Olá Amigas,ºs,
Agora mais este audio livro como todos em voz humana.
de Fernando Campos, A Casa do Pó.
..."Esta é a casa cujos habitantes estão na escuridão; o pó é o seu
alimento e a lama a sua carne. Estão vestidos como pássaros cobertos
de asas, não vêem luz, estão nas trevas. Eu entrei na casa do pó e vi
os reis da Terra com as coroas retiradas para sempre, os governadores
e os príncipes, todos aqueles que um dia usaram coroas reais e
governaram o mundo nos dias antigos. Aqueles que estiveram no lugar
dos deuses, de Anu e de Enfil, serviam agora como criados que iam
buscar a carne assada à casa do pó, que carregavam a carne cozida e a
água fria do odre. Na casa do pó onde entrei estavam altos sacerdotes
e acólitos, sacerdotes da encantação e do êxtase; havia servidores do
templo, e estava Etana, o rei de Kish, que a águia levou para o céu no
tempo antigo. Vi também Samuqan, deus do gado, e estava Ereshkigal, a
rainha do mundo inferior, e Belit-Sheri, que é escrivão dos deuses e
guarda o livro da morte, agachado diante dela. Ela lia uma tabuinha
que tinha na mão ... "
(De A Epopeia de Gilgamesh)
De tão funestos acontecimentos se fez meticuloso e severo silêncio e
há muito que foram queimados ou misteriosamente feitos desaparecer
todos os documentos, todos os papéis que sobre o assunto existiam. As
bocas que o podiam divulgar haviam sido caladas, seladas com o lacre
do juramento, do confessionário, do medo, -da ameaça, do fogo dos
autos-de-fé. Houve mortes e sangue pelo caminho e eu, ignorante de
tudo, passava pelas coisas cantando hinos ao Criador e admirando e
fruindo, em meu espirito alegre e bem disposto, as grandes e pequenas
maravilhas da vida. De tudo fiz crónica, cujo núcleo é a minha viagem
à Palestina por ser durante essa romagem que os acontecimentos
trágicos começaram a descobrir-se à minha volta. Aproveitei a minha
estada na Terra Santa para recolher notas de um itinerário. Quando dei
por mim tinha montanhas de material. Mostrei a alguns amigos essa
parte das minhas notas. Insistem comigo para que publique a obra.
Deixo o tempo passar... Sinto relutância em
tirar do texto as anotações Intimas de tanta emoção, vivida, de tanto
desencontrado discurso travado no meu pensamento... Que fazer?...
Encontrei há dias nas ruas de Lisboa o reverendo Frei Luis de
Sottomaior, que eu diria um homem santo se mo não proibisse a Madre
Santa Igreja. "Como ia minha paternidade, que caminhava tão em mim-
mesmado? Há quanto tempo!... Sabia que trazia consigo, ao
pescoço, um agnus dei com uma das reliquias que eu lhe trouxera da
Terra Santa? Homem! E esse livro,- esse Itinerário? Era pecado de
egoísmo querê-lo só para mim, guardá-lo vinte e oito anos sem o
publicar !... Não achava? Claro que sim! - e dava-me uma palmada no
ombro. Olhasse! Porque o não dedicava ao arcebispo? D. Miguel de
Castro era muito receptivo e o seu nome num frontispício constituía
uma garantia inegável da qualidade da obra. Não quereria eu
um destes dias ir falar com Sua Eminência? Não se importava a sua
humilde pessoa de me acompanhar ... " Que sim, que sim - anuía eu...
-, Sua Reverência tinha razão e eu iria penitenciar-me do meu
egoísmo...
E assim é que me decido finalmente a dar à estampa o meu Itinerário da
Terra Santa. Ele vai passar sob os olhos palados dos ministros dessa
Inquisição que eu tantas vezes, pela vida fora, em ocasiões de
completa liberdade da minha opinião e sentir, critiquei em termos
duros. Antes porém que tenham qualquer motivo de me censurarem, eu
preparei-lhes o repasto. O texto que lhes envio, além de estar semeado
de orações, antifonas, hinos em latim, de referência minuciosa às
indulgências que se ganham naqueles sagrados lugares, vai expurgado
por mim próprio. Armo-me em censor da minha própria obra e, se deixo
nela transparecer algo da minha espontaneidade e sinceridade, é em
coisas exteriores e mínimas. Talvez algum leitor mais sagaz,
espreitando nas entrelinhas, pretenda ver para além vestígios da minha
personalidade. Espero não deixar, contudo, nenhuns importantes
indícios. Que também sobre mim se faça silêncio! Retiro da obra toda a
nota Intima e pessoal. Tiro-me da obra no mesmo gesto defensivo e
paternal com que um dia aqueles que me deram o ser me retiraram da sua
vida para me protegerem de um destino maldito. O texto original guardá-
lo-ei só para mim.
http://www.4shared.com/file/lKt1FPLp/Campos_Fernando_-_A_Casa_do_P.html
Boas audições
jeloy
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