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Zoya - Danielle Steel.txt,anexo

ZOYA
Danielle Steel

***

Círculo de Leitores

Zoya

Danielle Steel

Tradução de

Maria Emília Ferros Moura

Copyright 1988

Querida Maxx
Nunca sejas velha de mais ou nova de mais,
mas procura sempre a força necessária
para viver, amar e questionar,
sempre generosa,
sempre bondosa.
Que a vida continuamente te abençoe
e nunca com o seu peso te magoe.
Segue com o vento bem atrás
o sol na alma,

e o nosso amor no coração,
agora e para sempre.

O meu coração,
o meu amor, a minha vida,
de ti e do teu pai
sempre serão.

D. S.

ZOYA

Vagueando pelo mundo
por lugares mágicos
rostos queridos
sussurrando do passado,
nuvens de memórias
erguendo-se da sua vida
e do seu nome,
nada sendo no momento,
como era há muito tempo,
os palácios,
as memórias,
os sonhos,
a estrutura de tudo o que foi,
de tudo o que devia e
podia ter sido
e do que outrora vira,
uma vida de magia,
de palácios e salões
tudo transformado em neve derretida
tudo se desfazendo em chuva esbatida,
o riso, a música,
beleza, dor,
os amigos,
os sorrisos, no passado perdidos,
as memórias suaves qual orvalho
e cetim roçando a face, tão macios...
uma vida para procurar de novo
o que desapareceu rapidamente,
uma suave canção de Inverno
envolta na concha do amor,
uma vida qual labareda viva
tão depressa consumada.

SAMPETERSBURGO

CAPITULO 1

Zoya fechou novamente os olhos, enquanto a tróica voava sobre
o solo gelado. A leve bruma da neve depositava-lhe pequenos beijos
molhados na face e rendilhava-lhe as pestanas, ao mesmo tempo que
o som dos guizos dos cavalos soava como música aos seus ouvidos.
Eram os sons que amava desde a infância. Aos dezassete anos
considerava-se crescida, era na verdade quase uma mulher e,
contudo, ainda se sentia uma criança enquanto Feodor fazia avançar
os cavalos pretos e luzidios com o estalido do chicote... mais
depressa... mais depressa... através da neve.
Quando voltou a abrir os olhos, avistou a aldeia mesmo à
saída de Tsarskoie Selo. Sorriu intimamente e semicerrou os olhos
para divisar os palácios geminados para lá dela, descalçando em
seguida uma grossa luva forrada de pele, a fim de verificar quanto
tempo demorara a viagem. Prometera à mãe que chegaria a casa a
horas do jantar... e assim seria... se não ficassem muito tempo
à conversa... Mas como poderia isso ser? Marie era a sua melhor
amiga, quase uma irmã.
O velho Feodor virou-se para trás e sorriu-lhe ao ouvi-la rir

de excitação. Tinha sido um dia perfeito. Adorava as aulas de
ballet e, até mesmo agora, conservava as sapatilhas enfiadas no
assento, ao seu lado.
Dançar era um prazer especial, sempre havia sido a sua paixão
desde muito novinha e, por vezes, sussurrava em segredo a Marie
que o maior desejo da sua vida era fugir para o Marinski para
viver lá e praticar dia e noite com os outros bailarinos. Só a
ideia provocava-lhe agora um sorriso. Era um sonho que não podia
expressar em voz alta; as pessoas da sua classe não se tornavam
bailarinas profissionais.
Tinha, contudo, o talento, sabia-o desde os cinco anos, e as
lições com Madame Nastova proporcionavam-lhe, pelo menos, o prazer
de estudar o que mais gostava. Trabalhava arduamente ao longo das
horas que lá passava, imaginando sem cessar que, um dia, Fokine,
o grande mestre da dança, a descobriria. O pensamento desviou-se,
todavia, rapidamente do ballet para a sua amiga de infância,
enquanto a tróica atravessava a aldeia, a toda a velocidade, rumo
a casa da sua prima Marie.
O pai de Zoya, Konstantin, e o czar eram primos afastados e,
tal como a de Marie, também a sua própria mãe era alemã.
Possuíam tudo em comum, as paixões, os segredos, o mundo. Haviam
partilhado os mesmos terrores e alegrias quando eram crianças e
agora tinha de vê-Ia, embora tivesse prometido à mãe que não o
faria. Que coisa estúpida! Por que razão não havia de vê-Ia? Não
visitaria os que estavam doentes nos quartos e Marie estava
óptima. No dia anterior mandara um bilhete a Zoya, comunicando-lhe
o quanto estava desesperadamente aborrecida com os outros doentes,
à volta dela. E, afinal, não era nada de grave. Apenas sarampo.
Os camponeses apressavam-se a sair da estrada quando a tróica
passava a toda a velocidade e Feodor incitava os três cavalos
pretos que os transportavam. Trabalhara desde miúdo para o avô
dela e já o pai, antes dele, trabalhara para a família. Só por
Zoya teria arriscado enfrentar a ira do pai e o silencioso e
elegante desagrado da mãe, mas Zoya prometera-lhe que ninguém
viria a saber e já a levara lá núl vezes. Zoya visitava as primas
quase diariamente - que mal poderia haver em fazê-lo? - embora o
pequeno e frágil filho do czar e as irmãs mais velhas tivessem
sarampo.
Alexis era apenas um miúdo e não um rapaz saudável, como
todos sabiam. Mademoiselle Zoya era jovem, saudável, forte, e
muito, muito bonita. Fora a criança mais bonita que Feodor alguma
vez tinha visto, e Ludmilla, a sua mulher, tomara conta dela em
bebé. A mulher morrera no ano anterior de febre tifóide, uma
terrível perda para ele, sobretudo porque não tinham filhos. A sua
única família era aquela para quem trabalhava.
A Guarda Cossaca deteve-os junto ao portão e Feodor puxou
bruscamente as rédeas dos cavalos arquejantes. A neve caía agora
com mais força e dois guardas a cavalo aproximaram-se, com grandes
gorros de pele e uniformes verdes, de expressão ameaçadora até
verem de quem se tratava.
Zoya era uma figura familiar em Tsarskoie Selo. Apressaram-se
a saudar delicadamente, Feodor incitou de novo os cavalos e
passaram a toda a velocidade junto à Capela Fedorovski, rumo ao
Palácio Alexandre. Das muitas moradas imperiais, era esta a
favorita da imperatriz. Raramente utilizavam o Palácio de Inverno
em Sampetersburgo, excepto para bailes e eventos oficiais. Todos
os anos, em Maio, se mudavam para a villa na propriedade de
Peterhof e, depois de Verões passados no seu iate, o Estrela

Polar, e em Spala, na Polónia, iam sempre para o Palácio Livadia,
em Setembro.
Zoya estava frequentemente com eles, até regressar às auIas
no Instituto Smolny. Contudo, o Palácio Alexandre era igualmente
o seu favorito. Tinha uma paixão pelo famoso toucador cor de malva
da imperatriz e pedira que o seu quarto, em casa, tivesse os
mesmos esbatidos tons de opala do que o da tia Alix. A mãe sentia-
se divertida que assim fosse e, no ano anterior, decidira fazer-
lhe a vontade. Marie troçava dela sempre que a visitava, afirmando
que o quarto lhe recordava demasiado o da mãe.
Feodor desceu do assento e dois jovens pegaram nas rédeas dos
cavalos nervosos, ao mesmo tempo que a neve lhe roçava a cabeça
e ele estendia uma mão a Zoya. Os flocos agarravam-se ao pesado
casaco de peles da jovem que tinha as faces vermelhas do frio e
da viagem de duas horas de Sampetersburgo.
"Teria apenas o tempo suficiente para tomar chá com a amiga",
pensou de si para si e desapareceu na imponente entrada do Palácio
Alexandre, enquanto Feodor se apressava a ir tratar dos cavalos.
Possuía amigos nos estábulos e gostava de trazer-lhes notícias da
cidade, passando algum tempo com eles à espera da sua jovem ama.
Duas criadas pegaram-lhe no casaco, enquanto Zoya tirava
vagarosamente o gorro de marta da cabeça, libertando uma farta e
revolta cabeleira que levava muitas vezes as pessoas a parar e a
olharem quando ela a usava solta, o que fazia frequentemente no
Livadia, no Verão.
Alexis, o jovem filho do czar, gostava de gracejar com ela
por causa do brilhante cabelo ruivo e acariciava-o com suavidade
entre as mãos delicadas, sempre que ela o abraçava. Para Alexis,
Zoya era praticamente como se fosse uma das suas irmãs. Nascida
duas semanas antes de Marie, era da mesma idade, tinham
temperamentos iguais e ambas o mimavam a toda a hora, tal como o
resto das irmãs. Elas, a mãe e a fimília mais chegada tratavam-no
por Baby. Mesmo agora, que tinha doze anos, ainda o viam assim e
Zoya perguntou por ele com uma expressão séria. Uma das duas
criadas abanou a cabeça.
- Pobrezinho! - comentou. - Está coberto de manchas e com
uma tosse horrível. Monsieur Gilliard tem passado o dia junto
dele. Sua Alteza tem estado ocupada com as meninas.
Alexis pegara o sarampo a Olga, Tatiana e Anastasia e
tratava-se de uma verdadeira epidemia, motivo por que a mãe de
Zoya quisera que ela se mantivesse afastada. Contudo, Marie não
apresentara até ao momento quaisquer sintomas da doença e no
bilhete que escrevera a Zoya no dia anterior suplicava-lhe que
aparecesse... Vem ver-me, minha querida Zoya, se a tua mãe te
deixar..
Os olhos verdes de Zoya brilhavam. Abanou a farta cabeleira
e alisou o grosso vestido de lã. Tinha despido o uniforme escolar
depois da aula de ballet e percorreu a passo rápido o imenso
corredor até à porta familiar que a levaria ao quarto espartano
de Marie e Anastasia. A caminho, passou silenciosamente junto ao
quarto onde o príncipe Meshcherski, o ajudante-de-campo do czar,
estava sempre sentado a trabalhar. Contudo, ele nem se apercebeu
quando, calçada com as pesadas botas, ela subiu as escadas sem
fazer barulho, bateu à porta do quarto e ouviu a voz familiar:
- Sim?
Rodou a maçaneta com a mão esguia e graciosa e uma madeixa
de cabelo ruivo pareceu antecedê-la quando enfiou a cabeça e
avistou a prima e amiga, tranquilamente de pé junto à janela. Os

grandes olhos azuis de Marie brilharam de imediato e correu ao
encontro dela, ao mesmo tempo que Zoya se lançava como uma flecha
nos seus braços para a beijar.
- Vim salvar-te, Mashka, minha querida!
- Graças a Deus! Julguei que ia morrer de tédio. Todos aqui
estão doentes. Até a pobre Anna ficou ontem de cama com sarampo.
Está no quarto ao lado dos aposentos da minha mãe, que insiste em
tratar de todos. Passou o dia a levar-lhes sopa e, quando estão
a dormir, vai à ala ao lado cuidar dos homens. Até parece que há
dois hospitais em vez de um... - comentou, fingindo puxar os
cabelos castanhos e provocando o riso em Zoya. O Palácio Catarina,
ao lado da casa, fora transfonnado em hospital no início da guerra
e a imperatriz trabalhava ali incansavelmente, com o uniforme da
Cruz Verrnelha, esperando que as filhas lhe seguissem o exemplo;
porém, de todas, Marie era a que menos gostava de tais obrigações.
- Mal consegui aguentar! - desabafou. - Receava que não viesses.
E a mãezinha ficaria tão zangada, se soubesse que te pedi.
As duas jovens atravessaram o quarto de braço dado e
sentaram-se junto à lareira. A divisão que partilhava com
Anastasia era simples e austera. À semelhança das outras innãs,
Marie e Anastasia dispunham de camas simples de ferro, lençóis
brancos engomados, uma pequena secretária e sobre a cornija da
lareira havia uma fila de ovos da Páscoa de delicado fabrico.
Marie guardava-os de ano para ano, feitos por amigos e oferecidos
pelas innãs. Eram de malaquite e madeira e alguns belamente
talhados ou incrustados de pedras. Prodigalizava-lhes os mesmos
cuidados que aos seus pequenos tesouros.
Os aposentos das crianças nada exibiam da opulência ou luxo
dos quartos dos pais ou do resto do palácio. E, atirado para cima
de uma das duas cadeiras do quarto, havia um bonito xaile bordado
que Anna Virubova, uma grande amiga da mãe, lhe fizera. Tratava-se
da mesma mulher a que Marie se referira quando Zoya entrara. E
agora a sua amizade havia sido compensada por um caso de sarampo.
A ideia fez com que as duas jovens exibissem um sorriso de
superioridade por terem escapado à doença.
- Mas sentes-te bem? - indagou Zoya com um olhar afectuoso
e parecendo ainda mais frágil dentro do pesado vestido de lã
cinzenta que pusera para se sentir mais quente na viagem de
Sampetersburgo.
Zoya era mais baixa do que Marie e ainda mais delicada,
embora Marie fosse considerada a beleza da família. Herdara os
fantásticos olhos azuis do pai e o seu encanto. E gostava muito
mais de jóias e roupas bonitas do que as irmãs. Era uma paixão que
partilhava com Zoya. Passavam horas a falar dos belos vestidos que
tinham visto e a experimentar os chapéus e as jóias da mãe de
Zoya, sempre que Marie aparecia de visita.
- Estou óptima... Só que a mamã não me deixa ir à cidade com
a tia Olga no donúngo. - Era um ritual que adorava. Todos os
domingos, a sua tia, a grã-duquesa Olga Alexandrovna levava-os a
todos à cidade a almoçarem com a avó no Palácio Anitchkov e a
visitar uma ou duas amigas, mas, com a doença das irmãs, tudo
estava a ser cortado. O rosto de Zoya ensombrou-se ante as
notícias.
- Já o receava. E gostava tanto de mostrar-te o meu vestido
novo. A avó comprou-mo em Paris. - A avó de Zoya, Eugenia
Peterovna Ossupov, era uma mulher extraordinária. Pequena e
elegante, possuía uns olhos que ainda emitiam um brilho de
esmeralda aos oitenta e um anos. E todos insistiam que Zoya era

muito parecida com ela. A mãe de Zoya era alta, esguia e lânguida,
uma beleza loura de olhos azuis, do gênero que apetece proteger
do mundo, e o pai sempre o fizera. Tratava-a como a uma criança
delicada, muito diferente da exuberante filha. - A avó comprou-me
um belíssinio vestido de cetim rosa enfeitado de perolazinhas.
Gostava tanto que o visses! - insistiu. As duas jovens, idênticas
a duas crianças, falavam de vestidos como se falassem dos seus
ursos de peluche e Marie bateu palmas de satisfação.
- Mal posso esperar! - exclamou. - Na próxima semana, todos
estarão bem. Então, iremos, prometo. E nessa altura, vou fazer-te
um quadro para aquele teu horrível quarto cor de malva.
- Não te atrevas a dizer mal do meu quarto! É quase tão
elegante como o da tua mãe!
As duas jovens riram e Joy, a cocker spanie1 das crianças,
entrou aos saltos no quarto e roçou, satisfeita, os pés de Zoya,
que aquecia as mãos à lareira, enquanto contava tudo a Marie sobre
as outras raparigas do Smolny. Marie adorava ouvir-lhe as
histórias, dado estar enclausurada no meio do irmão e das irmãs,
com Pierre Gilliard como tutor e Mr. Gibbes a ensinar-lhes inglês.
- Pelo menos, agora não temos aulas. Monsíeur Gilliard tem
andado muito ocupado com o Baby. E há uma semana que não o vejo.
O paizinho diz que ele tem pavor de apanhar sarampo.
As duas jovens riram novamente e Marie pôs-se a apanhar o
cabelo ruivo de Zoya numa trança. Era um passatempo a que se
dedicavam desde muito miúdas, o de entrançar mutuamente o cabelo
enquanto conversavam sobre Sampetersburgo e as pessoas que
conheciam, embora tudo estivesse muito mais calmo desde o começo
da guerra.
Os próprios pais de Zoya não davam tantas festas como dantes,
com muita pena dela. Adorava falar com os homens de fardas
reluzentes e observar as mulheres de vestidos elegantes e belas
jóias. Dava-lhe novidades para contar a Marie e irmãs sobre os
namoricas que observara, quem estava bonita e quem não estava e
quem ostentava o mais espectacular colar de diamantes.
Tratava-se de um mundo que não existia em nenhuma outra
parte, o mundo da Rússia imperial. Zoya sempre vivera feliz nesse
meio, uma condessa como a mãe e a avó antes dela, parente distante
do czar por parte do pai, ela e a família sempre usufruindo de uma
posição de privilégio e luxo, relacionadas com muitos nobres. Até
a sua casa constituía uma versão mais pequena do Palácio
Anitchkov, e as companheiras de folguedos eram as pessoas que
faziam História, só que aos seus olhos tudo parecia vulgar e
norinal.
- A Joy parece tão feliz - comentou, observando a cadela que
brincava aos seus pés. - Que tal os cachorrinhos?
- São um amor - retorquiu Marie esboçando um sorriso secreto
e encolhendo os ombros bem torneados. - Oh, espera... - Deixou
cair a longa trança que fizera do cabelo de Zoya e precipitou-se
para a secretária, a fim de ir buscar algo de que quase se
esquecera. Zoya supôs de imediato que se tratava da carta de um
dos seus amigos, de uma fotografia de Alexis ou das innãs. Marie
dava sempre a sensação de ter tesouros a partilhar quando se
encontravam, mas desta vez pegou num fresquinho e estendeu-o
orgulhosamente à amiga.
- O que é isso?
- Uma coisa maravilhosa... toda para ti! - Depositou um
beijo suave na face de Zoya que inclinou a cabeça sobre o
fresquinho.

- Oh, Mashka! É mesmo?... É! - Confinnou, aspirando. Era
Lilas, o perfume favorito de Marie, que Zoya cobiçava há meses. -
Onde o arranjaste?
- A Lili trouxe-mo de Paris. Pensei que te agradaria. Ainda
tenho bastante do que a mamã me deu.
Zoya fechou os olhos e respirou fundo, com uma expressão
feliz e inocente. Os prazeres das duas jovens eram tão inofensivos
e simples: os cachorrinhos, o perfume... e, no Verão, longos
passeios pelos campos perfumados de Livadia... ou brincadeiras no
iate real, enquanto deslizavam através dos flordes.
Era uma vida tão perfeita, até mesmo distante das realidades
da guerra, embora por vezes falassem do assunto. Marie ficava
sempre perturbada depois de passar um dia com os homens a que
davam assistência no palácio ao lado da casa. Parecia-lhe tão
cruel que fossem feridos e ficassem estropiados... que
morressem... mas não mais do que a pennanente e ameaçadora doença
do irmão. A hemofilia de que ele sofria era frequentemente o
tópico das conversas mais secretas e sérias de ambas. Quase
ninguém, exceptuando a família, conhecia a verdadeira natureza da
doença.
- Ele está bem, não está? Quero dizer... o sarampo não... -
Os olhos de Zoya denotavam uma enorme preocupação quando pousou
o precioso frasco de perfume e voltaram a falar de Alexis. A
expressão de Marie era, contudo, tranquilizadora.
- Não me parece que o sarampo o prejudique. A mãezinha
garante que a Olga está muito mais doente do que ele. - Olga era
quatro anos mais velha do que elas e muito mais séria. Era também
penosamente tímida, ao invés de Zoya, Marie ou das suas outras
duas innãs.
- Hoje, tive uma aula de ballet maravilhosa - suspirou Zoya,
no preciso momento em que Marie tocava a campainha para que lhe
trouxessem chá. - Quem me dera poder fazer algo de extraordinário
com isto.
Marie riu. Não era a primeira vez que escutava os sonhos da
sua querida amiga.
- Como o quê? Ser descoberta pelo Diaghilev?
As duas jovens soltaram uma gargalhada, mas os olhos de Zoya
emitiam um intenso brilho, quando falou. Tudo nela era intenso,
os olhos, o cabelo, a forma como mexia as mãos ou corria pelo
quarto, ou rodeava a amiga com os braços. Era pequena, mas
transbordante de força, vida e entusiasmo. O próprio nome
significava vida e parecia a escolha perfeita para a rapariga que
fora e a mulher em que se transformava aos poucos.
- Falo a sério... e Madame Nastova garante que sou muito boa.
- Marie riu novamente e os olhos das jovens encontraram-se, ambas
com o mesmo pensamento... centrado em Mathilde Kschessinska, a
bailarina que tinha sido amante do czar, antes de ele casar com
Alexandra... um assunto totalmente proibido e apenas mencionado
em noites escuras de Verão e sempre às escondidas dos adultos.
Um dia, Zoya mencionara algo a esse respeito à mãe, e a
condessa ficara furiosa, proibindo-a de o abordar novamente. Era,
sem dúvida, um tema nada adequado para jovens. Contudo, a avó
mostrara-se menos austera quando ela voltara a focá-lo e confessou
num tom divertido que a mulher era uma talentosa bailarina.
- Continuas a sonhar fugir para o Marinski? - Há anos que não
falava no assunto, mas Marie conhecia-a bem, o bastante para saber
quando estava a brincar ou não, e até que ponto falava a sério em
relação aos seus sonhos privados.

Sabia também que para Zoya era um sonho impossível. Um dia,
a amiga casaria e teria filhos, seria tão elegante como a mãe, e
não viveria na famosa escola de ballet. Era, contudo, divertido,
falar de coisas assim, e sonhar numa tarde de Fevereiro, bebendo
o chá em pequenos goles e observando Joy a cabriolar pelo quarto.
A vida parecia bastante cómoda na altura, mau grado a
presente epidemia imperial de sarampo. Com Zoya, Marie podia
esquecer por um tempo os seus problemas, as suas
responsabilidades. Desejava poder vir a ser tão livre quanto Zoya.
Sabia perfeitamente que, algum dia, os pais escolheriam o homem
com quem viria a casar. Todavia, tinham de pensar primeiro nas
suas duas irmãs mais velhas... De olhos fixos no fogo, interrogou-
se sobre se, na realidade, o amaria.
- Em que estavas a pensar? - inquiriu Zoya num tom suave,
enquanto o fogo crepitava e a neve caía lá fora. Já estava escuro
e Zoya esquecera a sua pressa de regressar a casa. - Mashka?...
Tinhas um ar tão sério. - Acontecia frequentemente quando não
estava a rir. Os olhos eram tão intensos, azuis e tão quentes e
bondosos, contrariamente à mãe.
- Não sei... Idiotices, suponho... - Esboçou um sorriso
afectuoso à amiga. Ambas tinham quase dezoito anos e o casamento
começava a aflorar-lhes à mente... talvez depois da guerra... -
Interrogava-me sobre com quem casaremos um dia. - Era sempre
honesta com Zoya.
- Também penso nisso de vez em quando. A avó diz que é quase
altura de pensar no assunto. Acha que o príncipe Orlov seria um
homem bom para mim... - E depois soltou uma súbita risada, abanou
a cabeça e o cabelo soltou-se da trança que Mashka lhe fizera. -
Já alguma vez viste alguém e pensaste que deveria ser ele?
- Não muito. A Olga e a Tatiana devem casar primeiro. E a
Tatiana é tão séria. Nem sequer a imagino desejando casar-se. -
De todas, era ela a mais chegada à mãe e Marie imaginava-a
facilmente a querer ficar eternamente no seio da família. - Mas
seria engraçado ter filhos.
- Quantos? - espicaçou-a Zoya.
- Cinco, pelo menos. - Era o tamanho da sua própria família
e sempre lhe parecera perfeita.
- Eu quero seis - retorquiu Zoya, com uma certeza absoluta. -
Três rapazes e três raparigas.
- Todos de cabelo ruivo! - Marie riu, troçando da amiga e
debruçando-se sobre a mesa para lhe acariciar suavemente a face. -
És de facto a minha maior amiga. - Os olhos cruzaram-se e Zoya
pegou-lhe na mão, beijando-a com um arrebatamento de criança.
- Sempre desejei que fosses minha innã. - Tinha, em vez
disso, um irmão mais velho que a atormentava sem piedade,
sobretudo por causa do cabelo ruivo. O dele era escuro como o do
pai, embora também tivesse os olhos verdes. E possuía a tranquila
força e dignidade do pai. Era um jovem de vinte e três anos, cinco
anos e meio mais velho do que a irmã.
- Que tal está o Nicolai?
- Um horror como sempre. Contudo, a mamã parece extremamente
satisfeita por ele estar com a Guarda Preobrajenski aqui, e não
algures, na frente. A avó diz que ele ficou para não perder
nenhuma festa.
Ambas riram e o momento sério passou. A porta abriu-se sem
ruído para dar passagem a uma mulher alta que entrou no quarto e
as observou um instante, antes que dessem pela sua presença. Um
enorme gato cinzento seguira-a e também se mantinha a observar ao

seu lado. Era a imperatriz Alexandra, vinda do quarto das doentes,
onde estivera a tratar das outras três filhas.
- Boa tarde, meninas. - Sorriu quando Zoya se virou, e as
duas jovens puseram-se de pé. Zoya apressou-se a ir heijá-Ia. A
czarina tivera sarampo há muitos anos e sabia que não havia risco
de contágio.
- Tia! Como estão todas?
- Bom, não estão lá muito bem - suspirou com um sorriso
fatigado, abraçando Zoya afectuosamente. - A pobre Anna parece ser
a que está pior. - Referia-se à sua querida amiga Anna Virubova
que, juntamente com Lili Dehn, era a sua companheira mais chegada.
- E tu, miúda? Estás bem?
- Estou, muito obrigada. - Corou, como frequentemente lhe
acontecia. Era o que mais odiava na sua compleição de ruiva, isso
e queimar-se sempre sob o so no iate real, ou quando iam a
Livadia.
- Surpreende-me que a tua mãe te deixasse visitar-nos, hoje.
- Sabia o enorme medo que a condessa tinha do contágio. No
entanto, as faces ruborizadas de Zoya indicaram-lhe o que a
rapariguinha fizera mesmo sem o admitir e a czarina riu e acenou-
lhe com um dedo. - É isso, portanto, o que fizeste? E o que vais
dizer-lhe? Onde estiveste hoje?
Zoya soltou uma risada culpada e depois admitiu diante da mãe
de Marie o que planeara dizer aos seus.
- Passei horas e horas na aula de ballet, a trabalhar imenso
com Madame Nastova.
- Percebo. É chocante que jovens da vossa idade inventem tais
mentiras, mas devia ter sabido que não conseguiríamos manter-vos
afastadas. - Virou-se depois para a filha. - Já deste o presente
à Zoya, meu amor? - A imperatriz sorriu-lhes. Era habitualmente
uma mulher reservada, mas o cansaço parecia torná-la mais
vulnerável e calorosa.
- Já! - informou logo Zoya, deliciada e com um gesto na
direcção do frasco de Lilas pousado em cima da mesa. - É o meu
favorito! - Os olhos da czarina fitaram interrogativamente Marie
e a filha soltou uma risada e saiu a correr do quarto, deixando
a amiga a conversar com a mãe. - O tio Nicolau está bem?
- Está, embora mal o veja. O pobre homem regressou a casa
vindo da frente de combate para descansar e, em vez disso, vê-se
aqui no meio de um cerco de sarampo.
As duas riam quando Marie voltou com algo embrulhado num
pedaço de cobertor. Ouviu-se um estranho pio, quase como se fosse
um pássaro e, um momento depois, apareceu um focinho castanho e
branco, com compridas orelhas e olhos brilhantes cor de ônix. Era
um dos cachorrinhos da sua cadela.
- Oh, é tão querido! Há semanas que não via nenhum! - Zoya
estendeu a mão e o animal emitiu uma série de ganidos e lambeu-lhe
os dedos.
- É uma "ela" e chama-se Sava - indicou Marie num tom
orgulhoso e fitando Zoya com um olhar excitado. - A mamã e eu
queremos que fiques com ela. - Estendeu-lhe a cadelinha.
- Para mim? Oh, céus... O que... - Estava prestes a replicar:
"O que dirá a minha mãe?", mas não queria que lhe retirassem o
presente e calou-se de imediato, só que a imperatriz entendera
tudo.
- Oh, meu Deus... A tua mãe não gosta de cães, pois não,
Zoya? Tinha-me esquecido. Ficará muito zangada comigo?

- Não!... não... de fonna alguma - contrapôs num tom feliz,
agarrando na cadelinha e apertando-a, enquanto Sava lhe lambia o
nariz, a cara e os olhos; tentou esconder a cabeça, antes que a
pequena spaniel lhe puxasse o cabelo. - Oh, ela é tão amorosa! É
mesmo minha?
- Fazias-me um grande favor se a levasses, minha querida -
retorquiu a imperatriz a sorrir, deixando-se cair numa das duas
cadeiras com um suspiro. Parecia extremamente cansada e Zoya
reparou que não despira o unifonue da Cruz Vermelha. Interrogou-se
sobre se o usara para cuidar das crianças doentes e da amiga, ou
se também trabalhara no hospital nesse dia. Tomava muito a peito
a sua ocupação ali e insistia para que as filhas a imitassem.
- Apetece-lhe um chá, mamã?
- Muito. Obrigada, Mashka.
Marie tocou a campainha para chamar a criada, que apareceu
logo, sabendo que a czarina estava com elas e uma chávena de chá
quente e acabado de fazer surgiu como por encanto. Marie serviu
e as duas companheiras juntaram-se-lhe.
- Obrigada, querida - agradeceu a czarina, virando-se em
seguida para a prima afastada do marido. - A tua avó tem passado
bem, Zoya? Há meses que não a vejo. Tenho estado tão ocupada. Já
nem consigo ir a Sampetersburgo.
- Está muito bem, obrigada, tia Alix.
- E os teus pais?
- Optimos. A mamã sempre preocupada com a hipótese de o
Nicolai ser mandado para a frente. O papá diz que lhe causa um
enorme nervosismo.
De facto, tudo causava um enorme nervosismo a Natalya Ossupov
que era uma mulher muito frágil, e o marido acedia aos seus
mínimos caprichos. A czarina dissera muitas vezes a Marie em
particular que achava que essa atitude era muito pouco saudável
para ele, mas Zoya, pelo menos, nunca adoptara aqueles ares
lânguidos. Era uma jovem cheia de vida e entusiasmo. Alexandra
lembrava-se sempre da mãe de Zoya, reclinada numa cadeira, vestida
de seda branca da cabeça aos pés, pálida e loura, enfeitada de
pérolas e com um olhar aterrorizado, como se a vida fosse um fardo
excessivo. No começo da guerra, pedira-lhe que a ajudasse no seu
trabalho com a Cruz Vermelha, e Natalya respondera simplesmente
que era incapaz de aguentar. Não era um dos espécimes mais
corajosos perante a vida, mas a czarina absteve-se nesse momento
de comentários e limitou-se a um aceno de cabeça.
- Dá-lhe saudades minhas quando chegares a casa. - Ao ouvir
estas palavras, Zoya olhou lá para fora e tomou consciência de
como se fizera escuro. Pôs-se em pé de um salto e consultou o
relógio, horrorizada.
- Oh! Tenho de ir para casa! A mamã vai ficar furiosa!
- Nâo duvides! - exclamou a czarina a rir e acenou-lhe com
um dedo, enquanto se levantava e a sua figura pairava sobre a
rapariguinha. - Não deves mentir à tua mãe sobre onde estás! E sei
que ela ficará extremamente preocupada por te teres exposto ao
nosso sarampo. Já o tiveste?
- Não, não tive - declarou Zoya, a rir -, mas não vou apanhá-
lo e se assim for... - Encolheu os ombros com outro ataque de riso
e Mashka imitou-a. Era uma das coisas que Marie apreciava nela,
a coragem e aquela despreocupação. Tinham-se metido juntas em
alguns sarilhos ao longo dos anos, mas nada de perigoso nem
verdadeiramente prejudicial.
- Vou mandar-te para casa. E tenho de regressar até junto das

crianças e da pobre Anna... - Beijou-as e saiu do quarto, enquanto
Marie ia buscar a cadelinha onde esta se escondera e a embrulhava
no cobertor, estendendo-a a Zoya.
- Não te esqueças da Sava!
- Posso mesmo ficar com ela? - inquiriu Zoya ao mesmo tempo
que os olhares se cruzavam numa onda de afecto.
- É tua. Foi sempre essa a ideia, mas quis fazer-te uma
surpresa. Agasalha-a no casaco, no caminho para casa. Assim,
ficará quente. - Sava tinha apenas sete semanas e nascera durante
o Natal russo. Zoya ficara excitadíssima quando a vira pela
primeira vez no dia de Natal, na altura em que a sua família viera
jantar com a do czar. - A tua mãe vai ficar furiosa, não? -
inquiriu Marie à gargalhada e Zoya acompanhou-a naquela explosão
de alegria.
- Sim, mas digo-lhe que a tua ficaria terrivelmente
desiludida, se a mandássemos de volta. A mamã ficará com imenso
receio de ofendê-la. - As duas jovens ainda riam quando Marie a
acompanhou até à porta no andar inferior e a ajudou a vestir o
casaco, enquanto agarrava na cadelinha. Tapou os cabelos ruivos
com o gorro e as duas amigas despediram-se. - Toma cuidado contigo
e não adoeças!
- Não faço tenção! - Estendeu-lhe igualmente o frasco de
perfume e Zoya agarrou-o com a mão enluvada. A criada indicou-lhe
que Feodor estava pronto.
- Voltarei dentro de um ou dois dias... prometo... e
obrigada! - Zoya abraçou-a e dirigiu-se rapidamente à tróica, onde
Feodor a esperava. Este tinha as faces e o nariz vernielhos e ela
sabia que ele estivera a beber com os amigos nos estábulos, mas
não interessava. Precisaria de se manter quente, enquanto
regressavam a toda a pressa a Sampetersburgo. Ajudou-a a sentar-se
e sentiu-se aliviada ao ver que deixara de nevar. - Temos de
apressar-nos, Feodor... a mamã vai ficar zangadíssima comigo, se
chegar tarde.
Sabia, porém, que não havia forma de chegar a tempo para o
jantar. Já estariam sentados quando ela aparecesse... e a
cadelinha!... Riu em voz alta enquanto o chicote estalava na noite
gelada e a tróica avançava, puxada pelos três garbosos cavalos
pretos. Um instante depois, atravessaram os portões e os cossacos
montados nos cavalos transformaram-se numa mancha, ao mesmo tempo
que atravessavam a aldeia de Tsarskoie Selo.

CAPITULO 2

Fecodor fustigava os cavalos da tróica rumo a Nevski e Zoya
apertava a cadelinha de encontro ao corpo, tentando recompor-se
e inventar desculpas que apaziguassem a mãe. Ela sabia que, sendo
Feodor a conduzi-la, estariam seguros, mas a mãe ficaria decerto
furiosa por chegarem tão tarde e por ela ainda por cima levar a
cadelinha.
Em Fontanka, viraram subitamente à esquerda e os cavalos
apressaram o passo, sabendo muito bem que estavam quase em casa
e ansiosos por voltarem ao seu estábulo. Conhecendo bem o terreno,
Feodor deu-lhes rédea solta e momentos depois estendia-lhe a mão
para que descesse. Tomada de uma súbita inspiração, retirou a
cadelinha do casaco e estendeu-lha com um olhar suplicante.
- Por favor, Feodor... a imperatriz deu-ma... Chama-se Sava.

Leva-a para a cozinha e entrega-a à Gallina. Desço mais tarde para
ir buscá-la. - Os olhos de Zoya assemelhavam-se aos de uma criança
assustada e Fecodor riu e abanou a cabeça. - A condessa vai exigir
a minha cabeça por isto, mademoiselle! E talvez a sua também.
- Eu sei... Talvez o papá... - O papá que intercedia sempre
a seu favor, que era sempre tão bom e generoso para a mãe.
Tratava-se de um homem maravilhoso e a sua filha única adorava-o.
- Rápido, Feodor. Tenho de me apressar.
Passava das sete e tinha de mudar de vestido, antes de se
apresentar na sala de jantar. Ele pegou no pequeno animal e Zoya
subiu apressadamente os degraus de mármore do pequeno mas belo
palácio. Parecia misturar os estilos russo e francês e fora
construído pelo avô em homenagem à noiva.
A avó vivia num pavilhão do outro lado do jardim, com um
pequeno parque seu, mas Zoya não tinha tempo de pensar nela agora.
Estava com muita pressa. Deslizou rapidamente para o interior,
tirou o chapéu e entregou o casaco a uma criada que estava por
perto. Voou pelas escadas que levava ao quarto, mas nesse momento
ouviu uma voz atrás das costas.
- Alto! Quem vai aí?
- Cala-te! - sussurrou furiosa ao irmão, que se mantinha de
pé ao fundo das escadas. - O que estás a fazer aí? - Ele exibia
uma figura alta e elegante fardada e Zoya sabia que fazia parar
o coração à maioria das suas amigas do Smolny. Ostentava as
insígnias da famosa Guarda Preobrajenski, mas não se sentia
impressionada nesse momento. - Onde está a mamã? - Mas já sabia,
contudo, a resposta sem necessitar de perguntar.
- Na sala de jantar, onde é que julgavas? Onde estiveste?
- Por aí. Tenho de me apressar. - Ainda tinha de se mudar e
o irmão demorava-a. - Estou atrasada.
Ele riu, e os olhos verdes, tão semelhantes aos seus, emitiam
um brilho divertido.
- Acho melhor ires assim. A mamã ficará furiosa se te
atrasares mais.
Zoya hesitou uns segundos e fixou-o lá em baixo.
- Ela disse alguma coisa?... Viste-a?
- Ainda não. Cheguei mesmo agora. Queria falar com o papá
depois do jantar. Vai mudar-te que eu distraio-os. - O irmão
gostava mais dela do que julgava, a irmãzinha de que se
vangloriava ante os amigos, que há anos estavam de olho nela.
Contudo, tê-los-ia morto antes que lhe tocassem. Era uma beleza
mas ainda não o sabia e era nova de mais para namoriscar. Um dia,
casaria com um príncipe, ou pelo menos alguém tão importante como
o pai. Ele era um conde e um coronel, um homem que inspirava o
respeito e a admiração dos que o conheciam. - Vai lá, ferazinha! -
gritou-lhe. - Despacha-te!
Zoya voou até ao quarto e, passados dez minutos, desceu as
escadas com um vestido de seda azul-marinho, de gola rendada.
Detestava aquela vestimenta, mas sabia que agradava à mãe. Era um
vestido juvenil, muito condigno, e não queria irritá-la ainda
mais.
Tomava-se impossível aparecer na ombreira da porta da sala
de jantar sem atrair as atenções e, quando entrou com um ar
submisso e casto, o imião brindou-a com um sorriso malicioso do
seu lugar entre a avó e a mãe. A condessa exibia um ar
invulgannente pálido num vestido de cetim cinzento com um belo
colar de pérolas negras e diamantes; os olhos eram quase da mesma
cor do vestido. Ergueu o rosto devagar e fitou a única filha com

uma expressão triste.
- Zoya! - Nunca erguia a voz, mas bastava fitá-la para se ver
o desagrado. A jovem aguentou com firmeza e apressou-se a beijar-
lhe a face fria, após o que olhou nervosamente de relance para o
pai e a avó.
- Lamento muito, mamã... atrasei-me... na aula de hoje de
ballet... Tive de ir ver uma amiga... Lamento muito... Eu...
- Onde estiveste exactamente? - inquiriu a mãe num tom de voz
gelado. O resto da família observava a cena.
- Eu... eu tive de ir... Eu...
Natalya fixou-a bem nos olhos, enquanto Zoya tentava alisar
o cabelo. Ainda dava a sensação de o ter penteado à pressa, o que
era verdade.
- Quero saber a verdade. Foste a Tsarskoie Selo?
- Eu... - Era inútil mentir. A mãe era demasiado bonita,
demasiado assustadora e demasiado controlada. - Sim, mamã - anuiu,
sentindo-se de novo com sete anos, em vez de dezassete. - Lamento.
- És uma tola! - Os olhos gelados de Natalya brilharam e
virou-se com uma expressão infeliz para o marido. - Dei-lhe ordens
específicas para não ir, Konstantin. Todas as crianças lá estão
com sarampo e agora ficou exposta. Foi um acto de desobediência.
Zoya fixou nervosamente o pai, mas os olhos dele emitiam um
brilho de esmeralda idêntico ao seu e mal conseguia reprimir um
sorriso. Embora amasse a mulher, adorava a filha. E desta vez
Nicolai intercedeu a favor da irmã, o que era invulgar, só que ela
parecia tão infeliz que sentiu pena.
- Talvez lhe tivessem pedido que fosse e a Zoya não tivesse
conseguido recusar.
Todavia entre as suas qualidades contava-se a franqueza, e
Zoya enfrentou a mãe, sentada agora no lugar, enquanto esperava
que as criadas lhe servissem o jantar.
- Fui eu que quis ir. A culpa foi apenas minha. A Marie tem
estado tão sozinha.
- Foi uma idiotice, Zoya. Voltaremos a discutir o assunto
depois do jantar.
- Sim, mamã. - Baixou os olhos para o prato e os outros
prosseguiram a conversa sem a sua intervenção. Um momento depois,
ergueu o rosto e, ao descobrir que a avó estava à mesa, sorriu
alegremente. - Olá, avó. A tia Alix manda-lhe saudades.
- Ela está bem? - A pergunta partiu do pai. A mãe continuava
sentada, imersa numa beleza silenciosa e ainda obviamente
desagradada com a filha.
- Está sempre bem quando cuida dos doentes - respondeu a avó
em seu lugar. - É algo de estranho na Alix. Parece sofrer de todos
os males possíveis até ser requisitada por alguém mais doente e
depois mostra-se espantosamente à altura. - A idosa condessa
deitou um olhar intencional à nora e, em seguida, sorriu orgulhosa
a Zoya. - A pequena Marie deve ter ficado satisfeita por te ver.
- Ficou sim, avó - confirmou a jovem, agradecida. E
acrescentou para tranquilizar a mãe: - Nem sequer vi as outras.
Estavam isoladas, algures. Até mesmo Madame Virubova está doente -
concluiu, arrependendo-se de imediato ao ver que a mãe a olhava,
horrorizada.
- Que estupidez, Zoya... Não consigo perceber porque foste
até lá. Queres apanhar sarampo?
- Não, mamã. Lamento mesmo - desculpou-se, embora nada
houvesse de pena no seu rosto. Só as palavras ecoavam o
arrependimento esperado. - Não era minha intenção atrasar-me

tanto. Ia a sair quando apareceu a tia Alix para tomar chá
connosco e não quis ser indelicada...
- Nem devias. Ela é, afinal, a nossa imperatriz, além de
nossa prima - interferiu a avó, que tinha uns olhos tão verdes
como os de Zoya, e os do pai e os do irmão.
só os de Natalya eram de um pálido azul-acinzentado,
semelhantes a um céu de frio Inverno sem esperança de Verão. A
vida sempre lhe exigira demasiado, tivera um marido enérgico e
robusto que a amava fogosamente e quisera mais filhos do que podia
comportar. Dois haviam sido nado-mortos, tivera vários abortos e
Zoya e Nicolaí eram o resultado de partos difíceis. Passara um ano
na cama depois de dar à luz cada um deles e agora dormia nos seus
próprios aposentos.
Konstantin adorava os seus amigos e desejara dar inúmeros
bailes e festas, mas ela achava-os demasiado cansativos e usava
a saúde débil como desculpa para a falta da alegria de viver e da
sua enorme timidez. Dava-lhe um ar de gelado distanciamento, por
detrás do qual escondia o facto de as pessoas a atemorizarem,
sentindo-se muito mais feliz reclinada numa cadeira junto à
lareira.
No entanto, a filha parecia-se muito mais com o pai e, depois
de Zoya dar a sua festa de debutante na Primavera, Konstantin
ansiava pela perspectiva de a ter como companhia nas festas.
Tinham falado durante muito tempo quanto a abandonarem a ideia de
um baile e Natalya insistira em que não deviam encará-lo naquele
tempo de guerra.
Contudo, a avó de Zoya decidira o assunto por eles e
Konstantin ficara muito aliviado. Haveria um baile, mal ela se
formasse pelo Instituto Smolny em Junho, talvez não um baile tão
faustoso como seria se não houvesse guerra, mas de qualquer
maneira uma festa encantadora.
- Há notícias do Nicolau? - inquiriu Konstantin. - A Marie
disse alguma coisa?
- Nada de significativo. A tia Alix diz que ele regressou da
frente, mas acho que vai voltar em breve.
- Eu sei. Vi-o na semana passada. Mas está bem, não está? -
Konstantin parecia preocupado, o que não escapou ao olhar do seu
esbelto filho.
Este soube, então, que o pai devia ter ouvido os mesmos
boatos do que ele no aquartelamento, que Nicolau estava exausto
e consumido pelo desgaste da guerra. Alguns sussurravam mesmo
quanto à possibilidade de um esgotamento nervoso. Porém, com a
bondade do czar e a sua constante preocupação com todos, era algo
quase impensável. Era dificil imaginar que alguém pudesse ter um
esgotamento ou desistir. Tratava-se de um homem profundamente
amado pelos seus companheiros e sobretudo pelo pai de Zoya.
Tal como Zoya e Marie, tinham sido amigos de infância e era
padrinho de Nicolai, que fora baptizado com este nome em sua
honra; o próprio pai de Nicolau fora muito chegado ao pai de
Konstantin. O afecto que tinham um pelo outro ultrapassava o
sentido familiar; sempre haviam sido muito chegados e espicaçavam-
se por ambos terem casado com alemãs, embora Alix parecesse ser
um pouco mais resistente do que Natalya. Pelo menos, mostrava-se
à altura da situação quando necessário, como o fizera a nível do
seu trabalho na Cruz Vermelha, e agora na doença dos filhos.
Natalya teria sido, por constituição fisica, incapaz de algo no
gênero. A velha condessa ficara muito desapontada por o filho não
ter desposado uma russa. O facto de uma alemã ter servido ao czar

era apenas um ligeiro conforto.
- E, a propósito, o que te traz aqui esta noite? - Konstantin
virou-se para Nicolai com um caloroso sorriso. Orgulhava- e do
filho e agradava-lhe que estivesse com a Preobrajenski e não na
frente, do que não fazia segredo. Não tinha qualquer desejo de
perder o seu único filho. As baixas russas haviam sido elevadas
na batalha de Tannenberg, no Verão de 1914, devido aos terríveis
reveses nos campos gelados da Galícia e queria que Nicolai
estivesse bem a salvo em Sampetersburgo. Este era, pelo menos, um
grande alívio para ele e para Natalya.
- Queria falar consigo depois do jantar desta noite, papá. -
Expressava-se num tom calmo e firme e Natalya lariçou-lhe um olhar
nervoso. Esperava que não tivesse nada de inquietante a
participar, pois ouvira recentemente a uma amiga que o filho
andava envolvido com uma bailarina e teria muito que falar com o
pai se ele lhe comunicasse que ia casar. - Nada de importante.
A avó observou-o com um olhar perspicaz e soube que o neto
mentira sobre a importância do que quer que tivesse a comunicar
ao pai. Estava preocupado com algo, suficientemente preocupado
para passar uma noite com todos, o que não se coadunava com ele.
- Na verdade - acrescentou Nicolai, sorrindo para a família
reunida -, vim assegurar-me de que este monstrinho andava a
portar-se devidamente. - Olhou para Zoya que lhe correspondeu com
uma expressão aborrecida.
- Já sou uma mulher, Nicolai. Já não me porto mal. - Compôs
um ar arrogante e acabou a sobremesa, enquanto o irmão ria à
gargalhada.
- Ah, sim? Imagina só... Ainda há momentos voavas pelas
escadas, atrasada como de costume para jantar, com as botas
molhadas e parecendo que te tinhas penteado com um ancinho... -
Estava preparadíssimo para continuar, e Zoya atirou-lhe um
guardanapo, ao mesmo tempo que a mãe parecia à beira de desfalecer
e lançava um olhar suplicante ao pai.
- Manda-os parar, por favor, Konstantin! Põem-me tão nervosa!
- É apenas uma canção de amor, minha querida - interferiu
sabiamente a condessa Eugenia. - É a única forma de diálogo que
conhecem nesta altura das suas vidas. Os meus filhos estavam
sempre a puxar os cabelos e a atirar sapatos uns aos outros. Não
é verdade, Konstantin? - Ele soltou uma gargalhada e deitou um
olhar cúmplice à mãe.
- Receio não ter sido muito bem-comportado quando era jovem,
minha querida. - Fitou afectuosamente a mulher, passeou o olhar
feliz pela mesa e seguiu o filho até uma sala contígua onde podiam
falar em privado. À semelhança da mulher, também ele esperava que
o filho não fosse comunicar-lhes que ia casar.
Ao sentarem-se tranquilamente junto à lareira, reparou de
imediato na bonita cigarreira de ouro que Nicolai tirou do bolso
do uniforme. Era um dos modelos mais típicos de Carl Fabergé, em
rosa e ouro com uma bonita safira. Konstantin tinha quase a
certeza de que provinha de Hollming ou Wigstrom.
- Uma bugiganga nova, Nicolai? - Tal como a mulher, também
lhe chegara aos ouvidos a história da alegadamente bonita
bailarina.
- Um presente de uma amiga, papá.
Konstantin esboçou um sorriso indulgente.
- Mais ou menos o que eu temia - Os dois homens riram e
Nicolai franziu o sobrolho. Era jovem mas bastante vivido para a
sua idade e tinha um espírito perspicaz a somar à aparência

elegante. Era um filho que dava motivos de orgulho.
- Não tem com que se preocupar. Apesar do que possa ouvir,
estou apenas a divertir-me um pouco. Nada de sério, garanto-lhe.
- Óptimo. Então, o que te trouxe aqui esta noite?
Nicolai parecia preocupado e desviou os olhos da lareira para
o pai.
- Algo bastante mais importante. Tenho ouvido coisas
desagradáveis sobre o czar, que está cansado, que está doente e
que não devia liderar as tropas. Decerto também está ao corrente,
pai.
- Estou - anuiu com um lento aceno de cabeça e fitando o
filho. - Mas continuo a acreditar que não nos deixará ficar mal.
- Na noite passada, estive numa festa com o embaixador
Paléologue, que esboçou um quadro muito triste. Pensa que os
cortes de comida e combustível são muito mais graves do que
admitimos, que o desgaste da guerra está a provocar estragos.
Estamos a alimentar seis milhões de homens na frente e poucas
condições temos de cuidar dos nossos aqui. Receia que possamos ir
abaixo... que os Russos possam ir abaixo... e o czar Nicolau
também... e... Então, pai? Acha que ele tem razão?
Konstantin pensou demoradamente e, em seguida, abanou a
cabeça.
- Não, não acho. Acho que todos estamos esgotados e o Nicolau
também. Contudo, isto é a Rússia, Nicolai, e não um pequeno e
fraco país no meio de nenhures. Somos um povo pleno de vigor e
força e, por mais difíceis que sejam as condições, não
desfaleceremos. Nunca. - Era essa a sua crença, e Nicolai sentiu-
se tranquilizado.
- A Duma volta a reunir-se, amanhã. Será interessante ver o
que acontece.
- Nada acontecerá, meu filho. A Rússia é e será eterna.
Certamente o sabes. - Deitou um olhar afectuoso ao filho, que se
sentiu melhor.
- Sei. Talvez apenas precisasse de o ouvir dizer isso.
- Todos precisamos. Tens de ser forte pelo Nicolau, por todos
nós, pelo teu país. Todos temos de ser fortes agora e os bons
tempos regressarão. A guerra não pode durar eternaMente.
- É uma coisa horrível. - Ambos estavam conscientes da
gravidade das baixas. Contudo, nada disso implicava
necessariamente um fim ao que lhes era querido. Agora que pensava
no assunto, Nicolai sentia-se idiota pela preocupação que o
dominara. Só que o embaixador francês se mostrara tão convincente
com as suas previsões. Ainda bem que decidira falar com o pai. -
A mãe anda bem? - Nicolai achara-a mais nervosa do que o habitual,
ou talvez o facto se devesse a vê-Ia agora com menos frequência,
mas Konstantin limitou-se a sorrir.
- Também anda preocupada com a guerra... e contigo... e
comigo... e com a Zoya... Ela dá que pensar.
- Mas está muito bonita, não está? - Referia-se a Zoya com
um entusiasmo e uma admiração que negaria com veemência se alguém
o dissesse à irmã. - Metade do meu regimento parece estar
apaixonado por ela. Passo a maior parte do tempo a ameaçar matá-
los.
O pai sorriu e depois abanou a cabeça com uma expressão
triste.
- É uma pena que ela tenha de fazer o seu début em tempo de
guerra. Talvez tudo esteja terminado em Junho. - Era uma esperança
que ambos partilhavam, mas que Nicolai receava não ser provável.

- Tem alguém em mente para ela? - inquiriu, curioso, Nicolai,
que achava que vários dos seus amigos poderiam dar óptimos
pretendentes.
- Não consigo s@portar a ideia de perdê-la. Suponho que é um
disparate. É demasiado viva para ficar entre nós muito mais tempo.
A tua avó tem o principe Orlov em elevada consideração.
- É velho de mais para ela. - Ultrapassara os trinta e cinco
anos e Nicolai franziu defensivamente o sobrolho ante a ideia.
De facto, não tinha a certeza de que alguém fosse suficientemente
bom para a sua irmãzinha.
Konstantin levantou-se, sorriu ao filho e deu-lhe uma pequena
palmada no ombro.
- Acho melhor voltannos. Se não o fizerinos, a tua mãe ficará
preocupada. - Saíram da sala, e Konstantin rodeou os ombros do
filho com o braço. Quando se juntaram às senhoras numa das salas
de estar mais pequenas, Zoya implorava algo à mãe.
- Então, o que fizeste agora, monstrinho? - Nicolai riu ante
a expressão no rosto da irmã e apercebeu-se de que a avó virara
costas para dissimular um sorriso. Natalya denotava uma palidez
de morte e o rosto de Zoya estava corado de raiva quando fitou o
irmão.
- Não te metas nisto!
- O que há, miúda? - Konstantin parecia divertido, até
deparar com a expressão de censura no rosto da mulher. Ela achava-
o demasiado brando em relação à filha.
- Ao que parece - replicou a condessa num tom irritado -, a
Alix deu-lhe um presente ridículo e não quero de forma alguma que
o conserve.
- Do que se trata, Deus do céu? Das suas famosas pérolas?
Aceita-as, querida, podes sempre usá-las. - Konstantin estava de
bom humor depois da conversa com Nicolai, e os dois homens
trocaram um olhar cúmplice por cima da cabeça das mulheres.
- Não é nada divertido, Konstantin, e espero que lhe digas
exactamente o que eu disse. Tem de livrar-se imediatamente do
presente.
- Do que se trata? De peste? Uma cobra treinada? - troçou
Nicolai.
- Não. É um dos filhotes da Joy. - Lágrimas brilhavam nos
olhos de Zoya, que fitou o pai, suplicante. - Por favor, papá...
Se prometer ser eu a cuidar dela e nunca a perder de vista, nem
deixar que saia do meu quarto e a conservar afastada da mamã...
Por favor... - Lágrimas tremulavam nos seus olhos e tocaram no
coração do pai, enquanto Natalya percorria a sala de um lado para
o outro, com os olhos semelhantes ao brilho de diamantes.
- Não! Os cães são portadores de doenças! E todos sabem
perfeitamente como a minha saúde é delicada! - Estava longe de
parecer frágil nesse momento, enquanto se mantinha no meio da
sala, a imagem perfeita da fúria. Konstantin recordou-se de como
se sentira atraído por ela da primeira vez que a vira, mas sabia
também que Natalya não era uma mulher fácil.
- Talvez se viver na cozinha... talvez nesse caso... - Deitou
um olhar esperançado à mulher, quando ela avançou para a porta e
a abriu.
- Acabas sempre por lhe satisfazer os caprichos, não é,
Konstantin?
- Querida... não é um animal grande. É muito pequeno.
- E têm mais dois e um gato, e o filho está sempre às portas
da morte. - Referia-se, obviamente, ao mau estado de saúde crónico

de Alexis.
- Não tem nada a ver com os cães. Talvez a avó não se importe
de ficar com a cadelinha em casa... - Olhou, esperançado, para a
mãe e ela sorriu, intimamente satisfeita com aquela tempestade.
Era mesmo de Alix, oferecer um cão a Zoya, sabendo como iria
enfurecer a mãe. Existira sempre uma secreta rivalidade entre as
duas mulheres, mas Alexandra era, afinal, a czarina.
- Não me importo nada - ofereceu-se a condessa mais velha.
- Muito bem. - Konstantin sentia que encontrara a solução
perfeita, mas a porta bateu ruidosamente e sabia que só voltaria
a ver a mulher na manhã seguinte.
- E é com este final feliz que vou voltar ao meu pacífico
aquartelamento - replicou Nicolai, sorrindo e esboçando uma vénia
formal à avó.
- Vê lá se voltas mesmo - vincou a avó com um sorriso mal
dissimulado e soltando uma risada quando ele lhe desejou as boas-
noites. - Ouvi dizer que estás a tornar-te um estróina, meu
querido.
- Não acredite em tudo o que ouve. Boa noite, avó. -
Despediu-se, beijando-a nas duas faces e tocou ao de leve no ombro
do pai. - E, quanto a ti, ferazinha...- Abraçou carinhosamente a
jovem ruiva quando a beijou e ela fitou-o com igual afecto. -
Porta-te bem. E tenta não apareceres em casa com mais animais de
estimação. Vais enlouquecer a mãe.
- Ninguém te encarregou do sermão! - retorquiu e depois
voltou a beijá-lo. - Adeus, rapaz terrível.
- Não sou um rapaz. Sou um homem, embora não saibas a
diferença.
- Saberia, se visse algum.
Acenou-lhes da porta com uma expressão divertida e em seguida
desapareceu, com toda a probabilidade para fazer uma visita à sua
pequena bailarina.
- Que jovem encantador, Konstantin. Recorda-me muito como tu
eras - declarou, orgulhosa, a velha condessa, enquanto o filho
sorria e Zoya se atirava para uma cadeira, com uma expressão
contrariada.
- Por mini, acho-o simplesmente um horror.
- Ele fala de ti de uma forma muito mais carinhosa, Zoya
Konstantinovna - replicou o pai sem erguer a voz. Orgulhava-se dos
filhos e amava-os profundamente. Inclinou-se para a beijar na face
e depois esboçou um sorriso calmo à mãe. - Vai mesmo ficar com a
cadelinha, mamã? - perguntou à condessa Eugenia. - Temo que a
Natalya nos corra a todos de casa, se insistir mais. - Abafou um
suspiro. Havia alturas em que gostaria que a mulher fosse de trato
um pouco mais fácil, sobretudo quando a mãe estava a olhar e
julgando em silêncio. Contudo, há muito que Eugenia Ossupov
formara a sua opinião da nora e provavelmente nada que Natalya
fizesse agora a mudaria.
- Claro. Gostaria de ter uma amiguinha.
- Virou-se para Zoya
com um ar zombeteiro e inquiriu: - Qual dos cães deles é o
progenitor? O Charles do jovem czar Alexis ou o buldogue francês
da Tatiana?
- Nenhum deles, avó. É filha da Joy, a cocker spaniel da
Marie. É tão querida. E chama-se Sava. - Zoya parecia
contentíssima; assemelhava-se a uma criança quando se sentou junto
aos joelhos da avó, e a mulher idosa pousou uma mão anquilosada
mas amiga nos seus ombros.
- Pede-lhe apenas que não baptize o meu tapete favorito, o

Aubusson, e seremos grandes amigas, garanto. - Acariciou o cabelo
ruivo e revolto que caía sobre os ombros de Zoya. Desde criança
que a jovem sempre adorara o toque das mãos da avó. Soergueu-se
e beijou-a.
- Obrigada, avó. Queria tanto ficar com ela.
- E ficarás, pequenina... ficarás. - Levantou-se e dirigiu-se
vagarosamente até junto do fogo, sentindo-se cansada mas em paz,
enquanto Zoya ia buscar a cadelinha aos criados.
A condessa virou-se para Konstantin e teve a sensação de que
apenas haviam passado momentos desde que ele fora da idade de
Nicolai e muito, muito mais novo. Os anos pareciam voar tão
rapidamente, mas haviam sido generosos. O marido levara uma vida
em pleno. Morrera três anos antes com oitenta e nove e sempre se
sentira abençoada por tê-lo amado. Agora, Konstantin parecia-se
com ele e recordava-lhe momentos felizes passados, sobretudo ao
vê-lo junto de Zoya.
- Ela é uma rapariguinha encantadora, Konstantin
Nicolaevich... uma bela rapariguinha.
- Parece-se muito consigo, mamã.
Eugenia abanou a cabeça, mas o filho apercebeu-se pelo brilho
dos olhos de que estava de acordo. Havia alturaN em que se
identificava muito com a jovem e sentia-se sempre contente por
Zoya ter tão pouco a ver com, a mãe. Mesmo quando desobedecia à
mãe, a condessa achava uma coisa fantástica e há muito sentira que
era um sinal do seu próprio sangue a correr nas veias de Zoya, o
que ainda mais aborrecia Natalya.
- Ela é algo de novo... é ela própria. Não devemos
sobrecarregá-la com os nossos erros e falhas.
- Em que é que falhou? Sempre foi boa para mim, mamã... para
todos nós... - Era uma mulher respeitada e de quem se gostava.
Uma mulher com objectivos e valores sólidos. Conhecia-lhe a
sabedoria e apoiava-se nas suas inúmeras e sensatas opiniões.
- Aqui está ela, avó! - Zoya reaparecera com a cadelinha nos
braços, que era pouco maior do que as suas mãos, e a condessa
pegou-lhe. - Não é um amor?
- É maravilhosa... e continuará a ser até roer o meu melhor
chapéu ou os meus sapatos favoritos... Mas não, por favor, meu
Deus, o meu tapete Aubusson favorito. E se o fizeres -
acrescentou, acariciando a cabeça da cadelinha, como o fizera ao
cabelo de Zoya, momentos antes -, transformo-te em sopa. Lembra-te
disso. - A pequena Sava ladrou, como que a responder. - Alix foi
muito simpática em dar-ta, miúda. Espero que lhe tenhas agradecido
devidamente.
- Ela estava com bastante receio que a mamã ficasse zangada -
confessou a neta com uma risada e tapando a boca num gesto
gracioso.
A avó soltou uma risada e Konstantin esforçou-se por conter
um sorriso, em deferência para com a mulher.
- Ela conhece muito bem a tua mãe, verdade, Konstantin? -
Olhou-o bem no fundo, levando-o a entender cada palavra.
- A fragilidade física da Natalya não lhe tem facilitado as
coisas nos últimos tempos. Talvez eventualmente... - Tentava
defendê-la.
- Deixa lá, Konstantin. - A condessa esboçou um gesto
impaciente, apertou mais a cadelinha de encontro ao peito e deu
um beijo de boas-noites à neta. - Vem ver-nos amanhã, Zoya. Ou
tencionas voltar a Tsarskoie Selo? Irei contigo um destes dias
fazer uma visita a Alix e às crianças.

- Enquanto estiverem doentes, não, mamã, por favor... e a
viagem será extenuante para si com este tempo.
- Não sejas pateta, Konstantin - replicou a mãe com uma
sonora gargalhada. - Tive sarampo há quase cem anos e nunca me
preocupei com o tempo. Sinto-me bastante bem, muito obrigada, e
tenciono manter-me assim pelo menos mais uma dúzia de anos, ou
talvez mais. E sou suficientemente má para o conseguir.
- Óptimas notícias - retorquiu o filho a sorrir. - Vou
acompanhá-la ao pavilhão.
- Não sejas pateta. - Recusou com um gesto e Zoya foi buscar-
lhe a capa e tapou-lhe os ombros. - Ainda sou capaz de atravessar
o jardim. Faço-o várias vezes por dia.
- Então, não me retire o prazer de acompanhá-la, madame.
Eugenia sorriu-lhe, vendo-o de novo como criança, pelo menos
no seu coração, onde permaneceria um rapazinho para sempre,
enquanto ela vivesse.
- Sendo assim, muito bem, Konstantin. Boa noite, Zoya.

- Boa noite, avó. E obrigada por ficar com a Sava. - A idosa
senhora deu-lhe um beijo afectuoso e Zoya subiu as escadas até ao
quarto cor de malva. Eles sairam para o ar frio.
Zoya bocejou e sorriu ao pensar na cadelinha que Marie e a
mãe dela lhe tinham oferecido. Fora um dia fantástico. Fechou
suavemente a porta do quarto e prometeu a si própria que voltaria
a Tsarskoie Selo dentro de um ou dois dias. Mas entretanto teria
de pensar em algo de maravilhoso para levar a Mashka.

CAPITULO 3

Dois dias mais tarde, Zoya estava a planear voltar a
Tsarskoie Selo para fazer uma visita a Marie, mas em vez disso
chegou uma carta nessa manhã, antes do pequeno-almoço. Foi
entregue pelo próprio Dr. Fedorov, o médico de Alexis, que viera
à cidade buscar mais remédios e trouxera a desagradável notícia
de que também Marie tinha caído à cama com sarampo.
Zoya leu o bilhete com tristeza. Não só significava que não
podia visitá-la, como também que talvez deixassem de se ver
durante semanas, pois o Dr. Fedorov declarou que as visitas
estavam proibidas por uns tempos, até se observar a evolução da
doença. Anastasia estava a sofrer de problemas de ouvidos como
resultado do sarampo e o jovem Alexis apanhara uma pneumonia.
- Oh, meu Deus... - gemeu Natalya. - E tu também estiveste
exposta. Tinha-te proibido que fosses e expuseste-te... Como foste
capaz de me fazer uma coisa destas? Como te atreveste!
Estava quase histérica com o pensamento da doença que Zoya
podia ter inadvertidamente trazido para casa, e Konstantin chegou
a tempo de ver a mulher desmaiar, mandando rapidamente a criada
ao andar de cima buscar os sais. Tinha-lhe encomendado, para os
colocar, uma embalagem especial Fabergé, em forma de um grande
morango vermelho incrustado de diamantes, que ela conservava
sempre por perto, na mesa-de-cabeceira.
O Dr. Fedorov teve a gentileza de ficar o tempo suficiente
para examinar Natalya no andar superior, enquanto Zoya escrevia
um breve bilhete à amiga. Desejava-lhe uma rápida convalescença
para poderem voltar a estar juntas e assinou-o em seu nome e no
de Sava, que regara generosamente o tapete Aubusson na noite

anterior. Contudo, a avó ficara mesmo assim com a cadelinha,
embora ameaçando transformá-la em sopa, se não se portasse melhor.
"... Gosto muito de ti, minha queridíssima amiga. Agora, põe-
te boa depressa para que possa ir visitar-te." Mandou-lhe dois
livros, um deles, Os Bebés de Helen, que lera com agrado há umas
semanas e que de qualquer maneira tencionava oferecer-lhe.
Acrescentou um post scriptum, avisando Mashka de que não se
servisse disso como desculpa para fazer novamente batota no ténis,
como ambas haviam feito no Verão passado, quando tinham jogado no
Livadia com duas das irmãs de Marie. Era o jogo favorito de ambas
e Marie superava as outras, embora Zoya ameaçasse sempre vencê-la.
"... Irei ver-te, mal a tua mãe e o doutor me deixarem. De todo o
coração, a tua querida Zoya ..."
Nessa tarde, Zoya viu de novo o irmão, o que, pelo menos, a
distraiu e, enquanto esperavam o regresso do pai a casa, ele
levou-a a dar uma volta na tróica da mãe. Esta não saíra do quarto
o dia inteiro, tão transtornada se sentia com a notícia de que
Marie apanhara sarampo e Zoya se expusera inadvertidamente. Zoya
sabia que era bem possível que não aparecesse durante dias e ficou
contente ante o divertimento proporcionado pelo irmão.
- Porque vieste ver outra vez o papá? Passa-se alguma coisa,
Nicolai?
- Não sejas tonta. Porque havia de passar-se? És mesmo
Pateta.
"Contudo, esperta também." Ficou espantado ao ver como a irmã
sabia instintivamente que. ele viera falar com Konstantin, porque
estava preocupado. No dia anterior, quando a Duma se reunira,
Alexandre Kerenski fizera um discurso terrível que incluía um
incitamento a assassinar o czar e Nicolai começava a temer que
algo do que o embaixador Paléologue dissera fosse verdade.
Talvez a situação estivesse pior do que julgavam e o povo se
sentisse mais revoltado com as faltas do que suspeitavam. Sir
George Buchanan, o embaixador britânico, afirmara o mesmo antes
de partir para a Finlândia numa licença de dez dias. Nicolai
ouvira muitas coisas nesses últimos dias, sentia-se preocupado,
e estava ansioso por escutar a opinião do pai.
- Só apareces de visita quando algo vai mal, Nicolai
pressionou Zoya. Seguiam a toda a velocidade pela bonita Avenida
Nevski. Havia neve caída de fresco no chão e nunca parecera mais
bonita, mas Nicolai continuava obstinadamente a insistir que
estava tudo bem e, embora a invadisse uma estranha sensação de
medo, resolveu acreditar no irmão.
- Mas que comentário encantador, Zoya. E, além disso, não é
verdade. E indo directo ao assunto, é verdade que voltaste a
perturbar a mamã? Ouvi dizer que está de cama por tua causa e teve
de ser vista duas vezes pelo médico.
- Foi só porque o doutor Fedorov lhe disse que a Mashka está
com sarampo - retorquiu Zoya, encolhendo os ombros e com um
sorriso travesso.
- E és tu a seguir? - Nicolai sorriu-lhe e ela correspondeu.
- Não sejas parvo. Nunca adoeço.
- Não tenhas tantas certezas. Não tencionas voltar lá, não
é verdade? - Por um instante, pareceu preocupado, mas ela abanou
a cabeça com uma expressão de desapontamento infantil.
- Não me deixarão. Ninguém pode visitá-los, agora. E a pobre
Anastasia tem uma horrível dor de ouvidos.
- Em breve todos estarão bons e poderás voltar.

Zoya esboçou um aceno de cabeça e depois sorriu.
- A propósito, Nicolai, como está a tua bailarina?
O irmão sobressaltou-se e puxou-lhe uma madeixa de cabelo
ruivo que se escapara para fora do gorro de pele.
- O que te leva a pensar que tenho uma "bailarina"?
- Toda a gente sabe, idiota... como sabiam da do tio Nicolau
antes de ele se casar com a tia Alix. - Podia falar abertamente
com ele; era, afinal, seu irmão, mas Nicolai desviou os olhos,
chocado. Embora a irmã não tivesse papas na língua, esperava um
pouco de decoro da sua parte.
- Zoya! Como podes falar dessas coisas!
- Posso dizer-te o que me apetecer. Como é ela? Bonita?
- Não é nada! Simplesmente não existe. É isso que te ensinam
no Smolny?
- Não me ensinam nada - replicou, jovial. "Salvo uma óptima
educação como ele recebera antes no Corpo Imperial dos Pajens, o
colégio militar para os filhos de nobres e oficiais superiores." -
Além disso, estou quase a acabar.
- Imagino que ficarão contentíssimos por te ver pelas costas,
minha querida. - Zoya encolheu os ombros e ambos riram. Por
instantes, Nicolai julgou que a irmã desistira, mas ela era mais
persistente do que julgara e dirigiu-se-lhe com um sorriso
malicioso.
- Continuas sem me falar da tua amiga, Nicolai...
- És uma rapariga horrível, Zoya Konstantinovna.
A jovem soltou uma risada e ele conduziu-a devagar a casa,
regressando ao palácio onde viviam em Fontanka, e nessa altura o
pai já tinha chegado. Fecharam-se os dois à chave na biblioteca
de Konstantin, que dava para o jardim. Estava cheia de belos
livros encadernados a cabedal e objectos que o pai coleccionara
ao longo dos anos, sobretudo as peças de malaquite de que tanto
gostava.
Havia também uma colecção de preciosos ovos da Páscoa Fabergé
que Natalya lhe oferecia todos os anos, idênticos aos que o czar
e a czarina trocavam em ocasiões importantes. De pé, encostado à
janela e ouvindo o filho, Konstantin observava Zoya saltitando
pela neve, a fim de ir visitar a avó e Sava.
- Então o que acha, pai? - Quando Konstantin se virou
novamente de frente para o filho, compreendeu que Nicolai estava
preocupadíssimo.
- Não me parece que isso signifique seja o que for. E mesmo
que haja uma certa agitação nas ruas, o general Khabalov estará
à altura, Nicolai. Não há motivo para receios. - Sorriu,
satisfeito por o filho se preocupar tanto com o bem-estar da
cidade e do país. - Está tudo em ordem. Mas não prejudica estar
alerta. É o dever de um bom soldado. - E o filho era-o, tal como
ele nos seus tempos de juventude e o pai antes dele. Se pudesse,
o próprio Konstantin estaria na frente, mas era demasiado velho,
por mais que amasse o seu primo, o czar, e o país.
- O discurso do Kerenski à Duma não o preocupa, pai? O que
ele está a sugerir é traição!
- Mas ninguém pode tomar isso a sério, Nicolai. Ninguém vai
assassinar o czar. Não se atreveriam. Além disso, o Nicolau é
experiente bastante para se manter bem protegido. Penso que corre
muito mais perigo em casa neste momento, com um bando de filhos
e criados carregados de sarampo... - Sorriu meigamente. - ... do
que nas mãos do seu povo. De qualquer maneira, vou telefonar ao

embaixador Buchanan quando ele voltar e falar-lhe pessoalmente,
se ele está assim tão preocupado. Gostaria de ouvir a sua opinião
sobre o assunto e também a do Paléologue. Quando o Buchanan voltar
de férias, combino um almoço com eles e serás obviamente bem-
vindo. - Pretendia acima de tudo incentivar a carreira do filho.
Nicolai era um rapaz inteligente e tinha um brilhante futuro pela
frente.
- Fiquei melhor depois de ter falado consigo, pai. - Todavia,
desta vez os seus medos não foram assim tão facilmente apaziguados
e, quando saiu de casa, continuava com uma impressão de perigo
iminente. Sentiu-se tentado a ir até Tsarskoie Selo e reunir-se
em privado com o primo, mas, pelo que ouvira sobre o quanto o czar
estava cansado e preocupado com o filho, sabia que a altura não
era a mais apropriada.
Uma semana mais tarde, a 8 de Março, o czar Nicolau partiu
de Sampetersburgo para regressar à frente, a oitocentos
quilómetros, em Mogilev. E, nesse mesmo dia, verificou-se o
primeiro sinal de revolta nas ruas, quando a fila para o pão se
transformou em gente raivosa que abriu caminho até às padarias,
gritando: "Dêem-nos pão!" Ao pôr do Sol, um esquadrão de cossacos
apareceu para impor a ordem. E, mesmo assim, ninguém parecia
preocupado. O embaixador Paléologue foi mesmo a ponto de organizar
uma enorme festa. Estavam presentes o príncipe e a princesa
Gorchakov, o conde Tolstoi, Alexandre Benois e o embaixador
espanhol, o marquês de Villasinda.
Natalya continuava a sentir-se indisposta, insistira que não
podia sair de casa e Konstantin não queria deixá-la. Ficou
satisfeito por não terem comparecido, quando no dia seguinte ouviu
dizer que os revoltosos haviam virado um eléctrico na orla da
cidade. Na generalidade, ninguém parecia, contudo, alarmado.
E, como que para tranquilizar todos, o dia seguinte
amanhecera luminoso e soalheiro. A Avenida Nevski abarrotava de
gente, mas as pessoas pareciam bastante felizes e as lojas estavam
abertas. Havia cossacos por perto, de olhar atento ao que se
passava, mas pareciam de boas relações com o povo. Porém, no
sábado, 10 de Março, verificou-se um saque inesperado e várias
pessoas morreram em motins.
Nessa noite, os Radziwill preparavam-se, contudo, para dar
uma faustosa recepção. Era como se todos desejassem fingir que não
estava a acontecer nada. Tornava-se, porém, difícil ignorar os
relatos de tumulto e desordem.
Gibbes, o tutor inglês de Marie, trouxe a Zoya uma carta de
Mashka e ela quase se lhe atirou de braços abertos, mas ficou
desconsolada ao ler que Marie se sentia pessimamente e que Tatiana
também estava com problemas de ouvidos. Mas pelo menos Baby
sentia-se um pouco melhor.
- A pobre tia Alix deve andar tão cansada - disse Zoya à avó
nessa tarde, sentada na sua sala de estar e com a pequena Sava ao
colo. - Sinto-me tão ansiosa por voltar a ver a Marie, avó. - Há
dias que estava inactiva, pois a mãe tinha insistido em que não
fosse às aulas de ballet por causa dos problemas na rua e, desta
vez, o pai apoiara a ordem.
- Tem um pouco de paciência, minha querida - incitara a avó.
- Decerto não queres andar agora pelas ruas com toda essa gente
infeliz e cheia de fome.
- É assim tão mau para elas, avó? - Era uma situação difícil
de imaginar no meio de todo o luxo de que usufruíam. Sentia um
peso no coração só de pensar em pessoas tão desesperadamente

esfomeadas. - Gostava que pudéssemos dar-lhes algo do que temos. -
Levavam uma vida tão confortável e fácil que lhe parecia uma
crueldade todas aquelas pessoas com frio e fome à sua volta.
- Todos o desejamos por vezes, miúda. - Os velhos olhos
brilhantes afundaram-se nos seus. - A vida nem sempre é justa.
Há muitas, muitas pessoas que nunca terão o que para nós é uma
garantia diária: roupas quentes, camas macias, comida em
abundância... para já nem falar de frivolidades como férias,
festas e belos vestidos.
- Tudo isso está mal? - Zoya parecia sobressaltada com a
ideia.
- Claro que não. Trata-se, contudo, de um privilégio e nunca
devemos esquecê-lo.
- A mamã diz que eles são gente vulgar e não apreciariam o
que temos. É verdade?
Eugenia fitou-a com uma ironia irritada, surpreendida por a
nora ser ainda tão cega e idiota.
- Não sejas ridícula, Zoya. Achas que alguém se oporia a uma
cama quente, o estômago cheio, um belo vestido ou uma bela tróica?
Só se fossem terrivelmente estúpidos. - A neta não acrescentou que
a mãe também o afirmara, pois compreendia que não era assim.
- Sabe, avó? É triste que não conheçam o tio Nicolau, a tia
Alix, o Baby e as meninas. São pessoas tão boas, que ninguém se
irritaria com eles se os conhecesse. - Era uma afirmação sensata
e, no entanto, incrivelmente simplista.
- O problema não está neles, querida... mas apenas nas
coisas que defendem. É extremamente difícil para as pessoas,
que se encontram do outro lado das janelas do palácio,
lembrarem-se de que as pessoas lá dentro têm desgostos e
dificuldades. Ninguém saberá quanto o Nicolau se importa com
todos eles, quanto sofre com os seus males e como sentiu o
coração partido ante a doença do Alexis. Nunca saberão, nem
verão... também me faz sentir triste. O pobre carrega fardos
tão pesados. E agora está de volta à frente. Deve ser difícil
para a Alix. Espero que as crianças melhorem depressa para que
possa ir visitá-las.
- Também quero ir. Contudo, o papá não me deixa pôr um pé
fora de casa. Vou levar meses a pôr-me em dia com Madame
Nastova.
- Claro que não levarás. - Eugenia observava-a e tinha a
sensação de que ela ia ficando mais bonita à medida que se
aproximava o dia em que faria dezoito anos. Era uma jovem
graciosa com a cabeleira ruiva flamejante, os enormes olhos
verdes, as pernas encantadoras e uma cintura que podia apertar-
se com as duas mãos. Tratava-se de uma beleza de cortar a
respiração.
- Isto é um tédio, avó! - retorquiu, girando sobre um dos
pés, e Eugenia riu-se.
- Não estás propriamente a elogiar-me, querida. Durante
muito tempo, houve muitas pessoas que me acharam aborrecida,
mas nunca ninguém o disse de uma forma tão directa.
- Desculpe. - Zoya riu. - Não me referia a si. Referia-me
a estar presa aqui. E nem mesmo o estúpido do Nicolai veio
fazer uma visita hoje.
Contudo, nessa mesma tarde, vieram a saber porquê. O
general Khabalov tinha pendurado cartazes enormes por toda a
cidade, avisando que as assembléias e encontros públicos
passavam a ser proibidos e os grevistas tinham de voltar aos

seus empregos no dia seguinte. Qualquer oposição implicaria o
imediato recrutamento e envio para a frente, mas ninguém
prestara atenção aos cartazes.
Grandes quantidades de manifestantes atravessaram as
pontes do Neva vindos de Vyborg até à cidade e, às quatro e
meia dessa tarde, surgiram os soldados e começaram a disparar
na Avenida Nevski em frente do Palácio Anitchkov. Cinquenta
pessoas. foram abatidas e, horas depois, morreram mais duzentas
e gerou-se uma súbita revolta entre os soldados. Uma companhia
da Guarda Pavlovski recusou disparar e matou em vez disso o
oficial no comando. Verificou-se o pandemónio e houve que
chamar a Guarda Preobrajenski para os desarmar.
Konstantin foi informado nessa noite e desapareceu durante
horas, tentando inteirar-se do que estava a passar-se noutros
locais e desejando certificar-se de que Nicolai tinha razão.
Sentiu-se repentinamente envolto numa onda de pânico por saber
que o filho corria perigo.
Todavia, só conseguiu descobrir que os elementos da Guarda
PavIovski tinham sido desarmados com muito poucas baixas. "Muito
poucas" pareceu-lhe de repente demasiadas e voltou a casa à
espera de notícias. No regresso, avistou luzes nos Padziwill e
questionou-se sobre a loucura de uma cidade que continuava a
dançar, enquanto pessoas eram assassinadas. Interrogou-se
também sobre se Nicolai tivera razão ao mostrar-se tão
preocupado quanto ao futuro.
Konstantin estava agora ansioso por falar com Paléologue e
resolveu fazer-lhe uma visita na manhã seguinte. Foi só, porém,
quando virou para Fontanka e avistou os cavalos no exterior da
sua própria casa que sentiu um peso no coração e o desejo de
fugir. Um terror repentino apoderou-se de todo o seu corpo e
incitou os cavalos.
Havia, pelo menos, uma dúzia de elementos da Guarda
Preobrajenski cá fora, gritos e correrias, e transportavam algo
ao mesmo tempo que ouviu um grito escapar-lhe dos próprios
lábios e abandonou Feodor e a tróica quase antes de pararem.
"Oh, meu Deus... oh meu Deus ...", exclamava intimamente e
depois viu-o. Transportado por dois homens, o sangue espalhava-
se pela neve. Era Nicolai.
- Oh, meu Deus... - As lágrimas corriam pelas faces de
Konstantin, quando se precipitou para diante e perguntou: -
Está vivo?
Um dos homens mirou Konstantin e esboçou um aceno de
cabeça.
- Ainda - sussurrou. O jovem fora alvejado sete vezes por
um dos elementos da Guarda Pavlovski, por um dos dele... um dos
homens do czar... mas mostrara-se destemido e abatera o outro
homem.
- Tragam-no para dentro... depressa... - gritou a Feodor,
que apareceu ao seu lado. - Vai buscar já o médico da minha
mulher - rugiu, enquanto os jovens guardas o observavam,
impotentes. Sabiam que não havia nada a fazer e fora por esse
motivo que o haviam trazido para casa.
Nicolai fitou o pai com olhos vítreos, mas reconheceu-o e
sorriu. Parecia novamente uma criança quando Konstantin o
agarrou nos braços robustos e o levou para dentro de casa.
Pousou-o no sofá forrado do átrio de entrada, e os criados
acorreram, pressurosos.

- Tragam ligaduras... lençóis... depressa. Arranjem água
quente. - Não tinha ideia do que faria com tudo aquilo, mas
tinha de se fazer algo. Algo... o que quer que fosse... tinham
de o salvar. Era o seu filho, haviam-no trazido para morrer em
casa e não permitiria que isso acontecesse. Tinha de agir antes
que fosse tarde de mais e sentiu repentinamente uma mão firme a
afastá-lo e viu a sua própria mãe tomando a cabeça do rapaz e
inclinando-se para lhe beijar a testa.
- Tudo bem, Nicolai. A avó está aqui contigo... e a tua
mãe e o teu pai...
As três mulheres tinham começado a jantar sem esperarem
por Konstantin, e Eugenia pressentira logo o que acontecera ao
ouvir os homens entrarem. O resto dos guardas conservavam-se
pouco à vontade no átrio e soou um grito horrível quando
Natalya avistou o filho e desmaiou na ombreira da porta.
- Zoya! - chamou Eugenia e a jovem correu para o seu lado,
enquanto Konstantin se mantinha a ver o sangue do filho correr
pelo chão de mármore e ensopar lentamente o tapete. Viu como
Zoya tremia ao corresponder ao apelo da avó, ajoelhando junto
ao irmão. Tinha o rosto da cor da cal e agarrou-lhe suavemente
na mão.
- Nicolai... - sussurrou. - Amo-te... Sou eu, a Zoya...
- O que estás a fazer aqui? - A voz dele mal se ouvia e
Eugenia apercebeu-se, ao olhá-lo, que ele já não as via.
- Zoya - ordenou num tom de general que comanda os seus
homens -, rasga o meu saiote... depressa... - De começo com
suavidade, a jovem puxou as saias da avó, mas, ante a voz de
comando, redobrou a força e, quando a avó se liberrou da roupa,
Zoya rasgou-a em tiras e ficou a observá-la a ligar as feridas
do irmão. A avó tentava deter a hemorragia, mas era tarde de
mais e Konstantin chorava e ajoelhou-se para o beijar.
- Papá?... Estás aí, papá? - Parecia novamente tão jovem.
- Papá... amo-te... Zoya... sê boa rapariguinha...
Sorriu-lhes e morreu nos braços do pai. Konstantin beijou-
lhe os olhos e fechou-os com suavidade. Chorava
desabaladamente, abraçando o filho que tanto amara, com o
colete ensopado pelo seu sangue. Zoya mantinha-se lavada em
lágrimas ao seu lado, e as mãos de Eugenia tremiam, sem,
contudo, o desprender. Depois, virou-se devagar e fez sinal aos
homens para que os deixassem a sós com o seu desgosto.
Nesse momento chegou o médico e tentava reanimar Natalya,
que continuava inerte na ombreira da porta. Levaram-na até aos
seus aposentos no andar superior e Feodor manteve-se ali, com
as lágrimas correndo livremente, enquanto um grito de lamento
percorreu o átrio. Todos os criados haviam acorrido... tarde de
mais para o socorrer.
- Anda, Konstantin. Tens de deixar que o levem para cima -
Eugenia afastou meigamente o filho e conduziu-o até à
biblioteca, onde o sentou numa cadeira e lhe serviu um brande.
Nada podia dizer para minorar a dor e nem sequer tentou. Fez
sinal a Zoya para que se mantivesse por perto e, ao dar-se
conta da palidez da neta, forçou-a a beber um gole do brande do
seu próprio copo.
- Não, avó... não... por favor... - Engasgou-se com os
vapores, mas a avó forçou-a a beber e depois virou-se novamente
para Konstantin.
- Ele era tão jovem... Meu Deus... meu Deus... mataram-
no... - Abraçou-o, enquanto ele se balouçava na cadeira para

trás e para a frente, chorando o seu filho único.
Zoya lançou-se subitamente nos seus braços, agarrando-o
como se ele fosse o seu único apoio no mundo e só conseguia
pensar naquela tarde em que chamara "idiota" a Nicolai... e
agora ele estava morto... o seu irmão estava morto... Fitou o
pai, horrorizada.
- O que está a acontecer, papá?
- Não sei, pequenina... Mataram o meu filho... - Agarrou-a
com força, enquanto ela chorava nos seus braços, e um pouco
depois levantou-se e deixou-a aos cuidados da avó. - Leve-a
para casa consigo, mamã. Tenho de ir ver como está a Natalya.
- Está bem - respondeu Eugenia, muito mais preocupada com
o filho do que com a idiota da mulher. Receava que a perda de
Nicolai o destruísse. Estendeu a mão, tocou-lhe novamente e ele
fitou-a bem nos olhos, uns olhos de grande sabedoria e que
exibiam um incomensurável desgosto.
- Oh, mamã! - exclamou e abraçou-a longamente, ao mesmo
tempo que Eugenia estendia a mão e incluía Zoya naquele abraço.
Depois, Konstantin soltou-se devagar e subiu as escadas
que levavam aos aposentos da mulher. Zoya deixou-se ficar no
átrio, seguindo-o com o olhar. O sangue de Nicolai tinha sido
lavado do chão de mármore, o tapete fora retirado e ele jazia,
silencioso e frio, na sala onde vivera desde a juventude.
Nascera e morrera ali no breve espaço de vinte e três anos
e com ele desaparecia um mundo que todos conheciam e amavam.
Era como se nenhum deles pudesse voltar a encontrar a
tranquilidade. Eugenia sabia-o quando levou para o seu pavilhão
Zoya, que tremia violentamente sob a capa, com os olhos cheios
de choque e horror.
- Tens de ser forte, miúda - retorquiu a avó no momento em
que Sava avançou a correr ao encontro delas e Zoya recomeçou a
chorar. - O teu pai vai precisar ainda mais de ti. E talvez...
talvez nada volte a ser como dantes... para todos nós. Mas seja
como for... - A voz tremeu-lhe ao pensar no neto moribundo nos
seus braços, mas, embora a mão esguia lhe tremesse
violentamente, abraçou Zoya e beijou-lhe a face macia - Lembra-
te, miúda, quanto ele te amava...

CAATULO 4

O dia seguinte foi um pesadelo. Nicolai estava deitado,
lavado e limpo, no seu quarto da adolescência, vestido de uniforme
e rodeado de velas. O Regimento Volinski amotinara-se, bem como
o Semonovski, o Ismailovski, o Litovski, o Orarienbaum e, por fim,
o mais orgulhoso de todos, o regimento do próprio Nicolai, a
Guarda Preobrajenski. Todos eles se insurgiram. Viam-se por todo
o lado bandeiras vermelhas erguidas bem alto e soldados com
uniforines rasgados e bem longe dos homens que haviam sido
outrora...
Também Sampetersburgo não era a mesma cidade. Nada voltaria
a ser o mesmo, a partir do momento em que os revolucionários
tinham incendiado os tribunais ao princípio da manhã. O arsenal
no Liteiny não tardou a pegar fogo, e depois o Ministério do
Interior, o edifício do governo militar, o quartel-general de
Okhrana, a polícia secreta e vários postos de polícias foram
destruídos. Todos os presos tinham sido libertos da prisão e, ao

meio-dia, a Fortaleza de Pedro e Paulo estava também nas mãos dos
rebeldes.
Era óbvio que se impunha algo de desesperado, e o czar tinha
de voltar rapidamente para nomear um governo provisório que
assumisse de novo o controlo. Este parecia, contudo, um esquema
improvável e, quando o grão-duque Miguel falou com ele nessa tarde
no quartel-general de Mogilev, prometeu regressar de imediato.
Não conseguia entender o que acontecera em Sampetersburgo durante
os dias em que se ausentara e insistiu em voltar e ver tudo com
os próprios olhos antes de nomear ministros que lidassem com a
crise. Só compreendeu o que se passava quando o presidente da Duma
lhe mandou uma mensagem nessa noite, informando-o de que as vidas
da sua família corriam perigo. A própria imperatriz não
compreendia. Mas nessa altura era demasiado tarde. Muito, muito
tarde para todos.
Lili Dehn só nessa tarde tinha ido visitar Alexandra a
Tsarskoie Selo e encontrou-a totalmente ocupada a cuidar das
crianças doentes. Lili falou das desordens nas ruas e ela
continuava sem entender que se tratava realmente de uma revolução
e não de um mero motim.
Na manhã seguinte e no meio de uma tempestade de neve, o
general Khabalov enviou uma mensagem à czarina. Insistia em que
ela viajasse imediatamente com as crianças. mantinha um cerco ao
Palácio de Inverno em Sampetersburgo com quinze mil homens fiéis,
mas ao meio-dia todos o andonaram. E, mesmo assim, a imperatriz
não compreendeu. Recusou sair de Tsarskoie Selo antes que Nicolau
voltasse. Sentia-se a salvo com os seus marinheiros mais leais,
a Garde Equipage por perto, além de que as crianças estavam
demasiado doentes para viajar. Nessa altura, Marie também
desenvolvera uma pneumonia.
Nesse mesmo dia, as mansões em redor da cidade foram
saqueados e incendiadas, e Konstantin mandou todo o pessoal
enterrar prata, ouro e ícones no jardim. Zoya foi fechada no
pavilhão da avó com todas as criadas e puseram-se a coser
freneticamente jóias nos forros da roupa de Inverno mais pesada.
Natalya percorria a casa aos gritos. Entrava e saía do quarto
de Nicolai, onde o corpo do filho permanecia. As tentativas para
o enterrar eram impossíveis com o eclodir da revolução à volta
deles.
- Avó - sussurrou Zoya, enfiando um pequeno brinco de
diamantes num botão que ia coser num vestido. - Avó... O que vamos
fazer agora? - Enquanto tentava levar a tarefa a cabo embora os
dedos lhe tremessem, tinha os olhos arregalados de medo, ouvindo
os disparos ao longe.
- Não podemos fazer nada até acabarmos isto... Despacha-te,
Zoya... Assim... Cose as pérolas no meu casaco azul. - A idosa
senhora trabalhava com frenesim, estranhamente calma, e Konstantin
estava no Palácio de Inverno com Khabalov e o resto dos homens
leais. Deixara-as de manhã cedo para ir até lá.
- O que faremos com... - Era-lhe impossível pronunciar o nome
do irmão, mas parecia-lhe horrível deixá-lo ali, enquanto cosiam
pérolas nas bainhas dos vestidos da avó.
- Cuidaremos de tudo a devido tempo. Agora, fica calma,
miúda. Temos de esperar por notícias do teu pai.
Sava conservava-se ganindo aos pés de Zoya, como se soubesse
que a sua própria vida estava em risco. No começo dessa manhã, a
velha condessa tentara trazer Natalya até ao pavilhão para junto
dela, mas ela recusara abandonar a casa. Parecia meio louca e

tentava falar com o filho morto, garantindo-lhe que tudo estava
em ordem e o pai em breve regressaria a casa.
Eugenia deixara-a na casa e levara a criadagem para casa dela
a fim de fazerem o máximo, antes que os amotinados irrompessem e
levassem tudo. Eugenia já tinha ouvido dizer que a mansão de
Kschessinska fora saqueada e ia tentar salvar o que pudesse antes
que chegassem ali. Cosia e interroQava-se sobre se conseguiriam
chegar a Tsarskoie Selo.
Em Tsarskoie Selo, a imperatriz não tinha mãos a medir. As
crianças continuavam febris, Maríe era o caso mais grave e Anna
também estava doente. Os soldados rebeldes apareceram na aldeia
ao fim dessa tarde; porém, receosos da guarda do palácio,
contentaram-se em saquear a aldeia e disparar contra tudo e todos
que lhes surgiam pela frente.
As crianças ouviam os tiros dos seus quartos, e Alexandra
reafirmava que eram apenas soldados em manobras. Contudo, nessa
noite, mandou recado a Nicolau, implorando-lhe que regressasse a
casa. Continuando sem entender quanto todos estavam desesperados,
ele optou por voltar pelo caminho mais longo, sem querer
interferir com as estradas usadas pelos comboios de tropas.
Aos seus olhos, era inconcebível que já não tivesse um
exército leal. Tanto a Garde Equipage como a guarda imperial, na
sua maioria constituída por amigos pessoais, cuja missão sempre
havia sido proteger o czar, a czarina e os seus filhos, tinham
abandonado os postos. Os próprios soldados da guarnição de
Tsarskoie Selo haviam optado pela deserção e traição. E
Sampetersburgo caíra. Era quarta-feira, 14 de Março, e um mundo
inteiro mudara de uma noite para outra. Tomava-se quase impossível
conceber as implicações a nível geral.
Os ministros e generais incitavam Nicolau a que abdicasse a
favor do filho, mantendo o grão-duque Miguei como regente.
Contudo, os frenéticos telegramas que eram mandados a Nicolau no
seu regresso da frente, explicando-lhe a situação, não obtinham
resposta.
E no meio do seu silêncio, Zoya e a avó tambéni não recebiam
notícias. Há dois dias que Konstantin não aparecia eni casa e era
impossível saber dele. Só quando, por fim. eodor se atreveu a
percorrer as ruas, é que lhes trouxe as terríveis notícias que
Eugenia temia há dias. Konstantin estava morto. Morrera no Palácio
de Inverno juntamente com as últimas tropas leais, assassinado
pelos seus próprios homens. Nem sequer havia um cadáver para
trazer. Fora levado como muitos outros.
Feodor regressou com as lágrimas a correrem-lhe pelo rosto
e soluçava sem parar, contando a Eugenia o que acontecera a
Konstantin. Zoya fitava-o, horrorizada, ouvindo o relato, e a avó
girou sobre os calcanhares e ordenou às criadas que cosessem mais
depressa.
Nessa altura, todas as suas jóias e as de Natalya tinham sido
escondidas e o resto teria de ficar para trás, pois tomara uma
rápida decisão. Enterrariam Nicolai no jardim. Eugenia, Feodor e
três dos homens mais novos, regressaram à casa e entraram
silenciosamente no quarto. Há três dias que ele estava morto e não
podiam esperar mais. Eugenia mantinha-se com uma expressão solene
e de olhos secos, fitando-o e pensando no seu próprio filho. Era
demasiado tarde para lágrimas; queria chorar por todos eles, mas
agora tinha de pensar em Zoya e também em Natalya, em prol de
Konstantin.
Quando se preparavam para transportar o corpo, Natalya

apareceu como um fantasma, deslizando pelos corredores, vestida
com um comprido roupão branco, despenteada e olhando-os com uma
expressão desvairada.
- Onde vão com o meu menino?- Fitou a sogra com um olhar
imperioso e todos perceberam que enlouquecera. Nem sequer parecia
reconhecer Zoya. - O que estão a fazer, idiotas? - Estendeu a mão
semelhante a uma garra para impedir os homens de o levarem, mas
a velha condessa agarrou-a.
- Tens de vir connosco, Natalya.
- Mas para onde levam o meu menino?
Eugenia não lhe respondeu, pois apenas a confundiria ainda
mais ou provocaria um ataque de histeria. Sempre tivera um
espírito fraco e, sem Konstantin para a defender da verdade,
deixara de conseguir aguentar a situação. Estava completamente
louca e Zoya percebeu, ao olhá-la.
- Veste-te, Natalya. Vamos embora.
- Para onde?
Zoya ficou pregada ao chão, ao ouvir a resposta.
- Para Tsarskoie Selo.
- Mas não podemos. É Verão, e estão todos em Livadia.
- Também iremos até lá. Contudo, primeiro temos de passar por
Tsarskoie Selo. Agora, vamos vestir-nos, não vamos? - Agarrou-lhe
num dos braços com firmeza e fez sinal a Zoya para que lhe
agarrasse no outro.
- Quem és tu? - Soltou o braço da jovenzinha assustada e só
os olhos severos da avó impediram Zoya de fugir, aterrorizada, da
mulher que fora sua mãe. - Quem são vocês? - repetia sem cessar
para ambas, e a idosa mulher respondia-lhe com calma.
No espaço de quatro dias perdera o filho e o neto em prol de
uma revolução que nenhum deles compreendia inteiramente. Contudo,
agora não havia tempo para questionar. Sabia que tinham de
abandonar Sampetersburgo, antes que fosse tarde de mais. E sabia
que, pelo menos em Tsarskoie Selo, estariam a salvo. Todavia,
Natalya recusava-se a colaborar. Insistia em querer ficar, em que
o marido chegaria a qualquer momento e dariam uma festa.
- O teu marido espera-te em Tsarskoie Selo - mentiu Eugenia
e um arrepio percorreu o corpo de Zoya, ante tudo o que acontecia
à volta dela. Com uma força que nunca julgara possível na avó, ela
envolveu Natalya numa capa e forçou-a a descer as escadas e a sair
pelas traseiras até ao jardim, quando ouviram um som retumbante.
Os saqueadores tinham chegado e abriam caminho à força até ao
Palácio Fontanka. - Depressa - sussurrou Eugenia à jovem, que
ainda no dia anterior era uma criança. - Procura o Feodor. Diz-lhe
que apronte os cavalos... a velha tróica do teu pai!
Em seguida, a idosa senhora avançou rapidamente até ao
pavilhão, ofegante e agarrando no braço de Natalya. Gritava às
criadas, ordenando-lhes que reunissem todas as roupas onde estavam
cosidas as jóias e as metessem em sacos. Não tinham tempo para
fazer malas. Tudo o que podiam levar... teria de ir na tróica.
Enquanto dava ordens, vigiava o palácio do outro lado do jardim.
Sabia que era apenas uma questão de tempo até abandonarem o
palácio e chegarem ao pavilhão. Contudo, apercebeu-se subitamente
de que Natalya já não estava ao seu lado e, ao dar meia volta,
avistou uma figura de branco atravessando o jardim. POs-se a
correr atrás da nora, mas era tarde de mais. Natalya regressara
ao palácio. Quase em simultâneo, Eugenia avistou chamas saindo
pelas janelas do andar superior e ouviu a respiração arquejante
de Zoya nas suas costas.

- Avó! - E, então, ambas viram a figura de branco a correr
de janela em janela. Natalya movia-se por entre as chamas gritando
e rindo e falando como que para os amigos. Era uma visão horrível
e Zoya dispunha-se a correr para a porta, mas a avo agarrou-a.
- Não! Não podes ajudá-la, agora! Há homens lá com ela.
Matar-te-ão, Zoya!
- Não posso deixar que a matem... Não posso!... Avó! Por
favor! - Soluçava e debatia-se com uma força que a avó mal
conseguia controlar, mas nesse preciso momento apareceu Feodor.
- A tróica está pronta... por detrás das sebes... - Optara
inteligentemente por fazer deslizar a tróica até uma rua lateral,
de forma a que os saqueadores não os vissem do palácio.
- Avó! - Zoya continuava a lutar e, de súbito, a avó
esbofeteou-a.
- Pára! Ela já está morta!... Temos de partir agora! - Não
havia tempo a perder. Já avistara vários rostos perscrutando o
jardim das janelas mais baixas do palácio.
- Não posso deixá-la ali! - Implorava à avó que a largasse,
mas a idosa mulher não cedeu.
- Tens de fazê-lo! - Depois, a voz suavizou-se-lhe e apertou-
a fortemente por instantes. Nesse momento, ouviu-se um som
terrível, semelhante a uma explosão. Todo o andar superior estava
agora em chamas e, quando se viraram, viram Natalya saltar, com
o roupão branco em chamas, da janela de cima. Seria impossível
sobreviver entre as chamas e a queda. A vida de Natalya chegara
obviamente ao fim e era uma bênção para ela. Jamais recuperaria
da dupla perda do marido e do filho e todo o mundo se desfizera
em pedaços à sua volta.
- Venham depressa! - pressionou Feodor e, com um rápido
movimento, a velha condessa ergueu Sava do chão, colocou-a nos
braços de Zoya e empurrou-a pela porta até à tróica que as
aguardava.

CAPITULO 5

Quando a tróica se pôs em movimento, Zoya virou-se e avistou
as chamas erguendo-se acima das árvores, devorando o que outrora
fora a sua casa e era agora somente o invólucro da sua antiga
vida. Todavia, momentos depois, Feodor guiou-as com perícia
através das ruelas; as duas mulheres conservavam-se abraçados, com
os sacos aos pés, cheios das roupas que tinham levado, as jóias
ocultas nos forros e a pequena Sava tremendo de frio no colo de
Zoya.
Havia soldados nas ruas, mas nenhum tentou detê-los enquanto
prosseguiam na direcção dos arredores da cidade. Era quinta-feira,
15 de Março, e muito longe, em Pskov, o czar Nicolau lia os
telegramas enviados pelos seus generais, dizendo-lhe que devia
abdicar. O rosto denotava uma palidez de morte ao aperceber-se da
traição que o rodeava, mas não estava mais pálido do que Zoya, que
observava Sampetersburgo perder-se à distância.
Passaram mais de duas horas antes de se verem nas estradas
que levavam a Tsarskoie Selo e muito mais tempo antes de lá
chegarem. Não tiveram notícias ao longo do percurso, nem um melhor
entendimento do que acontecera. Zoya apenas conseguia pensar na
imagem da mãe, com a roupa em chamas quando saltara para a morte
das janelas do andar superior... e do irmão, como devia estar no

momento em que as chamas o envolveram, morto no quarto onde tantas
vezes o visitara em criança... Nicolai... "Idiota", chamara-lhe.
Interrogou-se sobre se alguma vez se perdoaria... Ainda no dia
anterior... quando tudo estava bem e a vida era normal.
Tinha a cabeça enrolada num velho xaile, os ouvidos doíam-lhe
do frio, fazendo-a pensar em Olga e Tatiana e nas dores de ouvidos
provocadas pelo sarampo. Esses simples acidentes haviam sido a sua
vida há poucos dias atrás... Coisas insignificantes e estúpidas
como febres, dores de ouvidos e sarampo.
Mal conseguia raciocinar, enquanto a avó lhe agarrava
firmemente a mão e ambas se interrogavam em silêncio sobre o que
encontrariam em Tsarskoie Selo. A aldeia recortou-se diante dos
seus olhos, à tarde, e Feodor deu algumas voltas em redor.
Soldados disperses mandaram-nos parar duas vezes e por um
momento Feodor pensou em dar mais velocidade à tróica. Contudo,
sabia intuitivamente que todos podiam ser abatidos se o fizesse;
portanto, abrandou e disse que transportava uma velha doente e a
sua neta idiota.
As duas mulheres fitaram os homens com um olhar vago, como
se nada tivessem a esconder, e a idosa condessa sentiu-se grata
por Feodor haver pensado em levar o trenó mais velho com a pintura
estragado, mas cavalos em bom estado. Já não o usavam há anos e,
embora tivesse sido bonito, deixara de o ser. Apenas os cavalos
de extrema beleza sugeriam indícios de riqueza, e o segundo grupo
de soldados aliviaram-nos de dois dos melhores cavalos pretos de
Konstantin. Chegaram aos portões de Tsarskoie Selo com um único
cavalo que se empinava, nervoso, puxando a velha tróica. A Guarda
Cossaca não se via em parte alguma, não havia guardas, apenas uns
soldados com ar de poucos amigos.
- Identifiquem-se - gritou-lhes rudemente um homem, e Zoya
ficou aterrorizada; porém, quando Fecodor iniciou o costumado
relato, Eugenia pôs-se de pé na parte de trás da tróica. Estava
vestida com simplicidade, como Zoya, apenas com um velho xaile a
tapar-lhe o cabelo, mas emanava um ar imperial quando o fitou do
alto e puxou Zoya para trás de si.
- Eugenia Peterovna Ossupov. Sou uma velha mulher e prima do
czar. Querem alvejar-me?
Tinham-lhe morto o neto e o filho e, se quisessem matá-la
agora, seriam bem-vindos. Estava, contudo, preparada para os matar
antes, se pusessem um dedo em Zoya. A jovem não sabia, mas a avó
tinha um pequeno revólver de cano de madrepérola escondido na
manga e estava disposta e preparada para o usar.
- Não há czar - retorquiu irado o homem, com uma faixa
vermelha no braço, parecendo, de súbito, mais ameaçadora do que
dantes. O coração da velha condessa batia acelerado, e Zoya estava
aterrorizada. "O que pretendia dizer? Tinham-no morto?... Eram
quatro da tarde... quatro da tarde e todo o mundo ruíra... mas
Nicolau... também o teriam morto?... Como a Konstantin e Nicolai?"
- Preciso de ver a minha prima Alexandra. - Eugenia
expressava-se num tom imperial da cabeça aos pés, sem desviar os
olhos do soldado. - E os filhos. - "Ou também os teriam morto?" O
coração de Zoya batia desenfreadamente e sentava-se, gelada, por
detrás das saias da avó, assustadíssima, enquanto Fecdor se
conservava de pé, tenso e observando em silêncio. Seguiu-se uma
enorme pausa correspondente à avaliação do soldado, que recuou
subitamente, falando aos compatriotas por cima do ombro.
- Deixem-nas passar. Mas lembra-te, velha - acrescentou,

virando-se para ela com uma expressão dura -, que já não existe
czar. Abdicou há uma hora, em Pskov. Esta é uma nova Rússia.
Com estas palavras, afastou-se para lhes dar passagem e,
esperando cortar-lhe os dedos dos pés, Feodor fustigou o cavalo
da tróica. Uma nova Rússia... um final a uma antiga vida... o
velho e o novo fundindo-se numa horrível confusão, enquanto
Eugenia se sentava, muito pálida, ao lado da neta. Zoya sussurrou-
lhe ao passarem junto à Igreja Fecdorovski, incapaz de acreditar
no que tinha ouvido. O tio Nicolau não o faria...
- Acha que é verdade, avó?
- Talvez. A Alix vai contar-nos o que aconteceu.
Contudo, reinava um estranho silêncio nas portas da frente
do Palácio Alexandre. Não havia guardas, nenhuma protecção, não
se via ninguém e, quando Feodor bateu com força à enorme porta do
palácio, apareceram duas criadas nervosas e deixaram-nos entrar.
O átrio parecia terrivelmente vazio.
- Onde está toda a gente? - perguntou a velha condessa, e uma
das criadas apontou para a ombreira da porta que Zoya conhecia tão
bem e levava aos aposentos privados do andar superior. A mulher
limpou com a ponta do avental as lágrimas que lhe corriam pela
face e, por fim, respondeu:
- A imperatriz está lá em cima com as crianças.
- E o czar? - Os olhos verdes de Eugenia fixaram-se com
intensidade na mulher que chorava desesperada.
- Não ouviram?

"Oh, meu Deus, não...", rezou Zoya.
- Consta que abdicou a favor do irmão. Foi o que os soldados
nos disseram há uma hora. Sua Alteza não acredita.
- Mas então está vivo? - replicou Eugenia, sentindo uma onda
de alívio a percorrer-lhe o corpo.
- Pensamos que sim.
- Graças a Deus. - Enrolou as saias à sua volta e deitou um
olhar severo a Zoya. - Diz ao Feodor que traga tudo para dentro. -
Não queria que os soldados tocassem nas roupas, que tinham as
jóias cosidas nos forros.
Quando Zoya regressou, momentos depois, acompanhada por
Fecodor, a avó ordenou à criada que as conduzisse lá acima, até
junto da czarina.
- Sei o caminho, avó. Eu levo-a. - E atravessou sem ruído os
corredores que tão bem conhecia, os corredores que ainda há dias
percorrera com a amiga.
O Palácio Alexandre apresentava-se misteriosamente calmo
quando conduziu a avó ao andar superior e bateu ao de leve à porta
de Marie; porém, não obteve resposta. Tinhan-na mudado para uma
das salas de estar da mãe, a fim de ser tratada com Anna Virubova
e as irmãs.
Foram avançando pelo corredor, batendo às portas, até que,
por fim, ouviram vozes. Zoya esperou até as mandarem entrar e a
porta abriu-se devagar, revelando Alexandra de pé, alta e magra,
estendendo uma chávena de chá a uma das filhas mais novas.
Anastasia tinha lágrimas nos olhos quando se virou para a porta
e Marie sentou-se na cama e pôs-se a chorar ao ver Zoya.
Zoya estava demasiado comovida para falar; atravessou a sala
a correr e lançou-se nos braços da ainiga, ao mesmo tempo que
Eugenia beijava a prima, morta de cansaço.
- Meu Deus, prima Eugenia! Como chegaram aqui? Estás bem?
Até mesmo a idosa condessa sentiu dificuldade em falar quando
beijou a alta e elegante mulher, que tinha um ar tão

desesperadamente cansado. Os olhos cinzento-claros pareciam
transbordar de uma vida de tristeza.
- Viemos ajudar-te, Alix. E não podíamos ficar mais tempo em
Sampetersburgo. Incendiaram a casa esta manhã, quando nos viemos
embora. Partimos muito à pressa.
- Não consigo acreditar... - Alexandra deixou-se afundar numa
cadeira. - E o Konstantin?
O rosto da idosa mulher empalideceu e o coração bateu
acelerado sob o pesado vestido. Sentiu repentinamente o peso de
tudo o que perdera e receou desmaiar aos pés da mulher mais jovem,
mas não se podia permiti-lo ante tudo o que Alix tinha de
suportar.
- Morreu, Alix... - A voz falhou-lhe, mas não chorou. - E o
Nicolai também... no dorningo... A Natalya morreu quando a casa
pegou fogo esta manhã. - Não lhe disse que a nora enlouquecera
antes de saltar da janela, envolta em chamas. - É verdade o que
dizem... sobre o Nicolau? - Receava perguntar, mas era necessário.
Tinham de saber. Era tão difícil perguntar o que acontecera.
- Quanto à abdicação? É impossível. Falam disso para nos
assustar... mas hoje ainda não tive notícias dele. - Fitou as duas
filhas que abraçavam Zoya, e as três jovens choravam. Zoya,
acabara de lhes contar o sucedido com Nicolai e soluçava nos
braços de Marie. Mesmo doente como estava, Marie consolava a amiga
e nenhuma delas parecia reparar nas duas mulheres mais velhas. -
Todos os nossos soldados nos abandonaram... até mesmo... - A
imperatriz quase parecia incapaz de pronunciar as palavras. - Até
mesmo o Derevenko abandonou o Baby. - Era um dos dois soldados que
estivera com o filho desde que ele nascera. Deixara-os ao romper
dessa manhã sem uma palavra, ou um olhar por cima do ombro. O
outro, Nagorny, tinha jurado ficar ao lado de Alexis até que o
matassem e estava agora junto dele no quarto ao lado, com o Dr.
Fedorov. O Dr. Botkin saíra para tentar encontrar mais
medicamentos para as raparigas com Gibbes, um dos seus dois
tutores. - É impossível compreender... os nossos marinheiros...
Não consigo acreditar. Se, ao menos, o Nicolau estivesse aqui...
- Ele virá, Alix. Temos de manter a calma. Como estão as
crianças?
- Estão todas doentes... De início, não consegui dizer-lhes.
Mas agora sabem... Era impossível ocultar-lhes a verdade por mais
tempo. - Suspirou e em seguida acrescentou: - O conde Benckendorff
está aqui, jurou proteger-nos, e a baronesa Buxhoeveden chegou
ontem, de manhã. Ficam, Eugenia Peterovna?
- Se possível. Não temos hipótese de voltar a Sampetersburgo,
agora... - Omitiu "se é que teremos". O mundo decerto voltaria a
reerguer-se. Quando Nicolau voltasse... As notícias da sua
abdicação eram sem dúvida uma mentira espalhada por
revolucionários e traidores para os assustar e controlar.
- Podes ficar no quarto da Mashka, se quiseres. E a Zoya...
- Dormiremos juntas. O que posso fazer para te ajudar, Alix?
Onde estão as outras? - A imperatriz esboçou um sorriso agradecido
quando a idosa prima do marido despiu a capa e enrolou com cuidado
as mangas do vestido simples que pusera.
- Vai descansar. A Zoya fará companhia às raparigas, enquanto
me ocupo dos outros.
- Irei contigo. - E a velha senhora acompanhou-a firmemente
durante todo o dia, servindo chá, refrescando testas febris e
ajudando mesmo Alix a mudar os lençóis de Alexis, sem que Nagorny
saísse lealmente do lado dele. Tal como Alix, também Eugenia tinha

dificuldade em acreditar que Derevenko realmente o abandonara.
Era quase meia-noite quando Zoya e a avó se enfiaram na cama,
no quarto de Marie e Anastasia, e Zoya manteve-se acordada durante
horas, ouvindo a avó que ressonava um pouco. Parecia-lhe
impossível que ainda há menos de três semanas tivesse visitado
Marie naquele mesmo quarto e Marie lhe oferecesse um frasco do seu
perfume favorito, agora desaparecido, quando tudo se despedaçara
à volta delas.
Apercebera-se também de que nenhuma das raparigas tinha
perfeita consciência do que acontecera. Nem ela própria estava
muito segura de o compreender, mesmo depois de tudo o que vira em
Sampetersburgo. Contudo, haviam estado tão doentes e encontravam-
se tão afastadas da desordem das ruas, das revoltas, dos
assassínios, dos saques. A visão da sua casa em chamas ameaçava
ficar... bem como a visão do irmão a esvair-se em sangue no chão
de mánnore do Palácio Fontanka, há quatro dias. Era de manhã
quando Zoya adormeceu. Uma nova tempestade de neve rugia lá fora
e interrogou-se sobre quando o czar regressaria a casa e se a vida
alguma vez voltaria à normalidade.
Contudo, às cinco dessa tarde, a hipótese parecia inviável.
O grão-duque Paul, o tio de Nicolau, apareceu em Tsarskoie Selo
e trouxe notícias a Alexandra. Nicolau abdicara no dia anterior,
transmitindo o poder ao seu irmão, o grão-duque Miguel, que tinha
sido completamente apanhado de surpresa e não estava preparado
para ocupar o trono.
Apenas Alix e o Dr. Fedorov compreendiam de facto por que
razão Nicolau não abdicara a favor do filho, mas do irmão. A
gravidade da doença de Alexis era um segredo bem guardado. Estava
a formar-se um governo provisório e Alexandra ouviu as notícias
em silêncio e desejou de todo o coração poder falar com o marido.
Nicolau chegou ao quartel-general em Mogilev na manhã
seguinte para se despedir das suas tropas e foi daí que conseguiu,
por fim, telefonar à mulher. O telefonema chegou quando Alexandra
estava a ajudar o Dr. Botkin a cuidar de Anastasia e voou do
quarto para lhe falar, rezando para que ele lhe dissesse que nada
daquilo era verdade, mas o som da voz dele deitou-lhe todas as
esperanças por terra.
A vida deles, todos os sonhos e a dinastia estavam
destruídos. Prometeu voltar assim que possível e, como sempre,
inteirou-se com afecto sobre os filhos. E na noite seguinte,
domingo, o general Kornilov deslocou-se de Sampetersburgo para saber se eram necessários medicamentos ou comida, e o primeiro
pensamento dela foi para os soldados. Implorou-lhe que ajudasse
a providenciar remédios e comida para os hospitais. Depois de os
tratar durante tanto tempo, não conseguia esquecê-los, mesmo
quando já não eram os "seus" soldados. O general garantiu-lhe que
o faria e algo na visita lhe sugeriu que o pior estava para vir.
Nessa noite, avisou Nagorny que não abandonasse a cabeceira
de Baby e ficou sentada com as filhas até altas horas. Passava da
meia-noite quando, por fim, recolheu ao quarto e a velha condessa
bateu-lhe ao de leve na porta e levou-lhe uma chávena de chá. Ao
detectar as lágrimas nos olhos da mulher mais nova, pôs-lhe
suavemente as mãos nos ombros.
- Há algo que possa fazer por ti, Alix?
Ela abanou a cabeça, ainda orgulhosa, ainda austera, e
agradeceu-lhe com os olhos.
- Só queria que ele voltasse para casa. Subitamente... temo
pelas crianças aqui. - Também Eugenia partilhava esse sentimento,

mas não queria admiti-lo frente à sua jovem prima.
- Estamos todos junto de ti. - Mas "todos" eram tão poucos,
um punhado de mulheres idosas e amigos leais que podiam contar-se
pelos dedos de uma mão. Tinham sido abandonados por todos, e o
golpe tornava-se quase insuportável. Sabia, porém, que não podia
ir abaixo agora. Tinha de manter-se forte pelo marido. - Agora,
precisas de dormir um pouco, Alix.
Alexandra passeou o olhar nervoso pelo famoso quarto em tons
de malva e depois fixou, tristemente, a idosa mulher.
- Há umas coisas que quero fazer... Tenho de... - As palavras
saíam-lhe com dificuldade. - Quero queimar os meus diários esta
noite... e as minhas cartas... Quem sabe se encontrarão qualquer
maneira de usá-los contra ele.
- É claro que não podem... - Mas, ao pensar na hipótese,
Eugenia achou que concordava com Alexandra. - Queres que te faça
companhia? - Não queria intrometer-se, mas a imperatriz parecia
tão desesperada e só.
- Gostaria de ficar só, se não te importas.
- Compreendo - redarguiu e abandonou Alexandra à sua
desafortunada tarefa.
A imperatriz ficou sentada junto à lareira até de manhã, a
ler cartas e diários, e queimando até mesmo as cartas da sua avó,
a rainha Vitória. Queimou tudo à excepção da correspondência com
o seu querido Nicolau e, durante dois dias, O desgosto foi criando
raízes até quarta-feira, quando o general Kornilov regressou e
pediu para lhe falar a sós.
Encontraram-se, lá em baixo, numa das salas frequentemente
usadas por Nicolau. Tentou dissimular orgulhosamente a surpresa
e a dor ao ouvir as palavras. Colocavam-na sob detenção
domiciliária juntamente com a família, a criadagem e as crianças.
Não queria acreditar, mas agora era inevitável. O fim chegara e
todos tinham de enfrentá-lo. O general explicou que todos os que
quisessem poderiam ficar, mas que, se optassem por ir embora,
jamais regressariam a Tsarskoie Selo. Eram notícias horríveis e
fez apelo a todas as suas forças para não desfalecer.
- E o meu marido, general?
- Pensamos que estará aqui de manhã.
- E vão prendê-lo? - Sentiu um mal-estar fisico ao formular
a pergunta, mas agora tinha de saber. Precisava de saber tudo, o
que poderiam esperar e o que enfrentavam. E depois de todos os
relatos que ouvira nos últimos dias, supunha que deveria estar
agradecida por não os terem morto a todos, mas, diante dos
acontecimentos, a gratidão tornava-se dificil.
- O seu marido ficará sob detenção domiciliária, aqui em
Tsarskoie Selo.
- E depois? - inquiriu com uma palidez de morte, mas a
resposta não foi tão terrível quanto receara. Nesse momento apenas
conseguia pensar no marido e nos filhos, na segurança e na vida
deles. De bom grado se teria sacrificado por eles. Faria tudo, e
o general Kornilov observava-a com uma admiração silenciosa.
- O Governo Provisório deseja acompanhá-la, ao seu marido e
à sua família a Murmansk. Poderá partir daqui. Enviá-la-emos de
barco para Inglaterra, para o rei Jorge.

- Percebo. E quando? - Denotava uma expressão gelada.
- Mal possam tomar-se disposições, madame.
- Muito bem. Esperarei a chegada do meu marido para comunicar
às crianças.
- E os outros?

- Direi hoje a todos que se quiserem têm liberdade para ir
embora, mas não podem voltar. Está bem assim, general?
- Certamente.
- E não fará mal a nenhum dos nossos familiares e fiéis
amigos quando partirem, os poucos que restam?
- Dou-lhe a minha palavra de honra, madame. - A palavra de
um traidor em que lhe apetecia cuspir, mas manteve-se calma e
senhoril, vendo-o afastar-se, e foi em seguida comunicar aos
outros. Disse-lhes que eram livres de partir e incitou-os a fazê-
lo, se o desejassem.
- Não podemos esperar que fiquem, se não o desejarem.
Partiremos para Inglaterra dentro de semanas e talvez seja mais
seguro para vocês deixarem-nos agora... - Talvez mesmo antes do
regresso de Nicolau. Não acreditava na totalidade que estivessem
a colocá-los sob prisão domiciliária para os proteger.
Contudo, os outros recusaram partir e, no dia seguinte,
Nicolau regressou finalmente, com um ar extenuado e pálido,
naquela manhã gelada e horrível. Entrou silenciosamente no átrio
e por um longo momento limitou-se a ficar ali de pé. O pessoal
comunicou de imediato a sua presença a Alix que desceu ao seu
encontro e o fitou do outro lado da enorme entrada, os olhos
cheios das palavras impossíveis de pronunciar, o coração pleno de
compaixão pelo homem que amava. Nicolau avançou e tomou-a nos
braços com força. Nada havia que pudessem dizer quando subiram
devagar as escadas até junto dos filhos.

CAPíTULO 6

Os dias seguintes ao regresso de Nicolau revelaram-se plenos
de receio e de uma tensão silenciosa e ao mesmo tempo de alívio
por ele estar em casa a salvo. Perdera tudo, mas, pelo menos, não
o tinham morto. Sentou-se calmamente durante horas com o filho e
Alexandra dedicou atenção às filhas. Era agora Marie quem estava
mais doente, com uma pneumonia causada pelo sarampo. Tinha uma
tosse horrível que lhe sacudia repetidamente todo o corpo e uma
febre que parecia não baixar. Zoya nunca sala do lado dela.
- Mashka... Bebe só um bocadinho... por mim...
- Não posso... Dói-me muito a garganta. - Mal conseguia
falar, e Zoya sentia-lhe a pele quente e seca ao tocar-lhe.
Banhava-lhe a testa com água de rosas e falava-lhe em voz baixa
sobre as partidas de ténis no Verão anterior, em Livadia.
- Lembras-te daquela fotografia idiota que o teu pai tirou
a todas, de cabeça para baixo? Trouxe-a comigo... Queres vê-Ia,
Mashka?
- Mais tarde... Doem-me muito os olhos, Zoya... Sinto-me
pessimamente.
- Chiu... Tenta dorrnir... Mostro-te a fotografia quando
acordares. - Chegou mesmo a trazer a pequena Sava para a alegrar,
mas Marie não se interessava por nada. Zoya só esperava que ela
estivesse suficientemente bem para viajar até Murmansk e seguir
de barco para Inglaterra.
Partiriam dentro de três semanas e Nicolau disse que todos
teriam de estar bem nessa altura. Chamava-lhe a sua última ordem
imperial, o que provocou lágrimas em todos. Esforçava-se imenso
por conseguir que todos se sentissem melhor e por manter as
crianças felizes. Ele e Alix pareciam mais extenuados a cada dia

que passava. Três dias mais tarde, Zoya avistou Nicolau de relance
no corredor, e o rosto denotava uma palidez de cal. Uma hora
depois soube o motivo. O seu primo inglês negara-se a recebê-lo
por razões ainda não esclarecidos. Assim, a família imperial não
partiria para Inglaterra. De início, pedira a Zoya e à velha
condessa que os acompanhassem, mas agora ninguém sabia o que ia
suceder.
- O que vai acontecer, avó? - perguntou-lhe Zoya nessa
noite, com um olhar aterrorizado. E se estivessem apenas a detê-
los ali em Tsarskoie Selo para por fim os matarem?
- Ignoro, miúda. O Nicolau dir-nos-á quando estiver decidido.
Irão provavelmente para Livadia.
- Acha que nos matarão?
- Não sejas pateta. - Contudo, receava o mesmo. Deixara de
haver respostas fáceis. Até os Ingleses lhe tinham retirado o
tapete. Não havia outro lugar para onde irem, um lugar seguro.
Achava que a estrada para Livadia era perigosa. Estavam
encurralados em Tsarskoie Selo. E Nicolau parecia sempre tão calmo
e incitava todos a que não se preocupassem, mas... como?
Na manhã seguinte, quando Zoya saiu do quarto nos bicos dos
pés e olhou através da janela, avistou Nicolau e a avó percorrendo
devagar o jardim coberto de neve. Parecia não haver mais ninguém
por perto e, ao observá-los, ele de ombros direitos e orgulhosos
e a avó tão pequena, uma figura envolta numa capa preta sob a
neve, julgou ver a avó a chorar. Em seguida, ele abraçou-a
ternamente e desapareceram ambos atrás de uma esquina do palácio.
Zoya dirigiu-se ao quarto que partilhavam e, pouco depois,
a avó regressou, deixou-se cair numa cadeira com uma expressão
triste e fitou a bonita neta. Há umas semanas atrás parecia ainda
uma criança e agora, de súbito, ficara tão perspicaz e triste.
Estava mais magra e parecia mais frágil, mas a avó sabia que os
horrores das últimas semanas só a ajudariam a tomar-se mais forte.
Precisaria da força dela. Todos precisariam.
- Zoya... - Ignorava como lhe dizer, mas sabia que Nicolau
estava certo. E tinha de pensar na segurança de Zoya. A jovem
possuía uma longa vida pela frente e a avó de bom grado daria a
sua para a proteger.
- Passa-se alguma coisa, avó? - À luz do que acontecera nas
duas últimas semanas, parecia uma pergunta ridícula, mas sentia
que mais desgraças estavam iminentes.
- Acabei de falar com o Nicolau, Zoya Konstantinovna... Ele
quer que partamos já... enquanto ainda podemos...
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e levantou-se de um
salto.
- Porquê? - replicou. - Dissemos que ficaríamos com eles e
eles vão partir em breve, não é, avó?... ãäo vão? - A idosa
senhora não lhe respondeu. Pesava os pratos da balança da verdade
e da mentira e a verdade ganhou como sempre.
- Não sei. Dada a recusa dos Ingleses em recebê-los, o
Nicolau. teme que as coisas não corram bem para eles. Sente que
ficarão aqui prisioneiros, talvez por muito tempo, ou que os
levarão para qualquer outro lado. Podemos ser eventualmente
separados... e não pode oferecer-nos protecção, não a tem. E é
impossível manter-te a salvo desses selvagens. Ele tem razão...
Precisamos de ir... agora... enquanto ainda podemos. - Fitou
tristemente a jovem que ainda há momentos fora uma criança; porém,
não estava de forma alguma preparada para a dimensão da raiva de
Zoya.

- Não irei consigo! Não ireí! Não os deixarei!
- Tens de ir! Podes acabar na Sibéria, pequena idiota... sem
eles! Temos de partir nos próximos dois dias. O Nicolau receia que
a situação piore. Os revolucionários não o qgerem por aqui e, se
os Ingleses não o aceitam, quem aceitará? É uma situação muito
grave!
- Então, morrerei com eles! Não pode obrigar-me a ir!
- Posso fazer o que quiser e tens de obedecer-me, Zoya! É
também essa a vontade do Nicolau! E não deves desobedecer às suas
ordens! - Sentia-se quase demasiado cansada para enfrentar a
jovem, mas sabia que tinha de apelar às suas últimas forças para
a convencer.
- Não deixarei a Marie aqui, avó. Ela está tão doente... e
é tudo o que me resta... - Zoya pôs-se a soluçar e, qual
rapariguinha, pousou a cabeça nos braços em cima da mesa. Era a
mesma mesa onde ainda há um mês se sentara com Marie, quando ela
lhe entrançara o cabelo e as duas haviam rido e conversado. Para
onde fora esse mundo? O que acontecera a todos eles?... E
Nicolai... a sua mãe e o pai...
- Ainda me tens, pequenina... - A avó acariciou-lhe o cabelo,
como Marie dantes o fizera. - Precisas de ser forte. É o que
esperam de ti. Temos de fazer o que há a ser feito, Zoya.
- Para onde iremos, então?
- Ainda não sei. O Nicolau diz que toma as disposições
necessárias. Talvez possamos ir para a Finlândia. E daí para
França ou Suíça.
- Mas lá não conhecemos ninguém! - exclamou com um ar
aterrorizado e virando para Eugenia o rosto manchado de lágr@nas.
- Às vezes a vida é assim, minha querida. Temos de confiar
em Deus e ir para onde o Nicolau nos manda.
- Avó, não posso... - retorquiu, mas a avó mostrou-se firme.
Era tão forte quanto o aço e duplamente resoluta. E Zoya não
conseguia fazer-lhe frente, pelo menos por enquanto, e as duas
sabiam-no.
- Podes e irás e não deves dizer nada às crianças. Já têm
problemas que cheguem. Não devemos sobrecarregá-las, nem seria
justo.
- O que direi à Mashka?
Os olhos da velha senhora encheram-se de lágrimas ao fitar
a neta que tanto amava e ao responder-lhe num sussurro pleno da
sua própria tristeza pelos que haviam perdido e os que agora
perderiam.
- Diz-lhe apenas quanto gostas dela.

CAPíTULO 7

Zoya entrou nos bicos dos pés no quarto onde Marie dormia e
deteve-se um longo momento a observá-la. Detestava acordá-la, mas
não conseguia ir-se embora sem se despedir. Não suportava a ideia
de a deixar, mas agora era impossível voltar atrás. A avó
esperavas lá em baixo e Nicolau planeara tudo para elas.
Deveriam seguir pela longa estrada escandinava, através da
Finlândia e Suécia, e em seguida Dinamarca. Dera a Eugenia os
nomes de amigos da sua tia dinamarquesa e Feodor aconipanhá-las-ia
para as proteger. Tudo fora decidido. Apenas restava um último
adeus à amiga. Observou-a a mexer-se, febril, sob os lençóis e

depois Marie abriu os olhos e Zoya esforçou-se corajosamente por
conter as lágrimas.
- Como te sent& - sussurrou no quarto silencioso. Embora
Anastasia estivesse a dormir noutro quarto com as suas duas irmãs,
todas melhoravam lentamente. Só Marie continuava muito doente, mas
Zoya tentou não pensar nisso naquele momento. Não podia pensar em
nada, não podia permitir-se olhar para trás nem para a frente, não
havia nada por que ansiar. Havia apenas... um curtíssimo momento
com a sua mais querida amiga... e estendeu a mão, tocando-lhe na
face. - Mashka... - Marie tentou sentar-se na cama e fitou a amiga
com um olhar estranho.
- Passa-se alguma coisa?
- Não... Vou... vou regressar a Sampetersburgo com a minha
avó. - Prometera a Alix que não lhe diria a verdade, pois seria
demasiado duro para ela nessa altura. Contudo, Marie parecia
preocupada. Sempre tivera um sexto sentido em relação à amiga,
como era agora o caso. Estendeu o braço e agarrou na mão de Zoya,

prendendo-a com força na sua mão febril.
- É seguro?
- Claro - mentiu Zoya, atirando o cabelo ruivo para trás. -
O teu pai não nos deixaria ir se não fosse seguro... - "Por favor,
meu Deus, não permitas que chore agora, por favor..." Estendeu-lhe
o copo de água e Marie afastou-o, fixando a amiga bem no fundo dos
olhos.
- Passa-se alguma coisa, não é verdade? Vais para qualquer
lado?
- Apenas para casa durante uns dias... Voltarei em breve. -
Inclinou-se para diante e abraçou Marie com força e os olhos
cheios de lágrimas. - Agora tens de melhorar. Estiveste doente
demasiado tempo. - Abraçaram-se com mais força e Zoya exibia um
sorriso radioso quando se afastou, sabendo que a esperavam.
- Escreves-me?
- Claro. - Não conseguia ir-se embora e mantinha-se ali de
pé, fitando-a, desejando absorver tudo, fixar tudo, a sensação da
mão da amiga, a suavidade dos lençóis, o olhar dos seus belos
olhos azuis. - Amo-te, Mashka. - As palavras tornaram-se um
sussurro. - ... Amo-te tanto...
- Também eu. - Marie deixou-se cair na almofada com um
suspiro. Era fatigante sentar-se na cama e falar e depois teve
um horrível ataque de tosse e Zoya amparou-a
- Melhora, por favor.-. - lnclinou-se uma última vez para
lhe beijar a face, sentiu os caracóis macios sob a mão e depois
virou-se rapidamente e avançou até à porta, voltando-se para
esboçar um derradeiro aceno. Contudo, Marie fechara novamente
os olhos e Zoya encerrou a porta devagar, com o coração despedaçado e as lágrimas correndo, silenciosas. Despedira-se
das outras há meia hora e parara agora do lado de fora do quarto do jovem Alexis. Nagorny mantinha-se ao seu lado e Pierre Gilliard também. O Dr. Fedorov ia a sair.
- Posso entrar? - perguntou, limpando as lágrimas e ele
tocou-lhe no braço num gesto de muda compreensão.
- Está a dormir. - Zoya limitou-se a acenar com a cabeça e
desceu apressadamente as escadas ao encontro da avó e do czar e
da czarina que a aguardavam no átrio principal. Feodor já estava
lá fora com dois dos melhores cavalos do czar atrelados à velha
tróica em que tinham vindo. Quando avançou na direcção deles com

um andar de chumbo, sentia-se esgotada. Queria que tudo parasse,
queria fazer recuar O relógio... voltar a subir as escadas até
junto da amiga... Sentia-se como se estivesse a abandoná-los a
todos, mas afastavam-na, na verdade, contra sua vontade.
- Ela está bem? - Alexandra lançou um olhar preocupado a
Zoya, esperando que Marie não se tivesse apercebido de toda aquela
crua agonia.
- Disse-lhe que íamos voltar a Sampetersburgo. - Zoya chorava
agora copiosamente e a própria avó teve de lutar contra as
lágrimas, quando Nicolau a beijou nas duas faces e lhe agarrou
fortemente as mãos, com uma enorme tristeza no olhar mas um
sorriso digno nos lábios. Embora Eugenia o tivesse ouvido soluçar
nos aposentos da mulher na noite em que voltara, nunca demonstrou
o seu desgosto aos outros. Encorajava todos com bravura e mostrou-
se sempre encantador e calmo, como agora ao beijá-la à despedida.
- Boa viagem, Eugenia Peterovna. Ansiamos por vos ver em
breve.
- Rezaremos por vocês todas as horas, Nicolau. - A velha
senhora beijou-o na face. - Boa sorte para todos. - Virou-se
depois para Alix, enquanto Zoya se mantinha ao lado com as
lágrimas correndo-lhe pela face. - Toma conta de ti e não te
canses de mais, minha querida. Espero que as crianças recuperem
depressa.
- Escreve-nos - pediu Alix num tom triste, como Marie dissera
a Zoya há uns momentos. - Ficaremos ansiosamente à espera de
notícias. - Depois virou-se para Zoya. Conhecera-a desde o
nascimento, pois a sua filha e a de Natalya haviam nascido com uns
meros dias de diferença e tinham sido amigas íntimas durante
aqueles dezoito anos. - Sê boa rapariguinha, escuta a tua avó e
toma conta de ti. - E sem uma palavra mais, abraçou-a, sentindo
por instantes como se estivesse a perder a sua própria filha.
- Amo-a, tia Alix... Amo-a tanto... Não quero ir... - Mal
conseguia falar no meio dos soluços e depois virou-se para
Nicolau, e ele abraçou-a como o teria feito o seu próPrio pai, se
ainda estivesse vivo.
- Também te amamos e sempre te amaremos. Voltaremos a estar
juntos um dia, garanto-te. E Deus vos proteja a ambas até então,
minha pequenina. - Depois afastou-a suavemente com um pequeno
sorriso. - Agora, têm de ir.
Conduziu-as solemente até ao exterior. A mulher agarrou no
braço da avó e ajudaram-nas a subir para a tróica. Zoya chorava.
A criadagem que restava viera despedir-se e também chorava.
Conheciam Zoya desde criança e agora ela deixava-os e em breve os
outros lhes seguiriam o exemplo. E o pensamento de nunca mais
voltarem era aterrador. Era tudo em que Zoya conseguia pensar
quando Feodor ergueu devagar o chicote e tocou pela primeira vez
nos cavalos do czar.
A tróica ganhou vida e sob aquela luz cinzenta afastaram-se
subitamente de Alexandra e Nicolau que ficaram a acenar-lhes.
Zoya virou-se, apertando a pequena Sava de encontro ao corpo. A
cadelinha ganiu como se também soubesse que estava a deixar a casa
para nunca mais regressar, e a jovem enterrou o rosto nos braços
da avó. Não conseguia continuar a olhar para aquelas duas figuras
que lhes acenavam, o Palácio Alexandre e, de súbito, a própria
Tsarskoie Selo desaparecendo numa nuvem distante de neve... Zoya
chorava de tristeza, pensando em Mashka... Mashka... a sua melhor
e a mais querida amiga... o irmão... os pais... todos
desaparecidos...

Agarrou-se à avó e chorou. A velha senhora sentava-se
estoicamente no trenó, de olhos fechados, com as lágrimas, rolando
pelas faces, deixando para trás uma vida, tudo o quer alguma vez
conhecera, um mundo que todos haviam amado... desaparecido como
as neves, enquanto Fecodor continuava a guiá-las e os cavalos de
Nicolau as transportavam para longe de casa, de tudo e de todos
os que tinham conhecido e amado.
- Adieu, chers amis... - sussurrou Eugenia para a neve que
caía... Adeus, queridos amigos...
Só se tinham uma à outra agora, uma mulher muito ve1ha e uma
rapariga muito jovem, fugindo de um mundo perdido e das pessoas
que haviam amado. Nicolau e a sua família fàziam agora parte da
História. Nunca seriam esquecidos, sempre amados e jamais vistos
por qualquer delas.

PARIS

CAPITULO 8

A viagem de Tsarskoie Selo até Beloostrov na fronteira
finlandesa demorou sete horas, embora não ficasse distante de
Sampetersburgo, mas Feodor tomou o cuidado de viajar por todas as
estradas secundárias. Nicolau avisara-os de que era mais seguro,
mesmo que lhes levasse mais tempo.
E, para surpresa de Eugenia, atravessaram a fronteira sem
dificuldade. Verificaram-se algumas perguntas, mas Eugenia deu
repentinamente a sensação de se recolher mais sobre si própria e
parecia uma velha, encolhida e fria, enquanto Zoya parecia mais
criança do que nunca.
Foi Sava que acabou por salvá-las. Os soldados da fronteira
ficaram encantados com ela e depois de um momento de ansiedade
fizeram-lhes sinal para que avançassem, e os três refugiados
soltaram um suspiro de alívio quando a tróica avançou atrás dos
cavalos de Nicolau. Feodor tivera o cuidado de usar os velhos
arreios que trouxera de Sampetersburgo, abstendo-se de se servir
de qualquer equipamento do estábulo do czar com a facilmente
identificável águia dupla.
A viagem de Beloostrov através da Finlândia em direcção a
Turku levou dois dias inteiros e, quando chegaram a altas horas
da noite, Zoya sentia-se como se fosse ficar insensível para o
resto da vida. Todo o corpo parecia congelado na posição em que
viera, na tróica. A avó mal conseguia andar quando a ajudaram a
sair, e o próprio Feodor parecia exausto.
Descobriram uma pequena estalagem onde alugaram dois quartos
e, de manhã, Feodor vendeu os cavalos por uma quantia
ridiculamente baixa antes de os três se meterem num navio quebra-
gelo, rumo a Estocolmo. Foi outro dia infindável no navio, que
avançava devagar pelo meio do gelo entre a Finlândia e a Suécia,
e os três companheiros mal falavam, imersos nos seus próprios
pensamentos.
Chegaram a Estocolmo ao fim da tarde e mesmo a tempo de

apanhar o comboio da noite para Malmö. Uma vez em Malmö, seguiram
de barco na manhã seguinte até Copenhaga e ali se instalaram num
pequeno hotel. Eugenia tentou contactar os amigos da tia do czar,
mas estavam ausentes e na manhã seguinte deixaram Copenhaga rumo
a França num navio inglês.
Nessa altura, Zoya sentia-se aturdida e enjoou horrivelmente
no primeiro dia em que embarcaram. A avó achou-a febril, mas era
impossível dizer se estava doente ou apenas exausta. Estavam todos
esgotados depois da viagem de seis dias. Fora um tormento viajarem
dia após dia de barco, de comboio e de tróica. O próprio Feodor
dava a sensação de ter envelhecido dez anos numa semana, mas o
problema residia também na tristeza de abandonarem a pátria.
Falavam pouco, raramente dormiam e nenhum deles parecia
ter fome. Era como se os corpos transbordassem de tristeza e
não conseguissem suportar mais. Haviam deixado tudc para trás,
um estilo de vida, mil anos de História, as pessoas que tinham
amado e perdido. Tornava-se quase insuportáveis e Zoya viu-se a
desejar que o navio fosse afundado pelos submarinos alemães a
caminho de França. Longe da Rússia, era da grande guerra que as
pessoas tinham medo e não da revolução. A jovem foi ao ponto de
pensar que morrer às mãos de outrem teria sido mais fácil do
que enfrentar um novo mundo que não desejava conhecer.
Zoya recordava os milhares de vezes que ela e Marie nham
falado no sonho de viajar até Paris. Nessa altura, tudo soava
tão romântico, tão excitante com todas as mulheres elegantes e
os belos vestidos que comprariam. Agora, não haveria nada
disso. Tinham apenas o pouco dinheiro que a avó pedira
emprestado ao czar antes de partirem e as jóias cosido na
roupa. Eugenia já tinha decidido vender muitas delas, depois de
chegarem a Paris.
Tinham igualmente de pensar em Feodor. Ele prometera procurar
trabalho mal chegassem, jurara fazer tudo o que pudesse para as
ajudar, mas recusara deixar que enfrentassem a viagem sozinhas.
Nada tinha na Rússia e não conseguia imaginar uma vida sem servir
os Ossupov. Morreria se o deixassem. Esteve tão mal quanto Zoya
na viagem para França; nunca pusera os pés num barco e sentia-se
cheio de medo, enquanto se agarrava, infelicíssimo, ao varandim.
- O que vamos fazer, avó? - inquiriu Zoya, sentada e olhando
desgostosa para a avó no pequeno camarote.
Fora-se a grandeza dos iates imperiais, os palácios, os
príncipes, as festas. Desaparecera o calor e o amor familiar, bem
como as pessoas que tinham conhecido, o seu estilo de vida, até
mesmo a segurança de saberem que tinham o suficiente que comer no
dia seguinte. Restava-lhes apenas as suas vidas, e Zoya nem mesmo
estava segura de a desejar. Só quena regressar a casa, a Mashka,
à Rússia, fazer recuar o tempo e voltar a um mundo perdido, cheio
de pessoas que já não existiam. O pai, o irmão, a mãe. E, à medida
que seguiam viagem, Zoya interrogava-se sobre se Marie estaria
melhor.
- Temos de encontrar um apartamento pequeno - respondeu-lhe
a avó. Há anos que não ia a Paris. Viajara muito pouco desde a
morte do marido. Contudo, agora tinha de pensar em Zoya.
Precisava de mostrar-se forte diante da jovem. Rezou para viver
o suficiente para cuidar dela, mas não era Eugenia quem agora
estava em perigo, mas a neta.
A rapariga parecia muito doente e os olhos maiores do que
nunca e encovados no rosto pálido. Quando a velha condessa lhe
tocou, soube desde logo que ela estava a arder em febre. Nessa

noite, começou com uma tosse horrível e a condessa receava que
fosse pneumonia. Na manhã seguinte, a tosse piorou e, quando
apanharam o comboio para Paris, em Bolonha, tornou-se óbvio que
a doença a atacara. Começaram a aparecer-lhe manchas no rosto e
nas mãos. A avó obrigou-a a levantar a saia de lã e verificaram
que Zoya tinha sarampo.
Eugenia estava preocupadíssima e mais ansiosa do que nunca
para fazer chegar a neta a Paris. Era uma viagem de dez horas de
comboio e chegaram pouco antes da meia-noite. Havia meia dúzia de
táxis à porta da Gare du Nord e Eugenia mandou Feodor buscar um
deles, enquanto ajudava Zoya a descer do comboio. Esta mal
conseguia andar e apoiava-se com força à avó, de rosto tão
afogueado como a brilhante cabeleira ruiva. Tossia horrivelmente
e não dizia coisa com coisa devido à febre.
- Quero ir para casa - choramingou, agarrada à cadelinha.
Sava estava agora mais crescida e Zoya mal podia com ela quando
seguiu a avó até fora da estação.
- Vamos para casa, meu amor. O Feodor anda à procura de um
táxi.
Contudo, Zoya pOs-se a chorar, desfazendo a imagem da mulher
em que se tornara ao fitar a avó com uma expressão de criança
perdida.
- Quero voltar para Tsarskoie Selo.
- Sossega, Zoya... sossega...
Feodor acenava freneticamente e tratava da bagagem. Eugenia
guiou a neta com meiguice e ajudou-a a entrar no táxi antigo.
Tudo o que ainda possuíam estava empilhado ao lado de Fecodor e
do motorista, e as duas entraram para o banco de trás com suspiros
cansados. Não tinham reserva em parte alguma, não sabiam para onde
ir e o motorista ouvia mal e era velho. Há muito que todos os
homens novos tinham abandonado Paris, onde só haviam ficado os
velhos e enfermos.
- Alors?... On y va, mesdames? - Sorriu para o banco de trás
e fez uma expressão surpreendida ao ver que Zoya chorava. - Elle
est malade? Ela está doente? - Eugenia apressou-se a garantir-lhe
que estava apenas muito cansada, como todos eles. - De onde vêm? -
prosseguiu o homem num tom amistoso e Eugenia tentou recordar-se
do hotel onde ficara com o marido há anos, mas subitamente
esqueceu tudo. Tinha oitenta e dois anos e estava esgotada. E
precisavam de levar Zoya para um hotel e chamar um médico.
- Pode recomendar-nos um hotel? Algo pequeno, limpo e não
muito caro. - Ele premiu os lábios por momentos enquanto
pensava, e Eugenia apertou instintivamente a mala de encontro
ao corpo. Lá dentro levava o último e o mais importante
presente da imperatriz. Alix dera-lhe um dos seus ovos de
Páscoa imperiais, fabricados especialmente para ela há três
anos por Carl Fabergé. Era uma peça maravilhosa de esmalte
malva com fitas de diamantes e Eugenia sabia que era o seu mais
importante tesouro. Quando tudo o mais falhasse, podiam vendê-
lo e viver do que ele rendesse.
- Importa-lhe onde fique, madame?... O hotel...
- Desde que seja num bairro decente. - Podiam procurar outra
coisa melhor depois e nessa noite só precisavam de quartos onde
pudessem dormir. As comodidades, se ainda@, fossem possíveis,
viriam mais tarde.
- Há um pequeno hotel à saída dos Campos Elísios, madame.
O porteiro da noite é meu primo.
- É caro? - inquiriu num tom ríspido, e ele encolheu os

ombros. Via que não eram gente abastada, vestidas com aquelas
roupas simples e o velho tinha ar de camponês. Pelo menos a mulher
falava francês e achava que a rapariguinha também, embora chorasse
a maior parte do tempo e tivesse aquela tosse horrível. Só
esperava que não fosse tuberculose, que nessa altura varria Paris.
- Não é mau. Peço ao meu primo que fale com o récepcionista.
- Muito bem. Servirá - decidiu num tom imperial e recostou-se
no táxi antigo. Era uma mulher muito enérgica, o que agradou ao
motorista.
O hotel ficava na Rue Marbeuf e era, de facto, muito pequeno,
mas pareceu-lhes decente e limpo quando entraram no átrio. Havia
apenas uma dúzia de quartos, mas o recepcionista garantiu que dois
deles estavam vazios.
Tinham de usar uma casa de banho comum no corredor o que era
um choque para Eugenia, mas nem isso interessava agora. Puxou para
trás os lençóis da cama que ela e Zoya iriam partilhar e verificou
que estavam limpos. Despiu a neta depois de esconder a mala
debaixo do colchão, e Feodor trouxe o resto das coisas.
Concordara em ser ele a ficar com Sava. A condessa desceu mal
deitou Zoya na cama e pediu ao recepcionista que mandasse chamar
o médico.
- Para si, madame? - inquiriu sem surpresa, pois estavam
todos com um ar pálido e cansado e ela era, obviamente, muito
velha.
- Para a minha neta. - Não lhe disse que Zoya estava com
sarampo, mas, duas horas mais tarde, quando o médico finalmente
chegou, confirmou de imediato.
- Ela está muito doente, madame. Tem de tratá-la com muito
cuidado. Faz alguma ideia de como o apanhou?
Seria ridículo responder que fora contagiada pelos filhos do
czar da Rússia.
- Através de amigas, penso. Fizemos uma viagem muito longa. -
O médico examinou o olhar perspicaz e triste e pressentiu que
deviam ter sofrido muito. Contudo, nem mesmo ele podia sonhar a
miséria que elas haviam presenciado naquelas últimas três semanas,
quão pouco tinham ou o medo que as invadia quanto ao futuro. -
Viemos da Rússia... atravês da Finlândia, Suécia e Dinamarca.
O médico fitou-a, surpreendido, e depois compreendeu
subitamente. Outros tinham feito viagens idênticas nas últimas
semanas, fugindo da revolução. E era fácil supor que mais viriam
nos meses seguintes, se conseguissem escapar. A aristocracia
russa, ou o que dela restava, fugia em bandos e muitos deles
tomavam o rumo de Paris.
- Lamento... lamento muito, madame.
- Também nós. - Sorriu tristemente. - Não tem pneumonia, pois
não?
- Ainda não.
- Há algumas semanas que a prima está com uma e têm
contactado muito.
- Farei o que puder, madame. Virei vê-Ia novamente de manhã.
- Porém, quando ele voltou, Zoya piorara e, ao cair da noite,
delirava de febre. O médico receitou-lhe um medicamento e disse
que era a única esperança. E, na manhã seguinte, quando o
recepcionista informou Eugenia que os Estados Unidos tinham
acabado de entrar na guerra, quase lhe pareceu irrelevante. A
guerra assumia contornos de insignificância agora, depois de tudo
o que acontecera.
Comeu as refeições no quarto e Feodor saiu para comprar

remédios e fruta. Estavam a racionar o pão e tornava-se difícil
obter algo, mas ele era engenhoso e conseguiu encontrar o que a
condessa desejava. Sentia-se especialmente satisfeito consigo
próprio por ter descoberto um motorista de táxi que falava russo.
Tal como eles, há apenas uns dias que estava em Paris, era um
príncipe de Sampetersburgo e Feodor achava que ele fora amigo de
Konstantin, mas Eugenia não tínha tempo para o ouvir. Estava
profundamente preocupada com Zoya.
Passaram vários dias antes de a jovem dar sinal de saber onde
se encontrava. Passeou os olhos pelo pequeno e simples quarto,
fitou a avó e depois recordou-se que estavam em Paris.
- Quanto tempo estive doente, avó? - Tentou sentar-se, mas
ainda estava demasiado fraca, embora a tosse tivesse finalmente
melhorado um pouco.
- Desde que chegámos, meu amor, há cerca de uma semana.
Preocupaste-nos muito a todos. O Feodor tem percorrido Paris
inteira tentando encontrar fruta para ti. As faltas aqui são quase
tão graves como na Rússia.
Zoya esboçou um aceno de cabeça e pareceu viajar em
pensamento para muito longe dali, enquanto olhava através da única
janela do quarto.
- Agora sei como a Mashka se sentia... e ela ainda estava
muito mais doente do que eu. Interrogo-me sobre como estará agora.
- Não conseguia reflectir no presente.
- Não deves pensar nisso - censurou meigamente a avó ao
detectar-lhe o olhar de tristeza. - Tenho a certeza de que já se
encontra bem. Há duas semanas que partimos.
- Só duas semanas? - suspirou, fitando a avó. - Parece-me uma
vida inteira. - Todos tinham essa sensação e a avó mal dormira
desde que haviam saído da Rússia. Há dias que dormia sentada numa
cadeira, receosa de perturbar o sono de Zoya partilhando a cama
com ela e temendo não estar acordada se a neta precisasse dela,
mas agora podia relaxar um pouco a vigília. Nessa noite, dormiria
aos pés da cama e precisava quase tanto de descansar como Zoya.
- Amanhã, tiramos-te da cama, mas primeiro tens de repousar,
comer e pores-te forte novamente. - Deu uma palmadinha na mão de
Zoya, que lhe esboçou um ligeiro sorriso.
- Obrigada, avó. - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e
levou a mão da velha senhora até junto do rosto. Até esse gesto
lhe trazia dolorosas memórias de infância.
- Pelo quê, miúda tonta? O que tens a agradecer-me?
- Ter-me trazido para aqui... ser tão corajosa... e fazer
tanto para nos salvar. - Acabara de tomar plena consciência da
enorme distância que tinham percorrido e de como a avó fora
extraordinária. A mãe decerto jamais seria capaz. Zoya teria tido
de zelar pela mãe durante todo o caminho.
- Construiremos uma nova vida aqui, Zoya. Verás. Um dia,
seremos capazes de olhar para trás e tudo parecerá menos doloroso.
- Não consigo imaginar... não consigo imaginar uma época em
que as memórias deixem de magoar. - Sentia-se como se estivesse
a morrer.
- O tempo é muito generoso, minha querida. E sê-lo-á para
nós, garanto-te. Teremos uma boa vida aqui. - "Mas não a vida que
haviam tido na Rússia." Zoya tentava não pensar nisso, mas muito
mais tarde nessa noite, quando a avó estava a dormir, saiu sem
ruído da cama, pegou no seu pequeno saco e encontrou a fotografia
que Nicolau lhes tirara em Livadia, quando se divertiam no Verão

anterior. Ela, Anastasia, Marie, Olga e Tatiana inclinavam-se para
trás até estarem quase de cabeça para baixo, sorrindo depois das
brincadeiras. Agora parecia-lhe idiota... idiota... e tão terno...
mesmo naquele ângulo estranho, achava todas tão bonitas, ainda
mais agora... as raparigas junto de quem crescera e tanto amava...
Tatiana, Anastasia... Olga... e, obviamente, Mashka.

CAPITULO 9

O sarampo deixou Zoya muito enfraquecido, mas, para grande
alívio da avó, pareceu recuperar no meio da beleza de Paris em
Abril. Denotava agora uma seriedade que não possuía antes e a
tosse não a abandonara por completo. Contudo, de vez em quanto
havia um brilho de alegria no olhar, quase como dantes, e Eugenia
sentia o coração mais leve.
O hotel na Rue Marbeuf estava a custar-lhes caro, embora
fosse simples, e Eugenia sabia que em breve teriam de encontrar
um apartamento. Já tinham gasto uma boa parte do dinheiro que
Nicolau lhes dera, e ela estava ansiosa por salvaguardar os seus
magros recursos. No início de Maio verificou que seria obrigada
a vender algumas jóias.
Numa tarde soalheira, deixou Zoya com Feodor e foi visitar
um ourives que o hotel lhe indicara na Rue Cambon, depois de
descoser cuidadosamente um colar de rubis da bainha de um dos seus
vestidos pretos. Meteu o colar na mala de mão e retirou uns
brincos a condizer do seu esconderijo em dois botões forrados e
bastante grandes. Os esconderijos haviam sido realmente úteis.
Chamou um táxi antes de sair do hotel e, quando indicou a morada
ao motorista, ele virou-se devagar e fitou-a. Era um homem alto,
de aparência distinta e um bigode branco cuidadosamente aparado.
- Não é possível... Condessa, é a senhora? - Ela fitou-o com
mais atenção e depois sentiu que o coração lhe batia mais
depressa. Era o príncipe Vladimir Markovski. Reconheceu-o,
surpreendida; fora um dos amigos de Konstantin, e o filho mais
velho dele chegara mesmo a propor casamento à grã-duquesa Tatiana
e havia sido recusado. Tatiana achava-o demasiado ffivolo.
Tratava-se, contudo, de um rapaz encantador, como o era o pai. -
Como chegou aqui?
Eugenia riu e abanou a cabeça ante a estranheza da vida
naqueles tempos. Vira mesmo rostos familiares em Paris desde que
ali estavam e, em duas ocasiões, chamara táxis e descobrira que
conhecia os motoristas. Parecia que os nobres russos não tinham
outra forma de ganhar a vida, todos sem habilidade para nada,
elegantes, bem-nascidos e encantadores, pouco lhes restando fazer
excepto conduzir um automóvel, como o príncipe Viadimir que a
fitava cheio de contentamento. Ocorreram-lhe memórias agridoces
de melhores dias e suspirou ao começar a explicar-lhe como tinham
deixado a Rússia. O relato dele era muito semelhante, embora muito
mais perigoso quando atravessara a fronteira.
- Está alojada aqui? - Olhou para o hotel ao mesmo tempo que
punha o carro em andamento e se dirigia à morada que ela lhe dera
na Rue Cambon.
- Sim, de momento. Contudo, a Zoya e eu temos de procurar um
apartamento.
- Ela está, então, consigo. Deve ser ainda uma rapariguinha.
"E a Natalya? - Sempre tinha achado a mulher de Konstantin

extremamente bonita, embora muito nervosa, e não ouvira obviamente
falar da morte dela quando os revolucionários assaltaram o Palácio
Fontanka.
- Foi morta... apenas uns dias depois do Konstantin... e
do Nicolai. - Expressava-se quase num sussurro. Ainda lhe era
difícil pronunciar os nomes, sobretudo a ele, porque os
conhecera. O nobre esboçou um triste aceno de cabeça no banco
da frente. Também ele perdera os dois filhos e viera para Paris
com a filha solteira.
- Lamento.
- Lamentamos todos, Vladimir. E mais ainda o Nicolau e a
Alexandra. Teve algumas notícias deles?
- Nada. Apenas que ainda se encontram sob prisão domiciliária
em Tsarskoie Selo. Só Deus sabe quanto tempo os vãO manter lá.
Pelo menos estão confortáveis, se não seguros. - Já ninguém estava
seguro em nenhum lugar da Rússia. Pelo menos, as pessoas que
conheciam. - Vai ficar em Paris? - Nenhum deles tinha qualquer
outro lugar para onde ir e outros russos infiltravam-se
diariamente, com surpreendentes relatos de fugas e perdas
terríveis. Acorriam em quantidades crescemtes a uma cidade já
sobrecarregada.
- Acho que sim. Pareceu-me melhor vir para aqui do que para
qualquer outro sítio. Pelo menos, estamos seguras e é um lugar
decente para a Zoya.
Ele esboçou um aceno de concordância e conduziu o táxi
velozmente pelo meio do trânsito.
- Devo esperar, Eugenia Peterovna? - Doía-lhe o coração só
de falar novamente russo e com alguém que sabia o seu nome. Ele
estacionara diante do ourives.
- Importava-se muito? - Seria confortável saber que ele
estava ali e regressar ao hotel com ele, sobretudo se o ourives
lhe desse uma elevada quantia em dinheiro.
- Claro que não. Esperarei aqui. - Ajudou-a cuidadosamente
a sair do carro e acompanhou-a até à porta da loja. Era fácil
imaginar o que a levava ali. Era o mesmo que todos eles faziam,
vendendo tudo o que podiam, os mesmos tesouros que haviam
contrabandeado e que há semanas antes não passavam de bugigangas
a que não ligavam.
A condessa apareceu meia hora mais tarde com um ar digno e
o príncipe Markovski não lhe fez perguntas, enquanto a
transportava de volta ao hotel. Ela parecia, contudo, mais abatida
quando a ajudou a sair do carro na Rue Marbeuf e esperou que
tivesse conseguido o que precisava. Era muito velha para ser
obrigada a sobreviver de expedientes e a vender as suas jóias num
país estranho, sem ninguém que cuidasse dela e com uma jovem para
cuidar. Não estava bem certo da idade de Zoya, mas sabia que era
muito mais nova do que a sua filha, que tinha quase trinta anos.
- Está tudo bem? - inquiriu, preocupado, quando a acompanhou
até à porta e ela o fitou com um olhar magoado.
- Acho que sim. Não são tempos fáceis. - Fixou o táxi à
espera e depois o príncipe. Este fora um homem interessante na
juventude e ainda era, mas, tal como nela, havia uma súbita
diferença. Afectara a todos. A própria face do mundo não era a
mesma desde a revolução. - Não é facil para nenhum de nós, pois
não, Vladimir?
"E quando não houver mais jóias para vender, o que faremos?",
interrogava-se. Nem ela nem Zoya eram capazes de conduzir um táxi
e Feodor não falava uma palavra de francês nem era provável que

aprendesse. Era quase mais um fardo do que uma ajuda, mas
mostrara-se tão fiel e leal ao ajudá-las a escapar, que não podia
abandoná-lo. Tinha de ser tão responsável por ele, como por Zoya.
Todavia, dois quartos de hotel custavam o dobro de um e, com
a insignificante quantia em dinheiro que recebera pelo colar de
rubis e os brincos, pouca esperança tinha de que os fundos
aguentassem muito mais tempo. Precisavam de pensar em algo muito
criativo. "Talvez pudesse costurar", pensou, ao despedir-se de
Vladimir com um ar distraído.
E, de súbito, parecia mais velha do que há uma hora atrás,
quando se dirigira ao ourives. O príncipe Markovsk beijou-lhe a
mão e negou-se a receber qualquer pagamento. Eugenia interrogou-se
sobre se voltaria a vê-lo. Sentia agora o mesmo em relação a
todos, mas dois dias depois, ao descer as escadas com Zoya e
Feodor, encontrou-o à espera dela no átrio.
Ao avistá-la, esboçou uma ligeira vénia e beijou-lhe a mão,
fitando Zoya com um olhar bondoso e depois com evidente surpresa
ante a beleza da jovem e quanto se desenvolvera.
- Peço desculpa por me intrometer, Eugenia Peterovna, mas
acabei de saber de um apartamento... É bastante pequeno, mas
próximo do Palais Royal. Não é... a vizinhança ideal para uma
jovem rapariguinha, mas... talvez... talvez possa servir. Falou
no outro dia de como estava ansiosa por encontrar um sítio onde
viver. Tem dois quartos. - Deitou um olhar de súbita preocupação
para o velho Feodor, atrás delas. - Talvez não seja
suficientemente grande para todos...
- Claro que é. - Sorriu-lhe como se ele sempre tivesse sido
o seu melhor amigo. Era repentinamente tão importante ver um rosto
familiar, mesmo alguém que dantes não vira com frequência. Era,
pelo menos, um rosto de um passado não muito distante, uma
relíquia da pátria e logo o apresentou a Zoya. - A Zoya e eu
podemos partilhar um quarto. Fazemo-lo aqui no hotel e ela não
parece importar-se.
- E não me importo, avó. - Sorriu-lhe, amistosa, e mirou com curiosidade o alto e distinto russo.
- Tomo, então, disposições para irem vê-lo? - Parecia muito
interessado em Zoya, mas a avó não deu mostras de reparar.
- Podemos vê-lo agora? Íamos sair para um passeio. - Estava
uma bela tarde de Maio e tornava-se difícil acreditar que havia
discórdias no mundo, e ainda mais dificil que toda a Europa estava
em guerra e os Estados Unidos haviam finalniente aderido.
- Vou mostrar-lhes onde fica e talvez vos deixem vê-lo agora.
- Levou-as o mais rapidamente possível. Feodor ia sentado no banco
da frente ao seu lado e Vladimir pôs as duas senhoras ao corrente
dos últimos mexericos. Mais alguns conhecidos tinham chegado há
uns dias, embora nenhum trouxesse aparentemente notícias de
Tsarskoie Selo.
Zoya escutou interessada os nomes que ele enumerava.
Reconheceu a maioria, embora nenhum deles correspondesse a amigos
íntimos. Mencionou também que Diaghilev estava em Paris e planeava
uma exibição dos Ballets Russes. Actuariam no Châtelet e
começariam a ensaiar na semana seguinte. Zoya sentiu o coração
bater com mais força ante as palavras e mal reparou nas ruas que
atravessavam para chegar ao apartamento.
O apartamento em si era muito pequeno, mas dava para um
jardim muito agradável de outra pessoa. Tinha dois quartos
pequenos, uma reduzida sala de estar e no corredor havia uma casa
de banho que teriam de partilhar com mais quatro apartamentos.

Os outros eram obrigados a descer de outros andares; portanto
tinham mais sorte do que a maioria. Situava-se, indubitavelmente,
a uma enorme distância do palácio em Fontanka ou mesmo do hotel
na Rue Marbeuf, mas não lhes restavam opções. A avó de Zoya tinha-
a inteirado da escassa quantia recebida pelo colar de rubis.
Haviam trazido outras jóias para vender, mas não lhes garantiam
o futuro.
- Talvez seja afinal pequeno de mais... - O principie
Vladimir parecia subitamente embaraçado, mas não era mais
embaraçoso do que a sua condição de ter de guiar um táxi.
- Acho que servirá muito bem - pronunciou-se a condessa num
tom despreocupado, mas já detectara o olhar de tristeza em Zoya.
Do corredor emanava um cheiro horrível a urina à mistura com uma
comida rançosa. Talvez um pouco de perfume... o cheiro a lilases
de que Zoya tanto gostava... e as janelas abertas para o bonito
jardim. Tudo podia ajudar, e a renda correspondia exactamente ao
que podiam dispor. A condessa virou-se para VIadimir com um
caloroso sorriso e agradeceu-lhe profusamente.

- Temos de nos ocupar dos nossos - redarguiu-lhe num tom
afectuoso, mas de olhos fixos em Zoya. - Vou levá-los de volta ao
hotel. - Tinham decidido mudar na semana seguinte e, no caminho
de regresso, Eugenia começou a elaborar uma lista dos móveis de
que precisariam. Ia comprar o mínimo possível e, juntamente com
Zoya, faria os reposteiros e as colchas. Planeava adquirir somente
o essencial.
- Um tapete pequeno no chão podia fazer com que a sala
parecesse um pouco maior. - Falava alegremente e esforçava-se por
não pensar nos preciosos Aubussons do pavilhão atrás do Palácio
Fontanka. - Não achas, n-únha querida?
- Uum?... Desculpe, avó. - Mantivera-se de cenho franzido
a olhar pela janela enquanto desciam os Campos Elísios no carro
de volta à Rue Marbeuf. Pensava em algo bem mais importante.
Algo de que precisavam desesperadamente. Algo que lhes
permitiria voltar a viver de forma decente, talvez não num
palácio, mas num apartamento maior e mais confortável do que uma malcheirosa caixinha de fósforos. Agora, sentia-se ansiosa
por regressar ao hotel e deixar a avó com as suas listas,
planos e ordens de mandar Feodor à procurä de mobiliário e de
um bonito tapete.
Agradeceram novamente ao príncipe Markovski quando as
deixou no hotel, e Eugenia surpreendeu-se quando Zoya disse que
ia dar um passeio, mas recusou, determinada, a companhia de
Feodor.
- Estarei perfeitamente sozinha, avó. Não me afasto. Vou
só até aos Campos Elísios e volto.
- Queres que te acompanhe, minha querida?
- Não. - Sorriu à avó que tanto amava, pensando en quanto
lhe devia. - Descanse um pouco. Tomaremos um chá quando eu
voltar.
- Tens a certeza de que irás bem sozinha?
- Absoluta.
A condessa deixou-a ir com relutância e subiu as escadas
devagar, agarrada ao braço de Feodor. Era um bom exercício para
começar a habituar-se às compridas escadas do apartamento.
Mal saiu do hotel, Zoya dobrou a esquina e fez sinal a um
táxi, rezando para que o motorista soubesse onde era e, quando
chegasse lá, alguém percebesse do que iria falar. Era uma

louca, louca esperança, mas sabia que tinha de tentar.
- Para o Châtelet, por favor - indicou num tom imperial
como se soubesse do que estava a falar e rezou em silêncio para
que o homem a levasse lá.
Depois de um instante de hesitação, verificou que as suas
preces eram atendidas. Mal se atrevia a respirar enquanto o
táxi seguia a toda a velocidade e deu uma choruda goijeta ao
motorista por ter descoberto o lugar e porque se sentia um
pouco aliviada pelo facto de ele não ser russo. Era um pouco
depressivo ver os membros de famílias que conhecera ao volante
de táxis e falando tristemente sobre a família de Tsarskoie
Selo.
Entrou apressadamente e olhou em volta, voltando a pensar
nas suas ameaças passadas de fugir para o Teatro Marinski. Viu-
se a pensar em Marie e em como ela ficaria boquiaberta ante
tudo aquilo. Zoya sorriu e pôs-se a procurar alguém, qualquer
pessoa capaz de responder às suas perguntas. Descobriu, por fim, uma mulher, com fato de bailarina e praticando
tranquilamente na barra. Zoya pressupôs correctamente tratar-se
de uma professora.
- Ando à procura de Monsieur Diaghilev - anunciou e a
mulher sorriu.
- Ah, sim? Posso perguntar porquê?
- Sou bailarina e gostaria de fazer uma audição. - Pôs de
imediato todas as cartas na mesa e nunca parecera mais jovem, mais
bonita, nem mais assustada.
- Entendo. E ele já ouviu falar de si? - Parecia uma pergunta
bastante cruel, e a mulher nem se deu ao trabalho de esperar
resposta. - Vi que não trouxe nada para dançar, mademoiselle.
Esse traje não é muito adequado para uma audição.
Zoya baixou os olhos para a estreita saia de sarja azul, a
camisa branca de marinheiro e os sapatos pretos de cabedal que
usara diariamente durante as suas últimas semanas em Tsars;koie
Selo. Corou até à raiz do cabelo, e a mulher sorriu-lhe. Era uma
rapariga tão bonita, jovem e inocente. Tornava-se difícil
acreditar que tivesse dotes de bailarina.
- Desculpe. Talvez pudesse vir vê-lo, amanhã. - E acrescentou
num sussurro: - Ele está aqui?
- Não - sorriu a mulher mais velha. - Mas não tardará. Fará
o ensaio geral aqui no dia onze.
- Eu sei. Queria fazer uma audição para ele. Quero entrar no
espectáculo e juntar-me ao corpo de bailado. - As palavras saíram-
lhe de um jorro, e a mulher soltou uma galhada. - A sério? E onde tem praticado?
- Na escola de Madame Nastova, em Sampetersburgo.. até há
dois meses. - Desejou ter mentido e acrescentar "no Marinski", mas
ele certamente descobriria a verdade. E a escola de ballet de
Madame Nastova era também uma das mais prestigiadas da Rússia.
- Se lhe arranjar um maillot e umas sapatilhas, dança para
mim, agora? - A mulher parecia divertida, e Zoya hesitou apenas
uma fracção de segundo.
- Sim, se quiser. - O coração batia-lhe como uma orquestra
inteira, mas tinha de arranjar emprego e isso era tudo o que podia
fazer e tudo o que desejava realizar. Parecia o mínimo que podia
fazer por Eugenia.
As sapatilhas que a mulher lhe deu magoavam-na
terrivelmente e, ao dirigir-se ao piano, Zoya sentiu-se
estúpida pela tentativa. Iria parecer idiota sozinha no palco e

talvez Madame Nastova estivesse apenas a ser generosa quando
afirmara que ela era muito boa.
Porém, ante os primeiros acordes da música, esqueceu
gradualmente o medo e começou a dançar e a fazer tudo o que
Madame Nastova lhe ensinara. Dançou, incansavel, durante quase
uma hora sob os olhos críticos e semicerrados da mulher, mas
nenhum dos traços do rosto denotava desprezo ou divertimento.
Zoya estava esgotada quando a música parou finalmente e
executou uma graciosa vénia na direcção do piano. E, no
silêncio da sala, os olhos das duas mulheres cruzaram-se e a
mulher que se encontrava ao piano esboçou um ligeiro aceno de
cabeça.
- Pode voltar daqui a dois dias, mademoiselle? - Os olhos
verdes de Zoya arregalaram-se e correu até junto piano.
- Consegui emprego?
A mulher mais velha abanou a cabeça e riu.
- Não, não... mas ele nessa altura estará aqui. Veremos o que
diz e os outros professores também.
- De acordo. Arranjarei sapatilhas.
- Não tem? - replicou a mulher, surpreendida, e Zoya fitou-a
com uma expressão grave.
- Deixámos tudo o que tínhamos na Rússia. Os meus pais e o
meu irmão foram mortos na revolução e fugi com a minha avó, há um
mês. Preciso de encontrar emprego. Ela é demasiado velha para
trabalhar e não temos dinheiro. - Era uma afirmação simples mas
que emocionou profundamente a outra mulher, embora não o
demonstrasse.
- Que idade tens?
- Dezoito anos. E pratiquei doze.
- És muito boa... Independentemente do que ele disser... ou
os outros... não deixes que ninguém te assuste. És muito boa. -
Zoya soltou uma risada, pois era exactamente o que dissera a Marie
naquela tarde em Tsarskoie Selo.
- Obrigada! Muito obrigada! - Apetecia-lhe abraçá-la e beijá-
la, mas dominou-se. Tinha receio de perder a oportunidade que lhe
fora dada. Faria tudo para dançar para Diaghilev, e aquela mulher
permitiria que concretizasse o desejo. Situava-se para além de
tudo o que alguma vez sonhara. Talvez Paris não fosse afinal tão
mau assim... não, se conseguisse tornar-se bailarina. - Melhorarei
depois de voltar a dançar. Há dois meses que não pratico. Estou
um pouco enferrujada.
- Então, ainda és melhor do que penso. - Sorriu à bonita e
jovem ruiva que se mantinha tão graciosa e elegante ao lado do
piano e depois Zoya soltou um súbito suspiro. Prometera à avo que
não demoraria e já saíra há quase duas horas.
- Tenho de ir! A minha avó... Oh... Desculpe... - Saiu
apressadamente para mudar de roupa e reapareceu com a saia azul
e a blusa de marinheiro, um cisne de volta ao patinho. Voltarei
daqui a dois dias... e obrigada pelas sapatilhas!... - Precipitou-
se para a saída, mas voltou-se subitamente e gritou à mulher, que
ficara a observá-la: - Oh... A que horas?
- Duas! - respondeu a mulher e depois lembrou-se de mais uma
coisa: - Como te chamas?
- Zoya Ossupov! - replicou e desapareceu.
A mulher ao piano sentou-se com um sorriso, lembrando-se da
primeira vez que tinha dançado para Diaghilev há vinte anos... a
jovem era indubitavelmente dotada... Zoya... pobre criança,
passara bastante segundo o que dissera nas suas simples

palavras... Era dificil imaginar-se novamente com dezoito anos e
a exuberância de Zoya.

APITULO 10

Às duas horas de uma sexta-feira à tarde, Zoya chegou ao
Châtelet com um pequeno saco, um maillot e um par de sapatilhas
novas em folha. Tinha vendido o relógio para as comprar e não
contara à avó onde ia. Nos últimos dois dias, Zoya só conseguira
pensar na fantástica oportunidade que teria e rezara a todos os
anjos-da-guarda e santos favoritos para não a estragar. E se fosse
desajeitada... se caísse... se ele odiasse o seu estilo... se
Madame Nastova lhe tivesse mentido durante todos aqueles anos? O
medo levara a melhor e, ao chegar mais uma vez ao Chäelet, só lhe
apetecia fugir, mas avistou a mulher para quem dançara há dois
dias e subitamente era tarde de mais.
O próprio Diaghilev apareceu e Zoya foi-lhe apresentada. E,
num abrir e fechar de olhos, viu-se no palco, dançando para todos
os que se encontravam a assistir, e esqueceu-se da presença deles.
Verificou, surpreendida, que estava mais à vontade do que dois
dias antes e a música parecia arrebatá-la e levá-la para longe.
Quando acabou, pediram-lhe que voltasse a dançar, desta vez
com um homem, e ele era muito bom, fazendo com que Zoya tivesse
a sensação de voar pelos ares nas asas de anjos. Ao todo, dançou
durante uma hora e meia e mais uma vez estava esgotada ao parar
e as sapatilhas novas magoavam-na. Porém, ao virar-se para a
audiência, sentia-se como se tivesse voado até à Lua. Todos
esboçavam acenos de cabeça e pronunciavam palavras
incompreensíveis. Pareceram conferenciar durante horas e, depois,
um dos professores virou-se na sua direcção e pronunciou através
do palco, como se não fosse nada de importante:
- Na próxima sexta-feira, quatro horas, répétition générale,
aqui mesmo. Muito obrigado.
Depois, viraram-lhe as costas e ela manteve-se pregada ao
chão, com as lágrimas correndo-lhe pelas faces. Madame Nastova não
tinha mentido e os deuses haviam sido generosos. Ignorava se
aquilo significava que conseguira emprego e não se atrevia a
perguntar-lhes. Apenas sabia que dançaria no ensaio na próxima
sexta-feira à tarde.
E talvez... talvez... se fosse muito, muito boa... Nem se
atrevia a pensar enquanto mudava de roupa e voava através das
portas. Desejava contar à avó, mas sabia que não podia. A ideia
de Zoya vir a ser bailarina iria enlouquecê-la. Era preferível
nada dizer, pelo menos de momento. Talvez que se, de facto, a
deixassem dançar com os Ballets Russes... talvez, nessa altura...
Contudo, na semana seguinte, vitoriosa, tendo arrarjado
emprego, pelo menos de momento, viu-se forçada a partilhar as boas
novas.
- Fizeste o quê? - A avó parecia chocada e extremamente
surpreendida.
- Uma audição para o Sergei Diaghilev e ele vai deixar-me
dançar com os Ballets Russes. O primeiro espectáculo é na próxima
semana. - Sentia o coração a bater acelerado, e a avó não parecia
satisfeita.
- Estás doida? Uma vulgar bailarina em palco? Imaginas o que
diria o teu pai a uma coisa dessas? - Foi um golpe que lhe doeu

demasiado e voltou-se para a avó que amava com um olhar magoado.
- Não fale nele assim. Morreu. Não lhe agradaria nenhuma das
coisas que nos aconteceram, avó. Mas aconteceram e temos de fazer
alguma coisa. Não podemos ficar de braços cruzados e morrer à
fome.
- É isso, então? Tens medo que possamos morrer à fome? Vou
encomendar-te um jantar duplo para esta noite, mas podes estar
certa de que não subirás ao palco.
- Subo, sim. - Fitou-a pela primeira vez com um olhar de
desafio. No passado, apenas se atrevera a lutar assim com a mãe,
mas não podia deixar que a avó a detivesse. Significava demasiado
para ela, e era a única saída que tinham, de qualquer forma a
única que conseguia divisar.
Não queria trabalhar numa loja, nem esfregar soalhos, nem
coser botões em camisas de homens, nem trabalhar para uma
costureira ou pregar plumas num chapéu! E que mais havia para
fazer? Nada. E, mais tarde ou mais cedo, seria esse o rumo que a
vida tomaria. E a avó também o sabia.
- Seja razoável, avó. Não recebeu praticamente nada pela
venda do colar de rubis. E quantas jóias poderemos vender? Toda
a gente aqui está a fazer o mesmo. Uma de nós tem de acabar por
ir trabalhar e esta é a única coisa que sei fazer.
- É ridículo. Antes do mais, o nosso dinheiro ainda não se
esgotou e, quando isso acontecer, ambas poderemos conseguir
empregos respeitáveis. As duas sabemos coser. Sei tricotar, e tu
podes ensinar russo, francês ou alemão, ou mesmo inglês se te
esforçares um pouco. - Tinham-lhe ensinado tudo isto no Instituto
Smolny juntamente com outras coisas mais que, agora, de nada
serviam. - Não existe motivo nenhum para te tornares uma bailarina
como... como... - Estava tão furiosa que quase mencionou a mulher
com quem Nicolau se envolvera alguns anos atrás. - Esquece. De
qualquer maneira, não vou permitir-to, Zoya.
- Não tem escolha, avó. - Expressava-se com um calmo
desespero e foi a primeira vez que a avó a viu assim.
- Tens de obedecer-me, Zoya.
- Não o farei. É a única coisa que quero. E quero ajudá-la. -
Os olhos da velha senhora encheram-se de lágrimas ao fitar a neta.
- As coisas chegaram a este ponto? - Aos seus olhos, era um
pouco melhor do que a prostituição, mas não muito.
- O que há assim de tão terrível em ser bailarina? Não a
choca que o príncipe Vladimir conduza um táxi. É algo de tão
respeitável? É muito melhor do que o que quero fazer?
- É patético. - Eugenia fixou-a de coração destroçado. -
Ainda há três meses ele era um homem importante e há muito tempo
o pai tinha peso. Agora tornou-se quase um mendigo... mas nada
mais lhe resta, Zoya... É tudo o que pode fazer. Tudo acabou para
ele e, pelo menos, está vivo. A tua vida ainda agora começou e não
posso permitir que comece dessa maneira. Ficarás destroçada... -
Ocultou o rosto entre as mãos e pôs-se a soluçar. - E há tão pouco
que possa fazer para te ajudar.
Zoya ficou paralisada ao ver a avó chorar. Era a primeira vez que a via vacilar e tocou-lhe até ao mais fundo do seu ser, mas
sabia que tinha de dançar com os Ballets Russes, independentemente
do que pudesse acontecer. Não iria coser, tricotar, nem ensinar
russo.
Abraçou a avó e apertou-a com força.
- Por favor, não chore, avó... Amo-a tanto...
- Então, promete-me que não dançarás com eles... Po favor,

Zova... Suplico-te... não deves fazê-lo.
Fixou a avó com um olhar triste e uma sapiência superior à
sua idade. Crescera demasiado rapidamente naqueles últimos anos
e não havia retorno possível. Ambas o sabiam, por mais que Eugenia
tentasse evitá-lo.
- A minha vida nunca mais voltará a ser igual, nem a sua,
avó, nunca mais. Trata-se de algo que não podemos mudar, mas de
que devemos simplesmente tirar o máximo partido. Não há retorno.
Tal como o tio Nicolau e a tia Alix... Têm de fazer o que há a ser
feito. Como eu... Por favor, não fique zangada...
A velha condessa sentou-se na cadeira com uma expressão de
derrota e fitou Zoya com um semblante infeliz.
- Não estou zangada, estou triste. E sinto-me muito indefesa.
- Salvou-me a vida. Tirou-me de Sampetersburgo... e da
Rússia. Se não fosse a avó, tinham-me morto quando incendiaram a
casa, ou talvez ainda pior... não pode mudar a História, avó.
Apenas podemos dar o nosso melhor... e o meu melhor é dançar...
Deixe-me fazê-lo... por favor... Por favor, dê-me a sua bênção.
A idosa senhora fechou os olhos, pensou no filho único e
abanou a cabeça devagar, fitando Zoya, mas Zoya tinha razão.
Konstantin morrera. Todos tinham desaparecido. O que interessava
isso agora? Mas, acontecesse o que acontecesse, Eugenia sabia que
a neta faria o que desejava e, pela primeira vez desde que se
lembrava, sentia-se demasiado cansada e velha para a enfrentar.
- Tens a minha bênção. Mas és uma rapariguinha endiabrada,
mesmo endiabrada! - Apontou-lhe o dedo e tentou sorrir através das
lágrimas e depois interrogou-se sobre o modo como ela teria
conseguido a audição. - Onde foste arranjar as sapatilhas? - Desde
a chegada a Paris que Zoya não lhe pedira dinheiro.
- Comprei-as. - Esboçou um sorriso malicioso. Pelo menos, era
inventiva, algo que teria agradado ao pai.
- Com o quê?
- Vendi o relógio. De qualquer maneira, era feio. Foi uma das
minhas colegas que mo deu. - E Eugenia apenas conseguiu rir. A
neta era uma jovem fantástica, e a velha senhora amava-a muito por
mais furiosa que estivesse.
- Suponho que devo estar grata por não me teres veridido o
meu.
- Avó! Mas que ideia! Seria incapaz de fazê-lo! - Tentou
parecer ofendida, mas ambas sabiam que não o estava.
- Só Deus sabe do que és capaz!... Tremo só de pensar!
- Parece o Nicolai... - Zoya sorriu tristemente ao pronunciar
a frase, e os olhos cruzaram-se e não se desviaram. Era todo um
mundo novo o que tinham pela frente, cheio de novos principios,
novas ideias, nova gente... e uma nova vida para Zoya.

CAPITULO 11

O seu primeiro ensaio com os Ballets Russes, a 11 de Maio,
foi de arrasar. Acabou às dez dessa noite e Zoya regressou ao
apartamento doida de alegria, mas tão cansada que mal conseguia
mexer-se. Os pés tinham-lhe sangrado quando executara os pas de
deux e os tours jetés uma, duas, vezes sem conta. Fazia com que
os anos com Madame Nastova lhe parecessem uma brincadeira de
criança.
A avó esperavas na pequena sala de estar. Tinham-se mudado

para o apartamento dois dias antes e comprado um pequeno divã e
várias mesinhas. Havia candeeiros com horríveis abat-jours de
franjas e um tapete verde enfeitado de tristes flores em tom
púrpura. Muito longe dos Aubussons, das antiguidades e dos bonitos
objectos que tinham amado. Era, porém, confortável, e Feodor
mantinha-o limpo. No dia anterior, fora até ao campo com o
príncipe Markovski e regressara a casa com o táxi cheio de lenha.
Ardia um fogo acolhedor e a avó esperavas com uma chaleira de chá
fumegante.
- Então, pequenina? Que tal correu? - Continuava a esperar
que Zoya recuperasse o bom senso e abandonasse a ideia de dançar
com os Ballets Russes, mas detectou nos olhos da jovem que a
esperança estava perdida. Não a via tão feliz desde que todo o
pesadelo começara, exactamente há dois meses, com os motins na rua
e a morte de Nicolai. Nada disso fora esquecido, mas a recordação
parecia menos vincada quando ela se deixou cair nas
desconfortáveis cadeiras e esboçou um sorriso de orelha a orelha.
- Foi maravilhoso, avó... simplesmente maravilhoso... mas
estou tão cansada que mal consigo mexer-me. - As longas horas
de ensaio haviam sido terríveis, mas eram estranhamente um
sonho tornado realidade e agora só conseguia pensar no
espectáculo dali a duas semanas. A avó prometera ir e o
príncipe Markovski apareceria na companhia da filha.
- Não mudaste de ideias, pequenina?
Abanou a cabeça com um sorriso cansado e serviu-se de uma
chávena da chaleira a escaldar. Tinham-lhe dito nessa noite que
dançaria nas duas partes do espectáculo e sentia-se muito
orgulhosa do dinheiro que lhe haviam dado. Fê-lo deslizar para a
mão da avó com um tímido ar de orgulho ante as lágrimas que
encheram os olhos de Eugenia. As coisas haviam chegado, então,
àquele ponto. Iria ser sustentada pelo ballet da neta. Era quase
insuportável.
- Para que é isso?
- É para si, avó.
- Ainda não precisamos. - Todavia, as paredes nuas que as
rodeavam e o horroroso tapete verde contrariavam a afirmação.
Tudo o que tinham estava no fio e usado e ambas sabiam que o
dinheiro do colar de rubis não tardaria a desaparecer. Havia,
obviamente, mais jóias, mas não as bastantes para as sustentar
eternamente. - É, de facto, isto o que queres fazer? - perguntou
Eugenia num tom triste, e Zoya acariciou-lhe a face ao de leve e
depois beijou-a.
- Sim, avó... Hoje foi maravilhoso. - Assemelhava-se ao sonho
de dançar com os estudantes do Marinski e nessa noite escreveu a
Marie uma comprida e corajosa carta em que lhe contava tudo,
omitindo apenas o pequeno e horrível apartamento.
Manteve-se sentada na minúscula sala de estar muito depois
de a avó se ter ido deitar e escreveu-lhe sobre as pessoas que
tinham visto, como era Paris e a excitação de dançar com os
Ballets Russes. Quase conseguia divisar o sorriso de Marie.
Endereçou a carta ao Dr. Botkin em Tsarskoie Selo e esperava que
Marie a recebesse decorrido pouco tempo. Escrever-lhe fazia com
que se sentisse mais próximo dela.
No dia seguinte voltou ao ensaio e nessa noite verificou-se
um raíd aéreo. Os três refugiaram-se na adega sob o edificio e
depois regressaram devagar ao andar superior quando tudo acabou.
Era um sinal da guerra que rugia nas proximidades, mas Zoya não
sentia medo. Apenas conseguia pensar na dança.

O príncipe Markovski estava muitas vezes presente quando Zoya
regressava a casa. Tinha sempre histórias para contar e aparecia
frequentemente com bolinhos e fruta, quando conseguia arranjá-los.
Trouxe-lhes mesmo um dos poucos tesouros que ainda conservava, um
valioso ícone que a avó não queria aceitar, mas ele insistiu.
Eugenia estava consciente de como todos precisavam
desesperadamente das coisas que podiam vender, mas Markovski
limitou-se a acenar com a mão elegante de dedos compridos e
afirmou que, de momento, tinha mais do que o necessário. A filha
arranjara um emprego a ensinar inglês.
E na noite do primeiro espectáculo, estavam todos lá, na
terceira fila. Zoya comprara-lhes os bilhetes com o seu salário.
Só Feodor não apareceu. Sentia-se igualmente orgulhoso dela, mas
o ballet era algo fora do seu alcance, e Zoya trouxe-lhe um
programa com o nome dela escrito a letras pequenas próximo do
final. Até mesmo a avó ficara orgulhosa, embora tivesse chorado
de tristeza ao assistir. Teria preferido o que quer que fosse a
vê-Ia no palco como uma vulgar bailarina.
- Foste maravilhosa, Zoya Konstantinovna! - O príncipe fez-
lhe um brinde com champanhe, que comprara, quando regressaram ao
apartamento. - Estamos todos muito orgulhosos de ti! - Sorriu
feliz à jovem ruiva, mau grado um olhar austero e um fungar da
filha. Esta sentia-se chocada pelo facto de Zoya se ter tornado
bailarina. As duas nunca se tinham conhecido, e ela era uma
rapariga alta e magra com todos os sinais exteriores de uma
solteirona. A vida em Paris era-lhe insuportável. Detestava as
crianças a quem ensinava inglês e custava-lhe ver o pai a conduzir
um táxi.
Contudo, Zoya não partilhava nem uma das suas arrogantes
perspectivas. Os olhos pareciam brilhar-lhe de excitação. Tinha
o rosto afogueado quando a farta cabeleira se soltou, depois de
a ter apanhado, como um mar de chamas sobre os ombros. Era uma
bonita rapariga e a excitação da noite contribuíra para lhe
ressaltar a beleza.
- Deves estar muito cansada, pequenina - disse o príncípe num
tom bondoso ao servir a última taça de champanhe.
- Nada mesmo - protestou Zoya, começando a dançar pela
sala. Era muito mais fácil do que tinha sido o ensaio. Fora
tudo o que sempre sonhara e mais. - Não esto cansada. - Sorriu
e depois soltou uma pequena risada ao beber mais um gole do
champanhe, enquanto Yelena, a filha dele, a brindava com um
olhar de censura. Zoya queria ficar a pé toda a noite a contar-
lhes histórias dos bastidores. Precisava de conversar sobre o
assunto com pessoas que se interessavam.
- Foste fantástica! - repetiu ele, e Zoya esboçou um
sorriso.
Era
tão sério e tão velho, mas parecia preocupar-se com
ela. De certa forma, desejava que o pai pudesse ter estado ali,
embora sabendo que vê-Ia em palco lhe partiria o coração. No
entanto, talvez, secretamente, se tivesse orgulhado dela... E
Nicolai... Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ante o
pensamento. Pousou o copo, virou costas e dirigiu-se àjaneIa,
detendo-se a fixar o jardim.
- Estás encantadora esta noite! - sussurrou Vladimir ao
seu lado, e ela ergueu o rosto com um brilho de lágrimas no
olhar. O corpo elegante de Zoya era tão jovem e apetecível.
Ardia de desejo, o que se tornava a tal ponto visível que ela
recuou, com a súbita consciência do que não notara antes. O

príncipe era ainda mais velho do que o pai e sentia-se chocada
ante o que lhe detectou no olhar.
- Obrigada, príncipe Vladimir - agradeceu calmamente e com
uma repentina tristeza ante o desespero em que todos se
encontravam, sedentos de amor e presos a um passado que ainda
podiam partilhar. Em Sampetersburgo, ele nem a olharia duas
vezes, apenas seria uma bonita rapariga, mas agora... agora,
agarravam-se com todas as forças a um mundo perdido e às
pessoas que ali haviam deixado. Ela era apenas uma forma de
prolongar o passado. Gostaria de o ter dito a YeIena, quando
ela se despediu de forma ríspida.
Zoya voltou a pensar no príncipe Vladimir enquanto se
despia e esperava que a avó regressasse da casa de banho do
corredor.
- Foi simpático em trazer-nos champanhe - comentou a avó,
escovando o cabelo, de rosto emoldurado pela camisa de noite
enfeitada que fazia com que parecesse mais nova sob a escassa
luz.
Outrora fora bonita, e os olhos das duas mulheres
cruzaram-se e não se desviaram. Zoya interrogou-se sobre se ela
saberia da atracção de Vladimir. A mão dele tocara-lhe ao
despedirem-se e agarrara-a com demasiada força ao beijá-la na
face.
- A YeIena parece tão triste, não acha? - perguntou Zoya, depois de um longo momento e sem responder ao comentário.
Eugenia esboçou um aceno de concordância e pousou a escova com um ar solene.
- Nunca foi uma criança feliz, tanto quanto me recordo. Os
irmãos eram muito mais interessantes, mais parecidos com o
Vladimir - redarguiu. Recordava o elegante filho do príncipe
que pedira a mão de Tatiana. - É um homem atraente, não achas?
Zoya virou costas por um momento e depois rodou sobre os
calcanhares e declarou com franqueza:
- Acho que ele gosta de mim, avó... Demasiado... - Hesitou
e Eugenia franziu o sobrolho.
- O que pretendes dizer?
- Que ele... - Corou violentamente sob a luz fraca,
exibindo de novo o ar de uma criança - Que ele... tocou-me na
mão esta noite... - Parecia estúpido estar com aqueIas
explicações... Talvez o gesto nada significasse.
- És uma rapariga bonita e talvez lhe despertes memórias.
Acho que ele era muito amigo da tua mãe e sei que se dava muito
com o Konstantin na juventude de ambos. Caçaram mais do que uma
vez na companhia do Nicolau... Não sejas tão sensível, Zoya. É
um homem bem-intencionado. E foi simpático em vir ver-te esta
noite. Está apenas a ser bondoso, miúda.
- Talvez - anuiu Zoya, despreocupada. Em seguida, apagaram
a luz e meteram-se na estreita cama que partilhavam. No escuro,
a jovem ouvia Feodor a ressonar no quarto ao lado e mergulhou
no sono, pensando na magia do espectáculo.
Contudo, na manhã seguinte, teve a certeza de que Vladimir
não estava somente a ser bondoso. Esperava-a lá em baixo,
quando saiu para o ensaio.
- Queres uma boléia? - Ficou surpreendida ao vê-lo ali e
ele trazia-lhe flores.
- Não quero dar-lhe trabalho... Tudo bem. - Teria
preferido percorrer a pé a distância que a separava do
Châtelet. Ele fazia com que se sentisse subitamente

desconfortável ante a forma como a olhava. - Gosto de andar a
pé.
Estava um dia bonito e sentia-se excitada por ir ensaiar
novamente. Os Baliets Russes, eram o seu maior prazer daquele
dias e não queria partilhá-lo com ninguém, nem mesmo com o
elegante príncipe de cabelos brancos que lhe estendia rosas
brancas com um gesto galante.
As flores apenas contribuíam para que ficasse triste.
Marie sempre lhe dera rosas brancas na Primavera, mas ele não
poderia saber. Nada sabia sobre ela, era amigo dos seus pais,
não dela, e sentiu-se repentinamente deprimida ao vê-lo ali de
pé, de casaco gasto e colarinho enrugado. Como todos os
restantes, deixara tudo para trás à excepção da vida, algumas
jóias e o ícone que lhe oferecera há uns dias.
- Talvez a avó gostasse que lhe fizesse uma visita -
sugeriu com um sorriso delicado, e ele pareceu magoado.
- É assim que me vês? Como um amigo da tua avó? - Não
queria responder-lhe afirmativamente, mas era essa a verdade.
Parecia-lhe mil anos mais velho, ali de pé, olhando-a. -
Consideras-me assim tão velho?
- De forma alguma... Lamento... Tenho de ir... Vou chegar
atrasada e zangam-se comigo.
- Nesse caso, deixa-me levar-te. Podemos falar no caminho.
Hesitou, mas iria chegar atrasada. Permitiu, relutante,
que ele lhe abrisse a porta do táxi e entrou, deixando que as
rosas brancas os se arassem, no assento. Era simpático da parte
dele trazer-lhe presentes, mas sabia que dificilmente podia
dar-se a esse luxo. Não era de admirar que Yelena se mostrasse
aborrecida.
- Como está a Yelena? - perguntou para passar o tempo e
evitou-lhe os olhos, fixando os outros carros e só depois
voltando a encará-lo. - Pareceu-me muito quieta na noite
passada.
- Não se sente feliz aqui - suspirou. - Não acho que muitos
de nós se sintam. É uma mudança tão repentina e ninguém estava
preparado... - Pronunciou as palavras e depois estendeu o braço
e tocou-lhe na mão, sobressaltando-a com o seguimento da conversa:
- Achas que sou velho de mais para ti, minha querida Zoya?
A voz prendeu-se-lhe na garganta e soltou delicadamente a
mão.
- É o amigo do meu pai - respondeu com uma expressão triste.
- Torna-se difícil para todos nós, todos nos agarramos ao que já
não temos. Talvez eu represente isso para si.
- É o que pensas? - Sorriu. - Sabes que és muito bonita?
Zoya sentiu-se corar e amaldiçoou no íntimo a suave tez que
condizia com a farta cabeleira.
- Muito obrigada. Mas sou mais nova do que a Yelena... Tenho
a certeza de que ela ficaria muito perturbada... - Foi tudo o que
conseguiu proferir, ansiando por que chegassem ao Châtelet e
pudesse esquivar-se.
- Ela tem a vida dela, Zoya. E eu tenho a minha. Gostaria de
levar-te a jantar. Talvez ao Maxim's. - Era uma loucura: o
champanhe... as rosas... a ideia de jantar no Maxim's. Estavam
todos a morrer de fome, ele conduzia um táxi, ela dançava nos
Ballets Russes e não fazia sentido que gastasse o pouco que tinha
com ela. O príncipe era velho de mais, mas não queria ser
indelicada.
- Não me parece que a avó... - Virou uns olhos tristes na sua

direcção e ele pareceu descontente.
- Ficarias melhor com um de nós, Zoya Konstantinovna, alguém
que conheça o teu mundo, do que um jovem idiota.
- Não tenho tempo para nada disso, Vladimir. Se me mantiverem
nos Ballets, terei de trabalhar noite e dia para não perder o
lugar.
- Podemos descobrir tempo. Irei buscar-te à noite... - A voz
tornou-se um sussurro e fitou-a com expectativa, mas ela abanou
a cabeça com uma expressão infeliz.
- Não posso... a sério que não. - Verificou, aliviada, que
tinham chegado e virou-se para o fitar uma última vez. - Por
favor, não espere por mim. Apenas quero esquecer... O que foi...
é impossível recuperar. Não estaria certo para nós... por favor...
Vladmiir não pronunciou uma só palavra quando ela deslizou
para fora do carro e se afastou a toda a pressa, deixando as rosas
brancas no assento ao lado dele.

APITULO 12

- O Vladimir trouxe-te a casa? - A avó sorriu ao vê-la entrar
e Zoya reparou com um aperto no coração que as rosas brancas se
encontravam numa jarra ao seu lado.
- Não. Um dos outros deu-me boleia. - Sentou-se com um
sorriso e esfregou as pernas. - Hoje, foi difícil. - Contudo, não
se importava, pois dançar com os Ballets Russes fazia com que se
sentisse outra vez viva.
- Ele disse que te trazia a casa - replicou Eugenia,
franzindo o sobrolho. Trouxera-lhe pão fresco e um frasco de
compota. Era um homem tão generoso e tratava-as tão bem. E,
estranhamente, Eugenia sentia-se confortada ao pensar nele a tomar
conta de Zoya.
- Avó... - Zoya fitou-a, tentando encontrar as palavras. -
Não quero.
- Porque não? Estás muito mais segura com ele do que com
alguém que não conheças. - Ele próprio lho dissera nessa tarde
quando fora ao apartamento deixar as rosas de Zoya, e o desgosto
por ver a neta a dançar com os Ballets Russes atingiu-a, de novo,
como uma faca no coração, mas sabia que nada poderia detê-la
agora. E tinha de admitir que uma delas precisava de trabalhar,
e Zoya era a única em condições de o fazer. Apenas desejava que
tivesse encontrado outra ocupação, como as aulas de YeIena. E se
Vladimir a tomasse sob a sua protecção, talvez a neta deixasse de
dançar. O príncipe apenas o sugerira nessa tarde, o que fizera com
que o visse sob uma perspectiva diferente. A de herói e salvador.
- Avó... Acho que o príncipe Vladimir... Acho que tem algo
mais em mente.
- É um homem decente. Com boas maneiras e bem-nascido. Era
um amigo do Konstantin. - Eugenia não queria abrir o jogo cedo de
mais, embora Vladimir a tivesse convencido.
- Mas era a isso mesmo que me referia. Era amigo do paPá.
E não meu. Deve ter sessenta anos.
- É um príncipe russo e primo do czar.
- O que justifica tudo? - retorquiu Zoya, irritada e
levantando-se de um salto. - Não se importa que tenha idade
bastante para ser meu avô?
- Ele não quer o teu mal, Zoya... Alguém tem de tomar conta

de ti. Estou com oitenta e dois anos... Não estarei eternamente
ao teu lado... Tens de pensar nisso. - E, no íntimo, ficaria
aliviada por saber que deixava Zoya nas mãos de Vladimir. Pelo
menos, era alguém que conhecia, alguém que compreendia a vida que
haviam levado antes. Ninguém em Paris o compreenderia à excepção
dos seus e deitou um olhar implorativo a Zoya, suplicando-lhe em
silêncio que pensasse no assunto, mas a jovem estava horrorizada.
- Queria que casasse com ele? É esse o seu desejo? - Os olhos
encheram-se-lhe de lágrimas ante a ideia. - É um velho.
- Tomaria conta de ti. Pensa em como tem sido bom para nós,
desde que chegámos.
- Não quero ouvir falar mais disto! - Correu para o quarto,
bateu a porta e atirou-se para cima da cama, chorando
desesperadamente. Era o que lhe restava? A perspectiva de
casamento com um homem do triplo da sua idade, só porque era um
príncipe russo? A ideia repugnava-a e fazia com que tivesse ainda
mais saudades da vida e dos amigos perdidos.
- Zoya... Não... querida, por favor... - A avó veio sentar-se
na beira da cama e acariciou-lhe suavemente o cabelo. - Não estou
a forçar-te a fazer algo que não queiras. Contudo, preocupo-me
demasiado contigo. O Feodor e eu somos tão velhos... Tens de
encontrar alguém que possa tomar conta de ti.
- Tenho dezoito anos - soluçou. - Não quero casar com
ninguém... E muito menos ele... - O príncipe em nada a atraía e
odiava Yelena. A ideia de se ver condenada a viver com eles,
punha-a histérica. Apenas desejava dançar, ganharia dinheiro
bastante para se sustentar, a Feodor e à avó. Jurou para si
própria que faria tudo de preferência a casar com um homem que não
amava. Trabalharia noite e dia... Faria qualquer coisa...
- Está bem... está bem... Por favor, não chores assim... por
favor... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ao pensar na
crueldade do seu destino. Talvez a neta tivesse razão. Fora apenas
uma ideia. Vladimir era obviamente velho de mais, mas era um
deles, o que se tornava muito importante aos seus olhos.
Contudo, havia outros que tinham sobrevivido, havia
igualmente homens mais novos. Talvez Zoya viesse a conhecer um
deles e se apaixonasse. Era a sua maior esperança agora. Era a
única esperança que lhe restava... essa e as poucas jóias
escondidas na cama onde dormiam. Nada mais restava... à excepção
de alguns diamantes e esmeraldas, uma fieira de pérolas
requintadas e o ovo Fabergé que Nicolau lhe dera... e uma vida de
sonhos quebrados.
- Vá lá, Zoya... Seca as lágrimas. Vamos dar um passeio.
- Não - recusou a neta num tom de voz infeliz, enterrando
novamente o rosto na cama. - Ele estará à nossa espera, lá em
baixo.
- Não sejas ridícula - contrapôs Eugenia a sorrir, pensando
como ela era ainda uma criança, embora tivesse crescido
rapidamente nos últimos dois meses. - Tem uns modos impecáveis.
Não é um desordeiro à solta pelas ruas. Deixa de ser idiota.
Zoya rolou devagar e ficou de costas, parecendo de uma beleza
incrível.
- Desculpe, avó. Não quero torná-la infeliz. Prometo que
tomarei conta de nós.
- Não é o que quero para ti, pequenina. Quero que alguém tome
conta de ti. É assim que deveria ter sido.
- Todavia, tudo é diferente agora. Nada é como era. - Sentou-
se, esboçando um sorriso tímido. - Talvez um dia venha a ser uma

bailarina famosa. - Parecia entusiasmada com a ideia, e Eugenia
soltou uma gargalhada.
- Deus me ajude, mas quase acho que estás a gostar de tudo
isto.
- Adoro os Baflets Russes, avó - replicou Zoya com um sorriso franco.
- Eu sei. E és muito boa. Contudo, não deves pensar nisso
como algo que farás para toda a vida. Fá-lo agora, se tem de ser.
Mas,um dia, as coisas voltarão a mudar. - Não era uma promessa,
e sim uma oração.
No entanto, quando Zoya pôs as pernas fora da cama e foi
buscar o casaco, apercebeu-se de que não estava certa de querer
a mudança. Adorava dançar com os Ballets Russes... muito mais do
que a avó conseguia entender.
Ao caminharem devagar rumo ao Palais Royal, observando as
arcadas e os objectos expostos, Zoya sentiu um estremecimento de
alegria que lhe invadia a alma. Paris era bonita e gostava das
pessoas dali. A vida não era assim tão má. Sentiu-se
repentinamente feliz e jovem. Demasiado jovem para desperdiçar a
vida com o príncipe Vladimir.

CAPITULO 13

Zoya dançou com os Ballets Russes durante todo o mês de Junho
e estava tão absorta no seu trabalho que mal se apercebia do que
se passava no mundo. Ficou extraordinarianiente surpreendida com
a chegada do general Pershing e das suas tropas a 13 de junho.
A cidade fervilhou, quando marcharam até à Praça da Concórdia e
desfilaram junto ao Hotel Crillon. O povo gritava e acenava e as
mulheres atiravam flores aos homens, gritando: "Víve l'Amérique!"
Zoya mal conseguiu regressar ao Palais Royal, a fim de contar à
avó o que tinha visto.
- São aos milhares, avó!
- Nesse caso, talvez a guerra acabe em breve para nós.
Sentia-se exausta com os raids aéreos nocturnos e uma parte
secreta dela pensava que, se a guerra terminasse, talvez a
situação mudasse novamente na Rússia e pudessem voltar. Contudo,
a maioria das pessoas sabia que não havia esperança.
- Quer ir dar um passeio e ver? - Os olhos de Zoya brilhavam.
Havia algo de maravilhoso nos rostos esperançados dos franceses
e nos homens vigorosos com uniformes de caqui, tão fortes e cheios
de vida. Por todo o lado, parecia renascer a esperança, mas a avó
limitou-se a abanar a cabeça.
- Não tenho qualquer desejo de ver soldados nas ruas, miúda.
- Nutria terríveis recordações, sentia-se a salvo em casa e
incitou Zoya a que ficasse também. - Afasta-te deles. As multidões
podem tornar-se rapidamente perigosas.
Não havia, porém, qualquer indício de que assim fosse. Era
um dia feliz para todos, e os ensaios haviam sido suspensos
durante o resto da semana. Pela primeira vez num mês, Zoya
dispunha de algum tempo para si, para ficar na cama, ir passear,
sentar-se junto à lareira e ler. Sentia-se despreocupada e jovem
e usufruía daquele momento.
Nessa noite, sentou-se na sala de estar e escreveu uma longa
carta a Marie, falando-lhe da marcha de Pershing e do seu trabalho
no ballet. Parecia haver mais para lhe relatar agora, embora não

mencionasse o príncipe Vladimir. Sabia que a amiga ficaria chocada
se soubesse que a avó encorajava a conquista, mas tornara-se uma
questão insignificante. Ele compreendera e, embora continuasse a
trazer pão fresco à condessa enquanto Zoya trabalhava, há semanas
que não se cruzavam.
Enquanto escrevia a Marie nessa noite, a pequena Sava
aninhava-se confortavelmente no seu colo, ressonando, feliz. "...
Parece-se tanto com a Joy que me faz pensar em ti, mal entra aos
saltos no quarto. Embora não precise deste tipo de coisas para te
recordar. Parece-me incrível que estejamos em Paris e tu aí... e
que não nos encontremos em Livadia neste Verão. Aquela fotografia
idiota de todas nós está junto à rninha cama..."
Zoya olhava-a todas as noites, antes de adormecer. Trouxera
igualmente uma fotografia de Olga com Alexis ao colo quando ele
tinha três ou quatro anos... e uma muito bonita de Nicolau e
Alexandra. Meras recordações agora, mas o facto de escrever à
amiga conservava-as vivas no seu coração.
Há uma semana, o Dr. Botkin enviara-lhe uma carta de Marie
em que ela comunicava a Zoya que estava tudo bem, embora se
mantivessem sob prisão domiciliária. Contudo, haviam-nos informado
que iriam até Livadia, em Setembro. E estava recuperada.
Desculpava-se por ter pegado o sarampo a Zoya e dizia que gostava
de a ter visto coberta de manchas. A leitura das cartas provocava-
lhe um sorriso por entre as lágrimas.
Estava a reler a carta, quando chegou uma mensagem. Iria
dançar Petruchka na Opéra para o general Pershing e as suas
tropas. Como sempre, a avó não ficou nada feliz com as notícias.
Dançar para os soldados ainda parecia pior do que o espectáculo
no Châtelet, mas desta vez nem sequer tentou dissuadir Zoya,
sabendo perfeitamente que não tinha qualquer hipótese de ser bem
sucedida.
Nessa altura, Pershing e os soldados estavam instalados no
quartel-general da Rue Constantine, do outro lado dos Invalides,
e ele vivia na margem esquerda, próximo da Rue de Varennes, num
belo hôtel particulier que lhe fora cedido por Ogden Mills, um
colega americano que estava em serviço algures na infantaria.
- Esta noite, quero que o Feodor te acompanhe - decidiu a avó
num tom sombrio, quando a neta se dispunha a sair para a Opéra.
- Deixe-se disso, avó. Não podem ser diferentes dos generais
russos. Tenho a certeza de que se comportarão devidaMente. Não vão
tomar o palco de assalto para nos levarem com eles. - Nessa noite,
Nijinski dançava com eles, e Zoya estava hilariante. Pisar o mesmo
palco era algo que a ultrapassava. - Tudo correrá bem, garanto.
- Não irás só. Ou com o Fecodor ou com o príncipe Vladimir.
Escolhe. - Sabia perfeitamente qual seria a opção, embora
intimamente o lamentasse, mas não voltara a pressionar Zoya quanto
ao príncipe. De certa forma, a neta tinha razão. Havia uma grande
diferença de idades.
- Muito bem - retorquiu Zoya a rir. - Levo o Feodor. Mas ele
vai ficar infelicíssimo à espera nos bastidores.
- Não, se estiver à tua espera, minha querida. - O velho
criado servia-as com uma devoção que roçava o fanatismo, e Eugenia
sabia que Zoya estaria a salvo com ele ao seu lado. E Zoya apenas
concordou para sossegar a avó.
- Diz-lhe pelo menos que não deve pôr-se no meio do caminho.
- Nunca o faria.
Meteram-se juntos num táxi para a Opéra e, momentos depois,

Zoya desapareceu no meio dos preparativos do espectáculo para
Pershing e os seus homens. Sabia que havia outros festejos
planeados para eles na Opéra Comique, na Comédie-Française e
noutros teatros espalhados pela cidade. Paris recebia-os de braços
abertos.
E nessa noite, quando a cortina subiu, dançou como nunca. O
facto de saber que Nijinski estava ali incitou-a, e Diaghilev
falou-lhe pessoalmente no final do primeiro acto. Sentia-se como
se fosse capaz de voar depois das suas generosas palavras,
entregou-se de alma e coração e, quando a cortina desceu, ficou
surpreendida por o espectáculo ter passado num ápice. Queria que
aquela noite nunca mais acabasse.
Esboçou as vénias com o resto do corpo de bailado e retirou-
se com eles para o camarim comum. As primeiras bailarinas tinham
obviamente os seus próprios camarins, mas decorreriam anos antes
que pudesse formular esse desejo, só que não lhe importava.
Apenas queria dançar e era o que acontecia. Dançara bem e sentia-
se orgulhosa quando descalçou as sapatilhas. Doíam-lhe os dedos
dos pés dos tacos de madeira, mas nem isso tinha qualquer
significado. Era um pequeno preço a pagar por tamanha alegria.
Até esquecera o general e os seus acompanhantes. Nessa noite, só
conseguia pensar no ballet enquanto dançava, dançava, dançava...
e ergueu os olhos, surpreendida, quando uma das professoras
entrou.
- Estão todos convidados para uma recepção na casa do general
- anunciou. - Dois camiões militares irão levá-los lá. - Deitou-
lhes um olhar orgulhoso. Todos haviam feito boa figura a nível
individual e generalizado. - Champanhe para todos! - acrescentou
com um sorriso e todos se puseram a rir e a falar.
Paris parecia ter recuperado vida com os americanos por
perto. Havia festas e espectáculos por todo o lado e, de súbito,
Zoya pensou em Feodor, que a esperava lá fora. Queria
absolutamente ir com eles, ser como o resto das pessoas, mau grado
os receios da avó.
Deslizou sem ruído até ao exterior, foi à procura de Feodor
e descobriu-o de pé junto à porta do palco, com um ar tão triste
como ela dissera à avó que seria o caso. Sentia-se ridículo,
rodeado por mulheres envoltas em tule e homens que passavam por
ele seminus. A óbvia imoralidade do ambiente horrorizava-o.
- Sim, mademoiselle?
- Tenho de ir a uma recepção com o resto do corpo de bailado
e não posso levar-te, Feodor - explicou. - Vai para casa ter com
a avó e diz-lhe que irei assim que puder.
- Não - recusou, abanando solenemente a cabeça. - Prometi à
condessa Eugenia Peterovna que a levaria a casa.
- Mas não podes acompanhar-nos. Garanto-te que estarei a
salvo.
- Ela ficará muito zangada comigo.
- Não, não ficará. Eu própria lhe explicarei quando chegar
a casa.
- Esperarei. - Fitou-a sem se deixar demover, e Zoya sentiu
vontade de gritar. Não queria uma dama de companhia. Queria ser
como todos os outros. Afinal, já não era um bebé. Era uma jovem
adulta, de dezoito anos. E talvez, se tivesse muita, muita sorte,
Nijinski lhe dirigisse a palavra... ou novamente Mr. Diaghilev.
Estava muito mais interessada neles do que em qualquer dos homens
de Pershing. Contudo, primeiro tinha de convencer Feodor a ir para
casa e, por fim, depois do que lhe pareceu uma discussão

infindável, ele acedeu, embora sem deixar de vincar que a condessa
decerto ficaria furiosa com ele.
- Prometo-te que lhe explico tudo.
- Muito bem, mademoiselle. - Levou a mão à testa, esboçou uma
vénia e saiu pela porta do palco. Zoya soltou um suspiro de
alívio.
- O que era? - inquiriu uma das outras bailarinas, quando
passou junto dela.
- Apenas um amigo de família. - Sorriu.
Ninguém conhecia a sua vida e ninguem queria saber. Apenas
lhes interessava o ballet e não os relatos piegas de como
conseguira juntar-se ao corpo de bailado e a presença do velho
criado, qual guarda cossaco, embaraçava-a. Ficou aliviada ao vê-lo
afastar-se e pôde voltar ao camarim e mudar-se para a recepção na
casa do general Pershing. Estava toda a gente muito animada e
alguém já lhes começara a servir champanhe.
Amontoaram-se alegremente nos camiões militares e
atravessaram a Ponte Alexandre III entoando velhas canções russas
e tiveram de lhes recordar mais do que uma vez que se portassem
bem durante o percurso até à casa do general Pershing. Contudo,
ele tinha um ar bondoso e recebeu-os agradavelmente, um homem alto
e magro de uniforme, que circulava pelo elegante átrio de mármore.
Por momentos, Zoya sentiu um baque no coração ao olhar em
volta. O ambiente recordava-lhe os palácios de Sampetersburgo,
embora obviamente em ponto pequeno. Todavia, o chão de mármore e
a escadaria em caracol eram-lhe demasiado familiares e uma
recordação demasiado viva do mundo que ainda há tão pouco tempo
abandonara.
Foram encaminhados até um enorme salão de baile com paredes
forradas de espelhos e lareiras de mármore, tudo em autêntico
estilo Luís XV. De súbito, Zoya voltou a sentir-se muito jovem
enquanto os pares rodopiavam e riam e uma banda militar pôs-se a
tocar uma valsa lenta. Outros bebiam champanhe. Invadiu-a um
desejo imperioso de chorar ao ouvir a música e, ao faltar-lhe o
ar, saiu para o jardim.
Ficou silenciosamente de pé a observar uma estátua de Rodin,
desejando não ter vindo, e nesse momento uma voz mesmo nas suas
costas expressou-se suavemente na noite quente.
- Posso ir buscar-lhe alguma coisa, mademoise11e? - A voz
masculina era nitidamente americana, mas falava um francês
impecável. Virou-se e deparou com um homem alto e atraente, de
cabelo grisalho e uns olhos azul-claros. A primeira coisa que lhe
prendeu a atenção foi que ele parecia bondoso. Dava a sensação de
saber que algo estava mal e observou-a delicadamente, mas ela
abanou a cabeça com as lágrimas ainda visíveis nas faces. - Está
bem?
Zoya esboçou um aceno de cabeça silencioso e depois virou-se,
embaraçada, para limpar as lágrimas. Pusera um simples vestido
branco que Alix lhe tinha dado no ano anterior. Era um dos poucos
bonitos que conseguira trazer de Sampetersburgo, e estava
encantadora.
- Desculpe... eu... - Como podia expressar-lhe o que sentia?
Só desejava que ele a deixasse entregue às suas recordações, mas
o americano não fez menção de se afastar. - Tudo isto é tão
bonito. - Foi tudo o que conseguiu dizer, mas logo lhe ocorreu o
miserável apartamento perto do Palais Royal e voltou a lembrar-se
de quanto as suas vidas haviam mudado num marcante contraste com
o elegante jardim onde agora se encontrava.

- Está com os Ballets Russes?
- Sim. - Sorriu, esperando que ele esquecesse as lágrimas e
ouvisse os acordes distantes de uma outra valsa. Pronunciou as
palavras num tom orgulhoso, pensando novamente em como tinha
sorte: - O Nijinski não esteve maravilhoso esta noite?
O homem riu, embaraçado, aproximou-se um pouco mais e Zoya
voltou a reparar em como era alto e atraente.
- Receio não ser um grande apreciador de ballet. Foi um
espectáculo oferecido a alguns de nós esta noite.
- Ah! - exclamou, sorrindo. - E sofreu muito?
- Sim - anuiu com uma gargalhada no olhar. - Até este
momento. Quer uma taça de champanhe?
- Talvez dentro de minutos. Isto é tão bonito. - O jardim
irradiava uma paz imensa naquele momento em que todos dançavam,
riam e rodopiavam no interior da casa. - Também vive aqui?
- Alojaram-nos numa casa na Rue du Bac - respondeu com um
sorriso. - Não é tão imponente como esta, mas é muito agradável
e bastante próxima.
Observava-lhe os movimentos. Era uma jovem calma e elegante
e transmitia algo mais do que a graciosidade de uma bailarina ao
aproximar-se dele. Notava-se uma aura de um porte quase real
quando movia a cabeça e um olhar de uma incomensurável tristeza
que lhe ensombrava o sorriso.
- Faz parte do pessoal do general?
- Sim. - Era um dos ajudantes-de-campo, mas poupou-a a
pormenores. - Há muito que está com os Ballets Kusses? - Era
impossível que assim fosse, pois suspeitava tratar-se de uma
rapariguinha, embora denotasse um porte vincado quando finalmente
mudaram do francês para o inglês. Falava muito bem, depois de
todos os seus estudos no Instituto Smolny.
- Estou com eles há um mês - Sorriu. - Com grande desgosto
da minha avó. - Riu e pareceu subitamente muito mais nova.
- Os seus pais devem orgulhar-se muito de si. - Contudo,
lamentou de imediato o comentário ao detectar-lhe a tristeza no
olhar.
- Os meus pais foram mortos em Sampetersburgo... em Março...
- Quase sussurrou as palavras, e subitamente ele compreendeu. -
Vivo com a minha avó.
- Lamento... pelos seus pais, quero dizer... - O brilho dos
olhos azuis quase a fez chorar novamente. Era a primeira vez que
falava assim com alguém. Os companheiros do ballet pouco sabiam
a seu respeito, mas por qualquer motivo achava que podia contar-
lhe tudo. Ele recordava-lhe estranhamente KOnstantin, com a mesma
elegância, a graciosidade com que se movia, o cabelo de madeixas
grisalhas e os olhos brilhantes. - Veio para cá com a sua avó? -
Ignorava porquê, mas ela fascinava-o. Era tão jovem e bonita, com
aqueles enormes e tristes olhos verdes.
- Sim, viemos há dois meses... de... depois... - Todavia, foi
incapaz de completar a frase, e ele aproximou-se, colocando-lhe
suavemente a mão no braço.
- Vamos dar um passeio, mademoiselle? - Zoya sentia-se segura
com a mão no braço dele. - E depois talvez uma taça de champanhe.
- Caminharam até à estátua de Rodin e voltaram, falando de Paris,
da guerra, de temas que lhe eram menos dolorosos, e a jovem ergueu
o rosto na sua direcção, sorrindo.
- E de onde é?
- Nova Iorque. - Nunca pensara muito nos Estados Unidos.
Parecia-lhe a uma enorme distância.

- Como é?
- Grande e agitada - respondeu com uma gargalhada e fitando-
a. - Não tão bonito como aqui, receio, mas agrada-me. - Queria
interrogá-la sobre Sampetersburgo, mas pressentiu que não era a
altura nem o lugar. - Dança todos os dias?
- Quase. Até ao espectáculo desta noite, tive uma semana de
terias - replicou.
- E o que faz... nos tempos livres?
- Vou passear com a minha avó, escrevo aos amigos, leio...
durmo... brinco com a minha cadela.
- Parece uma vida agradável. De que raça é a cadela? - Eram
perguntas disparatadas, mas queria conservá-la perto dele e
ignorava porquê. A jovem tinha visivelmente metade da sua idade,
mas era de uma beleza que lhe dilacerava o coração.
- Uma cocker spaniel. - Sorriu. - Foi um presente de uma
amizade muito grande.
- Um cavalheiro? - Parecia intrigado e ela riu.
- Não, não! Uma amiga! Na verdade, a minha prima.
- Trouxe a cadela da Rússia consigo? - Sentiu se fascinado
por ela, quando inclinou a cabeça e a cascata de cabelo J ruivo
lhe encobriu os olhos.
- Sim, trouxe. E acho que para ela a viagem foi muito mais
facil. Cheguei a Paris com sarampo. - Voltou a erguer o rosto
na sua direcção e esboçou um sorriso, parecendo novaniente uma
miúda. - Uma estupidez, não foi? - Contudo, ele em nada a
achava estúpida e tomou a súbita consciência de que nem sabia
como ela se chamava.
- De forma alguma. Acha que devemos apresentar-nos?
- Zoya Ossupov. - Esboçou uma ligeira vénia e fitou-o.
- Clayton Andrews. Capitão Clayton Andrews, suponho que devia
ter dito.
- O meu irmão também era capitão... na Guarda Preobrajenski.
julgo que nunca tenha ouvido falar. - Observou-o na expectativa
e ele apercebeu-se novamente da tristeza espalhada no olhar.
Aparentemente, mudava de humor à velocidade de um raio e, ao
examiná-la pela primeira vez, compreendeu o que levava as pessoas
a afirmar que os olhos são o espelho da alma. Os dela pareciam dar
para um mundo mágico de diamantes, esmeraldas, lágrimas contidas,
e desejou torná-la de novo feliz, fazê-la dançar, rir e sorrir.
- Receio não saber muita coisa sobre a Rússia, Miss Ossupov.
- Nesse caso estamos quites - retorquiu, sorrindo. - Nada sei
sobre Nova lorque.
Ele acompanhou-a até ao salão de baile e trouxe-lhe uma taça
de champanhe, enquanto os outros dançavam a valsa.
- Apetece-lhe dançar?
Zoya pareceu hesitar e, em seguida, esboçou um aceno de
concordância. Ele pousou a taça dela numa mesa próxima e guiou-a
pelo chão numa lenta e digna valsa, fazendo-a uma vez mais sentir-
se como se dançasse nos braços do pai. Se fechasse os olhos,
estaria de volta a Sampetersburgo... mas a voz dele interrompeu-
lhe os pensamentos.
- Dança sempre com os olhos fechados, mademoiselle? -
Troçava dela, e Zoya sorriu. Era bom estar nos seus braços, era
bom dançar com um homem alto e robusto... numa noite mágica...
numa bela casa...
- Tudo isto é tão encantador... não é?
- Agora, é. - Contudo, gostara de ter estado no jardim com
ela. Era mais facil falar-lhe ali do que no meio da música e

daquela multidão. E, no final da dança, o general Pershing fez-lhe
sinal; ele deixou-a e, quando voltou a procurá-la, a jovem
desaparecera.
Procurou-a por todo o lado e saiu novamente para o jardim,
mas ela não se via em parte alguma e, quando se inteirou,
responderam-lhe que o grupo do primeiro camião dos Ballets Russes
deixara a festa. Regressou pensativamente ao seu alojamento,
vagueando pela Rue du Bac, recordando o nome dela e os enormes
olhos verdes e interrogando-se sobre quem seria. Havia algo de
profundamente intrigante naquela jovem.

CAPITULO 14

- Da próxima vez que mandar o Feodor acompanhar-te a qualquer
lado, Zoya Konstantinovna, queres, por favor, ter a bondade de não
o mandares para casa?
A velha condessa mostrava-se furiosa quando tomaram o
pequeno-almoço juntas no dia seguinte. Feodor regressara com ar
tímido e explicara que os soldados tinham convidado o corpo de
bailado a ir algures e ele não estava incluído. A avó esperava-a
quando ela voltou, quase demasiado furiosa para lhe dirigir a
palavra, e, de manhã, a fúria não se apagara ao fitar Zoya.
- Desculpe, avó. Não podia levar o Feodor comigo. Era uma
bela recepção na casa do general Pershing. - Lembrou-se
imediatamente dos jardins e do capitão que havia conhecido, mas
não divulgou pormenores à avó.
- Ah! Já chegámos a esse ponto, então? Entreter as tropas?
E o que se segue? É precisamente esse o motivo por que as jovens
não fogem para fazer parte do ballet. Não é digno. E não vou
tolerá-lo. Quero que saias imediatamente do ballet!
- Avó... por favor... sabe que não posso!
- Podes, se te ordenar.
- Avó... por favor, não faça isso... - Não lhe apetecia
discutir. Passara uns momentos tão agradáveis na noite anterior...
e o atraente capitão tinha sido tão simpático ou assim lhe
parecera. Mesmo assim, não o referiu à avó. Não achou apropriado
e, de qualquer maneira, sabia que os caminhos de ambos jamais se
cruzariam de novo. - Desculpe. Não voltarei a fazê-lo. - Não que
tivesse oportunidade. Era pouco provável que o general Pershing
oferecesse festas aos Ballets kusses depois de todos os
espectáculos.
Levantou-se e a avó fixou-a.
- Onde vais, agora?
- Hoje, tenho um ensaio.
- Estou tão cansada disto!- Pôs-se de pé e começou a andar
à roda do quarto num passo ainda muito ágil. - Ballet, ballet,
ballet! Chega!
- Sim, avó.
Eugenia ia vender outro colar, desta vez um de esmeraldas.
Talvez, então, Zoya desistisse desses disparates por uns tempos.
Tinha a sua conta. A jovem não era uma bailarina. Era uma criança.
- A que horas chegarás a casa esta noite?
- Devo estar de volta às quatro da tarde. O ensaio começa às
nove da manhã e não tenho espectáculo.
- Quero que penses em deixá-los. - Contudo, ambas sabiam
que Zoya gostava demasiado do que fazia e o dinheiro ajudava,

por mais que a ideia desagradasse à condessa. Na semana
anterior, a neta comprara-lhe um belo vestido e um xaile
quente. E o salário também ajudava a pagar a comida, embora não
houvesse extras, salvo os que Vladimir ainda trazia com a
esperança de conseguir ver Zoya de relance.
- Iremos dar um passeio esta tarde, quando eu regressa a
casa.
- O que te leva a pensar que me apetece passear contigo? -
resmungou a avó e Zoya riu.
- Porque me ama muito. E eu a si. - Beijou-lhe a face e
correu para a porta, como uma rapariguinha atrasada para as
aulas.
A velha senhora suspirou e levantou da mesa os pratos do
pequeno-almoço. Era tão difícil tê-la ali. As coisas eram muito
diferentes e a parte pior residia em que a idosa senhora
detestava admitir para si própria que Zoya já não era uma
criança e näo era fácil controlá-la.
Nesse dia, o ensaio de Zoya voltou a ser na Opéra como
preparação de outro espectáculo no dia seguinte e ela dançou e
praticou na barra durante horas seguidas. Quando acabou, antes das
quatro, sentia-se cansada depois da recepção até tarde na casa do
general Pershing. Era uma tarde soalheira da última semana de
Junho e pOs-se a caminhar com um suspiro de satisfação.
- Parece cansada, Miss Ossupov. - Virou-se, surpreendida, ao
ouvir o seu nome e deparou com Clayton Andrews, de pé junto a um
dos carros da comitiva do general Pershing.
- Olá... Assustou-me.
- Estou aqui à espera há duas horas - Riu e ela fitou-o de
olhos muito abertos.
- Esperou-me todo este tempo?
- Não tive oportunidade de me despedir de si na noite
passada.
- Julgo que estava ocupado quando saí.
- Eu sei. Deve ter regressado no primeiro camião. - Zoya
esboçou um aceno de concordância, surpreendida por ele se ter dado
ao trabalho de investigar. Não pensara que voltaria a vê-lo, mas
sentia-se feliz que assim fosse. Clayton era tão atraente como o
achara na noite anterior, tão alto, elegante e gracioso como
parecera, quando haviam dançado a valsa. - Julguei que pudesse
almoçar comigo. Mas é um tanto tarde, agora.
- De qualquer maneira, tenho de ir para casa. - Sorriu-lhe
com um ar de rapariguinha que acaba de sair das aulas. - A minha
avó ficou terrivelmente zangada comigo.
- Voltou a casa muito tarde? - perguntou, admirado ante o
comentário. - Não reparei na hora a que saiu. - Ela era, então,
tão jovem quanto julgara. Tinha um aspecto de rapariguinha, a
inocência... e, contudo, uma expressão sábia no olhar.
Contudo, Zoya riu ao recordar-se de ter afastado Feodor.
- A minha avó mandou alguém para me acompanhar e mandei-o
embora. Embora desconfie que ele tenha ficado tão satisfeito
quanto eu. - Corou um pouco e ele riu.
- Nesse caso, mademoiselle, posso oferecer-me para a
escoltar? Levá-la-ei a casa. - Zoya hesitou, mas ele era tão
obviamente um cavalheiro que não haveria mal nenhum. E quem iria
saber? Podia deixá-lo um ou dois quarteirões antes do Palais
Royal.
- Muito obrigada. - Abriu-lhe a porta e ela deslizou para o
interior do carro. Indicou-lhe onde vivia e o capitão pareceu

totalmente à vontade durante todo o percurso até à casa. Mandou-o
parar a um quarteirão de distância e ele olhou em volta.
- É aqui que vive?
- Não propriamente. - Sorriu e voltou a corar. - Achei por
bem poupar à minha avó o desgosto de se irritar tão depressa
comigo depois da noite passada.
Clayton riu e o rosto tinha um ar muito jovem, apesar do
cabelo grisalho.
- Mas que rapariguinha sem vergonha! E posso pedir-lhe que
jante comigo esta noite, mademoiselle?
Zoya franziu o sobrolho e depois fitou-o.
- Não sei bem. A minha avó sabe que esta noite não há
espectáculo. - Seria a primeira vez que se comportaria de forma
desleal para com ela e não estava muito segura do motivo que a
levava a sentir que tinha de ser assim. Conhecia, porém, a
opinião de Eugenia sobre os soldados.
- A sua avó não a deixa sair acompanhada? - inquiriu,
divertido e surpreendido.
- Não sei bem - confessou Zoya. - Nunca o fi,
- Oh, céus... Posso perguntar-lhe que idade tem? - Talvez
ela fosse ainda mais jovem do que pensava, mas esperava que
não.
- Dezoito - respondeu quase num tom de desafio, e ele riu
uma vez mais.
- Parece-lhe muito?
- O suficiente. - Ele não se atreveu a perguntar para quê.
- Ainda há bem pouco tempo, incitou-me a corresponder a um
amigo da família. - E, no próprio momento em que pronunciou as
palavras, corou. Achava uma estupidez falar-lhe de Vladimir,
mas aparentemente ele não se importava.
- E que idade tem esse? Vinte e um?
- Oh, não! - Era Zoya quem ria agora. - É muito, muito
mais velho do que isso. Tem, pelo menos, sessenta! - Desta vez,
Clayton pareceu em simultâneo divertido e admirado.
- Ah, sim? E o que acha a sua avó?
- É complicado de mais para explicar. Além de que não
gosto dele... É um velho.
O capitão fitou-a com uma expressão grave por um momento,
enquanto se conservavam sentados no carro.
- Também eu. Tenho quarenta e cinco anos. - Desejava ser
honesto para com ela logo de início.
- E não é casado? - Parecia surpreendida e depois tomou
consciência de que talvez fosse esse o caso.
- Sou divorciado. - Fora casado com uma das Vanderbilt,
mas tudo acabara há dez anos. Em Nova lorque, era considerado
um bom partido, mas, nos dez anos seguintes ao divórcio e por
entre todas as mulheres com quem saíra, nenhuma o conquistara.
- Está chocada?
- Não. - Pensou no assunto e voltou a encará-lo, mais do
que nunca convencida de que ele era um homem decente. - Por que
razão se divorciou?
- Julgo que a paixão morreu... Fomos sempre muito
diferentes. Contudo, ela voltou a casar e somos bons amigos,
embora não a veja frequentemente. Está a viver em Washington.
- Onde é isso? - Parecia-lhe um lugar muito distante e
misterioso.
- É próximo de Nova Iorque, mas não muito. Um pouco como
Paris e Bordéus. Ou talvez Paris e Londres. - A jovem esboçou

um aceno de cabeça. Fazia sentido. Ele consultou o relógio.
Passara horas à espera dela e agora tinha de regressar. - E
quanto ao jantar esta noite?
- Não me parece que seja possível. - Deitou-lhe um olhar
triste e ele sorriu.
- Amanhã, então?
- Tenho de dançar, amanhã à noite.
- E que tal depois? - Mostrava-se persistente e, agora que
a encontrara de novo, não tencionava deixá-la escapar.
- Tentarei.
- Chega. Até amanhã à noite, nesse caso. - Saltou do carro
e ajudou-a a descer.
Zoya agradeceu delicadamente a boleia e ele acenou-lhe e
seguiu rumo à Rue Constantine com uma canção no coração.

CAPITULO 15

Pela primeira vez na vida, mentiu à avó. Foi no dia seguinte,
quando saiu de novo para a Opéra. Sentiu-se culpada, mas, quando
saiu de casa, já se perdoara a si própria pelo que parecia uma
mentira inofensiva. "Perderia tempo a preocupar-se com uma
ninharia", pensou. "No fundo, que mal tem jantar com um homem
simpático?" Dissera-lhe que Diaghilev lhes oferecia uma ceia e
todo o corpo de bailado tinha de ir.
- Não espere a pé por mim! - gritara por cima do ombro, a fim
de que Eugenia não lhe visse os olhos.
- Tens mesmo de ir?
- Tenho, avó! - Em seguida, saíra precipitadamente e
dirigira-se ao ensaio.
Depois do espectáculo, Clayton esperava-a com outro dos
carros do general Pershing.
- Tudo em ordem? - Sorriu-lhe e deslizou para trás do
volante, fitando-a bem nos olhos. Estes diziam muito mais do que
as palavras e eram da cor de esmeraldas em fogo. - Que tal esta
noite?
- Correu bem. Contudo, o Nijinski não dançou. Ele é
fantástico, não acha? - Soltou uma gargalhada, ao lembrar-se de
que ele não gostava de ballet. - Deixe lá. Esqueci-me que não
gosta de ballet.
- Talvez possa ser ensinado.
Dirigiram-se ao Maxim's e Zoya arregalou os olhos quando
transpuseram a porta. A luxuosa decoração de veludos, a gente
elegante e os homens fardados presentes que ali jantavam,
cortaram-lhe o fôlego. Parecia-lhe tudo tão adulto; pensou de
imediato em como descreveria o que a rodeava na sua próxima carta
a Marie.
Todavia, Clayton Andrews seria algo difícil de explicar, até
mesmo à sua maior amiga. Não sabia muito bem porque é que estava
a jantar com ele, salvo que se mostrara muito bondoso e parecia
muito feliz e à vontade. Viu-se a desejar abrir o coração apenas
desta vez... ou talvez mais outra depois. Nada havia de mal. Era
um homem respeitável e sentia uma certa excitação. Tentou não se
portar como uma criança deslumbrada, quando se sentaram à mesa.
- Com fome? - inquiriu feliz, fitando-a e mandando vir

champanhe, mas ela apenas queria olhar em volta. - Já aqui tinha
estado?
Zoya abanou a cabeça, pensando no apartamento onde viviam e
no hotel onde se haviam alojado antes. Ainda não tinham ido a
restaurantes, desde a chegada. Ela e a avó cozinhavam refeições
simples em casa e Feodor sentava-se à mesa com ambas todas as
noites.
- Não - respondeu, sem mais explicações. Teria sido difícil
explicar-lho.
- É bonito, não é? Costumava vir aqui, antes da guerra.
- Viaja muito? Por regra, quero dizer.
- Bastante. Já tinha vindo a Paris... antes de chegar aqui
há três meses? - Lembrara-se e ela sentiu-se tocada.
- Não. Mas os meus pais vinham muito aqui. Na verdade, a
minha mãe era alemã, mas viveu quase sempre em Sampetersburgo.
Clayton sentiu um desejo súbito de indagar como fora a
revolução, mas pressentia o quanto lhe seria doloroso e conteve-
se. E depois, apenas para fazer conversa, fez-lhe uma pergunta que
lhe provocou uma gargalhada.
- Alguma vez viu o czar, Zoya? - E, ante o olhar divertido
que lhe detectou no rosto, riu também. - Disse algunia graça?
- Talvez. - Sentia-se tão à vontade com ele que decidiu
abrir-se um pouco. - Somos primos. - No entanto, ficou muito
séria, ao recordar-se da sua última manhã em Tsarskoie Selo.
Clayton deu-lhe uma pancadinha na mão e serviu mais champanhe.
- Deixe lá... Podemos falar de qualquer outra coisa. -
Todavia, a jovem fitou-o no mais fundo da alma.
- Não, não tem importância... Só que... - Engoliu as
lágrimas, sem deixar de o olhar. - Sinto tantas saudades deles.
Por vezes, interrogo-me sobre se voltarei a vê-los. Ainda estão
sob prisão domiciliária, em Tsarskoie Selo.
- Tem tido notícias? - inquiriu, surpreendido.
- Recebo por vezes cartas da grã-duquesa Marie... Ela é a
minha maior amiga. Estava muito doente quando nos viemos embora.
Pegou-me o sarampo. Tinham todos sarampo quando partimos. - O
capitão sentia-se no sétinio céu ao ouvi-Ia. O czar da Rússia era
uma figura histórica e não apenas um primo daquela bonita jovem.
- E cresceu junto deles?
Zoya esboçou um aceno de cabeça e ele sorriu. Estivera certo,
afinal. Havia muito mais naquela jovem do que pensara à primeira
vista. Não era somente uma pequena bailarina. Era uma rapariga de
família, com um passado notável. E ela começou a falar-lhe na casa
onde crescera, sobre Nicolai... e a noite em que fora abatido a
tiro e ela ficara em Tsarskoie Selo, antes de deixarem a Rússia.
- Tenho fotografias maravilhosas de todos eles. Um dia
mostro-lhas. Íamos juntos todos os anos para Livadia, em Agosto.
Também vão este ano, pelo menos foi o que a Marie me escreveu na
última carta. Festejámos sempre lá os anos do Alexis, ou no iate.
Clayton Andrews observava-a, fascinado, enquanto falavam.
Ela referia um mundo mágico, uma época invulgar da História, aos
seus olhos um lugar-comum, primos e amigos, crianças, ténis e
diversões. E agora dançava com o Ballets Russes. Não era de
admirar que a avó a mandasse acompanhar. A jovem foi mesmo ao
ponto de lhe falar de Feodor. E, no fim da noite, Clayton sentia-
se como se os conhecesse a todos e tinha um peso no coração pela
vida que ela perdera na Rússia.
- O que vai fazer, agora?
- Não sei - respondeu, com honestidade. - Quando não houver

mais jóias para vender, acho que continuarei a dançar e viveremos
disso. A avó está velha de mais para trabalhar e o Feodor não fala
francês que chegue para arranjar um emprego, além de que também
é velho. - "E quando eles morrerem?" Nem se atrevia a pensar. Ela
era tão franca, inocente e jovem e contudo tinha visto tanta
coisa.
- Fiquei com a impressão de que o seu pai devia ter sido
muito bom, Zoya.
- E era.
- Torna-se difícil imaginar perder tudo isso. E mais difícil
ainda o pensamento de nunca mais voltar.
- A avó acha que as coisas podem mudar depois da guerra. O
tio Nicolau disse isso mesmo, antes de nos virmos embora. - "O tio
Nicolau... o czar Nicolau..." A surpresa não desaparecera,
enquanto continuava a ouvi-la. - Pelo nienos, de momento, posso
dançar. Dantes, desejava fugir para o Marinski, quando era uma
miúda... - Riu ante a recordação. - Não é tão mau assim. Prefiro
dançar a ensinar inglês, a coser ou a fazer chapéus. - Clayton
sorriu à medida que ela enumerava as alternativas.
- Tenho de confessar que não consigo imaginá-la a fazer
chapéus.
- Preferia morrer de fome. Mas não será esse o caso. A
companhia dos Ballets Russes tem sido muito boa para mim. -
Contou-lhe a primeira audição e ele ficou intimamente maravilhado
perante a sua coragem e ingenuidade. O próprio facto de jantar com
ele era um acto de coragem. E ele não tinha intenção de se
aproveitar. Gostava da jovem, embora ela pouco mais fosse do que
uma criança. Via-a, porém, de uma forma diferente da da outra
noite. Não se tratava apenas de um rosto bonito ou de um elemento
do corpo de bailado. Era uma jovem de uma família ainda mais
ilustre do que a sua e, embora nada lhe tivesse restado, mantinha
a raça e a dignidade, algo que ele não queria violar. - Gostava
que pudesse conhecer a avó - rematou, como se lhe lesse o
pensamento.
- Talvez um dia.
- Ficará chocada por não termos sido devidamente
apresentados. Ignoro se conseguirei explicar-lhe.
- Podemos dizer que sou um amigo de Diaghilev - sugeriu, e
Zoya soltou uma gargalhada.
- Seria ainda pior. A avó odeia o meio! Preferia que me
casasse com o príncipe Markovski, que agora conduz o táxi, do que
fizesse parte do ballet. - Contudo, ao observá-la, percebeu
porquê. Era assustador imaginá-la solta no mundo, desprotegida,
desconhecida, uma presa fácil para todos, até mesmo para ele.
Pagou a ceia e parecia triste quando a levou a casa.
- Gostava de voltar a vê-la, Zoya. - Dava a sensação de que
estava a dizer-lhe uma coisa banal, mas sentiu um repentino
desconforto ante a clandestinidade das saídas. Ela era tão jovem
e não queria de forma alguma magoá-la. - E se um dia aparecer para
tomar chá com a sua avó?
Zoya ficou horrorizada com a ideia.
- O que lhe direi?
- Pensarei em alguma coisa. Que tal no domingo à tarde?
- Costumamos ir passear pelo Bosque de Bolonha.
- Talvez pudéssemos ir de carro. Digamos às quatro?
Zoya esboçou um aceno de cabeça, interrogando-se sobre o que
diria à avó, mas a sugestão dele era mais simples do que todos os

esquemas que pudesse engendrar.
- Pode dizer-lhe muito simplesmente que sou ajudante-de-campo
do general Pershing e nos conhecemos na recepção da noite
anterior. Por regra, é mais facil contar a verdade do que mentir.
- Pareceu-lhe de novo Konstantin, como acontecera por várias vezes
nessa noite e sorriu-lhe com uma expressão feliz.
- O meu pai diria algo do gênero. - E, quando pararam em
frente da morada dela, Zoya fitou-o, achando que ele estava muito
elegante e digno na sua farda. Era um homem muito bem-parecido. -
Passei uma noite encantadora.
- Também eu, Zoya... também eu. - Tocou-lhe ao de leve nos
cabelos ruivos e desejou atraí-la de encontro ao corpo, mas não
se atreveu.
Acompanhou-a até à porta e ficou a vê-la desaparecer em
segurança no interior. A jovem acenou uma última vez e subiu
velozmente as escadas até ao apartamento.

CAPíTULO 16

A apresentação de Clayton à avó correu muito mais facilrnente
do que qualquer deles ousara esperar. Zoya explicou,
despreocupada, que o conhecera na recepção oferecida aos Ballets
Russes pelo general Pershing e o convidara para tomar chá.
De início, Eugenia mostrou-se hesitante, pois uma coisa era
receber o príncipe Vladinúr, que se encontrava numa situação
idêntica, e outra alguém que mal conheciam.
Zoya comprou meia dúzia de bolos, uma qualidade de pão muito
procurada e a avó preparou uma chaleira de chá fumegante. Nada
mais tinham que lhe oferecer, nem serviço de prata, guardanapos
ou toalha bordados, ou bule, mas Eugenia estava muito mais
preocupada com o motivo que o levava a visitá-las do que com os
atavios do que podiam proporcionar-lhe.
Todavia, quando Feodor lhe abriu a porta pontualmente às
quatro da tarde, Clayton Andrews dissipou-lhe quase todos os
receios. Trouxe flores para as duas e uma bela tarte de maçã e
mostrou-se um cavalheiro da cabeça aos pés ao cumprimentar Zoya
de uma fonna bastante formal e a avó com um entusiasmo respeitoso.
Nesse dia, mal pareceu notar a presença de Zoya, enquanto
falava das suas viagens, do pouco conhecimento da História da
Rússia e da sua juventude passada em Nova Iorque. Eugenia viu-se
a recordar frequentemente Konstantin, todo o seu calor, encanto
e perspicácia. E quando, por fim, mandou Zoya para fora da sala
a fim de preparar mais chá, deteve-se a observá-lo, sabendo
perfeitamente porque é que ele viera visitá-la. Era demasiado
velho para namoriscar a jovem, mas, de facto, não conseguia
antipatizar com ele. Era um homem delicado e interessante.
- O que quer dela? - perguntou a velha senhora
inesperadamente num tom suave enquanto Zoya ainda estava ausente
da sala, e ele fitou-a com bondade e franqueza.
- Não sei bem. Nunca tinha falado com uma rapariga da idade
dela, mas acho-a fantástica em muitos aspectos. Talvez possa ser
um amigo... de ambas?
- Não brinque com ela, capitão Andrews. A minha neta tem toda
uma vida pela frente e que pode ser mudada pelo que fizer agora.
Ela parece gostar muito de si. Talvez seja suficiente. - Eugenia

sabia melhor do que ele que a intimidade entre ambos faria com que
a vida de Zoya não voltasse a ser a mesma. - Ela é ainda muito,
muito jovem. - O capitão esboçou um aceno de cabeça, pensando na
sabedoria daquelas palavras. Na semana anterior, pensara mais do
que uma vez em como era idiota andar atrás de uma rapariga tão
jovem. E quando deixasse Paris? Não seria digno aproveitar-se
dela e depois seguir o seu caminho. - Num outro mundo, numa outra vida, isto nunca pareceria possível.
- Tenho perfeita consciência de que assim é, condessa. Mas
por outro lado... os tempos mudaram, não é verdade?
- De facto, mudaram.
Zoya voltou a entrar na sala e serviu uma chávena de chá a
cada um. Mostrou em seguida a Clayton as suas fotografias do Verão
anterior em Livadia, com Joy a brincar-lhe aos pés, o filho do
czar sentado ao lado dela no iate e outras mais com Olga, Marie,
Tatiana, Anastasia, a tia Alix e o próprio czar.
Era quase uma lição de história moderna e Zoya ergueu os
olhos mais do que uma vez na sua direcção com um sorriso feliz,
recordando e explicando, e ele soube, nesse momento, a resposta
às perguntas de Eugenia. Sentia mais do que amizade por aquela
jovem. Embora ela fosse quase uma crian-ça, tinha algo de
espantoso na alma, irradiava algo que lhe tocava no mais íntimo
de si, algo que nunca sentira por ninguém.
No entanto, como poderia oferecer-lhe o que quer que fosse?
Tinha quarenta e cinco anos, era divorciado e viera combater em
França. Nada podia oferecer-lhe nesse momento, se é que alguma vez
poderia. Zoya merecia um homem mais novo, alguém que crescesse e
risse com ela, alguém com quem partilhasse as recordações.
Todavia, desejava abraçá-la e prometer-lhe que nada voltaria a
magoá-la.
Levou-as a passear de carro quando a jovem pôs as fotografias
de lado e, ao pararem no parque, deteve-se a vê-Ia brincar com
Sava na relva. A cadelinha saltava e ladrava, e Zoya corria de um
lado para o outro, rindo à gargalhada, quase chocando com ela.
Sem pensar, envolveu-a e abraçou-a e ela ergueu o rosto para ele
com um riso semelhante ao que vira nas fotografias. Eugenia ficou
a observá-los e temeu pelo futuro.
Ao levá-las de regresso a casa, Eugenia agradeceu-lhe e
fitou-o com uma expressão tranquila, enquanto Zoya se afastava
para entregar Sava a Feodor.
- Pense bem, capitão. O que para si pode não passar de um
interlúdio, é susceptível de mudar a vida da minha neta. Pense
bem, suplico-lhe... e sobretudo... seja bom.
- O que lhe disse, avó? - quis saber Zoya depois de Clayton
se ter ido embora.
- Agradeci-lhe a tarte de maçã e convidei-o a que nos
visitasse outra vez - respondeu Eugenia, levando as chávenas.
- Nada mais? Ele parecia tão sério, como se lhe tivesse dito
algo de importante. E nem mesmo sorriu, ao despedir-se.
- Talvez estivesse a reflectir em tudo isto, miúda -
retorquiu e logo acrescentou: - Ele é, de facto, velho de mais
para ti.
- Isso pouco me interessa. É um homem tão bom.
- É mesmo. - Eugenia esboçou um aceno de concordância,
esperando, no íntimo, que ele fosse suficientemente bom para não
repetir a visita. Zoya corria um risco excessivo ao lado dele e
o que aconteceria se se apaixonasse? Podia revelar-se desastroso.

CAPITULO 17

As preces de Eugenia para que Clayton Andrews não voltasse
estavam votadas ao fracasso. Depois de tentar manter-se afastado
durante uma semana, viu-se a pensar constantemente nela, obcecado
pelos seus olhos... o cabelo... a forma como ria... a forma como
a vira brincar com Sava... as próprias fotografias que lhe
mostrara da fanília do czar pareciam persegui-lo. Zoya tomara-as
reais e, em vez de uma trágica figura histórica, o czar
transformara-se num homem com uma mulher, uma família, três cães,
e o próprio Clayton viu-se a Iamentar a imensidade das perdas que
ele sofrera enquanto se mantinha sob prisão domiciliária em
Tsarskoie Selo.
Ao mesmo tempo que ele pensava na jovem toda a semana, também
esta não desviou o pensamento de Clayton por um único momento.
Desta vez, apresentou-se novamente na casa de Zoya e não no
ballet e, com a permissão da avó, levou-a a ver A Víúva Alegre.
Na volta, a jovem contou tudo numa grande excitação, mal
parando para tomar fôlego. Clayton riu e serviu champanhe.
Trouxera-lhes uma garrafa de Cristal que serviu em taças de
cristal. Sem pretender ofendê-las, desejava constantemente
facilitar-lhes a situação e trazia-lhes os pequenos confortos que
sabia faltarem-lhes: cobertores que insistia terem-lhe sido
"dados", um conjunto de copos, uma toalha de mesa bordada e mesmo
uma caminha para Sava.
Eugenia apercebeu-se de que Clayton estava enamorado, tal
como Zoya. Davam longos passeios no parque, almoçavam em pequenos
cafés enquanto Clayton lhe explicava os uniformes que desfilavam
junto deles, os zuavos, os ingleses e os americanos de caqui, os
poilus (1) de casacos azuis e mesmo os Chasseurs d'Afrique.
Abordavam todos os temas, desde o ballet a bebés. Zoya insistia
em que um dia queria ter seis filhos e ele ria ante a ideia.

(1) Designação atribuída aos soldados franceses na Primeira Guerra Mundial. (N. da T.)
- Porquê seis?
- Não sei - respondeu com um encolher de ombros e um sorriso
feliz. - Prefiro números pares.
Partilhou com ele a última carta de Marie. Contava que
Tatiana adoecera novamente, embora desta vez sem gravidade e
falava da fidelidade e bondade com que Nagorny tratava Alexis, sem
nunca sair do seu lado. "... E o papá é tão bom para todos nós.
Faz com que todos se sintam fortes, felizes e alegres..." Era
difícil de imaginar e Clayton sentia um peso no coração ao escutar
as palavras. Mas, quando se encontravam, falavam de muito mais
coisas além da família do czar, falavam de todas as suas paixões,
interesses e sonhos.
Foi um Verão mágico e encantador para Zoya. Sempre que ela
não estava a dançar, Clayton aparecia, levava-a a sair, trazia a
ambas pequenos presentes e preciosos tesouros. E depois, em
Setembro, todos os inocentes prazeres tiveram um final abrupto.
O general Pershing anunciou aos ajudantes-de-campo que ia mudar
o quartel-general para Chaumont, no Marne, e, dali a uns dias,
Clayton teria de abandonar Paris. Nessa mesma altura, Diaghilev
fazia planos para levar os Ballets Russes a Portugal e Espanha e
Zoya viu-se confrontada com uma difícil decisão. Não podia deixar

a avó sozinha e tinha de abandonar o corpo de bailado, o que quase
a matou.
- Podes dançar com um dos outros ballets, aqui. Não é o fim
do mundo - encorajou Clayton, sem conseguir convencê-la. Nenhuma
outra companhia era os Ballets Russes e partia-lhe o coração ver-
se obrigada a deixá-los. As piores notícias chegaram, contudo,
duas semanas depois do aniversário de Alexis. Zoya recebeu uma
carta de Marie, enviada como sempre pelo Dr. Botkin. A 14 de
Agosto, toda a família Ronianov fora transferida da prisão
domiciliária no Palácio Alexandre em Tsarskoie Selo para Tobolsk,
na Sibéria.
A carta fora escrita no dia anterior à partida, e Zoya não
fazia ideia de onde estavam. Apenas sabia que tinham partido. O
pensamento era quase insuportável. Sempre imaginara que a qualquer
momento iriam para Livadia, onde estariam a salvo. Contudo, agora
tudo mudara e uma garra de pavor apertou-lhe o coração ao ler a
carta. Mostrou-a a Clayton antes de ele se ir embora e o capitão
tentou inutilmente acalmá-la.
- Voltarás a ter notícias dela em breve. Tenho a certeza,
Zoya. Não deves estar assim tão assustada.
"Mas como não estar?", interrogava-se. Ainda há poucos meses
perdera tudo, assistira com demasiada clareza aos terrores da
revolução, e os amigos e parentes encontravam-se, realmente, em
perigo. Assustava-o pensar nisso agora, mas ninguém podia fazer
nada para os ajudar. Há muito que o Governo americano reconhecera
o Governo Provisório e todos receavam oferecer guarida ao czar e
à família. Não havia hipótese de o salvar dos revolucionários.
Apenas se podia rezar e acreditar que um dia ficariam livres. Era
a única esperança que podia oferecer a Zoya. E, pior ainda, ele
próprio era obrigado a partir.
- Não é muito longe. Virei a Paris, sempre que puder,
prometo.
Zoya fitou-o com uma expressão trágica... A amiga... os
Ballets Russes... e agora ele tinha de deixá-la. Há quase três
meses que a cortejava e ela proporcionava-lhe um constante prazer
e uma inocente diversão. Eugenia achava, aliviada e justamente,
que ele não fizera nenhuma idiotice. Apenas gostava da companhia
dela e via-a sempre que podia para passearem, irem ao teatro,
jantar no Maxim's ou em qualquer bar. E ela parecia desabrochar
com todo aquele interesse afectuoso e protecção. Assemelhava-se
a ter de novo uma família e agora também ia perdê-lo e tinha de
encontrar um emprego com um corpo de bailado menos importante.
Por mais que a ideia lhe desagradasse, Eugenia sabia que dependiam
do salário de Zoya.
A 10 de Setembro, tinha encontrado outro emprego, mas com uma
companhia de ballet que detestava, pois não tinham precisão, nem
estilo, nem a rígida disciplina dos Ballets Russes a que Zoya
estava habituada, além de que lhe pagavam muito menos.
No entanto, pelo menos, ela, Feodor e a avó continuavam a ter
de comer. As notícias da guerra não eram boas, os raids aéreos
continuavam e, por fim, recebeu uma carta de Marie. Estavam a
viver na casa do governador, em Tobolsk, e Gibbes, o tutor,
continuava a dar-lhes lições.
"... O papá lê-nos histórias quase todos os dias e coastruiu-
nos um estrado na estufa para apanharmos um pouco de sol, mas em
breve fará frio de mais. Dizem que os Invernos aqui parecem
intermináveis..." Olga fizera vinte e dois anos, e Pierre Gilliard

também estava com eles. "... Ele e o papá cortam lenha quase todos
os dias, mas, pelo menos, enquanto estão ocupados, podemos escapar
a algumas das liçöes. A mamã parece muito cansada, mas o Baby
preocupa-a tanto. Sentia-se muito doente depois da viagem, mas
informo-te com satisfação que está muito melhor.
Dormimos as quatro num quarto e a casa é muito pequena, mas
ao mesmo tempo confortável. Talvez um pouco como o teu apartamento
com a tia Eugenia. Dá-lhe saudades núnhas, querida, minha querida,
e escreve-me quando puderes. O facto de dançares parece
fascinante. A mamã ficou chocada quando lhe contei e depois riu
e disse que era mesmo teu ires até Paris para fugires e dançares!
Todos te mandamos saudades e eu em especial..."
E, desta vez, assinou a carta como há muito não o fazia:
"OTN&A". Era um código que tinham inventado em crianças para as
cartas enviadas por todas e significando Olga, Tatiana, Marie,
Anastasia. O coração de Zoya sentia a falta de todas elas.
Agora que Clayton se fora embora, estava ainda mais sozinha.
Só lhe restava o trabalho e regressar até junto da avó depois de
cada espectáculo. Compreendia até que ponto Clayton a estragara
com mimos. Quando ele estava por perto, havia sempre saídas,
presentes, surpresas e planos. E agora, subitamente, não havia
nada. Escrevia-lhe ainda mais frequentemente do que escrevia a
Marie para Tobolsk, mas as respostas dele eram breves e
apressadas. Tinha muito que fazer em Chaumont, ao serviço do
general Pershing.
Outubro foi ainda pior. Feodor apanhou a gripe espanhola e
a avó tratou-o durante semanas a fio; por fim, incapaz de comer
ou beber, ou mesmo de ver, sucumbiu à doença, e as duas mulheres
choraram em silêncio à sua cabeceira. Tinha-lhes sido leal e
bondoso, mas, tal como um animal levado para muito longe de casa,
não conseguira sobreviver num mundo diferente. Sorriu-lhes com
ternura antes de morrer e sussurrou:
- ... Agora, posso regressar à Rússia...
Enterraram-no num pequeno cemitério nos arredores de Neuilly.
Vladimir levou-as até lá no carro, e Zoya chorou durante todo o
caminho de volta a casa, sentindo-se como se tivesse perdido o
único amigo que lhe restava. Tudo lhe parecia subitamente sombrio,
até o próprio tempo. Sem Feodor, nunca havia lenha suficiente e
nem Eugenia nem Zoya conseguiram arranjar coragem para utilizar
o quarto dele.
Era como se a dor das perdas se revelasse interminável. Há
quase dois meses que Clayton não vinha a Paris e, um dia, quando
Zoya regressou tarde a casa do trabalho, teve um choque horrível
ao abrir a porta e deparar com um homem na sala em mangas de
camisa. E a jovem sentiu um baque no coração, pois ele pareceu-lhe
um médico.
- Aconteceu alguma coisa?
Ele olhou-a, também surpreendido, fitando-a e
momentaneamente silenciado pela sua inesperada beleza.
- Desculpe, mademoiselle... eu... a sua avó...
- Ela está bem?
- Sim, claro. Penso que se encontra no quarto.
- E quem é o senhor? - Zoya não entendia o que ele estava a
fazer ali em mangas de camisa e quase desfaleceu ao ouvir a
resposta.
- Não lhe contou?... Vivo aqui. Mudei-me esta manhã. - Era
um homem magro, pálido e ainda novo, na casa dos trinta, de cabelo

ralo e uma perna aleijada. Coxeava nitidamente quando voltou ao
quarto de Feodor e fechou a porta, ao mesmo tempo que Zoya se
precipitava, furiosa, para o da avó.
- O que foi fazer? Não acredito! - Zoya fitava-a, irritada,
sentada na única cadeira do quarto; depois, notou que Eugenia
mudara umas coisas para o quarto de ambas para que ficassem mais
confortáveis. - Quem é aquele homem? - Expressou-se sem preâmbulos
e incapaz de acreditar no que a avó fizera.
- Aceitei um hóspede - respondeu Eugenia, erguendo
tranquilamente os olhos do tricô. - Não tínhamos alternativa. O
ourives não me ofereceu absolutamente nada pelas pérolas e havia
muito pouco que vender. Precisávamos de fazê-1o mais cedo ou mais
tarde. - No rosto pairava-lhe uma calma resignação.
- Não podia, pelo menos, ter perguntado, ou mesmo avisado?
Não sou uma criança e também vivo aqui. Aquele homem é um
estranho! E se nos mata durante o sono, ou nos rouba as últimas
jóias? E se se embebeda... ou traz para cá mulheres horríveis?
- Nesse caso, pedimos-lhe calmamente que saia, mas não te
preocupes, Zoya. Parece-me um homem muito sério e timido. Foi
ferido em Verdun, no ano passado, e é professor.
- Não me interessa o que ele é. Este apartamento é pequeno
de mais para termos aceite um estranho e ganhamos dinheiro
suficiente com o ballet. Porquê isto? - Sentia-se como se tivesse
perdido a casa a favor do desconhecido e só lhe apetecia sentar-se
e chorar ante tamanha indignidade. Aos seus olhos, significava o
derradeiro golpe. Contudo, para Eugenia, parecera a única saída.
E não contara a Zoya, porque suspeitara qual seria a sua reacção.
E a raiva da neta só vinha confirmá-la. - Não consigo acreditar
que tenha feito uma coisa destas!
- Não tinhamos escolha, miúda. Talvez, mais tarde, possamos
fazer algo diferente. Mas não agora.
- Nem sequer poderei preparar uma chávena de chá, vestida com
a camisa de noite - lamentou, com os olhos cheios de raiva e de
tristeza.
- Pensa nas tuas primas e como deve ser a vida em Tobolsk.
Não consegues ter a mesma coragem? - As palavras fizeram com que
Zoya se sentisse de imediato culpada e afundou-se na cadeira que
a avó desocupara para ir até à janela.
- Desculpe, avó... Só que... fiquei tão chocada... - Depois
sorriu quase maliciosamente. - Acho que lhe preguei um susto de
morte. - Correu para o quarto e trancou a porta depois de lhe
gritar.
- É um indivíduo novo e simpático. Deves pedir-lhe desculpa
de manhã.
Contudo, Zoya não lhe respondeu, pensando no extremo a que
tinham chegado. Tudo parecia piorar de momento a momento. Até
Clayton dava a sensação de a haver abandonado. Tinha prometido vir
a Paris assim que pudesse, mas tudo indicava que de momento tal
esperança não existia.
Escreveu-lhe no dia seguinte, mas sentia uma tal vergonha que
não conseguiu mencionar o hóspede. Ele chamava-se Antoine Vallet
e pareceu aterrorizado ao vê-la de manhã. Desdobrou-se em
desculpas, tropeçou num candeeiro, quase partiu uma jarra e
abalroou-a ao fazer todos os esforços para lhe sair do caminho na
cozinha. Zoya reparou que tinha uns olhos tristes e quase sentiu
pena dele, mas ficou-se pelo "quase". Na realidade, ele invadira
o último bastião que lhes restava e não estava ansiosa por
partilhá-lo.

- Bom dia, mademoiselle. Quer café? - ofereceu e, embora
pairasse um aroma agradável na cozinha, a jovem abanou a cabeça.
- Muito obrigada. Bebo chá - murmurou entre dentes.
- Lamento. - Fitou-a com um misto de terror e idmiração e
abandonou a cozinha o mais rapidamente que pôde. Pouco depois saiu
para dar aulas.
Porém, nessa tarde, quando ela voltou do ensaio, lá estava
ele, sentado na sala, à secretária, a corrigir exercícios. Zova
entrou no quarto, bateu com a porta, pôs-se a passear nervosamente
de um lado para o outro e fitou a avó.
- Presumo que isto significa que não posso usar novamente a
secretária - retorquiu. Queria escrever uma carta ao Clayton.
- Tenho a certeza de que ele não vai lá estar a noite teira,
Zoya.
Todavia, até mesmo a avó parecia confinada ao quarto. Não
tinha sítio onde estar sozinha, nenhuma forma de reunir ideias.
A situação pareceu-lhe subitamente insuportável e lamentou não
ter ido para Portugal com os Ballets Russes porém, ao dar meia
volta, deparou com os olhos cheios à lágrimas de Eugenia,
sentiu uma alfinetada no coração e ajoelhou-se aos pés dela,
abraçando-a.
- Lamento tanto... Não sei o que me deu. Estou apenas cansada
e nervosa.
No entanto, Eugenia sabia perfeitamente o que a preocupava.
Era Clayton. Tal como o previsto, fora combater e Zova tinha de
regressar a uma vida sem ele. Era bom que nada mais tivesse
acontecido e ele fosse um homem respeitável, caso contrário, seria
muito mais dificil para a neta. Não perguntou à neta se tivera
notícias dele. Quase esperava que ele não lhe escrevesse.
Zova dirigiu-se à cozinha, preparou o jantar para a avó e
para ela e, ao ver que o jovem professor mantinha a cabeça
levantada na direcção dos agradáveis aromas, cedeu e convidou-o
para jantar.
- O que ensina? - perguntou delicadamente, sem, de facto, se
preocupar. Reparou que as mãos lhe tremiam muito, parecia estar
sempre assustado e nervoso e achou que os ferimentos de guerra
haviam ido mais longe do que deixá-lo coxo. Parecia incuravelmente
abalado.
- Ensino História, mademoiselle. E suponho que dança no
ballet.
- Sim - anuiu num fio de voz. Não se sentia orgulhosa do
corpo de bailado em que dançava presentemente, como se sentira
quando estava nos Ballets Russes, embora por pouco tempo.
- Sou um grande apreciador de ballet. Talvez pudesse vê-la
dançar um dia destes. - Sabia que ele esperava ouvi-la responder
que gostaria, mas foi incapaz de pronunciar as palavras. Não era
verdade. - Gosto muito do quarto - anunciou, sem se dirigir a
ninguém em particular e Eugenia esboçou um sorriso amável.
- Estamos muito satisfeitas com a sua companhia.
- O jantar está muito bom.
- Obrigada - agradeceu Zoya, sem erguer os olhos. Ele
continuou a falar, cingido a uma série de chavões irrelevantes e
a jovem detestou-o mais do que nunca. Andava a coxear pela cozinha
tentando ajudá-la a arrumar e depois acendeu a lareira da sala,
o que a aborreceu, pois desperdiçava a pouca lenha que tinham,
mas, já que a acendera, aproximou-se para aquecer as mãos. O
pequeno apartamento estava gelado.
- Fui uma vez a Sampetersburgo. - Dirigia-se-lhe num tom

baixo, da secretária, mal se atrevendo a olhar aquela rapariga tão
bonita e impetuosa. - É muito bonito.
Zoya esboçou um aceno, virou-lhe as costas e fixou as chamas
com lágrimas nos olhos, enquanto ele observava aquelas saudades
silenciosas. Casara antes da guerra, mas a mulher tinha-o trocado
pelo melhor amigo e o único filho de ambos morrera de pneumonia.
Também tinha os seus desgostos, mas Zoya não pediu para os ouvir.
Encarava-o como um homem que passara por uma situação de grande
perigo e mal lhe sobrevivera. Além disso, longe de lhe reforçar
o espírito, destruíra-o. Virou-se devagar e fitou-o, interrogando-
se sobre o que levara a avó a aceitá-lo. Era-lhe insuportável
pensar que haviam chegado ao desespero, mas tinha essa
consciência, caso contrário, Eugenia nunca tomaria esta atitude.
- Está tanto frio aqui. - Era apenas uma afirmação, mas ele
levantou-se rapidamente e deitou mais uma acha no fogo.
- Arranjarei mais lenha amanhã, mademoiselle. Vai ajudar.
Quer mais uma chávena de chá? Posso preparar-lha.
- Não, obrigada. - Interrogou-se sobre que idade teria. Dava
a sensação de andar na casa dos trinta e tal. Tinha, de facto,
trinta e um, mas a sua vida não fora nada fácil.
E acrescentou, depois, num tom tímido:
- Ocupei o seu quarto? - Tal explicaria o óbvio desagrado que
ela sentia com a sua presença, mas Zoya limitou-se a abanar a
cabeça e, depois, suspirou.
- Um dos nossos criados veio connosco da Rússia. Morreu em
Outubro. - Ele esboçou um aceno de concordância.
- Lamento. Foram tempos difíceis para todos nós. Há quanto
tempo está em Paris?
- Desde Abril. Partimos logo após a revolução.
- Tenho conhecido vários russos aqui - replicou, depois de
esboçar um novo aceno de cabeça. - São pessoas boas e
corajosas. - Gostaria de ter acrescentado "como você", mas não
se atreveu. Ela tinha uns olhos tão brilhantes e fogosos e,
quando sacudia a cabeça, o cabelo revoluteava como se fosse um
fogo sagrado. - Há algo que gostaria que fizesse, já que estou
aqui? Gostava muito de dar qualquer ajuda. Posso encarregar-me
de recados para a sua avó. Também gosto de cozinhar. Talvez
pudéssemos fazer o jantar po turnos.
A jovem esboçou um aceno de cabeça. Talvez ele não fosse
assim tão má pessoa. Mas estava ali. E ela não o queria. Em
seguida, o homem reuniu os papéis e voltou para o quarto,
fechando a porta atrás de si.
Zoya ficou sozinha, de olhos fixos nas chamas e pensando
em Clayton.

CAPITULO 18

À medida que o Inverno passava, as pessoas pareciam mais
esfomeadas e mais pobres. O tempo piorou e, com a chegada de um
número cada vez maior de emigrados a Paris, os ourives baixaram
os preços.
Eugenia vendeu o último par de brincos a 1 de Dezembro e
ficou horrorizada com o pouco que recebeu em troca. Agora,
viviam somente do salário de Zoya, que mal chegava para comerem
e pagarem o apartamento. O príncipe Markovski também tinha os
seus problemas para resolver. O carro avariava-se

constantemente e parecia mais magro e com mais fome de cada vez
que o viam. Continuava a falar corajosamente de melhores tempos
e fazia referência a todos os recém-chegados.
Face a tamanha pobreza, ao frio cruel e à falta de comida,
Eugenia sentia-se ainda mais grata com a presença do hóspede. O
seu magro salário mal lhe chegava para pagar o custo do quarto,
mas mesmo assim conseguia trazer uns extras para casa, metade
de um pão, lenha para o fogo ou mesmo uns livros para Eugenia.
Conseguiu até arranjar-lhe alguns em russo, pois os emigrados
pobres deviam ter vendido os livros por uma fatia de pão.
Contudo, parecia nunca esquecer Zoya e Eugenia, e trazia quase
sempre uma pequena oferta à jovem.

Uma vez, ouvira-a dizer
quanto gostava de chocolate e, por um qualquer milagre,
conseguira arranjar uma pequena barra de chocolate.
Com o correr das semanas, ela mostrou-se mais acessível,
grata pelos presentes, mas mais grata ainda pela bondade com
que ele tratava a condessa. Esta começara a sofrer de
reumatismo nos joelhos, e subir e descer as escadas tornara-se-
lhe doloroso.
Um dia, Zoya chegou a casa de um ensaio à tarde e
verificou que ele transportava a avó pelas escadas, o que, dada
a sua perna deficiente, constituía uma penosa tarefa, mas nunca
se queixou. Mostrava-se sempre desejoso de fazer mais, e Eugenia tornara-se-lhe muito chegada.Também percebia a enorme
atracção que ele tinha por Zoya. Mencionara o assunto mais do
que uma vez à neta, mas ela insistia em que nunca reparara.
- É incrível como não te dás conta do quanto ele gosta de
ti, miúda. - Contudo, Zoya estava mais preocupada com a tosse
horrível que abalava o corpo da avó ao pronunciar as palavras.
Há semanas que apanhara uma constipação, e Zoya receava a gripe
espanhola que matara Feodor ou a temida tuberculose que parecia
devorar Paris. Até a sua propria saúde não era a mesma de
outrora. Com uma alimentação tão precária e tanto trabalho,
emagrecera imenso e a face juvenil parecia, de súbito, muito
mais velha.
- Como está hoje a sua avó? - perguntou Antoine calmamente
uma noite, quando estavam a preparar o jantar na cozinha.
Agora, tratava-se de um ritual nocturno entre ambos. Já não
trabalhavam por turnos nas noites em que ela estava ausente,
mas em vez disso cozinhavam juntos e, quando Zoya tinha de ir
dançar, ele próprio cozinhava para Eugenia, arranjando muitas
vezes comida que comprava no regresso a casa com o parco
dinheiro que ganhava com as aulas. À seinelhança de todos os
demais em Paris nessa altura, também os seus escassos fundos
pareciam desaparecer. - Estava tão pálida esta tarde -
prosseguiu, fixando Zoya com um olhar preocupado, enquanto ela
cortava duas cenouras velhas para repartir entre os três.
Estava farta de guisado, mas era o que comiam praticamente
todas as noites e era a maneira mais fácil de dissimular a
qualidade inferior da carne e a falta quase total de legumes.
- Ando preocupada com aquela tosse, Antoine - respondeu
Zoya, fitando-c, do outro lado da cozinha. - Acho que piorou,
não foi? - Ele concordou com um triste aceno de cabeça e
acrescentou dois pequenos quadrados de carne à panela onde Zoya
fervia as cenouras num caldo aguado. Nessa noite não havia pão.
Era uma sorte que nenhum deles estivesse com muita fome. -
Amanhã, tenciono levá-la ao médico. - Contudo, tratava-se de
uma despesa superior às suas posses e nada restava para vender,

excepto a cigarreira do pai e três caixinhas de prata que
haviam pertencido ao irmão, mas Eugenia obrigara-a a prometer
que não as venderia.
- Conheço um médico na Rue Godot-de-Mauroy. Se quiser,
dou-lhe o nome. Leva barato. - Fazia abortos para as
prostitutas, mas era melhor do que a maioria dos do seu meio.
Antoine fora consultá-lo várias vezes por causa da perna e
achara-o hábil e bondoso. Agora tinha dores terríveis com
aquele frio e humidade do Inverno.
Zoya reparara que ele parecia coxear mais, mas aparentava
mais felicidade do que quando viera viver com elas. Devia
fazer-lhe bem regressar do trabalho a casa de pessoas decentes
e ter de se preocupar com a avó dela. Nunca lhe ocorreu que os
sentimentos que lhe dedicava o mantinham vivo e que, à noite,
deitado na cama, sonhava com ela no quarto ao lado, a dormir
enrascada em Eugenia.
- Que tal a escola hoje? - perguntou, enquanto esperava
que a água levantasse fervura. Fitava-o agora com um olhar mais
bondoso. Antoine atrevia-se mesmo a gracejar com ela de vez em
quando, e as trocas de palavras recordavam-lhe um pouco o
irmão. Não era um homem bonito mas era inteligente, culto e
possuía um bom sentido de humor. Ajudava durante os raids
aéreos e as noites frias. Era o que as aguentava em lugar da
comida, do calor e dos pequenos prazeres da vida.
- Correu bem. Contudo, anseio pelas férias. Terei
oportunidade de pôr a leitura em dia. Quer ir ao teatro um dia?
Conheço alguém que nos deixará entrar na Opéra Cornique, se
estiver disposta a tentar.
A frase transportou-a de volta a Clayton e aos dias mais
amenos de Verão. Há uns tempos que não recebia notícias dele e
pressupôs que andasse ocupado com o general Pershing. Este
planeava toda a campanha francesa, e a jovem estava a par de
que era tudo muito secreto. Só Deus sabia quando o veria de
novo. Contudo, habituara-se à situação. Vira pela última vez
tantas pessoas que amava. Era dificil imaginar alguém sem a
sensação de perda. Obrigou-se a deixar de pensar em Clayton e a
regressar a Antoine e à sua oferta de irem ao teatro.
- Gostaria de ir ao museu um dia destes. - Ele era de
facto uma boa companhia e muito culto, embora não no sentido
das suas desaparecidas amizades russas. Mas era um homem muito
calmo à sua maneira, o que lhe agradava.
- Iremos sair, mal acabem as aulas. Que tal o guisado?
indagou, fazendo-a rir.
- Um horror, como sempre.
- Gostava que pudéssemos ter alguns condimentos decentes.
- E eu que pudéssemos arranjar alguns autênticos legunies e
fruta. Se vir mais alguma cenoura velha, acho que grito. Quando
penso no que costumávamos comer em Sampetersburgo, sinto vontade
de chorar. Nessa altura, nem sequer pensava nisso. Na noite
passada, fui mesmo ao ponto de sonhar com comida. - Na noite
anterior, Antoine sonhara com a própria mulher, mas não lho
confessou, limitando-se a esboçar um aceno de cabeça e a ajudá-la
a pôr a mesa. - A propósito, que tal está a sua perna? - Sabia que
Antoine não gostava de falar no assunto, mas embrulhara-lhe uma
botija quente mais do que uma vez e ele levara-a para a cama e
dissera que o ajudara.
- O frio não é nada bom. Dê-se por satisfeita por ser jovem.
A sua avó e eu não temos essa sorte. - Sorriu-lhe e ficou a vê-la

deitar o magro guisado em três tigelas feias e rachadas.
Zoya acabaria por chorar se pensasse na bonita louça de
porcelana em que jantavam todas as noites no Palácio Fontanka.
Havia tanta coisa que tinham tomado por garantido e nunca mais
veriam. Era horrível pensar nisso agora e Antoine bateu à porta
do quarto a fim de trazer Eugenia para jantar. Parecia, contudo,
preocupado, quando voltou só e fitou Zoya sobre a pequena mesa de
cozinha.
- Ela diz que não tem fome - declarou. - Acha que devo ir
buscar o médico para que a veja esta noite? - Zoya hesitou um
longo momento, ponderando na decisão a tomar. Uma visita nocturna
a casa seria ainda mais cara do que se as atendesse no
consultório.
- Vejamos como ela está depois do jantar. Pode sentir-se
apenas cansada. Vou levar-lhe chá daqui a pouco. Está deitada?
Antoine abanou a cabeça com uma expressão preocupada.
- Está a dormitar na cadeira, com o tricô no colo. - Há
meses que Eugema andava às voltas com um pequeno pedaço
rectangular de lã, garantindo que um dia seria uma camisola para
Zoya.
Sentaram-se os dois a jantar e, mediante um silencioso
acordo, não tocaram na terceira tigela, embora estivessem com
fome. Havia ainda uma hipótese de que Eugenia resolvesse jantar.
- Que tal correu o ensaio? - Antoine mostrava-se sempre
interessado no que ela fazia e, embora não fosse um homem bonito,
havia uma expressão amável de rapazinho nos seus olhos. Tinha
cabelo louro e ralo que apartava cuidadosamente com uma risca ao
meio e mãos bonitas em que há muito reparara. Haviam deixado de
tremer e, embora sentisse dores permanentes na perna, já não
andava tão nervoso.
- Tudo em ordem. Gostava que os Ballets Russes voltassem.
Sinto a falta de dançar com eles. Esta gente não sabe o que anda
a fazer. - Contudo, havia, pelo menos, dinheiro para comida. Um
emprego era demasiado precioso para se perder no Inverno de 1917,
em Paris.
- Hoje num café, encontrei umas pessoas que estavam a falar
do golpe de Estado na Rússia no mês passado. Foi uma discussão
infindável. sobre o Trotski, o Lenine e os bolcheviques com dois
pacifistas que se irritaram tanto que ameaçaram socar os outros
dois. - Esboçou um sorriso malicioso. - Foi o pacifismo no seu
melhor. Na realidade, gostei da discussão. - Na altura, reinava
um sentimento de hostilidade contra os bolcheviques e Antoine
partilhava a perspectiva pacifísta, como muitos outros.
- Interrogo-me sobre o efeito que terá nos Romanov -
retorquiu Zoya quase num sussurro. - Há muito tempo que não recebo
uma carta da Sibéria.
Preocupava-a, mas talvez o Dr. Botkin não tivesse conseguido
fazer chegar as suas cartas a Mashka. Havia que ter este facto em
consideração e esperar pacientemente por uma resposta. Nestes dias
tudo parecia exigir paciência. Todos aguardavam melhores tempos.
Somente esperava que sobrevivessem para ver. Falava-se mesmo na
possibilidade de Paris ser atacada, o que parecia difícil de
acreditar com todas aquelas tropas inglesas e americanas
espalhadas por toda a França. Contudo, depois daquilo a que
assistira na Rússia há uns meros nove meses, sabia que tudo era
possível.
Levantou-se e levou a tigela com o resto do caldo para o
quarto da avó, mas regressou minutos depois e dirigiu-se em voz

baixa a Antoine, que estava na cozinha.
- Adormeceu. Talvez seja melhor deixá-la dormir. Tapei-a com
um cobertor para que não arrefeça. - Era um dos cobertores que
Clayton lhe dera no Verão anterior. - Não se esqueça de me dar o
nome desse médico, amanhã, antes de ir dar aulas.
Antoine esboçou um aceno de cabeça e fitou-a com uma
expressão interrogativa:
- Quer que vá consigo? - No entanto, ela limitou-se a abanar
a cabeça, pois mantinha o seu forte sentido de independência. Não
chegara até ali quase pelos seus próprios meios para agora
depender de alguém, mesmo de alguém tão modesto como o hóspede.
Acabou de lavar a louça e sentou-se na sala de estar, o mais
proximo possível do fogo, aquecendo as mãos, enquanto ele a
observava. As chamas desenhavam reflexos dourados no cabelo de
Zoya e os olhos verdes pareciam dançar. Incapaz de resistir ao
apelo, Antoine viu-se junto dela, em parte para se aquecer, em
parte para lhe sentir a presença.
- Tem um cabelo tão bonito... - declarou sem pensar e depois
corou quando ela o fitou, surpreendida.
- Também você - troçou, pensando nas trocas de palavras
insultuosas com Nicolai, de que tanto gostavam. - Desculpe... Não
pretendi ser indelicada... Estava a pensar no meu irmão. -
Contemplou o fogo e Antoine prosseguiu a observação.
- Como era ele? - indagou num tom suave e julgou que o
coração iria quebrar-se, tal era a ansiedade de estender a mão e
tocar-lhe.
- Era maravilhoso... atento, divertido, corajoso e audaz e
muito, muito atraente. Tinha cabelos pretos como o meu pai c olhos
verdes. - Depois, soltou uma súbita risada, ao lembrar-se. -
Adorava bailarinas. - A maior parte da família imperial nutria
essa mesma simpatia. - Mas ficaria tão zangado comigo, agora. -
Fitou Antoine com um sorriso triste. - Ficaria furioso por eu
dançar... - O pensamento vagueou uma vez mais, e Antoine não
conseguia desviar o olhar.
- Tenho a certeza de que compreenderia. Todos temos de fazer
o que devemos para sobreviver. Não há muitas opções. Devem ter
estado muito próximo do fim.
- Estivemos. - E logo em seguida: - A minha mãe enlouqueceu
quando o mataram. - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ao pensar
nele sangrando de morte no átrio e na avó a atar inutilmente os
saiotes à volta das feridas para tentar salvá-lo. Era um
pensamento quase insuportável e, nesse momento, Sava aproximou-se
sem fazer ruído da cadeira dela e lambeu-lhe a mão, trazendo-a ao
presente.
Permaneceram sentados durante muito tempo. Ele puxara a única
outra cadeira do quarto e sentaram-se junto ao fogo, imersos nos
seus próprios pensamentos, até que Antoine ganhou um pouco de
coragem.
- O que deseja fazer com a sua vida? Alguma vez ponderou
isso?
- Dançar, suponho - retorquiu, surpreendida com a pergunta.
- E depois? - Antoine sentia-se curioso a respeito da jovem
e raramente tinha oportunidade de a apanhar a sós sem Eugenia.
- Dantes, queria casar e ter filhos.
- E agora? Deixou de pensar nisso?
- Praticamente. A maior parte das bailarinas nunca casam.
Dançam até caírem, ou ensinam, o que quer que aconteça primeiro. -
A maioria das bailarinas que conhecia nunca se casara e não estava

muito certa de se importar. Não havia ninguém com quem pudesse
imaginar-se casada. Clayton era só um amigo, o príncipe Markovski
era velho de mais, os homens do ballet estavam para lá das suas
esperanças e era obviamente incapaz de se ver casada com Antoine.
E não havia mais ninguém. Além disso, tinha de tomar conta de
Eugenia.
- Daria uma mulher fantástica. - Pronunciou a frase com um
ar tão solene que ela riu.
- O meu irmão tê-lo-ia achado louco. Sou uma péssima
cozinheira e detesto coser. Não sei pintar aguarelas, nem
tricotar. Nem estou muito certa de saber governar uma casa,
embora isso pouco interesse agora... - Sorriu ante a ideia,
enquanto ele a observava.
- O casamento é algo mais do que cozinhar e coser.
- Bom. Também não sei se sou boa nisso! - Corou e soltou uma
gargalhada e ele corou também. Chocava-se com facilidade e ela
chocara-o.
- Zoyai
- Desculpe. - Contudo, parecia mais divertida do que
constrangido, ao acariciar a pequena Sava. Até a cadela
emagrecera, pois só era alimentada com os magros restos da mesa.
- Talvez um dia haja alguém que a leve a desejar abandonar
a dança. - Antoine compreendera mal. Não tinha assim uma paixão
tão grande pelo ballet, só que a alternativa era nula. Precisava
de trabalhar para o seu sustento e de Eugenia, e a dança era a
única coisa que sabia fazer. Pelo menos, era alguma @ coisa.
- É melhor meter a avó na cama, ou amanhã os joelhos matam-
na. - Levantou-se, espreguiçou-se e Sava seguiu-a até ao quarto.
Eugenia já tinha acordado e estava a vestir a camisa de noite. -
Quer o caldo, avó? - Continuava à esPera dela na cozinha, mas ela
abanou a cabeça com um sorriso cansado.
- Não, querida. Estou cansada de mais para comer. Porque não
o guardas para amanhã? - Com a cidade de Paris à fome, teria sido
um crime desperdiçá-lo. - O que estiveste a fazer na sala?
- A conversar com o Antoine.
- É um bom homem - declarou, fitando intencionalmente Zoya,
que pareceu não reparar.
- Deu-me o nome de um médico na Rue Godot-de-Mauroy. Quero
levá-la lá amanhã, antes de ir para o ensaio.
- Não preciso de um médico. - Estava a apanhar o cabelo e,
um momento depois, subiu com esforço para a cama. O quarto estava
frio e sentia dores horríveis nos joelhos.
- Essa tosse não me agrada.
- Na minha idade, até ter tosse é uma bênção. Pelo menos
ainda estou viva.
- Não fale assim. - Só começara a dizer coisas daquelas
depois da morte de Feodor. O desaparecimento dele deprimira-a
muito, juntamente com o facto de saber que o dinheieiro estava
quase a chegar ao fim.
Zoya vestiu também a sua canúsa de noite, apagou a luz e
abraçou com força a avó para a aquecer naquela noite de Dezembro.

CAPíTULO 19

O médico a quem Zoya levou a avó afirmou tratar-se apenas de
tosse e não de tuberculose. Valia a pena pagar o preço pelas boas

notícias, mas Zoya tivera de dar-lhe praticamente o dinheiro que
lhe restava. Até mesmo os baixos honorários eram demasiados para
os seus bolsos vazios.
Contudo, nada disse a Eugenia quando o príncipe Markovski as
levou de volta ao apartamento no carro. Este lançou alguns olhares
intencionais a Zoya, que ela ignorou, e deixou-o a falar com a avó
no apartamento quando foi ensaiar. E, ao regressar nessa noite,
achou que a avó parecia um pouco melhor. O médico dera-lhe um
xarope para a tosse que estava a surtir efeito.
Antoine, já estava na cozinha a preparar o jantar. Nessa
noite trouxera frango, o que era uma invulgar regalia. Significava
que não só teriam jantar, como canja para o dia seguinte. E ao pôr
a mesa para os três, interrogou-se sobre se Mashka teria os mesmos
problemas. Talvez um frango lhe parecesse um luxo, agora. Se
estivessem juntas, ririam sobre o assunto. Mas agora não tinha com
quem se rir.
- Olá, Antoine. - Sorriu e agradeceu-lhe pelo nome do médico.
- Não devias ter gasto o dinheiro - censurou Eugenia de uma
cadeira perto do fogo. Vladimir trouxera-lhes lenha. Tomara-se
subitamente um dia de riquezas inesperadas.
- Deixe-se de parvoíces, avó.
Os três regalaram-se com o frango que ele serviu na própria
canja e, depois, Zoya bebeu chá com eles junto ao fogo. E quando
a avó se foi deitar, Antoine ficou a conversar com ela. Era algo
que nos últimos tempos faziam frequentes vezes, e pelo menos tinha
alguém com quem trocar impressões. Ele relembrava os Natais em
criança e os olhos brilhavam-lhe. Adorava estar próximo dela.
- O nosso Natal é mais tarde do que o vosso. É a 6 de
Janeiro.
- O Dia de Reis.
- Há festejos maravilhosos por toda a Rússia. Ou havia.
Suponho que aqui iremos à igreja russa. - De certa maneira ansiava
por isso e, por outro lado, sabia que seria deprimente. Todas
aquelas almas perdidas, de pé à luz das velas, lembrando um mundo
perdido. Ignorava se conseguiria aguentar, mas a avó insistiria
em que fossem. Esse ano, não haveria, obviamente, presentes. Não
havia dinheiro com que os comprar.
Todavia, quando chegou o Natal, Antoine surpreendeu-a.
Trouxe-lhe um cachecol quente e um confortável par de luvas e um
frasco minúsculo do perfume que ela uma vez mencionara. Foi o
perfume que lhe tocou o coração e lhe fez subir lágrimas aos
olhos. Era Lilas, de que Mashka tanto gostava e lhe dera meses
atrás. Tirou a tampa do fresquinho e o aroma suave trouxe-lhe de
volta o toque e o cheiro de tudo o que amava e da sua adorada
Mashka. As lágrimas rolavam-lhe lentamente pelas faces quando o
olhou e, sem pensar, num gracioso gesto de criança, pôs-lhe os
braços à volta do pescoço e beijou-o. Foi um beijo fraterno, mas
todo o corpo dele tremeu ao senti-la perto de si.
Eugenia observava a cena, igualmente de lágrimas nos olhos.
Ele não era o par que teria desejado para Zoya, mas era um homem
decente e trabalhador e tomaria conta da neta. Antoine falara-lhe
no assunto no dia anterior e ela dera a sua bênção. Sentia-se mais
fraca de dia para dia e invadia-a o pavor de que, se morresse, não
haveria ninguém para tomar conta de Zoya. Tinha de casar com ele
agora para que o seu espírito ficasse em paz.
Contudo, Zoya não fazia a mínima ideia do que haviam planeado
quando lhe agradeceu. entusiasmada, o perfume. Antoine oferecera
à avó um xaile bordado e um livro de poemas russos. E Zoya sentiu-

se envergonhada por apenas lhe terem comprado um bloco de
apontamentos e um livro sobre a Rússia.
Descobrira-o num vendedor de livros no Quai d'Orsay, num
pequeno e feio quiosque, mas era em francês e achou que poderia
agradar-lhe. Mas não tanto quanto ela gostara do perfume.
A avó saiu discretamente com os presentes e fechou a porta
do quarto sem ruído, desejando-lhe sucesso intimamente e rezando
para que Zoya fosse sensata e o aceitasse.
- Deve ter gasto todo o seu dinheiro - retorquiu, ao mesmo
tempo que remexia o fogo com uma longa tenaz de metal e Sava
agitava a cauda. - Foi idiota mas também um gesto generoso,
Antoine. Muito obrigada, Antoine. Usarei o perfume em ocasiões
especiais. - Já decidira pô-lo dali a duas semanas no Natal russo.
Não queria desperdiçá-lo antes.
Antoine sentou-se na cadeira diante dela e respirou fundo,
tentando ganhar coragem. Era treze anos mais velho do que ela, mas
nunca se sentira tão aterrorizado em toda a vida. Até mesmo Verdun
lhe causara menos medo do que enfrentar Zoya.
- Queria falar-lhe de uma ocasião especial, Zoya, já que a
menciona. - Sentiu um suor frio nas palmas das mãos quando ela lhe
deitou um olhar estranho.
- O que significa isso?
- Significa... - O coração batia-lhe com força no peito. -
Significa... Amo-a. - Ela mal ouviu as palavras e fitou-o,
surpreendida.
- O quê?
- Amo-a. Amo-a desde o dia em, que cheguei aqui. Julguei que
suspeitasse.
- Como havia de suspeitar? - Parecia admirada e irritada. Ele
estragara tudo. Como podiam ser amigos agora frente a uma tal
estupidez? - Mas nem sequer me conhece!
- Há dois meses que vivemos na mesma casa. Chega. Nem sequer
teria de ser muito diferente. Poderíamos continuar aqui, à
excepção de que dormiria no meu quarto.
- Que maravilha! - exclamou, levantando-se e começando a
percorrer a sala de um lado para o outro. - Uma mera mudança de
quartos e poderíamos continuar como até agora. Como é capaz sequer
de o sugerir? Estamos todos a morrer de fome, não temos dinheiro
e quer casar-se. Porquê? Porquê? Não o amo. Nem sequer o conheço,
nem você a mim... Somos dois estranhos, Antoine!
- Não somos estranhos, somos amigos. E alguns dos melhores
casamentos começam precisamente assim.
- Não penso dessa maneira. Quero estar apaixonada pelo homem
com quem casar, louca e totalmente apaixonada. Quero que seja algo
de maravilhoso e romântico.
Antoime parecia tristíssimo ante aquela explosão, mas ela
gritava mais com o destino que os juntara do que com o homem que
lhe trouxera o seu perfume favorito.
- A sua avó acha que podíamos ser muito felizes. - No
entanto, era o pior que podia ter dito e ela pôs-se a percorrer
a sala em grandes passadas.
- Então, case-se com a minha avó! Não quero casar-me! Agora,
não! Tudo à nossa volta está doente, frio e moribundo. Tudo está
morto de fome, pobre e miserável. Que maneira de começar uma vida!
- O que está, de facto, a dizer é que não me ama. - Sentou-se
calmamente, disposto a aceitar até mesmo isso. E foi aquela
atitude passiva que a acalmou. Sentou-se diante dele e tomou-lhe
as mãos entre as suas, quentes.

- Não, não amo. Mas gosto de si. Julguei que fosse meu amigo.
Nunca pensei que houvesse algo mais por trás. Nada de sério, pelo
menos. Nunca me disse... - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.
- Tive medo. Promete pensar no assunto, Zoya?
Contudo, a jovem abanou tristemente a cabeça.
- Era incapaz, Antoine. Seria injusto para ambos. Merecemos
os dois mais do que isso. - Olhou à volta deles e depois fitou-o
novamente. - E, se nos amássemos, nada disto teria importância.
Mas tem. Simplesmente não o amo.
- Podia tentar. - Parecia tão novo, apesar dos danos e das
perdas.
- Não, não podia. Lamento... - Em seguida, abandonou a sala
e fechou a porta do quarto sem ruído, deixando o perfume, o
cachecol e as luvas em cima da mesa.
Antoine olhou em redor, apagou as luzes e regressou ao seu
quarto. Talvez ela mudasse de opinião. Talvez a avó conseguisse
convencê-la. Achara aquele plano tão sensato. Sabia, porém, que
a opinião dela provinha do desespero.
- Zoya?
A avó observava-a da cama de ambas, enquanto a neta se
despia, de frente para o jardim. Eugenia não lhe via o rosto, mas
suspeitava, instintivamente, que ela chorava. E, quando Zoya se
virou já de camisa de noite, os olhos verdes lançavam chispas.
- Porque o fez, avó? Porque o encorajou? Foi cruel para os
dois. - Pensou na dor reflectida na expressão de Antoine e sentiu-
se mal. Mas não o suficiente para o desposar por piedade. Tinha
de pensar em si também. E sabia que não o amava.
- Não é cruel. É sensato. Tens de casar com alguém e ele
tomará conta de ti. É professor, um homem respeitável e ama-te.
- Não o amo.
- És uma criança. Não sabes o que queres. - Suspeitava também
que Zoya ainda sonhava com Clayton, um homem com o dobro da idade
dela, de quem não tinha notícias desde Novembro.
- Quero amar o homem com quem me casar, avó. É pedir assim
tanto? - Lágrimas rolavam-lhe pelas faces ao afundar-se na única
cadeira do quarto, apertando Sava de encontro ao corpo.
- Normalmente, não, não é. Mas, na presente situação, é. Tens
de ser sensata. Estou velha e doente. O que vais fazer quando eu
morrer? Ficar aqui sozinha e continuar a dançar? Tornar-te-ás
velha, azeda e amarga. Deixa-te desses disparates. Aceita-o e
obriga-te a aprenderes a arná-lo.
- Avó! Como pode dizer uma coisa dessas?
- Porque vivi muito. O suficiente para saber quando lutar e
quando desistir e quando assumir compromissos de coração. Não
achas que gostaria de te ver casada com um príncipe elegante, em
Sampetersburgo, numa casa como Fontanka? Contudo, já não há
príncipes, andam todos ao volante de táxis. Fontanka desapareceu,
a Rússia desapareceu. Isto é tudo o que existe, Zoya, talvez para
sempre. Tens de te adaptar. Não te deixarei só. Quero saber que
alguém tomará conta de ti.
- Não lhe interessa que não o ame?
Eugenia abanou tristemente a cabeça.
- Não é importante, Zoya. Não, agora. Casa com ele. Acho que
não te arrependerás.
"Mas ele é feio", apetecia-lhe gritar. "... É aleijado... "
Todavia, no fundo do coração sabia que nada disto importaria, se
o amasse. A vida com Antoine seria sempre triste, seria sempre
menos do que desejara. E a ideia de ter filhos dele levava-a a

desejar chorar mais ainda. Não queria filhos dele, não o amava.
Era simplesmente incapaz.
- Não consigo - retorquiu com a sensação de que asfixiava.
- Consegues, sim. E deves. Por mim, Zoya... fá-lo por num,
antes que morra. Deixa-me saber que estás segura com um homem que
te protegerá.
- Protegerá do quê? Da fome? Estamos todos a morrer de fome.
Ele não pode mudar a situação. E nem me interessa. Preferia morrer
de fome aqui sozinha do que estar casada com um homem que não amo.
- Não decidas já, pequenina. Pensa no assunto. Dá-lhe um
tempo. Por favor... por mim... - Os olhos suplicavam, e Zoya
chorava como se tivesse o coração partido. Contudo, na manhã
seguinte, as lágrimas haviam desaparecido. Falou de imediato com
Antoine.
- Quero que saiba, sem que lhe reste sombra de dúvida, que
não casarei consigo, Antoine. Quero esquecer que isto aconteceu.
- Não posso. Sou incapaz de viver aqui, sabendo como a
desejo.
- Já me desejava antes - replicou, subitamente aterrorizada
com a perspectiva de ficarem sem o hóspede.
- Era diferente. Não o sabia e agora sabe.
- Fingirei que nunca o disse. - Parecia novamente assustada
como uma criança e ele esboçou um sorriso triste.
- Não será possível. Tem a certeza, Zoya? Não pode pensar
algum tempo?
- Não. E não quero dar-lhe falsas esperanças. Não posso casar
consigo. Nunca.
- Há mais alguém? - Sabia que ela tinha um amigo americano,
mas nunca pensara que havia algo de sério entre eles.
- Não, não dessa maneira. Há apenas um sonho. Contudo, se
desistir dos meus sonhos agora, não terei nada. São tudo o que me
resta.
- Talvez as coisas melhorem depois da guerra. Talvez
consigamos um apartamento só para nós. - Os sonhos dele eram tão
pequenos e os dela ainda tão grandes. Abanou a cabeça e, desta
vez, ele acreditou.
- Não posso, Antoine. Tem de acreditar em mira.
- Então, terei de me mudar.
- Não... por favor... juro que me manterei afastada. A avó
ficará com o coração desfeito, se se for embora.
- E você, Zoya? - A jovem observava-o, silenciosa. - Terá
saudades minhas?
- Julguei que era meu amigo - redarguiu tristemente.
- Sou. Sempre o serei. Contudo, não posso ficar aqui. - Ele
tinha um resto de orgulho, e, quando fez as malas nessa tarde,
Zoya entrou em pânico. Implorou-lhe que não se fosse embora,
prometendo-lhe quase tudo, excepto o casamento. Sem o contributo
dele para renda e a comida, ficariam numa situação ainda mais
desesperada. - Impossível - teimou Antoine. Eugenia falou com ele,
prometeu-lhe que convenceria Zoya a ser sensata, mas nada o
demoveu. Vira os olhos da jovem e ouvira as suas palavras. E ela
tinha razão. Não podia casar com um homem que não amava. Não era
esse géne-ro de mulher. - É melhor ir-me embora. Amanhã,
procurarei outro quarto.
- Ela é uma jovenzinha idiota. - E foi isso mesmo o que
Eugenia disse à neta nessa noite. Estava a desperdiçar a única
oportunidade que tinha de se casar.
- Pouco me interessa se nunca me casar - replicou Zoya, mais

uma vez debulhada em lágrimas.
E, na manhã seguinte, quando se levantou, Antoine tinha-lhe
escrito uma carta e ido embora com as suas coisas. Havia três
notas amarrotadas em cima da mesa e na carta desejava-lhe
felicidades. Sobre as notas, deixara o frasco de perfume que lhe
tinha oferecido no Natal.
Eugenia rompeu em soluços ao vê-lo, e Zoya meteu calniamente
as três notas amarrotadas no bolso.

CAPÍTULO 20

Nas duas semanas seguintes pairou a tristeza no apartamento
junto ao Palais Royal. O ballet encerrara durante três semanas e,
embora tivessem passado palavra por intermédio de Vladimir, não
apareceu nenhum hóspede.
Desgostosa com a atitude de Zoya, Eugenia parecia haver
envelhecido quase de uma noite para outra e, embora a tosse
tivesse melhorado, estava debilitada. Censurava a neta quase
diariamente por causa de Antoine e a situação financeira tornou-se
tão desesperada que, pouco depois do Ano Novo, Eugenia desceu
dificilmente as escadas e pediu a Vladimir que a levasse até ao
ourives da Rue Cambon.
A deslocação era praticamente inútil, mas sentia que não lhe
restava alternativa. Abriu com cuidado o embrulho que trouxera e
mostrou a cigarreira em ouro de Konstantin e três das caixinhas
em prata de Nicolai. As tampas eram réplicas em esmalte das suas
insígnias militares e estavam gravadas com frases divertidas e os
nomes dos amigos; uma delas tinha uma pequena rã e outra uma
fieira de elefantes brancos em esmalte. Representavam todas as
coisas de que gostava ou que significavam algo para ele e haviam
sido oferecidas por amigos. Há muito que prometera a si própria
e a Zoya que nunca as venderia.
O ourives reconheceu-as de imediato como peças de Fabergé,
mas já vira mais de uma dúzia de objectos semelhantes.
- Não posso oferecer muito - desculpou-se, e a soma que
escreveu fez subir lágrimas aos olhos de Eugenia, mas tinham de
comer. - Lamento, madame. - Ela inclinou a cabeça com uma
silenciosa dignidade, falha de palavras, e aceitou a pequena
quantia mencionada. Serviria para as manter pelo menos uma semana,
se não comprassem algo demasiado extravagante.
O príncipe Vladimir reparou que a velha senhora parecia
pálida, mas não fez, como habitualmente, perguntas vulgares.
Limitou-se a levá-la a casa, depois de pararem para comprar um pão
e um frango magríssimo. Zoya esperava-os com um ar abatido mas
extremamente bonita.
- Onde esteve? - perguntou ao acomodar a avó numa cadeira e
enquanto Vladimir descia as escadas para trazer mais lenha.
- O Vladimir levou-me a dar uma volta. - Contudo, Zoya
desconfiava que se tratava de algo mais.
- É tudo? - Ia a responder afirmativamente, mas os olhos
encheram-se-lhe de lágrimas e começou a chorar, sentindo-se
cansada e velha, e como se a vida tivesse cometido a sua traição
final. Nem sequer podia permitir-se morrer. Ainda tinha de pensar
em Zoya. - O que fez avó? - Zoya sentiu-se subitamente assustada,
mas a velha senhora assoou-se ao lencinho de renda que ainda
trazia.

- Nada, minha querida. O Vladimir tinha-se oferecido para nos
levar esta noite à Igreja de Santo Alexandre Nevski. - Era véspera
de Natal para eles e Zoya sabia que todos os Russos em Paris
compareceriam, mas não tinha a certeza se seria indicado para a
avó ir assistir à missa da meia-noite na igreja. Talvez fosse
melhor ficarem em casa. De qualquer maneira não lhe apetecia, mas
a avó endireitou-se com uma expressão inamomível e sorriu a
Vladimir, quando ele regressou com a lenha.
- Tem a certeza de que quer ir, avó?
- Claro. - E o que interessava, agora? - Nunca faltei à missa
de Natal uma única vez na minha vida.
Contudo, ambas sabiam que as esperava um ano difícil. Com
tantas perdas, o serviço religioso apenas lhes lembraria o ano
anterior em que tinham celebrado o Natal rodeadas pelos entes amados. E Zoya andara a pensar o dia inteiro em Mashka e nos
outros, que passariam o Natal em Tobolsk.
- Voltarei às onze - prometeu Vladimir, ao sair. Zoya estava
a planear usar o seu melhor vestido, e a avó lavara e passara a
ferro a sua única gola decente de renda para pôr no vestido preto
que Zoya lhe comprara.
Foi uma véspera de Natal solitária no silencioso apartamento,
com o quarto de Antoine vazio e como que lançando-lhes uma
censura. Eugenia oferecera-o a Zoya há uns dias, mas ela não
conseguia decidir-se a mudar. Depois de Feodor e de Antoine, não
queria o quarto e preferia continuar a dormir com a avó até
encontrarem um novo hóspede.
Nessa noite cozinhou o frango para a avó, assando-o com
cuidado no pequeno fogão. Era um luxo não fazer canja, mas
tratava-se do único presente que partilhavam e ambas se
concentravam desesperadamente em esquecer anos anteriores, nos
seus dias de riqueza. Na véspera de Natal ficavam sepre em casa,
depois iam à igreja com a família à meia-noite e no dia seguinte
a Tsarskoie Selo, para celebrar em conjunto com Nicolau e os
outros.
Agora e em vez disso, trocaram comentários sobre o frango,
falaram da guerra, mencionaram Vladimir, tudo para evitar os seus
próprios pensamentos. Quando Zoya ouviu uma ligeira pancada na
porta, levantou-se para ir ver quem era, roçando por Sava que
esperava um pouco dos restos do frango.
- Sim? - Zoya interrogou-se sobre se seria a resposta às suas
preces e um novo hóspede estava prestes a surgir, indicado por
Vladimir ou um dos seus amigos. Era, contudo, uma hora estranha
para aparecer e a jovem ficou pregada ao chão ao ouvir uma voz
familiar... Não podia ser... mas era. Escancarou a porta e deteve-
se a olhá-lo, completamente fardado, as ombreiras e o boné
reluzindo com as insígnias, o rosto sério, mas os olhos azuis
cheios de calor.
- Feliz Natal, Zoya. - Era Clayton que estava ali, de pé. Há
quatro meses que não o via, mas ele sabia a importancia daquela
data para elas e movera céus e terra para sair de Chaumont a tempo
de a partilharem juntos. Tinha uma licença de quatro dias e queria
passá-la com Zoya. - Possô entrar? - A jovem conservava-se,
imóvel, incapaz de pronunciar uma palavra e fitando-o numa
silenciosa admiração.
- Eu... Meu Deus... és mesmo tu?
- Acho que sim. - Sorriu e baixou-se meigamente para a beijar
na face. O namoro do Verão anterior não fora mais longe do que
isso, mas agora ansiava por tomá-la nos braços. Quase se esquecera

de como ela era bonita, pensou ao observar a figura esguia e
graciosa que tinha na frente.
Zoya seguiu-o até ao interior, fitando, cheia de felicidade,
os ombros largos e direitos. Os olhos inundaram-se-lhe de alegria
quando ele cumprimentou a avó e reparou que trazia um saco de onde
retirou tesouros fantásticos para elas.
Havia pãezinhos acabados de sair do forno do quartel,
chocolates, três enormes e grossas salsichas, uma alface fresca,
algumas maçãs e uma garrafa de vinho das caves do general
Pershing. Tratava-se de riquezas indescritíveis, muito longe do
que haviam visto nos últimos meses. Zoya perscrutava-o com olhos
redondos, felizes e uma expressão de adoração.
- Feliz Natal, condessa - desejou Clayton num tom calmo. -
Tive saudades de ambas. - Mas nem metade das que Zoya sentira
dele. Ainda se apercebia melhor de que era assim, agora na sua
presença.
- Obrigada, capitão. Como vai a guerra? - indagou Eugenia sem
erguer a voz e observando a neta. O que viu aqueceu-lhe o coração
e alegrou-a de imediato. Era aquele o homem que Zoya desejava,
quer o soubesse ou não. Era bem visível.
Clayton era elegante e tinha um porte orgulhoso, viril e alto
na salinha de estar, dominando tudo à sua volta.
- Infelizmente ainda não acabou, mas estamos a trabalhar
nesse sentido. Devemos ter tudo sob controlo daqui a uns meses. -
Os restos do jantar permaneciam na mesa, agora já sem graça, e
Zoya fitou os apetitosos chocolates. Riu ao oferecer um à avó e
depois comeu dois como uma criança esfaimada, e Clayton soltou uma
gargalhada. Estava tão feliz por a ver. - Não posso esquecer-me
de quanto gostas desses chocolates - troçou, agarrando-lhe
ternamente na mão.
- Uumm!... maravilhosos!... muito obrigada!... - Eugenia ria
ao observá-la. Parecia de novo tão jovem e feliz quando o capitão
olhou por cima da cabeça dela e fitou a velha senhora. Esta tinha
envelhecido nos últimos meses e ambas lhe pareciam mais magras,
mais magras e mais cansadas, mas Zoya não perdera a beleza.
Clayton ansiava por a envolver nos braços e apertá-la de encontro
ao corpo.
- Sente-se, por favor, capitão - convidou Eugenia, irradiando
elegância e um porte orgulhoso, apesar da idade, da tristeza e dos
constantes sacrifícios por Zoya.
- Obrigado. E tencionam ir à igreja esta noite, minhas
senhoras? - Sabia que para elas se tratava de um ritual. Zoya
contara-lhe tudo sobre as procissões de velas na véspera de Natal
e queria acompanhá-las. Fizera o impossível para passar aquela
noite com elas, e Zoya esboçou um aceno de cabeça vincado,
questionando a avó com os olhos.
- Quer juntar-se a nós, sír? - convidou Eugenia.
- Gostaria muito. - Abriu a garrafa e Zoya foi buscar os
copos que ele lhes dera no Verão anterior e deteve-se a olhá-lo
em silêncio enquanto ele servia o vinho.
Assemelhava-se a um sonho vê-lo ali de uniforme, qual
visão, e recordou-se subitamente do que dissera a Antoine. Não
podia casar com um homem que não amasse. E soube que amava
aquele homem. Podia casar-se com ele, independentemente da
idade, de onde ele estivera ou do que lhes acontecesse...
Tratava-se, porém, de pensamentos idiotas. Há dois meses
que não tinha notícias. Não fazia ideia dos sentimentos dele
nem de até que ponto lhe interessava. Apenas sabia que ele era

generoso e bom e regressara à sua vida na véspera de Natal.
Nada mais sabia. Contudo, ao observá-los, Eugenia sabia mais do
que isso, mesmo mais do que o próprio Clayton naquele momento.
Vladimir chegou pouco depois das onze. Prometera levá-las
no carro à igreja e pareceu surpreendido ao deparar com
Clayton. A condessa apresentou os dois homens, e Vladimir
perscrutou a face do capitão, interrogando-se sobre quem ere e
o que fazia ali, mas os olhos de Zoya mostraram-se
elucidativos. Era como se tivesse sobrevivido aos últimos meses
apenas para usufruir daquele momento.
Clayton seguiu-a até à cozinha, enquanto Eugenia servia um
pouco de vinho ao príncipe, tocou-lhe suavemente no braço e
atraiu-a devagar a si. Os lábios afloraram ao de leve o cabelo
sedoso e fechou os olhos, quando a agarrou.
- Senti terrivelmente a tua falta... pequenina... Queria
escrever-te, mas não podia. Agora, é tudo top secret. É um
milagre que me tenham deixado vir. - Estava intimamente
envolvido em todos os planos de Pershing para a Força
Expedicionária Americana. Afastou-se dela e baixou a cabeça,
perscrutando-a com os brilhantes olhos azuis. - Tiveste
saudades minhas?
Zoya não conseguia falar e os olhos inundaram-se-lhe de
lágrimas como resposta. Tudo tinha sido tão difícil para elas,
a pobreza, a falta de comida, o frio Inverno, a guerra. Era
tudo um pesadelo e, subitamente, ali estava ele, com os bolos,
o vinho, e os fortes braços a envolver-lhe o corpo.
- Muitas mesmo - murmurou com voz rouca e desviando os
olhos. Receava fitá-lo, pois ele perceberia muita coisa.
Contudo, sentia-se segura na presença dele, como se o tivesse
esperado a vida inteira. Nessa altura, ouviu uma tosse delicada
na ombreira da porta da cozinha e viraram-se os dois. Era o
príncipe Vladimir que os observava com uma muda inveja.
- Ternos de sair dentro em pouco para a igreja, Zoya
Konstantinovna. - Dirigiu-se-lhe em russo e os olhos encontraram-
se por momentos com os de Clayton. - Acompanha-nos, sír? As
senhoras vão a um serviço religioso da meia-noite.
- Gostaria muito - respondeu, baixando os olhos para Zoya. -
Achas que a tua avó se importava?
- Claro que não. - Zoya falou pelas duas, sobretudo por si
própria, ao mesmo tempo que se interrogava sobre onde ele estaria
alojado. Pensou em oferecer-lhe o quarto de Antoine, mas suspeitou
correctamente que a avó não acharia conveniente. Não que
interessasse realmente. Que significado possuía o decoro, se não
havia comida, dinheiro, calor, e o mundo em que se vivera tinha
desaparecido? Quem se importaria mesmo com o decoro? Tudo lhe
parecia tão idiota, no momento em que Clayton lhe agarrou
meigamente a mão e a levou até à cozinha.
Sava seguia-os de perto, de focinho levantado, esperando por
uns restos de comida. Zoya baixou-se calmamente e deu-lhe um dos
seus preciosos bolinhos.
A avó foi buscar o chapéu e o casaco e a jovem tirou o seu
próprio casaco usado de um cabide perto da porta, enquanto os dois
homens aguardavam, conversando delicadamente sobre a guerra, o
tempo e as perspectivas de paz nos meses vindouros.
Vladimir parecia observá-lo criticamente, mas não conseguia
antipatizar com ele. O americano era, sem dúvida, velho de mais
para Zoya, e Eugenia seria insensata se permitisse que algo
acontecesse entre ambos. Quando a guerra acabasse, ele regressaria

a Nova Iorque e esqueceria a bonita rapariga com quem se divertira
em Paris.
Contudo, Vladimir não podia, obviamente, censurá-lo por a
desejar. Também ele a desejava, embora há mis de um mês andasse
a cortejar uma das amigas da filha. Tratava-s de uma robusta
rapariga russa de boas famílias que chegara a Paris na Primavera
anterior, como o resto, e ganhava a vida a costurar. Ela e a filha
estariam à sua espera na igreja.
Clayton ajudou a velha condessa a descer as escaldas, sob o
olhar de Zoya, e Vladimir liderou o caminho até ao táxi. Seguiram
devagar através das ruas tranquilas, e Clayton olhava em volta,
sobretudo para Zoya. Teve a sensação de que a jovem precisava de
se divertir e de umas boas refeições. Precisava também de um
casaco novo, pois o velho parecia quase fio, quando o vento
assobiou junto deles diante da Igreja de Santo Alexandre Nevski.
Era uma bonita e antiga igreja e já havia muita gelite no
interior quando entraram. Ouviram a música do órgão dos degraus
da frente e em redor soava o ameno murmúrio de vozes. O incenso
emanava um cheiro suave e estava calor lá dentro. Os olhos de Zoya
encheram-se repentinamente de lágrimas ao observar os rostos
familiares e ao ouvir falar russo por todo o lado.
Quase se assemelhava a voltar a casa, estando ali no meio de
toda aquela gente, cada um deles com uma enorme vela na mão.
Vladirnir estendeu uma a Eugenia e outra a Clayton e Zoya recebeu
uma de um miúdo. Ele ergueu o rosto com um sorriso tímido e
desejou-lhe um bom Natal.
E a jovem apenas conseguia pensar noutros Natais, noutros
tempos... Mashka e Olga e Tatiana e Anastasia... a tia Alix e o
tio Nicolau... e o débil Alexis... iam todos os anos juntos aos
oficios divinos da Páscoa que muito se pareciam com este... e,
enquanto se debatia com as recordações, Clayton pegou-lhe
ternamente na mão e manteve-a agarrada, como se pudesse ler-lhe
a mente e descobrir o que ela sentia. Rodeou-lhe o ombro com o
braço quando entoaram o primeiro hino e ficou extasiado ante a
beleza das vozes russas.
Lágrimas rolavam devagar pelas faces dos homens e muitas das
mulheres choravam ao recordar-se da vida que haviam partilhado num
lugar que jamais esqueceriam. Zoya pensou que tudo aquilo era
quase superior às suas forças, a familiaridade dos cheiros, dos
sons, das emoções. De olhos fechados, imaginou que Nicolai, a mãe
e o pai se encontravam ali. Era um pouco como se tivesse voltado
à infância, ali tão próxima de Clayton, e tentou fingir que ainda
estavam na Rússia.
Depois do serviço religioso, muitas pessoas conhecidas vieram
falar-lhes. Os homens esboçavam uma vénia e beijavam a mão de
Eugenia, os que haviam sido criados ajoelhavam-se brevemente aos
seus pés e as pessoas choravam copiosamente e abraçavam-se.
Clayton observava a cena, e Zoya apresentou-o a todos os que
conhecia. Havia tantos rostos que achava familiares, embora não
os conhecesse todos. No entanto, eles pareciam conhecê-la e a
Eugenia. O grão-duque Cyril estava presente, bem como outros
primos dos Rornanov, todos com roupa velha, sapatos gastos e
rostos que mal dissimulavam as preocupações. Era doloroso estar
ali e ao mesmo tempo uma consolação, como se fosse uma breve
viagem a um passado que todos desejavam recuperar e passariam uma
vida inteira a relembrar.
Eugenia parecia extenuada, mas conservava-se ao lado de
Vladimir. Alta e orgulhosa, cumprimentava toda a gente e

verificou-se um terrível momento quando o grão-duque Cyril se
aproximou dela e se pôs a soluçar como uma criança. Nenhum deles
conseguiu articular uma palavra, e Eugenia tocou-lhe numa bênção
silenciosa.
Nesse instante, Zoya agarrou-lhe ternamente no braço e, com
um olhar para Vladimir, levou-a lá para fora até ao táxi. Fora uma
noite difícil para todos, mas era muito importante também estarem
ali. E ela recostou-se no assento com um suspiro cansado e um
olhar que dizia tudo.
- Foi um belo serviço. - Clayton expressou-se num tom calmo
e muito comovido. Sentia-se-lhes o amor, o orgulho, a fé e a
tristeza. E era como se, numa muda concordância, tivessem estado
a rezar pelo czar, a mulher e os filhos. Clayton interrogou-se
sobre se Zoya voltara a ter notícias de Marie, mas não queria
perguntar-lhe diante de Eugenia. Era doloroso de mais. - Obrigado
por me ter deixado vir.
Clayton acompanhou-as até lá acima quando regressaram ao
apartamento e Vladimir serviu o resto do vinho. Ao ver o olhar
triste e o rosto cansado de Eugenia, Clayton lamentou não lhes ter
trazido brande. Ateou novamente o fogo e acariciou, distraído,
Sava, enquanto Zoya comia mais um bolinho.
- Devia ir deitar-se, avó.
- É o que farei daqui a um minuto. - Queria sentar-se um
pouco a recordar e depois brindou todos com um olhar terno. -
Feliz Natal, crianças. Deus nos abençoe a todos. - Bebeu um gole de vinho e depois levantou-se devaagar. - Agora, vou deixá-los.
Sinto-me muito cansada.
Clayton apercebeu-se de que ela mal podia andar. Zoya ajudou-
a a ir até ao quarto e regressou uns minutos depois. Vladimir saiu
pouco depois com um derradeiro olhar de iiiveja para Clayton. No
entanto, ele sorriu-lhe. Era um homem de sorte por Zoya o fitar
daquela maneira. Era tão jovem, tão alegre e tão bonita.
- Feliz Natal, Zoya. - A tristeza ensombrava-lhe o olhar e
ainda se sentia comovido com o serviço religioso da meia-noite.
- Feliz Natal para si, príncipe Vladimir. - Beijou-a nas
faces e desceu apressadamente as escadas de volta ao tá: A filha
e a amiga esperavam-no em casa.
E, quando a porta se fechou, Zoya virou-se tranquilamente
para Clayton. Era tudo tão agridoce, o passado e o presente, a
felicidade e a tristeza. As lembranças e realidade... Konstantin,
Nicolai... Vladimir... Feodor... Antoine... e agora, Clayton...
Ao fitá-lo, lembrou-se de todos e o cabelo brilhava-lhe como ouro
à luz do fogo. Ele aproximou-se sem ruído, agarrou-lhe nas mãos,
abraçou-a sem uma palavra e beijou-a.
- Feliz Natal. - Disse-o em russo, como ouvira uma e outra
e outra vez em Santo Alexandre Nevski. Zoya repetiu para ele e
durante um longo momento não se separariam. Clayton acariciava-lhe
o cabelo e ouviam o crepitar do fogo. Sava dormia ao lado deles. -
Amo-te... Zoya... - Ainda não quisera confessar-lho, quisera ter
a certeza e, contudo, estava certo. Soubera-o desde Setembro,
quando a deixara.
- Também te amo. - Ela sussurrou as palavras que eram tão
fáceis de lhe dirigir. - Oh, Clayton... Amo-te... - Contudo, havia
a guerra e ele teria eventualmente de deixar París e regressar a
Nova lorque. Não podia permitir-se pensar nisso agora. Não podia.
Clayton conduziu-a suavemente até ao sofá e sentaram-se de
mãos dadas, como duas crianças felizes.
- Preocupei-me tanto contigo. Quem me dera ter ficado aqui

todos estes meses. - E agora restavam-lhes apenas quatro dias, uma
ilhota de momentos num mar agitado que podia afogá-los a qualquer
momento.
- Sabia que irias voltar - sorriu Zoya. - Pelo menos, assim
o esperava. - E estava mais do que nunca agradecida por não ter
permitido que a avó a forçasse a casar com Antoine. Se lhe tivesse
dado ouvidos, podia estar casada com ele, ou mesmo com Vladimir,
quando Clayton regressasse.
- Tentei lutar contra este sentimento, sabes? - Suspirou e
estendeu as compridas pernas na feia carpete, que ainda ficara
mais no fio durante os últimos meses. Tudo no apartainento parecia
velho, sujo e miserável, à excepção da bonita rapariga ao seu
lado, de olhos verdes e cabelo ruivo, o rosto de traços perfeitos,
o rosto com que sonhara durante meses, mau grado todos os motivos
que dera a si próprio para tentar esquecê-la. - Sou demasiado
velho para ti, Zoya - prosseguiu. - Precisas de alguém novo, que
descubra a vida contigo e te torne feliz. - "Mas quem? O filho de
algum príncipe russo, um rapaz tão pobre quanto ela?" Na verdade,
precisava de alguém que cuidasse dela e queria ser ele a
desempenhar esse papel.
- Tornas-me feliz, Clayton. Mais feliz do que o fui alguina
vez... - Sorriu com franqueza. - ... De há muito, muito tempo para
cá. - Virou-se para ele com uma expressão grave. - Não quero
ninguém mais novo. Não me interessa se és velho ou novo. Só me
interessa o que sentimos. Queria lá saber que fosses rico ou
pobre, que tivesses cem ou dez anos. Quando se ama alguém, essas
coisas não são importantes.
- Algumas vezes são, miúda. - Ele era mais velho e mais
sensato. - É uma época estranha, perdeste tudo e estás armadilhada
aqui numa guerra e num país desconhecido. Somos ambos estranhos
aqui... mas, mais tarde, quando acalmar, podes olhar para mim e
perguntar o que estou a fazer junto de ti? - Sorriu-lhe, receoso
de que a sua previsão pudesse transformar-se em realidade. - A
guerra tem consequências bizarras. - Já vira acontecer a outros.
- Para mim, esta guerra é eterna. Não posso regressar a casa.
Oh... alguns deles pensam que um dia voltaremos... mas agora houve
outra revolução. Tudo será sempre diferente. E agora estamos aqui.
É esta a nossa vida, é esta a realidade... - Fitou-o com uma
expressão séria, já longe de ser criança, por mais jovem que
parecesse em idade verdadeira. - Só sei quanto te amo.
- Fazes com que me sinta tão novo, pequena Zoya. - Voltou a
apertá-la de encontro ao corpo e ela bebeu-lhe o calor e a força,
todas as boas coisas que possuíra há muito, quando o pai a
abraçava. - Fazes com que me sinta tão feliz.
Desta vez, beijou-o e, de súbito, ele apertou-a mais e teve
de lutar contra a paixão que o avassalava. Sonhara demasiado tempo
com ela, ansiara e precisava dela e agora mal conseguiu dominar
as emoções e o desejo.
Levantou-se e aproximou-se da janela, pondo-se a olhar, o
jardim. Depois, virou-se devagar, interrogando-se sobre o rumo
que as suas vidas tomariam. Regressara a Paris para a ver e,
contudo, sentia um súbito receio do que pudesse acontecer.
Apenas Zoya parecia segura e calma, certa de que tomava a
atitude indicada ao estar ao lado dele. Fitou-o com um olhar
tranquilo.
- Não quero fazer nada que venhas a lamentar, miúda. - E
depois: - Danças esta semana? - Ela abanou a ele sorriu: -

Óptimo. Assim, teremos algum tempo antes do meu regresso a
Chaumont. Suponho que agora tenho de te deixar. - Eram três da
manhã, mas não estava cansada quando o acompanhou à porta, com
Sava atrás.
- Onde estás alojado?
- Desta vez o general teve a bondade de me pôr à
disposição a casa do Ogden Mill. - Era onde se tinham conhecido, o bonito hôtel particulier na Rue de Varennes, na
margein esquerda, onda haviam passeado pelo jardim, na noite da
recepção aos Ballets Russes. - Posso vir buscar-te, amanhã de
manhã?
- Gostava muito - respondeu com um aceno de cabeça feliz.
- Virei às dez. - Voltou a beijá-la junto à ombreira da
porta, sem saber para onde iriam, mas seguro até ao mais íntimo
de si que agora não havia retorno.
- Boa noite, capitão - troçou Zoya, com um brilho imenso
no olhar.
- Boa noite, meu amor - pronunciou ele meigamente e desceu
apressadamente as escadas nuns pés com vontade de dançar. Era-
lhe impossível deixar de sorrir, pensando que nunca tinha sido
tão feliz na vida.

CAPITULO 21

- Na noite passada, deves ter-te deitado muito tarde -
comentou a avó num tom calmo, à mesa do pequeno-almoço. Zoya
cortara-lhe algumas das maçãs às fatias e fizera uma preciosa
torrada do pão que Clayton lhes trouxera.
- Não muito. - Desviou os olhos e bebeu o chá em pequenos
goles, comendo depois um chocolate.
- Ainda és uma criança - replicou a avó quase tristemente,
observando-a. Sabia o que ia seguir-se e temia pela neta. Ele era
bom homem, mas a situação não se afigurava desejável. Fora o que
Vladimir lhe dissera na noite anterior e tinha de concordar, mas
sabia que não conseguiria deter Zoya. Talvez o capitão fosse mais
sensato do que a neta, mas, dado ele ter percorrido todo o caminho
desde Chaumont para a ver, achava pouco provável. E era óbvio para
todos que ele estava desesperadamente apaixonado por Zoya.
- Tenho dezoito anos, avó.
- E daí? - redarguiu a velha senhora com um sorriso triste.
- Não sou tão pateta como pensa.
- És o suficiente para te apaixonares por um homem com idade suficiente para ser teu pai. Um homem que está num país estranho,
com um exército em guerra, um homem que um dia regressará a casa,
deixando-te aqui. Tens de pensar em tudo isso antes de fazeres uma
parvoíce.
- Não vou fazer nenhuma parvoíce.
- Pensa bem. - Contudo, ela estava apaixonada, o que era
bastante para já se sentir desgostosa com a sua partida. E ele
partiria quando a guerra acabasse, se não mais cedo. - Não casará
contigo. Tens de o saber.
- De qualquer maneira, não quero casar com ele. - só que era
uma mentira e ambas o sabiam.
Quando Clayton chegou ao apartamento pouco depois do pequeno-
almoço, detectou a reserva no olhar da velha senhora. Desta vez,
trazia-lhe flores, três ovos frescos e outro pão.

- Vou engordar com estas suas visitas, capitão - retorquiu
com um sorriso gracioso. Ele era um homem encantador, mas
continuava a temer por Zoya.
- Não há esse risco, madame. Gostaria de nos acompanhar num
passeio às Tulherias?
- Gostaria. - Sorriu e quase também ela se sentiu jovem.
Parecia trazer a luz do Sol e felicidade a todo o lado com os seus
presentes e modos graciosos, tão semelhantes aos do seu filho, com
os olhos afectuosos e o riso pronto. - Receio, porém, que os meus
joelhos não concordem. Neste Inverno, tenho aparentemente um
"pouco" de reumatismo. - O "pouco" a que se referia teria
incapacitado uma mulher menos corajosa. Só Zoya suspeitava do
quanto devia sofrer.
- Permite-me, então, que leve a Zoya a dar um passeio? - Era
um perfeito cavalheiro e ela gostava imenso dele.
- É muito generoso em pedir-me. Não acho que conseguisse
impedir Zoya. - Ambos riram e a jovem foi buscar as suas coisas.
Do rosto emanava um brilho de felicidade que fazia esquecer as
roupas usadas. Pela primeira vez desde há meses, desejou poder
usar algo bonito. Tinha tantos vestidos encantadores em
Sampetersburgo, todos queimados e desaparecidos agora, mas não
esquecidos.
Zoya despediu-se da avó com um beijo e a velha senhora ficou
a vê-los sair, com uma sensação de felicidade, enquanto Clayton
pegava na mão de Zoya. Pareciam iluminar a sala com toda aquela
alegria. A jovem ia a conversar, entusiasmada, e ouviu-os a descer
rapidamente a escada. Ele tinha à espera um dos carros do pessoal
e que fora cedido pelo exército.
- Onde gostarias de ir? - Sorriu-lhe, atrás do volante. -
Estou inteiramente ao teu serviço. - E também ela estava livre.
Não tinha ensaios nem espectáculos com que se preocupar. Podia
passar todos os minutos com Clayton.
- Vamos ao Faubourg Saint Honoré. Quero ver as lojas. Nunca
tenho tempo para fazer coisas desse gênero, além de que também não
vale a pena. - Enquanto seguiam no carro, contou-lhe quanto ela
e Mashka gostavam de roupas e que bonitos eram os vestidos da tia
Alix. - A minha mãe andava sempre muito bem vestida - prosseguiu.
- Mas nunca foi uma pessoa muito feliz. - Era uma confissão estranha, mas parecia tão natural contar-lhe tudo. Queria
partilhar com ele todos os pensamentos, desejos, todos os sonhos
e recordações para que a conhecesse melhor. - A mamã era muito
nervosa. A avó diz que o papá a estragou com mimos. - Zoya soltou
uma garagalhada, sentindo-se de novo jovem.
- Também devias ser estragado com mimos. Talvez o sejas um
dia, como a tua mãe.
A jovem soltou uma risada alegre. Estacionaram o carro e
saíram.
- Não me parece que ficasse nervosa.
Clayton riu também e pousou-lhe a mão no braço dele, enquanto
iniciavam o passeio. As horas pareceram voar como se fossem apenas
momentos.
Almoçaram no Café de Flore e ele achou que a jovem parecia
mais feliz do que no Verão anterior. Nessa altura, ainda se
encontrava sob o efeito do choque, mas agora a dor diminuíra um
pouco. Tinham passado nove meses desde que chegara a Paris. Ainda
lhe custava acreditar que um ano antes estivera em Sampetersburgo,
levando uma vida normal.
- Tens tido notícias da Marie nos últimos tempos?

- Finalmente, tive. Parece gostar de Tobolsk, mas tem tão bom
feitio que é normal. Diz que vive numa casa pequena, que ela e as
innãs partilham um só quarto e o tio Nicolau passa o tempo a ler-
lhes histórias. Diz também que, inesnio na Sibéria, continuam com
aulas. Acham que dentro em breve poderão sair da Rússia. O tio
Nicolau afirma que os revolucionários não lhes farão mal, que só
querem mantê-los lá de momento. Contudo, parece uma atitude tão
cruel e estúpida. - Zoya continuava furiosa com os Ingleses por
não lhes terem dado asilo no anterior mês de Março. Se o tivessem
feito, já poderiam estar todos juntos agora em Londres, ou Paris.
- Tenho a certeza que a avó teria ido para Londres, se os soubesse
lá.
- Nesse caso, não te teria conhecido, pois não? E seria
horrível. Talvez seja bom que tivesses vindo para Paris, enquanto
esperas que deixem a Rússia. - Não queria alanná-la, mas não
sentia a confiança de alguns relativamente a que o czar e a
família estariam a salvo na Rússia. Era, contudo, apenas uma
impressão sua e não queria preocupá-la.
Acabaram de almoçar e desceram o Boulevard St. Germain sob
o sol de Inverno. O almoço no Cafle de Flore tinha sido agradável
e ela sentia-se com todo o tempo do mundo nas suas mãos, liberta
de espectáculos e de ensaios.
Vaguearam algum tempo sem rumo e o acaso levou-os até à Rue
de Varennes, perto da casa onde ele estava alojado.
- Queres entrar um pouco na casa?
Zoya conservava recordações felizes da noite em que se haviam
conhecido e esboçou um feliz aceno de cabeça. Enquanto se
aproximavam, ele falou-lhe de Nova lorque, da sua infância e dos
anos em Princeton. Contou que vivia numa casa na Quinta Avenida
e ela achou todo o relato muito bonito.
- Porque é que nunca tiveste filhos quando foste casado? Não
querias? - Zoya tinha a inocência da juventude, a coragem de pisar
terreno delicado, algo impensável quando se era mais velho. Nunca
lhe ocorreu que talvez ele não pudesse tê-los.
- Gostaria de ter tido filhos, mas não era esse o desejo da
minha mulher. Ela era uma jovem muito bonita e egoísta e
interessava-se muito mais pelos seus cavalos. Agora, tem uma bela
herdade na Virgínia. Andavas muito a cavalo quando estavas na
Rússia?
- Sim - sorriu. - No Verão, em Livadia, e algumas vezes em
Tsarskoie Selo. O meu innão ensinou-me a montar aos quatro anos.
Era muito mau e, sempre que eu caía, chamava-me estúpida. - Mas,
pela forma como ela falava, Clayton percebeu quanto gostara dele.
Nessa altura tinham chegado à casa dos Mill e Clayton serviu-
se da chave para entrarem. Não havia mais ninguém lá nessa altura.
Todo o pessoal do general estava em Chaumont.
- Apetece-te uma chávena de chá? - perguntou, e os passos de
ambos ecoavam no chão de mármore.
- Sim. - Estava frio lá fora e esquecera-se das luvas no
apartamento. E, de súbito, sem qualquer motivo, lembrou-se do
gorro de marta que deixara na Rússia. Tinham posto pesados xailes
sobre as cabeças na altura da fuga. A avó achara com razão que
chapéus de pele chamariam demasiado as atenções.
Seguiu-o até à cozinha, e um momento depois a chaleira estava
a fumegar. Ele serviu duas chávenas de chá e sentaram-se a falar
até que o Sol se pôs devagar no jardim. Zoya sentia-se como se
pudesse ficar ali sentada a conversar horas a fio, mas
repentinamente as vozes emudeceram e apercebeu-se de que Clayton

a olhava de uma forma estranha.
- Devia levar-te a casa. A tua avó ficará preocupada. -
Passava das quatro horas e haviam estado ausentes o dia inteiro,
mas Zoya avisara a avó de que talvez não fosse jantar a casa. Com
os meros quatro dias da licença dele para partilharem, queriam
estar o máximo de tempo juntos.
- Disse-lhe que talvez regressássemos mais tarde. - E depois
teve uma ideia. - Queres que faça o jantar aqui? - Parecia
agradável não terem de sair e poderem ficar a conversar durante
mais algumas horas, como haviam feito todo o dia. - Há cornida?
- Não sei - respondeu Clayton com um sorriso. Ela parecia-lhe
tão jovem e bonita ali sentada. - Devia levar-te a algum lado.
Talvez ao Maxim's. Não gostarias?
- É pouco importante - redarguiu com franqueza. Apenas
desejava estar com ele.
- Oh, Zoya... - Deu a volta à mesa da cozinha e abraçou-a com
força. Queria levá-la para fora da casa, antes que acontecesse
algo que ela viria a lamentar. Sentia uma atracção quase dolorosa
pela jovem. - Não me parece que seja sensato ficarmos aqui - disse
num tom calmo, com muito maior sensatez que ela.
- O general ficará zangado por eu estar aqui? - Aquela
inocência emocionou-o e baixou o rosto na sua direcção, soltando
uma gargalhada.
- Não, amor, o general não ficará zangado. Mas não tenho a
certeza de conseguir controlar-me por muito mais tempo. Acho-te
demasiado bonita para estar contigo a sós. Nem sabes a sorte que
tens por não ter saltado por cima da mesa para te agarrar. - Ela
riu ante a imagem dada e encostou a cabeça, feliz, ao corpo dele.
- É isso o que tem estado a planear fazer, capitão?
- Não, mas gostaria. - Ambos estavam perfeitamente
descontraídos quando ele lhe acariciou a longa cabeleira ruiva. -
Gostaria de fazer muitas coisas contigo... ir até ao Sul de França
depois da guerra... e a Itália... Alguma vez estiveste lá? - Zoya
abanou a cabeça e fechou os olhos. Era simplesinente um sonho
estar ali com ele. - Acho que devíamos ir enibora - repetiu
Clayton num sussurro e a sala pareceu muite, silenciosa. - Vou
mudar-me. Não demoro um minuto. - Mas pareceu demorar uma
eternidade e ela percorreu tranquilamente as salas elegantes do
andar principal e depois, movida por um súbito impulso malicioso,
resolveu subir a escada de mármore a ver se conseguia encontrá-lo.
Havia várias outras salas de estar no segundo andar, uma
elegante biblioteca cheia de livros em francês e inglês, algumas portas fechadas e, depois, ouviu-o à distância. Cantava enquanto
se mudava e ela sorriu, incapaz de se manter longe dele, ainda que
por uns minutos.
- Ei... - chamou, mas ele não a ouviu. A água corria na casa de banho e, quando voltou ao quarto, ela esperava-o, como um fauno
muito quieto, na floresta. Clayton tinha apenas as calças vestidas
e estava de tronco nu. Decidira barbear-se de novo rapidamente
antes de a levar a jantar fora. Tinha uma toalha nas mãos e o
rosto ainda escorria água quando a fitou com um olhar
surpreendido.
- O que fazes aqui? - Parecia quase receoso de si próprio,
mas não da encantadora Zoya.
- Estava solitária lá em baixo, sem ti. - Avançou devagar até
junto dele, sentindo uma força magnética como nunca até então.
Era como se fosse irresistivelmente atraída para ele,
independentemente da sua vontade. Clayton deixou cair a toalha e

abraçou-a de encontro ao corpo, beijando-lhe o rosto, os olhos e
os lábios, saboreando a pele macia até ficar estonteado.
- Vai lá para baixo, Zoya - pronunciou num tom rouco,
desejando afastá-la, mas sem conseguir. - Por favor... - Ela
fitou-o tão triste, quase magoada, mas sem medo.
- Não quero...
- Zoya, por favor... - Contudo, beijou-a uma e outra vez,
sentindo o coração dela a bater aceleradamente de encontro ao seu
peito.
- Clayton, amo-te...
- Também te amo. - E, por fim, afastou-se dela con, um enorme
esforço. - Não devias ter subido aqui, pateta. - Tentou aligeirar
o momento, afastou-se e virou-se para tirar uma camisa do armário.
Todavia, ao voltar-se, ela continuava no mesmo sítio, e deixou
cair a camisa, avançando na sua direcção. - Não consigo aguentar
muito mais, pequenina, - Ela estava a enlouquecê-lo com a sua
juventude e sensualidade. - Zoya, jamais me perdoaria, se...
- Se... o quê? - A rapariga desaparecera e dera lugar a uma
mulher que se conservava na sua frente. - Se me amasses? Que
importância tem, Clayton? Já não há futuro... apenas o presente.
O amanhã não existe. - Era a dura lição que aprendera no ano
anterior. E sabia quanto o amava. - Amo-te. - Zoya era tão garota
e em simultâneo orgulhosa e forte que lhe despedaçava o coração
detectar nos olhos a ausência de medo e apenas o amor.
- Ignoras o que estás a fazer. - Voltara a abraçá-la e
embalava-a como se ela fosse uma criança. - Não quero mggoar-te.
- Não conseguirias... Amo-te demasiado... Nunca me magoarás.
Clayton deixou de conseguir encontrar palavras para a mandar
embora. Desejava-a demasiado, ansiara demasiado por ela. Premiu
os lábios sobre os dela e, sem pensar, despiu-a, levou-a
meigamente até à cama, acariciou-a e beijou-a. Ela correspondia
num choro suave. As suas próprias roupas pareceram voar do corpo
e perderam-se na enorme cama com o dossel a cobri-los como uma
bênção. Reinou a escuridão, enquanto fizeram amor, mas com a luz
que chegava da casa de banho via-lhe o rosto ao fazer amor,
beijando-a, abraçando-a e amando-a como nunca amara nenhuma mulher
até então.
Pareciam ter decorrido horas antes de ficarem silenciosos,
lado a lado, e ela suspirou, feliz, aninhando-se como uma cria em
busca da mãe. Os olhos de Clayton estavam sérios e perisava no que
tinham feito, rezando para que ela não ficasse grávida. Rolou para
um dos lados e apoiou-se num dos cotovelos, detendo-se a observá-la.
- Não sei se hei-de ficar furioso comigo ou deixar-me
arrastar pela felicidade que sinto neste momento. Zoya... querida,
estás feliz? - Sentia-se aterrorizado, mas ela esboçou um sorriso
de mulher e estendeu-lhe os braços, ao mesmo tempo que o desejo
o invadia uma vez mais. Mantiveram-se deitados, conversaram e
fizeram amor até quase à meia-noite, hora a que ele olhou para o
relógio da cama, horrorizado.
- Oh, meu Deus, Zoya! A tua avó vai matar-me! - A jovem riu
quando ele saltou para fora da cama e a arrastou. - Veste-te...
E nem sequer te dei de comer!
- Nem notei - retorquiu com uma gargalhada, qual
rapariguinha, e ele virou-se e abraçou-a novamente.
- Amo-te, minha louca. Sabias? Sou velho e adoro-te.
- Ainda bem, porque também te amo e não és velho, és meu! -
Afastou o cabelo grisalho com um gesto meigo e aproximou-lhe o

rosto do dela. - Lembra-te do quanto te amo, aconteça o que
acontecer a qualquer um de nós. - Era uma lição que aprendera cedo
na vida, esse desconhecimento do amanhã. O pensamento emocionou-o
profundamente e abraçou-a com força.
- Não vai acontecer nada, pequenina. Agora, estás a salvo.
Pôs-lhe a correr um banho na enorme banheira, e aquele luxo
era demasiado para ela. Durante uns minutos foi como se estivesse
de volta ao Palácio Fontanka; porém quando pôs novamente o feio
vestido de lã cinzento e enfiou os sapatos pretos usados, soube
que não era assim. Usava meias de lã pretas para aquecer as pernas
e, ao ver-se no espelho, teve a sensação de contemplar uma órfã.
- Deus do céu. Estou um horror, Clayton. Como podes amar-me?
- És bonita, pateta. Cada centímetro, o teu cabelo ruivo...
tudo em ti - sussurrou, muito próximo, e assemelhava-se a respirar
flores de Verão. - Adoro-te.
Era-lhes dificil separarem-se, mas ele sabia que tinha de a
levar a casa, ao apartamento no Palais Royal. Não havia forma dela
poder passar a noite fora e, depois de a acompanhar pelas escadas
até ao quarto andar, beijou-a uma última vez nos corredores sujos
e miseráveis, e ela abriu a porta com a sua chave. Depararam com
Eugenia adormecida numa cadeira, esperando-os. Os olhos cruzaram-
se por um momento e depois Zoya inclinou-se e beijou-lhe
meigamente a face.
- Avó?... Desculpe ter-me atrasado, não devia ficar à
espera...
A velha senhora mexeu-se e sorriu-lhes, pois até mesmo
naquele estado de torpor apercebia-se de como estavam felizes.
Era como um sopro de Primavera naquela sala miserável, e soube que
não conseguiria irritar-se.
- Quis ter a certeza de que estavam bem. Divertiram-se? -
Fitou-os e perscrutou os olhos de Clayton, lendo somente a bondade
e o amor que ele devotava a Zoya.
- Imenso - respondeu a neta, sem qualquer culpabilidade.
Agora, pertencia-lhe e nada poderia mudar a situação. - Jantou?
- Comi um pouco do frango de ontem e um dos ovos que o
capitão trouxe. Obrigada - agradeceu, virando-se para ele e
tentando pôr-se em pé. - Foi uma maravilha, c apitão.
Clayton sentiu-se embaraçado por não lhe ter trazido mais
coisas, mas estivera muito apressado naquela manhã. E voltou a
tomar consciência de que não dera nada de comer a Zoya,
interrogando-se sobre se ela estaria tão esfaimada quanto ele.
Tinham estado distraídos durante longas e felizes horas, mas agora
sentia-se a morrer de fome. A jovem leu-lhe o pensamento, fitou-o
com um sorriso mal dissimulado e estendeu-lhe o saco com os
bolinhos de chocolate. Ele engoliu um com uma expressão culpada
e meteu-lhe outro na boca, após o que ajudaram Eugenia a ir até
ao quarto.
Zoya regressou um momento depois e beijaram-se novamente.
Clayton detestava a ideia de ter de sair e voltar a casa, mas
sabia que tal se impunha.
- Amo-te - sussurrou, feliz, antes de ele se ir embora.
- Apenas metade do que te amo - retorquiu ele nun, sussurro.
- Como podes dizer isso?
- Sou mais velho e mais sabido - troçou e depois fechou a
porta devagar; Zoya manteve-se de pé, de novo jovem, feliz e
liberta. Em seguida, apagou tranquilamente as luzes do
apartamento.

CAPíTULO 22

Clayton regressou na manhã seguinte, impecavelmente vestido
e transportando um enorme cesto de comida. Desta vez, arranjara
tempo para ir às compras.
- Bom dia, minhas semhoras! - Eugenia reparou, com um olhar
preocupado, que ele parecia excepcionalmente bem-humorado, mas
nada podia fazer para os deter. Clayton trouxera carne e fruta e
duas qualidades de queijo, bolinhos e mais chocolate para Zoya.
Beijou-a ao de leve na face e insisriu para que a condessa os
acompanhasse num passeio de carro. Seguiram, satisfeitos, pelo
Bosque de Bolonha, conversando e rindo, e a própria Eugenia voltou
a sentir-se mais jovem só de estar com eles.
Desta vez foram almoçar à Closerie des Lilas e depois
levaram-na a casa. Ela estava tão cansada que quase não conseguia
subir as escadas, e Clayton transportou-a praticamente ao colo,
recebendo em troca um sorriso de agradecimento. Divertira-se
imenso e esquecera durante algum tempo a pobreza, a guerra e as
preocupações.
Sentaram-se a beber chá na sala e depois Zoya saiu novamente
com Clayton. Voltaram à casa na Rue de Varennes e fizeram amor
apaixonadamente horas a fio. Contudo, desta vez, ele insistiu em
levá-la a jantar fora. Levou-a ao Maxim's e depois com muita pena
a casa. Quando chegaram, Eugenia estava a dormir.
Os dois amantes movimentaram-se silenciosamente na sala,
comendo chocolates e sussurrando, beijaram-se à luz da lareira e
partilharam sonhos. Zoya desejava poder ficar toda a noite com
ele, mas era impensável e, quando ele saiu, sentindo-se novamente
um rapazinho, prometeu voltar de manhã.
No dia seguinte, atrasou-se mais do que no dia anterior e,
às onze horas, Zoya começou a ficar preocupada. Não tinham
telefone, o que lhes impedia qualquer contacto, mas às onze e
meia ele apareceu, lutando com um pacote enorme envolto em papel
castanho. Pousou-o em cima da mesa da cozinha com um olhar
satisfeito e misterioso e disse a Zoya que era uma coisa para a
avó.
Nessa altura, a velha condessa juntou-se-lhes e ele recuou,
ficando a vê-la arrancar o papel para deparar com um samovar de
prata muito bonito, gravado com o brasão da famflia russa que o
trouxera para Paris e fora obrigada a vendê-lo. Nem sequer
conseguia imaginar como o haviam feito chegar ali, mas ao vê-lo
naquela manhã numa loja da margem esquerda, soubera desde logo que
tinha de o comprar para Eugenia.
A velha senhora susteve a respiração e deu um passo atras,
admirando-o, sentindo uma momentânea picada de tristeza, pois
sabia como adorava os seus tesouros e quanto lhe custara vendê-
los. Ainda chorava as cigarreiras de que tinha sido forçada a
desfazer-se pouco antes do Natal. Contudo, era incapaz de desviar
os olhos do samovar e do generoso benfeitor que o trouxera.
- Capitão... é bom de mais para nós... - Os olhos encheram-
se-lhe de lágrimas e beijou-o com ternura, aflorando com a face
acetinada a carne viril que lhe recordava a do próprio filho e a
do marido. - É tão generoso.
- Só desejaria poder fazer mais. - Trouxera um vestido de
seda branca a Zoya e ela arregalou os olhos, deliciada, quando o
desembrulhou. Fora desenhado por uma costureira que ele encontrara
na margem esquerda, uma mulher chamada Gabrielle Chanel. Tinha uma

pequena loja e parecera-lhe surpreendentemente dotada. Ela própria
lhe mostrara o vestido e parecia jovial e animada, o que era
invulgar naqueles dias para os Parisienses, desgostados pela
guerra. - Gostas? - Zoya correu para o quarto, a fim de o
experimentar e apareceu irradiando uma imensa beleza. O vestido
era puro e simples e o branco-pérola acentuava maravilhosamente
o cabelo ruivo. Só desejava ter uns bonitos sapatos a condizer e
o colar de pérolas que o papá lhe oferecera e que ardera com
Fontanka.
- Adoro-o, Clayton! - Nesse dia, levou-o para almoçar com ele
e, mais tarde, ficou estendido no chão do quarto dele.
O dia seguinte era o último da licença e ele partia às quatro
dessa tarde. Ela não conseguia suportar a ideia quando fizeram
amor pela última vez e agarrou-se-lhe como uma criança a afogar-
se, enquanto ele a beijava. Quando Clayton a levou de volta ao
apartamento, a própria Eugenia parecia triste por vê-lo partir.
As despedidas na vida delas haviam sido demasiado dolorosas.
- Tenha cuidado, capitão... Rezaremos todos os dias por si. -
Como faziam agora por tantos outros! Agradeceu-lhe a imensa
bondade com que as tratara, e ele parecia deter-se, sem desejar
ir embora, incapaz de deixar Zoya por um moInento, quanto mais por
meses. Não fazia ideia de quando poderia voltar a Paris.
Eugenia deixou-os discretamente a sós. As lágrimas encheram
os olhos de Zoya, que o fitava na pequena sala de estar, com o
samovar de prata dominando tudo o resto. No entanto, a jovem só
o via a ele e lançou-se-lhe nos braços que estavam ávidos de a
receber.
- Amo-te tanto, pequenina... Por favor, por favor, tem
cuidado! - Sabia como a vida era potencialmente perigosa para ela
em Paris. Ainda havia a eventualidade de que Paris pudesse ser
atacada e ele rezava pela segurança da amada, sem a largar. -
Voltarei assim que puder.
- Jura-me que terás cuidado. jura! - ordenou-lhe ela por
entre lágrimas, pois não conseguia suportar a ideia de perder mais
alguém que amava, e muito menos alguém que lhe era tão querido.
- Promete-me que não lamentarás o que fizemos. - Continuava
preocupado e tinha um receio enonne de que ela pudesse ter
engravidado na primeira vez em que haviam feito amor. Depois disso
tivera cuidado, mas não da primeira vez. Ela apanhara-o de
surpresa e o desejo que sentira havia sido superior ao resto.
- Nunca lamentarei nada. Amo-te demasiado.
Seguiu-o pelas escadas até ao carro e ficou a acenar até ele
desaparecer, com as lágrimas a correrem-lhe pelas faces, enquanto
ele se afastava, talvez para sempre.

CAPITULO 23

Contrariamente ao que ele prometera, não voltou a ter
notícias. As estratégias e manobras eram agora top secret e eles
encontravam-se desligados de todos, no Marne, a tentar proteger
Paris.
Em Março, desencadeou-se a última grande ofensiva alemã e
eles ficaram à espera do melhor momento para atacar, mesmo às
portas da cidade. Havia bombardeamentos nas ruas e Eugenia tinha
medo de sair.
A estátua de São Lucas foi decapitada por bombas na

Madeleine. E por todo o lado havia pessoas com fome, frio e medo.
Diaghilev deu uma oportunidade a Zoya de se escapar. A 3 de Março
partia para mais uma tournée em Espanha com o ballet, mas a jovem
insistiu que não poderia deixar Eugenia sozinha, em Paris.
Ficou, assim, em Paris, mas a maioria dos espectáculos foi
suspensa. Agora era perigoso andar pelas ruas. E só por milagre
conseguiu sobreviver à destruição da Igreja de St.-Gervais-St.
Protais junto ao Hôtel de Ville na Sexta-Feira Santa. Optara por
se deslocar até lá em vez de ir a Santo Alexandre Nevski e saiu
momentos antes de as bombas atingirem os telhados e as paredes
ruírem, matando setenta e cinco pessoas e ferindo perto de cem.
Os comboios para Lião e para o Sul iam cheios de gente em
pânico que fugia de Paris. Mas, quando Zoya sugeriu à avó que
partissem, a velha senhora mostrou-se furiosa.
- E quantas vezes achas que o farei? Não! Não, Zoya! Deixa-os
matarem-me aqui! Deixa que se atrevam! Fugi da Rússia e não
voltarei a fugir! - Era a primeira vez que Zoya a via chorar
naquela raiva desesperada. Passara exactamente um ano desde que
tinham deixado tudo para trás e fugido da Rússia. E, desta vez,
não havia Feodor, não lhes restava nada para vender, nem sítio
para onde irem. Era absolutamente inútil.
O próprio Governo francês estava a preparar-se para fugir,
se necessário. Tinham feito planos para se mudarem para Bordéus,
mas Foch jurara defender Paris até ao fim, nas ruas e em cima dos
telhados. Todos os espectáculos e ensaios de Zoya foram cancelados
em Maio. E, nessa altura, os Aliados conheciam o sabor da derrota
no Mame. Com Pershing ali, Zoya só conseguia pensar em Clayton.
Sentia-se horrorizada com a eventualidade de ele ser morto e não
tivera notícias desde que o capitão deixara Paris.
As únicas notícias que recebera chegaram numa carta de Marie
que o Dr. Botkin conseguira enviar-lhe e ficou surpreendida por
saber que se tinham mudado para lekaterimburgo, nos Urales, no mês
anterior. E as palavras de Marie davam-lhe a entender que tudo
piorara. Já não podiam trancar as portas dos quartos e os soldados
seguiam-nas mesmo quando iam à casa de banho. Zoya estremeceu ao
ler tudo aquilo, cheia de saudades da amiga de infância e temendo
sobretudo por Tatiana que era tão cerimoniosa e tímida. A ideia
das circunstâncias em que eles viviam era-lhe quase insuportável.
"... Nada nos resta, senão aguentar. A mamã obriga-nos a
cantar hinos, sempre que os soldados começam com as suas horríveis
canções, lá em baixo. Tratam-nos com muita dureza, agora. O papá
diz que não devemos fazer nada que os irrite. Deixani-nos sair um
pouco até lá fora, à tarde, e passamos o resto do tempo a ler ou
a coser ..."
Os olhos de Zoya encherarn-se de lágrimas ante as palavras
seguintes:
"... e sabes bem como odeio coser, querida Zoya. Tenho
escrito poesia para passar o tempo. Mostro-te tudo quando
voltarmcs a estar finalmente juntas. Parece difícil imaginar que
ambas temos dezanove anos. Costumava achar que dezanove era tanta
idade, mas agora parece-me cedo de mais para morrer. Só a ti posso
dizer estas coisas, minha adorada prima e amiga. Rezo para que
estejas feliz em Paris. Agora tenho de sair para o nosso
exercício. Todos te mandamos saudades que peço tornes extensivas
à tia Eugenia." Desta vez não assinara com OTMA, o código
habitual, mas simplesmente "a tua querida Mashka".
Zoya ficou muito tempo sentada no quarto, lendo repetidamente

as palavras, encostando a carta à face como se o contacto com o
papel lhe trouxesse de volta o contacto da amiga. Sentiu
repentinamente um medo horrível por eles. Tudo parecia piorar em
todo o lado, mas, pelo menos, o corpo de bailado em que ela
dançava recomeçou a trabalhar em Junho. Ela e Eugenia ansiavam
desesperadamente por aquele dinheiro e nem sequer haviam
conseguido encontrar outro hóspede.
As pessoas deixavam Paris para não mais voltarem. Ata mesmo
alguns dos emigrados russos tinham ido para sul, mas Eugenia
continuava a recusar partir. Fora até onde as forças lho
permitiam.
A meio de Julho fazia calor, mas ainda reinava a fome na
cidade. Zoya ficou horrorizada ao ouvir de Vladimir que ele e
Yelena tinham andado a caçar pombos no parque para os comer.
Garantiu que eram surpreendentemente gostosos e ofereceu-se
para lhe levar um, mas Zoya recusou, enojada com a ideia.
Dois dias depois, quando começava a desesperar que a
guerra viesse a acabar, Clayton reapareceu como uma visão num
sonho. Zoya quase desmaiou ao vê-lo. Foi na véspera do Dia da
Bastilha e observaram juntos as paradas desde o Arco do Triunfo
à Praça da Concórdia. Os uniformes eram extremamente bonitos
sob o sol luminoso, com os Chasseurs Alpins de bonés e fardas
pretas, os Life Guards ingleses, o Bersaglieri italianos de
chapéu em bico e mesmo uma brigada de cossacos antibolcheviques
com gorros de pele; porém nesse dia, ela só tinha olhos para
Clayton.
Quando regressaram à casa na Rue de Varennes, tão
profundamente apaixonados como sempre, bateram com toda a força
à porta, à meia-noite. A polícia militar andava a convocar toda
a gente, as licenças haviam sido canceladas e a ofensiva alemã
começara em força. O Exército alemão encontrava-se apenas a
oitenta quilómetros e os Aliados tinham de os deter.
- Mas não podes ir agora... - exclamou Zoya com os olhos
cheios de lágrimas, apesar das suas tentativas de se mostrar
corajosa. - Acabaste de chegar! - Clayton chegara apenas nessa
manhã e, depois de seis meses sem ele, era-lhe insuportável vê-lo
partir.
Contudo, não havia alternativa. O capitão tinha meia hora
para se apresentar no quartel-general da polícia militar na Rue
St. Anne. Mal teve tempo de a levar a casa antes de o escoltarem
de volta até junto do general Pershing. Aos olhos de Zoya parecia
uma terrível crueldade disporem de tão pouco tempo juntos antes
de ele regressar à frente e arriscar de novo a vida. E, qual
criança abandonada, ficou sentada na sala de estar, e chorou pela
noite fora, até que a avó lhe trouxe uma chávena de chá para a
consolar.
No entanto, as lágrimas que verteu por Clayton nada foram
comparativamente às que derramou uns dias mais tarde. A 20 de
Julho, Vladimir apareceu no apartamento com uma expressão solene
e um exemplar do Izvestia, o jornal russo. Quando abriu a porta,
Zoya pressentiu imediatamente que algo terrível acontecera ao
conduzi-lo até ao interior, indo em seguida buscar a avó ao
quarto.
Vladimir começou a chorar quando lhe estendeu o jornal.
Parecia uma criança de coração partido, o cabelo branco era quase
da mesma cor do rosto e repetia incessantemente:
- Mataram-no... Oh, meu Deus... mataram-no...
Viera logo ter com elas, tinham o direito de saber, pois

todas eram afinal primas Romanov.
- O que quer dizer? - inquiriu Eugenia, fitando-o horrorizada
e soerguendo-se na cadeira, quando ele lhe mostrou a notícia no
jornal. Informava que o czar Nicolau fora executado a 16 de Julho.
E também que a família tinha sido mudada em segurança. Mudada para
onde?
Zoya sentiu desejo de gritar: onde está a minha querida
Mashka?... Onde estão eles?... Como se percebesse o que estava a
passar-se, Sava começou a ganir baixinho enquanto os três russos
se sentavam e choravam pelo homem que tinha sido o seu pai, o seu
czar... e era o muito amado primo das duas mulheres.
Os sons da tristeza pairaram na sala durante muito tempo.
Por fim, Vladinir levantou-se e dirigiu-se até à janela, de cabeça
baixa e um peso indizível no coração. Por todo o mundo, os russos
que o haviam amado estariam a chorar, até mesmo os camponeses em
nome de quem a temida revolução fora engendrada.
- Que dia terrível! - exclamou num sussurro. - Que a sua alma
descanse em paz - desejou, voltando-se para as mulheres.
Eugenia parecia ter cem anos e Zoya denotava uma palidez
mortal. A única cor do seu rosto residia nos fogosos olhos verdes,
congestionados de lágrimas que continuavam a cair-lhe
silenciosamente pelas faces. Apenas conseguia pensar naquela manhã
em Tsarskoie Selo, quando ele se despedira cena um beijo e lhe
dissera que se portasse bem... "Amo-ol tio Nicolau..." Ressoavam
ainda as suas próprias palavras no cérebro... e depois ele dissera
que também a amava. E agora estava morto. Desaparecido para
sempre. E os outros?
Voltou a ler as palavras do Izvestia... "A família foi mudada
em segurança."

CAPITULO 24

Julho pareceu arrastar-se como um pesadelo. O facto de
Nicolau ter sido morto parecia pesar-lhes aos ombros como um fardo
insuportável. A tristeza marcava uma posição. Os russos choravam-
no por toda a cidade de Paris, enquanto a guerra se desenrolava
à sua volta.
Zoya foi convidada para a festa de casamento de uma das
bailarinas que conhecia. Chamava-se Olga Khoklova e desposara
Pablo Picasso há umas semanas em Santo Alexandre Nevski, mas Zoya
não tinha desejo de ir onde quer que fosse. Usava as poucas roupas
pretas que tinha em sinal de luto pelo primo.
Em Agosto, Diaghilev voltou a mandar-lhe um telegrama, desta
vez com uma oferta de que se juntasse ao corpo de ballet para uma
tournée em Londres, mas não podia deixar a avó nem lhe apetecia
ver ninguém. Mal conseguia ir trabalhar e apenas o fazia
diariamente para terem comida na mesa.
Em Setembro, os Aliados avançaram de novo e, decorridas umas
semanas, os Alemães tentavam negociar a paz com eles. Zoya
continuava, porém, sem receber notícias de Clayton. A jovem. mal
se atrevia a pensar nele. Se algo lhe acontecesse, sabia que não
conseguiria continuar a viver. Era demasiado a suportar, demasiado
para pensar, impossível de entender.
O tio Nicolau estava morto. As palavras martelavam-lhe
incessantemente na cabeça. Escrevera três cartas a Marie desde que

soubera as notícias, mas ainda não obtivera resposta. Já não sabia
do paradeiro do Dr. Botkin e, se a família mudara, como se dizia
no jornal, era impossível saber quanto tempo as cartas demorariam
a chegar até ela.
Depois de um infindável mês de Outubro de silêncio dos que
amava, chegou Novembro e com ele a paz.
Estavam sentadas na sala quando ouviram a notícia, e
escutaram os gritos nas ruas, o júbilo, os sinos da igreja, os
canhões. Tinha finalmente acabado. Todo o mundo estremecera mas
agora acabara finalmente. A grande guerra chegara ao fim.
Serviu calmamente uma chávena de chá à avó e ficou à janela,
observando os festejos na rua, sem uma palavra. Tropas dos Aliados
por toda a parte, americanas, inglesas, francesas, mas ela nem
sequer sabia se Clayton estava vivo, mal se atrevendo a acalentar
esperanças. Virou-se e fitou Eugemia, tão velha agora, tão frágil,
atormentada pela mesma tosse do Inverno anterior e com os joelhos
tão fracos que lhe era impossível sair do apartamento.
- Agora tudo vai melhorar, pequena Zoya - disse num tom
suave, entrecortado pela tosse. Sabia o que se passava na mente
da neta. Desde que Clayton deixara Paris, à meia-noite do Dia da
Bastilha, que não tinha notícias dele. - Ele voltará para ti,
pequenina. Confia um pouco. Precisas de ter fé. - Sorriu-lhe
ternamente, mas a alegria desaparecera dos olhe de Zoya. Perdera
em demasia. E preocupava-se em demasia.
- Como pode dizer isso? Com tanta gente desaparecida... Como
pode acreditar que alguém voltará?
- O mundo continua. Pessoas nascem e morrem e outras nascem
depois delas. só a nossa tristeza é tão dolorosa. O Nicolau já não
sofre. Está em paz.
- E os outros? - Escrevera cinco cartas a Marie, sem haver
obtido resposta a qualquer delas.
- Apenas podemos rezar pela sua segurança. - Zoya esboçou um
aceno de cabeça. Já ouvira tudo aquilo antes. Sentia-se irritada
com o destino que lhes tirara tanta coisa.
Nos primeiros dias depois do armistício era impossível andar
pelas ruas e só saía para ir buscar comida. Mais uma vez as
reservas eram quase nulas. Não havia espectáculos e tinham de
sobreviver com a escassa quantia que poupara. Tudo lhe parecia
subitamente tão cansativo!
- Posso ajudá-la a levar isso, mademoiselle? - Sentiu que
alguém lhe puxava a baguette de baixo do braço e virou-se com
palavras iradas na ponta da língua, disposta a matar pelo pão, ou
a defender-se de um soldado atrevido. "Nem todas em Paris querem
ser beijadas por um jovem arrebatado de uniforme", pensou ao dar
meia volta, de punhos cerrados, e soltou uma exclamação abafada,
deixando cair a preciosa baguette quando ele a atraiu de encontro
ao corpo.
- Oh... oh... - Lágrimas jorraram-lhe imediatamente dos seus
olhos ao refugiar-se, aliviada, nos seus braços. Ele estava
vivo... Oh, céus... ele estava vívo... Era como se fossem os dois
únicos sobreviventes ao cimo da terra... os únicos sobreviventes
de um mundo perdido, ao entregar-se, apaixonada, a Clayton.
- Assim é melhor! - Fitou-a bem do alto, com o uniforme sujo
e amachucado, o rosto áspero da barba que não fazia há dias.
Acabara de chegar a Paris e fora logo procurá-la. Já falara com
Eugenia, ela dissera-lhe que Zoya saíra para comprar comida e ele
descera precipitadamente as escadas para a encontrar na rua.

- Estás bem? - perguntou Zoya rindo e chorando ao mesmo
tempo, e ele beijava-a sem cessar, tão aliviado quanto ela por
ambos terem conseguido sobreviver.
Face a tudo, parecia um milagre, e ele nem sequer lhe disse
como conhecera a morte de perto tantas vezes, no Marne. Não
interessava agora. Ele estava vivo, ela estava a salvo, e
agradeceu silenciosamente aos anjos-da-guarda, enquanto se
dirigiam de volta ao apartamento pelo meio da multidão.
Desta vez, Clayton estava alojado num pequeno hotel da margem
esquerda, juntamente com dúzias de oficiais. Pershing regressara
à casa dos Mill e tornava-se difícil estarem a sós, mas roubavam
os momentos de privacidade que podiam e uma vez atreveram-se até
a fazer amor silenciosamente no quarto de Antoine, muito depois
de Eugenia ter ido dormir. Ela estava muito cansada e passava a
maior parte do tempo a dormir. Há meses que Zoya andava preocupada
com a saúde da avó, mas até mesmo esses receios pareceram apagar
-se à luz do seu encontro com Clayton.
Uma noite, a altas horas, falaram de Nicolau, e ele
confessou-lhe que sempre havia temido que tal acontecesse. E Zoya
deu-lhe conta do seu receio quanto aos outros.
- O jornal russo dizia que se tinham mudado em segurança...
Mas para onde? Escrevi cinco vezes à Mashka e não recebi resposta.
- É possível que o Botkin já não consiga fazer sair as
cartas. Pode não querer dizer nada, miúda. Tens de ter fé -
replicou num tom calmo, ocultando-lhe os seus próprios temores.
- Pareces a avó a falar - sussurrou-lhe no quarto às escuras,
onde se mantinham aninhados.
- Algumas vezes, sinto-me velho. - Reparara como a velha
senhora parecia frágil desde Julho. Não estava bem e pressentia
que Zoya também o sabia. Eugenia tinha agor quase oitenta e quatro
anos e os últimos dois anos haviam sido duros para todos. Era
espantoso que tivesse sobrevivido. Contudo, ambos esqueceram essas
preocupaçöes quando os corpos se fundiram e fizeram amor até ele
descer as escadas nos bicos dos pés, antes do amanhecer.
Nas semanas seguintes, passaram o máximo de tempo juntos, mas
a 10 de Dezembro, praticamente um mês depois do fim da guerra, ele
era a imagem da tristeza quando lhe apareceu. Iam mandá-lo de
volta aos Estados Unidos no fim da semana; porém, mais importante
do que isso, tomara uma decisão dolorosa a respeito dela.
Zoya ouviu-o dizer que se ia embora, como se vivesse um
sonho. Parecia-lhe impossível acreditar. O momento que nunca
enfrentara, o dia que julgara nunca acontecer... tudo desabava
finalmente sobre os dois.
- Quando? - perguntou com um peso no coração.
- Dentro de dois dias. - Não despregou os olhos dos dela,
pois havia mais a dizer. E interrogava-se sobre se teria coragem
de o fazer.
- Não nos dão muito tempo para despedidas, pois não?
retorquiu Zoya, tristemente. Estavam sentados na sua pequena e
miserável sala, e o dia apresentava-se cinzento. Eugerna dormia
tranquilamente no quarto, como agora era seu hábito. Zoya
regressara ao trabalho, mas a avó parecia não ter dado por isso. -
Voltarás a Paris? - perguntou Zoya, como se ele fosse um estranho,
sentindo-se distanciada e preparando-se para o que se seguiria.
Já houvera tantas despedidas na sua vida e não tinha a certeza de
conseguir sobreviver àquela.
- Não sei.
- Estás a esconder-me alguma coisa. - Talvez fosse casado

e tivesse dez filhos em Nova lorque. Tudo era possível agora. A
vida já a atraiçoara demasiado... Não que tivesse sido o caso
de Clayton. Contudo, agora até contra ele estava irritada.
- Zoya... Sei que para ti não fará sentido, mas tenho pensado muito... a nosso respeito. - A jovem esperou, cega pela
dor. Era surpreendente como, no momento em que se pensava que
já não podia haver mais dor, ela parecia não ter fim. - Quero
libertar-te, que leves a tua própria vida aqui. Pensei em
levar-te para Nova lorque... Queria muito. Contudo, não me
parece que a condessa aguentasse a viagem e... Zoya... -
Parecia sufocado com as palavras em que andava a pensar há
dias. - Zoya... - sou velho de mais para ti. Já te disse antes.
Näo é justo, Quando tiveres trinta, terei quase sessenta.
- Que diferença faz? - Nunca partilhara o medo dele quanto
à diferença de idades e fitava-o, irritada, magoada pelo seu
afastamento, sobretudo agora. - O que estás a dizer é que não
me amas.
- Estou a dizer que te amo demasiado para te impor o fardo
de um velho. Tenho quarenta e seis anos e tu dezanove. Não é
justo. Mereces alguém jovem e fogoso e, depois de tudo acalmar
aqui, encontrarás outra pessoa a quem amares. Nunca tiveste essa
oportunidade. Eras uma criança quando saíste da Rússia há dois
anos. Lá foste sempre protegida e chegaste aqui, durante a guerra,
com pouco mais do que a roupa que trazias no corpo. Um dia, a vida
voltará ao normal e conhecerás alguém mais próximo da tua idade. -
Parecia subitamente firme... quase como Konstantin. - Seria um
erro levar-te para Nova lorque. Seria egoísta da minha parte.
Estou a pensar em ti e não em mim. - Todavia, ela não entendia
nada disso, quando o fitou, raivosa, e as lágrimas lhe saltaram
dos olhos.
- Foi tudo um jogo para ti, não foi? - Estava a ser cruel,
mas era o que desejava. Queria magoá-lo tanto quanto ele a
magoara. - Não passou disso. Um romance de guerra. Uma pequena
bailarina para te divertires enquanto estiveste em Paris.
Apetecia-lhe esbofeteá-la, mas conteve-se.
- Ouve-me. Não foi nada disso. Não sejas idiota, Zoya. Tenho
mais do dobro da tua idade. Mereces melhor do que isso.
- Ah... percebo - redarguiu com um brilho de fúria nos olhos
verdes. - Como a vida feliz que levo aqui. Esperei metade desta
guerra por ti, mal respirando com medo que fosses morto e agora
apanhas um barco e regressas a Nova Iorque. Fácil para ti, não é
verdade?
- Não, não é. - Virou-se para que ela não lhe visse as
lágrimas nos olhos. Talvez fosse melhor assim. Talvez fosse melhor
que ela ficasse furiosa com ele. Não lhe sentiria tanto a falta
como seria o seu caso. - Amo-te muito. - Voltou-se e enfrentou-a
com uma expressão tranquila enquanto ela se dirigia à porta e a
abria de par em par.
- Sai. - Clayton parecia surpreendido. - Para quê esperar
mais dois dias? Porque não acabar tudo agora?
- Gostaria de me despedir da tua avó.
- Está a dormir e duvido que desejasse despedir-se de ti.
De qualquer maneira, nunca lhe agradaste. - Apenas queria que ele
se fosse embora para poder chorar em paz.
- Zoya, por favor... - Queria tomá-la novamente nos braços,
mas sabia que não era justo. Era melhor deixá-la sentir que fora
ela a terminar, deixá-la com algum orgulho. Era melhor que fosse
ele a ficar com o coração despedaçado.

Odiou-se quando desceu as escadas devagar e o som da porta
a bater com força lhe ecoou nos ouvidos. Odiou-se por se envolver
com ela. Sempre soubera que ela sairia magoada, só não se
apercebera de que também ele o ficaria.
Contudo, estava certo que agira da melhor forma. Não havia
retorno. Era velho de mais para ela e, mesmo que agora a magoasse,
ela ficava melhor sem ele e poderia encontrar um homem da sua
idade, começar uma vida nova.
Sentiu o coração destroçado nos dois dias seguintes e, no dia
antes da partida, recebeu um cheque de cinco mil dólares.
Meteu-o numa carta dirigida à avó de Zoya, pedindo-lhe que
o guardasse e o informasse se pudesse fazer algo por elas mais
tarde. Acrescentou que seria sempre um amigo e ansiaria a neta
enquanto vivesse.
"Fiz isto para bem dela, posso garantir-lhe. E porque também
suspeito ser essa a sua vontade. Ela é mais nova do que eu.
Voltará a apaixonar-se. Tenho a certeza. E agora, despeço-me com
o coração cheio de tristeza e afecto."
Assinara a carta e, na manhã em que partiu, mandara-a
entregar por um cabo do pessoal do general Pershing.
Partiu na manhã da chegada do Presidente e de Mrs. Wilson.
Houve um desfile em honra deles nos Campos Elísios à hora em que
ele se afastava lentamente pelo Havre, pensando em Zoya.

CAPITULO 25

Depois de Clayton a ter deixado, Zoya passou semanas a chorar no
antigo quarto de Antoine e julgou que morreria de desgosto. Nada parecia
importar-lhe. Pouco se lhe dava morrer de fome. Fazia sopa para a avó,
e ficou surpreendida que tivessem dinheiro bastante para a comprar.
Pouco depois da partida de Clayton, Eugenia mandara o príncipe
Markovsk uma vez ao banco e depois metera algumas notas na mão de
Zoya.
- Consegui poupar este dinheiro. Serve-te dele para comprares o que
quiseres. - Contudo, nada havia que ela precisasse ou quisesse. Ele fora-se
embora. Parecia-lhe o fim da vida. Todavia, o dinheiro que a avó
aparentemente poupara e lhe dera para comprar comida permitiu-lhe ficar
em casa sem trabalhar. Disse-lhes que estava doente e que não se
importava que a despedissem.
Os Ballets Russes estavam de volta e podia ter dançado com eles se
quisesse. Contudo, nem isso queria, agora. Não queria nada, nem comida,
nem amigos ou emprego e sobre tudo nenhum homem. Ele fora um idiota
em dizer-lhe que precisava de uma pessoa mais nova. Não precisava de

ninguém. Excepto de um médico para Eugenia. Esta apanharj uma gripe
terrível na noite de Natal. Insistira em que querera ir à igreja. Contudo,
estava fraca de mais mesmo para se sentar, e Zoya pediu-lhe que se
deitasse sossegada e, quando o príncipe VIadimir chegou, incitou-o a que
trouxesse imediatamente um médico, mas passaram-se horas antes de ele
voltar com um.
O médico era um homem velho, de ar bondoso, que aprendera russo
em criança e dirigiu-se a Eugenia na sua língua natal. A idosa senhora
parecia ter esquecido o seu impecável francês.
- Ela está muito doente, mademoíselle - sussurrou a Zoya, na sala de
estar. - Pode não resistir a esta noite.
- Mas isso é ridículo. Estava boa esta tarde. - Tão boa quanto era
possível, naquelas circunstâncias. O médico tinha de estar enganado.
Zoya sabia que não conseguiria sobreviver mais uma perda. Não
conseguiria simplesmente enfrentá-la.
- Farei tudo o que estiver ao meu alcance. Chame-me logo se ela
piorar. O senhor pode encontrar-me em casa. - Ele próprio tinha voltado recentemente da frente e praticava medicina ao domicílio. Fitou o
príncipe VIadimir, que esboçou um aceno de cabeça triste e olhou em
seguida para Zoya.
- Ficarei consigo. - A jovem anuiu. Sabia que nada tinha a recear dele.
Há quase um ano que vivia com uma mulher, e a filha ficara tão furiosa
que se mudara e estava a viver num convento, na margem esquerda.
- Obrigada, VIadimir. - Foi preparar uma chávena de chá para a avó
e, quando entrou sem fazer ruído no quarto, encontrou-a quase a delirar.
Tinha o rosto a arder em febre e o corpo parecia ter encolhido numa
questão de horas.
Zoya apercebeu-se subitamente de quanto peso ela havia perdido nos
últimos tempos. Não era tão visível quando estava vestida, mas agora
parecia desesperadamente frágil e, ao abrir os olhos, precisou de
esforçar-se para ver quem era Zoya.
- Sou eu, avó... Chiu... não fale. - Tentou ajudá-la a beber o chá, mas
Eugenia afastou a chávena, murmurando incoerências e voltou a
adormecer.
Só ao amanhecer é que se mexeu e falou. A neta passara a noite na
cadeira a vigiá-la e acorreu de imediato ao seu lado para ouvir as
palavras. A avó acenara com a mão, e Zoya aproximou-se devagar, deu-
lhe a beber um gole de água pelos lábios gretados e também um pouco
do remédio que o médico deixara, mas via que Eugenia tinha piorado
muito.
- ... Tens de...
- Avó... não fale... Vai cansar-se.

A velha senhora abanou a cabeça. Sabia que isso era pouco
importante nesse momento.
- ... Tens de agradecer por mim ao americano... Diz-lhe que me sinto
muito grata... Tencionava pagar-lhe...
- O quê? - inquiriu Zoya, admirada. Por que razão estava ela grata a
Clayton? Por as deixar? Por a abandonar e regressar a Nova lorque?
Contudo, Eugenia esboçou um fraco aceno com a mão na direcção da
pequena secretária ao canto do quarto.
- ... Procura... no meu cachecol vermelho...
Zoya abriu a gaveta e encontrou-o. Tirou-o para fora, pô-lo em cima
da secretária, abriu-o e soltou uma exclamação abafada. Havia ali uma
fortuna. Quase cinco mil dólares, quando os contou.
- Meu Deus, avó!... Quando é que ele lhe deu isto? - Estava
boquiaberta e não compreendia. Porque teria feito tal coisa?
- ... Mandou-o quando se foi embora... Ia devolvê-lo... mas tive medo...
Se precisasses dele... sabia que ele tinha boas intenções. Devolvemo-lo
quando pudermos... - Contudo, procurava algo atrás dela enquanto falava,
qualquer coisa que julgava estar escondido naquele sítio, e Zoya viu que
a avó começava a ficar agitada e receou que lhe fizesse ainda pior.
- Avó, deite-se... por favor... - Ainda não recuperara da surpresa

causada pela verdadeira fortuna que Clayton enviara. Era um gesto
generoso, mas que a levou a sentir-se de novo irritada contra ele. Não
precisavam de caridade. Era demasiado fácil comprá-las... mas a que
preço; depois, franziu subitamente o sobrolho ante o velho cachecol de lã
que a avó segurava nas mãos trémulas e aparentemente tirara de trás da
almofada.
Era o cachecol que usava no dia em que tinham deixado
Sampetersburgo. Lembrava-se muito bem e agora a avó estendia-lho com
um pequeno sorriso nos lábios descorados.
- Nicolau... - Mal conseguia falar e os olhos encheram-se-lhe de
lágrimas. - ... Tens de manter isso a salvo, Zoya... com muito cuidado...
Quando não restar mais nada, vende... mas só quando estiveres
desesperada... Não antes... Nada mais resta.
- A cigarreira do papá e a do Nicolai?... - inquiriu, mas a velha
senhora abanou a cabeça.
- ... Vendi-as há um ano... Não tínhamos escolha. - Contudo, Zoya
escutou as palavras, como se lhe cravass um punhal no coração. Não lhes
restava nada agora, nenhum objecto, nenhuma recordação, apenas
memórias e o que quer que a avó segurava nas mãos.
Zoya agarrou cuidadosamente no cachecol, desembrulhou-o em cima
da cama e soltou uma exclamação abafada... Era o ovo da Páscoa que
Nicolan dera a Alix quando Zoya tinha sete anos... Maravilhoso, fabricado
por Fabergé, uma verdadeira obra de arte.
O ovo da Páscoa em si era de um esmalte malva-pálido com fitas de
diamantes à volta e uma pequena mola abria-o, revelando um cisne de
ouro em miniatura num lago de água-marinha. Chorando baixinho, tocou
na alavanca que se lembrava existir debaixo da asa do cisne. O cisne abriu
as pequenas asas douradas e avançou devagar na sua palma da mão.
- Conserva-o a salvo, pequenina... - sussurrou a avo e fechou os olhos.
Zoya voltou a embrulhar o ovo no cachecol e agarrou ternamente na mão
de Eugenia.
- Avó... - A condessa abriu novamente os olhos com um sorriso calmo.
- Fique comigo... não parta, por favor... - Pareceu-lhe que a velha senhora
estava mais confortável e respirava com mais facilidade.
- Sê uma boa rapariguinha, miúda... Sempre me orgulhei tanto de ti...
- Sorriu de novo, e Zoya começou a soluçar.
- Não, avó... - As palavras soavam a despedida e ela não a deixaria
morrer. - Não me deixe só, avó... por favor... - Contudo, a velha senhora
limitou-se a sorrir e fechou os olhos uma última vez. Dera o seu último
presente à jovem que tanto amara, garantira-lhe segurança para uma nova
vida, mas agora tudo havia terminado. - Avó... - sussurrou Zoya no quarto
silencioso, mas os olhos de Eugenia mantinham-se fechados. Descansava

em paz. Desaparecida com os restantes. Eugenia Peterovna Ossupov
regressara a casa.

CAPITULO 26

Enterraram-na no cemitério russo à saída de Paris, e Zoya manteve-se
silenciosamente de pé ao lado do príncipe VIadimir e de um punhado de
gente que conhecera Eugenia. Não era íntima de nenhum deles. Os seus
anos em Paris haviam sido principalmente passados com Zoya e não tinha paciência para as queixas e memórias depressivas dos outros
emigrados. Estava ocupada com o presente e não obcecada com o
passado.
Morreu a 6 de Janeiro de 1919 no pequeno apartamento, no mesmo
dia em que Theodore RooseveIt morreu a dormir, e ZOya sentou-se a
olhar pela janela, acariciando Sava.
Era impossível absorver os acontecimentos dos últimos dias e mais
inconcebível pensar numa vida sem a avó. Ainda estava sob a influência
do choque provocado pelo ovo imperial que a avó escondera durante
quase dois anos e o dinheiro que Clayton lhe dera ao partir. Chegaria
para viver até ao ano seguinte se não se excedesse nas despesas e, pela
primeira vez durante todo aquele tempo, não sentia desejo de dançar.
Não desejava ver o ballet, nem fazer o que quer que fosse novamente.
Só desejava ficar ali sentada com a cadela e morrer em paz. Depois
reflectiu, culpabilizada, em como a avó ficaria zangada com ela ante esses
pensamentos. A avó estivera sempre comprometida com a vida e não com
a morte.
Viveu calmamente durante uma semana sem ver ninguérn e parecia
mais magra e muito pálida, quando VIadimir lhe bateu à porta. O
príncipe tinha um ar tenso e estava obviamente preocupado com ela, e
Zoya sobressaltou-se ao ver que havia alguém por detrás dele no corredor
escuro, quando abriu a porta. Talvez tivesse trazido o médico para a
observar, mas ela não queria ver ninguém e muito menos o médico.
Tinha meias de lã e um vestido preto e apanhara o cabelo ruivo que
formava um marcado contraste com o rosto cor de marfim.
- Sim? - VIadimir hesitou. Quase sentira medo de o trazer ali, medo
que o choque fosse demasiado violento, mas sabia que assim tinha de ser.
- Olá, Vladimir. - Sem dizer uma palavra, ele afastou-se para o lado e
Zoya soltou uma exclamação abafada ao deparar com Plerre Gilliard.
Os olhos de Pierre encheram-se de lágrimas ao vê-Ia. Parecia terem
decorrido mil anos desde que se haviam encontrado no dia em que ela

partira de Tsarskoie Selo. Avançou um passo na sua direcção e Zoya caiu-
lhe nos braços. Em seguida ergueu o rosto numa súplica, mal conseguindo
articular as palavras por entre os soluços:
- Eles chegaram finalmente? - Gilhard era o tutor com quem as filhas
imperiais tinham estudado toda a vida, e Zoya sabia que ele as
acompanhara até à Sibéria, mas ele limitou-se a abanar a cabeça, incapaz
de responder.
- Não... - balbuciou por fim. - Não... não chegaram - Ficou a aguardar
mais notícias e, sentindo o corpo a transforrnar-se em pedra, avançou até
à miserável sala de estar, seguida por ele. Pierre estava magro, extenuado
e muito pálido. VIadimir deixou-os sós. Fechou a porta devagar quando
saiu e desceu as escadas lentamente até ao táxi.
- Estão bem? - O coração ameaçava saltar-lhe do peito enquanto
aguardava a resposta de Pierre Gilhard e, quando estavam sentados nas
cadeiras um em frente do outro, ele estendeu o braço e tomou-lhe as
mãos entre as suas. As dela estavam geladas quando Gilliard começou a
falar:
- Acabei de chegar da Sibéria... Tinha de ter a certeza antes de vir...
Deixámo-los em Iekaterimburgo, em Junho. Disseram-nos que tínhamos
de partir. - Era como se pretendesse desculpar-se, mas Zoya apenas
queria ouvir que Mashka e os outros estavam bem. Mantinha-se sentada
num silêncio de pedra, com as mãos geladas e trémulas.
- Não estava lá então quando... quando o... Nicolau... - Era incapaz de
pronunciar as palavras, mas ele compreendeu o abanou tristemente a
cabeça.
- O Gibbes e eu tivemos de partir... mas regressámos em Agosto.
Deixaram-nos entrar na casa, só que estava vazia, mademoisclle. - Não
conseguiu dizer-lhe o que tinham descoberto, os buracos de balas e os
vestígios de sangue lavado. - Disseram-nos que eles se tinham mudado
para outro lugar, mas o Gibbes e eu receámos o pior.
Aguardou o resto c om o coração a saltar-lhe no peito, certa de que
a história teria um final feliz. Depois de todo aquele tempo, só podia ter.
A vida não podia ser tão cruel que deixasse os bolcheviques matarem as
pessoas que tanto amava... um frágil rapazinho e quatro raparigas que
haviam sido suas primas e amigas e a mãe que as amava. Já bastava que
o pai tivesse morrido. Era impossível pior do que isso. Observou-lhe o
rosto enquanto ele prosseguia a narrativa, de olhos fechados e lutando
contra as lágrimas. Ainda estava exausto da viagem e só chegara a Paris
na noite anterior, decidido a vê-la.
- Chegámos a Iekaterimburgo no dia do aniversário do Alexis, mas
não estavam. - Suspirou. - Permanec desde então. Tinha a certeza, mesmo
depois de ver os buracos de balas na casa, que ainda estavam vivos.

Zoya sentiu que lhe faltava a respiraçäo e fitou-o.
- Buracos de balas? Mataram o tio Nicolau em frente dos filhos?
- Mataram o Nagorny três dias antes... Ele tentou impedir um soldado
de roubar as medalhas do Alexis. Este deve ter ficado com o coração
despedaçado. Passara a vida inteiro com ele.
... O fiel Nagorny, que se recusara a abandoná-los. Não haveria fim?
- A meio de Julho, os bolcheviques disseram-lhes que os parentes iam
tentar salvá-los e que tinham de mudar, antes que lhes descobrissem o
paradeiro.
Zoya pensou nas cartas de Mashka anteriores a isso, dizendo-lhe onde
estavam. "Mas quem ia tentar salvá-los?"
- A sangrenta revolução imperava desde Junho e era quase impossível
chegar a qualquer lugar - prosseguiu. - Contudo, apareceram à mela-noite
e ordenaram-lhes que se vestissem...
A voz morreu-lhe na garganta, e Zoya agarrou-lhe as mãos com tanta
força que o magoou enquanto o fitava, duas pessoas abandonadas numa
ilha deserta, os outros desaparecidos... Mas para onde? Esperou pelo
resto, sem pronunciar uma palavra. Dali a pouco, ele iria dizer-lhe que
eles vinham a caminho de Paris...
- Desceram as escadas, a imperatriz, Nicolau e os filhos... A Anastasia
ainda tinha o Jimmy com ela. - "O pequeno cocker spaníel do Alexis."
Pierre pôs-se novamente a chorar ante a ecordação de toda a cena. - ...
E a Joy... - Sava ganiu como se reconhecesse o nome da mãe e ele
continuou: - ... Nessa altura, o pequeno Alexis já não podia andar, estivera
muito doente... Disseram-lhes que se vestissem e levaram-nos para o rés-
do-chão, a fim de aguardarem transporte... O Nicolau mandou-os trazer
cadeiras para Alexandra e Alexis e estava... - Mal conseguia
prosseguir... - ... estava com ele no colo, quando eles chegaram...
Agarrava-o quando eles abriram fogo.
Zoya sentiu que o coração se transformava num pedaço de pedra.
Devia ter sido o momento em que haviam assassinado Nicolau... Gilhard,
porém, continuou a relatar, soluçando: - Mataram-nos a todos, Zoya
Konstantinovna... Abriram fogo sobre todos. Só o Alexis viveu um pouco
mais do que os outros e bateram-lhe na cabeça com os canos das
espingardas, enquanto ele se agarrava ao pai... e depois mataram o
pequeno Jimmy. A Anastasia tinha desmaiado e, ao gritar, mataram-na
com as baionetas e depois...
Zoya chorava em silêncio, incapaz de acreditar no que ouvia.
- E depois... puseram-nos numa mina e cobriram-nos com ácido...
Morreram, pequena Zoya... todos eles... até mesmo o pobre e meigo
Baby.
Nessa altura, a jovem abraçou-o e apertou-o, enquanto ele chorava.

Mesmo agora, passados meses, nem ele conseguia acreditar.
- Descobrimos a Joy, um dos soldados deixara-a entrar, e estava quase
morta de fome quando a encontraram perto da mina... a ganir pelas
crianças que amava. E, ó Zoya, ninguém alguma vez virá a saber quanto
eram queridos ou quanto os amávamos.
- ... Oh, meu Deus... Oh, meu Deus... A minha pobre e querida
Mashka... morta com espingardas e baionetas... como deve ter-se sentido
assustada...
O Nicolau tentou detê-los... mas não havia nada que os detivesse. Se
nos tivessem deixado ficar... mas não teria modificado nada. - Não lhe
contou que o Exército Branco chegara para libertar Iekaterirriburgo oito
dias depois. Apenas oito dias.
Zoya fitou-o com um olhar vazio. Nada lhe importava agora. Nada
voltaria a importar-lhe... nem a ela... nem a eles... Ocultou o rosto entre
as mäos e chorou, abraçada a Pierre.
- Tinha de lhe contar pessoalmente... Lamento tanto... tanto... - Tão
poucas palavras para a perda de pessoas fantásticas. Nada haviam
compreendido naquele último dia em Tsarskoie Selo e ela já sabia que
devia ter ficado com eles, os bolcheviques poderiam tê-la morto também...
deveriam tê-la, morto com baionetas e balas como tinham morto Mashka
e todos eles... e Baby...
Pierre deixou-a e prometeu voltar no dia seguinte depois de ter
dormido. Foi-lhe insuportável fitá-la ao partir, encarar o olhar
despedaçado e o rosto inexpressivo. E, quando ficou novamente sozinha,
Zoya pegou em Sava e embalou-a para trás e para diante, chorando e
gritando no apartamento vazio:
- Oh, avó... Eles morreram... Mataram-nos a todos... - E, por fim,
apenas um sussurro permaneceu no silêncio, enquanto Zoya pronunciava
o nome dela pela última vez... jamais suportaria voltar a dizê-lo... E
murmurou baixinho:
- Minha Mashka...

CAPITULO 27

Depois de ter ouvido as notícias trazidas por Pierre Gilliard, Zoya
sentiu-se, durante vários dias, como se estivesse em estado de choque.
A juntar à dor da morte da avó havia a agonia de saber da execução. No
dia seguinte quando voltou, Pierre disse-lhe que o Dr. Botkin morrera
com os restantes, o que explicava o motivo de nenhuma das cartas ter
chegado ao destino, mas também não havia ninguém para responder.

E soube igualmente que o grão-duque Miguel também fora morto a
tiro, uma semana antes da execução de Nicolau, Alexandra e dos filhos.
Quatro outros grão-duques tinham sido assassinados depois. A lista
parecia ser infindável. Era como se quisessem destruir toda uma raça, um
capítulo inteiro da História. E os pormenores eram de uma brutalidade
para além das palavras.
Perante o que agora sabia, era compreensível que a Conferência de
Paz de Versalhes nada quisesse dizer para ela. Aos seus olhos, a guerra
e até mesmo o seu final deixaram de ter qualquer significado. Perdera os
pais, o irmão, a avó, os primos, os amigos e a pátria e até mesmo o
homem que amava a deixara.
Sentada no pequeno apartamento dia após dia, a olhar através da
janela, a vida parecia-lhe um deserto.
Pierre Gilliard veio visitá-la mais vezes antes de partir. Ia regressar à
pátria, à Suíça, para descansar antes de voltar à Sibéria e ajudar o
prosseguimento da investigação. Contudo, nem isso lhe parecia
importante. Nada o era. Para Zoya, tudo acabara.
No fim de Janeiro, Paris tinha recuperado a alegria e os soldados
americanos pareciam encher as ruas. Havia festas, espectáculos especiais
e paradas, tudo em honra dos dignitários que chegavam dos Estados
Unidos para conferenciar em Versalhes, celebrar o fim da "Grande
Aventura" e iniciarem a nova era de paz que despontava.
No entanto, para Zoya nada havia a celebrar. Vladimir foi visitá-la
algumas vezes depois de Plerre Gilliard partir rumo a Berna a fim de se
juntar à mulher, mas Zoya mal falava e Vladimir ficava a observá-la,
temendo pela sua sanidade e segurança. As notícias tinham-se espalhado
pelos emigrantes e houve lágrimas infindáveis e um luto silencioso. Os
Rornanov deixariam uma imensa saudade e jamais seriam esquecidos
pelos que os haviam conhecido.
- Deixe-me levá-la a dar um passeio de carro, miúda. Só lhe faria bem
ir a qualquer lado.
- Tenho tudo o que preciso aqui, Vladimir. - Fitou-o com tristeza,
acariciando suavemente a pequena Sava. Ele trazia-lhe comida como
fizera quando tinham chegado a Paris. Desesperado, até lhe comprou
vodca. Talvez, se não houvesse outra solução, pudesse afogar as mágoas.
Mas a garrafa ficou por abrir e a vodca intocada, como a maior parte da
comida que trouxera. Dava a sensação de que ela se dispusera a morrer,
ansiosa por se juntar aos outros.
Várias das mulheres que ele conhecia também passavam por casa
dela, mas na maior parte das vezes Zoya não respondia, quando elas
batiam à porta. Limitava-se a ficar sentada muito quieta, esperando que
se fossem embora, sentada sozinha no apartamento às escuras.

No fim de Janeiro, Vladimir sentiu-se assustado e falara mesmo com
um médico. Aparentemente nada podiam fazer, excepto esperar a viragem
da maré. Contudo, ele receava que ela fizesse algo drástico antes.
Continuava a pensar na jovem ao fim de uma das tardes, quando
conduziu o táxi até Crillon, esperando que um dos importantes
americanos o mandasse parar. E depois, como que em resposta a uma
prece, olhou para o outro lado da rua e avistou-o.
Buzinou freneticamente e acenou, mas o indivíduo alto e fardado
desapareceu no hotel e, quando Vladimir saltou para fora do carro, rezou
para que não tivesse sido uma ilusão. Atravessou a rua com a velocidade
de um raio e entrou no hotel, conseguindo apanhá-lo antes que ele
entrasse num elevador. Clayton Andrews virou-se com um olhar
surpreendido quando Vladimir o chamou. Saiu lentamente do elevador,
receando que algo terrível pudesse ter sucedido.
- Graças a Deus que é você - suspirou Vladimir, aliviado e esperando
que ele ainda estivesse disposto a ver a jovem. Não estava certo do que
acontecera entre os dois, mas sabia que tinha havido qualquer
desentendimento antes de Clayton abandonar Paris.
- Aconteceu-lhe alguma coisa? - Foi tudo o que Clayton conseguiu
pensar ao detectar a expressão no rosto de Vladimir.
Chegara no dia anterior e tivera de se conter para não ir vê-Ia.
Contudo, sabia que era inútil torturar-se ou a Zoya. Estavam melhor
assim. Queria que ela tivesse uma nova vida e se se mantivesse por perto
não a ajudaria a encontrá-la, por mais que lhe sentisse a falta.
Mal pusera os pés em Nova lorque, tinham-lhe pedido que regressasse
a Paris e desse uma ajuda nas muitas reuniões associadas ao Tratado de
Versalhes, antes de abandonar definitivamente o exército. E regressara
bastante alvoroçado. Ignorava se teria força suficiente para voltar a Paris
e não a ver.
- Trata-se da Zoya? - perguntou ao príncipe, assustado pelo olhar
dele, que dizia mais do que todas as palavras.
- Há algum sítio onde possamos conversar? - retorquiu Vladimir,
observando o átrio cheio de gente e fitando de novo Clayton. Tinha muita
coisa para lhe contar. Clayton consultou o relógio. Dispunha de duas
horas livres. Esboçou um aceno de cabeça e seguiu Vladimir até lá fora,
na direcção do táxi convenientemente à espera.
- Responda-me, homem. Ela está bem? Aconteceu-lhe alguma coisa?
O príncipe exibia um ar triste quando ligou o motor do carro. Tinha
os punhos da camisa roçados e o casaco gasto, mas conservava o bigode
impecavelmente aparado e o cabelo de um branco de neve. Tudo em si
emanava nobreza e distinção. Havia agora tantos iguais a ele em Paris.
Condes, príncipes, duques e homens de boas famílias ao volante de táxis

e a servir às mesas.
- Não lhe aconteceu nada, capitão - respondeu, e Clayton soltou um
suspiro de alívio. - Pelo menos, não directamente. - Seguiram até ao
Deux-Magots, escolheram uma mesa lá atrás e Clayton mandou vir dois
cafés. - A avó morreu há três semanas.
- Já o receava. - Ela parecia tão doente e debilitada quando deixara
Paris há mais de um mês.
- Contudo, pior do que isso, recebeu a visita de Pierre Gilliard que
veio da Sibéria para a ver. A notícia foi terrível. Não saiu do apartamento
desde essa altura. Receio que enlouqueça, para ali sentada, a chorar por
eles. É de mais. - Tinha lágrimas nos olhos e lamentou que Clayton não
tivesse encomendado uma bebida mais forte. De bom grado beberia uma
vodca simples. Só de pensar na jovem, doía-lhe o coração. Coisas
demasiadas haviam acontecido a todos eles, sobretudo a Zoya.
- O Gilliard estava presente quando mataram o czar? - Ele próprio
sentia uma enorme tristeza só de pensar nisso, embora nunca o tivesse
conhecido. Contudo, Zoya dera-lhe vida com os seus relatos de Livadia,
do iate e de Tsarskoie Selo e agora quase lhe parecia familiar.
- Parece que os soldados dos sovietes o mandaram embora e ao tutor
inglês pouco antes, mas regressaram dois meses depois e há meses que
andam a falar com soldados, guardas e camponeses locais de
Iekaterimburgo, ajudando nas investigações do Exército Branco.
Conhecem a maioria e ele quer regressar e falar com mais alguns. Só que
deixou de ser importante - replicou com um olhar velho e triste dirigido
a Clayton Andrews. - Estão todos mortos... todos eles... assassinados ao
mesmo tempo que o czar... até mesmo as crianças - acrescentou. Não
sentia vergonha das lágrimas que lhe rolavam pelas faces. Chorava sempre
que pensava no assunto. Tinha perdido tantos e tão bons amigos. Todos
tinham. Todavia, Clayton Andrews parecia chocado, horrorizado e ciente
do efeito que produziria em Zoya.
- A Marie também? - Era uma derradeira esperança... a bem de
Zoya... mas Vladimir limitou-se a abanar a cabeça.
- Todos eles. Mortos. - Contou a Andrews porrnenores que Gilliard
não se atrevera a relatar a Zoya, sobre ácido, mutilações e fogo. O que
ela sabia já bastava. Haviam preterldido varrê-los da superficie da Terra,
sem deixarem vestígios. É, contudo, impossível apagar a beleza, dignidade
e graciosidade e pessoas tão profundamente boas e encantadoras. Os
corpos haviam desaparecido, mas o espírito viveria para sempre.
- Como é que a Zoya recebeu a notícia?
- Não tenho a certeza que sobreviva. Anda a emagrecer de dia para
dia. Não come, não fala, não sorri. Parte-se-me o coração só de a ver.
Vai visitá-la? - Estava pronto a implorar-lhe. Ela tinha de continuar a

viver. A avó já era de idade, mas Zoya era jovem e alegre e, aos dezanove
anos, a sua vida estava apenas no começo. Não suportaria vê-Ia chegar ao
fim agora. Tinha de continuar a viver e transportar a beleza que todos
haviam visto para uma nova vida e não enterrá-la como estava a fazer.
Clayton Andrews suspirou, enquanto mexia o cafe com um ar
pensativo. O que Vladimir lhe tinha contado era extremarnente chocante
e, mais do que isso, despedaçava-lhe o coração... nem o rapazinho
escapara... fora o que o próprio Pierre Gilliard dissera ao ouvir as notícias
"As crianças!... As crianças, não!" Contudo, fitou tristemente o principe,
pensando novamente em Zoya.
- Não estou certo de que queira ver-me!
- Deve tentar. Por ela. - Não se atreveu a perguntar ao homem se ele
ainda a amava. De qualquer maneira, sempre o achara velho de mais para
ela e dissera-o a Eugenia. No entanto, ele era a única esperança que
restava e vira o brilho nos olhos de Clayton, no ano em que fora assistir
aos serviços religiosos de Natal com eles. Pelo menos nessa altura, não
duvidava que amasse profundamente a jovem. - Na maioria das vezes, não
atende quando batem à porta - prosseguiu. - Às vezes, Iimito-me a deixar-
lhe comida cá fora e ela recolhe-a, embora não tenha a certeza se a come.
- O príncipe fazia-o em memória da avó. Gostaria que alguém fizesse o
mesmo por YeIena. E agora estava a suplicar a Clayton Andrews que
fosse vê-Ia. Teria feito qualquer coisa para a ajudar. Quase lamentava que
Gilliard tivesse aparecido, mas precisavam de saber, não podiam prolongar
eternamente a esperança.
- Farei o que puder - prometeu, Clayton, consultando o relógio. Tinha
de regressar ao hotel para uma daquelas infindáveis reuniões. Levantou-
se, pagou o café e agradeceu a Vladimir no caminho de volta,
interrogando-se sobre se ela o receberia. Aos olhos de Zoya, abandonara-
a e sabia que a jovem não entendera os seus motivos. Achava que ela
agora o odiava e talvez fosse melhor para seu bem. Mas não podia deixá-
la para ali a morrer. O quadro pintado por Vladimir era um pesadelo.
Nessa noite, assistiu, impaciente, às reuniões e às dez horas saiu, fez
sinal a um táxi e indicou a morada ao motorista. Foi um alívio descobrir
que o homem era um francês e não um dos aristocratas russos.
Ao chegar, o prédio pareceu-lhe dolorosamente familiar e hesitou um
momento antes de subir as escadas devagar. Ignorava o que dizer, talvez
nada houvesse a dizer. Talvez o que pudesse fazer se resumisse a estar ali.
A subida até ao quarto andar pareceu-lhe intenninável e os corredores
eram ainda mais frios, escuros e fétidos do que se recordava. Deixara-a
apenas há seis samanas, mas, naquele breve espaço de tempo, mudara
tanta coisa, acontecera tanta coisa. Conservou-se muito tempo do lado de
fora da porta, à escuta, interrogando-se sobre se ela estaria a dormir e

depois sobressaltou-se ao ouvir passos.
Bateu ao de leve uma vez e os passos pararam. Pararam durante
muito tempo e, quando ela julgou que ele se fora embora, ouviu-os de
novo, desta vez com os latidos de Sava. O coração ameaçava saltar-lhe do
peito ao pensar nela ali tão perto, mas não podia ser egoísta, pois era
a jovem quem agora interessava.
Viera até ali para a ajudar a ela e não a si, e forçou-se a pensar assim
quando bateu de novo e falou através da porta.
- Télégramme! - anunciou. - Télégramme! - Era um truque baixo, mas
sabia que, de outra forma, Zoya não abriria a porta. Os passos
aproximaram-se e a porta abriu-se um pouco; porém, de onde ele estava,
ela não conseguia vê-lo. E, com um único passo e uma ligeira pressão,
abriu mais a porta e empurrou-a para o lado, falando meigamente. -
Devia ter mais cuidado, mademoiselle.
Zoya soltou uma exclamação abafada e o rosto denotou uma palidez
de morte. Clayton ficou chocado ao ver quanto ela emagrecera. O
príncipe tinha razão. Estava com uma aparência terrível ao fitá-lo com os
enormes olhos assustados.
- O que fazes aqui?
- Dei um salto de Nova lorque para ver como estavas. - Tentou
parecer despreocupado, mas o aspecto dela falava por si. Situava-se para
lá do riso, para lá do amor e interesse.
- Porque vieste aqui? - inquiriu, zangada e frágil, quase lhe partindo
o coração. Desejava apertá-la de novo nos braços, mas não se atreveu.
Receou quebrar-lhe os ossos.
- Queria ver-te. Estou aqui por causa das negociações do Tratado de
Paz em Versalhes. - Ainda se conservavam na ombreira da porta e ele
olhou-a interrogativamente quando Sava veio lamber-lhe a mão. A
cadelinha não se esquecera, mesmo que Zoya já não se interessasse em
lembrar-se. - Posso entrar uns minutos?
- Porquê? - Fitava-o com uns olhos grandes e tristes, mas mais bonita
que nunca.
E foi incapaz de continuar a mentir-lhe.
- Porque ainda te amo, Zoya, é por isso. - Não era éssa a resposta que
planeara, mas não conseguiu evitar as palavras.
- Deixou de ser importante.
- Para mim, é.
- Não era há seis semanas, quando te foste embora.
- Nessa altura também era muito importante. Achei que estava a
tomar a atitude certa. Achei que tinhas direito a mais do que podia
oferecer-te. - Materialmente, podia oferecer-lhe tudo, mas não podia dar-
lhe juventude nem os anos que desperdiçara antes de a conhecer. Na

altura, parecera-lhe importante, mas agora já não estava tão seguro face
a tudo o que Vladimir lhe dissera. - Deixei-te porque te amava e não o
contrário. - Contudo, soube, tal como então, que ela não compreendia. -
Não era minha intenção abandonar-te. Não fazia ideia de que aconteceria
tanta coisa depois de partir.
- O que queres dizer? - inquiriu, olhando-o com uma expressão triste
e sentindo que ele sabia, mas sem uma certeza absoluta.
- Estive com o Vladimir esta tarde.
- E o que é que ele te contou? - Mantinha-se muito rígida e afastada
dele, fitando-o no mais fundo e ele deixou que o coração voasse ao seu
encontro. Ela sofrera tanto. Não era justo. Devia ter acontecido a outra
pessoa. Não a ela, a Eugenia ou aos Romanov... ou a VIadimir. Sentia
pena de todos, mas acima de tudo amava-a.
- Ele contou-me tudo, pequenina. - Deu mais um passo na sua
direcção e tornou-a nos braços, verificando admirado que ela não se
debatia. - Contou-me sobre a tua avó... - Hesitou, mas apenas um
momento. - ... E sobre os teus primos... e a pobre Mashka... - Zoya
engoliu um soluço, virou a cara e depois, como se o dique se tivesse
rompido subitamente, desatou a soluçar nos seus braços e ele fechou a
porta com o pé e levou-a como a uma criança até ao sofá, sem a largar
um momento. A jovem chorou durante muito tempo, tremendo da cabeça
aos pés enquanto lhe contava tudo o que ouvira da boca de Gilliard, e
Clayton continuou a abraçá-la. Por fim, a sala ficou de novo em silêncio
e ouvia-se apenas um fungar ocasional. Ela virou os olhos verdes na sua
direcção e Clayton beijou-a ternamente, como tinha ansiado desde que a
deixara. - Gostaria de ter estado aqui quando ele veio.
- Também teria gostado - confessou, chorando novamente. - Tudo tem
sido tão terrível desde que te foste embora... e a Mashka... oh, meu Deus,
a pobre Mashka... Pelo menos, o Pierre disse que as balas a mataram
rapidamente. Mas os outros...
- Não penses mais nisso. Tens de deitar tudo para trás das costas.
- Como posso? - Continuava sentada ao colo dele e recordava-se das
suas conversas de há muito tempo com o pai.
- Tem de ser, Zoya. Pensa na tua avó, pensa em como foi corajosa.
Levou-te para fora da Rússia numa tróica, rumo à liberdade. Não te
trouxe até aqui para que desistisses da esperança, abandonasses tudo e
ficasses sentada neste apartaniento até morreres de fome. Trouxe-te para
que tivesses uma vida melhor, para te salvar a vida. Não deves de forma
alguma desperdiçá-la. Seria uma afronta ante a sua memória e tudo o que
tentou fazer por ti. Tens de honrá-la e fazer tudo que puderes para
levares uma boa vida.
- Suponho que tens razão, mas é tão dificil agora - retorquiu, após o

que ergueu os olhos e acrescentou: - Ela contou-me sobre o dinheiro
antes de morrer. Ia devolver-to, mas tenho-me servido dele. - Corou e
pareceu-se mais com ela própria.
- Assim o esperei. - Mostrava-se satisfeito porque, pelo menos, fizera
algo por ela. - O Vladimir diz que não danças há meses.
- Desde que a avó adoeceu e depois de ela ter morrido e o Pierre vir
aqui... Não consegui voltar.
- Tudo bem. - Olhou por cima do ombro dela e fixou o samovar com
um sorriso nostálgico.
- O que queres dizer? O Diaghilev pediu-me mais uma vez que
partisse em tournée com eles. E agora podia, se quisesse. - Fungou de
novo, mas desta vez ele riu-se.
- Não, não podias.
- Porque não?
- Porque vais para Nova lorque.
- Vou? - redarguiu, surpreendida. - Porquê? - Parecia mais do que
nunca uma criança, e ele sorriu-lhe.
- Para casares comigo, é esse o motivo. Tens exactamente duas
semanas para juntares as tuas coisas e depois partimos. O que te parece? -
Fitou-o de olhos arregalados.
- Estás a falar a sério?
- Sim, estou. Se me quiseres. - Apercebeu-se, sobressaltado, que ela
agora era uma condessa, mas não por muito tempo. Casaria com ela antes
de deixarem Paris. E, então, seria Mrs. Clayton Andrews para o resto da
vida. - Se for idiota bastante para aceitar o peso de um homem de idade,
o problema é seu, Miss Ossupov. Não vou avisá-la mais.
- óptimo. - Agarrou-se-lhe como uma criança perdida, chorando
novamente, mas desta vez eram lágrimas de alegria e não de tristeza.
- Na verdade, leva algumas coisas contigo agora - retorquiu, pousando-
a suavemente no chão. - Vou arranjar-te um quarto no hotel. Vou vigiar-
te antes de partirmos. Não quero ter de desatar a bater nessa porta aos
gritos de "télégramme" nas duas próximas semanas. - Zoya riu e secou as
lágrimas.
- Foste muito indelicado!
- Não tanto como tu a fingires que não estavas em casa. Não interessa.
Vai buscar as tuas coisas. Podemos voltar aqui dentro de dias e levar o
que quiseres contigo.
- Não tenho muita coisa. - Passeou o olhar pela sala. Não havia
praticamente nada que quisesse levar, exceptuando talvez o samovar e
algumas das coisas da avó. Queria deixar o passado para trás e começar
uma vida nova ao lado dele. E depois, presa de um súbito terror, inquiriu
erguendo o rosto: - Falas mesmo a sério? - E se ele mudasse de opinião?

Se voltasse a deixá-la ou a abandonasse em Nova lorque? Clayton
detectou todo o medo e comoveu-se.
- Claro que sim, miúda. Devia ter-te levado comigo quando me fui
embora. - Contudo, ambos sabiam que ela não podia ter deixado a avó e
esta também não estava em condições de viajar. - Ajudo-te a fazer as
malas.
Meteu tudo numa mala pateticamente pequena e depois lembrou-se
da cadela. Não podia abandoná-la e era a única amizade que tinha, à
excepção, obviamente, de Clayton.
- Posso levar a Sava para o hotel?
- Claro - Pegou na cadelinha que tentava freneticamente lamber-lhe
o queixo e agarrou na malinha de Zoya, enquanto ela apagava as luzes.
Era altura de ir para casa. Fechou a porta sem olhar para trás e seguiu
Clayton pelas escadas, rumo a uma nova vida.

CAPITULO 28

Levou-lhe menos de um dia a arrumar as suas coisas. Empacotou o
samovar, os livros, o tricô da avó, os xailes dela e a sua roupa, a toalha de
renda, mas pouco mais havia. Deu o resto a Vladmir, a alguns amigos e
ao padre de Santo Alexandre Nevski.
Despediram-se de Vladimir e ela prometeu escrever. E, dentro de
dias, viu-se ao lado de Clayton diante de um padre e tornou-se sua
mulher. Assemelhava-se a um sonho quando o olhou com as lágrimas
correndo-lhe pelas faces. Perdera tudo e agora até o nome desaparecera.
Contudo, agarrava-se a ele como se Clayton fosse a própria vida, quando
regressaram ao hotel. Era como se receasse que ele pudesse mudar de
opiniäo.
Passaram mais dois dias em Paris e depois apanharam o comboio para
a Suíça. Haviam decidido passar ali a lua-de-mel e confessou a Clayton
que gostaria de voltar a ver Pierre Gilliard antes de partir.
Levaram dois dias a chegar a Berna, pois o comboio parava
infindavelmente em todas as estações, mas, quando acordou no último dia,
faltou-lhe a respiração. As montanhas cobertas de neve saudaram-na e,
por um momento, teve a sensação de estar de volta à Rússia.
Gilhard foi esperá-los ao comboio e foram almoçar a casa dele com
a mulher, que fora ama das crianças Romanov. Abraçou Zoya que
chorava, e Clayton ouviu-lhes as recordações durante o almoço. Era
doloroso mas em simultâneo partilhavam imensa ternura e memórias
felizes.

- Quando volta? - indagou Clayton sem erguer a voz, enquanto Zoya
foi ver umas fotografias na companhia da mulher de Gilliard.
- Mal recuperemos forças. A vida na Sibéria foi muito dura para a
minha mulher. Não quero levá-la comigo. O Gibbes e eu combinámos
encontrar-nos para ver se conseguimos descobrir mais alguma coisa.
- E isso ainda interessa? - Clayton interpelava-o honestamente. Tudo
parecia haver terminado e não valia a pena manter um elo com o passado
doloroso. Dissera o mesmo a Zoya, mas Gilliard parecia obcecado com a
situação. Agora ainda lhe era mais real, mas tornava-se compreensível,
pois permanecera vinte anos com os filhos do czar e eles eram toda a sua
vida.
- Para mim, interessa. Näo descansarei até saber tudo, até descobrir
qualquer deles que tenha sobrevivido. - Era uma nova ideia.
- Há alguma hipótese?
- Não acredito que haja. Mas preciso de ter a certeza, ou nunca mais
descansarei.
- Amava-os muito...
- Todos nós. Eram uma família extraordinária e até mesmo vários
guardas da Sibéria tornaram-se mais brandos depois de os conhecerem.
Tinham de os mudar constantemente para manter o ambiente de dureza.
Os bolcheviques sentiam-se frustrados. O Nicolau era bondoso para todos,
até mesmo para os que lhe haviam destruído o império. Acho que nunca
se perdoou por ter abdicado a favor deles. Estava sempre a ler livros de
História e afirmou-me que um dia o mundo diria que ele falhara... que
desistira... Acho que lhe despedaçou o coração.
Era uma análise do homem que os outros jamais conheceriam. Um
perscrutar de uma época que não voltaria para nenhum deles. A
magnitude do que todos eles haviam vivido superava até mesmo o que
possuía para oferecer a Zoya em Nova lorque. Sabia, porém, que ela lá
seria feliz. Nunca mais sentiria frio nem fome. Pelo menos, tinha isso a
oferecer-lhe. Já pensara em comprar-lhe unia casa. A sua mansão de
granito na Quinta Avenida parecia-lhe de súbito pequena de mais.
Passaram três dias em Berna e depois levou-a a Gênova e a Lausana.
Regressaram a Paris no final de Fevereiro e apanharam o Paris para
Nova lorque. Partiu um belo dia do Havre com as suas quatro chaminés
bem erguidas. Tratava-se de um bonito navio, o orgulho da French Line
e mantivera-se parado durante três anos, pois tinha sido lançado a meio
da guerra.
Zoya portou-se como uma criança excitada durante a maior parte da
viagem. Engordara um pouco e os olhos tinham voltado a brilhar.
Jantaram várias vezes no camarote do capitão e dançavam pela noite fora.
Quase se sentia culpada por se divertir assim. Deixara tanta gente para

trás no seu mundo perdido, mas Clayton não lhe perinitia que pensasse
nisso agora. Apenas queria que ela seguisse em frente, para a nova vida
que partilhariam. Falava na casa que construiriam, nas pessoas que iriam
conhecer e nos filhos que teriam. Esperava-a toda uma vida pela frente.
Ainda não fizera vinte anos e tudo estava apenas no começo.
E na noite antes de chegarem a Nova Iorque, ela deu-lhe o presente
de casamento que andara a guardar. Continuava embrulhado no cachecol
da avó. Clayton soltou uma exclamação ao deparar com o ovo e o seu
desenho elaborado. Ela pousou o pequeno cisne de ouro em cima da
mesa e mostrou-lhe como funcionava.
- É a coisa mais bonita que vi em toda a iiiinha vida... Não, a segunda
mais bonita.
Zoya fitou-o, desapontada, pois desejara que ele gostasse tanto
daquele ovo quanto ela. Significava tanto aos seus olhos. Era a única
relíquia que conservava do passado.
- Qual foi a primeira?
- Tu, meu amor. Tu és a mais bela e a melhor.
- Pateta! - exclamou a rir.
Fizeram amor durante toda a noite e ainda estavam acordados quando
a Estátua da Liberdade se recortou no horizonte, ao apartarem a Nova
Iorque na manhã seguinte.

NOVA IORQUE

CAPíTULO 29

Zoya ficou no convés a observar, admirada, enquanto o Paris aportava
no cais da French Line no Hudson. Vangloriavam-se de terem a maior
prancha de desembarque do mundo e ela vestia um fato Chanel preto que
Clayton lhe tinha comprado antes de deixarem Paris.
Nessa altura, Chanel mudara-se para a Rue Cambon e os seus
modelos pareciam muito mais interessantes do que os de Poiret, embora
não fosse tão famosa. Zoya usava um chapéu a condizer, apanhara o
cabelo, e sentira-se muito chique quan-do o comprara, mas agora invadia-
a uma súbita sensação de estar mal vestida.
As mulheres à sua volta ostentavam roupas e peles caras e não vira
tantas jóias desde que deixara a Rússia. Apenas tinha a fina aliança de
casamento de ouro que Clayton lhe enfiara no dedo quando haviam

casado.
Não se via vestígios de champanhe em parte alguma, contrariamente
a quando haviam partido do Havre. Os navios franceses tinham de
respeitar uma nova proibição sobre o álcool e era necessário fazer
desaparecer todas as bebidas alcoólicas, mal ultrapassavam o limite de
cinco quilómetros. Apenas podiam servir álcool em águas internacionais,
contrariamente aos navios americanos que não serviam nenhum. Este
facto aumentava a popularidade dos navios franceses e ingleses.
A linha do horizonte de Nova lorque não se assemelhava a nada do
que alguma vez vira. Longe estavam as igrejas, catedrais, espiras e a
antiga elegância da Rússia ou o gracioso esplendor de Paris. Tudo isto era
moderno, vivo e excitante, fazendo-a sentir-se muito jovem quando ele a
conduziu até ao seu Hispano-Suiza e o motorista arrumou as malas no
porta-bagagens.
- O que achas, pequenina? - Observava-a com uma expressão radiosa,
enquanto seguiam pela Quinta Avenida e se dirigiram à mansão que ele
outrora partilhara com a mulher. Era elegante, pequena e fora decorada
por Elsie de Wolfe. As duas mulheres tinham sido boas amigas e ela
decorara as casas dos Astor e dos Vanderbilt em Nova lorque, bem como
as de muitos dos seus amigos em Bóston.
- É uma maravilha, Claytonl - Sentia-se a anos-luz das estradas
cobertas de neve em que viajara de tróica, rumo a Tsarskoie Selo.
Havia cavalos e carros nas ruas, mulheres de casacos de cores vivas
orlados de pele e homens caminhando apressados ao seu lado. Todos
pareciam felizes e contentes, e os olhos de Zoya dançavam quando desceu
do carro e contemplou a mansão de tijolo. Indubitavelmente mais
pequena do que o Palácio Fontanka, era, segundo os padrões americanos,
muito grande e, quando se viu de pé no vestíbulo de mármore, duas
criadas de uniforme cinzento, com avental e touca, pegaram-lhe no casaco
e ela esboçou-lhes um sorriso tímido.
- Esta é Mistress Andrews - anunciou Clayton, apresentando-a a
ambas e à idosa cozinheira que entrou com mais duas criadas, vinda da
cozinha.
O mordomo era inglês e tinha um ar muito sério e a casa ostentava
todos os sinais que tanto agradavam a Mrs. Wolfè, antiguidades franceses
misturadas com "moderne", como gostava de lhe chamar. Clayton já
dissera a Zoya que poderia mudar o que quisesse, que queria que ela se
sentisse em casa. Contudo, a jovem adorava o que via.
Amplas portas-janelas francesas davam para um jardim coberto de
neve e Zoya bateu palmas como uma criança. Clayton riu e conduziu-a ao
andar de cima, até ao quarto de dormir. Havia colchas de cetim rosa na
cama, reposteiros e um lustre encantador e também um quarto de vestir

com paredes forradas de cetim rosa só para ela e roupeiros que lhe
lembravam os da mãe. E riu ao ver os seus poucos vestidos pendurados
quando a criada lhe desfez as malas nessa tarde.
- Receio que as criadas fiquem muito desapontadas - declarou a rir,
nua no quarto de vestir, antes de jantar. Acabara de tomar um banho na
luxuosa banheira de mármore... longe da imagem terrível da pequena
banheira na divisão ao fundo do corredor no apartamento próximo do
Palais Royal. Nunca mais teria de partilhar a casa de banho com os
vizirihos. Tudo lhe parecia um sonho quando olhava à volta e para o homem que a salvara das tristezas da sua vida em Paris. Não fazia ideia
da riqueza dele nem da importância que ele tinha na sociedade de Nova
lorque. De uniforme e com os seus modos simples não havia qualquer
motivo para desconfiar. - Porque não me falaste disto tudo?
- Não teria tido qualquer importância. - Clayton sabia que não era
esse o motivo por que ela o amava, o que se tornava reconfortante. Era
um alívio não ser perseguido por debutantes fora de prazo ou filhas das
amigas da falecida mãe, recentemente viúvas, divorciadas ou à caça de um
marido próspero.
Mais importante para Zoya era o facto de ele ser afectuoso e bom e
de lhe ter salvo a vida.
- Ficava sempre täo embaraçada quando te falava na vida em
Sampetersburgo,... Receava que te parecesse excessivo.
- E pareceu... - Riu. - Mas também encantador... como a minha bela
noiva. - Ficou a vê-Ia enfiar a roupa intenor nova de cetim e depois
decidiu tirar-lha com a mesma rapidez.
- Clayton! - Mas não protestou quando ele a levou para a cama.
Todas as noites apareciam atrasadis para o jantar, e Zoya sentia-se
embaraçado com a visível desaprovação do mordomo.
Os criados não se mostravam calorosos e a jovem tinha consciência de
um murmurar sempre que andava pela casa. Serviam-na mas com
relutância e, sempre que possível, mencionavam a antiga mulher dele. A
ex-Mrs. Andrews fora aparenteniente o máximo da perfeição. A
empregada conseguira mesmo deixar um exemplar da Vogue no seu quarto
de vestir e aberta nas páginas onde Cecil Beaton falava com entusiasmo
do último vestido dela e de uma festa que dera para as suas amigas em
Virgínia.
- Ela era lindíssima, não? - perguntou Zoya suavemente uma noite,
quando estavam sentados junto à lareira do quarto. Contudo, ali, a lareira
apenas realçava a decoração e não era uma necessidade para que
sobrevivessem. Pensou com tristeza mais do que uma vez em Vladimir no
seu apartaniento gelado e nos outros amigos, literalmente a morrerem de
fome em Paris. Sentia-se culpada por tudo o que Clayton lhe dava.

- Ela quem? - Fitou-a sem compreender.
- A tua mulher. - Ela chamava-se Margaret.
- Vestia-se muito bem quando queria. Mas tu também, pequena Zoya.
Ainda nem sequer começámos a ir às compras.
- Estragas-me com mimos. - Sorriu-lhe tirmidamente, corando de uma
forma que o emocionava. Atraiu-a de encontro ao corpo.
- Mereces muito mais do que alguma vez te darei. - Queria
recompensá-la por tudo o que ela perdera, por tudo o que tinha sofrido
em Paris depois de abandonar a Rússia. O ovo imperial da Rússia estava
orgulhosamente exposto por cima da lareira no quarto, juntamente com
as fotografias dos pais dele em elegantes molduras de prata e três
pequenas estatuetas em ouro que tinham pertencido à mãe. - És feliz,
miúda?
- Como deixar de o ser? - retorquiu com um olhar lumirioso no
quarto tranquilo. Clayton apresentou-a aos amigos e levava-a a todo o
lado na sua companhia, mas ambos tinham consciência do ressentimento
das outras mulheres. Era bonita, era jovem e parecia requintada nos
vestidos luxuosos que ele lhe comprava. - Porque me detestam tanto? -
Sentiu-se mais do que uma vez incomodada porque as mulheres deixavam
de falar à sua chegada e hostilizavam-na.
- Não te detestam. Apenas têm ciúmes.
Tinha razão; porém, no final de Maio, Clayton sentiu-se furioso pelos
rumores que se haviam desencadeado. Alguém pusera a circular que
Clayton Andrews casara com um, vulgar bailarina de Paris... Mencionava-
se vagamente o Folies-Bergère e um bêbedo do seu clube chegara a
perguntar se ela dançara o can-can. Clayton esteve prestes a bater-lhe.
Numa festa, uma mulher perguntou a outra, ao verem Zoya dançar,
se era verdade que ela fora uma prostituta paga em Paris.
- Deve ter sido. Vê só como ela dança!
Zoya dominava os passos do novo fox-trot na perfeição sob as
cuidadosas instruções de Clayton. E ele, elegante e orgulhoso,
acompanhava-a naquele rodopio, tão obviamente apaixonado pela sua
bela e jovem mulher que todos a odiavam. Tinha vinte anos, uma
cinturinha de vespa, pernas bonitas e o rosto de um anjo.
Quando soavam os acordes da valsa, sentia lágrimas a picareni-lhe os
olhos enquanto giravam e fitava-o com a memória da noite em que se
haviam conhecido e outras dolorosas de muito antes. Se fechasse os olhos,
estava de novo em Sampetersburgo... dançando com Konstantin ou o
elegante e jovem Nicolai no uniforme da Guarda Preobrajenski... ou
mesmo Nicolau, no Palácio de Inverno. Lembrava-se do baile de
debutante que nunca tivera e agora não lhe parecia doloroso. Ele
compensara-a e era mesmo capaz de olhar para as fotografias de Mashka

com um sorriso triste, mas sem lágrimas. Transportaria eternamente os
amigos no coração.
- Amo-te tanto, Pequenina... - sussurrou quando dançavam no baile
dos Astor em Junho e ela parou subitamente e fitou-o, como se tivesse
visto um fantasma. Os pés haviam ficado pregados ao chão e empalideceu.
- Passa-se alguma coisa? - murmurou Clayton.
- É impossível... - Parecia doente e ele sentiu-lhe a mão fria na dele.
Um homem alto e extremamente elegante acabara de entrar na sala
acompanhado por uma bonita mulher com um chamativo vestido azul.
- Conhece-los?
Todavia, ela não conseguia falar. Era o Príncipe Obolenski ou alguém
muito semelhante, e a mulher que lhe dava o braço parecia ser a grã-
duquesa Olga, a tia das jovens grã-duquesas que as levara todos os
domingos à cidade a almoçar com a avó, antes de parar para tomar chá
no Palácio Fontanka com Zoya.
- Zoya!... - Clayton receou que ela desmaiasse quando a nuilher soltou
uma exclamação surpreendida e se precipitou na direcção deles. Zoya
lançou-se nos braços dela.
- Querida... és mesmo tu?... Oh, minha querida Zoya... - A
encantadora Olga abraçou-a e ambas choraram lágrimas de alegria,
transbordantes das ternas lembranças dos entes amados que haviam
perdido, enquanto Clayton e o príncipe Obolenski as observavam. - Mas
o que estás a fazer aqui?
Zoya esboçou uma ligeira vénia e virou-se a fim de apresentar o seu
elegante marido.
- Olga Alexandrovna, posso apresentar-lhe o meu marido, Clayton
Andrews? - Ele inclinou-se, beijou a mão da grã-duquesa e depois Zoya
explicou que Olga era a irmã mais nova do czar.
- Onde tens estado desde... - Tinha dificuldade em pronunciar as
palavras, quando os olhos se cruzaram. Não a via desde que ambas
haviam saído de Tsarskoie Selo.
- Estive em Paris com a avó... Ela morreu a seguir a Natal.
A grã-duquesa voltou a abraçar a jovem e todos no salão de baile
testemunharam o acontecimento; nas horas seguintes, a notícia espalhou-
se por todo o lado. A nova mulher de Clayton Andrews era uma condessa
russa. Os relatos sobre Folies-Bergère dissiparam-se e o príncipe
Obolenski referiu os fantásticos e exóticos bailes do Palácio Fontanka.
- A mãe dela era a mulher mais bonita que conheci na vida.
Obviamente fria, como todas as alemãs, mas de uma beleza espantosa.
E o pai era um homem encantador. Foi uma perda terrível quando o
mataram. Tantos homens fantásticos que desapareceram. - Pronunciou as
palavras com pena, bebendo uma taça de champanhe, mas com menos

emoção do que as mulheres. Zoya nunca mais saiu de perto de Olga
durante a noite. Estava a viver em Londres, mas deslocara-se Nova lorque
para visitar uns amigos. Estava alojada com príncipe Obolenski e a
mulher, Alice Astor.
A cidade de Nova lorque ficou rapidamente a par das origens de
Zoya, da sua família nobre e, pouco depois. tornara-se uma coqueluche
da sociedade. Cecil Beaton fazia a crónica de cada um dos seus
movimentos e eram convidados para todos os lados. As pessoas que a
haviam posto de lado passaram repentinamente a adorá-la.
Elsie de Wolfe queria redecorar a casa e depois fez uma notável
sugestão. Ela e as amigas haviam comprado uma série de antigas herdades
em East River e estavam a remodelar as velhas casas numa rua chamada
Sutton Place. Ainda não e moda, mas sabia que assim seria, quando
chegasse ao fin, trabalho.
- Porque não me deixa decorar uma delas para si e para o Clayton? -
Estava a fazer esse trabalho numa casa destinada a William May Wright,
o accionista, e Cobina, a mulher. Coritudo, Zoya achava que estavam
muito bem na confortável mansão de tijolo.
Zoya deu o seu primeiro jantar em honra da grã-duquesa Olga antes
de ela regressar a Londres, e o seu destino tomou um rumo a partir de
então. Estava fadada a tornar-se a menina-bonita de Nova lorque, para
grande satisfação do marido. Clayton satisfazia-lhe todos os caprichos e
encarregou secretamente Elsie de Wolfe de remodelar uma das casas de
Sutton Place para eles. Era, de facto, o supra-sumo da elegância e,
quando Zoya a viu, arregalou os olhos de espanto.
Não era tão exuberante como a nova casa dos Wright, onde tinham
estado na noite anterior e onde conhecera Fred Astaire e TaHulah
Bankhead. O mais chocante de tudo havia sido a casa de banho forrada
a marta, mas não havia esses excessos na casa dos Andrews. Definia-se
por uma elegância suave, chão de mármore, quartos arejados e cheios de
tesouros que Eisíe de Woolfe se assegurara de poderem agradar à jovem
condessa russa. As pessoas tinham começado a tratá-la assim, mas ela
sempre insistia em que agora era Mrs. Andrews. A ideia de usar o título
parecia-lhe ridícula, embora os americanos parecessem adorá-lo.
Nessa altura, havia muitos outros emigrantes em Nova lorque, recém-
chegados de Paris e Londres e alguns deles directamente da Rússia,
trazendo relatos da sua fuga enquanto a guerra civil rugia entre as forças
vermelhas e brancas, que tentavam assumir o poder sobre a angustiada
nação.
Contudo, os russos brancos em Nova lorque divertiam-na
frequentemente. Havia, sem dúvida, os verdadeiros aristocratas, muitos
dos quais conhecia, mas dúzias de outros vangloriavam-se de títulos que

nunca haviam tido na Rússia. Havia príncipes, princesas e condessas por
todo o lado.
Uma noite, ficou boquiaberta ao ser apresentada a uma princesa
imperial que logo reconheceu como a mulher que fizera chapéus para a
mãe, mas não disse nada de embaraçoso quando foram apresentadas. E,
mais tarde, a mulher pediu que não a denunciasse aos russos ainda de
luto.
Ela própria recebia muitos dos nobres que haviam sido amigos dos
pais. Contudo, o passado morrera e não havia conversa, ilusão ou
qualquer recordação dolorosa que o fizesse reviver. Queria olhar em
frente, tomar-se uma parte integral da vida que levava. E só no Natal se
permitiu lembrar com lágrimas renovadas, enquanto se conservava ao lado
de Clayton, entoando os cânticos familiares russos e segurando a vela que
ardia em memória dos que tinha amado e perdido. O Natal foi uma época
difícil, mas, nessa altura, já há nove meses que estava em Nova Iorque e
tinha notícias excitantes para Clayton.
Esperou até regressarem a casa da igreja e, quando estavam deitados
na enorme cama de dossel em Sutton Place, aguardou para lhe dizer até
terem feito amor.
- Estás o quê? - Parecia completamente apanhado de surpresa e ficou
logo receoso de poder tê-la magoado. - Porque não me disseste? - Os
olhos brilhavam-lhe e Zoya chorava de alegria.
- Só soube há dois dias. - Riu como se fosse a guardiã do segredo
mais importante do mundo. Ainda não se via, mas ela sabia e, desde que
o médico lhe dera a notícia, sentia-se como se conhecesse o verdadeiro
significado da vida. Desejara o filho de Clayton mais do que qualquer
outra coisa no mundo e beijou-o, feliz, deixando que ele a observasse em
adoração. Ainda não tinha vinte e um anos e ia ter um filho.
- Quando nasce?
- Ainda falta muito, Clayton. Não antes de Agosto. - Ele ofereceu -se
para mudar para outro quarto, a fim de não lhe perturbar o sono, e Zoya
riu-se com a preocupação. - Não te atrevas! Se mudares para outro
quarto, vou contigo!
- Poderia ter a sua graça. - Parecia divertido. Elsie de Wolfe dera-lhes
quartos suficientes por onde escolher. E, na Primavera, Zoya mandara-a
preparar um berçário. Era todo decorado em azul-claro com murais
suaves e luxuosos cortinados.
Tratava-se de uma nova aposta para Mrs. Wolfe que se divertira com
os Rolls em miniatura de Cobina Wright Junior, mas se sentiu satisfeita
com as perspectivas mais rígidas de Zoya quanto ao mais adequado para
as crianças. Zoya sempre denotara a dignidade e bom gosto com que
nascera e acrescentara o seu toque pessoal à casa em Sutton Place. Tinha

uma aura de tranquilidade e requinte de que todos falavam. Há muito que
tinham vendido a mansão de tijolo na Quinta Avenida e contratado
pessoal novo.
E no dia em que Alexis Romanov, o querido e meigo Baby,teria
completado dezassete anos, deu à luz o primeiro filho. O parto correu
facilmente e dele resultou um robusto rapazinho de quatro quilos que
soltou o primeiro vagido enquanto o pai passeava nervosamente de um
lado para o outro, fora do quarto.
Zoya estava quase a dormir com o pequeno querubim nos braços
quando Clayton a viu finalmente. O bebé tinha o cabelo ruivo da mãe e
um rosto redondo. Estava todo embrulhado em rendas, e lágrimas de
alegria correram lentamente pelas faces de Clayton ao vê-lo.
- Oh, é tão bonito... parece-se mesmo contigo...
- Só no cabelo... - murmurou, sonolenta. O médico dera-lhe algo para
dormir e fitou o marido com um ar sonhador. - Tem o teu nariz. -
Assemelhava-se a um pequeno botão de rosa no rosto angelical, e Clayton
riu, acariciando o sedoso cabelo ruivo. Zoya fitou-o, então, suplicante e
perguntou: - Podemos chamar-lhe... Nicolau? Nicholas?...
- Se quiseres. - Gostava do nome e sabia quanto significava para ela.
Era não só o nome do czar como o do falecido irmão.
- Nicholas Konstantin... - sussurrou, brindando-o com uma expressão
de felicidade, e depois adormeceu, ao mesmo tempo que o seu adorado
marido a velava; por fim, saiu do quarto nos bicos dos pés, agradecido por
todas as dádivas da vida. Ao cabo de todos aqueles anos, tinha um filho...
um filho! Nicholas Konstantin Andrews.
"Soa bem", pensou a rir e desceu as escadas para festejar com uma
taça de champanhe.
- Ao Nicholas! - brindou, sozinho na sala e com um sorriso nos lábios. - À Zoya!

CAPíTULO 30

Os anos seguinte voaram sobre asas de anjos, cheios de pessoas,
arrebatamento e festas. Zoya encaracolou o cabere que o horrorizou,
descobriu os cigarros e depois achou que eram uma idiotice. Ccil Beaton
escrevia constantemente sobre ela e as famosas festas na casa que
construíram para os Verões em Long Island.
Viram o último espectáculo de Nijinski em Londres, e Zoya ficou
muito triste ao saber que ele enlouquecera e fora internado numa
instituiçäo em Viena. Contudo, o ballet já não fazia parte da sua vida, à

excepção dos espectáculos a que compareciam ocasionalmente com os
Vanderbilt ou os Astor,
Assistiam a torneios de pólo, recepções, bailes e organizaram eles
próprios uma série deles. A única vez que moderou o ritmo foi em 1924
quando descobriu que estava grávida novamente. O príncipe de Gales
acabara de os visitar em Long Island, depois de assistir a um desafio de
pólo. Desta vez, passou bastante mal e Clayton esperava que tal
significasse que teria uma menina. Aos cinquenta e dois anos, ansiava por
ter uma filha.
Ela nasceu na Primavera de 1925, o mesmo ano em que Josephine
Baker se tornou a coqueluche de Paris.
O coração de Clayton encheu-se de alegria quando viu a recém-
nascida pela primeira vez. Tinha o mesmo brilhante cabelo ruivo da mãe
e do irmão Nicholas e soube de imediato impor a sua presença aos
adniradores. Chorava quando as suas ordens não eram satisfeitas e foi a
menina dos seus olhos, mal nasceu.
Alexandra Marie Andrews foi baptizada com o vestido de baptizado
que há quatro gerações se conservava na família Clayton. Fora feito em
França durante a guerra de 1812 e, quando o vestiu, parecia uma das
duquesas imperiais.
O cabelo era da cor do da mãe, mas os olhos eram os de Clayton e
tinha uma personalidade muito própria. Aos dois anos, dominava até
mesmo o irmão. Nicky, como lhe chamavam, tinha a delicadeza do pai e
a alegria de viver que fora apanágio do irmão de Zoya. Era uma criança
que todos admiravam e de que todos gostavam, sobretudo a mãe.
Contudo, aos quatro anos, Sasha fazia andar todos numa roda-viva.
Até a velha Sava fugia, aterrorizada, quando a via zangada. A cadela tinha
doze anos e continuava com eles, sempre nos calcanhares de Zoya quando
ela estava em casa ou atrás do pequeno Nicky, a quem adoptara.
- Sasha! - exclamou a mãe, desesperada, quando, ao regressar a casa,
a encontrou com as suas melhores pérolas e tendo despejado um frasco
inteiro de Lilas, o perfume que ainda usava e Clayton lhe comprava
sempre. - Não deves fazer coisas dessas!
A própria ama sentia dificuldade em controlá-la. Era uma jovem
francesa que tinham trazido de Paris, mas não havia censuras nem ralhos
que impressionassem a pequena condessa.
- Ela é mesmo assim, mamã! - desculpou-a Nicholas da porta. Tinha
nessa altura oito anos e era tão elegante como o pai. - É uma rapariga.
As raparigas gostam de usar coisas bonitas.
Os olhos cruzaram-se com os de Zoya e ela sorriu. Era tão bom, tão
compreensivo, tão parecido com Clayton. Gostava de todos, mas era
Alexandra, Sasha como lhe chamavam, a testar-lhe a paciência.

À noite, iam ao Cotton Club e depois dançar em Harlém. E meses
antes tinham assistido a uma fabulosa festa oferecida no fantástico
apartamento de Condé Nast, na Park Avenue. Cole Porter também
marcara obviamente presença e Elsie de Wolfe, que queria decorar uma
casa para Zoya, em Palm Beach. Todavia, dada a sua pele delicada, ela
não gostava de sol e contentava-se em ir até lá de passagem todos os
anos, quando ficavam com os Whitney.
Nesse ano, Zoya comprou a roupa a Lelong e tornou-se muito amiga
da sua encantadora mulher, a princesa Natalie, que era filha do grão-
duque Paul e também russa como ZIva. E Tallulah Bankhead repreendera
a jovem mais do que uma vez por ela não usar bastante bâton.
Os bailes com vestidos de fantasia estavam na moda e Clayton
adorava-os. Tinha cinquenta e sete anos e continuava loucamente
apaixonado pela mulher, embora a espicaçasse sem cessar nesse ano,
dizendo-lhe que ela tinha finalmente idade para estar casada com ele,
agora que fizera trinta,
Hoover tinha sido eleito presidente, derrotando o governador AI
Smith de Nova lorque. Calvin Coolidge decidira não voltar a candidatar-
se. E o governador de Nova Iorque era Franklin Roosevelt, um homem
interessante e casado com uma mulher inteligente, embora não fosse
bonita. Contudo, Zoya apreciava a companhia dela e as conversas que
partilhavam, ficando sempre satisfeita quando os Roosevelt os convidavam
para jantar.
Assistiram à peça Capríce com eles e, embora Clayton se mostrasse
entediado, Zoya e Eleanor adoraram-na. Viram em seguida Street Scene,
que ganhou o Prêmio Pulitzer. Todavia, Clayton confessou que se divertia
muito mais no cinema. Era doido por Colleen Moore e Clara Bow. E
Zoya gostava, igualmente de Greta Garbo.
- És como os estrangeiros - troçava Clayton mas ela deixara de
parecer estrangeira aos olhos de quem quer que fosse. Decorridos dez
anos, Zoya integrara-se por completo na vida de Nova Iorque. Adorava
o teatro, o ballet e a ópera levara o pequeno Nicky a ver O Cavaleiro da
Rosa com eles em Janeiro, só que ele ficou chocado ao ver uma mulher
a fazer o papel de homem.
- Mas é uma rapariga! - exclamara em voz alta, chocado, e as pessoas
do camarote ao lado sorriram. Zoya agarrou-lhe ternamente na pequenina
mão e sussurrou-lhe uma explicação aceitável relacionada com o primor
das vozes. - Que horror - declarou e enfiou-se no assento, enquanto
Clayton sorria, sem muita certeza de não concordar com o filho.
Nicholas interessou-se muito mais pelos voos de Lindbergh. E Clayton
e Zoya foram ao casamento de Lindbergh com Anne, a filha do
embaixador Morrow, em Janeiro, pouco antes de mudarem para Long

Island, onde passariam o Verão.
Os miúdos sentiam-se felizes ali e a própria Zoya gostava de dar
longos passeios pela praia, conversando com Clayton os amigos, ou
ficando sozinha, a meditar nos Verões da sua juventude, em Livadia, na
Crimeia.
Por vezes, ainda pensava neles, seria impossível o contrário. As figuras
do passado continuavam presentes no seu coração, mas as recordações
eram agora mais ténues e havia alturas em que tintia dificuldade em
definir os rostos.
Na comija da lareira do quarto, tinha fotografias de Marie e das
outras jovens em molduras Fabergé. Aquela em que estavam todas de
cabeça para baixo continuava a ser a sua preferida e o pequeno Nicholas
também lhes conhecia os nomes e os rostos. Gostava de ouvir falar sobre
como eram, o que tinharn dito e feito, as maldades de criança e intrigava-
o que ele e Alexis, o filho do czar, partilhassem o mesmo dia de anos.
Também gostava de ouvir "as partes tristes", como lhes chamava...
sobre o tio Nicolai, em honra de quem recebera o nome. Zoya falava-lhe
das discussões, partidas e desapontamentos entre ambos e garantiu-lhe
que ela e Nicolai tinham lutado quase tanto como ele e Sasha. Aos
quatro, ele achava que ela era uma chata do pior. E havia outros em casa
da mesma opinião. O pai mimava-a mais do que agradava a Zoya, mas
nem pensar em repreender a filha na presença dele.
- É uma criança, querida. Não a perturbes.
- Mas se não a disciplinarmos agora, Clayton, ela será um monstro aos
doze anos.
- A disciplina é para os rapazes - replicava, mas também era incapaz
de ralhar a Nicholas. Era bondoso para todos e, nesse Verão, brincou com
eles um tempo infindo na praia.
Nessa altura, o rei Jorge voltara a ter força e poder na Grã-Bretanha.
Zoya enervava-se sempre ao ver fotografias dele. Parecia-se tanto com o
seu primo direito, o czar, que era sempre um choque aquele rosto a fitá-la
de um retrato. A própria neta, Isabel, tinha só um ano menos do que
Sasha.
Nesse Verão, o que mais impressionou o pequeno Nicholas foi uma
exibição de Yehudi Menuhin em Nova lorque. O miúdo era um prodígio
no violino e apenas três anos mais velho do que Nicholas, o qual ficou
fascinado pela sua maneira de tocar. Falou no assunto durante algumas
semanas, e Zoya ficou satisfeitíssima.
Clayton andava a ler na praia A Oeste Nada de Novo e, nesse Verão,
divertiu-se a jogar na bolsa. Desde Março que as acções subiam e desciam
e as pessoas faziam enonnes fortunas. Nos últimos dois meses, Clayton
comprara dois colare de diamantes a Zoya com uma fracção dos lucros

obtidos. Mas ela estava muito triste com a notícia de que Diaghilev
morrera em Veneza, em Agosto. Teve a sensação de que se fechava mais
um capítulo da história para ela e falou no assunto a Clayton, enquanto
passeavam na praia, depois de ter sabido a notícia.
- Se ele não me tivesse deixado dançar, teríamos morrido de fome.
Eu não sabia fazer mais nada - replicou, olhando tristemente para
Clayton, e ele pegou-lhe na mão, recordando como a vida havia sido dura
nessa altura, o horroroso apartamento próximo do Palais Royal, a quase
inexistência de comida durante a guerra. Tinham sido, na realidade,
tempos difíceis, mas pertencendo a um passado distante, e ela fitou-o com
um sorriso. - E depois apareceste tu, meu amor... - Nunca se esquecia de
que ele a salvara.
- Teria aparecido outra pessoa.
- Não alguém que pudesse amar como te amo - redarguiu
meigamente. Ele inclinou-se para a beijar e detiveram-se longamente a
olhar os últimos raios do pôr do Sol do Verão. Regressariam a Nova
Iorque no dia seguinte. Nicholas tinha de ir para a escola e Sasha ia
começar a frequentar o jardim-infantil. Zoya pensou que lhe faria bem
começar a contactar com outras crianças, embora Clayton não tivesse
tantas certezas. No entanto, confiava sempre esse tipo de assuntos à
mulher.
Jantaram de novo com os Roosevelt, praticamente a seguir ao
regresso. Também eles tinham voltado da sua casa de Verão em
Campobello. E, uma semana mais tarde, os Andrews deram uma festa
para celebrar o começo de uma nova época social. O príncipe Obolenski
apareceu como era seu hábito e com ele centenas de outros igualmente
famosos.
O mês pareceu voar entre festas, teatro, bailes, e Outubro chegou
num abrir e fechar de olhos. Clayton andava preocupado pois o negócio
das acções não corria bem e telefonou a John Rockefeller a convidá-lo
para almoçar, mas ele viajara até Chicago por uns dias e teria de esperar
para o ver.
Contudo, duas semanas mais tarde, Clayton sentia-se demasiado
perturbado para almoçar com quem quer que fosse. As suas acções
estavam a baixar, mas não queria dizer a Zoya para não a afligir. Na
verdade, apostara todos os seus bens na bolsa há ums meses. Estava tudo
a correr tão bem que tivera a certeza de conseguir triplicar a fortuna da
família.
Na quinta-feira, vinte e quatro, todos se desfaziam das acções, e os
conhecidos de Clayton pareciam em pânico. Nessa tarde deslocou-se à
bolsa e voltou aterrorizado e no dia seguinte as coisas pioraram. Na
segunda-feira, verificou-se o desastre total e à noite Clayton soube que

estava arruinado. A bolsa fechou à uma hora num vão esforço de deter
a frenética venda das acções, mas para Clayton era tarde de mais. A bolsa
ficaria fechada durante o resto da semana, mas ele já perdera tudo o que
possuíam. Apenas lhes restava as casas e o conteúdo. Tudo o mais
desaparecera. Clayton regressou a casa a pé, sentindo um enorme peso no
peito. Mal conseguiu encarar Zoya, ao entrar no quarto.
- Querido?... O que aconteceu?... - Ele tinha o rosto cor de cinza
quando se virou para a olhar. Zoya estivera a escovar o cabelo que
deixara crescer novamente, pois odiava os caracóis tão em moda, mas ele
pareceu nem a ver ao atravessar o quarto, detendo-se junto à lareira com
um olhar vazio. - O que aconteceu? - Deixou cair a escova e correu para
junto dele. - Clayton... Clayton, o que se passa?
O marido fitou-a de uma forma que lhe recordou subitamente o pai,
quando Nicolai fora morto.
- Perdemos tudo, Zoya... tudo... Fui um idiota... - Tentava explicar-lhe
o que sucedera enquanto ela o fitava de olhos muito abertos, depois do
que o abraçou e apertou de encontro ao corpo, deixando-o chorar. - Meu
Deus... Como pude ser tão estúpido... O que faremos, agora?
O coraçäo dela quase parou. Era como na revolução. Contudo, havia
sobrevivido e, desta vez, tinham-se um ao outro.
- Venderemos tudo... trabalharemos... sobreviveremos, Clayton. Não
interessa. - Contudo, ele soltou-se dos braços dela, pondo-se a percorrer
o quarto de um lado para o outro, frenético ante a consciencialização de
que estavam arruinados e o mundo desabara à sua volta.
- Estás doida? Tenho cinquenta e sete anos... O que achas que posso
fazer? Conduzir um táxi como o príncipe Vladimir? E tu? Regressares ao ballet? Não sejas idiota, Zoya... Estamos arruinados! Arruinados! As
crianças morrerão à fome... - Chorava quando ela lhe pegou nas mãos,
que estavam geladas.
- Não morrerão à fome. Posso trabalhar e tu também. Se vendermos
o que temos, podemos viver durante anos desse dinheiro. - Só os colares
de diamantes chegariam para lhes dar casa e comida muito tempo; ele,
porém, abanou a cabeça com uma expressão triste, pois encarava a
situação de uma outra forma. Já vira um seu conhecido saltar da janela
do gabinete. E Zoya desconhecia as enormes dívidas que ele contraíra,
sabendo que possuía dinheiro para as cobrir quando quisesse.
- E a quem venderás? A todos os outros que também perderam a
camisa? É tudo inútil, Zoya...
- Não, não é - replicou num tom suave. - Temo-nos um ao outro e as
crianças. Quando saí da Rússia, partimos numa tróica sem nada, cobertas
de trapos, com dois dos cavalos do tio Nicolau e as jóias que conseguimos
coser nas bainhas das roupas e sobrevivemos. - Ambos pensaram em

simultâneo na miséria do apartamento dela de Paris, mas haviam
sobrevivido e agora ela tinha-o e aos filhos. - Pensa no que os outros
perderam... Pensa no tio Nicolau. e na tia Alix... Não chores, Clayton...
Se eles conseguiram ter coragem, não há nada que seja impossível
encarar, meu amor... - Mas ele Iimitava-se a chorar nos braços dela,
incapaz de fazer frente à situação.
Nessa noite, quando desceram para jantar, ele mal pronunciou
qualquer palavra. Zoya tentava pensar, fazer planos, decidir o que vender
e a quem vender. Possuíam duas casas, todas as antiguidades que Elsie de
Wolfe, agora Lady Mendl, os ajudara a descobrir, quadros, objectos... uma
infinidade.
Assemelhava-se a planear uma fuga, enquanto fazia sugestões e
tentava acalmá-lo. Todavia, ele subiu ao andar de cima com passo pesado
e, ao falar-lhe do quarto de vestir, preparando-se para se deitar, não
conseguiu arrancar-lhe uma única resposta. Sentia-se preocupadíssima
com ele. Fora um rude golpe, mas, depois de sobreviver a tudo o mais
que lhe acontecera na vida, recusava deixar-se abater agora.
Ajudá-lo-ia a lutar, ajudá-lo-ia a sobreviver, esfregaria soalhos, se fosse
necessário. Não se importava e, ao pôr-se à escuta, interrogou-se sobre se
ele saíra do quarto ao lado. Há vários minutos que não dizia nada.
- Clayton? - Entrou no quarto vestida com uma camisa de noite que
ele lhe comprara há um ano, em Paris. Soltou uma exclamação abafada
ao avistá-lo, prostrado no chão, como se tivesse caído, correu para o seu
lado e virou-o de costas. Contudo, ele fitou-a com olhos vazios. - Clayton!
Clayton!... - Pôs-se a soluçar, gritando o nome dele, batendo-lhe na face,
tentando arrastá-lo pelo chão, como se tudo o que fizesse servisse para o
reanimar. No entanto, ele não se mexia, não via e já não podia ouvi-la.
Clayton Andrews morrera de um ataque de coração, incapaz de
sobreviver à perspectiva de perder mais do que podia aguentar e, quando
caiu de joelhos ao lado dele e chorou, apoiando-lhe a cabeça no regaço,
Zoya fitou-o, incrédula. O homem que amara estava morto. Abandonara-
a. Desesperada e só, novamente pobre, o sonho em que se tornara a sua
vida voltou a transformar-se em pesadelo.

CAPITULO 31

- Mamã, porque é que o papá morreu? - Sasha fitava Zoya com os
grandes olhos azuis, ao voltarem do cemitério, no Hispano-Suiza.
Toda a gente em Nova lorque comparecera, mas ela mal os vira.
Sentia-se como que envolta numa névoa, ao olhar para a criança, com o

pesado véu preto ocultando-lhe o rosto, as mãos enfiadas em luvas negras
e os filhos numa angústia muda, sentados ao seu lado.
Nicholas mantivera-se junto dela no funeral, um homenzinho
agarrando-lhe na mão, de olhos cheios de lágrimas enquanto o coro
cantava a docemente triste Ave-Maria. Contudo, outros como ele haviam
morrido na semana anterior, alguns por vontade própria, outros abatidos
pelo golpe que não haviam conseguido suportar. Fosse como fosse, tinha-o
perdido.
- Não sei, querida... Não sei porquê... Teve um terrível, e... foi para
o céu ter com Deus. - Mal conseguia articular as palavras e Nicholas
observava-a.
- Está no céu com o tio Nicolau e a tia Alix? - perguntou Nicholas e
ela fitou-o.
Conservara-os vivos para ele, mas para quê? O que interessava agora?
Todos os que amava tinham desaparecido... à excepção dos filhos.
Abraçou-os com força ao sair do carro e conduziu-os precipitadamente
para casa. Não convidara ninguém, não queria ver ninguém, não queria
dar explicações, nem dizer-lhes nada. Já bastava ter de contar às crianças.
Decidira aguardar uns dias; já dissera à maioria da criadagem que
podia ir embora. Ficava apenas com uma criada e a ama e poderia ser ela
própria a cozinhar. E o motorista também partiria quando ela vendesse
os carros. Ele prometera fazer tudo o que pudesse para a ajudar.
Conhecia várias pessoas que tinham gostado do Alfa Romeo de Clayton
e do Mercedes de que se servia e o Híspano-Suiza fora desejado por todos.
Apenas se interrogava sobre se ainda haveria alguém que os comprasse.
A velha cadelinha Sava aproximou-se e lainbeu-lhe a mão, como se
percebesse, enquanto Zoya se mantinha sentada junto à lareira no quarto,
fixando o sítio onde ele morrera há uns dias. Parecia inacreditável que
tivesse desaparecido... que Clayton não estivesse ali... e agora tinha tanto
que fazer. No dia seguinte ao da morte dele, convocara os advogados e
eles tinham prometido explicar-lhe tudo.
Quando o fizeram, as notícias nada tinham de bom. A situação era
ainda pior do que Clayton receara. Deixara dívidas enormes e não restava
nenhum dinheiro. Os advogados aconselharam-na a vender a casa de Long
Island por qualquer preço e com todo o recheio. Seguiu o conselho e
foram eles a colocá-la no mercado para venda. Nem sequer lá foi buscar
as suas coisas. Sabia que seria incapaz. Todos estavam a fazer o mesmo,
os que não se suicidavam ou fugiam das casas pela calada a meio da
noite, a fim de evitar as contas e o pagamento das hipotecas.
E só no sábado conseguiu decidir-se a enfrentar os filhos. Tomara as
refeições com eles, mas movia-se como uma máquina, de sala em sala,
apenas lhes falando quando tinha de o fazer. Contudo, mal conseguia

pensar. Havia tanto que fazer, tanto que embalar, tanto que vender e
nenhum lugar para onde irem, depois de o fazer.
Sabia que tinha de arranjar emprego, mas ainda nem sequer conseguia
pensar no assunto. Não conseguia pensar em nada e fitava-os com um
olhar angustiado. Sabia que Sasha era demasiado nova para entender, mas
tinha de dizer a Nicholas e só com muita dificuldade foi capaz de
aguentar a dor nos olhos do filho quando o tentou.
De facto, apenas conseguiu abraçá-lo com muita força e ambos
choraram o marido e o pai que haviam amado. Sabia, porém, que tinha
de ser forte, tão forte quanto a avó o fora por ela e em circunstâncias
ainda piores. Chegou a ponderar em regressar a Paris com os filhos, pois
a vida talvez fosse mais barata, mas também lá as pessoas tinham
problemas, e Sergei Obolenski confidenciara-lhe que havia agora quatro
mil russos ao volante de táxis em Paris. E tudo seria demasiado estranho
para eles. Zoya decidiu que deviam permanecer em Nova lorque.
- Nicholas... meu amor... vamos ter de nos mudar - As palavras
pareciam duras e estranhas e ele fitou-a com um olhar confuso.
- Porque o papá morreu?
- Sim... Não... Bom, na verdade, porque... - "Porque agora somos
pobres... porque não podemos dar-nos ao luxo de continuar a viver aqui...
porque..." - ... Porque vamos passar uns tempos dificeis. Não podemos
ficar aqui. - Nicholas olhou-a com curiosidade, tentando mostrar-se
corajoso, e Sasha brincava com a cadela, ao mesmo tempo que a ama saía
da sala, debulhada em lágrimas. Sabia que teria de os deixar e sentia o
coração despedaçado por se separar das crianças de quem cuidara desde
que tinham nascido. Contudo, Zoya dissera-lho no dia anterior. Já não
havia forma ocultar a verdade.
- Vamos ser pobres, mamã?
- Sim - respondeu, pois sempre fora honesta com o filho. - Da forma
a que penso que te referes. Não vamos ter uma casa grande, nem uma
porção de carros. Mas vamos ter ac coisas importantes... excepto o papá...
- Sentiu um nó na garganta. - ... Temo-nos, porém, uns aos outros,
querido. E será sempre assim. Lembras-te do que te contei sobre o tio
Nicolau, a tia Alix e as crianças quando as levaram para a Sibéria? Foram
muito corajosos e encararam tudo quase como um jogo. Sempre souberam
que o importante era estarem juntos, amarem-se uns aos outros e serem
fortes... e é o que nos cabe fazer agora.
As lágrimas corriam-lhe pelas faces enquanto falava, mas Nicholas
fitava-a com uma expressão solene e tentando desesperadamente
entender.
- Vamos para a Sibénia? - Foi a primeira vez que pareceu intrigado,
e ela sorriu.

- Não, querido, não vamos. Vamos ficar aqui em Nova lorque.
- Onde viveremos? - Como todas as crianças, estava interessado nas
realidades mais simples.
- Num apartamento. Terei de encontrar um sítio par vivermos.
- Será bonito?
Pensou imediatamente nas cartas que Mashka lhe escrevera de
Tobolsk e Iekaterinburgo.
- Torná-lo-emos bonito, garanto.
- Podemos levar a cadela? - acrescentou, fitando-a de novo com um
olhar triste.
Os olhos de Zoya encheram-se de lágrimas ao observar Sava a brincar
com Sasha no chão e voltou a fixá-lo.
- Claro que sim - respondeu. - Ela acompanhou-me desde
Sampetersburgo. - Quase sufocou, mas fixou-o com um olhar tranquilo e
acrescentou: - Não vamos deixá-la, agora.
- Posso levar os meus brinquedos?
- Alguns... os que conseguirmos meter no apartamento, prometo.
Sorriu, um pouco tranquilizado.
- Ainda bem. - E depois voltou a fazer uma expressão triste, pensando
no pai e no facto de nunca mais o ver. - Vamos dentro em pouco?
- Acho que sim, Nicholas. - O miúdo esboçou um aceno de cabeça e,
com um último abraço, levou Sasha e a cadela e abandonaram o quarto.
Zoya deixou-se ficar sentada no chão, rezando para ser tão forte como
Eugema o tinha sido com ela e, nesse momento, Nicholas entrou nos
bicos dos pés e fitou-a.
- Amo-te, mamã - pronunciou.
Ela envolveu-o nos braços e tentou suster as lágrimas.
- Também te amo, Nicholas... Amo-te muito, muito...
Nicholas aproximou-se ainda mais e meteu-lhe algo na mão, sem uma
palavra.
- O que é isto?
Era uma moeda de ouro, e ela sabia quanto o filho se orgulhava dela.
Clayton dera-lhe apenas há uns meses e ele mostrara-a a toda a gente,
durante semanas.
- Podes vendê-la, se quiseres. Então, talvez não sejamos tão pobres.
- Não... não, meu amor... é tua. O papá deu-ta.
Nicholas manteve-se muito direito, tentando reprimir as lágrimas.
- O papá teria querido que eu tomasse conta de vocês.
Zoya limitou-se a abanar a cabeça, incapaz de falar, apertando a
moeda na mão. Abraçou-o com muita força e levou-o até ao quarto dele.

CAPITULO 32

Os Wright também haviam perdido o seu dinheiro. Cobina e a filha
tinham organizado um número musical de clube nocturno, vestindo roupa
de vaqueiro e engraçados chapéus. Ela e Bill estavam a divorciar-se e a
casa de Sutton Place fora vendida por uma ninharia.
Outras mulheres vendiam os casacos de peles em átrios de hotel e
trocavam-se póneis de pólo por dinheiro a pronto. Zoya divisava por todo
o lado o mesmo tipo de pânico que se verificara há doze anos em
Sampetersburgo, mas sem a ameaça fisica da revolução.
A própria casa deles em Long Island foi vendida por pouco mais do
que o preço dos carros ali guardados, e os advogados de Clayton
aconselharam-na a agarrar a oportunidade. "Cholly Knickerbocker" fazia
o relato de novas humilhações quase diariamente. A coluna era, na
verdade, escrita por um indivíduo chamado Maury Paul e o que ele
descrevia era quase inacreditável, referindo senhoras da sociedade que se
tornavam empregadas de mesa e lojistas.
Algumas não haviam sido afectadas pelo desastre financeiro, mas, ao
passear os olhos por Sutton Place, Zoya tinha a sensação de que estava
quase deserto. A sua criadagem fora embora, à excepção da ama que
cuidava das crianças.
Sasha parecia não entender o desaparecimento de Clayton, mas
Nicholas tornara-se uma criança pensativa e sossegada e fazia constantes
perguntas a Zoya sobre onde iam morar e quando venderiam a casa. Ela
teria enlouquecido se não sentisse tanta pena do miúdo. Recordava-se dos
seus próprios medos durante a revolução. Os olhos de Nicholas
assemelhavam-se a dois profundos lagos verdes de dor e preocupação.
Parecia um homem pequeno enquanto a observava a escolher roupa mais
prática no quarto.
Seria inútil levar os requintados vestidos de noite, todos os Poiret,
Chanel, Lanvin e Schiaparelli. Embrulhou-os e entregou-os à ama para que
os vendesse no átrio de entrada do Plaza. Tamanha indignidade seria
demasiado humilhante, se ela não estivesse excessivamente preocupada.
Necessitavam de todo o dinheiro que conseguissem arranjar.
E, por fim, vendeu a casa com o mobiliário que Elsie de Wolfe lhes
comprara, os quadros, os tapetes persas, até mesmo a louça de porcelana
e os cristais. Mal chegou para as dívidas de Clayton e apenas lhes rendeu
o suficiente para viverem uns meses.
- Não ficaremos com nada, mamã? - perguntou Nicholas olhando em
volta com uma expressão triste.
- Só com o que precisaremos no novo apartamento. - Andou à

procura de casa durante dias a fio em bairros que nunca vira e, por fim,
descobriu uma de duas pequenas divisões na Rua 17 da zona ocidental da
cidade.
Tratava-se de um pequeno apartamento com duas.janelas que davam
para as traseiras de um outro prédio. Era mínimo, escuro e havia um
quase insuperável cheiro a lixo. Durante três dias ela própria fez a
mudança com a ajuda da ama e de um velho negro que contratou por um
dólar.
Levaram duas camas, uma secretária, o maple do toucador, um
pequeno tapete e alguns candeeiros. E pendurou o quadro de Nattier que
Elsie de Wolfe lhes trouxera recentemente de Paris. Receava levar as
crianças para aquele local, mas no fim de Novembro a casa em Sutton
Place vendeu-se e, dois dias mais tarde, despediram-se com lágrimas e um
beijo da ama e, de pé, no átrio de entrada de mármore, Zoya deteve-se
enquanto ela beijava Sasha e todos choravam.
- Voltaremos aqui, mamã? - perguntou Nicholas fitando-a e tentando
mostrar-se corajoso, mas o queixo tremia-lhe e tinha os olhos muito
abertos ao examinar o que o rodeava pela última vez. Zoya de bom grado
lhe teria poupado esta dor, mas pegou-lhe na mãozinha e ajeitou o casaco
à volta dos ombros antes de lhe responder.
- Não, querido, não voltaremos. - Empacotara quase todos os
brinquedos dos miúdos e um caixote de livros para ela, embora fosse
incapaz de se concentrar em alguma coisa agora. Alguém lhe oferecera
O Adeus às Armas de Hemingway, mas o livro permanecera por abrir na
sua rnesa-de-cabeceira. Mal conseguia pensar quanto mais ler e ia estar
ocupada à procura de emprego.
O dinheiro que recebera pela venda da casa apenas serviria para os
sustentar uns meses, se tivessem sorte. As coisas havian perdido o valor
e toda a gente estava a vender casas, peles, antiguidades e tesouros. Tudo
valia apenas o que as pessoas podiam pagar, e o mercado estava a
transbordar de objectos luxuosos que agora nada valiam.
Parecia inacreditável que alguns não tivessem sido afectados pela
crise, pois Cholly Knickerbocker continuava a referir-se a casamentos,
festas e bailes. Havia ainda gente que dançava no Embassy Club todas as
noites ou no Casino de Central Park, ao som da música de Eddy Duchin.
Contudo, Zoya sentia-se como se nunca mais viesse a dançar e as
crianças desceram os degraus da frente pela última vez, de malas na mão,
e Sasha com a melhor boneca enfiada debaixo do braço. E como se tudo
tivesse acontecido somente no dia anterior, apenas conseguia pensar no
incêndio do Palácio Fontanka... na camisa de noite da mãe em chamas
quando ela saltou da janela... e em Eugenia empurrando-a pela porta das
traseiras do pavilhão até Feodor e à tróica que as esperava.

- Mamã?... - Sasha falava com ela desde que tinham entrado no táxi
e Nicholas acenava à ama que se mantinha a chorar no passeio. Ia ficar
em casa de amigos e já tivera uma oferta de emprego dos Van Alen, em
Newport. - Mamã... responde-me... - Sasha puxava-lhe com insistência pela
manga ao mesmo tempo que Zoya indicava a nova morada, de olhos
baços e o rosto sombrio.
Sentia-se como se estivesse novamente a deixar Clayton... a casa que
tinham partilhado... a vida que sempre fora tão fácil. Dez anos passados
num abrir e fechar de olhos, olhos cheios de lágrimas agora, tamanhas
eram as saudades que dele tinha. Recostou-se no assento e fechou os
olhos com tristeza, esforçando-se por se concentrar nos filhos.
- Desculpa, Sasha... O que disseste? - A voz era um sussurro quando
abandonaram Sutton Place pela última vez. Desaparecera a beleza e a
vida fácil a que haviam posto um abrupto ponto final naquele dia fatídico
de Outubro.
- Perguntei quem é que ia tomar conta de nós? - Era maior a
curiosidade de quem se encarregaria dela do que a tristeza de ter perdido
a ama. Era tudo muito estranho e confuso, até mesmo para Nicholas, que
tinha mais quatro anos.
- Eu, minha querida.
Sasha mostrou-se surpreendida e Nicholas fitou a mãe com aquele
sorriso terno que sempre lhe recordava Clayton. Era quase doloroso olhá-
lo agora. Tudo lhe lembrava o que haviam perdido, como acontecera nos
dias em que tinhan abandonado a Rússia.
- Eu ajudo-te, mamã - declarou Nicholas num tom orgulhoso e
esforçando-se por não chorar. - Tomarei conta de ti e da Sasha. - Sabia
que era esse o desejo do pai e não o deixaria ficar mal. Transformara-se
subitamente no homem da família. Num único mês, todo o seu mundo
seguro e feliz ficara virado de pernas para o ar, mas estava decidido a
manter-se à altura da situação, tal como Zoya. Ela recusava um novo
sabor a derrota. Lutaria por eles... trabalharia... e um dia... uni dia...
estariam novamente seguros e a salvo.
- Cozinharás para nós, mamã? - perguntou Sasha, tirando a boneca à
mãe e alisando-lhe o cabelo. A boneca chamava-se Annabelle e tinha o ar
de ser bem tratada.
As suas outras bonecas estavam à espera no novo apartamento. Zoya
fizera todo o possível para que o lugar parecesse confortável e familiar,
mas nada havia de familiar nos feios arredores, quando o táxi parou na
Rua 17 da zona ocidental. A jovem mulher estremeceu ao olhar em volta,
chocada por todo aquele aspecto sombrio, e o rosto de Nicholas denotava
o mesmo ao seguir a mãe pelas escadas e tentando afastar o enjoo
causado pelos cheiros horríveis.

- Aqui cheira mesmo mal! - exclamou Sasha que subia atrás de Zoya.
O motorista levou-lhes as malas e Zoya pagou-lhe dos escassos fundos.
Jurou que nunca mais andaria de táxi. Pooiam apanhar um autocarro ou
andar a pé. Não haveria mais táxis, nem mais carros. Vendera o Híspano-
Suíza aos Astor.
Zoya conduziu-os até ao único quarto do apartamento, onde havia
duas camas, dominando tudo o mais. Os brinquedos encontravam-se
arrumados ao lado e os quadros do berçário de Sasha tinham sido
cuidadosamente pendurados sobre a sua cama.
Ao lado da de Nicholas, colocara um retrato de Clayton, muito
elegante com o seu uniforme durante a guerra. Trouxerj uma mala cheia
de fotografias dela, de Clayton e dos filhos, e outras, já a amarelecer e
emolduradas, de Nicolau e Alexandra e das crianças em Livadia e
Tsarskoie Selo. Trouxera igualmente o precioso ovo imperial,
cuidadosamente enrolado num par de peúgas de Clayton. Guardara
também numa caixa os seus botões de punho e alfinetes de gravata, mas
as jóias dela seriam vendidas em leilão.
Para os que ainda tinham dinheiro, deparavam-se oportunidades
fantásticas por todo o lado, colares de diamantes, tiaras e belos colares de
esmeraldas, "apanhados" a troco de ninharias em leilões ou vendas
privadas. O desespero de uma família transformava-se subitamente na boa
sorte de outra.
- Onde vais dormir, mamã? - Nicholas parecia novamente preocupado
quando percorreu o apartamento e verificou que havia um único quarto.
Nunca vira alojamentos tão pequenos e até mesmo os criados de Sutton
Place tinham tido melhores quartos do que aqueles. O sítio era feio e
apertado.
- Vou dormir aqui no sofá, querido. É muito confortável. - Sorriu-lhe
e inclinou-se para o beijar na face ao ver que os olhos do filho se enchiam
de lágrimas.
Era injusto ter de fazer aquilo aos filhos e lutou contra uma sensação
de fúria que começara recentemente a sentir por Clayton. Outros tinham
sido mais perspicazes do que ele, menos audazes, e menos idiotas ao
arriscar tudo o que tinha.
Se não tivesse morrido, poderiam ter sobrevivido de outra forma... os
dois... Podiam, pelo menos, ter enfrentado o destino lado a lado, mas
agora estava mais sozinha do que nunca. Todo o peso assentava nos seus
ombros, como achava que devia ter sido o caso de Eugenia. Aquela
coragem e força da avó serviam-lhe de exemplo ao olhar para o filho que lhe oferecia a cama no quarto que iria partilhar com a irmã.
- Podes dormir na minha cama, mamã. Dormirei aí.
- Não, querido... Ficarei bem. - E depois com um sorriso corajoso: - Todos ficaremos. Agora, tens de tomar conta da Sasha, enquanto faço o jantar.
Pendurou os casacos de todos, contente por ter trazido roupas quentes
para eles. O apartamento era frio e não havia sequer uma lareira, como
no apartamento de Paris.
- Porque não levas a Sava à rua? - A velha cadelinha mantinha-se
sentada junto à porta, como se esperasse voltar novamente a casa, como
todos.
Nicholas pôs-lhe a trela e disse a Sasha que se portasse bem enquanto
ia lá abaixo e a mãe lhes cozinhava o frango que trouxera da casa em
Sutton Place. No entanto, ela sabia muito bem que as provisões que
trouxera não durariam muito, nem tão-pouco o dinheiro.
O Natal foi um dia como qualquer outro, à excepção da boneca que
comprou a Sasha e do relógio de pulso que conservara das coisas de
Clayton para oferecer a Nicholas.
Abraçaram-se num esforço imenso para não chorar e pensando na
imensidade de todas as perdas.
O apartamento estava gelado, os armários vazios e as jóias de Zoya
tinham sido leiloadas. Estava decidida a conservar o ovo imperial, mas
além disso quase nada restava e sabia que tinha de encontrar um emprego
depressa; contudo, não sabia aonde, e isso atormentava-a dia e noite.
Pensou em trabalhar numa loja, mas não queria deixar as crianças
sozinhas o dia inteiro. Sasha não andava na escola e não podia abandoná-
la enquanto Nicholas frequentava a escola pública juntamente com as
crianças do bairro, a maioria vestida de farrapos e vivendo em barracas
espalhadas pelo rio Hudson.
Os bairros de lata surgiam por todo o lado, pululando de pessoas que
haviam sido accionistas, homens de negócios e advogados. Cozinhavam as
refeições em caldeirões ao ar livre e rebuscavam os arredores à noite à
procura de comida e de objectos que pudessem usar. Zoya sentia o
coração despedaçado ao ver aquelas crianças de grandes olhos esfonicados
e rostos magros, as faces vermelhas do frio, acolhendo-sc junto às
fogueiras para se aquecerem fora das barracas.
Comparado com toda aquela miséria, o apartamento parecia um
paraíso e lembrava os filhos, quase diariamente, de como deviam sentir-se
agradecidos. No entanto, até para ela era difícil ao ver o dinheiro a
desaparecer e pôs-se desesperadamente à procura de emprego. Tinha de
ser algo que pudelse fazer à noite, quando as crianças estivessem a dormir
ou, pelo menos, seguras em casa.
Sabia que podia confiar em Nicholas para tomar conta de Sasha
depois de ter regressado da escola. Era responsável e bom para a
irmãzinha, brincando com ela, ajudando-a a reparar os brinquedos e

falando sem cessar sobre o pai. O tema era-lhe por de mais doloroso ao
observá-los e ia até à sala onde chorava em silêncio, acariciando a velha
Sava. A cadelinha estava agora quase cega e Nicholas tinha de a
transportar ao colo pelas escadas, quando ia passeá-la à rua sob o frio
agreste.
Era Janeiro quando Zoya se dirigiu da Rua 17 da zona ocidental até
à Sexta Avenida, junto à Rua 49, movida por um plano louco. Sabia que
era louco, mas não lhe ocorria mais nada. Apresentara-se em vários
restaurantes, só que os proprietários tinham entrevistado outras tantas
mulheres como ela. "Qual a sua experiência como empregada de mesa?",
perguntavam. Ela deixaria cair as bandejas, partiria a louça e seria
requintada de mais para trabalhar longas horas a troco de um parco
salário. Insistia em que seria capaz, mas mandavam-na embora e não
havia mais nada que soubesse fazer, excepto dançar, mas não no ballet,
como em Paris.
Em desespero, chegara a pensar na prostituição, a que outras também
haviam recorrido, mas sabia que era incapaz. A memória de Clayton era
demasiado forte e pura, ele era o único homem que amara e não
conseguia suportar a ideia de outro homem a tocá-la, nem mesmo para
dar de comer aos filhos.
Dançar era a única coisa que sabia, mas também estava consciente de
que aos trinta anos não podia regressar ao ballet, depois de ter passado
mais de onze anos sem praticar. Continuava a ser flexível e elegante, mas
estava demasiado velha e entia-se com mil anos quando entrou no teatro
de que ouvira falar. Já estivera no Ziegféld e tinham-lhe dito que lhe
faltava altura. Assim, restava-lhe tentar o chamado teatro burlesco.
Situava-se a cinco quarteirões do Ziegfeld Theater. Quando entrou pela
porta do palco, o teatro estava naturalmente a abarrotar de mulheres
seminuas que tentou ignorar, enquanto procurava alguém com quem
pudesse falar.
- Ah, sim? É bailarina? - retorquiu num tom de mofa a mulher que
tratava desses assuntos.
- Fui.
- Com quem?
Engoliu em seco, sabendo que parecia demasiado afectada com o seu
simples vestido preto Chanel. Devia ter posto qualquer coisa mais alegre
e ousada, mas há muito que vendera todos os vestidos de noite e apena
tinha a roupa sóbria e quente que recolhera nos seus armários de Sutton
Place, o que sabia ser-lhe útil no gelado apartamento.
- Dancei com os Ballets Russes em Paris. E pratiquei Rússia antes
disso.
- Uma bailarina, hein? - A ideia parecia diverti-la imenso, e Zoya

conservava-se muito quieta, com o cabelo ruivo apanhado e o rosto sem
pintura. - Escute bem, senhora. Não está numa casa de repouso para
velhas bailarinas. Isto é o Fitzhugh's Dance Hall! - Pronunciou o nome
com orgulho, e Zoya sentiu-se invadir por uma repentina onda de fúria.
- Tenho vinte e cinco anos - mentiu. - E era niuto boa.
- Sim? Em quê? Aposto que nunca fez nada do género antes. - Era
verdade, mas também o era que estava disposta a fazer o que quer que
fosse pelos filhos. Lembrou-se subitamente da sua audição para os Ballets
Russes, há treze anos em Paris.
- Deixe-me tentar... só uma vez... Posso aprender... Por favor... - Os
olhos encheram-se-lhe involuntariamente de lágrimas na altura em que
um indivíduo baixo e de charuto passou por perto, a fitou de relance e
gritou para dois homens que transportavam peças do cenário:
- Seus idiotas! Vão partir isso! - E, em seguida, com uma expressão
aborrecida, agitou o charuto na direcção da mulher que falava com Zoya.
- As malditas raparigas apanharam sarampo... Achas normal? Arranjei um
grupo de velhas peritas em sapateado e adoecem como se fossem
raparigas... três delas a semana passada... mais sete agora... Merda, o que
vou dizer às pessoas que pagaram uma data de massa para ver o
espectáculo? Que vão ver um bando de gajas a acenar-lhes os traseiros
cheios de manchas? Era o que faria, se tivessem aparecido para trabalhar.
- Acenou o charuto na direcção de Zoya e para lá dela, como se a sua
presença não contasse, o que era verdade.
Sem esperar que ele lhe falasse directamente, tomou a palavra.
- Gostaria de fazer uma audição para um emprego como bailarina.
Agora tinha apenas um leve sotaque mas ainda óbvio, só que nenhum
deles a identificou como russa. A mulher julgara que ela era francesa, com
aquele luxuoso vestido preto e o porte elegante.
- Sabe sapatear? - perguntou, virando-se para a avaliar, mas sem
parecer impressionado.
- Sim. - Decidiu poupar-lhe explicações.
- Uma bailarina - replicou a outra mulher com evidente desprezo.
- Já teve sarampo? - perguntou-lhe. Era muito mais importante para
ele, com dez coristas doentes e sabe-se lá quantas expostas a apanhá-lo
nas próximas semanas.
- Já tive - munnurou, rezando para que ainda soubesse dançar. Talvez
tivesse esquecido tudo. Talvez...
Encolheu os ombros e voltou a meter o charuto apagado entre os
lábios.
- Deixa que ela mostre o que vale, Maggie. Se conseguir aguentar-se
e fizer alguma coisa, pode ficar até as outras voltarem. - Depois, virou
costas e a mulher de nome Maggie pareceu aborrecida. A última coisa

que precisavam era de uma gaja elegante e pálida que se achava boa de
mais para um número de revista. Mas ele tinha razão, pois, com as outras
doentes, estavam com problemas.
- Okay - acedeu, relutante, e depois gritou lá para trás: - Jimmy!
Levanta o cu e vem tocar! - Um homem negro com um sorriso enorme
apareceu e olhou para Zoya.
- Ei, querida. O que queres que toque? - perguntou, sentando-se ao
piano. E ela quase riu, presa de um terror nervoso. O que lhe
responderia? Chopin? Debussy? Stravinsky?
- O que é que costuma tocar para as audições? - replicou, e ele sorriu.
Era fácil concluir que se tratava de uma aristocrata branca a passar um
mau bocado e teve pena dela, com aqueles grandes olhos verdes e um
sorriso implorativo. Parecia uma criança e intenogou-se sobre se ela
alguma vez dançara. Ouvira falar de outras que tinham ido trabalhar em
cabarés, executando números inventados por elas, como Cobina Wright
e Cobina Junior.
- De onde é? - Maggie estava a falar com outra pessoa, enquanto eles
conversavam. E Jimmy concluiu que gostava dela.
Zoya sorriu-lhe, orando intimamente para não fazer má figura, mas
valia a pena correr o risco.
- Da Rússia, há muito tempo. Vim para cá depois da: guerra.
Jimmy baixou a voz e olhou-a nervosamente por cima do. ombro.
- Já dançou alguma vez? Diga-me a verdade enquanto a Maggie não
está a ouvir. Não posso ajudá-la se não souber a verdade.
- Estive no ballet quando era jovem. Há onze anos que não danço -
sussurrou, agradecida.
- Deus do céu... - Abanou a cabeça, desgostoso. - O Fitzhugh's Dance
Hall não tem ballet... - Era, sem dúvida, a declaração do ano, pois nesse
preciso momento duas coristas seminuas passaram por eles. - Ouça -
prosseguiu em tom de confidência. - Vou tocar uma coisa lenta. Limite-se
a rolar os olhos e a sorrir, dê um pouco ao traseiro, mostre as pernas e
tudo correrá bem. Tem alguma roupa consigo? - Mas bastou olhá-la para
saber a resposta.
- Lamento, eu...
- Não interessa. - E, nesse momento, Maggie voltou a prestar-lhes
atenção.
-Vais ficar para aí sentado nesse cu negro todo o dia, Jimmy, ou
fazemos uma audição? Pessoalmente, que se dane, mas o Charlie quer
que eu a veja. - Deitou um olhar maldoso a Zoya e ela rezou para não se
sair mal. Contudo, seguiu as instruções dele, e Charlie, o director, voltou
a passar, murmurando entre dentes ao observá-la. Queria que se
apressasse, pois ainda tinha de fazer uma audição a dois novos cómicos

e a uma stripper.
- Merda. Exactamente o que não preciso aqui... uma senhora -
pronunciou, como se fosse um insulto. - ... Aban, o cu... Isso.. assim...
Vejamos as pernas... Mais.
Ela corou e levantou a saia, continuando a dançar ao som do ritmo
que Jimmy lhe marcava. Tinha umas belas pernas e a graciosidade de
treze anos a dançar nunca a abandonara.
- O que és, céus? - gritou-lhe o homenzinho, e ela corou mais. - Uma
virgem? As pessoas não vêm aqui rezar, mas ver boazonas a dançar.
Achas que podes fazê-lo sem parecer que acabaste de ser violada?
- Tentarei, sir... Darei o meu melhor...
- Óptimo. Então, volta aqui esta noite, às oito. - Maggie afastou-se
com evidente desdém, e Jimmy levantou-se de um salto e veio abraçá-la.
- Ei! Conseguimos!
- Não tenho palavras para agradecer - retorquiu, apertando-lhe a mão
e com um olhar grato. - Tenho dois filhos, Eu... nós... - Lutava novamente
para suster as lágrimas enquanto o velho negro a observava. - Preciso
muito do emprego... - As lágrimas correram-lhe pelas faces e limpou-as
com um misto de alívio e embaraço, incapaz de falar por momentos.
- Não se preocupe. Vai sair-se bem. Até esta noite. - Sorriu e
regressou ao jogo de cartas em que estava a perder quando Maggie o
chamara.
Zoya percorreu a pé todo o caininho de regresso ao apartamento pensando no que acabara de fazer. Contrariamente à sua audição com os
Ballets Russes há uns anos, não a invadia um sentimento de vitória e
realização. Somente alívio por ter um emprego e um sentimento de
embaraço e degradação; no entanto, tratava-se da única coisa que podia
fazer e era à noite, não tendo de deixar Sasha com pessoas conhecidas.
De momento, parecia-lhe o emprego ideal, só que era terrível.
Nessa noite, explicou a Nicholas que tinha de sair. Não disse porquê
ou onde ia. Não queria ter de lhe explicar que aceitara um emprego como
corista. O eco das palavras de Charlie soava-lhe aos ouvidos: "Abana o
cu... Deixa-me ver essas pernas... O que és tu? Uma virgem?" Sob a
perspectiva deles, era. Com quase trinta e um anos e apesar das
dificuldades da vida, sempre fora protegida de pessoas como ele e da
gente para quem ia dançar.
- Onde vais, mamã?
- Sair um pouco. - Já deitara Sasha. - Não fiques de pé até muito
tarde - avisou e beijou-o, apertando-o um mento, como se fosse a caminho
da sua própria execução. - Vai para a cama daqui a meia hora.
- Quando voltas? - quis saber, fitando-a, desconfiado da porta do
quarto.

- Mais tarde.
- Passa-se alguma coisa, mamã? - Era uma criança intuitiva e estava
a aprender muito cedo as cruéis reviravoltas do destino que podem mudar
o curso da vida num momento.
- Não, nada, meu querido. - Sorriu-lhe. - Garanti -te. - Pelo menos,
teriam algum dinheiro.
Contudo, não estava de forma alguma preparada para as piadas
ordinárias, as raparigas vulgares, a roupa espalhafatosas e os comediantes
que a beliscavam quando ela passava apressadamente junto deles.
Porém, quando a música começou e o pano subiu, deu o seu melhor
à multidão risonha e excitada, e ninguém se queixou quando ela perdeu
o compasso mais do que uma vez. Contrariamente aos Ballets Russes de
outrora, aqui ninguém dava por nada. Apenas queriam ver um grupo de
raparigas bonitas praticamente despidas. Havia contas e lentejoulas, curtos
calções de cetim com sapatos a condizer e inúmeras boas de plumas e
enormes toucados.
Tratava-se de uma pobre imitação do que as raparigas do Ziegfeld
usavam e lamentou mais do que uma vez o destino por ser baixa de mais
para ser contratada pelo bondoso Florenz Ziegfeld. Zoya devolveu a
roupa à rapariga que lha tinha emprestado e regressou lentamente a casa
sem ter tirado a pintura. Ficou ainda mais chocada quando um homens
ao passar por ela lhe ofereceu um níquel pelo "melhor que pudesse fazer
por ele" num vão de escada próximo. Correu darante todo o resto do
caminho até casa, lavada em lágrimas c pensando na vida terrível que a
esperava no Fitzhugh's Dancc Hall.
Nicholas dorinia a sono solto quando ela voltou e beijou-o
ternamente, manchando-lhe a face de bâton, pensando em como ele
parecia um anjo e igual ao pai. Era impossível que Clayton tivesse
desaparecido... a tivesse abandonado a tudo aquilo... Se soubesse... mas
era tarde de mais para lamentos. Pegressou nos bicos dos pés à sala de
estar onde dormia, tirou a pintura e vestiu a camisa de noite. Longe iam
as sedas, cetins e enfeites. Tinha de usar grossos vestidos de flanela para
se proteger do gelo do apartamento.
E, de manhã, preparou o pequeno-almoço a Nicholas antes de ele ir
para a escola: um copo de leite, uma fatia de pão e uma laranja que
comprara no dia anterior. Mas ele não se queixou. Sorriu-lhe, deu-lhe
uma palmadinha na mão e saiu a correr, depois de beijar Sasha.
Nessa noite, ela voltou ao teatro, como nas semanas seguintes, até as
bailarinas regressarem curadas do sarampo. Mas Charlie comunicou-lhe
entre dentes que podia ficar, que tinha umas pernas bonitas e não lhe
causava problemas. Jimmy festejou com uma cerveja roubada do seu bar
favorito, ao lado. Ela agradeceu e bebeu um gole para não o magoar.

Omitiu que fazia trinta e um anos nesse mesmo dia.
Jinmy era o seu único amigo. As outras haviam pressentido
imediatamente que ela era "diferente". Nunca partilhavam piadas e, de
facto, mal lhe dirigiam a palavra, quando falavam dos namorados e dos
homens que as perseguiam nos bastidores. Algumas chegavam a fugir com
homens que lhes ofereciam dinheiro.
Era o que Charlie apreciava nela. Não era muito divertida, mas era
certinha. No primeiro ano, deram-lhe um aumento. Zoya nem conseguia
acreditar que ficara tanto tempo, mas não havia saída, nenhum lugar para
onde ir e ninguém que lhe pagasse. Disse a Nicholas que dançava num
pequeno grupo de bailado e deixou-lhe o número de telefone do teatro
para o caso de uma emergência. No entanto, agradeceu a Deus por ele
nunca lhe ter telefonado. E, pressentindo que ela se envergonhava do que
fazia, Nicholas nunca lhe pediu para assistir a um espectáculo. Uma noite,
Sasha acordara com tosse e febre e o filho esperara a pé que ela chegasse,
mas não quisera telefonar-lhe para o teatro e preocupá-la. Nicholas
revelou-se em todos os aspectos uma ajuda e um enorme conforto.
- Voltaremos a ver os nossos amigos? - perguntou-lhe calmamente
uma tarde, enquanto ela lhe cortava o cabelo e Sasha brincava com Sava.
- Não sei, querido.
Recebera uma carta da ama há uns meses. Sentia-se feliz na casa dos
Van Alen e tinha imensas histórias sobre o début, no início do Verão, de
Barbara Hutton e do de Doris Duke, em Newport. Parecia uma ironia que
ela ainda fizesse parte desse mundo e Zoya não. Todavia, tal como eles
a haviam evitado quando ela aparecera, convencidos de que fora uma
bailarina do Folies-Bergère, era ela quem os evitava agora, sabendo que
se tornara finalmente uma corista.
Sabia também que, tendo perdido tudo como muitas outras do seu
meio, deixara de lhes despertar qualquer interesse. A condessa que havia
sido e tanto os impressionara já não o era. Não era ninguém. As águas
tinham-se fechado sobre ela. Tal como sobre Clayton e muitos outros. O
único de quem sentia ocasionalmente saudades era Sergei Obolenski e a
sua corte de aristocratas russos. Só que eles não compreenderiam no que
se tornara a sua vida, nem porque fazia o que fazia. Ele continuava
casado com Alice Astor.
Nessa altura, Elsa Maxwell escrevia uma colun social e, de vez em
quando, ao ler o jornal, Zoya debruçava-se sobre as histórias de Cholly
Knickerbocker relativas às pessoas que ela conhecera quando estava
casada com Clayton. Tudo lhe parecia agora tão irreal, como se nunca as
tivesse conhecido. Havia relatos de ruínas financeiras, suicídios,
casamentos, divórcios. Sentia-se feliz por não fazer parte da lista.
Leu igualmente a notícia da morte de PavIova em Haia, devido a

pleurisia. Em Maio, levou as crianças à inauguração do Empire State
Building. Corria o ano de 1931 e estava uma bela tarde de Maio.
Nicholas contemplou, respeitoso, a imponente construção. Subiram no
elevador, pararam na plataforma de observação no centésimo segundo
andar, e a própria Zoya sentiu-se como se voasse. Foi a tarde mais feliz
que passavam de há muito tempo a essa parte e regressaram ao
apartamento sob uma atmosfera primaveril, com Sasha na frente deles,
rindo e brincando. Tinha, então, seis anos e era dona de uns belos
caracóis e um rosto muito semelhante ao de Clayton.
Quando passaram, havia pessoas a venderem maçãs na rua e mais do
que uma mulher admirou as duas bonitas crianças. Nicholas ia fazer dez
anos em Agosto, mas muito antes já a cidade se encontrava sob um calor
opressivo. E o 2 de julho foi o dia de maior calor que alguma vez se
registou.
Os dois miúdos ainda estavam acordados quando ela saiu para
trabalhar de vestido branco de algodão estampado com pequenas flores
azuis. Nicholas sabia que ela trabalhava, mas continuava sem saber onde
e também não lhe parecia importante.
Deixou-lhes um jarro com limonada e recordou a Nicholas que devia
vigiar Sasha. As janelas estavam escancaradas para que o ar entrasse no
apartamento, semelhante a uma fornalha.
- Não a deixes sentar-se demasiado perto das janelas - avisou Zoya e
deteve-se a ver Nicholas, puxando a miúda de cabelo louro para o quarto
deles. Sasha vestia somente cuecas e estava descalça, parecendo angelical
ao dizer adeus à mãe. - Ficam bem? - perguntou como sempre que os
deixava, mas com um peso no coração ao percorrer a distância que a
separava do teatro. Mal conseguia andar sob aquele calor tórrido. Mesmo
de noite, a rua parecia queimar sob os pés e os buracos nas solas dos
sapatos ainda tornavam a deslocação mais incómoda. Por vezes
interrogava-se sobre como tudo acabaria, como iriam sobreviver e quanto
tempo conseguiria manter-se no palco com aquelas plumas e roupa
ridícula.
Nessa noite pouca gente assistiu ao espectáculo, pois estava demasiado
calor para se ir a algum lugar. As pessoas que ainda tinham posses
retiraram-se para Newport e Long Island, e as outras mantiveram-se em
casa sem fazer nada ou sentadas nos degraus. Sentia-se exausta quando,
por fim, regressou a casa e não pensou em nada quando ouviu as
sirenes à distância.
Foi só ao aproximar-se da sua rua que o fumo acre lhe entrou pelas
narinas e todo o corpo lhe tremeu ao avistar os carros de bombeiros e o
que lhe pareceu o bairro em chamas quando dobrou a esquina. Soltou
uma exclamação horrorizada, começou a correr, e uma mão gelada

parecia apertar-lhe a garganta ao ver os carros de bombeiros no exterior
do prédio onde moravam.
- Não!... Não!... - Gritava e tentava abrir caminho por entre a
multidão que se mantinha de pé na rua, observando os três prédios a arder. Havia fumo por todo o lado e sentiu-se sufocar quando avançou e
foi detida pelos bombeiros à porta do prédio.
- Não pode entrar aí, minha senhora!... - Gritavam uns para os outros
no meio do incêndio, pontuado pelo som aterrador das derrocadas. Havia
explosões de vidros, e um deles provocou-lhe um corte no braço, que
começou a sangrar e lhe manchou o vestido. Um dos homens puxou-a à
força para trás. - Disse-lhe que não podia entrar!
- Os meus filhos! - arquejou. - Os meus bebés!... - Debatia-se com
uma força sobre-humana e, por um momento, escapou-lhe, mas ele voltou
a agarrá-la. - Largue-me! - Virou-se na sua direcção e o homem prendeu-
lhe os braços com as mãos fortes, enquanto os vizinhos observavam a cena
num mudo terror. - Os meus filhos estão ali... Oh, meu Deus... por favor...
- Soluçava incontrolavelmente, quase sufocada pelo fumo que lhe
queimava os olhos e a gargânta quando ele gritou para dois dos homens
que voltaram a correr ao interior do prédio. Já tinham trazido várias
idosas e um homem novo estava desmaiado na rua, enquanto dois
bombeiros tentavam reanimá-lo.
- Ei, Joe! - chamou o bombeiro e voltou-se rapidamente para Zoya. -
Onde estão eles, minha senhora? Em que apartamento?
- No último andar... um menino e uma menina... - Sufocava naquele
ar cheio de fumo e já vira que as escadas não passavam do terceiro andar.
- Deixe-me ir... por favor... por favor... - Ele passou a informação aos
colegas que voltaram. a correr ao edificio durante o que pareceu horas...
Zoya observava, sabendo que, se eles morressem, a sua vida terminaria.
Os filhos eram tudo o que lhe restava no mundo, a sua razão de continuar
a existir.
Contudo, os bombeiros não reapareceram e outros três entraram no
prédio, munidos de machados e com expressões ansiosas. Ouviu-se um
som horrível e uma explosão de faíscas e chamas quando uma parte do
telhado desabou e Zoya quase perdeu os sentidos.
Tinha os olhos esbugalhados de terror e precipitou-se subitanente para
diante, resolvida a encontrá-los ou a morrer com eles. Passou a toda a
velocidade pelos bombeiros, continuou a correr mas, nessa altura, como
que em resposta às suas preces, avistou os bombeiros avançando na sua
direcção, dois deles com fardos nos braços, e ouviu uma criança a chorar
no meio do estrondo do incêndio.
Viu que era Nicholas a agitar os braços e a chamá-la. O terceiro
bombeiro pegou-lhe ao colo como se ela fosse uma criança, e os três

homens precipitaram-se para fora do edificio, no preciso momento em
que o fogo ia devorá-los. Mal tinham chegado à rua, quando o estrondo
no interior do prédio aumentou. Um muro de chamas ergueu-se nas
costas dos fugitivos e Nicholas abraçou-a, chorando e gritando pelo seu
nome, enquanto ela lhe cobria a face de beijos, apercebendo-se depois de
que Sasha estava inconsciente.
Ajoelhou-se no passeio ao lado da filha, gemendo e murmurando o
nome dela, enquanto os bombeiros lutavam desesperadamente por lhe
salvar a vida. Por fim, a criança soltou um grito abafado e mexeu-se.
Zoya deitou-se junto dela e chorou, acariciando-lhe os caracóis e
abraçando-a.
- Meu bebé... minha querida... - Sentia que era o castigo por os ter
deixado sós a noite inteira. Só conseguia pensar em como teria sido se ao
regressar a casa... Era quase imperisável. Manteve-se ali na rua, agarrando
os filhos e observando o desabar do prédio, que levava tudo o que
possuíam.
- Só interessa que estejam vivos - repetia, lembrando-se da noite em
que a mãe morrera no incêndio do Palácio Fontanka.
Os bombeiros permaneceram até ao romper de mais um dia abrasador
de Julho e declararam que apenas dali a uns dias alguém poderia entrar.
Teriam de encontrar outro sítio onde ficarem, antes de tentarem procurar
nas cinzas o que quer que restasse dos seus pertences.
Zoya pensou nas fotografias de Clayton que se haviam perdido... nas
pequenas recordações que conservara... as fotogratas dos pais, dos avós,
do czar... pensou no ovo imperial que guardara para a eventualidade de
precisar de vendê-lo, mas não podia preocupar-se com nada disso agora.
O importante era que Nicholas e Sasha estavam vivos. E depois, com uma
dolorosa picada no coração, lembrou-se de Sava. A cadela que trouxera
de Sampetersburgo há tanto tempo tinha morrido no incêndio.
- Não consegui trazê-la, mamã... Estava escondida debaixo do sofá
quando os homens entraram - soluçou Nicholas. - Queria trazê-la, mamã...
mas eles não me deixaram...
- Chiu... querido, não chores... - O longo cabelo ruivo soltara-se
durante a luta que travara com os bombeiros para ir buscar os filhos e
espalhava-se sobre o vestido branco de flores azuis. Tinha vestígios de
cinzas no rosto e a camisa de noite de Nicholas tresandava a fumo.
Estava entranhado, mas nunca lhe cheirara tão bem, ou significara tanto
aos seus olhos como naquele momento. - Amo-te tanto... Ela era muito
velhinha, Nicky... Chiu... meu querido, não chores... - Sava tinha quase
quinze anos e chegara até àquele momento com eles, mas Zoya apenas
conseguia pensar nos filhos.
Uma vizinha acolheu-os, e Zoya e as crianças dormiram no chão da

sala em cima de cobertores. Por mais que tomassem banho e ela lavasse
o cabelo, continuavam a cheirar a fumo, mas, de cada vez que olhava lá
para fora e avistava o prédio em ruínas do outro lado da rua, apercebia-se
da sorte que haviam tido. Estremecia só de olhar.
No dia seguinte telefonou para o teatro e disse que não ia trabalhar.
Nessa noite, percorreu a pé a distância que a separava do teatro para ir
buscar o último pagamento. Não lhe interessava que morressem de fome,
mas não voltaria a deixá-los sozinhos... nunca mais.
O pagamento chegaria para lhes comprar roupa e algurna comida,
mas não tinham onde ficar nem para onde ir e, totalmente exausta, foi à
procura de Jimmy para se despedir dele. - Vai deixar-nos? - Sentia-se
triste que ela se fosse embora, mas compreendeu ao ouvir a história.
- Não posso continuar a fazer isto. Se alguma coisa tivesse
acontecido... - E podia voltar a acontecer. Era um pecado deixá-los sós.
Teria de encontrar qualquer outra coisa, nas ele lirnituu-se a esboçar um
aceno de cabeça. Não estava surpreendido e achava bem.
- De qualquer maneira, não pertence aqui. Nunca pertenceu. - Sorriu.
Toda a sua raça emergia da forma como se movimentava, embora nunca
lhe tivesse falado do passado, mas doía-lhe sempre o coração ao vê-Ia
levantar a perna com as outras. - Arranje outra coisa. Um bom emprego
com a sua gente. Este não é um lugar para si. - Contudo, há um ano e
meio. que trabalhava ali e servira para lhe pagar a renda. - Não tem
família nem amigos a quem recorrer? - Zoya abanou a cabeça, pensando
uma vez mais na sua sorte por não ter perdido os filhos. - Tem algum sítio
para onde voltar? A Rússia ou algo assim? - Ela sorriu ante a ignorância
dele sobre a devastação ocorrida.
- Cá me arranjarei - retorquiu, sem na realidade ter a mínima ideia
do que fazer.
- Onde estão agora?
- Na casa de um vizinho. - Jimmy sentiu vontade de a convidar a ficar
em Harlém, mas sabia que não lhe conviria. O tipo de pessoas como ela
iam dançar ao Cotton Club para se divertirem e não mudavam para
Harlém com um velho pianista de um clube.
- Bom. Dê-me notícias, sim?
Inclinou-se, beijou-a na face e os olhos brilharam-lhe quando ela foi
buscar o dinheiro. Apertou-lhe calorosamente a mäo no momento em que
ela se foi embora, satisfeito com o que fizera. Só mais tarde nessa noite
é que ela descobriu o dinheiro na mala. Cinco notas de vinte dólares que
Jimmy lhe metera na mala enquanto fora receber. Ganhara-os a jogar às
cartas nessa tarde e sentira-se contente por poder dar-lhe aquele dinheiro.
Zoya sabia que só podia ter sido ele. Pensou em voltar ao teatro e
devolver-lho, mas sabia quanto lhe era necessário. Eni vez disso, escreveu

um bilhete a agradecer e prometeu pagar-lhe, assim que pudesse.
Contudo, sabia que tinha de arranjar um emprego e um lugar onde
pudessem viver.
No final da semana, o prédio arrefecera o suficiente para permitir que
os residentes lá voltassem. Pouco havia que pudessem salvar e dois dos
apartamentos tinham ficado completamente destruidos; ao subir as
escadas pouco seguras, Zoya susteve a respiração e interrogou-se sobre o
que iria encontrar. Abriu a porta com dificuldade e vasculhou o chão com
uma pá. O cheiro a fumo ainda pairava no ar e toda a sala ficara
destruída.
Os brinquedos, a roupa das crianças e a maioria da sua fora
consumída, mas sabia que provavelmente nunca deixariam de cheirar a
fumo. Meteu os pratos numa caixa recuperada do fogo e verificou,
surpreendida, que a mala das fotografias ainda ali estava, intocável.
Sustendo a respiração, pôs-se a remexer no que fora uma arca e
subitamente avistou-o... O esmalte estava rachado, mas o resto mantinha-
se intacto. O ovo imperial resistira. Fitou-o com muda surpresa e pôs-se
a chorar... Era uma relíquia de uma vida perdida. Nada mais havendo a
salvar, meteu os restos das coisas das crianças numa única caixa, o seu
vestido Chanel, dois saia-casacos e um vestido de linho cor-de-rosa e o
único par de sapatos.
Demorou apenas dez minutos a levar tudo para baixo e, quando se
voltou para dar uma última vista de olhos, deparou com Sava por baixo
do sofá... deitada e tranquila, como se estivesse a dormir. Zoya ficou uns
minutos em silêncio a observá-Ia e depois fechou a porta devagar e
desceu as escadas apressadamente com as caixas, ao encontro dos filhos
que a esperavam do outro lado da rua.

CAPITULO 33

Depois de agradecer profusamente aos vizinhos pela sua generosidade,
Zoya alugou um pequeno quarto de hotel com algum do dinheiro que
Jinuny lhe tinha dado. Já lhe restava menos de metade após comprar
roupa nova às crianças e um vestido decente para si que não cheirasse a
fumo
Tinham de comer num restaurante todas as noites. Falavam no que iriam fazer, e Nicholas fitava-a com expectativa; porém, uma noite ao ler
o jornal à procura de emprego, ocorreu-lhe subitamente uma ideia. Não
se tratava de algo que faria se pudesse escolher, mas não podia. Tinha de
deitar mão à realidade, mesmo que a embaraçasse.

No dia seguinte, pôs o vestido novo, escovou cuidadosa o cabelo e
desejou ter ainda algumas das suas jóias, mas apenas lhe restava a aliança
de casamento e um certo porte, quando se contemplou calmamente no
espelho.
- Onde vais, mamã? - perguntou Nicky, ao observar o vestido.
- Vou arranjar emprego. - Desta vez, não se sentia incomodada
quando os filhos a olharam.
- Sabes fazer alguma coisa? - retorquiu Sasha inocentemente e Zoya
riu.
- Näo muito.
Contudo, percebia de roupas, usara as melhores nos últimos dez anos
e, mesmo em criança, ela e Marie tinham estudado tudo o que as mães
e outros familiares haviam usado. Sabia arranjar-se com estilo e talvez
pudesse ensinar outros a fazê-lo. Havia muitas mulheres com dinheiro
bastante para se darem a esse luxo.
Apanhou o autocarro depois de confiar Sasha aos cuidados do irmão
e, nervosa por os deixar sozinhos, desceu próximo da morada indicada no
anúncio. Ficava na Rua 51, à saída da Quinta Avenida. Ao chegar à porta,
verificou que o estilo correspondia ao que esperara. Um porteiro fardado
ajudava as senhoras a saírem dos automóveis e, uma vez lá dentro, avistou
senhoras elegantes e alguns homens observando os luxuosos artigos da
loja.
Havia vestidos e chapéus e uma linha extraordinariamente bonita de
sapatos de fabrico próprio. As empregadas estavam bem vestidas e muitas
tinham um porte aristocrático. "Era o que devia ter feito logo de início",
censurou-se, tentando afastar a imagem do incêndio e rezando para que
as crianças estivessem bem. Era a primeira vez que as deixava sozinhas
desde aquela noite e jamais teria a certeza de que estavarir bem fora da
sua vista, mas sabia que isto era algo que tinha de fazer. Não lhe restava
qualquer alternativa.
- Posso ajudá-la, madame? - perguntou uma mulher de cabelo grisalho
com um vestido preto, quando Zoya olhou em volta. - Deseja ver alguma
coisa? - O sotaque era visivelmente francês e Zoya virou-se para ela com
um sorriso composto. Tremia por dentro, mas rezava para que não se
notasse quando lhe respondeu no impecável francês que fálava desde
criança.
- Posso falar com o gerente, por favor?
- Ah... que bom ouvir alguém falar francês! - exclamou a mulher de
idade, a sorrir. Parecia uma professora elegantemente vestida de um
colégio para jovens. - Sou eu. Deseja alguma coisa?
- Sim - respondeu Zoya num tom baixo, de forma a que ninguém
pudesse ouvi-la. - Sou a condessa Ossupov e ando à procura de emprego.

- Seguiu-se um momento de silêncio enquanto os olhares das duas
mulheres se cruzavam e, depois de uma interminável espera, a francesa
esboçou um aceno de cabeça.
- Percebo. - Interrogava-se sobre se a jovem mulher seria uma fraude,
mas o seu porte tranquilo sugeria quem dizia ser, e a francesa esboçou um
gesto discreto na direcção de uma porta fechada nas suas costas. -
Importa-se de vir ao meu gabinete, madame? - O título não era
importante para ela, mas sabia que podia sê-lo para as suas clientes, como
Barbara Hutton, Eleanor Carson, Doris Duke e as amigas. Tinha uma
clientela de elite e os títulos significavam muito para a maioria delas.
Muitas casavam com príncipes e condes, só para poderem usufruir dos
títulos.
Zoya seguiu-a até uma sala de estar elegantemente decorada em tons
de preto e branco. Era onde mostrava os seus vestidos mais caros e a
única rival era Chanel que trouxera recentemente os seus artigos para os
Estados Unidos, mas liavia lugar para ambas em Nova lorque.
A francesa chamava-se Axelle Dupuis e chegara de Paris há uns anos,
tendo montado aquele elegante salão conhecido apenas por "Axelle". No
entanto, há anos que era um must de Nova lorque. Zoya chegara a
comprar-lhe um vestido mas não usara obviamente o seu nome russo e,
por sorte, Madame Dupuis não se recordava dela.
- Tem alguma experiência no ramo? - inquiriu, observando Zoya
atentamente. O vestido que ela usava era barato e os e os sapatos estavam
gastos, mas as mãos graciosas, a forma como se movimentava e o
penteado indicavam alguém que conhecera melhores tempos. Falava além
disso francês, não que fosse muito importante ali. E parecia exibir um
estilo nato, mesmo vestida sem luxo. Axelle sentia-se intrigada. - Já
alguma vez trabalhou em moda?
- Não - respondeu Zoya honestamente e abanando a cabeça. - Mudei-
me de Sampetersburgo para Paris depois da revolução. - Já era capaz de
pronunciar as palavras, agora que coisas piores tinham acontecido e tinha
de pensar em Nicky e Sasha. Por eles, rastejaria por aquele emprego e
não conseguiu ler nada no rosto da mulher quando ela preparou um chá
para ambas.
O serviço de chá em prata era muito bonito e a louça de porcelana,
francesa. Tinha um porte elegante e observou atentamente Zoya quando
ela bebeu um gole. Coisas deste género eram importantes devido à sua
clientela, as mais elegantes e exigentes mulheres do mundo. Não podia
permitir-se que fossem servidas por pessoas sem maneiras e rudes e ficou
satisfeita ao examinar Zoya com argutos olhos cinzentos.
- Quando foi para Paris, trabalhou em moda? - Axelle sentia-se
curiosa. Havia algo de inconfundivelmente aristocrata naquela jovem

mulher quando Zoya a fixou.
- Dancei com os Ballets Russes. Era a única coisa que sabia fazer e
éramos muito pobres. - Decidira ser honesta com ela, pelo menos até
certo ponto.
- E depois?
Zoya esboçou um sorriso triste, sentada muito direita na sua cadeira.
- Casei com um americano e vim para cá em mil novecentos e
dezanove. - "Há doze anos..." - O meu marido morreu há dois anos. Era
mais velho do que eu... - Não falou à francesa de tudo o que tinham
perdido. Deixara de ser importante e queria salvar a dignidade de
Clayton, mesmo depois da sua morte. - Tenho dois filhos para sustentar
e perdemos tudo o que possuíamos num incêndio... Não que fosse muito...
- A voz morreu-lhe ao pensar no pequeno apartamento onde Sava
morrera e fixou Axelle. - Preciso de um emprego. Sou velha de mais para
voltar a dançar. - Varreu as imagens do clube e prosseguiu: - ... e sei
algumas coisas sobre roupa. Antes da guerra... - Hesitou, mas forçou-se
a continuar, pois, se ia apoiar-se no título, teria de lhe fazer referência. -
Em Sampetersburgo, as mulheres eram elegantes e bonitas... - Sorriu, sem
que Axelle deixasse de a observar.
- É parente dos Romanov? - Muitas russas insignificantes haviam feito
esta reivindicação, mas havia algo naquela jovem mulher que deixava
antever tal possibilidade. Estav, disposta a acreditar quando os olhos
verdes de Zoya a fixaram e se expressou na sua voz meiga, pegando na
chávena de chá como uma aristocrata.
- Sou prima do falecido czar, madame.
Não disse mais nada, e Axelle reflectiu demoradame. Valia a pena
tentar. Ela podia ser o que as clientes desejavam... e como adoravam
condessas! Axelle sabia que a ideia de terem uma condessa a atendê-las
seria um factor de suprema excitação.
- Podia dar-lhe uma oportunidade, senhora... condessa, acho que
deveria tratá-la assim. Aqui, tem de usar o seu título.
- Claro. - Zoya tentava parecer calma, mas apetecia-lhe gritar de
alegria, como se fosse uma criança... Ia ter um emprego! No Axelle's! Era
perfeito! No Outono, os dois miúdos estariam na escola e ela regressaria
a casa às seis da tarde. Era respeitável... era perfeito... Não conseguiu
reprimir um sorriso de alívio e Axelle correspondeu. - Obrigada, madame.
Muito obrigada.
- Vejamos como se sai. - Levantou-se para indicar que a audiência
tinha terminado, e Zoya apressou-se a imitá-la e pousou a chávena no
tabuleiro sob o olhar extremamente agradado de Axelle. - Quando
gostaria de começar?
- Na próxima semana convém-lhe?

- Perfeito. Às nove horas. Em ponto. E... Condessa - acrescentou
pronunciando a palavra com o à-vontade da prástica e olhando para o
vestido de Zoya -, talvez antes de ir, queira escolher um vestido para
usar... algo preto ou azul-escuro... - Pensou no seu adorado Chanel preto
que não conseguira recuperar do incêndio. Tresandava a fumo, por mais
que se esforçasse por tirar o cheiro.
- Muito obrigada, madame.
- De nada. - Inclinou a cabeça num gesto delicado e transpôs de novo
a porta que dava para a sala principal onde uma mulher com um enorme
chapéu branco soltava exclamações ante os sapatos. Fez recordar a Zoya
que teria de comprar sapatos novos com o pouco dinheiro que possuía e
apercebeu-se subitamente de que se esquecera de perguntar qual era o
salário. Contudo, era irrelevante. Tinha um emprego, fosse lá por que
preço. Era muito melhor do que vender maçãs na rua.
Deu a notícia às crianças mal regressou e foram dar um passeio no
parque, depois do que voltaram ao hotel para fugir ao calor. Nicholas
estava tão excitado como ela, e Sasha perguntou com os olhos azuis muito
abertos se também tinham vestidos para menina.
- Não, meu amor, não têm. Mas compro-te um vestido novo assim que
puder. - Comprara-lhes o mínimo depois do incêndio, tal como para ela,
mas agora um novo dia nascera. Tinha um emprego respeitável e esperava
ganhar um salário decente. Não teria de voltar a dançar.
Depois, interrogou-se com um sorriso sobre se veria algumas das suas
antigas amigas no Axelle's. Haviam-na posto de lado quando chegara de
França para depois a adorar. Tinham-na esquecido completamente
quando Clayton morrera e abandonado depois de perderem tudo. Como
as pessoas eram falsas; não que se importasse. Só os filhos tinham valor.
O resto chegara e partira, viera e fora-se novamente embora. Não lhe
interessava. Haviam sobrevivido mesmo assim... A vida voltava a parecer-
lhe infinitamente preciosa.

CAPITULO 34

Os seus dias na loja eram longos e cansativos e as mulheres que
atendia muito exigentes. Eram impetuosas e mimadas, algumas incapazes
de se decidirem, mas mostrava-se sempre paciente e achava que sabia o
que lhes ficava bem.
Era capaz de pegar num vestido, puxar aqui, enfiar ali e. subitamente,
a mulher parecia desabrochar quando se olhave ao espelho... conseguia
escolher o chapéu perfeito para o vestido certo... um rarninho de flores...

uma pequena pele... os sapatos encantadores. Criava imagens que se
transformavam em poesia, e a patroa estava satisfeitíssima com o seu
trabalho.
No Natal, Zoya conseguira uma posição de relevo no Axelle's,
superara todos em vendas e as clientes perguntavam sempre pela
condessa. Era condessa para aqui, condessa para ali... e não pense,
condessa... e, oh, condessa, por favor... Axelle observava-a em acção,
sempre discreta e com um porte digno, vestida com elegância, as luvas
brancas imaculadas quando vinha trabalhar, o cabelo impecavelmente
penteado e um leve sotaque que aumentava o mistério. E Axelle cedo
espalhara que ela era prima do czar. Exactamente aquilo de que precisava
para a loja e, quando Sergei Obolenski também veio conhecer aquela
"condessa" de que todos falavam, fitou-a, estupefacto, vendo as lágrimas
que lhe enchiam os olhos.
- Zoya! O que estás a fazer aqui?
- A divertir-me. - Não mencionou os dois anos brutalmente dificeis a
que sobrevivera.
- Que tontice! Mas, de facto, talvez seja divertido, sim! Tens de vir
jantar connosco.
Contudo, recusou sempre. Já não tinha roupa, tempo, ou mesmo
energia para andar com os conhecidos dele. Tudo isso acabara para ela.
Todas as noites regressava a casa até junto dos filhos, que a esperavam no
apartamento da Rua 39, próximo de East River, para onde conseguira
mudar-se a tempo do Natal. Os dois andavam em colégios decentes e os
salários regulares e comissões que Axelle lhe pagava não lhe perimitiam
luxos, mas chegavam para levarem uma vida confortável, o que era uma
grande melhoria por comparação aos dois últimos anos quando dançava
no Fitzhugh's Dance Hall.
Estava a trabalhar para Axelle quando o bebé Lindbergh foi
encontrado morto em Maio de 1932 e leu, surpreendida, que Florenz
Ziegfeld morrera em Julho do mesmo ano. Interrogou-se sobre como teria
sido trabalhar para ele e não no Fitzhugh's Dance Hall. Interrogou-se
também sobre o que seria feito de Jimmy. Há muito que lhe devolvera os
cem dólares que ele lhe metera furtivamente na mala quando estava tão
desesperada, mas nunca mais tinha tido notícias. Ele era parte de uma
outra vida, outro capítulo encerrado enquanto continuava a trabalhar
como condessa no Axelle's. E ficou muito emocionada quando Eleanor
Roosevelt veio vê-Ia e comprar alguma roupa à loja durante a campanha
eleitoral. Pecordava-se com entusiasmo dos velhos amigos de Clayton e
mandou-lhes um telegrama quando Frank1in ganhou e enviou a Eleanor
um bonito gorro de pele, que ela disse que usaria na inauguração em
Março e Axelle ficou satisfeitíssima.

- Sabe indubitavelmente lidar com elas, ma chère - elogiou a elegante
francesa.
Gostava de Zoya e sentia-se encantada com o pequeno Nicholas. O
miúdo tinha os modos de um jovem principe e as histórias que Obolenski
lhe contara uma tarde sobre Zoya e as filhas do czar tornavam-se agora
muito credíveis. Ela era uma mulher invulgar nascida numa época de
infelicidade. Se as coisas tivessem acontecido de uma outra forma, poderia
casar-se com um príncipe da sua estirpe e viver num dos palácios que
frequentara em criança. Parecia injusto, mas não mais do que a depressão
que se notava por todo o lado. Nesse ano, toda a gente à excepção da
clientela de Axelle parecia estar a morrer de fome.
Na quadra natalícia, Zoya foi com Nicholas ao cinema ver o filme
Tarzan e ele ficou encantado. Depois, foram tomar chá. Ele andava na
Trinity School e saía-se bem. Era um bom estudante e uma criança
inteligente e, aos onze anos, afirmava que um dia seria um homem de
negócios, como o pai o fora. Sasha queria ser estreia de cinema. Zoya
tinha-lhe 'comprado uma boneca Shirley Temple e ela nunca a abandolava,
juntamente com Annabelle, que sobrevivera ao incêndio. Eram crianças
felizes, embora tivessem passado por tempos difíceis.
Na Primavera, Zoya tornou-se assistente de Axelle. Tal significava
mais dinheiro e mais prestígio e deixava mais tempo livre à própria
Axelle. Zoya convenceu Axelle a permitir que Elsie de Wolfe redecorasse
a loja, e o negócio pareceu disparar em flecha.
- Bendito seja o dia em que atravessou aquela porta - exclamou
Axelle, sorrindo, por sobre as cabeças das entusiasmadas clientes no
primeiro dia em que voltaram a abrir depois da nova decoração. O
próprio presidente da câmara, Fiorello La Guardia, apareceu, e o negócio
ia de vento em popa.
Deu um casaco de marta a Zoya como presente e a jovem mulher
soltou uma exclamação de espanto. Era de marta criada em fazenda e
ressaltava-lhe a elegância quando apainhava o autocarro diariamente para
ir ter com os filhos. No ano seguinte, conseguiu mudar-se para um novo
apartamento. Ficava somente a três quarteirões do Axelle's, e cada um
dos filhos tinha agora o seu quarto. Nicholas tinha doze anos, quase treze,
e sentia-se aliviado por se haver liberto um pouco de Sasha.
Dois anos mais tarde, no décimo primeiro aniversário de Sasha, Axelle
convidou Zoya a ir com ela a Paris, na primeira viagem de negócios.
Nicholas ficou na casa de um amigo e contratou uma baby-sitter para
tomar conta de Sasha dutante três semanas.
Partiu com Axelle no Queen Mary no meio de uma grande excitação
e de champanhe. Detendo-se a olhar a Estátua da Liberdade quando o
navio arrancou lentamente de Nova lorque, Zoya pensava no que

conseguira durante aquele tenipo, desde a morte de Clayton. Haviam
passado sete anos. Tínha agora trinta e sete e sentia-se como se houvesse
vivido várias vidas.
- Em que estás a pensar, Zoya? - Axelle estivera a observá-la, muito
calma e direita junto ao varandim, à medida que avançavam para mar
aberto. Estava elegantemente arranjada com um vestido verde-esmeralda
da cor dos olhos e um pequeno gorro de pele na cabeça e, ao virar-se
para fixar a patroa, os olhos eram quase da mesma cor do mar.
- Pensava no passado.
- Acontece com frequência, julgo - replicou Axelle num tom calmo.
Respeitava-a muito e interrogava-se sobre a razão por que ela não saía
mais. Oportunidades não lhe faltavam. As clientes eram doidas por ela e
havia sempre um monte de convites em cima da sua secretária dirigidos
simplesmente à "condessa Zoya". Contudo, ela só raramente sala e dizia
sempre que "já fizera tudo isso antes". - Talvez Paris traga alguma
excitação à tua vida. - Zoya limitou-se a rir e abanou a cabeça.
- Tive excitação bastante na minha vida, muito obrigada. - Revoluções
e guerras e o casamento com um homem que adorara. Continuava
apaixonada por Clayton depois de todos aqueles anos e sabia que voltar
a ver Paris seria doloroso sem ele. Era o único homem que tinha amado
e sabia que nunca haveria outro como ele... excepto o filho, talvez... Sorriu
ante a ideia e respirou a brisa marítima. - Vou a Paris em trabalho -
anunciou bruscamente a Axelle e depois riu ante as palavras da mulher
mais velha.
- Não estejas assim tão segura, minha querida.
Regressaram depois ao camarote. Zoya desfez as malas e colocou as
fotografias dos filhos junto à cama. Não precisava de mais nada, nem
nunca precisaria. Nessa noite deitou-se com um livro novo e elaborou uma
lista das roupas que iam encomendar em Paris.

CAPíTULO 35

Axelle reservara quartos no Ritz, convenientemente localizado na
Place Vendôme e resplandecente de todo o luxo que Zoya não esquecera.
Tinham passado anos desde que tomara banho numa funda banheira de
márimore, igual à que tinha na casa de Sutton Place. Fechou os olhos e
usufruiu de todo o prazer da funda banheira cheia de água quente.
Começariam as compras na manhã seguinte, mas naquela primeira
tarde Zoya saiu calmamente do hotel para dar um passeio e foi invadida
pelas recordações ao vaguear pelas ruas, avenidas e os parques que

outrora partilhara com Clayton.
Foi tomar uma bebida ao Café de Flore e depois, incapaz de se
controlar, apanhou um táxi para o Palais Royal e deteve-se em silêncio
diante do prédio onde vivera com Eugema. Haviam passado dezassete
anos desde que ela morrera, dezassete anos de bons e maus momentos e
trabalho duro Junto dos seus amados filhos. As lágrimas correram-lhe
devagar pelas faces, perante as recordações da avó e do falecido marido.
Era quase como se esperasse que ele lhe batesse no ombro, como na noite
em que se haviam conhecido. Ainda conseguia ouvir-lhe a voz, como se
lhe tivesse falado horas antes.
Em seguida, virou costas lentamente, foi até às Tulherias e sentou-se
num banco, ímersa nos seus pensamentos, observando as crianças a
brincar à distância. Interrogou-se sobre como seria trazer Nicholas e Sasha
até ali, uma vida em certos aspectos mais fácil do que em Nova lorque;
porém, o seu trabalho no Axelle's conferira um novo rumo à sua
existência.
Há cinco anos que estava com Axelle e era excitante encontrar-se do
lado das compras, em vez de ter de esperar no meio de hordas de
mulheres mimadas e exigentes. Conhecia tão bem as mulheres. Havia
algumas com quem lidava bem, mulheres que compreendia e conhecera
toda a sua vida. Lembrara-se mais do que uma vez da sua própria mãe.
E os homens também gostavam de Zoya, pois ela era tão capaz de
lhes vestir as mulheres como arranjar discretamente roupa para as
amantes que traziam à loja. Nunca lhe escapava uma alcoviteirice dos
lábios, uma crítica maldosa, mas apenas bom gosto e sugestões
interessantes. Axelle sabia que sem ela o sucesso da loja jamais teria
atingido aquele ponto. "A condessa", como todos lhe chamavam,
adicionava um chique incontestável às vidas dos ricos nova-iorquinos.
Contudo sentiu-se repentinamente muito, muito longe dali. Sentiu-se de
novo urna jovem e ao mesmo tempo triste, pensando na nova vida que se
iniciara para ela desde a última vez que estivera em Paris.
Ao apanhar um táxi de volta ao hotel, o coração deu-lhe um salto no
peito, interrogando-se sobre se poderia encontrar VIadimir Markovski.
Nessa noite, no hotel, procurou o número na lista telefónica, mas o nome
não constava. Desconfiava que ele já teria morrido nessa altura. Deveria
estar próximo dos oitenta anos, se fosse vivo.
Nessa noite, Axelle convidou-a para jantar no Maxím's, mas, com um
olhar nostálgico, recusou e disse que estava muito cansada e queria
descansar antes de iniciarem a volta à procura das novas colecções. Não
explicou a Axelle que a recordação de Clayton a levá-la a jantar lá seria
por de mais dolorosa. Aqui, via-se obrigada a fechar constantemente as
portas ao passado.

Parecia-lhe apenas a um passo de Sarripetersburgo. Tudo estava tão
próximo. Não se encontrava a meio mundo de distância. Encontrava-se
nos lugares que descobrira com Eugema e Vladimir, nos sítios onde
Clayton a levara. Era quase doloroso estar ali e ansiava por deitar mão ao
trabalho a fim de esquecer o passado e ocupar-se com o presente.
Nessa noite telefonou a Nicholas para casa do amigo e contou-lhe
tudo sobre Paris. Prometeu que um dia o traria com ela. Era uma cidade
tão bonita e desempenhara um papel tão importante na sua vida. O filho
disse-lhe que a amava e tivesse cuidado com ela. Mesmo aos catorze,
quase quinze anos agora, não receava mostrar emoções.
- É o russo que existe em ti - espicaçava-o Zoya por vezes, pensando
em quanto se parecia com Nicolai, sobretudo quando o ouvia troçar de
Sasha. O telefonema para a filha foi igualmente típico. Sasha dera-lhe
uma lista de compras de tudo o que queria de Paris, que incluía um
vestido vermelho e vários pares de sapatos franceses. À sua maneira, era
tão mada quanto Natalya o fora e quase tão exigente. Interrogou-se sobre
o que Mashka teria pensado deles, ou de corno teriam sido os seus
próprios filhos, caso houvesse vivido e casado.
Nessa noite foi um alívio adonnecer e fugir às recordações. A viagem
a Paris revelou-se muito mais difícil do que pensara e sonhou com Alexis,
Marie e Tatiana, e as outia,tendo acordado às quatro da manhã e sendo
incapaz de voltar a adormecer até quase às seis. Na manhã seguinte,
sentia-se cansada quando mandou vir croíssants e cafie.
- Alors, estamos prontas? - perguntou Axelle, apare-cendo à porta com
um belo conjunto Chanel vermelho, o cabelo branco impecavelmente
penteado e a bolsa Hermés ao ombro. Parecia novamente muito francesa
e Zoya pusera um vestido de seda azul e um casaco a condizer de Lanvin.
Era da cor do céu, e apanhara o cabelo ruivo num rolo elegante.
Ambas pareciam muito parisienses quando o porteiro lhes abriu a
porta de um táxi, e Zoya reconheceu o sotaque do motorista. Era um dos
inúmeros e idosos russos que continuavam a guiar táxis em Paris; porém,
quando lhe perguntou se conhecia Vladimir, limitou-se a abanar a cabeça.
Não se lembrava de lhe ouvir o nome nem de o ter conhecido. Era a
primeira vez em anos que Zoya falava russo. Até mesmo con, Sergei
Obolenski falava francês. E Axelle escutou a musicalidade das palavras,
até pararem nos Estúdios Schiaparelli, na Rue de la Paix.
Tinham combinado começar por ali e foi uma loucura.
Encomendaram dúzias de camisolas diferentes para a loja, conversaram
longamente com a estilista, explicando as neccssidades e preferências da
clientela. Ela era uma mulher interessante e ficaram intrigadas ao
descobrir que tinha apcnas mais três anos que Zoya. Usufruía de um êxito
notável à época, quase tão grande como o de Gabrielle Chanel, ainda

instalada na Rue Cambon. Foi lá que se dirigiram a seguir c, mais tarde
nesse mesmo dia, à Casa Balenciaga, onde Zoya escolheu vários vestidos
de noite e os experimentou para lhes sentir o cair e o toque, enquanto
Axelle a observava.
- Devias ter sido estilista também - disse-lhe Axelle a sorrir. - Tens
uma intuição surpreendente para roupas.
- Sempre gostei de roupas bonitas - confessou, rodopiando nas
intrincadas criações do gênio espanhol. - Mesmo em crianças, Marie e eu
costumávamos olhar para as roupas que as nossas mães e as amigas delas
usavam. - Riu ante a lembrança. - E éramos horríveis quanto às que
achávamos que tinham mau gosto.
Axelle apercebera-se do olhar distante e perguntou num tom suave.
- Era tua irmã?
- Não - apressou-se Zoya a responder. Era raro abrir as portas do
passado a alguém e muito menos a Axelle, com quem mantinha quase
sempre uma relação de negócios, mas estava demasiado próximo de casa
naquele momento. - Era minha prima.
- Uma das grã-duquesas? - Axelle pareceu logo impressionada quando
Zoya esboçou um aceno de cabeça afirmativo. - Que coisa terrível tudo
aquilo.
Regressaram depois ao negócio e, na manhã seguinte, foram ver os
esboços de Dior, tendo jantado no quarto nessa noite. Passaram em
revista as listas do que tinham encomendado, do que tinham gostado e do
que achavam que ainda precisavam. Axelle não ia comprar uma parte de
tudo aquilo, mas queria apenas ver, a fim de desenhar esboços para a
costureira que ocasionalmente lhe copiava os esboços de outros. Era
muito habilidosa e dava muito dinheiro a ganhar a Axelle.
Encontraram-se pessoalmente com Christian Dior, um homem
encantador, e Axelle apresentou Zoya com o seu título. Nesse dia estava
lá Lady Mendl, ex-Elsie de Wolfe, e, depois de elas saírem, forneceu a
Dior os pormenores da vida de Zoya com Clayton.
- Foi uma coisa horrível. Perderam tudo em mil novecentos e vinte e
nove - explicou no momento em que apareleu WaIly Simpson. Dior era
um grande fã dela, a qual entrou com os dois buldogues anões.
Nessa tarde, Zoya e Axelle voltaram a visitar Elsa Schiaparelli, desta
vez no seu salão mais luxuoso, construído na Place Vendôme há dois
anos, e Zoya riu com o divertido sofá que Salvador Dali desenhara para
ela com a forma de lábios. Falaram novamente nas camisolas e nos vários
casacos que Axelle queria encomendar. Contudo, estavam a atingir
rapidamente os limites do seu orçamento. Axelle queixou-se que o
dinheiro desaparecia, pois era tudo encantador. Vivi uma altura excitante
no âmbito da moda em Paris.

Schiaparelli deixou-as, pois tinha uma entrevista com fabricante de
casacos americano. Tal como Axelle, também ele era um dos seus
melhores clientes estrangeiros, explicou quando uma das assistentes entrou
e lhe murmurou algo ao ouvido.
- Desculpam-me, minhas senhoras? A minha assistas vai mostrar-lhes
os tecidos em que o casaco pode ser encomendado. Mister Hirsch espera-
me no meu gabinete. - Despediu-se igualmente de Zoya, e as duas
mulheres conferenciaram muito tempo com a assistente e encomendaram
o casaco em vermelho, preto e num cinza que agradou particularmente a
Zoya. Parecia favorecer as cores mais discretas, como na sua própria
roupa. Pusera um vestido de um nu malva-claro, desenhado por Madame
Grès, e que Axelle a deixara comprar com um enorme desconto.
Quando saíram da loja, uma hora mais tarde, foram seguidas por um
homem alto, com um tufo de cabelo preto e um rosto que parecia talhado
em mármore por um mestre. Voltaram a vê-lo no elevador do hotel.
- Não estou a segui-Ias. Também vivo aqui - declarou, olhando para
Zoya com uma expressão juvenil. Depois estendeu a mão a Axelle. - Acho
que compraram uns artigos, minha linha. Sou o Simon Hirsch.
- Claro - sorriu ela, parecendo de novo muito francesa, agora que
estava ali. O sotaque até se acentuara mais. - Sou a Axelle Dupuis - disse
e lembrou-se rapidamente de Zoya. - Apresento-lhe a condessa Ossupov,
a minha assistente. - Foi a primeira vez desde há muito tempo que Zoya
se sentiu embaraçada com o título. Ele parecia um homem tão simples e
agradável que se achou idiota ao dar-se ares quando lhe estendeu a mão.
Tinha o aperto forte de um homem que dirigia um império seu e fitou os
olhos verdes de Zoya com os seus, meigos e castanhos.
- É russa? - inquiriu quando o elevador parou no andar delas, e Zoya
sorriu, corando um pouco, um defeito que achava que a atormentaria
durante a vida inteira.
- Sou - anuiu num tom suave e admirando a forma como ele se
movimentava. O quarto dele era aparentemente ao lado do delas e
percorria os amplos corredores, fazendo de súbito com que parecessem
demasiado estreitos. Tinha os ombros de um jogador de futebol e a
energia de um rapazinho, enquanto caminhava.
- Também eu. Ou melhor, a minha família. Nasci em Nova lorque. -
Sorriu e as duas mulheres pararam junto ao quarto de Zoya. - Divirtam-se
com as vossas compras. Bonne chance! - desejou num francês com um
forte sotaque ao desaparecer no quarto.
- Céus, como me doem os pés... - comentou Axelle quando entraram
no quarto de Zoya e tiraram os sapatos. - Ainda bem que o conhecemos.
Tem uma boa linha. Queria dar mais uma vista de olhos, antes de
voltarmos. Precisamos de mais casacos para o próximo Outono e podemos

comprar-lhe alguns modelos, se nos fizer um preço aceitável.
Sorriu e Zoya mandou vir chá, depois do que passaram uma vez mais
em revista as encomendas feitas. Só lhes restavam mais quatro dias na
cidade, antes de regressarem a Nova lorque no Queen Mary.
- Na verdade, devíamos pensar mais em chapéus e sapatos - redarguiu
Zoya pensativamente, fechando os olhos. Ternos de lhes dar mais do que
apenas vestidos, fatos de noite e conjuntos... Foi sempre esse o nosso
ponto forte. O aspecto geral de que tanto gostam.
- É nisso que somos boas. - E depois fixou a bonita mulher de vestido
cor de malva, de cabelo solto, e caindo-lhe como uma cascata pelos
ombros. - Atraente, não?
- Quem? - retorquiu Zoya de olhos muito abertos e obviamente
confusa. Estava a tentar resolver se deviam encomendar a Chanel os
chapéus a condizer com os fatos e se também deviam pensar em algumas
das suas fabulosas jóias. As clientes possuíam tantas jóias pessoais, que
não estava bem certa de que compreendessem a elegância do que Chanel
estava a fazer.
- O homem dos casacos de Nova lorque, claro. Se tivesse vinte anos
menos, tinha-o agarrado. - Zoya riu ante a imagem de uma senhora como
Axelle a agarrar alguém. Quase conseguia ver o homem a voar pelo
quarto, com a etiqueta de Axelle e riu face a ideia.
- Gostava de ver.
- Tem um rosto marcado, mas muito simpático. Gosto de homens
assim. - Era quase tão alto como Clayton mas muito mais largo de
ombros, e Zoya não voltara a pensar nele, desde que se haviam separado.
- Vamos juntas quando eu for ao salão de exposição dele. Talvez te
convide para jantar, pois são ambos russos. - Estava a brincar, mas não
totalmente. Bem vira a forma como ele olhara para Zoya e o interesse
estampado no rosto ao ouvir o título.
- Não sejas idiota, Axelle. O pobre homem estava apenas a ser
delicado.
- Mon oeíl! Esta minha vista não engana - redarguiu, acenando com
um dedo a Zoya.- És nova de mais para te comportares como uma freira.
Nunca sais com ninguém? - Era a primeira vez que se atrevia a fazer uma
pergunta do gênero, mas estavam longe de casa e as perguntas pessoais
tornavam-se mais fáceis ali, longe da loja e das clientes.
- Nunca - sorriu Zoya com um ar estranhamente calmo. - Não desde
que o meu marido morreu.
- Mas isso é horrível! Que idade tens agora? - Esquecera-se.
- Trinta e sete, ou seja de mais para agir como une debutante. Já
vemos dessas que cheguem na loja. -- Soltou uma risada, e Axelle
sernicerrou os olhos numa censura amistosa enquanto Zoya servia mais

uma chávena de chá do tabuleiro de prata. Os luxos do Ritz começavam
a tomar-se um hábito agradável.
- Não sejas ridícula! - protestou. - Nessa idade, eu tinha dois amantes.
- Deitou um olhar malicioso à sua jovern amiga. - Infelizmente, eram
ambos casados. - Contudo, um deles ajudara-a a montar a loja. Era um
boato que Zo@ tinha ouvido antes, mas a que nunca dera muito crédito. Talvez, afinal, fosse verdade. - De facto - acrescentou -, encontro-me com
um homem muito simpático em Nova Iorque. Não se pode passar o resto
da vida entre a loja e os filhos. Um dia crescerão e depois?
Zoya riu, mas apreciou a preocupação de Axelle.
- Trabalharei ainda mais. Na minha vida não há lugar para um
homem, Axelle. Estou na loja até às seis da tarde todos os dias e depois
ocupo-me da Sasha e do Nicky até às nove ou dez. Quando tomo banho,
leio o jornal e um ou outro livro, passou o tempo. Adormecia sobre o
prato, se alguérn me levasse a sair. - Axelle sabia quanto ela trabalhava,
mas tinha pena. Havia um doloroso vazio na vida da amiga mais nova e
Axelle nem mesmo tinha a certeza de que ela se desse conta.
- Talvez devesse despedir-te para teu próprio bem - brincou a mulher
mais velha, mas ambas sabiam que não havia esse perigo. Zoya era agora
demasiado importante para ela. Encontrara, finalmente, um porto seguro.
Contudo, na manhã seguinte, quando regressaram à casa Dior, desta
vez para discutir sapatos, avistaram Simon Hirsch a sair de um táxi.
- Vejo que nos encontrámos novamente. Tenho de tomar cuidado, ou
acabam por vender os mesmos casacos que eu! - Todavia, não parecia
preocupado. Voltou a mirar Zoya, vestida com um conjunto de linho rosa
que quase lhe dava um ar de rapariguinha.
- Não corre esse risco, Mister Hirsch - garantiu-lhe Axelle. - Viemos
discutir sapatos.
- Graças a Deus. - Seguiu-as até ao interior, encontraram-se de novo
à saída e desta vez riram os três. - Talvez devêssemos combinar os
horários para poupar tempo e dinheiro em táxis. - Sorriu a Zoya e
consultou o relógio. Estava bem vestido, com sapatos ingleses de
encomenda, um fato de bom corte e o relógio que tinha no pulso acabara
de ser comprado na Cartier. - Têm tempo para almoçar ou estão
demasiado ocupadas, minhas senhoras? - Zoya preparava-se para recusar,
mas Axelle surpreendeu-a ao aceitar. E, sem mais delongas, Simon Hirsch
fez sinal a um táxi e indicou a morada do novo Hotel George V. - Servem
almoços excelentes. Fiquei lá da última vez que estive em Paris. - Exibia
uma expressão grave, quando se aproximaram do hotel, mesmo à saída
dos Campos Elísios. - Nessa altura, há um no, fui à Alemanha, mas desta
vez não vou voltar. Foi extremamente desagradável. - Não se alargou
sobre o tema pois saíram e, ao chegarem à sala de jantar, o chefe de mesa

conduziu-os a uma mesa excelente. Mandaram vir o almoço, e ele
perguntou a Axelle se iam a mais algum lado, mas ela respondeu que
apenas tinham tempo para Paris. - Coniprei uns tecidos fantásticos em
Inglaterra e na Escócia antes de vir por causa da minha linha de homem.
Belos artigos - replicou, encomendando o vinho, e Zoya manteve-se muito
quieta na cadeira a observá-lo. - Contudo, não voltaria a pôr os pés na
Alemanha - garantiu novamente. - Sobretudo com toda esta situação do
Hitler.
- Acha que ele vai realmente fazer o que se diz por aí? - Zoya ouvira
falar na sua hostilidade para com os Judeus, mas não sabia bem se devia
acreditar.
- Não me parece que haja qualquer dúvida. Os nazis criaram uma
atmosfera de anti-semitismo que se infiltrou por todo o país. Quase têm
medo de falar uns com os outros. Na minha opinião, conduzirá a um
grave problema. - Os olhos mostravam-se calmos mas com um brilho de
raiva, e Zoya esboçou um aceno de cabeça.
- Parece difícil de acreditar. - No entanto, também a revolução o era.
- Esse tipo de loucura é sempre. A minha família deixou a Rússia por
causa dos massacres dos judeus. E agora estão a começar aqui,
obviamente de uma forma mais subtil, mas não muito. Não há nada de
muito subtil na caça aos Judeus. - Os olhos emitiam um fulgor de raiva e
as duas mulheres escutavam-no. Depois, e como que para mudar de
assunto, virou-se para Zoya com um sorriso interessado. - Quando deixou
a Rússia, condessa?
- Por favor, trate-me por Zoya. - Corou, embaraçada. - Na "vida real",
o meu nome é Zoya Andrews. - Os olhos encontraram-se e mantiveram-se
fixos e, depois, ela desviou o rosto antes de responder à pergunta. - saí da
Rússia em mil novecentos e dezassete. Logo após a revolução.
- Deve ter passado uma época dificil. A sua família acompanhou-a?
- Só a minha avó. - Agora já era capaz de falar no asinito. Levara
quase vinte anos a consegui-lo. - Os outros foram mortos antes de virmos,
a maioria. E alguns, um ano mais tarde. - Hirsch não se apercebeu de que
ela se referia ao czar, nunca lhe ocorrendo que estivesse tão bem
relacionada.
- E foi, então, para Nova lorque?
- Não. - Sorriu agradavelmente, enquanto o empregado servia o vinho.
Era um vinho óptimo de 1926, encomendado por Sinion. - Viemos para
Paris. Vivi aqui dois anos antes de ir para Nova lorque com o meu
marido. - Os olhos dele procuraram a aliança e verificaram com pena que
ainda continuava no dedo, mas Axelle também deu pelo olhar e conhecia
Zoya o suficiente para saber que ela não daria mais explicações.
- A condessa é viúva - interferiu providencialmente, e Zoya fitou-a,

aborrecida.
- Desculpe - pronunciou em tom grave, mas era visível que a
informação lhe interessava. - Tem filhos?
- Dois. Um filho e uma filha. - Parecia orgulhosa quando respondeu
e ele sorriu. - E o senhor, Mister Hirsch? - Estava apenas a ser delicada
enquanto aguardavam o almoço, mas Axelle parecia muito satisfeita com
a conversa. Gostava dele e era óbvio que estava muito interessado em
Zoya. - Também tem filhos?
- Não. - Sorriu, abanando a cabeça com uma expressão de pena. -
Nunca casei, nem tive filhos. Não tive tempo. Passei os últimos vinte anos
a construir um negócio. A maior parte da minha família trabalha para
mim. O meu pai só se reformou no ano passado e penso que a minha mãe
finalmente desistiu. Considera que, se não me casei até aos quarenta, já
não há muita esperança que o faça. Costumava pôr-me doido. Sou filho
único e ela queria dez netos ou coisa assim.
Zoya sorriu maliciosamente, recordando as suas primeiras conversas
com Mashkca, de como falavam em quantos filhos desejavam. Ela queria
seis e Mashka quatro ou cinco, mas nenhuma das suas vidas correra como
esperavam.
- Possivelmente casará daqui a uns anos e irá surpreendê-la com cinco
pares de gêmeos.
Simon. Hirsch fingiu engasgar-se com o vinho e depois pareceu
divertido.
- Terei de lhe dizer isso... ou talvez não, para que não me venha com
a mesma conversa. - Nessa altura trouxeram o almoço, finos croquetes de
peixe para Axelle e codorniz para Zoya. Ele encomendara um bife e
desculpou-se pelo seu gosto típico americano. - Posso fazer-lhes perguntas
sobre a vossa viagem de compras, minhas senhoras, ou é tudo muito
secreto? - Zoya sorriu e trocou um olhar com Axelle, parecia muito
descontraída e respondeu em lugar dela.
- Não acho que tenhamos muitos segredos a esconder-lhe, Mister
Hirsch, excepto talvez o dos nossos casacos. - Todos riram e Zoya falou-
lhe em algumas das coisas que haviam comprado, sobretudo das camisolas
a Schiaparelli.
- Aquele pulôver novo que ela está a fazer é sensacional - replicou
Zoya com uma expressão satisfeita. - E os sapatos que encomendámos
hoje na Dior são uma maravilha.
- Terei de ir à loja ver tudo quando chegar. Compraram algum do
novo rosa shockíng da Elsa? - Gostava muito da cor, estava a planear
inseri-Ia na nova linha e interrogava-se sobre a opinião de Zoya.
- Ainda não tenho muitas certezas a esse respeito. É um pouco viva
para algumas das nossas clientes.

- Acho-a fantástica.
Zoya sorriu. Era tão estranho ouvir aquele homem de aspecto rude,
que mais parecia um jogador de futebol, a discutir o rosa shocking de Elsa
Schiaparelli, mas não havia dúvida de que os casacos dele eram os de
melhor corte dos Estados Unidos e era óbvio que tinha olho para a moda
e as cores e sabia o que estava a fazer.
- O meu pai era alfaiate - explicou Hirsch -, e o pai dele também.
Abriu a Hirsch & Co. com os dois irmãos no Lower East Side. Faziam
roupas e casacos para as pessoas conhecidas e depois alguém da Sétima
Avenida ouviu falar deles, começou a encomendar-lhes artigos e o meu
pai mandou tudo para o diabo... - Olhou com uma expressão de desculpa
para Zoya que estava por demais interessada na história para se
preocupar com a linguagem. ... Mudou-se para a Sétima Avenida, abriu
uma oficina e, quando entrei no negóio, virei tudo de pernas para o ar
com uma coisa chamada... moda.
"Tivernos bastantes discussões - prosseguiu -, e, quando os meus tios
se reformaram, atirei-me de cabeça, com lãs inglesas e algumas cores que
quase puseram o meu pai a chorar. Também começámos a fazer casacos
de senhora e... bom, nos últimos dez anos chegámos onde eu tinha
previsto de iníio. É uma linha de qualidade, sobretudo agora que o meu
pai se reformou e levo novos modelos de Paris.
- É uma história interessante, Mister Hirsch - comentou Axelle. Era
o tipo de história que construíra o sucesso do seu país adoptado. - Os seus
casacos são lindíssimos. Vendemo-los muito bem.
- Fico satisfeito. - Sorriu e via-se que era um homem que estava à
vontade na sua pele. Fizera um enorme sucesso e quase sozinho. - O meu
pai disse que eu ia arruinar o negócio. Foi um verdadeiro voto de
confiança quando se retirou no ano passado e agora finge que já não está
interessado. Mas, sempre que saio, os meus alfaiates e costureiras dizem-
me que ele aparece às escondidas e controla os ateliers. - Zova riu e ele
virou-se de novo para ela. - E a senhora, condessa... desculpe, Zoya...
como foi parar à Axelle's?
- Oh! - Riu, sentindo-se estranhamente à vontade com ele e mais
próxima de Axelle do que alguma vez até então. - Por um longo e difícil
caminho. - Depois, fez uma expressão séria. - Perdemos tudo no crash de
vinte e nove - replicou com honestidade, e Axelle também sabia desse
pormenor. - De uma noite para a outra, tivemos de vender as nossas duas
casas, a mobília, as minhas roupas e peles, até mesmo a louça de
porcelana.
Era a primeira vez que falava realmente do assunto a Axelle e com à-
vontade.
- Tinha dois filhos para sustentar e praticamente nenhuma

especialidade. Dançei com os Ballets Russes aqui em Paris durante a
guerra e também com outra companhia de bailado, nas em mil novecentos
e vinte e nove tinha trinta anos e um pouco de idade a mais para voltar
a dançar no ballet.
Fitou-os com um sorriso divertido, e Axelle não estava de forma
alguma preparada para o que ouviu a seguir.
- Candidatei-me às Ziegfeld Follies, mas não tinha altura bastante e
por isso consegui um emprego a dançar num teatro de terceira categoria.
Axelle quedou-se boquiaberta, e Simon Hirsch fitou-a com um enorme
respeito. Não eram muitas as mulheres capazes de passar da riqueza à
miséria tão corajosamente nem de admitir terem dançado num clube.
- Deves sentir-te surpreendida, Axelle. Ninguém sabe disto, nem
mesmo os meus filhos. Foi horrível. Trabalhei lá durante um ano e meio
e detestei cada minuto. Uma noite... - Os olhos encheram-se-lhe de
lágrimas ante a recordação. - Uma noite houve um incêndio horrível
quando eu estava a trabalhar e quase perdi os meus filhos. Eles são tudo
o que me interessa e não podia deixá-los mais vezes sozinhos à noite; por
isso, meti o que restava em dois caixotes, mudei-me para um hotel, um
amigo emprestou-me cem dólares e bati à porta da Axelle.
"Acho que ela nunca soube como eu estava desesperada - rematou
com um olhar grato para a amiga, enquanto AxelIe tentava deglutir o que
acabara de ouvir, sentindo vontade de chorar. - E tive muita sorte por me
ter dado emprego. Nunca saí de lá e espero não sair. - Sorriu aos seus
ouvintes, sem saber quanto os comovera, sobretudo Simon. - E todos
viveram muito felizes para sempre.
- Que história! - exclamou ele, surpreendido, e AxelIe levou um lenço
rendado aos olhos.
- Porque não me contaste tudo isso nessa altura?
- Receava que não me contratasses. Teria feito tudo para conseguir
esse emprego. Fui mesmo ao ponto de me vangloriar do título, algo que
nunca fizera antes. - Riu, bem-humorada. - Se o tivesse feito, tenho a
certeza de que me poriam a dançar enquanto alguém gritava dos
bastidores: "E agora a nossa condessa!"
Riram os três, mas Zoya mais à vontade do que os outros. Eles
continuavam impressionados com a história e só Axeflc sabia como as
pessoas teriam sido maldosas, se soubessem que a condessa Ossupov
dançara numa espécie de cabaré.
- Na vida faz-se o que tem de se fazer - replicou. - Durante a guerra,
alguns dos nossos amigos chegaram a apanhar pombos no parque para
comer. - Simon interrogou-se sobre o que mais teria vivido. A revolução
fora certamente um golpe brutal, com a morte de toda a família antes de
ela ter fugido. Havia muito mais naquela figura vestida com o bonito fato

de linho cor-de-rosa. Muito mais. E ele queria saber tudo. Foi com pena
que viu o almoço chegar ao fim e as deixou no Ritz a caminho de se
encontrar com o representante de uma fábrica francesa de onde queria
encomendar mais tecidos.
Apertou a mão a Zoya, que se mantinha junto ao táxi, e observou-a
demoradamente ao afastar-se, pensando em como ela era uma mulher
incrível. Queria saber tudo sobre ela, como escapara, como sobrevivera,
qual era a sua cor favorita, o nome do cão, os piores medos enquanto
criança.
Parecia-lhe uma loucura, mas, no espaço de uma mera tarde, sabia
que se apaixonara pela mulher dos seus sonhos. Levara quarenta anos,
mas encontrara-a numa tarde, em Paris, a cinco mil quilómetros de casa.

CAPITULO 36

Foi com pena que Zoya viu chegar ao fim a viagem. Tinham-se
divertido bastante e, na última noite, haviam jantado no Cordon Bleu e
regressado devagar ao hotel. Axelle desejou-lhe uma boa noite de sono e
agradeceu-lhe a ajuda na escolha da linha de Outono para a loja. Ainda
estava surpreendida com a história que Zoya contara ao almoço, há uns
dias, quando haviam almoçado no George V com Simon Hirsch. Conferiu-
lhe uma nova sensação de respeito pela coragem de Zoya.
Não voltaram a encontrá-lo e Zoya interrogou-se sobre se ainda
estaria na cidade. Deixara-lhe um bilhete a agradecer-lhe o almoço e a
desejar-lhe sorte para o resto da viagem e depois tinham andado ocupadas
com o negócio. Haviam comprado os chapéus e, por fim, algumas das
jóias na Cas& Chanel.
No último dia, Zoya fora às compras para os filhos. Descobrira, de
facto, o vestido vermelho que Sasha desejava e comprou para Nicholas um
bonito casaco, alguns livros em francês, língua que ele falava muito bem,
e um pequeno relógio de ouro na Cartier que lhe lembrava o de Clayton.
Comprou ainda para Sasha uma boneca francesa e uma pulseirinha em
ouro.
Tinha as malas carregadas com o que lhes comprara e já fechadas e
preparadas para a viagem de volta ao Havre na manhã seguinte.
Contudo, havia algo mais que estava a planear fazer essa noite e de que
não falara. a Axelle.
O dia seguinte era a Páscoa russa e decidira, depois de muita
hesitação, ir à missa da meia-noite na catedral russa de Santo Alexandre
Nevski. Fora uma resolução dificil de tomar. Tinha ido lá no passado,

acompanhada por Clayton, Vladimir e Eugenia. Sabia, porém, que era
incapaz de deixar Paris sem lá voltar uma vez mais. Era como se uma
parte dela continuasse ali e jamais ficaria livre enquanto não regressasse
lá c enfrentasse a situação. Nunca mais voltaria a casa. Sampetersburgo
ficava demasiado longe, mas esta última peça do que fora a sua vida tinha
de ser tocada e agarrada e sentida uma última vez, antes de regressar a
Nova Iorque e até junto dos filhos.
Despediu-se de Axelle e, às onze e meia, desceu as escadas e mandou
parar um táxi. Indicou ao motorista o endereço na Rue Daru e, quando
a viu, susteve a respiração... Ainda era a inesnia... nada tinha mudado
desde a véspera de Natal, há muito tempo, quando lá fora com a avó e
Clayton.
O oficio religioso ofereceu a mesma beleza de que se recordava e
manteve-se solenemente de pé com os outros russos, cantando e
participando no serviço, erguendo a vela e chorando em silêncio, sentindo
a falta de todos e ao mesmo tempo a proximidade deles.
Estava triste e ao mesmo tempo estranhamente em paz quando se
deteve depois na catedral, observando os outros a falar baixinho. E
subitamente avistou um rosto conhecido muito idoso e gasto, mas teve a
certeza de que se tratava de Yelena, a filha de Vladimir. Não lhe falou,
limitando-se a descer lentamente os degraus e fitou o céu nocturno com
um sorriso, desejando todo o bem às almas que haviam feito parte da sua
vida...
Fez sinal a um táxi e regressou ao hotel, sentindo-se mais velha do
que desde há muito tempo e, quando se meteu na cama, chorou, mas
eram as lágrimas de um desgosto que o tempo sarara e que agora só
algumas vezes era lembrado.
De manhã, não disse nada a Axelle. Apanharam o comboio para o
Havre e subiram a bordo do Queen Mary. Os camarotes eram os mesmos
onde tinham vindo e Zoya ficou a observar quando o navio largou,
lembrando-se de quando fora para os Estados Unidos no París, com
Clayton.
- Parece tão triste... - A voz mesmo ao lado dela sobressaltou-a e, ao
virar-se, deparou com Simon, olhando-a com ternura. Axelle ficara lá em
baixo a desfazer as malas e ela subira, sozinha com os seus pensamentos.
Fitou-o com um sorriso tímido. O cabelo de Simon agitado pelo vento
dava-lhe um ar ainda mais rude.
-Triste, não. Apenas recordava.
- Teve uma vida interessante. Desconfio que ainda mais do que nos
contou ao almoço.
- O resto já não interessa. - Fixou o mar sem o olhar e ele ansiava por
lhe tocar na mão, por fazê-la sorrir, por fàzer com que se sentisse feliz e

jovem. Era tão séria e, naqule, momento quase solene. - O passado só
vale por aquilo em que nos torna, Mister Hirsch. Foi dificil voltar aqui,
mas ainda bem que o fiz. Paris está cheia de recordações para mim. - Ele
esboçou um aceno de cabeça, desejando saber mais sobre a vida dela do
que o pouco que lhe contara.
- Deve ter sido duro aqui durante a guerra. Também quis ir, mas o
meu pai não me deixou. Acabei por me alistar, mas era tarde de mais.
Nunca saí dos Estados Unidos. Acabei numa fábrica da Jórgia. Uma
fábrica têxtil, claro. - Sorriu. - Pareço destinado a não escapar ao negócio
dos trapos. - Voltou a fazer uma expressão séria. - Mas deve ter passado
um mau bocado.
- Passei. Mas o nosso destino foi mais fácil do que o daqueles que
ficaram na Rússia. - Pensava em Mashka e nos outros e Simon receou ser
intrometido. De qualquer maneira, não queria afugentá-la e ela era tão
bonita, imersa nos pensamentos. - Não que isso seja importante para si. -
Sorriu. - Fez uma boa viagem de compras?
- Sim. E a sua?
- Óptima. Acho que a Axelle está satisfeita com tudo o que
encomendámos. - Depois fez menção de o deixar e ele desejou puxá-la
para si fisicamente, antes que pudesse voltar a fugir-lhe.
- Janta comigo esta noite?
- Terei de perguntar à Axelle o que ela quer fazer. Mas muito
obrigada. Tornarei o convite extensivo à minha amiga.
Queria vincar que não estava disponível. Gostava multo dele, mas
sentia-se vagamente desconfortável na sua presença. Havia algo de tão
intenso nos olhos dele, o aperto de mão era tão vigoroso; até mesmo o
braço com que a conduziu no momento em que o navio começou a vogar
era forte de mais, e tinha toda a intenção de lhe resistir. Quase lamentou
estarem no mesmo navio. Ignorava se desejava vê-lo coas muita
frequência. Porém, ao mencionar o convite a Axelle, ela mostrou-se
encantada.
- Claro que aceito. Vou deixar-lhe um bilhete.
Juntou o gesto à palavra e depois horrorizou Zoya, ammciando à
última hora que se sentia enjoada com o balançar do navio e deixou Zoya
sozinha com ele na sala de jantar, o que não correspondia ao seu desejo.
Contudo, minutos depois, esquecera a sua hesitação e verificou que
apreciava o momento. Ele descreveu-lhe o ano que passara na Jórgia na
fábrica de têxteis e disse que não conseguia entender uma palavra do que
diziam devido ao arrastado sotaque do Sul. Por fim, e como vingança,
pusera-se a filar-lhes em iídiche. Zoya riu e ficou a ouvi-lo a falar da
família. A mãe parecia quase tão tirânica como a dela, embora fossem de
ascendências muito diversas.

- Talvez todas as russas sejam assim - troçou -, embora a minha mãe
fosse, na verdade, alemã. E graças a Deus que a minha avó não era como
ela. Era extraordinariamente boa, tolerante e forte. Em muitos aspectos
devo-lhe a vida. Penso que teria gostado muito dela - garantiu, à
sobremesa.
- Estou certo que sim. - E, em seguida, incapaz de se dominar: - É
uma mulher espantosa. Gostaria de a ter conhecido há muito tempo.
Zoya riu perante a ideia.
- Talvez não tivesse gostado tanto de mim. A adversidade tem o
condão de nos humilhar e nessa altura era mimada. - Pensava nos dias de
luxo em Sutton Place. - Os últimos sete anos ensinaram-me muita coisa.
Sempre pensei durante a guerra que, se a minha vida voltasse a ser
confortável, nunca tomaria nada como garantido, mas tomei. Agora,
aprecio tudo... a loja... o meu emprego... as crianças... tudo. - Ele sorriu,
cada vez mais apaixonado.
- Quero saber coisas sobre a sua vida antes disso, na Rússia. - Nesse
momento, já estavam a passear no convés. O suave balouçar do navio não
a incomodava e a noite arrefecera um pouco, pelo que ajeitou a gola.
Usava um vestido de noite de cetim cinzento, copiado de um modelo de
Madame Grès pela costureirinha de Axelle, e um casaco de raposa
prateada que trouxera emprestado da loja, mas, com ou sem roupa
emprestada, estava lindíssima quando ele baixou os olhos na sua direcção.
- Porque quer saber? - perguntou Zoya, intrigada. O que podia
interessar-Ihe? Seria mera curiosidade ou algo mais? Ignorava o que ele
pretendia, mas sentia-se estranhamente segura ao lado dele.
- Quero saber tudo a seu respeito. É uma mulher tão cheia de beleza,
força e mistério. - Expressava-se de uma forma séria quando a olhou e fê-
la sorrir. Nunca ninguém lhe dissera algo assim, nem mesmo Clavton, mas
nessa altura era muito mais jovem, quase uma criança. E era muito mais
velha agora e mais experiente do que a rapariga que fora outrora.
- Já sabe bastante mais do que qualquer outra pessoa. - Sorriu. -
Nunca tinha confessado a ninguém que fui corista, - E depois sorriu,
sentindo-se novamente jovem e maliciosa. - A pobre Axelle quase caiu da
cadeira, não foi? - Simon riu também.
- Também eu - confessou. - Nunca tinha conhecia uma bailarina desse
gênero.
- Pense em como a sua mãe ficaria contente! - Riu outra vez. Ele
acompanhou-a e depois Zoya pôs-se outra vez séria. - De qualquer
maneira, não acho que gostasse de me conhecer. Os seus pais deixaram
a Rússia para fugir aos massacres de judeus. Duvido que tenham muita
simpatia por russos.
- Conheceu a família imperial em criança? - Não queria embaraçá-la

concordando com ela, mas Zoya tinha sem dúvida razão. A mãe referia-se
de vez em quando ao czar como uma figura odiada, responsável por todo
o seu infortúnio, e o pai era mais suave, mas não muito. Reparou,
contudo, que ela o fixava calmamente, pesando algo na mente, e depois
esboçou um aceno de cabeça quase imperceptível.
- Sim. Conheci. - Hesitou somente uma fracção de segundo. - O czar
e o meu pai eram primos. Cresci praticamente com eles. - Em seguida,
falou-lhe de Mashka, dos Verões em Livadia e dos Invernos no Palácio
Alexandre na sua companhia. - Ela era como minha irmã. Quase morri
ao receber a notícia, e em seguida... apareceu o Clayton... Casámos pouco
depois. - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e ele pegou-lhe na mão,
maravilhado com a sua força e coragem. Assemelhava-se a conhecer
alguém de um outro mundo, um mundo que sempre o fascinara. Tinha
lido livros sobrc o czar enquanto jovem, para grande tristeza da mãe,
mas sempre desejara saber mais sobre o homem que ele fora. E agora
Zoya contava-lhe, dando-lhe vida com toda a suavidade e encanto que o
haviam caracterizado. Fazia-o ver o outro lado do czar, aquele com que
não estava familiarizado. - Acha que haverá outra guerra? - Parecia
incrível que na sua vida ocorressem duas grandes guerras, mas algo lhe
dizia que não era impossível e Simon concordava com ela.
- Penso que é possível. Espero que não. - Parecia sério ao pronunciar
as palavras.
- Também eu. Foi tão terrível e morreram tantos jovens. Há vinte
anos, Paris ficou devastada. Todos tinham partido para a guerra. Não
consigo imaginar tudo novamente. - Sobretudo agora que tinha um filho,
e pô-lo a par dos seus receios.
- Um dia, gostava de conhecer os seus filhos.
Zoya sorriu.
- São engraçados... O Nicholas é um rapazinho muito sério. E a Sasha
é um pouco mimada. Era a menina dos olhos do pai.
- Parece-se consigo? - Sentia-se intrigado com tudo, mas ela abanou
a cabeça.
- Não. Parece-se mais com ele. - Não o convidou, porém, para ir
visitá-los em Nova lorque. Continuava a desejar manter uma certa
distância. Ele era tão agradável e simpático, mas a forma como se sentia
à vontade na sua presença assustava-a e não queria começar nada com
ele.
Simon acompanhou-a até ao camarote ao lado do de Axefle e deixou-
a à porta com uma expressão de desejo, que ela igriorou. E, no dia
seguinte, quando foi passear pelo convés com Axelle, ele parecia esperá-
las. Convidou Zoya para um jogo de marelas, convidou-as para almoçar,
o que Axelle aceitou antes de Zoya conseguir pronunciar uma palavra, e

a tarde pareceu voar. Voltaram a jantar com ele e nessa noite Simon
levou-a a dançar, mas ele sentiu-a retraída e perguntou-lhe porquê,
enquanto passeavam no convés depois.
- Talvez porque tenha receio - respondeu, erguendo o rosto para o
dele, no escuro, e decidindo ser honesta.
- De quê? - Sentia-se magoado. Não lhe queria mal nenhum. Muito
pelo contrário.
- De si. - Sorriu. - Espero não parecer indelicada.
- Indelicada, não, mas sinto-me confuso. Assusto-a? - Ninguém lhe
fizera uma acusação do gênero até então.
- Um pouco. Talvez tenha mais medo de mim do que de si. Passou
muito tempo desde que um homem me levou a algum lado e muito menos
a jantar e a dançar num navio. - Lembrou-se novamente da sua viagem no
Paris com Clayton, mas isso fora durante a lua-de-mel. - Não houve
ninguéri, desde o meu marido. E não quero mudar a situação agora,
- Porque não? - Parecia surpreendido.
- Oh... - Deu a sensação de que reflectia, enquanto falavam. - Porque
sou velha de mais, porque tenho de pensar nos meus filhos... porque
amava muito o meu marido... Talvez por todos esses motivos, suponho.
- Não posso discutir o amor que tinha ao seu marido, mas é ridículo
que se imagine velha de mais. Em que é que isso me torna? Tenho mais
três anos!
- Oh, céus... - exclamou Zoya. - Bom, mas para si é diferente. Nunca
foi casado. Eu fui. Para mim, faz parte do passado. - Parecia segura e ele
mostrou-se aborrecido.
- Que coisa ridícula! Como pode dizer isso na sua idade? As pessoas
apaixonam-se e casam todos os dias, pessoas que enviuvaram e se
divorciaram... Algumas delas são mesmo casadas... e algumas delas têm o
dobro da sua idade!
- Talvez eu não seja tão interessante como elas - Sorriu, e ele abanou
a cabeça com uma expressão triste.
- Aviso-a de que não vou ficar sentado e aceitar a situação. Gosto
muito de si. - Baixou o rosto, fitou-a com os calorosos olhos castanhos e
ela sentiu despertar algo no seu íntimo que se mantinha adormecido há
anos.- Não teiiciono desistir. Faz ideia do que é o mundo para mim?
Raparigas de vinte anos que soltam risadinhas quando falam, mulheres de
vinte e cinco histéricas por ainda não terem casado, divorciadas de trinta
anos que querem alguém que lhes pague renda e mulheres de quarenta,
tão desesperadas que me assustam de morte. Não conheci ninguém que
me pusesse assino tão louco nos últimos vinte anos e não tenciono ficar
sentado a ouvir que é velha de mais. Entendido, condessa Ossupov? -
Zoya sorriu ante as palavras e riu involuntariamente quando ele

acrescentou: - E aviso-a que sou um homem muito teimoso. Tenciono
persegui-la, nem que tenha de montar uma tenda à porta da loja da
Axelle. Parece-lhe sensato?
- Nada mesmo, Mister Hirsch. Parece-me um absurdo total. -
Contudo, sorriu.
- Óptimo. Vou encomendar a tenda, assim que chegarmos a Nova
lorque. Excepto, claro, se aceder a jantar comigo na noite em que
voltarmos.
- Há três semanas que não vejo os meus filhos - replicou, com nova
gargalhada. Contudo, tinha de confessar que gostava bastante dele.
Talvez ele acabasse por concordar em serem apenas amigos.
- Muito bem, então - acedeu. - No dia seguinte. Pode trazer os seus
filhos. Talvez sejam mais sensatos do que a mãe. - Levantou-lhe o queixo
e fitou os olhos verdes que lhe haviam roubado o coração desde o
primeiro momento em que a vira na Loja Schiaparelli.
- Não esteja assim tão seguro - redarguiu, pensando nos filhos. - São
muito dedicados à memória do pai.
- O que é bom - replicou tranquilamente. - Contudo, tem direito a
mais do que isso na sua vida e eles também. Há tanta coisa que pode
fazer por eles. O seu filho necessita de um homem por perto e a sua filha
possivelmente também.
- Talvez. - Não recuara nem um passo quando ele a acompanhou ao
camarote, mas Simon apanhou-a de surpresa ao beijá-la suavemente nos
lábios. - Por favor, não volte a fizer isso - sussurrou, sem a mínima
convicçäo.
- Não o farei - anuiu e repetiu o beijo.
- Obrigada. - Ela esboçou um sorriso sonhador e um momento depois
fechou-lhe a porta na cara, enquanto ele suhia até ao seu camarote, com
um sorriso de rapazinho.

CAPíTULO 37

O romance aconteceu, embora ela não quisesse, enquanto
prosseguiam viagem rumo a Nova lorque. Jantavam e dançavam,
beijavam-se e falavam. E ela sentia-se como se o tive conhecido toda a sua
vida. Nutriam os mesmos interesses, os mesmos gostos e até os mesmos
receios. Axelle deixou-os à vontade e ria intimamente ao observá-los de
longe. Na última noite, encontravam-se no convés quando Simon a fixou
com uma expressão triste.
- Vou sentir terrivelmente a tua falta, Zoya.

- Também eu sentirei a tua - confessou -, mas tem de ser assim. -
Estava a divertir-se demasiado na companhia dele e sabia que tinha de
parar, mas não se recordava exactamente porquê. Tudo fizera sentido há
uns dias, mas deixara de fazer. Queria tanto estar com ele quanto ele a
desejava, e agora regressavam a Nova lorque e voltariam às suas vidas. -
Nunca devíamos ter começado isto, Simon - disse, e ele olhou-a, sorrindo.
- Estou apaixonado por ti, Zoya Ossupov. - Adorava o som do nome
russo e de vez em quando continuava a espicaçá-la sobre o título que ela
odiava usar, mas fazendo-o em trabalho.
- Não digas essas coisas, Simon. Só tomará tudo mais difícil.
- Quero casar contigo. - Pronunciou a frase calmamente, sem uma
sombra de dúvida na voz, e ela fitou-o com uma expressão infeliz.
- É impossível.
- Não é nada. Vamos para casa dizer às crianças que estamos
apaixonados.
- Que loucura. Acabámos de nos conhecer. - E nem sequer fizera
amor com ele. Continuava assustada e ligada pela lealdade ao falecido
marido.
- De acordo. Esperemos uma semana. - Zoya riu e ele beijou-a
novamente. - Casas comigo?
- Não.
- Porquê?
- Porque és doido. - Riu por entre os beijos. - Podes mesmo ser
perigoso, tanto quanto sei.
- Serei muito perigoso se não casares comigo. Já viste algum judeu
russo apaixonado enlouquecer a bordo de um navio inglês? Causaria um
incidente diplomático internacional! Pensa nas pessoas que perturbarias...
Acho que é melhor dizeres que sim... - Voltou a beijá-la.
- Simon, por favor... sê sensato... Podes odiar-me quando me vires de
novo em Nova lorque.
- Digo-te amanhã à noite. Se assim não for, casas comigo?
- Não! - Havia alturas em que era impossível falar com ele e noutras
parecia capaz de lhe perscrutar a alma.
Agarrou-lhe com força nas mãos e fitou-a bem no fundo dos olhos.
- Nunca na minha vida pedi a uma mulher que casasse comigo. Estou
apaixonado por ti. Sou um homem responsável. Tenho um negócio. A
minha família acha-me muito inteligente. Suplico-te, Zoya... por favor,
querida... por favor, casa comigo.
- Oh, Simon! Não posso - retorquiu, infeliz. - O que pensariam os
meus filhos? Dependem inteiramente de mim e não estão preparados para
verem entrar uma pessoa na vida deles. Nem eu. Há demasiado tempo
que estou só.

- Estás, sim - anuiu calmamente. - Mas não tens de ficar para sempre.
Pensarás no assunto?
Hesitou e depois cedeu e olhou-o.
- Sim... mas tal não significa que daí advenha algo. - Contudo, aquela
promessa bastava-lhe e ficaram sentados, horas a fio, no convés, e na
manhã seguinte ele foi bater-lhe à porta do camarote, às sete horas.
- Anda ver a Estátua da Liberdade comigo.
- A esta hora? - Quando lhe abriu a porta ainda estava le camisa de
noite e o cabelo pendia-lhe numa longa trança sobre as costas. - Que
horas são?
Sinion sorriu ao deparar com a camisa de noite e a trança.
- Horas de te levantares, preguiçosa. Podes vestir-te depois. Pöe
apenas um casaco e calça-te. - Zoya enfiou o casaco de marta que Axelle
lhe dera há uns anos e riu, calçando os sapatos de salto alto e seguindo-o
até ao convés naquele estranho preparo.
- Se alguma das minhas clientes me vir, não voltará a confiar na
minha opinião.
- Óptimo. Nesse caso, talvez a Axelle te despeça e eu possa salvar-te
de um terrível destino. - Contudo, ambos se calaram ao avistar a linha do
horizonte de Nova lorque e a Estátua da Liberdade, para onde navegavam
devagar. - É lindíssimo, não?
- É - concordou Zoya com um feliz aceno de cabeça; agora olhava
novamente para o futuro.
Tudo aqui lhe parecia novo e com vida, e o mero facto de olhar fazia
com que se sentisse outra vez bem. Simon virou-se e abraçou-a,
mantendo-a muito apertada de encontro ao corpo enquanto se
aproximavam do cais. Depois, ela desceu apressadamente as escadas para
se vestir e fechar as malas.
Não voltou a vê-lo até estarem prontas a deixar o navio. Ofereceu-lhes
boleia, mas recusaram, pois Axelle tinha um carro à espera. Contudo, ele
seguiu-as ao longo da plataforma de desembarque levando-lhes as inalas
pequenas e, de súbito, Zoya soltou um gritinho e precipitou-se para
diante.
Nicholas esperava-a no cais, perscrutando a multidão e parecendo tão
bonito e jovem. Correu para ele, prominciando-lhe o nome e o filho voou
para os seus braços e apertou-a. Viera sozinho depois de levar Sasha ao
colégio e era óbvio quanto ela amava o jovenzinho.
Simon observou-os, invejoso, enquanto ajudava Axelle e depois
dirigiu-se ao sítio onde Zoya estava com o filho, apertou-lhe a mão com
um ar solene e sorriu ao miúdo. Gostaria de ter tido um filho assim,
sobretudo ao ver quanto ele se parecia com Zoya.
- Olá. Sou o Simon Hirsch - apresentou-se quando o jovem ergueu o

rosto na sua direcção. - Deves ser o NichoIas. - Nicky esboçou um sorriso
tímido e depois riu.
- Como é que sabe?
- A tua mãe passa o tempo a falar de ti.
Também falo muito dela. - Sorriu, rodeando-lhe os ombros com o
braço e Zoya observou como ele crescera. Tinha quase quinze anos e era
quase tão alto como Clayton o fora. - Divertiste-te? - perguntou enquanto
esperavam peIas nelas dela para que o agente da alfândega as
inspeccionasse.
- Sim. Mas senti muito a tua falta. - Depois dirigiu-se-lhe em russo e
ele riu e Simon também e ela apercebeu-se de que ele entendera. - Não
é justo! - Dissera-lhe que tinha o cabelo comprido de mais e parecia um
adorável cão peludo. Contudo, Nicholas interessou-se subitamente por
Simon ao aguardarem juntos na doca.
- Fala portanto russo, sir?
- Um pouco. Os meus pais são de Vladivostoque. A minha mãe
costumava dizer-me esse tipo de coisas em russo e algumas vezes ainda o
faz.
Todos riram e um momento depois toda a bagagem havia sido
inspeccionada e Axelle e Zoya estavam libertas e podiam ir embora.
Simon ficou a vê-Ias afastarem-se, acenando durante muito tempo e, no
carro, Nicholas voltou a dirigir-se em russo à mãe.
- Quem era?
- Um amigo da Axelle. Viajou ocasionalmente no navio connosco.
- Parece simpático. - Nicholas parecia impressionado.
- E é - anuiu Zoya num tom despreocupado e perguntou-lhe como
estava Sasha.
- Impossível como sempre. Agora quer um cão. Um perdigueiro. Diz
que vai enlouquecer-te até lhe dares um. Acho-os horríveis. Se vamos ter
um, que seja um buldogue ou um boxer.
- Quem disse que íamos ter um cão?
- A Sasha e o que a Sasha quer, ela tem - Axelle sorriu. Tinham
mudado de russo para francês, e Zoya disse-lhe que não fosse indelicado
para Axelle.
- É assim?
- Não é? - acusou Nicholas com um esboço de sorriso.
- Nem sempre. - Corou, mas ele tinha razão, pois ela era uma jovem
muito persistente e, por vezes, tornava-se mais fácil aceder, só para não
levantar problemas. - E, além disso, portou-se bem? - Zoya sabia que o
filho passara para a ver todos os dias, embora ele tivesse ficado em casa
de um amigo, e ela em casa com uma baby-sitter.
- Ontem, fez uma cena quando lhe disse que não podia ir ao cinema

com uma amiga - resmungou Nicholas. - Contudo, ainda não fizera os
trabalhos de casa e, de qualquer maneira, já era tarde de mais. Tenho a
certeza de que te vai contar assim que entrares.
- Bem-vinda a casa! - Axelle sorriu e Zoya riu-se. Sentira-lhes muito
a falta, mas sabia que agora também sentiria a falta de Simon e ele
mostrara-se muito meigo para com Nicholas quando se tinham conhecido.
- O teu amigo parecia simpático - comentou delicadamente a Axelle
no caminho para casa.
- Também acho. - Olhou intencionalmente para Zoya enquanto o
jovem continuava a tagarelar e esperava, no íntimo, que Zoya voltasse a
ver Simon depois de estarem em casa.
Pouco depois de chegar, entregaram um enorme ramo de rosas. O
cartão dizia apenas: "Não te esqueças, amo-te, S.", e ela corou e meteu o
cartão na secretária e centrou as atenções na filha que, segundo o
previsto, se queixava furiosamente do irmão.
- Cheguei agora mesmo a casa. Dêem-me um minuto para me adaptar
- proferiu Zoya a rir.
- Podemos ter um cão? - Nicholas acertara em cheio. Sasha não parou
de exigir nas duas horas seguintes e nen, mesmo o vestido novo vermelho
serviu para a dissuadir. Contudo, Nicholas estava encantado com o
relógio, as roupas e os livros novos. Deitou-lhe os braços à volta do
pescoço e beijou-a afectuosamente na face.
- Bem-vinda a casa, mainã.
- Amo-te, querido... e a ti também - acrescentou, envolvendo Sasha no
círculo dos seus braços.
- E o cão? - insistiu Sasha, e a mãe riu.
- Veremos, Sasha... veremos... - Nessa altura, o telefone tocou e foi
atender. Era Sinion, e ela agradeceu-lhe as rosas, rindo da discussão entre
Nicholas e Sasha sobre o cão.
- Ainda sentes a minha falta?
- Muito. Acho que estou a precisar de um árbitro por estes lados.
- Óptimo. Candidato-me ao emprego. Que tal jantarmos amanhã à
noite?
- Que tal um cão? - Riu e ele pareceu confuso ao ouvir toda a
excitação do outro lado da linha.
- Queres comer um cão?
- É uma ideia gira! - Riu de novo, sentindo mais saudades do que
julgara que teria.
- Vou buscar-te às oito. - Contudo, ela entrou em pânico ante a ideia.
O que diriam as crianças? O que pensaria Nicholas? Apetecia-lhe
telefonar e dizer que mudara de ideias, mas, mesmo depois de eles se
terem ido deitar, não conseguiu fazê-lo.

Na noite seguinte, Simon apareceu às oito em ponto e tocou à
campainha no preciso momento em que Zoya saía do quarto. O
apartamento era pequeno mas simples e elegante. Possuíam poucas coisas,
mas tudo de qualidade. Ele deteve-se na ombreira, parecendo maior do
que a vida e, quando Zoya o convidou a entrar, notou que Sasha o fitava.
- Quem é ele? - perguntou, enfurecendo a mãe ante a falta de
maneiras. Nicholas tinha razâo a respeito da irmã.
- Mister Hirsch. Posso apresentar-lhe a minha filha Aleandra?
- Como está? - Apertou-lhe a mão com um ar solene e nesse instante
entrou Nicholas.
- Oh, olá... Como está? - Sorriu ingenuamente e estava a dizer a Sasha
como ela era uma peste quando saíram. Zoya sorriu ao fechar a porta e
aguardaram que o elevador os transportasse.
Sentia-se preocupada com a expressão que detectara nos olhos de
Sasha. Era como se soubesse por que razão ele estava ali, mas Simon
garantiu-lhe que já estava à espera, que tinha muita resistência e não se
preocupasse.
Levou-a a jantar no 21 e falaram durante horas, como no navio. E
depois ele acompanhou-a devagar e beijaram-se suavernente a pouca
distância da casa dela.
- Não consigo suportar a tua ausência. Hoje, portei-me todo o dia
como um miúdo à espera do Natal. Porque não levamos as crianças a
qualquer lado amanhã à tarde? - Era domingo, ela não teria de trabalhar
e a ideia agradava-lhe, mas sentia-se nervosa com o que Sasha diria ou
mesmo o meigo Nicholas.
- O que pensarão as crianças?
- Que têm um novo amigo. É assim tão terrível?
- Podem voltar a ser malcriadas.
- Consigo dar a volta à situação, Zoya. Não acho que estejas a
perceber. Isto é tudo o que quero. Falei-te verdade no navio. Anio-te.
- Como sabes? Como podes estar tão seguro? - Continuava a ter
medo do que sentia por ele, mas também tivera saudades o dia inteiro e
detestava a ideia de o deixar agon, mesmo até ao dia seguinte. Como era
possível? Como lhe acontecera depois de todos aqueles anos? Sabia que
também ela estava apaixonada. Só não sabia ainda como lidar com a
realidade. Continuava a desejar fugir, mas já não tinha certezas quanto a
ser capaz.
- Deixa correr as coisas, meu amor. - Voltou a beijá-la. - Virei buscar-
vos ao meio-dia.
- És um homem muito corajoso.
- Não tanto como tu, meu amor. - Sorriu-lhe, feliz. - Até amanhã.
Talvez vamos dar um passeio de carro a qualquer lado.

- As crianças iam adorar.
E na manhã seguinte, quando ele chegou, apesar das queixas de Sasha
de que queria brincar com as bonecas, foram de carro até Long Island e
gostaram imenso. Nicholas quase desmaiou ao ver o carro, um Cadíllac
novo em folha, num distinto tom verde-escuro, com pneus de jantes
cromadas e todos os extras possíveis. Nunca vira nada tão bonito, e Simon
convidou-o a sentar-se ao lado dele no banco da frente.
- Gostavas de conduzir, miúdo? - Esperou até se encontrarem numa
estrada secundária e deixou que Nicholas tomasse o volante. O rapaz
sentiu-se como se tivesse morrido e ido para o céu e Zoya observava-o do
banco traseiro, onde se sentara com Sasha.
Sinion tinha razão. O filho precisava da presença de um homem na
vida. Precisava de um amigo. A própria Sasha parecia portar-se melhor,
como há meses não o fazia, e namoriscou incrivelmente com Simon
quando as trouxe de novo a casa. Levara-as a almoçar num pequeno
restaurante que conhecia. Comeram ostras e camarões e gelado para
sobremesa.
- Bom, condessa Ossupov - troçou ele, depois de as crianças se terem ido deitar e quando estava sentado na sala com ela. - Como me portei?
Passei ou chumbei?
- O que achas? O Nicholas nunca se sentiu tão feliz na vida e penso
que a Sasha está apaixonada por ti.
- E a mãe? - indagou com uma expressão séria, fitando-a bem nos
olhos, que ela evitou para depois se virar para ele. - O que dizes, Zoya?
Casas comigo?
Sentiu-se como se tivesse engolido o coração ao sussurrar, estendendo-
lhe a mão:
- Sim... sim, Sinion. Caso. - Ele deu a sensação que ia desmaiar, e
Zoya interrogou-se sobre se teria endoidecido. Era um acto de loucura e
mal conhecia o indivíduo, mas sabia que não podia viver sem ele.
- Falas a sério? - replicou baixinho, receoso de acreditar no que ouvia,
enquanto a atraía a si e ela o fitava com um sorriso assustado.
- Falo, Sinion.

CAPITULO 38

Axelle ficou boquiaberta quando no dia seguinte Zoya a informou no
trabalho que ia casar. Esperara que a relação se desenvolvesse, mas nunca
imaginara que tudo acontecesse tão rapidamente.
- O que acham as crianças? - perguntou, enquanto Zoya a fitava,

ainda surpreendida com o que fizera, ou concordara fazer. Tinham
combinado esperar uns tempos para deixar que as crianças se
familiarizassem com ele. E Zoya não estava preparada para casar de
imediato. Depois de todos aqueles anos sozinha, Simon sabia que ela
precisava de se habituar à ideia e estava disposto a dar-lhe todo o tempo
necessário numa base racional.
- Ainda não lhes dissemos. Contudo, parecem gostar dele. - Contou-
lhe o passeio a Long Island. Fora, na verdade, um romance tumultuoso.
Apenas se tinham conhecido há semanas e, contudo, Zoya sabia que ele
era um homem bom e sabia também que o amava.
Nessa tarde, ele passou pela loja e comprou-lhe flores e a Axelle
também. A mulher mais velha sentiu-se comovida por ele não a ter
esquecido, e Hirsch agradeceu-lhe por aconipanhar o romance.
- Só não quero que ma roube depressa de mais, Mister Hirsch. -
Detestava a ideia, mas ambos lhe garantiram que avançariam devagar. E
ainda faltava apresentá-la aos pais. Havia, além disso, mais pormenores
de que se ocupar. Nesse fim-de-semana, ele sabia que as duas crianças
ficariam em casa de amigos e apareceu sem avisar no apartamento de
Zoya, no sábado de manhã. Levava um ramo enorme de lilases brancos
e exibia um sorriso misterioso em que ela fingiu não reparar.
- Parece muito contente, Mister Hirsch.
- Porque não havia de estar? Estou comprometido com uma mulher
lindíssima e espantosa. - Beijou-a, e Zoya levou os lilases para a cozinha
a fim de os arranjar e foi lá que Simon a encontrou, escolhendo uma jarra
de pesado cristal. Comprara-a por lhe lembrar uma que a mãe usava
sempre para colocar as flores do jardim do Palácio Fontanka.
- São uma maravilha, não são? - Recuou um passo para as admirar e
viu-se nos braços de Simon, que a virou suavemente para ele, beijando-a.
- Não tanto como tu. - Zoya aninhou-se silenciosamente nos seus
braços durante um momento, usufruindo de todo o seu carinho e calor.
Acariciando-lhe o cabelo, ele baixou o rosto e sussurrou, fitando-a: -
Vamos dar um passeio de carro por aí. Está um belo dia. - Sabia que ela
não tinha de andar à pressa por causa dos filhos.
- Que ideia fantástica! - aprovou Zoya com um sorriso feliz, e ele
voltou à sala de estar, enquanto ela se ia mudar para calças brancas e uma
camisola de caxemira branca.
Simon examinou as fotografias em molduras de prata espalhadas por
todo o lado e parou, surpreendido, diante de uma das crianças Romanov,
que pareciam estar de cabeça para baixo, fazendo caretas à pessoa que
tirara o retrato. E, ao observar com mais atenção, verificou que uma das
jovens com roupa de ténis era uma Zoya muito mais nova, adivinhando
correctamente que a rapariga ao lado dela era Marie e as outras as innãs

dela.
Ainda lhe custava apreender a história que ela vivera. No entanto,
fazia parte agora de um passado distante. A própria fotografia estava
apagada pelo tempo. E havia outras, de Sasha e Nicholas, e várias de
Clayton. Era um indivíduo com porte distinto e Zoya parecia muito feliz
ao lado dele.
- O que estás a fazer aqui tão quieto? - Sorriu ao voltar à sala, muito
bonita com as calças e a camisola branca. Havia momentos em que ela lhe
fazia recordar Katherine Hepburn.
- Estava a observar algumas das tuas fotografias. O Nicholas parece-se
muito com o pai, não?
- Por vezes. - Sorriu. - E também um pouco com o meu pai. - Pegou
numa grande moldura em prata que tinha uma fotografia dos pais e
estendeu-a a Simon. - E ainda com o meu irmão. - Apontou para outra
fotografia em cima da mesa, e Simon esboçou um aceno de cabeça.
- Parecem um grupo muito distinto. - Mostrava-se, como sempre,
impressionado pelos seus antepassados aristocratas, mas Zoya esboçou um
sorriso triste.
- Isso foi há muito tempo. - Era dificil acreditar que haviam passado
vinte anos, desde que vira os pais. - Por vezes, penso que só se devia viver
no presente. O passado é apenas um pesado fardo que se transporta. E,
contudo... - Fitou-o, com um olhar perspicaz. - É tão difícil largá-los...
esquecer... seguir em frente...
Era esse o motivo por que decidira esperar um pouco até se casarem.
Ainda precisava de afastar-se um pouco de tudo. Faltava-lhe dar um passo
gigantesco, o do passado para o presente. Contudo, ele entendia e não a
apressava. Sabia que ela precisava de tempo e estava disposto a mostrar-se
paciente. Sobretudo agora que ela concordara em casar-se com ele. Com
essa promessa, podia esperar e ajudá-la a fazer a transição.
- Acho que as coisas partem quando estamos prontos. E, a propósito,
estás pronta para partir?
- Claro, sír. - Trazia um blazer de flanela azul-escuro e, minutos
depois, estavam no carro dele, rumo ao que ele designava como um
"destino secreto". - Significa que estou a ser raptada, Mister Hirsch?
Riu e sentiu-se jovem, enquanto seguiam sob o brilho do sol. Era uma
sensação agradável não ter de se preocupar com as crianças. Tudo se
tornava diferente quando tinha de pensar nelas, o que a fazia sentir-se
mais séria e menos romântica. Contudo, agora só conseguia pensar na
companhia agradável de Simon.
- Raptar-te é a melhor ideia que tive desde que nos conhecemos. -
Riu perante a sugestão dela. - E, pensando bem, devia tê-lo feito em
Paris.

Estava, porém, disposto a ficar-se por Connecticut, enquanto seguiam
ao longo da Merritt Parkway. Falou-lhe do negócio e de algumas ideias
relativas à colecção de Outono. Adorava conversar com ela de tudo e de
nada e da sua esperança de um dia vir a coleccionar quadros famosos.
Gostava particularmente dos impressionistas, e Zoya referiu-lhe a colecção
que os pais tinham na Rússia.
- Não estou certa de que as "coisas" continuem a ser assim tão
importantes. É curioso, pois costumava ter como garantidas todas as belas
coisas que me rodeavam. Porém, depois de ter perdido tudo uma vez e de
ter vendido tudo o que tinha com o Clayton, esse significado perdeu-se no
tempo. - Sorriu-lhe com uma expressão apaixonada. - As pessoas da
minha vida são mais importantes. - Ele estendeu a mão e acanciou-lhe os
dedos do outro lado da mesa, enquanto almoçavam, e, um pouco mais
tarde, de mãos dadas, continuaram a conversar, prosseguindo o passeio
pelo campo. A tarde chegava ao fim e Zoya encostou-se-lhe,
descontraída.
- Cansada?
Ela reprimiu um bocejo e depois riu e abanou a cabeça.
- Não. Apenas feliz.
- Voltaremos dentro em pouco. Só quero mostrar-te um sítio.
- Onde? - Adorava estar com ele. Sentia-se segura, aniada e feliz.
- É segredo.
Zoya soltou uma risada e meia hora mais tarde ficou surpreendida ao
descobrir para onde ele a levara. Tratava-se de uma casinha de estilo
inglês numa estrada secundária conhecida de Simon, rodeada por uma
sebe, com grandes árvores frondosas e uma profusão de roseiras que
emanavam uma forte fragrância quando eles saíram do automóvel e
olharam em volta.
- De quem é esta casa, Simon?
- Gostaria de poder responder que é minha. Pertence a uma fantástica
senhora inglesa que a transformou em estalagem para a manter.
Descobri-a há uns anos e de vez em quando venho até cá para me libertar
de toda a loucura de Nova lorque. Entra. Quero que a conheças.
Não dissera a Zoya, mas, nessa manhã, telefonara a Mrs. Whitman e
avisara-a da sua chegada. Quando entraram na confortável sala de estar,
decorada de encantadores tecidos de algodão estampado de flores, tinham
um chá inglês à espera. O bule de prata brilhava, convidativo, e havia
bandejas cheias de sanduíches e bolinhos a que Mrs. Whitman chamava
"biscoitos". Era uma mulher alta, magra, de cabelos brancos, com um
sotaque acentuado, olhos risonhos e umas mãos compridas e elegantes,
endurecidas pelo trabalho no jardim. Era óbvio que estava à espera de
Simon e Zoya.

- Que bom voltar a vê-lo, Mister Hirsch. - Tinha um aperto de mão
fantástico e deitou um olhar de aprovação a Zoya quando Simon a
apresentou como sua noiva. - Que boa notícia! Ficaram, então, noivos há
pouco tempo?
- Muito pouco - responderam em uníssono e riram.
Mrs. Whitman serviu-lhes uma chávena de chá e convidou-os a
sentarem-se na sua confortável salinha. Havia uma bonita lareira e
elegantes antiguidades inglesas que trouxera com ela, há cinquenta anos.
Vivera em Londres, depois em Nova Iorque e, quando o marido morrera,
retirara-se para o campo.
Reconheceu de imediato o sotaque de Zoya, e algo no seu porte
indicou-lhe que havia algo mais sobre ela do que estava à vista. Achava
que Simon fizera uma escolha sábia e interessante e assim o afirmou, o
que divertiu Zoya. Para festejar o noivado, abriu uma garrafa do seu
melhor xerez.
O Sol pôs-se sobre o jardim quando lhes fez um brinde e, pouco
depois, levou o copo e saiu da sala com um olhar discreto a Simon. Os
seus aposentos situavam-se nas traseiras da casa e, sempre que tinha
hóspedes importantes, deixava-os usar a sala, bem como os quartos do
andar superior. Havia dois com uma enorme casa de banho vitoriana a
ligá-los e bonitas camas de dossel que mandara vir de Inglaterra.
- Vem ver. - Simon contara tudo isto a Zoya e ela parecia hesitante.
- Achas que não se importa, Simon? - Tentava imaginar para onde
fora Mrs. Whitman. Há muito tempo que ela desaparecera, mas era tão
confortável estar ali sentada na alegre sala a beber xerez na companhia
dele que Zoya se sentia lindamente. Todavia, não lhe agradava muito
subir ao andar de cima sem ser convidada.
- Não sejas pateta. Conheço este lugar como se fosse a minha casa.
Pegou-lhe na mão e levou-a até lá acima, aos bonitos quartos, e Zoya
sorriu ao vê-los. As luzes estavam acesas e as camas abertas, como se ela
esperasse hóspedes a qualquer momento. Contudo, os quartos estavam
obviamente desocupados e, quando Zoya se virou para voltar lá abaixo,
Simon abraçou-a com uma risada e beijou-a nos lábios. Ela ficou ofegante
quando ele a largou, com o cabelo despenteado e um ar sensual. E
depois, com um olhar malicioso, Simon puxou-a para a cama, e Zoya
soltou uma exclamação abafada, tentando escapar às suas carícias.
- Simon! O que vai pensar Mistress Whitman! Pára com isso. Vamos
desfazer a cama toda! Simon!
Contudo, ele ria quando se recostou sob o enorme dossel.
- Espero bem que sim - desejou.
- Simon! Queres fazer o favor de te levantar? - Também ria, ao vê-lo
instalado tão confortavelmente e todo vestido na cama de um dos dois

quartos de hóspedes de Mrs. Whitman.
- Não.
- Estás embriagado! - Todavia, ele mal bebera durante todo o dia, à
excepção do pequeno cálice de xerez e não fora o suficiente para o
embriagar. No entanto, era óbvio que estava a divertir-se imenso. Depois,
estendeu o braço e puxou Zoya de encontro ao seu corpo.
- Não estou nada. Contudo, esta manhã tinhas razão quando disseste
que havias sido raptada. Julguei que poderia fazer-te bem afastares-te por
um dia ou dois, minha querida. Aqui estamos a salvo, no meu esconderijo
secreto. - Depositou-lhe um beijo nos lábios abertos e depois sorriu-lhe
quando ela o fitou. - Considera-te raptada. - Parecia extremamente
satisfeito consigo próprio e Zoya examinou-o, surpresa.
- Falas a sério? Estamos alojados aqui?
- Estou e estamos. Na verdade - acrescentou, parecendo um pouco
embaraçado pela primeira vez -, tomei a liberdade de trazer algumas
coisas que achei que poderias precisar. - Tinha um ar malicioso e Zoya
esboçou um sorriso curioso.
- És extraordinário, Simon! - Atirou-se para a cama, atirou-lhe os
braços ao pescoço e beijou-o.
De facto, ele comprara-lhe uma bonita camisa de noite e um roupão
de cetim, chinelos a condizer e comprara também todo o tipo de cremes,
loções e óleos de banho que achara poderem agradar-lhe, e ainda dois
bâtons, uma escova de dentes e a marca da pasta que vira antes na casa
de banho dela. Metera tudo numa mala pequena, que lhe trouxe uns
momentos depois e pousou no quarto ao lado, enquanto ela examinava as
coisas, deliciada, virando-se em seguida para ele.
- O que é que Mistress Whitman pensará de ficarmos aqui, Simon?
Sabe que não somos casados. - E ela parecera tão digna, embora Simon
soubesse que ela era muito menos pomposa do que parecia e tinha um
enonne sentido de humor. Além disso, era dificil resistir a duas pessoas
tão obviamente apaixonadas como no caso deles.
- O que pode pensar, Zoya? Temos quartos separados.
Zoya esboçou um aceno de cabeça e ocupou-se de novo a
desembrulhar os tesouros que Simon lhe trouxera,ficando emocionada ao
deparar com um frasco enorme do seu prefume favorito.
- Deus do céu, Simon! Será que não esqueceste algo?
- Espero bem que não. - Voltou a tomá-la nos braços e depois foi lá
abaixo buscar o resto das sanduíches e outro copo de xerez. Propusera-lhe
irem jantar fora, mas ela insistiu em que não tinha fome.
Simon acendeu a lareira no quarto dele e sentaram-se
confortavelmente em frente, a comer sanduíches e os delicados biscoitos
ingleses de Mrs. Whitman, que ela dizia serem exactamente iguais aos que

a mãe costumava dar-lhe quando ela era criança, na Rússia.
- Perfeito, não achas, querida? - Ela inclinou-se e voltou a beijá-lo, e
ele fitou-a alegremente. Zoya era tudo o que alguma vez desejara na vida.
Deixou-o por volta das nove e foi até ao seu quarto preparar-se para
se deitar. Estavam ambos cansados e Sinion pressentiu-lhe o nervosismo.
Ouviu-a a deixar correr a água para o banho e passou muito tempo antes
de haver novamerte sons no quarto. Interrogou-se sobre o que estaria a
fazer e como ficaria na camisa de noite de um branco-marfirn. Era algo
para vestir numa noite de núpcias e fora exactamente assim que imaginara
o fim-de-semana secreto.
Dirigiu-se lentamente à porta, bateu ao de leve e, quando a porta se
abriu, susteve a respiração ao vê-Ia. O cetim noldava-lhe as forrnas e o
cabelo ruivo caía-lhe suavemente sobre os ombros.
- Deus do céu... Estás lindíssima...
- É um presente maravilhoso, Simon... Obrigada... - Parecia tímida ao
recuar, fitando-o. Ele nunca vira ninguém niais bonito. Conseguia parecer
em simultâneo nobre e convidativa, e recorreu a todas as forças para não
estender a mão e tocar-lhe. Contudo, não se atreveu. Ela assemelhava-se
a uma peça de fina porcelana, como um dos delicados tesouros ingleses
que Mrs. Whitman tinha na sala.
- Zoya...
Ela esboçou um sorriso já não de menina, mas de mulher, uma
mulher que acabara por amá-lo profundamente devido a toda a sua
ternura, gestos delicados e bondade. Quando o lhou, soube que havia sido
abençoada no dia em que o conhecera.
- Porque não entras um pouco? - retorquiu num tom rouco e
desviando-se da porta.
Simon transpôs a ombreira, voltando a sentir-se um rapazinho e
depois, arrebatado pela força viril que o invadia, apertou-a, e a camisa
deslizou suavemente dos ombros de Zoya. Um leve toque fê-la descair até
à cintura, depois pelas ancas esguias e ficou nua diante dele.
- Amo-te tanto.
Mal conseguia falar ao beijar-lhe os lábios, o pescoço, os seios e o
corpo todo. Com um gesto poderoso levou-a nos braços até à cama e,
momentos depois, deitou-se junto dela. Fez amor como desejara desde o
dia em que se tinham conhecido e a calma reinou no quarto quando
finalmente ficaram ao lado um do outro, saciados, felizes e ligados para
toda a vida. Ela era tudo o que ele desejara que fosse. Era mais do que
sonhara.
- Amo-te, Simon.
E, ao pronunciar as palavras, soube que o amava como nunca amara
antes. Agora era uma mulher, era a mulher dele, como sempre seria. O

presente e o futuro pertenciam-lhes e o passado era apenas uma memória
obscurecida quando regressaram ao quarto dele, apagaram a luz e ficaram
deitados a observar o fogo da lareira a transformar-se em cinzas.
Depois de voltarem a fazer amor, adonneceram nos braços um do
outro, sonhos e corpos num só, as vidas unidas como se tivessem casado
naquela noite em casa de Mrs. Whitman. Foi a perfeita noite de núpcias
e, na manhã seguinte, o pequeno-almoço apareceu misteriosamente em
bandejas na sala de Mrs. Whitinan. quando Zoya colocou o roupão de
cetim sobre a carne nua e seguiu Simon até lá abaixo, com uma risada
feliz.
- Tem o sabor de pecado, não? - sussurrou, cometido os bolos de
frutos. Estendeu um a Simon e serviu o café. Era como se nunca tivesse
pertencido a outro homem. Há tanto tempo que fora mulher de Clayton
e agora era outra pessoa. No entanto, Simon sorriu-lhe e abanou a cabeça.
- Não me sinto de forma alguma em pecado. Sinto-me casado.
- Também eu - redarguiu num tom suave e fito-o com um olhar cheio
de tudo o que a invadia e, sem mais uma palavra, ele levou-a para cima,
esquecidos os bolos e o café.

CAFOíTULO 39

Nas duas semanas seguiintes, tudo entre eles pareceu mudar.
Pertenciam um ao outzro e sabiam-no. O único obstáculo a superar
residia no facto de Zoya não conhecer os pais dele. Sentia-se nervosa por
isso, mas ele acalmou-a o melhor que pôde depois de numa sextau-feira
à noite a surpreender, dizendo-lhe que informara a mãe que a levaria a
jantar lá em casa.
- E como é que ela reagiu? - inquiriu, preocupada, Zoya, que pusera
um vestido preto novo. Simon não a avisara para não a assustar.
Dissera-lhe apenas que iam sair. E agora, subitamente, apesar do que
acontecera entre eles há duas semanas na casa de Mrs. Whitman, voltava
a sentir-se uma raparíguinha, aterrorizada com a perspectiva de conhecer
a mãe dele.
- Queres mesmo saboer? - Riu. - Perguntou-me se eras judia.
- Oh, não... E espera até ela ouvir o meu sotaque. Quando descobrir
que sou russa, vai ser horrível.
- Não sejas pateta. - Contudo, ela tinha razão. Simon ainda mal as
apresentara quando a mãe fitou Zoya de olhos semicerrados.
- Zoya Andrews? Qune nome é esse? A sua família é russa? - Partia
do princípio de que ela recebera o nome de uma avó ou parente distante.

Era quase tão alta como Simon e baixou os olhos na direcção dela.
- Não, Mistress Hirsch - respondeu, fitando-a com os grandes olhos
verdes e rezando para que não rebentasse a tempestade. - Eu sou.
- É russa? - Fez a pergunta na língua materna dela e Z(ya quase
sorriu ante o sotaque. Era o sotaque dos campoleses que tinha conhecido
na juventude e, por momentos, recordou-se de Feodor e da sua simpática
mulher, Ludmila.
- Sou russa - repetuu, mas desta vez na sua língua, que falava com a
pose e suave dicção da aristocracia. Sabia que a mulher mais velha o
reconheceria de imediato e a odiaria mais do que nunca por esse facto.
- De onde? - O interrogatório prosseguiu, e Simon observava,
desesperado, o pai, que também fitava atentamente Zoya. Gostou do que
viu. Ela era uma mulher atraente e educada. Por ele estava tudo bem,
mas sabia que não havia forma de deter Sofia, a mãe de Simon.
- De Sampetersburgo - replicou Zoya com um sorriso calmo.
- Sampetersburgo? - Ficou impressionada, mas preferia morrer a
confessá-lo.- Qual era o seu nome de família?
Pela primeira vez na vida, sentiu-se grata por não ter o apelido
Romanov, mas o seu nome não era muito melhor. Quase riu ao enfrentar
a gigante vestida com uma bata estampada. Os braços assemelhavam-se
aos de um homem, o que fez com que Zoya ainda se sentisse mais frágil.
- Ossupov. Zoya Konstantinovna Ossupov.
- Porque não nos sentamos, enquanto falamos? - sugeriu Simon,
incomodado, sem que a mãe desse qualquer indí-cio de desistir nem
esboçasse um gesto na direcção das cadeiras de espaldar direito no
pequeno apartamento de Houston Street.
- Quando veio para cá? - inquiriu sem delonga a Zoya e Simon soltou
um gemido inaudível ao suspeitar o que se seguiria.
- Depois da guerra, madame. Fui para Paris em mil novecentos e
dezassete, depois da revolução.
Não valia a pena esconder-lhe o que era. Apenas sentia pena de
Simon, que estava com um ar tristíssimo, escutando a troca de palavras
entre a mãe e a mulher com quem queria casar.
Contudo, depois de terem feito amor e dos laços que haviam
consequentemente nascido, ambos sabiam que nada podia separá-los.
- Expulsaram-na, portanto, depois da revolução.
- Suponho que se pode pôr o assunto nesses termos - disse Zoya a
sorrir. - Vim-me embora com a minha avó, depois de a minha família ser
morta - acrescentou com uma expressão séria.
- Também a minha o foi - redarguiu Sofia Hirsch de rompante. O
nome de família havia sido Hirschov, mas o oficial da imigração em Ellis
Island fora demasiado preguiçoso para escrever o nome todo e haviam,

portanto, ficado Hirsch em vez de Hirschov. - A minha família foi morta
nas perseguições, pelos cossacos do czar. - Zoya ouvira relatos em criança,
mas nunca tomara consciência de que um dia viria a assumir a posição em
que se encontrava.
- Lamento muito.
- Uummm....
A mäe de Simon franziu o sobrolho e dirigiu-se à cozinha para acabar
de fazer o jantar. Quando a refeição ficou pronta, a mãe acendeu as velas
e entoou o Sabbath. A mãe seguia o kosher e preparara um jantar com o
tradicional challah, que serviram com um vinho especial. Tudo aquilo era
uma experiência nova para Zoya.
- Sabe o que é kosher? - inquiriu a meio da refeição.
- Não... eu... não, de facto, não muito. - Continuavam a falar russo e
Zoya sentia-se pouco à vontade com a sua falta de conhecimento. - Não
se bebe leite com carne. - Foi o melhor que conseguiu, e a mãe voltou a
franzir o sobrolho a Simon e tratava-o constantemente por "Shimon",
falando iídiche em vez de russo.
- Tem de se manter tudo separado. Os lacticínios nunca podem tocar
na carne. - Tinham pratos separados e a prosperidade adquirida permitia-
lhe usar dois fogões. Zoya achou as explicações muito complicadas, mas
ela mostrava-se muito orgulhosa da sua dedicação à lei talmúdica e fitou
orgulhosamente o filho. - Ele é tão inteligente que bem podia ter sido um
rabino - redarguiu. - E o que fez? Foi para a Sétima Avenida e deixou a
família de parte.
- Isso não é verdade, mamã - retorquiu Simon a sorrir. - O papá
reformou-se e o tio Joe e o tio Isaac também.
Zoya apercebeu-se, ao ouvi-lo, de que se tratava de um aspecto da
vida dele que não compreendera totalmente. Uma coisa era o que Simon
contara sobre a família, outra era conhecê-los. Sentiu um repentino pavor
de nunca estar à altura aos olhos deles. Nada sabia da religião deles nem
de quão importante era para Simon. Nem sequer sabia se ele era
religioso, embora suspeitasse que não. Ela própria não atribuía muito
significado à religião, embora acreditasse em Deus. Contudo, apenas ia à
igreja ortodoxa na Páscoa e no Natal.
- O que fazia o seu pai? - Sofia Hirsch disparou a pergunta, depois de Zoya a ter ajudado a levantar a mesa. Já sabia que Zoya trabalhava numa
loja e que Simon a conhece em Paris.
- O meu pai estava no exército - respondeu, e a mulher mais idosa
quase gritou.
- Não era um cossaco?
- Não, mamã. Claro que não - respondeu Simon em lugar dela,
obviamente ansioso por se ir embora, e Zoya achou subitamente tudo

aquilo muito divertido. As vidas ambos, de princípios tão diferentes,
haviam-se cruzado a meio e, depois de passados anos a ostentar o título
a algura tinha agora de garantir àquela mulher que o pai não havia sido
um cossaco.
De repente, apercebeu-se pelo canto do olho de que Simon também
tinha a mesma opinião. Era como se soubes exactamente o que ela estava
a pensar. E decidiu espicaçar a pouco a mãe. Sabia que ela ficaria
impressionada, mesmo que se fingisse horrorizada. Sentia que o pai dera
a aprovação e, mesmo que a mãe também o fizesse, nunca o admitinia. - A Zoya é uma condessa, mamã - rematou. - Só que é demasiado
modesta para usar o título.
- Uma condessa de quê? - indagou a mãe e, desta vez, Zoya riu-se
abertamente.
- De absolutamente nada, agora. Tem razão. Tudo isso acabou. - A
revolução fora há dezanove anos e, embora não estivesse esquecida,
parecia parte de uma outra vida.
Fez-se um longo silêncio enquanto Simon pensava como se escapar
graciosamente com Zoya.
- É uma pena que não seja judia - pronunciou, por fim, a mãe, num
tom triste, como se quaisquer deuses pudessem estar a escutá-la. Simon
sorriu, consciente de que era o máximo que Sofia conseguiria
aproximar-se de demonstrar o seu agrado. - Ela vai converter-se?
Dirigiu-se ao filho, como se Zoya não estivesse presente, e Simon
respondeu uma vez mais por ela:
- Claro que não, mamã. Porque havia de o fazer?
O pai ofereceu-lhe mais um copo de vinho, enquanto Simon lhe dava
uma palmadinha na mão e a mãe a fitava com permanente interesse.
- O Sinion disse-me que tem filhos. - Era mais uma acusação do que
uma pergunta, mas Zoya sorriu, sempre orgulhosa deles.
- Sim. Tenho dois.
- É divorciada.
Sinion emitiu um grunhido imperceptível, e Zoya sorriu a Sofia.
- Não. Sou viúva. O meu marido morreu há sete anos de um ataque
de coração. - Resolveu esclarecer para que ela não pensasse que o
matara.
- Que tristeza. Que idade têm?
- O meu filho, o Nicholas, tem quase quinze, e a Alexandra tem onze.
Sofia esboçou um aceno de cabeça, pareceu finalmente satisfeita e
Simon aproveitou a oportunidade para se levantar e dizer que tinham de
ir embora. Zoya imitou-o e agradeceu-lhe o jantar.
- Gostei de a conhecer - murmurou Sofia entre dentes e o marido
sorriu. Mal falara toda a noite, excepto ocasionalmente e em voz baixa a

Simon. Era um homem tímido que passara meio século à sombra da
muito mais faladora Sofia. - Apareça novamente - convidou delicadamente
quando Zoya lhe apertou a mão e agradeceu de novo no seu aristocrático
russo.
Simon teve a certeza de que ela lhe telefonaria no dia seguinte e não
pararia de falar.
Acompanhou Zoya até ao Cadíllac que os aguardava estacionado lá
em baixo e suspirou de alívio ao deslizar para trás do volante, fitando
tristemente a mulher que amava.
- Desculpa. Não devia ter-te trazido aqui.
Zoya riu ante a expressão do rosto dele.
- Não sejas pateta - retorquiu, inclinando-se e beijando-o. - A minha
mãe teria sido muito pior. Agradece não seres obrigado a enfrentá-la.
- Não acredito nas perguntas que faz e depois admira-se porque é que
nunca trago ninguem cá a casa. Só se fosse doido! Meshuge! - acrescentou
em iídiche, com uma elucidativa palmada na cabeça, e Zoya riu, enquanto
ele a levava a casa.
- Espera até a Sasha começar a fazer-te passar um mau bocado. Até
agora tem sido um anjo.
- Então estamos quites. Juro que nunca mais voltarei a fazer-te uma
coisa destas.
- Voltarás, sim, e não me importo. Só tinha pavor que ela me
interrogasse sobre o czar. Não queria mentir-lhe, mas também não morria
por lhe contar a verdade. - Sorriu. - Ainda bem que não somos Romanov.
Teria desmaiado.
Simon riu perante a ideia e levou-a um bocado ao Copacabana para
relaxarem e beberem champanhe. Aos olhos é Simon tinha sido uma noite
muito dura. Contudo, Zova estava surpreendida por haver corrido
facilmente. Na verdad, esperava que tivesse sido muito pior, o que
horrorizo Simon.
- Como é que podia ter sido pior?
- Podia ter-me mandado sair. Houve um momento que pensei que o
faria.
- Não se atreveria. Não é tão má como parece. - Esboçou um sorriso
malicioso. - E faz uma canja fantástica.
- Vou pedir-lhe que me ensine - redarguiu Zoya, qu depois se lembrou
de algo que a fizera interrogar-se. - Temos de fazer comida kosher? -
Contudo, ele não conseguiu suster o riso ante a pergunta. - Então?
Temos?
- A minha mãe ficaria encantada, mas deixa-me garantir-te, minha
querida, que recusaria comer em casa. Não te preocupes com essas coisas,
de acordo? Prometes? - Inclinou-se e beijou-a no momento em que a

orquestra começava a tocar a sua canção favorita, I've Got You Under My
Skin, de Cole Porter. - Dança, Mistress Andrews ou devo tratá-la por
condessa Ossupov?
- Que tal apenas Zoya? - Riu e seguiu-o até à pista.
- Que tal Zoya Hirsch? Como soa?
Ela sorriu-lhe enquanto dançavam e ambos riram, pensando no
mesmo. Era realmente um nome estranho para a prima do czar.

CAPITULO 40

Conseguiram manter a ligação em segredo dos miúdos até Junho,
quando Sasha os apanhou a beijarem-se apaixonadamente na cozinha.
Fitou-os num horror silencioso e depois afastou-se a correr e fechou-se no
quarto, de onde só saiu quando Nicholas ameaçou que deitava a porta
abaixo se ela não viesse cá para fora e se portasse como gente.
Nicholas sentia-se muito ofendido com a atitude da irmã. Gostava de
Simon e começava a esperar que ele tivesse intenções sérias para com a
mãe. Simon mostrara-se sempre bondoso para todos eles levando-os a
passear de carro aos domingos à tarde e a jantar sempre que possível,
trazendo-lhes além disso belos presentes. Foi buscar Nicholas ao colégio
mais do que uma vez no Cadillac e oferecera um rádio aos dois
jovenzinhos, de que eles muito gostavam.
- Vê se te comportas! - avisou-a Nicholas, irritado. - E vai pedir
desculpa à mamã!
- Não vou! Ela estava a beijá-lo na cozinha.
- E daí? Gosta dele.
- Mas não assim... É repugnante!
- Tu é que és repugnante. Agora vai pedir-lhes desculpa.
Sasha escapou-se sorrateiramente para a sala e recusou olhar para
Simon. Nessa noite, depois de ele se ir embora, Zoya finalmente contou-
lhe.
- Estou muito apaixonada por ele, Sasha. - A miúda pôs-se a chorar
e Nicholas escutava da ombreira.
- E o papá? Não o amavas?
- Claro que sim... Mas, querida, ele agora desapareceu. Há muito
tempo que desapareceu. Podia ser agradável termos connosco alguém que
nos ame. O Sinion ama-te muito, a ti e ao Nicholas.
- E eu também gosto dele. - Nicholas defendia abertaciente Simon, o
que comoveu a mãe. - Vão casar? - perguntou meigamente, e Zoya,
fitando ora um ora outro, esboçou um aceno de cabeça afirmativo que

provocou novo ataque de histeria em Sasha.
- Odeio-te! Estás a destruir a minha vida!
- Porquê, Sasha? - retorquiu, muito perturbada com a reacção da filha.
- Não gostas dele? É um homem tão simpático e será tão bom para nós. -
Tentou abraçá-la, mas a filha não deixou.
- Ocleio-vos aos dois! - bradou Sasha, sem saber muito bem porque
o dizia, excepto talvez para arreliar a mãe. Contudo, Nicholas ficou
furioso e lançou-se sobre a figura soluçante em cima da cama.
- Pedes desculpa ou levas um bofetão?
- Parem com isso! Os dois! Isto não é maneira de começar uma nova
vida.
- Quando é que vão casar-se? - Sasha apenas deixou de chorar o
tempo que durou a pergunta.
- Ainda não sabemos. Quisemos esperar um pouco.
- Porque não casam este Verão e depois podemos viajat todos? -
sugeriu Nicholas, e Zoya sorriu. Parecia-lhe uma boa ideia e sabia que
Simon ficaria satisfeito, mas a perspectiva não agradava obviamente a
Sasha.
- Não irei a lado nenhum com vocês.
- Irás sim, porque te metemos numa mala e depois, pelo menos, não
teremos de te ouvir. - Sasha extravasou então a fúria no innão.
- Odeio-te! Não irei a lado nenhum com eles! - Fungou ruidosamente,
com um olhar faiscante dirigido à mãe, mas Nicholas apanhou-a ao acusá-
la.
- Sabes uma coisa? Tens ciúmes! Tens ciúmes da mamã e do Simon!
- Não tenho nada!
- Tens! - Continuaram a gritar, e Zoya desesperava quanto a ter
novamente paz, mas, no dia seguinte, quando contou a Simon, Sasha
acalmara-se, embora tivesse deixado de falar com o innão.
- Agrada-me muito a ideia do Nicholas - comentou. Sabia como Zoya
tinha, por vezes, dificuldade em lidar com Sasha. Dava-se bastante bem
com a miúda, mas esta parecia fazer constantes exigências sobre a mãe
para reclamar a atenção e o tempo dela, vestidos novos, roupas novas e
pisava incessantemente o risco. - Porque não casamos em Julho e vamos
para Sun Valley com as crianças?
- Não te importas de as levares na nossa lua-de-mel? - Mostrava-se
surpreendida com a bondade dele, a sua disponibilídade em aceitar os
miúdos como se fossem seus, o que a tocava profundamente.
- Claro que não. Gostarias?
- Claro.
- Combinado, então! - exclamou e beijou-a, antes de ir consultar um
calendário. - Que tal casarmos a doze de Julho? - Os olhos brilhavam-lhe

quando a enlaçou pela cintura. Há muito, muito tempo que ela não se
sentia tão feliz. E fora realmente difícil aquela espera para se casar com
ele. Tudo o que queria agora era pertencer-lhe para toda a vida.
- O que dirá a tua mãe?
Simon pensou um momento antes de lhe responder com um sorriso.
- Vamos pô-la a falar com a Sasha. Foram feitas uma para a outra.
Zoya soltou uma gargalhada e ele beijou-a.

CAPITULO 41

A 12 de Julho de 1936, Simon Ishmael Hirsch e Zoya Alexandra
Eugema Ossupov Andrews casaram pelo civil no jardim da bonita casinha
de pedra de Axelle na Rua 49.
A noiva vestia um conjunto creme Norell e um chapelinho com um
fino véu cor de marfim e sorriu ao erguer o rosto para o marido, que a
beijou. A mãe dele optara por não aparecer, só para vincar que não
aprovava o facto de Zoya não ser judia. Contudo, o pai estava presente
bem como duas das raparigas da loja. Havia igualmente um punhado de
amigos comuns e obviamente os dois filhos de Zoya.
Nicholas foi o padrinho e Sasha manteve-se ao lado deles com um ar
amuado. Zoya poderia ter tido um casamento mais cerimonioso se
quisesse, e as suas clientes mais importantes, como Barbara Hutton e
Doris Duke, teriam adorado aparecer, mas, embora Zoya as conhecesse
bem, não manúnha uma ligação de intimidade com elas. Eram parte de
uma outra vida e queria que o seu casamento fosse muito simples e
especial.
O mordomo de Axelle serviu o champanhe e, às quatro horas, Simon
seguiu de regresso ao apartamento de Zoya no seu Cadillac. Tinham
decidido ficar lá até depois da lua-de-mel, altura em que procurariam uma
casa maior.
No entanto, passariam primeiro três semanas em Sun Valley. O lugar
fora inaugurado nesse ano e apanharam o comboio para Idaho na Estação
da Pensilvânia. Simon comprou jogos para as crianças e a própria Sasha
estava excitada quando chegaram a Chicago.
Ficaram uma noite em Blackstone e prosseguiram viagem no dia
seguinte. Todos estavam satisfeitíssimos quando chegaram a Ketchum, e
Zoya e Simon ainda mais, depois de uma noite de arrebatamento e
paixão. A relação fisica que partilhavam era algo que nenhum deles
conhecera antes e ainda os aproximava mais.
Só haviam passado três meses sobre o seu encontro, mas sentia-se

como se tivesse conhecido Simon desde sempre. Ensinou Nicholas a
pescar e iam nadar todos os dias. No final do mês regressaram queimados
do sol e felizes ao apartamento de Zoya.
Foi então que toda a realidade se abateu sobre Zoya. No primeiro dia
em que voltaram, sentou-se a ver Simon barbear-se e sentiu-se invadida
por uma vaga de felicidade ao observá-lo a cobrir o rosto de espuma;
soltou uma súbita risada ao tocar na pele macia por o amar tanto e
beijou-o.
- Alguma coisa engraçada? - Virou-se para ela com um sorriso e Zoya
abanou a cabeça.
- Não, só que tudo parece subitamente tão real, não é?
- Verdade - anuiu. Inclinou-se para a beijar e encheu-a de espuma da
barba, fazendo-a rir. Beijou-a uma e outra vez e, momentos depois, ela
fechou a porta do quarto à chave e fizeram amor antes de ela sair para
o trabalho.
Prometera a Axelle que ficaria na loja até ao fim de Setembro. E os
dias pareciam voar. Três semanas depois de regressarem, descobriram um
apartamento que lhes agradou entre a Park Avenue e a Rua 68. Tinha
divisões grandes e arejadas, e o quarto deles ficava em frente do das
crianças. Nicholas tinha um quarto grande e confortável, e Sasha insistiu
para que as paredes do seu quarto fossem pintadas de púrpura.
- Também tinha um quarto púrpura quando era uma rapariguinha...
quando era mais ou menos da tua idade. - Falou-lhe, então, do
encantador boudoir cor de malva de Alix. Trouxe-lhe ternas recordações
ao descrevê-lo e Sasha ouvia-a fascinada.
Havia uma fotografia de Clayton no quarto de Nicholas e ele colocou
ao lado um bonito retrato de Simon. Os dois homens da família iam dar
longos passeios ao fim da tarde, quando Sinion regressava a casa do
trabalho e, uma semana depois de se terem mudado, ele trouxe para casa
uma pequena cocker spaniel.
- Olha, mamã! - exclamou Nicholas, excitado. - Parece mesmo igual
à Sava. - Ela ficou surpreendida por o filho ainda se recordar dela, e
Sasha ficou amuada durante um dia por não ser um cão russo como ela
queria. Contudo a cadela era muito meiga e chamaram-lhe Jamie.
A vida parecia idílica quando se instalaram no novo apartamento.
Havia mesmo um quarto de hóspedes junto à blioteca e Simon espicaçou-
a, dizendo que seria para o primeiro bebé. No entanto, Zoya abanou a
cabeça e sorriu.
- Tive filhos há muito tempo, Simon. Sou velha de mais para ser mãe
agora. - Aos trinta e sete anos, estava longe de querer mais filhos. - Um
dia destes serei avó. - Riu e ele abanou a cabeça.
- Também queres uma bengala, avozinha? - troçou, rodeando-lhe os

ombros com o braço, enquanto se mantinham sentados no quarto a
conversar pela noite fora, tal como fizera com Clayton, anos antes.
Contudo, a vida era diferente com Simon. Partilhavam interesses
comuns, amigos comuns, eram adultos que se tinham unido na força e não
na fraqueza. Ela pouco mais era que uma criança quando Clayton a
salvara dos horrores da sua vida em Paris de 1919 e a trouxera para Nova
Iorque, Agora tudo era diferente, pensava Zoya, ao dirigir-se ao trabalho,
gozando os seus últimos dias no Axelle's e olhou a amiga com tristeza.
- O que vou fazer agora? - inquiriu, sentada na sua secretária Luís XV
e erguendo os olhos da chávena de chá para Axelle. - Com que vou
ocupar os dias?
- Porque não vais para casa e tens um filho? - retorquiu a mulher
mais velha com uma gargalhada.
Zoya abanou a cabeça, desejando poder ficar. Contudo, Simon queria
que ela tivesse a liberdade de que há anos não dispunha. Há sete anos
que trabalhava e agora não tinha necessidade de o fazer. Podia gozar a
companhia dos filhos, do marido, a casa, fazer o que lhe aprouvesse, mas
Zoya sabia que tudo lhe pareceria muito monótono sem a obrigação de
ir diariamente para a loja.
- Pareces o meu marido a falar.
- Ele tem razão.
- Ficarei tão aborrecida sem trabalho.
- Duvido muito, minha querida. - Contudo, as lágrimas brilhavam nos
olhos de Axelle quando Simon foi buscar Zoya nessa tarde e as duas
mulheres se abraçaram. Zoya Prometeu aparecer no dia seguinte e levá-la
a almoçar.
Simon riu e avisou a mulher que apadrinhara o romance deles desde
o primeiro momento:
- Vai ter de fechar a porta à chave para a manter afastada daqui. Não
me canso de lhe dizer que há um mundo lá fora à espera que ela o
descubra.
No entanto, em Outubro, Zoya descobriu que tinha mais tempo livre
entre mãos do que sabia fazer com ele. Via Axelle quase diariamente,
visitava museus e ia buscar Sasha ao colégio. Chegava mesmo a passar
frequentemente pelo escritório de Simon e escutava com avidez os seus
planos de negócio. Decidira acrescentar uma linha de casacos de criança
e mostrava-se ansioso pelos conselhos que ela lhe dava. A infalível
intuição de Zoya ajudava-o a fazer escolhas em que, de outra forma, não
teria pensado.
- Sinto tanto a falta de tudo isto, Simon - confessou-lhe em Dezembro,
quando apanharam um táxi de regresso do teatro. Ele levara-a à estreia
de You Can't Take It Wíth You com Frank Conlan e Josephine Hull no

Teatro Booth. Fora uma noite agradável, mas ela sentia-se nervosa e
aborrecida. Descobrira que trabalhara anos de mais para agora desistir e
ficar sentada em casa sem fazer nada. - E se voltar uns tempos para a loja
da Axelle?
Sinion pensou no assunto e fitou-a, quando chegaram ao apartamento.
- Por vezes, é dificil recuar no tempo. Porque é que não começas algo
de novo?
"Como o quê?", interrogou-se. Apenas tinha conhecimento de dança
e vestidos e dançar estava sem dúvida fora de questão. Riu de si para si
quando entraram no apartamento e ele se virou para a admirar. Estava
tão bonita, de olhos brilhantes e a esplendorosa cabeleira ruiva.
Continuava a asseinelhar-se a uma rapariguinha e desejava-a em
permanência. Não lhe parecia com idade bastante para ter um filho de
quinze anos, reflectiu ele quando Zoya se sentou numa cadeira e o fitou
com um sorriso, detendo o olhar no smoking que ele vestia. Mandara-o
fazer por encomenda em Londres, para desgosto da mãe. "O teu pai podia
ter-te talhado um melhor", dissera ela.
- O que é assim tão divertido?
- Ocorreu-me uma ideia louca... Estava a lembrar-me de quando
dancei no Fitzhugh's. Foi horrível, Simon... Detestei tanto tudo aquilo.
- Não consigo imaginar-te a sacudires o traseiro e a rodares os colares.
- Riu ante o pensamento, mas sentiu-se em simultâneo emocionado. Ela
fora tão corajosa ao ultrapassar tudo aquilo. Apenas lamentava não a ter
conhecido nessa altura. Teria casado com ela, poupando-a à situação.
Agora, ela já não precisava de poupar; era eficiente e forte.
Simon quase se sentia tentado a metê-la no negócio, mas sabia que a
família ficaria horrorizada. Ela não pertencia à Sétima Avenida. Pertencia
a uma elite muito mais elevada, e subitamente ocorreu-lhe uma ideia.
Serviu-se de um cálice de conhaque e abriu uma garrafa de champanhe
para ela, enquanto se sentavam a falar junto à lareira.
- Porque não abres a tua própria loja?
- Como a Axelle? - Parecia intrigada, mas agradou-lhe a ideia e depois
pensou na amiga e abanou a cabeça. - Não seria justo para a Axelle. Não
quero competir com ela. - Axelle fora boa de mais para que agora a
prejudicasse, mas Simon tinha outras ideias na cabeça.
- Então, faz algo diferente.
- Como, por exemplo?
- Faz tudo, roupa de mulher, de homem, talvez mesmo de criança.
Mas apenas da melhor qualidade, aquele tipo de negócio em que te sentes
tão à vontade. Uma linha completa... sapatos, malas e chapéus... Ensina
as pessoas a vestissem-se, não só as elegantes como as que frequentam a
loja da Axelle, mas as outras também, as que têm dinheiro mas não sabem

usá-lo. - As mulheres que ela vestira no Axelle's eram sem dúvida as mais
elegantes de Nova lorque, mas a maioria também ia a Paris comprar
roupa, como Lady Mendl, Doris Duke e Wallis Simpson. - Podias começar
com uma coisa pequena e depois aumentar o negócio. Até podias vender
os meus casacos!
Simon riu, mas ela fitou-o com uma expressão pensativa, bebendo o
champanhe em pequenos goles. A ideia agradava-lhe e, em seguida,
dirigiu-lhe uma pergunta séria:
- Podemos dar-nos a esse luxo? - Sabia que ele tinha dinheiro, mas
não fazia ideia do capital em jogo. Era algo que nunca discutiam.
Possuíam mais do que o suficiente para a vida que levavam, mas os pais
dele continuavam a morar em Houston Street e sabia que ele os
sustentava, bem como a todos irmãos do pai. Ele contemplou-a com
meiguice e sentou-se ao lado dela.
- Talvez seja chegada a altura de termos uma conversa séria sobre
tudo isto.
Zoya corou e abanou a cabeça. De facto, não desejava saber. Porém,
se pretendia abrir uma loja própria, talvez fosse necessário.
- Não quero parecer bisbilhoteira, Simon. O teu negócio é da tua
conta.
- Não, meu amor. Também é teu e vai muito bem. De vento em popa.
- Informou-a quanto fizera no ano anterior e ela olhou-o, surpreendida.
- Falas a sério?
- Bom - desculpou-se, sem compreender a surpresa nos olhos dela. -
Podia ser melhor, se tivesse encomendado todas as caxemiras que queria
em Inglaterra. Não sei porque me contive. Para a próxima época, não o
farei - explicou e ela riu.
- És doido. Acho que nem o Banco de Inglaterra transaccionou tanto
dinheiro no ano passado. É incrível, Simon! Mas eu pensei... quero dizer,
os teus pais...
Desta vez foi ele a troçar.
- A minha mãe só sairia de Houston Street de arma apontada. Adora
o sítio. - Todas as tentativas de Simon para que eles se mudassem para
um apartamento mais luxuoso haviam sido infrutíferas. A mãe gostava dos
amigos, das lojas onde fazia as compras e da vizinhança. Mudara-se para
a Lower East Side quando viera para Nova lorque há uma geração e iria
morrer ali. - Acho que o meu pai gostaria de se mudar para a parte alta
da cidade, mas a minha mãe não o deixa. - A mãe continuava a usar batas
e orgulhava-se em ter apenas um casaco "bom". Mas podia comprar todos
os casacos de Axelle, se quisesse.
- O que vais fazer com tudo isso? Investir? - Pensou com um arrepio
no falecido marido e nas suas aventuras no mercado da bolsa, mas Simon

era bastante mais perspicaz do que Clayton. Tinha instinto para o que
dava dinheiro e, no seu caso, resultara em cheio.
- Investi uma parte, a maioria em acções, e apliquei bastante no
negócio. No ano passado, comprei também duas fábricas de têxteis.
Penso que, se começarmos a fabricar os nossos artigos, nos sairemos
melhor do que com algumas importações. Assim, consigo controlar melhor
a qualidade. As duas fábricas são na Jórgia e a mão-de-obra é muito
barata. Vai levar uns anos, mas penso que teremos muito mais lucros. -
Zoya nem conseguia imaginar, pois os lucros qu ele mencionara já eram
imensos. Construíra o negócio do nada em vinte anos. Aos quarenta, já
fizera uma imensa fortuna. - Portanto, meu amor, se queres abrir a tua
loja, vai em frente - incitou. - Não vais tirar comida da boca de ninguém. -
Ficou a meditar no assunto uns minutos, enquanto Zoya tentava assimilar
o que ouvira na última meia hora. - Na verdade, acho que podia ser um
investimento fantástico.
- Estás disposto a ajudar-me, Simon? - indagou, pousando o copo e
fitando-o com uma expressäo grave.
- Não precisas da minha ajuda, querida, excepto talvez para assinar os
cheques - retorquiu, inclinando-se e beijando-a. - Sabes mais deste ramo
do que qualquer outra pessoa que conheço e tens um sentido nato do que
convém ou não. Devia ter-te dado ouvidos sobre o rosa shockíng, quando
estivemos em Paris. - Riu bem-disposto, pois esgotara todos os tecidos
rosa e as encomendas para o restante ainda não tinham chegado.
- Por onde começo? - indagou, subitamente excitadissima com a ideia.
- Podias procurar um sítio nos próximos meses. E na Primavera vamos
a Paris e encomendas artigos para uma linha de Outono. Se te mexeres -
acrescentou, semicerrando os olhos e fazendo cálculos -, estarás pronta
para abrir em Setembro.
- Mas isso é muito perto. - Só faltavam nove meses e havia muita
coisa a fazer. - Podia pedir à Elsie que se encarregasse da decoração. Ela
tem uma intuição fantástica para o que as pessoas querem, mesmo sem
o saberem.
Contudo, ele esboçou um sorriso terno à mulher, incentivado por toda
aquela excitação.
- Tu própria podias fazê-lo.
- Não, não seria capaz.
- Deixa lá. De qualquer maneira, ia faltar-te tempo. Entre a
descoberta do sítio, o contrato de pessoal e compras para a loja, terias
demasiado que fazer para ainda por cima te preocupares com a
decoração. Vou pensar... Falarei com algumas pessoas que conheço
quanto à localização.
- Falas a sério? - indagou com um brilho intenso nos olhos verdes. -

Achas mesmo que posso fazê-lo?
- Claro que sim. Vamos experimentar. Se não resultar, fechamos e
aguentamos os prejuízos de um ano. - E ela agora sabia que podiam dar-
se a esse luxo.
Nas próximas três semanas não falou em mais nada e, quando o levou
a assistir à missa no Natal russo, passou a maior parte do tempo a
sussurrar-lhe ao ouvido. Um dos agentes imobiliários descobrira o que
achara ser o lugar perfeito e ela mal conseguia esperar para ver.
- A tua mãe desmaiava se te visse a saíres daqui - observou, fitando-o
com uma expressão de felicidade. Desta vez o serviço religioso não a
entristecera, pois estava por de mais excitada com o que tentavam
construir.
Vira Sergei Obolenski pela primeira vez em meses e ele esboçou uma
vénia delicada quando o apresentou a Simon, começando por falar inglês
por delicadeza para com Simon e depois conversando com ele no seu
elegante russo.
- Surpreende-me que não tenhas casado com ele - comentou Simon
tranquilamente, tentando esconder o facto de que tinha ciúmes, mas Zoya
fitou-o e riu, quando regressavam a casa no Cadillac verde.
- O Sergei nunca esteve interessado em mim, amor. É demasiado
esperto para se casar com pobres títulos russos. Prefere indubitavelmente
as altas esferas americanas.
Sinion inclinou-se e beijou-a, puxando-a mais de encontro ao corpo
no assento.
- Não sabe o que perde.
No dia seguinte, Zoya convidou Axelle para almoçar e falou-lhe,
excitada, nos seus planos. Pusera logo Axelle a par do assunto desde o
início, deixando bem claro que não queria competir com ela directamente.
- Porque não? - retorquiu a amiga, olhando-a, surpreendida. - A
Chanel não compete com o Dior? E a Elsa com todos eles? Não sejas
pateta! Será óptimo para o negócio! - Zoya não tivera essa opinião, mas
sentiu-se aliviada por ter a bênção de Axelle.
Quando viu o sítio que o amigo de Simon descobrira apaixonou-se de
imediato por ele. Era perfeito. Fora anteriormente um restaurante entre
as ruas 54 e 55 e distava somente três quarteirões do Axelle's.
Encontrava-se em muito mau estado, mas, ao semicerrar os olhos, soube
que era mesmo o que pretendia e, melhor ainda, o andar de cima também
estava disponível.
- Fica com os dois - aconselhou Simon.
- Não achas grande de mais? - Era enorme, e esse o motivo por que
o restaurante falira. Revelara-se excessivamente grande para a pequena
clientela, mas Simon abanou a cabeça, levado pelo seu instinto nato do

que funcionava a nível de negócio.
- Podes pôr roupa de mulher no rés-do-chão e roupa de homem no
andar de cima, e, se resultar - disse com uma piscadela de olho ao amigo
-, podemos comprar o prédio. De facto, talvez devamos fazê-lo já, antes
que eles se armem em espertos e aumentem excessivamente o aluguer. -
Fez alguns cálculos num bloco de apontamentos e depois esboçou um
aceno de cabeça. - Vai em frente, Zoya. Compra-o.
- Comprar? - repetiu, ofegante. - O que farei com os outros três
andares?
- Alugas com contratos de um ano. Se a loja for um sucesso, podes
recuperar um andar por ano. Pode ser que um dia fiques contentíssima
por teres cinco andares.
- Isto é uma loucura, Simon! - Sentia-se, porém, tão excitada que mal
conseguia dominar-se. Nunca sonhara em ser dona de uma loja e, de
súbito, ali estava, no meio de tudo aquilo.
Contrataram arquitectos e Elsie de Wolfe e, semanas depois, estava
rodeada de planos, documentos e desenhos, havia amostras de mármore
por toda a sua biblioteca, bem como tecidos, e acabamentos de madeira;
toda a casa era um turbilhão e, por fim, Simon deu-lhe uma secretária no
seu escritório e uma funcionária para lhe tratar dos pormenores.
Cholly Knickerbocker mencionou o facto na sua coluna e saiu um
artigo sobre o tema em The New York Times. "Atenção, Nova Iorque!",
dizia o artigo. "Quando Zoya Ossupov, a famosa condessa do Axefle's, e
Simon Hirsch, com o seu império da Sétima Avenida, uniram forças em
Julho passado, podem ter dado início a algo de grandioso!" E as palavras
foram proféticas.
Em Março, partiram com destino a Paris no Normandie a fim de
comprar artigos para as linhas de Simon e escolher alguns elementos da
primeira colecção de Zoya. E desta vez escolheu todas as coisas de que
gostava, sem ter de se submeter à vontade de Axelle.
Nunca se divertira tanto na vida como quando foi às compras com ele,
e Simon concedeu-lhe um orçamento ilimitado. Ficaram no George V e
usufruíram de momentos a sós que se assemelharam a uma lua-de-mel.
Regressaram a Nova lorque um mês depois de terem partido, felizes,
refrescados e mais apaixonados do que nunca. A única mancha ao
voltarem a casa residiu na notícia de que Sasha fora expulsa do colégio.
Aos doze anos, estava a transformar-se num pequeno terror.
- Como é que isto aconteceu, Sasha? - Dirigiu-se num tom calmo à
filha na primeira noite em casa. Tal como, há um ano, Nicholas tinha ido
esperá-los ao barco, mas desta vez na nova Duesenberg que Simon
encomendara, antes de terem deixado de as fabricar no ano anterior.
Nicholas ficara excitadíssimo ao vê-los e contara a Zoya as notícias da

irmã. Sasha levara bâton e verniz de unhas para o colégio e fora apanhada
a beijar um dos professores. Ele tinha sido temporariamente suspenso e
Sasha expulsa sem qualquer esperança de readmissão. - Porquê? - insistiu
Zoya. - O que pode ter-te levado a fazer uma coisa dessas?
- Estava aborrecida - respondeu Sasha com um encolher de ombros
-, e frequentar um colégio só de raparigas é estúpido.
Sinion pagara-lhe os estudos em Marymount, e Zoya ficara
contentíssima por vê-Ia num colégio melhor do que ela poderia perinítir-
se. Nicholas prosseguira no Trinity como antes de eles se casarem e
adorava estar lá. Faltavam-lhe mais dois anos antes de ir para Princeton,
como o pai antes dele.
Sasha aguentara seis meses no Marymount e agora fora expulsa e nem
sequer tinha a delicadeza de se mostrar embaraçada. Só havia dois
professores no colégio, o de música e o de dança, o resto eram freiras e
mesmo assim Sasha arranjara sarilhos.
Zoya interrogou-se sobre se seria uma maneira de a castigar por se ter
afastado tanto tempo e se mostrar tão entusiasmada com o novo negócio.
Era a primeira vez que reflectIa no assunto, mas agora não havia nada a
fazer. Encomendara todas as linhas americanas antes de partir e comprara
e pagara o restante em Paris. Tinha de abrir a loja fosse lá como fosse, E
era uma altura péssima para Sasha lhe causlr problemas. Contudo, Sasha
não era a única coisa que a preocupava.
- Não te sentes embaraçado? - perguntou Zoya. - Antes do mais,
pensa em como o Simon foi bom em mandar-te para lá. - No entanto, a
filha limitou-se a encolher os ombros, e Zoya sentiu que não conseguira
convencê-la quando voltou ao quarto e encontrou Simon a desfazer as
inalas. - Lamento muito, Simon. Parece-me tão ingrato por parte dela ter
feito isto.
- O que é que ela disse? - inquiriu Simon, fitando a mulher com uma
expressão preocupada. Havia algo em Sasha que o perturbava nos últimos
meses. Apanhara-a mais do que uma vez a fitá-lo com olhos esfaimados,
de uma forma que teria inspirado um homem menos decente a tratá-la
como uma mulher e não como uma criança, mas nunca falara do assunto
a Zoya. Continuara a tratá-la como uma miúda, o que só servira para a
espicaçar. Todavia, ela só tinha doze anos e era extremamente bonita.
Possuía a beleza germânica distante da avó e o fogo russo da mãe.
Tratava-se de uma combinação terrível. - Está triste? - indagou, e Zoya
abanou a cabeça.
- Se, ao menos, estivesse. - A filha não mostrara uma centelha de
arrependimento.
- O que vais fazer agora?
- Procurar o urro colégio, acho. O ano já vai um pouco avançado para

tal. - Era o meio de Abril. - Podia arranjar-lhe um tutor até ao Outono,
mas não estou certa que fosse bom para ela.
Sinion gostou da ideia.
- Talvez devesses fazê-lo. Tirava-lhe um pouco da pressão. - "Desde
que seja uma mulher."
No entanto, Zoya apenas encontrou um homem jovem e nervoso que
lhe garantiu ser capaz de lidar com Sasha sem qualquer problema. Ficou
exactamente um mês e depois fugiu, aterrorizado, sem explicar a Zoya
que, no dia anterior, ela o recebera com uma camisa de noite que
pertencia, obviamente, à mãe e lhe dissera que queria que a beijasse.
- És uma fedelha - acusava-a Nicholas noite e dia. Aos dezasseis anos
era mais intuitivo em relação a ela do que a própria mãe. E Sasha lutava
com Nicholas como uma gata, arranhando-lhe a cara quando se irritava.
O próprio Simon estava preocupado com a garota; porém, quando
começava a perder a esperança, ela tornava-se submissa e encantadora.
As obras da loja corriam de vento em popa e, em Julho, dava a
sensação de que abririam em Setembro. Nesse ano, celebraram o
aniversário de casamento numa casa alugada em Long Island, dois dias
depois de Amelia Earhart desaparecer no Pacífico. Nicholas sentia-se
fascinado por ela e confessou em segredo a Simon que um dia queria
aprender a voar. Charles Lindbergh era o seu herói de infância. Também
se sentira fascinado pelo Híndenburg, o dirigível que tinha explodido sobre
Nova Jérsia no princípio de Maio. Por sorte, quando tentara convencer
Zoya e Simon a viajarem nele até à Europa, Zoya mostrara-se desconfiada
e, de qualquer maneira, queriam ir de barco, recordando a viagem de há
um ano atrás no Queen Mary.
- Então, Mistress Hirsch, o que acha? - perguntou Simon, junto à
secção de sapatos do piso das mulheres na nova loja dela, no início de
Setembro. - É tudo o que queria que fosse?
Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas ao perscrutar o que a rodeava
numa muda admiração. Elsie de Wolfe tinha criado uma atmosfera de
beleza e elegância dada por sedas cinzentas e um chão de mármore rosa.
Havia luzes suaves e arranjos de flores de seda em bonitas mesas Luís
XV.
- Parece um palácio!
- Nada menos do que mereces, amor. - Beijou-a nessa noite festejaram
com champanhe. A loja abriria na semana seguinte com uma festa
esplendorosa e a presença da elite de Nova lorque.
Zoya comprara o vestido para a inauguração no Axelle's.
- Isto será bom para o negócio! Posso ter de dizer no meu próximo
anúncio que a condessa Zoya faz compras aqui! - As duas mulheres
tinham-se tornado amigas íntimas e ambas sabiam que nada mudaria a

situação.
Zoya e Simon tinham pensado horas a fio num nome para a loja e,
por fim, Simon soltara uma risada, com os olhos brilhantes.
- Já sei!
- Também eu - disse Zoya, a sorrir de orgulho. - Hirsch & Ca.
- Não - ripostou ele ante o som do nome pouco romântico. - Nem sei
porque não pensei nisso antes. Condessa Zoya!
Parecera-lhe demasiado exibicionista, mas acabara por convencê-la.
Era o que as pessoas queriam, penetrar no mistério da aristocracia, ter um
título mesmo que implicasse comprar um, ou, neste caso, comprar as
roupas que uma condessa escolhera para elas.
As colunas dos jornais referiam sem cessar a "condessa Zoya" e, pela
primeira vez em anos, Zoya foi às festas para que a convidavam. Era
apresentada como condessa Zoya e o seu marido, Mr. Hirsch, mas por
todo o lado as altas esferas e debutantes pululavam à sua volta. E ela
parecia sempre requintada nas suas roupas elegantes, de Chanel a
Madarne Grès ou Lanvin. As pessoas estavam ansiosas por conhecer as
lojas, e as mulheres convenciam-se de que sairiam de lá com a aparência
de Zoya.
- Conseguiste, minha arniga - sussurrou Simon na noite da
inauguração, em que a loja transbordava com todos os nomes importantes
de Nova Iorque. A própria Axelle enviara-lhe um ramo enorme de
orquídeas brancas. "Bonne chance, Mon amíe, Affectueusement, Axelle",
dizia o cartão que Zoya leu com lágrimas nos olhos e fitando Simon
apaixonadamente.
- A ideia foi tua.
- É o nosso sonho. - Sorriu, pois, em certa medida, era o bebé de
ambos. Até os filhos dela estavam presentes.
Sasha com um bonito vestido branco de renda que parecia pudico e
era algo que as filhas do czar poderiam ter usado, ou mesmo Zoya em
criança, e esse o motivo por que ela o comprara em Paris. E Nicholas
estava elegantíssimo, aos dezasseis anos, com o primeiro smoking e os
botões de punho oferecidos por Simon, pequenas safiras incrustadas em
platina e rodeadas de diamantes. Eram uma família da alta sociedade,
quando os fotógrafos dispararam as máquinas e Zoya posou repetidas
vezes com as mulheres da alta sociedade que se tornariam. suas clientes.
A partir desse dia, a loja nunca esteve vazia. Mulheres chegavam em
Cadillacs, Píerce-Arrows e Rolls. Um ocasional Packard ou Lincoln também
parava junto à porta, e o próprio Henry Ford apareceu a comprar um
casaco para a mulher. Zoya tinha planeado vender apenas alguns, pois
queria que a maioria dos casacos fosse de Simon. Contudo, Barbara
Hutton encomendou um com gola de arminho e Mrs. Astor um cor de

areia até ao chão.
No fim do ano, o destino da Condessa Zoya estava traçado, e as
vendas da quadra natalícia aumentavam. Até mesmo a secção de homem
no segundo andar elegantemente decorado estava a vender bem. Os
homens faziam as compras em divisões forradas de painéis de madeira
com bonitas lareiras, enquanto as mulheres gastavam as fortunas no andar
de baixo nos gabinetes forrados de seda cinzenta.
Era tudo o que Zoya sonhara e mais e, em Park Avenue, os Hirsch
brindaram, felizes, na véspera de Ano Novo.
- A nós! - disse Zoya, erguendo a taça, ostentando um vestido de noite
preto, feito para ela por Dior.
Todavia, Simon limitou-se a sorrir quando voltou a erguer a taça.
- À Condessa Zoya!

CAPíTULO 42

No final do ano seguinte, Zoya teve de abrir outro andar, e a compra
do prédio feita por Simon revelara-se profética. A secção de homem
passou para o andar de cima e no segundo andar, vendia peles e modelos
exclusivos de vestidos e havia ainda uma pequena boutique para as filhas
das clientes,
Também começavam a aparecer rapariguinhas para comprar vestidos
de festas e os primeiros vestidos de noite. Vendia mesmo fatos de
baptizado, a maioria franceses, e todos eles tão bonitos como os que vira
em criança na Rússia miperial.
A sua própria filha gostava de ir à loja e escolher vestidos novos
sempre que queria, mas Zoya acabou por restringi-Ia. Sasha parecia
denotar um apetite insaciável por roupas caras e Zoya não queria que
exagerasse.
- Porque não? - redarguiu Sasha, amuada da primeira vez que Zoya
lhe disse que não podia ir fazer compras por capricho.
- Porque já tens montes de coisas bonitas no teu armário e algumas
deixam de te servir antes mesmo de teres oportunidade de as usares. -
Aos treze anos, ela era alta e esguia como Natalya e com uns palmos mais
do que a mãe. E Nicholas era ainda mais alto do que as duas, aos
dezassete. Estava no último ano do colégio, antes de ir para Princeton.
- Gostaria de me meter já no negócio como tu - declarara
admirativamente a Simon mais que uma vez. Sinion fora bom para os três
e Nicholas adorava-o.
- É o que acontecerá um dia, filho. Não tenhas muita pressa. Se

tivesse tido oportunidade de ir para a faculdade como tu, adoraria.
- Às vezes parece uma perda de tempo - confessou Nicholas, mas
sabia que a mãe esperava que ele fosse para Princeton. Não estava, além
disso, demasiado longe de casa e tencionava vir à cidade sempre que
possível. Tinha uma vida social intensa, mas também se saía bem nos
estudos, contrariamente à irmã. Esta, aos treze anos, era lindíssima e
parecia facilmente cinco anos mais velha quando se pavoneava pela sala
nos vestidos que Zoya ainda lhe comprava.
- Estes são muito de criança! - lamuriava, contemplando os vestidos
de noite da loja. Mal conseguia esperar até ter idade bastante para os
usar. E quando Simon se ofereceu para a levar ao filme de Disney Branca
de Neve e os Sete Anões sentiu-se insultadíssima. - Já não sou uma criança!
- Então não te portes como se o fosses - espicaçou Nicholas.
Contudo, em vez disso, Sasha queria dançar o samba e a conga como
Simon e Zoya faziam quando iam a El Morocco. Nicholas também queria
acompanhá-los, mas Zoya insistiu que ele era ainda muito novo. Simon
levou-os a todos ao 21 e falaram seriamente sobre o que estava a
acontecer aos judeus na Europa.
Simon sentia-se muito preocupado com o que Hitler fazia no final de
1938 e tinha a certeza de que haveria uma guerra. Contudo, ninguém mais
em Nova lorque parecia preocupar-se com isso. Frequentavam festas,
recepções e bailes e os vestidos voavam da loja de Zoya. Ela estava
mesmo a pensar em abrir outro andar, mas parecia cedo de mais.
Receava que o negócio pudesse diminuir, mas Simon limitava-se a troçar
das suas preocupações.
- Enfrenta a realidade, querida. És um sucesso. O negócio nunca vai
diminuir. Depois de se construir algo como o fizeste, não desaparece
assim. Estás a firmar o teu nome com qualidade e estilo. E, enquanto
tiveres coisas para vender, clientes não faltarão.
Zoya temia dar-lhe razão e trabalhava mais do que nunca, tanto que
tiveram de lhe telefonar para a loja quando Sasha voltou a ser suspensa,
pouco antes das férias do Natal. Tinham-na matriculado no Liceu Francês,
uma instituição dirigida por um distinto francês, só que ele não tolerava
disparates e convocou Zoya para se lhe queixar pessoalmente de
mademoiselle. Apanhou um táxi para a Rua 95, a fim de lhe suplicar que
não expulsasse a filha. Parecia que ela fizera gazeta às aulas e fumara um
cigarro no bonito salão de baile da instituição.
- Tem de castigá-la, madame. E aplicar uma rígida disciplina, caso
contrário, madame, receio que todos o lamentemos um dia. - No entanto,
depois de uma longa conversa com Zoya, concordou em não a expulsar.
Colocá-la-ia em vez disso sob vigilância depois das férias do Natal. E
Simon prometeu ser ele a levá-la de carro ao liceu para ter a certeza de

que não faltava.
- Achas que devia sair todos os dias da loja quando ela vem do liceu?
- perguntou Zoya a Sinion nessa noite. Sentia-se mais culpada do que
nunca por causa das muitas horas que trabalhava na loja.
- Não me parece que devas fazê-lo - retorquiu Simon honestamente
e pela primeira vez irritado com Sasha. - Com praticamente catorze anos,
devia saber comportar-se até às seis horas, quando os dois chegamos a
casa.
Sabia perfeitamente que algumas vezes Zoya só chegava a casa depois
das sete. Havia sempre tanto que fazer na loja, tantas alterações que
desejava supervisionar pessoalmente e encomendas especiais que ela
própria redigia para que não houvesse erros. E parte do seu sucesso
residia na sua disponibilidade para as clientes que exigiam a condessa
Zoya.
- Não podes fazer tudo sozinha - dissera-lhe Simon mais do que uma
vez, mas, no íntimo, ela achava que devia, tal como achava que também
devia estar em casa com as crianças. Contudo, nessa altura, Nicholas tinha
quase dezoito anos e Sasha era apenas quatro anos mais nova, portanto
já não eram crianças. - Ela vai ter de se portar correctamente. - E quando
ele lhe disse o mesmo nessa noite, Sasha saiu a correr da biblioteca e
bateu com a porta do quarto e Zoya começou a chorar.
- Há momentos em que penso que ela está a pagar o preço da vida
que levei antes - retorquiu, assoando-se ao lenço de Simon e fitando-o
com uma expressão triste. Sasha andava a causar preocupações terríveis
a Zoya, e Simon sentia-se zangado com ela por isso. - Quando ela era
uma miúda, eu estava sempre no trabalho e agora... quase me parece
tarde de mais para a compensar.
- Não tens nada que a compensar, Zoya. Ela tem tudo o que pode
desejar, inclusive uma mãe que a adora. - O problema residia em que era
mimada e ele não queria clizè-lo. O pai tinha-a estragado com mimos em
criança, e Nicholas e Zoya haviam continuado o processo nos anos
seguintes.
Zoya também mimara Nicholas, mas ele aparentemente tornara-se
mais bondoso e sensato, apreciando tudo o que Simon fazia por ele,
contrariamente a Sasha, que só queria mais e tinha acessos de raiva quase
diários. Se não queria um vestido novo, era um novo par de sapatos ou
uma viagem algures ou queixava-se porque não queriam ir a St. Moritz ou
não possuíam uma casa no campo. Tendo, porém, em consideração a
fortuna que Simon tinha feito, nem ele nem Zoya gostavam de luxos
excessivos. Ela já tivera tudo isso antes e o que partilhava agora com
Simon era mais importante.
As preocupações de Zoya com Sasha quase lhe estragaram as férias

de Natal e, depois do Natal russo, parecia realmente doente. Andava
pálida e trabalhava demasiado na loja, quase como se afogasse lá as suas
mágoas. Para a alegrar, Simon anunciou que ia levá-la a Sun Valley, sem
as crianças, para esquiar.
Sasha ficou ainda mais furiosa. Queria acompanhá-los, e Simon disse-
lhe com firmeza que não era possível. Tinha de ficar em Nova Iorque e
ir às aulas e ela fez o possível e o impossível para lhes estragar a viagem.
Telefonou-lhes a dizer que a cadela estava doente e no dia seguinte
Nicholas desmentiu-a. Entornou tinta na alcatifa do quarto, e do liceu
telefonaram a informar que voltara a faltar às aulas. Zoya só desejava
regressar a casa e controlá-la novamente. Contudo, enjoou durante toda
a viagem de comboio e, quando chegaram a Nova lorque, Simon insistiu
para que fosse ao médico.
- Não sejas idiota, Simon. Estou apenas cansada - ripostou, o que não
era hábito nela.
- Não me interessa. Estás com um aspecto horrível. A minha mãe
disse que estava preocupada contigo quando te viu ontem.
Zoya riu ante a observação. Sofia Hirsch costumava preocupar-se com
a religião dela e não com o seu estado de saúde. Contudo, acabou por
concordar em ir ao médico na semana seguinte, embora achasse um
disparate. Sabia que andara a trabalhar demasiado e continuava
preocupada com Sasha, embora a filha parecesse mais subnuissa agora
que tinham regressado de Sun Valley.
Todavia, Zoya não estava, de forma alguma, preparada para o que o
médico lhe disse, depois de a ter observado.
- Está grávida, Mistress Hirsch. - Sorriu-lhe bondosamente do outro
lado da secretária. - Ou devo chamar-lhe condessa Zoya?
- Estou o quê? - redarguiu, fitando-o incrédula. Tinha quarenta anos
e a última coisa que desejava era um filho, mesmo sendo de Simon.
Quando tinham casado há dois anos e meio, haviam concordado que era
algo fora de questão. Sabia que Simon o lamentava, mas, agora com a
loja, teria sido ridículo. "É ridículo", pensou, fitando o médico sem querer
acreditar no que ouvia. - Mas não posso estar!
- Bom. Na verdade, está. - Fez-lhe mais algumas perguntas e calculou
que o bebé deveria nascer por volta de 1 de Setembro. - O seu marido
ficará satisfeito?
- Eu... ele... - Zoya mal conseguia falar. Tinha os olhos cheios de
lágrimas e, prometendo voltar dali a um mês, saiu apressadamente do
consultório.
Nessa noite ao jantar não falou, mais parecendo que alguém tinha
morrido, e Simon fitou-a, preocupado, várias vezes. Contudo, esperou até
estarem a sós na biblioteca para lhe perguntar o que dissera o médico.

- Passa-se alguma coisa? - Sabia que não podia continuar a viver se
alguma coisa lhe acontecesse e detectava-lhe no olhar que ela estava
terrivelmente perturbada.
- Simon... - Ergueu o rosto, angustiada, na sua direcção. - Estou
grávida.
Simon fitou-a e depois precipitou-se subitamente para ela e pegou-lhe
ao colo com um grito de alegria.
- Oh, querida... oh, querida!.. Oh, meu Deus... Corno te amo!...
Quando Zoya voltou a olhá-lo, apercebeu-se de que ele ria e chorava
ao mesmo tempo e nem teve coragem de lhe confessar que nessa tarde
chegara a pensar em fazer um aborto. Sabia que era perigoso, mas
também sabia que várias das suas clientes o haviam feito e sobrevivido e
era velha de mais para ter um filho. Ninguém tinha um filho aos quarenta
anos! Pelo menos, ninguém que ela conhecesse, ninguém no seu juízo
perfeito, e fixou o marido com uma expressão irritada.
- Como podes estar tão feliz? Tenho quarenta anos. Sou velha de mais
para ter outros filhos.
- Foi o que disse o médico? - indagou, preocupado, quando ela
recomeçou a chorar.
- Não - respondeu, furiosa, e assoou-se. - Deu-me os parabéns. -
Simon só conseguia rir-se dela, ao vê-Ia percorrer a sala de um lado para
o outro. - E a loja? Pensa nisso, Simon. E as crianças?
- Será bom para eles - redarguiu, sentando-se calmamente numa
cadeira com o ar de quem tinha conquistado o mundo. - O Nicholas irá
para a faculdade no próximo ano e, de qualquer maneira, acho que ficará
feliz por nós. E talvez faça bem à Sasha deixar de ser a bebé da casa.
Seja como for, terá de se adaptar. Com a loja não haverá problema.
Podes ir lá umas horas todos os dias e depois contratar uma ama... - Já
tinha tudo planeado quando Zoya o olhou. Trabalhara tanto, os humores
de Sasha eram tão instáveis e do que menos precisava no mundo era um
bebé que perturbasse o equilíbrio.
- Umas horas? Achas que consigo dirigir a loja numas horas? Estás
doido, Simon!
- Não, não estou - asseverou com um sorriso tranquilo. - Mas estou
doido pela minha mulher, isso sim... - Os olhos brilhavam-lhe e parecia
outra vez um rapazinho. Ia ser pai aos quarenta e três anos. - Vou ser pai!
- Parecia tão satisfeito que ela não teve coragem de continuar irritada e
sentou-se com uma expressão triste no sofá, chorando com mais força.
- Oh, Simon... como é que isto pôde acontecer?
- Vem cá. - Aproximou-se mais dela e rodeou-lhe o ombro com o
braço. - Eu explico-te...
- Deixa-te disso, Simon!

- Porquê? Agora já não podes engravidar.
Ainda se sentia mais divertido porque ela era sempre tão cuidadosa,
mas por vezes o destino troca as voltas e não podia deixar que ela
mudasse o rumo. Zoyajá dera a entender sombriamente que as coisas
podiam ser "mudadas" e ele sabia o que estava por detrás das palavras,
mas nem era bom pensar nisso. Não ia permitir que a mulher arriscasse
a vida com um aborto do filho que ele sempre desejara.
- Zoya... minha querida... acalma-te um minuto e pensa. Podes
trabalhar até ao fim da gravidez. Podes provavelmente estar no teu
gabinete até o bebé nascer, desde que não andes muito de um lado para
o outro. E depois voltarás a trabalha e nada mudará, excepto que teremos
um belo filho nosso para amar durante o resto da vida. É assim tão
terrível, querida? - Com aquele raciocínio não parecia realmente o fim do
mundo, e ele tratara tão bem os filhos dela que sabia não poder negar-
lhe um seu. Suspirou e voltou a assoar-se.
- Rirá de mim quando crescer. Pensará que sou a avó em vez da mãe!
- Não, se tiveres o mesmo ar de agora. E por que razão havia isso de
mudar? - Zoya ainda era bonita e, aos quarenta anos, parecia muito
jovem. Só o facto de ter um filho de dezassete anos atraiçoava a sua idade
e ela orgulhava-se tanto dele que o referia sem cessar. Mas, à parte este
pormenor, ninguém lhe daria mais que vinte e tais, quando muito trinta. -
Amo-te tanto - tranquilizou-a de novo Simon, e Zoya empalideceu ao
pensar em Sasha.
- O que lhe diremos?
- A boa notícia - afirinou meigamente à mulher - de que vamos ter
um filho.
- Acho que ela ficará muito perturbada.
E foi a declaração do século. Só que nenhum deles estava preparado
para o furacão que varreu Park Avenue quando Zoya lhe falou do bebé.
- Estás o quê? É a coisa mais nojenta que alguma vez ouvi! O que
direi aos meus an-úgos., céus? Vão rir-se de mim e será tudo por tua
culpa! - Mostrava toda a sua raiva, e Zoya fitava-a, infeliz.
- Nada mudará e continuarei a amar-te. Não sabes isso, querida? -
retorquiu, desesperada.
- Não me interessa! Não quero ficar a viver aqui, se tiveres um filho!
Batera com a porta e nessa tarde tinha desaparecido depois das aulas.
Levaram dois dias a descobrir que ela estava na casa de uma amiga.
Nessa altura, Zoya e Simon haviam chamado a Polícia, e ela encarou-os
na casa da amiga com uni olhar de desafio. Zoya pediu-lhe calmamente
que voltasse com eles para casa, Sasha recusou e Simon teve, pela
primeira vez, um verdadeiro ataque de fúria.
- Vai buscar as tuas coisas imediatamente! Entendes? - Agarrou-lhe no

braço e abanou-a com força. Nunca fizera nada parecido e ela achara-o
dotado de uma infinita paciência. Contudo, até Simon tinha os seus
limites. - Vai buscar o chapéu, o casaco e o mais que trouxeste para aqui
e virás connosco, quer queiras ou não, caso contrário, Sasha, interno-te
num convento.
Por instantes, ela acreditou nele. Simon não queria que a mulher
abortasse por causa daquela sua filha mimada. Pouco depois, Sasha
regressou à sala com as suas coisas, parecendo mais submissa e um tanto
receosa de Simon. Zoya desfez-se em desculpas frente à mãe da amiga de
Sasha e levou-a para casa, onde Simon lhe leu a sentença, mal puseram
pé no apartamento.
- Se alguma vez te atreveres a voltar a afligir a tua mãe, Sasha
Andrews, dou-te uma tareia de morte, entendes? - Rugia, mas Zoya sorria
intimamente. Sabia que ele seria incapaz de pôr a mão na filha ou em
quem quer que fosse, mas estava pálido de raiva. E, subitamente,
começou a temer que ele pudesse ter um ataque de coração como o que
vitimara Clayton;
- Vai para o teu quarto, Sasha - ordenou num tom frio, e a jovem
obedeceu em silêncio, surpreendida pela prinieira vez ante a reacção de
ambos.
- Há muito que deviam ter feito isso - pronunciou-se Nicholas, que
entrara e observara a cena. - Acho que é mesmo o que ela precisa. Umas
boas palmadas no traseiro. - Depois, soltou uma risada maliciosa e Simon
voltou a descontrair-se. - Posso substituir-te quando quiseres. - Virou-se
em seguida para a mãe com o sorriso que tantas vezes lhe recordava o do
irmão. - Quero que saibas que isso do bebé e maravilhoso.
- Obrigada, querido. - Aproximou-se e colocou os braços à volta do
pescoço do filho, alto e elegante, fitando-o com uma expressão tímida. -
Não vais sentir-te embaraçado por a tua velha mãe ir ter um filho?
- Se tivesse uma velha mãe, talvez. - Sorriu-lhe e momentos depois o
seu olhar cruzou-se com o de Simon, detectando o amor que ele lhe
dedicava. Dirigiu-se-lhe e abraçou-o também.
- Parabéns, papá - felicitou Nicholas calmamente beijou-o, enquanto
os olhos de Simon se enchiam de lágrimas. Era a primeira vez que o
jovem o tratava assim. Uma nova vida começara para todos eles e não só
para Simon e Zoya.

CAPÍTULO 43

Em Abril de 1939, foi inaugurada a Exposição Mundial em Flushing

Meadows e Zoya queria muito ir, mas Simon achava que ela não devia.
Haveria uma multidão e ela estava com quatro meses de gravidez.
Continuava a trabalhar a tempo inteiro na loja, embora fosse um pouco
mais cuidadosa que anteriormente.
Em vez disso, Simon levou os miúdos à exposição e ambos ficaram
maravilhados. A própria Sasha portou-se bem, como andava a fazê-lo
desde a famosa explosão de Simon. Continuava, porém, a mostrar-se
dificil com Zoya sempre e podia, e isso acontecia com frequência.
Em Junho, iniciaram-se os primeiros voos de passageiros
transatlânticos com a Pan American e Nicholas ansiava por ir à Europa
no Díxie Clipper, mas Simon não deixou. Achava demasiado perigoso, e
mais do que isso preocupava-o o que estava a passar-se na Europa.
Na Primavera, ele e Zoya tinham voltado a viajar no Normandíe a fim
de comprar roupa para a loja e tecidos para a sua linha de casacos.
Todavia, sentira um clima de tensão por todo o lado e apercebera-se de
um anti-semitismo muito mais vincado do que da última vez que lá
estivera. Agora, tinha a certeza de que haveria uma guerra e ofereceu em
vez disso a Nicholas uma viagem de fim de curso à Califórnia.
O jovem ficou deliciado. Fez a viagem de ida e volta de avião a São
Francisco e mostrou-se apaixonado por tudo o que vira e divertido com
o tamanho da barriga da mãe. Em Agosto ela deixou finalmente de ir à
loja, passando a telefonar de meia em meia hora. Ignorava o que fazer
quando não estava a trabalhar. Simon trazia-lhe doces, livros e as revistas
de que ela gostava, mas no fim de Agosto Zoya só conseguia pensar no
berçário em que transformara o quarto de hóspedes junto à biblioteca e
ia encontrá-la ali diariamente a dobrar roupinha de bebé. Era um lado da
mulher que desconhecia. Zoya foi mesmo ao ponto de reorganizar os
armários e mudou a mobília do quarto deles.
- Calma, Zoya! - dissera em tom de brincadeira. - Até tenho medo
de voltar para casa à noite. Posso sentar-me numa cadeira que já não
existe.
Ela corou, consciente de que ele tinha razão.
- Não sei o que se passa comigo - desculpou-se. - Não consigo libertar-
me da permanente necessidade de ter a casa arrumada.
Mudara também a decoração do quarto de Sasha, que estava num
acampamento para jovens, o que foi um alívio para Simon por não ter de
se preocupar com ela. Tudo parecia correr bem por lá, pois só fugira uma
vez aos vigilantes para ir dançar com as amigas na aldeia mais próxima.
Tinham-na descoberto à cabeça de uma fila de conga, levando-a de volta
ao acampamento, mas, pelo menos, não haviam ameaçado recambiá-la
para casa. Simon queria que Zoya pudesse descontrair-se antes de dar à
luz.

No fim de Agosto, a Alemanha e a Rússia surpreenderam o mundo
ao assinarem um pacto de não-agressão, mas Zoya não parecia interessada
nas notícias mundiais. Estava demasiado ocupada a telefonar para a loja
e a mudar o apartamento.
A 1 de Setembro, propôs-lhe irem ao cinema quando voltou a casa.
Sasha devia regressar na noite seguinte e Nicholas partia na outra semana
para Princeton, mas saíra com uns amigos, para exibir o carro que Simon
acabara de lhe oferecer para levar para a faculdade. Era um Ford coupé
novo em folha e com todos os extras possíveis.
- És demasiado generoso para ele - advertiu Zoya, sorrindo como
sempre grata por tudo o que ele fazia pelos seus filhos. Nessa noite ele
passara pela loja e deu-lhe as notícias, só depois reparando que a mulher
parecia ainda mais desconfortável do que de manhã.
- Sentes-te bem, querida?
- Estou óptima. - Contudo, respondeu que estava demasiado cansada
para ir ao cinema. Nessa noite foram deitar-se às dez da noite e uma hora
mais tarde ele sentiu-a mexer-se, ouviu um ligeiro gemido e acendeu a luz.
Zova mantinha-se deitada, de olhos fechados e agarrada ao ventre.
- Zoya? - Ignorava o que fazer. Saltou da cama e pôs-se a andar pelo quarto à procura da roupa e sem se lembrar onde a deixara. - Não te
mexas. Vou chamar o médico. - Nem sequer se lembrava onde estava o
telefone e ela riu-se da cama.
- Acho que é apenas uma indigestão.
Mas a indigestão piorou nas duas horas seguintes e às três da manhã
ele telefonou ao porteiro do prédio e pediu um táxi. Quando a ajudou a
entrar no táxi, ela já mal conseguia falar e tinha dificuldade em andar.
Simon estava aterrorizado e subitamente deixou de se interessar pelo
bebé. Só queria que ela ficasse bem. Perdeu o controlo quando a levaram
na maca no hospital e pôs-se a andar nos corredores, enquanto o Sol
nascia. Uma hora mais tarde, pôs-se em pé de um salto quando uma
enfermeira lhe tocou no ombro.
- Ela está bem?
- Está - disse a enfermeira a sorrir. - É pai de um belo rapazinho,
Mister Hirsch.
Ele fitou-a e começou a chorar, enquanto a enfermeira se afastava
calmamente. E meia hora depois deixaram-no ver Zoya, que mergulhara
num sono pacífico com o bebé nos braços. Simon entrou no quarto nos
bicos dos pés e parou, maravilhado, ao ver o filho pela primeira vez.
Tinha um tufo de cabelo negro como o dele e conservava a mãozinha
enroscada à volta dos dedos da mãe.
- Zoya? - sussurrou no quarto enonne e soalheiro do hospital. - É tão
bonito - exclamou, quando ela abriu os olhos e lhe sorriu. Tinha sido um

parto dificil pois o bebé era grande, mas mesmo assim, logo a seguir,
soube que valera a pena.
- Parece-se contigo - proferiu numa voz ainda rouca da anastesia.
- Pobre criança. - Os olhos encheram-se-lhe novaniente de lágrimas
e inclinou-se para a beijar. Nunca se sentira tão feliz na vida e Zoya
parecia igualmente feliz e orgulhosa quando passou suavemente a mão
pelo cabelo preto e sedoso. - Como vamos chamar-lhe?
- Que tal Matthew? - sussurrou, enquanto Simon não se cansava de
olhar o filho.
- Matthew Hirsch.
- Matthew Simon Hirsch - rematou Zoya e depois voltou a adormecer
com o filho nos braços e o marido observando-a com as lágrimas
tombando na farta cabeleira ruiva ao beijá-la.

CAPITULO 44

Matthew Simon Hirsch ainda se encontrava no hospital e tinha apenas
um dia de vida quando a guerra estalou na Euroa. A Grã-Bretanha e a
França tinham declarado guerra à Alemanha quando esta invadiu a
Polónia, aliada dos dois países.
Simon entrou no quarto de Zoya com uma expressão triste e deu a
notícia mas, instantes depois, quase a esquecera ao pegar em Matthew,
observando-o a soltar um vagido lascivo pela mãe.
Quando Zoya regressou ao apartamento de Park Avenue, Sasha estava
lá para a receber. Nem ela conseguiu resistir ao bonito bebé que tanto se
parecia com Simon.
- Tem o nariz da mamã - declarou, satisfeita e divertida, fascinada por
tudo ser tão perfeito e pequeno quando lhe pegou pela primeira vez. Aos
catorze anos ainda não tinha idade para visitar o hospital, mas Nicholas
conhecera o innão, antes de partir para Princeton. - E tem as minhas
orelhas! - Sasha riu. - Mas o resto é do Simon!
A 27 de Setembro, depois de brutalmente atacada, Varsóvia rendeu-se
com baixas imensas. Simon ficou destroçado com as notícias, e ele e Zoya
conversaram pela noite fora, enquanto ela se lembrava da revolução. Foi
terrível e Simon lamentou o massacre dos Judeus por toda a Alemanha
e leste da Europa.
Fazia tudo o que lhe era possível pelos que conseguiam fugir.
Estabelecera um fundo de auxílio e estava a tentar arranjar documentos
para familiares de que nunca ouvira falar. As pessoas na Europa serviam-
se de listas telefónicas e telefonavam a habitantes de Nova lorque com

apelidos parecidos, suplicando-lhes ajuda e ele nunca recusava. Mas foram
muito poucos os que conseguiu ajudar. Os restantes eram conduzidos para
a morte, fechados em campos de concentração ou abatidos nas ruas de
Varsóvia.
Quando Matthew tinha três meses, Zoya voltou ao trabalho no dia em
que a Rússia invadiu a Finlândia. Simon seguiu avidamente as
informações sobre a Europa sobretudo os noticiários de Edward R.
Murrow, de Londres.
Era 1 de Dezembro e Zoya ficou excitadíssima por contrar a loja a
abarrotar de clientela. Foram todos ver O Feiticeiro de Oz quando Sasha
saiu das aulas. Nicholas chegara a casa de Princeton que estava a adorar,
embora falasse muito com Simon sobre a guerra, sempre que vinha de
férias.
Ainda gostou mais do segundo ano e, antes de voltar de novo a
Princeton, foi passar uma vez mais as férias de Verão à Califómia. Nesse
ano, Zoya não pudera viajar até à Europa por causa da guerra e tiveram
de se servir dos estilistas dos Estados Unidos. Ela gostava sobretudo de
Norman Norell e Tony Traina.
Corria o mês de Setembro de 1941 e Simon tinha a certeza de que o
país entraria em guerra, mas Roosevelt continuava a insistir que não. E
a guerra em nada prejudicara a loja, pois foi o melhor ano para Zoya.
Quatro anos atrás, abrira as portas e agora utilizava os cinco andares do
prédio que Simon inteligentemente comprara. Ele tinha adquirido mais
quatro fábricas de têxteis no Sul e o seu próprio negócio expandia-se a
olhos vistos. Zoya tinha uma secção só com os casacos dele e chamava-lhe
o seu fornecedor preferido.
Nessa altura, o pequeno Matthew tinha dois anos e era a menina dos
olhos de todos, inclusive de Sasha. Ela era, na opinião de todos, uma
lindíssima adolescente de dezasseis anos. Alta e magra como a mãe de
Zoya o fora, mas, em vez do porte real de Natalya, irradiava uma
sensualidade que atraía os homens como o mel as abelhas- Zoya sentia-se
satisfeita por ela estar ainda no liceu e não ter praticado nenhum acto de
revolta ao longo de quase um ano. Simon prometera levar todos a
esquiarem em Sun Valley nesse ano e Nicholas ansiava por se lhes juntar.
A 7 de Dezembro, estavam sentados na biblioteca a discutir os seus
planos, e Simon ligou a rádio. Em casa, gostava de ouvir os noticiários e
tinha Matthew nos joelhos quando o rosto se lhe contraiu subitamente.
Pô-lo nos braços de Sasha e correu ao encontro de Zoya. Estava muito
pálido quando a encontrou no quarto.
- Os Japoneses bombardearam Pearl Harbor, no Havai!
- Oh, meu Deus... - Levou-a para a outra divisão com ele a fim de
ouvirem as notícias, e o locutor relatava os acontecinientos num tom de

grande excitação. Ficaram pregados ao chão. Matthew puxou pela saia de
Zoya e tentou chamar-lhe a atenção, mas ela limitou-se a pegar-lhe ao
colo e a apertá-lo. Só conseguia pensar que Nicholas tinha vinte anos.
Não queria que ele morresse como o irmão morrera na Preobrajenski. -
Simon... o que acontecerá agora?
Todavia, soube instintivamente quando continuaram a ouvir. Iam
entrar em guerra. O presidente RooseveIt fez a comunicação num tom de
voz cheio de pesar, mas não tanto quanto o de Zoya.
Na manhã seguinte, Simon alistou-se no exército. Tinha quarenta e
cinco anos e Zoya suplicou-lhe que não fosse, mas ele fitou-a tristemente
ao voltar a casa.
- Tenho de ir, Zoya. Seria incapaz de me enfrentar, se me deixasse
ficar aqui sentado sem fazer nada em defesa do meu país. - E não o fazia
apenas pelo seu país, mas pelos Judeus da Europa. A causa da liberdade
estava a ser destruída por todo o mundo e não podia ficar de braços
cruzados, permitindo que isso acontecesse.
- Por favor... - implorou Zoya. - Por favor, Simon... - Transbordava de
tristeza. - Não conseguiria viver sem ti. - Já passara por tudo aquilo antes,
perdera pessoas que amava e sabia que seria incapaz de sobreviver de
novo... sem Sinion, tão meigo, temo e amoroso. - Amo-te demasiado.
Não vás. Por favor... - Estava morta de medo, mas ele não se deixou
dissuadir.
- Tenho de ir, Zoya. - Nessa noite ficaram deitados lado a lado na
cama, ele acariciou-a suavemente com as enormes mãos qua pegavam com
tanto carinho no filho, as mesmas mãos que agora lhe tocavam e a
apertavam de encontro a li. Ela chorava, aterrorizada com a perspectiva
de perder o homem que amava tão profundamente. - Não vai acontecer
nada.
- Não sabes. Precisamos demasiado de ti para que vás. Pensa no
Matthew. - Teria dito qualquer coisa para o convencer a ficar, mas nada
o persuadiu.
- É nele que estou a pensar. Não valerá a pena viver neste mundo
quando ele crescer se nós não fizennos frente agora, se não lutarmos pela
dignidade e pelo que é justo. - Ainda pensava com tristeza no que
acontecera na Polónia, há dois anos. Contudo, agora que o seu próprio
país fora atacado, não lhe restava alternativa. E nem mesmo a entrega
apaixonada de Zoya nessa noite nem as suas súplicas renovadas o levaram
a mudar de opinião. Por mais que a amasse, sabia que tinha de ir. O seu
amor por Zoya só se comparava seu sentido de dever para com o país,
independente do que pudesse custar-lhe.
Foi mandado para Fort Benning, na Jórgia, de comboio, e três meses
depois veio passar dois dias a casa, antes de partir para São Francisco.

Zoya queria voltar à casinha, de Mrs- Whitman na Connecticut para ficar
a sós com ele, mas Simon achou que devia passar esses últimos dias em
casa, com os filhos. Nicholas veio de Princeton para assistir à partida e os
dois homens apertaram solenemente a mão na Grande Estação Central.
- Toma conta da tua mãe por mim - pronunciou Simon sem erguer a
voz no meio do barulho que o rodeava, sempre suave, sempre calmo. A
própria Sasha chorava. Matthew também chorava, embora não percebesse
o que estava a acontecer. Sabia apenas que o pai ia para qualquer lado,
a mãe e a irmã choravam e o irmão também parecia triste. Nicholas
abraçou o homem que tinha sido um pai para ele naqueles cinco anos e
Simon tinha lágrimas nos olhos, quando se lhe dirigiu. - Tem cuidado, filho.
- Também quero ir. - Pronunciou a frase tão baixo que nem a mãe o
ouviu.
- Ainda não - replicou Simon. - Tenta acabar o curso. De qualquer
maneira podem recrutar-te.
Contudo, ele não queria ser recrutado, queria ir para Inglaterra e
pilotar aviões. Há meses que andava a pensar no assunto e em Março não
conseguiu aguentar por mais tempo. Nessa altura, Simon estava no
Pacífico e Nicholas disse-lhes no dia a seguir a Sasha fazer dezassete anos.
Zoya nem queria ouvir. Ficou furiosa e pôs-se a chorar.
- Não te basta que o teu pai tenha ido, Nicholas? - Passara a referir-se
assim a Simon, e Nicholas não se opunha Gostava dele como de um pai.
- Tenho de ir, mamã. Não compreendes?
- Não, não compreendo. Porque não podes ficar onde estás até que te recrutem? O Simon quer que acabes a faculdade, ele próprio to disse. -
Tentou desesperadamente chaniá-lo à razão, mas sentiu-o sempre
inamovível, quando se sentou com ele na sala e chorou. já sentia
horrivelmente a falta de Simon, e a perspectiva do afastamento de
Nicholas era mais do que conseguia aguentar.
- Posso voltar a Princeton depois da guerra - redarguiu.
No entanto, há anos que achava que estava a desperdiçar tempo,
Gostava muito de Princeton, mas queria entrar no mundo real, trabalhar
como Simon o fazia e agora combater, tal como ele no Pacífico. Escrevia-
lhes sempre que podia a contar o que lhe deixavam do que se passava à
sua volta. Mas agora Zoya desejava mais do que nunca que ele estivesse
em casa e convencesse Nicholas a não abandonar os estudos.
Passados dois dias de discussões, soube que tinha perdido. E, três
semanas mais tarde, ele partiu para Inglaterra treinar. Zoya ficou sozinha
no apartamento, pensando com amargura em tudo o que havia perdido
e receando poder voltar a perder... um pai, um irmão, por fim um país,
e agora o marido e filho também tinham partido.

Sasha tinha saído, e deixou-se ficar de olhos perdidos no vazio. Nem
sequer ouviu o toque da campainha da porta. Soou repetidamente e
pensou em não responder, mas depois levantou-se devagar. Não queria
ver ninguém. Apenas queria que os dois voltassem para casa, antes que
alguma coisa lhes acontecesse. Sabia que se algo acontecesse não
aguentaria.
- Sim? - Regressara da loja há uma hora e nem mesmo o trabalho
servia para lhe ocupar o espírito, com a mente constantemente obcecada
com Simon, tendo agora ainda de se preocupar com Nicholas, que
pilotava aviões de combate sobre a Europa.
O rapaz de uniforme mostrava-se muito nervoso. Naqueles últimos
meses acabara por odiar o emprego. E agora fitava Zoya, desejando que
tivessem mandado outra pessoa que não ele. Parecia uma mulher
fantástica, com o cabelo ruivo apanhado e um sorriso nos lábios, sem
compreender o que se aproximava.
- Um telegrama, minha senhora - infonnou, acrescentando depois com
os olhos tristes de criança: - Lamento muito.
Entregou-lho e foi-se embora. Não queria ver-lhe a expressão quando
o abrisse e lesse a notícia. A tarja negra dizia tudo. Zoya susteve a
respiração e as mãos tremiam-le incontrolavelmente quando o rasgou e,
nesse momento, o elevadfor veio salvar o mensageiro. já desaparecera
quando ela leu as palavras...
"Lamentamos informar que o seu marido, Simon lshmaci Hirsch, foi
morto ontem..." ... Tudo o mais não passou de uma névoa quando ela caiu
de joelhos na entrada, soluçando o nome dele... e recordando-se
subitamente de Nicolai, sangrando de morte no chão de mármore do
Palácio Fontanka....
Ficou a soluçar durante horas a fio, ansiando o seu toque meigo, vê-
lo, o cheiro da água-de-colónia que ele usava... o cheiro à espuma da
barba... qualquer coisa... qualquer coisa... Ele nunca mais voltaria a casa.
Simon desaparecera, como os outros.

CAPITULO 45

Quando Sasha regressou a casa, encontrou a mãe sentada às escuras.
Ao saber porquê, teve uma atitude sensata uma vez na vida. Chamou
Axelle, que veio fazer-lhe companhia e organizar a cerimónia fúnebre.
No dia seguinte, a Condessa Zoya fechou e as portas foram tapadas
com crepes pretos. Axelle ficou no apartamento com Zoya, que se
manteve sentada, incapaz de raciocinar ou fazer algo mais do que acenos

de cabeça, enquanto Axelle se ocupava de tudo. Zoya não conseguia
tomar as decisões necessárias, o que em nada se lhe adequava.
O seu acto final de coragem residira em ir a casa dos pais de Simon,
em Houston Strect na noite anterior. A mãe gritara e lançara-se a chorar
nos braços do marido e, por fim, Zoya fora-se embora, tropeçando à saída
e agarrando-se ao braço de Sasha. Estava cega de tristeza e dor pela
perda do homem que amara mais do que qualquer outro.
A cerimônia fúnebre foi uma verdadeira agonia com toda a litania e
os gritos da mãe. Zoya apertava o braço de Axelle e as mãos de Sasha e
depois tinham-na levado de volta ao apartamento onde chorara sem parar.
- Tens de regressar ao trabalho, assim que puderes - replicou Axelle,
olhando-a quase duramente.
Sabia como era fácil deixar-se afundar, desistir, pois era o que quase
tinha feito quando o marido morrera. E agora Zoya não podia dar-se a
esse luxo. Tinha três filhos em quem pensar, e nela também. E já antes
sobrevivera à tragédia. Tinha de voltar a fazê-lo agora, mas ela limitava-se
a abanar a cabeça, as lágrimas corriam-lhe abundantemente pelas faces e
fitava Axelle com uma expressão vazia. Parecia não ter qualquer razão
para continuar a viver.
- Nem sequer consigo pensar nisso agora. Não me interessa a loja.
Não me interessa nada. Apenas o Simon.
- Bom, é preciso que o faças. Tens uma responsabilidade para com os
teus filhos, tu própria, as tuas clientes... e para com o Sirrion. Tens de
continuar a obra que ele te ajudou a começar. Não podes desistir. A loja
foi o presente que ele te deu, Zoya!
Era verdade, mas a loja parecia agora tão trivial, tão ridículamente
insignificante. Sem Simon ao seu lado para partilhar, o que interessava
tudo aquilo?
- Precisas de ser forte. - Estendeu à bonita ruiva, um cálice de brande
que fora buscar ao bar e insistiu para que bebesse um gole, sem deixar de
a observar. - Bebe tudo. Vai fazer-te bem. - Axelle parecia um militar e
Zoya sorriu à amiga por entre as lágrimas e em seguida pôs-se a chorar
com mais força ainda.
- Não sobreviveste à revolução e a tudo o que aconteceu depois, para
desistires agora, Zoya Hirsch - prosseguiu Axelle. Contudo o apelido
apenas serviu para lhe provocar mais lágrimas e Axelle voltou todos os
dias até convencer Zoya a regressar à loja.
Vestia de preto e calçava meias pretas, mas pelo menos estava de
volta ao seu gabinete. E, decorridos uns dias, os minutos transformaram-se
em horas. Acabou eventualmente por passar a maior parte do dia à
secretária, com uma expressão vaga, pensando em Simon.
Ia como um robô todos os dias, e Sasha começara novamente a

causar-lhe problemas. Zoya sabia que estava a perder o controlo sobre a
filha, mas também não era capaz de lidar com o assunto. Apenas
conseguia sobreviver aos dias, hora a hora, escondida no gabinete, e
depois ir para casa à noite e sonhar com Simon. O próprio Matthew lhe
partia o coração, pois vê-lo lembrava-lhe constantemente o pai.
Há semanas que os advogados de Sinion lhe telefonavam; no entanto,
furtara-se a todas as tentativas de a verem. Simon deixara dois
funcionários leais a dirigir a fábrica onde faziam os casacos. Sabia que
tudo ali se encontrava sob controlo e já tinha problemas que chegassem
a dirigir a sua própria loja sem enfrentar isso também. E falar com os
advogados sobre os seus bens implicava aceitar a realidade de que ele
desaparecera e não conseguia. Estivera a pensar nele, recordando o firn-
de-semana no Connecticut quando uma das assistentes bateu ao de leve
na porta do gabinete.
- Condessa Zoya? - perguntou a mulher através da porta, e Zoya
secou os olhos. Sentara-se à secretária, de olhos fixos na fotografia de
Simon. Tivera mais uma discussão com Sasha na noite anterior, mas nem
mesmo isso a afectara.
- Vou já. - Assoou-se novamente e olhou-se de relane no espelho para
compor a maquilhagem.
- Há uma pessoa que deseja falar consigo.
- Não quero ver ninguém - replicou calmamente, abrindo apenas uma
frincha da porta. - Informe que não estou. - E depois acrescentou como
que reflectindo: - Quem é?
- Um tal Mister Paul Kelly. Disse que era importante.
- Não o conheço, Christine. Diga-lhe apenas que saí.
A rapariga parecia nervosa. Custava-lhe tanto ver Zoya assim
destruída desde que o marido fora morto, mas era compreensível.
Naquela época, todas se preocupavam com os maridos, irmãos, amigos e
os receados telegramas de tarja preta como o que havia sido entregue a
Zoya.
Zoya voltou a fechar a porta, rezando intimamente para que não
aparecesse ninguém importante nesse dia. Não conseguia suportar os
olhares piedosos e as palavras compreensivas. Só piorava a situação e
depois apercebeu-se de uma segunda pancada na porta. Era Christine,
nervosa e inquieta.
- Ele diz que espera. O que hei-de fazer?
Zoya suspirou. Não conseguia imaginar de quem se tratava.Talvez
fosse o marido de uma cliente, alguém que receava que ela discutisse uma
amante com uma mulher. Por vezes recebia visitas desse gênero e
tranquilizava-os sempre com uma delicada firmeza. Contudo, desde a
morte de Sinion que não negociara com ninguém.

Regressou à porta e abriu-a à assistente; continuava com um aspecto
muito elegante, de vestido preto e meias pretas. E os olhos reflectiam uma
infinda tristeza.
- De acordo. Mande-o entrar. - Também não tinha mais nada que
fazer. Era incapaz de se concentrar. Nem na loja, nem em casa, era inútil.
Conservou-se imóvel quando Christine introduziu no gabinete um
homem alto e distinto, vestido com um fato azul-escuro, de cabelo branco
e olhos azuis. Ele ficou impressionado com a beleza dela e por vê-Ia toda
vestida de preto com aquele olhar que parecia trespassá-lo.
- Mistress Hirsch? - As pessoas não costumavam tratá-la assim e
esboçou um aceno de cabeça triste, interrogando-se sobre quem ele seria,
mas pouco interessada.
- Sim?
- Chamo-me Paul Kelly. A nossa firina está a tratar dos... bens... do
seu marido. - Zoya apertou-lhe a mão com uma expressão de imensa
tristeza e convidou-o a sentar-se numa das cadeiras próximo da secretária.
- Temos tentado tudo para contactar consigo. - Fitou-a com uma certa
cenoura e ela reparou que era dono de uns olhos bonitos. Tinha feições
irlandesas e supôs correctamente que outrora o cabelo fora negro cor de
azeviche e agora se tornara branco de neve. - Não respondeu aos nossos
telefonemas. - Contudo, agora ao vê-la, entendia porquê. A mulher estava
devastada pelo desgosto e sentiu uma enorme pena dela.
- Eu sei - redarguiu, desviando os olhos. Depois soltou um suspiro e
fitou-o. - Para falar verdade, não queria falar-vos. Tomava tudo
demasiado real. Tem... - A voz morreu-lhe num sussurro e voltou a
desviar o olhar. - ... Tem sido muito difícil para mim.
Seguiu-se um longo silêncio e ele esboçou um aceno cabeça,
observando-a. Era óbvio o desgosto que a consunia e, no entanto, para lá
da dor, sentia uma enorme força, uma força que ela própria esquecera.
- Compreendo. Mas precisamos de conhecer a sua vontade sobre
algumas questões. Íamos sugerir uma leitura forinal do testamento, mas
talvez dadas as presentes circunstâncias... - A voz perdeu-se e os olhos
voltaram a encontrar-se com os dela. - Talvez de momento apenas
necessite saber que ele deixou quase tudo o que tinha a si e ao filho dele.
Os pais e os dois tios também receberam generosos legados, bem como
os seus dois filhos, Mistress Hirsch.
"Muito generosos, diria - prosseguiu num tom oficial. - De um milhão
de dólares cada, obviamente sob custódia. Apenas poderão tocar-lhe
quando atingirem a maioridade e há ainda outras condições, mas muito
razoáveis. O nosso departamento de custódia ajudou-o. - No entanto,
deteve-se ao deparar com o olhar de Zoya. - Passa-se alguma coisa de
errado? - indagou ele. De súbito, lamentou ter vindo. Ela não estava a

ouvi-lo.
- Um milhão de dólares cada? - Era muito mais do que alguma vez
sonhara, e eram filhos dela e não dele. Estava boquiaberta. Mas era tão
típico de Simon. O amor que lhe dedicava voltou a trespassá-la como um
punhal.
- Sim. Além disso, queria oferecer um cargo ao seu filho na firma
quando ele tiver idade bastante, claro. Trata-se de uma empresa enorme
para dirigir, com o armazém, as seis fábricas de têxteis, sobretudo agora
com os contratos de guerra que chegaram depois de ele ter partido... -
Zoya tentava apreender tudo aquilo. Era mesmo de Simon ter
providenciado o futuro de todos e mesmo planear a entrada de Nicholas
no negócio. Era mesmo de Simon... Se, ao menos, ele tivesse vivido para
os acompanhar, em vez de lhes deixar uma fortuna.
- Que contratos? - Começava lentamente a raciocinar; havia tanto em
que pensar, em tanta coisa que Simon havia construído do nada. Devia-
lhe o tentar compreender tudo isso. - Ele não me falou em contratos de
guerra.
- Ainda não eram uma certeza quando ele partiu. As fabn'cas
fornecerão todo o tecido para os nossos uniformes militares durante a
guerra. - Fitou-a, sem poder ignorar a beleza que ela emanava e toda a
elegância, ali sentada com uma calma dignidade, envolta no desgosto e
dor de perder o marido.
- Oh, céus... O que é que isso significa em termos de vendas? - Por
um momento, foi como se Simon tivesse voltado. Sabia como ele teria
ficado excitado e, quando o advogado lhe deu uma ideia aproximada do
montante, fitou-o, incrédula. - Mas não é possível... Ou é? - Mostrou o
esboço de um sorriso e parecia muito mais nova, muito longe dos
quarenta e três anos que ele sabia que ela tinha, segundo os documentos
que lera. Só que tal parecia dificil de acreditar agora.
- Temo bem que sim. Para lhe falar francamente, Mistress Hirsch, a
senhora e o seu filho vão ficar muito ricos depois da guerra. E se o
Nicholas entrar para a firma, Mister Hirsch providenciou-lhe uma
considerável percentagem.
Simon pensara em tudo, mas era um pequeno consolo. O que fariam
com todo aquele dinheiro sem ele? Mas, ao escutar, sabia que Axelle
estivera certa. Devia a Simon continuar o que ele construíra. Fora a sua
última dádiva. E tinh de continuar, por ele e pelos filhos.
- Os homens que ele deixou à frente do negócio são capazes de lidar
com a situação? - inquiriu, semicerrando os olhos como se o visse pela
primeira vez, e ele sorriu-lhe. Ela era bonita quando sorria, ainda mais
bonita do que pensara à primeira vista.
- Sim. Julgo que sim. Têm, obviamente, de nos prestar contas... -

Fitou-a intensamente - A nós e a si. Mister Hirsch atribuiu-lhe a direcção
de todas as suas companhias. Tinha um grande respeito pelo seu sentido
para o negócio. - Desviou o rosto quando os olhos de Zoya se encheram
de lágrimas e se esforçou por falar numa voz que era quase um sussurro.
Simon significara mais para ela do que todas as suas empresas, mas
aquele homem jamais o poderia entender.
- Amei-o muito. - Levantou-se e foi até à janela, detendo-se a
observar a Quinta Avenida. Agora não podia desistir. Tinha de
continuar... pelas crianças... e por ele. Virou-se devagar e voltou a encarar
Paul Kelly. - Obrigada por ter vindo - agradeceu por entre lágrimas e
quase lhe tirando a respiração com tanta beleza. - Talvez nunca tivesse
respondido aos seus telefonemas. - Não o desejara. Não desejara enfrentar
a perda de Simon, mas agora sabia que tinha de o fazer.
- Receei que assim fosse e por isso vim - proferiu ele calmamente. -
Espero que me perdoe a intromissão. É unia bonita loja - acrescentou. -
A minha mulher vem fazer compras aqui, sempre que pode. - Zoya
esboçou um aceno de cabeça, pensando em toda a clientela que havia
negligenciado, sem a esquecer.
- Peça-lhe, por favor, que venha ter comigo quando voltar aqui.
Podemos mostrar-lhe o que quiser aqui mesmos no meu gabinete.
- Talvez fosse mais generoso para mim, se trancasse as portas antes
de ela entrar. - Sorriu e Zoya correspondeu. Depois, ele fez-lhe algumas
perguntas sobre Nicholas. Zoya explicou que o filho se encontrava em
Londres, a pilotar aviões de combate com as forças americanas ligadas à
RAF. - Tem muito com que se preocupar, não é verdade, Mistress
Hirsch? - Ela esboçou um triste aceno de cabeça, e ele sentiu-se comovido
pela sua vulnerabilidade. Construíra um império próprio com a ajuda do
marido e parecia, contudo, tão delicada como asas de borboleta, ali
sentada do outro lado da secretária. - Informe-me, por favor, se houver
alguma coisa que possa fazer para a ajudar. - Mas o que poderia ele
fazer? Ninguém era capaz de lhe trazer Simon de volta e era apenas isso
o que desejava.
- Quero passar algum tempo nos escritórios do meu marido - replicou
com um leve franzir de sobrolho. - Se vou dirigir as empresas dele, tenho
de me familiarizar com tudo. - Talvez no trabalho encontrasse o desejado
entorpecimento.
- Podia ser uma boa ideia - concordou Kelly, visivelmente
impressionado por ela em todos os aspectos. - Eu próprio queria fazer isso
e teria o maior prazer em partilhar todas as nossas informações consigo. -
Ele era sócio de uma das mais importantes firmas de advogados de Wall
Street, e Zoya supôs que deveria ter uns dez anos mais do que ela, mas
a forma como os olhos dançavam quando se ria faziam com que parecesse

mais novo. Na verdade, tinha cinquenta e três e aparentava a idade.
Falaram durante algum tempo e, por fim, ele levantou-se com pena
de a deixar.
- Encontramo-nos na próxima semana no escritório do Simon na
Sétima Avenida ou quer que lhe traga o máximo que puder aqui ao seu
escritório? - perguntou.
- Encontramo-nos lá. Quero que eles saibam que estão a ser
observados... por nós os dois. - Sorriu apertando-lhe a mão. - Obrigada,
Mister Kelly - agradeceu, ainda num tom suave. - Obrigada por ter
vindo aqui.
Ele sorriu novamente e o olhar deixou transparecer todo o encanto
irlandês.
- Estou ansioso por trabalhar consigo.
Zoya voltou a agradecer-lhe e, quando ele saiu, deixou-se ficar sentada
na secretária a olhar em volta. Os números que ele lhe citara referentes
aos contratos de guerra eram assombrosos. Para o filho de um alfaiate do
Lower East Side fizera um trabalho de gigante. Construíra um império.
Sorriu para a fotografia de Simon e saiu do gabinete, voltando a sentir-se
verdadeiramente ela pela primeira vez desde que ele morrera.
As vendedores também repararam, ao passarem ao lado dela para ir
atender as clientes e, nessa tarde, Zoya apanhou o elevador e parou em
todos os andares para se inteirar do que estavam a fazer. Chegara a altura
de voltarem a vê-la. A altura de a condessa Zoya continuar... com a
lembrança dele muito junto ao coração, como sempre estaria... à
semelhança de todas as pessoas que amava. Contudo, agora não podia
pensar nelas. Havia tanto trabalho a realizar. Por Simon.

CAPÍTULO 46

No final de 1942, Zoya passava um dia inteiro por semana nos
escritórios de Simon na Sétima Avenida e Paul Kelly costumava estar ao
seu lado. Haviam começado a tratar-se muito formalmente por Mr. Kelly
e Mrs. Hirsch. Ela usava simples vestidos pretos e ele fatos de riscas ou
azul-escuros.
Contudo, decorridos alguns meses, infiltrara-se um toque de humor.
Ele contava-lhe anedotas horríveis e ela fazia-o rir com histórias da
Condessa Zoya. Passou, então, a ir trabalhar com roupas mais cómodas
e ele tirava o casaco e enrolava as mangas da camisa. Sentia-se
profundamente impressionado com a acuidade de Zoya para o negócio e
achava que Simon tinha toda a razão em respeitá-la como o fizera.

De início, Paul achara que ele era louco em dar-lhe a direcção, mas
louco é que ele não era, e Zoya excedera todas as expectativas. E, ao
mesmo tempo, conseguia manter-se feminina, nunca erguia a voz, mas
ninguém duvidava que não toleraria idiotices. E vigiava atentamente os
livros de contabilidade. Sempre.
- Como é que chegaste aqui? - perguntou-lhe Paul um dia quando
almoçavam na secretária de Simon. Tinham mandado vir sanduíches e
usufruíam de uma merecida pausa no trabalho. No dia anterior, Atherton,
Kelly e Schwartz haviam substituído um dos dois gerentes de Sinion e
havia muita "limpeza" a fazer.
- Por engano. - Riu e falou-lhe dos seus dias no teatro de cabaré, do
emprego no Axelle's e da época muito antes disso em que dançara com
os Ballets Russes. Nessa altura, o sucesso da sua fantástica loja já era do
conhecimento geral.
Paul frequentara Yale e casara com uma debutante de Bóston
chamada Allison O'Keefe. Haviam tido três filhos em quatro anos e ele
referia-se-lhe com respeito, mas os olhos não brilharam quando
pronunciou o nome e não havia aquele riso que Zoya tantas vezes
partilhara com ele. Não ficou surpreendida quando um dia, ao fim da
tarde, ele lhe confessou que detestava ir para casa.
- Há anos que a Allison e eu vivemos como dois estranhos. - Não o
invejou por isso. Ela e Simon haviam sido os melhores amigos,
independentemente da paixão física que partilhavam e de que ainda se
lembrava com desejo.
- Porque continuas casado com ela? - Divórcios era o que mais havia
e, em seguida, recordou-se antes mesmo de ele lhe responder com uma
expressão triste:
- Somos ambos católicos, Zoya. Ela jamais concordaria com a
separação. Tentei há cerca de dez anos. Teve uma depressão ou assim o
disse e nunca mais foi a mesma. Não posso deixá-la agora. E... - Hesitou
e resolveu ser honesto com ela. Zoya era uma mulher em quem podia
confiar e, no último ano, tinham-se tornado grandes amigos. - A verdade
é que ela bebe. Não conseguiria viver com a minha consciência se fosse
responsável por algo que lhe sucedesse.
- Não parece lá muito divertido - redarguiu. "Uma fria debutante de
Bóston que bebia e não lhe concedia o divórcio." Zoya quase estremeceu
ante o pensamento, mas havia muitas mulheres assim na loja, mulheres
que iam às compras porque se sentiam entediadas e nunca vestiam o que
levavam porque a aparência pessoal estava longe de lhes interessar. -
Deves sentir-te só - prosseguiu, fitando-o com um olhar meigo, e ele
controlou-se para não falar de mais. Tinham de trabalhar juntos todas as
semanas e há muito que ele aprendera a lição. Haviam existido outras

mulheres na sua vida, mas nada de muito significativo. Apenas alguém
com quem falar de vez em quando ou com quem fazer amor
ocasionalmente, mas nunca conhecera ninguém como Zoya e nunca se
sentira assim junto de uma mulher, nem talvez voltasse a sentir-se.
- Tenho o trabalho para me aguentar. - Sorriu. - Tal como tu. - Sabia
quanto ela se dedicava ao trabalho. Era tudo para o que vivia agora, isso
e os filhos, que tanto amava.
Em 1943, passaram a jantar juntos às segundas-feiras, quando saíam
dos escritórios de Simon. Era a oportunidade de discutirem em mais
pormenor o que tinham feito nesse dia e costumavam comer nos
restaurantezinhos mesmo à saída da Sétima Avenida.
- Como está o Matt? - perguntou-lhe com um sorriso, numa noite
dessa Primavera.
- O Matthew? Está óptimo. - Tinha três anos e meio e era a luz da
sua vida. - Faz com que volte a sentir-me jovem.
Era irónico que se tivesse achado velha de mais para ter um filho
quando ele nascera e agora lhe desse tanta alegria. Sasha saía tão
frequentemente, que era como se já não vivesse em casa. Acabara de
fazer dezoito anos. Paul vira Sasha uma vez e ficara surpreendido com
tanta beleza. Mas suspeitava dos problemas que causava a Zoya. Ela
confessara mais de uma vez que só dificilmente conseguia mantê-la no
liceu. Nicholas continuava em Londres e ela rezava noite e dia para que
ele regressasse são e salvo.
- Como estão os teus filhos, Paul?
Não era um assunto que ele focasse com frequência. As duas filhas
estavam casadas, uma em Chicago, outra na costa oeste e o filho algures
em Guam. E tinha dóis netos na Califórnia que raramente via. A mulher
não gostava de ir à Califómia e ele tinha medo de a deixar sozinha em
casa.
- Os meus filhos estão óptimos, suponho. - Sorriu. - Saíram há tanto
tempo do ninho que não recebemos muitas notícias deles. Não tiveram
uma infância fácil com a Aflison a beber daquela maneira. Uma coisa
assim muda tudo. - Depois sorriu-lhe, pois gostava sempre de saber dela: -
O que há de novo na loja?
- Nada de especial. Desta vez abri uma nova secção para homem e
estamos a tentar algumas linhas novas. Vai ser bom viajar novamente à
Europa depois da guerra para podermos experimentar outras coisas. -
Contudo, o fim não estava à vista, pois a guerra prosseguia violentamente
do outro lado do Atlântico.
- Gostaria de voltar um dia à Europa. Sozinho - vincou com um
esboço de sorriso honesto. Não era agradável fazer de baby-sitter da
mulher enquanto ela andava de bar em bar ou se escondia no quarto,

fingindo estar cansada em vez de embriagada.
Zoya interrogou-se sobre o que o levava a aguentar a situação.
Parecia ser um fardo terrível e disse-lhe isso mesmo quando ele a levou
a casa e o convidou a subir para tomar uma bebida. Paul só estivera uma
vez no apartamento dela e ficara-lhe uma recordação de calor e conforto,
semelhante ao seu olhar.
Acompanhou-a, feliz, no elevador e sentou-se num sofà da biblioteca
enquanto ela lhe servia uma bebida. Chamara Sasha quando tinham
chegado, mas a empregada saíra e Sasha ainda não aparecera. Só estava
Matthew a dormir no quarto, com a ama.
- Devias fazer umas férias, Paul. Ir à Califórnia ver os teus filhos,
sozinho. Porque é que a tua vida há-de ficar estragada pela atitude da tua
mulher?
- Tens razão, mas não é muito divertido ir sozinho. - Falava-lhe
sempre com honestidade, como naquele momento em que sorvia a bebida
em pequenos goles e observava Zoya, quando ela se sentou. Usava um
vestido branco e tinha o cabelo apanhado atrás como uma rapariguinha.
- Não, não é nada divertido fazer as coisas sozinho. - Sorriu. - Mas
começo a habituar-me. - Fora brutal habituar-se a uma vida sem Simon.
- Não te habitues, Zoya. É horrível - replicou tão veementemente que
ela pareceu sobressaltada. - Mereces mais do que isso. - Passara a vida
dele só e não queria que lhe acontecesse o mesmo. Ela era uma mulher
entusiasta, bonita e cheia de vida e merecia mais do que a solidão que ele
tão bem conhecia.
Contudo, Zoya limitou-se a rir e a abanar a cabeça.
- Tenho quarenta e quatro anos e sou velha de mais para recomeçar. -
E sabia que nunca ninguém estaria à altura de Simon.
- Uma treta. Eu tenho quase cinquenta e cinco e se tivesse a
oportunidade de começar de novo, agarrava-a com unhas e dentes. - Era
a primeira vez que lhe falava assim, estendendo as compridas pernas na
frente, com o cabelo perfeitamente penteado e um brilho no olhar.
Adorava estar na companhia dela. Ansiava a semana inteira pelas
segundas-feiras de duro trabalho. Eram o que o mantinha vivo.
- Sou feliz assim. - Mentia mais para si própria do que para ele. Não
era feliz, mas era o que agora lhe restava.
- Não, não és. Porque havias de ser?
- Porque é tudo o que tenho - replicou tranquilamente, com
sagacidade bastante para aceitar a vida tal como era, em vez de ansiar por
um passado que se perdera na distância. Já o fizera antes e não voltaria
a fazê-lo. Tinha de se contentar com o que lhe restava, os filhos, o
trabalho e as suas conversas com Paul Kelly uma vez por semana.
Ele fitava-a intensamente e, sem uma palavra, pousou o copo e foi

sentar-se junto dela, perscrutando-a com os olhos azuis que pareciam
trespassá-la.
- Apenas quero saber uma coisa. Neste momento não posso fazer
nada, nem posso oferecer-te nada, mas Zoya... amo-te. Desde o dia em
que te conheci. És a melhor coisa que me aconteceu. - Ela pareceu
surpreendida e depois, sem mais uma palavra, Paul tomou-a nos braços
e beijou-a apaixonadamente, sentindo fogo no coração e o corpo a arder
de desejo. - És tão bonita... e tão forte...
- Não digas isso, Paul... não. - Queria afastá-lo e não conseguiu.
Sentia-se tão culpada por o desejar, era como se estivesse a negar a
memória de Simon, e mesmo assim foi incapaz de se controlar, beijando-o
repetidamente e agarrando-se-lhe como se estivesse a afogar-se.
- Amo-te tanto - sussurrou ele, voltando a beijá-la; envolveu-a nos
braços fortes, sentindo o coração dela a bater de encontro ao seu, e
depois sorriu. - Vamos a qualquer lado... longe daqui... onde quer que
seja... Fazia-nos bem.
- Não posso.
- Podes, sim... podemos. - Agarrou-lhe a mão com força e sentiu-se
novamente vivo. Os anos pareceram desaparecer quando a fitou. Era
outra vez jovem e não a deixaria fugir. Mesmo que tivesse de viver com
Allison para o resto da vida, pelo menos e por um fulgurante momento,
podia ter Zoya.
- É uma loucura, Paul - replicou ela, afastando-se e pondo-se a
passear pela sala, vendo o rosto de Simon nas fotografias, observando os
troféus, os tesouros, os livros de arte dele. - Não temos o direito de o
fazer.
Mas Paul não estava disposto a renunciar. Se ela o tivesse
esbofeteado, teria pedido desculpas e partido, mas agora podia ver que ela
o desejava tanto quanto ele.
- Porque não? Quem dita essas regras? Não és casada. Eu sou, mas
não de uma forma que tenha qualquer significado para alguém. Há anos
que não existe nada entre nós Estou armadilhado num casamento em
forma de uma mulhe, que nem sequer sabe se estou vivo e há anos que
näo me ama, se é que me amou... Não tenho direito a mais do que isso?
Estou apaixonado por ti - rematou com um brilho de luta no olhar pelo
que tão desesperadamente ansiava.
- Porquê? Porque é que me amas, Paul?
- Porque és exactamente quem sempre desejei.
- Não posso dar-te muito. - Era honesta com ele, como sempre havia
sido com Clayton e Simon.
- Só um pouco de ti, bastará, eu compreendo. - E depois beijou-a mais
calmamente, e Zoya verificou, para seu próprio espanto, que não o

repelia.
Ficaram sentados horas a fio, beijando-se e de mãos dadas; passava
da meia-noite quando ele se foi embora, prometendo telefonar-lhe no dia
seguinte. Zoya ficou sentada no apartamento tranquilo, sentindo-se
culpada. "Era errado, tinha de ser... não era? O que pensaria Simon?"
Contudo, Simon já não pensaria nada; morrera e ela estava viva e
Paul Kelly também significava algo. Apreciava a sua amizade e despertara
uma parte dela que esquecera. Continuava sentada a pensar nele, quando
ouviu Sasha entrar e foi ter com ela ao quarto.
A filha pusera um vestido vermelho-vivo, tinha a maquilhagem
arruinada e Zoya não gostou da forma como a olhava. Suspeitou que
estava embriagada, e já não era a primeira vez que se confrontava com a
situação. Fitou-a com um olhar cansado. Era tão fatigante aquela luta
permanente.
- Onde estiveste? - Expressava-se num tom calmo e ainda pensava em
Paul quando observou a filha.
- Saí. - Virou as costas para que a mãe não lhe visse a cara. Zoya
tinha razão. Estava embriagada, mas, mesmo assim, era bonita.
- E fizeste o quê?
- Jantei com um amigo.
- Só tens dezoito anos, Sasha, e não podes andar por aí com quem queres. E as aulas?
- Acabo o curso dentro de dois meses. Que diferença faz, agora?
- Muita, para mim. Tens de te portar bem. As pessoas começarão a falar se pisares o risco, sabem quem és, quem eu sou. Por favor, Sasha.
Sê sensata.
Não havia, porém, esperança de que tal acontecesse e há muito tempo
já. Desde que Simon morrera e o irmão partira, Sasha tornara-se ainda
mais rebelde. Zoya quase desistira de a ontrolar e receava perdê-la
totalmente. Sasha ameaçara mais do que uma vez sair de casa, o que
ainda seria pior. Pelo menos assim, Zoya tinha uma ideia do que se
passava e do que ela fazia.
- Essa conversa é do antigamente - replicou Sasha, atirando o vestido
para o chão e andando pelo quarto em cuecas. - Hoje em dia, já ninguém
acredita nessas tretas.
- As pessoas acreditam no que sempre acreditaram. Vais acabar os
estudos este ano e decerto não queres que falem mal de ti, querida. -
Sasha encolheu os ombros e Zoya suspirou, deu-lhe um beijo de boas-
noites, sentindo o cheiro a álcool no hálito e o fumo de cigarro no cabelo.
- Não quero que bebas - avisou, fitando-a com uma expressão triste.
- Porque não? Já tenho idade.
- Não é isso que está em causa.

Sasha limitou-se a um novo encolher de ombros e virou as costas até
a mãe se ir embora. Era inútil falar com ela. Zoya ansiava que Nicholas
voltasse para casa, talvez ele ainda tivesse qualquer influência sobre ela.
Ninguém mais tinha. Zoya sentia-se preocupada com o que aconteceria
quando Sasha pudesse tocar no dinheiro que Simon lhe havia deixado.
Seria o fim, se alguém não tivesse mão nela antes.
Ainda estava a pensar no assunto quando o telefone tocou à uma
hora. Sentiu um baque momentâneo no coração, temendo más notícias.
Contudo, era Paul. Estava em casa, mas decidira telefonar-lhe. Allison
dormia fechada à chave no quarto, e ele, depois de se afastar de todo o
calor de Zoya sentia-se duplamente só.
- Apenas queria dizer-te quanto esta noite significou para mim.
Deste-me algo muito especial.
- Não sei como, Paul - replicou num tom baixo e pensando
intimamente que lhe dera muito pouco. Alguns beijos e o arrebatamento
de um instante.
- Estás a dar um novo colorido à minha vida. As nossas noites de
segunda-feira dão-me vontade de continuar. - Apercebeu-se então do
quanto também ansiava por elas, Paul era inteligente, bom e divertido. -
Esta semana vou sentir-te a falta - disse ele e acrescentou: - Achas que
haveria raios e trovões, se nos encontrássemos numa terça?
- Achas que devemos tentar? - Sentiu-se muito arrojada ao pronunciar
as palavras e riram ambos como duas crianças felizes.
-Vamos almoçar amanhã e descobrir. - Sorria como não sorria há
anos. Ela fazia com que se sentisse um rapazinho, e havia algo nele que
lhe dava, a ela, felicidade e calma.
- Pensas que deveríamos? - Queria sentir-se culpada, mas,
estranhamente, não era esse o caso. Tinha a bizarra intuição de que
Simon compreenderia.
- Amanhã à uma?
- Ao meio-dia. - A mão tremia-lhe, quando desligaram.
Era uma loucura e todavia... não queria parar. Recordou-se do toque
dos lábios na biblioteca nessa noite e havia algo de inocente e suave neles.
Era seu amigo, independentemente do que pudesse acontecer. Era alguém
com quem podia trabalhar e conversar, passar o tempo, discutir o negócio
e os filhos. Paul sabia escutá-la e importar-se com o que acontecia.
Interrogou-se sobre se seria errado, mas nessa noite, quando
adormeceu, sonhou com Simon e ele encontrava-se ao lado de Paul Kelly,
sorrindo.

CAPITULO 47

No dia seguinte, Paul chegou à loja antes do meio-dia e encontrou-a
no gabinete a trabalhar com uma expressão séria e uma caneta enfiada no
cabelo. Bateu ao de leve na porta e, quando a abriu, esboçou um sorriso
ao vê-Ia sentada à secrtária.
- Que imagem familiar - disse quando ela ergueu os olhos. - Muito
ocupada, Zoya? Queres que volte mais tarde?
- Não. isto pode esperar - redarguiu, sorrindo também e usufruindo
do calor da amizade que os unia. Ansiara por a ver e quedou-se a
admirar-lhe a beleza quando ela foi buscar a mala.
- Um dia dificil? - inquiriu com o caloroso encanto irlandês.
- Não tanto como poderia ter sido - replicou, satisfeita por ele ter
vindo vê-Ia. Era mais fácil encontrar-se com Paul ali do que no escritório
de Simon. Era o seu território, não o dele, e permitia a Paul que
partilhasse mais o seu presente do que o passado, o que de súbito lhe
parecia mais importante.
Foram a pé até ao 21 onde almoçaram e às três da tarde continuavam
a conversar e a rir. Spencer Tracy estava numa mesa ao lado com uma
mulher de chapéu de abas e óculos escuros,e Zoya interrogou-se sobre
quem seria, mas Paul não estava interessado nela. Não conseguia tirar os
olhos de Zoya.
- Porque estás a fazer isto? - perguntou-lhe por fim, fitando-o, mas
tranquilizada ante o que detectou. Havia somente bondade e força e todos
os bons sentimentos que nutria por ela.
- Porque te amo - respondeu Paul suavemente. - Não tencionava
apaixonar-me por ti, mas aconteceu. É assim tão errado? - Ela não podia
responder-lhe afirmativamente, conhecendo o vazio da vida dele com
Allison.
- Não é errado. Mas, Paul.. - Hesitou e depois prosseguiu: - ... O que
teremos se formos em frente? Uns momentos roubados de vez em
quando. É isso o que queres?
- Se tiver de ser só isso, sentir-me-ei grato. Para mim são horas
preciosas ao teu lado, Zova. O resto é... bom, o que quer que tenha de
ser. - E sabia por instinto que e não queria mais do que isso dele. Tinha
os filhos, a loja e as recordações de Sinion. - Não pedirei mais. Não te
mentirei. Nunca. Sabes que não posso deixar a Allison e, se o que posso
oferecer-te não chegar, compreenderei. - Pegou-lhe meigamente na mão
por baixo da mesa. - Talvez esteja a ser muito egoísta.
Zoya abanou a cabeça, sem deixar de reparar em Spencer Tracy, que
ria na mesa ao lado. Voltou a interrogar-se sobre quem seria a mulher e
por que razão ele parecia tão feliz.

- De qualquer maneira, ignoro se estarei preparada para mais do que
isso. Talvez nunca venha a estar. Amei muito Simon.
- Eu sei.
E depois Zoya declarou num fio de voz:
- Mas acho que também te amo... - Era tão estranho. Nunca julgara
que viesse a acontecer, mas gostava de estar com ele. Acontecia todas as
segundas-feiras e acabara por confiar nele e respeitá-lo.
- Não te pedirei mais do que o que quiseres dar. Compreendo a
situação. - Era impossível pedir-lhe mais. Ele parecia entender cada um
dos seus sentimentos. Em seguida, ganhando coragem, sorriu-lhe
ternamente: - Um dia irás comigo, quando estiveres preparada?
Zoya fitou-o demoradamente e depois esboçou um lento aceno de
cabeça.
- Ignoro quando será. Por enquanto ainda não estou preparada. -
Embora os beijos da noite anterior lhe tivessem tocado profundamente,
ainda não estava preparada para ser infiel à memória do marido.
- Não estou a pressionar-te. Posso esperar. Talvez mesmo uma vida
inteira. - Ambos riram. Ele era tão diferente de Simon com a sua
arrebatada impaciência e excitação frente à vida, e também de Clayton,
com os seus modos suaves e aristocratas. Paul Kelly era ele mesmo, com
o seu estilo e situação próprios.
- Obrigada, Paul - agradeceu, erguendo o rosto e, sem dizer nem mais
uma palavra, ele inclinou-se e beijou-a.
- Podemos jantar sempre que for possível. - Parecia feliz e
esperançado.
- A Allison não se importará?
- Nem dará por isso - respondeu com um ar momentanearnente triste.
Desta vez foi Zoya a dar-lhe um beijo, um beijo para sarar a ferida de
anos de solidão. Eram ambos solitários e, contudo, os momentos que
passavam juntos transbordavam de alegria e felicidade. As decisões que
tomaram sobre o negócio de Simon foram importantes, e ela adorava pô-
lo ao corrente dos acontecimentos da loja. Por vezes, fazia-o rir durante
horas a fio, falando-lhe das clientes mais extravagantes... ou do pequeno
Matthew.
Depois ele acompanhou-a de volta à loja e ambos ficaram
surpreendidos ao darem-se conta de que eram quatro da tarde e mais do
que nunca ele desejou ficar com ela.
- Podes jantar na sexta à noite, ou deixamos para segunda? - Não
queria pressioná-la e limitou-se a fitá-la com uma expressão feliz do lado
exterior da loja. Zoya sabia que Sasha passava fora o fim-de-semana e
subitamente desejou vê-lo antes de voltarem a encontrar-se no escritório
de Simon.

- O jantar seria óptimo. - Os olhos fitaram-no com um fogo verde que
o fez sorrir.
- Devo ter cometido uma boa acção na vida para merecer esta
felicidade.
- Não sejas tonto! - exclamou Zoya a rir e beijou-lhe a face quando
ele prometeu telefonar-lhe. Sabia que o faria e ela também lhe
telefonaria, mesmo que fosse a pretexto do negócio.
Todavia, as rosas que chegaram para ela nessa tarde nada tinham que
as ligasse a negócio. Eram duas dúzias de rosas brancas, porque ela uma
vez lhe dissera que gostava. E há muito sabia que era raro ele esquecer-se
de qualquer coisa. O cartão dizia: "Não são momentos roubados, querida
Zoya, apenas emprestados. Obrigado pelo teu empréstimo, por cada
precioso momento. Amo-te, P."
Leu o cartão, meteu-o na mala com um sorriso e saiu novamente do
gabinete para ir atender as clientes. Contudo, não podia negar que Paul
acrescentara algo à sua vida. Algo de muito precioso, algo que quase tinha
esquecido... o toque de uma mão, o olhar de um homem que se
preocupava com ela e queria estar presente ao seu lado.
Era impossível dizer onde a vida os conduziria um dia. Talvez a
nenhum sítio. Mas entretanto sabia que precisav dele, tal como ele
precisava dela. E ao regressar ao trabalho caminhava com um passo mais
leve. Nem sequer se sentia culpada por isso.
- Com quem é que foi o almoço hoje? - perguntou-lhe a assistente,
curiosa, quando se preparavam para fechar loja. Era raro Zoya sair da loja
para almoçar. Mas riu e o olhar brilhou como não acontecia há meses.
- O Spencer Tracy - respondeu num tom confidencial.
- Claro - replicou a jovem com um sorriso. E era verdade. Vira o
Spencer Tracy... e Paul Kelly.

CAPITULO 48

Paul e Zoya continuaram a encontrar-se todas as segundas-feiras nos
escritórios de Sinion. Trabalhavam muito, jantavam tarde e, sempre que
podiam, iam passar um fim-de-semana tranquilo. Passeavam na praia,
conversavam sobre as suas vidas e faziam amor, mas a amizade foi sempre
mais importante para eles do que a relação fisica. Depois regressavam a
Nova lorque, à realidade e às pessoas a quem pertenciam.
Zoya não deixava que nada disso interferisse com a sua vida. Havia
muito mais coisas que ambos tinham de fazer. E nunca criou ilusões
quanto a casar-se com ele. Estava fora de questão. Paul era o seu amigo,

um amigo muito especial; e, ao sentarem-se à mesa de reuniões durante
anos e anos, orgulhavam-se do facto de ninguém saber quanto
significavam um para o outro em privado, nem mesmo os filhos.
Matthew gostava muito dele e Sasha tolerava-o. Andava demasiado
ocupada com a sua própria vida para se importar muito com o que a mãe
fazia e nunca pareceu ter muita consciência do envolvimento deles. E
Nicholas continuava ausente, combatendo com a RAF na Europa.
O presidente Roosevelt morreu a 12 de Abril de 1945. E três semanas
depois acabou a guerra na Europa e Zoya rejubilou, com as lágrimas
correndo-lhe pelas faces. O filho continuava vivo. Regressou a casa no dia
em que completou vinte e quatro anos e, dois dias mais tarde, a guerra
também acabou no Pacífico. Houve imensas celebrações e paradas pela
Quinta Avenida. Zoya fechou a loja e foi para casa ver Nicholas, que
estava na janela da sala, observando as pessoas a dançar nas ruas com as
lágrimas a correrem-lhe pelas faces.
- Se ao menos o papá pudesse estar vivo para assistir a tudo isto -
sussurrou-lhe, de olhos postos no júbilo das ruas; Zoya fitou meigamente
o seu elegante filho.
Parecia-se mais do que nunca com Nicolai, sobretudo agora de
uniforme. Tornara-se um homem e não se surpreendeu quando ele lhe
comunicou que não voltaria a Princeton. Queria começar a aprender o
que precisava do império que Simon deixara atrás de si.
Paul ensinou-lhe tudo o que ele precisava de saber e Nicholas ficou
boquiaberto com o dinheiro que lhe fora legado. Sasha também sabia que
iria herdar uma enorme quantia em dinheiro no ano seguinte, embora
ainda desconhecesse o montante. Contudo, Nicholas ficou surpreendido
ao ver a forma como ela se comportava durante o pouco tempo que ficou
com Zoya. Saía todas as noites até de manhã, na maioria das vezes
regressava a casa embriagada e era mal-educada com todos os que
tentavam falar-lhe no assunto, sobretudo Nicholas, mas também Zoya.
Nicholas estava furioso quando abordou o tema com mãe uma noite.
Sasha regressara a casa cedo, mas já estava no quarto. Um rapaz fardado
viera trazê-la, mas em tal estado d embriaguez que mal conseguia andar,
e Nicholas quase o expulsou.
- Não podes fazer nada por ela, mamã? Está completamente
descontrolada.
- Já não tem idade para lhe bater, Nicholas, e não posso fechá-la à
chave no quarto.
- Gostaria de tentar. - Parecia falar a sério, mas no dia seguinte,
quando conversou com a irmã, de nada serviu. Ela voltou a sair nessa
noite e só regressou às quatro da manhã.
Sasha era ainda mais bonita do que dantes e a juventude ainda não

revelava as consequências dos excessos, mas Zoya sabia que isso
aconteceria se não parasse a tempo. E Zeop não ficou nada satisfeita
quando em Dezembro desse ano ela fugiu de casa. Casara com um rapaz
que conhecera há menos de três semanas, e o facto de ele ser o filho de
um jogador de pólo de Palm Beach de pouco consolo lhe serviu. Tinha
um estilo de vida igual ao dela, bebiam, dançavam e embriagavam-se
todas as noites. A situação piorou quando Sasha informou sem delongas
a mãe, quando ela regressou de Nova lorque em Março, que esperava um
filho lá para Setembro.
- No aniversário de Matthew, penso - replicou num tom vago quando
ele entrou na sala. Tinha agora seis anos e meio, os grandes olhos
castanhos de Simon e modos ternos. Adorava Nicholas, mas aprendera a
afastar-se do caminho da irmã. Ela bebia de mais e mostrava-se
indiferente ou visivelmente desagradável. Tinha agora vinte e um anos, e
à herança que Simon lhe deixara só a impelia mais rapidamente para o
caminho, da sua autodestruição.
Em Junho, voltou a casa, anunciou que Freddy a enganava e vingou-se
de imediato. Comprou um carro novo, duas pulseiras de diamantes,
dormiu com um dos amigos dele, embora estando grávida, e regressou a
Palm Beach à procura de outro marido.
Zoya sabia que nada podia fazer. Até mesmo Nicholas se recusava a
falar do assunto. A irmã era o que era e ponto final. Conversava muitas
vezes com Paul a esse respeito, e a sua enorme sabedoria consolava-a um
pouco.
Aos fins-de-semana, Nicholas levava Matthew à pesca e, sempre que
podia, ao parque para jogar à bola. Estava sempre cheio de trabalho, mas
arranjava sempre tempo para o miúdo que, por seu turno, proporcionava
a Zoya alguns momentos tranquilos com Paul Kelly. Continuavam a ter
uma relação calma, e Nicholas nunca soube, o que era um tributo à
discrição de Paul e de Zoya.
No fim de Agosto nasceu o bebé de Sasha, uma menina de cabelo
ruivo. Zoya viajou até à Florida para a ver e ficou a olhá-la com
admiração. Era tão pequena e querida e a mãe parecia não lhe dedicar
o mínimo interesse! Quase a seguir ao nascimento da criança, já Sasha
andava a divertir-se por todo o lado nos seus luxuosos carros, com ou sem
o igualmente permissivo Freddy.
Zoya nunca sabia onde estavam, e a bebé ficava sempre com uma
ama, para desagrado de Zoya. Tentou falar a Sasha sobre o seu estilo de
vida durante as suas raras conversas telefónicas, mas Sasha nem queria
ouvi-la, como era de esperar.
Nicholas também não tinha notícias dela. Quase parecia ter
desaparecido das suas vidas, e o que causava maior tristeza a Zoya era

não ver com mais frequência Marina, a filha de Sasha. E quando o
telefone tocou na véspera de Natal, Zoya esperou que fosse a filha.
Nicholas estava a jantar na sua companhia e Matthew acabara de ir
deitar-se, depois de ornamentar a árvore. Tinha sete anos e quase
continuava a acreditar no Pai Natal, embora Zoya desconfiasse que fosse
apenas mais esse ano. Matthew continuava a ser a alegria da sua vida e
sorria, feliz, ao levantar o auscultador.
- Está? - Era a Polícia Estatal de Nova lorque. O coração deu-lhe um
salto no peito, receando de imediato o motivo daquele telefonema.
Comunicaram-lhe que Sasha e Freddy tinham tido um acidente de
automóvel no regresso a casa vindos de qualquer festa e, sustendo a
respiração, soube que os seus piores receios haviam tido fundamento.
Pousou o auscultador, fixando Nicholas, incapaz de lhe contar. Um
momento depois, telefonou a ama da bebé, histérica por estar sozinha
com ela. Nicholas falou-lhe e prometeu apanhar o avião da manhã para
ir buscar a criança. A ama explicou-lhe tudo enquanto ele olhava para a
mãe num mudo terror. Nessa noite culpabilizou-se e desfez-se em
lágrimas.
Insistia em que fizera tudo errado e agora era tarde de mais. Falhara
como mãe e agora Sasha estava morta.
- Ela era uma bebé tão amorosa... - chorava Zoya. Contudo, Nicholas
tinha outras recordações de Sasha. Só se lembrava de como ela fora
mimada, egoísta e má para a mãe. A Zoya, porém, não lhe parecia justo.
Tinha apenas vinte e dois anos e desaparecera como o rasto brilhante de
uma estreIa-cadente numa escura noite de Verão. Num momento viva e
no momento seguinte desaparecida para sempre.
No dia seguinte, Nicholas apanhou o avião para a Florida e trouxe de
volta o corpo da irmã e a sua pequenina filha, Marina. Foi um Natal triste
para Zoya quando abriu os presentes com Matthew, esforçando-se por
conter as lágrimas e interrogando-se sobre se haveria algo que pudesse ter
feito e não fizera pela filha.
Talvez se nunca tivesse trabalhado, se as coisas se apresentassem mais
fáceis, se Clayton não tivesse morrido... nem Simon... ou talvez... A dor
era infinda enquanto tentava concentrar-se em Matthew, que parecia não
compreender o que acontecera à irmã. O miúdo era demasiado calmo, o
que assustava Zoya. No entanto, tomou consciência de que ele
compreendia perfeitamente quando levantou os olhos e perguntou a Zoya:
- Ela estava outra vez embriagada, mamã?
Ficou chocada ao ouvir as palavras de Matthew, mas ele tinha razão.
Estava mesmo. Zoya não o negou, enquanto pegava ao colo na filha de
Sasha. Nessa noite, Zoya deixou-sc ficar sentada a olhá-la. A miúda abriu
os olhos e bocejou, sonolenta. Tinha quatro meses e apenas lhe restava

agora Zoya, e Matthew e Nicholas, os tios.
- Estou velha de mais para isto - suspirou Zoya nessa noite quando
Paul telefonou, como habitualmente.
- Não, não é verdade. Ela estará melhor contigo do que estaria com
eles. É uma criança com sorte. - E ele era um homem com sorte por
partilhar a vida com ela.
As bênçãos na vida de Zoya tocavam todos à volta dela... exceptuando
Sasha; voltou a sentir-se culpada nessa noite, sabendo que falhara. Mas
como poderia ter agido de outra forrna? Soube com uma dor aguilhoante
que nunca teria a resposta. Para compensar, apenas poderia amar Marina
como se fosse sua própria filha. Colocou o berço da bebé ao lado da sua
cama e sentou-se durante horas a observá-la a dormir, de olhos fechados,
o cabelo ruivo e sedoso, como o de Zoya. Prometeu protegê-la e desta vez
dar o seu melhor.
Com um soluço na garganta, lembrou-se da noite em que Sasha e
Nicholas quase haviam morrido no incêndio... a pequena Sasha prostrada
no passeio com os bombeiros tentando reanimá-la e, por fim, mexendo-se.
Zoya reprimira os soluços como o fazia agora ao recordá-la... Como é que
tudo correra tão mal? Afinal e apesar de tudo, perdera-a tendo ela
somente vinte e um anos.
O funeral realizou-se dois dias depois e estiveram presentes amigas do
liceu e pessoas que ela conhecera em Nova Iorque. Os rostos denotavam
um silêncio chocado quando Zoya saiu da igreja pelo braço de Nicholas
e dando a mão a Matthew. Avistou Paul, que se mantinha solenemente
na última fila, o cabelo grisalho ressaltando acima da multidão e os olhos
oferecendo-lhe tudo o que sentia por ela.
Fitou-o um momento e depois afastou-se com os dois filhos de cada
lado, enquanto a pequena Marina, cuja vida estava ainda no início, os
esperava em casa, na cama ao lado da de Zoya.

CAPITULO 49

Mil novecentos e quarenta e sete foi o ano do new look de Dior, e
Zoya viajou até Paris acompanhada por Matthew e Marina quando foi
encomendar as novas linhas. Matthew tinha então quase oito anos e
Marina ainda era bebé. Contudo, ela levou Marthew à Torre Eiffel,
caminhou com ele junto ao Sena e foi às Tulherias, onde estivera com
Eugenia há tanto tempo atrás.
- Fala-me outra vez da tua avó. - Zoya sorriu e contou-lhe tudo outra
vez, sobre as tróicas russas de quando ela era criança, as brincadeiras que

tinham e as pessoas que haviam conhecido. Era uma forma de partilhar
a sua história com o filho e na verdade a dele também.
Depois foram até ao Sul de França e, no ano seguinte, de novo com
os filhos, Zoya viajou até Roma. Levava Marina por todo o lado, como se
de qualquer maneira pudesse compensá-la pela mãe que ela perdera.
Marina era agora como se fosse sua filha e parecia-se imenso com
Zoya, ao andar no seu passinho hesitante pelo navio no regresso a casa,
e as pessoas supuseram naturalmente que era filha dela. Aos quarenta e
nove anos conservava uma aparência juvenil e não era assim tão incrível
que ainda tivesse filhos jovens junto dela.
- Mantém-me jovem, suponho - disse a Paul mais de uma vez.
E ele estava inteiramente de acordo. Parecia ainda mais bonita que
dantes. Nessa altura, Nicholas dirigia a firma e, na Primavera de 1951,
tinha o perfeito controlo das fábricas de têxteis. Estava agora quase com
trinta anos e, quando Zoya regressou da Europa com os miúdos, apareceu
para ouvir tudo sobre a viagem.
Marthew tinha onze anos, Marina quatro e meio e um cabelo ruivo e
brilhante e grandes olhos verdes. Riu à gargalhada quando Nicholas lhe
fez cócegas. Depois foi deitá-la e voltou à sala para contar os seus planos
a Zoya.
- Bom, mamã... - Hesitou com um sorriso, e ela pressentiu que algo
de importante acontecera.
- Sim, Nicholas? Devo compor uma expressão séria ou estás apenas
a tentar assustar-me?
Há uns tempos que esperava as novidades. Ele andava a sair com uma
bela rapariga do Sul. Conhecera-a quando estava na Carolina do Sul, de
visita às fábricas. Era muito bonita e um pouco mimada. Porém, Zoya
nunca fizera comentários. O filho era adulto e livre de tomar as opções
que quisesse. Como afirmara a Paul, respeitava a sua opinião. Era um
homem jovem e sensível, de bom coração e uma inteligência que se
desenvolvera ao estar à frente dos negócios de Simon.
- Ficarás muito surpreendida se te disser que vou casar-me no
Outono? - Os olhos denotavam um brilho divertido e ela riu.
- Devo ficar surpreendida, meu querido?
- A Elizabeth e eu vamos casar-nos - anunciou orgulhosamente.
- Sinto-me contente por ti, meu amor - replicou, fitando-o com um
sorriso. Ele era um homem bom, e os seus dois pais teriam tido orgulho
nele. - Espero que ela te faça feliz.
- Já faz.
Zoya não podia ter pedido mais e, na próxima vez que falaram,
ofereceu-se para a ajudar a encontrar um vestido de casamento,
recordando a inspecção a que Sofia a submetera antes dela e Simon terem

casado. Há muito que os pais de Simon tinham morrido e os tios depois.
Nunca fora muito próxima deles, mas zelara para que Matthew os visitasse
frequentemente antes de morrerem, e eles mostraram-se gratos por esse
facto.
Controlou-se para não parecer dificil, quando Elizabeth entrou de
rompante pela loja e foi brusca para com todos. O vestido de casamento
era o menos. Esperava igualmente que Zoya lhes oferecesse todo o
enxoval dela e lhes comprasse um apartamento.
Zoya sentiu um leve arrepio na espinha quando assistiu ao casamento
e observou Matthew equilibrando as alianças na almofada que segurava
e Marina balouçando um cestinho de Pétalas de rosa, quando acenou à
avó postada na fila de frente. Zova sorriu-lhes, orgulhosa.
Contudo Nicholas satisfez-lhe todos os desejos e exigências e
submeteu-se a todos os seus caprichos até ao dia em que não aguentou
mais. Quase quatro anos depois do dia em que Zoya observara Marina a
lançar-lhes pétalas de rosa, Nicholas mandou Elizabeth para casa dos pais.
Nessa altura, Marina tinha nove anos e Zoya levava-a todos os dias às
aulas de ballet. Fora a sua única paixão na vida desde os cinco.
E, desta vez, Zoya estava decidida a fazer tudo o que pudesse pela
miúda, continuando a sentir que de certa maneira falhara com Sasha.
Saía todos os dias da loja às três horas, ia buscar Marina a Miss
Nightingale's e levava-a às aulas de ballet, onde ela executava os mesmos
tours jetés, os mesmos políés, os mesmos exercícios que Zoya executara há
muito tempo em Sampetersburgo com Madame Nastova.
Era estranho como as coisas se repetiam. Falou-lhe doi Marinski, de
todas as suas maravilhas e alegrias e de como Madame Nastova se
mostrara exigente. E quando ela e Nicholas foram assistir ao seu recital,
observou tranquilamente e. chorou. Nicholas pegou-lhe na mão, e Zoya
sorriu por entre as lágrimas, assistindo à exibição de Marina.
- E tão meiga e inocente. - Para ela a vida estava agora a começar.
E trabalhava tão empenhadamente em tudo, era uma criança tão boa e
franca. Matthew era como se fosse seu irmão, embora tivessem sete anos
de diferença, contrariamente a Nicolai, quando ela estava a crescer. Era
estranho como acontecia uma e outra vez, de geração em geração, a sua
própria paixão pelo ballet renascida em Marina.
Nessa noite, Paul ofereceu um pequeno bouquet à potencial bailarina
e, depois de Marina se ter ido deitar, falando excitada em como correra
o recital, fez-lhe a pergunta que Zoya receara ouvir da sua boca há anos.
A mulher morrera finalmente de cirrose há uns meses e ele fitou Zoya
com uma expressão tranquila no silêncio da biblioteca depois de Nicholas
ter saído, de volta ao seu apartamento.
- Zoya... depois de doze anos, agora posso perguntar-te. Casas

comigo? - Estendeu a mão na sua direcção e ela fitou-o com um sorriso
nascido de um amor há muito partilhado, mas nunca totalmente
concretizado.
Há doze anos que estavam juntos e ela amava-o profundamente e
dava um imenso valor à amizade que os unia, mas esse tempo passara
para ela. Nunca quisera voltar a casar depois de Sinion. Sentia-se feliz,
observando Matthew a crescer e Marina a dançar.
Continuava a movinientar-se pela loja com a mesma energia de
outrora. Aos cinquenta e seis anos, pouco abrandara. No entanto, o
casamento não era o que desejava nesse momento e tocou-lhe suavemente
os dedos com os lábios, abanando a cabeça.
- Não posso, Paul, meu querido.
Ele pareceu magoado ao ouvi-la, e Zoya tentou encontrar as palavras
correctas para explicar.
- Já passei essa altura. Sou velha de mais para casar com quem quer
que seja.
- Não digas isso, Zoya! Olha bem para ti. Não mudaste, desde a
primeira vez que te vi. - Ela mantinha a mesma beleza de sempre.
- Mudei, sim. - Sorriu com afecto. - Por dentro. Quero envelhecer
tranquilamente, observando o Matthew a seguir o seu caminho e a Marina
a transformar-se no que quer mesmo ser. Quero que ela tenha o prazer
de fazer exactamente o que quer, ser o que tem de ser... e é apenas o que
quero também.
Paul temera essa resposta, mesmo antes de lhe perguntar. Há anos
que queria casar com ela, mas não pudera. E, agora que estava livre, o
momento passara para ela. Interrogou-se sobre se tudo seria diferente, se
Allison tivesse morrido mais cedo.
Os seus fins-de-semana com Zoya eram agora menos frequentes, mas
continuavam a ir de vez em quando à casa dele em Connecticut, só que
nos últimos anos tinham-se tornado menos importantes para ela. O que
realmente lhe interessava era a amizade que os unia, e preferia-a ao
casamento. Teria desejado paixão, e a sua única paixão agora residia nos
filhos. Nos filhos e também na loja. Sempre isso, em memória de Simon.
- Não posso voltar a ser a mulher de ninguém. Seí-o agora. Dei tudo
o que tinha a dar ao Clayton e depois ao Simon, há muito tempo atrás.
Agora, existo eu. As crianças, o meu trabalho e tu, quando os dois
estamos disponíveis. Não conseguiria, porém, dar-te o bastante de mim
que justificasse o casamento. Seria injusto.
"Quero algum tempo para mim, Paul, por mais terrível que isso te
pareça. Contudo, talvez tenha chegado a minha vez de ser egoísta. Quero
viajar quando as crianças tiverem idade suficiente, para me sentir de novo
livre. Talvez voltar um dia à Rússia... visitar novamente Sampetersburgo...

ou Livadia.
Sabia que seria doloroso, mas era um sonho que acalentara nos
últimos anos e se tornava mais possível, de ano para ano. Apenas
necessitava de tempo e coragem para regressar. Contudo, sabia também
que não podia fazer nada disso com ele, que tinha a sua vida, a sua casa,
os amigos, o trabalho, a jardinagem... A vida dele abrandara bastante nos
últimos anos.
- Acho que finalmente cresci - prosseguiu. Aos sessenta e seis anos,
ele parecia-lhe subitamente muito mais velho, mas Zoya não o disse. -
Estive tão ocupada a sobreviver durante tantos anos. Acabei finalmente
por descobrir que há muito mais do que isso. Talvez, se o tivesse sabido mais cedo... talvez tudo fosse diferente para a Sasha. - Continuava a
culpar-se pela morte da filha e era dificil olhar para trás e ver que poderia
ter agido de forma diferente, mas também já não interessava. Para Sasha
era tarde de mais, mas não para Matthew, para Marina, nem mesmo para
ela. Ainda lhe restava un tempo de vida e resolvera gastá-lo à sua
maneira, independentemente de quanto amava Paul Kelly.
- Quer dizer que para nós terminou? - replicou, fitando-a com um
olhar triste. Ela inclinou-se meigamente, beijou-o nos lábios e ele sentiu-se
invadido pelo mesmo fogo de sempre desde o primeiro dia em que se
tinham conhecido.
- Só se quiseres. Se conseguires aceitar-me assim, estarei aqui para te
amar, muito, muito tempo. - Da mesma maneira que estivera durante os
anos em que ele era casado.
- Para sorte minha - gracejou Paul -, o mundo mudou finalmente e as
pessoas estão a fazer coisas que terian, chocado o mundo há vinte anos,
dormindo abertamente umas com as outras, vivendo em pecado... E o que
acontece. Ofereço-te respeitabilidade doze anos tarde de mais. - Ambos
riram e sentaram-se confortavelmente na biblioteca... - És muito jovem
para mim, Zoya.
- Obrigada, Paul.
Voltaram a beijar-se e, pouco depois, ele foi para casa. Ela prometera
passar o fim-de-semana em Connecticut na sua companhia e ele ficara um
pouco mais brando. Zoya foi nos bicos dos pés até ao quarto de Marina
para a observar durante o sono e sorriu novamente.Um dia, o mundo
seria dela. Os olos de Zoya encheram-se-lhe de lágrimas quando se
inclinou ternamente para a beijar no rosto e, sem acordar, Marina mexeu-
se um pouco sob a mão afectuosa da avó.
- Dança, pequenina... pequena bailarina... dança...

CAPíTULO 50

Os anos dos Kennedy foram excitantes para Zoya na loja. A jovem
mulher do senador denotou tendências inovadoras que todos seguiram.
Zoya admirava-a muito. Foi mesmo convidada para jantar na Casa
Branca, com grande satisfação do seu filho mais velho.
Zoya era ainda bonita e elegante como o fora em criança. Aos
sessenta e um anos era reconhecida por todos quando se movia
orgulhosamente pela loja, endireitando um chapéu, franzindo o sobrolho
ante algo que lhe desagradava, mudando as flores com mão experiente.
Nessa altura, Axelle já morrera e a sua loja era apenas uma lembrança,
mas Zoya aprendera muito bem as lições pela mão dela.
Marina estava na Juilliard, dançava profissionalmente de vez em
quando e, sempre que Zoya a via dançar, quase sentia o coração saltar-lhe
no peito como na altura em que dançara para Diaghilev, há mais de
quarenta anos.
Matthew formou-se por Harvard em Junho de 1961 e Zoya sentou-se
na primeira fila com Nicholas e aplaudiu-o. Era um belo jovem e
orgulhava-se dele. Ia continuar gestão e depois trabalhar na loja com ela.
Nicholas queria que ele ficasse ao seu lado, mas Matthew confessou
sentir-se mais interessado pela venda a retalho. Zoya prometera manter
a loja aberta até ele estar preparado, e os dois riram.
- Não fechavas a porta, nem que tudo ardesse - troçou Matthew, e ela
riu.
Conhecia bem os filhos e amava-os profundamente. Conversava,
distraída, com Nicholas num voo de regresso a Nova lorque e, por fim,
virou-se para ele. Era fácil detectar que havia algo a preocupá-lo e decidiu
perguntar.
- Muito bem, o que se passa, Nicholas? Não consigo aguentar mais o
suspense. - Os olhos emitiam um brilho trocista, e ele riu nervosamente.
- Conheces-me bem de mais. - Endireitou o nó da gravata e aclarou
a garganta.
- É natural, depois de todo este tempo. - Ele tinha agora trinta e nove
anos. - O que estás a esconder-me? - E lembrou-se subitamente do irmão
a levar a dar um passeio há mil anos e de ela o espicaçar quanto à
bailarina. Soube sem que ele lhe dissesse que a causa da atrapalhação do
filho era uma mulher.
- Vou casar-me novamente.
- Devo aplaudir ou chorar? - Riu. - Vou gostar mais desta do que da
última?
Fitou-a tranquilamente, um homem elegante de olhos argutos.
- É advogada. Na verdade, vai colaborar com o Paul Kelly. Vive em

Washington e tem trabalhado para a administração dos Kennedy. É
divertida, inteligente e uma cozinheira fantástica... - Riu. - E estou doido
por ela. - Na verdade - acrescentou, parecendo de novo pouco à vontade
-, esperava que viesses jantar connosco esta noite, se não estiveres muito
cansada. - Há mais de um ano que andavam naquela roda-viva entre Nova
lorque e Washington.
Zoya olhou-o com uma expressão séria, esperançada que desta vez ele
tivesse feito uma escolha mais acertada.
- Ia trabalhar até tarde na loja, mas... poderia deixar-me convencer.
Ambos riam quando ele a deixou no apartamento a caminho do dele.
Julie já o esperava e ele disse-lhe que convidara a mãe para jantar com
eles.
- Oh, não! E se ela me odeia? - retorquiu Julie com uma expressão
aterrorizada. - Olha para este vestido! Não trouxe nada decente de
Washington.
- Estás uma maravilha. Ela não dará nenhuma importância a isso.
- Não dará, uma ova! - Vira fotografias de Zoya, que parecia sempre
impecável e vestida segundo a última moda.
Zoya examinou-a atentamente nessa noite quando foram jantar ao La
Côte Basque. Ficava próximo da loja e era o seu restaurante favorito. E
ela correspondia à descrição de NichoIas: divertida, inteligente, excitada
com a vida e atenta ao trabalho, mas não obcecada. Tinha dez anos
menos que NichoIas e Zoya estava certa de que daria uma boa esposa.
A tal ponto, que tomou uma decisão importante quando os deixou nessa
noite. Iria dar-lhes o ovo imperial como presente de casamento. Chegara
a altura de o passar aos filhos.
Nessa noite, regressou calmamente a pé à loja depois do jantar e
entrou com a sua chave, percorrendo os corredores silenciosos. O
segurança não ficou surpreendido ao avistar luz por baixo da porta do seu
gabinete. Aparecia frequentemente à noite, para verificar coisas e levar
algum trabalho para casa.
E ao voltar ao apartamento, pensou de si para si como seria bom ter
um dia Matthew a trabalhar ao seu lado. Ele era a luz da sua vida, o filho
que se achara demasiado velha para dar à luz. Simon tivera razão. Até
mesmo agora, servia para a manter jovem, enquanto caminhava muito
direita, aos sessenta e dois anos, ao encontro de Marina, que esperava
ansiosamente a pé o regresso da sua querida avó.
Era meia-noite quando chegou a casa e ouviu a neta chamá-la do
quarto.
- Avó? És tu?
- Espero bem que sim. - Entrou no quarto, tirou o chapéu que pusera
para ir jantar com Nicholas e Julie e sorriu à neta que tanto se parecia

com ela. Tinha o cabelo ruivo tão comprido como o seu, que agora estava
branco, e tombava-lhe numa cascata sobre os ombros.
- Imagina só. que fui convidada para dançar no Lincoln Center!
- Mas isso é óptimo! Conta-me! - Sentou-se na beira da cama, ouvindo
a sua alegre tagarelice. Vivia apenas para a dança, mas agora tinha a
certeza de que a neta possuía um enorme talento.e não se tratava de mero
orgulho de avó. - Vá lá! Avança. - E ela desbobinara os nomes de todo
o elenco, o coreógrafo, o director, pois aos seus olhos o "quando" não era
assim tão significativo.
- Daqui a seis semanas! Acreditas? Acho que não vou estar
preparada!
- Claro que estarás.
Os seus estudos tinham sido um pouco prejudicados pela dança nos
últimos anos, mas Marina não se importava, e Zoya interrogava-se
frequentemente sobre se, desta vez, as musas cantariam, se Marina viria
a ser uma famosa bailarina. Há muito que lhe falara de ter dançado para
os Ballets Russes em Paris na sua juventude, uma vez com Nijinski e,
muito depois, contara-lhe a sua experiência no Fitzhugh's. Marina adorava
a história, pois fazia com que a avó parecesse muito mais exótica.
E, seis semanas depois, o espectáculo correu optimamente. Recebeu
a sua primeira crítica. Aos quinze anos estava lançada. Marina era uma
verdadeira bailarina.

CAPITULO 51

O primeiro rebento de Nicholas, uma filha, nasceu em 1963, no
mesmo ano em que John Kennedy foi abatido a tiro e em que Matthew
foi trabalhar para a loja de Zoya. E ela sentiu-se extremamente lisonjeada
quando Nicholas e Julie chamaram Zoe à filha. Tratava-se de uma
americanização do seu nome e, na verdade, agradava-lhe muito mais.
Aos dezassete anos, Marina dançava agora a tempo inteiro. Adoptara
o nome russo de Zoya e era conhecida por Marina Ossupov. Trabalhava
arduamente e viajava por todo c país. Nicholas achava que ela devia ser
obrigada a seguir a faculdade, depois de ter acabado o liceu, mas Zoya
não se mostrava de acordo.
- Nem todos são talhados para os estudos, Nicholas. Ela já tem uma
vida. Agora que és pai, não sejas tão linútado.
Zoya estava sempre aberta a ideias novas, sempre excitada com a vida
e jamais entediada. E Paul continuava a amá-la profundamente. Retirara-
se há vários anos e estava a viver em Connecticut a tempo inteiro. Zoya

ia vê-lo sempre que podia e Paul queixava-se sempre que ela estava
demasiado ocupada.
A loja parecera ganhar uma vida nova. Ela introduzira Cardin, Saint
Laurent, Courrèges, e agora Matthew acompanhava-a sempre que ia a
Paris. Andava atrás de todas as modelos que lhe era possível e gostava de
ficar no Ritz. Aos vinte e quatro anos, era um jovem entusiasta e
malicioso, recordando a mãe. E, em vez de abrandar o ritmo, como
prometera fazer depois dele entrar em cena, Zoya dava a sensação de
trabalhar ainda mais.
- A tua mãe é fantástica! - comentava Julie para Nicholas e,
contrariamente à maioria das noras, falava a sério.
As duas mulheres almoçavam ocasionalmente juntas e, quando Zoe
fez cinco anos, Zoya comprou-lhe o primeiro tutu e as sapatilhas. Nessa
altura, Marina tinha vinte e dois anos e era uma estrela. Dançara por todo
o mundo e obtivera as melhores críticas. Era a menina querida dos fãs de
bailado por toda a parte e, no ano anterior, chegara a dançar na Rússia.
Contara excitadamente a Zoya a sua viagem a Leninegrado, que fora
Sampetersburgo, estivera no Palácio de Inverno e visitara o Marinski.
Ao ouvi-la, os olhos de Zoya encheram-se de lágrimas. Era como que
um sonho tornado realidade... Todos aqueles lugares que abandonara há
mais de cinquenta anos, onde deixara um bocado de si mesma e que
Marina visitara agora. Continuava a falar em ir à Rússia, mas insistia em
que estava a reservar a viagem para a velhice.
- E quando será isso, mamã? - troçou Nicholas por altura do seu
septuagésimo aniversário. - Estou a envelhecer mais depressa do que tu.
Tenho quase cinquenta. O problema é que tu não aparentas a idade e eu
sim.
- Não sejas pateta, Nicholas. Estou uma anciã. - Contudo e
surpreendentemente, a verdade não era essa. Continuava bonita, o cabelo
ruivo embranquecera, mas vestia-se de uma forma requintada e a roupa
que usava denotava a sua figura ainda elegante. Constituía um alvo de
inveja para todos os que a conheciam. As pessoas continuavam a ir à loja
e suplicavam para ver a condessa. Mattew estava sempre a contar histórias
engraçadas de pessoas que insistiam em que tínham de a ver. - Um pouco
como o Lotivre - replicou Zoya, secamente. - Só que em ponto pequeno.
- Não sejas modesta, mãe. Sem ti, a loja nada seria.
Contudo, já não era verdade. Matthew tinha aplicado as técnicas de
venda que aprendera e, nos primeiros cinco anos, duplicara as vendas.
Adicionara um novo perfume chamado, obviamente, Condessa Zoya um
ano depois e, nos primeiros cinco anos, as vendas duplicaram novamente.
Em 1974, a condessa Zoya, a mulher e a loja, eram uma lenda.
Porém, com a lenda chegaram propostas que interessavam Matthew

e assustavam a mãe. Associações queriam comprar a loja, bem como
outras cadeias, uma empresa de bebidas e uma companhia que vendia
comida enlatada mas que queria diversificar os seus investimentos.
Matthew foi ao gabinete de Nicholas discutir o assunto e os dois irmãos
conferenciaram durante dias. Nicholas apenas se mostrava surpreendido
por as ofertas não terem surgido mais cedo.
- É um tributo que te fazem - retorquiu Nicholas com uma expressão
tranquila e fitando afectuosamente o irmão mais novo. Contudo, Matthew
limitava-se a abanar a cabeça e a percorrer a sala em passos rápidos. Era
um homem em permanente movimento. Pegou em livros, examinou os
objectos expostos nas prateleiras do irmão e depois virou-se para o
enfrentar, voltando a sacudir a cabeça.
- Não, não é, Nick. É um tributo a ela. Apenas fiz o perfume.
- Não é inteiramente verdade. Analisei os números.
- Isso não é importante. Mas o que vamos dizer à mamã? Sei o que
ela pensará. Tenho trinta e cinco anos e posso arranjar outro emprego.
A mamã tem setenta e cinco. Para ela, será o fim.
- Não estou assim tão certo.
Nicholas ponderou o assunto. De um ponto de vista comercial, as
ofertas eram demasiado boas para serem recusadas, sobretudo uma e que
agradava aos dois. Mantinha Matthew durante cinco anos como presidente
e consultor e dava a todos uma quantia fantástica, incluindo Zoya.
Contudo, ambos sabiam que não era o dinheiro que interessava à mãe.
Era a loja, as pessoas e o movimento.
- Acho que ela vai compreender o valor de tudo isto. - Nicholas assim
o esperava, mas Matthew desatou a rir e deixou-se cair numa cadeira de
cabedal.
- Então, não conheces a nossa mãe. Vai ter um ataque. O que temos
de pensar é no que ela fará depois. Não quero que fique deprimida. Na
idade dela, poderia matá-la.
- É algo a ponderar também - acrescentou Nicholas sabiamente. - Aos
setenta e cinco anos, não podemos esperar que viva eternamente. E é
natural que tudo mude quando ela desaparecer, mesmo contigo lá. Ela
confere um toque especial à loja. Sente-se vida quando ela entra.
Zoya continuava a ir trabalhar todos os dias, embora saísse
pontualmente às cinco horas e fosse levada a casa por um motorista. Há
vários anos que Nicholas insistira nesse ponto e ela acedera. Contudo,
estava novamente na loja às nove, quer chovesse ou fizesse sol.
- Vamos ter de falar com ela - decidiu finalmente Matthew.
Porém, quando o fizeram, Zoya teve a reacção que o filho tão
sabiamente havia previsto.
- Por favor, mamã - suplicou. - Vê só o que nos ofereceni. - Zoya

virou-se na sua direcção e fitou-o com um olhar de gelo que teria feito jus
à sua própria mãe.
- Há algo que desconheço? Ficámos subitamente pobres ou estamos
só a ser ambiciosos?
Fixou intencionalmente o filho e ele soltou uma gargalhada. A mãe
era insuportável, mas ele amava-a. Há cinco anos que vivia com a mesma
mulher e estava convencido de que a única razão porque a amava se devia
à sua origem russa, ao cabelo ruivo e a uma vaga parecença com Zoya.
Sabia que era muito freudiano e admitira-o mais do que uma vez.
Contudo, ela era também muito esperta e sensual. Igualmente próxima da
mãe.
- Prometes, pelo menos, reflectir no assunto? - perguntou Nicholas.
- Sim, mas não esperes que aceite. Não vou vender a loja a um
fabricante de comida para cão só porque vocês os dois estão entediados. -
Virou-se, em seguida, para o filho mais novo: - Porque não inventas um
novo perfume?
- Nunca conseguiremos uma oferta igual, mamã.
- Será que a queremos? - Ao olhá-los, compreendeu e sentiu-se
inegavelmente ferida. - Acham-me demasiado velha, não é verdade? -
Fixou ora Nicholas ora Matthew e emocionou-se ante o respeito e amor
que apreendeu. - E estou. Não há dúvida. Mas estou de boa saúde. E em
meu perfeito juizo - acrescentou, semicerrando os olhos. - Estava a pensar
em retirar-me aos oitenta. - Riram os três e ela levantou-se e prometeu
pensar no assunto.
Nos quatro meses seguintes, a batalha continuou à inedida que
chegavam novas ofertas, cada uma delas melhor que a anterior. Contudo,
o âmago da questão não era quanto, mas se iriam realmente vender. E,
na Primavera de 1975, quando Paul morreu tranquilamente durante o
sono aos oitenta e seis anos, Zoya começou a entender que não duraria
para sempre.
Era injusto manter os filhos agrilhoados e recusar-lhes o direito de
fazerem o que queriam. Tivera a sua vida, divertira-se e não lhe cabia o
direito de alterar o curso da deles. Com a mesma firmeza com que os
enfrentara, capitulou graciosamente uma tarde, no final de uma reunião
de quadros, surpreendendo toda a gente.
- Falas a sério? - retorquiu Nicholas, fitando-a, surpreso. Nessa altura,
já se resignara a conservar a loja nem que fosse apenas pela mãe.
- Sim, Nicky. Falo. - Expressou-se calmamente, tratando-o pelo
diminutivo que não usava há anos. - Acho que chegou a altura.
- Tens a certeza? - Sentia-se repentinamente nervoso ante aquela
cedência tão branda. Talvez não se sentisse bem, ou estivesse deprimida.
Mas, ao fitar os profundos olhos verdes, não teve essa sensação.

- Tenho a certeza, se é o que ambos desejam. Descobrirei outra coisa
para fazer. Quero viajar um pouco. - Há umas semanas atrás prometera
a Zoe que a levaria a Paris no Verão. Levantou-se devagar e passeou o
olhar pelo conselho de gerência. - Obrigada, meus senhores. Pela vossa
argúcia, paciência e pela alegria que me deram.
Abrira a loja há quase quarenta anos, antes de alguns deles terem
mesmo nascido. Deu a volta à mesa e apertou a mão a toda a gente e,
quando saiu, Matthew enxugou os olhos. Fora um momento
extraordinário.
- Acho que está decidido - redarguiu Nicholas, fitando tristemente o
irmão, depois de ela ter saído. - Quanto tempo pensas que demorará a
concluir o negócio? - Já haviam optado pela proposta desejada.
- Uns meses. Devemos estar instalados no Verão. - Matthew parecia
em simultâneo comovido e excitado.
Nicholas esboçou um aceno de cabeça, com uma expressão sombria.
- Ela quer levar a Zoe à Europa. Ia desencorajá-la, mas agora acho
que não o farei.
- Vai fazer bem às duas.
Nicholas anuiu com um novo movimento de cabeça e regressou ao
gabinete.

CAPÍTULO 52

O dia amanheceu claro e soalheiro, quando Zoya se sentou à
secretária pela última vez. Tinha empacotado as suas coisas no dia
anterior, e Matthew organizara-lhe uma festa fantástica. A loja enchera-se
de todos os nomes conhecidos, a elite da sociedade e dois membros da
realeza. Todos a tinham beijado e abraçado e recordado.
E agora sentava-se e recordava-os, trinta e oito anos da presença de
todos, enquanto se preparava para abandonar o gabinete. Provavelmente,
o motorista esperava-a lá fora, mas nãa pressa de ir, mantendo-se junto
à janela observando a Quinta Avenida, observando o trânsito lá em baixo.
Tanta coisa mudara em quarenta anos, tantos sonhos realizados e
outros desfeitos. Lembrou-se de como Simon a ajudara a começar a loja,
de como se mostrara entusiasmado, de como se haviam sentido felizes na
primeira viagem de compras à Europa. Parecia toda uma vida,
desaparecida num momento.
- Condessa?... - Uma voz suave chamou-a da porta e, ao virar-se,
deparou com a sua última assistente, uma rapariga mais nova do que a sua neeta mais velha.

- Sim?
- O carro aguarda lá em baixo. O motorista mandou avisar para o caso
de estar à espera.
- Obrigada. - Sorriu graciosamente, de costas direitas e um briIho
orgulhoso nos olhos. - Diga-lhe, por favor, que desço já. - As palavras e
o porte ainda emanavam nobreza, mais do que o proprio título. Ninguém
que tivesse trabalhado para ela alguma vez a esqueceria.
A porta fechou-se sem ruído depois de ela olhar uma vez mais em
redor. Sabia que voltaria para visitar Matthew, mas nunca mais seria o
mesmo. Agora, a loja era deles. Fora um presente que eles haviam optado
por vender. Contudo, suspeitava que Simon não teria discordado. Ele
tinha sido um arguto homem de negócios e Matthew não lhe ficava atrás.
Deitou um último olhar por cima do ombro e fechou a porta, muito
direita, vestida com um novo conjunto Clianel azul-escuro e o cabelo
apanhado com esmero. E, ao sair do gabinete, quase chocou com Zoe.
- Avó! Estava com medo que te tivesses ido embora. Olha! Olha só
o que tenho! - Há muito que Nicholas concordara com a viagem a Paris
e partiriam dali a duas semanas, mas desta vez não de navio. Iam de
avião. Não havia navios em que lhe apetecesse viajar, e Zoe não se
importava. Pulava de alegria com toda a exuberância dos seus doze anos
e as mãos cheias de brochuras.
- O que tens, então? - indagou Zoya a rir.
A neta olhou por cima do ombro, como se tivesse sido seguida e
sussurrou num tom conspiratório:
- Não digas ao papá. Depois de lá chegarmos, ele nunca virá a saber. -
As brochuras que Zoe tinha na mão não eram de Paris, mas da Rússia.
As espiras do Palácio de Inverno fitavam-na, orgulhosas, das fotografias.
O Palácio Alexandre... o Antitchkov... Zoya fitou-a com uma muda
admiração.
- Vamos antes à Rússia, avó! - Há anos que andava a fazer a
promessa a si própria e agora, com a pequena Zoe, talvez se sentisse
preparada.
- Não sei. Talvez o teu pai não queira que tu... - E depois sorriu.
Partira com a avó há meio século e agora podia voltar com a sua neta. -
Acho que me agrada a ideia, sabes? - retorquiu, pondo um braço à volta
dos ombros da neta. Entrou com ela no elevador, examinando as
brochuras e pensando nos planos de ambas.
Chegaram ao rés-do-chão e ergueu o rosto, surpreendida, ao deparar
com as empregadas, de pé e muitas delas chorando sem vergonha. Beijou
uma ou duas e depois tudo acabou subitamente e viu-se com a neta na
Quinta Avenida, mandando embora o motorista. Não queria ir de carro.
Iriam dar um longo passeio, enquanto Zoe tagarelava, excitada, sobre a viagem.
- E depois... podíamos ir a Moscovo!... - Os olhos brilhavam-lhe como os de Zoya, enquanto escutava.
- Não. Moscovo foi sempre muito monótono. Sampetersburgo... e
talvez... Sabes... Quando eu era miúda, costumávanios passar o Verão no palácio em Livadia... na Crimeia...
Desceram a rua de mão dada, quando a limusina de Nicholas subia
a rua devagar. Não conseguira suportar a ideia de que a mãe abandonasse a loja sozinha, viera buscá-la e depois avistou-as subitamente... as costas direitas no conjunto Chanel e a sua própria filha com o cabelo negro esvoaçando, falando animadamente sobre algo.
A velhice e a juventude. O passado e o futuro regressando a casa, de mão dada. Resolveu deixá-las sós e entrou lentamente na loja para falar com Matthew.
- Achas que podemos ir, avó?... A Livadia, quero dizer... - Fitava-a com uns olhos cheios de amor e Zoya sorriu.
- Claro que tentaremos, não é, minha querida?

**

Danielle Steel nasceu em Nova Iorque em 1949. Passou parte da sua infância em França e, regressada aos Estados Unidos, estudou Literatura Francesa e Italiana na Universidade de Nova Iorque. Autora de mais de 30 romances, 300 milhões de livros vendidos, traduzida em 50 línguas e publicada em 80 países.



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