de ela lhe raspar os pés, limpando-os de crostas
geladas, com uma faca.
De sua cama de peles, o homem branco olhava para Asiak,
enquanto esta prosseguia em suas atividades. Durante o
tempo em que ela agia, a pequena Ivaloo, quase que
constantemente amarrada às suas costas, ou dormia
placidamente, ou se esforçava por alongar o seu pescoço
gordinho, a fim de olhar para o homem estranho. O
pequeno Papik ficava freqüentemente de pé, junto do
hóspede forasteiro, todo tomado pela curiosidade; tocava-lhe
no rosto barbudo, e ria o riso alto, cordial, freqüentemente
sem motivo, peculiar ao seu povo.
Depois de dormir todo um longo giro do Sol, Ernenek
despertou, disposto a reencher o próprio estômago e a
preparar-se para a caçada.
— Vocês não são como os nativos com os quais nós fazemos
negócios — disse, pensativamente, o homem branco.
— É como você diz. De uma feita, nós tentamos dormir num
posto de comércio; e quase que ficamos sufocados. Estava
tão quente, que o gelo do balde quase que se derreteu. —
Por certo — disse Asiak, recordando-se — a vida deve ser
mais agradável e divertida no sul, que é mais quente. No
verão, a gente pode remar num caiaque; encontram-se
grandes multidões de gente; e uma enorme variedade de
alimentos. As mulheres vivem vida de luxo e de folga; usam
roupas leves de peles de raposas, meias finas de foca pintal-
gada, e botas macias de couro de rena, que mal lhes chegam
aos joelhos, ao invés das nossas pesadas vestimentas feitas de
peles de ursos, e das nossas botas feitas de foca selvagem.
— E os homens, armados de arpões, flutuam no oceano, em
grandes umiaques; dão caça à baleia branca e ao narval! —
gritou Ernenek, entusiasmando-se a esse pensamento.
— E o ar está cheio de pequenos mosquitos maldosos,
enquanto que o piolho, de sabor doce, rasteja pelo corpo
todo da gente, de modo que o marido e a mulher podem
divertir-se imensamente catando-os uns aos outros, e
comendo-os.
— Entretanto, a caça ao grande urso e a arpoagem da grande
foca do norte são mais excitantes — comentou Ernenek —
apesar de, por aqui, o frio ser excessivo e não permitir o
aparecimento de piolhos. Agora, ademais, é perigoso para
nós o ato de ir para os lugares onde o homem branco
comercia.
— Você gostaria de ir para lá? — indagou o homem branco.
— Sem dúvida. Especialmente agora, que é proibido.
— Você me salvou a vida, Ernenek — disse o homem
branco — e eu desejo pôr as coisas em pratos limpos, de
modo que você não tenha mais medo nenhum dos meus
companheiros. Todavia, você precisará comparecer perante
um juiz. Eu o ajudarei a explicar as coisas.
— Você é muito atencioso — disse Ernenek, feliz.
— Você me disse que o sujeito que matou o provocou, não é
verdade?
— Foi exatamente assim.
— Ele insultou Asiak?
— Terrivelmente.
— Presumivelmente, ele foi morto quando você procurou
defender sua esposa contra os atrevimentos dele?...
Ernenek e Asiak olharam-se reciprocamente; e romperam
em gargalhadas.
— Não foi assim, de jeito nenhum — declarou Asiak, por
fim.
— Aqui está como a coisa aconteceu — disse Ernenek. —
Ele continuou a desprezar todos os nossos oferecimentos,
embora fosse nosso hóspede. Rejeitou até a carne mais velha
que nós tínhamos em nossa despensa.
— Você percebe, Ernenek: muitos de nós, homens brancos,
não gostamos de carne velha.
— Mas os vermes eram frescos! — exclamou Asiak.
— Acontece, Asiak, que nós, os homens brancos, estamos
acostumados a comidas de espécie inteiramente diversa.
— Foi o que percebemos — prosseguiu Ernenek — e esta é a
razão pela qual, na esperança de lhe oferecer finalmente
uma coisa que ele pudesse aceitar e saborear, alguém lhe
propôs que risse em companhia de Asiak.
— Deixe que uma mulher explique — interrompeu Asiak. —
Uma mulher lavou seus cabelos, para torná-los macios;
esfregou sebo neles; untou o próprio rosto com gordura de
baleia; e raspou-se com a faca, para ser delicada.
— É isso mesmo — gritou Ernenek, erguendo-se — ela se
enfeitou toda, para esse fim! E que foi que fez o homem
branco? Deu-lhe as costas! Isto foi demais! Poderia um
marido permitir que sua mulher fosse insultada dessa
maneira? Em conseqüência, alguém agarrou o canalha pelos
ombros; uns ombros pequenos e miseráveis; e sacudiu-o
várias vezes contra a parede do iglu... não para matá-lo; o
que alguém queria era apenas quebrar-lhe um pouco a
cabeça. Foi uma infelicidade o fato da cabeça quebrar-se um
pouco demais.
— Ernenek já havia feito o mesmo a outros homens —
acrescentou Asiak, com a idéia de ajudar e ser útil à
explicação — mas foi sempre a parede que se quebrou
primeiro.
O homem branco recuou:
_ Os nossos juízes não demonstrariam compreensão alguma
para com semelhante explicação. Oferecer a própria esposa a
outros homens!
— E por que não? Os homens gostam disso; e Asiak diz que
isso é bom para ela. Faz com que os olhos dela brilhem, e
com que suas faces ruborizem.
— Vocês, brancos, não pedem em empréstimo as esposas de
outros homens? — inquiriu Asiak.
— Não pensemos nisso! É coisa que não está bem; e isto é
tudo.
— Recusar não é coisa que um homem deva fazer! — disse
Ernenek, indignado. — Qualquer homem preferiria
emprestar sua esposa a emprestar qualquer outra coisa.
Empreste-se o trenó, e recebe-se o trenó de volta quebrado;
a gente empresta uma serra, e, na volta, alguns de seus
dentes estarão faltando; quando se emprestam cachorros,
eles são devolvidos quase que a rastejar, de tão cansados.
Entretanto, por mais que a gente empresta a esposa, ela se
conserva sempre como nova.
O verão já se havia passado. O Sol tinha ampliado o seu
curso, escondendo-se por baixo do horizonte, e dando uma
ameaça de anoitecer; a ameaça foi durando um pouquinho
mais de tempo a cada novo giro, até ele desaparecer; a longa
noite se fez, trazendo consigo imensa fadiga para todos os
seres vivos; uma fadiga tão grande, que até os seres
perpetuamente famintos, como Ernenek, perderam o
interesse para com a comida.
Nestas condições, a pequena família dobrou sua tenda,
empilhou o seu hóspede as suas trouxas no trenó, e foi
construir o seu iglu de inverno em cima da água congelada.
Quando Ernenek e Asiak adormeceram, embalados pelo
barulho do oceano, a lâmpada deixada ao léu se apagou; e ali,
na grande escuridão, o grande sono colheu, afinal, o homem
branco. O sono foi ter com ele gradativamente, em ondas
cada vez mais espessas, como neblina — como a noite. Por
vezes, no lusco-fusco da consciência, ele percebia que Asiak
estava acendendo fogo e comunicando a labareda à lâmpada;
que ela estava costurando ou raspando; que estava
removendo o bloco de gelo que tapava a entrada; que ia dar
de comer aos cachorros da matilha, cachorros estes que iam
engordando no túnel. Por vezes, via também Ernenek a
ocupar-se indolentemente com seus petrechos de caça.
Quando lhe era oferecido algum peixe, ou algum pedaço de
gordura de baleia, ele, o homem branco, engolia-o
obedientemente, porque verificara que aquilo lhe
proporcionava mais quentura do que um fogareiro cheio de
carvões; e até quando foi presenteado com uma tigela feita
de pedra, a transbordar de sangue negro de foca, laivado de
óleo, engoliu tudo, cortesmente.
Ao fim do inverno, quando o dia rompeu e Ernenek
começou a umedecer suas lâmpadas, Asiak passou a
engatinhar de novo para fora, para o descampado, a fim de
contemplar a luz do Sol erguer-se, bem devagar, até ao teto
do mundo. A essa altura, o homem branco se sentia em boas
condições para viajar.
— Nós o levaremos de volta — disse Ernenek. — Isso será
coisa tão fácil como o ato de alguém tornar-se pai.
E eles partiram, no dilúculo da madrugada.
Já era tarde bem adiantada quando o homem branco avistou
a cabina de madeira que constituía o seu ponto de destino; e
pediu a Ernenek que se detivesse um pouco longe dela.
— Não quero ser visto aqui por ninguém, Ernenek — disse
ele, apeando do trenó.
— Por que não?
— Porque eles estão à sua procura, Ernenek. Porque sempre
poderá haver ali algum mercador que o conheça, e que lhes
revele o seu nome.
— Já agora, eles devem ter esquecido tudo a respeito de
alguém.
— Os homens brancos não se esquecem; e há mais homens
brancos do que caribus.
— Talvez que aqueles que conheceram este alguém já
tenham morrido. Os homens brancos morrem facilmente.
— Eles escrevem o seu nome em grandes livros. Os homens
morrem, mas os livros ficam.
— Entretanto — disse Ernenek, paciente — nós, depois de
viajar toda esta enorme distância, queremos ver outra vez.
Tempo houve em que resolvemos não ter mais nada que ver
com os homens brancos; agora, porém, desde que
conhecemos você, mudamos de idéia.
O rosto do homem branco assumiu expressão de sofrimento:
— Você tem de ir de volta à sua região, Ernenek; e eu direi
a eles, que vi você morto. Esta é a única maneira pela qual
eles poderão, não perdoar, mas esquecer-se de você.
Ernenek meneou a cabeça, sorrindo:
— Eles compreenderão, quando ouvirem a explicação de um
homem, exatamente como você compreendeu.
— Ainda que alguns deles o compreendessem, não poderia
evitar de puni-lo, Ernenek, porque as leis deles são mais
fortes do que eles mesmos. As leis deles se fizeram maiores
do que aqueles que as redigiram. Está compreendendo?
— Não.
— Então, vou explicar-lhe de outra maneira.
O homem branco respirou fundo; e disse:
— Olhe: não quero que você siga comigo, porque estou
cansado de sua companhia, e também das risadas de Asiak.
Meterei uma bala através do seu vasto estômago, no
momento em que chegarmos ao posto; e daremos Asiak,
juntamente com os pequenos pirralhos, que são por certo
filhos de Ernenek, aos ursos, porque eu odeio até esse ponto
os ursos.
E enquanto o maxilar inferior de Ernenek começou a cair,
de surpresa, o homem branco vibrou-lhe um pontapé no
baixo-ventre, e atirou o seu próprio punho fechado, nu,
contra o rosto pesaroso do esquimó. Depois, o homem
branco voltou-se, e tomou o rumo que ia dar à cabina de
madeira; foi caminhando à maneira dos pombos, porque, a
esse tempo, já estava fazendo uso das altas botas esquimós
que Asiak lhe havia confeccionado durante o inverno.
Ernenek ficou-se a olhar para o homem branco que se
retirava, completamente estupefato, coçando-se no ponto
em que havia sido machucado mais. Depois de tudo quanto
fizera por ele! Depois de lhe permitir ficar com a melhor
parte de sua caça, e de boa parte de sua esposa!
Ernenek voltou-se para Asiak, que também se sentia
extremamente atarantada e não conseguia proferir palavra. E
os dois ficaram, mudos, como que a indagar, mentalmente,
mais uma vez, como eram estranhos os homens brancos.
Depois, Ernenek retomou o seu lugar, no trenó; virou os
cachorros para a posição contrária; e tomou o rumo do
horizonte.

SEGUNDA PARTE

CAPÍTULO VII
A LONGA JORNADA

Logo depois que o casal de esquimos se separou do homem
branco, Asiak se viu, mais uma vez, portadora de bebê.
Visto que o casal já estava com suas mãos mais do que
tomadas com dois filhos para criar, Ernenek e Asiak ficaram
na dúvida sobre se seria aconselhável permitir que o novo
rebento vivesse. Assim, resolveram conservá-lo, se viesse a
ser menino; se, porém, acabasse sendo menina, deveria ser
devolvida ao gelo.
Asiak deu à luz uma menina.
Quando, porém, os pais viram que a pequerrucha tinha
cabelos de cor semelhante à do Sol, e olhos da cor do céu de
meados de verão, mais uma pele que se afigurava feita de
neve nova, os dois se apaixonaram por ela. Não havia
dúvida: fora o hóspede de inverno, o homem branco, que
lhe dera origem; e Ernenek sentiu-se imensamente
orgulhoso pelo fato de sua mulher lhe dar de presente a
criança de um homem branco.
Deram-lhe o nome de Hidjoodjook.
Embora todos os esquimós mimassem os seus filhos,
habituándoos mal em medida extrema — e embora os
castigos e as surras fossem praticamente coisas
desconhecidas no seio do seu povo — ainda assim é
duvidoso que mesmo uma criança esquimó tenha jamais
sido alvo de tamanha quantidade de carinhos como o foi o
pequeno embrulho do céu, de luz do Sol e de neve.
Todavia, num dia feio, tempestuoso, Hidjoodjook, sendo
ainda muito pequena e não podendo saber o que estava
fazendo, caminhou, a passos curtos e vacilantes, afastando-
se do seu iglú e avançando pela intempérie afora. Asiak, que
andava cochilando muito porque se estava no inverno, e
também porque se encontrava novamente grávida, não
percebeu a ausência da garotinha, a não ser depois que a
tempestade lhe havia apagado as pegadas. Ernenek estava
fora, pescando. Em conseqüência, Asiak saiu, sozinha e a
seu arbítrio, à procura da pequena; ela caminhou,
tropeçando e gritando na nevasca; e a nevasca era tão
violenta, que até o seu cão doméstico deixou de conseguir
alcançá-la, por não lhe perceber o faro.
O mesmo cachorro conduziu Ernenek até onde se
encontrava Asiak, muitas horas depois.
Ele a encontrou, perdendo sangue sob a nevasca. Asiak
tinha abortado, e estava delirando. Da pequena Hidjoodjook,
nem vestígio se pôde encontrar; como se Sila, o homem
mau do céu, a houvesse erguido da face da Terra. Desta
forma, ela nem sequer pôde ser enterrada, como o eram as
outras crianças, juntamente com a cabeça de um cachorro; e
assim não houve ninguém para lhe escoltar a pequena alma à
terra distante, rumo à qual todos os esquimós estão viajando.
Asiak nunca se restabeleceu completamente. Tornava-se
grávida todos os anos, e, de cada vez, abortava. Isto lhe
tolhia as forças, a juventude e a capacidade de rir. Suas mãos
nodosas começaram a doer nas juntas; e ela deixou de ser
capaz de preparar aquelas agulhas finas, feitas de osso, que
tinham sido o seu orgulho. Seus dentes, desgastados até às
gengivas, devido ao ato de mascar peles de animais, estavam,
com efeito, adequados ao preparo de finas peles de tordas
mergulheiras — porque os dentes jovens, agudos, poderiam
danificá-las; mas já não conseguiam mais amaciar peles de
ursos, nem de focas.
Ela, devagar, ia tornando-se mulher inútil, fardo
embaraçante; e tinha consciência disso.
Começou a ansiar pelos calores do sul, bem como pelo
conforto corporal que deles poderia decorrer. Visto, porém,
que os homens brancos andavam em perseguição de
Ernenek, ela acabou prevalecendo contra a vontade dele: e
resolveram os dois confinar a própria existência ao norte
silencioso; resolveram colocar-se à maior distância possível
dos lugares em que corriam o risco de encontrar homens
brancos, ou indivíduos esquimós que negociassem ou
tivessem contatos com homens brancos.
Desta maneira, o luxo do uso da madeira atirada à praia pelas
ondas foi inteiramente suplantado pelo uso do osso, do
chifre e do marfim da morsa; os arcos passaram a ser feitos
de galhadas de alces, ao invés de o serem de costelas de
baleias; os óculos de proteger os olhos contra os efeitos da
neve passaram a ser feitos de presa de morsa, ao invés de o
serem de madeira. Emenek e Asiak passaram a encontrar-se
apenas com esquimós polares, como eles mesmos; e aqueles
com quem se encontravam eram poucos, porque a sua
quantidade era pequena — tão pequena quão grande era o
território que habitavam; lá de vez em quando, muito de
raro em raro, travavam contato com uma família nômade de
Netchiliks.
Ainda assim, os poucos contatos eram suficientes para que
Ernenek e Asiak ficassem sabendo que o mundo estava
modificando-se.
O número dos postos de comércio dos homens brancos
estava aumentando. Como cogumelos, tais postos apareciam
aqui, acolá, por toda parte. A cada reunião dos dois esquimós
com outros indivíduos de sua raça, a conversa rumava
inevitavelmente para o homem branco, para as maneiras de
agir do homem branco, e para as mercadorias com que o
homem branco negociava. O homem branco ia expandindo-
se pela terra branca, projetando para a frente a sua fama,
carregando consigo as suas armas de fogo, a sua aguardente,
as suas comidas, os seus linguajares, as suas mercadorias e os
seus deuses, os seus hábitos caseiros e os seus costumes
morais. O homem branco dava presentes não pedidos;
tomava coisas sem as pedir; implantava leis e infringia leis; e
deixava, na sua esteira, um torvelinho amalucado — por
vezes feito de alegria e de riquezas; mas, por vezes, também,
feito de desolação, de aprisionamentos e de mortes.
O braço das regulamentações do homem branco era muito
comprido; estendia-se longamente; e era inteligente o
esquimó que aprendesse depressa a obedecer-lhe as normas.
Os homens brancos tinham enforcado um nativo somente
porque este matara um canalha que lhe havia roubado a
esposa — coisa que muitos homens teriam feito no seu caso,
porque uma esposa pode ser negociada, alugada ou
emprestada, mas nunca roubada. E era sabido que, em
algumas daquelas regiões, nas quais, os homens brancos
tinham acabado de se instalar, nenhum nativo tinha
permissão para matar mais de três focas por ano, apesar de a
sua existência estar baseada na gordura e no óleo de foca,
bem como na carne de foca e na pele de foca. Em
contraposição, os homens brancos caçadores dizimavam
inteiras nações de focas, apenas pela posse das respectivas
peles bem como do óleo que havia nos seus fígados; tanto
era assim que os homens brancos caçadores abandonavam a
carne às gaivotas; e nunca se preocupavam, naturalmente,
com a necessidade de devolver os esqueletos das focas ao
mar. (Não admirava, pois, que as focas fossem tornando-se
cada vez mais raras.)
Não. Não havia pé nem cabeça naquilo que os homens
brancos faziam.
Além das suas leis e das suas mercadorias, o homem branco
também tinha introduzido as suas múltiplas enfermidades.
As infecções venéreas, a influenza, a tuberculose, e, acima
de tudo, o sarampo, passaram a efetuar devastações entre os
organismos não afeitos a germes; os homens que estavam
acostumados a levar à melhor na caça ao urso polar, e a
suportar viagens extremamente lonas, enfrentando nevascas
de cegar, passaram a sucumbir facilmente ação do inimigo
invisível, que lhes penetrara no sangue. Em algumas
povoações, onde a existência de uma quantidade maior de
homens brancos explicava a expansão mais ampla das
doenças, já se sabia que várias epidemias tinham destruído
oito esquimós, de cada grupo de dez, em poucas semanas.
Contudo, embora nem tudo o que se referisse ao homem
branco fosse bom, nem bem compreendido, tudo o que com
ele se referia fascinava os esquimós — com a atração dos
abismos. E mesmo quando os esquimós se encontravam
longe do homem branco, no tempo ou na distância, não
conseguiam expulsá-lo de seus pensamentos. Por vezes,
aqueles que não se haviam rendido de todo às seduções das
novas modas e das novas maneiras se sentiam ainda mais
perturbados, em seu espírito, do que aqueles que a elas
haviam cedido de imediato. Até os Angmagssaliks, até os
Netilingmiuts, até os Itas, até os Atkas, até os Unalaskas, até
os Palugvirmiuts, até os Nookalits, até os Wootelits, até os
Igloolingmiuts, até os esquimós-cobre, até os esquimós-
caribu, até os Netchiliks tinham sucumbido ao fascínio do
homem branco; e conservavam-se humildes, indefesos, sob
o seu fascínio. Eles já não podiam mais fazer coisa alguma
sem as facas, sem as, espingardas, sem os fogões Primus, sem
a aguardente, sem os doces, sem as fitas, sem os espelhos,
sem as miçangas — tudo coisa que requeria substituição ou
reabastecimento constante, e que tinha de ser paga com
peles, com óleo de peixes e com trabalho.
Somente o grupo esparso dos esquimós polares prosseguiu
vivendo à maneira dos seus ancestrais; eram ainda
excessivamente destituídos de manhas, de modo que não
sabiam mentir; e eram também excessivamente francos, de
modo que não serviam muito para grande coisa. Ainda
assim, o câncer branco já havia começado a pestear também
o coração deles; Asiak percebia, com freqüência, que o
silêncio dos que lhe eram queridos se tornava como que cla-
moroso devido aos seus anseios e às suas noites estéreis,
todas elas povoadas de maravilhas que lhes eram proibidas.
Quando, já com a idade de sete anos, Papik abateu a sua
primeira foca — apenas um filhote, que ainda não tinha
aprendido a nadar — Ernenek fê-lo deitar-se, bem
estendido, no chão, de borco; depois, arrastou a foca abatida
por cima de suas costas, a fim de que o animal não ficasse
com medo dele, nem fosse avisar as outras focas, para que
estas se precavessem contra o menino. Foram, porém,
necessários vários anos mais para que Papik se fizesse
caçador na correta acepção do termo, capaz de caçar
provisões para uma família.
E a família logo passaria a precisar dele.
Ernenek sofreu um acidente do qual nunca se restabeleceu
de todo. Escorregara, durante uma caça ao urso, e rolara por
uma encosta abaixo, quebrando boa quantidade de gelo e
também fraturando as próprias costas. Estivera quase que
imóvel, e, em todo caso, inativo e impotente, durante
muitas luas; quando, por fim, se sentiu capaz de levantar-se,
já não podia curvar-se, nem agachar-se, nem sentar-se. Sua
espinha estava mais rígida do que o gelo. Ernenek precisava,
ou deitar-se completamente, ou ficar de pé, empenado; e era
sempre cômico vê-lo virar-se no beliche, para se acomodar,
ou agarrar-se ao longo da parede, quando queria pôr-se de
pé. Tudo isso 8ie proporcionava, e também à sua família, um
mundo de motivos para risadas. Ernenek podia caminhar e
correr; mas não por longo tempo; o ato de erguer pesos lhe
dava dores nas costas e nas viruñas; e estas o remetiam
diretamente para o beliche, a gemer.
De vez em quando, as dores eram de tal ordem que ele mal
conseguia dissipá-las por meio de risos.
Na casa dos quarenta, já era um homem velho; era, com
efeito, o comedor, e não mais o caçador que tinha sido; e
ostentava as marcas deixadas pela sua longa jornada através
do tempo. Profundas eram as rugas em seu rosto; encovadas
e coriáceas as faces; abundante a neve no bigode, que
pendia, em fios ralos, até ao queixo todo pregueado. E havia
expressão de maravilha em seus olhos, quando ele tomava
Papik e o segurava — a flecha que ele havia disparado,
fazendo uso do arco de Asiak — porquanto o rapazola estava
sendo exatamente como ele, Ernenek, fora, em sua
juventude.
De conformidade com os cômputos de sua mãe, Papik tinha
dezesseis ou dezessete anos, quando começou a assemelhar-
se grandemente ao pai, fazendo-se corpulento e musculoso,
na medida em que ia crescendo. Ademais, ia fazendo-se
jactancioso como o pai, embora não tanto; bastante atrevido,
mas não na mesma medida; sem-cerimônia e parlapatão, mas
não em escala igual.
E não o poderia ser nunca, sendo, como era, filho também
de Asiak.
Ivaloo era mais baixinha do que seu irmão; não estava ainda
completamente crescida, mas já se apresentava atarracada,
com peito amplo. Seus lábios eram, como os de Asiak,
grandes e cheios, sem serem túrgidos; mas a inclinação dos
seus olhos vivazes era de Ernenek. A menina era curiosa,
mas sem presença de espírito; ansiosa, mas ignorante; e não
tocada pela civilização, pela educação, pela arregimentação,
pelas comunicações, pelos transportes. Era como solo não
arado; como flor não colhida. A cera virgem do seu espírito
era susceptível à influência das pessoas, pois ela se havia
encontrado com muito poucas pessoas, e as suas decisões
eram tão mutáveis como o vento. Contudo, a gargalhada
sempre levava a palma a tudo.
Até que ela se encontrou com um moço chamado Milak.
Foi durante uma caçada de verão, na Hinterlândia, que ela
travara conhecimento com ele. Os dois trocaram apenas
umas poucas palavras; e nenhuma de tais palavras tinha sido
amistosa.
— Alguém não precisa de um homem — disse Ivaloo.
— Se você não precisa de homem, você não é mulher —
disse Milak.
— Então, o que é que alguém é?
— Uma criança, com cérebro de pássaro marinho e coração
de carcaju. Somente uma criança tem a esperança de viver
sem homem.
— Uma criança gosta da sua presunção, porque a conserva
aquecida, devido à diversão que lhe proporciona — explicou
Ivaloo; e a risada dela irrompeu franca.
Como são grosseiros estes esquimós do norte — refletiu
Milak, que era do sul. A diferença estava em que Asiak
ostentava traços de delicadeza: ela devia ser de descendência
de gente do sul. Mas Ivaloo e Papik eram rústicos como o
pai. Quase. Ninguém poderia ser tão primitivo e rústico
como Ernenek. Mais ou menos uma dormida antes, Milak
dissera a Ernenek, depois de uma caçada:
— A minha é uma caçada miserável, se comparada com a
sua. Ao que Ernenek tivera a desfaçatez de comentar:
— Com efeito!
E isto porque a demonstração de modéstia, por pequena que
tenha sido, e que ele havia adquirido laboriosamente, no
passado, se perdera de todo nos anos em que estivera longe
de contatos humanos.
Seria, pois, de causar surpresa o fato de a filha de semelhante
pai, em vez de se chamar a si mesma "a mulher mais sem
valor que jamais pôs os olhos em tão poderoso caçador",
agora se pôs a rir em presença de Milak. Esta, porém, foi a
forma pela qual as coisas se passaram. Milak poderia aceitá-
las ou rejeitá-las.
E ele as aceitou.
— Você percebe — procurou ele raciocinar, enquanto as
suas faces, jovens e pálidas, se esforçavam no sentido de se
controlar — seu pai já não é um caçador tão grande,
principalmente depois que quebrou a espinha; quanto ao seu
irmão, ele não tardará a encontrar uma esposa, que será
propriamente dele, e para a qual terá de proporcionar
alimento e conforto.
— Uma moça é capaz de caçar e pescar tão bem como
qualquer homem — disse Ivaloo.
— Mas quem é que tratará da costura? Você não poderá fazer
tudo. E, na qualidade de mulher, você não terá permissão
para matar focas; por outro lado, também não poderá correr
atrás de ursos, nem se curvar por cima de buracos de peixes,
quando estiver inchada por trazer criança em seu ventre,
nem carregar uma criança às costas. Assim que você tenha
uma criança ou duas, terá de ir em busca de um marido.
— Por quê?
— Porque seu irmão não poderá proporcionar provisões para
tanta gentel
— Talvez você não possa, mas Papik pode! Nós somos do
norte; e a única coisa em que vocês, forasteiros, nos
superam, é na fanfarronice!
Milak ruborizou por baixo da sua camada protetora de sebo e
óleo de baleia. Levantou-se, andou de um lado para outro,
batendo os pés, e cuspiu; enquanto isto, ela o contemplava
com interesse. Ele a intrigava. Milak procedia da terra das
sombras curtas; do sul, quente, alegre, fascinante, de onde
procedem o Sol, o boi almiscarado e o alce.
— Nestas condições, um homem vai voltar sozinho — disse
ele, finalmente, fazendo-se casmurro; e retirou-se, em boa
ordem, na direção do Sol.
Ivaloo sonhava com homens corpulentos e forçudos, de
compleição poderosa, blasonadores e alegres, como seu pai;
e Milak nem sequer se aproximava disto. Milak era caçador
bem sucedido, por ser rápido e perito, mas não era
suficientemente musculoso para satisfazer ou corresponder a
imaginação da moça; tinha aspecto quase que frágil, se
comparado com o dos esquimós em geral, e particularmente
com os esquimós polares. Ria muito raramente, e seu rosto
nervoso, de expressão mutável, traía-lhe a constante batalha
de pensamentos.
Sim. Quanto mais ela se demorava a matutar sobre o caso,
depois de Milak partir, tanto mais ela se desgostava dele. E
este desgosto ficava constantemente em seu espírito;
permanecia-lhe tanto nos sonhos como nas meditações das
horas solitárias de acordada. Até que, certo dia, ela disse à
mãe:
— Parece que lá no sul existem xamãs capazes de exercer
influência sobre o tempo e a estação de caça; e também de
curar gente. Pode-se até ver por lá algum desses homens
brancos, que possuem poderes misteriosos; é possível que
eles possam reparar as costas do pai.
— O pai está muito melhor com as costas rígidas do que com
elas saudáveis, entre os homens brancos.
— Nesse caso, nós não iremos para os lugares onde os
homens brancos ocorrem; iremos apenas até à distância
necessária para encontrar um bom curandeiro.
Asiak ficou contemplando-a, preocupada e carinhosa:
— Talvez você tenha razão — disse ela, com um suspiro —
alguém está cansada de ter marido que se deita de costas,
quando volta da caçada, e que geme, devido às suas dores,
como se fosse mulher na hora do parto. Milak disse que, em
sua aldeia, existe um xamã poderoso. Tratemos de procurá-
lo, e de verificar se ele pode expulsar os maus espíritos das
costas de seu pai.
Ivaloo correu para abraçar a mãe e farejá-la; correu com as
mangas a esvoaçar; Ernenek e Papik juntaram-se a ela
naquela alegria, e começaram imediatamente a preparar os
fardos para a viagem.
Todavia, o rosto de Asiak permaneceu sombrio e atribulado.
Enquanto eles viajavam rumo ao sul, no dilúculo da
madrugada, foi Papik quem se sentou alto, na frente,
brandindo o longo chicote contra o vento; Ernenek
permaneceu na parte traseira, de pé, rígido, em cima do
travessão.
A Terra estava ainda dormindo; a vegetação anã ainda não
havia atravessado a crosta invernal, de baixo para cima; e
nada, de toda a vida animal que respirava por baixo da
camada de gelo, se apresentava por cima, nem sequer na
simples forma de um pelo; ou, se se manifestava,
conservava-se da mesma cor do gelo, de modo que não
poderia ser assinalada na penumbra da manhã; com exceção
dos ursos, que eram demasiadamente orgulhosos e, por isto,
não se escondiam.
Neste mundo expectante, por baixo das estrelas que
empalidecem, o pisotear lépido, metálico, da matilha do
trenó, pontilhando o silêncio, era suplantado, de quando em
quando, pelo barulho surdo do vendaval que perpassava
pelas grandes planícies; o sopro do vendaval fazia com que
os cães da matilha cambaleassem; e encurvava os viajores,
com a sua violência; não encurvava, naturalmente, Ernenek,
cujo corpo não podia dobrar-se ainda que fosse uns poucos
centímetros.
Quando as intempéries os forçaram a lançar âncora e a erigir
um abrigo, foram Papik e Ivaloo que levaram a cabo todo o
trabalho; Ernenek realizou todas as observações críticas.
— Não se incomodem — dizia Asiak aos filhos. — Ernenek
sempre soube fazer todas as coisas melhor do que todos os
outros.
A esta observação, os filhos riam de face para a nevasca;
enquanto riam, iam pondo os blocos de gelo nos devidos
lugares, e enchendo as juntas com neve, enquanto Ernenek
se conservava andando de um lado para outro, batendo os
pés no chão, resfolegando e escarnecendo.
Todos gargalhavam, com episódios dessa ordem — exceto
Ernenek, cujo enorme sentido do humor tinha um modo
especial de dissipar-se misteriosamente, toda vez que era ele
o objeto de qualquer brincadeira alheia.
— Asiak costumava falar de modo muito diverso quando eu
voltava das caçadas — disse ele, ressentido. — Como os
tempos mudaram! ...
— Não foram os tempos que mudaram. Foi você quem
mudou.
Isto foi motivo para mais gargalhadas; até que a sonolência e
a digestão apareceram, para lhes absorver a alegria.
Havia momentos, porém, em que todos se mostravam
inquietos, como que pressentindo algo — como se
soubessem que a jornada produziria uma determinada
mudança, não "somente no cenário natural, mas também em
suas vidas. É houve também momentos em que os dois
filhos, insones, faziam perguntas à mãe; as eternas per-
guntas; e nada havia que ela não pudesse responder.
— De onde é que toda esta neve nos vem?
— A neve, meus pequenos, é o sangue dos mortos.
— E o trovão? Alguém fica sempre a indagar, de si para si,
em torno do que é a causa do trovão.
— São os espíritos, que esfregam seus corpos revestidos de
couro; os espíritos costumam esfregar-se uns aos outros,
quando discutem. Em geral, são espíritos femininos.
— E o relâmpago?
— Ocorre quando os espíritos que discutem batem na
lâmpada e a apagam. Essa é a razão pela qual o relâmpago e o
trovão aparecem juntos.
— E as estrelas cadentes?
— Dejeções de estrelas é o que elas são. Que mais poderiam
ser, as pobrezinhas?
— Naturalmente. Mas, por qualquer circunstância, isso
nunca me ocorreu. E quem foi que fez as primeiras pessoas?
— O Corvo Preto.
— E quem foi que fez o Corvo Preto?
— A crosta de gelo partiu-se e abriu-se; e, nascendo do
barulho assim produzido, o corvo começou a existir. Ficou
sendo preto porque o fato aconteceu de noite. Logo se
sentiu abandonado, por se ver sentado, sozinho, no mundo;
por isto, ele fez pessoas pequenas, servindo-se de bolas de
terra. Depois, os homens, fazendo-se poderosos, ficaram
entediados, porque não tinham ninguém em quem bater; e,
por isto, fizeram as mulheres, servindo-se de pequenas bolas
de neve.
— E onde é que está agora o Corvo Preto?
— Está morto. Os pequenos homens cresceram e mataram-
no.
— Por quê?
— Para comê-lo... antes de ter tempo de verificar que
somente ele, o corvo, poderia impedir que eles, os homens,
morressem.
— Isto me lembra algo que há muito tempo venho querendo
perguntar: para onde é que vão as almas, quando as pessoas
morrem?
— As almas têm três paraísos para onde ir: um, no ar; outro,
na Terra; o terceiro, por baixo da água.
— Que jeito tem uma alma?
— Tem o jeito e a forma da pessoa que é sua dona; apenas
muito menor, quanto ao tamanho.
— Menor, mas em que medida?
— Do tamanho de um mergulhão pequeno.
— E que jeito têm os nomes das pessoas?
— O mesmo jeito das almas, com a diferença de serem ainda
menores.
— Já viu almas e nomes?
— Ainda não. Mas minha mãe os viu.
— Terá ela visto, mesmo?
— Por qual motivo deveria ela dizer que viu, se não tivesse
visto?
— E para onde é que vão os nomes, depois que as pessoas
morrem?
— Os nomes flutuam tristemente no ar, até que encontram
novos corpos nos quais possam entrar. Esta é a razão pela
qual a gente deve dar, aos recém-nascidos, sejam eles bebês
ou cachorrinhos, os nomes dos mortos.
— Mas de onde é que vêm todos esses novos bebês e todos
esses novos cachorrinhos?
— Em regra, vêm do Espírito da Lua, que se parece com um
homem e tem o poder de fazer todas as mulheres, estéreis
ou fecundas. É ele também que vê todas as quebras de tabus,
e que pune os infratores por isso.
— Será esse espírito tão perverso como dizem?
— Ele é até muito pior; é extremamente caprichoso. Só há
um ser pior do que ele. É Sila, o homem que está no céu, e
que faz com que o Sol vá para baixo; por vezes, ele carrega
também um ser humano.
— Por que é que os espíritos são tão maus?
— E porque são como as pessoas: alguns, bons; alguns, maus.
Sedna, por exemplo, é a mulher com cauda de foca; ela é
muito bondosa; é ela que nos manda todos os peixes bons. E
há igualmente o Espírito do Ar, que não é nem bom, nem
mau; é ele que efetua as mudanças do tempo. Há alguma
coisa mais que vocês, meus pequenos, querem saber?
— Há alguma coisa mais pára saber?
Asiak refletiu durante um momento, antes de responder:
— Vocês têm razão. Que mais pode lá haver para saber?
Enquanto eles viajavam na direção do Sol, este espiralou
para cima, a fim de encontrá-los a meio caminho. Os
viajores contemplaram o horizonte cor de fígado, na hora
em que ele ia tornando-se cor de sangue, cor de púrpura,
carmesim, vermelho, vermelho listrado de ouro, vermelho
listrado de amarelo, e vermelho da cor do dia. A seguir, o
triunfo do Sol a escorrer de sangue, a avermelhar o gelo, a
derramar-se, manchando os campos marinhos, as colinas e
as ilhas, com o seu líquido vital, até que ele, o próprio Sol,
ficou branco de tanto sangrar; e então ficou, pálido e
anêmico, pairando sobre uma Terra monótona.
A neblina ergueu-se. A neve caiu. Fez meio-dia — verão.
Durante todo o dia, eles viajaram por cima do mar sólido,
atravessando grandes planícies por baixo das quais a água
turbilhonava, deslizando por entre ilhas cónicas e altos
icebergs, projetando-se do oceano, acompanhando faixas de
terra denteadas por geleiras, bem como por montanhas de
muitas brechas, que se erguiam, alcantiladas, por cima do
mar. Eles viram os primeiros mosquitos pequenos; o número
dos pássaros ia aumentando acentuadamente, na medida em
que eles se aproximavam das áreas mais amplas de
acasalamento e de criação de aves; as sombras iam tornando-
se mais curtas, a cada novo giro do Sol; e os ventos
transportavam a fragrância distante do mar aberto, o cheiro
da bruma, das ervas e das flores.
O fulgor do Sol estava violento e ferino; o gelo tremeluzia
por baixo dos rodízios; e a gente podia ouvir o roncar e o
turbilhonar nas águas que se agitavam por baixo, bem perto
dos pés. Os viajores foram encontrando cada vez mais
calhaus, no mar, que os forçavam a desviar-se do rumo
escolhido; e quando viram o trecho inóspito de gelo
amontoado, que lhe ficava à frente, tiveram de abandonar o
oceano e continuar a jornada por terra firme.
Ali, o avanço era tortuoso e árduo; o caminho passava
através de vales hiantes e por baixo de alturas assustadoras. O
trenó sacolejava e pulava por cima do chão irregular; e os
seus ocupantes se viam obrigados a segurar-se nos estais e
nas correias. Os pedaços de gelo, projetados pela velocidade
da marcha, embaraçavam sempre os arreios. Quando eles
desceram por uma geleira abaixo, a âncora teve de ser
atirada; além disto, os cachorros tiveram de ser amarrados
atrás do trenó, com o propósito de servirem de freio. Nas
subidas, toda gente tinha de descer e empurrar o veículo
para cima.
— O xamã não terá mais apenas uma, e sim duas costas para
consertar — dizia Asiak, depois de cada esforço dessa
ordem; e os seus filhos se dobravam de rir.
Os viajores contemplaram o Sol, que não conseguia nunca
elevar-se ao nível do horizonte, no centro do céu; parecia
estar cansado de suas andanças, e que começava a oscilar.
Fazia-se maior e mais ricamente colorido, na medida em que
se aproximava do horizonte, adquirindo cor opulentamente
dourada; depois, essa cor se transformava em açafrão, em
cor-de-rosa, em vermelho, em púrpura, em cor de malva, e,
finalmente, o Sol inteiro mergulhava por trás e para baixo da
linha do céu, deixando um rasto de sangue. O dia
desaparecia.
O outono estava em andamento. A luz esmoreceu, enquanto
as cores se dissipavam; e a Terra estremeceu, em presença da
ameaça da noite.
E, na quietude do mundo que se encontrava à espera da
escuridão, na luminosidade sem luz do anoitecer, os viajores
chegaram apenas a tempo de contemplar o espetáculo do
oceano liquefeito, pontilhado de icebergs e de blocos
flutuantes, que iam deslizando ao léu, lentamente; tanto os
icebergs como os blocos constituíam novidade — e
novidade quase que inacreditável — para Papik e Ivaloo.
— Isso se parece com o céu — gritou Papik.
— Parece mesmo — disse Ivaloo, contendo a respiração. —
Parece-se com o céu, com água dentro.

CAPÍTULO VIII
FIM DE UM HOMEM

A aldeia, plantada numa enseada e como que encolhida
numa ponta de terra, era limitada por grandes aclives
nevados, bem como por grandes geleiras; aclives e geleiras
iam, depois, descendo para dentro do mar, do outro lado.
Mais além, erguiam-se montanhas cobertas de neve, com
sopés de cor negra e marrom. Papik e Ivaloo nunca tinham
visto uma comunidade tão numerosa: ali havia três casas
comunais, em forma de quadrado; havia, igualmente,
moradias semipermanentes, construídas de neve e de terra,
bem como de ossos de baleias; e havia também um punhado
de outras residências, em forma de lança, destinadas a
abrigar uma só família.
E havia até, ali, uma casa inteiramente construída de
madeira.
A curiosidade era recíproca. Em sua maior parte, os aldeões
não tinham posto nunca os olhos em habitantes do norte
misterioso. Por isto, eles se agruparam ao redor do rústico
trenó forasteiro, todo ele feito de carne e de ossos.
Cautelosos de início, depois com familiaridade crescente, os
aldeões abriram os fardos e os revistaram todos.
Encontraram várias coxas de ursos, de que se apoderaram
com gritos de alegria. Ernenek sentiu-se encantado; mas não
por muito tempo.
Para sua grande mágoa, um acontecimento estava
desenrolando-se; e suplantou a novidade da sua chegada.
Durante o verão, escolhendo o seu caminho por entre os
blocos quebrados de gelo, um bote enorme, dispersando
rolos de fumaça, tinha entrado, por seus próprios meios
acionados a vapor; ah, desembarcou seis homens brancos, e
descarregou pilhas de caixas de carvão e madeira. O bote
zarpara imediatamente, de medo que o mar se fechasse de
gelo e o prendesse ali durante todo o tempo, até ao verão
seguinte. (Que é que havia naquilo? Por que é que os
homens brancos haviam procedido com semelhante pressa
malsã?). As caixas continham utensílios e instrumentos
misteriosos. Havia, por outro lado, madeira suficiente para
construir, como se construiu, uma casa toda de tábuas, desde
a base até ao teto; nessa casa, os homens brancos tinham
passado as últimas semanas, aquecidos por um fogareiro
alimentado a carvão, e nutrindo-se de víveres enlatados,
bem como de bebidas engarrafadas.
Asiak sentiu-se aliviada ao verificar que aqueles indivíduos
não eram aplicadores das leis dos homens brancos; eram,
sim, exploradores, interessados na situação da terra e não
nos nomes dos homens.
Estavam esperando que o oceano se congelasse, a fim de
rumar para a frente e para cima, através e além da terra dos
esquimós polares. Planejavam viajar à maneira dos nativos,
em forma de unidade auto-suficiente — levando pequena
carga, com poucas provisões, construindo abrigos com
material retirado do chão, e extraindo combustível e
alimento do oceano, na medida em que avançassem.
Tudo isto Ernenek veio a saber da parte de Siorakidsok, o
xamã local, em cuja moradia, feita de neve, toda a
comunidade se havia reunido para tomar conhecimento das
notícias que o vento do norte havia trazido.
Papik e Ivaloo comportaram-se como tímidos em presença
das novas fisionomias, bem como à vista do meio-ambiente
que não lhes era familiar; e sentiram-se atordoados com a
multidão daquela gente. Contudo, apesar de toda a tontura,
Ivaloo viu Milak muito claramente, embora ele estivesse
sentado tão longe dela quanto lhe permitia a grandeza do
salão. Milak também estava olhando para ela — com olhos
como que famintos, e com um franzido na testa, que se
formava e tornava a dissipar-se.
Siorakidsok era homem pequeno e vivaz, com olhos que
ardiam como brasas em órbitas afundadas por baixo de uma
fronte que pulava para a frente. Gostava de dizer que tinha a
idade de vinte gerações, o que significava, no caso, apenas
"muito velho"; e ele assim se expressava porque, entre os
homens, nem sequer um mestre da Matemática era capaz de
contar até tão grande quantidade. Siorakidsok era paralítico
da cintura para baixo, e tinha ouvidos duros. Fora somente
devido à sua grande reputação, na qualidade de xamã, em
íntima aliança com os espíritos bons e maus, que ele deixara
de ser abandonado em cima do gelo. Não tinha dentes; e
suas netas — ou talvez fossem bisnetas — Torngek e Neghe
preparavam os seus alimentos; preparavam-nos com seus
próprios dentes, e alimentavam-no boca a boca.
Torngek, a mais velha, tinha dois maridos; sendo caçadores
de segunda categoria, os dois decidiram dividir os deveres e
as alegrias da vida conjugal. Mas o marido de Neghe era
grande caçador; era o verdadeiro provedor da família e o
hder não nomeado da comunidade. Seu nome era Argo; e
ele se gloriava de possuir tantos dependentes, que toda a
gente o contemplava com inveja e admiração.
Não somente Argo possuía uma espingarda, que funcionaria
se tivesse munição para ela, mas também o seu lar se
orgulhava de ser dotado do único fogareiro Primus, que
funcionava sempre que houvesse querosene disponível. A
família só havia usado esse fogareiro para preparar chá a toda
pressa; todavia, a contar da chegada dos homens brancos,
tinham também cozinhado nele as suas comidas, umas
poucas vezes, apenas para descobrir o que era que os
homens brancos viam naquilo. Carne fervida era coisa que
os esquimós podiam tolerar; se, porém, a carne fosse assada
em cima do fogo, eles, os esquimós, não podiam comê-la, e
menos ainda suportar-lhe o cheiro. Porquanto aqueles
aldeões eram sulinos apenas em relação aos esquimós
polares; e para estes, toda gente era sulista. De acordo com o
conhecimento adquirido pelos homens brancos, a aldeia
mencionada constituía o ponto mais norte da existência hu-
mana; e seus habitantes nunca tinham visto, e mal haviam
tido notícias dos homens brancos.
Exceto o caso de Milak, que era viajor inquieto, e de
Siorakidsok, que era homem que tinha visto tudo, inclusive
o Homem na Lua.

Neste mesmo momento, uma enorme chaleira, cheia de
neve e de postas das coxas de urso de Ernenek, tinha sido
colocada em cima do Primus, para ferver, porquanto os
homens brancos haviam cedido algum do seu querosene, e
prometido aparecer.
A um canto, via-se uma grande calha de pedra, pela qual,
todos passavam as suas águas servidas, valiosa para
curtimento de couro e para lavagem de roupa. Algumas
mulheres e alguns homens fumavam cachimbos feitos de
pedra-sabão; e as fumaças do seu fumo — fumo este feito de
folhas secas de niviarsiak e de mirtilo — misturando-se aos
cheiros das coisas cozidas e do querosene, se tornavam
ofensivas às narinas dos esquimós do norte.
Enquanto, porém, Asiak arreganhava o nariz, e seus filhos
ficavam a contemplar, com estupefação muda, os costumes
forasteiros, Ernenek se pôs radiante de alegria, devido à
mudança de ambiente e à novidade da companhia.
— Por que é que os homens' brancos vão para o norte? —
gritou Ernenek, pela terceira vez, para dentro da orelha
grande, porém insensível, de Sioralddsok; ao gritar, ele se
conservava de pé, por baixo do teto alto, feito de neve,
suportado por traves de osso de baleia.
— Eles querem ver o que é que há por lá — respondeu
Sioralddsok, depois de longo tempo, arreganhando num
sorriso a boca negra e sem dentes.
— Um homem pode dizer-lhes o que é que há lá pelo norte!
Há gelo; há grandes planícies de gelo. E há terra, também; e
tudo é coberto de gelo e de neve endurecida. Por cima de
gelo, há vento.
Em cima, e, às vezes, por baixo dele, há ursos. Sob o gelo, há
peixes e focas.
Ernenek ia falando por entre explosões de gargalhadas, e
prosseguiu:
— Diga-lhes que não percam tempo. Não há coisa alguma,
além disso.
— Eles querem ver com os próprios olhos. Não acreditam no
que os homens lhes dizem.
— Por quê?
— É possível que eles não compreendam a língua dos
homens; que não a compreendam suficientemente bem.
Eles dizem que querem fazer desenhos e imagens daquilo
que vêem. Eles dizem — e aqui Siorakidsok se inclinou para
a frente, com um sorriso que lhe arreganhou o rosto inteiro,
fazendo com que sua pele se transformasse numa rede de
rugas — que desejam medir o frio e pesar os ventos.
Todos se contorceram de tanto rir — até mesmo os que já
haviam ouvido essa comunicação antes.
— Eles prometeram uma espingarda e duas facas de aço,
além de grande quantidade de munição, para cada homem
que for em sua companhia; de modo que toda a gente está se
dispondo a ir; até mesmo os meninos e os anciãos.
E Siorakidsok prosseguiu:
— Mas não foi fácil convencer os homens brancos a levar
as mulheres também. Pensavam eles que poderiam viajar
sem mulheres.
Também isto provocou risadas gerais.
— Como é que se pode ser tão estúpido? — continuou
Siorakidsok, que, graças à sua surdez, não sofria
interrupções; desta maneira, seus discursos eram freqüentes
e longos. — Quem é que acende a lâmpada, enquanto os
homens enterram o trenó? Quem é que prepara o chá,
enquanto os homens vão à caça?
— E então? Que é que ficou resolvido? — indagou Ernenek,
impaciente.
— Quem é que lhes seca as roupas, enquanto eles comem?
Quem é que lhes conserta as roupas, e lhes amacia as
vestimentas de couro, enquanto eles dormem?
Siorakidsok foi para diante, sem ser perturbado:
— Assim, alguém sugeriu que pelo menos as mulheres que
não estiverem grávidas poderão ser levadas por eles; e,
depois de muito tempo, os homens brancos acabaram
concordando.
— Perdoem a uma mulher, por falar — disse Asiak — mas
alguém pensa que essa sugestão denota grande sabedoria.
Esta observação entrou pela orelha boa de Siorakidsok; e ele
meneou a cabeça, manifestando plena concordância com o
que foi dito. Ali estava, com efeito, uma mulher sábia,
esclarecida, e que sabia discernir as coisas!
— Alguém irá na viagem com os homens brancos — disse
Ernenek.
Asiak atirou para trás a própria cabeça, mas não disse
palavra. Foi Ivaloo quem, superando a própria timidez, falou:
— Os homens brancos não podem usar um homem que
tenha as costas duras. Você fez esta viagem para ver se lhe
consertam e não para começar uma nova aventura.
Ernenek bateu o pé no chão:
— Uma jovem estúpida, que nem sequer ainda riu com
homens, a falar dessa maneira ao seu pai! O mundo está
mesmo indo a caminho dos cães!
A seguir, Ernenek virou-se para Sioralddsok:
— Você sabe como curar. Quer você curar as costas de um
homem, para que ele possa partir com os homens brancos?
A surdez de Sioralddsok atingiu o máximo jamais registrado.
Ernenek teve de aproximar-se bem; e Argo também se
aproximou do ancião; e os dois repetiram, por várias vezes,
gritando-lhe para dentro das duas orelhas ao mesmo tempo,
o que é que se estava esperando dele.
Depois de longo tempo, Sioralddsok meneou a cabeça, em
sinal de haver compreendido.
— Os homens brancos — disse ele — têm um xamã em seu
grupo; um xamã que pode fazer coisas notáveis. Ele enfia
agulhas tinas no braço da gente, e, logo após, toda
sensibilidade desaparece; então ele corta fundo, na carne,
sem derramar sangue. Procure o xamã branco; e somente se
ele fracassar é que alguém perturbará os espíritos dos
homens.
— Vamos ver se os homens brancos estão prontos para nos
honrar, compartilhando da nossa comida — disse Argo. —
Foi para eles que nós pusemos a cozinhar a carne de urso.
Eles nunca provaram carne de urso.
Quando os seis homens brancos entraram, espalharam o
silêncio ao seu redor. Papik e Ivaloo sentiram-se
aterrorizados e estupefatos. Na época em que um homem
branco passou o inverno com eles, Papik e Ivaloo eram
muito pequenos, e, portanto, já não se lembravam dele
agora; todavia, tinham ouvido dizer que os homens brancos
possuíam pés de caribu. Aqueles dois estavam usando botas,
de modo que a gente não podia averiguar nada; podia-se ver,
porém, que possuíam mãos desproporcionadamente
grandes. Os homens brancos eram todos bastante jovens, de
aparência atlética, com barba densa. Dois deles falavam a
língua esquimó; e a falavam muito bem, para homens
brancos. Eles explicaram que a expedição poderia utilizar-se
dos serviços de Ernenek, desde que sua espinha estivesse em
bom estado.
O exame médico foi breve. Ernenek deixou que suas calças
descessem; e o xamã branco, um dos homens mais moços
do grupo de homens brancos, depois de abrir espaço ao seu
redor, de encontro ao apertado círculo de espectadores,
bateu, comprimiu e apalpou as costas robustas de Ernenek;
por vezes fez-lhe cócegas, obrigando-o a dar umas
risadinhas mal contidas. A seguir, o xamã branco endi-
reitou-se e sentenciou:
— Não há nada que se possa fazer.
Todos olharam, ansiosos, expectantes, para Siorakidsok; era a
vez dele.
— Um xamã precisa primeiro aconselhar-se com o Espírito
da Lua. Ao contrário do homem branco, o xamã nativo é
muito estúpido, e deseja pedir conselho — disse ele.
Entretanto, visto como a consulta ao Espírito da Lua exigiria
tempo equivalente a vários giros do Sol — e nem Ernenek,
nem Siorakidsok, nem ninguém mais desejava adiar por mais
tempo o banquete — Siorakidsok foi facilmente persuadido
a deixar de lado, pelo menos dessa vez, a consulta ao
Espírito da Lua, e a confiar exclusivamente em sua própria
experiência.
— Alguém — anunciou ele — vai extrair sangue das costas
desse homem; e, com o sangue, o espírito mau, que lhe
entrou no corpo, fluirá para fora. Torngek: vá buscar os
meus instrumentos!
E, enquanto a sua neta favorita correu para satisfazê-lo,
Siorakidsok começou a vibrar pequenos golpes às costas de
Ernenek, fazendo uso dos próprios punhos fechados.
Quando Siorakidsok pensou que as costas já davam sinal de
estar maduras para a sua intervenção, tomou, das mãos de
Torngek, uma lanceta de sílex; enfiou-a no intervalo da
quinta vértebra; golpeou-a com um pedaço pesado de rocha;
e, depois, puxou-a para ora. Um jorro de sangue se seguiu. O
xamã nativo curvou-se para a frente; colou seus lábios à
ferida; e sugou, com toda a força de que dispunha.
— Agora, traga-me uma lâmpada — disse ele, lambendo os
próprios lábios.
Tomou um pouco do musgo flamejante, que se encontrava
na lâmpada, e atirou-o ao ferimento; soprou tudo com seu
fôlego. Quando o musgo se consumiu, o xamã gritou:
— Cubram todos os presentes a própria cabeça, e abram o
teto, para que o espírito possa voar para longe!
O tampão foi puxado para fora do ferimento fumegante, e
todos os espectadores cobriram a própria cabeça com os
respectivos paletós; os espíritos detestam ser vistos quando
voam e se vão embora. As costas de Ernenek foram
golpeadas de novo, e um coro de lamentos e de gritos
marcou o ritmo dos golpes — tudo destinado a apressar a
partida do mau espírito.
Quando as vozes começaram a ficar roucas, Siorakidsok deu
permissão para que os presentes se descobrissem. Ernenek
puxou as calças para cima, com um suspiro de alívio.
— Você pode curvar-se?
— Não — disse Emenek, acarneiradamente.
— Isso quer dizer que há mais demônios, que ficaram
dentro do seu corpo — declarou Siorakidsok, em tom como
que de censura, enxugando o suor do próprio rosto — e isto
porque o xamã viu distintamente um espírito voar para
longe. Teremos de fazer esta operação outra vez, dentro de
pouco tempo; da próxima vez, porém, não sem consultar,
primeiro, o Espírito da Lua.
Feito isto, todos retomaram, felizes, aos respectivos lugares:
os homens, no círculo interior; as mulheres, no fundo,
prontas para ecoar o divertimento dos seus maridos.
À essa altura, todos estavam com bastante fome; e as iguarias
longamente esperadas foram sendo passadas de mão em
mão: estômagos de boi almiscarado, cheios de musgo e
líquen; patinhos não depenados, que tinham estado a
apodrecer em tripas de foca, estofados com óleo endurecido
de baleia, e que apresentavam a carne sedutoramente cor de
púrpura, devido à química da decomposição; intestinos crus
de pássaros; limo raspado de mergulheiras, e amaciado com
urina humana, usada no curtimento de couro; larvas bi-
chadas de moscas de caribu; excrementos de homens
brancos, tornados mais interessantes com mistura de sebo e
de dejeções de rena.
A panela, em cima do Primus, estava começando a ferver; e
vozes e risadas altas encheram o salão com um ar de
amenidade social.
— Qualquer homem se consideraria afortunado, se fosse
deixado a sós com tantas mulheres — Siorakidsok procurou
consolar Ernenek, que estava com aspecto mais negro do
que o inverno.
— Mas de nada lhe valerá isso, uma vez que suas costas são
duras — disse Argo, provocando tempestades de
gargalhadas.
— Ele pode ou não ser perigoso para as mulheres? —
indagou um dos maridos de Torngek, dirigindo-se a Asiak;
esta, porém, fugiu de dar a resposta, explodindo em risos.
— Assegura-se que um homem que não pode ser perigoso a
um urso também não pode ser perigoso a uma mulher —
explicou Argo. — Ou será que se trata precisamente do
contrário?
Em outras circunstâncias, Ernenek ter-se-ia sentido
encantado por se encontrar em semelhante companhia,
brilhante e espirituosa, esta vez, porém, sentia-se
aborrecido. Antes daquele dia, nunca lhe acontecera deixar
de ser considerado capaz de participar de uma grande
aventura; as iguarias do sul dissipavam, na verdade, os
enrugamentos do seu estômago, mas não eram suficientes
para apagar a amargura do seu coração.
Conservando-se de pé, de pernas abertas e braços
esparramados com as mãos à cintura, à luz mormacenta do
dia, que se filtrava através de lâminas claras de gelo e de
janelas feitas de bexiga de foca e caribu, Ernenek constituía
figura impressionante, em suas roupas frouxas de pele de
urso. Ele não era o indivíduo mais alto; mas era, sem dúvida,
visivelmente, o de peito mais largo do grupo. Seu maxilar
inferior era coisa de se contemplar com temor, mesmo
agora, quando alguns poucos dentes lhe faltavam; os
músculos, por cima das orelhas, subiam-lhe até à parte de
cima do crânio; e, quando ele falava, um diafragma poderoso
entrava em ação, para lhe dar apoio às convicções.
Ele roncou, pigarreou, cuspiu uma cuspida que chegou ao
outro lado da sala, e irrompeu em voz alta, de modo que até
Siorakidsok pôde ouvi-lo pela primeira vez:
— É vergonhoso que um grupo de sulistas fraquinhos, que
precisam de um número infinito de cachorros para caçar
ursos, e que preferem caçar focas por se tratar de caça
menos perigosa, venha alar desta maneira a um homem que
já abateu ursos em número maior do que o das tordas
mergulheiras que voam pelo espaço; e que fez isso sem usar
outra coisa além da sua lança e da sua astúcia. Será que
algum, dentre vocês, já teve de lutar com um urso, depois de
partir-lhe a lança, e de lhe abrir o ventre, na luta, com uma
faca? Ou será que algum de vocês já puxou uma morsa para
fora da água, pelo nariz, esmagando-lhe o crânio com os
punhos nus?
A barulheira das risadas que saudaram cada uma das suas
sentenças fez com que o sangue subisse às faces do esquimó.
Ele não percebeu que as risadas se deviam exclusivamente
ao seu jactancioso auto-elogio, bem como à sua rusticidade
sem precedentes.
Asiak tinha consciência de que o comportamento de
Ernenek em sociedade deixava muito a desejar. Ela se sentia
grandemente embaraçada; e ficava o tempo todo a enrugar
para ele as próprias sobrancelhas, em sinal de reprovação;
fazia isto em rápida sucessão, procurando atrair-lhe a
atenção; mas ele não achou que deveria dar mostras de estar
compreendendo os sinais. Os seus filhos, ao contrário, se
mostravam zangados para com a multidão. Para Papik e
Ivaloo, afigurava-se que, em qualquer acontecimento
mundano, a presença de Ernenek deveria ser considerada
um ornamento e uma honra. Papik pôs-se de pé, como se
fora acionado por uma mola, e gritou:
— É como o pai está dizendo!
E Ivaloo acrescentou, enfurecida:
— O fato de vocês não saberem que espécie de homem ele
é só revela a ilimitada ignorância de vocês, os do sul!
E Emenek — para que todos os ali presentes começassem a
saber que espécie de homem ele era — ergueu a enorme
chaleira; a seguir, atirou-a, com toda a força, ao chão,
partindo-a, demonstrativamente.

O rústico lençol de neve era velho e batido; nele, as passadas
de Ernenek produziam sons de esmagamento, enquanto ele
se esforçava por marchar por entre as colinas, rumo ao vale
da geleira. O esquimó sentia-se cansado da viagem; estava
fraco e meio tonto, devido à perda de sangue; e suas costas
lhe doíam, irradiando flechadas de dor para as pernas.
Contudo, uma dor é sempre mais fácil de ser suportada do
que uma ânsia; e ele ansiava por mostrar, àqueles des-
prezíveis sulinos, aquilo de que um homem de verdade era
capaz.
Esta era a razão pela qual ele deixara a companhia alegre das
pessoas que se encontravam na casa de Siorakidsok.
Os rumores da aldeia chegavam facilmente aos seus ouvidos,
através do ar tenso e revigorante. Quando fazia calor, ou se
estava em vésperas de cair neve, os rumores não se
projetavam para muito longe; entretanto, com a atmosfera
bem fria, a voz de um homem poderia ser ouvida à distância
de um dia inteiro de viagem. Houve o barulho de uma briga
de cachorros; o da litania de uma mulher; o rascar áspero de
uma serra feita de osso maxilar; e a algazarra alegre de
crianças que desciam, como se fora de tobogã, por uma
encosta abaixo, sentados numa pele de foca.
E, bem à frente do seu nariz havia o zunir persistente de
miríades de pequenos mosquitos, que ele aspirava, na
medida em que avançava, e que ia esmagando entre a língua
e a abóbada palatina, a fim de lhes saborear a doçura
amargosa.
Quando ele chegou à periferia inferior da geleira, passou a
manter fixos os olhos no chão, até descobrir pegadas de
urso; e acompanhou-as até à base da geleira. Aquelas pegadas
deveriam ser de um urso acossado por grande fome, porque
se apresentavam muito juntas umas às outras, com os dedos
apontando para dentro; isto denota sempre um animal
magro. Todavia, Ernenek perdeu de vista as pegadas no chão
rochoso. Depois, percebendo dejeções de urso na distância,
foi conduzido a novas pegadas.
As novas pegadas o guiaram através de uma pequena
passagem, entre cabeços rochosos. Os sopés íngremes e o
chão, que tinham sido expostos aos raios do Sol, durante o
verão, estavam secos; mas os pontos batidos pela sombra
apresentavam neve e gelo velhos. A dor, as costas de
Ernenek, aumentou com o esforço da subida, e se espalhou
pelas virilhas; e então ele se inclinou, apoiando-se
pesadamente em sua lança. Para se mover com
desembaraço, ele havia deixado o arco lá atrás; mas, em sua
bota, conduzia a sua faca mais afiada e mais aguda.
Numa faixa de neve, por trás de um cabeço, um filhote de
urso estava brincando com sua própria perna traseira. Seu
pelame era curto e lanoso; seus olhos, muito pequenos,
olhavam, com vivo interesse, para um mundo cujos perigos
ainda não havia provado, nem conhecido. Ernenek atirou-se
ao chão, e começou a jeremiar, emitindo sons queixosos,
suaves e prolongados. O ursinho olhou para cima, e estudou
a forma estranha do homem na neve. Depois de uns
momentos, aproximou-se, farejando o ar; seu pequeno
focinho, pontudo, movia-se como se fosse um dedo.
O cheiro por ele ainda não provado, de um homem, nada
lhe significava.
Todavia, o primeiro encontro, do ursinho com o homem,
foi súbito e penoso. A mão de Ernenek se esticou para a
frente; apanhou o ursinho pela garganta macia e quente;
depois, gemendo de dor, o homem se pôs de pé, pelo
recurso de se puxar a si mesmo, agarrando-se a um muro de
pedra. O ursinho emitiu gritos roucos, pondo à mostra a
língua azul e os dentes limpos, ao mesmo tempo em que se
contorcia malucamente, para se desvencilhar do
agarramento de Ernenek. Quando o ursinho se cansou de
gritar, Ernenek cutucou-lhe o ventre com a lança; e ele
tornou a gritar, a guinchar, a ganir, de maneira que a
Ernenek se afigurou deliciosa.
Por fim, a mãe do ursinho apareceu.
Ernenek ouviu-lhe o arquejar, no topo do cabeço por baixo
do qual ele se encontrava; e recuou, à espera do assalto. A
ursa desceu, com um rumor surdo, de coisa rolada, na
garganta; e desviou-se na sua direção. Ernenek atirou-lhe o
ursinho ao nariz, ganhando tempo, dessa maneira, para
agarrar a lança.
Assim que a ursa se ergueu, apoiando-se em seus quartos
traseiros, ele a golpeou dentro da boca.
A ursa agarrou a lança com as duas patas dianteiras, como
que num esforço para arrancá-la; em vez disto, porém,
quebrou-a, porque a lança fora concebida de forma a deixar
a ponta farpada dentro do corpo em que penetrasse; e só um
pedaço da haste continuou nas mãos de Ernenek. O animal
mal emitiu um suspiro: um jorro de sangue esquichou do
ferimento, fumegando no ar frio; ouviu-se um rumor
gorgolejante; e lá se extinguiu a ursa, tombando de um lado,
enquanto o ursinho dali fugia, espavorido, a gemer. Ernenek
lançou olhares ao redor, para ver se o macho daquela fêmea
estava aproximando-se.
Estava.
Contudo, o urso ainda não tinha localizado o inimigo, nem
avistado a companheira agonizante; ouvira apenas os
guinchos do filhote, que anunciavam situação de
emergência. Sua visão ficava em terceiro lugar, quanto à
agudeza, vindo depois do seu faro e da sua capacidade de
audição; e então o urso se pôs a farejar o ar.
Em sua juventude, Ernenek costumava molhar o seu próprio
lábio superior, com a língua, para assegurar-se da direção do
vento; mas a sensibilidade já o havia abandonado; por isto,
ele arrancou um punhado de pêlos do couro de suas calças, e
atirou-os ao espaço. Estava salvo; o urso encontrava-se quase
que exatamente em direção oposta à do vento.
O ato de retomar a ponta da lança que estivera embebida na
garganta da ursa — que rolara para longe dele, a fim de
morrer — não era coisa que se afigurasse brincadeira;
principalmente para um homem que não podia curvar o
próprio corpo, e que não desejava ser ouvido. Ernenek
estava escondido, à vista do urso-pai, apenas pela muralha de
rocha. Em conseqüência, manteve-se imóvel; e esperou.
Encontrando-se do lado de onde vinha o vento, podia ouvir
a respiração da fera; por vezes, continha a própria
respiração, para ouvir a do animal. O urso estava movendo-
se em direção contrária. Logo Ernenek estaria em condições
de recuperar o pedaço de sua lança, e assim de convidar o
urso a dançar. Ele como que sorriu consigo mesmo, de
língua encostada a uma das bochechas, ao imaginar a
fisionomia atônita dos aldeões, quando vissem a sua presa.
Sim. Ele ainda era capaz de dar dor de barriga a uma aldeia
inteira!
O número dos mosquitos tinha aumentado; os insetos
estavam sendo atraídos pelo cheiro do sangue. Ernenek
aspirou profundamente, enchendo a boca com um enxame
de mosquitos. Antes que ele o percebesse, um dos
mosquitos fora arremetido contra uma das suas tonsilas,
induzindo-o a tossir.
Daí por diante, as coisas aconteceram com grande rapidez,
umas depois de outras. Depois de acusar a sua presença,
Ernenek atirou às favas toda a precaução, correu para a ursa
morta, atirando-se ao chão e começando a desembaraçar
desesperadamente a sua arma. Todavia, enquanto os vermes
do medo faziam cabriolas em suas tripas, e ele atirava olhares
angustiados à rocha que ficava por cima, algum recanto do
seu próprio cérebro se pôs a gozar amalucadamente aquele
espetáculo, pensando na ótima narrativa que aquilo daria,
para ser contada lá em casa.
A esta altura, já o urso-pai surgia à vista, como que valsando
pela encosta abaixo; a encosta era uma laje de ardósia; o urso
desceu mais devagar, mais cauteloso, com mais decisão do
que aquela com que a fêmea descera. Era desusadamente
comprido e fino; suas garras esmagavam detritos e raspavam
a rocha.
Ernenek mal acabava de retomar sua lança; e estava
puxando-se a si mesmo, ao longo do muro de rocha, quando
a besta-fera, percorrendo o último trecho de chão, num
trote acelerado e gingado, correu para ele, erguendo-se nas
patas traseiras e abrindo as dianteiras. Ernenek mirou
vagamente — mais por instinto do que por intenção, para a
qual já não havia tempo algum; e vibrou um golpe contra a
cavidade aberta, que torreava por cima dele. A ponta de
lança, já ensangüentada, entrou na boca do urso, e apontou
para afora, através de um dos flancos de sua cara. Isto
desviou o ataque na medida de uns dois centímetros e meio
— e atrasou o momento decisivo na medida de uma batida
de coração. Este foi o momento que Ernenek aproveitou
para atirar-se ao chão, de costas, rolar para um pouco longe
do urso, e agarrar a sua faca.
Ernenek pôs-se de costas, deitado, muito bem — e lá se
ficou.
Quatrocentos quilos de regougante fúria vingativa tombaram
sobre ele, comprimindo-o de encontro ao chão e fixando-o
ah. Ele atirou seu antebraço exatamente a tempo por entre
as mandíbulas hiantes do animal, no momento em que a
respiração fumegante da fera já lhe ia esquentando as faces.
Percebeu que sua própria coxa estava esmagando a faca,
estando esta, já agora, inacessível.
O urso já estava mastigando-lhe a manga; as presas da fera já
lhe atingiam a carne do braço; mas ele continuava a manter
o braço de traves, dentro das mandíbulas. Ernenek tinha
aprendido a auferir prazer da dor física, a fim de suportá-la
por mais tempo. Com um movimento do punho, livrou-se
da luva do braço direito; e apalpou o baixo ventre do animal,
em busca de seus órgãos genitais.
Conseguiu agarrá-los, com segurança; e puxou-os.
Nem uma bala, através do coração, poderia ter produzido
efeito mais instantâneo. A fera afrouxou a mordida,
ofegando, e cambaleou, apoiando-se nas pernas traseiras,
como que se encolhendo para conter a dor de seus órgãos
genitais. O sangue esguichou, escorrendo por entre suas
patas dianteiras. Depois, o urso tombou de flanco, dobrou-
se, e começou a girar no chão, colorindo de vermelho a
neve ao seu redor.
Ernenek debateu-se para se pôr de pé. Seu braço lhe doía
muito, agora, quando a fúria da batalha já se havia dissipado;
suas pernas, fortemente machucadas, puxavam-no para o
chão; mas, pondo em ação toda a sua força de vontade, ele
conseguiu erguer-se. Gotas de suor, em sua fronte,
proclamavam o esforço feito e a dor sofrida.
Se, porém, ele tivesse que morrer, morreria de pé.
Partindo da artéria rota de seu braço, o sangue jorrava em
jatos que esguichavam a três metros, de distância, ao ritmo
da pulsação do coração. O homem podia observar a
diminuição progressiva de suas energias. Com as forças que
ainda lhe restavam, tudo o que ele pôde fazer foi premer o
cotovelo esquerdo, para conter a dor; e contemplar a vida
que se esvaía.
Os mosquitos dançavam diante do seu nariz. Uma ptármiga
cacarejou. Da aldeia, chegou um chamado de mulher. Uma
fuinha estava à espreita de uma presa invisível. Um bando
de mergulheiras, de canto suave, estava como que provando
suas asas contra o ar parado, antes de partir para o sul.
Poderia aquilo ser a morte? Tão clara? Tão simples? E assim,
sem aviso.


CAPÍTULO IX
FIM DE UMA MULHER

Papik e Ivaloo choraram, lamentaram e bateram a cabeça
contra a parede; mas Asiak, deixando de lado as boas
maneiras, não acusou pesar algum. Ela, apenas tomou seus
filhos nos braços, como quando eles eram crianças — e
pequenos eram eles, agora, em seus braços, enquanto ela os
farejava e banhava as próprias faces nas suas lágrimas.
O corpo fora encontrado por Papik, que havia seguido a
trilha do pai, e lhe carregara o corpo de volta, para a casa de
Siorakidsok, na esperança de que o xamá ou os homens
brancos pudessem devolvê-lo à vida. Papik nada sabia a
respeito da morte; do contrário, teria deixado o cadáver
onde o havia encontrado, poupando a todos grande
quantidade de incômodos.
Somente as mocinhas, que ainda não haviam atingido a
puberdade, e as mulheres anciãs, que houvessem passado a
idade fértil, tinham permissão para tocar no corpo morto,
usando luvas até aos cotovelos. Elas lavaram o cadáver em
urina, amarraram-no em posição como que dobrada sobre si
mesmo; amarraram-lhe as mãos e os pés a fim de estropiar o
fantasma; e taparam as narinas com musgo.
— Por que é que nós não podemos levar simplesmente o
corpo de volta às colinas, como sempre fazemos com os
nossos mortos? — perguntou Asiak a Siorakidsok, que estava
atuando como mestre e cerimônias. — Os animais disporão
dele, e ninguém será incomodado.
— Visto que alguma pessoa amalucada achou que ficava
bem contaminar esta casa com o cadáver, nós agora temos
de fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para nos
proteger contra o fantasma que possa estar flutuando na sala
— disse, muito preocupado, o xamã Siorakidsok.
Por cima do cadáver nu, dobrado sobre si mesmo e
amarrado, um buraco foi aberto no telhado da casa, à guisa
de lugar de passagem para a alma. Todas as mulheres
choravam assustadoramente; entre os repentes de choro,
todas louvavam irrestritamente o morto, com o propósito de
dispor bem a sua alma para com elas; ao mesmo tempo, os
homens batiam nos cachorros das matilhas, com bastões
pesados, a fim de que também os cães contribuíssem para a
manifestação geral de pesar.
Também os homens brancos foram ver o morto; mas não
choraram, nem surraram os cachorros.
Entre eles figurava um pregador, que se havia juntado à
expedição a fim de levar a Tocha até aquelas paragens
nórdicas ainda não iluminadas pela fé cristã. Fez-se silêncio,
quando ele entrou na casa. Era homem de corpo robusto, de
estatura média, de compleição flórida e cabelos louros, coisa
que lhe havia valido o cognome de Kohartok, ou Cabelo-
Sem-Cor. Sua barba, que fluía lisa e macia, tendia para o
vermelho; e seus olhos eram de cor azul aguada, muito pura.
O sacerdote aproximou-se do homem morto, e proferiu um
discurso. Devia ter passado um tempo considerável
aprendendo a língua esquimó, porquanto parecia ter pouca
dificuldade em expressar seus pensamentos nesse idioma.
— Outro pecador está a caminho do seu último lugar de
repouso — disse ele, olhando para o círculo dos ouvintes. —
Mas encontrará ele o repouso? Eu duvido disso; porque este
homem está indo sem ter feito as pazes com o seu criador.
Quando algo se faz muito tarde, é muito tarde. Assim, possa
esta morte servir de advertência para aqueles que ainda não
se entregaram ao Pai Eterno. Que isto sirva de chamado,
para cada um e para todos, para que um e todos se
arrependam dos seus pecados, porquanto o Reino dos Céus
está à mão. Eu tenho estado a dizer-lhes isto, sempre, desde
a minha chegada, pois esta é a finalidade da minha vinda:
difundir a semente entre vocês. Vim à saber que este
homem era um grande caçador. Mas que boa vontade
poderão proporcionar-lhe, agora, os muitos ursos que ele
matou? Por certo que ele não precisará das peles dos ursos
que abateu, lá no fogo eterno em que está queimando-se
agora. Não teria sido preferível que ele tivesse passado
menos tempo caçando ursos e mais tempo curvado, a dizer
preces, pedindo a Deus que lhe relevasse os pecados? O
Reino dos Céus, ao invés das Labaredas do Inferno, seria
agora dele; e ele poderia ser enterrado no cemitério cristão,
ao lado de Alinaluk, com uma cruz por cima, em vez de ser
escondido, como será, em terra pagã. Agora, nós só
podemos rezar para que Deus tenha piedade da arma do
pobre pecador. Amém.
— Que foi que ele disse? — indagou Ivaloo, dirigindo-se à
sua mãe, Asiak. — Você sabe o que os homens brancos
querem dizer com as palavras que proferem.
— Fique calada, agora — sussurrou Asiak. — Alguém não
tem a menor idéia do que ele quis dizer, exceto que chamou
Ernenek de grande caçador. Cada tribo tem seus próprios
hábitos, e os hábitos dos homens brancos são muito
estranhos. Deve ser esse o modo deles aplacarem os
espíritos e os fantasmas.
Durante cinco dias, todas as mulheres ajudaram a lamentar a
morte de Ernenek, chorando alto, batendo no peito e
puxando os cabelos. Nem Asiak, nem seus filhos, tiveram
permissão para descansar, e menos ainda para sentar,
durante esse longo período; e ninguém, nem mesmo os
cachorros, recebeu alimentos, a não ser às escondidas.
No sexto dia, o cadáver foi costurado dentro de peles; e o
sepultamento se realizou.
Argo atravessou a parede, abrindo um buraco na casa de
neve; por esse buraco, o cortejo fúnebre desfilou. A abertura
foi reparada imediatamente, a fim de impedir que a sombra
de Ernenek reencontrasse o seu caminho para aquela casa e
ali praticasse suas manhas, como as almas dos mortos
costumam fazer.
O volumoso ataúde de peles foi posto no trenó de Ernenek,
este conduzido por Papik, que vibrou porretadas, com
ânimo, nos cães; as mulheres continuaram a chorar, a gemer
e a gesticular. Atrás de Asiak e de Ivaloo, seguiram
Siorakidsok e dois dos seus genros, os quais carregaram o
tapete em que ele se sentava.
Fora das vistas da aldeia, a procissão parou; então, os homens
começaram a cavar uma sepultura. O verão tinha degelado o
solo, até uns trinta centímetros de espessura; e nele a
vegetação já havia repontado; por baixo dessa vegetação,
porém, o solo estava congelado, e não podia ser escavado;
em conseqüência, fez-se um compartimento de pedras
dentro do qual o ataúde foi depositado.
Papik estrangulou o cachorro favorito de Ernenek, e deitou-
o ao lado do dono, juntamente com os petrechos de caça de
Ernenek e com uma lâmpada abastecida de grande
quantidade de pavio e de óleo de baleia; a lâmpada, assim
abastecida, destinava-se a iluminar a grande noite e a
aquecer a terra congelada. Depois, todos os escavadores
atiraram suas luvas à sepultura, e erigiram um monte íngre-
me de pedras pesadas, para proteger a sepultura contra lobos
predadores e carcajus metediços.
Então Siorakidsok proferiu a sua oração de beira de túmulo:
— Agora que vocês cobriram o homem morto com pedras,
devem cancelar o nome dele de suas conversas, e também a
sua imagem da memória, e para sempre.
O ar era varrido por golpes de vento, e os ouvintes não
apanharam mais do que farrapos dispersos da elegia, de
conformidade com o modo pelo qual o vento soprava.
— Vocês tiveram cinco dias para chorar todas as lágrimas
que valessem a pena ser choradas por qualquer homem, bem
como para louvar quaisquer feitos que um homem pudesse
realizar. Daqui por diante, não haverá mais pranto, nem
lamentos. Este homem deveria ser invejado, pela vida que
viveu, e não ser transformado em objeto de comiseração,
pelo seu fim. Todas as vidas têm de chegar ao seu término; e
que importa que se acabem mais cedo ou mais tarde, uma
vez que se acabam? Tudo o que se acaba é breve. E será
mesmo um mal o fato da vida ser breve? Não. Porque é a
consciência de sua brevidade que a torna valiosa. E este
homem tirou o maior proveito da sua vida.
Ivaloo escondeu o rosto no capuz de sua mãe. Soluços e
lamentos poderiam ser assinalados até mesmo pelos ouvidos
mais surdos. Siorakidsok estava radiante. Aquela foi, com
efeito, uma cerimônia fúnebre brilhante.
— Ele viu seus filhos já crescidos. Deu caça ao grande urso.
Comeu consideráveis quantidades de comida, e,
normalmente, da melhor. Parece até que matou um homem
brancol Possam vocês, crianças, crescer e ser indivíduos tão
robustos e tão bem vistos pela sorte como ele. Agora,
lembrem-se de apagar suas pegadas, com muito cuidado, no
caminho de volta: ninguém deseja ser seguido pelo espírito
do morto. Esse homem está destinado a ter um espírito
particularmente malfazejo.
Todos menearam a cabeça, e murmuraram algo,
concordando.
— Assim que vocês voltarem às suas moradias, não percam
tempo: lavem-se da cabeça aos pés, para o caso em que a
sombra do morto os haja conspurcado. Não se esqueçam de
borrifar água no chão, a fim de que o morto tenha o seu
gole; e, quando comerem, não se esqueçam de deixar cair
pedaços de carne no chão, para que o morto também possa
comer. Depois, construam numerosas armadilhas simuladas,
ao redor da aldeia, para dar, ao fantasma do morto, o maior
susto de sua vida, no caso dele um dia tentar voltar a nós!
Dito isto, a reunião dissolveu-se. E Siorakidsok assegurou-se,
pessoalmente, de que a sua retaguarda fosse apagando as
pegadas.
— Por que foi que você pôs fuligem nas suas sobrancelhas e
nas de sua filha? — perguntou o xamã a Asiak, quando
chegou de volta à casa e lá a encontrou sentada, a um canto,
com as calças de Ernenek à cabeça; estava ocupada com os
seus petrechos de costura.
— Nós não temos permissão para costurar durante um longo
tempo, porque o uso de instrumentos pontiagudos pode
machucar o espírito. Mas os homens que deixaram suas
luvas na sepultura dele precisam urgentemente de outras,
porque se encontram na iminência e partir. O
escurecimento das sobrancelhas constitui boa proteção
contra a vingança do fantasma. Assim foi dito por minha
mãe, que ficou sabendo disto por via de comunicação de sua
mãe.
— Mulheres, mulheres! — escarneceu Siorakidsok: —
Sempre estúpidas e supersticiosas! Você está bem com a
razão, pondo as calças de seu marido à cabeça, para lhe
aplacar o espírito; mas a única salvaguarda eficaz, contra o
tabu da costura, consiste em traçar, com sua agulha, um
círculo, no chão, e permanecer dentro dele até acabar de
realizar a costura.
— É maravilhoso verificar como você é sábio!
E Asiak apressou-se a obedecer.
A faixa de gelo cor de cinza, que tinha orlado a costa
durante vários dias, mudou, nesse meio tempo, para a cor
branca; isto significava que o gelo já estava suficientemente
grosso para suportar o peso de nomens e de trenós; e que o
espírito da geada perpassava ao ongo da superfície das águas,
conquistando cada vez mais oceano, a cada nova hora que se
passava.
Papik também estava partindo com a expedição.
— Alguém vai conseguir, para seu próprio uso, espingarda e
facas de aço; vai também aprender os modos de vida dos
homens brancos, minha querida — disse ele à sua mãe que
chorava, quando o seu trenó ficou pronto. — Então, alguém
poderá conseguir toda a carne e todas as peles que você
desejar.
— Alguém gostaria mais que você não partisse, meu querido.
Mas, se tem de partir, não se preocupe a respeito de uma
velha mãe estúpida; pense, ao contrário, em Ivaloo; procure
fazer com que ela venha a ser boa esposa de um bom
homem, quando você voltar.
Aqui, Mila, que se encontrava de pé atrás de Papik,
interferiu.
— Não há necessidade de esperar até lá. Alguém precisa de
uma mulher que cuide de suas vestimentas, ao longo de uma
pequena viagem que está na iminência de empreender; e é
possível que esse alguém deseje levar Ivaloo consigo.
— É possível, mas não provável — disse Asiak.
— Por quê?
— Ivaloo é a filha inútil de uma mãe sem valor algum; e
ainda não aprendeu bem como se raspam peles, nem sabe
costurar com alinhavo pequeno. Ela é ainda muito nova, e,
por isso, não está pronta para ser digna de um homem de
verdade.
— Entretanto, alguém faria com que você recebesse uma
lâmpada destituída de valor, se a deixasse partir; com a
lâmpada, iriam umas poucas fitas coloridas, sem importância
alguma, recebidas dos homens brancos; e iriam também
pedaços desprezíveis de carne.
— Uma certa mulher anciã já possui uma lâmpada; não tem
valor bastante para usar fitas coloridas; e não se encontra
com muita fome. Não, não, Milak. Fique com os seus
tesouros; e uma velha mulher ficará com a sua própria filha.
Enquanto isso, Milak estava como que devorando Ivaloo
com os olhos.
— Se, porém, alguém voltar de sua viagem, como deverá
voltar, poderá, então, ficar com Ivaloo, ou, pelo menos, rir
um pouco com ela?
— Não é possível.
— Quando alguém voltar — disse Papik, dirigindo-se à sua
mãe — é bem possível que tome uma mulher para seu
próprio uso. Alguém já viu uma jovem adequada; mas ela lhe
fugiu, toda vez que ele procurou falar-lhe.
— Isso é bom sinal. O nome dela?
— Vivi.
Os homens brancos estavam acampados na ponta. Mas com
tamanha freqüência precisaram os esquimós descarregar os
trenós e refazer os pacotes, para se recordar daquilo de que
se haviam esquecido, e com tamanha freqüência
regressaram às suas moradias, para tomar uma última
chávena de chá, ou para uma última risada com aquelas
mulheres que tinham deixado atrás de si — e tantas rédeas e
tantas correias, bem como tantas peças de arreios se
encontraram com necessidade de reparos, na undécima
hora, ou foram quebrados na hora da partida — que, antes
de a expedição se pôr finalmente a caminho, o mundo já se
havia escurecido consideravelmente.
Esquecendo-se das convenções, Asiak e Ivaloo
acompanharam a expedição até determinada distância,
juntamente com umas poucas crianças que eram novas
demais e, portanto, não podiam conhecer as boas maneiras.
Os ventos glaciais varriam a linha da costa, sob um céu
carregado e torvo.
Trinta e cinco esquimós, com igual número de trenós, dez
mulheres e cinco homens brancos se encontravam a
caminho, ao longo da faixa de gelo; e as matilhas como que
apostavam corrida umas com as outras. Papik estava na
frente. Seus cachorros eram magros e fortes, devido à
viagem ainda recente que tinham feito; ao passo que os
cachorros da aldeia ainda se achavam gordos, pesados e
lentos.
— Por que é que você não deixou uma filha ir em
companhia de Milak? — perguntou Ivaloo, procurando
manter-se a par dos pensamentos de sua mãe, Asiak.
— Porque não é prudente viajar com os homens brancos.
Eles são perigosos e malucos. Uma mulher não poderá deter
Papik, mas ainda poderá deter você.
— Agora, alguém não conseguirá nunca um marido — gritou
Ivaloo, emburrada. — Milak era o único homem que jamais
desejou uma moça.
— Milak foi o único homem que viu você. Não se preocupe,
minha pequena. Os homens gostam de mulheres bonitas; e
assim que você se fizer um pouco mais forte, capaz de
carregar boa carga às costas, encontrará facilmente até
mesmo três maridos que se sentirão felizes por tomar você
por esposa.
— Você está certa disso?


— Muito certa. Você deve recordar-se de que uma jovem,
ainda muito jovem, vale tão pouco, que, na maior parte das
vezes, é matada; mas, pela mesma razão, vale muita coisa,
assim que se faz crescida, porque há muito poucas mulheres.
Somente quando uma mulher chega à minha idade é que
deixa de valer alguma coisa; é que volta a não valer nada.
Depois que Asiak e Ivaloo perderam de vista Papik, no
crepúsculo enevoado, voltaram para a casa de Siorakidsok,
onde encontraram Neghe e Torngek, que estavam
preparando o chá, antes de se retirarem.
O marido de Neghe, Argo, não sofreria escassez de
mulheres; todos os homens, que tinham as esposas em sua
companhia, teriam orgulho em emprestá-las a ele; nestas
condições, Neghe não se mostrava preocupada com o seu
próprio bem-estar. Torngek, porém, sua velha irmã gorda,
estava em prantos, porque os seus dois maridos eram sempre
tratados como enteados, e ela queria acompanhá-los.
Siorakidsok, todavia, gostava extremamente dela, e apreciava
muito o conforto que ela lhe proporcionava; e, por isto, não
se mostrou disposto a deixá-la partir.
— Uma velha mulher inútil e a sua filha ignorante vão
construir um iglu para seu próprio uso — comunicou Asiak.
— Ninguém poderá censurar você por desejar afastar-se de
um velho homem paralítico e suas ridículas netas — disse o
velho Siorakidsok, depois de perceber o fio da conversa
dela. — Entretanto, haverá uma tranqüilidade inusitada, por
aqui; não haverá, nesta casa, homem algum; somente um
punhado de mulheres tolas, bem como de crianças idiotas, é
que permanecerá na aldeia. No último verão, aconteceu que
um bando de bois almiscarados se arremeteu contra as
flechas de Argo, inútil genro-neto de alguém; a caça de focas
também foi boa; uma grande baleia foi arrastada à praia; e as
reservas de alimentos são abundantes. Você gostaria de nos
honrar, compartilhando de nossas desprezíveis provisões, e
abrilhantando a casa de um velho homem com a sua
presença?
Asiak se viu como que erguida no ar; e respondeu no devido
estilo:
— É, com efeito, grande honra a que você nos faz; mas não
será por acaso uma pena desperdiçar uma comida tão fina e
acomodações tão confortáveis com duas mulheres
amalucadas? Não, não. Estas duas mulheres devem construir
seu próprio iglu!
— Um velho homem se sente lisonjeado pelo fato de você
lhe aceitar a magra hospitalidade.
Todos beberam chá; envolveram-se em peles; e cada qual se
pôs de seu lado, para dormir.
Asiak, porém, logo acordou.
— Ivaloo, minha pequena — murmurou ela, sacudindo
delicadamente a filha — uma mãe sabe que você precisa de
orientação durante mais algum tempo; e sabe também que
você não deverá ser deixada sozinha. Mas ninguém terá
prazer em cuidar de uma velha mãe que já não tem valor
algum.
— Que é que você está procurando dizer? — indagou Ivaloo,
olhando para cima, através de uma cortina de sonolência.
— Para uma mulher que a vida toda teve o privilégio de
oferecer presentes aos outros, não é coisa digna aceitar
hospitalidade de pessoas estranhas.
Ivaloo ainda estava tonta de sono:
— Que é que você pretende fazer, mamãe?
— Partir, minha pequena. Mas nunca pense que uma mãe
esteja amando-a menos, somente porque vai retirar-se. Você
está em boas mãos, aqui; abrigada e alimentada.
Ivaloo ia acordando devagar.
— Para onde é que você quer ir, pequena mãe? — gritou ela,
alarmada, e atirando os braços ao redor do pescoço materno.
— Você não vai abandonar-me também, não é mesmo?
— Fique tranqüila, Ivaloo. Assim você acordará os outros.
Torne a adormecer. Você tem ar de estar muito cansada.
Uma mulher se juntará ao seu marido, na terra distante, para
onde todos os homens vão; e lá ela ficará à espera de você.
Ivaloo quis dizer mais palavras; mas a fadiga fez pressão
sobre suas pálpebras; ela deixou que sua mãe a envolvesse e
acomodasse melhor. Asiak farejou um pouco o rosto da
filha; depois, sem fazer barulho, deslizou para fora da casa.
O tempo tinha mudado para melhor; o céu apresentava-se
com uma cor pura e pálida de noite. Uma mulher chamou
por ela, quando se encaminhou em direção ao mar. Asiak
sorriu, como que distraída, fazendo uma saudação com a
cabeça. Os restos de morsas, narvais e de uma baleia branca
se espalhavam pela praia, ao lado de duas grandes umiaques
e de uma flotilha de caiaques, tudo cuidadosamente coberto
por peles; e longas fileiras de salmões estavam a secar nos
varais.
Asiak avançou para a faixa congelada do oceano, e caminhou
na direção da água.
Ela se interessou por dois meninos que estavam remando
com decisão os seus frágeis caiaques feitos de pele de foca e
de calhaus dados à praia, através dos córregos de água que
ficavam entre massas flutuantes de gelo; por vezes, os
meninos atiravam flechas contra mergulheiras e alças, aves
estas que, voando em formação cerrada, e estendendo-se em
filas infinitas, afloravam a água, à procura de peixes.
Os meninos apresentavam-se abotoados até ao pescoço,
metidos em jaquetas impermeáveis de tripa; as jaquetas, de
mangas bem apertadas à cintura e ao pescoço, e fixadas ao
redor da escotilha, transformavam-nos em parte integrante
dos respectivos caiaques; isto permitia que eles
emborcassem as suas embarcações e depois as endireitassem
de novo, sem receber nem deixar que a água entrasse a
bordo. Dando espetáculo de si, aos olhos de Asiak, os
meninos se
S
useram a imprimir solavancos rápidos, na água; a virar os
caiaques, e quilha para cima, pelo processo de deslocar o
peso do próprio corpo; e a emergir logo depois, do outro
lado, rindo para ela, com as faces engorduradas e a escorrer
água.
Asiak sorriu à memória de Ernenek; este, muitos e muitos
anos antes, tinha tentado fazer uso de um caiaque; mas
desprezou, com escárnio, o conselho sobre a maneira de
ligar a jaqueta à escotilha, de modo a tornar o todo
impenetrável à água; e, depois do segundo solavanco, o seu
caiaque ficou cheio de água — o mesmo acontecendo ao
próprio Ernenek. Mas a razão principal daquele naufrágio,
como se percebeu bem mais tarde, foi a de que, entre as
vintenas de amuletos variados que ele estava usando na
ocasião, em sua pessoa não havia um pé de mergulhão; e
somente o amuleto feito de pé de mergulhão pode
proporcionar a habilidade necessária para alguém lidar com
um caiaque. Felizmente, havia uma umiaque nas
vizinhanças; um dos baleeiros arpoou Ernenek exatamente a
tempo, de modo que ele foi salvo de afogamento; Ernenek
nada perdeu, a não ser a cara, e certa quantidade de sangue.
Foi salvo para o urso.
Ela ficou a olhar para os remadores de caiaques, até que eles,
remando vigorosamente, desapareceram de sua vista. Então
ela avançou para a beira da faixa de gelo, onde este se
apresentava acinzentado e quebradiço. Sob o peso de seu
corpo, um pedaço de gelo se quebrou, separando-se do
grosso da faixa; e deslizou para a correnteza. Asiak notou o
fato, sem precisar olhar para trás, porque o pedaço de gelo
foi girando devagar, de modo que ela não tardou a ficar de
face para a aldeia, vendo-se separada dela por um canal que
cada vez mais se ampliava. Ela puxou a jaqueta por cima do
peito, apertando-a bem — como se estivesse com frio.
Entretanto, não estava com medo. A morte não poderia ser
mais árdua do que a vida.
Duas mulheres a avistaram, enquanto Asiak flutuava em
cima do bloco de gelo.
— Asiak está indo a caminho da morte — disse uma delas à
outra.
— Estará ela procurando afogar-se, ou se trata de acidente?
— Quem sabe?
Contudo, nenhuma das duas mulheres fez movimento
algum, nem chamou ninguém para salvá-la. Sedna, a boa
Rainha do Mar, que proporcionava todos os bons peixes e
todas as boas focas, estava perfeitamente habilitada a, de vez
em quando, proceder à sua própria caça; tinha direito a isso;
e, se ela se visse roubada de sua caça, poderia vingar-se dos
intrusos; e a vingança consistiria em evitar que tais intrusos
e suas famílias conseguissem produtos procedentes do mar.
Asiak olhou para dentro da água que a circundava, e ficou
desejando saber como ela era. Seu corpo nunca tinha estado
em contato com a água do mar. A superfície reluzia sob o
céu cor de aço; e ela percebeu peixes flutuando e
arremetendo-se — arremetendo-se e flutuando, nas
profundidades escuras.
A boa água aquecida! Os bons peixes gordos!
Um cachorrinho, que Papik deixara atrás de si, tinha seguido
Asiak, sem que esta o notasse. Sua cauda felpuda se
encurvou para cima; sua fronte se franziu por cima dos seus
olhos oblíquos. O animalzinho olhava alternadamente, ora
para Asiak, ora para as águas que não lhe eram familiares; e
inclinava para um lado a cabeça peluda.
Asiak notou a presença do cachorrinho somente quando
pulou para dentro da água, voltando depois, à superfície,
ofegante. Suas roupas começaram a se tornar pesadas como
pedras; suas orelhas e narinas se encheram de água; e o
gosto, para ela estranho, do sal começou a apunhalar-lhe a
garganta. O cachorrinho mergulhou na água, atrás dela, e
debateu-se desesperadamente, nadando em sua direção;
aproximou-se de Asiak. Arranhou-lhe o rosto, com suas
unhas novas e não embotadas; e, por um instante, a mulher
agarrou o animal, instintivamente. Depois o soltou,
gorgolejando:
— Vá embora... vá embora...
O cachorrinho, porém, não sabia para onde ir, mesmo que
tivesse compreendido aquelas palavras.

CAPÍTULO X
A SEMENTE

Kohartok, o sacerdote branco, tinha um sino, que repicava
com toda a força, quando via, no seu livro, que era domingo.
Era ele a única pessoa que tinha ficado em terra firme,
depois que a escuridão e a geada haviam fechado a enseada.
Todas as demais pessoas tinham construído iglus por cima da
água congelada, porque a terra ficara excessivamente fria, e
seria preciso mais combustível, do que o disponível, para o
aquecimento das choupanas de pedra e de blocos de terra;
tinham, porém, construído suas novas moradias perto da
praia e da cabina de madeira onde Kohartok vivia.
Assim que os exploradores partiram, o sacerdote pregou, à
porta da sua moradia, uma tabuleta ostentando a palavra
"MISSÃO" — muito embora fosse ele o único que podia ler
aquilo. Os exploradores o haviam deixado ali, ao lado de
algumas de suas provisões que eram embaraçantes demais e
por isso não ofereciam conveniência quanto ao transporte;
deixaram, igualmente, várias caixas cheias de instrumentos e
de livros; estes continham as observações dos membros da
expedição; e deviam ser conduzidos de volta, pelo barco a
vapor. Os exploradores não se destinavam a regressar à
aldeia; deveriam despedir seus guias depois de atravessar a
enorme capa de gelo, além da qual se encontravam outros
homens brancos, juntamente com outros navios; e estes
navios é que os conduziriam de volta ao seu povo.
Kohartok possuía também um abastecimento apreciável, de
sua ropriedade; fora-lhe proporcionado por homens e
mulheres brancos, e boa vontade, lá adiante, muito longe,
abaixo do horizonte, do lar de onde o Sol vem, a fim de
ajudar a espalhar a semente em meio aos pagãos. O sacerdote
conseguira frenar e conter o seu zelo missionário enquanto
compartilhara a cabina com os outros homens brancos.
Quando eles partiram, entrou em ação; passou a realizar
sessões diárias, para as quais chamava toda a gente. Figuras
coloridas davam apoio e reforçavam-lhe as leituras, que
eram feitas com base numa versão simplificada da Santa
Escritura, preparada pela Missão que o amparava.
Sabendo que, para tornar cristãs as pessoas, era preciso,
primeiro, convencê-las de que eram pecadoras, empregou o
começo do inverno procurando instilar, em seus ouvintes, a
consciência do pecado e da fraqueza da natureza humana —
coisas estas de que aqueles nativos se afiguravam de todo
ignaros. Foi preciso, pois, que o sacerdote insistisse na
necessidade de que aquela gente fosse salva; até que, um dia,
aquela mesma gente começou a suspeitar de que estava
condenada.
Todavia, tendo em mente que os bons pregadores dão
frutos, mais do que flores, Kohartok concluía sempre as suas
sessões com oferecimentos de chá açucarado e doces
enlatados. Naterk, mulher já com idade suficiente para ser
sentada e abandonada no geío, servia de hospedeira; e
mantinha a casa em ordem para o sacerdote.
Com provisões em reserva bastante para uso prolongado, e
sem razão alguma para se preocupar — sem oportunidade
alguma para conversações, devido à ausência de homens —
qualquer diversão, para ele, constituía coisa rara, digna de
ser aproveitada; ninguém era capaz de faltar ainda que fosse
a uma única das sessões de Kohartok; eram sessões tão
interessantes quão aproveitáveis.
Entre o sacerdote e o xamã, chegou-se a um acordo de
cavalheiros. Siorakidsok podia continuar a curar doenças, à
sua maneira particular, bem como a exercer influência sobre
o tempo e a estação do ano apropriada para a caça, contanto
que não interferisse na atividade missionária de Kohartok. O
velho xamã chegou mesmo a declarar que daria apoio à nova
Fé, desde que o pregador conseguisse inculcar, no espírito
do seu rebanho, a convicção de que o abandono de homens
e de mulheres sem dentes, em plena vastidão de gelo,
constituía grave pecado. Kohartok não teve dificuldade algu-
ma em aceitar esta condição; por esta forma, ele convenceu
Siorakidsok de que a cristã era uma religião às direitas e, na
verdade, recomendável.
Rematado guloso que era, o velho xamã era sempre o
primeiro a chegar às sessões, carregado por suas netas,
Torngek e Neghe; quando as sessões se concluíam, elas o
despertavam; e, depois de haver colhido a derradeira
migalha, e de haver limpado a tigela de açúcar, ele se
demorava a conversar com o sacerdote branco sobre vários
assuntos que se aproximavam da profundidade.
Em algumas comunidades, os missionários superzelosos
entravam em choque com os xamãs locais. Kohartok,
porém, era suave como a Lua; e, de resto, Siorakidsok era
suficientemente astuto, de modo que deixava em paz os que
o deixassem em paz. Para ambos, era absolutamente a
mesma coisa, se um ferimento de corte fosse tratado com
iodo ou com excremento de coelho, visto que os dois
tratamentos acabam dando resultado. E, em presença de
complicações mais graves, os dois homens eram igualmente
impotentes. Assim, o barco branco da fé cristã navegava
suavemente pela pequena enseada, sem ser perturbado por
preocupações, nem por distrações.
No começo.

Uma mulher tinha aturdido um carcaju, com um lance feliz
de pedra, durante o ato de acasalamento a que ele se
entregava; amarrou as patas e as mandíbulas do animal, e
depois convocou a aldeia toda para um banquete. As
convidadas arrancaram as unhas do carcaju-fêmea, uma por
vez; puxaram-lhe a língua para fora; enfiaram agulhas de
costurar na bexiga do animal; depois, cortaram-lhe o ventre
grávido, de onde extraíram um filhote já formado; e
passaram a devorar o filhote, esquecendo-se da mãe.
Kohartok, atraído pelo clamor, ficou muito zangado.
Isto, porém, não foi nada, se comparado à zanga que ele
sentiu ao ter notícia de que uma mãe humana havia levado a
sua filhinha de nascimento mais recente ao cemitério,
deixando-a lá, inteiramente nua, para que se congelasse
rapidamente.
Não era fácil a tarefa de Kohartok. O vocabulário esquimó
parecia enriquecido de várias palavras para designar o diabo;
mas acusava a falta de uma palavra para designar Deus.
Nestas condições, a Missão teve de inventar um vocábulo
que, mais ou menos, significava Espírito Superior; e
Kohartok suou para explicar o conceito de Deus. Suas
dificuldades, entretanto, não se concluíram aí. Apesar de —
sob a promessa de cano duplo, constituída pelas
recompensas no Céu e pelos castigos no Inferno — os
esquimós poderem ser facilmente convertidos ao
cristianismo, havia muitas tradições que se encontravam
muito profundamente enraizadas. De um lado, quem eram
eles para duvidar de um membro da poderosa raça branca
que produzia facas de aço, fogões Primus, armas de fogo e
aguardente? De outro lado, as tradições não podiam ser
desfeitas da noite para o dia, ainda em se tratando de uma
noite tão longa como a noite ártica. Assim, a nova doutrina
tinha de compartilhar freqüentemente as honras, jun-
tamente com os antigos hábitos locais.
Desta maneira, os esquimós ficaram surpresos ao verificar
que Kohartok não comungava com eles em seu ódio ao
carcaju; que ele condenava a prática de se matar a criança
recém-nascida, se do sexo feminino, e também a pessoa
idosa, somente pela circunstância de a capacidade de
proporcionar alimento, por parte da região, era limitada; que
não via com bons olhos a nudez, pouco importando o calor
que fizesse; e que não aprovava o costume de se comer
demais quando a carne era abundante, apenas com o
propósito de compensar as fases renovadas de escassez de
alimentos.
O que, porém, provou especial alarme, desde o começo, foi
a atitude do sacerdote Dranco em relação ao sexo.
Depois da primeira distribuição de refrescos, que o sacerdote
fizera, em seguida à sua chegada, uma delegação de maridos
foi oferecer-lhe a melhor das esposas dos seus membros, a
fim de manifestar-lhe a sua gratidão. Por certo, um homem
que havia chegado de tão longe, sem dispor do conforto de
mulheres, deveria estar com ânimo para gozar uma pequena
risada com as esposas nativas. Afigurou-se, porém, aos
nativos, que, se jamais o pregador havia estado com
disposição para rir, ele devia rir sozinho; e isto porque, ao
tomar conhecimento do que lhe ofereciam, Kohartok se
exasperou, ficando com as faces vermelhas e expulsando de
sua casa, indignado, a delegação de maridos, em meio à
tumultuaria hilaridade dos exploradores. O incidente
proporcionou motivo bem apropriado para a sua campanha
contra o adultério, contra a promiscuidade, contra a troca de
esposas, e também contra outras formas de pecado que as
atividades dos aldeões costumavam adquirir.
Até àquele momento, os esquimós tinham sido ensinados a
considerar como sendo pecado: a matança de um caribu
branco; o fato de as mulheres caçarem focas e baleias; o ato
de elas costurarem fora da estação do ano apropriado para
isso, e outros fatos incontáveis. Nenhum de tais atos,
entretanto, se relacionava com o sexo; e os novos tabus,
introduzidos pelo sacerdote branco, contrariavam alguns dos
mais enraizados hábitos esquimós; além disto, foi aquela a
primeira vez que o pensamento relacionado com os
referidos novos tabus passou a ocupar e preocupar o espírito
dos nativos.
O objeto favorito da fúria de Kohartok era Torngek. Embora
informada quanto à pecaminosidade da bigamia, ela não
prometeu, de forma alguma, largar de um dos seus dois
maridos e casar-se devidamente com o outro, quando eles
voltassem da expedição. As mulheres, alegava ela, eram
escassas; ela gostava dos seus dois esposos; e os dois
precisavam dela. Conseqüentemente, ela, Torngek, não se
encontrava em condições corretas para ser batizada.
Sua irmã Neghe, entretanto, recebeu muito bem a idéia da
monogamia; a monogamia garantiria, para ela, e somente
para ela, a totalidade das atenções de Argo.
Kohartok era homem consciencioso; punha em prática
muita cautela, em questões de batismo; sabia que muitos
esquimós aceitavam a nova Fé como sendo apenas uma nova
moda — ou, então, para serem gentis para com um
estrangeiro amigo; e sabia, igualmente, que, em algumas
comunidades mais progredidas, os nativos aceitavam a nova
Fé tão-somente porque esperavam que ela lhes propor-
cionasse preços melhores no posto de comércio — e era isso
que, de fato, com freqüência, acontecia.
O sacerdote efetuara apenas um batismo, antes da partida, da
expedição: o de Alinaluk, uma velha mulher — e isto,
principalmente, porque ela se encontrava na hora da morte.
A mulher morreu de gangrena, a despeito dos exorcismos de
Siorakidsok e dos tratamentos com dejeções. No inverno,
Kohartok batizou a primeira fantasia de Papik, a menina
Vivi, bem como a mãe dela, Padlock; depois, foi a vez de
outras mulheres e outras crianças, inclusive a governanta de
sua casa, Naterk; a respeito desta, ele não tinha segurança
alguma, exceto quanto ao fato de ela se encontrar fora do
escopo da atividade sexual, devido à idade já bem avançada;
foi, portanto, a vez de toda a gente, menos de Torngek e
Siorakidsok.
Siorakidsok pedira para ser convertido; mas isto,
declaradamente, apenas a título de amizade para com
Kohartok — coisa que, para o sacerdote, não constituía
razão bastante, nem satisfatória; e o xamã recebeu esta
informação — que lhe foi gritada aos ouvidos — com alívio
não disfarçado.
As crianças de colo podiam ser batizadas sem hesitação; e
quando, na escuridão da noite, uma menina nasceu de
Neghe, tornou-se a primeira criança cristã da comunidade.
Na escolha do nome da pequerrucha, o costume nativo foi
observado: deu-se-lhe o nome de uma pessoa já falecida.
Como o nome de Asiak já havia sido dado a uma adorável
cachorrinha, que poderia conservar a recém-nascida
aquecida e aconchegada, a pequena foi batizada com o nome
de Ernenek; e Ivaloo sentiu-se feliz por ver que o nome de
seu pai deixara, afinal, de vagar, solitário, pelas noites frias,
uma vez que encontrara um corpo para nele se abrigar.
A água foi borrifada; o sal foi espargido; os sermões foram
proferidos; as preces foram oferecidas; os hinos foram
cantados; e a aldeia toda recebeu chá e bolos.
Outras crianças nasceram, depois do nascimento da filhinha
de Neghe. Antes de partir, os homens haviam plantado suas
sementes na boa terra representada pelo ventre da mulher;
e, durante sua ausência, as sementes brotaram, cresceram,
deram fruto. Torngek, a última das mães em perspectiva, foi
finalmente aliviada de dois gêmeos; e então a aldeia inteira
riu a valer, dizendo que ela ganhara gêmeos porque tinha
dois maridos. Kohartok não viu com bons olhos a piada; mas
se mostrou radiante, na hora do batismo, porque assim
conseguiu salvar mais duas almas, de uma só vez, do fogo
eterno.
Nenhum bebê novo poderia ser esperado durante um longo
tempo.

Entre os rostos achatados, de boca larga e olhos
amendoados, que se alinhavam ao longo dos bancos de
madeira, para receber, com reverência, o Bom Verbo,
Kohartok notou um, acima de todos os outros. Era o rosto
atento, como que extasiado, de uma mocinha; ela estava
sentada, com as pernas espalhadas; usava botas de pele
anelada de foca; e as botas subiam-lhe até às virilhas.
Nada havia de decadente em sua maneira de vestir. Ao lado
de Vivi, que era alta é esbelta, que parecia ser sua coetânea,
e em cuia companhia parecia estar, a mocinha tinha aspecto
gorducho, metida em suas vestimentas feitas de pele de urso
novo; estas vestimentas se afiguravam extremamente
rústicas, se comparadas às feitas de peles de caribu, ou de
raposa branca e prateada, cuidadosamente padronadas e
debruadas de arminho e pequenas conchas do mar, usadas
elas outras mulheres. Contudo, a mocinha era erecta, bem
construí-a; o ato de carregar criança ainda não lhe havia
alargado os ombros. E, enquanto as outras mulheres usavam
o cabelo alisado no topo da cabeça, repartido no meio, em
duas longas tranças, aquela mocinha usava o cabelo reunido
num monte, bem alto, no cocuruto da cabeça, sendo tudo ali
fixado por meio de espinhas de peixe; isto formava um nó,
semelhante a torre, que oscilava quando ela andava, à
maneira das mulheres polares. A cor negra azulada do cabelo
e as pupilas negras dos seus olhos tornavam ainda mais
conspícua a cor clara da sua compleição de marfim velho,
bem como acentuava ainda mais a cor de marfim novo dos
seus dentes.
Ela deveria sorrir com mais freqüência.
A certa altura, depois que todas as outras mulheres se
retiraram, Kohartok sentou-se num banco, em companhia
dela, e tomou-lhe as mãos nas suas. Os olhos da mocinha
arregalaram-se àquele contato. As mãos dos homens brancos
eram, para ela, desproporcionadamente grandes; mas aquela
era a primeira vez que entrava em contato com a mão de
gente branca; e ficou surpresa por encontrá-la muito flexível
e fraca — tão macia como a mão de um recém-nascido.
Eram mãos que nunca tinham agarrado uma lança, nem
brandido um chicote.
— Qual é o seu nome, irmã? — perguntou ele, cordial.
— Ivaloo.
— Que lindo nome... é o nome da primeira mulher que
Deus fez com a costela do primeiro homem!
— É mesmo. E alguém se sente muito feliz por ouvir isso!
— Você tem estado a ouvir todas as lições tão atentamente
como a primeira delas, irmã?
Ivaloo fez sinal afirmativo com a cabeça; um sinal enérgico,
vivaz.
— Você está consciente do fato de que a sua alma viverá para
sempre, daqui por diante, por todo o tempo futuro?
— Uma mocinha sempre esteve perfeitamente cônscia disso,
Kohartok, porque a mãe dela costumava dizer-lhe que assim
era.
— E você está pronta para ser salva?
— Salva do quê? Ninguém deseja fazer mal algum contra
alguém. Toda a gente é muito bondosa para com uma
mocinha.
— Salva de você mesma! É dentro de você que o verdadeiro
perigo se encontra oculto.
— Que é que você quer significar, Kohartok? Alguém é
apenas uma mocinha estúpida.
— Deus ama os espíritos simples, Iváloo. Lembre-se:
"Abençoados são os puros de coração, porque eles verão
Deus."
— Será que alguém vai realmente ver Deus?
— Naturalmente que verá... se você estiver pronta a
entregar sua vida a Ele. Você está pronta, Ivaloo?
— Pois então não estão todas as vidas nas mãos Dele?
— Em verdade, estão, sim! Mas você está disposta a abrir o
seu coração a Ele?
— Pois então Ele não pode espiar até nos nossos recantos
mais escuros?
— Você está pronta ou não — gritou Kohartok, com um
toque de impaciência — para fazer as pazes com o nosso
Criador?
Ivaloo ruborizou; e seus olhos se abaixaram.
— Será que estivemos brigando?
Kohartok, que era de fato homem de fé, sabia como fazer
discriminação entre ovelhas e cabras; assim, reconheceu
aquilo que rutilava nas profundezas do coração de Ivaloo,
iluminando-lhe o semblante, como sendo fé verdadeira; e
não havia dúvida alguma a tal respeito.
E existiam muitas outras crentes verdadeiras, ali, além de
Ivaloo.
Seria aquele gênero inusitado de vida, destituído de
elementos masculinos, que tornava as mulheres
particularmente sensíveis e receptivas em relação à
Semente? Fosse como fosse, a Semente estava dando frutos.
E as mulheres rezavam e acreditavam no candor das
crianças, bem como no fervor das noviças.
As mulheres adoravam o seu pregador. Kohartok era
homem delicado, sempre atarefado na realização de boas
ações. Quando a sua velha Naterk caiu enferma, com dores
no abdômen, ele cuidou dela mais do que teria cuidado de si
mesmo, recuando apenas de leve em presença dos piolhos
que abundavam nos cabelos ralos da velha, e em presença
das suas vestes ensebadas; ao mesmo tempo, ficava a pensar
em quem tomaria o lugar que ficaria vago com a morte da
sua governanta.
Kohartok consultou Siorakidsok.
Siorakidsok apresentou duas sugestões. A primeiras delas:
embora fosse apropriado amparar os homens velhos, e
particularmente os xamãs inutilizados, o ato de fazer o
mesmo com uma velha megera equivaleria a levar as coisas
longe demais; assim, a melhor coisa a fazer seria despir a
velha Naterk de todas as suas roupas, encher-lhe a boca
desdentada com neve, e expor-lhe o corpo nu, em plena
noite, para o seu sono final. Por esta forma, pôr-se-ia a pobre
anciã fora dos sofrimentos, poupando-se, ao mesmo tempo,
à comunidade, considerável incômodo. A segunda: confiar a
Ivaloo os deveres domésticos até ali confiados a Naterk.
Ivaloo era moça robusta, expedita, cheia de iniciativa,
desejosa de realizar coisas; seria capaz de trabalhar três vezes
mais do que Naterk jamais pudesse haver trabalhado.
Kohartok descartou desde logo a primeira sugestão — tão
prontamente como aceitou a segunda. Ivaloo sentiu-se
superlativamente alegre. Não somente era, para ela, uma
honra servir um homem branco, mas também o fato de que
poderia prestar-lhe assistência, em suas atividades
missionárias, fez com que seu coração transbordasse de
felicidade. Aquilo também estabeleceu sua autoridade nos
círculos das mulheres nativas, embora ela não tivesse
propriamente consciência desta circunstância. Ser objeto de
confiança, a ponto de lhe ser dada a guarda da chave da
despensa da Missão, constituía algo que ficava além do
sonho de qualquer mulher esquimó. De qualquer mulher,
menos, infelizmente, de Ivaloo, que ainda não tinha
desenvolvido o gosto para com as coisas doces.
Na medida em que os sofrimentos da velha Naterk foram
aumentando, o pregador foi dizendo, repetidamente, a
Siorakidsok:
— Talvez você possa fazer alguma coisa, para lhe aliviar os
padecimentos.
— Que é que um impotente xamã pode fazer? Sem dúvida,
porém, um homem branco deve saber como se expulsam os
maus espíritos que entraram no corpo dela.
— Eu talvez possa expulsar o diabo do coração dela, mas não
as dores do corpo — declarou Kohartok, com franqueza. —
Os seus remédios, entretanto, dão, por vezes, resultados
surpreendentes.
Siorakidsok pigarreou e virou o rosto de um lado para outro,
durante longos momentos, procurando diminuir a grandeza
das suas habilidades, antes de se declarar pronto a tentar.
— Todavia, para saber exatamente o tratamento de que a
velha megera precisa, um xamã se vê obrigado; "primeiro, a
consultar o Espírito da Lua.
— Faça o que quiser, contanto que consiga ajudá-la.
Siorakidsok pediu para ser levado às colinas; dali, ele partiria
para uma das arriscadas viagens à Lua; era viagem que todos
os xamãs empreendiam, quando as circunstâncias lhes
ditavam essa necessidade. Visto, porém, que o Espírito da
Lua, de temperamento terrível, tem a probabilidade de ser
difícil de lidar, por aqueles que lhe vão solicitar favores,
Siorakidsok se recusou a partir sem levar consigo uma
determinada carga feita de comidas fantasiosas, carga esta
destinada a ser dada de presente ao mencionado espírito.
Uma pequena casa de neve, cheia de peles, foi erigida num
lugar afastado e meio oculto: uma confortável casa de neve
constituía indispensável ponto de partida para uma jornada à
Lua. E Siorakidsok foi deixado ali, sozinho, com baldes
cheios de iguarias tais como carne de baleia cozida e pele de
morsas, intestinos crus de peixes, mais uma mistura adoçada
de salmão mastigado, ovos de sável e óleo de foca; e
ninguém teve permissão para se aproximar do lugar enquan-
to o xamã se encontrava em viagem; quem se aproximasse
incorreria na penalidade de morte horrível e imediata.
Três sonos dormidos, depois disto, a aldeia, inclusive
Kohartok, foi buscar o xamã de volta. O xamã foi
encontrado cochilando, sem dúvida exausto devido à
perigosa viagem empreendida. Os baldes de alimento
estavam vazios — o que constituía bom sinal.
Siorakidsok ficara sabendo, por comunicação direta do
Espírito da Lua, que o demônio que causava a doença de
Naterk estava escondido no seio direito da velha; e, nesse
seio, ele fez uma incisão. Como, entretanto, ela não
melhorou, a despeito deste tratamento, Siorakidsok abriu um
orifício no ventre da mulher, a fim de proporcionar uma
abertura por onde a dor pudesse escapar; a seguir, matou
uma ninhada de pequenos roedores chamados lemingues; e
aplicou as peles quentes dos animais ao ferimento que abrira.
Naterk foi a segunda moradora da aldeia a ser enterrada no
cemitério cristão, pouco tempo depois disto; e tudo
decorreu com impressionante cerimônia, seguida de sonoro
sermão.
Ivaloo passou a fazer o trabalho doméstico de Naterk; e fê-lo
tão bem, que Kohartok se pôs a meditar sobre como lhe fora
possível ter vivido até ali, naquela aldeia, sem o seu serviço.
Ela gostava dos deveres que lhe eram atribuídos; mas sofria
devido ao calor excessivo da casa feita de madeira, que,
ademais, era aquecida por um fogão a carvão; e ela sofria
mais, de calor, em seus períodos de repouso do que quando
andava de um lado para outro, com o espírito posto na
perfeição de cada tarefa realizada. Ivaloo dormia numa
dependência ao lado da casa principal, no mesmo quarto que
Naterk tinha ocupado; e isto lhe parecia um lugar muito
luxuoso, embora não fosse nada mais do que um cubículo,
separado do salão principal, onde o pregador dormia ao lado
do seu fogareiro. O sacerdote fugia do frio como do diabo;
não permitia nunca que as janelas fossem abertas; e, quando,
ao levantar-se da cama, punha o balde de água em cima do
fogo, para derreter-lhe o gelo, Ivaloo via-o a tremer todo.
Kohartok era atencioso para com Ivaloo. Os exploradores
lhe haviam deixado umas poucas garrafas de aguardente, que
ele conservava para serem utilizadas em caso de doença
súbita; quando via que a moça esquimó chorava, por sentir-
se sozinha, fazia com que ela bebesse um pouco, de mistura
com a neve — depois de ele mesmo tomar também o seu
gole, a fim de lhe mostrar que aquilo não causava mal algum.
Ivaloo podia cair no sono meio gelada, e gostar disso; mas
não conseguia nunca aprender a dormir quando o calor era
muito; assim, quando ia dormir, costumava tirar toda a
roupa. Ao ser perguntado sobre se isto constituía pecado, o
atarantado sacerdote respondeu: "Não". Não era pecado
dormir sem roupas — quando a gente se encontrasse só, e
em total escuridão. Entretanto, o ato de se andar pela casa,
com o corpo nu, em pleno dia, era coisa que devia ser
evitada. Assim, deitada no escuro, no quarto quente, Ivaloo
experimentou, pela primeira vez, a sensação da sua própria
carne; as pequenas palmas de suas mãos, avançando,
cautelosas, pelo território antes inexplorado do seu próprio
corpo, ficaram impressionadas com a suavidade da pele que
se estendia por toda a sua pessoa.
Depois de explorar o próprio corpo, ela, por vezes, se
aventurava a pensar um pouco no futuro; porém, incapaz de
romper o véu que o ocultava, voltava a pensar no passado
que se encontrava ainda claro em sua memória. O passado
fora uma fase alegre, estimulante, que agora se embelezava
através do tempo transcorrido. Fora uma fase tão linda, que
agora lhe estofava o coração de tristeza, e lhe enchia os
olhos de lágrimas. Como ela tinha saudades da trilha dos
ursos, bem como da longa permanência, encurvada, por
cima dos buracos de peixes! Como se recordava das corridas
por cima dos campos marítimos varridos pelo vento, e da
apressada construção de abrigos, quando a saraivada
começava a ulular! Como se sentia sozinha, sonhando com a
estranha atmosfera dos iglus, com o aroma vitalizante do
óleo de baleia a queimar-se, com o cheiro doce das carnes
que se deterioravam na neve! Como se recordava do fulgor
crepuscular da parede circular do iglu, do barulho que Asiak
fazia quando raspava peles e costurava vestimentas, das
observações tranqüilas que a mãe formulava — e do ronco
que Ernenek roncava, quando dormia, bem como de suas
risadas, quando estava acordado!
Pensando no paraíso perdido, ela se enchia de tamanha
tristeza, que acabava procurando conforto no paraíso que
deveria vir; e então falava com Deus, a este respeito. E,
enquanto falava com Deus, tinha a sensação de que Ele lhe
prestava ouvidos muito atentos. Ela, porém, não tinha prova
nenhuma disto. Mas isto decorria de sua própria culpa — ao
que lhe dizia Kohartok. De noite, o barulho da respiração do
sacerdote lhe chegava aos ouvidos, procedendo da sala
contígua; era uma respiração profunda, regular, que provava
que o pregador não se sentia perturbado por pensamentos
nem por dúvidas semelhantes aos dela.
— Será que Deus um dia virá ver esta moça estúpida? —
indagou ela, de uma feita, a Kohartok.
— Ele a visitará, se você tiver fé bastante. Continue rezando
e acreditando. Ou será que você já se esqueceu do que diz o
Bom Livro? "E todas as coisas, sejam lá quais forem, que
você pedir em suas preces, acreditando, você receberá".
— Mas como é que uma moça pode saber quando Ele vem?
— Você o saberá quando Ele chegar. Enquanto você não
tiver a certeza, é porque Ele ainda não veio.
Logo, era óbvio que Deus ainda não tinha chegado a Ivaloo;
e ela ficou preocupada com isso. O fato fazia com que ficasse
acordada muito tempo, com muita freqüência. Pedia para
que Deus se manifestasse ao seu espírito. Talvez mesmo em
algum dos seus sonhos. Ou, então, que lhe tocasse numa das
mãos. Apenas uma vez. Ela se daria por muito contente com
isso.
Ivaloo visualizava Deus sob forma humana, uma vez que Ele
havia feito o homem à Sua imagem; contudo, possuía senso
bastante para perceber que Ele não se encontrava à
disposição imediata de qualquer mocinna que desejasse vê-
Lo; estava convencida de que Deus andava muito ocupado,
sem dúvida por causa dos pecadores que deveriam ser muito
maiores do que ela era.
Nestas condições, Ivaloo armava-se de paciência, rezava; e
esperava que, um dia, ou uma noite, Deus encontrasse
tempo para ela.
Ocasionalmente, Ivaloo pensava perceber uma Voz, em
meio aos vendavais; presumia perceber a existência de um
Dedo, na corrente de ar que passava pelos seus ombros,
quando se encontrava deitada, inteiramente nua, na
escuridão. Os sinais, porém, não eram suficientemente
positivos; logo, aquilo não podia ser manifestação de Deus. E
ela tinha razão.
Porque, quando Ele finalmente se dirigiu a ela, nenhuma
dúvida restou a ninguém.

CAPÍTULO XI
O FRUTO

Foi Torngek, a quem se reconhecia considerável
experiência, devido ao seu censurável estado de bigamia, a
primeira criatura que se arriscou a comprometer-se com a
declaração decisiva, a respeito das condições em que Ivaloo
se encontrava. Isso não se devia, como a mocinha ignorante
estava pensando, a coisa nenhuma que ela houvesse comido,
muito embora o seu apetite, nos últimos tempos, tivesse
aumentado notavelmente.
A verdadeira razão do aumento da corpulência de Ivaloo era
a gravidez.
E a sua gravidez constituía um milagre, tudo era bem
evidente, devido ao crescimento que se ia formando nas
planícies alvas do seu ventre; e todas as mulheres da aldeia
se reuniam para ver, com seus próprios olhos, bem como
para tocar naquilo com suas próprias mãos.
As estrelas tinham empalidecido; uma luminosidade cor de
púrpura rodeava o horizonte — e meio ano se passou, desde
quando a expedição partira, levando todos os homens
capazes de semelhante feito. O menino mais velho da aldeia
contava cerca de oito anos; depois dele, vinha Siorakidsok; e
de que ele se encontrava fora de competição havia boas
provas, recolhidas e confirmadas pelas mulheres, desde um
tempo muito mais longo do que aquele de que conseguia
lembrar-se. Nem procurava mais lembrar. Somente
Kohartok se achava na idade da masculinidade; mas, sendo
pregador, estava, naturalmente, excluído de semelhantes
atividades.
Ademais, Ivaloo teria sabido, se houvesse estado a rir com
algum homem; e nenhuma jovem jamais fora mais positiva
do que ela, ao declarar que se mantivera séria.
Ivaloo ficou a meditar sobre se o simples fato de pensar em
homens, ou de ser contemplada pela maneira pela qual
Milak a contemplava, seria suficiente para pôr uma jovem
naquelas condições, mas as mulheres de maior experiência
punham definitivamente de lado esta hipótese.
— Entretanto — disse Torngek — a lua cheia pode tornar
grávida qualquer moça.
— É verdade — confirmou Neghe. — Vocês nunca
estiveram ao ar livre, olhando para a lua cheia? Ou, então,
nunca beberam água quando a lua cheia estivesse brilhando?
— Não, nuncal Mamãe nunca me permitiu isso. Ela disse que
somente as mulheres casadas podiam contemplar a lua cheia,
ao ar livre.
— Nesse caso, esse só pode ser filho de Deus — disse a mãe
de Vivi, que se chamava Padlock; e disse-o como quem
encerra o assunto; ela era muito religiosa; recusara-se a
acompanhar o marido na expedição, a fim de não faltar aos
serviços religiosos dos domingos.
— Deve ser — murmurou Torngek, batendo palmas e
sorrindo, extasiada.
— Ivaloo tinha, no semblante, uma expressão de beatitude,
de tranqüila felicidade, que não era deste mundo.
— Alguém pensa que sabe quando isto aconteceu — disse
ela:
E, embora falasse apenas com um fio de voz, o círculo
fascinado das mulheres que a ouviam não perdeu sequer
uma palavra.
— Uma moça estava muito triste, certa vez, enquanto se
preparava para ir à cama, a fim de dormir; sentia-se mais
solitária do que nunca, com saudade de todos os que haviam
partido. O sacerdote, vendo-me chorar, leu a sentença que
está escrita no Bom Livro, e que diz: "Abençoados são os
que lamentam, porque eles serão confortados". E deu, a
alguém, um pouco da sua preciosa aguardente, que, como a
prece, é um remédio poderoso, e também fonte infalível de
conforto. Na cama, porém, uma moça muito moça se sentiu
mais solitária do que nunca, mas bastante aquecida, devido à
aguardente; e então chorou muito alto; até que a fraqueza e a
tontura se manifestaram, devido às muitas lágrimas. Foi
então que ela recebeu a visita.
— Quem era? — perguntaram em coro as mulheres, pois
Ivaloo parara de falar, ficando como que arecordar-se,
extasiada.
— Durante um tempo muito longo, alguém estivera
implorando a Deus para que Ele a visitasse; e para que a
visitasse durante o seu repouso. E, daquela vez, Ele
finalmente lhe viera.
— Você O viu, de fato?
— Não com os meus olhos, porque estava escuro. Mas
alguém O sentiu.
— Você tocou Nele?
— Não. Ele tocou em alguém. De súbito, mãos grandes,
macias, lhe enxugaram as lágrimas; deslizaram-lhe por cima
do corpo; e ela se sentiu com vontade de chorar ainda mais,
não de medo, e sim por causa do grande calor, e da infinita
ternura que se apoderaram dela; como se todas as coisas e
pessoas que ela amava se encontrassem naquelas mãos.
— Mas aquilo era real, ou você estava sonhando? —
perguntou Neghe.
— Alguém não sabe. Ao tempo em que pensou que se
tratava apenas de sonho, alguém se sentiu satisfeita pelo fato
de. Deus finalmente se manifestar. Agora, porém, uma moça
pensa que se tratava de algo real; e tudo apenas deu a
impressão de ser sonho porque ela estava tonta, devido a ter
chorado em excesso, e muito animada em conseqüência de
haver tomado muita aguardente. A cabeça de alguém estava
doendo um pouco, quando acordou; e o mesmo lhe
aconteceu às virilhas.
— Oh, Ivalo, minha pequena — disse Padlock, com ternura
e com expressão de êxtase no rosto — esta é, com efeito,
uma grande hora. Vamos contar o caso a Kohartok!
E elas correram para fora, incorporadas, rumo à Missão.
O pregador, porém, não recebeu a boa notícia com o
entusiasmo que as mulheres haviam antecipado. Ele se
afigurou realmente impressionado, efetivamente
emocionado, porque ficou pálido, e também porque os seus
olhos azuis piscaram como os de uma ptármiga atingida por
algum mal; mas a sua fisionomia não acusou sinal nenhum
de êxtase; nem ele emitiu grito algum de alegria
irreprimível, da garganta para fora; nenhuma expressão de
agradecimento se evolou para os Céus, partindo das
profundidades do seu coração; nenhum sermão, nenhum
hino, nenhuma prece, nada fez para glorificar a miraculosa
anunciação. Kohartok apenas ficou ali, imóvel, como que
atingido por um raio, enraizado no chão.
— Acontece que você estava certo — disse-lhe Ivaloo,
inclinando a cabeça, em sinal de humildade. — A fé de uma
moça originou seu fruto.
Por esta forma, as torrentes roqueiras de dúvida e de tristeza,
que tinham tumultuado Ivaloo, cessaram, transformando-se
num lago profundo e tranqüilo. Os olhos vivazes da moça se
fizeram lentos e serenos; e uma sensação de doçura e
contentamento envolveu-a de calor profundo e fulgurante
— um calor que já não a conservava acordada, mas, ao
contrário, lhe proporcionava bálsamo e relaxamento às
cordas mais íntimas do ser.
Ela começou a ansiar por solidão, ao passo que o seu corpo e
a sua alma pareciam convergir para o volume que ia
aumentando e originando-se da escuridão; esse volume
acabou sendo o centro, o começo e o fim do seu universo.
Despia tudo o mais de importância. A morte de seus pais
tinha perdido a pungência. O regresso de Papik e de Milak já
não era mais acontecimento urgente. Fosse inverno ou
verão, estivesse ela no norte ou no sul, surgisse a foca à
superfície, ou tivesse cria a fêmea do boi almiscarado — que
importava isso? Tudo o que importava era a nova vida que se
agitava e esperneava, com tamanha energia, dentro do seu
corpo; com tamanha energia que, por vezes, as mulheres
admitiam que podiam ver-lhe o ventre mover-se; e Ivaloo se
via obrigada a contê-la, para que aquela vida se aquietasse; e
continha-a com ambas as mãos, em meio a diversão geral
das mulheres circunstantes.
Kohartok chamou Tippo, uma mulher muito mais idosa,
para a sua casa, a fim de ajudar nos afazeres domésticos; e
fez isso com o fundamento de que Ivaloo precisava poupar
as próprias forças, uma vez que estava com bebê para nascer
— ainda que a moça não considerasse que os seus trabalhos
constituíssem esforço, ou incômodo. Tippo mostrou-se feliz
por assumir as novas funções; e Ivaloo não se aborreceu
muito por ter de dividir com ela o seu cubículo. Na verdade,
não se preocupava com coisa nenhuma.
Kohartok deu sinais, lentos, porém, inequívocos, seguros, de
ser afetado pelo acontecimento. Rugas, que cada vez mais se
aprofundavam, apareceram em sua fronte. Ele passou a
parecer cansado, e, não obstante, inquieto; e também um
pouco mais envelhecido. Seus sermões se tornaram mais
graves; as preces, mais longas; a sua assistência aos anciãos e
aos doentes, mais extensa.
Uma seriedade profunda, uma paixão arrebatadora
perpassavam pelo rebanho inteiro. Com o seu pastor na
chefia, todas as ovelhas mergulhavam em atos de auto-
acusação. Até mesmo Ivaloo, que não queria que ninguém
se adiantasse a ela, reconhecia, com satisfação, que se
encontrava na condição de espantosa pecadora. Ainda assim,
todas olhavam para ela com inveja e admiração. Sem ser
doce, sua voz, ao cantar, se fazia clara e ressonante,
erguendo-se bem alto, por cima das vozes do coro, na
execução dos belos hinos cristãos que tinham suplantado as
desprezíveis baladas nativas.
"Falso e cheio de pecado eu sou" — ia dizendo a voz
lamentosa, bem grave, de Kohartok; e a congregação ecoava,
feliz numa variedade de tons:
"Falso e cheio de pecado eu sou"...
O tempo fez uma montanha, daquele volume que ia
crescendo no ventre da moça. A primavera chegou; e,
devido à contínua luz do dia, a pouca neve se derretia.
Assim, a vegetação anã, ou tornada anã, irrompia sem perda
de tempo. Em umas poucas semanas, a terra morena,
enriquecida pelo esterco de milhões de pássaros, se cobriu
toda de papoulas amarelas, de saxífragas multicoloridas, de
salgueiros árticos, de frágeis vidoeiros que se curvavam
inteiramente até ao chão; ao mesmo tempo, os niviarsiak,
vermelhos e cor de malva, se apegavam às rochas; e
delicadas samambaias atapetavam as úmidas ravinas. Mais
uma vez, os enormes icebergs, desprendidos das geleiras,
deslizaram à toa rumo ao sul, ao sabor da corrente; os rápi-
dos caiaques cortaram camadas superficiais de gelo na água,
fulgurando de luz do sol por entre as banquisas; as mulheres
cavavam armadilhas e alçapões; os meninos pescavam,
andavam à cata de ninhos de mergulheiras pelos rochedos, e
punham-lhes os ovos irregularmente manchados para se
apodrecerem ao sol; ou, então, apanhavam as ptármigas, de
passo lento e difícil, com suas próprias mãos nuas, ao passo
que as meninas colhiam os muitos frutos em baga que
cresciam nas matas; todos os frutos eram muito saborosos
quando misturados com óleo; e tornava-se fácil preservá-los
para a fase do inverno, quando congelados em graxa de óleo
de baleia.
As focas e as morsas, os narvais e as baleias brancas
flutuavam no oceano líquido; e, se houvesse alguém
disponível, para tripular as umiaques, haveria orgias de
sangue fresco, de mexilhões e de ostras, a sair dos estômagos
desse animais; e haveria também mattak retirado de suas
peles. Entretanto, mulher nenhuma podia arpoar uma foca,
nem uma Daleia, sob pena de todo o reino das focas e das
baleias se sentirem mortalmente ofendidas por semelhante
insulto, e, assim, se decidirem a retirar-se para o fundo do
oceano, para nunca mais permitir que os seres humanos as
caçassem. E os meninos eram pequenos demais, ainda, para
pegar qualquer coisa que não fosse excessivamente pequena;
quando muito, poderiam apanhar um filhote ocasional de
foca, que ainda não houvesse aprendido a nadar; um filhote
sem sangue, de pele branca e de estômago vazio.
No rigor do verão, um barco, lançando um rolo de fumaça,
navegou, a vapor, para dentro da pequena enseada.
Aquele foi um grande dia. Novos rostos, novas vozes, novos
alimentos. Além disto, os marinheiros brancos para lá
levaram boas notícias; uma delas era a de que a expedição
tinha chegado ao seu destino — o que significava que todos
os homens estariam de volta aos seus lares.
Aquele barco não transportava mercadorias regulares; mas
lodos os homens, do capitão ao foguista, eram negociantes
amadores, ansiosos por fazer negócios. Tinham levado para
ali espelhos, tesouras, miçangas, garrafas, facas, fitas —
sendo que todas estas mercadorias eles trocavam por óleo e
peles. Os marinheiros eram homenzarrões: todos muito
grandes, grosseiros, hirsutos, que sorriam muito pouco, mas
faziam uma barulheira enorme. Eles organizaram danças
amalucadas, ao som de suas caixas de música; e, depois de
beber muita aguardente, comportavam-se como dementes,
tornando-se descontroladamente gritadores, ofensivamente
rudes; além do mais, punham-se a perseguir as mulheres, até
mesmo as desdentadas, como se nunca tivessem ouvido falar
de pecado, nem de bancos de fogo, no Inferno. Alguns
marinheiros se tornavam tão desordeiros, tão
incomodativos, depois de se entregar a excessos de bebida,
que os seus próprios companheiros tinham de arrastá-los, de
costas ao chão, para o barco — e não sem dificuldade, nem
sem brigas. Os nativos não tinham visto nunca tamanha
rudeza, nem tamanha violência.
Contudo, poucas, dentre as mulheres nativas, teriam gostado
de deixar de tomar parte em qualquer daquelas
demonstrações arruaceiras — seja por causa da própria
esquisitice do que acontecia, seja devido à mudança que
introduzia na monótona vida local.
O pregador olhava para aquilo com o cenho franzido; mas
não dizia nada. Não disse nada nem mesmo quando, pela
primeira vez, viu espaços vazios nos bancos de sua capela; e
havia mulheres, ali, naqueles bancos, que já não podiam
mais olhar diretamente para os seus olhos, depois de terem
dado um passeio, pelos arredores da aldeia, em companhia
de marinheiros.
O barco lançador de fumaça tinha chegado
propositadamente, para encher as caixas deixadas atrás pelos
exploradores. O capitão, um dos poucos que haviam
escolhido as águas ricas, porém perigosas, do Ártico,
infestadas de icebergs, manifestava pressa; tinha pressa de
partir de novo, porque o verão, ali, era curto; as águas não
ficavam abertas à navegação mais do que um mês; e aquela
era a fase culminante da estação do ano apropriada para a
caça à baleia. O seu bote era grande apenas aos olhos dos
nativos. Na verdade, era apenas um pequeno barco baleeiro,
tratando de efetuar tarefas peculiares à margem de suas
missões, com uma tripulação cujo número nem sequer subia
a doze.
Um sono antes de o barco ter de levantar a âncora,
Kohartok sentou-se de novo com Ivaloo, num dos rústicos
bancos da Missão, e tomou-lhe as mãos nas suas. O pregador
estava com aspecto pálido e desorientado, com grandes
sombras roxas por debaixo dos olhos.
— Eu resolvi ir-me embora daqui, minha pequena — disse
ele.
— Toda a gente sempre se vai embora! — disse ela, com
desconforto. — Por quê? Você está cansado de semear a
Semente entre nós?
Ele se apoio nervosamente ora num lado, ora noutro:
— Há momentos em que até mesmo um pregador começa a
duvidar. Não da Verdade, mas de si mesmo. E, para ir
adiante, preciso de você, Ivaloo.
— Precisa da ajuda de uma moça estúpida?
— O que você vai agora ouvir talvez lhe cause surpresa,
minha pequena. É certo, porém, que eu gostarei que você se
torne minha esposa. Tratemos de nos casar perante Deus;
depois, carregaremos, juntos, a Tocha, através das trevas!
Ele teve de repetir duas vezes aquilo, antes de ela confiar
nos próprios ouvidos. Depois, ela ruborizou profundamente;
e abaixou os olhos.
— Se, ao menos, os pais de uma moça tivessem vivido até
ao dia em que um homem branco, e ainda mais da sua
importância, lhe pedisse para ser sua esposa! Você pensa que
eles estão vendo isto?
— É possível.
— Alguém se sente honrada, Kohartok.
Ele, pensativo, afagou a própria barba avermelhada, e disse,
com um suspiro:
— Não fale nisso, minha pequena.
— E causaria uma dor profunda, a alguém, o fato de ter de
recusar o...
— Mas então você recusa? Por quê? — gritou ele, como que
aliviado.
— Porque você não é propriamente um grande caçador; nem
sabe como se lida com uma matilha de cães de trenó; nem
conhece nada a respeito das coisas de que uma moça gosta, a
não ser quanto a Deus. Esta é a razão pela qual me recuso.
Agora, porém, há uma tristeza, na alma de alguém: quem é
que irá batizar a criança da moça, se você for embora? E
quem é que conduzirá os serviços religiosos e nos mostrará
o caminho de Deus?
— Eu não posso ensinar-lhe nada mais, quanto aos caminhos
de Deus, Ivaloo. Eu sou apenas outro pecador. Você
prosseguirá na tarefa, em meu nome — com o auxílio deste
livro. As gravuras a ajudarão a ensinar e a lembrar a História
de Deus.
Ele abriu o livro; tirou de seu interior uma flor que estivera
secando entre as páginas — uma flor com quatro grandes
pétalas cor de púrpura — e ofereceu-a Ivaloo.
— Fique com isto, para você. É uma flor do meu país.
— Deliciosa! — exclamou Ivaloo, comendo a flor.

A partida de Kohartok entristeceu a todos. Ele era homem
fino, bondoso. Possuía uns olhos tão delicados! Arrotava tão
delicadamente! Não obstante, despediu-se da maneira mais
estranha; anunciou em altas vozes que ia partir; e foi
procurar todos os membros da comunidade, a fim de trocar
um aperto de mão com cada qual. Desta maneira, todas as
mulheres o escoltaram até ao barco; todas lhe fizeram
acenos, com a mão, dizendo adeus e desejando-lhe boa
viagem; e todas, as fazer isto, estavam com lágrimas nos
olhos — até mesmo aquelas que haviam fracassado
infelizmente no teste, abandonando a escola e a capela
desde a chegada dos marinheiros.
Afigurou-se, a todas e a cada qual, que o pregador perdera
muito da sua primitiva aspereza, principalmente no fim de
sua permanência ali. Já não sacudia os pecadores com suas
arengas; nem fez isso a ninguém, no seu sermão de
despedida. Disse apenas:
— Como o livro de Deus o diz: "Contempla e reza, para que
não caias em tentação: o espírito, com efeito, deseja; mas a
carne é fraca".
Um bando de caiaques comboiou o barco até determinada
distância, na esteira líquida que ele foi cortando através do
gelo flutuante; e o resto da comunidade, inclusive
Siorakidsok, permaneceu na praia, até que a fumaça da
chaminé do barco se misturou com a bruma.
A notícia da chegada do barco que lançava fumaça, na
enseada, se espalhara logo, por uma forma qualquer, como o
fazem todas as notícias; e, dentro de muito pouco tempo,
um punhado de Netchiliks apareceu por ali, a fim de plantar
suas tendas ao redor do acampamento dos forasteiros,
embora a quadra do rigor do verão fosse a pior das do ano
para se viajar. Contudo, retiraram-se dali, assim que o navio
ergueu âncora; e, ao tempo em que a noite desceu outra vez,
e em que os aldeões se acomodaram no interior dos seus
iglus de inverno, em cima da água congelada, a comunidade
já havia voltado ao normal.
A luz irradiada pelas lâmpadas de óleo de baleia brilhava
pálidamente através das paredes; assim, a enseada
mergulhada em trevas ficou pontilhada de auras luminosas,
aconchegadoras, que se irradiavam das pequenas casas de
neve, com forma de sino.
Os serviços religiosos prosseguiram, levados a termo por
Ivaloo, que para isso se valia das figuras que havia no livro
deixado por Kohartok. Ela não sabia ler; mas conhecia muito
bem as ilustrações. Ela não dispunha de meio algum, para
saber quando era domingo; e os serviços se tornaram
irregulares. Sempre que Ivaloo presumia que os aldeões
estivessem precisando de religião — coisa que acontecia
quase que ao fim de todos os sonos dormidos, e, por vezes,
em meio a um sono que estivesse sendo dormido — ela
tocava o sino; convocava a comunidade para uma chávena
de chá e para uma sessão de "minhas irmãs, vamos tratar de
rezar". Ela contava a Boa Narrativa, tão bem cdmo sabia; e
respondia às perguntas da mesma forma.
A velha Tippo acabou dando provas de ser pessoa ríspida e
impertinente, cuja companhia Ivaloo evitava, permitindo
que ela fosse dormir na grande sala, junto ao fogão. A gulosa
velha passava noites sem dormir, concebendo modos e
meios de abocanhar os doces que Ivaloo tratava de manter
fora do seu alcance; Kohartok fora bastante explícito, ao
esclarecer, a Ivaloo, como as mercadorias e os mantimentos
da Missão deviam ser administrados. Amaldiçoados seriam
aqueles nativos que, fiéis à pura maneira pagã, presumissem
que o espírito de comunhão das mercadorias, que o povo
local praticava, pudesse ser aplicado às reservas da Missão!
Ivaloo distribuía os mencionados bens com a maior
parcimônia possível.
A fim de conservar Tippo longe da tigela do açúcar, Ivaloo
tinha pedido a Vivi que a ajudasse na distribuição do chá; e
isto aumentava a fúria glutona da velha. Vivi era boa amiga;
era pessoa fácil de se brincar; e visto que Papik manifestara
interesse para com ela, antes da partida, Ivaloo falava-lhe
freqüentemente do irmão; e Vivi não parecia aborrecer-se
com isso.
Ela provara pancadas, dentro de si, antes daquele dia; de uma
feita, porém, acordou estando em pleno sono; e ficou
sabendo que tinha chegado a hora. Vestiu-se a toda pressa
por entre pancadas dentro de tremores de frio; fez tudo em
silêncio, a fim de não despertar a velha Tippo; e correu para
a casa de Siorakidsok.
— Vocês disseram que desejavam estar presentes quando o
fato acontecesse — disse Ivaloo, às mulheres que lá se
encontravam.
Uma das pequenas meninas de Torngek foi enviada com a
incumbência de avisar as outras mulheres; e logo
começaram a convergir para ali.
— Não falem tão alto, do contrário vocês acordarão
Siorakidsok; uma jovem mulher tola não quer que ele veja
— esclareceu Ivaloo.
Vivi chegou, já sem fôlego e muito excitada; e, sem mais
aquela, começou a puxar para baixo as calças de Ivaloo; mas
as mulheres riam.
— Mantenha-se a distância, você, moça estúpida — disse
Torngek, aplicando-lhe um empurrão. — Ainda não está no
momento.
Siorakidsok, que possuía ouvidos sutis para tudo quanto se
presumia que ele não devesse ouvir, acordou aquele barulho.
— Por favor, saia da casa por um momento — pediu-lhe
Ivaloo. Siorakidsok ficou furioso quando, por fim,
compreendeu do que se tratava.
— Alguém já viu crianças nascerem em muito maior
número do que serão os homens que você terá em sua vida!
— Está certo; mas, do mesmo modo, saia da casa.
Chegou-se a um acordo, levando-se o velho xamã para o
canto mais afastado da sala. E lá ficou ele, com a cara voltada
para a parede, a bufar de raiva; e as mulheres se aglomeraram
ao redor de Ivaloo. Esta se encontrava deitada no catre, com
os olhos arregalados e o rosto muito sério, à espera das
dores. Quando elas chegaram, seus lábios se contorceram; e
ela começou a gemer baixinho. Ivaloo sentiu-se
terrivelmente com sede, mas não tinha ânimo algum para
falar; e esforçou-se por se conservar sem fazer barulho, para
que Siorakidsok, que a esta hora já estava roncando de novo,
lá no canto mais afastado, não fosse despertado.
As dores apressaram-se; e quando chegaram, todas de uma
vez, sem lhe dar pausa, ela disse:
— Agora!
Exatamente como se ela tivesse dado à luz cem vezes antes
daquela.
Vários braços a ajudaram a erguer-se do catre e a descer ao
chão; e puseram-na ali de joelhos. Várias mãos puxaram para
baixo, mais um pouco, as suas calças e as suas altas botas.
Alguém cavou um buraco na neve que ficava por baixo da
parturiente; Torngek abraçou-a por trás, e comprimiu-lhe o
corpo.
— Empurre!
Ivaloo percebeu que estava suando à raiz dos cabelos; e gotas
de suor lhe caíram pela ponta do nariz. A sala pareceu nadar
diante de seus olhos. Ela ouviu as mulheres que gritavam:
— Agora está vindo a cabeça! Empurre com força! Você
precisa ajudar, você, moça tola. Assim que a cabeça se puser
para fora, o pior terá passado.
Houve, dentro dela, algo assim como um vasto
estraçalhamento; e, na profunda perturbação da dor —
quando tudo se escureceu diante dos seus olhos — ela viu,
de súbito, o topo úmido da cabeça da criança, com uma
crista de cabelos molhados, a luzir por baixo do seu corpo.
Torngek continuou a fazer pressão sobre o corpo da moça,
quase que lhe cortando a respiração; e as mulheres emitiram
exclamações de alegria. A cadela da casa, como que
estimulada pela agitação coletiva, esticou o focinho para a
frente, choramingando e farejando, até ser posta longe dali a
pontapés. Antes que Ivaloo formasse consciência clara do
caso, a criança caiu, e o peso de Torngek se afastou de suas
costas.
Padlock recebeu o bebê em suas mãos; e assim que Neghe o
libertou, cortando-lhe o cordão umbilical, o bebê começou a
chorar com toda a sua energia. As mulheres introduziram
uma pele de raposa por entre as pernas de Ivaloo, ergueram-
lhe as calças, e deram-lhe um gole de água, feito de neve
derretida.
— Talvez você queira descansar um pouco, antes de ir para
casa...
— Quero, se vocês desculpam uma jovem estúpida, por
tamanho incômodo — respondeu Ivaloo, estendendo-se no
catre. — Onde é que está o bebê?
Neghe, depois de limpar e untar a criança, envolveu-a em
pele fresca; em seguida, entregou-a a Ivaloo, dizendo:
— É menino.
— Por favor, traga bastante luz.
Padlock e Torngek acenderam dois brandões de sebo, e
aproximaram-nos da nova mãe. Ivaloo deixou cair a pele que
envolvia o filho, e ergueu o menino diante da luz. O choro
do pequerrucho parou; e então só se ouviu o estalar das
labaredas, além do ruído da cadela lambendo o chão. A
seguir, a voz de Siorakidsok, que tornava a acordar, se fez
ouvir:
— Ivaloo está na iminência de ter bebê?
Ninguém respondeu. As mulheres ajoelharam-se, em muda
adoração, com as mãos dobradas; e a cadela aproximou-se,
sempre farejando, pondo as patas dianteiras no catre,
esticando o focinho para a frente, e choramingando, como
que maravilhada. Embora fosse uma cadela idosa e muito
viajada, tendo visto muitas crianças recém-nascidas, ela
nunca tinha contemplado nada como aquilo.
E era, de fato, um menino extremamente bonito, com olhos
da cor do céu e cabelos da cor do Inferno.

CAPÍTULO XII
TETARARTEE

Ivaloo efetuou o batismo de seu filho com toda a pompa de
que pôde dar mostras; batizou-o com o nome de
Poopooliluk. Ela não sabia o que o nome queria dizer; mas
conhecera, de uma feita, um membro de uma tribo
forasteira, que tinha esse nome; e achou que esse fosse o
mais lindo que jamais lhe houvesse acariciado os ouvidos.
Desde então, sempre desejara secretamente que lhe nascesse
um filho, a fim de lhe poder dar aquele nome: Poopooliluk.
Ivaloo nunca suspeitara de que um ser humano pudesse ser
tão feliz como ela era agora. Levando a cabo os ofícios
religiosos — e sendo capaz de batizar o seu próprio filho!
Que teria feito, para merecer tanto?
A disciplina era frouxa, porém, sob o regime de Ivaloo. A
moça descuidosa esquecia-se de denunciar as mulheres e os
homens que costumavam andar pela casa, nus, ou que
comiam além daquilo que o apetite reclamava; e também é
preciso assinalar que ela própria, por vezes, fazia tudo aquilo,
não se excluindo de todo da condenação.
Nesse entretempo, homens e mulheres reuniam-se ao redor
de Ivaloo, a fim de lhe adorar o filho; e não eram somente
os homens e as mulheres de sua aldeia; eram também
viajores e peregrinos que procediam de muito longe. A
afluência de nômades, depois da última visita do bote que
emitia fumaça, na enseada, fizera com que a notícia da
gravidez de uma virgem se difundisse. Aquela era uma boa
meada ara desfiar, quando chegava, por fim, a vez de a gente
contar a sua história, no interior de um iglu cheio de
ouvintes atentos. Assim, a notícia viajara; fora objeto de
risos, de maravilha, de incredulidade ou de fé. Ainda assim,
a novidade espalhara-se por todas as direções,
principalmente para o sul, como os raios do Sol. Havia
trenós que iam à procura da enseada, em plena escuridão do
inverno; matilhas de cães forasteiros se juntavam em seus
uivos à Lua; eram uivos que procediam do sangue de lobo
que lhes corria nas veias; e que se uniam aos dos cães locais,
da aldeia, enquanto os homens e as mulheres recém-
chegados erigiam seus iglus a uma conveniente proximidade
da Missão.
E quando aquela gente toda recebia permissão para entrar na
casa, via o menino e Ivaloo, sua mãe; e então a multidão caía
de joelhos, adorando a criança. Quando os visitantes abriam
os seus tesouros, ofereciam ricos presentes ao menino:
bonecas esculpidas em madeira e em osso, ou feitas de pano
e de peles; facas com cabos de chifre entalhado; presas de
morsas, habilmente trabalhadas, bexigas de vacas, estofadas
de chá e de tabaco; tecidos fantasiosos, adquiridos de
mercadores estrangeiros; comidas extravagantes, contidas
em lustrosas latas de ferro estanhado; e uma ou outra garrafa
ocasional de aguardente.
Alguns visitantes eram pagãos, e alguns eram cristãos
convertidos por missionários, em outras localidades; mas
todos ouviam com igual reverência a Palavra, quando
proferida por Ivaloo; e todos se uniam a Ivaloo, nas suas
preces e nos seus hinos.
Alguns pagãos, depois de ver e ouvir, pediram para ser
convertidos; foram Dorrifados com água e tocados com sal
— exatamente como Ivaloo vira Kohartok fazer; e todos de
lá se retiraram com a fisionomia radiante. Outros
permaneceram ali — mas não para adorar e rezar. Alguns
ficaram porque a aldeia estava crescendo e transformando-se
numa grande comunidade; muitos gostavam da azáfama
representada pelos trenós que chegavam e que partiam.
Também alguns mercadores apareceram. Eles entravam na
casa da Missão, para ver a virgem e o filho; sorriam;
retiravam-se de novo; e começavam a fazer negócios.
A aldeia expandiu-se; e as casas feitas de neve pulularam
como cogumelos. Ivaloo achava difícil acomodar todos os
visitantes na Missão; novos bancos tiveram de ser
construídos com neve, e recobertos de peles; e, ao redor do
altar, sobre o qual permanecia Poopooliluk, para ser adorado,
as oferendas se amontoavam.

Um homem, chamado Gaba, pediu para ser convertido
juntamente com as suas três esposas. Ivaloo já tinha visto
mulheres que possuíam dois maridos; ate mesmo três e
quatro, principalmente no norte, onde as mulheres são
escassas; aquela, porém, era a primeira vez em que tomava
conhecimento de um homem com mais de uma esposa.
Nunca entendera o motivo pelo qual deveria ser errado estar
com mais de uma pessoa de cada vez, no acasalamento; mas
o certo era que os tabus haviam sido feitos para serem
respeitados, e não para serem compreendidos. Em
conseqüência, ela conseguiu incutir no espírito de Gaba que
ele devia mandar embora pelo menos um par das suas
esposas, se é que desejava ser convertido.
Nem Gaba tinha o costume de discutir a respeito de tabus;
por isto, ele se mostrou bastante razoável.
— Um homem mandará embora, de muito bom grado, um
par de esposas — declarou ele. — Entretanto, ele as adquiriu
ainda recentemente, matando-lhes os respectivos maridos;
de modo que requer algum tempo decidir sobre qual delas é
digna de ser conservada.
Ivaloo censurou-o mas lhe concedeu tempo para se decidir,
e nesse período converteu-o; a ele e à sua comitiva de
esposas, como se tudo estivesse em ordem. Gaba mostrou-se
muito agradecido, e permaneceu na aldeia, dando provas de
constituir grande vantagem para a comunidade, como há de
ser sempre o caso de qualquer homem capaz de manter três
esposas.
A caça estava longe de ser abundante, naquela estação do
ano; nem se fazia fácil identificá-la e localizá-la no escuro.
Gaba, contudo, era caçador emérito, e logo se tornou líder
da comunidade. Isto não quer significar que ele tenha
passado a constituir autoridade; mas dispunha de bastante
influência. Era ele quem planejava as sortidas de caçadores; e
era ele quem dirigia os homens. Sua recompensa chegou
quando viu os outros a comer o que ele tinha conseguido.
Ainda que recebesse mais do que a sua parte, quanto a
esposas, estava agora pagando muito bem por isso, uma vez
que mantinha numerosas outras bem nutridas; nesta altura,
expedi-lo da comunidade só poderia constituir perda para a
própria comunidade, sem que isso passasse a representar
punição alguma para ele. Aquele homem não ficaria nunca
sozinho, com três esposas em que se apoiar a qualquer
momento.
O fruto da caçada era sempre dividido em partes iguais; mas
os caçadores que haviam contribuído em menor porção se
sentiam mortificados, e comiam sem alegria alguma — ao
passo que aqueles que mais haviam concorrido para o êxito
da caçada ficavam com o semblante como que iluminado e
riam à larga; ademais, só a estes últimos é que as mulheres
dirigiam olhares.

Todavia, a despeito da presença de Gaba, a ameaça da fome
se delineou na aldeia, depois de raiar o Sol. As reservas e os
montes de alimentos foram, afinai, reduzidos a quase nada; o
povoado estava com excesso de habitantes; a caça ia
tornando-se cada vez mais rara, como sempre acontece nos
lugares em que o homem aparece; e melhora nenhuma
poderia ser esperada da parte da primavera seguinte; porque
a primavera era sempre a estação do ano de maior escassez.
Quando os pássaros se encontravam ainda fora da região, ou
a caminho, e quando a vegetação ainda não havia repontado
do solo, o grande degelo impedia que se pescasse, que se
desse caça às focas, que se perfurasse a crosta da superfície
do oceano; e o recuo do gelo implicava o recuo, o
afastamento dos ursos.
Visto como os víveres eram escassos e as perspectivas muito
piores, muitos homens começaram a arrumar suas trouxas e
a carregar os seus trenós; depois, trataram de retirar-se,
enquanto a superfície congelada do oceano permitia viajar.
Gaba também partiu; e deu provas de que tinha o propósito
de manter a promessa de reduzir o número de suas esposas;
iria efetuar a redução pelo processo de deixar atrás, lá na
aldeia, com fome e de coração partido, além de quase que
sem vestimentas, a mais velha das esposas, do trio de que
dispunha.
O punhado de homens que permaneceu no povoado não se
compunha dos melhores elementos; na maior parte, tratava-
se de homens que não possuíam sequer cães, nem trenós, de
sua verdadeira propriedade. Nem as mulheres desse grupo
eram dessas de se cantarem as virtudes. Com exceção de
Vivi e Ivaloo, as referidas mulheres eram todas velhas ou
feias; algumas eram as duas coisas ao mesmo tempo, uma
vez que as de melhor aparência haviam resolvido ir embora
em companhia dos peregrinos, a caminho de campos de
caça mais ricos, sem esperar pelo regresso dos respectivos
homens.
Todos os elementos velhos se mostravam seriamente
preocupados; e, para que os outros compartilhassem os seus
receios, começaram a escavar, dos montes de lembranças
acumulados em sua memória, narrativas de horror, dos
tempos de escassez. Dos tempos em que os peixes e as focas
resolveram conservar-se no fundo do oceano, os ursos
partiram para incursões longínquas, os bois almiscarados e os
caribus, além da pequena caça, desapareceram tão
misteriosamente como haviam aparecido; dos tempos em
que os homens e as mulheres comeram seus cães, comeram
até os seus barcos feitos de peles, os seus trenós de carne
congelada, e os seus sacos de dormir; comeram, depois
disso, os seus mortos; e, finalmente, aqueles que nem sequer
ainda estavam mortos.
Foi, porém, Siorakidsok quem mais se preocupou com a
situação; preocupou-se bem mais do que todos os outros. Era
o responsável pelo bem-estar da comunidade; e, se não
tomasse providências para sanar a situação, os outros
poderiam pechá-lo de impostor, e, assim, tratá-lo como se
fora um velho inútil — agora que Kohartok não se achava
mais presente para protegê-lo.
Quando os primeiros raios de sol feriram a baía, dando início
ao período mais crítico do ano, e ele, Siorakidsok, observou
que era cada vez maior o número das pessoas que
murmuravam em sua presença, reuniu a comunidade, a fim
de lhe dirigir uma mensagem urgente.
— Há um pecador, em meio a vocês — anunciou
Siorakidsok, ameaçadoramente, lançando olhares acusadores
por todas as direções; e até pareceu que não houvesse
ninguém que deixasse de estremecer, de se encolher de
medo, de procurar ocultar-se. — Com toda probabilidade,
alguma mulher tentou matar uma foca; ou, então, cozinhou
peixe e carne numa mesma panela; ou, talvez, tenha
chegado a fazer coisa pior do que isto. São sempre as
mulheres que cometem infrações; e são sempre os homens
que têm de suportá-las!
Seguiu-se um silêncio absoluto; e Sioralddsok continuou,
petulante:
— Vocês bem sabem que, exatamente como a simples
infração de um tabu acarreta contratempos para todos, assim
também a confissão pública da infração suspende os
sofrimentos. À vista disto, por que e que vocês se mostram
sempre tão relutantes, negando-se a confessar? Vocês,
horrendo feixe de pecadores?
Ainda assim, ninguém respondeu; Sioralddsok fez gestos de
desespero; e emitiu vários suspiros profundos, antes de
prosseguir:
— Um xamã permitirá, mais uma vez, que ele próprio seja
incomodado com outra viagem à Lua, com a finalidade de
ficar sabendo o nome do culpado. Ai da mulher culpada, ao
regresso de alguém! Ela terá de ser expulsa da aldeia; terá de
morrer de fome, abandonada a si mesma, sem arrastar
ninguém mais na sua muito bem merecida ruína! Portanto,
comecem imediatamente a preparar os presentes destinados
ao Espírito da Lua; todos! Preparem os pratos, as iguarias,
com amor e carinho; e façam uso de todas as carnes doces
que estiveram presentes em suas despensas. Esta não é a
oportunidade para mesquinharias!
— Esperem! — exclamou Ivaloo. — Se uma jovem
impertinente de contraditar um homem tão inteligente
como o que acaba de falar, não há a menor das razões para
nos preocuparmos. Ninguém vai morrer de fome.
— Por que não?
— Porque Deus tomará providências para nós todos, desde
que acreditemos Nele, e desde que nos ponhamos a rezar.
Ou será que vocês não prestaram ouvidos a Boa Palavra? É
possível que uma jovem preguiçosa não a tenha gritado com
bastante força, nem as vezes suficientes, para que Ela
penetrasse nos seus sábios ouvidos?
Sioralddsok não tinha assumido compromisso algum quanto
ao milagre. Agora, porém, que Ivaloo interferia contra os
seus planos de viagem, ele ruborizou de zanga; e achou que
devia falar com ela, a sós.
— Um homem não sabe se o seu Deus tomará ou não
providências — esclareceu ele, com tom baixo de voz, assim
que os dois se viram juntos e sós; — mas este homem sabe,
com absoluta certeza, que o Espírito da Lua, que é de maus
bofes, e que já se encontra à espera dos nossos presentes, se
vingará violentamente, contra você e seu filho, se insistir
em interferir contra a viagem do xamã.
Esta possibilidade nunca havia ocorrido a Ivaloo. O
pensamento de que o pequeno Poopooliluk, seu filho,
pudesse entrar em perigo, deteve, de pronto, as objeções da
moça; e então ela ajudou a preparar os presentes destinados
ao Espírito da Lua, introduzindo entre eles todas as iguarias
que haviam restado nas despensas da comunidade; ainda
assim, nenhuma das iguarias deixou de ser inteiramente
mastigada pelas mulheres, e reduzida a pratos bastante
macios — porque o Espírito da Lua é um velho muito velho,
e não possui entes.
Ainda no momento em que Siorakidsok se encontrava a
caminho, apareceu uma invasão de caribus —
acontecimento nada comum para aquela aldeia, que ficava
situada além do ponto mais norte da migração dos caribus,
mas ainda assim possível, em fase de primavera, antes de o
dia se erguer de todo, e antes de as trevas e a luz se
alternarem a cada giro do Sol; nessas oportunidades, a
superfície de neve, que recobre os liquens e os musgos,
depois de derreter sob a ação dos raios solares, pode
endurecer de novo, com o retorno da geada. E isto impede
que as manadas de renas e caribus escarvem e perfurem a
crosta; em conseqüência, essas manadas se dispersam
desabaladamente por todas as direções, em busca de
forragem.
Uma de tais manadas se derramou na direção da enseada, em
cuja linha costeira Ivaloo era rainha — e Poopooliluk rei.
Os caribus, animais bons e dóceis, gostam muito de criaturas
humanas. Por isto, morrem de muito bom grado, de acordo
com grande variedade de modos: ora deixando-se abater por
meio de lanças e flechas; ora deixando-se perfurar por meio
de facas; ora deixando-se apanhar por meio de bocas-de-
lobo, com iscas feitas de urina, cujo conteúdo de sal muito
lhes apetece. E enquanto, no decorrer de vários giros do Sol,
homens, mulheres e crianças comeram, até romperem-se
por assim dizer pelas costuras, o prestígio de Ivaloo subiu a
alturas sem precedentes. Contudo, ela ficou triste, porque o
seu rebanho chegara a duvidar.
Quando Siorakidsok regressou de sua viagem, anunciou que
fora ele que persuadira o Espírito da Lua a perdoar aos
aldeões os respectivos pecados, à guisa de rara exceção, e a
remeter os caribus procedentes do sul. Assim, os aldeões
nunca ficaram sabendo se era o Deus cristão ou o Espírito da
Lua que merecia louvor; e então se permitiu que ambos os
partidos tirassem benefício dessa dúvida.
Logo depois de a comunidade haver retomado as suas
moradias de verão, na praia, outro barco emitindo fumaça,
abrindo uma senda através do gelo quebradiço, lançou
âncora na enseada, desembarcando os habituais marinheiros
— mais um novo sacerdote.
O novo pregador era mais velho do que Kohartok, e muito
magro. A magreza fez com que os nativos se afastassem um
pouco dele, até ficarem sabendo que era devida a jejum
voluntário — coisa que se tornava saudável para o corpo
cristão, além de meritória para a alma cristã. Depois disto, os
nativos passaram a respeitar a magreza do padre. Este era
homem alto, com ossos pontudos no comprido rosto
sombrio; nariz estreito e em bico; fronte alta, por baixo da
qual brilhavam dois olhos pequenos, mas esbraseados. Os
cabelos pretos, com listras brancas, iam rareando; mas ele
compensava o caso por meio de longa barba lisa, que lhe
chegava à cintura.
Embora ele não conhecesse mais palavras esquimós do que
Kohartok, fazia uso delas com tamanha tonitruância e
autoridade, que nem o mais obtuso dos ouvintes precisava
de muito tempo para compreender o que ele queria e o que
não queria.
E a primeira coisa que ele não quis foi Ivaloo.
Ela estivera, com as outras mulheres, na praia, sorrindo para
o navio, tendo sempre o seu filho amarrado às suas costas.
— Quem é que está a cargo da casa da Missão? —
perguntara o homem branco, ao descer pelo portaló.
Ivaloo adiantara-se.
— Mostre-me o caminho — dissera o sacerdote, ríspido.
Ivaloo foi à frente, enquanto Poopooliluk, no berço das
costas
maternas, esticava o pescoço, curioso, a olhar para o
estrangeiro. Ela abriu a porta da casa da Missão, e deixou que
o homem branco entrasse. O sacerdote acenou, com a mão,
para que se retirassem as pessoas que, em atropelo, o haviam
seguido; quis que também Tippo se retirasse; e bateu a porta
na cara do povo.
Ivaloo acompanhou-o pela casa toda, fazendo-o notar o altar
todo coberto por uma pilha de presentes ali depositados
pelos devotos, e mostrando-lhe o cubículo com as estampas
coloridas pregadas na parede, por cima da cabeceira do catre
em que ela dormia.
O homem branco sentou-se na cadeira. Seus lábios eram
apenas uma linha fina, quando ele fitou a moça esquimó, de
olhos abaixados.
— É você a moça chamada Ivaloo?
— Sim — sorriu ela, agradada e satisfeita pela circunstância
de o sacerdote lhe saber o nome.
Em silêncio, o homem branco ficou cofiando suas suíças; e
manteve os olhos esbraseados fixos na figura de Ivaloo.
— Você terá de entregar-me a chave e sair deste lugar —
disse ele.
— Ela olhou para o pregador, atarantada. Depois,
encaminhou-se para a mesa, e, devagar, apanhou o seu livro.
— Que é que você tem aí? — indagou ele.
— O nosso pregador, Kohartok, deu este livro a alguém,
antes de ir-se embora.
— Eu sou o pregador, agora. Para que foi que ele lhe deu esse
livro?
— Ele disse que o livro ajudaria uma moça a difundir a Boa
Palavra.
— Você tem estado a fazer... o quê?
Ivaloo sorriu:
— Uma moça sem valor tem estado a ensinar por aqui Deus
e
Í
esus; tem estado a contar a Boa História, e a mostrar as
gravuras. Depois que eu ensino e conto, todos nós rezamos
e cantamos.
O pregador fitava-a, sem proferir palavra. Ela interpretou
isso como sinal de encorajamento:
— Há muita gente que ouviu a Boa História nesta sala, e,
como conseqüência, se fez cristã.
— E, provavelmente, foi você que a converteu?
— Não é impossível — disse Ivaloo, com um sorriso. Ele
deu uma risada breve; e ela acrescentou, depressa:
— Não foi difícil, de forma nenhuma. Isso não se deveu
muito às palavras de uma moça ignorante, e sim à presença
dele.
E Ivaloo apontou, com o polegar, para o menino que trazia
às costas, e que, naquele momento, estava espiando para a
frente, por cima do seu ombro.
— Já ouvi falar dessa criança, de que você é mãe — disse o
pregador, com severidade — e esta é a razão pela qual vim
para cá.
— Verdade?
Ivaloo mostrou-se radiante de gratidão e de contentamento;
e disse:
— Muita gente tem vindo de muito longe, para adorá-lo; mas
você veio de mais longe ainda. É uma grande honra —
como os Homens Sábios, do oriente, viajando em busca do
Infante Jesus — declarou a moça, com fervor, abaixando os
olhos.
— Já é tempo para que você pare com essa ilusão perversa —
exclamou o homem branco, como se, até então, houvesse
feito uso de grande esforço para se conter, desabafando-se,
afinal, de súbito e tudo de uma só vez. — Você está
proferindo uma blasfêmia!
O coração de Ivaloo mergulhou. Afigurou-se-lhe que aquele
homem não tinha aparecido por ali para adorar, afinal de
contas, o pequeno Poopooliluk.
— Queira desculpar uma moça estúpida por deixar de
entendê-lo. Que é que você tem em seu pensamento?
— O alegado nascimento virginal de seu filho!
Ela olhou para ele, desconcertada.
— Por que é que você não investiga, homem branco? Toda
gente sabe disso.
— A minha idéia — disse ele, em tom conciliatório,
retomando o autocontrole — é a de que esse assunto todo
começou quando você se viu grávida e se recusou a admitir
que teve qualquer relação com um homem.
— Por que é que uma moça se recusaria a admitir isso?
— De medo de que os seus pais a censurassem pelo que fez.
— Alguém não tem pais para censurá-la, infelizmente. Se,
porém, os pais dela estivessem vivos, não a censurariam; ao
contrário; ficariam contentes por ela ter um filho. E, por
certo, a mãe de uma moça não iria atirar-se à água e se
afogar, se viesse à saber do caso.
— Então a sua mãe cometeu suicídio?
O pregador ergueu-se, com os olhos a esbugalharem-se,
como os de alguém que acabasse de fazer uma grande
descoberta; depois, continuou:
— E seu pai era assassino, provavelmente?
— Ele matou apenas um homem — declarou Ivaloo.
O pregador bateu as mãos:
— Seu pai, um assassino; sua mãe, uma suicida! Como
poderiam eles deixar de criar uma perversa mentirosa? Uma
árvore corrompida não pode dar bons frutos, diz o Bom
Livro. Você, pobre moça! Você não e a única culpada da sua
perversidade.
Ali estava, com efeito, uma alma que merecia ser salva.
Então o sacerdote começou a dar passadas, de um lado para
outro:
— Então, é daí que procede a sua pecaminosidade; você é
rebento de um casal tomado pelo diabo! Para eles, nós não
poderemos fazer nada. Para você, porém, ainda estamos em
tempo.
Ele enfrentou a moça, cara a cara:
— Posso mostrar-lhe o caminho correto; mas é você que
deve mover seus pés.
— Com muito gosto! Mas você pensa realmente que os pais
de uma moça estão condenados para sempre? — perguntou
Ivaloo, preocupada. — Kohartok parece que não pensava
assim.
— Vamos deixar de falar a respeito do meu antecessor! Que é
que você pensa?
A madrugada de uma nova vitória parecia estar à vista.
— Você pode duvidar de que os seus pais estejam torrando-
se por causa dos pecados que cometeram? Pode duvidar de
que será melhor que você se arrependa dos seus, e bem
depressa, a menos que queira juntar-se a eles?
— Mas alguém quer, e quer mesmo, juntar-se a eles! —
declarou Ivaloo, com firmeza. — Uma moça não consentirá
em ir para nenhum lugar, a não ser para aquele em que eles
se encontram... seja lá onde for que se encontrem.
O sacerdote sentiu-se extasiado; mas emendou, depressa:
— Se você fizer as pazes com Deus, Ele poderá ainda ouvir
suas preces e receber a alma dos seus pais, como também
receberá a sua, se você contar a verdade. Será que você
armou toda essa história de medo de que nenhum homem
se casasse com você, por saber que estava grávida?
Responda!
Ivaloo franziu a fronte. Não conseguia, de jeito nenhum,
compreender o ponto para o qual o padre desejava rumar.
— Muitos homens me tomariam por sua esposa, porque as
mulheres são escassas por aqui; e eles se sentiriam
particularmente felizes por encontrar mulher que já teve
filho homem, poupando-lhes assim muito trabalho e muito
aborrecimento.
— Olhe, mocinha. Toda a gente comete muitos erros. Os
erros se tornam pecados de verdade somente se a gente
procura encobri-los por meio da ilusão aos olhos dos outros.
Toda criança é filha de Deus. Mas você não pode andar por
aí dizendo que Deus, em pessoa, é que fez o seu filho. Não é
possível! Uma criança é ò resultado do fato de um homem e
uma mulher se juntarem. Não há outro modo!
— Você quer dizer... Você então não acredita?
Ela o fitou, com os olhos arregalados, cheia de terror:
— Você não acredita na Historia de Deus?
— Essa é a sua história; e é nessa história que não acredito!
— gritou ele, com o rosto todo avermelhado: — Você
descobriu que as mentiras podem ser muito convenientes,
sendo que os presentes se empilham no altar e que o povo
vem adorar a você. Mas você cometeu pecados muito
graves, e a punição será correspondente a essa gravidade.
Toda vez que você dava uma lição, cometia uma blasfêmia;
toda vez que você proporcionava um batismo, perpetrava
um sacrilégio!
— Você fala como um homem muito sábio — disse Ivaloo,
reverente, embora alarmada — porque alguém não está
entendendo sequer uma palavra do que está dizendo.
— Estou dizendo que você não tinha direito algum de
ensinar a Boa História, nem direito nenhum de celebrar
ofícios religiosos!
— Mas Kohartok disse que uma moça poderia fazer tudo
isso.
— E eu digo que você não pode! As conversões que você
levou a cabo não têm valor! Os batismos foram apenas
macaqueação!
— Isto é muito confuso. Então Poopooliluk não está
batizado? — perguntou ela, de alma no chão.
— Claro que não está! Ouça, Ivaloo — disse o sacerdote, com
mudança de tom da voz, e esforçando-se por se controlar —
uma grande organização me mandou, de muito longe, para
cá, a fim de persuadir você a dizer a verdade. Nenhum mal
lhe acontecerá, se contar a verdade. Mas você precisa dizer
o nome do pai da criança; e, se puder apanhá-lo, nós
faremos com que ele se case com você; assim, logo se
esquecerá todo esse episódio maluco.
— Como pode alguém se esquecer disto?
— Você é moça, e passará por cima do caso. E, se teme que
as outras mulheres zombem de você e da sua desgraça, eu a
levarei para um lugar onde ninguém sabe do que se passou.
— Por que razão deveriam as mulheres escarnecer de uma
moça? E por qual razão deveria ser uma desgraça ter um
filho? Você disse que essa é a vontade de Deus.
— Não pela forma através da qual você o concebeu!
— Pois não há uma só maneira de se conceber uma criança?
Isto é — e ela procurou a toda pressa corrigir-se, sorrindo —
a menos que Deus ponha o Seu dedo na gente?
— Ele não pôs o Seu dedo em você! — trovejou o pregador.
O homem branco deu uns passos rápidos para a frente,
como se fosse para lhe pousar uma das mãos; e ela se
encolheu, enérgica.
— Agora, ouça-me bem, e com atenção, Ivaloo. É possível
que você não tenha percebido, em sua estupidez juvenil, a
gravidade da sua mentira. Mas agora eu quero uma resposta
firme.
Os olhos do homem eram como facas e flechas, perfurando
sulcos em seu cenho:
— Com quem foi que você cometeu o seu pecado?
Os olhos de Ivaloo incharam-se de lágrimas. Ela sentiu medo
daquele homem, que lhe falava por meio de enigmas, e que
parecia possesso. O homem branco estava, provavelmente,
insano. Com muita probabilidade, sua mãe deveria ter sido
mordida por um carcaju, ao tempo da gravidez de que ele
nasceu. Ivaloo quis ter o filho nos braços. Soltou as tiras por
baixo do peito; levou as mãos por cima dos ombros; puxou o
pequeno pagão para fora do seu berço; e apertou-o de
encontro ao seio. Apertou-o, porém, com força excessiva. O
menino começou a chorar; e ela puxou para fora um rico
seio rosado e flórido, com veias finas apontando para o
mamilo escuro.
A zanga do pregador aqueceu-se a um grau inusitado.
— Você não deve fazer isso — gritou ele, batendo os pés no
chão.
— O pequeno está com fome...
— Mas não na presença de outra gente!
Confusa, ela tornou a pôr o seio para dentro da jaqueta,
enquanto Poopooliluk entrou a gritar em tons que subiam e
desciam; a criança estava realmente sentida.
— Agora, saia, Ivaloo. Saia e não volte enquanto não tiver
tomado outro caminho. Um caminho melhor. E lembre-se
de que não terá de se queixar senão de sua loucura, se tiver
que sofrer por causa disso!

Ninguém, dentro de tão breve espaço de tempo e de tão
curto caminho do Sol, chegou a cair tanto, tão depressa e tão
profundamente como Ivaloo.
O novo pregador tocou o sino e reuniu a comunidade. Ele
não pareceu interessado nos homens brancos que haviam
chegado em sua companhia, a bordo do navio que emitia
rolos de fumaça; nem eles se interessavam por ele. O sermão
do pregador branco foi feito em idioma esquimó, somente;
e, para se assegurar de que todas as nativas se encontrassem
presentes, ele mandara mensageiros encarregados de puxar
as dorminhocas para fora dos seus sacos, bem como de
chamar para a casa da Missão todos os mercadores, todos os
caçadores, todos os armadilheiros, todos os remadores de
caiaques e todos os caçadores de baleias; todos — com
exceção de Ivaloo, que se havia refugiado em casa de
Siorakidsok; e também com exceção deste xamã.
Uma vez que o pregador foi visto rabiscando num livro,
antes de dar começo ao seu sermão, e que os nomes de
homens brancos nada são, mais do que resmungos rudes e
impronunciáveis, para os esquimós, estes logo o
cognominaram Tetarartee, ou aquele-que-escreve. E foi isto
o que eles ouviram, na Missão, da parte de aquele-que-
escreve:
"Para terras muito distantes eu viajei, e muitos pecadores,
bem como inúmeros pagãos, eu conheci; mas nunca, antes
de vir para cá, tive notícia de um exemplo em que Deus
tenha sido tão gravemente escarnecido e insultado como
nesta aldeia. Uma jovem, sem marido, não satisfeita com o
fato de haver pecado pela maneira comum, recorreu à
mentira mais extraordinária e mais sacrílega, para justificar o
fruto da sua lascívia. E agora se recusa a admitir o erro e a
arrepender-se. Mas ela não arrastará outras pessoas em sua
companhia, para a perdição! A moça em questão não está
em condições de entrar na Casa de Deus. As preces são
desperdiçadas, quando feitas à seu favor. Vocês, pessoas de
mente simples, não são capazes de enfrentar as espertezas e
as maquinações dessa mulher; exatamente como vocês não
estão preparados para assinalar a presença do diabo. Por isto,
vocês precisam aceitar a palavra de alguém que os possa
iluminar. Ela é uma impostora; e os que a ajudam- no
esforço de iludir os outros, como aqueles que prestam
atenção a xamãs mentirosos, não são nada mais do que
idólatras, consignados às labaredas eternas! Portanto, livrem-
se vocês mesmos dessa mulher, seguindo o conselho do
Bom Livro: "Se o seu olho direito o ofende, arranque-o, e
atire-o ara fora, longe de você; porque é vantajoso, para
você, que um os seus membros pereça, e não que o seu
corpo inteiro seja atirado ao inferno". Amém.
— Amém — murmurou o auditório atarantado.
— Alguém sempre desconfiou de que ela fosse uma grande
mentirosa — confessou imediatamente Padlock, ao círculo
mais íntimo das suas amigas, sem sequer inquirir ao menos
se a oportunidade dava cabimento aos refrescos. — Desde o
primeiro momento, havia alguma coisa, em torno daquela
gravidez, que falava de pecado!
— Ela deve ter tido algum capricho fora da aldeia, e
conservou-o fora das nossas vistas; ou talvez é bem possível
que haja assassinado o infeliz, a fim de ganhar honra para si
mesma, com aquela fábula do nascimento virginal — disse
Neghe, que se ressentira por haver
erdido a antiga posição de primeira dama da aldeia, em
benefício e Ivaloo.
— Talvez — sugeriu a velha Tippo, num sussurro — ela se
haja acasalado com um urso. Esses esquimós polares fazem
toda espécie de coisas. Minha mãe me contou que as
mulheres lá do norte tem o costume de unir-se aos ursos e
às morsas.
— Vocês nada mais são do que um par de cadelas invejosas!
— gritou Torngek.
— Você bem que ouviu o pregador dizer! — tornou a falar a
irmã, com intenção venenosa.
— Nós não somos obrigadas a acreditar em tudo que o
pregador diz — esclareceu Torngek, que era mulher de
espírito largo.
— A quem, então, deveríamos dar crédito? Os
conhecimentos de um sacerdote procedem diretamente de
Deus.
— Alguém não sabe se esses conhecimentos procedem
diretamente de Deus; mas não há dúvida alguma quanto ao
fato de Poopo-oliluk ter procedido diretamente de Deus.
— Essa é a voz do Diabo, que vem através de sua boca,
Torngek — esganiçou Tippo, erguendo o tom confabulatório
da conversação a uma chave mais aguda. — Você está tão
cheia de pecado, com os seus dois maridos, que não há lugar
para Deus dentro de você, sua mulher perversa!
A isto, Torgnek vibrou-lhe um soco no ventre; e Tippo caiu
ao chão, choramingando como uma foca atingida por um
golpe de porrete.
— Que é que se está passando? — indagou o pregador,
aparecendo ali a toda pressa.
— O Diabo tomou conta da irmã de alguém — gritou Neghe.
— O Diabo está pondo palavras pecaminosas em sua boca!
— Está, sim — gritou Padlock. — Torngek está
endemoninhada, e toma o partido de Ivaloo.
— Vocês já estão podendo ver o que acontece quando
permitem que Satã se instale entre vocês — advertiu o
pregador, com ar triunfante. — Conversas ímpias, violência,
uma velha mulher espancada! O meu objetivo é transformar
esta aldeia numa comunidade pacífica, a despeito do
passado; mas, a não ser que se livrem do Diabo que se
encontra no seu meio, vocês provocarão e chamarão sempre
fúria de Deus sobre suas cabeças... E saibam que Deus pode
ser terrível em sua ira!
Ele mesmo, o pregador, afigurou-se terrível em sua ira —
com os olhos a fulgurar, tomados por um ardor nunca visto,
na moldura do seu rosto estreito e sombrio.

CAPÍTULO XIII
A PROSCRITA

— Você traz desgraça para a nossa casa, e infelicidade para a
nossa aldeia! — disse Neghe, investindo contra Ivaloo;
encontrara-a em sua casa, quando regressara do sermão.
— De que é que se trata — regogou Siorakidsok. — Ivaloo
nada mais tem feito, a não ser chorar, desde quando chegou;
e não quer dar respostas às perguntas.
Visto como o homem branco passara bem perto dele, na
praia, e não lhe pedira que fosse encontrar-se com ele, não
fora assistir à declamação do sermão, em represália; e
ninguém lhe havia explicado o motivo de toda aquela
comoção.
— Tetarartee, o novo pregador, não nos admitirá à escola,
nem à capela, se nós a tivermos em nossa companhia —
gritou-lhe Neghe.
— Ele não nos dará casamento cristão, quando os nossos
homens voltarem; também não batizará nossos filhos; e,
além disso, não nos dará chá, nem bolo.
Neghe apontou com o dedo para Ivaloo:
— Esta moça perversa pecou da maneira mais terrível,
mentindo a propósito de sua gravidez! O mar ficará vazio; a
terra ficará deserta; as mulheres ficarão estéreis, se nós a
conservarmos em nosso meio. Deus pode ser terrível em sua
ira!
— Nesse caso, pois — disse Ivaloo, cautelosa, saindo do seu
catre
— alguém se retirará também daqui.
— Para onde é que você irá? — gritou Siorakidsok, como se
ela, e não ele, fosse surda.
— Vou construir uma casa, para ficar longe daqueles que
receiam ser objeto de grandes males devido à presença de
uma moça estúpida.
— Essa ê uma boa idéia — concordou Siorakidsok, logo
depois de ela repetir o que havia dito. — Mas quem é que irá
alimentar e vestir, a você e ao seu moleque?
Ivaloo não pôde deixar de sorrir em face da simplicidade do
velho.
— Deus, naturalmente. A criança é Dele; e Ele não deixará
que o menino sofra fome, nem frio.
— O quê? — tornou a indagar Siorakidsok.
— Deus tomará conta de Foopooliluk — gritou a moça para
dentro da orelha do velho.
Ao mesmo tempo, Neghe gritava para dentro da outra
orelha, do mesmo velho:
— Ela está cheia de pecados; e todos nós seremos punidos, se
não a expulsarmos do nosso meio. Tetarartee foi quem o
disse. Como é que ela ainda ousa proferir o nome de Deus!?
— Quieta, Neghe! Se você pecou, Ivaloo, confesse!
— Alguém deve ter pecado; se assim não fosse, Deus não a
puniria. E uma moça se sentiria feliz por confessar qualquer
pecado... mas, em primeiro lugar, ela gostaria de saber
onde, quando e como foi que ela pecou.
— E o xamã está pronto a acreditar que você, na sua infinita
ignorância, quebrou algum tabu, do qual não tinha a menor
consciência. Cada região tem os seus tabus próprios; e, quem
sabe, você não tem conhecimento de todos os tabus desta
região, nem de todos os tabus dos homens brancos?
— Mas então como é que se pode saber?
— Não é impossível que um xamã empreenda outra viagem à
Lua — disse ele, em tom de voz cheio de resignação. — Esta
é a única maneira de saber alguma coisa a respeito do seu
pecado.
— As suas viagens para a Lua já se acabaram! —
interrompeu-o Neghe. — Tetarartee já nos fez sentir que
não devemos cuidar de um xamã, se desejarmos tirar
proveito dos serviços religiosos; e então ninguém mais lhe
dará presentes para o Espírito da Lua. E uma mulher pensa
que isto e muito bom, pois o Espírito da Lua tem estado a
comer demais, ultimamente, das nossas reservas de
alimentos.
— Saia daqui, Neghe! Saia, sua velha saca cheia de piolhos! —
vociferou Siorakidsok, com a boca espumando. — Alguém
deseja falar a sós com Ivaloo.
Neghe saiu, relutante; Siorakidsok curvou-se para a frente, e
disse, com ar astuto e sorna:
— Se um xamã não pode ir à Lua, como pode ele descobrir o
pecado que você cometeu, e tornar a pôr as coisas em
ordem? Talvez, porém, você possa proporcionar auxílio,
mandando alguém, secretamente, fazer essa viagem.
— Pois então você não ouviu? Ninguém quer associar-se a
uma moça amalucada! — gritou Ivaloo.
— Por que é que você fala em voz baixa, sua boba? Não há
ninguém, na casa, que nos possa ouvir contra a nossa
vontade.
— Ninguém poderia ouvir ninguém, agora — vociferou ela,
para dentro de uma das orelhas dele. — Nem sequer Vivi.
Além disto, não é correto atravessar os propósitos de
Tetarartee, que representa Deus na Terra.
— Neste caso, é melhor que você abandone esta aldeia a
toda pressa. Um xamã não considera pecador o que um
sacerdote branco considera pecador; um xamã só conhece
uma espécie de pecado: a espécie que causa dano à
comunidade. Assim, neste momento, alguém ve apenas três
principais transgressores: Tetarartee, você e o seu filho.
Você e Tetarartee, uma vez que ambos espalharam aborreci-
mentos e preocupações; e seu filho, uma vez que é ele a
causa de tudo. E visto que Tetarartee, além de distribuir chá
e bolo, afora outros doces, se encontra também em intima
aliança com o Deus do homem branco, Deus este que deve
ser um espírito realmente muito perigoso, é simplesmente
normal e corriqueiro que você e seu pirralho abandonem a
aldeia, em nome da segurança e do bem-estar de todos.
Ivaloo pendeu a cabeça:
— Nós iremos embora.
— Não adianta opor resistência, moça cabeçuda e teimosa!
Nós faremos com que você se retire! Primeiro, porém, você
terá de arranjar um provedor... alguém que lhe forneça
alimentos.
— Não há necessidade disso, como alguém já lhe disse. Deus
providenciará.
— Aqui está o que você deverá fazer, Ivaloo. Além de você e
Vivi, só há um punhado de velhas bruxas, na nossa aldeia,
nas quais ninguém gostara de tocar sequer, a menos que o
seja para as coíocar nas respectivas sepulturas. Assim,
deveria ir para onde se encontram os homens, a fim de
indagar se algum deles quer ficar com você.
— Todos eles têm esposas; e, de acordo com as normas mais
recentes, não poderão ter mais do que uma esposa de cada
vez. Ou será que você já se esqueceu disto?
— Os homens estão sempre prontos para descartar uma
esposa idosa, em troca de uma nova. Ninguém lhe fez
proposta alguma, ainda?
— Naturalmente não. Eles respeitam uma moça, em
conseqüência da maneira pela qual ela concebeu
Poopooliluk.
— Se, entretanto, você os desafiar, verá que alguns deles
resolverão aceitá-la, ainda que não fosse, como é, bastante
gorda e robusta. Até mesmo um xamã poderia ficar com
você, se ele fosse apenas uns dois anos mais moço do que é.
Ivaloo cacarejou:
— Muito obrigada, Siorakidsok.
— Ao melhor caçador, você dirá: "Faça suas trouxas e vamos
para o norte; homem: como dote, uma jovem lhe
proporciona um ilho homem; e lhe fará vestimentas,
preparará peles que tirará dos animais que você caçar; e rirá
com você, durante as longas noites, até que as lágrimas lhe
subam aos olhos.
— Alguém gostaria de seguir o seu conselho, aliás,
excelente, Siorakidsok, se não fosse pelo seu filho. Visto,
porém, que o menino é filho de Deus, e que terá de ser o
Novo Redentor, alguém deseja dedicar a ele a vida inteira, a
fim de lhe ensinar a Verdade; por essa forma, ele poderá
levar a Verdade ao coração dos homens, inclusive ao seu,
Siorakidsok. É uma pena que os seus ouvidos sejam tão
duros e tornem impossível a entrada, neles, da Verdade.
— Venha mais perto, você, sua moça estúpida. Alguém
deseja esbofetear suas orelhas.
Ivaloo aproximou-se, respeitosa, e Siorakidsok vibrou-lhe
sonora bofetada:
— Todos os xamãs são dotados de grande luz interior, que
lhes revela a Verdade real!
— Então, por que é que você não acredita em Deus, de
acordo com os ensinamentos da Boa História? — perguntou-
lhe Ivaloo, passando a mão pelo próprio rosto, como que
para suavizar a dor do tapa.
— Um xamã acredita, Ivaloo! Um xamã acredita em todos os
espíritos. O mundo é grande; muitas são as tribos que, no
mundo, caçam, pescam e pecam; e há necessidade, por isto,
de grande quantidade e espíritos.
— Torna-se evidente, agora, que você ficava dormindo na
Escola, Siorakidsok! Só há um espírito: Aquele que Jesus
revelou.
— Não acredite nisso, Ivaloo. Os nomens brancos têm
inteligência extremamente estreita, e são pessoas muito
vaidosas. Esta é a razão pela qual eles ousam dizer que só
existe, no máximo, um único espírito — o espírito deles,
naturalmente! — e afirmam que só ele deve ser obedecido,
devendo todos os outros ser atirados fora. Não é bem assim.
Entretanto, contradizer os homens brancos seria coisa rude;
talvez até mesmo perigosa. Se alguém age, ou pensa, de
modo diverso do que eles adotam ou aprovam, consideram
isso como sendo pecado. Sabe você por que é que não
permitem mais do que uma esposa, ou um marido? Porque
nenhum dos homens brancos seria capaz de tratar
equitativamente várias esposas ao mesmo tempo. Quando
eles tomam em empréstimo as esposas de outros, fazem-no
manhosamente, sem sequer pedir a permissão dos
respectivos maridos. Isto mostra como os homens brancos
são desprezíveis! Agora, Ivaloo, se o Deus dessa gente
branca não fizer você feliz — e será coisa surpreendente se
o fizer — e a encher de sofrimentos, ao invés de felicidades,
isso significará que ele não é o Deus que você deseja. Está
compreendendo?
Ivaloo franziu o nariz; o que queria dizer não.
— Então, ouça, estúpida. Cada tribo tem o deus que merece,
porquanto os deuses são feitos à imagem daqueles que neles
acreditam. Portanto, os estúpidos têm um deus estúpido; os
inteligentes, um deus inteligente; os bons, um deus
bondoso; os perversos, um perverso. O deus dos homens
brancos é ciumento, egoísta e ambicioso, porque ele são
ciumentos, egoístas e ambiciosos. Eles esvaziam de baleias as
nossas águas; esvaziam de focas os nossos mares. Alguém os
conhece muito bem. Muitos, muitos anos atrás, quando ele
vivia muito mais para o sul, onde as baleias eram
abundantes, porque os homens brancos eram poucos, alguns
baleeiros brancos resolveram tomar a seu serviço seis
homens, a fim de exibi-los aos olhos do seu povo, que
nunca, antes, tinha visto homem nenhum. Alguém se
encontrava entre os que então foram escolhidos.
— Você esteve, de fato? — indagou Ivaloo, extasiada.
— Mas um xamã foi suficientemente esclarecido, de modo
que declinou do convite; e esta é a razão pela qual ele ainda
está vivo, hojel Tá tive notícias relativas aos sinistros campos
de caça dos homens Drancos, onde as mulheres são ociosas
e forçam os respectivos maridos a fazer todos os trabalhos,
principalmente os trabalhos mais árduos.
— Que vergonha!
— As mulheres surram seus filhos homens, quando estes se
recusam a trabalhar; assim, todos os filhos homens crescem
acostumados a trabalhos duros; crescem, também,
terrivelmente receosos das suas mulheres, que andam ao léu,
sem coisa alguma, além de mistificação, em suas cabeças.
Ivaloo inclinou-se para trás, com olhos esbugalhados e
expressão de pânico no rosto:
— Nunca ninguém ouviu uma coisa tão horrorosa!
— Não, Ivaloo. Nenhum dos homens voltou de lá. Seis
partiram no navio que atirava fumaça ao espaço; e nunca
mais se teve notícia deles. Durante muitos anos, toda vez
que víamos um homem branco, perguntávamos pelos
homens que tinham ido para os seus campos de caça. Alguns
tinham sabido de sua chegada, mas, nesse caso, ninguém
queria contar; nem dizia que sabia o que acontecera aos
esquimós que tinham sido levados. Todos os levados
desapareceram, sem deixar vestígio algum.
Seguiu-se um silêncio; e Siorakidsok saboreou o terror que
encheu esse silêncio.
— Que foi que você disse? — perguntou ele, porque
percebeu que Ivaloo não estava dizendo nada. — Ouça isto.
A religião dos homens brancos foi concebida para conter a
perversidade de pessoas muito perversas — de um povo que
vive extremamente apavorado diante da idéia de ter de
morrer. O amor dos brancos para com o seu Deus foi
construído na base do terror que eles têm da morte. Acre-
dite-me. É preciso a alma de um homem branco, para
carregar o fardo das suas crenças, e não uma alma como a
sua, Ivaloo. Será que você compreendeu algo do que um
xamã lhe esteve dizendo?
— Nem uma palavra — disse a moça, com admiração.
— Ouça, mulher. Se esse Deus cristão é realmente essa
Potência perigosa e irritável, tal como Neghe e Tetarartee o
apresentam, então será melhor que você se esconda dele. Se,
porém, ele é bondoso, como Kohartok costumava informar,
então você não tem nada a temer da sua parte. Por que razão
deverá o caminho que conduz a alguém, que se pretende
nos ame, ser tão pedregoso, a ponto de nos ferir os pés — ao
invés de ser uma trilha suave, plana, como o oceano? Será
que aquele Deus quer que seus filhos sejam felizes, ou que
sofram? Que é que você pensa?
— Uma moça estúpida não sabe como responder.
— Por qual razão deveria ele exigir auto-tortura e renúncia,
que são coisas que endurecem o coração da gente? Por que
motivo deve haver mérito na paciência e na abstinência?
Você pode responder a isto?
— Não. Uma moça nem sequer percebe do que é que você
está falando.
— Um xamã não encontrou, nem deseja encontrar, o Deus
dos homens brancos. Nós sempre andamos muito bem sem
ele. Mas a luz interior de um xamã lhe revela que aquele que
nos faz homens deseja que seus filhos sejam felizes, não
infelizes. Ele não gosta de ver caras compridas de tristeza, e
sim rostos redondos de felicidade. Ele não quer ouvir
queixas, e sim risos; de modo que também possa rir um
pouco. E ele quer que as criaturas sejam felizes, porque as
pessoas felizes são bondosas, ao passo que as infelizes são
maldosas. Compreende você isto?
Ivaloo franziu outra vez o nariz.
— As pessoas felizes se sentem dispostas a distribuir
gentilezas a toda a gente. Somente os infelizes roubam,
brigam e matam.
Siorakidsok descreveu um círculo, com um gesto da mão:
— Olhe ao redor! Aqui nós vivemos no luxo, com folga e
com requinte. Este é o conforto do sul. Mas não é o seu
modo de vida, Ivaloo. Você nunca será feliz entre os cheiros
de comidas, de tabaco e de querosene, porque você não está
condicionada para isso; nem o seu espírito esta preparado
para as pregações dos pregadores brancos. O seu corpo,
Ivaloo, está acostumado a outro estilo de vida, como a sua
alma está afeita a outro estilo de pensamentos. Aqui, você
não passa de uma foca a quem se tolheu a água, ou de uma
mergulheira a quem se tolheu o ar. De outro lado, deixe o
Tetarartee em cima do gelo, entregue a si mesmo; e você o
verá morrer no espaço de tempo de um giro do Sol, apesar
de todos os seus hinos e de todas as suas preces.
Naturalmente, você não está entendendo o sentido disto,
não é?
— Naturalmente que não.
— Se você procurar adequar-se às maneiras dos homens
brancos, estará perdida, Ivaloo; como eles estão perdidos na
terra dos homens, se não têm carvão e madeira. O Deus dos
homens brancos não tem poder para protegê-los, nem a
você, nas vastidões das superfícies de gelo. O grande frio o
deixa paralisado, uma vez que ele é feito à imagem dos
homens brancos. Muitos homens brancos sempre tentaram,
por nenhuma razão realmente boa e explicada, viajar pelo
território dos homens, com equipamentos enormes, com
grandes quantidades de carvão e de fogões, e também com
trenós, cães e navios vomitadores de fumaça, mas o Deus
deles sempre os deixou ao léu, assim que se exauriram suas
reservas de carvão; assim, as viagens dos homens brancos
sempre tiveram de ser interrompidas a meio caminho, ou,
então, se concluíram em desastre. Onde os homens brancos
reinam, você, Ivaloo, é uma ignorante; mas, em sua terra,
são eles os ignorantes. Assim, um xamã é que lhe diz: volte
para a terra das sombras compridas, onde você é sabia,
porque não há pecado tão grande como o da ignorância. E
esqueça-se dos homens brancos, e também do deus dos
homens brancos, se é que esse deus é feito à própria imagem
feia deles: um ferrabrás vingativo e ciumento, que estabelece
preço para a salvação e acorrenta os seus filhos, ao invés de
libertá-los. Fuja de um deus que diz: "Ame-me; do contrário
você será atirado ao fogo devorador".
O velho xamã fez uma pausa, para tomar fôlego, antes de
continuar:
— O seu deus, Ivaloo, é um camarada sorridente, alegre,
generoso; um grande caçador, que condivide o fruto de sua
caça; que ri com todas as mulheres; e que faz nascer crianças
em todos os iglus. Eles não mora em casas sufocantes de
madeira; mora no gelo descampado. Não se incomoda com o
frio, uma vez que sua barriga está cheia de óleo de baleia.
Não acredite num deus que se vinga de suas criaturas só
porque ele próprio as fez cheias de fraquezas e de erros! Esse
é um deus falso; e os que fazem propaganda de um deus
semelhante são ignorantes ou impostores. Você me
compreende?
A moça estava emitindo exclamações, franzindo o nariz e
sacudindo a cabeça:
— As orelhas de uma moça estúpida Ouvem as suas belas
palavras, Siorakidsok; mas o coração dela não pode captar-
lhes a significação. Há pouco entendimento nesta cabeça, ao
lado de um enorme desejo de compreensão. Se, ao menos,
houvesse um meio de eu adquirir alguma da sua sabedoria!
— Há um meio, Ivaloo! Se você apanhar alguns piolhos da
minha cabeça, e os puser em seus cabelos, eles passarão
alguma da minha sabedoria para a sua cabeça. Ajude-se a
você mesma, sua estúpida.
E ele, condescendenternente, se inclinou para a frente.
— Você é extremamente bondoso, Siorakidsok —
exclamou Ivaloo, jubilosa, embora já estivesse rouca de tanto
emitir exclamações. — Alguém apanhará apenas uns poucos,
porque tem cabeça pequena; e um excesso de sabedoria
poderá dar-lhe terrível dor de cabeça.
E, agradecida, ela seguiu o seu conselho.
Ivaloo mudou-se para uma casa pequena, feita de pedra e
terra, no sopé de um cabeço, não longe da aldeia, mas
também não muito perto; e lá ficou à espera, com cristã
resignação, de que algo acontecesse — e ela não sabia
exatamente o quê. Torngek tinha conseguido ajuda para a
construção da casa. Vivi, entretanto, ciumentamente
guardada por sua mãe, não estivera disponível durante a
construção.
Ivaloo tinha conservado apenas umas poucas coisas, dentre
os antigos petrechos domésticos que possuíra. Muito embora
os utensílios feitos por uma determinada pessoa fossem as
únicas coisas consideradas sua propriedade pessoal, e
pudessem passar de pais para filhos, tais utensílios
precisavam encontrar-se em uso, para ser respeitados. E
Ivaloo não tivera oportunidade alguma de fazer, ela mesma,
uso do que Asiak lhe havia legado; isto porque tanto a casa
da Missão como a casa de Siorakidsok estavam
abundantemente equipadas com implementos domésticos.
Em conseqüência, os utensílios de Ivaloo tinham sido
considerados sobras; e os membros da comunidade se
haviam gradativamente apoderado deles, na medida em que
a necessidade foi aparecendo.
Torngek andou reunindo para ela aquilo de que ela mais
precisava; alem disto, deu-lhe um cachorro para proteção —
a mesma cadelinha gulosa que havia assistido ao nascimento
do filho de Ivaloo. Tratava-se de cachorrinha valiosa,
porque, quando pequenina, a induziram a comer um
punhado de garras de ursos, além de um tufo de pêlo de
arminho; assim, ela adquirira a robustez de uma ursa e a
agressividade da fêmea do arminho.
Alimentos e vestimentas, Ivaloo possuía-os em abundância,
sem ter de pescar, nem preparar armadilhas. Não que os
aldeões lhe dessem alguma coisa. Tetarartee, homem de
iniciativa e propósitos determinados, tinha conseguido pôr a
mão sobre a alma daquela gente; e ninguém, na aldeia —
nem sequer um bode expiatório como Torngek — teria
ousado desafiar e provocar novas torrentes de ira de Deus, e
muito menos a fúria do pregador, por meio do ato de dar
público apoio a uma pecadora não arrependida, posta no
ostracismo pela Igreja. Mas as coisas aconteciam por tal
forma, que, quando os caçadores, de regresso às suas casas,
passavam pelo alpendre de Ivaloo, os tirantes que seguravam
os produtos da caçada se afrouxavam; e alguma coisa sempre
caía, sem ser notada pelos transportadores. O Dedo de Deus,
pensava Ivaloo. Quando um homem voltava das colinas,
com uma penca de tordas mergulheiras às costas, umas pou-
cas dessas aves, abatidas de fresco, sempre deslizavam
magicamente para fora dos cordões e dos laços que as
prendiam. Ou, então, acontecia que alguém, por descuido,
soltava uma sacola de ovos congelados; alguma outra pessoa
deixava cair um par de luvas; e quando Ivaloo via a luva cair,
e chamava a atenção dos que passavam, ninguém dava sinal
de estar percebendo a falta daquela peça de indumentária.
Ou, então, eram peles de raposas. Ou a peletoanca de um
filhote de foca; ou o necessário para a confecção de um par
de botas para criança. Às vezes, era o longo tendão macio e
comprido, retirado a espinha dorsal do narval; esse tendão
dava linha de costura melhor do que os de cachorro, ou de
foca, que ela costumava usar.
Ivaloo carregava os achados para dentro de sua casa; e sorria,
com clara consciência do que estava acontecendo, para
consigo mesma. Como foi que um xamã, sábio e desatinado,
pode recear um dia que Deus iria abandoná-la? Se, ao
menos, ele pudesse trocar um pouco de sua sabedoria por
um pouco da fé que a moça nutria!...
Durante todo o verão, Ivaloo teve vida folgada. E não sentiu
saudades da aldeia. Não crescera habituada às multidões —
nem se havia habituado a elas depois. Tinha um filho e um
cachorro, para fazer-lhe companhia; e tanto um como o
outro a mantinham bastante ocupada. Fervia raízes e bagas,
e com o líquido que daí resultava ela tingia sua linha de
costura feita de tendões, como faziam as mulheres da aldeia;
as vestimentas ficavam muito mais bonitas quando
ostentavam costuras coloridas. Quando se cansava com as
tarefas de costura, ou de cozinha, entalhava pequenas figuras
e flores nos cabos de suas facas. Ainda recentemente, e só
recentemente, ela ficara sabendo que os animais preferem
ser abatidos por meio de armas bonitas; quando as armas
eram belas, os animais ofereciam menos resistência.
Os incômodos mosquitos, pequenos e tenazes, constituíam
uma praga; por vezes, forçavam-na a permanecer dentro de
casa, para expulsá-los com o emprego de fumaça. As nuvens
de mosquitos iam aumentando de tamanho e espessura; de
dia para dia, até que uma pancada de neve os liquidava,
deixando o ar outra vez puro e cristalino. Então ela podia
sair de casa; contemplava os caçadores que passavam; via os
caiaques aflorando as ondas; acompanhava com o olhar as
moças que iam à cata de bagas e cogumelos; assistia ao ato de
os meninos escalarem os penhascos em cujo topo se aninha-
vam as aves, a fim de apanhar pássaros novos; estes eram
comidos vivos, ou, às vezes, deixados a decompor-se, com a
plumagem e tudo o mais, durante um ano ou dois, em tripas
de focas estofadas de gordura feita com óleo de baleia.
O céu andava cheio de aves. As primeiras a chegar tinham
sido as tordas mergulheiras, em suas múltiplas variedades;
elas foram seguidas pelas tordas mais idosas, pelas gaivotas,
pelas urias e pelos êideres, que são uma espécie de pato dos
pólos. Agora, os bandos dessas aves escureciam o Sol; e o ar
vibrava com o concerto dos atitos e dos gritos. Ivaloo
espalhou pedaços de comida ao redor de um buraco que
fizera no teto de sua casa; e quando os pássaros ali
pousavam, para dar uma bicada, ela os puxava pelas pernas; a
seguir, torcia-lhes o pescoço — menos quando os comia
vivos.
Quando ela via um dos pesados umiaques, cheios de
pescadores de baleias, navegando pelas aguas mais distantes,
permanecia dentro de casa, porque as baleias, extremamente
sensíveis e cônscias de si mesmas, não gostam de ser vistas
por mulheres enquanto estão sendo caçadas e abatidas. Isto
ela tinha aprendido durante a sua permanência no sul; e o
aprendera juntamente com várias coisas mais.
Ivaloo sentia que estava amadurecendo, tanto quanto ao
corpo como quanto ao espírito; transformava-se em mulher
de vasta expe-ência. Ainda estava crescendo um pouco,
como lhe revelavam suas vestimentas; mas agora já sabia
como cuidar de si, como dera provas quando perdera a
cadelinha doméstica.
A cadelinha tinha dado combate a dois lobos predadores, até
que alguns homens, procedentes da aldeia, e atraídos pelo
alarido, mataram um deles e afugentaram o outro. A cadela,
contudo, perdera uma orelha na luta; e acabou morrendo
uns poucos sonos dormidos depois. Quando o outro lobo
voltou, Ivaloo umedeceu a sua faca de neve, untou-lhe a
lâmina com gordura de baleia, e enfiou-lhe o cabo no chão,
diante do alpendre.
Ela contemplou o lobo, enquanto este farejou a lâmina
transformada em isca; e lambeu-a. Dali a pouco, o lobo
estava sangrando pela língua; mas continuou a lamber a
lâmina, até ficar com a língua cortada como que em tiras.
Um sono dormido, mais tarde, Ivaloo encontrou o animal de
rapina rigidamente esticado no chão. Ela sabia, porém, que
os lobos não morrem de bom grado, e que teria de ser
cuidadosa. Por isto, aproximou-se do lobo estendido, em
silêncio, com o seu melhor machado; e rachou, como um
raio, o crânio do animal.
Dali por diante, ela rodeou a casa com iscas de mola; e
disfarçou, cuidadosamente, as armadilhas.
Foi de seu pai que ela aprendera a tirar o maior proveito de
todos os animais — com a única exceção do carcaju,
naturalmente. Não somente ela era capaz de matar um urso,
ou um lobo, com lâminas transformadas em iscas; também
sabia como apanhar os piolhos do seu próprio corpo, por
meio de uma raspadeira de peles, transformada em isca com
gordura. Ela introduzia a raspadeira em suas vestimentas; e
depois a puxava para fora, por um cordel. E livrava-se das
pulgas fugidias, que no verão pulavam não se sabia de onde.
Livrava-se pelo processo de conservar, no chão, um par de
rabos de raposas, tornadas viscosas por aplicação de sangue e
gordura; isto atraía as pulgas, e mantinha-as prisioneiras.
Sim. Ela estava plenamente capacitada a tomar conta de si
mesma, com a ajuda de Deus.
Algumas vezes, um homem ou uma mulher se detinha
ocasionalmente, a fim de trocar duas palavras. Por vezes,
Vivi ou Torngek para ali se dirigiam, às escondidas, levando
pequenos presentes: um prato de mexilhões, de mariscos ou
de ostras frescas, tudo retirado de estômagos de focas; alguns
olhos de foca; miúdos de ptármiga, com outras carnes doces;
uma agulha de costura; um pequeno animal esculpido em
pedra-sabão, ou outro brinquedo, para Poopooliluk.
Embora aquela não fosse a estação do ano apropriada para
viajar, alguns viajores, procedentes de bem longe, que
tinham tido notícias do nascimento virginal, ainda
continuavam a chegar àquela terra. Desejavam ver a criança;
e Ivaloo contava-lhes o que sabia, sorrindo. Os visitantes
correspondiam aos sorrisos dela, sorrindo por sua vez. Todos
se mostravam atenciosos para com Ivaloo. Alguns eram
cristãos; mas iam vê-la secretamente, para que Tetarartee
não chegasse à saber da visita que faziam.
Ela, entretanto, ficou sabendo de muita coisa a respeito do
pregador. Ele estava de ponta com Siorakidsok; e continuava
a advertir a sua congregação, assegurando-lhe que o ato de
ter qualquer ligação, por qualquer motivo, com o velho
xamã, nada mais constituía do que desaforada idolatria.
Constituía, pois, um ato que provocava danação perpétua.
Siorakidsok, que já tinha perdido o apoio da comunidade
quanto às suas viagens a Lua, ficou grandemente alarmado
em face deste estado de coisas; e havia tensão, em sua casa,
entre ele e Tornegk, de um lado, e Neghe e os seguidores
dela, do outro lado.
Ademais, nem Tetarartee havia levado consigo quaisquer
quantidades de alimentos de sua propriedade, nem tratava de
pescar, e menos ainda de caçar; e também não fazia a sua
parte de trabalho em prol da aldeia. Aquilo que Kohartok
havia deixado logo se consumiu e desapareceu; e ele aceitava
de bom grado a carne que os aldeões lhe ofereciam, sem
nunca se mostrar humilhado pelos presentes que recebia.
Através de um trabalho infatigável, ele havia inoculado o
temor de Deus e o respeito para com o Seu ministro, bem
profundamente, no espírito do seu rebanho; assim, os fiéis
espiavam-se e delatavam-se uns aos outros,
incessantemente, como que desempenhando o papel de
policiais às Portas do Céu. Nada de caçadas aos domingos.
Nada de cantares feitos de baladas imorais. Nada de andar
nu, de um lado para outro, dentro de casa. Nada de comer
além daquilo que a fome exigia. Nada de risos, isto é,
relações sexuais, fora do âmbito conjugal. Em todo caso,
nada de tais risos, pelo menos publicamente. Em vez destas
coisas, ele queria preces, hinos, salmos, sermões, batizados,
conversões, casamentos, cerimônias rituais — um
espetáculo de um homem só, edificando para durar.
Os serviços religiosos tinham adquirido dignidade. Os
semblantes dos devotos se punham sérios, pois Tetarartee se
interrompia e franzia a fronte, quando via alguém sorrir,
durante as funções. Os cachorros já não tinham mais
permissão para entrar na capela. E, se, ao tempo do regime
de Ivaloo, e mesmo de Kohartok, as mulheres davam de
mamar aos seus bebês durante os sermões, ou lhes davam
alimentos tirando-os de panelas, que levavam consigo,
precisamente para esse fim, agora, assim que uma criança
começava a chorar, ou a fazer traquinices, a mãe respectiva
logo dali saía com ela, seguida pelo olhar de severa censura
de Tetarartee.
Uma mulher de meia-idade, moradora na aldeia, chamada
Meneek, estava com criança de um dos nômades que
tinham armado suas tendas na enseada, na primavera, e que
recentemente se havia convertido ao cristianismo.
Tetarartee deu, aos dois, uma espécie de surra de língua, na
capela; e exigiu que eles se casassem adequadamente.
Meneek não gostou da idéia, por já ser esposa de um
Kookiak, que tinha partido com a expedição; e o que é que
aconteceria quando ele voltasse? O pregador, porém,
garantiu-lhe que nada aconteceria, uma vez que a sua união
com Kookiak, baseada no pecado, era ilegal. A ilegalidade da
união não lhe dava mais do que o simples direito de ir
sentar-se no inferno; ao passo que Deus sorriria, vendo-a
casada de acordo com a maneira correta.
Tetarartee insistiu, até que pudesse parecer estúpida rudeza
recusar-se a mulher, por mais tempo, a aceder à sua
solicitação. E, a título de delicadeza para com o homem
branco, o casal concordou — mas com um sentimento de
bastante inquietação.

CAPÍTULO XIV
O REGRESSO

O inverno trouxe a escuridão e o regresso dos homens, que
chegaram viajando por cima da superficie congelada do
oceano.
Os homens tinham caminhado, com a expedição, para tão
longe, ao norte, por cima do Oceano Glacial e da grande
calota de gelo, que se haviam visto de novo no sul, onde o
mar também degela, e onde existem outros homens brancos
e outros navios que vomitam rolos de fumaça. Ali eles se
separaram dos exploradores, e regressaram por sua conta à
sua aldeia.
Os que voltaram levaram de regresso suas espingardas, suas
munições, suas facas e muitas histórias para contar. Duas
mulheres e várias cadelas tinham procriado, durante a
jornada; uma criança nascera morta; e muitos cachorrinhos
tinham sido devorados pela matilha. Um homem branco,
atingido por efeitos de congelamento, tinha sofrido
gangrena, e sua perna tivera de ser amputada à sua chegada
ao porto que ficava mais ao sul: O filho mais velho de
Neghe, que tinha caminhado de volta boa parte do caminho,
a fim de ir buscar uma faca que esquecera, nunca mais fora
visto outra vez. Esta foi a primeira notícia que se espalhou
pela aldeia, por entre cenas barulhentas de boas-vindas.
Ivaloo foi a última a ouvir as novidades. Ela estava ocupada,
tratando de arpoar peixes, num buraco que tinha aberto no
oceano, a pouca distância do seu iglú, onde o gelo era menos
espesso. Ultimamente, suas reservas se haviam tornado
escassas, devido à circunstância de a caça se dirigir mais para
o sul, todos os homens conseqüentemente caçarem menos,
e toda a gente dormir muito mais. O vento continuou
soprando e apagando-lhe a lâmpada; a Lua mostrava-se
baixa. À luz das poucas estrelas disponíveis, fazia-se difícil
iludir os peixes e induzi-los a subir à superfície; ainda mais
difícil se tornava avistá-los, quando apareciam.
Ela estivera ajoelhada junto ao buraco de peixes durante
tanto tempo, com Poopooliluk às costas, e sem sucesso
algum, que o amortecimento dos membros a impediu de ser
erguer quando, no lusco fusco, a figura esbelta e
inconfundível de Milak se delineou, alta, diante de si. Ela
não lhe havia ouvido os passos; e sentiu-se tomada de terror
ao pensamento de que ele poderia estar morto e de que
aquilo fosse o seu fantasma, disposto a fazer-lhe das suas.
— Alguém está de volta de uma viagem — disse Milak, como
que por acaso, como convinha a um homem de verdade; e a
voz tranqüila do homem lhe dissipou os temores.
— Milak.
Ela se aproximou dos seus pés, fazendo grande esforço; e os
dois trocaram um aperto de mão, sustentando as mãos bem
alto, acima das respectivas cabeças; ao mesmo tempo,
ficaram fazendo repetidas reverências e rindo. Quando
Milak tentou esfregar o seu nariz contra o dela, ela o afastou
de si. Ivaloo sentia-se ansiosa de saber coisas a respeito de
seu irmão, Papik; entretanto, se ele houvesse morrido na
viagem, e ela lhe perturbasse o espírito mencionando-lhe o
nome, as conseqüências poderiam ser desastrosas. Por isto,
ela engoliu a pergunta; e, em substituição, disse:
— Você não diz nada a respeito da criança que está vendo
nas costas de alguém. Eles devem ter-lhe contado coisas a
respeito, lá na aldeia.
— Não houve tempo para ouvir tanto falatório. Nós apenas
acabamos de chegar. É fácil ver que tem uma criança. Mas
você tem um marido?
— Não — sorriu ela. — Não tenho marido.
— Naturalmente que não tem... ou, do contrário não estaria
pescando! E será que, nesse entretempo, você não descobriu
como é inconveniente que se curve por cima de um buraco
de peixes, com uma criança em seu ventre, ou mesmo às
costas, como alguém já lhe preveniu?
— Não há inconveniente algum. Só uma vez a criança caiu
fora do berço das costas; caiu na água; e isto porque alguém
se inclinou excessivamente para a frente. A queda deu, à
moça, um pequeno susto e uma grande risada. Milak, será
que você já ouviu falar do Deus cristão?
— Sim ouvi. Em viagens anteriores. Por quê?
— A criança é menino; é filho Dele. Uma moça concebeu-o,
sem a interferência de homem algum; e também sem sequer
dar a Verdade ao coração dos homens. Milak olhou para ela,
assustado:
— Será que um espírito do Mal entrou em sua cabeça? Você
está falando como se estivesse louca. Por que é que não trata
de rir com alguém, em vez de estar aí falando coisas
insensatas?
Ela franziu o cenho:
— Durante longo tempo, o corpo de uma moça andou com
fome do seu, Milak. Ela chamou por você, durante a sua
ausência; mas havia enorme quantidade de gelo de permeio.
O calor, no meu ventre, era de tal ordem, que teria bastado
para degelar a calota polar. O ventre dava-me a impressão de
que se estava abrindo um buraco, por meio de fogo, dentro
de mim. Nessa altura, alguma coisa aconteceu e apareceu
para acalmar a fome de alguém, e também para lhe apagar o
calor... ela estava com bebê.
— Mas o calor vai voltar. Esse calor sempre volta.
— Mas a gente não deve permitir que ele volte.
O olhar dela correu de um lado para outro e por toda a.
figura de Milak, por meio de movimentos rápidos, como faz
o vento à frente da tempestade. Os dois precisavam ficar
muito perto, para se verem nos olhos um do outro, na
escuridão. Como ela gostava das tristezas cambiantes que se
manifestavam através dos lineamentos dele! Aquelas linhas
finas, que se desenhavam no seu rosto, deviam ser
cinzeladas pelo pensamento, pela preocupação; pois não
podiam decorrer da idade aquela fronte carregada e aquela
boca desdenhosa! Tornava-se difícil acreditar que aquela
compleição de aspecto franzino e aquelas faces nervosas
tinham acabado de enfrentar as saraivadas e intempéries,
vendo sangue e contemplando mortes violentas.
— Você vê — acrescentou ela, antes que ele pudesse
responder — o filho de alguém é tudo, ao passo que o
alguém não é nada; porque ele é filho de Deus, e a Semente
é mais importante do que o solo. Uma moça não quer outros
bebês, para que possa dar a sua vida inteira a este filho; ela
precisará vigiá-lo, cuidá-lo; precisará ensiná-lo, assim como
ampará-lo.
— O seu cérebro está envenenado pelo calor que há em seu
ventre; a tal ponto, que você lhe nega a existência. Você
nem percebe que somente o calor do homem pode ser
apagado. A geada pode ser combatida com gelo, minha
pequena; e o fogo tem de ser combatido com fogo!
Ele a abraçou, apertando Poopooliluk, que começou a
choramingar.
— Alguém não teve o desejo de machucá-lo — disse Milak,
constrangido.
— É fácil fazê-lo deixar de chorar — esclareceu Ivaloo,
sentando-se na neve.
— O filho de Deus berra como qualquer outro pirralho —
escarneceu Milak.
Agora, porém, vendo Ivaloo pôr para fora um dos seios e dar
de mamar ao filho, tratou de se manter em silêncio.
— Alguém se esqueceu — disse ela, sorrindo, ao notar o
olhar do homem. — Ninguém deve ficar olhando.
— Alguém lhe mostrará o que é que preciso fazer! —
exclamou ele, mostrando-se zangado desta vez.
Arrancou a criança do colo dela, com mãos trêmulas, e
pousou-a na neve, sem se incomodar com os seus berros. Os
olhos de Ivaloo ficaram esbugalhados; mas os seus lábios se
mantiveram fechados. A seguir, Milak pôs a mão dentro da
jaqueta da moça, passando-a rudemente por cima dos seios
regurgitantes, um dos quais ainda pingando leite; e fez
pressão simultânea, tanto aos seios como às costas da moça.
— Uma pecadora magnífica é o que alguém logo fará de
você! Ela deveria ter dado pontapés e mordidas; deveria ter
arranhado e cuspido, como as boas maneiras da sua raça
exigiam. Mas não houve sequer sombra de luta dentro dela:
Ivaloo deitou-se ali, hesitante, sem ouvir coisa alguma,
meneando a cabeça na neve, já quase no ponto de cair em
pranto. Isto arrefeceu o ardor do moço, que então se afastou
dela e foi acocorar-se a um canto; e ali ficou a pentear o
próprio cabelo, com os dedos trêmulos.
Ela se sentou no chão, e tomou Poopooliluk outra vez em
seus braços; fez como se os braços servissem de berço à
criança; então sorriu para Milak. A tempestade tinha
passado.
— No seu sono, uma jovem por vezes tem sonhado que você
esteve rindo em companhia dela; porque não há pecado
algum, no sonho.
— Você deveria mudar-se para longe daqui; deveria ir-se
embora em companhia de alguém, Ivaloo!
— Será que nós poderemos algum dia ajustar-nos um ao
outro, meu pequeno?
— Por que não?
— Nós somos desiguais!... Uma moça é estúpida, você é
habilidoso; ela é vagarosa, você é veloz; ela é do norte, você
é do sul — e isto faz com que você prefira peixe, ao passo
que ela dá sua preferência à carne. E isto se não se disser
nada quanto ao fato dela ser mulher, sendo você homem.
— Nós nos ajudaríamos como o arco e sua flecha, minha
pequena! Papik também tem certeza quanto a isto.
— Papik! — exclamou ela. — Ele está de volta?
— Você deverá vê-lo logo.
— Por que é que ele não veio direto para cá?
— Ele foi ver uma mulher que, para ele, é mais importante
do que a sua irmã.
— Como é que pode ser isso?
— Não pode ser assim, lá?
— Nós crescemos lado a lado. Brincamos com a mesmas
bonecas. A nossa carne é a mesma, procedendo da mesma
semente e da mesma terra, sendo alimentados pelas mesmas
tetas e nutridos pelos mesmos alimentos. Uma foca? Alguém
apanhava-lhe a nadadeira esquerda, e ele a direita. Um urso?
Alguém apanhava-lhe o olho direito, e ele o esquerdo.
Como poderia haver jamais mulher mais importante para
ele?
— Porque o tempo passa e as crianças se fazem adultas, de
modo que, então, já não querem mais brincar com bonecas
de chifre e pele e animais, e sim com bonecas de carne e
osso. Assim, Papik foi primeiro ver Vivi, da mesma maneira
pela qual alguém veio ver você.
Ela olhou para as próprias botas; e houve, então, silêncio,
que foi interrompido, de súbito, pelo latir furioso do seu
novo cachorro que estava no iglu.
— Alguém está chegando!
Ivaloo ergueu-se, rápida, e apressou-se a caminho de sua
moradia, com o filho nos braços, seguida por Milak.
Ela encontrou o seu cachorro, que fora surrado, a
choramingar à entrada do iglu; dentro, a lâmpada já tinha
sido acesa; e, em cima do catre feito de neve, havia uma
grande figura: tinha um rosto muito amplo, com um sorriso
de dentes enormes, de dentes comedores de carne crua; e lá
estava a perfeita imagem de Ernenek, exatamente como
Asiak o havia visto, uma geração antes.
— Papik, meu querido pequeno! — exclamou Ivaloo; e
correu a abraçá-lo.
Tão pequeno era ele, que, embora curvasse a cabeça, a ponta
dos seus cabelos em desalinho roçava pelo gelo da cúpula.
Era uma grande massa de músculos, mais largo e mais alto do
que quando partiu; e, ademais, havia aquele vinco arrogante
por baixo do lábio inferior; havia aquele avanço do queixo; e
aqueles movimentos bruscos do peito, que tinham sido
movimentos de seu pai, Ernenek.
Ela esfregou o rosto contra o dele; bateu com a ponta do
nariz nas suas faces; e farejou-o. Seus olhos encheram-se de
lágrimas, mas não de tristeza. Aquele era Papik, sua carne,
seu sangue; aquele era Ernenek ridivivo; e esta era Asiak,
continuada. No cheiro do seu rosto, na mistura da respiração
dele com a sua, ela cheirou, outra vez, o ar da sua meninice
e dos primeiros iglus em que ambos haviam vivido.
E ela sabia, também, que ele não tinha aparecido ali para
fazer tagarelices, nem para comer e descansar, e sim para
pedir; sabia que se tratava de assunto urgente; sabia que ele
estava zangado.
Ela reconhecera o cheiro de zanga na pele do irmão.
— Aconteceu que alguém regressou — disse Papik,
afastando-se e caindo pesadamente, outra vez, no catre de
neve.
— Aconteceu que alguém ganhou um bebê, em sua
ausência. Ela se aproximou novamente dele, farejando e
esfregando. Rostos amplos facilmente se esfregam uns aos
outros.
Papik ergueu a criança no ar, e riu para ela, como quem ri na
presença de uma excelente piada. O homem já se havia
esquecido das suas preocupações. Uma coisa de cada vez.
— Que criança de aspecto estranho!... Cabelos e olhos
como aqueles que os homens brancos têm.
— Isso aconteceu porque Foopooliluk procede do Deus dos
homens brancos. Alguém lhe explicará o caso, em outra
oportunidade. Em primeiro lugar, conte a uma sua irmã que
é que está acontecendo com você, Papik. Há preocupações
em seu espírito.
Ele pousou a criança, e retomou suas preocupações.
— Ivaloo — disse ele, fazendo uma carranca — alguém
esteve pensando.
— E o que é que resultou do pensamento?
— Uma dor de cabeça, principalmente, e, por fim, uma
conclusão. Depois de dois anos de vida em companhia dos
homens brancos, alguém os compreende menos do que da
primeira vez em que com eles se encontrou. O modo de
viver deles não é, de jeito nenhum, o modo de viver dos
homens, Ivaloo. O seu irmão não conseguiu habituar-se a
ele; mas alguns esquimós se habituaram. E, agora, viemos à
saber que Tetarartee expulsou você da aldeia. Por isto,
alguém resolveu viver em lugar em que não haja homens
brancos; resolveu levar você de volta para onde o Sol é
baixo, e onde há animais que nunca viram seres humanos.
— Talvez seja uma boa conclusão, meu querido pequeno.
Milak riu amargamente e disse:
— Não se pode fugir aos homens brancos só pela
circunstância de se ir para o norte! Pelo menos, não se pode
mais. Você sabe disto. Papik. Não. Não. Será melhor travar
amizade com eles; será melhor aprender as maneiras deles;
será melhor até aprender as leis que eles põem em vigor.
— Por que é que não se pode fugir deles, indo para o norte?
— indagou Ivaloo.
— Porque estão indo também para o norte. Foi o que eles
nos disseram. Não foi o que disseram, Papik?
Papik acenou com a cabeça, afirmando:
— É verdade. Mas deixemos que eles venham! Alguém fará
facas mais pontudas e cortantes; fará flechas mais velozes;
fará lanças mais compridas; preparará grande quantidade de
iscas de mola. E quando eles, os homens brancos, vierem,
serão mortos, como se fossem lobos!
— Mas por que é que eles virão para o norte, se não gostam
do frio, nem das longas noites? E, se quiserem petróleo, eles
o conseguirão mais facilmente nas regiões em que o mar
degela.
— Há duas coisas que eles querem, alem do petróleo —
começou a explicar Milak; e então se fez grande silêncio no
iglu. — Primeiro, um certo metal que se supõe esteja oculto
por baixo da calota polar do norte. Por isto, eles estão
preparando-se para vir com grande quantidade de
explosivos; os explosivos são as coisas com que as balas são
feitas. Querem fazer saltar a calota de gelo; em seguida,
cavarão o solo, em busca do metal que esperam encontrar,
dentro da terra que se acha por baixo do gelo.
— Mas o que será que eles querem fazer com esse metal?
Será que já não possuem enorme quantidade de metal?
— Este é um metal especial, de que eles precisam para fazer
outro explosivo, muito poderoso; com este outro explosivo,
será fácil matar uma grande massa de gente de uma só vez.
Esse metal é escasso nas terras deles; mas, de acordo com o
que informam os seus xamãs, eles o encontrarão por baixo
do nosso gelo — e em grande quantidade.
— Explosivos para matar gente?
— Os homens brancos matam-se uns aos outros,
regularmente, com bastante freqüência, a pequenos
intervalos. Não foi isto o que eles nos contaram, Papik?
Papik fez com a cabeça sinal afirmativo, com o cenho
carregado; e Ivaloo olhou ora para um, ora para outro,
tomada de estupefação.
— Parece — disse Milak — que um grande nervosismo os
ataca a intervalos de determinado número de anos; então,
grandes tribos se unem para destruir outras grandes tribos.
Nessas ocasiões, os homens brancos matam mais gente do
que os homens matam caribus.
— Mas por quê?
— Parece que isso tem o que ver com os negócios deles. Mas
o caso parece que era excessivamente complicado, de modo
que os homens brancos não conseguiram explicar; e
também não puderam concordar com as várias explicações.
Só as explicações diferentes quase provocaram lutas entre
eles.
— Tudo isto é muito confuso. Você não está explicando
direito.
— Eles também não conseguiram explicar direito. Mas
tornaram bem claro que muitos homens brancos vêm cá
para o norte; arrebentam os gelos por meio de explosões;
procuram metais no fundo da terra; e costumam ficar nas
regiões para as quais se dirigem, quer encontrem, quer não
encontrem os metais procurados.
— Por quê?
— Essa é a segunda razão da vinda deles: querem impedir
que outras tribos de homens brancos se radiquem nos
mesmos lugares. Parece que os primeiros que se estabelecem
devem ter uma vantagem sobre os que chegam depois, no
decorrer do nervosismo assassino que se seguir.
Ivaloo estava como que a cair, de surpresa em surpresa.
— Mas será que eles nunca ouviram falar dos ensinamentos
de Jesus Cristo? Não terão eles pregadores nas suas
povoações?
— Talvez que os seus pregadores andem excessivamente
ocupados, viajando pelas terras dos homens — comentou
Milak. — Em todo caso, os homens brancos estão
planejando rumar para o norte. Em primeiro lugar, mandam
pregadores; depois, mercadores; depois, homens com
explosivos. Parece que é sempre assim que eles fazem.
— Por enquanto, o norte está livre deles; e um homem
pretende voltar para lá — afirmou Papik, obstinadamente.
— Mas acontece que alguém acha fatigante estar sempre na
necessidade de pedir a outros homens que lhe emprestem
uma das esposas. Os outros, a quem se pedem os
empréstimos, se sentem excessivamente importantes, ainda
quando são generosamente retribuídos com um bom pedaço
de uma caça.
Milak concordou, com energia.
— Isso constitui verdadeira perda de cara. Alguém também
estaria mais disposto a dar em empréstimo, do que a pedir,
em empréstimo, uma esposa.
— As duas coisas estão erradas — afirmou Ivaloo.
— Por quê?
— Ninguém sabe por quê; mas é assim. O homem branco
afirma que é assim; e ele sabe com exatidão o que é direito e
o que é errado.
— Como é que você sabe que ele sabe? — indagou Papik.
— Ele diz que é assim.
— Oh! Nesse meio tempo, como conseqüência do seu
próprio pensamento, alguém decidiu tomai esposa para si
mesmo, antes de voltar para o norte.
— Aí está a Vivi — assinalou Ivaloo, como que por acaso. —
Ela é uma boa alinhavadora de vestimentas.
— Um homem teve notícia disso, em sua viagem. Por isto,
dirigiu-se aos pais dela, e ofereceu-lhes uma nova faca de
aço, em troca da moça. Antes, porém, alguém pediu para ver
os alinhavos dela.
Papik desejava tornar claro que era somente a conveniência
que determinava a sua tomada de iniciativa; e isto porque,
no caso, nenhum outro sentimento interferia; porque, se
interferisse, o ato seria indigno de um homem.
— Alguém viu grande quantidade dos trabalhos de agulha
dela — esclareceu Ivaloo. — Ela dará uma boa esposa.
— Entretanto, a mãe dela, Padlock, não somente se recusou
a permitir que eu visse os trabalhos de agulha dela, mas
também repetiu de todo a minha proposta; e repeliu por
algumas razões, ao que parece, ligadas aos desejos de
Tetarartee. Ora; tudo isto se me afigura muito estranho.
— Você percebe. Tetarartee, que sabe, sobre pecados,
muito mais do que qualquer pessoa que jamais tenhamos
conhecido, é quem nos diz o que deve ser feito, e o que não
deve ser feito, de acordo com o desejo de Deus.
— Que Deus?
— O espírito mais poderoso de todos; mais poderoso do que
todas as outras forças e todos os outros espíritos reunidos; e
muito corajoso. Esse Deus nem sequer tem medo dos
mortos; ao contrário: assa-os em cima de uma grande
fogueira, se eles quebram tabus que Ele mesmo, esse Deus,
estabeleceu.
Papik franziu a fronte:
— Durante a nossa ausência, as nossas mulheres foram
ensinadas a dizer e a fazer grande quantidade de coisas que
os homens não conseguem entender. Assim, Kookiak não
consegue explicar por que é que a sua esposa, Meneek, está
escondendo-se dele. Parece que o homem branco encorajou
algum outro homem a roubar-lhe a mulher. E Argo está de
briga com Neghe. E Padlock declarou que, antes que seu
marido, Hiatallak, possa rir em companhia dela, os' dois, ele
e ela, precisam ir ver o pregador e obter sua permissão.
Nenhum homem pode engolir semelhante humilhação! As
mulheres da aldeia e todos aqueles forasteiros que aqui
chegaram recentemente estão falando de pecado, e também
de tabus próprios dos homens brancos. Os homens brancos,
com os quais nós viajamos, não ensinaram apenas um tabu:
nós não tínhamos permissão nem sequer de tocar nos
pertences deles. Entretanto, alguém foi informado, pela mãe
de Vivi, de que você pode explicar o que é que o homem
branco deseja, antes de nos dar permissão para que bulamos
nas coisas deles. Alguém está disposto a fazer o que for
necessário, desde que não se trate de algo muito humilhante.
Ivaloo meneou a cabeça.
— O homem branco quer que todos se tornem cristãos.
Ora, a mãe de Vivi é muito boa cristã; e também Vivi o é; e
então Vivi não pode casar-se com ninguém que não seja
também cristão. Isto está em claro?
— Não — disse Papik.
— Sim — disse Milak. — Alguém já ouviu muita coisa a tal
respeito, em viagens anteriores.
— Qualquer mulher se casará com um bom caçador —
esclareceu Papik, impaciente. — Alguém pode caçar. Vivi
pode costurar. Que é que o homem branco tem que ver com
isto? Será que é o homem branco que irá caçar para ela?
— Não parece que você esteja compreendendo, Papik. Nós
procuramos respeitar os tabus que o homem branco
estabeleceu.
— Será que eles respeitam os nossos?
— Não. O homem branco não acredita nos nossos tabus.
— Então por que é você acredita nos dele?
— Alguém acredita em todos os tabus, pequeno Papik.
Pessoalmente, uma moça gosta muito de tabus. Para ela,
quanto mais tabus, tanto melhor.
— E qual é a solução?
— Uma boa solução é a de você tornar-se cristão.
— E como é que se faz para isso?
— Você precisa ter fé.
— E onde é que se encontra isso? Nas montanhas, no gelo,
ou na água? A gente caça isso, ou apanha na armadilha? Ou
será que pesca?
— A fé acontece no seu coração, depois de você haver
recebido as lições. Você precisa prestar atenção à Boa
História; precisa aprender a amar toda a gente, até mesmo os
seus inimigos; você tem de fazer o bem a todos, inclusive
àqueles que você odeia; e tem de perdoar àqueles que lhe
fazem mal. Estes são os ensinamentos.
— Tudo isto soa como coisa muito estúpida aos ouvidos de
um homem.
— Não soará mais assim, depois de você deixar que Cristo
entre no seu coração, como alguém já fez.
— Doeu?
— O quê?
— Quando essa coisa entra no seu coração. Deve doer.
— Não, Papik. Isso enche o seu coração de doçura.
— Assim, se você não se vinga, e ama os seus inimigos,
você é um cristão.
— Desde que o pregador diga que o é.
— E ele é cristão?
— Naturalmente que é.
— Mas então por que é que ele não perdoa a você, por tudo
o que fez para ele?
— É possível que se presuma que devamos perdoar somente
os nossos inimigos, não os nossos amigos.
— Mas o que foi que você fez?
Ivaloo franziu a fronte:
— Uma moça é ignorante demais, e não consegue saber,
Papik. É provável que ela deva penitenciar-se por não ter
ido à capela durante todos os anos anteriores a seu encontro
com Kohartok. Ou, então, talvez seja porque seus pais eram
pecadores. Algum dia, a moça descobrirá a razão, talvez.
Você percebe; nós somos estúpidos; ele é inteligente.
— Mas por que é que ele não ama você? Pois ele não diz que
nós devemos amar toda gente? E ele não a ama, Ivaloo?
Padlock tornou isso bem claro.
— Oh, Papik, não me faça tantas perguntas assim! Você
nunca se fará um bom cristão, se continuar a fazer tantas
perguntas como está fazendo. Alguém esteve pensando,
pensando, a respeito de todas estas coisas, até que a cabeça
começou a doer-lhe. Nós vivemos num mundo misterioso!
Uma moça nunca soube como o mundo era misterioso,
antes dos homens brancos começarem a explicá-lo.
— Oh, Ivaloo! Seu irmão foi informado de que você está
louca; e ele começa a acreditar nisso! Não há sequer uma
palavra que faça sentido, em tudo o que você está dizendo.
Você não deveria nunca ter sido deixada sozinha!
E o silêncio que se seguiu foi todo cheio do pensamento de
Asiak, de cuja morte Papik só muito recentemente poderia
ter tido notícia. Depois de ficar sentado algum tempo, em
silêncio, ele disse:
— Mamãe costumava dizer-nos: "O homem branco é como
a praga; e somente onde faz um frio muito intenso demais é
que a gente se livra dele". Esta é a razão pela qual nós
devemos ir o mais onge possível, para o norte; tão para o
norte que, seja para onde for que olhemos, olharemos
sempre para o sul; então mataremos seja la quem for que
chegar depois de nós.
A zanga de Papik ia aquecendo-se, estimulada por suas
próprias palavras:
— Ivaloo — disse ele, pulando e pondo-se de pé. — Há
gosto de sangue em minha boca! Padlock disse que Vivi
nem sequer falará comigo, antes de conseguir permissão do
homem branco para isso. Ivaloo, alguém está disposto a ir
pedir esta permissão; e será melhor que o homem branco a
dê!
— Também Milak pulou, pondo-se igualmente de pé:
— Alguém irá em sua companhia. Ele também tem umas
coisas para dizer ao homem branco!
Chegou então a vez de Ivaloo pôr-se de pé:
— Desculpem a uma moça estúpida, o fato dela se adiantar
— disse Ivaloo, cobrindo com seu corpo a saída do iglu. —
Mas alguém irá falar com ele, antes de vocês. Nenhum
benefício pode resultar da raiva. Tomem chá, nesse
intervalo.
— Então vá depressa — ordenou Papik. — Um homem não
se sente com disposição para tomar chá. Um homem está
enfurecido; e não pode deter a própria fúria, da mesma
forma que não pode deter o crescimento dos seus cabelos.
As mãos de Papik tremiam; e o calor de sua fúria também
inflamou o espírito de Milak.
— Nos esperaremos por breve tempo — esclareceu Milak. —
Depois, iremos... com as espingardas.
— Mas tomem chá, primeiro.
A toda pressa, Ivaloo pôs neve para se derreter em cima da
lâmpada, amarrou a criança às suas costas, e saiu de lá
correndo.
Uma luz brilhava através da janela da casa da Missão; mas a
porta estava aferrolhada. Kohartok nunca aferrolhara aquela
porta.
— Bata, e a porta lhe será aberta — disse Ivaloo de si para si,
recordando-se da promessa bíblica, à guisa de
encorajamento; e bateu.
— Quem é?
— Ivaloo.
Ela ouviu o tique do cadeado; e Tetarartee deixou-a entrar.
Um livro estava aberto em cima de sua cadeira, por baixo da
lâmpada de querosene.
— De que é que se trata?
O rosto do sacerdote tinha expressão de ansiedade e fadiga; e
Ivaloo sentiu pena dele. O pregador devia estar sofrendo.
Mas os seus olhos esbraseados repeliam todo sentimento de
piedade ou comiseração.
— Há alguma coisa de que você deverá tomar
conhecimento — disse Ivaloo. — Coisas espantosas estão
acontecendo neste mundo. Uma moça acaba de saber que,
entre os homens brancos, um grande nervosismo assassino
irrompe freqüentemente, a breves intervalos. Matam-se uns
aos outros, em grandes quantidades, em tais ocasiões. E logo
os homens brancos virão aqui para o norte, à procura de
algum metal que lhes servirá para matar mais gente.
Tetarartee escarneceu:
— Foi para isto que você veio visitar-me?
— Uma estúpida moça pensou que você deveria saber disso,
a fim de que evite que o fato aconteça, ou lhe suspenda a
continuidade, se estiver acontecendo.
Tetarartee bateu no assoalho, com os pés:
— Você foi muito atenciosa, comunicando-me esse fato.
— Oh, uma moça fez isso com o maior prazer.
— Há mais alguma coisa que você acha que um pregador
ignorante deva conhecer?
— Sim. Que o irmão de alguém, Papik, que acaba de voltar,
deseja regressar ao norte em companhia dela.
— Será que você vai querer falar de novo dessa história da
sua gravidez virginal, antes de partir? — indagou Tetarartee,
malicioso.
— E amontoar o pecado de mentir em cima de todos os
outros pecados de uma moça? Por certo que não, Tetarartee.
— Então, vá. Vá. Volte para o norte em companhia de seu
irmão, Ivaloo; e que Deus tenha piedade de sua alma!
— Muito obrigada, Tetarartee. É esta a primeira vez que você
diz uma palavra amável a uma jovem aloucada. Nós
partiremos imediatamente. Mas acontece que Papik planeja
levar consigo Vivi, uma vez que as mulheres são escassas lá
no norte. Você quer casá-los, pela lei de Deus, antes que
eles partam?
— Já fui informado a respeito daqueles que voltaram para cá,
e de quem eles são. Seu irmão, ao que parece, se encontra
tão longe do cristianismo como você. Mas estou disposto a
falar com ele, na esperança de que as minhas palavras
venham a cair em solo mais fecundo e mais receptivo do
que me aconteceu com você.
— Você sempre fala muito lindamente, Tetarartee. Agora,
porém, uma moça estúpida gostaria de saber o que foi que
você disse.
— Papik terá de receber muitas lições, antes que eu o possa
declarar cristão, e também antes que eu lhe conceda
casamento cristão.
— Mas não há tempo para lição nenhuma! Se você os casar
agora, alguém lhe ensinará tudo quanto ele precisa aprender.
Ela conhece bem a Boa História; e conhece também os
caminhos que conduzem ao coração dele.
— Uma mentirosa como você, tentando iluminar alguém
com a Verdade? Pobre moça! Será que você não vai parar
nunca de falar estupidezes?
— Acontece — disse Ivaloo, com um fio de voz — que
Papik vai partir com Vivi, de qualquer maneira; e se você
não mes conceder casamento cristão, eles partirão sem esse
casamento; e viverão em pecado.
— Então, essa é a espécie de irmão que você tem! Um irmão
digno de sua irmã, com efeito! Como poderia eu considerar
cristão um sujeito semelhante?
— Por favor, oh, por favor! Vamos evitar violências e
contratempos!
— As ameaças do Diabo de nada valem na Casa de Deus.
Agora, Tetarartee começou a falar com frieza; mas com
fulgurante intensidade por baixo das cinzas. E continuou:
— Leve o seu irmão e o seu filho em sua companhia; e não
volte mais para cá, enquanto Deus não lhe mostrar o
caminho da graça, penetrando em seu coração! Vá, agora.
Você já provocou bastantes aborrecimentos em nosso meio.
Ivaloo franziu a testa:
— Uma moça pediu tanto, a Deus, que lhe desse orientação;
e acontece que Deus agora está mostrando-lhe o caminho
certo. Se uma moça quiser algum dia perceber a presença de
Deus, outra vez, ela não deverá dar-lhe ouvidos, porque
tudo o que você pôs no coração dela é ódio e amargura.
Siorakidsok estava com a razão: há muitos deuses; e o seu
deus não é o Deus de Kohartok. Alguém não sentiu a
presença do seu Deus no próprio coração, desde que você,
Tetarartee, chegou a esta aldeia. Porque Deus jamais estará
onde for que você esteja. Agora, porém, uma moça sabe
onde é que poderá achá-Lo!
— Saia daqui, você, sua monstruosa blasfema! — gritou o
padre, apontando-lhe a porta.
Ela, todavia, já lhe tinha dado as costas, e já se havia posto a
caminho, correndo.

Ivaloo correu para dentro do iglu de Padlock. Ali, Padlock
era rainha; e Hiatallak, seu marido, nada mais era do que um
servidor, muito embora os dois sempre houvessem
procurado ocultar o fato, aos olhos da comunidade. Os dois
não pareciam um casal há muito tempo separado e satisfeito
por se encontrar de novo. Estavam tão afastados quanto
possível um do outro; os semblantes dos dois pareciam
expressões de tempestade. Vivi encontrava-se entre marido
e mulher. Seus olhos, avermelhados pelas lágrimas que havia
chorado, como que se iluminaram, à vista de Ivaloo.
— Perdoem a uma moça precipitada, por ela entrar neste
iglu sem ser convidada, e também por falar sem ser
solicitada — disse Ivaloo, a toda pressa. — Mas o fato é que
há um irmão que está disposto a dar a vocês, pais de Vivi,
tudo o que vocês quiserem, em troca da Vivi. Ele é
usualmente muito bem sucedido como caçador.
— Que foi que Tetarartee lhe disse a tal respeito? —
perguntou-lhe Padlock, em tom severo.
— Ele quer que se passe tempo, para tornar Papik cristão, e
Papik já não dispõe de mais tempo. Assim, se uma moça
impertinente pode adiantar a sua opinião, será melhor deixar
que Papik leve Vivi, de qualquer maneira; depois, quando
Papik tiver aprendido a Boa Palavra, poderá tornar-se
cristão.
— Você está maluca, menina?
— Oh, toda gente chama toda gente de maluca; logo, é
possível que uma moça o seja. Mas alguns dizem que esta
moça é maluca, e o dizem por uma razão; e outros
asseguram a mesma coisa, mas por outra razão. Entretanto,
uma coisa é certa: Papik está vindo para cá, para levar a Vivi;
e haverá aborrecimentos, a menos que vocês deixem que ela
parta com ele.
— Ele que venha — declarou Padlock, transformada numa
muralha de desafios. — Pela salvação da alma de nossa filha,
nós lutaremos contra ele até ao nosso último suspiro. Não
lutaremos, então, Hiatallak?
Hiatallak fez com a cabeça um sinal afirmativo, com um
sorriso acarneirado. Coçou a cabeça, e ficou como que a
indagar do que é que se tratava. Vivi conservou sua cabeça
erecta; e manteve o olhar como que ancorado no rosto de
Ivaloo.
— Será que você irá com Papik, se ele quiser que você vá,
minha querida pequena? — perguntou-lhe Ivaloo.
Vivi ruborizou. Seus olhos se dirigiram ao rosto de sua mãe;
recuaram; a seguir, ela disse, às pressas, com um fio de voz:
— Irei.
Padlock vibrou um soco em sua filha, atirando-a ao chão,
onde Vivi se pôs a choramingar. Ivaloo, que nunca tinha
visto pais baterem em filhos, sentiu-se horrorizada. Padlock
virou-se contra ela, como uma fúria:
— Vá embora daqui, e nunca mais me apareça! Sua
perversa! Sua maldita! Alguém acredita, com efeito, que não
foi senão o Diabo, em pessoa, quem lhe fez esse menino que
você agora está carregando às costas!
Ivaloo, porém, não a estava ouvindo. A zanga de Padlock
recordava-lhe a zanga que acabara de deixar fervendo no seu
próprio iglu. Ela correu para fora, e rumou a toda pressa para
a sua moradia. Depois, começou a ficar cansada de correr.
Poopooliluk passara a pesar-lhe nas costas. Em certa altura, o
menino acordou, e começou a chorar.

O iglu de Ivaloo estava vazio; o pavio da lâmpada crepitava e
estalava, encontrando-se a luz prestes a extinguir-se. A água,
que pusera em cima da lâmpada, lá estava, intacta.
Novamente do lado de fora, em pleno ar livre, os seus
joelhos cederam; cederam devido ao medo, e também
devido ao fato de ela não saber mais que rumo tomar. Tudo
lhe voltava à memória, daquilo que Asiak costumava dizer-
lhe; e isto a enchia de raiva e angustia. os homens estavam
encaminhando-se para a violência; os homens brancos pôr-
se-iam no encalço deles, durante anos e anos a fio;
envenenar-lhes-iam a vida com a ameaça e o terror do seu
poderio; os brancos escreveriam os nomes dos homens em
grandes livros; em livros que duravam mais do que a
memória dos seres vivos.
Ivaloo caminhou pesadamente, de volta, por cima do mar
congelado, em direção ao povoado. Por várias vezes ela teve
de parar, para retomar fôlego. Todos os iglus estavam
iluminados, rutilando no seio da noite. Toda a gente estava
de pé, comemorando o regresso. Mas alguma coisa parecia
estar na iminência de acontecer. O povoado estava em pleno
bulício; havia labaredas de grandes tochas de sebo, a mover-
se de um lado para outro, projetando grandes sombras trê-
mulas. E então ela estugou o passo.
Argo passou correndo por Ivaloo, levando uma tocha de
labareda grande numa das mãos, e uma espingarda na outra.
— Que é que está acontecendo, Argo? Por que é que você
não está em casa, em companhia de Neghe, depois de tão
longa ausência? — indagou Ivaloo, procurando acompanhá-
lo com passos rápidos.
— Sangue está correndo; mas haverá mais! Kookiak acaba de
matar o homem que lhe havia roubado a esposa, Meneek; e
a esposa de alguém, Neghe, foi enfeitiçada pelo homem
branco, de modo que não permite a ele que permaneça
perto dela, à distância necessária para que riam juntos! Ela
foi para a casa de madeira, procurando proteger-se. E ela
precisa de proteção, aquela cadela sem rabo! Um marido tem
o propósito de surrá-la com um porrete, até que ela se sinta
disposta a rir de novo com ele.
— Espere! Espere! — continuou Ivaloo gritando, mas em
vão. Ouviu-se o barulho de mais botas caminhando sobre o
gelo; e
Papik e Milak surgiram ao lado dela, Ivaloo. Os dois tinham
espingardas nas mãos; e encontravam-se a caminho da
Missão.
— Papik! Para onde é que você está indo?
Havia fúria de batalha na voz de Papik:
— Visto que você não voltava, nós fomos buscar nossas
espingardas; no caminho, ficamos sabendo que Padlock se
havia refugiado na casa do homem branco, arrastando Vivi
consigo. Agora, alguém está indo buscar Vivi; está indo
arrancá-la de lá.
Ivaloo mal conseguia acompanhar os passos apressados do
irmão. Labaredas, passadas e vozerio, tudo se cruzava e se
recruzava no ar, procedendo de todos os lados. Argo estava
na frente; e os maridos de Torngek apareceram, carregando
Siorakidsok em seu tapete.
— Empurrem o diabo branco de novo para o lugar de onde
ele veio! — ia gritando Siorakidsok. — Este é o fim da sua
maléfica influência!
Na praia, diante do alpendre da Missão, a sombra da velha
Tippo de súbito se ergueu:
— Voltem, retirem-se! Vocês, seus perversos!
Ela também estava brandindo no ar uma espingarda. A aldeia
parecia estar cheia de espingardas, a contar do momento do
regresso da expedição.
— Não se atrevam a profanar a Casa de Deus!
— Feche essa boca enorme; do contrário, nós veremos por
ela os seus pés, sua foca sem dentes — gritou Siorakidsok.
— Atire fora essa espingarda, Tippo — ordenou Argo,
esbarrando no corpo da mulher — ela pode deflagrar; não
percebe, sua velha estúpida?
— Pode deflagrar às suas costas, se você não virar
imediatamente!
Argo, porém, continuou caminhando para a frente. Papik
alcançou-o e pulou para o alpendre da Missão:
— Saia com Vivi, homem branco! Do contrário, você pode
contar que já viveu todos os seus dias! — rugiu ele,
martelando a porta com a coronha de sua espingarda.
— Alguém deseja ver a cor do seu fígado, Tetarartee! —
clamou Milak, com aquela sua voz alta, nítida, clara.
— Faça-lhe um favor, e empurre-o para o céu — disse a voz
de falsete, muito aguda, de Siorakidsok.
Um tiro foi deflagrado; e Argo, que já estava com um pé
dentro do alpendre da Missão, mudou de idéia. Pôs uma das
mãos à cintura, deixou-se cair no chão, sentado, e ali ficou,
imóvel, com a sua sanha a degelar-se sob a neve.
— Conservem-se a distância, vocês, seus pagãos! — gritou
Tippo, brandindo a espingarda que fumegava, como se
aquela arma fosse uma bandeira.
— Matem a velha cadela maluca! — ganiu Siorakidsok. —
Matem-na como a um carcaju! Arranquem-lhe as tripas para
fora!
— Socorro! — soou a voz de Tetarartee, lá do lado de dentro
da Missão. — Todos os bons cristãos e todos os homens de
boa vontade precisam juntar-se na luta contra o Diabo!
Ivaloo colocou-se ao lado de seu irmão, e procurou puxá-lo
para longe dali. Tiros espocavam. Papik, com as veias
inchando-se à sua garganta, continuou a martelar a porta,
enquanto Ivaloo se lhe dependurava ao braço; mas a porta
resistia a tudo.
A seguir, do lado de baixo, Milak irrompeu. Correu para a
frente como se fora um feixe de luz; pulou para dentro do
alpendre- e a toda velocidade, foi cair de chofre de encontro
à porta. A porta cedeu, como neve, ao impacto daquela
violência; e ele foi cair lá adiante, ao comprido, arrastando
Papik consigo. Ivaloo seguiu-o sem perda de tempo.
Com uma espingarda nas mãos, o pregador lá estava, no
canto oposto da sala; estava pálido, porém ereto e desafiador,
protegendo vivi e Neghe; ao seu lado se encontravam
Padlock e Hiatallak. Padlock tinha nas mãos uma lança.
— Vá para trás, Satã! — trovejou Tetarartee, dando um
passo para a frente, e movimentando a sua espingarda.
Papik era orgulhoso demais, e não tomou nota da sua
advertência. Atirou a própria espingarda e a sua faca ao chão,
aos pés de Padlock.
— Você. Tome isto, Padlock — disse ele, procurando fazer
com que sua voz soasse tranqüila — e alguém levará consigo
Vivi, em troca disto que aqui esta.
E, exatamente como se fora Ernenek redivivo, caminhou,
desarmado, em direção a uma espingarda apontada para ele,
e às garras de uma mulher.
— Vá para trás, Satã! — gritou Padlock, atirando a lança.
Papik viu tudo, com clareza; entretanto, curvar-se, diante de
uma mulher, seria ato abaixo de sua dignidade; e então ele
não fez movimento algum para evitar ser atingido. A lança
abriu um ferimento numa de suas faces, e foi bater, com um
golpe seco, na parede atrás dele. Papik prosseguiu para a
frente, com o sangue a escorrer pelo rosto.
Tetarartee pareceu, afinal, estar com sua arma pronta para o
disparo; mas, antes que pudesse puxar o gatilho, Padlock já
havia caído, com seus punhos, em cima de Papik, porém ao
mesmo tempo servindo-lhe de escudo; ao tempo em que
Papik a prostrou no chão, com um soco, Milak já tinha
entrado outra vez em ação.
Rápido como um raio, mas silencioso como a luz, ele se
esgueirou por entre aquelas pessoas que se agitavam e se
aglomeravam; arrancou a espingarda das mãos do sacerdote;
e vibrou, com ela, golpes violentos, vezes e vezes seguidas,
na cabeça de Tetarartee; e continuou a bater, mesmo depois
de havê-lo prostrado ao chão — até que a própria Ivaloo se
atirou por baixo dos seus golpes. Então, Milak virou-se,
pálido e trêmulo; e começou a vibrar golpes de coronha
contra tudo que se lhe apresentava à vista.
Nesse entretempo, Papik também ficou com a sua ira a
ferver.
Ele apanhou a faca que tinha atirado ao chão; e começou a
vibrar golpes de faca contra os livros, os quadros, os jarros,
os utensílios de cozinha, as garrafas. Depois, cortou o cordão
do qual pendia do teto a lâmpada. A lâmpada veio ao chão,
com estrondo; e a escuridão se fez na sala, durante um
momento — até que, aceso por um fio agonizante na
mecha, o querosene derramado pegou fogo.
As labaredas agiram como recurso mágico sobre Papik e
Milak, fazendo-lhe cessar o tremor e atenuando-lhes a sede
de vingança. Eles não tinham visto nunca um fogo daquelas
proporções; e o fogo os imobilizou, fascinados, tomados de
êxtase. De Hiatallak, porém, irrompeu um rugido enorme de
pavor; ele pulou para fora, seguido por Padlock e Neghe.
Através da porta aberta, soprou uma rajada de vento; as
labaredas silvaram e se espalharam mais, em turbilhão; ondas
sucessivas de calor derreteram a gordura que havia nas faces
dos esquimós, chamuscando-lhes a pele; então, Papik voltou
à realidade.
— Venha, Vivi. O trenó de alguém está pronto, e os
cachorros de alguém são magros e velozes. Vamos, Ivaloo.
Vamos, Milak. Tratemos de correr daqui. Há troca de tiros lá
fora; e eles podem atingir-nos, porque está muito escuro, e a
mira não pode ser muito precisa.
Papik estava realmente sereno, agora; não tinha mais fúria
alguma. Com calma, ele tomou a mão de Vivi, e puxou-a
para fora da casa.
— Alguém está indo à frente, a fim de colocar o trenó,
pronto, perto do seu iglu — disse Milak a Ivaloo. — Seus
cachorros também são velozes e magros.
Dizendo isto, ele saiu.
O fogo já tinha tomado metade do assoalho de madeira, e
continuava ainda ganhando expansão; e enchia a sala de
fumaça. Ivaloo ajoelhou-se junto de Tetarartee, e sacudiu-
lhe o corpo.
— Você pode levantar-se? — perguntou ela, tossindo.
Ele olhou para ela, batendo as pálpebras e gemendo; um fio
de sangue lhe corria da cabeça para dentro da barba.
— Você é o Satã encarnado — disse ele, com dificuldade.
— Sem você, esta seria uma comunidade, pacífica. Nós
temos de agradecer, a você e à sua gente, pelo que está
acontecendo.
— Mas nós não queremos agradecimento nenhum.
— Volte para a terra a que você pertencei
— Sim. É para lá que nos estamos encaminhando! — disse
Ivaloo, alegre. — Mas você precisa sair daqui. As labaredas já
estão muito perto do seu corpo.
Ela o ajudou a pôr-se de pé; e correu para fora.
Lá embaixo, no alpendre, ela tropeçou e caiu por cima do
corpo de Argo, que jazia numa poça de sangue. Neghe
estava no chão, ao lado dele, chorando, agitando a cabeça e
chamando-o pelo nome.

Mais adiante, Tippo, com o rosto metido na neve, estava
pondo em evidência os seus últimos tremores. Quanto ao
mais, toda a extensão que se desenrolava diante da Missão se
encontrava deserta. Umas poucas labaredas, abandonadas
porque se tornavam alvos excessivamente fáceis, ainda
chiavam em cima da neve; e o cheiro de pólvora, acre, com
o qual aquela gente não se achava ainda familiarizada,
saturava densamente o ar irrespirável.
A fúria espalhara-se como uma praga. A guerra santa estava
em curso. Do lado de trás dos iglus, tiros e gritos irrompiam.
Mas tanto os cristãos como os pagãos estavam atirando
principalmente com o propósito de manter aquecidas as suas
luvas, porquanto já estava muito escuro e não era possível
fazer pontaria.
Ivaloo caminhou a toda pressa na direção do seu iglu. Umas
poucas balas assobiaram passando por ela; mas nem por um
momento ela se sentiu com medo de ser ferida. Sentia-se
satisfeita porque seu filho, às suas costas, se mantinha quieto.
— Abatam-nos, arranquem-nos com suas raízes, a todos
esses pecadores, a todos esses pagãos, a todos esses ladrões!
— trovejava a voz de Tetarartee.

E, olhando para trás, por cima dos próprios ombros, Ivaloo
viu o xamã, alto e negro, parado no vão da porta da Missão,
contra um fundo de labaredas.
— Amarrem-nos e expulsem-nos daqui, esses assassinos,
essas crias do Diabo, essa escumalha do inferno!
Ivaloo encontrava-se ao fim de suas forças, mas manteve o
passo estugado, até quando o barulho daquela batalha se
dissipou no passado. Fazia algum calor; o vento amainara; as
estrelas tinham desaparecido; e, no ar, havia uma alusão a
neve; e esta era a razão pela qual o barulho não lhe chegava
até àquela distância.
Lá em cima, o céu encoberto sangrava com os reflexos do
incêndio.
Milak estava afagando os cães mal-humorados que se haviam
posto em franca revolta; e estavam em franca revolta porque
viam o chicote; ao invés do alimento que tinham estado a
esperar.
— Papik e Vivi já partiram — disse ele. — Nós seguiremos a
trilha deles.
— Você tirou os petrechos domésticos do meu iglu?
— Já retirei, minha pequena.
— Você atrelou as cadelas no cio com os tirantes mais
longos, para que os cachorros que se colocarem atrás possam
puxar com o máximo das forças que tiverem?
— Isso já foi feito, minha pequena — gritou ele, jubilante.
— E as cadelas prenhes foram postas nos tirantes mais
curtos, para evitar que os companheiros lhes devorem os
filhotes? Nós vamos precisar de novos cachorros.
— Naturalmente, Ivaloo! Agora, monte no trenó; e um
homem tratará de lhe desembaraçar as trelas da matilha!
Ela, porém, não obedeceu. A matilha encontrava-se agitada;
todos os cães estavam como que amontoados, mordendo,
imprimindo arrancos e ganindo; os cães atiravam-se contra
as cadelas; as cadelas combatiam-se umas às outras; e, sob as
vistas admirativas de Milak — porque poucas mulheres
sabiam como lidar com as matilhas — Ivaloo arrancou o
pesado bastão das suas mãos e desceu-o várias vezes por
cima dos animais; a gente poderia até ouvir o penoso ressoar
dos ossos, no ato de serem atingidos pelos golpes; e o ressoar
era ouvido entre um latido e outro. Depois de os animais se
alinharem de novo, ela tornou a surrá-los outra vez,
enquanto dava a ordem de partida. Então os cães partiram,
dando o arranco inicial com tamanha força que, se o trenó
não avançasse, o mar é que recuaria. Então, Ivaloo pulou
para o trenó, em frente a Milak; agarrou o chicote, munido
de cabo curto de madeira, de uma longa tira de couro feita
de pele de foca; ela queria verificar se ainda sabia como era
que se fazia para brandir aquilo de encontro ao vento, ao
longo do comprimento todo da matilha, para atingir até ao
cachorro-líder.
Ela ainda o sabia.
Na medida em que os olhos dos dois — Ivaloo e Milak —
foram ajustando-se às trevas, a paisagem foi emergindo
contra o fundo da noite. Eles estavam rumando a caminho
do horizonte escuro dos campos marinhos, na trilha de
Papik. Ivaloo, acalorada devido a tanto exercício, pousou o
chicote, e respirou, aspirando o ar profundamente; saboreou
aquele ar fragrante, que continha uma promessa de neve.
Com uma dúzia de aspirações profundas, ela recuperou todas
as energias.
— Milak — gritou ela, cheia de alegria, como que a beber o
vento — por que foi que uma moça ficou longe dos trenós
por tanto tempo? Ela está respirando outra vez; e sente-se
cheia de bondade; sente-se absolutamente sem sequer uma
gota dessa amargura de que houve tamanha quantidade
ultimamente. Alguém está feliz, Milak; alguém olha pára
diante, para o iglu que vamos construir quando estivermos
cansados. E, dentro desse iglu, ela será previdente; tomará
conta das coisas a vir; pensará na atrelagem da matilha
quando a gente se despertar. Mas será que você será feliz
nesse iglu, Milak?
— Um homem pode sempre voltar para o sul, se não se
sentir feliz.
— Não, Milak; você não poderá voltar!
— E por que não?
Ela fez uma pausa, ao longo de determinado espaço do
percurso, antes de tornar a falar.
— Você matou Tetarartee, meu pequeno... E você sabe
que os homens brancos nunca mais lhe perdoarão; e sabe
também que o seu nome estará nos livros, para sempre.
— Você está certa de que Tetarartee está morto? — indagou
Milak, sem o menor indício de preocupação.
— Morto e assado. Uma moça o viu com seus próprios
olhos. E ela fez outra pausa, refletindo que também, afinal,
havia aprendido a mentir.
— Muito bem. Nesse caso — disse Milak, com um acento de
desprezo na voz — estaremos livres do incômodo de algum
dia voltar ao sul. Mas você está ainda resolvida a não rir?
Porque alguém está resolvido a rir com você, ainda que para
isso tenha de surrá-la e pô-la de todas as cores do
crepúsculo!
— Eu já lhe expliquei a razão, junto ao buraco de peixe,
Milak, meu pequeno. Em noites longas e solitárias, uma
moça pediu a Deus que lhe desse um sinal; e Deus
respondeu com esta criança que agora está dormindo tão
tranqüilamente. É um sinal absolutamente claro e inegável!
Assim, se nos encontrarmos, lá em cima, no norte, um lugar
a que os homens brancos não possam chegar nunca, ali
alguém criará este filho na Verdade; e dali, se o Pai dele o
quiser, ele algum dia partirá "a fim de preparar o caminho
que conduz a Deus, e de tornar plano e reto esse caminho".
— Por vezes, parece que não é você que está falando, Ivaloo;
parece que é algum estranho espírito, tomado de loucura,
que entrou em seu corpo!
Ivaloo riu.
— Por vezes, uma moça estúpida precisa usar as palavras do
Bom Livro, a fim de expressar os seus pensamentos. Algum
dia, porém, Poopooliluk conseguirá pôr em palavras o que a
sua mãe ignorante pode apenas sentir. Ele será o salvador de
que os homens brancos, como alguém bem o sabe, estão
precisando angustiosamente.
Milak não deu resposta; e Ivaloo estalou o chicote no ar,
para quebrar o silêncio com alguma coisa mais do que a
simples respiração ofegante dos cães que puxavam o trenó.
— Se Deus não quiser que Poopooliluk Lhe siga a trilha, nem
a trilha do Seu outro Filho, como nós estamos seguindo a
trilha de Papik; se Deus pensar que as pessoas são indignas
de um novo salvador, porque desconhecem os
ensinamentos do primeiro... bem, Deus dará outro sinal,
dizendo isso. Está percebendo?
— Oh, Ivaloo, minha pequena — exclamou Milak, dentro de
si mesmo, desconfortado, porque já tinha visto o sinal: o
berço de rodízios, que Ivaloo trazia às costas, estava
transformado numa enorme faixa de sangue; por cima da
beirada desse berço ensangüentado, a cabeça de Poopooliluk
pendia, em total abandono — com os lábios semi-abertos, as
narinas arrancadas, e os céus dos olhos inteiramente
nublados.
A voz feliz de Ivaloo tirou Milak da sua meditação:
— Já começou a nevar! O sangue. O sangue dos mortos está
começando a cair. Agora, ninguém poderá vir no nosso
encalço.
— Mas a neve cobrirá também a trilha de Papik; e então nós
o perderemos, se ele não houver parado.
— Não é impossível que Papik saiba o que deve fazer.
Os dois aguçaram a vista, para ver na escuridão. A matilha de
cães estava farejando o ar, e gania. Em certo momento, o
latir de outros cachorros lhes deu resposta, através das trevas
da noite.
— Aconteceu, entretanto, que eles pararam — gritou Milak,
exultante.
— E a neve está caindo pesadamente — disse Ivaloo, abrindo
a boca para cima, na direção dos céus, para receber o sangue
dos mortos.
A neve estava caindo e cobrindo-lhes as pegadas.




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Edgar Madruga
Salvador/BA



 
 
 
 
 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
No País das Sombras Longas - Hans Ruesch
 
 
 
links ao final da mensagem
 
 
digitalização - Vitório
formatação e revisão - Lucia Garcia
 
 
 
Sinopse:
 
Romance invulgar pelo inesperado, exótico pelo que de estranho nos revela, mas de alto nível literário e do mais profundo sentido humano. E certo que os costumes dos esquimós não podem deixar de ser considerados bárbaros, se os analisarmos com olhos ocidentais - mas é preciso acrescentar que eles se tornaram muito menos felizes depois que foram descobertos pelos brancos que pretendem civilizá-los. Ou explorá-los?
Ninguém ousará neste capítulo, uma definição aceitável quanto às consequências da chegada do homem branco à região dos esquimós. O que sabemos é que os homens da neve perderam a alegria e a felicidade com que por largos  séculos viveram. Aí se desenrola o drama - e a história inacreditável mas real que Hans Ruesch conta.
 
 
 
 
 
 
 
 
PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento:
 
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