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[eBooks] - Stephen King

TRIPULAÇÃO DE ESQUELETOS

Stephen King


A balada do projétil flexível
A balsa
A excursão
A festa de casamento
A imagem do segador
Aqui há Tygres
Caim rebelado
Entregas matinais
Nona
O Atalho da Sra Todd
O caminhão do tio Otto
O carrão
O homem
O macaco
O nevoeiro
O Processador de Palavras dos Deuses
Para Owen
Paranóide: canto
Tipo de Sobrevivente
Um mundo de praia
Vovó
A BALADA DO PROJÉTIL FLEXÍVEL

O churrasco havia terminado. Tinha sido excelente; bebidas, a carne mal-passada, tostada na brasa, uma salada de verduras e o molho especial de Meg. Começara
às cinco da tarde. Agora eram oito e meia, já quase crepúsculo - a hora em que reuniões movimentadas começam a gerar desordem. Contudo, ali não havia uma reunião
movimentada. Os reunidos eram apenas cinco: o agente e sua esposa, o prestigiado jovem escritor e sua esposa, e o editor da revista, de sessenta e poucos anos, porém
parecendo ser mais idoso. O editor dedicara-se a beber Fresca. Antes que ele chegasse, o agente havia contado ao jovem escritor que, uma vez, ali houvera um problema
de bebida. O problema desaparecera, bem como a esposa do editor... motivo pelo qual eles eram cinco, em vez de seis.
Ao invés de surgir qualquer desordem, caiu sobre eles um ânimo introspectivo, quando começou a escurecer no pátio dos fundos do jovem escritor, dando para
o lago. O primeiro livro do jovem escritor tinha recebido uma crítica excelente e vendera uma boa quantidade de exemplares. Ele era um rapaz de sorte e, para seu
crédito, estava a par disso.
Com divertida morbidez, a conversa passara do precoce sucesso do jovem escritor para outros escritores também prematuramente bem sucedidos e que, então, se
haviam suicidado. Falou-se em Ross Lockridge, depois em Tom Hagen. A esposa do agente mencionou Sylvia Plath e Anne Sexton. O jovem escritor disse que não achava
Sylvia Plath qualificada como escritora vitoriosa. Ela não se suicidara por causa do sucesso, disse ele; ela obtivera sucesso por ter-se suicidado. O agente sorriu.
- Por favor, não podíamos falar de outras coisas? - perguntou a esposa do jovem escritor, um pouco nervosamente.
Ignorando-a, o agente disse:
- Também há a loucura. Houve os que enlouqueceram devido ao sucesso.
O agente falava nos tons brandos, mas gorgeados, de um ator nos bastidores. A esposa do escritor ia protestar novamente - ela sabia que o marido, além de
gostar de falar sobre o assunto, também pilheriava a respeito, porque pensava demais naquilo quando o editor da revista começou a falar. E ele disse algo tão estranho,
que ela esqueceu o protesto.
- A loucura é um projétil flexível.
A esposa do agente olhou para ele, intrigada. O jovem escritor inclinou-se para diante, com ar inquisitivo.
- Isso me soa familiar... - disse ele.
- Sem dúvida - replicou o editor. - Esse termo, a imagem, "projétil flexível", é de Marianne Moore. Ela a usou para descrever um ou outro tipo de carro.
Eu sempre pensei que descrevia perfeitamente a condição da loucura. A loucura é uma espécie de suicídio mental. Hoje em dia, os médicos não afirmam que a
única maneira de realmente medir-se a morte é através da morte da mente? Pois a loucura é uma espécie de projétil flexível para o cérebro.
A esposa do jovem escritor procurou mudar de assunto.
- Alguém quer outra bebida?
Ninguém se manifestou.
- Pois eu quero, já que iremos falar dessas coisas - disse ela, e saiu para preparar seu drinque.
- Apresentaram-me uma história certa vez, quando eu trabalhava em sua seleção, em Logan's. Naturalmente, já encerrou suas atividades, da mesma forma que Collier's
e agora The Saturday Evening Post, porém sobrevivemos a ambos. - Ele declarou isto com um toque de orgulho na voz. - Publicávamos trinta e seis contos por ano, talvez
mais, e a cada ano, quatro ou cinco deles figuravam na coleção de alguém como melhores do ano. E as pessoas os liam. De qualquer modo, o nome desta história a que
me referi era "A Balada do Projétil Flexível", tendo sido escrita por um homem chamado Reg Thorpe. Um rapaz da idade deste jovem aqui e também um sucesso.
- Não foi ele que escreveu Underworld Figures? - perguntou a esposa do agente.
- Sim, foi ele. Uma ficha espantosa para uma primeira novela... Críticas espetaculares, vendas formidáveis em brochura e encadernação, Associação Literária,
tudo. Inclusive o filme foi bom, embora não tanto como o livro. Nem lhe chegou aos pés.
- Eu adorei aquele livro - disse a esposa do autor, novamente atraída à conversa, embora a contragosto. Tinha a surpresa e agradável expressão de quem acaba
de recordar algo esquecido por muito tempo. - Ele escreveu mais alguma coisa em seguida? Li Underworld Figures quando freqüentava a faculdade, e isso foi... bem,
há muito tempo, para lembrar agora.
- Você não envelheceu um dia desde então - disse a esposa do agente, em tom simpático, embora achando que a esposa do jovem escritor usava um corpete pequeno
demais e shorts muito apertados.
- Não, ele não tornou a escrever - disse o editor. - Exceto por esta única história de que falei. Ele se matou. Ficou louco e matou-se.
- Oh! - exclamou desoladamente a esposa do escritor. Eles voltavam ao tema
- E o conto foi publicado? - perguntou o jovem escritor.
- Não, mas não porque o autor enlouquecesse e se matasse. Ela jamais foi impressa, porque o editor ficou louco e quase se matou.
O agente levantou-se de súbito para renovar seu drinque, que dificilmente precisava ser renovado. Ele sabia que o editor tivera um colapso nervoso no verão
de 1969, não muito antes de Logan's ter afundado em um mar de tinta vermelha.
- Eu era o editor - informou o editor aos restantes. - Em certo sentido, ficamos loucos juntos, Reg Thorpe e eu, embora eu estivesse em Nova York, ele em
Omaha e nem mesmo nos conhecêssemos. Seu livro havia sido publicado seis meses antes, e ele se mudara para lá, a fim de "ordenar as idéias", como se dizia então.
Só sei este lado da história, porque vejo ocasionalmente a esposa dele, quando ela vem a Nova York. É pintora e bastante boa nisso. Aliás, é uma moça de sorte. Ele
quase a levou consigo.
O agente voltou e sentou-se.
- Começo a me lembrar de algo disso agora - falou. - E não foi apenas a esposa, certo? Ele baleou duas outras pessoas, uma delas uma criança.
- Exatamente - confirmou o editor. - E foi a criança que finalmente lhe desencadeou a loucura.
- A criança o levou à loucura? - perguntou a esposa do agente. - O que quer dizer com isso?
O rosto do editor, no entanto, dizia que não ia ser forçado; falaria, mas sem que o questionassem.
- Conheço o meu lado da história, porque o vivi - disse o editor da revista. - Também sou um sujeito de sorte. Tive uma maldita sorte. É uma coisa interessante,
sobre aqueles que tentam matar-se apontando uma arma para a cabeça e puxando o gatilho. Qualquer um pensaria que é um método certeiro, melhor do que pílulas ou cortar
os pulsos, mas não é. Quando uma pessoa dá um tiro na cabeça, não pode dizer o que vai acontecer. O balaço pode ricochetear no crânio e matar alguém mais. Pode seguir
a curvatura craniana inteiramente e sair do outro lado. Pode alojar-se no cérebro e cegar a pessoa, sem matá-la. Um homem pode meter na testa uma bala de um 38 e
acordar no hospital.
Outro pode meter na testa uma bala de um 22 e acordar no inferno... se é que existe tal lugar. Sou propenso a crer que está aqui mesmo, na terra, possivelmente
em Nova Jersey.
A mulher do escritor riu um tanto agudamente.
- O único método infalível de suicídio é atirar-se de um prédio bem alto, mas esta é uma saída tomada apenas pelos extraordinariamente dedicados. Causa tanta
confusão, não é mesmo?
"Meu ponto, contudo, é simplesmente este: quando a pessoa atira em si mesma com um projétil flexível, em realidade ignora qual será o desfecho. No meu caso,
saltei de uma ponte e acordei em um aterro entulhado de lixo, com um motorista de caminhão espancando-me as costas e bombeando meus braços, para cima e para baixo,
como se tivesse apenas vinte e quatro horas para ficar em forma e me tomasse por algum aparelho para exercitar-se em remadas. Para Reg, o projétil foi letal. Ele...
Bem, lá estou eu contando uma história e nem sei se querem ouvi-la.
Ele olhou inquisitivamente em torno, à penumbra cada vez maior. O agente e sua esposa entreolharam-se, duvidosos. A esposa do escritor ia falar que já haviam
tido uma dose suficiente de assuntos lúgubres, quando seu marido disse:
- Eu gostaria de ouvi-la. Caso não se importe de contá-la, por motivos pessoais, quero dizer.
- Nunca a contei - disse o editor - porém não por motivos pessoais. Talvez nunca tenha encontrado os ouvintes certos.
- Pois então, conte! - convidou o escritor.
- Paul... - Sua esposa lhe pôs a mão no ombro. - Não acha que...
- Agora, não, Meg.
O editor disse:
- A história chegou de bandeja, uma vez que nessa época, a Logan's há muito deixara de ler textos não solicitados. Quando eles chegavam, uma moça se limitava
a enfiá-los em envelopes de devolução, anexando uma nota: "Devido à crescente despesa e à crescente impossibilidade do pessoal editorial em dar conta do número crescente
de textos recebidos, Logan's deixou de ler manuscritos não solicitados. Desejamos-lhe sorte e que coloque sua obra em outra editora". Não é um formidável punhado
de conversa fiada?
Não é fácil usar a palavra "crescente" três vezes em uma só frase, mas eles conseguiram.
- E se não houvesse selos para a devolução, a história ia para a cesta de papéis - disse o escritor. - Não é?
- Oh, inapelavelmente! Não há piedade na cidade nua.
Uma estranha expressão de desconcerto pairou no rosto do escritor. Era a expressão do homem que está em uma cova de tigres, onde dúzias de homens melhores
já foram rasgados em pedaços. Até então, este homem não viu tigre algum. Contudo, ele pressente que os tigres estão lá e que suas garras continuam afiadas.
- De qualquer modo - disse o editor, pegando sua cigarreira - esta história chegou e a moça da sala de correspondência a pegou, grampeou a fórmula de rejeição
à primeira página e já ia enfiá-la no envelope de devolução, quando viu o nome do autor. Bem, ela tinha lido Undenworld Figures. Todos a tinham lido naquele outono
ou estavam lendo, quando não se encontravam na lista de espera da livraria ou vistoriando as prateleiras dos drugstores pela edição em brochura.
A esposa do escritor, que percebera a momentânea inquietude no rosto do marido, tomou-lhe a mão. Ele sorriu para ela. O editor acendeu o cigarro com um isqueiro
Ronson de ouro e, à crescente escuridão, todos puderam ver quão desfigurado estava seu rosto - as bolsas frouxas abaixo dos olhos, com uma pele semelhante à dos
crocodilos, as faces marcadas por sulcos, a ponta do queixo do velho emergindo daquele rosto de avançada meia-idade, como a proa de um navio. Um navio, pensou o
escritor, que se chama velhice. Ninguém deseja um cruzeiro nele, porém os camarotes estão cheios. Por falar nisso, também os porões.
O isqueiro apagou-se e o editor, sugou pensativamente o cigarro.
- A moça da sala de correspondência que leu aquela história e a passou adiante, em vez de devolvê-la ao autor, é hoje editora-chefe na G. P. Putnam's Sons.
Seu nome não vem ao caso; importa é que, no grande gráfico da vida, o vetor dessa jovem se cruzou com o de Reg Thorpe, na sala de correspondência da revista Logan's.
Seu vetor subia, o dele descia. Ela entregou a história a seu chefe e esse chefe a passou para mim. Eu a li e adorei. Em realidade, era um pouco longa, mas pude
ver onde ele cortaria quinhentas palavras, sem deturpar o sentido.
Então, ficaria ótima.
- Qual era o tema? - perguntou o escritor.
- Você nem devia perguntar - replicou o editor. - Ele se ajusta maravilhosamente ao contexto total.
- É sobre enlouquecer?
- Sim, de fato. Qual é a primeira coisa que lhe ensinam, em seu primeiro curso universitário de escrita criativa? Escreve sobre o que você sabe. Reg Thorpe
sabia sobre ficar louco, porque estava envolvido nisso. A história provavelmente me tenha seduzido, porque eu também me achava no mesmo caminho. Agora você diria
- se fosse editor - que a única coisa que não precisa ser impingida ao público leitor americano, é outra história a respeito de Enlouquecer Elegantemente na América,
tema secundário, Não Existe mais Dialogo. Um tema popular, na literatura do século XX. Todos os grandes escreveram a respeito e todos os escribas parecem obcecados
por isso. Contudo, aquela história era engraçada. Quero dizer, era de fato hilariante.
"Eu não havia lido nada igual antes e não li até hoje. O mais aproximado seriam alguns dos contos de F. Scott Fitzgerald... e Gatsby. O personagem na história
de Thorpe estava enlouquecendo, mas enlouquecia de maneira muito divertida. A gente ri o tempo todo e havia duas passagens - aquela em que o herói despeja a gelatina
de limão na cabeça da moça gorda é a melhor - em que se dava gargalhadas. Só que são gargalhadas nervosas, compreendam. Rimos e depois queremos olhar por cima do
ombro, para saber o que ouvimos. As linhas opostas de tensão nessa história são realmente extraordinárias.
Quanto mais se ri, mais nervoso se fica. E quanto mais nervoso, mais se ri... até o ponto em que o herói sai da festa dada em sua homenagem e volta para casa,
onde mata a esposa e a filhinha.
- Qual é a trama? - perguntou o agente.
- Ora, isso não vem ao caso - replicou o editor. - Tratava-se apenas de uma história sobre um rapaz que, aos poucos, ia perdendo o controle para enfrentar
o sucesso. É melhor que tudo fique vago. Uma sinopse detalhada da trama seria apenas tediosa.
Sempre é assim.
"De qualquer modo, escrevi-lhe uma carta. Dizia o seguinte:
"Caro Reg Thorpe, Acabei de ler "A Balada do Projétil Flexível" e achei excelente. Gostaria de publicá-la em Logan's, no início do próximo ano, se lhe convier.
Acha que 800 dólares soam bem?
Pagamento contra aceitação. Mais ou menos". Ponto parágrafo.
O editor pontilhou o ar noturno com seu cigarro.
"A histeria está um pouco longa e gostaria que você a encurtasse em cerca de quinhentas palavras, se for possível. Eu estabeleceria um corte mínimo de duzentas
palavras. Podemos fazer uma ilustração". Ponto parágrafo. "Telefone, se interessar."
Minha assinatura. E lá se foi a carta para Omaha.
- E ainda se lembra dela, palavra por palavra, como disse? - perguntou a esposa do escritor.
- Mantenho toda a correspondência em um arquivo especial - disse o editor. - As cartas dele, as cópias das minhas. No fim, havia uma boa pilha, incluindo-se
três ou quatro cartas de Jane Thorpe, sua esposa. De vez em quando leio tudo aquilo. Não é muito bom, claro. Querer tentar compreender o projétil flexível, é tentar
compreender como uma fita de Môbius só pode ter uma superfície. É assim que são as coisas, neste melhor-de-todos-os-possíveis mundos. Sim, sei a carta palavra por
palavra ou quase isso. Algumas pessoas sabem a Declaração da Independência de cor.
- Aposto como ele telefonou no dia seguinte - disse o agente, sorrindo. - A cobrar.
- Não, ele não telefonou. Logo depois de Underworld Figures, Thorpe deixou completamente de usar o telefone. Foi sua esposa que me contou. Quando se mudaram
de Nova York para Omaha, eles nem mesmo mandaram instalar um aparelho na casa nova. Compreendam, ele havia decidido que o sistema telefônico não funcionava realmente
à base de eletricidade, mas do radium. Thorpe achava que este era um dos dois ou três mais bem guardados segredos do mundo. Afirmou para sua esposa que era o radium
o único responsável pela porcentagem crescente de câncer, não os cigarros, emissões de automóveis ou a poluição industrial. Cada telefone tinha um pequeno cristal
de radium no fone, de modo que, em todas as vezes quando era usado, a pessoa injetava radiação na cabeça.
- Nossa, o cara era mesmo louco - disse o escritor, e todos eles riram.
- Ele escreveu, em vez de telefonar - disse o editor, com um piparote atirando seu cigarro na direção do lago. - Sua carta dizia o seguinte: "Caro Henry Wilson
(ou apenas Henry, se possível), Sua carta foi não apenas excitante, mas também gratificante. Minha esposa ficou ainda mais satisfeita do que eu. O dinheiro está
ótimo... embora eu deva dizer, com toda sinceridade, que a idéia de ver o conto publicado em Logan's me pareceu uma compensação mais do que adequada (contudo, eu
o aceito, vou aceitá-lo). Estive examinando os cortes que indicou e parecem oportunos. Acredito que melhorarão a história, além de deixarem espaço para aquelas ilustrações.
Atenciosamente, Reg Thorpe."
- Sob sua assinatura havia um pequeno e curioso desenho... mais como um rabisco. Um olho em uma pirâmide, como aquele no verso da nota de um dólar. Contudo,
em vez de Novus Ordo Secloruin, na faixa abaixo, havia estas palavras: Fornit Some Fornus.
- Deve ser latim ou Groucho Marx - disse a esposa do agente.
- Era apenas parte da crescente excentricidade de Reg Thorpe - respondeu o editor. - Sua esposa me disse que ele começara a acreditar nas "pessoas miúdas",
algo assim como elfos e fadas. Os Fornits. Eram os elfos da sorte e Reg achava que um deles morava em sua máquina de escrever.
- Oh, meu Deus! - exclamou a esposa do escritor.
- Segundo Thorpe, cada Fornit possuía um pequeno dispositivo, como um pulverizador, cheio de... pó-da-sorte, creio que poderia dizer-se assim. E o pó-da-sorte...
- ... tinha o nome de fornus - completou o escritor, sorrindo amplamente.
- Exato. A esposa dele achava isso muito divertido. A princípio. De fato, no início - Thorpe havia concebido os Fornits dois anos antes, enquanto rascunhava
Undenworld Figures - ela pensava apenas que Reg estivesse lhe fazendo uma brincadeira. Talvez, no começo ele estivesse mesmo. A coisa parece ter progredido de fantasia
a superstição e de superstição a crença absoluta. Era uma... uma fantasia flexível. Só que rija no fim.
Muito rija.
Todos ficaram calados. Os sorrisos morreram.
- Os Fomits tinham seu lado engraçado - disse o editor. - A máquina de escrever de Thorpe começou a ir regularmente para o conserto, no final da permanência
do casal em Nova York, idas que se tornaram ainda mais freqüentes quando se mudaram para Omaha. Thorpe escrevia em uma máquina emprestada, quando a sua foi consertada
a primeira vez, já em Omaha. O gerente da firma ligou dias depois de Reg receber sua máquina de volta, para comunicar que lhe mandaria uma conta, pela limpeza não
só da máquina de empréstimo, como da que pertencia a ele.
- Qual era o problema? - quis saber a esposa do agente.
- Acho que sei - disse a esposa do escritor.
- Ela estava cheia de comida - disse o editor. - Pedacinhos diminutos de bolo e biscoitos.
Havia também manteiga de amendoim na peça em que são fixados os tipos da máquina.
Reg estava alimentando o Fornit que vivia em sua máquina de escrever. Também colocara comida na máquina de empréstimo, na hipótese de que o Fomit se tivesse
mudado para ela.
- Caramba! - exclamou o escritor.
- Eu não sabia de nada disso então, compreendam. Por essa vez, escrevi em resposta, dizendo-lhe o quanto estava satisfeito. Minha secretária datilografou
a carta e a trouxe para que eu a assinasse, mas então precisou sair para fazer qualquer coisa. Assinei, e ela ainda não tinha voltado. Foi quando - sem a menor razão
para tanto - fiz o mesmo desenho garatujado abaixo de meu nome. Pirâmide. Olho. E "Fornit Some Fornus".
Loucura. A secretária viu aquilo e perguntou se eu ia mandar a carta assim mesmo. Dei de ombros, disse-lhe que a enviasse.
- Dois dias mais tarde, Jane Thorpe me telefonou. Disse que minha carta deixara Reg muitíssimo excitado. Ele pensava que achara uma alma gêmea... outra pessoa
que também sabia sobre os Fornits. Vêem a que situação louca estava chegando a situação?
Que me conste, àquela altura um Fornit poderia ser qualquer coisa, desde chave-inglesa para canhotos a faca de carne polaca. Idem para fornus. Expliquei a
Jane que me limitara a copiar o desenho de Reg. Ela quis saber por quê. Esquivei-me à pergunta, embora a resposta pudesse ser que eu estava muito bêbado, quando
assinei a carta.
Ele fez uma pausa, e um silêncio incômodo caiu sobre o pátio dos fundos. As pessoas olharam para o céu, para o lago, as árvores, embora não estivessem mais
interessantes agora, do que tinham estado um ou dois minutos antes.
- Eu tinha estado bebendo durante toda a minha vida adulta, sendo-me impossível dizer quando a situação me escapou ao controle. No sentido profissional, eu
ia do topo da garrafa até quase o próprio final. Começava a beber no almoço e voltava tocado para o escritório. Contudo, funcionava perfeitamente bem. Era a bebida
depois do trabalho - primeiro no trem e depois em casa - que me levava para além do ponto funcional.
"Eu e minha esposa vínhamos tendo problemas não relacionados à bebida, mas o fato de beber piorava ainda mais aqueles problemas. Ela viera se preparando para
ir embora havia muito tempo. Uma semana antes da história de Reg Thorpe chegar, ela se foi.
"Eu tentava manejar a situação, quando deparei com a história dele. Agora bebia pesadamente. E, para cúmulo, estava tendo - bem, acho que agora é moda dar
a isso o nome de crise da meia-idade. Na época, sabia apenas que estava deprimido por causa de minha vida profissional e também da vida pessoal. Procurava lutar
contra - ou tentava - uma crescente sensação de que editar histórias em massa para o mercado, histórias que terminariam sendo lidas por pacientes nervosos no dentista,
donas de casa na hora do almoço e um ocasional universitário entediado, não era propriamente uma atividade nobre. Procurava também lutar contra a idéia - novamente,
tentava, aliás, era o que todos fazíamos na Logan's, nessa época - de que em mais seis meses, dez ou quatorze, talvez não houvesse mais nenhuma Logan's.
"Então, nessa monótona paisagem outonal da meia-idade angustiada, surge uma boa história, de autoria de um bom escritor - uma energética e divertida espiada
à mecânica do enlouquecer. Foi como um raio brilhante de sol. Sei que parece estranho dizer isso sobre uma história que termina com o personagem matando a esposa
e a filha pequenina, porém perguntem a qualquer editor o que ele considera uma real alegria, e ele lhes dirá que é a grande novela ou história inesperadas, caindo
em sua mesa de trabalho como um grande presente de Natal. Bem, vocês todos conhecem aquela história de Shirley Jackson, "A Loteria". Ela termina da maneira mais
deprimente que se possa imaginar. Quero dizer, uma bela dama é apedrejada até morrer. Seu filho e sua filha participam de seu assassinato, pelo amor de Deus! Contudo,
foi uma história e tanto... e aposto como o editor da New York que primeiro leu a história, naquela noite voltou assobiando para casa.
"O que estou tentando dizer é que a história de Thorpe foi a melhor coisa em minha vida, naquele momento. A única coisa boa. E, segundo o que a esposa dele
me disse ao telefone, nesse dia, minha aceitação da história foi a única coisa boa que tinha acontecido a Thorpe ultimamente. O relacionamento escritor-editor é
sempre de mútuo parasitismo, porém no meu caso e de Reg, esse parasitismo foi elevado a um grau incomum.
- Voltemos a Jane Thorpe - pediu a esposa do escritor.
- Certo. Penso que a deixei em um desvio, não? Ela ficou zangada no tocante aos Fornits. A princípio. Contei-lhe que apenas garatujara aquele símbolo olho-e-pirâmide,
sem saber ao certo seu significado, e me desculpei pelo que quer que houvesse feito.
"Ela dominou sua raiva e soltou tudo para mim. Estivera ficando cada vez mais ansiosa, sem ter com quem desabafar. Seus pais estavam mortos e todos os seus
amigos viviam em Nova York. Reg não permitia a presença de ninguém em casa, além deles dois, alegando que os outros eram gente do Imposto de Renda, do FBI ou da
CIA.
Não muito depois de se mudarem para Omaha, uma garotinha chegou à porta, vendendo biscoitos para as escoteiras. Reg gritou com ela, disse-lhe que fosse vender
aquilo no inferno, que sabia perfeitamente por que estava ali, e por aí adiante. Jane tentou argumentar com ele. Disse que a menina só tinha dez anos. Reg respondeu
que a gente dos impostos não tinha almas nem consciências. Além do mais, disse ele, a menininha podia ser algum andróide. Andróides não estariam sujeitos às leis
trabalhistas para crianças. Talvez o pessoal dos impostos houvesse mandado uma escoteira andróide, cheia de cristais de radium, para descobrir se ele estava guardando
segredos... e, nesse meio tempo, para impregna-lo com raios cancerosos.
- Santo Deus! - exclamou a esposa do agente.
- Ela havia esperado uma voz amistosa e a minha foi a primeira. Fiquei sabendo a história da menina escoteira, sobre a preocupação de Reg com os Fornits e
sua alimentação, sobre fornus e sobre como ele se recusara a ter um telefone em casa ou a usar um. Ela falava comigo de um telefone pago, em uma cabine de drugstore,
cinco quarteirões além de sua casa. Disse recear que Reg não estivesse realmente preocupado com a gente dos impostos, homens do FBI ou da CIA. Em sua opinião, o
que seu marido realmente temia era que Eles - algum maciço e anônimo grupo que o odiava, que o invejava, que não se deteria diante de nada para apanha-lo - houvessem
tomado conhecimento de seu Fornit e quisessem matar a criatura. Se o Fornit morresse, não haveria mais novelas, mais contos, nada. Compreendem? A essência da insanidade.
Eles estavam decididos a liquida-lo. Resumindo, nem mesmo o Imposto de Renda, que o fizera passar momentos infernais, no relacionado à renda gerada por Underworld
Figures, serviria como pretexto. No fim, eram apenas Eles. A perfeita fantasia paranóica. Eles queriam matar o seu Fornit.
- Céus, e o que você disse a ela? - perguntou o agente.
- Procurei tranqüiliza-la - disse o editor. - Lá estava eu, tendo retornado pouco antes de um almoço regado a cinco martinis, falando com aquela mulher aterrorizada
que me ligava de uma cabine telefônica em um drugstore de Omaha, procurando convencê-la de que tudo estava bem, de que não devia preocupar-se com o marido que acreditava
estarem os telefones repletos de cristais de radium, imaginando que um bando de pessoas anônimas enviava escoteiras andróides para liquida-lo. Disse-lhe para não
inquietar-se, se seu marido havia desligado seu próprio talento de sua mentalidade, a tal ponto, que acreditava haver um elfo morando em sua máquina de escrever.
"Não acho que tenha sido muito convincente". Ela me pediu - não, suplicou - para trabalhar com Reg em sua história, para providenciar sua publicação. Aquela
mulher fez tudo, exceto dizer que "O Projétil Flexível" era o último contato do marido com o que, humoristicamente, chamamos de realidade.
"Perguntei-lhe como agir, caso Reg tornasse a mencionar os Fornits. "Seja indulgente com ele", disse ela. Foram suas exatas palavras - seja indulgente com
ele. E então, desligou.
"No dia seguinte, havia uma carta de Reg na correspondência - cinco páginas, datilografadas, espaço um. O primeiro parágrafo era sobre a história. Ele dizia
que o segundo rascunho estava indo bem. Achava-se capaz de cortar setecentas palavras das originais dez mil e quinhentas, reduzindo o conto definitivo a nove mil
e oitocentas palavras.
"O restante da carta era sobre Fornits e fornus. Suas próprias observações e perguntas... dúzias de perguntas.
- Observações? - o escritor inclinou-se para diante. - Quer dizer que ele os via realmente?
- Não - disse o editor. - Reg não os via, em um sentido real, porém, de outra maneira... suponho que sim. Sabem como é: os astrônomos supunham - sabiam -
que Plutão estava lá, muito antes de contarem com um telescópio potente o bastante para vê-lo. Sabiam tudo sobre ele, estudando a órbita do planeta Netuno. Era dessa
maneira que Reg observava os Fornits. Eles gostavam de comer à noite, segundo escreveu. Será que eu já percebera isso? Ele os alimentava durante todas as horas do
dia, porém havia notado que a maioria da comida desaparecia após as oito da noite.
- Alucinação? - perguntou o escritor.
- Não - respondeu o editor. - Sua esposa, simplesmente, limpava o máximo daquela comida na máquina de escrever, quando Reg saia para sua caminhada noturna.
E ele saía todas as noites, às nove horas.
- Eu diria que ela teve coragem, ligando para você - grunhiu o agente, remanejando o corpo volumoso na cadeira de jardim. - Ela própria alimentava a fantasia
do homem.
- Acho que não entendeu por que ela me telefonou e por que estava tão perturbada. replicou quietamente o editor. Olhou para a esposa do escritor. - Pois aposto
que você entendeu, Meg.
- Talvez - disse Meg, e dirigiu ao marido um desconfortável olhar de esguelha. - Ela não se irritou por você incentivar a fantasia do marido. Apenas, tinha
medo que você a transtornasse.
- Muito bem! - exclamou o editor, acendendo outro cigarro. - E ela removia o alimento pelo mesmo motivo. Se a comida continuasse a acumular-se na máquina
de escrever, Reg faria a dedução lógica, partindo diretamente de sua própria e decididamente ilógica premissa. Ou seja, que seu Fornit morrera ou tinha ido embora.
Portanto, não haveria mais fornus. Em resultado, não haveria mais escritos. Daí...
O editor deixou a palavra em suspenso na fumaça do cigarro, depois prosseguiu:
- Reg imaginou que os Fornits deviam ser criaturas notívagas. Elas detestavam barulho - ele já percebera que não conseguia escrever pela manhã, após reuniões
ruidosas - odiavam a televisão, a eletricidade livre e o radium. Reg vendera sua TV para a Goodwill por vinte dólares, segundo afirmava, e há muito se fora o seu
relógio de pulso com mostrador de radium. Depois, as perguntas. Como eu ficara sabendo sobre os Fornits? Seria possível que tivesse um morando comigo? Em caso afirmativo,
o que eu pensava disto, disto ou daquilo? Acho que não preciso ser mais específico. Se vocês já possuíram um cão de determinada raça e podem recordar as perguntas
feitas sobre cuidados com ele e alimentação, percebem a maioria das perguntas que Reg me fez. Um pequeno rabisco abaixo de minha assinatura, foi tudo quanto se precisou,
para que se abrisse a caixa de Pandora.
- O que escreveu em resposta? - perguntou o agente.
- Foi aí que realmente começou o problema - respondeu lentamente o editor. - Para nós dois. Jane havia dito "Seja indulgente com ele" e foi o que fiz. Infelizmente,
acho que exagerei. Quando respondi à carta, estava em casa e muito bêbado. O apartamento me parecia demasiado vazio. Tinha um cheiro rançoso de excesso de cigarros
fumados e pouca aeração. As coisas tinham piorado muito, sem Sandra por ali. As cobertas em cima do sofá estavam amarfanhadas. Havia pratos sujos na pia, esse tipo
de situação. Eu era um homem de meia-idade, despreparado para a domesticidade.
"Enfiei uma folha de papel de minha correspondência pessoal na máquina de escrever, e pensei: Preciso de um Fornit. De fato, eu precisava de uma dúzia deles,
para que tirassem o pó desta maldita casa solitária com fornus, de ponta a ponta. Naquele instante, de fato eu estava bêbado o bastante para invejar a fantasia de
Reg Thorpe.
"Naturalmente, escrevi para ele que tinha um Fornit. Disse-lhe que o meu tinha incríveis características similares ao dele. Era notívago. Odiava barulho,
mas parecia apreciar Bach e Brahms... Falei que era comum executar meu melhor trabalho após uma noite ouvindo-os. Descobrira que meu Fornit mostrava uma decidida
predileção por salsichão Kirschner's... - Reg já fizera essa experiência? Eu simplesmente deixava pequenas migalhas perto do Scrillto que sempre carregava - meu
lápis azul editorial, caso não saibam - e, pela manhã, estava quase tudo consumido. A menos que, como dizia Reg, tivesse havido barulho na noite anterior. Falei-lhe
que ficara satisfeito em saber do detalhe sobre o radium, embora não possuísse um relógio de pulso com mostrador fosforescente. Acrescentei que meu Fornit estava
comigo desde a universidade. Fiquei tão entusiasmado com minha invenção, que escrevi quase seis páginas. No final, acrescentei um parágrafo sobre a história, algo
bastante superficial, e assinei.
- E abaixo de sua assinatura...? - perguntou a esposa do agente.
- Claro. Fornit Some Fornus. - O editor fez uma pausa. - Não podem enxergar no escuro, mas fiquei vermelho. Eu estava tão infernalmente bêbado, tão infernalmente
tocado... É possível que mudasse de idéia à fria luz do dia, mas então já era muito tarde.
- Colocou a carta no correio à noite? - murmurou o escritor.
- Exatamente. E então, por uma semana e meia, contive o fôlego, enquanto esperava. Certo dia, chegou o manuscrito, endereçado a mim, sem nenhuma carta. Os
cortes estavam como havíamos discutido e pensei que a história houvesse ficado perfeita, mas o manuscrito estava... bem, eu o coloquei em minha pasta, levei-o para
casa e o redatilografei pessoalmente. Estava coberto de manchas amarelas e estranhas. Imaginei...
- Urina? - perguntou a esposa do agente.
- Sim, foi o que imaginei. Contudo, não era. Quando cheguei em casa, havia uma carta de Reg em minha caixa de correspondência. Agora, dez páginas. Naturalmente,
ali vinha a explicação para as manchas amarelas. Ele não conseguira encontrar o salsichão Kirschner's, de maneira que tentara o Jordan's.
"Acrescentou que eles o tinham adorado. Em especial com mostarda.
"Naquele dia, eu estava absolutamente sóbrio. Contudo, sua carta, acrescida daquelas lamentáveis manchas de mostarda através das páginas de seu manuscrito,
fez com que eu caminhasse diretamente para o armário de bebidas. Não apenas passei ao lado do armário, não me multei. Fui embriagar-me.
- O que mais dizia a carta? - quis saber a esposa do agente.
Ela se mostrara cada vez mais fascinada pelo relato e agora, inclinada sobre ventre algo avolumado, exibia uma postura que fazia a esposa do escritor recordar
Snoopy, no teto de sua casa de cachorro, fingindo ser um abutre.
- Desta vez, continha apenas duas linhas sobre a história. Todo o crédito era atribuído ao Fornit... e a mim. O salsichão tinha sido, de fato, uma idéia fantástica.
Rackne o adorara e, em decorrência...
- Rackne? - perguntou o escritor.
- Era o nome do Fornit - disse o editor. - Rackne. Então, em decorrência do salsichão, Rackne é que, em realidade, estava por trás do texto reescrito. O restante
da carta era um canto paranóico. Nunca vi nada semelhante na vida.
- Reg e Rackne... um casamento traçado no céu - disse a esposa do escritor, com uma risadinha nervosa.
- Oh, de maneira alguma - replicou o editor. - O relacionamento deles era puramente de trabalho. Afinal, Rackne era macho.
- Bem, fale-nos sobre a carta.
- Essa é uma que não sei de cor. Tanto melhor para vocês. Mesmo anormalidades, após algum tempo tornam-se tediosas. O carteiro era da CIA. O entregador de
jornais era do FBI; Reg tinha visto um revólver provido de silenciador, no saco de jornais que o menino carregava. Os vizinhos eram espiões de alguma espécie; possuíam
um equipamento de vigilância em seu furgão. Ele não ousava mais ir à mercearia da esquina para comprar mantimentos, porque o proprietário era um andróide. Disse
que já desconfiava disso antes, porém que agora tinha certeza. Ele vira os fios que se entrecruzavam sob o couro cabeludo do homem, nas partes que começavam a ficar
calvas. Além do mais, estava alta a contagem do radium em sua casa; à noite, podia ver uma mortiça claridade esverdeada nos aposentos.
"A carta terminava assim: "Espero que responda a esta e me ponha ao corrente de sua situação (e do seu Fornit), com referência a inimigos, Henry. Acredito
que este nosso relacionamento tenha sido uma ocorrência que transcende à coincidência. Poderíamos dar a ele o nome de alerta-vital (de Deus? Da Providência? Do Destino?
Inclua o termo que desejar) no último instante possível.
"Não é crível que um homem fique sozinho por tanto tempo, contra mil inimigos. E quando, afinal, descobrir que não se encontra só... seria exagero dizer que
a comunalidade de nossa experiência se levanta entre a minha pessoa e a destruição total?
Talvez não. Eu preciso saber: os inimigos estão atrás de seu Fornit, como estão de Rackne? Em caso afirmativo, como você maneja a situação? Em caso negativo,
tem alguma idéia de por que não estão? Repito, eu preciso saber."
"A carta continha o desenho do Fornit Some Fornus abaixo da assinatura e, em seguida, vinha um P.S., constando de apenas uma frase. Contudo, uma frase letal.
O P.S. dizia: "Às vezes, desconfio de minha esposa."
"Li a carta do começo ao fim três vezes. No processo, dei cabo de uma garrafa inteira de Black Velvet. Comecei a considerar opções sobre como responder àquela
carta. Era um grito de socorro de um homem afogando-se, sem qualquer dúvida. A história o mantivera lúcido por algum tempo, mas agora ela ficara pronta. E agora
ele dependia de mim para continuar lúcido. Era algo perfeitamente racional, desde que eu acarretara tudo aquilo.
"Andei de um lado para outro dentro de casa, por todos os aposentos vazios. Então, comecei a desligar coisas. Estava muito bêbado, lembrem-se, e uma forte
bebedeira abre vias inesperadas de sugestibilidade. Daí o motivo de editores e advogados optarem por três drinques, antes de falarem sobre contratos, à hora do almoço.
O agente deu uma risada ruidosa, mas os ânimos permaneceram rígidos, tensos e incômodos.
- Por favor, tenham em mente que Reg Thorpe era um senhor escritor. Estava absolutamente convicto do que dizia. FBI. CIA. IR. Eles. Os inimigos. Certos escritores
possuem o dom muito raro de refrigerar sua prosa, quanto mais apaixonadamente sentem o seu tema. Steinbeck fazia isso e também Hemingway. Reg Thorpe tinha o mesmo
talento. Quando alguém penetrava em seu mundo, tudo começava a parecer muito lógico. Achava-se muito provável, uma vez aceita a premissa básica do Fornit, que o
menino entregador de jornais tivesse um 38 com silenciador em sua saca de jornais. Que os universitários da casa ao lado, donos do furgão, poderiam realmente ser
agentes da KGB, com cápsulas mortíferas em molares de cera, empenhados em uma missão faça-ou-morra, para matar ou capturar Rackne.
"Naturalmente, não aceitei a premissa básica. Contudo, eu sentia grande dificuldade em raciocinar. E desligava coisas. Primeiro foi a televisão colorida,
por que todos sabem que realmente emitem grande radiação. Na Logan's, publicamos certa vez um artigo da autoria de um cientista de reputação inatacável, sugerindo
que a radiação emitida pela TV em cores doméstica estava interrompendo as ondas cerebrais humanas o suficiente para alterá-las, minuciosa, mas permanentemente. Esse
cientista sugeria que talvez fosse este o motivo do declínio das notas em geral dos estudantes, dos testes literários e do desenvolvimento de especialização matemática
na escola primária. Afinal, quem fica mais sentado diante de um aparelho de TV do que uma criança?
"Assim, desliguei a televisão, e isso pareceu realmente arejar meus pensamentos. De fato, senti-me tão melhor, que desliguei o rádio, a tostadeira, a máquina
de lavar e a secadora de roupas. Lembrei-me então do forno de microondas e o desliguei da parede.
"Senti um verdadeiro alívio, quando os dentes da maldita coisa foram arrancados. Era um dos primeiros modelos no mercado, mais ou menos do tamanho de uma
casa e, sem dúvida, realmente perigoso. Hoje em dia, consegue-se fazê-los mais protegidos.
"Ocorreu-me quantas coisas possuímos em uma residência comum da classe média, ligadas à parede. Veio-me uma imagem sobre esses sérios octópodes elétricos,
seus tentáculos consistindo de fios elétricos, todos serpenteando pelas paredes, todos ligados a cabos externos, e todos os cabos seguindo para estações de energia
elétrica, dirigidas pelo governo.
"Quando fiz aquelas coisas, havia uma curiosa duplicidade em minha mente - prosseguiu o editor, após uma pausa para um gole de Fresca. - Essencialmente, eu
reagia a impulsos supersticiosos. Há muitas pessoas que não passam debaixo de escadas ou abrem um guarda-chuva dentro de casa. Há jogadores de basquete que se benzem
antes de uma jogada decisiva e jogadores de beisebol que trocam as meias quando estão inferiorizados. Creio que seja a mente racional tocando um acompanhamento em
mau estéreo com o subconsciente irracional. Eu diria que se trata de um pequeno aposento acolchoado, dentro de todos nós, onde o único mobiliário é uma pequena mesa
dobrável de jogo, sendo a única coisa sobre a mesa um revólver carregado com projéteis flexíveis.
"Quando trocamos de calçada para fugir à escada ou saímos do apartamento para a chuva com um guarda-chuva fechado, parte de nosso eu integral se despe e penetra
naquele aposento, onde pega a arma em cima da mesa. Talvez estejamos cônscios de dois pensamentos conflitantes: passar debaixo da escada é inofensivo e não passar
debaixo de uma escada também é inofensivo. Contudo, assim que a escada está atrás de nós - ou assim que o guarda-chuva é aberto - voltamos ao ponto de partida.
- Isso é muito interessante - disse o escritor. - Avance um pouco mais para mim, caso não se importe. Quando é que a parte irracional pára realmente de brincar
com a arma e a aponta para a têmpora?
O editor respondeu:
- Quando a pessoa em questão começa a escrever para a seção de leitores dos jornais, exigindo que todas as escadas sejam retiradas, porque passar debaixo
delas é perigoso.
Houve risos.
- Já que fomos tão longe, creio que devemos terminar. O eu irracional disparou realmente o projétil flexível no cérebro, quando a pessoa começa a mover-se
violentamente pela cidade, derrubando escadas e talvez machucando os que nelas trabalham. Dar a volta em torno de escadas ou passar debaixo delas não é, certamente,
um comportamento interditável. Tampouco é comportamento interditável alguém escrever cartas ao jornal, dizendo que a Cidade de Nova York entrou em colapso, porque
todos passam atrevidamente debaixo das escadas usadas por operários. Contudo, é interditável começar a derrubar escadas.
- Porque é premeditado - murmurou o escritor.
O agente disse:
- Você acertou o alvo aí, Henry. Pessoalmente, sou contra acender três cigarros com um só fósforo. Não sei como adquiri a mania, mas é assim que ajo. Aliás,
li em algum lugar, que isso começou nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Parece que os atiradores alemães esperavam que os Tommies começassem a acender os
cigarros uns dos outros.
No primeiro clarão, consegue-se o alcance de tiro. No segundo, avalia-se o desvio da bala. E, no terceiro, estoura-se a cabeça do sujeito. Contudo, mesmo
saber disso não fez qualquer diferença. Ainda continuo sem acender três cigarros com um fósforo. Uma parte de mim diz que pouco importa se acendo uma dúzia de cigarros
com um fósforo. A outra, no entanto - esta, uma voz lúgubre e soturna, como um Boris Karloff interior - diz, Ohhhh, se você fizer isso..."
- Entretanto, nem toda a loucura é supersticiosa, certo? - perguntou timidamente a esposa do escritor.
- Será? - replicou o editor. - Joana d'Arc ouvia vozes do céu. Algumas pessoas julgam-se possuídas por demônios. Outras vêem gremlins... ou diabos... ou Fornits.
Os termos que usamos para a loucura, sugerem superstição, em uma ou outra forma. Mania... anormalidade... irracionalidade... demência... insanidade... Para a pessoa
louca, a realidade entortou-se. Como um todo, a criatura começa a reintegrar-se naquele quartinho onde está a pistola.
"Contudo, a minha parte racional ainda estava bem presente. Ensangüentada, esfolada, indignada e talvez amedrontada, mas ainda funcionando. Dizendo: "Oh,
está tudo bem. Amanhã, quando você ficar sóbrio, poderá ligar tudo outra vez, graças a Deus. Faça as brincadeirinhas que quiser, mas não passe daí. Não vá além disso."
"Aquela voz racional tinha o direito de estar amedrontada. Em nós, existe algo que é muito atraído para a loucura. Todos que olham pela borda de um edifício
alto, já sentiram pelo menos uma fraca, mórbida vontade de saltar. E quem quer que já tenha encostado uma arma carregada à cabeça...
- Ai, pare! - disse a esposa do escritor. - Por favor!
- Está bem - respondeu o editor. - Meu ponto é apenas este: mesmo a pessoa mais bem ajustada, tem sua lucidez pendendo de uma corda ensebada. Acredito realmente
nisso. Os circuitos da racionalidade são fracamente construídos dentro do animal humano.
"Com as tomadas desligadas, fui para meu estúdio, escrever uma carta para Reg Thorpe.
Depois a coloquei em um envelope, selei-a, saí e a postei. Aliás, não me recordo de ter feito nada disso. Estava bêbado demais para lembrar. No entanto, deduzi
que fiz, porque quando me levantei, na manhã seguinte, o carbono ainda estava sobre minha máquina de escrever, juntamente com os selos e a caixa de envelopes. A
carta dizia o que se pode esperar de um bêbado. Seu conteúdo explicava mais ou menos isto: os inimigos eram atraídos pela eletricidade, assim como os próprios Fornits.
Livre-se da eletricidade e estará livre dos inimigos. No fim, eu tinha escrito: "A eletricidade está transtornando suas idéias sobre estas coisas, Reg. Interferência
com ondas cerebrais. Sua esposa tem um liquidificador?"
- Com efeito, você começava a escrever cartas para o jornal - comentou o escritor.
- Sem dúvida. Escrevi aquela carta em uma noite de sexta-feira. Na manhã de sábado, levantei por volta das onze horas, com ressaca e apenas vagamente cônscio
da traquinada cometida na véspera. Senti ondas de vergonha, quando comecei a religar os aparelhos elétricos. A vergonha maior - e medo - foi quando vi o que tinha
escrito a Reg. Revisei toda a casa em busca do original daquela carta, rezando para não a ter enviado. Contudo, ela já estava a caminho de Omaha. E só consegui passar
aquele dia, tomando a decisão de carregar minha cruz como homem e seguir em frente. Foi o que fiz.
"Na quarta-feira seguinte, recebi carta de Reg. Uma página, manuscrita. Toda desenhada com Fornit Some Fornus. No meio, apenas isto: "Você tinha razão. Obrigado,
obrigado, obrigado. Reg. Você tinha razão. Tudo está ótimo agora. Reg. Muitíssimo obrigado. Reg. O Fornit está ótimo. Reg. Obrigado. Reg."
- Oh, meu Deus! - exclamou a esposa do escritor.
- Aposto como a mulher dele ficou louca - disse a esposa do agente.
- Nada disso. Porque a coisa funcionou.
- Funcionou? - perguntou o agente.
- Ele recebeu minha carta na correspondência da manhã de segunda-feira. Na tarde desse dia, Reg foi ao escritório local da companhia de eletricidade e disse
a eles que cortassem a energia de sua casa. Jane Thorpe, naturalmente, ficou histérica. Seu fogão era elétrico e, de fato, ela possuía um liquidificador, máquina
de costura, uma combinação de lavadora-secadora de roupas... bem, vocês entendem. Na noite de segunda-feira, tenho certeza de que ela estava pronta para ter minha
cabeça em uma bandeja.
"Contudo, foi o comportamento de Reg que a levou a considerar-me um fazedor de milagres, em vez de lunático. Ele a fez sentar-se na sala de estar e conversou
com ela, demonstrando a maior racionalidade. Disse saber que estivera agindo de maneira muito singular. Sabia-a preocupada com isso. Disse-lhe que se sentia bastante
melhor com a eletricidade cortada e que ficaria satisfeito em ajudá-la, ante qualquer inconveniência produzida por aquele corte de energia. Depois sugeriu que fossem
até a casa vizinha, dizer olá.
- Não era a residência dos agentes da KGB, com radium em seu furgão? perguntou o escritor.
- Exatamente. Jane não teve saída. Concordou em ir lá com ele, segundo me disse, mas já preparada para uma cena desagradável. Acusações, ameaças, histeria.
Começara a pensar em abandonar Reg, se ele não acedesse em obter ajuda para seu problema.
Contou-me que, naquela manhã de quarta-feira ao telefone, fizera a si mesma uma promessa: a questão da eletricidade era a gota que fazia o copo transbordar.
Ele que aprontasse mais uma, e ela partiria para Nova York. Estava ficando amedrontada, entendam. A situação havia piorado aos poucos, em graus quase imperceptíveis,
e ela o amava, mas já fora tão longe até onde podia ir. Decidira que, se Reg dissesse uma só palavra estranha aos estudantes vizinhos, sairia de casa. Muito mais
tarde, fiquei sabendo que ela já tomara algumas discretas informações sobre o procedimento em Nebraska para internação involuntária de um doente mental.
- Pobre mulher! - murmurou a esposa do escritor.
- A noite, contudo, foi um estrondoso sucesso - disse o editor. - Reg não podia estar mais fascinante... e, segundo Jane, ele foi extraordinariamente fascinante.
Nunca o vira assim, nos últimos três anos. A casmurrice, o retraimento, tudo desaparecera. Os tiques nervosos. O salto involuntário e o olhar por sobre o ombro,
sempre que uma porta era aberta. Ele tomou uma cerveja e discorreu sobre todos os sombrios tópicos da atualidade naquela época: a guerra, as possibilidades de um
exército de voluntários, as desordens nas cidades, as leis decadentes.
"O fato dele haver escrito Underworld Figures veio à tona, e eles ficaram... "impressionados pelo escritor", foi como disse Jane. Três deles já o tinham lido,
mas é fora de dúvida que o outro não perderia muito tempo, antes de correr para a biblioteca.
O escritor riu e assentiu. Já passara por isso também.
- Assim - prosseguiu o editor - deixaremos Reg Thorpe e sua esposa apenas por um momento, sem energia elétrica, porém mais felizes do que nunca...
- Ainda bem que ele não possuía uma máquina de escrever IBM - disse o agente - e voltaremos ao Senhor Editor. Duas semanas passaram. O verão chegava ao fim.
O Senhor Editor tinha, é claro, recaído na bebedeira várias vezes, mas em geral conseguia permanecer bastante respeitável. Os dias sucederam-se. Em Cabo Kennedy,
estavam prontos para colocar um homem na Lua. O novo exemplar de Logan's, com John Lindsay na capa, já estava à venda. mas vendendo miseravelmente, como de costume.
Eu havia apresentado um pedido para compra de um conto chamado "A Balada do Projétil Flexível", da autoria de Reg Thorpe, direitos para a primeira série,
publicação proposta para janeiro de 1970 e preço proposto de compra 800 dólares, que era o padrão, para uma história principal na Logan's.
"Recebi uma chamada de meu superior, Jim Dohegan. Eu poderia subir para falar com ele? Trotei até seu gabinete às dez da manhã, com minha melhor aparência
e sentido-me ótimo. Só mais tarde, ocorreu-me que Janey Morrison, secretária dele, parecia com cara de velório.
"Sentei-me e perguntei a Jim o que podia fazer por ele ou vice-versa. Evidentemente, estava com o nome de Reg Thorpe na cabeça; ter sua história era um tremendo
sucesso para Logan's e desconfiei que havia algumas felicitações a caminho. Assim, podem imaginar qual o meu aturdimento, quando ele empurrou duas ordens de compra
sobre a mesa, em minha direção. A história de Thorpe e uma novela de John Updike, que havíamos programado como a ficção principal para fevereiro. A palavra DEVOLUÇÃO
tinha sido carimbada em ambas.
"Olhei para as ordens de compra revogadas. Olhei para Jimmy. Não conseguia entender nada. De fato, não conseguia pôr meu cérebro em funcionamento para desvendar
aquilo.
Havia um bloqueio interno. Olhei em torno e vi sua placa elétrica. Janey a levava todas as manhãs, quando vinha trabalhar, e então ligava a placa, a fim de
que Jimmy tivesse café fresco, sempre que quisesse. Aquele tinha sido um rigoroso costume na Logan's, durante três anos ou mais. E, naquela manhã, eu só conseguia
pensar era, se aquela coisa estivesse desligada, eu poderia raciocinar. Sei que, se aquela coisa estivesse desligada, eu compreenderia esta questão.
"Perguntei, "O que significa isto, Jim?"
"Lamento como o diabo ter que dizer-lhe isto, Henry", respondeu ele, "mas Logan's não estará mais publicando trabalhos de ficção em janeiro de 1970."
O editor fez uma pausa para acender um cigarro, mas seu maço estava vazio.
- Alguém tem um cigarro? - perguntou.
A esposa do escritor passou-lhe um maço de Salem.
- Obrigado, Meg.
Ele acendeu o cigarro, jogou fora o fósforo e aspirou profundamente. A brasa brilhou maciamente no escuro.
- Bem - disse ele - Jim deve ter pensado que eu estava doido. Perguntei a ele, "Você se importa?" e então, inclinando-me, puxei fora a tomada de aquecimento
de sua placa elétrica.
"Ele ficou boquiaberto. "Diabo, o que há, Henry?" perguntou.
"Sinto dificuldades em pensar com uma coisa dessas ligada", respondi. "Dá interferência". E parecia ser isso mesmo, porque sem a tomada na parede, eu conseguia
encarar a situação com muito maior clareza. "Quer dizer que me mandam embora?" perguntei a ele.
"Não sei", respondeu ele. "Isso é com San e a diretoria. Sinceramente, não sei de nada, Henry".
"Havia muitas coisas que eu podia ter dito. Acho que Jimmy esperava uma súplica ardente por meu emprego. Sabem aquele dito, "Ele estava no mato sem cachorro"?...
Pois eu digo que só compreenderão o sentido desta frase, quando forem chefes de um departamento subitamente não-existente.
"Contudo, não supliquei por minha causa ou pela causa da ficção na Logan's. Minha súplica foi pela história de Reg Thorpe. Primeiro, falei que poderíamos
dar-lhe outra programação - colocá-la no número de dezembro.
"Ora, vamos, Henry", disse Jimmy. "O número de dezembro já está fechado e você sabe. Além do mais, aqui estamos lidando com dez mil palavras!"
"Nove mil e oitocentas", falei.
"Mais uma página inteira com ilustração", disse ele. "Esqueça".
"Bem, tiramos a ilustração", argumentei. "Ouça, Jimmy, esta é uma grande história, talvez a melhor ficção que já tivemos, nos últimos cinco anos".
"Eu a li, Henry", disse Jimmy. "Sei que é uma grande história. Contudo, não podemos publicá-la. Não em dezembro. É o mês do Natal, pelo amor de Deus! Você
quer inserir uma história sobre um sujeito que mata a esposa e a filha, debaixo das árvores de Natal da América? Ora, você deve estar..." Ele se interrompeu, mas
vi o olhar que lançou para sua placa elétrica. Era o mesmo que ter dito em voz alta, entendem?
O escritor assentiu lentamente, seus olhos nunca se afastando da sombra escura que era o rosto do editor.
"Comecei a ficar com dor de cabeça. Primeiro, apenas uma dorzinha. Foi ficando mais difícil concentrar as idéias. Recordei que Janey Morrison tinha um apontador
elétrico para lápis em sua mesa. Havia todas aquelas lâmpadas fluorescentes no gabinete de Jim... Os aquecedores... As máquinas de venda automáticas na concessão,
no final do corredor... Se parasse para pensar nisso, concluiria que todo o maldito edifício funcionava à base de eletricidade; era um milagre que alguém conseguisse
fazer qualquer coisa. Foi quando a idéia começou a imiscuir-se, imagino. A idéia de que a Logan's ia quebrar, porque ninguém podia pensar direito. E o motivo de
não se poder pensar direito, era porque estávamos todos trabalhando juntos naquele arranha-céu funcionando eletricamente. Nossas ondas cerebrais estavam em total
confusão..
Lembro-me de haver pensado que se um médico aparecesse lá com um desses aparelhos EEG, obteria alguns gráficos incrivelmente estranhos. Repletos daquelas
enormes e agudas ondas alfa, que caracterizam tumores malignos no cérebro anterior.
"Só pensar nessas coisas, aumentava minha dor de cabeça. Contudo, fiz mais uma tentativa. Perguntei-lhe se, pelo menos, falaria com Sam Vadar, o editor-chefe,
para deixar a história sair no número de janeiro. Como a ficção de encerramento na revista, se preciso fosse. O último conto a ser publicado na Logan's.
"Jimmy brincava com um lápis e assentiu. Disse, "Tratarei do assunto, mas nada posso garantir. Temos a história de um novelista de um só livro e a história
de John Updike, também muito boa... talvez até melhor... e..."
"A história de Updike não é melhor!" - exclamei.
"Ora, Henry, por favor, não precisa gritar..."
"Eu não estou gritando!" - gritei.
"Ele ficou um tempão olhando para mim. Minha dor de cabeça estava lancinante, àquele momento. Eu podia ouvir o zumbido das lâmpadas fluorescentes. Eram como
um punhado de moscas, capturadas em uma garrafa. Um som francamente odioso. Pensei então que podia ouvir Janey usando seu apontador elétrico. Estão, jazendo isso
de propósito, imaginei. Querem confundir-me. Sabem que não posso concatenar as idéias e falar com clareza, enquanto essas coisas estiverem funcionando, e assim...
e assim...
"Jim falava algo sobre levar o assunto à próxima reunião editorial, sugerindo que, em vez de uma data arbitrária para a exclusão de ficção na revista, eles
poderiam publicar todas as histórias com que eu já me comprometera verbalmente... embora...
"Levantei-me, cruzei a sala e apaguei as luzes
"Por que fez isso?" perguntou Jimmy.
"Você sabe porquê" respondi. "Devia sair daqui, Jimmy, antes que nada mais reste de você!"
"Ele se levantou e caminhou para mim. "Acho que devia tirar uma folga pelo resto do dia, Henry", disse. "Vá para casa. Descanse. Sei que tem vivido sob tensão
ultimamente. Fique sabendo que farei o melhor ao meu alcance quanto a este assunto. Lamento tanto quanto você... bem, quase tanto quanto você. Contudo, devia ir
para casa, pôr os pés para o alto e ver um pouco de televisão."
"Televisão!" repeti, e dei uma risada. Era a coisa mais engraçada que já ouvira. "Ouça Jimmy, quero que diga algo mais a Sam Vadar em meu nome."
"O que é, Henry?"
"Diga a ele que está precisando de um Fornit. Ele e toda a equipe. Um Fornit? Não. Uma dúzia deles."
"Um Fornit", assentiu Jimmy" Está bem, Henry. Fique certo de que direi isso a ele".
"Minha dor de cabeça era terrível. Eu mal conseguia enxergar. Em alguma parte, no fundo de minha mente, eu já me perguntava como dar a notícia a Reg e gostaria
de saber como ele aceitaria isso.
"Eu mesmo providenciarei o pedido de compra, se descobrir a quem enviá-lo", falei. "Reg talvez tenha algumas idéias. Uma dúzia de Fornits. Seriam postos limpando
este lugar, com fornus, de ponta a ponta. A maldita energia elétrica seria desligada, toda ela".
Eu caminhava pelo gabinete de Jimmy e ele olhava para mim, boquiaberto. "Devem cortar toda a energia elétrica, Jimmy, diga a eles que façam isso. Diga isso
a Sam. Ninguém consegue pensar direito, com toda essa interferência elétrica, estou certo?"
"Você está certo, Henry, cem por cento certo. Agora, vá para casa e descanse um pouco, está bem? Tire uma soneca ou coisa assim."
"Ah, os Fornits, sabe? Eles não gostam de toda essa interferência. Radium, eletricidade, é tudo a mesma coisa. Alimente-os com salsichão. Bolo. Manteiga de
amendoim. Podemos conseguir requisições para essa compra?"
Minha dor de cabeça era como uma bola negra de dor, por trás dos olhos. Eu via dois Jimmy, tudo em duplicata. Então, de repente, senti necessidade de um drinque.
Se não havia fornus e se o lado racional de minha mente afirmava que não havia, então um drinque era a única coisa no mundo que me deixaria bem.
"Claro, podemos conseguir as requisições", disse ele.
"Não acredita em nada disto, não é, Jimmy?" perguntei.
"É claro que acredito. Está tudo bem. Agora,. vá para casa e procure descansar um pouco."
"Você não está acreditando", insisti, "mas talvez passe a acreditar, quando este circo for à falência. Como, em nome de Deus, julga que está tomando decisões
racionais, se fica sentado a menos de quinze metros de um punhado de máquinas de Coca, máquinas de doces e máquinas de sanduíches" Foi quando tive um pensamento
realmente terrível. "E um forno de microondas!" gritei para ele. "Elas tem um, forno de microondas embutido, para esquentar os sanduíches!"
Ele começou a dizer qualquer coisa, mas não lhe prestei muita atenção. Corri para fora.
A idéia daquele forno de microondas explicava tudo. Eu tinha que ir embora dali. Era isso que tornava a minha dor de cabeça tão terrível. Recordo que vi Janey
e Kate Younger, do departamento de anúncios, bem como Mert Strong, da publicidade, no gabinete externo, todas me fitando de olhos esbugalhados. Deviam ter-me ouvido
gritar.
Meu gabinete ficava logo no andar de baixo. Fui pela escada. Entrei em minha sala, apaguei todas as luzes e peguei minha pasta. Fui de elevador até o saguão
do prédio, coloquei a pasta entre meus pés e enfiei os dedos nos ouvidos. Também recordo que as outras três ou quatro pessoas que estavam no elevador, olhavam para
mim com estranheza. - O editor deu uma risadinha seca. Estavam com medo. Por assim dizer.
Se estivessem confinados em uma pequena caixa móvel, em companhia de um louco óbvio, vocês também teriam medo.
- Oh, sem dúvida! Esta foi um pouco forte - comentou a esposa do agente.
- Nem tanto. A loucura tem que começar em algum lugar. Se esta é uma história sobre qualquer coisa - se os eventos na vida de uma pessoa podem ser considerados
como sendo sobre qualquer coisa - então esta é uma história sobre a gênese da insanidade. A loucura tem que começar em algum lugar e também tem que ir para algum
lugar. Como uma estrada. Ou um projétil, do cano de uma arma. Eu ainda estava quilômetros atrás de Reg Thorpe, mas me encontrava a caminho. Podem apostar.
"Eu tinha que ir para algum lugar, portanto, dirigi-me ao Four Fathers, um bar na Rua 49. Recordo ter escolhido especificamente esse bar, porque lá não havia
vitrola automática, televisão a cores ou luzes em demasia. Lembro-me de ter pedido o primeiro drinque. Depois disso, não consigo recordar mais nada, até acordar
no dia seguinte, em casa, na minha cama. Havia vômito no chão e uma enorme queimadura de cigarro no lençol que me cobria. Em meu estupor, aparentemente eu escapara
da morte por dois meios extremamente desagradáveis - asfixiado ou queimado. Aliás, acho que não chegaria a sentir nenhum dos dois.
- Céus! - exclamou o agente, quase com respeito.
- Foi um blackout - disse o editor. - O primeiro real e legítimo blackout de minha vida - mas eles são sempre um sinal do fim e a gente nunca passa por muitos.
De um modo ou de outro, nunca há muitos. Contudo, um alcoólatra lhes dirá que um blackout não é o mesmo que ficar inconsciente. Se fosse, muitos problemas seriam
evitados. Quando um alcoólatra entra em blackout, ele continua fazendo coisas. Um alcoólatra em blackout é um demoninho em atividade. Uma espécie de Fornit maligno.
Ele liga para a ex-esposa e diz-lhe horrores ao telefone, quando não dirige seu carro pelo lado errado no pedágio, acabando por arrasar outro carro, lotado de garotada.
Ele abandona o emprego, rouba um supermercado, desfaz-se da aliança de casamento. São demoninhos ativos.
"Aparentemente, o que eu fiz, foi ir para casa e escrever uma carta. Só que não era dirigida a Reg. Era para mim mesmo. E eu não a escrevi - pelo menos, segundo
a carta, não fui eu".
- Quem a escreveu? - perguntou a esposa do escritor.
- Bellis.
- E quem é Bellis?
- O Fornit dele - respondeu o escritor, quase alheadamente, com olhar sombrio e distante.
- Exato - disse o editor.
Não parecia nem um pouco surpreso. A seguir, repetiu a carta para seus ouvintes, novamente ao doce ar da noite, acentuando com o dedo os pontos adequados.
- Olá, da parte de Bellis. Sinto muito por seus problemas, meu amigo, porém gostaria de indicar, desde o princípio, que você não é o único a tê-los. Esta
não é uma tarefa fácil para mim. Posso limpar sua máquina com fornus, de agora até a eternidade, porém supõe-se que movimentar as TECLAS seja responsabilidade sua.
PARA isso é que Deus fez as pessoas em tamanho grande. Assim, solidarizo-me com você, mas é tudo que posso fazer.
"Compreendo sua preocupação com respeito a Reg Thorpe. Eu não me preocuparia com ele, mas com Rackne, meu irmão. Thorpe fica preocupado com o que lhe acontecerá,
se Rackne for embora, mas somente por ser egoísta. A maldição de servir-se a escritores, é serem todos eles egoístas. Ele não se preocupa com o que acontecerá a
Rackne, se THORPE for embora. Ou se for el bonzo seco. Parece que tais coisas jamais cruzaram sua mente, oh, tão sensível. Contudo, felizmente para nós, todos os
nossos infortunados problemas têm a mesma solução a curto prazo, de modo que estendo meus braços e meu diminuto corpo para dá-los a você, meu embriagado amigo. VOCÊ
pode querer saber sobre soluções a longo prazo; eu lhe garanto que não existem. Todos os ferimentos são mortais. Aceite o que lhe é dado. Por vezes, você fica um
pouco bambo na corda, porém ela sempre tem um fim. Abençoe a corda bamba e não desperdice respiração, xingando a queda. Um coração agradecido sabe que, no fim, todos
balançamos.
"Você deve pagar-lhe a história, de seu bolso, mas não com um cheque pessoal."
Os problemas mentais de Thorpe são sérios, talvez perigosos, porém isto, de maneira alguma, indica burrice.
Neste ponto, o editor soletrou a palavra: b-u-r-r-i-c-e. Então, prosseguiu:
- Se você enviar-lhe um cheque personalizado, a loucura dele explodirá, em uns nove segundos.
"Saque oitocentos e poucos dólares de sua conta bancária e faça seu banco abrir uma nova conta para você, em nome de Arvin Publishing, Inc. Faça-os compreender
que precisa de cheques com aparência comercial - nada de cães de luxo ou vistas de canyons neles. Encontre um amigo, alguém de sua confiança, e o coloque como co-sacador.
Assim que estiver de posse do talonário, preencha um cheque com oitocentos dólares e peça a essa outra pessoa que o assine. Então, envie o cheque a Reg Thorpe.
Isso deixará você a coberto, futuramente.
"Encerro e desligo." Estava assinado "Bellis". Não em holograma. Datilografado.
- Minha nossa! - exclamou o escritor.
- Quando levantei, a primeira coisa que notei foi a máquina de escrever. Parecia que alguém a caracterizara, como máquina de escrever-fantasma, em algum filme
barato. Na véspera, ela havia sido uma Underwood negro-escritório. Ao levantar-me - com uma cabeça que parecia do tamanho de Dakota do Norte ela estava de um tom
acinzentado.
As últimas frases da carta estavam atropeladas e desbotadas. Dei uma espiada e imaginei que minha fiel e antiga Underwood chegara ao fim da linha, com toda
a certeza. Provei algo na boca e fui até a cozinha. Havia um saco de açúcar de confeiteiro aberto, em cima do balcão, com uma concha em seu interior. Também havia
açúcar de confeiteiro espalhado por todo canto, entre a cozinha e o pequeno aposento onde eu trabalhava, naquela época.
- Você alimentava seu Fornit - disse o escritor. - Bellis gostava de coisas doces. Pelo menos, você assim pensou.
- Sem dúvida. No entanto, embora indisposto e de ressaca como me encontrava, eu sabia perfeitamente quem era o Fornit.
O editor enumerou nos dedos.
- Primeiro, Bellis era o sobrenome de solteira de minha mãe.
"Segundo, aquela frase, el bonzo seco. Era uma frase particular que eu e meu irmão costumávamos usar, com o significado de loucura. Quando éramos crianças.
"Terceiro, e mais execrável, foi a escrita da palavra "burrice". Trata-se de uma palavra que geralmente escrevo errada. Certa vez, tive um escritor gritantemente
letrado, que costumava escrever "refridgerador", com um d - em vez de "refrigerador" - pouco importando quantas vezes os revisores o corrigissem. Esse mesmo sujeito,
diplomado em Princeton, sempre escrevia "sombrancelha", em vez de "sobrancelha".
A esposa do escritor deu uma risada súbita - tanto embaraçada, como alegre.
- Eu faço isso - disse ela.
- Tudo quanto quero dizer é que os erros ortográficos de um homem - ou de uma mulher - são suas impressões digitais literárias. Perguntem a qualquer copydesk
que tenha revisado algumas vezes trabalhos do mesmo escritor.
"Não, Bellis era eu e eu era Bellis. No entanto, seu conselho era infernalmente bom. De fato, achei-o um grande conselho. Contudo, aqui vai algo mais, o subconsciente
deixa suas impressões digitais, mas lá embaixo também existe um ser estranho. Um diabo de sujeito esquisito, que entende um diabo de coisas. Eu jamais vira aquele
termo "co-sacador", apesar de todo o meu conhecimento... mas lá estava ele, era muito bom e, tempos depois, fiquei sabendo que realmente os bancos o usam.
"Peguei o fone, a fim de ligar para um amigo, e então senti aquela pontada de dor - incrível! - varando-me a cabeça. Pensei em Red Thorpe, em seu radium e
tornei a colocar precipitadamente o fone no gancho. Procurei esse amigo pessoalmente, após tomar uma ducha, fazer a barba e examinar-me umas nove vezes ao espelho,
para ter certeza de que minha aparência correspondia aproximadamente à de um ser humano racional, como se presume que seja. Ainda assim, fiz-me um monte de perguntas
e vigiei-me intimamente. Creio serem bem poucos os indícios que uma ducha, barba feita e uma boa dose de Listerine não consigam esconder. Esse amigo não era do meu
ramo, o que já significava algo. As notícias costumam voar, como sabem. Nos negócios. Por assim dizer. Aliás, se ele fosse do ramo, saberia que Arvin Publishing,
Inc., era responsável pela Logan's e gostaria de saber que tipo de tramóia eu estava querendo armar. Como era alheio à atividade, nada perguntou e pude falar-lhe
de um empreendimento de auto-editoração em que estava interessado, uma vez que, aparentemente, a Logan's decidira eliminar o departamento de ficção.
- Ele perguntou por que lhe dava o nome de Arvin Publishing? - quis saber o escritor.
- Perguntou.
- E o que você respondeu?
- Respondi - disse o editor, com um sorriso frio - que Arvin era o sobrenome de solteira de minha mãe.
Houve uma breve pausa e depois o editor recomeçou a falar. Então, falou até o fim, quase sem ser interrompido.
- Assim, comecei a esperar pelos cheques impressos, dos quais desejava exatamente um.
Para passar o tempo, eu me exercitava. Sabem como é - levantar o copo, flexionar o cotovelo, esvaziar o copo, flexionar o cotovelo novamente. Até que, por
fim, o exercício nos cansa e acabamos caindo para diante, com a cabeça em cima da mesa. Aconteceram outras coisas, mas estas eram as únicas que realmente me ocupavam
a mente - a espera e o flexionamento. Que me recorde, aliás. Devo acentuar isto, porque eu estava bêbado a maior parte do tempo e então, para cada coisa que recorde,
devem existir talvez cinqüenta ou sessenta que nem me passam pela cabeça.
"Deixei o emprego - o que provocou um suspiro de alívio geral, disto estou certo. Um suspiro deles, porque não precisaram executar a tarefa existencial de
me demitirem por loucura, de um departamento não mais em existência; um suspiro meu, porque eu achava que não conseguiria enfrentar novamente aquele edifício - o
elevador, as lâmpadas fluorescentes, os telefones, a idéia de tudo quanto recebia eletricidade.
"Escrevi a Reg Thorpe e sua esposa duas cartas, uma a cada um, durante aquele período de três semanas. Lembro-me de ter escrito a dela, mas não a dele - como
aconteceu com a carta de Bellis, escrevi aquelas em momentos de blackocct. Contudo, eu revertia a meus velhos hábitos de trabalho quando estava alto, assim como
persistia em minha velha ortografia errada. Nunca deixava de usar um carbono... e quando chegava a manhã seguinte, as cópias a carbono estavam por ali. Era como
ler cartas de um estranho.
"Não que as cartas fossem loucas. De maneira alguma. Aquela que terminei com o P.S. sobre o liquidificador, foi muito pior. Aquelas cartas pareciam... quase
racionais.
Ele parou e meneou a cabeça, lenta e cansadamente.
- Pobre Jane Thorpe! Não que as coisas parecessem tão ruins no final. Ela deve ter achado que o editor de seu marido estava fazendo um altamente especializado
- e humano - trabalho, ao ser indulgente com ele, arrancando-o de uma depressão cada vez mais funda. Provavelmente já tivesse ocorrido a ela a questão de ser ou
não uma boa idéia alguém mostrar-se indulgente com uma pessoa que está acalentando todo o tipo de fantasias paranóicas - fantasias que, em um caso, quase levaram
ao real assalto contra uma menininha. Se ocorreu, então ela preferiu ignorar os aspectos negativos, uma vez que também estava sendo indulgente com o marido. Jamais
a censurei por isso - Thorpe não era apenas um ticket para refeição, alguma mula velha que precisava ser trabalhada e paparicada, trabalhada e paparicada, até estar
pronta para o matadouro; acontece que ela amava o cara. À sua maneira, Jane Thorpe era uma grande dama. Assim, após ter vivido com Reg desde os Primeiros Tempos
aos Altos Tempos e finalmente aos Loucos Tempos, creio que ela concordaria com Bellis, ao abençoar a corda bamba, sem desperdiçar a respiração xingando a queda.
Naturalmente, quanto mais bambos nos sentimos, mais difícil se torna equilibrar-nos, quando afinal chega o fim... mas mesmo aquele rápido equilíbrio pode ser uma
bênção, admito - pois quem prefere cair?
"Naquele curto período, recebi respostas de ambos - cartas extraordinariamente otimistas... embora houvesse uma qualidade estranha e quase final naquele otimismo.
Era como se... bem, esqueçamos a filosofia barata. Se eu conseguir atinar com o significado, falarei. Deixemos isso por ora.
"Reg passou a jogar cartas com os rapazes vizinhos, todas as noites. Quando as folhas começaram a cair, eles achavam que Reg Thorpe era o próprio Deus, baixado
à terra. Se não jogavam cartas ou disputavam uma partida de Frisbee, discutiam literatura, com Reg animando-os delicadamente em seus passos futuros. Ele arranjara
um cachorrinho no abrigo de animais local e passeava com ele, de manhã e à noite, enquanto isso conhecendo outros moradores do quarteirão, como acontece conosco,
se levamos nosso cão a passeio. Quem decidira que os Thorpe eram pessoas peculiares, agora começava a pensar diferente. Quando Jane sugeriu que, sem aparelhagem
elétrica ela poderia usar os serviços de uma faxineira, Reg concordou imediatamente. Ela ficou pasma ante o jovial assentimento dele. Não se tratava de uma questão
de dinheiro - após Undenworld Figures, eles nadavam no ouro - tratava-se deles, deduziu Jane. Eles estavam em toda parte, tal era o decreto de Reg, e que melhor
agente para eles do que uma faxineira, que andava por todos os cantos da casa, espiava debaixo das camas e armários, talvez até dentro das gavetas também, caso elas
não estivessem trancadas e depois fixadas com pregos, por medida de segurança?
"Contudo, ele lhe disse que contratasse a mulher, acrescentou que se sentia um sujeito insensível, por não haver pensado nisso mais cedo, mesmo embora ela
insistiu em contar-me o detalhe - Reg estivesse fazendo a maioria dos serviços pesados, como a lavagem de roupa, por exemplo. Reg só impunha uma pequena condição:
que a faxineira não tivesse permissão de entrar em seu estúdio.
"O melhor de tudo, o mais encorajador, na opinião de Jane, era o fato de que seu marido voltara a trabalhar, agora em um novo romance. Ela lera os três primeiros
capítulos e os considerara maravilhosos. Tudo isto, segundo me escreveu, começara quando eu havia aceito "A Balada do Projétil Flexível" para a Logan's - o período
anterior, que havia sido de maré muito baixa. E ela me abençoava por isso.
"Estou certo de que o agradecimento de Jane era sincero, embora sua gratidão não parecesse conter muito calor e o otimismo de sua carta se mostrasse algo
turvo - pronto, voltamos novamente a isso. Naquela carta, seu otimismo assemelhava-se a um dia ensolarado, mas com aquelas nuvens de bordas carregadas, prenunciando
um temporal para breve.
"Todas essas boas notícias - jogos de cartas, o cachorro e a faxineira, além do novo romance - e, no entanto, ela era inteligente demais para acreditar que
o marido estivesse ficando bom novamente... ou assim acreditei, apesar de em meu próprio fog, Reg viera exibindo sintomas de psicose. A psicose é como câncer pulmonar,
em um sentido - nenhum dos dois se cura espontaneamente, embora tanto os pacientes de câncer como os lunáticos possam ter seus bons dias.
"Pode me dar outro cigarro, querida?
A esposa do escritor deu-lhe o cigarro.
- Afinal de contas - prosseguiu o editor, puxando seu isqueiro Ronson, os sinais da idéia fixa do marido estavam por toda parte, em volta dela. Nada de telefone;
nada de eletricidade. Ele afixara plástico de embalar em todas as placas de interruptores.
Continuava colocando comida na máquina de escrever, tão regularmente, como a punha no prato de seu novo cãozinho. Os universitários que moravam ao lado o
julgavam um grande sujeito, mas não o viam calçar luvas de borracha para recolher o jornal no alpendre pela manhã, devido a seus temores sobre a radiação. Eles não
o ouviam gemer enquanto dormia e nem tinham que consolá-lo, quando ele acordava gritando, com terríveis pesadelos que não conseguia recordar.
"Você, minha querida - disse ele, virando-se para a esposa do escritor -, deve estar-se perguntando por que Jane continuou em companhia do marido. Embora
não tenha dito em palavras, a idéias está em sua mente, não?
Ela assentiu.
- Exato. E não pretendo oferecer uma longa tese motivacional - a coisa conveniente sobre histórias reais, é que só precisamos dizer - foi assim que aconteceu,
deixando que os outros se preocupem sobre o motivo. Em geral, ninguém jamais sabe por que coisas acontecem... em particular as pessoas que dizem saber.
"Em termos de Jane Thorpe, no entanto, relativamente à sua percepção seletiva, tinham acontecido coisas que eram um bocado boas. Contratou uma mulher negra
de meia-idade para fazer a faxina e se dispôs a explicar-lhe francamente as idiosincrasias do marido. A mulher, de nome Gertrude Rulin, riu e disse que estava acostumada
a pessoas de hábitos bastante estranhos: Jane passou a primeira semana do serviço de Gertrude mais ou menos como se sentiu durante aquela primeira visita aos vizinhos
jovens do lado - esperando alguma explosão de loucura. Contudo, Reg encantou a faxineira tão completamente como encantara os rapazes, conversando sobre o trabalho
dela na igreja, seu marido e o filho caçula, Jimmy que, segundo Gertrude, fazia Dennis o Terrível, parecer o próprio tédio no primeiro grau escolar. Gertrude tinha
onze filhos ao todo, mas havia um espaço de nove anos entre Jimmy e o anterior. Esse filho temporão lhe tornava a vida dura.
"Reg parecia estar indo bem... pelo menos, olhando-se as coisas de uma certa forma.
Contudo, estava tão louco como sempre, é claro, o que também acontecia comigo. A loucura bem pode ser uma espécie de projétil flexível, mas qualquer perito
em balística que entenda do ofício, dirá que duas balas jamais são iguais. A carta de Reg para mim falava ligeiramente sobre seu novo romance, para então passar
de imediato para os Fornits. Os Fornits em geral, Rackne em particular. Ele especulava sobre se eles realmente queriam matar Fornits ou - achava mais provável -
capturá-los vivos e estudá-los.
Fechava a carta, dizendo, "Tanto meu apetite como minha visão de vida melhoraram imensuravelmente depois que começamos nossa correspondência, Henry. Fico-lhe
muito grato. Afetuosamente, Reg" Um P.S. mais abaixo, perguntava casualmente se fora designado algum ilustrador para sua história. Aquilo me provocou uma ou duas
pontadas de culpa, bem como uma rápida viagem ao armário de bebidas.
"Reg envolvia-se com os Fornits; eu com o álcool.
"Minha carta de resposta mencionava os Fornits apenas de passagem - a esta altura, eu estava realmente paparicando o homem, pelo menos nessa questão; um elfo
com o sobrenome de solteira de minha mãe e meus hábitos pessoais de errar na ortografia estavam pouco me importando.
"O que passara a interessar-me, cada vez mais e mais, era o tema da eletricidade, microondas, ondas radiofônicas e interferência do rádio irradiando-se de
pequenos aparelhos eletrodomésticos, bem como um baixo nível de radiação e só
Deus sabe o que mais. Fui à biblioteca e apanhei livros sobre o assunto; comprei livros que falavam nisso também. Neles, havia muita coisa assustadora...
e naturalmente, bem aquilo que eu procurava.
Tomei providências para que meu telefone fosse desligado e a eletricidade cortada. Isso ajudou durante algum tempo, mas certa noite, quando eu cambaleava
na porta, bêbado, com uma garrafa de Black Velvet em uma das mãos, a outra mão enfiada no bolso do sobretudo, vi aquele olhinho vermelho no teto, espiando para mim.
Céus, por um minuto, pensei que ia ter um ataque cardíaco. A princípio, ele parecia um besouro... um grande besouro escuro, com um olho cintilante.
"Eu tinha uma lanterna Coleman, a gás, e a acendi. Imediatamente vi o que era. Só que, em vez de ficar aliviado, aquilo me deixou pior. Assim que dei uma
boa espiada na coisa, tive a impressão de que podia sentir vastos e nítidos acessos de dor varando-me a cabeça - como ondas de rádio. Por um momento, foi como se
meus olhos houvessem girado nas órbitas, de maneira a permitirem que eu olhasse meu próprio cérebro e, lá dentro, visse células soltando fumaça, ficando negras,
morrendo. Era um detector de fumaça - um dispositivo ainda mais recente do que os fornos de microondas, em 1969.
"Saí precipitadamente do apartamento e fui até o térreo - eu morava no quinto andar, mas então estava sempre usando as escadas - e martelei a porta do zelador.
Disse-lhe que queria aquela coisa fora de minha casa, queria-a fora de lá em seguida, queria-a fora de lá ainda aquela noite, queria-a fora de lá dentro de uma hora.
Ele me fitou como se me julgasse absolutamente pirado - perdoem-me a expressão - bonzo seco, e hoje posso compreender aquilo. Aquele detector de fumaça deveria fazer
com que me sentisse bem, presumia-se que me daria segurança. Hoje, é claro, eles são previstos em lei, mas então constituíam um Grande Avanço, pago pela associação
de moradores do prédio.
"O zelador o removeu - não demorou muito - mas não me perdia de vista e, em certa forma limitada, eu podia entender o que sentia. Eu precisava barbear-me,
fedia a uísque, tinha os cabelos grudados à cabeça e meu sobretudo estava sujo. Ele certamente sabia que eu não estava mais trabalhando; que minha televisão fora
levada embora; que meu telefone e a energia elétrica haviam sido voluntariamente cortados. O zelador me considerava louco.
"Posso ter estado louco mas - como Reg - não era burro. Apelei para o charme. Editores precisam ter uma certa dose de charme, compreendam. Então, azeitei
a situação que parecia lamentável, com uma nota de dez dólares. Por fim, fui capaz de ajeitar as coisas, mas da maneira como todos olhavam para mim, nas duas semanas
seguintes - minhas duas últimas semanas no prédio - a história sem dúvida viajou. O fato de nenhum membro da associação dos moradores procurar-me, desgostoso com
minha atitude ingrata, era particularmente revelador. Talvez pensassem que eu poderia atacá-los com uma faca de carne.
"De qualquer modo, naquela noite tudo isso era de menos em meus pensamentos.
Sentei-me à luz da lanterna Coleman, a única luz nos três aposentos, excetuando-se toda a eletricidade que, em Manhattan, passava pelas janelas. Eu tinha
uma garrafa na mão e um cigarro na outra. Fiquei olhando para a chapa no teto, onde estivera o detector de fumaça com seu único olho vermelho - um olho tão imperceptível
à luz do dia, que eu nem o notara. Considerei o fato inegável de que, embora estivesse com toda a energia elétrica desligada em meu apartamento, existira aquele
ítem isolado e vivo... e onde havia um, poderia haver outros.
"Mesmo não havendo, todo o edifício pululava de fios - tinha tantos fios, como as células malignas e os órgãos deteriorados enchendo o organismo de um moribundo
de câncer. Fechando os olhos, eu podia ver todos eles na escuridão de seus condutos, cintilando com uma espécie de luz verde inferior. E, mais além, a cidade inteira.
Um fio, quase inofensivo em si, ligado a um interruptor... o fio além do interruptor, um pouco mais grosso, levando ao porão, através de um conduto, onde se unia
a outro fio ainda mais grosso... este internando-se debaixo da rua, até um volumoso punhado de fios, estes últimos tão grossos, que em realidade eram cabos.
"Quando recebi a carta de Jane Thope, falando no plástico de embalar, parte de minha mente reconhecia que ela encarava isso como um sinal da loucura de Reg
- e essa parte sabia que eu teria de reagir como se toda a minha mente a julgasse com razão. A outra parte de minha mente - de longe agora a preponderante - pensou:
"Que idéia maravilhosa!" e então cobri todas as chapas de interruptores do apartamento da mesma forma que Reg havia feito, já no dia seguinte. Lembre-se, eu era
o homem que, supostamente; estava ajudando Reg Thorpe. De um modo um tanto desesperador, chega a ser muito engraçado.
"Naquela noite, decidi ir embora de Manhattan. Havia uma velha casa da família, nas Adirondacks, para onde eu poderia ir. A idéia pareceu excelente. A única
coisa que me mantinha na cidade, era a história de Reg Thorpe. Se "A Balada do Projétil Flexível" era o salva-vidas de Reg em um mar de loucura, também era o meu
- eu queria inserir aquela história em uma boa revista. Feito isto, que tudo se danasse.
"Foi onde parou a não-tão-famosa correspondência Wilson-Thorpe, pouco antes de tudo ir por água abaixo. Éramos como dois agonizantes viciados em drogas, comparando
os méritos relativos da heroína e das anfetaminas. Reg tinha Fornits em sua máquina de escrever. Eu tinha Fornits nas paredes e ambos tínhamos Fornits em nossas
cabeças.
"Ainda havia eles. Não esqueçam: eles. Não fazia muito tempo que eu andava oferecendo a história, quando decidi que eles incluíam todos os editores de ficção
das revistas em Nova York - embora não existissem muitos, no outono de 1969. Se fossem todos reunidos, poderiam ser mortos com um só cartucho de espingarda, algo
que, não demorou muito, comecei a achar uma idéia infernalmente boa.
"Foram precisos cinco anos, antes que eu pudesse ver a situação pela perspectiva deles.
Eu me indispusera com o zelador, um sujeito que só me via quando o calor era infernal e quando era época de sua gratificação natalina. Quanto aos outros sujeitos...
bem, ironicamente, muitos deles eram realmente meus amigos. Na época, Jared Baker era o editor-assistente de ficção na Esquire e ambos havíamos estado na mesma companhia
de fuzileiros, na Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Tais sujeitos não ficavam apenas inquietos, após verem o novo e melhorado Henry Wilson. Ficavam abismados.
Se eu apenas enviasse a história aos possíveis interessados, com uma carta agradável de apresentação, explicando a situação de qualquer modo, a versão que eu tinha
dela - eu talvez houvesse vendido a história de Thorpe quase em seguida. Contudo, oh, de maneira alguma, isso não era o suficiente.
Não para aquela história. Eu precisava cuidar para que ela recebesse o tratamento pessoal. Assim, andei de porta em porta com ela, um fedorento e grisalho
ex-editor, de mãos trêmulas, olhos vermelhos e uma grande equimose na face esquerda, produto de um choque contra a porta do banheiro, quando ele se encaminhara para
o vaso, no escuro, duas noites antes. Eu bem podia estar usando um letreiro com a inscrição FUGITIVO DO HOSPÍCIO.
"Eu tampouco queria falar com eles em seus escritórios. De fato, era-me impossível. Há muito se fora o tempo em que podia entrar em um elevador e subir quarenta
andares.
Assim, eu os encontrava como os traficantes encontram os viciados - em parques, escadas ou, no caso de Jared Baker, em uma casa de hamburgers, na Rua 49.
Jared, pelo menos, ficaria satisfeito em pagar-me uma refeição decente, mas já se fora o tempo, vocês compreendem, em que qualquer maitre cioso do nome permitiria
minha entrada em um restaurante freqüentado por pessoas do mundo dos negócios.
O agente pestanejou.
- Recebi promessas negligentes de que a história seria lida, depois perguntas sobre como eu estava, quanto andava bebendo. Recordo - vagamente - haver tentado
dizer a uns dois deles que vazamentos de eletricidade e radiação estavam deteriorando o pensamento de todo mundo. Lembro-me também de que quando Andy Rivers, que
editava ficção para American Crossings, aconselhou-me a procurar ajuda profissional para meu estado, respondi que era ele quem precisava dessa ajuda.
- Vê aquelas pessoas na rua? - perguntei-lhe. Estávamos no Parque Washington Square. Metade delas, talvez até mesmo três quartos delas, têm tumores cerebrais.
Eu não lhe venderia a história de Thorpe por nada, Andy. Diabo, você não a entenderia, nesta cidade. Seu cérebro está na cadeira elétrica e você nem sabe disso.
"Eu tinha uma cópia da história em minha mão, enrolada com um jornal. Sacudi-a diante do nariz dele, da maneira como se faz com um cão, para que fique ereto
em um canto. Depois fui embora. Lembro-me dele gritando para que eu voltasse, qualquer coisa sobre uma xícara de café e conversarmos mais um pouco, mas então passei
por uma loja vendendo discos com desconto, seus alto-falantes estrondeando heavy metal para a calçada, e filas de luzes fluorescentes, frias como gelo, brilhando
no interior.
Perdi a voz dele, em uma espécie de profundo zumbido dentro de minha cabeça.
Recordo haver pensado duas coisas - eu precisava sair logo da cidade, o mais depressa possível, ou estaria acalentando meu próprio tumor cerebral - e era
imperioso tomar um drinque, imediatamente.
"Naquela noite, voltando ao meu apartamento, encontrei uma nota debaixo da porta.
Dizia "Queremos você fora daqui, seu biruta." Joguei-a fora, sem lhe dar a menor importância. Nós, veteranos em birutice, temos coisas mais importantes a
preocupar-nos, do que notas anônimas de inquilinos vizinhos.
"Eu refletia no que havia dito a Andy Rivers sobre a história de Reg. Quanto mais pensava nisso - e mais drinques tomava - mais sentido fazia. O "Projétil
Flexível" era curioso e, superficialmente, fácil de ser seguido... mas abaixo da superfície era surpreendentemente completo. Estaria eu imaginando que outro editor
na cidade conseguiria apreender a história em todos os seus níveis? Talvez outrora, mas eu ainda acharia isso, agora que meus olhos se tinham aberto? Teria eu realmente
pensado que havia espaço para apreciação e compreensão, em um local entupido de fios como uma bomba de terrorista? Céus, havia voltagem vazando por todos os lados!
"Li o jornal, enquanto ainda havia luz do dia suficiente para isto, procurando esquecer todo o maldito negócio por um momento e, ali, na página um do Times,
havia um artigo sobre como o material radiativo de usinas de força nuclear permanece desaparecendo - o artigo prosseguia, teorizando que se houvesse nas mãos certas
uma quantidade suficiente desse material, ele podia ser facilmente usado para uma arma nuclear muito suja.
"Permaneci sentado à mesa da cozinha enquanto o sol se punha e, em minha mente, podia vê-los batendo pó de plutônio, como os mineiros de 1849 batiam ouro.
Apenas, eles não queriam explodir a cidade com aquilo, oh, não! Eles o queriam apenas para salpicá-lo por aí e liquidar a mente de todos. Eles eram os maus Fornits,
e toda aquela poeira radioativa era fornus de má-sorte. Os piores fornus de má-sorte de todos os tempos.
"Decidi que, afinal de contas, não queria vender a história de Reg - pelo menos, não em Nova York. Saí da cidade, assim que chegaram os cheques que eu pedira.
Quando estivesse no interior do estado, poderia começar a enviá-la para as revistas literárias de fora da cidade. Sehanee Review seria um bom lugar para começar,
admiti, ou talvez Iowa Review. Eu poderia explicar a Reg mais tarde. Ele compreenderia. Aquilo parecia resolver todo o problema, de modo que tomei um drinque. E
o drinque tomou o homem.
Por assim dizer. Entrei em blackout. Conforme resultou, só me restava mais um blackout.
"No dia seguinte, chegaram os talões de cheques de minha Companhia Arvin. Preenchi um deles a máquina e fui ver meu amigo, o "co-sacador". Houve outro daqueles
aborrecidos interrogatórios, mas desta vez, mantive a calma. Eu queria aquela assinatura. Conseguia-a, finalmente. Fui a um estabelecimento que fornecia material
impresso e providenciei para que me fizessem papel de correspondência com o timbre da Companhia Arvin, comigo esperando. Carimbei um endereço de retorno em um envelope
comercial, datilografei o endereço de Reg (o açúcar de confeiteiro já fora removido de minha máquina de escrever, porém as teclas ainda tinham uma tendência a colar-se
umas nas outras) e acrescentei uma breve nota pessoal, dizendo que nenhum cheque a um escritor já me dera mais prazer pessoal... e estava sendo sincero. Isso ainda
é verdade. Passou-se quase uma hora, antes que eu me decidisse a pô-lo no correio - simplesmente, não conseguia saber até que ponto ele parecia oficial. Era muito
difícil, para um fedorento bêbado, que em cerca de dez dias não trocara a roupa de baixo, chegar a essa vital conclusão.
O editor fez uma pausa, esmagou o cigarro no cinzeiro e olhou para seu relógio. Então, curiosamente, como o chefe do trem anunciando que a composição chegou
a alguma cidade importante, falou:
- Chegamos ao inexplicável.
"Este é o ponto de minha história que mais tem interessado aos dois psiquiatras e vários analisadores mentais com quem estive associado nos meus trinta meses
de vida seguintes. Foi a única parte que me forçavam a desdizer, como sinal de que eu estava ficando bem. Segundo um deles declarou, "Esta é a única parte de sua
história que não pode ser explicada como indução censurável... uma vez, isto é, seu sentido de lógica tenha sido recuperado". Finalmente, eu a desmenti, porque tinha
certeza - mesmo eles não tendo - de que estava ficando bem e sentia uma maldita vontade de sair do sanatório.
Pensei que se não desse o fora de lá em pouco tempo, acabaria maluco novamente.
Assim, voltei atrás - Galileu também fez isso, quando mantiveram seus pés no fogo - mas nunca desmenti nada para mim mesmo. Não afirmo que tenha realmente
acontecido o que vou dizer; apenas digo ser a minha crença de que aconteceu. Trata-se de uma pequena qualificação, mas crucial para mim.
"Portanto, meus amigos, vamos ao inexplicável:
"Levei os dois dias seguintes preparando-me para uma mudança da cidade. Por falar nisso, a idéia de dirigir o carro não me perturbava em absoluto. Quando
eu era criança, havia lido que o interior de um carro é um dos lugares mais seguros para ficar-se durante uma tempestade elétrica, já que os pneus de borracha funcionam
como isoladores quase perfeitos. Realmente, eu ansiava por entrar em meu velho Chevrolet, levantar os vidros de todas as janelas e rodar para fora daquela cidade,
que já começara a considerar um poço de raios. Não obstante, em meus preparativos incluía-se a remoção da lâmpada do teto, cuja tomada seria vedada com plástico
de embalagem, além de girar o botão da luz inteiramente para a esquerda, a fim de eliminar a iluminação do painel.
"Quando entrei em meu apartamento, pretendendo passar nele a última noite, o lugar estava vazio, exceto pela mesa da cozinha, a cama e minha máquina de escrever
no estúdio. Aliás, a máquina estava no chão. Não era minha intenção levá-la comigo - havia demasiadas más associações ligadas a ela e, por outro lado, as teclas
iam ficar grudadas para sempre. Que o próximo inquilino fique com ela, pensei - ele e também Bellis.
"Era apenas o pôr-do-sol e o lugar tinha uma coloração esquisita. Eu estava totalmente bêbado e tinha outra garrafa no bolso do sobretudo, contra as vigílias
noturnas. Passei pelo estúdio, acho que querendo ir até o quarto. Lá eu me sentaria na cama, pensaria sobre fios, eletricidade, radiação livre e beberia, até ficar
embriagado o suficiente para dormir.
"O que eu chamava de estúdio era, em realidade, a sala de estar. Eu a tornara meu local de trabalho, porque tinha a melhor iluminação de todo o apartamento
uma grande janela dando para oeste, parecendo chegar até o horizonte. Era algo próximo do Milagre dos Pães e dos Peixes, em um apartamento de quinto andar em Manhattan,
mas a linha de visão lá estava. Eu não a questionava, apreciava-a, apenas. Aquele aposento era cheio de uma límpida, adorável claridade, mesmo nos dias chuvosos.
"A qualidade da luz noturna, contudo, era espectral. O sol poente inundara a sala com um clarão avermelhado. Claridade de fornalha. Vazio, o aposento parecia
grande demais. Meus calcanhares faziam ecos uniformes, no assoalho de madeira.
"A máquina de escrever estava no meio do piso e eu ia apenas passar por ela, quando vi que havia um pedaço rasgado de papel, enfiado debaixo do rolo - o que
me sobressaltou, pois sabia que não havia papel algum na máquina, quando saíra da última vez para comprar uma nova garrafa.
"Olhei em torno, procurando se havia alguém - algum intruso - ali dentro comigo.
Contudo, não era bem em intrusos, assaltantes ou pivetes que eu pensava, mas em... fantasmas.
"Notei um espaço rasgado no papel da parede, à esquerda da porta do quarto.
Compreendi, então, de onde proviera o papel na máquina de escrever. Alguém havia, simplesmente, arrancado um pedaço do papel de parede.
"Eu ainda olhava para aquilo, quando ouvi um único, mas distinto ruído claque! - embora quase imperceptível, atrás de mim. Dei um salto e girei, com o coração
em disparada na garganta. Estava aterrorizado, mas sabia perfeitamente que som era aquele - quanto a isso, não havia dúvida nenhuma. A gente trabalha com palavras
a vida inteira e conhece bem o som de uma tecla da máquina de escrever batendo contra o papel, mesmo em um quarto vazio ao crepúsculo, onde não há ninguém batendo
a tecla.
Todos olharam para ele no escuro, as faces como borrados círculos brancos. Ninguém disse nada, mas uns se aproximaram mais dos outros. A esposa do escritor
segurava firmemente uma das mãos do marido.
- Eu me senti... fora de mim. Irreal. Talvez seja sempre assim que nos sentimos, ao atingirmos o ponto do inexplicável. Caminhei lentamente até a máquina
de escrever.
Meu coração batia como louco em minha garganta, mas mentalmente eu estava calmo... inclusive, gelado.
"Claque! Outra tecla saltou. Desta vez, eu a vi - a tecla ficava na terceira fileira, a partir do topo, do lado esquerdo.
"Agachei-me lentamente sobre os joelhos. Então, todos os músculos em minhas pernas ficaram bambos de repente e quase encolhi pelo resto do movimento, até
cair sentado diante da máquina de escrever, com meu sujo sobretudo London Fog espalhado à minha volta, como a saia de uma jovem, ao fazer sua mais reverente e profunda
mesura. A máquina de escrever emitiu aquele ruído mais duas vezes, rapidamente, pausou, tornou a emiti-lo. Cada claque produzia a mesma espécie de eco surdo que
meus pés haviam feito no assoalho.
"O papel de parede havia sido colocado no rolo da máquina, de maneira a que a parte com a cola seca ficasse para fora. As letras estavam onduladas e empastadas,
mas pude lê-las: rackn, diziam. Depois, houve mais um claque! e a palavra era rackne.
"Então... - ele pigarreou e sorriu de leve. - Mesmo após tantos anos, é difícil dizer isto... apenas falar o que houve. Tudo bem. O simples fato, sem qualquer
enfeite, é o seguinte: eu vi uma mão saindo da máquina de escrever. Uma mão incrivelmente pequenina. Saiu de entre as teclas B e N, na última fileira, enrolada em
si como um punho, para movimentar a barra do espaçamento. A máquina saltou um espaço - muito depressa, como um soluço - e a mão recuou para onde viera.
A esposa do agente riu com estridência.
- Ria com vontade, Marsha - disse suavemente o agente, e ela riu.
As batidas de teclas começaram a soar um pouco mais rápido - prosseguiu o editor - e, após algum tempo, pude ouvir ofegar a criatura que movia as teclas,
da maneira como alguém ofega, ao trabalhar duro, chegando mais e mais perto de seu limite físico. Após algum tempo, a máquina mal imprimia alguma coisa. A maioria
das teclas se enchera com aquela velha matéria gomosa, mas eu podia ler as letras. Estava escrito Rackne está morr, e então a tecla do e ficou presa à cola. Olhei
para aquilo por um momento e então, estirando um dedo, libertei-a. Não sei se a criatura - Bellis - conseguiria libertá-la sozinha. Acho que não. Contudo, eu não
queria ver... vê-la... tentar. Apenas a visão daquele pulso já era suficiente para deixar-me à beira do desequilíbrio. Se visse o elfo inteiro, por assim dizer,
creio que ficaria realmente louco. E não havia a questão de fugir dali, porque toda a força das pernas me abandonara.
"Claque-claque-claque, aqueles diminutos grunhidos e soluços de esforço e, após cada palavra, aquele punho pálido, sujo e oleoso de graxa, saindo entre o
B e o N para martelar a barra do espaço. Não sei ao certo quanto isso durou. Sete minutos, talvez.
Talvez dez. Ou talvez para sempre.
"Por fim, os claques pararam e percebi que não o ouvia mais respirar. Talvez o entezinho houvesse perdido os sentidos... talvez apenas tivesse desistido e
ido embora... ou talvez houvesse morrido. Podia ter tido um ataque de coração ou coisa assim. Minha única certeza é de que a mensagem não havia sido completada.
Ao todo, ela dizia, em caixa baixa: rackne está morrendo é o garotinho jimmy thorpe que não sabe diga a thorpe que rackne está morrendo garotinho jimmy está matando
rackne e... isso era tudo.
"Encontrei forças para me firmar nos pés e então saí dali. Caminhei em largas passadas na ponta dos pés, como se a criatura tivesse ido dormir e, se eu tornasse
a produzir aqueles ecos surdos no assoalho, ela talvez acordasse, para começar novamente a datilografar... Acho que se isso acontecesse, o primeiro claque me poria
gritando. E continuaria gritando, até que meu coração ou a cabeça explodissem.
"Meu Chevrolet estava no pátio do estacionamento, no fim da rua, cheio de gasolina, já carregado e pronto para a partida. Coloquei-me atrás do volante, e
então recordei a garrafa no bolso do sobretudo. Minhas mãos tremiam tanto, que eu a deixei cair, mas ela aterrou em cima do banco e não se quebrou.
"Lembrei-me dos blackouts e, meus amigos, naquele momento exato um blackout era exatamente do que eu precisava - e foi exatamente o que aconteceu. Recordo
haver tomado o primeiro e segundo goles do gargalo da garrafa. Recordo ter ligado a chave do carro e depois de ouvir Sinatra no rádio, cantando "That Old Black Magic",
o que parecia bem ajustado à situação. Em vista das circunstâncias. Por assim dizer. Lembro-me de ter acompanhado a canção e de beber mais alguns goles. Eu estava
na última fila do estacionamento e podia ver a luz do tráfego na esquina, mudando segundo a passagem do tempo. Fiquei pensando naqueles estalidos de teclas na sala
vazia e no clarão avermelhado que ia fanando em meu estúdio. Pensei naqueles sons arquejantes, como se algum elfo ginasta houvesse pendurado pesos de linha de pesca
nas extremidades da tecla O e fizesse exercícios de levantamento, dentro da minha velha máquina de escrever. Pensei também na superfície áspera do avesso daquele
retalho de papel de parede. Minha mente insistiu em querer examinar o que poderia ter acontecido, antes que eu chegasse ao apartamento... insistia em ver a coisa
- ele - Bellis - saltando, agarrando o pedaço frouxo do papel de parede junto à porta do quarto, por ser o único ainda existente no local com qualquer semelhança
de papel - pendurando-se nele - e finalmente o rasgando, carregando-o em sua cabeça para a máquina de escrever, como a uma folha de palmeira nipa. Fiquei procurando
imaginar como é que ele - a criatura - conseguira colocar o pedaço de papel em torno do rolo da máquina. Como nada disso tinha aparência de blackout, então fiquei
bebendo. Frank Sinatra parou de cantar, houve uma publicidade para o Crazy Eddie's e depois Sarah Vaughan passou a cantar "I'm Gonna Sit Right Down and Write Myself
a Letter" (Vou-me sentar bem aqui e escrever uma carta para mim mesmo) e isso era algo mais que podia relacionar à situação. Afinal, eu havia escrito para mim recentemente
ou, pelo menos, pensava que tinha escrito, até essa noite, quando acontecia algo, dando-me motivo para considerar minha postura naquela questão, por assim dizer.
Cantei juntamente com a boa e velha Sarah Soul, e foi quando devo ter adquirido velocidade de escape pois, em meio ao segundo estribilho, sem a menor pausa em absoluto,
eu estava botando as tripas para fora, enquanto alguém primeiro me dava tapas nas costas, em seguida erguia-me os cotovelos, atrás de mim, depois os baixando e tornando
a dar-me palmadas. Era o motorista de caminhão. A cada palmada sua, eu sentia um enorme jato de líquido subir em minha garganta e quase voltar novamente para dentro
do corpo, exceto que o homem me erguia os cotovelos e, quando fazia isso, eu tornava a vomitar. A maioria de meu vômito não se compunha de Black Velvet, mas de água
do rio. Quando finalmente tive forças para erguer a cabeça o suficiente e espiar em torno, eram seis horas da tarde e três dias depois; eu jazia na rampa do Rio
Jackson, na Pensilvânia oeste, cerca de cento e cinqüenta quilômetros ao norte de Pittsburgh. Meu Chevrolet caíra no rio e sua traseira era visível, apontando para
o alto. Eu ainda conseguia ler o adesivo de McCarthy, colado no pára-choque.
"Arranja-me outra Fresca, meu bem? Tenho a garganta seca como o inferno.
A esposa do escritor foi buscar-lhe a soda, silenciosamente. Quando a entregou a ele, abaixou-se impulsivamente e beijou sua face enrugada, como couro de
crocodilo. Ele sorriu, e seus olhos cintilaram à claridade mortiça. Uma bondosa e delicada mulher, não obstante, ela não se deixou enganar, em absoluto, por aquele
cintilar. Jamais era a alegria que punha olhos brilhantes daquela maneira.
- Obrigado. Meg.
Ele bebeu profundamente, tossiu, rejeitou com um aceno a oferta de um cigarro.
- Já fumei os suficientes por hoje. Vou parar de fumar inteiramente. Em minha próxima encarnação. Por assim dizer.
"Nem preciso contar o resto de minha história. Ela teria contra si o único pecado de que qualquer história pode ser realmente culpada - é previsível. Eles
pescaram cerca de quarenta garrafas de Black Velvet de meu carro, muitas delas vazias. Eu balbuciava sobre elfos e eletricidade, sobre Fornit, mineradores de plutônio
e fornus. Decidiram que eu estava totalmente louco e, claro, era exatamente o que acontecia comigo.
"Agora, temos aqui o que aconteceu em Omaha, enquanto eu dirigia por lá segundo os talões de crédito para gasolina, encontrados no porta-luvas do Chevrolet.
Enquanto eu dirigia por cinco estados do norte. Tudo isto, compreendam, foi informação que obtive de Jane Thorpe, durante um longo e penoso período de correspondência,
que culminou com um encontro a dois em New Haven, onde ela hoje reside, pouco depois que recebi alta do sanatório - uma recompensa por, finalmente, voltar atrás
em minha história.
Findo aquele encontro, choramos nos braços um do outro, e foi quando acreditei ser possível haver ainda uma vida real para mim, talvez mesmo a felicidade.
"Naquele dia, por volta de três da tarde, bateram à porta da residência dos Thorpe. Era um garoto mensageiro do telégrafo. O telegrama tinha sido enviado
por mim, última peça de nossa infortunada correspondência. Dizia o seguinte:
REG TENHO INFORMAÇÃO CONFIANÇA DE QUE RACKNE ESTÁ MORRENDO É O GAROTINHO SEGUNDO BELLIS BELLIS DIZ NOME DELE É JIMMY FORNIT SOME FORNUS HENRY.
"Caso tenha passado por suas mentes aquela maravilhosa pergunta de Howard Baker O que ele sabia e quando ele soube? direi isto: eu sabia que Jane contratara
uma faxineira; e não sabia - exceto através de Bellis - que essa faxineira tinha por filho um garotinho endiabrado chamado Jimmy. Terão de aceitar minha palavra
por isso, embora eu deva acrescentar, com toda sinceridade, que os psiquiatras ocupados com meu caso nos dois anos e meio seguintes não me deram o menor crédito.
"Jane estava na mercearia, quando o telegrama chegou. Ela o encontrou, após a morte de Reg, em um de seus bolsos traseiros da calça. A hora da transmissão
e da entrega estava anotada nele, juntamente com a linha informando Sem telefone. Entrega pessoal.
Jane disse que, embora o telegrama tivesse apenas um dia, havia sido tão manuseado que dava a impressão de haver sido recebido um mês antes.
"De certa maneira, esse telegrama, aquelas vinte e quatro palavras foram o verdadeiro projétil flexível, e eu o disparei bem no cérebro de Reg Thorpe, por
toda a distância a partir de Paterson, Nova Jersey. Eu estava tão infernalmente bêbado, que nem mesmo me lembrava de tê-lo feito.
"Durante suas duas últimas semanas de vida, Reg se ajustara a um padrão que parecia a própria normalidade. Levantava-se às seis, preparava o desjejum para
si mesmo e a esposa, depois escrevia por uma hora. Por volta das oito, trancava seu estúdio e levava o cão para um longo e despreocupado passeio na vizinhança. Mostrava-se
sempre acessível em tais passeios, parando para conversar com quem quisesse palestrar com ele, amarrando o cachorro fora de um café próximo e tomando uma xícara
de café pelo meio da manhã. Depois, recomeçava a caminhada. Raramente voltava para casa antes do meio-dia. Em muitos dias, chegava ao meio-dia e meia ou uma da tarde.
Parte disto era um esforço para escapar à gárrula Gertrude Rulin, segundo acreditava Jane, porque o padrão de seu marido só começara a solidificar-se, uns dois dias
depois da faxineira começar a trabalhar para eles.
"Reg fazia um almoço leve, deitava-se por cerca de uma hora, depois se levantava e escrevia por duas ou três horas. Ao anoitecer, às vezes visitava os rapazes
vizinhos, com Jane ou sozinho; em outras ocasiões; ele e Jane iam ao cinema ou apenas ficavam lendo na sala de estar. Deitavam-se cedo, Reg geralmente um pouco antes
de Jane. Ela escreveu que havia muito pouco sexo entre eles e que, quando havia, era sem êxito para ambos. "Contudo, o sexo não é importante para a maioria das mulheres",
disse ela, "e Reg vinha trabalhando bem novamente, o que constituía um substituto razoável para ele. Eu diria que, naquelas circunstâncias, essas duas últimas semanas
foram as mais felizes nos últimos cinco anos. "Eu quase chorei ao ler isto.
"Eu ignorava tudo sobre Jimmy, mas não era esse o caso de Reg. Ele estava a par de tudo, exceto do fato mais importante - que Jimmy passara a ir com sua mãe
para o trabalho.
"Como deve ter ficado furioso ao receber meu telegrama e perceber o que sucedia! Ali estavam eles, afinal. E, aparentemente, sua própria esposa era um deles,
porque ela estava na casa, quando Gertrude e Jimmy lá se encontravam. E ela nunca lhe dissera uma só palavra sobre Jimmy. O que me tinha ele escrito, em uma carta
anterior? Às vezes, desconfio de minha esposa."
"Quando ela voltou para casa, no dia em que o telegrama chegou, descobriu que Reg se ausentara. Havia uma nota, em cima da mesa da cozinha, dizendo, "Meu
bem - fui à livraria. Volto à hora do jantar". A nota pareceu a Jane perfeitamente normal... mas se ela soubesse de meu telegrama, a própria normalidade daquelas
palavras a teria deixado terrivelmente amedrontada, creio eu. Jane compreenderia que Reg a imaginava como tendo mudado de lado.
"Reg nem chegou perto de uma livraria. Foi ao Empório de Armas Little John's, no centro da cidade. Comprou uma automática 45 e dois mil cartuchos de munição.
Teria comprado uma AK-70, se Little John's possuísse permissão para vendê-las. Reg queria proteger seu Fornit, compreendam. De Jimmy, de Gertrude, de Jane. Deles.
"Na manhã seguinte, tudo transcorreu dentro da rotina estabelecida. Jane recorda ter pensado que seu marido usava uma suéter muito grossa para um dia de outono
tão quente, mas isso foi tudo. A suéter, naturalmente, era por causa da arma. Ele saiu para passear com o cão, levando a 45 enfiada no cinto.
"Reg seguiu diretamente para o restaurante onde costumava tomar seu café matinal, sem paradas ou conversas durante o trajeto. Levou o cãozinho até a área
de descarga de mercadorias, amarrou sua correia a um trilho e voltou para casa, por ruas traseiras.
"Estava a par da programação dos rapazes vizinhos, sabia que eles não se encontrariam em casa. Sabia também onde eles guardavam uma duplicata da chave. Entrou
na casa, foi para o andar de cima e ficou vigiando sua própria residência.
"Às oito e quarenta, viu Gertrude Rulin chegar. Ela não estava sozinha. Em sua companhia, havia realmente um menino pequeno. O comportamento turbulento de
Jimmy Rulin, na classe do primeiro grau, convenceu a professora e o conselheiro-chefe, quase imediatamente, de que todos (exceto talvez a mãe de Jimmy, que descansaria
com a ausência do filho) passariam melhor, caso o menino esperasse mais um ano, antes de freqüentar a escola. Jimmy estava farto de repetir o jardim-da-infância
e, durante a primeira metade do ano, ia para a escola no período da tarde. As duas creches existentes na zona de Gertrude encontravam-se lotadas, e ela não podia
trabalhar à tarde para os Thorpe, porque já tinha outro compromisso como faxineira, de quatorze às dezesseis horas, no lado oposto da cidade.
"O desfecho de tudo, foi o consentimento relutante de Jane, quanto a Gertrude poder levar Jimmy consigo, até que conseguisse providenciar um outro arranjo.
Ou até Reg descobrir, como estava prestes a ocorrer.
"Jane achava que talvez o marido não se incomodasse, já que, ultimamente, vinha sendo muito cordato sobre tudo. Por outro lado, ele poderia ter um ataque
de nervos. Se tal acontecesse, teriam que ser feitos outros arranjos. Gertrude disse que compreendia. E, acima de tudo, estipulou Jane, o garoto não devia tocar
em qualquer coisa pertencente a Reg. Gertrude garantiu que assim seria; a porta do dono da casa estava trancada, e trancada ficaria.
"Thorpe deve ter cruzado os dois pátios como um atirador de tocaia, cruzando a terra-de-ninguém. Ainda não vira o menino. Moveu-se ao longo da lateral da
casa. Ninguém na sala de refeições. Ninguém no quarto. E então, no estúdio - onde Reg morbidamente esperara vê-lo - lá se encontrava ele. O rosto do garoto parecia
afogueado de excitamento e, sem dúvida. Reg deve ter acreditado que, finalmente, ali estava um legítimo agente deles.
"O garoto empunhava uma espécie de máquina do raio-da-morte e a apontava para a mesa de trabalho... enquanto Reg podia ouvir Rackne gritando, do interior
de sua máquina de escrever.
"Talvez julguem que eu esteja atribuindo dados subjetivos a um homem que agora se encontra morto. Ou, em palavras mais rudes, inventando coisas. Pois não
estou. Na cozinha, tanto Jane como Gertrude ouviam o nítido som trinado da pistola espacial de plástico que Jimmy empunhava. Ele a estivera usando pela casa inteira,
desde que começara a vir com a mãe e, a cada dia, Jane tinha esperanças de que as pilhas do brinquedo se extinguissem. Não havia engano quanto ao som. Tampouco havia
engano sobre o lugar de onde ele vinha - o estúdio de Reg.
"Compreendam, o garoto era realmente do material de Dennis o Terrível, se havia um lugar na casa onde ele não deveria ir, era justamente esse o lugar onde
tinha de ir, para não morrer de curiosidade. Ele não demorou muito a descobrir que Jane tinha uma chave do estúdio de Reg sobre a platibanda da lareira na sala de
refeições. Jimmy já teria entrado antes no estúdio? Creio que sim. Jane disse recordar haver dado uma laranja a ele, três ou quatro dias antes; mais tarde, quando
limpava a casa, encontrou cascas da laranja debaixo do pequeno sofá do estúdio. Reg não gostava de laranjas - dizia-se alérgico a elas.
"Jane deixou cair na pia o lençol que lavava e correu para o quarto de dormir. Ouvia o ruidoso ríá-icá-iiá da pistola espacial e também ouvia Jimmy gritando:
"Eu vou te pegar! Você não pode fugir! Posso ver você pelo VIDRO!" E... ela disse... disse ter ouvido algo gritando. Um som agudo e desesperado, segundo afirmou,
tão cheio de dor, que era quase insuportável.
"Quando ouvi aquilo", disse ela, "compreendi que teria de abandonar Reg, pouco importando o que acontecesse, porque os contos da carochinha eram verdadeiros...
a loucura era contagiosa. Sim, pois quem eu ouvia era Rackne; de algum modo, aquele garotinho levado estava matando Rackne, matando-o com os disparos de uma arma
espacial, comprada por dois dólares na casa Kresge's.
"A porta do estúdio estava escancarada, com a chave na fechadura. Mais tarde, nesse mesmo dia, vi uma das cadeiras da sala de refeições encostada junto à
lareira, com o assento todo marcado pelos tênis de Jimmy. O menino estava inclinado para a mesa da máquina de escrever de Reg. Ele - Reg - possuía um antigo modelo
de máquina de escrever, do tipo para escritório, com partes de vidro nas laterais. Jimmy tinha o cano de sua pistola espacial encostado a uma daquelas partes de
vidro e disparava para o interior da máquina de escrever. Uá-uá-uá, e impulsos púrpuras de luz eram disparados contra a máquina de escrever. De repente, pude compreender
tudo quanto Reg já dissera sobre eletricidade, porque embora aquele brinquedo fosse apenas movido por pilhas elétricas inofensivas, realmente dava a impressão de
expelir ondas venenosas, que me varavam a cabeça e carbonizavam meu cérebro.
"Eu vi você aí!" gritava Jimmy, e seu rosto estava tomado pela alegria infantil - era algo belo e terrível ao mesmo tempo. "Você não vai poder fugir, Capitão
Futuro! Você está morto, alienígena!" E aqueles gritos... ficando mais fracos... menos intensos...
"Pare com isso, Jimmy!" gritei.
"Ele saltou. Eu o assustara. Virou-se... olhou para mim... estirou-me a língua... e tornou a encostar o cano da pistola no painel de vidro, recomeçando a
atirar - uã-uã-uã - e expelindo aquela nojenta luz purpúrea.
"Gertrude vinha chegando pelo corredor, gritava que ele parasse, que saísse dali, que ia levar a maior surra de sua vida... quando então a porta da frente
escancarou-se com ímpeto e Reg surgiu no corredor, berrando. Bastou-me um olhar para ele e compreendi que estava insano. A arma encontrava-se em sua mão.
"Não mate o meu filhinho!" gritou Gertrude quando o viu, avançando para contê-lo.
Reg simplesmente a empurrou para um lado.
"Jimmy nem parecia perceber o que acontecia - apenas continuou disparando sua pistola espacial para dentro da máquina de escrever. Eu podia ver aquela luz
purpúrea pulsando na escuridão entre as teclas, uma luz semelhante à produzida por aqueles arcos elétricos, a mesma sobre a qual dizem que não podemos olhar sem
óculos protetores especiais, porque ela poderia cozinhar as retinas, cegando-nos.
"Reg entrou, roçou violentamente em mim, derrubando-me.
"RACKNE!" gritou ele. "VOCÊ ESTÁ MATANDO RACKNE!"
"E, mesmo enquanto Reg cruzava o estúdio às carreiras, aparentemente pretendendo matar aquela criança", disse-me Jane, "tive tempo de pensar nas muitas vezes
em que Jimmy estivera ali, disparando sua arma contra a máquina de escrever, enquanto eu e sua mãe estávamos no andar de cima, trocando a roupa de cama, ou no pátio
dos fundos, pendurando a roupa lavada, sem ouvirmos o uá-uáuá... sem ouvirmos aquela coisa... o Fornit... lá dentro, gritando.
"Jimmy não parou, nem mesmo quando Reg irrompeu no estúdio - apenas ficou disparando contra a máquina de escrever, como se soubesse que aquela era sua última
chance. Desde então, tenho-me perguntado se Reg não estaria certo também sobre eles.
Talvez eles apenas flutuem por aí, de vez em quando penetrando na cabeça de uma pessoa, como alguém mergulhando em uma piscina. Em seguida, eles fazem esse
alguém executar o trabalho sujo, insistindo em serem atendidos. Depois, o sujeito em que eles estiveram, pergunta, "Como? Eu? Fiz o quê?"
"Um segundo antes de Reg chegar lá, o grito no interior da máquina de escrever tornou-se um breve guincho esganiçado - e vi sangue espalhar-se por todo o
interior daquela placa de vidro, como se o que quer que existisse lá, finalmente acabasse de explodir, como dizem que um animal vivo explodirá, se colocado em um
forno de microondas. Sei que isto pode parecer loucura, mas eu vi aquele sangue - ele bateu no vidro em um jato, antes de começar a escorrer.
"Peguei ele! exclamou Jimmy, altamente satisfeito. "Peguei..."
"Então, Reg o jogou através do estúdio, em toda a distância. Jimmy se chocou contra a parede. A pistola foi arrancada de sua mão, bateu no chão e se quebrou.
Nada mais era além de plástico e pilhas Eveready, naturalmente.
"Reg espiou dentro da máquina de escrever e deu um grito. Não foi um grito de dor ou de fúria, embora nele houvesse fúria - era, principalmente, um grito
de pesar. Virou-se então para o menino. Jimmy tinha escorregado para o chão e o que quer que houvesse sido - se é que fora algo mais do que apenas um garotinho travesso
- agora era apenas uma criança aterrorizada de seis anos. Reg apontou a arma para ele e isso é tudo de que me lembro.
O editor terminou sua soda e colocou a lata a um lado, cuidadosamente.
- Gertrude e Jimmy Rulin recordam o suficiente para preencher a lacuna - disse ele. - Jane gritou, "Reg, NÃO!- Quando Reg se virou para fitá-la, ela conseguiu
levantar-se e atracou-se com o marido. Ele a baleou, estilhaçando-lhe o cotovelo esquerdo, mas Jane não o soltou. Enquanto continuava atracada a ele, Gertrude chamou
o filho e Jimmy correu para ela.
"Reg empurrou Jane e tornou a baleá-la. Agora, a bala passou raspando pelo lado esquerdo de seu crânio. Menos de meio centímetro para a direita, e o projétil
a teria matado. Há pouca dúvida quanto a isso e nenhuma quanto à certeza de que Reg mataria Jimmy Rulin e talvez também sua mãe, se não fosse a intervenção de Jane
Thorpe.
"Ele baleou o garoto - quando Jimmy correu para os braços da mãe, logo depois da porta do estúdio. A bala penetrou na nádega esquerda do garoto, em um trajeto
para baixo.
Saiu pela parte superior da coxa esquerda, sem ofender o osso, passando através da pele de Gertrude Rulin. Houve muito sangue, porém nenhum dano importante
a qualquer dos dois.
"Gertrude bateu a porta do estúdio e carregou seu filho que chorava e sangrava, corredor abaixo, até deixar a casa pela porta da frente.
O editor tornou a fazer uma pausa, pensativo.
- Jane estaria sem sentidos, na ocasião, ou deliberadamente preferiu esquecer o que aconteceu em seguida. Reg sentou-se em sua poltrona de escritório e encostou
o cano da 45 contra o meio da testa. Apertou o gatilho. O projétil não lhe varou o cérebro e o transformou em um vegetal vivo, nem viajou em semicírculo pelo crânio,
saindo inofensivamente no ponto mais distante. A fantasia era flexível, mas o projétil final foi o mais rijo possível. Reg caiu para diante, em cima da máquina de
escrever, morto.
"Quando a polícia irrompeu, encontraram-no desse jeito. Jane estava sentada em um canto afastado, semi-inconsciente.
"A máquina de escrever estava coberta de sangue e, presumivelmente, também cheia dele; ferimentos na cabeça são muito, muitíssimo hemorrágicos.
"Todo o sangue era Tipo O.
"O tipo do sangue de Reg Thorpe.
"E esta, senhoras e senhores, é a minha história. Não, posso dizer mais nada.
De fato, a voz do editor se fora reduzindo, até não passar de um fosco sussurro.
Não houve a costumeira tagarelice pós-reunião, nem mesmo a desajeitadamente brilhante conversa que as pessoas às vezes usam para cobrir a indiscreção momentânea
em algum coquetel ou, pelo menos, para disfarçar o fato de que a situação, em algum ponto, ficou muito mais séria do que em geral acontece, quando por ocasião de
um jantar.
Não obstante, quando o escritor viu o editor encaminhar-se para seu carro, foi incapaz de conter uma pergunta final.
- A história - disse ele. - O que aconteceu à história?
- Está se referindo à...
- À "Balada do Projétil Flexível", exatamente. À história de Reg Thorpe, que provocou tudo isso. Aquele foi o real projétil flexível - para você, se não para
ele. Que diabo aconteceu a uma história que era tão infernalmente espetacular?
O editor abriu a porta de seu carro; era um pequeno Chevette azul, tendo no para-choque traseiro um adesivo que dizia AMIGOS NÃO DEIXAM QUE AMIGOS DIRIJAM
EMBRIAGADOS.
- Bem, ela jamais foi publicada. Se Reg possuía uma cópia a carbono, deve tê-la destruído após estar de posse do meu recibo e aceitação da história - considerando-se
seus sentimentos paranóicos sobre eles, o que seria bem condizente com a situação.
"Eu tinha comigo seu original mais três fotocópias, quando mergulhei no Rio Jackson.
Os quatro estavam em uma pasta de papelão. Se houvesse colocado essa pasta no porta mala, hoje ainda teria a história, uma vez que a traseira de meu carro
não chegou a mergulhar - e, mesmo que mergulhasse, as laudas se teriam secado. Contudo, eu a queria perto de mim, de modo que coloquei a pasta no banco dianteiro,
ao lado do motorista. As janelas estavam arriadas, quando bati na água. As laudas... presumo que apenas tenham sido levadas boiando pela correnteza, chegando até
o mar. Antes quero acreditar nisso, do que em irem apodrecendo com o resto do lixo no fundo daquele rio, inclusive comidas pelos peixes locais ou algo ainda menos
agradável esteticamente.
Acreditar que foram levadas para o mar é mais romântico e ligeiramente mais improvável, porém quando se trata daquilo em que prefiro crer, acho que ainda
posso ser flexível.
"Por assim dizer.
O editor entrou em seu pequeno carro e afastou-se. O escritor ficou parado, espiando até as luzes traseiras piscarem e desaparecerem. Então se virou. Meg
estava ali, parada à cabeceira da alameda, no escuro, sorrindo um pouco incertamente para ele. Tinha os braços apertadamente cruzados sobre o busto, embora a noite
fosse cálida.
- Somos os últimos dois - disse ela. - Quer entrar?
- Naturalmente.
A meio caminho, na alameda, ela parou e perguntou:
- Não há Fornits em sua máquina de escrever, há, Paul?
E o escritor que, por vezes - com freqüência - perguntava-se de onde, exatamente, vinham as palavras, respondeu, em tom corajoso:
- É claro que não. Em absoluto! Os dois entraram em casa, de braços dados, e fecharam a porta contra a noite.

* * *



A BALSA

São uns sessenta e cinco quilômetros, da Universidade Horlicks, em Pittsburgh, até o Lago Cascade, e embora em outubro escureça cedo nessa parte do mundo,
e apesar deles só partirem às seis horas, ainda havia uma ligeira claridade no céu quando chegaram lá. Tinham ido no Camaro de Deke. Deke não perdia tempo, se estava
sóbrio.
Após duas cervejas, fazia o Camaro caminhar e falar.
Ele mal havia parado o carro junto à cerca de estacas, entre o pátio de estacionamento e a praia, quando saltou para o chão e tirou a camisa. Seus olhos esquadrinhavam
a água, à procura da balsa. Randy saiu do banco ao lado do motorista, algo relutante. A idéia tinha sido sua, claro, porém nunca esperara que Deke a levasse a sério.
As garotas se remexiam no banco traseiro, preparando-se para descer.
Os olhos de Deke perscrutaram as águas incessantemente, de um lado para outro (olhos de atirador de tocaia, pensou Randy, desconfortavelmente), e então se
fixaram em um ponto.
- Está lá! - gritou, dando um tapa no capô do Camaro. - Bem como você disse, Randy! Que barato! O último a chegar é um ovo podre!
- Deke... - começou Randy.
Recolocava os óculos no nariz, mas isso foi tudo com que preocupar-se, porque Deke já pulava a cerca e descia correndo para a praia, sem se virar para trás,
sem olhar para Randy, para Rachel ou LaVerne, concentrado apenas na balsa, ancorada no lago, a uns cinqüenta metros da margem.
Randy se virou, como se desculpando com as garotas por envolvê-las naquilo, mas elas olhavam para Deke - que Rachel olhasse para ele, tudo bem, porque era
a namorada de Deke, mas LaVerne também o olhava, de modo que Randy sentiu uma quente e momentânea fagulha de ciúme, que o obrigou a movimentar-se. Despojou-se de
sua camisa de malha para atletismo, deixou-a cair ao lado da de Deke e saltou a cerca.
- Randy! - chamou LaVerne.
Ele apenas estirou o braço naquele cinzento ar de crepúsculo de outubro, em um gesto de "vamos", odiando-se um pouco por agir assim - ela agora estava insegura,
talvez pronta para desistir. A idéia de uma sessão de natação em outubro, no lago deserto, não havia sido apenas parte de uma bem iluminada reunião para conversa
fiada no apartamento que ele e Deke não partilhavam mais. Randy gostava dela, porém Deke era mais forte. E uma ova, se LaVerne não estava caída por Deke, uma droga,
aquilo ser irritante.
Deke abriu o cinto do jeans, ainda correndo, deixando as calças descerem pelas coxas esguias. Conseguiu livrar-se delas no trajeto, sem parar para isso, uma
façanha que Randy não conseguiria imitar em mil anos. Deke continuou correndo, agora apenas de sunga, os músculos das costas e nádegas funcionando harmoniosamente.
Randy ficou mais do que consciente de suas canelas finas, quando arriou sua Levi's e desajeitadamente a sacudiu dos pés. Com Deke, parecia balé, com ele,
era burlesco.
Deke chegou à água e deu um berro.
- Está gelada! Deus do céu!
Randy hesitou, mas apenas em pensamento, onde as coisas demoravam mais - aquela água deve estar a nove graus, dez no máximo, disse sua mente. Seu coração
poderia parar. Ele cursava o pré-médico, sabia que isso era verdade... mas, no mundo físico, não vacilou, em absoluto. Saltou para a água e, por um momento, seu
coração parou ou assim pareceu; a respiração congelou-se na garganta e ele precisou forçar a entrada de ar nos pulmões, enquanto sua pele submersa ficava entorpecida.
Isto é loucura, pensou, e depois: Bem, a idéia foi sua, Pancho. Começou a nadar na esteira de Deke.
As duas garotas entreolharam-se por um momento. LaVerne deu de ombros e sorriu.
- Se eles podem, nós também podemos! - exclamou, tirando sua blusa Lacoste e revelando um sutiã quase transparente. - Não dizem que as mulheres têm uma camada
extra de gordura?
Em seguida, ela pulava a cerca e corria para a água, desabotoando as calças de brim.
Rachel a seguiu um momento depois, mais ou menos como Randy havia seguido Deke.
As garotas tinham chegado ao apartamento pelo meio da tarde. Às terças-feiras, a aula de uma da tarde era a última que todos eles tinham. Chegara a mesada
de Deke - um dos ex-alunos, maníaco por futebol (os jogadores os chamavam de "anjos") providenciava para que ele recebesse duzentos dólares mensais em dinheiro -
havia uma embalagem de cerveja na geladeira e um álbum novo - Night Ranger - no surrado estéreo de Randy. Os quatro ficaram batendo papo e bebendo alegremente. Após
algum tempo, a conversa girou para o final do prolongado veranico que estavam desfrutando. O rádio previa rajadas de vento para a quarta-feira. LaVerne opinou que
meteorologistas prevendo rajadas geladas em outubro deviam ser liquidados a tiros, e ninguém discordou.
Segundo Rachel, os verões pareciam durar para sempre quando ela era criança, mas agora que se tornara adulta ("uma tremelicante senil de dezenove anos", brincou
Deke, e ela lhe chutou o tornozelo), eles ficavam cada vez mais curtos, de ano para ano.
- Era como se eu tivesse passado a vida inteira no Lago Cascade - falou, cruzando o gasto linóleo da cozinha, até a geladeira. Vistoriou o interior, encontrou
uma lata de cerveja escondida atrás de uma pilha de caixas azuis de plástico para guardar alimentos (a do meio continha um chili quase pré-histórico, agora espessamente
orlado de mofo - Randy era um bom aluno e Deke um bom jogador de futebol, mas nenhum dos dois valia nada, em se tratando de serviços domésticos) e apoderou-se dela.
- Ainda me lembro da primeira vez em que consegui nadar toda a distância até a balsa. Fiquei lá quase duas horas, apavorada, com medo de nadar para a margem.
Sentou-se junto a Deke, que passou um braço em torno dela. Rachel sorriu, recordando.
De repente, Randy achou-a parecida com alguém famoso ou quase famoso. Não conseguia encaixar a semelhança. Lembrar-se-ia mais tarde, em circunstâncias menos
agradáveis.
- Por fim, meu irmão teve que me rebocar com uma bóia. Puxa, ele ficou louco da vida! E eu tive uma queimadura de sol, que ninguém acreditaria...
- A balsa continua lá - falou Randy, mais para dizer alguma coisa.
Percebia que LaVerne estava olhando outra vez para Deke; aliás, ultimamente ela vinha olhando bastante para ele. Agora, no entanto, era para Randy que olhava.
- Já é quase o Dia das Bruxas, Randy. A praia do Cascade esteve fechada desde o Dia do Trabalho.
- Ainda assim, provavelmente a balsa continua lá - disse Randy. - Faz umas três semanas, estivemos na outra margem do lago, em uma excursão geológica de campanha,
e eu a vi. Era como... - Ele deu de ombros. - Como algo no verão, que alguém esqueceu de limpar e guardar no armário, até o ano seguinte.
Randy pensou que achariam engraçado o que dissera, mas ninguém riu - nem mesmo Deke.
- Só porque a balsa estava lá o ano passado, não significa que ainda esteja - disse LaVerne.
- Falei nisso a um cara - disse Randy, terminando sua cerveja. - Billy DeLois, lembra-se dele, Deke?
Deke assentiu.
- Jogava como segundo reserva, até machucar-se.
- Certo, acho que sim. De qualquer modo, ele era de lá e contou que os caras donos da praia só a tiravam de lá quando o lago estava quase congelado. Pura
preguiça - pelo menos, foi o que ele disse. Contou que certo ano esperaram tanto, que a balsa ficou bloqueada pelo gelo.
Randy se calou, recordando a aparência da balsa, ancorada no lago - um quadrado brilhante de madeira branca, em toda aquela brilhante água azul do outono.
Evocou o som das barricas sob ela - aquele som flutuante de clonk-clonk - que havia chegado até eles. Era um som suave, mas os sons viajam bem no ar imóvel em torno
do lago.
Houvera esse som e o de corvos grasnando sobre os remanescentes da colheita na horta de algum fazendeiro.
- Vai nevar amanhã - disse Rachel, levantando-se, quando a mão de Deke deslizou, quase alheada, para a curvatura superior de seu busto. Foi até a janela e
espiou para fora. - Que droga!
- Pois eu sugiro uma coisa - disse Randy. - Vamos até o Lago Cascade. Nadamos até a balsa, dizemos adeus ao verão e depois nadamos de volta.
Se não estivesse meio alto, jamais teria feito a sugestão e, certamente, não esperava que ninguém o levasse a sério. Deke, no entanto, exultou ao ouvi-lo.
- Boa pedida! Chocante, Pancho! Pra lá de chocante! - explodiu ele. LaVerne levantou-se subitamente, derramando sua cerveja. Contudo, ela sorriu - o sorriso
que deixava Randy um pouco preocupado. - Iremos até lá!
- Você é louco, Deke - disse Rachel, também sorrindo, mas o riso era algo forçado e inquieto.
- Nada disso, nós vamos lá! - exclamou Deke.
Excitado, mas temeroso ao mesmo tempo, Randy reparou no sorriso de Deke - inquieto e um pouco louco. Já fazia três anos que eles dividiam o mesmo quarto -
o Atleta e o Cérebro, Cisco e Pancho, Batman e Robin - e Randy identificava aquele sorriso. Deke não estava brincando; resolvera mesmo ir ao lago. Em sua cabeça,
já estava quase lá.
Esquece isso, Cisco - comigo, não. As palavras lhe chegaram aos lábios, mas antes de pronunciá-las, LaVerne já se tinha levantado, com a mesma expressão prazeirosa
e amalucada nos olhos (ou talvez fosse cerveja em excesso).
- Pois eu topo! - exclamou ela.
- Então, a caminho! - Deke olhou para Randy - O que acha, Pancho?
Randy se virou para Rachel por um momento e viu qualquer coisa de quase frenético em seu olhar - no que lhe dizia respeito, Deke e LaVerne poderiam ir para
o Lago Cascade e lá ficarem transando a noite inteira; não se alegraria sabendo que os dois estariam trepando como loucos, mas tampouco se surpreenderia. Contudo,
aquela expressão no olhar de Rachel, aquele ar obcecado...
- Ohhh, Ciisco! - exclamou.
- Ohhh, Pancho! - gritou Deke, delicado
Um bateu na palma do outro.
Randy estava a meio caminho para a balsa, quando avistou a mancha negra na água.
Ficava além da balsa, mais para a esquerda, na direção do meio do lago. Cinco minutos mais tarde, a claridade do entardecer não lhe teria deixado perceber
se ali havia algo mais que uma sombra... se chegasse a vê-la, afinal. Mancha de óleo? pensou, ainda avançando com dificuldade na água, vagamente cônscio das garotas
dando braçadas mais atrás. De qualquer modo, o que estaria fazendo uma mancha de óleo em um lago, naquele outubro deserto? Aliás, ela era estranhamente circular,
pequena, não tendo mais de metro e meio de diâmetro...
- Uaaaan! - tornou a gritar Deke, e Randy olhou em sua direção. Ele subia a escada na lateral da balsa, sacudindo a água como um cão. - Como está se saindo,
Pancho?
- Tudo bem! - gritou Randy, nadando com mais vigor.
Em verdade, a coisa não estava tão ruim como imaginara, pelo menos, depois de entrar na água e começar a mover-se. Seu corpo formigava de calor e agora seu
motor estava em alta velocidade. Podia sentir o coração batendo com força, aquecendo-o de dentro para fora. Seus pais tinham uma casa em Cape Cod e, lá, a água era
mais fria do que aquela, em meados de julho.
- Se acha que agora está ruim, Pancho, espere só até sair! - gritou Deke alegremente.
Estava dando pulos, fazendo a balsa balançar-se, enquanto friccionava o corpo. Randy esqueceu a mancha de óleo, até suas mãos tocarem a áspera madeira pintada
de branco da escada virada para a praia. Então, tornou a vê-la. Estava um pouco mais perto. Uma mancha redonda e escura na água, como uma enorme verruga, subindo
e descendo com as ondas mansas. Quando a vira pela primeira vez, a mancha estaria a uns quarenta metros da balsa. Agora, estava a metade dessa distância.
Como é possível? Como...
Então, saiu da água e o ar frio mordiscou-lhe a pele, mordiscou-o ainda com mais vigor do que a água, quando nela mergulhara.
- Ohhhhhh, merda! - gritou, rindo e tiritando em sua sunga.
- Pancho, tu és um moleirão! - exclamou Deke, satisfeito. Ajudou-o a subir para a balsa. - Está frio demais pra você? Tudo bem?
- Tudo bem comigo! Tudo bem comigo!
Randy começou a pular como Deke havia feito, cruzando os braços sobre o peito e estômago, em um X. Os dois se viraram para as garotas. Rachel ultrapassara
LaVerne, esta exibindo um estilo cachorrinho, executado por um cão de maus instintos.
- As senhoritas estão bem? - gritou Deke.
- Vá para o inferno, Senhor Machão! - gritou LaVerne.
Deke não a importunou mais. Randy olhou para o lado e viu que a curiosa mancha escura e circular estava agora mais próxima - agora a dez metros e ainda aproximando-se.
Flutuava na água, redonda e circular, como o topo de um grande latão de aço, porém a maneira frouxa como se movia deixava perceber que não era a superfície
de um objeto sólido. O medo, errante, mas poderoso, tomou conta dele.
- Nadem! - gritou para as garotas.
Abaixou-se para agarrar a mão de Rachel, assim que ela chegasse. Ajudou-a a subir. Ela bateu um joelho na madeira, com força - ele ouviu o baque distintamente.
- Ai! Puxa, o que...
LaVerne ainda estava a uns três metros de distância. Randy tornou a olhar para o lado e viu a coisa redonda colidir com o outro lado da balsa. Era escura
como petróleo, mas Randy tinha certeza de que não se tratava de petróleo - parecia escura demais, espessa demais, regular demais.
- Randy, isso doeu! O que está fazendo, querendo divertir-se...
- LaVerne! Nade! - gritou ele.
Agora não era apenas medo; era terror. LaVerne ergueu os olhos, talvez não captando o horror, mas ouvindo a pressa. Pareceu confusa, mas intensificou seu
estilo cachorrinho, encurtando a distância para a escada.
- O que há com você, Randy? - perguntou Deke.
Randy olhou novamente para o lado e viu a coisa dobrar-se em torno do canto quadrado da balsa. Por um momento, ela pareceu a imagem de um troglodita, de boca
aberta para comer biscoitos eletrônicos. Depois deslizou em volta de todo o canto e começou a escorregar ao longo da balsa, com uma de suas bordas agora reta.
- Ajude-me a içá-la! - grunhiu Randy para Deke, estendendo o braço para LaVerne. - Depressa!
Deke deu de ombros despreocupadamente e pegou a outra mão da garota. Os dois a puxaram para cima, colocando-a na superfície de tábuas da balsa, apenas segundos
antes da coisa negra deslizar junto à escada, os lados encovando-se, como se deslizasse por sobre os degraus.
- Você ficou louco, Randy? - perguntou LaVerne.
Estava sem fôlego, um pouco amedrontada. Seus bicos dos seios eram claramente visíveis através do sutiã, espetando o tecido em pontas duras e frias.
- Aquela coisa - disse Randy, apontando. - O que será, Deke?
Deke localizou-a. Tinha chegado ao canto esquerdo da balsa, de onde escorregara um pouco para um lado, reassumindo o formato redondo. Parecia apenas flutuar
ali. Os quatro olharam para a mancha.
- Acho que é uma mancha de óleo - disse Deke.
- Você realmente machucou meu joelho - queixou-se Rachel, olhando a coisa escura sobre a água e depois se virando para Randy. - Você...
- Não é uma mancha de óleo - disse Randy. - Já viu uma mancha de óleo redonda? Isso é qualquer outra coisa.
- Nunca vi uma mancha de óleo em minha vida - replicou Deke. Falava com Randy, mas olhava para LaVerne. As calcinhas dela eram quase tão transparentes como
o sutiã, o delta de seu sexo claramente esculpido em seda, cada nádega um teso crescente. - Aliás, nem mesmo acredito nelas. Eu sou do Missouri.
- Vou ficar esfolada - disse Rachel.
A raiva, contudo, desaparecera de sua voz. Tinha visto Deke olhando para LaVerne.
- Puxa, estou com frio - disse LaVerne, toda arrepiada.
- Essa coisa estava atrás das garotas - disse Randy.
- Ora, vamos, Pancho! Não disse que estava tudo bem com você?
- Ela queria as garotas - repetiu ele, teimosamente, e pensou: Ninguém sabe que estamos aqui. Absolutamente ninguém.
- Já viu uma mancha de óleo, Pancho? - perguntou Deke.
Passara o braço pelos ombros nus de LaVerne, quase da mesma forma alheada com que tocara o seio de Rachel, horas antes. Não tocava o seio de LaVerne - de
qualquer modo, ainda não - porém sua mão estava próxima. Randy decidiu que pouco lhe importava, de um jeito ou de outro. Aquela mancha negra e circular na água.
Aquilo, sim, o deixava preocupado.
- Vi uma no Cape, faz quatro anos - respondeu. - Todos nós retiramos aves das ondas e tentamos limpá-las...
- Ecológico, Pancho - disse Deke, aprovadoramente. - Muito ecológico, yo creo.
- Era uma coisa enorme, um negócio pegajoso, estendendo-se por cima de toda a água. Em tiras e pequenos salpicos. Nada tinha de parecido com isso aí. Entenda,
não era compacta.
Tinha um formato acidental, ele queria dizer. Esta coisa aqui nada tem de acidental; parece algo com objetivos definidos.
- Quero voltar agora - disse Rachel.
Ainda olhava para Deke e LaVerne. Randy leu a mágoa em seu rosto. Tinha certeza de que Rachel não percebia a transparência de sua expressão.
- Pois então, vá - disse LaVerne.
Havia um ar em seu rosto - a clareza do triunfo absoluto, pensou Randy e, se tal idéia parecia pretensiosa, também parecia exatamente correta. A expressão
não era dirigida expressamente a Rachel... mas tampouco LaVerne procurava escondê-la de outra garota.
Ela se moveu um passo para Deke; um passo, era tudo que havia. Agora, os quadris de ambos se tocaram ligeiramente. Por um rápido momento, a atenção de Randy
desviou-se da coisa flutuante na água e concentrou-se em LaVerne, com um ódio quase curioso.
Embora nunca houvesse agredido uma garota, naquele momento a esbofetearia com real prazer. Não porque a amasse (ficara um pouco caído por ela, sem dúvida,
também mais do que um pouco sequioso dela, sem dúvida, e bastante enciumado quando a vira começando a ir com Deke para o apartamento. Claro que ficara, mas em primeiro
lugar, nunca levaria uma garota a quem realmente amasse, a menos de vinte e cinco quilômetros de distância de Deke), mas por conhecer aquela expressão no rosto de
Rachel - qual a sensação daquilo por dentro.
- Estou com medo - disse Rachel.
- Medo de uma mancha de óleo? - perguntou LaVerne, incrédula.
Depois ela riu. A vontade de esbofeteá-la tornou a crescer dentro de Randy, apenas girar a palma aberta no ar e atingi-la, acabar com aquela expressão de
nojenta grandiosidade em seu rosto e deixar-lhe na bochecha uma marca que teria o formato de uma mão.
- Pois eu gostaria de vê-la nadar até a margem - disse Randy.
LaVerne sorriu indulgentemente para ele.
- Ainda não estou com vontade - respondeu, como se falasse a uma criança. Olhou para o céu, depois para Deke. - Quero ver as estrelas saírem.
Rachel era uma jovem baixinha e bonita mas, para uma garota, tinha um jeito ligeiramente inseguro, que fazia Randy pensar nas de Nova York - a gente as vê
apressando-se para o trabalho pela manhã, usando suas elegantes saias com fendas na frente ou bem altas em um lado, com a mesma expressão graciosa. Os olhos de Rachel
estavam sempre brilhantes, mas seria difícil definir se era a animação que lhes emprestava aquela vivacidade ou apenas uma ansiedade flutuando livremente.
Em geral, as preferências de Deke eram para garotas altas, de cabelos escuros e olhos tendendo para negros. Randy percebeu que agora nada existia entre Deke
e Rachel - o que quer que tivesse havido, algo simples e talvez um pouco entediado por parte dele, era profundo, complicado e possivelmente doloroso para ela. Terminara,
tão nítida e subitamente, que Randy quase ouviu o estalo: um som como um graveto seco, sendo quebrado com o joelho.
Ele era um rapaz tímido, mas decidiu aproximar-se de Rachel e passou um braço em torno dela. Ela o fitou brevemente, o ar infeliz, mas grato por seu gesto.
Randy ficou satisfeito, por haver melhorado um pouco a situação dela. A similaridade flutuou de novo em sua mente. Algo no rosto de Rachel, em sua expressão...
Associou-o o primeiro a espetáculos de jogo na TV, depois a comerciais para biscoitos, bolos, qualquer droga de coisa assim. Então lhe ocorreu - ela parecia
Sandy Duncan, a atriz que atuara na reapresentação de Peter Pan, na Broadway.
- O que é aquela coisa? - perguntou ela. - O que é, Randy?
- Não sei.
Randy se virou para Deke e o viu fitando-o com aquele sorriso familiar, no qual havia mais companheirismo do que raiva... mas havia raiva nele, também havia.
Talvez Deke nem mesmo se desse conta disso, mas havia. A expressão dizia Lá está o velho Randy, sempre preocupado com ninharias e estragando tudo outra vez. Presumivelmente,
isso faria Randy murmurar um acréscimo - Vai ver, não é nada. Não se preocupe com isso. A coisa acabará indo embora daqui. Qualquer coisa assim. Ele não a acrescentou.
Que Deke sorrisse. A mancha negra na água o assustava. Essa era a verdade.
Rachel afastou-se de Randy e ajoelhou-se recatadamente na quina da balsa mais próxima da coisa e, por um momento, ela provocou uma associação de lembranças
ainda mais clara: a garota nos rótulos de White Rock. Sandy Duncan nos rótulos de White Rock, corrigiu sua mente. Seus cabelos, cortados curtos e de uma tonalidade
ligeiramente alourada, jaziam assentados e molhados contra o crânio belamente conformado. Podia ver as covinhas arrepiadas em suas omoplatas, acima da faixa branca
do sutiã.
- Não vá cair, Rache - disse LaVerne, com visível malícia.
- Pare com isso, LaVerne - disse Deke, ainda sorrindo.
Randy desviou os olhos dos dois, em pé no meio da balsa, um com o braço frouxamente em torno da cintura do outro, os quadris se tocando de leve. Tornou a
fitar Rachel. O alarme desceu velozmente por sua espinha e através de seus nervos como fogo. A mancha negra diminuíra em metade a distância entre ela e a quina da
balsa onde Rachel, de joelhos, a observava. Antes, eram dois, dois metros e meio. Agora, a distância era de um metro ou menos. Randy captou a expressão estranha
nos olhos da garota, uma total opacidade circular, singularmente semelhante a total opacidade circular daquela coisa na água.
Agora é Sandv Duncan sentada em um rótulo de White Rock, fingindo-se hipnotizada pelo suculento, delicioso sabor dos Biscoitos de Mel Nabisco, pensou ele,
idiotamente. Seu coração aumentou as batidas, como acontecera antes na água, e então gritou:
- Saia daí, Rachel!
Depois, tudo aconteceu muito depressa - as coisas aconteceram com a rapidez de fogos de artifícios explodindo. No entanto, ele viu e ouviu cada coisa, com
perfeita e infernal clareza. Cada coisa parecia presa em sua própria e diminuta cápsula.
LaVerne riu. No pátio, em uma hora luminosa da tarde, soaria como o riso de qualquer garota universitária, mas ali, na crescente escuridão, mais parecia o
árido cacarejo de uma feiticeira, remexendo poções no caldeirão.
- Rachel, talvez seja melhor você... - começou Deke.
Ela o interrompeu então, quase segura de si pela primeira vez na vida e, indubitavelmente, pela última.
- Isso tem cores! - exclamou ela, em um tom de absoluta admiração. Seus olhos fixavam-se na mancha negra em cima da água, com opaca euforia, e por um instante
apenas, Randy julgou ter visto o que ela apontava - cores, isso mesmo, cores girando em vivas espirais que se contorciam para o centro. Desapareceram em seguida,
restando apenas aquele negrume fosco e sem brilho. - Que parece cores mais lindas!
- Rachel!
Ela estendeu o braço para a coisa - espichando-o e abaixando-o - seu braço alvo e marmorizado pelos arrepios. Esticou-o, querendo tocar, e Randy notou que
Rachel roera as unhas até o sabugo.
- Ra...!
Sentiu a balsa oscilar na água, quando Deke se moveu em direção a eles. Randy inclinou-se para Rachel ao mesmo tempo, querendo puxá-la e vagamente cônscio
de não desejar que Deke fizesse isso.
A mão de Rachel já tocava a água - seu indicador apenas, formando delicados círculos concêntricos na superfície - e a mancha negra avançou para aquele ponto.
Randy ouviu Rachel ofegar e, de repente, a opacidade lhe abandonou os olhos, substituída por agonia.
A substância negra e viscosa subiu pelo braço dela como lodo... e, por baixo, Randy viu a pele de Rachel dissolver-se. Ela abriu a boca e gritou. Ao mesmo
tempo, inclinou-se para diante. Agitou cegamente a outra mão para Randy, e ele tentou segurá-la. Os dedos de ambos de roçaram. Os olhos dela encontraram os dele,
e Rachel ainda mostrava uma infernal semelhança com Sandy Duncan. Depois ela caiu para diante, estatelando-se na água.
A coisa negra fluiu para o ponto em que ela caíra.
- O que aconteceu? - gritava LaVerne, atrás deles. - O que aconteceu? Ela caiu? O que houve com ela?
Randy fez menção de mergulhar atrás dela, mas Deke o puxou para trás, quase sem esforço.
- Não! - exclamou ele, em uma voz amedrontada, como jamais acontecera.
Os três a viram emergir. Seus braços levantaram-se, agitando-se - não, não eram braços.
Um braço. O outro estava coberto por uma membrana negra, que pendia em fiapos e dobras de algo vermelho e entretecido com tendões, algo que parecia um pedaço
redondo de rosbife.
- Socorro! - gritou Rachel.
Seus olhos arregalados fixaram-se neles, desviaram-se, fixaram-se novamente, tornaram a desviar-se... eram como lanternas agitadas desordenadamente no escuro.
Ela bateu na água, formando espuma.
- Socorro! Como dói! Por, favor, socorro! COMO DÓI, COMO DOOÓI...
Randy teria caído, quando Deke o puxou. Levantando-se das tábuas da balsa, caiu para diante outra vez, incapaz de ignorar aquela voz. Tentou saltar, e Deke
o agarrou, passando seus braços musculosos pelo tórax magro do outro.
- Não, ela está morta - sussurou rispidamente. - Céus, será que não vê isso? Ela está morta, Pancho!
Uma espessa cor negra espraiou-se subitamente pelo rosto de Rachel, como um lençol, primeiro sufocando seus gritos, depois cortando-os inteiramente. Agora,
a coisa negra começou a enrolá-la em cordas entrecruzadas. Randy pôde vê-las, afundando na pele de Rachel como ácido. Quando sua jugular se rompeu, esguichando um
jato escuro, ele viu a coisa enviar um pseudópodo em direção ao sangue que escapava. Não podia acreditar no que via, não podia entender... mas era a pura realidade,
não uma sensação de estar perdendo o juízo, nenhuma impressão de que estivesse sonhando ou fosse vítima de uma alucinação.
LaVerne gritava. Randy se virou, em tempo de vê-la tapar os olhos melodramaticamente com uma das mãos, parecendo uma heroína de filme mudo. Pensou que ia
rir e dizer-lhe o que imaginara, mas constatou que não conseguia emitir nenhum som.
Tornou a olhar para Rachel. Praticamente, ela não estava mais lá.
Suas contorções haviam diminuído, a ponto de não passarem de espasmos. O negrume espojou-se sobre ela - agora maior, pensou Randy, está maior, não há a menor
dúvida - com silenciosa e muscular força. Viu a mão de Rachel agitar-se contra aquilo; viu a mão começar a ficar presa, como que aderida a melaço ou papel pega-moscas;
viu-a desaparecer. Agora, havia apenas um senso das formas dela, não na água, mas na coisa preta, não se virando, mas sendo virada, a forma se tornando menos e menos
identificável, um lampejo branco - ossos, pensou nauseado, e virou o rosto, vomitando inapelavelmente por sobre uma borda da balsa.
LaVerne ainda gritava. Houve então um pláft! surdo, e ela parou de gritar, começando a acalmar-se.
Ele a esbofeteou, pensou Randy. Eu queria fazer isso, lembra-se?
Recuou, limpando a boca, sentindo-se fraco e nauseado. E com medo. Tão apavorado, que só conseguia pensar com uma diminuta porção da mente. Em breve, começaria
também a gritar. Deke precisaria esbofeteá-lo, Deke não entraria em pânico, oh, não, Deke era mesmo um herói, sem dúvida. Você precisa ser um herói do futebol...
para arranjar garotas bonitas, cantarolava sua mente, com alegria.
Então, ouviu Deke falando com ele e ergueu o rosto para o céu, tentando clarear a cabeça, tentando desesperadamente afastar a visão da forma de Rachel, tornando-se
disforme e inumana enquanto a coisa negra a devorava, não querendo que Deke o esbofeteasse como esbofeteara LaVerne.
Olhou para o céu e viu que brilhavam no alto as primeiras estrelas, o formato da Ursa Maior já claro, enquanto a última luminosidade do dia desbotava no oeste.
Eram quase dezenove e trinta.
- Oh, Cisco - balbuciou. - Acho que estamos com um grande problema desta vez...
- O que é aquilo? - Sentiu a mão de Deke em seu ombro, apertando, crispando dolorosamente. - Aquela coisa a comeu, você viu? A coisa a comeu, a maldita coisa
a comeu toda! O que é aquilo?
- Não sei - disse Randy. - Não lhe falei antes?
- Pois devia saber! Você é um maldito inteligente, segue todos os malditos cursos de ciências!
Agora, era o próprio Deke que quase gritava, permitindo que Randy recuperasse um pouco mais de controle.
- Não existe nada como aquilo em todos os livros científicos que já li - explicou.
- A última vez que vi algo semelhante, foi no Show de Horrores do Dia de Bruxas, no Rialto, quando tinha doze anos.
A coisa agora recuperara seu formato redondo. Flutuava sobre a água, a três metros da balsa.
- Está maior - gemeu LaVerne.
Quando Randy a vira pela primeira vez, avaliara seu diâmetro em cerca de metro e meio. Agora, tinha pelo menos dois e meio.
- Está maior, porque comeu Rachel! - soluçou LaVerne, começando a gritar novamente.
- Para com isso ou eu lhe quebro o queixo - ameaçou Deke.
Ela parou - não imediatamente, mas pouco a pouco, como um disco, quando alguém desliga o aparelho, sem levantar o braço da agulha. Os olhos de LaVerne estavam
esbugalhados.
Deke se virou para Randy.
- Tudo bem com você, Pancho?
- Não sei. Acho que sim.
- Rapaz... - Deke tentou sorrir e, com certo alarme, Randy viu que ele conseguia - alguma parte de Deke estaria achando aquilo divertido? - Você não tem nenhuma
idéia do que tudo isso possa ser?
Randy meneou a cabeça. Talvez, afinal fosse mesmo uma mancha de óleo... ou havia sido, até ter-lhe acontecido alguma coisa. Poderia haver sido atingida por
raios cósmicos, de algum modo. Ou, talvez, Arthur Godfrey urinara poeira atômica sobre aquilo, quem sabe? Quem poderia saber?
- Será que podemos nadar contornando a coisa? - insistiu Deke, sacudindo o ombro de Randy.
- Não! - gritou LaVerne, em voz estridente.
- Pare com isso ou acabo com você, LaVerne - disse Deke, erguendo novamente a voz. - Não estou brincando!
- Você viu com que rapidez aquilo pegou Rachel - disse Randy.
- Talvez estivesse com fome - respondeu Deke. - É possível que agora tenha perdido o apetite.
Randy pensou em Rachel, de joelhos na quina da balsa, tão quieta e bonita em seu sutiã e calcinhas. Seu pomo de Adão tornou a subir.
- Você procurou isso - falou para Deke. Deke sorriu sem vontade.
- Oh, Pancho!
- Oh, Ciiisco!
- Quero ir para casa - disse LaVerne, em um sussurro furtivo. - Está bem?
Nenhum deles respondeu.
- Acho melhor esperarmos que a coisa se vá - disse Deke. - Assim como veio, irá embora.
- Talvez - disse Randy.
Deke olhou para ele, o rosto tomado por forçada concentração, na penumbra ambiente.
- Talvez? O que é essa merda de talvez?
- Nós chegamos, a coisa chegou. Eu a vi chegar - como se nos farejasse. Se está saciada, como falou, irá embora. Acho. Se ainda quiser comer...
Randy deu de ombros. Deke ficou parado e pensativo, de cabeça agachada. Seus cabelos curtos ainda pingavam um pouco.
- Vamos esperar - decidiu. - Que essa coisa coma peixe!
Passaram-se quinze minutos. Eles não falaram. A temperatura esfriava. Estaria pelos dez graus e os três encontravam-se apenas com roupas de baixo. Após os
primeiros dez minutos, Randy pôde ouvir o vivo, intermitente chocalar de seus dentes. LaVerne tentara encostar-se a Deke, mas ele a recusara - com delicadeza, mas
firmemente.
- Deixe-me sozinho agora - disse ele.
Ela ficou sentada, os braços cruzados sobre os seios, as mãos segurando os cotovelos, tiritando. Olhava para Randy, seus olhos dizendo que ele poderia voltar,
passar os braços em torno dela, que tudo estava bem agora.
Ele desviou os olhos, preferindo concentrar-se no círculo escuro sobre a água. A coisa apenas flutuava ali, não se aproximando e tampouco afastando-se. Olhou
para a margem e lá estava a praia, um crescente branco e fantasmagórico, que parecia flutuar. As árvores mais atrás formavam uma volumosa e escura linha do horizonte.
Randy pensou que conseguia ver o Camaro de Deke, mas não tinha certeza.
- Nós apenas decidimos e viemos - falou Deke.
- Exato - disse Randy.
- Não contamos a ninguém.
- Não.
- Portanto, ninguém sabe que estamos aqui.
- Ninguém.
- Parem com isso! - gritou LaVerne. - Parem, estão me amedrontando!
- Feche essa matraca - disse Deke, com o pensamento em outra coisa, e Randy riu, a despeito de si mesmo - pouco importava quantas vezes Deke dissesse aquilo,
ele sempre achava engraçado. - Se tivermos que passar a noite aqui, passaremos. Alguém ouvirá nossos gritos amanhã. Afinal, não estamos no meio do deserto australiano,
não é mesmo, Randy?
Randy não respondeu.
- Estamos?
- Você sabe onde estamos - replicou Randy. - Sabe tão bem quanto eu. Saímos da Estrada 41 e percorremos treze quilômetros em uma estrada secundária...
- Com chalés a cada quinze metros...
- Chalés de verão. Estamos em outubro. Os chalés estão vazios, a maldita maioria deles. Chegamos aqui e você tinha que contornar o maldito portão, indicadores
de PROIBIDA A ENTRADA a cada quinze metros...
- E daí? Algum zelador...
Deke parecia um pouco sem jeito agora, algo desconfortável. Com um certo medo, talvez? Pela primeira vez naquela noite, a primeira vez nesse mês, nesse ano,
talvez a primeira vez em toda a sua vida? Ocorreu uma idéia cretina - Deke perde a virgindade de seu medo. Randy não tinha certeza de ser isso que acontecia, mas
achou que talvez fosse... e sentiu um perverso prazer nisso.
- Nada para roubar, nada para vandalizar - falou. - Se houver zeladores, talvez só apareçam por aqui duas vezes ao mês.
- Caçadores...
- No mês que vem, não duvido - disse Randy e se calou de repente, porque também estava ficando com medo.
- Talvez essa coisa nos deixe em paz - disse LaVerne. Seus lábios esboçaram um leve e patético sorriso. - Talvez ela apenas... sabem como é... nos deixe em
paz.
- Os tiras... - recordou Deke.
- Está se movendo - disse Randy.
LaVerne ficou em pé bruscamente. Deke aproximou-se de Randy e, por um momento, a balsa inclinou-se. O coração de Randy galopou no peito, apavorado, enquanto
LaVerne tornava a gritar. Deke recuou um pouco e a balsa estabilizou-se, com a quina frontal esquerda (ao ficarem de frente para a praia) ligeiramente mais mergulhada
na água do que as restantes.
A coisa aproximou-se com ginosa e aterradora rapidez. Enquanto se movia, Randy observou as cores que Rachel vira - fantásticos vermelhos, amarelos e azuis,
espiralando sobre uma superfície de ébano semelhante a plástico frouxo ou escura, como couro. Subia e descia com as ondas, o que modificava as cores, fazia com que
se fundissem girando. Randy percebeu que ia cair pela borda, diretamente sobre a coisa, podia sentir que se inclinava...
Com a última força que lhe restava, levou o punho direito ao nariz - o gesto de um homem amortecendo a tosse, só que um pouco mais alto e com muito mais força.
Seu nariz explodiu em dor, ele sentiu o sangue quente escorrendo pelo rosto. Então, conseguiu recuar, gritando:
- Não olhem para aquilo! Deke! Não o encare diretamente, as cores o deixam zonzo!
- Está querendo passar para baixo da balsa - disse Deke, com ar sombrio. - Que merda é essa, Pancho?
Randy espiou - espiou com o máximo cuidado. Viu a coisa focinhando a lateral da balsa, achatando-se no formato de meia pizza. Por um momento, pareceu empilhar-se
ali, espessando-se, e ele teve uma alarmante visão daquilo ganhando consistência bastante para subir à superfície da balsa.
Então, a coisa negra espremeu-se sob ela. Randy julgou ouvir um ruído por um momento - um ruído áspero, como uma cortina de lona, das de enrolar, sendo puxada
através de uma janela estreita - mas aquilo poderia ter sido produto apenas de seus nervos.
- Ela entrou debaixo da balsa? - perguntou LaVerne, e havia algo curiosamente despreocupado em seu tom, como se fizesse o máximo esforço para conversar, mas
também estava gritando. - Está debaixo da balsa? Está debaixo de nós?
- Está - respondeu Deke. Olhou para Randy. - Vou nadar até a praia, imediatamente. Se essa coisa está aqui embaixo, acho que tenho uma boa chance.
- Não! - gritou LaVerne. - Não, não nos deixe aqui, não...
- Eu sou rápido - disse Deke, olhando para Randy e ignorando LaVerne inteiramente. - Só que, preciso ir enquanto ela estiver aqui embaixo.
Randy teve a sensação de que sua mente disparava em Mach dois - de uma forma ensebada e nauseante aquilo era estimulante, como os derradeiros segundos antes
de sermos lançados na vertigem do passeio em um divertimento de parque de diversões barato. Havia tempo para ouvir as barricas se entrechocando ocamente debaixo
da balsa, tempo para ouvir as folhas das árvores roçando secamente a uma pequena brisa, além da praia, tempo para perguntar-se por que a coisa tinha ido para baixo
da balsa.
- Está bem - disse a Deke, - mas não creio que você consiga.
- Conseguirei - respondeu Deke, encaminhando-se para a beira da balsa.
Deu dois passos, e então parou.
Sua respiração ganhara rapidez, o cérebro deixava o coração e os pulmões prontos para nadar os mais rápidos cinqüenta metros de sua vida, e agora sua respiração
havia parado, como todo ele, simplesmente cortada no meio de uma inalação. Virou a cabeça, e Randy viu salientarem-se os tendões em seu pescoço.
Panch... - disse ele, em voz perplexa e sufocada, para então começar a gritar.
Deke gritou com espantosa força, vigorosos gritos de barítono, que foram descendo a fantásticos níveis de soprano. Eram altos o bastante para ecoarem na praia,
voltando em espectrais tons de mínimas. A princípio, Randy julgou que ele apenas gritava, mas depois percebeu que era uma palavra, duas palavras, as mesmas duas
palavras, repetidas sem cessar:
- Meu pé! Meu pé! Meu pé! Meu pé!
Randy olhou para baixo. O pé de Deke apresentava uma estranha aparência rebaixada.
O motivo era óbvio, porém a mente de Randy se recusava a aceitá-lo de início - era impossível demais, insanamente grotesco demais. Enquanto olhava, o pé de
Deke foi sendo puxado para baixo, por entre duas das tábuas que compunham a superfície da balsa.
Então, viu o brilho escuro da coisa negra, além do calcanhar e dedos do pé, um vivo brilho escuro, com malignas cores giratórias.
A coisa agarrara o pé dele. (Meu pé! gritava Deke, como que confirmando tal elementar dedução. Meu pé, oh, meu pé, meu PÉÉÉÉÉÉ!) Ele havia pisado em uma das
fendas entre as tábuas (pise em uma fenda e sua mãe ofenda, tagarelou a mente de Randy) e a coisa o prendera ali. A coisa tinha...
- Puxe! - gritou Randy, subitamente. - Puxe, Deke, que merda, PUXE!
- O que está acontecendo? - bradou LaVerne.
Vagamente, Randy percebeu que ela não lhe sacudia os ombros apenas afundara nele as unhas compridas como garras. LaVerne não seria de nenhuma ajuda, em absoluto.
Deu-lhe uma cotovelada no estômago, ela emitiu um som semelhante a um latido, como que tossindo, e caiu sentada sobre o traseiro. Randy saltou para Deke e agarrou
um de seus braços.
Era duro como mármore de Carrara, cada músculo projetando-se como a costela no esqueleto de um dinossauro esculpido. Puxar Deke era como tentar arrancar uma
árvore enorme do chão, pelas raízes. Os olhos de Deke se erguiam para o púrpura-real do céu pós-crepúsculo, arregalados e incrédulos, sem que ele parasse de gritar,
gritar e gritar.
Randy olhou para baixo e viu que agora o pé de Deke desaparecera na fenda entre as tábuas, até o tornozelo. Aquela fenda não teria mais do que um centímetro
de largura, certamente não mais que meio centímetro, mas o pé penetrara por ela. O sangue escorria para as tábuas brancas, em espessos regatos escuros. A coisa negra,
como plástico aquecido, pulsava para cima e para baixo na fenda, para cima e para baixo, como um coração.
Preciso arrancá-lo. Preciso arrancá-lo depressa ou nunca chegaremos a arrancá-lo...
Controle-se, Cisco, por favor, controle-se...
LaVerne levantou-se e recuou para longe da árvore - Deke, que se contorcia e gritava no meio da balsa, uma balsa que flutuava ancorada, sob as estrelas de
outubro, no Lago Cascade. Ela sacudia a cabeça aturdida, os braços cruzados sobre o estômago, onde levara a cotovelada de Randy.
Deke inclinou-se pesadamente contra ele, os braços tateando às cegas. Tornando a olhar para baixo, Randy viu o sangue jorrando da canela de Deke, que agora
se afinava, como se afina a ponta de um lápis - só que a ponta do lápis aqui era branca, não preta, a ponta era um osso, que quase não se divisava.
A coisa negra impeliu-se para cima de novo, sugando, comendo.
Deke uivou de dor.
Nunca mais jogará futebol com esse pé, QUE pé? Ha-ha, e ele puxou Deke com todas as forças, mas ainda era como tentar arrancar uma árvore, com raízes e tudo.
Deke pendeu novamente e agora proferiu um longo, estridente uivo, que fez Randy recuar, guinchando também, cobrindo os ouvidos. O sangue esguichava dos poros
da perna de Deke; sua rótula tinha uma aparência purpúrea e intumescida, como se tentasse absorver a tremenda pressão colocada sobre ela, enquanto a coisa negra
puxava a perna de Deke para baixo, através da estreita fenda, centímetro a centímetro.
Não posso ajudá-lo. Teria que ser muito forte! Não posso ajudá-lo agora, Deke, sinto muito, Deke, sinto tanto...
- Abrace-me, Randy! - gritou LaVerne, agarrando-se a ele por todo o corpo, enterrando o rosto em seu peito. O rosto dela estava tão quente, que parecia chiar.
- Abrace-me, por favor, por que não me abraça...?
Desta vez, ele a abraçou.
Só mais tarde, Randy fez a terrível constatação: eles dois, com quase certeza, teriam nadado até a margem, enquanto a coisa negra se ocupava com Deke - e
se LaVerne não quisesse, ele o faria sozinho. As chaves do Camaro estavam no jeans de Deke, caído na praia. Teria conseguido... mas essa certeza só lhe chegou quando
era demasiado tarde.
Deke morreu, assim que sua coxa começou a desaparecer na estreita fenda entre as tábuas. Parara de gritar agudamente minutos antes disso. Desde então, emitira
apenas grunhidos roucos. Então, isso parou também. Quando ele desmaiou, caído para diante, Randy ouviu o que quer que restava do fêmur em sua perna direita, estilhaçar-se
como um graveto sendo partido.
Um momento depois, Deke ergueu a cabeça, olhou em torno atordoadamente e abriu a boca. Randy pensou que ele fosse gritar novamente. Só que, em vez disso,
ele lançou um grande jato de sangue, tão espesso, que era quase sólido. Randy e LaVerne foram salpicados com o calor do sangue e ela começou a gritar de novo, agora
roucamente.
- Utntnq! - gritou ela, o rosto contorcido em quase enlouquecida repugnância. - Unnng! Sangue! Urnnacy, sangue! Sangue!
Ela se esfregou, procurando limpar-se, mas só conseguiu espalhar mais o sangue que recebera.
O sangue fluía dos olhos de Deke, esguichando com tal força, que eles se esbugalhavam quase comicamente, pela potência da hemorragia. Randy pensou: Meu Deus!
Meu Deus! Meu Deus!
O sangue jorrou dos ouvidos de Deke. Seu rosto era um hediondo nabo purpúreo, inchado e deformado pela pressão hidrostática de alguma inacreditável inversão;
era o rosto de um homem apertado pelas garras de um urso, dotado de monstruosa e desconhecida força.
E então, misericordiosamente, aquilo terminou.
Deke tornou a descambar para diante, os cabelos pendendo acima das tábuas ensanguentadas da balsa. Com nauseado espanto, Randy viu que até mesmo o couro cabeludo
dele sangrava.
Sons por baixo da balsa. Sons de coisa sugando.
Foi quando ocorreu à sua aturdida mente, seu cérebro sobrecarregado, que poderia ter escapado a nado, com boa chance de ter êxito. Contudo, LaVerne pesava
demais em seus braços, pesava como chumbo. Olhou para o rosto descomposto, ergueu-lhe uma pálpebra e viu apenas o branco de olho. Compreendeu então que ela não desmaiara
apenas, mas caíra inconsciente, em estado de choque.
Randy olhou para a superfície da balsa. Podia deitá-la, naturalmente, mas as tábuas só tinham uns trinta centímetros de largura. Havia uma plataforma para
mergulho que era adaptada à balsa durante o verão, mas pelo menos isso fora desmontado e guardado em algum lugar. Nada mais restava senão o próprio piso da balsa,
quatorze tábuas, cada uma com trinta centímetros de largura e seis metros de comprimento. Não era possível deitá-la, deixar seu corpo sem sentidos sobre qualquer
daquelas fendas.
Pise em uma fenda, e sua mãe ofenda.
Cale-se.
E então, tenebrosamente, sua mente sussurrou: Vá, mesmo assim. Deite-a aí e nade para a salvação!
Contudo, ele não fez isso, não podia. Um terrível sentimento de culpa cresceu nele, a essa idéia. Abraçou-a, sentindo o peso macio e firme em seus braços
e costas. Ela era uma grande garota.
Deke tombou de todo.
Randy segurava LaVerne nos braços doloridos e viu aquilo acontecer. Não queria olhar e, por longos segundos que lhe pareceram minutos, virou o rosto inteiramente.
No entanto, seus olhos sempre vagavam para lá.
Com Deke morto, tudo pareceu mais rápido.
O restante de sua perna direita desapareceu. A perna esquerda estirou-se, mais e mais, até ele assemelhar-se a um dançarino de balé, com apenas uma perna
à vista, fazendo uma pirueta impossível. Houve o estalar da fúrcula em sua pélvis e então, quando o estômago de Deke começou a inchar ominosamente sob nova pressão,
Randy desviou os olhos por muito tempo, procurando não ouvir os sons líquidos, tentando concentrar-se na dor em seus próprios braços. Pensou que talvez poderia fazer
LaVerne voltar a si, mas por enquanto era melhor sentir a dor latejante nos braços e ombros. Aquilo lhe dava algo em que pensar.
Às suas costas houve um som como o provocado por enormes dentes mastigando um punhado de balas quebra-queixo. Quando olhou, as costelas de Deke penetravam
pela fenda. Os braços dele estavam erguidos e distendidos. Ele parecia uma obscena paródia de Richard Nixon fazendo o V da vitória, o sinal que enlouquecera o público,
nos anos sessenta e setenta.
Ele tinha os olhos abertos. A língua estirava-se para Randy.
Randy se virou de novo, ficou olhando através do lago. Procure luzes, disse a si mesmo.
Sabia que por lá não haveria luzes, mas quis convencer-se disso. Procure por luzes Pelas margens, alguém deve estar passando a semana em seu chalé, apreciando
a folhagem do outono, não iria perder o espetáculo, viria com sua Nikon, o pessoal em casa adoraria as fotos.
Quando tornou a olhar para trás, os braços de Deke estavam erguidos em linha reta. Não era mais Nixon; agora parecia um juiz de futebol, indicando que o ponto
extra fora válido.
A cabeça de Deke dava a impressão de pousada nas tábuas.
Os olhos continuavam abertos.
A língua continuava espichada para fora.
- Oh, Ciisco - murmurou Randy, tornando a olhar para outro lado.
Seus braços e ombros agora gritavam, mas permaneceu segurando LaVerne nos braços.
Olhou para a margem mais distante do lago. Estava totalmente escura. Estrelas salpicavam o céu negro, desenrolavam-se através dele, uma fita de leite frio,
de algum modo suspensa bem alto no ar.
Os minutos passaram. Ele deve ter ido agora. Você já pode olhar. Está bem, está bem, eu sei. Só que não vou olhar. Apenas por segurança, eu não vou olhar.
Certo? Certo. Em definitivo. Assim dizemos todos e assim todos nós dizemos.
Ele terminou olhando mesmo, apenas em tempo de ver os dedos de Deke serem puxados para baixo. Eles se moviam - provavelmente o movimento da água sob a balsa
era transmitido à coisa desconhecida que agarrara Deke e esse mesmo movimento se transmitia aos seus dedos. Provavelmente, provavelmente. Contudo, a Randy parecia
que Deke lhe acenava. O Cisco Kid acenando adeus. Pela primeira vez, sentiu sua mente sofrer um doentio repelão - ela pareceu inclinar-se, da maneira como a balsa
se inclinara, quando eles quatro haviam ficado em pé sobre o mesmo lado. Percebeu-a endireitar - sem mais, de repente, compreendeu que a loucura - a verdadeira demência
- talvez não estivesse muito distante.
O anel de futebol de Deke - Assembléia Geral, 1981 - escorregou lentamente do terceiro dedo de sua mão direita. A claridade das estrelas refletiu-se no ouro
e brincou nos minúsculos sulcos entre os números gravados - 19, em um lado da pedra avermelhada, 81, no outro lado. O anel caiu-lhe do dedo. Era um pouco grande
demais para encaixar-se na fenda e, naturalmente, não se comprimiria.
Ficou caído ali. Era tudo que restava de Deke, agora. Deke se fora. Nada mais de garotas de cabelos e olhos escuros, nada mais de bater no traseiro nu de
Randy com uma toalha molhada, quando Randy saía do chuveiro, nada mais de corridas antes do jogo pelo meio do campo, com fãs levantando-se na ponta dos pés nas arquibancadas
e as chefes de torcida executando cabriolas histéricas nas linhas laterais.
Nada mais de escapadas após o escurecer, no Camaro, com Thin Lizzy clamando "Os rapazes voltaram à cidade", no gravador do carro. Nada mais de Cisco Kid.
Houve aquele vago ruído arranhando novamente - uma lona enrolada, sendo lentamente puxada pela fenda de uma janela.
Randy estava em pé e descalço sobre as tábuas. Olhou para baixo e viu as fendas a cada lado dos dois pés subitamente cheias de pegajosa escuridão. Seus olhos
esbugalharam-se.
Pensou na maneira como o sangue jorrara da boca de Deke, quase semelhante a uma corda sólida, na maneira como os olhos dele haviam saltado, parecendo providos
de molas, enquanto a hemorragia, provocada pela pressão hidrostática, esmagava-lhe o cérebro.
A coisa me fareja. Sabe que estou aqui. Conseguirá subir? Conseguirá subir pelas fendas? Conseguirá? Conseguirá?
Olhou para baixo, inconsciente do peso flácido de LaVerne, fascinado pela enormidade da questão, perguntando-se o que sentiria a coisa ao fluir sobre seus
pés, quando se ancorasse neles.
O cintilar negro subiu quase até a borda das fendas (Randy ficou na ponta dos pés, sem mesmo perceber o que fazia) e depois desceu. Recomeçou o ruído de lona
deslizando.
De repente, Randy tornou a ver a coisa sobre a água, uma grande verruga escura, agora talvez a uns cinco metros de distância. Ela subia e descia com as pequeninas
ondulações da superfície, subia e descia, subia e descia... e quando Randy começou a ver as cores pulsando uniformemente sobre ela, desviou os olhos para outro lado.
Colocou LaVerne sobre o piso, e tão logo ficou livre do peso, seus braços começaram a tremer loucamente. Deixou que tremessem. Ajoelhou-se ao lado dela, cujos
cabelos espalhavam-se sobre as tábuas brancas, em um irregular leque escuro. De joelhos, ele ficou espiando aquela verruga escura na água, pronto para levantar LaVerne
novamente, se percebesse sinais de movimento na coisa.
Começou a bater-lhe nas faces de leve, primeiro em uma, depois na outra, repetindo a dose, como um segundo tentando animar um boxeador. LaVerne não queria
voltar a si.
Ela não queria atender ao indicador Siga e ganhar duzentos dólares ou dar uma volta no Trem-fantasma. LaVerne já vira o suficiente. Contudo, Randy não podia
segurá-la a noite inteira, levantando-a como a um saco de lona, sempre que a coisa se movesse (e tampouco se podia ficar olhando demais para a coisa; aí estava outro
detalhe). Ele aprendera um truque, no entanto. Não o aprendera na universidade, mas com um amigo de seu irmão mais velho. Esse amigo fora médico paraquedista em
Nam e conhecia todos os tipos de truques - como catar piolhos em um couro cabeludo humano e fazê-lo apostar corrida em uma caixa de fósforos, como diluir cocaína
em laxativo infantil, como costurar cortes fundos com agulha e linha comuns. Certo dia, quando conversavam sobre maneiras de despertar-se bêbados profundamente embriagados,
para que esses bêbados profundamente embriagados não vomitassem nas próprias gargantas e morressem, como Bon Scott, o cantor do AC/DC havia feito.
- Quer fazer alguém voltar a si rapidamente? - perguntara o amigo com o repertório de truques interessantes. - Experimente isto.
Então, ele lhe ensinou o truque que Randy ia usar agora.
Inclinando-se para LaVerne, ele lhe mordeu o lóbulo da orelha, o mais forte que pôde.
Sangue quente e acre espirrou em sua boca. As pálpebras de LaVerne se ergueram como persianas. Ela gritou, em uma voz rouca e rabujenta, depois o esmurrou
com raiva.
Randy olhou para cima e viu apenas a parte mais distante da coisa; o restante já estava debaixo da balsa. Ela se movera com uma fantástica, terrível e silenciosa
velocidade.
Randy tornou a içar LaVerne, seus músculos gritando em protesto tentando enovelar-se em cãibras. Ela lhe batia no rosto. Uma de suas mãos atingiu-lhe o nariz
sensível e ele viu estrelas vermelhas.
- Pare com isso! - gritou, deslizando os pés para as tábuas. - Pare com isso sua cretina, a coisa está debaixo de nós novamente! Pare ou eu a deixo cair,
juro por Deus como deixo!
Os braços dela pararam imediatamente de agitar-se e se enrolaram quietamente em torno do pescoço de Randy, como em um abraço de afogado. Os olhos de LaVerne
pareciam brancos, à claridade das estrelas.
- Pare com isso! - Ela não parou. - Pare, LaVerne, está me sufocando!
Ela apertou com mais força. O pânico aflorou à mente de Randy. O entrechocar cavo das barricas assumira uma nova característica, mais seca, mais abafada.
Era a coisa lá embaixo, pensou ele.
- Não posso respirar!
A pressão afrouxou um pouco.
- Agora, escute. Vou pôr você no chão. Tudo vai ficar bem, se você...
Ela, no entanto, ouvira apenas pôr você no chão. Seus braços enrolaram-se naquele aperto mortal novamente. Randy tinha a mão direita nas costas dela. Engalfinhou
os dedos e arranhou-a. LaVerne agitou as pernas, ganindo roucamente e, por um momento, ele quase perdeu o equilíbrio. Ela o percebeu. O medo, maior que a dor, fez
com que parasse de lutar.
- Fique em pé nas tábuas.
- Não!
A negativa saiu em um jato no rosto dele, quente como um vento do deserto.
- A coisa não poderá pegá-la, se ficar em pé nas tábuas.
- Não, não me ponha no chão! Ela vai me pegar, sei que vai, sei que vai...
Ele tornou a arranhar-lhe as costas. LaVerne gritou de raiva, de dor e medo.
- Fique em pé ou a deixo cair, LaVerne.
Ele abaixou, lenta e cuidadosamente, ambos respirando em haustos curtos, chiantes - flauta e oboé. Os pés dela tocaram as tábuas. LaVerne encolheu as pernas
para cima, como se as tábuas estivessem em brasa.
- Ponha os pés no chão! - sibilou Randy. - Eu não sou Deke, não agüento segurá-la a noite inteira!
- Deke...
- Está morto.
Os pés dela pousaram nas tábuas. Pouco a pouco, ele a foi largando. Ficaram à frente um do outro, como dançarinos. Randy podia vê-lo esperando o primeiro
toque da coisa.
A boca de LaVerne ofegou, como a de um peixe dourado.
- Randy - sussurrou ela. - Onde está a coisa?
- Embaixo. Olhe para baixo.
Ela olhou. Ele olhou também. Viram a escuridão que recheava as fendas, preenchendo-as agora por quase toda a extensão da balsa. Randy sentiu a ansiedade da
coisa e pensou que LaVerne também a sentira.
- Randy, por favor...
- Pssst!
Os dois ficaram quietos.
Randy esquecera de tirar o relógio ao entrar na água e agora ele marcava quinze minutos. Às vinte e um quarto, a coisa negra tornou a deslizar para fora da
balsa.
Afastou-se até uns quatro, cinco metros e então parou, como fizera antes.
- Vou me sentar - disse Randy.
- Não!
- Estou cansado. Vou me sentar e você ficará vigiando. Lembre-se apenas de ficar olhando para longe. Depois eu me levanto e você fica sentada. Faremos assim.
Tome - e ele lhe entregou o relógio. - Turnos de quinze minutos.
- Aquilo comeu Deke - sussurrou ela.
- Eu sei.
- O que é?
- Não sei.
- Estou com frio.
- Eu também.
- Então, me abrace.
- Já fiz isso o suficiente.
Ela pareceu conformar-se.
Sentar-se era o paraíso; não ter que vigiar a coisa era beatífico. Em vez disso, ele vigiou LaVerne, certificando-se de que ela continuava desviando os olhos
da coisa sobre a água.
- O que vamos fazer, Randy?
Ele refletiu.
- Esperar - disse.
Ao final de quinze minutos, Randy levantou-se e deixou que ela primeiro ficasse sentada e depois deitada, por meia hora. A seguir, fez com que LaVerne se
levantasse novamente e ela permaneceu em pé por quinze minutos. Continuaram assim. Faltando quinze minutos para vinte e duas horas, uma fria côdea de lua subiu no
céu e lançou uma trilha luminosa sobre a água. Às vinte e duas e trinta, ouviram um grito agudo e solitário ecoando através do lago. LaVerne soltou um grito estridente.
- Cale a boca - disse ele. - Foi apenas um mergulhão-do-norte.
- Estou gelando, Randy... Estou toda dormente.
- Nada posso fazer quanto a isso.
- Abraça-me - pediu ela. - Você tem que me abraçar. Ficaremos abraçados, esquentando-nos. Podemos nos sentar, os dois, vigiar a coisa juntos.
Ele resistiu à idéia, mas o frio penetrava em sua carne, agora atingia os ossos.
- Está bem - disse.
Sentaram-se juntos, os braços passados um em torno do outro, e algo aconteceu - natural ou perverso, mas aconteceu. Randy sentiu-se enrijecer. Uma de suas
mãos encontrou o seio de LaVerne, comprimiu-se sobre o náilon úmido e apertou. Ela emitiu o ruído de um suspiro e sua mão caminhou para a virilha da sunga.
Randy deslizou a outra mão para baixo e encontrou um lugar onde existia algum calor.
Empurrou-a de leve, fez com que ela se deitasse.
- Não - disse LaVerne, mas a mão nas virilhas dele começou a mover-se mais depressa.
- Posso ver a coisa - disse Randy. As batidas de seu coração aumentavam de velocidade novamente, impedindo o sangue com mais rapidez para a superfície de
sua pele nua e friorenta. - Posso vigiá-la.
LaVerne murmurou alguma coisa e ele sentiu o elástico descendo em seus quadris, até o alto das coxas. Vigiou a coisa. Randy deslizou para cima, depois para
a frente.
Penetrou-a. Calor. Ceús, LaVerne era quente ali, pelo menos. Ela deixou escapar um ruído gutural e seus dedos aferraram as nádegas frias e comprimidas do
companheiro.
Randy continuou vigiando. A coisa não se movia. Vigiou-a. Vigiou-a atentamente. As sensações táteis eram incríveis, fantásticas. Sua experiência não era grande,
mas tampouco permanecera virgem. Havia feito amor com três garotas, mas nunca havia sido assim. Ela gemeu e começou a erguer os quadris. A balsa balançava docemente,
como o mais duro colchão d'água do mundo. Por baixo dela, as barricas murmuravam ocamente.
Randy vigiava a coisa. As cores começaram a girar - lentamente agora, sensualmente, não ameaçadoras; ele ficou espiando e viu as cores. Tinha os olhos arregalados.
As cores estavam em suas pupilas. Não sentia mais frio agora; sentia calor, o calor que sentimos no primeiro dia de volta à praia, em princípios de junho, quando
o sol nos espeta a pele branquicenta do inverno, avermelhando-a, dando-lhe alguma (cores) cor, alguma tonalidade. O primeiro dia na praia, primeiro dia de verão,
sugerindo antigas canções dos Beach Boys, sugerindo os Ramones. Os Ramones lhe diziam que Sheena é uma roqueira punk, os Ramones lhe diziam que você pode pegar carona
até a praia Rockaway, para a areia, a praia, as cores (movendo-se, a coisa começa a mover-se) e a sensação do verão, sua contextura; Gary U.S. Bonds, o período letivo
encerrou-se e eu posso torcer pelos Yankees das arquibancadas, garotas de biquíni na praia, a praia, a praia, oh, a gente ama, a gente ama (ama) a praia, a gente
ama (amo, eu amo seios firmes e fragrantes de óleo Coppertone, e se o fundilho do biquíni fosse diminuto o bastante, era possível ver-se alguns (cabelos, seus cabelos,
SEUS CABELOS ESTÃO NA OH, CÉUS, NA ÁGUA, SEUS CABELOS)
Ele recuou subitamente, tentando levantá-la, mas a coisa se movera com oleosa velocidade, enredando-se nos cabelos de LaVerne como uma espessa teia de cola
negra.
Quando Randy a ergueu, ela já estava gritando e estava pesada com a coisa; a coisa que saiu da água, em uma membrana contorcida e horripilante, que se enrolava
em vívidas cores nucleares - escarlate, vermelhão, esmeralda cintilante, ocre opaco.
A membrana fluiu para o rosto de LaVerne, cobrindo-o como uma maré, obliterando-o.
Ela sacudia os pés, tamborilando a madeira do piso. A coisa se torcia e movia onde estivera o rosto de LaVerne. O sangue lhe escorreu pelo pescoço em borbotões,
gritando, sem se ouvir gritar, Randy correu para ela, firmou o pé em sua anca e empurrou. Ela saiu rolando e caiu pela borda da balsa, as pernas como alabastro ao
luar.
Por alguns momentos intermináveis, a água agitou-se e bateu contra a lateral da balsa, como se alguém houvesse fisgado ali um peixe gigantesco, que se debatia
como o diabo.
Randy gritou. Continuou gritando. E então, para variar, gritou ainda mais.
Uma meia hora mais tarde, muito depois de terminada a frenética agitação na água, os mergulhões-do-norte gritaram em resposta.
Aquela noite foi eterna.
O céu começou a clarear no leste, quando faltava um quarto para as cinco. Randy sentiu-se um pouco mais animado. Foi uma animação momentânea apenas; era tão
falsa como o amanhecer. Ficou em pé sobre as tábuas, de olhos semicerrados, o queixo fincado no peito. Estivera sentado nas tábuas até uma hora atrás, tendo despertado
subitamente - até então sem mesmo saber que adormecera, a esta era a parte aterradora - por causa daquele indivisível som sibilante de lona. Saltou em pé, apenas
segundos antes de aquele negrume começar a sugar com ânsia por ele, nas fendas entre as tábuas.
Sua respiração sibilava, entrando e saindo; ele mordeu o lábio, fazendo-o sangrar.
Dormindo, você esteve dormindo, seu imbecil!
A coisa tornara a deslizar debaixo da balsa meia hora mais tarde, porém ele não tornou a sentar-se. Receava sentar-se, temia dormir novamente e sabia que,
desta vez, sua mente não o faria acordar em tempo.
Seus pés continuavam firmemente plantados nas tábuas, quando uma claridade mais forte, o verdadeiro amanhecer, encheu o leste, e os primeiros pássaros matinais
começaram a cantar. O sol nasceu e, por volta de seis horas, o dia estava claro o suficiente para permitir-lhe ver a praia. O Camaro de Deke, amarelo-vivo, estava
bem lá onde seu dono o estacionara, encostado à estaca de cerca. Uma vívida fileira de camisas e suéteres, além de quatro jeans, se torcia em pequenas formas, até
a praia. Aquela visão o encheu de renovado horror, quando pensava que sua capacidade para o horror já se exaurira. Podia avistar o seu jeans, uma perna virada pelo
avesso, o forro do bolso aparecendo. Seu jeans parecia a salvo, tão a salvo, jazendo lá na areia; apenas esperando que ele chegasse e virasse a perna da calça pelo
direito, agarrando o bolso enquanto fazia isso, para que as moedas não caíssem. Quase podia ouvi-las sussurando contra sua perna, enquanto vestia as calças, podia
sentir-se abotoando o botão de latão acima da braguilha... (você amou, sim, ele amou)
Olhou para a esquerda e lá estava ela, negra, redonda como uma ficha de jogo, flutuando levemente. As cores começaram a girar através de sua superfície e
ele virou rapidamente o rosto.
- Vá embora - grasnou. - Vá embora ou vá para a Califórnia e faça um teste para um filme de Roger Corman!
Um avião roncou em algum lugar distante e ele mergulhou em sonolenta fantasia: Fomos dados como desaparecidos, nos quatro. A busca se espalha, a partir de
Horlicks.
Um fazendeiro se lembra de ter visto passar um Camaro amarelo. "como um morcego, fugido do inferno". A busca centraliza-se na área do Lago Cascade. Pilotos
particulares preparam-se para uma rápida checagem aérea, e um sujeito, - dirigindo acima do lago seu Tirin Bonanza, avista um rapazola na balsa, tem um rapaz, olá,
um sobrevivente, um...
Randy surpreendeu-se junto à borda novamente, quase caindo, e tornou a esmurrar o nariz, gritando com a dor.
A coisa negra partiu como flecha para a balsa, imediatamente, apertando-se debaixo dela - talvez pudesse ouvir, sentir... ou qualquer coisa.
Randy esperou.
Desta vez, passaram-se quarenta e cinco minutos, antes da coisa surgir à vista.
A mente de Randy orbitava lentamente à claridade que ia aumentando. (você ama) sim, eu adoro torcer pelos Yankees e pelos Catfìsh, (você gosta dos Catfìsh),
sim, eu gosto de... Rota 66, lembra-se do Corvette de George Maharis, Marfim Milner no Corvette, (você gosta de Corvette), sim, eu gosto do Corvette, (ele ama, você
ama), o sol está tão quente, é como um vidro queimando, estava nos cabelos dela, é a luz que mais recordo, a luz do verão, luz (a luz do verão, ao entardecer).
Randy estava chorando.
Ele chorava, porque agora havia sido acrescentado algo novo... A cada vez que tentava sentar-se, a coisa deslizava para baixo da balsa. Portanto, ela não
era totalmente estúpida; pressentia ou imaginava que podia agarrá-lo, enquanto estava sentado.
- Vá embora! - soluçou ele, dirigindo-se à grande verruga negra que flutuava na água. A cinqüenta metros de distância, zombeteiramente próximo, um esquilo
saltitava de um lado para outro, no capô do Camaro de Deke. - Vá embora, por favor, vá para qualquer lugar, mas me deixe em paz! Não gosto de você! Não a amo!
A coisa não se movia. As cores começaram a girar através de sua superfície visível. (você me ama, você me ama)
Randy desviou os olhos e contemplou a praia, procurou socorro, mas lá não havia ninguém, absolutamente ninguém. Seu jeans continuava lá, uma perna virada
pelo aveso, o forro branco do bolso aparecendo. Suas calças não davam mais a impressão de que seriam recolhidas por alguém. Pareciam relíquias.
Ele pensou: Se eu tivesse uma arma, agora poderia matar-me.
Ficou em pé na balsa.
O sol escondeu-se.
Horas mais tarde, a lua apareceu.
Não muito depois disso, os mergulhões-do-norte começaram a gritar.
Não muito depois disso, Randy se virou e olhou para a coisa negra na água. Não podia matar-se, mas talvez a coisa desse um jeito, sem que houvesse dor alguma;
talvez fosse para isso que havia as cores. (você me ama você me ama você me ama)
Olhou para ela, e lá estava, flutuando, ao sabor das ondas.
- Cante comigo - grasnou Randy. - Posso torcer pelos Yankees das arquibancadas... Não tenho de me preocupar com professores... Estou tão alegre porque as
aulas terminaram... Eu vou... cantar e gritar.
As cores começaram a formar-se e contorcer-se. Desta vez, Randy não desviou os olhos.
- Você ama? - sussurou ele.
Em algum ponto bem distante, através do lago vazio, um mergulhão-do-norte piou.



A EXCURSÃO

"Esta é a última chamada para a Excursão 701" - a agradável voz feminina ecoou através do Blue Concourse no Departamento Terminal Portuário de Nova York.
O DTP não mudara muito nos últimos mais ou menos trezentos anos - continuava maltratado e um tanto amedrontador. A voz feminina automatizada talvez fosse o detalhe
mais agradável no local. - "Todos os passageiros munidos de passagem deverão estar agora no salão-dormitório do Blue Concourse. Verifique se seus papéis de confirmação
estão em ordem. Obrigada."
O salão-dormitório no andar de cima nada tinha de maltratado. Era atapetado de parede a parede em cinza-ostra. As paredes exibiam uma tonalidade branco casca-de-ovo
e dela pendiam agradáveis quadros abstratos. Uma permanente calmante progressão de cores se encontrava e revoluteava no teto. Havia cem divãs no grande recinto,
ordenadamente espaçados em fileiras de dez. Cinco atendentes da Excursão circulavam por ali, falando em voz baixa e animada, enquanto ofereciam copos de leite. A
entrada ficava a um lado da sala, flanqueada por guardas armados e outro atendente da Excursão, que no momento checava os papéis de confirmação de um passageiro
retardatário, um homem de negócios com expressão apoquentada e o World Times de Nova York dobrado debaixo de um braço. Na direção exatamente oposta, o piso descia
em uma espécie de calha, com cerca de metro e meio de largura e talvez uns três de comprimento; essa passagem insinuava-se através de uma abertura sem portas, tendo
uma vaga semelhança com um escorrega para crianças.
A família Oates jazia lado a lado em quatro divãs-Excursão, perto do final da sala. Mark Oates e Marilys, sua esposa, flanqueavam os dois filhos.
- Papai, vai me falar sobre a Excursão agora? - perguntou Ricky. - Você prometeu.
- Isso mesmo, pai, você prometeu - acrescentou Patrícia, com um agudo risinho sufocado, sem motivo algum.
Um homem de negócios com a corpulência de um touro olhou para eles e depois voltou a concentrar-se na pasta de papéis que examinava, enquanto jazia deitado
de costas, os sapatos reluzentes ordenadamente juntos. De algum lugar, chegou o murmúrio surdo de conversas e o rumor de passageiros ajeitando-se nos divãs-Excursão.
Mark olhou para Marilys Oates e piscou. Ela piscou de volta, mas estava quase tão nervosa quanto Patty parecia. Por que não? pensou Mark. Era a Primeira Excursão
para os três. Ele e Marilys haviam discutido as vantagens e inconveniências de uma mudança da família inteira por seis meses - desde que ele fora notificado pela
Texaco Water de que seria transferido para a Cidade de Whitehead. Finalmente, decidiram que iriam todos e permaneceriam em Marte durante os dois anos em que Mark
ficaria lá. Agora, observando a palidez de Marilys, ele se perguntou se ela lamentava a decisão.
Olhou para o relógio e viu que ainda faltava meia hora para a partida da Excursão.
Havia tempo suficiente para contar a história... e imaginou que isso deixaria as crianças menos nervosas. Quem sabe, talvez até acalmasse Marilys um pouco.
- Muito bem - decidiu-se.
Ricky e Pat o encaravam com seriedade. Ricky tinha doze anos e Pat nove. Disse novamente para si mesmo, que Ricky estaria atolado no pântano da puberdade
e sua filha provavelmente teria seios em desenvolvimento, quando retornassem à terra. E de novo, achou difícil de acreditar. As crianças freqüentariam a pequena
Escola Mista de Whitehead, juntamente com os cento e poucos filhos de engenheiros e pessoal da companhia de petróleo que lá estavam; seu filho bem poderia engajar-se
em uma viagem de campanha geológica a Fobos, não muitos meses distante. Era difícil de acreditar... mas verdadeiro.
Querem saber? pensou torcidamente. Talvez isso também me traga certas vantagens.
- Até onde sabemos - começou ele - a Excursão foi inventada há cerca de trezentos e vinte anos atrás, por volta de 1987, por um indivíduo chamado Victor Carune.
Ele fez isso como parte de um projeto privado de pesquisa, financiado por algum dinheiro do governo... e, eventualmente, o governo tomou as rédeas, claro está. Por
fim, a coisa foi passada para o governo e também para as companhias de petróleo. O motivo de ignorarmos a data exata, é porque Carme era um tanto excêntrico...
- Está querendo dizer que ele era maluco, papai? - perguntou Ricky.
- Excêntrico significa só um pouquinho maluco, meu bem - disse Marilys, enquanto sorria para Mark, por cima das crianças.
Ele pensou que sua esposa agora parecia algo menos nervosa.
- Oh!
- De qualquer modo, ele fez experiências com o processo por bastante tempo, antes de informar ao governo o que descobrira - prosseguiu Mark - mas só deu a
informação, porque estava ficando sem dinheiro e eles não pretendiam continuar a financiá-lo.
- Seu dinheiro prontamente devolvido - disse Pat, tornando a dar aquela risadinha aguda.
- Exato, querida - disse Mark e desarrumou-lhe o cabelo delicadamente.
No extremo oposto do recinto, ele viu uma porta deslizar silenciosamente dando passagem a mais dois atendentes, trajando os vivos macacões do Serviço Excursão
e empurrando uma mesa rolante. Sobre ela, havia um bocal de aço inoxidável preso a uma mangueira de borracha; debaixo da mesa, esteticamente escondidas, Mark sabia
que havia duas garrafas de gás; na sacola de malhas presa ao lado, estavam cem máscaras descartáveis. Mark continuou falando, não querendo que os seus vissem os
representantes do Letes antes do momento oportuno.
E, se conseguisse tempo para relatar toda a história. eles acolheriam de braços abertos os aplicadores do gás.
A alternativa também devia ser considerada.
- Naturalmente, vocês sabem que a Excursão é teletransporte, nem mais e nem menos - disse ele. - Por vezes, na Química e Física das universidades, dão-lhe
o nome de Processo Carune, mas em realidade é teletransporte, tendo sido o próprio Carune a acreditar-se no que dizem - que o denominou "a Excursão". Ele apreciava
a Ficção científica e há uma história, escrita por um homem chamado Alfred Bester e intitulada As estrelas são o nosso destino, na qual o autor emprega a palavra
"excursão" como teletransporte. Só que, no livro, pode-se fazer a Excursão apenas pensando nela, o que evidentemente não podemos.
Os atendentes agora fixavam a máscara ao bocal de aço e a estendiam a uma mulher idosa, no extremo oposto do recinto. Ela a tomou, inalou uma vez e caiu em
seu divã, imóvel e flácida. Sua saia subiu um pouco, revelando uma coxa bamba, semelhante a um mapa rodoviário de veias varicosas. Um atendente gentilmente ajeitou
a saia para ela, enquanto o outro se desfazia da máscara usada e afixava uma nova. Era um processo que fazia Mark pensar nos copos plásticos dos quartos de motel.
Desejava ardentemente que Pat se acalmasse um pouquinho: vira crianças que precisavam ser subjugadas em seus divãs e que, por vezes, gritavam enquanto a máscara
de borracha lhes cobria o rosto. Não era uma reação anormal em uma criança, pensou ele, porém era uma visão desagradável e não queria que acontecesse a Patty. No
tocante a Ricky, sentia-se mais confiante.
- Creio que se poderia dizer que a Excursão surgiu no exatíssimo momento - recomeçou. Falava para Ricky, mas estendeu o braço e segurou a mão da filha. Os
dedos de Pat se fecharam sobre os dele, com imediata e amedrontada pressão. A palma dela estava fria, suando ligeiramente. - O mundo vinha ficando sem petróleo e
a maioria do que sobrara pertencia aos povos dos desertos do Oriente Médio, que o usavam como arma política. Eles tinham formado um cartel petrolífero a que denominaram
OPEP...
- O que é um cartel, papai? - perguntou Patty.
- Bem, é um monopólio - respondeu Mark.
- Como um clube, meu bem - disse Marilys. - E a pessoa só podia entrar nesse clube se tivesse quantidades de petróleo.
- Oh!
- Não tenho tempo para explicar toda a confusão - disse Mark. - Vocês vão estudar alguma coisa disso na escola, mas foi uma confusão - e deixemos como está.
Se você tinha um carro, só podia dirigi-lo dois dias por semana, além do que, a gasolina custava quinze pratas antigas o galão...
- Puxa! - exclamou Ricky. - Ela hoje só custa quatro centavos o galão, não é, pai?
Mark sorriu.
- Aí está o motivo de estarmos indo para onde vamos. Ricky. Em Marte há petróleo bastante para durar quase oito mil anos, enquanto que em Vênus há para outros
vinte mil... Enfim, o petróleo não é mais tão importante. Agora, aquilo de que mais precisamos é...
- Água! - gritou Patty.
O homem de negócios ergueu os olhos de sua papelada e sorriu para ela por um instante.
- Exato - disse Mark. - Porque nos anos entre 1960 e 2030, envenenamos a maioria da água que possuíamos. A primeira extração de água das calotas de gelo marcianas
foi chamada...
- Operação Canudinho - disse Ricky.
- Certo. Em 2045, mais ou menos. Contudo, muito antes disso, a Excursão estava sendo usada para encontrar fontes de água potável aqui na terra. Agora, a água
é nossa principal exportação marciana... ficando o petróleo estritamente em posição secundária. Contudo, era importante naquela época.
As crianças assentiram.
- A questão é que essas coisas sempre estiveram lá, mas só conseguíamos obtê-las por causa da Excursão. Quando Carune inventou este processo, o mundo descambava
para uma nova idade média. No inverno anterior, mais de dez mil pessoas morreram congeladas nos Estados Unidos apenas, já que não havia energia suficiente para aquecê-las.
- Oh, puxa! - exclamou Patty, em tom prosaico.
Mark olhou para a direita e viu os atendentes falando com um homem de ar tímido, tentando convencê-lo. Por fim, ele aceitou a máscara e pareceu cair morto
em seu divã, segundos mais tarde. Marinheiro de primeira viagem, pensou Mart. A gente percebe logo.
- Para Carune, a coisa começou com um lápis... algumas chaves... um relógio de pulso... e então, alguns ratinhos. Os ratinhos lhe mostraram que havia um problema...
Victor Carune voltou a seu laboratório em uma vertiginosa febre de excitamento.
Pensou que agora sabia como Morse, Alexander Graham Bell e Edison se haviam sentido... só que isto era maior do que todos eles e, por duas vezes, quase acabou
com a caminhonete, ao retornar da loja de animais de estimação em New Paltz, onde gastara seus últimos vinte dólares na compra de nove ratinhos brancos. O que lhe
restava no mundo eram os noventa e três centavos no bolso direito do paletó e os dezoito dólares em sua conta de poupança... mas isto não lhe ocorreu. E, se ocorresse,
certamente não o preocuparia.
O laboratório ficava em um celeiro restaurado, no final de uma estrada de terra batida com um quilômetro de comprimento, partindo da Rota 26. Foi ao manobrar
para a estradinha, que quase espatifou sua caminhonete Brat pela segunda vez. O tanque de gasolina estava quase vazio e não haveria mais combustível para dez dias
e duas semanas, porém isto tampouco o preocupava. Sua mente estava em delicioso torvelinho.
O que acontecera não era totalmente inesperado. Não. Um dos motivos que levaria o governo a ajudá-lo com a mísera subvenção de vinte mil dólares anuais, era
porque a possibilidade irrealizada sempre estivera presente no campo de transmissão de partículas.
No entanto, ter de acontecer assim... de repente... sem nenhum aviso... e movido, por menos eletricidade do que a necessária ao funcionamento de uma TV colorida...
Deus! Cristo!
O Brat estacou com uma guinchada de freios à entrada de terra nos fundos do celeiro, Carune agarrou a caixa sobre o assento sujo ao seu lado, aferrando-a
pelas alças (na caixa havia cães, gatos, hamsters e peixinhos dourados, mais a inscrição EU VIM DA CASA DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO STACKPOLE'S) e correu para as grandes
portas duplas. Do interior da caixa brotavam rumores das corridinhas e movimentos de suas cobaias.
Ele tentou empurrar uma das enormes portas em seus trilhos corrediços, mas quando ela não se moveu, recordou que a trancara. "Merda!" exclamou Carune em voz
alta, enquanto procurava as chaves no bolso. O governo exigira que o laboratório ficasse sempre trancado - era uma das condições sob as quais soltava seu dinheiro
- mas Carune vivia esquecendo.
Encontrou as chaves e, por um momento, ficou apenas olhando para elas, hipnotizado, passando a polpa do polegar sobre as chanfraduras na chave de ignição
da Brat. Tornou a pensar: Deus! Cristo! Depois, seus dedos percorreram as chaves no molho, até encontrarem a Yale que abria a porta do celeiro.
Assim como o primeiro telefone havia sido usado inadvertidamente - Bell gritando nele, "Watson, venha cá!" ao derramar algum ácido em seus papéis e em si
mesmo - também o primeiro ato de teletransporte ocorrera por acidente. Victor Carune teletransportara os dois primeiros dedos de sua mão esquerda através dos cinqüenta
metros de largura do celeiro.
Carune havia instalado dois portais nos lados opostos do celeiro. Em seu final, havia uma arma elementar de íons, do tipo encontrado em qualquer loja de artigos
eletrônicos, por menos de quinhentos dólares. Na outra extremidade, bem após o portal mais distante - ambos retangulares e do tamanho de um livro de bolso - havia
uma câmara fosca. Entre os dois portais ficava o que parecia uma cortina de chuveiro opaca, exceto que cortinas de chuveiro não são feitas de chumbo. A idéia era
disparar os íons através do Portal Um, contorná-lo e vê-los passando através da câmara fosca logo após o Portal Dois, com a cortina blindada entre os dois, para
provar que os íons tinham sido realmente transmitidos. Só que, nos dois últimos anos, o processo funcionara apenas duas vezes - e Carune não tinha a menor idéia
de por que isso ocorrera.
Enquanto ajustava a pistola de íons, seus dedos haviam deslizado através do portal - em geral não havia qualquer problema, mas nessa manhã, seu quadril também
roçara na cavilha interruptora, sobre o painel de controle à esquerda do portal. Carune não percebeu o que tinha acontecido - o mecanismo deixou escapar apenas o
menos audível zumbido - até ele sentir um formigamento nos dedos.
"Não foi como um choque elétrico", escreveu em seu primeiro e último artigo a respeito, antes que o governo lhe fechasse a boca. O artigo foi publicado em
Mecânica Popular, entre várias outras publicações. Carune o vendeu por setecentos e cinqüenta dólares, em um desesperado esforço para manter a Excursão um assunto
de empreendimento privado. "Não aconteceu aquele desagradável formigamento de quando pegamos em um fio elétrico desencapado, por exemplo. Foi mais como a sensação
de colocar-se a mão no corpo de uma pequena máquina que funcionasse a todo vapor. A vibração é tão rápida e leve que, literalmente, dá essa sensação de formigamento.
"Olhei então para o portal, e vi que meu indicador sumira, cortado diagonalmente através da falange média. O segundo dedo desapareceu pouco acima disso. Em
adição, a parte em que fica a unha do terceiro dedo havia sumido."
Carune puxara a mão instintivamente, gritando. Escreveu mais tarde, ser tamanha a sua certeza de que o sangue jorraria, que chegou a vê-lo, em alucinação.
Por um ou dois momentos. Seu cotovelo bateu na pistola de íons e a derrubou da mesa.
Ficou parado com os dedos na boca, verificando que continuavam ali, e inteiros. O pensamento de que andara trabalhando demais lhe passou pela cabeça. Pensou
também outra coisa: o último conjunto de alterações podia ter... podia ter provocado algo.
Não recolocou os dedos de volta. Aliás, em toda a sua vida. Carune só Excurcionou uma vez mais.
A princípio, ele nada fez. Deu uma longa e errante caminhada em volta do celeiro, passando as mãos pelos cabelos e perguntando-se se deveria ligar para Carson,
em Nova Jersey, ou talvez para Buffington, em Charlotte. Carson não aceitaria um interurbano a cobrar, aquele sovina nojento, mas Buffington provavelmente aceitaria.
Então, teve uma idéia súbita e correu até o Portal Dois, pensando que, se seus dedos realmente haviam cruzado o celeiro, poderia haver algum sinal disso.
Não havia sinal algum, claro. O Portal Dois ficava no alto de três caixotes de laranjas Pomona empilhados, assemelhando-se a um daqueles brinquedos de guilhotina,
sem a lâmina. Em um lado de sua moldura de aço inoxidável ficava uma tomada, com um cordel que ia até o terminal de transmissão, este pouco mais do que um transformador
de partículas, ligado a uma linha de alimentação de computador.
Isto lhe recordava...
Carune olhou para seu relógio e viu que passavam quinze minutos das onze. Seu envolvimento com o governo consistia de dinheiro curto, mais tempo de computador,
o qual era infinitamente valioso. Sua ligação com o computador durava até três horas daquela tarde e depois seria adeus, até a segunda-feira. Precisava mover-se,
tinha que fazer alguma coisa...
"Tornei a olhar para a pilha de caixotes", escreveu ele, em seu artigo para Mecânica Popular, "e então olhei para as polpas de meus dedos. Claro, a prova
estava ali.
Contudo, pensei então, aquilo não convenceria ninguém, além de mim mesmo. No começo, entretanto, é apenas a nós próprios que temos de convencer.
- Qual era o problema. Pai? - perguntou Ricky.
- Sim, papai, qual era? - acrescentou Patty.
Mark sorriu de leve. Estavam todos atentos agora, inclusive Marilys. Quase haviam esquecido onde estavam. Pelo canto do olho, ele podia ver os atendentes
da Excursão empurrando silenciosa e lentamente seu carrinho por entre os Excursionistas, colocando-os para dormir. O processo nunca era tão rápido no setor civil
como era no militar, ele havia descoberto: os civis ficavam nervosos e queriam discutir o assunto. O bocal e a máscara de borracha recordavam demais as salas de
cirurgia dos hospitais, onde o cirurgião, com suas facas, espreitava de algum ponto atrás da anestesista, esta com sua seleção de gases em recipientes de aço inoxidável.
Por vezes havia pânico, histeria, sempre existindo alguns que simplesmente tinham acessos de nervos. Mark observou dois destes, enquanto falava com os filhos: dois
homens se haviam limitado a abandonar seus divãs, caminharam até a entrada, sem o menor alvoroço, soltaram os papéis de confirmação espetados em suas lapelas. devolveram-nos
e saíram, sem olhar para trás. Os atendentes da Excursão recebiam instruções estritas para evitar discussões com aqueles que iam embora. Sempre havia gente na fila
de espera, às vezes quarenta ou cinqüenta pessoas, esperando contra a esperança. Quando iam embora aqueles que não podiam suportar a situação, permitia-se que entrassem
as pessoas da fila, com suas próprias confirmações espetadas nas camisas.
- Carune encontrou duas lascas em seu dedo indicador - disse ele aos filhos. - Tirou-as e as deixou de lado. Uma se perdeu. mas a outra pode ainda ser vista
no Anexo Smithsoniano, em Washington. Foi colocada em uma caixa de vidro hermeticamente lacrada, perto das rochas lunares que os primeiros viajantes espaciais trouxeram
da lua...
- A nossa lua ou uma de Marte, papai? - perguntou Ricky.
- A nossa - respondeu Mark, sorrindo de leve. - Foi lançado a Marte apenas um foguete tripulado por homens, Ricky. Tratava-se de uma expedição francesa, por
volta de 2030.
De qualquer modo, eis por que um mero e velho pedacinho de madeira, vindo de um caixote de laranjas, está no Instituto Smithsoniano. Foi o primeiro objeto
em nosso poder que realmente atravessou o processo do teletransporte - Excursionou - através do espaço.
- O que aconteceu depois? - perguntou Patty.
- Bem, segundo a história, Carune correu...
Carune correu para o Portal Um e ficou lá um instante, o coração em disparada, sem fôlego. Preciso ficar calmo, disse para si mesmo. Tenho que refletir no
que houve. Se ficar nervoso, não posso ampliar meu tempo.
Ignorando deliberadamente a premência de seu cérebro, que lhe gritava para apressar-se e fazer alguma coisa, ele pegou o cortador de unhas no bolso e usou
a ponta da lixa para arrancar a lasca do dedo indicador. Deixou-o cair no papel branco da embalagem interna de uma barra de chocolate que havia comido, enquanto
lidava com o transformador e tentava aumentar sua capacidade aferente (aparentemente, teve êxito nisso, além de seus sonhos mais impetuosos). Uma lasca rolou do
papel e ficou perdida, mas a outra terminou no Instituto Smithsoniano, trancada em uma caixa de vidro, distanciada do público por uma barreira de grossas cordas
de veludo e observada, vigilante e eternamente, por uma câmara de TV em circuito fechado, monitorizada por computador.
Terminada a extração da lasca, ele ficou um pouco mais calmo. Um lápis. Era tão bom quanto qualquer outra coisa. Pegou um, ao lado do quadro de avisos sobre
a prateleira acima dele e o passou delicadamente pelo Portal Um. O lápis desapareceu limpamente, centímetro por centímetro, como algo em uma ilusão de óptica ou
em um truque de excelente mágico. Havia a inscrição EBERHARD FABER N.° 2 em um de seus lados, letras negras estampadas em madeira pintada de amarelo. Quando empurrou
o lápis até tudo - exceto EBERH - haver desaparecido, ele deu a volta para o outro lado do Portal Um. Espiou.
Viu o lápis como que amputado, como se perfeitamente cortado por uma faca. Tateou o lugar onde deveria estar o resto do lápis e, naturalmente, nada havia.
Correu através do celeiro até o Portal Dois, e lá estava a parte que faltava, jazendo sobre o caixote superior. Com o coração batendo tão forte que parecia sacudir
todo o seu peito, Carune agarrou o lápis pelo lado da ponta afiada e o puxou pelo restante da travessia.
Ergueu-o no ar, olhou para ele. De repente, apanhou-o e escreveu FUNCIONA! em um pedaço de tábua do celeiro. Escreveu com tanta força, que a ponta do lápis
se quebrou na última letra. Carune começou a rir estridentemente no celeiro vazio; ria tão alto, que espantou as andorinhas adormecidas e elas começaram a voar por
entre os altos caibros do teto.
- Funciona! - bradou, e correu de volta ao Portal Um. Agitava os braços, com o lápis quebrado preso no punho fechado. - Funciona! Funciona! Está me ouvindo,
Carson, seu filho da puta? Funciona E EU CONSEGUI!
- Cuidado com o que diz às crianças, Mark - censurou Marilys.
Mark deu de ombros.
- Supõe-se que foi o que ele disse.
- Bem, não poderia ser mais seletivo ao repetir?
- Um urso faz cocô na floresta? - disse Mark, logo em seguida tapando a boca com a mão.
As duas crianças riram freneticamente e Mark ficou satisfeito ao notar que aquele tom agudo desaparecera da voz de Patty. Após um momento tentando ficar séria,
Marilys começou a rir também.
Em seguida, foram as chaves; Carune simplesmente as jogou através do portal. Estava começando a pensar com coerência de novo e pareceu-lhe que a primeira
coisa a descobrir, seria se o processo produzia coisas na outra extremidade, exatamente como haviam sido antes ou se, de algum modo, elas sofriam alterações na viagem.
Viu as chaves irem e desaparecerem; exatamente no mesmo instante, ouviu-as tilintando no caixote do outro lado do celeiro. Correu até lá - agora, em realidade
ia trotando - e, de passagem, fez uma pausa para jogar a cortina de chumbo de volta a seus trilhos.
Agora não precisava dela nem da pistola de íons. Dava no mesmo, porque a pistola de íons ficara irremediavelmente destroçada.
Apanhou as chaves, foi à fechadura que o governo o forçara a colocar na porta e experimentou a chave Yale. Funcionou perfeitamente. Experimentou a chave da
casa.
Também funcionou. O mesmo aconteceu com as chaves de seu fichário e a que dava partida à caminhonete Brat.
Carune botou as chaves no bolso e tirou seu relógio. Era um Seiko LC de quartzo, com uma calculadora embutida abaixo do mostrador digital - vinte e quatro
diminutos botões que lhe permitiam tudo, de adição a subtração, passando pela raiz quadrada. Uma delicada peça de mecanismo - e, com a mesma importância, também
um cronômetro.
Carune colocou o relógio diante do Portal Um e o empurrou com um lápis.
Correu através do celeiro e o apanhou. Antes de empurrar o relógio pela passagem, ele marcava 11:31:07. Agora, marcava 11:31:49. Muito bom. Direto ao dinheiro,
mas ele devia ter ali um assistente para confiar o fato de que não houvera nenhum tempo ganho, em absoluto. Bem, não importava. Logo o governo o cercaria de assistentes.
Experimentou a calculadora. Dois e dois continuavam sendo quatro, oito dividido por quatro ainda dava dois, a raiz quadrada de onze, como sempre, resultava
ser 3,3166247... e por aí adiante.
Foi quando ele decidiu que chegara a vez dos ratinhos.
- O que aconteceu com os ratinhos, papai? - perguntou Ricky.
Mark vacilou ligeiramente. Aqui, precisaria tomar certa cautela, se não quisesse amendrontar seus filhos (para não falar na esposa) tornando-os histéricos,
minutos antes de sua primeira Excursão. A questão principal era deixá-los com a certeza de que tudo agora estava bem, que o problema havia sido resolvido.
- Como falei, houve um pequeno problema...
Sim. Horror, loucura e morte. Que tal isso como pequeno problema garotos?
Carune tirou da prateleira a caixa com a inscrição EU VIM DA CASA DE ANIMAIS DE ESTIMAÇÃO STACKPOLE'S e olhou para seu relógio. Droga, havia colocado o mostrador
ao contrário. Virou-o para a posição correta e viu que passavam quinze minutos das duas. Dispunha ainda de uma hora e quinze minutos para o computador.
Como o tempo vôa quando a gente se diverte, pensou, e riu desatinadamente.
Abriu a caixa, esticou o braço e pegou um chiante ratinho branco pela cauda. Colocou-o diante do Pontal Um e disse, "Vá, ratinho." O ratinho correu prontamente
para um lado do caixote de laranjas sobre o qual se situava o portal e disparou em desabalada corrida pelo chão.
Praguejando, Carune o caçou e chegou realmente a pegá-lo, antes que ele se espremesse por uma fenda entre duas tábuas e desaparecesse.
- MERDA! - gritou, tornando a correr para a caixa dos ratos.
Chegou em tempo de jogar para dentro dela dois fugitivos em potencial. Pegou um segundo rato, agora segurando-o pelo corpo (era um físico de profissão, ignorando
as maneiras de lidar com ratos) e bateu a tampa da caixa, trancando-a.
Com este, Carune não facilitou. O rato agarrou-se à sua palma, de pouco adiantando; terminou caminhando com suas próprias patinhas e atravessou o Portal Um.
Carune o ouviu aterrar imediatamente sobre os caixotes no lado oposto do celeiro.
Desta vez ele correu velozmente, recordando com que facilidade o primeiro rato lhe fugira. Não precisava ter-se preocupado. O rato branco apenas se agachava
no caixote, os olhos opacos, os lados do corpo aspirando fracamente. Carune diminuiu a corrida, aproximando-se com cautela. Não era um homem acostumado a manipular
ratos, porém não precisa ser um veterano de quarenta e um anos, para ver que ali havia algo terrivelmente errado.
("O rato não se sentia muito bem após a travessia, disse Mark Dates aos filhos, com um amplo sorriso, que somente sua esposa percebeu ser falso.)
Carune tocou o rato. Era como tocar algo inerte - talvez um molho de palha ou serragem ensacada - exceto pelas laterais - aspirando. O rato não olhou para
ele; seus olhos estavam fixos diretamente à frente. Carune empurrara um animalzinho vivo, esperto e guinchante pelo Portal Um; ali havia o que parecia um simulacro
de rato.
Então, estalou os dedos diante dos pequenos olhos rosados do rato. Ele piscou... e caiu morto, deitado de banda.
- Então, Carune decidiu experimentar com outro rato - disse Mark.
- O que aconteceu ao primeiro? - perguntou Ricky.
Mark exibiu novamente aquele vasto sorriso.
- Foi aposentado com todas as honras - respondeu.
Carune encontrou um saco de papel e dentro dele colocou o rato. Pretendia levá-lo para Mosconi, o veterinário, ainda aquela noite. Mosconi o dissecaria e
lhe diria se os órgãos do bichinho tinham ficado avariados. O governo desaprovaria a intromissão de um cidadão privado em um projeto que seria classificado como
tríplice altamente secreto, assim que eles fossem informados do sucedido. Tetas robustas, presumia-se que a gata dissera aos gatinhos que se queixavam da quentura
do leite. Carune decidira que o Grande Pai Branco em Washington só seria informado da brincadeira o mais tarde possível. Eles bem podiam esperar, por conta da insignificante
ajuda que o Grande Pai Branco lhe dera. Tetas robustas.
Então, recordou que Mosconi morava onde o diabo perdeu as botas, do outro lado de New Paltz. Não havia gasolina suficiente no Brat para cruzar metade da cidade...
quanto mais para a volta.
Contudo, já eram 2:03 - sobrava-lhe menos de uma hora para o computador. Decidiu preocupar-se mais tarde com a maldita dissecação.
Carune construiu uma rampa improvisada, levando à entrada do Portal Um (em realidade, o primeiro Escorrega-Excursão, disse Mark as crianças, e Patty achou
deliciosamente divertida a idéia de um Escorrega-Excursão para ratos) e deixou cair nele um novo rato branco. Bloqueou a extremidade final com um livro grande e,
após alguns momentos de farejar e sondar sem destino, o rato cruzou o portal e desapareceu.
Carune correu para o outro lado do celeiro.
O rato estava morto.
Não havia sangramento, nenhuma inchação no corpo indicando que uma mudança radical de pressão promovera a ruptura de algo interno. Carune supôs que a carência
de oxigênio poderia...
Meneou a cabe, impaciente. O rato branco levara apenas escassos segundos na travessia; seu próprio relógio informara que o tempo permanecia uma constante
no processo ou quase isso.
O segundo rato branco se juntou ao primeiro, no saco de papel. Carune apanhou um terceiro (um quarto, se contarmos o felizardo que escapara pela fenda entre
as tábuas), perguntando-se pela primeira vez o que acabaria antes - seu tempo de computador ou seu suprimento de ratos.
Este, ele segurou firmemente em torno do corpo, forçando suas ancas através do portal.
No outro lado do celeiro, viu as ancas reaparecerem... apenas as ancas. As patinhas desincorporadas arranhavam freneticamente a madeira rústica do caixote.
Carune puxou o rato de volta. Nada de catatonia agora; o rato mordeu a pele de ligação entre seu polegar e o indicador, com força bastante para tirar sangue.
Rápido, deixou o rato na caixa EU VIM DA CASA DE ANIMAIS DE ESTIMAÇAO STACKPOLE'S e usou o vidrinho de água oxigenada em seu estojo de pronto-socorro do laboratório,
a fim de desinfetar a mordida.
Colocou um Band-Aid sobre ela, depois vasculhou o local até encontrar um par de grossas luvas de trabalho. Podia sentir o tempo esgotar-se, esgotar-se, esgotar-se.
Agora eram 2:11 da tarde.
Pegou outro rato e o empurrou de costas pela passagem - todo ele. Correu para o Portal Dois. Este rato viveu por quase dois minutos, chegando mesmo a caminhar
um pouco.
Depois cambaleou sobre o caixote de laranjas Pomona, caiu de banda, esforçou-se fracamente para ficar sobre os pés e terminou caindo agachado. Carune estalou
os dedos perto da cabeça do animalzinho e ele conseguiu dar uns quatro passos, antes de tornar a cair de banda. A aspiração nos lados do corpo diminuiu... diminuiu...
e parou. Ele estava morto.
Carune sentiu um calafrio.
Voltou, pegou outro rato e o empurrou pela metade no portal, a cabeça primeiro. Viu-o reaparecer no outro lado, apenas a cabeça... depois o pescoço e o peito.
Cautelosamente, afrouxou a pressão no corpo do rato, pronto a agarrá-lo, se ficasse arisco. Não ficou.
Apenas permaneceu ali, metade em um lado do celeiro, metade no outro.
Carune correu para o Portal Dois.
O rato estava vivo, porém seus olhos rosados haviam ficado vidrados e apáticos. Os bigodes não se moviam. Dando volta ao portal, Carune teve uma visão espantosa;
como vira o lápis cortado ao meio, assim via o rato. Via as vértebras de sua pequenina espinha terminarem abruptamente em redondos círculos brancos; viu seu sangue
se movendo nos vasos; viu o tecido se movendo suavemente com a maré da vida, em torno de seu minúsculo esôfago. Se aquilo não servisse para nada mais, pensou (e
escreveu mais tarde, em seu artigo para Mecânica Popular), pelo menos seria uma formidável ferramenta para diagnósticos.
Então, percebeu que o movimento de maré nos tecidos havia cessado. O rato tinha morrido.
Carune empurrou o rato pelo focinho, não gostando da sensação daquilo, e o deixou cair no saco de papel, com os companheiros. Chega de ratos brancos, decidiu.
Os ratos morrem. Morrem quando fazem a travessia de corpo inteiro, e morrem quando só fazem metade da travessia, com a cabeça primeiro. Fazendo metade da travessia,
com as ancas primeiro, eles permanecem espertos.
Diabo, o que há aqui?
Imput sensorial, pensou, quase ao acaso. Quando atravessam, eles vêem alguma coisa... ouvem alguma coisa... tocam alguma coisa... Céus, talvez até cheirem
alguma coisa... que literalmente os mata. O que será?
Ele não fazia a menor idéia - mas pretendia descobrir.
Ainda dispunha de quarenta minutos, antes que COMLINK lhe fechasse a fonte de dados básicos. Desatarrachou o termômetro da parede ao lado da porta de sua
cozinha, trotou de volta ao celeiro com ele e o colocou através dos portais. O termômetro marcava 83.° F; chegou do outro lado marcando os mesmos 83° F. Carune vasculhou
o aposento sobressalente, onde guardava alguns brinquedos para distrair os netos. Entre eles, encontrou um pacote de bolas de gás. Soprou uma, amarrou-a e a passou
pelo portal. Ela chegou inteira e perfeita - um começo na resposta à sua pergunta sobre uma mudança súbita de pressão, de algum modo causada pelo que já pensava
como o processo Excursional.
Faltando cinco minutos para a hora fatal, ele correu até sua casa e apanhou o aquário com seus peixes dourados (no interior, Percy e Patrick agitavam as caudas
e nadavam inquietos). Correu de volta ao celeiro, e lá passou o aquário através do Portal Um.
Correu até o Portal Dois, onde seu aquário estava sobre o caixote. Patrick flutuava de ventre para cima; Percy nadava indolente, perto do fundo do aquário,
como que estonteado. Um momento depois, também boiava de barriga para cima. Carune estendia o braço para apanhar o aquário, quando Percy teve um leve movimento de
cauda e reiniciou seu lânguido nadar. Lentamente, pareceu eliminar qualquer efeito havido e, quando Carune retornou da Clínica Veterinária de Mosconi, às nove daquela
noite, Percy parecia tão animado como sempre.
Patrick estava morto.
Carune deu a Percy uma ração dupla de alimento para peixes e a Patrick um sepultamento de herói, no jardim.
Depois que o computador ficou fechado para ele por aquele dia, Carune decidiu ir de carona ao encontro de Mosconi. Assim, às quatro e quinze daquela tarde,
estava parado no acostamento da Estrada 26, de calças jeans e um paletó esporte simples, com o polegar à mostra e um saco de papel na outra mão.
Por fim, um rapazola dirigindo um Chevette não muito maior do que uma lata de sardinhas, parou junto dele e Carune entrou.
- O que tem nesse saco, amigo?
- Um punhado de ratos mortos - respondeu Carune.
Eventualmente, outro carro parou. Quando o fazendeiro atrás do volante o interrogou sobre o saco, ele lhe disse que levava dois sanduíches.
Mosconi dissecou um dos ratos imediatamente e concordou em dissecar os outros mais tarde, depois dizendo os resultados por telefone. A conclusão inicial não
foi muito encorajadora; até onde o veterinário podia dizer, o rato que abrira estava perfeitamente saudável, excetuando-se o fato de encontrar-se morto.
Deprimente.
- Victor Carune era excêntrico, mas não um tolo - disse Mark. Os atendentes da Excursão agora estavam bem perto e ele supôs que precisaria apressar-se...
ou terminaria sua história na Sala do Despertar, na Cidade Whitehead. - Tomando carona ao voltar para casa aquela noite - e ele teve que fazer a pé a maioria do
trajeto, segundo diz a história - percebeu que talvez houvesse resolvido um terço da crise de energia, em uma só penada. Todas as mercadorias que tinham sido transportadas
por trem, caminhão, barco e avião até aquele dia, podiam ser Excursionadas. Escrevia-se uma carta para um amigo em Londres, Roma ou Senegal, e ele a receberia logo
no dia seguinte - sem que se precisasse queimar dez gramas de petróleo. Nós aceitamos isso como coisa certa, porém era uma grande coisa para Carune, acreditem. E
para qualquer pessoa também.
- Sim, mas o que aconteceu aos ratos, papai? - perguntou Ricky.
- Foi a pergunta que Carune se fez muitas vezes - disse Mark - porque também percebeu que, se pessoas pudessem usar a Excursão, isso resolveria quase toda
a crise de energia.
Além disso, teríamos capacidade de conquistar o espaço. Em seu artigo na Mecânica Popular, ele declarou que até mesmo as estrelas finalmente poderiam ser
nossas. E a metáfora que Carune usou, foi de cruzar-se um riacho raso sem molhar-se os sapatos.
Apanha-se uma pedra grande, que é atirada ao riacho, depois outra pedra, atirada à frente da primeira, também dentro do riacho. Uma terceira pedra é atirada
à frente da segunda, no riacho, até conseguir-se uma trilha de pedras por todo o trajeto, através do riacho... ou, neste caso, através do sistema solar, talvez mesmo
da galáxia.
- Não estou entendendo bem - disse Patty.
- É porque você tem miolos de galinha - disse Ricky, debochado.
- Não tenho! Papai, Ricky disse...
- Crianças, parem com isso - disse Marilys, com delicadeza.
- Carune previu com acerto o que tem acontecido - disse Mark. - Naves foguete de controle remoto, programadas para pousar, primeiro na lua, depois em Marte,
a seguir em Vênus e nas luas exteriores de Júpiter... em realidade, programadas apenas para efetuarem uma coisa, após o pouso...
- Instalar uma estação-Excursão para astronautas - disse Ricky.
Mark assentiu.
- E, atualmente, há postos científicos avançados por todo o sistema solar. Um dia, muito depois de havermos morrido, é possível, inclusive, que haja outro
planeta para nós.
Temos naves-Excursão a caminho de quatro diferentes sistemas estelares, com seus próprios sistemas solares... porém ainda vão demorar muito, muitíssimo tempo
a chegar lá.
- Quero saber o que aconteceu aos ratinhos - disse Patty, impaciente.
- Bem, eventualmente, o governo interveio na questão - continuou Mark. - Carune reteve as informações o mais que pôde, mas finalmente eles farejaram o ocorrido
e aterraram em cima dele, com os dois pés. Carune passou a chefe nominal do projeto Excursão, até falecer dez anos mais tarde, porém a verdade é que nunca mais ficou
encarregado do mesmo.
- Puxa! - exclamou Ricky. - Coitado dele!
- Pois virou um herói - disse Patrícia. - Está em todos os livros de História, como o Presidente Lincoln e o Presidente Hart.
Tenho certeza de que isso é um grande consolo para ele... onde quer que esteja, pensou Mark, e então prosseguiu, omitindo cuidadosamente as partes mais cruas.
Tendo sido encostado à parede pela crise energética em espiral ascendente, o governo entrou realmente com os dois pés na questão. Eles queriam a Excursão
funcionando em base rentável o mais breve possível, isto é, ontem. Enfrentando o caos econômico e um provável, crescente quadro de anarquia e fome maciça na década
de 90, somente um desesperado patrocínio de causa fez com que protelassem a proclamação da Excursão, antes que fosse concluída uma exaustiva análise espectográfica
dos artigos que haviam Excursionado. Encerradas as análises que não revelaram modificações na estrutura dos artefatos Excursionados - foi anunciada a existência
da Excursão, com aplausos internacionais. Por uma vez demonstrando inteligência (afinal de contas, a necessidade é mãe da invenção), o governo dos E.U.A. colocou
Young e Rubicam incumbidos das relações públicas.
Foi aí que começou o mito fabricado em torno de Victor Carune, um homem idoso e um tanto peculiar, que tomava banho talvez duas vezes na semana e só trocava
de roupas quando se lembrava disso. Young e Rubicam, juntamente com as agências que os seguiam, transformaram Carune em uma mescla de Thomas Edison, Eli Whitney,
Pecos Bill e Flash Gordon. O humor negro em tudo isto (e Mark Oates não transmitiu esta parte à família), era que Victor Carune podia, inclusive, estar morto ou
insano; dizem que a arte imita a vida, e Carune estaria familiarizado com a novela de Robert Heinlein, sobre os sósias de personalidades, aparecendo aos olhos do
público.
Victor Carune era um problema; um importuno problema que não cessava. Ele era um tagarela andarilho, um remanescente dos Ecológicos Anos Sessenta uma época
em que ainda havia suficiente energia flutuando no ambiente, permitindo o luxo de caminhadas.
Por outro lado, aqueles eram os Irritantes Anos Oitenta, com nuvens de carvão tisnando o céu e uma longa faixa do litoral californiano destinada a ficar desabitada
por talvez sessenta anos, devido a um "desvio" nuclear.
Victor Carune permaneceu um problema até cerca de 1991 - e então se tornou uma pessoa não questionante, sorridente, tranqüila, avoenga; uma figura que os
filmes dos noticiários mostravam acenando dos pódios. Em 1993, três anos antes de falecer oficialmente, ele desfilou no carro da paz, na Parada do Torneio de Rosas.
Intrigante. E um tanto sinistro.
Os resultados da proclamação da Excursão - do funcionamento do teletransporte - a 19 de outubro de 1988, foi um golpe de excitamento mundial e revolução econômica.
Nos mercados financeiros mundiais, o surrado e velho dólar americano disparou repentinamente através do teto. Pessoas que haviam comprado ouro a oitocentos e seis
dólares uma onça, viram subitamente que uma libra de ouro (mais ou menos meio quilo) lhes daria algo menos de mil e duzentos dólares. No ano entre a proclamação
da Excursão e as primeiras Estações-Excursão em funcionamento, em Nova York e Los Angeles, o mercado de ações subiu pouco mais de mil pontos. O preço do petróleo
caiu somente setenta centavos por barril, mas por volta de 1994, com Estações-Excursão entrecruzando os E.U.A. nos pontos de pressão em setenta cidades importantes,
a OPEP cessara de existir e o preço do petróleo começou a cair. Em 1998, com Estações na maioria das cidades do mundo livre e com mercadorias Excursionadas rotineiramente
entre Tóquio e Paris, Paris e Londres, Londres e Nova York, Nova York e Berlim, o petróleo caíra para quatorze dólares o barril. Em 2006, quando as pessoas finalmente
começaram a usar a Excursão em uma base regular, o mercado de ações se fixara a cinco mil pontos acima de seus níveis de 1987, o petróleo era vendido a seis dólares
o barril e as companhias petrolíferas tinham começado a mudar de nome. A Texaco se tornou Texaco Petróleo/Água, enquanto a Mobil passou a ser Mobil Hidro-2-Ox.
Em 2045, a prospecção de água se tornou o grande jogo, ao passo que o petróleo recuara para o que havia sido em 1906: um brinquedo.
- E quanto aos ratinhos, papai? - perguntou Patty, impacientemente. - O que aconteceu com os ratinhos?
Mark decidiu que agora talvez fosse viável e chamou a atenção de seus filhos para os atendentes da Excursão, que aplicavam o gás a apenas três corredores
deles. Ricky apenas assentiu, mas Patty pareceu perturbada, quando uma senhora de cabeça raspada e pintada, como ditava a moda, tomou uma tragada da máscara de borracha
e caiu inconsciente.
- Não podemos Excursionar quando acordados, não é, papai? - perguntou Ricky.
Mark assentiu e sorriu tranqüilizadoramente para Patricia.
- Carune percebeu isso, antes mesmo que o governo assumisse a situação - disse ele.
- E como foi que o governo assumiu a situação, Mark? - perguntou Marilys.
Mark sorriu.
- Graças ao tempo do computador - disse. - Os dados básicos. Aquilo era a única coisa que Carune não podia pedir, tomar emprestado ou roubar. O computador
manejava a real transmissão de partículas - bilhões de peças de informação. Ainda é o computador, você sabe, que garante a integridade física da pessoa, isto é,
que ela não ficará com a cabeça em algum ponto no meio do estômago.
Marilys estremeceu.
- Não tenho receio - disse ele. - Nunca houve uma situação semelhante, Mare. Nunca.
- Sempre há uma primeira vez - murmurou ela.
Mark olhou para Ricky.
- Como é que ele soube? - perguntou ao filho. - Como é que Carune descobriu que as pessoas tinham que estar adormecidas, Ricky?
- Quando colocou os ratos de costas - disse Ricky lentamente - eles ficaram bem. Pelo menos, enquanto não os atravessou de todo. Eles ficaram apenas - bem,
confusos - quando Carune os colocou com a cabeça em primeiro lugar. Certo?
- Certo - respondeu Mark. Os atendentes da Excursão se moviam agora, empurrando sua silenciosa mesinha rolante do esquecimento. Não haveria tempo dele contar
tudo; talvez até fosse melhor assim. - Naturalmente, não foram necessárias muitas experiências para esclarecer-se o que acontecia. A Excursão liquidou toda a atividade
dos caminhões de carga, crianças, mas pelo menos afastou a pressão de cima dos pesquisadores...
Sim. Caminhar se tornara um luxo novamente e os testes haviam prosseguido por mais de vinte anos, embora as primeiras experiências de Carune com ratos drogados
o tivessem convencido de que animais inconscientes não estavam sujeitos ao que, depois disso, ficou conhecido para sempre como Efeito Orgânico ou, mais simplesmente,
Efeito Excursão.
Ele e Mosconi tinham drogado vários ratos, que foram passados pelo Portal Um e recuperados no outro lado. Ansiosos, esperaram que suas cobaias acordassem
de novo... ou morressem. Elas haviam acordado e, após um breve período de recuperação, retomaram suas vidas de camundongos - comendo, copulando, brincando e defecando
- sem quaisquer efeitos prejudiciais. Aqueles ratos foram os primeiros, em várias gerações, estudados com grande interesse. Não apresentaram nenhum efeito pernicioso
a longo prazo. Tampouco morreram mais cedo, seus filhotes não nasceram com duas cabeças ou pelagem verde, estes também não apresentando nenhum efeito negativo a
longo termo.
- Quando foi que eles começaram com pessoas, papai? - perguntou Ricky, embora certamente já houvesse aprendido isso na escola. - Conte esta parte!
- Eu quero saber o que aconteceu aos ratinhos! - insistiu Patty.
Embora os atendentes da Excursão agora houvessem atingido o início de seu corredor (eles se achavam quase no foral), Mark Oates fez uma pausa momentânea para
refletir.
Sua filha, menos informada, assim mesmo ouvira com atenção e tinha feito a pergunta certa. Portanto, ele preferiu responder à pergunta do filho.
Os primeiros Excursionistas humanos não haviam sido astronautas nem pilotos de provas, mas prisioneiros voluntários, nem ao menos selecionados com qualquer
interesse particular em sua estabilidade psicológica. De fato, foi opinião dos cientistas, então encarregados (Carune não estava entre eles; transformara-se no que
é comumente chamado um chefe titular), que quanto mais instáveis eles fossem, tanto melhor; se um espástico mental suportava a travessia e a encerrava perfeito -
ou, pelo menos, não pior do que era antes - então o processo provavelmente era seguro para executivos, políticos e modelos de moda do mundo.
Meia dúzia desses voluntários foi levada a Province, em Vermont (um lugar que, desde então, ficou tão famoso quanto havia sido Kitty Hawk, na Carolina do
Norte), onde eles receberam a aplicação do gás e foram passados através dos portais, colocados exatamente a três quilômetros de distância entre si, um por um.
Mark contou isto aos filhos porque, naturalmente, todos os seis voluntários terminaram a prova sentindo-se bem, em excelente estado, obrigado. Ele não lhes
falou no implicado sétimo voluntário. Esta figura, que poderia ter sido real, um mito ou (mais provavelmente) uma combinação dos dois, inclusive tinha nome: Rudy
Foggia.
Supunha-se que Foggia era um assassino confesso, condenado à morte no estado da Flórida, por haver assassinado quatro pessoas idosas, em um jogo de bridge
em Sarasota. De acordo com relatos apócrifos, as forças combinadas da Central Intelligence Agency (CIA) e do Effa Bee Eye (FBI) fizeram a Foggia numa oferta única,
pegar-ou-largar, em-absoluto-não-repetida. Fazer a Excursão plenamente desperto. Se você sair dela em perfeitas condições, receberá o seu perdão, assinado pelo Governador
Thurgood. Deixará a prisão, livre para seguir a única e Verdadeira Cruz ou liquidar mais alguns velhos jogando bridge, em suas calças amarelas e sapatos brancos.
Faça a travessia, saia dela morto ou doido, tetas vigorosas. Como se presume que a gata falou.
O que responde?
Sabendo que a Flórida era um estado que levava a sério a pena de morte e, tendo sabido por seu advogado, que com toda probabilidade ele seria o próximo a
sentar-se na Velha Cadeira, Foggia disse, tudo bem.
No Grande Dia, no verão de 2007, cientistas suficientes para lotar uma banca de jurados (com mais cinco ou seis sobressalentes) achavam-se presentes para
testemunhar o que ocorreria, mas se a história de Foggia era real - e Mark Oates acreditava que provavelmente fosse - ele duvidava que a notícia transpirara de qualquer
dos cientistas.
O mais crível é que se ficara sabendo do sucedido por algum dos guardas que tinham voado com Foggia de Raiford a Montpelier e depois o escoltado de Montpelier
a Province, em um veículo blindado.
- Se eu sair disto vivo - diz-se que Foggia falou - quero jantar um frango, antes de acabar com esta espelunca.
Ele então cruzou o Portal Um, reaparecendo imediatamente no Portal Dois.
Surgiu vivo, mas Rudy Foggia não estava em condições de jantar seu frango. No espaço de tempo em que fez a Excursão através dos três quilômetros (indicado
como 0,000000000067 de segundo, por computador), o cabelo de Foggia ficou branco como neve. Seu rosto não mudara, em qualquer sentido físico - não mostrava rugas,
papada e nem estava debilitado - mas dava a impressão de uma grande, quase incrível idade.
Foggia saiu pelo portal arrastando os pés, os olhos arregalados e opacos, a boca torcendo-se, as mãos estendidas à sua frente. Dentro em pouco, ele começou
a babar. Os cientistas que se tinham reunido em torno dele, recuaram e, não, Mark duvidava que algum deles houvesse comentado o fato. Eles sabiam sobre os ratos,
afinal de contas, sabiam sobre as cobaias e os hamsters; de fato, sobre qualquer animal com cérebro maior do que a minhoca mediana. Deviam ter-se sentido algo semelhantes
àqueles cientistas alemães, que tentaram impregnar mulheres judias com o esperma de pastores alemães.
- O que aconteceu? - bradou um dos cientistas (diz-se que ele bradou).
Foi a única pergunta a que Foggia teve chance de responder.
- Lá é a eternidade - disse ele, e caiu morto, vitimado pelo que foi diagnosticado como um ataque cardíaco maciço.
Os cientistas lá reunidos ficaram com seu cadáver (o qual foi caprichosamente cuidado pela CIA e pelo Effa Bee Eye) e aquela estranha, terrível declaração
agonizante: Lá é a eternidade.
Papai, eu quero saber o que aconteceu com os ratos - repetiu Patty.
O único motivo que lhe permitira fazer novamente a pergunta era porque o homem do terno caro e os sapatos de brilho-eterno parecia haver-se transformado em
um problema para os atendentes da Excursão. Em realidade, ele não queria tomar o gás e procurava disfarçar a recusa com uma conversa incessante, as fanfarronices
de um garoto metido a valente. Os atendentes cumpriam sua missão o melhor que podiam - sorrindo, adulando, persuadindo - mas aquilo os retardava.
Mark suspirou. Ele iniciara o assunto - apenas como uma forma de distrair os filhos daquelas festividades pré-Excursão, sem dúvida, mas o iniciara. Agora,
era de supor que deveria encerrá-lo o mais verdadeiramente possível, sem alarmá-los ou perturbá-los.
Não lhes mencionaria, por exemplo, o livro de C. K. Summers, A política da Excursão, que continha uma seção intitulada "A Excursão confidencialmente", um
compêndio dos mais críveis rumores sobre a Excursão. Estava lá a história de Rudy Foggia, aquele dos assassinatos no clube de bridge e do frango não comido ao jantar.
Também havia o histórico dos casos de uns trinta (ou mais... ou menos... ou quem sabe) voluntários, bodes expiatórios ou loucos, que haviam Excursionado inteiramente
despertos, no correr dos últimos trezentos anos. Em sua maioria, chegaram mortos ao outro lado. Os restantes tinham ficado irremediavelmente loucos. Em certos casos,
o ato de reemergirem realmente os deixara em um estado de choque que levara à morte.
Aquela seção do livro de Summer, relatando rumores e histórias apócrifas sobre a Excursão, continha também outros perturbadores informes: aparentemente, a
Excursão havia sido várias vezes usada como meio para o assassinato. No caso mais famoso (e único documentado), que ocorrera apenas trinta anos antes, um pesquisador
da Excursão, chamado Lester Michaelson havia amarrado a esposa com os Cordões-sonho de plexiplast da filha de ambos, e a empurrara, com ela gritando, pelo portal
da Excursão em Silver City, Nevada. Contudo, antes de fazer isso, Michaelson apertara o botão Nada, no painel de seu aparelho, apagando cada e todas as centenas
de milhares de portais possíveis, através dos quais a Sra. Michaelson poderia ter emergido - qualquer lugar, desde a vizinha cidade de Reno à Estação-Excursão experimental
em To, uma das luas jupiterianas. Assim, a Sra. Michaelson permaneceria eternamente Excursionando em algum ponto além, lá fora, no ozônio. O advogado de Michaelson,
depois que ele foi declarado sadio e capaz de enfrentar um julgamento pelo que havia feito (dentro dos estreitos limites da lei, talvez ele fosse são de espírito,
mas em qualquer sentido prático, Lester Michaelson era tão louco como um chapeleiro), apresentou uma nova modalidade de defesa: seu cliente não podia ser julgado
por assassinato, porque ninguém podia provar, conclusivamente, que a Sra. Michaelson estava morta.
Isto havia evocado o terrível espectro da mulher, desincorporada, mas de certo modo ainda consciente, gritando no limbo..: para sempre. Michaelson foi condenado
e executado.
Em adição, sugeria Summers, a Excursão tinha sido usada por vários ditadores baratos que queriam livrar-se de dissidentes e adversários políticos; certas
pessoas acreditavam que a Máfia possuía suas próprias Estações-Excursão ilegais, ligadas ao computador central de Excursão, através de suas conexões com a CIA. Summers
dava a entender que a Máfia usara a capacidade-Nada da Excursão, a fim de livrar-se de corpos que já estavam mortos, ao contrário do da Sra. Michaelson. Vista sob
este ponto de vista, a Excursão se tornara a máquina definitiva de Jimmy Hoffa, muito melhor do que a cascalheira ou pedreira locais.
Tudo isto levara às conclusões e teorias de Summers sobre a Excursão e, naturalmente, também à persistente pergunta de Patty sobre os camundongos.
- Bem - disse Mark lentamente, enquanto a esposa lhe fazia sinais com os olhos para que fosse cuidadoso - até hoje ninguém sabe ao certo, Patty. Contudo,
todas as experiências com animais - incluindo-se os ratinhos - pareciam levar à conclusão de que, embora a Excursão seja quase instantânea fisicamente, demora um
longo, longo tempo mentalmente.
- Eu não entendo isso - replicou Patty, taciturnamente. - Sabia que não ia entender.
Ricky, no entanto, olhava pensativo para o pai.
- Eles continuaram pensando - disse ele. - Os animais usados como cobaias. E nós também pensaremos, se não ficarmos inconscientes.
- Certo - respondeu Mark. - É o que agora acreditamos.
Havia algo surgindo nos olhos de Ricky. Medo? Excitamento?
- Não é apenas um teletransporte, certo, papai? Deve ser alguma espécie de distorção do tempo.
Lá é a eternidade, pensou Mark.
- De certa forma - respondeu ele. - Contudo, essa é uma expressão de histórias em quadrinhos - parece correta mas, em realidade, nada significa, Ricky. Parece
revolver-se em torno da idéia de consciência e do fato de que a consciência não se divide em partículas - ela permanece inteira e constante. Também encerra algum
peculiar senso de tempo. Entretanto, ignoramos como a consciência pura mediria o tempo ou mesmo se tal conceito tem algum sentido para a mente pura. Aliás, nem mesmo
podemos conceber o que seria mente pura.
Mark se calou, perturbado pelos olhos do filho, de repente tão aguçados e curiosos. Ele entende, mas não compreende, pensou. A mente pode ser nosso melhor
amigo; ela nos mantém satisfeitos, mesmo nada havendo para ler, nada a fazer. Entretanto, também pode voltar-se contra nós, se mantida sem imput por tempo demasiado.
Pode voltar-se contra nós, isto querendo dizer que se volta contra si mesma, barbariza-se, talvez se consuma a si própria, em um ato inconcebível de autocanibalismo.
Quanto tempo ficaria lá, em termos de anos? 0,000000000067 de segundo para o corpo Excursionar, mas quanto tempo para a consciência não dividida em partículas? Cem
anos? Mil? Um milhão? Um bilhão? Quanto tempo a sós com seus pensamentos, em um interminável campo branco? E então, passado um bilhão de eternidades, o abrupto retorno
à luz, à forma e ao corpo. Quem não enlouqueceria?
- Ricky... - começou ele, mas os atendentes da Excursão chegaram com sua mesinha rolante.
- Estão prontos? - perguntou um deles.
Mark assentiu.
- Estou com medo, papai - disse Patty, em um fio de voz. - Vai doer?
- Não, meu bem, é claro que não dói. - falou Mark, em voz calma o suficiente, embora o coração batesse um pouco mais rápido - era sempre assim, mesmo sendo
aquela mais ou menos sua vigésima-quinta Excursão. - Serei o primeiro e assim você verá como é fácil.
O atendente da Excursão olhou inquisitivamente para ele. Mark assentiu e esboçou um sorriso. A máscara desceu. Mark a tomou nas próprias mãos e respirou fundo
no escuro.

* * *

A primeira coisa de que teve consciência foi do negríssimo céu marciano, como visto através do topo da abóbada que circundava a Cidade Whitehead. Era noite
ali e as estrelas esparramavam-se com um uivo fulgor, desconhecido na terra.
A segunda coisa que percebeu foi uma espécie de rebuliço na sala de recuperação - murmúrios, depois gritos, então um uivo agudo. Oh, meu Deus, foi Marilys!
pensou, enquanto saltava estonteado de seu divã, lutando com as ondas da vertigem.
Houve outro grito, e viu atendentes da Excursão correndo para os divãs que eles ocupavam, seus vivos macacões vermelhos esvoaçando em torno dos joelhos. Marilys
deu alguns passos cambaleantes em direção a ele, apontando. Depois tornou a gritar e caiu ao chão. O divã da Excursão desocupado ao seu lado, rolou lentamente corredor
abaixo, quando ela tentou agarrar-se a ele com mão trêmula.
Mark, no entanto, já vira o que ela apontava. O que havia observado antes nos olhos de Ricky não tinha sido medo, mas excitamento. Devia ter sabido, porque
conhecia bem o filho - Ricky, que caíra do galho mais alto da árvore em seu quintal de Schenectady, quando contava apenas sete anos, tendo quebrado o braço (e tivera
sorte, pois fora apenas o braço que quebrara); Ricky, que ousava ir mais depressa e mais longe em seu skate do que qualquer outro garoto da vizinhança; Ricky, que
era sempre o primeiro a enfrentar qualquer desafio. Ricky e medo não se davam bem.
Até agora.
Ao lado de Ricky, sua irmã ainda dormia misericordiosamente. A coisa que havia sido seu filho saltou e contorceu-se no divã-Excursão, um garoto de doze anos
de idade, de cabelos brancos como a neve e olhos que eram incrivelmente velhos, as córneas apresentando um amarelado doentio. Ali estava uma criatura mais velha
do que o tempo, mascarada como menino; no entanto, ela quicava e se torcia com horrendo, obsceno regozijo. Sua garrulice chocante e lunática fizera com que os atendentes
da Excursão recuassem, tomados de horror. Alguns deles fugiram dali, embora houvessem sido justamente treinados para lidar com tal inconcebível eventualidade.
As pernas jovens-velhas estremeceram e contorceram-se. Mãos em garras batiam, torciam e dançavam no ar; depois desceram repentinamente e a coisa que havia
sido seu filho começou a dilacerar o próprio rosto.
- É mais longa do que se pensa, papai! - cacarejou a criatura. - Mais longa do que se pensa! Eu prendi a respiração, quando eles me aplicaram o gás! Eu queria
ver! Eu vi! Eu vi! É mais longa do que se pensa!
Cacarejando e guinchando, a coisa sobre o divã-Excursão subitamente arrancou os olhos com as garras. O sangue jorrou. A sala de recuperação era agora um aviário
de vozes gritando agudamente.
- Mais longa do que se pensa, papai! Eu vi! Eu vi! Longa Excursão! Mais longa do que se pensa...
A criatura ainda disse outras coisas, antes que os atendentes da Excursão finalmente conseguissem levá-la dali, rodando seu divã a toda rapidez, enquanto
ela gritava e fincava os dedos engalfinhados nas órbitas dos olhos que tinham visto o para sempre e eterno oculto. Ela disse outras coisas e então começou a gritar,
mas Mark Oates não ouviu, porque a essa altura também estava gritando.

* * *



A FESTA DE CASAMENTO

Era o ano de 1997 e nós estávamos tocando jazz em um boteco ao sul de Morgan, Illinois, uma cidadezinha a uns cem quilômetros de Chicago. Era uma zona absolutamente
matuta, sem nenhuma cidade maior à distância de trinta quilômetros, em qualquer direção. Contudo, havia por lá um bocado de rapazes trabalhando nas fazendas, que
ansiavam por algo mais forte do que audácia, depois de um dia calorento no campo, além de um bocado de supostas garotas amantes de jazz, saindo com seus namorados
faroleiros. Havia também alguns homens casados (a gente sempre os identifica, como se eles usassem algum indicador do estado civil) andando bem longe das trilhas
costumeiras, onde ninguém os conhecia, enquanto esfregavam coxas, nas danças com suas nada legítimas metades.
Isso era quando jazz era jazz, em vez de barulho. Tínhamos um conjunto de cinco homens - bateria, cornetim, trombone, piano, trompete - e éramos danados de
bons. Foi três anos antes de gravarmos nosso primeiro disco e quatro antes do cinema falado.
Estávamos tocando "Bamboo Bay", quando entrou aquele sujeito grandalhão, usando terno branco e fumando um cachimbo mais enrolado do que uma trompa. A turma
inteira estava um pouco alta nesse momento, mas todos ali dentro estavam absolutamente cegos e, de fato, sacudindo o ambiente. Não obstante, havia calma no boteco;
não tinha havido uma só briga, a noite inteira. Todos nós, os músicos, deitávamos rios de suor, e Tommy Englander, o sujeito que dirigia o lugar, não parava de enviar-nos
uísque de centeio, tão suave como uma tábua envernizada. Englander era um bom sujeito com quem se trabalhar e gostava do nosso som. Naturalmente, isso lhe dava um
bocado de pontos em meu cadernininho.
O cara de terno branco sentou-se no bar e eu o esqueci. Encerramos aquela parte com "Blues da Tia Hagar", uma música que, lá no meio do mato, então passava
por estimulante. Recebemos uma trovoada de aplausos. Manny tinha um enorme sorriso no rosto, quando afastou o trompete na boca, e eu lhe bati nas costas, ao descermos
do palco. Havia uma garota que parecia solitária, com um vestido de noite verde, que ficara de olho em mim a noite toda. Era ruiva e sempre tive uma queda por ruivas.
Seus olhos e a cabeça ligeiramente de banda enviaram-me um sinal, de maneira que comecei a abrir caminho por entre o povaréu, a fim de saber se ela queria um drinque.
Estava na metade do trajeto para a ruiva, quando o homem de terno branco se postou na minha frente. Visto de perto, parecia um cara bastante durão. Seu cabelo
espetava em pontas atrás da cabeça, embora cheirasse como um vidro inteiro de óleo Cremoso Wildroot. Além disso, tinha os olhos parados e estranhamente brilhantes
de alguns peixes de alto mar.
- Quero falar com você lá fora - disse.
A ruiva desviou os olhos, fazendo beicinho.
- Isso pode esperar - respondi. - Deixe-me passar.
- Meu nome é Scollay. Mike Scollay.
Eu conhecia o nome. Mike Scollay era um contrabandista de segunda em Shytown, que pagava sua cerveja e suas farrinhas contrabandeando bebida do Canadá. Aquele
ofício de alta-voltagem havia começado onde os homens usam saias e tocam gaitas de foles.
Quando não estão enchendo as barricas, quero dizer. Seu retrato aparecera algumas vezes nos jornais. A última, tinha sido quando um outro candidato à cela
da morte tentou furá-lo a balaços.
- Está muito longe de Chicago, meu amigo - falei.
- Trouxe alguns companheiros - disse ele. - Não se preocupe. Estão lá fora.
A ruiva deu outra espiada. Apontei para Scollay e dei de ombros. Ela fungou e me virou as costas.
- Viu? - falei. - Você me estragou a jogada.
- Garotas iguais a essa são como um níquel em um balde cheio, lá em Chi - respondeu ele.
- Eu não quero um balde cheio.
- Lá fora.
Fui com ele para fora. O ar caiu fresco em minha pele, depois da atmosfera enfumaçada do boteco-clube, adocicado com o cheiro da alfafa recém-cortada. As
estrelas se exibiam, suaves e piscando. Os capangas também se exibiam, mas não pareciam suaves e as únicas coisas piscando eram seus cigarros.
- Tenho um trabalho para você - disse Scollay.
- Oh, então é isso...
- Pago dois grandes. Pode dividi-los com a banda ou ficar com cem para você.
- De que se trata?
- De um arrasta, o que mais poderia ser? Minha irmã está se amarrando. Quero que você toque para a recepção. Ela gosta de jazz. Dois de meus rapazes disseram
que vocês tocam um bom jazz.
Já falei que Englader é um bom sujeito com quem se trabalhar. Ele vinha nos pagando oitenta pratas por semana. O cara do terno branco oferecia mais de duas
vezes aquilo, por uma única sessão.
- Será de cinco às oito da noite, na próxima sexta-feira - disse Scollay. No Salão Filhos de Erin, na Rua Grover.
- É um bocado de grana - falei. - Por quê?
- Há dois motivos - disse Scollay.
Ele sugou seu cachimbo. Aquele artigo parecia deslocado, no meio daquela cara de vigarista. Ele devia ter um Lucky Strike Green pendurado na boca ou talvez
um Caporal Doce. O Cigarro dos Vagabundos. Com o cachimbo, ele não parecia um vagabundo. O cachimbo o fazia parecer triste e esquisito.
- Dois motivos - repetiu ele. - Talvez tenha ouvido que o Grego quis acabar comigo.
- Vi seu retrato no jornal - falei para a calçada.
- Muito espertinho - rosnou ele, mas sem periculosidade. - Estou crescendo demais para o Grego. Ele está ficando velho. Não tem visão das coisas. Devia voltar
para a velha pátria, ficar bebendo óleo de oliva e olhando para o Pacífico.
- Penso que é o Egeu - falei.
- Pouco estou me lixando se for o Lago Huron - replicou ele. - A questão é que o Grego não quer envelhecer. E ainda quer acertar as contas comigo. Ele não
distingue nada, mesmo que esteja à sua frente.
- Está se referindo a você, não?
- Você merece nota A.
- Em outras palavras, você me paga dois grandes, porque nosso último número poderia ter o acompanhamento de rifles Enfield.
A raiva estampou-se em seu rosto, porém também havia algo mais. No momento, eu não sabia o que fosse, mas creio que agora sei. Pareceu-me tristeza.
- Meu chapa, eu tenho a melhor proteção que o dinheiro pode comprar. Se algum engraçadinho meter o nariz, não terá oportunidade de fungar duas vezes.
- Qual é o outro motivo?
A voz dele saiu maciamente.
- Minha irmã vai casar com um italiano.
- Um bom católico, como você - rosnei suavemente.
A raiva estampou-se outra vez, como ferro em brasa e, por um minuto, achei que fora longe demais.
- Um bom católico-romano! Um bom e comum irlandês católico-romano, filho, e é melhor que não esqueça! - A isto, ele acrescentou, quase em voz inaudível: -
Mesmo que tenha perdido a maior parte de meu cabelo, fique sabendo que era ruivo!
Comecei a dizer alguma coisa, mas ele não me deu chance. Girou-me e baixou o rosto, até nossos narizes quase se tocarem. Eu nunca tinha visto tanta raiva,
humilhação, fúria e determinação no rosto de um homem. Hoje em dia nunca se vê essa expressão em um rosto branco, tão dolorida e dando idéia de insignificância.
Todo aquele amor e ódio.
Contudo, eu a vi em seu rosto aquela noite e compreendi que, se bancasse o engraçadinho algumas vezes mais, ficaria sem os fundilhos.
- Ela é gorda - ele quase sussurrou e pude sentir o cheiro de pastilhas de galtéria em seu hálito. - Muita gente andou rindo de mim pelas costas. Eles não
riem quando posso vê-los, fique sabendo disto, Sr. Tocador de Cornetim. Afinal, esse carcamano talvez tenha sido tudo que ela pôde conseguir. Só que você não vai
rir de mim, dela ou do carcamano. E mais ninguém rirá, eu lhe garanto. Porque vocês vão tocar bem alto. Ninguém vai rir da minha mana.
- Nós nunca rimos quando estamos tocando. É difícil fazer as duas coisas.
Aquilo aliviou a tensão. Ele riu - um riso curto, latido.
- Vocês estarão lá, às cinco horas, prontos para tocar. Os Filhos de Erin, na Rua Grover. Também pagarei as despesas de ida e volta.
Ele não estava perguntando. Eu ainda estava indeciso, mas o homem não me dava tempo para discutir o assunto. Já se afastava em largas passadas e um de seus
capangas mantinha aberta a porta traseira de um cupê Packard.
O carro afastou-se. Fiquei lá fora mais algum tempo e fumei um cigarro. A noite era bela e agradável, Scollay parecia cada vez mais, algo que eu sonhara.
Começava a desejar que pudéssemos trazer o palco da banda para o pátio de estacionamento e tocar, quando Biff me deu um tapinha no ombro.
- Está na hora - avisou.
- Certo.
Entramos. A ruiva tinha escolhido um marinheiro veterano que parecia ter o dobro de sua idade. Não sei o que um membro da Marinha dos EUA fazia no Illinois,
mas no que me dizia respeito, que a ruiva ficasse com ele, já que tinha tão mau gosto. Eu não me sentia muito bem. O uísque barato me subira à cabeça e Scollay parecia
muito mais real ali dentro, onde os vapores do que ele e sua gente vendiam eram fortes o bastante para flutuar no ar.
- Tivemos um pedido para "Campton Races" - disse Charlie.
- Esqueça - respondi, lacônico. Não tocamos essas coisas de negros depois da meia-noite.
Pude ver Billy-Boy retesar-se enquanto se sentava ao piano, mas depois seu rosto ficou normal outra vez. Eu devia dar-me pontapés rodando o quarteirão mas,
droga, um homem não pode amordaçar a boca da noite para o dia, em um ano ou talvez em dez. E, naquela época, negro era uma palavra que eu odiava e estava sempre
dizendo. Fui até ele.
- Desculpe, Bill... Não sei o que há comigo esta noite.
- Tudo bem - respondeu ele.
Contudo, ele me fitou sobre meu ombro e percebi que não aceitara minhas desculpas.
Aquilo era ruim, mas eu digo o que era ainda pior - saber que ele se decepcionara comigo.
Em nosso próximo intervalo, falei a eles sobre a sessão de jazz, não mentindo quanto ao dinheiro e explicando que Scollay era um gangster (embora não lhes
falasse sobre o outro que pretendia liquidá-lo). Também disse que a irmã de Scollay era gorda e que isso o tornava muito suscetível. Quem quer que soltasse alguma
piadinha sobre baleias, poderia terminar com um terceiro buraco para respirar, em algum ponto acima dos outros dois.
Fiquei olhando para Billy-Boy Williams enquanto falava, mas era impossível ler alguma coisa naquela sua cara de gato andarilho. Seria mais fácil imaginar
o que pensava uma noz, lendo as fissuras na casca. Billy-Boy era o melhor pianista que jamais tivéramos e todos lamentávamos os pequenos tropeços que ele provocara
para nós, quando viajávamos de um lugar para outro. No sul era pior, naturalmente - relegado aos últimos bancos em conduções públicas, às galerias superiores nos
cinemas, coisas assim - mas o tratamento não era tão ruim no norte. De qualquer modo, o que eu poderia fazer? Hem? Quem souber, que me diga. Naqueles tempos, a gente
convivia com essas diferenças.
Às quatro horas da tarde de sexta-feira, uma hora antes do combinado, chegamos ao Salão Os Filhos de Erin. Costumávamos usar um caminhão Ford muito especial,
que eu, Biff e Manny havíamos reformado. A parte traseira era toda fechada com lona e havia duas camas, também de lona, pregadas ao piso. Tínhamos até um fogareiro
elétrico que podia ser ligado à bateria e havíamos pintado o nome da banda no lado de fora.
O dia estava na medida certa - um presunto-e-ovos, se você já viu algum, com pequenas nuvens brancas de verão lançando sombras nos campos. Contudo, mal chegamos
à cidade, ela estava quente e fuliginosa, com a barulheira e movimentação a que a gente se desacostuma, em um lugar como Morgan. Quando chegamos ao salão, minhas
roupas se colavam ao corpo e precisei ir ao banheiro público. Também poderia ter usado uma dose do uísque de Tommy Englander.
Os Filhos de Erin era um grande edifício de madeira, anexo à igreja onde estava sendo casada a irmã de Scollay. Imagino que vocês conheçam lugares como esses,
se forem adeptos da lástia - reuniões da Juventude Católica às terças-feiras, bingo às quartas e uma festinha para a moçada nas noites de sábado.
Trotamos pela alameda, cada um de nós carregando seu instrumento em uma das mãos e parte da bateria de Biff na outra. Uma senhora magra, sem busto digno de
menção, dirigia o trânsito no interior. Dois homens suados penduravam guirlandas de papel crepom. Havia um tablado para a banda na frente do salão, tendo sobre ela
um estandarte e dois enormes sinos matrimoniais em papel cor-de-rosa. A inscrição em ouropel no estandarte, dizia FELICIDADES PARA MAUREEN E RICO.
Maureen e Rico. Macacos me mordessem, porque eu não via o motivo de Scollay ficar tão deprimido. Maureen e Rico. Francamente!
A dama magricela avançou para nós. Parecia ter muito a dizer, de modo que falei primeiro.
- Somos a banda - anunciei.
- A banda? - Ela pestanejou, olhando desconfiadamente para nossos instrumentos. - Oh! Eu pensava que fossem os fornecedores.
Eu sorri, como se fornecedores estivessem sempre carregando tambores de parada e caixas de trombone.
- Vocês podem... - começou ela.
Foi interrompida pela chegada de um janota magricela com uns dezenove anos. Um cigarro lhe pendia do canto da boca, mas que eu percebesse, aquilo nada acrescentava
à sua imagem, exceto um olho esquerdo lacrimejando.
- Abram essa joça - disse ele.
Charlie e Biff olharam para mim. Dei de ombros. Abrimos as nossas caixas e ele viu os instrumentos. Nada encontrando que parecesse algo capaz de ser carregado
e disparado, o cara voltou para seu canto e sentou-se em uma cadeira dobrável.
- Podem levar suas coisas para lá - prosseguiu a dama de poucas carnes, como se nunca a tivessem interrompido. - Há um piano na outra sala. Mandarei meus
homens rodarem o piano para o palco, depois que acabarem de pendurar nossas decorações.
Bill já levava parte de seus tambores para o pequeno palco.
- Pensei que vocês fossem os fornecedores - repetiu ela, com ar confuso. O Sr. Scollay encomendou um bolo de casamento e ainda estão para chegar também os
hors d'oeinres, os rosbifes e...
- Tudo chegará em tempo, madame - falei. - Eles recebem seu pagamento contra entrega.
- ...dois porcos assados, além de um peru. O Sr. Scollay ficará simplesmente furioso se...
- Ela viu um de seus homens parando para acender um cigarro, bem abaixo de uma guirlanda de crepon suspensa mais acima, e gritou, em voz estridente: - HENRY!
O homem deu um salto, como se o tivessem baleado. Eu fugi para o tablado da orquestra.
Estávamos todos prontos, faltando quinze minutos para as cinco da tarde. Charlie, o trombonista, tocava seu instrumento em surdina, enquanto Biff exercitava
os pulsos. Os fornecedores tinham chegado às 16:20, e a Srta. Gibson (era o nome da dama magrela; ela possuía um bem sucedido negócio no ramo) quase se jogou sobre
eles.
Tinham sido montadas quatro compridas mesas, cobertas de toalhas brancas, onde quatro mulheres de cor, de touca e avental, colocavam os lugares. O bolo fora
conduzido em mesinha de rodas para o meio da sala, a fim de que todos pudessem vê-lo e ficar boquiabertos. Tinha seis camadas de altura, com a noiva e o noivo em
miniatura postados no alto.
Caminhei para o exterior, a fim de tirar uma fumaça, e estava a meio caminho, quando os ouvi chegando - tocando buzinas, fazendo uma barulheira infernal.
Fiquei onde estava, até ver o carro principal, dobrando a esquina do quarteirão abaixo da igreja.
Então, terminei meu cigarro e voltei para dentro.
- Eles já estão vindo - anunciei à Srta. Gibson.
Ela ficou pálida e, realmente, balançou sobre os calcanhares. Ali estava uma dama que devia ter enveredado por uma profissão diferente - decoração de interiores,
talvez, ou bibliotecária científica.
- O suco de tomates! - gritou ela. - Tragam o suco de tomates!
Voltei para o tablado da banda e ficamos a postos. Já havíamos tocado em festas semelhantes - que banda não tocou? - e, quando as portas se abriram, iniciamos
uma versão em ragtime da "Marcha Nupcial", em arranjo de minha autoria. Se alguém pensar que aquilo soava como uma espécie de coquetel de limonada, sou forçado a
concordar. Contudo, na maioria das recepções em que a tocamos, todo mundo adorou, e ali não foi diferente. O pessoal batia palmas, gritava e assobiava, depois começaram
a conversar fiado, uns com os outros. No entanto, a julgar pela maneira como alguns marcavam o compasso com os pés, enquanto conversavam, posso dizer que estavam
bem sintonizados em nossa música. Continuamos tocando - eu achava que ia ser uma festa e tanto. Sei de tudo quanto se diz sobre irlandeses e a maioria é verdade,
mas, droga! eles sabem divertir-se, quando decididos a isso.
De qualquer modo, devo admitir que quase estraguei todo o número, quando entraram o noivo e a enrubescida noiva. Trajando um paletó informal e calças listradas,
Scollay atirou-me um olhar duro e, podem crer, eu o recebi em cheio. Consegui fazer uma cara de jogador de pôquer e o resto de meus companheiros seguiu a dica -
sem que ninguém errasse uma nota. Sorte nossa. Os convidados do casamento, parecendo todos serem os cupinchas de Scollay e suas damas, já estavam de sobreaviso.
Tinham de estar, se houvessem ido à igreja. Contudo, poder-se-ia dizer que só ouvi fracos murmúrios.
Vocês devem ter ouvido falar em Jack Sprat e sua esposa. Bem, esta era cem vezes pior.
A irmã de Scollay tinha os cabelos ruivos que ele estava perdendo, compridos e anelados. Entretanto; não possuíam aquela tonalidade castanho-avermelhado que
talvez imaginem. Não. A cor destes cabelos era vermelho Condado de Cork - vivo como uma cenoura e enrolado como molas de colchão. Sua compleição natural era de um
branco leite coalhado, porém as sardas eram demasiadas, para dizer-se com segurança. E Scollay havia dito que era gorda? Irmão, era o mesmo de quando se diz que
compramos algumas coisinhas no Macy's. Ela era um dinossauro humano - cento e setenta e cinco quilos, no mínimo. Tudo tinha ido para o busto, traseiro e coxas, como
geralmente acontece com moças gordas, tornando grotesco e algo amedrontador, o que deveria ser sexy. Algumas moças gordas têm rostos pateticamente bonitos, mas a
mana de Scollay, nem isso tinha. Seus olhos eram demasiado juntos, a boca era grande demais e, para cúmulo, ainda tinha orelhas de abano. Sem falar nas sardas. Se
fosse magra, ela ainda seria feia o bastante para parar um relógio - bem, uma vitrine inteira deles.
Tais detalhes, apenas, não fariam ninguém rir, a menos que a pessoa fosse uma débil mental ou somente venenosa. O hilariante era quando se acrescentava o
noivo ao quadro - Rico - e então a gente tinha vontade de rir até chorar. Ele poderia usar cartola, e ainda continuaria na metade da sombra dela. Devia pesar uns
quarenta e cinco quilos, por aí, e estava molhado de suor. Fino como um trilho, tinha uma tonalidade de pele oliva escuro.
Quando sorriu nervosamente, seus dentes pareciam as estacas pontiagudas de uma cerca, nos arredores de uma favela.
Nós continuamos tocando.
- Aos noivos! - gritou Scollay - Que Deus lhes dê toda felicidade do mundo! E se Deus não der, proclamou seu trovejante semblante, vocês, os presentes aqui,
é melhor que dêem - pelo menos hoje.
Todos gritaram sua aprovação e aplaudiram. Terminamos nosso número com um floreio e isso provocou novos aplausos. Maureen, a irmã de Scollay, sorriu. Céus,
como sua boca era grande! Rico sorriu tolamente.
Por alguns momentos, todos vagaram de lá para cá, comendo queijo, salgadinhos e bebendo scotch contrabandeado de Scollay. Eu próprio acabei com três doses
entre os números, e aquela bebida era de deixar o uísque de centeio de Tommy Englander apagado.
Scollay começou a parecer mais feliz - um pouco, afinal.
Chegou até o tablado onde tocávamos e disse:
- Vocês tocam muito bem, caras.
Vindo de um amante da música como ele, admito que era um cumprimento e tanto.
Pouco antes de todos se sentarem para a refeição, Maureen é que se levantou. De perto era ainda mais feia, e seu vestido branco (ali havia suficiente cetim
branco, enrolado em torno da criatura, capaz de cobrir três camas) não ajudava nem um pouco. Ela perguntou se podíamos tocar "Rosas da Picardia" como Red Nichols
and His Five Pennies porque, segundo disse, era sua canção favorita. Embora gorda e feia, ela nada tinha de esnobe ou presunçosa - ao contrário de alguns dos convidados
insignificantes que apareciam para fazer seus pedidos de músicas. Tocamos, mas não muito bem. Ainda assim, ela nos deu um sorriso doce, que quase a tornava bonita,
tendo aplaudido quando encerramos.
Às 18:15 eles se acomodaram para comer e os empregados contratados da Srta. Gibson mandaram comida nos convidados. O pessoal avançou como um bando de animais,
o que não constituía muita surpresa, entornando aquela bebida de alta-voltagem o tempo todo. Eu não podia deixar de espiar a maneira como Maureen comia. Tentei desviar
os olhos, mas eles continuavam voltando atrás, como que para certificar-se de que viam realmente o que pensaram estar vendo. Os comensais restantes empanturravam-se,
mas ela fazia com que parecessem velhas damas em um salão de chá. Não tinha mais tempo para sorrisos doces, nem para ouvir "Rosas da Picardia"; podia-se colocar
diante dela um cartaz anunciando MULHER TRABALHANDO. Aquela dama dispensava garfo e faca; precisava de uma pá e de uma correia deslizante. Era triste observá-la.
E Rico (só se conseguia enxergar seu queixo, acima da mesa em que se sentava a noiva, além de dois olhos castanhos, tímidos como os de uma corça) atendia-a o tempo
todo, nunca alterando aquele tolo sorriso.
Tivemos um intervalo de vinte minutos, enquanto transcorria a cerimônia de cortar o bolo. A Srta. Gibson alimentou-nos na cozinha. O forno ligado deixava
o recinto quente como uma estufa e nenhum de nós sentia muita fome. A festança começara com indícios de tudo correto, mas agora eu a sentia errada. Podia lê-lo no
rosto de meus companheiros músicos... e, quanto a isso, também no da Srta. Gibson.
Quando retornamos ao palco da banda, a bebedeira andava solta. Indivíduos de ar durão, cambaleavam por ali com sorrisos idiotas acima de suas canecas ou permaneciam
parados nos cantos, discutindo programas de corridas de cavalos. Alguns casais queriam charleston, de maneira que tocamos "Blues da Tia Hagar" (os imbecis adoraram)
e "Vou dançar charleston em Charleston", bem como outros números parecidos. Coisas para quem aprecia jazz. As garotas rebolavam-se no salão ao som da música, exibindo
as meias enroladas e sacudindo os dedos junto ao rosto, enquanto gritavam vu-du-di oh-du, uma frase que até hoje me dá vontade de vomitar o jantar. Lá fora estava
ficando escuro. As telas haviam caído de algumas janelas, permitindo que entrassem mariposas e enxameassem em nuvens, ao redor dos lustres. E, como diz a canção,
a banda continuava tocando. Os noivos andavam por ali - nenhum deles parecendo interessado em ir embora cedo - quase completamente negligenciados. O próprio Scollay
parecia tê-los esquecido. Aliás, ele estava em total carraspana.
Eram quase 20:00, quando o sujeitinho esgueirou-se para o interior. Localizei-o imediatamente, porque estava sóbrio e parecia assustado; assustado como um
gato míope, em terreno exclusivo para cães. Ele caminhou até Scollay, que conversava com uma garota de ar vivido bem junto do tablado da banda, e lhe bateu de leve
no ombro.
Scollay deu meia volta e ouvi cada palavra que os dois trocaram. Acreditem, eu gostaria de não ter ouvido.
- Diabo, quem é você? - perguntou Scollay rudemente.
- Meu nome é Demetrius - disse o sujeito. - Demetrius Katzenos. Vim a mando do Grego.
O movimento no chão estacou subitamente. Botões de paletós foram abertos e mãos desapareceram de vista debaixo de lapelas. Vi que Manny ficara nervoso. Raios,
eu tampouco me sentia calmo. No entanto, nós continuamos tocando.
- Está bem - disse Scollay em voz quieta, quase reflexivamente.
O sujeito explodiu:
- Eu não queria vir, Sr. Scollay! O Grego está com minha esposa. Disse que a mataria, se eu não lhe desse seu recado.
- Que recado? - rosnou Scollay.
Sua fronte voltara a ficar anuviada.
- Ele disse... - O sujeitinho fez uma pausa, com expressão agoniada. Sua garganta funcionou como se as palavras fossem coisas físicas, ali apertadas, sufocando-o.
- Ele mandou dizer que sua irmã é uma porca obesa. Ele mandou dizer... mandou dizer... - Seus olhos reviraram-se descontroladamente, ante a expressão imóvel de Scollay.
Olhou de esguelha para Maureen. Ela dava a impressão de ter sido esbofeteada. - Ele mandou dizer que ela pegou uma comichão. Que quando uma mulher sente comichão
nas costas, compra um coçador de costas. Que quando ela sente comichão nas partes, então compra um homem.
Maureen soltou um grito estrangulado e correu dali, chorando. O piso balançava com sua corrida. Rico disparou atrás dela, com ar perplexo e torcendo as mãos.
Scollay havia ficado tão vermelho, que suas bochechas estavam realmente purpúreas.
Eu quase esperava - talvez praticamente esperava - que seus miolos espirrassem pelos ouvidos. Vi aquele mesmo ar de louca agonia que vira na penumbra, fora
da casa de Englander. Talvez ele fosse apenas um gangster barato, mas tive pena.
Vocês também teriam.
Quando falou, sua voz era muito calma - quase branda.
- Ainda há mais?
O pequeno grego acovardou-se. Sua voz estava trêmula de angústia.
- Por favor, não me mate, Sr. Scollay! Minha esposa... o Grego a tem em seu poder! Eu não quero dizer estas coisas! Ele está com minha esposa, minha mulher...
- Não farei nada contra você - disse Scollay, ainda mais calmo. - Apenas, diga-me o resto.
- Ele mandou dizer que a cidade inteira está rindo do senhor.
Nós havíamos parado de tocar e houve um silêncio mortal por um segundo. Então, Scollay voltou os olhos para o teto. Suas mãos tremiam e ele as crispou diante
de si.
Tinha os punhos tão apertados, que pude perceber os músculos sobressaindo debaixo de sua camisa.
- ESTÁ BEM! - gritou: ESTÁ BEM!
Caminhou apressadamente para a porta. Dois homens seus tentaram detê-lo, dizer-lhe que era suicídio, que o Grego não queria outra coisa, mas Scollay estava
como que enlouquecido. Derrubou-os e correu para a negra noite de verão.
No silêncio que se seguiu, tudo quanto pude ouvir foi a torturada respiração do mensageiro e, em algum ponto ao fundo, o soluçar baixinho da noiva.
Nesse momento, o rapazola que nos detivera ao chegarmos, proferiu uma praga e correu para a porta. Foi o único.
Antes que pudéssemos chegar abaixo do enorme trevo de papel, o emblema nacional da Irlanda, pendurado no saguão, pneus de automóveis chiaram no pavimento
e motores roncaram - um monte de motores. Aquilo soava como o Memorial Day*, no pátio de tijolos lá fora.

*(EUA) dia em memória dos soldados mortos na guerra. (N. da T.)

- Oh, meu Deus do céu! - gritou o rapazola, da soleira. - É uma maldita caravana! Abaixe-se, chefe! Abaixe-se! Abaixe-se...
A noite explodiu em pipocar de armas. Lá fora foi como a Primeira Guerra Mundial, por um minuto, talvez dois. As balas zuniam pela porta aberta do saguão
e um dos globos de luz oscilando no alto terminou explodindo. No exterior, a noite brilhava com fogos de artifícios dos Winchester. A seguir, os carros partiram
em disparada. Uma das garotas sacudia estilhaços de vidro dos cabelos cacheados.
Agora que o perigo terminara, os capangas restantes correram para fora. A porta para a cozinha escancarou-se e Maureen reapareceu. Tudo nela tremelicava.
Seu rosto estava mais redondo do que nunca. Rico surgiu em sua esteira, como um atônito valete. Os dois desapareceram pela porta.
A Srta. Gibson apareceu no saguão vazio, de olhos arregalados e chocada. O homenzinho que começara toda a confusão com seu telegrama cantado, àquela altura
já se evaporara.
- Foi um tiroteio - murmurou a Srta. Gibson. - O que aconteceu?
- Acho que o Grego acabou de esfriar o pagador - disse Biff.
Ela olhou para mim, sem entender, mas antes que eu pudesse traduzir, Billy Boy falou, em sua voz macia e polida:
- Ele está querendo dizer que o Sr. Scollay acabou de ser liquidado, dona.
A Srta. Gibson se virou para ele, os olhos ficando mais e mais arregalados, e então desmaiou. Tive a impressão de que também eu acabaria desmaiando.
Foi quando, do exterior, chegou até nós o grito mais angustiado que já ouvi, em toda a minha vida. Era como um miado histérico, sustentando-se indefinidamente
em prolongada nota. Não se precisava chegar à porta e espiar, para saber quem dilacerava o coração lá na rua, carpindo o irmão morto, inclusive enquanto os tiras
e novidadeiros dos jornais estavam a caminho.
- Vamos cair fora - murmurei. - Depressinha!
Quando ficamos com tudo embalado, já haviam passado cinco minutos. Alguns dos capangas tornaram a entrar, mas estavam demasiado bêbados e assustados para
se meterem conosco.
Saímos pelos fundos, cada um de nós carregando parte da bateria de Biff. Devíamos ter sido uma parada e tanto, subindo a rua, para que ninguém nos visse.
Eu ia à frente, com o estojo de meu cornetim debaixo do braço e um címbalo em cada mão. Os rapazes esperaram na esquina do fim do quarteirão, enquanto fui buscar
nosso caminhão. Os tiras ainda não haviam chegado. A obesa garota continuava agachada junto ao corpo do irmão, no meio da rua, uivando como uma banshee *, enquanto
o minúsculo noivo corria à sua volta, como uma lua orbitando um enorme planeta.

*(Irlanda e Escócia) espírito feminino do folclore gaélico que, com seus lamentos, anuncia morte iminente na família. (N. da T.)

Rodei até a esquina e os rapazes atiraram tudo na traseira do caminhão, de qualquer jeito. Depois, afastamo-nos dali a toda velocidade. Fizemos uma média
de sessenta quilômetros horários por todo o trajeto até Morgan, por estradas secundárias ou não. Os capangas de Scollay não devem ter-se preocupado em apontar-nos
aos tiras ou os tiras não nos deram importância, porque não soubemos deles.
Aliás, também não recebemos as duzentas pratas.
Ela chegou ao Tommy Englander's uns dez dias mais tarde, uma gorda jovem irlandesa em vestido negro de luto. O preto não lhe assentava melhor do que o cetim
branco.
Englander devia saber quem ela era (sua foto saíra nos jornais de Chicago, junto à de Scollay), porque a levou pessoalmente até uma mesa e forçou ao silêncio
dois bêbados do bar, que haviam estado debochando dela.
Senti muita pena dela, como às vezes sentia pena de Billy-Boy. É duro ser marginalizado. Não se precisa ser um marginalizado para saber, embora eu concorde
quanto à gente não saber exatamente como é. E ela havia sido muita simpática, nas poucas palavras trocadas comigo.
Chegado o intervalo, fui até sua mesa.
- Sinto muito por seu irmão - falei, meio sem jeito. - Sei que ele realmente a apreciava muito e...
- Foi como se eu mesma apertasse aqueles gatilhos - respondeu ela. Olhava para as mãos e então percebi que eram o seu melhor traço, pequenas e graciosas.
- Tudo que aquele homenzinho disse era verdade.
- Oh, não diga isso - repliquei, procurando consolá-la.
O que mais poderia dizer? Eu lamentava ter-me aproximado, ela falava de maneira tão estranha... Era como se estivesse absolutamente só e alucinada.
- De qualquer modo, não me divorciarei dele - prosseguiu Maureen. - Antes disso eu me mataria e minha alma penaria no inferno.
- Não fale assim - disse-lhe.
- Nunca teve vontade de matar-se? - perguntou ela, fitando-me apaixonadamente. - Nunca sentiu esse impulso, quando as pessoas o usam e depois se divertem
à sua custa? Ou isso jamais lhe aconteceu? Talvez negue, mas me desculpe se não acredito. Sabe o que se sente, quando comemos sem parar, odiando-nos por isso, para
então comermos mais? Sabe como é matar o próprio irmão, pelo fato de ser gorda?
As pessoas se viravam para olhar-nos e os bêbados recomeçavam as risadinhas.
- Sinto muito - sussurrou ela.
Quis dizer-lhe que também sentia. Quis dizer-lhe... oh, qualquer coisa, admito, qualquer coisa que a fizesse sentir-se melhor. Gritar, para atingir-lhe o
âmago, debaixo de toda aquela gordura. Entretanto, não conseguia alinhavar uma só frase.
- Preciso ir agora - consegui dizer. - Temos que tocar mais um período.
- Oh, claro - respondeu ela, suavemente. - Claro que deve ir... ou eles começarão a rir de você. Aliás, o motivo de minha vinda aqui... Quer tocar "Rosas
da Picardia"? Achei que tocaram muito bem, na recepção. Pode fazer isso?
- Naturalmente - respondi. - Será um prazer.
Tocamos. Contudo, ela foi embora na metade do número e, como canções do gênero são melosas demais para um lugar como o Englader's, nós a interrompemos e passamos
para uma versão ragtime de "The Varsity Drag". Esta sempre é do agrado geral. Bebi muito aquele resto da noite e, pela hora de fechar, já esquecera tudo sobre Maureen.
Bem, quase tudo.
Ao sair para a noite, ocorreu-me a idéia. O que eu devia ter dito a ela. A vida continua - era o que devia ter-lhe dito. É o que dizemos a uma pessoa, quando
lhe morre um ente querido. Enfim, pensando bem, fiquei satisfeito por não haver dito. Porque, talvez, era isso que ela temia ouvir.
Sem dúvida, todos sabem sobre Maureen Romano e seu marido Rico, que sobreviveu a ela como hóspede dos contribuintes, na Penitenciária Estadual do Illinois.
Todos sabem como ela assumiu a medíocre organização de Scollay e transformou em um império durante a Proibição, isto é, a lei seca, rivalizando com o de Capone.
Como ela eliminou dois outros líderes de quadrilha do North Side, abocanhando suas operações. Como ela teve o Grego trazido à sua presença e supostamente o matou,
enfiando um pedaço de corda de piano por seu olho esquerdo até o cérebro, com ele ajoelhado à sua frente, babando, choramingando e suplicando misericórdia. Rico,
o perplexo valete, se tornou seu braço direito, sendo responsável pessoal por uns doze sucessos como gangster.
Da Costa Oeste, onde estávamos gravando alguns discos bem sucedidos, segui as façanhas de Maureen. Estávamos sem Billy-Boy. Ele formara uma banda própria,
não muito tempo depois de deixarmos o Englander's, um conjunto só de negros, que tocava Dixieland e ragtime. Eles se deram muito bem no sul e fiquei satisfeito com
isso.
Mereciam o sucesso. Para nós também foi boa a separação, porque muitos lugares não nos aceitavam, tendo um negro no grupo.
Afinal, era de Maureen que eu falava. Ela forneceu grandes noticiários aos jornais, não apenas por ser uma espécie de Ma Barker com cérebro, embora isso fizesse
parte do quadro. Ela era terrivelmente grande e terrivelmente feia, mas os americanos de costa a costa dedicavam-lhe uma estranha espécie de afeição. Quando Maureen
morreu, de ataque cardíaco em 1933, alguns jornais disseram que pesava duzentos e cinqüenta quilos. Contudo, eu duvido. Ninguém pesa tanto, não é mesmo?
De qualquer modo, seu funeral ganhou as primeiras páginas. Era mais do que se poderia dizer sobre o irmão dela, que nunca passou da quarta página, em toda
a sua mísera carreira. Foram necessários dez carregadores para o transporte do caixão. Havia uma enorme foto deles, salientando-se em um tablóide. Aliás, uma foto
horrível de ver. O ataúde era do tamanho de uma geladeira de carne nos açougues - o que, de certo modo, não deixava mesmo de ser.
Rico não teve inteligência suficiente para continuar liderando sozinho a situação e acabou acusado e condenado por assalto com tentativa de morte, logo no
ano seguinte.
Jamais consegui tira-la da lembrança, como nunca esqueci a maneira agoniante e humilde de Scollay naquela primeira noite, quando foi me falar sobre ela. Contudo,
olhando para trás, não a lamento demais. Pessoas gordas sempre podem parar de comer.
Sujeitos como Billy-Boy Williams, podem apenas parar de respirar. Até hoje não sei como poderia ajudar a qualquer dos dois, mas de vez em quando me sinto
algo mal, quanto a isso. Talvez seja porque fiquei muito mais velho e já não durma tão bem como quando era novo. Só pode ser por isso, concordam? Concordam?



A IMAGEM DO SEGADOR

Nós o transportamos o ano passado, foi uma operação e tanto - disse o Sr. Carlin, enquanto subiam a escada. A remoção teve que ser manual, claro. Não havia
outro jeito.
Fizemos um seguro contra acidentes, no Lloyd's, antes mesmo de tirá-lo de sua vitrine, na sala de visitas. Era a única firma que o seguraria pela soma que
tínhamos em mente.
Spangler nada disse. O homem era um tolo. Johnson Spangler aprendera, havia muito e muito tempo, que a única maneira de lidar com um tolo é ignorá-lo.
- Foi segurado por um quarto de milhão de dólares - prosseguiu o Sr. Carlin, quando chegaram ao patamar do segundo andar. Sua boca contorceu-se em uma linha
meio amarga e meio humorística. - Aliás, o prêmio nos custou um bom dinheiro...
Era um homem de baixa estatura, não inteiramente gordo, com óculos sem aros e uma calva amorenada, que brilhava como uma bola de vôlei envernizada. Uma armadura,
guardando as sombras de mogno do corredor do segundo andar, fitou-os impassivelmente.
Era um longo corredor, e Spangler examinou as paredes e quadros com frio olho clínico.
Samuel Claggert comprara em vastas quantidades porém não soubera comprar. Como tantos outros imperadores autodidatas da indústria de fins dos anos 80, no
século passado, ele fora pouco mais do que um vasculhador de casas de penhores, mascarando-se em roupagens de colecionador, um connoisseur de monstruosidades em
telas, de coleções vulgares de poesia ou novelas em luxuosas encadernações de couro, bem como de atrozes peças esculpidas, por ele consideradas como Arte.
Naquelas paredes estavam pendurados - engrinaldados, seria o termo correto - imitações de tapetes marroquinos, inúmeras (e sem dúvida anônimas) madonas segurando
inúmeros bebês com halos, enquanto inúmeros anjos pairavam em todos os pontos do fundo, grotescos candelabros em arabescos e um lustre monstruoso, obscenamente enfeitado
e encimado por uma ninfeta sorrindo despudoradamente.
Sem dúvida, o velho pirata conseguira alguns artigos interessantes; a lei de proporcionalidade assim o exigia. E, se o Museu Particular Memorial Samuel Claggert
(Visitas com Guia, por Hora - Entrada: 1 dólar para Adultos, 50 centavos para Crianças - repugnante) se constituía de lixo gritante em 98 por cento, sempre havia
aqueles outros dois por cento, coisas como o longo rifle Coombs acima do fogão, na cozinha, a estranha e pequena câmera obscura na sala e, naturalmente, o...
- O espelho Delver foi removido do andar de baixo após um... um acidente algo infeliz - disse bruscamente o Sr. Carlin, aparentemente motivado pelo fantasmagórico
e penetrante retrato de ninguém em particular, na base do segundo lance de escadas. - Houve outros - declarações rudes, comentários maldosos - porém desta vez, foi
realmente uma tentativa de destruir o espelho. A mulher, uma Srta. Sandra Bates, chegou com uma pedra no bolso. Por sorte, sua pontaria era ruim e ela só rachou
um canto da vitrine. O espelho ficou intato. Essa Srta. Bates tinha um irmão...
- Não é preciso oferecer-me a visita de um dólar - disse Spangler em voz calma. - Estou a par da história do espelho Delver.
- Fascinante, não é mesmo? - Carlin atirou-lhe um olhar curioso enviezado. - Houve aquela duquesa inglesa em 1709... e o mercador de tapetes da Pensilvânia,
em 1746... para não mencionarmos...
- Estou a par da história - repetiu Spangler, na mesma voz tranqüila. - O que me interessa é o acabamento artesanal. Além disso, claro, existe a questão da
autenticidade...
- Autenticidade? - O Sr. Carlin deu uma risadinha sufocada, um som seco, como o de ossos espreguiçando-se em um armário debaixo da escada. - Ele foi examinado
por peritos, Sr. Spangler.
- O Stradivarius Lemlier também.
- É verdade - disse o Sr. Carlin, com um suspiro - mas nunca nenhum Stradivarius possuiu o... o efeito perturbador do espelho Delver.
- Sim, nunca - disse Spangler, em sua voz suavemente contida. Agora percebia que era impossível calar Carlin; o velho possuía uma mente perfeitamente sintonizada
com a idade. - Nunca.
Subiram o terceiro e quarto lance em silêncio. À medida que se aproximavam do teto da desconexa edificação, ficava opressivamente quente nas escuras galerias
superiores.
Com o calor, chegava um insinuante odor que Spangler conhecia bem, pois passara toda a sua vida adulta trabalhando nele - o cheiro de mostras mortas há muito
nos cantos penumbrosos, de decomposição úmida e rastejantes parasitas de madeira por trás do estuque. O cheiro da idade. Era um cheiro comum apenas aos museus e
mausoléus. Ele imaginava que o mesmo cheiro podia provir da sepultura de uma jovem virginal, falecida quarenta anos antes.
Ali em cima, as relíquias eram empilhadas a torto e a direito, na profusão de uma verdadeira loja de quinquilharias; o Sr. Carlin conduziu Spangler através
de um labirinto de esculturas, telas com molduras estilhaçadas, pomposas gaiolas de pássaros dourado-prateadas, o esqueleto desmembrado de uma antiga bicicleta tandem.
Levou-o até a parede mais afastada, onde uma escada de mão fora colocada abaixo de um alçapão no forro. Um cadeado enferrujado pendia do alçapão.
Mais para a esquerda, um Adônis de imitação os fitava impiedosamente com opacos olhos sem pupilas. Um braço estava estirado e, do pulso, pendia um cartão
amarelo, com os dizeres: ENTRADA ABSOLUTAMENTE PROIBIDA.
O Sr. Carlin, tirou um molho de chaves do bolso do casaco, selecionou uma das chaves e subiu na escada. Parou no terceiro degrau, a calva brilhando fracamente
nas sombras.
- Não gosto desse espelho - comentou. - Aliás, jamais gostei dele. Não gosto de espiar nele. Tenho medo de, um dia, olhar e ver... o que o resto deles viu.
- Eles nada viram além de si mesmos - disse Spangler.
O Sr. Carlin começou a falar, parou, balançou a cabeça e remexeu acima dele, dobrando o pescoço para encaixar direito a chave na fechadura.
- Devia ser trocada - murmurou. - Ele está... droga!
A fechadura saltou de repente e o cadeado se soltou. O Sr. Carlin tentou apanhá-lo no ar e quase caiu da escada. Spangler agarrou o cadeado, antes que batesse
no chão, depois ergueu os olhos para o homem. O Sr. Carlin agarrava-se tremulamente ao alto da escada, o rosto branco, brilhando na penumbra.
- Isso o deixa nervoso, não é? - perguntou Spangler, em um tom ligeiramente inquisitivo.
O Sr. Carlin não respondeu. Parecia paralisado.
- Desça - disse Spangler. - Por favor. Antes que caia.
Carlin desceu lentamente, agarrando-se a cada degrau, como um homem engatinhando acima de um abismo sem fundo. Quando seus pés tocaram o chão, começou a gaguejar,
dando a impressão de que o piso era percorrido por alguma corrente e que esta o ligara, como uma lâmpada elétrica.
- Um quarto de milhão - dizia ele. - Um quarto de milhão de dólares como seguro, para trazer aquela... coisa lá de baixo até aqui! Essa maldita coisa! Tiveram
que montar uma forma especial e içá-la com guincho até o espigão do depósito, lá em cima. E eu esperava - quase rezava - para que os dedos de alguém ficassem escorregadios...
que a corda não agüentasse... que a coisa despencasse e se estilhaçasse em mil pedaços...
- Fatos - disse Spangler. - O que interessa são fatos, Carlin. Nada de novelas em brochuras baratas, de histórias baratas de tablóides ou de filmes de terror
igualmente baratos. Fatos. Número um: John Delver foi um artesão inglês, de descendência normanda, fabricante de espelhos no que chamamos de período elizabetano
da história da Inglaterra. Viveu e morreu obscuramente. Sem pentáculos riscados no chão, para a criada apagar, sem documentos cheirando a enxofre, com uma mancha
de sangue na linha pontilhada. Número dois: Seus espelhos se tornaram peças de colecionadores, devido principalmente ao seu fino acabamento artesanal e ao fato de
que uma forma de cristal fosse usada com um leve efeito ampliador e distorcido para o olho de quem a segurasse - uma marca registrada bem distintiva. Número três:
que saibamos, restam apenas cinco Delver - dois deles na América. Inestimáveis, no tocante a preço. Número quatro: Este Delver e um outro que foi destruído na Blitz
de Londres, adquiriram uma reputação algo espúria, devido principalmente à falsidade, exagero e coincidência...
- Fato número cinco - disse o Sr. Carlin - você é um arrogante bastardo, não?
Spangler fitou o Adônis cego, com leve irritação.
- Eu fui o guia no tour do qual fazia parte o irmão de Sandra Bates, quando ele viu seu precioso espelho Delver, Spangler. O rapazinho teria uns dezesseis
anos, estava com um grupo de ginásio. Eu ia relatar a história do espelho e acabara de chegar à parte que você apreciaria - enaltecendo seu acabamento perfeito,
a perfeição do espelho em si - quando o rapaz levantou a mão. "O que significa aquele borrão preto no canto superior esquerdo?" perguntou ele. "Parece que houve
uma falha".
- Um amigo seu perguntou o que ele queria dizer. O rapaz Bates começou a dizer, depois se calou. Olhou para o espelho com profunda atenção, chegando bem junto
da corda de veludo vermelho, em torno da vitrine que guardava o espelho então olhou para trás, como se o que houvesse visto fosse o reflexo de alguém, de alguém
vestido de preto - de pé ao seu ombro. "Parecia um homem - disse ele, - mas não pude ver seu rosto. Agora, desapareceu". E isso foi tudo.
- Continue - disse Spangler. - Está ardendo de vontade de me dizer que era a Morte. O Segador - creio que esta é a explicação comum, não? A de que ocasionais
pessoas escolhidas vêem a imagem do Segador no espelho? Ora, esqueça, homem! O National Enquirer adoraria isso! Fale-me sobre as horríveis conseqüências e desafie-me
a explicá-las. Ele foi atropelado por um carro, mais tarde? Atirou-se de uma janela? O que foi?
O Sr. Carlin deu uma risadinha incrédula.
- Penso que devia saber melhor, Spangler. Não me disse duas vezes que está... hum... a par da história do espelho Delver? Não houve conseqüências horríveis.
Nunca tem havido. Dai por que o espelho Delver não aparece nos suplementos dominicais, como o diamante Koh-i-noor ou a maldição da tumba do Rei Tutankamon. Ele é
mundano, comparado ao resto. Acha que sou um tolo, não?
- Exatamente - respondeu Spangler. - Podemos subir agora?
- Claro - disse o Sr. Carlin, ardoroso.
Subiu a escada e empurrou o alçapão. Houve um ruído "clique-claque", quando ele foi puxado para as sombras por um contrapeso. O Sr. Carlin desapareceu na
penumbra.
Spangler o seguiu. O Adônis cego olhava cegamente para eles.
O aposento do espigão era explosivamente quente, iluminado apenas por uma janela de muitos ângulos, coberta de teias de aranha, que filtrava a claridade crua
do exterior, transformando-a em suja luminosidade leitosa. O espelho estava inclinado em uma esquina, de frente para a luz, captando a maioria da claridade e refletindo-a
em uma faixa perolada, na parede oposta. Havia sido seguramente ajustado em uma moldura de madeira. O Sr. Carlin não olhava para ele. Deliberadamente, evitava fitá-lo.
- Nem ao menos o protegeu com um pano velho! - exclamou Spangler visivelmente irritado pela primeira vez.
- Eu penso nele como um olho - disse o Sr. Carlin. Sua voz continuava seca, absolutamente vazia. - Se for deixado aberto, sempre aberto, talvez acabe ficando
cego.
Spangler não lhe deu atenção. Tirou o casaco, dobrou cuidadosamente os botões para dentro e, com infinita delicadeza, limpou a poeira da superfície convexa
do espelho.
Depois recuou e olhou para ele.
Era legítimo. De fato, não havia dúvidas quanto a isso, nunca houvera. Tratava-se de um perfeito exemplo do particular gênio de Delver. O recinto amontoado
de quinquilharias atrás dele, seu próprio reflexo, a imagem meio virada de Carlin - tudo surgia claro, nítido, quase tridimensional. O ligeiro efeito amplificador
do espelho dava a tudo uma qualidade levemente encurvada, que acrescentava uma distorção quase quadridimencional. Ele era...
Seu fio de pensamentos interrompeu-se e ele sentiu outra onda de raiva.
- Carlin!
Carlin nada disse.
- Carlin, seu maldito tolo, pensei ouvi-lo dizer que a moça não danificara o espelho!
Nenhuma resposta.
Spangler dirigiu-lhe um olhar gélido, através do espelho.
- Há um pedaço de fita isolante no canto superior esquerdo. Ela o rachou? Pelo amor de Deus, homem, diga alguma coisa!
- Você está vendo o Segador - disse Carlin. Sua voz era inexpressiva e sem paixão. - Não há nenhuma fita isolante no espelho. Passe a mão sobre o lugar...
oh, Deus!
Spangler enrolou cuidadosamente a parte superior da manga do casaco em torno da mão, esticou o braço e fez uma leve pressão contra o espelho.
- Está vendo? Não há nada de sobrenatural. Desapareceu. Minha mão cobriu o que havia.
- Cobriu? Pode sentir a fita? Por que não a arranca?
Spangler afastou a mão cautelosamente e olhou para o espelho. Tudo nele parecia um pouco mais distorcido; os estranhos ângulos do aposento davam a impressão
de bocejar loucamente, como se prestes a deslizarem para o âmago de alguma eternidade invisível.
Não havia nenhuma mancha escura no espelho. Estava imaculado. Spangler percebeu um medo súbido e doentio crescer dentro de si e desprezou-se por senti-lo.
- Parecia ele, não? - perguntou o Sr. Carlin. Seu rosto estava muito pálido e ele olhava diretamente para o chão. Um músculo saltou espasmodicamente em seu
pescoço. - Confesse, Spangler. Não parecia uma figura encapuzada, em pé às suas costas?
- Parecia uma fita isolante, tapando uma pequena rachadura - respondeu Spangler, em voz firme. - Nada mais, nada menos...
- O rapaz Bates era muito robusto - disse Carlin rapidamente. Suas palavras pareciam cair na atmosfera quente e imóvel, como pedras atiradas em água escura.
- Como um jogador de futebol. Usava um blusão com iniciais e calças verde-escuras. Estávamos a meio caminho para a exposição no andar de cima, quando...
- Este calor me faz mal - disse Spangler, em voz pouco firme.
Havia apanhado um lenço e enxugava o pescoço. Seus olhos perscrutaram a superfície convexa do espelho, em leves e abruptos movimentos.
- Quando ele disse que queria um gole d'água... um gole d'água, pelo amor de Deus! - Carlin se virou e olhou desvairadamente para Spangler. - Como eu podia
saber? Como eu podia saber?
- Há algum lavatório por aqui? Acho que vou...
- O blusão dele... apenas tive um vislumbre de seu blusão, quando ele desceu a escada... e então...
- ... vomitar!
Carlin abanou a cabeça, como se quisesse areja-la, e tornou a fitar o chão.
- Claro. Terceira porta à sua esquerda, no segundo andar, tomando a direção da escada. - Ergueu os olhos, suplicante. - Como eu podia saber?
Spangler, no entanto, já começava a descer a escada. Ela balançou sob seu peso e, por um momento, Carlin pensou - esperou - que ele fosse cair. Não caiu.
Pela abertura quadrada no piso, Carlin o viu descer, tapando levemente a boca com uma das mãos.
- Spangler...?
Ele já se fora.
Carlin ouviu as pisadas dissolvendo-se em ecos, depois cessando. Quando deixou de ouvi-las, estremeceu violentamente. Tentou mover os pés para o alçapão,
mas estavam gelados. Apenas aquele último e apressado vislumbre do blusão do rapaz... Céus!...
Era como se enormes mãos invisíveis lhe puxassem a cabeça, forçando-a a erguer-se.
Não querendo espiar, assim mesmo Carlin olhou para as bruxuleantes profundezas do espelho Delver.
Nada havia lá.
O aposento se refletia fielmente para ele, seus confins empoeirados transformados em difuso infinito. Ocorreu-lhe um trecho quase esquecido de um poema de
Tennyson, e ele o recitou, em um murmúrio:
"As sombras deixam-me algo indisposta, disse a Senhora de Shallott..."
E, ainda assim, ele não conseguia desviar os olhos, imobilizado pela quieta atmosfera.
Perto de um canto do espelho, uma cabeça de búfalo roída de traças, espiava-o com chatos olhos obsidianos.
O rapaz quisera água e o bebedouro ficava no saguão do primeiro andar. Ele havia descido a escada e...
E nunca mais voltara.
Nunca mais!
Como a duquesa, que fizera uma pausa após arrumar-se para uma soirée diante do espelho e voltara ao quarto de vestir para apanhar suas pérolas. Como o mercador
de tapetes, que saíra para um passeio de carruagem e deixara para trás apenas uma carruagem vazia e dois cavalos mudos.
E o espelho Delver estivera em Nova York de 1897 a 1920, estivera lá, quando o Juiz Crater...
Carlin olhava fixamente, como que hipnotizado, para as rasas profundezas do espelho.
Mais abaixo, o Adônis cego continuava vigilante.
Ele esperou por Spangler, da mesma forma como a família Bates devia ter esperado pelo filho, como o marido da duquesa devia ter esperado que sua esposa voltasse
do quarto de vestir. Ficou olhando para o espelho e esperou.
E esperou.
E esperou.

* * *



AQUI HÁ TYGRES

Charles precisava desesperadamente ir ao banheiro.
Não adiantava continuar a enganar-se, achando que poderia esperar até a hora do recreio.
Sua bexiga gritava para ele, e a Srta. Bird o surpreendeu contorcendo-se.
Havia três professoras do terceiro grau, na Escola Primária da Rua Acorri. A Srta. Kinney era jovem, loura e cheia de vitalidade, com um namorado que a vinha
buscar depois das aulas, em um Camaro azul. A Sra. Trask tinha as formas de uma almofada mourisca, penteava o cabelo em tranças e ria estentoreamente. E havia a
Srta. Bird.
Charles sabia que terminaria liquidando a Srta. Bird. Ele sabia disso. Era inevitável.
Porque, obviamente, a Srta. Bird queria destruí-lo. Ela não permitia que crianças fossem ao porão. O porão, dizia a Srta. Bird, era onde ficavam as caldeiras,
de modo que damas bem comportadas e cavalheiros nunca desciam lá, porque porões eram desagradáveis, velhas coisas fuliginosas. Mocinhas e cavalheiros não vão ao
porão, havia dito ela. Eles vão ao banheiro.
Charles contorceu-se novamente. A Srta. Bird o fitou de banda.
- Charles - disse ela claramente, ainda apontando seu ponteiro para a Bolívia, - você precisa ir ao banheiro?
Cathy Scott, no assento à frente dele, deu uma risadinha sufocada, cobrindo a boca prudentemente.
Kenny Griffen riu à socapa e chutou Charles por baixo da carteira.
Charles ficou vermelho-vivo.
- Responda, Charles - disse animadamente a Srta. Bird. - Você precisa... (urinar, ela dirá urinar, como sempre faz)
- Sim, Srta. Bird.
- Sim, o quê?
- Eu tenho que ir ao po - ao banheiro.
A Srta. Bird sorriu.
- Muito bem, Charles. Pode ir ao banheiro e urinar. É o que precisa fazer lá? Urinar?
Charles baixou a cabeça, condenado.
- Muito bem, Charles. Pode ir. E, da próxima vez, por favor, não fique esperando que eu lhe pergunte.
As risadinhas sufocadas encheram a sala. A Srta. Bird bateu no quadro com seu ponteiro.
Charles arrastou-se pelo corredor entre as carteiras, na direção da porta, sentindo trinta pares de olhos pousados em suas costas. E cada um daqueles colegas,
incluindo-se Cathy Scott, sabia que ele ia ao banheiro para urinar. A porta ficava a uma distância de, pelo menos, um campo de futebol. A Srta. Bird não continuou
a aula, ficando calada até ele abrir a porta, passar para o corredor abençoadamente vazio e fechar a porta suavemente.
Ele caminhou em direção ao banheiro dos meninos, (porão porão porão SE EU QUISER) arrastando os dedos ao longo dos frios ladrilhos da parede, deixando que
escalassem o quadro de avisos, com os avisos pregados a percevejos e escorregassem levemente através da (QUEBRE O VIDRO EM CASO DE EMERGÊNCIA) caixa vermelha de
alarme contra incêndios.
A Srta. Bird gostava daquilo. Ela gostava de deixá-lo com o rosto vermelho. Em frente de Cathy Scott - que nunca precisava ir ao porão, isso era justo? -
e de todos os outros.
Filha da P-U-T-A, pensou ele. Soletrou a palavra, porque no ano anterior decidira que Deus não a consideraria um pecado, se fosse soletrada.
Entrou no banheiro dos meninos.
Estava muito frio lá dentro, com um cheiro fraco, mas não desagradável, de água sanitária pairando acremente no ar. Agora, pelo meio da manhã, o banheiro
estava limpo e solitário, tranqüilo e muitíssimo agradável, nada parecido com o cubículo enfumaçado e fedorento do Cinema Star, no centro da cidade.
O banheiro (porão!) era construído em forma de L, ficando a haste mais curta com uma fileira de pequenos espelhos quadrados e pias de porcelana branca, além
de um toalheiro com toalhas de papel (NIBROC), e a haste mais comprida com dois mictórios e três cubículos com vaso sanitário.
Charles dobrou a esquina, após olhar soturnamente para seu rosto fino e algo pálido, em um dos espelhos.
O tigre estava deitado na extremidade mais distante, logo abaixo da janela branco-pedregosa.
Era um tigre grande, com persianas fulvas e tiras escuras cruzando seu pêlo.
Ele ergueu os olhos alertamente para Charles, apertando as pupilas esverdeadas. Uma espécie de ronronar sedoso escapou-lhe da boca. Músculos lisos flexionaram-se
e o tigre se pôs sobre as patas. Sua cauda agitou-se, fazendo pequenos sons de batidas contra o lado de porcelana do último mictório.
O tigre parecia absolutamente faminto e muito perigoso.
Charles correu, percorrendo de volta o caminho já feito. A porta parece levar uma eternidade para resfolegar pneumaticamente atrás dele, mas quando se fechou,
Charles considerou-se a salvo. Aquela porta apenas oscilava, e ele não se lembrava de já ter lido ou ouvido dizer que tigres são inteligentes o bastante para abrir
portas.
Passou o dorso da mão sobre o nariz. Seu coração batia tão forte, que era capaz de ouvi-lo. Ainda precisava ir ao porão, mais do que nunca.
Contorceu-se, pestanejou e apertou uma das mãos contra a barriga. Realmente, tinha que ir ao porão. Se, pelo menos, tivesse certeza de que não viria ninguém,
usaria o das meninas. Ficava bem do outro lado do corredor. Charles olhou para lá ansiosamente, sabendo que nunca teria coragem, nem em um milhão de anos. E se Cathy
Scott aparecesse? Ou - tremendo horror! - se a Srta. Bird aparecesse?
Talvez ele houvesse imaginado o tigre.
Abriu a porta, uma fresta suficiente para um olho, e espiou.
O tigre espiava de volta, junto ao ângulo do L, seu olho era de um verde cintilante.
Charles fantasiou que podia distinguir um pequenino salpico azul naquele brilho profundo, como se o olho do tigre tivesse comido o seu próprio. Como se...
Uma mão deslizou em volta de seu pescoço.
Charles soltou um grito contido, enquanto sentia o coração e o estômago amontoarem-se em sua garganta. Por um terrível momento, pensou que ia urinar-se.
Era Kenny Griffen, sorrindo complacentemente.
- A Srta. Bird me mandou atrás de você, porque saiu da aula há seis anos. Você está encrencado.
- Eu sei, mas não posso ir ao porão - disse Charles, ainda nervoso pelo susto que Kenny lhe dera.
- Está com prisão-de-ventre! - cantarolou Kenny alegremente. - Espere só até eu contar a Cathy!
- Não tem nada que contar a ela! - exclamou Charles prontamente. Além disso, não estou com prisão-de-ventre. Há um tigre lá dentro.
- E o que ele está fazendo? - perguntou Kenny. - Mijando?
- Não sei - respondeu Charles, virando o rosto para a parede. - Eu só queria que ele fosse embora - acrescentou, começando a chorar.
- Ei! - disse Kenny, perplexo e um pouco amedrontado. - Ei!
- E se eu tiver que ir? E se não houver outro jeito? A Srta. Bird irá dizer que...
- Ora, vamos! - disse Kenny, agarrando seu braço com uma das mãos e empurrando-o pela porta aberta com a outra. - Você está inventando.
Já estavam dentro do banheiro, antes que Charles, aterrorizado, pudesse libertar-se e encolher-se contra a porta.
- Um tigre - disse Kenny, enojado. - Rapaz, a Srta. Bird matará você!
- Ele está no outro lado.
Kenny começou a caminhar ao longo da fila de pias.
- Pss-pss-pss? Psss?
- Não faça isso! - sibilou Charles.
Kanny desapareceu atrás da quina da parede.
- Pss-pss? Pss-pss? Pss...
Charles disparou pela porta novamente e apertou-se contra a parede, esperando, as mãos cobrindo a boca e os olhos fortemente apertados, esperando, esperando
o grito.
Não houve grito nenhum.
Ele não fazia idéia de quanto tempo permaneceu ali, hirto, a bexiga explodindo. Olhou para a porta do porão dos meninos. Ela nada lhe disse. Era apenas uma
porta.
Não iria.
Não poderia ir.
Contudo, finalmente entrou.
As pias e espelhos continuavam em ordem e o fraco cheiro de água sanitária não se modificara. No entanto, parecia haver um cheiro sob aquele. Um cheiro vago
e desagradável, como o de cobre recém-cortado.
Com sofrida (mas silenciosa) apreensão, ele chegou até a quina do L e espiou.
O tigre estava estirado no chão, lambendo as enormes patas com uma comprida língua rosada. Olhou para Charles sem curiosidade. Em uma de suas presas, havia
um pedaço rasgado de camisa.
A necessidade de Charles, no entanto, agora se tornava agônica e ele não podia esperar mais. Tinha que se aliviar. Na ponta dos pés, voltou até a pia de porcelana
branca mais próxima da porta.
A Srta. Bird irrompeu no banheiro, justamente quando ele puxava o zíper das calças.
- Ora, mas você, seu garotinho sujo, seu porco! - disse ela, quase ponderadamente.
Charles mantinha um olho vigilante na esquina.
- Sinto muito, Srta. Bird... o tigre... eu vou limpar a pia... vou passar sabão... juro que vou...
- Onde está Kenneth? - perguntou calmamente a Srta. Bird.
- Não sei.
De fato, ele não sabia.
- Ele está aí dentro?
- Não! - gritou Charles.
A Srta. Bird começou a caminhar para o ponto em que o banheiro fazia quina.
- Venha cá, Kenneth! Imediatamente!
- Srta. Bird...
A Srta. Bird, entretanto, já dobrara a quina. Ela quisera surpreender. Charles pensou que a Srta. Bird estava prestes a descobrir o que realmente significava
surpreender.
Tornou a cruzar a porta. Bebeu água no bebedouro. Olhou para a bandeira americana pendendo à entrada do ginásio. Olhou para o quadro de avisos. A Coruja Sábia
dizia FIQUE ATENTO, NÃO POLUA. O Policial Amigo dizia NUNCA ACEITE CARONA DE ESTRANHOS. Charles leu tudo duas vezes.
Depois voltou para a sala de aula, seguiu por sua fila de carteiras até onde ficava a sua, sempre com os olhos baixos, deslizou para o banco. Faltavam quinze
para as onze.
Apanhou Estradas para toda parte e começou a ler sobre Bill no Rodeio.

* * *


CAIM REBELADO

Garrish saiu do brilhante sol de maio para a frieza dos dormitórios. Seus olhos demoraram um instante a adaptar-se, de modo que a voz de Harry "Castor" foi,
a princípio, apenas incorpórea, vinda das sombras.
- Uma droga, hem? - perguntou "Castor". - Não foi mesmo uma bruta droga?
- Foi - respondeu Garrish. - Um bocado difícil.
Agora, seus olhos pousavam em "Castor". Ele esfregava a mão nas espinhas da testa e havia suor sob seus olhos. Usava sandálias e uma camiseta 69, tendo à
frente um botão dizendo que Howdy Doody era um pervertido. Seus enormes dentes protuberantes cintilavam na penumbra.
- Eu ia me mandar em janeiro - disse "Castor". - Fiquei repetindo para mim, caia fora enquanto é tempo. Então, encerrou-se o período para as comunicações
de saída, e seria eu ir em frente ou não completar o termo. Acho que levei pau, Curt. Palavra.
A inspetora estava parada na esquina, ao lado das caixas de correspondência. Era uma mulher extremamente alta, mostrando uma vaga semelhança com Rodolfo Valentino.
Com uma das mãos, tentava endireitar uma alça por baixo da cava suada do vestido, enquanto com a outra pregava a percevejos uma lista com o nome dos que deixavam
o dormitório.
- Um bocado difícil - repetiu Garrish.
- Tentei colar alguma coisa de você, mas não tive coragem, palavra. Aquela cara tem olhos de águia! Acha que conseguiu seu A?
- Acho que talvez seja reprovado - respondeu Garrish.
- Acha que vai levar pau? Você acha que...
- Vou tomar uma ducha, certo?
- Sim, certo, Curt. Certo. Esta foi sua última prova?
- Foi - respondeu Garrish. - Esta foi minha última prova.
Garrish cruzou o saguão, atravessou as portas e começou a subir. O poço da escada cheirava como um suporte atlético. Os mesmos velhos degraus. Seu quarto
ficava no quinto andar.
Quinn e aquele outro idiota do terceiro, o que tinha pernas cabeludas, cruzaram com ele, atirando uma bola de softball de um lado para outro. Um sujeitinho
de óculos de aro e um cavanhaque que se esforçava valentemente para aparecer, passou a seu lado entre o quarto e o quinto, apertando um livro de cálculo contra o
peito, como uma Bíblia, os lábios se movendo em um rosário de logarítmos. Seus olhos eram vazios como quadros negros.
Garrish parou e o seguiu com o olhar, perguntando-se se ele não estaria melhor morto, mas o sujeitinho era agora apenas uma sombra vacilante que se esfumava
contra a parede. Ela oscilou uma vez mais e desapareceu. Garrish subiu para o quinto e desceu o corredor até seu quarto. "Chiqueiro" havia partido dois dias antes.
Quatro provas finais em três dias, um esforço dos diabos, e me dê o meu boné... "Chiqueiro" sabia como fazer as coisas. Deixara para trás apenas os posters de suas
pin-ups, duas meias desparelhadas, sujas e fedorentas, e uma paródia em cerâmica do Pensador de Rodin, encarapitada em um vaso sanitário.
Garrish enfiou sua chave na fechadura e a girou.
- Curt! Hei, Curt!
Rollins, o conselheiro daquele pavimento, que tinha enviado Jimmy Brody para visitar o Deão dos Homens, por infração alcoólica, vinha descendo o corredor
e acenava para ele. Era alto, corpulento, de cabelos em corte rente, simétrico. Parecia envernizado.
- Você já encerrou? - perguntou Rollins.
- Hã-hã.
- Não esqueça de varrer o chão e preencher o relatório de danos, certo?
- Hã-hã.
- Enfiei um relatório de danos debaixo de sua porta na quinta-feira, certo?
- Hã-hã.
- Se eu não estiver em meu quarto, basta enfiar o relatório de danos e a chave por baixo da porta.
- Certo.
Rollins estendeu a mão e apertou a dele, sacundindo-a duas vezes, rápido, pump-piemp.
A palma de Rollins era seca, de pele granulosa. Apertar a mão dele era como apertar um punhado de sal.
- Desejo-lhe um bom verão, cara.
- Obrigado.
- Não se esforce além da conta.
- Certo.
- Use, mas não abuse.
- Vou usar e não abusar.
Rollins pareceu momentaneamente intrigado, depois riu.
- Muito bem, cuide-se, rapaz.
Bateu no ombro de Garrish e continuou a descer o corredor, parando uma vez para dizer a Ron Frane que abaixasse o volume do estéreo. Garrish podia ver Rollins
jazendo morto em uma sarjeta, com larvas nos olhos. Rollins não se importaria e tampouco as larvas. A gente come o mundo ou o mundo nos come e tudo acaba bem, de
um jeito ou de outro.
Garrish ficou parado e pensativo, olhando até Rollins desaparecer de vista. Só então entrou em seu quarto.
Sem a ciclônica bagunça de "Chiqueiro", o aposento parecia nu e estéril. A montanha desordenada, crescida e dispersa que havia sido a cama de "Chiqueiro",
desaparecera por completo, restando apenas o colchão desnudo - embora ligeiramente manchado de esperma. Duas capas duplas de Playboy olharam do alto para ele, exibindo
congelados convites bidimensionais.
Houvera pouca mudança na metade do quarto que pertencia a Garrish, que sempre estivera arrumada como um quartel. Deixando-se cair uma moeda sobre a esticada
coberta de sua cama, ela certamente ricochetearia. Tamanha arrumação dera nos nervos de "Porcalhão". Ele fazia especialização em Inglês e tinha tendência para belas
frases.
Chamava Garrish de dono-de-pombal. A única coisa na parede, acima da cama de Garrish, era uma grande ampliação fotográfica de Humphrey Bogart, que adquirira
na livraria da universidade. Bogie empunhava uma pistola automática em cada mão e usava elásticos nas mangas da camisa. "Chiqueiro" dizia que pistolas e braçadeiras
eram símbolos de impotência. Garrish duvidava muito que Bogie tivesse sido impotente, mesmo nunca tendo lido nada sobre ele.
Chegou à porta do armário embutido, destrancou-a e tirou o enorme Magnum 325 com coronha de nogueira, que seu pai, um ministro metodista, lhe comprara pelo
Natal. O visor telescópico havia sido comprado no último março, pelo próprio Garrish.
Supunha-se proibida a presença de armas nos quartos, inclusive de rifles de caça, porém não havia sido difícil. Ele o apanhara no depósito de armas da universidade,
apresentando uma papeleta forjada de retirada. Colocara-o em seu estojo de couro à prova d'água e o deixara no bosque atrás do campo de futebol. Esta madrugada,
por volta de três horas, deixara o dormitório e tinha ido apanhá-lo, trazendo-o de volta através dos corredores adormecidos.
Garrish sentou-se na cama, com o rifle cruzado sobre os joelhos, e chorou um pouquinho. O Pensador olhava para ele, sentado em seu vaso sanitário. Garrish
largou a arma em cima da cama, cruzou o quarto e, com um tapa, jogou-o fora da mesa de "Porcalhão". O Pensador de cerâmica caiu ao chão, onde se estilhaçou. Houve
uma batida à porta.
Garrish escondeu o rifle debaixo da cama.
- Entre!
Era Bailey, em roupas de baixo. Havia um rolo de fios do tecido, no botão sobre o estômago. Não existia futuro para Bailey. Ele se casaria com uma garota
imbecil e os dois teriam filhos imbecis. Mais tarde, Bailey morreria de câncer ou talvez de insuficiência renal.
- Como foi em sua final de Química, Curt?
- Tudo bem.
- Queria saber se podia emprestar-me suas anotações. Tenho Química amanhã.
- Eu as queimei com meu lixo, esta manhã.
- Oh! Meu Deus! "Porcalhão" fez isso? - e ele apontou para os remanescentes do Pensador.
- Acho que fez.
- Por que tinha de fazer isso, se ia embora? Eu gostava daquela coisa. Ia comprá-la dele.
Bailey tinha feições miúdas e aguçadas, como as de um rato. Sua roupa de baixo era surrada, com fundilhos empapuçados. Garrish podia ver exatamente como ele
pareceria, morrendo de enfizema ou coisa assim, em uma tenda de oxigênio. Como ficaria amarelo. Eu poderia ajudá-lo pensou.
- Acha que ele se importaria, se eu ficasse com as pin-ups?
- Acho que não.
- Ótimo. - Bailey cruzou o quarto, os pés nus pisando cautelosamente nos cacos de cerâmica, e tirou os percevejos que prendiam os posters das coelhinhas.
- Essa foto de Bogart também é um barato. Sem maminhas, mas, puxa! Entende? - Bailey olhou de esguelha para Garrish, querendo ver se ele sorriria. Como não houvesse
nenhum sorriso, acrescentou: - Estará pretendendo desfazer-se dele?
- Não. Apenas me preparava para uma ducha.
- Tudo bem. Se não tornar a vê-lo, tenha um bom verão, Curt.
- Obrigado.
Bailey caminhou até a porta, com os fundilhos bamboleando-se. Ali, parou e se virou.
- Outros quatro pontos este semestre, Curt?
- No mínimo.
- Boa pedida! Até o ano que vem!
Saiu e fechou a porta. Garrish sentou-se na cama por um momento, depois apanhou o rifle, desmontou-o e limpou-o. Levou a boca da arma até o olho e espiou
para o pequeno círculo de luz na extremidade oposta. O cano estava limpo. Tornou a montar a arma.
Na terceira gaveta de sua secretária havia três pesadas caixas de munição Winchester.
Colocou-as sobre o peitoril. Passou a chave na porta do quarto e retornou à janela.
Ergueu as persianas.
A aléia principal da universidade estava clara e verdejante, pontilhada de estudantes indo e vindo. Quinn e seu amigo idiota estavam entretidos com mais um
grupo, jogando bola. Corriam de um lado para outro, como formigas aleijadas escapando de um buraco desmantelado.
- Quero dizer-lhe uma coisa - falou Garrish para Bogie. - Deus ficou danado da vida com Caim, porque Caim o julgava um vegetariano. O irmão dele sabia mais.
Deus fez o mundo à Sua imagem e, se a gente não devora o mundo, ele nos devora. Foi então que Caim perguntou ao irmão, "Por que não me contou?" E o irmão respondeu,
"Por que você não ouviu?" E Caim disse, "Certo, estou ouvindo agora". Então, ele dá cabo do irmão e diz, "Ei, Deus! Você quer carne? Aqui a tem! Prefere assada.
em bifes, Abelburger ou como?" E Deus lhe disse que comesse suas sandálias. E então... o que você acha?
Não houve resposta de Bogie.
Garrish ergueu a janela e descansou os cotovelos no peitoril, sem deixar que o cano da 353 se projetasse para fora, à luz do sol. Olhou pelo visor.
Centrou-o no dormitório feminino Carlton Memorial, no outro lado da aléia principal. O Carlton era mais popularmente conhecido como os canis. Colocou os fios
cruzados sobre uma grande caminhonete Ford. Uma aluna loura, em jeans e camisa azul, conversava com a mãe, enquanto o pai, de rosto corado e calvo, enchia a traseira
da caminhonete com malas.
Alguém bateu à porta.
Garrish esperou.
A batida repetiu-se.
- Curt? Eu lhe darei meia prata pelo poster de Bogart!
Bailey.
Garrish nada disse. A garota e sua mãe riam de alguma coisa, ignorando que havia micróbios em seus intestinos, alimentando-se, dividindo-se, multiplicando-se.
O pai da garota se juntou a elas e ficaram reunidos ao sol, um retrato de família no retículo de fios cruzados.
- Que se danem todos! - exclamou Bailey.
Seus pés se moveram corredor abaixo.
Garrish apertou o gatilho.
O rifle escoiceou seu ombro com força, o bom e acolchoado coice de quando se tem a arma apoiada exatamente no lugar certo. A cabeça loura da garota sorridente
espatifou-se.
Sua mãe continuou rindo por um momento, depois levou a mão à boca. Gritou por entre os dedos. Garrish atirou neles. Mão e cabeça desapareceram, em borrifos
vermelhos. O homem que estivera colocando as malas no carro, interrompeu-se e correu.
Garrish o seguiu com a arma e baleou-o nas costas. O homem levantou a cabeça, ficando fora do visor por um instante. Quinn segurava a bola de soft e olhava
para os miolos da garota loura, salpicados sobre o indicador PROIBIDO ESTACIONAR, atrás de seu corpo caído. Quinn não se moveu. Por toda a aléia principal, as pessoas
ficaram imóveis, como crianças brincando de estátuas.
Alguém esmurrou a porta, depois sacudiu a maçaneta. Bailey novamente.
- Curt? Você está bem, Curt? Acho que alguém está...
- Boa bebida, boa carne, bom Deus, vamos comer! exclamou Garrish, e atirou em Quinn.
Quinn saltou, ao invés de encolher-se, de modo que o tiro se perdeu. Ele agora corria.
Sem problema. O segundo tiro o pegou no pescoço, fazendo-o voar por talvez uns seis metros.
- Curt Garrish está se matando! - gritava Bailey. - Rollins! Rollins! Venha depressa!
Suas pisadas distanciaram-se, corredor abaixo.
Agora, eles começavam a correr. Garrish podia ouvir a gritaria geral. Podia ouvir o distante som tap-tap de seus sapatos nas calçadas.
Ergueu os olhos para Bogie. Bogie empunhava suas duas armas e, do alto, olhou para ele. Garrish contemplou os restos estilhaçados do Pensador de "Porcalhão"
e perguntou-se o que ele estaria fazendo naquele momento, se dormia, via televisão ou devorava alguma lauta e espetacular refeição. Coma o mundo, "Porcalhão", pensou
Garrish. Engula o perfeito otário.
- Garrish! - agora era Rollins que esmurrava a porta. - Abra, Garrish!
- Está trancada a chave! - ofegou Bailey. - Ele parecia esquisito, ele se matou, eu sei!
Garrish empurrou novamente a boca da arma para fora da janela. Um rapaz de camisa xadrez, agachado atrás de um arbusto, perscrutava as janelas do dormitório,
com desesperada intensidade. Garrish percebeu que ele queria correr, mas estava com as pernas endurecidas.
- Vamos correr, bom Deus - murmurou Garrish, e começou a puxar o gatilho de novo.

* * *



ENTREGAS MATINAIS (Leiteiro n.° 1)

O alvorecer espraiou-se lentamente pela Rua Culver.
Para os que estavam acordados dentro de casa, a noite continuava negra, porém o alvorecer estivera realmente espreitando por já quase meia hora. No grande
bordo da esquina de Culver com Avenida Balfour, um esquilo vermelho pestanejou e voltou seu olhar sonolento para as casas adormecidas. Na metade do quarteirão, uma
andorinha enfiou-se no pequeno chafariz para pássaros na residência dos Mackenzie e salpicou gotas peroladas sobre si mesma. Uma formiga caminhava a esmo pela sarjeta
e se deparou com um diminuto fragmento de chocolate, aderido ao rejeitado papel que envolvera a barra inteira.
A brisa noturna, que rogaçara folhas e enfunara cortinas, agora se aquietara. O bordo da esquina deu um último e farfalhante estremecimento, antes de ficar
quieto, aguardando a abertura plena que se seguiria a este tranqüilo prólogo.
Uma débil faixa de claridade tingiu o céu a leste. O obscuro curiango entrou de folga e os chapins fizeram uma tentativa para encarar a vida, ainda vacilantes,
como que temerosos de acolher o dia por si mesmos.
O esquilo desapareceu em um beiçudo buraco na forquilha do bordo.
A andorinha agitou as asas na borda do chafariz e fez uma pausa.
A formiga também fez uma pausa diante de seu tesouro, como um bibliófilo ruminando sobre uma edição de formato in-fólio.
A Rua Culver tremeu silenciosamente na borda do planeta que o sol iluminava - aquela régua móvel a que os astrônomos denominam círculo de iluminação.
Um som ganhou intensidade quietamente dentro do silêncio, intumescendo com reservas até parecer que sempre estivera ali, oculto sob os ruídos maiores da noite
que findava. Ele aumentou, ganhou clareza e transformou-se no decorosamente abafado som de um furgão leiteiro.
O veículo dobrou da Balfour para a Culver. Era um belo furgão bege, com inscrições vermelhas nas laterais. O esquilo assomou como uma língua à boca de seu
buraco beiçudo, observou o furgão e depois espiou para um provável pedacinho de forragem para seu ninho. Apressou-se em descer pelo tronco da árvore, de cabeça para
baixo. A andorinha voou. A formiga apossou-se do chocolate que suas forças permitiam e encaminhou-se para seu montículo.
Os chapins começaram a trinar mais alto.
No outro quarteirão, um cão latiu.
Nas laterais do furgão de entrega do leite, a inscrição dizia: LATICÍNIOS CRAMER'S.
Havia a figura de uma garrafa de leite e, mais abaixo, o seguinte: NOSSA ESPECIALIDADE - ENTREGAS DE MANHÃ!
O leiteiro usava um uniforme cinza-azulado e um chapéu de bico. Havia um nome escrito sobre o bolso, em fio dourado: SPIKE. Ele assobiava, acima do confortável
sacolejo de garrafas no gelo, às suas costas.
O leiteiro parou o furgão junto ao meio-fio, diante da casa dos Mackenzie, pegou o engradado com leite, no piso ao seu lado, depois o colocou na calçada.
Parou um instante para cheirar o ar, fresco, novo e infinitamente misterioso. Em seguida, em largas passadas, cruzou a calçada até a porta.
Um pequeno quadrado de papel branco estava preso à caixa de correspondência, por um ímã em forma de tomate. Spike leu o que estava escrito ali, bem de perto
e lentamente, como alguém leria uma mensagem encontrada em uma velha garrafa, incrustada de sal.

1 lt. leite
1 creme econ
1 suco laranja
Obrigada
Nella M.

Spike, o leiteiro, olhou pensativamente para seu engradado, colocou-o no chão e tirou dele o leite e o creme. Tornou a examinar o papel, ergueu o ímã-tomate
para certificar-se de que não perdera um ponto, vírgula ou traço que modificariam o estado de coisas, assentiu, recolocou o ímã, recolheu seu engradado e voltou
ao furgão.
A parte traseira do furgão de leite era úmida, escura e fria. Havia um cheiro mofado de umidade em seu ar, misturando-se desconfortavelmente ao dos laticínios.
O suco de laranja estava por trás da insuportável dulcamara. Spike tirou uma caixa de papelão do gelo, tornou a assentir e retornou à calçada. Deixou a caixa de
suco ao lado do leite e do creme. Depois voltou a seu furgão.
Não muito longe dali, soou o apito das cinco horas na lavanderia industrial, onde trabalhava Rocky, o velho amigo de Spike. Ele pensou em Rocky, iniciando
seu trabalho por entre nuvens de vapor, em meio a um calor sufocante, e sorriu. Talvez procurasse Rocky mais tarde. Talvez essa mesma noite... depois de feitas as
entregas.
Spike deu partida ao motor e seguiu em frente. Um pequeno rádio transistorizado com uma correia em imitação de couro, pendia de um gancho de açougue, manchado
de sangue, que se encurvava do teto da boléia. Ele o ligou e uma música sossegada funcionava como contraponto de seu motor, enquanto rodava para a casa dos McCarthy.
A nota da Sra. McCarthy estava no lugar costumeiro, a fenda do depósito de cartas. Era concisa e direta:
Chocolate
Spike pegou sua caneta, garatujou Entrega Feita através do papel e o empurrou de volta pela fenda. Depois voltou ao furgão. O leite chocolatado ficava estocado
em dois esfriadores, bem no fundo, sendo alcançado pelas portas traseiras, porque era um produto de grande saída em junho. O leiteiro olhou para os esfriadores,
depois estendeu o braço sobre eles e apanhou uma das caixas vazias de papelão para o leite chocolatado, que ficavam no canto oposto. Naturalmente, a caixa era marrom,
e uma alegre criança cabriolava acima da matéria impressa, informando ao consumidor que aquele era um PRODUTO DOS LATICÍNIOS CRAMER'S INTEGRAL E DELICIOSO PODE SER
TOMADO QUENTE OU GELADO AS CRIANÇAS O ADORAM!
Spike colocou a caixa vazia de papelão sobre um engradado de leite. Em seguida, limpou os fragmentos de gelo até poder ver o pote de maionese. Apanhou-o e
espiou em seu interior. A tarântula se moveu, mas entorpecidamente. O frio a dopara. Spike desenroscou a tampa do pote e o virou sobre a caixa aberta de papelão.
A tarântula fez um débil esforço para engatinhar de volta, subindo pelo deslizante lado de vidro do pote, mas não foi bem sucedida. Caiu dentro da caixa de papelão
vazia do leite chocolatado, com um gordo plop. O leiteiro tornou a fechar a caixa cuidadosamente, colocou-a em seu suporte e subiu apressado a calçada dos McCarthy.
Aranhas eram suas prediletas, o máximo, em sua opinião. Para Spike, o dia em que pudesse entregar uma cobra, seria um dia feliz.
Enquanto subia a Culver lentamente, continuava a sinfonia do alvorecer. A faixa perolada do leste foi substituída por um crescente clarão rosado, a princípio
muito pouco discernível, depois abrilhantando-se rapidamente para um escarlate que, quase em seguida, começou a desbotar-se para o azul do verão. Os primeiros raios
de sol, belos como um desenho infantil em um livro de exercícios da escola dominical, agora aguardavam nos bastidores.
Na casa dos Webber, Spike deixou uma garrafa de creme comum, repleta de gelatina ácida. Na dos Jenner, deixou cinco litros de leite. Ali havia meninos crescendo.
Ele nunca os vira, porém havia uma casa-de-árvore nos fundos e, por vezes, bicicletas e bastões de jogar bola esquecidos no pátio fronteiro. Na dos Collins, dois
litros de leite e uma embalagem de papelão com iogurte. Na da Srta. Ordway, uma caixa de papelão com eggnog, que fora batizada com beladona.
Uma porta bateu no fim do quarteirão. O Sr. Webber, que fazia o trajeto inteiro até a cidade, abriu a porta cinza-azulada de sua garagem e entrou, balançando
sua pasta. O leiteiro esperou que soasse o zumbido do pequeno Saab, dando partida ao motor, e sorriu ao ouvi-lo. A variedade é o tempero da vida, gostava de dizer
a mãe de Spike - que Deus dê descanso à sua alma! - porém nós somos irlandeses, e os irlandeses preferem comer suas batatas da maneira mais simples. Seja moderado
em todos os sentidos, Spike, e você será feliz. Isto era absolutamente verdadeiro, conforme ele próprio descobrira, enquanto descia a estrada da vila rodando em
seu asseado furgão leiteiro bege.
Agora, faltavam apenas três casas.
Nados Kincaid, ele encontrou uma nota dizendo "Nada hoje, obrigado", mas deixou uma garrafa de leite tampada, que parecia vazia, mas continha um mortítero
gás de cianureto. Na casa dos Walker, deixou dois litros de leite e meio litro de creme batido.
Quando chegou à casa dos Merton, no fim do quarteirão, os raios de sol brilhavam por entre as árvores e mosqueavam a desbotada grade da amarelinha, na calçada
que passava à frente do prédio.
Spike abaixou-se e apanhou o que parecia uma excelente pedra para jogar amarelinha - chata de um lado - e atirou-a. A pedra caiu sobre uma linha. Ele meneou
a cabeça, sorriu e subiu a calçada, assobiando.
A leve brisa lhe trouxe o cheiro de sabão da lavanderia industrial, fazendo-o pensar novamente em Rocky. A cada momento, crescia sua certeza de que veria
Rocky. Aquela noite.
Havia uma nota espetada no suporte de jornais dos Merton: Cancelado
Spike abriu a porta e entrou.
A casa estava gelada como uma cripta e sem qualquer mobiliário. Não podia ficar mais árida, com as paredes nuas. O próprio fogão da cozinha fora retirado;
havia um quadrado brilhante no chão, mostrando onde estivera o linóleo.
Na sala de estar, o menor fragmento de papel fora removido das paredes. Não havia lustre, na lâmpada pendurada por um fio. Uma lâmpada agora queimada. Uma
grande mancha de sangue seco cobria parte de uma parede. Assemelhava-se à mancha de tinta de um psiquiatra. No centro dela, uma cratera aprofundava-se no reboco.
Havia um punhado de cabelos emaranhados na cratera, além de algumas lascas de ossos.
O leiteiro assentiu, saiu e ficou parado na entrada por um instante. Aquele ia ser um lindo dia. O céu já estava mais azul do que um olho de bebê, salpicado
de ingênuas nuvenzinhas precursoras do bom tempo... aquelas a que os jogadores de beisebol chamam de "anjos".
Retirando a nota do suporte de jornais, ele a amassou em uma bola. Depois a enfiou no bolso esquerdo frontal, em sua calça branca de leiteiro.
Voltou ao furgão, chutando a pedra da amarelinha para a sarjeta. O furgão de entrega de leite chocalhou ao dobrar a esquina e sumiu de vista.
O dia ficou ainda mais radioso.
Um menino irrompeu de uma casa, sorriu para o céu e tornou a entrar, levando o leite.

* * *



NONA

Ouvi sua voz dizendo isto - algumas vezes ainda a ouço. Em meus sonhos.
- Você ama?
- Sim - respondo. - Sim - e o verdadeiro amor jamais morrerá.
Então, acordo gritando.
Mesmo agora, eu não sei como explicar. Não posso contar por que fiz aquelas coisas.
Tampouco poderia fazê-lo no julgamento. E aqui há um bando de gente que me interrogará a respeito. Há um psiquiatra que me faz perguntas, mas fico calado.
Meus lábios estão selados. Exceto aqui, em minha cela. Aqui não fico calado. Acordo gritando.
No sonho, eu a vejo caminhando para mim. Está usando um vestido branco, quase transparente, com uma expressão mesclada de desejo e triunfo. Ela caminha para
mim através de um aposento escuro, com piso de pedra, e sinto cheiro de rosas secas de outubro. Seus braços estão abertos e aproximo-me com os meus também abertos,
a fim de abraçá-la.
Sinto medo, respulsa, uma ânsia indizível. Medo e repulsa, porque sei que lugar é aquele, ânsia, porque a amo. Sempre a amarei. Houve vezes em que desejei
que ainda houvesse pena de morte neste estado. Uma curta caminhada por um corredor sombrio, uma cadeira de espaldar reto, dotada de um chapéu metálico, correias...
depois um rápido sacolejo, e eu estaria com ela.
A medida que nos aproximamos, no sonho, meu medo aumenta, mas é impossível afastar-me dela. Minhas mãos se pressionam sobre a lisura plana de suas costas,
sua pele logo abaixo da seda. Ela sorri, com aqueles olhos negros e profundos. Sua cabeça se ergue para a minha, os lábios se entreabrem, prontos para serem beijados.
É então que ela se modifica, se encolhe. Os cabelos ficam ásperos e embolados, dissolvendo-se do negro para um horroroso castanho, que cai sobre a brancura
cremosa de suas faces. Os olhos se apertam e ficam vidrados como contas. As escleróticas desaparecem e ela me fita com olhinhos semelhantes a duas bolas de azeviche
polido. A boca se torna um papo, através do qual salientam-se tortos dentes amarelos.
Eu tento gritar. Tento acordar.
Não posso. Sinto-me preso novamente. Sempre ficarei preso.
Estou preso em um enorme, fétido cemitério de ratos. Luzes oscilam diante de meus olhos. Rosas de outubro. Em algum lugar, um sino bimbalha surdamente.
- Você ama? - a coisa sussura. - Você ama?
O cheiro das rosas é sua respiração, quando ela se precipita para mim, dores mortas em uma capela mortuária.
- Sim - respondo à coisa-rato. - Sim - e o verdadeiro amor jamais morre -
Então, começo a gritar e acordo.
Eles pensam que o que fizemos me deixou louco. Não obstante, minha mente continua funcionando, de um jeito ou de outro, e nunca parei de buscar as respostas.
Ainda quero saber o que foi e como foi.
Eles me deram papel e uma caneta de pontas de feltro. Vou registrar tudo. Talvez responda a algumas de suas perguntas e, ao mesmo tempo, enquanto escrevo
talvez possa responder a algumas das minhas. E quando terminar, há algo mais. Algo que eles ignoram em meu poder. Algo que eu tenho. Está aqui, debaixo do meu colchão.
Uma faca, do refeitório da prisão.
Devo começar falando a vocês sobre Augusta.
É noite enquanto escrevo isto, uma bela noite de agosto, pontilhada de estrelas cintilantes. Posso vê-las através das grades de minha janela, que dá para
o pátio de exercícios e também para uma fatia de céu, que posso bloquear com dois dedos. Faz muito calor e estou apenas de sunga. Posso ouvir os suaves rumores estivais
de sapos e grilos. No entanto, consigo trazer o inverno de volta, apenas fechando os olhos. O frio amargo daquela noite, as desoladas, duras e inamistosas luzes
de uma cidade que não era a minha. Era quatorze de fevereiro.
Como vêem, lembro-me de tudo.
E olhem para meus braços - cobertos de suor, ficaram arrepiados.
Augusta...
Quando cheguei a Augusta, estava mais morto do que vivo, por causa do frio. Escolhera um belo dia para despedir-me do cenário da universidade e viajei de
carona para o oeste; antes de sair do estado, parecia que poderia morrer congelado.
Um tira me chutara na divisa interestadual, ameaçando prender-me se tornasse a me pegar por ali, pedindo carona. Quase fiquei tentado a desacatá-lo e deixar
que me levasse. A lisa fita de auto-estrada com quatro faixas parecia a pista de pouso de um aeroporto, com o vento ululando e empurrando membranas de neve pulverizada,
em turbilhões ao longo do concreto. E, para os anônimos Eles, por trás de seus garantidos pára-brisas, qualquer um em pé no acostamento, em uma noite escura, só
pode ser um estuprador ou assassino. Se o sujeito tem cabelos compridos, ainda é encarado como molestador de criança e homossexual.
Durante algum tempo, fiquei tentando na estrada de acesso, mas não adiantou. Faltando quinze minutos para as oito da noite, percebi que se não chegasse logo
a algum lugar aquecido, acabaria desmaiando.
Caminhei dois quilômetros, antes de encontrar uma combinação de restaurante e posto para diesel, na estrada 202, já dentro dos limites da cidade. A BOA COMIDA
DO JOE, dizia o anúncio em neon. Havia três enormes ônibus estacionados no pátio de pedrinhas soltas e um sedã novo. Uma coroa de Natal, já surrada, estava pendurada
à porta, sem que ninguém se preocupasse em retirá-la. Perto dela, um termômetro mostrava exatamente cinco graus de mercúrio acima do grande zero. Eu nada tinha para
cobrir os ouvidos além dos cabelos e minhas luvas de couro cru já se desintegravam. As pontas de meus dedos pareciam pedaços de móveis.
Abri a porta e entrei.
O calor foi a primeira coisa que me recebeu, quente e gostoso. Em seguida, foi uma canção montanhesa na vitrola automática, na voz indiscutível de Merle Haggard:
"Não deixamos nossos cabelos compridos e desgrenhados, como fazem os hippies em San Francisco."
A terceira coisa foi O Olho. A gente passa a conhecer O Olho, assim que deixa os cabelos crecerem abaixo dos lóbulos das orelhas. No mesmo instante, os outros
sabem que não fazemos parte dos Lions, Elks ou VFW - os Veteranos de Guerras no Estrangeiro. Identificamos O Olho, porém nunca nos acostumamos a ele.
Naquele exato momento, as pessoas que me dirigiam O Olho eram quatro motoristas de caminhão em uma cabine, dois mais ao balcão, duas velhotas com casacos
de pele baratos e cabelos rinsados de azul, o cozinheiro de refeições rápidas e um rapazola babaca, com espuma de sabão nas mãos. Havia uma garota sentada no extremo
mais distante do balcão, porém ela se limitava a contemplar o fundo de sua xícara de café.
Foi ela a quarta coisa que me tocou.
Já tenho idade suficiente para saber que não existe isso de amor à primeira vista. Trata-se apenas de algo que Rodgers e Hammerstein idealizaram um dia, para
rimar com lua e junho. Esse negócio é para jovens de mãos dadas nos bailes escolares, certo?
Contudo, olhar para ela faz-me sentir algo. Podem rir, mas aposto como não ririam, se a tivessem visto. Ela era quase inacreditavelmente linda. Sem a menor
sombra de dúvida, compreendi que todo mundo ali dentro, sabia o mesmo que eu. Como se eu soubesse que ela era alvo de O Olho, antes de minha chegada. Tinha cabelos
cor de carvão, tão negros, que pareciam quase azulados sob as luzes fluorescentes. Caíam livremente por seus ombros, cobertos por um casaco surrado, castanho-amarelo.
Tinha a pele branco cremosa, com apenas um ligeiríssimo toque rosado abaixo da superfície - o frio que havia trazido consigo. Cílios negros e compridos. Olhos solenes,
um pouquinho amendoados nos cantos. Uma boca cheia e móvel, abaixo de um nariz patrício. Eu não poderia dizer como era seu corpo. Não fazia diferença. Vocês não
se importariam também. Ela precisava apenas daquele rosto, daqueles cabelos, daquele ar. Era refinada.
Não conheço outra palavra que se ajuste melhor.
Nona.
Sentei duas banquetas distante dela e o cozinheiro de refeições rápidas aproximou-se, olhando para mim.
- O que vai querer?
- Café puro, por favor.
Ele foi buscá-lo. Atrás de mim, alguém disse:
- Bem, acho que Cristo voltou, justamente como mamãe sempre disse que Ele voltaria.
O lavador de pratos babaca riu, emitindo um rápido som como iec-iec. Os motoristas do balcão riram também.
O cozinheiro trouxe meu café, soltou-o em cima do balcão e derramou um pouco sobre a carne constelada de minha mão. Puxei-a bruscamente.
- Desculpe - disse ele, indiferente.
- Ele mesmo se curar - disse um dos motoristas da cabine.
As gêmeas de cabelos rinsados pagaram suas contas e apressaram-se em dar o fora. Um dos cavaleiros da estrada investiu para a vitrola automática e enfiou
nela outra moeda.
Johnny Cash começou a cantar "Um rapaz chamado Sue", Soprei meu café.
Alguém puxou minha manga. Virei a cabeça e lá estava ela - tinha vindo para a banqueta vazia. Olhar de perto para aquele rosto era quase ofuscante. Entornei
um pouco mais de meu café.
- Sinto muito - disse ela, em voz baixa, quase átona.
- A culpa foi minha. Ainda não tenho muito tato no que faço.
- Eu...
Ela parou, como que constrangida. De repente, percebi que estava amedrontada. Senti novamente minha primeira reação por ela - a de protegê-la, cuidar dela,
não deixá-la ter medo.
- Preciso de uma carona - terminou, apressadamente. - Não tive coragem de pedir a nenhum deles - acrescentou, fazendo um gesto quase imperceptível para os
motoristas de caminhão na cabine.
Não sei como fazê-los compreender que daria qualquer coisa - tudo - para ser capaz de dizer-lhe, Claro, termine seu café, lenho o carro lá fora. Parece loucura
dizer que me sentia assim, após ouvir uma meia dúzia de palavras de sua boca e o mesmo número da minha, porém aconteceu. Olhar para ela era como ver a Mona Lisa
ou a Vênus de Milo adquirirem vida. Havia ainda outra sensação. Era como se uma súbita e potente luz se houvesse subitamente acendido na confusa escuridão de minha
mente. Tudo ficaria mais fácil, se eu pudesse dizer que ela era uma garota fácil e eu um homem rápido em conquistar mulheres, ágil em piadinhas e um bom papo, mas
ela não era desse tipo e nem eu tampouco. Naquele momento, eu sabia apenas que não podia proporcionar o que ela queria e isso me dilacerava.
- Estou viajando de carona - falei. - Um tira me expulsou para fora da interestadual e só vim até aqui para fugir do frio. Sinto muito.
- Você é da universidade?
- Fui. Saí antes que me mandassem embora.
- Está voltando para casa?
- Não tenho casa para onde ir. Fui tutelado do estado. Estava na universidade com uma bolsa-de-estudos. Caí fora. Agora, não sei para onde ir.
Era a história de minha vida, em cinco frases. Acho que isso me deixou deprimido. Ela riu - o som de seu riso me esquentou. depois esfriou.
- Acho que somos gatos do mesmo saco - disse.
Pensei que ela dizia gatos. Pensei, no momento. Naquele instante. Contudo, aqui tive tempo para refletir e cada vez tenho mais impressão de que ela teria
dito ratos. Ratos do mesmo saco. Isso mesmo. E eles não têm significado igual, têm?
Eu ia iniciar minha melhor linha de conversa - algo inteligente como "É mesmo?" - quando uma mão caiu em meu ombro.
Virei-me. Era um dos motoristas da cabine. Uma barba loura começava a despontar em seu queixo e havia um fósforo pendurado em sua boca. Ele cheirava a óleo
de motor e parecia algo saído de um desenho de Steve Ditko.
- Acho que você já acabou esse café - disse ele.
Seus lábios dividiram-se em torno do fósforo, exibindo um sorriso. O homem tinha um bocado de dentes muito alvos.
- Como?
- Você está deixando o lugar fedorento, cara. Você é um cara, não? Fica um tanto difícil adivinhar.
- Você também não é nenhuma rosa - repliquei. - Qual a sua loção de barba, simpático? Eau de óleo-de-cárter?
Ele me deu um tapa brutal em um lado do rosto, com a mão aberta. Vi pontinhos pretos.
- Nada de brigas aqui dentro-disse o cozinheiro de refeições rápidas. - Se está querendo amarrotá-lo, vá lá para fora.
- Vamos, seu comunista maldito - disse o motorista.
É a esta altura que uma garota costuma dizer alguma coisa, como "Tire as mãos de cima dele" ou "Seu bruto". Ela não disse nada. Olhava para nós dois com febril
intensidade.
Chegava a ser assustador. Creio ser aquela a primeira vez em que percebi como seus olhos eram enormes.
- Vou precisar esmurrá-lo outra vez?
- Não. Vamos, saco de bosta!
Não sei como aquilo saltou de mim. Não gosto de brigar. Não sou um bom lutador. Sou ainda pior para xingamentos. Contudo, estava zangado. No mesmo instante,
senti vontade de matá-lo.
Talvez ele houvesse captado meu desejo. Por um segundo apenas, uma sombra de incerteza passou por seu rosto, a inconsciente dúvida de se não teria escolhido
o hippie errado. Então, desapareceu. Não, ele não ia recuar, diante de um efeminado esnobe e elitista, de cabelos compridos, que usava a bandeira para limpar o traseiro
- pelo menos, não em frente de seus companheiros. Não um motorista de caminhão, forte e machão como ele.
A raiva me tomou novamente. Bicha? Bicha? Perdi o controle e foi bom sentir-me assim. A língua estava espessa em minha boca. Meu estômago parecia um pedaço
de pedra.
Cruzamos a porta e os chapas do meu chapa quase quebraram as costas, querendo apreciar a diversão.
Nona? Pensei nela, mas apenas de maneira vaga, distante. Sabia que ela estaria lá. Nona cuidaria de mim. Sabia disso, tão bem como sabia que lá fora estava
frio. Era estranho saber isso de uma garota conhecida apenas cinco minutos antes. É curioso, mas só mais tarde pensei nisso. Minha mente estava tomada - não, quase
sobrecarregada - pela pesada nuvem de fúria. Eu me sentia homicida.
O frio estava tão cortante e sólido, que dava a impressão de cortar nossos corpos como faca. O cascalho gelado do pátio de estacionamento rangeu cruamente
sob as pesadas botas do motorista e os meus sapatos. A lua, cheia e intumescida, espiava para nós com um olho insosso. Estava rodeada de anéis desbotados, sugerindo
mau tempo a caminho.
O céu era negro como uma noite no inferno. Deixávamos pequenas sombras miniaturizadas atrás de nossos pés, ao brilho monocrômico de uma única lâmpada de sódio,
no alto de um poste, além dos veículos estacionados. Nossa respiração pairava no ar como pluma, em alentos curtos. O motorista se virou para mim, comprimindo os
punhos enluvados.
- Muito bem, seu filho da puta - disse ele.
Eu pareci inchar - todo o meu corpo parecia inchar. De algum modo, entorpecidamente, eu soube que meu intelecto ia ser eclipsado por algo invisível, que jamais
suspeitara existir em mim. Era aterrorizante, porém ao mesmo tempo eu agradeci, desejei-o, ansiei por aquilo. Naquele último instante de pensamento coerente, parecia
que meu corpo se tornara uma pirâmide de pedra ou um ciclone capaz de destruir tudo que tivesse pela frente, reduzindo a gravetos. O motorista parecia pequenino,
reles, insignificante. Ri dele. Ri, e o som era tão negro e lúgubre como aquele céu manchado pela lua, acima de nós.
Ele investiu gingando os punhos, ainda rindo como um cão de fazendeiro latindo para a lua. Atingi-o três vezes, antes mesmo dele poder fazer um quarto de
volta - no pescoço, no ombro, em uma orelha vermelha.
Ele emitiu um grito uivado e uma de suas mãos em movimento me roçou o nariz. A fúria que me tomara avolumou-se e tornei a chutá-lo, erguendo o pé alto e com
força, como uma ponteira. Ele gritou dentro da noite e ouvi uma costela estalar. O homem se dobrou e saltei sobre ele.
No julgamento, um dos outros motoristas de caminhão testemunhou que eu parecia um animal selvagem. E era mesmo. Não posso recordar bem como foi, porém posso
recordar que grunhia e rosnava para ele como um cão danado.
Montei nele, agarrei punhados duplos de seus cabelos gordurosos e comecei a esfregar-lhe o rosto no cascalho. À claridade monótona da luz de sódio, seu sangue
parecia negro, como sangue de besouro.
- Jesus, pare com isso! - alguém gritou.
Mãos agarraram meus ombros e me puxaram. Vi rostos rodopiando e avancei para eles.
O motorista tentava fugir dali. Seu rosto era uma horrenda máscara de sangue, de onde seus olhos alucinados espiavam. Comecei a chutá-lo, afastando-me dos
demais, rosnando de satisfação a cada vez que o atingia.
Ele não tinha mais condições de luta. Tudo quanto queria era ir embora. A cada vez que eu o chutava, seus olhos se espremiam, semicerrando-se, como os de
uma tartaruga, e então ele parava. Depois, recomeçava a engatinhar. Parecia idiotizado. Decidi que ia matá-lo. Ia chutá-lo até tirar-lhe a vida. Depois mataria os
outros - todos, exceto Nona.
Voltei a chutá-lo e ele rolou de costas, fitando-me com olhos esgazeados.
- Meu tio - grasnou. - Vou chamar meu tio. Por favor, por favor!
Ajoelhei-me ao seu lado, sentindo o cascalho morder-me os joelhos, através do tecido fino de meu jeans.
- Aqui está, simpático - cochichei. - Aqui está seu tio!
Engalfinhei as duas mãos em seu pescoço.
Três deles saltaram em cima de mim imediatamente e arrancaram-me daquela posição.
Levantei-me, ainda sorrindo, comecei a caminhar para eles. Os três recuaram, três homens grandalhões, todos verdes de medo.
Então, a coisa desligou.
Exatamente assim. Desligou e voltei a ser eu mesmo, parado no pátio de estacionamento do "A Boa Comida do Joe", respirando com dificuldade, sentindo-me nauseado
e aterrorizado.
Virei-me e olhei para o bar. A garota estava lá; suas belas feições pareciam iluminadas pelo triunfo. Ela ergueu um punho fechado à altura do ombro, em saudação,
como fez um daqueles caras negros nas Olimpíadas nessa época.
Virei-me agora para o homem no chão. Ele ainda tentava engatinhar para longe e, ao aproximar-me, seus olhos giraram temerosamente.
- Não toque nele! - gritou um de seus amigos.
Olhei para eles, confuso.
- Eu... sinto muito... não queria... machucá-lo tanto. Deixem-me ajudá-lo...
- O que você vai fazer é dar o fora daqui - disse o cozinheiro. Estava parado à frente de Nona, ao pé dos degraus, aferrando uma espátula gordurosa. - Vou
chamar os tiras.
- Ei, cara, foi ele que começou. Ele...
- Não me venha com sua conversa fiada, seu bicha piolhento - disse ele, recuando até o alto dos degraus. - Só sei que você quase matou aquele sujeito. Vou
chamar os tiras!
O cozinheiro precipitou-se para o interior.
- Tudo bem - falei, para ninguém em particular. - Tudo bem, tudo bem...
Havia deixado minhas luvas de couro cru lá dentro, mas não me pareceu uma boa idéia tornar a entrar para pegá-las. Enfiei as, mãos nos bolsos e comecei a
caminhar de volta à estrada interestadual de acesso. Imaginei minhas chances de pegar uma carona, antes que os tiras me apanhassem. Uma em dez. Minhas orelhas congelavam
e meu estômago doía. Que noite miserável!
- Espere! Ei, espere!
Virei-me. Era ela, correndo para alcançar-me, os cabelos voando às suas costas.
- Você foi maravilhoso! - exclamou. - Formidável.
- Eu o machuquei muito - falei, taciturnamente. - Nunca fiz nada assim antes.
- Pois eu gostaria que o tivesse matado!
Pestanejei para ela, à luminosidade gélida.
- Devia ter ouvido as coisas que diziam a meu respeito, antes de você chegar. Riam, daquela maneira aberta, debochada e suja - "Ha, ha, ha, vejam só a garotinha,
fora de casa tanto tempo, já noite fechada. Para onde vai, meu bem? Quer uma carona? Eu lhe darei uma carona, se você me der outra. Porra!"
Ela olhou para trás sobre o ombro, como se pudesse liquidá-los com um súbito raio de seus olhos escuros. Depois me fitou e, novamente, era como uma lanterna,
virada sobre minha mente.
- Meu nome é Nona. Vou com você.
- Para onde? Para a cadeia? - Passei as duas mãos nos cabelos. - Desta maneira, o primeiro sujeito que nos der uma carona bem pode ser um tira estadual. Aquele
cozinheiro falava sério, quando avisou que ia chamar a polícia.
- Eu peço a carona. Você ficará atrás de mim. Quando me virem, eles vão parar. Sempre param para uma garota, se for bonita.
Não quis discutir com ela a respeito e nem podia. Amor à primeira vista? Talvez não.
Enfim, era alguma coisa. Dá para entender?
- Tome - disse ela. - você esqueceu lá dentro.
Eram as minhas luvas. Ela não tornara a entrar, de maneira que devia ter estado com as luvas o tempo todo. Sabia que viria comigo. Aquilo me deu uma sensação
fantástica.
Calcei as luvas e caminhamos para a estrada de acesso, na rampa de pedágio.
Ela estava certa sobre a carona. Tomamos o primeiro carro que apareceu na rampa.
Não falamos mais nada enquanto esperávamos, porém foi como se falássemos. Não vou enchê-los com uma longa arenga sobre PES e coisas assim, porque devem saber
do que estou falando. Qualquer um sentiria o mesmo, ao lado de alguém realmente íntimo ou tomando uma daquelas drogas que têm iniciais como nome. Não se precisa
falar. A comunicação parece irradiar-se por alguma faixa emocional de alta freqüência. Um gesto de mão faz tudo. Éramos estranhos. Eu só a conhecia pelo primeiro
nome, e agora que penso nisto, não creio que lhe tenha dito o meu. Contudo, estávamos sintonizados.
Não era amor. Odeio ficar repetindo isso, mas sinto que é preciso. Eu não macularia essa palavra com o que quer que havia entre nós - não depois do que fizemos,
não depois de Castle Rock, não depois dos sonhos.
Um uivo agudo, ululante, encheu o frio silêncio da noite, subindo e descendo.
- Parece uma ambulância - falei.
- É, parece.
Silêncio novamente. O luar se dissolvia por trás de uma espessa membrana de nuvem.
Refleti que os anéis em torno da lua não haviam mentido; teríamos neve, antes que a noite terminasse.
Luzes surgiram acima da colina.
Fiquei atrás dela, sem que me fosse mandado. Ela jogou os cabelos para trás e ergueu aquele rosto maravilhoso. Enquanto espiava o carro sinalizar para a rampa
de entrada, fui tomado por um senso de irrealidade - era irreal que essa linda jovem houvesse preferido vir comigo, era irreal que eu tivesse espancado um homem,
a ponto de chamarem uma ambulância para ele, era irreal pensar que eu poderia estar na cadeia pela manhã. Irreal. Senti-me apanhado em uma teia de aranha. quem seria
a aranha?
Nona espichou o polegar. O carro, um sedã Chevrolet, passou por nós e pensei que fosse seguir em frente. Então, faroletes traseiros piscaram e Nona me agarrou
a mão.
- Vamos, conseguimos uma carona!
Ela sorriu para mim, com satisfação infantil, e eu lhe sorri de volta. O sujeito inclinava-se entusiasticamente sobre o assento para abrir-lhe a porta. Quando
a luz se acendeu, pude vê-lo - um homem razoavelmente corpulento, vestindo um caro sobretudo de pêlo de camelo, os cabelos embranquecendo em torno das abas do chapéu,
fisionomia próspera, amolecida por anos de boa comida. Um homem de negócios ou vendedor.
Sozinho. Quando me viu, esboçou uma reação de surpresa, porém tardia em um ou dos segundos, para que pudesse engrenar o carro e ir embora. Aliás, assim foi
mais fácil para ele. Mais tarde, poderia vangloriar-se, acreditando que vira nós dois e que realmente era uma boa alma, dando uma carona a um casal.
- Noite fria - disse, quando Nona deslizou ao seu lado e eu me,sentei junto dela.
- Sem dúvida - disse ela, docemente. - Muito obrigada!
- Sim - falei. - Obrigado.
- Não foi nada.
Partimos, afastando-nos de sirenes, deixando para"trás motoristas logrados e A Boa Comida do Joe.
Eu tinha sido chutado para fora da interestadual às sete e meia. Então, eram apenas oito e meia. É espantoso o quanto se pode fazerem um breve período ou
quanto podem fazer conosco.
Estávamos nos aproximando das pestanejantes luzes amarelas indicando o posto de pedágio de Augusta.
- Até onde vão? - perguntou o motorista.
Era uma pergunta difícil. Eu esperava chegar até Kittery e encontrar um conhecido, dono de uma escola local. Parecia uma resposta tão boa quanto qualquer
outra e já abria minha boca para falar, quando Nona disse:
- Estamos indo para Castle Rock. É uma cidadezinha logo ao sul e a oeste de Lewinston-Auburn.
Castle Rock. Senti-me estranho ao ouvir o nome. Certa vez, tivera excelentes relações com Castle Rock, mas isso fora antes de Ace Merrill se meter comigo.
O sujeito parou o carro, pegou um ticket de pedágio e seguimos viagem novamente.
- Quando a mim, só vou até Gardiner - disse ele, recostando-se confortavelmente no assento. - Terei que tomar a saída número um. De qualquer modo, já é um
começo para vocês.
- Claro - disse Nona, em voz tão doce quando antes. - Foi muita gentileza sua parar para nós em uma noite tão fria.
Enquanto ela falava, eu podia captar sua raiva, naquele comprimento de onda altamente emocional, uma raiva crua, cheia de veneno. Aquilo assustou-me, da maneira
como me assustaria o tiquetaquear de um pacote embrulhado.
- Meu nome é Blanchette - disse ele. - Norman Blanchette.
Estendeu a mão para nós, cumprimentando.
- Cheryl Craig - disse Nona, apertando-lhe a mão delicadamente.
Aceitei sua deixa e forneci a ele um nome falso.
- Muito prazer - murmurei.
A mão dele era lisa e frouxa. Como um saco de água quente, no formato de mão. O pensamento nauseou-me. Repugnava-me saber que havíamos sido forçados a uma
carona com aquele sujeito benevolente, que imaginava ter tido a chance de dar carona a uma moça sozinha, uma moça que podia ou não concordar em uma hora passada
em algum quarto de motel, em troca de dinheiro suficiente para comprar uma passagem de ônibus. Repugnava-me saber que, se eu estivesse sozinho, o homem que acabara
de oferecer-me sua mão frouxa e quente, seguiria em frente sem mim e sem vacilar.
Repugnava-me saber que ele nos desembarcaria na saída para Gardiner, faria o retorno e depois arremeteria novamente pela interestadual, passando por nós pela
rampa que levava, ao sul, sem um olhar, congratulando-se pela facilidade com que resolvera uma situação incômoda. Tudo a respeito dele me repugnava. As dobras porcinas
de sua papada, as ondas de cabelo alisadas para trás, o cheiro de sua colônia.
E que direito tinha ele? Que direito?
A repugnância azedou e as flores de raiva começaram a florescer novamente. Os faróis de seu potente sedã Impala varavam a noite com tranqüila facilidade,
enquanto minha fúria queria estirar-se e estrangular tudo que dizia respeito a ele - o tipo de música que certamente ouvia, recostado em sua poltrona predileta,
com o jornal da noite em suas mãos de bolsa de água quente, a rinsagem que sua mulher devia usar nos cabelos, a roupa de baixo que ela usava, os filhos sempre enviados
aos cinemas, à escola ou acampamentos - enquanto o casal se ausentava em algum lugar - os amigos esnobes daquele sujeito e as reuniões de bebedeiras a que compareceria
com eles.
Sua colônia, no entanto, era pior. Enchia o carro com o cheiro adocicado e nauseante.
Cheirava como o desinfetante perfumado que usam em um abatedouro, ao fim de cada turno.
O carro disparou através da noite, com Norman Blanchette segurando o volante em suas mãos intumescidas. As unhas manicuradas brilhavam suavemente às luzes
do painel de instrumentos. Eu queria quebrar o vidro de uma janela e fugir daquele cheiro enjoativo.
Não, mais: eu queria arriar todo o vidro da janela, espichar a cabeça para o ar frio, espojar-me na frescura gelada - mas estava congelado, congelado nas
mudas entranhas de meu ódio, silencioso e inexpressado.
Foi quando Nona colocou a lima de unhas em minha mão.
Aos três anos de idade, tive um caso de gripe e precisei ficar no hospital. Enquanto permaneci lá, meu pai adormeceu fumando na cama e a casa incendiou-se
matando meus velhos e Drake, meu irmão mais velho. Tenho fotos deles. Parecem atores de um antigo filme de horror da American International, em 1958 rostos que vocês
não conhecem como sendo os de grandes astros, mais como Elisha Cook, Jr. e Mara Corday, bem como de um ator infantil que não devem recordar bem - Brandon de Wilde,
talvez.
Não tenho parentes que ficassem comigo, fui enviado para um orfanato em Porfand, onde fiquei cinco anos. Depois, tornei-me tutelado do estado. Isto significa
que uma família toma conta da gente e o estado lhe paga trinta dólares mensais pela guarda. Não creio que haja algum tutelado do estado que tenha adquirido predileção
por lagosta. Em geral, um casal aceita dois ou três tutelados - não porque o leite da bondade humana flui em suas veias, mas por ser isto um investimento comercial.
Eles nos alimentam. Pegam os trinta pagos pelo estado e nos alimentam. Se uma criança é alimentada, pode pagar pela guarda fazendo tarefas variadas em casa. Isso
transforma os trinta em quarenta, cinqüenta, talvez sessenta e cinco pratas. É o capitalismo, aplicado aos sem-lar. No maior país do mundo, certo?
Meus "velhos" chamavam-se Hollis e moravam em Harlow, do outro lado do rio de Castle Rock. A casa de fazenda em que viviam era de três andares e quatorze
cômodos.
Havia uma lareira de carvão na cozinha, e o calor subia para os andares de cima da maneira como podia. Em janeiro, a gente ia para a cama com três edredons,
mas ainda assim, sem certeza de que teria os pés no lugar, quando acordasse na manhã seguinte.
Era preciso colocá-los no chão, onde se podia olhar para eles e certificar-se. A Sra. Hollis era gorda. O Sr. Hollis era sovina e raramente falava. A casa
era uma total confusão de mobiliário elefante branco, objetos comprados em liquidações, colchões mofados, cachorros, gatos e peças automotivas, encomendadas através
dos jornais. Eu tinha três "irmãos", todos eles tutelados. Havia entre nós uma aceitação tácita, éramos como pessoas companheiras de uma viagem de ônibus durante
três dias.
Eu tinha boas notas na escola e fui escalado para o beisebol de primavera, no segundo ano do ginásio. Hollis insistia comigo para largar aquilo, mas eu teimei,
até acontecer a coisa com Ace Marrili. Então, desisti de continuar, não quis mais, não com o rosto todo inchado e cortado, não com as histórias que Betsy Malenfant
andava espalhando.
Assim, saí do time e Hollis conseguiu-me um emprego para servir sodas na drugstore local.
Em fevereiro, no último ano letivo, enfrentei a Junta Examinadora, pagando com as doze pratas que tinha enfiado em meu colchão. Fui aceito na universidade,
através de uma pequena bolsa-de-estudos e com um bom trabalho na biblioteca, para pagar os estudos.
A expressão no rosto dos Hollis, quando lhes mostrei os documentos de auxilio financeiro, é a melhor recordação de minha vida.
Curt, um de meus "irmãos", acabou fugindo. Eu não faria algo semelhante. Era passivo demais para tal passo. Estaria de volta depois de duas horas na estrada.
A escola era o único meio para mim, de maneira que fui em frente.
A última coisa que a Sra. Hollis disse quando parti, foi, "Quando puder, mande-nos alguma coisa". Nunca mais tornei a vê-los. Tive boas notas em meu primeiro
ano e, naquele verão, consegui um emprego de tempo integral na biblioteca. Enviei para eles um cartão de Natal naquele primeiro ano, porém foi o único.
No primeiro semestre de meu segundo ano, fiquei apaixonado. Era a coisa mais importante que já me acontecera. Bonita? Ela faria vocês recuarem dois passos.
Até hoje, não imagino o que teria visto em mim. Aliás, nem sei bem se me amava ou não.
Creio que amou, a princípio. Depois disso, tornei-me apenas um hábito difícil de romper, como fumar ou dirigir com o cotovelo apoiado na janela do carro.
Ela me prendeu por algum tempo, talvez não querendo quebrar o hábito. Possivelmente continuasse comigo por milagre ou então apenas por vaidade. Bom menino, role,
sente-se, pegue o jornal. Tome um beijo de boa noite. Não importa. Porque foi amor durante algum tempo, depois foi com amor, então terminou.
Dormi com ela duas vezes, em ambas após outras coisas serem tomadas como amor.
Aquilo alimentou o hábito por um período. Então, ao voltar do feriado do Dia de Graças, ela anunciou estar apaixonada por um sujeito Delta Tau Delta, de sua
cidade natal. Tentei reconquista-la e quase consegui, mas agora ela possuía algo que não tivera antes - perspectiva.
O que quer que eu estivera construindo por todos aqueles anos, desde que o incêndio aniquilara os atores de filme de segunda que haviam constituído minha
família, esse episódio conseguiu derrubar. Isso e o alfinete do tal sujeito, pregado na blusa dela.
Em seguida, andei saindo com três ou quatro garotas que queriam dormir comigo. Eu podia responsabilizar minha infância, quero dizer, pelo fato de nunca haver
tido bons modelos sexuais, porém não era esse o caso. Jamais tive problemas com uma garota. Só depois que elas me deixavam.
Comecei a sentir certo receio delas. Acontecia sempre, quer eu fosse ou não importante com elas. Acontece que garotas me deixavam inquieto. Ficava me perguntando
onde elas teriam escondido os machados que gostavam de esgrimir e quando iriam usa-los contra mim. Não que eu seja peculiar nesse ponto. Mostrem-me um homem casado
ou um homem com uma mulher fixa, e eu lhes mostrarei alguém que pergunta a si mesmo (talvez somente nas primeiras horas da madrugada ou na tarde de sexta-feira,
quando ela sai para o supermercado), O que ela andará fazendo em minha ausência? 0 que ela pensa realmente de mim? E, talvez, acima de tudo, Quanto de mim ela capturou?
Quanto restou? Quando eu começava a pensar estas coisas, ficava pensando nelas o tempo todo.
Comecei a beber e minhas notas mergulharam de cabeça. Durante a folga do semestre, recebi uma carta dizendo que, se as notas não melhorassem dentro de seis
semanas, seria retido o meu cheque para a bolsa-de-estudos do segundo semestre. Eu e alguns sujeitos com quem andava, ficamos bêbados e assim permanecemos por todo
o período daquelas férias. No último dia, fomos a um bordel e tive um desempenho excelente.
Estava escuro demais para distinguir rostos.
Minhas notas continuaram baixas. Telefonei para a garota mais uma vez e chorei ao telefone. Ela chorou também e, de certo modo, creio que isso a envaideceu.
Eu não a odiava então e não a odeio agora. Contudo, ela me assustava. Assustava-me muito.
A 9 de fevereiro, recebi uma carta do deão de Artes e Ciências comunicando que eu ficara reprovado em duas ou três matérias de minha especialização. A 13
de fevereiro, recebi uma carta algo vacilante da garota. Ela queria que tudo estivesse certo entre nós.
Estava planejando casar com o sujeito da Delta Tau Delta em julho ou agosto e eu estava convidado, se quisesse. Chegava a ser divertido. O que dar a ela como
presente de casamento? Meu coração, amarrado em uma fita vermelha? Minha cabeça? Meu pau?
No dia 14, Dia dos Namorados, decidi que era tempo para uma mudança de cenário.
Nona surgiu em seguida, mas isso vocês já sabem.
Precisam entender o que ela significava para mim, caso isso adiante alguma coisa. Ela era mais bonita do que a tal garota, porém não se tratava disso. Em
um país rico, boa aparência é o que não falta. Era o seu interior. Ela era sexy, porém a sexualidade que emanava dela era como algo fixo - um sexo cego, uma espécie
de sexo aderente, para não ser negado e não tão importante, já que se tratava de algo tão instintivo como a fotossíntese. Não um sexo animal, mas um sexo de planta.
Dá para entender? Eu sabia que faríamos amor, que o faríamos como homens e mulheres o fazem, mas que nossa união seria tão vaga, tão remota e sem significado, como
a hera abrindo seu caminho para o alto, em uma treliça, ao solde agosto.
O sexo só era importante, porque não era importante.
Eu creio - não, tenho certeza - de que a violência era a real força motriz. A violência era real, não apenas um sonho. Tão grande, tão rápida e dura, como
o Ford 52 de Ace Merrill. A violência de A Boa Comida do Joe, a violência de Norman Blanchette.
Inclusive, havia algo de cego e vegetativo nisso. Talvez ela fosse apenas uma gavinha adesiva, afinal de contas, porque a Vênus papa-moscas é uma espécie
de vinha, com a diferença de ser carnívora e de fazer movimentos animais, quando uma mosca ou um pedaço de carne crua é colocado em sua goela. E isto era absolutamente
real. A vinha esporulada pode apenas sonhar que fornica, mas tenho certeza de que a Vênus papa-moscas saboreia aquela mosca, sente prazer na diminuição de esforços
do inseto, quando suas presas se fecham em torno dele.
A última parte era minha passividade. Eu não conseguia tapar o buraco em minha vida. Não o deixado pela garota ao dizer adeus - não quero atribuir-lhe isto
- mas aquele que sempre esteve lá, o escuro e confuso torvelinho que nunca cessava dentro de mim. Nona preencheu esse buraco. Fez com que me movesse e agisse.
Fez-me nobre.
Agora, vocês compreendem um pouquinho da situação. Por que eu sonho com ela. Por que permanece o fascínio, a despeito do remorso e da repulsa. Por que a odeio.
Por que a temo. E por que, mesmo agora, eu ainda a amo.
Eram doze quilômetros, da rampa de Augusta até Gardiner, e nós os cobrimos em escassos minutos. Agarrei firmemente a lima de unhas a um lado do corpo e vi
o sinal verde, iluminado por refletores - PARA A SAÍDA 14, MANTENHA A SUA DIREITA - piscando na noite. A lua se fora e a neve começara a cair.
- Eu gostaria de poder levá-los mais longe - disse Blanchette.
- Está tudo bem - respondeu Nona calorosamente, mas pude sentir sua fúria zumbindo e penetrando na carne sob meu crânio, como uma ferroada seca. Basta deixar-nos
no alto da rampa.
Ele iniciou a subida, observando a velocidade de trinta milhas horárias, indicada para a rampa. Eu sabia o que ia fazer. Sentia as pernas transformadas em
chumbo quente.
O alto da rampa era iluminado por uma luz no alto. À esquerda, eu podia divisar as luzes de Gardiner contra o céu de nuvens espessas. À direita, nada além
do negrume.
Não havia trânsito algum, vindo de qualquer lado, ao longo da estrada de acesso.
Desci do carro. Nona deslizou pelo assento, oferecendo a Norman Blanchette um sorriso final. Eu não estava preocupado. Ela dirigia a peça.
Blanchette ofereceu um ofensivo sorriso porcino, aliviado por ficar livre de nós.
- Bem, boa noi...
- Oh, minha bolsa! Não vá embora com minha bolsa!
- Eu apanho - falei para ela.
Inclinei-me para o banco traseiro. Blanchette viu o que eu tinha na mão e o sorriso porcino de seu rosto congelou-se.
Agora, surgiram luzes na colina, porém era demasiado tarde para parar. Nada me interromperia mais. Peguei a bolsa de Nona com a mão esquerda. Com a direita,
mergulhei a lima de aço para unhas na garganta de Blanchette. Ele baliu uma vez.
Saí do carro. Nona acenava para o veículo que se aproximava. Eu não conseguia ver o que estava no escuro e na neve; via apenas os dois círculos brilhantes
de seus faróis.
Agachei-me atrás do carro de Blanchette, espiando pelos vidros traseiro
As vozes quase se perdiam, na garganta cheia do vento. Problema, dona? pai... vento... teve um ataque do coração. Poderiam...
Deslizei ao longo do porta-mala do Impala de Norman Blanchette, agachado. Podia vê-los agora. A silhueta esguia de Nona e uma forma mais alta. Pareciam parados
ao lado de uma pickup. Virando-se, aproximaram-se da janela do motorista do Chevrolet. onde Norman Blanchette escorregara para cima do volante, com a lima de Nona
em sua garganta. O motorista da pickup era um rapaz, vestindo o que parecia um blusão da Força Aérea. Inclinou-se para o interior. Eu apareci atrás dele.
- Céus, dona! - exclamou ele. - Há sangue neste sujeito! O que...
Enganchei meu cotovelo direito à volta de seu pescoço e agarrei o punho direito com a mão esquerda. Apertei com força. A cabeça do rapaz bateu no topo da
porta e houve um roc! surdo. Ele caiu flácido em meus braços.
Eu ainda podia ter parado. Ele não vira Nona direito e nem chegara a dar por mim. Eu podia ter parado ali. Contudo, ele era um intrometido, alguém em nosso
caminho, tentando prejudicar-nos. Eu estava cansado de ser prejudicado. Estrangulei-o.
Ao terminar, ergui os olhos e vi Nona focalizada pelas luzes conflitantes do sedã e da pickup, seu rosto um ricto grotesco de ódio, amor, triunfo e alegria.
Ela estendeu os braços e fui para eles. Beijamo-nos. Sua boca era fria, mas a língua tinha calor.
Mergulhei as duas mãos nos vãos secretos de seus cabelos, enquanto o vento uivava à nossa volta.
- Agora, termine - disse ela. - Antes que apareça mais alguém.
Eu terminei. Era uma tarefa desleixada, mas eu sabia tudo quanto era preciso para nós.
Um pouco mais de tempo. Depois disso, não importava. Estaríamos salvos.
O corpo do rapaz era leve. Ergui-o nos braços, carreguei-o através da estrada e o atirei na ladeira. Seu corpo ricocheteou frouxamente por todo o trajeto
até o fundo, rolando, cabeça acima dos calcanhares, como um boneco de trapos, o espantalho que o Sr. Hollis me fazia colocar na plantação de trigo, todos os julhos.
Voltei para apanhar o Sr. Blanchette.
Ele era mais pesado e sangrava como um porco ferido. Tentei coloca-lo ereto, cambaleei três passos para trás e ele escorregou de meus braços, caindo na estrada.
Virei-o para cima. A neve recente aderira ao seu rosto, transformando-o em uma máscara de esquiador.
Abaixei-me, agarrei-o por baixo dos braços e o arrastei para a sarjeta. Seus pés desenhavam sulcos atrás dele. Joguei-o pela borda da estrada e o vi deslizar
pela rampa, de costas, os braços acima da cabeça. Os olhos estavam arregalados, fitando como que fascinados os flocos de neve que caíam neles. Se a neve continuasse
caindo, ambos seriam apenas vagos monturos, na ocasião em que chegassem os limpa-neves.
Cruzei a estrada de volta. Nona já se acomodara na pickup, sem que ninguém precisasse dizer-lhe que veículo usaríamos. Pude ver a mancha pálida de seu rosto,
os furos escuros dos olhos, mas foi tudo. Entrei no carro de Blanchette, sentei-me sobre os regatos de sangue que se tinham empoçado sobre o assento acolchoado de
vinil, e o dirigi para o acostamento. Apaguei os faróis, liguei os quatro pisca-alertas e saí. Para quem passasse perto, pareceria que o motorista tivera problemas
com o motor e então caminhara até a cidade, em busca de uma garagem. Fiquei muito satisfeito com minha improvisação. Era como se tivesse assassinado pessoas a vida
inteira. Trotei de volta à pickup, que permanecia com o motor ligado, sentei-me ao volante e manobrei para a rampa de entrada do pedágio.
Ela se sentou ao meu lado, sem me tocar, mas bem perto. Quando se movia, às vezes eu sentia uma mecha de seus cabelos em meu pescoço. Era como ser tocado
por um diminuto eletrodo. Em certo momento, tive que esticar a mão e pousá-la em sua perna, para certificar-me de que ela era real. Nona riu quietamente. Era tudo
bem real. O vento ululava em torno das janelas, atirando neve em grandes e ríspidas rajadas.
Rodamos para o sul.
Logo depois da ponte de Harlow, quando se entra na 126 para Castle Heights, chega-se a uma enorme e renovada fazenda, que tem o hilariante nome de Liga dos
Jovens de Castle Rock. Eles possuem doze pistas para boliche, com desengonçados levantadores automáticos de pinos, que em geral se limitam a funcionar nos três últimos
dias da semana, algumas antigas máquinas de fliperama, uma vitrola automática com os maiores sucessos de 1957, três mesas Brunswick de bilhar e um balcão para a
venda de Coca-e-batatas-fritas, onde também se alugavam sapatos para boliche, que pareciam recém-saídos dos pés de coveiros mortos. O nome do lugar é hilariante,
porque a maioria dos jovens de Castle Rock preferia o cinema drive-in de Jay Hill à noite ou as corridas de carros envenenados em Oxford Plains. Os que apareciam
por ali eram, em sua maior parte, os desordeiros de Gretna, Harlow e da própria Rock. A média era de uma briga por noite, no pátio de estacionamento.
Comecei a pintar por lá, quando entrei para o ginásio. Um de meus conhecidos, Bill Kennedy, tinha um emprego na Liga dos Jovens três noites por semana e,
não havendo ninguém à espera de mesa para o bilhar, ele me deixava jogar de graça por algum tempo. Não era grande coisa, porém ficava melhor do que voltar à casa
dos Hollis.
Foi onde conheci Ace Merril. Ninguém tinha dúvidas, quanto a ele ser o maior valentão de três cidades. Dirigia um Ford conversível S2, envenenado. Corria
o boato de que, quando preciso, chegava aos 210 quilômetros. Merrill entrava lá como um rei, os cabelos reluzindo de brilhantina, repuxados para trás, com um perfeito
topete no alto da testa, disputava alguns jogos em donble-hank, por um dime a bola (Era bom nisso? Nem duvidem), comprava uma Coca para Betsey quando ela chegava,
e então iam embora.
Quase se podia ouvir um relutante suspiro de alívio dos presentes, assim que a castigada porta da frente se fechava asmaticamente. Ninguém jamais fora ao
pátio de estacionamento com Ace Merrill.
Ninguém, isto é, exceto eu.
Betsey Malenfant era namorada dele, a garota mais bonita de Castle Rock, creio eu. Não acho que fosse das mais inteligentes, porém isso não importava, quando
se olhava para ela. Tinha a pele mais imaculada que já vi e não era resultado de frascos de cosméticos. Os cabelos eram negros como carvão, os olhos escuros, a boca
generosa, um corpo de dar água na boca - e ela não se importava de exibi-lo. Quem iria pensar em assediá-la ou tentar dirigir sua locomotiva, com Ace por perto?
Ninguém em seu juízo perfeito, eis a verdade.
Gamei por ela. Não da maneira como aconteceu com a outra garota, não da maneira como aconteceu com Nona, embora Betsey parecesse uma versão mais nova dela,
porém com o mesmo desespero, a mesma seriedade. Se vocês já sofreram o pior caso de amor juvenil, sabem como me sentia. Ela estava com dezessete anos, dois a mais
do que eu.
Comecei a aparecer por lá cada vez com mais freqüência, inclusive nas noites em que Billy não trabalhava, apenas para vê-la de relance. Eu me sentia como
um observador de pássaros, exceto que aquele era um tipo de tarefa alucinada para mim. Voltava para casa, mentia aos Hollis sobre aonde andara e subia para meu quarto.
Escrevia longas e apaixonadas cartas para ela, contando-lhe tudo que gostaria de fazer com ela, depois as rasgava. Nas salas de estudo do colégio, sonhava em pedi-ia
para casar comigo, de modo que depois fugiríamos juntos para o México.
Betsy devia ter percebido o que acontecia e isso certamente a lisonjeou um pouco, porque era gentil comigo, quando Ace não andava por perto. Aproximava-se
e conversava, deixava que eu lhe comprasse uma Coca, sentava-se em uma banqueta e, disfarçadamente, esfregava a perna na minha. Aquilo me enlouquecia.
Certa noite, em começos de novembro, eu perambulava por lá, jogando um pouco de bilhar com Bill, enquanto esperava a chegada de Betsey. O lugar estava deserto,
pois não eram nem oito da noite ainda. Um vento solitário gemia lá fora, ameaçando o inverno.
- É melhor você cair fora - disse Billy, atirando a nove direta na caçapa.
- Cair fora, como?
- Você sabe.
- Não, eu não sei.
Errei uma tacada e Billy acrescentou uma bola à mesa. Acertou a seis e, enquanto jogava, fui colocar uma moeda na vitrola automática.
- Betsy Malefant. - Ele alinhou a bola cuidadosamente e a enviou contra a borda. - Charlie Hogan andou contando a Ace a maneira como você fica peruando a
garota.
Charlie achou muito engraçado, isso dela ser mais velha e tudo, porém Ace não achou graça nenhuma.
- Ela não significa nada para mim - falei, num fio de voz.
- É bom que não signifique mesmo.
Mal ele terminou de falar, chegaram dois sujeitos e então ele foi até o balcão, entregar-lhes um taco de bilhar.
Ace apareceu por volta das nove e estava sozinho. Nunca me dera a mínima antes e eu até já esquecera o comentário de Billy. Quando somos invisíveis, achamos
que somos também invulneráveis. Eu jogava fliperama e estava absolutamente concentrado naquilo. Nem mesmo percebi que o lugar ficava silencioso, enquanto todos paravam
de jogar boliche ou bilhar. A coisa seguinte que soube, foi que alguém me jogara em cima do fliperama. Aterrei no chão, amontoado. Levantei-me. amedrontado e nauseado.
Ele tinha inclinado a máquina, apagando meus três replays. Estava lá em pé, olhando para mim. e não havia um fio de cabelo fora do lugar, com o zíper puxado a meio
em seu blusão militar.
- Senão parar de se meter a besta - disse maciamente - vou modificar sua cara.
Ele foi embora. Todos olhavam para mim e eu queria afundar bem ali, no chão à minha frente, até ver que havia uma espécie de relutante admiração na maioria
dos rostos.
Então, sacudi a roupa com ar despreocupado e enfiei outra moeda no fliperama. A luz INCLINADO apagou-se. Dois sujeitos aproximaram-se e bateram em minhas
costas antes de irem embora, sem dizerem nada.
Às onze, quando o lugar fechou, Billy ofereceu-me uma carona até em casa.
- Se não tomar cuidado, você vai acabar mal.
- Não se preocupe comigo - respondi.
Ele nada disse.
Duas ou três noites mais tarde, Betsey apareceu, por volta das sete da noite. Havia outro cara lá, um sujeitinho esquisito de óculos, chamado Vern Tessio,
que largara a escola uns dois anos antes. Mal o percebi. Ele era ainda mais invisível do que eu.
Ela foi diretamente para onde eu jogava, chegou tão perto, que pude sentir o cheiro limpo de sabonete em sua pele. Aquilo me tonteou.
- Ouvi sobre o que Ace fez com você - disse ela. - Sei que não devo falar mais com você e não falarei, mas tenho algo que melhorará a situação.
Ela me beijou. Depois afastou-se, antes mesmo que eu pudesse baixar a língua do céu da boca. Voltei ao meu jogo, ainda atordoado. Nem mesmo via quando Tessio
saiu, para espalhar a novidade. Aliás, eu não via mais nada, além dos olhos escuros, muito escuros de Betsey.
Assim, mais tarde nessa noite, terminei no pátio de estacionamento com Ace Merrill.
Ele me surrou com vontade. Era uma noite fria, terrivelmente fria, e por fim comecei a soluçar, pouco ligando para quem estivesse vendo ou ouvindo isto é,
todos. A única lâmpada de sódio jogava impiedosamente sua claridade para baixo. Nem mesmo consegui acertar um soco nele.
- Muito bem - disse ele, agachando-se perto de mim. O ritmo de sua respiração nem se alterara. Tirou um canivete de molas do bolso e apertou o botão cromado.
Dezoito centímetros de reluzente lâmina prateada saltaram para o mundo. - É isto o que vai ganhar da próxima vez. Vou esculpir meu nome no seu saco.
Ele se levantou, deu-me um último pontapé e foi embora. Fiquei no mesmo lugar por uns dez minutos, tremendo sobre a terra batida do piso. Ninguém veio ajudar-me
ou bater-me nas costas, nem mesmo Billy. Betsy não apareceu, para melhorar a situação.
Finalmente, encontrei forças para levantar-me e fui de carona até em casa. Contei à Sra. Hollis que pegara carona com um bêbado e ele jogara o carro fora
da estrada. Nunca mais voltei ao boliche.
Fiquei sabendo que Ace rompera com Betsy, não muito depois disso. A partir de então, ela foi descendo a colina, em rapidez cada vez mais acentuada - como
um caminhão de carga sem freios. Durante o trajeto, ela acabou tendo um caso de doença venérea. Billy me contou que a vira certa noite no Manoir, em Lewinston, assediando
sujeitos para lhe pagarem uma bebida. Havia perdido a maioria dos dentes e tivera o nariz quebrado em algum ponto ao longo da caminhada, segundo ele. Acrescentou
que eu nem a reconheceria. Aquela altura, no entanto, aquilo pouco me importava.
A pickup não tinha pneus para neve, de modo que antes de chegarmos à saída para Lewinston, eu começara a dançar sobre a recente camada de neve pulverizada.
Levamos mais de quarenta e cinco minutos para cobrir os trinta e cinco quilômetros.
O homem na saída de Lewinston ficou com meu cartão de pedágio e meus sessenta centavos.
- Viagem escorregadia?
Nenhum de nós respondeu. Estávamos agora chegando perto de nosso destino. Se eu não houvesse sentido aquela curiosa espécie de contato sem palavras com ela,
seria capaz de dizê-lo, apenas pela forma como Nona se sentava no banco empoeirado da pickup, as mãos apertadamente dobradas em cima da bolsa, os olhos fixos diretamente
na estrada, com feroz intensidade. Um estremecimento sacudiu meu corpo.
Tomamos a estrada 136. Não havia muitos carros à vista. O vento era refrescante e a neve estava ficando mais dura do que nunca. No outro lado de Harlow Village,
passamos por um enorme Buick "Riviera", que havia patinado na neve e trepado na calçada. Seus pisca-alerta estavam ligados e tive uma fantasmagórica e dupla imagem
do Impala de Norman Blanchette. Agora devia estar coberto de neve, nada mais que um monte espectral na escuridão.
O motorista do Buick tentou fazer-me parar, mas passei por ele sem diminuir a velocidade, atirando-lhe neve pulverizada. Meus limpadores de pára-brisa estavam
emperrados pela neve e, espichando o braço, consegui libertar o do meu lado. Parte da neve se soltou e pude enxergar um pouco melhor.
Harlow era uma cidade fantasma, com tudo escuro e fechado. Assinalei minha direita. a fim de entrar na ponte para Castle Rock. As rodas traseiras queriam
ir para outro lado, porém consegui firmar a direção. À frente e do outro lado do rio, era possível divisar a sombra escura, formada pelo prédio da Liga dos Jovens
de Castle Rock. Estava fechado e solitário. Senti uma pena súbita, pena por ter havido tanta dor. E morte. Foi quando Nona falou pela primeira vez, desde a saída
de Gardiner.
- Há um policial atrás de você.
- Ele está...?
- Não. O pisca-pisca está desligado.
Contudo, aquilo me deixou nervoso e o que aconteceu talvez tenha sido por isso. A Estrada 136 faz uma curva de noventa graus no lado do rio que dá para Harlow
e depois segue reta até a ponte para Castle Rock. Fiz a primeira curva, porém havia gelo no lado de Rock.
- Merda... !
A traseira da pickup dançou e, antes que eu pudesse controlar a direção, ela já batera em um dos maciços pilares de aço da ponte. Continuamos deslizando em
ziguezague e a coisa seguinte que vi foram os brilhantes faróis do carro policial atrás de nós. Ele freou - pude ver os reflexos vermelhos na neve que caía - mas
o gelo o apanhou também. Veio direto sobre nós. Houve uma batida metálica e violenta, quando tornamos a colidir com os pilares de suporte. Fui atirado ao colo de
Nona e, mesmo naquela rápida fração de segundo, houve tempo para sentir a uniforme firmeza de sua coxa. Então, tudo cessou.
Agora, o tira havia ligado o pisca-pisca. Ele enviava giratórias sombras azuis, que passavam sobre o capô da pickup e iluminavam as vigas cruzadas de aço
da ponte Harlow-Castle Rock, cobertas de neve. Quando o tira saiu do carro, a luz do teto acendeu-se.
Se ele não estivesse atrás de nós, nada teria acontecido. Esse pensamento vai e vem em minha mente, como a agulha de um disco, presa em um sulco defeituoso.
Eu exibia um sorriso tenso e gélido no escuro, quando apalpei o piso da boléia da pickup, em busca de algo com que atingi-lo.
Havia uma caixa de ferramentas aberta. Peguei uma chave de soquete e a deixei no banco, entre Nona e eu. O tira inclinou-se na janela, seu rosto modificando-se
como o de um demônio, à luz de seu pisca-pisca.
- Não acha que está viajando um pouco depressa para as condições do tempo?
- E você não estava me seguindo perto demais, para as condições do tempo?
Ele devia ter enrubescido. Era difícil saber, àquela luz tremulante.
- Está me desacatando, filho?
- Estou, se você pretende responsabilizar-me pelo amassado em seu carro.
- Mostre-me sua licença de motorista e seu registro.
Peguei minha carteira e entreguei-lhe minha licença.
- O registro?
- O carro é de meu irmão. O registro está em sua carteira.
- É mesmo? - Ele me fitou duramente, tentando fazer-me baixar os olhos. Quando viu que isso demoraria um pouco, fixou-se em Nona. Eu podia ter-lhe arrancado
os olhos, pelo que vi neles. - Como se chama?
- Cheryl Craig, senhor.
- O que está fazendo, viajando na pickup do irmão dele, em meio a uma tempestade de neve, Cheryl?
- Estamos indo visitar meu tio.
- Em Rock?
- Exatamente.
- Não conheço nenhum Craig em Castle Rock.
- Seu sobrenome é Emonds. Em Bowen Hill.
- É mesmo? - O tira caminhou até a traseira da pickup, a fim de verificar a chapa de matrícula. Abri a porta e inclinei-me para fora. Ele anotava o número.
Voltou enquanto eu ainda me inclinava, focalizado ao clarão de seus faróis, da cintura para cima. - Eu vou... O que houve com você, rapaz?
Não precisei olhar para baixo, a fim de saber o que houvera comigo. Eu costumava pensar que inclinar-me para fora daquele jeito era apenas alheamento, mas
ao registrar tudo isto, mudei de idéia. Não creio que fosse nenhum alheamento. Eu queria que ele visse o meu estado. Firmei os dedos em torno da chave de soquete.
- O que quer dizer?
Ele aproximou-se dois passos.
- Você está ferido - parece que se cortou. É melhor...
Saltei para ele. Seu chapéu havia caído com o choque do carro e o tira estava de cabeça descoberta. Atingi-o para matar, logo acima da testa. Nunca esquecerei
aquele som, como o de meio quilo de manteiga, caindo em um chão duro.
- Depressa - disse Nona.
Pousou uma mão tranqüila em meu pescoço. Estava muito frio, como o ar em um porão subterrâneo. Minha mãe adotiva tinha um porão subterrâneo.
É curioso que me lembre disso. Ela me mandava ir lá embaixo, apanhar verduras no inverno. Ela mesma as enlatava. Não em latas de verdade, claro, mas em grossos
potes Mason, com aqueles vedadores de borracha sob a tampa.
Desci lá um dia, para pegar um pote de feijão-manteiga que ela serviria no jantar. As conservas estavam todas em caixas, claramente marcadas pela mão da Sra.
Hollis.
Recordo que ela sempre escrevia framboesa errado, algo que me enchia de secreta superioridade.
Naquele dia, passei pelas caixas marcadas "frambeza" e cheguei ao canto onde ela guardava os feijões. Estava frio e escuro. As paredes eram de terra, lisa
e escura. No tempo das chuvas, segregavam umidade, em regatos gotejantes e tortuosos. O cheiro era um secreto e obscuro eflúvio, composto de coisas vivas, terra
e vegetais estocados, um cheiro extraordinariamente semelhante ao das partes privadas de uma mulher. Em um canto havia uma velha impressora quebrada, que eu sempre
vira ali, desde a minha chegada. Às vezes, eu costumava brincar com ela, fingir que poderia pô-la funcionando novamente. Eu adorava aquele porão subterrâneo. Naquela
época - eu teria nove ou dez anos - o porão era meu local favorito. A Sra. Hollis recusava-se a pôr os pés lá embaixo, e era contra a dignidade de seu marido descer
para apanhar verduras. Assim, quem ia era eu, e cheirava aquele peculiar odor secreto de terra, apreciava a privacidade de seu confinamento uterino. 0 porão tinha
a claridade de uma lâmpada coberta de teias de aranha, posta lá pelo Sr. Hollis, provavelmente antes da Guerra dos Boers. Às vezes, movimentando as mãos, eu fazia
enormes coelhos alongados na parede.
Apanhei o pote de feijão e já ia voltar, quando ouvi um movimento rogaçante debaixo de uma das caixas velhas. Fui até ela e a levantei.
Havia uma rata castanha debaixo dela, deitada de lado. Ela girou a cabeça para cima e me olhou. Seu lados estavam violentamente inchados e ela me arreganhou
os dentes.
Era a maior ratazana que eu já vira e inclinei-me um pouco mais para ela. Estava no ato de parir. Dois filhotes, pelados e cegos, já mamavam em seu ventre.
Outro estava a meio caminho para o mundo.
A mãe me fitou, impotente, mas pronta para morder. Eu queria matá-la, matar todos eles, esmagá-los, mas não pude. Era a coisa mais horrível que já vira. Enquanto
espiava, uma pequena aranha marrom - acho que uma perna-longa - rastejou rapidamente pelo chão. A ratazana agarrou-a e a comeu.
Fugi dali correndo. Em meio da escada, caí e quebrei o pote de feijão. A Sra. Hollis me bateu por isso e nunca mais voltei ao porão, a menos que houvesse
absoluta necessidade.
Eu olhava para o tira caído, enquanto recordava.
- Depressa - repetiu Nona.
Ele era muito mais leve do que Norman Blanchette ou, talvez, a minha adrenalina é que fluía mais livremente. Levantei-o nos braços e fui com ele até a borda
da ponte. Mal percebia as cascatas, corrente abaixo, e corrente acima, o viaduto de ferrovia GS & WM era apenas uma sombra curiosa, como um cadafalso. O vento da
noite fustigava e gemia, a neve me batia no rosto. Por um momento, mantive o tira contra meu tórax, como um recém-nascido adormecido, depois recordei quem realmente
ele era e o joguei por sobre a borda, para a escuridão mais abaixo.
Voltamos à pickup e entramos, mas o motor não pegava. Insisti, até sentir o cheiro adocidado da gasolina, vindo do carburador inundado. Então, parei.
- Vamos - falei.
Fomos para o carro-patrulha. O banco dianteiro estava entulhado de etiquetas de violação, formulários, duas pranchetas. O rádio de ondas-curtas, abaixo do
painel, estalava e crepitava.
- Unidade Quatro, responda. Quatro, está ouvindo?
Estirei o braço e o desliguei, batendo em algo com os nós dos dedos, enquanto procurava ó botão certo. Era uma espingarda de caça, pump action. Provavelmente,
uma arma de uso particular do tira. Tirei-a dali e a passei para Nona. Ela colocou a espingarda no colo. Fiz o carro-patrulha dar marcha à ré. Estava amassado, mas
sem estragos maiores. Dispunha de pneus para neve, que mordiam o solo maravilhosamente, tão logo começamos a rodar sobre o gelo que causara o estrago.
Logo depois estávamos em Castle Rock. As casas tinham desaparecido, exceto por um ocasional e castigado trailer, recuado da estrada. Esta ainda não fora limpa,
não havendo outras marcas no solo além das que deixávamos para trás. Pinheiros monolíticos, pesados de neve, alteavam-se à nossa volta, fazendo com que me sentisse
pequeno e insignificante, apenas mais um diminuto bocado que a garganta daquela noite tragava. Agora já passava das dez horas.
Não tive grande participação na vida social estudantil durante meu primeiro ano de universidade. Estudei com afinco e trabalhei na biblioteca, pondo livros
nas prateleiras, reparando encadernações e aprendendo a cataloga-los. Na primavera houve o beisebol dos calouros.
Quando o ano acadêmico estava para terminar, logo antes das finais, houve um baile no ginásio. Eu estava sem compromissos, estudei para as duas provas iniciais
e desci.
Tinha o dinheiro da entrada, por isso, entrei.
O ambiente estava escuro, apinhado, suado e frenético como só pode estar uma atividade social universitária, antes das provas finais. Havia sexo no ar. Não
se precisava cheira-lo; quase se podia apanha-lo nas mãos, como uma peça grossa de roupa molhada. Sabia-se que havia amor a ser feito mais tarde - ou o que passa
por amor. As pessoas iriam fazê-lo sob as arquibancadas, nas instalações de maquinaria para vapor do pátio de estacionamento, nos apartamentos e quartos dos dormitórios.
Ia ser feito por rapazes/homens desesperados, com o recrutamento militar em seus calcanhares e por lindas estudantes que encerrariam os estudos aquele ano, iriam
para casa e iniciariam uma família. Seria feito com lágrimas e risos, bebedeira e lucidez, formalmente e sem inibição alguma. Contudo, a maioria ia ser feita rapidamente.
Havia alguns rapazes desacompanhados, mas não muitos. Aquela era uma noite em que não se precisaria ir a qualquer lugar desacompanhado. Vagueei até o tablado
do conjunto musical. Quando cheguei mais perto do som, o ritmo, a música, tornaram-se uma coisa palpável. O conjunto tinha às costas um grupo de amplificadores de
metro e meio, em forma de semicírculo, de maneira que se podia sentir os tímpanos indo e vindo, no compasso do contrabaixo.
Recostei-me a uma parede e observei. Os dançarinos movimentavam-se em padrões prescritos (como se fossem trios, em vez de casais, com a terceira pessoa invisível
entre eles, empurrada pela frente e por trás), os pés se movendo sobre o pó de serra que fora espalhado sobre o piso encerado. Não vi nenhum conhecido e comecei
a sentir-se solitário, mas sem que isso me entristecesse. Encontrava-me naquela fase da noite quando fantasiamos que todos olham para nós pelo canto dos olhos, apreciando
o romântico estranho.
Meia hora mais tarde, saí e fui beber uma Coca no saguão. Quando voltei, alguém iniciara uma dança em círculo e me puxaram para lá, meus braços nos ombros
de duas garotas que nunca vira antes. Giramos e giramos. Havia talvez umas duzentas pessoas no círculo, o qual cobria metade do piso do ginásio. Então, parte dele
se rompeu e vinte ou trinta pessoas formaram outro círculo dentro do primeiro, mas girando em sentido contrário. Aquilo me tonteou. Vi uma moça parecida com Betsy
Malenfant, mas sabia que era fantasia minha. Quando tornei a procura-la, não a vi mais, nem ninguém que se parecesse com ela.
Finalmente interromperam os círculos, mas eu me sentia fraco e nada bem.
Caminhei até as arquibancadas e sentei-me. A música era muito alta, o ar demasiado oleoso. Minha mente ficava arfando e bocejando. Eu podia ouvir o coração
bater em minha cabeça da maneira que sentimos depois da maior carraspana de nossa vida.
Eu costumava pensar que o ocorrido em seguida, aconteceu por eu estar cansado e algo nauseado de tanto girar e girar mas, como disse antes, ao escrever tudo
isto, as coisas entraram em um foco mais nítido. Não acredito mais naquilo.
Tornei a olhar para eles, para todas aquelas pessoas, belas e apressadas, na semiescuridão.
Tive a impressão de que todos os homens pareciam aterrorizados, com os rostos alongados para grotescas máscaras em câmara lenta. Era compreensível. As mulheres
- estudantes de escola mista, em suas suéteres, saias curtas, calças boca-de-sino - estavam transformando-se em ratos. A princípio, isso não me amedrontou. Até dei
risadinhas. Sabia que estava vendo alguma espécie de alucinação e, por alguns momentos, pude apreciar o quadro de maneira quase clínica.
Então, uma garota ficou na ponta dos pés para beijar o parceiro e isso foi demais. Rosto peludo e contorcido, com olhos que eram bolas negras erguendo-se
para o alto, boca revelando dentes...
Fui embora dali.
Fiquei um momento no saguão, um tanto vacilante. Havia um baile no fim do corredor, mas segui por ele e subi a escada.
O vestiário ficava no terceiro andar e precisei subir correndo o último lance de escadas.
Empurrei a porta e corri para uma das cabines de banho. Vomitei entre o cheiro mesclado de linimento, uniformes suados, couro engraxado. A música lá de baixo
chegava distante, o silêncio aliem cima era virginal. Senti-me confortado.
Tivemos que pararem um sinal da Curva Sudoeste. A recordação do baile me deixara excitado, por algum motivo que não entendia. Comecei a tremer.
Ela olha, para mim, sorrindo com as pupilas escuras.
- Vamos?
Não pude responder-lhe. Estava tremendo demais para falar. Ela assentiu lentamente, em meu lugar.
Manobrei para um ramal da Estrada 7, que devia ter sido uma estrada de troncos, na época do verão. Não fui muito depressa, receando ficar atolado. Desliguei
os faróis, e flocos de neve começaram a amontoar-se silenciosamente no pára-brisa.
- Você ama? - perguntou ela, quase gentilmente.
Certos sons continuavam escapando de mim, eram-me extraídos. Penso que seriam uma íntima contra parte oral dos pensamentos de um coelho, apanhado em uma armadilha.
- Aqui - disse ela. - Bem aqui.
Foi o êxtase.
Quase não conseguimos retornar à estrada principal. O limpa-neves havia passado, luzes alaranjadas piscando e cintilando na noite, atirando uma enorme muralha
de neve em nosso caminho.
Havia uma pá no porta-mala do carro-patrulha. Precisei de meia hora para abrir passagem e, a essa altura, era quase meia-noite.
Ela ligou o rádio da polícia enquanto eu me atirava à tarefa de limpar a neve, e ele nos contou o que precisávamos saber. Os corpos de Blanchette e do rapaz
da pickup tinham sido encontrados. Eles suspeitavam de que nos tínhamos apossado do carro-patrulha. O nome do tira tinha sido Essegian, um nome que achei engraçado.
Houve um jogador de primeira divisão chamado Essegian - creio que ele jogava para os Dodgers. Talvez eu tivesse matado um parente seu. Não me incomodei em saber
o nome do tira. Ele estivera nos perseguindo perto demais, havia cruzado o nosso caminho.
Dirigimos de volta à estrada principal.
Eu podia sentir o excitamento de Nona, vivo, quente, ardendo. Parei o tempo suficiente para limpar o pára-brisa com o braço e recomeçamos a rodar.
Seguimos pelo lado oeste de Castle Rock e, sem precisar que me dissessem, eu sabia onde virar. Um indicador incrustado de neve dizia que era a Estrada Stackpole.
O limpa-neves não estivera ali, mas um veículo passara antes de nós. Os sulcos de seus pneus ainda estavam recentes, no chão atapetado pela neve que caía.
Um quilômetro e meio, depois menos do que isso. A viva ansiedade de Nona, sua necessidade, acabaram contagiando-me e comecei a ficar novamente apreensivo.
Dobramos uma curva e lá estava o caminhão de força elétrica, com sua carroceria laranja-vivo e pisca-alertas de aviso, pulsando na cor do sangue. Estava bloqueando
a estrada.
Não podem imaginar a raiva dela-em realidade, a nossa raiva-porque agora, depois de tudo quanto ocorrera, nós dois éramos um. Não podem avaliar a devastadora
sensação de intensa paranóia, a convicção de que todas as mãos agora se voltavam contra nós.
Eram dois homens. Um era uma sombra encurvada na escuridão à frente. O outro segurava uma lanterna. Caminhou para nós, sua luz bamboleando como um olho sinistro.
E havia mais do que raiva. Havia medo - medo de que tudo desse errado para nós, no último momento.
O homem gritava, e então baixei o vidro de minha janela.
- Não pode passar por aqui! Dê a volta pela Estrada Bower! Houve uma queda de fio de alta tensão aqui! Não pode...
Saí do carro, ergui a espingarda e enviei-lhe dois balaços. Ele foi atirado contra o caminhão alaranjado e eu cambaleei para trás, contra o carro-patrulha.
O homem escorregou, poucos centímetros de cada vez, os olhos fixos em mim incredulamente, depois caiu sobre a neve.
- Há mais cartuchos? - perguntei a Nona.
- Há.
Ela me deu os cartuchos. Dobrei a espingarda, ejetei os cartuchos gastos e coloquei novos.
O companheiro do sujeito se levantara e estava olhando o ocorrido, sem acreditar no que via. Gritou para mim algo que se perdeu no vento. Parecia uma pergunta,
mas não fazia diferença. Eu ia matá-lo. Caminhei para ele e o homem apenas ficou lá parado, olhando para mim. Não se moveu, nem quando ergui a espingarda. Acho que
não imaginava o que ia acontecer. Talvez julgasse tudo aquilo um sonho.
Enviei um balaço, mas baixo demais. Um grande jato de neve explodiu para o alto, cobrindo-o. Então, ele deu um berro aterrorizado e correu, dando um salto
gigantesco sobre o cabo de força caído na estrada. Atirei novamente e tornei a perder o tiro. A seguir, o homem desapareceu na escuridão e agora eu podia esquecê-lo.
Não estava mais em nosso caminho. Retornei ao carro-patrulha.
- Vamos ter que caminhar - falei.
Passamos ao lado do corpo caído, saltamos sobre o crepitante cabo elétrico e seguimos pela estrada, acompanhando as passadas largamente espaçadas do homem
que fugira.
Alguns montes de neve quase chegavam aos joelhos de Nona, porém ela permanecia sempre um pouco à minha frente. Ambos estávamos ofegando.
Subimos uma colina e descemos para um estreito buraco. De um lado, havia um inclinado galpão abandonado, com janelas sem vidraças. Ela parou e agarrou meu
braço.
- Lá - disse, apontando para o lado oposto. Sua pressão era forte e doía, mesmo através de meu casaco. Havia um ricto de intensa vitória em seu rosto. Lá!
Lá!
Era um cemitério.
Escorregamos e tropeçamos na subida da barragem, depois escalamos dificilmente um muro de pedra coberto de neve. Eu também já estivera ali, claro. Minha mãe
verdadeira era de Castle Rock e, embora ela e meu pai nunca tivessem morado lá, aqui estava o seu pedaço de chão. Havia sido um presente para minha mãe, dado por
seus pais, que tinham vivido e morrido em Castle Rock. Durante minha paixonite por Betsy, eu tinha vindo ali freqüentemente para ler os poemas de John Keats e Percy
Shelley.
Talvez vocês achem que era uma coisa idiota a fazer, algo próprio de um calouro universitário, mas eu penso o contrário. Ainda agora, penso assim. Eu me sentia
perto deles, consolado. Depois que Ace Merrill me surrou, nunca mais voltei ao cemitério.
Até Nona me levar lá.
Escorreguei e caí na neve solta e pulverizada, torcendo o tornozelo. Levantei-me e continuei caminhando, agora usando a espingarda como muleta. O silêncio
era infinito, inacreditável. A neve caía em linhas retas e macias, amontoando-se sobre as lousas eretas e as cruzes, sepultando tudo, exceto as pontas dos corroídos
mastros de bandeira, que só sustinham bandeiras no Dia de Finados e Dia dos Veteranos. O silêncio era sacrílego em sua imensidão e, pela primeira vez, senti terror.
Ela me guiou para uma construção de pedra, assentada na subida da colina, aos fundos do cemitério. Um mausoléu. Um sepulcro embranquecido pela neve. Nona
tinha uma chave. Eu sabia que ela teria uma chave - e tinha mesmo.
Ela soprou a neve do rebordo da porta e encontrou a fechadura. O som de gonzos girando parecia arranhar, através da escuridão. Ela empurrou a porta, que se
abriu para o interior.
O odor que escapou até nós era tão frio como o outono, tão frio como o ar no porão subterrâneo dos Hollis. Só consegui vislumbrar um pequeno trecho. Havia
folhas mortas no chão de pedra. Ela entrou, parou e olhou para mim por sobre o ombro.
- Não - falei.
- Você ama? - ela perguntou e riu de mim.
Fiquei parado na escuridão, sentindo que tudo começava a caminhar junto, passado, presente, futuro. Eu queria correr dali, correr gritando, correr depressa
o bastante, para desfazer tudo o que havia feito.
Nona ficou lá, olhando para mim, a mais linda garota do mundo, a única coisa que já havia sido minha. Fez um gesto com as mãos sobre o corpo. Não lhes direi
como era.
Vocês saberiam, se também o vissem.
Entrei. Ela fechou a porta.
Estava escuro, mas eu podia ver perfeitamente. O lugar era iluminado por um fogo verde, que corria lentamente. Ele percorria as paredes e serpenteava em línguas,
através do chão forrado de folhas. Havia um esquife no centro do mausoléu, porém estava vazio. Pétalas murchas de rosas espalhavam-se sobre ele, como uma antiga
oferenda nupcial. Nona acenou para mim, depois apontou a pequena porta nos fundos. Uma portinhola sem marcas. Tive medo dela. Penso que, então, já sabia. Ela me
usara e rira de mim. Agora, ia destruir-me.
Ainda assim, não pude parar. Fui até aquela porta, porque tinha de ir. O telégrafo mental ainda funcionava em júbilo - um terrível e insano júbilo - e triunfo.
Minha mão tremeu, quando a estendi para a porta. Ela estava coberta de fogo verde.
Abri a porta e vi o que estava lá.
Era a garota, a minha garota. Morta. Seus olhos espiavam vazios, dentro daquele mausoléu de outubro, fitavam os meus. Ela cheirava a beijos roubados. Estava
nua e tinha sido estripada da garganta às virilhas, seu corpo inteiro transformado em um útero.
E havia algo vivendo nele. Os ratos. Eu não podia vê-los, mas era possível ouvi-los, correndo dentro dela. Tinha certeza de que, a qualquer momento, sua boca
seca se abriria e ela me perguntaria se eu amava. Recuei, sentindo todo o corpo entorpecido, o cérebro flutuando em uma nuvem escura.
Virei-me para Nona. Ela ria, estendendo os braços para mim. Então, num súbito relance de compreensão, eu soube, soube, soube. A última prova. A prova final.
Eu passara por ela e estava livre!
Voltei para a porta de entrada e, naturalmente, tudo aquilo não passava de um closet vazio de pedra, com folhas mortas no piso.
Fui para Nona. Fui para minha vida.
Seus braços enrolaram-se em meu pescoço e eu a puxei para mim. Foi quando ela começou a transformar-se, a encolher e amoldar-se como cera. Os enormes olhos
escuros ficaram pequeninos, eram como contas negras. Os cabelos tornaram-se ásperos e marrons. O nariz encurtou, as narinas dilataram-se. Seu corpo ficou informe,
encurvado contra mim.
Eu estava sendo abraçado por um rato.
- Você ama? - guinchou ele. - Você ama, você ama?
Sua boca sem lábios estirou-se para cima, buscando a minha.
Não gritei. Não me sobravam mais gritos. Duvido que ainda torne a gritar um dia.
Está muito quente aqui.
O calor não me incomoda, de modo algum. Gosto de suar, quando posso tomar uma ducha. Sempre pensei no suor como uma coisa boa, uma coisa masculina, mas acontece
que às vezes, quando faz calor, há insetos que picam - aranhas, por exemplo. Sabiam que as aranhas fêmeas ferroam e comem seus parceiros, pois é o que fazem, logo
após a cópula.
Além disso, ouvi passinhos, apressados nas paredes. Não gosto disso.
Fiquei com cãibras de escritor, a ponta de feltro da caneta agora amoleceu e desfiou.
Ainda assim, terminei. E as coisas parecem diferentes. Não parecem mais as mesmas, em absoluto.
Sabem que, por um momento, eles quase me fizeram acreditar que eu havia feito todas aquelas coisas horríveis sozinho? Os homens na parada para caminhões,
o sujeito do caminhão da força elétrica, que conseguiu fugir. Eles disseram que eu estava sozinho.
Eu estava sozinho quando me encontraram, quase congelado para morrer, naquele cemitério, ao lado das lousas que marcam as sepulturas de meu pai, minha mãe
e meu irmão Drake. Isto, contudo, significa apenas que ela foi embora, e vocês bem podem compreender a situação. Qualquer tolo compreenderia. No entanto, fico satisfeito
por ela ter ido embora. Fico, sinceramente. Não obstante, vocês precisam entender que ela esteve comigo o tempo todo, passo a passo, no decorrer do trajeto.
Vou matar-me agora. Será muito melhor. Estou cansado de todo esse sentimento de culpa, da angústia e dos pesadelos. Além do mais, não suporto os ruídos nas
paredes.
Qualquer um poderia estar lá. Ou qualquer coisa.
Não estou louco. Tenho certeza disto e espero que vocês também tenham. Se dizem que não estão loucos, presume-se que o estejam, porém me encontro acima de
todos esses joguinhos. Ela estava comigo, era real. Eu a amo. O verdadeiro amor jamais morrerá.
Foi como assinei todas as minhas cartas para Betsy, aquelas que rasguei depois de escritas.
Nona, entretanto, foi a única a quem amei realmente.
Faz muito calor aqui. E não gosto dos ruídos nas paredes.
Você ama?
Sim, eu amo.
E o verdadeiro amor jamais morrerá.

* * *



O ATALAHO DA SRA. TODD

Aí vem aquela Sra. Todd - falei. Homer Buckland ficou olhando o pequeno Jaguar aproximar-se e assentiu. A mulher ergueu a mão para ele. Homer moveu a cabeça
grande e desgrenhada em um cumprimento, mas não acenou em resposta. A família Todd possuía uma grande casa de verão no Lago Castelo e Homer fora seu caseiro desde
que se podia lembrar. Eu tinha a impressão de que ele não gostava da segunda esposa de Worth Todd, na mesma medida em que gostara de 'Phelia Todd, a primeira.
Isto foi há apenas dois anos e estávamos sentados em um banco, à frente do Mercado de Bell, eu com uma soda laranjada, Homer com um copo de água mineral.
Era outubro, uma época de tranqüilidade em Castle Rock. Muitas casas do lago continuavam sendo usadas nos fins de semana, porém o agressivo, eufórico verão socializante
já terminou e ainda não chegaram à cidade os caçadores com seus enormes rifles e caras licenças de não-residentes, presas em seus bonés alaranjados. A esta altura,
já terminaram quase todas as colheitas. As noites são frescas, boas para dormir, e juntas velhas como as minhas ainda não começaram a queixar-se. Em outubro, o céu
acima do lago está límpido, com aquelas enormes nuvens que se movem tão devagar; gosto de ver como parecem tão achatadas no fundo, como ali ficam um pouco acinzentadas,
como com uma sombra pressagiando o sol poente, e posso contemplar o sol cintilando na água, sem me aborrecer pelo espaço de alguns minutos. É em outubro, sentado
no banco diante do Bell's e contemplando o lago à distância, que desejaria ser ainda um fumante.
- Ela não dirige tão depressa como 'Pheila - disse Homer. - Juro que costumava pensar como uma mulher de nome tão antiquado era capaz de dirigir um carro
naquela velocidade.
Os veranistas como os Todd não são, nem de longe, tão interessantes como os residentes fixos em cidadezinhas do Maine, da maneira como acreditam. O ano inteiro,
o pessoal prefere suas próprias histórias de amor e odeia histórias de escândalos ou rumores de escândalos. Quando aquele sujeito têxtil de Amesbury se matou com
uma bala, Estonia Corbridge descobriu que, após cerca de uma semana, nem mesmo era convidada para almoçar, por causa de sua história sobre como o encontrara, com
a arma ainda em uma mão endurecida. E o pessoal ainda não comenta a respeito de Joe Camber, que foi morto pelo próprio cão.
Bem, isso não vem ao caso. Apenas corremos em pistas de corridas diferentes. Os veranistas trotam; nós, os outros, que não pomos gravata para cumprir nossa
semana de trabalho, apenas caminhamos. Mesmo assim, houve bastante interesse local quando Ophelia Todd desapareceu, em 1973. Ophelia era realmente uma mulher encantadora
e tinha feito muitas coisas na cidade. Trabalhou levantando fundos para a Biblioteca Sloan, ajudou na reforma do memorial de guerra e esse tipo de coisa. Entretanto,
todos os veranistas gostam da idéia de levantar fundos.
Fala-se em levantar fundos e os olhos deles se acendem, começam a brilhar. Fala-se em levantar fundos e eles logo formam um comitê, indicando uma secretária
e mantendo uma agenda. Eles gostam disso. No entanto, fala-se em tempo (além de uma longa, gigantesca combinação de coquetel e reunião do comitê) e não dá certo.
Tempo parece ser o que a maioria dos veranistas prefere reservar. Eles o guardam e, se pudessem, colocariam o tempo em potes como os de conserva, claro que colocariam.
'Phelia Todd, no entanto, parecia querer gastar o tempo - não só ajudava na biblioteca, como também levantava fundos para ela. Chegada a hora do memorial de guerra
ser esfregado, do pessoal sujar as mãos para limpá-lo, 'Phelia estava lá, com mulheres da cidade que haviam perdido os filhos em três guerras diferentes, usando
um macacão e com os cabelos presos debaixo de um lenço. E quando as crianças precisavam de transporte para um programa de natação no verão, era certo vê-la como
qualquer um, descendo a Estrada Landing com a carroceria da grande e lustrosa picape de Worth Todd entulhada de crianças. Uma boa mulher. Não uma mulher da cidade,
mas uma boa mulher. E quando ela desapareceu. houve preocupação. Não que fosse exatamente lamentada, porque um desaparecimento não é bem uma morte. Não é como decepar-se
algo, com um cutelo de açougueiro; é mais semelhante a qualquer coisa escorrendo pelo ralo da pia, tão lentamente, que só percebemos seu desaparecimento muito tempo
depois.
- Era uma Mercedes que ela dirigia - disse Homer, respondendo à pergunta que eu não tinha feito. - Um carro esporte de dois lugares. Todd o comprou para ela,
em sessenta e quatro ou sessenta e cinco, acho. Lembra-se dela, levando as crianças para o lago, todos aqueles anos em que havia concursos de Rãs e Girinos?
- Hum-hum.
- Com as crianças, ela não dirigia a mais de sessenta, sabendo que elas estavam ali atrás.
Só que isso a impacientava. Aquela mulher tinha chumbo no pé e um mancal de esferas bem atrás do tornozelo.
Acontece que Homer nunca falava sobre os veranistas de que era caseiro. Então, sua esposa morreu. Há cinco anos, foi isso. Ela estava arando uma rampa, quando
o trator tombou em cima dela, e Homer sentiu demais o que aconteceu. Lamentou a esposa por uns dois anos e então pareceu sentir-se melhor. Só que não era mais o
mesmo. Parecia esperar algo que ia acontecer, esperando a coisa seguinte. A gente às vezes passava por sua ordenada casinha ao crepúsculo e ele estava no alpendre,
fumando um cachimbo, com um copo de água mineral na balaustrada. A claridade do sol poente lhe batia em cheio nos olhos, a fumaça do cachimbo lhe contornava a cabeça
e a gente pensava - eu, pelo menos, pensei Homer está esperando a coisa seguinte. Isto me deixava com a cabeça mais preocupada do que eu gostaria de admitir e, por
fim, decidi que, se fosse eu, não estaria esperando a coisa seguinte, como um noivo que veste o paletó de manhã e finalmente acerta o nó da gravata, mas tem que
ficar sentado em uma cama, no andar de cima da casa, olhando-se primeiro ao espelho, depois consultando o relógio sobre a lareira, esperando que ele dê onze horas,
que é quando se casará. Se fosse eu, não ficaria esperando a coisa seguinte; esperaria a coisa derradeira.
Contudo, nesse período de espera - que terminou quando Homer foi a Vermont, um ano mais tarde - ele às vezes falava sobre aquela gente. Comigo e mais alguns
poucos.
- Que eu saiba, ela nunca dirigiu depressa quando estava com o marido. No entanto, se eu a acompanhava, ela fazia aquele Mercedes disparar.
Um sujeito parou na bomba de gasolina e começou a encher o carro. Um carro com chapa de Massachusetts.
- Não era um desses carros esporte modernos que correm com gasolina envenenada e saltam para diante, quando se aperta o acelerador; era um dos antigos, com
o velocímetro todo calibrado, até duzentos e sessenta. Tinha uma cor marrom esquisita.
Uma vez perguntei que cor era aquela e ela respondeu que era Champanha. Isso não é direito, falei, e ela quase morreu de rir. Gosto de uma mulher que sabe
rir sem a gente apontar onde está a graça da piada, se é que me entende.
O homem da bomba terminara de colocar a gasolina.
- Tarde, senhores - disse ele, quando subiu os degraus.
- Um bom dia para o senhor - respondi, quando ele entrou.
- 'Phelia estava sempre procurando um atalho - prosseguiu Homer, como se não houvesse sido interrompido. - Aquela mulher era louca por um atalho. Nunca vi
que diferença fazia. Ela dizia que quando poupamos distância suficiente, também poupamos tempo. Seu pai tinha jurado isso sobre as Escrituras. Era vendedor, estava
sempre viajando, ela o acompanhava quando podia e ele sempre procurava o trajeto mais curto.
Assim, ela ficou com o mesmo hábito.
"Certa vez, perguntei a ela se não achava um bocado curioso - isso de, por um lado, gastar seu tempo esfregando aquela velha estátua da Praça e levando as
crianças às aulas de natação, em vez de jogar tênis, nadar e ficar de pileque, como qualquer veranista e, por outro lado, ficar tão empenhada em poupar quinze minutos
entre aqui e Fryeburg, que isso talvez a fizesse perder o sono de noite. Parecia-me que as duas coisas se contradiziam, uma anulava a outra, está me entendendo?
Ela apenas olhou para mim e disse, "Eu gosto de ser útil, Homer. Também gosto de dirigir - pelo menos em certas ocasiões, quando se trata de um desafio - mas não
gosto do tempo que isso demora. É como remendar roupas - às vezes se tem que franzir, em outras o pano não chega.
Percebe o que quero dizer?
- Acho que percebo, sim, senhora - respondi, ainda duvidoso.
- Se estar atrás do volante de um carro fosse minha idéia de uma diversão realmente boa o tempo todo, eu procuraria atalhos longos - disse ela, ,e achei tão
engraçado, que acabei rindo.- O sujeito de Massachusetts saiu do mercado com um engradado de seis latas de cerveja em uma das mãos e alguns bilhetes de loteria na
outra.
- Tenha um bom fim de semana - disse Homer.
- Eu sempre tenho - respondeu o cara de Massachusetts. - Só gostaria de ter dinheiro bastante para morar aqui o ano inteiro.
- Bem, manteremos tudo em boa ordem, para quando o senhor puder vir disse Homer, e o sujeito riu.
Nós o vimos rodar com seu carro para algum lugar, exibindo aquela chapa de Massachusetts. Era uma verde. A minha Marcy explicou que essas são dadas pelo Cartório
de Registros Motorizados de Massachusetts aos motoristas que, durante dois anos, ainda não tiveram nenhum acidente naquele estranho, irritado e enfurecido estado.
Se o motorista tem um acidente, me disse ela, recebe uma chapa vermelha, para os outros tomarem cuidado com ele, se o virem rodando.
- Eles eram gente do estado, compreenda, eles dois - disse Homer, como se o sujeito de Massachusetts o fizesse recordar o fato.
- Eu não sabia - falei.
- Os Todd devem ser as únicas aves que temos, voando para o norte durante o inverno. Quanto a essa dona nova, não acredito que goste muito de voar para o
norte.
Homer bebericou sua água mineral e ficou um momento calado e pensativo.
- Ela, no entanto, não se importava - disse ele. - Pelo menos, acho que não se importava, embora costumasse se queixar algumas vezes, um tanto aborrecida.
A queixa era apenas uma forma de explicar por que estava sempre procurando um atalho.
- Quer dizer que o marido pouco ligava por ela viver flanando em cada estrada de floresta, entre aqui e Bangor, apenas para verificar se aquela era nove décimos
de quilômetros mais curta?
- Ele não ligava nem um pouco - disse Homer, lacônico.
Levantando-se, ele entrou no mercado. Escute aqui, Owens, falei para mim mesmo, sabe que não é seguro fazer perguntas quando ele está recordando. No entanto,
teimou e fez a última, podendo ter estragado uma história que começava a ganhar forma.
Continuei ali sentado, levantei o rosto para o sol e, após uns dez minutos, ele apareceu trazendo um ovo cozido. Tornou a sentar-se. Comeu o ovo e tomei cuidado
para ficar calado. As águas do Lago Castelo cintilavam, tão azuis como se poderia descrever, em uma história sobre tesouros. Quando Homer terminou seu ovo e tomou
um gole de água mineral, continuou falando. Fiquei surpreso, mas nada disse. Era o mais conveniente.
- Eles tinham dois ou três rodantes, bons e diferentes - falou. - Havia o Cadillac, a caminhonete dele e o "trenó" dela, o pequeno Mercedes. Em uns dois verões,
ele deixou a caminhonete, para o caso de quererem vir para esquiar um pouco. Em geral, terminado o verão, ele voltava com o Caddy e ela se ia em seu "trenó".
Assenti, mas continuei calado. Em verdade, temia arriscar outro comentário. Mais tarde, pensei que seriam precisos muitos comentários para Homer Buckland
calar a boca, naquele dia. Há muito ele aguardava uma oportunidade para contar a história do atalho da Sra. Todd.
- O carrinho dela tinha um odômetro especial, que poderia dizer quantos quilômetros havia em um trajeto. Sempre que ela partia de Lago Castelo para Bangor,
assentava-o em 000-ponto-0 e deixava o mecanismo funcionar à vontade. Achava aquilo um jogo e costumava irritar-me com isso.
Homer fez uma pausa, meditando no assunto.
- Não, não era bem assim.
Fez nova pausa e algumas linhas ligeiras surgiram em sua testa, como degraus em uma escada de biblioteca.
- Era como se achasse aquilo um jogo, mas em sua mente, era coisa séria. Tão séria como qualquer outra coisa. - Homer fez um gesto com a mão e pensei que
se referia ao marido. - O porta-luvas do carrinho era recheado de mapas, havendo mais alguns na traseira, onde ficaria o banco de trás, em um carro comum. Alguns
eram mapas depostos de gasolina e outros eram páginas que ela arrancara do Atlas de Estradas Rand-McNally; tinha alguns mapas de guias da Trilha Apalachiana, além
de uma boa quantidade de outros com medições topográficas. Não foi o fato dela ter tantos mapas que me fez pensar não ser aquilo um jogo ou brincadeira; era a maneira
como ela riscava linhas em todos eles, mostrando rotas que havia tomado ou, pelo menos, tentara tomar.
- Houve vezes em que ficou atolada, precisando ser tirada do atoleiro com um trator e correntes de algum fazendeiro.
- Um dia, eu assentava ladrilhos no banheiro, estava lá com argamassa fluida, tapando qualquer maldita brecha que se visse - não sonhei com mais nada, além
de quadrados e rachaduras que sangravam argamassa, aquela noite quando ela surgiu à porta e ficou falando sobre aquilo algum tempo. Eu costumava irritá-la a respeito
disso, mas também fiquei um tanto interessado, não apenas porque meu irmão Franklin vivia lá em Bangor e eu já percorrera todas aquelas estradas. Só fiquei interessado,
porque um homem como eu sempre se interessa em saber qual o trajeto mais curto, mesmo que nem sempre queira segui-lo. Você também é assim?
- Hum-hum - falei.
Havia algo de poderoso em saber-se o caminho mais curto, ainda que se tome o mais comprido, se sabemos que a sogra nos está visitando. Em geral, chegar depressa
é para os pássaros, embora ninguém com uma licença de motorista de Massachusetts pareça saber disso. No entanto, saber como chegar lá rapidamente ou menos saber
como chegar lá, de modo ignorado pela pessoa sentada ao nosso lado... Bem, isso encerra poder.
- Ora, ela colecionava aquelas estradas, como um escoteiro faz com seus nós - disse Homer, exibindo seu largo e ensolarado sorriso. - Falou, "espere um minuto,
espere um minuto", como uma garotinha, e então a ouvi através da parede, remexendo em sua secretária. Voltou logo depois, com uma caderneta de anotações parecendo
muito antiga. A capa estava toda amarfanhada, sabe como é, e algumas páginas se tinham soltado daquelas espirais na lombada.
- A maneira de chegar-se a Worth - disse ela - , é como faz a maioria das pessoas: seguindo pela Estrada 97 até Mechanic Falls, depois pela Estrada 11 até
Lewiston e em seguida pela Interestadual para Bangor. Isto soma 261.70 quilômetros.
- Desse jeito, a senhora não vai poupar tempo nenhum, madame - falei, - se for através de Lewiston e Augusta. Contudo, admito que dirigir pela Velha Estrada
Derry até Bangor é muito bonito.
- Poupa quilômetros suficientes e, portanto, você economizará tempo disse ela. - E não contei qual o meu trajeto, embora o tenha feito muitas vezes. Vou apenas
seguir as estradas usadas pela maioria. Quer que eu continue?
- Não é preciso - respondi. - Basta que me deixe neste maldito banheiro, sozinho, olhando para todas estas malditas rachaduras, até que eu fique furioso.
- Existem quatro estradas principais ao todo - disse ela. - O trajeto pela Estrada 2 é de 262,91 quilômetros. Já o fiz uma vez. Demasiado longo.
- É o que eu faria, se minha esposa telefonasse, dizendo que havia sobras para o jantar - respondi, em voz um tanto baixa.
- Como assim? - perguntou ela.
- Nada. - falei. - Foi um comentário comigo mesmo.
- Oh, está bem. Quanto à quarta - não há muita gente que saiba sobre ela, embora todas sejam boas estradas - pavimentadas, afinal - cruza a Montanha Speckled
Bird, pela 219 até a 202, além de Lewiston. Então, tomando-se a Estrada 19, chega-se perto de Augusta. Depois, segue-se pela Velha Estrada Derry. Assim, cobre-se
apenas 207,90 quilômetros.
"Fiquei calado por um instante. Talvez ela achasse que eu duvidava do que me dizia, porque falou, um tanto sem jeito, "Sei que é difícil de acreditar, mas
digo a verdade".
"Respondi que a achava com razão quanto a isso e pensei - agora que me lembro - que provavelmente assim fosse. Sim, porque é como geralmente fazia, quando
ia a Bangor ver Franklin, querendo saber se ele continuava vivo. Contudo, há anos não fazia esse trajeto. Acha que um homem pode simplesmente bem - esquecer uma
estrada, Dave?
Achei que podia. É fácil pensar-se na auto-estrada com cobrança de pedágio. Após algum tempo, ela quase enche a mente de um homem e não pensamos em como se
iria daqui até lá, mas como se iria daqui até a rampa da estrada de pedágio mais próxima de lá. Isso me fez pensar que talvez haja montes de estradas por todo canto,
apenas vivendo de esmolas; estradas ladeadas por muralhas rochosas, verdadeiras estradas com matagais de amoras-pretas crescendo em suas margens, mas sem ninguém
para comer as amoras, além dos pássaros, com cascalheiras tendo velhas correntes enferrujadas, pendendo em curvas baixas, diante de suas vias de acesso, as cascalheiras,
em si, tão esquecidas como velhos brinquedos de crianças, com capinzais emaranhados crescendo em suas margens desertas e não lembradas. Estradas que apenas ficaram
esquecidas, exceto por aqueles que vivem em seus arredores e pensam na maneira mais rápida de afastar-se delas, de chegar ao pedágio, onde a gente pode passar sobre
uma montanha, não se queixando pela subida.
No Maine, gostamos de brincar dizendo que não se pode chegar lá indo daqui, mas talvez a piada seja contra nós. De fato, há bem umas mil maneiras de fazer-se
isso e ninguém se preocupa.
Homer continuou:
- Trabalhei nos ladrilhos a tarde inteira, naquele pequeno banheiro sufocante, com ela parada à porta o tempo todo, um pé cruzado por trás do outro, de pernas
nuas, usando sapatos de lona, uma saia cáqui e uma suéter pouco mais escura. Os cabelos estavam puxados para trás, em um rabo-de-cavalo. Ela devia ter trinta e quatro
ou trinta e cinco anos, mas seu rosto se iluminava com o que me dizia e juro que parecia uma universitária, vindo passar as férias em casa.
"Após algum tempo, deve ter percebido quanto tempo ficara ali, cortando o ar em volta da boca, porque disse, "Devo estar aborrecendo você terrivelmente, Homer".
- Sim, madame - respondi. - Está mesmo. Gostaria que fosse embora e me deixasse falando com estas malditas rachaduras.
- Não banque o espertinho, Homer - disse ela.
- Está bem, madame. Não está me aborrecendo - respondi.
"Ela sorriu e voltou ao assunto, folheando sua caderneta, como um vendedor conferindo seus pedidos. Ela contava com aquelas quatro vias principais - bem,
de fato eram três, porque desistiu da Estrada 2 em seguida-mas devia ter outras quarenta vias diferentes, em compensação. Havia estradas com números estaduais, estradas
sem eles, estradas com nomes, estradas sem nomes. Minha cabeça borbulhava delas. Finalmente, ela me perguntou, "Está pronto para quem ganhou a fita azul, Homer?"
- Acho que sim - respondi.
- Pelo menos, quem ficará coma fita azul até agora - disse ela. - Sabe de uma coisa, Homer? Em 1923, um homem escreveu um artigo em Science Today, provando
que nenhum homem poderia correr uma milha em menos de quatro minutos. Ele provou o que afirmava, com todos os tipos de cálculos, baseando-se no comprimento máximo
dos músculos da coxa de um indivíduo, no comprimento máximo da passada, na capacidade máxima dos pulmões, no máximo em pulsações cardíacas e muita coisa mais. Fiquei
fascinada por aquele artigo! A tal ponto, que o dei a Worth, pedindo que o entregasse ao Professor Murray, no departamento de matemática da Universidade do Maine.
Queria àqueles números checados, certa de que haviam sido baseados nos postulados errôneos ou algo assim, Worth provavelmente me achou idiota - "Ophelia está com
macaquinhos no sótão" foi o que disse - mas levou o artigo. Pois bem, o Professor Murray checou minuciosamente os números daquele homem... e sabe de uma coisa, Homer?
- O que, madame?
- Aqueles números estavam certos. Os critérios do homem eram sólidos. Ainda em 1923, ele provou que um homem não podia correr uma milha em menos de quatro
minutos. Ele provou isso. No entanto, é o que as pessoas fazem o tempo todo - e sabe o que isso significa?
- Não, madame - falei, embora tivesse uma idéia.
- Significa que nenhuma fita azul é eterna - disse ela. - Algum dia-se o mundo não explodir nesse meio tempo - alguém correrá uma milha em dois minutos, nas
Olimpíadas. Pode levar cem ou mil anos, mas vai acontecer. Porque não existe fita azul definitiva. Há o zero, como há a eternidade e a mortalidade, mas não há definitivo.
"E lá estava ela, com o rosto lavado, limpo e reluzente, aqueles cabelos escuros puxados para trás da cabeça, como se dissesse, Vá em frente e discorde, se
puder. "Só que eu não podia. Porque acredito em coisas assim. Bem parecidas com o que o ministro quer dizer, imagino, quando está falando sobre a graça.
- Você está pronto para a - por enquanto - ganhadora da fita azul? perguntou ela.
- Hum-hum - respondi, chegando a suspender um pouco o conserto das rachaduras.
"De qualquer modo, já chegara até onde ficava a banheira e pouco me restava fazer, além de endireitar suas pequenas quinas rachadas. Ela respirou fundo e
então soltou a ladainha, tão depressa, como aquele leiloeiro lá de Gates Falls, quando serve uísque para si mesmo. Não me lembro de tudo, porém foi mais ou menos
assim...
Homer Buckland fechou os olhos por um momento, as manoplas jazendo perfeitamente imóveis sobre as coxas compridas, o rosto erguido para o sol. Depois tornou
a abrir os olhos e, por um segundo, juro que se parecia com ela, sim, parecia mesmo - um velho de setenta anos parecendo-se com uma mulher de trinta e quatro que,
naquele momento de sua vida, tinha a aparência de uma universitária de vinte. Não me recordo exatamente do que ele disse, como tampouco ele recordava exatamente
o que ela dissera. Não que a coisa seja complicada, mas apenas por eu estar tão espantado com a aparência dele, enquanto dizia algo semelhante a isto:
- Partindo da Estrada 97, você sobe a Rua Denton até a Velha Estrada Townhouse, e assim chega perto do centro de Castle Rock, mas voltando à 97. Quinze quilômetros
adiante, alcança uma antiga estrada de serraria, pela qual segue quilômetro e meio até a Estrada número 6, para a cidade. Esta o leva à Estrada Big Anderson, perto
de Side's Cider Mill. Há um atalho que os antigos chamam de Estrada do Urso, que o leva à 219.
Uma vez no lado mais distante da Montanha Speckled Bird, você pega a Estrada Stanhouse, dobra à esquerda para a Estrada Buli Pine - há um trecho lamacento
por aí, mas pode-se cruzá-lo sem problemas, ao ganhar-se velocidade suficiente sobre o cascalho - e então sai na Estrada 106. A 106 corta Alton's Plantation até
a Velha Estrada Derry - e aí existem duas ou três estradas cortando bosques, que serão seguidas até sair na Estrada 3, pouco além do Hospital de Derry. De lá, são
apenas seis quilômetros e meio para a Estrada 2, em Etna, chegando-se a Bangor.
"Ela fez uma pausa para recuperar o fôlego, depois olhou em minha direção. "Sabe quanto dá isso, tudo somado?"
"- Não, madame - falei, mas pensando que seriam praticamente uns trezentos quilômetros.
- 187,30 quilômetros - disse ela.
Eu ri. Ri, sem pensar que com isso talvez estragasse minha oportunidade de ouvir aquela história até o fim. Contudo, Homer também sorriu e assentiu.
- Entendo. E você sabe que não gosto de discutir com ninguém, Dave. Contudo, há uma diferença entre lhe darem uma rasteira ou o fazerem sacudir-se como uma
maldita macieira.
Ela então me disse:
- Você não acredita em mim.
- Bem, é difícil acreditar, madame - respondi.
- Deixe essas rachaduras secando e eu lhe mostrarei - convidou ela. Pode terminar amanhã o conserto atrás da banheira. Vamos, Homer. Deixarei uma nota para
Worth - afinal, talvez ele nem volte esta noite - e você pode ligar para sua esposa! Estaremos jantando no Pilot's Grille dentro de - e ela consultou seu relógio
- duas horas e quarenta e cinco minutos, a partir de agora. E se demorar um minuto mais, eu lhe compro uma garrafa de Mist Irlandês, que levará para casa. Como vê,
meu pai tinha razão. Poupe os quilômetros suficientes e economizará tempo, mesmo que precise cruzar cada maldito pântano e fossa no Condado de Kennebec para consegui-lo.
E agora, o que me diz?
"Ela me fitava com seus olhos castanhos que pareciam duas lâmpadas. Havia neles uma expressão diabólica, dizendo, pegue o seu boné e vamos em frente, Homer;
monte este cavalo, eu na frente, você atrás, e que o diabo siga na garupa. O sorriso em seu rosto dizia a mesma coisa e eu lhe confesso, Dave, senti vontade de ir.
Nem mesmo quis tampar aquela maldita lata de argamassa. E, tenho absoluta certeza, não queria dirigir aquele carrinho dela. Bastava-me sentar no banco do passageiro
e vê-la entrar, ver sua saia subir um pouquinho, vê-la puxá-la sobre os joelhos ou não, espiar seus cabelos brilhando.
A voz dele extinguiu-se e, de repente, Homer deu uma risada sarcástica, abafada. Uma risada que soava como uma espingarda carregada com sal-gema.
"- Apenas ligue para Megan e diga, Sabe a 'Phelia Todd, aquela mulher de quem começa a sentir tantos ciúmes, que nem consegue enxergar direito e nem encontra
uma palavra boa para dizer sobre ela? Pois bem, nós dois vamos fazer uma viagem a jato até Bangor, naquele carrinho Mercedes dela, o cor de champanha, portanto,
não me espere para jantar."
- Apenas ligar para ela e dizer aquilo. Oh, claro. Oh, hum-hum.
Ele tornou a rir, com as mãos pousadas sobre as pernas, da maneira tão natural de sempre. Então, vi em seu rosto algo que era quase odioso e, após um minuto,
ele pegou seu copo de água mineral, em cima da balaustrada, derramando um pouco da água.
- Você não foi - falei.
- Não dessa vez.
Ele riu, um riso agora mais suave.
- Ela devia ter visto algo em meu rosto, porque foi como se caísse em si novamente.
Não ficou mais parecendo uma mocinha de universidade, voltou a ser como 'Phelia Todd. Olhou para a caderneta de anotações, como se não soubesse por que a
segurava, depois a escondeu a um lado do corpo, quase atrás da saia.
"Eu disse - "Gostaria de fazer isso, madame, mas tenho que terminar aqui. Além do mais, minha esposa fez um assado para o jantar."
"Ela respondeu -, "Eu compreendo, Homer. Apenas exagerei em meu entusiasmo. Como sempre. Worth diz que sou assim o tempo todo."Depois ela empertigou o corpo
e disse - "De qualquer modo, o convite está de pé, para quando você quiser ir. Poderá até ajudar a empurrar o carro, se ficarmos atolados em algum lugar, o que me
pouparia cinco dólares" - E ela riu.
- Eu lhe cobrarei o convite, madame - respondi, e ela percebeu que eu falava sério, não estava apenas querendo ser polido.
- E antes de você acreditar que cento e oitenta e sete quilômetros até Bangor estão fora de questão, pegue seu mapa e veja quantos quilômetros seriam, em
linha reta.
"Eu terminei com os ladrilhos, fui para casa e jantei sobras do almoço - não havia assado nenhum - mas creio que 'Phelia Todd sabia disso. Depois que Megan
foi para a cama, peguei minha régua, uma caneta e meu mapa Mobil do estado. Fiz o que ela me dissera... porque suas palavras me tinham impressionado um pouco, entenda.
Risquei uma linha reta e fiz os cálculos, segundo a escala de quilômetros. Fiquei algo surpreso.
Porque a gente indo de Castle Rock até Bangor, como um daqueles Piper Cubs, voando em um dia claro - se a gente não tiver que se preocupar com lagos ou terrenos
de companhias madeireiras, de passagem proibida, com pântanos ou rios para cruzar onde não houver pontes, seriam apenas cento e vinte e sete quilômetros e pouco.
Sobressaltei-me ligeiramente.
- Meça você mesmo, se não acredita em mim - disse Homer. - Só depois de verificar aquilo, percebi como o Maine é pequeno.
Ele bebeu um gole, depois se virou e olhou para mim.
- Na primavera seguinte, houve uma ocasião em que Megan foi até New Hampshire, visitar o irmão. Precisei ir até a casa dos Todd, retirar as portas contra
tempestade e colocar as teladas. O carrinho Mercedes dela estava lá. Ela viera sozinha.
"Chegou até a porta e disse, "Homer! Veio colocar as portas de tela?"
"E eu respondi prontamente, Não, madame, vim saber se quer me levar até Bangor, pelo caminho mais curto."
"Bem, ela olhou para mim sem a menor expressão no rosto e cheguei a pensar que tinha esquecido tudo a respeito. Percebi que começava a ficar vermelho, da
maneira que acontece se damos um fora. Então, quando já ia desculpar-me, o rosto dela se abriu em um sorriso outra vez, e ela disse, "Espere aqui um instante, enquanto
apanho minhas chaves. E não vá mudar de idéia, Homer!"
"Voltou logo depois, trazendo as chaves. "Se ficarmos atolados, você verá mosquitos do tamanho de libélulas!"
- Em Rangely, já os vi do tamanho de pardais, madame - falei - mas acho que ambos somos pesados demais para que eles nos carreguem."
"Ela riu. "Está bem. De qualquer modo, eu avisei. Vamos, Homer."
- E se nós não chegarmos lá em duas horas e quarenta e cinco minutos - lembrei, um tanto acanhado - a senhora me comprará uma garrafa de Mist Irlandês.
"Ela me fitou com certa surpresa, já tendo a porta do carrinho aberto e um pé no interior. "Que diabo, Homer", disse, "falei a você que era a Fita Azul por
enquanto.
Descobri uma forma de chegar lá que é mais curta. Chegaremos em duas horas e meia. Entre, Homer. Vamos disparar!"
Ele tornou a fazer uma pausa, as mãos tranqüilamente pousadas sobre as coxas, os olhos opacos, talvez vendo o dois-assentos cor de champanha rodando para
a íngreme entrada de carros dos Todd.
- Ela parou o carro no fim da alameda e perguntou, "Está bem certo de que quer ir?"
- Pode disparar - respondi. O mancal de esferas em seu tornozelo girou e aquele pé pesado afundou. Não lhe posso dizer muito sobre o que aconteceu depois
disso, exceto que, após um momento, mal conseguia afastar os olhos dela. Havia algo selvagem transbordando em seu rosto, Dave - algo selvagem e também livre, que
apavorou meu coração. 'Phelia era linda e eu caí de amor por ela, qualquer um cairia, qualquer homem, afinal, - e talvez qualquer mulher também, mas o caso é que,
ao mesmo tempo, eu a temia, porque se ela tirasse os olhos da estrada e resolvesse amar em troca, acabaria matando a gente. Ela usava blue jeans e uma velha camisa
branca, com as mangas enroladas - imaginei que talvez estivesse pensando em pintar alguma coisa no pátio dos fundos quando cheguei mas depois de estarmos rodando
por algum tempo, dava a impressão de estar vestida apenas com aquelas roupagens embabadadas e frouxas, daqueles velhos livros de deuses e deusas.
Ele ficou pensativo, espiando através do lago, com o rosto muito sério.
- Como a caçadora que se supunha dirigir a lua pelo céu.
- Diana?
- Hã-hã. A lua era o seu carrinho. 'Phelia parecia assim a meus olhos e lhe digo francamente que estava doido de amor por ela e nunca faria um movimento,
mesmo que fosse, então, mais novo do que sou agora. Não tomaria nenhuma iniciativa, mesmo que tivesse vinte anos, embora suponha que a tomasse com dezesseis anos,
até me mataria por isso - claro, se ela olhasse para mim do jeito como eu desejaria.
"Ela era como aquela mulher dirigindo a lua através do céu, com metade do corpo acima do pára-lama, suas estolas transparentes voando mais atrás em teias
de aranha prateadas e seus cabelos agitando-se fora da nuca, para mostrar as escuras covinhas de suas têmporas, vergastando aqueles cavalos e me dizendo para seguir
mais depressa, jamais se importando com o quanto eles resfolegassem, apenas mais depressa, mais depressa, mais depressa.
"Rodamos por um bocado de estradas entre florestas - eu conhecia as primeiras duas ou três, mas depois disso, todas me eram desconhecidas. Devíamos ser uma
visão incrível para aquelas árvores que nunca tinham visto nada com motor antes, exceto grandes e velhos caminhões carregando polpa de madeira e veículos especiais
para rodar na neve.
E aquele carrinho, que provavelmente se sentiria mais à vontade no Sunset Boulevard do que disparando através daquelas florestas, seguia impetuosamente, abrindo
caminho para subir uma colina e descendo a próxima sem cederem sua voracidade, por entre aquelas poeirentas lâminas formadas pelo sol da tarde - estava com a capota
arriada e podia-se sentir todos os cheiros naquelas matas, e você sabe o quanto são deliciosos esses cheiros, como algo que ficou intocado por muito tempo e que
não é visitado com freqüência. Atravessamos estradas com leito em toras de madeira, estendidas nas partes mais pantanosas, a lama negra espirrando entre alguns daqueles
troncos cortados, enquanto ela ria como criança. Alguns troncos estavam velhos e apodrecidos, porque em cinco ou dez anos, digamos, ninguém passara por aquelas estradas
exceto ela, claro está. Estávamos sozinhos, exceto pelos pássaros e quaisquer animais que nos vissem. O som do motor do carrinho, primeiro zumbindo, depois ganhando
altura e potência, quando ela embreava e fazia a mudança... era o único som de motor que eu podia ouvir.
E, embora sabendo que estaríamos perto de algum lugar o tempo todo - quero dizer, nestes dias, a gente sempre está - comecei a sentir-me como se houvesse
recuado no tempo e não houvesse nada. Isto é, se parássemos e eu subisse em uma árvore alta, não enxergaria nada em qualquer direção, além de matas cerradas, floresta
e mais floresta.
E, o tempo todo, ela apenas persistindo naquilo, os cabelos esvoaçando às suas costas, sorridente, os olhos cintilando. Então, deixamos para trás a Estrada
da Montanha Speckled Bird e, por um certo tempo, identifiquei onde nos encontrávamos novamente.
Depois, quando abandonamos essa estrada, apenas por um momento pensei que identificava, mas então decidi não me preocupar mais com isso. Atalhamos por outra
estrada no meio do mato e fomos sair - juro - em uma bela via pavimentada, com um indicador que dizia MOTORWAY B. Já ouviu falar de alguma estrada no estado do
Maine chamada MOTORWAY B?
- Não - respondi. - O nome é inglês, não?
- Hum-hum. Parecia inglês. Havia árvores pendendo sobre a estrada, como salgueiros.
"Tome cuidado agora, Homer," - disse ela, - "quase fui apanhada por uma delas há um mês atrás e fiquei com a pele esfolada."
Sem entender de que ela falava, abri a boca para dizer-lhe isso, mas então vi que, mesmo não havendo vento, os galhos daquelas árvores estendiam-se para baixo
- pingavam e agitavam-se. Pareciam negros e molhados dentro de sua confusa verdura. Eu mal acreditava no que via. Quando um deles arrancou o meu boné, percebi que
eu não sonhava. "Ei!" - gritei - "Devolva-me isso!"
- Tarde demais, Homer - disse ela, rindo. - Logo à frente teremos luz do dia... estamos indo bem.
"Então, outro daqueles galhos desceu, agora do lado dela, avançando em sua direção - juro que foi assim. 'Phelia abaixou a cabeça, ele agarrou seus cabelos
e arrancou um punhado de fios anelados. "Droga, mas isso dói!" - gritou ela, mas continuava rindo. A velocidade do carro diminuiu ligeiramente quando ela se agachou
e pude ver o interior da floresta de relance. Por Deus, Dave! Tudo ali dentro se movia! Havia ervas oscilando e plantas tão enoveladas juntas, que era como se fizessem
caretas. Vi algo acocorado em cima de um tronco e parecia um sapo-de-árvore, só que era do tamanho de um gato adulto.
"Então, saímos da penumbra para o topo de uma colina. Ela disse, "Pronto! Foi excitante, não foi?"como se estivesse comentando nada mais que um passeio pela
Casa Assombrada, na Feira de Fryeburg.
"Cinco minutos depois, deslizamos para outra de suas estradas entre bosques. Àquela altura, eu não queria mais saber de florestas - posso lhe dizer com segurança
- mas aquelas eram apenas florestas comuns. Meia hora mais tarde, estávamos chegando ao pátio de estacionamento do Pilot's Grille, em Bangor. Ela apontou para aquele
pequeno odômetro que marcava os trajetos, dizendo, "Dê uma espiada, Homer". Eu dei, e ele marcava 179,56 quilômetros. "O que me diz agora? Acredita em meu atalho?"
"A expressão bravia que mostrava antes já quase desparecera de todo e ela voltara a ser 'Phelia Todd outra vez. A outra expressão, no entanto, ainda persistia.
Como se fossem duas mulheres, 'Phelia e Diana - e sua parte Diana, a que assumira o comando quando ela rodara por aquelas estradas secundárias, não deixara que sua
parte 'Phelia percebesse como o atalho a levava por lugares... lugares que não existiam em nenhum mapa do Maine, nem mesmo naqueles topográficos.
"Ela repetiu, "O que diz de meu atalho, Homer?
"Finalmente respondi a primeira coisa que me veio à cabeça, algo que não se costuma dizer a uma dama como 'Phelia Todd.
"De fato, madame, é um filho da mãe de atalho," - respondi.
Ela riu, muito feliz da vida, e então pude ver, claro como se fosse vidro: ela não se lembrava de nenhuma daquelas coisas esquisitas. Não se lembrava dos
galhos dos salgueiros - que salgueiros nada tinham, absolutamente, nem de qualquer outra coisa - que me tinham arrancado o boné, daquele indicador MOTORWA Y B ou
daquela horrível coisa-sapo. Ela não se lembrava de nenhuma daquelas coisas esquisitas! Eu devia ter sonhado que aquilo estava lá ou então ela sonhara que não estava.
Só posso afirmar com certeza, Dave, é que rodamos apenas cento e setenta e nove quilômetros até Bangor, e isso não era nenhuma fantasia, porque estava bem ali, marcado
no pequeno odômetro do carrinho, em preto e branco.
- Bem, é isso mesmo - disse ela. - É um filho da mãe de atalho. Eu só queria que Worth o percorresse alguma vez... mas ele nunca larga seu carro, a menos
que alguém o jogue para fora com uma explosão e precisaria ser um míssil Titan 11 para isso, porque acho que ele construiu um abrigo anti-atômico no fundo daquele
veículo. Muito bem, Homer, vamos providenciar o seu jantar.
"E ela me pagou um baita jantar, Dave, mas não consegui comer muito. Fiquei pensando em como seria a viagem de volta, agora que começava a escurecer. Então,
mais ou menos pelo meio do jantar, ela pediu desculpa e foi dar um telefonema. Quando voltou, perguntou se eu não me incomodaria de dirigir o carrinho até Castle
Rock para ela. Disse ter telefonado para uma mulher do mesmo comitê escolar que o seu e ficara sabendo que estavam com algum tipo de problema sobre qualquer coisa.
Falou que alugaria um carro para voltar, caso Worth não pudesse levá-la. "Você não se importa de dirigir no escuro?" - perguntou.
"Olhava para mim, com uma espécie de sorriso. Percebi que ela recordava alguma coisa do que acontecera - só Deus sabe quanto, mas recordava o suficiente para
saber que eu não tentaria seu atalho depois do escurecer, se é que o tentaria dia claro... embora o brilho em seus olhos indicasse que isso não a incomodaria nem
um pouco.
"Respondi que levaria o carro de volta e terminei minha refeição melhor do que começara. Já estava bem escuro ao terminarmos e fomos no carro até a casa da
mulher para quem ela telefonara. Ao descer, 'Phelia olhou para mim com aquele mesmo brilho no olhar, e disse. "Tem mesmo certeza de que não quer esperar, Homer?
Ainda hoje reparei em umas duas estradas secundárias e, embora não as encontre em meus mapas, acho que elas nos encurtam alguns quilômetros".
"Eu falei, - "Bem, madame, eu esperaria, mas na minha idade, a melhor cama para dormir, já descobri que é a minha. Levarei o seu carro de volta, mas sem repetir
o trajeto... embora provavelmente chegue com alguns quilômetros a mais do que a senhora."
"Ela riu, foi um riso suave, e me deu um beijo. Foi o melhor beijo que já tive, em toda a minha vida, Dave. Bem no rosto, era o beijo casto de uma mulher
casada, mas maduro como um pêssego ou como aquelas flores que desabrocham no escuro. Quando seus lábios me tocaram a pele, senti algo... não sei bem o que senti,
porque um homem não se apega facilmente àquelas coisas que lhe acontecem com uma moça que estava madura quando o mundo era jovem ou à impressão deixada por essas
coisas - estou falando sem dizer ao certo o que senti, mas acho que você compreende. São coisas que ficam impressas em brasa na lembrança e nada conseguimos ver
através delas.
- Você é um homem adorável, Homer, e eu o aprecio por me ouvir, por ter vindo no carro comigo - disse ela. - Dirija com cuidado.
"Depois ela entrou na casa da tal mulher. Eu voltei para casa".
- Por onde voltou? - perguntei.
Homer riu baixinho.
- Pela estrada de pedágio, seu maldito tolo! - exclamou, e nunca vi tantas rugas em seu rosto como nesse momento.
Ele ficou quieto, olhando para o céu.
"Chegado o verão, ela desapareceu. Eu não a tinha visto com freqüência... foi o verão em que tivemos o incêndio, você se lembra, e depois aquela horrível
tempestade que derrubou todas as árvores. Foi um período muito agitado para caseiros. Oh, eu pensava nela de quando em quando, pensava naquele dia, naquele beijo,
e tudo começou a parecer como um sonho para mim. Como certa época, quando eu tinha uns dezesseis anos e não pensava em mais nada além de garotas. Estava arando o
campo oeste de George Bascomb, o que dá para o lago, nas montanhas, sonhando o que rapazes adolescentes costumam sonhar. Então, bati em uma rocha com as lâminas
do arado, ela se partiu e sangrou. Pelo menos, a mim pareceu que sangrava. Um negócio vermelho escorreu da fenda na rocha e encharcou o chão. Nunca contei para ninguém,
a não ser minha mãe, e nunca disse a ela o que aquilo significava para mim ou o que acontecera comigo, embora ela lavasse minhas roupas debaixo e talvez soubesse.
De qualquer modo, ela sugeriu que eu devia rezar por causa daquilo. Eu rezei, mas não tive qualquer revelação e, após algum tempo, sei lá o que começou a sugerir
à minha mente que tudo fora um sonho. Algumas vezes funciona assim. Há buracos no meio, Dave. Você sabia?
- Sei - respondi.
Fiquei pensando em uma noite, quando vira algo. Era o ano de 59, fora um ano ruim para nós, mas meus filhos ignoravam isso; sabiam apenas que queriam comer,
como sempre comiam. Eu tinha visto um bando de coelhos rabo-branco no campo traseiro de Henry Brugger, e fui até lá, em um escurecer de agosto, levando um candeio.
Pode-se matar dois, quando eles estão com a gordura de verão; o segundo volta para farejar o primeiro, como se perguntasse, Ora, que diabo, já é outono?, e então
a gente o derruba. como se fosse um pino de boliche. Eles dão carne bastante para alimentar crianças durante seis semanas e enterra-se o que sobra. Aqueles dois
eram rabos-brancos que não levam tiros dos caçadores chegados em novembro, mas crianças precisam comer. Como disse o homem de Massachusetts, ele gostaria de poder
viver aqui o ano inteiro, mas eu digo é que, às vezes, temos que pagar pelo privilégio, depois que escurece. Pois então, lá estava eu, quando vi aquela imensa luz
alaranjada no céu; ela veio descendo, descendo, enquanto eu ficava parado e espiando, de boca caída no peito. Quando a luz bateu no lago, todo ele ficou aceso por
um minuto, com uma claridade púrpura alaranjada, que parecia subirem raios, direta ao céu. Ninguém nunca me disse nada sobre aquela luz e eu também nunca disse nada
a ninguém, em parte, porque tinha medo que rissem de mim, mas também porque, antes de mais nada iam querer saber que diabo eu fazia naquele lugar, depois do escurecer.
Depois de certo tempo, foi bem como Homer tinha dito - tudo parecia um sonho, mas sem qualquer significado para mim, porque não me daria proveito algum. Eu não podia
usa-lo. Era como um raio de lua.
Não tinha punhos e nem lâminas. Já que eu não podia fazê-lo trabalhar, deixei-o para lá, como faz um homem, sabendo que o dia tem de nascer, apesar de tudo.
- Há buracos no meio de coisas - disse Homer, sentando-se empertigado, como se estivesse biruta. - Bem no maldito meio das coisas, não à direita ou esquerda,
onde fica a visão periférica e se pode dizer, "Bem, mas que diabo..." Eles estão lá e a gente os rodeia, como rodeia um buraco na estrada, capaz de quebrar-nos um
eixo do carro. Sabia disso? No entanto, a gente esquece. É como a gente estar arando e arar um buraco. Só que, se houver alguma fenda na terra, onde vemos escuridão,
como se fosse uma caverna, dizemos, "Dê a volta, cavalo velho. Deixe isso sossegado! Tenho um bom palpite de que deve ir pela esquerda!" Porque não era uma caverna
que a gente queria, nem nenhum excitamento de colégio, mas arar bem a terra.
"Buracos no meio das coisas".
Ele ficou calado por muito tempo e deixei que se calasse. Não tinha pressa em atiçá-lo.
Por fim, Homer disse:
- Ela desapareceu em agosto. Eu a tinha visto pela primeira vez em começos de julho, e ela parecia... - Homer se virou para mim e pronunciou cada palavra
com cuidadosa, espaçada ênfase. - Dave Owens, ela parecia deslumbrante! Deslumbrante, bravia e quase selvagem. As ruginhas que eu vinha percebendo em volta de seus
olhos haviam desaparecido por completo. Worth Todd estava em alguma conferência ou coisa assim, em Boston. E lá estava ela, na borda do ancoradouro - eu estava no
meio, sem a camisa - e então me disse, "Homer, você não vai acreditar!"
- Não, madame, mas tentarei - respondi.
- Encontrei duas estradas novas - disse ela, - e desta última vez fiz apenas cento e oito quilômetros até Bangor.
"Recordei o que ela havia dito antes e falei, "Não é possível, madame. Peço que me desculpe, mas somei a quilometragem no mapa, eu mesmo, e cento e vinte
e sete é o mínimo... em linha reta.
"Ela riu, e parecia mais bonita do que nunca. Como uma deusa ao sol, em cima de uma daquelas montanhas, em uma história onde só existem relvados verdes e
fontes, sem espinhos que arranhem os braços de um homem. "Está bem," disse ela, "e ninguém pode correr um quilômetro em menos de quatro minutos. Foi matematicamente
provado."
- Não é a mesma coisa - respondi
- É a mesma coisa - disse ela. - Dobre o mapa e veja quantos quilômetros são, Homer. Se dobrá-lo pouco, podem ser menos do que uma linha reta, mas se dobrá-lo
muito, serão muitos menos.
"Recordei então aquele nosso passeio, da maneira como se recorda um sonho. Falei, "Madame, a senhora pode dobrar um mapa no papel, mas não pode dobrar terra.
Ou, pelo menos, não deveria tentar. Deve esquecer isso."
- Não, senhor - respondeu ela. - Esta é a única coisa, bem agora em minha vida, que não vou esquecer, porque está lá e é minha.
"Três semanas mais tarde - mais ou menos umas duas antes dela desaparecer - ligou para mim de Bangor. Disse, "Worth foi a Nova York e eu estou descendo para
aí. Não sei onde deixei minha maldita chave, Homer. Gostaria que você abrisse a casa, para que eu possa entrar."
"Bem, esse telefonema foi às oito da noite, justo quando começava a escurecer. Comi um sanduíche e tomei uma cerveja antes de sair - cerca de vinte minutos.
Depois fui até lá. Eu diria que, tudo somado, foram uns quarenta e cinco minutos. Quando cheguei à casa dos Todd, ainda descendo a entrada para carros, vi que havia
luz acesa na despensa, embora a tivesse deixado apagada. Estava olhando para aquilo, quando quase colidi com seu carrinho. Estava parado meio de banda, da maneira
como um bêbado o estacionaria, emplastado de lama até as janelas e, na lama ao longo da carroceria, havia coisas presas, coisas parecendo algas... e quando os faróis
de meu carro bateram nelas, pareciam mover-se. Estacionei logo atrás e saí. Aquelas coisas não eram algas, mas eram ervas e estavam se movendo... de um jeito lerdo
e apático, como que agonizando.
Toquei em um pedaço de erva e ela quis enrolar-se em volta de minha mão. Foi uma sensação repugnante e asquerosa. Puxei a mão e a enxuguei nas calças. Dei
a volta pela frente do carro. Era como se ele houvesse percorrido uns cento e cinqüenta quilômetros de terrenos baixos e lamacentos. Tinha uma aparência de cansaço,
se tinha! Havia insetos esmagados por todo o pára-brisa - só que não pareciam nenhum que eu já estivesse visto antes. Vi uma mariposa que tinha mais ou menos o tamanho
de um pardal, as asas ainda batendo um pouco, fracas e morrendo. Vi coisas como mosquitos, mas eles tinham olhos verdadeiros que se podia ver - e pareciam olhar
para mim. Pude ouvir aquelas ervas arranhando a carroceria do carrinho, morrendo, procurando agarrar-se em alguma coisa. E tudo quanto eu podia pensar, era Diabo,
por onde andara ela? E como conseguiu chegar aqui em apenas três quartos de hora? Foi então que vi algo mais. Havia uma espécie de animal, meio amassado na grade
do radiador, bem abaixo de onde fica aquele enfeite da Mercedes - aquele que parece uma estrela, fechada dentro de um círculo. Ora, a maioria dos animais de pequeno
porte que se mata na estrada fica presa debaixo do carro, porque eles se agacham ao serem atingidos, esperando que o carro passe acima deles e os deixe com o couro
ainda-preso à carne. Bem, de vez em quando, um deles salta, não para longe, mas diretamente contra o maldito carro, como se quisesse tirar uma boa dentada de seja
qual for aquele tipo de inseto gigantesco que quer matá-lo - eu sei que isso acontece. Pois aquela coisa havia feito isso. E parecia decidido o bastante para atacar
um tanque Sherman. Dava a impressão de ser um cruzamento entre uma marmota e uma doninha, mas havia aqueles outros detalhes em seu corpo, que eu nem mesmo queria
espiar. Machucava os olhos, Dave; pior ainda, aquilo machucava a mente. O pêlo do bicho estava misturado com sangue e havia garras brotando das solas de suas patas,
como as de um gato, só que mais compridas. Ele tinha enormes olhos amarelados, mas estavam vidrados. Quando era criança tive uma bola de gude porcelanizada, parecida
com aqueles olhos. E os dentes! Dentes compridos e finos como agulhas, mais parecendo agulhas de costurar, projetando-se de sua boca. Alguns deles se tinham fincado
na grade de aço do radiador. Por isso é que continuava ali, ainda pendurado; ele tinha o corpo suspenso pelos próprios dentes. Olhando para ele, soube que continham
um bocado de veneno, como uma cascavel. O bicho saltara para o carrinho ao ver que ia ser atropelado, queria matá-lo com uma dentada. E eu é que não tentaria arrancá-lo
dali, porque tinha cortes nas mãos - cortes de feno - e pensei logo que cairia morto, duro como uma pedra, se algum daquele veneno vazasse para os cortes.
"Fui até o lado do motorista e abri a porta. A luz interna acendeu-se, e olhei para aquele odômetro especial que ela regulava para as viagens... o qual, pude
ver, marcava 50,84.
"Fiquei olhando para ele por instante, e então caminhei até a portados fundos. Ela havia forçado a tela e quebrado o vidro perto da fechadura, para poder
enfiar a mão e abrir.
Havia uma nota dizendo: "Prezado Homer - cheguei aqui um pouco mais cedo do que pensava. Encontrei um atalho que é uma maravilha! Como você ainda não tinha
vindo, entrei como um assaltante. Worth chega depois de amanhã. Será que pode consertar a porta de tela e substituir o vidro quebrado até lá? Espero que sim. Essas
coisas sempre o aborrecem. Se eu não sair para dizer olá, é porque estou dormindo. A viagem foi muito cansativa, mas cheguei aqui num relance! Ophelia".
"Cansativa! Dei outra espiada naquela coisa-bicho pendurada na grade do radiador de seu carro, enquanto pensava, Sim, senhor, deve mesmo ter sido cansativa.
Por Deus como foi.
Homer fez outra pausa e estalou um inquieto nó do dedo.
"Só tornei a vê-la mais uma vez. Foi cerca de uma semana depois. Worth estava lá, mas nadava no lago, de um lado para outro, indo e vindo, como se estivesse
serrando madeira ou assinando papéis. Era mais como se assinasse papéis, acho.
- Madame - falei - não é da minha conta, mas acho que devia parar com isso. Naquela noite em que voltou e quebrou o vidro da porta para entrar, vi uma coisa
pendurada na frente de seu carro e...
- Oh, a marmota? Eu dei um fim nela - respondeu 'Phelia.
- Céus! Espero que tenha tomado cuidado!
- Usei as luvas de jardinagem de Worth - disse ela. - Não foi nada de extraordinário, Homer, apenas uma marmota que saltou contra o carro, com certa dose
de veneno.
- Mas, madame - falei - onde há marmotas, há ursos. E, se em seu atalho as marmotas são como aquele bicho, o que lhe acontecerá, se surgir urso?
"Phelia olhou para mim e vi nela aquela outra mulher - aquela mulher Diana. Ela disse, "Se as coisas são diferentes ao longo dessas estradas, Homer, talvez
eu também seja diferente. Veja isto."
"Ela havia prendido os cabelos dobrados atrás da cabeça, parecendo uma espécie de borboleta, atravessados por um grampo. Soltou-os. Eram os cabelos que fariam
um homem perguntar-se como seriam, quando espalhados sobre um travesseiro.
Ela disse, "Estavam ficando grisalhos, Homer. Consegue ver algum fio grisalho?" E ela os espalhou com os dedos, para que o sol brilhasse neles.
- Não, madame. Não vejo nenhum - respondi.
"Ela me fitou, seus olhos eram brilho puro. Então disse, "Sua esposa é uma boa mulher, Homer Buckland, mas tem me visto no mercado e no correio e trocamos
uma ou duas palavras. Eu a vi olhando para meu cabelo, com uma certa satisfação que só as mulheres conhecem. Eu sei o que ela diz, o que conta às amigas... que Ophelia
Todd começou a pintar o cabelo. Pois não é verdade. Mais de uma vez, perdi o rumo, quando procurava um atalho... perdi o rumo... e perdi os cabelos grisalhos". Ela
riu, não como uma universitária, mas como uma garota de ginásio. Admirei-a e ansiei por sua beleza, mas nesse momento, vi também aquela outra beleza em seu rosto...
e tornei a sentir medo. Medo por ela - e medo dela.
- Madame - falei - a senhora se arisca a perder mais do que alguns fios de cabelos brancos.
- Não - disse ela. - Eu lhe digo que, lá, sou diferente... Lá, sou eu mesma, inteiramente. Quando sigo por aquela estrada em meu carrinho, deixo de ser Ophelia
Todd, a esposa de Worth Todd, que nunca conseguiu levar uma gravidez a termo ou aquela mulher que tentou escrever poesia e fracassou, a mulher que fica tomando notas
em reuniões de comitês, ou qualquer outra coisa, qualquer outra pessoa. Quando estou naquela estrada, estou dentro de mim mesma e me sinto como...
- Diana - falei.
"Ela me olhou, parecendo divertida e surpresa, depois riu. "Oh, como alguma deusa, imagino", disse ela, "Ela serviria mais, porque sou uma pessoa da noite
adoro ficar acordada até terminar de ler um livro ou até que a televisão encerre sua programação com o Hino Nacional, e porque sou muito pálida, como a lua... Worth
está sempre dizendo que preciso de um tônico, de exames de sangue ou qualquer coisa parecida. Contudo, no fundo o que toda mulher quer ser é uma espécie de deusa,
creio... Os homens recolhem um eco arruinado dessa idéia e tentam colocá-las em pedestais (uma mulher, cuja urina lhe corre pela perna abaixo, se não se agachar!
É engraçado, quando se pára e pensa nisso) - mas o que um homem sente, não é o que uma mulher quer. Uma mulher deseja estar à vontade, eis tudo. Ficar em pé, se
quiser, ou caminhar...
"Os olhos dela se voltaram para o carrinho na entrada de carros, e se apertaram. Então, ela sorriu.
"Ou dirigir, Homer. Um homem não vê isso. Ele acha que uma deusa quer refestelar-se em uma encosta qualquer no sopé do Olimpo e comer frutas, mas nisso não
há deus e nem deusa. Tudo o que uma mulher quer é o que um homem quer - uma mulher quer dirigir".
- Tudo que lhe digo, madame, é que tome cuidado por onde dirigir - falei.
"Ela riu e me deu um beijo rápido, no meio da testa. Depois disse, "Tomarei cuidado, Homer", mas isso nada significava, dizendo à esposa ou namorada que tomará
cuidado, quando ele sabe que não tomará... não poderá fazer isso.
"Voltei ao meu caminhão e acenei para ela uma vez. Foi uma semana mais tarde que Worth deu parte de seu desaparecimento. Dela e daquele seu carrinho. Todd
esperou sete anos para que a esposa fosse declarada legalmente morta, depois esperou mais outro por medida de prudência - concedo isso àquele otário e então casou
com a segunda Madame Todd, essa que acabou de passar. E não espero que você acredite em uma vírgula de toda esta lorota.
No céu, uma daquelas enormes nuvens de fundo achatado se moveu o suficiente para revelar o fantasma da lua - meio cheia e pálida como leite. Alguma coisa
em meu coração saltou àquela visão, um tanto amedrontada e um tanto enamorada.
- Pois eu acredito - falei. - Em cada apavorante palavra dela, em cada vírgula. E mesmo que não seja verdade, Homer, deveria ser.
Ele me apertou em volta do pescoço com o braço, pois é tudo que os homens podem fazer, já que o mundo só permite que beijem mulheres, depois riu e ficou em
pé.
- Mesmo que não devesse ser, ela é - falou. Tirou o relógio do bolso da calça e o consultou. - Tenho que descer a estrada e checar a casa dos Scott. Quer
vir comigo?
- Acho que vou ficar aqui sentado mais um pouco - falei, pensando.
Ele desceu os degraus, depois se virou e olhou para mim, com um meio sorriso.
- Acho que 'Phelia tinha razão - disse. - Ela era diferente, naquelas estradas que descobria... não havia coisa alguma que ousasse tocá-la. Você ou eu seríamos
tocados, talvez, mas não ela. E acredito que esteja jovem.
Dito isto, ele subiu em seu caminhão, e partiu para checar a casa dos Scott.
Isso foi há dois anos atrás e, desde então, Homer foi para Vermont, como acho que lhe contei. Certa noite, ele veio me ver. Tinha os cabelos penteados, fizera
a barba e espalhava um cheiro bom de loção. Seu rosto era límpido, os olhos estavam vivazes.
Naquela noite, ele parecia ter sessenta anos, em vez de setenta. Fiquei satisfeito por ele, invejei-o e também o odiei um pouco. A artrite tem muito de um
velho pescador e, naquela noite, parecia que a artrite não tinha nenhum anzol fincado nas mãos de Homer, como fincara nas minhas.
- Estou indo - disse ele.
- Hum-hum?
- Hum-hum.
- Tudo bem. Providenciou para que lhe enviem sua correspondência?
- Não quero que me enviem nada - respondeu ele. - Minhas contas estão pagas. Não deixo nada para trás.
- Bem, dê-me seu endereço. Eu lhe escreverei uma linha de vez enquanto, cavalo velho.
Eu já podia sentir a solidão me cobrindo como uma capa... e ao olhar para ele, sabia que as coisas não eram bem como pareciam.
- Ainda não tenho nenhum - respondeu ele.
- Está bem - falei. - É para Vermont que você vai, Homer?
- Hum... - disse ele. - Será, para quem quiser saber.
Quase me calei, mas acabei fazendo a pergunta:
- Como ela se parece agora, Homer?
- Como Diana - respondeu. - Só que é mais meiga.
- Eu o invejo, Homer - falei, e era verdade.
Fiquei parado à porta. Era crepúsculo, naquela parte intensa do verão em que os campos se enchem de perfume e da erva Renda da Rainha Anne. Uma lua cheia
traçava um risco prateado através do lago. Ele cruzou meu alpendre e desceu os degraus. Havia um carro parado no mal definido acostamento da estrada, o motor roncando
indolentemente, mas com toda potência, da maneira como fazem os veículos antigos que ainda correm com o conjunto de cavidades cilíndricas em linha reta, e os malditos
torpedos. Agora que penso nisso, aquele carro parecia um torpedo. Estava um tanto castigado, mas como se pudesse atingir o máximo sem grande esforço. Homer parou
ao pé de minha escada e ergueu algo - era sua lata de gasolina, a grande, com capacidade para dez galões. Seguiu por minha aléia até o lado do carro em que fica
o passageiro. Ela se inclinou e abriu a porta. A luz interna acendeu-se e, por um breve relance eu a vi, os longos cabelos ruivos em torno do rosto, a testa brilhando
como uma lâmpada. Brilhando como a lira. Ele entrou e ela deu partida. Fiquei em meu alpendre e espiei as luzes traseiras de seu carrinho, piscando vermelho no escuro...
ficando cada vez menores e menores. Eram como brasas, depois pareceram pirilampos e sumiram.
Vermont, é o que digo ao pessoal da cidade, e todos acreditam, porque fica tão longe como a maioria consegue ver, dentro de suas cabeças. Às vezes, eu mesmo
quase acredito nisso, principalmente quando estou cansado, esfalfado. Contudo, em outras penso neles - fiz isso todo este outubro, me parece, porque é principalmente
em outubro que os homens pensam em lugares distantes e nas estradas que podem leva-los a tais lugares. Fico sentado no banco em frente do Mercado de Bell e penso
em Homer Buckland, na bela jovem que se inclinou para abrir-lhe a porta, quando ele desceu aquela aléia levando na mão direita a lata vermelha cheia de gasolina
- ela parecia uma mocinha com não mais de dezesseis anos, uma estudante com sua permissão de saída, e sua beleza era espetacular. Contudo, não creio mais que sua
beleza mate o homem para quem ela se voltar; por um momento,.seus olhos pousaram em mim e eu não morri, embora parte de mim tenha morrido a seus pés.
O Olimpo deve ser uma maravilha para os olhos e o coração, existindo aqueles que anseiam por ele, assim como os que encontram um caminho nítido para atingi-lo,
talvez.
No entanto, conheço Castle Rock como a palma da mão e jamais deixaria este lugar, por atalho algum onde existam estradas; em outubro, o céu acima do lago
não é uma maravilha, mas eu o acho extraordinariamente belo, com aquelas enormes nuvens brancas que se movem tão devagar; sento-me aqui no banco, penso em 'Phelia
Todd e Homer Buckland, mas sem necessariamente querer estar onde eles se acham... porém ainda gostaria de ser um fumante.

* * *



O CAMINHÃO DO TIO OTTO

Sinto um alívio enorme escrevendo isto. Não tenho dormido bem, desde que encontrei meu tio Otto morto, e houve ocasiões em que cheguei a perguntar-me se não
ficara louco - ou se ficaria. De certo modo, tudo seria mais misericordioso se eu não estivesse com o objeto real aqui em meu estúdio, onde posso olhar para ele,
pegá-lo e avaliar seu peso, se me der vontade. Contudo, não quero fazer isso; não quero tocar essa coisa. Só que, às vezes, eu quero.
Se não a houvesse trazido da casinha de um só cômodo de meu tio, quando fugi de lá, começaria a convencer-me de que tudo não passara de alucinação - uma ilusão
de um cérebro sobrecarregado de trabalho e excessivamente estimulado. Contudo, ela está aqui. Tem peso. Pode ser apanhada na mão.
Tudo aconteceu mesmo, compreendam.
A maioria dos que lerem este registro não acreditará, a menos que algo semelhante tenha acontecido a essas pessoas. Descobri que a questão da crença alheia
e o meu alívio é algo mutuamente exclusivo, de maneira que ficarei satisfeito em contar a história, mesmo assim. Acreditem no que quiserem acreditar.
Qualquer história de horror deve ter uma origem ou um segredo. A minha tem as duas coisas. Deixem-me começar pela origem - contando como é que meu tio Otto,
que era rico pelos padrões do Condado de Castle, passou seus últimos vinte anos de vida em uma casa de um só cômodo, sem água encanada, junto a uma estrada secundária,
em uma cidadezinha.
Otto nasceu em 1905, sendo o mais velho das cinco crianças Schenck. Meu pai, nascido em 1920, era o mais novo. Eu fui o filho caçula de meu pai e nasci em
1955, de maneira que o tio Otto sempre me pareceu muito velho.
À semelhança de muitos alemães industriais, meus avós vieram para a América com algum dinheiro. Meu avô instalou-se em Derry, por causa da indústria madeireira,
um ramo sobre o qual ele entendia um pouco. Conseguiu ter êxito e seus filhos nasceram em situação confortável.
Meu avô morreu em 1925. Tio Otto, então com vinte anos, foi o único filho a herdar tudo. Mudou-se para Castle Rock e começou a especular na atividade imobiliária.
Nos cinco anos seguintes conseguiu juntar um bom dinheiro, lidando com madeiras e terras. Comprou uma grande casa em Castle Hill, tinha criados e desfrutou de sua
condição como um rapaz relativamente simpático (digo "relativamente", porque ele usava óculos) e excelente partido para as jovens casadouras. Ninguém o achava esquisito.
Isso aconteceu mais tarde.
Ele foi atingido pelo estouro de 29 - não tanto como alguns, mas foi atingido. Permaneceu em sua grande casa de Castle Hill até 1933 e então a vendeu, porque
uma grande área madeireira estava à venda por preço ínfimo e ele queria adquiri-la desesperadamente. A área de terra pertencia à Companhia de Papéis Nova Inglaterra.
A Papéis Nova Inglaterra existe até hoje e qualquer um pode adquirir suas ações, desde que o deseje. Em 1933, no entanto, a firma oferecia enormes porções
de terra a preços de liquidação, em um último e denotado esforço para manter-se em funcionamento.
Quanta terra havia na área com que meu tio sonhava? A fabulosa escritura original foi extraviada e os relatos diferem... mas em todos eles, eram mais de quatro
mil acres. A maioria situava-se em Castle Rock, porém espalhava-se até Waterford e Harlow também. Quando a notícia correu, a Papéis Nova Inglaterra pedia cerca de
dois dólares e cinqüenta por acre... se o comprador adquirisse toda a área.
O preço total chegava a dez mil dólares. Tio Otto não dispunha de toda a quantia, de maneira que arranjou um sócio - um ianque chamado George McCutcheon.
Se residirem na Nova Inglaterra, vocês certamente conhecerão os nomes Schenk e McCutcheon. A firma foi comprada há bastante tempo, mas ainda existem lojas de ferragens
Schenk e McCutcheon em quarenta cidades da Nova Inglaterra, bem como serrarias Schenk e McCutcheon de Central Falls a Derry.
McCutcheon era um sujeito grandalhão, de povoada barba negra. Como meu tio Otto, também usava óculos. E, também como o tio Otto, herdara uma soma em dinheiro.
Devia ser uma boa quantia, porque ele e tio Otto conseguiram comprar a tal área juntos, sem maiores problemas. Ambos possuíam natureza de piratas e deram-se muito
bem nos negócios. A sociedade durou vinte e dois anos - de fato, até o ano de meu nascimento - e prosperidade era tudo o que eles conheciam.
A história começa com a compra daqueles quatro mil acres, que os dois passaram a explorar no caminhão de McCutcheon, cruzando as estradas entre as florestas
e as trilhas dos madeireiros, rodando laboriosamente em primeira quase todo o tempo, sacolejando em vias acidentadas e atolando em lamaçais. Eles se revezavam ao
volante, eram dois jovens que se tinham tornado barões da terra na Nova Inglaterra, quando das escuras profundezas da grande Depressão.
Ignoro onde McCutcheon conseguiu aquele caminhão. Tratava-se de um Cresswell, se é que isso importa - uma marca que há muito deixou de existir. Tinha uma
boléia enorme, pintada de vermelho-vivo, largos estribos e motor-de-arranque elétrico, mas se este falhasse, apelava-se para a manícula - embora ela pudesse girar
fortemente para trás e quebrar o ombro de quem a manejasse, se o indivíduo não tomasse cuidado. A carroceria media seis metros de comprimento, com as laterais fechadas,
porém do que mais me lembro naquele caminhão, era de sua parte dianteira. Como a boléia era pintada em vermelho-sangue. Para alcançar-se o motor, era preciso que
se levantasse dois painéis de aço, um a cada lado dele. O radiador chegava à altura do tórax de um homem. Era uma coisa feia, mostruosa.
O caminhão de McCutcheon se quebrava e era consertado, tornava a quebrar-se e era novamente consertado. Quando finalmente entregou os pontos, foi de maneira
espetacular. Mais ou menos como a sege de um só cavalo, no poema de Holmes.
McCutcheon e tio Otto subiam a estrada Black Henry, certo dia de 1953 e, segundo admitiu meu tio, ambos estavam "bêbados de cair". Tio Otto engatou uma primeira,
a fim de subir a colina Trinity. Tudo bem mas, embriagado como estava, ele nem pensou em mudar a marcha, quando iniciou a descida no outro lado. O velho e cansado
motor do Cresswell ficou superaquecido. Nem tio Otto ou McCutcheon viram o ponteiro aproximar-se da marcação vermelha com a letra H, no lado direito do mostrador.
No final da descida da colina, houve uma explosão que estourou os lados dobráveis do compartimento do motor, como duas asas vermelhas de dragão. A tampa do radiador
disparou para o céu de verão. O vapor esguichou em linha reta para o alto, como o gêiser Old Faithful. O óleo espirrou, enchendo o pára-brisa. Tio Otto pisou no
pedal do freio, mas no último ano o Cresswell pegara o mau hábito de vazar óleo do freio, de maneira que o pedal foi até o fundo. Não podendo enxergar para onde
dirigia, tio Otto saltou da estrada, caindo primeiro em uma vala, depois saindo dela. Se o Cresswell houvesse afogado, tudo ainda terminaria bem, mas o motor continuou
trabalhando. Primeiro explodiu um pistão e em seguida mais dois, como fogos de artifícios no Quatro de Julho. Um deles, segundo tio Otto, veio diretamente contra
sua porta, que ficara escancarada. O buraco era tão grande, que dava para passar um punho por ele. Finalmente, viram-se todos repousando em um campo repleto das
virgas-áureas de agosto. Dali, eles poderiam ter uma bela visão das White Mountains, se o pára-brisa não estivesse coberto de óleo Diamond Gem.
Aquele foi o último rodeio para o Cresswell de McCutcheon; ele nunca mais se moveu daquele campo. Não que houvesse qualquer irritação do dono da terra, pois
ela pertencia aos dois sócios, é claro. Consideravelmente lúcidos pela experiência, tio Otto e McChutcheon foram examinar o estrago. Nenhum deles era mecânico, mas
nem precisariam ser, para constatar que o ferimento era mortal. Tio Otto ficou constrangido - pelo menos, foi o que contou a meu pai - e ofereceu-se para pagar o
caminhão. George McCutcheon respondeu que não fosse tolo. Aliás, MeCutcheon havia ficado em uma espécie de êxtase. Após dar uma olhada ao campo e ver o panorama
das montanhas, decidiu que aquele era o lugar onde construiria sua casa de aposentado. Confessou isso a tio Otto, nos tons geralmente reservados para conversações
religiosas. Retornaram à estrada e conseguiram carona para Castle Rock no caminhão da Padaria Cushman, que ia passando por ali. McCutcheon contou a meu pai que ali
trabalhara a mão de Deus, ele estivera justamente procurando o lugar ideal, quando o lugar estava bem ali, o tempo todo, naquele campo pelo qual passavam três e
quatro vezes por semana, sem nunca lhe deitarem os olhos. E a mão de Deus ignorava que ele morreria naquele campo dois anos mais tarde, esmagado pela parte dianteira
de seu próprio caminhão - o caminhão que se tornou propriedade de tio Otto, quando seu sócio morreu.
McCutcheon providenciou para que Billy Dodd levasse seu carro-socorro até o Cresswell e o girasse, de modo a deixá-lo com a frente para a estrada. Disse que
assim poderia olhar para ele, sempre que passasse por ali. Depois, quando Dodd voltasse a guinchar o caminhão e o rebocasse dali para sempre, naquele lugar é que
os operários de construção lhe cavariam uma adega. McCutcheon tinha um toque de sentimentalismo, porém não era homem de permitir que os sentimentos o impedissem
de ganhar um dólar. Quando um madeireiro chamado Baker apareceu lá um ano mais tarde, oferecendo-se para comprar as rodas do CresswelI, com pneus e tudo, porque
eram do tamanho exato para seu veículo, MCCutcheon aceitou seus vinte dólares em um piscar de olhos. E, lembrem-se, nessa época, ele já era um homem que valia um
milhão de dólares. McCutcheon também disse a Baker que calçasse o caminhão, de maneira a mantê-lo em posição elevada. Alegou que não queria passar por ali e vê-lo
no campo, quase coberto pelo feno, capim rabo-de-galo e virga-áurea, como se fosse uma carcaça. Baker fez como ele queria. Um ano mais tarde, o Cresswell rolou para
fora de seus blocos de sustentação e esmagou McCutcheon, matando-o. Os antigos contavam a história com alívio, mas sempre a encerravam dizendo esperarem que o velho
George McCutcheon tivesse aproveitado os vinte dólares conseguidos por aquelas rodas.
Fui criado em Castle Rock. Quando nasci, meu pai já tinha quase dez anos de trabalho para Schenck e McCutcheon, de modo que o caminhão de propriedade do tio
Otto, juntamente com tudo o mais que McCutcheon possuía, se tornou um marco em minha vida. Minha mãe costumava fazer compras na casa Warren's, em Bridgton, sendo
a estrada Black Henry a única via de acesso até lá. Assim, sempre que passávamos pela estrada, lá estava o caminhão, pousado naquele campo, tendo as White Mountains
como fundo. Não se encontrava mais elevado sobre os blocos - tio Otto dizia que um acidente já bastava - mas só a idéia do que ocorrera, era suficiente para provocar
arrepios em um garoto de calças curtas.
O Crosswell estava lá no verão; no outono, com os carvalhos e olmos brilhando como tochas, em três bordas do campo; no inverno, às vezes atolado em montes
de neve, até e sobre seus faróis semelhantes a olhos de besouro, como um mastodonte a debater-se em branca areia movediça; e na primavera, quando o campo era um
lodaçal da lama de março, fazendo a gente perguntar-se como é que o caminhão não afundava na terra. Se não fosse pelo espinhaço subterrâneo de boa rocha do Maine,
era bem possível que não acontecesse outra coisa. Através das estações e dos anos, ele estava lá.
Certa vez, até mesmo estive nele. Meu pai estacionou à beira da estrada, no dia em que estávamos a caminho da Feira de Fryeburg, tomou-me pela mão e me levou
ao campo.
Acho que foi em 1960 ou 61. Aquele caminhão me amedrontava. Eu ouvira a história de como saltara dos blocos e esmagara o sócio de meu tio.
Ouvira tais relatos na barbearia, quieto como um ratinho, sentado atrás da revista Life que não podia ler, enquanto os homens falavam sobre como McCutcheon
havia sido esmagado e como esperavam que o velho George tivesse aproveitado bem os vinte dólares pagos por aquelas rodas. Um deles - talvez fosse Billy Dodd, pai
do louco Frank - dizia que McCutcheon ficara parecendo "uma abóbora sobre a qual passara um trator". Isso atormentou meus pensamentos durantes meses... mas meu pai,
naturalmente, não sabia de nada.
Ele apenas achou que eu gostaria de sentar-me na boléia daquele velho caminhão; vira a maneira como eu espiava para a carcaça, a cada vez que passávamos ali,
e imagino que tomou meu medo por admiração.
Lembro-me das virgas-áureas, com seu amarelo-vivo apagado pela friagem de outubro. Recordo o gosto tristonho do ar, um pouco amargo, um pouco pungente, assim
como a aparência prateada da relva morta. Também recordo o uissst-uissst de nossas passadas. Contudo, o que mais recordo é do caminhão avolumando-se, ficando cada
vez maior - o rosnado dentado de seu radiador, o vermelho sangrento de sua pintura, a aparência turva de seu pára-brisa. Lembro-me de que o medo me invadiu em uma
onda mais fria e cinzenta do que o gosto do ar, quando meu pai me ergueu pelas axilas e colocou-me dentro da boléia, dizendo, " Dirija-o até Portland, Quantin...
dirija-o!" Lembro-me do ar passando em meu rosto, enquanto eu subia mais e mais, depois de seu gosto limpo sendo substituído pelos cheiros de antigo óleo Diamond
Gem, de couro rachado, de excrementos de ratos e... juro... de sangue. Lembro-me de que tentei não chorar, enquanto meu pai ficava sorrindo para mim, certo de que
me proporcionava um prazer e tanto, um grande excitamento (e proporcionava mesmo, mas não da forma como ele imaginava). Naquele momento, tive absoluta certeza de
que ele iria embora ou, pelo menos, viraria as costas, e o caminhão me comeria - comeria vivo. E o que depois cuspisse, estaria mastigado, esmigalhado e... como
que explodido. Como uma abóbora, amassada por um trator.
Comecei a chorar, e meu pai, que era o melhor dos homens, tirou-me da boléia, consolou-me e me levou de volta ao carro.
Ele me levou sentado em seus ombros. Olhei para o caminhão que ia recuando, parado lá no campo, com seu enorme radiador assomando, o escuro buraco redondo
onde se presumia fora aplicado o guincho do carro-socorro, parecendo uma órbita horrendamente deslocada. Eu quis dizer a ele que sentira cheiro de sangue, por isso
havia chorado. Só que não sabia como dizer-lhe. Acho que, de qualquer modo, ele não teria acreditado.
Como um menino de cinco anos, que ainda acreditava em Papai Noel, na Fada do Dente e no bicho-papão, eu também acreditava que vinham do caminhão aquelas sensações
de coisas ruins e amedrontadoras, quando meu pai me colocara naquela boléia. Levei vinte e dois anos para decidir que não havia sido o Cresswell que assassinara
George McCutcheon; meu tio Otto é que fizera isso.
O Cresswell era um marco em minha vida, mas também na dos moradores de toda a redondeza. Quando se explicava a alguém como ir de Bridgton a Castle Rock, dizia-se
que ele saberia estar na direção correta, se visse um enorme e velho caminhão vermelho à esquerda da estrada, em um campo de feno, mais ou menos cinco quilômetros
após ter deixado a estrada 11. Era comum vermos turistas estacionados na curva de terra macia (às vezes, ficavam atolados lá, o que sempre valia boas risadas), tirando
fotos das White Mountains, com o caminhão do tio Otto em primeiro plano, para a devida perspectiva - por muito tempo meu pai chamou o Cresswell de "Memorial Trinity
Hill do Caminhão para Turistas", mas acabou parando. A esta altura, a obsessão de tio Otto pelo caminhão já ficara forte demais para ser divertida.
Já falei demais sobre as origens. Agora, vamos ao segredo.
O fato de que ele matou McCutcheon, é um a coisa da qual estou absolutamente convencido. "Amassado como uma abóbora", dizem os entendidos da barbearia. Um
deles acrescentou:
- Aposto como ele estava agachado à frente daquele caminhão, rezando, como aqueles árabes sebosos rezam para Alá. Não poso imaginá-lo de outro jeito. Estavam
giras, compreendam, todos os dois. Basta ver a maneira como Otto Schenk terminou, se não acreditam em mim. Bem no outro lado da estrada, naquela casinha que ele
pensava que a cidade ia aproveitar como escola - e tão biruta como um rato numa casa de doidos.
Isto era colhido com assentimentos e olhares entendidos, porque então, eles pensavam que o tio Otto era esquisito - oh, claro! - porém entre os sabichões
da barbearia não havia um só que considerasse aquela imagem - McChutcheon ajoelhado em frente do caminhão "como aqueles árabes sebosos rezando para Alá" - não apenas
excêntrica, mas também suspeita.
Em cidades pequenas, os boatos sempre fervem; pessoas são condenadas como ladras, adúlteras, caçadoras ou pescadoras furtivas e trapaceiras, à mais leve evidência
e às piores deduções. Creio que, muitas vezes, o falatório se origina acima de tudo do tédio. Em minha opinião, o que impede que isso seja realmente cruel - que
é como a maioria dos romancistas pintou as cidadezinhas, de Nathaniel Hawthome e Grace Metalious - é o fato de serem curiosamente ingênuos (em sua maior parte) os
boatos transmitidos pelas linhas telefônicas partilhadas, na mercearia ou barbearia. É como se tais pessoas, esperando a maldade e a futilidade, passam a inventá-las
quando elas não existem. Contudo, o mal consciente e real pode estar além de sua concepção, mesmo quando flutua bem diante de seus olhos, como um tapete mágico de
um daqueles contos de fadas dos árabes sebosos.
Como sei que foi ele? perguntam vocês. Só porque estava em companhia de McCutcheon naquele dia? Não. É por causa do caminhão. Do Cresswell. Quando a obsessão
começou a dominar tio Otto, ele foi morar naquela casinhola, bem no outro lado da estrada... embora nos últimos anos de sua vida tivesse um medo mortal de que o
caminhão fosse até lá.
Penso que tio Otto atraiu McCutcheon ao campo onde estava o caminhão, elevado em cima de blocos, com a desculpa de ouvi-lo falar sobre os planos para sua
casa. MeCutcheon estava sempre disposto a falar na tal casa e em seu próximo afastamento dos negócios. Os sócios tinham recebido uma boa oferta, de uma companhia
muito maior - não mencionarei seu nome, mas se o fizesse, todos saberiam qual é - e McCutcheon queria aceitá-la. Tio Otto era contrário à idéia. Houvera um quieto
desentendimento desenvolvendo-se entre os dois, por causa daquela oferta, desde a primavera. Acho que esse desentendimento foi o motivo pelo qual tio Otto resolveu
livrar-se do sócio.
Creio que meu tio podia haver-se preparado para o momento, fazendo duas coisas: primeira, minando os blocos que sustinham o caminhão, e segunda, deixando
algo no chão, talvez um pouco enterrado nele, mas diretamente em frente do caminhão, onde McCutcheon pudesse vê-lo.
O que colocaria lá? Não sei. Algo brilhante. Um diamante? Nada mais que um pedaço de vidro quebrado? Não vem ao caso. O objeto reflete o sol e brilha. Talvez
McCutcheon o veja. Se não o vir, fiquem certos de que tio Otto lhe mostrará. O que é aquilo? pergunta ele, apontando. Não sei, responde McCutcheon, apressando-se
a verificar bem de perto.
McCutcheon fica de joelhos em frente do Cr esswell, exatamente como um daqueles árabes sebosos rezando para Alá, tentando arrancar o objeto do chão, enquanto
meu tio dá a volta casualmente, até atrás do caminhão. Um bom empurrão, e lá se vai ele abaixo, esmagando McCutcheon no ato. Amassando-o como uma abóbora.
Desconfio que nele devia haver muito de pirata, para morrer facilmente. Em minha imaginação, eu o vejo preso debaixo do focinho inclinado do caminhão, o sangue
escorrendo de seu nariz, sua boca e seus ouvidos, o rosto branco como papel, os olhos escuros, suplicando a ajuda de meu tio, pedindo-lhe que consiga um socorro
rápido. Suplicando... depois implorando... e finalmente xingando meu tio, ameaçando matá-lo, acabar com ele... e meu tio parado, espiando, com as mãos nos bolsos,
até tudo terminar.
Não se passou muito tempo depois da morte de McCutcheon, para que meu tio começasse a fazer coisas que, a princípio, eram descritas pelos sabichões da barbearia
como estranhas... depois como esquisitas... e por fim, como "infernalmente singulares". As coisas que finalmente o levaram à condenação, no curioso palavreado da
barbearia, sendo julgado "tão biruta como um rato em uma casa de doidos", chegaram na plenitude do tempo - mas na mente de todos parecia haver pouca dúvida de que
suas peculiaridades começaram mais ou menos na época em que George McCutcheon morreu.
Em 1965, tio Otto fez construir uma casinha junto à estrada, no lado fronteiro ao caminhão. Houve muito falatório sobre o que Otto Schenck pretendia fazer
na estrada Black Henry, junto à colina Trinity. A surpresa foi total, quando tio Otto chegou ao acabamento da pequena construção, fazendo Chuckie Barger pintá-la
com uma brilhante mão de tinta vermelha, e então anunciou que era um presente à cidade - uma nova e bela escola, segundo disse, pedindo apenas que lhe dessem o nome
de seu falecido sócio.
Os membros do conselho municipal de Castle Rock ficaram estupefatos. Como todo mundo nos arredores. Em Rock, a maioria freqüentara aquelas escolas de um só
aposento (ou achava que tinha freqüentado, o que vem a dar quase no mesmo). Contudo, em 1965, todas as escolas de apenas uma sala haviam sido abolidas em Castle
Rock. A última, a Castle Ridge School, fora fechada um ano antes. Hoje é uma casa de pizzas, a Steve's Pizzaville, ao lado da estrada 117. No momento, a cidade contava
com uma escola primária, erigida em vidro e cimento no lado mais distante da área comunitária, bem como um moderno e excelente ginásio na Rua Carbine. Em decorrência
de sua excêntrica oferta, tio Otto conseguira preencher, em uma só penada, todos os quesitos que iam de "estranho" a "infernalmente singular".
Os conselheiros municipais enviaram-lhe uma carta (nenhum deles parecendo com muita coragem de procurá-lo pessoalmente) agradecendo a gentileza e esperando
que ele se lembrasse da cidade no futuro, mas declinando da escolinha, sob a alegação de que todas as necessidades educacionais das crianças da cidade já haviam
sido providenciadas. Tio Otto ficou danado da vida. Lembrar-se da cidade no futuro? esbravejou para meu pai. Claro que se lembraria, mas não da maneira como eles
queriam. Ele não havia nascido ontem. Sabia perfeitamente como eram os homens, a humanidade. E se queriam disputar com ele um concurso de mijo à distância, afirmou,
iam ver que podia mijar como uma doninha-fedorenta que tivesse acabado de embocar um barrilete de cerveja.
- E agora? - perguntou-lhe meu pai.
Estavam sentados à mesa da cozinha, em nossa casa. Minha mãe fora costurar, no andar de cima. Ela dizia que não gostava do tio Otto. Dizia que ele cheirava
como um homem que só tomasse banho uma vez por mês, precisando ou não - "e logo ele, um homem rico", sempre acrescentava, com uma fungadela. Acho que o cheiro dele
realmente a irritava, mas também acho que minha mãe o temia. Por volta de 1965, tio Otto começara a parecer singularmente peculiar, também agindo da mesma forma.
Andava vestido com calças verdes de operário, seguras por suspensórios, uma camisa de baixo térmica e enormes sapatos amarelos de trabalho. Seus olhos haviam começado
a girar em direções estranhas, enquanto ele falava.
- Hum?
- O que vai fazer com a casa agora?
- Vou morar na filha da mãe - bufou tio Otto, e foi o que fez.
Não há muito a acrescentar à história de seus últimos anos. Ele sofria daquela triste espécie de loucura que costumamos ver relatada nos tablóides de jornais
baratos. Milionário Morre de Subnutrição em Casa de Cômodos. Registros Bancários Revelam, a Mendiga era Rica. Magnata Banqueiro Morre Esquecido e Abandonado.
Ele se mudou para a casinha vermelha - em anos posteriores, sua pintura desbotou para um rosado fosco - logo na semana seguinte. Nada que meu pai dissesse
conseguiu dissuadi-lo. Um ano mais tarde, ele vendeu o negócio que, segundo creio, procurara conservar através do assassinato. Suas excentricidades multiplicaram-se,
mas o senso de negócios não o abandonou e ele conseguiu um vistoso lucro - em realidade, espantoso seria uma palavra mais adequada.
Assim, lá estava meu tio Otto, valendo talvez uns sete milhões de dólares, morando naquela casinha junto à estrada Black Henry. Sua moradia na cidade foi
abandonada e trancada. Então, ele progredira de "infernalmente peculiar" para "biruta como um rato doido". A progressão seguinte é expressa em termos mais crus,
menos coloridos, porém mais ominosos: "talvez perigoso". Tais palavras são, freqüentemente, seguidas pela convicção.
À sua maneira, tio Otto se tornou uma peculiaridade bem semelhante ao caminhão no outro fado da estrada, embora eu duvide que algum turista se interessasse
em tirar o seu retrato. Ele deixou a barba crescer, uma barba que se revelou mais amarelada do que branca, como que infectada pela nicotina de seus cigarros. Também
engordou muito. Sua papada pendia em dobras de carne, marcadas pela sujeira. Os moradores do lugar costumavam vê-lo parado à soleira de sua singular casinhola, apenas
parado e imóvel, espiando a estrada e além dela.
Espiando o caminhão - o seu caminhão.
Quando tio Otto parou de ir à cidade, meu pai procurou certificar-se de que ele não morreria de fome. Levava-lhe mantimentos todas as semanas, pagando-os
de seu próprio bolso, porque tio Otto nunca lhe devolvia o dinheiro - nunca pensava nisso, creio eu. Papai faleceu dois anos antes do tio Otto, cuja fortuna terminou
indo para o Departamento Florestal da Universidade do Maine. Soube que eles ficaram encantados. Considerando-se a quantia, devem ter ficado mesmo.
Em 1972, depois que consegui minha licença de motorista, eu costumava levar-lhe os mantimentos semanais. A princípio, ele me encarava com franca suspeita,
mas após um certo tempo, começou a descongelar. Foi três anos mais tarde, em 1975, que me contou, pela primeira vez, que o caminhão rastejava para a casa.
Na época, eu cursava a Universidade do Maine mas, sendo verão, estava em casa e retomei o velho hábito de levar-lhe os mantimentos semanais. Tio Otto ficava
sentado à sua mesa, fumando, vendo-me separar os alimentos enlatados e me ouvindo tagarelar. Achei que ele poderia ter esquecido quem eu era. Ele às vezes esquecia...
ou fingia esquecer. Em certa ocasião, deixou-me com o sangue gelado nas veias quando, da janela, perguntou "É você, George?" ao ver-me subir até a casa.
Naquele particular dia de julho, em 1975, tio Otto interrompeu uma tagarelice trivial minha para perguntar, rude e subitamente:
- O que acha daquele caminhão lá fora, Quentin?
Sua aspereza arrancou-me uma resposta sincera:
- Quando tinha cinco anos, molhei as calças na boléia dele. Penso que tornaria a molhá-las, se voltasse lá agora.
Tio Otto riu, alto e demoradamente. Olhei para ele, surpreso, já que não me lembrava de tê-lo ouvido rir antes. Sua risada terminou em prolongado acesso de
tosse, deixando-o com as bochechas vivamente coradas. Então, virou-se para mim, com olhos cintilantes.
- Está ficando mais próximo, Quent - disse,
- O que, tio Otto? - perguntei.
Pensei que, mais uma vez, ele saltava enigmaticamente de um assunto para outro - talvez quisesse dizer que o Natal estava mais próximo, talvez o Milênio ou
a volta de Cristo Rei.
- Aquela peste de caminhão - disse ele, fitando-me de modo enviezado e confidencial, que não gostei muito. - Fica mais próximo a cada ano.
- É mesmo? - perguntei cautelosamente, pensando que ali havia uma nova e bastante desagradável idéia.
Olhei para fora e vi o Cresswell no outro la do da estrada, cercado de feno por todos os lados, com as White Mountains ao fundo... e por um alucinado minuto,
ele realmente pareceu mais próximo. Depois, quando pisquei, a ilusão se desfez. O caminhão continuava onde sempre estivera, claro está.
- Oh, sim - disse tio Otto. - Fica um pouco mais próximo a cada ano que passa.
- Ora, talvez esteja precisando de óculos, tio Otto. Eu não vejo diferença alguma.
- Claro que não vê! - bufou ele. - Também não vê o ponteiro das horas se movendo em seu relógio de pulso, certo? Aquela peste de coisa se move devagar demais
para que se veja... a menos que seja vigiada o tempo todo. Como vigio esse caminhão.
Ele piscou para mim e eu estremeci.
- Por que ele se moveria? - perguntei.
- Ele quer a mim, eis o motivo - respondeu tio Otto. - Não pensa em outra coisa, o tempo todo. Um dia, vai irromper aqui dentro, e então será o fim. Ele acabará
comigo, como fez com Mac, e será o fim.
Aquilo me deixou bastante assustado. Acho que seu tom perfeitamente lúcido é que mais me impressinou. E a maneira como os jovens costumam reagir ao medo,
é bancando os espertos ou ficando petulantes.
- Se isso o preocupa, devia mudar-se para sua casa na cidade, tio Otto - falei.
Quem me ouvisse falando com tal despreocupação, jamais saberia que eu tinha as costas inteiramente arrepiadas. Tio Otto olhou para mim... e depois para o
caminhão, no outro lado da estrada.
- Não posso, Quentin - disse ele. - Às vezes, um homem tem que ficar em um lugar, esperando o que virá.
- E o que é que virá, tio Otto? - perguntei, embora imaginando que ele se referisse ao caminhão.
- O destino - disse ele.
Tio Otto tornou a piscar... mas parecia amedrontado.
Meu pai caiu de cama em 1979, com a doença renal que parecia estar melhorando, apenas poucos dias antes de finalmente matá-lo. No outono daquele ano, em várias
visitas ao hospital, eu e meu pai conversamos sobre tio Otto. Meu pai tinha algumas suspeitas sobre o que podia ter de fato acontecido em 1955 - suspeitas leves,
que se tornaram o fundamento para outras mais sérias. Meu pai não imaginava o quanto a obsessão de tio Otto com o caminhão se tornara grave ou profunda. Eu, no entanto,
percebia. Ele ficava quase o dia inteiro parado à porta de sua casa, espiando o caminhão. Espiando, como um homem observando o relógio de pulso, para ver o ponteiro
das horas mover-se.
Por volta de 1981, tio Otto perdera o pouco que lhe restava de lucidez. Um homem mais pobre já teria sido internado anos antes, porém milhões no banco podem
perdoar bastante loucura em uma cidadezinha - em especial se há pessoas suficientes pensando que no testamento do sujeito louco pode existir algum legado para a
municipalidade. Ainda assim, em 1981 já havia gente começando a falar seriamente na internação de tio Otto, para o próprio bem dele. Aquela frase "talvez perigoso",
manifesta e implacável, começara a suplantar "biruta como um rato doido". Ele agora passara a sair de casa e urinar à beirada estrada, em vez de sair pelos fundos
e ir até a floresta, onde ficava sua privada. Por vezes, enquanto se aliviava, sacudia o punho fechado para o Cresswell e várias pessoas, passando de carro, pensavam
que tio Otto sacudia o punho para elas.
Uma coisa era o caminhão com as cênicas White Mountains ao fundo; outra totalmente diversa era o tio Otto urinando à beira da estrada, com os suspensórios
pendurados à altura dos joelhos. Aquilo não era atração turística.
Por essa época, eu usava com mais freqüência um terno completo, do que as blue jeans que me tinham acompanhado durante a faculdade, quando levava para meu
tio seus mantimentos semanais - mas continuava a levar seus alimentos. Também procurei convencê-lo de que precisava parar de fazer suas necessidades à beira da estrada,
pelo menos durante o verão, quando podia ser visto por gente do Michigan, Missouri ou Flórida, que acontecesse passar por ali.
Minhas palavras foram em vão. Ele não se dava ao luxo de preocupar-se com insignificâncias, quando tinha o caminhão para incomodá-lo. Aquela obsessão com
o Creeswell se tornara mania. Ele agora clamava que o caminhão passara para o seu lado da estrada - para ser mais exato, que estava bem no seu quintal.
- Acordei esta noite, lá para as três horas, e aí estava ele, bem junto da janela, Quentin - queixou-se tio Otto. - Eu o vi, com o luar brilhando no pára-brisa,
a menos de dois metros de onde eu estava deitado, e meu coração quase parou. Ele quase parou, Quentin.
Levei-o ao lado de fora e apontei para o Cresswell, que continuava onde sempre estivera, do outro lado da estrada, no campo onde McCutcheon planejara construir
sua casa. Não adiantou.
- Isso é o que você vê, rapaz - disse ele, com infinita raiva na voz, um cigarro tremendo em uma das mãos, os olhos girando nas órbitas. - É só o que você
vê!
- Tio Otto - falei, tentando ser espirituoso - a gente vê aquilo que é persuadido a ver.
Foi como se ele não me tivesse ouvido.
- O maldito quase me pegou - sussurrou.
Senti um arrepio. Ele não parecia louco. Infeliz, sim, e aterrorizado, sem dúvida... mas não louco. Por um momento, recordei meu pai, levantando-me no ar
e colocando-me na boléia daquele caminhão. Recordei o cheiro de óleo, de couro... e de sangue.
- Ele quase me pegou - repetiu tio Otto.
E, três semanas mais tarde, assim foi.
Eu é que o encontrei. Era noite de quarta-feira, e saí com duas sacolas de mantimentos no banco traseiro do carro, como fazia quase sempre nas noites de quarta-feira.
Estava quente, o ambiente era pesado. De vez em quando, um trovão rugia à distância. Lembro- me de que estava nervoso, enquanto subia a estrada Black Henry em meu
Pontiac. Era como se estivesse certo de que algo ia acontecer, embora procurasse convencer-me de que tudo era apenas produto da baixa pressão barométrica.
Dobrei a última curva e, no momento em que a casinha de meu tio surgiu à vista, tive a mais estranha alucinação - por um instante, pensei que o maldito caminhão
estava realmente à sua porta, grande e volumoso, com sua pintura vermelha e os lados apodrecidos da carroceria. Pensei em frear , mas antes que meu pé baixasse o
pedal, pisquei e a ilusão se desfez. No entanto, eu sabia que tio Otto estava morto. Sem fanfarras e holofotes; era apenas o mero conhecimento, da mesma forma como
conhecemos a disposição dos móveis, em um aposento familiar.
Parei apressadamente à sua porta e saí do carro, começando a caminhar para a casa sem me preocupar em levar os mantimentos.
A porta estava aberta - ele nunca a trancava. Perguntei-lhe o motivo disso certa vez e, pacientemente, da maneira como se explicaria algo manifestamente óbvio
a um simplório, ele me disse que trancar a porta não manteria o Cresswell do lado de fora.
Ele estava deitado na cama, que ficava à esquerda do único aposento - a área da cozinha ocupando a direita. Jazia lá, com suas calças verdes e a camisa de
baixo térmica, os olhos abertos e vidrados. Acredito que teria morrido menos de duas horas antes. Não havia moscas e nem cheiro algum, embora aquele houvesse sido
um dia brutalmente quente.
- Tio Otto? - chamei quietamente, sem esperar resposta.
Ninguém vai para a cama e fica lá deitado, de olhos abertos e vidrados daquele jeito. Se senti alguma coisa, foi alívio. Tudo terminara.
- Tio Otto? - repeti, aproximando-me. - Tio...
Interrompi-me, ao notar pela primeira vez como a parte inferior de seu rosto parecia estranhamente deslocada - como se estivesse inchada e torcida. Pela primeira
vez, notei que suas pupilas não apenas olhavam, mas estavam realmente espiando com fìxidez, em suas órbitas. Só que não se dirigiam para a porta ou para o teto.
Estavam torcidas, em direção à pequena janela acima da cama.
Acordei esta noite, lá para as três horas, e aí estava ele, bem junto da janela, Quentin. Ele quase me pegou.
Amassou-o como uma abóbora, ouvi um dos boateiros da barbearia dizendo, enquanto eu estava sentado lá, fingindo ler uma revista Life e aspirando os aromas
de Vitalis e óleo Cremoso Wildroot.
Quase me pegou, Quentin.
Aqui havia um cheiro - não de barbearia e não apenas o fedor de um velho sujo.
Era um cheiro oleoso, como de uma garagem.
- Tio Otto? - sussurrei.
Caminhei para a cama onde ele jazia e tive a sensação de encolher, não apenas em tamanho, mas em anos... voltando aos vinte novamente, quinze, dez, oito,
seis anos... e por fim, cinco. Vi minha mão estender-se para sua face inchada. Quando minha mão o tocou, abarcando-lhe a face, ergui os olhos e a janela estava tomada
pelo brilhante pára brisa do Cresswell - e embora fosse apenas por um momento, poderia jurar sobre a Bíblia como não foi alucinação. O Cresswell estava ali, na janela,
a menos de dois metros de mim.
Eu havia pousado os dedos em uma das bochechas de tio Otto, meu polegar sobre a outra, querendo investigar aquela curiosa inchação, imagino. Quando vi o caminhão
na janela, minha mão tentou crispar-se em um punho fechado, esquecendo que a tinha ajustada frouxamente em torno da parte inferior do rosto do cadáver.
Naquele instante, o caminhão desapareceu da janela como fumaça ou como o fantasma que imagino que fosse. Simultaneamente, ouvi um ruído de algo esguichando.
Minha mão se encheu de líquido quente. Olhei para ela, percebendo que não segurava apenas carne e umidade, mas também alguma coisa dura e angulosa. Olhei para baixo
e vi. Foi então que comecei a gritar. Havia óleo escorrendo da boca e do nariz de tio Otto. Óleo, fluindo dos cantos de seus olhos como lágrimas. Óleo Diamond Gem
- do tipo reciclado que se compra em um recipiente plástico de cinco galões, do mesmo tipo que McCutcheon sempre usara no Cresswell.
Contudo, não havia apenas óleo; vi algo mais, assomando da boca de tio Otto.
Parei de gritar por um momento e fui incapaz de mover-me, incapaz de afastar de seu rosto minha mão suja de óleo, incapaz de afastar os olhos daquela enorme
coisa oleosa que apontava em sua boca - a coisa que deixara tão distorcido o formato de sua face.
Por fim, minha paralisia cessou e saí correndo da casa, ainda aos gritos. Cruzei a porta até meu Pontiac, enfiei-me no carro e gritei de lá. Os mantimentos
que trouxera para tio Otto escorregaram do banco traseiro para o chão, os ovos se quebraram.
Foi por milagre que não me matei nos primeiros três quilômetro - olhei para o velocímetro e vi que estava a mais de cento e dez. Parei na beira da estrada,
fiz algumas respirações profundas e consegui recuperar parte do meu controle. Comecei então a perceber que, simplesmente, não podia deixar o tio Otto como o encontrara;
aquilo levantaria muitas perguntas. Eu tinha que voltar lá.
Além disso, devo admitir que fora tomado por uma certa curiosidade infernal. Hoje, desejaria não havê-la sentido ou ignorá-la; de fato, se acontecesse agora,
eu deixaria tudo correr por si mesmo, que eles fizessem suas perguntas. Não obstante, eu voltei lá. Fiquei alguns minutos parado diante da porta de tio Otto - mais
ou menos no mesmo lugar e idêntica posição de quando meu tio permanecia ali, tão demorada e freqüentemente, olhando para aquele caminhão. Fiquei ali e cheguei a
esta conclusão: o caminhão através de estrada mudara de lugar, embora ligeiramente.
Entrei na casinha.
As primeiras moscas estavam circulando e zumbindo em torno do rosto dele. Eu podia ver marcas oleosas de dedos em suas faces: o polegar na esquerda, três
dedos na direita. Olhei nervosamente para a janela a onde vira o Cresswell assomando... e então aproximei-me da cama. Peguei meu lenço e limpei aquelas marcas de
dedos. Então, inclinando-me, abri a boca do tio Otto.
O que caiu de sua boca era uma vela de ignição Champion - uma do antigo tipo Maxi Duty, quase tão grande como o punho de um homem-forte de circo.
Levei-a comigo. Hoje, desejaria não ter feito isso mas, naturalmente, naquele momento eu estava em choque. Tudo teria sido muito mais misericordioso, se eu
não estivesse com o objeto real aqui em meu estúdio, onde posso olhar para ele, pegá-lo e avaliar seu peso, se me der vontade - a vela de ignição fabricada na década
de 20, que caiu da boca do tio Otto.
Se a vela não estivesse lá, eu não a teria trazido da casinha de um só cômodo de meu tio, quando fugi de lá às pressas, pela segunda vez. Então, talvez eu
começasse a convencer-me de que tudo aquilo - não apenas dobrar a curva e ver o Cresswell encostado ao lado da casinha, como um enorme sabujo vermelho, mas tudo
o que aconteceu - foi apenas uma alucinação. Contudo, a vela está aqui; ela capta a luz. É real. Tem peso. O caminhão está mais próximo a cada ano, disse ele, e
agora me parece que tinha razão... mas o próprio tio Otto jamais imaginaria o quão próximo aquele Cresswell podia chegar.
O veredito da cidade foi de que meu tio se matara engolindo óleo e isto gerou nove dias de espanto em Castle Rock. Carl Durkin, coveiro local e não o mais
boca-fechada dos homens, contou que quando os médicos o abriram para a autópsia, encontraram mais de três litros de óleo nele... e não apenas em seu estômago. Havia
óleo em todo o seu organismo. O que todos na cidade indagavam era: o que tinha ele feito com o recipiente plástico? Porque jamais foi encontrado qualquer recipiente.
Como falei, a maioria dos que lerem estas linhas não acreditará em nada... em absoluto, a menos que algo semelhante lhe tenha acontecido. O caminhão, entretanto,
continua lá, em seu campo... e, sejam quais forem os seus méritos, tudo isto aconteceu.



* * *



O CARRÃO: Uma Narrativa Sobre Lavanderia (Leiteiro n.° 2)


Rocky e Leo, ambos embriagados como os últimos senhores da criação, rodaram lentamente pela Rua Culver e depois ao longo da Avenida Balfour, em direção à
Crescent. Estavam repimpados no Chrysler 1957 de Rocky. Entre os dois, equilibrada com bêbado cuidado sobre a monstruosa protuberância do eixo motor do Chrysler,
repousava uma caixa de cerveja Iron City. Aquela era a segunda caixa deles na noite - uma noite que realmente começara às quatro da tarde, hora de encerramento do
expediente na lavanderia.
- Raios me partam! - exclamou Rocky, parando na pestanejante luz vermelha do cruzamento da Avenida Balfour e a Higway 99.
Não viu movimento de carros em nenhuma das duas direções, mas atirou um tímido olhar para trás. Entre suas pernas, descansava uma lata de I. C., pela metade.
Ele tomou um gole e depois virou para a esquerda, entrando na 99. A junta universal emitiu um sonoro grunhido, quando a descarga começou a pipocar em segunda. O
Chrysler havia perdido sua primeira marcha, uns dois meses antes.
- Dê-me um raio, que eu o parto - disse Leo, amavelmente.
- Que horas são?
Leo ergueu o pulso com relógio até bem perto da ponta do cigarro e então sugou furiosamente, até conseguir ver as horas.
- Quase oito - disse.
- Raios me partam!
Haviam passado por um sinal dizendo PITTSBURGH 44.
- Ninguém irá vistoriar esta gracinha de Detroit - disse Leo. - Pelo menos, ninguém em seu juízo perfeito.
Rocky passou para terceira. A junta universal resmungou para si mesma e o Chrysler começou a ter o equivalente automotriz de um ataque epiléptico, petit mal.
O espasmo cessou eventualmente e o velocímetro subiu aos poucos para sessenta e cinco, onde pendeu precariamente.
Quando alcançaram o cruzamento da Highway 99 com a Devon Stream Road (Devon Stream formava a fronteira entre as jurisdições de Crescent e Devon, durante uns
treze quilômetros), Rocky dobrou para a última, quase por impulso. Era possível que, naquilo que funcionava como seu subconsciente, muito lá no fundo, houvesse sido
despertada alguma lembrança do velho Meia Suja.
Ele e Leo haviam estado dirigindo mais ou menos ao acaso, desde a saída do trabalho.
Era o último dia de junho, e o cartão de inspeção do Chrysler de Rocky perderia a validade exatamente às 12:01 do dia seguinte. Quatro horas, a partir de
agora. Menos de quatro horas, a partir daquele exato momento. Rocky achava esta eventualidade quase demasiado dolorosa para ser contemplada e, quanto a Leo, não
fazia diferença. O carro não lhe pertencia. Além do mais, bebera suficiente cerveja Iron City para alcançar um estado de profunda paralisia cerebral.
Devon Road serpenteava pela única área fortemente arborizada de Crescent. Nos dois lados da estrada amontoavam-se grandes maciços de olmos e carvalhos, exuberantes,
vivos e repletos de sombras móveis, à medida que a noite se fechava no sudoeste da Pensilvânia. De fato, a área era conhecida como Os Bosques Devon. Conseguira uma
situação com letras maiúsculas, após a tortura-assassinato de uma jovem e seu namorado, em 1968. O casal estivera estacionado ali, sendo encontrado no Mercury 1959
do namorado. O carro tinha assentos de couro legítimo e um grande enfeite cromado no capô. Os ocupantes estavam no assento traseiro. E também no dianteiro, no porta-mala
e porta-luvas. O assassino jamais fora encontrado.
- É melhor que o motor desta lata velha não afogue aqui - disse Rocky. Estamos a cento e cinqüenta quilômetros de lugar nenhum.
- Cascata. - Esta interessante palavra, ultimamente ocupava o primeiro lugar entre as quarenta que compunham o vocabulário de Leo. - Lá está uma cidade, bem
à frente.
Rocky suspirou e tomou outro gole de sua lata de cerveja. O clarão à vista não era realmente de uma cidade, porém o rapaz estava perto o suficiente para tornar
inútil qualquer discussão. Era o novo centro comercial. Aquelas lâmpadas de sódio de alta luminosidade realmente emitiam claridade. Enquanto olhava naquela direção,
Rocky dirigiu o carro para o lado esquerdo, gingou de volta, quase foi para o acostamento da direita, mas finalmente tornou a enfileirar-se em sua faixa.
- Caramba - disse ele.
Leo arrotou e gorgolejou.
Eles haviam estado trabalhando juntos na Lavanderia New Adams desde setembro, quando Leo tinha sido contratado como ajudante de Rocky. Leo era um rapaz de
vinte e dois anos, com feições de roedor e parecendo ter em seu futuro um bocado de passagens pela cadeia. Ele alegava estar economizando vinte dólares semanais
de seu pagamento, a fim de comprar uma motocicleta Kawasaki usada. Dizia que viajaria na moto para o oeste, assim que chegasse o tempo frio. Leo já passara por uns
doze tipos de empregos, desde que se despedira do mundo estudantil, à idade mínima de dezesseis anos. Estava gostando bastante de trabalhar na lavanderia. Rocky
lhe ensinava os vários ciclos da lavagem de roupa, fazendo-o acreditar firmemente que aprendia uma Especialização, algo muito conveniente, quando de sua chegada
a Flagstaff.
Empregado mais antigo, Rocky já tinha quatorze anos na New Adams. Prova disso eram suas mãos, espectrais e manchadas ao volante. Ele já pegara quatro meses
em 1970, por porte oculto de arma. Sua esposa, então obesamente grávida com o terceiro filho do casal, havia anunciado
1) que a criança não era dele, mas do leiteiro; e
2) que queria o divórcio, sob a alegação de crueldade mental.
Dois fatos a respeito dessa situação induziram Rock a andar com aquela arma:
l) fora corneado;
2) fora corneado pelo imbecil do leiteiro, um infeliz com olhos de peixe morto e cabelos compridos, chamado Spike Milligan. Spike dirigia o furgão leiteiro
da Laticínios Cramer's.
Logo o leiteiro, pelo amor de Deus! O leiteiro não faltava mais nada! Não era para um homem atirar-se à sarjeta e morrer? Mesmo para Rocky, que nunca fora
muito além da leitura dos Fleer's Funnies, as histórias em quadrinhos enroladas em torno da goma de mascar que ele mascava infatigavelmente no trabalho, a situação
continha sonoras e clássicas implicações.
Em vista disso, comunicara à esposa, sombriamente, dois fatos:
1) nada de divórcio; e
2) ia ver a cor de um bocado de miolos de Spike Milligan.
Havia comprado uma pistola calibre 32 uns dez anos antes, que usava ocasionalmente para atirar em garrafas, latas vazias e cães de pequeno porte. Naquela
manhã, saíra de sua casa na Rua Oak e rumara para a lavanderia, esperando pegar Spike, quando ele terminasse as entregas matinais.
Rocky fizera alto na Taverna Quatro Esquinas, a fim de tomar algumas cervejas - seis, oito, talvez vinte. Era difícil lembrar. E, enquanto bebia, sua mulher
chamou os tiras.
Eles estavam à sua espera, na esquina de Oak com Balfour. Rocky havia sido revistado e um dos tiras encontrou o 32, em seu cinto.
- Acho que vai ausentar-se por algum tempo, meu amigo - disse o tira que encontrou sua arma.
Foi exatamente o que Rocky fez. Passou os quatro meses seguintes lavando lençóis e fronhas para a Estadual da Pensilvânia. Durante esse período, sua esposa
conseguira um divórcio em Nevada, de maneira que quando Rocky saiu de trás das grades, ela vivia com Spike Milligan na Rua Dakin, em um prédio de apartamentos com
um flamingo cor-de-rosa no gramado fronteiro. Juntamente com os dois filhos mais velhos (Rocky ainda mais ou menos presumia que fossem seus), o casal agora possuía
um bebê, absolutamente tão olhos de peixe morto como seu pai. Também contava com uma pensão alimentícia semanal de quinze dólares.
- Andar tanto de carro está me dando náuseas, Rocky - disse Leo. Não podíamos parar um pouco e beber?
- Tenho que dar um jeito em minhas rodas - disse Rocky. - Um homem não é nada, sem suas rodas.
- Ninguém em seu juízo perfeito vai vistoriar isto - já lhe disse. Seu carro não tem sinalização para dobrar.
- As luzes piscam a cada vez que piso no freio, e quem não pisa no freio quando faz uma curva, está querendo capotar.
- O vidro da janela deste lado está rachado.
- Ele pode ser descido.
- E se quem for vistoriar pedir que você o levante, para que possa checá-lo?
- Bem, se chegar a este ponto, eu estou roubado - disse Rocky friamente.
Jogou fora a lata de cerveja e pegou uma nova. Esta tinha a figura de Franco Harris estampada. Pelo visto, a Iron City estava endeusando os Maiores Sucessos
dos Steeler, naquele verão. Rocky abriu o topo da lata. A cerveja esguichou para fora.
- Eu gostaria de ter uma mulher - disse Leo, olhando para o escuro e sorrindo estranhamente.
- Se tivesse uma, você nunca iria para o oeste. É isso que uma mulher faz, impedir que um homem vá para mais oeste. É assim que elas operam. É a sua missão.
Não me disse que queria ir para o oeste?
- Disse, e vou.
- Você nunca irá - replicou Rocky. - Dentro em breve terá uma mulher. Logo depois estará ferrado. Pensão alimentar. Entende? As mulheres estão sempre querendo
a pensão alimentar. Os carros são melhores. Fique firme neles.
- É um bocado difícil transar com um carro.
- Você ficaria surpreso - disse Rocky e deu uma risadinha.
O bosque começava a rarear, substituído por novas moradias. Luzes piscaram à esquerda e Rocky pisou subitamente no freio. As luzes de frear e de sinalização
ligaram-se imediatamente; um macete de fabricação caseira, por meio de fios. Leo foi atirado para diante, salpicando cerveja no assento.
- O que foi? O que foi? - perguntou.
- Veja - disse Rocky. - Acho que conheço aquele cara.
No lado esquerdo da estrada havia uma garagem arruinada e um posto de gasolina Citgo. Na fachada, um letreiro dizia:
GASOLINA E SERVIÇO BOB'S BOB DRISCOLL, PROP. ALINHAMENTO DIANTEIRO - NOSSA ESPECIALIDADE DEFENDA SEU LEGÍTIMO DIREITO DE USAR ARMAS!
E, bem no final:
POSTO ESTADUAL DE INSPEÇÃO 72
- Ninguém em seu juízo perfeito... - recomeçou Leo.
- É Bob Driscoll! - exclamou Rocky. - Eu e Bobby fomos colegas de escola! Fizemos misérias por lá, pode apostar!
Manobrou desajeitadamente, os faróis iluminando a porta aberta da garagem. Depois, pisando na embreagem, investiu para lá. Um homem de ombros encurvados,
vestindo macacão verde, correu para fora, gesticulando freneticamente para que ele parasse.
- Esse é Bob! - gritou Rocky, exultante. - Olááá, Meia Dura!
Rasparam o lado da garagem. O Chrysler teve outro acesso epiléptico, grand mal desta vez. Uma pequena.chama amarelada surgiu no final do tubo de aspiração
da bomba, seguida por um jato de fumaça azul. O carro afogou agradecidamente.
Leo foi atirado para diante, salpicando mais cerveja. Rocky girou a chave do motor e deu ré, para nova tentativa.
Bob Driscoll correu para eles, os palavrões jorrando de sua boca em coloridas torrentes.
Agitava os braços.
- ... que merda pensa que está fazendo, seu filho da...
- Bobby! - berrou Rocky, em euforia quase orgásmica. - Ei, Meia Suja! O que há, meu chapa?
Bob perscrutou através da janela de Rocky. Tinha um rosto contorcido e cansado, em sua maioria oculto pela sombra da pala do boné.
- Quem foi que me chamou de Meia Suja?
- Erra - Rocky quase trovejou. - Fui eu, seu velho punheteiro! O seu chapa dos velhos tempos!
- Quem, diabo...
- Johnny Rockwell! Ficou cego, além de imbecil?
A pergunta cautelosa:
- Rocky?
- Eu mesmo, seu filho da mãe!
- Deus do céu! - Uma alegria lenta, indesejada, espalhou-se pelo rosto de Bob. - Não vejo você desde... bem.. acho que desde aquele jogo dos Catamounts...
- Shoosh! Foi um tempo quente, hem?
Rocky bateu com força na coxa, enviando um esguicho de Iron City. Leo arrotou.
- Se foi! A única vez que ganhamos um torneio. Mesmo então, parecia que íamos perder... Ei, cara, você quase me acaba com o lado da garagem! Você...
- Sim, o mesmo e velho Meia Suja! O mesmo cara! Você não mudou nem um fio de cabelo! - Algo surpreso, Rocky espiou o mais que pôde abaixo da pala do boné
de beisebol, esperando que fosse verdade. No entanto, parecia que o velho Meia Suja ficara parcial ou totalmente calvo. - Céus! Não é incrível vir dar com você por
aqui? Casou finalmente com Marcy Drew?
- Raios, casei. Lá por 70. Por onde você andou?
- Na cadeia, o mais provavelmente. Ei, chapa, dá pra vistoriar o bebê aqui?
De novo, a pergunta cautelosa:
- Está falando de seu carro?
Rocky deu uma risada estridente.
- Não-do meu pau-de-fogo! Claro que é do meu carro! E então, dá pra ver?
Bob abriu a boca para dizer não.
- Este aqui é um velho amigo meu. Leo Edwards. Leo, quero que conheça o único jogador de basquete do Ginásio Crescent, que não mudou as meias suadas em quatro
anos.
- Prazer conhecer - disse Leo, fazendo a sua obrigação, como a mãe lhe ensinara, certa vez em que a dama estava sóbria.
Rocky riu esganiçadamente.
- Uma cerveja, Suja?
Bob abriu a boca para dizer não.
- Tome, a pequenina levanta-defunto! - exclamou Rocky.
Arrancou a abertura do topo. Sacudida pela colisão com o lado da garagem, a cerveja espumou acima da tampa e escorreu pelo pulso de Rocky. Ele enfiou a lata
na mão de Bob. Bob bebeu rapidamente, para evitar que sua própria mão ficasse alagada.
- Escute, Rocky, nós fechamos às...
- Só um segundo, um segundinho, me deixe explicar. Tenho alguma coisa desarranjada aqui.
Rocky puxou a alavanca de mudança ao inverso, pisou o pedal da embreagem rapidamente, tirou um fino em uma bomba de gasolina e então dirigiu o Chrysler para
o interior, aos sacolejos. Saiu em um minuto, para sacudir a mão livre de Bob como um político. Bob parecia aturdido. Sentado no carro. Leo abriu outra cerveja.
Também estava peidando. Muita cerveja sempre o deixava assim.
- Ei! - esclamou Rocky, cambaleando em torno de uma pilha de calotas enferrujadas. - Lembra-se de Diana Rucklehouse?
- Claro - disse Bob. Um sorriso forçado veio à sua boca. - Era aquela com os... - Ele colocou as mãos em concha, diante do peito.
Rocky uivou.
- Isso mesmo! Você morou, cara! Ela continua na cidade?
- Acho que se mudou para...
- Dá pra entender - disse Rocky. - Os que não ficam, sempre se mudam. Pode dar um visto nesta banheira, não pode?
- Bem, minha mulher disse que ia esperar para o jantar e nós fechamos às...
- Poxa, ia ser uma ajuda e tanto se me fizesse a vistoria. Eu apreciaria muito. Posso retribuir com uma lavagem de roupa pessoal para sua esposa. É o que
faço. Lavar roupa. Na New Adams.
- E eu estou aprendendo - disse Leo, e tornou a peidar.
- Lavar as roupas de baixo, o que você quiser. E então, Bobby?
- Bem... acho que posso dar uma espiada.
- Boa! - exclamou Rocky, batendo nas costas de Bob e piscando para Leo. - O mesmo e velho Meia Suja. Grande sujeito!
- Hum-hum - disse Bob, com um suspiro. Sorveu um gole de cerveja, seus dedos sujos de óleo quase tapando o rosto do Grande Joe Green. - Você andou batendo
um bocado com este pára-choque, Rocky.
- Dá uma certa classe. O maldito carro precisa de um pouco de classe. Mesmo assim, é um carraço e tanto, entende o que quero dizer?
- Sim, acho que...
- Ei ! Quero que conheça o sujeito com quem trabalho! Leo, este é o único jogador de basquete do...
- Você já nos apresentou - disse Bob, com um sorriso frouxo e desesperado
- Tudokay? - disse Leo.
Pegou outra lata de Iron City. Linhas prateadas, como trilhos de ferrovia vistos ao meio-dia, em um dia quente e límpido, começavam a surgir diante de seu
campo visual.
- ... Ginásio Crescem, que não trocou suas...
- Quer me mostrar os faróis, Rocky? - pediu Bob.
- Claro. Grandes faróis! De halogênio, nitrogênio ou qualquer fodido gênio. Eles têm classe. Ponha os olhos do bichão em funcionamento, Leo.
Leo ligou os limpadores de pára-brisa.
- Então bons - disse Bob, pacientemente. Sorveu um bom gole de cerveja. - E agora, que tal os faróis?
Leo acendeu os faróis.
- Farol alto?
Com o pé esquerdo, Leo tateou em busca do dimmer. Tinha absoluta certeza de que o interruptor estava em algum lugar lá embaixo, até finalmente encontrá-lo.
Os faróis altos deixaram Rocky e Bob em nítido relevo, como suspeitos em uma fila de reconhecimento da polícia.
- Fodidos faróis de nitrogênio, não lhe disse? - exclamou Rocky, depois deu uma risadinha casquinada. - Poxa, Bobby! Estou vendo você melhor do que um cheque
pelo correio!
- E agora, que tal a sinalização para dobrar uma curva? - pediu Bob.
Leo sorriu vagamente para ele e não fez nada.
- É melhor eu ver isso - falou Rocky. Arranjou um bom galo na cabeça, quando se colocou atrás do volante. - Acho que o rapaz não se sente muito bem...
Apertou o freio, ao mesmo tempo em que bateu de leve no indicador de curva.
- Correto - disse Bob, - mas isso funciona sem o freio?
- O manual de inspeção de veículos a motor diz, em algum lugar, que tem de funcionar? - perguntou Rocky espertamente.
Bob suspirou. Sua esposa o esperava para jantar. Sua esposa tinha seios grandes e pendurados, cabelos louros que eram negros nas raízes. Sua esposa era adepta
de biscoitos em quilos, vendidos na loja local Giant Eagle. Quando ela ia à garagem nas noites de quinta-feira, pegar seu dinheiro para o bingo, em geral tinha os
cabelos presos em grandes rolinhos verdes, sob um lenço verde de chifon. Isto fazia com que sua cabeça parecesse um rádio AM/FM futurista. Certa ocasião, por volta
de três da madrugada, ele acordara e tinha olhado para seu rosto bambo, cor de papel, à impiedosa claridade de cemitério da luz no poste da rua, entrando pela janela
do quarto de casal.
Ele havia pensado em como seria fácil - apenas montar em cima dela, apenas fincar um joelho em seu estômago, para que ela ficasse sem ar e incapaz de gritar,
apenas engalfinhar as duas mãos em torno de seu pescoço... Depois, apenas colocá-la na banheira e esquartejá-la, cortá-la em pequenos pedaços e enviá-la a qualquer
lugar por via postal para Robert Driscoll, a/c da Posta Restante. Qualquer velho lugar, Lima, Indiana, Pólo Note, New Hampshire, Intercourse, Pensilvânia, Kunkle,
Iowa. Qualquer velho lugar. Podia ser feito. Deus sabia que já fora feito antes.
- Não - respondeu ele a Rocky - Creio que em nenhum lugar do manual diz que eles têm que funcionar sozinhos. Exatamente. Em tantas palavras.
Erguendo a lata, ele deixou que o resto da cerveja gorgolejasse por sua garganta abaixo.
Estava quente na garagem e ainda não jantara. Podia sentir a cerveja subir-lhe prontamente para a cabeça.
- Ei, Meia Suja acabou de esvaziar a lata! - disse Rocky. - Mande mais uma, Leo!
- Não, Rocky, sinceramente...
Não enxergando muito bem, Leo finalmente conseguiu encontrar outra lata.
- Quer que mande tudo? - perguntou, e passou uma lata a Rocky.
Rocky a entregou a Bob, cujas negativas foram anuladas ao segurar a fria realidade da lata em sua mão. Esta exibia a face sorridente de Lynn Swann. Ele a
abriu. Leo peidou comportadamente, fechando a transação.
Durante um momento, todos beberam de latas com jogadores de futebol.
- A buzina funciona? - perguntou Bob finalmente, quebrando o silêncio como que em uma desculpa.
- Claro. - Rocky bateu no círculo com seu cotovelo. Ele emitiu um débil grasnido. - Acho que a bateria está um pouco baixa.
Os três beberam em silêncio.
- Aquele maldito rato era tão grande como um cocker spaniel! - exclamou Leo.
- O garoto está um bocado alto - explicou Rocky.
Bob meditou a respeito.
- Hum-hum - disse.
Isso pareceu despertar a hilaridade de Rocky, porque ele gargalhou com a boca cheia de cerveja. Um pouco do líquido escorreu de seu nariz, o que fez Bob rir.
Rocky gostou de ouvi-lo, porque o antigo colega lhe parecera um cara tristonho, quando tinham entrado ali.
Beberam em silêncio por mais algum tempo.
- Diana Rucklehouse - disse Bob, meditativamente.
Rocky deu uma risadinha abafada.
Bob o imitou e levou as mãos à frente do peito.
Rocky riu, agora também levando as mãos à frente do peito e aumentando a distância ainda mais, para dar a idéia de um busto generoso.
Bob gargalhou.
- Lembra-se daquela foto de Ursula Andress, que Tinker Johnson pregou no quadro de avisos da velha Freemantle?
Rocky emitiu um uivo.
- E ele desenhou aquelas maminhas enormes...
- ... e ela quase teve um ataque cardíaco...
- Vocês dois sabem rir - disse Leo, morosamente, e peidou.
Bob pestanejou, olhando para ele.
- Como?
- Rir - disse Leo. - Falei que vocês dois sabem rir. E podem. Nenhum tem um buraco nas costas.
- Não lhe dê ouvidos - disse Rocky, algo inquieto. - O garoto está num tremendo pileque.
- Você tem um buraco nas costas? - perguntou Bob a Leo.
- A lavanderia - disse Leo, sorrindo. - Temos aquelas enormes máquinas de lavar, entende? Só que as chamamos de rodas. São as rodas da lavanderia. Por isso
é que as chamamos de rodas. Eu as carrego, eu as esvazio, depois torno a carregá-las. A droga da roupa está suja, quando sai de lá vem limpa. É isso que faço, e
faço com categoria. - Olhou para Bob, com insana confiança. - No entanto, fazendo isso é que fiquei com um buraco nas costas.
- É mesmo?
Bob olhava fascinado para Leo. Rocky remexeu-se nervosamente.
- Há um buraco no teto - disse Leo. - Bem acima da terceira roda. Elas são redondas, compreenda, por isso as chamamos de rodas. Quando chove, a água cai por
ali. Goteja, goteja, goteja. Cada pingo de chuva cai em cima de mim - plaft! - bem nas costas. Agora, estou com um buraco nas costas. Deste tamanho - Leo fez uma
curva rasa com uma das mãos. - Quer ver?
- Ele não quer ver nenhuma deformidade como essa! - gritou Rocky. - Estamos relembrando os velhos tempos e, por outro lado, você não tem nenhuma merda de
buraco nas costas!
- Eu quero ver o buraco - disse Bob.
- Elas são redondas, por isso damos o nome de lavanderia - disse Leo.
Rocky sorriu e bateu no ombro dele.
- Pare com essa conversa fiada ou irá andando para casa, amiguinho. E agora, se ainda sobrou alguma, quer me dar uma com o meu xará?
Leo espiou no engradado de cerveja, e, após um momento, entregou uma lata com Rocky Blier impresso.
- Vamos em frente! - esclamou Rocky, de novo alegre.
Uma hora mais tarde, a cerveja havia acabado e Rocky enviou Leo cambaleando estrada acima até o Pauline's Superette, para comprar mais. Os olhos do rapaz
estavam injetados de sangue a esta altura e sua camisa saía para fora das calças. Com uma concentração de míope, ele tentava tirar seu maço de Camels das dobras
enroladas da manga da camisa.
Bob estava no banheiro, urinando e entoando uma canção escolar.
- Não quero ir andando até lá - murmurou Leo.
- Claro, mas está bêbado demais para dirigir!
Leo caminhou em vacilante semicírculo, ainda tentando extrair os cigarros da manga da camisa.
- Tá escuro. E frio.
- Quer que este carro ganhe um certificado de vistoria ou não? - sibilou Rocky para ele.
Agora, começara a ver coisas estranhas nas bordas de seu campo visual. A mais persistente era um enorme besouro, envolto em teias de aranha, no canto mais
distante.
Leo o fitou com olhos escarlates.
- O carro não é meu - replicou, com falsa sagacidade.
- E você nunca mais andará nele, se não for buscar essa cerveja - ameaçou Rocky.
Olhou temerosamente para o besouro morto no canto. - Provoque-me e verá se estou brincando!
- Está bem - gemeu Leo. - Não precisa se irritar por causa disso.
Caminhou duas vezes para fora da via, em seu trajeto até a esquina, uma vez, quando voltava. Ao finalmente retornar para o calor e claridade da garagem, encontrou
os dois homens entoando a canção escolar. De um jeito ou de outro, Bob conseguira erguer o Chrysler no elevador. Agora, examinava a parte do chassis, observando
o enferrujado sistema de exaustão.
- Seu cano de descarga tem alguns buracos - disse ele.
- Não há nenhuma privada aí embaixo - respondeu Rocky.
Os dois acharam aquilo muito engraçado.
- Chegou a cerveja! - anunciou Leo.
Colocou o engradado no chão, sentou-se em um aro de roda e caiu imediatamente em meia sonolência. Ele próprio havia esvaziado três latas no trajeto de volta,
a fim de aliviar a carga.
Rocky estendeu uma cerveja para Bob e pegou uma para si.
- Disputa? Como nos velhos tempos?
- Certo - disse Bob.
Sorriu com os lábios comprimidos. Mentalmente, via-se na cabine de um carro de corridas de Fórmula Um, daquelas aerodinâmicas, rentes ao solo, uma das mãos
pousando de banda no volante, enquanto esperava que baixassem a bandeira, a outra tocando seu amuleto de sorte - o enfeite do capô de um Mercury 59. Esquecera o
cano de descarga de Rocky e sua desgrenhada esposa, com rolinhos transistorizados para os cabelos.
Os dois abriram suas cervejas e despejaram o conteúdo na boca, sorvendo-o ansiosamente; era uma disputa surda. Ambos deixaram as latas caírem no concreto
rachado e ergueram o dedo médio ao mesmo tempo. Seus arrotos ecoaram nas paredes, como tiros de rifle.
- Bem como nos velhos tempos - disse Bob, parecendo melancólico. Nada é como nos velhos tempos, Rocky.
- Eu sei - assentiu Rocky. Lutou por um perfeito e luminoso pensamento, até encontrá-lo.
- Estamos envelhecendo a cada dia, Suja.
Bob suspirou e tornou a arrotar. Leo peidou no canto e começou a cantarolar "Get Off My Cloud".
- Mais uma vez? - perguntou Rocky, passando outra cerveja para Bob.
- Também acho - disse Bob, em resposta ao pensamento de Rocky. - Eu também acho, Rocky, meu chapa.
Por volta de meia-noite, o engradado que Leo trouxera estava vazio e um certificado de inspeção fora afixado no lado esquerdo do pára-brisa de Rocky, em um
ângulo torto. O próprio Rocky havia anotado as informações pertinentes, antes de colar o certificado, copiando laboriosa e cuidadosamente os números do esfarrapado
e ensebado registro que por fim encontrara no porta-luvas. Era preciso copiar com cuidado, porque estava vendo tudo em triplicata. Sentado de pernas cruzadas no
chão, como um mestre ioga, Bob tinha uma lata de cerveja esvaziada pelo meio, pousada à sua frente. Seus olhos contemplavam o nada fixamente.
- Fique certo, você salvou minha vida, Bob - disse Rocky.
Chutou as costelas de Leo para acordá-lo. Leo grunhiu e bufou. Suas pálpebras tremularam brevemente, ainda fechadas, depois se abriram inteiramente, quando
Rocky tornou a chutá-lo.
- Já chegamos em casa, Rocky? Nós...
- Você deu a este carro uma oportunidade e tanto, Bobby! - exclamou Rocky alegremente. Enfiou os dedos debaixo dos braços de Leo e puxou. Leo ficou em pé,
gritando. Rocky quase o carregou até o Chrysler e depois o jogou no assento do passageiro. - Ainda voltaremos aqui qualquer dia, para você dar uma geral nele.
- Que tempos eram aqueles! - suspirou Bob. Estava com os olhos úmidos. De lá para cá, tudo ficou cada vez pior, sabia?
- É verdade - disse Rocky. - Tudo tem sido readaptado e abestalhado. Só que a gente apenas aponta os erros e não faz nada de nada...
- Minha esposa não quer saber de mim há ano e meio - disse Bob, mas as palavras foram sufocadas pelos estouros do motor do Chrysler.
Bob levantou-se e ficou espiando o carro sair em ré da garagem, arrancando uma lasca de madeira do lado esquerdo da porta. Leo pendurou-se à janela, sorrindo
como um debilóide.
- Apareça na lavanderia, caminhoneiro. Eu lhe mostrarei o buraco em minhas costas. Eu lhe mostrarei minhas rodas! Eu lhe mostr...
O braço de Rocky disparou subitamente, como uma prostituta de vaudeville, e o reduziu ao silêncio.
- Adeus, chapa! - gritou.
O Chrysler executou um slalom embriagado em torno das três ilhotas das bombas de gasolina e disparou para dentro da noite. Bob o espiou até as luzes traseiras
ficarem apenas como vagalumes e então caminhou cautelosamente para dentro da garagem. Em sua apinhada bancada de trabalho, havia um enfeite cromado de algum carro
antigo.
Bob começou a brincar com ele e, em breve, estava chorando lágrimas de crocodilo pelos velhos tempos. Mais tarde, em algum momento depois das três da madrugada,
ele estrangulou a esposa e incendiou a casa, para dar a tudo uma aparência de acidente.
- Santo Deus! - disse Rocky para Leo, quando a garagem de Bob encolheu-se para um ponto de luz branca atrás deles. - Quem diria, hem? O velho Meia Suja!
Rocky atingira aquele estado de embriaguez em que cada parte de si mesmo parecia ter-se evaporado, apagando-se à exceção de uma pequenina e cintilante brasa
de sobriedade, em algum ponto bem enterrado no meio de sua mente.
Leo não respondeu. À pálida claridade esverdeada do painel de instrumentos, ele parecia o rato-do-campo no chá de Alice.
- Ele estava mesmo bombardeado - prosseguiu Rocky. Dirigiu pelo lado esquerdo da estrada por algum tempo e depois o Chrysler vagueou de volta. Aliás, foi
até bom para você - o mais provável é que ele não se lembre do que você lhe disse. De outra vez, poderia ser diferente. Já lhe disse, não sei quantas vezes, para
ficar calado sobre essa idéia de que tem um maldito buraco em suas costas.
- Você sabe que tenho um buraco nas costas.
- Bem, e daí?
- E daí, que o buraco é meu. E vou falar sobre o meu buraco sempre que qui... - Leo interrompeu-se e olhou repentinamente em torno. - Tem um furgão atrás
da gente. Acabou de sair daquela estrada lateral. Faróis apagados.
Rocky ergueu os olhos para o retrovisor. Era um furgão leiteiro. Não precisava ler LATICÍNIOS CRAMER'S na lateral, para saber qual era.
- Spike - disse Rocky, temerosamente. - É Spike Milligan! - Céus, pensei que ele só fizesse entregas matinais!
- Quem?
Rocky não respondeu. Um tenso sorriso bêbado espalhou-se na parte inferior de seu rosto. Não chegou a tocar-lhe os olhos, que agora estavam esbugalhados e
vermelhos, como espiriteiras.
De repente, pisou fundo no acelerador do Chrysler, que expeliu uma fumaceira azul de óleo queimado e, relutantemente, entre rangidos, aumentou a velocidade
para noventa.
- Ei! Você está bêbado demais para ir tão depressa! Você está...
Leo parou de falar, com expressão vaga, como se houvesse perdido o fio do pensamento. As árvores e casas passavam em disparada por eles, apenas borrões difusos,
na escuridão da meia-noite e quinze. Avançaram sobre um sinal de parada e o derrubaram, em resultado voando acima de um enorme buraco na pista. Depois disso, saíram
da estrada por um momento. Quando voltaram a ela, o silencioso pendendo baixo arrancou uma faísca no asfalto. Na traseira do carro, latas entrechocaram-se e chocalharam.
Os rostos de jogadores do Steeler de Pittsburg rolaram de um lado para outro, às vezes à luz, em outras à sombra.
- Eu estava brincando! - disse Leo, apavorado. - Não há nenhum furgão!
- É ele - e ele mata gente! - gritou Rocky. - Vi seu besouro, lá na garagem! Porra!
Subiram rugindo a Southern Hill, pelo lado errado da estrada. Uma caminhonete que vinha em direção contrária, derrapou loucamente na curva de cascalhos e
foi parar no acostamento, saindo da frente deles. Leo olhou para trás. A estrada estava vazia.
- Rocky...
- Venha me pegar, Spike! - berrou Rocky. - Venha e me pegue!
O Chrysler tinha chegado a quase cento e trinta, uma velocidade que, em condições mais sóbrias, Rocky não acreditaria possível. Fizeram a curva que leva à
estrada
Johnson Flat, com a fumaça sendo expelida dos pneus carecas do carro. O Chrysler uivou na noite com um fantasma, os faróis vasculhando a estrada vazia à frente.
De repente, um Mercury 1959 rugiu para eles, saindo do escuro e rodando pela linha central. Rocky gritou e ergueu as mãos, colocando-as à frente do rosto.
Leo apenas teve tempo para ver que faltava o enfeite no capô do Mercury, antes que houvesse a colisão.
Meio quilômetro atrás, faróis brilham em uma estrada lateral, e um furgão leiteiro, com as palavras LATICÍNIOS CRAMER'S inscritas na lateral, entrou em movimento
e começou a rodar para a coluna de chamas e retorcidas massas que enegreciam no meio da estrada. Movia-se em moderada velocidade. O rádio transistor, pendurado pela
correia no gancho de carne, tocava ritmos e blues.
- Muito bem - disse Spike. - Agora, vamos à casa de Bob Driscoll. Ele pensa que levou gasolina de sua garagem, mas não estou bem certo disso. Este foi . um
dia bastante longo, não acha?
No entanto, quando ele se virou, a traseira do furgão estava vazia. Até o besouro se fora.

* * *


O Homem Que Não Apertava Mãos

Stevens serviu drinques e, pouco depois das oito daquela frígida noite de inverno, quase todos o acompanhamos à biblioteca. Por algum tempo, ninguém disse
nada; os únicos sons eram os do crepitar do fogo na lareira, o clique amortecido das bolas de bilhar, vindo do exterior, e os uivos do vento. Contudo, estava aquecido
o suficiente ali dentro, no 2498 da Rua 35 Leste.
Recordo que David Adley estava à minha direita aquela noite e Emlyn McCarron, que certa vez já nos contara uma história aterrorizante sobre uma mulher que
dera à luz em circunstâncias inteiramente incomuns, estava à minha esquerda. Além dele encontrava-se Johanssen, com seu Wall Street Journal dobrado no colo.
Stevens aproximou-se com um pequeno embrulho branco e o estendeu a George Gregson, sem qualquer vacilação. Stevens é o mordomo perfeito, apesar de seu leve
sotaque de Brooklyn (ou, talvez, por causa dele), porém seu maior atributo, ao que me conste, é sempre saber para onde deve ir o embrulho, se ninguém perguntar por
ele.
George o tomou sem nenhum protesto e ficou imóvel por um instante em sua poltrona bergère, olhando para o fogo na lareira, esta grande o bastante para assar
um boi de bom tamanho. Vi seus olhos adejarem momentaneamente pela inscrição entalhada na base: É A HISTÓRIA, NÃO QUEM A CONTA.
Ele abriu o embrulho com seus dedos velhos e trêmulos, atirando o conteúdo ao fogo.
Por um instante, as chamas transformaram-se em um arco-íris e houve um murmúrio de risos. Virando-me, vi que Stevens estava em pé bem atrás, junto às sombras
ao lado da porta para o saguão. Ele tinha as mãos cruzadas atrás das costas. Seu rosto permanecia cautelosamente fosco.
Suponho que todos nos sobressaltamos um pouco, quando sua voz áspera, quase rabugenta, rompeu o silêncio; sei que eu me assustei.
- Certa vez, vi um homem ser assassinado bem nesta sala - disse George Gregson - embora nenhum jurado condenasse o matador. Contudo, no fim ele próprio condenou-se
- e foi seu próprio executor!
Houve uma pausa, enquanto ele acendia o cachimbo. A fumaça vagou à volta de seu rosto enrugado em grande quantidade azulada, e ele sacudiu o fósforo de madeira
com os gestos lentos e declamatórios do homem cujas articulações lhe doem terrivelmente.
Jogou-o dentro da lareira, onde ele aterrou sobre os remanescentes em cinza do embrulho. George Gregson espiou as chamas carbonizarem a madeira. Seus agudos
olhos azuis ficaram pensativos, abaixo das espessas sobrancelhas grisalhas. Seu nariz era comprido e adunco, os lábios finos e firmes, os ombros encovados, quase
até a parte traseira do crânio.
- Não nos deixe em suspenso, George! - grunhiu Peter Andrews. - Conte de uma vez!
- Eu contarei. Tenha calma.
Restou-nos apenas esperar, até que ele houvesse fumado seu cachimbo com plena satisfação. Quando o grande fornilho de urze apresentou um belo leito de brasas,
George dobrou sobre um joelho as grandes mãos ligeiramente paralisadas, e disse:
- Pois muito bem. Estou com oitenta e cinco anos e o que ocorreu aconteceu quando eu tinha vinte e poucos. De qualquer modo, foi em 1919 e acabara de voltar
da Grande Guerra. Minha noiva havia morrido cinco meses antes, de influenza. Tinha apenas dezenove anos, e receio ter bebido e jogado cartas mais do que deveria.
Ela ficara esperando dois anos, compreendam, e durante esse período, recebi fielmente uma carta a cada semana. Talvez possam entender por que sucumbi a tal ponto.
Eu não tinha crenças religiosas, achava os dogmas e teorias gerais do cristianismo algo cômicos, quando nas trincheiras, e não possuía uma família que me apoiasse.
Assim, posso afirmar, com segurança, que os bons amigos que me acompanharam durante esse período de provação raramente me deixaram. Eram cinqüenta e três amigos
(mais do que possui a maioria das pessoas!): cinqüenta e duas cartas de baralho e uma garrafa de uísque Cutty Sark. Eu passara a morar nos mesmos aposentos em que
hoje resido, na Rua Brennan. Contudo, então eram muito mais baratos e havia um número consideravelmente menor de vidros de remédios, pílulas e panacéias enchendo
as prateleiras. A maior parte de meu tempo, no entanto, era passada aqui, no 249B, porque sempre podia encontrar um jogo de pôquer.
David Adley o interrompeu e, embora sorrisse, não creio que estivesse brincando, em absoluto.
- E Stevens já estava presente, George?
George se virou para o mordomo.
- Seria você ou seu pai, Stevens?
Stevens permitiu-se a ligeira sombra de um sorriso.
- Como 1919 foi há mais de sessenta e cinco anos atrás, acredito que fosse meu avô, senhor.
- Devemos então admitir que esse posto está no sangue - disse Adley.
- É como diz, senhor - replicou Stevens, delicadamente.
- Agora que penso nisso - falou George - é notável a semelhança entre você e seu... seu avô, não, Stevens?
- É o que me dizem, senhor.
- Se os dois fossem colocados lado a lado, eu teria dificuldades em afirmar quem era quem... porém isso é irrelevante, não?
- Perfeitamente, senhor.
- Eu me encontrava na sala de jogos - bem depois daquela mesma portinha acolá - jogando paciência, da primeira e única vez que vi Henry Brower. Éramos quatro,
já dispostos a jogar pôquer; esperávamos apenas um quinto jogador para completar a mesa. Quando Jason Davidson me disse que George Oxley, nosso usual quinto companheiro,
havia quebrado a perna e estava de cama, com ela engessada e pendurada em uma engenhoca de polias, pareceu que não teríamos qualquer jogo aquela noite. Eu contemplava
a perspectiva de encerrá-la sem mais nada para desviar meus pensamentos da mente, além da paciência e de uma quantidade de uísque que me embotasse o cérebro, quando
o sujeito no outro lado da sala disse, em voz clara e agradável:
- Se os cavalheiros falavam de pôquer, eu apreciaria muito tomar parte, caso não façam objeção.
"Ele estivera enterrado atrás de um exemplar do World de Nova York até então, de modo que quando ergui os olhos, foi a primeira vez que o vi. Era um rapaz
de rosto velho, se entendem o que digo. Algumas das marcas que vi naquele rosto, começava a ver também no meu, desde a morte de Rosalie. Algumas - não todas elas.
Embora o indivíduo não devesse ter mais do que vinte e oito anos, a julgar pelos cabelos, mãos e maneira de caminhar, seu rosto parecia marcado pela experiência,
e os olhos, que eram muito escuros, mostravam mais do que tristeza; eram como que obcecados. Ele tinha uma excelente aparência, com um pequeno bigode em ponta e
cabelos louros dando para escuro. Usava um terno marrom de bom corte e afrouxara o botão do colarinho alto.
- Meu nome é Henry Brower - apresentou-se ele.
"Davidson cruzou a sala imediatamente, a fim de apertar-lhe a mão. De fato, dava a impressão de que ia tomar a mão que Brower descansava no colo. Então, aconteceu
algo estranho: Brower largou o jornal e ergueu as duas mãos, mantendo-as fora de alcance. A expressão em seu rosto era de puro horror.
"Davidson estacou, bastante confuso, mais perplexo do que zangado. Tinha apenas vinte e dois anos - Céus, como éramos jovens naquele tempo! - e era um tanto
mimado.
"- Perdoem-me - disse Brower, com absoluta seriedade - mas nunca aperto mãos!" - Davidson pestanejou.
- Nunca? - exclamou. - Oh, mas que singular! E por que não?
"Bem, eu já lhes disse que ele era algo mimado.
Brower recebeu a pergunta da melhor maneira possível, com um sorriso aberto, embora um tanto perturbado.
- Acabo de voltar de Bombaim - explicou. - É uma cidade com excesso de população, suja, cheia de doenças e pestilência. As aves de rapina se pavoneiam e passeiam
pelas próprias muralhas da cidade aos milhares. Estive lá durante dois anos, em uma missão comercial, e pareço ter tomado horror ao nosso costume ocidental de apertar
mãos. Sei que sou tolo e descortês, mas não consigo dominar-me. Portanto, se tiver a bondade de perdoar-me e não guardar rancor...
- Somente com uma condição - disse Davidson, sorrindo.
- Qual seria?
- A de que viesse para a mesa e bebesse uma dose do uísque de George, enquanto vou convocar Baker, French e Jack Wilden.
"Brower sorriu para ele, assentiu e deixou o jornal de lado. Davidson fez um gesto impetuoso, unindo o polegar e o indicador em círculo, e saiu para ir buscar
os outros. Eu e Brower caminhavamos para a mesa forrada de feltro verde e, quando lhe ofereci um drinque, ele declinou com um agradecimento, pedindo sua própria
garrafa. Desconfiei que aquilo tivesse algo a ver com sua estranha mania, mas nada disse. Conheci homens, cujo pavor a micróbios e doenças foram muito além disso...
como muitos de vocês.
Houve assentimentos de concordância.
- É bom estar aqui - disse-me Brower, com ar pensativo. - Tenho sentido falta de companhia, desde que voltei de meu posto. Não é bom para um homem ficar sozinho,
compreenda. Acredito que, mesmo para o indivíduo mais auto-suficiente, ficar isolado dos semelhantes deve ser a pior forma de tortura!
"Ele disse isso com uma ênfase toda peculiar e eu assenti, porque já experimentara essa solidão nas trincheiras, geralmente à noite. Tornava então a experimentá-la,
ainda mais aguda, após saber da morte de Rosalie. Vi-me simpatizando com ele, a despeito de sua auto proclamada excentricidade.
- Bombaim deve ser um lugar fascinante - falei.
- Fascinante... e terrível! Lá existem coisas com que nem sonha a nossa filosofia. A reação deles aos veículos motorizados chega a ser engraçada: as crianças
fogem quando eles se aproximam, para depois os seguirem durante quarteirões. Acham o avião aterrorizante e incompreensível. Naturalmente que nós, os americanos,
encaramos tais engenhos com absoluta equanimidade - até mesmo complacência! - mas afirmo que minha reação foi a mesma que a deles, quando pela primeira vez observei
um mendigo de esquina engolir todo um pacote de agulhas de aço, para em seguida puxá-las, de uma em uma, pelas feridas abertas na ponta de seus dedos. Isso, no entanto,
é algo que os nativos daquela parte do mundo aceitam com toda naturalidade.
- Talvez - acrescentou ele, com ar sombrio - as duas culturas nunca pretendessem fundir-se, mas manter para si mesmas suas separadas maravilhas. Para um americano,
como eu ou o senhor, engolir um pacote de agulhas resultaria em morte lenta e terrível. No entanto, em relação a um automóvel...
"Brower deixou a frase em suspenso, enquanto uma expressão triste e soturna lhe vinha ao rosto. Eu me dispunha a falar, quando Stevens, o avô, apareceu com
a garrafa de uísque para meu companheiro e, logo atrás dele, chegavam Davidson e os outros.
Davidson prefaciou as apresentações, dizendo:
- Já falei a eles sobre sua pequena mania, Henry, de modo que não há o que temer. Este é Darrel Baker, o barbudo de ar terrível é Andrew French e, por último,
embora não menos importante, Jack Wilden. George Gregson você já conhece.
"Brower sorriu e assentiu para todos eles, em vez de lhes apertar as mãos. Foram trazidos três baralhos novos e fichas de pôquer, o dinheiro foi trocado por
fichas, e o jogo começou.
"Jogamos por umas seis horas e ganhei cerca de duzentos dólares. Darrel Baker, que não jogava muito bem, perdeu cerca de oitocentos (e não que sentisse o
prejuízo; seu pai era dono de três das maiores fábricas de sapatos na Nova Inglaterra), e os demais dividiram equitativamente comigo as perdas de Baker. Davidson
ganhara uns dólares a mais e Brower uns a menos, mas para Brower aquilo foi uma façanha, já que suas cartas haviam sido excepcionalmente ruins, na maior parte da
noite. Ele era destro, tanto na maneira tradicional de pedir cinco cartas, como na variedade mais recente do jogo, em que todas as cartas, exceto a primeira, são
dadas a descoberto. Cheguei a pensar que, por várias vezes, Brower ganhara dinheiro por meio de astutos blefes, que eu próprio hesitaria em tentar.
"Houve uma coisa que percebi: embora bebesse muito - quando French se preparou para dar a última rodada, ele já esvaziara quase uma garrafa inteira de uísque
- sua fala não se alterava em absoluto, seu jogo nunca vacilou e persistiu a sua curiosa fixação sobre o toque de mãos. Quando ganhava um bolo de apostas, ele jamais
o tocava, caso alguém tivesse marcações ou troco, inclusive se "ficara limpo" e ainda com fichas para contribuir. Certa vez, quando Davidson colocou o copo perto
do cotovelo dele, Brower recuou abruptamente, quase derrubando a própria bebida. Baker pareceu surpreso, mas Davidson deixou aquilo passar, sem fazer comentários.
"Momentos antes, Jack Wilden havia dito que horas mais tarde, naquela manhã, teria de ir até Albany, de maneira que só ficaria por mais uma rodada. Então,
chegou a vez de French cartear e ele pagou para ver, com sete cartas.
"Posso recordar aquela mão final tão claramente como meu próprio nome, embora precise concentrar-me para dizer o que almocei ontem ou quem me acompanhou na
refeição. Suponho que sejam os mistérios da idade, mas acho que se qualquer um de vocês estivesse lá, também recordaria como eu.
"Eu estava com duas cartas de copas viradas e uma a descoberto. Não poso falar sobre Wilden ou French, mas o jovem Davidson tinha o ás de copas e Brower o
dez de espadas. Davidson apostou dois dólares - cinco era o nosso limite - e as cartas rodaram novamente. Pedi copas para firmar uma quadra. Brower ficou com um
valete de espadas, para combinar com o seu dez. Davidson estava com um terno, que não pareceu melhorar sua mão, mas ainda assim, apostou três dólares.
- É a última rodada! - exclamou alegremente. - Sejam generosos, rapazes! Há uma dama que gostaria de sair da cidade comigo, amanhã à noite!
"Acho que eu não acreditaria em um adivinho, se ele me dissesse com que freqüência este comentário me perseguiria, nos momentos mais peculiares, até a data
de hoje.
"French distribuiu nossa terceira rodada de cartas descobertas. Meu flush não me ajudou em absoluto, mas Baker, que era o grande perdedor, conseguiu casar
alguma coisa - reis, suponho. Brower conseguira um duque de ouros, mas isso não pareceu adiantar muito. Baker apostou o limite em seu par, e Davidson prontamente
o superou em cinco. Todos continuaram no jogo, sendo distribuída nossa última carta descoberta. Fiquei com o rei de copas, para completar meu fush, Baker recebeu
uma terceira que combinou com seu par e a Davidson coube um segundo às, com o que seus olhos cintilaram. Brower conseguiu uma dama de paus e, juro para vocês, não
entendi por que continuou jogando, pois suas cartas pareciam tão ruins, como as obtidas naquela noite.
"As apostas começaram a ficar um pouco mais firmes. Baker apostou cinco, Davidson colocou mais cinco, Brower aceitou o desafio.
- Não creio que meu jogo seja suficientemente bom - disse Jack Wilden e desistiu.
"Eu aceitei os dez e apostei outros cinco. Baker fez o mesmo.
"Bem, não vou cansá-los com uma descrição ponto por ponto. Direi apenas que havia um limite de três apostas por homem. Eu, Baker e Davidson, cada um por sua
vez, aceitamos cada aposta e a elevamos em cinco dólares, a cada três vezes. Brower apenas aceitava cada aposta e a elevava, tomando a cautela de esperar até que
todas as mãos estivessem desembaraçadas das apostas, antes de arriscar seu dinheiro. E ali havia um bocado de dinheiro - pouco mais de duzentos dólares - quando
French distribuiu nossa última carta coberta.
"Houve uma pausa enquanto todos checávamos, embora de pouco valesse para mim; estava com minha mão e, pelo que podia ver na mesa, era boa. Baker apostou cinco,
Davidson aumentou e esperamos para ver o que Brower faria. O rosto dele estava ligeiramente corado pelo álcool. Já tirara a gravata e desabotoara um segundo botão
da camisa, mas parecia absolutamente calmo.
- Aceito... e aposto cinco - disse ele.
"Pestanejei um pouco, pois tinha certeza de que ele ia desistir. No entanto, as cartas em minha mão me diziam que eu devia jogar para ganhar, de maneira que
apostei cinco.
Jogávamos sem qualquer limite para o número de apostas que um jogador podia fazer sobre a última carta, de maneira que o bolo cresceu maravilhosamente. Fui
o primeiro a parar, satisfeito em apenas pagar para ver, em vista da flush hand que tinha, cada vez mais e mais seguro da mão que os outros possuiriam. Baker foi
o seguinte a parar, pestanejando desconfiadamente, enquanto seus olhos iam do par de ases de Davidson para o mistificador refugo em poder de Brower. Baker não era
o melhor jogador do mundo, porém bom o suficiente para farejar algo no vento.
"Entre ambos, Davidson e Brower apostaram pelo menos mais dez vezes, talvez até mais ainda. Eu e Baker fomos envolvidos, não querendo abandonar nossos grandes
investimentos. Nós quatro havíamos ficado sem fichas, de maneira que agora, sobre elas, assentavam-se notas esverdeadas.
- Bem, - disse Davidson, em seguida à última aposta de Brower. - Acho que pago para ver. Se esteve blefando, Henry, saiu-se muito bem. De qualquer modo, você
está por baixo e Jack tem uma longa viagem pela frente amanhã.
"Com isto, ele colocou uma nota de cinco dólares sobre a pilha.
- Estou pagando para ver - disse ele.
"Não sei quanto aos outros, mas eu senti um nítido alívio, que pouco tinha a ver com a grande soma de dinheiro que já arriscara. O jogo estava se tornando
implacável e, embora eu e Baker pudéssemos suportar um prejuízo, se fosse o caso, Jason Davidson não podia. No momento, ele estava em dificuldades, vivendo dos rendimentos
de ações - não uma grande quantidade - que uma tia lhe legara. E Brower - até onde suportaria o prejuízo? Lembrem-se, senhores, de que a esta altura, havia mais
de mil dólares sobre a mesa.
George fez uma pausa. Seu cachimbo se apagara.
- E então, o que aconteceu? - perguntou Adley, inclinando-se para diante. - Não nos torture, George! Estamos todos sentados na borda das cadeiras. Derrube-nos
delas ou ponha-nos sentados decentemente!
- Tenham paciência - disse George, imperturbável.
Apanhou outro fósforo, riscou-o na sola do sapato e sugou seu cachimbo. Esperamos ansiosamente, em silêncio. Lá fora, o vento guinchava e fustigava os beirais.
Quando o cachimbo acendeu-se e tudo pareceu em ordem, George prosseguiu:
- Como sabem, segundo as regras do pôquer, o homem que paga para ver, deve ser o primeiro a mostrar suas cartas. Contudo, Baker estava ansioso para encerrar
a tensão; virou uma de suas três cartas, com o que formou um four de reis.
- Não dá para mim - falei. - Um flush.
- Acabei com você - disse Davidson para Baker, enquanto mostrava duas de suas cartas viradas. Dois ases, formando um four. - Muitíssimo bem jogado...
"Davidson estendeu a mão para recolher a dinheirama da mesa.
- Um momento! - exclamou Brower.
"Ele não estendeu o braço para tocar a mão de Davidson, como a maioria teria feito, porém sua voz foi o bastante. Davidson fez uma pausa para olhar e sua
boca caiu - realmente caiu aberta, como se todos os músculos houvessem virado água. Brower havia virado todas as três cartas que tinha cobertas, revelando um straight
flush, do oito à dama.
- Creio que isto derruba seus ases, não? - perguntou polidamente.
"Davidson ficou vermelho, depois pálido.
- Derruba - disse lentamente, como se descobrisse o fato pela primeira vez. - Sim, tem razão.
"Eu daria tudo para saber qual a motivação de Davidson para o que houve em seguida.
Ele estava a par da extrema aversão de Brower em ser tocado, o homem já dera isso a entender e cem maneiras diferentes aquela noite. Talvez apenas Davidson
houvesse esquecido, em seu desejo de mostrar a Brower (e a todos nós) que podia suportar a perda e mesmo aceitar aquela grande reversão com esportividade. Já disse
que ele tinha algo de criança mimada, de modo que tal gesto poderia fazer parte de seu caráter.
Enfim, era como um inofensivo cãozinho. Só que, cãezinhos também agridem quando provocados. Não são matadores - um filhote não saltará para a garganta do
adversário, mas muita gente já levou pontos nos dedos, por irritar um cãozinho além das medidas, com um chinelo ou um osso de borracha. Da maneira como me lembro
de Davidson, isto também devia ser parte de seu caráter.
"Eu daria, não sei como dizer, daria qualquer coisa para saber... mas acho que o único importante são os resultados.
"Quando Davidson afastou as mãos do bolo de apostas, Brower estendeu as suas para apanha-lo. Nesse instante, o rosto de Davidson iluminou-se com uma espécie
de rude simpatia e, pegando a mão de Brower em cima da mesa, sacudiu-a firmemente.
- Brilhante jogada, Henry, foi simplesmente brilhante. Acredito que nunca já tinha...
"Brower o interrompeu com um grito agudo, um grito feminino, que soou aterrador em meio ao silêncio da sala de jogos, enquanto puxava rapidamente a mão. Fichas
e dinheiro cascatearam por todos os lados, quando a mesa oscilou e quase emborcou.
"Ficamos todos imobilizados ante a súbita reviravolta dos fatos, incapazes de qualquer gesto. Brower afastou-se da mesa, cambaleando, com a mão estirada à
sua frente, parecendo uma versão masculina de Lady Macbeth. Estava pálido como um cadáver, e o espantoso terror em seu rosto está além de meu poder de descrição.
Senti um sacolejo de pavor me tomar por inteiro, algo como jamais sentira antes, nem mesmo ao me entregarem o telegrama com a notícia da morte de Rosalie.
"Então, ele começou a gemer. Era um som oco, terrível, enigmático. Recordo que pensei, Ora, o homem está totalmente louco; depois ele disse a coisa mais estranha:
"O interruptor... Deixei o interruptor do carro ligado... Oh, Deus, sinto tanto!" A seguir, Brower quase voou pelos degraus da escada que leva ao saguão principal.
"Fui o primeiro a refazer-me. Saltei de minha cadeira e corri atrás dele, deixando Baker, Wilden e Davidson sentados em torno da grande quantia de dinheiro
que Brower havia ganho. Eles pareciam estátuas incas entalhadas, guardando um tesouro tribal.
"A porta da fachada ainda oscilava de um lado para outro. Quando disparei para a rua, vi Brower em seguida, parado à beira da calçada e olhando inutilmente
por um táxi. Ao ver-me, ele se encolheu tão miseravelmente, que não pude deixar de sentir pena, mesclado de espanto.
- Ei! - chamei. - Espere! Lamento o que Davidson fez e posso garantir que não foi proposital. Enfim, se você quer ir embora por causa daquilo, tem todo o
direito, mas deixou muito dinheiro para trás e deve leva-lo.
- Eu nunca devia ter vindo - resmungou ele. - Contudo, estava tão desesperado, tão necessitado de companhia humana que... que...
"Sem refletir, estirei a mão para toca-lo - o gesto mais elementar de um ser humano para outro que esteja angustiado - mas Brower recuou, exclamando:
- Não me toque! Um não é o bastante? Oh, Deus, porque eu simplesmente não morro?
"De repente, seus olhos se iluminaram como que febricitantes, ao avistar um vira-lata esquelético, de pelo coçado e ralo, que procurava alcançar a calçada
do outro lado da rua deserta, àquela hora da madrugada. A língua do animal pendia para fora da boca e ele caminhava apoiando-se cautelosamente em apenas três pernas.
Imagino que estivesse em busca de latas de lixo onde alimentar-se.
- Aquele lá podia ser eu - disse Brower pensativamente, como se para si mesmo. - Rejeitado por todos, forçado a seguir sozinho e aventurar-se apenas quando
qualquer outra criatura viva está em segurança, atrás de portas trancadas. Cão pária!
- Ora, vamos - falei, algo consternado, porque suas palavras tinham um toque de melodramático. - Você certamente sofreu algum choque e, sem dúvida, aconteceu
algo que deixou seus nervos em mau estado, mas quando estive na Guerra, vi mil coisas que...
- Não acredita em mim, não é mesmo? - exclamou ele. - Pensa que estou tomado por algum tipo de histeria, não é?
- Escute, amigo, realmente não sei por que está tomado, mas sei que se continuarmos aqui fora, neste ar úmido da noite, ambos pegaremos uma gripe. Enfim,
se não se importa em voltar para dentro comigo - pelo menos até o saguão, se quiser - eu pedirei a Stevens para...
"Os olhos dele estavam alucinados o bastante para que eu ficasse francamente inquieto.
Naquelas pupilas não restara qualquer sombra de lucidez e ele me fez recordar os psicóticos com fadiga de combate, que vira serem removidos da linha de frente
em carroças: invólucros de homens, com terríveis olhos apáticos, parecendo vigias para o inferno, murmurando e tremendo.
- Gostaria de ver como um proscrito reage a outro? - perguntou ele, como se não tivesse ouvido uma palavra do que eu dissera. - Pois dê uma espiado e veja
o que aprendi em portos de escala estrangeiros!
De repente, ele levantou a voz e chamou, imperiosamente:
- Cão!
"O cão ergueu a cabeça, olhou para ele desconfiado, os olhos girando (um cintilou com furiosa selvageria; o outro estava coberto por uma catarata), e subitamente
mudou de direção e se aproximou coxeando, relutante, enquanto cruzava a rua ao encontro de Brower.
"Ele não queria vir, isso era bastante óbvio. Ganiu, rosnou e enfiou entre as pernas a corda ensebada que era sua cauda. Entretanto, acabou vindo. Foi direto
aos pés de Brower e então se deitou sobre o ventre, ganindo, encolhendo-se e tremendo. Seus lados emaciados afundavam e expandiam-se como um fole e seu olho sadio
girava horrivelmente na órbita.
"Brower deu uma hedionda e desesperada gargalhada, que ainda ouço em meus sonhos, e agachou-se junto ao cão.
- Está vendo? - disse. - Ele me conhece como um de sua espécie... e sabe o que lhe trago!
"Brower estendeu a mão para o animal, que deixou escapar um lúgubre e rosnado uivo, depois mostrando os dentes.
- Não! - exclamei prontamente. - Ele vai mordê-lo!
"Brower não ligou. À claridade do poste de luz, seu rosto estava lívido, medonho, os olhos eram como buracos negros, carbonizados.
- Tolice - respondeu. - Tolice. Só quero apertar mãos com ele... como fez seu amigo comigo!
"De repente, ele ergueu a pata do cão e a apertou. O animal emitiu um horrível ruído uivante, porém não fez qualquer gesto para mordê-lo.
"Brower levantou-se abruptamente. Seus olhos pareciam ter clareado de algum modo e, a não ser pela excessiva palidez, poderia ter sido novamente o homem que,
da maneira mais cortês possível, oferecera-se para participar de nosso jogo, nas primeiras horas da noite.
- Vou embora agora - disse, em voz quieta. - Por favor, desculpe-me com seus amigos, diga a eles que sinto muito ter agido como um tolo. Talvez tenha oportunidade
para... redimir-se, em outra ocasião.
- Nós é que lhe devemos uma desculpa - falei. - E esqueceu o dinheiro? Passa de mil dólares.
- Oh, sim! O dinheiro! - exclamou ele, enquanto a boca se curvava no sorriso mais amargo que já testemunhei.
- Não precisa vir até o saguão - falei. - Se prometer ficar esperando aqui, eu lhe trarei o dinheiro. Fará isso?
- Claro - respondeu ele. - Esperarei, se é o seu desejo. - Ele fitou pensativamente o cão que gania aos seus pés. - Talvez ele queira ir comigo e ter uma
refeição decente, por uma vez em sua vida miserável...
"Brower tornou a exibir aquele sorriso amargo. Afastei-me antes que ele mudasse de idéia e fui ao andar de baixo. Alguém, talvez Jack Wilden, que sempre fora
uma pessoa metódica, trocara todas as fichas por notas e empilhara o dinheiro cuidadosamente, no centro do pano verde. Nenhum deles falou, quando apanhei o dinheiro.
Baker e Jack Wilden fumavam em silêncio; Jason Davidson estava cabisbaixo, fitando os pés. Seu rosto era um quadro de desgosto e vergonha. Toquei-lhe o ombro ao
voltar para a escada e ele me olhou com gratidão.
"Quando voltei à rua, encontrei-a absolutamente deserta. Brower já se fora. Fiquei lá, com um punhado de notas esverdeadas em cada mão, olhando inutilmente
para os dois extremos da rua, mas nada se moveu. Chamei uma vez, para o caso dele estar parado nas sombras, perto dali, mas não houve resposta. Então, olhei casualmente
para baixo. O vira-lata continuava ali, mas seus dias de vistoriar latas de lixo haviam terminado.
Estava morto. Pulgas e carrapatos abandonavam seu corpo, em colunas que marchavam.
Recuei, repugnado, mas também cheio de um estranho, fantástico terror. Tive o pressentimento de que Henry Brower ainda não saíra de minha vida, e assim foi,
embora nunca mais voltasse a vê-lo.
O fogo na lareira havia morrido para pequenas e frágeis chamas, enquanto o frio começava a esgueirar-se das sombras, porém ninguém se moveu nem falou, até
George tornar a acender seu cachimbo. Ele suspirou, cruzou as pernas de novo, fazendo as velhas juntas estalarem, e recomeçou a falar.
- Nem preciso dizer que os outros participantes do jogo foram unânimes quanto a devermos encontrar Brower e entregar-lhe o dinheiro. Penso que alguns talvez
nos julgassem insanos por agirmos assim, mas aquela era uma época de mais honorabilidade. Davidson estava muito abatido, quando foi embora; tentei chamá-lo a um
lado e oferecer-lhe algumas palavras de consolo, mas ele apenas abanou a cabeça e saiu, arrastando os pés. Deixei que se fosse. As coisas lhe pareceriam diferentes,
após uma noite de sono, e iríamos procurar Brower, juntos. Wilden precisava sair da cidade e Baker tinha que fazer algumas "excursões sociais". Pensei que seria
uma boa forma de Davidson recuperar parte do amor próprio.
"Entretanto, ao voltar ao seu apartamento, na manhã seguinte, ele ainda não se levantara. Eu poderia tê-lo acordado, mas Davidson era um homem jovem e resolvi
deixá-lo passar a manhã dormindo, enquanto eu descobria alguns fatos elementares.
"Vim aqui, antes de mais nada, e conversei com Stevens...
George se virou para Stevens e ergueu uma sobrancelha.
- Com meu avó, senhor - disse Stevens.
- Obrigado.
- Não tem de que, senhor.
- Conversei com o avô de Stevens. Falei com ele no lugar exato em que Stevens se encontra agora, para ser verdadeiro. Ele disse que Raymond Greer, um sujeito
a quem eu conhecia de vista, havia falado sobre Brower. Greer fazia parte da comissão mercantil da cidade e fui imediatamente a seu escritório, no Edifício Flatiron.
Encontrei-o lá e ele veio falar comigo em seguida.
Quando lhe contei o sucedido na noite anterior, seu rosto se encheu de uma mescla de piedade, tristeza e medo.
- O pobre e velho Henry! - exclamou. - Eu sabia que isso acabaria acontecendo, porém nunca pensei que fosse tão depressa.
- De que está falando? - perguntei.
- De seu colapso - disse Greer. - Tudo começou a partir daquele ano passado em Bombaim e suponho que ninguém jamais saberá de toda a história, além do próprio
Henry. De qualquer modo, eu lhe contarei o que puder.
"A história que Greer desenrolou para mim aquele dia, em seu escritório, só aumentou minha simpatia e compreensão. Tudo indicava que, infelizmente, Henry
Brower se vira envolvido em verdadeira tragédia. E, como em todas as clássicas tragédias do palco, ela nasceu de um descuido fatal - no caso de Brower, do esquecimento.
"Como membro do grupo de comissão mercantil em Bombaim, ele desfrutava do uso de um automóvel, uma real raridade no lugar. Greer comentou que Brower sentia
um prazer quase infantil em dirigi-lo através das ruas estreitas e becos da cidade, assustando galinhas em enormes bandos cacarejantes e fazendo com que homens e
mulheres caíssem de joelhos, apelando para seus deuses pagãos. Ele rodava com aquele carro por todo canto, atraindo grande atenção e compactas multidões de crianças
maltrapilhas, que o seguiam mas sempre recuavam timidamente ao lhes ser oferecida uma carona naquela máquina maravilhosa, o que ele constantemente fazia. O automóvel
era um Ford Modelo-A, com carroceria de caminhão, um dos primeiros veículos a dar partida ao motor, não somente através de uma manivela, porém ao toque de um botão.
Peço-lhes que se lembrem disto.
"Certo dia, Brower partiu com seu carro para um lugar muito afastado da cidade, um dos altos poobatrs locais, esperando conseguir possíveis consignações de
corda de juta.
Atraiu a atenção costumeira, quando a máquina Tórd trovejava e espoucava através das ruas, soando como uma barragem de artilharia em movimento - e, naturalmente,
as crianças o seguiram.
"Brower jantaria com o fabricante de juta, uma ocasião de grande cerimônia e formalidade. Mal haviam chegado ao segundo prato, sentados em um terraço ao ar
livre, acima da rua movimentada, quando o familiar tiroteio, o rugido tossido do automóvel soou abaixo deles, acompanhados por gritos e guinchos estridentes.
"Um dos garotos mais audaciosos - filho de um obscuro homem santo tinha-se esgueirado para o interior do carro, convencido de que fosse qual fosse o dragão
escondido debaixo do capô de ferro, não despertaria sem o homem branco sentado atrás do volante. E Brower, preocupado com as próximas negociações, deixara o interruptor
ligado e a faísca retardada.
"Pode-se imaginar o garoto ganhando audácia ante os olhos dos companheiros, enquanto tocava o espelho, segurava o volante e emitia o ruído do motor em movimento.
A cada vez que ele zombava do dragão debaixo do capô, deve ter aumentado o temor respeitoso no rosto dos outros.
"Seu pé deve ter pisado no pedal da embreagem, talvez em busca de apoio, quando ele apertou o botão de partida. O motor estava quente, deve ter dado sinal
de vida prontamente. Em seu extremo terror, o menino talvez reagisse afastando imediatamente o pé da embreagem, pronto para pular do automóvel. Se o carro fosse
mais velho ou estivesse em piores condições, o motor teria morrido. Contudo, Brower cuidava dele escrupulosamente. de maneira que o carro saltou para diante, em
uma série de arremetidas e ruidosos sacolejos. Brower mal chegou em tempo de ver isto, ao correr para fora da casa do fabricante de juta.
"O engano fatal do menino poderia ter resultado em pouco mais do que um acidente.
Talvez, em sua movimentação para sair, um cotovelo tenha esbarrado acidentalmente no acelerador de mão. Ou talvez ele o houvesse puxado, com a apavorada esperança
de ser assim que o homem branco asfixiava o dragão, pondo-o para dormir. Seja como for... aconteceu. O carro ganhou uma velocidade suicida e arremeteu pela rua congestionada
e cheia de gente, saltando sobre trouxas e fardos, esmagando as gaiolas de vime do mascate de animais, estraçalhando uma carroça de flores até deixá-la em pedaços.
O automóvel rugiu ladeira abaixo, em direção à esquina da rua, saltou para cima da calçada, chocou-se contra um muro de pedras e explodiu em uma bola de fogo.
George fez o cachimbo deslizar de um lado da boca para o outro.
- Foi tudo quanto Greer me contou, porque Brower nada mais lhe havia dito que fizesse sentido. O restante foi uma espécie de confusa arenga sobre a loucura
de suas culturas tão díspares, que jamais se mesclavam. Evidentemente, o pai do menino morto enfrentou Brower, antes que este fosse chamado de volta, e atirou nele
uma galinha estrangulada. Houve uma praga...
"Neste ponto, Greer sorriu para mim. Seu sorriso dizia que ambos éramos homens do mundo. Acendendo um cigarro, ele comentou:
- Sempre há uma praga, quando acontece uma coisa deste tipo. Os pagãos miseráveis precisam manter as aparências a todo custo. Trata-se do seu ganha pão.
- Qual foi a praga? - perguntei.
- Pensei que adivinharia - disse Greer. - O wallait disse a ele que, quando um homem faz feitiçaria contra uma criança, deveria tornar-se um pária, um proscrito.
Então, afirmou a Brower que qualquer coisa tocada por ele com as mãos, morreria. Para sempre e eternamente, amém - finalizou Greer, com uma risadinha abafada.
- Bower acreditou nisso?
"Greer achava que sim.
- Lembre-se de que ele havia sofrido um choque terrível. E agora, pelo que consta, sua obsessão aumentou, em vez de acabar.
- Poderia dar-me seu endreço?
"Greer verificou em seus arquivos e finalmente o encontrou.
- Não garanto que o encontre aí - disse. - As pessoas sentem uma relutância natural em empregá-lo e, que eu saiba, ele não anda muito bem de dinheiro.
"Senti uma onda de culpa ao ouvir isto, porém nada falei. Greer parecia um pouco bombástico e presunçoso para meu gosto, não merecendo a menor informação
que eu tivesse sobre Henry Brower. Entretanto, ao levantar-me, algo me impeliu a dizer:
- Vi Brower apertar as patas de um vira-lata esta noite. Quinze minutos depois, o cão estava morto.
- É mesmo? Que interessante!
"Ele ergueu as sobrancelhas, como se o comentário nada tivesse a ver com o que havíamos discutido. Eu me dispus a sair e ia apertar a mão de Greer, quando
a secretária abriu a porta de seu gabinete.
- Perdão, mas o senhor é o Sr. Gregson?
"Respondi que era.
- Um homem chamado Baker acabou de telefonar. Pediu-lhe que vá ao número vinte e três da Rua 19, imediatamente.
"Aquilo me deixou assustado, porque já estivera nesse endereço uma vez nesse dia - era onde morava Jason Davidson. Quando deixei o gabinete de Greer, ele
acabava de retornar a seu cachimbo e ao The Wall Street Journal. Nunca mais tornei a vê-lo e isso não significou qualquer perda para mim. Naquele momento, eu me
sentia tomado por um medo muito específico - do tipo que jamais se cristaliza inteiramente em um medo real, com um objeto fixo, porque é demasiado terrível, inacreditável
demais, para ser levado em consideração.
Aqui, eu lhe interrompi a narrativa. - Pelo amor de Deus, George! Não vai nos dizer que ele estava morto?
- Foi exatamente o que aconteceu - replicou George. - Cheguei quase na mesma hora em que a perícia policial. Sua morte foi registrada como uma trombose coronária.
Faltavam dezesseis dias para ele completar vinte e três anos.
"Nos dias que se seguiram, tentei convencer-me de que tudo havia sido uma perversa coincidência, que seria melhor esquecer. Não pude dormir bem, inclusive
com a ajuda de meu bom amigo "Sr. Cutty Sark". Dizia a mim mesmo que a coisa a fazer seria dividir o bolo de apostas da noite anterior entre nós três e esquecermos
que Henry Brower um dia cruzara nossas vidas. Contudo, era impossível.
Assim, preferi encher um cheque com aquela soma e fui ao endereço fornecido por Greer, que ficava no Harlem.
"Ele não morava mais lá. Seu novo endereço era no East Side, em um bairro ligeiramente pior, embora de respeitáveis prédios com fachada em arenito pardo.
Brower deixara aqueles alojamentos um mês antes do jogo de pôquer e agora vivia no East Village, uma área de edifícios arruinados.
"O zelador do prédio, um homem esquelético com um enorme mastim negro rosnando em seus joelhos, informou que Brower se mudara a três de abril - um dia após
o nosso jogo. Solicitei seu novo endereço. Ele jogou a cabeça para trás e emitiu um ruído chiado que, aparentemente, funcionava como gargalhada.
- O único endereço que eles dão quando saem daqui, é o inferno, chefe. Enfim, algumas vezes fazem uma parada no Bowery, a caminho de lá.
"Naquela época, o Bowery era o que, hoje, só acreditam ser os que moram fora da cidade; moradia dos sem-lar, a última parada para os homens sem rosto que
só se preocupam com outra garrafa de vinho barato ou outra pitada do pó branco que prova longos sonhos. Fui lá. Naqueles dias, havia dúzias de casas de cômodos,
algumas missões benevolentes que aceitavam bêbados para pernoite e centenas de becos onde um homem poderia esconder um velho colchão, pululando de piolhos. Vi punhados
de homens, todos eles pouco mais do que meros envoltórios, decorados pela bebida e pelas drogas. Nomes não eram conhecidos nem usados. Quando um homem afunda ao
nível de um porão derradeiro, com o fígado apodrecido pelo álcool de madeira, o nariz uma ferida aberta e purulenta pelo cheirar constante de cocaína e potassa,
os dedos ulcerados pelo frio, dentes apodrecidos até se tornarem tocos enegrecidos - um homem não precisa mais de nome. Contudo, descrevi Henry Brower a todos os
homens que vi, sem obter resposta.
Balconistas de bar abanavam a cabeça e davam de ombros. Os outros apenas olhavam para o chão e continuavam andando.
"Não o encontrei naquele dia, no seguinte, nem no outro. Duas semanas passaram e então falei a um homem que me informou sobre um indivíduo semelhante haver
estado nos Quartos Devarney's, três noites antes.
"Fui até lá; ficava apenas a dois quarteirões da área que eu estava cobrindo. O homem na portaria era um ancião enrugado, com uma calva soltando peles, olhos
purulentos e brilhantes. Os quartos para alugar eram anunciados na vidraça suja pelas moscas em uma janela dando para a rua, a um dime por noite. Repeti-lhe minha
descrição de Brower, com o velho assentindo o tempo todo. Quando terminei, ele disse:
- Eu o conheço, meu jovem. Conheço-o bem. Contudo, não consigo recordar bem... Minha memória fica bem mais lúcida quando vejo um dólar.
"Dei-lhe um dólar, que ele fez desaparecer rapidamente, apesar de sua artrite.
- Ele esteve aqui, meu jovem, mas já se foi.
- Sabe para onde?
- Não me lembro bem - disse o velho - mas creio que minha cabeça ficaria melhor, se eu visse um dólar.
"Dei-lhe uma segunda nota, que desapareceu tão prontamente como a primeira. A esta altura, algo pareceu ocorrer-lhe como sendo francamente engraçado, de maneira
que uma tosse rangente e tubercular lhe saiu do peito.
- Já teve sua diversão - falei - e foi muito bem paga. Agora, quero que me diga: sabe onde este homem se encontra?
"O velho tornou a rir deliciadamente.
- Sim, a vala dos indigentes é sua nova residência; seu contrato de aluguel tem duração da eternidade e o Diabo é seu companheiro de quarto. Como pode gostar
desses tipos, meu jovem? Ele deve ter morrido a qualquer hora da manhã de ontem, porque quando o encontrei, ao meio-dia, ainda estava morno e tinha cores. Sentado
empertigado junto à janela, era bem como estava. Fui até lá, para cobrar seu dime por mais uma noite ou mostrar-lhe a porta da rua. Quando acaba, a cidade é que
lhe mostrou sete palmos de terra.
"Isto provocou-lhe outro acesso desagradável de alegria senil.
- Havia alguma coisa fora do comum? - indaguei, sem ousar refletir bem na importância da pergunta. - Algo anormal?
- Acho que me lembro de qualquer coisa assim... Vejamos...
"Dei-lhe mais um dólar para avisar sua memória, mas desta vez o dinheiro não causou hilaridade, embora sumindo à mesma velocidade anterior.
- Sim, passou-se algo muito estranho - afirmou o velho. - Já tenho chamado os tiras vezes suficientes para saber disso. Sagrado Coração de Jesus, como precisei
chamá-los!
Já encontrei esses sujeitos pendurados da bandeira da porta, encontrei-os mortos na cama, encontrei-os do lado de fora, na escada de incêndio, em janeiro,
com uma garrafa entre os joelhos congelados e tão azuis como o Atlântico. Cheguei a encontrar um que se afogara na pia, embora tenha sido há uns trinta anos. Só
que este de agora - sentado empertigado, com seu terno marrom, parecendo um endinheirado da cidade, os cabelos bem penteados... Bem, ele segurava o pulso direito
com a mão esquerda, segurava sim. Já vi de todas as espécies, porém ele foi o único que vi se cumprimentando, apertando a própria mão.
"Saí dali e caminhei todo o trajeto até as docas, enquanto as últimas palavras do velho pareciam girar e girar em meu cérebro, como um disco, engasgado em
um único sulco.
Ele foi o único que vi apertando a própria mão.
"Andei até o final de um dos embarcadouros, lá onde a água cinzenta e terrosa lambe os pilares incrustados. Então, piquei aquele cheque em mil pedacinhos,
que atirei à água.
George Gregson remexeu-se na cadeira e pigarreou. O fogo se extinguira, restando apenas brasas relutantes, enquanto o frio se esgueirava para o interior da
deserta sala de jogos. As mesas e cadeiras pareciam espectrais e irreais, como móveis vislumbrados em um sonho, onde passado e presente se fundiam. As chamas destacaram
as letras entalhadas na platibanda da lareira, com fosca luminosidade alaranjada: É A HISTÓRIA, NÃO QUEM A CONTA.
- Eu só o vira uma vez, mas foi o suficiente, porque nunca mais o esqueci. Contudo, serviu para que encerrasse meu próprio período de carpir, pois qualquer
homem que pode caminhar entre seus semelhantes, não se encontra inteiramente só.
"Se trouxer meu casaco, Stevens, acho que vou caminhando até em casa - há muito passou da minha hora de ir para a cama.
Quando Stevens lhe trouxe o casaco, George sorriu e apontou para a pequena verruga, logo abaixo do canto esquerdo da boca do mordomo.
- Francamente, a semelhança é mesmo notável - seu avô tinha uma verruga nesse exato lugar.
Stevens sorriu e nada disse. George saiu. Nós, os restantes, fomos saindo logo depois dele.

* * *



O MACACO

Quando Hal Shelburn o viu, no instante em que seu filho Dennis o tirou de uma caixa de papelão que contivera ração para cães Ralston-Purina e havia sido empurrada
para o canto mais distante, debaixo do beiral do sótão, ficou tomado por tal sensação de horror e medo que, por um momento, julgou-se prestes a gritar. Colocou um
punho sobre a boca, como para reter o grito... e então apenas tossiu sobre o punho. Terry e Dennis nada haviam percebido, mas Petey olhou em torno, momentaneamente
curioso.
- Que barato! - exclamou Dennis, em tom respeitoso.
O próprio Hal raramente agora recebia o mesmo tom da parte do filho. Dennis já estava com doze anos.
- O que é isso? - perguntou Petey. Olhou novamente para o pai, antes de voltar os olhos para a coisa que o irmão mais velho havia descoberto. - O que é isso,
papai?
- É um macaco, miolo-mole - disse Dennis. - Será que nunca viu um macaco antes?
- Não chame seu irmão de miolo-mole - disse Terry automaticamente, começando a examinar uma caixa cheia de cortinas. As cortinas estavam escorregadias de
bolor, e ela as largou bruscamente. - Irrk!
- Posso ficar com ele, papai? - perguntou Petey.
Petey tinha nove anos.
- Ei, de que está falando? - exclamou Dennis. - Eu o achei!
- Meninos, por favor - disse Terry. - Estou ficando com dor de cabeça!
Hal parecia não ouvi-los. O macaco cintilou para ele, das mãos de seu filho mais velho, exibindo-lhe o velho e familiar sorriso. O mesmo sorriso que assombrara
seus pesadelos em criança, assombrando-os a tal ponto, que tivera de...
Lá fora, levantou-se uma fria rajada de vento e, por um instante, lábios sem carne alguma sopraram uma prolongada nota, através da velha e enferrujada calha
externa.
Petey chegou mais para perto do pai, os olhos movendo-se inquietamente pelo rústico teto do sótão, através do qual salientavam-se cabeças de pregos.
- O que foi isso, papai? - perguntou, quando o assobio morreu para um zumbido gutural.
- Apenas o vento - respondeu Hal, ainda olhando para o macaco. Seus címbalos, crescentes de latão, em vez de círculos completos, à luminosidade mortiça da
única lâmpada nua, permaneciam imóveis, talvez a trinta centímetros de distância, e ele acrescentou, automaticamente: - O vento pode assobiar, mas não consegue cantar.
Percebeu então que repetia uma frase do Tio Will e sentiu-se arrepiar. A nota repetiu-se, o vento procedendo do Lago Cristal, em prolongada e tonitroante
investida, para então tremular na calha. Meia dúzia de pequenas rajadas lançaram o frio ar de outubro no rosto de Hal - Céus, aquele lugar era tão semelhante ao
armário dos fundos, na casa em Hartfold, que todos poderiam ter sido transportados trinta anos atrás no tempo.
Não quero pensar nisso.
Só que agora, naturalmente, era tudo em que ele podia pensar.
No armário dos fundos, onde encontrei esse maldito macaco, naquela mesma caixa.
Terry se distanciara, a fim de examinar um caixote cheio de bugigangas, caminhando agachada, porque a inclinação do beiral era muito acentuada.
- Não gosto dele - disse Petey, e procurou a mão de Hal. - Dennis que fique com ele, se quiser. Podemos ir embora, papai?
- Está com medo de fantasmas, seu galinha morta? - perguntou Dennis.
- Dennis, pare com isso! - exclamou Terry, com ar ausente. Apanhou uma xícara de transparente porcelana, com um motivo chinês. - Que linda! Que...
Hal viu que Dennis encontrara a chave de dar corda, nas costas do macaco. O terror voou através dele, em asas soturnas.
- Não faça isso!
A frase lhe saiu mais brusca do que pretendia e já arrancara o macaco das mãos de Dennis, antes de realmente ter consciência do que fazia. Dennis olhou em
torno, espantado. Terry também havia olhado por sobre o ombro, enquanto Petey erguia o rosto para o pai. Durante um momento, ficaram todos em silêncio, e o vento
tornou a assobiar, em tom muito grave desta vez, como um desagradável convite.
- Quero dizer, provavelmente a corda está quebrada - disse Hal.
Ela costumava estar quebrada... exceto quando não queria estar.
- Bem, não precisava arrancá-lo da minha mão - disse Dennis.
- Cale a boca, Dennis!
Dennis pestanejou e, por um instante, pareceu quase nervoso. Há muito tempo que o pai não lhe falava naquele tom. Não, desde que perdera o emprego na National
Aerodyne, na Califórnia, dois anos antes, e se tinham mudado para o Texas. Dennis resolveu não insistir... por enquanto. Virou-se para a caixa de ração para cães
e começou a esmiuçá-la novamente, mas o resto de seu conteúdo era pura quinquilharia. Brinquedos quebrados, sangrando molas e recheios.
O vento agora ficara mais alto, ululando, em vez de assobiar. O sótão começou a estalar maciamente, produzindo um ruído semelhante ao de pisadas.
- Vamos, papai? - pediu Petey, alto apenas para que o pai o ouvisse.
- Certo - disse Hal. - Vamos embora Terry.
- Ainda não acabei com isto...
- Eu disse para irmos.
Foi a vez dela se voltar, para fitá-lo com espanto.
Eles haviam tomado dois quartos vizinhos em um motel. Às dez daquela noite, os meninos dormiam em seu quarto e Terry dormia no outro. Ela tomara dois Valiums,
no trajeto de volta de casa, em Casco. Para evitar que os nervos a deixassem com enxaqueca. Ultimamente, ela vinha tomando um bocado de Valium. Tudo começara mais
ou menos na época em que a National Aerodyne havia despedido Hal. Nos dois últimos anos ele vinha trabalhando para a Texas Instrumento - o que significava 4.000
dólares anuais a menos, mas era um emprego. Ele disse a Terry que estavam com sorte.
Ela concordou. Havia muitos arquitetos, desenhistas de software, desempregados, explicara Hal. Ela concordou. A firma em Arnette era tão boa quanto a de Fresno,
disse ele. Ela concordou, mas Hal pensou que a concordância de Terry a tudo era uma mentira.
Além do mais, estava perdendo Dennis. Podia sentir que o menino se distanciava, alcançando uma prematura velocidade de fuga. Até logo, Dennis, adeus, estranho,
foi bom estar no mesmo trem com você. Terry achava que o menino andava fumando maconha, porque algumas vezes tinha sentido o cheiro. Você precisa falar com ele.
Hal.
E ele concordara, só que até então não tinha falado.
Os meninos dormiam. Terry dormia. Hal foi para o banheiro, trancou a porta, sentou-se sobre a tampa fechada da privada e olhou para o macaco.
Odiava a sensação que ele dava a seu tato, com aquele macio pêlo espesso e castanho, já careca em alguns pontos. Odiava seu sorriso - esse macaco sorri igualzinho
a um negro, havia dito Tio Will certa vez, mas ele não sorria como um negro ou qualquer coisa humana. Seu sorriso era todo dentes, e quando se dava a corda, os lábios
mexiam, os dentes pareciam maiores, tornavam-se dentes de vampiro, os lábios repuxavam-se e os címbalos tocavam, macaco idiota, estúpido macaco de corda, estúpido,
estúpido...
Deixou-o cair. Suas mãos tremiam e o deixaram cair.
A chave da corda produziu um estalido no banheiro ladrilhado, ao bater contra o chão.
O som pareceu muito alto, em meio à quietude. O macaco sorria para ele, com seus densos olhos ambarinos, olhos de boneca, repletos de um brilho idiota, seus
címbalos de latão como que prestes a atacar uma marcha, para alguma banda do inferno. No fundo, estavam inscritas as palavras MADE IN HONG KONG.
- Você não pode estar aqui - sussurrou Hal. - Eu o joguei no fundo do poço, quando tinha nove anos.
O macaco sorriu para ele.
Lá fora, na noite, uma soturna rajada de vento sacudiu o motel.
Bill, irmão de Hal, foi encontrá-los com sua esposa Collete, em casa do Tio Will e Tia Ida, no dia seguinte.
- Já lhe passou pela cabeça que uma morte na família é, de fato, uma terrível maneira de renovar-se um parentesco? - perguntou Bill, com um leve sorriso.
Havia recebido esse nome em homenagem ao Tio Will. Will e Bill, campeões do rodeyo, costumava dizer o Tio Will, desmanchando os cabelos de Bill. Aquele era
um de seus ditos... como o de que o vento pode assobiar, mas não consegue cantar. Tio Will falecera seis anos antes, e Tia Ida ficara morando ali, sozinha, até que
um ataque cardíaco a levara, justamente na semana anterior. Uma morte súbita, havia dito Bill, ao dar a notícia a Hal, em um telefonema interurbano. Como se ele
pudesse saber; como se alguém pudesse saber... Ela morrera sozinha.
- Hã-hã - respondeu Hal. - Já me passou pela cabeça.
Olharam juntos para a casa, o lar onde haviam terminado de crescer. O pai de ambos, um marujo mercante, simplesmente desaparecera quando eles eram pequeninos,
como que da própria face da terra. Bill alegava recordar-se vagamente do pai, porém Hal não tinha a menor lembrança dele. A mãe morrera quando Bill tinha dez anos
e Hal oito.
Então, Tia Ida os trouxera para ali, em um ônibus Greyhound que partia de Hartford. E ali haviam sido criados, dali tinham ido para a universidade. Aquele
havia sido o lar do qual sentiam saudades. Bill continuara no Maine e agora tinha uma próspera banca de advocacia em Portland.
Hal viu que Petey vagava na direção do emaranhado de amoras-pretas, que ficava no lado leste da casa, em louca profusão.
- Fique longe daí, Petey! - gritou.
Petey olhou para trás, questionante. Hal sentiu-se invadir por uma onda de puro amor pelo menino... e, de repente, tornou a pensar no macaco.
- Por que, papai?
- O velho poço fica por aí, em algum lugar - Bill disse. - O curioso é que nem me lembro de onde. Seu pai tem razão, Petey - é um bom lugar para se ficar
longe dele. Os espinheiros farão um belo trabalho em você. Não é mesmo, Hal?
- Correto - disse Hal, automaticamente.
Petey afastou-se, sem olhar para trás, começando a descer a rampa que ia dar na pequena faixa de praia, onde Dennis atirava pedras sobre a água. Hal sentiu
que algo em seu peito afrouxava-se um pouco.
Bill podia ter esquecido a localização do velho poço, mas quando a tarde ia avançada, Hal o encontrou sem vacilar, abrindo caminho com os ombros entre a galharia
que rasgou seu velho blusão de flanela e que lhe procurava os olhos. Chegou ao poço e ficou perto dele, respirando forte, olhando para as tábuas empenadas e apodrecidas
que o cobriam. Após um momento de debate, ajoelhou-se (seus joelhos dispararam tiros gêmeos de pistola) e moveu duas tábuas para um lado.
Do fundo daquela garganta molhada e forrada de pedras, um rosto afogado olhou para ele, com olhos esbugalhados, a boca careteando. Um gemido escapou de sua
boca. Um gemido alto, apenas no coração, onde quase se tornava um grito.
Era o seu próprio rosto, na água escura do poço.
Não o do macaco. Por um momento, Hal pensou que fosse o do macaco.
Estava trêmulo. Todo o seu corpo tremia.
- Eu o joguei dentro do poço. Eu o joguei dentro do poço, por favor, Deus, não me deixe, fui louco, eu o joguei dentro do poço.
O poço havia secado no verão em que Johnny McCabe morrera, um ano depois que Bill e Hal tinham vindo morar com Tio Will e Tia Ida. Tio Will fizera um empréstimo
no banco para mandar perfurar um poço artesiano, de maneira que as amoras-pretas vicejaram desordenamente em torno do buraco do velho poço. O poço seco.
Exceto que a água voltara. Como o macaco.
Desta vez, a recordação não podia ser negada. Hal sentou-se ali, impotente, deixando a memória falar, tentando lidar com ela, controlá-la como um surfista,
ao cavalgar uma onda mostro que o esmagará, se ele cair fora da prancha, apenas tentando atravessá-la, para que ela fosse embora outra vez.
Ele se esgueirara até ali com o macaco, no final daquele verão, com as amoras-pretas em plena maturação, desprendendo um cheiro forte e enjoativo. Ninguém
ia lá para colhê-las, embora a Tia Ida às vezes chegasse até a orla das amoreiras, um verdadeiro matagal, e colhesse um punhado delas em seu avental. Junto ao poço,
as amoras-pretas tinham amadurecido e passado do ponto, algumas apodreciam, deixando fluir um líquido branco e grosso, como pus, enquanto os grilos cantavam alucinadamente,
na grama alta sob as amoreiras, soltando seu grito interminável: Riiiii ....
Os espinhos o feriram, produziram pontos de sangue em suas faces e braços nus. Ele não fez qualquer esforço para fugir às espetadelas. Estivera cego de terror
- tão cego, que por centímetros não tropeçara nas tábuas carcomidas que cobriam o poço, talvez por centímetros não despencando nove metros, até o fundo lodoso do
poço. Havia girado os braços para recuperar o equilíbrio, e mais espinhos lhe marcaram os braços. Essa lembrança é que o levara a chamar Petey de volta bruscamente.
Aquele era o dia em que Johnny McCabe morrera - seu melhor amigo. Johnny estivera subindo os degraus da escada de mão para a casa em cima da árvore, que havia
em seu quintal. Eles dois haviam passado muitas horas daquele verão lá em cima, brincando de pirata, avistando galeões de faz-de-conta no lago, preparando os canhões
para a ação, içando as velas auxiliares (o que quer que fossem elas), preparando-se para a abordagem.
Johnny subia para a casa da árvore, como havia feito mil vezes antes, quando o degrau logo abaixo do alçapão, no fundo da casa, escapara de sua mão. Ele despencara
nove metros até o solo, quebrara o pescoço e o macaco era o culpado disso, o macaco, o maldito e odioso macaco. Quando o telefone tocou, quando a boca de Tia Ida
se entreabriu formando um O de horror, enquanto sua amiga Milly, residente na estrada mais abaixo lhe dava a notícia, quando Tia Ida disse: "Venha até o alpendre,
Hal, tenho que lhe dar uma notícia ruim..." ele havia pensado, com repugnado horror, O macaco! O que foi que o macaco fez agora?
Não houvera reflexo de seu rosto, capturado no fundo do poço, no dia em que jogou o macaco lá dentro, apenas seixos e o fedor da lama molhada. Ele havia olhado
para o macaco, jazendo sobre a grama eriçada que crescia entre o labirinto das amoras-pretas, seus címbalos suspensos, os enormes dentes sorridentes, entre os lábios
alargados em ângulo, o pêlo faltando em faixas calvas e sarnentas, aqui e ali, seus olhos vidrados.
- Odeio você! - sibilou para o macaco.
Envolveu as mãos em torno daquele corpo odioso, sentindo o pêlo espesso ranger. O macaco lhe sorriu, quando o ergueu diante do rosto.
- Vamos! - ordenou, começando a chorar, pela primeira vez naquele dia. Sacudiu-o. Os címbalos suspensos retiniram baixinho. O macaco estragava tudo que era
bom. Tudo. - Vamos, toque-os! Toque-os!
O macaco apenas sorriu.
- Vamos, toque-os! - Sua voz elevou-se histericamente. - Bicho nojento, bicho nojento, comece a tocá-los! Estou ordenando! ORDENO DUAS VEZES!
Seus olhos castanho-amarelados. Seus enormes dentes sorridentes.
Ele o jogou então no fundo do poço, louco de dor e terror. Viu-o dar dois volteios enquanto caía, um acrobata simiano fazendo um truque, enquanto o sol brilhava
uma última vez naqueles címbalos. Ele caiu no fundo com um baque e isso deve ter feito seu mecanismo funcionar, porque repentinamente, os címbalos começaram a bater.
Suas batidas firmes, deliberadas e quase inaudíveis, chegaram até seus ouvidos, ecoando e ricocheteando na garganta de pedra do poço morto: jang jang jang jang...
Hal levou as duas mãos à boca e, por um momento, viu-o lá embaixo, talvez apenas com os olhos da imaginação... jazendo na lama, os olhos brilhando para o
pequeno círculo de seu rosto de menino a espiar pela borda do poço (como que marcando aquele rosto para sempre), lábios expandindo-se e contraindo-se em torno dos
dentes risonhos, os címbalos entrechocando-se, um engraçado macaco de corda.
Jang jang jang jang, quem é que está morto? Jang jang jang jang, é Johnny McCabe, caindo de olhos abertos, dando seu próprio salto acrobático, enquanto cai
através do luminoso ar das férias de verão, com o degrau solto ainda nas mãos, até bater no chão com um único e amargo baque, o sangue escorrendo de seu nariz, da
boca e dos olhos abertos? É Johnny. Hal? Ou é você?
Gemendo, Hal empurrou as tábuas sobre o buraco, com lascas de madeira penetrando em suas mãos, pouco se incomodando, só tomando consciência delas bem mais
tarde. E, ainda assim, continuava a ouvi-lo, mesmo através das tábuas, um som agora sufocado e talvez ainda pior por isso: o macaco estava lá embaixo, no escuro
forrado de pedras, batendo seus címbalos e contorcendo o corpo repulsivo, o som subindo, como sons ouvidos em um sonho.
Jang jang jang jang, quem está morto desta vez?
Lutando, ele abriu caminho através do matagal das amoras-pretas. Os espinhos traçaram novas linhas de sangue, o qual fluía vivamente por seu rosto, enquanto
as bardanas lhe aderiam às bainhas do jeans. Caiu uma vez ao comprido, as orelhas ainda retinindo, como se o som o seguisse. Tio Will o encontrou mais tarde na garagem,
soluçando e sentado em um pneu velho. O homem pensou que o menino chorava pelo amigo morto.
Claro que ele chorava por Johnny, mas também chorava no paroxismo do terror.
Hal atirara o macaco no fundo do poço, durante a tarde. Naquela noite, quando o crepúsculo intrometeu-se através de um brilhante manto de nevoeiro junto ao
solo, um carro que corria rápido demais para a reduzida visibilidade na estrada, atropelara o gato Manx da Tia Ida e seguira em frente. Havia tripas espalhadas por
toda parte. Bill vomitara, mas Hal apenas tinha virado o rosto, um rosto pálido e tenso, ouvindo os soluços da Tia Ida (a perda do gato, aliada à notícia sobre o
garoto McCabe, desencadeara nela um acesso de choro quase histérico, praticamente se passando umas duas horas, ante que o Tio Will conseguisse acalmá-la de todo),
como que a quilômetros de distância. No fundo de seu coração, boiava uma gélida e exultante alegria. Aquela não fora a sua vez. Tinha sido o gato Manx da Tia Ida,
não ele, nem seu irmão Bill ou o Tio Will (apenas dois campeões do rodayo). E agora o macaco se fora, estava no fundo do poço, e um velho gato Manx, com micuins
nos ouvidos, não era um preço muito alto a pagar. Se o macaco quisesse tocar seus címbalos infernais agora, que tocasse. Podia tocá-los e chocalhá-los para os besouros
e insetos rastejantes, as coisas escuras que moravam na goela soturna do poço. Ele apodreceria lá embaixo. Suas engrenagens, rodas e molas odientas enferrujariam
lá no fundo. O macaco morreria lá.
Na lama e escuridão. As aranhas lhe teceriam uma mortalha.
Contudo... ele voltara.
Lentamente, Hal tornou a cobrir o poço, justamente como havia feito naquele dia e, em seus ouvidos, ouviu o eco fantástico dos címbalos do macaco: Jang jang
jang jang, quem morreu, Hal? É Terry? Dennis? É Petey, Hal? Ele é o seu favorito, não é? Não é ele?
Jang jang jang...
- Largue isso!
Petey sobressaltou-se e deixou o macaco cair. Por um momento de pesadelo, Hal pensou que iria acontecer, que a queda ativaria o mecanismo e que os címbalos
começariam a tocar, a entrechocar-se.
- Papai, você me assustou.
- Desculpe. Eu só... não queria que você brincasse com isso.
Os outros tinham ido a um cinema e ele pensou que seria o primeiro a chegar ao motel.
Contudo, ficou mais tempo do que pretendia na casa que fora o seu lar; as velhas, odiosas memórias, pareciam mover-se em sua própria e eterna zona de tempo.
Terry estava sentada perto de Dennis, vendo Os montanheses Beierly. Ela fitava a velha e granulosa impressão com uma concentração fixa e estupidificada, que
falava de uma dosagem recente de Valium. Dennis lia uma revista de rock, como Culture Club na capa. Petey, sentado de penas cruzadas no carpete, manipulava o macaco.
- Isto não funciona, de jeito nenhum - disse Petey.
Então, está explicado por que Dennis o deixou ficar com o macaco, pensou Hal. Ficou envergonhado e irritado consigo mesmo. Sentia essa descontrolada hostilidade
contra Dennis cada vez com maior freqüência, porém, em resultado ficava humilhado e repugnado... impotente.
- Não - falou. - Está muito velho. Vou jogá-lo fora. Vamos, dê-me esse macaco.
Estendeu a mão. Parecendo perturbado, Petey entregou-lhe o brinquedo.
- Papai está ficando um perfeito esquizofrênico - disse Dennis para a mãe.
Hal havia cruzado o aposento, antes mesmo de perceber que o tinha feito, o macaco em uma das mãos, parecendo sorrir aprovadoramente. Segurando Dennis pela
camisa, arrancou-o da cadeira. Houve um som ronronado, quando uma costura se rasgou em alguma parte. Dennis ficou quase comicamente chocado. Sua revista Rock Wave
caiu ao chão.
- Ei!
- Você, venha aqui comigo - disse Hal severamente, empurrando o filho para a porta de comunicação entre os dois aposentos.
- Hal! - Terry quase gritou.
Petey apenas esbugalhou os olhos. Hal empurrou Dennis para o outro quarto, bateu a porta e então pressionou o garoto contra ela. Dennis começava a parecer
assustado.
- Você está ficando um problema com sua língua - disse Hal.
- Largue-me! Você rasgou minha camisa, você...
Hal tornou a apertar o garoto contra a porta.
- Sim, senhor - disse. - Um verdadeiro problema com essa língua. Aprendeu isso na escola? Ou lá nos fundos, onde os alunos fumam?
Dennis ficou vermelho, o rosto momentaneamente transtornado pela culpa.
- Eu não estaria naquela escola ordinária, se não tivessem posto você na rua! - explodiu ele.
Hal pressionou novamente o filho contra a porta.
- Eu não fui posto na rua, fui dispensado, como sabe muito bem, e dispenso suas piadinhas a respeito! Você está com problemas? Bem-vindo ao mundo, Dennis.
Apenas não jogue todos eles em cima de mim. Você está comento. Está com seu traseiro aquecido. Tem doze anos de idade e, com doze anos, eu não preciso... não preciso
de... de droga nenhuma sua! - Hal pontuava cada frase com safanões para diante, até os narizes de ambos quase se tocarem. Então empurrou o garoto, batendo-o contra
a porta.
Hal não o empurrava com dureza suficiente para machuar, mas Dennis estava assustado - seu pai não lhe batera desde que tinham vindo para o Texas - e agora
ele começou a chorar, em soluços fortes, zurrados e estentóreos de criança pequena.
- Vamos, pode me bater! - gritou para Hal, o rosto torcido e descomposto. - Pode me bater se quiser, eu sei o quanto me odeia!
- Eu não o odeio, pelo contrário. Gosto demais de você, Dennis, mas sou seu pai. Você tem que me respeitar ou terei de surrá-lo para que me respeite!
Dennis tentou libertar-se. Hal puxou o garoto para si e o abraçou. Dennis lutou por um momento, mas então encostou o rosto no peito do pai e chorou, como
se exausto. Era o tipo de choro que Hal não ouvia em anos, de nenhum de seus filhos. Fechou os olhos, percebendo que também se sentia exausto.
Terry começou a esmurrar o outro lado da porta.
- Pare com isso, Hal! Seja lá o que for que estiver fazendo com ele, pare!
- Eu não o estou matando - disse Hal. - Vá embora, Terry.
- Você não...
- Está tudo bem, mãe - disse Dennis, a voz abafada contra o peito de Hal.
Hal pôde sentir o silêncio perplexo da esposa por um momento, e então ela se foi. Ele tornou a olhar para o filho.
- Sinto muito ter dito aquela coisa sobre você, papai - disse Dennis, com relutância.
- Está bem. Aceito e agradeço suas desculpas. Quando voltarmos para a casa semana que vem, vou esperar dois ou três dias, e então vasculhar todas as suas
gavetas, Dennis. Se houver nelas alguma coisa que não quer que eu veja, acho melhor livrar-se dela.
A onda de culpa novamente. Dennis baixou os olhos e limpou o ranho com as costas da mão.
- Posso ir agora? - perguntou, de novo soando taciturno.
- Claro - disse Hal, e o soltou.
Preciso levá-lo para acampar na primavera, só nós dois. Pescaremos um pouco, como o Tio Will costumava fazer comigo e com Bill. Tenho que me aproximar dele.
Preciso tentar.
Hal sentou-se na cama, no quarto vazio, e olhou para o macaco. Você nunca mais estará perto dele, Hal, seu sorriso parecia dizer. Fique certo disso. Voltei
para cuidar da situação, como você sempre soube que eu voltaria - um dia qualquer.
Hal largou o macaco e cobriu os olhos com uma das mãos.
Nessa noite, enquanto escovava os dentes no banheiro, Hal pensou. Era a mesma caixa.
Como é que ele podia estar na mesma caixa?
A escova desviou-se para cima, machucando-lhe a gengiva. Ele pestanejou.
Ele tinha quatro anos e Bill seis, a primeira vez que viu o macaco. O desaparecido pai de ambos havia comprado uma casa em Hartford e ela fora deles, livre
e clara, totalmente paga, antes que ele morresse ou caísse em um buraco no meio do mundo ou onde quer que fosse. A mãe dos dois trabalhara como secretária na Holmes
Aircraft, a fábrica de helicópteros nas cercanias de Westville. Uma série de baby sitters cuidava dos meninos, embora fosse principalmente com Hal que elas se preocupavam
durante o dia - Bill estava no primeiro grau, entrara na escola. Nenhuma das sitters ficava lá muito tempo.
Quando não apareciam grávidas e casavam com os namorados, iam trabalhar na Holmes ou então a Sra. Shelburn descobria que elas davam em cima de sua garrafa
de sherry ou de brandy, guardadas no aparador para ocasiões especiais. Em sua maioria, eram jovens ignorantes, que pareciam apenas querer comer ou dormir. Nenhuma
delas se preocupava em ler para Hal, como sua mãe lia.
Naquele longo inverno, a sitter era uma moça negra, corpulenta e maneirosa, chamada Beulah. Paparicava Hal, quando a mãe dele estava nos arredores, beliscando-o
às vezes, quando ela não estava. Ainda assim, Hal sentira certa afeição por Beulah que, de vez em quando, lia para ele uma história horripilante de suas revistas
de confissões ou de contos verídicos de detetives ("A Morte Chegou para a Loura Voluptuosa", entoava Beulah ominosamente, no sonolento silêncio da sala de estar
durante o dia, enquanto jogava na boca outra taça de manteiga de amendoim Reese e Hal estudava solenemente as fotos granulosas do tablóide, bebendo leite em sua
Xícara dos Desejos). A afeição tornava pior o que acontecera.
Ele encontrou o macaco em um nublado e frio dia de março. A neve caía esporadicamente no outro lado das janelas e Beulah adormecera no sofá, com um exemplar
de Minha História aberto sobre seu busto admirável.
Hal se esgueirara até o armário nos fundos da casa, a fim de espiar as coisas de seu pai.
Aquele armário era um espaço de guardados que ocupava o comprimento do segundo andar, no lado esquerdo, um espaço extra, que nunca fora acabado. Entrava-se
nele por uma portinhola - realmente uma portinha minúscula - que ficava no quarto dos meninos, no lado de Bill. Ambos gostavam de ir lá, embora fosse gélido no inverno
e, no verão, quente o bastante para extrair dos poros um balde de suor. Comprido e estreito, de certa forma aconchegante, o armário dos fundos era cheio de fascinantes
quinquilharias.
Pouco importando para quantas coisas se olhasse, tinha-se a impressão de que nunca se olhara para tudo. Ele e Bill haviam passado tardes inteiras de sábado
ali, mal se falando, tirando coisas de caixas, examinando-as, revirando-as nas mãos, para poderem absorver sua realidade única, depois as deixando de lado. Agora,
Hal se perguntava se ele e Bill não estariam tentando, da melhor maneira que podiam, de algum modo estabelecer contato com o pai desaparecido.
Ele havia sido marinheiro mercante, com certificado de navegador. Aquele armário guardava pilhas de cartas marítimas, algumas marcadas com círculos perfeitos
(e a covinha da ponta aguçada do compasso no centro de cada um). Havia vinte volumes de algo intitulado Guia de Baron para a Navegação. Um par de binóculos tortos,
que faziam os olhos ficarem quentes e esquisitos, quando se olhava por eles durante muito tempo. Havia coisas turísticas de uma dúzia de portos - bonecas hula-hula
de borracha, um chapéu côco com uma faixa rasgada que dizia YOU PICK A GIRL AND I'LL PICCADILLY, um globo de vidro com uma diminuta Torre Eiffel no interior... Havia
envelopes com selos estrangeiros, cheios de selos cuidadosamente guardados, também contendo moedas estrangeiras; havia amostras de rochas da ilha havaiana de Mauí,
de um tom negro e aparência vidrenta - pesadas e, de certa forma, amedrontadoras - e discos engraçados, em língua estrangeira.
Naquele dia, com a neve caindo hipnoticamente do teto, logo acima de sua cabeça, Hal abriu caminho até a extremidade mais distante do armário da parede dos
fundos, moveu uma caixa para um lado e viu uma outra atrás dela - uma caixa de Ralston-Purina.
Espiando sobre o topo, havia dois olhos vidrados cor de avelã. Assustaram-no e ele recuou um instante, o coração em disparada, como se houvesse descoberto
um mortífero pigmeu. Então, viu seu silêncio, o vítreo daqueles olhos, e percebeu que era alguma espécie de brinquedo. Moveu-se novamente para diante e o tirou da
caixa com cuidado.
O brinquedo sorriu seu sorriso imemorial à claridade amarelada, um sorriso cheio de dentes, seus címbalos distanciados.
Deliciado, Hal o virou de um lado para outro, sentindo as asperezas de seu pêlo enroscado. Aquele riso engraçado o alegrou. Contudo, não haveria algo mais?
Um sentimento quase instintivo de repugnância, chegando e sumindo quase antes de percebê-lo? Talvez fosse isso, mas com uma recordação antiga, tão antiga como aquela,
tinha-se que tomar cuidado, não acreditar muito na memória. Velhas lembranças podem mentir. Só que... não tinha ele visto a mesma expressão no rosto de Petey, lá
no sótão do antigo lar?
Hal descobrira a chave no fim das costas do brinquedo e a girara. Ela girara com demasiada facilidade, não houvera os estalidos da corda se enrolando. Quebrada,
portanto. Quebrada, mas ainda girando.
Ele o levara consigo, para fora do armário. Queria brincar com o macaco.
- O que é que tem aí, Hal? - perguntou Beulah, despertando de sua soneca.
- Nada - respondeu Hal. - Eu o achei.
Colocou-o na prateleira em seu lado do quarto. O brinquedo ficou em cima de seus livros de Lassie para colorir, sorrindo, fitando o espaço, címbalos imóveis.
Estava quebrado, mas ria assim mesmo. Naquela noite, Hal acordou de um sonho inquieto, com a bexiga cheia, e levantou-se para ir ao banheiro no corredor. No outro
lado do quarto, Bill era um monte enovelado de cobertas que respiravam.
Hal voltou, quase dormindo outra vez... e o macaco começou repentinamente a tocar os címbalos na escuridão.
Jang jang jang jang...
Despertou de todo, como se lhe houvessem batido no rosto com uma toalha fria e molhada. Seu coração deu um trêmulo salto de surpresa, enquanto um guincho
diminuto, como o de um camundongo, escapava-lhe da garganta. Virou-se para o macaco, de olhos arregalados, lábios tremendo.
Jang jang jang jang...
O brinquedo girava e saltava na prateleira. Seus lábios se estiravam e fechavam, estiravam e fechavam, hediondamente jubilosos, revelando dentes enormes e
carnívoros.
- Pare! - sussurrou Hal.
Seu irmão se virou e proferiu um único e sonoro resfolegar. Tudo o mais estava silencioso... exceto pelo macaco. Seus címbalos batiam e entrechocavam-se,
certamente acordariam seu irmão, sua mãe, o mundo inteiro. Acordariam os mortos.
Jang jang jang jang...
Hal caminhou para ele, desejando pará-lo de algum modo, talvez colocando a mão entre seus címbalos, até a corda terminar, mas então o macaco parou sozinho.
Os címbalos se juntaram uma última vez - jang! - e então se afastaram lentamente, para sua posição original. O latão cintilou nas sombras. Os dentes amarelo-sujos
do macaco sorriram.
A casa tornou a ficar em silêncio. Sua mãe se virou na cama e ecoou o único ressonar de Bill. Hal voltou para sua cama e puxou as cobertas, o coração batendo
depressa, enquanto pensava: Amanhã vou levar ele para o armário outra vez. Não quero esse macaco.
Na manhã seguinte, entretanto, ele esqueceu inteiramente de devolver o macaco ao armário, porque sua mãe não foi trabalhar. Beulah estava morta. A mãe não
lhes contou exatamente o que ocorrera. "Foi um acidente, apenas um terrível acidente", foi tudo quanto disse. Naquela tarde, contudo, Bill comprou um jornal ao voltar
para casa da escola e contrabandeou a página quatro para seu quarto, debaixo da camisa. Bill leu vacilantemente a notícia para Hal, enquanto a mãe deles preparava
o jantar na cozinha, mas Hal conseguiu ler o título sozinho DUAS MORTES NO TIROTEIRO DO APARTAMENTO. Beulah McCaffery, de 19 anos, e Sally Tremont, de 20, haviam
sido mortas a tiros pelo namorado da Srta. McCaffery, Leonard White, de 25 anos, em seguida a uma discussão sobre quem sairia para ir apanhar um pedido de comida
chinesa. A Srta. Tremont falecera no Pronto-Socorro de Hartford. Beulah McCaffery fora declarada morta no local.
Era como se Beulah simplesmente houvesse desaparecido para uma de suas próprias revistas de detetives, pensou Hal Shelburn, enquanto um calafrio lhe percorria
a espinha e depois oprimia seu coração. Então, percebeu que o tiroteio acontecera ao mesmo tempo em que o macaco...
- Hal? - era a voz sonolenta de Terry. - Não vem para a cama?
Ele cuspiu pasta de dentes na pia e enxaguou a boca.
- Já vou - respondeu.
Havia guardado o macaco em sua pasta, anteriormente, e a trancara. Dentro de dois ou três dias voariam de volta ao Texas. Só que, antes disso, ele se livraria
para sempre da maldita coisa.
De algum modo.
- Você foi muito rude com Dennis esta tarde - disse Terry, no escuro.
- Acho que Dennis estava bem precisando disso. Ele tem andado muito aéreo. Não quero que comece a descambar.
- Psicologicamente, bater no garoto não é uma maneira muito produtiva...
- Eu não bati nele, Terry - pelo amor de Deus!
- ...de afirmar a autoridade paterna...
- Oh, não me venha com essa merda de encontro-de-grupos - disse Hal, ainda irritado.
- Dá para ver que você não quer discutir o caso - retorquiu ela, em tom frio.
- Falei a ele, também, para tirar a droga de dentro de casa.
- Falou? - Ela agora parecia apreensiva. - E como ele aceitou isso? O que respondeu?
- Ora, vamos, Terry! O que ele poderia dizer? Você está demitido?
- O que há com você, Hal? Não costuma ser assim - o que há de errado?
- Nada - disse ele, pensando no macaco trancado em sua pasta. Poderia ouvi-lo, se começasse a tocar seus címbalos? Sim, claro que ouviria. Um som abafado,
mas audível. Chocalhando a tragédia para alguém, como chocalhara para Beulah, Johnny McCabe e Daisy, o cão do Tio Will. Jang jang jang, é você, Hal? - Estive sob
demasiada tensão.
- Espero que isso seja tudo, porque não gosto de você agindo assim, como agora.
- Não? - As palavras então lhe escaparam, antes que pudesse detê-las; aliás, nem mesmo quis detê-las: - Sendo assim, engula um Valium e tudo ficará ótimo
novamente.
Ouviu-a respirar fundo e exalar o ar tremulamente. Depois, ela começou a chorar. Podia tê-la consolado (talvez), mas parecia não existir conforto nele. Havia
demasiado terror.
Tudo se arranjaria quando o macaco se fosse novamente, desta vez para sempre. Por favor, meu Deus, que ele se vá para sempre!
Ficou acordado até bem tarde, até a madrugada começar a acinzentar o ar lá fora.
Contudo achou que já sabia o que fazer.
Bill achara o macaco da segunda vez.
Isso foi cerca de ano e meio após Beulah McCaffery haver sido declarada Morta no Local. Estavam no verão. Hal tinha acabado o jardim de infância.
Estivera brincando, quando a mãe o chamou.
- Vá lavar as mãos, Senor, você está sujo como um porquinho.
Ela se achava na varanda, bebendo chá gelado e lendo um livro. Eram as suas férias; tivera duas semanas de folga.
Hal passou apenas ligeiramente as mãos na água fria e imprimiu sujeira na toalha de enxugar.
- Onde está Bill?
- Lá em cima. Diga a ele para arrumar seu lado do quarto. Está uma verdadeira bagunça.
Adorando ser o mensageiro de notícias desagradáveis em tais questões, Hal não esperou segunda ordem. Bill estava sentado no chão. A portinhola que dava entrada
ao armário dos fundos encontrava-se escancarada. Ele tinha o macaco nas mãos.
- Isso não funciona - disse Hal imediatamente.
Estava apreensivo, embora mal se lembrasse daquela noite em que, ao voltar do banheiro, o macaco de repente começara a bater seus címbalos. Uma semana ou
mais depois disso, tivera um pesadelo com o macaco e Beulah - não recordava bem o que tinha sido - e despertara chorando, por um momento pensando que o peso macio
em seu peito era o macaco, que ele abriria os olhos e o veria dando-lhe um sorriso.
Naturalmente, o peso macio havia sido apenas seu travesseiro, agarrado com amedrontadora pressão. Sua mãe viera acalmá-lo com um gole de água e duas aspirinas
laranja-claro infantis, aqueles Valiums para épocas perturbadas da infância. Ela julgara que a notícia da morte de Beulah fora a causa do pesadelo. Estava certa,
mas não da maneira como havia imaginado.
Hal pouco se lembrava disto agora, porém o macaco continuava a amedrontá-lo, particularmente seus címbalos. E seus dentes.
- Eu sei - respondeu Bill, jogando o macaco a um lado. - É um imbecil. O brinquedo caiu em cima da cama de Bill, olhando para o teto, com os címbalos afastados.
Hal não gostou de vê-lo ali. - Vamos ao Teddy's comprar pirulitos?
- Já gastei minha mesada - disse Hal. - Além disso, mamãe mandou dizer para você arrumar seu lado do quarto.
- Faço a arrumação mais tarde - replicou Bill. - E posso emprestar um níquel a você, se você quiser.
Bill costumava enganá-lo algumas vezes e, ocasionalmente, dava-lhe rasteiras ou pancadas, sem nenhum motivo particular mas, em geral, portava-se bem com ele.
- Claro - respondeu Hal, agradecido. - Só que, primeiro, vou botar esse macaco quebrado no armário, está bem?
- Nada disso - falou Bill, levantando-se. - Vamos logo!
Hal foi. Bill tinha um temperamento mutável e, se ele perdesse tempo guardando o macaco, podia perder também seu pirulito. Foram ao Teddy's e compraram os
pirulitos, além dos mais raros, os de uvas-do-monte. Depois foram até a Reitoria, onde alguns garotos jogavam uma partida de beisebol. Hal era pequeno demais para
jogar, mas ficou sentado bem além do perímetro das faltas, chupando seu pirulito de uvas-do-monte e devolvendo bolas perdidas aos meninos maiores. Quando voltaram
para casa estava quase escuro, e a mãe o censurou por deixar marcas de mãos sujas na toalha, também brigando com Bill por não arrumar seu lado do quarto. Depois
do jantar, eles viram TV e, quando tudo isso aconteceu, Hal esquecera inteiramente o macaco. De algum modo, o brinquedo encontrou caminho para a prateleira de Bill,
onde ficou ao lado do retrato autografado de Bill Boyd, propriedade de seu irmão. Foi onde permaneceu, por quase dois anos.
Quando Hal completou sete anos, as baby-sitters se tinham tornado uma despesa desnecessária, de modo que a cada manhã, a despedida de sua mãe era: "Bill,
tome conta de seu irmão!"
Naquele dia, entretanto, Bill teve que ficar na escola depois da aula e Hal voltou para casa sozinho, parando em cada esquina até não ver absolutamente nenhum
trânsito vindo em uma e outra direção, depois atravessando a rua depressa, de ombros curvados, como um soldado de infantaria cruzando a terra de ninguém. Entrou
em casa com a chave colocada debaixo do capacho e foi imediatamente à geladeira, para um copo de leite. Pegou a garrafa, mas então ela lhe escorregou entre os dedos
e estilhaçou-se em pedacinhos no chão, os fragmentos de vidro voando para todos os lados.
Jang jang jang jang, soou no andar de cima, no quarto dele e de Bill. Jang jang jang, oi, Hal! Bem-vindo ao lar! E, por falar nisso, Hal, é você? É a sua
vez? Eles vão encontrá-lo Morto no Local?
Ele ficou parado e imóvel, olhando para o vidro quebrado e a poça de leite, cheio de um terror que não conseguia ter nome ou compreender. Um terror que simplesmente
o dominava, parecendo fluir de seus poros.
Virou-se e correu ao andar de cima, ao quarto dos dois. O macaco estava na prateleira de Bill, parecia fitá-lo. Havia derrubado a foto autografada de Bill
Boyd, agora caída com a frente para baixo, em cima da cama de Bill. O macaco saltitava, sorria e batia seus címbalos. Hal aproximou-se dele lentamente, não querendo
ir, mas incapaz de ficar distante. Os címbalos afastavam-se, depois se chocavam e tornavam a afastar-se. À medida que se aproximava, podia ouvir a corda girando
nas entranhas do brinquedo:
Abruptamente, com um grito de repugnância e terror, Hal deu-lhe um tapa, como se dá um tapa em um inseto, derrubando-o da prateleira. O macaco bateu no travesseiro
de Bill e dali caiu ao chão, os címbalos ainda chocalhando, jang jang jang, os lábios flexionando-se e fechando-se, enquanto jazia de costas em um retalho ensolarado
de fins de abril.
Hal o chutou com seu tênis, chutou-o com toda a força que pôde, desta vez o grito saído de sua garganta sendo de pura fúria. O macaco de corda deslizou através
do piso, chocou-se contra a parede e ficou silencioso. Parado, Hal olhava para ele, os punhos fechados, o coração em disparada. O macaco lhe sorria descaradamente,
com um pontinho de sol queimando em um olho de vidro. Chute-me o quanto quiser, ele parecia dizer-lhe. Eu não passo de rodas dentadas, corda e uma ou duas engrenagens,
chute-me o quanto quiser, eu não sou real, apenas um engraçado macaco de corda, é tudo o que sou, e quem está morto? Houve uma explosão na fábrica de helicópteros!
O que é isso que sobe alto no céu, como uma enorme e sangrenta bola de boliche, com olhos onde deveriam estar os buracos para os dedos? É a cabeça de sua mãe, Hal?
Poxa! Que passeio está dando a cabeça de sua mãe, Hal! Ou foi na esquina da Rua Brook? Escute aqui, cara! O carro estava indo muito depressa! O motorista estava
bêbado! Há um Bill a menos no mundo! Não ouviu o rangido, quando as rodas passaram em cima da cabeça dele e os miolos espirraram pelas orelhas? Ouviu? Não ouviu?
Talvez? Não me pergunte, porque eu não sei, não posso saber, tudo quanto sei fazer é bater estes címbalos, jang jang jang, e quem está Morto no Local, Hal? Sua mãe?
Seu irmão? Ou é você, Hal? É você?
Hal precipitou-se novamente para o brinquedo, querendo pisoteá-lo, esmagá-lo, saltar sobre ele até rodas dentadas e engrenagens saírem voando, até seus horríveis
olhos de vidro rolarem pelo chão. Só que; tão logo chegou perto, os címbalos se chocaram uma vez mais, muito suavemente... jang... como se alguma mola em qualquer
ponto interior se expandisse em uma final e diminuta chanfradura... e uma fita de gelo pareceu abrir um caminho sussurrante pelas paredes de seu coração, empalando-o,
imobilizando sua fúria e tornando a deixá-lo nauseado de horror. O macaco quase parecia saber - como seu riso parecia jubiloso!
Hal o pegou por um dos braços, entre o polegar e o indicador da mão direita, a boca repuxada em um esgar de ódio, como se estivesse segurando um cadáver.
O esfiapado pêlo artificial parecia quente e febril contra sua pele. Conseguiu abrir a portinha que levava ao armário dos fundos e acendeu a lâmpada. O macaco sorria
para ele, enquanto engatinhava pelo comprimento da área de estocagem, entre caixas empilhadas sobre caixas, além do conjunto de livros de navegação, dos álbuns de
fotos com manchas de antigos produtos químicos, dos souvenirs e das roupas velhas. Enquanto isso, Hal pensava: Se ele começar a bater seus címbalos agora e remexer-se
em minha mão, eu vou gritar, mas se eu gritar, ele fará mais do que sorrir, começará a dar gargalhadas, a rir de mim, e então vou ficar maluco, eles vão me encontrar
aqui, babando e rindo feito doido, eu ficarei doido, oh, meu Deus, por favor, por favor, querido Jesus, não me deixe ficar doido...
Chegou à extremidade mais distante, afastou duas caixas, derrubando o conteúdo de uma delas, e tornou a enfiar o macaco na caixa de Ralston-Purina, no canto
mais afastado. E ele ficou lá, confortavelmente, como que finalmente em casa, os címbalos afastados, sorrindo seu sorriso simiesco, como se a piada ainda fosse dirigida
a Hal. Hal rastejou de volta, suando, quente e frio, todo fogo e gelo, esperando que os címbalos começassem a tocar. E quando começassem, o macaco saltaria da caixa,
viria correndo para ele, em passinhos curtos como os de um besouro, a corda girando, os címbalos entrechocando-se loucamente, e ...
...e nada disso aconteceu. Ele apagou a lâmpada, bateu a portinhola e ficou recostado contra ela, ofegante. Por fim, começou a sentir-se um pouco melhor.
Desceu para o térreo com pernas bambas, pegou uma sacola vazia e começou a recolher os pedaços e fragmentos de vidro da garrafa de leite quebrada, perguntando-se
se ia cortar-se e sangrar até morrer, se era isso o que os címbalos chocalhantes queriam dizer. Nada aconteceu também. Pegou uma toalha, enxugou o leite derramado
e então se sentou, esperando para ver se a mãe ou o irmão chegavam em casa.
Ela chegou primeiro, perguntando:
- Onde está Bill?
Em voz baixa, descolorida, agora certo de que Bill devia estar Morto em algum Local, Hal foi explicando sobre a reunião na escola e sabendo que, mesmo para
uma reunião muito prolongada, Bill já deveria ter chegado uma meia hora antes.
A mãe o fitou com curiosidade, começou a perguntar o que havia de errado, mas então a porta se abriu e Bill entrou - só que não era o Bill de sempre, de maneira
alguma.
Aquele era um Bill-fantasma, pálido e silencioso.
- O que houve de errado? - exclamou a Sra. Shelburn. - Bill, o que aconteceu?
Bill começou a chorar e então souberam da história, através de suas lágrimas. Tinha sido um carro, disse. Ele e seu amigo Charlie Silverman vinham juntos
para casa, depois da reunião, e o carro dobrara a esquina da Rua Brook, em alta velocidade. Charlie estacara, Bill lhe puxara a mão uma vez, mas ela lhe escapara,
e o carro...
Bill começou a chorar ruidosamente, em soluços histéricos. Sua mãe o abraçou, acalentando-o, e Hal olhou para a varanda, viu dois policiais parados lá. O
carro patrulha em que haviam trazido Bill para casa ficara estacionado junto ao meio-fio.
Então, foi ele que começou a chorar... mas suas lágrimas eram de alívio.
Agora, foi a vez de Bill ter pesadelos - sonhos nos quais Charlie Silverman morria e tornava a morrer, derrubado em suas botas de vaqueiro Red Ryder, depois
jogado sobre o capô do enferrujado Hudson Hornet que o bêbado dirigia. A cabeça de Charlie Silverman e o pára-brisa do Hudson haviam colidido com força explosiva.
Ambos se tinham estilhaçado. O motorista bêbado, dono de uma loja de doces em Milford, sofrera um ataque cardíaco logo após ser detido (talvez fosse a visão
dos miolos de Charlie Silverman, secando em suas calças), e seu advogado tivera absoluto êxito durante o julgamento, com o tema de "este homem já foi punido o suficiente".
O bêbado foi condenado a sessenta dias (pena suspensa) e perdera o privilégio de operar um veículo a motor no estado de Connecticut por cinco anos... tempo em que
duraram os pesadelos de Bill Shelburn. O macaco estava novamente recolhido ao armário dos fundos. Bill nunca percebeu que ele sumira de sua prateleira... ou, se
percebeu, jamais falou nisso.
Hal sentiu-se seguro por algum tempo. Começou até a esquecer novamente o macaco ou a acreditar que fora apenas um sonho ruim. No entanto, quando voltou da
escola para casa, na tarde em que sua mãe morreu, ele estava de volta à sua prateleira, os címbalos afastados, sorrindo para Hal.
Aproximou-se do macaco lentamente, como que se projetando para fora de si mesmo - como se ele próprio se houvesse tornado um brinquedo de corda, à visão do
macaco.
Viu sua mão estender-se e apanhá-lo. Sentiu o pêlo rijo ranger sob sua mão, porém a sensação era abafada, apenas uma pressão, como se alguém lhe tivesse injetado
uma dose pura de Novocaína. Podia ouvir-se respirar, uma respiração rápida e seca, semelhante ao chocalhar da corda através da palha do recheio.
Virou o macaco e agarrou a chave da corda. Anos mais tarde, pensaria que aquele fascínio de drogado era como o de um homem, ao colocar um seis-tiros com apenas
uma câmara carregada contra um olho trêmulo e fechado, para em seguida puxar o gatilho.
- Não faça isso, deixe-o em paz, jogue-o fora, não toque nele...
Girou a chave e, no silêncio, ouviu uma diminuta e perfeita série de cliques, quando a corda se enrolava. Depois soltou a chave, o macaco começou a bater
os címbalos e Hal sentiu o corpo do brinquedo contorcendo-se, encurvar-e-saltar, encurvar-e-saltar, como se estivesse vivo, ele estava vivo, retorcendo-se em sua
mão como um odiento pigmeu.
E a vibração que sentia através daquele pêlo castanho e gasto não era o de engrenagens girando, mas a batida do coração do macaco.
Com um grunhido, Hal o deixou cair ao chão e fugiu, as unhas encravando-se na carne abaixo dos olhos, as palmas apertando a boca. Tropeçou em algo e quase
perdeu o equilíbrio (se caísse, seria precisamente no chão em cima do macaco, seus esbugalhados olhos azuis fitando os outros, aqueles olhos castanhos, cor de avelã).
Correu aos tropeções para a porta, cruzou-a, bateu-a e recostou-se contra ela. De repente, saiu em disparada para o banheiro e vomitou.
Foi a Sra. Stukey, da fábrica de helicópteros, que trouxe a notícia. Foi também ela que os acompanhou naquelas duas primeiras noites intermináveis, até que
a Tia Ida viesse do Maine, para levá-los. Sua mãe havia falecido de uma embolia cerebral, no meio da tarde. Estava em pé, junto ao bebedouro, com um copo de água
na mão, e se tinha encolhido como que baleada, ainda segurando o copo de papel. Com a outra mão, aferrara-se ao bebedouro e havia derrubado consigo a grande garrafa
de água Poland. A garrafa se estilhaçara... mas o médico da fábrica, que acudira em seguida, declarou mais tarde acreditar que a Sra. Shelburn já estivesse morta,
antes que a água lhe caísse sobre o vestido e roupas de baixo, molhando-lhe a pele. Nada disto foi dito aos meninos, mas Hal sabia, de algum modo. Sonhou com isso
incessantemente, nas longas noites seguintes à morte da mãe. Está com problemas para dormir, irmãozinho?
Bill lhe perguntara. Hall supôs que o irmão considerasse relacionados à morte súbita da mãe de ambos os seus pesadelos e a maneira como se debatia na cama
- e estava certo... mas apenas parcialmente certo. Havia a culpa; o seguro, fatal conhecimento de que matara a mãe, ao dar corda no macaco, naquela tarde ensolarada,
depois da escola.
Quando Hal finalmente adormeceu, seu sono devia ter sido profundo. Ao acordar, era quase meio-dia. Petey estava sentado de pernas cruzadas em uma cadeira,
no outro lado do quarto, chupando uma laranja metodicamente, gomo por gomo, enquanto via um jogo na televisão.
Hal girou as pernas para fora da cama, com a sensação de que havia sido esmurrado enquanto dormia... e depois esmurrado para acordar. Sua cabeça latejava.
- Onde está sua mãe, Petey?
Petey olhou em torno.
- Ela e Dennis foram fazer compras. Eu disse que ia ficar aqui com você. Você sempre fala dormindo, papai?
Hal olhou cautelosamente para ó filho.
- Não. O que foi que eu disse?
- Não pude entender. Fiquei um pouco assustado.
- Bem, pois aqui estou eu, com a cabeça no lugar outra vez.
Hal forçou um sorriso. Petey sorriu de volta e ele tornou a sentir uma onda de puro amor pelo menino, uma emoção que era viva, forte e sem complicações. Perguntou-se
por que era capaz de sempre sentir-se tão bem em relação a Petey, sentir que podia compreendê-lo e ajudá-lo, enquanto Dennis lhe parecia uma janela escura demais
para olhar-se através dela, um mistério em suas maneiras e hábitos, o tipo de menino que não conseguia entender, porque nunca havia sido como ele. Era muito fácil
dizer que a mudança da Califórnia modificara Dennis ou que...
Seus pensamentos congelaram-se. O macaco. O macaco estava no peitoril da janela, com os címbalos afastados. Hal sentiu o coração estacar dentro do peito,
para subitamente começar a galopar. Sua visão oscilou e a cabeça latejante passou a doer ferozmente.
O macaco escapara de sua pasta e agora se postava no peitoril da janela, sorrindo para ele.
Pensou que se livraria de mim, não foi? Ora, você já pensou isso antes, não pensou?
Sim, pensou, nauseadamente. Sim, eu pensei.
- Foi você que tirou aquele macaco de minha pasta, Pete? - perguntou, já sabendo a resposta.
Hal havia trancado a pasta e colocara a chave no bolso do sobretudo. Petey olhou para o macaco e algo - Hal pensou que fosse inquietação - passou por seu
rosto.
- Não - respondeu o menino. - Ela o botou ali.
- Mamãe fez isso?
- Fez. Ela tirou o macaco de você. E riu.
- Tirou-o de mim? De que está falando?
- Você foi para a cama com ele. Eu estava escovando os dentes, mas Dennis viu. Ele também riu. Disse que você parecia um bebê com um ursinho.
Hal olhou para o macaco. Tinha a boca demasiado ressequida para poder engolir.
Levara o macaco para a cama? Para a cama? Tivera aquele pêlo nojento contra seu rosto, talvez contra sua boca, aqueles olhos brilhantes fitando seu rosto
adormecido, aqueles dentes sorridentes encostados a seu pescoço? Em seu pescoço? Santo Deus!
Virou-se abruptamente e foi até o armário. Sua pasta continuava lá, ainda trancada. E a chave ainda estava no bolso de seu sobretudo.
Às suas costas, houve o clique da televisão sendo desligada. Hal saiu lentamente do closet. Petey o fitava ponderadamente.
- Eu não gosto desse macaco, papai.
- Nem eu - respondeu Hal.
Petey olhou fixamente para ele, querendo ver se brincava, mas o pai falava sério.
Aproximou-se e o abraçou com força. Hal podia senti-lo tremendo.
Petey então falou em seu ouvido, muito depressa, como que receando não ter coragem para repeti-lo... ou que o macaco pudesse ouvir.
- É como se ele olhasse para a gente. Como se me olhasse, em qualquer lugar do quarto que eu esteja. E, se vou para o outro quarto, parece que ele olha para
mim, através da parede. Eu continuo a sentir que ele me olha... como se me quisesse para alguma coisa.
Petey estremeceu. Hal o apertou mais fortemente contra si.
- Como se quisesse que a gente lhe desse corda - disse Hal.
Petey assentiu violentamente.
- Ele não está com a corda quebrada para sempre, não é, papai?
- Só algumas vezes - disse Hal, fitando o macaco por sobre o ombro do filho. - Em outras, ela ainda funciona.
- Eu fiquei querendo ir lá e dar corda nele. Estava tudo muito quieto, e então pensei, não posso, vou acordar papai, mas ainda estava querendo, e fui até
lá e... toquei ele, e não gostei de tocar... mas gostei também... e era como se ele dissesse, Me dê corda, Petey, vamos brincar, seu pai não vai acordar, ele nunca
mais vai acordar, me dê corda, me dê corda...
De repente, o menino prorrompeu em lágrimas - disse, em voz quase baixa demais
- Ele é ruim, eu sei que é. Há alguma coisa errada com ele. Não podemos jogá-lo fora, papai? Por favor?
O macaco exibiu seu riso interminável para Hal, que sentia as lágrimas do filho entre eles. O sol da manhã avançada cintilou nos címbalos de latão do macaco
- a luz se refletia para o alto e desenhava manchas ensolaradas no teto simples do motel, caiado de branco.
- A que horas sua mãe achava que estaria de volta com Dennis, Petey?
- Lá pela uma hora. - Petey enxugou os olhos vermelhos com a manga da camisa, parecendo constrangido com suas lágrimas, mas não olhou para o macaco. - Eu
liguei a televisão - sussurrou. - E liguei bem alto.
- Fez bem, Petey.
Como é que aconteceria? perguntou-se Hal. Ataque cardíaco? Uma embolia, como minha mãe? Como? Aliás, não importa muito, não é mesmo?
E, emendando-se, outro pensamento mais frio: Livre-se dele, como Petey disse. Jogue-o fora. Só que, como livrar-me dele? Para sempre?
O macaco lhe sorriu zombeteiramente, os címbalos trinta centímetros separados entre si.
Teria voltado à vida de repente, na noite em que a Tia Ida morreu? perguntou-se Hal, subitamente, Seria aquele o último som ouvido por ela, o jang jang jang
sufocado do macado, batendo seus címbalos no sótão escuro, enquanto o vento assobiava ao longo da calha?
- Talvez não seja tanta loucura - disse Hal ao filho, lentamente. - Vá pegar sua sacola de vôo, Petey.
Petey olhou para ele, com ar incerto.
- O que é que vamos fazer?
Talvez eu possa livrar-me dele. Talvez permanentemente, talvez apenas por algum tempo... um longo ou curto período. Talvez ele fique voltando e voltando,
irremediavel-mente... mas talvez eu-nós-possamos ficar livres dele por muito tempo.
Desta vez, ele levou vinte anos para voltar. Levou vinte anos para sair do poço...
- Vamos dar uma volta - disse Hal. Sentia-se razoavelmente calmo, porém, de algum modo, muito pesado por dentro. Seus próprios globos oculares pareciam ter
ganho peso.
- No entanto, primeiro quero que você leve sua sacola de vôo lá fora, até o fim do pátio de estacionamento, e encontre três ou quatro pedras de bom tamanho.
Coloque-as dentro da sacola e traga para mim. Entendeu?
A compreensão tremulou nos olhos de Petey.
- Tudo bem, papai.
Hal consultou seu relógio. Quase 1:15.
- Depressa, filho. Quero já ter saído, antes que sua mãe volte.
- Aonde a gente vai?
- À casa do Tio Will e da Tia Ida - disse Hal. - Aquela onde morei.
Hal foi ao banheiro, olhou atrás do vaso sanitário e apanhou a vassourinha para limpá-lo, guardada ali. Levou-a até a janela e ficou parado com a vassourinha
na mão, como se fosse uma varinha-de-condão com cabo curto. Espiou para fora e viu Petey, em sua camisa-blusão de lã, atravessando o pátio de estacionamento, com
sua sacola de vôo, a palavra DELTA destacando-se nitidamente em letras brancas contra o fundo azul. Uma mosca zumbiu em uma quina superior da janela, vagarosa e
estúpida com o fim da estação calorenta. Hal sabia como ela se sentia.
Observou Petey escolhendo três pedras de bom tamanho e depois começar a andar de volta, cruzando o pátio de estacionamento. Um carro dobrou a esquina do motel,
um carro que se movia muito rápido, rápido demais e, sem pensar, agindo com o tipo de reflexo mostrado por um bom shortstop* indo para a direita, a mão que segurava
a vassourinha desceu bruscamente, como em um golpe de karatê... e parou.

* No beisebol, jogador situado perto da segunda base. (N. da T.)

Os címbalos se fecharam sobre sua mão interposta, silenciosamente, e ele captou algo no ar. Algo como raiva.
Os freios do carro chiaram. Petey saltou para trás. O motorista acenou para ele, impacientemente, como se o que quase acontecera houvesse sido culpa do menino.
Então, Petey cruzou o pátio de estacionamento em disparada, a gola agitando-se no ar, e entrou pela porta dos fundos do motel.
O suor escorria pelo peito de Hal; ele o sentiu na testa, como um filete de chuva oleosa.
Os címbalos pressionavam-se friamente contra sua mão, entorpecendo-a.
Prossiga, pensou ele, ferozmente. Prossiga, eu posso esperar o dia inteiro. Até que o inferno se congele, se demorar tanto.
Os címbalos afastaram-se e ficaram imóveis. Hal ouviu um débil clique!, vindo das entranhas do macaco. Afastou a vassourinha e olhou para ela. Algumas das
cerdas brancas tinham escurecido, como que chamuscadas.
A mosca esvoaçou e zumbiu, tentando encontrar o frio sol de outubro, que parecia tão próximo.
Petey irrompeu no quarto, respirando apressadamente, as bochechas rosadas.
- Consegui três pedras ótimas, papai, eu... - interrompeu-se. Você está bem, papai?
- Estou ótimo - disse Hal. - Traga a sacola aqui.
Com o pé, Hal puxou a mesa junto ao sofá para baixo da janela, até deixá-la sob o peitoril, e colocou a sacola em sua superfície. Arreganhou a boca da sacola,
como se fossem lábios. Podia ver as pedras que Petey reunira, brilhando no interior. Usou a vassourinha do banheiro, a fim de puxar o macaco para diante. Ele vacilou
por um instante, depois caiu dentro da sacola. Houve um fraco jang! quando um de seus címbalos se chocou em uma das pedras.
- Pai? Papai?
A voz de Petey parecia amedrontada. Hal olhou para ele. Algo estava diferente; alguma coisa mudara. O que era? Então, viu a direção do olhar do menino e ficou
sabendo. O zumbido da mosca cessara. Ela jazia morta no peitoril.
- Foi o macaco que fez isso? - sussurrou Petey.
- Vamos - disse Hal, puxando o zíper da sacola para fechá-la. - Eu lhe conto. enquanto vamos até a casa.
- E como podemos ir até lá? Mamãe e Dennis levaram o carro.
- Não se preocupe - disse Hal. e assanhou os cabelos de Petey.
Na portaria. ele mostrou ao atendente sua carteira de motorista e uma nota de vinte dólares. Após ficar com o relógio digital Texas Instruments como garantia
colateral, o homem entregou-lhe as chaves de seu próprio carro - um castigado Gremlin AMC.
Enquanto rodavam para leste pela Estrada 302, em direção a Casco, Hal começou a falar, algo vacilante a princípio, depois um pouco mais rápido. Principiou
contando a Petey que seu pai provavelmente trouxera o macaco do estrangeiro, como um presente para os filhos. Não era um brinquedo particularmente único - nada havia
nele de estranho ou valioso. Talvez existissem centenas de milhares de macacos de corda no mundo, alguns fabricados em Hong Kong, outros em Taiwan ou na Coréia.
Entretanto, em algum ponto ao longo da linha - talvez mesmo no escuro armário dos fundos da casa em Connecticut, onde os dois meninos tinham acabado de crescer -
alguma coisa acontecera ao macaco. Alguma coisa ruim. Podia ser, disse Hal, enquanto tentava forçar o Gremlin do atendente a passar dos sessenta quilômetros, que
algumas coisas ruins - talvez até coisas muito ruins - nem mesmo estivessem despertas e cônscias do que fossem. Deixou o assunto assim, porque provavelmente seria
o máximo à altura do entendimento de Petey, mas sua mente prosseguiu em um curso pessoal. Refletiu que a maioria do mal podia ser muito semelhante a um macaco repleto
de mecanismos a que se dava corda; a corda funcionava, os címbalos começavam a tocar, os dentes riam, os idiotas olhos de vidro davam risadas... ou pareciam dá-las...
Contou a Petey como encontrara o macaco, mas pouco mais além disso - não queria aterrorizar seu garoto, deixando-o mais amedrontado do que já estava. Desta
maneira, a história ficou desconexa, não muito clara. porém Petey não fez perguntas; era possível que estivesse preenchendo os claros sozinho, pensou Hal, mais ou
menos como acontecera com ele próprio, ao sonhar incessantemente com a morte da mãe, embora não a tivesse presenciado.
Tio Will e Tia Ida haviam comparecido ao funeral. Depois disso, o Tio Will retornara ao Maine - era época da colheita - e a Tia Ida ficara duas semanas com
os meninos, a fim de regularizar os negócios da irmã, antes de levá-los para o Maine. Contudo, mais do que isso, ela procurava dar-se a conhecer aos dois - estavam
tão atordoados pela morte súbita da mãe, que pareciam em choque. Quando não conseguiam dormir, ela se fazia presente com um copo de leite morno. Hal acordava às
três da madrugada com pesadelos (pesadelos em que sua mãe se aproximava do bebedouro, sem ver o macaco que flutuava e bamboleava-se em suas frias profundezas azul-safira,
rindo e batendo os címbalos, cada par convergente de batidas deixando esteiras de borbulhas); ela estava lá, quando Bill caiu doente, primeiro com febre, depois
com uma erupção de dolorosas feridas na boca, seguida por urticária, três dias após o funeral; ela estava lá. Fez-se familiar aos meninos e, antes de tomarem o ônibus
de Harford a Portland em sua companhia, tanto Bill como Hal a procuraram separadamente e choraram em seu colo, enquanto ela os abraçava e consolava, assim começando
o elo entre eles.
Na véspera de deixarem Connecticut definitivamente e "descerem para o Maine" (era como se dizia naquele tempo), o trapeiro chegou em seu chocalhante caminhão
e recolheu a enorme pilha de coisas inúteis que Bill e Hal haviam carregado para a calçada, coisas do armário dos fundos. Quando tudo aquilo ficou amontoado na calçada
para ser recolhido, Tia Ida dissera aos dois que voltassem ao armário dos fundos e recolhessem quaisquer sounvenirs ou lembranças que gostassem de conservar. Lá
em casa não teremos lugar para tudo isso, meninos, ela disse a eles, e Hal supôs que Bill a endentera ao pé da letra, tendo então vasculhado todas aquelas caixas
fascinantes que o pai deixara para trás, por uma última vez. Hal não se juntara ao irmão mais velho - perdera a atração pelo armário dos fundos. Uma idéia terrível
lhe ocorrera durante aquelas duas primeiras semanas de luto: talvez meu pai não houvesse apenas desaparecido ou fugido, simplesmente porque os pés comichavam e descobrira
que casamento não era para ele.
Talvez o macaco o tivesse apanhado.
Ao ouvir o caminhão do trapeiro rugindo, pipocando e estourando no fim do quarteirão, Hal encheu-se de coragem, tirou o macaco da prateleira onde ficara desde
o dia da morte de sua mãe (ele não ousara mais tocá-lo, nem mesmo jogá-lo de volta no armário) e correu para baixo com o brinquedo. Nem Bill nem Tia Ida o viram.
A caixa de papelão de Ralston-Purina estava no topo de uma barrica, repleta de souvenirs quebrados e livros mofados. Hal jogara o macaco na caixa já cheia, a mesma
caixa onde estivera antes, ordenando histericamente que ele começasse a tocar seus címbalos (continue, continue, eu lhe ordeno, estou ordenando. ORDENO DUAS VEZES),
mas o macaco apenas ficou lá deitado despreocupadamente de costas, como se esperasse um ônibus, exibindo seu horrendo sorriso sabido.
Hal permaneceu ali, um menininho em velhas calças de brim e tênis surrados, enquanto o trapeiro, um italiano que usava um crucifixo e assobiava através de
falhas entre os dentes, começava a colocar caixas e barricas em seu velho caminhão, na carroceria com laterais de madeira. Hal o viu erguer a barrica e a caixa de
Ralston-Purina equilibrada em seu topo; viu o macaco desaparecer na carroceria do caminhão: viu quando o trapeiro subiu para a boléia, assoou vigorosamente o nariz
na palma da mão, que depois limpou em um enorme lenço vermelho, e deu partida ao motor, com um rugido e uma explosão de fumaça azul cheirando a gasolina; viu o caminhão
afastar-se. Então, um grande peso saiu de seu coração - chegou a senti-lo indo embora. Deu dois saltos, o mais alto que pôde saltar, os braços abertos, mãos espalmadas,
e se algum vizinho o vira, certamente acharia aquela atitude estranha, talvez ao ponto de blasfêmia - porque aquele garoto está pulando de alegria (porque, evidentemente
assim era; um salto de alegria dificilmente é disfarçado), eles sem dúvida se perguntariam, se ainda nem faz um mês que sua mãe foi sepultada?
Hal fazia aquilo porque o macaco se fora. Fora-se para sempre.
Ou, pelo menos, assim pensara ele.
Apenas três meses mais tarde, a Tia Ida o mandara ao sótão, apanhar as caixas com enfeites de Natal. Enquanto engatinhava de um lado para outro, empoeirando
os joelhos das calças, de repente se vira outra vez cara a cara com ele. Seu espanto e terror haviam sido tais, que precisou morder rispidamente o lado da mão, para
não gritar... ou perder os sentidos. Lá estava ele, exibindo o sorriso dentuço, os címbalos distanciados trinta centímetros um do outro e prontos para chocalhar,
reclinado despreocupadamente contra um canto da caixa de papelão de Ralston-Purina, como se esperasse um ônibus, parecendo dizer: Pensou que ia ficar livre de mim,
não foi? Só que não é tão fácil livrar-se de mim, Hal. Eu gosto de você, Hal. Fomos feitos um para o outro, apenas um menino e seu macaco de estimação, dois bons
e velhos amigos. E, em alguma parte ao sul daqui, há um trapeiro idiota, um velho italiano jazendo em uma banheira com pés em garras, os olhos esbugalhados e as
dentaduras quase caindo da boca, uma boca que dava gritos agudos, um trapeiro que fede como uma bateria Exide pifada. Ele estava me guardando para seu neto, Hal.
Ele me pôs na prateleira do banheiro, ao lado de seu sabonete, de sua navalha de barba, de seu creme de barbear e do rádio Philco em que ouvia os jogos dos Dodgers
de Brooklyn. Então, comecei a chocalhar, um dos meus címbalos bateu no velho rádio e o derrubou dentro da banheira. Foi quando voltei para você, Hal, fiquei vagando
estradas à noite, com um luar se refletindo em meus dentes às três da madrugada: deixei muitas pessoas Mortas em muitos Locais. Vim para você, Hal, sou o seu presente
de Natal. Quer me dar corda, quem está morto? É Bill? É o Tio Will? É você, Hal? É você?
Hal tinha recuado, fazendo alucinadas caretas, os olhos revirando-se e quase caiu escada abaixo. Contou para Tia Ida que não fora capaz de encontrar os enfeites
de Natal - era a primeira mentira que lhe dizia e ela lera a mentira em seu rosto, mas não perguntou por que mentira, graças a Deus - e mais tarde, quando Bill chegara,
ela lhe tinha pedido para procurar e ele encontrou os enfeites de Natal. Horas depois, quando estavam sozinhos, Bill o chamara de burro, incapaz de encontrar o próprio
traseiro com as duas mãos e uma lanterna. Hal nada respondera. Estava pálido, apenas comendo seu jantar. E, naquela noite, tornou a sonhar com o macaco, com um de
seus címbalos atingindo o rádio Philco, que irradiava a voz de Dean Martin, cantando Whenna da moon hitta you eye like a big pizza pie ats a moray. O rádio caía
na banheira, enquanto o macaco ria e tocava seus címbalos, com um JANG, um JANG e um JANG. Só que não era o trapeiro italiano que estava na banheira, quando a agua
ficou eletrificada.
Era ele.
Hal e seu filho desceram pelo acidentado terreno até o aterro atrás da casa, em direção à casa de barcos, que se projetava acima das águas sobre seus antigos
pilares. Hal segurava a sacola de vôo na mão direita. Tinha a garganta seca, os ouvidos aguçados para um som singularmente sutil. A sacola estava muito pesada.
Depositou a sacola no chão.
- Não toque nela - avisou.
Tateou no bolso, procurando o molho de chaves que Bill lhe dera e encontrou uma, nitidamente etiquetada C. BARCOS, em uma tira de esparadrapo.
O dia era límpido e frio, ventava, o céu exibia um brilhante azul. As folhas das árvores que se adensavam até a beira do lago, ostentavam cada viva tonalidade
outonal, do vermelho-sangue ao amarelo-ônibus-escolar. Elas falavam ao vento. Folhas soltas redemoinharam em torno dos tênis de Petey, enquanto o menino se mantinha
ansiosamente imóvel, e Hal pôde captar o odor de novembro, logo abaixo do vento, com o inverno concentrando-se logo atrás.
A chave girou na fechadura e ele abriu as portas deslizantes. A lembrança era intensa; nem precisava olhar, para chutar o bloco de madeira que mantinha a
porta aberta. O cheiro ali dentro era de pleno verão: lonas e madeiras resplandecentes, uma quentura luxuriante pairando no ar.
O bote a remos do Tio Will continuava ali, os remos cuidadosamente arrumados no interior, como se ainda na tarde da véspera ele o houvesse carregado com seus
apetrechos de pesca e dois engradados de seis latas de Black Label. Tanto Bill como Hal haviam saído para pescar muitas vezes com o Tio Will, porém nunca iam juntos.
Tio Will afirmava que o barco era pequeno demais para três pessoas. Os arremates vermelhos, que ele retocava a cada primavera, agora estavam desbotados e descascando.
As aranhas haviam fiado seda na proa do barco.
Hal puxou o barco pela rampa abaixo, até a diminuta faixa de praia. As excursões pesqueiras tinham sido uma das melhores partes de sua meninice com o Tio
Will e a Tia Ida. Sua impressão era de que Bill devia sentir o mesmo. Normalmente, o tio Will era o mais taciturno dos homens, porém assim que tinha o bote posicionado
a seu gosto, uns sessenta ou setenta metros além da margem, com as linhas colocadas, as bóias de linha de pesca flutuando acima da água, ele abria uma cerveja para
si e outra para Hal (que raramente bebia mais do que metade da única lata permitida pelo Tio Will, sempre com a ritual advertência do tio, de que a Tia Ida jamais
deveria saber, porque "ela me daria um tiro, se soubesse que eu estava dando cerveja para vocês, meninos, beberem"), tornando-se expansivo como cera. Contava histórias,
respondia perguntas, recolocava isca no anzol de Hal quando era preciso... e o barco vagava para onde o vento e a branda corrente o levavam.
- Por que nunca vai até o meio do lago, Tio Will? - perguntara Hal certa vez.
- Olhe pela borda do barco - respondera o Tio Will.
Hal tinha olhado. Viu a água azul e sua linha de pesca afundando em negro.
- Está olhando para a parte mais funda do Lago Cristal - dissera Tio Will, amassando a lata vazia de cerveja em uma das mãos e escolhendo uma nova com a outra.
- Uns cem metros, mais um, menos um centímetro. O velho Studebaker de Amos Culligan está em algum lugar, aí embaixo. O maldito tolo trouxe o carro para o lago, em
um começo de dezembro, antes que o gelo ficasse firme. Teve sorte bastante em escapar vivo, se teve!
Nunca conseguiram recuperar aquele Stud e nunca mais o verão, até soprar a trombeta do Juízo Final. O lago é danado de fundo bem aqui, ora se é! Os peixes
grandes estão bem aqui. Hal. Não precisamos ir mais longe. Vejamos como anda sua isca. Não faça cerimônia e enrole essa carretilha.
Hal obedeceu e, enquanto o Tio Will colocava uma minhoca fresca, tirada da velha lata de Crisco que servia como sua lata de iscas, ele espiou a água, fascinado,
tentando ver o velho Studebaker de Amos Culligan, todo enferrujado, com algas escapando pela janela aberta do lado do motorista, através da qual Amos escapara no
absolutamente último momento, algas (estonando o volante como um colar apodrecido, algas pendendo do espelho retrovisor e jogando de um lado para outro ao sabor
das correntes, como um estranho rosário. No entanto, só conseguiu ver azul, matizando-se para negro, e havia o formato da minhoca do Tio Will, o anzol escondido
dentro de seus nós, pendendo ali no meio das coisas, sua própria versão da realidade, um ensolarado e comprido cabo. Hal teve uma breve e vertiginosa visão de estar
suspenso acima de um espantoso abismo, e fechara os olhos por um momento, até a vertigem passar. Naquele dia, teve a impressão de recordar, havia bebido toda a sua
lata de cerveja.
...a parte mais funda do Lago Cristal... uns cem metros, mais um, menos um centímetro.
Parou por um momento, resfolegante, e ergueu os olhos para Petey, imóvel e olhando ansiosamente.
- Precisa de ajuda, papai?
- Não. É só um momento.
Recuperou a respiração e então puxou o barco pela estreita faixa de areia até a água, deixando um sulco. A pintura descascara, mas o barco tinha sido mantido
ao abrigo e parecia em bom estado.
Nas ocasiões em que saía para pescar, o Tio Will puxava o barco rampa abaixo e pulava para ele quando a proa flutuava. Então, agarrando um remo para empurrá-lo,
gritava para Hal: "Empurre-me para fora, Hal... é aqui que você merece confiança!"
- Dê-me essa sacola, Petey. Depois empurre o barco - disse ele. Sorrindo um pouco, acrescentou: - É aqui que você merece confiança!
Petey não sorriu de volta.
- Eu vou também, papai?
- Não agora. Em outra vez eu o levarei para pescar, mas... não agora.
Petey vacilava. O vento desmanchava seus cabelos castanhos e algumas folhas, leves e secas, passaram revoluteando por seus ombros, indo pousar no limite das
águas, elas próprias boiando como barcos.
- Você devia tê-lo encoberto - disse ele, em voz baixa.
- O quê? - perguntou Hal, mas pensou ter entendido o que Petey queria dizer.
- Botar algodão em cima dos címbalos. Prender com fita adesiva. Assim, ele não poderia... fazer aquele barulho.
De repente, Hal se lembrou de Daisy vindo em sua direção - não caminhando, mas cambaleando - e como, subitamente, o sangue jorrara de ambos os olhos da cachorra,
em uma torrente que lhe encharcou o pêlo e pingou no piso do celeiro, como ela tombou sobre as patas dianteiras... e no ar imóvel do dia chuvoso de primavera em
que ouvira o som, não amortecido, mas curiosamente claro, vindo do sótão da casa, a quinze metros de distância: Jang jang jang jang!
Hal começara a gritar histericamente, deixando cair a braçada de lenha que levava para o fogo. Correu até a cozinha, ao encontro do Tio Will, que comia ovos
estrelados e torradas, os suspensórios ainda nem puxados para cima dos ombros.
- Ela já estava velha, Hal -, havia dito o Tio Will, com o rosto abatido e infeliz ele também parecendo velho. - Estava com doze anos, o que é muita idade
para um cão. Procure aceitar a realidade - a velha Daisy não gostaria de vê-lo assim.
Velha, ecoara o veterinário, ao mesmo tempo em que parecia perturbado, porque cães não morrem de hemorragias cerebrais explosivas, mesmo aos doze anos ("Como
se alguém houvesse colado uma bomba em sua cabeça", Hal o ouviu dizendo ao Tio Will, enquanto este cavava um buraco atrás do celeiro, não muito longe do lugar em
que enterrara a mãe de Daisy, em 1950; "Nunca vi nada parecido, Will").
E mais tarde, quase fora de si pelo terror, mas incapaz de controlar-se, Hal subiu até o sótão.
Olá, Hal, como vai? sorriu-lhe o macaco, de seu canto em penumbras. Os címbalos estavam imóveis, uns trinta ou mais centímetros distanciados entre si. A almofada
do sofá, que Hal por fim colocara entre eles, agora estava jogada através do sótão. Algo - alguma força - a jogara lá com força bastante para rasgar-lhe o envoltório,
e o recheio se espalhara para fora. Não se preocupe com Daisy, sussurrou o macaco, dentro de sua cabeça, os olhos vidrados, cor de avelã, fixos nos azuis e esbugalhados
de Hal Shelburn.
Não se preocupe com Daisy, ela era velha, Hal, o próprio veterinário disse isso e, já que estamos no assunto, viu o sangue jorrando dos olhos dela, Hal? Dê-me
corda, Hal. Dê-me corda, vamos brincar, e quem está morto, Hal? É você?
Quando caiu em si, percebeu que estivera engatinhando para o macaco, como que hipnotizado. Tinha uma mão estendida para tocar a chave da corda. Então, rastejou
para trás, quase caindo pelos degraus do sótão em sua pressa - provavelmente teria caído, se o poço da escada não fosse tão estreito. Um leve som gemido brotava
de sua garganta.
Agora, sentado no barco, olhava para Petey.
- Amortecer os címbalos não funciona - falou. - Já tentei isso uma vez.
Petey lançou um olhar nervoso para a sacola de vôo.
- O que aconteceu, papai?
- Nada sobre o que eu desejaria falar agora - respondeu Hal - e nada que você quisesse ouvir. Venha e dê-me um empurrão.
Petey inclinou-se para empurrar o barco. O leme riscou a areia e Hal ajudou com um remo. De repente, aquela sensação de estar amarrado à terra desapareceu
e o barco se movia levemente, uma embarcação outra vez, após anos de prisão na escura casa de barcos, balouçando-se em ondas ligeiras. Hal libertou o outro remo
e fechou as forquetas para sustentá-los.
- Tome cuidado, papai - disse Petey.
- Isto não vai demorar muito - prometeu Hal, mas olhou para a sacola de vôo e interrogou-se.
Começou a remar, flexionando o corpo para impelir o barco. Passou a sentir a velha dor familiar no fim das costas e entre as omoplatas. A margem foi ficando
para trás. Petey estava magicamente com oito anos de novo, seis, um garoto de quatro anos, em pé à beira da água. Fez pala acima dos olhos, com uma mão de bebê.
Hal olhou casualmente para a margem, mas não se permitiu realmente estudá-la. Fazia quase quinze anos e, se observasse a linha da praia com minúcias, veria
mais as modificações que as similaridades, e se perderia. O sol batia em seu pescoço e ele começou a suar. Olhou para a sacola de vôo e, por um momento, perdeu o
ritmo abaixar-e-puxar. A sacola de vôo parecia... parecia avolumar-se. Hal passou a remar mais depressa.
O vento ganhou força, secando o suor e refrescando-lhe a pele. O barco subiu e a proa jogou água para os lados, quando ele desceu. Não teria o vento aumentado,
somente no último minuto ou coisa assim? E Petey, não estava gritando algo? Sim, estava. Hal não podia ouvi-lo, por causa do vento. Não importava. Ia livrar-se do
macaco, por mais outros vinte anos - ou talvez (para sempre, meu Deus, por favor) para sempre - isso era o que importava.
O barco empinou-se e desceu. Hal olhou para a esquerda e viu pequenas ondas coroadas de espuma. Tornou a espiar a linha da praia, viu Hunter's Point (a Ponta
do Caçador) e uma construção em ruínas, que devia ter sido a casa de barcos dos Burdon, quando ele e Bill eram crianças. Estava quase lá agora. Quase sobre o ponto
em que o famoso Studbaker de Amos Culligan afundara no gelo, em um longínquo dezembro. Quase acima da mais profunda zona do lago.
Petey gritava alguma coisa; gritava e apontava. Hal ainda não podia ouvi-lo. O barco a remos balançava e rolava, achatando nuvens de fino spray, em cada lado
de sua proa descascada. Um diminuto arco-íris cintilou em um jato d'água pulverizado e foi dividido ao meio. Sol e chuva percorriam o lago, intercalados, e agora
as ondas não eram mais tão brandas, as coroadas de espuma estavam mais altas. Seu suor secara e sua pele arrepiava-se, os borrifos de água haviam molhado as costas
de seu blusão. Remou carrancudamente, os olhos alternando-se entre a linha da praia e a sacola de vôo. O barco tornou a subir, agora tão alto, que por um momento
o remo direito moveu-se no ar, em vez de na água.
Petey apontava para o céu, seu grito agora era apenas uma fraca e brilhante tira sonora.
Hal olhou por sobre o ombro.
O lago era um frenesi de ondas. Passara para uma mortal e escura tonalidade de azul, pontilhado de espumas brancas. Uma sombra correu através de água em direção
do barco, e algo em sua forma era familiar, tão familiar, que Hal olhou para cima - e então o grito estava ali, lutando em sua garganta opressa.
O sol estava atrás da nuvem, transformando-a em uma forma corcovada. com dois crescentes orlados de dourado, distanciados entre si. Havia dois buracos furados
no final da nuvem. e a luz do sol passava através deles, em duas colunas.
Quando a nuvem cruzou por sobre o barco, os címbalos do macaco, apenas amortecidos pela sacola de vôo, começaram a bater. Jang jang jang jang, é você, Hal,
finalmente é você; agora sobre a parte mais linda do lago chegou a sua vez, sua vez.. sua vez....
Todos os elementos necessários da linha da margem encaixavam-se em seus lugares. A carcaça apodrecida do Stubedaker de Amos Culligan jazia em algum ponto
abaixo, era ali que ficavam os peixes grandes, aquele era o lugar.
Hal firmou os remos nas forquetas, em um gesto rápido, inclinou-se para diante, pouco ligando para o barco que saltava loucamente, e agarrou a sacola de vôo.
Os címbalos tocavam sua selvagem música pagã; as laterais da sacola bramiam, como por efeito de tenebrosa respiração.
- Bem aqui, seu filho da mãe! - gritou Hal. - BEM AQUI!
Jogou a sacola por sobre a borda do barco.
Ela afundou depressa. Por um momento, ele a viu descendo, as laterais movendo-se - e naquele momento interminável, ainda podia ouvir os címbalos batendo.
E também por um momento, as águas negras pareceram clarear, deixando-o ver no interior daquele terrível abismo, até onde jaziam os peixes graúdos; lá estava o Studebaker
de Amos Culligan, e a mãe de Hal se postava atrás de seu volante limoso, um esqueleto sorridente, com um peixe de água doce espiando friamente por uma órbita ocular
descarnada. Tio Will e Tia Ida reclinavam-se indolentemente ao lado dela, e os cabelos grisalhos da Tia Ida flutuaram para o alto quando a sacola caiu, girando e
girando sobre si mesma, deixando para trás bolhas prateadas: jang jang jang jang...
Hal bateu com os remos na água outra vez, tirando sangue dos nós dos dedos esfolados (e, oh, meu Deus, a traseira do Studebaker de Amos Culligan estava cheia
de crianças mortas! Charlie Silrerman... Johnny McCabe..., e começou a trazer o barco de volta.
Houve um estalo entre seus pés, seco como um tiro de revólver e, de repente, água clara se infiltrava entre duas tábuas. O barco era velho; a madeira encolhera
um pouco, sem dúvida; era apenas uma pequenina fenda. Contudo, não estava ali, quando remara para o lago. Hal podia jurar.
A margem e o lago trocaram de lugares, em sua visão. Petey agora ficava às suas costas.
Acima dele, desfazia-se aquela terrível nuvem simiana. Hal começou a remar. Vinte segundos bastaram para convencê-lo de que remava para salvar a vida. Como
nadador, era apenas regular, porém mesmo um ás da natação seria posto à prova. naquelas águas subitamente enfarruscadas.
Outras duas tábuas afastaram-se de repente, com aquele som de tiro de revólver.
Mais água penetrou no barco, molhando seus sapatos. Havia pequeninos ruídos metálicos de algo se quebrando, e ele percebeu que eram produzidos por pregos.
Uma forqueta se soltou e voou para a água - o torniquete seria o seguinte?
O vento agora vinha de suas costas, como se tentasse retardá-lo ou mesmo impeli-lo para o meio do lago. Hal estava aterrorizado, mas sentia uma louca espécie
de euforia, através do terror. Desta vez, o macaco se fora para sempre. De certa forma, estava certo disso. O que quer que lhe acontecesse, o macaco não voltaria
para lançar uma sombra sobre a vida de Dennis ou de Petey. O macaco se fora, agora talvez repousasse sobre o capô do Studebaker de Amos Culligan, no fundo do Lago
Cristal. Fora-se para sempre.
Hal remou, abaixando-se para diante e inclinando-se para trás. Aquele som estalante, retalhado, voltou a repetir-se. Agora, a enferrujada lata de Crisco que
jazia no fundo do barco, flutuava em sete centímetros de água. Os borrifos salpicaram o rosto de Hal.
Houve um ruído mais alto e estalante, quando o assento de proa caiu em dois pedaços e ficou flutuando perto da lata de iscas. Uma tábua se soltou no lado
esquerdo do barco, depois outra, esta junto à linha d'água, no lado direito. Hal remou. A respiração arranhava em sua boca, quente e seca, então foi sua garganta
que se inchou, com o sabor de cobre da exaustão. Seus cabelos, molhados de suor, agitavam-se ao vento.
Agora, um estalo percorreu a superfície diretamente acima do fundo do barco, ziguezagueou entre seus pés e correu até a proa. A água esguichou para dentro;
ele tinha água até os tornozelos, depois até o início da panturrilha. Continuou remando, mas o movimento do barco em direção à margem, agora ficara entorpecido.
Não ousava olhar para trás, a fim de verificar em que altura estava.
Outra tábua se afrouxou. O estalo percorrendo o centro do barco adquiriu ramificações, como uma árvore. A água penetrava por todas as fendas possíveis.
Hal começou a usar os remos como em uma arrancada, a respiração lhe saindo em grandes haustos ofegantes. Deu uma remada... duas... e na terceira, os dois
torniquetes dos remos se soltaram. Ele perdeu um remo, aferrou-se ao outro. Levantando-se, pôs-se a golpear a água com ele. O barco oscilou, quase emborcou e tornou
a jogá-lo no assento, com um baque seco.
Momentos mais tarde afrouxavam-se outras tábuas, o assento afundou e ele se viu na água que enchia o fundo do barco, espantado com sua frieza. Tentou ficar
de joelhos, pensando em desespero: Petey não deve ver isto, não pode ver o pai afogar-se diante de seus olhos, você vai nadar, nadar cachorrinho, se for preciso,
mas faça, faça alguma coisa...
Houve outro estalo estilhaçante - quase um rompimento - e ele se viu na água, nadando para a margem como jamais nadara em sua vida... e a margem estava maravilhosamente
próxima. Um minuto depois, viu-se em pé, com a água pela cintura, nem a cinco metros da praia.
Petey entrou estabanadamente no lago, com os braços estendidos, gritando e chorando, ao mesmo tempo em que ria. Hal correu para ele, chapinhou na água e caiu.
Petey, com água pelo peito, caiu também.
Os dois agarraram-se.
Respirando em profundos haustos, Hal ainda assim ergueu o menino no colo e o carregou até a praia, onde os dois se jogaram, ofegantes.
- Papai? Ele se foi mesmo? Aquele macaco maldoso?
- Sim, acho que se foi. Desta vez, para sempre.
- O barco se desmanchou. Ele se... desmanchou todo, em volta de você. Hal olhou para as tábuas, flutuando dispersas sobre a água, a doze metros de distância.
Não mostravam qualquer semelhança com o ajustado barco feito à mão, que havia puxado da casa de barcos.
- Está tudo bem agora - disse Hal, reclinando-se sobre os cotovelos.
De olhos fechados, deixou que o sol lhe aquecesse o rosto.
- Você viu a nuvem? - sussurrou Petey.
- Vi... mas não a vejo agora. E você?
Os dois olharam para o céu. Havia espalhados tufos brancos aqui e ali, mas nenhuma nuvem escura. Fora-se, com ele havia dito. Hal ajudou Petey a levantar-se.
- Há toalhas na casa. Vamos. - Então, fez uma pausa e contemplou o filho. - Você foi louco, correndo daquele jeito.
Petey o fitou solenemente.
- Você foi corajoso, papai.
- Fui? - A idéia de coragem nunca lhe passara pela cabeça. Nela havia somente seu medo. Um medo grande demais, para que pudesse ver qualquer outra coisa.
Se é que algo mais existira lá. - Vamos, Pete.
- O que vamos dizer a mamãe?
Hal sorriu.
- Não sei, garotão, mas pensaremos em algo.
Parou por um momento mais longo e olhou para as tábuas que boiavam sobre a água. O lago estava novamente calmo, cintilando com pequenas ondulações. De repente,
Hal pensou nos veranistas que nem mesmo conhecia - um homem e seu filho, talvez, em excursão de pesca, procurando os peixes graúdos. Acho que fisguei alguma coisa
aqui, papai! grita o menino. Muito bem, enrole essa carretilha e vejamos o que foi, responde o pai, e então, içado das profundezas, com algas pendendo em seus címbalos
e exibindo seu terrível sorriso de acolhida... surge o macaco.
Hal estremeceu - mas aquelas eram apenas coisas que podiam acontecer. - Vamos - tornou a dizer para Pete.
E os dois seguiram pela trilha acima, por entre a chamejante vegetação do outono, em direção à casa.

1903

De The Bridgton News 24 de outubro de 1980
MISTÉRIO NA MORTANDADE DE PEIXES
por Betsy Moriarty

Centenas de peixes mortos foram encontrados boiando de ventre para cima, no Lago Cristal, na vizinha cidade de Casco, em fins da semana passada. As quantidades
maiores parecem ter morrido nos arredores de Hunter's Point, embora isto seja de difícil determinação, em vista das correntes que existem no lago. Os peixes mortos
incluem todos os tipos comumente encontrados naquelas águas: pickerel, bluegills, sunnies, carpas, hornpout, truta castanha e arco-íris, assim como um salmão, perdido
seu acesso ao mar. As autoridades de Caça e Pesca se dizem perplexas...

* * *



O NEVOEIRO

I. Chega a tempestade

Foi como aconteceu. Na noite em que finalmente cedeu a pior onda de calor da história no norte da Nova Inglaterra - a noite em julho de 19... toda a região
oeste do Maine foi devastada pelas mais terríveis tempestades que já testemunhei.
Morávamos em Long Lake e vimos a primeira dessas tempestades abrindo caminho sobre a água, em nossa direção, pouco antes do escurecer. Durante uma hora o
ar havia ficado absolutamente parado. A bandeira americana colocada por meu pai em nossa casa de barcos, em 1936, jazia flácida contra seu mastro. Nem mesmo as pontas
oscilavam. O calor era como uma coisa sólida, parecendo tão profundo, tão soturno como água de poço. Naquela tarde, nós três tínhamos ido nadar, porém a água não
causava alívio, a menos que se fosse bem no fundo. Acontece que, nem eu e nem Steff queríamos ir para o fundo, porque Billy não podia. Billy tem cinco anos.
Tivemos uma refeição fria às cinco e meia, beliscando desanimadamente sanduíches de presunto e salada de batata no passadiço que dá para o lago. Ninguém parecia
querer algo mais além de Pepsi, que estava em um balde de aço com cubos de gelo.
Depois que terminamos, Billy voltou a brincar em suas barras de exercícios por algum tempo. Eu e Steffy ficamos sentados, sem falar muito, fumando e espiando
o soturno espelho chato do lago até Harrison, no lado oposto ao nosso. Alguns barcos à motor troavam para lá e para cá. Os pinheiros na margem contrária pareciam
empoeirados e murchos. Para oeste, nuvens enormes e purpúreas acumulavam-se lentamente, maciças como um exército. Relâmpagos faiscavam dentro delas. Na casa ao lado,
o rádio de Norton, sintonizado para aquela estação de música clássica, transmitida do alto do Monte Washington, soltava uma alta torrente de estática, sempre que
brilhava algum relâmpago. Norton era um advogado de Nova Jersey e aquela casa junto ao Long Lake era apenas uma residência de verão, sem qualquer fornalha ou calefação.
Dois anos antes, havíamos tido uma disputa sobre divisas, que acabou indo parar no tribunal do condado. Eu venci. Norton dizia que eu vencera porque ele era um forasteiro.
Não havia excessos de amizade entre nós.
Steff suspirou desanimada e abanou o alto dos seios com a barra de sua frente única.
Duvidei que aquilo a refrescasse muito, mas o movimento melhorava bastante a vista.
- Não quero assusta-la - falei - mas acho que vem uma tempestade e tanto por ai.
Ela me fitou dubitativamente.
- Já tivemos trovoadas na noite de anteontem e ontem também, David. Não deram em nada.
- Esta noite vai ser diferente.
- Você acha?
- Se a coisa ficar preta, vamos para o andar de baixo.
- Acha mesmo que haverá temporal?
Meu pai tinha sido o primeiro a construir uma moradia que resistisse o ano inteiro, naquele lado do lago. Quando pouco mais do que um garoto, ele e seus irmãos
haviam levantado uma casa de verão onde a nossa agora se assentava, mas uma tempestade de verão, em 1938, a derrubara até os alicerces, com paredes de pedra e tudo.
Só a casa de barcos escapara. Um ano mais tarde, ele havia começado a casa grande. Agora, as árvores é que sofrem nos temporais fortes. Envelheceram e o vento as
derruba. É a maneira da mãe natureza limpar a casa periodicamente.
- Para ser franco, não sei - falei, em tom sincero. Eu tinha apenas ouvido histórias sobre a grande tempestade de trinta e oito. - Contudo, o vento pode soprar
do lago como um trem expresso.
Billy apareceu. pouco depois, queixando-se de que não estava divertido brincar nas barras de exercício, porque ele estava "todo suado". Afaguei seus cabelos,
desmanchando-os, e lhe dei outra Pepsi. Mais trabalho para o dentista.
As nuvens cúmulos de trovoadas, estavam chegando mais perto, empurrando o azul do céu. Agora não havia mais dúvida sobre a iminência de uma tempestade. Norton
desligara seu rádio. Billy sentou-se entre sua mãe e eu, espiando o céu como que fascinado. Os trovões ribombavam, rolando lentamente através do lago, ecoando e
voltando a nós. As nuvens se torciam e rolavam, agora encimando todo o lago, e pude ver uma coifa delicada de chuva que caía delas. Tudo ainda muito distante. Enquanto
olhávamos, provavelmente devia estar chovendo em Bolster's Mills, talvez até em Norway.
O ar começou a mover-se, primeiro intermitente, erguendo a bandeira e deixando-a cair de novo. Começou a refrescar e a brisa se firmou, primeiro esfriando
a transpiração de nossos corpos, depois parecendo congelá-la.
Foi então que avistei o véu prateado, cruzando o lago. Em segundos, apagou Harrison da vista e veio direto para nós. Os barcos a motor tinham desaparecido
do cenário.
Billy levantou-se de sua cadeira, uma réplica em miniatura de nossas cadeiras de diretor, completa com seu nome pintado às costas.
- Papai! Olhe!
- Vamos entrar - falei, levantando-me e passando o braço em torno de seus ombros.
- Você viu, papai? O que era aquilo?
- Um ciclone de água. Vamos entrar.
Steff lançou um olhar rápido e assustado para meu rosto.
- Vamos, Billy - disse em seguida. - Faça o que seu pai mandou.
Entramos pelas portas deslizantes de vidro que dão para a sala de estar. Fechei as portas, empurrando-as em seus trilhos, depois parei e olhei novamente para
fora. O véu prateado já fizera três-quartos do trajeto através do lago. Reduzira-se a uma espécie de xícara de chá girando loucamente entre o céu negro, cada vez
mais baixo, e a superfície da água, que ficara cor de chumbo, raiada de branco cromado. O lago começava a oferecer uma fantástica semelhança com o oceano, havia
ondas enormes que se quebravam e lançavam espuma acima das docas e quebra-mares. Lá fora, no meio, ondas de crista espumosa jogavam as cabeças para um e outro lado.
Espiar o ciclone líquido era hipnótico. Estava quase sobre nós, quando um relâmpago riscou tudo com tanta luminosidade, que a paisagem permaneceu em negativo
nos meus olhos, por trinta segundos depois disso. O telefone fez um assustado ting! e, quando me virei, vi minha esposa e meu filho, parados bem à frente do janelão
que nos dá uma vista panorâmica do lago a noroeste.
Tive uma daquelas terríveis visões - creio que são reservadas exclusivamente para maridos e pais - em que a janela panorâmica se estilhaçava com um som grave
de tosse seca, disparando flechas de vidro ao estômago nú de minha esposa, ao rosto e pescoço de meu garoto. Os horrores da Inquisição nada são, comparados às sinas
que nossa mente arquiteta para os entes queridos.
Agarrei os dois com firmeza e os puxei dali.
- Diabo, o que estão fazendo? Saiam daí!
Steff deu-me um olhar assustado. Billy apenas olhou para mim como parcialmente despertado de um sono profundo. Guiei-os para a cozinha e apertei o interruptor
da luz.
O telefone tilintou novamente.
Então, o vento chegou. Era como se a casa houvesse decolado, imitando um 747. Ouvia-se um assobio arquejante e agudo, às vezes aprofundando-se em um rugido
grave antes de glissar para um uivo ululante.
- Vá para baixo! - falei para Steff, agora precisando gritar, a fim de ser ouvido.
Diretamente acima da casa, os trovões estremeciam pranchas gigantescas e Billy encolheu-se, agarrado à minha perna.
- Venha você também! - gritou Steff.
Assenti, fazendo gestos para acalmá-la. Precisei arrancar Billy de minha perna.
- Vá com sua mãe. Preciso apanhar algumas velas, para o caso da luz faltar.
Ele a seguiu, e eu comecei a abrir armários. Velas são coisas engraçadas, sabem como é.
A gente as guarda, todas as primaveras, sabendo que uma tempestade de verão pode interromper a energia elétrica. No entanto, chegado o momento, elas se escondem.
Agora, eu vasculhava o quarto armário, passando pelos quinze gramas de erva que comprara com Steff, quatro anos atrás, mas que ainda não fora inteiramente
fumada, passando pelas dentaduras chocalhantes de dar corda, pertencentes a Billy e compradas na Loja de Novidades de Auburn, passando pelas fotos espalhadas que
Steff sempre esquecia de colar em nosso álbum. Olhei debaixo de um catálogo da Sears e atrás de uma boneca Kewpie, de Taiwan, que eu ganhara na Feira de Fryeburg,
derrubando garrafas de leite em madeira, com bolas de tênis.
Encontrei as velas atrás da boneca Kewpie, com seus vidrados olhos mortos de ser humano. Ainda estavam embrulhadas no celofane. Quando fechei a mão em torno
delas, as luzes apagaram-se e a única eletricidade era a que provinha do céu. A sala de refeições iluminava-se em uma série de flashes rápidos, brancos e purpúreos.
Ouvi Billy começando a chorar lá embaixo e o murmúrio sufocado de Steff tentando acalmá-lo.
Eu tinha que dar mais uma espiada na tempestade.
O ciclone líquido já devia ter passado sobre nós ou se dissolvera junto à margem, mas eu não conseguia ver além de vinte metros na superfície do lago. A água
estava em absoluto torvelinho. Vi o embarcadouro de alguém - dos Jasser, talvez - arrancado com seus esteios principais, virando-se alternadamente para o céu e enterrando-se
na água encapelada.
Desci. Billy correu a agarrar-se em minhas pernas. Levantei-o no colo e o abracei com força. Depois acendi as velas. Sentamo-nos no quarto de hóspedes, abaixo
do saguão de meu pequeno estúdio e nos entreolhamos, à tremeluzente claridade amarelada das velas, enquanto ouvíamos a tormenta urrar e sacudir nossa casa. Uns vinte
minutos mais tarde, ouvimos um ruído de madeira lascando, depois a queda, quando um dos grandes pinheiros foi derrubado nas proximidades. Em seguida, houve silêncio.
- Será que já terminou? - perguntou Steff.
- Talvez - respondi. - Talvez, apenas por algum tempo.
Subimos ao andar de cima, cada um carregando uma vela, como monges indo às vésperas. Billy carregava a sua, com cuidado e orgulhosamente. Carregar uma vela,
carregar o fogo era uma grande coisa para ele. Ajudava-o a esquecer que tivera medo.
Estava muito escuro, para ver-se quais os danos existentes em volta da casa. Já passara da hora de Billy dormir, mas nenhum de nós sugeriu levá-lo para a
cama. Sentados na sala de estar, ouvíamos o vento e olhávamos os relâmpagos.
Cerca de uma hora mais tarde, o temporal voltou. Durante três semanas, a temperatura passara dos trinta e dois graus e, em seis daqueles vinte e um dias,
o Serviço Nacional de Meteorologia sediado no aeroporto de Portland, anunciara temperaturas acima de trinta e cinco graus e meio. Tempo esquisito. Além do extenuante
inverno que havíamos atravessado e da primavera atrasada, algumas pessoas tinham desencavado aquela velha piada sobre os efeitos retardados dos testes com a bomba
A nos anos cinqüenta. Isso é, naturalmente, o fim do mundo. A mais velha piada de todas.
A segunda borrasca não foi tão violenta, mas ouvimos a queda de várias árvores, enfraquecidas pela primeira investida. Quando o vento começou a esmorecer
novamente, ouviu-se uma forte pancada no teto, como um punho que caísse sobre a tampa de um ataúde. Billy deu um salto e olhou apreensivamente para o alto.
- Ele agüenta, campeão - falei.
Billy sorriu nervosamente.
Por volta das dez da noite, chegou a última borrasca. Terrível. O vento ululava quase tão alto como da primeira vez e os relâmpagos pareciam explodir em toda
a nossa volta.
Mais árvores caíram e ouvimos um ruído de madeira estilhaçada, seguido de uma queda, perto da água. Steff sufocou um grito. Billy acabara dormindo em seu
colo.
- O que foi isso, David?
- Acho que foi a casa de barcos.
- Oh! Oh, meu Deus!
- Vamos todos para baixo novamente, Steffy - falei.
Tomei Billy nos braços e levantei-me com ele. Os olhos de Steff estavam arregalados e cheios de medo.
- Será que vamos ficar bem, David?
- Claro.
- Fala sério?
- Naturalmente.
Fomos para baixo. Dez minutos mais tarde, quando a borrasca final atingiu o auge, houve uma barulheira de vidros espatifados no andar de cima - a janela panorâmica.
Talvez a minha visão de horas antes não houvesse sido assim tão louca. Steff estivera cochilando e acordou com um pequeno grito agudo, enquanto Billy se remexia
inquietamente na cama de hóspedes.
- A chuva entrará em casa - disse ela. - Acabará com os móveis.
- Se entrar, paciência. Está tudo no seguro.
- Isso não torna as coisas melhores - disse ela, em voz perturbada e reprovadora. - A cômoda de sua mãe... nosso sofá novo... a TV colorida...
- Psst - falei. - Durma.
- Não posso - respondeu ela, mas dormia cinco minutos depois.
Fiquei acordado por outra meia hora, tendo uma vela acesa por companhia, ouvindo o temporal caminhar e falar lá fora. Tive a sensação de que, pela manhã,
haveria uma porção de residentes das margens do lago ligando para seus agentes de seguro, um bocado de serras zumbindo, enquanto os moradores cortavam as árvores
caídas em seus tetos e varado suas janelas, bem como inúmeros caminhões amarelos da companhia de eletricidade rodando nos arredores.
O temporal agora diminuía, sem nenhum sinal de nova borrasca. Subi ao andar de cima, deixando Steff e Billy na cama. Examinei a sala de estar. A porta de
vidro deslizante agüentara o rojão. Entretanto, no lugar onde antes houvera a janela panorâmica, agora havia um buraco chanfrado e recheado de folhas de bétula.
Era o topo da velha árvore que crescia junto à entrada lateral para o porão, desde que eu podia recordar. Olhando para seu topo, agora visitando nossa sala de estar,
podia entender o que Steff quisera dizer, ao falar que o seguro não tornava as coisas melhores. Eu amara aquela árvore.
Havia sido uma rude veterana de muitos invernos, a única árvore no lado da casa dando para o lago, que ficara isenta de minha própria serra de cadeia. Enormes
estilhaços de vidro em cima do tapete, refletiam e repetiam a claridade de minha vela. Lembrei-me de avisar a Steff e Billy. Teriam que usar seus chinelos ali. Os
dois gostavam de perambular descalços pela manhã.
Desci novamente ao andar de baixo. Dormimos os três na cama de hóspedes, com Billy entre nós dois. Sonhei que via Deus caminhando através de Harrison, no
lado oposto do lago, um Deus tão gigantesco que, da cintura para cima, ficava perdido em um cristalino céu azul. No sonho, eu podia ouvir o estalo lacerante e o
ruído de árvores lascadas se quebrando, quando Deus pisava forte nos bosques, imprimindo Suas pegadas entre as árvores. Ele circulava o lago, seguia para o lado
de Bridgton, em nossa direção. Todos os chalés e casas de verão explodiam em chamas branco-púrpura, como relâmpagos, e logo a fumaça encobria tudo. A fumaça encobria
tudo como um nevoeiro.

II. Depois da tempestade. Norton. Viagem à cidade.

- Poxa! - exclamou Billy.
Ele estava em pé junto à cerca divisória entre nossa propriedade e a de Norton, com os olhos cravados em nossa entrada para carros, mais abaixo. Essa entrada
de carros segue por uns duzentos e cinqüenta metros até uma estrada rural que, por sua vez, após uns setecentos e cinqüenta mais, emenda-se a uma outra, asfaltada
e com duas pistas, chamada Estrada Kansas. Da Estrada Kansas, pode-se ir a qualquer lugar desejado, desde que seja Bridgton.
Vi o que Billy olhava e meu coração gelou.
- Não chegue mais perto, campeão. Onde você está já chega!
Billy não discutiu.
A manhã era brilhante e tão límpida como um toque de sino. O céu que mostrara uma tonalidade suja e obscura durante a onda de calor, recuperara um vívido
azul que era quase outonal. Havia uma brisa leve, desenhando alegres manchas mosqueadas de sol na entrada de carros e movendo-as de um lado para outro. Não muito
longe de onde estava Billy, ouvia-se um permanente ruído sibilante e, sobre a relva, estava o que, à primeira vista, seria tomado por um confuso enrodilhado de serpentes.
Os cabos de força que vinham até nossa casa haviam caído emaranhados, a cerca de seis metros de distância, e jaziam sobre um retalho queimado de relva. Os cabos
contorciam-se preguiçosamente e cuspiam. Se as árvores e o gramado não estivessem tão encharcados pelas chuvas torrenciais, aquilo poderia significar o fim para
a casa. Agora, no entanto, havia apenas aquele retalho negro, onde os fios tinham tocado diretamente.
- Isso pode letocrutar uma pessoa, papai?
- Hã-hã. Pode sim.
- E o que a gente faz com isso?
- Nada. Vamos esperar pela companhia de eletricidade.
- E quando é que eles chegam?
- Não sei. - Garotos de cinco anos têm uma infinidade de perguntas a fazer. - Acho que eles andam muito ocupados esta manhã. Quer dar uma caminhada até o
fim da alameda comigo?
Ele começou a andar e então parou, olhando nervosamente para os fios. Um deles se revirara e caíra de lado preguiçosamente, como que em um aceno.
- Papai, a letricidade pode andar no chão?
Uma pergunta sensata.
- Pode, mas não se preocupe. A eletricidade quer o chão, não você, Billy. Nada lhe acontecerá, se ficar longe dos fios.
- Ela quer o chão - murmurou Billy, caminhando para mim.
Seguimos pela entrada de carros, de mãos dadas. A coisa havia sido pior do que eu imaginara. Vi árvores caídas sobre a alameda em quatro pontos diferentes,
uma delas de pequeno porte, outra mediana e uma vetusta, cujo tronco deveria medir metro e meio. O musgo aderira a ela como um corpete enlameado.
Galhos, alguns quase despidos das folhas, jaziam por toda parte, em desordenada profusão. Eu e Billy fomos até a estrada rural, atirando os ramos menores
para o meio do mato, às margens da alameda. Aquilo me recordava certo dia de verão, talvez uns vinte e cinco anos antes; eu talvez não fosse muito mais velho do
que Billy agora.
Todos os meus tios estavam ali e haviam passado o dia nos bosques, com machados e machadinhas, cortando mato. Já tarde avançada, haviam-se acomodado todos
em volta da mesa de cavaletes que meus pais usavam para piqueniques e entregaram-se a uma refeição monstro de cachorros-quentes, hamburgeres e salada de batata.
A cerveja Gansett rolara como água, e meu tio Reuben mergulhara no lago inteiramente vestido, inclusive com os sapatos. Naquele tempo, ainda havia alces nos bosques.
- Posso descer até o lago, papai?
Ele já se cansara de atirar galhos, de maneira que a coisa a fazer com um garotinho, quando se cansa, é deixá-lo fazer algo diferente.
- Claro - respondi.
Voltamos juntos e então Billy foi para a direita, contornando a casa e mantendo uma grande distancia dos fios caídos. Eu tomei a esquerda e fui à garagem,
pegar minha serra McCullough. Como desconfiara, já podia ouvir a cantiga desagradável de outras serras, abaixo e acima, na margem do lago.
Completei o tanque, tirei a camisa e ia voltar para a alameda, quando Steff saiu. Ela olhou nervosamente para as árvores caídas, atravancando a entrada de
carros.
- Está muito difícil?
- Posso dar um jeito - respondi. - E lá dentro?
- Bem, já limpei os vidros partidos, mas você terá que fazer algo com aquela árvore, David. Não podemos ficar com uma árvore na sala de estar.
- Não - concordei. - Acho que não podemos.
Entreolhamo-nos ao sol da manhã e demos risadinhas sufocadas. Coloquei a serra na área cimentada e beijei Steff, segurando suas nádegas com firmeza.
- Não faça isso - murmurou ela. - Billy está...
Ele surgiu gritando, enquanto dobrava a esquina da casa.
- Pai! Papai! Você tem que ver o...
Steff vira os fios soltos e gritou para ele tomar cuidado. Ainda a boa distância deles, Billy estacou de súbito e fitou a mãe, como se ela estivesse doida.
- Eu estou legal, mamãe - disse ele, naquele cuidadoso tom de voz que se emprega para acalmar os muito velhos e senis.
Depois caminhou para nós, mostrando o quanto estava bem. Steff começou a tremer em meus braços.
- Está tudo bem - falei em seu ouvido. - Billy sabe sobre esses fios.
- Sim, mas pessoas morrem - respondeu ela. Vêem anúncios na televisão o tempo todo, alertando sobre fios soltos, mas mesmo assim... Billy, quero que vá imediatamente
para dentro!
- Oh, mãe, poxa! Quero mostrar a casa de barcos a papai!
Billy tinha os olhos quase esbugalhados de excitamento e desapontamento. Acabara de testemunhar uma amostra retardada do apocalipse e queria partilhá-la.
- Entre agora mesmo! Aqueles fios são perigosos e...
- Papai disse que eles querem o chão, não a mim...
- Não discuta comigo, Billy!
- Vou descer e dar uma espiada, campeão. Desça você também. - Pude sentir Steff retesar-se contra mim. - Vá pelo outro lado, filho.
- Tá bem! Eu vou!
Billy passou por nós correndo e desceu a escada de pedra que seguia para o oeste da casa, pulando os degraus de dois em dois. Desapareceu de vista com a fralda
da camisa esvoaçando ao vento, e uma exclamação pairou no ar - "Uau!" - quando localizou outra peça de destruição.
- Ele já sabe sobre os fios, Steff. - Tomei-a delicadamente pelos ombros. Billy tem medo deles. Isso é bom. Deixa-o em segurança.
Uma lágrima lhe deslizou pelo rosto.
- Estou com medo, David.
- Ora, vamos! Tudo já terminou.
- Será? No inverno passado... e na primavera retardada... Na cidade, deram o nome de primavera negra... Eles disseram que nunca mais houvera outra, desde
1888...
"Eles", certamente significavam a Sra. Carmody, dona do Antiquário de Bridgton, uma loja de quinquilharias que Steff gostava de vasculhar de quando em quando.
Billy adorava acompanhá-la. Em um dos sombrios e poeirentos aposentos dos fundos, corujas empalhadas com olhos orlados de dourado, estendiam as asas para sempre,
enquanto os pés agarravam-se eternamente a troncos envernizados; raccons empalhados formavam um trio à volta de uma "corrente", que não passava de um comprido fragmento
de espelho empoeirado, e um lobo comido de traças, espumando serragem em vez de saliva em torno da queixada, arreganhava a boca em arrepiante e eterno rosnado. A
Sra. Carmody garantia que o lobo tinha sido abatido por seu pai, quando bebia no arroio Stevens, em certa tarde de setembro de 1901.
As expedições à loja de antiguidade da Sra. Carmody faziam bem a minha esposa e meu filho. Ela se infiltrava em uma fileira cheia de vidros espelhados, enquanto
ele via a morte, sob o nome de taxidermia. Contudo, eu ainda achava que a velha exercia uma influência bastante desagradável sobre e mente de Steff que, em outros
sentidos, era prática e obstinada. A Sra. Carmody encontrara o ponto vulnerável de Steff, seu calcanhar de Aquiles mental. Aliás, Steff não era a única na cidade
que ficava fascinada com os pronunciamentos góticos da Sra. Carmody e seus remédios populares (sempre prescritos em nome de Deus).
Água com tocos de cigarros é boa para contusões, quando seu marido gosta de usar os punhos, depois de uns três drinques. Pode-se saber que tipo de inverno
vai chegar, contando-se os anéis das lagartas em junho ou medindo a espessura dos favos de mel em agosto. E agora, que o bom Deus nos proteja e guarde, A PRIMAVERA
NEGRA DE 1888 (acrescente tantos pontos de exclamação quantos achar que deva). Eu também ouvira a história. É do tipo que gostam de passar adiante, por aqui - se
a primavera for fria o suficiente, o gelo nos lagos eventualmente ficará negro como um dente cariado. É coisa rara, ocorrência que dificilmente acontece em um século.
Eles gostam de falar nisso para os outros, mas duvido que com maior convicção do que a Sra. Carmody.
- Tivemos um inverno duro e uma primavera atrasada - falei. - Agora, vamos ter um verão muito quente. Houve esta tempestade furiosa, mas já terminou. Não
está agindo com naturalidade, Stephanie.
- Essa não foi uma tempestade comum - disse ela, na mesma voz roufenha.
- Não, não foi. Nisso, concordo com você
Bill Giosti é que me contara a história da Primavera Negra, Bill possuía e dirigia - já há uma temporada - o Giosti's Mobil, em Casco Village. Ele operava
a casa com seus três filhos beberrões (e ajuda ocasional dos quatro netos beberrões... quando estes podiam largar um pouco a lanternagem de seus snowmobiles e bicicletas
para estradas de terra). Bill estava com setenta anos, aparentava oitenta e podia beber como se tivesse vinte e três, quando sentia disposição. Eu e Bill havíamos
levado o Scout para encher o tanque, no dia seguinte ao de uma tormenta-surpresa em meados de maio, que deixou a região com quase trinta centímetros de neve molhada
e compacta, que cobriu a grama e flores recentes. Giosti andara entornando uns copos e estava feliz em passar adiante a história da Primavera Negra, com floreios
pessoais.
Enfim, às vezes temos neve em maio ela vem e vai embora; dois dias mais tarde. Não é nenhum fenômeno.
Steff voltara a olhar pensativamente para os fios caídos.
- Quando será que o pessoal da companhia de eletricidade virá dar um jeito neles?
- Assim que for possível. Não vai demorar muito. Só quero que não se preocupe com Billy. Ele tem a cabeça no lugar. Esquece de guardar as roupas, mas não
irá pisar em cima de um monte de fios caídos. Billy é um garoto vivo, saudável e inteligente.
Toquei um canto de sua boca e a forcei ao começo de um sorriso. - Está melhor agora?
- Você sempre torna as coisas melhores - disse ela, fazendo com que me sentisse bem.
Do lado da casa dando para o lago, Billy gritava para nós irmos lá ver alguma coisa.
- Venha - convidei. - Vamos apreciar os estragos.
Ela resmungou soturnamente.
- Não quero apreciar estrago nenhum. Vou para minha sala de estar e ficar lá sentada.
- Venha - insisti. - Deixará um garotinho feliz.
Descemos a escada de pedra, de mãos dadas. Mal havíamos chegado à primeira curva, quando Billy surgiu correndo da direção contrária, quase se chocando conosco,
tal a sua pressa.
- Ei, calma! - disse Steff, franzindo de leve as sobrancelhas.
Em sua mente, talvez o visse escorregando para aquele mortal ninho de fios eletrizados, em vez de contra nós dois.
- Vocês têm que ver! - ofegou Billy. - A casa de barcos está toda rebentada! Tem um cais em cima das pedras... e árvores no abrigo de barcos... Jesus Cristo!
- Billy Drayton! - gritou Steff.
- Desculpe, mãe... mas você tem que... uau! - e ele se foi.
- Depois que solta as notícias, a pitonisa cai fora - falei, e isso fez Steff rir sufocado novamente. - Escute, assim que cortar aquelas árvores da entrada
de carros, irei até os escritórios da companhia de eletricidade, em Portland Road. Direi ao pessoal da Central Maine Power o que temos por aqui. Está bem?
- Certo - disse ela, aliviada. - Quando acha que pode ir?
Exceto pela árvore maior - a que tinha o apertado corpete de musgo - eu teria cerca de uma hora de trabalho. Incluindo a grandona, haveria tarefa para até
as onze ou coisa assim.
- Bem, então preparo o almoço para você aqui. E quando for, quero que me traga algumas coisas do supermercado... estamos quase sem leite e manteiga. Além
disso... hum, acho que terei de fazer uma lista.
Mostrem um desastre a uma mulher e ela começa a querer estocar coisas, como um esquilo. Fiz-lhe um afago e assenti. Contornamos a casa. Bastou-me um olhar
e entendi por que Billy ficara atônito.
- Céus! - exclamou Steff, em voz fraca.
De onde estávamos, havia altura suficiente para avistar praticamente uns duzentos e cinqüenta metros de margem do lago - a propriedade dos Bibber à esquerda,
depois a nossa e a de Brent Norton à direita.
O velho e gigantesco pinheiro que havia protegido nosso abrigo de barcos, havia sido dividido ao meio, de alto a baixo. O que sobrara parecia um lápis brutalmente
afilado. O interior da árvore mostrava um brilhante e indefeso branco, contra a casca escura do tronco, envelhecida pela idade. Com trinta metros de altura ao todo,
o velho pinheiro tivera a metade superior parcialmente submergida nas águas rasas de nosso abrigo.
Ocorreu-me que havíamos tido muita sorte por nosso pequeno Star-Cruiser não haver afundado sob o pinheiro. Na semana anterior, seu motor andara falhando e
o barco continuava na marina de Naples, esperando pacientemente a volta para casa.
Do outro lado de nosso pequeno trecho dando para a água, a casa de barcos que meu pai construíra - a mesma que um dia acolhera um Chris-Craft de 18 metros,
quando a fortuna familiar dos Drayton estava mais alta alguns pontos do que nos dias presentes - jazia debaixo de outra árvore enorme. Como vi, era a que se erguia
junto à linha divisória de propriedades, no lado de Norton. Aquilo me fez brotar o primeiro jato de raiva. Há cinco anos aquela árvore estava morta e há muito ele
devia tê-la derrubado.
Fizera três quartos do trajeto da queda, estando escorada por nossa casa de barcos. O teto oferecia uma aparência bêbada, desmantelada. Do buraco produzido
pela árvore, o vento espalhara telhas de madeira por toda a ponta de terra onde se erguia a construção.
A descrição de Billy - "rebentada" - encaixava-se perfeitamente.
- A árvore de Norton! - exclamou Steff.
Sua voz tinha tal fúria indignada, que acabei sorrindo, apesar de meu sofrimento. O mastro da bandeira jazia na água e a Old Glory jazia encharcada a seu
lado, em um emaranhado de passadeira. E eu já podia adivinhar a resposta de Norton: Processe-me.
Billy estava em pé no quebra-mar rochoso, examinando o embarcadouro que fora parar em cima das pedras. Era pintado em joviais listras amarelas e azuis. Olhando
para nós por sobre o ombro, ele gritou, jubiloso:
- É o dos Martin, não é?
- Sim, é - respondi. - Quer entrar na água e pescar a bandeira, Grande Bill?
- Claro!
À direita do quebra-mar havia uma pequena praia arenosa. Em 1941, antes que Pear Harbor ajustasse uma conta de sangue com a Depressão, meu pai contratara
um homem para trazer aquela areia fina em seu caminhão - haviam sido seis viagens lotadas - e a espalhasse em uma espessura que me chegava até quase as axilas, cerca
de metro e meio, digamos. O homem cobrara oitenta pratas pelo trabalho e a areia nunca se movera dali. Só que, atualmente, ninguém mais pode criar uma praia arenosa
em sua própria terra. Agora, com todo o escoamento de esgotos, provenientes da onda industrial de construções, matando a maioria dos peixes e tornando os restantes
impróprios para o consumo, o pessoal que zela pela conservação ambiental proibiu a instalação de praias de areia. Compreende-se, elas podiam alterar a ecologia
do lago e, por enquanto, é contra a lei que alguém faça isso, exceto os donos de loteamentos.
Billy foi recolher a bandeira e então estacou. No mesmo instante, senti Steff retesar-se contra mim, e foi quando também vi. O lado do lago onde ficava Harrison
havia desaparecido. Estava sepultado debaixo de um nevoeiro branco-brilhante, como uma nuvem de tempo bom que houvesse caído à terra.
O sonho daquela noite me voltou à cabeça e, quando Steff me perguntou o que era aquilo, a palavra que quase me saltara dos lábios - era Deus.
- David?
Não se conseguia avistar o menor trecho de margem naquele lado, mas os muitos anos olhando para Long Lake me fizeram crer que a orla não estivesse tão escondida;
talvez apenas metros. A borda do nevoeiro era quase tão reta como uma régua.
- O que é aquilo, papai? - gritou Billy, afundando na água até os joelhos e tentando puxar a bandeira encharcada.
- Um banco de nevoeiro - respondi.
- Em cima do lago? - exclamou Steff, dubitativa.
Pude sentir em seus olhos a influência da Sra. Carmody. Maldita mulher! Meu momento pessoal de inquietação estava passando. Afinal de contas, sonhos são coisas
insubstanciais, como o próprio nevoeiro.
- Claro. Você já viu nevoeiro sobre o lago antes.
- Nunca uma coisa assim. Aquilo mais parece uma nuvem.
- É por causa da claridade do sol - falei. - Como nuvens que vemos de um avião, ao voarmos acima delas.
- Como é possível? - insistiu ela. - Só temos nevoeiro no tempo úmido.
- Temos um justamente agora - respondi. - Harrison tem, pelo menos. Alguma sobra da tempestade, nada mais. Encontro de duas frentes. Qualquer coisa nesse
sentido.
- Você tem certeza, David?
Dei uma risada e passei o braço por seu pescoço.
- Não. A verdade é que estou dizendo asneiras como um louco. Se tivesse certeza, estaria anunciando o tempo, no noticiário das seis. Ande, vá fazer sua lista
de compras.
Ela me lançou outro olhar dubitativo, virou-se para o banco de nevoeiro por um instante, com a mão em pala sobre os olhos, depois meneou a cabeça.
- Esquisito - disse, e começou a andar.
Para Billy, o nevoeiro já havia perdido a novidade. Conseguira pescar da água a bandeira encharcada e um enredado de passadeira. Espalhamos tudo na grama
para secar.
- Me disseram que a gente nunca pode deixar a bandeira encostar no chão, papai - disse ele, no tom sério de vamos-resolver-esta-questão.
- É mesmo?
- Hã-hã. Victor McAllister disse que eles letrocutam gente que faz isso.
- Pois diga a Vic que ele está recheado daquilo que faz a grama ficar verde.
- Esterco, certo?
Billy é um garoto vivo, mas curiosamente sério. Para o campeão, tudo tem que ser encarado com seriedade. Espero que viva o bastante para aprender que, neste
mundo, essa é uma atitude perigosa.
- Certo, mas não conte para sua mãe que eu disse. Quando a bandeira secar, nós a tiramos daqui. Podemos até dobrá-la em chapéu de bico, e assim ninguém nos
acusará de nada.
- Vamos consertar o telhado da casa de barcos e ter um mastro de bandeira novo, papai?
Pela primeira vez, Billy parecia ansioso. Talvez já tivesse visto destruição suficiente em tão pouco tempo. Apertei-lhe o ombro.
- Tudo a seu tempo, campeão.
- Posso ir até a casa dos Bibber e ver o que aconteceu por lá?
- Vá, mas não demore muito. Eles também devem estar limpando tudo e, às vezes, isso deixa as pessoas um pouco zangadas.
Era como, no momento, me sentia em relação a Norton.
- Está bem. Tchau! - e ele saiu correndo.
- Procure não atrapalhar ninguém, campeão. Ei, Billy!
Ele olhou para trás.
- Lembre-se dos fios eletrizados. Se encontrar outros, fique longe deles, entendido?
- Eu fico, papai.
Continuei ali por um momento, primeiro verificando os estragos, depois tornando a observar o nevoeiro. Ele agora parecia mais perto, porém era difícil afirmar
com segurança. Se estava mais perto, desafiava todas as leis da natureza, porque o vento - uma brisa muito suave - soprava contra ele. Isso, evidentemente, era de
todo impossível.
O nevoeiro era de uma alvura surpreendente. A única coisa com que podia compará-lo, seria neve caída de pouco, jazendo em ofuscante contraste contra o brilho
azul-forte do céu invernal. Contudo, a neve reflete centenas e centenas de brilhos ao sol, como diamantes, e aquele peculiar banco de nevoeiro, embora cintilante
e de aparência límpida, não faiscava. A despeito do que havia dito Steff, não é incomum o surgimento de nevoeiro em dias límpidos, mas havendo grande quantidade,
a umidade suspensa em geral produz um arco-íris. E ali não havia nenhum arco-íris.
A inquietação voltou, espicaçando-me, mas antes que me concentrasse nela, ouvi um surdo som mecânico - via-via-via! - seguido por um "Merda!" quase inaudível.
O som mecânico repetiu-se, agora sem xingamento. Da terceira vez, o som abafado foi seguido por "Porra!", naquele mesmo tom sufocado de estou-sozinho-mas puto-da-vida.
Vnt-rrlt-rtlt-rilt...
...Silêncio..
... então: "Filha da mãe".
Comecei a rir. O som se transmite longe por aqui e todo o zumbido das serras de cadeia estava razoavelmente distante. Distante o suficiente para que eu pudesse
identificar os tons não-tão-doces de meu vizinho do lado, o prestigioso advogado e residente-do-lago.
Brenton Norton.
Cheguei um pouco mais perto da água, simulando caminhar para o cais que servia ao nosso embarcadouro. Agora, podia ver Norton. Estava na clareira ao lado
de seu alpendre telado, em pé sobre um tapete de velhas agulhas de pinheiro, vestindo um jeans salpicado de tinta e uma camiseta branca sem mangas. Seus cabelos,
cortados a quarenta dólares, estavam em desalinho, o suor lhe pingava do rosto. Abaixando-se sobre um joelho, voltou a trabalhar em sua serra de cadeia. Era muito
maior e mais moderna do que a minha, pequena e que me custara 79,95 dólares. De fato, aquela serra parecia ter tudo, menos um botão de partida. Norton puxava um
cordel, produzindo os apáticos sons de vrrt-vrrt-vrd, e nada mais. Fiquei profundamente satisfeito, ao ver que uma bétula amarela havia caído em cima de sua mesa
de piquenique, partindo-a ao meio.
Norton deu um tremendo puxão no cordel do arranque.
Viu-vut-vutvutvut-VAT!VAT!VAT!... VAT!... Via.
Você conseguiu, por um instante, cara.
Outro hercúleo puxão.
Via-vut-vut.
- Filha da puta - sussurrou Norton ferozmente, mostrando os dentes para sua moderna serra de cadeia.
Voltei para casa, contornando o prédio, sentindo-me realmente bem pela primeira vez, desde que me levantara. Minha serra começou a funcionar ao primeiro puxão
do cordel, e então fui trabalhar.
Por volta das dez horas, houve um tapinha em meu ombro. Era Billy, com uma lata de cerveja em uma das mãos e a lista de Steff na outra. Enfiei a lista no
bolso de trás de meu jeans e peguei a cerveja, que não estava estupidamente gelada, mas pelo menos gelada. Sorvi quase metade de uma vez - raramente uma cerveja
cai tão bem - e ergui a lata, em um cumprimento a Billy.
- Obrigado, campeão.
- Posso beber um pouquinho?
Deixei-o beber um gole. Ele fez uma careta e devolveu-me a lata. Sorvi o restante e surpreendi-me no instante em que ia amassar a lata ao meio. Há mais de
três anos estava em vigor a lei sobre devolução de latas e garrafas, mas velhas manias custam a desaparecer.
- Mamãe escreveu uma coisa no fim da lista, mas não entendo a letra dela disse Billy.
Tornei a examinar a lista. "Não consigo pegar a WOXO no rádio," dizia a nota de Steff.
"Será que a tempestade tirou a estação do ar?"
WOXO é o nosso automatizado distribuidor local de rock em FM. Irradia de Norway, cerca de trinta quilômetros ao norte, sendo tudo o que nosso velho e fraco
rádio FM conseguia pegar.
- Diga a ela que é possível - falei, após ler a pergunta para ele. - Pergunte a sua mãe se consegue pegar Portland, na faixa AM.
- Está bem, papai. Posso ir com você, quando for à cidade?
- Claro. E mamãe também, se ela quiser ir.
- Okay.
Billy correu de volta à casa, levando a lata vazia. Abri meu caminho até a árvore grandalhona. Fiz o primeiro corte, serrei através dele e depois desliguei
a serra por alguns momentos, para esfriar - a árvore era realmente muito grossa para ela, mas pensei que tudo daria certo, se fosse com calma. Perguntei-me se a
estrada de terra indo até Kansas não estaria livre de árvores tombadas e, justamente então, um caminhão alaranjado da companhia de eletricidade rodou à minha vista,
sem dúvida indo para a extremidade mais distante de nossa estradinha. Aquilo dava a entender que tudo estava indo bem. A estrada permanecia livre e, por volta de
meio dia, o pessoal da eletricidade estaria ali, a fim de dar um jeito naqueles fios eletrizados e caídos.
Destaquei uma boa tora da árvore, arrastei-a para um lado da alameda e a deixei cair à margem. O pedaço de madeira rolou pela encosta, desaparecendo entre
o matagal que havia crescido, há muito tempo atrás, quando meu pai e meus irmãos - todos eles artistas, porque os Drayton sempre tinham sido uma família de artistas
- o haviam desbastado.
Limpei o suor do rosto com o braço e ansiei por outra cerveja; uma única, só serve realmente para preparar a boca. Tornei a empunhar a serra e pensei na WOXO
fora do ar. Era daquela direção que tinha vindo o esquisito banco de nevoeiro. Também era aquela a direção em que fica Shaymore (os locais pronunciavam Shammorel.
E, em Shaymore sediava-se o Projeto Ponta de Flecha.
Era essa a teoria do velho Bill Giosti sobre a chamada Primavera Negra: o Projeto Ponta de Flecha. Na parte oeste de Shaymore, não muito afastado de onde
a cidade se delimita com Stoneham, havia uma pequena reserva do governo, cercada de arame, com sentinelas e câmaras de televisão em circuito fechado, além de só
Deus sabe o que mais.
Pelo menos, era o que eu tinha ouvido; em realidade, nunca vira o lugar, embora a Estrada Velha de Shaymore passe ao longo do lado leste da terra do governo,
por cerca de dois quilômetros.
Ninguém sabia ao certo de onde surgira o nome Projeto Ponta de Flecha e ninguém poderia dizer, com cem por cento de segurança, se aquele era realmente o nome
do projeto - se é que havia algum projeto. Bill Giosti dizia que havia, mas quando se perguntava onde conseguira tal informação, ele ficava evasivo. Alegava que
sua sobrinha trabalhava para a Companhia Telefônica Continental e tinha ouvido coisas. E tudo ficava nisso.
- Coisas atômicas - havia dito Bill nesse dia, debruçando-se à janela do Scout e expelindo uma saudável baforada alcoólica em meu rosto. - É nisso que andam
envolvidos por lá. Disparando átomos no ar e coisas assim.
- O ar está cheio de átomos, Sr. Giosti - replicara Billy. - Foi o que a Sra. Neary disse. A Sra. Neary disse que tudo está cheio de átomos.
Bill Giosti deu a meu filho um longo olhar injetado de sangue, que finalmente o desinflou.
- Aqueles são átomos diferentes, filho.
- Ahnn... - murmurou Billy, entregando os pontos.
Dick Muehler, nosso agente de seguros, afirmava que o Projeto Ponte de Flecha, era uma estação agrícola dirigida pelo governo, nem mais nem menos.
- Tomates maiores, com uma temporada mais prolongada de crescimento acrescentou sabiamente, antes de voltar a explicar-me como ajudar minha família de modo
mais eficiente, morrendo jovem.
Jannine Lawless, nossa agente postal, disse que lá havia um trabalho de pesquisa geológica, tendo algo a ver com petróleo de xisto. Tinha certeza do que dizia,
porque o marido de seu irmão trabalhara para um homem que havia...
E quanto à Sra. Carmody... ela provavelmente tendia mais para o ponto de vista de Bill Giosti. Não apenas átomos, mas átomos diferentes.
Cortei mais dois bons pedaços da enorme árvore e os larguei a um lado, antes de Billy voltar com uma nova lata de cerveja em uma das mãos e um bilhete de
Steff na outra.
Se existe alguma coisa que o Grande Bill adore fazer, mais do que entregar mensagens, não imagino o que seja.
- Obrigado - falei, pegando as duas coisas.
- Posso tomar um gole?
- Só um. Você tomou dois da última vez. Não quero ver você andando embriagado por aí, às dez horas da manhã.
- Dez e quinze - disse ele, sorrindo timidamente por sobre a borda da lata.
Sorri de volta - não que aquela fosse uma grande piada, convenhamos, mas Billy as faz muito raramente - e então li o bilhete.
"Peguei a JBQ no rádio", escrevera Steff. "Não se embriague antes de ir à cidade. Beba mais uma lata, mas é só, antes do almoço. Acha que nossa estrada está
desimpedida?"
Devolvi o bilhete a Billy e peguei minha cerveja.
- Diga a ela que a estrada está livre, porque acabou de passar um caminhão da companhia de eletricidade. Eles estão vendo se chegam até aqui.
- Está bem.
- Campeão?
- O que é, pai?
- Diga a ela que está tudo certo.
Ele tornou a sorrir, talvez primeiro repetindo aquilo para si mesmo.
- Okay - respondeu.
Correu de volta à casa e fiquei vendo-o afastar-se, pernas movimentando-se rapidamente, as solas da sandália aparecendo. Eu o amo. É seu rosto, às vezes a
maneira como os olhos se erguem para os meus, que me fazem sentir como se tudo está realmente certo. Mentira, claro - as coisas não andam certas e nunca andaram
- mas meu filho faz-me acreditar na mentira.
Bebi um pouco da cerveja, pousei a lata cuidadosamente em cima de uma pedra e tornei a pegar a serra. Uns vinte minutos mais tarde, senti um leve toque no
ombro e me virei, esperando ver Billy outra vez. Não era ele, mas Brent Norton. Desliguei a serra.
Norton não mostrava sua aparência costumeira. Parecia acalorado, cansado e infeliz, além de algo desconcertado.
- Olá, Brent - falei.
Nossas últimas trocas de palavras haviam sido rudes, de maneira que eu me sentia um tanto inseguro quanto à maneira de agir. Tinha um curioso pressentimento
de que ele estivera parado atrás de mim pelos últimos cinco minutos, mais ou menos, pigarreando educadamente, sob o rugido agressivo da serra. Naquele verão, eu
não o observara muito de perto. Reparei agora que havia perdido peso, mas a diferença não lhe fizera bem. No entanto, deveria, porque ele tivera uns bons dez quilos
a mais. Sua esposa falecera no último novembro. Câncer. Aggie Bibber contara a Steff. Aggie era a nossa necróloga local. Cada vizinhança tinha a sua. Em vista da
maneira casual de Norton em ser violento com a esposa e depreciá-la (agindo com o desdenhoso à vontade de um matador veterano, inserindo banderillas no lombo de
um touro velho e desconjuntado), eu diria que ele ficara satisfeito em perdê-la. Se interrogado, eu poderia inclusive especular que ele andara se exibindo no último
verão com uma moça vinte anos mais nova pelo braço e um sorriso tolo de meu-galo morreu-e-foi-pro-céu, estampado na face. Só que, em vez do sorriso tolo, havia apenas
uma nova carga de rugas de velhice, enquanto que o peso perdido se revelava nos lugares errados, deixando pelancas e dobras que contavam sua própria história. Por
um fugaz momento, senti vontade apenas de levar Norton até um ponto banhado de sol, sentá-lo ao lado de uma das árvores caídas, com minha lata de cerveja na mão,
e fazer um esboço a carvão de sua figura.
- Olá, Dave - disse ele, após um longo momento de desajeitado silêncio um silêncio ainda mais palpável na ausência da barulheira da serra. Ele parou, depois
soltou: - Aquela árvore. Aquela maldita árvore. Sinto muito. Você tinha razão.
Dei de ombros.
- Outra árvore caiu em meu carro - acrescentou ele.
- Lamento sab... - comecei, mas então tive uma horrível suspeita. - Não foi em cima do T-Bird, foi?
- Exatamente. Foi.
Norton tinha um Thunderbird 1960, parecendo saído da fábrica, com apenas trinta mil milhas rodadas. Azul meia-noite, por dentro e por fora. Ele só o dirigia
nos verões, mesmo assim, raramente. Adorava aquele carro, da maneira como alguns homens adoram trens elétricos, modelos de navios ou pistolas de tiro ao alvo.
- Que merda - falei, e era sincero.
Ele meneou a cabeça lentamente.
- Eu quase não o trazia para cá. Estava para vir com a camionete, você sabe. Depois disse, que diabo! Vim com o carro, e um maldito pinheiro, um enorme pinheiro,
caiu em cima dele. O teto ficou todo amassado. Pensei que poderia cortá-la... a árvore, quero dizer... mas não consegui fazer minha serra funcionar... Paguei duzentos
dólares por aquela droga... e... e....
Sua garganta começou a emitir leves sons de estalidos. A boca se movia como se fosse desdentado e mascasse tâmaras. Por um desamparado segundo, pensei que
ele ia ficar ali e debulhar-se em lágrimas, como uma criança em um terreno baldio. Então, conseguiu recompor-se a meio, deu de ombros e se virou, como que olhando
para as toras de madeira que eu havia cortado.
- Bem - falei - podemos dar uma espiada em sua serra. - Seu carro está no seguro?
- Está - disse ele, - como sua casa de barcos.
Entendi o que Norton queria dizer e recordei novamente o que Steff havia dito sobre seguros.
- Escute, Dave, estive pensando se você não poderia me emprestar seu Saab, para ir até a cidade. Queria comprar pão, alguma coisa fria para comer e cerveja.
Bastante cerveja.
- Eu e Billy vamos até lá no Scout - falei. - Se quiser, pode ir conosco. Isto é, se me der uma ajuda para puxar este resto de árvore a um lado da estrada.
- Com prazer.
Ele agarrou uma ponta, mas não teve forças para erguê-la. Tive que fazer a maior parte do trabalho. Juntos, conseguimos jogar tudo dentro do mato. Norton
respirava fundo e ofegava, as bochechas quase purpúreas. Depois de todos os puxões que ele dera na serra, tentando fazê-la funcionar, fiquei um pouco preocupado
com seu coração.
- Tudo bem? - perguntei, e ele assentiu, ainda respirando com dificuldade. - Então, vamos até lá em. casa. Eu lhe arranjo uma cerveja.
- Obrigado - disse ele. - Como vai Stephanie?
Norton começava a readquirir parte da antiga e untuosa pomposidade que me desagradava.
- Muito nem, obrigado.
- E seu filbo?
- Também está ótimo.
- Fico satisfeito em saber.
Steff saiu, e um momento de surpresa passou por seu rosto, ao ver quem vinha comigo.
Norton sorriu, os olhos rastejando pela apertada camiseta que ela usava. Bem, afinal ele não mudara tanto assim.
- Olá, Brent - disse ela, cautelosamente.
Billy assomou com a cabeça, por sob o braço dela.
- Olá, Stephanie. Olá Billy.
- O T-Bird de Brent levou uma pancada e tanto na tempestade - contei a ela. - Em cima do teto, foi o que ele disse.
- Oh, não!
Norton repetiu a história, enquanto bebia uma de nossas cervejas. Eu bebericava uma terceira, que em nada me afetava; aparentemente, havia transpirado as
anteriores tão depressa quanto as bebera.
- Ele vai à cidade comigo e Billy.
- Bem, acho que vão demorar um pouco. Terão que ir ao Compre-e-Poupe em Norway.
- É mesmo? Por quê?
- Bem, se em Bridgton não há energia...
- Mamãe disse que todas as registradoras e outras coisas só funcionam com eletricidade - acrescentou Billy.
Era um bom motivo.
- Você ainda tem a lista?
Bati no bolso de trás da calça. Steff se virou para Norton.
- Sinto muito sobre Carla, Brent. Todos nós sentimos.
- Obrigado - disse ele. - Muito obrigado.
Houve um novo momento de constrangido silêncio, quebrado por Billy.
- Já podemos ir, papai?
Reparei que agora vestia jeans e calçava tênis.
- Sim, acho que podemos. Está pronto, Brent?
- Dê-me mais uma cerveja para a estrada, e estarei.
Steff franziu as sobrancelhas. Ela nunca aprovara aquela filosofia de uma-para-a-estrada ou de homens que dirigem com uma lata de cerveja descansando entre
as pernas.
Assenti de leve e ela deu de ombros. Não era minha intenção tornar a criar um caso com Norton agora. Steff trouxe-lhe a cerveja.
- Obrigado - disse ele, não realmente agradecendo, mas apenas dizendo uma palavra.
Era como a gente agradece a uma garçonete, em um restaurante. Depois se virou para mim: - Em frente, Macduff.
- Vamos indo - falei, e passamos para a sala de estar.
Norton me seguiu, soltou exclamações sobre a galharia da bétula, mas eu não estava interessado naquilo e, até então, pouco pensara no preço para recolocar
os vidros quebrados. Olhava para o lago, através da porta deslizante envidraçada que dava para nosso passadiço. A brisa refrescara um pouco e a temperatura aumentara
uns cincos graus, enquanto eu serrava a árvore. Achei que o singular nevoeiro observado pela manhã já devia ter-se esfumado, porém lá estava ele. Mais próximo, também.
Já chegara à metade do lago.
- Reparei nisso mais cedo - disse Norton, em tom de entendido. - Deve ser alguma inversão de temperatura, creio eu.
Eu não estava gostando daquilo. Tinha a firme convicção de que jamais vira nevoeiro semelhante. Uma parte de minha inquietação era devido àquela enervante
borda reta frontal. Na natureza nada é tão certinho; o homem é que inventou margens retas. Parte do nevoeiro era de uma brancura ofuscante, sem nenhuma variação,
mas tampouco sem as cintilações provocadas pela umidade. Deveria estar a um meio quilômetro de distância agora, sendo mais incongruente do que nunca o contraste
de sua alvura com os tons de azul do céu e do lago.
- Vamos, papai! - disse Billy, puxando-me pela calça.
Voltamos todos à cozinha. Brent Norton dedicou um olhar derradeiro à árvore que tombara em nossa sala de estar.
- Pena que não fosse uma macieira, hein? - comentou Billy, inteligentemente. - Foi o que minha mãe disse. É engraçado, não acha?
- Sua mãe sabe mesmo dizer coisas engraçadas, Billy.
Enquanto falava, Norton desmanchou-lhe os cabelos em um gesto negligente e seus olhos tornaram a se voltar para a frente da camiseta de Steff novamente. Sim,
aquele era um homem com quem eu jamais simpatizaria.
- Ouça, por que não vem conosco, Steff? - perguntei.
Sem nenhum motivo concreto, de repente eu a queria comigo.
- Não. Acho que vou ficar aqui e arrancar algumas ervas daninhas do jardim - respondeu ela. Seus olhos pousaram em Norton e se voltaram para mim. Esta manhã,
creio ser a única coisa por aqui que funciona sem eletricidade.
Norton riu, demasiado caloroso. Captei a mensagem de Steff, mas tentei de novo.
- Tem certeza?
- Absoluta. O velho abaixa-e-levanta me fará bem.
- Está certo. Não tome sol demais.
- Porei meu chapéu de palha. Comeremos sanduíches quando você voltar.
- Ótimo.
Ela ergueu a face para que a beijasse.
- Tome cuidado. Talvez haja coisas tombadas na Estrada Kansas também, sabe como é.
- Serei cauteloso.
- Você também, Billy, tome cuidado - recomendou ela, beijando-lhe a bochecha.
- Certo, mãe.
Ele disparou pela porta de tela, que se fechou com estrondo às suas costas. Eu e Norton saímos em seguida.
- Podíamos ir até sua casa e cortar a árvore que caiu em cima do Bird - sugeri.
De repente, eu conseguia pensar em um monte de razões que adiassem aquela ida à cidade.
- Só olho novamente para aquela árvore depois que almoçar e tiver mais algumas destas - disse ele, erguendo a lata de cerveja. - O estrago está feito, Dave,
meu chapa.
Também não gostei dele me chamando de "chapa". Acomodamo-nos os três no banco dianteiro do Scout (no canto mais distante da garagem, meu castigado limpa-neve
Fisher cintilava amarelado, como o fantasma do Natal por vir) e dei marcha à ré, esmagando punhados de gravetos e galhos ali atirados pela tempestade. Steff estava
na trilha de cimento que leva à parte da horta, no fim da extremidade oeste de nossa propriedade. Segurava a tesoura em uma das mãos enluvadas e, na outra, a pinça
de arrancar ervas daninhas. Enfiara na cabeça seu velho e frouxo chapéu de sol, cuja aba lançava uma faixa de sombra em seu rosto. Buzinei duas vezes, levemente.
Ela ergueu a mão segurando a tesoura, em resposta. Começamos a rodar. Nunca mais vi minha esposa depois disto.
Tivemos que parar uma vez, no trajeto para a Estrada Kansas. Depois que o caminhão da companhia de eletricidade passara, um pinheiro de tamanho razoável caíra
atravessado na alameda. Eu e Norton descemos e o movemos o suficiente para o Scout esgueirar-se. Ficamos com as mãos inteiramente sujas de betume no processo. Billy
queria ajudar, mas acenei para que ficasse quieto, receando que pudesse ser atingido nos olhos. Velhas árvores sempre me faziam recordar os Ents, na maravilhosa
saga Rings, de Tolkien, só que os Ents tinham ficado maus. Árvores velhas querem machucá-lo.
Pouco importa se você está usando calçados próprios para a neve, esquiando em corrida através das matas ou apenas dando um passeio na floresta. Árvores velhas
querem machucá-lo e, se pudessem, creio que o matariam.
Em si, a Estrada Kansas aparecia desimpedida, mas vimos a fiação caída, em vários lugares. Uns duzentos e cinqüenta metros após o Acampamento Vicki Linn,
um poste de energia caíra ao comprido no acostamento, os fios grossos enovelados em volta do topo, como cabeleira em desalinho.
- Uma tempestade e tanto!
Norton empregava sua voz melíflua e treinada dos tribunais, só que agora não bancava o entendido, estava apenas solene.
- Se foi!
- Veja, papai!
Billy apontava para o que havia sobrado do celeiro dos Ellitch. Durante doze anos, ele permanecera descambando cansadamente para o campo dos fundos na propriedade
de Tommy Ellitch, as pernas escondidas por girassóis, virga-áureas e Lolly-venha-me-ver.
A cada outono, eu pensava que ele não agüentaria outro inverno, mas na primavera continuava lá. Só que agora não estava mais. Restara apenas um destroço estilhaçado
e um teto que fora despido da maioria das telhas. Chegara a sua vez. E, por algum motivo, aquilo ecoou solenemente, até ominosamente dentro de mim. A tempestade
chegara e o tinha arrasado.
Norton esgotou sua cerveja, amassou a lata na mão e a deixou cair indiferentemente no piso do Scout. Billy abriu a boca para dizer algo, mas tornou a fechá-la
- bom garoto.
Norton era de Nova Jersey, onde não havia nenhuma lei garrafa-e-lata; acho que podia ser perdoado por amassar o meu níquel, quando eu próprio mal me lembrava
de deixar as minhas latas intatas.
Billy começou a mexer nos botões do rádio e eu lhe pedi para ver se a WOXO estava de volta. Ele girou até FM 92, conseguindo apenas um zumbido apático. Olhou
para mim e encolheu os ombros. Refleti por um momento. Que outras estações mais estariam do outro lado daquele peculiar front de nevoeiro?
- Tente a WBLM - falei.
Ele girou o ponteiro até a outra extremidade, passando sobre a WJBQ-FM e a WIGYFM, enquanto isso. Estavam em atividade, como sempre... mas a WBLM, a mais
importante estação de rock do Maine, estava fora do ar.
- Esquisito - falei.
- O quê? - perguntou Norton.
- Nada. Só pensei em voz alta.
Billy voltara para o cereal-musical da WJBQ. Em pouco, chegávamos à cidade.
No centro-comercial, a Lavanderia Norge estava fechada, sendo impossível - a uma lavanderia automática funcionar sem eletricidade, mas a Farmácia Bridgton
e o Supermercado Federal de Alimentos estavam abertos. O pátio de estacionamento se achava lotado e, como sempre acontecia no meio do verão, havia um bocado de carros
com chapas de outros estados. Vi grupinhos de pessoas aqui e ali ao sol, comentando a tempestade, mulheres com mulheres, homens com homens.
Avistei a Sra. Carmody, aquela dos animais empalhados e da história da água com tocos de cigarro. Fazia sua entrada imponente no supermercado, vestindo um
assombroso terninho amarelo-canário. De um braço seu, pendia uma bolsa do tamanho de uma pequena mala de mão. Então, um idiota pilotando uma Yamaha rugiu ao meu
lado, deixando de bater em meu pára-choque dianteiro por escassos centímetros. Usava um blusão jeans, óculos escuros espelhados e não tinha capacete.
- Veja só esse imbecil! - rosnou Norton.
Circulei o pátio de estacionamento uma vez, à procura de uma boa vaga. Não havia nenhuma. Já me resignava a uma longa caminhada desde o extremo oposto, quando
tive sorte. Um Cadillac verde-limão, do tamanho da cabine de um pequeno cruzador, esgueirava-se de uma vaga, na faixa mais próxima das portas do supermercado. Assim
que ele saiu, encaixei-me na vaga.
Entreguei a Billy a lista de compra de Steff. Ele tinha cinco anos, mas sabia ler letras impressas.
- Pegue um carrinho e vá começando. Quero ligar para sua mãe: O Sr. Norton o ajudará. Não vou demorar.
Saímos, e Billy imediatamente agarrou a mão do Sr. Norton. Fora ensinado a não cruzar o pátio de estacionamento sem segurar a mão de um adulto, quando pequenino
e, ao crescer mais, não perdera o hábito. Norton pareceu surpreso por um momento, depois sorriu de leve. Quase o perdoei por haver apalpado Steff com os olhos. Os
dois entraram no supermercado.
Caminhei para a cabine telefônica, que ficava na parede entre a lavanderia e o drugstore.
Uma suada mulher, em um conjunto de blusa e short púrpura, sacolejava o gancho do telefone, para baixo e para cima. Postei-me atrás dela, de mãos nos bolsos,
perguntando-me por que estava tão inquieto sobre Steff e por que a inquietação se misturava àquela linha de nevoeiro branquicento, mas sem brilho, às estações de
rádio fora do ar... e ao Projeto Ponta de Flecha.
A mulher do conjunto púrpura tinha os ombros gordos queimados de sol e cobertos de sardas. Parecia um suado bebê alaranjado. Bateu com o fone no gancho, virou-se
para o drugstore e então me viu.
- Poupe sua moeda - disse. - Aí só dá zumbido - acrescentou, afastando-se com ar rabugento.
Quase dei um tapa na testa. Claro que as linhas estavam interrompidas em algum ponto.
Algumas eram subterrâneas, mas apenas uma minoria. Mesmo assim, tentei o telefone.
Naquela área, os telefones públicos são o que Steff chama de Telefones Públicos Paranóicos. Ao invés de colocar-se logo a moeda, primeiro é preciso ouvir-se
o toque de chamada e então se disca o número. Quando alguém atende, há uma interrupção automática e tem-se que colocara moeda, antes que a outra pessoa desligue.
São chamadas irritantes mas, nesse dia, pouparam minha moeda. Não havia ruído de discar.
Como havia dito a senhora, só ouvi zumbidos.
Desliguei e caminhei para o supermercado em passos lentos, com tempo exato para apreciar um pequeno incidente. Um casal de idade encaminhava-se para a porta
ENTRADA, tagarelando um com o outro. E, enquanto tagarelavam, colidiram em cheio com a porta. Pararam de falar subitamente e a mulher esganiçou sua surpresa. Os
dois entreolharam-se, de maneira cômica, depois deram risadas. Então, o velho abriu a porta para a esposa, com algum esforço - essas portas fotelétricas são pesadas
- e eles entraram.
Quando a eletricidade desaparece, somos surpreendidos de cem modos diferentes.
Empurrei a porta para entrar e a primeira coisa que percebi foi a falta do ar condicionado. No verão, em geral eles o ligam no ponto mais alto, suficiente
para congelar o consumidor que fique lá dentro por mais de uma hora seguida.
Como a maioria dos modernos supermercados, o Federal havia sido construído como uma caixa de Skinner - as técnicas modernas de marketing transformam todos
os consumidores em ratos brancos. Tudo aquilo de que realmente precisamos, os produtos de consumo básicos, como pão, leite, carne, cerveja e refeições congeladas,
fica no lado mais distante do estabelecimento. Para chegar lá, tem-se que passar ao lado dos ítens de impulso, conhecidos do homem moderno - tudo, desde isqueiros
Cricket a ossos de borracha para cães.
Além das portas de entrada, está o corredor de frutas-e-vegetais. Ergui os olhos, examinando até o final, mas não havia sinal de Norton ou de meu filho. A
velha que colidira contra a porta examinava grapefruits. Seu marido segurava uma sacola-rede, para acondicionar as compras.
Caminhei pelo corredor acima e dobrei para a esquerda. Encontrei-os no terceiro corredor, com Billy meditando diante das prateleiras com caixas de gelatina
e pudins instantâneos. Norton estava diretamente atrás dele, examinando a lista de Steff. Tive que sorrir, ante sua expressão de perplexidade.
Caminhei para eles, passando por carrinhos de compras meio lotados (aparentemente, Steff não fora a única tomada pelo impulso armazenador dos esquilos) e
clientes que estavam ali apenas bisbilhotando os artigos. Norton apanhou duas latas de recheio de torta, na prateleira mais alta, e as colocou no carrinho.
- Como está se saindo? - perguntei, e ele olhou para mim. com indisfarçável alívio.
- Muito bem, não é mesmo, Billy?
- Claro - respondeu Billy, mas não resistiu e acrescentou, em tom algo presunçoso: - Só que tem muita coisa que o Sr. Norton também não pode ler, papai.
- Deixe-me ver isto - falei, apanhando a lista.
Norton havia feito um visível e ordenado sinal ao lado de cada artigo que ele e Billy já haviam posto no carrinho - uma meia dúzia deles, incluindo-se o leite
e um engradado com seis Cocas. Havia ainda mais umas dez coisas que ela queria.
- Temos que voltar às frutas e vegetais - falei. - Steff quer tomates e pepinos.
Billy começou a manobrar o carrinho para irmos e Norton comentou:
- Devia dar uma espiada na fila de pagar, Dave.
Fui até lá e olhei. Era o tipo de coisa que às vezes vemos em fotos no jornal , em um noticiário enfadonho, com uma legenda humorística em baixo. Havia apenas
duas caixas funcionando e a fila dupla de pessoas esperando para pagar suas compras, estirava-se além da maioria dos quase vazios balcões de pão, depois virava para
a direita e se perdia de vista na direção dos frigoríficos de alimentos congelados. Todas as novíssimas máquinas registradoras computorizadas estavam cobertas com
capas. Em cada uma das filas em funcionamento, uma apoquentada jovem calculava os preços em uma calculadora de bolso movida a pilha. Junto a cada uma delas, postava-se
um dos dois gerentes do Federal, Bud Brown e Ollie Weeks. Eu simpatizava com Ollie, mas bem menos com Bud Brown, que parecia imaginar-se o Charles de Gaulle do mundo
dos supermercados.
Quando cada jovem terminava de calcular uma batelada de compras, Bud ou Ollie pregavam um clipe no dinheiro ou cheque do cliente e o jogavam na caixa que
usavam como depósito de dinheiro. Todos pareciam cansados e suados.
- Espero que tenha trazido um bom livro - disse Norton, juntando-se a mim. - Vamos ficar um bocado de tempo na fila.
Tornei a pensar em Steff, sozinha em casa, e tive outro acesso de inquietude.
- Vá pegar suas compras - falei. - Eu e Billy damos conta do resto disto.
- Quer que traga mais algumas cervejas para você também?
Eu já pensara nisso, mas a despeito da reaproximação, não queria passar a tarde com Brent Norton, embriagando-me. Não com a confusão em que estavam as coisas,
em volta da casa.
- Sinto muito - respondi. - Vai ter que ficar para outra vez, Brent.
Achei que seu rosto ficara algo tenso.
- Está bem - disse ele apenas.
Afastou-se e eu o segui com os olhos, mas então Billy me puxou pela camisa.
- Você falou com mamãe?
- Negativo. O telefone não estava funcionando. Acho que a tempestade derrubou também os fios telefônicos.
- Está preocupado com ela?
- Não - menti. Estava preocupado, claro, mas não imaginava por que deveria estar. - Não, claro que não estou. E você?
- T-também... n-não...
Billy estava preocupado. Seu rosto tinha uma expressão ansiosa. Devíamos ter voltado nessa hora. Contudo, mesmo então talvez já fosse tarde demais.

III. Chega o nevoeiro

Conseguimos chegar até as frutas e vegetais como salmões, abrindo caminho corrente acima. Vi alguns rostos familiares - Mike Hatlen, um dos nossos conselheiros
municipais, a Sra. Reppler, da escola primária (ela, que aterrorizara gerações de crianças do terceiro grau, no momento escarnecia dos cantalupos), a Sra, Truman,
que às vezes tomava conta de Billy, quando eu e Steff saíamos - porém a maioria se compunha de veranistas, comprando artigos que dispensavam cozimento e brincando
entre si sobre "aquela vida dura". Os frios sortidos haviam desaparecido, tão completamente como as novelas de dez centavos nos bazares de caridade; nada sobrara,
exceto algumas embalagens de salsichão, de massa de macarrão e uma solitária, fálica lingüiça.
Apanhei os tomates, pepinos e um pote de maionese. Ela também queria bacon, mas todo o bacon já se fora. Levei algumas embalagens de salsichão como substituto,
embora jamais houvesse conseguido comer aquilo com o menor entusiasmo legítimo, desde que o FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos) informara que cada embalagem
continha uma pequena dose de sujeira de insetos - um pequeno extra por seu dinheiro.
- Veja - disse Billy, ao contornarmos a esquina para o quarto corredor. Homens do exército.
Eram dois, seus uniformes pardacentos contrastando com o fundo muito mais vivo das roupas de verão e esportivas. Estávamos acostumados a ver raramente o pessoal
do exército ligado ao Projeto Ponta de Flecha e somente a quarenta ou mais quilômetros de distância. Aqueles dois mal pareciam com idade suficiente para fazer a
barba.
Tornei a olhar para a lista de Steff e vi que tínhamos tudo no carrinho... não, quase tudo.
No fim da lista, como uma idéia de última hora, ela rabiscara: Garrafa de Lancers?
Aquilo soava bom para mim. Uns dois copos de vinho aquela noite, depois de Billy ir para a cama e depois, talvez um longo e lento período fazendo amor, antes
de dormirmos.
Larguei o carrinho e abri caminho até o vinho. Apanhei uma garrafa e, quando voltava, passando diante das grandes portas duplas que conduziam à área de estocagem,
ouvi o firme rugido de um gerador de bom tamanho.
Decidi que provavelmente seria grande o bastante para manter as embalagens frias, mas não o suficiente para fazer funcionar as portas, caixas registradoras
e o equipamento elétrico restante. Parecia o barulho de uma motocicleta, atrás daquelas portas.
Norton apareceu justamente quando entramos na fila, equilibrando duas embalagens de seis Schtitz Light, um pão e a lingüíça que eu localizara minutos antes.
Entrou na fila comigo e Billy. Estava muito quente no supermercado, com o ar condicionado fora de funcionamento, e perguntei-me por que nenhum dos rapazes que embalavam
as compras, pelo menos não escancarara as portas. Eu tinha visto Buddy Eagleton dois corredores atrás, com seu avental vermelho, sem fazer nada além de empilhar
artigos. O gerador rugiu monotonamente. Eu tinha uma dor de cabeça em início.
- Coloque suas coisas aqui, antes que deixe cair alguma - falei.
- Obrigado.
As filas agora chegavam aos alimentos congelados; havia pessoas cortando-a a todo instante, entre muitos "com licença" e "por favor".
- Isto vai ser uma merda - disse Norton morosamente.
Franzi a testa de leve. Esse tipo de linguagem é rude demais para cair nos ouvidos de Billy, em minha opinião.
O barulho do gerador amorteceu-se um pouco, quando a fila avançou alguns metros. Eu e Norton mantínhamos uma conversa incoerente, evitando a feia disputa
entre propriedades que nos levara ao tribunal distrital e preferindo temas como as chances do Red Sox e o tempo. Por fim, exaurido o nosso pequeno estoque de conversa
fìada, ficamos calados. Billy estava irrequieto ao meu lado. A fila arrastava-se. Agora, tínhamos refeições congeladas à direita e, à esquerda, os vinhos e champanhas
mais caros. À medida que a fila avançou para os vinhos mais baratos, brinquei ligeiramente com a idéia de pegar uma garrafa de Ripple, o vinho de minha flamante
juventude. Não a peguei. Afinal, minha juventude não fora assim tão flamante.
- Poxa, por que eles não andam mais depressa, papai? - perguntou Billy.
Meu filho continuava com aquela expressão ansiosa no rosto. De súbito, brevemente, a névoa de inquietação que me invadira abriu uma brecha e algo terrível
espiou do outro lado - a face brilhante e metálica do terror. Então, passou.
- Fique calmo, campeão - falei.
Tínhamos chegado às gôndolas do pão - ao ponto em que a fila dupla dobrava para a esquerda. Agora, eu podia ver os corredores para as caixas registradoras,
as duas em funcionamento e as outras quatro, abandonadas, cada uma com um pequeno aviso sobre a esteira-rolante imóvel, avisos dizendo POR FAVOR, ESCOLHA OUTRA CAIXA
e WINSTON. Além das caixas, ficavam as enormes paredes envidraçadas, dando para o pátio de estacionamento e o cruzamento das Rotas 117 e 302, mais além. A vista
era parcialmente obscurecida pelas costas dos avisos em cartolina branca, anunciando artigos em promoção e a última cortesia da casa, um conjunto de livros com o
título Enciclopédia da Mãe Natureza.
Estávamos na fila que, eventualmente, nos levaria à caixa presidida por Bud Brown.
Havia ainda umas trinta pessoas à nossa frente. A mais identificável era a Sra. Carmody, com seu terninho amarelo-berrante. Ela parecia um anúncio de febre
amarela.
De repente, um barulho agudo começou na distância, aumentando rapidamente até transformar-se no louco ulular de uma sirene policial. Soou uma buzinada no
cruzamento, houve um chiado de freios e borracha queimada. Eu não podia ver-o ângulo não permitia - mas a sirene chegou ao auge quando se aproximou do supermercado,
começando a diminuir à medida que a viatura policial se afastava.
Algumas pessoas saíram da fila para espiar, mas não muitas. Já haviam esperado demais, para perder seus lugares.
Norton saiu; suas compras estavam em meu carrinho. Após alguns momentos, retornou e voltou para a fila outra vez.
- Confusão local - disse.
Então, o apito de incêndios da cidade começou a gemer, lentamente passando para um guincho todo próprio, caindo e tornando a subir. Billy tomou minha mão
- aferrou-a.
- O que é, papai? - perguntou, acrescentando imediatamente: - Mamãe está bem?
- Deve ser algum incêndio na Estrada Kansas - disse Norton. - Aqueles malditos fios derrubados pela tempestade... Os carros de bombeiros passarão daqui a
pouco.
Aquilo deu algo para a minha inquietação concentrar-se. Havia fios eletrizados caídos em nosso terreno.
Bud Brown disse algo à moça da caixa que ele supervisionava; ela estivera se virando, para ver o que ocorria. A moça enrubesceu e voltou a digitar sua calculadora.
Eu não queria estar naquela fila. De repente, eu não queria estar ali, de maneira alguma.
Contudo, ela recomeçava a mover-se e parecia tolice deixá-la agora. Passamos juntos aos mostruários de cigarros.
Alguém passou pela porta ENTRE, um adolescente. Achei que era o rapazola que quase havíamos atingido, o da Yamaha, sem capacete.
- O nevoeiro! - gritou ele. - Vocês deviam ver o nevoeiro! Está vindo pela Estrada Kansas!
As pessoas se viraram para fitá-lo. Ele ofegava, como se houvesse corrido uma longa distância. Ninguém disse nada.
- Bem, vocês deviam ver - repetiu ele, agora soando defensivo.
Algumas pessoas olharam para ele, outras moveram os pés, mas ninguém queria perder o lugar na fila. Aquelas que ainda não estavam em fila, abandonaram seus
carrinhos e passaram pelos corredores vazios das caixas desativadas, para ver se descobriam sobre o que ele falava. Um sujeito grandalhão, com um chapéu de verão
exibindo uma faixa estampada (do tipo que a gente raramente vê, exceto em comerciais de cerveja, tendo churrascos ao fundo para compor o cenário), escancarou a porta
SAÍ DA e várias pessoas - dez, talvez uma dúzia - saíram com ele. O rapazinho os acompanhou.
- Não deixem todo o ar condicionado escapar - disse um dos garotos do exército, com típica voz de falsete.
Houve algumas risadinhas. Eu não ri. Tinha visto o nevoeiro cruzando o lago.
- Por que não vai dar uma espiada, Billy? - sugeriu Norton.
- Não - falei de imediato, sem qualquer razão concreta.
A fila tornou a avançar. As pessoas espichavam o pescoço, querendo ver o nevoeiro que o rapazinho mencionara, porém nada havia à vista, exceto o céu azul-vivo.
Ouvi alguém dizer que ele devia estar brincando. Alguém mais respondeu que tinha visto uma linha esquisita de nevoeiro sobre o Long Lake, cerca de uma hora atrás.
O primeiro apito ululou e gritou. Não gostei daquilo. Dava a sensação de um Dia do Juízo em grande escala, soando daquela maneira.
Mais pessoas saíram. Algumas chegaram a abandonar seu lugar na fila, o que acelerou um pouco nosso avanço. Então, o encanecido velho John Lee Frovin, que
trabalha como mecânico no posto Texaco, entrou encurvado e gritou:
- Ei! Alguém aí tem uma máquina de retratos?
Olhou em torno, depois tornou a sair com sua espinha encurvada. Aquilo causou certo rebuliço. Se a coisa valia a pena uma foto, também valia a pena ver o
que era. Foi quando a Sra. Carmody gritou, com sua voz enferrujada, mas potente:
- Não saiam!
As pessoas se viraram para olhá-la. A forma ordenada das filas desorganizara-se inteiramente, com gente que saía para espiar o nevoeiro, que se afastava da
Sra. Carmody ou que andava de um lado para outro, procurando os amigos. Uma mulher nova e bonita, com uma blusa de malha de algodão própria para atletismo e calça
comprida verde-escura, olhava para a Sra. Carmody de maneira pensativa e avaliadora.
Alguns oportunistas aproveitavam-se da confusão furavam a fila, avançando uma ou duas vagas. A caixa ao lado de Bud Brown virou a cabeça novamente para olhar
e ele lhe bateu um dedo comprido no ombro.
- Preste atenção ao que está fazendo, Sally.
- Não saiam! - gritou a Sra. Carmody. - É a morte! Sinto que a morte está lá fora!
Bud e Ollie Weeks, que a conheciam, pareceram impacientes e irritados, mas alguns veranistas à volta dela afastaram-se alguns passos, pouco ligando para seus
lugares na fila. Nas cidades grandes, as bag-ladies parecem ter o mesmo efeito sobre os demais, como se fossem portadores de alguma doença contagiosa. Quem sabe?
Talvez sejam mesmo.
Então, as coisas começaram a acontecer em ritmo acelerado e confuso. Um homem entrou aos tropeções no supermercado, empurrando a porta ENTRE até o fim.
Seu nariz sangrava.
- Há alguma coisa naquele nevoeiro! - gritou.
Billy encolheu-se contra mim - fosse por causado nariz sangrento do homem ou pelo que ele dizia, eu não sei.
- Há alguma coisa naquele nevoeiro! - repetiu ele. - Alguma coisa no nevoeiro agarrou John Lee! Alguma coisa... - Ele tropeçou de costas em uma amostra de
adubo para jardim, amontoada junto às vidraças e sentou-se ali. - Alguma coisa no nevoeiro pegou John Lee e eu o ouvi gritando!
A situação mudou. Já nervosas pela tempestade, pela sirene policial e o apito de incêndios, pelo sutil deslocamento que qualquer interrupção da força elétrica
provoca na psique americana e pelo ambiente de cada vez maior inquietude quando as coisas, de algum modo... alguma forma, se transformam (não sei como expressá-lo
melhor do que isto), as pessoas começaram a mover-se como um todo.
Não saíram correndo. Se eu dissesse isso, estaria dando uma impressão absolutamente errônea. Não foi exatamente um pânico. Elas não correram - ou, pelo menos,
a maioria não correu. Andaram. Algumas chegaram às enormes paredes envidraçadas, no ponto mais afastado das caixas, e olharam para fora. Outras saíram pela porta
ENTRE, algumas ainda carregando os artigos escolhidos para compra. Inquieto e diligente, Bud Brown começou a gritar:
- Ei! Vocês ainda não pagaram! Ei, você! Volte aqui com esses pães para cachorro-quente!
Alguém riu dele, um som louco e guinchado, que provocou sorrisos dos demais.
Contudo, mesmo enquanto sorriam, aquelas pessoas estavam perplexas, confusas e nervosas. Então, alguém mais deu uma risada e Brown ficou vermelho. Arrancou
uma caixa de cogumelos de uma senhora que passava a seu lado, para espiar na vidraça - os segmentos de vidro estavam agora tomados por filas de pessoas, eram como
aquelas que vemos espiando através de furos, nos tapumes dos locais em construção - e a mulher gritou:
- Devolva meus cogumelinhos!
O bizarro termo afetivo fez com que dois homens nas proximidades estourassem em louco acesso de riso - e agora havia em tudo aquilo algo do velho manicômio
inglês. A Sra. Carmody trovejou novamente para que ninguém saísse. O apito de incêndio ululou ofegante, como uma velha que houvesse levado um susto, com um gatuno
dentro de casa. Billy prorrompeu em pranto.
- O que é aquele homem cheio de sangue, papai? O que é?
- Está tudo bem, Grande Bill. É só o nariz dele. Ele está bem.
- O que ele quis dizer, com alguma coisa no nevoeiro? - perguntou Norton.
Vi que ele franzia a testa inteiramente, sem dúvida a sua maneira de parecer confuso.
- Estou com medo, papai - disse Billy, através de lágrimas. - Será que a gente não podia ir para casa?
Alguém passou a meu lado, dando-me um encontrão que me fez perder ligeiramente o equilíbrio. Tomei Billy nos braços. Eu também estava ficando assustado. A
confusão aumentava. Sally, a caixa supervisionada por Bud Brown, começou a afastar-se, mas ele a agarrou pela gola de sua bata vermelha e a trouxe de volta. O tecido
rasgou-se. Sally avançou para ele, pronta a desferir-lhe uma bofetada, o rosto contorcido de fúria.
- Tire essas mãos sujas de cima de mim! - gritou ela.
- Oh, cale a boca, sua cretina! - exclamou Brown, parecendo absolutamente espantado.
Tornou a estender a mão para agarrá-la, mas Ollie Weeks disse com rispidez:
- Bud! Esfrie, cara!
Alguém mais gritou. Não houvera pânico ainda - não de todo - mas ia haver logo. As pessoas disparavam para o exterior, por ambas as portas. Houve um barulho
de vidro quebrado e garrafas de Coca rolaram pelo chão subitamente, esguichando o conteúdo.
- Cristo, o que está acontecendo? - exclamou Norton.
Foi quando começou a escurecer... oh, não, não foi bem isso. No momento, não pensei que estivesse anoitecendo, mas sim que as luzes do supermercado se tivessem
apagado.
Ergui os olhos para as luzes fluorescentes, em um rápido ato reflexo, e não fui o único.
A princípio, até recordar a interrupção da energia elétrica, pareceu-me que a luz se apagara, que isso é que modificara a qualidade da iluminação. Então,
recordei que havíamos ficado sem energia o tempo todo, desde nossa chegada ao supermercado, mas que as coisas antes não pareciam escuras. Então adivinhei, ainda
antes que as pessoas espremidas contra as janelas envidraçadas começassem a gritar e apontar.
O nevoeiro estava chegando.
Vinha da entrada da Estrada Kansas para o pátio de estacionamento e, apesar daquela proximidade, não parecia diferente de quando o percebêramos pela primeira
vez, na margem oposta do lago. Era branco e brilhante, mas sem reflexos. Movia-se depressa, tendo eclipsado a maioria do sol. Onde o sol estivera, havia agora uma
moeda de prata no céu, como uma lua cheia no inverno, vista através de uma fina camada de nuvens.
O nevoeiro chegou com indolente rapidez. Vê-lo, fazia-me recordar algo da chuva torrencial daquela noite. Na natureza há forças poderosas que dificilmente
vemos - terremetos, ciclones, furacões - eu não chegara a ver todos eles, mas tinha visto o suficiente para intuir que se moviam com aquela preguiçosa, hipnotizante
velocidade.
São coisas que nos mantém abismados, como Billy e Steff haviam estado, diante da janela panorâmica, a última noite.
Ele rolava imparcialmente pela estrada negra de duas pistas, apagando-a de vista. A residência dos McKeon, belamente restaurada em colonial holandês, foi
engolida por inteiro. Durante um momento, o segundo pavimento do arruinado prédio de apartamentos ao lado, conseguiu destacar-se naquela brancura, porém desapareceu
também. O aviso MANTENHA A DIREITA, nos pontos de entrada e saída do pátio de estacionamento do Federal, sumiu de vista, enquanto as letras negras pareciam flutuar
por um instante no limpo, depois que o fundo branco-sujo do cartão desapareceu. Em seguida, foi a vez de os carros no pátio de estacionamento começaram também a
esfumar-se.
- Cristo, o que está acontecendo? - repetiu Norton, nervoso.
O nevoeiro chegou, comendo o céu azul e a recente pintura negra no piso do estacionamento. Mesmo estando e seis metros de distância, a linha de demarcação
era absolutamente nítida. Fiquei com a idiota sensação de estar assistindo a uma peça extraordinariamente boa de efeitos visuais, algo fantasiado por Willys O'Brien
ou Douglas Trumbull. Aconteceu depressa demais. O céu azul pareceu ter sido abocanhado, transformando-se em faixa, depois em um fino risco de lápis: Então, desapareceu
de todo. O branco opaco pressionou-se contra o vidro da enorme vitrine. O máximo que eu conseguia ver era até o barril para papéis usados, talvez a metro e meio
de distância, porém não muito mais além. O único que distinguia era o pára-choque dianteiro de meu Scout, mas foi tudo.
Uma mulher deu um grito, muito alto e prolongado. Billy apertou-se mais contra mim.
Seu corpo tremia como um monte frouxo de fios, percorridos por alta voltagem.
Um homem gritou também e atirou-se por um dos corredores vazios de caixa, em direção à porta. Acho que isso finalmente desencadeou o estouro. As pessoas precipitaram-se
para o nevoeiro.
- Ei! - rugiu Brown. Não sei se estava irritado, assustado, ou as duas coisas. Seu rosto ficara quase púrpura e as veias salientavam-se no pescoço, quase
tão grossas como cabos de bateria. - Ei, vocês aí, não podem levar essa mercadoria! Voltem aqui com a mercadoria, isso é roubo!
Todos continuaram correndo para fora, mas alguns largaram as mercadorias que levavam. Uns poucos riam, excitados. Penetraram todos no nevoeiro e, entre os
que ficaram para trás, ninguém mais tornou a vê-los. Pela porta aberta infiltrava-se um cheiro vagamente acre. As pessoas começaram a amontoar-se diante dela, entre
empurrões e encontrões. Meus ombros doíam por segurar Billy, um garoto de bom tamanho. Steff às vezes o chamava de seu bezerrinho.
Norton começou a afastar-se, com ar preocupado, estupidificado. Dirigia-se para a porta. Passei Billy para o outro braço, a fim de agarrar o de Norton, antes
que ele me fugisse do alcance.
- Nada disso, cara, não deve ir - falei.
Ele se virou para mim.
- O quê?
- É melhor esperar para ver.
- Ver o quê?
- Sei lá - respondi.
- Não está pensando que...
Um guincho saído do nevoeiro o interrompeu. Norton calou a boca. O apertado amontoado junto à porta SAÍDA afrouxou-se. O burburinho de excitadas conversas,
gritos e chamados, amainou. O rosto das pessoas junto à porta pareceu subitamente achatado e pálido, bidimensíonal.
O guincho estendeu-se, prolongadamente, competindo com o apito de incêndio. Parecia impossível que qualquer par de pulmões humanos contivesse ar suficiente
para agüentar semelhante uivo.
- Oh, meu Deus - murmurou Norton, passando as mãos através dos cabelos.
O guincho terminou subitamente. Não foi diminuindo; estancou de repente. Um outro homem saiu, um sujeito corpulento, em calças de trabalho de brim. Creio
que pretendia resgatar quem guinchara. Por um momento, ele surgiu lá fora, visível através do vidro e do nevoeiro, como uma figura discernida através do leite em
um copo. Então (e, que me conste, fui o único a ver isto) algo além dele pareceu mover-se, uma sombra cinzenta em toda aquela brancura. Tive a impressão de que,
ao invés de penetrar no nevoeiro, o homem das calças de brim foi puxado para seu interior, as mãos debatendo-se no alto, como que surpreso.
Por um instante, houve silêncio total no supermercado.
Uma constelação de luas brilhou subitamente no exterior. As luzes de sódio do pátio de estacionamento, sem dúvida supridas por cabos elétricos subterrâneos,
tinham sido acesas naquele momento.
- Não vão lá fora! - disse a Sra. Carmody, em sua melhor voz de corvo agourento. - Será a morte para quem sair!
Imediatamente, ninguém parecia disposto a discutir ou rir.
Outro grito brotou do exterior, este abafado e soando algo distante. Billy retesou-se contra mim.
- David, o que está acontecendo? - perguntou Ollie Weeks. Havia deixado o posto junto à caixa e mostrava grandes gotas de suor no rosto redondo e liso. O
que é isto?
- Não faço a menor idéia - respondi.
Ollie parecia francamente assustado. Era solteiro, morava em uma aconhegante casinha perto de Highland Lake e gostava de beber no bar em Pleasant Mountain.
No rechonchudo mindinho de sua mão esquerda, ostentava um anel com uma estrela de safiras. No último fevereiro, ele ganhara algum dinheiro na loteria estadual e
então comprara o anel. Eu sempre tivera a impressão de que Ollie sentia certo medo de garotas.
- E eu não entendo nada - disse ele.
- Não dá para entender - falei. - Ouça, Billy, tenho que pôr você no chão. Ficarei segurando sua mão, mas você está quebrando meus braços, compreende?
- Mamãe - sussurrou ele.
- Ela está bem - respondi, pois tinha que dizer alguma coisa.
O velhote que tem uma loja de artigos usados, perto do Restaurante Jon's, passou por nós, enfiado na velha suéter com as letras da universidade, que não tirava
do corpo o ano inteiro. Disse, em voz alta:
- Deve ser uma daquelas nuvens de poluição. As fábricas em Rumford e South Paris. Produtos químicos.
Enquanto falava, embrenhou-se no corredor 4, além das gôndolas de medicamentos e papel sanitário.
- Vamos sair daqui, David - disse Norton, sem a menor convicção. - O que acha de nós...?
Houve um baque surdo. Um baque estranho, estremecido, que senti principalmente nos pés, como se todo o edifício houvesse subitamente afundado um metro no
chão. Várias pessoas gritaram, de medo e surpresa. Ouviu-se um jingle musical de garrafas caindo das prateleiras e estilhaçando-se no piso ladrilhado. Um pedaço
de vidro em forma de cunha caiu de um dos segmentos da ampla vitrine frontal e vi as molduras de madeira sacudindo as pesadas seções envidraçadas, que saltaram e
racharam em alguns pontos.
O apito de incêndio cessou abruptamente.
O silêncio que se seguiu foi a quietude expectante de gente esperando algo mais, qualquer outra coisa. Eu estava chocado e entorpecido. Minha mente executou
uma estranha conexão cruzada com o passado. Recuou até quando Bridgton era pouco mais do que um cruzamento de estradas e meu pai me levava com ele, enquanto conversava
junto ao balcão e eu espiava, através do vidro, para os doces de um penny e a goma de mascar a dois centavos. Era o degelo de janeiro. Não havia outro som, além
da água derretida que pingava, caindo das calhas de estanho galvanizado nas barricas para águas pluviais, a cada lado da loja. Eu, olhando para os pés-de-moleque,
botões e cataventos.
Os místicos globos amarelos de luz no alto, mostrando projetadas sombras monstruosas do batalhão de moscas mortas no último verão. Um garotinho chamado David
Drayton e seu pai, o famoso artista Andrew Drayton, cuja pintura Christine Solitária estava na Casa Branca. Um garotinho chamado David Drayton, olhando para os doces
e cartões da goma-de-mascar Davy Crockett, sentindo uma vaga vontade de urinar. E, lá fora, pressionante, o encapelado nevoeiro amarelo do degelo de janeiro.
A recordação enfumaçou-se, mas muito devagar.
- Ei, vocês todos! - bradou Norton. - Todos vocês, ouçam-me!
As pessoas olharam em torno. Norton erguia as duas mãos, os dedos estendidos em ângulo, como um candidato político acolhendo saudações.
- Pode ser perigoso alguém ir lá fora! - gritou ele.
- Por quê? - gritou uma mulher de volta. - Meus filhos ficaram em casa! Preciso voltar para junto deles!
- Quem sair daqui morrerá! - repetiu agudamente a Sra. Carmody.
Estava em pé junto aos sacos de doze quilos com fertilizantes, empilhados abaixo da janela envidraçada, e seu rosto parecia projetar-se para diante de algum
modo, como se ela estivesse inchando.
Um adolescente a empurrou com rudeza e ela caiu sentada em cima dos sacos, com um grunhido de surpresa.
- Pare de ficar falando assim, velha maluca! Pare de dizer besteiras!
- Por favor! - gritou Norton. - Se apenas esperarmos alguns momentos, até tudo se acalmar, então veremos...
Uma confusão de gritos conflitantes acolheu suas palavras.
- Ele tem razão! - gritei, procurando fazer-me ouvir acima do barulho. Temos que ficar de cabeça fria!
- Acho que foi um terremoto - disse um homem de óculos. Tinha voz suave. Em uma das mãos segurava um pacote de hamburgeres e um saco de pãezinhos. Na outra,
prendia a de uma menininha, talvez um ano mais nova do que Billy. Sinceramente, acho que foi um terremoto.
Houve um em Nápoles, há cerca de quatro anos - disse um gordo residente local.
- Aquilo foi em Casco - contradisse imediatamente sua esposa, empregando os tons indisfarçáveis de veterana contestadora.
- Naples - insistiu o gordo, porém com menos segurança.
- Casco! - declarou a mulher com firmeza, e ele desistiu.
Em algum lugar, uma lata que fora atirada até a borda da prateleira, pelo baque, terremoto ou fosse o que fosse, caiu finalmente, com atrasado clangor. Billy
prorrompeu em choro.
- Quero ir para casa! Quero a minha MÃE!
- Não pode fazer esse garoto se calar? - perguntou Bud Brown, com os olhos indo rapidamente, mas sem destino, de um lado para outro.
- Quer que lhe dê um tiro nos dentes, boca de matraca? - falei.
- Vamos, Dave, isso não resolve nada - disse Norton, aturdido.
- Sinto muito - falou a mulher que gritara antes. - Sinto muito, mas não posso ficar aqui. Preciso ir para casa e ver meus filhos.
Olhou em torno para nós, uma mulher loura, de rosto bonito e fatigado.
- Wanda ficou cuidando do pequeno Victor, compreendam. Ela só tem oito anos e, às vezes, esquece... esquece que deveria... bem, tomar conta dele, sabem como
é. E o pequeno Victor... ele gosta de ligar os bicos de gás do fogão, para ver aparecer a luzinha vermelha... ele gosta daquela luzinha... e às vezes puxa as tomadas
da parede... o pequeno Victor faz isso... e Wanda fica... entediada de cuidar dele, após algum tempo... ela só tem oito anos... - A mulher interrompeu-se e ficou
olhando para nós. Imagino que lhe tenhamos parecido apenas um bando de olhos impiedosos, não seres humanos, em absoluto, apenas olhos. - Será que ninguém vai me
ajudar? - gritou ela. Seus lábios começaram a tremer. - Ninguém aqui... ninguém leva uma senhora em casa?
Não houve resposta. As pessoas arrastaram os pés. Ela olhou rosto por rosto, com suas feições compungidas. O gordo residente local ensaiou um meio passo à
frente, mas a esposa o puxou de volta, com um gesto rápido, a mão se fechando no punho dele como uma algema.
- Você? - perguntou a loura a Ollie. Ele abanou a cabeça. - E você? - ela se virou para Bud. Ele pousou a mão na calculadora Texas Instruments sobre o balcão
e nada disse. - Você? - perguntou ela a Norton.
Norton começou a dizer algo, em sua voz pomposa de advogado, algo sobre ninguém ser louco para sair dali e... e ela então o ignorou, permitindo que ele se
afastasse.
- Você? - perguntou a mim.
Tornei a colocar Billy no colo e o mantive nos braços, como um escudo a proteger-me daquela terrível face descomposta.
- Espero que todos vocês apodreçam no inferno - disse ela.
Não gritou. Sua voz estava apática pelo cansaço. Caminhou para a porta SA Í DA e a empurrou, usando as duas mãos. Eu quis dizer-lhe algo, chamá-la de volta,
mas tinha a boca demasiado seca.
- Ei, dona, escute... - começou o adolescente que gritara para a Sra. Carmody.
Ele lhe segurou o braço. A mulher loura baixou os olhos para aquela mão que a prendia e o rapazinho a soltou, envergonhado. Ela deslizou para dentro do nevoeiro.
Nós a vimos ir e ninguém disse nada. Vimos o nevoeiro abraçá-la, torná-la insubstancial, não mais um ser humano, porém o desenho a tinta de um ser humano, feito
no papel mais branco do mundo, e ninguém disse nada. Por um momento, foi como as letras do aviso MANTENHA A DIREITA, que tinha parecido flutuar no nada; seus braços,
pernas e o pálido cabelo louro desapareceram, permanecendo apenas os enevoados remanescentes de seu vestido vermelho de verão, como se dançassem em um limbo alvacento.
Então, o vestido também desapareceu e ninguém disse nada.

IV. A área de estocagem. Problemas com os geradores. O que aconteceu ao rapaz embalador

Billy começou a agir histericamente e com malcriação, gritando pela mãe de maneira rouca e exigente através das lágrimas, instantaneamente regredindo à idade
de dois anos. Seu lábio superior estava coberto de ranho. Levei-o dali, descendo por um dos corredores centrais, com o braço em torno de seus ombros, tentando acalmá-lo.
Caminhei com ele ao longo do comprido gabinete branco para carnes, que ocupava toda a largura do supermercado, na parte dos fundos. O açougueiro, Sr. Mc Vey,
ainda estava lá. Cumprimentamo-nos com um aceno de cabeça, o melhor que podíamos fazer, em vista das circunstâncias.
Sentando-me no chão, coloquei Billy no colo e mantive seu rosto contra meu peito, embalando-o e falando com ele. Contei-lhe todas as mentiras que os pais
reservam para as situações difíceis, aquelas que soam infernalmente plausíveis para uma criança, e as contei em um tom de absoluta convicção.
- Aquele não é um nevoeiro igual aos outros - disse Billy. Ergueu o rosto para mim, os olhos circundados de sombras e marejados de lágrimas. - Não é igual,
não, papai?
- Não, não é igual - falei, não querendo mentir sobre aquilo.
Crianças não lidam com o choque à maneira dos adultos; elas harmonizam-se com ele, talvez por viverem em semi permanente estado de choque até cerca dos treze
anos. Billy começou a cochilar. Eu o mantive nos braços, achando que fosse acordar de novo, mas seu sono aprofundou-se, ficou pesado. Talvez houvesse ficado desperto
parte da noite anterior, ao dormirmos os três em uma só cama, pela primeira vez, desde que ele era bebê. E talvez - senti algo como uma lâmina fria me varando ao
pensar nisso - talvez ele houvesse pressentido algo que estava para ocorrer.
Quando fiquei certo de que ele dormia profundamente, depositei-o no chão e saí em busca de algo com que cobri-lo. Em sua maioria, as pessoas continuavam na
parte interna e fronteira do supermercado, espiando o espesso lençol do nevoeiro. Norton reunira um pequeno grupo de ouvintes e ocupava-se em fasciná-los com sua
palavra eloqüente - ou, pelo menos, tentava. Bud Brown permanecia rigidamente em seu posto, mas Ollie Weeks já abandonara o seu.
Havia umas poucas pessoas pelos corredores, perambulando como fantasmas, os rostos sebosos pelo choque. Entrei na área de estocagem, através das grandes portas
duplas entre o gabinete de carnes e o refrigerador de cerveja.
O gerador rugia com firmeza, através de sua divisória de compensado, mas havia algo errado. Pude sentir cheiro dos vapores de diesel e eram muito fortes.
Caminhei para a divisória, poupando a respiração. Por fim, desabotoando a camisa, tapei a boca e o nariz com parte dela.
A área de estocagem era comprida e estreita, fracamente iluminada por dois conjuntos de luzes de emergência. Havia caixas de papelão amontoadas por toda parte
- alvejantes a um lado, caixas de refrigerantes no lado mais distante da divisória, caixotes de Beefaroni e catchup empilhados. Um destes havia caído e o papelão
parecia sangrar.
Abri a porta que dava para o compartimento do gerador e entrei. A máquina estava obscurecida por nuvens densas e oleosas de fumaça azul. O tubo de exaustão
passava por um buraco na parede. Algo devia ter bloqueado a saída externa do tubo. Havia um interruptor simples, liga/desliga, e eu o acionei. O gerador estremeceu,
arrotou, tossiu e morreu. Depois emitiu uma série de pequenos estouros, cada vez mais sufocados, recordando-me a obstinada serra de cadeia de Norton.
As luzes de emergência apagaram-se e me vi na escuridão. Fiquei logo assustado e perdi a orientação. Minha respiração parecia um vento rasteiro, agitando
palha. Bati com o nariz na fina porta de compensado e meu coração cambaleou. Havia vidraças nas portas duplas mas, por algum motivo, tinham sido pintadas de preto,
de modo que a escuridão era quase total. Desorientado, colidi com uma pilha de caixas de alvejantes.
As caixas de papelão oscilaram e caíram. Uma passou rente à minha cabeça, fazendo me recuar um passo e tropeçar em outra, que caíra às minhas costas. Caí
sentado, levando uma forte pancada na cabeça, que me fez ver estrelas brilhando no escuro. Um bom espetáculo.
Fiquei ali, xingando-me e esfregando a cabeça, dizendo a mim mesmo para ficar calmo e sair daquele lugar, voltar para Billy, convencendo-me de que nada macio
e escorregadio se fecharia em volta de meu tornozelo ou me prenderia a mão.
Falei-me para não perder o controle ou terminaria dando voltas ali dentro, em pânico, colidindo com coisas e criando uma louca pista de obstáculos para mim
próprio.
Levantei-me com cautela, procurando alguma réstia de luz entre as portas duplas.
Encontrei-a, um fraco mas indiscutível risco de claridade na escuridão. Caminhei para ela, mas então parei.
Houve um som. Um som suave, deslizante. Parou, depois recomeçou, com um furtivo baquezinho. Tudo dentro de mim ficou bambo. Como por mágica, recuei aos quatro
anos de idade. Aquele som não provinha do supermercado, mas de trás de mim. Do exterior. Onde estava o nevoeiro. Alguma coisa deslizava e deslizava, rastejando sobre
os blocos de concreto. E, talvez, procurando um jeito de entrar.
Aliás, talvez já houvesse entrado e procurasse por mim. Em mais um momento, eu poderia estar sentindo sobre meu sapato o que quer que emitia aquele som. Ou
em meu pescoço.
O som repetiu-se. Agora, eu tinha certeza, era do lado de fora. Isso, contudo, não tornou nada melhor. Ordenei a minhas pernas que se movessem e elas recusaram
a ordem.
Então, a qualidade do ruído mudou. Alguma coisa arranhou em meio à escuridão. Meu coração saltou no peito e eu dei um salto de mergulho para aquela fina linha
de luz vertical. Bati contra as portas com os braços estirados e irrompi no supermercado.
Três ou quatro pessoas estavam bem junto às portas duplas - Ollie Weeks era uma delas - e elas saltaram para trás, surpresas. Ollie aferrou o peito.
- David! - disse, em voz agoniada. - Meu Deus, você quer me tirar dez anos de... - Parou ao ver meu rosto. - O que há com você?
- Vocês ouviram? - perguntei. Minha voz soava estranha a meus próprios ouvidos, aguda e estridente. - Algum de vocês ouviu?
Eles nada tinham ouvido, claro. Estavam vindo para saber por que o gerador parara de trabalhar. Quando Ollie me disse isso, um dos rapazes que embalava mercadorias
junto à caixa, surgiu carregando um monte de lanternas à pilha. Olhou de Ollie para mim, curiosamente.
- Eu desliguei o gerador - falei, explicando por quê.
- O que foi que ouviu? - um homem perguntou. Trabalhava no departamento rodoviário da cidade, seu nome era Jim qualquer coisa.
- Não sei. Era um ruído rastejante. Gosmento. Não quero tornar mais a ouvi-lo.
- Foram seus nervos - disse o outro sujeito com Ollie.
- Não. Não foram meus nervos.
- Ouviu o ruído antes das luzes se apagarem?
- Não, só depois. Mas...
Não adiantava explicar, podia ver pela maneira como me olhavam. Não queriam mais notícias ruins, nada amedrontador ou fora do normal. Já haviam tido o suficiente
disso. Apenas Ollie parecia acreditar em mim.
- Vamos entrar e ligar o gerador novamente - disse o rapaz embalador, estendendo as lanternas.
Ollie pegou a sua, com ar duvidoso. O rapaz ofereceu-me uma, com um brilho ligeiramente sarcástico nos olhos. Teria uns dezoito anos. Após pensar um momento,
peguei a lanterna. Eu ainda precisava encontrar alguma coisa com que cobrir Billy.
Ollie abriu as portas, escancarando-as e deixando entrar um pouco de claridade. As caixas de papelão dos alvejantes jaziam espalhadas em torno da porta entreaberta
da divisória de compensado. O sujeito chamado Jim farejou o ar.
- Parece bem enfumaçado. Acho que fez bem em desligá-lo.
Os fachos das lanternas saltitaram e dançaram pelas caixas de papelão acondicionando latarias, papel sanitário e ração para cães. Os fachos luminosos surgiam
enfumaçados nas emanações que enchiam o recinto, enviadas de volta à área de estocagem por causa do exaustor bloqueado. O rapaz embalador dirigiu brevemente sua
luz para a ampla porta de descarregamento de mercadorias, na extrema direita.
Ollie e os dois homens entraram no compartimento do gerador. Os fachos de suas lanternas andavam inquietamente de um lado para outro, recordando-me algo de
uma história de aventuras para garotos - e eu ilustrara uma série delas quando ainda cursava a universidade. Piratas enterrando seu ouro sangrento à meia-noite ou
talvez o cientista louco e seu assistente esquartejando um corpo. Sombras dançavam nas paredes, distorcidas e monstruosas pelos fachos de luz que se entrecruzavam
pelas paredes. O gerador tiquetaqueava, esfriando.
O rapaz embalador aproximava-se da porta de descarregamento, iluminando o caminho à sua frente.
- Se fosse você, eu não iria aí - falei.
- Oh, claro, eu sei que você não iria.
- Experimente agora, Ollie - disse um dos homens.
O gerador estremeceu, depois rugiu.
- Céus! Desligue logo! Raios, como isso fede!
O gerador morreu novamente. O rapaz embalador retornava da porta de descarga, no momento em que eles saíam do compartimento do gerador.
- Há alguma coisa bloqueando esse exaustor, não há dúvida - comentou um dos homens.
- Pois eu seio que fazer - disse o rapaz embalador. Seus olhos brilhavam ao clarão das lanternas e, em seu rosto, havia uma expressão de que-se-danem, tantas
vezes desenhada por mim como parte do frontispício em minha série de aventuras para garotos. - Liguem o gerador o tempo suficiente, até que eu levante a porta de
descarga, lá atrás. Vou desentupir esse exaustor, dar um jeito no que quer que o esteja bloqueando.
- Não acho que seja uma boa idéia, Norm - disse Ollie, duvidoso.
- A porta é elétrica? - perguntou o chamado Jim.
- Claro - respondeu Ollie, - mas não creio que seria sensato...
- Então, tudo bem - declarou o outro sujeito. Ajeitou o boné de beisebol na cabeça. - Deixe comigo.
- Não, você não entendeu - tornou a dizer Ollie. - Francamente, acho que ninguém deveria...
- Não se preocupe - disse o outro a Ollie, em tom indulgente, começando a afastar-se.
Norm, o embalador, estava indignado.
- Ei, a idéia foi minha! - exclamou.
Imediatamente, como que por mágica, eles começaram a discutir sobre quem faria aquilo, em vez de se devia ou não ser feito. Enfim, nenhum deles ouvira ainda
aquele desagradável som deslizante.
- Parem com isto! - gritei bem alto.
Eles se viraram para mim.
- Vocês parecem não entender ou então fazem o possível para não entender! Este não é um nevoeiro comum. Ninguém mais entrou no supermercado, desde que ele
chegou aqui, notaram? Se abrirem aquela porta de descarga e alguma coisa entrar...
- Alguma coisa, como? - perguntou Norm, com o perfeito ar desdenhoso e machão dos dezoito anos.
- Seja lá o que tenha feito o barulho que ouvi.
- Sr. Drayton - disse Jim - desculpe-me, mas acho que não ouviu coisa alguma. Sei que é um artista muito importante, com ligações em Nova York e Hollywood
mas, para mim, isso não o torna diferente de mais ninguém. Da maneira como imagino, entrou aqui no escuro e talvez tenha ficado... um pouco confuso, digamos.
- Sim, talvez tenha mesmo - respondi. - E talvez, se quer ficar dando palpites por aí, devia começar certificando-se de que aquela senhora chegou junto dos
filhos sã e salva.
Sua atitude - bem como a de seu companheiro e a de Norm, o rapaz embalador - estava me deixando nervoso e assustado ao mesmo tempo. Eles tinham nos olhos
o tipo de brilho que alguns homens exibem, quando saem matando ratos a tiros, nos terrenos baldios da cidade.
- Ei - disse o companheiro de Jim - quando quisermos conselhos, nós pediremos.
Ollie falou, hesitante:
- O gerador não tem tanta importância assim, entendam. Os alimentos postos nas caixas de refrigeração agüentam bem por doze horas e até mais, sem que...
- Muito bem, garoto, vamos em frente - cortou Jim com brusquidão. - Eu ligo o motor, depois você levanta a porta, para que isto aqui não fique tão fedorento.
Eu e Myron estaremos ao lado da saída do exaustor. Dê-nos um grito, quando ele ficar desimpedido.
- Certo - disse Norm, afastando-se excitadamente.
- Isto é loucura - falei. - Vocês deixaram aquela senhora ir embora sozinha e...
- Não vi você contorcendo seu traseiro para ir acompanhá-la - falou Myron, o companheiro de Jim. Um rubor opaco, cor de tijolo, rastejava para fora de sua
gola, - mas vai deixar que este garoto arrisque a vida por um gerador que nem mesmo é importante?
- Por que não fecham a matraca? - gritou Norm.
- Ouça, Sr. Drayton - disse Jim, e sorriu para mim friamente. - Quero lhe dizer uma coisa. Se tem algo mais a dizer, é melhor antes contar seus dentes, porque
estou me cansando de ouvir suas cascatas.
Ollie olhou para mim, visivelmente amedrontado. Dei de ombros. Eles eram loucos, nada mais. Seu senso de proporção desaparecera temporariamente. Fora dali,
estavam confusos e assustados. Aqui, havia um problema direto e mecânico: um gerador birrento. Podiam resolver o problema. Se o resolvessem, ficariam menos confusos
e impotentes. Portanto, iam resolvê-lo.
Jim e seu amigo,.Myron concluíram que eu me sentia derrotado e tornaram a entrar no compartimento do gerador.
- Pronto, Norm? - perguntou Jim.
Norm assentiu, depois percebeu que eles não ouviriam seu gesto com a cabeça.
- Estou pronto - respondeu.
- Norm - falei. - Não seja tolo!
- Não deviam fazer isso - acrescentou Ollie.
Norm olhou para nós e, de repente, vi seu rosto muito mais jovem do que dezoito anos.
Era o rosto de um menino. Seu pomo de Adão subiu e desceu convulsivamente, fazendo-me perceber que ele estava apavorado. Abriu a boca para dizer algo - penso
que queria desistir - mas então o gerador rugiu para a vida novamente. Quando passou a trabalhar com ruído uniforme, Norman investiu contra o botão à direita da
porta e ela começou a chacoalhar para o alto, em suas duas trilhas de aço. As luzes de emergência se tinham acendido, quando o gerador entrou em funcionamento, mas
agora ficavam mortiças, enquanto o mecanismo que levantava a porta sugava corrente.
As sombras recuaram e desmancharam-se. A área de estocagem começou a encher-se com a suave luz esbranquiçada de um dia carregado, no final do inverno. Percebi
de novo aquele cheiro estranho e acre.
A porta para o desembarque de mercadorias subiu meio metro, depois mais meio. Além dela, pude ver uma plataforma quadrada de cimento, as bordas contornadas
por uma faixa amarela. O amarelo desbotava e desaparecia, a um metro de distância. O nevoeiro era incrivelmente espesso.
- Subiu! - berrou Norm.
Gavinhas de nevoeiro, brancas e finas como renda flutuante, esgueiraram-se para o interior. O ar estava frio. Estivera bastante fresco durante toda a manhã,
especialmente após o pegajoso calor das últimas três semanas, porém havia sido uma friagem de verão. Agora, fazia frio. Como se estivéssemos em março. Estremeci.
Então, pensei em Steff.
O gerador morreu. Jim apareceu, justamente quando Norm mergulhou sob a porta. Ele viu aquilo. Eu vi. E Ollie também.
Um tentáculo rastejou da orla oposta da plataforma acimentada do descarregamento e agarrou Norm em volta da barriga da perna. Fiquei boquiaberto. Ollie engoliu
em seco, emitindo um ruído surpreso - uk! O tentáculo afinava-se para a espessura de trinta centímetros - era como uma cobra de capim no ponto onde se enrolara à
perna de Norm, engrossando para um metro, talvez um e vinte, onde desaparecia no nevoeiro. Era cinza azulado na parte superior, matizando-se para um rosado cor de
carne na inferior. E havia filas de ventosas no lado de baixo, movendo-se e encolhendo-se como centenas de pequeninas bocas beiçudas.
Norm olhou para baixo. Viu o que o agarrara. Seus olhos esbugalharam-se.
- Tirem isso de mim! Ei, tirem isso de mim! Pelo amor de Deus, tirem essa coisa horrível de mim!
- Oh, meu Deus! - gemeu Jim.
Norm agarrou-se à parte inferior da porta, ancorando-as a ela. O tentáculo pareceu inchar, da maneira como fica um braço, se o flexionamos. O rapazinho foi
puxado para a porta de aço corrugado - sua cabeça se chocou fragorosamente contra ela. O tentáculo inchou ainda mais. As pernas e o torso de Norm começaram a escorregar
para o exterior. A borda inferior da porta arrancou as fraldas da camisa para fora de suas calças. Ele agarrou-se furiosamente e impeliu-se para trás, como um homem
que fizesse flexões de corpo com a barriga para cima.
- Ajudem-me! - ele estava soluçando. - Vocês aí, caras, ajudem-me, por favor, por favor!
- Meu Deus do céu! - disse Myron.
Ele havia saído do compartimento do gerador, para ver o que acontecia. Sendo eu o mais próximo, agarrei Norm pela cintura e puxei, com toda a força que pude,
sustentado nos saltos dos sapatos. Por um momento, ele recuou um pouco, mas foi só um momento. Era como espichar uma tira de borracha ou bala-puxa. O tentáculo cedeu,
mas não o soltou de todo. Então, três outros tentáculos flutuaram para fora do nevoeiro, em nossa direção. Um deles enrolou-se em torno do avental vermelho do Federal,
que Norm usava, e o rasgou inteiro. O pano desapareceu no nevoeiro, enrolado naquela garra branquicenta, fazendo-me pensar em algo que minha mãe dizia, quando eu
e meu irmão lhe pedíamos alguma coisa que ela não queria dar - doces, uma revista de histórias em quadrinhos, algum brinquedo: "Vocês precisam tanto disso, como
uma galinha precisa de uma bandeira." Pensei naquilo e pensei no tentáculo agitando o avental vermelho de Norm. Comecei a rir. Fiquei rindo, exceto que meu riso
e os gritos de Norm soavam como a mesma coisa. Talvez ninguém mais soubesse que estava rindo, a não ser eu.
Os outros dois tentáculos deslizaram sem direção, de um lado para outro sobre a plataforma de carga, durante um momento, emitindo aqueles ruídos surdos de
arranhões que eu ouvira anteriormente. Então, um deles encontrou a coxa esquerda de Norm e enovelou-se em torno dela. Eu o senti tocar meu braço. Era quente, liso
e pulsante. Creio que, se me houvesse aferrado aquelas ventosas, eu também teria sido puxado para dentro do nevoeiro. No entanto, foi Norm que elas aferraram. E
o terceiro tentáculo enrodilhou-se em seu outro tornozelo. Agora, o rapaz estava sendo puxado de mim.
- Ajudem-me! - gritei. - Ollie! Alguém aí! Ajudem-me aqui!
Eles não ajudaram. Não sei o que faziam, mas o fato é que não ajudaram. Olhei para baixo e vi o tentáculo em torno da cintura de Norm, procurando sua pele.
As ventosas o estavam comendo, no ponto em que a camisa escorregara das calças. Tão vermelho como seu avental, o sangue começou a fluir da trincheira feita pelo
tentáculo pulsante.
Bati a cabeça contra a borda inferior da porta parcialmente erguida.
As pernas de Norm estavam novamente no exterior. Um tênis lhe saíra do pé. Um novo tentáculo destacou-se do nevoeiro, enrolou a ponta firmemente em volta
do sapato e o puxou para si. Os dedos de Norm agarraram-se à borda inferior da porta, mantendo-se ali com firmeza, em um apertão mortal. Seus dedos estavam lívidos.
Ele não gritava mais; estava além disso. Sua cabeça sacudia-se para trás e para os lados, em um gesto interminável de negação, enquanto seus compridos cabelos negros
agitavam-se violentamente.
Olhando por sobre seu ombro, vi novos tentáculos aproximando-se, dúzias deles, uma verdadeira floresta. Em sua maioria eram pequenos, mas havia uns poucos
gigantescos, tão grossos como a árvore com o colete musgoso que estivera caída em nossa entrada de carros, aquela manhã. Os maiores tinham ventosas rosadas que pareciam
do tamanho de tampões de esgotos. Um daqueles grandes bateu na plataforma de carga com um forte e prolongado thrrrrap! logo depois começando a mover-se indolentemente
para nós, como uma gigantesca minhoca cega. Dei um puxão desesperado e o tentáculo segurando a panturrilha direita de Norm deslizou um pouco. Foi tudo, mas antes
que ele reassumisse seu aperto, vi que estava comendo a perna do rapaz.
Um dos tentáculos roçou seu rosto delicadamente e então oscilou no ar, indeciso. Pensei então em Billy. Meu filho dormia lá dentro do supermercado, perto
do comprido e branco frigorífico para carnes do Sr. McVey. Eu tinha ido até ali em busca de algo com que cobri-lo. Se uma daquelas coisas me prendesse, não restaria
ninguém para cuidar dele - exceto e talvez Norton.
Pensando nisto, larguei Norm e caí sobre as mãos e joelhos.
Eu tinha o corpo metade dentro e metade fora, diretamente abaixo da porta erguida. Um tentáculo passou à minha esquerda, parecendo caminhar sobre as ventosas.
Aderiu-se a um dos musculosos braços de Norm, fez uma brevíssima pausa e então enovelou-se apertadamente.
Agora, Norm parecia algo extraído do pesadelo de um louco encantador de serpentes.
Tentáculos se contorciam inquietamente sobre ele, em todos os sentidos... e estavam também à minha volta. Obriguei-me a um desajeitado salto de rã, para trás
e para um lado, caí sobre um ombro e rolei. Jim, Ollie e Myron continuavam ali. Pareciam um quadro vivo de figuras de cera no museu de Madame Tussaud, com rostos
pálidos e olhos muito brilhantes. Jim e Myron estavam aos lados da porta para o compartimento do gerador.
- Liguem o gerador! - gritei para eles.
Ninguém se moveu. Eles olhavam fixamente para o quadrado de descarga, com uma drogada e tanatótica avidez.
Tateei pelo chão, agarrei a primeira coisa ao alcance - uma caixa de alvejante "Nevado" - e a atirei em Jim. A caixa lhe bateu no estômago, logo acima da
fivela do cinto. Ele grunhiu e apertou a barriga. Seus olhos mostraram outra expressão, alguma semelhança de normalidade.
- Vá ligar o maldito gerador! - gritei, tão alto, que me doeu a garganta.
Ele não se moveu. Em vez disto, começou a defender-se, aparentemente tendo decidido que, com Norm devorado vivo por algum insano horror proveniente do nevoeiro,
chegara o momento das censuras.
- Sinto muito - ganiu. - Eu não sabia, diabo, como poderia saber? Você disse que ouviu alguma coisa, mas eu não entendi direito, acho que deveria ter-se explicado
melhor. Pensei que, sei lá, poderia ser uma ave, um pássaro, qualquer coisa assim...
Foi então que Ollie se moveu, empurrando-o para o lado com seu ombro maciço e precipitando-se para o compartimento do gerador. Jim tropeçou em uma das caixas
de alvejantes e caiu, justamente como me acontecera no escuro.
- Sinto muito - repetiu.
Seu cabelo vermelho lhe caíra sobre a testa. As faces estavam pálidas como queijo. Os olhos eram os de um garotinho aterrorizado. Segundo mais tarde, o gerador
tossiu e ganhou vida.
Voltei à porta de descarga. Norm já se fora quase todo, mas ainda assim, aferrava-se a ela com uma das mãos. Seu corpo era um novelo de tentáculos e o sangue
fluía calmamente para o concreto, em gotas do tamanho de moedas. Sua cabeça agitava-se de um lado para outro e os olhos dilatavam-se de terror, obstinadamente fixos
no nevoeiro.
Outros tentáculos agora rastejavam e engatinhavam pelo piso interno. Estavam demasiado perto do botão que controlava a porta de descarga, para chegar a pensar
em aproximar-me dele. Um daqueles tentáculos se fechou em torno de uma garrafa de meio litro de Pepsi e a levou para fora. Outro deslizou em volta de uma caixa de
papelão e apertou-a.
A caixa se rompeu e rolos de papel sanitário, dois conjuntos envoltos em celofane, foram cuspidos para o alto, desceram e rolaram por todo canto. Novos tentáculos
apoderaram-se deles avidamente.
Um dos maiores deslizou para mais perto. Sua ponta se ergueu do solo e pareceu farejar o ar. Começou a avançar para Myron e ele se afastou em passinhos miúdos,
com os olhos girando loucamente nas órbitas. Um gemido agudíssimo escapou de seus lábios sem cor.
Olhei em torno procurando algo, qualquer coisa de comprimento suficiente para passar acima dos tentáculos sondantes e apartar o botão FECHAR, cravado na parede.
Avistei uma vassoura de faxineiro, recostada contra uma pilha de engradados de cerveja, e agarrei-a.
A mão ilesa de Norm ficou solta. Ele caiu com um baque surdo sobre a plataforma acimentada de descarga, procurando alucinadamente onde agarrar-se com aquela
mão.
Seus olhos encontraram os meus por um instante. Estavam infernalmente brilhantes e conscientes. Norm sabia o que lhe acontecia. Em seguida, foi puxado para
o nevoeiro, rolando e aos trambolhões. Houve outro grito, abafado. Norm desaparecera.
Apertei a ponta do cabo da vassoura contra o botão e o motor uivou. A porta começou a deslizar para baixo. Tocou primeiro o tentáculo mais grosso, aquele
que estivera investigando na direção de Myron. A borda de aço bateu em sua pele - couro, sei lá - e então o partiu. Uma gosma negra começou a escorrer daquilo. O
tentáculo contorceu-se loucamente, chicoteando o piso de concreto da área de estocagem, como um chicote obsceno, antes de achatar-se. Um momento depois, desaparecia.
Os outros começaram a retrair-se.
Um deles tinha um saco de dois quilos e meio de "Gaines", a ração para cães, e não o largou. A porta que descia o cortou em dois, antes de encaixar-se em
sua fenda no piso.
A ponta amputada do tentáculo comprimiu-se convulsivamente, cada vez apertando mais o saco, até rasgá-lo e enviar pelotas castanhas de ração para cães por
todo lado. Em seguida, começou a saltitar no chão, como peixe fora d'água, enrolando-se e desenrolando-se, porém cada vez mais devagar, até ficar imóvel. Espetei-a
com a ponta da vassoura. Aquele pedaço de tentáculo teria cerca de um metro de comprimento, mas aferrou furiosamente o cabo da vassoura por um instante, depois afrouxando
a pressão e caindo flácido em meio àquela confusa mistura de papel sanitário, ração para cães e caixas de alvejante.
Não havia outro som além do rugido do gerador e de Ollie, chorando dentro do compartimento de compensado. Eu podia vê-lo sentado em uma banqueta, com o rosto
enterrado nas mãos.
Então, tive consciência de outro som. Era o mesmo som suave e deslizante que ouvira no escuro. Só que, agora, ele se multiplicava por dez. Era o som dos tentáculos
contorcendo-se do outro lado da porta de descarga, procurando um jeito de entrar.
Myron deu dois passos para mim.
- Escute - disse. - Você precisa compreender que...
Dei-lhe um soco no rosto. Ele estava tão surpreso, que nem tentou apará-lo. Meu punho fechado caiu abaixo de seu nariz e esmagou-lhe o lábio superior contra
os dentes. O sangue fluiu de sua boca.
- Você o empurrou para a morte! - gritei. - Olhou bem para aquilo? Olhou bem para o que você fez?
Comecei a esmurrá-lo, em loucos socos de esquerda e direita, não como me fora ensinado nas aulas de pugilismo da universidade, mas apenas agredindo. Ele recuou,
esquivando-se a alguns golpes, mas levando outros, com um entorpecimento que parecia uma espécie de conformação ou punição. Aquilo me deixou ainda mais louco. Tirei
sangue de seu nariz. Consegui acertá-lo embaixo dos olhos e aquilo ia ficar lindamente preto. Tornei a atingi-lo duramente no queixo. Depois disso, os olhos dele
ficaram turvos e semi-apáticos.
- Escute - repetia ele, - escute, escute...
Então, esmurrei-o abaixo no estômago, o ar escapou de seu corpo e ele parou de dizer "escute, escute". Não sei quanto tempo continuaria a esmurrá-lo, se alguém
não me agarrasse pelos braços. Libertei-me com um puxão e me virei. Esperava que fosse Jim, porque queria esmurrá-lo também.
Não era Jim, mas Ollie, com o rosto redondo mortalmente pálido, à exceção dos círculos escuros em torno dos olhos - olhos que ainda brilhavam com as lágrimas.
- Não, David - disse. - Não bata mais nele. Isto não resolve nada.
Jim estava de pé a um lado, o rosto parecendo uma máscara de apática perplexidade.
Chutei a caixa de alguma coisa contra ele. A caixa bateu em uma de suas botas e ricocheteou de volta.
- Você e seu amigo são dois filhos da mãe! - exclamei.
- Vamos, David - disse Ollie, entristecido. - Pare com isso.
Jim baixou os olhos para as botas. Sentado no chão, Myron segurava a pança de bebedor de cerveja. Eu respirava com dificuldade. O sangue fervia em meus ouvidos
e todo o meu corpo tremia. Sentei-me em duas caixas de papelão, coloquei a cabeça entre os joelhos e apertei as pernas com força, pouco acima dos tornozelos. Fiquei
assim por algum tempo, os cabelos caídos no rosto, esperando para ver se ia perder os sentidos, vomitar ou qualquer coisa.
Após alguns momentos, a sensação passou e ergui os olhos para Ollie. Seu elegante anel cintilou com faíscas mortiças, ao pálido clarão das luzes de emergência.
- Está bem - falei, em tom monótono. - Já acabei.
- Ainda bem - disse Ollie. - Temos que pensar no que faremos em seguida.
A área de estocagem começava novamente a feder, com o exaustor entupido.
- Desligue o gerador. É a primeira coisa a fazer.
- Certo, e vamos dar o fora daqui - disse Myron. Fitou-me com ar suplicante. - Sinto muito sobre o garoto, mas você precisa compreender...
- Não compreendo coisa nenhuma. Você e seu amigo, voltem para o supermercado, mas esperem lá, perto do freezer da cerveja. E não digam uma palavra a ninguém.
Pelo menos, por enquanto.
Os dois saíram obedientemente, lado a lado, ao passarem pelas portas de vaivém. Ollie desligou o gerador e, justamente quando as luzes começavam a falhar,
avistei uma manta axadrezada - o tipo de coisa utilizada nas mudanças, para proteger artigos quebráveis - atirado em cima de uma pilha de engradados com garrafas
vazias de soda, devolvidas por consumidores. Estendi o braço e a apanhei para Billy.
Houve o som de pés lentos e arrastados, quando Ollie saiu do compartimento do gerador. Sendo ele um homem grandalhão, com excesso de peso, sua respiração
tinha um som levemente ofegante.
- David? - perguntou, em voz algo trêmula. - Ainda está aí?
- Bem aqui, Ollie. Cuidado com todas essas caixas caídas de alvejantes.
- Hã-hã.
Eu o guiei com minha voz e, em uns trinta segundos, ele se destacou da escuridão e agarrou meu ombro. Ouvi seu longo e trêmulo suspiro.
- Céus, vamos sair daqui. - Eu podia sentir em seu hálito o cheiro dos Rolaids que ele costumava mascar. - Esta escuridão... é horrível.
- Também acho, mas espere um minuto, Ollie. Preciso falar com você e não quero que aqueles dois cretinos ouçam.
- Dave... eles não obrigaram Norm. Lembre-se disto. .
- Norm era um garoto, eles não. Está bem, tudo acabou. Vamos ter que contar a eles, Ollie. Às pessoas no supermercado.
- Podem entrar em pânico... - disse Ollie, dubitativo.
- Talvez sim, talvez não. Contudo, se ficarem sabendo, vão pensar duas vezes se quiserem ir para a rua. Aliás, é o que a maioria quer. Por que não? Quase
todos deixaram alguém em casa. Eu deixei. Precisamos fazê-los compreender a que se arriscam, se saírem daqui.
A mão de Ollie apertava meu braço com força.
- Está bem - respondeu. - Eu estava me perguntando... todos aqueles tentáculos... como um polvo ou coisa assim... A que estavam presos, David? A que aqueles
tentáculos estavam presos?
- Não sei, mas não quero aqueles dois contando aos outros à sua maneira. Isso desencadearia o pânico. Vamos.
Olhei em torno e, após um momento, localizei a fina estria vertical de claridade entre as portas de vaivém. Começamos a caminhar naquela direção, arrastando
os pés, desviando-nos das caixas de papelão espalhadas pelo chão, com uma das manoplas de Ollie agarrando meu braço. Ocorreu-me que todos nós havíamos perdido nossas
lanternas.
Quando alcançamos as portas, Ollie disse, em voz apática:
- O que nós vimos... é impossível, David. Sabe disso, não? Mesmo que um furgão fechado do Boston Seaquarium chegasse aqui e descarregasse um daqueles polvos
gigantescos, como em Vinte Mil Léguas Submarinas, o bicho morreria. Tinha que morrer.
- Exato - respondi. - Você tem toda razão.
- Então, o que aconteceu? Hem? O quê? O que será esse maldito nevoeiro?
- Eu não sei, Ollie.
Nós dois saímos para o supermercado.

V. Desentendimento com Norton. Discussão junto ao freezer de cerveja. Verificação.

Jim e seu bom amigo Myron estavam logo ali, perto das portas, cada um com uma Budweiser na mão. Olhei para Billy, vi que ele ainda dormia, e o cobri com a
áspera manta acolchoada de mudanças. Ele se remexeu levemente, murmurou algo, depois aquietou-se. Olhei para meu relógio. Meio-dia e quinze. Aquilo parecia totalmente
impossível. Para mim, era como se houvessem passado cinco horas, desde que entrara naquele recinto em busca de algo para cobrir Billy. No entanto, a coisa toda,
do começo ao fim, durara apenas cerca de trinta e cinco minutos.
Voltei para onde estava Ollie, com Jim e Myron. Ollie tomava uma cerveja e ofereceu-me uma. Apanhei-a e sorvi metade da lata imediatamente, como tinha feito
aquela manhã, cortando a árvore. Fiquei algo estonteado.
Jim era Jim Grondin. O sobrenome de Myron era LaFleur - o que tinha seu lado cômico, sem dúvida, Myron, a flor, tinha sangue coagulado nos lábios, queixo
e rosto. O olho com a contusão começava a inchar. A moça da camisa de atletismo cor de uva-do-monte perambulou por perto, sem destino, e lançou um olhar cauteloso
a Myron. Eu poderia ter-lhe dito que ele só era perigoso para rapazes adolescentes que queriam provar sua masculinidade, mas poupei o fôlego. Afinal, Ollie estava
certo - eles só tinham feito o que julgavam ser melhor, embora de maneira cega e amedrontada, em vez de agirem em beneficio do real interesse comum. Agora, eu precisava
deles, para o que julgava ser melhor. Não achei que isso seria problema. Os dois estavam esvaziados de coragem. Nenhum deles - em especial Myron, a for - valeria
grande coisa, nem teria utilidade durante algum tempo ainda. Algo que estivera em seus olhos, quando procuravam fazer Norm sair para desentupir o exaustor, agora
havia desaparecido. A valentia os abandonara.
- Vamos ter que contar alguma coisa a esta gente - falei.
Jim abriu a boca para protestar.
- Eu e Ollie omitiremos qualquer parte que você e Myron tiveram, mandando Norm lá fora, se os dois confirmarem o que vamos dizer sobre... bem, sobre aquilo
que o pegou.
- Está bem - disse Jim, pateticamente ansioso. - Claro, se não contarmos, as pessoas podem querer ir para fora... como aquela mulher... aquela mulher que...
- Ele limpou a boca com a mão e depois bebeu mais cerveja rapidamente. - Oh céus, que coisa!
- David - disse Ollie, - e se... - Interrompeu-se, depois obrigou-se a continuar: - e se eles entrarem aqui? Os tentáculos?
- Como poderiam entrar? - exclamou Jim. - Vocês fecharam a porta.
- Claro - replicou Ollie, - mas toda a parede fronteira deste lugar é vidro puro.
Meu estômago contorceu-se, como se um elevador houvesse despencado vinte andares, comigo em seu interior. Eu sabia daquilo, mas fizera o possível para ignorá-lo.
Olhei para onde Billy dormia. Pensei naqueles tentáculos, enxameando sobre Norm. Pensei naquilo acontecendo a Billy.
- Vidro puro... - sussurou Myron LaFleur. - Jesus Cristo em um sidecur puxado por uma carruagem...
Deixei os três parados junto do frigorífico, cada um às voltas com uma segunda lata de cerveja, e fui procurar Brent Norton. Encontrei-o em uma reservada
conversa com Bud Brown, perto da Registradora n.° 2. Eles - Norton com seus cabelos grisalhos de corte elegante e boa aparência de veterano, Brown com sua cara austera
de Nova Inglaterra - pareciam algo extraído de uma caricatura da New Yorker.
Umas duas dúzias de pessoas vagavam incessantemente no espaço entre o final das entradas para as caixas e a comprida vitrine panorâmica. Muitas enfileiravam-se
junto ao vidro, olhando para o nevoeiro. À minha mente, retornou a visão de espectadores reunidos junto a um prédio em construção.
A Sra. Carmody estava sentada na esteira rolante parada de uma das entradas de caixa, fumando um Parliament com filtro. Seus olhos me mediram, viram-me procurando
e desviaram-se. Ela dava a impressão de estar sonhando acordada.
- Brent! - chamei.
- David! Por onde é que andou?
- Eu queria falar a você justamente sobre isso.
- Aquelas pessoas, lá no fundo, estão bebendo cerveja - apontou Brown, em tom taciturno. Soava como um homem anunciando que filmes impróprios haviam sido
exibidos em uma reunião de diácortos. - Posso vê-las pelo espelho de segurança. Francamente, isto não pode continuar.
- Brent!
- Pode me dar licença por um instante, Sr. Brown?
- Naturalmente. - Brown dobrou os braços sobre o peito e espiou carrancudamente pelo espelho convexo. - Isto não pode continuar e vai parar, eu lhes prometo!
Eu e Norton caminhamos para a geladeira de cerveja, no canto mais distante do supermercado, passando ao lado dos utensílios domésticos e afins. Olhei por
sobre o ombro e, inquieto, reparei nos batentes de madeira emoldurando as altas seções retangulares de vidro, que estremeciam, se contorciam e estilhaçavam-se. Recordei
que uma das janelas nem ao menos estava inteira. Um pedaço de vidro, em formato de cunha, havia caído do canto superior, no momento daquele baque surdo esquisito.
Se pudéssemos encher o buraco com panos ou alguma coisa talvez um bom punhado daqueles tops para senhoras, a 3,59 dólares, que eu percebera perto dos vinhos...
Meus pensamentos foram bruscamente interrompidos e tive que colocar as costas da mão sobre a boca, como que sufocando um arroto. O que eu realmente procurava
sufocar era a repugnante inundação de horríveis risadinhas que queriam escapar, quando pensei em enfiar um punhado de blusas em um buraco, para impedir a entrada
daqueles tentáculos que haviam agarrado Norm. Eu vira um daqueles tentáculos - um pequeno - espremer um saco de ração para cães, até o saco simplesmente explodir.
- Tudo bem com você, David?
- Que?
- Seu rosto... Dá a impressão de que acabou de ter uma boa idéia ou uma horrenda.
De repente, algo me passou pela cabeça.
- Escute, Brent, o que aconteceu àquele homem que entrou aqui como louco, gritando sobre algo no nevoeiro, pegando John Lee Frovin?
- O sujeito com o nariz sangrando?
- Sim, ele mesmo.
- Perdeu os sentidos e o Sr. Brown o fez voltar a si com alguns sais para cheirar, do estojo de pronto-socorro. Por quê?
- Ele disse alguma coisa mais, quando acordou?
- Continuou com aquela alucinação. O Sr. Brown o levou para o escritório. O cara estava amedrontando algumas mulheres e pareceu satisfeito em ir. Oh. houve
algo mais! Quando o Sr. Brown disse que no escritório do gerente havia apenas uma janela pequena, assim mesmo reforçada com tela aramada, o sujeito pareceu contente
em ir para lá. Presumo que ainda nem tenha saído.
- O que ele dizia não era nenhuma alucinação.
- Não, claro que não.
- E aquele baque que sentimos?
- Não foi alucinação, David, mas...
Brent está assustado, fiquei repetindo para mim mesmo. Não se aborreça com ele, já se aborreceu o suficiente esta manhã, e basta. Vá com calma, porque bem
sabe como Brent agiu, durante aquela idiota briga sobre as divisas entre as duas propriedades... primeiro altaneiro, depois sarcástico e, finalmente, quando se tornou
claro que ele ia perder, intolerável. Nada de aborrecimentos agora, porque irá precisar dele. Brent Norton talvez não consiga ligar a própria serra em cadeia, mas
parece a figura paterna do mundo ocidental e, se disser a esta gente para não entrar em pânico, ninguém entrará. Portanto, não discuta com ele.
- Está vendo aquelas portas duplas além da geladeira da cerveja?
Ele espiou, franzindo a testa.
- Um daqueles bebendo cerveja não é o outro gerente-assistente? Weeks? Se Brown descobrir, posso lhe garantir que esse homem estará procurando outro emprego
muito breve.
- Quer me ouvir, Brent?
Ele se virou para mim, com expressão ausente.
- O que estava dizendo, Dave? Sinto muito.
Em pouco, estaria sentindo muito mais.
- Vê aquelas portas?
- Sim, claro que vejo. O que há com elas?
- Dão para a área de estocagem, que ocupa toda a fachada oeste do prédio. Billy pegou no sono e fui até lá, ver se encontrava alguma coisa com que cobri-lo...
Contei-lhe tudo, omitindo apenas a discussão sobre se Norm devia ter ido lá fora ou não. Contei-lhe o que havia entrado... e finalmente o que havia saído,
gritando. Brent Norton recusou-se a acreditar. Não - ele se recusou, inclusive, a pensar no que eu lhe dizia. Levei-o até Jim, Ollie e Myron. Os três confirmaram
a história, embora Jim e Myron, a flor, estivessem a caminho da embriaguez.
Novamente, Norton recusou-se a acreditar e mesmo a aceitar aquilo. Respondeu apenas:
- Não! Não, não e não! Perdoem-me, senhores, mas isso é absolutamente ridículo. Se não for uma brincadeira de mau gosto - declarou altaneiro, com seu sorriso
radioso, mostrando que sabia aceitá-la tão bem quanto qualquer um, vocês estão sendo vítimas de alguma hipnose coletiva:
Minha raiva cresceu novamente e procurei contê-la, com dificuldade. Não creio que, normalmente, seja um homem de temperamento irascível. Entretanto, aquelas
não eram circunstâncias normais. Precisava pensar em Billy e no que acontecia - no que já acontecera - a Stephanie. Eram coisas que constantemente emergiam no fundo
de minha mente.
- Muito bem - falei. - Vamos voltar lá. Há um pedaço de tentáculo caído no chão. A porta o decepou, quando foi arriada. E você também poderá ouvi-los. Estão
se roçando contra aquela porta. Fazem um ruído semelhante ao do vento na hera.
- Não - respondeu ele, calmamente.
- Como? - Em verdade, eu sabia que o ouvira perfeitamente. - O que foi que disse?
- Eu disse que não. Que não vou até lá. A brincadeira já foi longe demais.
- Juro para você que não é nenhuma brincadeira, Brent!
- Claro que é! - bufou ele. Seus olhos passaram por Jim, Myron e descansaram brevemente em Ollie Weeks - que lhe sustentou o olhar com calma impassividade
- e finalmente voltaram para mim. - Isto é o que vocês, gente daqui, provavelmente consideram "uma boa piada". Não é, David?
- Brent... escute...
- Não! Escute você! - Sua voz começou a elevar-se para um brado de tribunal. Era uma voz que tinha alcance, um bom alcance, de maneira que vários dos que
perambulavam por ali espiaram, querendo saber o que acontecia. Norton apontou o dedo para mim, enquanto falava. - É uma piada. Uma casca de banana e eu sou o sujeito
que deve escorregar nela. Vocês, os nativos, não são precisamente loucos por forasteiros, certo? Estão sempre mancomunados. Foi o que aconteceu, quando o levei aos
tribunais para recuperar o que era legitimamente meu. Você venceu aquela, tudo bem. Por que não? Seu pai era o famoso artista e esta é a sua cidade. Eu apenas pago
meus impostos e gasto meu dinheiro aqui!
Ele não estava mais representando, exibindo-nos seu treinado vozeirão de tribunal.
Agora quase gritava, estava já perdendo todo o controle. Ollie Weekes deu mais meia volta e afastou-se, aferrado à sua cerveja. Myron e seu amigo Jim olhavam
para Norton com aberto espanto.
- Quer dizer que devo ir até lá e olhar para um daqueles artifícios de borracha que custam noventa e oito centavos, enquanto estes dois pulhas ficam olhando
e morrendo de rir?
- Ei, você quer ver quem está chamando de pulha - disse Myron.
- Se quer saber a verdade, estou contente por aquela árvore ter caído em sua casa de barcos. Contente! - Norton ria ferozmente para mim. - Afundou-a direitinho,
não foi? Fantástico! E agora, saia do meu caminho.
Ele tentou empurrar-me para passar. Agarrei-o pelo braço e o empurrei contra a geladeira de cerveja. Uma mulher abriu a boca, espantada. Dois engradados caíram.
- Abra bem os ouvidos e ouça, Brent. Aqui dentro há vidas em jogo e meu filho está nisto também, Portanto, ouça, ou juro que acabo com sua raça!
- Vá em frente - disse Norton, ainda rindo, com uma espécie de insana coragem. Seus olhos, injetados e grandes, salientavam-se nas órbitas. - Mostre a todos
como é grandão e valente, espancando um homem que sofre do coração e tem idade bastante para ser seu pai.
- Espanque-o assim mesmo! - exclamou Jim. - O coração dele que se dane. Aliás, acho que um rábula nova-yorkino barato como ele nem tem coração.
- Fique fora disto - falei para Jim, e então baixei o rosto até o de Norton. Estava à distância de beijá-lo, se tivesse isso em mente. A geladeira não estava
funcionando, mas ainda irradiava friagem. - Pare de jogar areia para o alto, homem. Sabe muito bem que digo a verdade!
- Eu não... sei de... nada... - ofegou ele.
- Se a hora e o lugar fossem outros, eu deixaria você levar a melhor nisto. Pouco me importa o quanto esteja apavorado, porque eu também estou. Só que preciso
de você, droga! Deu para entender? Eu preciso de você!
- Largue-me!
Agarrei-o pela camisa e o sacudi.
- Será que não compreendeu? Todos vão começar a sair do supermercado e caminhar direto para aquela coisa lá fora! Pelo amor de Deus, procure entender!
- Largue-me!
- Não, enquanto não for até lá nos fundos comigo e ver por si mesmo.
- Já lhe disse que não vou! É tudo uma piada, uma brincadeira de mau gosto. Não sou tão idiota como imaginam e...
- Então, eu mesmo o levarei lá.
Agarrei-o pelo ombro e cangote. A costura da camisa de baixo de um braço, se rasgou com um macio ruído ronronado. Arrastei-o até as portas duplas. Norton
deu um grito lamuriento. Algumas pessoas se tinham amontoado em um grupo, talvez quinze ou dezoito, mas ficaram à distância. Nenhuma delas mostrava sinais de interferir.
- Ajudem-me! - gritou Norton, os olhos salientando-se atrás das lentes dos óculos.
Seu bem penteado cabelo desmanchara-se outra vez, formando dois pequenos tufos atrás das orelhas. As pessoas arrastavam os pés e espiavam.
- Por que está gritando? - falei em seu ouvido. - É só uma brincadeira, não? Foi por isso que o trouxe à cidade, quando você pediu, e também por isso confiei-lhe
Billy para a travessia do pátio de estacionamento... porque eu havia confeccionado todo este nevoeiro, aluguei uma máquina de fabricar nevoeiro em Hollywood, que
me custou quinze mil dólares e mais oito mil para trazê-la até aqui, tudo isso só para fazer uma brincadeira de mau gosto com você. Pare de dizer tolices e abra
os olhos!
- Lar... que... me...! - gritou ele.
Estávamos já quase junto às portas.
- Ei, ei! O que é isto? O que está fazendo?
Era Brown. Afobado, ele abriu caminho às cotoveladas através do grupo amontoado de espectadores.
- Diga a ele para largar-me! - pediu Norton, em voz rouca. - Ele está maluco!
- Não, ele não está maluco. Eu gostaria que estivesse, mas infelizmente não está.
Era Ollie e eu o abençoaria por ter dito isso. Contornando o corredor às nossas costas, ele se aproximou e encarou Brown. Os olhos de Brown desceram até a
cerveja que Ollie segurava.
- Você está bebendo! - exclamou, em tom de surpresa, mas não inteiramente desprovido de prazer. - Perderá seu emprego por isto!
- Ora, vamos, Bud - falei, soltando Norton. - Esta não é uma situação comum.
- Os regulamentos não mudam - declarou Brown, enfático. - Providenciarei para que a firma saiba disto. É a minha obrigação.
Nesse meio tempo, Norton esqueirara-se para longe e ficara a alguma distância, procurando endireitar a camisa e alisar o cabelo para trás. Seus olhos iam
nervosamente de Brown para mim.
- Ei! - gritou Ollie de repente, erguendo a voz e produzindo um trovejar profundo, que eu jamais suspeitaria daquele homem grandalhão, porém delicado e não
assumido. - Ei! Vocês todos no supermercado! Aproximem-se e escutem isto! É do interesse de todos vocês! - Olhou de frente para mim, ignorando Brown por completo.
- Estou me saindo bem?
- Está ótimo.
As pessoas começaram a amontoar-se. O grupo original de espectadores de minha discussão com Norton duplicou, depois triplicou.
- Está acontecendo algo que seria bom todos saberem... - começou Ollie.
- Largue essa cerveja imediatamente - disse Brown.
- E você, cale essa boca imediatamente! - falei, dando um passo para ele.
- Não sei que tipo de coisa está fazendo - replicou ele, ao mesmo tempo em que dava um passo compensatório para trás, - mas posso lhes dizer que isto será
comunicado à Companhia Federal de Alimentos! Tudo! E quero que entenda uma coisa - pode haver culpados!
Seus lábios repuxavam-se nervosamente, mostrando os dentes amarelados, e até tive pena dele. Brown apenas tentava enfrentar a situação, nada mais. Como Norton,
que impunha a si mesmo a mordaça de uma ordem mental. Myron e Jim havia tentado, mas transformando tudo aquilo em uma charada de machões - se o gerador pudesse ser
consertado, o nevoeiro se dissiparia. Aquela era a maneira de Brown. Ele estava...
Protegendo a Casa.
- Pois vá em frente e anote os nomes - falei - mas, por favor, sem falatórios.
- Anotarei os nomes suficientes - respondeu ele. - E o seu encabeçará a lista, seu... seu boêmio!
- O Sr. David Drayton tem algo a dizer-lhes - falou Ollie - e acho melhor que todos o ouçam, caso estejam pretendendo ir para casa.
Em vista disto, contei a eles o que havia acontecido, mais ou menos como havia contado a Norton. Houve alguns risos a princípio, depois uma profunda inquietação,
assim que terminei.
- É uma mentira e você sabe - disse Norton.
Sua voz empenhava-se em ser enfática, mas caiu na estridência. Aquele era o homem a quem eu contara primeiro, esperando captar-lhe a credibilidade. Que piada!
- Claro que é uma mentira - assentiu Brown. - Maluquice. De onde imagina que vieram esses tentáculos, Sr. Drayton?
- Não sei mas, a esta altura, a pergunta nem tem importância. Eles estão aqui. Há um...
- Acho que eles brotaram de algumas dessas latas de cerveja. Não posso imaginar outra coisa.
Sua tirada conseguiu uma dose apreciável de risadas, mas logo tudo foi silenciado pela voz forte e enferrujada da Sra. Carmody.
- É a morte! - exclamou ela, e os que riam calaram-se prontamente.
Ela avançou para o centro da espécie de círculo que se formara, as calças amarelo canário parecendo irradiar uma luminosidade própria, a gigantesca bolsa
oscilando contra uma coxa elefantina. Seus olhos negros passaram arrogantemente em torno, tão afiados e malevolamente cintilantes como os de uma cega. Duas graciosas
jovens com cerca de dezesseis anos, usando camisetas de rayon branco com ACAMPAMENTO WOODI-ANDS escrito nas costas, encolheram-se e afastaram-se dela.
- Vocês ouvem, mas não escutam! Ouvem e não acreditam! Qual de vocês quer ir lá fora e constatar por si mesmo? - Os olhos dela percorreram o grupo e depois
caíram em mim. - E, simplesmente, o que pretende fazer sobre isto, Sr. David Drayton? O que pensa que pode fazer?
Ela sorriu, como uma caveira, acima de seu traje canário.
- É o fim, estou-lhes dizendo. O fim de tudo. Estamos no Final dos Tempos. O dedo que se move escreveu, não em fogo, mas em linhas de nevoeiro. A terra se
abriu e vomitou suas abominações...
- Não podem fazê-la calar a boca? - explodiu uma das adolescentes, começando a chorar. - Ela me mete medo!
- Está com medo, queridinha? - perguntou a Sra. Carmody, virando-se para ela. - Oh, não, você agora não está com medo. No entanto, quando as criaturas imundas
que o ímpio lançou à face da terra vierem buscá-la...
- Acho que já basta, Sra. Carmody - disse Ollie, segurando-lhe o braço. Foi um belo discurso.
- Tire as mãos de mim! É o fim, estou dizendo! É a morte! Morte!
- É um monte de merda - disse irritadamente um homem de óculos e chapéu de pescador.
- Não, senhor - interveio Myron. - Sei que tudo parece algo saído de um pesadelo de viciado em drogas, mas é a pura verdade, nua e crua. Eu mesmo vi.
- Eu também - disse Jim.
- E eu - assegurou Ollie.
Conseguira aquietar a Sra. Carmody, pelo menos por algum tempo. No entanto, ela continuou por perto, aferrada à enorme bolsa e exibindo o sorriso alucinado.
Ninguém queria ficar muito perto dela - os outros murmuravam entre si, não gostando da corroboração. Vários olharam para trás, na direção das grandes vidraças da
fachada, de maneira inquieta e especulativa. Fiquei contente em ver aquilo.
- Mentiras - disse Norton. - Vocês todos mentem, uns para os outros. Mentiras sobre mentiras, nada mais do que isso.
- O que está sugerindo fica inteiramente além da credibilidade, Sr. Drayton - disse Brown.
- Não precisamos estar aqui, repisando o assunto - repliquei. - Venham à área de estocagem comigo. Dêem uma espiada. E escutem também.
- Os clientes não têm permissão de entrar na...
- Bud - disse Ollie, - vá com ele. Vamos resolver isto.
- Está bem - assentou Brown. - Sr. Drayton? Vamos acabar logo com essa tolice!
Empurramos as portas duplas e penetramos na escuridão.
O som era desagradável - talvez maligno.
Brown também sentiu isso, apesar de suas maneiras obstinadas de ianque. Senti sua mão agarrar meu braço imediatamente, a respiração suspensa por um momento
e depois reiniciada com certa dificuldade.
Era um sussurro abafado, vindo da direção da porta de descarga - um som quase acariciante. Movi cautelosamente um pé em torno e finalmente esbarrei em uma
das lanternas. Abaixei-me, apanhei-a e a acendi. O rosto de Brown estava inteiramente tenso, e ele ainda nem os vira - apenas os ouvia. Eu, no entanto, já os vira
e podia imaginá-los, contorcendo-se e escalando a superfície de aço corrugado da porta, como gavinhas vivas.
- O que pensa agora? Inteiramente além da credibilidade?
Brown passou a língua pelos lábios e olhou para a tremenda confusão de caixas e sacos.
- Eles fizeram isto?
- Mais ou menos. Quase tudo. Venha cá.
Ele foi - com relutância. Apontei o facho da lanterna para a enegrecida e enrolada seção de tentáculo, ainda jazendo perto da vassoura esfregão. Brown abaixou-se
para olhar.
- Não toque nisso - falei. - Pode ainda estar vivo.
Ele se ergueu rapidamente. Peguei a vassoura e, com a parte das cerdas, espetei o tentáculo. A terceira ou quarta espetadela fez com que ele se desenrolasse
espasmodicamente, revelando duas ventosas intatas e parte de uma terceira. Em seguida, o fragmento tornou a enovelar-se com muscular velocidade e ficou imóvel. Brown
emitiu um som sufocado de repugnância.
- Viu o suficiente?
- Vi - respondeu. - Vamos sair daqui.
Seguimos a luz vacilante até as portas duplas e as empurramos. Todos os rostos se voltaram para nós e o zumbido das conversas morreu. As feições de Norton
pareciam queijo velho. Os olhos negros da Sra. Carmody cintilaram. Ollie bebia cerveja; seu rosto ainda mostrava filetes de suor escorrendo, embora o ambiente no
supermercado houvesse ficado um tanto friorento. As duas jovens com ACAMPAMENTO WOODLANDS nas camisetas estavam bem perto uma da outra, como cavalos jovens antes
de uma tempestade. Olhos. Tantos olhos. Eu poderia pintá-los, pensei, com um calafrio. Nada de rostos, apenas olhos na claridade mortiça. Poderia pintá-los, mas
ninguém acreditaria que fossem reais. Bud Brown entrelaçou afetadamente, diante de si mesmo, as mãos de dedos longos.
- Pessoal - disse - parece que temos um problema de certa magnitude por aqui.

VI. Mais Discussões. A Sra. Carmody Fortificações. O que aconteceu à Estagnada Sociedade da Terra

As quatro horas seguintes transcorreram em uma espécie de sonho. Houve uma longa e quase histérica discussão em seguida à confirmação de Brown ou, talvez,
a discussão não tivesse sido tão longa quanto pareceu; possivelmente seria a soturna necessidade das pessoas repisarem a mesma informação, procurando vê-la de cada
ponto de vista plausível, manejando-a como um cachorro maneja um osso, a fim de chegar à medula.
Foi uma longa viagem até a crença. Pode-se constatar a mesma coisa em qualquer reunião de março, nas cidades da Nova Inglaterra.
Havia a Estagnada Sociedade da Terra, encabeçada por Norton. Era uma minoria vocal de mais ou menos dez pessoas, as quais não acreditavam em nada daquilo.
Norton continuava insistindo em que havia apenas quatro testemunhas no caso do rapaz embalador sendo carregado para fora pelos Tentáculos do Planeta X (um bom motivo
para risos no começo, mas que logo perdeu a graça; em sua crescente agitação, Norton não parecia percebê-lo). Ele acrescentou que, pessoalmente, não confiava em
nenhum dos quatro. Disse ainda que cinqüenta por cento das testemunhas estavam, naquele momento, desesperançadamente ébrias. Aí havia uma verdade inquestionável.
Jim e Myron LaFleur, com toda a geladeira da cerveja e gôndola de vinhos à disposição, estavam incrivelmente bêbados. Considerando o que acontecera a Norm e a parte
dos dois naquilo, eu não os censurei. Eles logo estariam lúcidos novamente.
Ollie continuou a beber sistematicamente, ignorando os protestos de Brown. Após algum tempo, Brown desistiu, contentando-se em soltar uma ocasional e malévola
ameaça sobre a Companhia. Nem parecia conceber que a Federal Foods, Inc., com estabelecimentos em Bridgton, North Windham e Portland, talvez nem existisse mais.
Pelo que sabíamos, o litoral leste poderia ter deixado de existir. Ollie bebia sem parar, porém não ficava bêbado. Suava continuamente a bebida, com a mesma
rapidez com que a ingeria.
Por fim, quando a discussão com os Terrestres Estagnados começou a ficar acerba, Ollie tomou a palavra.
- Se não acredita nisso, Sr. Norton, muito bem. Eu lhe direi o que fazer. Saia por aquela porta da frente e contorne o prédio até os fundos. Lá se encontra
uma enorme pilha de cascos de cerveja e soda, recebidos em devolução. Eu, Norm e Buddy a colocamos lá, ainda esta manhã. Traga-nos duas daquelas garrafas e então
saberemos que o senhor foi realmente até a pilha. Faça isso e juro que comerei a minha camisa.
Norton começou a vociferar.
Ollie interrompeu-o, com a mesma voz suave e uniforme.
- Se quer saber, o senhor só está prejudicando, se continuar falando assim. Aqui há gente que deseja ir para casa, assegurar-se de que seus familiares estão
bem. Neste momento, minha irmã e sua filha de um ano estão em casa, em Napies. Eu gostaria de ter certeza disso, claro. No entanto, se todos começarem a acreditar
no senhor e tentarem ir para casa, o que aconteceu a Norm, acontecerá também a eles.
Ollie não convenceu Norton, mas sim alguns dos indecisos e duvidosos embora suas palavras não dissessem tanto quanto seus olhos, aqueles seus olhos obcecados.
Creio que a lucidez de Norton dependia de não ser convencido ou de imaginar que o fora.
Contudo, não aceitou a proposta de Ollie, para ir lá fora e trazer uma amostra dos cascos nos fundos do prédio. Aliás, ninguém a aceitou. Eles ainda não estavam
dispostos a sair, pelo menos até então. Norton e seu pequeno grupo de Terrestres Estagnados (a esta altura, reduzido em um ou dois), afastaram-se de nós o mais que
podiam, reunindo-se perto das embalagens de carnes preparadas. Um deles tropeçou na perna de meu filho, ainda adormecido, acordando-o.
Fui até lá e Billy agarrou-se a meu pescoço. Quando tentei deita-lo outra vez, ele me apertou com mais força.
- Não faça isso, papai. Por favor!
Encontrei um carrinho de compras e o coloquei no assento para crianças. Ele parecia enorme ali. A coisa seria cômica, se não fosse seu rosto pálido, os cabelos
escuros espalhados pela testa, logo acima das sobrancelhas, seus olhos espantados.
Provavelmente, desde dois anos antes não voltara a ocupar o assento de criancinhas nos carros de compras do supermercado. São pequeninas coisas que nos passam
de leve pela mente, sem que as percebamos bem, mas ao constatarmos a mudança operada, sempre recebemos um choque desagradável.
Nesse meio tempo, com o recuo dos Terrestres Estagnados, a discussão encontrara outro pára-raios - agora era a Sra. Carmody e, compreensivelmente, ela se
viu sozinha.
À claridade mortiça e lúgubre, ela parecia uma feiticeira naquelas berrantes calças amarelas, na viva blusa de rayon, os braços pesados de chocalhantes pulseiras
de quinquilharia - cobre, casco de tartaruga, material inquebrável - e sua tireoideana bolsa.
Seu rosto enrugado aparecia sulcado por fortes linhas verticais. O penugento cabelo grisalho se achatava sobre o couro cabeludo, preso com três pentes de
chifres e torcido na nuca. Sua boca era uma linha de corda em nós.
- Não existe defesa contra a vontade de Deus! Isto estava para vir. Eu vi os sinais. Aqui há gente a quem eu falei, porém ninguém é mais cego do que aqueles
que não querem ver.
- Afinal, o que quer dizer? O que está pretendendo? - interrompeu-a Mike Hatlen, impacientemente.
Era membro do conselho municipal, embora no momento não tivesse tal aparência, com seu quepe de iatista e as bermudas amarrotadas nos fundilhos. Bebericava
uma cerveja, o que muitos homens agora também faziam. Bud Brown desistira de protestar, mas estava realmente anotando nomes - queria manter uma certa vigilância
sobre todos quantos pudesse.
- Pretendendo? - ecoou a Sra. Carmody, aproximando-se de Hatlen. Pretendendo? Ora, estou pretendendo que se prepare para encontrar o seu Deus, Michael Hatlen.
- Virou-se e olhou para todos nós. - Preparem-se para o encontro com seu Deus!
- Preparem-se para encontrar disparates - disse Myron Lafleur, em bêbado rosnado, perto da geladeira de cerveja. - Velha, acho que sua língua deve ser pendurada
pelo meio, para trabalhar pelas duas extremidades.
Houve um rumor de concordância. Billy olhou nervosamente em torno e eu passei um braço em volta de seus ombros.
- Tenho o direito de falar! - exclamou ela. Seu lábio superior encurvou-se para trás, revelando dentes tortos e amarelados de nicotina. Pensei nos empoeirados
animais empalhados de sua loja, bebendo eternamente no espelho que funcionava como seu riacho. - Os incrédulos duvidarão até o fim! Contudo, uma monstruosidade capturou
aquele pobre rapaz! Coisas no nevoeiro! Todas as abominações saídas de um pesadelo! Monstros sem olhos! Horrores lívidos! Ainda duvidam? Pois então, saiam! Cheguem
até lá fora e digam "como vai?"!
- Acho que devia calar-se, Sra. Carmody - falei. - Está assustando meu filho.
O homem com a garotinha ecoou o sentimento. A menina, de pernas gorduchas e joelhos esfolados, escondera o rosto contra o estômago do pai e tapava os ouvidos
com as mãos. O Grande Bill não chorava, mas estava perto disso.
- Só há uma chance - disse a Sra. Carmody.
- Que chance, senhora? - perguntou Mike Hatlen polidamente.
- Um sacrifício - respondeu a Sra. Carmody - ela parecia rir na claridade mortiça. - Um sacrifício de sangue.
Sacrifício de sangue - as palavras ficaram suspensas no ar, girando lentamente. Ainda agora, quando sei melhor, digo a mim mesmo que ela se referia ao cão
de estimação de alguém - havia lá uns dois deles, trotando pelo supermercado, apesar dos regulamentos proibindo sua entrada. Ainda agora, digo isso para mim mesmo.
Na obscuridade, ela parecia um louco remanescente do puritanismo da Nova Inglaterra... mas desconfio que era motivada por algo mais profundo e mais sombrio do que
o mero puritanismo. O puritanismo tivera seu próprio e soturno avô, o velho Adão, com mãos sangrentas.
Ela abriu a boca para dizer algo mais, porém um homem baixote e bem vestido, com calças vermelhas e elegantes camisa esporte, esbofeteou-lhe o rosto, de mão
espalmada.
Ele repartia o cabelo no lado esquerdo, em uma linha de perfeita simetria. Usava óculos e tinha a aparência indiscutível do turista de verão.
- Cale essa boca suja - falou, em voz macia, sem inflexões.
A Sra. Carmody levou a mão à boca, depois estendendo-a para nós, em uma acusação sem palavras. Havia sangue em sua palma. Entretanto, os olhos negros pareciam
dançar, com louca alegria.
- A senhora estava provocando! - exclamou uma mulher. - Eu lhe teria feito o mesmo!
- Eles cuidarão de vocês - 6disse a Sra. Carmody, mostrando-nos a palma suja de sangue.
O filete de sangue agora escorria no sulco de uma ruga que ia da boca ao queixo, assemelhando-sé a um pingo de chuva descendo por uma calha. - Não hoje, talvez.
Esta noite. Esta noite, quando ficar escuro. Eles virão dentro da noite e levarão mais alguém. É com a noite que virão. Vocês os ouviram chegando, rastejando e coleando.
E quando eles estiverem aqui suplicarão à Mãe Carmody que lhes mostre o que fazer!
O homem das calças vermelhas ergueu a mão lentamente.
- Aproxime-se e agrida-me - sussurrou ela, exibindo seu sorriso malévolo para ele. A mão do homem oscilou. - Agrida-me, se tiver coragem!
A mão dele caiu. A Sra. Carmody afastou-se, sozinha. Então, Billy começou a chorar, escondendo o rosto contra mim. enquanto a menininha fazia o mesmo com
o pai.
- Quero ir para casa - disse ele. - Quero ver minha mãe.
Consolei-o o melhor que pude. Provavelmente. não me saí tão bem quanto desejaria.
Finalmente, a conversa derivou para canais menos amedrontadores e destrutivos. As enormes vidraças frontais do supermercado, evidentemente o seu ponto fraco
foram então mencionadas. Mike Hatlen perguntou que havia outras entradas e Ollie e Brown as apontaram com presteza - duas portas para descarregamento de mercadorias,
além daquela que Norm abrira. As portas principais ENTRADA/SAÍDA. Havia ainda a janela do gabinete do gerente (de vidro espesso e reforçado seguramente trancada).
Falar sobre tais coisas causou um efeito paradoxal. Fez o perigo parecer mais real, embora ao mesmo tempo deixasse todos se sentindo melhor. O próprio Billy
sentiu isso.
Perguntou se podia comer uma barra de chocolate. Respondi que não havia problema, desde que não se aproximasse das grandes vidraças.
Quando ele se distanciou. não ouvindo mais o que dizíamos, um homem perto de Mike Hatlen perguntou:
- Muito bem, o que faremos com aquelas vidraças? A velha pode ser lunática, mas talvez tivesse razão, sobre algo se movendo depois do escurecer.
- Talvez. até lá, o nevoeiro já tenha acabado - disse uma mulher.
- Talvez - assentiu o homem. - E talvez não.
- Tem alguma idéia? - perguntei a Bud e Ollie.
- Um momento - disse o homem perto de Hatlen. - Eu sou Dan Miller, de Lynn, Massachussetts. Vocês não me conhecem e nem haveria motivos para conhecerem, mas
tenho uma propriedade em Highland Lake. Comprei-a ainda este ano. O preço foi praticamente um assalto, mas eu tinha que comprá-la e comprei. - Houve algumas risadinhas.
- Bem, vi uma boa pilha de sacos de adubos e fertilizantes para gramado lá adiante. Sacos de quinze quilos, em sua maioria. Podíamos usa-los como sacos de areia.
Deixando vãos para espiarmos ...
Agora, havia mais pessoas assentindo e falando excitadamente. Eu quase disse alguma coisa, mas me contive. Miller tinha razão. Colocar aqueles sacos como
ele dizia não faria mal nenhum, até talvez fizesse algum bem. Minha mente no entanto, recuou àquele tentáculo comprimindo o saco de ração para cães. Pensei que um
dos tentáculos maiores poderia fazer o mesmo com um saco de quinze quilos contendo Vigoro ou fertilizante para gramados "Verdes Acres". De qualquer modo, uma preleção
a respeito não contribuiria para levantar o ânimo de ninguém.
As pessoas começaram a dispersar-se, comentando a tarefa a ser feita, e Miller agritou:
- Um momento! Um momento! Vamos organizar isto, enquanto estamos todos juntos!
As pessoas voltaram, compondo um grupo indefinido de cinqüenta ou sessenta, na esquina formada pela geladeira de cerveja, as portas da área de estocagem e
a extremidade esquerda das carnes preparadas, onde o Sr. Mc Vey sempre colocava os artigos que ninguém quer, como timo de vitela, ovos partidos, miolos de carneiro
e geléia de mocotó. Billy abriu caminho através do emaranhado de adultos com a inconsciente agilidade de um menino de cinco anos em um mundo de gigantes, e estendeu-me
uma barra de chocolate Hershey.
- Quer esta, papai?
- Obrigado.
Peguei o chocolate. Tinha sabor doce e gostoso.
- Talvez seja uma pergunta idiota - continuou Miller, - Mas devemos preencher os espaços em branco. Alguém tem armas de fogo?
Houve uma pausa. As pessoas entreolharam-se e deram de ombros. Um velho de cabelos grisalhos, que se apresentou como Ambrose Comell, disse que tinha uma espingarda
de caça no porta-malas do carro.
- Se quiser, posso ir buscá-la.
- Não creio que fosse uma boa idéia justamente neste momento, senhor Comell - disse Ollie.
Comell deu um grunhido.
- Também digo o mesmo, filho, mas pensei que devia oferecer-me.
- Bem, em verdade não foi essa a minha idéia - falou Dan Miller - , mas achei que...
- Um momento - disse uma mulher.
Era a que vestia camisas de atletismo cor de uva-do-monte, com calças compridas verde-escuras. Tinha cabelos louro-areia e uma bela silhueta. Uma jovem muito
bonita.
Abriu a bolsa e tirou de seu interior uma pistola de tamanho médio. Os reunidos fizeram um som de ahhh! como se tivessem acabado de assistir ao truque particular
de algum mágico. A jovem estivera enrubescendo, mas agora enrubesceu muito mais. Tomou a remexer na bolsa e encontrou uma caixa de munição para Smith & Wesson.
- Meu nome é Amanda Dumfries - disse a Miller. - Esta arma... foi idéia de meu marido. Ele achava que eu devia tê-la para proteger-me. Carreguei-a desarmada
durante dois anos.
- Seu marido está aqui, senhora?
- Oh, não. Ele está em Nova York, a negócios. Está sempre viajando a negócios e por isto queria que eu andasse com a arma.
- Bem - disse Miller, - se pode usá-la, devia conservá-la. Que calibre é? Trinta e oito?
- Sim, trinta e oito. Aliás, nunca disparei uma arma na vida, exceto uma vez, fazendo tiro-ao-alvo.
Miller pegou a arma, examinou-a e abriu o tambor, após alguns momentos. Checou-o para ver se não estava carregado.
- Muito bem - disse. - Temos uma arma. Quem atira bem? Eu não estou nesse rol.
Os reunidos entreolharam-se. A princípio, ninguém disse nada. Então, com relutância, Ollie confessou:
- Eu costumo praticar bastante tiro-ao-alvo. Tenho um Colt 45 e um Llama 25.
- Você? - exclamou Brown. - Humm... Quando escurecer, estará bêbado demais para ver alguma coisa.
Ollie replicou, em voz extremamente clara:
- Por que não se cala de uma vez e fica anotando nomes?
Borwn o encarou fixamente, com olhos arregalados. Abriu a boca. Depois, decidiu sabiamente, creio eu, tornar a fechá-la.
- É sua - disse Miller, pestanejando ligeiramente ante a mudança.
Estendeu a arma a Ollie, que a checou de novo, agora de modo mais profissional.
Colocou a arma no bolso direito dianteiro das calças e deslizou a caixa de cartuchos para o bolso da camisa, onde ela deixou um volume semelhante ao de um
maço de cigarros. A seguir, Ollie recostou-se contra a geladeira, o rosto redondo ainda porejando suor, e abriu uma lata de cerveja. Persistia a sensação de que
eu estava vendo um Ollie totalmente insuspeitado.
- Obrigado, Sra. Dumfries - disse Miller.
- Não foi nada - respondeu ela.
Fugazmente, pensei que se eu fosse seu marido e dono daqueles olhos verdes, unidos àquele corpo escultural, talvez não viajasse tanto. Entregar uma arma à
esposa, podia ser encarado como um ato ridiculamente simbólico.
- Isto também pode parecer idiota - disse Miller, virando-se para Brown com sua prancheta e Ollie com sua cerveja - , mas neste lugar há qualquer coisa semelhante
a lança-chamas?
- Ohhh, merda! - soltou Buddy Eagleton, imediatamente ficando tão vermelho como ficara Amanda Dumfries.
- O que é? - perguntou Mike Hatlen.
- Bem... até a semana passada, tínhamos uma caixa inteira daqueles maçaricos. Do tipo que se usa em casa para soldar canos que vazam, emendar canos de descarga
ou coisas assim. Lembra-se deles, Sr. Brown?
Brown assentiu, com ar taciturno.
- Todos vendidos? - perguntou Miller.
- Não, de maneira nenhuma. Só vendemos três ou quatro, depois devolvemos os restantes. Que mer... quero dizer, uma pena.
Enrubescendo tão profundamente que ficou quase purpúreo, Buddy Eagleton voltou de novo para os bastidores de onde saíra.
Tínhamos fósforos, naturalmente, bem como sal (alguém comentou vagamente ter ouvido dizer que sal era o que devia ser posto em chupadores de sangue ou coisa
assim) e todos os tipos de esfregões, além de vassouras de cabos compridos. Em sua maioria, as pessoas continuavam animadas, mas Jim e Myron estavam ébrios demais
para emitir qualquer nota dissonante. Encontrei os olhos de Ollie e vi neles uma tranqüila desesperança, que era pior do que medo. Nós dois tínhamos visto os tentáculos.
A idéia de jogar-se sal neles ou de tentar parti-los com os cabos dos esfregões era engraçada, de certa forma macabra.
- Mike - disse Miller - por que não dirige esta pequena aventura? Quero falar com Ollie e Dave por um minuto.
- Será um prazer. - Hatlen bateu no ombro de Dan Miller. - Alguém precisava dar as ordens e você se saiu muito bem. Seja bem-vindo à cidade.
- Isto significa que terei alguma redução em meus impostos? - perguntou Miller.
Era um homenzinho engraçado, com cabelos ruivos começando a recuar na cabeça.
Parecia o tipo do sujeito com quem logo simpatizamos, mal o conhecemos e - apenas talvez - o tipo do sujeito com quem simpatizamos após estar em cena por
algum tempo.
O tipo do sujeito que sabe fazer tudo melhor do que a gente.
- Nem pense nisso - respondeu Hatlen, rindo.
Hatlen afastou-se. Miller baixou os olhos para meu filho.
- Não se preocupe com Billy - falei.
- Homem, nunca estive tão preocupado em toda a minha vida - respondeu
- Exato - concordou Ollie.
Deixou cair uma lata vazia na geladeira de cerveja, depois pegou outra e a abriu. Houve um sibilo suave do gás escapando.
- Reparei na maneira como vocês dois se olhavam - disse Miller.
Terminei minha barra de chocolate e peguei uma cerveja, para rematar a deglutição.
- Vou dizer o que penso - começou Miller. - Devíamos recrutar uma meia dúzia de pessoas para enrolar panos naqueles cabos de esfregão e depois amarrá-los
com barbante. A seguir, acho que devíamos ter umas duas daquelas latas de fluido para isqueiro à disposição. Se cortarmos a parte superior das latas, poderemos fazer
tochas com grande rapidez.
Assenti. Aquilo era bom. Evidentemente, não bom o suficiente - não para quem viu Norm ser puxado para fora do supermercado - Mas já era melhor do que sal.
- Pelo menos, seria alguma coisa para eles meditarem - disse Ollie.
Miller comprimiu os lábios.
- A coisa é assim tão ruim? - perguntou.
- Exatamente - assentiu Ollie, e virou sua cerveja.
Por volta de quatro e meia daquela tarde, os sacos de fertilizante e de adubo estavam no lugar, bloqueando as enormes vidraças, exceto por estreitos visores
para vigilância. Um vigia fora colocado junto a cada pilha de sacos e, ao lado de cada vigia, havia uma lata de fluido para isqueiro, já sem o topo, e um suprimento
de tochas, feitas com cabos de esfregões. Havia cinco visores e Dan Miller organizou um rodízio de sentinelas para cada um. Por volta das quatro e meia da tarde,
eu estava sentado em uma pilha de sacos, em um dos visores, com Billy ao meu lado. Estávamos espiando o nevoeiro.
Logo além da vidraça, havia um banco vermelho, onde as pessoas às vezes esperavam que as viessem apanhar, com os sacos de artigos comprados junto delas. Mais
adiante ficava o pátio de estacionamento. O nevoeiro desenrolava-se lentamente, espesso e pesado. Havia umidade nele, mas como parecia opaca e sombria! Só em olhar
para aquilo, eu me sentia acovardado e perdido.
- Você sabe o que está acontecendo, papai? - perguntou Billy.
- Não, meu bem - falei.
Ele ficou calado por um momento, contemplando as mãos que jaziam flácidas sobre as coxas de seus jeans.
- Porque não aparece alguém e nos salva? - perguntou finalmente. - A Polícia Estadual, o FBI ou alguém?
- Não sei.
- Você acha que mamãe está bem?
- Billy, eu não sei - respondi, e passei o braço em torno dele.
- Eu gosto demais dela - disse Billy, lutando com as lágrimas. - Sinto muito pelas vezes em que fui malcriado com ela.
- Billy - comecei, mas tive que parar, porque senti um gosto salgado na garganta e minha voz queria tremer.
- Isto vai acabar? - perguntou ele. - Vai, papai? Vai?
- Eu não sei - respondi.
Ele colocou o rosto na concavidade de meu ombro e eu sustive a parte traseira de sua cabeça, senti a curva delicada de seu crânio, logo abaixo dos cabelos
bastos. Vi-me recordando a noite de meu casamento. Espiando Steff tirar o singelo vestido castanho que vestira após a cerimônia. Havia uma enorme equimose arroxeada
em sua coxa, por batê-la contra a quina de uma porta, no dia anterior. Recordei que tinha olhado para a equimose, pensando, Quando ela fez isso, ainda era Stephanie
Stepanek, e sentindo algo semelhante a deslumbramento. Depois, fizemos amor e, lá fora, caía neve de um opaco e cinzento céu de dezembro.
Billy estava chorando.
- Psst, Billy, pst... - falei, balançando sua cabeça contra mim.
Não obstante, ele continuou chorando. Era o tipo de choro que só as mães sabem como manejar direito.
Caiu uma noite prematura no interior do Supermercado Federal. Hatlen e Miller, além de Bud Brown, distribuíram lanternas de pilha, todo o estoque, cerca de
vinte. Norton reivindicou-as clamorosamente para seu grupo e recebeu duas. As luzes vagavam aqui e ali pelos corredores, como fantasmas inquietos.
Aconcheguei Billy contra mim e espiei pelo visor. A qualidade leitosa e translúcida da claridade exterior não mudara muito; os sacos empilhados é que deixavam
o supermercado tão escuro. Por várias vezes julguei ter visto algo, mas era apenas nervosismo. Um dos outros vigias levantou um hesitante alarme falso.
Billy tornou a ver a Sra. Truman novamente e foi para ela com rapidez, embora não a tivéssemos chamado para ficar com ele, durante todo o verão. A Sra. Truman
tinha uma das lanternas e a entregou para ele, com ar amistoso. Em pouco, Billy tentava escrever o seu nome, em luz, sobre as opacas faces de vidro dos acondicionadores
de alimentos congelados. Ela parecia satisfeita em vê-lo e Billy demonstrava o mesmo, de maneira que, não demorou muito, estavam entretidos um com o outro. Hattie
Truman era uma mulher alta e magra, de bela cabeleira ruiva, começando a mostrar alguns fios grisalhos. Seus óculos pendiam de uma decorativa corrente sobre o busto
do tipo, creio eu, de uso ilegal para qualquer um, excetuando-se as mulheres de meia-idade.
- Stephanie está aqui, David? - perguntou ela.
- Não. Ficou em casa.
Ela assentiu.
- Alan também. Quanto tempo vai ficar de vigia aqui?
- Até as seis.
- Viu alguma coisa?
- Não. Apenas o nevoeiro.
- Se quiser, fico com Billy até as seis.
- Você gostaria, Billy?
- Gostaria muito - respondeu ele, movendo a lanterna acima da cabeça, em lentos arcos, e vendo a luz brincar no teto.
- Deus protegerá sua Steff e Alan também - disse a Sra. Truman.
Em seguida, afastou-se, levando Billy pela mão. Falara com tranqüila segurança, mas não havia convicção em seus olhos.
Por volta de cinco e meia, surgiram sons de excitada discussão, perto dos fundos do supermercado. Alguém reclamava de algo que outra pessoa dissera, quando
ouvi uma voz - creio que de Buddy Eagleton - gritando:
- Vocês estão loucos, se forem lá fora!
Vários fachos de lanternas concentraram-se no centro da controvérsia e as pessoas encaminharam-se para a frente do supermercado. O riso guinchado e desdenhoso
da Sra. Carmody cortou a penumbra, tão abrasivo como dedos raspando a superfície de um quadro-negro.
Acima do burburinho de vozes, soou o vozeirão de tenor de Norton, como em uma sala de tribunal:
- Deixem-nos passar, por favor! Deixem-nos passar!
O homem na vigia perto de mim abandonou seu posto para ver o que significava aquela gritaria. Resolvi continuar onde estava. O que quer que estivesse acontecendo,
aproximava-se aos poucos de mim.
- Por favor - dizia Mike Hatlen. - Por favor, vamos discutir este assunto francamente!
- Não há nada a discutir! - proclamou Norton. Agora, seu rosto destacava-se na penumbra. Estava determinado, feroz e deplorável inteiramente. Ele empunhava
uma das lanternas destinadas aos Terrestres Estagnados. Os tufos cacheados de seu cabelo ainda se erguiam atrás das orelhas, como os chifres de um corno. Encabeçava
uma procissão muito pequena - cinco pessoas, das dez originais. - Nós vamos sair - declarou.
- Não insista nessa loucura - disse Miller. - Mike tem razão. Será que não podemos conversar a respeito? O Sr. Mc Vey vai preparar um churrasco com algumas
galinhas na grelha de gás, podemos todos sentar, comer e apenas...
Postou-se diante de Norton e este o empurrou. Miller não gostou disso. Seu rosto ficou vermelho, depois mostrou uma expressão dura.
- Muito bem, faça o que quiser - disse - , mas é como se assassinasse estas outras pessoas.
Com toda a naturalidade de grande solucionador ou de obcecado inquebrantável, Norton replicou:
- Nós mandaremos ajuda para vocês.
Um dos seguidores murmurou sua concordância, mas outro preferiu afastar-se quietamente. Agora, havia apenas Norton e mais quatro. Talvez não fosse tão ruim.
O próprio Cristo só conseguiu encontrar doze.
- Ouçam - disse Mike Hatlen. - Sr. Norton... Brent... pelo menos, esperem o churrasco. Comam alguma coisa quente antes.
- E dar-lhe uma chance para continuar falando? Já estive em tribunais o suficiente para cair nessa. Já conseguiu convencer meia dúzia de minha gente.
- Sua gente? - Hatlen quase rosnou. - Sua gente? Meu Deus, que espécie de conversa é esta? Eles são pessoas, nada mais. Isto aqui não é uma brincadeira e
muito menos uma sala de tribunal. Existem coisas, na falta de outra palavra coisas lá fora. De que adianta querer matar-se?
- Você disse coisas - respondeu Norton, parecendo superficialmente divertido. - Onde? Seu pessoal já ficou duas horas vigiando. Quem viu alguma coisa?
- Bem, lá nos fundos, na área de...
- Não, não, não - disse Norton, sacudindo a cabeça. - Essa história já foi dita e repetida. Nós vamos sair...
- Não - sussurou alguém.
O sussurro ecoou e espalhou-se, dando a impressão do roçar de folhas mortas ao crepúsculo de um anoitecer outonal. Não, não, não...
- Quem nos impedirá? - perguntou uma voz esganiçada. Era um membro da "gente" de Norton, para usar sua palavra - uma dama de idade, usando óculos bifocais.
- Quem nos impedirá?
O suave murmúrio de negativas esfumou-se.
- Não, ninguém os impedirá - respondeu Mike. - Acho que ninguém os impedirá.
Cochichei no ouvido de Billy. Ele olhou para mim, assustado e questionante.
- Vá agora - falei. - E volte depressa.
Ele foi.
Norton passou as mãos através dos cabelos, em um gesto mais calculado do que qualquer um já feito por um ator da Broadway. Eu simpatizara mais com ele ao
vê-lo puxando inutilmente o cordel de sua serra em cadeia, praguejando e imaginando-se não observado. Naquele momento, como também agora, não sei dizer se ele acreditava
ou não no que estava fazendo. Lá no fundo, acho que Norton sabia o que podia acontecer. Creio que a lógica de sua falação da boca para fora, durante a vida inteira,
agora finalmente se voltava contra ele, como um tigre que se tornou mau e mesquinho.
Norton olhou em torno inquietamente, parecendo desejar que houvesse algo mais a dizer. Então, guiou seus quatro seguidores para uma das alamedas das caixas
registradoras. Além da mulher idosa, havia um rapazola rechonchudo com uns vinte anos, uma jovem e um homem de blue jeans, usando um boné de golfe ladeado na cabeça.
Os olhos de Norton encontraram os meus, dilataram-se ligeiramente e então começaram a desviar-se.
- Espere um minuto, Brent - falei.
- Não quero discutir mais isso. E, certamente, não com você.
- Eu sei que não quer. Só desejo pedir-lhe um favor.
Olhei em torno e vi Billy que voltava correndo.
- O que é isso? - perguntou Norton, desconfiado, ao vê-1o entregar-me um pacote embrulhado em celofane.
- Linha para varal de roupa - falei. Eu estava vagamente cônscio de que todos no supermercado agora olhavam para nós, mais ou menos enfileirados no outro
lado das caixas registradoras e seus corredores. - É o pacote grande. O de noventa metros.
- E daí?
- Achei que você poderia amarrar uma extremidade em volta de sua cintura, antes de sair. Irei soltando a linha. Quando a sentir bem esticada, basta atá-la
em torno de alguma coisa, não importa o quê. Uma maçaneta de porta de carro serviria.
- Para que, em nome de Deus?
- Assim, ficarei sabendo que você chegou até nove metros, pelo menos respondi.
Algo brilhou em seus olhos, porém apenas momentaneamente.
- Não - disse ele.
Dei de ombros.
- Está bem. De qualquer modo, boa sorte.
O homem do boné de golfe disse, de repente:
- Eu farei isso, senhor. Não há motivo para recusar-me.
Norton girou para ele, como se fosse dizer algo ríspido. O homem do boné de golfe estudou-o calmamente. Em seus olhos nada havia brilhando. Norton também
percebeu isso e não disse nada.
- Obrigado - falei.
Abri o envoltório com meu canivete e o cordel se soltou do pacote, em alças rígidas, como um acordeon. Encontrei uma das extremidades e a amarrei em torno
da cintura de Boné de Golfe, com um nó frouxo. O homem imediatamente o desfez, para amarrar a linha em seguida com um apertado nó cego. Não havia um som no supermercado.
Norton oscilava inquietamente, ora em um pé, ora no outro.
- Quer levar meu canivete? - perguntou ao homem do boné de golfe.
- Eu tenho um. - Ele olhou para mim com o mesmo tranqüilo desdém. Vá soltando sua linha. Quando esticar bem, eu a prenderei.
- Todos prontos? - perguntou Norton, alto demais.
O rapaz roliço sobressaltou-se, como se estivesse assustado. Não recebendo resposta, Norton se virou para sair.
- Brent - falei, estendendo a mão. - Boa sorte, homem.
Ele estudou minha mão, como se ela fosse algum duvidoso objeto estranho.
- Nós enviaremos ajuda - disse finalmente.
Empurrou a porta SAÍDA. Aquele cheiro ralo e acre entrou novamente. Os outros o seguiram para o exterior. Mike Hatlen aproximou-se e ficou ao meu lado. Os
cinco componentes do grupo de Norton penetraram no nevoeiro leitoso, de movimentos lentos. Norton disse algo e eu deveria ter ouvido, mas o nevoeiro tinha um estranho
efeito amortecedor. Percebi apenas o som de sua voz e duas ou três sílabas isoladas como a voz no rádio, ouvida de alguma distância. Eles se afastaram.
Hatlen segurou a porta entreaberta. Dei linha, mantendo-a o mais folgada que pude, pensando na promessa do homem, que a ataria se ficasse tensa. Ainda não
havia som algum. Billy permanecia ao meu lado, imóvel, mas parecendo vibrar com sua própria corrente interior.
De novo, houve aquela singular sensação de que os cinco não só desapareciam no nevoeiro, como tinham ficado invisíveis. Por um momento, sua roupas pareciam
ficar em pé sozinhas, mas depois sumiram. Só se ficava realmente impressionado com a densidade antinatural do nevoeiro, quando se via pessoas sendo engolidas por
ele em um espaço de segundos.
Dei mais linha. Um quarto dela se foi, depois metade. Parou de ser puxada por um instante. De coisa viva em minhas mãos, tornou-se morta. Contive a respiração.
Em seguida, a linha foi novamente puxada. Deixei-a escorregar entre os dedos e, de repente, lembrei-me de meu pai, levando-me para ver Moby Dick, o filme com Gregory
Peck, em Brookside. Acho que sorri um pouco.
Três quartos da linha já tinham ido agora. Eu podia ver sua extremidade, caída ao lado de um dos pés de Billy. Então, ela parou de mover-se novamente em minhas
mãos.
Ficou imóvel por talvez cinco segundos, mas de súbito cerca de metro e meio desenrolou-se. De repente, entortou-se violentamente para a esquerda, tangendo
a borda da porta SAÍDA.
Seis metros de linha desenrolaram-se bruscamente, quase me cortando a palma esquerda. E lá de fora, do meio do nevoeiro, chegou um grito agudo e oscilante.
Era impossível dizer o sexo de quem gritara.
A corda forcejou outra vez em minhas mãos. De novo. Deslizei através do espaço da entrada, para a direita, depois de volta à esquerda. Mais alguns metros
de linha se foram, quando soou um uivo ululante vindo do exterior, provocando um gemido de meu filho. Hatlen ficou horrorizado, de olhos esbugalhados. Um canto de
sua boca descambou, trêmulo.
O uivo foi cortado abruptamente. Não houve som algum, pelo que pareceu uma eternidade. Então, a velha senhora gritou - desta vez não havia dúvidas sobre quem
gritara. "Tirem isso de mim!" bradou ela. "Oh, meu Deus, meu Deus, tire isso... "
Então, sua voz também foi interrompida.
Quase toda a corda deslizou bruscamente por meu punho fechado frouxamente, agora me queimando a pele com vigor. Então, ficou inteiramente bamba, enquanto
um som brotava do nevoeiro - um grunhido alto e espesso - que deixou seca toda a saliva em minha boca.
Eu jamais ouvira um som como aquele, porém o mais aproximado deveria ser o de um filme rodado na savana africana ou em um pântano sul-americano. Era o som
de um gigantesco animal. Ele se repetiu, surdo, dilacerante e selvagem. Novamente... e depois diminuiu para uma série de baixos murmúrios. Então, houve silêncio
total.
- Feche a porta - disse Amanda Dumfries, em voz trêmula. - Por favor.
- Em um minuto - falei.
Comecei a puxar a linha de volta. Ela saiu do nevoeiro e amontoou-se em torno de meus pés, formando uma confusão de dobras e alças. Faltando um metro para
o final, a linha para varal de roupas, nova e branca, ficou vermelho-vivo.
- Morte! - gritou a Sra. Carmody. - A morte para quem for lá fora!,Viram agora?
O final da linha de vara, era uma mistura de fibras e pequenos tufos de algodão, emaranhada e mascada. Os tufos de algodão apresentavam diminutas gotas de
sangue.
Ninguém contradisse a Sra. Carmody.
Mike Hatlen deixou que a porta de vaivém se fechasse.

VII. A primeira noite

O Sr. McVey trabalhara em Bridgton como açougueiro desde que eu tinha doze ou treze anos, porém jamais tive qualquer idéia sobre seu primeiro nome ou qual
seria a sua idade. Ele instalara uma grelha a gás sob um dos pequenos ventiladores exaustores - os ventiladores agora estavam parados, mas presumivelmente ainda
proporcionavam alguma ventilação - e, por volta de seis e meia da tarde, o cheiro de galinha sendo preparada ao fogo enchia o supermercado. Bud Brown não fez objeções.
Talvez ele estivesse em estado de choque, porém o mais provável é que reconhecesse o fato de que sua carne fresca e as aves abatidas não estavam ficando nem um pouco
mais frescas. O cheiro da galinha era convidativo, mas muitas pessoas não quiseram comer. Pequenino, metódico e limpo em suas roupas brancas, o Sr. McVey preparou
as galinhas assim mesmo e colocou os pedaços, de dois em dois, em pratos de papel que foi alinhando no topo do balcão de carnes, como em uma lanchonete.
A Sra. Turman trouxe um prato para mim e outro para Billy, guarnecidos com bocados de salada de batata. Comi o melhor que pude, mas Billy nem tocou no seu.
- Você precisa comer, garotão - falei.
- Não estou com fome - disse ele, pondo o prato de lado.
- Como é que vai ficar grande e forte, se não...
Sentada logo atrás de Billy, a Sra. Turman abanou a cabeça para mim.
- Está bem - falei. - Pelo menos, pegue um pêssego e coma. Certo?
- E se o Sr. Brown disser alguma coisa?
- Se ele disser alguma coisa, venha me contar.
- Está bem, papai.
Ele se afastou lentamente. De certa forma, parecia ter encolhido. Meu coração doeu, ao vê-lo caminhar daquela maneira. o Sr. McVey continuou preparando galinhas,
parecendo não ligar para o fato de bem poucos estarem comendo, mas feliz no ato de prepará-las. Como creio ter dito, há muitos meios de manejar-se uma situação como
aquela. Ninguém diria, mas é assim. Nossa mente é curiosa.
Eu e a Sra. Turman nos sentamos a meio caminho no corredor em que ficavam as gôndolas de medicamentos. Os outros sentavam-se em pequenos grupos, por todo
o supermercado. Ninguém permanecia sozinho, com exceção da Sra. Carmody; o próprio Myron e seu amigo Jim estavam juntos - os dois não ligavam mais para a geladeira
de cerveja.
Seis novos homens agora estavam a postos nas vigias. Um deles era Ollie, mascando uma perna de galinha e bebendo uma cerveja. As tochas confeccionadas com
cabos de esfregão achavam-se ao lado de cada posto de vigilância, tendo ao lado uma lata de fluido para isqueiro... mas duvido que alguém continuasse acreditando
naquelas tochas como antes. Não, depois daquele surdo e terrivelmente vital grunhido, não depois da linha para varal de roupas, mascada e encharcada de sangue. Se
o que quer que estivesse lá fora decidisse capturar-nos, iria capturar-nos.
- Como vai ser esta noite? Boa? Ruim? - perguntou a Sra. Turman.
Sua voz era calma, mas os olhos estavam doentios e assustados.
- Sinceramente, Hattie, não sei dizer.
- Deixe Billy comigo, o mais que quiser. Eu... Davey, acho que estou morrendo de medo. - Ela deu uma risadinha seca. - Sim, acho que estou mesmo. Entretanto,
se tiver Billy comigo, isso me fará bem. Como também será bom para ele.
Seus olhos cintilavam. Inclinei-me e bati-lhe no ombro.
- Estou tão preocupada com Alan! - suspirou ela. - Alan está morto, Davey. No fundo do coração, sei que ele está morto.
- Não, Hattie. Você não sabe nada disso.
- Sinto que é verdade. Não sente alguma coisa em relação a Stephanie? Não tem um... pressentimento, ao menos?
- Não - respondi, mentindo descaradamente.
Um som estrangulado lhe brotou da garganta e ela apertou a boca com a mão. Seus óculos refletiram a claridade soturna e mortiça.
- Billy está voltando - murmurei.
Ele comia um pêssego. Hattie Turman bateu no piso ao seu lado e disse que quando ele terminasse, iria mostrar-lhe como fazer um homenzinho com o caroço do
pêssego e um pedaço de linha. Billy sorriu abatidamente para ela e a Sra. Turman lhe devolveu o sorriso.
Às oito da noite, seis novos homens estavam de vigia. Ollie chegou até onde eu me sentava.
- Onde está Billy?
- Com a Sra. Turman, lá nos fundos - respondi. - Eles estão fazendo brincadeiras. Já passaram pelos bonequinhos de caroço de pêssego e máscaras com sacolas
de compras ou bonecas feitas de maçãs. Agora, o Sr. McVey mostra a ele como fazer bonecos com limpadores de cachimbo.
Ollie sorveu um comprido gole de cerveja. Depois disse:
- As coisas estão se movendo lá fora.
Olhei fixamente para ele. Ele também me encarou.
- Não estou bêbado - disse. - Tentei embriagar-me, mas não consegui. Gostaria de tomar um pileque, David.
- O que quer dizer com coisas que se movem lá fora?
- Não posso afirmar com certeza. Perguntei a Walter e ele disse ter a mesma impressão, de que partes do nevoeiro ficavam mais escuras a cada minuto - por
vezes apenas uma pequena mancha, em outras uma grande área escura, como uma equimose. Depois, tudo voltava a ficar cinzento. Aliás, a coisa está formando uma espécie
de redemoinho. O próprio Arnie Simrns afirmou ter a sensação de que acontecia algo lá fora - e Arnie é quase tão cego como um morcego.
- E quanto aos outros?
- São todos gente de fora do estado, estranhos para mim - replicou Ollie. Não perguntei a nenhum deles.
- Como tem certeza de que vocês não estavam apenas vendo coisas?
- É só uma impressão - disse ele. Assentiu na direção da Sra. Carmody, sentada sozinha no final do corredor. Nada do que ocorria lhe diminuíra o apetite,
porque havia um cemitério de ossos de galinha em seu prato. Ela devia estar bebendo sangue ou suco V-8. - Acho que ela estava certa sobre uma coisa - concluiu Ollie.
- Nós descobriremos. Quando anoitecer, nós descobriremos.
De qualquer modo, não precisamos esperar até o anoitecer. Quando aconteceu, Billy viu bem pouco do sucedido, porque a Sra. Turman o manteve nos fundos do
supermercado.
Ollie ainda estava sentado comigo, no momento em que um dos homens na fachada deu um grito agudo e recuou de seu posto, girando os braços.
Eram quase oito e meia; lá fora, o nevoeiro branco-pérola escurecera para um tom opaco de um crespúsculo de novembro.
Algo havia caído na parte externa da vidraça de uma das vigias.
- Oh, meu Deus! - gritou o homem que ficara vigiando ali. - Livre-me disto! Livre-me disto!
Ele disparou em um círculo errante, os olhos sobressaindo no rosto, com um filete de saliva no canto da boca, cintilando nas sombras que se adensavam. Então,
caminhou diretamente para o corredor mais distante, além da área dos alimentos congelados.
Houve gritos em resposta. Algumas pessoas correram para a parte frontal do supermercado, querendo saber o que acontecia. Muitas recuaram até os fundos, não
se preocupando e não querendo ver o que quer que rastejava sobre a parte externa das vidraças.
Encaminhei-me para aquele posto de vigia, com Ollie a meu lado. A mão dele estava no bolso que guardava a arma da Sra. Dumfries. Nesse momento, outro vigia
gritou - não só de medo, como de repugnância.
Eu e Olliver esgueiramo-nos por um dos corredores das caixas. Agora, era possível ver o que afugentara o sujeito de seu posto. Eu não podia dizer o que seria,
mas conseguia ver a coisa. Assemelhava-se a uma das criaturas menores em uma tela de Bosh - um de seus diabólicos murais. Havia algo quase comicamente horrível sobre
aquilo, além do mais, porque se parecia um pouco com uma daquelas estranhas criações de vinil e plástico, compradas a 1 dólar e 89 para assustar os amigos... de
fato, justamente o tipo de coisa de que Norton me acusara de haver colocado na área de estocagem.
Deveria ter um meio metro de comprimento, era segmentado, com a tonalidade rósea de carne queimada que cicatrizou. Olhos bulbosos espiavam em duas direções
opostas ao mesmo tempo, localizados nas extremidades de talos curtos, semelhantes a membros. A coisa aderia à vidraça sobre gordas ventosas. Do lado contrário, projetava-se
algo que tanto podia ser um órgão sexual, como um ferrão. E de seu dorso, brotavam enormes asas membranosas, como as da mosca doméstica. Elas se moviam muito lentamente,
quando eu e Ollie nos aproximamos do vidro.
Na vigia à nossa esquerda, onde o homem havia emitido aquele som crocitado, três daquelas coisas rastejavam sobre o vidro. Moviam-se vagarosamente através
dele, deixando pegajosos rastros de lesma para trás. Seus olhos - se é que eram olhos - encaixavam-se na ponta dos talos da grossura de dedos. O maior talvez tivesse
metro e meio de comprimento. Às vezes, eles rastejavam uns contra os outros.
- Veja as malditas coisas - disse Tom Smalley, com repugnância.
Ele estava na vigia à nossa direita. Não respondi. Os besouros agora estavam sobre todas as vigias, isto significando que provavelmente deviam rastejar por
todo o prédio... como vermes em um pedaço de carne. Não era uma imagem agradável e eu podia perceber como toda a galinha que conseguira comer, agora esforçava-se
por deixar meu organismo.
Alguém soluçava. A Sra. Carmody bradava sobre abominações vindas do interior da terra. Alguém lhe disse, iradamente, que devia calar a boca, se soubesse o
que melhor lhe convinha. A mesma velha história.
Ollie tirou do bolso a arma da Sra. Dumfries e eu lhe agarrei o braço.
- Não seja louco! - falei.
Ele se libertou com um safanão.
- Sei o que estou fazendo - respondeu.
Bateu na vidraça com o cano da arma, mostrando no rosto uma expressão de nojo. A velocidade das asas das criaturas aumentou, até se tornar apenas uma imagem
borrada - se não soubéssemos, pensaríamos que eles não eram seres alados, em absoluto. Depois, simplesmente afastaram-se voando.
Alguns dos outros viram o que Ollie havia feito e seguiram sua idéia. Começaram a bater nas vidraças com cabos de esfregões. As coisas voavam e iam embora,
mas voltavam logo depois. Aparentemente, tampouco tinham mais cérebro do que a mosca comum. O quase pânico dissolveu-se em um rumor de conversas. Ouvi alguém perguntando
a outra pessoa o que achava que aquelas coisas fariam, se pousassem em um ser humano. Aí estava uma pergunta que não me interessava ver respondida.
As batidas nas vidraças começaram a diminuir. Ollie se virou para mim e ia dizer alguma coisa, mas tão logo abriu a boca, algo se destacou do nevoeiro e abocanhou
um daqueles seres que rastejavam na vidraça. Acho que gritei, não tenho bem certeza.
Era uma coisa voadora. Fora isso, eu não poderia afirmar mais nada. O nevoeiro pareceu escurecer, exatamente da maneira como Ollie havia descrito, somente
que a mancha escura não diminuiu; solidificou-se em algo de asas coriáceas que se agitavam, um corpo branco-albino, de olhos avermelhados. Chocou-se na vidraça com
força suficiente para fazê-la estremecer. Seu bico se abriu. Pescou a coisa rosada com ele e se foi. Todo o incidente não durou mais do que cinco segundos. Tive
uma crua e final impressão de coisa rosada estrebuchando e debatendo-se enquanto desaparecia naquele alçapão, da maneira como um peixe pequeno estrebucha e se debate
no bico de uma gaivota.
Houve um novo baque contra a vidraça, depois outro. As pessoas recomeçaram a gritar, a maioria correndo em tropel para os fundos do supermercado. Ouvimos
então um grito mais agudo, um grito de dor, e Ollie disse:
- Oh, meu Deus, aquela senhora idosa caiu e os outros simplesmente correram por cima dela!
Ollie correu de volta aos corredores das caixas registradoras. Eu me virei para segui-lo, mas então vi uma coisa que me fez estacar bruscamente onde estava.
Bem no alto, à minha direita, um dos sacos de adubo para jardim escorregava lentamente. Tom Smalley estava bem abaixo dele, espiando para o nevoeiro lá fora,
através de sua vigia.
Outro daqueles bichos rosados aterrou sobre o espesso vidro da vigia onde eu e Ollie estivéramos. Uma das coisas voadoras precipitou-se para baixo e o agarrou.
A velha que havia sido pisoteada começou a gritar em voz aguda, cacarejante.
Aquele saco. Aquele saco escorregando...
- Smalley! - gritei. - Cuidado! Olhe para cima!
Na confusão geral, ele nem chegou a ouvir-me. O saco oscilou e então caiu, atingindo-o em cheio na cabeça. Smalley caiu brutalmente, batendo com o queixo
na prateleira que corria abaixo daquela vidraça.
Uma das coisas albinas voadoras procurava abrir caminho, através do buraco em cunha que havia no vidro. Eu podia ouvir o arranhar suave que ela fazia, agora
que um pouco da gritaria cessara. Seus olhos vermelhos cintilaram na cabeça triangular, ligeiramente virada de banda. Um bico enorme e em gancho se abriu e fechou
com voracidade. Tinha certa semelhança com as pinturas de pterodáctilos que vemos nos livros de dinossauros, porém mais parecido a algo saído do pesadelo de um lunático.
Peguei uma das tochas, enfiei-a em uma das latas com fluido para isqueiro, encharquei-a e deixei cair um pouco do líquido no chão.
A criatura voadora fez uma pausa no topo da pilha dos sacos de adubo, olhando em torno, equilibrando-se lenta e malignamente, ora em um ora em outro pé provido
de esporão. Era uma criatura imbecil, tenho certeza disso. Tentou duas vezes abrir as asas, que batiam contra as paredes e então se dobravam sobre si mesmas, acima
das costas arqueadas, como as asas de um grifo. À terceira tentativa, perdeu o equilíbrio e caiu desajeitadamente de seu poleiro, ainda procurando distender as asas.
Aterrou sobre as costas de Tom Smalley. Com uma flexão de suas garras, a camisa de Tom se rasgou de alto a baixo. O sangue começou a fluir.
Eu estava lá, a menos de um metro de distância. Minha tocha pingava fluido de isqueiro.
Emocionalmente, sentia-me impelido a matar aquela coisa, se pudesse... e então percebi que não tinha fósforos para acender a tocha. Usara o último acendendo
um charuto para o Sr. McVey, uma hora atrás.
A essa altura, o lugar se transformara em pandemônio. As pessoas tinham visto a coisa empoleirada nas costas de Smalley, algo que ninguém no mundo já vira
antes. Ela esticou a cabeça para diante, em um ângulo inquisitivo, depois arrancou um pedaço de carne da nuca de Smalley.
Eu me dispunha a usar a tocha como porrete, quando sua extremidade envolta em panos ficou repentinamente em chamas. Dan Miller estava ali, segurando um isqueiro
Zippo, com um emblema da Marinha gravado. Seu rosto estava duro como rocha, tomado de horror e fúria.
- Mate-o! - disse ele, em voz rouca. - Mate-o, se puder!
Ollie estava ao lado dele. Empunhava o 38 da Sra. Dumfries, mas sem ângulo de tiro. A coisa estendeu as asas e bateu-as uma vez - aparentemente, não para
voar, apenas para se firmar melhor sobre sua presa - e então suas asas membranosas e rijas envolveram toda a parte superior do corpo do pobre Smalley. A seguir,
foram os sons apenas que ouvimos - sons mortais de dilaceramento, que não consigo descrever de maneira alguma.
Tudo isto aconteceu apenas em segundos. Foi então que arremeti com minha tocha contra a coisa. Houve a sensação de atingir algo sem mais substância real do
que um papagaio de empinar. No momento seguinte, a criatura inteira ardia. Ela emitiu um grasnido agudo e distendeu as asas; a cabeça se contorceu e os olhos avermelhados
rolaram com o que eu sinceramente desejava que fosse uma grande agonia. A criatura alçou vôo, fazendo um som semelhante ao de lençóis pendurados em um varal, sacudidos
por uma firme brisa de primavera. Tornou a emitir aquele grasnido enferrujado.
As cabeças se ergueram para seguir seu vôo agonizante e flamejante. Creio que nada, em tudo aquilo, permanece tão vívido em minha memória, como aquela coisa-ave
em chamas, voando aos ziguezagues acima dos corredores do Supermercado Federal, deixando cair pedaços carbonizados e fumacentos de si mesma, aqui e ali. Finalmente
abateu-se entre os molhos para espaguete, espalhando sucos por todos os lados, como gotas de sangue. Agora, era pouco mais do que cinzas. O cheiro que desprendia
era de algo carbonizado, forte e repugnante. E, acentuando isto, como um contraponto, havia o difuso e acre odor do nevoeiro, insinuando-se através do buraco no
vidro.
Houve o mais absoluto silêncio por um momento. Ficamos unidos pelo negro assombro daquele vôo mortal, vivamente iluminado. Então, alguém deu um grito ululante.
Outras pessoas gritaram também. E, de alguma parte nos fundos do supermercado, pude ouvir meu filho chorando.
A mão de alguém agarrou-me. Era de Bud Brown. Seus olhos avolumavam-se nas órbitas, esbugalhados. Os lábios repuxavam-se para trás, sobre a dentadura postiça,
como em um rosnado.
- Mais uma daquelas coisas - disse ele, e apontou.
Um dos besouros esgueirara-se através do buraco e agora encarapitava-se sobre um saco de adubo para jardim, zumbindo as asas como uma mosca varejeira - a
gente podia ouvi-la, soavam como um ventilador elétrico barato das lojas de departamentos - os olhos salientes em seus talos. O corpo rosa e roliço aspirava rapidamente.
Movi-me para ele. Minha tocha ainda fumegava. Entretanto, a Sra. Reppler, a professora do terceiro grau, foi mais rápida. Teria uns cinqüenta e cinco anos,
talvez sessenta, e era extremamente magra. Seu corpo tinha uma aparência estorricada e seca, que sempre me fazia pensar em um bife duro, tipo sola de sapatos.
Ela empunhava uma lata de Raid em cada mão, como um pistoleiro de comédia existencial. Proferiu um rosnado de raiva digno de um homem das cavernas, esmagando
o crânio de um inimigo. Segurando as latas de inseticidas sob pressão com os braços inteiramente estirados, apertou os botões. Um jato espesso de inseticida cobriu
a coisa.
O besouro contorceu-se de agonia, agitando-se e girando loucamente, para afinal cair dos sacos, ricochetear no cadáver de Tom Smalley - que estava morto,
sem a menor sombra de dúvida - e por fim rolar para o chão. Suas asas zumbiam alucinadamente, mas não o levariam a lugar algum, porque estavam fartamente impregnadas
de Raid. Momentos depois, o movimento das asas diminuía, até elas cessarem de bater por completo. A coisa estava morta.
Agora, ouvia-se pessoas chorando. E gemendo. A velha senhora que fora pisoteada estava gemendo. Também havia risos. As gargalhadas dos amaldiçoados. A Sra.
Reppler ficou ao lado de sua presa, o peito magro subindo e descendo rapidamente.
Hatlen e Miller encontraram um daqueles carrinhos de plataforma que os arrumadores de prateleiras usam para mover artigos embalados pelo supermercado e, juntos,
o levantaram até o alto dos sacos de adubo para jardim, bloqueando o buraco em forma de cunha que havia na vidraça. Uma medida temporária, porém conveniente.
Amanda Dumfries aproximou-se como uma sonâmbula. Tinha um balde de plástico em uma das mãos. Na outra, segurava uma escova de roupas em forma de vassourinha,
ainda fechada em seu envoltório transparente. Inclinando-se, os olhos ainda dilatados e apáticos, ela varreu a coisa morta e rosada - besouro, lesma, fosse o que
fosse - para dentro do balde. Podia-se ouvir o roçar áspero do envoltório da escova de roupas, varrendo o chão. Ela caminhou para a porta SAÍ DA. Não havia nenhum
besouro ali.
Abrindo-a um pouco, a Sra. Dumfries jogou o balde no exterior. Ele caiu de banda e rolou de um lado para outro, em arcos decrescentes. Uma das coisas rosadas
zumbiu para fora da noite, aterrou em cima do balde e começou a rastejar sobre ele.
A mulher prorrompeu em lágrimas. Aproximando-me, passei um braço em torno de seus ombros.
Por volta de uma e meia da madrugada, eu estava sentado com as costas contra a lateral esmaltada de branco do balcão de carnes, em um semi
cochilo. A cabeça de Billy repousava em meu colo. Ele dormia profundamente. Não muito longe dali, Amanda Dumfries dormia, tendo o blusão de alguém como travesseiro.
Algum tempo após a morte chamejante da coisa-ave, eu e Ollie tínhamos voltado à área de estocagem e reunido meia dúzia de mantas acolchoadas, semelhantes
àquela com que cobrira Billy anteriormente. Várias pessoas dormiam sobre elas. Também trouxemos um bom número de pesados caixotes de laranjas e peras; juntos, quatro
de nós conseguimos içá-los para o alto das pilhas de sacos com adubo para jardim, em frente do buraco na vidraça. As criaturas-aves precisariam esforçar-se bastante
para deslocar um daqueles caixotes, cada um dos quais pesava cerca de quarenta e cinco quilos.
Entretanto, as aves, as coisas semelhantes a besouros, não eram as únicas coisas lá fora.
Havia a outra coisa de tentáculo que arrastara Norm. Havia ainda aquele cordel para varal de roupas, esmagado, dando o que pensar. Havia a coisa invisível
que proferira aquele rugido grave e gutural, também dando o que pensar. Tínhamos ouvido sons semelhantes desde então - por vezes bem distantes mas até que ponto
era "distante", através do efeito amortecedor do nevoeiro?
Aliás, havia ocasiões em que eram suficientemente próximos para estremecer o prédio, dando a sensação de que os ventrículos de nosso coração tivessem sido
subitamente inundados de água gelada.
Billy sobressaltou-se em meu colo e gemeu. Afaguei seus cabelos e ele gemeu mais alto. Depois pareceu reencontrar as águas menos perigosas do sono. Meu próprio
cochilo era entrecortado, de maneira que eu voltara a ficar de olhos arregalados. Desde o anoitecer, conseguira dormir apenas uns noventa minutos, assim mesmo, com
o sono povoado de pesadelos. Em um daqueles sonhos fragmentados, eu me via novamente na noite anterior, Billy e Steff estavam diante da janela panorâmica, olhando
para as águas negro-acinzentadas, para a rodopiante e prateada tromba-d'água que prenunciava a tormenta. Tentei aproximar-me deles, convencido de que um vento forte
poderia quebrar a janela e atirar flechas mortais de vidro por toda a sala de estar. No entanto, por mais que corresse, não conseguia alcançá-los. Então, surgiu
uma ave da tromba-d'água, um gigantesco oiseau de nort escarlate, cuja envergadura de asas pré-históricas deixava todo o lago ensombrecido, de leste a oeste. Seu
bico se abriu, revelando uma goela do tamanho do Túnel Holland. E, quando a ave se precipitava para minha esposa e meu filho, uma voz grave e sinistra começou a
sussurar, incessantemente: O Projeto Ponta de Flecha... o Projeto Ponta de Flecha... o Projeto Ponta de Flecha...
Não que eu e Billy fôssemos os únicos a dormir mal. Havia outros que gritavam dormindo e outros que continuavam gritando, depois de acordados. A cerveja desaparecia
da geladeira em grande velocidade. Buddy Eagleton a carregara novamente, com garrafas do estoque nos fundos do prédio, sem qualquer comentário. Mike Hatlen veio
me dizer que o Sominex desaparecera. Os vidros não tinham sido esvaziados - haviam sumido. Ele achava que algumas pessoas podiam ter apanhado seis ou oito vidros.
- Ainda há uma sobra de Nytol - acrescentou. - Quer um vidro, David?
Meneei a cabeça em negativa e agradeci.
No último corredor, o da caixa registradora 5, tínhamos os vinhos. Havia umas sete pessoas lá, todas de fora do estado, com exceção de Lou Tattinger, que
dirigia a Lavadora de Carros "Pine Tres". Lou não precisava de nenhuma desculpa para farejar a rolha, como se diz. A brigada dos vinhos já estava perfeitamente anestesiada.
Oh, sim... havia ainda seis ou sete pessoas que tinham ficado malucas. Malucas, aliás, não é bem o termo; talvez eu apenas não conseguisse encontrar o mais
adequado.
Contudo, aquelas eram as pessoas que haviam mergulhado em absoluto estupor, fosse provocado pela cerveja, vinho ou pílulas. Elas nos fitavam com olhos vagos,
semelhantes a maçanetas reluzentes. O duro cimento da realidade, seus alicerces, se tinham desfeito através de algum inimaginável terremoto, e aqueles pobres diabos
haviam caído com eles. Com o tempo, alguns poderiam recuperar-se. Caso houvesse tempo.
Nós, os restantes, havíamos feito nossos compromissos mentais e, em alguns casos, imagino que fossem bastante estranhos. A Sra. Reppler, por exemplo, estava
convencida de que tudo aquilo era um sonho - ou pelo menos foi o que disse. Aliás, expressara-se com bastante convicção.
Olhei na direção de Amanda. Eu começava a experimentar um sentimento incomodante forte por ela - incômodo, mas não de todo desagradável. Seus olhos eram de
um verde incrivelmente brilhante... e por algum tempo a ficara vigiando, para ver se tiraria um par de lentes de contato, mas pelo visto, a cor era verdadeira. Sentia
vontade de fazer amor com ela. Minha esposa estava em casa, talvez viva, mais provavelmente morta, de qualquer modo, sozinha, e eu a amava. Queria voltar para ela
com Billy, acima de tudo, mas também queria transar com aquela mulher chamada Amanda Dumfries. Tentei dizer a mim mesmo que era produto da situação em que nos encontrávamos
- e talvez fosse mesmo - porém isso não alterou o desejo.
Continuei dormitando e despertando, até acordar de todo, por volta das três da madrugada. Amanda se deslocara para uma posição fetal, com os joelhos encostando
no peito. as mãos entrelaçadas entre as coxas. Parecia dormir profundamente. Sua blusa de atletismo se erguera levemente em um lado, mostrando a pele muito alva.
Vendo aquilo, comecei a ter uma desconfortável e totalmente inútil ereção.
Tentei distrair as idéias, levando-as para um novo rumo. Pensei em como quisera pintar Brent Norton no dia anterior. Nada tão importante como um quadro, mas...
apenas sentá-lo em um trono, com minha cerveja na mão, e garatujar seu rosto cansado e suado, as duas asas de seu cabelo cuidadosamente penteado, projetando-se desmazeladamente
na parte traseira da cabeça. Poderia ter sido um bom quadro. Eu precisaria de vinte anos vivendo com meu pai, para aceitar a idéia de que ser bom, poderia ser bom
o suficiente.
Sabem o que é o talento? É o castigo da expectativa. Quando crianças, temos que lidar com isso, vencê-lo de algum modo. Se podemos escrever, achamos que Deus
nos colocou na terra para superarmos Shakespeare. Ou, se sabemos pintar, talvez achemos - eu achei - que Deus nos colocou na terra para superarmos nosso pai.
Resultou que eu não era tão bom quanto ele. Continuei tentando ser como ele, talvez por mais tempo do que deveria. Tive uma exposição em Nova York e me saí
muito mal - fui derrotado pelos críticos de arte, na comparação com meu pai. Um ano mais tarde, era com o desenho comercial que sustentava a mim e Steff. Ela estava
grávida, de maneira que me concentrei e falei comigo mesmo a respeito. O resultado dessa conversa, foi a convicção de que a arte séria seria sempre um hobby para
mim, nada mais.
Fiz a publicidade do Xampu Garota de Ouro - aquele em que a Garota está montada em sua bicicleta, aquele em que ela joga Frisbee na praia, aquele em que ela
se acha no balcão de seu apartamento, com um drinque na mão. Ilustrei contos para a maioria das grandes revistas elegantes, mas de poucos méritos literários, porém
penetrei nesse campo fazendo ilustrações rápidas para contos nas revistas mais espalhafatosas para homens. Também fiz alguns posters para cinema. O dinheiro ia entrando.
Conseguíamos manter nossas cabeças lindamente acima d'água.
Tive uma exposição final em Bridgton, bem no último verão. Expus nove telas que havia pintado em cinco anos, tendo vendido seis. A que não venderia de maneira
alguma, mostrava o supermercado Federal, por singular coincidência. A perspectiva era da extremidade mais distante do pátio de estacionamento. Em meu quadro, o pátio
estava vazio, exceto por uma fileira de latas de feijão Campbell, cada uma maior do que a antecedente, à medida que se aproximavam do olho do espectador. A última
parecia ter dois metros e meio de altura. O quadro tinha o título de Feijões e Falsa Perspectiva.
Um homem da Califórnia, alto executivo em uma fábrica de raquetes e bolas de tênis, entendido em todo tipo de equipamento esportivo, ficou encantado com o
quadro e não aceitava uma negativa como resposta, apesar do cartão NEV (Não está à venda), enfiado no canto inferior esquerdo, na moldura descartável de madeira.
Ofereceu seiscentos dólares e subiu até quatro mil. Afirmou querer o quadro para seu estúdio. Recusei as ofertas e ele se foi, irritado e pasmo. Ainda assim, não
desistiu de todo, deixando seu cartão para o caso de eu mudar de idéia.
Aquele poderia ser um dinheiro bem empregado - foi no ano em que aumentei a casa e comprei o tração-nas-quatro-rodas - mas preferi ficar com o quadro. Não
poderia vendê-lo, já que o considerava minha pintura mais bem feita e, além disso, queria tê-lo comigo, para poder contemplá-lo, depois que alguém me perguntasse,
com crueldade totalmente inconsciente, quando é que me dedicaria a algo mais sério.
Então, em certo dia do outono passado, mostrei casualmente o quadro a Ollie Weeks.
Ele me pediu para fotografá-lo e usá-lo como propaganda, durante uma semana. Foi esse o fim de minha falsa perspectiva. Ollie reconhecera minha pintura pelo
que era em realidade, com isso, forçando-me a fazer o mesmo. Era uma peça perfeitamente válida, como espalhafatosa arte comercial. Nada mais. E, graças a Deus, nada
menos.
Deixei que ele fizesse o que pretendia e então liguei para o tal executivo, em sua casa de San Luís Obispo. Falei que, se ainda quisesse a pintura, poderia
tê-la, por dois mil e quinhentos. Ele a queria, e eu a despachei para a costa. A partir daí, aquela voz de decepcionada expectativa - aquela ludibriada voz infantil
nunca satisfeita ante um adjetivo como bom - tem andado bastante silenciosa. E, exceto por alguns roncos - semelhantes aos sons daquelas criaturas invisíveis lá
fora, em algum ponto dentro da noite - desde essa época, tal voz quase se calou. Talvez alguém me possa dizer - por que o silenciar daquela voz infantil e exigente
se pareça tanto com agonizar?
Por volta de quatro horas, Billy acordou - parcialmente, pelo menos - e olhou em torno com olhos remelentos, cheios de visível incompreensão.
- Ainda estamos aqui?
- Sim, meu bem - respondi. - Ainda estamos.
Ele começou a chorar, com uma fraca impotência que era horrível. Amanda acordou e olhou para nós.
- Ei, garoto - disse ela, e o puxou delicadamente para si. - Tudo vai parecer um pouco melhor, quando a manhã chegar.
- Não - disse Billy. - Não vai. Não vai. Não vai!
- Psst! - disse ela. Seus olhos encontraram os meus, acima da cabeça dele. - Psst... Já está passando da sua hora de dormir.
- Eu quero a minha mãe!
- Claro que quer - disse Amanda. - Eu sei.
Billy remexeu-se em seu colo, até poder olhar para mim, o que ficou fazendo por algum tempo. Então, tornou a dormir.
- Obrigado - falei. - Ele precisava de você.
- Ele nem ao menos me conhece.
- Não faz diferença.
- O que você acha? - perguntou ela. Seus olhos verdes fixaram-se insistentemente nos meus. - O que acha, em realidade?
- Pergunte-me quando amanhecer.
- Estou perguntando agora.
Abri a boca para responder, mas então Ollie Weeks materializou-se da penumbra, como algo saído de um conto de horror. Tinha uma lanterna, com uma das blusas
para senhoras cobrindo a lente, e apontava o facho para o teto. A luminosidade produzia sombras estranhas em seu rosto abatido.
- David - sussurrou.
Amanda olhou para ele, primeiro sobressaltada, depois novamente amedrontada.
- O que é, Ollie? - perguntei.
- David - ele tornou a sussurrar. Depois: - Venha. Por favor.
- Não quero deixar Billy. Ele acabou de adormecer.
- Eu ficarei com ele - ofereceu-se Amanda. - É melhor você ir. - Depois, em voz mais baixa: - Meu Deus, isto nunca vai terminar!

VIII. O que aconteceu aos soldados. Com Amanda. Uma conversa com Dan Miller.

Acompanhei Ollie. Ele tomou a direção da área de estocagem. Ao passarmos junto à geladeira, apanhou uma cerveja.
- O que é, Ollie?
- Quero que você veja.
Empurrou as portas duplas e entramos. Elas deslizaram e se fecharam atrás de nós, com pequena agitação de ar. Estava frio. Eu não gostava daquele lugar, não
depois do sucedido a Norm. Uma parte de minha mente insistia em recordar que ali ainda havia um pequeno pedaço de tentáculo morto, jazendo no chão, em algum lugar.
Ollie retirou a blusa que amortecia o facho da lanterna. Ele dirigiu a luz para o alto. A princípio, tive a impressão de que alguém pendurara dois manequins
em um dos canos de aquecimento, correndo abaixo do teto. Achei que tinham sido pendurados em cordas de piano ou coisa assim, um truque de crianças, no Dia das Bruxas.
Então reparei nos pés, pendendo cerca de vinte centímetros acima do piso de cimento.
Havia duas pilhas de caixas de papelão derrubadas. Ergui os olhos para os dois rostos e um grito começou a brotar em minha garganta, porque aquelas não eram
as faces dos bonecos de loja de departamentos. As duas cabeças estavam viradas para um lado, como se apreciassem alguma terrível e engraçada piada, uma piada que
os fizera rir até ficarem arroxeados.
Suas sombras. Suas sombras encompridavam-se na parede atrás deles. Suas línguas. Suas línguas saltadas para fora.
Ambos usavam uniforme. Eram os rapazolas que eu percebera anteriormente e que não tornara a ver mais. Os rapazolas do exército, sediados em...
O grito. Eu podia ouvi-lo, começando em minha garganta como um gemido, crescendo como uma sirene policial, mas então Ollie aferrou meu braço, pouco acima
do cotovelo.
- Não grite, David! Ninguém sabe disto, além de você e eu. E é assim que vai ficar.
De alguma forma, consegui conter-me.
- Aqueles garotos do exército - murmurei.
- Do Projeto Ponta de Flecha - disse Ollie. - Não há dúvida. - Algo frio me foi enfiado na mão. A lata de cerveja. - Beba isto. Está precisando.
Esvaziei a lata em um prolongado gole.
- Voltei aqui para ver se tínhamos cartuchos extras para aquela grelha a gás que o Sr. McVey esteve usando. Vi estes caras. Do jeito como imagino, devem ter
preparado os laços e subiram para o alto dessas duas pilhas de caixas de papelão. Devem ter amarrado as mãos, um ao outro e então equilibraram-se, também um ao outro,
enquanto passavam através da corda entre seus pulsos. Assim... assim ficariam com as mãos atrás deles, entenda. A seguir - é assim que imagino - enfiaram as cabeças
nos laços e os apertaram com força. inclinando as cabeças para um lado. Talvez um deles contasse até três e pularam juntos. Eu não sei.
- Não poderia ser feito - falei, sentindo a boca seca.
Entretanto, as mãos dos dois estavam amarradas às costas de ambos, claro. Eu não conseguia afastar os olhos daquilo.
- Poderia. Se eles estivessem mesmo decididos, poderiam, David.
- Está bem, mas por quê?
- Acho que você sabe por quê. Não algum turista, os veranistas - gente como o tal Miller - mas há gente daqui que poderia fazer uma suposição muito decente.
- O Projeto Ponta de Flecha?
- Fico em pé junto àquelas registradoras o dia inteiro e ouço um bocado de coisas - disse Ollie. - Durante toda esta primavera andei ouvindo comentários sobre
essa maldita coisa Ponta de Flecha, nenhum deles favorável. O gelo negro nos lagos...
Pensei em Bill Giosti, inclinado à janela de meu carro, bafejando álcool morno em meu rosto. Não apenas átomos, mas átomos diferentes. Agora, aqueles cadáveres
pendendo dos canos suspensos. As cabeças ladeadas. Os sapatos pendentes. As línguas saltadas para fora, como salsichas de verão.
Com renovado horror, percebi que novas portas de percepção haviam sido abertas no interior. Novas? Nem tanto. Velhas portas de percepção. A percepção de uma
criança que ainda não aprendeu a proteger-se, desenvolvendo a visão do túnel visual que impede o aparecimento de noventa por cento do universo. Crianças vêem tudo
em que pousam os olhos, ouvem tudo dentro do alcance de sua audição. A vida, no entanto, se for uma elevação de consciência (como um trabalho principiante de tapeçaria
que minha esposa fez, nas exposições do curso secundário), então também é a redução do túnel.
O terror é a dilatação da perspectiva e da percepção. O horror consistia em saber que eu nadava para um lugar que a maioria de nós abandonou, ao passarmos
das fraldas para as calças à prova de urina. Eu podia discernir isto também no rosto de Ollie. Quando a racionalidade começa a desmoronar, os circuitos do cérebro
humano podem ficar sobrecarregados. Axônios ficam brilhantes e febris. Alucinações tornam-se reais: a poça de azougue onde a perspectiva faz com que linhas paralelas
pareçam encontrar-se, está realmente lá; os mortos caminham e falam; uma rosa começa a cantar.
- Ouvi comentários de umas duas dúzias de pessoas - disse Ollie. - Justine Robards. Nick Tochai. Ben Michaelson. Não se pode guardar segredos em cidades pequenas.
As notícias se espalham. Às vezes, é como uma fonte - simplesmente borbulha acima da terra e ninguém faz idéia de onde veio a água. Ouve-se alguma coisa na biblioteca
e passa-se adiante, como se pode ouvir na marina, em Harrison, e só Deus sabe mais aonde ou por quê. Contudo, durante toda a primavera, durante todo o verão, estive
ouvindo falarem no Projeto Ponta de Flecha, Projeto Ponta de Flecha.
- Compreendo, Ollie, mas estes dois... Eram duas crianças!
- Em Nam, havia crianças que costumavam arrancar orelhas. Eu vi. Eu estive lá.
- Mas... o que os impeliria a fazer isto?
- Eu não sei. Talvez eles soubessem algo. Talvez apenas suspeitassem. Talvez percebessem que as pessoas aqui, eventualmente começariam a interrogá-los. Se
houvesse um eventualmente.
- Se você estiver certo - falei - , deve ter sido algo realmente terrível.
- Aquela tempestade - disse Ollie, em sua voz suave e uniforme. - Talvez tenha desarranjado alguma coisa por lá. Talvez houvesse algum acidente. Eles bem
poderiam estar lidando com alguma coisa. Certas pessoas dizem que trabalhavam com lasers e masers de alta intensidade. Às vezes, eu ouvia falar em energia de fusão.
E suponhamos... suponhamos que eles tenham aberto um buraco, diretamente para outra dimensão?
- Ora, isso é tolice! - exclamei.
- Eles são? - perguntou Ollie, apontando para os corpos.
- Não. A questão agora é: o que faremos?
- Acho que devemos tirá-los daí e escondê-los - disse Ollie prontamente. Colocá-los debaixo de uma pilha de artigos que as pessoas não queiram - ração para
cães, detergente para louças, coisas assim. Se isto vier a furo, só servirá para piorar a situação. Daí por que eu o chamei, David. Achei que era o único em quem
podia confiar.
- Isto é como os criminosos de guerra nazistas, matando-se em suas celas, depois da guerra perdida - murmurei.
- Hã-hã. Foi o mesmo que pensei.
Caímos em silêncio e, de repente, aqueles suaves ruídos rastejantes começaram do outro lado da porta de aço, na área de estocagem de mercadorias - o som dos
tentáculos tateando-a maciamente. Aproximamo-nos um do outro. Eu tinha a pele arrepiada.
- Está bem - falei.
- Faremos isso o mais depressa que pudermos - disse Ollie. Seu anel de safira cintilou opacamente, enquanto ele movia a lanterna. - Quero dar logo o fora
daqui.
Ergui os olhos para as cordas. Eles haviam usado o mesmo tipo de cordel para varal de roupas que o homem do boné de golfe me permitira amarrar em torno de
sua cintura. Os laços haviam penetrado na carne estufada de seus pescoços e tornei a perguntar-me como aqueles dois tinham conseguido ir adiante com aquilo. Eu compreendia
o que Ollie quisera dizer, ao falar que se a notícia do duplo suicídio transpirasse, talvez a situação piorasse. Para mim, ela já piorara - e eu não acreditaria
que fosse possível.
Houve um estalido metálico. Ollie abrira sua faca, uma boa e pesada ferramenta, própria para abrir caixas de papelão. E, naturalmente, cortar cordas.
- Eu ou você? - perguntou ele.
Engoli em seco.
- Um para cada - respondi.
Entregamo-nos à tarefa.
Quando voltei, Amanda não estava à vista e quem acompanhava Billy era a Sra. Turman. Ambos dormiam. Segui descendo por um dos corredores, quando ouvi uma
voz:
- Sr. Drayton! David!
Era Amanda, em pé junto à escada para o escritório do gerente, seus olhos brilhando como esmeraldas.
- O que houve? - perguntou ela.
- Nada - respondi.
Ela aproximou-se e pude sentir um cheiro vago de perfume. E, oh, como a desejava!
- Seu mentiroso - disse ela.
- Não aconteceu nada. Foi um falso alarme.
- Se é assim que prefere... - Ela me tomou a mão. - Acabei de subir ao escritório. Está vazio e a porta tem chave.
Seu rosto era perfeitamente calmo, mas os olhos tremulavam, quase bravios, enquanto uma pulsação batia firmemente em sua garganta.
- Eu não...
- Vi a maneira como você olhou para mim - disse ela. - Não há necessidade de falarmos a respeito. Aquela Sra. Turman está com seu filho.
- Eu sei.
Ocorreu-me que aquele era um meio - talvez não o melhor, mas ainda assim, um meio - de afastar a maldição do que eu e Ollie havíamos acabado de fazer. Não
o melhor meio, porém o único.
Subimos o estreito lance de escadas para o escritório. Estava vazio, conforme ela dissera. E havia uma chave na porta. Girei-a. Na escuridão, ela era apenas
uma forma difusa. Estendi os braços, toquei-a e a puxei para mim. Estava trêmula. Fomos para o chão, primeiro ajoelhados, beijando-nos. Pus a mão em concha sobre
um seio rijo e senti as fortes batidas de seu coração, através da camisa de atletismo. Pensei em Steff, dizendo a Billy para não ficar nos fios de eletricidade soltos.
Pensei na equimose em sua coxa, quando ela tirou o vestido castanho, em nossa noite de núpcias. Pensei na primeira vez em que a vira, pedalando sua bicicleta pela
rua de pedestres na Universidade do Maine, em Orono, quando me dirigia para uma das aulas de Vincent Hartgen, com meu portfólio debaixo do braço. E minha ereção
era enorme.
Deitamo-nos, e ela disse:
- Ame-me, David. Faça com que me esquente.
Quando teve seu orgasmo, ela enterrou as unhas em minhas costas e me chamou por um nome que não era o meu. Não me importei. Isso nos deixava quites.
Ao descermos, iniciava-se uma espécie de vacilante alvorecer. A escuridão além das vigias passou relutantemente para um cinza opaco, depois para cromo, em
seguida para o vivo, incorpóreo e opaco branco de uma tela de cinema drive-in. Mike Hatlen dormia em uma cadeira dobrável, arranjada em algum lugar. Dan Miller,
sentado no chão a alguma distância, comia um biscoito Hostess. Do tipo polvilhado com açúcar cristal.
- Sente-se, Sr. Drayton - convidou.
Olhei em torno, procurando Amanda, mas ela já se distanciava, a meio caminho para o fim do corredor. Não olhou para trás. Nosso ato de amor no escuro já parecia
algo extraído de uma fantasia, impossível de acreditar, mesmo naquele singular alvorecer.
Sentei-me.
- Pegue um biscoito - disse Miller, estendendo-me a caixa.
- Todo esse açúcar é morte certa. Pior do que cigarros.
Minhas palavras o fizeram rir um pouco.
- Sendo assim, pegue dois.
Fiquei surpreso ao constatar que ainda me sobrara um pouco de riso - Miller o fizera brotar e gostei dele por isso. Peguei dois de seus biscoitos. Tinham
um excelente sabor.
Rematei-os com um cigarro, embora normalmente não tenha o hábito de fumar pela manhã.
- Preciso voltar para junto de meu garoto - falei. - Ele deve estar acordando.
Miller assentiu.
- Aqueles besouros rosados - disse ele. - Foram-se todos. Também as aves. Hank Vannerman disse que o último se chocou na vidraça por volta das quatro. Aparentemente,
a... vida selvagem... fica muito mais ativa durante na escuridão.
- Não está querendo dizer isso a Brent Norton - falei. - Ou a Norm.
Ele tornou a assentir e ficou calado por um longo momento. Então, acendeu um cigarro de seu maço e olhou para mim.
- Não podemos ficar aqui, Drayton - disse.
- Há comida. E bastante bebida.
- Os suprimentos nada têm a ver com isso e sabe muito bem. O que faremos, se uma dessas feras maiores lá de fora resolver invadir o supermercado, em vez de
apenas se chocar contra ele, durante a noite? Tentaremos expulsá-la a cabo de vassoura e fluido para isqueiro?
Claro que ele tinha razão. De certo modo, talvez o nevoeiro nos estivesse protegendo.
Escondendo-nos. Só que o esconderijo poderia não durar muito, e então... Havíamos permanecido no Federal umas dezoito horas, mais ou menos, e eu podia sentir
uma espécie de letargia me invadindo, não muito diferente da que sentira uma ou duas vezes, ao tentar nadar uma distância muito grande. Havia uma urgência em ficar
seguro, em continuar ali, cuidar de Billy (e talvez transar com Amanda Dumfries no meio da noite, murmurou uma voz), ver se o nevoeiro terminaria subindo e deixando
tudo como estivera antes.
Eu podia perceber isto também nos outros rostos e, de repente, ocorreu-me que, no Federal, agora talvez houvesse pessoas que não sairiam dali, em hipótese
alguma. A própria idéia de cruzarem a porta de saída, depois de tudo o que acontecera, bastaria para dissuadi-las.
Miller talvez estivesse vendo esses pensamentos me cruzarem o rosto.
- Quando este maldito nevoeiro chegou, havia umas oitenta pessoas aqui dentro. Desse número, subtraímos o rapaz embalador, Norton, as quatro pessoas que saíram
com ele e aquele homem Smalley. Isso deixa setenta e três.
E subtraindo-se os dois soldados, agora repousando sob uma pilha de sacos de ração Purina para filhotes de cachorro, temos setenta e uma.
- Depois, subtraímos as que apenas optaram em sair - prosseguiu ele. - São dez ou doze. Dez, digamos. Ficamos com sessenta e três. Mas - ele ergueu um dedo
sujo de açúcar - destas sessenta e três, temos cerca de vinte que não sairão. Terão que ser postas para fora a gritos e pontapés.
- O que prova tudo isso?
- Que temos de sair daqui, nada mais. Eu vou sair. Por volta do meio-dia, creio. Estou planejando levar comigo o maior número de pessoas que puder. Gostaria
que você e o garoto também fossem.
- Depois do que aconteceu a Norton?
- Norton foi como uma ovelha para o matadouro. Isto não significa que o mesmo aconteça comigo ou com quem me acompanhar.
- E como o evitaria? Só temos uma arma.
- O que é uma sorte. Entretanto, se conseguirmos ir pelo cruzamento, talvez possamos chegar ao Sportsman's Exchange, na Main Street. Lá existem mais armas
do que possa imaginar.
- Em tudo isso há "se" e "talvez" demais.
- Drayton - disse Miller, - esta é uma situação cheia de "se".
A frase lhe rolou maciamente da língua, mas ele não tinha que cuidar de um garotinho.
- Ouça, vamos dar um tempo, está bem? Não dormi muito esta noite, mas pude refletir em algumas coisinhas. Quer ouvi-las?
- Claro.
Ele ficou em pé e espreguiçou-se.
- Façamos uma caminhada até as vidraças.
Passamos pela alameda da caixa-registradora mais próxima das gôndolas para pães e paramos diante de uma das vigias. O homem de guarda ali, informou:
- Os besouros foram embora.
Miller deu-lhe uma palmada nas costas.
- Vá tomar um café, companheiro. Eu fico em seu lugar.
- Está bem. Obrigado.
O homem afastou-se. Eu e Miller ficamos em sua vigia.
- Agora, diga-me o que vê lá fora - falou ele.
Eu espiei. O recipiente para lixo fora derrubado durante a noite, provavelmente por alguma daquelas rapinantes coisas-ave, espalhando uma confusão de papéis,
latas e copos de papelão da lanchonete por todo o piso alcatroado. Além disso, eu podia ver a fila de carros mais próximos do supermercado, dissolvendo-se em brancura.
Era tudo quanto enxergava, e foi o que disse a ele.
- Aquela pickup Chevrolet azul é minha - disse Miller. Apontou e vi apenas uma sombra azulada no nevoeiro. - Entretanto, deve lembrar que ontem, quando estacionou,
o pátio estava apinhado, não?
Tornei a olhar para meu Scout e recordei que só conseguira o espaço próximo ao supermercado, porque alguém mais saía com seu carro. Assenti, e Miller disse:
- Agora, some algo mais a esse fato, Drayton. Norton e seus quatro... como é mesmo que os chamou?
- Terrestres Estagnados.
- Exato, perfeito. Eles não eram outra coisa. Deixaram o supermercado, certo?
Avançaram por quase o comprimento total daquela linha para varal de roupas. Então, ouvimos os rugidos, como se lá fora houvesse uma manada de elefantes. Certo?
- Não soava como elefantes - falei. - Soava como...
Como algo vindo do pântano primordial, foi a frase que me veio à mente, mas eu não queria dizer isso a Miller, não depois de haver batido nas costas daquele
sujeito e dizer-lhe para ir tomar café, como um treinador dispensando um jogador da grande partida.
Eu poderia ter dito isso a Ollie, mas não a Miller.
- Não sei o que parecia - completei, desanimado.
- Certo, mas dava a impressão de algo grande.
- Sim.
A coisa dera realmente a impressão de algo muito grande.
- Pois então, como é que não ouvimos carros sendo sacolejados? Nem metal rangendo? Vidros se quebrando?
- Bem, foi porque... - Interrompi-me. Ele me pegara. - Não sei!
- De qualquer modo - disse Miller - as coisas estavam lá fora, no pátio de estacionamento, quando sei-lá-o-que as atingiu. Eu lhe direi o que penso. Penso
que não ouvimos nenhum carro sendo danificado, porque um bocado dessas coisas já podia ter-se acabado. Apenas isso... acabado! Penetrado na terra, evaporado, seja
o que for.
Alguma coisa forte o suficiente para estilhaçar estas vigas, modificar-lhes o formato e derrubar artigos das prateleiras. E o apito da cidade parou ao mesmo
tempo.
Eu tentava visualizar metade do pátio de estacionamento como desaparecida. Procurava visualizar uma caminhada lá fora e deparar com um recente desnível na
terra onde estivera o piso do pátio, com suas vagas de estacionamento demarcadas em ordenadas linhas amarelas. Um desnível, uma ondulação... ou talvez um precipício
sem fim, cavado em meio ao branco e inconsistente nevoeiro...
- Se você estiver certo - falei, após uns dois segundos - até onde acha que conseguiria ir em sua pickup?
- Eu não pensava nela, mas em seu carro de tração nas quatro rodas.
Aquilo era algo para digerir, porém não agora.
- O que mais tem em mente?
Miller estava ansioso em prosseguir.
- O que tenho em mente é a farmácia ao lado. O que acha?
Abri a boca para dizer que não atinava aonde ele queria chegar, mas depois a fechei de súbito. A Farmácia Bridgton estava em atividade, ao chegarmos ali na
véspera. Não a parte de lavanderia automática, mas a drugstore estivera de portas escancaradas para deixar entrar um pouco de ar fresco, aquelas portas com retentores
de borracha - a falta de energia evidentemente os deixara sem ar condicionado. A entrada para a farmácia não devia ficar a mais de seis metros das portas do supermercado
Federal. Então, por que...
- Por que ninguém de lá apareceu aqui? - perguntou-me Miller. - Foram dezoito horas, não? Será que não sentiram fome? Seguramente, não se alimentariam com
pílulas e supositórios.
- Lá também há alimentos - respondi. - Eles estão sempre vendendo comestíveis especiais. Às vezes, biscoitos em forma de animais, quando não, tortas crocantes,
todos os tipos de coisas. Além disso, há o balcão dos doces.
- Não creio que se enchessem dessas coisas, quando aqui há tudo que se procure para comer.
- Aonde quer chegar?
- Minha idéia é de que pretendo sair daqui, mas sem servir de jantar para algum fugitivo de um filme de terror. Quatro ou cinco de nós poderiam ir até lá,
verificar o que aconteceu na drugstore. Uma espécie de balão de ensaio.
- Isso é tudo?
- Não. Há mais uma coisa.
- O quê?
- Ela - disse Miller apenas, e apontou o polegar para um dos corredores centrais. - Aquela cadela nojenta. Aquela feiticeira.
Era para a Sra. Carmody que ele apontara o polegar. Ela não estava mais sozinha; agora tinha a companhia de duas mulheres. Por suas roupas vistosas, deduzi
que deviam ser turistas ou veranistas, senhoras que haviam saído de casa para "apenas ir até a cidade, comprar algumas coisas" e agora estavam cheias de preocupação
com os maridos e filhos. Senhoras ansiosas para agarrar-se a qualquer apoio. Talvez, até mesmo o sombrio consolo propiciado pela Sra. Carmody.
O terninho dela destacava-se com o mesmo resplendor maligno. Ela falava, gesticulava, o rosto duro e taciturno. As duas senhoras de roupas vistosas (não tanto
quanto a da Sra. Carmody, nada disso, e sua gigantesca sacola-bolsa, ainda firmemente presa debaixo de um braço pastoso) a ouviam com enlevo.
- Ela é outro motivo que me faz querer sair daqui, Drayton. Chegada a noite, essa bruxa terá seis pessoas ao seu lado: Se aqueles besouros cor-de-rosa e os
pássaros voltarem esta noite, amanhã cedo ela estará liderando um bom grupo. Então, é hora de nos preocuparmos sobre quem essa mulher apontará aos outros para ser
sacrificado, a fim de que a situação melhore. Talvez eu; você ou aquele sujeito Haden. Talvez seu garoto.
- Isso é idiotice - falei.
Seria mesmo? O arrepio gelado subindo por minhas costas, dizia que não necessariamente. A boca da Sra. Carmody se movia sem parar. Os olhos das senhoras turistas
estavam fixos em seus lábios franzidos. Seria realmente idiotice? Pensei nos poeirentos animais empalhados bebendo em seu riacho espelhado. A Sra. Carmody tinha
poder. A própria Steff, normalmente teimosa e firme de opiniões, invocava o nome daquela velha com desassossego.
Aquela cadela nojenta, assim Miller a chamara. Aquela feiticeira.
- Neste supermercado, as pessoas estão vivendo uma experiência neurótica, sem dúvida - disse Miller. Fez um gesto para as vigas pintadas de vermelho, emoldurando
os segmentos de vidraças... torcidas, estilhaçadas e fora do alinhamento. - Suas mentes provavelmente estão como essas vigas. A minha está também, droga. Passei
metade desta noite pensando que talvez tivesse ficado biruta, que provavelmente vestia uma camisa de força, em Danvers, a cabeça povoada de besouros, aves dinossauros
e tentáculos, mas que tudo acabaria, assim que o atencioso enfermeiro aparecesse, para injetar-me uma dose de Thorazine no braço. - Seu rosto miúdo estava tenso
e pálido. Ele olhou para a Sra. Carmody e depois tornou a encarar-me. - Eu lhe digo que isso poderia acontecer. À medida que as pessoas forem fraquejando, essa mulher
cada vez parecerá melhor para algumas delas. E não quero estar por perto, quando isso acontecer.
Os lábios da Sra. Carmody continuavam a mover-se. A língua dançava em torno dos dentes desiguais da velha. Ela parecia uma bruxa. Com um chapéu pontudo na
cabeça, ficaria perfeita. O que estaria dizendo aos seus dois pássaros capturados, vestidos de viva plumagem de verão?
Projeto Ponta de Flecha? Primavera Negra? Abominações das entranhas da terra? Sacrifício humano?
Cascata.
Dava tudo no mesmo...
- E então, o que me diz?
- A idéia é boa- respondi. - Tentaremos chegar até a farmácia. Eu, você, Ollie, caso ele queira ir, mais uma ou duas pessoas. Então, voltaremos a discutir
o assunto.
Mesmo isso, dava-me a sensação de caminhar para fora sobre uma viga estreita, em direção a uma queda impossível. Matar-me, nenhum bem faria a Billy. Por outro
lado, em nada o ajudaria ficando ali sentado. Seis metros até a drugstoe. Não era assim tão ruim.
- Quando? - perguntou ele.
- Dê-me uma hora.
- Certo - disse Miller

IX. A expedição à farmácia

Contei à Sra. Turman, contei a Amanda e depois contei a Billy. Ele parecia melhor esta manhã: havia comido dois biscoitos e uma tijela de Special K para desjejum.
Em seguida, apostei corrida com ele, indo e vindo por dois dos corredores, chegando mesmo a fazê-lo rir um pouco. Crianças são tão adaptáveis, que às vezes chegam
a assustar-nos.
Ele estava muito pálido, a carne por sob os olhos ainda aparecia inchada das lágrimas vertidas à noite e o rosto tinha uma horrível expressão de desgastado.
De certa maneira, ficara parecendo o rosto de um velho, como se uma carga demasiada de grande voltagem emocional houvesse corrido sob ele, por um período exagerado.
Contudo, continuava vivo e ainda capaz de rir... pelo menos, até recordar onde estava e o que acontecera.
Depois dos exercícios de aquecimento, sentamo-nos com Amanda e Hattis Turman. Bebemos Gatorade em xícaras de papel e contei a ele que ia até a drugstore,
com mais algumas pessoas.
- Não quero que você vá - disse Billy imediatamente, com o rosto ensombrecendo.
- Vai dar tudo certo, Grande Bill. Eu lhe trarei uma revistinha do "Homem Aranha".
- Eu quero que você fique aqui.
Seu rosto agora não estava apenas sombrio, mas carregado. Tomei-lhe a mão. Ele a puxou. Tornei a pegá-la.
- Ouça, Billy. Temos que sair daqui, mais cedo ou mais tarde. Você entende isso, não entende?
- Quando o nevoeiro for embora...
Ele falou sem a menor convicção. Bebeu seu Gatorade, mas não pareceu aliviado.
- Até agora, ficamos quase um dia inteiro aqui, Billy.
- Eu quero mamãe!
- Bem, talvez este seja o primeiro passo, a fim de você voltar para ela.
- Não encha o garoto de esperanças, David - disse a Sra. Turman.
- Ora, que diabo! - bufei para ela. - O menino precisa ter esperanças em alguma coisa!
Ela baixou os olhos.
- Sim. Acho que precisa.
Billy pareceu não perceber a troca de palavras.
- Papai... Papai, lá fora há coisas. Coisas.
- Nós sabemos disso, Billy, mas muitas delas - não todas, mas muitas parecem chegar só quando é noite.
- Elas estão esperando - disse ele. Seus olhos estavam dilatados, fixos nos meus. - Ficam esperando no novoeiro... e quando a gente não pode voltar para cá,
elas comem a gente. Como nas histórias de fadas. - Ele se apertou contra mim, com uma força selvagem, cheia de pânico. - Por favor, papai, não vá!
Afastei-lhe os braços, o mais delicadamente que pude e lhe disse que tinha de ir.
- Eu vou, mas voltarei, Billy.
- Está bem - disse foscamente, mas não tornou a olhar para mim.
Billy não acreditava que eu voltaria. Estava escrito em seu rosto, agora não mais carregado, porém infeliz e pesaroso. Perguntei-me outra vez se estaria fazendo
a coisa certa, ao colocar-me em risco. Então, aconteceu-me olhar para o fim do corredor central e vi a Sra. Carmody. Ela conquistara um terceiro ouvinte, um homem
de barba grisalha despontando no rosto, de olhos inquietos e injetados de sangue. Seu rosto desfigurado e as mãos trêmulas, quase gritavam a palavra ressaca. Era
nada mais, nada menos, do que o nosso amigo Myron La Fleur. O sujeito que não sentira o menor remorso ao enviar um rapazola para fazer o serviço de um homem.
Aquela cadela louca. Aquela feiticeira.
Beijei Billy e o abracei com força. Depois caminhei para a parte frontal do supermercado - mas não pelo corredor dos utensílios domésticos. Não queria passar
sob os olhos dela.
Havia feito três quartos do trajeto, quando Amanda emparelhou comigo.
- Tem mesmo que fazer isto? - perguntou ela.
- Sim, acho que tenho.
- Perdoe-me se lhe digo isto, mas o que está pretendendo me parece pura tolice machista.
Havia manchas ruborizadas no alto de suas faces e seus olhos estavam mais verdes do que nunca. Ela estava altamente - não, regiamente - irritada.
Peguei-lhe o braço e repeti minha discussão com Dan Miller. O enigma dos carros e o fato de ninguém da farmácia se ter juntado a nós, não a impressionaram
muito. Foi a história sobre a Sra. Carmody que a convenceu.
- Ele talvez estivesse certo - falou.
- Acredita realmente nisso?
- Não sei... Aquela mulher irradia uma sensação de veneno. E se pessoas estiverem apavoradas pelo tempo suficiente, apegar-se-ão a quem quer que lhes prometa
uma solução.
- Certo, mas... sacrifício humano, Amanda?
- Os astecas faziam isso - declarou ela calmamente. - Ouça, David. Você tem que voltar. Se alguma coisa acontecer... qualquer coisa... volte para cá. Dê meia
volta e venha correndo. Não para mim - o que aconteceu esta noite foi bonito, mas isso foi à noite passada. Volte para seu garoto.
- Sim, eu voltarei.
- É o que espero - disse ela, e agora tinha a aparência de Billy, infeliz e envelhecida.
Ocorreu-me que a maioria de nós devia ter tal aparência. Menos a Sra. Carmody. Ela parecia de algum modo mais jovem e mais vital. E se conseguisse levar a
melhor...
Aliás, era como se já conseguira. Como se... estivesse alimentando-se daquilo.
Só às 9:30 da manhã é que nos pusemos a caminho. Éramos sete: Ollie, Dan Miller, Mike Hatlen, o anterior amigo de Myron LaFleur, Jim (também de ressaca, mas
parecendo determinado a encontrar algum meio de expiar sua falta), Buddy Eagleton e eu. O sétimo membro era Hilda Reppler. Miller e Hatlen fizeram o possível para
que ela desistisse de ir. Nada tinha a ver com aquilo. Eu nem ao menos tentei. Desconfiava que Hilda Reppler podia ser mais competente do que qualquer de nós, talvez
com exceção de Ollie. Ela carregava uma pequena sacola de lona para compras, lotada com um arsenal de Raid e Black Flag, em latas de spray, todas já sem as tampas
e prontas para entrar em ação. Na mão livre, empunhava uma raquete de tênis, retirada de uma mostra de artigos esportivos, no Corredor 2.
- O que vai fazer com isso, Sra. Reppler? - perguntou Jim.
- Não sei - respondeu ela. Tinha uma voz grave, de som irritante e cheia de decisão - mas parece adequada em minha mão. - Encarou-o mais de perto e seu olhar
era frio. - Jim Grondin, não é? Por acaso, não foi aluno meu?
Os lábios de Jim estiraram-se em um sorriso desajeitado, como se estivesse chupando um ovo.
- Sim, senhora. Eu e minha irmã Pauline.
- Bebeu muito esta noite?
Muito mais alto do que ela e provavelmente pesando uns cinqüenta quilos mais, Jim ficou vermelho até a raiz de seus cabelos cortados à Legião Americana.
- Há... hum... não...
Ela se virou bruscamente, interrompendo-o.
- Penso que estamos prontos - declarou.
Todos nós levávamos alguma coisa, embora qualquer um pudesse considerar aquilo um curioso sortimento de armas. Ollie tinha a arma de Amanda, Buddy Eagleton
uma alavanca, apanhada em algum lugar nos fundos do supermercado, e eu um cabo de vassoura.
- Muito bem! - exclamou Miller, levantando a voz. - Ei, pessoal, vocês querem me ouvir por um minuto?
Umas doze pessoas tinham vagado até a porta SAÍDA, querendo ver o que acontecia.
Formavam um grupo disperso e, à sua direita, vimos a Sra. Carmody com seus novos amigos.
- Pretendemos ir até a drugstore, ver como anda a situação por lá. De passagem, queremos trazer algo da farmácia para ajudar a Sra. Clapham.
Era a senhora que tinha sido pisoteada na véspera, quando da chegada dos besouros.
Havia fraturado uma perna e sentia dores intensas. Miller passou os olhos por nós.
- Não queremos correr riscos - disse. - Ao primeiro sinal de algo ameaçador, viremos correndo de volta ao supermercado...
- E atraindo todos os demônios do inferno sobre as nossas cabeças! - gritou a Sra. Carmody.
- Ela tem razão! - secundou uma das veranistas. - Vocês farão com que eles nos percebam! Farão com que eles venham para cá! Por que têm de intrometer-se sem
necessidade?
Houve um murmúrio de assentimento, por parte de alguns dos que se haviam reunido para ver nossa saída.
- Deseja mesmo que não nos intrometamos, senhora? - perguntei.
Ela baixou os olhos, confusa. A Sra. Carmody deu um passo à frente. Seus olhos chispavam.
- Você morrerá lá fora, David Drayton! Está querendo deixar seu filho órfão?
Erguendo o rosto, ela nos fustigou com os olhos. Buddy Eagleton olhou para baixo e, ao mesmo tempo, ergueu sua alavanca, como se quisesse atacá-la.
- Todos vocês morrerão lá fora! Não perceberam que chegou o fim do mundo? O Demo foi solto! A Estrela da Desgraça chameja, e cada um que pisar fora dessa
porta, será feito em pedaços! Então, eles virão em busca dos que sobraram, justamente como disse esta boa mulher! E vocês vão deixar que isso aconteça? Ela agora
apelava para os espectadores, e um leve murmúrio correu entre eles. Depois do que aconteceu ontem aos incrédulos? Isto é a morte! É a morte! É a...
Uma lata de ervilhas voou subitamente através dos corredores das caixas registradoras e atingiu a Sra. Carmody no seio direito. Ela cambaleou para trás, com
um guincho assustado. Amanda adiantou-se.
- Cale a boca! - disse. - Cale a boca, sua coruja miserável!
- Ela está a serviço do Abominável! - bradou a Sra. Carmody. Um sorriso torto bailou em seu rosto. - Com quem dormiu esta noite, senhora? Com quem se deitou
esta noite?
A Mãe Carmody enxerga, oh, sim, ela enxerga o que os outros não vêem!
Não obstante, o momento de fascínio que ela criara se tinha quebrado, e os olhos de Amanda permaneceram firmes.
- Vamos andando ou querem ficar aqui o dia inteiro? - perguntou a Sra. Reppler.
E nós fomos. Que Deus nos ajude, mas fomos.
Dan Miller seguia à frente. Ollie era o segundo e eu encerrava a fila, com a Sra. Reppler à minha frente. Acho que nunca senti tanto medo na vida, e a mão
firmemente apertada em torno de meu cabo de vassoura estava escorregadia de suor.
Senti aquele cheiro acre e difuso do nevoeiro, um odor antinatural. Quando chegou a minha vez de passar pela porta, Miller e Ollie já se tinham dissolvido
no fog, e Hatlen, que era o terceiro, mal podia ser vislumbrado.
Apenas seis metros, repetia para mim mesmo. Apenas seis metros.
A Sra. Reppler caminhava devagar e firmemente diante de mim, com sua raquete de tênis oscilando de leve na mão direita. À nossa esquerda, havia uma parede
vermelha de blocos de concreto. À direita, a primeira fila de carros, esboçando-se no nevoeiro como navios fantasmas. Outro depósito de lixo materializou-se naquela
brancura e, mais além, ficava um banco onde, às vezes, as pessoas costumavam esperar pela vez de falar em um telefone público. Apenas seis metros, provavelmente
Miller já até chegou lá e seis metros são apenas dez ou doze passos, de modo que...
- Oh, meu Deus! - gritou Miller. - Oh, meu Deus do céu, vejam só isto!
Miller havia chegado lá, claro.
Buddy Eagleton estava à frente da Sra. Reppler e se virou para correr, com olhos esbugalhados e brilhantes. Ela lhe deu uma leve estocada no peito com sua
raquete de tênis.
- Aonde você pensa que vai? - perguntou, em sua voz rouca e ligeiramente irritante.
Esse foi todo o pânico que houve. Os restantes de nós se juntaram em torno de Miller.
Dei uma espiada sobre o ombro e vi o Federal sendo engolido pelo nevoeiro.
A parede vermelha de concreto desbotara para um leve tom rosado, depois desapareceu por completo, provavelmente a quatro metros e pouco da Farmácia Bridgton,
ao lado da porta SAÍDA. Senti-me mais isolado, mais simplesmente só, do que jamais na vida. Era como se houvesse perdido o útero materno.
A farmácia havia sido palco de uma carnificina.
Eu e Miller, naturalmente, estávamos bem perto daquele cenário - praticamente em cima dele. Todas as coisas no nevoeiro operavam primeriamente pelo sentido
do olfato. E não podia ser de outro modo. A visão teria sido quase sem a menor utilidade para elas. A audição funcionava algo melhor mas, como falei, o nevoeiro
tinha um meio de confundira acústica, fazendo com que um som próximo parecesse distante e - por vezes - que o distante parecesse perto. As coisas no nevoeiro seguiam
seu sentido mais acurado.
Seguiam os próprios narizes.
Nós, os do supermercado, tínhamos sido salvos mais pela falta de energia elétrica, do que por qualquer outra coisa. As portas operadas pelo olho elétrico
não funcionavam.
Em certo sentido, o supermercado estivera hermeticamente selado, quando da chegada do nevoeiro. As portas da farmácia, no entanto... estavam escancaradas.
O corte da energia acabara com o seu ar condicionado, de maneira que eles haviam aberto as portas, para que uma brisa penetrasse. Só que, algo mais também penetrara
lá.
Um homem de camiseta castanha jazia de bruços na soleira. De início, pensei que a camiseta fosse castanha, mas então vi algumas partes brancas na parte inferior
e compreendi que, uma vez, toda ela fora branca. O castanho era sangue seco. Havia outra coisa mais errada com ele, algo que fiquei remoendo mentalmente. Mesmo quando
Buddy Eagleton se virou e vomitou ruidosamente, não percebi o que era. Creio que quando uma coisa como aquela... quando finalmente acontece a alguém, nossa mente
a rejeita inicialmente... a menos que estejamos em uma guerra.
A cabeça dele se fora, era isso. As pernas estavam estiradas para dentro da farmácia e a cabeça deveria descambar para fora, pendendo sobre o degrau inferior.
Só que não havia cabeça.
Jim Grondin já tivera o suficiente. Deu meia volta, com a mão tapando a boca, os olhos injetados postos loucamente nos meus. Depois, aos tropeções, tomou
a direção do supermercado.
Os outros não deram por isso. Miller já havia entrado e Mike Hatlen o seguiu. A Sra. Reppler se postou ao lado das portas duplas, empunhando sua raquete de
tênis. Ollie tomou posição no outro lado, com a arma de Amanda em punho, apontada para o piso.
- Acho que estou perdendo toda esperança, David - disse ele, em voz comedida.
Buddy Eagleton apoiava-se fracamente no balcão no telefone público, como alguém que acabou de receber más notícias de casa. Seus ombros largos sacudiam-se
com a força de seus soluços.
- Não nos exclua por enquanto - falei para Ollie.
Cruzei a porta. Não queria entrar lá, mas havia prometido uma revista de histórias em quadrinhos a meu filho.
A Farmácia Bridgton era um pandemônio. Havia livros e revistas jogados por toda parte. Vi uma revista do Homem Aranha e outra do Incrível Hulk quase aos meus
pés; sem pensar, apanhei-as e enfiei-as no bolso traseiro da calça para Billy. Vidros e caixas espalhavam-se pelos corredores. Uma mão pendia de uma prateleira.
Fui invadido por um senso total de irrealidade. Os destroços... a carnificina já eram ruim o suficiente. Contudo, o local também dava a impressão de ter sido
o cenário de alguma festa de loucos. Ali havia pendentes e festões que, a princípio, tomei por guirlandas.
Contudo, não eram largos e chatos, porém mais semelhantes a barbantes muito grossos ou cabos muito finos. Ocorreu-me que eram quase do mesmo branco brilhante
que o próprio nevoeiro, e então um calafrio gelado me subiu pela espinha. Aquilo não era papel crepom. O quê era aquilo que pendia no ar, oscilando em alguns daqueles
fios.
Mike Hatlen cutucava uma estranha coisa negra com um pé. Era comprida e eriçada.
- Que merda é esta? - perguntou, a ninguém em particular.
De repente, eu soube. Soube o que havia matado todos os que não haviam tido sorte suficiente, por estarem na farmácia quando o nevoeiro chegou. Pessoas com
azar bastante para serem farejadas. Fora...
- Para fora! - falei. Minha garganta estava completamente seca e as duas palavras saíram como uma bala coberta de fiapos. - Para fora daqui! Vamos!
Ollie olhou para mim.
- David...?
- São teias de aranha - falei.
Então, dois gritos brotaram do nevoeiro. O primeiro, talvez de medo. O segundo, de dor.
Era Jim. Se houvesse débitos a pagar, ele os estava saldando.
- Saiam! - gritei para Mike e Dan Miller.
Foi quando algo se desenrolou do nevoeiro. Era impossível distingui-lo contra o fundo branco, mas eu podia ouvi-lo. Soava como um chicote de couro, desenrolando-se
sem muita pressa. Depois pude vê-lo, quando se enrolou em torno da coxa dos jeans de Buddy Eagleton.
Ele gritou e agarrou a primeira coisa ao alcance, que aconteceu ser o telefone. O receptor estirou-se em todo o comprimento do fio, depois ficou balançando
de um lado para outro.
- Oh, Deus, isso DOI! - gritou Buddy.
Ollie agarrou-o e eu vi o que acontecia. No mesmo instante, compreendi por que o homem caído na soleira estava sem a cabeça. O fino cabo brando que se torcia
em volta da perna de Buddy, como uma corda de seda, estava afundando em sua carne. A perna de seu jeans fora cortada perfeitamente e agora lhe escorregava perna
abaixo. Uma nítida incisão circular em sua carne estava orlada de sangue, à medida que o cabo se aprofundava.
Ollie o puxou com força. Houve um vago som de estalido e Buddy ficou livre. Seus lábios haviam ficado azuis com o choque.
Mike e Dan vinham chegando, porém lentos demais. Então, Dan colidiu contra vários fios pendurados e ficou preso, exatamente como um besouro em um papel pega-moscas.
Libertou-se com um tremendo safanão, deixando um pedaço de sua camisa pendurado nas teias.
De repente, todo o ar se encheu com aqueles estalos langorosos de chicotadas, e os finos cabos brancos vagavam para baixo, em torno de todos nós. Eram cobertos
com a mesma substância corrosiva. Esquivei-me a dois deles, mais por sorte, do que por outra coisa.
Um caiu aos meus pés e ouvi um fraco chiado do piso se queimando. Outro flutuou no ar e, calmamente, a Sra. Reppler esgrimiu sua raquete de tênis contra ele.
O entrançado ficou preso. Ouvi um agudo tuing! tuing! tuing! quando o corrosivo devorou os fios da rede trançada, arrebentando-os. Soava como se alguém tangesse
rapidamente as cordas de um violino. Um momento mais tarde, um fino cabo enrolou-se em torno do punho da raquete e ela foi atirada dentro do nevoeiro.
- Para trás! - gritou Ollie.
Começamos a mover-nos. Ollie tinha um braço em torno de Buddy. Dan Miller e Mike Hatlen ladeavam a Sra. Reppler. Os fios brancos de teia continuavam a esvoaçar
do nevoeiro, praticamente invisíveis, só sendo distinguidos contra o fundo vermelho de concreto.
Um deles enrolou-se em torno do braço esquerdo de Mike Hatlen. Outro saltou em volta de seu pescoço, com uma série de rápidos estalidos no ar. Sua jugular
se abriu, em brusca e esguichada explosão, e ele foi arrastado, com a cabeça pendurada. Um de seus tênis lhe saiu do pé e caiu de lado.
Buddy escorregou repentinamente para diante, quase derrubando Ollie de joelhos.
- Ele desmaiou, David! Ajude-me!
Agarrei Buddy pela cintura e o puxamos, os dois juntos, de maneira desajeitada, aos tropeções. Mesmo inconsciente, Buddy ainda se mantinha aferrado à sua
alavanca. A perna que o fio de teia de aranha envolvera, pendia de seu corpo em um ângulo esquisito. A Sra. Reppler se virara.
- Cuidado! - gritou, em sua voz enferrujada. - Atrás de vocês! Cuidado!
Quando comecei a me virar, um daqueles fios flutuou acima da cabeça de Dan Miller, depois a alcançou. Ele usou as mãos para agarrá-lo e arrancá-lo.
Uma das aranhas saíra do nevoeiro, às nossas costas. Era do tamanho de um cão de grande porte, negra, com filetes amarelos. Uniforme de jóquei, pensei doidamente.
Seus olhos eram vermelhos-púrpura, como romãs. Ela trotou diligentemente em nossa direção, sobre o que seriam doze ou quatorze pernas de inúmeras articulações -
não era uma vulgar aranha terráquea, amplificada para o tamanho visto em filmes de terror; era algo inteiramente diverso, talvez nem fosse mesmo uma aranha. Se a
visse, Mike Hatlen teria compreendido o que era a coisa negra e eriçada que estivera cutucando na farmácia.
Ela se aproximou de nós, fiando sua teia de um orifício ovalado na parte superior do corpo. Os fios flutuaram em nossa direção, em formato quase de leque.
Olhando para aquele pesadelo, tão semelhante às fatais aranhas negras que ruminavam sobre suas moscas e insetos mortos, nas sombras de nossa casa de barcos, senti
minha mente tentando soltar-se completamente de seus ancoradouros. Agora, acredito que somente o pensamento em Billy me permitia manter qualquer semelhança de lucidez.
Eu emitia sons. Ria. Chorava. Gritava. Eu não sei.
Ollie Weekes, no entanto, era como uma rocha. Ergueu a arma de Amanda, tão calmamente como se estivesse em uma cabine de tiro ao alvo, esvaziando-a em tiros
espaçados contra a criatura, à queima-roupa. Seja qual for o inferno de onde ela viera, não era invulnerável. Uma seiva negra esguichou de seu corpo e ela soltou
um terrível som miado, tão baixo, que era mais sentido do que ouvido, como uma nota grave de um sintetizador. Depois, deslizou de volta ao nevoeiro e desapareceu.
Poderia ter sido um fantasma, de um terrível sonho drogado... exceto pelas poças de pegajosa matéria negra que deixara para trás.
Houve um som metálico, quando Buddy finalmente deixou sua alavanca de aço cair ao solo.
- Ele está morto - disse Ollie. - Largue-o, David. A maldita coisa acertou-lhe a artéria femural e ele morreu. Vamos dar o fora daqui, já!
Seu rosto era novamente uma máscara de suor escorrendo e os olhos salientavam-se no enorme rosto redondo. Um dos fios de teia flutuou e caiu sem dificuldade
nas costas de sua mão. Ollie girou o braço, partindo-o. O fio deixou um risco sanguinolento em sua pele.
- Cuidado! - tornou a gritar a Sra. Reppler.
Nós nos viramos para ela. Outro daqueles bichos saíra do nevoeiro e envolvera as pernas em torno de Dan Miller, em um louco abraço de amante. Miller lutava
com ele a socos. Quando me abaixei e apanhei a alavanca de Buddy, a aranha começara a envolver Dan Miller em sua teia mortal. Os esforços dele se tornaram hercúleos,
uma saltitante dança mortal.
A Sra. Reppler caminhou para a aranha, com uma lata de repelente de insetos Black Flag na mão espichada. A aranha estendeu as pernas para ela. A Sra. Reppler
apertou o botão e uma nuvem do produto esguichou em um de seus olhos cintilantes, semelhante a uma pedra preciosa. Aquele miado em nota grave soou novamente. A aranha
pareceu estremecer de alto a baixo e começou a recuar, suas patas peludas arranhando o pavimento. Arrastou o corpo de Dan atrás de si, aos trambolhões. A Sra. Reppler
jogou a lata de repelente contra ela. A lata bateu no corpo da aranha, ricocheteou e caiu ao solo. O bicharoco tropeçou no lado de um pequeno carro esporte, com
força suficiente para fazê-lo oscilar sobre suas molas, em seguida desaparecendo.
Cheguei até a Sra. Reppler, que mal se mantinha sobre os pés, mortalmente pálida.
Passei o braço em torno dela.
- Obrigada, meu rapaz - disse. - Sinto-me um pouco fraca.
- Está tudo bem - falei em voz rouca.
- Eu o salvaria, se pudesse.
- Eu sei disso.
Ollie se juntou a nós. Corremos para as portas do supermercado, em meio àqueles fios que caíam à nossa volta. Um deles encontrou a bolsa de compras da Sra.
Reppler e afundou na lateral de lona. Ela se aferrou carrancudamente ao que lhe pertencia, puxando pela alça com as duas mãos, mas não teve êxito. A bolsa escapou-lhe
dos dedos e foi arrastada para o nevoeiro, aos trancos e barrancos, lá desaparecendo.
Quando alcançamos a porta ENTRADA, uma aranha menor, mais ou menos do tamanho de um filhote de cocker spaniel, escapou do meio do nevoeiro, ao longo do lado
do prédio. Não produzia teia nenhuma; talvez ainda não fosse madura o suficiente para isso.
Enquanto Ollie inclinava um ombro musculoso contra a porta, para que a Sra. Reppler pudesse entrar, atirei a barra de aço contra a coisa, à maneira de um
dardo, empalando-a.
Ela se contorceu desvairadamente, as pernas agitando-se no ar, os olhos vermelhos encontrando os meus, como se me marcassem...
- David! - gritou Ollie, ainda mantendo a porta entreaberta.
Corri para lá e entrei. Ele me seguiu.
Rostos pálidos e amedrontados olharam para nós. Éramos sete na ida. Três apenas voltavam. Ollie recostou-se contra a pesada porta de vidro, o tórax imenso
arfando.
Começou a recarregar a arma de Amanda. Sua camisa branca de assistente do gerente se colara ao corpo e grandes manchas acinzentadas de suor espalhavam-se
debaixo de seus braços.
- E então? - perguntou alguém, em voz grave e rouca.
- Aranhas - respondeu a Sra. Reppler, carrancuda. - As bastardas nojentas levaram minha sacola de compras.
Então, Billy correu para meus braços, chorando. Levantei-o no colo e o abracei.
Apertadamente.

X. O fascínio da Sra. Carmody. A segunda noite no supermercado. O confronto final.

Era o meu turno de dormir e, durante quatro horas, não me lembrei de absolutamente nada. Amanda me contou que falei bastante, tendo gritado uma ou duas vezes,
mas não me recordo de haver sonhado. Quando acordei, era de tarde. Senti uma sede terrível.
Uma parte do leite se estragara, mas ainda havia algum em bom estado. Bebi um litro e pouco.
Amanda aproximou-se de onde eu me encontrava com Billy e a Sra. Turman. O velho que se oferecera para ir apanhar uma arma no porta-mala de seu carro, vinha
com ela - Cornell, recordei. Ambrose Cornell.
- Como está, filho? - perguntou ele.
- Tudo bem. - Não obstante, eu continuava sedento e minha cabeça doída. Deslizei um braço em torno de Billy e depois olhei de Cornell para Amanda. - O que
há?
- O Sr. Cornell está preocupado com aquela Sra. Carmody - disse Amanda. - E eu também.
- Por que não vem dar uma volta comigo, Billy? - convidou Hattie.
- Não quero ir - respondeu ele.
- Vá, Grande Bill - falei, e ele se foi, relutante. - E agora, o que há sobre a Sra. Carmody?
- Ela está atiçando os ânimos - disse Cornell. Encarou-me com a taciturnidade de um velho. - Acho que precisamos botar um ponto final nisso. Da maneira como
pudermos!
- Agora há quase uma dúzia de pessoas com ela - comentou Amanda. Parece algum louco serviço religioso.
Recordei minha conversa com um amigo escritor que morava em Otisfield, o qual sustentava esposa e dois filhos criando galinhas e escrevendo um livro de bolso
original por ano - histórias de espionagem. Havíamos comentado o crescimento da popularidade de livros envolvendo o sobrenatural. Gault havia dito que, nos anos
40, Histórias Fantásticas rendera uma bagatela e, nos anos 50, afundara de vez. Quando as máquinas falham, dissera ele (enquanto sua esposa examina ovos contra a
luz e galos cantavam lamuriosamente no exterior), quando a tecnologia falha, quando os sistemas religiosos convencionais falham, as pessoas precisam contar com algo.
Até mesmo um zumbi cambaleando através da noite, pode aparecer como francamente agradável, comparado à comédia/horror existencial da camada de ozônio dissolvendo-se
sob o assalto combinado de um milhão de latas de desodorantes, com spray fluorocarbonado.
Há vinte e seis horas estávamos acuados ali e ainda não tínhamos conseguido fazer nada que valesse a pena. Nossa única expedição ao exterior resultara em
cinqüenta e sete por cento de baixas. Portanto, não era de admirar que a Sra. Carmody talvez estivesse aumentando seu rebanho.
- Ela realmente conseguiu doze pessoas? - perguntei.
- Bem, foram apenas oito - disse Cornell - mas a verdade é que ela nunca se cala! Parece estar imitando aqueles discursos de dez horas, que Castro costumava
fazer. É uma maldita flibusteira!
Oito pessoas. Não muitas, nem mesmo um número suficiente para preencher uma banca de jurados. Contudo, eu compreendia a preocupação que eles mostravam no
rosto.
Bastava tornar aquela gente a única e maior força política no supermercado, em especial agora que Dan e Mike não estavam mais ali. A idéia de que o maior
e único grupo em nosso fechado sistema estava ouvindo sua arenga sobre os abismos do inferno e os sete frascos sendo abertos, produzia em mim uma terrível sensação
de claustrofobia.
- Ela começou a falar sobre sacrifício humano outra vez - disse Amanda. - Bud Brown foi até lá e lhe disse para cessar com aquelas sandices em seu supermercado.
E dois homens que estão com ela - um deles era aquele Myron LaFleus - responderam que quem devia se calar era ele, porque este ainda era um país livre. Brown não
se calou, de modo que houve, um... bem, acho que você qualificaria de duelo pugilístico.
- Brown ficou com o nariz correndo sangue - disse Cornell. - Os dois falavam sério.
- Imagino que não a ponto de realmente matarem alguém - falei.
- Não sei até onde irão - disse Cornell suavemente - se este nevoeiro não subir. De qualquer modo, prefiro não saber. Pretendo dar o fora daqui.
- É mais fácil dizer do que fazer.
Contudo, algo começara a brotar em minha mente. Cheiro. Ali estava a chave. Havíamos ficado inteiramente a sós no supermercado. Os besouros poderiam ter sido
atraídos pela luz, como acontecia aos besouros mais comuns. As aves tinham simplesmente seguido seu suprimento alimentar. No entanto, as coisas de maior porte nos
tinham deixado em paz, a menos que nos mostrássemos a elas de algum modo. A carnificina na Farmácia Bridgton só ocorrera porque as portas haviam ficado escancaradas
- eu tinha certeza disso. A coisa ou coisas que tinham agarrado Norton e seu grupo, soavam tão grandes como uma casa, porém ela ou elas não haviam se aproximado
do supermercado. E isso significa que, talvez...
De repente, senti vontade de falar com Ollie Weeks. Precisava falar com ele.
- Pretendo sair daqui ou morrer na tentativa - disse Cornell. - Não projetei passar o resto do verão dentro deste supermercado.
- Já houve quatro suicídios - disse Amanda subitamente.
- Como?
A primeira coisa a me cruzar a mente, em um relance de quase culpa, foi que os corpos dos soldados tinham sido descobertos.
- Pílulas - disse Cornell, lacônico. - Eu e mais dois ou três sujeitos carregamos os corpos para os fundos do prédio.
Tive que sufocar um riso agudo. Estávamos ficando com um regular necrotério nos fundos do supermercado.
- O pessoal está diminuindo - disse Cornell. - Quero ir embora.
- Não conseguiria chegar a seu carro. Acredite em mim.
- Nem mesmo àquela primeira fila? Fica mais próxima do que a drugstore.
Não lhe dei resposta. Ainda não.
Cerca de uma hora mais tarde, encontrei Ollie saqueando a geladeira e bebendo uma Busch. Seu rosto era impassível, mas ele parecia vigiar a Sra. Carmody.
Aparentemente, ela era incansável e estava mesmo discutindo novamente a possibilidade do sacrifício humano, só que, agora, ninguém mais lhe dizia para calar-se.
Algumas das pessoas que, na véspera, a tinham mandado calar a boca, se agora não estavam do seu lado, pelo menos queriam ouvi-la - superando as restantes em número.
- É bem capaz dessa mulher ainda estar repisando o assunto amanhã de manhã - comentou Ollie. - Talvez não... mas se estiver, quem você acha que ela escolheria?
- Ouça, Ollie - falei. - Creio que talvez meia dúzia de nós consiga escapar daqui. Não sei até que distância chegaremos, mas acho que, pelo menos, poderíamos
sair.
- De que maneira?
Expus-lhe minha idéia. Era bastante simples. Se disparássemos até o meu Scout e entrássemos nele, as coisas não captariam nenhum cheiro humano. Pelo menos,
se permanecêssemos com os vidros das janelas fechados.
- E se os bicharocos forem atraídos por outro cheiro? - perguntou Ollie. O da fumaça da descarga, por exemplo.
- Nesse caso, estaremos fritos - concordei.
- O movimento - acrescentou Ollie. - Um carro se movendo através do nevoeiro também poderia atraí-los, David.
- Não acredito. Não haveria o cheiro de uma presa. Aliás, acho que este é o único jeito de sairmos daqui.
- Você não tem certeza.
- Claro que não.
- E para onde iria?
- Primeiro? Até em casa, apanhar minha esposa.
- David...
- Está bem. Verificar. Ter certeza.
- As coisas lá fora talvez estejam em toda parte. David. Podem capturá-lo, no minuto em que sair de seu Scout para a porta de sua casa.
- Se isso acontecer, o Scout é de vocês. Seu. Só lhe peço que cuide de Billy, o melhor que puder e enquanto puder.
Ollie terminou a sua Busch e deixou a lata cair de volta na geladeira, onde ela chocalhou entre as vazias. A coronha do revólver do marido de Amanda assomava
em seu bolso.
- Para o sul? - perguntou ele, encontrando meus olhos.
- Sim, eu iria para o sul. Vá para o sul e tente sair do nevoeiro. Tente o mais que puder.
- De quanta gasolina dispõe?
- Um tanque quase cheio.
- Já pensou que seria impossível sair?
Eu havia pensado. Supondo-se que o trabalho desenvolvido pelo Projeto Ponta de Flecha houvesse colocado toda aquela região em outra dimensão, tão facilmente
quando virar-se uma meia pelo avesso...
- Isso já me passou pela cabeça - respondi - mas a alternativa parece ser ficarmos aqui, esperando, para ver quem a Sra. Carmody escolhe para o posto de honra.
- Esteve pensando nisso para hoje?
- Não. Já é tarde e aquelas coisas ficam ativas à noite. Imagino que amanhã cedo seja uma boa hora.
- Quem gostaria de levar?
- Eu, você e Billy. Hattie Turman. Amanda Dumfries. Aquele velhote Cornell e a Sra. Reppler. Talvez Bud Brown também. São oito pessoas, mas Billy pode sentar-se
no colo de alguém e nos apertarmos no carro.
Ele refletiu na idéia.
- Está bem - disse por fim. - Vamos tentar. Já falou nisso a alguém mais?
- Não. Ainda não.
- Meu conselho seria para não falar, pelo menos, até manhã de manhã. Colocarei umas duas sacolas de mantimentos por baixo da registradora, no corredor mais
perto da porta. Se tivermos sorte, conseguiremos dar o fora, antes que alguém perceba o que está havendo. - Seus olhos vagaram novamente até a Sra. Carmody. - Se
ela souber, talvez tente impedir que saiamos.
- Você acha?
Ollie pegou outra cerveja.
- Acho - respondeu.
Naquela noite - a tarde de ontem - o tempo escoou-se em uma espécie de câmara lenta.
A escuridão esgueirou-se para o interior do supermercado, transformando o nevoeiro novamente naquela fosca tonalidade cromo. Qualquer mundo que restasse lá
fora, dissolveu-se lentamente para negro, por volta de vinte e trinta.
Os besouros rosados voltaram, depois as coisas-aves, arremetendo contra as vidraças e chocando-se nelas. Alguma coisa rugia ocasionalmente na escuridão e,
uma vez, pouco antes da meia-noite, houve um prolongado e rascante Aaaaarimrnm! que fez todos se voltarem amedrontados para o negrume exterior, como faces inquisitivas.
Era o tipo de som que se imaginaria proveniente de um gigantesco crocodilo em um pântano.
Tudo aconteceu justamente como Miller previra. Pela madrugada, a Sra. Carmody aliciara outra meia dúzia de almas. O açougueiro, Sr. McVey estava entre elas,
de pé, com os, braços cruzados, olhando para a velha.
A Sra. Carmody estava com a corda toda. Parecia insensível ao sono. Seu sermão, uma firme corrente de horrores à maneira de Doré, Bosch e Jonathan Edwards,
fluía e fluía, crescendo para algum clímax. Seu grupo começou a murmurar com ela, a oscilar inconscientemente de um lado para outro, como verdadeiros crentes em
uma tenda de despertar ao fervor religioso. Os olhos deles estavam vagos e brilhantes, dominados pelo fascínio daquela criatura.
Mais ou menos às três da madrugada (o sermão prosseguia incessantemente e os não interessados haviam recuado para os fundos do supermercado, procurando dormir
um pouco), vi Ollie colocar uma sacola de mantimentos em uma prateleira, debaixo do corredor de registradoras mais próximo da porta SAÍDA. Meia hora mais tarde,
ele colocou outra sacola ao lado da primeira. Ninguém pareceu perceber, exceto eu. Billy, Amanda e a Sra. Turman dormiam juntos, perto da vazia seção de frios sortidos.
Juntei-me a eles e mergulhei em um cochilo inquieto.
Às quatro e quinze, pelo meu relógio, Ollie veio acordar-me. Cornell estava com ele, os olhos brilhando muito, atrás dos óculos.
- Está na hora, Davi - avisou Ollie.
Uma cãibra nervosa envolveu meu estômago, depois passou. Acordei Amanda. Por minha mente passou a questão do que poderia acontecer, com Amanda e Stephanie
juntas no carro, mas foi algo passageiro. Hoje, seria melhor aceitar as coisas como nos vinham. Aqueles notáveis olhos verdes se abriram e fitaram os meus.
- David?
- Vamos arriscar-nos a sair daqui. Quer vir também?
- De que está falando?
Comecei a explicar, mas então acordei a Sra. Turman para falar tudo apenas uma vez, rapidamente.
- Sua teoria sobre o cheiro - disse Amanda. - A esta altura, é apenas uma dedução erudita, não?
- Exatamente.
- Não faz diferença para mim - declatou Hattie.
Seu rosto estava pálido e, a despeito do sono que dormira, havia grandes manchas descoloridas sob os olhos.
- Eu faria qualquer coisa - continuou ela - assumiria quaisquer riscos, só para ver o sol outra vez.
Só para ver o sol outra vez. Fui percorrido por ligeiro calafrio. Ela colocara o dedo em um ponto muito perto do centro de meus próprios medos, sobre o senso
de quase antecipada ruína que me invadira, desde que tinha visto Norm ser arrastado através da porta de descarga de mercadorias. Era possível vislumbrar-se o sol
através do nevoeiro, como uma pequena moeda de prata. Parecia Vênus.
Não era tanto pelas criaturas monstruosas que cambaleavam no nevoeiro; minha defesa com a alavanca revelara que elas não eram nenhum horror Lovecraftiano
com vida imortal, mas sempre seres orgânicos, com suas próprias vulnerabilidades. Tratava-se do nevoeiro em si, que sabotava a força e roubava a vontade. Só para
ver o sol outra vez.
Ela estava certa. Apenas isso, merecia que se atravessasse não um, mas vários infernos.
Sorri para Hattie e ela tentou devolver-me o sorriso.
- Muito bem - disse Amanda - eu quero ir.
Comecei a despertar Billy, o mais delicadamente que pude.
- Estou com você - declarou brevemente a Sra. Reppler.
Estávamos todos juntos, perto do balcão de carnes, exceto pela ausência de Bud Brown.
Ele nos agradecera o convite e o declinara. Não deixaria seu posto no supermercado, alegou, mas acrescentando, em um tom de voz incrivelmente gentil, que
não censurava Ollie por querer ir.
Um aroma desagradável e adocicado começava agora a irradiar-se do recipiente de esmalte branco, um cheiro que me fez recordar a época em que nosso freezer
ficou avariado, quando passávamos uma semana no Cape. Achei que talvez o cheiro de carne estragando-se é que atraíra o Sr. McVey para o time da Sra. Carmody.
- ... expiação! E sobre a expiação que vamos pensar agora! Fomos flagelados com chicotes e escorpiões! Temos sido punidos por penetrar-mos em segredos proibidos
pelos mestres dos velhos tempos! Vimos os lábios da terra se abrirem! Vimos tais obscenidades de pesadelo! A rocha não os esconderá, a árvore morta não lhes dará
abrigo! E como isto terminará? Como será detido?
- Expiação! - gritou o bom e velho Myron LaFleur.
- Expiação... expiação... - sussuraram eles, indecisos.
- Quero ouvir vocês dizerem isso com toda a sinceridade! - bradou a Sra. Carmody.
As veias sobressaiam em seu pescoço, como cordões salientes. Sua voz agora era rouca e cacarejante, mas ainda cheia de vigor. Ocorreu-me que o nevoeiro é
que lhe transmitira esse vigor - o poder para anuviar as mentes das pessoas, para fazer um jogo de palavras particularmente adequado - assim como tinha tomado do
restante de nós o poder do sol. Antes, ela não passava de uma velha mais ou menos excêntrica, com uma loja de antiguidades em uma cidade cheia de lojas de antiguidades.
Nada mais que uma velha, com alguns animais empalhados no aposento dos fundos e uma reputação de (aquela feiticeira... aquela cadela!) entendida em medicina popular.
Dizia-se que ela podia encontrar água com uma forquilha de macieira, que fazia verrugas caírem e vendia um creme capaz de transformar sardas em sombras do que tinham
sido. Eu inclusive ouvira - seria do velho Bill Giosti? - que a Sra. Carmody podia ser procurada (mantendo o máximo sigilo) para conselhos sobre a vida amorosa de
uma pessoa; que quando alguém estava tendo dificuldades no quarto de dormir, podia conseguir com ela uma beberagem e tudo voltava a funcionar a contento.
- EXPIAÇÃO! - gritaram todos, um uníssono.
- Expiação, eis a palavra! - gritou ela, delirantemente. - É a expiação que fará esse neivoeiro desaparecer! A expiação que afastará esses monstros e abominações!
A expiação fará com que as escamas do nevoeiro caiam de nossos olhos, permitindo que enxerguemos! - Sua voz baixou um grau. - E o que é a expiação, segundo a Bíblia?
Qual é o cínico purificador do pecado, diante dos Olhos e da Mente de Deus?
- O sangue!
Desta vez, o calafrio sacudiu-me o corpo inteiro, aninhando-se na nuca e me eriçando os cabelos. O Sr. McVey é que dissera aquilo, o Sr. McVey, o açougueiro
que estivera cortando carne em Bridgton, desde que eu era uma criança, segurando a mão talentosa de meu pai. O Sr. McVey, recebendo pedidos e cortando carnes, em
suas roupas brancas, manchadas de sangue. O Sr. McVey, cuja intimidade com a faca era longa - sim, e também com a serra e o cutelo. O Sr. McVey que, melhor do que
ninguém, compreenderia que a limpeza da alma flui dos ferimentos do corpo.
- Sangue... - sussurraram eles.
- Estou com medo, papai - disse Billy.
Estava segurando minha mão apertadamente, tinha o rostinho tenso e pálido.
- Ollie - falei - por que não damos o fora desta arca de doidos?
- Certo - disse ele. - Vamos.
Começamos a descer pelo segundo corredor, em um grupo disperso - Ollie, Amanda, Cornell, a Sra. Turman, a Sra. Reppler, Billy e eu. Faltavam quinze minutos
para as cinco da manhã e o nevoeiro começava a clarear novamente.
- Você e Cornell, peguem as sacas de mantimentos - disse Ollie.
- Está bem - respondi.
- Eu irei na frente. Seu Scout é um quatro portas, não?
- Isso mesmo.
- Okai, vou abrir a porta do motorista e a traseira do mesmo lado. Pode carregar Billy, Sra. Dumfries?
Ela o pegou no colo.
- Sou muito pesado? - perguntou Billy.
- Não, meu bem.
- Que bom!
- A senhora e Billy vão no banco dianteiro - prosseguir Ollie. - Abra caminho. A Sra. Turman também no dianteiro, no meio. David, você fica atrás do volante.
E nós, os restantes...
- Aonde vocês pensam que vão?
Era a Sra. Carmody.
Estava parada à cabeceira do corredor da caixa registradora onde Ollie havia escondido as sacolas de mantimentos. Seu terninho era um berro amarelo na penumbra.
Os cabelos frisados espalhavam-se desalinhadamente em todas as direções, por um momento fazendo-me recordar Elsa Lanchester, em A Noiva de Frankenstein. Seus olhos
chamejavam. Dez ou quinze pessoas, postadas atrás dela, bloqueavam as portas ENTRADA e SAÍDA. Todas tinham a aparência de quem esteve em um acidente de carro, viu
um disco-voador pousar ou uma árvore arrancar as raízes do solo e sair andando.
Billy encolheu-se contra Amanda, enterrando o rosto em seu pescoço.
- Vamos sair, Sra. Carmody - disse Ollie, em voz curiosamente gentil. Afaste-se, por favor.
- Vocês não podem sair! Se saírem, é morte certa! Já devia saber disso, não?
- Ninguém se meteu com a senhora - respondi. - Queremos apenas o mesmo privilégio.
Abaixando-se, ela descobriu os mantimentos, sem a menor vacilação. Devia saber o que planejávamos, o tempo todo. Puxou as sacolas da prateleira em que Ollie
as colocara.
Uma se rasgou, espalhando latas pelo solo. A Sra. Carmody atirou a outra ao chão e ela se escancarou, com o som de vidro se quebrando. Havia soda esguichando
para todos os lados e sobre as partes cromadas frontais do corredor de registradoras seguinte.
- Aqui temos o tipo de pessoas que atraíram isto! - gritou ela. - Pessoas que não se dobram à vontade do Todo-Poderoso! Pecadores orgulhosos, arrogantes que
são, além de obstinados! É dentre eles que deve vir o sacrifício! Dentre eles virá o sangue da expiação!
Um crescente murmúrio de assentimento a espicaçou. Ela agora estava frenética. A saliva saltava de seus lábios, enquanto gritava para os que se amontoavam
às suas costas:
- É o menino que queremos! Peguem-no! É o menino que queremos!
O grupo avançou, com Myron LaFleur à testa, de olhos opacamente jubilosos. O Sr. McVey estava logo atrás dele, o rosto inexpressivo e impassível.
Amanda recuou, cambaleante, apertando Billy ainda com mais força. Os braços dele estavam enrolados em seu pescoço. Ela olhou para mim, aterrorizada.
- David, o que eu...
- Peguem os dois! - gritou a Sra. Carmody. - Peguem essa prostituta também!
Ela era um apocalipse de amarelo e sombria alegria. Ainda mantinha a bolsa debaixo do braço. Começou a saltitar.
- Peguem o menino, peguem a prostituta, peguem os dois, peguem-nos, peguem...
Houve o súbito clangor de um disparo.
Tudo se congelou, como se fôssemos uma classe de alunos descontrolados e o professor tivesse acabado de chegar, batendo a porta com estronto. Myron LaFleur
e o Sr. McVey estacaram de repente, a cerca de dez passos de distância. Myron se virou, olhando duvidosamente para seu companheiro. O açougueiro não o percebeu,
aliás, não parecia perceber a presença de LaFleur. O Sr. McVey tinha uma expressão que eu já vira em inúmeros outros rostos, naqueles últimos dois dias. Ele não
era mais a mesma pessoa.
Sua mente se estiolara.
Myron agora fitava Ollie Weeks, com olhos arregalados e temerosos. Então, começou a correr. Dobrou a quina do corredor, tropeçou em uma lata, caiu, conseguiu
levantar-se e desapareceu de vista.
Ollie permanecia na clássica posição do atirador, com a arma de Amanda aferrada nas duas mãos. A Sra. Carmody ainda continuava na cabeceira do corredor da
registradora.
Tinha as duas mãos, salpicadas de manchas hepáticas, apertando o estômago. O sangue fluiu por entre seus dedos, manchando-lhe as calças compridas amarelas.
Ela abriu e fechou a boca. Uma vez. Duas vezes. Estava querendo falar. Por fim, conseguiu.
- Todos vocês morrerão lá fora! - disse, e então descambou lentamente para diante.
A bolsa escorregou-lhe do braço, bateu no chão e espalhou o seu conteúdo. Um tubo com papel enrolado saiu rolando pelo chão e veio se chocar contra um de
meus sapatos. Sem pensar, abaixei-me e apanhei-o. Era um rolo de papel sanitário, já pela metade. Joguei-o para o chão outra vez. Não queria tocar em nada que houvesse
pertencido a ela.
A "congregação" começava a debandar, dispersando-se, após eliminado o seu foco.
Nenhum dos membros afastava os olhos da figura caída e do sangue escuro que começava a espalhar-se de baixo de seu corpo.
- Vocês a assassinaram! - gritou alguém, com medo e raiva.
Entretanto, ninguém apontava que ela estivera planejando algo similar contra meu filho.
Ollie permanecia imóvel em sua posição de atirador, mas agora sua boca tremia. Toquei nele de leve.
- Vamos, Ollie. E obrigado.
- Eu a matei - disse ele, em voz rouca. - Não tinha saída!
- Sim - assenti. - Foi isso que lhe agradeci. Agora, vamos!
Pusemo-nos em movimento novamente.
Sem mantimentos para levar - graças à Sra. Carmody - fui capaz de carregar Billy.
Paramos um instante à porta.
- Eu não atiraria nela - disse Ollie, em voz grave e contida. - Não, se houvesse qualquer outra alternativa.
- Eu sei.
- Acredita em mim, não?
- Claro que acredito.
- Então, vamos embora.
Saímos do supermercado.

XI. O fim

Ollie se moveu depressa, empunhando a arma na mão direita. Antes que eu e Billy houvéssemos cruzado a porta do supermercado, ele já estava em meu Scout, um
Ollie insubstancial, como um fantasma em uma tela de televisão. Abriu a porta do motorista.
Depois a traseira. Então, algo brotou do nevoeiro e quase o cortou pelo meio.
Não consegui ver bem o que seria e fico satisfeito por isso. Parecia algo vermelho, da irada tonalidade de uma lagosta cozida. Tinha garras. Emitia um grunhido
surdo, não muito diferente do som que ouvíramos após a saída de Norton e seu pequeno grupo de Terrestres Estagnados.
Ollie chegou a disparar um tiro, mas então as garras de coisa continuaram apertando como tesouras e o corpo dele pareceu desmantelar-se, em um terrível jato
de sangue. A arma de Amanda lhe caiu da mão, bateu no pavimento e disparou. Tive um demoníaco relance de enormes olhos negros e opacos, do tamanho de bagas marinhas,
e então a coisa cambaleou de volta ao nevoeiro, com o que restara de Ollie Weeks em suas garras.
Um corpo alongado e multissegmentado de escorpião rastejou pesadamente no pavimento.
Houve um instante de escolhas. Talvez sempre haja, por breve que seja. Metade de mim queria correr de volta para o supermercado, levando Billy apertado contra
meu peito. A outra metade corria para o Scout, jogava Billy em seu interior e mergulhava após ele.
Então, Amanda gritou. Era um grito agudo, um som em crescendo, que parecia espiralar para o alto, até quase se tornar ultra-sônico. Billy agarrou-se a mim,
enterrando o rosto em meu peito.
Uma das aranhas pegara Hattie Turman. Aquela era das grandes e a derrubara. O vestido foi puxado acima de seus joelhos escanifrados, quando o bicharoco se
agachou sobre ela, as pernas espinhosas e eriçadas acariciando-lhe os ombros. Em seguida, a aranha começou a fiar sua teia.
A Sra. Carmody tinha razão, pensei. Vamos morrer aqui fora, vamos realmente morrer aqui fora.
- Amanda! - gritei.
Não houve resposta. Ela estava fora de si. A aranha cavalgou o que sobrara da baby- sitter de Billy, uma mulher que apreciava decifrar enigmas e quebra cabeças,
aquelas malditas charadas que nenhuma pessoa normal conseguia fazer sem ficar biruta. Os fios lhe entrecruzaram o corpo, os cordões alvos já se avermelhando, à medida
que o envoltório ácido afundava nela.
Cornell recuava lentamente para o supermercado, os olhos tão avantajados como pratos de jantar, atrás dos óculos. De repente, deu meia volta e correu. Agarrou-se
à porta ENTRADA, conseguiu abri-la e precipitou-se para o interior.
A cisão em minha mente se fechou, quando a Sra. Reppler avançou vivamente e esbofeteou Amanda, primeiro de mão aberta, depois com o dorso da mão. Amanda parou
de gritar. Corri para ela, obriguei-a a virar-se para onde estava o Scout e gritei "VENHA!" em seu rosto.
Ela foi. A Sra. Reppler passou rente a mim. Empurrou Amanda para o assento traseiro do Scout, entrou depois dela e bateu a porta violentamente.
Desprendi-me de Billy e o joguei dentro do carro. Quando entrei também, um daqueles fios de aranha esvoaçou e pousou em meu tornozelo. Queimava como uma linha
de pesca puxada rapidamente por entre os dedos fechados. Era uma queimadura ainda mais forte. Dei um forte puxão no pé e o fio se quebrou. Deslizei para trás do
volante.
- Feche, feche essa porta, pelo amor de Deus! - gritou Amanda.
Bati a porta. Apenas um segundo depois, uma das aranhas se chocou maciamente contra ela. Fiquei a centímetros apenas de seus olhos vermelhos, malevolamente
estúpidos.
Suas pernas, da grossura de meu punho, escorregavam de um lado para outro sobre o teto quadrado do carro. Amanda gritava incessantemente, como uma sirene
de incêndios.
- Cale essa boca, mulher! - disse-lhe a Sra. Reppler.
A aranha desistiu. Não sentia mais nosso cheiro, logo, não estávamos mais ali. Trotou de volta para o nevoeiro, sobre seu incrível número de pernas, transformou-se
em fantasma e depois desapareceu.
Espiei pela janela, a fim de certificar-me de que ela se fora, e então abri a porta.
- O que está fazendo? - gritou Amanda.
Eu sabia o que fazia. Gostava de pensar que Ollie teria feito exatamente o mesmo. Dei um meio passo, inclinei-me para fora e apanhei a arma. Algo avançou
a toda pressa na minha direção, mas nem cheguei a ver o que era. Joguei-me novamente dentro do carro e bati a porta.
Amanda começou a soluçar. A Sra. Reppler passou um braço em torno dela e a confortou animadamente.
- Nós vamos para casa, papai? - perguntou Billy.
- Tentaremos ir, Grande Bill.
- Está bem - disse ele, quietamente.
Examinei a arma, depois a coloquei no porta-luvas. Ollie a recarregara após a expedição à drugstore. O restante da munição se fora com ele, mas o que eu tinha
era suficiente.
Ele atirara na Sra. Carmody, depois atirara contra a coisa de garras e, ao se chocar no chão, a arma disparara uma vez. Éramos quatro no Scoút, mas se a situação
chegasse a extremos, eu encontraria um meio de acabar comigo.
Passei por um momento terrível, quando não conseguia encontrar meu chaveiro.
Verifiquei em todos os bolsos, fiquei de mãos vazias e então tornei a checá-los, forçando-me a agir devagar e com calma. Encontrei as chaves no bolso da calça;
tinham ficado debaixo das moedas, como às vezes acontece. O Scout pegou sem dificuldade.
Ao ouvir o consolador rugido do motor, Amanda tornou a desfazer-se em lágrimas.
Fiquei quieto, ouvindo o motor, querendo ver o que seria atraído por aquele som ou pelo cheiro expulso no cano de descarga. Cinco minutos, os cinco minutos
mais longos de minha vida, escoaram-se lentamente. Nada aconteceu.
- Vamos ficar aqui parados ou vamos em frente? - perguntou a Sra. Reppler afinal.
- Vamos em frente - respondi.
Manobrei para sair da vaga e deixei os faróis baixos. Algum impulso - provavelmente um impulso básico - me levou a passar o mais rente que pude pelo Supermercado
Federal. O lado direito do pára-choque do Scout empurrou o recipiente de lixo para um lado. Era impossível ver o que acontecia lá dentro, exceto através das vigias
- todos aqueles sacos de fertilizante e adubo para jardim faziam o lugar dar a impressão de estar no auge de alguma louca liquidação de jardinagem - mas em cada
vigia havia dois ou três rostos pálidos, espiando para nós.
Depois guinei para a esquerda e o nevoeiro se fechou impenetravelmente atrás de nós. E o que foi feito daquelas pessoas, eu não sei dizer.
Dirigi de volta à Estrada Kansas, a oito quilômetros por hora, tateando meu caminho.
Mesmo com os faróis do Scout acesos, era impossível enxergar mais do que dois ou três metros à frente.
A terra havia sofrido alguma terrível contorção. Miller estivera certo quanto a isso. Em alguns pontos, a estrada estava apenas rachada, mas em outros, o
chão parecia ter sido escavado, erguendo grandes lajes de pavimentação. Consegui ir em frente, graças à tração nas quatro rodas. E também graças a Deus. Ainda assim,
sentia um medo terrível de deparar com algum obstáculo que nem mesmo o Scout conseguisse transpor.
Levei quarenta minutos para um trajeto que geralmente exigia apenas sete ou oito. Por fim, o indicador apontando nossa estrada particular brotou do meio do
nevoeiro.
Despertado faltando quinze minutos para as cinco, Billy caíra profundamente adormecido dentro daquele carro que conhecia tão bem e que devia ter-lhe parecido
o lar. Amanda olhava nervosamente.
- Vai mesmo descer até lá?- perguntou ela.
- Tentarei - respondi.
Contudo, era impossível. A tempestade que se desencadeara havia afrouxado as raízes de inúmeras árvores, e aquela ladeira íngreme, torcida, terminara o serviço
de derrubá-las.
Consegui rodar sobre as duas primeiras, razoavelmente pequenas. A seguir, cheguei a um robusto e velho pinheiro, atravessado na estrada, como uma barricada
contra foragidos. Faltava quase meio quilômetro para chegar até a casa. Billy dormia a meu lado, e então deixei o Scout parado, de motor ligado, enquanto punha as
mãos sobre os olhos e refletia no que fazer em seguida.
Agora, sentado no Howard Johnson's, perto da Saída 3 da auto-estrada para o Maine, escrevendo tudo isto em papel de cartas, desconfio que a Sra. Reppler,
essa velhota durona e capaz, poderia ter registrado a futilidade essencial da situação em apenas alguns rabiscos rápidos. No entanto, ela teve a gentileza de permitir
que eu mesmo cuidasse disso.
Eu não podia sair. Não podia abandoná-los. Nem podia tentar convencer-me de que todos os monstros de filme de terror haviam ficado para trás, junto ao Federal.
Quando baixei o vidro da janela - apenas uma fresta - pude ouvi-los no matagal, andando de um lado para outro e entrechocando-se pela íngreme faixa de terra a que,
por estas bandas, dão o nome de Ledges, isto é, Recifes. A umidade gotejava das folhas mais altas, sem cessar. Acima de nós, o nevoeiro escurecia momentaneamente,
quando algum bicharoco de pesadelo, semelhante a um animado papagaio de empinar, sobrevoava o Scout.
Tentei dizer a mim mesmo - lá e agora - que se ela agisse com a máxima rapidez, fechando a casa consigo mesma no interior, teria alimentos suficentes para
dez dias a duas semanas. Não é grande consolo. O que persiste em minha memória é a última lembrança dela, usando o frouxo chapéu contra o sol e suas luvas de jardinagem,
a caminho de nossa pequena horta, com o nevoeiro rolando inexoravelmente através do lago, mais atrás.
É em Billy que tenho de pensar agora. Billy, digo para mim mesmo. Grande Bill, Grande Bill... Eu devia escrever isto umas cem vezes nesta folha de papel,
como uma criança condenada a escrever Não atirarei bolas de papel durante a aula, enquanto a ensolarada quietude das três horas se derrama através das janelas e
a professora corrige deveres de casa em sua mesa, o único som ouvido sendo o de sua pena e, em algum lugar muito distante, o de garotos selecionando equipes para
uma partida de beisebol.
De qualquer modo, por fim fiz o único que me era possível. Manobrei o Scout cautelosamente e retornei à Estrada Kansas. Então, chorei.
Amanda tocou meu ombro, timidamente.
- Oh, David, sinto tanto... - disse ela.
- Hum - respondi, tentando conter as lágrimas, sem muito êxito. - Hum... eu também.
Dirigi para a Estrada 302 e dobrei à esquerda, em direção a Portland. Também esta estrada estava rachada e afundada em vários pontos mas, no todo, seu estado
era melhor do que o da Kansas. Minha preocupação eram as pontes. A superfície do Maine é recortada por água corrente, de maneira que há pontes por toda parte, pequenas
e grandes. Entretanto, o Dique Naples estava intato e, a partir de lá, seria fácil - embora lento - seguir todo o trajeto até Portland.
O nevoeiro continuava espesso. Precisei parar uma vez, pensando que havia árvores atravessadas na estrada. Então, as árvores começaram a mover-se e ondular,
fazendo-me compreender que eram mais tentáculos. Fiz alto e, após algum tempo, eles recuaram.
Em outra ocasião, uma enorme coisa verde, com um corpo verde e iridescente, provida de compridas asas transparentes, pousou no capô do carro. Parecia uma
libélula incrivelmente disforme. Ficou ali um instante, depois tornou a alçar vôo e se foi.
Billy acordou cerca de duas horas após termos deixado a Estrada Kansas, e perguntou se ainda não tínhamos apanhado sua mãe. Falei-lhe que eu não conseguira
descer até a nossa estrada, por causa das árvores caídas.
- Ela está bem, papai?
- Eu não sei, Billy, mas vamos voltar lá e saber.
Ele não chorou. Em vez disto, tornou a dormir. Eu preferiria vê-to debulhar-se em lágrimas. Billy estava dormindo demais e isso não me agradava nem um pouco.
Comecei a ficar com dor de cabeça, devido à tensão. Continuava dirigindo através do nevoeiro, entre oito a quinze quilômetros por hora, e havia a tensão de
saber que qualquer coisa podia brotar dele, tudo, afinal - uma erosão, desmoronamento ou Hidra, o Monstro de Três Cabeças. Penso que rezei. Pedi a Deus que Stephanie
estivesse viva e que Ele não lançasse meu adultério contra ela. Pedi a Deus que me permitisse levar Billy à segurança, porque ele já sofrera tanto.
A maioria das pessoas estacionara no acostamento, quando da chegada do nevoeiro e, por volta de meio-dia, estávamos em North Windham. Experimentei a Estrada
do Rio, mas cerca de seis quilômetros além, uma ponte cruzando um pequeno e ruidoso rio, havia caído na água. Tive que voltar atrás por quase quilômetro e meio,
em marcha à ré, antes de encontrar um lugar com espaço suficiente para manobrar. Afinal, seguimos para Portland pela Estrada 302.
Chegando lá, peguei o desvio para o pedágio. A ordenada fila de cabines guardando o acesso, havia sido transformada em esqueletos de olhos vazados, em Pola-Glas
amassado. Estavam todas vazias. Na porta deslizante de vidro de uma delas, havia um blusão rasgado, com a inscrição Jurisdição da Auto-estrada Maine, pregada nas
mangas. Estava encharcado de sangue seco. Desde que havíamos deixado o Federal, ainda não tínhamos visto uma única pessoa viva.
- Tente seu rádio, Davi - disse a Sra. Reppler.
Bati na testa, irado e frustrado comigo mesmo, perguntando-me como havia sido tão imbecil, a ponto de esquecer o AM/FM do Scout por tanto tempo.
- Não fique assim - disse a Sra. Reppler, abruptamente. - Você não pode pensar em tudo. Se quiser fazer tudo, acabará doido e isso não adiantaria nada.
Nada consegui, além de guinchos de estática em toda a faixa AM. A FM nada revelou, além de profundo e agourento silêncio.
- Isto significa que todas as estações estão fora do ar? - perguntou Amanda.
Eu sabia o que ela pensava. No momento, estávamos bem para o sul, deveríamos estar pegando uma seleção das potentes estações de Boston, como a WRKO, WBL e
WMEX.
No entanto, se nada havia em Boston...
- Isto não significa coisa alguma com segurança - falei. - Essa estática na faixa AM é pura interferência. O nevoeiro está também provocando um efeito amortecedor
nos sinais de rádio.
- Tem certeza de que é só isso?
- Tenho - respondi, de maneira alguma convicto.
Seguimos para o sul. Os marcos rodoviários passavam por nós, em contagem decrescente a partir de quarenta. Quando chegássemos ao Quilômetro 1, estaríamos
na divisa de New Hampshire. O trajeto até o pedágio foi mais lento; muitos motoristas não tinham querido desistir, de modo que havia colisões de traseiras em vários
lugares.
Foram inúmeras as vezes em que precisei usar a faixa central.
Mais ou menos a uma e vinte da tarde - eu começava a ficar com fome - Billy agarrou meu braço.
- Papai, o que é aquilo? O que é aquilo?
Uma sombra destacou-se do nevoeiro, manchando-o de escuro. Era alta como um penhasco e vinha direta para nós. Pisei nos freios. Amanda estivera cochilando
e foi atirada para diante.
Algo chegou. Novamente, é só o que posso afirmar com segurança. Talvez fosse porque o nevoeiro só permitia que víssemos coisas de relance, mas creio ser também
provável a existência de certas coisas que nosso cérebro simplesmente rejeita. Existem coisas de tanta fealdade e horror - suponho que assim como existem coisas
de tanta beleza e lirismo - que elas não conseguem cruzar as insignificantes portas da percepção humana.
Tinha seis pernas, disso estou certo; sua pele era cor de chumbo, salpicada de marrom escuro.
Aquelas manchas castanhas me faziam absurdamente recordar as manchas hepáticas nas mãos da Sra. Carmody. A pele da coisa era profundamente enrugada e sulcada;
pendentes e aderentes a ela havia multidões, centenas daqueles "besouros" rosados, com olhos na ponta de talos. Não posso avaliar ao certo qual o seu tamanho, porém
o bicharoco passou diretamente sobre nós. Uma de suas pernas enrugadas e cinzentas bateu bem ao lado de minha janela. Mais tarde, a Sra. Reppler comentou que não
conseguira ver a parte inferior de seu corpo, embora espichasse o pescoço para olhar. Viu apenas duas pernas ciclópicas, que subiam e se perdiam dentro do nevoeiro,
como torres animadas, até desaparecerem.
No momento em que a coisa ficou acima do Scout, tive a impressão de algo tão grande, que faria uma baleia azul parecer do tamanho de uma truta - em outras
palavras, algo tão grande, que desafiava a imaginação. Depois ela se foi, deixando em sua esteira uma série de baques sismológicos, cujos ecos chegavam até nós.
A criatura deixou pegadas no asfalto da Interestadual, pegadas tão fundas, que eu não conseguia ver-lhes o final interior. E cada pegada era quase grande o suficiente
para que o Sccut afundasse nela.
Por um momento, ninguém falou. Não havia outro som além de nossa respiração e do baque distanciado, indicando a passagem da grande Coisa.
- Era um dinossauro, papai? - perguntou Billy. - Como aquela ave que entrou no supermercado?
- Não acredito que fosse. Acho mesmo que nunca existiu um animal tão grande assim, Billy. Pelo menos, aqui na terra.
Tornei a pensar no Projeto Ponta de Flecha e novamente me perguntei que loucas e malditas coisas eles poderiam ter feito por lá.
- Podemos continuar? - perguntou Amanda timidamente. - Essa coisa talvez volte.
Sim, e talvez houvesse outras à frente. Entretanto, de nada adiantava dizer isso.
Tínhamos que ir a algum lugar. Segui em frente, rodando em ziguezagues, esquivando-me daquelas terríveis pegadas, até elas abandonarem a estrada.
Foi o que aconteceu. Ou, quase tudo o que aconteceu - há um ponto final, ao qual logo chegarei. Entretanto, não vá você esperar alguma conclusão viável. Nada
de E eles escaparam do nevoeiro, penetrando no bom calor do sol de um novo dia; ou Quando acordamos, finalmente a Guarda Nacional havia chegado; ou, até mesmo o
grande e velho chavão: Foi tudo um sonho!.
Suponho que seja o que meu pai costumava chamar, franzindo o cenho, "um final à Alfred Hitchcok", com isto querendo indicar uma conclusão em ambiguidade,
permitindo que o leitor ou espectador formule a própria opinião sobre como tudo terminou. Meu pai nutria apenas desdém por tais histórias, qualificando-as de "matéria
barata".
Chegamos a este Howard Johnson's, perto da Saída 3, quando o crespúsculo começou a ganhar corpo, transformando o ato de dirigir um carro um risco suicida.
Antes disso, fizemos uma tentativa na ponte que cruza o Rio Saco. Estava bastante retorcida e disforme, porém, em meio ao nevoeiro, era impossível dizer se o estrago
era ou não total. Vencemos esse particular jogo.
Contudo, há o amanhã para se pensar, não é?
Enquanto escrevo isto, faltando quinze minutos para uma da madrugada de vinte e três de julho, recordo que a tempestade parecendo indicar o início de tudo
quanto ocorreu, foi há apenas quatro dias. Billy está dormindo no saguão, em um colchão que arrastei até lá para ele. Amanda e a Sra. Reppler estão por perto. Escrevo
à luz de uma grande lanterna Delco e, lá fora, os besouros cor-de-rosa beliscam e tropeçam nas vidraças. De vez em quando ouvimos um baque mais alto, como quando
uma das aves alça vôo.
O Scout tem gasolina suficiente para carregar-nos por outros cento e quarenta e cinco quilômetros. A alternativa é tentar arranjar combustível aqui; há um
posto Exxon que serve à ilha e, embora não havendo energia elétrica, acho que posso transferir um pouco para o tanque do carro, extraindo-o por meio de um sifão.
Entretanto...
Entretanto isto significa ter de ir lá fora.
Se conseguirmos gasolina - aqui ou mais adiante - continuaremos rodando. Agora tenho um destino em mente, compreenda. É a última coisa que eu lhe queria contar.
Eu não tinha certeza. Eis aí a coisa, a maldita coisa. Poderia ter sido imaginação minha, apenas um desejo de realização. Mesmo em caso contrário, é uma demorada
chance.
Quantos quilômetros mais? Quantas pontes? Quantas coisas mais adorando dilacerar meu filho e devorá-lo, mesmo que ele grite de terror e agonia?
As chances são tão boas, que não passavam de um devaneio, algo que não contei aos outros... pelo menos por enquanto.
No apartamento do gerente, encontrei um grande rádio de várias faixas, funcionando com bateria. De sua parte traseira sai uma antena achatada, atravessando
a janela. Liguei o rádio, virei o botão para BAT., percorri o mostrador, girei várias vezes o botão seletor de faixas e ainda nada consegui, além de estática ou
silêncio total.
Então, no último extremo da faixa AM, justamente quando já ia girar o botão de desligar, pensei ter ouvido - ou sonhei ter ouvido - uma única palavra.
Não houve mais nada. Fiquei ouvindo por uma hora, porém nada aconteceu. Se houvesse aquela única palavra, ela chegou através de alguma fenda mínima no nevoeiro
úmido; uma passagem infinitesinal, que imediatamente se fechou outra vez.
Uma palavra.
Preciso dormir um pouco... se puder dormir, em vez de ser assombrado até o amanhecer pelos rostos de Ollie Weeks, da Sra. Carmody e de Norm, o rapaz embalador...
ou pelo rosto de Steff, meio sombreado pela aba larga de seu chapéu contra o sol.
Há um restaurante aqui, um típico restaurante Hojo, com refeitório e um comprido balcão para almoço, em forma de ferradura. Deixarei estas páginas em cima
do balcão e, um dia, talvez alguém as encontre e as leia.
Uma palavra.
Se apenas eu a tivesse ouvido realmente... Se apenas...
Vou agora para a cama. Entretanto, primeiro quero beijar meu filho e sussurar duas palavras em seu ouvido. Contra os sonhos que possam surgir, sabe como é.
Duas palavras que soam um pouco parecidas. Uma delas é Hartford. A outra é hope - esperança.

* * *



O PROCESSADOR DE PALAVRAS DOS DEUSES

A primeira vista, aquilo parecia um processador de palavras Wang - possuía teclado Wang e armação Wang. Só após observar melhor, Richard Hagstrom viu que
a armação havia sido cortada e aberta (e não cuidadosamente, pois lhe parecia que o serviço fora feito com uma lâmina de serra para metais), a fim de admitir um
tubo de raios catódicos IBM, ligeiramente maior. Os discos de arquivo que tinham vindo com aquele singular híbrido nada tinham de moles; eram tão duros como os de
45 rotações, que Richard ouvira em criança.
- Em nome de Deus, o que é isso?
Lina fizera a pergunta quando ele e o Sr. Nordhoff o levaram para seu estúdio, peça por peça. O Sr. Nordhoff morava na casa vizinha à da família do irmão
de Richard Hagstrom... Roger, Belinda e seu filho Jonathan.
- É qualquer coisa que Jon fabricou - disse Richard. - Segundo o Sr. Nordhoff, ele queria que eu ficasse com o aparelho. Parece um processador de palavras.
- Oh, sim - disse o Sr. Nordhoff. Ele não tornaria a ver os sessenta anos novamente e seu fôlego não andava bem. - Foi o que ele disse, o pobre garoto...
Será que podíamos largá-lo por um minuto, Sr. Hagstrom? Estou bufando.
- Claro - disse Richard.
Chamou seu filho, Seth, que dedilhava estranhos e atonais acordes de sua guitarra Fender, no andar de baixo - no aposento que Richard imaginara uma "sala
da família", ao apainelá-lo, mas que acabara se tornando a "sala de ensaios" de seu filho.
- Seth! - gritou. - Venha cá dar uma mãozinha!
No andar debaixo, Seth continuou extraindo acordes da Fender. Richard olhou para o Sr. Nordhoff e deu de ombros, envergonhado e incapaz de disfarçar o que
sentia.
Nordhoff também deu de ombros, como se dissesse Garotos! O que se pode esperar de melhor deles, hoje em dia? Contudo, ambos sabiam que Jon - o pobre e condenado
Jon Hagstrom, filho de seu louco irmão - havia sido melhor.
- Foi muita bondade sua em ajudar-me com isto - disse Richard.
Nordhoff deu de ombros.
- O que mais um velho tem a fazer com seu tempo? Penso que foi a última coisa que podia, pelo menos, fazer por Jonny. Sabe que ele costumava cortar de graça
o meu gramado? Eu queria pagar, mas ele nunca aceitava. Era um grande garoto. - Nordhoff ainda estava sem fôlego. - Poderia arranjar-me um copo d'água, Sr. Hagstrom?
- Naturalmente. - Ele mesmo apanhou a água, ao ver que sua esposa não se movia da mesa da cozinha, onde lia um enxovalhado livro de bolso e comia um biscoito.
- Seth! - ele gritou de novo. - Venha cá e nos ajude, está bem?
Não obstante, Seth continuou tocando amortecidos e bem dissonantes acordes na Fender que Richard ainda estava pagando.
Ele convidou Nordhoff a ficar para o jantar, porém o velho recusou polidamente.
Richard assentiu, de novo embaraçado, talvez agora disfarçando um pouco melhor. O que um cara legal como você tem a ver com semelhante família? dissera certa
vez seu amigo Bernie Epstein, e ele só conseguira abanar a cabeça, sentindo o mesmo fosco constrangimento de agora. Ele era um cara legal. Não obstante, ali estava
o que arranjara-uma esposa obesa e carrancuda, que se sentia lograda nas boas coisas da vida, como se houvesse apostado no cavalo perdedor (mas que nunca se animava
a criar coragem e expor a situação) e um filho retraído de quinze anos, que fazia um trabalho marginal na mesma escola em que Richard lecionava... um filho que tocava
acordes dissonantes na guitarra, dia e noite (principalmente à noite), parecendo pensar que, de alguma forma, aquilo o impeliria para a frente.
- Bem, e que tal uma cerveja? - sugeriu Richard.
Relutava em deixar Nordhoff ir embora - queria ouvir mais coisas sobre Jon.
- Uma cerveja seria ótimo - disse Nordhoff, e Richard assentiu gratamente.
- Excelente - concordou, e saiu, voltando em seguida com duas garrafas de Bud.
Seu estúdio ficava em um pequeno galpão, construído fora da casa - ajeitado por ele próprio, como fizera com a sala da família. No entanto, ao contrário daquele
cômodo, ali era um lugar que ele considerava apenas seu - um lugar em que podia ficar trancado, deixando de fora a estranha com quem se casara e o estranho a que
ela dera nascimento.
Naturalmente, Lina não aprovava o fato dele ter seu próprio refúgio, mas não fora capaz de impedi-lo - aquela tinha sido uma das raras e pequenas vitórias
de Richard contra ela.
Ele supunha que, de certa forma, Lina havia apostado no cavalo perdedor quando se tinham casado, dezesseis anos antes, ambos acreditavam que ele escreveria
maravilhosos e lucrativos romances e que, em pouco tempo, estariam rodando em uma Mercedes-Benz. Contudo, o único romance que ele publicara não havia sido lucrativo
e os críticos rapidamente apontaram que tampouco era muito maravilhoso. Lina vira as coisas pelo ponto de vista dos críticos, de maneira que aquilo fora o início
do afastamento de ambos.
Desta maneira, as aulas dadas no ginásio, que os dois tinham encarado como apenas um degrau em seu caminho para a fama, glória e riquezas, havia sido sua
principal fonte de renda nos últimos quinze anos - um malditamente alto degrau, como ele às vezes pensava. Escrevia contos, um artigo ocasional. Era membro em boa
situação na Associação de Escritores. Produzia uma renda adicional de uns 5.000 dólares com sua máquina de escrever a cada ano e, pouco importando o quanto Lina
reclamasse a respeito, isso lhe dava o direito de ter seu próprio estúdio... em especial, desde que ela se recusava a trabalhar.
- Você tem um bom recanto aqui - comentou Nordhoff, olhando em torno do pequeno aposento, com a mistura de antigas gravuras na parede.
O híbrido processador de palavras foi assentado em cima da mesa, com o CPU sob ela.
A antiga Olivetti elétrica de Richard foi momentaneamente deslocada para o topo de um dos fichários.
- Preenche a finalidade - disse Richard. Apontou a cabeça para o processador de palavras. - Acha mesmo que isso funciona? Jon só tinha quatorze anos.
- Parece curioso, não?
- Sem dúvida - concordou Richard.
Nordhoff riu.
- Pois não sabe da metade - disse. - Dei uma espiada atrás da unidade de vídeo. Alguns fios estão marcados IBM e outros Artigos Eletrônicos. Há boa parte
de um telefone Western Electric aí. E, acredite ou não; também há um pequeno motor de um Erector Set. - Ele bebericou sua cerveja e disse, como se só então recordasse:
- Quinze anos. Ele acabara de fazer quinze anos. Uns dois dias antes do acidente. - Fez uma pausa e repetiu, baixando os olhos para sua garrafa de cerveja: - Quinze
anos.
Disse as duas palavras em voz quase inaudível.
- Erector Set? - exclamou Richard, pestanejando.
- Exatamente. O Erector Set faz funcionar um kit elétrico. E Jon tinha um, desde que contava... oh, talvez seis anos de idade. Dei-lhe como presente de Natal,
certo ano. Já nesse tempo, ele era louco por mecanismos. Qualquer engenhoca servia e terá gostado daquela caixinha com os motores do Erector Set? Acho que sim. Ele
os guardou por quase dez anos. Não há muitos garotos que façam isso, Sr. Hagstrom.
- Não, não há - disse Richard, pensando nas caixas de brinquedos de Seth que se acumulavam no correr dos anos - rejeitados, esquecidos ou apenas destruídos
conscientemente. Olhou para o processador de palavras. - Então, ele não funciona.
- Eu só diria isso após experimentá-lo - falou Nordhoff. - O garoto era quase um gênio em eletricidade.
- Há um certo exagero nisso, creio. Sei que Jon era bom para lidar com engenhocas e ganhou o prêmio da Feira Científica Estadual quando cursava o sexto grau...
- Competindo com garotos muito mais velhos - já nos últimos anos do ginásio, alguns deles - disse Nordhoff. - Pelo menos, assim falava sua mãe.
- É verdade. Todos sentíamos muito orgulho dele. - Não era bem verdade. Richard se orgulhara e a mãe de Jon também. O pai do menino não ligava, em absoluto.
- Contudo, na Feira Científica são projetos e, construir, montar pessoalmente um mastigador híbrido de palavras...
Richard deu de ombros. Nordhoff pousou sua cerveja.
- Houve um garoto, nos anos cinqüenta - disse - que montou um desintegrador de átomos usando duas latas de sopa e equipamento elétrico no valor de cinco dólares.
Jon me falou a respeito. Ele também disse que um garoto de uma cidadezinha matuta do Novo México, em 1954 descobriu os táquions - partículas negativas que se supõe
viajarem para trás, através do tempo. Em Waterbury, Connecticut, um garoto de onze anos montou uma bomba tubular, com o celulóide que raspou das costas de um baralho
de cartas de jogar. Com essa bomba, ele explodiu um canil vazio. Crianças às vezes são curiosas. Em particular as muito inteligentes. Você ficaria surpreso.
- Talvez. Talvez eu ficasse.
- De qualquer modo, ele era um ótimo garoto.
- O senhor gostava um pouco dele, não?
- Sr. Hagstrom - disse Nordhoff - eu gostava muito dele. Jon era realmente um garoto às direitas.
Richard então pensou em como era estranho aquilo - seu irmão, que tinha sido um irresponsável desde os seis anos, conseguira uma excelente esposa e um filho
excepcional. Ele próprio, no entanto, que sempre procurara ser delicado e generoso (o que quer que "generoso" significasse, neste mundo louco), acabara casando com
Lina, que se transformara em uma mulher taciturna e porcina, além de lhe dar Seth. Olhando para o rosto cansado e honesto de Nordhoff, ele se perguntava o que, exatamente,
tinha acontecido, e que parte disto fora culpa sua, um resultado natural de sua própria e calada fraqueza.
- Sim - disse Richard. - Um garoto às direitas, não?
- Eu não me surpreenderia se isso funcionasse - falou Nordhoff. - Não me surpreenderia em absoluto.
Depois que Nordhoff se foi, Richard Hagstrom conectou o processador de palavras à tomada na parede e ligou o aparelho. Houve um zumbido, e ele esperou para
ver se as letras IBM surgiam na face da tela. Nada apareceu. Em vez disso, espectralmente, como uma voz vinda da sepultura, estas palavras brotaram das sombras,
como fantasmas verdes:
FELIZ ANIVERSÁRIO, TIO RICHARD! JON
- Céus! - murmurou Richard, caindo sentado na cadeira.
O acidente que matara seu irmão, esposa e filho, acontecera duas semanas antes - os três voltavam de uma espécie de excursão que durara todo o dia, e Roger
estava embriagado.
Estar embriagado era uma ocorrência perfeitamente comum na vida de Roger Hagstrom.
Desta vez, no entanto, sua sorte se esgotara e ele dirigira a velha e empoeirada caminhonete pela borda de um abismo de vinte e sete metros. O veículo se
espatifara e ardera. Jon tinha quatorze anos - não, quinze. Fizera quinze anos apenas uns dois dias antes do acidente, segundo havia dito o velho. Mais três anos,
e se livraria daquele estúpido brutamontes. O aniversário dele... e o meu logo chegando.
Uma semana, a partir desse dia. O processador de palavras havia sido o presente de aniversário que Jon lhe daria.
De algum modo, isso tornava as coisas piores. Richard não saberia dizer precisamente como ou porque, mas assim era. Esticou a mão para desligar a tela, mas
depois recuou.
Certo garoto montou um desintegrador de átomos com duas latas de sopa e partes elétricas de automóvel no valor de cinco dólares.
Sim, e na cidade de Nova York, o sistema de esgotos está cheio de crocodilos. E a Força Aérea dos E. U.A. tem o corpo de um alienígena preservado em gelo,
em qualquer ponto de Nebraska. Conte-me algo mais. É cascata. Contado, isso talvez seja algo que eu não queira saber com certeza.
Richard levantou-se, deu a volta até atrás do VDT e espiou por entre as fendas. Era bem como Nordhoff tinha dito. Fios com a inscrição PEÇAS ELETRÔNICAS PARA
RÁDIO - MADE IN TAIWAN. Fios com a inscrição WESTERN ELECTRIC e WESTRE X ou ERECTOR SET, com o pequeno r da marca registrada dentro do círculo.
Ele também viu algo mais, algo que Nordhoff não vira ou não quisera mencionar. Havia um transformador de Trem Lionel ali dentro, preso com arames, como a
Noiva de Frankenstein.
- Céus! - exclamou, rindo, mas de repente, perto das lágrimas. - Céus, Jonny, o que achava que estava fazendo?
Esta resposta ele também sabia. Durante anos sonhara e falara em possuir um processador de palavras, mas quando as risadas de Lina tinham ficado demasiado
sarcásticas para que as suportasse, conversara a respeito com Jon.
- Eu poderia escrever mais depressa, reescrever mais depressa e produzir mais - havia dito a Jon, no final daquele verão. O menino o fitara seriamente, os
olhos azul-claros, inteligentes, mas sempre tão cautelosamente circunspectos, amplificados por trás dos óculos. - Seria grande... realmente formidável.
- Então, por que não compra um, Tio Rich?
- Eles não são dados precisamente de graça - respondera Richard, sorrindo. - O modelo mais barato custa uns três mil. A partir dele, pode-se chegar até os
que custam uma faixa de dezoito mil.
- Bem, qualquer dia eu lhe monto um - havia dito Jon.
- Sim, talvez você monte - respondera Richard, dando-lhe um tapinha nas costas.
Então, até o telefonema de Nordhoff, ele não pensara mais nisso.
Fios de modelos elétricos comprados em lojas comuns.
Um transformador de Trem Lionel.
Céus.
Retornou à frente do aparelho, querendo desligá-lo, como se realmente tentasse escrever algo nele e uma falha, de certa forma, profanaria o que seu ansioso
e frágil (condenado) sobrinho pretendera.
Em vez disso, ele apertou o botão EXECUTAR, no teclado. Um curioso e leve arrepio percorreu-lhe a espinha quando fez isso. EXECUTAR era uma singular palavra
para ser usada, se refletirmos nisso. Não era uma palavra que ele associasse à escrita, mas sim a câmaras de gás e cadeiras elétricas... talvez as velhas e poeirentas
caminhonetes despencando da beira de estradas.
EXECUTAR.
O CPU tinha um zumbido mais alto do que os ouvidos nas ocasiões em que vira processadores de palavras funcionando em vitrines. De fato, ele quase rugia. O
que contém a caixa de memória, Jon? perguntou-se. Molas de colchão? Transformadores de trem enfileirados? Latas de sopa? Tornou a pensar nos olhos de Jon, em seu
rosto quieto e delicado. Seria estranho, talvez mórbido, ter ciúmes do filho de outro homem?
Ele devia ter sido meu. Eu sabia... e penso que ele também sabia. Então, havia Belinda, a esposa de Roger. Belinda, que usava óculos escuros com freqüência,
mesmo em dias nublados. Dos modelos de aros grandes, porque contusões em torno dos olhos têm a infeliz mania de espalhar-se. Contudo, às vezes olhava para ela, sentada
lá, imóvel e vigilante, sob o ruidoso guarda-sol das gargalhadas de Roger, e pensava quase a mesma e exata coisa: ela devia ter sido minha.
Era um pensamento aterrador, porque ambos haviam conhecido Belinda no ginásio e ambos tinham saído com ela. Havia uma diferença de dois anos entre ele e Roger,
de modo que Belinda se situara perfeitamente na linha intermediária, um ano mais velha do que Richard e um mais nova do que Roger. De fato, Richard fora o primeiro
a ter encontros com a jovem que depois se tornaria a mãe de Jon. Então, surgira Roger.
Roger que era mais velho e mais forte, Roger que sempre tivera o que queria, Roger que prejudicaria quem atravessasse seu caminho.
Fiquei com medo. Fiquei com medo e a deixei ir-se. Teria sido assim tão simples?
Por Deus, acho que foi. Eu gostaria que, fosse diferente, mas talvez seja melhor não mentir para nós mesmos, sobre coisas como covardia. E vergonha.
E se aquelas coisas fossem verdade? Se, de algum modo, Lina e Seth pertencessem a seu malévolo irmão e se Belinda e Jon, de algum modo, pertencessem a ele,
o que isso provaria? E como, exatamente, uma pessoa racional imaginaria lidar com tal confusão, tão absurdamente equilibrada? Dava para rir? Para chorar? Alguém
se mataria por um vira-lata?
Eu não me surpreenderia se isso funcionasse. Não me surpreenderia em absoluto.
EXECUTAR.
Seus dedos moveram-se rapidamente sobre as teclas. Richard olhou para a tela e viu estas letras, flutuando em verde:
MEU IRMÃO ERA UM BÊBADO IMPRESTÁVEL.
Elas flutuaram na tela e, subitamente, Richard pensou em um brinquedo que tivera em criança. Era chamado Bola-Oito Mágica. Fazia-se a ele uma pergunta que
pudesse ter sim ou não como resposta e depois se girava a Bola-Oito Mágica, para saber-se o que ela diria a respeito do assunto - e suas respostas mistificadoras,
mas ainda assim misteriosamente fascinantes, incluíam coisas como É QUASE CERTO, EU NÃO PLANEJARIA ISSO e TORNE A PERGUNTAR MAIS TARDE.
Roger sentira ciúmes do brinquedo e, finalmente, após obrigar Richard a entregá-lo certo dia, atirara-o na calçada o mais forte que pudera, quebrando-o. Depois
rira. Agora, sentado ali, ouvindo o estranhamente espasmódico rugido do gabinete CPU que Jon improvisara, Richard recordou como se jogara à calçada, chorando e incapaz
de acreditar que o irmão houvesse feito tal coisa.
- Bebê-chorão, bebê-chorão, vejam o bebê-chorão! - zombara Richard. Isso não passava de um brinquedinho vagabundo, Richie. Dê uma espiada, nele só havia alguns
letreiros e um montão de água.
- EU VOU CONTAR! - Richard havia gritado, com todo o vigor dos pulmões. Sua cabeça estava quente. Seu nariz se entupira com as lágrimas do ultraje sofrido.
- VOU CONTAR O QUE VOCÊ FEZ, ROGER! VOU CONTAR A MAMÃE!
- Se contar a ela, eu quebro seu braço - ameaçara Roger:
E, em seu gélido sorriso, Richard percebera que ele não estava brincando. Nada contara à mãe.
MEU IRMÃO ERA UM BÊBADO IMPRESTÁVEL.
Bem, singularmente montado ou não, o aparelho imprimia letras na tela. Ainda estava por ver se estocava dados no CPU, mas a combinação feita por seu sobrinho,
unindo um painel Wang a uma tela IBM, de fato funcionara. Só por coincidência, aquilo evocara lembranças bastante cruéis, mas ele decidiu que Jon não tivera culpa
disso.
Olhou em torno do estúdio e seus olhos pousaram em uma foto que não havia escolhido e da qual não gostava. Era uma foto de Lina, feita em retratista, que
ela lhe dera no Natal, dois anos antes. Quero que a pendure em seu estúdio, havia dito e, naturalmente, ele a pendurara. Imaginou que talvez fosse um meio de Lina
vigiá-lo, mesmo não estando presente. Não me esqueça, Richard. Eu estou aqui. Talvez tenha apostado no cavalo errado, mas continuo aqui. E é melhor não se esquecer
disto.
A foto retocada, com suas tonalidades pouco naturais, destoava curiosamente da amistosa mescla de gravuras de Whistler, Homer e N. C. Wyeth. Os olhos de Lina
estavam semicerrados, o forte arco de Cupido de sua boca composto em algo que não era bem um sorriso. Eu continuo aqui, Richard, aquela boca parecia dizer-lhe. E
não se esqueça disto.
Ele datilografou:
A FOTO DE MINHA ESPOSA ESTÁ PENDURADA NA PAREDE OESTE DE MEU ESTÚDIO.
Contemplou as palavras e detestou-as tanto como detestava a foto. Pressionou o botão SUPRIMA. As palavras desapareceram. Agora nada mais havia na tela, exceto
o fixo tremular do cursor.
Richard olhou para a parede e viu que a foto de sua esposa também desaparecera.
Permaneceu sentado por muitíssimo tempo - pelo menos, assim lhe pareceu - contemplando a parede onde a foto estivera. O que finalmente o despertou daquele
torpor, provocado pelo choque do inacreditável, foi o cheiro emitido pelo CPU - um cheiro que recordava da infância, tão nitidamente, como recordava a Bola-Oito
Mágica que Roger quebrara, porque não era dele. O cheiro era essência de transformador de trem elétrico. Depois que se sentia tal cheiro, devia-se desligá-lo, para
que esfriasse.
Foi o que ele fez.
Em um minuto.
Levantou-se e foi até a parede, caminhando sobre pernas entorpecidas. Passou os dedos pelo apainelado Armstrong. A foto havia estado ali, bem ali. Só que
agora sumira, como sumira a alça onde era pendurada. Tampouco existia o buraco em que aparafusara a alça, no apainelado.
Desapareceram.
A palavra esmaeceu abruptamente e ele cambaleou para trás, pensando alheadamente que ia desmaiar. Esforçou-se o mais que pôde, até a palavra entrar de novo
em foco.
Seus olhos passaram no espaço vazio na parede, onde estivera o retrato de Lina, para o processador de palavras que seu sobrinho falecido havia montado.
Você ficaria surpreso, ouvia Nordhoff dizendo, em sua mente. Você ficaria surpreso, você ficaria surpreso, oh, sim, se um garoto dos anos cinqüenta descobria
partículas que viajavam para trás no tempo, você ficaria surpreso ante o que seu genial sobrinho era capaz de fazer com um punhado de elementos rejeitados de um
processador de palavras, e componentes elétricos. Ficaria tão surpreso, que julgaria estar enlouquecendo.
O cheiro do transformador agora era mais forte e intenso. Ele pôde ver fiapos de fumaça subindo das fendas no arcabouço da tela. O ruído do CPU também era
mais alto.
Precisava desligar o aparelho - por mais esperto que Jon houvesse sido, aparentemente não tivera tempo de aperfeiçoar todas as engrenagens daquela coisa de
loucos.
No entanto, Jon saberia que sua máquina fazia aquilo?
Sentindo-se uma ficção da própria imaginação, Richard tornou a sentar-se diante do teclado e datilografou:
A FOTO DE MINHA ESPOSA ESTÁ NA PAREDE.
Olhou para a frase por um instante, tornou a olhar para o teclado e então apertou a tecla EXECUTAR.
Olhou para a parede.
O retrato de Lina estava lá, no lugar onde sempre estivera.
- Meu Deus! - sussurrou ele. - Meu Deus do céu!
Esfregou a mão contra a face, olhou para a tela (agora vazia, exceto pelo cursor), e então datilografou:
NÃO HÁ NADA EM MEU PISO.
Tocou o botão INSERIR, depois datilografou:
EXCETO POR MIL DUZENTOS E VINTE DÓLARES EM MOEDAS DE OURO,
EM UM PEQUENO SACO DE ALGODÃO.
Apertou EXECUTAR.
Olhou para o chão, onde agora havia uma pequena sacola branca de algodão com a parte superior franzida por um cordão. As palavras WELLS FARGO estavam impressas
na sacola, em desbotada tinta negra.
- Oh, Deus! - ele se ouviu dizendo, em uma voz que não era a sua. - Oh. Deus, Deus!
Teria continuado invocando o nome do Salvador por minutos ou horas, se o processador de palavras não começasse a emitir seu "bip" insistentemente para ele.
No alto da tela, cintilava a palavra SOBRECARGA.
Richard desligou tudo apressadamente e saiu do estúdio como se os demônios do inferno o perseguissem.
Contudo, antes disso, ergueu o pequeno saco fechado por cordões e o enfiou no bolso da calça.
Quando ele ligou para Nordhoff aquela noite, um frio vento de novembro tocava desafinadas gaitas de foles nas árvores do exterior. O grupo de Seth estava
no andar de baixo, assassinando uma canção de Bob Seger. Lina havia saído, estava jogando bingo na Igreja de Nossa Senhora das Dores Perpétuas.
- A máquina funciona? - perguntou Nordhoff.
- Funciona muito bem - respondeu Richard. Enfiou a mão no bolso e pegou uma moeda.
Era pesada - mais pesada do que um relógio Rolex. O severo perfil de uma águia salientava-se em um lado, juntamente com a data: 1871. - Funciona de uma forma
que o senhor nem acreditaria.
- Eu acredito - replicou Nordhoff, tranqüilo. - Ele era um garoto muito inteligente e o queria muito, Sr. Hagstrom. Contudo, seja cauteloso. Um garoto é somente
um garoto, inteligente ou não, e o amor pode ser mal orientado. Entende o que quero dizer?
Richard não entendeu nada. Sentia-se acalorado e febril. O jornal do dia registrava o preço atual do ouro no mercado a 514 dólares a onça. As moedas haviam
pesado uma média de 4.5 onças cada uma, em sua balança de correspondência. A taxa corrente do mercado, o total chegava a 27.756 dólares. E ele imaginava que isso
fosse apenas um quarto do que poderia conseguir por aquelas moedas, se as vendesse como moedas.
- Poderia vir até aqui, Sr. Nordhoff? Agora? Esta noite?
- Não - respondeu Nordhoff. - Acho que não devo ir, Sr. Hagstrom. Penso que isto deve ficar entre você e Jon apenas.
- Mas...
- Lembre-se apenas do que eu lhe disse. Por Deus, seja cauteloso.
Houve um ligeiro clique e a ligação foi desfeita.
Meia hora depois, Richard estava novamente em seu estúdio, olhando para o processador de palavras. Tocou o botão LIGA/DESLIGA, mas sem girá-lo. Ouvira o conselho
de Nordhoff, da segunda vez em que o velho o dissera. Por Deus, seja cauteloso. Sim. Ele precisaria ser cauteloso. Uma máquina que podia fazer tais coisas...
Como podia uma máquina fazer tais coisas?
Ele não tinha idéia... mas de algum modo, isso fazia com que toda aquela loucura fosse aceita com mais facilidade. Ele era um professor de Inglês e escritor
nas horas vagas, não um técnico. Possuía um longo histórico de ignorar como as coisas funcionavam: fonógrafos, motores a gasolina, telefones, televisões, o mecanismo
de descarga de seu vaso sanitário. Sua vida tinha sido um histórico de entender operações, mais do que princípios. Haveria alguma diferença nisso, exceto em grau?
Richard ligou a máquina. Como antes, ela disse: FELIZ ANIVERSÁRIO, TIO RICHARD! JON. Ele pressionou EXECUTAR, e a mensagem de seu sobrinho desapareceu.
Esta máquina não funcionará por muito tempo, pensou subitamente. Tinha certeza de que Jon só estivera trabalhando nela pouco antes de morrer, confiando em
que haveria tempo de sobra, porque o aniversário do Tio Richard, afinal de contas, só seria comemorado em mais três semanas...
No entanto, o tempo se esgotara para Jon, de maneira que seu totalmente espantoso processador de palavras, que parecia inserir novas coisas ou suprimir velhas
coisas do mundo real, cheirava como urn transformador chamuscado de trem, começando a fumegar após poucos minutos. Jon não tivera chance de aperfeiçoá-lo. Ele estava...
Certo de que haveria tempo?
Isso, no entanto, era errado. Estava tudo errado. Richard sabia. O rosto quieto e vigilante de Jon, os olhos sóbrios por trás das espessas lentes dos óculos...
ali não havia certeza, nenhuma crença na esperança do tempo. Que palavra lhe ocorrera, horas antes, nesse mesmo dia? Condenado. Esta não era apenas uma boa palavra
para Jon; era a palavra certa. Aquele senso de predestinação pendera sobre o garoto, tão palpavelmente, que por vezes Richard sentira vontade de abraçá-lo, de dizer-lhe
para animar-se um pouquinho, que costumava haver finais felizes e que os bons nem sempre morriam jovens.
Pensou então em Roger, atirando sua Bola-Oito Mágica na calçada, atirando-a com toda a força que podia: ouviu o plástico rachar e viu o fluido mágico da Bola-Oito
- apenas água, afinal de contas - escorrer calçada abaixo. Este quadro se fundiu ao da caminhonete recauchutada de Roger, com os dizeres HAGSTROM - ENTREGAS A GRANEL,
impressos em um lago, mergulhando por sobre a borda de uma poeirenta rampa que se desmoronava, batendo de frente no fundo do abismo, com um ruído que, como o próprio
Roger, não era grande coisa. Ele viu - embora não querendo ver - o rosto da cunhada desintegrando-se em ossos e sangue. Viu Jon sendo carbonizado entre os destroços,
gritando, enegrecendo.
Nenhuma certeza, nenhuma esperança real. Ele sempre transmitira um senso de tempo esgotando-se. E, no fim, provara que estava certo.
- O que significa isso? - murmurou Richard, olhando para a tela em branco.
Como a Bola-Oito Mágica responderia à questão? REPITA A PERGUNTA MAIS TARDE? O DESFECHO É OBSCURO? Ou talvez SERÁ MESMO?
O ruído expandindo-se do CPU voltava a ficar mais forte e mais rapidamente do que à tarde. Ele já podia sentir o cheiro do transformador do trem que Jon instalara
no maquinismo atrás da tela, o qual começava a esquentar.
A máquina dos sonhos mágicos.
Seria isso? Isso mesmo que Jon pretendera dar ao tio como presente de aniversário? Na era espacial, o equivalente a uma lâmpada mágica ou a um poço dos desejos?
Ouviu a porta dos fundos de sua casa sendo aberta, depois as vozes de Seth e dos demais membros de sua banda. Vozes muito altas, estridentes. Certamente haviam
estado bebendo ou fumando maconha.
- Onde está seu velho, Seth? - ouviu um deles perguntar.
- Acho que fazendo bobagens em seu estúdio, como de costume - replicou Seth. - Acho que ele...
O vento subiu novamente, levando consigo o resto da frase, mas sem apagar as debochadas risadas tribais. Richard ficou a ouvi-los, a cabeça ligeiramente de
banda. De repente, datilografou:
MEU FILHO É SETH ROBERT HAGSTROM.
Seu dedo pairou sobre o botão SUPRIMA.
O que está fazendo? - sua mente gritou para ele. - Isto é sério: "Pretende assassinar seu próprio filho?
- Ele deve fazer alguma coisa lá dentro - falou um dos outros.
- O velho é um maldito imbecil - respondeu Seth. - Um dia, pergunte a minha mãe. Ela lhe dirá. Ele...
Não vou assassiná-lo. Vou... SUPRIMI-LO.
- ... nunca fez outra coisa, senão...
As palavras MEU FILHO É SETH ROBERT HAGSTROM desapareceram do vídeo.
No exterior, as palavras de Seth desapareceram com elas.
Lá fora, agora não havia outro som além do produzido pelo vento frio de novembro, soprando carrancudos prognósticos para o inverno.
Richard desligou o processador de palavras e saiu do estúdio. A entrada para carros estava vazia. Norm qualquer-coisa guitarrista líder do conjunto, dirigia
uma monstruosa e, de certa forma, sinistra e velha caminhonete LTD, na qual o grupo transportava seu equipamento, ao seguir para seus pouco freqüentes compromissos
musicais. Naquele momento, não estava mais estacionada na entrada de carros. Talvez estivesse em alguma parte do mundo, viajando por alguma auto-estrada ou parada
no pátio de estacionamento de algum seboso estabelecimento de segunda para a venda de hamburgeres. Norm também estaria em algum ponto do mundo, como Davey, o baixista,
cujos olhos eram aterradoramente apáticos e que usava um alfinete de segurança pendurado em um lóbulo de orelha, da mesma forma que o baterista, que não possuía
os dentes da frente.
Seth havia sido SUPRIMIDO.
- Não tenho filho - murmurou Richard.
Quantas vezes lera essa melodramática frase em novelas ruins? Cem? Duzentas?
Aquelas palavras nunca lhe haviam soado verdadeiras. Aqui, no entanto, eram verdadeiras. Agora, eram verdadeiras. Oh, sim!
O vento aumentou de força e, de súbito, Richard foi tomado por uma dolorosa cãibra de estômago, que o fez dobrar-se em dois, ofegando. Expeliu uma explosiva
ventosidade.
Quando a cãibra cedeu, ele entrou em casa.
A primeira coisa percebida foi que os surrados tênis de Seth - seu filho possuía quatro pares e recusava-se a jogar fora qualquer deles - haviam desaparecido
do vestíbulo. Foi até o corrimão da escada e passou o polegar por um trecho dele. Aos dez anos (já com idade bastante para definir entre certo e errado, mas Lina
não permitira que o marido batesse no filho, apesar disso), Seth esculpira profundamente suas iniciais na madeira daquele corrimão, uma madeira para a qual Richard
trabalhara quase um verão inteiro. Ele havia lixado o lugar, emassara e tornara a envernizar, mas o fantasma daquelas iniciais permanecera.
Agora, elas haviam desaparecido.
Andar de cima. Quarto de Seth. Estava arrumado e limpo, desabitado, seco e desprovido de personalidade. Bem poderia ostentar um cartaz na maçaneta, dizendo
QUARTO DE HÓSPEDES.
Andar de baixo. Foi onde Richard ficou mais tempo. Os enrolados de fios elétricos tinham desaparecido; amplificadores e microfones tinham desaparecido; a
bagunça de peças de gravador que Seth "ia consertar", como vivia repetindo, havia desaparecido (ele não possuía as mãos e nem a concentração de Jon). Em vez disto,
o lugar apresentava a profunda (se não particularmente agradável) marca da personalidade de Lina - móveis pesados e cheios de floreados, melosas tapeçarias de veludo
(uma delas representando a última Ceia, na qual Cristo parecia Wayne Newton, outra mostrando uma corça contra o pôr do sol em um horizonte do Alaska), um berrante
tapete, tão espaventoso como sangue arterial. Não havia mais o menor indício de que um garoto chamado Seth Hagstrom um dia houvesse ocupado aquele recinto. Aquele
ou qualquer outro da casa.
Richard ainda estava parado ao pé da escada, olhando em tomo, quando ouviu um carro parar diante da casa.
Lina, pensou, e sentiu uma onda de quase frenética culpa. É Lina, voltando do bingo - e o que irá dizer, quando vir que Seth desapareceu? O que... o que...?
- Assassino! - ele a ouviu gritando. - Você assassinou o meu, filho!
Contudo, ele não assassinara Seth.
- Eu o SUPRIMI - murmurou, enquanto subia a escada do porão, para ir ao encontro dela na cozinha.
Lina estava mais gorda.
Enviara ao bingo uma mulher pesando uns noventa quilos. A mulher que voltava pesaria no mínimo cento e cinqüenta, talvez mais; ela precisava virar-se ligeiramente
de banda para entrar pela porta dos fundos. Ancas elefantinas e coxa da mesma qualidade, tremelicavam em ondulados movimentos de maré por baixo das calças compridas
de poliéster, cor de azeitona passando do ponto de maturidade. A pele de Lina, apenas pálida três horas antes, agora estava lívida e doentia. Embora não sendo médico,
Richard decidiu que podia observar um sério risco de moléstia hepática ou incipiente doença cardíaca naquela pele. Os olhos empapuçados o fitaram com inflexível,
idêntico desdém.
Ela carregava em uma das mãos rechonchudas o corpo congelado de um enorme peru.
Ele se torcia e virava dentro de seu envoltório de celofane, como o cadáver de um bizarro suicida.
- O que é que está olhando, Richard? - perguntou ela.
Você, Lina. É você que estou olhando. Porque foi nisto que você se transformou, em um mundo onde não tínhamos filhos. Nisto que você se transformou, em um
mundo onde não havia nenhum objeto para o seu amor - por mais envenenado que seja esse amor. É essa aparência de Lina, em um mundo onde tudo entra e absolutamente
nada sai. Você, Lina. É você que estou olhando. Você.
- Esse peru, Lina - conseguiu finalmente dizer. - É um dos maiores que já...
- Não vamos ficar aqui parados olhando para ele, idiota! Ajude-me com isto!
Ele pegou o peru e o colocou sobre o balcão, sentindo suas ondas de lúgubre friagem. Dava a impressão de um bloco de madeira.
- Aí, não! - gritou ela impacientemente, apontando para a despensa. - Não caberia! Coloque-o no freezer!
- Desculpe - murmurou ele.
Nunca haviam tido um freezer antes. Nunca, no mundo onde houvera um Seth. Richard levou o peru para a despensa, onde um comprido freezer Amana jazia sob a
fria luz branca de tubos fluorescentes, como um gélido ataúde branco. Colocou-o ao lado de corpos criogenicamente preservados de outras aves e animais, depois retornou
à cozinha. Lina tirara do armário os copos de manteiga de amendoim e os estava comendo metodicamente, um após outro.
- Foi o bingo do Dia de Graças - explicou ela. - Foi antecipado para esta semana, em vez de na próxima, porque o Padre Philipps será hospitalizado, para tirar
a vesícula. Eu ganhei o primeiro prêmio.
Ela sorriu. Uma mistura castanha de chocolate e manteiga de amendoim pingou e escorreu de seus dentes.
- Lina - disse ele. - Nunca lamentou não termos tido filhos?
Ela o fitou como se ele houvesse ficado louco de todo.
- Em nome de Deus, para que eu quereria semelhantes trambolhos? - exclamou ela.
Enfiou no armário os copos de manteiga de amendoim, agora reduzidos à metade. - Vou para a cama. Você vem também ou volta lá para fora e fica brincando um
pouco mais com sua máquina de escrever?
- Vou lá fora um pouco mais - disse ele, em voz surpreendentemente firme. - Não me demorarei.
- Aquela engenhoca funciona?
- De que está...
Richard compreendeu e tornou a sentir outro acesso de culpa. Ela sabia sobre o processador de palavras, claro que sabia. A SUPRESSÃO de Seth não afetara Roger.
Assim, permanecera a pista da família de seu irmão.
- Oh, claro que não. Não funciona de jeito nenhum.
Ela assentiu, satisfeita.
- Aquele seu sobrinho! Sempre com a cabeça nas nuvens. Como você, Richard. Se você não fosse tão tímido, eu me perguntaria se não a andou enfiando onde não
devia, há quinze anos atrás.
Ela riu, um riso rouco, surpreendentemente forte - o riso de uma devassa cínica e envelhecida. Por um momento, Richard quase a esbofeteou. Então, sentiu um
sorriso aflorar a seus próprios lábios - um sorriso tão leve, tão branco e frio, como o freezer Amana, que havia substituido Seth neste novo trajeto.
- Não me demoro - falou. - Quero apenas anotar algumas coisas.
- Por que não escreve um conto que mereça um Prêmio Nobel ou coisa assim? - perguntou ela, com ar indiferente. As tábuas do corredor chiaram e resmungaram,
quando Lina movimentou seu volume em direção à escada. - Ainda estamos devendo a conta do oculista que fez meus óculos para ler, e atrasados em uma prestação do
Betamax. Por que não nos consegue algum maldito dinheiro?
- Bem - disse Richard. - Eu não sei, Lina. Enfim, tenho algumas boas idéias esta noite.
Tenho mesmo.
Ela se virou para fitá-lo, pareceu prestes a dizer algo sarcástico - algo sobre como nenhuma das boas idéias dele os tinha levado a uma vida fácil, mas que,
assim mesmo, ela continuara ao seu lado - porém nada falou. Talvez fosse impedida por qualquer coisa no sorriso dele. Lina foi para o andar de cima. Richard ficou
embaixo, ouvindo as passadas estrondosas da esposa. Sentia a testa suada. Estava nauseado e eufórico ao mesmo tempo.
Dando meia volta, retornou a seu estúdio.
Desta vez, quando ele ligou a unidade, o CPU não zumbiu nem rugiu; começou a emitir um irregular som uivante. Aquele cheiro de transformador de trem aquecido
chegou quase imediatamente, vindo do arcabouço por trás da tela, e assim que ele apertou o botão EXECUTAR, apagando o FELIZ ANIVERSÁRIO, TIO RICHARD! da mensagens
de seu sobrinho, a unidade passou a fumegar.
Não resta muito tempo, pensou ele. Não... estou enganado. Não há mais tempo nenhum.
Jon sabia disso e agora eu também sei.
As opções reduziam-se a duas: trazer Seth de volta, com o botão INSERIR (tinha certeza de que poderia fazê-lo; seria tão fácil como havia sido a criação dos
dobrões de ouro espanhóis) ou terminar o trabalho.
O cheiro ficava mais forte, mais urgente. Em pouquíssimos momentos, nada mais que isso, a tela começaria a piscar sua mensagem de SOBRECARREGADO.
Datilografou:
MINHA ESPOSA É ADELINA MABEL WARREN HAGSTROM.
Apertou o botão SUPRIMIR.
Datilografou:
SOU UM HOMEM QUE VIVE SÓ.
Agora, a palavra começou a piscar regularmente no canto superior direito da tela:
SOBRECARREGADO SOBRECARREGADO SOBRECARREGADO.
Por favor. Por favor, deixe-me terminar. Por favor, por favor, por favor...
A fumaça que saía pelas frestas no gabinete do vídeo, agora estava mais espessa e mais cinzenta. Richard baixou os olhos para o lamurioso CPU e viu que também
saía fumaça de suas fendas... e abaixo daquela fumaça, pôde distinguir uma súbita faísca vermelha de fogo.
Bola-Oito, serei saudável, rico ou sábio? Ou viverei sozinho e talvez morra de tristeza?
Há tempo suficiente?
NÃO POSSO VER AGORA, REPITA MAIS TARDE.
Exceto que não haveria mais tarde.
Ele apertou o botão INSERIR e a tela escureceu, embora permanecesse a constante mensagem de SOBRECARREGADO, que agora piscava em um ritmo frenético, soluçante.
Datilografou:
EXCETO POR MINHA ESPOSA, BELINDA, E MEU FILHO, JONATHAN.
Por favor! Por favor!
Apertou o botão EXECUTAR.
A tela ficou vazia. Permaneceu vazia pelo que a ele pareceu uma eternidade, embora continuando com a palavra SOBRECARREGADO, agora piscando tão depressa que,
se não fosse uma ligeira sombra, dava a impressão de permanecer constante, como um computador executando um laço fechado de comando. Algo dentro do CPU pipocou e
chiou. Richard grunhiu.
As letras verdes surgiram na tela, flutuando misticamente sobre o negro:
SOU UM HOMEM QUE VIVE SÓ, EXCETO POR MINHA ESPOSA, BELINDA, E MEU FILHO, JONATHAN.
Ele apertou duas vezes o botão EXECUTAR.
Agora, pensou. Agora vou datilografar: TODOS OS DEFEITOS MECÂNICOS DESTE PROCESSADOR DE PALAVRAS FORAM TOTALMENTE ELIMINADOS ANTES QUE O SR. NORDHOFF O TROUXESSE
PARA CÁ. Ou datilografarei: TENHO IDÉIAS PARA VINTE NOVELAS BEST-SELERS NO MÍNIMO Ou datilografarei: EU E MINHA FAMÍLIA VIVEREMOS FELIZES PARA SEMPRE. Ou datilografarei...
Contudo, ele nada datilografou. Seus dedos pairaram estupidamente acima das teclas, enquanto Richard sentia - sentia literalmente - todos os circuitos de
seu cérebro emperrados, como carros encostados uns nos outros, no pior congestionamento de trânsito de Manhattan, na história da combustão interna.
A tela se encheu repentinamente com a palavra:
GADOSOBRECARREGADOSOBRECARREGADOSOBRECARREGA
Houve outro estouro, depois uma explosão no CPU. Chamas espicharam-se do gabinete, extinguindo-se em seguida. Richard recostou-se em sua cadeira, protegendo
o rosto, para o caso da tela implodir. Ela não implodiu. Apenas ficou escura.
Ele continuou sentado, fitando o negror da tela.
NÃO POSSO RESPONDER COM CERTEZA, PERGUNTE MAIS TARDE.
- Papai?
Girou em sua cadeira, o coração batendo tão forte, que dava a impressão de realmente estar prestes a saltar do peito.
Jon estava ali, Jon Hagstrom, e seu rosto era o mesmo, porém de certo modo diferente - a diferença era sutil, mas perceptível. Talvez, pensou Richard. aquela
fosse a diferença em paternidade entre dois irmãos. Ou talvez fosse porque, simplesmente, desaparecera dos olhos do garoto aquela expressão cautelosa e vigilante.
Olhos ligeiramente ampliados por lentes espessas (os óculos agora tinham armação metálica, ele percebeu, não aquela feia armação industrial de plástico, que Roger
sempre comprava para o garoto, porque era quinze pratas mais barata).
Talvez fosse algo até mais simples: aquele ar de condenado desaparecera dos olhos de Jon.
- Jon? - perguntou ele roucamente, perguntando-se se de fato, quisera algo mais do que isto. Quisera? Pareceu ridículo, mas supôs que sim. Supôs que as pessoas
sempre queriam. - Jon, é você, não é?
- Quem mais poderia ser? - Jon apontou a cabeça para o processador de palavras. - Não se machucou, quando esse bichinho se foi para o paraíso dos dados, machucou?
Richard sorriu.
- Não, não me machuquei. Estou ótimo.
Jon assentiu.
- Sinto muito que ele não tenha funcionado. Não sei o que deu em mim, para usar todas essas peças desaparelhadas. - Meneou a cabeça. - Francamente, eu não
sei. É como se tivesse que fazer isso. Coisas de criança.
- Bem - disse Richard, reunindo-se ao filho e passando um braço em torno de seus ombros, - talvez você faça um melhor, da próxima vez.
- É, talvez faça. Ou talvez eu tente uma outra coisa.
- Também seria formidável.
- Mamãe disse que fez chocolate para você, se quiser ir tomar.
- Eu quero - disse Richard.
Os dois caminharam juntos do estúdio para a casa, à qual não havia chegado nenhum peru congelado, ganho como prêmio em um torneio de bingo. - Neste momento
exato, acho que uma xícara de chocolate seria excelente.
- Amanhã, vou retirar todas as peças daquela coisa que possam ser aproveitadas e jogar o resto fora - disse Jon.
Richard assentiu.
- Suprimi-a de nossas vidas - disse.
Então os dois entraram na casa, acolhidos pelo cheiro do chocolate quente, rindo juntos.

* * *



PARA OWEN
(For Owen)

"A caminho da escola, você me pergunta se as outras escolas têm graus.
Fui até a Rua das Frutas e seus olhos desviaram-se.
Enquanto caminhamos sob aquelas árvores amarelas, você tem uma marmita do exercito debaixo de um braço e suas pernas curtas, vestidas em calças militares,
transformam sua sombra em uma tesoura que nada corta na calçada.
De repente, você me diz que todos os alunos são frutos.
Todos preferem as uvas-do-monte, por serem tão pequenas.
As bananas, diz você, são rapazes patrulheiros.
Em seus olhos, vejo punhados de laranjas, amontoados de maçãs.
Tudo, diz você, tem braços e pernas e as melancias geralmente são morosas.
Elas gingam e são gordas.
"Como eu", diz você.
Eu poderia dizer-lhe coisas, mas é melhor não dizer.
Crianças melancias não sabem amarrar os sapatos; as ameixas o fazem por elas.
Ou como roubar o seu rosto... roubá-lo, roubá-lo, usá-lo como meu.
Ele se gastaria logo sobre meu rosto.
Gastaria, por ficar estirado.
Eu poderia dizer-lhe que morrer é uma arte e estou aprendendo depressa.
Naquela escola, creio que você já pegou seu próprio lápis e começou a escrever o seu nome.
Entre o agora e o então, acho que podíamos um dia, você matar a aula e irmos à Rua das Frutas.
Eu estacionaria em uma chuva daquelas folhas de outubro e veríamos uma banana escoltar a última melancia morosa por aquelas portas altas."

* * *



PARANÓIDE: CANTO
(Paranoid: A Chant)

Não posso mais sair.
Há um homem junto à porta, com capa de chuva fumando um cigarro.
Mas, eu o registrei em meu diário e os envelopes estão todos alinhados sobre a cama, sangrando ao clarão de neon do bar vizinho.
Ele sabe que se eu morrer (ou mesmo desaparecer de vista) o diário será remetido e todos sabem que a CIA é na Virgínia.
500 envelopes comprados em 500 papelarias diferentes e 500 cadernetas com 500 páginas cada uma.
Estou preparado.
Posso vê-lo aqui de cima.
Seu cigarro assoma, logo acima da gola do impermeável e no metrô, em algum ponto há um homem sentado sob um anúncio e pensando em meu nome.
Homens me discutiram em salas dos fundos.
Se toca o telefone, ouve-se apenas um resfolegar.
No bar fronteiro, um revólver cano-curto trocou de mãos no banheiro dos homens.
Cada bala sua leva meu nome.
Meu nome está em arquivos secretos e trancado em arquivos de jornais.
Minha mãe tem sido investigada; felizmente está morta.
Eles têm amostras caligráficas e examinam laçadas de pês ou a barra dos tês.
Meu irmão está com eles, já lhes disse?
Sua esposa é russa e ele me instiga a preencher formulários.
Conto isso em meu diário.
Ouça...
ouça
ouça, por favor:
você deve ouvir.
Na chuva, na parada do ônibus, corvos negros, de negros guarda-chuvas, fingem olhar seus relógios, porém não está chovendo. Seus olhos são dólares de prata.
Alguns são eruditos, na folha do FBI mas em geral são estrangeiros, enxameando em nossas ruas. Eu os logrei, saltei do ônibus na Rua 25 com Lex, onde um motorista
de táxi me espiou sobre seu jornal.
No quarto acima do meu, uma velha aplicou ao chão uma ventosa elétrica que envia raios através de meu lustre, e agora escrevo no escuro, ao clarão do neon
do bar.
Eu lhe digo que sei.
Enviaram-me um cão de manchas castanhas e uma antena de rádio no focinho.
Afoguei-o na pia e anotei em minha pasta de papéis - GAMMA.
Não olho mais a caixa de correspondência.
Cartões de visita são cartas-bombas.
(Afastem-se! Malditos sejam! Afastem-se, conheço gente importante! Estou dizendo, conheço gente muito importante!)
A lanchonete foi feita com pisos falantes e a garçonete disse que era sal, mas eu conheço arsênico quando o põem à minha frente. E o sabor amarelo de mostarda
mascara o amargo odor de amêndoas.
Tenho visto luzes estranhas no céu.
Noite passada, um homem escuro sem face rastejou nove milhas de esgotos e emergiu em minha privada, querendo ouvir telefonemas através da madeira barata com
pegadores cromados.
Estou lhe dizendo, cara, eu ouço.
Vi a marca enlameado de suas mãos sujando a porcelana.
Não atendo mais o telefone, já lhe contei isso?
Eles planejam inundar a terra com imundícies.
Estão planejando invasões.
Eles conseguiram médicos que advogam estranhas posições sexuais.
Então colocando laxativos como aditivos e supositórios que queimam.
Sabem como explodir o sol usando zarabatanas.
Embalei-me em gelo - já lhe contei isso?
Assim, evito que me atinjam.
Conheço cantos e uso amuletos.
Você talvez pense que me pegou, mas posso destruí-lo agora, a qualquer momento.
Agora, a qualquer momento.
Agora, a qualquer momento.
Aceita um café, meu amor?
Já lhe disse que não posso mais sair?
Há um homem junto à porta com capa de chuva.

* * *


TIPO DE SOBREVIVENTE

Cedo ou tarde, a pergunta se apresenta a todo estudante de Medicina. Até que ponto o paciente suporta o choque de um trauma? Instrutores diferentes respondem
à pergunta de diferentes maneiras mas, reduzida a seu nível básico, a resposta é sempre outra pergunta: Até que ponto o paciente deseja sobreviver?

26 de janeiro

Faz dois dias que a tempestade me derrotou. Esta manhã, medi a ilha a passos. Que ilha!
São 190 passos em sua parte mais larga e 267 de ponta a ponta.
Que me conste, nela nada existe para comer.
Meu nome é Richard Pine. Este é o meu diário. Se eu for encontrado (quando), poderei destruí-lo facilmente. Não há escassez de fósforos. De fósforos e de
heroína. Há bastante de ambos. Nenhum deles vale nada por aqui, haha! Então, vou escrever. De qualquer modo, servirá para matar o tempo.
Se for para contar toda a verdade - e por que não? Sem dúvida, tempo não me falta! - devo começar dizendo que fui nascido Richard Pinzetti, na Pequena Itália
de Nova York. Meu pai era um carcamano do Velho Mundo. Eu queria ser cirurgião. Meu pai riu, disse que eu era maluco e mandou que eu lhe levasse outro copo de vinho.
Ele morreu de câncer, aos quarenta e seis anos. Fiquei contente.
Joguei futebol no ginásio. Fui o melhor jogador que minha escola já teve. Quarterback, o capitão do time. Nos meus dois últimos anos, fui o vencedor do torneio
All-City. Eu odiava futebol. Entretanto, quando se é um pobre descendente de carcamano, precisando de iniciativa individual para entrar em uma universidade, a única
saída são os esportes.
Assim, eu joguei e consegui minha bolsa-de-estudos por atletismo.
Na universidade, só joguei futebol até minhas notas serem boas o suficiente para me permitirem uma bolsa-de estudos acadêmica integral. Preparatório para
Medicina. Meu pai morreu seis semanas antes de minha diplomação. Um bom negócio. Acham que eu queria cruzar aquele palco e receber meu diploma, depois olhar para
baixo e ver aquela bola de gordura sentada lá? Uma galinha quer uma bandeira? Também entrei para uma fraternidade. Não era das melhores - nunca, tendo um sobrenome
Pinzetti - mas ainda assim, era uma fraternidade.
Por que escrevo isto? Chega a ser quase engraçado. Não, retiro isto. É engraçado. O grande Dr. Pine, sentado em uma pedra com suas calças de pijama e uma
camiseta, em uma ilha quase do tamanho de uma cusparada, escrevendo sua história. E estou com fome! Ora, não importa, escreverei a maldita história de minha vida,
se quiser. Pelo menos, desviará minha mente do estômago. Mais ou menos isso.
Mudei meu sobrenome para Pine, antes de entrar para a faculdade de Medicina. Minha mãe disse que eu lhe partia o coração. Que coração? Um dia depois do meu
velho estar debaixo da terra, ela já se embandeirava para o judeu da mercearia, no fim do quarteirão. Para alguém que tinha tanto amor ao nome, ela parecia com uma
pressa dos diabos para trocá-lo por Steinbrunner.
Tudo quanto eu desejava era a cirurgia. Desde o ginásio. Já naquela época, ao envolver ataduras nas mãos antes de cada jogo e ao lavá-las depois. Quem quer
ser um cirurgião, precisa proteger as mãos. Alguns colegas costumavam implicar comigo por causa disso, chamavam-me de covarde. Jamais lutei com eles. Jogar futebol
já era risco suficiente.
Havia outros meios. Quem mais pegava no meu pé era Howie Plotsky, um imigrante grandalhão e idiota da Europa Central, com a cara coberta de espinhas. Eu entregava
jornais e, juntamente com os jornais, também vendia o jogo dos números. Havia sempre uma pequena renda, brotando de vários lugares. Acaba-se conhecendo gente, compreendam,
são feitas conexões. Não há outro jeito, quando se vive pelas ruas.
Qualquer filho da puta sabe como morrer. O negócio é aprender a sobreviver, entendem o que estou dizendo? Assim, paguei dez pratas ao cara mais corpulento
da escola, Ricky Brazzi, para que ele fizesse a boca de Howie Plotsky desaparecer. Faça-a desaparecer, falei. Eu lhe pago um dólar para cada dente que me trouxer.
Rico me trouxe três dentes, embrulhados em um guardanapo de papel. Ele deslocou duas articulações dos dedos, fazendo o trabalho, o que dá para ver em em que tipo
de problema eu ia me meter.
Na faculdade de Medicina, enquanto os outros otários se matavam para continuar estudando - não houve intenção de fazer piada, ha-ha! - entre trabalhar como
garçons, vender gravatas ou limpar assoalhos, eu continuava me virando. Apostas de futebol e basquete, alguns seguros. Eu permanecia em bons termos com a antiga
vizinhança. E tudo correu às mil maravilhas durante a faculdade.
Só entrei no negócio ilegal de drogas, quando fazia minha residência. Eu trabalhava em um dos maiores hospitais da Cidade de Nova York. A princípio, foram
apenas formulários de receitas em branco. Eu vendia um bloco com cem formulários a um sujeito da vizinhança e ele forjava os nomes de quarenta ou cinqüenta médicos
diferentes, usando amostras caligráfïcas que eu também lhe vendia. O cara dava meia volta e distribuía os receituários na rua, a dez ou vinte dólares cada. Os viciados
e adeptos das anfetaminas adoravam aquilo.
Depois de algum tempo, descobri a confusão que era a farmácia do hospital. Ninguém sabia o que entrava ou saía. Havia gente arrastando artigos a mancheias.
Eu, não.
Sempre tive o máximo cuidado. Nunca me envolvi em problemas até ficar descuidado - e sem sorte. Contudo, vou aterrar em cima dos pés. Sempre aterro.
Não posso continuar escrevendo. Meu pulso está cansado e gastei a ponta do lápis.
Aliás, não sei por que me preocupo. Alguém logo estará me tirando daqui.

27 de janeiro

O barco saiu à deriva esta noite e afundou em três metros de água, ao norte da ilha. E daí? O fundo, afinal, estava mais furado do que queijo suíço, depois
de bater nos recifes.
Eu já havia desembarcado tudo que representasse valor. Quatro galões de água. Um estojo de costura. Um estojo de pronto-socorro. Este livro no qual escrevo,
que se presume deveria ser um registro de inspeção de barco salva vidas. Aí está a piada. Onde já se ouviu falar em um barco salva-vidas sem nenhuma COMIDA a bordo?
O último registro aqui anotado, foi de 8 de agosto de 1970. Oh, sim, recolhi também duas facas, uma cega, a outra razoavelmente afiada, uma combinação de garfo e
colher. Serão usados quando eu comer a minha ceia, esta noite. Pedra assada. Ha-ha! Bem, pelo menos, consegui fazer a ponta em meu lápis.
Quando der o fora desta pilha de rochas salpicadas de guano, vou processar a Paradise Lines, Inc., arrancar-lhe a pele. Vale a pena viver, nem que seja só
para isso. Vou me livrar desta. Não tenham dúvidas a respeito. Vou sair daqui.

(mais tarde)

Quando fazia meu inventário, esqueci uma coisa: dois quilos de heroína pura, valendo cerca de 350.000 dólares, preço da rua, em Nova York. Aqui, seu valor
é zero absoluto.
Não é engraçado? Ha-ha!

28 de janeiro

Bem, consegui comer - se aquilo se chama comer. Havia uma gaivota encarapitada em uma das rochas no centro da ilha. Naquele ponto, as rochas ficam amontoadas,
em uma espécie de montanha em miniatura - todas elas também cobertas de bosta de aves.
Peguei uma pedra que se ajustava à minha mão e escalei as rochas. Até o mais próximo que ousei. A gaivota continuou lá, em cima de sua rocha, fitando-me com
brilhantes olhos negros. Fiquei surpreso por não assustá-la com os roncos de meu estômago.
Atirei a pedra com quanta força pude e a atingi de lado. A gaivota soltou um grasnido alto e tentou fugir voando, mas eu lhe quebrara a asa direita. Subi
dificultosamente o resto das rochas, mas ela escapou. Pude ver o sangue pontilhando suas penas brancas. A filha da mãe obrigou-me a uma verdadeira caçada; uma vez
no outro lado do monte central de rochas, enfiei o pé na fenda entre duas pedras e quase fraturei o tornozelo.
A gaivota finalmente começou a ficar cansada e acabei agarrando-a no lado leste da ilha. Aliás, ela tentava entrar na água e ir embora nadando. Aferrei um
punhado das penas de sua cauda, ela se virou e bicou-me. Então, peguei-a pelo pé. Pus a outra mão em torno de seu miserável pescoço e o torci. O som da fratura me
encheu de satisfação.
O almoço está servido, ouviram? Ha-ha!
Levei-a para meu "acampamento", mas antes de depená-la e estripá-la, passei iodo na ferida produzida por sua bicada. Aves possuem todo tipo de micróbios transmissíveis
e, no momento, o último de que preciso é uma infecção.
A operação na gaivota transcorreu normalmente. Não pude cozinhá-la, o que foi uma pena. Afinal, na ilha não existe qualquer tipo de vegetação ou madeira atirada
pelas ondas, além do que, o bote afundou. Assim, comi a carne crua. Meu estômago queria expulsá-la em seguida. Eu compreendi, mas não permiti que o fizesse. Contei
em ordem regressiva, até passar a náusea. Isto quase sempre funciona.
Podem imaginar aquela ave, quase me quebrando o tornozelo e depois me bicando? Se pegar outra amanhã, vou torturá-la. Deixei que esta escapasse da tortura
fácil demais.
Agora enquanto escrevo, posso olhar para sua cabeça decepada, na areia. Os olhos negros, mesmo com o vidrado da morte, parecem zombar de mim.
Gaivotas terão alguma quantidade de cérebro?
Serão comíveis?

29 de janeiro

Nada para mascar hoje. Uma gaivota pousou perto do alto da pilha de rochas, mas fugiu voando, antes que eu chegasse perto o bastante para "dar-lhe uma rasteira",
ha-ha!
Minha barba começa a crescer e coça como o diabo. Se a gaivota voltar e eu conseguir pegá-la, vou arrancar-lhe os olhos antes de comê-la.
Fui um danado de cirurgião, como creio já ter dito. Eles me botaram para fora.
Francamente, chega a ser engraçado; eles fazem qualquer sujeira, mas ficam revoltados, hipocritamente revoltados, quando alguém é apanhado fazendo o mesmo.
Dane-se, Jack, desde que não seja eu! O Segundo Juramento de Hipócrates e Hipócritas.
Eu havia juntado o suficiente com minhas aventuras quando interno e residente (presume-se que o cara então seja como um dignitário e cavalheiro, segundo o
Juramento de Hipócritas, mas não acreditam nisso), para poder instalar consultório em Park Avenue. Foi também uma boa coisa para mim; eu não tinha nenhum papai rico
ou patrocinador estabelecido, como tantos de meus "colegas". Quando pude pregar minha tabuleta de profissional, fazia nove anos que meu pai estava na cova dos indigentes.
Minha mãe faleceu um ano antes de ser cassada a minha licença para clinicar.
Aquilo foi um atraso de vida. Eu me envolvera com meia dúzia de farmacêuticos do East Siei, com duas firmas fornecedoras de medicamentos e pelo menos vinte
outros médicos. Os pacientes eram enviados para mim e eu enviava pacientes. Continuava operando e prescrevendo a correta medicação pós-operatório. Nem todas as cirurgias
eram necessárias, porém jamais fiz uma só contra a vontade do paciente. E nunca tive um paciente que lesse o escrito no receituário e dissesse, "Não quero isto".
Ouçam: se a gente permitir, elas têm uma histerectomia em 1965 ou uma tireóide parcial em 1970 e, cinco ou dez anos mais tarde, continuam tomando sedativos. Algumas
vezes eu permitia. Não era o único, compreendam. Tais pacientes podem custear o hábito. Por outro lado, às vezes um paciente tem problemas para dormir, após uma
cirurgia de pouca monta. Ou problemas para conseguir pílulas de dieta. Ou Librium. Tudo podia ser arranjado. Ha!
Claro! E, se não arranjassem comigo, arranjariam com alguém mais.
Então, o pessoal dos impostos chegou a Lowenthal. Aquele carneiro covarde. Jogaram-lhe cinco anos na cara e ele tossiu meia dúzia de nomes. Um deles era o
meu. Vigiaram-me por algum tempo e, quando aterraram, eu valia muito mais do que cinco anos.
Existiam alguns outros envolvimentos, além dos formulários em branco, do qual eu não desistira por completo. É curioso, mas eu não precisava mais daquilo,
porém se formara o hábito. É difícil abrir mão de uma grana extra.
Bem, eu conhecia algumas pessoas. Movi os cordões. E atirei dois sujeitos aos lobos.
Ninguém de quem eu gostasse, contudo. Os que entreguei aos federais eram verdadeiros filhos da mãe.
Céus, que fome estou sentindo!

30 de janeiro

Hoje não há gaivota. Isto me recorda os avisos que, às vezes, vemos nas carrocinhas lá no subúrbio. HOJE NÃO HÁ TOMATE. Entrei na água até a cintura, levando
na mão a faca amolada. Fiquei absolutamente imóvel, no mesmo lugar, durante quatro horas com o sol batendo em mim. Por duas vezes, pensei que fosse desmaiar, mas
contei retroativamente, até passar a sensação. Não vi peixe nenhum. Não havia um só para amostra.

31 de janeiro

Matei outra gaivota, da mesma forma que a primeira. Estava tão faminto, que não a torturei como havia premeditado. Tirei-lhe as tripas e a comi. Depois, espremi
as tripas, que comi também. É estranho como sentimos a vitalidade renascendo. Eu começava a assustar-me. Deitado à sombra dá grande pilha central de rochas, pensava
ouvir vozes.
A de meu pai. De minha mãe. De minha ex-esposa. E, pior que tudo, também do grande cara que me vendeu a heroína em Saigon. Ele tinha uma voz ciciante, possivelmente
devido a uma fenda palatina parcial.
- Vamosss - dizia sua voz, vinda de nenhures. - Vamosss, dê uma sseirada. Assim, não perccceberá que essstá com tanta sssome. É uma belezzza...
Só que eu nunca me dopei, nem mesmo com pílulas para dormir.
Lowanthal se matou, ha contei? Aquele covarde. Enforcou-se no que era seu escritório.
Da maneira como penso, prestou um favor ao mundo.
Eu queria minha licença de volta. Algumas das pessoas com quem falei, achavam que seria possível - mas ia custar uma nota alta. Mais do que eu poderia imaginar.
Eu tinha 40.000 em um cofre no banco. Decidi que precisaria correr o risco e modificar a situação. Dobrar ou triplicar aquela grana.
Então, procurei Ronnie Hanelli. Eu e Ronnie jogamos futebol juntos na universidade e, quando seu irmão menor se decidiu por medicina interna, ajudei-o a conseguir
uma residência hospitalar. O próprio Ronnie fazia preparatórios para Direito, não é engraçado? Quando estávamos crescendo, no quarteirão costumávamos chamá-lo de
Ronnie Legal, porque ele apitava todos os jogos de stickball e arbitrava o hóquei. Quem não gostasse de suas decisões, podia escolher - ficar de boca fechada ou
comer socos. Os porto-riquenhos o chamavam de Ronniecarcamano. Tudo em uma só palavra. Ronniecarcamano. Isso o chateava. Pois esse cara fez faculdade, diplomou-se
em leis e foi aprovado sem a menor dificuldade, da primeira vez em que se submeteu aos exames para advogar. Então, montou escritório na antiga vizinhança, bem em
cima do Bar Aquário. Fecho os olhos, e ainda posso vê-lo cruzando o quarteirão naquele seu Continental branco. O maior tubarão da cidade, em questão de empréstimos.
Eu sabia que Ronnie tinha algo para mim.
- É perigoso - disse ele - mas você sempre pode cuidar de si mesmo. E se conseguir a licença de volta, eu o apresentarei a dois sujeitos. Um deles é um representante
estadual.
Ele me forneceu dois nomes. Um deles era do grande china, Henry Li-Tsu. O outro era de um vietnamita chamado Solom Ngo. Um químico. Por um preço estipulado,
testaria o produto do China. China era conhecido por suas "brincadeiras" eventuais. As "brincadeiras" eram sacos plásticos repletos de talco, de detergente em pó
para limpar esgotos, de maisena. Ronnie dizia que, um dia, Li-Tsu ainda seria morto por causa de suas piadinhas.

l de fevereiro

Houve um avião. Voou diretamente em cima da ilha. Tentei subir ao monte de rochas e acenar para ele. Meu pé enfiou-se em um buraco. Aquele mesmo maldito buraco
que me prendeu, no dia em que matei a primeira gaivota, presumo. Fraturei o tornozelo, fratura composta. Foi como um balanço. Uma dor indescritível. Gritei e perdi
o equilíbrio, girando os braços como louco, mas acabei rolando até embaixo, bati com a cabeça e tudo ficou negro. Só acordei quando já era crepúsculo. Perdi algum
sangue, onde bati com a cabeça. Meu tornozelo havia inchado como um pneu e, de quebra, tive um sério caso de queimadura por exposição ao sol. Acho que se houvesse
uma hora a mais de sol, eu acabaria com bolhas na pele.
Arrastei-me até aqui e passei a última noite tiritando e chorando de frustração.
Desinfetei o ferimento da cabeça, logo acima do lobo temporal direito. Coloquei ataduras, o melhor que pude. Foi apenas um ferimento superficial do couro
cabeludo, mais uma concussão secundária, suponho, porém meu tornozelo... Foi uma coisa feia, envolvendo dois lugares, talvez três.
Como vou poder perseguir as aves agora?
Só podia ser um avião em busca de sobreviventes do Callas. Com a escuridão e a tempestade, o barco salva-vidas pode ter sido levado para quilômetros e quilômetros
de distância do local do naufrágio. É possível que nem voltem mais por aqui.
Céus, e com meu tornozelo doendo tanto!

2 de fevereiro

Fiz um sinal, na pequena praia de areia branca no lado sul da ilha, aonde o barco salva-vidas aportou. Levei o dia inteiro, com paradas para descansar na
sombra.
Mesmo assim, perdi os sentidos duas vezes. Imagino que já tenha perdido uns doze, treze quilos, em especial pela desidratação. Agora, contudo, de onde estou
sentado, posso ver as quatro letras que levei o dia inteiro escrevendo; rochas escuras contra a areia branca, dizendo HELP (Socorro), em letras de metro e meio de
altura. Se outro avião passar, não me perderá.
Se houver outro avião.
Meu pé lateja constantemente. Continua inchado e muito vermelho em torno da fratura dupla. A vermelhidão parece ter aumentado. Amarrando apertadamente com
minha camisa, alivio o pior da dor, porém ela continua forte, a ponto de eu antes perder os sentidos, do que dormir.
Comecei a pensar que talvez precise amputá-lo.

3 de fevereiro

A inchação e a vermelhidão estão piores. Vou esperar até amanhã. Se a operação se tornar necessária, acho que conseguirei levá-la a cabo. Tenho fósforos para
esterilizar a faca amolada, além de agulha e linha do estojo de costura. Minha camisa servirá como atadura.
Para cúmulo, conto com dois quilos de "sedativo", embora dificilmente do tipo que eu receitaria. Contudo, as pessoas o tomariam, se pudessem consegui-lo.
Podem apostar.
Aquelas velhas damas de cabelos azulados cheirariam qualquer coisa, se pensassem que isso as deixaria altas. Podem crer!

4 de fevereiro

Decidi amputar meu pé. Agora, há quatro dias que não como. Se esperar mais tempo, corro o risco de desmaiar, de choque e de fome no meio da operação, com
uma hemorragia que me levará à morte. Afinal, embora esteja um trapo, eu quero viver.
Lembro-me do que Mockridge costumava dizer, em Anatomia Básica. Nós o chamávamos de Velho Mockie. Cedo ou tarde, a pergunta se apresenta a todo estudante
de Medicina. Até que ponto o paciente suporta o choque de um trauma? Então, ele seguia o mapa do corpo humano com sua ponteira, indicando o fígado, os rins, o coração,
o baço, os intestinos. Reduzida a seu nível básico, senhores, a resposta é sempre outra pergunta: Até que ponto o paciente deseja sobreviver?
Creio que posso ser bem sucedido.
Tenho certeza.
Acho que estou escrevendo para adiar o inevitável, mas ocorreu-me que ainda não terminei a história de como vim parar aqui. Talvez devesse preencher essa
lacuna, para o caso da operação dar errado. Levarei apenas alguns minutos e estou certo de que sobrará claridade - luz do dia - suficiente para a operação, porque,
segundo meu Pulsar, são apenas nove e nove da manhã. Ha!
Voei para Saigon como turista. Parece estranho? Pois não devia. Ainda existem milhares de visitantes para lá todos os anos, a despeito da guerra de Nixon.
Há pessoas que também gostam de ver destroços de veículos e brigas de galo.
Meu amigo chinês tinha a mercadoria. Levei-a a Ngo, que a declarou material de pureza máxima. Ele me contou que Li-Tsu tinha feito uma de suas brincadeiras
quatro meses atrás e que sua esposa voara em pedaços, ao ligar a ignição de seu Opel. Desde então, não houvera mais brincadeiras.
Fiquei três semanas em Saigon; havia comprado passagem de volta a São Francisco em um navio-cruzeiro, o Callas. Camarote de primeira classe. Não houve problemas
para subir a bordo com a mercadoria. Por uma certa quantia, Ngo arranjou para que dois funcionários aduaneiros simplesmente me acenassem para ir em frente, após
a vistoria em minhas malas. A mercadoria estava acondicionada em uma sacola de vôo, que eles nem se deram ao trabalho de verificar.
- Vai ser mais difícil passar pela alfândega dos Estados Unidos - disse-me Ngo. - Contudo, isso é problema seu.
Eu não pretendia fazer a mercadoria passar pela aduana americana. Ronnie Hanelli conseguira que um mergulhador fizesse um certo trabalhinho arriscado por
3.000 dólares. Eu deveria encontrá-lo (agora que penso nisso, seria há dois dias passados) em um cortiço de São Francisco, chamado Hotel São Regis. O plano era colocar
a mercadoria em uma lata à prova d'água. Adaptados ao topo haveria um timer e um pacote de corante vermelho. Pouco antes de atracarmos, a lata seria atirada ao mar
- mas não por mim, naturalmente.
Eu ainda procurava um cozinheiro ou camareiro que aceitasse uma nota extra e fosse esperto - ou estúpido o bastante - para ficar de boca fechada depois disso,
quando o Callas afundou.
Não sei como e nem por quê. Havia uma tempestade, mas o navio parecia enfrentá-la perfeitamente. Por volta de oito da noite do dia 23, houve uma explosão
em algum lugar, abaixo dos conveses. No momento, eu me encontrava no salão, e o Callas começou a adernar quase imediatamente. Para a esquerda... eles chamam de "bombordo"
ou "estibordo"?
Pessoas gritavam e corriam para todos os lados. Garrafas caíam das prateleiras no fundo do bar e estilhaçavam-se no chão. Um homem irrompeu dos níveis mais
baixos, cambaleando, com a camisa queimada e a pele transformada em churrasco. O alto falante começou a dizer às pessoas que se encaminhassem para os postos de barcos
salva-vidas que lhes tinham sido designados durante o treinamento contra incêndio, no início do cruzeiro. Os passageiros continuaram correndo de um lado para outro.
Bem poucos se tinham dado ao trabalho de comparecer ao treinamento. Eu, não só compareci, como cheguei cedo- queria estar na primeira fila, compreendam, de maneira
a ter uma visão total de tudo. Sempre dedico a máxima atenção a tudo, quando se trata de conservar a pele.
Fui a meu camarote, peguei as sacolas de heroína e coloquei cada uma em meus bolsos da frente. Depois segui para o Posto de Barcos Salva-vidas 8. Quando subia
a escada para o convés principal, houve mais duas explosões e o barco passou a inclinar-se ainda mais acentuadamente.
A confusão predominava no ambiente. Vi uma mulher gritando com um bebê nos braços, enquanto passava por mim. Então, ela escorregou no piso cada vez mais inclinado.
Bateu com as coxas na amurada e caiu fora do barco. Ainda a vi girar duas vezes em pleno ar e iniciar um terceiro giro, antes de perdê-la de vista. Um homem de meia
idade, sentado no centro do jogo de mareias, no tombadilho, arrancava os cabelos. Outro homem, em trajes de cozinheiro, horrivelmente queimado no rosto e mãos, cambaleava
de um lugar para outro, gritando, "AJUDEM-ME! EU NÃO CONSIGO ENXERGAR! AJUDEM-ME! NÃO CONSIGO ENXERGAR!- O pânico era quase total! Transmitira-se dos passageiros
à tripulação, como uma doença.
Lembrem-se de que o tempo decorrido entre a primeira explosão até o real afundamento do Callas, foi de somente vinte minutos. Alguns postos dos escaleres
estavam apinhados de gente gritando, enquanto outros se encontravam absolutamente vazios. O meu, no lado do barco que adernava, estava quase deserto: apenas eu e
um marinheiro comum, de rosto pálido e com espinhas.
- Vamos logo botar este filho da puta na água - disse ele, com os olhos girando loucamente nas órbitas. - Esta maldita banheira vai direto para o fundo.
Não há dificuldade em operar-se as engrenagens de um barco salva-vidas, mas em seu crescente nervosismo, o marinheiro emaranhou todo o seu lado da cordoalha.
O barco desceu dois metros, depois ficou pendurado, a proa meio metro mais baixa do que a popa.
Eu ia aproximar-me para ajudá-lo, quando ele começou a gritar. Conseguiu desemaranhar a cordoalha e ficar com a mão presa, ao mesmo tempo. A corda que se
desenrolava raspou firme sobre sua mão aberta, arrancando a pele, e ele foi expelido por sobre a borda.
Joguei a escada de cordas para baixo, desci por ela apressamente e soltei o escaler da cordoalha que o abaixava. Depois remei, algo que havia feito ocasionalmente
por prazer, quando nas casas de veraneio dos amigos - algo que agora fazia para salvar minha vida. Sabia que, se não me afastasse o suficiente do agonizante Callas
antes que ele afundasse, a sucção me levaria para o fundo com ele.
Apenas cinco minutos mais tarde, o Cállas afundou. Eu não escapara inteiramente à sucção; precisei remar como louco, apenas para ficar no mesmo lugar. O navio
afundou rapidamente. Ainda havia pessoas aferradas à amurada da proa, aos gritos. Pareciam um bando de macacos.
A tempestade aumentou. Perdi um remo, porém consegui manter o outro. Passei toda aquela noite em uma espécie de sonho, primeiro esvaziando a água do fundo,
depois agarrando o remo e remando furiosamente, para manter a proa do bote na direção da próxima onda que se avolumava.
Pouco antes do alvorecer do dia 24, as ondas começaram a ficar mais fortes atrás de mim. O barco arremeteu para diante. Eu estava aterrorizado, mas eufórico
ao mesmo tempo. De repente, a maioria das tábuas do fundo foi arrancada de sob os meus pés.
Antes, entretanto, que o escaler pudesse afundar, foi atirado para este monte de rochas esquecido por Deus. Eu nem ao menos sabia onde estava; não tinha a
menor idéia de minha localização. Navegar nunca foi o meu ponto alto, ha-ha!
Contudo, sei o que tenho a fazer. Este talvez seja o último registro neste livro, mas creio que terei êxito, de algum modo. Não o tive sempre? Por outro lado,
hoje em dia fazem coisas espetaculares, em matéria de próteses. Posso me virar muitíssimo bem, com apenas um pé.
Chegou A hora de verificar se sou tão bom como imagino. Sorte!

5 de fevereiro

Já fiz.
A dor era a parte que mais me preocupava. Posso suportá-la, mas pensei que, em minha condição debilitada, uma mistura de fome e agonia poderia levar-me ao
desfalecimento, antes que conseguisse terminar.
A heroína, no entanto, resolveu isto completamente.
Abri uma das sacolas e aspirei duas boas pitadas, sobre a superfície de uma rocha plana - primeiro a narina direita, depois a esquerda. Foi como aspirar algo
gelado e maravilhosamente entorpecedor, que se espalhou pelo cérebro, de baixo para cima.
Aspirei a heroína, assim que terminei de escrever neste diário ontem, isso foi às 9:45.
Quando tornei a consultar meu relógio, as sombras se tinham movido, deixando-me parcialmente ao sol, e já eram 12:41. Eu havia cochilado. Nunca imaginei que
isso poderia ser tão belo, não entendo por que era tão desdenhoso antes. A dor, o terror, a infelicidade... tudo desaparece, deixando apenas uma calma euforia.
Foi neste estado que operei.
Naturalmente, houve muita dor, a maioria dela na parte terrena da cirugia. Contudo, ela parecia desligada de mim, como se fosse a dor em outra pessoa. Isso
me perturbou, porém foi algo muito interessante. Dá para entender? Talvez vocês entendam, se usarem uma forte medicação com base de morfina. Trata-se de algo mais
do que a dor imprecisa. Induz a um estado de mente. A uma serenidade. Posso compreender porque as pessoas ficam viciadas, embora "viciado" me pareça uma palavra
demasiado forte, mais comumente usada por aqueles que nunca experimentaram.
Embora sentida a meio, a dor começou a tornar-se uma coisa mais pessoal. Fui invadido por ondas de vertigem. Olhava ansiosamente para a sacola aberta do pó
branco, mas me forçava a desviar os olhos. Se repetisse a dose, teria uma hemorragia fatal, tão certa como se perdesse os sentidos. Em vez disso, contei retroativamente,
a partir de cem.
A perda de sangue era o fator mais crítico. Como cirurgião, eu estava vitalmente cônscio disso. Nem uma gota podia ser perdida desnecessariamente. Quando
um paciente sofre uma hemorragia, durante uma cirurgia no hospital, podemos dar-lhe uma transfusão de sangue. Eu não dispunha de tais luxos. O que estava perdido
- e quando terminei, a areia debaixo de minha perna estava escura de sangue - perdido estava, até que minha fábrica interna renovasse o suprimento. Eu não tinha
pinça, hemostatos ou fio cirúrgico.
Iniciei a cirurgia exatamente às 12:45. Terminei-a às 13:50 e imediatamente mediquei-me com heroína, uma dose maior do que antes. Penetrei em um mundo cinza
e indolor, lá permanecendo até quase as cinco da tarde. Quando saí dele, o sol aproximava-se do horizonte oeste, esbatendo uma trilha dourada através do Pacífico
azul, até onde me encontrava. Nunca vi nada mais belo... toda a dor valeu por apenas aquele instante. Uma hora depois, cheirei uma pitada mais, apenas para saborear
e apreciar melhor o pôr-do-sol.
Logo depois do escurecer, eu...
Eu...
Um momento. Já lhes contei que estou sem comer nada há quatro dias? E que a única ajuda de que me vali, na questão de reabastecer minha debilitada vitalidade
foi meu próprio corpo? Acima de tudo, não lhes disse, incessantemente, que a sobrevivência é uma atividade da mente? Da mente superior? Não pretenderei justificar-me,
alegando que vocês teriam feito o mesmo. Em primeiro lugar, o mais provável é que não sejam cirurgiões. Mesmo que estivesse a parda mecânica da amputação, poderiam
manejar tão mal a situação, que de qualquer modo sangrariam até a morte. E, mesmo que suportassem a operação e o choque do traumatismo, talvez a idéia nunca penetrasse
em suas mentes pré-condicionadas. Não faz diferença. Ninguém vai saber. Meu último ato, antes de deixar a ilha, será destruir este livro.
Fui muito cuidadoso.
Lavei-o minuciosamente, antes de comê-lo.

7 de fevereiro

A dor no coto foi terrível - lancinante de quando em quando. No entanto, creio que a arraigada comichão, à medida que se inicia o processo de cicatrização,
tem sido o pior.
Esta tarde, fiquei pensando em todos os pacientes que se queixavam de não suportarem a terrível e não-coçável coceira da carne em falta. Eu sorria, dizia
a eles que no dia seguinte se sentiriam melhor, pensando comigo mesmo como eram lamentosos e moles, aqueles bebês ingratos. Agora, posso compreender. Por várias
vezes, estive perto de rasgar e arrancar as ataduras feitas com minha camisa e coçar, cravar os dedos na carne viva e macia, puxar as suturas rudes, deixar o sangue
esguichar para a areia, qualquer coisa, tudo enfim, para ficar livre dessa enlouquecedora, horrível coceira.
Em tais momentos, eu contava regressivamente, começando em cem. E cheirava heroína.
Não faço idéia da quantidade que já lancei em meu organismo, porém sei que tenho ficado "dopado" quase continuamente, desde a operação. A heroína diminui
a fome, como sabem. Mal tenho consciência de estar faminto. Existe um vago e distante vazio em meu estômago e isso é tudo. Poderia ser facilmente ignorado. Contudo,
não posso fazer isso. A heroína não possui valor calórico mensurável. Estive me testando, rastejando de um lugar para outro, medindo minhas energias. Estão acabando.
Oh, Deus, espero que não, mas... talvez seja necessária outra cirurgia. (mais tarde)
Outro avião sobrevoou a ilha. Alto demais, para me ser útil; tudo quanto pude ver foi a esteira de vapor do jato, espichando-se no céu. Mesmo assim, acenei
para ele. Acenei e gritei para ele. Depois que desapareceu, eu chorei.
Está ficando muito escuro para enxergar. Comida. Estive pensando em todos os tipos de comida. A lasanha de minha mãe. Pão de alho. Lagosta. Escargots. Filé
mignon.
Pêssegos melba. Grelhado londrino. A enorme fatia de bolo inglês e a concha de creme de baunilha feito em casa, que nos dão por sobremesa no "Mother Crunch"
da Primeira Avenida. Pãezinhos quentes, salmão defumado, Alaska defumado, presunto defumado com rodelas de abacaxi. Rodelas de cebola. Molho acebolado com batatas
fritas, chá gelado em longos, longos goles, batatas fritas fazem a gente lamber os beiços.
100, 99, 98, 97, 96, 95, 94
Deus, Deus, Deus.

8 de fevereiro

Outra gaivota pousou no monte de rochas esta manhã. Uma das gordas. Eu estava sentado à sombra de minha rocha, o que considero meu acampamento, com o coto
envolvido nas ataduras e bem apoiado. Comecei a salivar, assim que a gaivota pousou.
Exatamente como um dos cães de Pavlov. Babando impotentemente, como um bebê.
Igual a um bebê.
Peguei uma pedra, grande o bastante para ficar bem ajustada em minha mão, e comecei a engatinhar para a gaivota. Quarto quarter. Estamos agora reduzidos a
três. Terceira e longa yardage. Pinzetti recua para o passe (Pine, quero dizer, Pine). Eu não tinha tanta esperança. Estava certo de que a gaivota voaria. Contudo,
precisava tentar. Se pudesse apanhá-la, uma ave tão gorda e insolente como aquela, poderia adiar indefinidamente uma segunda operação. Rastejei para ela, com o coto
batendo em uma rocha de quando em quando e enviando estrelas de dor por todo o meu corpo. Esperei que ela voasse.
Não voou. Apenas andou de um lado para outro, seu peito carnudo empinado, como o de algum general avícola, passando tropas em revista. De vez em quando olhava
para mim com seus olhinhos astutos e eu ficava rígido como uma pedra, contava de trás para diante, começando de cem, até ela recomeçar a andar para cá e para lá.
A cada vez que ela agitava as asas, meu estômago parecia encher-se de gelo. Continuei babando. Não era possível controlar-me. Estava babando como um bebê.
Não sei por quanto tempo a fiquei espreitando. Uma hora? Duas? E quanto mais perto eu chegava, mais meu coração disparava e mais saborosa me parecia a gaivota.
Ela dava a impressão de zombar de mim. Comecei a acreditar que, tão logo eu chegasse à distância de tiro, ela voaria para fora de meu alcance. Meus braços e pernas
tinham começado a tremer. Eu sentia a boca seca. O coto latejava de modo lancinante. Agora, penso que devia estar sentindo dores por falta da droga. Bem, mas tão
cedo? Fazia menos de uma semana que eu a vinha usando!
Não importa. Eu precisava dela, preciso. Há muita heroína ainda, bastante. Se tiver que me submeter a um período de cura mais tarde, quando voltar aos States,
interno-me na melhor clínica da Califórnia e tudo será como uma brincadeira. No momento, o problema não é este, certo?
Quando cheguei a uma boa distância para acertar, não quis atirar a pedra. Fiquei insanamente convicto de que erraria, provavelmente por mais de metro. Precisava
chegar mais perto. Assim, continuei a rastejar para o alto do monte de rochas, a cabeça jogada para trás, o suor escorrendo de meu corpo debilitado de espantalho.
Meus dentes haviam começado a cariar, já lhes contei? Se fosse um cara supersticioso, diria que era porque tinha comido...
Ha! Nós sabemos o que, não é mesmo?
Parei novamente. Estava muito mais perto dela do que o estivera das outras gaivotas.
Contudo, não conseguia forçar-me a jogar-lhe a pedra. Aferrei-a na mão até os dedos doerem, mas continuava sem atirá-la. Porque sabia exatamente o que ia
acontecer, caso falhasse a pontaria.
Pouco me importo se usar toda a mercadoria! Processarei todos eles, até o fim! Ficarei numa boa pelo resto da vida! De minha longa vida!
Penso que teria rastejado até a gaivota, sem jogar a pedra, se ela finalmente não voasse.
Eu chegaria até o alto e a estrangularia. No entanto, a maldita bateu as asas e fugiu.
Gritei para ela, ergui-me nos joelhos e atirei a pedra, com todas as forças. E acertei!
A enorme ave soltou um grasnido estrangulado e caiu no outro lado do monte de rochas.
Rindo e falando incoerentemente, agora pouco ligando se batia com o coto em algum obstáculo ou abria a ferida, rastejei até o alto e para o outro lado. Perdi
o equilíbrio e bati com a cabeça. Nem mesmo dei por isso, não no momento, embora houvesse se formado um galo enorme. Eu só conseguia pensar na gaivota e em como
a tinha acertado, uma sorte fantástica, em pleno ar. Eu a acertara!
No outro lado da pilha de rochas, ela saltava desajeitadamente para a praia, uma asa quebrada, a parte inferior do corpo vermelha de sangue. Engatinhei o
mais depressa que pude, porém ela era ainda mais rápida. Uma corrida de aleijados! Ha! Ha! Eu podia tê-la agarrado - a distância diminuía entre nós - se não fosse
por minhas mãos. Preciso ser muito cuidadoso com elas. Posso vir a precisar das mãos novamente. A despeito de meus cuidados, as palmas estavam laceradas, quando
alcancei a estreita faixa de praia, além de estilhaçar o mostrador de meu Pulsar contra a crista de uma pedra.
A gaivota saltou para a água, grasnindo repulsivamente, mas consegui alcançá-la.
Agarrei um punhado de penas de sua cauda, que ficou entre meus dedos. Depois caí, inalando água, fungando e asfixiando.
Rastejei mais. Inclusive, tentei nadar atrás dela. As ataduras me caíram do coto. Comecei a afundar. Pude apenas retornar à praia, trêmulo de exaustão, dilacerado
pela dor, chorando e gritando, xingando a gaivota. Ela ficou flutuando por muito tempo, sempre cada vez mais distante. Tenho a impressão de que, a certa altura,
eu lhe pedia que voltasse. No entanto, quando se foi, por sobre o recife, acho que estava morta.
Não é justo.
Levei quase uma hora engatinhando para meu acampamento. Cheirei uma boa dose de heroína mas, mesmo assim, continuo francamente furioso com a gaivota. Se eu
não ia consegui-la, por que ela havia de zombar de mim? Por que não se limitou a fugir voando?

9 de fevereiro

Amputei meu pé esquerdo e o envolvi em ataduras feitas com minhas calças. Curioso.
Durante toda a cirurgia, eu fiquei babando. Babaaando. Do mesmo jeito de quando vi a gaivota. Babando irremediavelmente. Contudo, obriguei-me a esperar até
depois do escurecer. Fiquei contando para trás, a partir de cem... vinte ou trinta vezes! Ha! Ha!
E então...
Fico repetindo para mim mesmo: rosbife frio. Rosbife frio. Rosbife frio.

11 (?) de fevereiro

Choveu nos dois últimos dias. Também ventou forte. Consegui mover algumas rochas da pilha central, suficientes para fazer um buraco onde pudesse abrigar-me.
Encontrei uma aranha pequenina. Apertei-a entre os dedos, antes que pudesse fugir, depois a comi.
Muito gostosa. Suculenta. Refleti que as rochas acima de mim podem cair e sepultar-me vivo. Não me importo.
Passei dopado toda a tempestade. Talvez tenha chovido três dias, em vez de dois. Ou apenas um. Contudo, acho que escureceu duas vezes. Adoro desligar-me da
realidade.
Então, não sinto dores nem comichões. Sei que sobreviverei a isto. Uma pessoa não passa por semelhante provação em troca de nada.
Quando eu era criança, havia um padre na Igreja da Sagrada Família, um sujeito tampinha, que adorava discorrer sobre o inferno e pecados mortais. De fato,
aquilo era um verdadeiro hobby para ele. Seu conceito era de que não se pode anular um pecado mortal. Sonhei com ele esta noite, com o Padre Hailley em sua batina
negra, seu nariz de beberrão, sacudindo o dedo para mim e dizendo, "Que vergonha, Richard Pinzetti... um pecado mortal... você vai para o inferno, garoto... vai
para o inferno..."
Ri dele. Se este lugar não é o inferno, então o que é? E o único pecado mortal é desistir.
Metade do tempo estou delirando; na outra metade, meus cotos comicham e a umidade faz com que doam terrivelmente.
Ainda assim, eu não desisto. Juro. Isto não acontece por nada. Tudo isto não é em vão.

12 de fevereiro

O sol despontou novamente, faz um lindo dia. Espero que eles estejam congelando os traseiros, lá onde eu morava.
Foi um bom dia para mim, tão bom como é possível nesta ilha. A febre que tive durante a tempestade, parece ter caído. Eu estava fraco e tiritante quando rastejei
para fora de meu abrigo, mas depois de jazer ao sol por duas ou três horas, quase comecei a sentir-me humano novamente.
Engatinhei para o lado sul e encontrei vários pedaços de madeira, lançados aqui pela tempestade, incluindo-se várias tábuas de meu barco salva-vidas. Havia
algas e plantas marinhas em algumas das tábuas. Eu as comi. Tinham um gosto horrível. Era como comer uma cortina de plástico de chuveiro. Contudo, senti-me bem mais
forte esta tarde.
Arrastei a madeira até o mais longe que pude, a fim de que seque. Ainda tenho um tubo inteiro de fósforos à prova d'água. A madeira dará um bom fogo para
sinalização, caso alguém chegue logo. Ou talvez uma fogueira para cozinhar. Vou dar uma cheirada agora.

13 de fevereiro

Encontrei um caranguejo. Matei-o e o assei em uma pequena fogueira. Esta noite, quase voltei a acreditar em Deus.

14 de fevereiro

Só esta manhã percebi que a tempestade desarrumou a maioria das pedras que formavam o meu sinal de HELP. Ora, mas a tempestade terminou... há três dias? Terei
ficado realmente tão dopado? Preciso cuidar disto, baixar a dosagem. E se aparecer um navio, enquanto eu estiver desligado?
Tornei a compor as letras, porém isso me tomou a maior parte do dia e agora estou exausto. Procurei um caranguejo onde encontrei o primeiro, mas nada. Cortei
as mãos em várias rochas que usei para fazer o sinal, mas imediatamente as desinfetei com iodo, apesar de meu cansaço. Devo tomar cuidado com as mãos. Haja o que
houver.

15 de fevereiro

Uma gaivota pousou no alto do monte de rochas, mas voou antes que eu chegasse ao alcance de tiro. Desejei que ela fosse para o inferno, onde poderia bicar
os olhinhos injetados de sangue do Padre Hailley, por toda a eternidade.
Ha! Ha!
Ha! Ha!
Ha

17 (?) de fevereiro

Amputei minha perna esquerda na altura do joelho, mas perdi um bocado de sangue. A dor é lancinante, a despeito da heroína. O choque pelo traumatismo mataria
um homem menor. Quero responder com uma pergunta: Até que ponto o paciente deseja sobreviver? Até que ponto o paciente deseja viver?
Minhas mãos tremem. Se elas me traírem, estou acabado. Elas não têm o direito de trair-me. O menor direito. Afinal, cuidei bem delas por toda a sua vida.
Papariquei-as. É melhor que não me traiam. Ou se arrependerão.
Pelo menos, não estou com fome.
Uma das tábuas do barco salva-vidas partiu-se ao meio e uma de suas extremidades formou uma ponta. Usei-a. Estava babando, mas me forcei a esperar. E então,
fiquei pensando em... oh, nos churrascos que tínhamos. Pensei na casa de Will Hammersmith em Long Island, com uma churrasqueira grande o bastante para assar um porco
inteiro.
Ficávamos sentados na varanda ao anoitecer, com generosos drinques nas mãos, falando sobre técnicas cirúrgicas, escores de golfe ou qualquer outra coisa.
Então, armava-se uma brisa e trazia até nós o doce aroma do porco se tostando. Judas Iscariotes, o doce aroma do porco se tostando...

? de fevereiro

Tirei a outra perna à altura do joelho. Dormi o dia inteiro. "Esta operação era necessária, doutor?" Haha. Mãos trêmulas, como as de um velho. Eu as odeio.
Sangue debaixo das unhas. Feridas. Alguém se lembra daquele modelo na faculdade de Medicina, com o ventre de vidro? É assim que me sinto. Só que não quero olhar.
Nem me conte. Recordo que Dom costumava dizer isso. Vinha se bamboleando até a gente na esquina, com seu blusão do clube Proscritos da Rota. A gente perguntava,
como se saiu com ela, Dom? E Dom respondia, nem me conte. O velho Dom. Eu gostaria de nunca ter saído de lá, do subúrbio. Isto soa tão falso, que até Dom diria,
haha.
No entanto, fiquem sabendo que, com a terapia adequada e uma boa prótese, posso ficar novo em folha. Voltarei aqui e direi às pessoas " Isto. Foi onde. Aconteceu.
"
Hahaha!

23 (?) de fevereiro

Não tenho coragem, mas é preciso. Contudo, de que jeito vou suturar a artéria femural, em um ponto tão alto? Neste local, ela é tão grande como uma auto estrada.
Vai ser preciso, de algum modo. Fiz a marcação através do topo da coxa, na parte que ainda está carnuda. Fiz a marcação com este lápis.
Eu desejaria parar de babar.

Fe

Você... merece... uma folga hoje... portanto, levante-se e vá... até o Mc Donald's... duas rodelas inteiras de pura carne... molho especial... alface... pickles...
cebola... sobre um pãozinho com sementes de gergelim...
Tra-la... la-la-la... la-ri-la...

Fev

Hoje olhei para meu rosto na água. Nada mais que um crânio coberto de pele.
Já estarei insano? Devo estar. Agora sou um monstro, um fenômeno. Não sobrou mais nada das virilhas para baixo. Apenas um fenômeno. Uma cabeça presa a um
torso, arrastando-se na areia, pelos cotovelos. Um caranguejo dopado. Não é como chamam a si mesmos agora? Ei, amigo, sou um pobre caranguejo dopado, pode me arranjar
um níquel?
Hahahaha.
Dizem que somos o que comemos e, se for verdade, EU NÃO MUDEI EM ABSOLUTO! Santo Deus, o choque-traumático choque-traumático, NÃO EXISTE ISSO DE CHOQUE-TRAUMÁTICO
HA

40 (?) fev

Sonhei com meu pai. Quando bebia, ele engrolava todo o seu inglês. Não que valesse grande coisa o que dizia. Fodido seboso. Fiquei tão feliz em ir embora
de sua casa papai, seu monte fodido de toucinho seboso, nada nada zero zero. Eu sabia que conseguiria. Fugi de você, não foi? Fugi caminhando sobre minhas próprias
mãos.
Só que não há nada mais sobrando para eles cortarem fora. Ontem tirei os lóbulos de minhas orelhas, mão esquerda lava a direta não deixe sua mão esquerda
saber o que faz a direita uma batata duas batatas três batatas quatro nós temos uma geladeira com porta de prateleiras.
Hahaha.
E daí, quem se importa, esta mão ou aquela. Boa comida boa carne bom Deus vamos comer.
Dedos-de-dama eles têm exatamente o mesmo sabor que dedos-de-dama.

* * *



UM MUNDO DE PRAIA

Nave Fed ASN/29 caiu do céu e estatelou-se. Após algum tempo, dois homens esgueiraram-se de seu crânio espatifado, como se fossem miolos. Caminharam um curto
trecho e então pararam, com os capacetes debaixo do braço, espiando o lugar em que haviam terminado.
Era uma praia, sem qualquer necessidade de mar - ela era seu próprio mar, um mar esculpido em areia, um mar de instantâneo-preto-e-branco, congelado para
sempre em depressões e cristas, mais depressões e cristas.
Dunas.
Algumas rasas, outras íngremes, lisas ou enrugadas. Dunas com a crista de uma lâmina de faca, dunas de cristas planas, dunas de cristas irregulares, como
dunas empilhadas umas sobre as outras - dunas-dominós.
Dunas. Mas sem mar.
Os vales que eram as depressões entre as dunas, serpenteavam como negros labirintos.
Se alguém olhasse por tempo suficiente para aquelas linhas torcidas, elas pareciam escrever palavras - palavras negras, pairando acima das dunas brancas.
- Porra! - exclamou Shapiro.
- Calma - disse Rand.
Shapiro começou a cuspir, depois parou. Vendo toda aquela areia, pensou melhor.
Aquele não era o momento de perder umidade. Semi-sepultado na areia, o ASN/29 não tinha mais a semelhança de um pássaro agonizante; parecia uma abóbora que
se esborrachara, exibindo a podridão interna. Houvera incêndio. Todas as embocaduras de combustível a estibordo tinham explodido.
- Má sorte a de Grimes - disse Shapiro.
- Hã-hã.
Os olhos de Randy ainda perscrutavam o mar de areia, até a linha limite do horizonte, e tornavam a voltar.
Era mesmo má sorte a de Grimes. Ele estava morto. Grimes agora não passava de pedaços maiores e menores no compartimento de armazenagem da popa. Shapiro estivera
espiando e havia pensado: É como se Deus tivesse decidido comer Grimes, mas achando o sabor ruim, o tinha cuspido fora. Aquilo tinha sido demais para o estômago
de Shapiro. Aquilo e a visão dos dentes de Grimes, espalhados pelo chão do compartimento de armazenagem.
Agora, ele esperava que Rand dissesse algo inteligente, mas Rand estava calado. Seus olhos seguiam as dunas, seguiam as linhas entre elas, profundas, enroladas
como molas de relógio.
- Ei! - finalmente exclamou Shapiro. - O que faremos agora? Grimes está morto, logo, é você que o substitui no comando. O que faremos?
- O que faremos? - repetiu Rand. Seus olhos se moveram de um lado para outro, indo e vindo, acima da imobilidade das dunas. Um vento firme e seco abanou a
gola emborrachada do traje de Proteção Ambiental. - Se você não tiver uma bola de vôlei, eu não sei.
- De que está falando?
- Não é o que se presume fazer na praia? - perguntou Rand. - Jogar vôlei?
Shapiro estivera muitas vezes assustado no espaço e bem perto do pânico, quando o incêndio começara. Agora, olhando para Rand, ouvia um rumor de medo, grande
demais para compreendê-lo.
- Grande - disse Rand, sonhadoramente. Por um momento, Shapiro pensou que se referia ao medo dele próprio, de Shapiro. - Um diabo de praia grande. Um negócio
como este pode continuar para sempre. A gente anda duzentos quilômetros com a prancha de surf debaixo do braço e ainda está onde começou, praticamente, sem nada
para trás, além de seis ou sete pegadas impressas. E, se ficarmos no mesmo lugar cinco minutos, as últimas seis ou sete também desaparecem.
- Fez uma varredura topográfica geral, antes de cairmos? - perguntou Shapiro. Decidiu que Rand estava em choque. Rand estava em choque, porém não era louco.
Poderia dar-lhe uma pílula, se fosse preciso e, se ele continuasse agindo idioticamente, poderia dar-lhe um tiro. - Você deu uma espiada nos...
Rand olhou brevemente para ele.
- O quê?
Nos lugares verdejantes. Era o que ia dizer. Soava como uma citação dos Salmos, e ele não conseguiria dizê-lo. O vento repicou cristalinamente em sua boca.
- O quê? - Rand tornou a perguntar.
- Varredura topográfica! Varredura topográfica! - gritou Shapiro. Nunca ouviu falar em varredura topográfica, seu teleguiado? Como é este lugar? Onde está
o mar, no fim desta porra de praia? Onde estão os lagos? Onde fica o cinturão verde mais próximo? Em que direção? Onde termina o areal?
- Onde termina? Oh, já entendi. Ele nunca termina. Não há cinturões verdes nem calotas geladas. Não há oceanos. Esta é uma praia em busca de mar, chapa. Dunas,
dunas e dunas, que nunca têm fim.
- E o que faremos quanto à água?
- Não há nada que possamos fazer.
- A nave... não tem conserto!
- Não me diga, Sherlock!
Shapiro calou-se. Tampouco adiantava ficar histérico. Achava que - era quase certo - se ficasse histérico, seu companheiro ficaria contemplando as dunas,
até ele dar um jeito na situação. Ou não dar jeito nenhum.
Que nome se dá a uma praia que não tem fim? Ora, nós a chamamos de deserto! O maior, mais maldito deserto do universo, não é mesmo?
Em sua cabeça, ouviu Rand responder: Não me diga, Sherlock!
Ficou algum tempo ao lado de Rand, esperando que ele despertasse, que fizesse alguma coisa. Após um longo momento, sua paciência esgotou-se. Ele começou a
deslizar e tropeçar, descendo a duna à qual tinham subido para observar os arredores.
Sentia a areia sugando suas botas. Quero sugar você para baixo, Bill, sua mente imaginou a areia dizendo. Em seu cérebro, aquela era a voz seca e árida de
uma velha, mas ainda terrivelmente forte. Quero sugar você, bem aqui, e dar-lhe uma grande... dentada... um grande... abraço...
Aquilo o fez recordar como costumavam revezar-se, deixando que outros os enterrassem até o pescoço na praia, quando era criança. Naquele tempo, era uma brincadeira
divertida - agora, isso o assustava. Então, desligou aquela voz, aquele não era o momento para canais de recordação, por Deus, não era mesmo - e caminhou através
da areia em passadas curtas, vivas e bem definidas, inconscientemente tentando desfigurar a perfeição daquela encosta, daquela superfície.
- Aonde é que você vai? - pela primeira vez, a voz de Rand mostrava um toque de lucidez e preocupação.
- O rádio - disse Shapiro. - Vou ligá-lo. Estamos em uma faixa mapeada de viagem. Ele será captado, vetorizado. É uma questão de tempo. Sei que as possibilidades
são baixas, porém, talvez alguém apareça, antes que...
- O rádio ficou destroçado - disse Rand. - Aconteceu quando caímos.
- Talvez possa ser consertado - replicou Shapiro, por sobre o ombro.
Quando mergulhou pela escotilha, sentiu-se melhor, apesar dos odores - fios queimados e um jato acre de gás Freon. Disse para si mesmo que estava animado
por ter pensado no rádio. Pouco importando o quão insignificante pudesse ser, o rádio oferecia alguma esperança. Contudo, não era o pensamento no rádio que lhe erguera
o moral; se Rand dissera que estava quebrado, provavelmente devia estar mesmo quebrado. Só que, ali, ele deixava de ver as dunas - não veria mais aquela praia, a
enorme extensão arenosa que não tinha fim.
Era isso que o fazia sentir-se melhor.
Quando tornou a atingir o topo da primeira duna, ofegando, as têmporas latejando com o calor seco, Rand continuava lá, ainda espiando, espiando e espiando.
Uma hora se passara. O Sol estava diretamente acima deles. O rosto de Rand estava molhado de suor. Como jóias, gotículas de transpiração aninhavam-se em suas
sobrancelhas. Outras escorriam por suas faces, como lágrimas. Mais ainda deslizavam pelos músculos de seu pescoço e penetrava pela gola do traje de Proteção Ambiental
(PA), como gotas de óleo incolor, correndo nas entranhas de um andróide em perfeito estado.
Eu o chamei de teleguiado, pensou Shapiro, com um leve estremecimento. Céus, pois ele não parecia outra coisa - não um andróide, mas um teleguiado, que acabou
de levar uma injeção no pescoço, com uma agulha gigantesca.
E, afinal de contas, Rand estivera errado.
- Rand?
Nenhuma resposta.
- O rádio não estava quebrado.
Houve uma fagulha nos olhos de Rand. Depois eles ficaram novamente opacos, voltados para as montanhas de areia. Congeladas, foi o primeiro pensamento de Shapiro,
mas supôs que se moviam. O vento era constante. Elas se moveriam. Em um período de décadas e séculos, elas acabariam movendo-se... bem, andariam. Não era assim que
chamavam às dunas sobre uma praia? Dunas andantes? Ele pareceu recordar isso de sua infância. Ou da escola. Ou de qualquer lugar, diabo, que importância tinha?
Então, viu um delicado estremecer de areia deslizar pelo flanco de uma delas. Como se ouvisse (ouvisse o que eu pensava)
Suor fresco em sua nuca. Certo, estava ficando um tanto fantasioso. Quem não ficaria?
Estavam em um lugar difícil, muito difícil. E Rand parecia não saber disso... ou não se importar.
- Tinha alguma areia e o warbler estava rachado, mas na caixa de bugigangas de Grimes talvez houvesse uns sessenta deles.
Será que ele está me ouvindo?
- Não sei como a areia entrou lá - ele estava justamente onde devia, no compartimento de armazenagem, atrás do beliche, três postigos fechados até o exterior,
mas...
- Oh, a areia se espalha. Penetra em tudo. Lembra-se de quando ia à praia em criança, Bill? Quando a gente voltava para casa, nossa mãe brigava conosco, porque
havia areia por toda parte, hem? Areia no sofá, na mesa da cozinha, debaixo de nossa cama. A areia da praia é muito... - ele fez um gesto vago, e então um sorriso
sonhador, perturbado, assomou-lhe aos lábios - ... ubíqua.
- ... mas não avariou nada - prosseguiu Shapiro. - O sistema out-put da corrente de emergência está tiquetaqueando e liguei o rádio nele. Coloquei os fones
de ouvido por um minuto e pedi uma leitura de equivalência a cinqüenta parsecs. Soa como uma serra elétrica. É melhor do que podíamos esperar.
- Não virá ninguém. Nem mesmo os salva-vidas. O salva-vidas estão mortos há oito mil anos. Bem-vindo à Cidade do Surf, Bill. À Cidade do Surf sem ondas.
Shapiro se virou para as dunas. Perguntou-se por quanto tempo aquela areia estivera ali.
Um trilhão de anos? Um quintilhão? Houvera vida ali algum dia? Talvez algo com inteligência? Rios? Lugares com plantas? Oceanos, que tornariam o lugar uma
praia real, em vez de um deserto?
Shapiro ficou parado ao lado de Rand e pensou a respeito. O vento firme agitou seus cabelos. E, de repente, teve certeza de que todas aquelas coisas tinham
existido, podia imaginar como haviam terminado.
A lenta recuada das cidades, enquanto suas vias canalizadas e navegáveis eram primeiro pontilhadas, depois pulverizadas, finalmente desviadas e sufocadas
pela areia rastejante.
Ele podia ver os cones aluviais de lama, em castanho brilhante, lisos como pele de foca a princípio, porém ficando mais e mais opacos em tonalidade, à medida
que se espalhavam a partir da embocadura dos rios - estendendo-se mais e mais, até se encontrarem. Podia ver a lama untuosa como pele de foca, transformar-se em
pântanos infestados de juncos, acinzentando-se em seguida, ainda saibrosos, para finalmente se tornarem areia branca.
Podia ver montanhas encurtando-se como lápis de pontas refeitas, sua neve derretendo-se, enquanto a areia em ascensão jogava quentes rajadas térmicas contra
elas. Podia ver os últimos penhascos apontando para o céu como pontas dos dedos de homens sepultados vivos. Podia vê-los cobertos e imediatamente esquecidos pelas
dunas profundamente idióticas.
Que nome Rand lhes dera?
Ubíquas.
Se você acabou de ter uma visão, Billyzinho, foi uma terrível e maldita visão.
Oh, não tinha sido bem assim. Ela não era terrível, mas pacífica. Tão quieta, como uma soneca em tarde de domingo. O que havia de mais pacífico do que uma
praia?
Procurou afastar tais pensamentos. Então, tornou a olhar para a nave.
- Não haverá nenhuma cavalaria - disse Rand. - A areia nos cobrirá. Depois de algum tempo, seremos areia e a areia será nós. A Cidade do Surf sem ondas -
pode pegar aquela onda, Bill?
E Shapiro ficou assustado, porque podia pegá-la. Não se podia ver todas aquelas dunas sem tal sensação.
- Maldito teleguiado cretino - disse.
Voltou para a nave. E escondeu-se da praia.
Finalmente o sol se pôs. Era a hora em que, na praia - qualquer praia de verdade - a gente vai encerrando o vôlei, vestindo os blusões e se preparando para
as salsichas e cervejas. Ainda não é hora de transar com uma garota, mas quase. É hora de ficar pensando na transa.
Salsichas e cervejas não faziam parte do estoque de comestíveis do ASN/29.
Shapiro passou a tarde engarrafando cuidadosamente toda a água da nave. Usava um vácuo portátil para sugar o que quer que houvesse escorrido das artérias
do sistema de suprimento da nave e empoçado no chão. Conseguiu captar até mesmo o pouquinho que restara no fundo do estraçalhado sistema hidráulico do tanque d'água.
Não esqueceu nem mesmo o pequeno cilindro nas entranhas do sistema de purificação do ar, que fazia o ar circular nas áreas de armazenagem.
Por fim, foi até a cabine de Grimes.
Grimes mantinha peixes dourados em um tanque circular, construído especialmente para condições livres da ação da gravidade. O tanque havia sido construído
em plástico transparente polymer, resistente ao impacto e suportara a queda sem dificuldade. Os peixes dourados - como seu dono - não eram resistentes ao impacto.
Flutuavam em um frouxo monte alaranjado no topo da bola, a qual fora pousar debaixo do beliche de Grimes, juntamente com três pares de roupa de baixo imundos e meia
dúzia de cubos holográficos pornô.
Ele segurou o aquário-globo por um momento, olhando fixamente para seu interior.
- Lá se foi o pobre Yorich... Eu o conhecia bem... - disse de repente e riu, uma risada estridente, angustiada.
Então, pegando a rede que Grimes guardava em seu armário da cabine, mergulhou-a no tanque. Removeu os peixes, perguntando-se o que fazer com eles. Após um
momento, levou-os à cama de Grimes e ergueu seu travesseiro.
Havia areia debaixo deles.
Mesmo assim, deixou os peixes ali e, em seguida, despejou cautelosamente a água dentro do jerrican que usava como recipiente. Ela deveria ser totalmente purificada,
mas ainda que os purificadores não estivessem funcionando, Shapiro refletiu que, em mais dois dias, pouco estaria ligando se precisasse beber água de aquário, apenas
porque poderia conter algumas escamas soltas e vestígios de fezes de peixes dourados.
Purificou a água, dividiu-a e levou a parte que cabia a Rand até o alto, na encosta da duna. Rand continuava no mesmo lugar, como se não houvesse dado um
só passo.
- Trouxe sua ração de água, Rand.
Shapiro abriu o zíper do bolso frontal no traje PA de Rand e enfiou em seu interior o frasco chato de plástico. Ia fechar o zíper, quando Rand empurrou sua
mão e retirou o frasco. Na frente do frasco estava impresso: FRASCO CL - ESTOQUE DE SUPRIMENTOS DA NAVE CLASSE/ASN - N.° 23196755. ESTÉRIL QUANDO O SELO ESTIVER
INTATO. O selo agora tinha sido rompido, é claro; Shapiro tivera que encher o frasco.
- Eu purifiquei...
Rand abriu os dedos. O frasco tombou na areia, com um plaft macio.
- Não quero.
- Não... Rand, o que há de errado com você? Céus, quer parar com isso?
Rand não deu resposta.
Abaixando-se, Shapiro recolheu o frasco n.° 23196755. Limpou a areia que aderira aos lados, como se fosse enormes e inchados micróbios.
- O que há de errado com você? - repetiu Shapiro. - Será choque? Acha que seja isso? Bem, eu posso dar-lhe uma pílula... ou uma injeção. Só que começa a irritar-me,
se quer saber. Ver você aí parado, olhando para os próximos sessenta quilômetros de nada! É só areia! Nada mais que areia!
- É uma praia - disse Rand, sonhadoramente. - Quer fazer um castelo de areia?
- Tudo bem - suspirou Shapiro. - Vou pegar uma agulha e uma ampola de Yellowjack. Se quer agir como um maldito teleguiado, é assim que vou tratá-lo. Como
a um teleguiado!
- Se tentar injetar-me alguma coisa, é bom ficar quieto, quando se esgueirar por trás de mim - disse Rand, em voz tranqüila. - Do contrário, vou quebrar seu
braço.
Ele também podia fazer isso. Shapiro, o astrogador, pesava setenta quilos e media um e sessenta e dois. O combate físico não era sua especialidade. Grunhiu
um xingamento e deu meia volta, começando a caminhar para a nave, com o frasco de Rand na mão.
- Eu acho que está viva - disse Rand. - Tenho absoluta certeza.
Shapiro olhou para trás, para Rand, depois para as dunas. O sol poente lhes emprestara uma filigrana dourada, desenhando-se sobre suas camadas lisas e ondulantes,
uma filigrana que se matizava delicadamente para o ébano mais negro nas depressões; na duna seguinte, o ébano passava para dourado. De dourado a negro. De negro
a dourado. De dourado a negro e de negro a dourado e de dourado a...
Shapiro piscou rapidamente e esfregou os olhos com a mão.
- Por várias vezes, senti esta duna se mover sob meus pés - disse-lhe Rand. - Ela se move com a maior graciosidade. É como sentir a maré. Posso farejar seu
cheiro no ar e há sal nesse cheiro.
- Você está louco - disse Shapiro.
Estava tão aterrorizado, que tinha a sensação de que seus miolos se haviam transformando em vidro. Rand não respondeu. Seus olhos continuavam perscrutando
as dunas, que iam de dourado a negro e de negro a dourado, naquele pôr-do-sol.
Shapiro retornou à neve.
Rand permaneceu sobre a duna a noite inteira e todo o dia seguinte.
Ao olhar para fora, Shapiro o viu. Rand despira seu traje PA e a areia quase cobrira a veste. Apenas uma manga ficara para fora, melancólica e suplicante.
A areia acima e abaixo deu a Shapiro a impressão de dois lábios, sugando um bocado tenro com desdentada voracidade. Sentiu uma vontade louca de subir até o alto
da duna e recolher o traje PA de Rand.
Acabou não indo.
Sentado em sua cabine, esperou pela nave de socorro. O Freon já se dissipara, agora substituído pelo cheiro ainda menos desejável da decomposição de Grimes.
A nave de socorro não apareceu naquele dia, naquela noite e nem no terceiro dia.
De alguma forma, a areia conseguiu penetrar na cabine de Shapiro, embora a escotilha estivesse fechada e o selo ainda aparentemente intato. Com o vácuo portátil,
ele sugou os pequenos montículos de areia, como havia sugado as poças de água espalhadas, naquele primeiro dia.
Estava sedendo o tempo todo. Seu frasco já estava quase vazio.
Julgou começar a sentir o cheiro de sal no ar. Ao dormir, ouvia grasnido de gaivotas.
Também ouvia a areia.
O vento firme movia a primeira duna para mais perto da nave. Sua cabine continuava em ordem, - graças ao vácuo portátil - mas a areia começava a assenhorear-se
do resto.
Dunas em miniatura haviam passado pelas fechaduras estouradas e invadiam a ASN/29.
A areia despejava-se em gavinhas e membranas através de aberturas. Havia um sedimento depositado em um dos tanques explodidos.
O rosto de Shapiro ficou emaciado e seixoso, com um sombreado de barba.
Perto do pôr-do-sol do terceiro dia, ele subiu à duna para observar Rand. Pensou em levar uma seringa hipodérmica, mas desistiu. Aquilo era muito mais do
que choque, agora tinha certeza. Rand ficara insano. Seria melhor se ele morresse rapidamente, e tudo indicava ser isso mesmo o que ia acontecer.
Shapiro estava emaciado, Rand ficara descarnado. Seu corpo era um graveto esquelético. Suas pernas, antes fortes e grossas, com musculatura vigorosa, agora
estavam frouxas e finas. A pele pendia delas como meias folgadas que estão sempre caindo. Ele usava apenas a cueca, de náilon vermelho, que tinha a absurda aparência
de um frouxo calção de banho. Uma ligeira barba começara a surgir em seu rosto, cobrindo as faces encovadas e o queixo. A barba de Rand era cor de areia da praia.
Seus cabelos, anteriormente exibindo um tom indefinido de castanho, haviam-se desbotado para quase louros. Agora, pendiam-lhe sobre a testa. Somente os olhos, espiando
através da franja com viva intensidade azul, ainda pareciam totalmente animados. Eles estudavam a praia. (as dunas, as malditas DUNAS) incessantemente.
Nesse momento, Shapiro viu algo ruim. Aliás, muito ruim. Viu que o rosto de Rand transformava-se em uma duna de areia. Sua barba e cabelos combinavam com
a pele.
- Você vai morrer - disse Shapiro. - Se não vier para a nave e beber, acabará morrendo, Rand nada disse. - É isso o que quer?
Nada. Houve o sibiliar vazio do vento e nada mais. Shapiro observou que as dobras no pescoço de Rand estavam se enchendo de areia.
- A única coisa que eu quero - disse Rand, em voz fraca, distante como o vento, - são as minhas fitas dos Beach Boys. Estão em minha cabine.
- Dane-se! - bufou Shapiro, furioso. - E quer saber o que eu espero? Espero que uma nave chegue antes de você morrer. Quero vê-lo esbravejar e gritar, quando
o arrancarem para longe de sua preciosa e maldita praia. Quero ver o que então vai acontecer!
- A praia irá capturá-lo também - disse Rand. Sua voz era vazia e chocalhante, como vento dentro de uma abóbora partida - uma abóbora que fora deixada em
um campo, no fim da última colheita de outubro. - Escute só, Bill. Escute a onda.
Rand ladeou a cabeça. Sua boca entreaberta mostrava a língua. Uma língua estorricada como esponja seca.
Shapiro ouviu algo.
Ouviu as dunas. Elas entoavam canções das tardes domingueiras na praia sonecas na praia, sem sonhos. Longas sonecas. Uma paz absoluta. O som de gaivotas grasnando.
Partículas impensadas, à deriva. Dunas andantes. Ele ouviu... e foi atraído. Atraído para as dunas.
- Você ouviu - disse Rand.
Shapiro levou a mão ao nariz e fincou dois dedos, até fazê-lo sangrar. Então, pôde fechar os olhos; seus pensamentos voltaram, lentos e desajeitadamente ligados.
Seu coração disparava.
Eu estava quase como Rand. Céus!... Quase fui apanhado!
Tornou a abrir os olhos e viu que Rand se transformara em uma concha, em uma praia há muito deserta, espichando-se em direção a todos os mistérios de um mar
não-morto, olhando fixamente para dunas, dunas e dunas.
Já basta! gemeu Shapiro para si mesmo.
Oh, ouça só o rumor desta onda, sussurraram as dunas.
Contra a vontade, Shapiro ouviu.
E pensou: Eu ouviria melhor, se me sentasse.
Acomodou-se aos pés de Rand, os calcanhares sobre as coxas, como um índio yaqui, e ouviu.
Ouviu os Beach Boys, e eles cantavam sobre divertir-se, divertir-se, divertir-se. Ouviu-os cantar que as garotas da praia estavam todas ao alcance. Ouviu...
...um suspiro oco do vento, não em seus ouvidos, mas no desfiladeiro entre o cérebro direito e o esquerdo - ouviu aquele suspiro em algum ponto da escuridão
cruzada apenas pela ponte suspensa do corpo caloso, que liga o pensamento consciente ao infinito.
Shapiro não sentia qualquer fome, sede, calor ou medo. Ouvia apenas a voz no vazio.
Então, apareceu uma nave.
Ela surgiu arremetendo do céu, sua combustão retardada riscando um comprido traço alaranjado, da direita para a esquerda. O estrondo contornou a topografia
ondulada em delta e várias dunas desmoronaram, como um cérebro danificado pelo rastro de uma bala. Esse estrondo penetrou na cabeça de Billy Shapiro, fendeu-a e,
por um momento, ele ficou dividido entre os dois lados, partida, cortado ao meio...
Então, estava de pé.
- Uma nave! - gritou. - Céus! Uma nave! Uma nave! UMA NAVE!
Tratava-se de uma nave mercante daquela faixa, suja e castigada por quinhentos anos - ou cinco mil - a serviço do clã. Ondulou através do ar, estrondeou cruamente
na vertical e derrapou. O capitão acionou os jatos, fundindo a areia em vidro negro. Shapiro aplaudiu o ferimento.
Rand olhou em torno, como se despertasse de um sono profundo.
- Diga a ela para ir embora, Billy.
- Você não compreende? - Shapiro andava tropegamente em círculos, sacudindo os punhos no ar. - Você ficará bem...
Depois começou a correr para a suja mercante, em grandes passadas saltadas, como um canguru fugindo de um tiroteio rasante. A areia quis agarrá-lo, Shapiro
a chutou. Dane-se, areia! Tenho uma garota, lá em Hansonville. Areia nunca teve nenhuma garota. Praia, nunca tiveram uma ereção.
A carcaça da mercante se abriu. Uma passarela saltou para fora, como uma língua. Um homem desceu por ela. atrás de três modelos de andróides e de um sujeito
formado por placas rolantes, que certamente seria o capitão. De qualquer modo, usava um quepe com um símbolo de clã.
Um dos andróides agitou um tipo de bastão para ele. Shapiro o afastou de seu caminho.
Caiu de joelhos diante do capitão e abraçou os degraus rolantes que lhe substituíam as pernas mortas.
- As dunas... Rand... sem água... vivo... hipnotizaram-no... um mundo teleguiado... Eu... graças a Deus...
Um tentáculo de aço chicoteou o ar à sua volta e o puxou. arrastando-o deitado, por sobre a barriga. A areia seca cochichou debaixo dele, parecendo gargalhar.
- Tudo bem - disse o capitão. - Be Y-at shr!! Me. Me! Cat!
O andróide soltou Shapiro e afastou-se rangendo furiosamente consigo mesmo.
- Tudo isto por um maldito Fed! - exclamou o capitão, amargurado.
Shapiro chorou. Não era apenas a sua cabeça que doía. mas também o fígado.
- Dud!. Gee-vat! Agua-para-o-que-Chora!
O homem que viera a frente do grupo arremessou-lhe uma espécie de mamadeira para baixa gravidade, provida de bico. Shapiro recolheu-a no ar e sugou vorazmente,
derramando água fria como cristal dentro da boca e pelo queixo, escorrendo em filetes que lhe escureciam a túnica. desbotada para a cor do osso. Ele se engasgou,
vomitou, tornou a beber.
Dud e o capitão o observavam atentamente. Os andróides tilintaram.
Por fim, Shapiro enxugou a boca e sentou-se. Agora. sentia-se indisposto e bem ao mesmo tempo.
- Você Shapiro? - perguntou o capitão.
Shapiro assentiu.
- Afiliação de clã?
- Nenhuma.
- Número da ASN?
- 9.
- Tripulação?
- Três. Um está morto. O outro - Rand - está lá em cima - disse Shapiro, apontando, mas sem olhar.
O rosto do capitão não se alterou, mas sim o de Dud.
- A praia o capturou - explicou Shapiro. Notou os olhares velados e questionantes. - Talvez... esteja em choque. Ele parece hipnotizado. Fica falando sobre
os... os Beach Boys... oh, não importa, vocês não compreendem. Não sabem quem são. Ele não quis comer nem beber. Está mal.
- Dud, leve um dos andróides e traga-o para baixo. - O capitão abanou a cabeça. - Céus, nave da Federação! Sem salvagem!
Dud assentiu. Momentos depois, ele subia dificultosamente uma encosta da duna, com um dos andróides. O andróide parecia um surfista de vinte anos, que poderia
conseguir um dinheiro extra para drogas servindo a viúvas entediadas, porém seu andar o denunciava mais do que os tentáculos segmentados que lhe cresciam nas axilas.
O andar, comum a todos os andróides, era o caminhar lento, reflexivo e quase doloroso de um velho mordomo inglês com hemorróidas.
Houve um zumbido no painel de instrumentos do capitão.
- Estou aqui.
- Fala Gomez, capitão. Estamos com um problema. A varredura topográfica e a telemetria de superfície indicam um solo muito instável. Não há leito rochoso
para sustentar-nos. Estamos sustidos por nossas próprias reservas de empuxo e, neste exato momento, isso pode ser a coisa mais sólida em todo o planeta. O problema
é que essas reservas começam a perigar.
- Recomendação?
- Devemos partir.
- Quando?
- Há cinco minutos.
- Você é um amotinador cômico, Gomez.
O capitão apertou um botão e a comunicação interrompeu-se. Os olhos de Shapiro giravam nas órbitas.
- Ouça, não se incomode com Rand. Ele está perdido!
- Vou levar os dois de volta - disse o capitão. - Não receberei nenhuma salvagem, mas a Federação certamente pagará algo por vocês... não que qualquer dos
dois valha grande coisa, pelo que posso ver. Ele está maluco e você é insignificante.
- Não... você não compreende. Você...
Os astutos olhos amarelos do capitão cintilaram.
- Tem algum contrabando? - perguntou.
- Capitão... ouça... por favor...
- Porque se tem, não faz nenhum sentido deixá-lo aqui. Diga-me o que é e onde está. Racharemos, setenta-trinta. Honorário padrão para aquele que o recolhe.
Não podia ser melhor do que isso, hem? Você...
A reserva de empuxo inclinou-se subitamente. Foi bastante visível a sua inclinação.
Uma buzina, em algum ponto no interior da nave mercante, começou a soar com abafada regularidade. O comunicador no painel de instrumentos do capitão interrompeu-se
de novo.
- Aí está! - gritou Shapiro. - Viu agora o que tem pela frente? Ainda quer falar em contrabando? NÓS TEMOS É QUE SAIR DAQUI IMEDIATAMENTE!
- Cale a boca, simpático, ou farei com que um desses sujeitos lhe dê um sedativo - disse o capitão.
Sua voz era serena, mas os olhos haviam mudado. Ele apertou o botão do comunicador.
- Capitão, estou com dez graus de inclinação e a coisa está aumentando. O elevador está descendo, mas em ângulo. Ainda temos tempo, só que muito pouco. A
nave acabará caindo.
- Os suportes a manterão.
- Não, senhor. Peço desculpas, capitão, mas será impossível.
- Comece a disparar seqüências, Gomez.
- Obrigado, senhor.
O alívio na voz de Gomez era indisfarçávei. Dud e o andróide vinham descendo a encosta da duna, porém Rand não estava com eles. O andróide foi ficando mais
e mais atrasado e, então, aconteceu algo estranho. Ele caiu ao comprido, sobre o rosto. O capitão franziu o cenho. O andróide não caiu como se suporia que caísse,
isto é, mais ou menos como um ser humano. Foi como se alguém empurrasse um manequim, em uma loja de departamentos. Ele caiu precisamente assim, de cara no chão.
Houve um ploft! e uma pequena nuvem de areia se elevou à sua volta.
Dud recuou e ajoelhou-se perto dele. As pernas do andróide continuavam a agitar-se, como se ele - em seu 1,5 milhões de micro circuitos refrigerados a Freon
que compunha sua mente - sonhasse que ainda caminhava. Contudo, os movimentos das pernas eram lentos e rangentes. Depois cessaram. A fumaça começou a brotar-lhe
dos poros e seus tentáculos estremeceram na areia. Era tão horripilante, como ver um humano morrer.
Um profundo rangido brotou de suas entranhas: Graaaagggg!
- Está cheio de areia - sussurrou Shapiro. - Foi atacado pela religião dos Beach Boys.
O capitão olhou impacientemente para ele.
- Não seja ridículo, homem! Aquela coisa poderia caminhar através de uma tempestade de areia, sem que um só grão a penetrasse!
- Não neste mundo.
Os empuxos de reserva perigaram novamente. Agora, a nave mercante mostrava uma visível inclinação. Houve um ruído surdo, quando seus suportes receberam um
peso maior.
- Deixe-o! - gritou o capitão para Dud. - Deixe-o, deixe-o! Geeyat! Come-me-for-Cry!
Dud aproximou-se, deixando que o andróide caminhasse de rosto contra a areia.
- Que confusão! - murmurou o capitão.
Ele e Dud iniciaram uma conversa inteiramente em rápido dialeto simplificado, que Shapiro conseguiu entenderem parte. Dud contou ao capitão que Rand se recusara
a vir.
O andróide tentara agarrá-lo, porém sem muita força, já que se movia espasmodicamente e estranhos chiados brotavam de seu interior. Além disso, ele começara
a recitar uma combinação das coordenadas na extração de carvão galáctico e de um catálogo das gravações de música folclórica do capitão. Então, o próprio Dud se
aproximara de Rand, agarrando-o. Os dois lutaram brevemente. O capitão respondeu que, se Dud permitira que um homem, parado ao sol quente durante três dias, levasse
a melhor sobre ele, então talvez devesse arranjar um outro Primeiro.
O rosto de Dud ensombreceu-se com seu constrangimento, mas persistiu a expressão grave, preocupada. Ele virou lentamente a cabeça, mostrando quatro profundas
estrias em sua face. As estrias começavam a inchar.
- Him-gat big indics - disse Dud. - Strong-for-Cry. Him-gat for eomby.
- Umby-him.for Cry?
O capitão olhava consternado para Dud. Dud assentiu.
- Umby. Beyat shel. Umby-for-Cry.
Shapiro estivera franzindo o cenho, espremendo sua mente fatigada e com medo para entender aquela palavra. Então, recordou. Umby. Significava louco. Por Deus,
ele é forte. Forte, porque está louco. Ele tem muitos expedientes, muita força. Porque está louco.
Muito expediente... ou talvez, isso significasse muitas ondas. Shapiro não tinha certeza.
De qualquer forma, dava tudo no mesmo.
Umby.
O solo deslizou sob eles novamente e a areia escorreu pelas botas de Shapiro.
De trás deles, veio o surdo ka-thud, ka-thnd, ka-thud, quando os tubos respiratórios se abriram. Shapiro o considerou um dos mais belos sons que já ouvira
em sua vida.
O capitão parecia refletir intensamente, um estranho centauro, cuja metade inferior se compunha de degraus e placas, em vez de um cavalo. Depois, olhando
para cima, ele pressionou o comunicador.
- Gomez, faça Excelente Montoya descer aqui com uma pistola tranqüilizante.
- Entendido.
O capitão olhou para Shapiro.
- E agora, para cúmulo, perdi um andróide valendo o seu salário pelos próximos dez anos! Não gostei disso. Quero levar o seu companheiro.
- Capitão...
Shapiro não pôde deixar de passar a língua pelos lábios. Sabia que era um gesto impróprio. Não queria parecer louco, histérico ou covarde mas, aparentemente,
o capitão decidira que era as três coisas. Lamber os lábios daquela maneira, apenas acentuaria a impressão... mas não conseguira conter-se.
- Capitão - repetiu - não posso convencê-lo da imperiosa necessidade de sair deste mundo o mais depressa poss...
- Pode, teleguiado - disse o capitão, não sem gentileza.
Um grito fraco soou no alto da duna mais próxima.
- Não me toquem! Não cheguem perto de mim! Deixem-me em paz! Todos vocês!
- Big indics gat umby - disse Dud, em tom grave.
- Ma-him, yeah-mon - replicou o capitão, e então se virou para Shapiro. Ele está mesmo ruim, não está?
Shapiro estremeceu.
- Você não entende. Você apenas...
As reservas de empuxo tornaram a oscilar. Os suportes grunhiam mais alto do que nunca. O comunicador estalou. A voz de Gomez parecia distante, um pouco irregular.
- Temos que sair daqui agora. capitão!
- Está bem. - Um homem moreno apareceu na passarela. Empunhava uma comprida pistola na mão enluvada. O capitão apontou para Rand: - Ma-him, for-Cry. Can?
Excelente Montoya, inalterado pela terra inclinada que não era terra, mas apenas areia fundida em vidro (e Shapiro viu que agora havia profundas rachaduras
cruzando aquele vidro), sem ligar para os suportes rangentes ou a visão fantástica de um andróide que agora parecia cavar a própria sepultura com os pés, estudou
a figura esquelética de Rand por um momento.
- Can - respondeu ele.
- Gat! Gat-iÓr-Cry! - O capitão cuspiu a um lado. - Arranque-lhe o pau fora, que não me incomodo - disse. - Desde que continue respirando, quando embarcarmos.
Excelente Montoya ergueu a pistola. O gesto era aparentemente dois-terços causal e um-terço descuidado, mas mesmo em seu estado de quase pânico, Shapiro percebeu
a maneira como Montoya inclinava a cabeça para um lado, ao erguer o cano da arma.
Como acontecia a muitos nos clãs, a pistola quase fazia parte dele, assemelhando-se a um prolongamento de seu próprio dedo.
Houve um fuit! surdo, quando ele apertou o gatilho e o dardo do tranqüilizante disparou pelo cano.
Uma mão se ergueu das dunas e agarrou o dardo.
Era uma grande mão marrom, ondulante, feita de areia. Ela simplesmente se ergueu, desafiando o vento e abatendo o brilho momentâneo do dardo. Em seguida,
a areia caiu de volta ao lugar, com um pesado thrrrrap. Não houvera mão alguma. Era impossível acreditar que houvera. Contudo, todos a tinham visto.
- Giddy-hrímp - disse o capitão, quase como se conversasse.
Excelente Montoya caiu de joelhos.
- Aidy-May-/ór-Cry, bit-gat come! Saw-hoh got belly-gat-gor-Cry!...
Entorpecidos, Shapiro percebeu que Montoya rezava um rosário em dialeto. No alto da duna, Rand dava saltos, sacudindo os punhos para o céu, guinchando fracamente
em triunfo.
Uma mão. Era uma MÃO. Ele tem razão; a areia está viva, viva, viva...
- lndic! - disse bruscamente o capitão a Montoya. - Cannit! Gat!
Montoya se calou. Seus olhos focalizaram a figura saltadora de Rand e depois se desviaram. Seu rosto estava tomado por supersticioso horror, quase medieval
em qualidade.
- Muito bem - declarou o capitão. - Já chega para mim. Desisto! Vamos embora.
Apertou dois botões em seu painel de controle. O motor que deveria girá-lo perfeitamente, a fim de colocá-lo outra vez de frente para a passarela, não emitiu
qualquer zumbido; apenas crepitou e chiou. O capitão praguejou. O empuxo de reserva tornou a oscilar.
- Capitão! - chamou Gomez, em pânico.
O capitão apertou rapidamente outro botão e os degraus rolantes de suas pernas começaram a girar em marcha à ré, subindo a passarela.
- Guie-me - disse ele a Shapiro. - Não tenho nenhum maldito espelho retrovisor. Aquilo foi uma mão, não foi?
- Foi.
- Quero dar o fora daqui - disse o capitão. - Há quatorze anos não tenho um pau mas, neste exato momento, tenho a sensação de que estou me mijando.
Thrrrap! Uma duna se desfez subitamente, caindo sobre a passarela. Só que não era um duna, mas um braço.
- Dane-se, oh, dane-se! - exclamou o capitão.
Em sua duna, Rand saltava e guinchava.
Agora, a fiação da metade inferior do capitão começou a crepitar. O minitanque, do qual sua cabeça e ombros eram a torrinha, pôs-se a rodar para trás.
- O quê...
Os degraus rolantes emperraram. A areia saltava de entre eles.
- Levantem-me! - berrou o capitão para os dois andróides remanescentes. - Agora! JÁ!
Os tentáculos dos andróides envolveram as rodas dentadas dos degraus que eram as pernas do capitão, quando o ergueram no alto - ele mostrava uma ridícula
semelhança com um membro de universidade, prestes a ser arremessado em um lençol, por um bando de ruidosos rapazes de fraternidade. Ele apertava o comunicador.
- Gomez! Dispare a seqüência final! Agora! Agora!
A duna aos pés da passarela deslizou, modificou-se. Tornou-se uma mão. Uma grande mão marrom, que começou a subir pela passarela inclinada.
Com um grito agudo, Shapiro saltou de perto daquela mão.
Praguejando o capitão foi levado para longe dela.
A passarela foi içada. A mão descambou, virou areia novamente. A escotilha irizada se fechou. Os motores rugiam. Não havia tempo para uma poltrona; não havia
tempo para nada semelhante. Shapiro caiu em~posição agachada sobre o anteparo e foi imediatamente achatado pela aceleração. Antes que a inconsciência o subjugasse,
teve a impressão de sentir a areia arranhando a nave mercante, com musculosos braços marrons, tentando puxá-los para baixo...
Então, elevaram-se e afastaram-se dali.
Rand os espiou indo embora. Estava sentado. Quando a esteira dos jatos da nave mercante finalmente desapareceram do céu, ele voltou os olhos para o plácido
infinito das dunas.
- "Temos um calhambeque 34, cujo nome é Horroroso - cantou casquinadamente para a areia vazia e móvel. - Não tem nada de pintoso; está idoso, mas é gostoso."
Lenta e deliberadamente, ele começou a enfiar na boca punhado após punhado de areia.
Engoliu... engoliu... engoliu. Em pouco, seu ventre era uma barrica inchada, a areia começou a amontoar-se sobre suas pernas.

* * *



VOVÓ

A mãe de George foi até a porta, vacilou, voltou de novo e acariciou os cabelos do filho.
- Não quero que fique preocupado - disse. - Você estará bem. Vovó também.
- Eu sei, vou ficar bem. Diga a Buddy para não esquentar.
- Como?
George sorriu.
- Para ir com calma.
- Oh! Muito interessante. - A mãe sorriu para ele, um sorriso distraído, voltado para seis direções ao mesmo tempo. - George, você tem certeza de que...
- Eu vou ficar ótimo.
Está bem certo disso? Tem certeza de que não sentirá medo, ao ficar sozinho com vovó?
Não era isso que ela ia perguntar?
Se era isso, a resposta é não. Afinal, já passara a época em que tinha seis anos, quando tinham ido para o Maine, a fim de cuidarem de vovó. Então, chorava
aterrorizado a cada vez que ela lhe estendia os braços pesados, sentada em sua poltrona de vinil branco, que sempre tinha o cheiro dos ovos escaldados que vovó comia
e do talco suave que a mãe de George lhe passava na pele frouxa e enrugada; ela estendia aqueles braços brancos e elefantinos, queria que ele se aproximasse, para
ser apertado contra aquele enorme, pesado, velho e elefantino corpo branco. Buddy atendera, tinha sido envolvido no cego abraço de vovó e escapara vivo... mas Buddy
era dois anos mais velho.
Agora, Buddy quebrara a perna e estava no Hospital C MG, em Lewiston.
- Você tem o número do médico, caso alguma coisa dê errado. Só que nada vai acontecer. Certo?
- Certo - disse ele, e engoliu algo seco na garganta.
George sorriu. Seu sorriso era tranqüilizador? Claro. Claro que era. Não sentia mais medo de vovó. Afinal, não tinha mais seis anos. Mamãe ia ao hospital
ver Buddy e ele ia ficar em casa, sem esquentar a cabeça. Acompanhar vovó por algum tempo. Qual o problema?
Mamãe tornou a ir até a porta, vacilou de novo e voltou, exibindo o sorriso perturbado, voltado para seis direções ao mesmo tempo.
- Se ela acordar e quiser tomar chá...
- Eu já sei - respondeu George, percebendo o quanto ela estava assustada e preocupada, por trás do sorriso perturbado.
Ela estava preocupada com Buddy, Buddy e sua idiota Divisão Juvenil, o treinador tinha ligado para dizer que Buddy se ferira em um jogo pela conquista da
taça, e George só ficara sabendo (acabara de chegar da escola e estava sentado à mesa, comendo biscoitos com um copo de Quik, da Nestlé) quando viu sua mãe ofegar,
perguntando, Machucado? Buddy? É grave?
- Sei esse negócio todo, mamãe. Estou no controle. Transpiração negativa. Pode ir agora.
- Você é um bom garoto, George. Não tenha medo. Não sente mais medo da vovó, não é mesmo?
- Claro que não - disse George.
Ele sorriu. Era um sorriso despreocupado. O sorriso de um cara que estava ficando frio, com transpiração negativa na testa, o sorriso de um cara que estava
no controle, o sorriso de um cara que, decididamente, não tinha mais seis anos. George engoliu em seco. Era um grande sorriso, mas por baixo dele, na escuridão por
baixo do sorriso, havia uma garganta muito seca. Como se sua garganta estivesse forrada com lã.
- Diga a Buddy que sinto muito ele ter quebrado a perna.
- Eu direi - respondeu ela, e tornou a caminhar para a porta. O sol das quatro da tarde penetrou pela janela. - Graças a Deus, contamos com o seguro esportivo,
Georgie. Não sei o que faríamos, se não houvesse o seguro.
- Diga a ele que espero que tenha dado o troco no otário.
Ela sorriu seu sorriso perturbado, uma mulher que mal fizera os cinqüenta, com dois filhos tardios, um de treze e outro de onze anos, sem nenhum homem. Desta
vez, ele abriu a porta e uma fria brisa de outubro entrou pelo pórtico.
- E, lembre-se, o Dr. Arlinder...
- Está bem - disse ele. - É melhor ir logo ou a perna dele já estará boa, quando chegar lá.
- O mais provável é que ela durma o tempo todo - disse mamãe. - Eu o amo, Georgie. Você é um bom filho.
Ela fechou a porta, ao terminar de falar. George foi até a janela e a viu caminhar apressada para o velho Dodge 69 que queimava muito óleo e gasolina, tirando
as chaves de dentro da bolsa. Agora que saíra da casa e ignorava que George a espiava, o sorriso perturbado desapareceu e ela apenas pareceu perturbada - perturbada
e abatida pela preocupação com Buddy. George sentiu pena dela. Não desperdiçava quaisquer sentimentos similares com Buddy, que gostava de derrubá-lo e sentar em
cima dele, com um joelho em cada um de seus ombros, batendo no meio de sua testa com uma colher, até quase enlouquecê-lo ( Buddy chamava a isso a Tortura da Colher
dos Chinas Pagões, e ria como um louco, às vezes continuando com aquilo até que George chorasse), Buddy que, às vezes, dava-lhe o tratamento da Queimadura de Corda
índia, amarrando-lhe uma corda no braço e o puxando com tanta força, que pequeninas gotas de sangue surgiam na pele ofendida de George, pontilhando seus poros como
orvalho em talos de grama ao amanhecer. Buddy, que ouvira compreensivamente, quando certa noite George lhe sussurrara, no escuro do quarto de ambos, que gostava
de Heather MacArdle, mas que, na manhã seguinte, cruzara o pátio da escola gritando GEORGE E HEATHER NAMORANDO, CO-CO-RI-CO-CO-RI-CÓ; E TAMBÉM BE-E-I-JOTA-A-ENE-DE-Ó!
PRIMEIRO O AMOR E DEPOIS CASAMENTINHO! LÁ VEM A HEATHER COM UM BEBÊ NO SEU CARRINHO! como um carro do Corpo de Bombeiros. Pernas quebradas não mantém irmãos mais
velhos, como Buddy, reprimidos por muito tempo, mas George preferia ficar quieto no seu canto, desde que Buddy ficasse também. Quero ver você me forçar à Tortura
da Colher dos Chinas Pagãos com sua perna no gesso, Buddy. Isso mesmo, cara - TODOS os dias.
O Dodge saiu em marcha à ré da entrada de carros e parou, enquanto sua mãe espiava para os dois lados, embora nenhum carro estivesse à vista; eles nunca estavam.
Sua mãe teria um trajeto de três quilômetros em estradas acidentadas e onduladas antes de chegar ao asfalto, quando então seriam mais trinta quilômetros até Lewiston.
Ela recuou por toda a entrada de carros e depois rodou em frente. Por um momento, a poeira ficou suspensa no brilhante ar da tarde de outubro, para depois
começar a assentar-se.
Ele estava sozinho em casa.
Com vovó.
George engoliu em seco.
Ei! Transpiração negativa! Basta não esquentar, certo?
- Certo - disse George, em voz baixa.
Cruzou a pequena cozinha banhada de sol. Era um garoto simpático, de cabelos claros, com sardas salpicando o nariz e bochechas, uma expressão bem-humorada
nos olhos cinza-escuros.
O acidente com Buddy ocorrera quando ele jogava pelo campeonato da Divisão Juvenil, naquele 5 de outubro. O time da Divisão Pee Wee (Dente de leite) em que
George jogava - os Tigres - ficara fora do torneio logo no primeiro dia, dois sábados atrás "Que bando de bebês!" exultara Buddy, ao ver George sair do campo em
lágrimas. "Que bando de MARICAS!"... e agora, Buddy tinha quebrado a perna. Se mamãe não estivesse tão preocupada e assustada, George ficaria quase feliz.
Havia um telefone de parede e perto dele, um quadro para anotações, com um lápis ensebado pendurado ao lado. Na parte superior do quadro, via-se uma alegre
vovó camponesa, de bochechas rosadas, os cabelos brancos penteados em coque; o desenho mostrava a avó fazendo anotações no quadro. Um balão de histórias em quadrinhos
saía da boca da alegre vovó camponesa, e ela dizia, "LEMBRE-SE DISTO, FILHO!"
Escrito no quadro, na letra espichada de sua mãe, estava o lembrete Dr. Arlinder, 681-4330. Mamãe não anotara o número nesse dia, só porque tinha de ir ver
Buddy. Agora já fazia quase três semanas que o número estava ali, pois vovó vinha tendo seus "acessos" outra vez.
George tirou o telefone do gancho e ouviu.
- ... então, eu disse a ela, "Mabel, se ele a trata desse jeito..."
George recolocou o fone. Henrietta Dodd. Henrietta estava sempre ao telefone e, se fosse de tarde, podia-se ouvir uma novela de rádio soando ao fundo.
Certa noite, após ter bebido um copo de vinho com vovó (desde que ela começara a ter os "acessos" novamente, o Dr. Arlinder havia dito que vovó não devia
tomar vinho ao jantar, de modo que mamãe também deixara de tomá-lo - George lamentava, porque o vinho deixava mamãe risonha e ela lhe contava histórias de quando
era menina), mamãe tinha dito que a cada vez que Henrietta Dodd abria a boca, suas tripas saíam do alinhamento. Buddy e George tiveram ataques de riso, enquanto
mamãe tapava a boca com a mão, dizendo NUNCA contem a ninguém que eu disse isso, e então ela começou a rir também, todos os três, sentados à mesa do jantar, riam
sem parar e, por fim, a risadaria acordou vovó, que cada vez dormia mais, e ela começou a gritar Ruth! Ruth! RUU-UUUTH! naquela sua voz aguda e casquinada, e mamãe,
parando de rir, fora ao quarto dela.
Hoje, no que dizia respeito a George, Henrietta Dodd podia falar o quanto quisesse. Ele só desejara certificar-se de que o telefone estava funcionando. Duas
semanas antes houvera uma forte tempestade e, desde então, de vez em quando o aparelho emudecia.
George viu-se olhando novamente para o alegre desenho da avó e perguntou-se como seria ter uma avó como aquela. A sua era grande, gorda e cega; além disso,
a hipertensão a tornara senil. As vezes, quando tinha seus "acessos" ela (segundo mamãe) "agia como caduca", chamando por pessoas que não existiam, mantendo conversas
sem sentido, murmurando estranhas palavras que não tinham o menor significado. Certa ocasião, quando ela fazia este último, mamãe ficara pálida e lhe dissera para
se calar, calar, calar! George se lembrava bem, não apenas por ser a única vez em que mamãe realmente gritara com vovó, mas também porque, no dia seguinte, alguém
descobrira que o cemitério Birches, junto à estrada Maple Sugar, havia sido vandalizado - lousas derrubadas, arrombados os antigos portões do século dezenove e realmente
escavadas uma ou duas das sepulturas - escavadas ou algo semelhante. Profanadas, tinha sido o termo empregado pelo Sr. Burdon, diretor da escola quando, no dia seguinte,
reuniu todos os oito graus em assembléia e palestrou para toda a escola, discutindo o tema Travessuras Malévolas e falando sobre como certas coisas Nada Tinham de
Engraçadas.
Ao voltar para casa nessa noite, George perguntara a Buddy o significado de profanar.
Buddy respondera que isso queria dizer escavar sepulturas e urinar nos caixões, mas George não acreditou nisso... ou acreditou, porque já era tarde. E estava
escuro.
Vovó ficava barulhenta quando tinha seus "acessos", mas em geral apenas permanecia na cama que vinha ocupando durante os três últimos anos, uma velha gorda,
usando calças de plástico e fraldas por baixo da camisola de flanela, o rosto percorrido por sulcos e rugas, os olhos vazios e cegos - as pupilas de um azul desbotado
flutuando em córneas amareladas.
A princípio, vovó não era inteiramente cega. Contudo, estava ficando cega e precisava de uma pessoa a cada lado, para ajudá-la a andar de sua poltrona de
vinil branco, cheirando a ovo e talco para bebê, até a cama ou ao banheiro. Naquela época, cinco anos antes, vovó pesava bem mais de cem quilos.
Ela estendera os braços para Buddy, então com oito anos, e ele se aproximara. George havia recuado. E chorado.
Agora não tenho mais medo, disse para si mesmo, movendo-se pela cozinha, calçado com seus tênis. Nem um pouquinho. Ela é apenas uma velha, que de vez em quando
tem "acessos".
Encheu a chaleira com água e a pôs sobre um queimador apagado. Depois pegou uma xícara de chá e colocou dentro dela um dos saquitéis de ervas especiais para
chá, pertencentes a vovó. Era para o caso dela querer uma xícara. Tinha a louca esperança de que ela não quisesse, porque então teria que erguer o estrado da cama
hospitalar, sentar-se perto dela e dar-lhe o chá, um gole de cada vez, vendo a boca desdentada dobrar-se acima da borda da xícara, ouvindo os sons de sucção, enquanto
ela empurrava o chá para suas tripas agonizantes e úmidas. Havia vezes em que ela escorregava, caía de banda na cama, sendo preciso colocá-la novamente na posição
correta - e sua carne era mole,. era bamba, como se estivesse cheia de água quente. E os olhos cegos olhavam para a gente...
George umedeceu os lábios com a língua e caminhou novamente até a mesa da cozinha.
Seu último biscoito e meio copo de Quik ainda estavam ali, porém não os queria mais.
Olhou sem entusiasmo para seus livros escolares, encapados com os Onças de Castle Rock.
Devia ir lá dentro e ver como ela estava.
Ele não queria ir.
Engoliu em seco e sua garganta dava a impressão de ainda estar forrada com lã.
Não tenho medo de vovó, pensou. Se ela me estender os braços, eu me aproximarei e deixarei que me abrace, porque não passa de uma velha. Ela está senil, por
isso é que tem "acessos". Nada mais. Vou deixar que me abrace e não vou chorar. Vou ser como Buddy.
Cruzou o pequeno corredor até o quarto de vovó, o rosto tenso, como se fosse tomar um remédio amargo, os lábios tão apertados, que estavam brancos. Olhou
para o interior e lá estava ela, com os cabelos branco-amarelados estendidos em torno da cabeça como uma coroa, adormecida, a boca desdentada aberta, o peito se
elevando sob a coberta, mas tão lentamente que quase não se percebia, tão lentamente que era preciso ficar olhando para ela durante algum tempo, para haver certeza
de que não estava morta.
Oh. Deus, e se ela morrer aqui comigo, com mamãe no hospital?
Ela não vai morrer. Não vai.
Bem, mas e se morrer?
Ela não vai morrer, pare de ser maricas.
Uma das mãos amarelas de vovó, parecendo desbotada, moveu-se vagarosamente sobre a coberta: suas unhas crescidas riscaram o tecido e emitiram um som de arranhado.
George recuou rapidamente, com o coração disparado.
Fique frio, seu cabeça tonta, morou? Fique frio.
Ele voltou à cozinha, a fim de ver se sua mãe tinha saído apenas uma hora antes, ou talvez hora e meia - nesta última hipótese, já poderia começar a esperar,
mais ou menos, que ela estivesse voltando. Olhou para o relógio e espantou-se ao constatar que não se tinham passado nem vinte minutos. Mamãe nem ao menos já estaria
na cidade, quanto mais saindo dela! Ficou quieto, ouvindo o silêncio. Vagamente, percebeu o zumbido da geladeira e do relógio elétrico. O rogaçar da brisa da tarde
pelas quinas da pequena casa. E depois - na própria borda da audibilidade - os vagos sussurros farfalhantes de pele sobre tecido... da mão enrugada e sebosa de vovó,
movendo-se sobre a coberta.
George rezou, em um só jato de fôlego mental:
OhmeuDeusnãodeixeelaacordaratémamãevoltarparacasapeloamordeJesusAmém.
Sentou-se e terminou seu biscoito, bebeu seu Quik. Pensou em ligar a televisão e ver alguma coisa, mas temia que o som acordasse a avó e que a voz aguda,
exigente, não admitindo negativas, começasse a chamar RUUUUTH! RUTH! TRAGA O MEU CHÁ! CHÁ! RUU-UUUUTH!
Passou a língua ressequida pelos lábios ainda mais secos e disse a si mesmo para não ser tão maricas. Ela só era uma velha presa à cama, não havia o risco
de sair de lá e machucá-lo. Além disso, estava com oitenta e - três anos, não ia morrer logo naquela tarde.
Levantando-se, foi até o telefone e o tirou do gancho novamente.
- ...nesse mesmo dia! E nem sabia que ele era casado! Francamente, eu odeio esses conquistadores baratos de esquina, que se julgam tão espertos! Pois no Grange,
eu dizia...
George dedudizu que Henrietta falava com Cora Simard. Henrietta pendurava-se ao telefone pela maior parte da tarde, de uma hora às seis, primeiro com A Esperança
de Ryun, a seguir com Uma Vida para Viver, depois Todos os Meus Filhos, e então Enquanto o Mundo Gira, seguindo-se Em Busca do Amanhã e só Deus sabia mais que outras
peças eram representadas ao fundo. Quanto a Cora Simard, era uma de suas mais fiéis correspondentes telefônicas, e muito do que diziam era sobre
1) quem estava para dar um chá de panela e quais seriam os refrescos tomados,
2) conquistadores baratos de esquina e
3) o que elas haviam conversado com várias pessoas em
3-a) no Grange,
3-b) na feira mensal da igreja ou
3-c) no Cavaleiros de Pítias Hall Beano.
- ...que se eu tornar a vê-la daquele jeito novamente, acho que bancaria a boa cidadã e chamaria...
Ele recolocou o fone no gancho. Ele e Buddy se divertiam à custa de Cora, quando passavam diante de sua casa, justamente como todos os outros garotos. Ela
era gorda, piegas e fofoqueira. Eles cantarolavam Cora-Cora, de Bora-Bora, comeu bosta de cachorro e nem pediu socorro! e mamãe mataria eles dois se soubesse disso,
mas agora George estava contente, por Cora e Henrietta Dodd estarem ao telefone. Que as duas conversassem a tarde inteira, ele pouco ligaria. Aliás, nada tinha contra
Cora. Uma vez, perseguido por Buddy, caíra diante da casa dela e esfolara o joelho. Cora lhe pusera um Band-Aid na esfoladura e dera um biscoito a cada um, falando
o tempo todo. George ficara envergonhado por todas as vezes em que havia cantarolado a rima sobre a bosta de cachorro e o restante.
George foi até o aparador e pegou seu livro de leitura. Segurou-o por um momento, depois o largou. Já havia lido todas as histórias ali contidas, embora só
houvesse tido um mês de aulas. Lia melhor do que Buddy, ao passo que seu irmão era melhor nos esportes. Não será melhor durante algum tempo, pensou, com momentânea
satisfação, não com uma perna quebrada.
Pegou seu livro de História, sentou-se à mesa da cozinha e começou a ler sobre como Cornwallis fora obrigado a capitular em Yorktown. Entretanto, seus pensamentos
não se fixavam no que lia. Levantou-se, tornou a chegar ao corredor. A mão amarela continuava imóvel. Vovó dormia, seu rosto era um círculo bambo e acinzentado contra
o travesseiro, um sol agonizante, circundado pela despenteada coroa branco-amarelada de seus cabelos. Para George, ela não tinha a menor semelhança com pessoas velhas
e supostamente à beira da morte. Não tinha a tranqüilidade de um pôr-de-sol. Ela parecia louca e... (e perigosa)
... sim, isso mesmo, e perigosa - como uma ursa velhíssima, que pudesse ainda ter um bocado de força sobrando nas garras.
George se lembrava muito bem de como tinham chegado a Castle Rock para cuidar de vovó, quando vovô morrera. Até então, mamãe estivera trabalhando na Lavanderia
Stratford, em Stratford, Connecticut. Vovô tinha três ou quatro anos menos que vovó, era carpinteiro de profissão e trabalhara até o próprio dia de sua morte. Ele
sofrera um ataque cardíaco.
Já naquele tempo, vovó estava ficando senil, tinha seus "acessos". Sempre constituíra uma provação para a família, era o que vovó havia sido. Ela fora uma
mulher vulcânica, que lecionara durante quinze anos, entre ter bebês e disputas com a Igreja Congregacional, que freqüentava com vovô e os nove filhos. Mamãe costumava
contar que vovô e vovó haviam abandonado a Igreja Congregacional de Scarborough, na mesma época em que vovó desistira de lecionar. Contudo, um ano atrás, quando
a tia Flo viera de sua casa em Salt Lake City para visitá-los, George e Buddy tinham ficado ouvindo, pelo cano condutor de calefação, enquanto mamãe e sua irmã conversavam,
até noite avançada. O que ouviram foi uma história bem diferente. Vovô e vovó tinham sido expulsos da igreja e vovó despedida do emprego, porque fizera algo errado.
Era qualquer coisa sobre livros. Por que ou como alguém podia ser mandado embora do emprego ou expulso da igreja, apenas por causa de livros, era uma coisa que George
não entendia. Perguntou a Buddy, quando os dois se esgueiraram para seus beliches, debaixo do beiral.
- Há todo tipo de livros, Señor El-Burro -, sussurrou Buddy.
- Certo, mas de que tipo?
- Como é que vou saber? Por que não dorme logo?
Silêncio. George meditou no assunto.
- Buddy?
- O que é? - Um sibilo irritado.
- Por que mamãe nos disse que vovó deixou a igreja e o emprego?
- Porque é um esqueleto no armário, entendeu agora?
Contudo, ele não dormiu, ficou acordado muito tempo. Seus olhos ficavam observando a porta do armário, vagamente delineada ao luar. Perguntou-se o que faria,
caso a porta se escancarasse, revelando um esqueleto lá dentro, com dentes risonhos à maneira de lousas de sepulturas, olhos que eram como poços nas órbitas e costelas
como gaiolas; o luar branquicento pareceria fantástico e quase azul, sobre ossos mais brancos. Ele gritaria? O que Buddy teria querido dizer com um esqueleto no
armário? O que esqueletos tinham a ver com livros? Por fim, acabou dormindo sem ao menos perceber.
Sonhou que tinha seis anos novamente e que vovó lhe estendia os braços, com os olhos cegos procurando-o; a voz esganiçada de vovó dizia, Onde está o pequenino,
Ruth? Por que ele está chorando? Eu só queria botá-lo no armário... junto com o esqueleto.
George ficou intrigado com tudo aquilo por muito e muito tempo. Finalmente, cerca de um mês depois da partida da tia Flo, contou à mãe que a tinha ouvido
conversando com a irmã. Então, já sabia o que significava um esqueleto no armário, porque perguntara à Sra. Redenbacher, na escola. Ela lhe explicara que isso queria
dizer a existência de um escândalo na família - e um escândalo era algo sobre o que as pessoas falavam bastante.
- Falam bastante, assim como Cora Simard? - perguntara George. O rosto da Sra. Redenbacher assumira um ar estranho, seus lábios haviam tremido e ela respondera:
- Isso não é muito delicado, George, mas... bem, é algo semelhante.
Quando ele interrogou mamãe, o rosto dela havia ficado muito imóvel e suas mãos interromperam o solitário que fazia com cartas de baralho.
- Acha bonito o que esteve fazendo, George? Você e seu irmão agora costumam ficar ouvindo coisas no cano de calefação?
George, na época com apenas nove anos, baixara a cabeça.
- Nós gostamos de tia Flo, mamãe. Queríamos ficar escutando o que ela dizia.
E era verdade.
- Foi idéia de Buddy?
Tinha sido idéia de Buddy, mas George não contaria isso a ela. Não queria ficar caminhando com a cabeça virada para trás, algo que poderia acontecer, se Buddy
descobrisse que o delatara.
Não, foi minha.
Mamãe ficara muito tempo calada, depois recomeçou lentamente a dispor suas cartas.
- Talvez já seja hora de você ficar sabendo -, havia dito. - Mentir é pior do que ouvir conversas alheias, acho eu, e todos nós mentimos a nossos filhos sobre
vovó. E creio que mentimos para nós também. É o que fazemos, a maior parte do tempo...
Então ela falara, com uma súbita e rancorosa amargura, que era como ácido esguichando de entre seus dentes frontais - George sentiu aquelas palavras tão quentes,
que teriam queimado seu rosto, se não houvesse recuado.
- ...exceto por mim. Tenho que morar com ela, não posso mais me dar ao luxo de mentir.
Assim, mamãe me contou que, após se casarem, vovô e vovó haviam tido um bebê que nascera morto. Um ano mais tarde, tiveram outro bebê, também nascido morto.
Então, o médico disse a vovó que ela nunca poderia ter um bebê, que tudo quanto podia fazer era continuar tendo bebês já mortos ou que morreriam assim que respirassem.
Ele disse que seria sempre assim, até que um bebê ficasse morto dentro dela por muito tempo, antes que seu corpo o expulsasse - esse bebê apodreceria lá e também
a mataria.
O médico havia dito isso a ela.
Não muito depois é que os livros começaram.
Livros sobre como ter bebês?
Mamãe, no entanto, não disse - ou não quis dizer - que tipo de livros eram aqueles, onde vovó os conseguira ou como sabia consegui-los. O fato é que vovó
tornou a engravidar e, desta vez, o bebê não nasceu morto e nem morreu, após uma ou duas respirações; desta vez, ele estava ótimo e se tornou o tio Larson de George.
E, depois disso, vovó continuou engravidando e tendo bebês. Certa vez, contou mamãe, vovô tentara convencê-la a livrar-se dos livros, para ver se teriam filhos sem
eles (ou se até não teriam mais porque, a essa altura, talvez ele achasse que já tinha filhos suficientes, de modo que podiam parar de vir ao mundo), mas vovó não
quis. George perguntara à sua mãe por quê.
- Acho que, então, ter os livros era tão importante para ela como ter bebês - respondeu sua mãe.
- Não entendo - disse George.
- Bem - falou sua mãe - acho que nem eu entendo bem... Lembre-se, eu era ainda muito pequena. Sei apenas que aqueles livros eram uma segurança para ela. Sua
avó disse que não se falaria mais no assunto e assim foi. Porque era ela que usava as calças compridas em nossa família.
George fechou seu livro de História com um golpe súbito. Olhou para o relógio e viu que eram quase cinco da tarde. Seu estômago grunhia maciamente. De repente,
com algo parecido ao puro horror, percebeu que se mamãe não estivesse em casa às seis horas mais ou menos, vovó acordaria e começaria a gritar por seu jantar. Mamãe
esquecera de dar-lhe instruções sobre isso, talvez por estar tão preocupada com a perna de Buddy. George supôs que poderia fazer para vovó um de seus jantares congelados
especiais. Eram especiais, porque ela fazia uma dieta de sal. Também tomava mil espécies diferentes de pílulas.
Para ele próprio, poderia esquentar o macarrão com queijo que sobrara da noite anterior.
Se colocasse um pouco de catchup em cima, ficaria legal.
Ele tirou da geladeira o macarrão com queijo, usou uma colher para coloca-lo em uma panela e pousou a panela no queimador perto da chaleira, esta ainda esperando,
para o caso de vovó acordar e querer o que às vezes chamava de "uma xica de chá". George começou a servir-se de um copo de leite, parou, tornou a pegar o telefone.
- ... e nem pude acreditar no que meus olhos viam, quando... - a voz de Henrietta Dodds interrrompeu-se, para depois soar estridentemente: - Eu gostaria de
saber quem é que fica ouvindo nesta linha!
George recolocou apressadamente o fone no gancho, sentindo o rosto arder.
Ela não sabe que é você, seu burro. Há seis assinantes da linha!
Dava no mesmo, era errado escutar conversas alheias, inclusive quando apenas para ouvir outra voz, por estar sozinho em casa, sozinho, exceto por vovó, aquela
coisa gorda que dormia no outro quarto, em uma cama de hospital; errado, mesmo quando parecia quase necessário ouvir outra voz humana, porque sua mãe estava em Lewinston,
logo anoiteceria, vovó estava no outro quarto e ela parecia (sim, oh, sim, ela parecia) uma ursa que, em suas velhas garras engalfinhadas talvez só tivesse forças
para mais uma patada assassina.
George foi para a cozinha e bebeu o leite.
Mamãe havia nascido em 1930, seguida por tia Flo em 1932 e pelo tio Franklin em 1934. Tio Franklin morrera em 1948, de apendicite supurada. Mamãe às vezes
chorava por causa disso e carregava o retrato dele. Ela gostara mais de Frank do que de todos os outros irmãos, dizia que não havia necessidade daquela morte estúpida
por peritonite.
Repetia que Deus não fora correto, ao levar Frank.
George espiou pela janela acima da pia. A claridade lá fora estava agora mais dourada, baixa acima da colina. A sombra do barracão dos fundos estirava-se
em todo o comprimento, através do relvado. Se Buddy não tivesse quebrado aquela perna idiota, mamãe agora estaria aqui, fazendo chili ou qualquer outra coisa (mais
o jantar sem sal de vovó), com todos eles conversando e rindo. Mais tarde, talvez até jogassem cartas.
George acendeu a luz da cozinha, embora ainda não estivesse escuro bastante para isso.
Depois girou o botão para FOGO BAIXO, sob seu macarrão. Os pensamentos continuavam voltando para vovó, sentada em sua poltrona branca de vinil, como um gordo
e imenso verme em um vestido, a coroa desgrenhada dos cabelos despencando pelos ombros do quimono rosa de rayon, estendendo os braços para atraí-to, ele encolhendo-se
contra a mãe e chorando.
- Mande o menino para mim, Ruth, eu quero abraçá-lo.
- Ele está um pouco amedrontado, mamãe. Com tempo, acabará indo. - Sua mãe, no entanto, também parecia amedrontada.
Amedrontada? Mamãe?
George parou, refletindo. Seria verdade? Buddy dizia que a memória costumava brincar com a gente. Teria ela realmente parecido amedrontada?
Sim, ela parecera amedrontada.
Então, a voz da avó se alteara peremptoriamente:
- Não mime o garoto, Ruth! Mande-o vir aqui; quero abraçá-lo.
- Não. Ele está chorando.
Vovó baixara os braços pesados, dos quais a carne pendia em grandes e pesados nacos.
Um sorriso tímido e senil espalhara-se em seu rosto e ela havia perguntado:
- Ele é mesmo parecido com Franklin, Ruth? Lembro-me de ouvi-la dizer que o menino se parecia com Frank.
Lentamente, George mexeu o macarrão com queijo e catchup. Não recordara um incidente com tanta clareza antes. Talvez conseguisse lembrar bem agora, por causa
do silêncio.
Do silêncio e por estar sozinho com vovó.
- Então, vovó tivera seus bebês e lecionara na escola, os médicos ficaram adequadamente pasmos, vovô fizera sua carpintaria e ficara cada vez mais próspero,
encontrando trabalho mesmo nas piores épocas da Depressão. Por fim -, disse mamãe -, as pessoas começaram a falar.
- O que elas falavam? perguntou George.
- Nada de importante -, disse mamãe, mas de repente reuniu as cartas do baralho. - Elas diziam que seu avô e sua avó tinham sorte demais para pessoas comuns,
eis tudo. E foi logo depois disso, que encontraram os livros. - Mamãe nada mais acrescentou, exceto que a diretoria da escola encontrara alguns e que um homem contratado
encontrara outros mais. Houve um grande escândalo. Vovô e vovó mudaram-se para Buxton e isso encerrou a questão.
Os filhos haviam crescido e tinham tido seus próprios filhos, formando tios e tias uns dos outros. Mamãe se casara, mudando-se para Nova York com papai (o
qual George nem conseguia recordar). Depois do nascimento de Buddy, eles se tinham mudado para Stratford e, em 1969, nascia George. Em 1971, papai havia sido atropelado
e morto por um carro dirigido pelo Bêbado Que Tinha de Ir para a Cadeia.
Quando vovô tivera seu ataque do coração, tios e tias trocaram muitas cartas entre si.
Não queriam colocar a avó em uma clínica para idosos. E ela não queria ir para uma.
Assim, como vovó não queria fazer semelhante coisa, melhor seria concordar com ela.
Ela preferia ficar com algum filho e viver o resto de seus anos com ele. Contudo, estavam todos casados e nenhum deles tinha esposas querendo partilhar seu
lar com uma velha senil e geralmente intratável. Estavam todos casados, exceto Ruth.
As cartas continuaram fluindo de um lado para outro e, por fim, a mãe de George aquiescera. Deixou o emprego e foi para o Maine, tomar conta da velha senhora.
Os outros cotizaram-se para a compra de uma casinha nos arredores de Castle View, onde era baixo o preço dos imóveis. Enviavam-lhe um cheque a cada mês, a fim de
que ela "cuidasse" da velha e dos próprios filhos.
O que aconteceu é que meus irmãos e irmãs transformaram-me em ama parceira locadora, George recordava tê-la ouvido dizer certa vez. Ele ignorava o que queria
dizer aquilo, porém ela parecera amarga ao comentar, como alguma piada que não provocava risos mas, em vez disso, ficava entalada na garganta, como um osso. George
sabia (porque Buddy lhe contara), que mamãe finalmente acedera, porque todos da grande e espalhada família lhe haviam assegurado que, com toda certeza, vovó não
duraria muito. Havia tanta coisa errada com ela - pressão alta, uremia, obesidade, palpitações cardíacas - que não podia durar muito. Talvez ainda chegasse aos oito
meses, disseram tia Flo, tia Stephanie e tio George (de quem George recebera seu nome). Seria um ano, no máximo. Contudo, já tinham decorrido cinco anos e para George,
isso significava durar muito.
Ela havia durado demais, sem dúvida. Como uma ursa hibernando e esperando... o quê? (você é quem melhor sabe lidar com ela, Ruth, você sabe fazê-la calar
a boca)
A caminho da geladeira, para verificar as instruções impressas em um dos jantares sem sal de vovó, George parou. Ficou hirto. De onde tinha vindo aquilo?
Aquela voz falando dentro de sua cabeça?
De repente, seu ventre e o peito ficaram arrepiados. Ele enfiou a mão dentro da camisa e tocou um dos mamilos. Parecia um pequeno seixo, e então recuou apressadamente
com o dedo.
Tio George. O tio de quem levava o nome, que trabalhava para a Sperry Rand, em Nova York. Tinha sido a voz dele. Ele dissera aquilo, quando viera com sua
família para o Natal, dois - não, três anos atrás.
- Ela é mais perigosa agora, porque está senil.
- Cale a boca, George. Os meninos andam por perto.
George havia parado junto à geladeira, com a mão pousada no puxador frio e cromado, pensando, recordando, espiando para a crescente escuridão lá fora. Buddy
não andava por perto aquele dia. Buddy já estava lá fora, porque quisera o trenó melhor, eis o motivo; os dois iam deslizar na colina de Joe Camber e o outro trenó
tinha um patim empenado. Assim, Buddy estava lá fora, enquanto George remexia na caixa de sapatos e meias da entrada, procurando um par de meias grossas que combinassem
- e que culpa tinha, se sua mãe e o tio George conversavam na cozinha? Ele não se sentia culpado.
Era culpa sua se Deus não o tivesse ensurdecido ou, falhando essa medida extrema, pelo menos situasse a conversa em outro lugar da casa? George também não
acreditava nisso. Como indicara sua mãe, em várias oportunidades (geralmente após um ou dois copos de vinho), Deus às vezes costumava fazer brincadeiras de mau gosto.
- Você entende o que quero dizer -, falara tio George.
A esposa dele e as três filhas tinham ido até Gates Falls, para algumas compras natalinas de última hora. Tio George já estava bem alto, exatamente como o
Bêbado que Tinha de Ir para a Cadeia. George podia perceber isso, pela maneira como o tio enrolava as palavras.
- Você se lembra do que aconteceu a Franklin, quando ele a contrariou.
- Cale a boca, George, ou jogo o resto de sua cerveja na pia!
- Bem, de fato, ele não tinha intenção de fazer aquilo. Apenas falou o que não devia. A peritonite...
- Cale a boca, George!
- Talvez -, recordou George, pensando vagamente -, Deus não seja o único a fazer brincadeiras de mau gosto.
Agora, interrompendo aquelas antigas lembranças, ele olhou no freezer e apanhou um dos jantares de vovó. Vitela. Com ervilhas ao lado. O forno tinha que ser
aquecido previamente e então a refeição permanecia lá dentro por quarenta minutos, a 160°.
Fácil. Ele sabia como fazer. O chá já estava pronto, em cima do fogão, se vovó o quisesse. Ele poderia prepará-lo ou aquecer o jantar em pouco tempo, caso
vovó acordasse e gritasse por eles. Chá ou jantar - qualquer coisa que ela quisesse. O número do Dr. Arlinder estava no quadro de anotações, para o caso de uma emergência.
Tudo em ordem. Então, por que ficava preocupado?
Ele nunca fora deixado sozinho com vovó, era isso que o preocupava.
- Mande o menino para mim, Ruth. Faça-o vir até aqui.
- Não. Ele está chorando.
- Ela está mais perigosa agora... você sabe o que quero dizer.
- Todos mentimos para nossos filhos sobre vovó.
Nem ele e nem Buddy. Nenhum dos dois fora deixado sozinho com vovó. Até agora.
De repente, George sentiu a boca seca. Foi até a pia e bebeu um pouco de água. Sentia-se... esquisito. Aqueles pensamentos. Aquelas recordações. Por que seu
cérebro as jogava para o alto agora?
George se sentia como se alguém houvesse derrubado à sua frente todas as peças de um quebra-cabeças, que ele não conseguia pôr exatamente nos lugares certos.
Aliás, talvez fosse bom não conseguir ajustá-los, porque uma vez pronto, o quadro poderia ser, bem, algo desagradável. Poderia...
Do outro quarto, onde vovó passava seus dias e noites, chegou até ele um repentino ruído sufocado, chocalhante, gorgolejante.
A respiração penetrou sibilante em seu peito, quando ele inalou. Virou-se para o quarto de vovó e descobriu que seus sapatos estavam como que firmemente pregados
ao piso de linóleo. O coração virara uma pedra em seu peito. Os olhos estavam arregalados e salientes. Vamos, andem, dizia o cérebro aos pés. Os pés perfilavam-se
e respondiam, De maneira alguma, senhor!
Vovó nunca tinha feito um barulho como aquele antes.
Vovó nunca tinha feito um barulho como aquele antes.
O barulho repetiu-se, um som amortecido, baixo e decrescente, até tornar-se como um zumbido de inseto, antes de desaparecer de todo. George finalmente conseguiu
mover-se.
Caminhou até o pequeno corredor que separava a cozinha do quarto de vovó.
Cruzou-o e olhou para dentro do quarto, com o coração em disparada. Agora, sua garganta estava asfixiada por uma luva de lã; seria impossível engolir através
de todo aquele bolo.
Vovó ainda dormia e estava tudo certo, foi seu primeiro pensamento; afinal, fora apenas um som estranho; talvez ela o fizesse o tempo todo, quando ele e Buddy
estavam na escola. Apenas uma forma de ressonar. Vovó estava ótima. Dormindo.
Esse foi seu primeiro pensamento. Depois percebeu que a mão amarela que estivera sobre a coberta, agora pendia flacidamente sobre a borda da cama, as compridas
unhas quase tocando o chão. E ela estava com a boca aberta, um orifício enrugado e escavado em uma fruta apodrecida.
Timidamente, vacilantemente, George aproximou-se dela.
Ficou ao lado da cama muito tempo, olhando para a velha, não ousando tocá-la. A subida e descida imperceptíveis da coberta pareciam ter cessado.
Pareciam.
Aquela era a palavra-chave. Pareciam.
Mas isto é só porque você está apavorado, Georgie. Está sendo apenas Señor El-Burro, como diz Buddy - é um jogo. Seu cérebro faz truques com seus olhos, a
respiração dela está legal, ela está...
- Vovó? - perguntou, mas tudo que emitiu foi um sussurro. Pigarreou e saltou para trás, assustado com o som. Contudo, sua voz soou um pouquinho mais alto.
- Vovó? Vai querer seu chá agora? Vovó?
Nada.
Os olhos estavam fechados.
A boca estava aberta.
A mão pendurada.
Lá fora, o sol que se punha brilhava em vermelho-dourado por entre as árvores. George a viu então em uma plentitude positava; viu-a com aquele olho infantil
brilhantemente desalojado, de imaturo e incriado reflexo, não aqui, não agora, não na cama, mas estando ela sentada na poltrona branca de vinil, estendendo os braços,
o rosto ao mesmo tempo estúpido e triunfante. Viu-se recordando um dos "acessos", quando vovó começava a gritar, como em língua estrangeira - Gyaagin! Gyaagin! Hastur
degryon Yos-soth-oth! - e mamãe os tinha mandado para fora, tinha gritado "Saia. JÁ!" para Buddy, quando ele parou junto à caixa da entrada, a fim de procurar suas
luvas. Budy olhara para trás, por sobre o ombro, tão assustado que seus olhos se arregalaram, porque a mãe de ambos nunca havia gritado. Então, os dois saíram e
ficaram na entrada de carros, sem falar, as mãos enfiadas nos bolsos em busca de calor, perguntando-se o que estaria acontecendo.
Mais tarde, mamãe os chamara para jantar, como se nada houvesse ocorrido. (você sabe lidar com ela Ruth você sabe como fazê-la calar-se)
Até o dia presente, George não tornara a pensar mais naquele particular "acesso". Só agora, olhando para vovó, que dormia tão estranhamente em sua cama de
hospital, com a cabeceira elevada pela manivela, ocorria a ele, com crescente horror, que no dia anterior haviam sabido que a Sra. Harham, residente mais acima na
estrada e que por vezes vinha visitar vovó, tinha morrido aquela noite, durante o sono.
"Acessos".
Acessos. Esconjuros...
Presumia-se que feiticeiras pudessem lançar esconjuros. Não era isso que as tornava feiticeiras? Maçãs envenenadas. Príncipes transformados em sapos. Casas
de chocolate.
Abracadabra. Abre-te sésamo. Esconjuros.
Eram peças soltas de um desconhecido quebra-cabeças, que voavam pela mente de George, encaixando-se entre si, como por magia.
Magia, pensou ele, e grunhiu.
Qual era o quadro formado? Vovó, naturalmente, vovó e seus livros, vovó que tinha sido expulsa da cidade, vovó que não podia ter bebês, mas que depois os
tivera, vovó que fora expulsa da igreja, assim como da cidade. O quadro representava vovó, amarela, gorda, enrugada e indolente, a boca desdentada encurvando-se
em um sorriso que afundava, seus olhos cegos e desbotados, de certo modo astugos e manhosos; e, em sua cabeça, havia um chapéu preto e cônico, salpicado de estrelas
prateadas e cintilantes crescentes babilônicos; a seus pés, enroscavam-se gatos pretos de olhos tão amarelos como urina, enquanto os cheiros eram de porco e cegueira,
de porco e coisas queimadas antigas estrelas e velas, tão escuras como a terra, na qual ataúdes jaziam; ele ouviu palavras ditas de livros antigos, e cada palavra
era como uma pedra, cada sentença como uma cripta, erigida em algum ossuário fedorento, cada parágrafo como uma caravana de pesadelo, formada pelos que a praga matara,
sendo levados a um local de queima; seu olho era o olho de uma criança mas, naquele momento, abriu-se desmesuradamente, em espantada compreensão sobre o negrume.
Vovó tinha sido uma feiticeira, exatamente como a Bruxa Má em O Mágico de Oz. E agora, ela estava morta. Aquele som borbulhante, pensou George, com crescente
horror.
Aquele som ressonado e gargarejante, havia sido um... um... um "chocalhar da morte".
- Vovó? - chamou, em um sussurro.
Pensou, loucamente! Ding-dong, a feiticeira está morta! Não houve resposta. Manteve a mão em concha diante da boca de vovó. Não havia a menor brisa se movendo
e que viesse de dentro dela. Era a morte calma e velas murchas, sem esteiras alargando-se atrás da quilha. Um pouco de seu medo diminuiu e ele tentou refletir. Recordou
o tio Fred, mostrando-lhe como molhar um dedo e testar o vento; então, lambeu a palma inteira e a manteve diante da boca de vovó.
Ainda nada.
Começou a caminhar para o telefone, a fim de chamar o Dr. Arlinder, mas então parou.
E se chamasse o médico, sem ela de fato estar morta? Ficaria em apuros, na certa.
Tome-lhe o pulso.
Parou na soleira, olhando dubitativamente para aquela mão pendurada. A manga da camisola de vovó ficara suspensa, expondo-lhe o pulso. Só que o recurso era
falho.
Certa vez, após uma visita do médico em que a enfermeira apertara os dedos em seu punho, para tomar-lhe o pulso, George a imitara, porém não fora capaz de
encontrar nenhuma pulsação. Até onde seus dedos destreinados podiam dizer, ele estava morto.
Por outro lado, não sentia a menor vontade de... bem... de tocar vovó. Mesmo se ela estivesse morta. Especialmente se estivesse morta.
George parou no pequeno corredor diante da porta, olhando no corpo imóvel e deitado de vovó para o telefone na parede, ao lado do número do Dr. Arlinder.
Tornou a olhar para vovó. Teria que chamar o médico. Era preciso... arranjar um espelho!
Claro! Quando a gente respira contra um espelho, ele fica embaciado. Vira um médico examinar uma pessoa sem sentidos dessa maneira, certa vez em um filme.
Havia um banheiro dando para o quarto de vovó. George correu para ele e pegou o espelho de mão que ela possuía. Uma das faces era normal, a outra aumentava as coisas,
de modo que se podia arrancar pêlos e coisas assim.
George levou o espelho à cama de vovó e manteve um lado dele até quase tocar a boca aberta, escancarada. Conservou-o na mesma posição enquanto contava até
sessenta, observando vovó o tempo todo. Nada mudou. Estava certo de que ela havia morrido, antes mesmo de afastar-lhe o espelho da boca e observar a superfície,
que estava perfeitamente clara e sem embaciamento.
Vovó estava morta.
Com alívio e alguma surpresa, George percebeu que agora conseguia lamentá-la. Talvez ela houvesse sido uma feiticeira. Talvez não. Talvez ele apenas a tivesse
imaginado uma. Fosse como fosse, ela agora estava morta. Com um entendimento de adulto, ele percebeu que questões de realidade concreta, embora não perdendo a importância,
ficam menos vitais se examinadas à muda face branda de restos mortais. Percebeu isto com um entendimento de adulto e foi com um alívio de adulto que o aceitou. Assim
são todas as impressões adultas de uma criança; somente anos mais tarde, a criança compreende que estava sendo feita, que estava sendo formada, moldada por experiências
ocasionais; tudo quanto permanece no instante além da pegada, é aquele acre cheiro de pólvora, que é a ignição de uma idéia além dos determinados anos de uma criança.
Ele tornou a levar o espelho para o banheiro, depois voltou ao quarto dela, observando o corpo enquanto isso. O sol poente pintara a velha face morta em barbáricos
tons vermelho-alaranjados. George olhou rapidamente para outro lado.
Cruzou a porta e passou pela cozinha, em direção ao telefone, decidido a fazer tudo certo. Em sua mente, já via uma certa vantagem sobre Buddy; sempre que
o irmão começasse a implicar, diria apenas: eu estava sozinho em casa quando vovó morreu, e fiz tudo certo.
Ligar para o Dr. Arlinder, era a primeira providência. Ligar para ele e dizer, "Minha avó acabou de morrer. Pode me dizer o que devo fazer? Cobri-la ou coisa
assim?"
Não.
"Acho que minha avó acabou de morrer."
Sim. Sim, assim era melhor. Afinal, ninguém pensaria que um garoto de pouca idade saberia alguma coisa, portanto, assim era melhor.
Ou então!
"Tenho absoluta certeza de que minha avó acabou de morrer..."
Claro! Esta era a melhor escolha.
Também falaria sobre o espelho, o chocalho da morte, tudo enfim. E o médico viria em seguida, para dizer, enquanto examinasse vovó, "Eu a declaro morta, vovó".
Depois diria a George, "Você foi extremamente calmo em uma situação difícil, George. Quero dar-lhe os meus parabéns." E George responderia com algo apropriadamente
modesto.
Ele olhou para o número do Dr. Arlinder e fez duas respirações profundas, antes de pegar o fone. Seu coração batia depressa, mas aquela tremenda palpitação
desaparecera.
Vovó estava morta. Acontecera o pior, mas enfim não era tão ruim como esperar que ela começasse a gritar com mamãe, para que lhe levasse o chá.
O telefone estava mudo.
Ele ouviu o vazio, sua boca ainda formada em torno das palavras Sinto muito, Sra. Dodd, mas aqui é George Bruckner e preciso chamar o médico para minha avó.
Nada de vozes. Nada de sinal para discar. Apenas o vazio morto. Como aquela vacuidade morta na cama, lá no quarto.
Vovó está...
... está...
(oh, ela está)
Vovó está ficando fria.
Novamente a pela arrepidada, dolorida, entorpecida. Seus olhos se fixaram na chaleira Pyrex sobre o fogão, na xícara em cima do balcão, com o saquitel de
chá de ervas em seu interior. Nada de chá para vovó. Nunca mais.
(ficando tão,fria)
George estremeceu.
Seu dedo moveu para cima e para baixo o dispositivo interruptor do telefone Princess, mas a linha estava morta. Tão morta como...
(e tão gelada como)
Bateu o gancho para baixo, com força, ouvindo a campainha tilintar fracamente no interior. Tornou a pegar rapidamente o fone, para ver se aquilo significava
que, por meios mágicos, voltara a funcionar. Contudo, nada acontecera e, desta vez, ele o colocou lentamente no gancho.
Seu coração começara a bater mais forte novamente.
Estou sozinho em casa, com ela morta.
Cruzou a cozinha devagar, parou junto à mesa por um minuto e então ligou a luz. Estava ficando escuro ali dentro. Logo o sol desapareceria de todo e a noite
estaria ali.
Esperar. É tudo que posso fazer. Apenas esperar, até que mamãe volte. De fato, é a melhor solução. Se o telefone ficou mudo, é melhor do que ela apenas ter
morrido, em vez de ter um ataque ou coisa assim, espumando pela boca, talvez caindo da cama...
Ah, isso sim, seria terrível. Ele poderia ter agido com toda a correção, sem toda essa confusão.
Como ficar sozinho no escuro e pensar em coisas mortas que ainda viviam, ver formas nas sombras sobre as paredes e pensar na morte, pensar nos mortos, aquelas
coisas, a maneira como federiam e a maneira como se moveriam em direção à gente, no escuro: pensando isto: pensando aquilo: pensando em insetos transformados em
carne; escondendo-se na carne; olhos que se moviam no escuro. Sim. Isso antes de tudo. Pensando em olhos que se moviam no escuro e no rangido de tábuas do assoalho,
como se alguma coisa cruzasse o aposento, através das tiras zebradas de sombras que vinham da luz lá de fora. Sim.
No escuro, os pensamentos tinham uma perfeita circularidade, pouco importando aquilo em que se quisesse pensar - flores, Jesus, beisebol ou ganhar a medalha
de ouro nos 440, nas Olimpíadas - de certo modo, isso reconduzia à forma nas sombras, com as garras e os olhos imóveis.
- Droga! - sibilou George.
Bateu no rosto subitamente. Com força. Estava se deixando dominar por aqueles pensamentos horríveis, era tempo de parar com isso. Afinal, não estava mais
com seis anos. Sua avó tinha morrido, isso era tudo. Morrido. Dentro dela, agora não havia mais pensamento do que em uma bola de gude, em uma tábua do assoalho,
uma maçaneta, um botão de rádio, um...
Então, uma forte voz, estranha e súbita, talvez apenas a espontânea e inexorável voz da simples sobrevivência, exclamou dentro dele: Cale-se, George, e vá
cuidar de suas malditas obrigações!
Sim, está bem. Está bem, mas...
Ele retornou à porta do quarto dela, para certificar-se.
Lá jazia vovó, uma mão caída para fora da cama e tocando o chão, a boca escancarada.
Vovó agora era parte do mobiliário. Podia-se colocar a mão dela na cama outra vez, puxar-lhe os cabelos, despejar um copo com água em sua boca ou colocar
fones de ouvido em sua cabeça, tocando Chuck Berry a todo volume, que daria tudo no mesmo para ela. Como Buddy dizia às vezes, vovó estava em outra. Tinha dado no
pé.
Um ruído repentino, baixo e ritmado, como de algo batendo, começou não muito distante da esquerda de George, arrancando-lhe um pequeno grito assustado. Era
a porta contra tempestades, que Buddy havia colocado apenas na semana anterior. Nada mais que a porta contra tempestades, destrancada e batendo de lá para cá, à
brisa refrescante.
George abriu a porta interna, inclinou-se para fora e agarrou a porta contra tempestades, quando ela bateu de volta. O vento - não era uma brisa, mas vento
- passou por seus cabelos, desarrumando-os. Ele trancou a porta com firmeza e perguntou-se como o vento surgira tão de repente. Na hora em que mamãe saíra, havia
a mais absoluta calmaria. Enfim, quando ela saíra, ainda era dia claro, agora estava quase anoitecendo.
George tornou a dar uma espiada em vovó. Depois voltou e experimentar o telefone.
Continuava mudo. Ele se sentou, levantou-se e começou a andar na cozinha, de um lado para outro, parando de quando em quando, procurando pensar.
Uma hora depois, era noite fechada.
O telefone continuava mudo. George supôs que o vento, agora adquirindo proporções de quase ventania, teria derrubado algumas linhas, talvez por perto do Pântano
do Castor, onde as árvores cresciam por toda parte, em uma desordem de troncos abatidos e poças de água parada. O telefone tilintava ocasionalmente, fantasmagórico
e distante, porém a linha permanecia muda. Lá fora, o vento uivava ao longo das calhas da pequena casa, e George admitiu que teria uma boa história para contar,
na próxima reunião local de escoteiros... sentado em casa, sozinho com a avó morta, o telefone mudo e o vento empurrando montes de nuvens apressadamente pelo céu,
nuvens que eram negras no topo e, por baixo, tendo a palidez da morte, a cor das mãos-garras de vovó.
Como Buddy também costumava dizer, isso era um Clássico.
George desejaria ouvi-lo dizendo isso agora, com a realidade da coisa seguramente para trás. Sentou-se à mesa da cozinha, tendo à frente aberto o livro de
história, sobressaltando-se ao menor ruído... e agora que o vento se levantara, havia milhares de sons, quando a casa estalava em todas as suas juntas secretas,
não oleadas e esquecidas.
Ela logo estará em casa. Estará em casa e tudo ficará legal. Tudo (você nem a cobriu) tudo estará (nem cobriu o rosto dela)
George saltou, como se alguém houvesse falado em voz alta, e arregalou os olhos, espiando o telefone inútil através da cozinha. Presumia-se que o lençol era
puxado para sobre o rosto da pessoa morta. Era assim nos filmes.
Para o diabo com isso! Eu não vou entrar lá!
Não! E não havia motivo algum para que fosse lá! Mamãe podia cobrir-lhe o rosto, quando chegasse em casa! Ou o Dr. Arlinder, quando viesse! Ou o funerário!
Alguém, qualquer pessoa, menos ele.
Não havia motivo para que fizesse isso.
Não era da sua conta e nem da conta de vovó.
A voz de Buddy em sua cabeça:
Se não está com medo, por que não tem coragem de cobrir o rosto dela?
Não é da minha conta.
Droga!
Também não é da conta de vovó.
Droga, PORCA MISÉRIA! COVARDÃO!
Sentado à mesa, diante do livro de História que não lia, considerando a situação, George começou a perceber que, se não puxasse a coberta para cima do rosto
de vovó, não poderia alegar que fizera tudo certo e, assim, Buddy teria um motivo para implicar com ele.
Agora, ele se via contando a história mal-assombrada da morte de vovó, em torno da fogueira no acampamento escoteiro, antes do toque de silêncio, mal chegando
à confortadora conclusão em que os faróis de mamãe banham de luz a entrada para carros - o reaparecimento do adulto, não apenas restabelecendo, mas confirmando o
conceito de Ordem - e, de repente, do meio das sombras, eleva-se uma figura sombria, um cone de pinheiro explode na fogueira, e George pode ver que é Buddy, lá nas
sombras, dizendo: Se você foi tão corajoso, seu maricas, como é que não teve peito para cobrir O ROSTO DELA?
George levantou-se, recordando a si mesmo que vovó estava em outra, que vovó dera no pé, que vovó estava ficando gelada. Podia recolocar-lhe a mão na cama,
enfiar-lhe um saquitel de chá pelo nariz, botar-lhe fones de ouvido com Chuck Berry tocando a todo volume, etc., etc., e nada disso faria a mínima diferença para
vovó, porque isso era o que significava estar morto, nada disso faria diferença para uma pessoa morta, uma pessoa morta era um defunto consumado e frio, o resto
não passava de sonhos, sonhos inevitáveis, apocalípticos e febris sobre portas fechadas que se abriam sozinhas na boca morta da meia-noite, apenas sonhos sobre o
lugar banhando delirantemente os ossos de esqueletos desenterrados, apenas...
- Quer parar com isso? - sussurrou ele. - Pare de ser tão... (grosso)
George empertigou-se. Iria lá dentro e puxaria a coberta sobre o rosto dela, assim eliminando o último motivo para as implicâncias de Buddy. Levaria a cabo
os poucos e simples rituais da morte de vovó. Com toda a perfeição. Cobriria seu rosto e então - seu rosto iluminou-se, ante o simbolismo daquilo - guardaria seu
saquitel de chá não usado e também sua xícara não usada. Isso mesmo.
Começou a andar, cada passo, um ato consciente. O quarto de vovó estava escuro, o corpo dela era uma vaga protuberância na cama, e ele tateou loucamente pelo
interruptor de luz, não o encontrando pelo que lhe pareceu uma eternidade. Por fim, moveu-o e o quarto inundou-se com a claridade amarelada que vinha, em fraca potência,
do lustre em vidro lapidado.
Vovó jazia lá, a mão pendurada, a boca aberta. George a observou, mal percebendo que pequeninas pérolas de suor agora lhe surgiam na testa. Perguntou-se se
sua responsabilidade no assunto se estenderia possivelmente a recolher aquela mão esfriando e recolocá-la na cama, com o resto de vovó. Decidiu pela negativa. A
mão dela poderia ter escorregado a qualquer momento. Aquilo já era pedir demais. Ele não poderia tocá-la. Faria tudo, menos isso.
Lentamente, como que se movendo através de algum fluido espesso, em vez de ar, George aproximou-se da cama. Ficou parado junto dela, olhando para baixo. Vovó
estava amarela. Parte do amarelado era devido à luz, filtrada através do velho lustre, mas não tudo.
Respirando pela boca, o hálito saindo audivelmente, ele agarrou a coberta e a puxou para cima do rosto de vovó. Soltou a coberta e ela escorregou ligeiramente,
revelando a linha da raiz dos cabelos e o amarelado, franzido pergaminho de sua testa.
Empertigando-se, tornou a pegar a coberta, mantendo as mãos bem afastadas de um e de outro lado da cabeça dela, a fim de não tocá-la, mesmo através do tecido.
Deixou a coberta cair novamente e agora ela ficou onde devia. Estava satisfatório. Parte do medo evaporou-se. Ele a sepultara. Sim, era por isso que se cobria uma
pessoa morta, porque era o certo: era como sepultá-la. Era uma confirmação da morte.
George olhou para a mão pendurada, insepulta, e descobriu agora que podia tocá-la, podia enfiá-la debaixo da coberta, sepultá-la com o resto de vovó.
Abaixou-se, agarrou a mão fria e a ergueu.
A mão contorceu-se na sua e aferrou-lhe o pulso.
George gritou. Cambaleou para trás, gritando na casa vazia, gritando contra o som do vento ululante nas calhas, gritando contra o som das juntas rangentes
da casa. Recuou, puxando o corpo de vovó, que ficou enviezado debaixo da coberta, e a mão caiu com um baque surdo, contorcendo-se, girando, agarrando o ar... para
então relaxar-se, ficar novamente flácida.
Eu estou bem, aquilo não foi nada, nada, apenas um reflexo.
George assentiu, em perfeita compreensão. Então, tornou a recordar como a mão se virara, agarrando a sua, e encolheu-se. Seus olhos desorbitaram-se. Seu cabelo
ficou em pé, perfeitamente ereto, formando um cone. Seu coração galopava desabaladamente dentro do peito. O mundo inclinou-se loucamente, tornou a nivelar-se e depois
continuou movendo-se, até inclinar-se para o outro lado. A cada vez que o pensamento racional começava a voltar, o pânico o invadia de novo. Ele deu meia volta,
desejando apenas sair dali para qualquer outro aposento até mesmo correr três ou quatro quilômetros pela estrada, se fosse preciso - onde poderia ter tudo sob controle.
Assim, ele girou e correu, chocando-se contra a parede, porque errara a porta aberta por quase meio metro.
Ricocheteou e caiu ao chão, sua cabeça cantando com uma dor aguda e lancinante, que se insinuou francamente através do pânico. Tocou o nariz, e a mão saiu
suja de sangue.
Novas gotas pingaram em sua camisa verde. Conseguiu ficar em pé e olhou em torno, desvairadamente.
A mão pendia contra o chão, como antes, mas o corpo de vovó não estava mais enviezado. Também ele se encontrava na posição anterior.
Ele havia imaginado a coisa toda. Entrara no quarto e tudo o que acontecera, havia sido apenas um filme mental.
Não.
A dor, no entanto, lhe clareara a cabeça. Pessoas mortas não agarram o pulso da gente.
Mortos estão mortos. Quando morremos, os outros podem usar-nos como cabide para chapéus, enfiar-nos dentro de um pneu de trator e empurrar-nos ladeira abaixo
ou, etcétera, etcétera, etcétera, etcétera. Se uma pessoa está morta, ela poderia agir sobre (contra, digamos, meninos pequenos que querem recolocar mãos mortas
e penduradas em cima da cama), porém seus dias de atuação - por assim dizer - terminaram.
A menos que se trate de uma feiticeira. A menos que a pessoa decida morrer quando não há mais ninguém por perto, além de um menino pequeno apenas, porque
esta é a melhor maneira dela poder... poder...
Poder o quê?
Nada. Era idiotice. Ele imaginara a coisa toda porque estava com medo, e nada mais houvera além disso. George limpou o nariz com o braço e apertou os olhos
com a dor.
Havia uma mancha ensangüentada na pele, na parte interna de seu braço.
Ele não ia mais chegar perto dela, de jeito nenhum. Realidade ou alucinação, não queria se meter com vovó. O brilhante lampejo do pânico se fora, mas ele
continuava miseravelmente assustado, quase chorando, trêmulo à vista do próprio sangue, desejando apenas que sua mãe voltasse para casa e se incumbisse de tudo.
George saiu do quarto, cruzou o pequeno corredor e entrou na cozinha. Aspirou fundo e tremulamente, deixou o ar sair. Queria um trapo velho e molhado para
o nariz, de repente teve a impressão de que ia vomitar. Debruçou-se na pia e deixou a água fria escorrer da torneira. Inclinando-se, pegou um pano velho na bacia
debaixo da pia - o pedaço de uma das velhas fraldas de vovó - e o botou debaixo da torneira de água fria, fungando o sangue enquanto isso. Encharcou o velho e macio
quadrado da fralda de algodão até sentir as mãos entorpecidas, depois fechou a torneira e torceu o pano.
Estava aplicando-o ao nariz, quando a voz dela soou no quarto.
- Venha cá, menino - chamou vovó, em voz monótona como um zumbido. - Venha cá - vovó quer abraçar você.
George quis gritar, mas não emitiu som algum. Nenhum som, em absoluto. Contudo, havia sons no outro quarto. Sons que ouvia quando mamãe estava em casa, dando
o banho de esponja em vovó, erguendo seu corpo volumoso, deixando-o cair, virando-o, deixando-o cair novamente.
Agora, no entanto, tais sons pareciam ter um significado ligeiramente diverso e totalmente específico - era como se vovó estivesse tentando... sair da cama.
- Menino! Venha cá, menino! Já! AGORA! Ande depressa!
Com horror, ele viu que seus pés estavam respondendo àquela ordem. Disse a eles que parassem, mas ambos continuaram em frente, pé esquerdo, pé direito, arrastando-se
como em uma dança, por sobre o linóleo; seu cérebro era um prisioneiro aterrorizado dentro de seu corpo - um refém em uma torre.
Ela é uma feiticeira, ela é uma feiticeira e está tendo um de seus "acessos", oh, sim, é bem um "esconjuro", uma coisa ruim, é REALMENTE ruim, oh, Deus, oh,
Jesus, ajudem-me, ajudem-me, ajudem-me...
George caminhou através da cozinha, seguiu pelo pequeno corredor e, sim, ela não havia apenas tentado sair da cama, ela já saíra, agora estava sentada na
poltrona branca de vinil, onde há quatro anos não se sentava mais, desde que ficara muito pesada para andar e demasiado caduca para saber onde se encontrava.
Agora, no entanto, vovó não parecia caduca.
Seu rosto continuava bambo e pastoso, mas a caduquice desaparecera - se é que um dia chegara a aparecer, não passando de uma máscara que ela procurava usar
para tranqüilizar meninos pequenos e cansadas mulheres sem marido. Agora, o rosto de vovó irradiava absoluta inteligência - brilhava como uma velha e fedorenta vela
de cera. Os olhos decaíam no rosto, mortos e sem brilho. Seu peito não se movia. A camisola subira, exibindo coxas elefantinas. A coberta de seu leito de morte tinha
sido atirada a um lado.
Vovó estendeu para ele os braços volumosos.
- Quero abraçar você, Georgie - disse aquela voz monótona e zumbida. Não fique aí, como um bebezinho assustado. Deixe vovó abraçá-lo.
George recuou, tentando resistir àquele quase insuperável fascínio. Lá fora, o vento esganiçou-se e rugiu. O rosto de George estava espichado e contorcido,
ante a enormidade de seu pavor; era uma face esculpida em madeira, capturada e trancada em um livro antigo.
Começou a caminhar para ela. Não tinha forças para resistir. Arrastou-se passo a passo, na direção daqueles braços estendidos. Mostraria a Buddy que também
não tinha medo de vovó. Iria até ela e seria abraçado, porque não era um bebê-chorão covarde. Iria agora até vovó. Agora.
Estava quase dentro do círculo dos braços dela, quando a janela à sua esquerda se abriu para dentro e, subitamente, um galho atirado pelo vento estava no
quarto com eles, tendo ainda presas suas folhas outonais. O rio de vento inundou o aposento, batendo sobre os quadros de vovó, fustigando-lhe a camisola e os cabelos.
George agora conseguiu gritar. Cambaleou para trás, afastando-se do alcance dela.
Vovó emitiu um decepcionado som sibilante, seus lábios arreganhando-se sobre velhas e macias gengivas; suas mãos gordas e enrugadas encontraram-se inutilmente
sobre o ar que se movia.
Os pés de George emaranharam-se e ele caiu. Vovó começou a levantar-se da poltrona branca de vinil, uma tremelicante pilha de carne; ela cambaleou em sua
direção. George percebeu que não podia levantar-se, que a força desertara de suas pernas. Começou a engatinhar para trás, choramingando. Vovó aproximou-se, lenta,
mas incessantemente, morta, mas viva ao mesmo tempo e, de repente, George compreendeu o que significaria o abraço; o quebra-cabeças ficou completo em sua mente e,
de algum modo, encontrou os pés no momento exato em que a mão de vovó se fechou em sua camisa. O tecido se rasgou no lado e, por um momento, George sentiu a carne
fria contra sua pele, antes de fugir novamente para a cozinha.
Poderia correr para fora de casa, dentro da noite. Faria tudo, menos ser agarrado pela feiticeira, por sua avó. Porque quando sua mãe voltasse, encontraria
vovó morta e ele vivo, oh, sim... mas George teria adquirido uma súbita predileção por chás de ervas.
Olhou para trás, por sobre o ombro, e viu a forma grotesca, deformada de vovó, subindo na parede, quando ela chegou ao pequeno corredor.
E, nesse momento, o telefone tocou, aguda e estridentemente.
George pegou o fone sem mesmo pensar e gritou nele; gritou para que viesse alguém, por favor, que viesse. Gritou essas coisas silenciosamente, porque nem
um som escapou de sua garganta bloqueada.
- Ruth? - era a voz da tia Flo, quase perdida no assobiante túnel de vento de uma péssima ligação interurbana. - É você, Ruth?
Era a tia Flo, em Minnesota, a mais de três mil e duzentos quilômetros de distância.
Vovó entrou na cozinha em passos vacilantes, vestida com sua camisola rosa. Os cabelos branco-amarelados esvoaçavam selvagemente em volta de seu rosto e um
de seus pentes de chifre pendia de banda, contra o pescoço franzido.
Vovó estava sorrindo.
- Socorro! - berrou George ao telefone.
No entanto, o que saiu foi um débil, sibilante assobio, como se houvesse soprado em uma harmônica de boca, cheia de palhetas avariadas.
Vovó cambaleou através do linóleo, os braços estendidos para ele. Suas mãos encontravam-se, uma batia na outra, tornavam a afastar-se, encontravam-se novamente.
Vovó queria o seu abraço; levara cinco anos esperando aquele abraço.
- Ruth, está me ouvindo? Há uma terrível tempestade aqui, começou há pouco, e eu... eu fiquei assustada. Ruth, não consigo ouvi-la...
- Vovó - gemeu George ao telefone.
Agora, ela já estava quase em cima dele.
- George? - a voz da tia Flo ficou subitamente aguda, era quase um guincho. - É você, George?
Ele começou a recuar de vovó e, de repente, percebeu que havia recuado estupidamente da porta, prestes a encurralar-se no canto formado pelos armários da
cozinha e a pia. O horror foi completo. Quando a sombra dela caiu sobre ele, a paralisia interrompeu-se e George gritou ao fone, gritou para ele, vezes e vezes sem
conta:
- Vovó! Vovó! Vovó!
As mãos frias de vovó tocaram sua garganta. Seus olhos lodosos e antigos fixaram-se nos seus, drenando-lhe a vontade.
Fracamente, indistintamente, como se através de muitos anos e também através de muitíssimos quilômetros, ele ouvia a tia Flo dizer:
- Diga a ela pare deitar-se, George, diga a ela para deitar-se e ficar quieta. Diga-lhe para fazer isso, em seu nome e no nome do pai dela. O nome de presumido
pai dela é Hastur. Esse nome tem poder no ouvido dela, George - diga-lhe Deite-se, em Nome de Hastur - diga a ela...
A mão velha e enrugada arrancou o fone do pulso inerte de George. Houve um tenso estouro, quando o fio se soltou do fone. George arriou no canto e vovó inclinou-se,
uma enorme montanha de carne acima dele, eclipsando a luz.
- Deite-se! - gritou George. - Fique quieta! Em nome de Hastur! Deite-se! Fique quieta!
As mãos dela se fecharam em torno de seu pescoço...
- Tem que obedecer! A tia Flo disse que obedeceria! Em meu nome! Pelo nome de "seu Pai! Deite-se! Fique qui -
... e apertaram.
Quando as luzes finalmente banharam a entrada de carros, uma hora mais tarde, George estava sentado à mesa, diante do livro de História que não lera. Levantou-se,
foi até a porta dos fundos e a abriu. À sua esquerda, o fone Princess pendia em seu gancho, com o fio inútil enrolado em torno dele.
Sua mãe entrou, trazendo uma folha colada à gola do casaco.
- Que ventania - disse ela. - Correu tudo bem - George? George, o que aconteceu?
O sangue fugiu do rosto de mamãe, em um único e chocado jato, deixando-a com uma horrível brancura de palhaço.
- Vovó - respondeu ele. - Vovó morreu. Vovó morreu, mamãe.
E começou a chorar. Ela o enlaçou nos braços e então cambaleou contra a parede, como se este ato de abraçar lhe houvesse roubado as últimas forças.
- Aconteceu... aconteceu alguma coisa? - perguntou ela. - Diga, George, aconteceu mais alguma coisa?
- O vento derrubou um galho de árvore e o jogou pela janela de vovó - disse George.
Ela o afastou, perscrutou seu rosto chocado e apagado por um momento, e então correu para o quarto de vovó. Ficou lá talvez uns quatro minutos. Quando voltou,
segurava um retalho de pano vermelho. Era um pedaço de camisa de George.
- Eu tirei isto da mão dela - sussurrou mamãe.
- Não quero falar nisso - respondeu George. - Ligue para a tia Flo, se quiser. Estou cansado. Quero ir para a cama.
Ela pareceu querer detê-lo, mas não o fez. George subiu para o quarto que partilhava com Buddy e abriu o registro do cano de calefação, a fim de ouvir o que
sua mãe faria em seguida. Ela não iria ligar para a tia Flo, não aquela noite, porque o fio do telefone fora arrancado; também não amanhã, porque pouco antes de
mamãe chegar em casa, George pronunciara uma curta série de palavras, algumas delas em latim espúrio, algumas apenas grunhidos pré-druídicos, e, a mais de três mil
e duzentos quilômetros de distância, a tia Flo caíra morta, com uma hemorragia cerebral maciça. Era espantoso como aquelas palavras voltavam. Como tudo voltava.
George se despiu e deitou-se nu em sua cama. Colocou as mãos atrás da cabeça e ficou olhando a escuridão. Lenta, muito lentamente, um cavado e um tanto horrível
sorriso emergiu em seu rosto.
De agora em diante, as coisas ali iam ser muito diferentes.
Muitíssimo diferentes.
Buddy, por exemplo. George mal podia esperar, até que Buddy voltasse do hospital para casa e recomeçasse a Tortura da Colher dos Chinas Pagãos ou uma Queimadura
de Corda índia, quando não, qualquer coisa semelhante. George supôs que deixaria Buddy levar a melhor naquilo - pelo menos durante o dia, quando os outros podiam
ver - mas quando a noite chegasse e os dois ficassem sozinhos naquele quarto, no escuro, com a porta fechada...
George começou a rir silenciosamente.
Como Buddy sempre dizia, ia ser um Clássico.



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1

A Hora do Lobisomem

Stephen King









Arnie Westrum, sinalizador ferroviário, está trancado por uma nevasca numa cabana de ferramentas a nove milhas da cidade. Ele es pera a tempestade passar
jogando paciência com um maço de cartas sebosas. Lá fora, o vento se transforma num lamento contínuo. Westrum ergue a cabeça, preocupado. E apenas o vento, pensa.
Mas o vento não arranha portas... tentando entrar. E o cachorro de alguém, ele pensa, perdido e procurando abrigo. Seria desumano deixá-lo lá fora, ele pensa...
mas permanece imóvel. Tem sido uma época ruim na cidade; a região está repleta de maus presságios e Arnie sente o dedo gelado do medo espetar seu coração. Antes
que ele possa decidir o que fazer, o lamento incipiente se torna um urro. Há um ruído forte como se algo incrivelmente pesado atingisse a porta... recuasse ... e
atacasse outra vez. Ar nie Westrum olha ao redor procurando algo para reforçar a porta, mas, antes que ele se m ova, o ser uivante ataca outra vez, rachando-a de
cima a baixo. E o maior lobo que Arnie já viu. E seus grunhidos soara terrivelmente semelhantes a palavras humanas. A porta então cede e o lobo avança, os olhos
amarelos faiscando em direção ao homem encurralado. Suas orelhas estão eriçadas com triângulos pel udos. Sua língua drapeja. Atrás dele, a neve chicoteia através
da porta rachada ao meio. O ruído dos gritos é abafado pela fúria da tempestade.





No Coração das Trevas

O horror começou em janeiro - sob a luz da lua cheia.
O primeiro grito partiu de um guarda-freios que estava trancado pela nevasca numa pequena cabana de ferramentas, a nove milhas da cidade. Sua garganta foi
destroçada pelas mandíbulas de alguma espécie de fera...
No mês seguinte, o grito irrompeu de uma cama virginal, onde uma mulher solitária gostaria de entregar-se aos devaneios do amor.
A partir de então os habitantes de Tarker's Mills, uma cidade isolada no norte do Maine, Estados Unidos, perceberam que algo de te rrível estava acont ecendo
entre eles. E se repetia todas as vezes em que a lua chei a reluzia num céu translúcido e livre de poluição. A Besta rondava a cidade - sedenta de sangue, vigorosa
e inexplicável.
A Hora do Lobisomem é outra obra-prima de Stephen King, um dos mais admiráveis e profícuos escritores de terror de todos os tempos.
Em memória de Davis Grubb e de todas as vozes da Glória.


Na escuridão malcheirosa do celeiro, ele ergueu sua cabeça peluda. Seus estúpidos olhos amarelos faiscaram.
"Faminto", ele sussurrou.
Henry Ellender The Wolf


"Trinta dias tem setembro, abril, junho e novembro, os demais têm trinta e um, menos fevereiro.
Chuva e neve e sol brejeiro e a lua gorda o ano inteiro."
Verso infantil



Em algum lugar, lá no alto, a lua brilha, gor da e cheia - mas, aqui, em Tarker's Mills, uma nevasca de janeiro entulhou o céu de neve. O vento sopra forte
pela avenida Central deserta; as patrolas alaranjadas da cidade há muito se renderam.
Arnie Westrum, sinalizador ferroviário da GS&WM Railroad, foi apanhado na pequena cabana de ferramentas e sina is a nove milhas da cidade; com seu vagonete
movido a gasolina bloqueado pela enxurrada, ele espera a tempestade passar jogando paciência com um maço de cartas sebosas. Lá fora, o vento se transforma num lamento
contínuo. Westrum ergue a cabeça com desconforto e então volta a olhar para seu jogo. É apenas o vento, afinal de contas...
Mas o vento não arranha portas... tentando entrar.
Ele se levanta; é um homem alto e dese ngonçado metido numa jaqueta de lã e com o uniforme da ferrovia, um cigarro Camel pendurado num canto da boca, seu
enrugado rosto da Nova Inglaterra iluminado por t ons alaranjados da la nterna de querosene pendurada na parede.
As arranhadelas recomeçam. O cachorro de alguém, ele pensa, perdido e procurando abrigo. Isso é tudo... mas permanece imóvel. Seria desumano deixá-lo lá
fora no frio, ele pensa (não que seja muito mais quente ali dentro; contra o aquecedor a bateria ele pode ver a nuvem fria criada por sua respiração ) - mas ainda
hesita. O dedo gelado do medo espeta-o abaixo do coração. Tem sido uma épo ca ruim em Tarker's Mills; a região está repleta de presságios. Arnie tem o sangue forte
dos Welsh em suas veias e não gosta dessas coisas.
Antes que ele possa decidir o que fazer com relação ao visitante, o incipiente lamento se transforma em urro. Há um ruído forte, co mo se algo incrivelmente
pesado atingisse a porta... recuasse... e atacasse novamente. A por ta trepida em seu umbral e um punhado de neve cai do alto.
Arnie Westrum olha ao redor procurando algo para reforçar a porta, mas, antes mesmo que ele se aproxime da cadeira frágil onde estava sentado, o ser uivante
ataca a porta outra vez com uma força inacreditável, rachando-a de cima a baixo.
Pára por um longo momento, arqueado numa li nha vertical, e, penetrando na cabana, chutando e bufando, seu focinho retorci do num grunhido, seus olhos amarelos
faiscantes, é o maior lobo que Arnie já viu...
E seus grunhidos soam terrivelmente semelhantes a palavras humanas.
A porta racha, ringe, cede. Num instante o ser estará ali dentro.
No canto, entre as ferramentas, há uma picareta encostada à parede. Arnie se apressa em apanhá-la enquanto o lobo abre caminho e se agacha, os olhos amarelos
faiscando na direção do homem encurralado. Suas orelhas estão eriçadas, como triângulos peludos.
Sua língua drapeja. Atrás dele, a neve chicoteia através da porta rachada ao meio.
Com um grunhido ele se lança, Arnie Westrum levanta a picareta.
Uma única vez.
Lá fora, através da porta arrombada, a lâmpada fraca brilha imperfeita sobre a neve.
O vento ronca e uiva.
Os gritos começam.
Algo inumano chegou a Tarker's Mills, tão sorrateiro quanto a lua cheia no céu noturno, lá no alto. É o lobisomem, e não há nenhu ma razão a mais para sua
chegada do que haveria para o surgimento do câncer ou de um psicótico com crimes em mente, ou um furacão assassino. Seu tempo é agora, seu l ugar é aqui, nesta pequena
cidade do Maine onde as ceias de feijão cozido na igreja são um evento semanal, onde garotinhos e garotinhas ainda levam maçãs para suas pr ofessoras, onde os passeios
ecológicos do Clube dos Cidadãos são religiosamente no ticiados no jornal semanal. Na próxima semana haverá notícias de uma variedade mais sombria.
Lá fora, suas pegadas começam a ser cobert as pela neve e o gemido do vento tem algo de selvagem e prazeroso. Não há nada de Deus ou Luz naquele som desalmado
- é tudo inverno negro e gelo sombrio.
O ciclo do lobisomem começou.
Amor, pensa Stella Randolph, deitada em sua es treita cama virginal, e através de sua janela penetra a luz fria e azulada de uma lua cheia do Dia dos Namorados.
Oh, amor, amor, amor, amor seria como...
Este ano Stella Randolph, que é dona de um armarinho em Tarker's Mills, recebeu vinte cartões de namorados - um de Paul Newman, um de Robert Redford, um de
John Travolta... e até um de Ace Frehley, do grupo de rock Kiss. Eles estão abertos sobre a escrivaninha do outro lado do quarto, iluminados pelo luar. Ela os enviou
todos para si mesma, neste como em todos os outros anos.
O amor seria como um beijo ao amanhecer ... ou o último beijo, o verdadeiro, ao final das histórias românticas de Arlequim... o amor seria como rosas ao crepúsculo...
Eles riem dela em Tarker's Mills, sim, você pode apostar. Os garotinhos dizem piadas e riem escondendo os rostos com as mãos (e algumas vezes, se eles estão
em segurança e o comissário Neary não está por perto, cantam canções jocosas com suas suaves e debochadas vozes de sopranos), mas ele conh ece o amor e a lua. Sua
loja vai mal, ela está gorda demais, mas, agora, nessa noite de sonhos, com a lua de uma tristeza amarga que escorre pelas vidraças frisadas de gelo, parece-lhe
que o amor é ainda uma possibilidade, o amor e o cheiro do verão, porque ele se aproxima...
O amor seria como o toque áspero do rosto de um homem, que roça e arranha...
E, subitamente, uma arranhadela na vidraça.
Ela se apóia nos cotovelos, as cobertas escorregando de seu gra nde busto. O luar foi encoberto por uma silhueta escura - amorfa mas claramente masculina,
e ela pensa: Eu estou sonhando... e em meus sonhos eu o deixar ei vir... em meus sonhos eu deixarei a mim mesma vir. Eles usam a palavra "sujei ra", mas a palavra
co rreta é "limpo ", a palavra é "certo "; o amor seria como uma vinda.
Ela levanta, convencida de que é um s onho, pois há um homem curvado lá fora, um homem que ela conhece, um homem que ela encontra na rua quase todos os dias.
É...
(O amor, o amor está chegando, o amor veio)
Mas quando seus dedos gorduchos se apóiam na moldura gelada da janela, ela nota que não é um homem; é um animal, um imenso e peludo lobo, suas patas dianteiras
na beirada exterior da janela, as patas traseiras enterradas até as ancas na neve que recobre o lado oeste da casa, nos limites da cidade.
Mas é Dia dos Namorados e haverá amor, ela pensa; seus olhos a enganaram mesmo em seu sonho. E um homem, aquele homem, e ele está tão pecaminosamente disponível
(ausência de pecado, sim, o amor seria como a ausência de pecado) e ele chegou nessa noite enluarada e irá possuí-la. Ele irá...
Ela escancara a janela e é o golpe de ar gelado ondulando sua camisola azul que lhe diz que isto não é nenhum sonho. O homem se fo i e, atônita, ela percebe
que ele nunca esteve ali. Ela encolhe os ombros, recua ndo, e o lobo salta livremente para dentro do quarto e se sacode, espalhando uma onírica nuvem de neve como
açúcar na escuridão.
Mas, o amor. O amor é como... é como... como um grito...
Tarde demais ela lembra de Arnie Westrum, despedaçado na cabana da ferrovia a oeste da cidade, apenas um mês atrás. Tarde demais...
O lobo avança em sua direção, os olhos am arelos faiscando com fria luxúria. Stella Randolph recua para sua estreita cama virginal, caindo sobre ela.
O luar divide a pelugem da besta em listras prateadas.
Sobre a escrivaninha, os cartões do Dia dos Namorados se agitam momentaneamente com a brisa que sopra da janela aberta; um deles cai e ziguezagueia preguiçosamente
até o chão, cortando o arem grandes arcos silenciosos.
O lobo põe suas patas sobre a cama, uma de cada lado de seu rosto, e ela pode sentir sua respiração... quente, mas, mesmo assim, nã o desagradável. Seus olhos
amarelos se fixam nela.
"Amado", ela sussurra, e fecha os olhos.
Ele cai sobre ela.
O amor é como morrer.
A última nevasca verdadeira do ano - neve pesada, úmida, tornando-se granizo enquanto o crepúsculo avança e a noite se aproxima - espalhou ramos de árvores
partidas por toda Tarker's Mills e os estalidos da made ira podre ressoam como disparos. É a Mãe- Natureza enterrando suas árvores mortas, diz Milt Sturmfuller,
o bibliotecário da cidade, a sua esposa na hora do café. Ele é um homem franzino de cabeça estreita e olhos de um azul-pálido, e tem mantido sua bela e silenc iosa
esposa numa escravidão de terror por doze anos. Poucas pessoas desconfiam da verdade - a mulher do comissário Neary, Joan, é uma -, mas a cidade pode ser um poço
de escuridão e ninguém mais sabe além delas. A cidade guarda seus segredos.
Milt gosta tanto da frase que a repete: Si m, a Mãe-Natureza enterrando suas árvores mortas... então as luzes se apagam e Dorn a Lee Sturmfuller solta um
gritinho sufocado. Ela derrama seu café também.
Limpe isso, o marido lhe diz friamente. Limpe isso... já.
Sim, querido. Certo.
No escuro, ela cata um pano de prato para limpar o café derramado e arranha a canela contra uma banqueta. Grita. No escuro, seu marido ri com vontade. Ele
acha a dor de sua mulher mais divertida que qualquer coisa, com exceção, talvez, das piadas da Reader's Digest. Aquelas piadas - Piadas de Caserna, Rir é o Melhor
Remédio - realmente mexem com sua veia humorística.
Assim como as árvores mortas, a Mãe-Na tureza também enterrou algumas linhas de força em Tarker Brook nesta agitada noite de março; a neve cobriu os fios
grossos, se acumulando até que eles se partissem e caíssem na estrada como um ninho de serpentes, se remexendo e cuspindo faíscas azuis.
Toda Tarker's Mills ficou no escuro.
Como se finalmente satisfeita, a tempesta de começou a amainar e não muito depois da meia-noite a temperatura caiu de 0,5 para 9 graus negativos. A lama se
solidificou em estranhas esculturas. O campo de feno do velho Hague - conhecido também como o Campo dos Quarenta Acres - se parece co m vidro partido. As casas continuam
no escuro; as caldeiras, frias. Nenhum funci onário da companhia de força é capaz de ultrapassar as estradas derrapantes.
As nuvens se desfazem. Uma lua cheia brinca de esconder entre as remanescentes. O gelo que cobre a rua principal refulge como os ossos de uma carcaça.
Na noite, começam os uivos.
Mais tarde, ninguém será capaz de dizer de onde eles vieram; estavam em toda parte e em nenhum lugar enquanto a lua cheia tingia as casas sombrias da cidadezinha,
em toda parte e nenhum lugar enquanto o vento de março começou a uivar como o lamento de uma divindade nórdica soprando seu instrumento, perdida no vento, solitário
e selvagem
Dorna Lee o escuta enquanto seu desagradáv el marido dorme o sono dos justos a seu lado; o comissário Neary o escuta de pé em frente à janela do quarto no
seu apartamento da rua Laurel; Ollie Parker, o gordo e inexpr essivo diretor da escola primária, o escuta em seu quarto; outros o escutam também. Um deles é um garoto
numa cadeira de rodas.
Ninguém o vê. E ninguém sabe o nome do operário encont rado pela manhã que tinha conseguido chegar a Tarker Brook para c onsertar os cabos derrubados. O operário
estava coberto de gelo, a cabeça jogada para trás num grito sem som, o velho casaco e a camisa por baixo dele rasgados. O operári o sentava em uma poça congelada
do seu próprio sangue, os olhos fixos nos fios derrubados, as mãos erguidas num gesto de defesa com gelo entre os dedos.
E tudo ao redor dele eram pegadas.
Pegadas de lobo.
Pela metade do mês, a última neve se transforma em chuva torrencial e alguma coisa maravilhosa está acontecendo em Tarker's Mills: o verde começa a aparecer.
O gelo no curral de Matty Tellingham já derreteu e os restos de neve na trilha da floresta conhecida como Big Woods começaram a dimi nuir. Parece que a velha e maravilhosa
magia vai acontecer novamente. A primavera está chegando.
Os moradores a celebram com discrição por causa da sombra que caiu sobre a cidade. Vovó Hague cozinha tortas e as põe na jane la da cozinha para esfriar.
No domingo, na Igreja Batista da Graça, o reverendo Lester Lowe lê os Cânticos de Salomão e faz um sermão intitulado "A Primavera do Amor Divino". Em uma celebração
mais leiga, Chris Wrightson, o maior bêbado de Tarker's Mills, toma seu Grande Porre de Primavera e cambaleia sob a luz prateada e irreal de uma lua quase cheia
de abril. Billy Robertson, garçom e dono do The Pub, único boteco de Tarker's Mills, o observa e murmura para a garçonete: "Se aquele lobo apanhar alguém esta noite,
eu acho que será Chris'".
"Nem fale nisso", replica a garçonete, encolhendo os ombros. Seu nome é Elise Fournier, tem vinte e quatro anos, freqüenta a Igreja Batista e canta no coro
porque tem uma queda pelo reverendo Lowe. Mas ela planeja deixar Mills no verão; apaixonada ou não, essa história de lobo começou a assust á-la. Ela começou a pensar
que as coisas podem ser melhores em Portsmouth... e os únicos lobos por lá usam uniformes de marinheiros.
As noites em Tarker's Mills, quando a lua fica cheia pela terc eira vez no ano, são desagradáveis... os dias são melhores. No parque municipal há, subitamente,
um céu cheio de pandorgas ao entardecer.
Brady Kincaid, onze anos, ganhou uma modelo Abutre no seu aniversário e perdeu a noção do tempo brincando com ela, sentindo o puxão da pandorga em suas mãos
como uma coisa viva, vendo-a cair por um mome nto e serpentear pelo céu azul acima do coreto. Ele esqueceu de ir para casa jantar, nem se dá conta de que os outros
soltadores de pipas já se foram, um a um, com su as caixas e barbantes apertados debaixo dos braços, nem se dá conta de que está só.
É a luz do dia se extinguindo e as sombra s azuis avançando que, finalmente, o fazem entender que ele foi longe demais - isto e a lua crescendo sobre as árvores
na beira do parque. Pela primeira vez é uma lua de tempo quente, inflada e laranja, em vez de fria e branca, mas Brady não repara nisso; ele apenas se dá conta de
que demorou demais, seu pai, provavelmente, vai lhe dar uns safanões... e a escuridão avança.
Na escola, ele riu das histórias tolas contadas pelos colegas sobre o lobisomem que eles dizem ter matado o operário no mês passado, Stella Randolph um mês
antes e Arnie Westrum no outro anterior. Mas ele não ri agora. Quando a lua transforma a escuridão de abril em um caldeirão cor de sangue, as histórias parecem todas
muito reais.
Ele começa a enrolar o barbante, recolhe ndo a pipa o mais rápido possível, sem que seus olhos injetados se voltem para o céu escuro. Ele puxa muito rápido
e, de repente, o vento pára. A pipa mergulha por trás da cerca.
Ele caminha naquela direção, continuando a enrolar o barbante, olhando nervoso para trás... de repente, o barbante começa a co rrer e a se movimentarem suas
mãos, para frente e para trás. Recorda-lhe sua linha de pesca quando ele fisgou aquele grandão, em Tarker's Stream, além dos moinhos. Olha para ela, fecha a cara
e a linha afrouxa.
Um rugido ameaçador enche a noite e Brady Kincaid grita. Ele agora acredita. Sim, agora acredita, tudo bem, mas é tarde dema is e seu grito é abafado pelo
rugido que subitamente cresce e se transforma num uivo.
O lobo está correndo em sua direção, correndo em duas pernas, sua pelugem alaranjada pela lua, seus olhos com lampejos verdes, e em uma das patas dianteiras
- uma pata com dedos humanos e garras no lugar das unhas - está a pipa de Brady. Esvoaçando loucamente.
Brady se vira para correr e repentinamente braços rudes o circundam; ele sente o cheiro de algo como sangue e cinamomo e é encontrado no dia seguinte escorado
no Memorial à Guerra, sem cabeça e sem entranhas, a pipa em uma das mãos rígidas.
A pipa esvoaça, como se tentando subir ao céu, enquanto as pessoas viram as costas, horrorizadas e nauseadas. Esvoaça porque a brisa voltou. Esvoaça como
se soubesse que será um bom dia para pipas.
Na noite anterior ao domingo de Páscoa na Igreja Batista da Graça, o reverendo Lester Lowe tem um sonho terrível do qual ele desperta trêmulo, banhado em
suor, olhos fixos nas estreitas janelas da casa paroquial. Atra vés delas, pode ver sua igreja do outro lado da estrada. O luar penetra pelo quarto de dormir da
casa paroquial em imóveis grãos prateados e, por um momento, ele espera mesmo ver o lobisomem sobre o qual os velhotes caducos têm murmurado a respei to. Então ele
fecha os olhos implorando perdão por seu deslize supersticioso e termina sua oração com um "em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, amém" - como sua mãe o
ensinou a encerrar todas suas orações.
Ah, mas o sonho...
No seu sonho era amanhã e ele estava fazendo o sermão de Páscoa. A igreja está sempre cheia no Domingo de Páscoa (apenas os mais velhos dos velhotes caducos
ainda dizem Santo Domingo Pascal) e, em vez de estar pe la metade ou parcialmente vazia como na maioria dos domingos, cada um dos bancos está tomado.
Em seu sonho ele pregava com uma fogosidad e e uma força que raramente atingia na realidade (costumava ser monótono, o que podia ser uma razão para que a
freqüência na
Igreja da Graça tenha caído tão drasticamen te nos últimos dez anos ou mais). Esta manhã sua língua parece ter sido tocada pelo Fogo Penteco stal e ele compreende
que está pregando o maior sermão de sua vi da. E o tema é: A BESTA CAMINHA ENTRE NÓS. Ele martela o assunto repetidas vezes, vagamente consciente de que sua voz
ficou rispidamente mais forte, que suas palavras atingiram um ritmo quase poético.
A Besta, ele lhes diz, está em toda parte. O Grande Satã, ele lhes diz, pode estarem qualquer lugar. No baile da escola. Comprando um maço de Marlboro e um
isqueiro Bic no armazém. Parado em frente à lancheria de Brighton, comendo um sanduíche natural e esperando pelo ônibus de Bangor das 4h40min para embarcar. A Besta
pode estar sentada próximo a você num concerto da banda ou comprando uma fatia de torta na lanchonete da rua principal. A Besta, el e lhes diz, sua voz decrescendo
num sussurro palpitante, e nenhum olho se desvia. Ele os apanhou. Cuidado com a Besta pois ela sorri e diz que é seu vizinho, mas, oh, meus irmãos , seus dentes
são afiados e vocês podem notar a maneira descontrolada com que seus olhos giram. É a Besta e está aqui, agora, em Tarker's Mills. Ela...
Mas nesse ponto ele fraqueja, sua eloqüênc ia se esvai, pois algo terrível está acontecendo em sua ensolarada igreja. Sua assembléia está começando a se transformar,
e ele, horrorizado, compreende que eles estão virando lobos, todos eles, todos os trezentos: Victor Bowle, chefe do Consel ho Mundial, normalmente tão branco, gordo
e roliço... sua pele está ficando marrom, áspe ra, escura como pêlo! Violet MacKenzie, que dá aulas de piano... seu es guio corpo de solteirona está inflando, seu
nariz delicado se achatando e alargando! O gor do professor de ciências, El bert Freeman, parece ficar mais gordo, seu brilhante terno azul se despedaçando, chumaços
de pêlos explodindo como o estofamento de um velho sofá! Seus lábios carnudos se arreganham como membranas para mostrar dentes do tamanho de teclas de piano!
A Besta, o reverendo Lowe tenta dizer em seu sonho, mas as palavras não lhe vêm e ele desce do púlpito horrorizado enquanto Cal Blodwin, o diácono chefe da
Igreja da Graça, caminha apressado para o a ltar principal, rosnando, o dinheiro derramando da bandeja prateada da coleta, sua cabeça pendendo para um lado. Violet
MacKenzie salta sobre ele e ambos rolam juntos pelo altar, mord endo-se e guinchando em vozes que são quase humanas.
E agora os outros se juntam, o som é como o de um zoológico na hora da alimentação e dessa vez o Reverendo Lowe grita, numa espéci e de êxtase: A Besta! A
besta está em toda parte! Em toda parte. Em toda... " Ma s sua voz não é mais sua voz; ela se tornou um grunhido inarticulado, e quando ele olha, vê que suas mãos
projetadas das mangas de sua batina negra se tornaram patas com garras.
E então, ele desperta.
Foi só um sonho, ele pensa, deitando-se novamente. Foi só um sonho, graças a Deus.
Mas quando ele abre a igreja naquela manhã, a manhã do Domingo de Páscoa, a manhã seguinte à lua cheia, vê que não se trata de nenhum sonho; é o corpo estripado
de Clyde Corliss, que trabalhou como faxineiro por muitos anos, pendurado no púlpito com o rosto colado no chão. O esfregão apoiado próximo a ele.
Nada disso é um sonho; o reverendo Lowe ap enas deseja que pudesse ser. Ele abre a boca, numa grande contração, respiração ofegante, e começa a gritar.
A primavera está de volta, novamente - e, este ano, a Besta veio com ela.
Na noite mais curta do ano, Alfie Knopfler, dono do Chat'n Chew, o único café de Tarke?s Mills, esfrega o grande balcão de fórmica até conseguir um brilho
faiscante, as mangas da camisa branca enroladas, mostra ndo os musculosos braços tatuados. O café naquele momento está completamente v azio e quando ele acaba a
limpeza do balcão, pára por um instante olhando a rua, pens ando que perdeu sua virgindade numa noite perfumada de começo de verão como esta - a garota era Arlene
McCune, que agora é Arlene Bessey, casada com um dos mais bem-sucedidos advogados de Bangor. Deus, como ela mexeu naquela noite no branco tras eiro de seu carro,
e como a noite exalava um aroma doce!
A porta principal se abre e deixa entrar um brilhante raio de luar. Ele imagina que o café está deserto por causa da Besta que dizem caminhar quando há lua
cheia, mas Alfie não está nem assustado nem preocupado; nada assustado, porque ele pesa uns cem quilos e a maior parte deles ainda são os velhos bons músculos da
Marinha, nada preocupado porque ele sabe que os fregueses estarão ali amanhã de manhã bem cedo para seus ovos, suas fritadas e café. Talvez, ele pensa, eu feche
um pouco mais cedo esta noite - desligo a máquina de café, fecho-a, apanho meia dúz ia de cervejas no Mercado Basket e ainda pego a segunda sessão no drive-in. Junho,
j unho, lua cheia - uma noite boa para um drive-in e algumas cervejas. Uma noite boa para relembrar as conquistas do passado.
Está se dirigindo para a máquina de caf é quando a porta se abre, e ele se volta, resignado.
- Olá! Como é que vai? - pergunta, pois o freguês é um dos freqüentadores... apesar dele raramente enxergar este freguês depois das dez da manhã.
O freguês cumprimenta e os dois trocam algumas palavras amigáveis.
- Café? - pergunta Alfie enquanto o freguês se ajeita numa das banquetas vermelhas.
- Por favor.
Bem, ainda é tempo de pegar a segunda sess ão, pensa Alfie, indo para a máquina de café. Ele não vem se sentindo bem há tempos. Cansado. Doente, talvez.
Ainda tem tempo de sobra para...
Um choque espanta o resto dos seus pensam entos. Alfie está estupidamente pasmo. A máquina de café é tão imaculada quanto as outras coisas no Chat'n Chew,
o cilindro de aço inox brilha como um espelho de metal. E na sua superfície convexa polida ele vê algo tão inacreditável quanto repulsivo. Seu freguês, alguém que
ele vê todo dia, alguém que todos em Tarker's Mills vêem todo dia, está se transforma ndo. O rosto do freguês está, de alguma maneira, se despersonalizando, derretendo,
embrutecendo, alargando. A camisa de algodão do freguês esticando, esti cando... e de repente a camisa começa a se rasgar e, absurdamente, Alfie Knopfler só c onsegue
pensar naquela série de televisão que seu pequeno sobrinho Ray gosta de assistir, O Incrível Hulk.
O rosto agradável e irrepreensível do freguês está se transformando em algo bestial. Os olhos castanhos-claros do freguês estão ilumi nados; mudaram para
um terrível verde faiscante. O freguês grita... mas o grito vacila como o ruído de um elevador avariado e se torna um lamentoso urro de raiva.
Ele - a coisa, a Besta, lobisomem, o que quer que seja - tateia na fórmica polida e derruba um açucareiro. Agarra o cilindro de vidro grosso quando ele rola,
espalhando açúcar e, ainda urrando, o arremessa na pare de onde estão pregadas as manchetes de jornais.
Alfie rodopia e seu quadril arra nca a cafeteira da estante. Ela cai ao chão com ruído e espirra café quente por todo canto, queimando seus tornozelos. Ele
grita de dor e medo. Sim, agora ele está apavorado, seus quase cem quilos de bons músculos da Marinha agora estão esquecidos, seu sobrinho Ray es tá esquecido agora,
sua transa no banco traseiro com Arlene McCune está esquecida agora, e há apenas a Besta, aqui e agora como um monstro de filmes de terror do drive-in, um monstro
que saiu da tela.
A Besta pula para cima do balcão com um a terrível força muscular, suas calças esfarrapadas, a camisa em trapos. Alfie pode ouvir chaves e moedas tilintando
em seus bolsos.
Ela pula sobre Alfie, que tent a se esquivar, mas tropeça na cafeteira e se esborracha sobre o linóleo vermelho. Um outro urro esma gador, uma rajada de um
bafo nojento e então uma imensa dor quando as mandíbulas da criatura se fecham sobre os músculos de suas costas e os arrancam com uma for ça terrível. O sangue espirra
pelo piso, pelo balcão, pelo grill.
Alfie cambaleia com um enorme buraco em suas costas; ele tenta gritar e o luar branco, o luar do verão, inunda o ambiente através da janela e confunde seus
olhos.
A Besta salta sobre ele novamente.
O luar é a última coisa que Alfie enxerga.
Cancelaram o 4 de julho.
Marty Coslaw obteve bem pouca simpatia dos seus familiares quando lhes disse aquilo. Talvez tenha sido porque eles simplesmente não entendem a profundidade
de sua dor.
- Não seja tolo - sua mãe lhe disse brusca mente - ela é quase sempre brusca com ele e, quando tem de racionalizar sua grosseria para si própria, diz que
não quer mimar o garoto só porque ele é aleija do, só porque tem a desculpa de que vai passar o resto de sua vida em uma cadeira de rodas.
- Espere até o próximo ano! - seu pai lhe diz, com uma palmada nas costas. - Em dobro é melhor! Em dobro é bem, bem melhor! Você vai ver, meu parceiro! Ei,
ei!
Herman Coslaw é o professor de Educação Física da escola primária de Tarker's Mills e ele quase sempre fala com o filho num to m que Marty chama de voz do
"amigão". Ele também diz "Ei, ei!" num tom alto. A verdade é que Marty deixa Herman Coslaw um pouco nervoso. Herman vive num mundo de cr ianças extremamente ativas,
garotos que disputam corridas, jogam beisebol, nadam. E enquanto dirige tudo isso, algumas vezes ele vê Marty nas proximidades, sentado em sua cadeira de rodas,
assistindo. Isto deixava Herman nervoso e quando ele ficava nervoso, falava com a voz gutural do "amigão" e dizia "Ei, ei!" ou "de primeira" e chamava Marty de "parceiro".
- Ah, ah, então finalmente você não conseg uiu algo que queria! - diz sua irmã mais velha quando ele tenta lhe contar como esper ou por esta noite, como
ele a espera todo ano, as flores de luz no céu acima das pe ssoas, os relâmpagos estalando em brilhos seguidos pelo estrondoso eco de um imenso BOOUMM! que soa por
entre as colinas que cercam a cidade. Kate tem treze anos, Marty dez, e ela está convencida de que todos amam Marty só porque ele ruão pode andar. Ela está adorando
que os fogos tenham sido cancelados.
Nem mesmo vovô Coslaw, que normalmente pode ria ser considerado um simpatizante, ficou impressionado. "Ninguém está cancelando o Quatro de Julho, garoto",
ele disse com seu forte sotaque eslavo. Estava sentado na varanda e Marty veio em sua cadeira de rodas movida a bateria conversar com el e. Vovô Coslaw sentava olhando
a grama irregular em frente aos arbustos, um c opo de schnapps em uma das mãos. Isto tinha acontecido em 2 de julho, dois dias atrás.
- Eles apenas cancelaram os fogos. E você sabe por quê.
Marty sabia. O assassino, este era o porquê. Nos jornais eles o chamavam O Assassino da Lua Cheia, mas Marty tinha ouvido montes de falatórios pela estola
antes das aulas acabarem para as férias de verão. Um bando de garotos dizia que o Assassino da Lua Cheia não era um homem, mas alguma espécie de criatura sobrenatural.
Um lobisomem, talvez. Marty não acreditava naquilo - lobiso mens existiam estritamente nos filmes de terror - , mas achava que podia ser algum sujeito maluco que
somente sentia necessidade de matar durante a lua cheia. Os fogos tinham sido canelados por causa de um nojento toque de recolher.
Em janeiro, sentado em sua cadeira de rodas defronte ás portas de vaivém que dão para a varanda, o vento soprando amargos véus de neve sobre a terra gelada,
ou em pé na porta da frente, rígido como uma estátu a em suas muletas, vendo outros garotos empurrar seus trenós em direção do morro Wr ight, apenas pensar nos fogos
fazia uma grande diferença. Pensar numa noite morna de verão, uma Coca gelada, pensar nas rosas de fogo desabrochando no céu escuro, estre linhas e uma bandeira
americana feita de fogos de artifícios.
Mas agora eles cancelaram os fogos... e, não importa o que digam, Marty sente que foi mesmo o Quatro de Julho - o seu Quatro de julho - que eles mataram.
Apenas tio Al, que apareceu naquela manhã para o tradicional salmão e ervilhas frescas com a família, entendeu. Ele ouviu atenciosamente, encostado na grade
da varanda com sua roupa de banho pingando (os outros es tavam nadando e rindo na nova piscina dos Coslaws, no outro lado da casa), depois do almoço.
Marty acabou e olhou ansiosamente para tio Al.
- Vê o que eu quero dizer? Entende? Não te m nada a ver com o fato de eu ser aleijado, como Katie diz, ou misturar os fogos co m a América, como vovô pensa.
Apenas não está certo, quando você espera alguma cois a por tanto tempo... não está certo Victor Bowle e algum conselho comunitário im becil virem acabar com tudo.
Não quando é algo que você realmente precisa. Entende?
Houve uma longa e agoniaste pausa enquant o tio Al considerava o caso de Marty. Tempo suficiente para Marty ouvir o ra ngido do trampolim na parte mais funda
da piscina, seguido pelo tom gutural de pa pai: "Muito bem, Kate, Ei, ei. Muito bemmmmm... mesmo".
Então tio Al disse calmamente:
- Claro que eu entendi. E tenho algo para você, eu acho. Talvez você possa fazer o seu próprio Quatro de julho.
- Meu próprio Quatro de julho? O que você quer dizer?
- Venha até meu carro, Marty. Tenho algo... be m, eu te mostrarei. - E ele caminhou junto à calçada que circundav a a casa antes que Marty pud esse perguntar
o que ele queria dizer.
Sua cadeira de rodas zuniu pela calçada em direção à saída, para longe dos sons da piscina - mergulhos, risadas histéricas, o tóoinnng do trampolim. Para
longe da voz de "amigão" de seu pai. O som de sua cadei ra de rodas era um murmúrio abafado que Marty ouvia com exatidão - t oda sua vida aquele som, e o som metálico
dos braços da cadeira, tinham sido a música dos seus movimentos.
O carro de tio Al era uma Mercedes c onversível. Marty sabia que seus pais desaprovavam ("Uma ratoeira de vinte e oito mil dólares", sua mãe disse uma vez
com uma grosseira fungadela), mas Marty adorava. Uma vez tio Al o levou para um passeio em algumas das estradinhas que riscavam Ta rker's Mills e ele dirigira muito
rápido - 130 ou 140 por hora. Ele não contara a Marty a velocidade em que estavam indo. "Se você não souber, não ficará assustado", ele dissera. Mas Marty não tinha
se assustado. Sua barriga doía no dia seguinte de tanto rir.
Tio Al apanhou algo no porta-luvas e, qua ndo Marty se aproximou, ele colocou um grande pacote enrolado em celofane sobre as pernas imprestáveis do garoto.
- Vamos lá, menino - ele disse. - Feliz Quatro de julho.
A primeira coisa que Marty viu foram exóticos caracteres chineses no rótulo do pacote. Então ele viu o que havia dentro e o coraçã o se apertou em seu peito.
A embalagem de celofane estava cheia de fogos de artifício.
- Estes que parecem pirâmides são especiais disse tio Al.
Marty, totalmente atordoado pela alegria, mexeu os lábios, mas não conseguiu dizer nada.
- Acenda os pavios e jogue que eles vão se esparramar em tantas cores quantas há na língua de fogo do dragão. Os tubos com palitos aparecendo são foguetes.
Ponha-os em uma garrafa vazia de Coca e eles sobem. Os pequenos são cascatas. Há duas velas romanas também... e, claro, um pacote de bombinhas. Mas é melhor lançar
estes amanhã.
Tio Al prestou atenção nos ruídos vindos da piscina.
- Obrigado - Marty finalmente conseguiu pronunciar. - Obrigado, tio Al!
- Só não vá dizer para a mãe onde você os conseguiu - disse tio Al. - Um aceno de cabeça é tão bom quanto uma piscadela para um cavalo cego, certo?
- Certo, certo - Marty balbuc iou, apesar de não ter a mínima idéia do que acenos, piscadelas e cavalo cegos tivessem a ver co m fogos de artifício. - Mas
você está certo que não os quer, tio Al?
- Eu posso conseguir mais - disse tio Al. - Conheço um cara em Bridgton. Ele trabalha até o anoitecer. - Colocou a mão sobre a cabeça de Marty. - Você faz
o seu Quatro de Julho depois que todo mundo for para a cama. Não dispare os ba rulhentos pois vai despertar todos. E, pelo amor de Deus, não estoure sua mão, ou
minha irmã nunca mais irá falar comigo.
Então tio Al riu, entrou no car ro e fez o motor roncar como algo vivo. Ergueu a mão num abano a Marty e então partiu, quando Mart y ainda estava tentando
demonstrar sua gratidão. Ele ficou ali por um tempo após a partida do tio, engolindo em seco para não chorar. Então colocou o pacote de fogos por dentro da camisa
e zuniu de volta à casa e ao seu quarto. Em sua cabeça, ele já espe rava pela chegada da noite e que todos estivessem dormindo.
Ele é o primeiro a ir para a cama naquela noi te. Sua mãe vem e lhe dá um beijo de boa- noite (bruscamente, sem olhar para suas pernas magrelas por debaixo
do lençol).
- Você está bem, Marty?
- Sim, mãe.
Ela faz uma pausa como se fosse dizer mais alguma coisa e então dá uma sacudidela de cabeça. Sai.
Sua irmã Kate vem. Ela não o beija; simplesmente encosta a cabeça em seu pescoço para que ele sinta o cheiro de cloro em seus cabelos e sussurra:
- Vê? Você nem sempre consegue o que quer só porque é aleijado.
- Você poderia se surpreender com o que eu consigo - ele diz suavemente, e ela o observa por um momento com uma forte suspeita antes de se retirar.
Seu pai vem por último e senta no lado da cama de Marty. Ele fala com sua estrondosa voz de "amigão".
- Tudo legal, garotão? Você tá caindo na cama muito cedo. Cedo mesmo.
- Só um pouco cansado, papai.
- Certo. - Ele dá uma palmada em uma das pernas inúteis de Marty com sua grande mão, se descompõe inconscientemente e en tão levanta apressado. Lamento pelos
fogos de artifício, mas espere até o próximo ano! Ei, ei! De primeira!
Marty sorri, um rápido e secreto sorriso.
Então começa a espera para que o resto da ca sa vá para a cama. Muito tempo se passa. A TV vaiem frente, sempre e sempre, na sala de estar, as risadas enlatadas
seguidamente acrescidas pelos fricotes risonhos de Katie. A válvul a de descarga soa com estrépito seguida do jato de água no banheiro do quarto de vovô. Sua mãe
tagarela ao telefone, deseja um feliz Quatro de Ju lho a alguém, diz sim, é uma vergonha terem cancelado os fogos de artif ício, mas ela pensa que, na quelas circunstâncias,
todos entenderam por que tinha de ser assim. Si m, Marty ficara desapontado. Uma vez, perto do fim da conversa, ela ri e, quando ela ri , não parece nada brusca.
Ela raramente ri perto de Marty.
E assim, enquanto as sete e meia se transformam em oito e nove, sua mão tateia debaixo do travesseiro para se certificar de que o pacote de celofane com os
fogos ainda está ali. Por volta de nove e meia, quando a lua está bast ante alta para penetrar por sua janela e inundar o quarto com sua luz prateada, a casa finalmente
começa a se acalmar.
A TV é desligada. Katie vai para a cama, reclamando que todos seus amigos ficam acordados até tarde no verão. Depois que ela se vai, os pais de Marty sentam
na sala um pouco mais, sua conversa reduzida a murmúrios. E...
...e talvez ele tenha dormido, pois quando toca de novo o maravilhoso saco de fogos percebe que a casa está totalmente silencio sa e a lua mais brilhante
- brilhante o suficiente para projetar sombras. Ele apanha o saco junto com o pacote de fósforos que pegou mais cedo. Põe a camisa do pijama para dentro das calças;
enfia o saco e os fósforos por dentro da camisa e se prepara para deixar a cama.
É uma operação para Marty, mas não dolor osa, como as pessoas à vezes parecem pensar. Não há sensações de qualquer espécie em suas pernas, portanto, não há
dor. Ele segura a cabeceira da cama, forçando o corpo a sentar, então joga as pernas para a beirada, uma de cada vez. Ele faz isso co m uma mão só, usando a outra
para segurar o trilho que começa na cama e se estende ao redor de todo o quart o. Uma vez ele tentou mover as pernas com ambas as mãos e acabou caindo de cabeça
no chão. O acidente fez com que todos viessem correndo. "Seu estúpi do exibido!", Kate sussurrou em seu ouvido depois de ele ter sido colocado na cadeira, um pouco
trêmulo, mas rindo loucamente apesar do arranhão em uma das têmporas e o lábio cortado. "Você quer se matar, hein?" E então ela saiu correndo do quarto, chorando.
Uma vez sentado na beira da cama, ele limpa as mãos no casaco para ter certeza de que elas estão secas e não vão escorregar. Entã o usa o trilho para ir,
palmo a palmo, até a cadeira de rodas. Suas inúteis pernas ressequidas, um verdadeiro peso morto, se arrastam a seu comando. O luar reluz o bastante para projetar
sua sombra, nítida e frágil, no chão a sua frente.
Sua cadeira de rodas está travada e ele se jo ga sobre o assento, c onfiante. Pára por um instante, prendendo a respiração, ouvindo o s ilêncio da casa.
Não dispare nenhum dos barulhentos esta noite, tio Al disse, e, ouvindo o silênci o, Marty sabe que ele estava certo. Ele vai ter um Quatro de julho por si próprio
e somente para si próprio e ninguém saberá. Pelo menos não até amanhã, quando el es virem os cartuchos enegrecidos das estrelinhas e as cascatas pela varanda e então
não terá mais importância. Tantas cores quantas existem na língua de fogo do dragã o, tio Al tinha dit o. Mas Marty supõe que não há qualquer lei contra um dragão
que solte chamas silenciosamente.
Ele destrava a cadeira e puxa a chave de força. O pequeno olho âmbar, aquele que mostra se a bateria está carregada, brilha na escuridão. Marty empurra a
alavanca para VIRAR À DIREITA. A cadeira faz uma rot ação à direita. Ei, ei. Quando está voltado para as portas da varanda, ele empurra o controle para a posição
de AVANÇAR. A cadeira se move para a frente, zumbindo baixinho.
Marty desliza os trincos da porta dupla, aperta o AVANÇAR novamente e sai. Abre o maravilhoso saco de fogos e se detém rapi damente, encantado com a noite
de verão'- o sonolento cricri dos grilos, a lenta e perfumada brisa que praticamente acaricia as folhas das árvores no limite do bosque, o quase sobrenatural brilho
da lua.
Ele não pode esperar mais. Puxa uma tira de fogos, risca um fósforo, acende o estopim e observa num silêncio pesado enquanto eles espargem uma chama verde
azulada e crescem magicamente, se retorcendo e cuspindo chamuscas pelo rabo.
O Quatro de Julho, ele pensa, os olhos bril hantes. O Quatro de Julho, feliz Quatro de Julho para mim.
A serpente de fogos diminui o brilho, tremula, se esvai. Marty acende um dos que têm forma de triângulo, soltando um fogo tão am arelo quanto a cor da camisa
de sorte que seu pai usa no golfe. Antes que se apa gue, ele acende um segundo que desprende uma luz vermelha como as rosas que crescem ao lado da cerca ao redor
da piscina nova. Agora um maravilhoso aroma de pólvora que imada enche a noite para ser apanhado pelo vento e levado embora lentamente.
Cegamente, suas mãos puxam o pacote ach atado das bombas e ele já o abriu antes mesmo que percebesse que acender estes seria uma calamidade - seus estrondos
estremecedores e estrepitosos de revólver despertariam a vizinhança inteira: fogo, inundação, alarme, evacuação. Tudo isso e um garoto de dez anos chamado Martin
Coslaw trancado na casa do cachorro até o Natal, provavelmente.
Ele repõe as bombas em seus estojos, remexe alegremente o saco outra vez, e retira o maior dos fogos coloridos - um tipo Classe A, se é que existe isto. É
tão grande quanto seu punho fechado. Ele o acende numa mescla de medo e prazer, e o atira.
Um fogo vermelho tão brilhante quanto o f ogo do inferno toma a noite... e é através do seu brilho febril e inquieto que Marty vê os ramos dos arbustos abaixo
da varanda serem sacudidos e divididos. Há um ruído leve, meio tosse, meio grunhido. A Besta aparece.
Pára por um momento à beira da grama baix a e parece farejar o ar... e então começa a cruzar desordenadamente o chão desnivel ado em direção ao lugar onde
Marty está sentado em sua cadeira de rodas, os ol hos arregalados, o tr onco colando contra o encosto de lona da cadeira. A Besta vem curvada, mas caminha nitidamente
sobre suas duas patas traseiras. Caminhando da mane ira que um homem caminharia. A luz vermelha dos fogos perpassa infernalmente seus olhos verdes.
Move-se lentamente, suas largas narinas bufam ritmadamente. Farejando a presa, quase farejando a fraqueza da presa. Marty pode sentir o odor - o pêlo, o suor,
a selvageria. Grunhidos, novamente. O grosso lábio superior cor de fígado, arreganhado, mostra seus dentes fortes, quase presas. Seu pêlo é colorido de um vermelho-prateado
frio.
Está quase alcançando o garoto - as mãos co m garras, mãos, a um só tempo, humanas e não-humanas, em busca de sua garganta - quando ele lembra do pacote de
bombas. Quase sem se dar conta do que está fazendo, risca um fósforo e o aproxima do pavio principal. O pavio cospe uma linha quent e de faíscas vermelhas que chamuscam
os pêlos das costas de suas mãos, crispando-as. O lobisomem, momentaneamente descontrolado, recua, lançando um grunhido que, como suas mãos, é quase humano. Marty
joga o pacote de bombas em seu rosto.
Elas vão explodindo, um faiscante trem de luz e som. A Besta emite um rugido de dor e raiva; recua, as patas tentando evitar as explosões que tatuam pontos
de fogo e pólvora ardente em seu rosto. Marty vê um de seus olhos verdes se desfazer no ar quando quatro bombas estouram juntas com um estrondoso CABULJUMMM!, bem
do lado do focinho. Agora os gritos são pura agonia. Com as patas sobre o rosto, abaixando-se, quando as primeiras luzes se acendem na cas a dos Coslaw, foge pela
grama em direção aos arbustos, deixando atrás de si apenas um odor de pêlo chamuscado e os primeiros gritos apavorados e descontrolados vindos da casa.
- O que foi? - é a voz de sua mãe não parecendo nada brusca.
- Quem era, maldição? - pergunta o pai, não parecendo muito com o "amigão".
- Marty? - é a voz de Kate, trêmula, nã o parecendo tão empolad a. - Marty, você está bem?
Vovô Coslaw dorme apesar de tudo.
Marty empurra sua cadeira de rodas e nquanto o grande fogo vermelho vai se extinguindo. Sua luz é agora mais suave e a doravelmente rosada como um amanhecer
antecipado. Ele está chocado demais pa ra chorar. Mas seu choque não é apenas emocional, apesar de que, no dia seguinte, seus pais o enviarão para uma visita a tio
Jim e tia Ida lá em Stowe, Vermont, onde ele ficará até o final das férias de verão (a policia concorda; eles acham que O Assassino da Lua Cheia pode tentar atacar
Marty outra vez, e silenciá-lo). Ele está exul tante. É algo mais forte que o choque. Ele olhou a terrível face da Besta e sobreviveu. E há uma simp les e infantil
alegria nele, bem como um júbilo tranqüilo, que ele é incapaz de transmitir a qualquer um mais tarde, nem mesmo a tio Al, que poderia entender. Ele sente essa alegria
porque os fogos aconteceram, afinal de contas.
E enquanto seus pais se questionavam, se in terrogavam sobre sua saúde mental e se ele não ficaria com traumas dessa experiência, Marty Coslaw pass ou a acreditar
do fundo do coração que aquele foi o melhor Quatro de Julho de todos.
- Claro, eu penso que é um l obisomem - diz o comissário Neary. Ele fala muito alto - talvez acidentalmente, mais acidentalment e do que pretende - e toda
a conversa na barbearia de Stan se extingue. Agosto já vai pela metade, o agosto mais quente que alguém pode lembrarem Tarker s Mills em a nos, e esta noite a lua
estará cheia pelo segundo dia. Então a cidade prende a respiração, esperando.
O comissário Neary dá uma olhada na audiência e prossegue de seu lugar, a cadeira do meio de Stan Pelky, falando consistent emente, falando judicialmente,
falando psicologicamente, do fundo de sua educa ção de segundo grau (Neary é um sujeito grande e musculoso e na escola ele mais fez pontos para os Tigres de Tarker's
Mills do que outra coisa; seus trabalhos escolares lhe deram alguns conceitos C e não poucos D).
- Há caras que são como duas pessoas - ele lhes diz. - Uma espécie de dupla personalidade. Eles são o que eu chamo de esquizofrênicos de merda.
Ele faz uma pausa para apreciar o respe itoso silêncio que saúda sua declaração e continua:
- Esse cara, eu acho que ele é assim. Acho que ele não sabe o que está fazendo quando a lua está cheia e ele sai para matar algué m. Ele pode ser qualquer
um - um caixa do banco, um frentista de um daqueles postos de gasolina lá da estrada municipal, talvez alguém que esteja aqui neste momento. Quanto a ser um animal
por dentro e parecer perfeitamente normal por fora, sim, podem apostar que é isso. Mas se vocês querem saber se eu acho que é um cara que tem pêlos e uiva para a
lua... não. Isso é conversade garotos.
- E sobre o garoto dos Coslaw, Neary? - Stan pergunta, co ntinuando o trabalho cuidadosamente na parte mais carnuda do pescoço de Neary. Sua longa e afiada
tesoura fazendo clic... clic... clic.
- Apenas prova o que eu disse - responde Neary um tanto exasperado. - Conversa de garotos.
Na verdade, ele se sente exasperado por causa do que aconteceu com Marty Coslaw. Ali, naquele garoto, está a primeira te stemunha ocular do pervertido que
matou seis pessoas em sua cidade, incluindo o grande amigo de Neary, Alfie Knopfler. E deixaram que ele interrogasse o garoto? Não. Ele ao menos sabe onde está o
garoto? Não. Ele tem que se virar com uma cópia de depoimento que a Policia Estadual lhe forneceu e tem que se curvar e quase implor ar para conseguir isso. Tudo
porque ele é um policial de cidade pequena e a Policia Estadual pensa nele como um policial mirim, incapaz de amarrar seus próprios sapatos. Tudo porque ele não
usa um daqueles fodidos chapéus de guarda florestal. E o depoime nto! Ele podia muito bem usá-lo para limpar a bunda. Conforme o garoto dos Coslaw, a "besta" media
uns dois metros e dez centímetros, estava despida e coberta de pêlos escuro s por todo o corpo. Tinh a grandes dentes e olhos verdes e fedia como um monte de merd
a de pantera. Tinha patas, mas as patas pareciam mãos. Ele achava que tinha um rabo. Um rabo, Jesus Cristo.
- Talvez - diz Kenny Franklin sentado em uma das cadeiras enfileiradas junto à parede - ,talvez seja alguma espécie de disfarce que esse camarada coloque.
Como uma máscara ou coisa assim, vocês sabem.
- Eu não acredito nisto - diz Neary enfaticamente, sacudindo a cabeça para enfatizar sua opinião. Stan tem de afastar a tesoura apre ssadamente para evitar
que uma das lâminas atinja aquela massa carnuda na nuca de Ne ary. - Não, senhor! Eu não acredito nisso! O garoto ouviu um monte dessas histórias de lo bisomens
na escola antes das férias - ele admitiu - e então ficou pensando na quilo... remoendo em sua cabeça. É tudo psicológico, podem ver. Porque se tivesse sido você
que tivesse saído dos arbustos ao luar, ele pensaria que você era um lobo, Kenny.
Kenny ri com dificuldade.
- Não - Neary diz sombriamente. - O testemunho do garoto não serve para nada.
Em sua aversão e desapontamento pelo depoimento tomado de Marty Coslaw na casa de seus tios em Stowe, o comi ssário Neary tinha também dado uma olhada nesse
trecho: "Quatro delas estouraram ao lado de sua face - eu acho que você chamaria aquilo de face ao mesmo tempo, e eu acho que arrancaram seu olho. Seu olho esquerdo".
Se o comissário Neary tivesse prestado mais atenção nesse detalhe - e ele não tinha - teria rido mais contidamente, pois, naquel e quente e inanimado agosto
de 1984, havia apenas uma pessoa na cidade usando um tapa-olho, e era simplesmente impossível pensar naquela pessoa, entre todas as outras, como sendo o assassino.
Neary acreditaria que sua mãe era o assassino antes deter acreditado nisto.
- Somente uma coisa pode resolver este caso diz o comissário Neary, apontando seu dedo para os quatro ou cinco homens sent ados em cadeiras encostadas à
parede, esperando para o corte de cabelo do sábado de manhã - e é um bom trabalho policial. E eu pretendo ser o cara que vai fazê-lo. Aquele s estaduais de chapel
ão vão rir amarelo quando eu prender o sujeito. - O rosto de N eary fica sonhador. - Qualquer um - ele diz. Um caixa do banco... um bombeiro... algum sujeito com
quem você bebe no bar. Mas um bom trabalho policial vai resolver. Guardem minhas palavras.
Mas o bom trabalho policial do comissário N eary chega ao fim naquela noite quando um braço peludo, prateado pela lua, entra pela janela aberta de sua pickup
Dodge enquanto ele está estacionado no cruzamento de duas estradinhas a oeste de Tarker's Mills. Há um grunhido em tom grave, bufante, e um odor selvagem, horripilante
- como aquele cheiro que a gente percebe na jaula dos leões, no zoológico.
Seu rosto é puxado para o lado e ele se depara com um olho verde. Vê a pelugem, o negro e sombrio focinho. E quando o focinho é ar reganhado, ele vê os dentes.
A besta mete a pata como se brincasse e uma das bochechas é arrancada em um golpe, deixando
à mostra os dentes do lado direito. O sangue espirra por toda parte. Ele pode senti-lo correndo pelo ombro da camisa, morno. Ele grita, ele grita sem boca
e sem bochecha. Sobre o ombro poderoso da besta ele pod e ver a lua, inundando tudo com uma luz branca.
Ele esquece tudo sobre seu rifle e o 45 no seu cinturão. Esquece tudo sobre como esta porra de coisa é psicológica. Esquece tudo sobre bom trabalho policial.
Sua mente se fixa em algo que Kenny Franklin disse na barbearia naquela manhã. Talvez seja alguma espécie de disfarce que esse camarada coloque. Como uma máscara
ou algo assim, vocês sabem.
E assim, enquanto o lobisomem procura pela garganta de Near y, Neary procura seu rosto, as duas mãos grudam no pêlo áspero e puxam, esperando desesperadamente
que a máscara escorregue e caia - haverá o es talo de um elástico arrebentado, o som da rasgadura do látex, e ele verá o assassino.
Mas nada acontece - nada exceto o rugido de dor e raiva da besta. Ela o atinge com as garras da mão sim, ele pode ver que é um a mão, mesmo cuidadosamente
disfarçada, uma mão, o garoto estava certo - e escancara sua garganta. O sangue se espalha em jatos sobre o pára-brisa e o painel da camioneta; re spinga para dentro
da garrafa de cerveja entre as pernas do comissário Neary.
A outra mão do lobisomem se atraca no recente corte de cabelo de Neary e puxa metade do seu corpo para fora da cabine da pick-up. A besta uiva em triunfo
e então enterra seu focinho no pescoço de Neary. Se alimenta enqua nto a cerveja verte da garrafa virada e borbulha pelo chão entre os pedais da camioneta.
É demais para a psicologia.
É demais para um bom trabalho policial.
Enquanto o mês avança e a noite de lua cheia se aproxima, o povo amedrontado de Tarker's Mills espera que o calor diminua, mas isso não acontece. No mundo
lá fora, os campeonatos de beisebol são decididos um por um e a temporada de futebol começou; nas Rochosas canadenses, informa o velho Willard Scott ao povo de Tarker's
Mills, trinta centímetros de neve caem em 21 de setembro. Mas neste canto do mundo, o verão se prolonga. A temperatura fica por volta dos 30 graus durante o dia;
os garotos, de volta às aulas há três sema nas e nada felizes em ficarem sentados abatidos pelo abafamento das salas de aula onde os re lógios parecem ter sido programados
para avançar um minuto por cada hora de tempo real. Maridos e mulheres discutem à toa por nenhuma razão, e no Posto O'Neil na estrada m unicipal, próximo ao trevo
de acesso à cidade, um turista começa um bate-boca com Pucky O'Neil sobre o preço da gasolina e
Pucky acerta o camarada com o manete da mangueira. O camarada, que é de Nova Jérsei, leva quatro pontos no lábio superior e parte pr aguejando sobre legislação
e questões judiciais.
- Eu não sei por que ele está xingando tanto Pucky comenta impassível naquela noite no The Pub. - Eu apenas o atingi com metade de minha força, sabe? Se eu
o tivesse atingido com toda minha força, teria rasgado aquela sua boca espertinha. Certo?
- Claro - diz Billy Robertson, pois Pucky parece qua vai atingi-lo com toda sua força se ele discordar. Que tal outra cerveja, Pucky?
- Seu beatão - diz Pucky.
Milt Sturmfuller põe sua mulher no hospital por causa de um pedaço de ovo que o lava- louças não desgrudou de um dos pratos. El e dá uma olhada naquela mancha
amarela ressequida no prato em que ela serve seu almoço e acerta uma porrada nela. Como Pucky O'Neil diria, Milt a atinge com toda sua força.
- Sua puta imunda, ele diz em pé ao lado de Donna Lee estendida no chão da cozinha, o nariz quebrado e sangrando, a nuca também sangrando. - Minha mãe costumava
manter os pratos limpos e ela nem sequer tinha um lava-louças. Que que há com você?
Mais tarde, Milt irá dizer ao médico na sala de emergência do Hospital Geral de Portland que Donna Lee caiu de uma escada. Donna Lee, horrorizada e acovardada
após nove anos de guerra conjugal, irá confirmar.
Por volta das sete da noite de lua cheia, um vento sopra - o primeiro vento agradável daquele longo verão. Traz um bando de nuvens do norte e por um momento
a lua brinca de esconder com aquelas nuvens, aparecendo e desaparecendo, transformando suas bordas num prateado pálido. Então as nuvens engrossam e a lua desaparece...
mas ainda está lá; as marés sentem sua força a uns trin ta quilômetros de Tarker's Mills e o mesmo sente a Besta, próxima ao lar.
Por volta das duas da madrugada, um guinc ho apavorante se eleva do chiqueiro de Elmer Zinneman na rodovia Oeste, a cerca de quinze quilômetros da cidade.
Elmer procura seu rifle, vestindo apenas as calças de pijama e chinelos. Sua esposa, que era quase bonita quando
Elmer casou com ela aos dezesseis anos, em 1947, suplica, implora e chora, querendo que ele fique com ela, querendo que ele não vá lá fora. Elmer a sacode
e segura sua arma pelo cano. Seus porcos não estão apenas guinchando; eles estão gritando. Parecem um bando de garotas surpreendidas por um maníaca numa festa sonolenta.
Ele vai, nada pode impedi-lo de ir, ele diz a ela... e então fica estático, a mão calosa sobre a maçaneta da porta dos fundos, quando um uivo cortante cresce em
triunfo. É um uivo de lobo, mas há algo de humano naquele uivo que faz com que sua mão abandone a maçaneta e ele permite que Alice Zinneman o empurre de volta à
sala de estar. Ele coloca os braços ao seu redor e a conduz ao sofá e eles sentam como duas crianças assustadas.
Agora a gritaria dos porcos começa a fraque jar e pára. Sim, eles param. Um por um, eles param. Seus guinchos morrem em sons roucos e engasgados de sangue.
A Besta uiva outra vez, seu grito eloqüente como a lua. Elmer vai até a janela e vê algo - ele não sabe dizer o que - desaparecendo nas profundezas da escuridão.
A chuva chega mais tarde, se lançando contra as janelas enquanto Elmer e Alice sentam lado a lado na cama, todas as luzes do quar to acesas. É uma chuva gelada,
a primeira chuva verdadeira do outono, e amanhã a prim eira mudança de cor terá atingido as folhas.
Elmer encontra o que ele espera em se u chiqueiro: matança. Todas suas nove reprodutoras e ambos os cachaços estão mortos - estripados e parcialmente comidos.
Jazem na lama, a chuva gelada caindo sobre suas carcaças, os olhos salientes fixos no céu frio do outono.
O irmão de Elmer, Pete, chamado em Minot, está ao lado de Elmer. Eles não falam por um longo tempo e então Elmer diz exatamente o que se passa na mente de
Pete.
- O seguro cobrirá parte disso. Não tudo, mas parte. Eu acho que posso assumir o resto. Melhor que sejam meus porcos do que outra pessoa.
Pete concorda. - Já foi o bastante - el e diz num murmúrio que quase não pode ser escutado sob a chuva.
- O que você quer dizer?
- Você sabe o que eu quero dizer. Na próxima lua cheia deve haver quarenta homens na rua... ou sessenta... ou cento e sessenta. É hora das pessoas pararem
de andar por aí fingindo que nada está acontecendo, quando qual quer imbecil pode ver. Olhe ali, pelo amor de Deus.
Pete aponta para baixo. Ao redor dos porcos chacinados, a terra macia do chiqueiro está cheia de grandes pegadas. Parecem pe gadas de lobo... mas elas também
parecem estranhamente humanas.
- Você vê essas pegadas fodidas?
- Eu as vejo - Elmer concorda.
- Você pensa que alguma doce garotinha deixou essas pegadas?
- Não. Eu acho que não.
- Um lobisomem fez essas pegadas - diz Pe te. Você sabe disso, Alice sabe disso, a maioria das pessoas nessa cidade sabe di sso. Inferno, até eu sei disso,
e eu vim do condado vizinho. - Ele olha o irmão, seu ro sto obstinado e severo, o rosto de um puritano da Nova Inglaterra de 1650. E repete : - Já foi o bastante.
Já era tempo dessa coisa ter acabado.
Elmer medita longamente enquanto a chuva continua a cair sobre os dois homens, e então ele aceita. Concordo. Mas não na próxima lua cheia.
- Você quer esperar até novembro?
Elmer concorda. - Bosques desfolhados. Mel hores pistas, se a gente tiver um pouco de neve.
- E com relação ao mês que vem?
Elmer Zinneman olha seus porcos estraçalha dos no chiqueiro ao lado do celeiro. Então olha para seu irmão Pete.
- É melhor as pessoas se cuidarem - diz.
Quando Marty Coslaw volta para casa depo is dos festejos do Dia das Bruxas com as baterias de sua cadeira de rodas totalmente gastas, vai direto para a cama,
onde rola desperto até que uma meia luz ascenda num céu fio inundado de estrelas que brilham como cacos de diamantes. Lá fora, na vara nda onde sua vida foi salva
pelos fogos do Quatro de julho, um vento arrepiante sopra as folhas escuras num redemoinho, um saca- rolhas sem alvo sobre as lajes. Elas chac oalham como velhos
ossos. A lua cheia de outubro veio e se foi de Tarker's Mi lls sem nenhum novo assassinato, o segundo mês seguido que isso acontece. Alguns moradores Stan Pelky,
o barbeiro, é um, e Cal Blodwin, dono da concessionária Chevrolet, ún ica loja de carros da cidade, é outro - acreditam que o terror acabou ; o assassino era um
sem-rumo, um vagabundo vivendo nos bosques, e agora se foi, como eles di sseram que ele faria. Outros, no entanto, não têm tanta certeza. São aqueles que sabem sobre
os quatro veados encontrados aos pedaços próximo ao trevo um dia após a lua cheia de outubro, e sobre os onze porcos de Elmer Zinneman, mortos na lua cheia de setembro.
A discussão recrudesce entre cervejas no The Pub durante as longas noites do outono.
Mas Marty Coslaw sabe.
Esta noite ele saiu para as travessuras ou gostosuras com seu pai (seu pai gosta do Dia das Bruxas, gosta do frio áspero, gosta de rir sua barulhenta risada
de "amigão" e bramir coisas idiotas como "Ei, ei!" e 'Trrrimmm!" quando as portas se abrem e os rostos familiares de Tarker's Mills espiam para fora). Marty foi
de Yoda, uma grande máscara de borracha enfiada na cabeça e um volum oso robe com o qual cobria suas pernas aleijadas. "Você sempre consegue tudo o que quer", Kade
diz com uma virada de cabeça quando vê a máscara... mas ele sabe que ela não está realmente zangada (e, como para provar isso, ela lhe faz um artísti co bastão curvado
igual ao de Yoda para completar o disfarce), mas talvez triste porque agora ela é considerada muito velha para participar das brincadeiras. Em vez diss o, ela irá
a uma festa com seus colegas de escola. Dançará músicas de Donna Summ er, mordiscará maçãs penduradas e, mais tarde, as luzes serão diminuídas para um jogo de girar
a garrafa e ela provavelmente beijará algum garoto, não porque queira, ma s porque será divertido troçar a respeito com suas amiguinhas de sala de aula no dia seguinte.
O pai de Marty o leva no furgão porque o furgão tem uma rampa escamoteável pela qual ele sobe e desce Marty. Marty rola rampa abaixo e então zune pelas ruas
para cima e para baixo com sua cadeira. Carrega o saco no colo e eles vão a todas as casas na sua rua e a algumas no centro da cidade: os Co llins, os MacInnes,
os Manchesters, os Millikens, os Eastons. Há uma travessa cheia de cereais doces no The Pub. Chocolates na paroquia da Igreja Congr egacional e mais doces na paróquia
batista. Então, em frente, para os Randolphs, os Quinns, e um a dúzia, duas dúzias mais. Marty volta para casa com o saco de doces estourando... e uma ponta de pavor,
um conhecimento quase inacreditável.
Ele sabe.
Ele sabe quem é o lobisomem.
A certa altura da peregrinação de Marty, a própria Besta, então segura entre as luas da insanidade, jogou chocolate em seu sac o, sem saber que a face de
Marty ficou mortalmente pálida sob sua máscara de Y oda, ou que, debaixo das luvas, seus dedos estão agarrando o bastão de Yoda com tant a força que a parte de baixo
das unhas está branca. O lobisomem sorri para Marty, e afaga sua cabeça de borracha.
Mas é o lobisomem. Marty sabe, e não apen as porque o homem está usando um tapa- olho. Há algo mais - alguma semelhança vita l entre o rosto humano deste
homem e a cara rosnante do animal que ele viu naquela noite de verão prateada quase quatro meses atrás.
Desde que voltara de Vermont para Tarker 's Mills um dia depois do Dia do Trabalho, Marty tem se mantido atento, certo de que verá o lobisomem cedo ou tarde,
e certo de que o reconhecerá quando o vir porque o lobisomem será um homem caolho. Entretanto, os policiais sacudiram a cabeça e disseram que eles iriam checar,
quando ele lhes disse que tinha quase ce rteza de ter arrancado um dos olhos do lobisomem. Marty podia dizer que eles realmente não acreditara m nele. Talvez fosse
porque ele é apenas um garoto, ou talvez porque eles não estavam lá naquela noite de julho quando a confrontação se deu. De qualquer forma, não importa. Ele sabia
que seria assim.
Tarker's Mills é uma cidade pequena, mas es palhada, e até esta noite Marty não tinha visto nenhum caolho e nem tinha ousado faze r perguntas; sua mãe já
está bastante preocupada que o episódio de julho pudesse tê-lo marcado para sempre. Ele teme que se tentar qualquer investigação por conta pr ópria ela eventualmente
acabará sabendo. Além disso - Tarker's Mills é uma cidade pequena. Cedo ou tarde ele verá a Besta com seu rosto humano.
Voltando para casa, o sr. Coslaw (preceptor Coslaw, para suas centenas de alunos, antigos e atuais) pensa que Ma rty está tão quieto porque a noite e as andanças
o deixaram cansado. Na verdade, não é i sso. Marty nunca - a não ser na noite do maravilhoso saco de fogos - se sentiu tão desperto e vivo. E seu principal pensamento
é este: foram precisos quase sessenta dias de pois de voltar para casa até descobrir a identidade do lobisomem porque ele, Marty, é um católico e freqüenta a igreja
de Santa Maria nos limites da cidade.
O homem com o tapa-olho, o homem que colocou uma barra de chocolate em seu saco e então sorriu e afagou sua cabeça de borracha, não é um católico. Longe disso.
A Besta é o reverendo Lester Lowe, da Igreja Batista da Graça.
Inclinado para fora da porta, sorrindo, Marty vê o tapa-olho claramente na luz amarela da lâmpada que cruza pela porta; ele dá ao miúdo reverendo um ar quase
de pirata.
- Lamento sobre seu olho, reverendo Lowe - o sr. Coslaw disse com sua estrondosa voz de "amigão". - Espero que não seja nada sério.
O reverendo Lowe dá um sorriso sofrido. Na verdade, ele disse, tinha perdido o olho. Um tumor benigno; tinha sido necessário remove r o olho para se chegar
ao tumor. Mas era a vontade do Senhor e ele estava se ad aptando bem. Ele tinha afagado a máscara de Marty novamente e dito que conhecia alguns que tinham cruzes
mais pesadas para carregar.
E agora Marty rola na cama, ouvindo o vento de outubro cantar lá fora, sacolejando as últimas folhas da estação, assobiando le vemente através dos olhos escavados
nas abóboras que flanqueiam o passeio dos Co slaws, observando a meia-lua atravessar o céu estrelado. A questão é: O que ele faz agora?
Ele não sabe, mas tem absoluta certeza de que, na hora, a resposta virá.
Ele dorme o profundo e sem sonhos sono dos muito jovens, enquanto, do lado de fora, o rio de vento sopra sobre Tarker's M ills, levando outubro e trazendo
um gelado novembro pontuado de estrelas, um mês de outono férreo.
O final de ano sombreado, novembro de um escuro-chumbo, chega a Tarker's Mills. Um estranho êxodo parece se dar na rua princi pal. O reverendo Lester Lowe
observa da porta da paróquia batista; ele apenas saiu para apanhar a correspondência e segura seis circulares e uma única carta em sua mão, olhando a formação de
safári dos caminhões empoeirados - Fords e Chevrolets e International Harvesters - serpentear em seu rumo para fora da cidade.
A neve está vindo, a meteorologia diz, ma s aqueles não são fugitivos da borrasca, procurando por climas mais amenos; você não vai para uma praia dourada
da Flórida ou Califórnia vestindo sua jaqueta de caça e sua arma à mã o na cabina e seus cães na carroceria. Este é o quarto dia em que os homens, guiados por Elmer
Zinneman e seu irmão Pete, partem com cães e armas e gra nde quantidade de cerveja. É uma moda que pegou quando a lua cheia se aproxima. A es tação de pássaros acabou,
a estação dos gamos também. Mas ainda é estação aberta para lobisomens, e a maioria desses homens, por trás de um disfarçado estilo "ponham as carroças em círculo",
estão se divertindo a valer. Como o preceptor Coslaw poderia ter dito, é uma grande zorra!
Alguns dos homens, o reverendo Lowe sabe, estão fazendo nada mais do que se divertir; eis ali uma chance de ir para o mato, empina r cervejas, mijar nas moitas,
contar piadas sobre polacos, sapos e negros, atirar em es quilos e corvos. Eles são os verdadeiros animais, pensa Lowe, a mão inconscientemente tocando o tapa-olho
que ele tem usado desde julho. Alguém atirará em alguém, provavelmente. Eles têm sorte de isto ainda não terá conhecido.
O último dos caminhões some de vista sobre o morro Tarker, buzinando, cães rosnando e latindo na carroceria. Sim, alguns dos hom ens estão só se divertindo,
mas alguns - Elmer e Pete Zinneman, por exemplo - estão mortalmente sérios.
Se aquela criatura, homem, besta ou seja lá o que for, for caçar este mês, os cães farejarão seu cheiro, o reverendo Lowe ouviu Elmer dizer na barbearia menos
de duas semanas atrás. E se aquilo - ou ele - não aparecer, então talvez nós tenhamos salvo uma vida. Uma vida poupada pelo menos.
Sim, há alguns deles - talvez uma dúzia, ta lvez duas dúzias - que falam sério. Mas não foram eles que colocaram aquela estranha sensação nova na cabeça de
Lowe - aquela sensação de estar sendo levado à armadilha.
Foram os bilhetes que fizeram isso. Os b ilhetes, o mais longo deles com apenas duas frases, escritos em uma caligrafia infantil, mão cuidadosa, às vezes
mal escrita. Ele olha para a carta que chegou hoje, endereçada na mesma escrita infantil, endereçada como as outras tinham sido: Ao Reverendo Lowe, Par óquia Batista,
Tarker's Mills, Maine, 04491.
Agora, essa estranha sensação de armadilha... a maneira como, ele imagina, uma raposa deve se sentir quando entende que os cães , de alguma maneira, a colocaram
num beco sem saída. Aquele momento de pânico em que a raposa se vira, dentes à mostra, para a batalha com os cães que, certamente, a farão em pedaços.
Ele fecha a porta com firmeza, vai até o parl atório onde o relógio do avô marca solenes tics e solenes tacs; ele senta, põe as circulares religiosas cuidadosamente
à parte sobre a mesa que a senhora Miller lustra duas vezes por semana, e abre a nova carta. Como as outras, não há qualquer saudação. Como as out ras, não está
assinada. Escrita no centro de uma folha arrancada de um bloco escolar pautado, está a frase:
Por que você não se mata?
O reverendo Lowe põe a mão na testa - es tremece levemente. Com a outra mão amassa a folha de papel e a coloca no grande cinzeiro de vidro no centro da mesa
(o reverendo Lowe faz todos os seus aconselhamentos no parlatório e alguns dos seus perturbados paroquianos fumam). Apanha uma caixa de fósforos no blusão que ele
usa em casa nos sábados à tarde e queima o bilhete como queimou os outros. Ele o vê arder.
A compreensão de Lowe a respeito do que ele se tornara veio em dois estágios distintos: após seu pesadelo em maio, o sonho no qua l todos da congregação viraram
lobisomens no Domingo de Páscoa, e após sua terrível descoberta do corpo estripado de Clyde Corliss, ele começou a compreender que algo está... bem, errado com ele.
Não sabe outra maneira de colocar isso. Algo erra do. Mas ele também sabe que em algumas manhãs, normalmente durante o período de lua cheia, ele desp erta sentindo-se
espantosamente bom, espantosamente bem, es pantosamente forte. Esta sensação reflui com a lua, e então cresce novamente na lua seguinte.
Em seguida ao sonho e à morte de Corliss, ele foi forçado a admitir outras coisas que tinha, até então, sido capaz de ignorar. R oupas que estão enlameadas
e reviradas. Arranhões e ferimentos que ele não consegue explicar (mas, desde que não doam nem ardam, como acontece com arranhões e feri mentos comuns, tem sido
fácil esquecer, simplesmente... não pensar no assunto). Ele tem sido capaz até de ignorar as manchas de sangue que algumas vezes tem encontrado em suas mãos... e
lábios.
Então, em 5 de julho, o segundo estágio. Desc rito simplesmente: ele tinha acordado cego de um olho. Como com os cortes e arranhões, nã o tinha havido dor
alguma; simplesmente um oco vazado, coagulado, onde existia seu olho esquerdo. A essa altura, as evidências tinham se tornado grandes dema is para negar: ele é o
lobisomem, ele é a Besta.
Nos últimos três dias ele tem sentido sens ações familiares: uma enorme inquietação, uma impaciência que é quase jubilosa, uma espécie de tensão em seu corpo.
Está vindo novamente - a mudança está quase feita novamente. Esta noite a lua vai estar totalmente cheia, e os caçadores estarão lá fora co m seus cães. Bem, não
importa. Ele é mais esperto do que eles julgam. Eles falam de um homem-lobo, mas pensam apenas em termos do lobo, não do homem. Eles podem diri gir seus caminhões,
e ele pode dirigir seu pequeno Volare sedan. E esta noite dirigi rá rumo a Portland, pensa ele, e ficará em algum motel nos limites da cidade. E, se a transformação
vier, não haverá caçadores, nem cães. Eles não são os únicos que o assustam.
Por que você não se mata?
O primeiro bilhete veio no começo do mês. Dizia apenas:
Eu sei quem você é.
O segundo dizia:
Se você é um homem de Deus, saia da cida de. Vá para algum lugar onde haja animais para você matar, mas não pessoas.
O terceiro dizia.
Acabe com isto.
Isto era tudo; apenas Acabe com isto. E agora
Por que você não se mata?
Porque eu não quero, pensa petulante o reverendo Lowe. Isto - seja o que for - não foi algo que eu pedi. Eu não fui mordido por um lobo ou enfeitiçado por
uma cigana. Apenas... aconteceu. Eu apanhei algumas flores para os vasos da sacristia, num dia de novembro do ano passado. Lá em cima, naquele pequeno e bonito cemitério
em Sunshine Hill. Eu nunca vi tais flores antes... e elas estava m mortas antes de eu voltar para a cidade. Ficaram negras, todas elas. Talvez tenha sido quando
começou a acontecer. Nenhuma razão para pensar assi m, certamente... mas é o que eu acho. E eu não quero me matar. Eles são animais, não eu.
Quem está escrevendo estes bilhetes?
Ele não sabe. O ataque contra Marty Cosl aw não foi noticiado no jornal semanal de Tarker's Mills, e ele se orgulha de não escutar fofocas. Também, assim
como Marty não sabia sobre Lowe até o Dia da s Bruxas, porque seus círculos religiosos não se tocam, o reverendo Lowe não sabe sobre Marty. E el e não tem nenhuma
lembrança do que faz em seu estado de besta; apenas aquela sensação alcoólica de bem-estar quando o ciclo acaba até o próximo mês, e a inquietação que o antecede.
Eu sou um homem de Deus, ele pensa, levantando, e começa a caminhar, andando mais e mais rápido no quieto parlatório onde o re lógio do avô marca solenes
tics e solenes tacs. Eu sou um homem de Deus e não me matarei. Eu faço o bem aqui, e se algumas vezes faço o mal, é porque os homens têm feito o mal antes de mim;
o mal também serve aos desejos de Deus, ao menos assi m nos ensina o Livro de Jó; se eu fui amaldiçoado pelo Supremo, então Deus vai me acalmar na Sua hora. Todas
as coisas servem aos desejos de Deus... e quem é ele? Eu devo fazer perguntas? Quem foi atacado no Quatro de julho? Como eu(ele) perdi meu (seu) olho? Talv ez ele
devesse ser silenciado... mas não este mês. Deixe-os guardarem seus cães primeiro. Sim...
Ele começa a andar mais e mais rápido, curvado, sem notar que sua barba, normalmente rala (ele pode andar por aí, se barbeando um a vez a cada três dias...
isto é, na época certa do mês), agora brotou espessa, emar anhada e áspera, e que seu único olho castanho está obscurecido e mudando momento a momento para se tornar
um verde- esmeralda mais tarde nesta noite. Ele se curva para frente enquanto caminha, e começou a falar consigo mesmo... mas as palavras ficam mais e mais graves,
cada vez mais semelhantes a grunhidos.
Por fim, quando a noite cinza de novembro se espraia num precoce escurecimento cor de chumbo, ele vai até a cozinha, arrebata as chaves do Volare pe nduradas
na porta e quase corre em direção ao carro. Dirige rumo a Portland, rápido, sorrindo, e nem diminui a velocidade quando a primeira neve da temporada caiem flocos
iluminados pelos fachos dos faróis, como dançarinos vindos de um céu plúmbeo. Ele sente a lua em algum lugar acima das nuvens; sente sua força; seu peito se dilata,
esticando as costuras de sua camisa branca.
Sintoniza o rádio em uma emissora de rock'n'roll e sente-se simplesmente... o máximo!
E o que acontece mais tarde naquela noite pode ser um julgamento de Deus, ou uma zombaria daqueles antigos deuses que os homens adoravam na segurança dos
círculos de pedras nas noites de luar - ah, é engr açado, certo, muito engraçado, porque Lowe foi de qualquer maneira para Portland para se transformar na Besta,
e o homem que ele acaba estraçalhando naquela noite nebulosa de novembro é Milt Sturrnfuller, um morador de Tarker s Mills desde que nasceu:.. e talvez Deus esteja
por trás de tudo isso, porque se há um cagalhão de primeira cla sse, nível A, em Tarker s Mills, é Milt Sturmfuller. Ele saiu esta noite, como em outras noites,
dizendo a sua desancada esposa Donna Lee que ia trabalhar, mas seu tr abalho é uma garota tipo B chamada Rita Tennison que lhe passou um vívido caso de herpes, o
qual Milt já transferiu para Donna Lee, que nunca foi além de uma olhada a outro homem em todos os anos que eles estiveram casados.
O reverendo Lowe se registrou num mote l chamado The Driftwood, próximo à divisa entre Portland e Westbrook, e este é o me smo motel que Milt Sturmfuller
e Rita Tennison escolheram nesta noite de novembro para seu trabalho.
Milt sai às dez e quinze para buscar uma ga rrafa de burbom que deixara no carro, e ele está mesmo se dando os parabéns por estar longe de Tarker's Mills
na noite de lua cheia quando a Besta caolha o ataca do teto da cabine de um Peterbilt de dez rodas coberto de neve e lhe arranca a cabeça com uma ma gnífica pancada.
O último som que Milt Sturmfuller ouve em sua vida é o crescent e rosnado de triunfo do lobisomem; sua cabeça rola debaixo do Peterbilt, os olhos arregalados, o
pescoço esguichando sangue e a garrafa de burbom cai de sua mão trêmul a enquanto a Besta enterra o focinho em sua garganta e começa a se alimentar.
E no dia seguinte, de volta à paróquia batista em Tarker's Mills, sentindo-se simplesmente... o máximo, o reverendo Lowe lerá o relato do crime no jornal
e pensará piamente: Ele não era um bom homem. Todas as coisas servem ao Senhor.
E a seguir, ele pensará: Quem é o garoto que está me enviando os bilhetes? Quem era em julho? É hora de descobrir. É hora de ouvir alguma fofoca.
O reverendo Lester Lowe arruma o tapa -olho, dobra um outro caderno do jornal e pensa: Todas as coisas servem ao Senhor, se for o desejo do Senhor, eu o encontrarei.
E o silenciarei. Para sempre.
Faltam quinze minutos para a meia-noite do Ano Novo. Em Tarkei's Mills, como no resto do mundo, o ano se aproxima de seu fina l, e em Tarker's Mills, como
no resto do mundo, o ano trouxe mudanças.
Milt Sturmfuller está morto e sua esposa Donna Lee, afinal livre de sua escravidão, se mudou da cidade. Foi para Boston, dizem al guns; foi para Los Angeles,
dizem outros. Outra mulher tentou levar em frente a Livrar ia da Esquina e faliu, mas a barbearia, o mercado Basket e The Pub continuam em seus antigos endereços
e vão bem, muito obrigado. Clyde Corliss está morto e seus doi s irmãos boas biscas, Alden e Errol, ainda estão vivos e muito bem e vendendo seus va le-refeições
no A&P duas cidades além - eles não têm coragem de fazer isto aqui em Mills. Vovó Hague, que costumava fazer as melhores tortas de Tarker's Mills, morreu de um ataque
cardíaco. Willie Harrington, que tem noventa e dois anos, escorregou no gelo em frente a sua casa na rua Ball, no final de novembro, e quebrou o quadril, mas a biblioteca
recebeu uma bela doação no testamento de um veranista e, no próximo ano, a construção começará com a ala infantil, que vem sendo falada nas reuniõ es municipais
ninguém lembra há quanto tempo. Ollie Parker, o diretor da escola, teve uma hemorragia nasal que não parava, em outubro, e foi diagnosticada como uma crise aguda
de hipertensão. Você tem sorte de não ter estourado seu cérebro, o médi co grunhiu, desembrulhando o aparelho de pressão, e disse a Ollie para perder pelo menos
vinte quilos. Num passe de mágica, Ollie perde dez desses quilos até o Natal. Ele parece e se sente como um novo homem. "Age como um novo homem, também", sua esposa
conta à amiga íntima Delia Burney, com um sornsinho malicioso. Brady Kincaid, mo rto pela Besta na época das pandorgas, continua morto. E Marty Coslaw, que costumav
a sentar bem atrás de Brady na escola, ainda é um aleijado.
Coisas mudam, coisas não mudam e, em Tarker's Mills, o ano está terminando como começou - uma nevasca ululante está ron cando lá fora, e a Besta está por
perto. Em algum lugar.
Sentado na sala de estar da casa dos Cosl aw e assistindo ao programa de rock de Ano Novo de Dick Clark estão Marty Coslaw e se u tio Al. Tio Al está no sofá.
Marty está sentado em sua cadeira de rodas em frente à televisão. Há uma arma no colo de Marty, um Colt Woodsman 38. Duas balas estão no tambor da arma e ambas são
de prata pura.
Tio Al conseguiu que um am igo de Hampden, Mac McCutcheon, as fizesse em forma de balas. Este Mac McCutcheon, depois de al guns protestos, derreteu a colherinha
de prata da crisma de Marty com um maçar ico e calibrou a quantidade de pólvora necessária para impelir as balas sem atingir uma grande distância.
- Eu não garanto que elas irão funcionar - o tal Mac McCutcheon tinha dito a tio Al -, mas elas provavelmente funcionarão. O que você vai matar, Al? Um lobisomem
ou um vampiro?
- Um de cada - tio Al diz, devolvendo o sorriso sarcástico. - Por isso eu lhe pedi para fazer duas. Havia um fantasma por aí, também, mas seu pai morreu em
Dakota do Norte e ele teve de apanhar um avião para Fargo. - Eles riem sobre aquilo tudo e então Al diz:
- São para um sobrinho meu. Ele é maluco por filmes de terror e eu pensei que elas dariam um presente de Natal interessante para ele.
- Bem, se ele disparar uma contra alguma cerca, traga-a de volta à loja - Mac lhe diz. - Eu gostaria de ver o que acontece.
Na verdade, tio Al não sabe o que pens ar. Ele não tinha visto Marty ou estado em Tarker's Mills desde o dia 3 de julho; como ele tinha previsto, sua irmã,
a mãe de Marty, está furiosa com ele por causa dos fogos de artifício. Ele poderi a ter sido morto, seu estúpido olho do cu. O que, em nome de Deus, você pensa que
estava fazendo ? ela grita ao telefone, áspera com ele.
- Parece que foram os fogos que o salvar am - Al começa, mas ouve um agudo ruído de uma ligação interrompida. Sua irmã é teimosa; quando ela não quer ouvir
alguma coisa, não quer mesmo.
Então, no começo desse mês, uma chamada de Marty.
- Eu tenho de te ver, tio Al - Marty disse. - Você é o único com quem eu posso falar.
- Você sabe que sua mãe quer me ver na casinha dos cachorros, garoto - Al respondeu.
- É importante - Marty disse. - Por favor. Por favor.
Então ele veio e enfrentou o silêncio gelado e desaprovador de sua irmã, e, num dia frio e claro do princípio de dezembro, Al levou Marty para um passeio
em seu carro esporte, colocando-o cuidadosamente no banco dos passageiros. Só que nesse dia não houve correrias e nem gargalhadas; apenas tio A1 escutando enquanto
Marty falava. Tio A1 escutou com crescente inquietação enquanto a história era contada.
Marty começou contando a Al sobre a noite da maravilhosa sacola de fogos e como ele tinha arrancado o olho esquer do da criatura com as bombas. Então lhe
contou sobre o Dia das Bruxas e o reverendo Lowe. Então co ntou a tio Al que el e tinha começado a enviar bilhetes anônimos ao reverendo Lowe... isto é, anônimos
até os últimos dois, em seguida ao assassinato de Milt Sturmfuller em Portland. Aqueles ele assinou exatamente como lhe tinham ensinado na aula de gramática: Sinceramente
seu, Martin Coslaw.
- Você não deveria ter enviado bilhetes ao homem, anônimos ou quaisquer outros! - tio Al disse agudamente. - Por Cristo, Marty! Já lhe ocorreu que você poderia
estar errado?
- Por certo - Marty disse. - Por isso que assinei meu nome nos últimos dois. Você não vai me perguntar o que aconteceu? Você não vai me perguntar se ele chamou
meu pai e lhe contou que eu mandei um bilhete dizendo 'por que você não se mata?' e um outro dizendo 'nós estamos chegando perto de você'?
- Ele não fez isso, fez? - Al perguntou, já sabendo a resposta.
- Não -, Marty disse calmamente. - Ele nã o falou com papai, não falou com mamãe e não falou comigo.
- Marty, pode existir uma centena de razões para is...
- Não. Há apenas uma. Ele é o lobisomem, el e é a Besta, é ele e está esperando pela lua cheia. Como reverendo Lowe, ele não pode fazer nada. Mas como lobisomem,
pode fazer o que quiser. Pode me calar.
E Marty falou com uma simplicidade tão arre piante que Al estava quase convencido. - Então, o que você quer de mim? - Al perguntou.
Marty lhe disse. Queria duas balas de prata e uma arma para dispará-las, e queria que tio Al viesse na noite de Ano Novo, a noite da lua cheia.
- Eu não farei tal coisa - tio Al disse. - Marty, você é um bom garoto, mas está perdendo o rumo. Acho que você tem aí um bom caso de Febre de Cadeira de
Rodas. Se você meditar bem, se dará conta disso.
- Talvez - Marty disse. - Mas pense como você se sentirá se receber uma ligação no dia de Ano Novo dizendo que eu estou morto em minha cama, feito em pedaços.
Você quer carregar isso em sua consciência, tio Al?
Al começou a falar, então fechou a boc a com um ruído. Manobrou no acostamento, ouvindo os pneus dianteiros da Mercedes es magarem a neve fresca. Fez o retorno
e começou o regresso. Ele lutou no Vietnã e ganhou um par de medalhas lá; tinha, afortunadamente, evitado relacionamentos mais prolongados com diversas jovens senhoras
luxuriosas; e agora se sentia apa nhado e encurralado por seu sobrinho de dez anos. Seu sobrinho de dez anos aleijado. Claro, ele não queria tal coisa em sua consciência
- nem mesmo a possibilidade de tal coisa. E Marty sabia disso. Como Marty sabia que se tio Al pensasse haver ao menos uma chance em cem de ele estar certo...
Quatro dias mais tarde, em 10 de dezembro, tio Al ligou.
- Grandes novidades! - Marty anunciou para sua família, rodando sua cadeira de volta à sala de estar. - Tio Al está vindo para o Ano Novo.
- Certamente que não - diz sua mãe em seu tom mais frio e brusco possível.
Marty não se atemorizou. - Xi, perdão... eu já o convidei - ele disse. - Ele falou que traria pólvora seca para a lareira.
Sua mãe passou o resto do dia olhando com fr ieza para Marty toda vez que seus olhos iam em sua direção e os dele nela... mas, não ligou para o irmão para
lhe dizer que ficasse longe, e isto era o mais importante.
No jantar daquela noite Katie sussurrou sibilante em seu ouvido:
- Você sempre consegue o que quer. Só porque você é um aleijado.
Sarcasticamente, Marty sussurrou de volta: - Eu também te amo, mana.
- Seu panaquinha!
Ela saiu se balançando.
E eis, enfim, a véspera do Ano Novo. A mãe de Marty está certa de que Al não vai aparecer quando a tempestade se intensifica, o vento uivando, se lamentando
e levando a neve para diante. Para di zer a verdade, Marty passou por uns maus momentos... mas tio Al chegou por volta das oito, dirigindo não a sua Mercedes esporte,
mas uma carroça emprestada.
Pelas onze e meia, todos da família foram para a cama, com exceção deles dois, o que é bem melhor do que Marty imaginava. E apesar de tio Al ainda estar descrente
da coisa toda, ele trouxe não uma, mas duas armas escondidas sob seu pesado casaco. Uma com as duas balas de prata que ele dá a Mart y sem dizer nada depois que
a família se recolheu (como para completar, a mãe de Marty bateu a porta do quarto que ela divide com o pai de Marty quando foi para a cama - bateu com força). A
outra está carregada com balas mais convencionais... pois Al admite que se um maluco vai aparecer por ali esta noite (e enquanto o tempo passa e na da acontece,
ele duvida cada vez mais), a Magnum 45 vai pará-lo.
Agora, na televisão, com crescente freqüê ncia, as câmaras mostram a grande bola iluminada no alto do edifício da Allied Chemical em Times Square. Os últimos
minutos do ano escorrem. A multidão delira. No can to oposto à TV, a árvore de Natal dos Coslaw se ergue, ressequida agora, ficando um tanto descorada, tristemente
desnuda de seus presentes.
- Marty, nada... - tio A1 começa, e então o ja nelão da sala de estar estoura em cacos de vidro, deixando entrar o vento uivante lá de fora, brancos flocos
de neve dançantes... e a Besta.
Al está, momentaneamente, congelado, exte riormente congelado pelo pavor e pela descrença. É enorme esta Besta, talvez uns do is metros e dez de altura,
apesar de estar curvada, tanto que suas patas dianteiras qua se arrastam no tapete. Seu único olho verde (exatamente como Marty disse, ele pensa entorpecido, tudo
exatamente como Marty disse) vasculhar ao redor com uma terrível, envolvente sensibilidade... e se fixa sobre Marty, sentado em sua cadeira de rodas. Pula em direção
ao garoto, um uivo de triunfo explodindo em seu peito e atravessando os enormes dentes amarelados.
Calmamente, o rosto quase imutável, Mart y ergue o 38. Parece muito pequeno em sua cadeira de rodas, suas pernas como pa litos dentro do jeans desbotado e
macio, os chinelos de pelúcia nos pés entorpecidos e insensíveis toda sua vida. E, incrivelmente, acima do uivo enlouquecido do lobisomem, acima do gemido do vento,
acima da confusão dos seus próprios pensamentos em bolados sobre como isto pode ser possível num mundo de pessoas reais e coisas reais, acima de tudo isso Al ouve
seu sobrinho dizer:
- Pobre reverendo Lowe. Vou tentar libertá-lo.
E quando o lobisomem salta, sua sombra como um borrão no carpete, as garras das mãos estiradas, Marty dispara. Por causa da pouca quantidade de pólvora, a
arma solta um estampido quase absurdamente inaudível. Como uma espingarda de pressão.
Mas o rugido enfurecido do lobisomem se eleva a tons mais agudos, um lunático urro de dor. Ele se choca contra a parede e se u ombro tem um buraco de lado
a lado. Uma pintura de Currier e Ives cai sobre sua cabeç a, escorrega pela pelugem espessa de suas costas e se despedaça enquanto o lobisome m se vira. O sangue
escorre pela máscara selvagem e peluda que é seu rosto, e seu olho verde gira confuso. Cambaleia em direção a Marty, rugindo, suas patas abrindo e f echando, as
mandíbulas mascando uma baba sangrenta. Marty segura a arma com as dua s mãos, como uma criança segura seu copo. Ele espera, espera... e quando o lobisomem prepara
o bote novamente, ele dispara. Magicamente, o outro olho da besta se apag a como uma vela numa ventania! Ela grita outra vez e cambaleia, agora cega, em direção
à janela. A nevasca metralha as cortinas e as enrola ao redor de sua cabeça - Al pode ver flores de sangue começarem a brotar no tecido branco - enquanto, na televisão,
a grande bola iluminada começa a baixar do seu mastro.
O lobisomem cai de joelhos quando o pai de Marty, olhos vermelhos e vestindo pijama amarelo-claro, irrompe na sala. A Magnum 45 ainda está no colo de Al.
Ele nem sequer a ergueu.
Agora a besta agoniza... estremece uma vez... e morre.
O senhor Cosiaw a olha, boquiaberto.
Marty se volta para tio Al, a arma fumegante em suas mãos. Seu rosto parece cansado... mas em paz.
- Feliz Ano Novo, tio Al - ele diz -,está morta. A Besta está morta. - E então ele começa a chorar.
No chão, sob as franjas das melhores cor tinas brancas da sra. Coslaw, o lobisomem começou a se transformar. O pêlo que c obria seu rosto e co rpo parece
estar sendo empurrado para dentro de alguma maneira. Os lábios, retorcidos num esgar de dor e fúria, relaxam e cobrem os dentes arreganhados. A garras se tornam,
magicamente, unhas... unhas que foram quase pateticamente roídas e mordidas.
O reverendo Lester Lowe jaz ali, envolto num a mortalha sangrenta, a neve soprando a sua volta em pouca quantidade.
Tio Al se aproxima de Marty e o conforta enquanto o pai de Marty olha aparvalhado o corpo nu no chão e enquanto a mãe de Marty, segurando a gola do seu robe,
se arrasta pela sala. Al abraça Marty apertado, apertado, apertado.
- Você fez bem, garoto - ele sussurra. - Eu te amo.
Lá fora, o vento uiva e geme contra o céu nevado e, em Tarker's Mills, o primeiro minuto do Ano Novo se torna história.


Posfácio

Qualquer dedicado observador da lua saberá que, indiferente ao ano, eu tomei muitas liberdades com o ciclo lunar - normalmente pa ra tirar vantagens dos dias
(Namorados, Quatro de Julho, etc. ) que "marcam" cer tos meses em nossa memória. A aqueles leitores que sentem que eu não sabia nada disso afirmo que sabia... mas
a tentação foi simplesmente muito grande para resistir.

Stephen King 4 de agosto de 1983

Inverno no Clube - Stephen King

Inverno No Clube: O Método Respiratório
Stephen King

Para Peter e Susan Straub

Inverno no Clube - Stephen King

I

O Clube
Reconheço que me vesti um pouco mais depressa que o normal naquela noite em que nevava e ventava muito. Era 23 de dezembro de 1970, e imagino que outros membros
do clube tenham feito o mesmo. Todos sabem como é difícil achar um táxi em Nova Iorque em noites de tempestade, por isso chamei um radio-táxi. Telefonei às 5:30
h, pedindo um carro para as 8:00 - minha mulher ergueu as sobrancelhas, mas não disse nada. As quinze para as oito estava sob a marquise do edifício na Rua 58 Leste,
onde Ellen e eu morávamos desde 1946, e quando o táxi já estava atrasado cinco minutos comecei a andar de um lado para o outro impacientemente. O táxi chegou às
8:10h e entrei no carro, feliz demais por estar protegido do vento para demonstrar minha fúria contra o motorista, que certamente mereceria. Aquele vento, parte
de uma frente fria que havia descido do Canadá na véspera, não era brincadeira. Assoviava e gemia nas janelas do carro, por vezes abafando a valsa que tocava no
rádio do motorista e sacudindo o grande Checker em suas molas. Muitas lojas estavam abertas, mas nas calçadas só restavam uns poucos fregueses de última hora. As
pessoas que estavam do lado de fora não pareciam nada à vontade, ou melhor, suas expressões eram de sofrimento. O vento e a neve haviam sido intermitentes o dia
todo, e agora nevava outra vez, começando com pequenos flocos e depois formando redemoinhos à nossa frente no meio da rua. Ao voltar para casa aquela noite, eu pensaria
na associação de neve, de um táxi e da cidade de Nova Iorque com uma apreensão consideravelmente maior... mas obviamente eu ainda não sabia disso. Na esquina da
Segunda Avenida com a Rua 41 um enorme sino de Natal de ouropel pairava como um fantasma. - Que noite horrível - disse o motorista. - Amanhã vão ter duas dúzias
extras no necrotério. Picolés de bêbados. Mais alguns picolés de putas velhas. - Com certeza. O motorista pensou por um instante. - Bons ventos os levem - disse
ele, finalmente. - Menos ônus para a previdência social, certo?

Inverno no Clube - Stephen King - O seu espírito natalino - disse eu, - é formidável. O motorista refletiu: - O senhor é um desses liberais com coração de manteiga?
perguntou ele, afinal. - Recuso-me a responder, porque minha resposta poderia me incriminar - disse eu. O motorista bufou como quem diz "por que eu sempre apanho
espertinhos"... mas ficou quieto. Ele me deixou na esquina da Segunda Avenida com a Rua 35, e andei metade do quarteirão até o clube, encurvado contra o vento que
assoviava, segurando com a mão enluvada o chapéu na cabeça. Pouquíssimas vezes a força da vida pareceu ter sido atirada para o fundo do meu corpo, restando uma chama
bruxuleante azul do tamanho da chama piloto de um fogão a gás. Aos setenta e três anos o homem sente frio mais rápida e profundamente. Este homem deveria estar em
casa em frente à lareira... ou pelo menos em frente a um aquecedor elétrico. Aos setenta e três anos o sangue quente não é nem mesmo uma lembrança; está mais para
um registro teórico. A ventania estava cessando, mas uma neve seca como areia ainda batia no meu rosto. Fiquei satisfeito ao ver que os degraus do prédio n° 249
B haviam sido cobertos de areia - isto era obra de Stevens, é claro, - Stevens conhecia muito bem a alquimia básica da velhice: não a transformação do chumbo em
ouro, e sim de ossos em vidro. Quando penso nessas coisas, acredito que Deus provavelmente pense de modo bem semelhante a Groucho Marx. Lá estava Stevens, segurando
a porta aberta, e no instante seguinte eu estava lá dentro. Passei pelo vestíbulo apainelado de mogno, pelas portas duplas parcialmente abertas e presas, e entrei
na biblioteca, que era ao mesmo tempo sala de leitura e bar. Era uma sala escura em que brilhavam alguns focos de luz - as luzes de leitura. Uma luz mais intensa
e distinta brilhava no soalho de carvalho parquetado, e eu podia ouvir os constantes estalos da madeira na imensa lareira. O calor se propagava por toda a sala certamente
não há nada mais acolhedor do que uma lareira acesa. Ouvi o barulho farfalhante de um jornal sendo dobrado com impaciência. Deveria ser Jahanssen com seu Wall Street
Journal. Depois de dez anos era possível constatar sua presença simplesmente pela maneira que lia sobre suas ações. De uma maneira divertida e sossegada. Stevens
ajudou-me a tirar o sobretudo, resmungando da noite horrível que fazia; a WCBS anunciava agora a previsão de muita neve até o amanhecer. Concordei que era sem dúvida
uma noite horrível e olhei para trás outra vez para aquela enorme sala de pé-direito alto. Uma noite horrível, uma lareira exuberante... e uma história de fantasmas.
Eu disse que aos setenta e três anos sangue quente era coisa do passado? Talvez. Mas eu senti alguma coisa cálida em meu peito ao pensar em... algo que não fora
causado pelo fogo ou pela nobre recepção de Stevens. Acho que foi porque era a vez de McCarron contar a história.

Inverno no Clube - Stephen King

Eu havia freqüentado o prédio de arenito pardo de número 249 B da Rua 35 durante dez anos - em intervalos que eram quase - mas não absolutamente - regulares. Na
minha opinião, trata-se de um "clube de cavalheiros", esta surpreendente antigüidade préGloria Steinem. Mas mesmo agora não tenho certeza se é isso mesmo, ou como
veio a ser originalmente. Na noite em que Emlyn McCarron contou sua história - a história do Método Respiratório - talvez houvesse treze membros ao todo, embora
apenas seis de nós tivéssemos saído naquela noite de vento e neve. Lembro de determinados anos em que houvera talvez apenas oito membros assíduos, e outros em que
houvera pelo menos vinte, talvez mais. Imagino que Stevens deva saber como tudo aconteceu - tenho certeza de que Stevens esteve lá desde o início, por mais antigo
que aquilo possa ser... e acredito que Stevens seja mais velho do que aparenta. Muito, muito mais-velho. Ele tem um ligeiro sotaque do Brooklin, mas apesar disso
é tão irrepreensível e meticuloso quanto um mordomo inglês de terceira geração. Sua circunspecção faz parte de seu freqüente encanto exacerbado, e seu ligeiro sorriso
é uma porta trancada e aferrolhada. Jamais vi qualquer arquivo do clube - se é que ele os tem. Jamais recebi um carnê de mensalidades - não há mensalidades. Jamais
fui chamado pelo secretário do clube - não há secretário, e no n° 249 B da Rua 35 Leste não há telefones. Não há votação para a admissão de sócios. E o clube - se
aquilo é um clube - nunca teve um nome. A primeira vez que fui ao clube (é assim que vou me referir a ele) foi como convidado de George Waterhouse. Waterhouse chefiava
o escritório de advocacia onde eu havia trabalhado desde 1951. Minha ascensão na firma - uma das três maiores de Nova Iorque - fora constante mas extremamente lenta;
eu era um burro de carga... mas não tinha aptidão ou talento verdadeiros. Vi homens que haviam começado na mesma época que eu sendo promovidos a passos largos enquanto
eu continuava em ritmo lento - e eu encarava isso sem nenhuma surpresa. Waterhouse e eu havíamos trocado sorrisos e amabilidades, comparecido ao jantar obrigatório
que a firma oferecia todos os anos em outubro, e tido umas poucas reuniões até o outono de 196..., quando ele apareceu certo dia na minha sala no início de novembro.
Isto, por si só, era um tanto fora do comum, e me deixou com maus presságios (demissão) contrabalançados por bons pensamentos (uma promoção inesperada). Era uma
visita intrigante. Waterhouse encostou-se no alizar da porta, seu emblema do Phi Beta Kappa* reluzindo suavemente em seu colete, e falou sobre generalidades - nada
do que ele disse pareceu ser substancial ou importante. Fiquei esperando que ele acabasse com os rodeios e fosse direto ao assunto: "A respeito desse mandado judicial
de Casey", ou "Pediram-nos para investigar a nomeação do Salkowitz pelo prefeito..." Mas parecia que não havia processo algum. Ele olhou para o seu relógio, disse
que tinha gostado da nossa conversa mas tinha que ir embora.
*Iniciais do lema grego philosophia biou kybernetes, filosofia a diretriz da vida. Sociedade honorária dos estudantes universitários de grande projeção nos EUA,
fundada em 1776. (N. da T.)

Inverno no Clube - Stephen King Eu ainda estava imóvel, perplexo, quando ele se virou e disse espontaneamente: - Há um lugar onde vou quase toda quinta-feira - uma
espécie de clube. Velhos mascates em sua maioria, mas alguns deles são ótimas companhias. Eles têm uma excelente adega, caso você aprecie um bom drinque. Freqüentemente
alguém conta uma boa história também. Por que não aparece uma noite dessas, David? É meu convidado. Gaguejei algo em resposta - até agora não sei bem o que foi.
Eu estava perplexo com o convite. Pareceu-me um negócio não premeditado, mas havia premeditação em seus olhos azuis frios sob os tufos brancos de suas sobrancelhas.
E se não me lembro exatamente o que respondi, foi porque de repente tive a certeza de que seu convite vago e enigmático - era exatamente o assunto que eu esperava
que ele tocasse diretamente. A reação de Ellen naquela noite foi de raiva e surpresa. Eu já trabalhava com Waterhouse, Carden Lawton, Frasier e Effingham havia uns
quinze anos, e era óbvio que eu não poderia esperar subir muito além de uma posição intermediária que ocupava então; na opinião dela a firma havia arrumado uma substituição
à altura de um relógio de ouro. - Velhos contando histórias de guerra e jogando pôquer disse ela. - Com uma noite dessas eles esperam que você se sinta feliz no
escritório até te aposentarem, creio eu... ah, servi um Beck's duplo com gelo para você. - Ela me beijou com carinho. Suponho que tenha visto qualquer coisa no meu
rosto - Deus sabe que ela sabe ler bem meus pensamentos depois desses anos todos que passamos juntos. Não aconteceu nada durante algumas semanas. Quando eu pensava
no estranho convite de Waterhouse - certamente estranho, partindo de um sujeito a quem eu via menos de doze vezes por ano, e com quem me encontrava socialmente em
apenas três festas por ano talvez, incluindo a festa da firma em outubro - imaginava que tivesse me enganado quanto à expressão de seus olhos, que realmente ele
tivesse feito o convite espontaneamente e tivesse se esquecido. Ou se arrependido - ai! E então num fim de tarde ele se aproximou de mim, um homem de quase setenta
anos que ainda tinha os ombros largos e uma aparência atlética. Eu estava vestindo o sobretudo e tinha a pasta entre os pés. Ele disse: - Se você ainda quiser ir
ao clube tomar um drinque, venha hoje à noite. - Eu... - Ótimo. - Ele colocou um pedaço de papel na minha mão. - Aqui está o endereço. Ele estava me esperando no
pé da escada aquela noite, e Stevens abriu a porta para nós. O vinho era tão bom quanto Waterhouse havia prometido. Ele não fez qualquer menção de me "apresentar
ao grupo" - tomei isso como esnobismo, mas depois mudei de opinião - mas dois ou três sujeitos vieram se apresentar a mim. Um deles foi Emlyn McCarron, já então
beirando os setenta. Estendeu-me sua mão e cumprimentamo-nos brevemente. Sua pele era seca, áspera, parecia couro; quase como a pele de tartaruga. Perguntou-me se
eu jogava bridge. Eu disse que não.

Inverno no Clube - Stephen King

- Que coisa boa - disse ele. - Essa droga de jogo já calou mais conversas inteligentes de depois do jantar do que qualquer outra coisa que posso imaginar. - E com
estas palavras retirou-se para a penumbra da biblioteca, onde as estantes de livros pareciam subir até o infinito. Olhei em volta à procura de Waterhouse, mas ele
havia desaparecido. Sentindo-me um pouco desanimado e nada à vontade, dirigi-me para perto da lareira. Esta era enorme, como acredito que já mencionei - parecia
particularmente grande em Nova Iorque, onde o morador de um apartamento como eu não consegue imaginar uma lareira que dê para fazer algo mais do que tostar um pão
ou fazer pipoca. A lareira no n° 249 B da Rua 35 Leste era grande o bastante para assar um boi inteiro. Não tinha consolo; em lugar disso havia um arco de pedras
castanhas. No alto deste arco sobressaía uma pedra mais alta. Estava na altura dos meus olhos, e embora a luz estivesse fraca dava para ler sem maiores problemas
o que estava gravado na pedra: O IMPORTANTE É A HISTÓRIA, E NÃO O NARRADOR. - Aqui está, David - disse Waterhouse ao meu lado, e eu me sobressaltei. Ele não havia
me abandonado, afinal de contas; apenas se enfiara em algum lugar desconhecido para pegar uns drinques. - O seu é uísque com soda, não é? - E. Obrigado, Sr. Waterhouse...
- George - disse ele. - Aqui é apenas George. - George, então - disse eu, embora parecesse um pouco insensato chamá-lo pelo nome. O que é que... - Saúde - disse
ele. Bebemos. - Stevens é o encarregado do bar. Prepara ótimos drinques. Gosta de dizer que é uma arte menor, porém essencial. O uísque atenuou minha sensação de
desorientação e embaraço (apenas atenuou, pois a sensação permaneceu - eu havia gasto perto de meia hora olhando para o meu armário sem saber o que vestir; finalmente
decidi por slacks marrom-escuros e uma jaqueta de tweed que quase combinavam, na esperança de não me meter num grupo de homens vestidos a rigor ou da jeans e camisas
xadrez... parecia que eu não me enganara muito quanto a isso afinal ). Um lugar e uma situação novos deixam-nos conscientes de todo ato formal, por mais insignificante
que seja, e naquele momento, com um drinque na mão e depois do pequeno brinde de praxe, eu queria estar bem certo de que não tinha deixado passar quaisquer prazeres.
- Vocês têm um livro de visitas que eu deva assinar? - perguntei. - Alguma coisa assim? Ele pareceu um pouco surpreso.

Inverno no Clube - Stephen King - Não temos nada parecido - disse ele, - Pelo menos, não creio que tenhamos. - Olhou ao redor da sala escura e silenciosa. Johanssen
farfalhou seu Wall Street Journal. Vi Stevens passar por uma porta nó fundo da sala, parecendo um fantasma com seu paletó branco. George pôs seu copo numa mesinha
e jogou um pedaço de madeira fresca no fogo. Fagulhas serpearam para dentro da garganta da chaminé. - O que quer dizer isso? - perguntei, apontando para a inscrição
gravada na pedra. - Tem alguma idéia? Waterhouse leu com atenção, como se fosse a primeira vez. O IMPORTANTE É A HISTÓRIA, E NÃO O NARRADOR. - Acho que tenho uma
idéia - disse ele. - Você poderá ter também, se voltar aqui outra vez. É, devo dizer que você poderá ter uma ou duas idéias. Mais cedo ou mais tarde. Divirta-se,
David. Ele se afastou. E, embora possa parecer estranho, tendo que me virar sozinho em circunstâncias pouco comuns, foi realmente agradável. Eu sempre gostei de
livros, e havia uma coleção interessante a ser examinada. Andei devagar ao longo das estantes, tentando ler as lombadas naquela luz fraca, retirando um ou outro
aqui e ali, e parei para olhar de uma janela estreita a esquina da Segunda Avenida. Fiquei ali olhando pelo vidro emoldurado de gelo o sinal da esquina mudar de
vermelho para verde, para amarelo e para vermelho novamente, e de repente senti uma estranha - mas muito agradável - sensação de paz dentro de mim. Ela não me invadiu,
e sim entrou furtivamente. É, ouço vocês dizerem, faz sentido; ficar observando um sinal abrir e fechar faz qualquer um sentir paz interior. Está bem; não fez sentido
algum. Posso garantir. Mas havia a sensação, de qualquer maneira. Isso me fez lembrar, pela primeira vez depois de anos, das noites de inverno na fazenda de Winsconsin
onde cresci: deitado na cama num quarto frio no andar de cima observando o contraste entre o vento sibilante de janeiro do lado de fora, a neve caindo seca como
areia ao longo de quilômetros de cercas já cobertas de neve e o calor que meu corpo produzia sob as duas colchas. Havia alguns livros de direito, mas eram estranhíssimos:
Vinte casos de mutilação e suas conseqüências de acordo com a lei inglesa é um dos títulos de que me lembro. Processos envolvendo animais domésticos é outro. Abri
este último, e realmente era um livro jurídico (da lei americana, desta vez) que descrevia litígios envolvendo animais domésticos - desde gatos de estimação que
haviam herdado grandes somas de dinheiro até uma jaguatirica que arrebentara sua corrente e ferira gravemente um carteiro. Havia uma coleção de Dickens, outra de
Defoe, e outra enorme de Trollope; e havia também uma coleção de romances - onze ao todo - escritos por um sujeito chamado Edward Gray Seville. A encadernação era
em couro verde, e o nome da editora, gravada a ouro na lombada, era Stedham & Son. Eu nunca tinha ouvido falar de Seville ou de seus editores. A data do copirraite
do primeiro volume - Estes eram os nossos irmãos era 1911. A data do último, Inflatores, era 1935. Duas prateleiras abaixo da coleção dos romances de Seville havia
um grande volume in-

Inverno no Clube - Stephen King fólio com planos cuidadosamente detalhados para entusiastas de "construa você mesmo". Ao lado havia outro in-fólio que reproduzia
cenas famosas de filmes clássicos. Cada fotografia ocupava uma página inteira e ao lado, na página oposta, havia poemas de versos livres sobre as cenas ou inspirados
nelas. Não era uma idéia extraordinária, mas os poetas representados eram excepcionais - Robert Frost, Marianne Moore, William Carlos Williams, Wallace Stevens,
Louis Zukofski e Erica Jong, para citar apenas alguns. Lá pela metade do livro encontrei um poema de Algernon Williams ao lado daquela famosa fotografia de Marilyn
Monroe de pé sobre as grades de ventilação do metrô tentando abaixar a saia. O título do poema era "O soar do sino" e começava assim: O formato da saia - diríamos
assim é o formato de um sino As pernas são o badalo E por aí vai. Não que fosse um poema horroroso, mas certamente não era um dos melhores de Williams e nem estava
perto disso. Senti que podia sustentar esta opinião porque já havia lido muita coisa de Algernon Williams ao longo da vida. Mas não conseguia me lembrar deste poema
sobre Marilyn Monroe (explico: o poema deixava isso claro mesmo sem a fotografia - no final Williams escreve: Minhas pernas badalam meu nome: Marilyn, ma belle).
Estive procurando este poema desde então, mas não consegui encontrá-lo... o que não quer dizer nada, é claro. Poemas não são como romances ou pareceres legais; estão
mais para folhas ao vento, e qualquer livro intitulado As obras completas de Fulano de Tal é certamente um embuste. Os poemas acabam perdidos debaixo de sofás -
e este é um de seus encantos, e uma das razões por que duram. Mas... Certa hora Stevens se aproximou com o segundo copo de uísque (eu estava então acomodado numa
cadeira com um livro de Ezra Pound). Estava tão bom quanto o primeiro. Enquanto eu bebericava, vi dois dos presentes, George Gregson e Harry Stein (Harry estava
morto havia seis anos na noite em que Emlyn McCarron contou-nos a história do Método Respiratório), deixarem a sala por uma curiosa porta que não poderia ter mais
de um metro de altura. Parecia a porta da toca do coelho em Alice no país das maravilhas, se é que houve tal porta. Deixaram-na aberta, e lago depois de sua estranha
saída da biblioteca ouvi o barulho abafado de bolas de bilhar. Stevens passou por mim e perguntou se eu queria tomar mais um uísque. Recusei com grande lástima.
Ele balançou a cabeça. - Como quiser, senhor. Não mudou de expressão, mas mesmo assim tive uma vaga sensação de que isto o tinha agradado de algum modo. Sobressaltei-me
com risos algum tempo depois. Alguém havia jogado um pacotinho de pó químico na lareira que deixou o fogo momentaneamente colorido. Lembrei-me da minha infância
outra vez... mas não de modo melancólico, sentimental, românticonostálgico. Sinto uma grande necessidade de deixar isso bem claro, Deus sabe por quê.

Inverno no Clube - Stephen King Lembrei-me de quando fazia exatamente isso quando era guri, mas era uma lembrança clara, agradável, sem saudades. Vi que a maioria
dos outros homens havia arrumado cadeiras em semicírculo em volta da lareira. Stevens tinha trazido uma travessa cheia de salsichas quentes esplêndidas. Harry Stein
voltou pela portinhola, e apresentou-se rápida mas dedicadamente a mim. Gregson ficou na sala de bilhar - praticando tacadas, pelo barulho. Após um momento de hesitação,
juntei-me aos outros. Contaram uma história - nada agradável. Foi Norman Stett quem a contou, e embora não seja meu propósito recontála, talvez vocês entendam o
que quero dizer sobre sua qualidade se lhes disser que era sobre um homem que morreu afogado numa cabine telefônica. Quando Stett - que também já morreu - terminou,
alguém disse: - Você devia ter guardado essa para o Natal, Norman. Houve risos, e eu obviamente não entendi por quê. Pelo menos, não naquela hora. Depois disso Waterhouse
começou a falar, e em mil anos eu jamais sonharia com Waterhouse falando daquele jeito. Um homem formado em Yale, Phi Beta Kappa, cabelos grisalhos, de terno, chefe
de um grande escritório de advocacia que era mais uma empresa - este Waterhouse contou uma história sobre uma professora que ficara presa numa privada. A privada
ficava atrás da escola de sala única em que ela lecionava, e no dia em que ela ficou presa num dos dois buracos da privada aconteceu também de ser o dia em que a
privada seria levada embora para a exposição "Como era a vida na Nova Inglaterra" no Prudential Center em Boston, como uma contribuição do condado de Anniston. A
professora não dera um pio enquanto a privada estava sendo colocada e presa na caçamba de um caminhão; ela estava paralisada de vergonha e pavor, disse Waterhouse.
E quando a porta da privada foi levada pelo vento da Rodovia 128 em Somerville na hora do rush... Mas botemos uma pedra sobre isso, e sobre quaisquer outras histórias
que se seguiram; não são minhas histórias esta noite. Numa certa hora, Stevens trouxe uma garrafa de conhaque que estava mais do que simplesmente gostoso; seu gosto
era extremamente delicado. A garrafa foi passada de mão em mão e Johanssen ergueu um brinde - o brinde, pode-se dizer assim: o importante é a história, e não o narrador.
Brindamos a isso. Pouco tempo depois os homens começaram a ir embora. Não era tarde; não era meianoite ainda; mas eu já havia reparado que quando os cinqüenta vão
dando lugar aos sessenta, tarde da noite começa a chegar cada vez mais cedo. Vi Waterhouse vestir o sobretudo que Stevens segurava para ele e julguei que deveria
fazer o mesmo. Achei estranho que Waterhouse fosse embora sem dirigir mais do que uma palavra a mim (o que na verdade parecia que ele estava fazendo; se eu demorasse
mais uns quarenta segundos para colocar o livro de Pound na prateleira, ele já teria ido embora, mas menos estranho que a maior parte dos acontecimentos daquela
noite.

Inverno no Clube - Stephen King Saí logo atrás dele, e Waterhouse olhou em volta como se estivesse surpreso em me ver - e quase como se ele tivesse sido despertado
subitamente de um cochilo. - Vamos dividir um táxi? - perguntou, como se tivéssemos nos encontrado por acaso nessa rua deserta e varrida pelo vento. - Obrigado -
disse eu. Agradeci por muito mais coisas além do seu oferecimento para dividir o táxi, e acredito que pelo meu tom de voz isso tenha ficado óbvio, mas ele balançou
a cabeça como se aquilo fosse só o que eu queria dizer. Bem devagar vinha passando um táxi, com a luz que indica estar vazio acesa - sujeitos como George Waterhouse
parecem ter sorte para encontrar táxis mesmo em noites nova-iorquinas de frio e nevasca quando você juraria ser impossível achar um em toda a ilha de Manhattan -
e ele fez sinal. Lá dentro, seguro e aquecido, o taxímetro registrando nosso percurso em cliques ritmados, eu disse a ele o quanto tinha apreciado sua história.
Não me lembrava de ter rido tanto ou tão espontaneamente desde os meus dezoito anos, disse a ele, o que não era bajulação mas apenas a pura verdade. - É? Muito gentil
da sua parte. Gentil e frio, seu tom de voz. Afundei-me no banco, sentindo o sangue me corar a face. Nem sempre é necessário ouvir um estrondo para saber que a porta
foi fechada. Quando o táxi encostou no meio-fio em frente ao meu prédio, agradeci novamente, e desta vez ele se mostrou um pouquinho mais receptivo: - Foi bom você
ter ido lá - disse ele. - Vá outra vez, se quiser. Não espere por um convite; não somos muito cerimoniosos no clube. As quintas-feiras é melhor para se ouvir histórias,
mas o clube está aberto todas as noites. Então posso me considerar sócio? Esta pergunta estava na ponta da minha língua. Tinha intenção de fazê-la; parecia necessário
fazê-la. Eu estava apenas matutando, repetindo-a na minha cabeça (no meu jeito maçante de advogado) para ver se a linguagem estava correta - talvez estivesse um
pouco empolgado demais - quando Waterhouse disse ao motorista para seguir. No mesmo instante o táxi já ia em direção à Park Avenue. Fiquei parado na calçada por
alguns segundos, o sobretudo me dando lambadas nas pernas, pensando: Ele sabia que eu ia fazer aquela pergunta - ele sabia, e intencionalmente mandou o motorista
seguir antes que eu pudesse fazê-la. Então disse a mim mesmo que isso era totalmente absurdo - paranóico até. E era. Mas também era verdade. Eu podia zombar de tudo,
mas a zombaria não modificou aquela certeza absoluta. Caminhei devagar para a portaria e entrei. Ellen estava sessenta por cento dormindo quando me sentei na cama
para tirar os sapatos. Ela virou-se e emitiu um som gutural interrogativo. Eu disse a ela que voltasse a dormir.

Inverno no Clube - Stephen King

Ela emitiu aquele som outra vez. Agora mais inteligível. - Como foi? Por um momento hesitei, a camisa desabotoada pela metade. E pensei num lampejo de lucidez absoluta:
Se contar a ela, jamais verei o outro lado daquela porta outra vez. - Tudo bem - disse eu. - Velhos contando histórias de guerra. - Bem que eu disse. - Mas não foi
ruim. Talvez eu volte lá. Pode ser bom para mim com relação ao escritório. - O escritório - disse ela, num leve tom de troça. - Que velho ganancioso que você é,
meu amor. - É preciso que seja um tipo desses para reconhecê-lo - disse eu, mas ela já havia dormido outra vez. Tirei a roupa, tomei banho, enxuguei-me, vesti o
pijama... e então, ao invés de ir para a cama (era pouco mais de uma hora), vesti o robe e tomei outra garrafa de Beck's. Fiquei sentado à mesa da cozinha bebendo
devagar, olhando pela janela os paredões gelados da Madison Avenue, pensando. Minha cabeça zumbia um pouco devido ao álcool - inesperadamente uma grande quantidade
para mim. Mas a sensação não era absolutamente desagradável, e não sentia a iminência de uma ressaca. O que passou pela minha cabeça quando Ellen me perguntou sobre
a noitada foi tão ridículo quanto o que pensei sobre George Waterhouse depois que o táxi foi embora - o que poderia haver de errado em falar à minha mulher sobre
uma noitada absolutamente inocente no clube entediante do meu chefe... e mesmo se houvesse algo de errado em contar para ela, quem saberia disso? Não, era tão ridículo
e paranóico quanto as cismas anteriores... e, sabia lá no fundo do meu coração, era a mais pura verdade. Encontrei George Waterhouse no dia seguinte no vestíbulo
entre a contadoria e a biblioteca. Encontrei-o? Melhor dizer, passei por ele. Cumprimentou-me com a cabeça e seguiu sem dizer palavra... como já fazia havia quatro
anos. Tive dor de estômago o dia inteiro. Isto foi a única coisa a me convencer de que a minha noitada tinha sido real. Três semanas se passaram. Quatro... cinco.
Não recebi outro convite de Waterhouse. De alguma maneira eu não tinha sido conveniente; não me encaixara. Ou pelo menos foi o que disse a mim mesmo. Fiquei desanimado
e decepcionado. Imaginei que esse sentimento fosse perdendo aos poucos sua pungência, como acontece mais cedo ou mais tarde com qualquer decepção. Mas eu pensava
naquela noite em seus momentos mais curiosos - os focos isolados de luz da biblioteca, tão suave e tranqüila e de algum modo civilizada; a história absurda e hilariante
de Waterhouse sobre a professora presa na privada; o aroma agradável de couro nos corredores estreitos entre as estantes. Acima de tudo fiquei me lembrando da janela
estreita em que fiquei a observar os cristais de gelo

Inverno no Clube - Stephen King mudarem de verde para amarelo e para vermelho. Pensei na sensação de paz que havia sentido. Durante aquele período de cinco semanas
fui à biblioteca e examinei quatro livros de poesias de Algernon Williams (eu tinha outros três, e já os tinha examinado); um deles tinha a pretensão de ser suas
obras completas. Reconheci alguns dos velhos favoritos, mas não encontrei nenhum poema intitulado "O soar do sino" em nenhum dos livros. Nesta mesma ida à Biblioteca
Pública de Nova Iorque, procurei no arquivo de fichas livros de ficção de um sujeito chamado Edward Gray Seville. O máximo que encontrei foi um livro de suspende
escrito por uma tal de Ruth Seville. Vá outra vez, se quiser. Não espere por um convite. Mesmo assim eu estava esperando por um convite, é claro; minha mãe me ensinara
há muitos anos atrás para não acreditar piamente quando as pessoas disserem animadas "apareça uma hora dessas" ou "a porta está sempre aberta". Eu não achava que
precisasse de um cartão impresso, levado à minha casa por um criado de libré com uma bandeja dourada nas mãos, não quis dizer isso, mas eu queria alguma coisa, mesmo
que fosse um comentário casual: - Apareça uma noite dessas, David. Espero que você não tenha se aborrecido lá. Esse tipo de coisa. Mas quando nem isso aconteceu,
comecei a pensar mais seriamente em voltar assim mesmo - afinal de contas, às vezes as pessoas querem mesmo que você apareça a qualquer hora; julguei que, em determinados
lugares, a porta sempre estava aberta; e que as mães nem sempre têm razão . ... Não espere por um convite... Em todo caso, foi assim que no dia 10 de dezembro daquele
mesmo ano, me vi vestindo meu casaco tosco de tweed e a calça marrom-escura outra vez e procurando pela minha gravata vermelho-escura. Percebia mais as batidas do
meu coração do que de costume naquela noite, lembro-me disso. - Então finalmente George Waterhouse quebrou o gelo e chamou você de volta? perguntou Ellen. - De volta
para o chiqueiro com aos outros porcos chauvinistas? - Isso mesmo - disse eu, pensando que deveria ser a primeira vez em pelo menos doze anos que mentia para ela...
e então me lembrei que, depois do primeiro encontro, eu havia respondido à sua pergunta sobre como tinha sido como uma mentira. Velhos contando histórias de guerra,
eu dissera. - É, talvez haja mesmo uma promoção ligada a isso - disse ela... embora sem muita esperança. Mas também sem muito rancor, verdade seja dita. - Coisas
mais estranhas têm acontecido - disse eu, e dei-lhe um beijo de despedida.

Inverno no Clube - Stephen King

- Oink, oink - fez ela, quando eu saía pela porta. A viagem de táxi aquela noite pareceu bem longa. Fazia frio, o ar estava parado e o céu estrelado. O táxi era
um Checker e me senti muito pequeno dentro dele, como uma criança vendo a cidade pela primeira vez. Era entusiasmo o que eu estava sentindo quando o táxi parou em
frente ao prédio de arenito pardo - algo tão simples e ao mesmo tempo tão complexo quanto isso. Mas tal entusiasmo parece ser uma das boas coisas da vida que nos
escapam quase imperceptivelmente, e a redescoberta quando se fica mais velho é sempre uma surpresa, como encontrar um ou dois cabelos pretos no pente anos depois
de ter visto isso pela última vez. Paguei ao motorista, saltei e me dirigi aos degraus da porta. Enquanto subia, meu entusiasmo transformou-se em mera apreensão
(uma sensação a que as pessoas idosas estão muito mais acostumadas). O que é que eu estava fazendo ali? A porta era de carvalho maciço com almofadas, e aos meus
olhos parecia tão sólida quanto a porta de acesso a um castelo. Não havia compainha, aldrava ou câmera de circuito interno de TV colocada discretamente num canto
escuro do beiral, e, é claro, Waterhouse não estava na porta para me fazer entrar. Parei ao pé da escada e olhei ao redor. A Rua 35 Leste de repente pareceu mais
escura, mais fria, mais ameaçadora. Os prédios de arenito pardo estavam com uma aparência um tanto enigmática, como que escondendo mistérios que por bem não deveriam
ser investigados. Suas janelas lembravam olhos. Em algum lugar, por trás de uma dessas janelas, pode haver um homem ou uma mulher planejando um assassinato, pensei.
Senti um arrepio na espinha. Planejando... ou cometendo um assassinato. E então, de repente, a porta se abriu e Stevens apareceu. Senti um enorme alívio. Não tenho
a imaginação excessivamente fértil, acho - pelo menos não em circunstâncias normais - mas esta última idéia que me ocorreu encerrava uma lúgubre clarividência profética.
Se eu não tivesse olhado para os olhos de Stevens, teria começado a balbuciar coisas sem nexo. Os olhos dele não me reconheceram. Seus olhos não me reconheceram
em absoluto. Então tive outra lúgubre clarividência profética; antevi o restante da minha noitada em todos os detalhes. Três horas num bar sossegado. Três uísques
(talvez quatro) para ofuscar o constrangimento de ter feito a asneira de ir onde não era benquisto. A humilhação que o conselho de minha mãe pretendia evitar - a
humilhação que sentimos quando nos excedemos. Antevi-me indo para casa um pouco alto, mas me sentindo não muito bem. Vi-me sentado dentro do táxi sem experimentar
aquela sensação infantil de entusiasmo e expectativa. Ouvi-me dizendo a Ellen: Fica repetitivo depois de algum tempo... Waterhouse contou a mesma história sobre
ter ganho a concorrência para o fornecimento de carne de primeira para o Terceiro Batalhão num jogo de pôquer... e eles jogam cartas a um dólar o ponto, você acredita?...
Eu, voltar lá?... Talvez, mas

Inverno no Clube - Stephen King duvido. E isso seria tudo. A não ser, creio, a minha própria humilhação. Antevi tudo isso olhando para os olhos inexpressivos de
Stevens. Então seus olhos tomaram expressão. Ele sorriu de leve e disse: - Sr. Adley! Entre. Deixe-me guardar seu casaco. Subi os degraus e Stevens fechou com firmeza
a porta depois que entrei. Como uma porta pode parecer diferente quando se está protegido do lado de dentro! Ele pegou meu casaco e desapareceu. Fiquei parado no
vestíbulo por alguns instantes, olhando meu reflexo no tremó, um homem de sessenta e três anos cujo rosto estava rapidamente se tornando emaciado demais para parecer
um homem de meia-idade. Mas mesmo assim a imagem me agradou. Passei para a biblioteca sem ser notado. Johanssen estava lá, lendo seu Wall Street Journal. Sob outro
foco de luz, Emlym McCarron estava debruçado sobre um tabuleiro de xadrez de frente para Peter Andrews. McCarron tinha, e ainda tem, um ar cadavérico, o nariz afilado
como uma lâmina; Andrews era enorme, ombros caídos e irascível. Uma farta barba avermelhada se espalhava sobre seu colete. Frente a frente sobre um tabuleiro com
peças esculpidas em marfim e ébano, pareciam totens indígenas: a águia e o urso. Waterhouse estava lá, concentrado sobre o Times do dia. Ele olhou por sobre o jornal,
cumprimentou-me com a cabeça sem demonstrar surpresa, e desapareceu atrás do jornal outra vez. Stevens me trouxe um uísque, sem que eu tivesse pedido. Enfiei-me
por entre as estantes e encontrei novamente aquela coleção enigmática e atraente de livros. Comecei a ler as obras de Edward Gray Seville naquela noite. Comecei
do início, com Estes eram os nossos irmãos. Desde então já li todos eles, e acredito que sejam onze dentre os melhores romances deste século. Quase no final da noite
uma história foi contada - apenas uma- e Steven serviu conhaque. Quando a história acabou, as pessoas começaram a se levantar para ir embora. Stevens estava no vão
da porta dupla que dava para o vestíbulo. Numa voz baixa e agradável, porém firme, ele disse: - Qual dos senhores irá contar a história no Natal? As pessoas pararam
o que estavam fazendo e olharam ao redor. Ouviu-se um burburinho alegre e uma gargalhada. Stevens, sorrindo porém sério, bateu palmas duas vezes como uma professora
primária tentando pôr ordem na sala. - Vamos, cavalheiros: quem vai contar a história?

Inverno no Clube - Stephen King Peter Andrews, o dos ombros caídos e da barba avermelhada, pigarreou: - Eu tenho pensado sobre um negócio. Não sei se é assim mesmo;
isto é, se... - Está ótimo - interrompeu Stevens, e houve mais risos. Bateram nas costas de Andrews com camaradagem. Correntes de ar invadiam o vestíbulo quando
a porta era aberta para os homens saírem. Stevens estava lá, como que por encanto, segurando o casaco para mim. - Boa noite, Sr. Adley. É sempre um prazer tê-lo
aqui. - Vocês se reúnem na noite de Natal? - perguntei, enquanto abotoava o casaco. Eu estava um pouco desapontado de perder a história de Andrews, mas já havíamos
combinado ir para Schenectady passar o feriado com a irmã de Ellen. Stevens tentou parecer chocado e surpreso ao mesmo tempo. - De jeito nenhum - disse ele. - Os
homens devem passar a noite de Natal junto a suas famílias. Pelo menos a noite de Natal. O senhor não concorda? - É claro que sim. - Sempre nos reunimos na quinta-feira
antes do Natal. Para falar a verdade, é a única noite do ano em que quase sempre há uma grande afluência. Reparei que ele não usou a palavra membros - por acaso?
ou mera omissão? - Muitas histórias já foram contadas no salão principal, Sr. Adley, histórias de todos os tipos, de cômicas a trágicas, de irônicas a românticas.
Mas na quinta-feira antes do Natal é sempre uma história sobrenatural. Sempre foi assim, pelo menos desde que me lembro. Isso pelo menos esclarecia o comentário
que eu tinha ouvido da primeira vez que estive lá, quando alguém disse a Norman Stett que ele deveria ter guardado sua história para o Natal. Outras perguntas passaram
pela minha cabeça, mas percebi uma advertência nos olhos de Stevens. Não era uma advertência de que ele não responderia a minhas perguntas; era, isto sim, um aviso
para que eu sequer fizesse perguntas. - Mais alguma coisa, Sr. Adley? Estávamos sozinhos no vestíbulo. Todos os outros já haviam ido embora. E de repente o vestíbulo
me pareceu mais escuro, o rosto comprido de Stevens mais pálido, seus lábios mais vermelhos. Houve um estalo de madeira na lareira e a luz vermelha do fogo fez brilhar
por um instante o chão encerado. Pensei ter ouvido, em alguma das salas ainda desconhecidas, um baque surdo. Não gostei nem um pouco do barulho. Nem um pouco. -
Não - disse eu, com uma voz nada firme. - Acho que não.

Inverno no Clube - Stephen King - Então, boa noite - disse Stevens, e eu saí. Ouvi a porta pesada se fechar atrás de mim. Ouvi o barulho do trinco. Então saí andando
em direção às luzes da Terceira Avenida, sem olhar para trás, de alguma forma com medo de olhar para trás, como se fosse ver um demônio apavorante seguindo meus
passos, ou vislumbrar alguma coisa que não fosse para ser vista. Cheguei na esquina, vi um táxi vazio e fiz sinal. - Mais histórias de guerra? - perguntou Ellen
naquela noite. Ela estava na cama com Philip Marlowe, o único amante que ela já teve. - Uma ou duas histórias de guerra - disse eu, pendurando meu sobretudo. - Fiquei
sentado lendo um livro a maior parte do tempo. - Quando você não estava fazendo "oink". - É, tem razão. Quando eu não estava fazendo "oink". - Escute isso: "A primeira
vez que vi Terry Lennox ele estava bêbado num Rolls-Royce prateado no pátio do The Dancers" Ellen leu. - 'Seu rosto era jovem, mas seus cabelos eram brancos como
nuvens. Pelo olhar se via que estava completamente bêbado, mas fora isso parecia com qualquer rapaz bonito de smoking que gastara dinheiro demais numa espelunca
que existe unicamente para este fim." Lindo, não é? É... - O longo adeus - disse eu, tirando os sapatos. - Você lê essa passagem para mim a cada três anos. Faz parte
do seu ciclo de vida. Ela -, fez uma careta para mim. - ''Oink-oink". - Obrigado - eu disse. Ela voltou sua atenção para o livro. Fui até a cozinha pegar uma garrafa
de Beck's. Quando voltei ela havia deixado O longo adeus aberto sobre a colcha e olhava atentamente para mim. - David, você vai entrar para esse clube? - Talvez...
se me convidarem. - Senti-me pouco à vontade. Talvez lhe tivesse contado outra mentira. Se houvesse associados no n° 249 B da Rua 35 eu já era um deles. - Fico feliz
com isso - disse ela. - Você precisava de um negócio desses há muito tempo. Não acredito que você tenha consciência disso mas é verdade. Eu tenho o Comitê de Amparo,
a Comissão de Direitos da Mulher e a Sociedade Teatral. Mas você precisava de alguma coisa. Pessoas que fizessem companhia na velhice, eu acho. Sentei-me ao lado
dela na cama e peguei O longo adeus. Era uma edição de brochura novinha em folha. Eu lembrava de ter comprado a edição original encadernada de presente de aniversário
para ela, em 1953.

Inverno no Clube - Stephen King - Estamos velhos? - perguntei a ela. - Desconfio que sim - disse ela, e sorriu com os olhos brilhando para mim. Deixei o livro de
lado e toquei seu seio. - Velhos demais para isso? Ela puxou o lençol e cobriu-se com decoro feminino... e então, dando uma risadinha, chutou-o ao chão. - Vai me
bater, papai? - disse Ellen. - "Oink-oink" - fiz, e começamos a rir.

E chegou a quinta-feira antes do Natal. Era uma noite igual às outras, com exceção de dois detalhes que observei: havia mais pessoas lá, talvez umas dezoito; e havia
uma intensa agitação indefinível no ar. Johanssen deu apenas uma rápida olhada em seu Wall Street Journal e juntou-se a McCarron, Hugh Beagleman e a mim. Sentamo-nos
perto das janelas, falando disso e daquilo, e finalmente caímos numa conversa apaixonante - e muitas vezes engraçada - sobre automóveis anteriores à guerra. Havia,
lembrei-me agora, um terceiro detalhe diferente: Stevens tinha preparado uma deliciosa gemada de rum. O gosto era suave, mas também picante de rum e temperos. Estava
na extraordinária poncheira Waterford que parecia uma escultura de gelo, e a zoada animada das conversas aumentava ainda mais à medida que a batida ia acabando.
Olhei para a portinhola que dava para a sala de bilhar e fiquei pasmo ao ver Waterhouse e Norman Stett batendo figurinhas de beisebol sobre um autêntico chapéu de
pele de castor. Davam gargalhadas homéricas. Grupos se formavam e se desmanchavam. Foi ficando tarde... e então, à hora que geralmente as pessoas começam a ir embora,
vi Peter Andrews sentado à frente da lareira com um pacotinho do tamanho de um envelope de sementes numa das mãos. Jogou-o no fogo sem abri-lo, e no instante seguinte
o fogo ficou com as cores do arcoíris - e outras, eu juraria, que não existem no arco-íris para depois voltar para o amarelo. Arrastaram-se cadeiras pela sala. Por
sobre o ombro de Andrews eu podia ver a pedra com a prédica gravada: O IMPORTANTE É A HISTÓRIA, E NÃO O NARRADOR. Stevens passou discretamente por entre as pessoas
recolhendo os copos de batida e servindo pequenas doses de conhaque. Ouvi pessoas murmurarem "Feliz Natal" e "Próspero Ano-Novo, Stevens", e pela primeira vez, vi
dinheiro trocar de mãos - uma nota de dez dólares foi oferecida aqui, uma nota que pareceu ser de cinqüenta ali, outra que vi claramente tratar-se de uma de cem
de outra cadeira acolá. - Obrigado, Sr. McCarron... Sr. Johanssen... Sr. Beagleman... - Um sussurro cortês.

Inverno no Clube - Stephen King

Eu já morava em New York tempo bastante para saber que a época de Natal é um verdadeiro carnaval de gorjetas; um tanto para o açougueiro, o padeiro, o tintureiro
sem falar no porteiro, no contínuo, na faxineira que vem às terças e sextas. Jamais conheci alguém do mesmo nível que eu que não considerasse isso apenas como um
mal necessário... mas naquela noite não senti qualquer má vontade. O dinheiro era dado de bom grado, até com avidez... e de repente, sem razão nenhuma (era assim
que as lembranças pareciam vir quando se estava no clube), lembrei-me do menino perguntando a Scrooge numa manhã calma e fria de Natal em Londres: "O quê? O ganso
que é do meu tamanho?" E Scrooge, quase louco de felicidade, dando risadas: "Um bom menino! Um excelente menino!" Tirei minha carteira do bolso. Atrás da fotografia
de Ellen há sempre uma nota de cinqüenta dólares para alguma emergência. Quando Stevens me entregou o conhaque, coloquei a nota em sua mão sem nenhum remorso...
embora eu não fosse um homem rico. - Feliz Natal, Stevens- disse eu. - Obrigado, e para o senhor também. Ele acabou de distribuir as taças de conhaque e de receber
seus honorários e retirou-se. Olhei ao meu redor certa hora, no meio da história de Peter Andrews, e o vi de pé ao lado da porta dupla, um vulto indistinto, imóvel
e quieto. - Sou um advogado agora, como a maioria de vocês - disse Andrews, depois de ter dado um gole, limpado a garganta e dado outro gole. - Tive escritório na
Park Avenue nos últimos vinte e dois anos. Mas antes disso eu era um assessor jurídico num escritório de advocacia que fazia trabalhos em Washington, D.C. Certa
noite de julho me pediram para ficar até mais tarde a fim de pôr em ordem as intimações de um processo que não tem nada a ver com esta história. Mas então um sujeito
entrou na sala - um sujeito que era naquela época um dos senadores mais conhecidos e que mais tarde quase foi presidente. Sua camisa estava toda manchada de sangue
e seus olhos arregalados quase caindo das órbitas. - Preciso falar com Joe - disse ele. Joe era Joseph Woods, o chefe do escritório, um dos advogados mais influentes
do setor privado em Washington, e amigo íntimo desse senador. - Ele já foi para casa há algumas horas - eu disse. Eu estava assustadíssimo, vocês imaginem - parecia
que ele tinha acabado de sofrer um terrível acidente de carro, ou talvez tivesse se metido numa briga de faca. E olhar para o seu rosto - que eu já tinha visto em
fotografias de jornais e no programa Encontro coma Imprensa - manchado de sangue, um lado do rosto se contraindo espasmodicamente e um olhar desvairado... tudo isso
aumentou o meu terror. - Posso telefonar para ele se o senhor... - Eu já estava tateando a mesa à cata do telefone, aflito para passar aquela inesperada responsabilidade
a outra pessoa. Atrás dele pude ver as pegadas de sangue que ele havia deixado no tapete.

Inverno no Clube - Stephen King

- Preciso falar com Joe agora - repetiu ele, como se não tivesse ouvido eu falar. - Tem uma coisa na mala do meu carro... uma coisa que eu encontrei na Praça Virgínia.
Atirei nela e dei facadas, mas não consegui matá-la. Não é humana, e eu não consigo matá-la. Ele deu uma risadinha nervosa... e então começou a rir... e depois a
gritar. Ele ainda estava gritando quando finalmente consegui falar com o Sr. Woods e dizer-lhe que viesse, pelo amor de Deus, o mais depressa possível... Não tenho
intenção de contar a história de Peter Andrews. Para ser franco, não tenho certeza se teria coragem de contá-la. Basta dizer que era uma história tão aterrorizante
que sonhei durante semanas com ela, e um dia Ellen olhou para mim à mesa do café e perguntou por que eu tinha gritado: "A cabeça dele! A cabeça ainda está falando
debaixo da terra!" no meio da noite. - Deve ter sido um pesadelo - disse eu, - daqueles que a gente não consegue se lembrar depois. Mas meus olhos baixaram imediatamente
para minha xícara de café, e acho que Ellen percebeu a mentira daquela vez. Num dia de agosto do ano seguinte, eu estava na biblioteca trabalhando quando murmuraram
no meu ouvido. Era George Waterhouse. Perguntou se eu poderia subir até a sua sala. Quando cheguei lá, vi que Robert Carden também estava presente, assim como Henry
Effingham. Por um momento tive certeza de que seria acusado de algum ato terrível de estupidez ou inépcia. Então Carden chegou perto de mim e disse: - George acha
que já é tempo de você se tornar um sócio minoritário da nossa firma, David. Nós concordamos com ele. - Vai ser um pouco como ser o membro mais novo da câmara de
comércio - disse Effingham com um sorriso, - mas é uma experiência por que você vai ter que passar, David. Mas com um pouco de sorte, faremos de você um sócio de
igual hierarquia por volta do Natal. Não tive pesadelos aquela noite. Ellen e eu fomos jantar fora, bebemos bastante, fomos a um clube de jazz onde não íamos havia
quase seis anos, e assistimos àquele maravilhoso negro de olhos azuis, Dexter Gordon, tocar seu sax até quase duas horas da manhã. Acordamos no dia seguinte com
o estômago embrulhado e com dor de cabeça, ainda incapazes de acreditar totalmente no que tinha acontecido. Uma das coisas era que meu salário tivera um aumento
de oito mil dólares anuais depois de termos perdido há muito tempo as esperanças de um aumento vertiginoso de renda. Naquele outono a firma me mandou para Copenhague
por seis semanas, e quando voltei soube que John Hanrahan, um dos freqüentadores assíduos do clube, havia morrido de câncer. Fez-se uma coleta de dinheiro para sua
esposa, que fora deixada em circunstâncias difíceis. Fui solicitado a somar o montante- que era todo em dinheiro - e

Inverno no Clube - Stephen King a trocar por um cheque de administração. O total foi de mais de dez mil dólares. Entreguei o cheque a Stevens e presumo que ele o
tenha enviado. O fato é que Arlene Hanrahan fazia parte da Sociedade Teatral de Ellen, e Ellen veio me contar algum tempo depois que Arlene havia recebido um cheque
anônimo de dez mil e quatrocentos dólares. No canhoto do cheque havia uma mensagem breve e nada esclarecedora: Dos amigos de seu saudoso marido John. - Não é a coisa
mais espantosa que você já viu? - perguntou- me Ellen. - Não - disse eu, - mas está entre as dez mais. Ainda temos morangos, Ellen? Os anos se passaram. Descobri
um monte de quartos no andar de cima do clube - um escritório, um quarto onde às vezes convidados passavam a noite (embora pessoalmente, depois do baque surdo que
tinha ouvido - ou imaginei ter ouvido preferisse ir para um bom hotel), uma pequena mas bem equipada sala de ginástica e uma sauna com ducha. Havia também uma sala
comprida e estreita da extensão do prédio que abrigava duas pistas de boliche. Durante esses anos reli os romances de Edward Gray Seville e descobri um poeta absolutamente
fantástico - à altura de Ezra Pound e Wallace Stevens, talvez - chamado Norbert Rosen. Segundo a contracapa de um dos três volumes da estante, ele havia nascido
em 1924 e fora morto em Anzio. Os três volumes de seus trabalhos tinham sido publicados por Stedham & Son, Nova Iorque e Boston. Lembro-me de ter voltado à Biblioteca
Pública de Nova Iorque numa radiante tarde de primavera de algum desses anos (não posso precisar o ano) e pedido os Literary Market Place publicados num período
de vinte anos. O LMP é uma publicação anual do tamanho de um catálogo de Páginas Amarelas de uma cidade grande, e imagino que a bibliotecária da sala de obras de
referência estivesse irritadíssima comigo. Mas insisti, e examinei cada volume cuidadosamente. E apesar do LMP relacionar todos os editores, grandes e pequenos,
dos Estados Unidos (além de agentes literários, compiladores e clubes de livros), não encontrei nenhuma referência a Stedham & Son. No ano seguinte - ou talvez dois
anos depois conversando com um antiquário de livros, perguntei-lhe se conhecia o editor. Disse-me que nunca tinha ouvido falar. Pensei em perguntar a Stevens - vi
aquele sinal de advertência em seu olhar - e esqueci o assunto. E durante esses anos todos houve histórias. Contos, como diz Stevens. Contos engraçados, contos de
amor e de ódio, contos de suspense. E até umas poucas histórias de guerra, embora nenhuma fosse do tipo que Ellen imaginava quando sugeriu que eu entrasse para o
clube. Lembro-me claramente da história de Gerard Tozeman - sobre uma base de operações americana atacada pela artilharia alemã quatro meses antes do fim da Primeira
Guerra Mundial; todos foram mortos, menos o próprio Tozeman.

Inverno no Clube - Stephen King Lathrop Carruthers, o general americano que já na época era unanimemente considerado completamente louco (tinha sido o responsável
por mais de dezoito mil baixas então como se as vidas e os membros das pessoas não valessem um tostão), estava de pé à frente de um mapa das linhas de frente quando
a bomba explodiu. Ele estava expondo outra operação de ataque naquele momento - uma operação que seria bem sucedida apenas na concepção de outros Carruthers: teria
pleno êxito em fazer novas viúvas. E quando a poeira baixou, Gerard Tozeman, ofuscado e surdo, sangrando pelo nariz, ouvidos e pelos cantos dos olhos, com os testículos
já inchados pela força da concussão, estava sobre o corpo de Carruthers procurando uma saída daquele matadouro que tinha sido o quartel-general minutos antes. Ele
olhou para o corpo do general... e então começou a gritar e a rir. Ele próprio não podia ouvir, pois ficara surdo com uma explosão, mas seus gritos alertaram os
médicos de que alguém ainda estava vivo naquela montanha de gravetos. Carruthers não havia sido mutilado pela explosão... pelo menos, disse Tozeman, não o que os
soldados daquela guerra de tempos atrás consideravam ser mutilado - homens cujos braços haviam sido arrancados, homens sem pés, sem olhos; homens cujos pulmões haviam
murchado por causa do gás. Não, disse ele, não era nada parecido. A mãe do sujeito o teria reconhecido imediatamente. Mas o mapa... ... o mapa diante do qual Carruthers
estivera de pé com seu ponteiro de açougueiro quando a bomba explodiu... De alguma maneira o mapa fora projetado de encontro a seu rosto. Tozeman viu-se diante de
uma máscara mortuária tatuada hedionda. Aqui estava o litoral pedregoso da Bretanha na saliência óssea da testa de Lathrop Carruthers. Aqui estava o Reno correndo
como uma cicatriz azul no lado esquerdo de seu rosto. Aqui estavam uma das melhores regiões vinícolas do mundo subindo e descendo pelo seu queixo. Aqui estava o
Saara desenhado em torno de seu pescoço como o laço do algoz... e impresso num globo ocular saliente estava a palavra VERSAILLES. Esta foi nossa história no Natal
de 197... Lembro-me de muitas outras, mas não se encaixam aqui. Para falar a verdade, tampouco a de Tozeman... mas foi o primeiro "conto de Natal" que ouvi no clube
e não pude me conter. E então, na quinta-feira depois do dia de Ação de Graças desse ano, quando Stevens bateu palmas pedindo atenção e perguntou quem nos daria
o prazer de narrar um conto de Natal, Emlyn McCarron resmungou: - Acho que sei de uma que vale a pena contar. E para contar agora ou nunca; em breve Deus me fará
calar para sempre. Durante os anos em que freqüentei o clube, nunca ouvira McCarron contar uma história. Talvez por esse motivo eu tenha chamado um táxi tão cedo
e também, quando Stevens serviu a gemada com rum aos seis homens que haviam se aventurado a sair naquela noite de frio e vento, tenha me sentido tão excitado. Eu
não era o único; vi que a maioria estava tanto quanto eu.

Inverno no Clube - Stephen King McCarron, velho e encarquilhado, sentou-se na enorme cadeira junto à lareira com o pacotinho de pó em suas mãos ásperas. Jogou o
pacotinho, e vimos as chamas mudarem de uma cor para outra rapidamente até voltarem para o amarelo. Stevens passou servindo conhaque, e entregamos a ele os honorários
de Natal. Certa vez, durante esta cerimônia anual, ouvi o tilintar de moedas passando para as mãos de Stevens; em outra ocasião, vislumbrei à luz do fogo uma nota
de mil dólares. Em ambas as ocasiões o tom de voz de Stevens tinha sido exatamente o mesmo: baixo, cortês e verdadeiro. Dez anos mais ou menos haviam se passado
desde que vim ao clube pela primeira vez com George Waterhouse, e enquanto o mundo lá fora dera muitas voltas, nada havia mudado lá dentro, e Stevens não parecia
ter envelhecido um só mês, nem mesmo um único dia. Ele retirou-se e desapareceu na penumbra, e por alguns instantes houve um silêncio tão absoluto que pudemos ouvir
o baixo assovio da seiva da madeira fervendo na lareira. Emlyn McCarron estava olhando o fogo e todos nós fizemos o mesmo. As chamas pareciam particularmente agitadas
aquela noite. Senti-me quase que hipnotizado pelo fogo - como, suponho, os homens das cavernas que nos antecederam teriam ficado enquanto o vento assoviava e varria
o. lado de fora de suas cavernas geladas. Por fim, ainda olhando para o fogo, um pouco curvado para poder apoiar os cotovelos nas pernas, as mãos entrelaçadas entre
os joelhos, McCarron começou a falar.

Inverno no Clube - Stephen King

II

O Método Respiratório
Estou com quase oitenta anos, o que significa que nasci com o século. Durante toda a minha vida tive uma forte ligação com um prédio que fica quase em frente ao
Madison Square Garden; este prédio, que parece um grande presídio cinza - alguma coisa tirada de Um conto de duas cidades - é na verdade um hospital, como vocês
sabem. É o Harriet White Memorial Hospital. A Harriet White que deu o nome ao hospital foi a primeira mulher do meu pai, e ela ganhou experiência em enfermagem quando
ainda havia ovelhas no Sheep Meadow do Central Park. Há uma estátua dessa mulher sobre um pedestal no pátio em frente ao prédio, e se algum de vocês já a viu, pode
ter-se perguntado como uma mulher com uma expressão tão severa e carrancuda pode ter tido uma profissão tão nobre. A inscrição ao pé da estátua em latim é menos
animadora ainda: Não há bem-estar sem dor; a salvação virá através do sofrimento. Marcus Porcius, se me permitem... ou se não me permitem! Eu nasci dentro daquele
prédio de pedra em 20 de março de 1900. Voltei lá como médico residente em 1926. Vinte e seis anos já não é mais idade de estar ingressando na medicina, mas eu havia
feito uma residência mais prática na França, no final da Primeira Guerra Mundial, tentando recolocar entranhas para dentro de barrigas que haviam sido abertas com
explosões, e negociando morfina no mercado negro, muitas vezes misturadas e às vezes perigosa. Como aconteceu com a geração de médicos depois da Segunda Guerra Mundial,
éramos cirurgiões com uma ampla base prática, e os arquivos das principais escolas de medicina registram um número extraordinariamente pequeno de reprovações nos
anos de 1919 a 1928. Éramos mais velhos, mais experientes, mais seguros. Seríamos também mais inteligentes? Não sei... mas certamente éramos mais cáusticos. Não
havia essa besteira que se lê nos romances médicos de vomitar ou desmaiar ao se fazer a primeira autópsia. Não depois da batalha de Belleau Wood, quando ratazanas
às vezes pariam ninhadas nas barrigas abertas dos soldados que apodreciam em terras de ninguém. Nossas crises de vômitos e desmaios haviam ficado para trás. O Harriet
White Memorial Hospital também está muito ligado a mim com relação ao que aconteceu comigo nove anos depois da minha residência lá - e esta é a história que quero
contar a vocês esta noite. Não é um conto apropriado para o Natal, diriam vocês (embora a cena final tenha se passado na véspera do Natal), mas ainda assim, apesar
de ser verdadeiramente chocante, me parece que expressa a força impressionante da nossa maldita espécie. Neste episódio pude constatar a maravilha que é a nossa
força de

Inverno no Clube - Stephen King vontade... e também seu terrível e tenebroso poder. O nascimento em si, cavalheiros, é para muitos uma coisa terrível; a moda agora
é os pais assistirem ao nascimento de seus filhos, e se por um lado essa moda tem ajudado a fazer com que mu fitos homens sejam tomados por um sentimento de culpa
que na minha opinião não merecem (um sentimento de culpa de que algumas mulheres fazem uso conscientemente e com uma crueldade quase presciente), por outro lado
parece ser de um modo geral uma coisa saudável e benéfica. Não obstante, tenho visto homens saírem da sala de parto lívidos e trôpegos e desmaiarem como meninas,
vencidos pelos gritos e pelo sangue. Lembro-me de um pai que resistiu bem... até começar a gritar histericamente quando seu filho perfeito e saudável saiu de dentro
de sua mulher. Os olhos do bebê estavam abertos, pareciam olhar ao seu redor... e então fixaram-se em seu pai. O parto é uma coisa maravilhosa, cavalheiros, mas
nunca achei que fosse bonito - nem puxando pela imaginação. Acho violento demais para ser bonito. O útero da mulher é como um motor. No momento da concepção o motor
é acionado. No início funciona quase em marcha lenta... mas quando o ciclo criador se aproxima do clímax do parto, o motor acelera mais e mais e mais. O bulício
da marcha lenta torna-se um zumbido contínuo, depois um rugido e finalmente um urro assustador. Uma vez acionado o motor, toda futura mãe percebe que sua vida está
em xeque: ou ela vai parir o bebê e o motor irá parar novamente, ou o motor irá se sacudir e dar pancadas cada vez mais fortes e cada vez mais rápidas até explodir,
matando-a de hemorragia e dor. Esta é a história de um parto, cavalheiros, na véspera do nascimento que celebramos há quase dois mil anos. Comecei a exercer a medicina
em 1929 - um péssimo ano para se começar o que quer que fosse. Meu avô pôde me dar uma pequena quantia em dinheiro, e assim tive mais sorte que a maioria de meus
colegas, mas mesmo assim a minha sobrevivência nos quatro anos seguintes foi assegurada em sua maior parte pelos meus próprios expedientes. Por volta de 1935 as
coisas tinham melhorado um pouco. Eu já tinha uma clientela fixa e estava recebendo alguns pacientes externos do White Memorial. Em abril daquele ano atendi uma
paciente nova, uma jovem a quem chamarei de Sandra Stansfield - este nome é nem parecido com seu verdadeiro nome. Era uma mulher jovem, branca, que disse ter vinte
e oito anos. Depois de examiná-la, calculei que tivesse entre três e cinco anos menos. Ela era loura, magra e alta para a época - por volta de um metro e setenta.
Era muito bonita, mas de um jeito tão austero que era quase proibitivo. Suas feições eram bem delineadas e harmônicas, seu olhar era inteligente... e a boca tão
desafiadora quanto a boca de pedra de Harriet White na estátua em frente ao Madison Square Garden. O nome que ela escreveu na ficha não foi Sandra Stansfield, mas
Jane Smith. Depois de examiná-la, concluí que estava grávida de dois meses mais ou menos. Ela não usava aliança. Após o exame preliminar - mas antes de chegarem
os resultados do teste de gravidez minha enfermeira, Ella Davidson, disse:

Inverno no Clube - Stephen King - Aquela garota de ontem? Jane Smith? Se esse nome não é inventado eu não sei o que é um nome falso. Concordei. Ainda assim, pode-se
dizer que senti admiração pela moça. Não tinha se comportado de modo infantil, corando na face e enchendo os olhos de lágrimas. Ela fora prática e objetiva. Até
mesmo seu pseudônimo parecera ser mais uma questão de interesse pessoal do que propriamente de vergonha. Ela não procurou se comportar como uma heroína. O senhor
quer um nome para botar na ficha, ela parecia dizer, porque alei assim o exige. Aqui está um nome, mas a confiar na ética profissional de um homem a quem não conheço,
prefiro confiar em mim mesma. Se não se importa. Ella torceu o nariz e resmungou alguns comentários - "garotas moderninhas" e "atrevidas" - mas era uma noa mulher,
e creio que só tenha dito essas coisas por mera formalidade. Sabia tão bem quanto eu que, fosse quem fosse minha nova paciente, não era nem de longe uma prostituta
de olhar cruel e saltos altos. Não; "Jane Smith" era apenas uma jovem extremamente séria e decidida - se é que alguma dessas coisas pode ser expressa por um advérbio
tão modesto como "apenas". Era uma situação desagradável (dizia-se "entrar numa enrascada", como vocês devem se lembrar; hoje em dia parece que muitas jovens se
utilizam do aborto para se livrarem de uma enrascada, e a intenção dela era levar a gravidez adiante com o máximo de disposição e dignidade. Uma semana após sua
primeira consulta ela voltou. O dia estava esplêndido - um dos primeiros dias de primavera. A temperatura estava amena, o céu azul claro e havia um aroma na brisa
um aroma fresco e indefinível que parece ser um sinal da natureza de que está entrando em seu ciclo de criação outra vez. Era o tipo do dia em que a gente tem vontade
de estar bem longe de qualquer responsabilidade, sentado ao lado de uma mulher encantadora em Coney Island, talvez, ou em Palisades na outra margem do Hudson com
uma cesta de piquenique sobre uma toalha xadrez e a mulher em questão de chapelão branco e vestido sem mangas, tão linda quanto o dia. O vestido de "Jane Smith"
tinha mangas, mas mesmo assim era quase tão lindo quanto o dia; um elegante vestido de linho branco com debrum marrom. Ela estava de escarpins marrons, luvas brancas
e um chapeuzinho ligeiramente fora de moda - foi o primeiro indício de que ela estava longe de ser uma mulher rica. - A senhorita está grávida - disse eu. - Não
acredito que tivesse dúvidas. Se ela tiver que chorar, pensei, será agora. - Não - disse ela, com uma aparência absolutamente tranqüila. Não havia qualquer sinal
de lágrimas em seus olhos, assim como não havia qualquer nuvem no horizonte aquele dia. - Minha menstruação sempre foi certa. Houve um instante de pausa. - Quando
é que vai nascer? - perguntou ela, num suspiro quase inaudível. Foi um suspiro que se dá antes de se curvar para pegar alguma coisa pesada. - Vai ser um bebê natalino
- disse eu. - Dez de dezembro é o seu ponto de referência,

Inverno no Clube - Stephen King mas pode ser duas semanas antes ou depois disso. - Está bem. - Ela hesitou um instante, e então foi em frente: - O senhor vai me
assistir? Mesmo eu não sendo casada? - Vou - disse eu. - Mas com uma condição. Ela franziu o cenho, e naquele momento seu rosto ficou mais parecido do que nunca
com o rosto de Harriet White. Ninguém poderia imaginar que o olhar contrariado de uma mulher de apenas vinte e três anos pudesse expressar tamanho receio. Ela estava
pronta para ir embora, e o fato de ter que passar por todo esse constrangimento outra vez com outro médico não iria fazê-la desistir. - E qual seria essa condição?
- perguntou ela, com uma polidez irrepreensível. Então fui eu que senti ímpetos de desviar meus olhos de seus olhos firmes cor de avelã, mas fiquei impassível. -
Faço questão de saber seu nome verdadeiro. Podemos continuar assim, como quem trata de negócios, se a senhorita preferir, e a Sra. Davidson pode continuar a prescrever
suas receitas em nome de Jane Smith. Mas se vamos continuar juntos nos próximos sete meses, eu gostaria de chamá-la pelo nome que usou a vida toda. Terminei este
pequeno discurso ridiculamente severo e observei - a refletir sobre ele. Por alguma razão eu tinha certeza de que ela iria se levantar, desculpar-se por ter tomado
o meu tempo e ir-se para não mais voltar. Eu ficaria decepcionado se isso acontecesse. Gostava dela. Mais do que isso, gostava da maneira franca com que ela estava
lidando com um problema que faria com que noventa entre cem mulheres mentissem, apavoradas com o que está crescendo lá dentro e tão profundamente envergonhadas de
sua situação que qualquer esforço no sentido de lutar contra isso se torna impossível. Creio que muitos jovens hoje em dia achariam essa situação cômica, vergonhosa
e até difícil de acreditar. As pessoas se tornaram tão ávidas em demonstrar sua tolerância, que uma gestante sem aliança recebe o dobro de cuidados. Vocês se lembram
de quando a situação era bem diferente - no tempo em que a honradez e a hipocrisia eram associadas para criar uma situação extremamente difícil para uma mulher que
tivesse se metido numa "enrascada". Naquela época, uma gestante casada era uma mulher radiante, convicta de sua postura e orgulhosa de estar cumprindo a finalidade
que considerava ser vontade de Deus. Uma gestante solteira era uma prostituta aos olhos do mundo e suscetível a considerar-se como tal. Usando uma expressão de Ella
Davidson, elas eram "fáceis", e naquele mundo e naquela época a "facilidade" não era esquecida da noite para o dia. Essas mulheres iam-se embora para ter os filhos
em sua cidade natal. Algumas tomavam remédios ou se jogavam de prédios. Outras procuravam açougueiros que praticavam aborto com mãos sujas, ou tentavam fazer o aborto
sozinhas; desde que sou médico já vi quatro mulheres morrerem de hemorragia na minha frente em decorrência de úteros perfurados - em um dos casos a perfuração foi
feita com um gargalo pontiagudo de garrafa amarrado ao cabo de um espanador de pó. Hoje em dia fica difícil acreditar que aconteciam coisas desse tipo, mas é verdade,
cavalheiros. Essas

Inverno no Clube - Stephen King coisas aconteciam. Era simplesmente a pior situação em que uma mulher sadia poderia se encontrar. - Está bem - disse ela, finalmente.
- E justo. Meu nome é Sandra Stansfield. - Ela estendeu-me a mão. Um tanto perplexo, apertei sua mão. Fiquei satisfeito que Ella Davidson não tivesse me visto fazer
isso. Não faria qualquer comentário, mas o café viria amargo por uma semana. Ela sorriu - ante minha expressão tola, imagino - e olhou para mim com sinceridade.
- Espero que sejamos amigos, Dr. McCarron. Preciso de um amigo neste momento. Estou apavorada. - Eu entendo, e tentarei ser seu amigo, se puder, Srta. Stansfield.
Posso ajudá-la em alguma coisa agora? Ela abriu a bolsa e tirou um bloquinho e uma caneta. Abriu o bloco, segurou a caneta e olhou para mim. Por um instante pensei
horrorizado que ela ia me pedir o nome e o endereço de um aborteiro. Então ela disse: - Gostaria de saber o que é melhor para comer. Para o bebê, quero dizer. Dei
uma risada. Ela me olhou um pouco espantada. - Me desculpe; é que a senhorita parece que está tratando de negócios. - Acho que sim - disse ela. meus negócios, não
é, Dr. McCarron? - É. Claro que é. E tenho um livrete que dou a todas as minhas pacientes grávidas. Trata de dieta, peso, bebida, fumo e muitas outras coisas. Por
favor, não ria quando o estiver lendo. Vou ficar magoado, pois fui eu que o escrevi. Eu o escrevi - embora fosse mais um folheto do que um livrete, e com o tempo
veio a ser o meu livro, Guia prático de gravidez e parto. Eu tinha muito interesse em obstetrícia e ginecologia naquele tempo - e ainda tenho - embora só fosse uma
área para se especializar se você tivesse uma boa clientela na zona residencial. E mesmo assim, poderia levar uns dez a quinze anos para ganhar uma boa experiência.
Como comecei a clinicar numa idade já bem madura por causa da guerra, achava que não tinha tempo a perder. Eu me contentava com a perspectiva de que veria um grande
número de gestantes felizes e traria ao mundo um grande número de bebês durante minha carreira. E foi isso mesmo; pelas minhas últimas contas tinha trazido ao mundo
mais de dois mil bebês - o bastante para encher cinqüenta salas de aula. Eu me mantinha mais atualizado com as publicações sobre gravidez e parto do que com qualquer
outra área clínica. E por serem minhas opiniões firmes e entusiásticas, preferi escrever meu próprio folheto do que adotar aquela mesmice caduca de que dispunham
as jovens mães de então. Não vou falar sobre esse catálogo inteiro de mesmices ficaríamos a noite toda aqui - mas vou citar duas delas.

Inverno no Clube - Stephen King Às mulheres grávidas era recomendado que ficassem de pé o mínimo possível, e de maneira nenhuma podiam andar uma distância perfeitamente
suportável sob o risco de correr perigo na hora do parto. Ora, parto é um negócio extremamente exaustivo, e tal conselho seria o mesmo que dizer a um jogador de
futebol nas vésperas de um grande jogo que descanse o máximo possível para não ficar cansado! Outro conselho brilhante, dado por muitos médicos bons, era que as
gestantes cujo peso estivesse acima do recomendável começassem a fumar... a fumar! Os motivos estavam claramente expressos em um slogan da época: "Fume um cigarro
ao invés de chupar uma bala." Quem pensa que quando entramos no século XX estávamos entrando também na era da ciência e do conhecimento médico não faz idéia de como
a medicina às vezes Este bebê agora faz parte dos pode ser totalmente insensata. Talvez porque essas pessoas não têm nada a perder; seus cabelos vão ficar brancos
do mesmo jeito. Dei meu livrete à Srta. Stansfield e ela examinou-o com atenção por uns cinco minutos talvez. Perguntei-lhe se permitiria que eu acendesse meu cachimbo
e ela concordou absorta, sem tirar os olhos do livrete. Quando ela finalmente levantou os olhos, havia um pequeno sorriso em seus lábios. - O senhor é um radical,
Dr. McCarron? - perguntou ela. - Por que pergunta isso? Porque aconselho às gestantes caminharem ao invés de pegarem um metrô cheio de fumaça e que anda aos trancos?
- Vitaminas para o pré-natal, o que quer que sejam... natação recomendável... e exercícios respiratórios! Que tipo de exercícios respiratórios? - Isso é para mais
tarde; e não, não sou radical. Longe disso. O problema é que estou cinco minutos atrasado para a minha próxima consulta. - Me desculpe! - Ela levantou-se rapidamente,
enfiando o alentado livrete na bolsa. - Não precisa se desculpar. Ela vestiu o casaco olhando para mim com aqueles olhos de avelã. - Não - disse ela. - Não é radical.
Suponho que seja uma pessoa bem... tranqüila. É essa a palavra? - Espero que sim - disse eu. - Gosto dessa palavra. Fale com a Sra. Davidson para lhe dar o horário
de consultas. Quero ver a senhorita no início do mês que vem. - A Sra. Davidson não me aprova. - Ora, tenho certeza de que isso não é verdade. Mas nunca fui um mentiroso
convincente, e o ambiente entre nós de repente esfriou. Não a acompanhei à porta da sala de consulta.

Inverno no Clube - Stephen King - Srta. Stansfield? Ela virou-se com um olhar frio e interrogativo. - A senhorita pretende criar seu filho? Ela me estudou por um
instante e depois sorriu - um sorriso misterioso que tenho certeza que só as mulheres grávidas conhecem. - É claro - disse ela, e saiu. Até o final daquele dia eu
já havia atendido uns gêmeos com intoxicação por plantas venenosas, lancetado um furúnculo, retirado um pedaço de metal do olho de um soldador de chapas e encaminhado
um dos meus pacientes mais antigos ao White Memorial para tratar do que com toda a certeza era um câncer. Já havia então me esquecido de Sandra Stansfield. Foi Ella
Davidson quem me lembrou ao dizer: - Talvez ela não seja uma vagabundazinha afinal de contas. Tirei os olhos da ficha do meu último paciente. Estivera correndo os
olhos nela, sentindo aquela revolta inútil que a maioria dos médicos sente quando sabem que estão de pés e mãos atados, e imaginando que eu deveria mandar fazer
um carimbo para esse tipo de pasta - ao invés de CONTAS A RECEBER ou PAGAMENTOS EFETUADOS ou PACIENTES REMOVIDOS, seria simplesmente SENTENÇAS DE MORTE. Talvez com
uma caveira e dois ossos cruzados, como nas garrafas de veneno. - Perdão, não ouvi. - A Srta. Jane Smith. Ela fez uma coisa bastante estranha depois da consulta
hoje de manhã. - A expressão do rosto e o tom de voz da Sra. Davidson deixavam claro que este era o tipo de coisa estranha que ela louvava. - E o que foi? - Quando
dei a ela o cartão de consultas, me pediu para calcular suas despesas. Todas as despesas. Inclusive o parto e as diárias do hospital. Aquilo era sem dúvida uma coisa
estranha. Estávamos em 1935, lembrem-se, e a Srta. Stansfield dava toda a impressão de ser uma mulher sozinha. Será que ela tinha uma boa situação, ou mesmo uma
situação razoável? Eu duvidava muito. O vestido, os sapatos e as luvas eram elegantes, mas ela não usava jóias - nem mesmo jóias de fantasia. E havia também o chapéu,
definitivamente fora de moda. - E você calculou? - perguntei. A Sra. Davidson olhou para mim como se eu tivesse perdido o - Se eu calculei? É claro que sim! E ela
pagou tudo. Em dinheiro vivo.

Inverno no Clube - Stephen King Esta última informação, que aparentemente mais surpreendera a Sra. Davidson (de modo bastante favorável, é claro), não me surpreendeu
em absoluto. Uma das coisas que as Jane Smiths da vida não conseguem fazer é preencher cheques. - Tirou um envelope de banco da bolsa, abriu-o e contou o dinheiro
em cima da minha mesa - continuou a Sra. Davidson. Então colocou a receita dentro do envelope, guardouo na bolsa de novo e disse até logo. Nada mau em comparação
àquelas chamadas pessoas "de bem" que temos que perseguir para que paguem as contas! Senti-me vexado por alguma razão. Não gostei da Srta. Stansfield ter feito aquilo,
nem do fato da Sra. Davidson ter ficado alegre e satisfeita com as providências, e nem comigo mesmo, por alguma razão que não consegui e nem consigo agora explicar.
Alguma coisa me fez sentir pequeno. - Mas ela não poderia pagar pelas diárias do hospital agora, poderia? - perguntei. Era um argumento ridiculamente insignificante,
mas foi só o que consegui dizer naquele momento para expressar meu ressentimento e minha frustração. - Afinal de contas, ninguém sabe quanto tempo ela vai ter que
ficar lá. Ou será que você agora está lendo a bola de cristal, Ella? - Eu disse a ela justamente isso, e ela me perguntou quanto tempo em média levava uma internação
de um parto sem problemas. Disse a ela seis dias. Não é isso mesmo, Dr. McCarron? Tive que admitir que sim. - Ela disse que nesse caso pagaria por seis dias, e se
a internação fosse mais longa ela pagaria a diferença, e se... - Se fosse mais curta, nós devolveríamos a diferença - completei aborrecido. Pensei: Essa mulher que
se dane! - e depois ri. - Ela tem coragem. E que coragem! A Sra. Davidson permitiu-se sorrir... e se agora que estou caduco for tentado a acreditar que sei tudo
o que há para se saber sobre um de meus colegas, tento me lembrar daquele sorriso: Até aquele dia eu teria apostado minha vida que eu jamais veria a Sra. Davidson,
uma das mulheres mais "pudicas" que já conheci, sorrir ternamente ao se referir a uma menina que engravidou sem ser casada. - Coragem? Não sei, doutor. Mas ela sabe
o que faz. Com toda a certeza. Um mês se passou, e a Srta. Stansfield compareceu pontualmente à consulta, surgindo daquela enorme e assombrosa massa de gente que
era e é New York. Ela usava um vestido azul de verão com o qual pretendia exteriorizar uma sensação de originalidade, de exclusividade, apesar do fato de que era
óbvio que tinha saído de um cabide com dezenas iguais a ele. Seus escarpins não combinavam com ele, eram os mesmos escarpins marrons que eu tinha visto da primeira
vez. Examinei-a cuidadosamente e achei que tudo estava normal. Disse-lhe isso e ela ficou satisfeita.

Inverno no Clube - Stephen King

- Encontrei as vitaminas do pré-natal, Dr. McCarron. - É mesmo? Isso é ótimo. Seus olhos brilharam com malícia. - O farmacêutico me aconselhou a não torná-las. -
Deus me livre dos boticários - disse eu, e ela riu com a mão sobre a boca - foi um gesto infantil que passou por cima de sua inibição. - Nunca vi um farmacêutico
que não fosse um médico frustrado. E republicano. As vitaminas do pré-natal são novidade, por isso são encaradas com desconfiança. A senhorita seguiu o conselho
dele? - Não, segui o seu. Meu médico é o senhor. - Obrigado. - Não há de quê. - Ela me olhou nos olhos, sem sorrir. Dr. McCarron, quando é que a barriga vai começar
a aparecer? - Acho que até agosto não deve aparecer. Em setembro, se a senhorita usar roupas... largas. - Obrigada. - Ela pegou a bolsa mas não se levantou imediatamente
para sair. Achei que ela queria falar... e não sabia nem por onde começar. - A senhorita trabalha, suponho. Ela fez que sim com a cabeça. - Sim, trabalho. - Posso
saber onde? Se a senhorita não quiser... Ela riu - um riso ligeiro e sem graça, tão diferente de uma risada quanto o dia da noite. - Numa loja de departamentos.
Onde mais uma mulher solteira trabalharia nesta cidade? Vendo perfumes a senhoras gordas que fazem rinsagem e permanente nos cabelos. - Até quando vai continuar
lá? - Até que meu estado delicado se torne visível. Então suponho que eu seja convidada a ir embora, para não deixar as senhoras gordas aborrecidas. O choque de
ser atendida por uma mulher grávida sem aliança pode fazer com que seus cabelos se estiquem outra vez. De repente seus olhos ficaram cheios d'água. Seus lábios começaram
a tremer e eu procurei atabalhoadamente um lenço. Mas as lágrimas não correram - apenas e somente

Inverno no Clube - Stephen King uma lágrima. Seus olhos se encheram por um momento e então se fecharam. Ela apertou os lábios... e depois relaxou. Simplesmente decidiu
que não iria perder o controle de suas emoções... e não perdeu. Foi uma coisa extraordinária de ser observada. - Me desculpe - disse ela. - O senhor tem sido muito
gentil comigo. Não vou retribuir sua gentiliza com o que seria um lugar comum. Ela se levantou para sair e eu me levantei também. - Não sou um mau ouvinte - disse
eu, - e tenho tempo. Meu próximo cliente cancelou a consulta. - Não - disse ela. - Obrigada, mas não. - Está bem - disse eu. - Mas tem outra coisa. - O quê? - Não
é meu costume fazer com que meus clientes - qualquer cliente - pague adiantado pelos serviços. Espero que a senhorita... isto é, se a senhorita quisesse... ou tivesse
que... - E me calei desajeitadamente. - Moro em New York há quatro anos, Dr. McCarron, e sou econômica por natureza. Depois de agosto - ou setembro - terei de viver
com as minhas economias até poder voltar a trabalhar. Não é uma grande quantia, e às vezes, principalmente durante a noite, fico apreensiva. Ela me olhava com firmeza
com aqueles maravilhosos olhos de avelã. - Achei melhor - mais seguro - pagar logo para ter o bebê. Antes de qualquer coisa. Porque para mim o bebê está em primeiro
lugar, e porque mais tarde a tentação de gastar esse dinheiro pode se tornar muito grande. - Está bem - disse eu. - Mas, por favor, lembre-se de que considero isso
um pagamento adiantado. Se precisar do dinheiro, é só falar. - E despertar o mau gênio da Sra. Davidson outra vez? - O olhar maroto voltou aos seus olhos. - De jeito
nenhum. Mas, doutor... - Você pretende trabalhar o máximo de tempo possível? Tanto quanto for possível? - Pretendo. Eu tenho que trabalhar. Porquê? - Acho que vou
assustá-la um pouco antes que vá embora - disse eu. Seus olhos se arregalaram um pouco. - Não faca isso - disse ela. - Já estou bastante assustada.

Inverno no Clube - Stephen King - É por isso mesmo. Sente-se um pouco, Srta. Stansfield. Mas ela continuou de pé, e eu acrescentei: - Por favor. Ela sentou-se. Relutante.
- A senhorita está numa situação delicada e nada invejável disse a ela, sentado no canto da minha mesa. - Está levando tudo com uma dignidade excepcional. Ela começou
a falar, mas levantei a mão para que esperasse. - Isso é bom. Eu lhe cumprimento por isso. Mas não gostaria de vê-la machucar seu bebê por causa de segurança financeira.
Tive uma cliente que, apesar das minhas incansáveis advertências, continuou a se apertar dentro de uma cinta mês após mês, apertando-a cada vez mais. Era uma mulher
vaidosa, ignorante e desagradável, e não acredito que ela quisesse mesmo o filho. Não concordo com muitas dessas teorias do subconsciente sobre as quais todo mundo
discute hoje em dia em frente a tabuleiros de dominó chinês, mas se concordasse diria que ela, ou alguma parte dela, estava tentando matar o bebê. - E ela matou?
- Sua expressão era de tranqüilidade. - Não, não matou. Mas o bebê nasceu retardado. É bem possível que fosse retardado de qualquer jeito, e não estou dizendo O
contrário - sabemos muito pouco sobre as causas desse tipo de coisa. Mas ela pode ter causado isso. - Eu entendo - disse ela, em voz baixa. - O senhor não quer que
eu... me aperte para poder trabalhar um mês ou seis semanas a mais. Confesso que cheguei a pensar nisso. Portanto... obrigada pelo susto. Desta vez, acompanhei-a
até a porta. Gostaria de ter perguntado a ela quanto - se muito ou pouco - havia deixado naquele envelope com as suas economias, e até quando aquela quantia iria
dar. Era uma pergunta que ela não responderia; eu sabia disso muito bem. Por isso, apenas me despedi e fiz um comentário engraçado a respeito das vitaminas. Ela
foi embora. Durante o mês seguinte me pegava pensando nela em momento ociosos, e... Neste ponto, Johanssen interrompeu a história de McCarron. Os dois eram velhos
amigos, e suponho que isso lhe desse o direito de fazer a pergunta que com certeza todos tínhamos na cabeça. - Você a amava, Emlyn? É sobre isso a história, esse
negócio sobre os olhos e o sorriso dela e de como você "pensava nela em momentos ociosos?" Achei que McCarron pudesse ficar chateado com esta interrupção, mas não
ficou. - Você tem o direito de perguntar isso - disse ele, e se calou, olhando para o fogo. Parecia que ele estava prestes a cochilar. Então um pedaço de madeira
seca estalou, fazendo com que pedacinhos de brasa subissem pela chaminé, e McCarron olhou à sua volta, primeiro para Johanssen e depois para todos nós.

Inverno no Clube - Stephen King

- Não. Eu não a amava. As coisas que falei sobre ela parecem coisas que um homem teria notado se estivesse se apaixonando seus olhos, seus vestidos, seu sorriso.
- Ele acendeu o cachimbo com um isqueiro peculiar que levava sempre consigo, aspirando a chama até formar uma camada de brasa. Então fechou o isqueiro, colocou-o
no bolso do casaco e soltou uma nuvem de fumaça que desceu devagar sobre sua cabeça como uma névoa aromática. - Eu a admirava. nada mais do que isso. E minha admiração
aumentava a cada consulta. Acho que alguns de vocês pensam que esta é uma história de amor interrompida pelas circunstâncias. Nada poderia estar mais longe da verdade.
A história dela me foi contada aos poucos durante os seus meses seguintes, e quando vocês ouvirem-na, acho que concordarão que era uma história tão comum quanto
ela disse que era. Tinha sido atraída pela cidade como milhares de outras garotas; tinha vindo de uma cidade pequena... ... em lowa ou Nebraska. Ou talvez fosse
Minnesota - não me lembro mais. Ela tinha feito teatro na escola e no teatro comunitário da sua cidadezinha - com comentários favoráveis no hebdomadário local escritos
por um crítico teatral formado em Inglês pelo Cow and Sileage Junior College - e veio para Nova Iorque tentar uma carreira de atriz. Ela era prática mesmo com relação
a isso - tão prática quanto uma ambição teórica nos deixa ser. Veio para Nova Iorque, disse-me, porque não acreditava na tese despojada das revistas de cinema -
que qualquer garota que fosse para Hollywood poderia se tornar uma estrela, que num dia podia estar tomando soda no Schwab's Drugstore e no dia seguinte estar contracenando
com Gable ou MacMurray. Veio para Nova Iorque, disse ela, porque pensou que pudesse ser mais fácil começar aqui... e, acho eu, porque se interessava mais pelo teatro
do que pelo cinema. Conseguiu um emprego numa das grandes lojas de departamentos e entrou num curso de teatro. Era inteligente e decidida, essa garota - tinha uma
enorme força de vontade mas era humana como qualquer pessoa. Era solitária também. Solitária no sentido que talvez apenas garotas solteiras recém-chegadas de cidadezinhas
do meio-oeste compreendam. Nem sempre a nostalgia é um sentimento indefinido, melancólico e quase belo, embora seja assim que sempre a imaginamos. Pode ser uma lâmina
bem afiada, não apenas uma doença em metáfora mas também de fato. Ela pode mudar o modo de uma pessoa encarar o mundo; as caras com as quais se cruza nas ruas parecem
não apenas insignificantes, mas também medonhas... talvez até nefastas. A nostalgia é uma doença real a dor da planta arrancada. A Srta. Stansfield, por mais admirável
que possa ter sido, por mais determinação que possa ter tido, não era imune a isso. E o que vem depois disso é tão banal que nem é preciso contar. Havia um rapaz
na sua aula de teatro. Os dois saíram diversas vezes. Ela não o amava, mas precisava de um amigo. Quando ela descobriu que ele não era aquilo que ela pensava e que
jamais seria, já haviam ocorrido dois incidentes. Incidentes sexuais. Ela descobriu que estava grávida. Contou a ele, que lhe disse que iria ajudá-la e "agir condignamente".
Uma semana depois ele havia desaparecido de onde morava, sem deixar qualquer endereço. Foi então que ela me procurou.

Inverno no Clube - Stephen King No seu quarto mês de gravidez, apresentei à Srta. Stansfield o Método Respiratório - o que hoje em dia é chamado de Método Lamaze.
Naquele tempo, vocês sabem, Monsieur Lamaze ainda não era conhecido. Naquela época - já repeti essa expressão várias vezes, sei disso. Desculpem, mas não posso fazer
nada - tudo o que já contei e ainda vou contar aconteceu assim porque foi "naquela época". Assim... "naquela época", há quarenta e cinco anos atrás, uma visita à
sala de parto de qualquer grande hospital americano teria parecido mais uma visita a um hospício. Mulheres chorando desesperadamente, dizendo aos berros que preferiam
morrer, que não agüentavam tanta dor, pedindo a Deus que perdoasse seus pecados, desfiando blasfêmias e impropérios que seus pais e maridos nunca imaginariam que
elas soubessem. Tudo isso é bem aceitável, apesar do fato de que a maioria das mulheres de todo o mundo dão à luz quase que em silêncio absoluto, com exceção dos
resmungos de esforço que associaríamos a qualquer trabalho físico pesado. Os médicos eram responsáveis por parte dessa histeria, sinto dizer isso. As histórias que
as gestantes ouviam de amigas e parentes que já tinham passado por isso também contribuíam. Podem acreditar: se disserem a vocês que alguma experiência vai doer,
ela vai doer. Grande parte da dor está na cabeça, e quando uma mulher encasqueta a idéia de que o ato de dar à luz é terrivelmente doloroso - quando ela recebe esta
informação da mãe, das irmãs, das amigas casadas, e do seu médico - ela já está mentalmente preparada para sentir uma enorme dor. Mesmo depois de apenas seis anos
de prática, já tinha me acostumado a ver mulheres tentando lutar contra um problema duplo: não apenas o fato de estarem grávidas e terem que preparar tudo para o
recém-nascido, mas também o fato de que - o que muitas consideravam como fato - tinham entrado no vale da sombra da morte. Na verdade, muitas tentavam deixar tudo
na mais absoluta ordem, pois caso morressem seus maridos poderiam se virar sem elas. Agora não é hora nem lugar para uma aula de obstetrícia, mas vocês devem saber
que durante muito tempo, até "aquela época", o parto era extremamente perigoso em países ocidentais. Uma revolução no procedimento médico, por volta de 1900, tornou
o processo muito mais seguro, mas um número ridiculamente pequeno de médicos insistiam em contar esse tipo de coisa às futuras mães. Só Deus sabe por quê. Em vista
disso, é de se admirar que a maioria das salas de parto parecesse uma enfermaria de hospício? Aqui estão essas pobres mulheres, sua hora finalmente tendo chegado,
passando por uma experiência que, por causa do decoro quase vitoriano da época, lhes foi descrita da maneira mais obscura; aqui estão essas mulheres sentindo a máquina
de fazer nascer funcionando a todo vapor. Elas são tomadas por um misto de medo e surpresa que transformam imediatamente numa dor insuportável, e a maioria pensa
que logo morrerá como um cachorro. Enquanto eu lia a respeito de gravidez, descobri o princípio do parto silencioso e o objetivo do Método Respiratório. Gritar desperdiça
uma energia que seria melhor aproveitada para expulsar o bebê, causa uma oxigenação excessiva do sangue que deixa o corpo em estado de emergência - descargas enormes
de adrenalina, aumento do ritmo

Inverno no Clube - Stephen King respiratório e cardíaco - o que é absolutamente desnecessário. O objetivo do Método Respiratório é fazer com que a mãe concentre
sua atenção no trabalho de parto e lute contra a dor com os próprios recursos de seu corpo. Este método era largamente empregado na Índia e na África; nos Estados
Unidos, pelos índios Shoshone, Kiowa e Micmac; os esquimós sempre se utilizaram dele; mas, como vocês devem imaginar, a maioria dos médicos ocidentais nunca se interessou
muito por isso. Um colega meu - um sujeito inteligente - devolveu meu folheto de gravidez no outono de 1931 com um risco vermelho sobre toda a parte do Método Respiratório.
Na margem ele escreveu que se estivesse interessado em "superstições de negros" 'iria à banca de jornal comprar um exemplar de Histórias Fantásticas! Bem, não retirei
do folheto a parte que ele havia sugerido, mas eu já tinha tido êxitos e fracassos com o método - isso era o melhor que se poderia dizer. Houve mulheres que usaram-no
com muito sucesso. Houve outras que davam a impressão de ter entendido perfeitamente a idéia em princípio mas que perdiam completamente a disciplina assim que as
contrações se tornavam fortes e rápidas. Descobri que na maior parte desses casos toda a idéia tinha sido deturpada e destruída por amigas e parentes bemintencionadas
que nunca tinham ouvido falar de uma coisa dessas, e portanto não poderiam acreditar que realmente funcionasse. O método baseava-se na idéia de que, embora não haja
dois trabalhos de parto iguais em aspectos específicos, todos são bem parecidos em aspectos gerais. Existem quatro estágios: contrações, dilatação, expulsão e expulsão
da placenta. As contrações são um endurecimento completo dos músculos abdominais e pélvicos, e a futura mãe começa a senti-las no sexto mês. Muitas mulheres grávidas
pela primeira vez imaginam que vão sentir algo desagradável, como cólicas intestinais, mas me disseram que é muito menos pungente - uma sensação física forte, que
pode se transformar numa dor como de cãibra. Uma mulher que fizesse uso do Método Respiratório começaria a respirar numa série de aspirações e expirações curtas
e compassadas ao sentir o início de uma contração. A expiração seria um sopro, como Dizzy Gillespie soprando um trompete. Durante a dilatação, quando as contrações
são mais dolorosas num intervalo de quinze minutos aproximadamente,. a aspiração e a expiração são longas - é assim que corredores de maratona respiram quando estão
chegando ao fim da corrida. Quanto mais forte for a contração, mais longa será a respiração. No meu folheto, dei a esta etapa o nome de "cavalgando sobre as ondas".
A etapa final dei o nome de "locomotiva", e os seguidores de Lamaze hoje em dia chamam de etapa "xu-xu" de respiração. A fase de expulsão é acompanhada de dores
freqüentemente descritas como profundas e agudas, associadas a uma necessidade irresistível da mãe de fazer força... para expulsar o bebê. Este é o ponto, cavalheiros,
em que aquela máquina maravilhosa e assustadora alcança seu clímax. O colo do útero está totalmente dilatado. O bebê já iniciou sua curta viagem pelo canal vaginal,
e se olhássemos diretamente entre as pernas da mãe, poderíamos ver a fontanela do bebê pulsando a apenas alguns centímetros. A parturiente que se utiliza do Método
Respiratório começa neste momento a fazer aspirações e expirações curtas e fortes pela boca meio fechada, sem encher os pulmões, sem oxigenar demais o sangue, mas
quase ofegando de forma controlada. É o barulho que as crianças fazem quando imitam uma

Inverno no Clube - Stephen King locomotiva a vapor. Tudo isso produz um efeito salutar no corpo - a taxa de oxigênio da mãe se mantém alta sem que seu organismo
entre em estado de emergência, e ela própria se mantém informada e atenta, podendo fazer perguntas e receber instruções. Porém o mais importante eram os efeitos
mentais do Método Respiratório. A parturiente sentia que estava participando ativamente do Nascimento do filho - que de alguma forma estava comandando o processo.
Ela sentia que estava controlando a experiência... e controlando a dor. Vocês podem perceber que todo o processo dependia totalmente do estado psicológico da paciente.
O Método Respiratório era extremamente vulnerável, extremamente delicado, e se ele fracassou muitas vezes comigo, a minha explicação é esta. aquilo de que um médico
convence uma paciente, seus parentes podem convencê-la do contrário, horrorizados ao tomarem conhecimento de uma prática tão selvagem. Pelo menos sob esse aspecto
a Srta. Stansfield era a paciente ideal. Não tinha parentes ou amigos para convencê-la a desacreditar no Método Respiratório (embora, para falar a verdade, eu deva
acrescentar que duvido que alguém tivesse conseguido dissuadi-la de qualquer coisa depois de ela ter tomado uma decisão sobre o assunto) depois que ela passou a
acreditar nele. E ela passou a acreditar nele. - É um pouco como auto-hipnose, não é? - ela perguntou, na primeira vez que falamos no assunto. Concordei, encantado.
- Exatamente! Mas não vá pensar que é um truque, ou que vai deixá-la deprimida quando o negócio ficar difícil. - De jeito nenhum. Estou muito grata ao senhor. Vou
praticar assiduamente, Dr. McCarron. - Ela era o tipo de mulher para a qual o Método Respiratório fora inventado, e quando ela me disse que iria praticá-lo, estava
dizendo a pura verdade. Eu nunca tinha visto alguém aceitar uma idéia com tanto entusiasmo... mas, é claro, o Método Respiratório adaptava-se perfeitamente ao seu
temperamento. Há milhões de homens e mulheres dóceis neste mundo, e algumas dessas pessoas são extraordinárias. Mas há outras cujas mãos anseiam por segurar as rédeas
de suas próprias vidas, e a Srta. Stansfield era uma dessas. Quando digo que ela adotou totalmente Método Respiratório, estou falando sério... e acho que a história
de seu último dia na loja de departamentos onde vendia perfumes e cosméticos é uma prova concreta. Ela perdeu finalmente seu lucrativo emprego no final de agosto.
A Srta. Stansfield era uma jovem magra de boa condição física e este era, claro, seu primeiro filho. Qualquer médico diria que um tipo desses de mulher não se faz
"notar" até o quinto ou sexto mês... e então, de repente, um dia fica tudo evidente. Ela veio para a consulta mensal no dia 1° de setembro, com um sorriso triste,
e me disse

Inverno no Clube - Stephen King ter descoberto outra utilidade para o Método Respiratório. - Qual é? - perguntei. - É melhor do que contar até dez quando se está
morrendo de raiva de alguém - disse ela. Seus olhos de avelã estavam brilhando. - Embora olhem para você como se você fosse louco quando começa a bufar e soprar.
Ela me contou a história sem demora. Fora trabalhar na segunda-feira anterior, como de costume, e eu só posso deduzir que a rápida e curiosa transformação de uma
jovem esbelta em uma jovem grávida - e essa transformação pode acontecer do dia para a noite nos trópicos - tenha se dado no final de semana. Ou talvez sua supervisora
tenha por fim se convencido de que suas suspeitas não eram mais apenas suspeitas. - Quero que vá à minha sala no intervalo - disse, friamente, a tal da Sra. Kelly.
O relacionamento entre as duas já havia sido bastante cordial. A Sra. Kelly lhe mostrara fotografias de seus dois filhos, ambos no segundo grau, e as duas chegaram
inclusive a trocar receitas. A Sra. Kelly sempre lhe perguntava se ela já tinha encontrado "um bom rapaz". Aquela gentileza e a cordialidade haviam desaparecido.
E quando ela entrou na sala da Sra. Kelly, sabia o que esperava por ela, disse-me. - Você está numa enrascada - disse, laconicamente, aquela mulher antes gentil.
- Eu sei - disse a Srta. Stansfield. - É assim que algumas pessoas chamam. O rosto da Sra. Kelly ficou da cor de um tijolo. - Não se faça de engraçadinha comigo,
mocinha - disse ela. - Pelo tamanho da sua barriga você já deu provas da sua esperteza. Eu podia imaginar a cena enquanto ela me contava a história - a Srta. Stansfield,
com seus olhos de avelã fixos na Sra. Kelly, absolutamente calma, sem querer baixar os olhos, ou chorar, ou mostrar-se envergonhada. Acredito que ela tivesse uma
noção muito mais prática da enrascada em que se metera do que a sua supervisora, mãe de dois filhos crescidos e mulher de um sujeito honesto, que tinha uma barbearia
e votava no Partido Republicano. - Quero dizer que você não se envergonha nem um pouco por ter me enganado desse jeito - exclamou a Sra. Kelly, com rancor. - Eu
nunca enganei a senhora. Até hoje minha gravidez não tinha sido mencionada. Ela olhou interrogativamente para a Sra. Kelly. - Como pode dizer que enganei a senhora?
- Eu levei você na minha casa! - exclamou a Sra. Kelly. Convidei você para jantar... com os meus filhos. - Ela olhava para a Srta. Stansfield com total repugnância.
Foi então que a Srta. Stansfield começou a ficar indignada. Mais indignada do que nunca, me disse ela. Sabia muito bem que tipo de reação poderia esperar quando
o

Inverno no Clube - Stephen King segredo fosse descoberto, mas como todos vocês sabem, a diferença entre a teoria acadêmica e a aplicação prática pode às vezes ser
enorme. Segurando firmemente uma mão na outra sobre o colo, a Srta. Stansfield disse: - Se a senhora está insinuando que eu fiz ou que faria qualquer tentativa de
seduzir seus filhos, isso é a coisa mais suja, mais baixa que já ouvi na vida. A Sra. Kelly jogou a cabeça para trás como se tivesse levado um tapa na cara. A cor
avermelhada desapareceu de seu rosto, ficando apenas duas manchinhas róseas nas bochechas. As duas mulheres entreolhavam-se duramente por sobre uma mesa coberta
de amostras de perfume numa sala que cheirava ligeiramente a flores. Foram momentos, disse a Srta. Stansfield, que pareceram muito mais longos do que na verdade
foram. Então a Sra. Kelly abriu com um puxão uma das gavetas e tirou um cheque amareloclaro. Preso a ele havia um papelzinho cor-de-rosa de rescisão de contrato
de trabalho. Com os dentes à mostra, parecendo morder cada palavra, ela disse: - Com centenas de moças decentes à procura de emprego nesta cidade, não acho que precisamos
de uma vagabunda como você aqui, querida. Ela me disse que foi o termo "querida", dito de forma arrogante, que fez com que sua raiva se transformasse numa súbita
calma. No instante seguinte o queixo da Sra. Kelly caiu e seus olhos se esbugalharam quando a Srta. Stansfield, com as mãos tão fortemente entrelaçadas quanto os
elos de uma corrente de aço, tão apertadas que ficaram com equimoses (já estavam desaparecendo, mas ainda perfeitamente visíveis quando estive com ela no dia 19
de setembro), começou a fazer a "locomotiva" por entre os dentes. Talvez não fosse uma história engraçada, mas eu caí na gargalhada imaginando a cena e a Srta. Stansfield
também. A Sra. Davidson veio dar uma olhada - para ver se não estávamos envoltos numa nuvem de gás hilariante - e depois saiu. - Era a única coisa que eu podia fazer
- disse a Srta. Stansfield, ainda rindo e enxugando os olhos com um lenço. - Porque naquele momento me vi varrendo aqueles frascos de perfume todos, sem exceção
- de cima da mesa para o chão, que era de cimento. Eu não imaginei apenas, eu vi! V i os frascos se quebrarem no chão e encherem a sala com um fedor tão horrível
de perfumes misturados que eles teriam que fazer uma fumigação, Eu ia fazer aquilo; nada iria me impedir. Então comecei afazer a "locomotiva" e tudo ficou bem. Pude
pegar o cheque e o papelzinho cor-de-rosa, me levantar e sair. Não consegui agradecer a ela, é claro - eu ainda estava fazendo a "locomotiva". Rimos outra vez, e
então ela ficou séria. - Agora que já passou, sinto até um pouco de pena dela - ou será que fica piegas dizer isso? - Absolutamente. Acho que é admirável ser capaz
de sentir isso.

Inverno no Clube - Stephen King - Posso lhe mostrar o que comprei com o dinheiro do aviso prévio, Dr. McCarron? - Claro, se quiser. Ela abriu a bolsa e tirou de
dentro uma caixinha chata. - Comprei numa casa de penhores - disse ela. - Por dois dólares. E foi a única vez nesse pesadelo todo que me senti envergonhada e sórdida.
Não é estranho? Ela abriu a caixa e colocou sobre a minha mesa para que eu pudesse ver. Não fiquei surpreso com o que vi. Era uma aliança de ouro. - Farei o que
for necessário - disse ela. - Vou continuar no lugar que a Sra. Kelly teria sem dúvida chamado de "pensão familiar". A minha senhoria tem sido gentil e amável...
mas a Sra. Kelly também era gentil e amável. Acho que ela pode me pedir para sair a qualquer momento, e imagino que se eu disser qualquer coisa sobre meu saldo ou
sobre o depósito para cobrir danos que fiz quando me mudei para lá, ela vai rir na minha cara. - Minha querida jovem, isso é totalmente ilegal. Existem tribunais
e advogados para ajudá-la a responder tais... - Os tribunais são clubes masculinos - disse ela, com firmeza, - incapazes de se darem o trabalho de ajudar uma mulher
na minha situação. Talvez eu conseguisse reaver meu dinheiro, talvez não. De qualquer maneira, a despesa e o aborrecimento dificilmente valeriam os quarenta e sete
dólares. Não era minha intenção lhe contar isso. Ainda não aconteceu, e talvez não aconteça. Mas de qualquer modo, pretendo ser prática daqui para a frente. Ela
levantou a cabeça, e seus olhos brilharam para os meus. - Tenho um lugar em vista no Village - só por garantia. Fica num terceiro andar, mas é limpo, e é cinco dólares
a menos por mês do que onde estou agora. - Ela tirou a aliança da caixa. - Eu estava de aliança quando a senhoria me mostrou o quarto. Ela colocou a aliança no dedo
anular da mão esquerda e fez uma careta que acredito que não tenha se dado conta. - Pronto. Agora sou a Sra. Stansfield. Meu marido era motorista de caminhão e morreu
na estrada de Pittsburgh para Nova Iorque. Muito triste. Porém não sou mais uma prostituta de salto alto, e meu filho não é mais um bastardo. Ela olhou para mim,
e havia lágrimas em seus olhos outra vez. Enquanto eu a olhava, uma lágrima correu por sua face. - Ora - disse eu, aflito, e alcancei sua mão do outro lado da mesa.
Estava muito, muito fria. - Não fique assim. Ela virou sua mão - era a esquerda - na minha mão e olhou para a aliança. Sorriu, e aquele sorriso era amargo como fel
e vinagre, cavalheiros. Outra lágrima escorreu - e só

Inverno no Clube - Stephen King mais essa. - Quando eu ouvir os céticos dizerem que a era das mágicas e dos milagres terminou, Dr. McCarron, saberei que estão enganados,
não é? Quando se pode comprar uma aliança numa casa de penhores por dois dólares e essa aliança elimina tanto a bastardia quanto a licenciosidade, que outro nome
o senhor daria a isso que não fosse mágica? Mágica barata. - Srta. Stansfield... Sandra, se eu puder... se você precisar de ajuda, se houver alguma coisa que eu
possa fazer... Ela tirou sua mão das minhas - se eu tivesse pego sua mão direita em vez da esquerda, talvez ela não tivesse feito isso. Eu não a amava, já lhes disse,
mas naquele momento eu poderia tê-la amado; eu estava a um passo de me apaixonar por ela.- Talvez se eu tivesse pego sua mão direita ao invés da que tinha a aliança,
e se ela tivesse deixado que eu a segurasse um pouco mais, até que minha mão a esquentasse, talvez então eu tivesse me apaixonado. - O senhor é um homem bom e gentil,
e tem feito muito por mim e pelo meu bebê... e o seu Método Respiratório é uma mágica bem melhor do que esta aliança horrorosa. Afinal, o Método Respiratório evitou
que eu fosse presa por destruição intencional, não é? Ela se foi logo depois, e fui até a janela para vê-la descer a rua em direção à Quinta Avenida. Meu Deus, como
admirei-a naquele momentos Era tão esguia, tão jovem e a gravidez era evidente mas não demonstrava qualquer timidez ou falta de segurança. Ela não andava às pressas;
seguia como se tivesse todo o direito ao seu lugar na calçada. Ela sumiu de vista e voltei para a minha mesa. Neste momento, meus olhos foram atraídos pela fotografia
emoldurada que ficava na parede ao lado do meu diploma e senti um calafrio percorrer meu corpo. Minha pele - o corpo inteiro, até mesmo minha testa e o dorso das
mãos - arrepiou-se toda. Um medo sufocante, o ma sor de toda a minha vida, cobriu-me como uma terrível mortalha, e senti falta de ar. Foi uma premonição, cavalheiros.
Eu não discuto se esse tipo de coisa pode ou não acontecer; sei que pode, pois aconteceu comigo. Apenas uma vez, naquela tarde quente de setembro. Peço a Deus que
não me aconteça mais isso. A fotografia tinha sido tirada por minha mãe no dia em que terminei a faculdade. Eu estava em frente ao White Memorial, com as mãos para
trás, rindo com todos os dentes como um guri que tivesse acabado de ganhar ingressos para um dia inteiro num parque de diversões. A minha esquerda pode-se ver a
estátua de Harriet White, e embora a fotografia corte-a pelas canetas, o pedestal e aquela inscrição estranhamente cruel - Não há bem-estar sem dor, a salvação virá
através do sofrimento - estavam bem nítidos. Foi no pé da estátua da primeira mulher do meu pai, bem debaixo daquela inscrição, que Sandra Stansfield morreu menos
de quatro meses depois num acidente estúpido assim que chegou ao hospital para ter o bebê. Ela mostrava-se um pouco preocupada naquele outono com a hipótese de eu
não estar presente ao seu parto - que eu fosse passar as festas fora ou não estivesse disponível.

Inverno no Clube - Stephen King Estava meio temerosa de dar à luz com outro médico que não desse ouvidos à sua vontade de usar o Método Respiratório e lhe aplicasse
um gás anestésico ou uma anestesia raquiana. Eu disse a ela que não se preocupasse. Não tinha motivos para me ausentar da cidade, não tinha parentes para visitar
nos feriados. Minha mãe tinha morrido dois anos antes, e eu não tinha mais ninguém além de uma tia solteirona na Califórnia... e eu não gostava de viajar de trem,
disse eu à Srta. Stansfield. - O senhor está sempre sozinho? - perguntou ela. - As vezes. Geralmente estou ocupado demais. Tome isto aqui. - Anotei meu telefone
de casa num cartão e dei a ela. - Se o serviço de recados atender quando seu trabalho de parto começar, telefone para cá. - Não, eu não queria... - Quer usar o Método
Respiratório ou quer ficar nas mãos de um médico que pense que você ficou louca e faça você respirar éter assim que começar a fazer a "locomotiva"? Ela deu um breve
sorriso. - Está bem. Já me convenceu. Mas enquanto o outono avançava e os açougueiros da Terceira Avenida começaram a anunciar suas "carnes frescas e suculentas"
a preços módicos, ficou claro que ela ainda não estava tranqüila. Tinha sido convidada a se mudar do lugar onde morava quando a conheci, e estava morando no Village.
Mas isso, pelo menos, tinha sido muito bom para ela. Tinha até arranjado uma espécie de trabalho. Uma mulher cega com uma renda bem razoável a tinha contratado para
fazer tarefas domésticas leves e ler para ela as obras de Gene Stratton e Pearl Buck. Morava no primeiro andar do prédio para onde a Srta. Stansfield se mudara.
A Srta. Stansfield estava com aquela aparência viçosa que a maioria das mulheres saudáveis adquirem no último trimestre de gravidez. Mas havia uma sombra em seu
rosto. Eu falava com ela e ela demorava a responder... e uma vez, quando não respondeu nada, tirei os olhos das anotações que estava fazendo e a vi olhando para
a fotografia emoldurada ao lado do meu diploma com um olhar estranho e sonhador. Lembrei-me vivamente daquele calafrio... e a sua resposta, que não tinha nada a
ver com a minha pergunta, não me deixou mais calmo. - Tenho uma sensação, Dr. McCarron, às vezes uma sensação bem forte, de que estou condenada. Que palavra boba
e melodramática! E ainda assim, cavalheiros, a resposta que estava na ponta da minha língua era essa: É verdade, eu também tenho essa sensação. Mordi a língua, é
claro; um médico que disser esse tipo de coisa deve vender imediatamente seus instrumentos e livros e virar carpinteiro ou bombeiro. Eu lhe disse que ela não era
a primeira grávida a sentir essas coisas, e não seria a última. Disse-lhe que essa sensação era sem dúvida tão comum que os médicos chamavam-na

Inverno no Clube - Stephen King de Síndrome do Vale das Sombras. Acho que já falei nisso hoje. A Srta. Stansfield assentiu com seriedade, e me lembro como ela parecia
jovem aquele d ia e como parecia grande sua barriga. - Eu sei disso - disse ela. - Eu senti. Mas é bem diferente dessa outra sensação. Essa outra sensação é como...
é como um vulto se agigantando. Não sei explicar melhor que isso. É bobagem, mas não consigo tirar da cabeça. - Deve tentar- disse eu. - Não é bom para o... Mas
ela não estava mais prestando atenção em mim. Estava olhando para a fotografia outra vez. - Quem é? - Emlyn McCarron - disse eu, tentando fazer uma brincadeira;
pareceu bastante medíocre. - Antes da Guerra Civil, quando ele era bem jovem. - Não, eu reconheci o senhor, sem dúvida nenhuma - disse ela. - A mulher. Só se nota
que é uma mulher pela barra da saia e pelo sapato. Quem é ela? - O nome dela é Harriet White - disse eu, e pensei: e será ela a primeira coisa que você verá quando
for ter o bebê. O calafrio voltou - aquele calafrio desagradável, indescritível. Sua cara de pedra. - E o que é que está escrito na base da estátua? - perguntou
ela, seu olhar ainda sonhador, quase hipnótico. - Não sei - menti. - Meu latim não dá para tanto. Naquela noite tive o pior pesadelo de toda a minha vida acordei
aterrorizado, e se eu fosse casado, creio que teria matado minha pobre mulher de susto. No sonho eu abri a porta do meu consultório e encontrei Sandra Stansfield
lá. Ela estava com os escarpins marrons, o elegante vestido de linho branco com debrum marrom e com o chapéu ligeiramente fora de moda. Mas o chapéu estava entre
os seus seios, porque ela estava segurando sua cabeça nos braços. O vestido branco estava cheio de manchas de sangue. O sangue jorrava do seu pescoço e salpicava
o teto. E então seus olhos se abriram - aqueles lindos olhos de avelã - e fitaram os meus. - Condenada - disse-me aquela cabeça falante. - Condenada. Estou condenada.
Não há bem-estar sem dor. É uma mágica vulgar, mas é tudo que temos. Foi quando acordei aos gritos. A data provável do parto, 10 de dezembro, passou em branco. Examinei-a
no dia 17 de dezembro e disse-lhe que, já que era quase certo que o bebê nascesse em 1935, eu não

Inverno no Clube - Stephen King esperava que ele viesse ao mundo até depois do Natal. A Srta. Stansfield aceitou minha opinião de bom grado. Parecia haver se livrado
da expressão sombria que tomara conta dela durante o outono. A Sra. Gibbs, a mulher cega que a contratara para ler em voz alta e fazer tarefas domésticas leves,
estava impressionada com ela - impressionada a ponto de comentar com as amigas sobre a corajosa e jovem viúva que, apesar da sua recente viuvez e da situação delicada
em que se encontrava, encarava o futuro com muita determinação e ânimo. Várias amigas da senhora cega manifestaram interesse em contratá-la após o nascimento do
bebê. - Eu também vou precisar delas - disse-me. - Para cuidar do bebê. Mas só até eu me recuperar a achar um emprego fixo. As vezes penso que o pior disso tudo
- de tudo o que aconteceu - é que mudou o modo de eu ver as pessoas. As vezes penso comigo: "Como é que você consegue dormir, sabendo que enganou aquela velhinha
simpática?" e então digo: "Se ela soubesse, mostraria o caminho da rua para você, como qualquer outra pessoa." De qualquer maneira é uma mentira, e às vezes sinto
um peso na consciência. Antes de ir-se embora aquele dia, tirou da bolsa um pequeno embrulho de papel colorido e empurrou-o timidamente sobre a mesa para mim. -
Feliz Natal, Dr. McCarron. - Você não devia se preocupar - disse eu, abrindo uma gaveta e tirando outro embrulho. - Mas já que eu também... Ela me olhou surpresa
por alguns instantes... e começamos a rir. Ela havia me dado um prendedor de gravata prateado com um caduceu. Eu tinha comprado para ela um álbum para guardar as
fotografias do bebê. Eu ainda tenho o prendedor de gravata; como vocês podem ver, estou usando-o esta noite. O que aconteceu com o álbum, não posso dizer. Levei-a
até a porta, e quando nos aproximamos, ela virou-se para mim, pôs as mãos nos meus ombros, ficou na ponta dos pés e me deu um beijo na boca. Seus lábios estava frios
e rijos. Não foi um beijo apaixonado, cavalheiros, mas também não foi um beijo que se espera receber de uma irmã ou uma tia. - Obrigada mais uma vez, Dr. McCarron
- disse ela, um pouco ofegante. Estava com as faces coradas e seus olhos de avelã brilhavam intensamente. - Obrigada por tudo. Eu ri - um pouco sem jeito. - Você
fala como se não fôssemos nos ver mais, Sandra. Acredito que esta tenha sido a segunda e última vez que a chamei pelo nome. - Nós nos veremos - disse ela. - Não
tenho a menor dúvida. E ela estava certa - embora nenhum de nós pudesse prever as terríveis circunstâncias do nosso último encontro. Sandra Stansfield entrou em
trabalho de parto na véspera de Natal, logo depois das seis

Inverno no Clube - Stephen King da tarde. Aquela hora, a neve que vinha caindo o dia todo tinha virado granizo. E quando a Srta. Stansfield já estava na fase de
dilatação, umas duas horas depois, as ruas estavam cobertas por uma perigosa camada de gelo. A Sra. Gibbs, a mulher cega, tinha um espaçoso e amplo apartamento térreo,
e às 18:30h a Srta. Stansfield desceu cuidadosamente as escadas, bateu à sua porta, entrou e pediu para telefonar a fim de chamar um táxi. - É o bebê, querida? -
perguntou a Sra. Gibbs, aparentando nervosismo. - É. O trabalho de parto começou há pouco, mas não posso confiar no tempo. O táxi vai levar um bom tempo para chegar.
Ela deu esse telefonema e depois ligou para mim. Aquela hora, 18:40h, o intervalo das contrações era de 25 minutos. Ela me disse que tinha começado a tomar as providências
cedo por causa do mau tempo. - Não quero ter meu filho no banco de trás de um táxi disse ela. Parecia extraordinariamente calma. O táxi se atrasou e o trabalho de
parto da Srta. Stansfield estava indo mais rápido do que eu teria previsto - mas como eu já disse, não há dois trabalhos de parto iguais. O motorista, vendo que
sua passageira estava prestes a dar à luz, ajudou-a a descer os degraus escorregadios, recomendando-lhe insistentemente "tome cuidado, dona". A Srta. Stansfield
apenas balançava a cabeça afirmativamente, preocupada com a respiração profunda quando vinha uma nova contração. O granizo batia nas luminárias dos postes e na capota
dos carros; derretia em grandes gotas sobre o letreiro luminoso na capota do táxi. A Sra. Gibbs me contou depois que o jovem motorista estava mais nervoso do que
ela, "pobre Sandra querida", e provavelmente isso tenha contribuído para o acidente. Outro motivo quase certo foi o Método Respiratório. O motorista seguia seu caminho
pelas ruas escorregadias, passando devagar pelos limpa-trilhos e avançando com cuidado nos cruzamentos, aproximando-se lentamente do hospital. Ele não se machucou
seriamente no acidente, e conversei com ele no hospital. Disse-me que o barulho da forte respiração que vinha do banco de trás deixarao nervoso; ficava olhando o
tempo todo pelo retrovisor para ver se ela estava "morrendo ou coisa parecida". Disse que teria ficado menos nervoso se ela tivesse dado alguns gritos saudáveis,
como costuma fazer uma mulher em trabalho de parto. Perguntou a ela uma ou duas vezes se estava se sentindo bem e ela apenas fez que sim com a cabeça, continuando
a "cavalgar as ondas" em largas inspirações e expirações. A dois ou três quarteirões do hospital ele deve ter sentido o início do estágio final. Havia se passado
uma hora desde que ela entrara no táxi - o trânsito estava congestionado - mas ainda assim foi um trabalho de parto extraordinariamente rápido para uma primípara.
O motorista notou a mudança no modo dela respirar. - Ela começo a arfar como um cachorro num dia de verão, doutor - me disse ele. Ela

Inverno no Clube - Stephen King tinha começado a fazer a "locomotiva". Quase no mesmo instante o motorista viu uma brecha no meio do trânsito e se aproveitou. Agora
o caminho até o White Memorial estava livre. Faltavam menos de três quarteirões. - Já dava para ver a estátua daquela mulherzinha - disse ele. Na ânsia de se livrar
da grávida ofegante, pisou fundo no acelerador outra vez e o carro lançou-se para frente, com as rodas deslizando sobre o gelo com pouca ou nenhuma tração. Fui a
pé para o hospital, e a minha chegada só coincidiu com a do táxi porque não calculara o quanto tinham piorado as condições do trânsito. Eu acreditava que fosse encontrá-la
lá em cima, internada, com todos os papéis assinados, toda preparada, em adiantado trabalho de parto. Estava subindo a escadaria quando vi dois pares de faróis aproximarem-se
um do outro refletidos no chão coberto de gelo que ainda não tinha levado uma camada de carvão. Eu me virei a tempo de ver o que aconteceu. Uma ambulância estava
saindo da rampa da ala de emergência na hora em que o táxi da Srta. Stansfield chegava ao hospital. O táxi vinha depressa demais para poder parar. O motorista se
assustou e pisou forte no freio ao invés de bombeá-lo. O táxi deslizou e começou a virar de lado. A luz intermitente da capota da ambulância emitia raios e manchas
cor de sangue sobre a cena, e um desses raios iluminou rapidamente o rosto de Sandra Stansfield. O que vi naquela fração de segundo foi o rosto que tinha visto em
meu pesadelo, o mesmo rosto ensangüentado de olhos arregalados que vira em sua cabeça decepada. Gritei por ela, desci os degraus, escorreguei e caí estatelado. Bati
com o cotovelo no chão com muita força, mas não larguei minha maleta preta. Vi o resto do que aconteceu de onde estava, com a cabeça levantada e o cotovelo doendo.
A ambulância freou e também se pôs a derrapar. A traseira bateu na base da estátua. As portas traseiras se abriram. Uma maca, graças a Deus vazia, foi expelida,
quebrando-se toda rua abaixo com as rodas para cima. Uma jovem que estava na calçada gritou, e tentou correr quando os dois veículos se chocaram. Seus pés resvalaram
após duas passadas e ela caiu de barriga. A bolsa voou de sua mão e bateu com força no chão gelado. O táxi continuava a derrapar, agora de marcha à ré, e pude ver
nitidamente o motorista. Ele girava o volante furiosamente, como uma criança num carrinho de parque de diversões. A ambulância ricocheteou numa quina da estátua
de Harriet White... e bateu de lado no táxi. Este rodopiou uma vez e chocou-se com toda a força na base da estátua. O letreiro luminoso amarelo, onde piscava a palavra
OCUPADO, explodiu como uma bomba. O lado esquerdo do táxi amassou como papel. Um instante depois vi que não fora apenas o lado esquerdo; o táxi tinha batido numa
quina do pedestal com tanta força que quebrou-se ao meio. Cacos de vidro se espalharam pelo gelo como diamantes. E a minha paciente foi atirada para fora pela janela
traseira direita do carro destroçado como uma boneca de pano. Quando dei por mim, estava de pé novamente. Desci correndo os degraus gelados,

Inverno no Clube - Stephen King escorreguei de novo, segurei no corrimão e continuei. Eu só estava preocupado com a Srta. Stansfield estirada à sombra daquela hedionda
estátua de Harriet White, a uns seis metros de onde a ambulância jazia de lado, com as luzes ainda riscando a noite de vermelho. Havia alguma coisa muito estranha
com aquele vulto, mas honestamente não acredito que eu soubesse o que era até que meu pé chutou algo tão pesado que quase me derrubou outra vez. A coisa que chutei
saiu rolando - como a bolsa da jovem, deslizou mais do que rolou. Saiu rolando, e só quando vi cabelo caindo - empapado de sangue, mas mesmo assim via-se que era
louro, salpicado de cacos de vidro - que percebi o que era aquilo. A Srta. Stansfield tinha sido decapitada no acidente. Aquilo que eu tinha chutado em direção à
sarjeta gelada era a cabeça dela. Completamente atordoado, aproximei-me do seu corpo e virei-o. Acho que tentei gritar ao fazer isso, assim que olhei. Se tentei,
não consegui; não consegui emitir um som sequer. A mulher ainda respirava, cavalheiros. Seu peito subia e descia numa respiração curta. Havia pedaços de gelo sobre
seu casaco aberto e seu vestido empapado de sangue. E eu podia ouvir um som alto e sibilante. Aumentava e diminuía como uma chaleira prestes a ferver. Era o ar sendo
sugado para dentro de sua traquéia decepada e depois expelido; silvos breves de ar através das cordas vocais expostas que não tinham mais uma boca para dar forma
aos sons. Eu quis correr mas não tive forças; caí de joelhos ao seu lado sobre o gelo, com uma das mãos sobre a boca. Percebi que escorria sangue da parte de baixo
do seu vestido... e que alguma coisa se mexia. De repente tive certeza de que ainda havia uma chance de salvar o bebê. Acho que quando levantei seu vestido até a
cintura comecei a rir. Acredito que estivesse louco. Seu corpo ainda estava quente. Lembro-me bem disso. Lembro-me de como arquejava com sua respiração. Um dos enfermeiros
da ambulância se aproximou, cambaleando qual um bêbado, com uma das mãos espalmada de um lado da cabeça. Escorria sangue dos seus dedos. Eu ainda estava rindo e
tateando. Constatei com os dedos que o colo do seu útero estava totalmente dilatado. O enfermeiro olhou fixamente para o corpo acéfalo de Sandra com os olhos arregalados.
Não sei se percebeu que o corpo ainda respirava. Talvez tenha pensado que fosse simplesmente um reflexo nervoso - uma espécie de reflexo final. Se achou que fosse
isso, não poderia ter muita experiência. As galinhas podem, por algum tempo, continuar a andar depois de serem degoladas, mas as pessoas só têm um ou dois espasmos...
se tanto. - Pare de olhar para ela e traga um cobertor - disse eu, rispidamente. Ele saiu andando, mas não em direção à ambulância. Estava indo mais ou menos em
direção à Times Square. Simplesmente saiu andando pela noite gelada. Não tenho idéia do que aconteceu com ele. Virei-me novamente para a mulher morta que de alguma
maneira não estava morta, hesitei por um instante, e então tirei meu sobretudo. Levantei seus quadris para colocá-lo debaixo dela. Ainda ouvia aquela respiração
sibilante

Inverno no Clube - Stephen King enquanto seu corpo acéfalo fazia a "locomotiva". As vezes ainda consigo escutar, cavalheiros. Nos meus sonhos. Quero que entendam
que tudo isso aconteceu num espaço de tempo muito curto pareceu mais longo para mim, mas só porque minha percepção estava extremamente aguçada. Do hospital começavam
a sair pessoas para ver o que estava acontecendo, e atrás de mim uma mulher deu um grito estridente ao ver a cabeça decepada na sarjeta. Abri minha maleta preta
e dei graças a Deus por não tê-la perdido na queda, e retirei um bisturi pequeno. Abri o bisturi, cortei sua roupa de baixo e tirei-a. Neste momento, o motorista
da ambulância se aproximou - chegou a uns cinco metros e se deteve paralisado. Olhei para ele, ainda pensando no cobertor. Vi que não poderia contar com ele; estava
olhando fixo para o corpo arquejante, os olhos tão arregalados que parecia que iam pular das órbitas e ficar pendurados nos nervos óticos como dois ioiôs. Então
caiu de joelhos e ergueu as mãos postas. Queria rezar, tenho certeza disso. O enfermeiro pode não ter se dado conta de que estivera presenciando uma impossibilidade,
mas este sujeito sim. A seguir caiu desmaiado. Eu tinha colocado fórceps na minha maleta aquela noite; não sei por quê. Havia três anos que eu não usava isso, desde
que vira um médico, que não direi o nome, enfiar esse troço infernal no crânio de um recém-nascido. O bebê teve morte instantânea. O corpo da criança foi "extraviado"
e na certidão de óbito escreveram natimorto. Mas por alguma razão eu tinha trazido o meu naquela noite. O corpo da Srta. Stamfield esticou-se, a barriga se contraiu
e ficou dura como pedra. E o bebê coroou. Vi sua cabeça apenas por um momento, ensangüentada, coberta por uma membrana e pulsando. Pulsando. Estava vivo, afinal.
Sem dúvida nenhuma. Sua barriga amoleceu outra vez. A cabeça do bebê voltou para dentro. E uma voz atrás de mim disse: - O que posso fazer, doutor? Era uma enfermeira
de meia-idade, o tipo de mulher que em geral é a espinha dorsal da nossa profissão. Ela estava tão branca quanto leite, e embora sua expressão fosse de terror e
de medo supersticioso ao ver aquele corpo que respirava misteriosamente, não estava paralisada pelo choque que a tornaria uma ajudante difícil e perigosa. - Pode
me arrumar um cobertor, enfermeira? - disse eu, secamente. - Ainda temos uma chance, eu acho. Atrás dela, vi pelo menos umas vinte e cinco pessoas do hospital na
escada, sem quererem se aproximar. O que será que elas conseguiam ver? Não sei ao certo. Tudo o que sei é que me evitaram durante alguns dias (e algumas para sempre),
e ninguém, inclusive essa enfermeira, jamais tocou no assunto comigo. Ela então virou-se e seguiu em direção ao hospital.

Inverno no Clube - Stephen King

- Enfermeira! - gritei. - Não há tempo. Pegue um na ambulância. O bebê vai nascer agora. Ela foi para o outro lado, escorregando sobre a neve semi-derretida com
seu sapato de sola de crepe. Voltei-me para a Srta. Stansfield. Ao invés de diminuir, a respiração tinha começado a aumentar de ritmo... e então seu corpo ficou
rígido e contraído outra vez. O bebê coroou novamente. Eu esperava que fosse entrar de novo, mas isso não aconteceu; simplesmente continuou a sair. Não seria necessário
usar o fórceps, afinal. O bebê escorregou para as minhas mãos. Vi a neve caindo sobre seu corpo nu e ensangüentado - era um menino, sem dúvida. Vi o vapor subindo
de seu corpo enquanto a noite gélida e negra consumia o calor do corpo de sua mãe. Seus punhos cobertos de sangue se agitaram debilmente; soltou um choro fraco.
- Enfermeira! - gritei. - Mexa-se, sua vagabunda! Creio que usei uma linguagem imperdoável, mas de repente foi como se eu estivesse na França e em poucos instantes
fosse começar a ouvir as bombas caírem fazendo aquele barulho cruel; as metralhadoras começariam a espocar; os alemães começariam a surgir da escuridão, correndo,
gritando e morrendo na lama e na fumaça. Mágica vulgar, pensei, vendo os corpos se contorcerem, darem uma volta e caírem. Mas você tem razão, Sandra, é tudo o que
temos. Foi quando cheguei mais próximo da loucura, cavalheiros. - ENFERMEIRA, PELO AMOR DE DEUS! O bebê chorou outra vez - quase não dava para ouvir! - e então não
chorou mais. O vapor que seu corpo quente provocava tinha diminuído bastante. Coloquei minha boca em seu rosto, cheirando a sangue e a placenta. Soprei em sua boca
e ouvi o sussurro espasmódico da sua respiração voltar. A enfermeira se aproximou com o cobertor nos braços. Estendi minha mão para pegá-lo. Ela fez que ia me entregar
o cobertor, mas logo puxou-o de volta. - Doutor, e se... e se for um monstro? Alguma espécie de monstro? - Me dá esse cobertor - disse eu. - Me dá isso já, sargento,
antes que eu dê um pontapé na sua bunda. - Pronto, doutor - disse ela, absolutamente calma (devemos louvar as mulheres, companheiros, que com freqüência entendem
sem tentar), e me entregou o cobertor. Embrulhei o bebê e entreguei-o a ela. - Se deixar cair, vai engolir o seu boné. - Sim, doutor. - É uma mágica vulgar de merda,
sargento, mas é tudo o que Deus nos deu.

Inverno no Clube - Stephen King

- Sim, doutor. Observei-a seguir quase correndo com o bebê para o hospital, e vi a multidão na escada abrir caminho para ela passar. Fiquei de pé e me afastei um
pouco do corpo. A respiração, como a do bebê, parava e voltava... parava... voltava de novo... parava... Dei uns passos para trás. Alguma coisa bateu no meu pé.
Era a cabeça dela. E obedecendo alguma ordem externa, ajoelhei-me e virei a cabeça para cima. Os olhos estavam abertos - aqueles olhos penetrantes de avelã que sempre
foram cheios de vida e determinação. Ainda estavam cheios de determinação. Ela estava me vendo, cavalheiros. Seus dentes estavam cerrados, os lábios levemente entreabertos.
Ouvi o ar entrar e sair rapidamente daqueles lábios e entre os dentes enquanto ela fazia a "locomotiva". Seus olhos se mexeram. Viraram ligeiramente para a esquerda
para me verem melhor. Seus lábios se abriram. Disseram três palavras: Obrigada, Dr. McCarron. E eu ouvi essas palavras, cavalheiro, mas não de sua boca. O som vinha
de uns seis metros de distância. Das suas cordas vocais. E porque sua língua, seus lábios e seus dentes, aquilo que dá forma aos sons, estavam ali, as palavras saíram
em modulações amorfas de som. Mas foram nove modulações, nove sons distintos, assim com há nove sílabas nessa frase, Obrigada, Dr. McCarron. - Não há de quê, Srta.
Stansfield - disse eu. - É um menino. Seus lábios se abriram outra vez, e de trás de mim ouvi um som fraco e fantasmagórico: meninooo... Seus olhos perderam o brilho
e a determinação. Pareciam olhar para alguma coisa atrás de mim, talvez naquele céu negro pontilhado de gelo. Então se fecharam. Ela começou a fazer a "locomtiva"
outra vez... e de repente parou. O que quer que acontecera havia agora terminado. A enfermeira tinha presenciado alguma coisa, o motorista da ambulância também,
antes de desmaiar, e alguns dos circunstantes talvez tivessem percebido alguma coisa. Mas agora estava tudo acabado, completamente acabado. Havia apenas sinais de
um horrível acidente lá fora... e um bebê lá dentro. Olhei para a estátua de Harriet White e lá estava ela, com seu olhar impiedoso em direção do jardim do outro
lado da rua, como se nada de extraordinário tivesse acontecido, com se tal determinação não significasse nada num mundo tão frio e insensível quanto este... ou pior
ainda, que fosse talvez a única coisa que não significasse nada, a única coisa que não fizesse a menor diferença. Pelo que me lembro, ajoelhei-me na neve molhada
diante de sua cabeça decepada e comecei a chorar. Pelo que me lembro, eu ainda estava chorando quando um interno e duas enfermeiras me ajudaram a ficar de pé e me
levaram para dentro. O cachimbo de McCarron tinha se apagado. Ele reacendeu-o com seu isqueiro; nós estávamos em silêncio, com a respiração presa.

Inverno no Clube - Stephen King Lá fora o vento uivava e gemia. Ele fechou o isqueiro e levantou os olhos. Pareceu um pouco surpreso ao ver que ainda estávamos lá.
- Isso é tudo - disse ele. - É o fim! O que estão esperando? Carruagens de fogo? - disse, bufando; depois pareceu refletir por um instante. - Paguei seu enterro
do meu próprio bolso. Ela não tinha mais ninguém. - Ele sorriu de leve. - Bem... havia Ella Davidson, minha enfermeira. Insistiu em dividir vinte e cinco dólares,
que ela mal tinha para dar. Mas quando Ella punha alguma coisa na cabeça... - Ele deu de ombros, e depois riu um pouco. - Tem certeza absoluta de que não foi um
reflexo? - perguntei de repente. - Tem certeza absoluta... - Absoluta - respondeu McCarron, imperturbável. - A primeira contração, talvez. Mas o resto do seu trabalho
de parto não foi uma questão de segundos e sim de minutos. E às vezes acho que ela poderia ter continuado por mais tempo, se tivesse sido necessário. Graças a Deus
não foi. - E o bebê? - perguntou Johanssen. McCarron deu uma baforada no cachimbo. - Foi adotado - disse ele. - E vocês sabem que, mesmo naquela época, os documentos
de adoção eram cercados com o máximo de sigilo. - Está certo, mas e o bebê? - insistiu Johanssen, e McCarron riu contrariado. - Você não deixa escapar nada, não
é? - perguntou a Johanssen. Johanssen balançou a cabeça. - Algumas pessoas aprendem às custas de sua dor. E o bebê? - Bom, se você acompanhou a história com tanto
interesse, talvez também entenda que eu também tivesse um certo interesse em saber o destino dessa criança. Eu me mantive informado, e ainda me mantenho. Havia um
casal jovem - cujo sobrenome não era Harrison, mas era bem parecido. Moravam no Maine. Não podiam ter filhos. Adotaram a criança e lhe deram o nome de... que tal
John? John serve, não é, companheiros? Ele deu uma baforada no cachimbo, mas este tinha se apagado novamente. Percebi que Stevens se movimentava atrás de mim, e
eu sabia que nossos sobretudos estariam à nossa espera em algum lugar. Logo estaríamos dentro deles... e de volta às nossas vidas. Como disse McCarron, basta de
histórias por este ano. - A criança que ajudei a nascer naquela noite hoje é chefe do Departamento de Língua Inglesa de uma das duas ou três faculdades particulares
mais respeitadas do país - disse McCarron. - Ainda não completou quarenta e cinco anos. E jovem. Ainda é cedo para ele, mas chegará o dia em que será o diretor daquela
faculdade. Não duvido nem um pouco. É elegante, inteligente e encantador.

Inverno no Clube - Stephen King

- Certa vez, sob um pretexto qualquer, jantei com ele no clube fechado da universidade. Éramos quatro naquela norte. Falei pouco, por isso pude observá-lo. Ele tem
a determinação de sua mãe, companheiros... e seus olhos de avelã.

Inverno no Clube - Stephen King

III

O Clube
Stevens nos acompanhou até a porta como sempre, entregando casacões, desejando o melhor dos Natais e agradecendo nossa generosidade. Deixei para sair por último,
e Stevens não se mostrou surpreso quando eu disse: - Eu gostaria de fazer uma pergunta, se não se importa. Ele sorriu de leve. - Acho que deve fazê-la - disse ele.
- O Natal é uma ótima ocasião para perguntas. Em algum lugar do corredor à nossa esquerda - um corredor pelo qual eu jamais passara - um relógio de carrilhão tiquetaqueava
alto, o som do tempo passando. Eu sentia o cheiro de couro velho e madeira encerada e, bem mais fraco que esses dois, o cheiro da loção após barba de Stevens. -
Mas devo adverti-lo - acrescentou Stevens, na hora em que o vento soprou forte lá fora - que é melhor não perguntar demais se quiser continuar a vir aqui. - Já houve
gente barrada por querer saber demais? - Barrada não era exatamente o termo que eu queria, mas foi o melhor que encontrei. - Não - disse Stevens, com a voz baixa
e educada de sempre. - As pessoas simplesmente preferem se afastar. Encarei-o de volta, sentindo um frio na espinha - foi como se uma enorme mão invisível e gelada
tivesse encostado nas minhas costas. Lembrei-me daquele barulho surdo que veio do andar de cima certa noite e tive vontade de saber (como já tivera outras vezes)
quantos cômodos havia realmente lá. - Se ainda quer perguntar alguma coisa, Sr. Adley, talvez fosse melhor perguntar logo. Já é tarde... - E você ainda vai enfrentar
um longo percurso de trem, não é? - perguntei, mas Stevens permaneceu impassível. - Está bem disse eu. - Existem livros nessa biblioteca que não consigo encontrar
em lugar nenhum - nem na Biblioteca Pública de Nova Iorque, nem nos catálogos dos antiquários de livros a quem perguntei, tampouco no Livros Impressos. A mesa de
bilhar da saleta é da marca Nord. Como eu nunca tivesse ouvido

Inverno no Clube - Stephen King falar nessa marca, telefonei para a Comissão Internacional de Marcas e Patentes. Existem duas marcas Nord registradas - uma que fabrica
esquis de cross-country, e a outra, acessórios de madeira para cozinha. A vitrola automática do salão é da marca Seafront. A CA.M.P. tem registrada a marca Seeburg,
mas não tem Seafront. - Qual é a sua pergunta, Sr. Adley? Seu tom de voz era suave como sempre, mas havia em seu olhar qualquer coisa assustadora... não; para falar
a verdade, não era só em seu olhar; o medo que senti estava ao meu redor. O tique-taque monótono que vinha do corredor à esquerda não era mais do pêndulo de um carrilhão;
eram os passos de um algoz acompanhando o condenado ao cadafalso. Os aromas de couro e cera tornaram-se acres e ameaçadores, e quando o vento deu outra rajada, tive
a certeza de que a porta da frente se abriria com força, descortinando não a Rua 35, e sim uma paisagem irreal com silhuetas pungentes de árvores retorcidas num
horizonte estéril sob o qual dois sóis se punham, deixando um clarão vermelho horrendo. Ele sabia o que eu queria perguntar; pude ver em seus olhos cinzentos. De
onde vêm todas essas coisas?, eu queria saber. Ora, sei muito bem de onde você vem, Stevens; esse sotaque não é da Dimensão X, é do Brooklyn. Mas para onde você
vai? De onde vêm esse olhar e essa expressão atemporais? E, Stevens ... ... onde estamos NESTE EXATO MOMENTO? Mas ele estava esperando pela minha pergunta. Abri
a boca. E a pergunta que saiu foi: - Existem muito mais cômodos lá em cima? - Existem sim, senhor - disse ele, sem deixar de me encarar. - Muitos mesmo. Dá para
uma pessoa se perder. Na verdade, algumas pessoas já se perderam. Às vezes tenho a impressão que eles se estendem por quilômetros. Cômodos e corredores. - Com entradas
e saídas? Suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente. - Mas, claro. Com entradas e saídas. Ele esperou, mas eu já perguntara o bastante, pensei - tinha chegado à
beira de alguma coisa que talvez me levasse à loucura. - Obrigado, Stevens. - Não há de quê, Sr. Adley. Estendeu-me meu casacão e me enfiei nele.

Inverno no Clube - Stephen King

- Haverá mais histórias? - Aqui há sempre mais histórias, Sr. Adley. Essa noite já faz algum tempo, e minha memória não melhorou desde então (quando um homem chega
à minha idade é muito mais provável que ocorra justamente o contrário), mas me lembro claramente do arrepio de medo que percorreu meu corpo quando Stevens abriu
a porta de carvalho - a certeza crua de que eu veria aquela paisagem estranha desmembrada e infernal à luz cor de sangue dos dois sóis, que após se porem trariam
uma escuridão atroz durante uma hora, ou dez horas, ou dez mil anos. Não consigo explicar, mas garanto que esse mundo existe - tenho tanta certeza disso quanto Emlyn
McCarron tinha de que a cabeça decepada de Sandra Stansfield ainda respirava. Pensei naquele segundo interminável que a porta se abriria e Stevens me empurraria
para dentro daquele mundo e eu ouviria então aquela porta bater atrás de mim... para sempre. Ao invés disso, vi a Rua 35 e um radio-táxi encostado no meio-fio, soltando
fumaça pelo cano de descarga. Senti um alívio extremo, quase desfalecente. - Sempre há mais histórias - repetiu Stevens. - Boa noite, Sr. Adley. Sempre mais histórias.
De fato houve. E, quem sabe, conto outra qualquer dia desses.

***
THE BOOGEYMAN 'I came to you because I want to tell my story,' the man on Dr Harper's couch was saying. The man was Lester Billings from Waterbury, Connecticut.
According to the history taken from Nurse Vickers, he was twenty-eight, employed by an industrial firm in New York, divorced, and the father of three children. All
deceased. 'I can't go to a priest because I'm not a Catholic. I can't go to a lawyer because I haven't done anything to consult a lawyer about. All I did was kill
my kids. One at a time. Killed them all.' Dr Harper turned on the tape recorder. Billings lay straight as a yardstick on the couch, not giving it an inch of himself.
His feet protruded stiffly over the end. Picture of a man enduring necessary humiliation. His hands were folded corpselike on his chest. His face was carefully set..
He looked at the plain white composition ceiling as if seeing scenes and pictures played out there. 'Do you mean you actually killed them, or -' 'No.' Impatient
flick of the hand. 'But I was responsible. Denny in 1967. Shirl in 1971. And Andy this year. I want to tell you about it.' Dr Harper said nothing. He thought that
Billings looked haggard and old. His hair was thinning, his complexion sallow. His eyes held all the miserable secrets of whisky. 'They were murdered, see? Only
no one believes that. If they would, things would be all right.' 'Why is that?' 'Because Billings broke off and darted up on his elbows, staring across the room.
'What's that?' he barked. His eyes had narrowed to black slots. 'What's what?' 'That door.' 'The closet,' Dr Harper said. 'Where I hang my coat and leave my overshoes.'
'Open it. I want to see.' Dr Harper got up wordlessly, crossed the room, and opened the closet. Inside, a tan raincoat hung on one of four or five hangers. Beneath
that was a pair of shiny goloshes. The New York Times had been carefully tucked into one of them. That was all. 'All right?' Dr Harper said. 'All right.' Billings
removed the props of his elbows and returned to his previous position. 'You were saying,' Dr Harper said as he went back to his chair, 'that if the murder of your
three children could be proved, all your troubles would be over. Why is that?' 'I'd go to jail,' Billings said immediately. 'For life. And you can see into all the
rooms in a jail. All the rooms.' He smiled at nothing.

'How were your children murdered?' 'Don't try to jerk it out of me!' Billings twitched around and stared balefully at Harper. 'I'll tell you, don't worry. I'm not
one of your freaks strutting around and pretending to be Napoleon or explaining that I got hooked on heroin because my mother didn't love me. I know you won't believe
me. I don't care. It doesn't matter. Just to tell will be enough.' 'All right.' Dr Harper got out his pipe. 'I married Rita in 1965 - I was twenty-one and she was
eighteen. She was pregnant. That was Denny.' His lips twisted in a rubbery, frightening grin that was gone in a wink. 'I had to leave college and get a job, but
I didn't mind. I loved both of them. We were very happy. 'Rita got pregnant just a little while after Denny was born, and Shirl came along in December of 1966. Andy
came in the summer of 1969, and Denny was already dead by then. Andy was an accident. That's what Rita said. She said sometimes that birth-control stuff doesn't
work. I think that it was more than an accident. Children tie a man down, you know. Women like that, especially when the man is brighter than they. Don't you find
that's true?' Harper grunted non-commitally. 'It doesn't matter, though. I loved him anyway.' He said it almost vengefully, as if he had loved the child to spite
his wife. 'Who killed the children?' Harper asked. 'The boogeyman,' Lester Billings answered immediately. 'The boogeyman killed them all. Just came out of the closet
and killed them.' He twisted around and grinned. 'You think I'm crazy, all right. It's written all over you. But I don't care. All I want to do is tell you and then
get lost.' 'I'm listening,' Harper said. 'It started when Denny was almost two and Shirl was just an infant. He started crying when Rita put him to bed. We had a
two-bedroom place, see. Shirl slept in a crib in our room. At first I thought he was crying because he didn't have a bottle to take to bed any more. Rita said don't
make an issue of it, let it go, let him have it and he'll drop it on his own. But that's the way kids start off bad. You get permissive with them, spoil them. Then
they break your heart. Get some girl knocked up, you know, or start shooting dope. Or they get to be sissies. Can you imagine waking up some morning and finding
your kid - your son - is a sissy? 'After a while, though, when he didn't stop, I started putting him to bed myself. And if he didn't stop crying I'd give him a whack.
Then Rita said he was saying "light" over and over again. Well, I didn't know. Kids that little, how can you tell what they're saying. Only a mother can tell. 'Rita
wanted to put in a nightlight. One of those wallplug things with Mickey Mouse or Huckleberry Hound or something on it. I wouldn't let her. If a kid doesn't get over
being afraid of the dark when he's little, he never gets over it. 'Anyway, he died the summer after Shirl was born. I put him to bed that night and he started to
cry right off. I heard what he said that time. He pointed right at the closet when he said it. "Boogeyman," the kid says. "Boogeyman, Daddy."

'I turned off the light and went into our room and asked Rita why she wanted to teach the kid a word like that. I was tempted to slap her around a little, but I
didn't. She said she never taught him to say that. I called her a goddamn liar. 'That was a bad summer for me, see. The only job I could get was loading Pepsi-Cola
trucks in a warehouse, and I was tired all the time. Shirl would wake up and cry every night and Rita would pick her up and sniffle. I tell you, sometimes I felt
like throwing them both out a window. Christ, kids drive you crazy sometimes. You could kill them. 'Well, the kid woke me at three in the morning, right on schedule.
I went to the bathroom, only a quarter awake, you know, and Rita asked me if I'd check on Denny. I told her to do it herself and went back to bed. I was almost asleep
when she started to scream. 'I got up and went in. The kid was dead on his back. Just as white as flour except for where the blood had. . . had sunk. Back of the
legs, the head, the a-the buttocks. His eyes were open. That was the worst, you know. Wide open and glassy, like the eyes you see on a moosehead some guy put over
his mantel. Like pictures you see of those gook kids over in Nam. But an American kid shouldn't look like that. Dead on his back. Wearing diapers and rubber pants
because he'd been wetting himself again the last couple of weeks. Awful, I loved that kid.' Billings shook his head slowly, then offered the rubbery, frightening
grin again. 'Rita was screaming her head off. She tried to pick Denny up and rock him, but I wouldn't let her. The cops don't like you to touch any of the evidence.
I know that -' 'Did you know it was the boogeyman then?' Harper asked quietly. 'Oh, no. Not then. But I did see one thing. It didn't mean anything to me then, but
my mind stored it away.' 'What was that?' 'The closet door was open. Not much. Just a crack. But I knew I left it shut, see. There's dry-cleaning bags in there.
3 A kid messes around with one of those and bango. Asphyxiation. You know that?' 'Yes. What happened then?' Billings shrugged. 'We planted him.' He looked morbidly
at his hands, which had thrown dirt on three tiny coffins. 'Was there an inquest?' 'Sure.' Billings's eyes flashed with sardonic brilliance. 'So me back-country
fuckhead with a stethoscope and a black bag full of Junior Mints and a sheepskin from some cow college. Crib death, he called it! You ever hear such a pile of yellow
manure? The kid was three years old!' 'Crib death is most common during the first year,' Harper said carefully, 'but that diagnosis has gone on death certificates
for children up to age five for want of a better -' Bulishit!' Billings spat out violently. Harper relit his pipe.

We moved Shirl into Denny's old room a month after the funeral. Rita fought it tooth and nail, but I had the last word. It hurt me, of course it did. Jesus, I loved
having the kid in with us. But you can't get overprotective. You make a kid a cripple that way. When I was a kid my mom used to take me to the beach and then scream
herself hoarse. "Don't go out so far! Don't go there! It's got an undertow! You only ate an hour ago! Don't go over your head!" Even to watch out for sharks, before
God. So what happens? I can't even go near the water now. It's the truth. I get the cramps if I go near a beach. Rita got me to take her and the kids to Savin Rock
once when Denny was alive. I got sick as a dog. I know, see? You can't overprotect kids. And you can't coddle yourself either. Life goes on. Shirl went right into
Denny's crib. We sent the old mattress to the dump, though. I didn't want my girl to get any germs. 'So a year goes by. And one night when I'm putting Shirl into
her crib she starts to yowl and scream and cry. "Boogeyman, Daddy, boogeyman, boogeyman!" 'That threw a jump into me. It was just like Denny. And I started to remember
about that closet door, open just a crack when we found him. I wanted to take her into our room for the night.' 'Did you?' 'No.' Billings regarded his hands and
his face twitched. 'How could I go to Rita and admit I was wrong? I had to be strong. She was always such a jellyfish. . . look how easy she went to bed with me
when we weren't married.' Harper said, 'On the other hand, look how easily you went to bed with her.' Billings froze in the act of rearranging his hands and slowly
turned his head to look at Harper. 'Are you trying to be a wise guy?' 'No, indeed,' Harper said. 'Then let me tell it my way,' Billings snapped. 'I came here to
get this off my chest. To tell my story. I'm not going to talk about my sex life, if that's what you expect. Rita and I had a very normal sex life, with none of
that dirty stuff. I know it gives some people a charge to talk about that, but I'm not one of them.' 'Okay,' Harper said. 'Okay,' Billings echoed with uneasy arrogance.
He seemed to have lost the thread of his thought, and his eyes wandered uneasily to the closet door, which was firmly shut. 'Would you like that open?' Harper asked.
'No!' Billings said quickly. He gave a nervous little laugh. 'What do I want to look at your overshoes for? 'The boogeyman got her, too,' Billings said. He brushed
at his forehead, as if sketching memories. 'A month later. But something happened before that. I heard a noise in there one night. And then she screamed. I opened
the door real quick - the hall light was on - and. . . she was sitting up in the crib crying and. . . something moved. Back in the shadows, by the closet. Something
slithered.' 'Was the closet door open?' 'A little. Just a crack.' Billings licked his lips. 'Shirl was screaming about the boogeyman. And something else that sounded
like "claws". Only she said "craws", you know. Little kids have trouble with that "I" sound. Rita ran upstairs and asked what the matter was. I said she got scared
by the shadows of the branches moving on the ceiling.' 'Crawset?' Harper said.

'Huh?' 'Crawset . . . closet. Maybe she was trying to say "closet".' 'Maybe,' Billings said. 'Maybe that was it. But I don't think so.I think it was "claws".' His
eyes began seeking the closet door again. 'Claws, long claws.' His voice had sunk to a whisper. 'Did you look in the closet?' 'Y-yes.' Billings's hands were laced
tightly across his chest, laced tightly enough to show a white moon at each knuckle. 'Was there anything in there? Did you see the -' 'I didn't see anything!' Billings
screamed suddenly. And the words poured out, as if a black cork had been pulled from the bottom of his soul: 'When she died I found her, see. And she was black.
All black. She swallowed her own tongue and she was just as black as a nigger in a minstrel show and she was staring at me. Her eyes, they looked like those eyes
you see on stuffed animals, all shiny and awful, like live marbles, and they were saying it got me, Daddy, you let it get me, you killed me, you helped it kill me
. . His words trailed off. One single tear very large and silent, ran down the side of his cheek. 'It was a brain convulsion, see? Kids get those sometimes. A bad
signal from the brain. They had an autopsy at Hartford Receiving and they told us she choked on her tongue from the convulsion. And I had to go home alone because
they kept Rita under sedation. She was out of her mind. I had to go back to that house all alone, and I know a kid don't just get convulsions because their brain
frigged up. You can scare a kid into convulsions. And I had to go back to the house where it was.' He whispered, 'I slept on the couch. With the light on., 'Did
anything happen?' 'I had a dream,' Billings said. 'I was in a dark room and there was something I couldn't . . . couldn't quite see, in the closet. It made a noise.
. . a squishy noise. It reminded me of a comic book I read when I was a kid. Tales from the Crypt, you remember that? Christ! They had a guy named Graham Ingles;
he could draw every god-awful thing in the world - and some out of it. Anyway, in this story this woman drowned her husband, see? Put cement blocks on his feet and
dropped him into a quarry. Only he came back. 'He was all rotted and black-green and the fish had eaten away one of his eyes and there was seaweed in his hair. He
came back and killed her. And when I woke up in the middle of the night, I thought that would be leaning over me. With claws. . . long claws . Dr Harper looked at
the digital clock inset into his desk. Lester Billings had been speaking for nearly half an hour. He said, 'When your wife came back home, what was her attitude
towards you?' 'She still loved me,' Billings said with pride. 'She still wanted to do what I told her. That's the wife's place, right? This women's lib only makes
sick people. The most important thing in life is for a person to know his place. His. his.. .uh. 'Station in life?' 'That's it!' Billings snapped his fingers. 'That's
it exactly. And a wife should follow her husband. Oh, she was sort of colourless the first four or five months after - dragged around the house, didn't sing, didn't
watch the TV, didn't laugh. I knew she'd get over it. When they're that little, you don't get so attached to them. After a while you have to go to the bureau drawer
and look at a picture to even remember exactly what they looked like.

'She wanted another baby,' he added darkly. 'I told her it was a bad idea. Oh, not for ever, but for a while. I told her it was a time for us to get over things
and begin to enjoy each other. We never had a chance to do that before. If you wanted to go to a movie, you had to hassle around for a baby-sitter. You couldn't
go into town to see the Mets unless her folks would take the kids, because my mom wouldn't have anything to do with us. Denny was born too soon after we were married,
see? She said Rita was just a tramp, a common little corner-walker. Corner-walker is what my mom always called them. Isn't that a sketch? She sat me down once and
told me diseases you can get if you went to a cor. . . to a prostitute. How your pri. . . your penis has just a little tiny sore on it one day and the next day it's
rotting right off. She wouldn't even come to the wed-ding.' Billings drummed his chest with his fingers. 'Rita's gynaecologist sold heron this thing called an IUD
- interuterine device. Foolproof, the doctor said. He just sticks it up the woman's . . . her place, and that's it. If there's anything in there, the egg can't fertilize.
You don't even know it's there.' He smiled at the ceiling with dark sweetness. 'No one knows if it's there or not. And next year she's pregnant again. Some foolproof.'
'No birth-control method is perfect,' Harper said. 'The pill is only ninety-eight per cent. The IUD may be ejected by cramps, strong menstrual flow, and, in exceptional
cases, by evacuation.' 'Yeah. Or you can take it out.' 'That's possible.' 'So what's next? She's knitting little things, singing in the shower, and eating pickles
like crazy. Sitting on my lap and saying things about how it must have been God's will. Piss.' 'The baby came at the end of the year after Shirl's death?' 'That's
right. A boy. She named it Andrew Lester Billings. I didn't want anything to do with it, at least at first. My motto was she screwed up, so let her take care of
it. I know how that sounds but you have to remember that I'd been through a lot. 'But I warmed up to him, you know it? He was the only one of the litter that looked
like me, for one thing. Denny looked like his mother, and Shirl didn't look like anybody, except maybe my Grammy Ann. But Andy was the spitting image of me. 'I'd
get to playing around with him in his playpen when I got home from work. He'd grab only my finger and smile and gurgle. Nine weeks old and the kid was grinning up
at his old dad. You believe that?' 'Then one night, here I am coming out of a drugstore with a mobile to hang over the kid's crib. Me! Kids don't appreciate presents
until they're old enough to say thank you, that was always my motto. But there I was, buying him silly crap and all at once I realize I love him the most of all.
I had another job by then, a pretty good one, selling drill bits for Cluett and Sons. I did real well, and when Andy was one, we moved to Waterbury. The old place
had too many bad memories. 'And too many closets. 'That next year was the best one for us. I'd give every finger on my right hand to have it back again. Oh, the
war in Vietnam was still going on, and the hippies were still running around with no clothes on, and the niggers were yelling a lot, but none of that touched us.
We were on a quiet street with nice neighbours. We were happy,' he summed up simply. 'I asked Rita once if she wasn't worried. You know, bad luck comes in threes
and all that. She said not for us. She said Andy was special. She said God had drawn a ring around him.' Billings looked morbidly at the ceiling.

'Last year wasn't so good. Something about the house changed. I started keeping my boots in the hall because I didn't like to open the closet door any more. I kept
thinking: Well, what if it's in there? All crouched down and ready to spring the second I open the door? And I'd started thinking I could hear squishy noises, as
if something black and green and wet was moving around in there just a little. 'Rita asked me if I was working too hard, and I started to snap at her, just like
the old days. I got sick to rny stomach leaving them alone to go to work, but I was glad to get out. God help me, I was glad to get out. I started to think, see,
that it lost us for a while when we moved. It had to hunt around, slinking through the streets at night and maybe creeping in the sewers. Smelling for us. It took
a year, but it found us. It's back. It wants Andy and it wants me. I started to think, maybe if you think of a thing long enough, and believe in it, it gets real.
Maybe all the monsters we were scared of when we were kids, Frankenstein and Wolfman and Mummy, maybe they were real. Real enough to kill the kids that were supposed
to have fallen into gravel pits or drowned in lakes or were just never found. Maybe . . 'Are you backing away from something, Mr Billings?' Billings was silent for
a long time - two minutes clicked off the digital clock. Then he said abruptly: 'Andy died in February. Rita wasn't there. She got a call from her father. Her mother
had been in a car crash the day after New Year's and wasn't expected to live. She took a bus back that night. 'Her mother didn't die, but she was on the critical
list for a long time - two months. I had a very good woman who stayed with Andy days. We kept house nights. And closet doors kept coming open.' Billings licked his
lips. 'The kid was sleeping in the room with me. It's funny, too. Rita asked me once when he was two if I wanted to move him into another room. Spock or one of those
other quacks claims it's bad for kids to sleep with their parents, see? Supposed to give them traumas about sex and all that. But we never did it unless the kid
was asleep. And I didn't want to move him. I was afraid to, after Denny and Shirl.' 'But you did move him, didn't you?' Dr Harper asked. 'Yeah,' Billings said. He
smiled a sick, yellow smile. 'I did.' Silence again. Billings wrestled with it. 'I had to!' he barked finally. 'I had to! It was all right when Rita was there, but
when she was gone, it started to get bolder. It started . . .' He rolled his eyes at Harper and bared his teeth in a savage grin. 'Oh, you won't believe it. I know
what you think, just another goofy for your casebook, I know that, but you weren't there, you lousy smug head-peeper. 'One night every door in the house blew wide
open. One morning I got up and found a trail of mud and filth across the hall between the coat closet and the front door. Was it going out? Coming in? I don't know!
Before Jesus, I just don't know! Records all scratched up and covered with slime, mirrors broken . . . and the sounds . . . the sounds... He ran a hand through his
hair. 'You'd wake up at three in the morning and look into the dark and at first you'd say, "It's only the clock." But underneath it you could hear something moving
in a stealthy way. But not too stealthy, because it wanted you to hear it. A slimy sliding sound like something from the kitchen drain. Or a clicking sound, like
claws being dragged lightly over the staircase banister. And you'd close your eyes, knowing that hearing it was bad, but if you saw it. . 'And always you'd be afraid
that the noises might stop for a little while, and then there would be a laugh right over your face and breath of air like stale cabbage on your face, and then hands
on your throat.' Billings was pallid and trembling.

'So I moved him. I knew it would go for him, see. Because he was weaker. And it did. That very first night he screamed in the middle of the night and finally, when
I got up the cojones to go in, he was standing up in bed and screaming. "The boogeyman, Daddy. . . boogeyman. wanna go wif Daddy, go wif Daddy."' Billings's voice
had become a high treble, like a child's. His eyes seemed to fill his entire face; he almost seemed to shrink on the couch. 'But I couldn't,' the childish breaking
treble continued, 'I couldn't. And an hour later there was a scream. An awful gurgling scream. And I knew how much I loved him because I ran, in, I didn't even turn
on the light, I ran, ran, ran, oh, Jesus God Mary, it had him; it was shaking him, shaking him just like a terrier shakes a piece of cloth and I could see something
with awful slumped shoulders and a scarecrow head and I could smell something like a dead mouse in a pop bottle and I heard . . He trailed off, and then his voice
clicked back into an adult range. 'I heard it when Andy's neck broke.' Billings's voice was cool and dead. 'It made a sound like ice cracking when you're skating
on a country pond in winter.' 'Then what happened?' 'Oh, I ran,' Billings said in the same cool, dead voice. 'I went to an all-night diner. How's that for complete
cowardice? Ran to an all-night diner and drank six cups of coffee. Then I went home. It was already dawn. I called the police even before I went upstairs. He was
lying on the floor and staring at me. Accusing me. A tiny bit of blood had run out of one ear. Only a drop, really. And the closet door was open - but just a crack.'
The voice stopped. Harper looked at the digital clock. Fifty minutes had passed. 'Make an appointment with the nurse,' he said. 'In fact, several of them. Tuesdays
and Thursdays?' 'I only came to tell my story,' Billings said. 'To get it off my chest. I lied to the police, see? Told them the kid must have tried to get out of
his crib in the night and. . . they swallowed it. Course they did. That's just what it looked like. Accidental, like the others. But Rita knew. Rita. finally. .
. knew . He covered his eyes with his right arm and began to weep. 'Mr Billings, there is a great deal to talk about,' Dr Harper said after a pause. 'I believe we
can remove some of the guilt you've been carrying, but first you have to want to get rid of it.' 'Don't you believe I do?' Billings cried, removing his arm from
his eyes. They were red, raw, wounded. 'Not yet,' Harper said quietly. 'Tuesdays and Thursdays?' After a long silence, Billings muttered, 'Goddamn shrink. All right.
All right.' 'Make an appointment with the nurse, Mr Billings. And have a good day.' Billings laughed emptily and walked out of the office quickly, without looking
back. The nurse's station was empty. A small sign on the desk blotter said: 'Back in a Minute.' Billings turned and went back into the office. 'Doctor, your nurse
is -, The room was empty. But the closet door was open. Just a crack.

'So nice,' the voice from the closet said. 'So nice.' The words sounded as if they might have come through a mouthful of rotted seaweed. Billings stood rooted to
the spot as the closet door swung open. He dimly felt warmth at his crotch as he wet himself. 'So nice,' the boogeyman said as it shambled out. It still held its
Dr Harper mask in one rotted, spadeclaw hand.


STEPHEN KING

O CEMITÉRIO

Tradução
Mário Molina

NOTAS DA ORELHA DO LIVRO

Será que Stephen King é capaz de assustar a si mesmo?
Terá o autor de Carrie, O Iluminado, Cujo e Christine concebido alguma vez uma história tão horripilante que por certo tempo não se dispôs a terminar de escrevê-la?
Sim.
Aqui está ela.
Ambientada numa pequena cidade do Maine, para a qual um jovem médico de Chicago, Louis Creed, se muda com a família, O Cemitério começa com uma visita a um
"simitério" nos bosques, onde gerações e gerações de crianças enterraram seus bichos de estimação. Mas atrás do "simitérío" de bichos há outro cemitério, uma terra
que atrai as pessoas com promessas sedutoras... e medonhas tentações.
À medida que a história se desenvolve, avança também o pesadelo do sobrenatural, tão horrível que, em certos momentos, o leitor não vai querer continuar...
Mas será incapaz de parar.
Você faz isso porque a coisa se apodera de você, diz o bom velho com seu segredo.
E Inventa razões... e elas sempre parecem boas razões... Mas faz isso principalmente porque você já esteve lá em cima, aquele é o seu lugar, você pertence a ele
. . Ao " Simitério" de Bichos, e ao que jaz além...
O primeiro romance de Stephen King, Carrie, podia nunca ter sido publicado se sua esposa Tabitha não tivesse tirado o manuscrito da cesta de lixo.
Hoje, porém, Stephen King é mundialmente reconhecido como "moderno mestre do horror" (New York Times) e se transformou num fenômeno editorial, um dos mais populares
escritores de todos os tempos. Estima-se que já tenham sido impressos 40 milhões de exemplares de seus livros nos quatro cantos do mundo. Dois de seus romances,
Carrie e O Iluminado, já foram transformados em filmes de sucesso, e 1983 viu a adaptação para o cinema de Cujo, A Zona Morta e seu mais recente livro, Christine.
Ele também o autor de Sombras da Noite, publicado, assim como Chnistine, na coleção Mestres do Horror e da Fantasia, um livro de contos, Different Seasons, coletânea
de quatro novelas que em breve também será lançada nessa mesma coleção, e Dança Macabra, um ensaio sobre o campo do horror, elogiado pelo Inquirer, de Filadélfia,
como "um dos melhores livros dos últimos tempos sobre a cultura americana".
Stephen King vive em Bangor, Maine, com sua esposa Tabitha (autora do bem recebido romance Small World e, em 1983, de Caretakers) e três filhos.


"O mais novo romance de King é, ao mesmo tempo, um maravilhoso retrato de família e o Iivro mais assustador que já foi escrito... As últimas 50 páginas são
tão horripilantes que podem tirar o fôlego do leitor... Espirituoso, Inteligente, observador, King nunca foi um artista tão humano."

Publishers Weekly


(c) l983 by StephenKing
Publicado mediante contrato com o autor e agentes do autor, Kirby McCauley Ltd.

Título original: Pet Sematary

Revisão tipográfica: Umberto Figueiredo Pinto

Impresso no Brasil
Printed in Brazil
1984
Nota do Autor:


Devo agradecimentos especiais a Russ Dorr e Steve Wentworth, de Brídgton, Maine. Russ forneceu informação médica e Steve forneceu informação sobre costumes americanos
de funeral e sepultamento, além de esclarecer certos pontos sobre a natureza do luto.

Stephen King
Para Kirby McCauley

SUMARIO

PARTE UM
O
"SIMITÉRIO" DE BICHOS

PARTE DOIS
O
CEMITÉRIO MICMAC


PARTE TRÊS
OZ, O "GANDE E TEÍVEL"

Aqui está uma lista de algumas pessoas que escreveram livros, dizendo o que fizeram e por que fizeram essas coisas:


John Dean, Henry Kissinger, Adolph Hitler, Caryl
Chessman, Jeb Magruder, Napolecto, Talleyrand, Disraeli,
Robert Zimmerman, também conhecido como Bob Dylan,
Locke, Charlton Heston, Errol Flynn, Aiatolá Khomeini,
Ghandhi, Charles Olson, Charles Colson, Um
Cavaleiro Vitoriano, Dr. X.


A maioria das pessoas acredita que Deus escreveu um Livro, ou Livros, dizendo o que fez e, pelo menos até certo ponto, dizendo por que fez aquelas coisas. Como a
maior parte dessas pessoas acredita que os homens são feitos à imagem de Deus, Ele também pode ser encarado como uma pessoa... ou, mais adequadamente falando, uma
Pessoa.

E aqui está uma lista de pessoas que não escreveram livros dizendo o que fizeram... e o que viram:

O homem que enterrou Hitler, o homem que fez a autôpsia de John Wilkes Booth, o homem que embalsamou Elvis Presley, o homem que embalsamou (e mal segundo a maioria
dos agentes funerários) o Papa João XXIII, os papa-defuntos que limparam Jonestown (carregando sacos com cadáveres, arpoando copos de papel com aqueles arpões que
os guardas usam nos parques públicos, enxotando as moscas), o homem que cremou William Holden, o homem que cobriu de ouro o corpo de Alexandre, o Grande,
para que ele não apodrecesse, os homens que mumificavam os fara6s.


A morte é um mistério, o sepultamento
um segredo.

PARTE UM

"SIMITÉRIO" DE BICHOS
E Jesus disse a eles: "Nosso amigo Lázaro dorme, mas vou até lá, porque posso despertá-lo de seu sono".

Os discípulos se olharam e alguns sorriram, pois não tinham percebido que Jesus falara em sentido figurado:
"Senhor, se ele está dormindo, deve estar bem'


Entáo Jesus falou mais claramente: "Lázaro está morto, é isso... Mas vamos para junto dele"

- O Evangelho segundo São João (paráfrase)

1


Louis Creed, que perdera o pai aos três anos e jamais tivera um avô, não esperava encontrar um pai agora, quando estava chegando à meia-idade, mas foi exatamente
isso que aconteceu... (Chamava-o, no entanto, de amigo, como deve fazer um adulto ao se deparar, relativamente tarde na vida, com o homem que poderia ter sido seu
pai) Encontrou-o na noite em que se mudou, com a esposa e os dois filhos, para uma grande casa branca de madeira, em Ludlow. Winston Churchill mudou-se com eles.
Church era o gato da filha Eileen.
A comissão de pesquisa não tivera pressa, e sem dúvida a busca de uma moradia numa distância razoável da universidade fora de arrepiar os cabelos. Quando a família
chegou ao lugar onde devia estar a casa (as referências estavam certas... como os sinais astrológicos na noite anterior ao assassinato de César, Louis pensou morbidamente),
todos pareciam cansados, tensos, impacientes. Os dentes de Gage tinham começado a nascer e ele chorava quase sem parar. Não dormia, por mais que Rachel o ninasse.
Ela ofereceu-lhe o seio, embora não fosse hora de mamar. Mas Gage sabia tão bem quanto ela - ou talvez ainda melhor - qual era sua hora de mamar e prontamente estreou
nela os dentes recém-chegados. Rachel, ainda incerta sobre aquela mudança de Chicago, onde sempre vivera, para o Maine, explodiu em lágrimas. Eileen logo lhe fez
coro. Na traseira da camionete, Church continuava a andar de um lado para o outro (como vinha fazendo nos três dias que demorou a viagem de Chicago até lá). Seu
berreiro dentro da bolsa fora terrível, mas aquele incessante perambular depois que resolveram deixá-lo solto no carro enervava.


O próprio Louis sentiu uma certa vontade de chorar. Uma idéia absurda, mas não desinteressante, lhe ocorreu: podia sugerir que voltassem a Bangor para comer
alguma coisa enquanto esperavam o caminhão de mudanças; quando suas três caras-metades saltassem, pisava no acelerador e fugia com o pé na tábua, sem olhar para
trás, o enorme carburador de quatro cilindros devorando a gasolina cara. Dirigiria para o sul, tomando o caminho de Orlando, na Flórida, onde poderia conseguir emprego
como médico na Dísney World, sob um nome falso. E antes de atingir o primeiro pedágio da velha Rodovia 95, que cruzava as fronteiras do Sul, pararia na beira da
estrada e se livraria também da merda do gato.
Então, fez uma curva final e lá estava a casa. Foi o primeiro a vê-la pessoalmente. Depois de ter certeza que o cargo na Universidade do Maine era seu, examinara
através de fotos cada uma das sete possibilidades que lhe foram oferecidas. Escolhera aquela: uma grande e velha casa colonial, típica da Nova Inglaterra (mas recentemente
reformada e reforçada em sua estrutura). O custo elevado, por mais terrível que fosse, não pareceu fora de cogitação em termos de orçamento doméstico. Eram três
cômodos grandes no andar de baixo, mais quatro em cima, um galpão comprido que poderia mais tarde ser transformado em novos aposentos - tudo isso cercado pelo opulento
esparramar de um gramado, exuberantemente verde, mesmo naquele calor de agosto.
Atrás da casa havia um grande terreno onde as crianças podiam brincar e, além do terreno, um bosque imenso, que se perdia de vista no horizonte. A propriedade
confinava com terras devolutas, explicara o corretor, e ao menos num futuro previsível não haveria construções ali. Os remanescentes da tribo indígena micmac reivindicavam
cerca de oito mil acres em Ludlow e nas cidades a leste de Ludlow. O complicado litígio, envolvendo tanto o governo federal quanto o governo local, poderia se estender
por mais de um século.
De repente, Rachel parou de chorar e se aprumou no assento.
- É essa...
-É essa - disse Louis.
Ele se sentia apreensivo... Ou mesmo assustado... Na realidade, aterrorizado. Hipotecara doze anos de sua vida naquilo; só estaria paga quando Eileen tivesse
dezessete anos.
Engoliu em seco.
- O que você acha?
- Acho que é muita bonita - disse Rachel, tirando-lhe um enorme peso do peito e da cabeça. Não estava brincando, ele percebeu; a opinião se estampava no modo
como Rachel contemplou a casa quando a camionete tomou a estradinha asfaltada e fez a curva para o galpão nos fundos: os olhos percorreram as janelas vazias, a mente
já teria começado a registrar problemas de cortinas, oleados para os guarda-louças, Deus sabe o que mais...
- Papai!? - disse Ellie do assento de trás. Ela também parara de chorar. Mesmo Gage fizera uma pausa no berreiro. Louis saboreou o silêncio.
- O que é, meu bem?
Os olhos da menina no espelho retrovisor, castanhos sob um cabelo louro um tanto escurecido, também inspecionavam a casa, o gramado, o telhado de uma casa vizinha
afastada, à esquerda, o grande terreno que se prolongava até o bosque.
- Essa é a nossa casa?
- Vai ser, querida - disse ele.
- Iarru! - Ellie gritou, quase lhe rebentando os tímpanos. E Louis, que às vezes conseguia ficar muito irritado com Ellie, achou que não se importava de jamais
pôr os olhos em Disney World na cidade de Orlando.
Estacionou diante do galpão e desligou o motor da camionete.
Os pistões pararam. O silêncio pareceu muito grande em comparação ao barulho de Chicago, à barafunda da Rua State e do Loop; um pássaro cantava docemente naquele
fim de tarde.
- Nossa casa - Rachei disse em voz baixa, ainda contemplando as janelas.
- Casa - Gage repetiu satisfeito no colo da mãe.
Louis e Rachei olharam um para o outro. No espelho retrovisor, os olhos de Eileen se arregalaram.
- Vocês...?
- Ele...
- Não foi ..?
Todos falaram ao mesmo tempo, todos riram ao mesmo tempo. Gage não ligou; continuou chupando o dedo. Vinha dizendo "mã" há quase um mês e, uma ou duas vezes,
tentara dizer alguma coisa que podia ter sido "papa" (ou só uma esperançosa ilusão da parte de Louis).
Aquilo, no entanto, por acidente ou imitação, fora realmente uma palavra. Casa. Louis tirou Gage do colo da mulher e apertou-o entre os braços.
Foi assim que chegaram a Ludlow.

Na memória de Louis Creed, aquele momento singular sempre conservou uma natureza mágica; em parte, talvez, por ter sido realmente mágico, mas principalmente
pelo dia ter ficado tão selvagem depois do anoitecer. Nas três horas seguintes, qualquer paz ou magia desapareceriam por completo.
Louis era um homem organizado, metódico. Guardara cuidadosamente as chaves da casa num pequeno envelope de correspondência rotulado "Casa de Ludlow - chaves
recebidas a 29 de junho". Pusera o envelope no porta-luvas da camionete Fairlane. Tinha certeza absoluta. Agora, porém, não estava lá.
Enquanto Louis procurava as chaves, dominado por uma irritação crescente, Rachel içou Gage para os quadris e foi com Eileen para perto de uma árvore que havia
no terreno. Louis dava uma terceira busca sob os assentos, quando a filha gritou e começou a chorar.
- Louis! - Rachel chamou. - Ela caiu!
Eileen caíra de um balanço de pneu e batera com o joelho numa pedra. O corte era pouco profundo, mas ela gritava, pensou Louis, com uma certa falta de generosidade,
como se tivesse perdido a perna. Numa casa do outro lado da estrada, havia luz na sala de estar.
- Tudo bem, Ellie - disse. - Já chega. As pessoas daquela casa pensarão que há alguém morrendo.
- Mas está doeeeendo!
Louis controlou sua raiva e voltou em silêncio para a camionete. As chaves haviam desaparecido, mas o estojo de primeiros socorros ainda continuava no porta-luvas.
Pegou-o e voltou para junto da filha. Quando Ellie viu o estojo, começou a berrar ainda mais alto.
- Não! Não a coisa que arde! Eu não quero a coisa que arde, papai! Não...
- Eileen, é só mercurocromo. Isso não vai arder...
- Seja boazinha - disse Rachel - E.....
- Não,-não,- não - não - não...
- Se não parar com isso o que vai arder são as palmadas que vai levar - disse Louis.
- Ela está cansada, Lou - interveio Rachel num tom apaziguador.
- É? Eu também estou cansado. Pegue a perna dela.
Rachel pôs Gage no chão e segurou a perna de Eiléen, que Louis pintou de mercurocromo, indiferente aos gritos cada vez mais histéricos.
- Tem alguém na varanda daquela casa no outro lado da rua - disse Rachel pegando Gage. O bebê começara a engatinhar pela grama.
- Ótimo! - Louis resmungou.
- Lou, ela está...
- Cansada, eu sei.
Tampou o mercurocromo e olhou furioso para a filha.
- Escute, isso realmente não doeu nada. Fique de pé, Ellie.
- Dói! Dói muito! Está doeeeendo...
A mão dele teve ânsias de lhe dar um tapa mas ele apenas segurou a perna com força.
- Encontrou as chaves? - Rachel perguntou.
- Ainda não - disse Louis, fechando com um estalo a tampa do estojo de primeiros socorros e se levantando. - Vou...
Gage começou a berrar. Não estava fazendo manha ou chorando, mas literalmente gritando, debatendo-se nos braços da mãe.
- O que há com ele? - Rachel perguntou alarmada, atirando-o quase cegamente para Louis. Era, ele supunha, uma das vantagens dela se ter casado com um médico.
Podia empurrar o filho para o marido sempre que o problema parecesse grave. - Louis! O que...
O bebê se agarrava freneticamente ao pescoço do pai, gritando de modo selvagem. Louis deu-lhe um puxão e viu um feio calombo branco inchando perto da
garganta. E havia também alguma coisa na fita de seu capuz, alguma coisa imprecisa, que se contorcia debilmente.
Eileen, que tinha ficado mais tranqüila, começou a berrar de novo:
- Abelha! Abelha! Abeeeelha!
A menina pulou para trás, tropeçou na mesma pedra saliente em que já batera o joelho, caiu sentada e voltou a chorar num misto de dor, surpresa e medo.
Estão me deixando louco, Louis pensou abismado. Ahhhh!
- Faça alguma coisa, Louis! Será que não pode fazer nada?
- Tente tirar o ferrão - falou uma voz arrastada atrás deles. - Isso não falha. Tire o ferrão e ponha um pouco de bicarbonato. Aperte que o calombo cede.
Era uma voz tão cavernosa e com um sotaque tão carregado da Nova Inglaterra que, por um momento, a mente cansada e confusa de Louis recusou-se a traduzir o dialeto:
Ti o firrão e põ um pouco d'carbonato. Perta que o calom cede.
Ele se virou. De pé no gramado havia um homem velho, talvez de setenta anos - um robusto e saudável septuagenário. Usava avental sobre uma camisa de cambraia
azul e tinha um pescoço cheio de pregas e rugas. O rosto era queimado do sol e estava fumando um cigarro sem filtro. Quando Louis se virou, o velho apertou com força
o cigarro entre o polegar e o indicador, para depois guardá-lo caprichosamente no bolso. Balançou as mãos e deu um sorriso torto, mas um sorriso que agradou de imediato
a Louis (e Louis não era um homem que "se amarrasse" facilmente nas pessoas).
- Nem precisa dizer que está em apuros, doutor - falou em seu dialeto.
E foi assim que Louis conheceu Judson Crandall, um homem que teria a idade de seu pai.


Crandall os vira chegar e atravessara a rua para ver se não poderia ajudá-los, pois eles pareciam estar "num baita de um aperto".
Enquanto Louis segurava o bebê contra o ombro, Crandall se aproximou, observou o calombo no pescoço da criança e esticou a mão retorcida e cheia de manchas.
Rachel abriu a boca para protestar - aquela mão parecia terrivelmente disforme, quase tão grande quanto a cabeça de Gage -, mas antes que pudesse dizer uma palavra,
os dedos do velho tinham feito um movimento simples e preciso, tão hábil, tão ágil quanto os dedos de um homem embaralhando cartas em leque ou despejando moedas
num caça-níqueis. Num instante, o ferrão jazia na palma da mão.
- É grande, opa! - o velho comentou. - Já vi maiores, mas essa pica já dá um bom estrago, não é?
Louis rebentou numa risada.
Crandall contemplou-o com aquele sorriso torto e disse:
- Acho que a dona não gostou.
- Que foi que ele disse, mamãe? - Eileen perguntou, e então também Rachel explodiu numa risada. Evidentemente não era nada polido, mas de certa forma estava
tudo bem. Crandall puxou um maço de Chesterfield Kings, encaixou um deles no canto rachado da boca, balançou a cabeça com ar divertido enquanto os dois riam (mesmo
Gage dava as suas risadinhas, apesar do calombo do ferrão da abelha) e acendeu um fósforo com um piparote da unha do polegar. O velho tem lá os seus truques, Louis
pensou. Pequenos truques, mas alguns muito bons.
Parou de rir e estendeu a mão que não estava segurando o traseiro de Gage (sem dúvida o traseiro de Gage estava um tanto úmido).
- É um prazer conhecê-lo, Sr...
- Jud Crandall - o velho respondeu apertando a mão. - O senhor é o doutor, não é?
- Sim. Louis Creed. Esta é minha esposa Rachel, minha filha Ellie e o guri com o ferrão da abelha é o Gage.
- É um prazer conhecer vocês.
- Eu não ri de propósito... Isto é, nós não rimos de propósito... É que estamos... um pouco cansados.
A tentativa de atenuar a coisa provocou-lhe de novo um riso nervoso. Mas, de fato, ele se sentia totalmente exausto.
Crandall concordou com a cabeça.
- É claro que estão - disse ele (o que saíra cla que tão). Deitou os olhos sobre Rachel: - Por que não vai lá pra casa um minuto com o gurizinho e a menina,
dona? A gente pode pôr algum bicarbonato num esfregão e refrescar um pouco o calombo. A patroa também vai gostar de conhecer a senhora. Ela não saí muito de casa.
Ficou muito mal da artrite de dois ou três anos pra cá.
Rachei olhou para Louis, que concordou.
- É muita gentileza sua, Sr. Crandall.
- Oh, pode me chamar de Jud - disse ele.
De repente, ouviu-se uma buzina alta, o ronco de um motor diminuindo a marcha e o grande caminhão azul de mudanças entrou, rangendo, no caminho de acesso à casa.
- Oh, Deus, e eu não sei onde estão as chaves - disse Louis.
- Tudo bem - disse Crandall - Tenho um molho de chaves. Sr. e Sra. Cleveland, as pessoas que moraram aqui antes de vocês, deram-me um punhado de chaves. Oh,
deve ter sido há quatorze, quinze anos atrás. Viveram aqui um bom tempo. Joan Cleveland foi a melhor amiga de minha mulher. Morreu há dois anos. Bill foi morar num
daqueles velhos conjuntos habitacionais populares em Omington. Vou buscar as chaves. De qualquer modo, elas agora são suas.
- O senhor é muito gentil, Sr. Crandall - disse Rachei.
- De modo algum - ele respondeu. - Queríamos mais é ter gente moça por perto. (Para ouvidos do centro-oeste, as palavras tinham um som tão exótico quanto uma
língua estrangeira.) É bom ver gente na estrada, dona. Tamos cansados das carretas passando.
Agora escutaram portas batendo, quando os homens da mudança pularam da cabine do caminhão e se aproximaram.
EIlie, que se afastara um pouco, voltou perguntando:
- Papai, o que é aquilo?
Louis, que saíra ao encontro dos homens, olhou para trás. Na borda do terreno, onde o gramado acabava e um mato alto começava a se espalhar, fora aberta uma
trilha de pouco mais de um metro de largura. Um traçado suave corria pelo mato, serpenteava subindo a colina, fazia uma curva através de uma moita de arbustos e
um arvoredo de bétulas, depois desaparecia de vista.
- Parece uma espécie de trilha - disse Louis.
- Oh, sim - disse Crandall, sorrindo. E virando-se para Ellie: - Um dia lhe conto desse caminho, mocinha. Não quer atravessar? Vamos deixar o seu irmãozinho
em ordem.
- Eu vou - disse Ellie, logo acrescentando com ar esperançoso: - O bicarbonato não arde?


Quando Crandall trouxe as chaves, Louis já encontrara as suas. Havia uma brecha no alto do porta-luvas e o pequeno envelope deslizara para junto da fiação
elétrica. Ele conseguiu pegá-lo e pôde abrir a porta para os homens da mudança. Crandall entregou-lhe o molho de chaves sobressalentes. As chaves estavam numa pequena
corrente, velha e amarelada. Louis agradeceu e colocou-as distraidamente no bolso, observando os homens da mudança transportando caixas, cômodas, armários e todas
as coisas que tinha acumulado em doze anos de casamento. Pareciam medíocres fora de seus lugares habituais. Só um punhado de coisas encaixotadas, pensou, sentindo-se
de repente triste e deprimido; achou que estava sentindo o que as pessoas chamavam nostalgia.
- Desarraigado e plantado noutro lugar - disse Crandall, subitamente a seu lado; Louis deu um pulo.
- Parece que você conhece a sensação - disse ele.
- Não, realmente não.
Crandall acendeu um cigarro - vupt! fez o fósforo, a chama brilhando nas primeiras sombras do início da noite.
- Meu pai construiu essa coisa do outro lado da estrada. Levou a mulher pra lá e lá ela teve um filho; esse filho fui eu, nascido bem no ano de 1900.
- Então você está...
- Com oitenta e três - disse Crandall e Louis ficou um tanto aliviado de que não tivesse acrescentado primaveras, uma expressão que as pessoas mais velhas âs
vezes usavam e ele detestava.
- Parece bem mais moço.
Crandall deu de ombros.
- Morei aqui a vida toda. Na época da Grande Guerra eu me alistei, mas o ponto mais próximo da Europa a que cheguei foi Bayonne, em Nova Jérsei. Lugar detestáveL
Já em 1917 era um lugar detestável. Fiquei satisfeito quando voltei pra cá. Casei com minha Norma, passei meus anos de vida na estrada de ferro e ainda estou aqui.
Mas tive uma vida e tanto em Ludlow. Sem dúvida.
Os homens da mudança pararam junto da entrada do galpão. Seguravam o estrado de molas que ficava sob a grande cama de casal que Louis repartia com Rachel.
- Onde quer que ponha isso, Sr. Creed?
- No andar de cima... Só um minuto, eu vou mostrar o lugar.
Louis deu um passo na direção deles, depois parou um instante e olhou para Crandall.
- Pode ir - disse Crandall, sorrindo. - Vou ver o que o seu pessoal está fazendo. Vou mandar que voltem pra cá, mas não o atrapalhem... Fazer mudança é um trabalho
que dá muita sede. Eu sempre costumo sentar na minha varanda por volta das nove e tomar algumas cervejas. E quando o tempo está quente, gosto de ver a noite chegar.
À5 vezes Norma senta comigo. Se quiser, pode ir também.
- Bem, talvez eu vá - disse Louis, não pretendendo de modo algum fazê-lo. Sabia que o próximo passo seria um diagnóstico informal (e gratuito) da artrite de
Norma na varanda. Gostava de Crandall, gostava de seu sorriso meio atravessado, seu jeito descuidado de falar, o sotaque do norte, que longe de ser áspero tinha
quase a maciez de uma fala arrastada. Um bom homem, Louis pensou, mas os médicos costumam desconfiar das pessoas com facilidade. Infelizmente, mais cedo ou mais
tarde, mesmo os melhores amigos passam a querer assistência médica. E com a gente velha a coisa é interminável - Mas não fique acordado esperando por mim... Tivemos
um dia diabólico.
- Bem, você sabe que não precisa de convite pra ir lá em casa -disse Crandall; havia algo no seu sorriso tonto que fez Louis pressentir que Crandall sabia exatamente
o que ele estava pensando.
Contemplou o velho por um momento antes de juntar-se aos homens da mudança. Crandall andava com o corpo firme e a cabeça erguida. Parecia um homem de sessenta
anos, não de mais de oitenta. Louis experimentou um primeiro e tímido sinal de afeição.

Pelas nove horas, os homens da mudança tinham ido embora. Ellie e Gage, ambos exaustos, dormiam em seus novos quartos, Gage no berço, Ellie num colchão no assoalho,
cercada de um monte de caixas: bilhões de bonecas, inteiras, quebradas ou amassadas, os posters de Vila Sésamo, os livros ilustrados, as roupas, Deus sabe o que
mais. E, naturalmente, Church estava a seu lado, também dormindo e rosnando asperamente do fundo da garganta. Aquele rosnado áspero era o máximo que o grande gato
podia se aproximar do ronronar.
Rachel tinha revirado incansavelmente a casa com Gage nos braços. Procurava adivinhar onde Louis mandara os homens da mudança deixar as coisas; tornava a arrumá-las,
empilhá-las, mudava-as de lugar. Louis não perdera o cheque para pagar a mudança; ainda estava no bolso interno do paletó, junto com as cinco notas de dez dólares
da gorjeta. Quando o caminhão foi finalmente esvaziado, entregou o cheque e o dinheiro, inclinou a cabeça ante os agradecimentos, assinou o recibo e permaneceu na
varanda, vendo os homens voltarem à cabine do caminhão. Achou que provavelmente iam parar em Bangor e tomar umas cervejas para assentar a poeira. Algumas cervejas
cairiam muito bem agora. E isso o fez pensar outra vez em Jud Crandall.
Sentou-se com Rachel na mesa da cozinha e viu as manchas escuras sob seus olhos.
- Você - disse ele - deve ir dormir.
- Ordens do médico? - ela perguntou, com um meio sorriso.
- É.
- Tudo bem - disse Rachel se levantando. - Estou exausta. E Gage é capaz de acordar durante a noite. Você vem?
Louis hesitou.
- Não sei se já vou dormir agora. Aquele velhinho do outro lado da rua...
- Estrada. Aqui no interior é estrada. E se você fosse Judson Crandall, acho que diria ruduvia.
- Tudo bem, do outro lado da ruduvia. Ele me convidou para tomar uma cerveja. Acho que vou lhe fazer companhia. Estou cansado, mas muito agitado para dormir.
Rachei sorriu.
- Vai acabar pedindo que Norma Crandall explique onde dói e em que tipo de colchão ela dorme.
Louis riu, pensando como era engraçado - engraçado e alarmante -o modo como as mulheres, após algum tempo, conseguem ler os pensamentos dos maridos.
- Ele ajudou quando precisamos - disse. - Acho que também posso fazer um favor.
- Uma permuta?
Louis sacudiu os ombros, relutante, não sabendo como dizer à esposa que simpatizara com Crandall à primeira vista.
- Como é a mulher?
- Muito amável - disse Rachel. - Gage sentou-se no colo dela. Isso me espantou porque ele teve um dia cansativo e você sabe que costuma estranhar as pessoas
mesmo na melhor das situações. Norma deu uma boneca para Eileen brincar.
- Você acha que a artrite é muito grave?
- Muito.
- Está numa cadeira de rodas?
- Não... Mas anda devagar e os dedos...
Rachei ergueu os dedos delicados e curvou-os como garras para demonstrar. Louis balançou a cabeça.
- Não demore, Lou. Tenho calafrios em casas que não conheço.
- Logo vai conhecê-la - disse Louis, beijando-a.


Louis voltou tarde e envergonhado. Ninguém lhe pedira para examinar Norma Crandall; quando atravessou a rua (ruduvia, ele se corrigiu, sorrindo), a senhora
já fora se deitar. Jud era uma vaga silhueta atrás das cortinas da varanda fechada. Havia o aconchegante ranger de uma velha cadeira de balanço. Louis bateu na porta
de madeira, que chocalhou amistosamente em sua moldura. O cigarro de Crandall brilhava como um grande e pacífico vagalume na noite de verão. De um rádio, baixo,
vinha a transmissão de um jogo de red sox e tudo isso deu a Louis Creed a estranha sensação de volta à casa paterna.
- Doutor - disse Crandall. - Achei que fosse o senhor.
- Espero que tenha dito a verdade sobre a cerveja - disse Louis entrando.
- Oh, sobre cerveja eu nunca minto - disse Crandall. - Um homem que mente sobre cerveja faz inimigos. Sente, doutor. Se precisar, tem mais cerveja na geladeira.
A varanda era comprida e estreita, mobiliada com cadeiras de palhinha e sofás. Louis afundou-se num deles e constatou, espantado, o quanto era confortável. À
sua esquerda, havia um balde de metal cheio de cubos de gelo e algumas latas de Black Label Pegou uma delas.
- Obrigado - ele disse abrindo a lata. Os dois goles iniciais caíram em sua garganta como uma bênção.
- Seja muito bem-vindo - disse Crandall. - Espero que seja feliz aqui, doutor.
- Amém - disse Louis.
- Escute! Se quiser bolachas ou alguma coisa, posso ir buscar. Tenho um pedaço de rato que está no ponto.
- Um pedaço de quê?
- Queijo de rato, aquele furadinho.
Crandall parecia um tanto divertido.
- Obrigado, mas a cerveja chega pra mim.
- Bem, então, vamos acabar com ela - Crandall arrotou com satisfação.
-~ Sua esposa foi dormir? - Louis perguntou, intrigado por ele estar tão à vontade.
- Foi. Às vezes fica acordada. Às vezes não.
- A artrite deve ser bem dolorosa, não é?
- Já encontrou um caso em que não fosse? - Crandall perguntou.
Louis balançou negativamente a cabeça.
- Mas acho que é tolerável - disse CrandalL - Não se queixa muito. É uma boa e velha menina, minha Norma.
Havia um grande e simples sentimento de afeição na voz de Crandail. Lá fora, na Rodovia 15, um caminhão tanque passou zumbindo. Era tão grande e comprido que,
por um momento, Louis não pôde ver sua casa do outro lado da estrada. Do lado do veículo, visível à luz da lanterna traseira, estava escrito Orinco.
- Que diabo de caminhão grande! - Louis comentou.
- A Orinco fica perto de Orrington - disse Crandall. - É uma fábrica de fertilizantes químicos. Os caminhões vão e vêm, sem parar. Mas há também caminhões petroleiros,
caminhões-basculantes, e as pessoas que vão trabalhar em Bangor ou Brewer e voltam para casa à noite. - Ele balançou a cabeça. - É a única coisa em Ludlow de que
não gosto mais. Essa estrada terríveL Não nos dá sossego. Os caminhões passam todo o dia e toda a noite. Às vezes acordam Norma. Diabo, me acordam também, e olhe
que eu tenho o sono pesado como um tronco!
Louis, que achava aquela estranha paisagem do Maine quase assustadoramente silenciosa em comparação ao ronco incessante de Chicago, limitou-se a abanar a cabeça.
- Um dia desses os árabes cortam o barato e todos poderão plantar violetas africanas em paz na margem da ruduvia - disse CrandalL
- Acho que tem razão.
Louis inclinou a lata de cerveja e surpreendeu-se ao ver que já estava vazia.
Crandall riu.
- Tome mais uma pra fermentar, doutor.
Louis hesitou antes de responder:
- Tudo bem, mas só mais uma. Tenho de voltar logo.
- É claro. Mudança é uma merda, não é?
- E mesmo - Louis concordou e, por um instante, os dois ficaram em silêncio. Foi um silêncio descontraído, como se já se conhecessem há muito tempo. Era uma
sensação que Louis encontrara em livros, mas que nunca experimentara pessoalmente até aquele momento. Sentiu vergonha de seus pensamentos pouco generosos sobre assistência
médica gratuita.
Um caminhão-guincho passou, as luzes piscando e correndo como estrelas cadentes.
- Este sinal das luzes quer dizer que está tudo bem na estrada -Crandall disse pensativo, com ar um tanto vago. Depois virou-se para Louis. Tinha um estranho
e breve sorriso entre os sulcos da boca. Encaixou um Chesterfield num dos cantos do sorriso e acendeu um fósforo com o piparote da unha do polegar. - Está lembrado
da trilha de que sua mocinha falou?
Louis não conseguiu lembrar de imediato; Ellie falara de um verdadeiro catálogo de coisas antes de desmoronar de sono. Mas, por fim, recordou. Aquela ampla trilha
aberta no matagal, serpenteando entre as árvores do bosque e subindo a colina.
- Sim, eu lembro. Você prometeu que um dia ia lhe contar a história da trilha.
- Prometi e vou cumprir - disse Crandall. - Aquele caminho se estende cerca de dois quilômetros e meio pelo bosque afora. As crianças do local, as que vivem
perto da Rodovia 15 e da Estrada Central, conservam-no em bom estado porque o utilizam com muita freqüência. Vão e vem... Agora tem muito mais movimento do que quando
eu era garoto. Sabe como é, as pessoas descobrem um lugar e se apegam a ele. Toda a garotada parece se interessar pela conservação da trilha. A cada primavera, uma
turma roça o caminho. E o conserva durante todo o verão. Nem todos os adultos da cidade sabem o que existe ali; muitos sabem, é claro, mas não todos, não tem a menor
dúvida... Mas todas as crianças sabem. Nisso eu aposto.
- E o que existe lá?
- Um cemitério de bichos - disse Crandall.
- Um cemitério de bichos? - Louis repetiu, confundido.
- Não é tão estranho como pode parecer - disse Crandall, fumando e se balançando na cadeira. - É a estrada. Ela tira a vida de muitos animais, essa estrada.
Na maior parte, cachorros e gatos, mas não só. Um desses grandes caminhões da Orinco atropelou o quati que as crianças dos Ryder tinham. Foi... Cristo, deve ter
sido em 73, talvez antes. De qualquer modo, antes do estado ter declarado ilegal a posse de um quati ou mesmo de um zorrilho.
- E por que fizeram isso?
- Raiva - disse Crandall. - Muitos casos de raiva no Maine. Há alguns anos, no interior do estado, um grande e velho São Bernardo ficou raivoso e matou quatro
pessoas. Foi uma coisa terríveL O cão não estava vacinado. Se aqueles malucos tivessem se preocupado em vacinar o cachorro, isto nunca teria acontecido. Mas um quati
ou um zorrilho, você pode vacinar duas vezes por ano e mesmo assim a vacina pode não pegar... Só que aquele quati dos garotos dos Ryder era o que os antigos moradores
da região continuavam a chamar de um "quati manso". Vinha gingando pra junto de você - era um bicho meigo de verdade! - e lambia o teu rosto como um cachorro. O
pai deles chegou a pagar um veterinário pra castrá-lo e cortar as garras. E isso deve ter custado uma verdadeira fortuna!
Crandall continuou:
- Ryder, ele trabalhou para a IBM em Bangor. Foi com a família para o Cobrado há cinco anos... ou talvez seis. Engraçado pensar que aqueles garotos já têm quase
idade pra tirar carteira de motorista... Será que ficaram muito sentidos com a história do quati? Acho que sim. Matty Ryder chorou tanto tempo que a mãe ficou assustada
e quis levá-lo ao médico. Agora já deve estar conformado, mas nunca vai esquecer. Quando um animal de estimação é atropelado na estrada, uma criança nunca esquece.
Os pensamentos de Louis voltaram-se para Ellie. Na última vez que a vira naquela noite, ela adormecera com Church roncando a seus pés.
- Minha filha tem um gato - disse. - Winston Churchill. Nós o chamamos de Church para facilitar.
- Ele anda por aí subindo em muros?
- Como? - Louis não tinha idéia do que o velho estava falando.
- Ainda tem as bolas ou já está no prego?
- Não - disse Louis -, ele ainda não está no prego.
De fato, isso dera algum problema em Chicago. Rachel queria que Church fosse castrado, chegara a marcar hora com o veterinário. Louis desmarcou. Mesmo agora
ainda não sabia realmente por quê. Não se tratava de algo tão simples ou tão estúpido quanto equiparar sua masculinidade à do gato da filha, nem mesmo de sua aversão
à idéia de castrarem Church para que a gorda dona-de-casa vizinha não precisasse se dar ao trabalho de fechar bem as tampas de suas instáveis latas de lixo - essas
coisas podem ter tido alguma importância, mas o motivo principal fora uma forte sensação de que aquilo destruiria alguma coisa em Church, algo que ele estimava,
como, por exemplo, o olhar atrevido nos olhos verdes do gato. Fez ver a Rachel que estavam de mudança para o campo, onde Church não causaria problemas. E agora Judson
Crandall lhe alertava que aquela parte do campo tinha de enfrentar a Rodovia 15 e perguntava se o gato estava castrado. Seja irônico, pensava o Dr. Creed... Rir
um pouco faz bem à circulação.
- Eu o teria castrado - disse Crandall, amassando o cigarro entre o polegar e o indicador. - Um gato castrado não fica perambulando à toa. Quando um animal não
pára de andar de um lado pro outro, sempre escapa de casa e acaba como o quati dos filhos dos Ryder, o pequeno cocker spaniel de Timnmy Dessler e o periquito da
Sra. Bradleigh. Não que o periquito tenha sido atropelado na estrada, é claro. Simplesmente alguém o levou.
- Vou pensar no que está dizendo - Louis falou.
- Faça isso - Crandall respondeu e ficou de pé. - A cerveja não está caindo bem? Acho que vou buscar uma fatia do velho rato.
- A cerveja está ótima - disse Louis, também se levantando -, mas devo ir agora. Amanhã vai ser um dia de muito trabalho.
- Já começa amanhã na universidade?
Louis fez que sim com a cabeça.
- O início das aulas é só daqui a duas semanas, mas quando começarem eu já tenho de estar preparado, não acha?
- É, se ainda não souber às quantas anda, pode ter problemas.
Crandall estendeu a mão e Louis apertou-a, de novo atento para o fato de ossos velhos doerem com facilidade.
- Volte uma noite dessas - disse Crandall. - Queria que conhecesse minha Norma. Acho que ela vai gostar de você.
- Volto - disse Louis. - Foi muito bom conhecê-lo, Jud.
- O mesmo digo eu. Espero que se sinta bem aqui e que fique um bom tempo.
- Eu também espero.
Louis desceu por uma trilha de calçamento rústico até o acostamento da estrada, onde teve de esperar que passasse outro caminhão, seguido por uma fila de cinco
carros na direção de Bucksport. Então, erguendo a mão num breve aceno, atravessou a estrada (ruduvia, ele se lembrou de novo) e entrou em sua nova casa.
A casa estava repleta do silêncio do sono. Ellie parecia nem ter se mexido e Gage continuava no berço, dormindo à sua maneira típica, de costas, com braços e
pernas abertos, a mamadeira ao alcance da mão. Louis se deteve olhando para o filho, o coração repentinamente cheio de amor pela criança, um amor tão forte que parecia
quase perigoso. Achou que parte de seus sentimentos deviam-se à nostalgia por todos os lugares familiares de Chicago e rostos que não veriam mais, tão eficientemente
eliminados pelos quilômetros e quilômetros de viagem que pareciam nunca ter existido. Agora tem muito mais movimento do que quando... Sabe como é, as pessoas descobrem
um lugar e se apegam a ele. Havia alguma verdade nisso.
Ele se aproximou do filho e, como não havia ninguém ali para ver o que estava fazendo, nem mesmo Rachel, beijou a ponta dos dedos e, através das grades do berço,
encostou-os rápida e levemente no rosto de Gage.
Gage resmungou e virou de lado.
- Durma bem, garoto - disse Louis.

Ele se despiu em silêncio e deslizou para a sua metade da cama de casal que, por enquanto, era apenas um colchão no assoalho. Sentiu a tensão do dia começando
a passar. Rachel não se mexeu. Caixas fechadas se amontoavam fantasmagoricamente no aposento.
Pouco antes de dormir, Louis se apoiou num dos cotovelos e olhou pela janela. O quarto era de frente e, além da estrada, podia-se ver a casa de Crandall. Estava
escuro demais para distinguir formas (numa noite de lua não teria sido impossível), mas conseguiu ver a brasa do cigarro ao longe. Ainda acordado, pensou. Talvez
ainda fique acordado por muito tempo. O velho deve dormir pouco. Pode ser que fique de vigília.
Mas por que de vigília?
Louis pensava nisso quando mergulhou no sono. Sonhou que estava na Disney World, ao volante de uma brilhante camionete branca com uma cruz vermelha gravada do
lado. Gage estava junto dele e, no sonho, tinha pelo menos dez anos. Church aparecia sobre o painel da camionete branca, contemplando Louis com os brilhantes olhos
verdes. Na Main Street, perto de uma estação ferroviária dos idos de 1890, Mickey Mouse apertava as mãos das crianças reunidas à sua volta, grandes luvas brancas
engolindo mãos pequenas, firmes.


As duas semanas seguintes foram de muito trabalho para a família. Pouco a pouco, Louis começou a se adaptar ao novo trabalho (o que aconteceria quando dez mil
estudantes, muitos abusando de drogas ou álcool, alguns afligidos por doenças venéreas, outros ansiosos sobre as notas nas provas ou deprimidos por terem saído de
casa pela primeira vez, uma d(szia deles - principalmente moças - com anorexia.., o que aconteceria quando todos eles convergissem em bando para o campus era outra
história). E enquanto Louis começava a tomar as rédeas de suas funções à frente dos Serviços Médicos Universitários, Rachel começava a tomar as rédeas da casa.
Gage levava os encontrões e tombos inevitáveis para se acostumar ao novo ambiente, e, por algum tempo, seu horário de dormir ficou completamente desregulado.
Em meados da segunda semana em Ludlow, porém, voltou a dormir na hora certa. Só Ellie, com a perspectiva de começar o jardim de infância e se sentindo num meio desconhecido,
continuava extremamente agitada, endiabrada. Oscilava de prolongados ataques de riso a períodos de depressão quase idênticos aos da menopausa. Podia, ainda, ter
acessos de cólera a uma simples palavra de repreensão. Rachel dizia que Ellíe superaria aquela fase quando visse que a escola não era o bicho de sete cabeças que
imaginava; Louis achava que a mulher tinha razão. A maior parte do tempo, afinal, EIlie era o que sempre fora - um amor.
A cerveja noturna com Jud Crandall tornou-se uma espécie de hábito para Louis. Pela época em que Gage voltou a dormir bem, ele passou a freqüentar a casa de
Crandall a cada duas ou três noites, contribuindo também com latas de cerveja. Conheceu Norma Crandall, uma senhora amável e simpática que sofria de artrite reumática,
a torpe artrite reumática responsável pela morte de tantos homens e mulheres idosos que, de outra forma, seriam totalmente saudáveis. Norma, porém, reagia bem. Não
levantaria bandeiras brancas para se render à dor. Que a doença a levasse se pudesse. Louis achou que ainda teria pela frente de cinco a sete anos produtivos, mesmo
que não inteiramente confortáveis.
Voltando-se contra os costumes que ele mesmo estabelecerá, examinou-a por iniciativa própria, passou em revista as receitas que o médico lhe dera e considerou-as
bastante adequadas. Sentiu um desapontamento irritante por não ser capaz de sugerir ou fazer mais nada por ela; seu Dr. Weybridge tinha as coisas sob controle (como
elas deveriam estar no caso de Norma Crandall), tentando impedir certos desenvolvimentos repentinos da doença (o que era possível, mas não infalível). Em casos como
aquele, ou o doente aprendia a aceitar a enfermidade, ou acabava trancado num quarto pensando nos brinquedos de infância.
Rachel gostava dela; as duas selaram a amizade trocando receitas de cozinha como os meninos trocam figurinhas de jogadores de beisebol; de início foi a torta
de maçã deep-dish de Norma Crandail pelo strogonoff de Rachel. Norma ficou encantada com ambos os filhos dos Creed, mas particularmente com EIlie, que, segundo ela,
seria "uma beleza como a dos velhos tempos". Pelo menos, disse Louis a Rachel naquela noite na cama, Norma não achou que EJlie ia se transformar num verdadeiro "quati
de estimação". Rachel riu tão forte que soltou um explosivo gás intestinal, e, então, os dois riram tanto tempo e tão alto que acordaram Gage no quarto ao lado.
O primeiro dia no jardim de infância chegou. Louis, que sentiu sob controle todas as atividades de enfermaria e de apoio médico, tirou um dia de folga. (Além
do mais, a enfermaria estava completamente vazia; o último paciente, o estudante de um curso de verão que tinha quebrado a perna nos degraus da União dos Estudantes,
tivera alta há uma semana.)
Louis estava no gramado, ao lado de Rachel e com Gage nos braços, quando o grande ônibus amarelo fez a curva vindo da Estrada Central, aproximou-se rangente,
pesado, e encostou em frente à casa. As sanfonas da porta da frente se abriram; o berreiro e falatório de muitas crianças encheu o suave ar de setembro.
Ellie ainda olhou para trás, um olhar estranho e um tanto amedrontado, como a perguntar se não haveria mais tempo de frustrar aquele processo inevitável. O que
viu nos rostos dos pais deve tê-la convencido de vez de que não havia mais tempo, de que não poderia fugir de tudo o que ia acontecer naquele primeiro dia: era inevitável
como o progresso da artrite de Norma Crandall. Ela se virou e subiu os degraus do ônibus. A porta fechou com um arfar de respiração de dragão. O ônibus partiu. Rachel
explodiu em lágrimas.
- Não, pelo amor de Deus - disse Louis. Ele não estava chorando, mas não parecia muito longe disso. - É só meio dia.
- Meio dia já é demais - Rachel respondeu num tom rabugento e voltou a chorar ainda com mais vontade. Louis abraçou-a e Gage passou feliz o braço em volta do
pescoço dos dois. Quando Rachei chorava, Gage geralmente também chorava. Mas não desta vez. Agora nós ficamos só para ele, Louis pensou, e ele sabe muito bem disso.

Esperaram com uma certa ansiedade que Ellie voltasse, bebendo muito café, especulando como estariam indo as coisas. Louis foi para o quarto dos fundos, que ia
ser transformado em seu escritório, e remexeu negligentemente no que havia lá. Mudou papéis de lugar, mas não fez nada mais que isso. Rachel começou a almoçar absurdamente
cedo.

Quando o telefone tocou às dez e quinze, Rachei correu para o aparelho e, antes que tocasse pela segunda vez, atendeu com um "alô" sem fôlego. Louis se pôs na
passagem entre o escritório e a cozinha, certo de que seria a professora do jardim de infância para dizer que Ellie não podia ser domesticada; o estômago do ensino
público julgava impossível digeri-la e a cuspia de volta. Mas era apenas Norma Crandall. Ligada para dizer que Jud tinha colhido o último milho e queria dar algumas
espigas. Louis foi até lá com uma sacola de compras e repreendeu Jud por não chamá-lo para ajudar na colheita.
- De qüalquer jeito, a maior parte do milho não vale merda nenhuma - disse Jud.
- Você pode muito bem segurar essa língua quando eu estiver por perto - Norma reclamou. Entrara na varanda com copos de mate numa antiga bandeja de Coca-Cola.
- Sinto muito, meu bem.
- Ele pouco se importa - disse Norma a Louis, sentando-se com um estremecimento.
- Vimos Ellie tomando o ônibus - disse Jud, acendendo um Chesterfield.
- Ela vai se dar muito bem - disse Norma. - As crianças quase sempre se dão bem.
Quase sempre, pensou Louis morbidamente.

Mas Ellie se deu bem. Voltou ao meio-dia sorrindo, radiante, a saia do uniforme azul do primeiro dia de escola cercando graciosamente as perninhas raladas de
tombos (havia um novo arranhão num dos joelhos para encanto dos pais). Trazia um desenho do que podia ser duas crianças ou dois guindastes andando, um sapato desamarrado,
a fita do cabelo perdida. Gritava:
- Nós cantamos Old MacDonald! Mamãe! Papai! Nós cantamos Old MacDonald! A mesma coisa que na escola da Rua Carstairs!
Rachei trocou um olhar com Louis, sentado junto da janela com Gage no colo. O bebê estava quase dormindo. Havia alguma coisa triste no olhar de Rachel e, embora
ela o desviasse depressa, Louis percebeu um momento de pânico. Vamos realmente ficar velhos, ele pensou. De fato é verdade. Não seremos exceção. Ela está no caminho
dela... e nós estamos no nosso.
Ellie correu para o pai, tentando mostrar o desenho, o novo arranhão, contar-lhe sobre Old MacDonald a Sra. Berryman, tudo ao mesmo tempo. Church se enroscava
entre suas pernas, ronronava alto e, quase por milagre, Ellie não tropeçou nele.
- Chiiiií - disse Louis e a beijou. Gage pegara no sono, desinteressado da barulheira. - Deixe eu colocar o bebê na cama e depois vou ouvir tudo que tem para
me contar.
Subiu a escada com Gage, atravessando o calor vespertino do sol de setembro que se filtrava pela janela. Mas quando atingiu o patamar do andar de cima, foi atingido
por tamanha premonição de horror e desgraça que teve de parar, parar com uma impressão de frio. Olhou em volta espantado, não entendendo as sensações que tomavam
conta dele. Segurou com tanta força o bebê que quase o machucou, e Gage se mexeu incomodado. Os braços e as costas de Louis estavam totalmente arrepiados.
O que está havendo?, ele se perguntou, confuso e assustado. O coração disparava, o couro cabeludo parecia gélido e subitamente pequeno demais para cobrir
o crânio; podia sentir a onda repentina de adrenalina avançando por trás dos olhos. Os olhos realmente se arregalam quando o medo é extremo, ele sabia; não apenas
se dilatam, mas se tornam salientes (pois a pressão sangüínea sobe e a pressão hidrostática dos fluidos cranianos aumenta). Que diabo é isto? Fantasmas? Meu Deus,
parece que alguma coisa realmente roçou em mim neste corredor, uma coisa que eu quase vi.
No andar de baixo, a porta de madeira bateu.
Louis Creed estremeceu, quase gritou, mas acabou rindo. Fora apenas um daqueles momentos de calafrio psicológico que as pessoas às vezes atravessam: nem mais,
nem menos. Uma fuga momentânea da realidade. Eles aconteciam; era tudo. O que Scrooge dissera ao fantasma de Jacob Marley? Talvez você não seja mais que um pedaço
de carne mal cozido. Antes um problema de digestão que de ressurreição. E isso era mais verdadeiro (tanto fisioiógica como psicologicamente) do que Charles Dickens
poderia imaginar. Não existiam fantasmas, pelo menos em sua experiência. Tinha visto a morte de mais de duas dezenas de pessoas e jamais sentira a passagem de uma
alma.
Levou Gage para o quarto e deitou-o no berço. No entanto, quando puxou o cobertor para cobrir o filho, um sobressalto sacudiu-lhe as costas e o fez pensar de
repente na vítrine do shopping de seu tio Carl. Não havia novos carros em exposição, nem televisores com todas as novidades modernas, nem lavadoras de pratos com
visores de vidro mostrando a ação mágica da espuma. Só havia caixas com tampas levantadas e, discretamente colocados sobre cada uma delas, spots acesos. O irmão
de seu pai era um agente funerário.
Meu Deus, por que esses horrores agora? Vamos logo! Fora com eles!
Beijou o filho e desceu para ouvir o que Ellie tinha a contar de seu primeiro dia na incrível escola maternal.


No sábado, depois que Ellie chegou ao fim da primeira semana de escola e pouco antes da rapaziada da universidade voltar ao campus, Jud Crandall atravessou a
estrada e aproximou-se da família Creed sentada no gramado. Ellie tinha saltado da bicicleta e bebia um copo de mate. Gage engatinhava na grama, examinando pequenos
insetos, talvez até comendo alguns; ainda não era muito exigente quanto à origem de sua proteína.
- Jud! - disse Louis se levantando. - Espere, que vou buscar uma cadeira.
- Não precisa. - Jud vestia jeans, uma camisa de gola aberta e botinas verdes. Virou-se para Ellie: - Ainda quer saber onde aquela trilha vai dar?
- Sim! - disse Ellie, ficando logo em pé. Seus olhos brilhavam. -Na escola, George Buck me disse que vai até o cemitério de bichos e eu contei à mamãe, mas ela
me mandou esperar por você porque você sabe onde ele fica.
- E sei mesmo - disse Jud. - Se papai e mamãe estiverem de acordo podemos dar um passeio até lá. Você vai precisar de um par de botas, eu acho. Em certos pontos,
o chão é um pouco enlameado.
Eilie correu para a casa. Jud acompanhou-a com um olhar cheio de contentamento e afeição.
- Talvez você também queira ir, Louis.
- Eu vou - disse Louis. E virando para Rachel: - Não quer vir também, querida?
- E Gage? Vamos ter de andar muito.
- Posso colocá-lo na cadeirinha.
Rachei riu.
- Tudo bem... Mas vai nas costas do senhor.

Saíram dez minutos depois. Com exceção de Gage, todos usavam botas. Gage ia arrebitado na cadeirinha, observando tudo sobre o ombro do pai, olhos arregalados.
Eilie corria à frente, caçando borboletas e colhendo flores.
A relva no terreno dos fundos chegava quase à cintura e mais adiante havia pequenas flores amarelas e brancas, restos de fim de verão que todo ano sobreviviam
aos dias de outono. Mas não havia outono no ar; o sol era de pleno agosto, embora, no calendário, agosto já estivesse encerrado há quase duas semanas. Quando alcançaram
o topo da primeira colina, andando em fila pela picada, havia grandes manchas de suor sob os braços de Louis.
Jud parou. A princípio, Louis julgou que o velho estivesse sem fôlego; foi então que viu a paisagem que se abria atrás deles.
- É bonito aqui em cima - disse Jud, pondo uma haste de capim entre os dentes. Louis achou que acabara de ouvir a quintessência dos eufemismos da Nova
Inglaterra.
- É esplêndido - Rachei sussurrou, virando-se quase acusadoramente para Louis: - Como não me contou nada sobre isso?
- Porque eu não sabia que existia - Louis respondeu um tanto envergonhado. Afinal, aquilo ficava em sua propriedade; simplesmente, até aquele dia, ainda não
tivera tempo de subir a colina.
Ellie tinha avançado um bom trecho de caminho. Agora voltava, também pasmada de admiração. Church seguia-lhe os calcanhares.
A colina não era alta, mas não precisava ser. A leste, imensos bosques bloqueavam a vista, mas a oeste o panorama se alongava como num dourado e sonolento sonho
de fim de verão. Tudo era sossegado, levemente enevoado, quieto. Não havia sequer um caminhão-tanque da Orinco na estrada para quebrar o silêncio.
Estavam contemplando, é claro, o vale de um rio, o Penobscot, onde outrora os lenhadores do nordeste faziam flutuar seus troncos até Bangor e Derry. Achavam-se
ao sul de Bangor e um pouco ao norte de Derry. Ali o rio se alargava e corria pacífico, como se imerso num sono profundo. Louis podia divisar Hampden e Winterport
na margem oposta e acreditou que conseguiria seguir o rastro negro da Rodovia 15: ela serpenteava paralela ao rio até Bucksport. Esquadrinhou lentamente o rio, sua
exuberante orla de árvores, os caminhos, os campos. A torre da Igreja Batista de Ludlow Norte encaixava-se num dossel que os velhos olmos formavam; à direita, via-se
o pesado bloco de tijolos da escola de Ellie.
No alto, nuvens brancas moviam-se lentamente para um horizonte de brim azul desbotado. E por todos os lados repousavam os campos do último verão, esgotados ao
término do ciclo, dormindo mas não sem vida; um fantástico tom castanho e amarelo.
- Esplêndido é a palavra exata - disse Louis por fim.
- Nos velhos tempos costumavam chamar isso aqui de Monte da Boa Vista - disse Jud. Ele pôs um cigarro no canto da boca, mas não acendeu. - Alguns ainda falam
do lugar, mas agora, depois que tanta gente nova se mudou para a cidade, ele já está quase esquecido. Hoje não vem muita gente aqui. Como vocês sabem, o monte não
chama muita atenção, a colina não é alta. Mas se pode ver...
Ele fez um gesto amplo com uma das mãos e caiu em silêncio.
- Se pode ver tudo - disse Rachel numa voz baixa e reverente. Depois se virou para Louis: - Querido, isto aqui é nosso?
E antes que ele pudesse responder, Jud falou:
- Faz parte da propriedade, oh, sim.
O que não era, Louis pensou, exatamente a mesma coisa.

Fazia mais frio nos bosques, talvez uma diferença de quatro ou cinco graus. A trilha, sempre ampla e vez por outra ladeada de flores em vasos ou latas de café
solúvel (em geral murchas), estava agora coberta de folhas secas de pinheiro. Tinham caminhado cerca de quinhentos metros e começavam a descer a colina quando Jud
chamou por Ellie.
- Este é um bom caminho para uma mocinha - disse num tom gentil -, mas quero que prometa à mamãe e ao papai que, se vier aqui, andará sempre na trilha.
- Prometo - Ellie respondeu de imediato. - Mas por quê?
Jud olhou para Louis, que tinha parado para descansar. Transportar Gage nas costas, mesmo à sombra daqueles velhos pinheiros e abetos, era trabalho pesado.
- Você sabe onde está? - Jud perguntou-lhe.
Louis pensava e rejeitava as respostas: Ludlow, Ludlow Norte, atrás de minha casa, entre a Rodovia 15 e a Estrada Central. Ele balançou a cabeça.
Jud, sacudiu o polegar.
-Não adianta pensar em cidades - disse ele. - Existem apenas bosques por oitenta quilômetros ou mais. São chamados Bosques de Lüdlow Norte, mas cortam pela região
de Orrington e continuam para Rockford. Terminam naquelas terras federais de que lhe falei, aquelas que os índios querem de volta. Sei que parece engraçado que sua
boa casinha ali na estrada principal, com telefone, luz elétrica, tevê por cabo e tudo mais, fique à beira de uma terra selvagem, mas é verdade. - E olhando de novo
para Ellie: - O que eu quero dizer é que você não deve se enfiar no meio desses bosques, Eliie. Pode se perder e só Deus sabe onde vai parar.
- Não vou sair da trilha, Sr. Crandall.
Ellie estava devidamente alertada, impressionada mesmo, mas não com medo, Louis constatou. Rachel, porém, contemplava Jud com ar inquieto, e Louis também se
sentiu um tanto apreensivo. Era, ele supunha, o quase instintivo medo que as pessoas criadas nas cidades têm das florestas. Louis não vira uma bússola desde os tempos
de escoteiro, vinte anos atrás, e sua lembrança de como encontrar o caminho por coisas como a Estrela Polar ou o lado das árvores em que o musgo cresce era tão vaga
quanto a lembrança de como fazer um nó górdío ou meia-volta.
Jud correu os olhos por eles e abriu um meio sorriso.
- Mas acontece que ninguém se perdeu nesses bosques desde 1934 - disse ele. - Pelo menos, ninguém daqui. O último que, se perdeu foi Wil Jeppson... E não
foi uma grande perda. Depois de Stanny Bouchard, acho que Will era o maior cachaceiro deste lado de Bucksport.
- Você disse ninguém daqui - Rachei lembrou num tom que não era dos mais negligentes. Louis quase pôde ler seu pensamento: E nós não somos daqui. Pelo menos,
ainda não.
Jud fez uma pausa e abanou a cabeça.
- Perdemos um turista a cada dois ou três anos porque eles acham que ninguém pode se perder junto da estrada principal. Mas nenhum ficou perdido pra sempre,
dona. Não se assuste.
- Existem alces por aqui? - Rachel perguntou apreensiva.
Louis sorriu: quando Rachel queria se preocupar, não o fazia pela metade.
- Bem, você pode encontrar um alce - disse Jud -, mas ele não vai lhe fazer nada, Rachel Quando estão no cio ficam um pouco irritados, mas em qualquer outra
ocasião 'não fazem mais que olhar. As únicas pessoas atrás de quem eles correm fora do tempo do cio são as pessoas de Massachusetts. Não sei por que isso acontece,
mas acontece.
Louis achou que o velho estava brincando, mas não tinha certeza; Jud parecia extremamente sério.
- Tenho visto muitas vezes - ele continuava. - Já encontrei sujeitos de Saugus, Milton ou Weston em cima de uma árvore, berrando no meio de uma manada de alces,
cada um do tamanho de um caminhão. Parece que os alces conseguem sentir o cheiro de Massachusetts num homem ou numa mulher. Ou talvez seja apenas o cheiro daquelas
roupas de Boston... Isso eu não sei. Queria muito ver um desses estudantes de veterinária da universidade escrever sobre isso num livro, mas acho que nenhum deles
jamais o fará.
- Que é tempo do cio? - Ellie perguntou.
- Não importa - disse Rachei. - Não quero que venha aqui a não ser que esteja com um adulto.
Ela se aproximou um passo de Louis.
Jud parecia chateado.
- Não quis assustá-la, Rachel . . Nem você, nem sua filha. Ninguém precisa ficar assustado nesses bosques. É uma trilha muito boa; tem alguns insetos na primavera
e está sempre um pouco lamacenta (exceto no verão de 55, que foi o mais seco, eu lembro), mas que diabo!, não tem qualquer planta ou folha venenosa, nem mesmo aquelas
que existem nos fundos do pátio da escola... Você deve ficar longe delas, Ellie, se não quiser passar três semanas de sua vida tomando lavagens.
Ellie cobriu a boca e deu uma risadinha.
- É um caminho seguro - Jud falou com veemência para Rachel, que ainda não parecia convencida. - Ora, aposto que mesmo Gage seria capaz de andar sozinho por
ele, e as crianças da cidade vêm muito aqui. Elas conservam o caminho em bom estado. Ninguém as manda fazer isso, mas elas fazem. Eu não gostaria de tirar esse prazer
de Ellíe.
Jud se curvou para a menina e piscou o olho:
- E como muitas outras coisas na vida, Ellie. Você se conserva no caminho e tudo bem. Você sai do caminho, e a não ser que tenha sorte, descobre logo que está
perdida. E então, alguém tem de mandar uma equipe de busca para salvá-la.

Continuaram andando. Louis começou a sentir entorpecimento e cãibras nas costas por causa da cadeirinha do bebê. De vez em quando, Gage agarrava um bom punhado
de cabelo dele e puxava com entusiasmo; outras vezes, aplicava-lhe um alegre pontapé nos rins. Mosquitos de última hora esvoaçavam perto do seu rosto e pescoço,
zumbiam à volta das orelhas.
O caminho inclinava-se para baixo, fazendo curvas para um lado e para o outro no meio de abetos muito velhos. De repente, cortou por um trecho cheio de roseiras
com espinhos e de um confuso emaranhado de moitas. Ali, sem dúvida, o caminho era lamacento; as botas de Louis chapinhavam no lodo e em algumas poças d'água. Em
certo ponto, tiveram de cruzar um trecho pantanoso usando troncos apodrecidos como pontes. Foi o pior pedaço. Voltaram a subir de novo e as árvores tornaram a cercá-los.
Por um passe de mágica, Gage parecia estar pesando cinco quilos a mais, e pela mesma magia, o dia esquentara meia dúzia de graus. O suor escorria pelo rosto de Louis.
- Tudo bem com você, querido? - Rachel perguntou. - Não quer me dar o Gage um pouco?
- Não, tudo bem - disse ele, e era verdade, embora o coração lhe saltasse pelo peito a uma boa velocidade. Estava mais acostumado a prescrever exercícios físicos
do que a fazê-los.
Jud avançava com Ellie a seu lado; o amarelo forte das calças da filha e a blusa vermelha eram vistosos borrões de cores entre o esverdeado sombrio da atmosfera.
- Lou, você acha que ele sabe mesmo pra onde está indo? - Rachel perguntou num tom baixo e ligeiramente apreensivo.
- Sem dúvida - disse Louis.
Jud virou a cabeça e interveio animado:
- Agora já não falta muito... Você agüenta, Louis?
Meu Deus, Louis pensou, o homem já passou bastante dos oitenta, mas acho que ainda nem derramou uma gota de suor.
- Estou bem - respondeu um tanto agressivo. Provavelmente o orgulho o teria levado a dizer a mesma coisa, ainda que estivesse à beira de um ataque das coronárias.
Sorriu arreganhando os dentes, puxou para cima as correias da cadeirinha e foi em frente.
Chegaram ao topo da segunda colina; depois, desceram por entre moitas da altura do corpo e um torvelinho de arbustos. A trilha se estreitou e, logo à frente,
Louis viu Jud e Ellie passarem por baixo de um arco feito de velhas tábuas manchadas pelo tempo. Na madeira, em tinta preta meio apagada, liam-se com dificuldade
as palavras: "Simitério" de Bichos.
Ele e Rachel trocaram um olhar divertido e cruzaram o arco, instintivamente dando as mãos, como se tivessem ido lá para se casarem.
Pela segunda vez naquela manhã, Louis ficou atônito.
Ali não havia um tapete de folhas. Havia um círculo quase perfeito de mato cortado, alcançando quase vinte metros de diâmetro. Confinava com uma vegetação rasteira
muito densa e, num dos lados, um amontoado de velhas árvores derrubadas pelo vento dava ao lugar um aspecto um tanto sinistro e perigoso. Um homem tentando encontrar
seu caminho através do bosque e passando por ali podia muito bem levar um susto, Louis pensou.
A clareira estava cheia de marcadores de túmulos, obviamente feitos por crianças com quaisquer materiais que pudessem encontrar ou pedir emprestado: tábuas de
caixotes, ripas, pedaços amassados de lata. E no entanto, vistos contra o perímetro de arbustos baixos que disputavam um lugar ao sol e árvores desgarradas, suas
formas canhestras, talvez por serem obra de seres humanos, não deixavam de sugerir alguma simetria. As matas ao fundo concediam ao lugar um tipo absurdo de solenidade,
um fascínio que não era cristão, mas pagão.
- É fantástico - disse Rachel, deixando transparecer um certo temor.
- Olha!-a filha gritou.
Louis tirou Gage das costas e soltou-o da cadeirinha para que pudesse engatinhar livremente. Seus ombros suspiraram de alívio.
Ellie corria de um marco para outro, soltando exclamações perto de cada túmulo. Louis foi atrás dela enquanto Rachel ficou tomando conta do bebê. Jud sentara-se
de pernas cruzadas, encostado numa pedra saliente, fumando.
Louis reparou que o lugar não parecia apenas obedecer uma ordem, um padrão; na realidade, os marcos fúnebres tinham sido agrupados em círculos mais ou menos
concentricos.
GATO SMUCKY, indicava uma lápide de tábua de caixote. A caligrafia era infantil, mas cuidadosa. ELE ERAOBEDIENTE. E embaixo:1971-1974. No mesmo círculo de marcos,
mas um pouco além, Louis encontrou um pedaço de lousa natural. Havia um nome escrito numa tinta vermelha um pouco descorada, mas ainda perfeitamente legível: Biffer.
E embaixo, alguns versos:
BIFFER, BIFFER, UM ÓTIMO FAREJADOR / ATÉ MORRER BIFFER SÓ NOS DEU AMOR.
- Biffer era o cocker spaniel dos Dessler - disse Jud. Cavara um buraco na terra com o calcanhar da botina e empurrava meticulosamente todas as cinzas do cigarro
para dentro dele. - Tem um monte a mais que no ano passado. Não é incrível?
- É - Louis concordou.
Certos túmulos estavam cobertos de flores, algumas recentes, a maioria secas, muitas quase totalmente decompostas. Mais da metade das inscrições a caneta ou
pincel tinham se tomado total ou parcialmente ininteligíveis. Havia marcos sem qualquer indicação, e Louis achou que, nesses, os dizeres teriam sido feitos a giz
ou a lápis.
- Mamãe! - Ellie gritou. - Aqui tem um peixe amarelo! Venha ver!
- Não preciso ver - disse Rachel, atraindo a atenção de Louis. Ela se mantinha à parte, além do círculo mais afastado, parecendo bastante incomodada. Louis pensou:
Mesmo aqui ela fica transtornada. Jamais Rachel se sentira à vontade perto dos vestígios da morte. Não que ele imaginasse, é claro, que alguém pudesse se sentir
realmente bem num ambiente fúnebre, mas o mal-estar de Rachei era sempre excessivo e, provavelmente, vinha desde a morte da irmã, que morrera muito jovem, deixando
uma cicatriz que logo no início do casamento Louis aprendeu a não tocar. Chamava-se Zelda e morrera de meningite raquidiana. Possivelmente sua doença fatal tinha
sido longa, dolorosa, feia; Rachel estava numa idade muito impressionáveL Louis não via mal algum em que ela se esforçasse para esquecer aquilo.
Piscou-lhe um olho e ela sorriu agradecida.
Louis olhou para cima. Estavam numa clareira natural. Achou que isso explicava por que a relva crescia tanto ali: o sol podia passar. Mesmo assim, para ser mantido
daquela forma, o cemitério precisaria ser cuidadosamente irrigado e drenado. Isto significa latas de água arrastadas até lá ou talvez bombas indígenas, ainda mais
pesadas que a cadeirinha de Gage, carregadas em pequenas costas infantis. Tornou a pensar como era estranho que as crianças tivessem se dado àquele trabalho por
tanto tempo. A memória dos entusiasmos de sua própria infância, reforçada pela vivência com Ellie, era de fogo de palha, que ardia com muita força, mas logo se extinguia.
Para o interior dos círculos concêntricos, os túmulos dos bichos se tornavam mais antigos; era cada vez menor o número de inscrições que ainda podiam ser lidas,
mas quando isso era possível elas revelavam um longo período de tempo mergulhando no passado. Lá estava TRIXIE, MORTA NA RODOVIA A 15 DE SETEMBRO DE 1968. No mesmo
círculo, havia uma grande tábua profundamente enterrada no solo. Nevadas e degelos tinham-na feito apodrecer e quebrar num dos cantos, mas Louis ainda conseguiu
ler: EM MEMÓRIA DE MARTA, NOSSA COELHA DE ESTIMAÇÃO, MORTA A PRIMEIRO DE MARÇO DE 1965. E numa fileira à frente havia o GEN. PATTON (NOSSO BOM CÃO , a inscrição
se tornava enfática), que morrera em 1958; e POLINÉSIA (que só poderia ser um papagaio, se Louis se lembrasse corretamente do personagem do Dr. Doolittle) - ele
grasnira "Póli quer bolacha", pela última vez, no verão de 1953. Não havia nada legível nas duas fileiras seguintes, mas ainda a uma boa distância do centro, gravado
asperamente numa pedra de arenito, lia-se HANNAH, O MELHOR CACHORRO QUE JÁ EXISTIU/1929-1939. Embora a pedra de arenito fosse relativamente macia (por causa disso,
aliás, a inscrição já era pouco mais que uma sombra), Louis achou difícil imaginar quantas horas que uma criança devia ter levado para talhar aquelas palavras. Uma
tal manifestação de amor e pesar parecia-lhe desconcertante; Li estava algo que os adultos não fariam sequer pelos próprios pais ou por filhos mortos prematuramente.
- Rapaz, isto já vem de muito tempo! - ele disse a Jud, que dera alguns passos em sua direção.
Jud concordou com a cabeça.
- Venha aqui, Louis. Quero lhe mostrar uma coisa.
Eles se aproximaram do terceiro círculo a contar do centro. Ali o padrão circular, que parecia quase acidental nas fileiras mais afastadas, era bastante nítido.
Jud parou na frente de um pedaço de lousa caído. Ajoelhando-se cuidadosamente, fixou-o de novo.
- Havia algumas palavras aqui - disse Jud. - Eu mesmo as gravei, mas agora desapareceram. Enterrei meu primeiro cachorro nesta cova. Spot. Ele morreu de velhice
em 1914, o ano em que a Grande Guerra começou.
Desconcertado pela idéia de que aquele cemitério podia ser mais antigo que muitos cemitérios de gente, Louis caminhou até o centro e examinou vários marcos.
Nenhum era legível e a maior parte já ia desaparecendo no chão da floresta. Havia um quase inteiramente coberto pela vegetação, e quando Louis o puxou para colocá-lo
em pé, ouviu um som fraco de rasgar, como um protesto vindo da terra. Alguns escaravelhos escapuliram pela parte do solo que ele expusera. Sentiu um ligeiro calafrio
e pensou: Lápides para animais. Não sei se isso me agrada muito.
- De que época são os túmulos mais antigos?
- Rapaz, eu não sei - disse Jud, enfiando as mãos nos bolsos. -O lugar já existia quando Spot morreu, é claro. Eu tinha um enorme bando de amigos naquele tempo.
Eles me ajudaram a cavar o buraco para o Spot. Cavar aqui não é assim tão fácil.. O solo é terrivelmente pedregoso, você sabe, duro de remover... Também os ajudei
às vezes. - Jud apontou com um dedo calejado. - Aqui ficou o cachorro de Pete LaVasseur, se não estou enganado, e ali há três gatos de Alblon Groatley, enterrados
todos na mesma fileira... O velho Fritchie sempre gostava de caçar pombos. Eu, Al Groatley e Cai Hannah enterramos um desses pombos. Foi achado por um cachorro.
Está bem ali. - Ele fez uma pausa com ar pensativo. - Fui o único que sobrou dessa turma. Estão todos mortos agora, minha patota... Todos mortos.

Louis não disse nada, ficou apenas contemplando os túmulos dos bichos, as mãos nos bolsos.
- O solo é pedregoso - Jud repetiu. - Acho que não se pode plantar nada aqui além de cadáveres.
Do outro lado da clareira, Gage começou a choramingar. Rachel levantou-o para instalá-lo nos quadris.
- Gage está com fome - disse ela. - Acho que devíamos voltar, Lou. - Por favor, está bem?, seus olhos pediram.
- Sem dúvida - disse ele. Foi para junto da mulher, pôs novamente a cadeirinha nas costas e se virou para que Rachel pudesse acomodar o guri. -Ellie! Ei, Ellie,
onde está você?
- Está ali - disse Rachel, apontando para as árvores derrubadas pelo vento. Ellie escalava uma delas como se os troncos fossem da mesma família das barras do
playground da escola.
- Oh, meu bem, quer fazer o favor de descer daí? - Jud chamou, alarmado. - Se você coloca o pé no buraco errado ou se um desses troncos rolar, pode quebrar um
tornozelo.
Ellie pulou de lá.
- Opa! - ela gritou, correndo para perto deles e limpando as mãos nos quadris. Não tinha um arranhão, mas um galho seco e rombudo rasgara-lhe as calças.
- Está vendo o que eu quis dizer? - Jud perguntou, acariciando-lhe os cabelos. - Mesmo quem está acostumado a andar em floresta não tenta escalar esses troncos
velhos. Prefere dar a volta. Arvores caídas numa pilha ficam traiçoeiras. São capazes de mordê-la se você bobear.
- É verdade? - Ellie perguntou.
- E verdade. Estão empilhadas como canudinhos, você vê. Se a gente pisar no lugar errado, todas elas podem rolar numa grande avalanche.
Ellie se virou para Louis.
- E mesmo, papai?
- Acho que sim, meu bem.
A menina se virou para as árvores caídas e gritou:
- Olhem aqui! Vocês rasgaram minha calça, suas árvores estúpidas!
Os três adultos riram. As árvores caídas não. Apenas continuaram esbranquiçando-se ao sol como faziam há décadas. Para Louis, pareciam restos do esqueleto de
um monstro há muito falecido, um ser ferido de morte por algum bravo e gentil cavaleiro. Ossos de dragão, deixados ali como gigantesco monumento funerário.
Ocorreu-lhe até que era conveniente demais a existência das árvores caídas naquele ponto da trilha, conveniente o modo como se achavam entre o cemitério de bichos
e as profundezas dos bosques. (Mais tarde, distraidamente, Jud Crandall chamaria às vezes aqueles bosques de "bosques indígenas".) Sua casualidade parecia demasiado
artificial, demasiado perfeita para ser apenas um trabalho da natureza. Se...
Então Gage pegou uma das oreihas do pai e torceu, gritando de satisfação. Louis esqueceu tudo sobre as árvores caídas no bosque além do cemitério de bichos.
Estava na hora de voltar para casa.

No dia seguinte, Ellie se aproximou dele um tanto perturbada. Louis montava um modelo em seu escritório. Era um Rolls-Royce Silver Ghost, de 1917, com
680 peças e mais de 50 partes móveis. Estava quase pronto e ele já podia imaginar o chofer de libré, descendente direto dos cocheiros ingleses dos séculos XVIII
e XIX, imperialmente sentado ao volante.
Desde os dez anos, era louco por modelos. Começara com uma corveta da Primeira Guerra Mundial que o tio Carl lhe dera, montara a maioria dos aviões da Revell
e passara a coisas maiores e melhores quando adolescente e rapaz. Tivera uma fase de barcos em garrafas, uma fase de armamentos, um período em que construíra revólveres
tão perfeitos que era difícil acreditar que não atirassem quando se puxasse o gatilho: Colts, Winchesters, Lugers, até mesmo um Buntiine Special. Nos últimos cinco
anos, foi a vez dos grandes transatlânticos. As miniaturas do Lusitânia e do Titaníc estavam nas prateleiras de sua sala na universidade, e o Andrea Daria, terminado
pouco antes de saírem de Chicago, navegava no console da lareira da sala de estar. Agora passara aos carros clássicos, e se o padrão anterior continuasse, acreditava
que só daí a quatro ou cinco anos sentiria necessidade de montar alguma coisa diferente. Rachei encarava aquilo, na realidade seu único hobby, com uma indulgência
de esposa. Supunha, no entanto, que essa indulgência contivesse alguns elementos de desprezo; mesmo após dez anos de casamento, provavelmente ela ainda esperava
que um dia o marido se cansasse daqueles brinquedos. Era possível que um pouco dessa atitude viesse do pai, que continuava acreditando, como no tempo do casamento
dos dois, que ganhara um imbecil como genro.
Talvez, ele pensou, Rachel tenha razão. Talvez uma bela manhã eu acorde com trinta e sete anos de idade, ponha todos esses modelos no sótão e comece a pensar
como gente séria.
Séria parecia Ellie.
Ao longe, vibrando no ar claro da manhã, ouvia-se o impecável tanger dos sinos chamando os fiéis para a missa de domingo.
- Alô, papai - disse ela.
- Alô, bonequinha. Que está havendo?
- Oh, nada - ela respondeu, mas o rosto expressava outra coisa; o rosto dizia que havia muita coisa, e não coisas boas. O cabelo fora há pouco lavado e caía
solto pelos ombros. Parecia muito louro, apesar do tom castanho que o vinha escurecendo dia a dia. Usava um vestido e ocorreu a Louis que a filha quase sempre punha
um vestido aos domingos, embora a família não freqüentasse a igreja.
- O que você está montando?
Louis colava cuidadosamente um pára-lama.
- Dê uma olhada nisso - disse ele, passando-lhe uma calota. - Está vendo esses dois erres ligados? É um bonito detalhe, não é? Se formos para Shytown no Dia
de Ação de Graças e viajarmos num L-101 1, você vai ver esses mesmos erres nas turbinas do avião.
- São umas ótimas calotas.
Ela as devolveu.
- Escute - disse Louis -, se você tiver um Rolls-Royce deve chamá-las de "tampos de rodas". Se for suficientemente rica para possuir um Rolls-Royce, pode se
dar ao luxo de esnobar um pouco. Quando eu fizer meu segundo milhão, eu mesmo vou comprar um. O Rolls-Royce Corniche. Então, quando Gage chegar à idade de se apaixonar
por carros, já vai ter o baita automóvel do pai para estrear.
E por falar nisso, Eliie, em que você está pensando? Mas as coisas não funcionavam assim com Ellie. Não adiantava perguntar diretamente. A menina não gostava
de revelar os seus segredos. Era um traço que Louis admirava na personalidade da filha.
- Nós somos ricos, papai?
- Não - disse ele -' mas também não vamos morrer de fome.
- Michael Burns na escola diz que todos os médicos são ricos.
- Bem, pode dizer a Michael Burns na escola que muitos médicos ficam ricos, mas demora vinte anos... E ninguém fica rico correndo de um lado para o outro na
enfermaria de uma universidade. Fica-se rico sendo um especialista. Um ginecologista, um ortopedista, um neurologista. Esses ficam ricos mais depressa. Pra quem
enfrenta a dureza, como eu, demora mais tempo.
- Então, por que você não é um especialista, papai?
Louis pensou de novo nos modelos e no modo como um dia simplesmente não quis mais construir aviões de guerra, do mesmo modo como se cansou dos tanques Tiger
e das peças de artilharia, do mesmo modo, também, como passou a achar (quase da noite para o dia, parecia-lhe agora) que construir barcos em garrafas era monótono
demais; e então ele imaginou como seria passar toda a vida examinando pés de crianças à procura de um dedo em martelo ou calçando luvas finas, de látex, para tatear
por canais vaginais com um dedo educado, em busca de calombos ou lesões.
- Eu não ia gostar - disse ele.
Church entrou no escritório, fez uma pausa, inspecionou o ambiente com os olhos verdes brilhando. Depois pulou silenciosamente para o parapeito da janela e pareceu
disposto a dormir.
Ellie olhou para ele e franziu a testa, o que Louis julgou excessivamente estranho. Geralmente, Ellie contemplava Church com uma expressão de amor tão vigorosa
que era quase comovente. Ela começou a perambular pelo escritório, observando as diferentes miniaturas e, num tom quase despreocupado, disse:
- Puxa, havia um monte de túmulos lá no "simitério" de bichos, não é papai?
Ah, aí está a coisa, Louis pensou, mas não virou a cabeça; após examinar as instruções, começou a pôr as lanternas traseiras no Rolls.
- É mesmo, filha - disse ele. - Acho que mais de cem.
- Papai, por que os bichos não vivem o mesmo tempo que a gente?
- Bem, certos animais vivem mais ou menos o mesmo tempo - ele respondeu - e alguns vivem até muito mais. Os elefantes têm uma vida bem longa e existem tartarugas-do-mar
tão velhas que a gente realmente não sabe qual é a verdadeira idade delas.. . Ou talvez se possa até saber, mas é difícil de acreditar.
Ellie rejeitou a explicação.
- Elefantes e tartarugas-do-mar não são bichos de estimação. Bichos assim não vivem muito tempo de jeito nenhum. Michael Burns diz que cada ano que um cachorro
vive é como nove da gente.

- Sete - Louis corrigiu automaticamente. - Sei onde quer chegar, meu bem, e há alguma verdade nisso. Um cachorro com doze anos de idade é um cachorro velho.
Olhe, há uma coisa chamada metabolismo, e o que o metabolismo parece fazer é contar o tempo. Bem, ele também faz outras coisas... Certas pessoas, como sua mãe, podem
comer muito e continuar magras devido ao metabolismo. Outras pessoas, eu, por exemplo, simplesmente engordam se comerem um pouquinho a mais. Nossos metabolismos
são diferentes, a verdade é essa. Mas o que o metabolismo faz é principalmente servir como relógio no corpo dos seres vivos. Os cães têm um metabolismo mais ou menos
rápido. O metabolismo das pessoas é muito mais lento. A maioria de nós vive cerca de setenta e dois anos. E pode acreditar, setenta e dois anos é um tempo muito
longo.
Como Ellie parecia realmente preocupada, ele fez força para parecer mais sincero do que suas verdadeiras sensações lhe mandavam ser. Estava com trinta e cinco,
mas achava que aqueles anos tinham passado tão rápidos e efêmeros quanto uma corrente de vento na fresta de uma porta.
- As tartarugas-do-mar, porém, têm um metabolismo ainda mais len...
- E os gatos? - Ellie perguntou olhando de novo para Church.
- Bem, os gatos vivem tanto tempo quanto os cachorros - o pai respondeu. - Pelo menos a maioria deles.
Era mentira e ele sabia disso. Os gatos vivem perigosamente e com freqüência têm mortes trágicas, em geral antes de suas próprias expectativas de vida. Ali estava
Church, cochilando no sol (ou, pelo menos, parecia), Church que toda noite dormia pacificamente na cama de sua filha, Church que fora tão engraçadinho quando filhote,
que certa vez ficou todo emaranhado num novelo de lã. E, no entanto, Louis já o vira atacar de surpresa um pássaro com a asa quebrada, os olhos verdes brilhando
de curiosidade e - sim, ele seria capaz de jurar - frio prazer. Raramente Church matava o que conseguia pegar, mas tinha havido uma importante exceção, um grande
rato, provavelmente apanhado na viela entre o prédio de apartamentos onde moravam e o prédio vizinho. Church realmente preparara o ataque àquele rato. Ao vê-lo junto
do rato e com o focinho salpicado de sangue, Rachel, há seis meses grávida de Gage, teve de correr para o banheiro e vomitar. Vidas violentas, mortes violentas.
Podem ser atacados e dilacerados por um cachorro, pois nem todos os cachorros são como os cães enfatuados e tolos dos desenhos animados; podem também ser apanhados
por gatos mais fortes, mortos por uma bola de veneno, atropelados por um carro. Os gatos são os gangsters do mundo animal, vivendo fora da lei e freqüentemente morrendo
por causa disso. Era muito grande o número dos que não envelheciam ao pé da lareira.
Mas talvez aquilo não fosse coisa para contar à filha de cinco anos, uma menina que, pela primeira vez, encarava o fato da morte.
- Quero dizer... - Louis continuou -, Church tem apenas três anos agora, e você tem cinco. Ele ainda pode estar vivo quando você for uma moça de quinze anos
e estiver no segundo ano da escola secundária. E isso ainda está muito longe.
- Não acho que esteja longe - disse Ellie, e agora sua voz tremia.
- Não está longe mesmo.
Louis abandonou a pretensão de continuar montando o modelo e fez sinal para que ela se aproximasse. Ellie sentou-se no colo do pai. Louis ficava impressionado
em ver como a filha era bonita, beleza que a perturbação emocional só fazia acentuar. Tinha a pele morena, quase a pele de uma grega. Tony Benton, um dos médicos
com quem trabalhara em Chicago, costumava chamá-la "princesinha índia".
- Meu bem - disse ele -, se dependesse de mim, Church viveria cem anos. Mas não sou eu quem dita as regras.
- Quem é então? - ela perguntou, e com infinito desprezo acrescentou: - Deus, não é?
Louis reprimiu o ímpeto de rir. Aquilo era bastante sério.
- Deus ou alguém - disse ele. - Os relógios também param... Isso é tudo que eu sei. Não temos garantia de nada, querida.
- Não quero ver Church como todos aqueles bichos mortos! - ela explodiu, subitamente chorosa e enfurecida. - Não quero que Church morra nunca! Ele é o meu gato!
Ele não é o gato de Deus! Que Deus fique com o gato dele! Deus pode ter todos os malditos gatos que quiser e matar todos eles! Mas Church é meu!
Houve passos na cozinha e Rachel deu uma espiada no escritório, sobressaltada. Ellie estava chorando no peito de Louis. Dera voz ao seu horror; pusera-o para
fora; sua face fora descoberta e podia ser encarada. Agora, mesmo que não pudesse remediá-lo, poderia enfrentá-lo.
- Ellie - disse o pai, embalando-a -, escute, Ellie, Church não está morto; está ali, dormindo.
- Mas podia estar morto - ela soluçou. - Pode estar, a qualquer momento.
Louis continuava a afagá-la. Certo ou errado, acreditava que a filha chorava pela inevitabilidade da morte, pelo fato de a morte ser tão impermeável aos argumentos
ou às lágrimas de uma menina; acreditava que Ellie chorava por sua cruel imprevisibiidade e devido à maravilhosa e terrível capacidade que têm os seres humanos de
transformar símbolos em conclusões (conclusões que podem ser belas e generosas ou extremamente sinistras). Se todos aqueles animais tinham morrido e tinham sido
enterrados, então Church também podia morrer...
(a qualquer momento!)
... e ser enterrado; e se isso podia acontecer com Church, também podia acontecer com sua mãe, seu pai, seu irmãozinho. Com ela mesma. A morte era uma
idéia vaga; o "simitério" de bichos era real. Na textura daquelas lápides grosseiras estavam gravadas verdades que mesmo a mente de uma criança podia entender.
Seria fácil mentir, assim como mentira sobre a expectativa de vida dos gatos. Mas uma mentira seria lembrada mais tarde e, quem sabe, acrescentada à lista de
coisas negativas que as crianças sempre atribuem aos pais. A própria mãe de Louis dissera-lhe uma mentira, uma mentira inócua sobre as mulheres encontrarem os bebês
de manhã cedo no mato quando realmente queriam tê-los. Por mais inofensiva que tivesse sido essa mentira, Louis jamais a perdoara, como jamais perdoara a si mesmo
por ter acreditado.
- Meu bem - disse ele -, isso acontece. Faz parte da vida.
- É uma parte ruim! - ela protestou. - Uma parte muito ruim!
Não havia resposta para aquilo. A menina chorava, mas as lágrimas iam parar. Era o primeiro passo para ficar em paz, mesmo que fosse uma paz incômoda, com uma
verdade que nunca poderia ser eliminada.
Apertava a filha nos braços e ouvia os sinos da igreja na manhã de domingo; os sinos flutuavam pelos campos de outono. Algum tempo depois das lágrimas cessarem,
Louis percebeu que, como Church, a filha tinha caído no sono.


Levou-a para a cama e desceu para a cozinha, onde Rachel batia com força a massa de um bolo. Falou de sua surpresa com a reação de Ellie em plena manhã; não
era característico dela.
- Não - disse Rachel, pousando a tigela sobre a pia, com um golpe vigoroso. - Não é, mas acho que passou quase toda a noite acordada. Ouvi como rolou na cama
e Church miou para sair por volta das três horas. Ele só faz isso quando Ellie está inquieta.
- Mas por que estaria...?
- Ora, você sabe por quê! - Rachel respondeu com raiva. - Aquele maldito cemitério de bichos, é essa a razão! Ficou realmente transtornada, Lou. Foi o primeiro
cemitério de qualquer tipo que ela viu, e simplesmente... a perturbou. Sem düvida, não estou com nenhuma vontade de agradecer ao seu amigo Jud Crandall por essa
bela excursão.
E sem ninguém esperar, ele é meu amigo, Louis pensou, ao mesmo tempo atônito e chateado.
- Rachel...
- Não quero que ela volte lá.
- Rachei, o que Jud disse sobre a trilha é verdade.
- Não é a trilha e você sabe disso - Rachei retrucou. Pegou de novo a tigela e continuou a bater o bolo ainda com mais força. - É aquele lugar maldito. Não é
saudável. Crianças indo até lá e cuidando dos túmulos, conservando a trilha limpa.. . Que merda de coisa mais mórbida! Seja qual for a doença que tenham as crianças
daqui, não quero que Ellie a pegue.
Louis encarou-a, perplexo. Tinha quase certeza de que uma das coisas que mantivera firme o casamento dos dois (quando os casamentos de seus amigos desmoronavam
a cada ano) era o respeito que tinham pelo "mistério" - a idéia percebida, mas nunca expressa de que, quando se vai ao fundo do poço, talvez não exista nada de casamento,
união; cada alma permanece sozinha e essencialmente fechada numa individualidade rebelde. Aí estava o mistério. E por mais que se acredite conhecer o parceiro, às
vezes nos vemos num beco sem saída e podemos cair no buraco. E outras vezes (raramente, graças a Deus), enfrenta-se um sólido bolsão de absoluta estranheza, alguma
coisa como a turbulência com céu claro que pode golpear um avião aparentemente sem nenhum motivo. Pode ser uma atitude ou crença de que nunca se tenha suspeitado,
algo tão peculiar (ao menos para nós) que pareça quase psicótico. E então, se dermos valor ao nosso casamento e à nossa paz de espírito, devemos nos afastar de mansinho;
não podemos esquecer que a ira diante de uma tal descoberta é o território preferido dos loucos que acreditam que uma mente possa conhecer outra.
- Querida, é apenas um cemitério de bichos - disse ele.
- O modo como estava chorando ainda agora... - disse Rachel, apontando para a porta do escritório com a colher cheia de massa. - Você acha que para ela é apenas
um cemitério de bichos? Isso vai deixar uma cicatriz, Lou. Não. Ela não vai mais lá. Não é a trilha, é o lugar. Agora já está pensando que Church vai morrer!
Por um momento, Louis teve a impressão absurda de ainda estar conversando com Ellie; ela subira em pernas de pau, vestira uma roupa da mãe e pusera uma máscara
muito engenhosa, muito realista de Rachel. Até a expressão era a mesma - emburrada e enérgica na superfície, mas profundamente magoada por baixo.
Ele insistiu, porque aquilo não parecia tão inofensivo, não era uma coisa que pudesse deixar passar em deferência àquele mistério.., ou àquela individualidade.
Insistiu porque achou que Rachel não percebia algo que saltava quase brutalmente aos olhos, e isso só era possível se os estivesse fechando propositalmente.
- Rachel - disse ele -, Church vai morrer.
Ela encarou furiosa o marido:
- Este não é o problema - disse, pronunciando cuidadosamente cada palavra, como se falasse a uma criança retardada. - Church não vai morrer hoje nem amanhã...
- Foi o que tentei dizer a ela...
- Nem depois de amanhã, nem provavelmente daqui a anos...
- Querida, não podemos ter certeza ......
- É claro que podemos! - ela gritou. - Estamos cuidando muito bem dele, ele não vai morrer, ninguém vai morrer por aqui, e eu não entendo por que você tem de
deixar uma menina toda transtornada por causa de uma coisa que só quando ela for mais velha vai ser capaz de compreender!
- Rachel, escute...
Mas Rachel não pretendia escutar. Estava colérica.
- Já é bem difícil ter de enfrentar a morte quando ela acontece... Seja de um gato, de um amigo ou de um parente... Não é preciso transformá-la numa... maldita
atração turística... Um campo na flo-floresta para a-animais...
As lágrimas corriam-lhe pelo rosto.
- Rachel - disse Louis, tentando pôr as mãos em seus ombros. Ela o repeliu com um gesto brusco.
- Não importa! - disse. - Você não tem a menor idéia do que estou falando!
Louis suspirou.
- Estou me sentindo como se tivesse caído num alçapão escondido e encontrado um enorme mastodonte - brincou, esperando um sorriso. Não obteve nenhum; negros
e chamejantes, os olhos da mulher grudavam-se nele. Estava furiosa; não apenas zangada, mas realmente furiosa. - Rachel
- começou de novo, não sabendo exatamente o que dizer até que a frase se completou -, como você dormiu a noite passada?
- Oh, rapaz - ela disse num tom desdenhoso, virando a cabeça, mas não sem antes revelar um lampejo de mágoa nos olhos. - Isto é realmente astucioso. Realmente
astucioso. Você nunca muda, Louis. Quando alguma coisa não está bem, a culpa é de Rachel, certo? Rachel está tendo uma de suas esquisitas reações emocionais.
- Não é justo o que está dizendo.
- Não?
Rachel levou a tigela com a massa de bolo para a extremidade do balcão ao lado do forno e ali colocou-a com outra pancada. Depois, começou a untar uma fôrma,
os lábios apertados.
Louis falou num tom paciente:
- Escute Rachel, não há nada de errado se uma criança descobre alguma coisa sobre a morte. Na realidade, acho até que é necessário que isso aconteça. A reação
de Ellie, o choro, me pareceu perfeitamente natural.
- Oh, pareceu natural - disse Rachel girando nos calcanhares para enfrentar o marido. - Parece muito natural uma criança chorar desesperadamente por um gato
que está vivo e cheio de saúde...
- Pare com isso - Louis protestou. - Não faz sentido o que está dizendo.
- Não quero mais discutir.
- Ah, mas vamos discutir - ele disse, zangado. - Você falou o que quis. Agora é a minha vez, está bem?
- Ela não vai mais lá! Pelo que me diz respeito, o assunto está encerrado!
- Desde o ano passado, Ellie sabe de onde vêm os bebês - disse Louis pausadamente. - Demos a ela o livro de Myers e conversamos sobre o assunto, está lembrada?
Nós dois concordamos que as crianças deviam saber de onde vêm.
- Isso nada tem a ver com...
- Mas tem a ver, é claro! - Louis protestou num tom áspero. -Quando conversei com Ellie no escritório, sobre Church, fiquei pensando em minha mãe e na história
que ela me contou de crianças nascendo em repolhos, quando perguntei como as mulheres tinham bebês. Nunca esqueci essa mentira. Acho que as crianças nunca esquecem
as mentiras que os pais contam.
- De onde vêm os bebês nada tem a ver com um maldito cemitério de bichos! - Raquel clamou, e seus olhos disseram: Pode falar dia e noite se quiser, Louis; pode
falar até ficar roxo, mas não vou aceitar a comparação.
Mesmo assim, ele tentaria.
- Ela sabe como as pessoas nascem; aquele lugar no bosque simplesmente fez com que quisesse saber tudo sobre o outro lado das coisas. É perfeitamente natural.
Na realidade, acho que é a coisa mais natural..
- Quer parar com isso? - a mulher gritou de repente, realmente gritou, e Louís recuou, alarmado. Seu cotovelo esbarrou no saco de farinha de trigo aberto sobre
o balcão. O saco tombou e entornou no chão da cozinha. A farinha se espalhou numa nuvem branca.
- Oh, merda - Louis exclamou desolado.
No andar de cima, Gage começou a chorar.
- Muito bom - disse ela, agora também chorando. - Você acordou o bebê. Obrigado por essa bela, tranqüila, relaxante manhã de domingo.
Quando a mulher cruzou por ele, Louis segurou-a pelo braço.
- Quero lhe fazer uma pergunta - disse ele -, porque sei que qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, pode acontecer aos seres vivos. Como médico, eu
sei disso. Quer ter de explicar um dia à sua filha o que aconteceu se Church ficar com cinomose ou leucemia (gatos são muito propensos à leucemia, você sabe)...
Ou se for atropelado na estrada? Quer ter de explicar à sua filha, Rachel?
- Deixe-me em paz - ela quase sibilou. A raiva na voz, porém, era sobrepujada pelo magoado e desconcertante terror em seus olhos. Não quero falar sobre
isso, Louis, e você não vai me obrigar, eles pareciam dizer. - Deixe-me subir, quero pegar Gage antes que ele caia do ber ...
- Porque talvez você é quem devesse explicar - disse ele. - Pode dizer a Ellie que não conversamos sobre isso; pessoas sadias não conversam sobre isso, elas
simplesmente enterram. . . Opa!, não diga "enterram", pode lhe causar um complexo.
- Eu odeio você! - Rachel soluçou e se desvencilhou do marido.
Então, é claro, ele ficou com pena, e, é claro, era tarde demais.
- Rachel..
Ela se afastou bruscamente, chorando muito.
- Deixe-me sozinha. Já fez o que queria.
Parou na porta da cozinha e se virou. As lágrimas escorriam pelo rosto.
- Não quero mais ver este assunto sendo discutido na frente de Eilie. Estou avisando, Lou. A morte não tem nada de natural. Nada. Como médico, você devia saber
disso.
Deu meia-volta e saiu, deixando Louis na cozinha vazia, que ainda vibrava com as vozes dos dois. Por fim, ele foi apanhar uma vassoura na copa. E enquanto varria,
refletiu sobre as últimas frases da mulher e a enorme divergência de opinião, que por tanto tempo permanecera abafada.
Como médico, ele sabia que a morte, exceto talvez a morte durante o parto, era a coisa mais natural do mundo. Os impostos não eram tão naturais, os conflitos humanos
também não, nem os conflitos sociais, as discussões e a pancadaria. No fundo, só havia o relógio e as lápides, que sofriam erosão e ficavam anônimas com o decorrer
do tempo. Mesmo as tartarugas-do-mar e as sequóias gigantes têm de acabar algum dia.
- Zelda - ele disse em voz alta. - Deus, aquilo deve ter sido muito terrível!
A dúvida era se seria melhor deixar as coisas como estavam ou tomar alguma providência...
Inclinou a pá na lata de lixo e a farinha deslizou como um sopro suave, cobrindo de branco as caixas de papelão abertas e as latas usadas.


- Espero que Eliie não tenha ficado impressionada - disse Jud Crandail.
Não pela primeira vez Louis achou que o homem tinha uma estranha - e um tanto desagradável - capacidade de pôr cuidadosamente o dedo no ponto dolorido.
Estava sentado com Jud e Norma na varanda dos Crandalls, bebendo mate em vez de cerveja. A noite refrescara. Na Rodovia 15, o tráfego que vinha do fim de semana
parecia bastante intenso; as pessoas deviam achar que cada fim de semana com tempo bom era o último antes da chegada do inverno. No dia seguinte, Louis assumiria
plenamente suas funções na enfermaria da Universidade do Maine. Desde a véspera, os estudantes tinham começado a chegar, enchendo apartamentos em Orono e dormitórios
no campus, fazendo as camas, revendo conhecidos e, sem dúvida, deplorando o inicio de outro ano com aulas começando às oito e comidas sem gosto. Rachel estivera
o dia todo indiferente com ele (gelada, seria melhor dizer). Sabia que quando atravessasse a estrada para voltar a casa ela já estaria deitada. Muito provavelmente
Gage estaria dormindo com ela, os dois muito apertados num dos lados da cama, o bebê correndo o risco de cair. Teria, sem dúvida, três quartos da cama para se instalar,
um espaço que ia parecer um grande deserto estéril.
- Eu disse que espero...
- Ah, desculpe - disse Louis. - Estava distraído. Ela ficou um pouco perturbada, sim. Como adivinhou?
- Como eu disse, vemos as crianças indo e vindo pelo caminho. -J ud pegou carinhosamente a mão da esposa e sorriu para ela. - Não é verdade, querida?
- Grupos e grupos de crianças - disse Norma Crandall. - E, aliás, gostamos muito de crianças.
- As vezes o cemitério de bichos é o primeiro encontro cara a cara com a morte que elas têm - disse Jud. - Vêem pessoas morrer na tevê, mas sabem que não é de
verdade... É como naqueles velhos filmes de mocinho que passavam nos cinemas na vesperal de sábado. Na tevê e nos filmes de mocinho, as pessoas só põem a mão na
barriga ou no peito e caem duras. Aquele lugar ali no morro deve parecer muito mais real para a maioria delas do que todos esses filmes e programas de tevê, você
não acha?
Louis concordou com a cabeça, pensando: Diga isso à minha mulher, experimente!
- Parece que algumas crianças nem ligam, ou pelo menos não dá pra notar... Mas acho que mesmo essas levam o que sentem no bolso, para examinar depois, em casa,
como todas as outras coisas que encontram na rua. A maioria sempre reage bem. Mas algumas... Você se lembra daquele menino que se chamava Holloway, Norma?
Norma balançou afirmativamente a cabeça. O gelo chocalhava um pouco no copo que segurava. Os óculos estavam pendurados no peito e os faróis de um carro passando
iluminaram rapidamente a corrente que prendia a armação.
- Teve uns pesadelos!... - disse ela. - Sonhos de cadáveres saindo do chão e não sei o que mais. Depois o cachorro dele morreu... A única coisa que se pode imaginar
é que tenha comido alguma bola de veneno, está lembrado, Jud?
- Bola de veneno - Jud repetiu balançando a cabeça. - Foi o que a maioria das pessoas pensou, é. Aconteceu em 1925. Billy Holloway devia ter dez anos. Depois
quis chegar a senador. Se candidatou para a Câmara dos Deputados mais tarde, mas perdeu... Isso foi pouco antes da Guerra da Coréia.
- Ele e alguns amigos fizeram um funeral para o cachorro - Norma lembrou. - Era apenas um vira-lata, mas Bily gostava muito dele. Recordo que os pais ficaram
um pouco contrariados com o enterro, por causa dos pesadelos do filho, mas os garotos levaram a coisa à frente. Os meninos mais velhos fizeram um caixão, não foi,
Jud?
Jud concordou com a cabeça e bebeu até o fim o copo de mate.
- Dean a Dana Hail - disse o velho. - Eles e o outro garoto com que Biily costumava brincar... Não consigo lembrar o primeiro nome dele, mas tenho certeza que
era um dos filhos dos Bowie. Está lembrada dos Bowie, Norma? Moravam na Estrada Central, na velha casa de Brochette...
- Sim! - Norma respondeu, tão entusiasmada como se tudo tivesse acontecido na véspera... E talvez fosse assim que as coisas surgissem em sua mente. - Foi um
Bowie! Alan ou ...
- Ou talvez Kendall - Jud acrescentou. - De qualquer modo, lembro que eles tiveram uma discussão terrível sobre quem ia carregar o caixão. A urna do cachorro
não era muito grande e só dava para dois levarem. Dean e Dana Hall disseram que eles é que deviam levar porque tinham feito o caixão e, além disso, eram gêmeos...
Acho que era uma questão de harmonia. Billy acho que não tinham intimidade suficiente com Bowser (era o nome do cachorro) para carregar o caixão. "Meu pai diz que
só amigos íntimos podem segurar na alça", ele argumentava, "não carpinteiros."
Jud e Norma riram e Louis sorriu.
- Estavam a ponto de começar a brigar quando Mandy Holloway, a irmã de Billy, resolveu ir buscar o quarto volume da Enciclopédia Britânica - disse Jud. - Naquela
época, o pai, Stephen Holloway, era o único médico deste lado de Bangor e deste lado de Bucksport. A família dele era a única família de Ludlow que podia se dar
ao luxo de ter uma enciclopédia.
- Foram também os primeiros a ter luz elétrica - Norma interveio.
- Como eu ia dizendo - Jud continuou -, Mandy voltou esbaforida, o nariz em pé, uma fila de meninos atrás dela (todos na faixa dos oito anos), as anáguas esvoaçando,
e na mão aquele livro enorme. Billy e o menino Bowie (acho que o primeiro nome era Kendali e, se não me engano, chocou-se contra o solo e morreu queimado em Pensacola,
onde treinavam pilotos para a guerra no início de 42), os dois já estavam quase dispostos a conceder aos gêmeos Hall o privilégio de carregar o pobre velho viralata
para o campo-santo.
Louis começou a rir um pouco, mas logo estava às gargalhadas. Podia sentir o resto de tensão que sobrara da áspera discussão com Rachei começando a se dissipar.
- Então ela disse: "Esperem! Esperem! Olhem isto!" Todos eles pararam e olharam. E ela pegou aquele puta livro...
- Jud - disse Norma num tom de advertência.
- Desculpe, querida; você sabe que eu vou me empolgando e...
- Eu sei - disse ela.
- E ela pegou aquele bendito livro e abriu em FUNERAIS! Havia uma gravura da Rainha Vitória passando desta para melhor com muita gente lhe desejando boa viagem.
Havia dezenas de sujeitos de cada lado do caixão, alguns suando e fazendo força pra levantar o bicho, outros apenas em volta, de casacas pretas e colarinhos franzidos,
como se estivessem esperando o anúncio do cavalo vencedor na pista do jóquei. E Mandy disse:
"Quando é uma cerimônia fúnebre de estado você pode ter o número de pessoas que quiser pra levar o caixão! O livro está dizendo!"
- E isso resolveu o problema? - Louis perguntou.
- Eles deram um jeito. Acabou havendo cerca de vinte crianças junto do caixão e todas procuravam imitar exatamente o que tinham visto na gravura; só que não
havia casacas com colarinhos franzidos, nem aqueles chapéus pretos, altos. Mandy organizou os detalhes. Colocou-os em fila e deu uma flor a cada um: dentes-de-leão,
orquídeas, margaridas... Aliás, eu sempre achei que o país perdeu uma boa oportunidade quando Mandy Holloway não foi eleita para o Congresso. - Ele riu e balançou
a cabeça. -De qualquer modo, esse cerimônia acabou com os pesadelos de Billy sobre o cemitério de bichos. Ele chorou seu cão, esgotou a tristeza e foi em frente.
E é o que todos nós fazemos, eu acho.
Louis pensou outra vez na quase histeria de Rachel.
- Ellie logo vai superar isso - disse Norma, mudando de posição na cadeira. - Você deve estar pensando, Louis, que aqui só conversamos sobre a morte. Bem...
Jud e eu estamos ficando velhos, é verdade, mas acho que ainda não atingimos o estágio de nos comportarmos como urubus.
- Ora, não diga isso - Louis protestou - é claro que não...
- Só que não é má idéia começar a ter uma tranqüila familiaridade com a morte - ela continuou. - Nos dias de hoje... eu não sei... parece que ninguém quer conversar
nem pensar sobre o assunto. Foi retirado da televisão porque as pessoas acham que pode fazer mal às crianças... fazer mal à cabeça delas... E as pessoas estão querendo
caixões fechados para não terem de olhar os restos mortais ou de dizer adeus ao defunto. Parece que querem esquecer a morte.
- E ao mesmo tempo - Jud replicou - enchem a tevê por cabo com todos aqueles filmes mostrando pessoas... - ele olhou para Norma e pigarreou - ... mostrando
pessoas fazendo o que geralmente as pessoas só fazem com as cortinas fechadas. Esquisito como as coisas mudam de uma geração para outra, não é?
- Sim - disse Louis. - Acho que sim.
- Bem, nós somos de uma época diferente - Jud continuou, quase num tom de desculpa. - Tínhamos maior intimidade com a morte. Vimos a epidemia de gripe espanhola
após a Grande Guerra, mães morrendo com os filhos, crianças morrendo de infecção e febres que hoje os médicos podem curar num passe de mágica. No tempo em que eu
e Norma éramos jovens, se você tinha câncer, ora, isso era o mesmo que uma sentença imediata de morte. Não havia tratamento por radiação nos anos 20! Duas guerras,
assassinatos, suicídios.
Ele ficou em silêncio por um momento.
- Vimos a morte ao mesmo tempo como amiga e inimiga - disse por fim. - Meu irmão Pete morreu de um apêndice supurado em 1912, quando Taft era presidente. Pete
só tinha quatorze anos e podia atirar uma bola de beisebol mais longe que qualquer garoto da cidade. Naquele tempo, não se precisava fazer um curso numa universidade
para estudar a morte ou seja lá como vocês a chamem na escola de medicina. Naquele tempo, ela entrava na casa da gente, cumprimentava, sentava e tomava uma sopa,
mas às vezes podíamos sentir que dava um beliscão na nossa bunda.
Desta vez Norma não o corrigiu; só balançou a cabeça, em silêncio.
Louis ficou de pé e se espreguiçou um pouco.
- Eu tenho de ir - disse. - Amanhã vai ser um dia cheio.
- Sim, a roda viva começa amanhã pra você, não é? - disse Jud, também se levantando. Viu que Norma também queria se erguer e deu-lhe a mão. A mulher se levantou
com um esgar.
- Não se sente muito bem esta noite, não é? - Louis perguntou.
- Nem tão mal - disse ela.
- Ponha uma compressa de água quente quando for deitar.
- Vou pôr - disse Norma. - Sempre faço isso. E Louis... Não se preocupe com Ellie. Ela ficará muito ocupada este outono conhecendo os novos amiguinhos. Não vai
ter tempo de ficar pensando naquele lugar. Talvez um dia ela e outras crianças subam até lá, tornem a pintar alguns marcos, tirem as ervas daninhas ou plantem flores.
As vezes fazem isso, quando lhes dá na telha. E Ellie vai se sentir mais à vontade. Vai começar a sentir aquela tranqüila familiaridade de que falei.
Deixe minha esposa ouvir isso.
- Se tiver um tempinho, passe por aqui amanhã à noite pra me contar como foi na universidade - disse Jud. - E vou ganhar de você numa partida de cribbage*.(Jogo
de baralho para dois jogadores, semelhante ao buraco; cada jogador tem de formar determinadas seqüências de cartas. N. do T.)
- Bem, talvez você é que entre bem - disse Louis. - Acho que vou lhe dar uma surra.
- Doutor - disse Jud com grande sinceridade -, seria mais fácil eu deixar um curandeiro do seu gênero tratar de mim do que alguém me dar uma surra no críbbage.
Na noite de fim de verão, enquanto Jud e Norma ainda riam, Louis atravessou a estrada em direção à sua casa.
Rachel dormia com o bebê, deitada de lado e enroscada numa posição fetal, protegida. Louis acreditava que ela esqueceria tudo. Já tinha havido outras discussões,
outros momentos de indiferença no casamento, embora sem dúvida aquela briga fosse a pior de todas. Sentia-se ao mesmo tempo triste, aborrecido e infeliz, querendo
pôr um ponto final no problema, mas não sabendo como, não sabendo sequer se o primeiro passo devia partir dele. Tudo parecia tão sem sentido... Um pouco de vento
que por um estratagema das emoções ganhara proporções de ciclone. Sim, sem dúvida, tinha havido outras brigas e discussões, mas não tão amargas quanto a provocada
pelas lágrimas e pelas perguntas de Ellie. A seu ver, não era preciso um grande número de golpes como aquele para que a própria estrutura do casamento sofresse um
dano irreparável... E um dia, então, em vez de ler sobre um divórcio no jornal ou no bilhete de um amigo ("Bem, acho que é melhor contar a você antes que saiba pela
boca de outra pessoa, Lou; Maggie e eu estamos nos separando.. ."), seria ele quem teria de comunicar o rompimento com RacheL
Tirou a roupa em silêncio e pôs o despertador para as seis. Depois tomou um banho, lavou o cabelo, fez a barba e, antes de escovar os dentes, tomou uma colher
de sal de fruta - o mate de Norma provocara um pouco de acidez. Era possível também que a má digestão viesse do fato de encontrar a mulher daquele jeito, apertada
num dos lados da cama. O território é o problema que define tudo, será que não aprendera isso em algum curso de história da universidade?


Tudo pronto e a noite terminada, Louis foi se deitar... Mas não pôde dormir. Havia mais alguma coisa, algo que o importunava. Os dois últimos dias rodopiavam
sem parar em sua mente. Ouvia Rachel e Gage respirarem quase exatamente um depois do outro. GEN. PATTON... HANNAH, O MELHOR CACHORRO QUE JÁ EXISTIU... MARTA, NOSSA
COELHA DE ESTIMAÇÃO... Ellie, furiosa. NÃO QUERO QUE GHURCH MORRA NUNCA!... ELE NÃO É O GATO DE DEUS! QUE DEUS FIQUE COM O GATO DELE! Rachei, também furiosa. Como
médico, você devia saber... Norma Crandall dizia: Parece que querem esquecer a
Morte. . . E Jud, a voz terrivelmente firme, terrivelmente segura, uma voz de outra era: Sentava e tomava uma sopa, mas às vezes podíamos sentir que dava um beliscão
na nossa bunda.
E essa voz se fundia à voz de sua mãe, mentindo-lhe sobre o sexo aos quatro anos, mas dizendo a verdade sobre a morte aos doze, quando a prima Ruthíe morreu
num estúpido acidente de automóvel. Fora imprensada no carro do pai por um garoto que, depois de encontrar as chaves de um caminhão do Departamento de Obras Públicas
e resolver dar um passeio nele, descobriu que não sabia fazê-lo parar. O garoto sofreu apenas pequenos arranhões e contusões; o Fairlane do tio Carl, porém, ficou
destroçado. Ela não pode ter morrido, fora a reação de Louis à afirmação direta da mãe. Tinha ouvido as palavras, mas não conseguia apreender o sentido. Por que
a senhora está dizendo que ela morreu? Do que está falando? E depois, como uma reflexão tardia: Quem vai fazer o enterro? Pois embora o pai de Ruthie, tio de Louis,
fosse agente funerário, não podia acreditar que o próprio tio Carl quisesse enterrá-la. Em sua confusão e medo cada vez maiores, aquilo lhe pareceu a questão principal.
Era um autêntico quebra-cabeça, do tipo "quem vai cortar o cabelo do barbeiro da aldeia"?
Imagino que Donny Donahue fàça o enterro, a mãe respondeu. Seus olhos estavam vermelhos, parecia extremamente exausta; na realidade devia estar quase caindo
de cansaço. Ele é o melhor amigo de seu tio no negócio. Oh, Louis... Pobre da Ruthie, tão meiga... Não posso suportar a idéia de que ela tenha sofrido... Reze comigo,
está bem, Louis? Reze comigo pela alma de Ruthie. Preciso que você me ajude.
Assim, os dois se ajoelharam na cozinha, ele e a mãe, para rezar. E foi a prece que finalmente esclareceu as coisas: se a mãe estava rezando pela alma de
Ruthie Creed, significava que o corpo não existia mais. Na frente dos olhos fechados de Louis formou-se uma imagem terrível de Ruthie indo à festa dos seus treze
anos: as órbitas apodrecidas estampadas no rosto, os fungos cobrindo-lhe o cabelo ruivo. A imagem provocou não só um horror nauseante como uma terrível sensação
de piedade.
Gritou na maior agonia mental de sua vida: Ela não pode ter morrido! MAMÃE, ELA NÃO PODE TER MORRIDO, EU GOSTO MUITO DELA!
E veio a resposta da mãe, a voz desanimada, mas ainda evocando imagens (campos adormecidos sob um céu de final de outono, pétalas de rosas cinzentas e de pontas
reviradas, covas vazias espumando de algas - podridão, decomposição, pó):
É verdade, meu bem, sinto muito, mas é verdade. Ruthie se foi.

Louis estremeceu, ao lembrar: A morte é a morte... O que mais se pode fazer?
E subitamente descobriu o que tinha esquecido de fazer, por que ainda estava acordado, na véspera do primeiro dia do novo emprego, revivendo lutos antigos.
Levantou-se, caminhou em direção à escada, mas no corredor fez repentinamente a volta para o quarto de Ellie. A filha dormia tranqüila, de boca aberta, usando
o baby-doll azul que, sem dúvida, já lhe estava pequeno. Meu Deus, Ellie, pensou Louis, você está crescendo como milho. Church jazia entre os tornozelos abertos
em leque, também morto para o mundo. Se é que as comparaçâes se aplicam.
No andar de baixo, havia um quadro de avisos na parede perto do telefone. Nele estavam afixados vários recados, lembretes e contas. Em cima, as caprichadas letras
maiúsculas de Rachel brincavam: COISAS PARA ADIAR O MAIS POSSIVEL. Louis pegou a agenda de telefones, procurou um número e anotou-o numa folha do bloco de notas.
Sob o número, escreveu: Quentin L. Jolander, veterinário. Marcar consulta para Church. Se Jolander não fizer, indicará quem faça.
Olhou para a anotação, perguntando se era a época apropriada. Sabia que era. Alguma coisa concreta tinha resultado de todo o mau pressentimento daquele dia.
Decidira entre a manhã e a noite (sem ao menos saber que estava decidindo): não queria mais ver Church atravessando a estrada.
Seus velhos pontos de vista sobre o assunto assaltaram-lhe a mente: a idéia de que a castração inferiorizaria o gato, convertendo-lhe, antes do tempo, num macho
gordo e velho, que se contentaria em dormir perto da lareira esperando que alguém lhe pusesse alguma coisa na vasilha de comida. Não queria que Church ficasse assim.
Gostava de Church como ele era, magro e esperto.
Do lado de fora, uma grande jamanta roncou pela escuridão da Rodovia 15, e isso o decidiu. Afixou a nota no quadro de avisos e foi se deitar.

No dia seguinte, no desjejum, Ellie viu o novo lembrete no quadro e perguntou ao pai o que significava.
- Significa que Church vai ter de fazer uma operação muito simples - disse Louis. - Provavelmente terá de passar uma noite no veterinário. Mas quando voltar
para casa, vai ficar em nosso terreno, não vai querer perambular tanto por aí.
- Nem atravessar a estrada? - Ellie perguntou.
Ela só tem cinco anos, Louis pensou, mas sem dúvida não é tola.
- Nem atravessar a estrada - ele concordou.
- Puxa! - disse EIlie, e isto encerrou o assunto.
Louis, que estava preparado para uma discussão áspera, talvez mesmo histérica, sobre Church ter de passar uma noite fora de casa, ficou um tanto assombrado pela
facilidade com que a filha aceitou a coisa. E pôde então imaginar o quanto ela devia estar preocupada. Talvez Rachel não estivesse de todo errada sobre o efeito
do "simitério" de bichos em sua cabecinha.
A própria Rachel, que dava a Gage o ovo matinal, atirou-lhe um grato olhar de aprovação e Louis sentiu alguma coisa afrouxar no peito. O olhar dizia que a hostilidade
tinha passado; as pazes estavam feitas. Para sempre, ele esperava.
Mais tarde, depois que o grande ônibus amarelo tragara Ellie para levá-la à escola, Rachel aproximou-se dele, pôs os braços em volta de seu pescoço e o beijou
suavemente na boca.
- Você foi muito gentil em resolver fazer isso - disse ela -, e desculpe por eu ter me comportado como uma víbora.
Louis devolveu o beijo, sentindo-se, no entanto, um tanto chateado. Ocorreu-lhe que "desculpe por eu ter me comportado como uma víbora", embora não fosse repetido
com muita freqüência, não era também uma coisa nova nos lábios da mulher. Geralmente era o que Rachel dizia depois de recuperar o controle.


Enquanto isso, Gage dera alguns passos incertos para a porta da frente e pela mais baixa vidraça contemplava a estrada vazia.
- Ónibus - disse ele, balançando-se indiferente à fralda caída. -Ellie-ônibus.
- Está crescendo depressa - disse Louis.
Rachel concordou com a cabeça.
- Depressa demais para mim, eu acho.
- Espere só até ele se livrar das fraldas - disse Louis. - Aí é que não vai mais parar.
A mulher riu e entre os dois estava de novo tudo bem, completamente bem. Ela recuou um passo, deu um último ajuste no laço da gravata do marido e olhou-o de
cima a baixo com ar crítico.
- Estou aprovado, sargento? - ele perguntou.
- Está muito bonito.
- Oh, eu sei. Mas será que estou parecendo um cirurgião do coração? Um homem de duzentos mil dólares por ano?
- Não, parece apenas o velho Lou Creed - ela respondeu e riu. - O gatão na roda viva.
Louis olhou para o relógio.
- O gatão na roda viva tem de pôr seus sapatos de swing e ir embora - disse.
- Está nervoso?
- Um pouco.
- Não fique nervoso - disse ela. - São sessenta e sete mil dólares por ano para aplicar esparadrapos, receitar remédios de resfriado e ressaca, dar pílulas às
moças...
- Não esqueça a loção pra chatos - disse Louis sorrindo. Uma das coisas que o deixara espantado em seu primeiro giro pela enfermaria fora o suprimento dessas
loções. Parecia-lhe enorme, mais adequado a um hospital do exército que à enfermaria de um campus universitário de tamanho médio.
A Srta. Charlton, a enfermeira-chefe, sorrira ironicamente:
- Os apartamentos nas vizinhanças do campus são muito úmidos. O senhor vai ver.
Ele achou que era possível.
- Tenha um bom dia - disse Rachel beijando-o de novo, um beijo longo. Quando o largou, tinha uma expressão ao mesmo tempo severa e zombeteira. - E pelo amor
de Deus não esqueça que é o diretor, não um interno ou um residente de segundo ano!
- Sim, doutora - ele respondeu humildemente e os dois riram. Por um momento, teve vontade de perguntar: Foi Zelda, meu bem? É Zelda que você tem à flor da pele?
Esta é a zona perigosa? Zelda e o modo como ela morreu? Mas não ia perguntar, não agora. Como médico, sabia muitas coisas, e embora o fato de que a morte fosse tão
natural quanto o nascimento pudesse ser fundamental, o fato de que não se deve mexer numa ferida que mal começou a cicatrizar também estava longe de ser desprezível.
Então, em vez de perguntar, limitou-se a beijá-la de novo e sair.
Era um bom começo, um bom dia. O Maine estava dando um show no fim do verão, o céu azul e sem nuvens, a temperatura estabilizada em vinte e dois graus extremamente
agradáveis. Chegando ao fim da rodovia e começando a enfrentar o tráfego da manhã, Louis lembrou que, até aquele momento, ainda não vira um único indício da espetacular
queda das folhas que acompanha o outono. Mas podia esperar.
Acelerou o Honda Civic, seu segundo carro e aquele que sempre usaria para ir à universidade. Rachel ia chamar o veterinário de manhã, Church seria castrado,
e isso ia pôr um ponto final em todo aquele clima absurdo de medos da morte e cemitérios de bichos (era engraçado como a grafia 'simitério", estampada no arco que
levava ao lugar, ameaçava penetrar em sua mente e quase começava a parecer correta). Mas não havia necessidade de pensar na morte numa bela manhã de setembro como
aquela.
Ligou o rádio do carro e girou o ponteiro do mostrador até encontrar os Ramones atacando Rockaway Beach. Aumentou o volume e cantou junto - mal, mas com grande
satisfação.


A primeira coisa em que reparou ao entrar nos terrenos da universidade foi como o tráfego aumentara súbita e espetacularmente. Havia movimento de carros, movimento
de bicicletas e um enxame de motoqueiros. Teve de parar bruscamente para se esquivar de duas motos que vinham dos lados de Dunn Hall. Foi uma freada tão forte que
pôde sentir as correias do cinto no peito e ouvir os pneus guinchando. Sempre ficava irritado pela mania que tem os motoqueiros (os ciclistas tinham o mesmo hábito
exasperante) de presumir que suas responsabilidades caducam automaticamente assim que começam a correr. Estão, afinal, fazendo evoluções. Um deles fez sinal a Louis
com um dedo, sem ao menos virar o rosto. Louis suspirou e seguiu em frente.
A segunda coisa em que reparou foi que a ambulância não estava em seu lugar no pequeno estacionamento da enfermaria, o que lhe deu um susto nada agradável A
enfermaria estava equipada para prestar o socorro básico a qualquer doente ou acidentado sem gravidade; o grande vestíbulo conduzia a três salas de exame e tratamento
bastante bem-equipadas e, ao fundo, havia duas alas com quinze leitos cada uma. Mas não existia um centro cirúrgico, nem nada semelhante. No caso de acidentes mais
sérios, havia a ambulância, que poderia levar uma pessoa gravemente doente ou ferida para o Centro Médico do Maine Oriental. Steve Masterton, o médico-assistente
que ajudara Louis a se familiarizar com as instalações, mostrava o diário dos dois anos anteriores com justificado orgulho: tinha havido apenas trinta e oito saídas
de ambulância nesse período... Não era nada mau, já que atendiam a uma população estudantil de mais de dez mil pessoas e a população total da universidade chegava
a quase dezessete mil.
E lá estava ele, em seu verdadeiro primeiro dia de trabalho, com a ambulância ocupada.
Estacionou diante de uma tabuleta recentemente pintada, onde se lia "Reservado para o Dr. Creed", e entrou correndo na enfermaria.
Encontrou Charlton, uma mulher de cinqüenta anos, bastante ativa apesar dos cabelos que iam embranquecendo. Estava na primeira sala de exames, tirando a temperatura
de uma moça que usava jeans e uma frente-única. A moça tinha se queimado demais ao sol, Louis observou; o descascar estava bem avançado.
- Bom-dia, Joan - disse ele. - Onde está a ambulância?
- Oh, tivemos uma verdadeira tragédia - disse Charlton, tirando o termômetro da boca da estudante e vendo a temperatura. - Steve Masterton chegou às sete horas
e viu uma grande poça sob o motor e as rodas da frente. Parecia um problema de radiador. Tiveram de levá-la para a oficina.
- Ótimo - disse Louis, mas apesar do tom irônico se sentia aliviado. Pelo menos não saíra transportando um ferido, que fora seu temor inicial. - Quando a teremos
de volta?
Joan Charlton riu.
- Conhecendo a mecânica e lanternagem universitárias, eu diria que a ambulância deve estar de volta em meados de dezembro... Numa embalagem de Natal. - Virou-se
para a estudante: - Está com meio grau de febre. Tome duas aspirinas e fique fora de boates e lugares escuros.
A moça desceu da cama. Dispensou a Louis um rápido olhar de avaliação e saiu da sala.
- Nossa primeira freguesa do novo semestre - disse Charlton com mau-humor. - No início não conseguia ficar de boca fechada e quase deixou o termômetro cair.
- Parece que não simpatizou com ela.
- Conheço bem o tipo... Oh, temos a outra espécie também: atletas que continuam a jogar com fraturas nos ossos e problemas nos tendões porque não querem ficar
no banco de reserva, querem ser machos de verdade, não querem deixar o time perder, mesmo pondo em risco toda uma carreira futura. Mas, de repente, vemos a nossa
Senhorita Meio Grau de Febre...
Charlton sacudiu a cabeça para a janela, onde Louis pôde ver a moça. Com o bronzeado descascando, ela caminhava na direção do complexo de dormitórios Gannett-Cumberland-Androsc
oggin. Na sala de exames, dera a impressão de ser uma pessoa que não se sentia absolutamente bem, mas se esforçava para não demonstrar. Agora, andava com ar desenvolto,
os quadris balançando vivamente, observando os colegas e sendo notada por eles.
- A típica hipocondríaca universitária - disse Charlton, pondo o termômetro num esterilizador. - Vamos vê-la dezenas de vezes este ano. Suas visitas serão mais
freqüentes antes de cada ciclo de provas. E uma semana antes dos exames finais, aparecerá aqui convencida de que tem pneumonia ou está ficando paralítica de um braço
ou de uma perna. A bronquite será seu último refúgio. Vai conseguir escapar de quatro ou cinco provas (aquelas dos professores babacas, para empregar o termo que
eles usam) e fazer segundas chamadas mais fáceis. Ficam sempre mais doentes quando sabem que um teste ou exame final será de múltipla escolha e não um seminário
de dissertação.
- Meu Deus!, não vamos ficar tão céticos logo de manhã! - disse Louis. Ele parecia, de fato, um tanto perplexo.
Charlton atirou-lhe uma piscadela que o fez sorrir.
- Eu não esquento a cabeça, doutor. E o senhor também não devia.
- Onde está Stephen?
- Na sala do senhor, abrindo a correspondência e tentando decifrar a última tonelada de besteira burocrática que chegou da reitoria - disse ela.

Louis entrou na enfermaria. Apesar do cinismo de Charlton, sentia-se satisfeito em seu posto.

Quando olhasse para o passado, quando suportasse pensar de novo em tudo aquilo, Louis perceberia que o pesadelo realmente começou por volta das dez horas daquela
manhã, quando trouxeram para a enfermaria Victor Pascow, um rapaz agonizante.
Até aquele momento, as coisas tinham sido bem tranqüilas. As nove, meia hora após a chegada de Louis, entraram as duas adolescentes que iam fazer um estágio
como auxiliares de enfermagem. O turno delas ia até às três horas. Louis ofereceu uma rosca com glacê e uma xícara de café a cada uma e conversou com elas por cerca
de quinze minutos, instruindo-as sobre seus deveres e, o que talvez fosse ainda mais importante, alertando-as para o que podia surgir além do âmbito limitado desses
deveres. Depois, Charlton assumiu a coisa. Quando a enfermeira levou as duas da sala, Louis pôde ouvi-la perguntar:
- Alguma de vocês tem alergia a merda ou vômito? Aqui verão as duas coisas aos montes.
- Oh, Deus - Louis murmurou e cobriu os olhos. No fundo, porém, estava sorrindo. Uma figura durona como Charlton nem sempre seria tão perigosa.
Começou a preencher o extenso formulário da reitoria, que representava um completo inventário do estoque de drogas e do equipamento médico.
(- Todo ano - dissera Steve Masterton num tom irritado. - Todo maldito ano é a mesma coisa. Por que você não escreve aí: "Instalações completas para transplantes
do coração, valor aproximado, oito milhões de dólares"? Eles iam fundir a cuca!)
E Louis estava totalmente absorvido naquilo, pensando apenas ao mesmo tempo como uma xícara de café cairia bem, quando Masterton gritou da sala de espera:
- Louis! Ei, Louis, venha até aqui! Temos uma enrascada!
O quase pânico na voz de Masterton fez com que saísse correndo. Saltara da cadeira como se, de um modo subconsciente, já estivesse à espera de alguma
coisa. Um grito fino e límpido, como um estilhaçar de vidros, veio da mesma direção do berro de Masterton. Foi acompanhado pelo estalo de um tapa e a voz de Charlton:
- Pare com isso ou saia já daqui! Pare com isso agora!
Louis irrompeu na sala de espera e a princípio só teve consciência do sangue - havia muito sangue. Uma das auxiliares soluçava. A outra, branca como cera, pusera
os punhos fechados nos cantos da boca, repuxando os lábios num grande esgar de náusea. Masterton estava ajoelhado, tentando suspender a cabeça do rapaz estatelado
no chão.
Steve levantou os olhos para Louis, olhos aflitos, arregalados, assustados. Tentou falar. Não conseguiu.
Gente se aglomerava junto às grandes portas de vidro do Centro Médico EstudantiL Espreitavam, as mãos fazendo concha em volta dos olhos para eliminar os reflexos.
A mente de Louis evocou uma imagem insana e inoportuna: sentado na sala de estar, uma criança de apenas seis anos, antes da mãe ir para o trabalho, de manhã. Estava
vendo televisão. E era o velho show Hoje, com Dave Garroway. Havia gente do lado de fora, assistindo boquiaberta Dave e seus convidados - Frank Blair e o incrível
J. Fred Muggs. Ele olhou ao redor e viu outras pessoas se aproximando das janelas. Não podia fazer nada com portas de vidro, mas...
- Feche as cortinas - ordenou à auxiliar que tinha gritado.
Quando ela demorou a se mexer, Charlton deu-lhe uma palmada no traseiro.
- Faça o que ele está mandando, menina!
A auxiliar obedeceu mecanicamente. Um momento depois, as cortinas verdes tinham coberto as portas envidraçadas. Charlton e Steve Masterton colocaram-se instintivamente
entre o corpo do rapaz no chão e as portas, obstruindo o mais que podiam qualquer resto de visão.
- Pegamos a maca, doutor? - Charlton perguntou.
- Se for preciso, vá pegá-la - disse Louis, se agachando ao lado de Masterton. - Ainda não tive chance de dar uma olhada nele.
- Vamos lá - disse Charlton à moça que fechara as cortinas. Ela puxava de novo os cantos da boca com os punhos, provocando aquele esgar nada engraçado de sorriso.
Olhou para Charlton e gemeu:
- Oh,ah...
- Sim, oh, ah já é meio caminho andado. Vamos em frente.
Deu um forte puxão na moça e conseguiu que ela se pusesse a caminho, as listas vermelhas e brancas da saia saracoteando em volta das pernas.
Louis curvou-se sobre seu primeiro paciente na Universidade do Maine, em Orono.

Era um jovem de uns vinte anos de idade, e Louis levou menos de três segundos para fazer o único diagnóstico possível: o jovem ia morrer. Metade da cabeça fora
esmagada. O pescoço estava quebrado. Uma clavícula se projetava do ombro direito contorcido e dilatado. Da cabeça, sangue e um fluido amarelo, purulento, vertiam
vagarosamente para o tapete. Louis podia ver o cérebro do rapaz, um cinza esbranquiçado pulsando através da parte despedaçada do crânio. Era como olhar através de
uma janela quebrada. A incursão teria talvez cinco centímetros de largura; se houvesse um bebê naquele crânio, Louis quase poderia tirá-lo por ali (se o homem fosse
como Zeus, parindo pela testa). Era incrível que ainda estivesse vivo. Em sua mente ouviu de repente a voz de Jud Crandall: às vezes podíamos sentir que dava um
beliscão na nossa bunda. E sua mãe: a morte é a morte. Experimentou um absurdo ímpeto de rir. A morte é a morte, tudo bem. Isso é categórico, meu chapa.
Bradou para Masterton:
- Mande vir a ambulância. Vamos...
- Louis, a ambulância está...
- Oh, Deus - disse Louis batendo na testa e se virando para Charlton. - Joan, o que se faz num caso desses? Chama-se a Segurança do Campus ou o Centro Médico
do Maine?
Joan pareceu confusa, perturbada: coisa extremamente rara, Louis pensou. Mas a voz foi suficientemente calma quando respondeu:
- Eu não sei, doutor. Nunca enfrentei uma situação dessas desde que trabalho na enfermaria.
Louis raciocinou o mais rápido que pôde.
- Chame a polícia do campus. Não podemos esperar o Centro Médico do Maine mandar uma ambulância. Podem levar o rapaz para Bangor num carro de bombeiro. Pelo
menos tem uma sirene, luzes piscando. Faça isso, Joan.
Antes dela sair da sala, Louis captou em seu rosto um olhar profundamente complacente e o interpretou. Aquele jovem, muito bronzeado e musculoso (que vinha de
um verão onde talvez tivesse trabalhado pintando casas, dando lições de tênis ou recapeando estradas), aquele jovem vestido apenas com calção vermelho de ginástica
com listras brancas ia morrer, não importa o que eles fizessem. Ia morrer mesmo se a ambulância da enfermaria estivesse estacionada ali na frente, com o motor ligado,
quando o trouxeram.
Por incrível que pareça, o moribundo estava se mexendo. Os olhos tremeram e se abriram. Olhos azuis, a íris cercada de um anel de sangue. Era um olhar vazio
ao redor, não vendo nada. Tentou mover a cabeça, mas Louis fez uma certa pressão para impedir que o fizesse, atento ao pescoço quebrado. O traumatismo craniano não
eliminava a possibilidade de dor.
O buraco na cabeça dele, oh Deus, o buraco na cabeça dele.
- Como foi que aconteceu? - perguntou a Steve, consciente de que, naquelas circunstâncias, era uma pergunta estúpida e sem sentido. A pergunta de um curioso.
(Se bem que o buraco na cabeça do homem confirmasse: diante dele, um médico não passava de um curioso.) - Foi a polícia que o trouxe?
- Não, foram alguns estudantes. Usaram um cobertor como maca. Mas não sei o que houve.
Depois Louis devia procurar saber como acontecera o acidente. Aquilo também fazia parte de seus deveres.
- Vá lá fora e ache os rapazes que o socorreram - disse Louis. -Entre com eles pela outra porta. Quero tê-los a mão, mas não quero que vejam mais do que já viram.
Satisfeito por poder se afastar do que estava acontecendo ali, Masterton caminhou para a porta e abriu-a, deixando entrar um rumor de conversa nervosa, curiosa,
confusa. Louis escutou o barulho de uma sirene de polícia. Então a segurança do campus já estava lá. Sentiu uma espécie de alívio angustiado.
O agonizante fazia um gorgolejar com a garganta. Tentava falar. Louis ouviu sílabas - fonemas, pelo menos - mas as palavras eram pastosas, ininteligíveis.
Louis se inclinou sobre ele.
- Vai ficar bom, rapaz.
Pensou em Ellie e Rachel quando disse aquilo e seu estômago teve uma grande e desagradável reviravolta. Pôs a mão na boca e abafou um arroto.
- Aaa - disse o rapaz. -A.....
Louis olhou em volta e viu que o tinham deixado momentaneamente sozinho com o moribundo. Obscuramente, ouviu Joan Charlton gritando para as auxiliares que a
maca estava no armário de suprímentos da Sala Dois. Achou que não haveria qualquer possibilidade de que elas soubessem onde ficava a Sala Dois; afinal, era o primeiro
dia de trabalho das duas. Estavam passando por um batismo de fogo no mundo da medicina. O tapete verde que forrava o chão do vestíbulo estava encharcado de uma espécie
de lodo arroxeado, que ia se expandindo em círculos ao redor da cabeça destroçada do jovem; felizmente, porém, o vazamento do fluido intercraniano tinha parado.
- No "simitério" de bichos - foi o guincho na voz do homem... e
ele começou a sorrir. O sorriso tinha uma semelhança notável com o esgar grotesco, histérico, da auxiliar que fechara as cortinas.
Louis cravou os olhos no rapaz, a princípio se recusando a crer no que tinha ouvido. Pensou que devia ter sido uma alucinação auditiva. Ele fez mais alguns daqueles
sons fonéticos e meu subconsciente transformou-os em alguma coisa coerente, fez os sons se cruzarem com minha própria experiência. Mas não foi isso que aconteceu
e logo foi forçado a admitir que não. Um terror difuso, insano, atingiu-o por inteiro e sua carne começou a formigar num arrepio, um arrepio que realmente parecia
deslocar-se para cima e para baixo nos braços e atravessar-lhe a barriga como ondas... Mesmo então simplesmente recusou-se a acreditar. Sim, as sílabas tinham saído
dos lábios ensangüentados do homem no tapete e de fato lhe chegaram aos ouvidos, mas aquilo só indicava que a alucinação fora ao mesmo tempo visual e auditiva.
- O que você disse? - ele sussurrou.
E desta vez, nítida como as palavras de um papagaio ou de um pele vermelha cuja língua tivesse uma ponta cortada, a frase foi indiscutível:
- Não é o verdadeiro cemitério.
Os olhos eram ocos, sem visão, orlados de sangue; a boca mostrava os dentes no sorriso largo de uma carpa sem vida.
O horror envolveu Louis, envolveu-lhe o coração em suas mãos frias e apertou. Subjugou-o, sujeitou-o mais e mais, até fazê-lo ter vontade de fugir, correr
daquela cabeça sangrenta, contorcida, falando ali no chão da enfermaria. Não era homem de crenças religiosas profundas, nem se inclinava para a superstição e para
o oculto. Não estava preparado para isso... Fosse lá o que fosse.
Resistindo com todas as suas forças ao ímpeto de correr, aproximou-se ainda mais do rapaz.
- O que foi que você disse? - perguntou pela segunda vez.
O sorriso. Aquilo era mau.
- O solo do coração de um homem é mais empedernido, Louis -murmurou o moribundo. - Um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.
Louis, ele pensou, nada ouvindo de forma consciente depois do próprio nome. Oh, meu Deus, ele me chamou pelo nome.
- Quem é você? - Louis perguntou numa voz trêmula, com um tom de papel amassado. - Quem é você?
- Injun traz o meu peixe.
- Como sabe o meu...
- Nos deixe limpos. Saiba...
- Você...
- A. - disse o rapaz e agora Louis acreditou que podia sentir o cheiro da morte em sua respiração, nos ferimentos internos, nas perdas de ritmo, colapso, ruína.
- O quê?
Louis foi sacudido por uma descontrolada ansiedade.
- Aaaaaaaaa...
O jovem de calção vermelho de ginástica começou a tremer de cima a baixo. E de repente pareceu se congelar com uma trava em cada músculo. Os olhos perderam momentaneamente
a expressão vaga e encontraram os de Louis. Então tudo aconteceu muito rápido. Houve um mau cheiro. Louis pensou que ia, devia falar outra vez. Mas os olhos retomaram
a expressão ....... e começaram a embaçar. O homem estava morto.
Louis recuou um pouco, vagamente consciente de que todas as suas roupas tinham grudado no corpo; estava ensopado de suor. A escuridão tingia a sala, deixando
cair suavemente um véu sobre seus olhos. Tudo começou a oscilar de um lado para o outro. Era nauseante. Percebendo o que acontecia, afastou-se ainda mais do morto,
enterrou a cabeça entre os joelhos e cravou nas gengivas as unhas do polegar e do indicador da mão esquerda, até fazê-las sangrar.
Pouco depois, tudo começou a clarear de novo.

Então a sala se encheu de gente, como se todos fossem atores esperando o momento de entrar em cena. Isto aumentou em Louis a sensação de irrealidade e desorientação
- a força dessas sensações, que estudara nas aulas de psicologia mas nunca experimentara, deixaram-no bastante assustado. Era assim, ele supunha, que uma pessoa
devia se sentir depois de alguém ter jogado uma dose forte de LSD na sua bebida.
Como uma peça encenada só para mim, ele pensou. Primeiro a sala é devidamente esvaziada para que o Feiticeiro moribundo possa recitar algumas linhas de obscura
profecia, para mim e para mais ninguém; depois ele morre e todos voltam.
As auxiliares andavam tropegamente, cada uma segurando uma das pontas da maca que era usada para pessoas com lesões na espinha ou no pescoço. Joan Charlton ia
atrás delas, dizendo que a polícia do campus estava a caminho. O jovem fora atropelado por um carro em sua moto. Louis pensou nos motoqueiros que tinham atravessado
aquela manhã na frente do seu carro; sentiu as vísceras se embrulharem.
Atrás de Charlton vinha Steve Masterton, com dois guardas da Segurança do Campus.
- Louis, as pessoas que trouxeram Pascow estão na... - Ele interrompeu a frase pelo meio e disse num tom agudo: - Louis, você está bem?
- Estou bem - disse ele e se pôs de pé. A fraqueza ameaçou envolvê-lo de novo, mas acabou se dissipando. Louis tentava se recompor: - É Pascow o nome dele?
Um dos guardas do campus respondeu:
- Victor Pascow, segundo a moça que estava numa moto ao lado da dele.
Louis olhou para o relógio e subtraiu dois minutos. Da sala para onde Masterton tinha levado as pessoas que socorreram Pascow vinha o som de uma moça soluçando
convulsivamente. Bem-vinda de novo à escola, menina, ele pensou. Tenha um bom semestre.
- O Sr. Pascow morreu às dez e nove - disse.
Um dos guardas limpou a boca com as costas da mão.
- Louis, você está mesmo bem? - Masterton perguntou de novo. - Está com uma aparência terrível.
Louis abria a boca para responder quando uma das auxiliares deixou cair sua ponta de maca e correu da sala, vomitando pela frente do avental. O telefone começou
a tocar. A moça que soluçava passou a gritar o nome do morto: "Vic! Vic! Vic!" Tumulto. Confusão. Um dos guardas perguntava se Charlton não podia arranjar um cobertor
para cobrirem o rapaz e Charlton dizia que não sabia se tinha autoridade para requisitar um. Louis surpreendeu-se pensando num trecho de Maurice Sendak: "Deixe começar
a algazarra selvagem!"
De novo aquele riso nervoso subindo pela garganta, mas conseguiu impedi-lo de vir à tona. Será que Pascow tinha dito realmente "simitério" de bichos? Tinha dito
realmente essas palavras? A coisa ameaçava nocauteá-lo, deixá-lo fora de órbita. Mas a mente já começava a cobrir aqueles maus momentos com uma película protetora
- polindo as arestas,
fazendo certas modificações, desfazendo certas ligações. Sem düvida, Pascow teria falado outra coisa (se é que chegou mesmo a falar); sob o choque, a inoportuna
emoção do momento, Louis interpretou maL Muito provavelmente, o rapar apenas balbuciara alguns sons, como ele a princípio julgou.
Louis tateou em busca de si mesmo, daquela parte dele que fizera com que a administração da universidade o escolhesse entre cinqüenta e três candidatos para
ocupar aquele cargo. Ninguém estava no comando ali, ninguém adotava uma atitude firme; a sala parecia cheia de pessoas desatinadas.
- Steve, vá dar um tranqüilizante à moça que está na minha sala - disse ele, e o simples fato de dizer isso fez com que se sentisse melhor. Era como se estivesse
dentro da cápsula de um foguete deixando um pequeno mundo. Este pequeno mundo, é claro, era o momento irracional em que Pascow tinha falado. Louis fora contratado
para tomar a frente das coisas; era o que ia fazer.
- Joan, dê um cobertor ao guarda.
- Doutor, não relacionamos...
- Não importa, dê-lhe o cobertor assim mesmo. Depois vá ver como está aquela estagiária.
Olhou para a outra moça, que ainda segurava sua ponta de maca. Parecia contemplar o cadáver de Pascow numa espécie de fascinação hipnótica.
- Estagiária! - disse Louis com rispidez e os olhos da moça se afastaram do corpo.
- Qu-qu-que é?
- Qual é o nome da outra moça?
- Qu-quem?
- Aquela que vomitou - disse ele com aspereza proposital.
- Ju-Ju-Judy. Judy DeLessio.
- E o seu nome?
- Carla.
Agora, a moça parecia um pouco mais controlada.
- Carla, vá ver como está Judy. Mas antes traga o cobertor. Encontrará uma pilha deles no armário do serviço da Sala de Exames Número Um. Andem, todos vocês.
Vamos tentar ser um pouco mais profissionais.
Todos se mexeram. Os gritos na outra sala logo se aquietaram. O telefone, que parara de tocar, começou de novo. Louis apertou o botão da linha sem tirar o fone
do gancho.
O mais velho dos guardas do campus também parecia mais tranqüilo. Louis dirigiu-se a ele.
- A quem devemos informar? Pode me dar um telefone?
O guarda balançou afirmativamente a cabeça e comentou:
- Há dois anos não temos um caso desses. Não é nada bom começar o semestre assim.
- Sem dúvida - disse Louis. Pegou o telefone e soltou a linha.
- Alô? Quem foi que... - começou uma voz nervosa e Louis cortou a ligação. Depois, começou a fazer suas chamadas.


O ritmo de trabalho não diminuiu até às quatro da tarde, depois que Louis e Richard Irving, chefe da Segurança do Campus, deram uma declaração à imprensa.
A moto de Victor Pascow vinha acompanhada de duas outras motos, uma delas com sua noiva. Um automóvel, conduzido por Tremont Withers, de vinte e três anos, morador
em Haven, no Maine, surgiu na estrada vindo do Ginásio Feminino Lengyll. Dirigia-se para o centro do campus em excesso de velocidade. O carro de Withers bateu na
moto de Pascow, atirando-o de cabeça contra uma árvore. A noiva, um amigo e dois transeuntes levaram Pascow para a enfermaria num cobertor. Ele morreu minutos depois.
Withers seria processado sob as acusações de direção perigosa, dirigir em estado de embriaguez e homicídio involuntário.
O editor do jornal do campus perguntou a Louis se ele diria que Pascow morreu em conseqüência dos ferimentos na cabeça. Pensando no buraco através do qual o
próprio cérebro podia ser visto, Louis disse que preferia deixar o coroner2 do condado de Penobscot anunciar a causa da morte. O editor perguntou então se os quatro
jovens que levaram Pascow para a enfermaria no cobertor não poderiam, inadvertidamente, ter causado sua morte.
- Não - Louis respondeu. - De modo algum. Em minha opinião, o sr. Pascow ficou, infelizmente, mortalmente ferido depois de sofrer o choque.

2
Magistrado encarregado de inquéritos judiciais. (N. do T.)

Houve mais duas ou três perguntas, mas aquela resposta realmente encerrara a conferência de imprensa. Agora Louis estava em sua sala (Steve Masterton fora para
casa há uma hora, logo depois da entrevista... para assistir ao noticiário da noite, Louis desconfiava) tentando juntar os cacos do dia - ou, talvez, estivesse apenas
tentando cobrir com uma capa de rotina o que havia acontecido. Ele e Charlton folheavam as fichas do "fichário central", onde se achavam catalogados os estudantes
que, devido a alguma insuficiência crônica, freqüentavam assiduamente a enfermaria. Havia vinte e três diabéticos, quinze epiléticos, quatorze paraplégicos e outros
casos variados: estudantes com leucemia, paralisia cerebral, distrofia muscular, estudantes cegos, dois mudos, e um caso de anemia dos glóbulos vermelhos, novo para
Louis.
Talvez a tarde tenha atingido seu ponto mais baixo logo após a saída de Steve. Charlton entrou e pousou na mesa de Louis um papel cor-de-rosa com um lembrete:
O tapete de Bangor chegará amanhã às nove.
- Tapete? - ele perguntou.
- Vamos ter de trocar o tapete - a enfermeira respondeu num tom de desculpa. - Aquela mancha não vai sair de jeito nenhum, doutor.
É claro que não. Louis levantou-se, foi até o dispensário e encontrou um vidro de Tuinal, uma anfetamina, que seu primeiro colega de quarto na escola de medicina
chamava de "Terra do Fim do Mundo".
- Tome o bonde para a Terra do Fim do Mundo, Louis - ele costumava dizer. - Você vai encontrar alguma Mary Paraíso andando por lá.
Em geral, se recusava a acompanhá-lo no passeio até a fabulosa Terra do Fim do Mundo, e talvez fizesse muito bem; seu companheiro de quarto foi desligado da
universidade no meio do terceiro semestre e continuou viajando para a Terra do Fim do Mundo até chegar ao Vietnâ, como enfermeiro do exército. Louis às vezes o imaginara
por lá, vivo ou morto, os olhos saltando pelas órbitas, vendo Mary Paraíso "correr pelas florestas".
Mas precisava de alguma coisa. Se tivesse de ver aquele lembrete cor-de-rosa do tapete afixado no quadro de avisos sempre que levantasse os olhos do fichário
central, precisaria de alguma coisa.
Circulava relativamente tranqüilo pelo dispensário quando a Sra. Baillings, a enfermeira da noite, introduziu a cabeça na porta e disse:
- Sua esposa, Dr. Creed. Na linha um.
Louis olhou para o relógio e viu que eram quase cinco e meia; já devia ter ido embora há uma hora e meia.
- Tudo bem, Nancy. Obrigado.
Pegou o telefone e apertou a linha um.
- Alô, meu bem. Logo em meu...
- Louis, tudo bem com você?
- Tudo.
- Soube da história pelo noticiário. Lou, que coisa terrível! - Ela fez uma pausa. - Foi nas notícias do rádio. Puseram sua entrevista no ar. Você estava muito
bem.
- Foi mesmo? Bom.
- Tem certeza de que está tudo bem com você?
- Tenho, Rachel Estou ótimo.
- Venha pra casa - disse ela.
- Já estou indo - ele respondeu.
Ir para casa parecia uma boa idéia.

Rachel veio recebê-lo na porta e deixou-o de boca aberta. Usava o sutiã de renda de que ele gostava tanto, calcinhas transparentes e nada mais.
- Você está deliciosa - disse Louis. - Cadê as crianças?
- Foram para a casa de Dandridge. Podemos ficar sozinhos até âs oito e meia... O que nos dá duas horas e meia. Não vamos desperdiçá-las.
Ela apertou-se contra o marido. Louis pôde sentir uma suave, agradável fragrância... Perfume de rosas? Pôs os braços em volta da mulher, primeiro na cintura,
depois as mãos encontraram as nádegas, enquanto a língua de Rachel dançava levemente nos seus lábios, passava para dentro da sua boca, lambia e disparava entre os
dentes dele.
Por fim houve uma pausa no beijo e Louis perguntou um tanto grosseiramente:
- É você o primeiro prato do jantar?
- A sobremesa - ela respondeu, começando a roçar lenta e sensualmente os quadris na virilha e no ventre do marido. - Mas prometo que os outros pratos também
serão bem gostosos.
Ele tentou chegar logo ao ponto, mas ela escapuliu e pegou-o pela mão.
- Primeiro vamos subir - disse.
Puxou-o para junto da banheira com água bastante quente, despiu-o devagar e fez com que entrasse. Calçou uma luva-esponja um tanto áspera que geralmente ficava
pendurada sem ninguém usar no cabide do chuveiro, ensaboou-lhe o corpo com jeito e depois enxaguou. Ele podia sentir o dia - aquele terrível primeiro dia - indo
lentamente embora. Rachei se molhara bastante e as calcinhas aderiram como uma segunda pele.
Louis começou a sair da banheira, mas ela o empurrou de volta.
- Que...
Agora a luva-esponja agarrava-o delicadamente - delicadamente, mas numa fricção quase insuportável, movendo-se devagar para cima e para baixo.
- Rachel...
O suor cobria-lhe o corpo e não vinha apenas do calor da banheira.
- Chiii...
Aquilo pareceu se prolongar eternamente. Quando ele se aproximou do gozo, a mão dentro da luva-esponja diminuiu o ritmo, quase parou. Não chegou a parar de todo
mas apertou, afrouxou, apertou de novo. Por fim, o clímax veio com tamanha intensidade que ele sentiu uma pressão nos tímpanos.
- Meu Deus - disse ainda trêmulo quando conseguiu falar. - Onde você aprendeu isso?
- Com as escoteiras - ela respondeu num tom vaidoso.

Rachei fizera um strogonoff que ficara fervendo durante o episódio da banheira, e Louis, que às quatro horas da tarde seria capaz de jurar que só no Natal conseguiria
pôr alguma coisa na boca, comeu dois pratos cheios.
Depois ela o conduziu de novo para cima.
- Agora - disse Rachel -, vamos ver o que você pode fazer por mim.
Levando tudo em conta, Louis achou que se mostraria à altura de enfrentar o desafio.

Mais tarde, Rachel vestiu seu velho pijama azuL Louis se enfiou numa camisa de flanela, numa calça de veludo muito surrada (que Rachel chamava de pano de chão)
e foi buscar os filhos.
A jovem Srta. Dandridge quis saber do acidente e Louis fez um apanhado da coisa, dando-lhe menos informações do que ela poderia obter no dia seguinte, lendo
o Daily News de Bangor. Não gostou de tocar no assunto (sentiu-se o mais rançoso dos tagarelas), mas a Srta. Dandridge não aceitaria dinheiro por cuidar das crianças
e ele estava muito agradecido pela noite que tinha desfrutado com RacheL
Gage adormeceu antes que Louis completasse o quilômetro e meio entre a casa de Dandridge e a sua; mesmo Ellie bocejava e tinha os olhos vidrados. Assim que chegou,
mudou a fralda de Gage, encaixou-o na camisola de dormir e o levou para o berço. Depois leu para Ellie um livrínho de histórias. Como de hábito, a menina clamou:
"Onde estão os supermonstros, as coisas terríveis?", sendo ela mesma uma experimentada "coisa terrível"... Louis convenceu-a a se contentar com o gato de chapéu
que havia no pequeno livro. Adormeceu cinco minutos depois de Rachel vesti-la com a camisola de dormir e o pai levá-la para cima.
Quando Louis tornou a descer, Rachel estava sentada na sala de estar com um copo de leite na mão e um leve romance policial de Dorothy Sayers aberto numa das
coxas.
- Louis, você está bem mesmo?
- Querida, estou ótimo - disse ele. - E obrigado. Por tudo.
- Temos de nos divertir um pouco, não é? - ela disse com um sorriso meio enviesado, levemente malicioso. - Vai até a casa de Jud tomar uma cerveja?
Ele abanou a cabeça.
- Hoje não. Estou morto de cansaço.
- Acho que tenho alguma coisa a ver com isso.
- Também acho.
- Então pegue seu copo de leite, doutor, e vamos deitar.

Louis pensou que talvez não conseguisse dormir, como freqüentemente acontecia quando era interno num hospital e um dia particularmente difícil estava rodopiando
na sua mente. Mas foi caindo docemente no sono, como se deslizasse, sem fricção, por uma rampa ligeiramente inclinada. Lera, em algum lugar, que o ser humano comum
não leva mais de sete minutos para se desligar completamente da agitação do dia. Sete minutos para o consciente e o subconsciente, como as paredes falsas das casas
mal assombradas nos parques de diversões, girarem em seus eixos e conduzirem ao sono. Havia algo de extraordinário nisso.
Estava quase dormindo quando ouviu Rachel dizer, como de muito longe:
- ... depois de amanhã.
- Hummmm?
- Jolander. O veterinário. Vai operar Church depois de amanhã.
- Oh.
Church. Aproveite seus cojónes enquanto ainda os tem, Church, meu velho... E então, Louis se desligou de tudo, foi caindo pelo buraco de um sono profundo e sem
sonhos.


Alguma coisa o despertou muito mais tarde, uma pancada suficientemente alta para fazê-lo se sentar na cama, achando que EIlie podia ter caído ou o berço de Gage
desabado. Mas a lua saiu de trás de uma nuvem, inundou o quarto com uma luz branca, fria, e ele viu Victor Pascow de pé no vão da porta. A pancada fora de Pascow
abrindo de repente a porta.
Estava ali, a cabeça destroçada atrás da têmpora esquerda. O sangue secara em seu rosto, formando listas avermelhadas como uma pintura indígena. A clavícula
se projetava esbranquiçada. Sorria.
- Venha comigo, doutor - disse Pascow. - Temos lugares onde ir.
Louís olhou em volta. A mulher era um vago contorno sob o acolchoado amarelo e dormia profundamente. Olhou de novo para Pascow, que estava morto mas, de certa
forma, ainda não morrera. Louis, porém, não teve medo. E quase de imediato entendeu por quê.
É um sonho, pensou, e só depois dessa idéia reconfortante percebeu que, afinal, estava apavorado. Mas os mortos não, voltam; é fisiologicamente impossível. Este
rapaz está numa gaveta de autópsia em Bangor, com a cicatriz do legista - uma incisão em forma de Y - costurada no corpo. Provavelmente, após tirar uma amostra do
tecido, o legista enfiou o cérebro na cavidade do tórax e, para evitar vazamentos, encheu o crânio com papel marrom - o que era mais simples do que tentar encaixar
de novo o cérebro no crânio, como uma peça num quebra-cabeça. Tio Carl, pai da infeliz Ruthie, contara-lhe que os legistas faziam isso; e fornecera-lhe, a esmo,
informações variadas que fariam Rachel, com sua fobia da morte, dar gritos de horror. Mas Pascow não estava lá... De jeito nenhum, rapaz. Pascow estava numa gaveta
refrigerada com uma etiqueta presa no dedo do pé. E com toda a certeza, não está usando este calção vermelho de ginástica.
No entanto, a compulsão de se levantar foi muito forte. Os olhos de Pascow estavam cravados nele.
Afastou as cobertas e pousou os pés no chão. O tapete felpudo - um velho presente de casamento dado pela avô de Rachel - comprimia frios nódulos de lã contra
as solas dos pés. O sonho possuía uma realidade notável. Era tão real que não caminhou na direção de Pascow... até que Pascow se virou e começou a descer as escadas.
A compulsão de segui-lo foi então demasiado intensa, embora não quisesse, mesmo num sonho, ser tocado por um cadáver que anda.
Mas Louis foi atrás. O calção de ginástica de Pascow brilhava.
Cruzaram a saía de estar, a sala de jantar, a cozinha. Louis esperava que Pascow virasse a maçaneta e puxasse o trinco da porta da cozinha, passando ao galpão
que servia de garagem para a Civic e a camionete. Mas Pascow não fez isso. Em vez de abrir a porta, simplesmente passou através dela. E Louis pensou com ligeiro
assombro: É assim que se faz? Fantástico! Qualquer um pode fazer isso!
Ele tentou... E foi um tanto engraçado encontrar apenas madeira impermeável. Ao que parece, tinha um corpo bem real, mesmo nos sonhos. Girou a maçaneta da fechadura
Yale, puxou o trinco e entrou no galpão-garagem. Pascow não estava lá. Achou que Pascow teria simplesmente deixado de existir... Aquilo freqüentemente acontecia
com as pessoas nos sonhos. Com os lugares também... Primeiro você estava nu do lado de uma piscina, com uma grande tesão, e sua esposa discutia as possibilidades
de uma transa conjunta com, digamos, Roger e a Srta. Dandridge; depois, num piscar de olhos, você passava a escalar a encosta de um vulcão havaiano. Talvez Pascow
tivesse sumido porque o sonho ia entrar num segundo ato.
Mas ao sair da garagem Louis viu-o de novo, nos fundos do terreno, sob a luz fraca do
luar - junto ao início da trilha.
Agora o medo realmente o atingiu,. entrou suavemente por dentro dele, filtrou-se pelos poros e ocupou os espaços vazios de seu corpo como o vapor de uma fumaça
suja. Não queria ir até lá. Parou.
Pascow olhou para trás e, sob a luz da lua, tinha os olhos prateados. Louis sentiu no estômago um desesperado fervilhar de horror. Aquele osso saliente, os coágulos
de sangue... Mas era inútil tentar resistir àqueles olhos. Ao que tudo indicava, era um sonho de estar sendo hipnotizado, dominado... De ser incapaz de alterar as
coisas, do modo, talvez, como fora incapaz de alterar o fato da morte de Pascow. Você pode passar vinte anos na escola e, mesmo assim, não consegue fazer nada quando
lhe trazem um sujeito que bateu contra uma árvore com força suficiente para abrir um buraco na cabeça. Seria a mesma coisa se chamassem um bombeiro, um fazedor de
chuva dos peles-vermelhas ou o homem da esquina.
Mas enquanto esses pensamentos lhe atravessavam a mente, ele ia sendo impelido para a trilha. Seguia o calção de ginástica: ao luar, tinha o mesmo tom castanho-avermelhado
do sangue coagulado.
Não estava gostando daquele sonho. Oh, Deus, de modo algum. Era tudo tão real,os frios nódulos de lã do tapete, o fato de não conseguir atravessar a porta do
galpão quando uma pessoa podia (ou devia) ser capaz de atravessar portas e paredes em qualquer sonho que se desse ao respei.... . E agora, o fresco orvalho da relva
nos pés descalços, aquela aragem da noite no corpo, apenas um sopro. Louis só vestia a calça curta do pijama. E logo que se viu sob as árvores, lascas de pinho o
espetaram nas solas dos pés, outro pequeno detalhe um pouco mais real do que precisava ser.
Não importa. Não importa. Estou em minha cama, em casa. É apenas um sonho, por mais que pareça real e, como todos os outros sonhos, vai parecer ridículo de manhã.i
Minha mente desperta descobrirá suas incoerências.
A ponta de uma árvore seca roçou com força em seu corpo; ele estremeceu. Lá na frente, Pascow era apenas uma sombra que se movia e, naquele momento, o terror
de Louis pareceu se cristalizar numa idéia de contornos nítidos: Estou seguindo um morto pelos bosques, estou seguindo um morto até o cemitério de bichos e não é
um sonho. Deus me ajude, não é um sonho. Isso está acontecendo.
Desceram para o lado mais distante das árvores da colina. A trilha fazia curvas preguiçosas em forma de 5, depois se precipitava para as moitas rasteiras. Agora
não havia botas. O solo dissolvia-se numa geléia fria sob os pés, prendendo-os, retendo-os, quase não os deixando prosseguir. Ouviam-se desagradáveis ruídos de sucção.
Louis podia sentir o lodo enfiando-se entre os dedos, como se quisesse separá-los.
Procurava desesperadamente agarrar-se à idéia do sonho.
Ela não parecia resistir à prova.
Atingiram a clareira e a lua vogava outra vez livre de sua muralha de nuvens, banhando o "simitério" com fantasmagórico esplendor. Os marcadores de túmulos -
tábuas, pedaços de lata cortados com os alicates dos pais e depois martelados em quadrados toscos, pedaços lascados de pedra, pedaços de lousa - projetavam-se com
uma nitidez tridimensional, lançando sombras negras, perfeitamente definidas.
Pascow parou perto do GATO SMUCKY, ELE ERA OBEDIENTE e virou-se para Louís. O horror, o terror - sentia que essas coisas cresceriam dentro dele até lhe desintegrarem
o corpo sob uma pressão suave, mas implacável... Pascow estava sorrindo. Os lábios sanguinolentos franziam-se para trás dos dentes, o saudável e forte bronzeado,
à luz esbranquiçada da lua, revestia-se com a brancura de um cadáver, prestes a ser envolvido entre as dobras de seu sudário.
Pascow levantou um dos braços e apontou. Louis olhou na direção indicada e deixou escapar um gemido. Os olhos foram se arregalando e ele apertou com força as
juntas dos dedos contra a boca fechada. Seu rosto estava muito frio e, no limite extremo do terror, sentiu que tinha começado a chorar.
As árvores caídas, de onde Jud Crandall, alarmado, mandara Ellie sair, haviam se transformado num monte de ossos. E os ossos estavam se mexendo. Deslocavam-se
e, estalando, se combinavam uns aos outros: mandíbulas, fêmures, cúbitos, molares e incisivos - via os dentes arreganhados nos crânios de homens e animais. Os ossos
dos dedos chocalhavam. Aqui e ali, os restos de um pé flexionavam as juntas descarnadas.
Ah, aquilo estava se mexendo; estava se arrastando...
Pascow vinha caminhando em sua direção, o rosto ensangüentado, lúgubre à luz do luar. O resto de coerência na mente de Louis começou a escapulir para uma idéia
fixa e lamurienta: Você grita e acorda não importa que assuste Rachei Ellie Gage que acorde toda a casa toda a vizinhança, você grita e acorda griiiitagriiitaea
cordacorda co rda cor...
Mas só saiu um fraco sopro de ar, o som de um garotinho sentado num degrau de varanda fazendo força para assobiar.
Pascow chegou perto e falou:
- A porta não deve ser aberta - disse ele. Tinha os olhos voltados para baixo porque Louis caíra de joelhos. A princípio, Louis tomou a expressão de seu rosto
por compaixão. Mas não era absolutamente compaixão, apenas uma espécie medonha de paciência. Ele apontou a pilha de ossos que se moviam. - Não ultrapasse este limite,
doutor, por mais que tenha vontade de fazê-lo. A barreira não foi feita para ser violada. Não esqueça: há mais poder aqui do que o senhor imagina. Isto é um lugar
velho e está sempre inquieto. Não esqueça!
Louis tentou gritar de novo. Não conseguiu.
- Vim como amigo - continuou Pascow. (Mas seria realmente amigo a palavra que Pascow tinha dito? Louis achava que não. Era como se Pascow falasse numa língua
estrangeira, que só por alguma mágica de sonho Louis pudesse compreender... "Amigo" era o mais próximo que sua mente conturbada conseguia chegar de qualquer palavra
que Pascow tivesse realmente articulado.) - Sua destruição e a destruição de tudo que o senhor ama está muito próxima, doutor.
Pascow estava suficientemente perto e Louis sentia o cheiro da morte que havia nele.
Pascow estendendo a mão para ele.
O abafado, enlouquecedor estalar dos ossos.
Louis começou a perder o equilíbrio em seu esforço para se esquivar da mão. Sua própria mão bateu numa lápide e a derrubou. O rosto de Pascow, inclinando-se
para baixo, enchia o céu.
- Doutor... Não esqueça.
Louis tentou gritar e o mundo rodopiou... Mas ainda ouvia, na cripta enluarada da noite, o chocalhar dos ossos em movimento.


O ser humano comum leva sete minutos para mergulhar no sono, mas, segundo a Fisiologia Humana, de Hand, o mesmo ser humano leva de quinze a vinte minutos
para despertar. E como se o sono fosse um poço, de onde sair é mais difícil que entrar. Quando a pessoa que dorme acorda, ela o faz aos poucos, passando de um sono
mais profundo a um sono mais leve e, por fim, ao que é às vezes chamado "sono do despertar", quando a pessoa pode ouvir sons e até responder a alguma pergunta sem
ter consciência disso mais tarde (exceto, talvez, como fragmentos de sonho).
Louis ouvia o estalar e chocalhar dos ossos, mas gradativamente este som foi se tornando mais agudo, mais metálico. Houve uma pancada. Um grito. Novos sons metálicos...
Alguma coisa rolando? Sem dúvida, o turbilhão de sua mente concordou. Os ossos rolam.
Ouviu a filha gritando:
- Pegue, Gage! Pegue!
Isto foi seguido por um gritinho de prazer de Gage, o som que fez Louis abrir os olhos e ver o teto do quarto.
Continuou absolutamente imóvel, esperando que a, realidade, a boa realidade, a abençoada realidade, voltasse a envolvê-lo por inteiro.
Tudo um sonho. Por mais que tenha sido terrível, por mais que tenha sido real, não passava de um sonho. Apenas um fóssil na mente que existia sob a sua mente.
O som metálico voltou. Era um dos carrinhos de Gage rolando pelo corredor do andar de cima.
- Pegue ele, Gage!
- Pegue! - Gage gritou. - Pegue-pegue-pegue!
Bum-bum-bum. Os pezinhos descalços de Gage ecoando no piso do corredor. Ele ria com a irmã.
Louis olhou para a direita. O lado de Rachel na cama estava vazio, as cobertas puxadas. O sol parecia bem alto. Consultou o relógio e viu que eram quase oito
horas. Rachel o deixara passar da hora, provavelmente de propósito.
Normalmente, isso o teria irritado, mas não naquela manhã. Respirou profundamente, contente por estar ali estendido, com um raio de luz derramando-se pela janela,
sentindo a inconfundível textura do mundo real. Grãos de poeira dançavam na luz do sol.
Rachel gritou lá de baixo:
- Desça pra tomar o café, Ellie! O ônibusjá vai passar!
- Já vou! - O som de seus passinhos. - Olha o teu carro, Gage. Tenho de ir à escola.
Gage iniciou um berreiro. Embora ainda não soubesse falar (as ünicas palavras pronunciadas com nitidez eram Gage, carro, pegue, Ellie e ônibus), a mensagem parecia
bastante clara: Ellie devia ficar. A escola, ao menos naquele dia, podia esperar.
De novo a voz de Rachel:
- Puxe o pé do seu pai antes de descer, El!
Ellie entrou, o cabelo num rabo-de-cavalo, o vestido vermelho.
- Eu já acordei, meu bem - disse o pai. - Vá, senão vai perder o ônibus.
- Está bem, papai
Ela se aproximou, beijou-o no cangote e correu para a escada.
O sonho começava a se desbotar, a perder coerência. O que, sem dúvida, era muito bom.
- Gage! - ele gritou. - Venha dar um beijo no papai!
Gage o ignorou. Tentava, o mais depressa que podia, ir atrás de Ellie para o andar de baixo. Gritava com toda a força dos pulmões:
- Pegue! Pegue-pegue-PEGUE!
Louis só pôde ver de relance o corpo firme do garotinho, coberto apenas com a fralda e a calça de plástico.
Rachei gritou de novo lá de baixo:
- Louis, foi você que falou? Já acordou?
- Já - ele respondeu, sentando-se na cama.
- Eu não falei que ele já tinha acordado? - disse Ellie. - Vou embora. Tchau!
- Uma piada particular - Louis respondeu, ainda rindo. Estava apavorado, mas o pavor não detinha o riso. O riso prolongava-se, subia-lhe do estômago à boca,
resistente como pedras cimentadas num muro. Achou que jogar os lençóis na calha de roupa suja fora a melhor coisa que podia ter feito. A Srta. Dandridge vinha cinco
dias por semana para passar o aspirador, arrumar a casa... e lavar roupa. Rachel só tornaria a ver aqueles lençóis depois que Dandridge os colocasse de novo na cama...
Limpos. Sem dúvida, a Srta. Dandridge podia mencioná-los a Rachel, mas não acreditava que o fizesse. Provavelmente se limitaria a cochichar com o marido que os Creeds
estavam executando algum estranho jogo sexual que envolvia lama e lascas de pinho, usadas no corpo como pinturas.
A idéia fez Louis rir ainda mais.
A última onda de risos e risotas esgotou-se quando estava se vestindo. Viu então que se sentia um pouco melhor. Não sabia como era possível, mas aconteceu. O
quarto parecia normal agora, exceto pela cama desarrumada. Tinha se livrado dos venenos. Talvez "vestígios" fosse a palavra certa, mas em sua mente vestígios surgiram
como venenos.
Talvez seja isto o que as pessoas fazem com o inexplicável, ele pensou. É isso que elas fazem com o irracional que se recusa a se dobrar às causas e efeitos
normais que governam o mundo ocidental. Talvez seja assim que nossa mente enfrente o disco voador que, uma bela manhã, vemos pairando silencioso nos fundos do nosso
quintal, lançando na relva seu pequeno círculo de sombra; ou as invasões de rãs; ou a mão que vem de baixo da cama e puxa nosso pé no silêncio da noite. Temos um
acesso de riso ou um acesso de choro... Mas nosso eu não se curva a esse inexplicável e permanece inviolável. O terror é expelido como um cálculo renal, deixando-nos
intactos.
Gage estava em sua cadeirinha alta, comendo flocos de chocolate, esfregando-os na lona de plástico e na cabeça.
Rachel saiu da cozinha com os ovos e uma xícara de café.
- Qual foi a grande piada, Lou? Você estava rindo como um louco lá em cima. Chegou a me assustar.

Quando Louis abriu a boca ainda não tinha idéia do que ia falar, mas lembrou-se de uma anedota que ouvira há uma semana, no mercado do fim da estrada: era sobre
um alfaiate judeu que comprou um papagaio que só sabia dizer: "Anel Sharon bate punheta."
Quando acabou de contar, Rachel também estava rindo - e Gage os acompanhava.
Ótimo. Nosso herói livrou-se de todas as pistas... A saber: os lençóís enlameados e o riso de louco no banheiro. Agora nosso herói vai ler o jornal da manhã
- ou pelo menos passar os olhos nele - pondo um carimbo de normalidade nas coisas.
Assim pensando, Louis abriu o jornal.
É assim que se faz, tudo bem, ele ponderou, com incomensurável alívio. É como expelir um cálculo renal, põe-se um ponto final no proble..... A menos que haja
uma noite num acampamento com amigos, quando o vento é forte e se começa a falar de acontecimentos inexplicáveis. Porque nos acampamentos, à noite, quando o vento
é forte, não custa nada falar.
Comeu os ovos. Beijou Rachel e Gage. Ao sair, deu uma olhada no quadrado branco da máquina de lavar, junto à cesta de roupa suja. Estava tudo em ordem. Era outra
manhã formidável, O verão parecia querer se prolongar para sempre e tudo estava bem. Viu a trilha quando deu marcha a ré no carro para tirá-lo da garagem, mas ela
também estava em ordem. Não havia um fio de cabelo de diferença. Era como expelir um cálculo renal.
Tudo ficou correto até ele completar dezesseis quilômetros na estrada. Então, tremores percorreram-lhe o corpo com tamanha intensidade que teve de entrar na
Rodovia 2 e parar no estacionamento, deserto àquela hora da manhã, do Sing's, um restaurante chinês não muito longe do Centro Médico do Maine OrientaL.. Para onde
o corpo de Pascow tinha sido levado. (Levado, é claro, para o CMMO, não para o Sing's. Vic Pascow jamais voltaria a comer outro prato de moo goo gai pan, isso é
que não.)
A porta da frente bateu e Gage reagiu com um berro furioso.
- Um ovo ou dois? - Rachel perguntou.
Louis afastou as cobertas e pisou nos nódulos de lã do tapete, pronto para dizer que ia dispensar os ovos; só queria um prato de flocos e sair correndo.. . Mas
as palavras lhe ficaram presas na garganta.
Seus pés estavam cheios de sujeira e arranhões de gravetos.
O coração saltou-lhe pela boca como um boneco de molas numa caixa de surpresas. Num movimento rápido, olhos esbugalhados, dentes mordendo, sem fazer doer, a
língua, ele puxou de todo as cobertas. Os pés da cama estavam cheios de lascas de pinho. Os lençóis estavam sujos, enlameados.
- Louis?
Viu alguns pedaços de pinho espalhados nos joelhos e virou-se bruscamente para o braço direito. Lá estava o arranhão, um arranhão recente, exatamente no lugar
em que a ponta do galho seco roçara seu corpo... no sonho.
Eu vou dar um berro. Posso sentir isso.
E podia de fato; algo vinha rugindo de dentro dele, uma espécie de grande e frio projétil de medo. A realidade oscilava. A realidade - a verdadeira realidade,
ele pensou - eram aqueles pedaços, a sujeira nos lençóis, o arranhão vermelho no braço.
Eu vou dar um berro, depois fico maluco e não tenho mais de me preocupar com isso...
- Louis? - RacheI estava subindo a escada. - Louis, você dormiu de novo?
Tentou se controlar naqueles dois ou três segundos; lutou implacavehnente consigo mesmo como fizera nos momentos de tremenda confusão depois de Pascow ser trazido
num cobertor, agonizante, para a enfermaria. E venceu. O pensamento que mais pesou no prato da balança foi que Rachel não devia vê-lo naquele estado, os pés lamacentos
e cobertos de lascas de pinho, os cobertores caindo no chão, revelando as manchas de sujeira no lençoL
- Já acordei - gritou num tom jovial.
A língua sangrava pela mordida brusca, involuntária, que há pouco tinha dado. A mente rodopiava. Ele se perguntou se em algum lugar lá no fundo, longe de seu
comportamento aparente, não estivera sempre a um passo das mais absurdas irracionalidades. E se não era isso que acontecia com todo mundo.
- Um ovo ou dois?
Rachel tinha parado a dois ou três degraus do topo da escada. Graças a Deus.
- Dois - ele respondeu, quase inconsciente do que estava dizendo. - Mexidos.
- É uma boa idéia - disse Rachel, descendo de novo a escada.
Aliviado, fechou os olhos por um momento, mas, na escuridão, viu os olhos prateados de Pascow. Suas pálpebras se abriram com violência.
Louis apressou-se, afastando qualquer pensamento. Sacudiu a roupa de cama. Tudo bem com os cobertores. Tirou os dois lençóis, embolou-os e levou-os para o corredor,
despejando-os na cesta de roupa suja.
Entrou correndo no banheiro, girou a torneira do chuveiro e, desatento, enfrentou uma água muito quente, quase escaldante. Tirou a sujeira das pernas e dos pés.
Começou a se sentir um pouco melhor, mais controlado. Enquanto se enxugava, ocorreu-lhe que era assim que os criminosos deviam se sentir quando acreditavam ter
apagado todos os vestígios do crime. Começou a rir. Continuou se enxugando e continuou rindo. Não podia parar.
- Ei, você aí em cima! - Rachel gritou. - O que há de tão engraçado?
Os tremores manobravam à vontade, contorciam-lhe o corpo, como se quisessem descosê-lo. Louis sentia-se indefeso e aterrorizado - não com medo de alguma coisa
sobrenatural, não na luz brilhante do sol, mas aterrorizado pela possibilidade de estar enlouquecendo. Era como se um arame comprido, invisível, estivesse sendo
enroscado dentro da sua cabeça.
- Já chega! - disse ele. - Por favor, já chega!
Seus dedos tatearam entre os botões do rádio e trouxeram Joan Baez cantando sobre ferrugem e diamantes. A voz doce, serena, acalmou-o; quando a música terminou,
sentiu que estava pronto para continuar.

Chegando à enfermaria, deu alô a Charlton e escapuliu para o banheiro, achando que devia estar com uma aparência terríveL Nem tanto. Os olhos pareciam um pouco
fundos, mas nem Rachel tinha reparado. Jogou água fria no rosto, enxugou-o, penteou o cabelo e foi para sua sala.
Steve Masterton e Surrendra Hardu, o médico indiano, estavam lá, tomando café e examinando as fichas do arquivo.
- Bom-dia, Lou - disse Steve.
- Bom-dia.
- Vamos esperar que não tenhamos um dia como o de ontem -disse Hardu.
- É verdade... Mas você perdeu todo o alvoroço.
- Ontem Surrendra teve uma noite agitada - disse Masterton, sorrindo. - Conte a ele, Surrendra.
Hardu limpou as lentes dos ôculos, também sorrindo.
- Dois rapazes trouxeram uma amiga deles por volta de uma hora da madrugada - disse. - A moça estava muito contente, tinha bebido muito, você sabe, comemorando
o retorno à universidade. Havia se cortado numa das coxas, um corte feio. Eu disse que teria de dar pelo menos quatro pontos, mas não deixaria cicatriz. "Pode costurar
logo", ela me disse, e foi o que eu fiz. Curvei-me assim..
Hardu demonstrava, inclinando-se sobre uma coxa invisível. Louis começou a rir, pressentindo o que tinha acontecido.
- E quando eu estava fazendo a sutura, ela vomitou na minha cabeça.
Masterton irrompeu numa gargalhada. Louis também. Hardu sorriu calmamente, como se aquilo já tivesse lhe acontecido milhares de vezes em milhares de vidas.
- Surrendra, a que horas você chegou? - Louis perguntou, quando parou de rir.
- Era meia-noite - disse Hardu. - Agora estou de saída. Só quis esperar você chegar para lhe dar um alô.
- Bem... Então alô! - disse Louis, apertando-lhe a mão pequena, parda. - Agora vá para casa dormir.
- Quase acabamos o exame do fichário central - Masterton exclamou. - Pode dizer aleluia, Surrendra.
- Sinto muito - disse Hardu, sorrindo -, mas não sou cristão.
- Então cante o coro do "Karma do Instante" ou qualquer coisa.
- Que vocês dois recebam a luz - disse Hardu, ainda sorrindo e passando suavemente pela porta.
Louis e Steve Masterton fitaram um momento a porta, em silêncio; depois olharam um para o outro e explodiram numa risada. Para Louis, jamais um riso fora tão
gostoso, tão normal.
- Não vejo a hora de terminar com o fichário - disse Steve. - Mas hoje já temos de pôr o tapete vermelho para receber os homens das drogas.
Louis concordou. O primeiro representante farmacêutico chegaria às dez. Como Steve gostava de dizer, a quarta-feira podia ser o Dia do Espaguete na UMO3,( Universidade
do Maine em Orono. N. do T.) mas toda terça-feira era o Dia D, o Dia dos Dr.ogueiros, os eternos favoritos do início da semana.
- Uma palavra de advertência, mestre - disse Steve. - Não sei como esses sujeitos se comportam em Chicago, mas aqui eles fazem de tudo para vender o seu peixe,
desde pagar as despesas de uma caçada no Allagash em novembro, até nos convidar com toda a família para um boliche grátis no Family Fun Lanes, em Bangor. Conheci
um cara que tentou me dar uma daquelas mulheres infláveis. A mim! E olhe que sou quase recém-formado! Ou conseguem te vender algum remédio ou te deixam viciado em
calmantes.
- Você devia ter aceito a mulher inflável.
- Ah, era ruiva. Não era o meu tipo.
- Bem, concordo com Surrendra - disse Louis. - Que a luz brilhe para nós.

Quando o representante da Upjohn não chegou às dez em ponto, Louis desistiu de esperá-lo e ligou para o registro da universidade. Falou com uma tal de Srta.
Stapleton, que concordou em enviar-lhe imediatamente uma cópia do dossiê de Victor Pascow. Quando Louis pôs o fone no gancho, o sujeito da Upjohn já estava lá. Não
tentou lhe dar nada, mas perguntou se não estava interessado em comprar com desconto um bilhete de temporada para os jogos dos Patriotas da Nova Inglaterra.
- De jeito nenhum - disse Louis.
- Não achava mesmo que fosse querer - disse com ar sombrio o sujeito da Upjohn, e foi embora.
Ao meio-dia, Louis caminhou até o Bear's Den e pediu um sanduíche de atum com Coca-Cola. Trouxe-os para sua sala e fez o lanche examinando os registros de Pascow.
Procurava alguma conexão com ele mesmo ou com Ludlow Norte, onde ficava o "simitério" de bichos... Uma vaga crença de que tinha de haver uma explicação racional
mesmo para um acontecimento tão estranho quanto aquele. Talvez o rapaz tivesse sido criado em Ludlow, talvez tivesse enterrado um cão ou um gato lá em cima.
Não encontrou a ligação que procurava. Pascow era de Bergenfield, Nova Jérsei, e entrara na UMO para estudar engenharia eletrônica. Naquelas poucas folhas batidas
à máquina, Louis não pôde encontrar qualquer conexão entre ele e o jovem que morrera na recepção - além do fato de os dois serem mortais, é claro.
Sorveu o resto de Coca-Cola do copo, ouvindo a sucção do canudo no fundo e atirou tudo na cesta de lixo. Fora um lanche pobre, mas comera com bastante apetite.
Sem dúvida, não parecia haver nada de errado no modo como se sentia. Pelo menos, não naquele momento. Os tremores não tinham voltado e todo o horror que sentira
de manhã começava a não parecer mais que uma sensação desagradável, estúpida, semelhante a um sonho inconseqüente.
Tamborilou com os dedos no forro da mesa, sacudiu os ombros e pegou de novo o telefone. Discou para o Centro Médico do Maine Oriental e pediu que o ligassem
com o necrotério.
Depois que o funcionário da autópsia atendeu, ele se identificou e disse:
- O senhor tem um de nossos estudantes aí: Victor Pascow.
- Não está mais conosco - disse a voz do outro lado. - Foi embora.
Louis sentiu um aperto na garganta.
- O quê?!
- O corpo foi devolvido aos pais ontem à noite. Veio aqui um sujeito da Morgue Brookings-Smith e levou-o sob custódia. Foi transportado no vôo, hum... - um folhear
de papéis -... no vôo 109 da Delta. Pra onde pensou que ele tivesse ido? Dançar ou andar de patins por aí?
- Não - disse Louis. - É claro que não. É só que...
Era só o quê? Por que diabo estava insistindo na coisa? Era inteiramente insano se deixar absorver por ela. Tinha de deixar aquilo passar, tinha de tirar Pascow
da cabeça, esquecê-lo. Qualquer outra atitude só lhe traria um monte de preocupações sem sentido.
- É que foi tudo muito rápido - concluiu num tom pouco convincente.
- Bem, ele foi autopsiado ontem à tarde... - novamente o rumor de papéis. - Por volta das três e vinte, pelo Dr. Rynzwyck. Ontem mesmo o pai arranjou tudo. Acho
que o corpo chegou a Newark por volta das duas da manhã.
- Oh, bem, nesse caso...
- A menos que tenha havido algum extravio e ele tenha ido parar noutro lugar - disse num tom gozador o funcionário da autópsia. - Isso já tem acontecido,
o senhor sabe, embora nunca com a Delta. A Delta é realmente muito boa. Houve um sujeito que morreu numa pescaria no Condado de Aroostook, perto de uma daquelas
cidadezinhas que só aparecem num ou dois mapas. Teve uma hérnia estrangulada quando estava abrindo uma lata de cerveja. Os amigos dele levaram dois dias para tirá-lo
do meio do mato e, como o senhor pode imaginar, não deve ter sido uma viagem nada fácil. Mas os dois agüentaram a parada e chegaram com o corpo. Foi enviado para
casa, para Grand Falls, em Minnesota, no compartimento de carga de um avião. Mas houve um extravio. Despacharam ele pra Miami, depois pra Des Moines, depois pra
Fargo e Dakota do Norte. Por fim, alguém conseguiu achá-lo, mas já se tinham passado mais três dias. Foi insuportável. A única solução era um caixão hermeticamente
fechado. O cara estava totalmente negro e cheirava como uma costeleta podre de porco. Pelo menos, foi o que me contaram. Seis carregadores ficaram doentes.
A voz do outro lado da linha riu com vontade.
Louis fechou os olhos e disse:
- Bem, obrigado...
- Posso dar o telefone da casa do Dr. Rynzwyck se o senhor quiser doutor, mas de manhã ele geralmente está jogando golfe em Orono.
- Não precisa se incomodar - disse Louis.
Desligou o telefone. Encerre as coisas por aqui, pensou. Quando você estava tendo aquele sonho maluco, ou seja lá o que for, é quase certo que o corpo de Pascow
estava rodeado pela família num funeral em Bergenfiekl. isso põe um ponto final, uma pá de cal no assunto.
.
Naquela tarde, voltando para casa, uma explicação simples da sujeira aos pés da cama finalmente lhe ocorreu, enchendo-o de alívio.
Passara por um episódio isolado de sonambulismo, provocado pelo fato imprevisto e extremamente desagradável de um estudante, mortalmente ferido, morrer na enfermaria
em seu primeiro dia de trabalho.
Isso explicava tudo. O sonho parecera extremamente real porque grande parte dele era real: a sensação do tapete na sola dos pés, o orvalho na relva, e, é claro,
o galho seco que lhe arranhou o braço. Isso explicava também porque Pascow fora capaz de caminhar através da porta e ele não.
Uma imagem tomou forma em sua mente: Rachel descendo na noite anterior e surpreendendo-o colidindo contra a porta dos fundos, tentando atravessá-la dormindo.
A idéia o fez rir. Sem dúvida, ela levaria um susto tremendo.
Cultivando a hipótese do sonambulismo, foi capaz de analisar as causas do sonho, coisa que fez com certa ansiedade. Fora até o "simitério" de bichos' porque o lugar
estava associado a outro momento recente de stress: provocara uma discussão séria entre ele e a esposa... Além disso, Louis concluía com excitação crescente: o "simitério"
estava associado ao primeiro encontro da filha com a idéia da morte, algo que devia estar se agitando em seu subconsciente quando foi dormir na véspera.
Foi uma sorte incrível eu ter voltado inteiro para casa... Nem me lembro dessa parte. Devo ter voltado na base do piloto automático.
E isso foi ótimo. Não podia imaginar como se teria sentido ao despertar de manhã ao lado do túmulo do Gato Smucky, desorientado, molhado de sereno e, provavelmente,
se borrando de medo... Não menos apavorado do que, sem dúvida, Rachel também ia ficar.
Mas agora estava tudo acabado.
Resolvido o caso, pensou com imenso alívio. Sim, mas e as coisas que Pascow tinha dito quando estava morrendo?, sua mente tentou perguntar. Louis, no entanto,
fez com que ela se calasse.

Naquela noite, com Rachei passando roupa e Ellie e Gage sentados na mesma cadeira, absorvidos no Muppet Show, Louis disse que estava com vontade de dar um pequeno
passeio, tomar um pouco de ar.
- Vai voltar a tempo de me ajudar a pôr Gage na cama? - ela perguntou sem tirar os olhos do ferro. - Ele dorme melhor com você...
- É claro - respondeu.
- Onde você vai, papai? - Ellie perguntou, não tirando os olhos da tevê. Kermit estava prestes a levar um soco de Miss Piggy.
- Só até lá fora, querida.
- Oh.
Louis saiu.
Quinze minutos depois estava no "simitério" de bichos, olhando ao redor com ar curioso e enfrentando uma forte sensação de déjà vu. Não havia dúvida de que tinha
estado lá: o pequeno marcador de túmulo erguido em memória do Gato Smucky estava caido no chão. Ele o derrubara quando, na parte do sonho que podia lembrar, o vulto
de Pascow se aproximou. Louis endireitou a lápide e caminhou para as árvores caídas.
Não gostava daquilo. A lembrança de todas aquelas árvores secas e galhos esbranquiçados pelo tempo convertendo-se num monte de OSSOS ainda conseguia arrepiá-lo.
Fez força para esticar o braço e tocar um dos galhos. Precariamente equilibrados o galho caiu e rolou, indo parar ao lado do monte. Louis recuou a tempo de ele não
bater em seu pé.
Caminhou ao longo da pilha, primeiro para a esquerda, depois para a direita. Em ambos os lados, as moitas eram tão espessas quanto impenetráveis. Só um tolo
tentaria abrir caminho através daquele tipo de vegetação, Louis pensou. crescerão rente ao solo, havia massas exuberantes de hera venenosa (toda a sua vida ouvira
gente se gabando de ser imune à coisa, mas sabia que quase ninguém era realmente imune). Mais adiante, achavam-se os maiores e mais afiados espinhos que já vira.
Louís voltou ao centro do monte de árvores mortas. Olhou para cima, as mãos nos bolsos traseiros do jeans.
Não vai tentar subir aí, vai?
Eu não, rapaz. Por que ia querer fazer uma coisa tão estúpida?
Assim é que se fala. Um minuto lá em cima já seria perigoso, Lou. Parece um, bom modo de baixar à sua enfermaria com um pé quebrado, você não acha?
É claro que sim! Além disso, está escurecendo.
É certo de que estava em total e completo acordo consigo mesmo, começou a subir nas árvores secas.
Achava-se a meio caminho do topo quando sentiu alguma coisa se deslocar sob os seus pés com um desagradável som rangente.
Os ossos rolam, doutor.
Quando a pilha estalou de novo, Louis começou a descer. A fralda da camisa saíra de dentro de suas calças.
Chegou a terreno firme sem incidentes e sacudiu algumas lascas de cascas de árvore das mãos. Retornou à ponta da trilha que conduzia à casa
- aos filhos que iam querer que lhes contasse uma história antes de dormir, a Church, que desfrutava seu último dia como Dom Juan na posse de suas bolas, ao chá
na cozinha com a esposa depois que as crianças fossem dormir.
Examinou de novo a clareira antes de ir embora, impressionado com aquele silêncio verde. Anéis de uma névoa rasteira tinham surgido não se sabe de onde e começavam
a rodopiar em volta dos marcadores de túmulos. Aqueles círculos concêntricos.., como se, sem o saber, as mãos de gerações de crianças de Ludlow Norte tivessem construído
uma espécie de Stonehenge em miniatura.
Mas, Louis, será que é só isso?
Embora só tivesse conseguido espiar de relance por sobre o topo das árvores secas antes que a sensação de deslocamento o deixasse nervoso, seria capaz de jurar
que existia uma trilha do outro lado, mergulhando profundamente nos bosques.
Não é problema seu, Louis. Deixe isso em paz.
Tudo bem, mestre!
Louis se virou e tomou o caminho de casa.

Uma hora depois de Rachel ter ido deitar, ele ainda não subira. Relia uma pilha de revistas médicas, recusando-se a admitir que o pensamento de ir para a
cama - de ir dormir - o deixasse nervoso. Nunca tivera uma experiência de sonambulismo e não havia modo de ter certeza que fora um episódio ....... A não ser que
não acontecesse (ou acontecesse) de novo.
Ouviu Rachel sair da cama e chamá-lo em voz baixa:
- Lou? Querido? Você não vai subir?
- Já estou indo - disse ele, desligando a luz sobre a escrivaninha do escritório e se levantando.
Naquela noite, levou muito mais de sete minutos para desligar os circuitos. Ouvindo Rachel respirar a seu lado, uma calma e lenta respiração de sono profundo,
a aparição de Victor Pascow não parecia tanto um sonho. Ia fechar os olhos e ver a porta se abrir de repente: lá estaria ele, o Convidado Especial, Sr. Victor Pascow.
Ia aparecer com o calção de ginástica, pálido sob o bronzeado de verão, a clavícula projetada para fora.
Começou a resvalar para o sono pensando o quanto teria de estar plenamente, friamente desperto no "simitério" de bichos para ver aqueles toscos círculos concêntricos
iluminados pelo luar, para voltar para casa seguindo a trilha através do bosque. Várias vezes o pensamento fez com que acordasse de novo.
Já passava da meia-noite quando o sono finalmente o tomou de surpresa, subjugou-o. Não houve sonhos. Acordou pontualmente às sete e meia, ao barulho de uma
chuva fria de outono batendo contra a janela. Atirou as cobertas para o lado com alguma apreensão. O lençol da cama estava imaculado. Nenhum purista elogiaria seus
pés, com os calcanhares redondos e duros como calos, mas pelo menos estavam limpos.
Pouco depois, assobiava debaixo do chuveiro.


A Srta. Dandridge tomou conta de Gage quando Rachel levou Winston Churchill
para o veterinário. Naquela noite, Ellie ficou acordada até depois das onze, queixando-se amargamente de que não podia dormir sem Church e pedindo um copo d'água
atrás do outro. Por fim, Louis recusou-se a dar-lhe mais água, alegando que molharia a cama. Isso fez com que armasse um berreiro de tamanha ferocidade que o pai
e a mãe se entreolharam pasmados, sobrancelhas erguidas.
- Está assim por causa do Church - disse Rachel - Deixe-a resolver isto sozinha, Lou.
- Mas não pode continuar neste tom por muito tempo - disse Louis. - Eu espero.
Ele tinha razão. Os gritos ásperos e furiosos de Ellie foram se transformando em arrancos, soluços e gemidos. Finalmente houve silêncio. Quando Louis subiu de
novo para vê-la, encontrou-a dormindo no chão, abraçando a cama de gato que Church raramente se dignava a ocupar.
Tornou a deitá-la na cama, puxou-lhe carinhosamente o cabelo da testa suada e a beijou. Num impulso, foi para a pequena sala que servia como escritório de Rachel,
escreveu um breve bilhete em grandes letras de fôrma - VOLTAREI AMANHA, BEIJOS, CHURCH - e prendeu-o na almofada da cama do gato. Depois, foi para seu quarto à procura
de Rachel Rachel estava lá. Fizeram amor e adormeceram nos braços um do outro.

Church voltou para casa na sexta-feira da primeira e agitada semana de trabalho de Louis. Ellie fez-lhe uma grande festa, usou parte da mesada para comprar uma
caixa de biscoitos de gato e quase deu um tapa em Gage, por ele tentar tocá-lo. Uma mera ação disciplinar dos pais não conseguiria fazê-lo chorar daquele modo. Receber
uma repreensão de Ellie era como receber uma repreensão de Deus.
Olhando para Church, Louis sentiu-se triste. Era ridículo, mas isso não alterava o sentimento. Não havia traço da antiga agitação. Não andava mais como um mocinho
do faroeste; agora tinha o passo lento e cuidadoso do convalescente. Deixou que Ellie lhe desse comida na boca. Não dava sinais de querer sair, nem mesmo de ir até
a garagem. Tinha se modificado. Talvez, em última instância, tivesse se modificado para melhor.
Nem Ellie nem Rachel pareceram notar qualquer diferença.
A meia-estação veio e se foi. As árvores ganharam uma coloração de bronze, que brilhou algum tempo e depois desbotou. Ao término de uma chuva fria e persistente
em meados de outubro, as folhas começaram a cair. Ellie chegava em casa carregada com as decorações de Halloween que fazia na escola, e um dia contou a Gage a história
do Cavaleiro sem Cabeça. Gage passou aquela noite balbuciando alegre sobre uma figura chamada Cérebro Cara de Pulga. Rachel começou a rir e não pôde parar. Viveram
dias felizes naquele início de outono.
O trabalho de Louis na universidade se convertera numa rotina exigente, mas agradável. Atendia aos pacientes, comparecia a reuniões do conselho universitário,
escrevia o indispensável artigo para o jornal estudantil - lembrando a população feminina da universidade do caráter confidencial do tratamento de doenças venéreas
na enfermaria e exortando o corpo discente a ter cuidado com o vírus da febre espanhola, cujo tipo A era capaz de prevalecer de novo naquele inverno -, participava
de comissões, presidia reuniões de comissões. Na segunda semana de outubro, foi à Conferência da Nova Inglaterra sobre Medicina Acadêmica e Universitária, em Providence,
onde fez uma comunicação sobre as ramificações legais do tratamento num campus universitário. Victor Pascow foi mencionado sob o nome fictício de "Henry Montez".
A comunicação foi bem recebida. E ele começou a ampliar o orçamento da enfermaria para o ano letivo seguinte.
Suas noites também entraram numa rotina: os filhos depois do jantar e uma ou duas cervejas com Jud Crandall. Às vezes, quando a Srta. Dandridge podia ficar uma
hora tomando conta das crianças, Rachel atravessava a estrada com ele e às vezes Norma também se reunia ao grupo, mas, em geral, era apenas ele e Jud. Louis achava
o homem agradável como um chinelo velho e o ouvia falar da história de Ludlow desde trezentos anos atrás, quase como se tivesse vivido todo esse tempo. Crandall
falava muito, mas nunca divagava. Nunca entediava Louis, embora mais de uma vez já tivesse visto Rachel bocejar.
Na maioria das noites, Louis atravessava a estrada para voltar a casa antes das dez, e ele e Rachel faziam amor como nunca. Desde o primeiro ano de casamento,
nunca tinha feito amor com tanta freqüência, nem de forma tão gratificante e agradável. Rachel achava que havia alguma coisa na água do poço artesiano; Louis optou
pelo ar do Maine.
A incômoda morte de Victor Pascow no primeiro dia do semestre de outono começou a se dissipar da memória dos estudantes e da memória de Louis; sem dúvida, porém,
a família de Pascow ainda o chorava. Louis enfrentara a voz lastimosa, gentil mas sem feições reconhecíveis, do pai de Pascow ao telefone; o pai só queria ter certeza
de que Louis fizera tudo que estava a seu alcance, e Louis assegurou-lhe que todo mundo tinha feito o possível para salvá-lo. Não lhe falou da confusão, da mancha
se esparramando no tapete e de como o filho morrera logo depois de ser trazido para a enfermaria, embora Louis achasse que jamais poderia esquecer essas coisas.
Mas para quem Pascow fora apenas um acidente, tudo já se apagara.
Louis ainda se lembrava do sonho e do episódio de sonambulismo que o acompanhou, mas agora aquilo parecia ter acontecido a alguma outra pessoa ou num filme de
tevê que assistira. O mesmo se dava com sua única visita a uma prostituta de Chicago, seis anos antes. Eram fatos sem importância, coisas secundárias que tiveram
uma falsa ressonância, como sons produzidos numa câmara de eco.
Já não pensava absolutamente no que Pascow agonizante tinha ou não falado.
Havia uma forte geada na noite de Halloween. Louis e Ellie estavam na casa de Crandall. Ellie fazia uma farra, fantasiada de bruxa e fingindo voar em sua vassoura
pela cozinha de Norma. Era devídamente notada:
- É a coisa mais engraçadinha que eu já vi... Não é, Jud?
Jud concordou e acendeu um cigarro.
- Onde está Gage, Louis? Achei que ele também vir....
De fato tinham planejado fazer Gage participar da festa. Rachel, em particular, ficara muito animada e arranjara com a Srta. Dandridge uma espécie de fantasia
de inseto com arames torcidos e forrados de papel crepom servindo de antenas, mas Gage caíra doente, um penoso início de bronquite. Após ouvir-lhe os pulmões, que
chiavam um pouco, e consultar o termômetro do lado de fora da janela, que marcava apenas quatro graus às seis da manhã, Louis proibiu a farra. Embora desapontada,
Rachel concordou.
Ellie tinha prometido alguns doces para Gage, mas o exagero de seu remorso fez Louis acreditar que estaria bem satisfeita por ver que Gage não ia atrapalhá-la
nas brincadeiras nem roubar-lhe parte do brilho da festa.
- Pobre Gage - disse ela num tom geralmente reservado para os que sofrem de doença incuráveL Gage, sem saber o que estava perdendo, continuava sentado no sofá
assistindo Zoom. Church tirava uma soneca ao lado dele.
- Ellie-bruxa - Gage respondeu sem grande interesse e voltou para o programa de tevê.
- Pobre Gage - disse Ellie de novo, exalando outro suspiro. Louis pensou em lágrimas de crocodilo e sorriu. EIlie agarrou-o pela mão e começou a puxá-lo. - Vamos,
papai. Vamos, vamos, vamos.

- Gage tem um pouco de crupe - Louis explicou a Jud.
- Bem, é mesmo uma pena - disse Norma -, mas ele pode se divertir a valer no ano que vem. Abra sua sacola, ..... . Opa!
Tirara uma maçã e um tablete de chocolate da bandeja sobre a mesa, mas ambos caíram de sua mão. Louis ficou um pouco impressionado vendo como aquela mão se parecia
a uma garra. Abaixou-se e pegou a maçã que rolara pelo chão. Jud apanhou o chocolate e colocou-o na bolsa de Ellie.
- Oh, vou pegar outra maçã para você, meu anjo - disse Norma. -Essa está machucada.
- Está ótima - disse Louis e procurou jogá-la na sacola da filha, mas a menina recuou, fechando a bolsa e protegendo-a contra o peito.
- Não quero uma maçã machucada, papai - disse, olhando para Louis como se ele tivesse ficado louco. - Manchas escuras na maçã... Que horrível!
- Ellie, que falta de educação!
- Não a censure por dizer a verdade, Louis - disse Norma. - Só as crianças dizem toda a verdade, você sabe. É isso o que as torna crianças. Manchas escuras numa
maçã são, horríveis.
- Obrigada, Sra. Crandall - disse Ellie, atirando um olhar insolente para o pai.
- Gosto muito de ter você aqui, meu bem - disse Norma.
Jud levou-os para a varanda. Dois fantasminhas vinham subindo o passeio; eram colegas de escola de Ellie. A menina foi com eles para a cozinha e Jud e Louis
ficaram sozinhos na varanda.
- A artrite de Norma piorou - disse Louis.
Jud balançou a cabeça e apagou o cigarro num cinzeiro.
- É. Todo outono e inverno fica pior, mas nunca chegou ao ponto deste ano.
- O que diz o médico dela?
- Nada. Nem pode dizer nada. Norma deixou de consultá-lo.
- Ora! Mas porquê?
Jud olhou para Louis e, à luz dos faróis da camionete que esperava os fantasminhas, pareceu singularmente desamparado.
- Queria esperar uma hora melhor pra lhe pedir isso, Louis, mas acho que nenhuma hora é boa pra se abusar de um amigo. Se importaria de examiná-la?
Louis podia ouvir os dois fantasminhas fazendo buu na cozinha e Ellie dando suas gargalhadas de bruxa (que praticara toda a semana). Aquilo parecia bem divertido
e muito de acordo com o Halloween.
- O que está havendo com Norma? - ele perguntou. - Será que tem medo de alguma coisa, Jud?
- Vem sentindo dores no peito - disse Jud em voz baixa. - Não quer mais ir ao Dr. Weybridge. Estou um pouco preocupado.
- Norma está preocupada?
Jud hesitou antes de responder:
- Acho que está assustada. Acho que por isso é que não vai mais ao médico. Uma de suas amigas mais antigas, Betty Coslaw, morreu no mês passado no Centro Médico
do Maine. Câncer. Ela e Norma eram da mesma idade. Só pode estar assustada...
- Vou examiná-la com todo o prazer - disse Louis. - Não há qualquer problema!
- Obrigado, Louis - disse Jud. - Podemos pegá-la desprevenida uma noite dessas, cair sobre ela, e...
Jud se interrompeu, a cabeça virando comicamente para um dos lados. Seus olhos encontraram os de Louis.
Mais tarde, Louis não poderia lembrar exatamente como um sentimento deslizou para outro. Qualquer tentativa de analisar a coisa só o deixaria atordoado. Mas
tinha certeza de que a curiosidade transformou-se rapidamente numa sensação de que havia algo errado. Seus olhos encontraram os de Jud e ambos pareceram inseguros.
Houve um momento de lapso antes de qualquer iniciativa.
- Buuu-buuu - entoavam os fantasmas de Halloween na cozinha. -Buuu-buuu. E então; subitamente, o som fora abafado por um grito mais alto, verdadeiramente assustador:
- Oooh-00000h!
Um dos fantasmas começou a berrar.
- Papai! - A voz de Ellie era aguda, estridente, de alarma. - Papai! A Sra. Crandall caiu!
- Ah, Jesus - Jud quase gemeu.
Ellie entrou correndo na varanda, a fantasia negra esvoaçando. Segurava a vassoura numa das mãos. O rosto infantil, agora muito pálido, lembrava a fisionomia
de um anão alcoólatra nos últimos estágios de coma alcoólico. Os dois fantasminhas vinham atrás dela, gritando. Jud precipitou-se pela porta, surpreendentemente
ágil para um homem de mais de oitenta anos. Mais que ágil: quase elástico. Gritava o nome da esposa.
Louís se curvou e pôs as mãos nos ombros de Ellie.
- Fique aqui na varanda, Ellie. Está entendendo?
- Papai, estou com medo - ela sussurrou.
Os dois fantasminhas passaram correndo, berrando o nome da mãe, os sacos de doce chocalhando na mão.
Louis cruzou a sala e entrou na cozinha, ignorando Ellie, que o chamava de volta.
Norma jazia no ladrilho brilhante, ao lado da mesa, entre maçãs e tabletes de chocolate espalhados. Ao que tudo indicava, batera com a mão na bandeja ao cair
e a derrubara. A bandeja caíra perto, junto com um pequeno pirex. Jud friccionava um de seus pulsos e olhou para Louis com uma expressão extremamente tensa.
- Ajude-me, Louis - disse ele. - Ajude Norma. Acho que ela está morrendo.
- Fique de lado - disse Louis, afastando-o. Ajoelhou-se e, sem querer, amassou uma maçã caramelada. Sentiu o suco escorrendo pela fazenda velha da calça e um
cheiro de sidra encheu a cozinha.
Pronto, exatamente como aconteceu com Pascow, Louis pensou, mas conseguiu varrer o pensamento da mente com extraordinária rapidez.
Procurou o pulso de Norma e encontrou uma coisa fraca, viscosa, fria - não realmente uma batida, só espasmos. Arritmia extrema, a caminho da plena parada cardíaca.
Você e Elvís Presley, Norma, ele pensou.
Abriu-lhe o vestido, expondo uma combinação de seda amarela. Movendo-se cadenciadamente, virou-lhe a cabeça para um dos lados e começou uma massagem no coração.
- Jud, venha cá - disse ele.
Planta da mão esquerda a um terço do caminho para o esterno - quatro centímetros acima da apófise xifóide. Mão direita agarrando o pulso esquerdo, apertando,
fazendo pressão. Firme, mas com calma nas velhas costelas... Ainda não precisa pânico. E pelo amor de Deus, não cause dano aos pulmões. Também estão velhos.
- Estou aqui - disse Jud.
- Pegue Ellíe - disse. - Atravesse a rua. Cuidado, não vá ser atropelado! Diga a Rachel o que está acontecendo. Peça-lhe minha maleta. Não a do escritório, a
que está na prateleira do alto no banheiro de cima. Ela vai achá-la. Mande-a ligar para o hospital de Bangor e pedir uma ambulância.
- Bucksport é mais perto - disse Jud.
- Bangor é mais rápido. Vá. Deixe Rachel telefonar. Eu preciso da maleta.
E assim que ela souber o que está havendo aqui, Louis pensou, duvido que queira trazer pessoalmente a maleta.
Jud foi. Louis ouviu a porta de madeira bater. Estava sozinho com Norma Crandall e o cheiro das maçãs. Da sala de estar vinha o tique-taque de um relógio de
pêndulo.
De repente, Norma emitiu uma respiração profunda, ressonante. As pálpebras se agitaram. Louis foi envolvido por uma penosa, medonha convicção.
Ela vai abrir os olhos... Oh, Deus, ela vai abrir os olhos e começar a falar do "simitério"de bichos.
Mas Norma limitou-se a olhar para Louís com uma espécie de gratidão atordoada. Depois os olhos se fecharam de novo. Louis sentiu vergonha de si mesmo, do medo
estúpido, tão contrário à sua índole. Experimentou ao mesmo tempo esperança e alívio. Havia alguma dor no olhar de Norma, mas não agonia. Sua primeira suposição
foi de que não tinha sido um ataque grave.
Agora Louis respirava acelerado e suava. Só os falsos médicos da tevê podem transformar a massagem cardíaca numa coisa fácil. Uma firme e contínua massagem no
peito sugava um bom número de calorias. Amanhã ele sentiria dores nos músculos entre os braços e os ombros.
- Posso fazer alguma coisa?
Ele se virou. Uma mulher de calça comprida e suéter marrom hesitava na soleira da porta, o punho de uma das mãos entre os seios. A mãe dos fantasmas, Louis pensou.
- Não - disse ele, mas logo depois: - Sim. Molhe um pano, por favor. Esprema-o. Ponha-o na testa dela.
A mulher começou a procurar um pano. Os olhos de Norma estavam novamente abertos.
- Louis, eu caí - ela sussurrou. - Acho que desmaiei.
- Você teve algum tipo de ataque das coronárias - disse Louis. -Não parece muito sério. Agora relaxe e não fale, Norma.
Louis contemplou-a um instante e voltou a tirar-lhe o pulso. Havia batimentos rápidos demais. Era como o Código Morse: o coração batia regularmente, depois disparava
numa série de batidas que se aproximavam da fibrilação; por fim, voltava a bater de novo com regularidade. Taquetaque-taque, TUM-TUM-TUM, taque-taque-taque-taque-taque.
Aquilo não era bom, mas era um pouco melhor que a arritmia cardíaca.
A mulher aproximou-se com o pano e colocou-o na testa de Norma. Depois recuou insegura. Jud voltou com a maleta de Louis.
- Louis?
- Ela vai ficar boa - disse Louis, olhando para Jud mas, no fundo, falando com Norma. - A ambulância de Bangor está vindo?
- Sua esposa ficou telefonando - disse Jud. - Eu não esperei.
- Hospital... Não - Norma sussurrou.
- Sim, hospital - disse Louis. - Cinco dias em observação, medicação adequada e depois voltar para casa em forma, Norma minha garota. E se disser mais uma palavra,
vou fazê-la comer todas essas maçãs. Com caroço e tudo.
Ela sorriu palidamente, depois voltou a fechar os olhos.
Louis abriu a maleta, remexeu-a, encontrou o Isordil e colocou um dos comprimidos, tão pequeno que caberia facilmente na ponta de uma unha, na palma da mão.
Tornou a tampar o vidro e pôs o comprimido entre os dedos.
- Norma, está me ouvindo?
- Sim.
- Quero que abra a boca. Você já fez a travessura, agora tem de obedecer. Vou colocar um comprimido embaixo da sua língua. E um comprimido pequeno. Quero que
o conserve aí até ele se dissolver. Tem um gosto um pouco amargo, mas isso não importa. Tudo bem?
Norma abriu a boca. Um sopro passou entre a velha dentadura e, por um momento, Louis sentiu muita pena dela, deitada ali no chão da cozinha, entre maçãs e doces
de Halloween espalhados. Lembrou que ela já tivera dezessete anos, os seios olhados com interesse pelos rapazes da vizinhança, todos os dentes seus e, sob a blusa,
o coração forte e saltitante como um pônei.
Ela acomodou a língua sobre o comprimido e fez uma careta. O comprimido era um tanto amargo, sem dúvida. Mas tudo bem. Norma não era Víctor Pascow, sem qualquer
possibilidade de ser ajudado. Louis achou que ainda não era daquela vez que Norma ia embora. A mão dela tateou no ar e Jud pegou-a delicadamente.
Então Louis se levantou, pegou a bandeja do chão e começou a recolher as maçãs e os doces. A mulher, que se apresentou como Sra. Buddinger, da camionete na beira
da estrada, ajudou-o e depois disse que tinha de ir embora. Seus dois meninos estavam assustados.
- Obrigado pela ajuda, Sra. Buddinger - disse Louis.
- Eu não fiz nada - ela respondeu categoricamente. - Mas vou me ajoelhar esta noite e agradecer a Deus que o senhor estivesse aqui, Dr. Creed.
Louis sacudiu a mão, embaraçado.
- Vou fazer o mesmo - disse Jud. Seus olhos encontraram os de Louis. Agora pareciam firmes. Tinham recuperado o controle. O breve momento de confusão e medo
passara. - Fico lhe devendo isso, Louis.
- Esqueça - disse Louis e acenou para a Sra. Buddinger, que ia saindo. Ela sorriu e também acenou. Louis pegou uma maçã caramelada e deu uma mordida. Era tão
doce que seu paladar pareceu momentaneamente paralisado... Mas não era uma sensação desagradáveL Você ganhou um ponto esta noite, Lou, ele pensou e continuou atacando
a maçã com um sentimento de alívio. Comeu-a vorazmente.
- Estou mesmo muito agradecido, Louis - disse Jud. - Quando precisar de um favor, peça primeiro a mim.
- Está bem - disse Louis. - Pode deixar que faço isso.

A ambulância do hospital de Bangor chegou vinte minutos depois. Quando os enfermeiros puseram a maca com Norma na traseira, Louis viu Rachel na janela. Acenou
e ela respondeu levantando a mão.
Ele e Jud viram a ambulância se afastar, luzes piscando, mas a sirene desligada.
- Acho que vou até o hospital - disse Jud.
- Não deixarão que você a veja esta noite, Jud. Vão fazer um eletrocardiograma e deixá-la no CTI. Nenhuma visita será admitida nas primeiras doze horas.
- Ela vai ficar boa, Louis? Realmente boa?
Louis sacudiu os ombros.
- Ninguém pode garantir. Foi um ataque cardíaco. Porém acho que vai ficar boa. Talvez até melhor que antes. Afinal, vai ser devidamente medicada.
- Pois é - disse Jud, acendendo um Chesterfield.
Louis sorriu e consultou o relógio. Ficou surpreso ao ver que ainda eram dez para as oito. Parecia ter passado um tempo muito maior.
- Jud, vou ver Ellie para que ela possa acabar de pedir os seus doces.
- Ah, boa idéia. - Isto saiu como - Diga pra ela pegar todas as maçãs do pessoal da estrada.
- Deixe comigo - Louis prometeu.

Ellie ainda estava com sua fantasia de bruxa quando Louis entrou. Rachel tentara persuadi-la a vestir a camisola de dormir, mas a menina resistira, contando
com a possibilidade de que a brincadeira, interrompida pelo ataque do coração de Norma, pudesse continuar. Quando Louis mandou que fosse pegar a capa, deu gritinhos
de alegria e bateu palmas.
- Vai ficar muito tarde para ela, Louis.
- Deixe disso, Rachel - disse ele. - A menina está há um mês esperando por isso. Vou pegar o carro.
- Se é assim... - Rachel sorriu. Ellie viu o sorriso, gritou de novo e correu para buscar a capa no cabide. - Norma está bem?
- Acho que sim. - Ele também se sentia bem. Cansado, mas bem. - Não foi um ataque grave. Terá de ter cuidado, mas quando se está com setenta e cinco anos é preciso
admitir que os dias de salto com vara já passaram.
- Foi sorte você estar lá. Parece providência de Deus.
- Aposto mais na sorte.
Louis sorriu quando Eliie voltou.
- Está pronta, minha bruxinha?
- Estou - ela respondeu. - Vamos, vamos, vamos!
Uma hora mais tarde, de volta a casa com meia sacola de doces (a menina protestou quando Louis finalmente interrompeu a brincadeira, mas não muito; estava cansada),
Eliie sobressaltou o pai dizendo:
- Fui eu que fiz a Sra. Crandall ter o ataque do coração, papai? Quando não quis pegar a maçã machucada?
Louis a olhou, espantado, não entendendo de onde as crianças tiravam essas idéias fantásticas e meio supersticiosas. "Se andar pra trás, a mãe morre", "barriga
do papai, cabeça do papai, quem sorrir a meia-noite tem a morte do papai". Isso o fez pensar de novo no ' simitério" de bichos e naqueles toscos círculos concêntricos.
Quis sorrir, para si mesmo, mas não conseguiu.
- Não, meu bem - disse ele. - Quando você estava lá dentro com aqueles dois fantasmas...
- Não eram fantasmas, eram só os gêmeos Buddinger.
- Bem, quando você estava lá dentro com eles, o Sr. Crandall me disse que Norma vinha sentindo umas dorezinhas no peito. Na realidade, acho até que foi você
quem lhe salvou a vida ou, pelo menos, impediu que as coisas ficassem piores.
Agora foi a vez de Ellie ffcar espantada.
Louis confirmou com a cabeça.
- Ela precisava de um médico, querida. Eu sou médico. Mas só estava lá porque era sua noite de pedir doces.
Ellie refletiu por um longo tempo e depois balançou a cabeça.
- Mas, de qualquer jeito, ela provavelmente vai morrer - disse de modo direto. - Quem tem um ataque do coração geralmente morre. E quando escapa tem logo outro
e outro e outro até que... bum!
- E onde aprendeu essas palavras de sabedoria, posso perguntar?
Ellie limitou-se a balançar os ombros, um sacudir de ombros muito semelhante ao do pai, o que divertiu Louis.
Ellie o deixou carregar a sacola de doces - um indício de confiança quase absoluta - e Louis meditou sobre a atitude da filha. A idéia da morte de Church provocara-lhe
uma quase histeria. Mas a idéia da avô Norma Crandall agonizando... Ellie parecia encarar aquilo com sangue-frio, como um fato inevitável, um dado. Afinal o que
ela dissera? Outro e outro até que... bum!
A cozinha estava vazia, mas Louis pôde ouvir Rachel andando no andar de cima. Colocou os doces da menina no tampo da pia e disse:
- As coisas não se passam necessariamente assim, Ellie. O ataque de coração de Norma não foi nada grave e eu pude prestar socorro imediato. Sem dúvida, o coração
dela não sofreu um dano muito grande. Ela...
- Oh, eu sei - Ellie concordou, num tom quase joviaL - Mas é velha e vai morrer logo. O Sr. Crandall também. Posso comer uma maçã antes de ir pra cama, papai?
- Não - disse ele, observando-a com ar pensativo. - Suba e escove os dentes, meu bem.
Será que alguém acha mesmo que entende as crianças? - Louis se perguntou.

Quando a casa estava em silêncio e Louis se deitou na cama que compartilhava com Rachei, ela perguntou em voz baixa:
- Não foi uma experiência desagradável para Ellie, Lou? Ela não está transtornada?
Não, Louis pensou. Ela sabe que os velhos esticam as canelas, assim como sabe que depois de um ataque cardíaco pode vir outro e outro e bau-bau seu doutor...
Assim como você sabe que se você pula correndo e tropeça no número treze, seu melhor amigo vai morrer... Assim como sabe que os túmulos estão colocados em círculos
cada vez menores no "simitério"de bichos...
- De modo algum - disse. - Ela reagiu muito bem. Vamos dormir, Rachel, está bem?
Naquela noite, enquanto eles dormiam e Jud se mantinha desperto, recostado, na casa do outro lado da estrada, houve outra geada forte. O vento aumentou nas últimas
horas da madrugada, arrancando a maior parte das folhas que ainda restavam nas árvores. As folhas tinham agora um acinzentado sem brilho.
O vento acordou Louis. Ele se apoiou nos cotovelos, tonto, semi-adormecido. Ouvia passos na escada..... lentos, passos que se arrastavam. Pascow tinha
voltado. Só agora, pensou, dois meses depois. Quando a porta se abrisse, veria aquela terrível decomposição:o calção de ginástica coberto de barro, a carne se abrindo
em grandes buracos, o cérebro apodrecido, transformando-se numa pasta. Só os olhos estariam vivos... diabolicamente vivos e brilhantes. Desta vez, Pascow não diria
nada; as cordas vocais já deviam estar excessivamente decompostas para produzir qualquer som. Mas os olhos... os olhos o induziriam a segui-lo.
- Não - ele murmurou, e os passos cessaram.
Louis se levantou, os lábios repuxados numa careta de medo e determinação, o corpo contraído. Caminhou até a porta, abriu-a. Pascow estaria ali mais adiante,
os braços erguidos, como um guia infernal pronto a comandar as bruxas para seu sabbat.
"Num era nada disso", como diria Jud. O patamar da escada estava ....... silencioso. Não havia outro som além do vento. Louis voltou para a cama e adormeceu.
No dia seguinte, Louis telefonou para a unidade de tratamento intensivo do Centro Médico do Maine. O estado de Norma ainda era considerado crítico; esse era
o procedimento padrão para as primeiras vinte e quatro horas depois de um ataque cardíaco. Mas Louis obteve uma notícia animadora de Weybridge, médico de Norma.
- Eu nem diria que foi um enfarte do miocárdio - disse ele. - Não deixou qualquer cicatriz. Ela deve muito ao senhor, Dr. Creed.
No final da semana, obedecendo a um impulso, Louis passou pelo hospital com um buquê de flores e viu que Norma fora transferida para um quarto semiparticular
no andar de baixo: era um bom sinal. Jud estava com ela.
Norma teve uma exclamação de alegria ao ver as flores e cochichou para a enfermeira lhe trazer um jarro. Seguindo sua orientação Jud às colocou na água, arrumou-as
e levou o jarro para uma pequena cômoda no canto do quarto.
- A mãe está muito melhor - disse Jud, após ter ajeitado as flores pela terceira vez.
- Não se faça de sabido, Judson - disse Norma.
- Não, madame.
Por fim, Norm. virou-se para Louis.
- Quero agradecer pelo que fez por mim - disse com um acanhamento que excluía qualquer afetação e, por isso, era duplamente comovente. - Jud diz que eu lhe devo
a vida.
- Jud está exagerando - disse Louis, sem jeito.
- De maneira nenhuma - Jud replicou. Olhou de soslaio para Louis, quase deixando escapar um sorriso. - Será que sua mãe lhe ensinou que é feio receber um agradecimento,
Louis?
Ela nunca lhe tinha dito nada desse tipo, pelo menos que Louis lembrasse. Achava que, certa vez, dissera alguma coisa sobre a falsa modéstia, que seria metade
do caminho para o pecado do orgulho.
- Norma - disse ele -, o que eu pude fazer por você só me deu satisfação.
- É um homem generoso - disse Norma. - Agora, por favor, pegue meu marido e leve-o para algum lugar para tomar um copo de cerveja com você. Estou de novo com
sono e não consigo me livrar dele.
Jud levantou-se com entusiasmo:
- Com todos os diabos! Louco pra isso estou eu. Vamos rápido, Louis, antes que ela mude de idéia.

A primeira nevada veio uma semana antes do Dia de Ação de Graças. A 22 de novembro a neve chegou a dez centímetros, mas na véspera do feriado, embora fizesse
frio, o céu estava límpido, azul. Louis levou a família até o Aeroporto Internacional de Bangor, para embarcá-los num vôo com destino a Chicago, onde fariam uma
visita aos pais de Rachel.
- Isso não é justo - disse Rachei pela vigésima vez, desde que as acaloradas discussões sobre o assunto tinham começado há um mês. - Não posso nem imaginar você
perambulando sozinho pela casa no Dia de Ação de Graças. É uma data para comemorar em família, Louis.
Louis passou Gage, que parecia gigantesco e tinha os olhos arregalados em seu primeiro casaco com capuz, para o outro braço. Ellie espiava por uma das grandes
janelas, vendo um helicóptero da Força Aérea decolar.
- Não vou exatamente ficar sozinho com minha cerveja - disse Louis. - Jud e Norma me convidaram para ajudá-los a comer o peru e todas as guarnições. Diabo, assim
sou eu quem acaba se sentindo culpado! Você sabe que nunca gostei de ficar no meio de muita gente nesses feriados. De que adianta começar a beber as três da tarde,
vendo um jogo de futebol, não agüentar mais com o próprio corpo as sete da noite e no dia seguinte acordar de ressaca, com vaqueiras do Texas sapateando e uivando
na cabeça? É claro que você sozinha com os meninos...
- Eu vou ficar muito bem - disse ela. - Vou me sentir uma princesa viajando de primeira classe... E acho que Gage vai dormir de Logan a O'Hare.
- É sempre uma esperança - disse Louis e os dois riram.
Veio a chamada para o vôo e Ellie quis sair em disparada.
- E o nosso, mamãe! Vamos, vamos, vamos! Eles vão sair sem a gente!
- Não, não vão! - disse Rachel Segurava numa das mãos as três fichas de embarque cor-de-rosa. Usava o casaco de peles, de um marrom exuberante, cópia bem-feita
de pêlo de rato-almiscarado, pensou Louis. Mas fosse lá do que fosse, deixava Rachel absolutamente fascinante.
Talvez um pouco do que estava sentindo tenha transparecido em seus olhos, pois a mulher abraçou-o impulsivamente, espremendo Gage entre os dois. Gage parecia
espantado, mas não muito incomodado.
- Louis Creed, eu o amo - disse ela.
- Mãe - Ellie gritou, agora febril de impaciência. - Vamos, vamos, .....
- Oh, está bem - disse Rachel - Porte-se bem, Louis.
- Conto tudo a você - disse ele, sorrindo. - Não se preocupe, vou ter cuidado. Dê um abraço no pessoal, Rachel
- Oh, você - disse ela, torcendo o nariz. Rachel não era tola, sabia muito bem porque Louis estava escapulindo da viagem. - Muito juízo!
Louis viu os três subirem a rampa de embarque... E desapareceram por uma semana. Mas já sentia saudades e já se sentia sozinho. Foi para a janela por onde Ellie
estivera espiando, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. Os carregadores ainda não tinham se afastado do compartimento de carga do avião.
A verdade era simples. Tanto o Sr. quanto a Sra. Irwin Goldman, de Lake Forest, tinham antipatizado com ele desde o início. A hostilidade fora contínua. O Sr.
Goldman achava que a filha teria de sustentá-lo enquanto fizesse o curso na faculdade de medicina, curso que, sem dúvida, não conseguiria terminar.
Louis sempre tentara contornar a situação, mas um dia aconteceu uma coisa que Rachel nunca ficou sabendo, pelo menos por sua boca. Irwin Goldman ofereceu-se
para pagar todas as suas despesas na faculdade. O preço da "bolsa de estudos" (conforme as palavras de Goldman) era que rompesse imediatamente o noivado com Rachel.
Louis Creed não estava atravessando uma boa fase na vida para reagir de cabeça fria ao insulto, mas essas propostas melodramáticas (ou subornos, para dar-lhes
o nome correto) não costumam ser feitas a quem está atravessando uma fase confortável - o que, não raro, só se alcança por volta dos oitenta e cinco anos. Sem dúvida,
Louis estava cansado dos seus problemas. Tinha dezoito horas por semana de aulas, passava mais vínte enfiado nos livros, outras quinze trabalhando como garçom numa
pizzaria vizinha à quadra do Hotel Whitehall. Andava nervoso. Naquela noite, as maneiras joviais do Sr; Goldman contrastavam radicalmente com seu habitual comportamento
frio; Louis recordava que ao convidá-lo para fumar um charuto no escritório, Goldman trocara um olhar com a esposa. Mais tarde, muito mais tarde, depois que o tempo
reduziu as dimensões da coisa, Louis achou que os cavalos devem experimentar a mesma desagradável ansiedade quando sentem cheiro de fumaça numa campina. Acreditou
que Goldman ia dizer que já sabia que ele dormira com a filha.
Quando, em vez disso, Goldman fez sua incrível oferta - chegando ao ponto de tirar o talão de cheques do bolso do paletó, como faria um personagem corrupto numa
comédia de Noel Coward - Louis explodiu. Acusou Goldman de tentar guardar a filha como uma peça de museu, de não ter respeito por ninguém, a não ser por si mesmo,
de ser um bastardo estúpido e arrogante.
Só depois de muito tempo é que parte da raiva que sentiu naquele momento se dissipou.
Mesmo que os seus pontos de vista sobre o caráter de Irwin Goldman fossem verdadeiros, Louís deixara de lado toda a diplomacia. Qualquer semelhança com os textos
de Noel Coward terminou ali; se houve humor no resto da conversa, foi de um tipo bem mais vulgar. Goldman mandou que se pusesse no olho da rua, dizendo que se o
visse outra vez na porta ia chutá-lo como a um vira-lata. Louis mandou que Goldman enfiasse o talão de cheques no cu. Goldman respondeu que já vira na sarjeta muitos
vagabundos como Louis Creed, a quem ninguém fiaria um vintém. Louis mandou que Goldman enfiasse todos os seus cartões de crédito, inclusive o American Express Gold
Card, no mesmo lugar que o talão de cheques.
Sem dúvida, aquilo não fora um primeiro passo muito promissor para as futuras relações entre genro e sogro.
Por fim, Rachel conseguira que fizessem as pazes (cada um teve oportunidade de se desculpar das coisas que disse, embora o juízo que um fazia do outro jamais
tenha se alterado um centímetro sequer). Não houve mais melodrama, muito menos o melancolicamente teatral "deste dia em diante não tenho mais filha". Nem que Rachel
se casasse com o Monstro da Lagoa Negra o pai a renegaria. Não obstante, o rosto que brotava do colarinho do terno branco de Irwin Goldman no dia do casamento da
filha se assemelhava bastante as faces gravadas em certos sarcófagos egípcios. Seu presente de núpcias foi um aparelho de jantar de porcelana para seis pessoas e
um forno de microondas. Nada de dinheiro. Na maior parte dos incertos dias de Louis na faculdade de medicina, Rachel trabalhou como balconista numa loja de roupas
femininas. Mas Rachel nunca conhecera os detalhes da discussão, só sabia que as coisas tinham sido e continuavam a ser "tensas" entre o marido e seus pais... Particularmente
entre Louis e Goldman.
Louis podia ter ido para Chicago com a família, mesmo que o trabalho na universidade o obrigasse a voltar três dias antes da mulher e dos filhos. Isto não seria
problema; o problema real era passar quatro dias com Inhotep e sua esposa, a Esfinge.
As crianças gostavam muito dos avós, o que era normal. Louis achava que poderia completar a harmonia fingindo esquecer aquela noite no escritório de Goldman.
Pouco importava que Goldman soubesse que estava fingindo. O fato, porém (e, pelo menos, tinha coragem suficiente para admiti-lo), é que não estava muito interessado
numa aproximação maior. Dez anos são um longo tempo, mas não suficiente para dissipar o gosto amargo que lhe viera à boca quando, junto aos copos de conhaque no
escritório, Goldman abrira aquele ridículo paletó e tirara o talão de cheques. Sim, sentira-se aliviado ao perceber que o velho não descobrira as noites (cinco ao
todo) que ele e Rachel tinham passado na cama estreita e pouco firme de seu apartamento de solteiro, mas nem por isso a surpresa causou-lhe um desgosto menor. Os
anos que transcorreram desde então nada tinham alterado.
Podia ter ido, mas preferiu mandar ao sogro apenas os netos, a filha e um bilhete.
O 727 da Delta se afastou da rampa de embarque, começou a taxiar... e Louis viu a filha numa das janelas da frente, acenando freneticamente. Louis também
acenou, sorrindo, e alguém - Ellie ou Rachel - pôs Gage na janela. Louis deu adeus e Gage respondeu, talvez por tê-lo visto, talvez apenas imitando Ellie.
- Levem meu pessoal em segurança - ele murmurou, fechando o zíper do casaco. Depois caminhou para o estacionamento.
O vento gemia e zumbia, quase lhe arrancando o boné da cabeça; Louis teve de segurá-lo com uma das mãos. Atrapalhado com as chaves, abriu a porta do carro
quando o jato decolou e começou a se afastar da pista do aeroporto, o nariz inclinado para o azul forte do céu, as turbinas retumbando.
Naquele momento, sentindo-se realmente só (e ridiculamente próximo das lágrimas), Louis acenou de novo.
Ainda experimentava uma certa melancolia quando, à noite, tornou a atravessar a Rodovia 15 depois de algumas cervejas com Jud e Norma. Norma bebera um copo de
vinho, algo que podia fazer e fora até estimulada a fazer pelo Dr. Weybridge. Por causa do tempo, tinham se transferido para a cozinha.
Jud acendera o pequeno aquecedor Marek e os três se sentaram em torno dele, a cerveja fria, o calor aconchegante. Jud contara como os índios micmacs repeliram
um desembarque britânico em Machias, duzentos anos atrás. Naquele tempo, os micmacs eram muito temidos, disse ele, acrescentando que muitos advogados que cuidavam
de questões de terras a nível estadual e federal ainda os achavam temíveis.
Podia ter sido uma noite muito boa, mas Louis estava consciente da casa vazia que o esperava. Cruzando o gramado e sentindo sob os pés o ranger da grama congelada,
ouviu a campainha do telefone. Saiu correndo, cruzou a porta da frente, atravessou numa pernada a saia de estar (esbarrando num suporte de revistas) e derrapou pela
cozinha, o gelo nos sapatos deslizando sobre os ladrilhos. Pegou bruscamente o fone.
- Alô?
- Louis? - Era a voz de Rachel, um pouco distante, mas absolutamente clara. - Estamos aqui. Chegamos bem... Nenhum problema.
- Ótimo! - disse ele e sentou-se para conversar, pensando: Como eu queria que você estivesse aqui.


O almoço do Dia de Ação de Graças servido por Jud e Norma foi excelente. Quando acabou, Louis voltou para casa sentindo-se muito bem-alimentado e sonolento.
Saboreando o silêncio, subiu para o quarto, tirou os mocassins e deitou. Passava um pouco das três horas da tarde; o dia lá fora tinha uma luminosidade fraca, de
inverno.
Só vou tirar um cochilo, ele pensou, e adormeceu.
Foi a extensão do quarto que o despertou. Tateou para encontrar o fone, tentando afugentar o sono e um tanto desorientado pelo fato de ser quase noite. Podia
ouvir o gemer do vento em volta da casa e o estalar da fornalha do aquecedor.
- Alô! - respondeu. Seria Rachel, ligando outra vez de Chicago para desejar-lhe um feliz Dia de Ação de Graças. Colocanda Ellie no aparelho, a filha ia contar
as novidades e depois seria a vez de Gage repetir as duas ou três palavras que sabia... Mas, que diabo!, como conseguira dormir toda a tarde sabendo que havia o
jogo de futebol na...?
Mas não era Rachel Era Jud.
- Louis? Acho que vou te dar uma dor de cabeça.
Ele pulou da cama, ainda procurando se livrar do sono.
- Jud? Que dor de cabeça?
- Bem, há um gato morto aqui no. nosso gramado. Acho que pode ser o gato de sua filha.
- Church? - Louis perguntou. Sentiu um súbito vazio na barriga. -Tem certeza disso, Jud?
- Não, não tenho certeza absoluta - disse Jud -, mas sem dúvida parece ele.
- Oh! Oh, merda! Vou até aí.
- Tudo bem, Louis.
Ele desligou e ficou um minuto parado, estupefato. Depois foi até o banheiro, calçou os sapatos e desceu as escadas.
Bem, pode não ser o Church. O próprio Jud disse que não tinha certeza absoluta. Cristo, o gato não quer mais nem subir a escada, é preciso que alguém o carregue...
Por que ia atravessar a estrada?
Mas no fundo, tinha certeza de que era Church... E se Rachel telefonasse mais tarde, o que sem dúvida ia acontecer, como poderia contar a Ellie?
Atordoado, lembrou do que dissera a Rachel: Eu sei que qualquer coisa, literalmente qualquer coisa, pode acontecer aos seres vivos. Como médico, eu sei disso...
Quer ter de explicar um dia à sua filha o que aconteceu se Church for atropelado na estrada? Mas de fato não acreditara que pudesse acontecer alguma coisa a Church,
não é mesmo?
Lembrou-se de um dos sujeitos com quem jogava póquer, Wickes Sullivan. Certa vez Wicky lhe perguntara por que ele ficava excitado com a esposa e não se excitava
com as mulheres nuas que via quase todo dia no consultório. Louis tentou explicar que as coisas não se passavam como as pessoas imaginam em suas fantasias: uma mulher
que ia a um consultório preocupada com uma mancha na pele, ou querendo aprender a examinar o próprio seio em busca de caroços, não deixava cair subitamente um lençol,
mostrando o corpo como uma Vênus desnuda. Você via um seio, uma vulva, uma coxa. O resto continuava envolvido no lençol, e sempre havia uma enfermeira do lado, mais
para proteger a reputação do médico do que para qualquer outra coisa. Wicky não aceitou a explicação. Um seio é um seio, era a tese de Wicky, e uma vagina era uma
vagina. Ou você se excita sempre ou nunca se excita. Tudo que Louís pôde responder foi que com o seio de uma esposa era diferente.
Assim como supomos que toda a família da gente é diferente, ele pensou. Church não podia morrer porque estava dentro do círculo mágico da família. O que ele
não fora capaz de fazer Wicky compreender é que os médicos encaixavam as coisas em compartimentos estanques tão gratuita e cegamente quanto qualquer outra pessoa.
Uma teta não era uma teta, a menos que fosse a teta de sua mulher. No consultório, uma teta era um caso clínico. Você pode fazer uma conferência num colóquio médico
e falar até ficar rouco sobre a incidência de leucemia em crianças, mas nem por um momento vai admitir que um de seus filhos possa apresentar algum problema no sangue.
Meu garoto? O gato de minha filha? Doutor, você deve estar brincando!

Não importa. Vamos pôr tudo em pratos limpos.
Mas era difícil conservar o sangue-frio quando se lembrava de como Ellie tinha ficado nervosa. ante a perspectiva de Church um dia morrer.
Merda de gato estúpido, por que tínhamos de ter um gato tio estúpido?
Foi capado justamente pra não morrer na estrada.
- Church? - ele chamou, mas ouviu apenas o barulho da caldeira, estalando, consumindo dólares de energia. O sofá da sala de estar, onde Church vinha se acostumando
a passar a maior parte do seu tempo, estava vazio. Também não estava deitado sobre nenhum dos aquecedores. Louis sacudiu a vasilha de comida, a única coisa que,
sem dúvida, faria Church vir correndo. Mas desta vez ele não veio... E Louis temia que nunca mais viesse.
Vestiu o casaco, pôs o boné e caminhou para a porta. Então voltou. Admitindo o que o coração lhe dizia, abriu o armário embaixo da pia e se agachou. Encontrou
dois tipos de sacos de plástico: pequenos sacos brancos para as cestas de papel e grandes sacos verdes para o lixo maior. Louis pegou um destes. Church vinha aumentando
de peso desde que fora castrado.
Pôs o saco num dos bolsos do lado do casaco e não gostou de sentir o plástico frio, escorregadio nos dedos. Depois abriu a porta da frente e atravessou a estrada
para a casa de Jud.
Eram cerca de cinco e meia. O crepúsculo avançava. Tudo parecia adormecer. O resto de luz do sol era um estranho contorno alaranjado no horizonte do outro lado
do rio. O vento golpeava forte na Rodovia 15, entorpecendo o rosto de Louis e dispersando a nuvem branca de sua respiração. Ele estremeceu, mas não por causa do
frio. O que o fez tremer foi uma sensação de solidão, forte, consistente. Não parecia uma sensação abstrata. Era uma solidão bastante concreta, embora sem feições
reconhecíveis. Não podia tocá-la nem ser mais profundamente tocado por ela, mas a experimentava de forma muito intensa.
Viu Jud do outro lado da estrada, enrolado em seu casaco verde, grande e felpudo, o rosto na sombra da orla de peles do capuz. De pé sobre o gramado congelado,
Jud lembrava uma escultura; mais uma coisa sem vida naquela paisagem crepuscular onde nenhum pássaro cantava.
Jud se movera quando Louis começou a atravessar a estrada. Fez um aceno. Gritou alguma coisa que Louis não pôde entender devido ao contínuo gemido do vento.
Mas Louis deu um passo atrás, percebendo que o barulho do vento se tornara subitamente mais intenso, mais agudo. Daí a um instante ouviu o guincho de uma buzina
e um grande caminhão da Orinco passou roncando perto dele, suficientemente perto para agitar suas calças e as abas do casaco. Apostou que por um triz não atravessava
bem na frente da coisa.
Desta vez, olhou para os dois lados antes de cruzar a estrada. Viu apenas as luzes traseiras do caminhão-tanque, desaparecendo naquele final de crepúsculo.
- Puxa!Cheguei a pensar que o caminhão tinha pegado você - disse Jud. - Tenha mais cuidado, Louis.
Mesmo àquela distância, ainda não conseguia distinguir as feições de Jud. Teve a estranha sensação de que ele podia ser outra pessoa... Qualquer outra pessoa.
- Onde está Norma? - Louis perguntou, não se atrevendo a olhar para a trouxa de pêlos esparramada junto dos pés do velho.
- Foi para o Dia de Ação de Graças na igreja - Jud respondeu. -Vem para o jantar, eu acho, mas pode ter certeza que não vai comer nada. Ultimamente, ela só belisca.
O vento deu uma rajada forte, atirando o capuz para trás e Louis viu que era mesmo jud... E, afmal, quem mais poderia ser?
- As vezes só come uns sanduíches depois do ..... . - Jud continuou. - Por volta das oito, já deve estar aqui. Pode acreditar, foi à igreja, mas isso é só uma
desculpa pra ficar tagarelando com as comadres.
Louis se ajoelhou para ver o gato. Deus queira que não seja Church, ele pediu com fervor, enquanto virava cuidadosamente o focinho com os dedos enluvados. Deus
queira que seja algum outro gato, que Jud esteja errado.
Mas, evidentemente, era Church. Não estava de modo algum mutilado ou desfigurado; não fora atropelado por nenhum dos grandes caminhões-tanques ou jamantas que
cruzavam a Rodovia 15. (E por falar nisso, o que aquele caminhão da Orinco estava fazendo na estrada no Dia de Ação de Graças?, ele se perguntou.) Os olhos de Church
estavam meio abertos, vidrados como mármore esverdeado. Um pequeno filete de sangue escorrera-lhe da boca, que também estava aberta. Não era muito sangue, mas fora
suficiente para manchar o peito branco.
- É o seu, Louis?
- É o meu - ele concordou, suspirando.
Pela primeira vez tomava consciência de que amava Church - talvez não com o mesmo fervor de Ellie, mas a seu próprio modo. Nas semanas que se seguiram à castração,
Church tinha se modificado, ficara gordo e indolente, caíra num perambular rotineiro entre a cama de Ellie, o sofá e a vasilha de comida. Raramente saía de casa.
Agora, morto, olhava para Louis como o velho Church. A boca, pequena e ensangüentada, cheia dos seus dentes de felino, afiados como agulha, parecia congelada num
rosnado de ataque. Os olhos sem vida, mesmo assim pareciam furiosos. Era como se depois da curta e estúpida fase de uma existência como eunuco, Church redescobrisse
sua verdadeira natureza no momento da morte.
- Sim, é Church - disse Louis. - Mas como vou contar a Ellie?
E foi então que teve uma idéia...
Enterraria Church no "simitério" de bichos, mas sem lápide, sem nenhuma daquelas bobagens. Naquela noite, ao telefone, não contaria nada; amanhã, mencionava
por acaso que não sabia onde andava Church; no dia seguinte, podia sugerir que talvez Church tivesse ido embora. Às vezes os gatos fazem isso. Ellie ficaria transtornada,
é claro, mas não haveria aquele caráter de coisa derradeira, definitiva. Não haveria reprise da perturbadora recusa de Rachel em se defrontar com a idéia da morte...
O impacto iria se extinguindo...
Uma atitude covarde, parte de sua mente acusou.
Sim... Não há dúvida. Mas quem precisa de problemas?
- Ela gostava muito desse gato, não é? - Jud perguntou.
- Muito - Louis respondeu com ar distraído. Virou de novo a cabeça de Church. O gato começara a enrijecer, mas a cabeça ainda se movia com excessiva facilidade.
Pescoço quebrado, é claro. Achou que podia reconstituir o que tinha acontecido. Church estava atravessando a estrada -só Deus sabe por quê - e foi atingido por um
carro ou caminhão. Foi atirado de pescoço quebrado na frente da casa de Jud Crandall. Ou talvez o pescoço tenha quebrado quando Church bateu na neve que congelara
no solo. Pouco importava. De um modo ou de outro, o fato permanecia inalterável, Church estava morto.
Ergueu os olhos para Jud, pronto a dizer-lhe a que conclusões chegara, mas Jud parecia distante, contemplando o contorno de luz alaranjada que ia escurecendo
no horizonte. O capuz escorregara de novo,. descobrindo metade de sua cabeça; o rosto parecia pensativo e severo... Áspero, mesmo.
Louis tirou do bolso o saco verde de lixo e abriu-o, segurando-o com força para que o vento não o levasse. O ruidoso crepitar do plástico tirou Jud do devaneio.
- Sim, acho que ela gosta muito dele - disse Jud. O uso do presente pareceu ligeiramente insólito... Na realidade, todo aquele cenário, a luz crepuscular, o
frio e o vento, pareciam insólitos, macabros aos olhos de Louis.
Aqui está Heathcliff nos pântanos desolados, Louis pensou, fazendo uma careta diante do frio. Pronto para enfiar o gato da família no saco do demônio. Arre!
Pegou a cauda de Church, abriu à saco e levantou o animaL Sua expressão foi de tristeza e desgosto ao som de rasgar que fez o corpo do gato - rrrriiippp
- desgrudando do solo congelado. Church parecia inacreditavelmente pesado, como se a morte o tivesse envolvido como um peso físico. Cristo, ele parece um balde de
areia.
Jud ajudava a manter o saco aberto e Louis deixou o animal cair dentro dele, satisfeito por se livrar daquele peso estranho e desagradáveL
- O que vai fazer agora? - Jud perguntou.
- Acho que vou levá-lo para a garagem - disse Louis. - De manhã o enterro.
- No "simitério" de bichos?
Louís balançou os ombros.
- Acho que sim.
- Vai dizer a Ellie?
- Eu... Ainda vou pensar...
Jud ficou um momento em silêncio e pareceu tomar uma decisão:
- Me espere um minuto ou dois, Louis.
Jud afastou-se. Talvez nem lhe passasse pela cabeça que Louis podia não querer esperar um minuto sequer no frio cortante da noite. Caminhava com aquele passo
firme e aquela agilidade tão estranhos num homem de sua idade. E Louis não encontrou palavras para fazer qualquer objeção. Achou também que não estava com muita
pressa. Viu Jud entrar em casa e não se sentiu tão mal por continuar ali fora.
Ergueu o rosto contra o vento depois que a porta de madeira estalou e fechou. O saco de lixo com o corpo de Church vibrava entre seus pés.
Não se sentiu tão maL
Sim, estava até alegre. Pela primeira vez, desde que se mudara para o Maine, sentia que aquele era o seu lugar, que aquela era a sua casa. De pé na margem da
estrada, sozinho, nos primeiros minutos da noite e cercado pelo início do inverno, sentiu-se singularmente revigorado, estranhamente contente - contente como nunca
estivera, ou pelo menos não podia lembrar que estivera, desde a infância.
Alguma coisa está acontecendo aqui, rapaz. Alguma coisa fantástica, eu acho.
Inclinou a cabeça para trás e contemplou frias estrelas de inverno num céu cada vez mais escuro.
Não soube quanto tempo ficou assim, mas não deve ter sido um tempo longo em termos de minutos e segundos. Uma luz piscou na varanda de Jud, oscilou, aproximou-se
da porta e desceu as escadas. Era Jud segurando uma grande lanterna de quatro pilhas. Na outra mão, trazia algo que, à primeira vista, pareceu um grande objeto em
forma de X... Mas, logo a seguir, Louis viu que era uma picareta e uma pá.
Deu a pá a Louis, que a segurou com uma das mãos.
- Jud, que diabo você está pretendendo fazer? Não podemos enterrá-lo hoje â noite.
- Sim, podemos. E vamos enterrá-lo.
O rosto de Jud estava no escuro, atrás do círculo de luz da lanterna.
- Jud, está escuro. E tarde. Faz frio...
- Vamos lá - disse Jud. - Vamos fazer logo o que tem de ser feito.
Louís balançou a cabeça e ainda tentou argumentar, mas as palavras, palavras razoáveis e sensatas, pareciam difíceis... Pareceram perder todo o significado sob
o uivo baixo do vento e aquela escuridão salpicada de estrelas.
- Por que não esperar até amanhã, quando poderemos enxergar melhor...?
- Ela gosta do gato?
- Gosta, mas...
O tom de Jud era suave e, de certa forma, parecia racional:
- E você gosta dela?
- É claro que eu gosto dela, é minha fi...
- Então vamos.
Louis foi.
Naquela noite, duas, talvez três vezes, a caminho do "simitério" de bichos, Louis tentou puxar conversa, mas Jud não respondeu. Louis desistiu. A sensação de
contentamento, bastante estranha naquelas circunstâncias, mas que surgia como um fato puro e simples, persistia. Parecia vir de todos os lados. A dor contínua nos
músculos, pelo peso de Church numa das mãos e a pá na outra, não a eliminava. O vento, terrivelmente frio, entorpecendo as partes expostas do corpo, não a eliminava.
O vento serpenteava entre as árvores, mas depois que entraram nos bosques, a nevada cessou. A luz oscilante da lanterna de Jud também participava de seu contentamento.
Sentia a presença difusa, evidente, magnética, de algum segredo. Algum terrível segredo.
As sombras se abriram e havia uma sensação de espaço. A neve tinha um brilho pálido.
- Vamos dar uma parada aqui - disse Jud e Louis pousou o saco no chão. Com o braço, limpou o suor da testa. Dar uma parada ali? Mas eles estavam lá. Louis podia
ver os marcadores de túmulos entre o deslizante, instável movimento da lanterna de Jud quando este sentou-se sobre a neve fina e mergulhou o rosto entre os braços.
- Jud? Você está bem?
- Ótimo. Só preciso tomar um pouco de ar.
Louis sentou-se a seu lado e respirou profundamente meia dúzia de vezes.
- Sabe de uma coisa, Jud - disse ele, - acho que há seis anos não me sinto tão bem como agora. Sei que é absurdo dizer isso quando se está enterrando o gato
da filha, mas é a verdade nua e crua. Estou me sentindo muito bem.
Jud respirou profundamente uma ou duas vezes.
- E, eu sei - disse ele. - Isso acontece de vez em quando. No fundo, você não escolhe o momento de se sentir bem, como também não escolhe o momento de se sentir
mal... O lugar tem alguma coisa a ver com isso, é claro, mesmo que você não acredite... A heroína faz o viciado sentir-se bem quando está circulando nos braços dele,
mas enquanto isso ela o está envenenando. Envenenando o corpo e envenenando o modo de pensar. Este lugar pode ser assim, Louis, nunca se esqueça disso. Deus me ajude
pra que eu esteja agindo certo. Acho que estou, mas não tenho certeza absoluta. Às vezes minha cabeça fica confusa. É a esclerose chegando, deve ser.
- Não entendi muito bem o que você falou, Jud.
- Este lugar tem poder, Louis. Não tanto aqui, mas... no ponto para onde vamos.
- Jud...
-Vamos - disse Jud se levantando. O feixe de luz da lanterna iluminou as árvores caídas. Jud começou a andar na direção delas. E, de repente, Louis lembrou-se
do seu episódio de sonambulismo. O que Pascow dissera no meio do sonho?
Náo ultrapasse este limite, doutor, por mais que tenha vontade. A barreira não foi feita para ser violada.
Mas naquele momento, naquela noite, o sonho, a advertência, seja lá o que tenha sido aquilo, parecia há anos de distância. Louis se sentia muito bem, extremamente
alegre, confiante, disposto a enfrentar qualquer coisa, fascinado com a experiência. Ocorreu-lhe que o que estava acontecendo ali também se parecia muito a um sonho.
Então Jud se virou, o capuz parecendo cercar um vazio. Por um momento, Louis julgou que era o próprio Pascow que estava diante dele, que a luz da lanterna se
voltava para trás, para focalizar apenas uma caveira sorridente e capaz de falar, apenas um crânio emoldurado com a pele do casaco de Jud. O medo envolveu-o como
um jato de água fria.
- Jud - disse ele - não podemos subir aí. Vamos quebrar uma perna e ficar congelados tentando voltar para casa.
- Venha atrás de mim - disse Jud. - Venha atrás de mim e não olhe pra baixo. Não hesite e não olhe pra baixo. Eu conheço o caminho, mas temos de atravessá-lo
com passo firme, e depressa.
Louis começou a pensar que talvez fosse um sonho, que simplesmente ainda não despertara da sesta depois do almoço. Se eu estivesse acordado, ele pensou, só treparia
neste monte de árvores se estivesse de porre ou quisesse quebrar a cara. E no entanto estou disposto a fazer isso. Acho que estou mesmo disposto. Portanto... devo
estar sonhando. Certo?
Jud virou ligeiramente para a esquerda, na direção do centro do monte de árvores. A luz da lanterna fixou todo o seu brilho no confuso amontoado de
(ossos)
galhos caídos, velhos troncos. O círculo de luz ficava menor e mais intenso â medida que Jud se aproximava. Sem a mais leve pausa, sem ao menos um breve correr
de olhos para assegurar-se de que estava no ponto exato, ele começou a subir. Não se arrastava, nem mesmo subia curvado, como se costuma subir uma encosta montanhosa
ou uma duna. Era como se galgasse um lance de degraus. Parecia saber exatamente onde cada passo ia dar.
Louis seguiu-o da mesma maneira.

Não olhou para baixo nem verificou onde pisava. Foi envolvido por uma estranha, mas absoluta certeza de que as árvores caídas não poderiam machucá-lo, a não
ser que as deixasse fazer isso. Era uma atitude extremamente imbecil, é claro, como a estúpida confiança de um homem que acredita poder dirigir embriagado porque
tem uma medalha de São Cristóvão no pescoço.
Mas funcionou.
Nenhum velho tronco cedeu dando um estouro de tiro de revólver, nenhum pé resvalou para um buraco cheio de lascas esbranquiçadas pelo tempo, capazes de cortar
a pele, rasgar, mutilar. Seus sapatos (mocassins de lona, de modo algum recomendados para aquele tipo de escalada) não escorregaram no limo que cobrira muitos dos
troncos caídos. Não tropeçou nem para a frente nem para trás. O vento assobiava de modo selvagem por entre os pinheiros em volta.
Por um momento, viu Jud de pé no topo do amontoado de troncos. E Jud começou a descer pelo outro lado, os joelhos sumindo, depois as pernas, a cintura, o tronco.
A luz da lanterna saltava ao acaso entre os galhos das árvores fustigadas pelo vento no outro lado da. . . barreira. Sim, era isso mesmo, por que fingir que não?
Uma barreira.
Louis também alcançou o topo e parou um instante, o pé direito plantado numa velha árvore inclinada num ângulo de trinta e cinco graus, o pé esquerdo pisando
alguma coisa ainda mais vergada, talvez um emaranhado de velhos ramos de pinheiro... Não olhou para baixo. Passou para a mão esquerda o pesado saco de lixo com o
corpo de Church, trocando-o com a pá. Levantou o rosto contra o vento e sentiu-o correr impetuoso, numa torrente sem fim, fazendo seu cabelo esvoaçar. Era um vento
tão frio, tão ....... tão constante.
Tornou a andar e, num passo despreocupado, quase como se passeasse, começou a descer. Uma ponta de galho, talvez do tamanho do pulso de um homem forte, deu um
estalo alto, mas Louis não se preocupou. O pé começou a escorregar mas foi detido por um galho maior, uns dez centímetros abaixo. Louis praticamente nem cambaleou.
Achou que agora podia entender como os comandantes de pelotão da Primeira Guerra Mundial conseguiam caminhar pela beira das trincheiras assobiando Tipperary, as
balas zunindo em volta deles. Era absurdo, mas o próprio absurdo tornava a coisa tremendamente divertida.
Descia, a cabeça erguida, os olhos postos no brilhante círculo de luz da lanterna de Jud. Jud estava de pé lá embaixo, â sua espera. Pouco depois, atingiu o
solo. A sensação de alegria inflamou-o como um punhado de querosene jogado em madeira em brasa.
- Conseguimos! - gritou.
Pousou a pá e abraçou o ombro de Jud. Era como ter escalado uma macieira até o galho mais alto, oscilando no vento como um mastro de navio. Há mais de vinte
anos não se sentia tão jovem, tão radicalmente cheio de vida.
- Jud, nós conseguimos!
- Você achou que não íamos conseguir? - Jud perguntou.
Louis abriu a boca para dizer alguma coisa (Se achei que não íamos conseguir? Tivemos uma sorte tremenda em não nos matarmos!), mas tornou a fechá-la. Realmente,
a partir do momento em que Jud se aproximara dos troncos, não tivera qualquer dúvida de que iam conseguir. E a idéia de ter de atravessá-los de novo, na volta, não
lhe causava qualquer apreensão.
- Achei que não - respondeu.
- Vamos. Ainda temos de andar um bom pedaço. Quase cinco quilômetros.
Puseram-se a caminho. A trilha de fato continuava do outro lado. Em certos pontos, parecia até muito ampla, embora o facho oscilante da lanterna revelasse pouca
coisa; era principalmente uma sensação de espaço, uma sensação de que as árvores recuavam. Uma ou duas vezes, Louis ergueu a cabeça e viu as estrelas passando, através
de uma densa e escura fronteira de árvores. Numa curva, alguma coisa cruzou a trilha diante deles e a lanterna captou um reflexo de olhos esverdeados, mas logo os
olhos sumiram na escuridão.
Às vezes, a trilha se estreitava de tal forma que Louis sentia pontas duras de arbustos arranhando-lhe, como unhas, as mangas do casaco. Trocava de mão com mais
freqüência o saco e a pá, mas a dor nos braços era agora constante.

Deixou-se envolver pelo ritmo da caminhada, deixou-se quase hipnotizar por ele. Havia poder ali, sim, ele sentia no ar. Lembrou-se de algo que aconteceu quando
estava no último ano da escola secundária. Ele, a namorada e outro casal tinham ido acampar e acabaram dando com o nariz numa estrada poeirenta e sem saida, perto
de uma usina elétrica. Pouco depois de chegarem lá, a garota de Louis disse que queria voltar para casa, ou pelo menos ir para outro lugar, porque todos os seus
dentes (pelo menos, todos os obturados, que eram a maioda) estavam doendo. O próprio Louis gostou de sair de lá. O ar em torno da usina o deixara nervoso, ansioso.
Ali nos bosques, a sensação era parecida, mas era mais forte. E no entanto, de modo algum desagradáveL Era...
Jud havia parado no sopé de uma encosta íngreme, e Louis colidiu com ele.
Jud se virou.
- Estamos quase chegando - disse com voz calma. - Este trecho final é como a passagem dos troncos. Você precisa andar com passo firme e sem se afobar. Venha
atrás de mim e não olhe pra baixo. Percebeu que estávamos descendo?
- Sim.
- Isto é o início do que os micmacs costumavam chamar Pequeno Pântano de Deus. Os negociantes de peles que o atravessaram chamaram-no de Charco do Homem Morto,
e a maioria dos que passaram uma vez por ele nunca mais quis voltar.
- Tem areia movediça?
- Oh, se tem!, muita areia movediça! Torrentes que borbulham devido a um grande depósito de areia de quartzo que existe lá em cima e vem escorrendo. Pelo menos
eu sempre chamei de areia de quartzo, mas deve haver um nome mais apropriado.
Jud o encarou e, por um instante, Louis acreditou ter visto alguma coisa brilhante, não de todo agradável, nos olhos do velho.
Então Jud moveu o facho da lanterna e o olhar sumiu.
- Há muita coisa engraçada neste caminho, Louis. O ar é mais pesado... mais carregado de eletricidade... ou alguma coi...
Louis estremeceu.
- O que houve?
- Nada - disse Louis, pensando naquela noite na estrada sem saída.
- Você pode ver o fogo-de-santelmo... Aquilo que os marinheiros chamam de fogo-fátuo. Tem formas engraçadas, mas não é nada. Se vir alguma dessas formas e elas
o incomodarem, é só virar o rosto para o outro lado... Você também pode ouvir sons parecidos com vozes, mas são apenas as gralhas ao Sul, lá para os lados de Prospect.
O som chega até aqui. É engraçado.
- Gralhas? - Louis exclamou incrédulo. - Nessa época do ano?
- Oh, sim - Jud confirmou. Sua voz parecia terrivelmente branda e totalmente pastosa. Por um momento, Louis teve uma vontade desesperada de ver outra vez o rosto
do velho. Aquele olhar...
- Jud, para onde estamos indo? Que diabo estamos fazendo aqui no fim do mundo?
- Vai saber quando chegarmos lá - Jud respondeu e se virou para a trilha. - Cuidado com o mato!
Recomeçaram a andar, passando de um patamar a outro da encosta. Louis não se perturbava com as dificuldades do caminho. Os pés pareciam encontrar automaticamente
os pontos mais seguros. Só escorregou uma vez, quando o sapato esquerdo quebrou uma fina placa de gelo e mergulhou numa água fria, um tanto pegajosa. Ele o puxou
depressa e continuou avançando, seguindo o balanço da lanterna de Jud. Aquela luz, flutuando no meio dos bosques, trouxe-lhe â memória as histórias de piratas que
gostava de ler quando era menino. Homens maus na calada da noite, enterrando num bosque grandes dobrôes de ouro da Espanha... E um deles, é claro, caía no buraco
sobre a arca do tesouro, uma bala no coração, pois os piratas acreditavam (pelo menos era isso que os autores daquelas histórias fantásticas atestavam) que o espírito
do camarada morto permaneceria ali tomando conta do botim.
O problema é que não viemos enterrar nenhum tesouro. Só o gato castrado de minha filha.
Sentiu um riso selvagem crescendo dentro dele, mas o sufocou.
Não estava ouvindo nenhum "som parecido com vozes", nem via qualquer fogo-de-santelmo. Em compensação, após transpor uma meia dúzia de barrancos, olhou para
baixo e viu que seus pés, joelhos e a parte mais baixa das coxas tinham desaparecido no meio de uma névoa rasteira muito compacta, muito branca, absolutamente opaca.
Era como caminhar através da mais leve torrente de neve do mundo.
Agora o ar parecia ter uma espécie de luminosidade e ele podia jurar que estava mais quente. Via Jud à sua frente, andando com passo firme, a ponta rombuda da
picareta enganchada no ombro. A picareta acentuava a ilusão de um homem que queria enterrar algum tesouro.
A absurda sensação de contentamento persistia. De repente ocorreu .a Louis que talvez a mulher estivesse tentando se comunicar com ele. Se, quando voltasse a
casa, ouvisse o telefone tocar sem parar, fazendo seu ruído prosaico, racional, Se...
Quase colidiu outra vez com Jud. O velho parara no meio da trilha. A cabeça estava empinada, a boca repuxada, tensa.
- Jud? O que...
- Chiii!
Louis se calou, olhando em volta um tanto inquieto. Ali a névoa rasteira era mais rala, mas ainda não conseguia ver os sapatos. Então ouviu um ruído de mato
estalando e galhos quebrando. Alguma coisa estava se movendo... Alguma coisa grande.
Abriu a boca para perguntar a Jud se não seria um alce (urso foi a idéia que realmente lhe passou pela cabeça), mas a fechou de novo. O som chega até aqui, Jud
dissera.
Também esticou a cabeça numa imitação inconsciente de Jud e prestou atenção. A princípio, o som pareceu distante, depois muito perto; tornou a se afastar e a
se aproximar assustadoramente. Louis sentiu que o suor da testa tinha começado a escorrer por todo o rosto. Trocou de mão o saco infernal com o corpo de Church.
As palmas das mãos estavam úmidas e o plástico verde parecia engordurado, quase lhe escorregando. Agora, a coisa lá no escuro parecia tão próxima que Louis esperou
vê-la a qualquer momento, talvez se erguendo em duas pernas, empanando o brilho das estrelas com um corpo monstruoso, enorme, peludo.
Urso já não era bem o que lhe passava pela cabeça.
Ele nem sabia mais o que lhe passava pela cabeça.
Então a coisa se afastou de novo, não apareceu.
Louis abriu outra vez a boca, as palavras O que é isso? na ponta da língua. E foi naquele momento que um riso estridente, louco, começou a brotar da escuridão,
indo e vindo em ciclos histéricos. Era um riso alto, penetrante, arrepiante. Pareceu a Louis que cada articulação de seu corpo se congelara e que, de alguma forma,
seu peso aumentava, aumentava de tal forma que se tentasse se mexer mergulharia para sempre no solo pantanoso.
A risada crescia, dividida agora num gorgolejar seco, um ruído de pedra quebrando, se abrindo em muitas ranhuras e se estilhaçando. O riso atingiu a intensidade
de um grito, depois submergiu num cacarejo gutural que pareceu se transformar em soluços antes de desaparecer por completo.
Em algum lugar ouviu um gotejar de água e, em seguida, como um rio incessante no fundo de estrelas, o gemido monótono da ventania continuou sendo o único som
que rompia o silêncio do Pequeno Pântano de Deus.
Louis começou a tremer de cima a baixo. Sua pele, particularmente a do ventre, começou a rastejar. Sim, rastejar era a palavra exata; a pele realmente parecia
estar se deslocando sobre o corpo. Na boca, uma secura total. Como se a saliva tivesse sido sugada até a última gota. E apesar de tudo, a sensação de alegria persistia,
um ataque de demência que não cessava.
- O que foi isto, pelo amor de Deus? - murmurou com voz rouca para Jud.
Jud se virou para olhá-lo e, na escuridão, parecia ter cento e vinte anos. Não havia mais traço daquele brilho estranho que dançara em seus olhos. O rosto se
contorcera e o olhar revelava um assombroso terror. No entanto, quando respondeu, a voz já se mostrava bastante firme:
- Apenas as gralhas - disse ele. - Vamos, Louis. Estamos quase chegando.
Continuaram andando. O mato parecia se adensar, embora, de vez em quando, Louis tivesse uma sensação de espaços abertos. A luminosidade que há pouco parecia
envolver a atmosfera tinha se dissipado. Agora só conseguia divisar as costas de Jud, um metro na frente dele. Sob os pés, sentia uma relva baixa, mas congelada
pela neve; quebrando como vidro a cada passo. E então Louis teve certeza de que estavam de novo cercados pelas árvores. Podia sentir o aroma dos pinheiros, sentir
as lascas de pinho no chão. Aqui e ali, um ramo ou um galho arranhavam-lhe o casaco.
Perdera toda a noção de tempo ou direção, mas antes que andassem muito mais, Jud parou outra vez.
- Há degraus aqui - disse Jud. - Talhados na rocha. Quarenta e dois ou quarenta e quatro, não lembro. Venha sempre atrás de mim. Agora só precisamos chegar ao
topo.
Jud começou a subir e Louis atrás.
Os degraus de pedra eram bem largos, mas a sensação de altitude ia se tornando desagradável. Vez por outra os sapatos de Louis faziam rolar um punhado de pedras
e fragmentos de rocha.
...doze ... quatorze...
O vento estava mais forte, mais frio. O rosto ficava dormente. Será que já estamos acima das árvores?, ele se perguntava. Levantava a cabeça e via um bilhão
de estrelas, luzes frias na noite de inverno. Nunca em sua vida as estrelas o tinham feito se sentir tão absolutamente pequeno, infinitesimal, insignificante. Fez
a si mesmo a velha pergunta: Será que existe alguma coisa inteligente lá em cima? Mas em vez de admiração o pensamento trouxe uma medonha sensação de frio, como
se tivesse perguntado como era ter um punhado de baratas se mexendo na boca.
...vinte e seis... vinte e sete... vinte e oito...
Mas quem talhou esses degraus? Os índios? Os micmacs? Tinham ferramentas para isso? Tenho de perguntar a Jud. Depois de pensar em índios que "tinham ferramentas",
seu pensamento deslocou-se para os animais "que têm pêlos", e isso o fez lembrar da coisa que estivera perto deles no bosque. Um pé tropeçou e, para manter o equilíbrio,
ele apoiou uma das mãos na parede de rocha à esquerda. A parede parecia velha, cheia de fendas, lascada, muito áspera. Áspera como um casco meio apodrecido, pensou.
- Tudo bem com você, Louis? - Jud murmurou.
- Tudo bem - respondeu, embora estivesse quase sem fôlego e os músculos latejassem por causa do peso de Church no saco.
...quarenta e dois... quarenta e .... . quarenta e quatro...
- Quarenta e cinco - disse Jud. - Eu tinha esquecido. A última vez que vim aqui foi há doze anos. Depois não vi mais razão pra voltar. Não é assim tão fácil
andar tudo isso.
Agarrou Louis pelo braço e ajudou-o a subir o último degrau.
- Pronto, chegamos! - disse Jud.
Louis olhou em volta. Podia enxergar razoavelmente bem: a luz das estrelas era fraca, mas suficiente. Achavam-se num patamar rochoso, um platô íngreme que se
erguia como língua escura no meio do bosque. Num dos lados, podia ver as copas do pinheiral que tinham atravessado para chegar aos degraus. Ao que tudo indicava,
encontravam-se no topo de uma estranha mesa pedregosa, plana, uma anomalia geológica que pareceria muito mais natural no Arizona ou no Novo México. Como o terreno
coberto de relva no alto da mesa (ou colina, montanha esquisita, fosse lá o que fosse) não possuía árvores, o sol derretera a neve. O vento incessante fazia vergar
algumas moitas secas. O vento soprava frio no rosto de Louis quando ele percebeu que se tratava efetivamente de parte de uma colina, não de uma mesa isolada. À sua
frente, o solo se erguia de novo para um trecho coberto de árvores. Mas a planura do patamar era tão evidente, e tão singular no contexto das colinas da Nova Inglaterra,
baixas e já bem consumidas pela erosão, que...
Índios que tinham boas ferramentas, sua mente se manifestou.
- Vamos - disse Jud e os dois caminharam mais vinte e cinco metros na direção das árvores. O vento era forte, mas o ar muito puro. Louis divisou algumas formas
nas sombras lançadas pelos pinheiros - os mais velhos, os mais altos pinheiros que já vira. Aquele lugar alto e solitário lhe transmitia uma idéia de desolação,
mas uma desolação que... vibrava.
As formas escuras eram montes de pedras.
- Os micmacs drenaram o pântano aqui no topo da colina - disse Jud. - Ninguém sabe como, assim como ninguém sabe como os maias construíram suas pirâmides. Os
próprios micmacs esqueceram, assim como os maias.
- Por quê? Por que fizeram isso?
- Era onde enterravam seus mortos - disse Jud. - Trouxe você aqui para que possa enterrar o gato de Ellie. Os micmacs não discriminavam, você sabe. Enterravam
os bichos ao lado dos donos.
Louis pensou nos egípcios, que foram ainda mais longe. Abatiam os bichos de estimação dos reis mortos para que as almas dos animais pudessem acompanhar as almas
dos senhores em qualquer vida que pudesse haver no além. Lembrou de ter lido sobre a carnificina de mais de dez mil animais domésticos depois da morte de uma filha
de faraó - neste total, estavam incluídos seiscentos porcos e dois mil pavões. Os porcos, antes de terem as gargantas cortadas, foram perfumados com atar de rosas,
o perfume favorito da moça falecida.
E eles também construíram pirâmides. Não se tem muita certeza para que serviam as pirámide.s maias (segundo alguns, para a navegação e à cronografia, como Stonehenge),
mas sabemos muito bem que as pirâmides egípcias eram e são ... . grandes monumentos fúnebres, as maiores lápides do mundo. Aqui jaz Ramsés II, Ele Era Obediente,
Louis pensou e deu vazão a uma gargalhada frenética, inútil.
Jud se virou para ele, mas não parecia espantado.
- Agora enterre o animal - disse. - Vou dar umas pitadas no meu cigarro. Gostaria muito de ajudá-lo, mas tem de fazer isso sozinho. Cada um enterra o que é seu.
Era desse jeito que se faziam as coisas.
- Jud,o que significa tudo isso? Por que me trouxe aqui?
- Porque você salvou a vida dc Norma - Jud respondeu e, embora parecesse sincero (e sem dúvida ele próprio acreditava que estava sendo sincero), Louis teve uma
sensação súbita, muito forte, de que o velho estava mentindo... Ou que, pelo menos, estava se deixando enganar e passando o engano para Louis. Recordou-se da expressão
que vira, ou pensou ter visto, no olhar de Jud.
Mas lá em cima nada disso parecia ter grande importância. O vento era mais importante, rodopiando livremente naquela torrente contínua, tirando-lhe o cabelo
das orelhas e de cima da testa.
Jud sentou, encostou-se numa das árvores, fez concha com as mãos em torno de um fósforo e acendeu um Chesterfleld.
- Quer descansar um pouco antes de começar?
- Não, estou bem - Louis respondeu. Podia ter continuado a fazer perguntas a Jud, mas achou que realmente não estava interessado. Tudo aquilo parecia absurdo,
mas, ao mesmo tempo, também parecia sensato. Era melhor deixar as coisas naquele pé... Pelo menos por enquanto. Na realidade, só havia uma coisa que precisava saber:
- Será que vou mesmo conseguir cavar a sepultura de Church? A camada de terra parece muito fina e logo abaixo só deve haver rocha. - Louis esticou o pescoço
para a escadaria, onde as pedras se soltavam na beira dos degraus.
Jud inclinou lentamente a cabeça.
- Vai conseguir - disse. - O solo é fino, sem dúvida. Mas um chão suficientemente fundo para que uma árvore cresça sobre ele também é suficientemente fundo para
que se possa enterrar alguma coisa. E muita, muita gente tem sido enterrada aqui, Louis. Pode ser que não seja muito fácil cavá-lo, mas...
E não era fácil. Mesmo a camada superficial de terra era dura, pedregosa. Rapidamente Louis percebeu que, precisaria usar a picareta para conseguir abrir um
buraco bastante profundo para sepultar Church. Resolveu então alternar as ferramentas, primeiro usando a picareta para soltar a terra dura e livrá-la das pedras,
depois a pá para remover o que fora cavado. Suas mãos começaram a ficar esfoladas. O calor do corpo aumentava. Sentia uma forte, irresistível necessidade de fazer
um bom trabalho. Começou a cantarolar a meia voz, algo que às vezes fazia ao suturar uma ferida. De vez em quando, a picareta batia numa rocha com força suficiente
para soltar fagulhas; o impacto subia pelo cabo de madeira e vibrava em suas mãos. Podia sentir as bolhas se formando nas palmas, mas não se importou, embora, como
a maioria dos médicos, fosse muito cuidadoso com as mãos. Acima e em torno dele, o vento zumbia sem parar, como se assobiasse uma melodia monótona.
Em contraponto, Louis ouvia o suave rolar e cair do cascalho na beira dos degraus. Olhou para trás e viu Jud abaixando-se para pegar as pedras maiores que ele
removia da terra. Parecia querer fazer um monte com elas.
- Um bom monumento para Church - disse ao ver que Louis o fitava.
- Oh! - Louis exclamou e voltou ao trabalho.
Cavou uma sepultura de cerca de sessenta centímetros de largura por um metro de comprimento: um baita de um túmulo para um gatinho de nada, pensou. Quando estava
atingindo mais de setenta centímetros de profundidade e a picareta começava a tirar, quase a cada golpe, fagulhas de pedras, largou a picareta e a pá, e perguntou
a Jud se já não estava bom.
Jud levantou e deu uma olhada rápida no buraco.
- Pra mim está bom - disse. - De qualquer modo, o que importa é o que você acha...
- Será que pode me contar agora o que é este lugar?
Jud sorriu ligeiramente.
- Os micmacs acreditavam que esta colina fosse um lugar mágico -disse ele. - Achavam que toda a floresta, até os limites do pântano, era mágica. Construiram
este local e aqui enterravam seus mortos, longe de tudo e de todos. Outras tribos o evitavam. Os penobscots diziam que os bosques estavam cheios de fantasmas. Mais
tarde, os negociantes de peles diriam praticamente a mesma coisa. Acho que alguns viram o fogo-fátuo no Pequeno Pântano de Deus e acharam que estavam vendo fantasmas.
Jud sorriu e Louis pensou:
Isto não é absolutamente o que você pensa.
- A partir de certa época - Jud continuou -, nem mesmo os próprios micmacs queriam voltar aqui. Um deles alegou ter visto um "vendigo" e achava que este solo
tinha se tornado uma coisa má. Seus feiticeiros fizeram uma grande conferência para discutir o assunto... Ou, pelo menos, foi o que me contaram quando eu era rapaz...
É verdade que ouvi a história da boca de um velho beberão, Stanny B - o B era de Bouchard.. . E o que Stanny B não sabia, inventava.
Louis sabia que, na crença dos índios, o "vendigo" era um espírito do norte do país.
- Você acha que o solo se tornou uma coisa má? - perguntou.
Jud sorriu, ou pelo menos seus lábios se curvaram.
- Acho que é um lugar perigoso - disse num tom suave -, mas não para gatos, cachorros ou hamsters. Enterre logo o animal, Louis.
Louis pôs o saco de plástico dentro do buraco e, lentamente, começou a jogar de novo a terra sobre ele. Agora sentia frio e estava cansado. O som da terra batendo
no plástico o deprimia; embora não lamentasse ter ido até lá, a sensação de contentamento estava se dissipando e ele começava a ansiar pelo fim da aventura. Mas
ainda havia uma longa caminhada de volta.
O ruido da terra caindo no plástico foi sendo abafado, depois cessou: havia somente o vuuum de terra sobre terra. Louís derramou a última porção com a pá se
erguendo no ar (a terra nunca é suficiente, pensou recordando-se do que o seu tio, agente funerário, dissera-lhe há muitos anos:
nunca é suficiente para tornar a encher o buraco). Ele se virou para Jud.
- Coloque ai seu monumento - disse o velho.
- Olhe, Jud, estou muito cansado e...
- É o gato de Ellie - disse Jud, e a voz, embora gentil, tinha um tom implacável. - Ela gostaria que você fizesse o serviço direito.
Louis suspirou..
- Acho que sim.

Demorou mais dez minutos para empilhar as pedras que Jud lhe passava, uma por uma. Quando tudo estava concluído, havia um pequeno monte de pedras, de forma cônica,
sobre a cova de Church. Embora estivesse exausto, Louis sentiu um certo prazer ao contemplar sua obra. Erguendo-se à luz das estrelas, não deixava de parecer solene.
Estava certo de que Ellie jamais veria o túmulo (a simples idéia de conduzir a filha por aquela trilha, no meio de um pântano onde havia areias movediças, faria
Rachel ficar de cabelos brancos), mas ele o tinha visto e estava bem-feito.
Louis ficou em. pé e sacudiu os joelhos da calça. Agora via mais claramente ao redor. Em vários pontos, distinguia com nitidez outros montes funerários com as
pedras soltas. Mas Jud se encarregara de fazê-lo construir o monumento fúnebre de Church apenas com as pedras tiradas da própria sepultura que ele escavara.
- As pedras nos outros túmulos estão desabando - disse a Jud.
- Pois é - Jud respondeu. - Eu disse a você: o lugar é muito antigo.
- Cumprimos nossa obrigação?
- Sim.
Jud deu um tapinha no ombro de Louis.
- Você trabalhou muito bem, Louis. Sabia que ia fazer tudo direito. Vamos voltar.
- Jud - Louis começou, mas Jud já apanhava a picareta e se punha em marcha para a escadaria. Louis pegou a pá, correu alguns metros para alcançar o velho, mas
logo regulou o passo, tentando poupar o fôlego para a longa caminhada. Ainda olhou para trás, mas o monumento que marcava o túmulo de Winston Churchill, gato de
sua filha, já mergulhara nas sombras. Não pôde mais distingui-lo.
Foi só fazer o filme andar para trás, Louis pensou bastante cansado quando, mais tarde, saíram dos bosques e entraram no campo que levava à sua casa. Não sabia
em quanto tempo tinham feito a viagem de volta; tirara o relógio quando se deitara depois do almoço e o deixara no parapeito da janela junto à cama. Sabia apenas
que estava morrendo de cansaço, estourado, esgotado. A última vez que se sentira tão absolutamente exausto fora no primeiro dia de trabalho com uma turma de coleta
de lixo, nas férias de sua escola secundária em Chicago, há dezesseis ou dezessete anos.
O caminho de volta fora o mesmo de ida, mas não conseguia recordar muita coisa da jornada. Lembrava de ter tropeçado nos troncos caídos - cambaleou para a frente
e pensou fantasticamente em Peter Pan... Oh, Jesus, perdi meus bons pensamentos e lá vou eu!... Então a mão de Jud o amparou, firme, segura; e alguns momentos depois
eles se arrastavam pelo derradeiro lugar de repouso do Gato Smucky, de Trixíe, de Marta, Nossa Coelha de Estimação. Por fim, entrou no caminho que uma vez atravessara
não apenas com Jud, mas com toda a família.
Achava que, ao menos superficialmente, pensara no sonho com Victor Pascow, o sonho terrível que acompanhara seu episódio de sonambulismo. Mas não viu qualquer
ligação entre aquela caminhada noturna e Pascow. Achava que toda a aventura do enterro de Church fora perigosa, não num sentido melodramático, tipo Wilkie Collins,
mas de um modo muito real. Que tivesse enchido violentamente as mãos de bolhas num estado emocional que, sem dúvida, se aproximara do sonambulismo, já era realmente
desagradável. Podia ter se matado no monte de árvores caídas. Os dois podiam ter morrido. Era difícil justificar esse comportamento, era difícil admitir que agira
de uma forma racional. Na exaustão do momento, estava inclinado a atribuir tudo que fizera ao transtorno emocional, à confusão gerada pela morte de um animal que
toda a família adorava.
E pouco depois, lá estavam eles, outra vez em casa.
Andaram lado a lado até a margem da estrada, em silêncio. Pararam na entrada da casa de Louis. O vento zunia, gemia. Sem nada a dizer, Louis passou a Jud a picareta.
- É melhor eu atravessar - Jud disse por fim. - Louelia Bisson ou Ruthie Parks vão trazer Norma de volta, e ela vai ficar preocupada, sem saber em que toca eu
me meti.
- Tem idéia das horas? - Louis perguntou. Achou estranho que Jud acreditasse que Norma ainda não estava em casa; todos os seus músculos lhe diziam que, sem dúvida,
passava da meia-noite.
- Oh, rapaz! - Jud exclamou. - Eu ando com o relógio aqui dentro da roupa... Mas me esqueço dele!
Tirou um relógio de corrente do bolso da calça, deu um piparote e abriu um mostrador cheio de arabescos.
- Já passa das oito e meia - disse ele, fechando o mostrador com um estalo.
- Oito e meia? - Louis repetiu estupefato. - Só isso?
- Você queria mais?
- Achei que era bem mais tarde.
- Vejo você amanhã, Louis - disse Jud, começando a se afastar.
- Ei, Jud!
O velho se virou, um leve ar de interrogação no rosto.
- Jud, o que foi que fizemos hoje à noite?
- Ora! Enterramos o gato de sua filha.
- Foi só isso?
- Nada mais que isso - Jud respondeu. - Você é um bom sujeito, Louis, mas faz perguntas demais. As vezes as pessoas fazem coisas simplesmente porque elas parecem
certas. Isto é, parecem certas ao coração. Mas se fazem as coisas e depois ficam achando que não agiram direito, e se enchem de perguntas, e ficam cheias de dúvidas
que fazem mal à digestão, é dentro da cabeça delas que acham que cometeram algum erro, não é no fundo do peito. Entende o que estou dizendo?
- Entendo - disse Louis, achando que Jud devia ter lido tudo que se passara em sua mente enquanto os dois desciam a colina, atravessavam o campo e se aproximavam
das luzes da casa.
- O que eu acho é que as pessoas deviam questionar estes sentimentos de dúvida em vez de questionar o que o coração mandou que elas fizessem - Jud continuou,
os olhos fixos nele. - Não acha que tenho razão, Louis?
- Acho... - Louis respondeu de modo hesitante. - Acho que talvez esteja certo.
- E as coisas que estão no coração de um homem... Bem, às vezes ele não gosta muito de falar sobre elas, não é?
- Bem...
- Exato - disse Jud, como se Louis tivesse simplesmente concordado. - Não gosta... - E com sua voz calma, tão firme e tão fria, naquela voz que, por alguma razão,
podia dar calafrios em Louis, concluiu: - Existem coisas secretas. Achamos que só as mulheres são boas para segredos e acho que elas guardam alguns. Mas qualquer
mulher, qualquer mulher que conheça alguma coisa, poderia lhe falar que nunca conseguiu ver o que realmente se passa no coração de um homem. O solo do coração de
um homem é mais empedernido, Louis... como o solo que existe lá em cima, no velho campo onde os micmacs enterravam seus mortos. Perto da superfície há logo uma rocha...
Mas um homem planta o que pode... e cuida do que plantou.
- Jud......
- Não faça tantas perguntas, Louis. Aceite o que está feito e siga o seu coração.
- Mas...
- Mas nada. Aceite o que está feito, Louis, e siga o seu coração. Fizemos o que era certo... Pelo menos desta vez, eu espero, Deus queira que sim... Amanhã ou
depois, isso podia estar errado, terrivelmente errado!
- Mas quer ao menos me responder a uma única pergunta?
- Bem, depende da pergunta...
- Como conheçeu aquele lugar?
A pergunta já ocorrera a Louis no caminho da volta para casa. suspeitara que o próprio Jud pudesse ser em parte micmac, embora não parecesse; parecia, ao contrário,
descender de ancestrais cem por cento anglo-americanos.
- Ora, soube pela boca de Stanny B - ele respondeu com um ar de espanto.
- Ele só contou a você?
- Não - disse Jud. - Não é o tipo de lugar pra se comentar só a uma pessoa. Quando eu tinha dez anos, enterrei meu cachorro Spot li cima. . . O bicho estava
correndo atrás de um coelho e se arranhou num arame farpado cheio de ferrugem. As feridas infeccionaram e ele morreu.
Havia alguma coisa errada, algo que não combinava com o que Louis já ouvira, mas estava muito cansado para tentar descobrir o que era. Jud não disse mais nada,
limitou-se a fitá-lo com os olhos velhos, inescrutáveis.
- Boa noite, Jud - disse Louis.
- Boa noite.
O velho atravessou a estrada, carregando a picareta e a pá.
- Obrigado! - Louis gritou num impulso.
Jud não virou a cabeça, só ergueu a mão para indicar que ouvira.
E dentro de casa, subitamente, o telefone começou a tocar.

Louis correu, contraindo-se com as dores que davam pontadas nos quadris e nas costas. Quando penetrou no calor da cozinha, o telefone já havia tocado seis ou
sete vezes e parou assim que ele encostou a mão no aparelho. Apesar disso, tirou o fone do gancho e disse alô, mas só escutou o ruido da linha desocupada.
Era Rachel, pensou. Vou ligar para ela.
Mas subitamente, achou muito trabalhoso discar o número, falar meio sem jeito com a mãe dela (ou, pior ainda, com o pai, brandindo talões de cheques), ser passado
para Rachel.., e depois para Ellie. Sem dúvida Ellie ainda estaria acordada - em Chicago, era uma hora a menos. A filha ia perguntar como ia Church.
Oh, ele está ótimo. Foi atropelado por um caminhão da Orinco. Não sei por quê, mas tenho certeza absoluta de que foi um caminhão da Orinco. Qualquer outro veículo
romperia a unidade dramática, se é que você entende o que eu quero dizer. Não? Bem, não importa. O caminhão o matou, mas não deixou muitas marcas no corpo dele.
Jud e eu o enterramos no velho cemitério micmac, uma espécie de anexo do "simitério" de bichos, você está entendendo, não é? Foi um passeio espantoso, "chocante
Um dia vou levá-la até lá e poderemos deixar algumas flores ao lado das pedras.". . Desculpe, ao lado do monumento fúnebre... É só esperar as areias movediças se
congelarem um pouco e os ursos irem hibernar.
Tornou a pôr o fone no gancho, foi até a pia e encheu-a de água quente. Tirou a camisa e lavou-a. Apesar do frio, suara como um porco e seu cheiro era exatamente
o de um porco.
Tinha sobrado presuntada na geladeira. Louis cortou-a em fatias, colocou-as num pedaço de pão de fôrma e acrescentou duas grandes rodelas de cebola. Contemplou
um instante o recheio do sanduíche antes de botar ketchup e cobrir com outro pedaço de pão. Se Rachel e Ellíe estivessem ali, torceriam o nariz em gestos ídênticos
de repugnância - ah, que coisa horrível!...
Bem, pior pra vocês, madames, Louis pensou com inegável satisfação e deu uma dentada no sanduíche. Estava ótimo. Confúcio dizia que quem cheira como um porco
come como um lobo, pensou e sorriu.
Devorou o sanduíche com vários e longos tragos de leite bebido diretamente da caixa - outro hábito que Rachel desaprovava ostensivamente. Depois, subiu para
o andar de cima, tirou a roupa e foi se deitar sem ao menos escovar os dentes. Suas dores tinham se reduzido a um fraco latejar que quase não incomodava.
O relógio estava onde o tinha deixado. Dez para as nove. Era realmente incríveL
Louis desligou a luz, virou-se de lado e adormeceu.
Acordou quando já passava das três da madrugada e se arrastou para o banheiro. Estava.urinando, piscando os olhos como coruja, no brilho esbranquiçado da luz
fluorescente, quando a discrepância surgiu com nitidez em sua mente. Os olhos se alargaram. Era como se uma coisa que parecia perfeitamente ajustada tivesse se quebrado
em.dois pedaços.
Jud lhe dissera que seu cachorro morrera quando ele tinha dez anos... Morrera de uma infecção por ter se machucado numa cerca de arame farpado enferrujado. Mas
naquele dia de fim de verão, quando foram todos até o "simitério" de bichos, Jud tinha dito que o cão morrera de velhice e fora enterrado ali. Chegara a apontar
o marco, embora os anos tivessem apagado a inscrição.
Louis deu a descarga, desligou a luz e voltou para a cama. Havia mais alguma coisa errada... E logo começou a perceber o que era.
J ud nascera em 1900 e, naquele dia no "simitério" de bichos, disser que seu cão morrera durante o primeiro ano da Grande Guerra. Se Jud quis se referir ao começo
da guerra na Europa, estaria com quatorze anos. Mas se pretendeu indicar o ano em que a América entrou na guerra, estaria com dezessete.
E ontem tinha dito que Stop morrera quando ele, Jud, tinha dez anos.
Bem, é um velho e a memória dos velhos costuma confundir as coisas, Louis ponderou um tanto apreensivo. Ele mesmo diz que tem observado sinais de crescente esquecimento,
vacilando em nomes e endereços que antigamente lhe vinham facilmente à memória, às vezes, acordando de manhã sem se lembrar das coisas que planejara na véspera.
Na realidade, para um homem da idade dele, ainda está bem ....... Provavelmente nem se pode dizer que já esteja senil. Na senilidade o esquecimento é mais constante,
mais insisente. Que um homem não lembre quando seu cachorro morreu há uns setenta anos atrás é perfeitamente naturaL Não se lembrar das circunstâncias em que ele
morreu, também. Esqueça, Louis.
Mas Louis não voltou a dormir de imediato; rolou um bom tempo na cama, pensando demais na casa vazia e no vento que gemia entre os beirais do telhado.
Conseguiu dormir quase sem querer, pois no exato momento em que deslizava para o sono achou ter ouvido pés descalços subindo lentamente a escada. Ainda pensou:
Deixe-me em paz, Pascow, deixe-me em paz; o que está feito, está feito, o que está morto, está morto... E os passos cessaram.
Embora muitas outras coisas inexplicáveis ainda fossem acontecer à medida que o ano se aproximasse do fim, Louis nunca mais seria incomodado pelo espectro de
Victor Pascow, nem acordado nem em sonhos.

Acordou às nove da manhã. A luz do sol brilhava nas janelas do lado direito do quarto. O telefone tocava. Louis estendeu o braço e conseguiu pegá-lo.
- Alô?
- Ei! - disse Rachel. - Será que acordei você? Acho que sim.
- É claro que acordou, sua filha da mãe - ele disse, sorrindo.
- Ooh, essa linguagem grosseira, seu urso malcriado... Tentei falar com você ontem à noite. Estava na casa de Jud?
Ele só hesitou uma fração de segundo.
- Estava - respondeu. - Tomamos algumas cervejas. Norma tinha ido a uma espécie de festa de Ação de Graças. Pensei em lhe dar um telefonema, mas... Você sabe
como é.
Tagarelaram um pouco. Rachel colocou-o a par das novidades da família dela, coisa que de bom grado Louis teria dispensado, embora tenha sentido uma pequena,
mesquinha satisfação ao saber que a careca de seu pai parecia estar aumentando com mais rapidez.
- Quer falar com Gage? - Rachel perguntou.
Louis sorriu.
- É, acho que sim. Mas não deixe ele desligar o telefone como da outra vez.
Houve muito barulho do outro lado da linha. Ouviu vagamente Rachel estimulando o garotinho a dizer "Oi, papai".
- Oi, pa... pai! - disse Gage por fim.
- Oi, Gage - Louis respondeu cheio de alegria. - Como vai você? Como vão as coisas por aí? Já quebrou outro cachimbo do vovô? Espero que sim, rapaz. Quem sabe
desta vez você não estraga a coleção de selos?
Gage balbuciou satisfeito por mais ou menos trinta segundos, entremeando os resmungos e glugius com as poucas palavras identificáveis de seu crescente vocabulário:
mamãe, Ellie, vovô, vovó, carro (pronunciado com o melhor sotaque do norte, Louis observou e achou engraçado), xixi e coco.
Por fim, Rachei pegou o fone, provocando um grito de indignação de Gage e uma sensação de alívio no marido: ele gostava do filho e estava morrendo de saudades,
mas manter uma conversa com um menino que ainda não completara dois anos de idade era como jogar cartas com um lunático: as cartas podiam ir para qualquer lugar
e, de repente, você mesmo começava a atirá-las para trás.
- Tudo em ordem por aí? - Rachel perguntou.
- Tudo - Louis respondeu, desta vez sem qualquer hesitação...
Percebeu que já tinha cruzado a barreira quando Rachel perguntara se fora até a casa de Jud na véspera e respondera que sim. Em sua mente, ouviu Jud Crandall
dizer: O solo do coração de um homem é mais empedernido, ..... . Mas um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.
- Mas se quer saber, com toda a honestidade, está um pouco monótono. Saudades suas.
- Acha que vou mesmo acreditar que não está gostando de tirar umas férias da mulher e dos filhos.
- Oh, estou gostando do silêncio - ele admitiu -, é claro. Mas fica estranho depois do primeiro dia.
- Posso falar com o papai? - Era a voz de Ellie ao fundo.
- Louis? Ellie quer falar com você.
- Muito bem, passe o telefone para ela.
Conversou com Ellie por quase cinco minutos. A menina contou da boneca que a avô lhe dera, do passeio que fizera com o avô até os currais ("puxa, como eles cheiram
mal, papai", disse EIlie e Louis pensou: o cheiro de seu avô também não é dos melhores, meu bem), contou como ajudara a fazer pão e como Gage fugira da mãe quando
ela estava mudando sua roupa. Gage tinha corrido pelo corredor e caído na porta do escritório do avô (Cuidado Gage!, mas olhe quanta coisa bonita tem aí dentro!,
Louis pensou, um sorriso largo se abrindo no rosto).
Chegou realmente a acreditar que ia escapar do problema do gato - pelo menos naquela manhã - e ia pedir que Ellie chamasse de novo a mãe quando a menina perguntou:
- Como está oChurch, papai? Está sentindo a minha falta?
O sorriso desapareceu da boca de Louis, mas ele respondeu prontamente, num tom de perfeita despreocupação:
- Acho que está ótimo. Dei a ele um ensopado de carne que sobrou ontem à noite e depois mandei que fosse dormir. Hoje ainda não vi o Church, mas também estou
acordando agora.
Oh, rapaz, você daria um bom assassino... Fria como uma lagartixa. Quando viu pela últíma vez o morto, Dr. Creed? Ele veio para jantar. Tinha um prato de ensopado,
eu me lembro. Não o vi mais desde então.
- Bem, dê um beijo nele por mim.
- Eu não, beije você o Church - Louis brincou e a filha riu.
- Quer falar outra vez com a mamãe, papai?
- Quero. Passe o telefone pra ela.
E o assunto estava encerrado. Conversou por mais um ou dois minutos com Rachel, mas não houve menção do nome de Church. Trocaram beijos e abraços e Louis desligou.
- É isso aí - disse para o aposento vazio, ensolarado.
E o pior de tudo é que não se sentia mal, de fato não se sentia absolutamente culpado.


Steve Masterton telefonou por volta das nove e meia convidando Louis para jogar tênis na universidade: não havia ninguém lá, disse num tom vibrante; se quisessem,
podiam jogar o dia inteiro.
Louis entendia a vibração. Quando havia movimento na universidade, às vezes era preciso esperar dois dias por uma quadra de tênis. Mesmo assim, não aceitou o
convite, dizendo que precisava trabalhar num artigo para a Revista da Faculdade de Medicina.
- Tem certeza de que não quer jogar? - Steve insistiu. - Você sabe que trabalhar demais faz mal à saúde.
- Ligue mais tarde - disse Louis. - Quem sabe eu não mudo de idéia...
Steve disse que telefonaria de novo e desligou. Desta vez, Louis dissera apenas uma meia mentira; de fato pretendia trabalhar no artigo (que abordava o tratamento
de moléstias contagiosas, como catapora e mononudeose, no ambiente da enfermaria), mas a principal razão que o fez declinar da oferta de Steve foram as dores diversas
que estava sentindo. Tomara consciência delas assim que terminou de conversar com Rachel e foi para o banheiro escovar os dentes. Os músculos das costas pareciam
vergados, rangentes, os ombros estavam doloridos pelo esforço de carregar o gato naquete maldito saco de lixo, os tendões atrás dos joelhos pareciam cordas de guitarra
tocadas três oitavas acima do tom normal. Deus, ele pensou, e você tinha a estúpida impressão de que ainda estava em forma! Teria sido engraçado jogar tênis com
Steve, dobrando-se pra lá e pra cá como um velho com artrite.
E por falar em velhos, lembrou-se de que não fizera sozinho a caminhada da véspera; fora com um sujeito que se aproximava dos oitenta e cinco anos... Mas era
capaz de jurar que Jud estava menos dolorido que ele!
Passou uma hora e meia trabalhando no artigo, mas não conseguiu fazê-lo progredir. O vazio da casa e o silêncio começaram a mexer com seus nervos e, por fim,
empilhou as folhas de papel sulfite amarelo e alguns textos de consulta, xerocados, na prateleira sobre a máquina de escrever. Depois vestiu o casaco e atravessou
a estrada.
Jud e Norma não estavam em casa, mas havia um envelope com seu nome preso na porta da varanda. Tirou-o do percevejo e abriu-o com o polegar.
Louis,
A patroa e eu fomos a Bucksport fazer umas compras e dar uma olhada num armário de cozinha do Emporium Calorium que Norma anda de olho há séculos. Devemos almoçar
no McLeod e só voltaremos no final da tarde. Se quiser, venha até aqui, hoje à noite, para uma ou duas cervejas.
Sua família é problema seu. Não quero me meter na vida dos outros, mas se Ellie fosse minha filha, eu não teria pressa de dizer que o gato foi atropelado na
estrada... Por que não deixar ela aproveitar o passeio?
E por falar nisso, Louis, eu também não comentaria o que fizemos ontem à noite, pelo menos nas vizinhanças de Ludlow Norte. Há outras pessoas na cidade que conhecem
o velho cemitério micmac e há gente que enterrou ali os animais... Pode-se dizer que é uma outra parte do "Simitério" de Bichos. Acredite ou não, existe até um touro
enterrado lá em cima! O velho Zack McGovern, que viveu o resto de seus dias na Estrada de Stackpole, enterrou Hanratty, um touro premiado, no cemitério micmac. Foi
em 67 ou 68. Ha, ha, ha! Eu quase estourei a barriga de tanto rir quando ele me disse que tinha levado aquele touro lá pra cima com os dois filhos!.. . Mas por aqui,
Louis, as pessoas não gostam muito de falar do lugar e também não gostam que gente que consideram "de fora "faça comentários sobre ele... Não porque existam velhas
superstiç6es, de trezentos anos ou mais (embora elas existam, é claro), mas porque têm vergonha de admitir que acreditam nessas coisas; acham que qualquer sujeito
"de fora" ficaria rindo delas. É um comportamento absurdo, você não, acha? Não faz sentido, mas é um dado. Então, se quiser me fazer um favor, não comente a coisa
com ninguém, combinado?
Voltaremos a tocar no assunto, talvez hoje à noite, e vai compreender melhor, mas pode ter certeza de que agiu muito bem. Eu sabia que ia fazer a coisa direito.
Jud


P.S.: Norma não sabe o que diz o bilhete. Contei a ela outra história. Se não se importa, gostaria que ela não ficasse sabendo onde fomos ontem. Não é a primeira
mentira que conto à patroa em cinqüenta e oito anos de casamento. Acho que a maioria dos homens diz algumas mentiras às suas mulheres, mas você sabe, a maior parte
deles poderia confessá-las diante de Deus sem ter de abaixar os olhos.
Bem, passe por aqui à noite e vamos biritar um pouco.

J.
Louis continuou parado no último degrau da escada que conduzia à varanda de Jud e Norma, agora vazia, as confortáveis cadeiras de palhinha guardadas para a primavera
seguinte. Franzia a testa e olhava o bilhete. Não dizer a Ellie que o gato foi atropelado... Ele não tinha dito. Outros animais enterrados lá em cima? Superstições
de trezentos anos?
e vai compreender melhor.
Tocou a frase com o dedo e pela primeira vez deixou que sua mente voltasse a se concentrar no que tinham feito na noite anterior. A coisa já estava meio borrada
em sua memória, tinha uma textura difusa, como a de uma névoa de flocos de algodão, uma textura de sonho ou de ações executadas sob o efeito de drogas. Lembrava-se
de ter subido nos troncos caídos e do estranho brilho da luz no pântano; lembrava-se também que, lá, a temperatura parecia mais alta, cinco ou dez graus a mais...
Todas as lembranças, porém, eram como a conversa que se tem com o anestesista antes que ele nos desligue como se desliga um interruptor.
Acho que a maioria dos homens diz algumas mentiras às suas mulheres...
Às mulheres e também às filhas, Louis pensou; mas era fantástico como Jud parecia adivinhar o que se passara com ele naquela manhã, tanto no telefonema quanto
em sua mente.
Dobrou lentamente o bilhete (escrito numa folha de papel pautado, como o dos cadernos escolares) e colocou-o no envelope. Pôs o envelope no bolso da calça e
tornou a cruzar a estrada.

Era por volta de uma hora da tarde quando Church voltou como um gato de conto de fadas. Louis estava na garagem, onde há seis semanas vinha trabalhando num conjunto
um tanto ousado de prateleiras. Serviriam para guardar, fora do alcance de Gage, coisas como garrafas de óleo para limpar pára-brisas, preparados contra a neve e
ferramentas de pontas afiadas. Martelava um prego quando Church se aproximou, a cauda no ar. Não deixou cair o martelo nem acertou o dedo; o coração se contraiu
no peito, mas não começou a pular; um fio quente pareceu queimar-lhe por um instante o estômago mas logo esfriou (como o filamento de uma lâmpada que brilha muito
forte por um ou dois segundos e depois se apaga).Mais tarde diria a si mesmo que era como se tivesse passado toda a ensolarada manhã daquela sexta-feira esperando
que Church voltasse; como se,
numa região mais profunda, mais primitiva de sua mente, soubesse qual era o sentido de toda a caminhada noturna até o cemitério micmac.
Pousou o martelo devagar, cuspiu na palma da mão os pregos que segurava na boca e colocou-os no bolso do avental. Caminhou em direção a Church e suspendeu o
gato.
O peso normal, ele pensou com uma espécie de excitação mórbida. O mesmo que pesava antes de ser atropelado. Peso de um gato vivo. Estava mais pesado no
saco. Era mais pesado quando estava morto.
Desta vez, seu coração deu um tranco, saltou pela boca, e por um momento a garagem pareceu oscilar.
Church abaixou as orelhas e deixou que Louis o acariciasse. Louis o levou para o sol, sentando-se nos degraus da porta da cozinha. Então o gato quis ir para
o chão, mas Louis o abraçou, mantendo-o firme no colo. O coração pulava, mas de maneira cada vez mais regular.
Afundou a mão no pescoço peludo de Church, lembrando-se do modo nauseante como, na véspera, a cabeça do gato rolara sobre o pescoço quebrado. Agora sentia apenas
músculos saudáveis e tendões. Esticou Church e concentrou os olhos no focinho do animal.
O que viu fez com que deixasse o gato cair na relva, cobrisse o rosto com as mãos e fechasse os olhos. Tudo pareceu oscilar de novo; a vertigem o envolveu, fazendo-o
cambalear - era o tipo de sensação que já tivera no amargo fim de longas bebedeiras, pouco antes do vômito começar.
Havia sangue ressecado no focinho de Church, e nos bigodes compridos dois fragmentos pequenos de plástico verde. Pedaços do saco do inferno.
Voltaremos a tocar no assunto e vai compreender melhor...
Oh, meu Deus, ele já compreendia mais do que queria compreender.
Só falta um fio de cabelo, Louis pensou, para eu me ver no primeiro asilo de loucos.

Levou Church para dentro, pegou-lhe a vasilha azul de comida e abriu uma lata de ração de fígado e atum. Enquanto tirava da lata a mistura acinzentada, Church
ronronou e se esfregou de um lado para o outro nas suas pernas. O contato causou-lhe um arrepio; precisou apertar violentamente os dentes para não dar um chute no
animal. Os pelos pareciam lustrosos demais, espessos demais - numa palavra, repugnantes. Achou que nunca mais encostaria a mão em Church.
Quando se curvou para pôr a vasilha no chão, Church se atirou como um raio para pegá-la e Louis poderia jurar que ele tinha cheiro de terra, como se ainda houvesse
terra no pelo.
Recuou vendo o gato comer. Podia ouvi-lo mastigar. . . Será que Church sempre mastigara daquele jeito? Talvez, mas nunca tinha reparado. Sem dúvida era um som
desagradável. Grosso, Ellie diria.
Num impulso, Louís deu meia-volta e subiu para o andar de cima. Quando atingiu o alto da escada, estava quase correndo. Despiu-se e pôs toda a roupa na cesta
de roupa suja (embora a tivesse tirado da gaveta naquela manhã). Encheu a banheira de água quente, o mais quente que pôde suportar, e mergulhou.
O vapor se erguia à sua volta; podia sentir a quentura atuando nos músculos, afrouxando-os, atuando em sua cabeça, fazendo a tensão diminuir. Quando a
água começou a esfriar, sentiu-se sonolento e bem-disposto outra vez.
O gato voltou, um gato de conto de fadas: tudo bem, era isso, era um fato.
Fora apenas um equívoco. Ontem mesmo achara que, para um animal que tinha sido atropelado, as marcas no corpo de Church eram muito pequenas.
Ponderou:
Pense em todas as marmotas, em todos os cães e gatos que você já viu estirados nas estradas: corpos estraçalhados, vísceras espalhadas; pasta sem forma nem cores,
como diz Loudon Wainwright naquela música sobre um zorrilho morto.
Era evidente agora. Church levara um grande golpe e perdera os sentidos. O gato que conduzira até o velho cemitério micmac estava inconsciente, não morto. Não
se costuma dizer que um gato tem sete vidas? Graças a Deus, não tinha contado nada a Ellie! Melhor que ela nunca soubesse o quanto Church esteve perto da morte.
O sangue no focinho e no peito... O modo como a cabeça estava solta...
Mas era médico, não veterinário. Fizera um diagnóstico errado, só isso. As circunstâncias para um exame acurado não foram das melhores: o gato estatelado no
gramado de Jud sob uma temperatura de sete graus abaixo de zero, e já era quase noite fechada. Além do mais, estava usando luvas. Isso podia ter...
Urna sombra volumosa, disforme, se ergueu nos ladrilhos da parede. Corno a cabeça de um pequeno dragão ou de uma serpente monstruosa. Alguma coisa tocou-lhe
o ombro nu, algo que deslizava. Louis recuou num repelão, derramando água pela borda da banheira e encharcando o tapete de espuma. Depois se virou, o corpo contraído...
E defrontou-se com os olhos turvos, de um verde amarelado, do gato da filha. Church havia se empoleirado na tampa do vaso sanitário.
O gato parecia oscilar lentamente de um lado para o outro. Como se estivesse bêbado. Louis o fitava, repugnado, um grito contido pelos dentes cerrados. Church
nunca tivera aquela aparência, nem antes nem depois de ser castrado; nunca balançara, como uma cobra tentando hipnotizar sua presa. Pela primeira vez, assaltou-lhe
a idéia de que aquele seria um gato diferente, um gato que apenas se parecia com Church, um gato que entrara por acaso em sua garagem quando ele estava fazendo aquelas
prateleiras... O verdadeiro Church continuava enterrado sob um monte de pedras no penhasco do bosque.
Mas a fisionomia tinha os mesmos traços... Até a orelha raiada... E a pata com aquele jeito engraçado... Ellie esmagara um pedaço daquela pata na porta dos fundos
da pequena casa suburbana em que moravam. Na época, Church era pouco mais que um filhotinho.
Era Church, sem dúvida.
- Saia daqui! - Louis murmurou num tom áspero.
Church o encarou por mais alguns instantes (Deus, os olhos eram diferentes, tinham alguma coisa diferente!), e depois pulou da tampa do vaso. O pulo não teve
a agilidade tão comum nos gatos. Church pareceu cambalear desajeitadamente, o lombo batendo na banheira; depois foi embora.
Não é um gato, Louis pensou. É uma coisa. É uma coisa castrada, não esqueça!
Saiu da banheira e se enxugou depressa, vigorosamente. Tinha feito a barba e estava quase vestido quando o telefone tocou, ecoando na casa vazia. O barulho o
fez rodopiar, arregalar os olhos, levantar as mãos. Abaixou-as devagar. O coração disparava. Os músculos se enchiam de adrenalina.
Era Steve Masterton, ligando outra vez por causa do tênis. Louis acabou concordando em encontrá-lo no ginásio em uma hora. Realmente perdera toda a noção do
tempo e jogar tênis seria a última coisa do mundo que ia querer fazer, mas precisava sair de casa. Queria se afastar do gato, daquele gato misterioso cujo lugar
não era de modo algum ali.
Vestiu-se rapidamente, socou um short, uma camiseta e uma toalha na sacola de zíper e desceu correndo as escadas.
Church estava deitado no quarto degrau a contar de baixo. Louis saltou por cima do gato e quase caiu. Conseguiu agarrar o corrimão e escapou por um triz do que
podia ter sido uma queda fatal.
Quando chegou ao fim da escada, tinha a respiração convulsa, o coração aos pulos, a adrenalina vergastando através de seu corpo.
Church continuou lá, esticado... Parecia sorrir para ele.
Louis saiu. Podia ter colocado o gato na rua, mas não o fez. Até aquele instante, porém, não acreditava que conseguisse tocá-lo de novo.

Jud acendeu o cigarro com um fósforo da cozinha, sacudiu a chama e jogou o palito no cinzeiro de metal com um anúncio descorado de Jim Beam impresso no fundo.
- Sim, foi Stanley Bouchard quem me falou do lugar...
Fez uma pausa, meditando.
Diante deles, no xadrez do oleado que cobria a mesa da cozinha, havia copos de cerveja quase ainda nem tocados. Atrás, o aquecedor a óleo embutido na parede
estalou três vezes, vagarosamente; depois houve silêncio. Louis comera alguma coisa em companhia de Steve: sanduíches com muito molho no quase deserto Bear's Den.
Logo descobrira que quando se pede um cheeseburger, um cheesesalada ou um americano no Maine, ninguém sabe do que se está falando. É preciso pedir um sub ou um wopbur'
ger. Ai nos atendem.
De barriga cheia, ele começava a se sentir melhor. Era capaz de ver as coisas com mais clareza, mas ainda não se sentia nada ansioso para voltar àquela casa
escura e vazia onde o gato - vamos encarar o fato, rapaz! - podia estar, literalmente, em qualquer lugar.
Norma estivera um bom tempo com eles, vendo televisão e trabalhando num bordado que mostrava o sol caindo atrás de um pequeno templo do interior. A cruz na cumeeira
do telhado tinha uma silhueta negra contra o sol poente. Era para vender, disse ela, no leilão da igreja uma semana antes do Natal. O leilão era sempre um acontecimento.
Os dedos moviam-se com agilidade, espetando a agulha na fazenda, trabalhando o ponto dentro da moldura. Naquela noite, sua artrite era quase imperceptível. Louis
achava que podia ser o tempo, frio mas muito seco. Recuperara-se muito bem do ataque cardíaco e, ali na cozinha, menos de dez semanas antes do derrame cerebral que
iria matá-la, parecia menos pálida e até mais jovem. Louis podia perceber a bela moça que havia sido.
Às quinze para as dez, Norma deu boa-noite e Louis ficou sozinho com Jud, que parara de falar e parecia apreciar a fumaça do cigarro subindo mais e mais, como
um garoto contemplando um mastro de barbeiro* (*Poste listado de vermelho, azul e branco na porta de certas barbearias americanas para ver aonde vão as listas.)
Ë o símbolo da profissão de barbeiro. (N. do T.)
- Stanny ... . - Louis procurou estimulá-lo num tom delicado.
Jud piscou, parecendo voltar a si.
- Oh, sim - disse ele. - Todo mundo em Ludlow, e acho que também nos arredores de Bucksport, Prospect e Orríngton, chamava-o Stanny B. Foi no ano em que morreu
meu cachorro Spot, 1910, eu acho; a primeira vez que ele morreu. Stanny estava bem mais velho e não regulava muito bem. Não era só Stanny que sabia do cemitério
micmac, mas foi através dele que fiquei sabendo do lugar e ele ouviu a história do pai e o pai tinha ouvido do avô. Era uma família de franco-canadenses, eu me lembro.
Jud riu e sorveu a cerveja.
- Ainda posso ouvir ele falar com aquele sotaque inglês maluco. Me encontrou sentado atrás de uma cocheira que havia na Rodovia 15 (naquele tempo era só uma
estrada que ia de Bangor a Bucksport). A cocheira ficava bem no lugar onde hoje é a Orinco. Spot ainda não estava morto, mas ia ser morto... Meu pai me mandou buscar
um pouco de milho. Era o velho Yorky que vendia. Como a gente precisava tanto de milho quanto uma vaca precisa de um quadro-negro, percebi de cara porque ele me
mandou sair de casa.
- Ia matar o cachorro?
- Sabia como eu gostava do Spot, foi por isso que me mandou sair. Pedi o milho ao velho Yorky (o Yorky tomava conta da cocheira), e enquanto ele foi buscar me
sentei numa pedra de amolar que havia Lá atrás. Então abri um berreiro.
Jud balançou lenta e brandamente a cabeça, sorrindo.
- Então o velho Stanny B veio andando em minha direção - disse ele. - Metade das pessoas da cidade achava que era fraco da bola; as outras, que era perigoso.
Seu avô tinha sido um grande negociante e caçador de peles. Isso foi nos ido, de 1800.0 avô de Stanny andava de um lado pro outro, do Canadá a Derry e Bangor, chegando
às vezes a Skowhegan. Sempre negociando com peles, ou pelo menos foi o que me disseram. Guiava uma grande carroça coberta com lonas de couro cru. Era como aqueles
carroções dos vendedores ambulantes de drogas. A carroça tinha cruzes por todo lado, pois era um bom cristão e sempre que bebia demais proclamava a ressurreição
dos mortos. Era Stanny quem contava, Stanny gostava de falar do avô... Só que na carroça também havia amuletos pagãos dos índios. O velho acreditava que todos os
índios, não importa de que tribo, pertencem a uma única e grande tribo - a tribo perdida de Israel de que a Bíblia fala. Achava que a magia dos índios funcionava
porque, apesar de eles serem cães do inferno, eram também cristãos, por mais estranho e esquisito que pudesse parecer.
"0 avô de Stanny continuou comprando dos micmacs, continuou fazendo bons negócios com eles muito tempo depois que quase todos os caçadores e negociantes já tinham
ido para o oeste... porque não queriam negociar com os índios a um preço justo e porque, Stanny dizia, o velho sabia a Bíblia inteira de cor. Os mícmacs gostavam
de ouvi-lo repetir as palavras que os homens brancos diziam a eles antes da chegada dos caçadores de peles e dos lenhadores."
Jud ficou em silêncio. Louis esperou.
- Os micmacs falaram ao avô de Stanny B sobre um cemitério que não usavam mais porque o vendigo azedara o solo. Falaram também do Pequeno Pântano de Deus, dos
degraus e tudo mais...
Jud continuou:
- Naquele tempo, você podia ouvir as histórias do vendigo por todo o norte do país. Eram histórias que os índios tinham de ter, assim como precisamos de nossas
histórias cristãs. Norma me chamaria de herege se me ouvisse dizer isso, mas acredite, Louis, é verdade... Às vezes, se o inverno era muito longo e duro, e se a
comida era pouca, alguns índios tinham de enfrentar o beco sem saída de morrer de fome ou... ou fazer outra coisa...
- Canibalismo?
Jud balançou os ombros numa expressão de d(mvida.
- Quem sabe... Talvez pegassem alguém que já estivesse velho e não servisse pra mais nada a não ser dar um bom ensopado. Inventavam, então, que tinham sido
tocados por um vendigo que atravessou a aldeia ou acampamento quando todos estavam dormindo. Achavam que o vendigo dava a todos aqueles que tocava um gosto pela
carne de sua própria espécie.
Louis sacudiu a cabeça.
- Era como dizer que o diabo os mandava fazer isso.
- Exato. Em minha opinião, os micmacs que viviam aqui tiveram de fazer a coisa (uma ou duas vezes, até mesmo umas dez vezes ou uma dúzia de vezes) e enterravam
os ossos das pessoas que comiam lá em cima, no cemitério deles.
- Acharam então que o solo tinha se tornado uma coisa má - Louis murmurou.
- Pois é. E Stanny B veio vindo por trás da cocheira, acho que pra tirar uma soneca - disse Jud. - Era meio biruta mesmo. Herdou um milhão de dólares quando
o avô morreu, pelo menos é o que diziam, mas a única coisa que conseguiu na vida foi ser o bobo local. Ele me perguntou porque eu estava chorando, e eu contei. Então
Stanny disse que havia um meio de se dar um jeito nas coisas, mas só se eu tivesse coragem e tivesse certeza de que queria aquilo.
"Eu disse que daria tudo para Spot ficar vivo e perguntei se ele conhecia algum veterinário. 'Veterinário, eu não conheço', Stanny respondeu, 'mas sei como salvar
o cachorro, rapaz... Vá pra casa e mande o seu pai colocar o bicho num saco de farinha, mas não enterre, não enterre de jeito nenhum! Arraste o saco ate o "simitério"
de bichos e deixe o saco perto daquelas árvores caídas. Vá sozinho. Depois volte pra cá, depois que fizer tudo direito.'
"Eu perguntei pra que fazer isso e Stanny mandou que eu ficasse acordado naquela noite e saísse de casa quando ele atirasse uma pedra na janela. 'E vou fazer
isso à meia-noite, garoto...Se você esquecer Stanny B e dormir, o problema é seu! Stanny B também vai esquecer você, e então adeus cachorro, pode acreditar que ele
vai direto pro inferno!'"
Jud encarou Louis e acendeu outro cigano.
- Resolvi fazer o que Stanny mandou. Quando voltei, meu pai disse que metera uma bala na cabeça do Stop, pra ele parar de sofrer. Nem precisei falar do "simitério"
de bichos. Meu pai me perguntou se eu não achava que o Spot ia querer ser enterrado lá, e eu respondi que sim... Saí de casa arrastando o cachorro num saco de farinha.
O pai perguntou se eu queria ajuda e respondi que não, porque me lembrei do que Stanny B tinha dito.
"Fiquei acordado de noite... Pareceu uma eternidade. Você sabe como as crianças vêem essa coisa do tempo. Eu achava que já devia estar quase amanhecendo, mas
o relógio só batia dez horas, depois onze... Uma vez ou duas quase caí no sono, mas sempre voltava a ficar acordado e bastante alerta. Era como se alguém me sacudisse:
'Acorde Jud! Acorde!' Como se alguém ou alguma coisa quisesse ter certeza de que eu não ia mergulhar no sono."
Louis ergueu as sobrancelhas e Jud moveu os ombros com um ar de indiferença.
- Quando o relógio da sala, embaixo, bateu meia-noite, eu me levantei, me vesti e fiquei sentado na cama, a lua brilhando na janela. O problema é que o relógio
bateu meia-noite e meia, depois uma hora, e nada de Stanny B. Esse estúpido francês do Canadá se esqueceu de mim, pensei comigo. Estava começando a tirar de novo
a roupa quando duas pedras atingiram a janela, com força suficiente pra quebrar o vidro. De fato, uma das pedras rachou uma vidraça, mas só reparei na manhã seguinte,
e minha mãe só viu quando o inverno chegou, e achou que fora obra da neve.
"Voei até a janela e a suspendi com força. Era uma janela de guilhotina, que rangeu e fez um barulhão no batente. Acho que as janelas fazem sempre isso quando
se é criança e se quer sair de casa depois da meia-noite..
Louis riu, embora nunca tivesse pretendido sair de casa no meio da noite quando tinha apenas dez anos. No entanto, tinha certeza de que, se tivesse pretendido,
as janelas iam ranger como nunca seriam capazes de ranger à luz do dia.
- Achei que meu pai e minha mãe iam pensar que a casa estava sendo assaltada, mas quando meu coração parou de pular, ouvi o ronco do pai serrando madeira no
quarto. Olhei para fora e vi Stanny B. Estava na entrada da casa, olhando pra cima, o corpo balançando como num vendaval, embora não houvesse mais que um sopro de
brisa. Acho que ele nunca teria vindo se não atingisse aquele estágio de bebedeira em que se fica com os olhos arregalados, como uma coruja com diarréia, e não nos
importamos com nada... Stanny deve ter achado que estava sussurrando, mas abriu um berreiro: 'Ei, garoto, você vai descer ou será que tenho de ir aí em cima pegá-lo?'
"'Chiii!', eu coloquei o dedo na boca, morrendo de medo que o pai acordasse e me desse a maior surra da minha jovem vida. 'O que você disse?', Stanny perguntou,
ainda mais alto que antes. Se a janela do quarto dos meus pais desse para a estrada, eu estaria arruinado. A sorte é que dormiam no quarto que é hoje o meu quarto
e o de Norma, com vista pro rio."
- Aposto que desceu a escada como um foguete - disse Louis. -Será que tem outra cerveja, Jud?
Louis já passara dois copos de seu limite habitual, mas naquela noite não fazia mal. Naquela noite, parecia quase obrigatório beber um pouco mais.
- Se eu descesse a escada como um foguete, pode acreditar que me pegariam - disse Jud, acendendo outro cigarro. Esperou até Louis se sentar de novo. - Não, eu
não me atreveria a ir pela escada. Teria de passar na porta do quarto dos meus pais. Resolvi descer pelo caramanchão, me segurando aqui e ali, o mais depressa que
pude. Tive um pouco de medo, eu admito, mas depois que me vi a caminho do "simitério" de bichos com Stanny B, me esqueci até do pai.
Soltou a fumaça numa nuvem compacta.
- Subimos lá, nós dois, e acho que Stãnny B deve ter caído mais de meia dúzia de vezes. Estava realmente num porre feio. Cheirava como se tivesse mergulhado
num tanque cheio de uísque. Levava uma picareta e uma pá e, em determinado ponto, quase caiu de garganta em cima de um galho pontudo... Quando chegamos ao "smuterio"
de bichos, achei que fosse me atirar a picareta, a pá, e ir embora, me deixando sozinho pra cavar o buraco.
"Em vez disso, pareceu até ficar sóbrio, ao menos por um instante. Disse onde íamos, disse que íamos atravessar os troncos caídos e mergulhar no bosque, onde
havia outro local pra enterrar os mortos. Olhei para Stanny, que voltou a parecer tão embriagado que mal conseguia se manter em pé; depois olhei para as árvores
caídas: 'Não pode escalar isso aí, Stanny B', eu disse. 'Vai quebrar o pescoço.'
"E ele respondeu: 'Não vou quebrar meu pescoço, nada disso... Nem eu nem você. Posso andar muito bem e você pode arrastar tranqüilamente seu cachorro.' E estava
com a razão. Stanny deslizou como seda sobre os troncos, jamais olhando pra baixo. Consegui fazer o mesmo, arrastando Spot, embora ele estivesse pesando mais de
quinze quilos (eu pesava pouco mais de quarenta). Tenho de dizer a verdade, Louis: senti-me um tanto dolorido e empenado no dia seguinte. Será que hoje não é você
quem está se sentindo cansado?"
Louis não respondeu, só balançou a cabeça.
- Andamos e andamos - disse Jud. - O caminho parecia não ter fim. E os bosques pareciam mais freqüentados naquele tempo. Havia pássaros gritando nas árvores,
mas você não conseguia identificar de que espécie eles eram. Havia animais perambulando, provavelmente cervos. É claro que também devia haver alguns alces, ursos
e gatos-do-mato... Eu arrastava Spot. Após algum tempo, comecei a imaginar que o velho Stanny B tinha ido embora e e eu estava seguindo um índio. Seguindo um índio
que, de repente, se virou pra mim, os olhos muito negros e muito sorridentes, o rosto coberto com as listas daquela pintura fedorenta feita de gordura de urso. Também
imaginei que tinha um machado em forma de falcão, feito de pederneira, e uma bandeja de madeira e couro trançado. Achei que o índio havia me agarrado pela nuca e
me arrancado o cabelo... E junto com o cabelo foi a parte superior do crânio.
"O Stanny que parecia um índio não estava mais cambaleando nem caindo; andava na reta, com firmeza, cabeça erguida; era um tipo de andar corajoso, mas atento...
Quando chegamos à beira do Pequeno Pântano de Deus e ele se virou pra falar comigo, vi que era mesmo o Stanny, sem dúvida. Não cambaleava nem caía porque estava
assustado. Era o medo que o deixava sóbrio.
"Disse as mesmas coisas que lhe contei ontem à noite: falou das gralhas, do fogo-de-santelmo e mandou que eu não desse importância a nada que visse ou ouvisse.
'Principalmente', disse ele, 'não fale uma só palavra se alguém se dirigir a você'.. Então começaram a atravessar o pântano. E vi uma coisa. Não vou dizer o que
foi, Louis, mas acredite que já voltei lá umas cinco vezes desde aquele dia e nunca vi nada como aquilo. Nem vou ver, Louis, porque minha caminhada de ontem à noite
foi minha última jornada ao cemitério micmac."
N&o estou aqui sentado acreditando em tudo que ele diz, estou?, Louis perguntou a si mesmo, quase em voz alta, mas muito descontraído. As três cervejas o ajudavam
a parecer descontraído, pelo menos aos olhos de sua própria mente. Nâo estou aqui sentado engolindo essa histôria de cemitérios indígenas, um velho francês do Canadá,
uma coisa chamada vendigo, bichos que voltam a viver, não é? Pelo amor de Deus, o gato estava desmaiado, só isso. Um carro o atropelou e ele DESMAIOU - nem mais,
nem menos. O resto são divagações senis de um velho, mais nada!
Exceto que não era bem assim e Louis sabia que não era bem assim. Três cervejas não iam alterar o fato, trinta e três cervejas também não.
Em primeiro lugar, Church estivera morto; em segundo lugar, estava vivo agora; por fim, havia algo de fundamentalmente diferente no animal, algo essencialmente
errado com ele. Alguma coisa tinha acontecido. Jud retribuíra o que, no seu entender, fora um favor... Mas a medicina do cemitério micmac talvez não fosse das melhores,
e agora Louis percebia que algo nos olhos de Jud dizia que o velho tinha consciência disso. Louis pensou no que tinha visto - ou julgou ter visto - no rosto de Jud
na noite anterior. Era um brilho de travessura e contentamento, mas muito desagradável. Já lhe passara pela cabeça que a decisão de levá-lo naquela jornada noturna
para enterrar o gato da filha podia não ter partido inteiramente de Jud.
Mas se não partiu dele, de quem partiu?, sua mente perguntava. Não encontrando resposta, Louis tirava da cabeça a interrogação.
- Enterrei o Spot e construí o monumento - Jud continuou num tom monótono. - Quando concluí o trabalho, Stanny B havia adormecido. Precisei sacudi-lo como diabo
para fazer com que se levantasse; mas quando acabamos de descer aqueles quarenta e quatro degraus...
- Quarenta e cinco - Louis murmurou.
Jud balançou a cabeça.
- Sim, é isso, não é? Quarenta e cinco... Quando acabamos de descer aqueles quarenta e cinco degraus, ele já caminhava com bastante firmeza. Como se tivesse
voltado a ficar sóbrio. Voltamos atravessando o pântano, o bosque e os troncos caídos. Finalmente cruzamos a estrada e chegamos à casa. Eu achava que deviam ter
passado dez horas, mas ainda era noite fechada.
"'O que vai acontecer agora?' - perguntei a Stanny B. 'Agora você vai esperar e vai ver o que acontece', disse Stanny e foi embora, de novo cambaleando, o corpo
guinando de um lado pro outro. Deve ter dormido atrás da cocheira naquela noite... O fato é que meu cachorro Spot sobreviveu dois anos a Stanny B. Depois o fígado
estragou e o envenenou. Foi encontrado por dois garotinhos, na estrada, a 4 de julho de 1912, duro como um pedaço de pau.
"Quanto a mim, a única coisa que fiz foi escalar o caramanchão, cair na cama e adormecer quase no mesmo instante em que encostei a cabeça no travesseiro".
"Na manhã seguinte, só me levantei às nove. Minha mãe estava chamando por mim. O pai trabalhava na estrada de ferro e tinha saído de casa às seis horas."
Jud fez uma pausa, meditando:
- Minha mãe não estava só chamando por mim, Louis. Estava gritando o meu nome.
Jud foi até a geladeira, apanhou uma pequena garrafa de cerveja e abriu-a na alça da gaveta de uma mesinha onde havia um cesto de pão e uma torradeira. Seu rosto
parecia amarelado sob a lâmpada do teto; tinha a cor da nicotina. Tragou metade da cerveja, arrotou como um tiro de canhão e deu uma olhada no corredor, para ver
se Norma estava mesmo dormindo. Virou-se de novo para Louis.
- Pra mim é difícil falar sobre isso - disse. - A coisa ficou revirando na minha mente, anos e anos, mas nunca contei a ninguém. Tem gente que sabe o que aconteceu,
mas nunca comentou comigo. As pessoas se portam do mesmo jeito nas coisas de sexo, eu acho. Estou contando a você, Louis, porque você tem agora um tipo diferente
de bicho na sua casa. Não necessariamente um bicho perigoso, mas.., diferente. Já notou?
Louis lembrou-se do modo como Church pulara desajeitadamente do vaso sanitário, o lombo batendo na banheira; lembrou-se dos olhos embaçados, um olhar quase,
mas não inteiramente estúpido, cravado sobre ele.
Balançou afirmativamente a cabeça.
- Quando cheguei ao andar de baixo, minha mãe estava encostada num canto da copa, entre a geladeira e a mesa. No chão, havia um monte de fazenda branca, cortinas
que ela pretendia pendurar. Spot, meu cachorro, estava de pé na soleira da porta. Tinha sujeira por todo o corpo e manchas de lama subindo pelas patas. O pelo da
barriga estava imundo, todo enroscado e cheio de nós. Ele simplesmente estava ali, nem rosnando nem nada, mas simplesmente ali. Acho, no entanto, muito compreensível
que tivesse acuado minha mãe, pretendesse ou não fazer isso. Ela parecia aterrorizada, Louis. Não sei até que ponto você gostava dos seus pais, mas eu sei o quanto
gostava dos meus: eu os adorava. Saber que tinha feito uma coisa que deixava minha mãe tão apavorada tirou toda a alegria que senti ao ver o Spot na porta... Se
bem que não fiquei muito espantado ao vê-lo chegar...
- Entendo o que está dizendo - Louis interrompeu. - Quando vi o Church hoje de manhã, simplesmente... pareceu que era uma coisa....
Ele fez uma pausa. Perfeitamente natural? Aquelas foram as palavras que lhe vieram à cabeça, mas não eram as palavras certas.
- Pareceu que era uma coisa esperada.
- Exatamente - disse Jud acendendo um novo cigarro. Suas mãos tremiam um pouco. - O fato é que minha mãe me viu ali, ainda de pijama, e gritou: 'Dê comida ao
seu cachorro, Jud! Ele precisa ser alimentado... Tire-o daqui antes que ele suje as cortinas!'
"Então pus algumas sobras de comida na vasilha do Spot e o chamei".
A princípio ele não veio... Era como se não conhecesse o próprio nome e eu quase pensei: bem, este não é o Spot, é algum cachorro da rua parecido com o Spot, mas
não é ele.
- Sim! - Louis exclamou.
Jud sacudiu a cabeça.
- Mas na segunda ou terceira vez que chamei, ele veio. Deu uma espécie de bote na minha direção; quando o quis levar para a varanda ele bateu com força na porta
e quase caiu de quatro. Mas devorou a comida; comeu como um lobo. A esse tempo o susto inicial já tinha passado e eu
começava a fazer uma idéia do que havia acontecido. Eu me ajoelhei e abracei o Spot, estava muito contente em vê-lo de novo. Então, ele lambeu o meu rosto e...
Jud estremeceu e acabou a cerveja.
- Louis, a língua dele estava fria. Ser lambido pelo Spot era como esfregar um peixe morto no rosto.
Por um momento nenhum dos dois falou. Louis quebrou o silêncio:
- Continue.
- O Spot comeu. Quando vi que estava satisfeito, levei-o para uma banheira velha que guardávamos para ele no telheiro dos fundos. Dei-lhe um banho. Spot sempre
detestara tomar banho, geralmente era preciso eu e meu pai para dar banho nele; no fim, ficávamos com a camisa fora da calça e toda a roupa ensopada, o pai xingando
e Spot parecendo meio envergonhado, como fazem os cachorros. Na maioria das vezes, rolava no chão assim que saía do banho e depois corria para perto do varal onde
minha mãe estendia a roupa, sacudia-se e respingava sujeira por todos os lençóis que ela havia pendurado. A mãe gritava pra nós dois que, antes de ficar de cabelos
brancos, ia atirar aquele cachorro nas mãos do primeiro que passasse na rua.
"Mas, naquele dia, o Spot se sentou tranqüilamente na banheira e deixou que eu o lavasse. Não fez o menor movimento e eu não gostei nada daquilo. Era como..
como lavar um pedaço de carne. Depois do banho, peguei uma toalha velha e o enxuguei. Pude ver os lugares onde o arame farpado o ferira... Não havia pelo em nenhum
desses pontos e a carne parecia meio franzida. Era como se as feridas tivessem cicatrizado há cinco anos ou mais."
Louis balançou a cabeça. Em seu trabalho, já encontrara essas coisas de vez em quando. A ferida nunca parecia fechar completamente. Isso o fez pensar em túmulos,
nos dias que passou como aprendiz de agente funerário - e como nunca havia terra suficiente para tampar de novo o buraco.
- Então vi a cabeça dele. Tinha havido outra ferida ali, perto da orelha, mas o pêlo voltou a crescer; era um pêlo branco que formava um pequeno círculo.
- Foi onde seu pai deu o tiro - Louis conduiu.
Jud confirmou.
- Um homem ou animal que recebe um tiro na cabeça não tem uma morte assim tão certa, Jud. Há gente que tentou se matar desse jeito e agora vive nas enfermarias
dos hospitais ou mesmo andando por ai, firme como o diabo... Uma bala pode atingir a placa do crânio, viajar em volta dele num semicfrculo e sair do outro lado sem
chegar a penetrar no cérebro. Eu mesmo vi o caso de um sujeito que deu um tiro acima da orelha direita, mas a bala contornou o cérebro e só o matou porque rasgou
a veia jugular, lá do outro lado da cabeça. A trajetória dessa bala parecia mais um mapa rodoviário de estradinhas municipais.
Jud sorriu.
- Acho que soube da história por um dos jornais de Norma, o Star ou o Enquirer, um deles... Mas se o meu pai disse que o Spot estava morto, Louis, pode ter certeza
que era verdade.
- Muito bem - disse Louis -, se você diz que é assim, por que não acreditar?
- O gato de sua filha tinha mesmo morrido?
- Eu achei que sim.
- Mas não teve certeza? É médico!
- Você parece estar dizendo: "Tem de ter certeza, Louis. É Deus!" E eu não sou Deus. Estava escuro...
- Certo, estava escuro, mas a cabeça dele girou no pescoço... E quando você o puxou, ele foi arrancado do chão congelado, Louis. Como um pedaço de fita gomada
puxado da madeira. Coisas que estão vivas não fazem isso. Você só pára de derreter o gelo onde está estendido quando já morreu.
Na sala, o relógio bateu dez e meia.
- O que o seu pai disse quando chegou em casa e viu o cachorro? -Louis perguntou.
- Eu estava do lado de fora, jogando bola de gude no chão, de certa forma à espera dele. Me sentia como se tivesse feito alguma coisa errada e soubesse que,
provavelmente, ia levar uma surra. O pai apareceu no portão por volta das oito horas, usando o macacão com avental e o boné de aba comprida... Sabe como é o boné?
Louis fez que sim, depois abafou um bocejo com as costas da mão.
- Sim, está ficando tarde - disse Jud. - Vou acabar logo a história.
- Não é que esteja ficando tarde - disse Louis. - Eu é que estou algumas cervejas acima da minha marca. Continue, Jud. Não tenha pressa. Quero saber o que aconteceu.
Meu pai tinha uma velha marmita onde levava o almoço - disse Jud. - Atravessou o portão com ela balançando, vazia, na mão. Assobiava alguma coisa. Estava escurecendo,
mas me viu ali. Eu tinha o olhar meio triste e ele disse: 'O que andou aprontando, Judkins?', e depois: 'Cadê sua...,

"Foi então que o Spot saiu da escuridão. Não vinha correndo como costumava fazer, pronto para pular sobre o pai, dar-lhe uma lambida, mas apenas andando, abanando
a cauda. Meu pai deixou cair a marmita e deu um passo atrás. Aposto que se nã batesse com as costas na cerca pontuda, teria dado meia-volta e caído. Ficou parado
ali, contemplando o cachorro. E vendo que o Spot não ia pular pra lhe fazer festa, pegou-o gentilmente pelas patas e suspendeu-o um pouco - era como se pegasse as
mãos de uma dama para dançar uma valsa. Ficou muito tempo olhando para o cachorro. Depois se virou pra mim: 'EIE. precisa de um banho, Jud. Está com cheiro da terra
em que você o enterrou.' Ai entrou em casa.
- E o que você fez? - Louis perguntou.
- Dei-lhe outro banho. Como da outra vez, ele se sentou tranqüilamente na banheira enquanto eu o lavava... Quando entrei em casa, minha mãe tinha ido deitar,
embora ainda não fosse nem nove horas ..... . Então o pai falou: 'Temos de conversar, Judkins.' Eu me sentei na frente dele e ele me tratou como adulto pela primeira
vez na vida. O cheiro da madressilva atravessava a estrada vindo do terreno onde agora é a sua casa; o cheiro das rosas vinha daqui mesmo.
Jud Crandall suspirou.
- Sempre achei que seria bom se ele conversasse comigo daquele jeito, mas não foi. Não foi nada bom. Hoje, Louis, eu tenho a estranha sensação de estar vivendo
uma história que já se repetiu muitas vezes. É como olhar num espelho que está na frente de outro espelho e reflete sua imagem por todo um corredor de novos espelhos.
É uma história que deve ter sido sempre a mesma, exceto pelos nomes... É como quando faz alguma coisa de sexo, não é?
- Seu pai compreendeu o que se passou com Spot?
- Sim. E sabia de tudo. 'Quem o levou lá em cima, Jud?', ele me perguntou, e eu contei. Só balançou a cabeça, como se tivesse suas suspeitas confirmadas. Sem
dúvida, desconfiou de Stanny, embora naquele tempo já houvesse em Ludlow seis ou oito pessoas que poderiam ter me levado até lá. Mas acho que teve certeza de que
Stanny B era o único sujeito louco o bastante para realmente fazer aquilo.
- Você não perguntou por que ele mesmo não o levou até lá Jud?
- Perguntei - Jud respondeu. - Nüm momento daquela longa conversa, eu fiz a pergunta. E ele respondeu que era um mau lugar, muito deserto. E que freqüentemente
não fazia qualquer coisa boa pelas pessoas que tinham perdido seus bichos nem pelas pessoas nem pelos bichos. Ele me perguntou se eu gostava do Spot do modo como
ele era antes e, você pode imaginar, Louis, que tive um certo receio de responder... É importante que me compreenda bem... Mais cedo ou mais tarde, acho que vai
me perguntar por que o 1evei até lá, se isso era uma coisa que não se devia fazer. Não é verdade?
Louis concordou. Como Ellie ia encarar Church ao voltar? A dúvida não lhe saíra da cabeça enquanto jogava tênis com Steve Masterton naquela tarde.
- Talvez eu tenha feio isso porque acho que as crianças precisam aprender que às vezes a morte é melhor - disse Jud com alguma hesitação.
- É uma coisa que sua Ellie não sabe, e tenho o pressentimento de que talvez ela não saiba porque sua mulher também não sabe. Ainda vai poder me dizer se
estou errado ou não.
Louis abriu a boca, mais fechou-a de novo.
Jud continuou, agora falando devagar, parecendo saltar de palavra a palavra, como tinha saltado de elevação em elevação no Pequeno Pântano de Deus, na noite
anterior.
- Tenho visto isto acontecer pelos anos afora - disse. - Acho que já lhe contei que Lester Morgan enterrou um touro premiado lá em cima. Um touro escocês
preto, chamado Hanratty. Parece nome de touro?... Bem, o bicho morreu por causa de uma espécie de úlcera, e Lester arrastou-o num trenó até o cemitério micmac Não
sei como conseguiu, não sei como conseguiu passar pelos troncos caídos, mas se costuma dizer que nada é impossível. E pelo menos no que diz respeito àquele cemitério,
acho que é verdade.
Bem Hanratty. voltou, mas Lester o matou com um tiro, duas semanas depois.O touro se
tornara traiçoeiro, realmente traiçoeiro. Mas foi o único animal com quem isso aconteceu. A maioria deles ficam apenas... um pouco estúpidos..., um pouco lentos...
um pouco..."".
- Um pouco mortos?
- Sim. - disse Jud - Um pouco mortos. Como se tivessem estado... em algum lugar... e voltado...mas não inteiramente. Sua filha, Louis, no entanto não vai
saber de nada disso. Isto é, não vai saber que o gato foi atropelado, morreu e voltou. Já sei que você está pensando que não se pode ensinar uma lição a uma criança
a menos que a criança saiba que há uma lição a aprender.Mas...
- Mas às vezes acontece - disse Louis, mais para si mesmo que para Jud.
- Sim - Jud concordou - às vezes acontece. Talvez ela aprenda alguma coisa sobre o que a morte realmente é:o ponto onde a dor cessa e as boas memórias
começam. Não é o fim da vida, mas o fim da dor. Você não vai lhe dizer isto, é claro; ela pode descobrir por si mesma.
"E se ela for como eu estou pensando, continuará a gostar muito do gato. Church não vai se tornar perverso, morder, nem nada disso. Ela vai continuar a amá-lo...
Mas vai tirar suas conclusões. E dará um suspiro de alívio quando ele finalmente morrer".
- Foi por isso que me levou até o cemitério micmac? - Louis perguntou.
Sentia-se melhor agora. Tinha urna explicação. Era obscura, dirigia-se mais à lógica das impressões nervosas que a lógica da mente racional, mas naquelas circunstâncias
achou que era aceitável. Isso significava que podia esquecer a expressão que, na véspera, julgou ter visto brevemente no rosto de Jud, aquela alegria travessa e
sinistra.
- Sim, foi por isso...
Bruscamente, quase agressivamente, Jud cobriu o rosto com ambas as mãos. Por um segundo, Louis achou que estivesse sendo vitima de alguma dor súbita e começou
a se levantar da cadeira, preocupado. Viu então a ondulação convulsa no peito de Jud e percebeu que o velho lutava para não chorar.
- Foi por isso e não foi - disse numa voz estrangulada, abafada. -Fiz isso pela mesma razão que Stanny B fez , pela mesna razão que Lester Morgan fez. Lester
levou Linda Lavesque até lá em cima depois que o cachorro dela foi atropelado na estrada. Levou até lá, embora tenha precisado sacrificar o touro, porque ele corria
pelo pasto atrás das crianças, como se estivesse louco. Mesmo assim a levou atélá, mesmo assim, Louis -Jud quase gemeu. - O que, pelo amor de Deu, você pode deduzir
de tudo isso?
- Jud, do que você está falando? - Louis perguntou, alarmado.
- Lester fez isso e Stanny fez isso pela mesma razão que eu fiz. Você fez isso porque a coisa se apoderou de você. Agiu daquela maneira porque aquele cemitério
é um lugar secreto e você queria compartilhar do segredo. Quando a gente encontra uma razão que parece suficientemente boa, ora... - Jud tirou as mãos do rosto e
encarou Louis com olhos que pareciam incrivelmente velhos, incrivelmente pálidos. - Então resolvemos ir em frente e fazer a coisa... Inventamos razões... E elas
sempre parecem boas razões... Mas, em geral, agimos assim simplesmente porque queremos. Ou porque temos de agir assim. Meu pai não me levou até cemitério micmac
porque só tinha ouvido falar dele; não tinha ido até lá. Mas Stanny B fora até ... . e me levou. Se passaram setenta anos... E então... de modo totalmente inesperado...
Jud sacudiu a cabeça, levou a mão à boca e tossiu.
- Escute - disse ele -, escute, Louis. Pelo que eu sei, o touro de Lester foi o único animal que ficou realmente perverso. Mas acho que o pequinês de Linda Lavesque
pode ter mordido o carteiro uma vez, depois que voltou... Também ouvi algumas outras histôrias... Animais que ficaram um tanto desagradáveis... Mas Spot sempre foi
um bom cachorro. Tinha sempre um cheiro de terra, não importa quantas vezes eu desse banho nele; tinha sempre um cheiro de terra... Mas era um bom cachorro. Depois
daquilo minha mãe nunca mais encostou a mão nele, mas sem dúvida era um bom cachorro... Escute, Louis, se quiser pegar o gato hoje à noite e mata-lo, não vou contar
nada a ninguém .......
"Aquele lugar... toma conta de você da forma mais inesperada possível.. E você inventa as mais diferentes explicações do mundo... Mas eu posso ter errado, Louis.
É o que estou lhe dizendo. Lester podia estar errado. Stanny B podia estar errado. Diabo, eu não sou Deus. Trazer a morte de volta para a vida... Isto é mais ou
menos se fazer de Deus, você não acha?"
Louis abriu outra vez a boca, mas tornou a fechá-la. O que ia falar soaria errado, errado e cruel. Jud sô vou conseguir superar isso tudo quando matar de novo
esse maldito gato.
Jud acabou sua cerveja e arrumou-a cuidadosamente junto às outras cervejas vazias.
- Eu acho que sim - ele concluiu. - Bem, já disse o que precisava dizer.
- Posso lhe fazer mais uma pergunta? - disse Louis.
- Faça - disse Jud.
- Alguém já enterrou uma pessoa lá em cima?
O braço de Jud tremeu convulsivamente, duas garrafas de cerveja caíram da mesa e uma delas quebrou.
- Deus nosso Senhor! - ele exclamou. - Não! E quem faria uma coisa dessas? Nem devia fazer essa pergunta, Louís!
- Pura curiosidade - disse Louís, pouco à vontade.
- Não é bom ser curioso a respeito de certas coisas - retrucou Jud CrandalL
Pela primeira vez, Jud pareceu realmente velho e acabado aos olhos de Louis Creed: como se estivesse à beira de seu túmulo, um túmulo aberto e pronto para recebê-lo.

E depois, em casa, mais uma coisa veio à mente de Louis sobre o aspecto de Jud naquele momento.
Parecia que ele estava mentindo.

Louis só percebeu que estava embriagado quando chegou à garagem.
Lá fora havia um céu estrelado e um luar um tanto frio. Não era um luar suficientemente luminoso para lançar uma sombra, mas iluminava a estrada.
Assim que entrou na garagem, Louis não enxergou mais nada. Havia um interruptor em algum lugar, más não conseguia se lembrar onde. Foi avançando lentamente,
arrastando os pés, a cabeça rodando, antecipando uma dolorosa pancada no joelho. Teve medo de esbarrar num dos brinquedos das crianças, ouvi-lo cair, tropeçar nele.
O velocípede de Ellie com rodas vermelhas. O robô de Gage.
Onde estaria o gato? Será que tinha deixado Church dentro de casa?
Seu corpo oscilou para um dos lados e jogou-o contra a parede. A ponta de um cano atingiu-o na palma da mão; ele gritou "Merda!" para o escuro ao seu redor,
percebendo pelo som da palavra que estava mais assustado que enfurecido. A garagem parecia ter virado de pernas pro ar. Agora não era apenas o interruptor de luz;
agora já não sabia onde estava porra nenhuma, inclusive a porta da cozinha.
Recomeçou a andar, devagar, a palma da mão doendo. Ser cego é assim, pensou, o que o fez lembrar de um concerto de Stevie Wonder que assistira com Rachel.. Quando?
Há seis anos? Parecia incrível, mas já devia ter sido há seis anos. Na época, ela estava grávida de ElIie. Dois rapazes conduziram Stevie Wonder ao sintetizador,
guiando-o por entre os cabos que se enroscavam no palco. E mais tarde, quando Stevie se levantou para dançar com uma das cantoras do coro, a moça soube levá-lo cuidadosamente
para um espaço desimpedido. Dançou muito bem, Louis se recordava, mas, para fazê-lo, teve de ser conduzido a um espaço adequado.
E que tal a mão de alguém para me levar até a porta da cozinha?, ele pensou e, bruscamente, estremeceu.
Se algum tipo de mão saísse naquele momento do escuro, ele gritaria muito - muito, muito, muito!
Ficou imóvel, o coração batendo forte.
Vamos lá, disse para si mesmo. Pare com essa palhaçada. Venha logo, venha.. -
Onde, afinal, estava a merda do gato?
Então bateu em alguma coisa... No para-choque traseiro da camionete.
A dor começou abaixo do joelho, percorreu todo o corpo e os olhos umideceram. Agarrou a perna e esfregou, equilibrando-se como uma garça na outra perna, mas em compensação
descobriu onde estava, a geografia da garagem voltou a se fixar com nitidez na sua mente; além disso, a vista estava se acostumando à escuridão e já distinguia o
ambiente num tom arroxeado. Sim, deixara o gato dentro de casa, lembrava-se agora. Realmente não quisera se aproximar dele, pegá-lo, tirá-lo de casa e...
E foi então que o corpo peludo e quente de Church escorregou oleoso em seu pé, como um vagaroso redemoinho d'água. Depois veio a cauda repulsiva, enroscando-se
na barriga da perna dele como serpente traiçoeira.E aí Louis gritou. Abriu bem a boca e gritou.


- Papai! - Ellie gritou.
Desceu correndo a rampa de desembarque na direção dele, fazendo ziguezague entre os passageiros como um artilheiro na grande área. A maior parte das pessoas
ia abrindo caminho, sorrindo. Louis ficou um tanto embaraçado pelo ardor da filha, mas acabou sentindo um grande, imenso sorriso se estampando também no seu rosto.
Rachei trazia Gage no colo, e quando Ellie gritou o menino viu o pai.
- Paaai! - ele se manifestou efusivamente, começando a pular nos braços de Rachel. Ela sorriu (um pouco cansada, Louis pensou) e pôs Gage no chão. O garoto começou
a correr atrás de Ellie, as pernas bamboleando com rapidez. - Paaai! Paaai!
Louis observou que o filho usava um casaco que ainda não vira, com certeza presente do avô. Então Ellie se arremessou contra ele, subiu por ele acima corno se
Louis fosse uma árvore.
- Oh, papai! - a menina berrou e deu um caloroso beijo em seu rosto.
- Oi, meu bem - disse ele curvando-se para pegar Gage. Pôs o garoto na curva do braço, abraçou-o e suspendeu-o junto com Ellie. - Como estou contente em
ter vocês de volta!
Rachel se aproximou. Num dos braços a bolsa e a sacola de viagem, no outro, a sacola de fraldas de Gage. Eu vou crescer logo estava impresso na sacola de fraldas,
visando antes o ânimo dos pais que as intenções da criança. Rachel parecia uma fotógrafa profissional ao término de longa e estafante missão.
Louis se curvou entre os filhos e beijou-a na boca.
- Oj.
- Oi, doutor - ela respondeu e sorriu.
- Você parece esgotada.
- Estou esgotada. Chegamos a Boston sem nenhum problema. Fizemos a conexão sem nenhum problema. Decolamos sem problemas. Mas quando o avião começou a se aproximar
daqui, Gaga olhou pela janela, disse "bonito, bonito" e vomitou na roupa toda.
- Oh, Deus.
- Mudei a roupa dele no banheiro do avião - disse Rachel. - Não deve ser nenhum vírus nem nada desse tipo. Só um enjôo aéreo.
- Vamos pra casa - disse Louis. - Tenho uma carne assada no forno.
- Carne assada! - Ellie gritou no ouvido do pai, cheia de prazer e agitação.
- Assada! Sada! - Gage gritou no outro ouvido de Louis, o que, pelo menos, equalizou a ressonância.
- Vamos indo - disse Louis. - Vamos pegar as malas e ir pra casa.
- Papai, como está o Church? - Ellie perguntou quando Louis a pôs no chão.
Louís esperava a pergunta, mas não contava com o rosto ansioso de Ellie, a profunda ruga de preocupação que apareceu entre seus olhos muito azuis. Louis franziu
a testa e olhou para Rachel.
- Ela acordou gritando neste fim de semana - explicou calmamente a mulher. - Teve um pesadelo.
- Sonhei que Church tinha sido atropelado - disse Ellíe.
- Acho que foi um excesso de sanduíches de peru no Dia de Ação de Graças - disse Rachel. - Teve um pouco de diarréia também. Mas passou logo, não se preocupe.
Vamos sair deste aeroporto. Esta semana me fartei de aeroportos pelos próximos cinco anos.
- Ora, Church está ótimo, querida - Louis respondeu pausadamente.
Sim, está ótimo. Ronda o dia inteiro pela casa e fica me olhando com aqueles olhos estranhos, turvos - como se tivesse visto alguma coisa que tenha feito explodir
quase toda a sua inteligência de gato. Está muito bem! À noite, coloquei-o fora de casa com uma vassoura, porque não gosto de encostar a mão nele. Mas consegui varrê-lo
e ele saiu. Outro dia, quando abri a porta da sala, Ellie, tinha um rato na boca, ou pelo menos o que sobrou do rato. Engolira as tripas todas, como desjejum. E
por falar em desjejum, eu vomitei o meu naquela manhã. Quanto ao mais...
- Ele está ótimo!
- Ah - disse Ellie e o sulco entre os olhos se dissipou. - Ainda bem. Quando eu tive aquele sonho, fiquei achando que ele tinha morrido.
- Foi mesmo? - Louis perguntou e sorriu. - Os sonhos são engraçados, não são?
- Sooonho! - Gage gritou. Atingira o estágio de papagaio que Louis já conhecia dos primeiros anos de Ellie. - Sooonho!
Puxou com força o cabelo do pai.
- Vamos lá, pessoal - disse Louis, e foram todos para o setor de bagagem.
Já tinham chegado à camionete no estacionamento quando Gage começou a dizer "bonito, bonito" com uma voz estranha, soluçante. Desta vez, vomitou em cima de Louis,
que pusera uma calça nova de lã para receber a mulher e os filhos. Gage parecia achar que bonito era a palavra-código para eu tenho de vomitar agora, sinto muito,
mas abram caminho.
Afinal, devia ser algum vírus.
Durante os vinte e seis quilômetros do aeroporto de Bangor à casa deles em Ludlow, Gage começou a mostrar sinais de febre e caiu numa desagradável sonolência.
Quando Louis deu a ré para entrar na garagem, viu, pelo canto do olho, Church deslizar furtivamente por cima de um muro, a cauda no ar, olhos estranhos fixados no
carro. O gato desapareceu nas sombras do crepúsculo e, logo a seguir, Louis notou um camundongo de barriga aberta ao lado de uma pilha de quatro pneus (ele trocara
os pneus da camionete enquanto Rachel e os meninos estavam fora). Sob o ültimo clarão de luz do sol entrando na garagem, as tripas do camundongo tinham um rude brilho
cor-de-rosa.
Louis saltou e esbarrou de propósito na pilha de pneus, arrumados um sobre o outro como peças de um jogo de damas. Os dois pneus de cima cairam e cobriram o
rato.
- Opa! - ele exclamou.
- Você é um desastrado, papai - disse Ellie num tom carinhoso.
- Acho que tem razão - Louis concordou numa espécie de bom humor febril. Teve vontade de dizer bonito, bonito e vomitar tudo que havia em seu estômago.
- O papai é um desastrado...
Louis lembrava que Church só tinha morto um rato antes daquela esquisita ressurreição; às vezes acuava um camundongo e brincava com o bicho, daquela fatal maneira
felina que acaba em destruição, mas ele, a filha ou Rachel sempre intervinham antes do fim. E sabia que, quando um gato é castrado, dificilmente faria mais do que
conceder ao camundongo um olhar de interesse, pelo menos estando bem-alimentado.
- Você vai continuar aí sonhando ou fará a gentileza de me ajudar com este menino? - Rachel perguntou. - Volte do Planeta Mongo, Dr. Creed. Aqui na Terra há
gente que precisa de você.
Rachel parecia cansada e irritada.
- Desculpe, meu bem - disse Louis.
Circundou o carro para pegar Gage, que parecia quente como brasa num fogão de lenha. ele, a filha e a mulher comeram sua famosa carne assada com tempero
à moda do Sul; Gage ficou reclinado no sofá da sala, febril e apático, sorvendo na mamadeira uma canja de galinha e vendo desenhos animados na tevê.
Depois do jantar, Ellie foi até a porta da garagem e chamou por Church. Louis, que lavava os pratos enquanto Rachel desfazia as malas no andar de cima, achou
que o gato não viria, mas ele veio... Veio caminhando naquele passo lento, quase imediatamente, como se - como se - estivesse emboscado lá fora. Emboscado! A palavra
assaltou de imediato a mente de Louis.
- Church! - Eliie gritou. - Oi, Church!
A menina pegou o gato e abraçou-o. Louis observava pelo canto do olho; as mãos, que antes remexiam no fundo da pia em busca de algum talher esquecido, ficaram
imóveis. Viu a expressão de contentamento no rosto da filha ir aos poucos se transformando num certo ar de perplexidade.
O gato jazia tranqüilo em seus braços, orelhas baixas, os olhos nos dela.
Após algum tempo - pareceu muito tempo - a menina pôs Church no chão. O gato foi se afastando para a sala de jantar sem olhar para trás.
Carrasco de casnundongos, Luís pensou distraído. Deus, o que fizemos naquela noite?
Tentou honestamente se recordar, - mas tudo já parecia muito longínquo, vago e obscuro como a agitada morte de Victor Pascow no chão do vestíbulo da enfermaria.
Podia lembrar torrentes de vento cruzando o ar e o brilho branco da neve no terreno atrás da casa que levava aos bosques. Mais nada.
- Papai? - Ellie chamou numa voz baixa, contida.
- O que é, meu bem?
- Church tem um cheiro engraçado.
- É mesmo? - Louis perguntou, a voz cuidadosamente neutra.
- É! - Ellie respondeu perturbada. - Tem mesmo! Nunca teve esse cheiro antes! Parece um cheiro de... Parece um cheiro de lama!
- Bem, talvez tenha se esfregado no chão, querida - disse Louis. -Seja lá o que for, vai perder esse cheiro.
- Eu espero que sim - disse Ellie num timbre cômico de matrona. Depois saiu da cozinha.
Louis encontrou o último garfo, lavou-o e destampou a pia. Ficou ali parado, contemplando a noite lá fora enquanto a água oleosa escorria pelo ralo com um forte
ruído de sucção.
Quando o ralo parou de fazer barulho, pôde ouvir o vento, não muito impetuoso, mas constante, vindo do norte, trazendo o inverno. Então, percebeu que estava
com medo, simplesmente, estupidamente com medo, do modo como se tem medo quando uma nuvem cruza subitamente o sol e ouvimos, em algum lugar, uma batida que não sabemos
identificar.
- Trinta e nove e meio? - Rachel perguntou. - Meu Deus, Lou! Você tem certeza?
- É uma virose - disse Louis.
Procurou não deixar que a voz de Rachel, parecendo quase acusadora, lhe irritasse os ouvidos. Ela estava cansada. Fora um dia longo, cruzara metade do país com
os meninos. Eram onze horas da noite e o dia ainda não terminara. Ellie dormia profundamente em seu quarto. Gage estava na cama deles, num estado que podia ser mais
bem descrito como semiconscíente. Louis medicara o filho uma hora antes.
- A aspirina vai fazer a febre cair de manhã, querida.
- Não vai lhe dar um antibiótico ou qualquer coisa assim?
Pacientemente, Louis explicou:
- Se fosse um resfriado ou uma infecção da garganta, eu lhe daria isso. Mas não é. O que ele tem é uma virose e os antibióticos não funcionam muito bem nesses
casos. Poderiam provocar uma diarréia e desidratá-lo ainda mais.
- Tem certeza de que é uma virose?
- Bem, se quiser uma segunda opinião - Louis falou irritado -, chame outro médico.
- Não precisa gritar comigo! - disse Rachel em voz alta.
- Eu não estava gritando!
- Estava - Rachel insistiu -, você estava gri-gri-gritando...
Os lábios da mulher começaram a tremer; ela pôs as mãos no rosto. Louis percebeu que havia olheiras fundas e escuras sob seus olhos e ficou com remorsos.
- Desculpe - disse ele, sentando-se a seu lado. - Meu Deus, não sei o que está havendo comigo. Me perdoe, Rachel.
- Esqueça, tudo bem - disse Rachel, sorrindo palidamente. - Você não me disse uma vez que viajar era uma droga? Bem, foi uma droga... Fiquei com medo que você
bronqueasse quando desse uma espiada nas gavetas do Gage... Acho que talvez seja melhor contar agora, enquanto está
sentindo pena de mim.
- Porque bronquear?
Ela repetiu o sorriso amarelo.
- Minha mãe e meu pai compraram dez casacos novos para o Gage.
Ele estava usando um deles hoje.
- Reparei que estava de roupa nova - Louis disse laconicamente.
- Vi que reparou - ela respondeu e torceu o rosto numa careta cômica que o fez rir, embora não sentisse nenhuma vontade de rir. - ... E seis vestidos novos para
Ellie.
- Seis vestidos! - ele disse, sufocando o ímpeto de berrar. De repente, sentia-se furioso, morbidamente furioso, e ofendido de uma forma que não podia explicar.
- Por quê, Rachel? Por que deixou que seu pai fizesse isso? Nós não precisamos... Podemos comprar...
Ele se calou. A raiva o deixara sem voz e, por um momento, viu-se carregando o gato de Ellie através dos bosques, passando o saco plástico de uma para outra
mão... E enquanto isso, Irwin Goldman, aquele filho da puta de Lake Forest, tentava comprar a afeição de Ellie sacando o famigerado talão de cheques e acionando
a famigerada caneta...
Por um instante, esteve à beira de explodir:
Ele comprou seis vestidos e eu trouxe o maldito gato de volta depois que estava morto... Quem gosta mais dela?
Sufocou as palavras. Nunca poderia dizer aquilo. Nunca.
Rachel encostou suavemente a mão na sua nuca.
- Louis - disse. - Foram os dois juntos. Por favor, tente compreender. Por favor. Gostam muito das crianças e não têm muito Contato com elas, você mal reconheceria
meu pai.Pode acreditar.
- Eu o reconheceria muito bem - Louis murmurou.
- Por favor, querido. Procure compreender. Tente ser gentil. Isso não humilha você.
Ele a encarou por um longo tempo.
- Humilha sim - acabou dizendo. - Talvez você não entenda, mas humilha.
Rachel abriu a boca para responder. Foi então que Ellie gritou de seu quarto:
- Papai! Mamãe! Alguém!
Rachel se levantou bruscamente, mas Louis sentou-a de novo.
- Fique aqui com o Gage, eu vou ver...
Já desconfiava qual era o problema. Mas tinha posto o gato lá fora, maldição! Depois que Ellie foi deitar, surpreendera Church na cozinha farejando perto da
vasilha de comida e colocou-o lá fora. Não queria o gato dormindo com a filha. Não queria mais. Estranhos pensamentos de doença, misturados a lembranças da agência
funerária do tio Carl, tinham-lhe ocorrido ao imaginar o gato dormindo na cama de Ellie.
Ela vai perceber que há algo errado, que antes Church era melhor.
Pusera o gato na rua, mas quando entrou no quarto, Ellie estava sentada na cama, semi-adormecida, e Church esparramado sobre a colcha, como uma sombra achatada.
Os olhos do gato estavam abertos e brilhavam com ar estúpido à luz que vinha do corredor.
- Papai, tira ele daqui - Ellie quase gemeu. - Ele está cheirando tão mal.
- Chiii, Ellie, durma! - disse Louis, espantado com a calma da própria voz. Lembrou-se da manhã após o incidente de sonambulismo, o dia que se seguiu à morte
de Pascow. Chegou à enfermaria e foi direto para o banheiro olhar-se no espelho, convencido de que devia estar com uma cara terrível. Mas tinha uma aparência perfeitamente
normal. Não podia deixar de imaginar quanta gente havia, andando por aí, com segredos medonhos trancados no peito.
Isto não é um segredo, maldição! É apenas um GATO!
Ellie tinha razão. Ele estava cheirando muito mal.
Tirou o gato do quarto da menina e levou-o para o andar de baixo, tentando respirar pela boca. Havia cheiros piores: merda era pior, colocando as coisas sem-cerimônia.
Há um mês enfrentara um problema com a fossa. Jud veio ver Puffer & Sons bombeando a fossa e comentou: "Este perfume não é dos melhores, não acha, Louis?" O cheiro
de uma ferida gangrenada - que o velho Dr. Bracermunn, da faculdade de medicina, chamava "carne apimentada" - também era pior. Até o cheiro que vinha do transformador
da Civic quando ela ficava muito tempo parada era pior.
Mas, sem dúvida, era um cheiro bastante desagradável. E afinal, como o gato conseguira entrar? Ele o pusera para fora, varrendo-o com a vassoura quando todo
mundo estava no andar de cima. Aquela era a primeira vez que realmente segurava o gato desde que o viu comer no dia do seu retorno, quase há uma semana. Parecia
quente em seus braços, imóvel como um doente. Louis se perguntou: Que buraco você encontrou para entrar, seu sacana?
Pensou no sonho daquela noite... Pascow simplesmente atravessando a porta entre a cozinha e a garagem.
Talvez não houvesse qualquer buraco. Talvez ele simplesmente tivesse passado através da porta, como um fantasma.
- Esqueça isso - murmurou alto, num tom ligeiramente áspero.
Então, repentinamente, Louis teve certeza de que o gato começaria a arranhá-lo, a lutar em seus braços. Mas Church continuava absolutamente imóvel, irradiando
aquele estúpido calor e aquele cheiro nojento, fitando o rosto de Louis como se pudesse ler os pensamentos que lhe corriam atrás dos olhos.
Abriu a porta e atirou o gato na garagem, talvez com um pouco de violência.
- Fique ai fora - disse ele. - Mate outro rato ou qualquer coisa assim!
Church atingiu o solo desajeitadamente, o traseiro elevando-se como um calombo e depois desmoronando. Pareceu atirar a Louis um olhar de raiva, esverdeado, feio.
Depois foi se afastando num passo embriagado e desapareceu.
Deus me livre, Jud, ele pensou, mas se eu matasse gostaria que ficasse mesmo de boca fechada.
Foi até a pia da cozinha e lavou as mãos e os braços com vigor, como se estivesse fazendo a assepsia para uma operação. Você fez isso porque a coisa se apoderou
de .... . Inventou raz6es... E elas sempre parecem boas ....... Mas fez isso principalmente porque se já esteve lá em cima, aquele é o seu lugar, você pertence a
.... . E inventa as mais perfumadas razões do mundo...
Não, não podia censurar Jud. Fora por sua própria vontade e não podia censurar Jud.
Fechou a torneira e começou a enxugar as mãos e os braços.
Subitamente a toalha parou de se mover e ele encarou o que tinha à frente: o pequeno pedaço de noite emoldurado pela janela da pia.
Então isto significa que agora é o meu lugar? Que também é meu?
Não. Não se eu não quiser.
Pendurou a toalha no cabide e subiu as escadas.
Rachel estava deitada, as cobertas puxadas até o queixo e Gage bem agasalhado a seu lado. Pousou os olhos no marido com um ar de desculpas.
- Você se importa, querido? Só por esta noite? Vou me sentir melhor com ele do meu lado. Está tão quente.
- Não - disse Louis. - Tudo bem. Vou pegar a cama de abrir lá embaixo.
- Você realmente não se importa?
- Não. Isso não fará mal nenhum a Gage e vai fazer você se sentir melhor.
Ele fez uma pausa e sorriu.
- Mas você também vai pegar a virose. É quase certo. Acho que isso não a fará mudar de idéia, de acordo?
Ela devolveu o sorriso e balançou a cabeça.
- Por que Ellie estava fazendo aquele alvoroço?
- Church. Queria que eu tirasse Church de lá.
- Ellie queria que você tirasse Church de lá? É inacreditáveL
- Sim, é - Louis concordou, acrescentando: - Disse que ele estava cheirando mal; e também achei que está um tanto perfumado. Deve ter se esfregado em algum canteiro
ou coisa parecida.
- Isso é muito estranho - disse Rachel, virando de lado na cama.
- Acho que Ellie teve mais saudades de Church que de você.
- Pois é - disse Louis. Ele se curvou e beijou-a suavemente na boca.
- Durma, RacheL
- Eu te amo, Lou. Estou muito contente de estar novamente em casa. E desculpe por eu dormir com Gage.
- Tudo bem - disse Louis, apagando a luz.


No andar térreo, pegou as almofadas do sofá, montou a cama de abrir e procurou se preparar mentalmente para uma noite com as molas do estrado enfiadas nas costas.
Pelo menos, havia um lençol na cama; escaparia dos arranhões do colchão. Tirou dois cobertores da prateleira mais alta do armário do corredor e esticou-os na cama.
Começou a despir-se...
Acha que Church entrou de novo? Ótimo... Dê um giro pela casa e verifique. Não fará mal nenhum, como você disse a Rachel. Pode ser até bom. Dar uma olhada para
ver se as portas estão bem fechadas não vai fazê-lo pegar nenhuma virose.
Andou lentamente pelo andar de baixo, verificando se as portas e janelas estavam trancadas. Sem dúvida, tinha fechado tudo e não viu Church em lugar algum.
- Vamos ver - disse ele. - Vamos ver você entrar esta noite, seu gato estúpido.
Isto foi seguido por um desejo mental de que as bolas de Church congelassem lá fora. Se bem que Church não tivesse, é claro, mais nenhuma.
Apagou as luzes e foi deitar. Quase imediatamente começou a sentir o estrado nas costas. Estava jurando que ficaria metade da noite acordado quando adormeceu.
Dormiu confortavelmente, deitado de lado na cama de abrir, mas quando despertou...
estava no cemitério indígena além do "simítério"de bichos. Desta vez, sozinho. Desta vez ele mesmo matara Church e, por algum motivo, decidira fazê-lo de novo
reviver. Por quê, só Deus sabia, não Louis. Enterrou Church numa cova mais profunda e Church não conseguia sair de dentro dela. Podia ouvir o gato miando em algum
lugar debaixo da terra, um miado que mais parecia um choro de criança. O som atravessava os poros do solo, filtrava-se pela camada pedregosa... O som e o cheiro,
aquele cheiro terrivelmente enjoativo de podridão, decomposição. O simples fato de respirá-lo fazia com que sentisse o peito pesado, como se houvesse um peso em
cima dele.
O choro... O choro...
O choro ainda continuava...
E o peso ainda estava sobre seu peito.
- Louis!
Era a voz de Rachel, o tom alarmado.
- Louis, quer vir aqui?
Estava mais do que alarmada; estava verdadeiramente assustada. O choro parecia engasgado, abafado. Era Gage.
Abriu os olhos e deu com os olhos verde-amarelados de Church. A menos de dez centímetros dos dele, O gato se aninhara em seu peito, enroscado como um bichinho
de estimação de um comovedor romance para moças. O cheiro fluía em ondas doentias, lentas. Church ronronava.
Louis teve uma exclamação de susto e mal-estar. Estendeu ambas as mãos num gesto instintivo de defesa. Church caiu da cama com um baque surdo, batendo com o
lombo no chão e se afastando com aquele passo cambaleante.
Jesus! Jesus! Ele estava em cima de mim! Oh, Deus, ele estava bem em cima de mim!
Não sentiria maior aversão se acordasse com uma aranha na boca. Por um instante, achou que ia vomitar.
- Louis!
Afastou os cobertores e tropeçou para a escada. Uma luz fraca saía pela porta de seu quarto. Rachel estava de pé, no alto da escada, com a camisola de dormir.
- Louis, ele está vomitando de novo... Engasgando com o vômito... Estou assustada.
- Pronto, já vou - disse ele aproximando-se do corredor e pensando: conseguiu entrar. De alguma forma conseguiu entrar. Pelo porta, só pode ser. Talvez haja
alguma janela quebrada lá embaixo. Tem de haver uma janela quebrada. Vou ver isso amanhã quando voltar. Diabo, posso ver antes mesmo de ir para o trabalho! Posso...
Gage parou de chorar e começou a fazer um desagradável e abafado som gargarejante.
- Louis! - Rachel gritou.
Louis andou rápido. Gage estava deitado de lado e vomitava na toalha velha que Rachel colocara perto dele. Vomitava, mas não muito. O maior problema era nos
pulmões: Gage ia ficando roxo com um início de asfixia.
Louis agarrou o menino pelas axilas, percebendo o quanto o filho estava quente sob o macacão felpudo. Virou-o de cabeça para baixo, para fazê-lo arrotar. Depois
se inclinou para trás e sacudiu-o. O pescoço do menino balançou convulsivamente. Antes tossiu em voz alta e depois arrotou. E uma surpreendente rajada de vômito,
quase sólido, espalhou-se pela mesa-de-cabeceira e pelo chão. Gage começou a chorar de novo: um som estridente, consistente, mas que foi música para os ouvidos de
Louis. O filho só poderia gritar daquele jeito se estivesse absorvendo um suprimento ilimitado de ar.
Os joelhos de Rachel vergaram e ela se deixou cair na cama, as mãos segurando a cabeça. Tremia violentamente.
- Ele quase morreu, não foi, Louis? Ele quase mo-mo-mo... Oh,
meu Deus...
Louis andava em volta do quarto com o filho nos braços. Os gritos de Gage iam se transformando num choro lamuriento;já estava quase dormindo de novo.
- Tinha noventa e nove por cento de chances de conseguir sair dessa sozinho, Rachel. Só dei uma ajuda.
- Mas ele esteve perto - disse Rachel.
Levantou um olhar opaco para o marido. Parecia atônita, como se não pudesse acreditar que aquilo tinha acontecido.
- Louis, ele esteve tão perto.
Subitamente Louis se lembrou de Rachel gritando na cozinha ensolarada:
Ele não vai MORRER, ninguém vai MORRER por aqui...
- Querida - disse Louis -, nós todos estamos próximos. Sempre estamos perto.
Sem dúvida, o último acesso de vômito tinha sido causado pelo leite. Gage acordara por volta da meia-noite, disse ela, mais ou menos uma hora depois de Louis
ter ido dormir, com seu "choro de fome". Rachel dera-lhe uma mamadeira. Cochilou um pouco enquanto ele estava bebendo. Cerca de uma hora depois, o acesso de vômito
começou.
- Não dê mais leite - disse Louis, e Rachel concordou, quase com humildade. - Nada de leite!
À5 duas e quinze, Louis tornou a descer, e passou quinze minutos procurando o gato. Durante a busca, viu que a porta ligando a cozinha com o porão estava entreaberta,
exatamente como ele suspeitara. Lembrou-se de sua mãe lhe falando de um gato que aprendera a abrir aqueles trincos antigos, como o daquela porta. O gato simplesmente
subia no corrimão da escada e batia com a pata na maçaneta da porta até conseguir abrir o trinco. Um truque muito esperto, Louis pensou, mas não pretendia deixar
que Church se acostumasse a executá-lo. Afinal, a porta do porão também tinha uma fechadura...
Encontrou Church cochilando sob o fogão e sem-cerimônia, colocou-o fora de casa. A caminho da cama de abrir, fechou de novo a porta do porão.
E desta vez, fez a chave girar na fechadura.
De manhã, a temperatura de Gage estava quase normal. Embora a palidez do rosto ainda fosse muito intensa, o menino tinha um brilho de animação no olhar e parecia
cheio de vida. Muito depressa, praticamente em uma única semana, seu balbuciar sem sentido convertera-se num amontoado de palavras; repetia quase tudo que ouvia.
Ellie se esforçava para ensiná-lo a dizer "merda".
- Diga merda, Gage - Ellie mandava, comendo um mingau de aveia.
- Merda, Gage - o menino respondia satisfeito diante de seu próprio pratinho de mingau. Louis permitira o mingau de aveia, mas Gage teria de comê-lo com pouco
açúcar. Como de hábito, Gage parecia usá-lo mais para lavar a cabeça do que para comer.
Ellie morria de rir.
- Diga peido, Gage.
- Pei-Gage - disse Gage abrindo um sorriso, o mingau de aveia espalhado no rosto. - Pei e merda.
Ellie e Louis explodiram numa gargalhada. Era impossível não rir.
Rachel não parecia tão satisfeita.
- Acho que essa conversa é bastante vulgar para logo de manhã -disse ela, servindo os ovos de Louis.
- Merda e pei e pei e merda - Gage entoava com alegria e EIlie ria tampando a boca. O lábio de Rachel contorceu-se um pouco e Louis achou que ela parecia cem
por cento melhor que na véspera, apesar de não ter dormido bem. Grande parte daquilo seria simplesmente alivio, Louis supôs. Gage estava melhor e ela estava em casa.
- Não diga isso, Gage - Rachel exclamou.
- Bonito - disse Gage, para variar, e vomitou em sua tigela todo o cereal que tinha comido.
- Oh, que coisa grossa ! - Ellie gritou e fugiu da mesa.
Louis então explodiu de rir. Não pôde evitar. Riu até chorar e chorou até voltar a rir de novo. Rachel e Gage olhavam-se como se ele tivesse ficado maluco.
Não, Louis podia ter dito a eles. Andei meio maluco, mas acho que agora vou ficar bom. Acho mesmo.
Não sabia se tudo estava acabado ou não, mas se sentia como se tudo estivesse em ordem; e talvez isso fosse suficiente.
E, pelo menos durante algum tempo, foi suficiente.

A virose de Gage durou uma semana, depois passou. Mas daí a mais uma semana, o garoto voltou a cair de cama com um princípio de bronquite. Ellie também a pegou
e depois Rachel; durante os dias que antecederam o Natal, os três andaram pela casa ofegantes como velhos e asmáticos cães de caça. Louis não pegou a doença e Rachel
parecia quase ressentir-se disso.
A última semana de aulas na universidade foi bem agitada para Louis, Steve, Surrendra e Charlton. Não havia a gripe espanhola - pelo menos ainda não -, mas muita
bronquite, além de vários casos de mononucleose e pneumonia galopante. Dois dias antes das aulas serem encerradas por causa do Natal, seis rapazes do diretório estudantil
foram conduzidos à enfermaria. Estavam embriagados e gemiam. Alguns instantes de confusão lembraram terrivelmente o caso de Pascow. Todos os seis bobalhões tinham
se apinhado no tobogã mecânico de razoável extensão (na realidade, pelo que Louis pôde deduzir, os seis tinham feito uma fila indiana, sentando-se nos ombros uns
dos outros). E assim, começaram a escorregar pelos altos e baixos do tobogã. Hilariante. Exceto que, após ganhar uma boa velocidade, a esteira do tobogã saiu dos
eixos e bateu num dos canhões da Guerra Civil que havia no pátio. O resultado foi um pulso, dois braços, uma cabeça e nada menos de sete costelas quebradas, além
de contusões demasiado numerosas para serem computadas. Só o rapaz que vinha no fim da fila escapou sem um arranhão. Quando o tobogã bateu no canhão, aquela alma
afortunada voou pelos ares e pousou de cabeça num monte de neve. Encaixar todos aqueles ossos não tinha sido nada engraçado. Enquanto engessava, enfaixava e punha
esparadrapos nos rapazes, Louis repreendia-os severamente. Mais tarde, no entanto, quando contou a Rachel o que tinha acontecido, riu novamente até chorar. Rachel
contemplou-o com um ar de estranheza, não entendendo o que podia ser tão engraçado. Louis não poderia dizer-lhe que aquilo fora um acidente sem maiores conseqüências.
As pessoas tinham se ferido, mas todas superariam o problema com facilidade. Seu riso era em parte alívio da tensão, mas era também um riso de triunfo... Mais uma
vitória hoje, Louis.
Os casos de bronquite na família começaram a melhorar quando, a 16 de dezembro, a escola de Ellie suspendeu as aulas para os feriados do Natal. Todos os quatro
se prepararam para desfrutar um feliz e antiquado Natal provinciano. A casa de Ludlow Norte, que parecera tão estranha naquele dia de agosto quando entraram no caminho'
que conduzia ao galpão-garagem (estranha e até hostil, com Ellie se machucando e, quase ao mesmo tempo, Gage sendo mordido por uma abelha), nunca fora mais aconchegante
que agora.
Na véspera de Natal, após as crianças irem dormir, Louis e Rachel escapuliram para o andar de baixo como ladrões, os braços cheios de caixas coloridas: carros
para Gage, que recentemente descobrira o prazer de brincar com aquelas máquinas de brinquedo, as bonecas Barbie e Ken para Ellie, um jogo de varetas, um enorme trenó,
roupinhas de boneca, um fogão de brinquedo com uma luzinha no forno e outras coisas.
Louis e Rachel sentaram-se lado a lado sob as lâmpadas da árvore de Natal Remexeram os presentes com satisfação, Rachel num macio pijama de seda, Louis de roupão.
Não podiam lembrar de já terem passado uma noite tão agradáveL A lareira estava acesa, e de vez em quando um deles se levantava para atiçar o fogo.
Winston Churchíll roçou uma vez na perna de Louis e ele empurrou o animal com uma repugnância quase distraída... Aquele cheiro. Mais tarde, viu Church tentando
se instalar perto de Rachel, mas a mulher também o empurrou com uma exclamação impaciente: "Passa!" Logo a seguir, viu Rachel esfregando a palma da mão no pijama,
como se costuma fazer quando tocamos alguma coisa suja ou portadora de micróbios. Achou que ela fazia aquilo inconscientemente.
Church deslizou para junto da lareira e esticou-se desajeitadamente diante do fogo. O gato parecia ter perdido tudo que tivera de gracioso; perdera tudo naquela
noite, uma noite que Louis raramente se permitia lembrar. E Church também perdera outra coisa. Louis tinha consciência disso, mas levou um mês inteiro para percebê-lo
com exatidão. O gato não possuía mais aquele rosnado, aquele ronco de motor, particularmente nítido quando estava dormindo. Havia noites em que Louis precisava se
levantar e fechar a porta do quarto de Ellie para conseguir pegar no sono.
Agora o gato dormia como uma pedra. Como um animal morto.
Não, ele se lembrou, houve uma exceção: à noite em que despertou numa cama de abrir com Church enroscado em cima do peito, como um cobertor fedorento. . . Naquela
noite, Church tinha ronronado. Ou, pelo menos, produzira algum som.
Mas como Jud Crandall vira muito bem (ou adivinhara), as coisas não eram assim tão más. Louís encontrou uma janela quebrada no porão, atrás da fornalha. Ao consertá-la,
o vidraceiro fez com que poupassem alguns dólares de combustível para o aquecimento. Achou que, por ter chamado sua atenção para a vidraça quebrada (coisa que podia
ter levado semanas, até meses, para descobrir), Church não deixava de merecer sinceros agradecimentos.

Ellie não queria mais dormir com o gato, é verdade, mas às vezes, quando estava assistindo tevê, deixava Church subir em seu colo e cochilar. Nem sempre, porém,
Louis pensou, remexendo no saco de peças de plástico que serviam para montar o trenó da filha. Às vezes o afugentava: "Vá embora, Church, você está cheirando mal."
Mas dava-lhe comida regularmente, e com carinho. Mesmo Gage não estava livre de dar ao velho Church um eventual puxão na cauda. . . Aquilo era um gesto de amizade,
não de malvadeza, Louis estava convencido: Gage parecia um velho monge puxando uma felpuda corda de sino. Nessas ocasiões, Church se arrastava apaticamente para
baixo de um dos aquecedores, onde o menino não poderia alcançá-lo.
Podíamos ter notado mais diferenças se fosse um cachorro, Louis pensou, mas os gatos são sempre animais tão independentes... Independentes e estranhos. Misteriosos
mesmo. Não era de admirar que as rainhas e faraós do velho Egito quisessem ter os gatos mumificados e instalados com eles nas tumbas triangulares para servirem de
guias no Outro Mundo. Sem dúvida, os gatos eram muito estranhos...
- Como está se saindo com esse trenó, chefe?
Louis mostrou o produto acabado.
- Está pronto!
Rachel apontou para o saco, que ainda tinha três ou quatro peças de plástico.
- E essas?
- São peças sobressalentes. - disse Louis com certo ar de culpa.
- E melhor que sejam mesmo. A menina pode quebrar o pescoço.
-Isso só mais tarde - Louis retrucou maliciosamente. - Quando tiver doze anos e começar a fazer exibições em seus novos patins.
Rachel gemeu.
- Vamos lá, doutor, tenha pena!
Louis esticou o corpo, pôs a mão nas costas e flexionou o tronco. A espinha estalou.
- Aí estão os brinquedos.
- E todos montados! Lembra do ano passado?
Ela riu e Louis também. No ano anterior, praticamente tudo que compraram teve de ser montado. Os dois ficaram de pé até as quatro da madrugada. Acabaram exaustos
e mal-humorados. E lá pelo meio da tarde do dia seguinte, Ellie achou que as caixas dos brinquedos eram mais interessantes que os próprios brinquedos.
- Que coisa grossa! - disse Louis, imitando a filha.
- Bem, vamos deitar - disse Rachel - Também vou lhe dar um presente de Natal...
- A mulher - disse Louis, ficando finalmente de pé - de quem eu gosto mais.
- Não seja tão mentiroso - disse ela, escondendo um riso com as mãos. Naquele momento, ficou assombrosamente parecida com Ellie ....... e com Gage.
- Só um minuto - disse Louis. - Tenho de fazer mais uma coisa.
Foi até o armário do corredor e pegou uma de suas botas. Tirou a grade da frente da lareira, onde o fogo ia se apagando.
- Louis, o que...
- Você vai ver.
No lado esquerdo da lareira já não havia fogo, só uma grossa camada de cinzas escura e fofa. Louis cravou a bota em cima, deixando uma marca profunda. Depois
usou a bota como um grande carimbo de borracha, fazendo pegadas.
- Ai está - disse ele, depois de pôr de novo a bota no armário. - Gosta?
Rachel estava rindo de novo.
- Louis, Ellie vai ficar maluca com isso!
Durante as duas últimas semanas de aula, Ellie ouvira rumores inquietantes no jardim de infância de que os pais é que eram o Papai NoeL A idéia fora reforçada
por um Papai Noel um tanto magricela que vira numa lanchonete da Alameda Bangor. O Papai Noel estava sentado no balcão, a barba para o lado, comendo um cheeseburguer.
Aquilo deixou Ellie bastante perturbada (talvez mais o cheeseburguer que a barba postiça), apesar de Rachei assegurar-lhe que os Papais Noéis das lojas e dos grupos
do Exército da Salvação eram realmente "auxiliares" enviados pelo verdadeiro Noel. Este estava muito ocupado, no Pólo Norte, completando relações de brinquedos e
lendo cartas de crianças chegadas na última hora. Não tinha de se envolver em trabalhos de relações públicas nas ruas.
Louis tornou a colocar cuidadosamente a grade da lareira. Agora havia duas nítidas pegadas de botas ali, uma nas cinzas e outra na borda da fornalha. As duas
se voltavam para a Arvore de Natal, como se o Papai Noel tivesse descido pela chaminé e deixado junto da árvore os presentes destinados â casa dos Creed. A ilusão
era perfeita, a não ser que Ellie percebesse oue eram duas pegadas de pé esquerdo. . . Louis, porém, não acreditava que a filha fosse assim tão analítica.
- Louis Creed, eu te amo! - disse Rachel, beijando o marido.
- Você se casou com alguém que sabe das coisas, meu bem - disse Louis, sorrindo com afeto. - É só me provocar e não há o que eu não seja capaz de fazer.
Caminharam para a escada. Ele apontou para a mesinha de jogo que Ellie colocara na frente da tevê. Em cima dela havia biscoitos de aveia e dois tabletes de chocolate.
Havia também uma lata de bolachas. Para você, Papai Noel, dizia um bilhete na grande e caprichada caligrafia de Ellie.
- Você quer um biscoito ou um chocolate? - Louis perguntou.
- Um chocolate - Rachel respondeu, comendo. imediatamente metade da barra.
Louis abriu uma lata de cerveja.
- Acho que uma cerveja assim tão tarde vai me dar um pouco de azia - disse.
- Azar o seu - ela respondeu bem-humorada. - Vamos subir, doutor!
Louis largou a cerveja e, bruscamente, agarrou o bolso do roupão, como se tivesse esquecido alguma coisa - embora estivesse plenamente consciente daquele pequeno
peso durante toda a noite.
- Olhe aqui - disse. - Para você. Se quiser, pode abrir agora. Afinal, já passa da meia-noite. Feliz Natal, meu bem.
Ela virou a pequena caixa, embrulhada em papel prateado e amarrada com um grande cordão de cetim azuL
- Louis,o que é?
Ele sacudiu os ombros.
- Um sabonete, uma amostra grátis de xampu, sei lá...
Abriu o presente sentada num degrau, viu a caixa da Tiffany e quase deu um grito de satisfação. Removeu o enchimento de algodão e ficou irn6vel, de boca ligeiramente
aberta.
- Bem? - ele perguntou ansioso. Era a primeira vez que lhe comprava uma verdadeira jóia e estava nervoso. - Você gosta?
Ela estendeu a fina corrente de ouro nos dedos e voltou a pequena safira para a luz do corredor. Depois girou-a lentamente e a pedra pareceu atirar frios raios
de luz azulada.
- Oh, Louis, é tão maravilhoso...
Rachel começou a chorar e Louis se sentiu ao mesmo tempo comovido e alarmado.
- Ei, meu bem, não faça isso - disse. - Ponha o cordão no pescoço.
- Louis, nós não podemos... Você não pode comprar...
- Chiií - disse ele. - Consegui guardar algum dinheiro desde o Natal passado... E não foi assim tão caro...
- Quanto custou, Louis?
- Nunca vou dizer, Rachei - respondeu solenemente. - Nem um exército de torturadores chineses conseguiria me fazer contar... Dois mil dólares.
- Dois mil...!
Ela o abraçou com tanta força e tão de repente que quase o fez rolar pela escada.
- Louis, você está louco!
- Ponha no pescoço - ele pediu de novo.
Rachel obedeceu. Louis ajudou-a no fecho. Depois ela se virou com um sorriso.
- Quero subir e dar uma olhada no espelho - disse. - Quero me curtir um pouco.
- Então se curta um pouco - disse ele. - Vou colocar o gato lá fora e apagar as luzes.
- Quando fizermos amor - disse Rachel, olhando tristemente nos olhos dele -, vou tirar tudo, menos isto.
- Apronte-se, então - disse Louis, e ela riu.
Louis pegou Church e prendeu-o debaixo do braço. Já não se preocupava muito em ter uma vassoura para enxotá-lo. Achava que, apesar de tudo, tinha quase se acostumado
outra vez com o gato. Seguiu para os fundos da casa, apagando as luzes por onde passava. Ao abrir a porta que comunicava a cozinha com a garagem, uma corrente de
ar frio rodopiou em volta de suas pernas.
- Tenha um feliz Natal, Ch...
Ele parou. Havia um corvo morto estendido no capacho. A cabeça estava estraçalhada. Uma das asas fora arrancada e jazia atrás do corpo como uma folha queimada.
Church imediatamente pulou dos braços de Louis e começou a farejar avidamente o corvo congelado. Inclinou a cabeça para a frente, abaixou as orelhas e, antes que
Louis pudesse virar o rosto, arrancou um dos olhos leitosos arregalados do animal.
Church ataca de novo, Louis pensou um tanto morbidamente e virou o rosto; não, porém, sem antes ter visto a cavidade sangrenta e funda que alojara o olho do
corvo. Eu.nem devia me incomodar, não de.... Já vi coisas piores, oh, sim, Pascow, por exemplo, Pascow foi pior, muito pior...
Mas a coisa o incomodou. Sentiu o estômago se revirar. O quente fluxo de excitação sexual se extinguiu de repente. Deus, este pássaro é praticamente do tamanho
dele. Com certeza pegou-o desprevenido. Bem, bem de surpresa.
Aquilo teria de ser limpo. Ninguém precisa de um presente desse tipo na manhã de Natal... Competia a ele, não é? Claro que sim. A ele e a mais ninguém. De um
modo subconsciente, reconhecera toda a responsabilidade que caíra sobre seus ombros desde a noite do retomo da família, quando derrubou de propósito os pneus para
esconder o corpo dilacerado do camundongo que Church matara.
O solo do coração de um homem é mais empedernido, Louis.
A frase surgiu tão clara em sua mente... Parecia ter adquirido um caráter tridimensional e audíveL Louis estremeceu um pouco, como se Jud tivesse se materializado
perto de seu ombro e falasse em voz alta.
Um homem planta o que pode... E cuida do que plantou.
Church ainda estava curvado vorazmente sobre o pássaro morto. Ocupava-se agora da outra asa. Havia um tenebroso ruído de roçar à medida que Church a puxava de
um lado para o outro, de um lado para o outro... Mas não conseguia soltá-la do chão... E isso aí, a carne da porra do pássaro devia ser tão infecta quanto merda
de cachorro, mas também podia servir de alimento para o gato, também podia...
De repente, Louis deu um chute no animal, um chute forte. O lombo do gato se ergueu e depois se abaixou, encostando no chão. Church se afastou, dispensando-lhe
mais um daqueles feios olhares verde-amarelados.
- Por que não tenta comer a mim - disse Louis, ele próprio bufando como um gato.
- Louis?
A voz de Rachel vinha fraca do banheiro no andar de cima.
- Não vem deitar?
- Fique aí - ele respondeu. - Já vou!
Só tenho de dar um jeito nesta sujeira, Rachel, está bem? Porque é minha responsabilidade.
Tateou em busca do interruptor de luz da garagem. Foi até o armário sob a pia da cozinha e pegou um dos amaldiçoados sacos verdes de lixo. Levou o saco para
a garagem e tirou a pá de um prego na parede. Com ela, arrancou o corvo do capacho e despejou-o no saco. Depois removeu a asa despedaçada e também a fez deslizar
para o saco. Deu um nó fechando o saco e colocou-o na cesta de lixo perto da Civic. Quando acabou, suas pernas estavam ficando entorpecidas pelo frio.
Church estava parado na porta da garagem. Louís fez-lhe um gesto ameaçador com a pá e o animal foi embora, deslizante como lodo.
Rachel já estava deitada, usando apenas o cordão de safira... Exatamente como prometera. Sorriu languidamente para o marido.
- Por que demorou tanto tempo, chefe?
- A lâmpada da pia estava queimada - disse Louis. - Tive de trocar.
- Venha cá - disse Rachel, segurando-o delicadamente... Mas não pela mão. - Bicho-papão sai de cima do telhado - cantava em voz baixa, um breve sorriso ondulando
o canto dos lábios. - Deixa o menino dormir sono ....... Oh, Louis querido, o que é isso?
- Algo que acabou de acordar, eu acho - disse ele, deslizando para fora do roupão. - Vamos ver se conseguimos fazer com que ele durma de novo antes do Papai
Noel chegar, o que você acha?
Ela se apoiou num cotovelo; Louis sentiu-lhe a respiração quente e doce
- Boi, boi, boi... Boi da cara ..... . Pega este menino que tem medo de careta... Você tem medo de careta, Louis?
- Acho que sim - disse ele. Sua voz não foi de todo firme.
- Vamos ver se você é tão gostoso quanto parece - disse Rachel.
O ato sexual foi bom, mas depois Louis não se sentiu mergulhando serenamente no sono, como geralmente acontecia quando o sexo era bom... Mergulhando no sono
em paz consigo mesmo, satisfeito com a esposa, a vida. Ficou deitado de olhos abertos na escuridão da madrugada de Natal, ouvindo a respiração lenta e profunda de
Rachel, pensando no pássaro morto na porta da cozinha. . . O presente que Church lhe dava.
Não se esqueça, Dr. Creed. Eu estava vivo, depois morto e agora estou vivo de novo. Completei o ciclo e estou aqui para dizer que você sai do outro lado com
a caixa de ronrom quebrada e um gosto renovado pela caça. Estou aqui para dizer que um homem planta o que pode e cuida do que plantou. Não esqueça, Dr. Creed, faço
parte do que o seu coração terá agora de cultivar... Existe sua esposa, sua filha, seu ..... . E existo eu. Tenha sempre em mente o segredo e cuide bem do seu jardim.
Neste ponto, Louis adormeceu.


O inverno passou. A crença de Ellie no Papai Noel foi restaurada - ao menos temporariamente - pelas pegadas na lareira. Gage abrira os presentes fazendo um carnaval,
parando de vez em quando para mascar um pedaço de papel de embrulho de aparência particularmente saborosa. E, naquele ano, ambos os meninos concluíram no meio da
tarde que as caixas de brinquedos eram mais divertidas que os próprios brinquedos.
Na noite de Ano Novo, os Crandall vieram provar o leite-de-onça de Rachel, e Louis surpreendeu-se examinando mentalmente Norma. Tinha aquele olhar pálido, quase
transparente, que já encontrara em outras ocasiões. Sua avó teria dito que Norma estava começando a "definhar", o que talvez não fosse uma palavra tão inadequada
para classificar o processo. As mãos, inchadas e desfiguradas pela artrite, estavam cobertas de manchas por causa de problemas no fígado. O cabelo parecia mais ralo.
Os Crandall foram embora por volta das dez e os Creed passaram o Ano Novo juntos, diante da tevê. Foi a última vez que Norma esteve na casa deles.
A maioria dos dias das férias de meio de ano foram chuvosos e lamacentos. Em termos de custos de aquecimento, Louis ficou satisfeito com o degelo, mas o tempo
continuou bastante desolador, melancólico. Ele fez alguns serviços domésticos, construindo prateleiras e armários para a esposa. Montou também um modelo Porsche
no escritório. Quando as aulas recomeçaram, a 23 de janeiro, sentiu-se satisfeito por voltar à universidade.
O surto de gripe espanhola finalmente chegou. Uma epidemia razoavelmente séria irrompeu no campus menos de uma semana após o início do semestre de primavera,
deixando Louis muito atarefado. Chegava a trabalhar dez e às vezes doze horas por dia, chegando em casa exausto... Mas o ânimo continuava relativamente bom.
O frio voltou repentinamente a 29 de janeiro. Houve uma nevasca seguida por uma semana com temperaturas bem abaixo de zero, que entorpeciam os ossos. Louis examinava
o braço engessado de um jovem que queria desesperadamente - e em sua opinião, inutilmente - jogar beisebol naquela primavera, quando uma das auxiliares de enfermagem
pôs a cabeça na porta e avisou que Rachel estava ao telefone.
Louis foi atender em sua sala. Rachel estava chorando, o que o deixou imediatamente alarmado. Ellie, pensou. Caiu do trenó e quebrou o braço. Ou fraturou o crânio.
Lembrou-se dos rapazes malucos do diretório escorregando pelo tobogã.
- Alguma coisa com as crianças? - perguntou. - Rachel?
- Não, não - ela respondeu chorando ainda mais. - Não houve nada com as crianças. É Norma, Lou. Norma Crandall. Morreu hoje de manhã. Por volta das oito horas,
logo após o desjejum, Jud contou. Ele veio ver se você estava aqui. Eu disse que você tinha saído há meia hora. Ele... Oh, Lou, ele parecia tão perdido, tão atordoado..,
tão ,~... Graças a Deus, Ellíe já tinha ido para a escola e Gage é pequeno demais para entender...
Louis franziu as sobrancelhas, e apesar da terrível notícia percebeu que sua mente se voltava para Rachel, era o ânimo de Rachel que sua mente tentava apreender.
Pois lá estava a coisa de novo! Nada em que se pudesse pôr o dedo, porque era uma atitude global e imutável. Aquela morte era um segredo, um terror, e tinha de ser
mantida longe das crianças, sobretudo longe das crianças, do mesmo modo como as senhoras e os cavalheiros vitorianos acreditavam que a verdade nua e crua das relações
sexuais devia ser mantida longe das crianças.
- Meu Deus! - exclamou. - Foi o coração?
- Não sei - Rachel respondeu. Não estava mais chorando, mas a voz era sufocada e rouca. - Não pode vir, Louis? Você é amigo dele e acho que ele está precisando
de você.
Você é amigo dele.
Bem, é verdade, Louis pensou com ligeira surpresa. Nunca esperei fazer amizade com um homem de oitenta anos, mas foi isso que aconteceu. E ocorreu-lhe que agora
não podiam deixar de ser amigos, considerando o segredo que havia entre eles. Supunha que há muito tempo Jud sentira que eram amigos. Servira-lhe de guia naquela
noite e, apesar de tudo que acontecera desde então, apesar dos camundongos mortos, apesar dos pássaros, Louis acreditava que provavelmente a decisão de Jud fora
correta. Pelo menos fora uma decisão movida pela compaixão. Faria o que pudesse por Jud, e se isso significasse ficar do seu lado como um irmão na morte de Norma,
ele o faria.
- Estou a caminho - disse Louis desligando o telefone.

Não fora um ataque cardíaco. Fora um derrame cerebral, repentino e provavelmente indolor. Quando Louis chamou Steve Masterton e contou o que estava acontecendo,
Steve disse que não se preocuparia em ir correndo.
- As vezes Deus também apronta - disse Steve - e manda você sair de campo e pendurar a chuteira.
Rachel não quis absolutamente falar sobre o assunto e não parecia disposta sequer a permitir que Louis fizesse comentários.
Ellie ficou mais surpresa e curiosa do que transtornada. Na opinião de Louis, era uma reação perfeitamente saudável numa menina de seis anos. Queria saber se
a Sra. Crandall morrera com os olhos abertos ou fechados. Louis disse que não sabia.
Jud parecia bastante controlado, principalmente levando em conta que Norma compartilhara cama e mesa com ele por quase sessenta anos. Louis encontrou o velho
(que naquele dia parecia realmente um velho de oitenta e três anos) sentado sozinho na mesa da cozinha, fumando um Chesterfield, bebendo uma garrafa de cerveja,
os olhos perdidos na direção da sala.
Levantou-se quando Louis entrou.
- Bem, ela se foi, Louis.
Falara num tom irremediável e calmo. Louis achou que o significado da coisa ainda não lhe penetrara integralmente na consciência, ainda não lhe atingira os pontos
mais fracos. Mas então a boca de Jud começou a tremer e ele cobriu os olhos com a mão. Louis aproximou-se e pôs o braço em volta dele. Jud desistira de se controlar.
Chorava. Tinha percebido a realidade, tudo bem. Agora Jud compreendia perfeitamente. A mulher tinha morrido.
- Isso faz bem - disse Louis. - Isso faz bem, Jud. Ela ia querer que você chorasse um pouco, eu acho. Provavelmente ficaria furiosa se você não chorasse.
O próprio Louis começou a chorar. Os dois se abraçaram com força.
Jud chorou por mais ou menos dez minutos, depois a torrente passou. Louis prestou grande atenção na reação de Jud: ouviu-o como médico e como amigo. Esteve atento
a tudo na conversa. Queria saber se Jud tinha uma apreensão nítida de quando acontecera (não precisava verificar se tinha plena consciência de onde acontecera, isto
não provada nada, porque para Jud Crandall onde fora sempre Ludlow, no Maine); esteve particularmente atento a qualquer menção do nome de Norma no presente do indicativo.
Jud deu pouco ou nenhum sinal de estar perdendo o discernimento. Louis sabia que muitas vezes um casal de velhos, convivendo juntos anos e anos, morria quase de
mãos dadas. .. As vezes, só havia um mês, uma semana, até mesmo um dia de intervalo entre a morte de um e a morte de outro. Seria o choque, talvez, ou mesmo alguma
profunda urgência interior de acompanhar aquele que se foi (Louis percebia que muitos de seus pensamentos referentes ao mundo espiritual e ao mundo sobrenatural
tinham sofrido uma serena mas, não obstante, significativa transformação.)
Louis concluiu que Jud estava sentindo extremamente a morte da esposa, mas ainda conservava a vontade de viver. Não via nele qualquer traço daquele definhar,
daquela transparência que cercava Norma no dia de Ano Novo, quando os quatro tinham se sentado em sua sala de estar bebendo leite~de-onça.
Jud tirou uma cerveja da geladeira, o rosto ainda vermelho e inchado.
- Foi logo de manhã - disse ele -, mas o sol não brilha em todo lugar, e quando é dia num lado é noite no outro...
- Tudo bem, fique tranqüilo - disse Louis abrindo a cerveja. Fixou os olhos em Jud: - Devemos fazer um brinde a Norma?
- Acho que sim - disse Jud. - Você a devia ter visto aos dezesseis anos, Louis, voltando da igreja com o casaco desabotoado... Seus olhos saltariam das órbitas.
Podia ter feito o diabo parar de beber. Graças a Deus, nunca me pediu para fazer isso.
Louis balançou a cabeça e ergueu um pouco a cerveja.
- A Norma - disse.
Jud brindou contra o copo de Louis. Estava chorando de novo, mas também sorria.
- Que ela fique em paz - disse Jud - e, onde quer que esteja, que a artrite não lhe cause mais dor.
- Amém - disse Louis e bebeu a cerveja com Jud.

Foi a única vez que Louis viu Jud ficar um pouco mais que ligeiramente alto. Ainda assim, porém, não ficou embriagado. Falava de suas lembranças, um fluxo contínuo
de memórias e casos, cheios de colorido, nitidez e às vezes emocionantes. Mas entre as histórias do passado, Jud sabia enfrentar o presente, e com uma coragem que
só Louis podia admirar; se fosse Rachel que tivesse morrido depois da laranjada e dos flocos de milho matinais, sem dúvida não seria capaz de absorver tão bem a
situação.
Jud ligou para a Funerária Brookings-Smíth, em Bangor, e procurou tratar quase tudo pelo telefone. Marcou o enterro. Sim, queria Norma perfumada, queria Norma
num determinado vestido que ele providenciaria; sim, também escolheria a roupa de baixo; não, não queria que a funerária fornecesse os sapatos especiais amarrados
num cordão. Será que teriam alguém para lavar-lhe o cabelo?, ele perguntou. A mulher lavara a cabeça na segunda-feira à noite e, portanto, os cabelos já deviam estar
sujos quando morreu. Prestava atenção no que lhe diziam, e Louis, cujo tio estivera no que o pessoal do meio chamava "negócio silencioso", sabia que o agente funerário
estava explicando que lavar e preparar o corpo fazia parte do serviço prestado. Jud balançou a cabeça e agradeceu ao homem, depois ouviu de novo. Sim, respondeu,
queria que usassem pintura, mas só uma coisa muito leve.
- Todo mundo sabe que está morta - disse acendendo um Chesterfield. -- Não precisam transformá-la numa máscara de pintura.
O caixão seria fechado durante o funeral, Jud explicou ao dono da agência com serena autoridade. Ficaria aberto antes do enterro para que pudessem velar
o corpo. Norma seria enterrada no cemitério de Mount Hope, onde os dois tinham comprado lotes em 1951. Estava com os papéis na mão e deu o número do lote ao agente,
para que a sepultura pudesse ser preparada: H-101. Como contaria mais tarde, reservara o H-102 para ele.
Pôs o fone no gancho e se virou para Louis:
- Não conheço outro cemitério mais bonito no mundo que esse de Bangor - disse. - Se quiser, abra outra cerveja, Louis. Isto vai demorar um pouco.
Louis ia recusar - sentia-se um pouco alto - quando uma imagem grotesca surgiu repentinamente diante dos seus olhos: Jud puxando o cadáver de Norma numa padiola
pagã através dos bosques. Ia para o cemitério micmac, além do "simitério" de bichos.
Aquilo teve o efeito de um tapa. Levantou-se sem uma palavra e tirou outra cerveja da geladeira. Jud fez um sinal de aprovação e pegou de novo o telefone.
Por volta das três da tarde, quando Louis foi em casa para comer um sanduíche e tomar um prato de sopa, Jud já progredira bastante na organização dos últimos
ritos de Norma; passava de um ponto a outro como alguém planejando um jantar de certa importância. Telefonou para a Igreja Metodista de Ludlow Norte, onde ocorreria
o verdadeiro funeral, e para o escritório da administração do cemitério em Mount Hope; eram telefonemas que competiam ao agente funerário da Brookings-Smith, mas
Jud resolveu fazê-los pessoalmente. Pouca gente pensaria naquelas providências ou, se pensasse, dificilmente encontraria forças para tomá-las. Louis só via razões
para admirar a coragem do amigo.
Mais tarde, Jud telefonou para os poucos parentes ainda vivos de Norma e dele, seguindo o índice de um velho livro de telefones com páginas soltas e capa de
couro. E entre as chamadas tomava cerveja e rememorava o passado.
Louis sentia grande admiração por ele... E carinho?
Sim, seu coração confirmava. Carinho.

Naquela noite, quando desceu de pijama para dar um beijo no pai, Ellie perguntou se a Sra. Crandall iria para o céu. Quase sussurrou a pergunta no ouvido de
Louis, como se percebesse que seda melhor a mãe não ouvir. Rachel estava na cozinha fazendo um empadão de galinha, que pretendia dar a Jud no dia seguinte.

Do outro lado da estrada, todas as luzes estavam acesas na casa de Jud Crandall. Havia carros estacionados defronte ao gramado, bem como de ambos os lados da
estrada, por mais de trinta metros em cada direção. O derradeiro velório seria no dia seguinte, na funerária, mas muita gente tinha vindo à noite para confortar
Jud, para ajudá-lo a recordar o passado e a chorar o passamento de Norma (a que uma vez, durante a tarde, Jud se referira como a "ida de Norma na frente"). Entre
aquela casa e a casa dos Creed, soprava um vento frio de fevereiro. Uma camada escura de gelo ia manchando a estrada. O período mais frio do inverno do Maine finalmente
chegara.
- Bem, eu realmente não sei, querida - disse Louis, pondo Ellie no colo. Na tevê, passava um faroeste cheio de correrias. Na tela, sem despertar a atenção de
nenhum dos dois, um homem rodopiou e caiu. Louis tinha consciência (e não se sentia muito à vontade com isso) de que a filha provavelmente sabia muito mais sobre
o Homem-Aranha, o Homem dos Seis Milhões de Dólares e os Super-Amigos do que sobre Moisés, Jesus e São Paulo. Era filha de uma judia não-praticante e de um descuidado
metodista; supunha que suas idéias sobre o spiritus mundi eram as mais vagas possíveis: nem mitos, nem sonhos, mas sonhos de sonhos. E já é tarde para lhe ensinar
alguma coisa, foi o que pensou. Ela só tem cinco anos, mas já é tarde. Deus, está ficando tarde tão depressa!
Mas os olhos da menina estavam cravados nele; tinha de conversar com ela.
- As pessoas acreditam em coisas muito variadas sobre o que acontece conosco quando morremos - disse. - Alguns acham que vamos para o céu ou para o inferno.
Outros acreditam que voltamos a nascer de novo, como crianças pequenas...
- Sei, "carnação". Foi o que aconteceu a Audrey Rose naquele filme da tevê.
- Mas você não viu esse filme!
RacheI, ele pensou, teria seu próprio derrame cerebral se achasse que Ellie andava vendo filme de terror.
- Marie me contou na escola.
Marie era a autoproclamada melhor amiga de Ellie, uma menininha magricela e suja que parecia estar sempre à beira da anemia, da hepatite ou mesmo do escorbuto.
Tanto Louis quanto Rachel encorajavam a amizade, mas um dia Rachel lhe confessou que quando Marie ia embora sentia um ímpeto de verificar se não havia pulgas ou
piolhos na cabeça da filha. Louis tinha rido e concordado.
- A mãe de Marie deixa ela ver todos os programas.
Louis preferiu ignorar a crítica implícita na afirmação.
- Bem, a coisa se chama reencarnação, mas acho que você pegou a idéia. Os católicos acreditam em céu e inferno, mas acham que há também um lugar chamado limbo
e outro chamado purgatório. E os hindus e budistas acreditam no nirvana..
Havia uma sombra na parede da sala de jantar. Era Rachel. Escutando.
Louis continuou, mais devagar.
- Há provavelmente muitas outras crenças. Mas o que realmente acontece, Ellie, ninguém sabe. As pessoas dizem que sabem, mas o que pretendem dizer é que acreditam
nisso ou naquilo por causa da fé. Sabe o que é a fé?
- Bem...
- Aqui estamos nós dois, sentados em minha poltrona - disse Louis. - Você acha que esta poltrona ainda estará aqui amanha?
- Sim, claro.
- Então você tem fé que ela estará aqui. E eu também. A fé é acreditar que encontraremos uma coisa num certo lugar. Entendeu?
- Sim - Ellie confirmou com a cabeça.
- Mas não sabemos que a coisa estará lá. Afinal, algum ladrão maluco de poltronas pode entrar e levar a poltrona, certo?
Ellie riu. Louis sorriu.
- Simplesmente temos fé de que não vai acontecer. A fé é uma grande coisa, EIlie, e as pessoas realmente religiosas querem que acreditemos que não há diferença
entre fé e conhecimento, mas não acho que seja assim... Porque há muitas idéias diferentes sobre o assunto. O que sabemos é o seguinte... Quando se morre, uma das
duas coisas acontece: ou nossas almas e pensamentos sobrevivem de alguma forma à experiência da morte ou não sobrevivem. Se sobrevivem, podemos pensar muita coisa,
há possibilidades infinitas. Se não sobrevivem, então não sobra nada. É o fim.
- Como ir dormir?
Ele pensou um pouco e depois respondeu:
- E mais como evaporar, eu acho.
- Em que você tem fé, papai?
A sombra na parede moveu-se e voltou a ficar imóvel.
Por quase toda a sua vida adulta - desde os dias da universidade, ele supunha - acreditara que a morte era o fim. Já vira muita gente morrer e nunca sentira
o sopro de uma alma passando por perto a caminho.., de algum lugar; não tivera esse mesmo pensamento quando Victor Pascow morreu? Concordava com seu professor de
Psicologia 1. Provavelmente as experiências de vida após a morte narradas em revistas eruditas e depois vulgarizadas na imprensa popular nada mais significavam que
um desesperado expediente mental contra a investida da morte. A inventividade infinita da mente humana, tentando afugentar o absurdo de seu próprio fim pela construção
de uma ilusão de imortalidade. Também concordava com um colega de alojamento que, numa conversa informal que durou a noite toda, quando ele estava no segundo ano
da faculdade de medicina em Chicago, dissera que a Bíblia parecia estranhamente cheia de milagres que cessaram quase completamente durante a era da racionalidade
("cessaram totalmente", ele dissera a princípio, mas fora forçado a recuar por alguns colegas que, com certa razão, alegaram que ainda aconteciam muitas coisas misteriosas,
pequenos bolsões de perplexidade num mundo que, de um modo geral, se transformara num lugar bem-iluminado, tanto pela eletricidade quanto pelo conhecimento - havia,
por exemplo, o caso do sudário de Turim, que resistira a todos os esforços empreendidos para desmascará-lo). "Então Cristo devolveu a vida a Lázaro.. .", disse esse
colega (o rapaz se tornou um obstetra altamente respeitado em Dearbon, no Michigan). "Pra mim, tudo bem. Se tiver de engolir isso, posso até conseguir. Isto é, tive
de admitir a idéia de que o feto de um par de gêmeos às vezes engole o outro no útero, como uma espécie de canibal ainda não nascido, e vinte ou trinta anos depois,
aparece com dentes nos pulmões, para provar que fez a coisa... Acho que sou capaz de admitir isso, sou capaz de admitir qualquer coisa. Mas gostaria de ter visto
o atestado de óbito de Lázaro... Percebem o que estou dizendo? Não estou discutindo que tenha saído da tumba. Mas gostaria de ter visto o atestado de óbito originaL
Sou como São Tomé, dizendo que só ia acreditar que Jesus tinha ressuscitado se pudesse ver os buracos dos pregos e encostar as mãos no corpo do homem. Pelo que sei,
ele era o verdadeiro médico da patota, não Lucas."
Não, sem dúvida jamais acreditara em sobrevivência após a morte. Pelo menos, não até Church.
- Acho que continuamos... - respondeu lentamente à filha. - Mas de que modo continuamos é coisa que eu não sei. Pode ser até que aconteçam coisas diferentes
para diferentes pessoas. Pode ser até que uma pessoa obtenha aquilo em que acreditou durante toda a sua vida. Mas acredito que continuamos, acredito que a Sra. Crandall
está provavelmente em algum lugar, onde poderá se sentir feliz.
- Você tem fé nisso aí. - disse Eliie.
Não era uma pergunta. A menina parecia fascinada.
Louis sorriu, satisfeito, mas um pouco embaraçado.
- Acho que sim. E também tenho fé de que já está na hora de você ir pra cama. Já está na hora há dez minutos.
A menina o beijou duas vezes, uma nos lábios, outra no nariz.
- Você acha que os animais continuam?
- Sim - ele respondeu sem pensar, e por pouco não acrescentou: especialmente os gatos. Na realidade, as palavras chegaram a ondular por um segundo em sua língua,
e sentiu a pele ficar fria, pálida.
- Está bem - disse a filha escorregando para o chão. - Vou dar um beijo na mamãe.
- Vá logo.
Louis ficou contemplando a menina. Na porta da sala, ela se virou para trás.
- Fui realmente uma tola sobre Church naquele dia, não fui? - ela perguntou. - Chorando daquele jeito!
- Não, querida - disse o pai. - Não acho que tenha sido uma tola.
- Se Church morresse agora, eu podia agüentar - disse Ellie e, ligeiramente sobressaltada, pareceu refletir sobre o pensamento que deixara escapar. Depois, como
se concordasse consigo mesma, concluiu: - Sem dúvida podia!
E foi dar um beijo na mãe.

Mais tarde, na cama, Rachel falou:
- Ouvi o que estava conversando com ela...
- E não acha que estou certo? - Louis perguntou. Julgou que talvez fosse melhor discutir logo o assunto, se era isso que Rachel queria.
- Não... - disse a mulher com uma hesitação que não lhe era muito característica. - Não, Louis, o problema não é bem esse. É que fiquei... assustada. E você
me conhece. Quando fico com medo, fico agressiva.
Louis não se lembrava de alguma vez ter ouvido Rachel falar com tanto esforço. Achou que devia ser mais cauteloso do que fora com a filha. Estava pisando em
campo minado.
- Com medo de quê? De morrer?
- Não eu mesma morrer - ela respondeu. - Não penso... mais nisso. Mas quando era menina, pensava bastante. Às vezes custava a dormir. Sonhava com monstros vindo
me pegar na cama... E todos os monstros eram parecidos com minha irmã Zelda.
Sim, Louis pensou. Aí está; afinal, depois de tanto tempo de casados, aí está!
- Você não fala muito sobre Zelda - disse.
Rachel sorriu e acariciou-lhe o rosto.
- Está sendo gentil, Louis. Eu nunca falo sobre ela. Tento nunca pensar nela.
- Sempre deduzi que devia ter suas razões.
- E tenho.
Ela fez uma pausa, pensando.
- Sei que morreu de... meningite raquidiana...
- Meningite raquidiana - ela repetiu. - Não há mais retratos dela lá em casa.
- Há um retrato de uma menina na escrivaninha de seu pai...
- No escritório! Sim, tinha me esquecido desse. E acho que minha mãe também leva um na carteira. Ela era dois anos mais velha do que eu. Pegou a doença... E
ficou no quarto dos fundos... Ficou no quarto dos fundos como um segredo sujo, Louis. Estava morrendo lá, minha irmã morria no quarto dos fundos e era isso que ela
era, um segredo sujo... Foi sempre um segredo sujo!
De repente, Rachel perdeu completamente o controle. Nos soluços cada vez mais altos Louis pressentiu um início de histeria e ficou assustado. Estendeu a mão
e tocou-lhe o ombro, mas Rachel imediatamente se esquivou. Ele sentiu a camisola escapulir sob a ponta dos dedos.
- Rachel, meu bem, não...
- Não me diga que não - disse ela. - Não me faça calar, Louis. Consegui reunir forças para falar agora, mas jamais quero voltar a tocar no assunto... Provavelmente
não vou dormir nada esta noite...
- Foi assim tão horrível? - ele perguntou, embora conhecesse a resposta. Aquilo explicava muita coisa, mesmo coisas que nunca relacionara diretamente com o trauma
da mulher. Rachel nunca comparecera a um enterro com ele, nem mesmo ao de Ai Locke, um colega da faculdade de medicina que morreu quando sua moto colidiu com um
ônibus. Ai visitava regularmente o apartamento dos dois e Rachel gostava muito dele. No entanto, não foi ao funeral.
Estava doente naquele dia, Louis se lembrou. Pegou um resfriado ou alguma coisa desse tipo. Parecia séria, mas no dia seguinte já estava bem.
Depois do enterro estava bem outra vez, ele se corrigiu. Lembrou-se de ter pensado, já naquela época, que o problema podia ter sido psicossomático.
- Foi horrível, pode acreditar. Muito pior do que você possa imaginar. Nós a vimos definhar dia a dia, Louis, e não havia nada que pudéssemos fazer. Não parava
de sentir dores. Seu corpo parecia atrofiado... mirrado. Os ombros formavam uma corcunda e o rosto foi se franzindo até ficar parecido com uma máscara. As mãos eram
como pés de passarinho. Às vezes eu tinha de alimentá-la. Odiava fazer aquilo, mas fazia, e nunca de cara feia. Quando as dores aumentaram, começaram a dar-lhe os
analgésicos... A princípio suaves, depois drogas que a teriam transformado numa viciada se ela sobrevivesse. Mas, é claro, todos sabiam que não ia sobreviver. Acho
que por isso é que ela se transformou num tamanho... segredo para todos nós. Porque nós queríamos que ela morresse, Louis, desejávamos que ela morresse. Só desse
modo ela não sofreria mais. Só desse modo nós não sofreríamos mais. Ela estava começando a parecer um monstro, estava começando a ser um monstro... Oh, Deus, sei
como isso deve soar terrível aos seus ouvidos...
Rachel pôs a cabeça entre as mãos. Louis tocou-a delicadamente.
- Rachel, isto não soa terrível.
- Não minta! - ela gritou. - Isto é terrível!
- Mas é o que acontece - disse ele. - Vítimas de enfermidade prolongada freqüentemente se tornam monstros exigentes, desagradáveis. A idéia do paciente que sofre
longo tempo como um santo é uma grande ficção romântica. Quando o primeiro ciclo de dores vem à tona e cerca um paciente amarrado à cama, ele começa a reagir de
forma agressiva, a pôr pra fora toda a sua angústia. Não pode deixar de agir assim, embora isso em nada o ajude.

Rachel fixou os olhos nele, espantada... quase com esperança. Mas logo a dúvida se estampou em seu rosto.
- Está inventando coisas.
Louis sorriu com um ar severo.
- Quer que eu mostre os meus livros? Que tal estatísticas sobre suicídios? Quer dar uma olhada? Em famílias onde um paciente com doença incurável foi mantido
em casa, a incidência de suicídios sobe para a estratosfera, principalmente nos seis meses que se seguem à morte do doente.
- Suicídio?
- As pessoas engolem pílulas, abrem um cano de gás ou dão um tiro nos miolos. Ficam odiando... sua fraqueza... sua repugnância.., sua pena...
Ele balançou os ombros e uniu suavemente os punhos fechados.
- Os sobreviventes começam a se sentir como se tivessem cometido um assassinato. Uma sensação que às vezes não conseguem suportar.
Uma espécie absurda de alívio envolveu o rosto inchado de Rachel
- Ela estava impertinente... Odiosa. As vezes urinava na cama de propósito. Minha mãe perguntava se queria ajuda para ir ao banheiro... e mais tarde, quando
não podia mais se levantar, se queria a comadre... Zelda dizia que não... Depois urinava na cama para minha mãe, ou minha mãe e eu termos de mudar os lençóis. E
dizia que tinha sido sem querer, mas se podia ver o sorriso nos olhos dela, Louis. Se podia ver. O quarto tinha sempre o cheiro de urina e de remédios... Havia vidros
e vidros de um analgésico que cheirava como xarope de cereja contra a tosse. O cheiro estava sempre lá... As vezes eu acordava no meio da ....... Mesmo agora ainda
acordo de vez em quando sentindo o cheiro do xarope de cereja... E penso, enquanto ainda não acordei de todo... Penso "Zelda já morreu? Já?"... Penso...
Rachel tomou fôlego. Louis pegou-lhe a mão e ela apertou seus dedos com uma força incrível, selvagem.
- Quando mudávamos a roupa de Zelda, podíamos ver como as costas estavam contorcidas e cheias de calombos. Perto do fim, Louis, perto do fim parecia que... parecia
que o ânus tinha sido repuxado até o meio das costas.
Agora os olhos úmidos de Rachel tinham adquirido uma aparência vítrea, apavorada, com os olhos de uma criança recordando um pesadelo repetitivo e demasiadamente
horrível.
- E às vezes ela me tocava com suas... suas mãos... suas mãos de passarinho... E às vezes eu quase gritava para que não encostasse em ..... E uma vez, quando
ela encostou a mão no meu rosto, entornei um pouco de sopa no braço, me queimei e gritei... Gritei e também pude ver o sorriso nos olhos dela.
- Perto do fim, as drogas deixaram de fazer efeito. Então ela era a única que gritava e nenhum de nós conseguia lembrar como ela era antes, nem mesmo minha mãe.
Havia apenas aquela coisa repugnante, louca, gritando no quarto dos fundos.. . Nosso segredo sujo.
Rachei engoliu em seco. A garganta estalou.
- Meus pais não estavam em casa quando finalmente.., quando ela... você sabe, quando ela...
Com um esforço terrível, desesperado, Rachel extraiu a palavra.
- Quando ela morreu, meus pais não estavam em casa. Eu tinha ficado sozinha com Zelda. Era a semana de Páscoa e eles saíram rapidamente para visitar uns amigos.
Uma saída de poucos minutos... Eu estava na cozinha, lendo uma revista... Pelo menos folheava. Esperava a hora de dar mais remédios a Zelda, porque ela estava gritando.
Estava gritando desde que meus pais haviam saído. Não conseguia ler com ela gritando daquele jeito. E então... bem, o que aconteceu foi que... bem... Zelda parou
de gritar... Louís, eu tinha pesadelos toda noite. Comecei a pensar que ela me odiava porque minhas costas eram boas, porque eu não estava sempre com dor, porque
eu podia andar, porque eu ia viver... Comecei a imaginar que ela queria me matar. Mesmo hoje, agora, ainda não acho que tudo tenha sido fruto da minha imaginação.
Ainda acho que ela me odiava. Não acredito que fosse capaz de me matar, mas se pudesse se apoderar do meu corpo... expulsar-me do meu corpo como numa história fantástica,
acho que teria feito. Quando parou de gritar, fui até o quarto para ver se estava tudo bem... Para ver se não caíra da cama nem jogara os travesseiros no chão...
Entrei e olhei-a. Parecia ter engolido a própria língua e estava nos engasgos finais da morte. Louis - a voz de Rachel elevou-se mais uma vez, chorosa e assustadoramente
infantil, como se ela estivesse regredindo, revivendo a experiência -, Louis, eu não sabia o que fazer! Eu tinha oito anos!
- Não, é claro que não podia saber - disse Louis.
Ele se virou e abraçou-a. Rachel agarrou-se a ele com o pânico de um mau nadador cujo barco emborcou no meio do lago.
- Alguém lhe fez algum tipo de censura, meu bem?
- Não - disse ela -, ninguém me censurou. E ninguém poderia ter feito nada. Ninguém poderia alterar o fato. Ninguém conseguiria impedir que.aquilo acontecesse,
Louis. Ela não havia engolido a língua. Ela começou a fazer um barulho, uma espécie de, eu não sei... Aaaaaaaaa. .. Mais ou menos ....
Na angustiante e total recordação daquele dia, Rachel fez uma imitação mais que fidedigna do modo como a irmã Zelda devia ter gemido. A mente de Louis disparou
para Victor Pascow. Apertou mais a mulher.
- E houve cuspidelas, cuspes pelo queixo...
- Rachel, já chega - disse ele, com a voz não inteiramente firme. -Conheço os sintomas.
- Eu estou explicando - ela disse obstinada. - Estou explicando por que não posso ir ao enterro da pobre Norma e por que tivemos aquela estúpida discussão outro
dia...
- Chiii... Isso está esquecido.
- Eu não esqueci, não. Lembro muito bem, Louis. Lembro tão bem quanto me lembro de minha irmã Zelda tendo aqueles engasgos na cama. Foi em 14 de abril de 65.
Por um instante, houve silêncio no quarto.
- Eu a virei contra o travesseiro e bati-lhe nas costas - Rachel continuou. - Era tudo que eu sabia fazer. Seus pés estavam se debatendo... E as pernas tortas...
E houve um som como se ela estivesse soltando gases intestinais... E achei que ela ou eu estávamos fazendo aquilo, mas era outra coisa, era a costura sob ambas as
mangas da minha blusa que se descoseram quando acabei de virá-la de costas. Ela começou a... ter convulsões... e vi que seu rosto estava virado de lado no travesseiro.
Pensei, oh, ela está sufocando, Zelda está sufocando e vão dizer que fui eu quem a sufocou. Vão dizer: Você a odiava, Rachel, e era verdade, e eles iam dizer: Você
queria que ela morresse, e isso também era verdade. O primeiro pensamento, Louis, o primeiro pensamento que me ocorreu quando Zelda começou a se debater na cama
daquele jeito foi: Oh, bom, finalmente Zelda está morrendo e isso vai terminar. Então virei-a de novo e seu rosto tinha ficado negro. Os olhos estavam esbugalhados
e o pescoço inchado. Então ela morreu, Louis... Comecei a recuar pelo quarto. Acho que pretendia atravessar a porta, mas bati na parede e derrubei um quadro......
Era uma gravura tirada de um dos livros do mágico de Oz; que Zelda gostava de ler antes de cair na cama por causa da meningite, quando estava bem... Era uma gravura
de Oz, o Grande e Terrível, só que Zelda sempre o chamou de Oz o Gande e Teível. Desde pequenininha se acostumou a chamá-lo assim... Ficava parecida com Elmer .......
Minha mãe mandou colocar a gravura num quadro ....... era a gravura que Zelda mais gostava... Oz, o Gande e Teível... O quadro caiu, bateu no chão e o vidro se espatifou.
Eu comecei a gritar porque sabia que ela estava morta e pensei... acho que pensei que fosse o fantasma dela, vindo me pegar, e eu sabia que seu fantasma me odiaria,
como ela me odiava, só que o fantasma não estaria preso à cama... Então eu gritei, gritei e saí correndo de casa. Zelda morreu! Zelda morreu! Zelda morreu! E os
vizinhos.., todos chegaram às janelas... Me viram descer a rua correndo, a blusa toda rasgada sob os braços... Eu não parava de gritar: Zelda morreu! Talvez todos
tenham pensado que eu estava chorando, Louis, mas acho... Acho que talvez eu estivesse rindo. Acho que era isso o que eu estava fazendo.
- Se estava rindo, eu a cumprimento por ter conseguido - disse Louis.
- Não está falando sério - disse Rachel, com a extrema segurança de quem tinha revivido muitas, muitas vezes aquela cena.
Louis percebia que finalmente Rachel poderia livrar-se das lembranças horríveis, rançosas, que por tanto tempo vinham-na assombrando. Talvez nunca daquela parte,
nunca de todo, mas certamente da maioria das outras. Louis Creed não era psiquiatra, mas sabia que na vida de qualquer pessoa existem coisas enferrujadas, mas não
de todo enterradas. Sabia que as pessoas parecem compelidas a voltar a essas coisas, a trazê-las à tona, por mais que elas firam. Naquela noite, Rachel tentara extrair
tudo do fundo de si mesma, como um dente grotesco, apodrecido, fétido, a coroa enegrecida, os nervos inflamados, a raiz cheirando mal. Fora extraído. Tudo bem se
sobrasse algum outro dente menos nocivo, Deus ia ajudar e ele permaneceria adormecido, exceto no fundo dos sonhos de Rachel Sem dúvida, já era extraordinário que
ela tivesse sido capaz de remover o dente podre; aquilo não apenas depunha a favor de sua coragem, aquilo a proclamava em alto e bom som. Louis estava admirado.
Tinha vontade de dar um brado de apoio.
Sentou-se na cama e acendeu a luz.
- Sim - disse -, eu a cumprimento. E se precisasse de mais uma razão para... para realmente não simpatizar com sua mãe e seu pai, acho que já a teria. Nunca
deviam ter deixado você sozinha com ela, Rachel. Nunca.
Como uma criança, a criança de oito anos que era quando a coisa incrível e torpe aconteceu, Rachel protestou:
- Lou, era a semana da Páscoa...
- Nem que fosse o dia do Juízo Final - ele falou em voz baixa, mas num tom áspero e brusco que a fez recuar um pouco. Louis se lembrou das estagiárias da enfermaria,
aquelas duas auxiliares cujo azar foi estarem de plantão na manhã em que Pascow morreu. Uma delas, uma valente moça chamada Carla Shavers, voltou no dia seguinte
e trabalhou tão bem que mesmo Charlton ficou impressionado. A outra nunca mais foi vista. Louis não ficou surpreso e não a censurou.
Onde estava a enfermeira? Deviam ter contratado uma enfermeira para cuidar de Zelda. . . Saíram, simplesmente saíram, deixando uma criança de oito anos para
cuidar da irmã' que morria, que provavelmente ja estava clinicamente insana. Por quê? Porque era a semana da Páscoa. E porque a elegante Dory Goldman não podia suportar
o mau cheiro precisamente naquela manhã, e tinha de se afastar um pouco de casa, mesmo que apenas por pouco tempo. Então Rachel se encarregou da coisa. Não tinham
vizinhos, amigos?. .. Mas foi Rachel quem se encarregou da coisa. Oito anos de idade, rabo-de-cavalo, blusa de marinheiro. Rachel se encarregou da coisa. Rachel
podia ficar e suportar o mau cheiro. Por que a mandavam para Camp Sunset, em Vermont, seis semanas por ano, se não por ter agüentado o mau cheiro da irmã moribunda,
quase em coma? Dez novas mudas de roupa para Cage, seis vestidos novos para Ellie e "eu pago suas despesas durante a faculdade de medicina se você se afastar de
minha filha... . "Mas onde estava o exuberante talão de cheques quando a filha estava morrendo de meningite raquidiana e a outra filha estava sozinha com a irmã
seu bastardo? Onde estava a porra da enfermeira?
Louis se levantou da cama.
- Onde você vai? - Rachel perguntou, alarmada.
- Pegar um Valiurn pra você.
- Você sabe que eu não gosto...
- Esta noite gosta.

Ela tomou o comprimido e contou-lhe o resto da história. A voz continuou calma do início ao fim. O tranqüilizante estava agindo.
Uma vizinha pegou a Rachel de oito anos atrás de uma árvore onde ela havia se agachado, gritando sem parar: "Zelda morreu!" O nariz sangrava. Havia sangue por
toda a roupa. A mesma vizinha chamou a ambulância e os pais. Conseguiu fazer cessar a hemorragia nasal, acalmou-a com uma xícara de chá quente, deu-lhe duas aspirinas
e Rachel foi capaz de dizer onde estavam os Goldman. Estavam visitando o Sr. e a Sra. Cabron do outro lado da cidade; Peter Cabron era o contador do pai.
Naquela noite, muita coisa se modificou. Zelda tinha morrido. Seu quarto foi limpo e perfumado. Toda a mobília retirada. O quarto ficou como uma caixa vazia.
Mais tarde, muito mais tarde, transformou-se no quarto de costura de Dory Goldman.
O primeiro pesadelo aconteceu naquela noite. Quando despertou às duas horas da madrugada gritando pela mãe, Rachel ficou horrorizada ao descobrir que
mal podia se levantar da cama. Suas costas doíam muito. Fizera muita força para virar Zelda na cama. Com o jorro de energia propiciado pelo aumento da adrenalina,
conseguira levantar Zelda com força suficiente para rasgar as mangas da blusa.
Que tinha feito muita força tentando impedir que Zelda morresse era uma coisa indiscutível, óbvia, elementar meu caro Watson. Evidente para todo mundo, menos
para Rachel. A menina Rachel teve certeza de que aquilo era uma vingança de Zelda, vinda de além-túmulo. Zelda sabia que Rachel estava satisfeita por ela ter morrido;
Zelda sabia que quando Rachel saiu correndo de casa, gritando com toda a força dos pulmões, proclamando aos quatro ventos que Zelda morreu, Zelda morreu, estava
rindo, não chorando; Zelda sabia que tinha sido assassinada e por isso faria Rachel ter meningite raquidiana - logo as costas de Rachel começariam a se contorcer,
a se deformar; também ela ficaria de cama para sempre, lenta e irremediavelmente se transformando num monstro, as mãos virando garras de passarinho.
Logo ela começaria a gritar de dor, exatamente como Zelda; depois, passaria a molhar a cama; finalmente, ia morrer se engasgando com a própria língua. Seria
a vingança de Zelda.
Ninguém conseguiu demover Rachel desta convicção. Nem a mãe, nem o pai, nem o Dr. Murray, que diagnosticou uma ligeira distensão nas costas e bruscamente (cruelmente,
diriam alguns; Louis, por exemplo) mandou que Rachel parasse de se comportar tão mal. Devia se lembrar que a irmã tinha acabado de morrer, disse o Dr. Murray, os
pais estavam arrasados e não era hora dela armar um espetáculo infantil para chamar atenção.
Só a lenta diminuição da dor foi capaz de convencê-la de que não estava sendo vítima de alguma vingança sobrenatural de Zelda nem de alguma justa punição de
Deus.
Durante meses a fio (na realidade anos, oito anos, ela acabou confessando) acordava no meio da noite com pesadelos. A irmã morria sem parar nesses pesadelos.
Na escuridão do quarto, as mãos de Rachel voavam para as costas, para ter certeza de que estava tudo bem. Na esteira terrível desses sonhos, freqüentemente acreditava
que a porta ia abrir de repente e Zelda cambalearia em sua direção, roxa e deformada, os olhos totalmente esbranquiçados e brilhantes, a língua escura caindo pelos
lábios, as mãos transformadas em verdadeiras garras para matar a criminosa que estava ali deitada, assustada, as mãos apertando as costas...
Não compareceu ao enterro de Zelda nem a nenhum outro enterro.
- Se tivesse me contado isto antes - disse Louis -, muita coisa teria ficado esclarecida.
- Lou, eu não podia - ela respondeu. Já parecia muito sonolenta.
- Desde essa época, fiquei... acho que fiquei com uma certa fobia do assunto.
Só uma certa fobia?, Louis pensou. Bem, tudo bem.
- Não posso... evitar isso. Racionalmente, sei que você tem razão, que a morte é perfeitamente natural... Sim, por que não?... Mas o que a minha mente sabe e
o que acontece... dentro de mim...
- Entendo.
- No dia em que briguei com você... Eu sabia que era muito natural Ellie ter chorado... Era um meio de se acostumar à idéia... Mas não pude evitar. Sinto muito,
Louis.
- Não precisa se desculpar - disse Louis, acariciando-lhe o cabelo.
- Mas se você se sente melhor assim... Ela sorriu.
- É claro. Eu me sinto melhor... E acho que consegui pôr pra fora algo que durante anos envenenou uma parte de mim.
- Também acho.
Os olhos de Rachel foram se fechando sem querer e depois se abriram de novo, devagar.
- E não culpe meu pai pelo que aconteceu, Louis. Por favor. Aquela época foi terrível para os dois. As contas, as contas do tratamento de Zelda, chegavam aos
céus. Meu pai tinha perdido a chance de se expandir para os subúrbios e as vendas na loja do centro não andavam boas. Minha mãe também estava ficando meio enlouquecida
com tudo aquilo.
Rachel acrescentou:
- Bem, tudo passou. Foi como se a morte de Zelda tivesse dado o sinal para os bons tempos voltarem. Tinha havido um aperto, mas os juros baixaram e papai conseguiu
um empréstimo. Desde então, só andou para a frente... Acho que os dois se tornaram muito ciumentos com relação a mim. Não só porque eu fui a única filha que restou,
mas...
- Por causa do sentimento de culpa - disse Louis.
- Sim, acho que sim... Espero que não fique furioso comigo se eu adoecer durante o enterro de Norma...
- Não, querida, não vou ficar furioso.
Louis pegou-a pela mão.
- Posso levar Ellie?
A mão de Rachel apertou a dele.
- Oh, Louis, eu não sei... Ela é tão criança...
- Já sabe de onde vêm os bebês há pelo menos um ano - Louis lembrou.
Rachel ficou um bom tempo em silêncio, olhando para o teto e mordendo os lábios.
- Se acha que é melhor assim - disse finalmente. - Se acha que não vai.., não vai magoá-la.
- Tome conta da casa, Rachel - disse ele, e naquela noite os dois dormiram muito abraçados. Quando Rachel acordou tremendo, no meio da noite, o efeito do Valium
encerrado, ele acarinhou-a com as duas mãos e sussurrou em seu ouvido que estava tudo bem. Ela dormiu de novo.



- Para o homem (e para a mulher), é como as flores no vale, que hoje estão florindo e amanhã são atiradas no fogo: o tempo do homem é apenas uma estação; tem
um começo e um fim. Vamos rezar ao Senhor.
Ellie, resplandecente numa marinheira azul, comprada especialmente para a ocasião, abaixou a cabeça tão bruscamente que Louis, sentado a seu lado no banco da
igreja, ouviu o pescoço estalar. Ellie estivera em poucas igrejas e, naturalmente, era seu primeiro funeral; a combinação das duas coisas levara-a a guardar um respeitoso
e inabitual silêncio.
Para Louis, foi uma experiência incomum com a filha. Sempre ofuscado pelo amor que tinha por ela (como sempre estava ofuscado pelo amor que tinha por Gage),
raramente a observava com maior cuidado; mas naquele dia achou que se defrontava com um caso típico de criança chegando ao fim do primeiro grande estágio de desenvolvimento
da vida; um ser formado de quase pura curiosidade, estocando sem parar novas informações em circuitos quase infinitos. Ellie continuou em silêncio, mesmo quando
Jud, estranho mas elegante no terno preto e sapatos sociais (Louis achou que era a primeira vez que o via calçar qualquer outra coisa além de chinelos ou botas verdes
de borracha), curvou-se para beijá-la:
- E uma satisfação ver você aqui, meu bem - disse Jud. - E aposto que Norma também está muito contente.
Ellie tinha arregalado os olhos.
Agora, o pastor metodista, Reverendo Laughlin, pronunciava a bênção, pedindo que Deus voltasse Sua face para eles e lhes trouxesse a paz.
- Por favor, os que vão levar a urna se aproximem - disse.
Louis começou a se levantar, mas Ellie o fez parar, puxando-o freneticamente pelo braço. Parecia assustada.
- Papai! - ela sussurrou em voz alta. - Onde você vai?
- Sou um dos que vão levar a urna querida - disse Louis, sentando um momento do lado dela e pondo o braço em volta de seus ombros. - Ou seja, vou ajudar a carregar
o caixão de Norma. Sou eu e mais três pessoas: dois sobrinhos de Jud e o irmão de Norma.
- Onde vamos nos encontrar?
Louis olhou a frente. Os outros três já estavam se reunindo ao lado de Jud. As demais pessoas começavam a sair da igreja, algumas chorando.
- Se ficar lá fora na escada, encontro você lá - disse. - Tudo bem, Ellie?
- Tudo bem. Mas não esqueça de mim.
- Não vou esquecer.
Ele tornou a se levantar, mas Ellie puxou-o outra vez pela mão.
- Papai?
- O quê, meu bem?
- Não a deixe cair - Ellie sussurrou.

Louis juntou-se a Jud e Jud apresentou-o aos sobrinhos, que na realidade eram primos em segundo ou terceiro graus... descendentes do irmão do pai de Jud.
Eram rapazes fortes, de vinte e poucos anos, muito parecidos. O irmão de Norma já teria bem mais de cinqüenta, Louis pensou, e embora o pesar de uma morte na família
se revelasse em seu rosto, reagia bastante bem.
- E um prazer conhecê-los - disse Louis. Sentia-se um pouco encabulado. Era um estranho no círculo da família.
Os três o cumprimentaram com sinais de cabeça.
- Éllie está bem? - Jud perguntou. A menina parara no vestíbulo, olhando.
É claro que está. Ela simplesmente quer ter certeza de que eu vou desaparecer numa nuvem de fumaça, Louis pensou e quase sorriu. Mas então, aquilo chamou
outro pensamento: Oz, o Gande e Teível. E o sorriso desapareceu.
- Sim, acho que sim - disse e acenou para a filha. A menina respondeu ao aceno e finalmente saiu da igreja num rodopio da marinheira azul. Por um instante,
Louis ficou impressionado em ver como ela parecia adulta. Por mais fugidia que fosse, era o tipo de ilusão capaz de fazer um homem pensar.
- Todos prontos? - perguntou um dos sobrinhos.
Louis balançou a cabeça; o irmão mais novo de Norma também.
- Vamos devagar com ela - disse Jud. Sua voz tinha se tornado rouca. Ele se virou e, de cabeça baixa, desceu lentamente o corredor.
Louis foi para uma das pontas do caixão cinza metálico que Jud escolhera para a mulher, uma urna da American Eternal Pegou sua alça e os quatro foram
carregando lentamente o corpo de Norma para o claro, embora frio, ar do início de fevereiro. Alguém, possivelmente o zelador da igreja, tinha espalhado uma boa camada
de cinzas sobre o caminho que a neve batida tornara escorregadio. Junto à calçada, o motor de um Cadillac fúnebre funcionava em marcha lenta, lançando no ar de inverno
uma fumaça branca. O agente funerário, ao lado de um filho robusto, acompanhava o transporte do corpo, pronto para ajudar se alguém (talvez o irmão de Norma) escorregasse
ou desse sinais de fraqueza.
Jud também estava perto do agente e observou os quatro fazendo a urna deslizar para a traseira do veículo.
- Adeus, Norma - ele disse e acendeu um cigarro. - Daqui a pouco estarei com você, minha velha.
Louis pousou o braço em volta do ombro de Jud e o irmão de Norma postou-se do outro lado, fazendo o agente funerário e o filho recuarem. Os dois sobrinhos corpulentos
(primos em segundo grau, ou o que quer que fossem) já haviam se afastado, cumprida a missão de levantar e transportar a urna. Talvez só conhecessem o rosto da morta
de fotografias ou de umas poucas visitas de cortesia, tardes que devem ter parecido intermináveis na sala de Norma, comendo biscoitos e tomando a cerveja de Jud.
Dificilmente teriam prestado atenção às velhas histórias de tempos que não viveram e de pessoas que não conheceram; mas, sem dúvida, teriam lamentado o tempo perdido
(um carro que podia ter sido lavado e polido, um jogo de boliche no clube, pelo menos uma luta de boxe assistida na tevê ao lado de amigos). Sem dúvida, teriam aguardado
ansiosos o momento de ir embora quando o dever estivesse cumprido.
Pelo menos na visão dos sobrinhos, a participação de Jud na família fazia agora parte do passado. Jud era como um asteróide sendocorroído pela erosão, perdendo
a maior parte de sua massa, minguando, pouco mais. que um grão de poeira. O passado. Fotografias num álbum. Histórias antigas contadas em quartos que talvez parecessem
quentes demais para eles... Eles não eram velhos; não havia artrite em suas juntas; o sangue deles não tinha enfraquecido. O passado eram alças de caixões a pegar,
erguer e depois largar. Afinal, se o corpo humano era um envelope para guardar a alma - cartas de Deus para o universo, como muitas igrejas ensinavam, a urna da
American Eternal era um envelope para guardar o corpo; para aqueles primos ou sobrinhos jovens e fortes, o passado era apenas uma carta não reclamada a ser arquivada.
Deus guarde o passado, Louis pensou e estremeceu ao imaginar que, um dia, ele também pareceria pouco familiar aos olhos de gente do seu próprio sangue - seus
netos (se Ellie ou Gage tivessem filhos e ele vivesse tempo suficiente para conhecê-los). O centro se deslocava. Linhas familiares degeneravam. Sobravam rostos jovens
olhando de velhas fotos.
Deus guarde o passado, ele pensou outra vez e apertou com mais força os ombros de Jud.
Os condutores do carro puseram as flores junto da urna. A janela elétrica da traseira do furgão se levantou e estalou nos encaixes. Louis voltou para onde a
filha se encontrava e foi junto com ela para sua camionete, segurando-lhe o braço para que não escorregasse com os sapatos novos de sola de couro. Os motores dos
carros iam se pondo em movimento.
- Por que estão acendendo os faróis, papai? - Ellie perguntou num leve tom de admiração. - Por que estão acendendo os faróis em pleno dia?
- Estão fazendo isso - Louis explicou, sentindo a voz um pouco embargada - em honra da morta, Ellie.
Puxou o botão que ligava os faróis da camionete.
- Vamos.

Por fim, encerrada a cerimônia fúnebre (que na realidade limitou-se ao rito na pequena capela de Mount Hope; nenhuma sepultura seria cavada para Norma antes
da primavera), Ellie e o pai voltavam para casa quando a menina irrompeu em lágrimas.
Louis se virou para a filha, surpreso, mas não particularmente alarmado.
- Ellie, o que há?
- Não vai ter mais biscoitos - Ellie soluçou. - Norma fazia os melhores biscoitos de aveia que eu já comi. Mas não vai fazer mais biscoitos nenhum porque morreu.
Papai, por que as pessoas precisam morrer?
- Realmente eu não sei - disse Louis. - Para dar lugar a outras pessoas, talvez. Pessoas novas como você e seu irmão Gage.
- Nunca vou me casar, nem fazer sexo e ter bebês! - Ellie declarou, chorando mais que nunca. - Então talvez isso nunca aconteça comigo! É terrível! É no-no-nojento!
- Mas é o fim de todo o sofrimento - disse Louis num tom calmo.
- E como médico, já vi muito sofrimento. Uma das razões que me levaram a querer o emprego na universidade foi que estava cansado de ver gente sofrendo dia
após dia. Gente nova muitas vezes fica doente, até mesmo muito doente... Mas isso não é exatamente a mesma coisa que sofrimento. Ele fez uma pausa.
- Acredite você ou não, querida, quando as pessoas ficam muito velhas, a morte não parece tão má nem tão assustadora. Bem, mas você ainda tem anos e anos e anos
pela frente.
Ellie chorou um pouco mais, fungou e depois parou. Antes de chegarem, perguntou se podia ouvir o rádio. Louis disse que sim e ela sintonizou Shakin' Stevens
cantando Tliis Ole House na WACZ. Logo estava cantarolando também. Quando chegaram em casa, correu para a mãe e contou tudo sobre o enterro. Apesar dos pesares,
Rachel ouviu tranqüila, compreensiva e solidária, embora Louis percebesse uma certa palidez e um ar de preocupação em seu rosto.
Então Ellie perguntou se ela sabia fazer biscoitos de aveia. Rachel pousou o tricô e se levantou, como se já estivesse esperando alguma coisa desse tipo.
- Sei - disse. - Quer me ajudar?
- Oba! - Ellie gritou. - Vamos mesmo fazer os biscoitos, mamãe?
- Vamos se o seu pai ficar uma hora tomando conta do Gage.
- Eu fico com ele - disse Louis. - Com todo o prazer.

Louis passou a noite ocupado com um longo artigo do The Duquesne Medical Digest, lendo e fazendo anotações. A velha controvérsia sobre suturas que se abriam
começara de novo. Entre o relativamente pequeno número de pessoas preocupadas em coser ferimentos, a discussão parecia interminável, como aquele velho problema psicológico,
natureza versus educação.
Pretendia escrever, naquela mesma noite, uma carta externando sua discordância do artigo, provando que a argumentação do articulista era falaciosa, os exemplos
viciosos, a pesquisa quase criminosamente descuidada. Procuraria, em suma, com muito bom humor, não deixar pedra sobre pedra de toda aquela estúpida baboseira. Tentava
encontrar na estante do escritório o Tratamento das Feridas, de Troutman, quando Rachel desceu até o meio da escada.
- Não vai subir, Lou?
- Daqui a pouco...
Ele voltou os olhos para a mulher.
- Tudo bem?
- Os meninos estão dormindo profundamente, os dois.
Louis a contemplou com carinho.
- Só ..... . você não.
- Tudo bem. Estava lendo.
- Tudo bem mesmo?
- Tudo - ela respondeu e sorriu. - Amo você, Louis.
- Também amo você, meu bem.
Virou-se de novo para a estante e lá estava, onde sempre estivera, o livro de Troutman. Pegou-o.
- Church trouxe um rato pra dentro de casa quando você e Ellie estavam no enterro - disse Rachel, tentando sorrir. - Ah, que porcaria!...
- Diabo, Rachel, sinto muito!
Esperou não parecer tão culpado como de fato se sentia.
- Deu muito trabalho?
Rachel se sentou na escada. No penhoar de flanela cor-de-rosa, o rosto sem maquiagem, a testa muito branca, o cabelo amarrado para trás com um elástico, formando
um curto rabo-de-cavalo, Rachel parecia uma criança.
- Bom, eu dei conta de tudo - disse ela -, mas, você sabe, precisei enxotar o cretino do gato com o tubo do aspirador. Só assim ele parou de acuar o... cadáver.
Chegou a bufar pra mim. Foi a primeira vez que Church bufou pra mim. Ultimamente, parece um gato diferente. Acha que pode estar com algum problema de saúde, Louis?
- Não - ele respondeu com hesitação -, mas posso levá-lo ao veterinário se você quiser.
- Acho que seria bom - disse ela e olhou para o marido com ar indefeso. - Mas não vai subir? Eu só... Eu sei que está trabalhando, mas...
- Já estou indo - disse ele, levantando-se como se já não tivesse qualquer coisa importante a fazer no escritório. E realmente não tinha... exceto que, agora,
a carta jamais seria escrita porque perdera o ritmo da coisa e amanhã suas preocupações seriam outras. Sem dúvida, era responsável pelos ratos de Church. Os ratos
que Church podia trazer para dentro de casa, arranhões ensangüentados feitos pelas garras, intestinos à mostra, talvez até sem cabeça. Sim. Era responsável pelos
ratos de Church.
- Vamos dormir - disse, apagando as luzes.
Ele e Rachel subiram juntos a escada. Louis pôs-lhe o braço em volta da cintura e amou-a mais que tudo no mundo... No entanto, mesmo ao penetrar dentro dela,
e apesar da grande ereção, não pôde deixar de ouvir o vento de inverno do outro lado das janelas cobertas de neve, não pôde deixar de pensar em Church, o gato que
pertencera à sua filha e que agora lhe pertencia - pensar onde estaria ele, o que estaria emboscando ou matando. O solo do coração de um homem é mais empedernido...
O vento gemia seu canto amargo e, não a muitos quilômetros dali, Norma Crandall, que uma vez tricotara gominhos iguais para Ellie e Gage, jazía na urna cinza metálica
da American Eternal, provisoriamente num escaninho de laje do cemitério de Mount Hope. Agora, o algodão branco que o agente funerário usou para encher suas bochechas
já estaria ficando preto.


No dia do seu aniversário, Eliie voltou às seis horas. Chegou do jardim de infância com um chapéu de papel torto na cabeça, a mão cheia de desenhos que os coleguinhas
fizeram dela (no melhor desses desenhos, Ellie parecia um simpático espantalho) e histórias fantásticas sobre uma briga durante o recreio.
Na universidade, o surto de gripe espanhola passou. Tiveram de mandar dois estudantes para o Centro Médico do Maine em Bangor e Surrendra Hardu provavelmente
salvou a vida de um calouro em estado bastante grave, um rapaz com o terrível nome de Peter Humperton. Ele entrara em convulsões pouco depois de chegar à enfermaria.
Rachel desenvolveu uma ligeira fascinação por um manequim louro de uma loja de confecções em Brewer. Certa noite, contou entusiasmada a Louis como o jeans parecia
vestir um corpo de verdade.
- Mas é apenas uma armação forrada com papel higiênico - acrescentou.
- Um dia desses dê um apertão no lugar certo - Louis sugeriu. -Se ele gritar, pode não ser.
Rachel riu até chorar.
A meia-estação de céu azul, atmosfera tranqüila, mas temperatura ainda bem fria, foi substituida pelos dias de março, onde as geadas se alternavam com os aguaceiros.
As estradas ficaram esburacadas e por toda parte surgiram tabuletas alaranjadas: "Cuidado, trecho em obras." A dor profunda, intima e angustiante de Jud Crandall
passou, aquela dor que, segundo os psicólogos, começa cerca de três dias após a morte de um ser amado e, na maioria dos casos, dura de quatro a seis semanas (como
o período de tempo que os habitantes da Nova Inglaterra às vezes chamam de inverno profundo"). Mas o tempo passa, e o tempo solda um estado de espírito no outro,
até construir uma espécie de arco-íris. A dor mais forte diminui, transforma-se numa dor relativamente branda; a dor relativamente branda transforma-se em tristeza
e a tristeza em lembrança. Um processo que, se levar de seis meses a três anos, pode ser considerado normal. O dia do primeiro corte de cabelo de Gage veio e passou.
Quando Louis viu que o cabelo do filho ganhara força, riu por fora mas sentiu tristeza dentro do peito.
A primavera veio, e durou algum tempo.


Louis Creed passaria a acreditar que o último dia realmente feliz de sua vida foi 24 de março de 1984. As coisas que estavam por vir, que iam pairar sobre ele
e a família como lâminas de guilhotina, ainda estavam ocultas, a mais de sete semanas no futuro. No entanto, naquelas sete semanas de intervalo, nada mais pareceu
conservar a mesma coloração de antes. Mesmo se nenhuma daquelas coisas terríveis tivesse acontecido, Louis jamais ia esquecer aquele dia. Os dias realmente bons,
achava ele, bons do primeiro ao último minuto, eram bastante raros. Talvez na vida normal de um homem, mesmo nas melhores circunstâncias, houvesse menos que um mês
de dias realmente bons. Deus, em Sua infinita sabedoria, parecia muito mais generoso quando distribuía a dor.
Aquele dia caiu num sábado e ele passou a tarde em casa, tomando conta de Gage, enquanto Rachel e Ellie foram ao mercado. Tinham ido com Jud na velha e barulhenta
pickup 1H 59, não porque a camionete de Louis estivesse enguiçada, mas porque Jud realmente gostava da companhia das duas e ficara satisfeito em levá-las. Rachel
perguntou se ele cuidaria de Gage, ele respondeu que podia ir sossegada. Estava contente por vê-la sair: após um inverno no Maine, passado quase inteiramente em
Ludlow, achava que a mulher devia aproveitar toda e qualquer oportunidade para se afastar um pouco de casa. Não tinha se queixado e entregava-se com ânimo aos afazeres
domésticos, mas Louis percebia que começava a ficar um pouco nervosa e superagitada.
Gage acordou de sua soneca por volta das duas horas, ranheta, malhumorado. Descobrira o gosto da manha e se entregava a ele. Louis recorreu a vários expedientes
para divertir o filho, mas sem nenhum resultado. Gage repudiou todos.
Para tornar as. coisas piores, o menino começou a mexer a barriga como se estivesse com fortes cólicas e, perto do umbigo dele, Louis encontrou uma das
bolas de gude azuis com que Ellie brincava. Sorte o garoto não a ter engolido, pois costumava pôr na boca tudo que pegava. Decidiu guardar todas as bolas de gude
que pudesse haver pela casa e sentiu-se aliviado com a decisão. Gage parou de contrair a barriga, mas continuou rabugento.
Louis ouvia o vento do início de primavera soprar em volta da casa. As sombras das árvores agitavam-se no terreno vizinho da Sra. Vinton. De repente, lembrou-se
do abutre, uma pipa que, num impulso, comprara há cinco ou seis semanas na volta da universidade. Teria comprado linha também? Sem dúvida, graças a Deus!
- Gage! - ele chamou. Gage encontrara um lápis verde embaixo do sofá e estava fazendo rabiscos num dos livros favoritos de Ellie. Mais uma coisa para alimentar
o fogo da rivalidade fraterna, Louis pensou e sorriu. Se Ellie ficasse realmente furiosa com os rabiscos, Louis simplesmente mencionaria o tesouro único que encontrara
perto do umbigo de Gage.
- O quê? - Gage respondeu com ar esperto. Já estava falando bastante; Louis achava que até bem demais para a idade dele.
- Não quer sair?
- Sair! - Gage exclamou agitado. - Quero. Onde estão meus sapatos, papai?
Esta frase, se reproduzida foneticamente, seria mais ou menos assim: Om tá meu tapato, papai? Louis ficava freqüentemente impressionado pela fala de Gage,
não porque fosse "engraçadinha", mas porque achava que as crianças pequenas pareciam imigrantes aprendendo uma língua estrangeira, de uma forma atabalhoada, mas
razoavelmente simpática. Sabia que os bebês fazem todos os sons que a voz humana é capaz de produzir... O erre arrastado, tão difícil para estudantes de primeiro
ano de francês, os grunhidos e estalos que os boximanes da Austrália fazem na abertura da laringe, as grossas, ásperas consoantes do alemão. Perdiam a aptidão quando
aprendiam a língua materna, e Louis freqüentemente se perguntava se a infância não seria antes um período de esquecimento que de aprendizado.
Os "tapatos" de Gage foram finalmente encontrados.., também estavam embaixo do sofá. Uma das outras crenças de Louis era que, em famílias que têm crianças
pequenas, a área sob as poitronas começa, após algum tempo, a desenvolver uma forte e misteriosa força eletromagnética que passa a sugar todo tipo de coisa: de garrafas
e alfinetes de fralda a lápis de cor e velhas revistas infantis, com pedaços de doces amassados entre as páginas.
O casaco de Gage, porém, não estava sob o sofá, mas no meio da escada. Por sua vez, o gorro Red Sox, sem o qual Gage se recusava a sair, foi bem mais difícil
de achar, porque estava onde devia estar - no armário. Aquele, naturalmente, era o último lugar onde alguém pensaria em procurá-lo.
- Vamos aonde, papai? - Gage perguntou num tom bastante amistoso, dando a mão a Louis.
- Vamos até o terreno da Sra. Vinton. Vamos soltar uma pipa, rapaz!
- Uma püpa?! - Gage perguntou sem entender muito bem.
- Você vai gostar - disse Louis. - Espere um instante, garoto.
Agora estavam na garagem. Louis encontrou o molho de chaves, abriu o pequeno armário que servia como depósito e acendeu a luz. Revirou o armário e achou o abutre,
ainda na embalagem da loja, com a etiqueta do preço. Comprara a pipa num dia muito escuro de meados de fevereiro, quando sua alma ansiava por um pouco de sol.
- Pai? - Gage perguntou na inflexão do idioma gagês para "que diabo você tem aí, papai?"
- É a pipa - Louis respondeu, tirando-a da embalagem. Interessado, Gage observou-o abrir o abutre, que esparramou as asas por talvez um metro e meio de plástico
resistente. Os olhos salientes, avermelhados, encararam os dois da pequena cabeça no alto de um pescoço descarnado e rosado.
- Pássaro! - Gage gritou. - Pássaro, papai! Virou um pássaro!
- Sim, é um pássaro - Louis concordou, enfiando as varetas nos encaixes atrás da pipa e vasculhando de novo o armário em busca dos cento e cinqüenta metros de
linha que comprara. Olhou por sobre o ombro e repetiu para Gage:
- Você vai gostar, garotão!
Gage gostou.
Levaram a pipa para o terreno da Sra. Vinton e Louis a fez subir para o céu com vento daquele final de março. Já não soltava uma pipa desde... desde os doze
anos? Dezenove? Deus, era terrível!
A Sra. Vinton era uma mulher quase da idade de Jud, embora extremamente mais frágil. Morava numa casa de tijolos vermelhos, na frente do terreno, e saía muito
raramente. Atrás da casa, o terreno acabava onde começavam os bosques - os bosques que primeiro conduziam ao "simitério" de bichos e depois ao cemitério micmac.
- A pipa está voando, papai! - Gage gritou.
- É, olhe como ela sobe! - Louis também gritou, entusiasmado, rindo. Deu linha com tanta rapidez que o cordão se transformou num fio em brasa correndo na palma
da mão.
- Olhe o abutre, Gage! Está subindo pra cachorro!
- Pra cachorro! - Gage gritou e riu alto, morrendo de alegria.
O sol saiu de detrás de uma espessa nuvem cinzenta de primavera e, quase de imediato, a temperatura pareceu subir dois ou três graus. Foram envolvidos pela luz
brilhante, pelo calor instável de um fmal de março se esforçando para ser abril. Pisavam no mato do terreno da Sra. Vinton. Acima deles, o abutre ascendia para o
céu azul, cada vez mais alto, as asas de plástico abertas e tensas contra a firme corrente de ar, ainda mais alto, e Louis começava a se sentir como uma criança,
subindo com a pipa, saltando em direção à pipa, vendo o mundo ficar cada vez menor, como deve ser o mundo no sonho dos cartógrafos. O terreno da Sra. Vinton, tranqüilo
e ainda branco, mas com camadas de relva cada vez mais densas seguindo o recuo da neve... Não apenas um terreno agora, mas um grande paralelo-grama cercado por encostas
rochosas em dois de seus lados... Depois a estrada no fundo, uma cicatriz preta e reta, e o vale do rio. O abutre via tudo isso com os olhos injetados planando lá
no alto. Via o rio como uma faixa acinzentada, serena, metálica, pedaços de gelo ainda flutuando sobre as águas; do outro lado via Hampden, Newburgh, Winterport
com um navio nas docas; talvez visse o Moinho de St. Regis em Bucksport, sob sua contínua exalação de fumaça; talvez o fim do próprio continente, onde o Atlântico
batia com força na rocha nua.
- Olhe a pipa onde vai, Gage! - Louis gritou, rindo.
Gage tinha a cabeça tão inclinada para trás que corria o risco de cair de costas. Um enorme sorriso cobria-lhe o rosto. Acenava para o abutre.
Louis deu folga na linha e mandou Gage segurá-la com uma das mãos. Gage obedeceu sem pestanejar. Não podia tirar os olhos da pipa, sacudindo e dançando no vento,
fazendo sua sombra deslizar de um lado para outro no terreno.
Louis enrolou duas vezes a linha na mão de Gage e olhou para o filho, boquiaberto com o forte puxão na pipa.
- E ai?! - Gage exclamou.
- Você está soltando a pipa - disse Louis. - Agarre bem, garotinho. A pipa é sua.
- Gage está soltando a pipa? - disse Gage, como se pedisse uma confirmação não ao pai, mas a si mesmo. Puxou de novo a linha para experimentar, a pipa balançou
no ar. Gage puxou mais forte, a pipa mergulhou. Louis ria junto com ele. Gage estendeu a outra mão, tateou no ar e Louis segurou-a. Permaneceram assim, um ao lado
do outro, no meio do terreno da Sra. Vinton, olhando o abutre.
Louis jamais esqueceria aquele momento. Quando se sentiu subindo com a pipa, como uma criança, sentiu-se também mais próximo de Gage. Era como se tivesse encolhido
até caber dentro do corpo do filho e olhar pelas janelas que eram seus olhos: contemplar um mundo enorme e radiante, onde o terreno da Sra. Vinton era quase tão
grande quanto o Pântano de Bonnevílle, onde a pipa planava, quilômetros acima dele, a linha dando coices em seu punho como uma coisa viva, o vento soprando e lhe
revirando os cabelos.
- A pipa está voando! - Gage gritou para o pai. Louis pôs o braço em volta dos ombros do filho e beijou-o no rosto, onde o vento tinha feito florir um tom rosado.
- Gosto muito de você, Gage - disse o pai. Era uma confissão entre os dois e era ótimo.
E Gage, que agora tinha menos de dois meses de vida, riu num tom estridente e muito alegre.
- A pipa está voando! A pipa está voando, papai!

Ainda estavam soltando pipa quando Rachel e Ellie chegaram. Os dois faziam o abutre subir tão alto que quase perdiam a linha. Não viam mais a face do pássaro;
a pipa era apenas uma silhueta negra no céu.
Louis ficou satisfeito ao vê-las e deu uma gargalhada quando Ellie pegou a pipa e deixou cair o carretel, que foi rolando, aos trambolhões, pela relva. Quando
Ellie o alcançou, pouco faltava para o final da linha escapar. No entanto, soltar pipa no meio dos dois filhos alterava um pouco as coisas, e Louis não ficou muito
aborrecido em voltar para casa quando Rachel o chamou, vinte minutos depois, dizendo que Gage já apanhara vento demais. Podia se resfriar.
Então a pipa foi puxada para baixo, lutando para subir a cada volta do carretel, mas finalmente se rendendo. Louis dobrou-a, fazendo as asas negras encolherem,
escondendo os olhos salientes e avermelhados. Depois colocou o abutre debaixo do braço e voltou a aprisioná-lo no armário da garagem. Naquela noite, Gage comeu um
enorme suprimento de cachorros-quentes e castanhas, e enquanto Rachel vestia-lhe o macacão de dormir, Louis levou Ellie para um canto e teve uma conversa franca
sobre o perigo de deixar as bolas de gude ao alcance do irmão. Em outras circunstâncias, acabaria gritando com a filha, pois Ellie costumava se tornar extremamente
arrogante - até mesmo insolente - quando se sentia acusada de ter cometido algum erro. Simplesmente era esse seu jeito de lidar com a crítica negativa, o que, sem
dúvida, não impedia que o pai ficasse furioso quando ela se tornava muito ríspida e ele estava particularmente cansado. Mas naquele dia a pipa o deixara muito bem-humorado
e Ellie parecia disposta a ser razoável. Concordou em ser mais cuidadosa e desceu para assistir televisão até às oito e meia, uma indulgência comum nos dias de sábado,
e ela adorava. Muito bem, agora as bolas de gude devem ficar fora do caminho e o perigo maior está afastado, Louis pensou, não sabendo que bolas de gude não eram
realmente o problema, que resfriados também não eram o problema, que o problema seria um grande caminhão da Orinco, que o problema seria a estrada... Um perigo de
que Jud Crandall já os advertira naquele 1 de agosto do ano anterior.

Naquela noite, subiu quinze minutos depois de Gage ter ido dormir. Encontrou o filho tranqüilo, mas ainda acordado, bebendo um resto de leite da mamadeira e
olhando contemplativamente para o teto.
Louis pegou um dos pés do garoto e beijou-o.
- Boa noite, Gage.
- A pipa está voando, papai.
- Ela voa mesmo, não é?
Sem absolutamente qualquer razão, Louis sentiu lágrimas nos olhos.
- Vai subindo até o céu, meu garoto.
- A pipa está voando - disse Gage. - Até o céu.
E de um momento para o outro, o menino virou de lado, fechou os olhos e adormeceu.
Louis estava entrando no corredor quando olhou para trás e viu olhos sem corpo, verde-amarelados, fitando-o do armário de Gage. A porta do armário estava entreaberta...
era só uma fenda. Seu coração deu um salto para a garganta, à boca se contraiu e desenhou um esgar.
Abriu a porta do armário, pensando
(Zelda, é Zelda no armário, a língua escura saindo por entre os lábios.)
que não sabia bem o que era, mas, é daro, era apenas Church, Church estava no armário, e quando viu Louis arqueou as costas como um gato num cartão de Halloween.
Bufou para ele, a boca parcialmente aberta, revelando dentes afiados como agulhas.

- Passa! - Louis sussurrou.
Church bufou outra vez e não se mexeu.
- Passa fora, vamos!
Pegou a primeira coisa que lhe caiu nas mãos entre. a bagunça dos brinquedos de Gage. Era uma brilhante locomotiva de plástico, que na semi-obscuridade tinha
um tom marrom de sangue coagulado. Brandiu-a na direção de Church, mas além de não sair do lugar, o gato tornou a bufar.
E de repente, sem raciocinar, Louis atirou o brinquedo no animal, a sério, não pretendendo errar; ele martelou o brinquedo no gato o mais forte que pôde, furioso
e também assustado, assustado com aquela coisa que se escondia na escuridão do armário do quarto do filho e se recusava a sair, como se tivesse um direito adquirido
de estar lá.
A locomotiva atingiu o gato em algum ponto morto. Church proferiu um grasnido e fugiu, revelando sua habitual falta de jeito ao esbarrar na porta e quase cair.
Gage se mexeu na cama, resmungou alguma coisa, mudou de posição e voltou a ficar quieto. Louis sentiu uma ligeira náusea. O suor lhe escorria em gotas pela testa.
- Louis? - Rachei gritou no andar de baixo, parecendo assustada.- Gage caiu do berço?
- Ele está bem, querida. Foi Church que bateu em alguns brinquedos.
- Oh, tudo bem.
Irracionalmente ou não, Louis se sentia como se ao subir para dar uma olhada no filho tivesse encontrado uma cobra rastejando sobre ele, ou um rato enorme empoleirado
na prateleira sobre o berço. Sem dúvida, era irracional. Mas quando Church bufou daquela maneira no armário...
(Zelda você acha que Zelda você acha que Oz o Gande e Teível?)
Fechou a porta do armário de Gage, empurrando com o pé alguns brinquedos para dentro dele. Ouviu o estalo curto do trinco. Depois de mais um instante de hesitação,
fechou o armário a chave.

Voltou para o berço de Gage. Ao se mexer, o menino chutara os dois cobertores até os joelhos. Louis desembaraçou as cobertas, puxou-as para cima e ficou parado,
um longo tempo, contemplando o filho.


PARTE DOIS
O
CEMITÉRIO MICMAC
Quando Jesus chegou a Betânia, viu que Lázaro já estava sepultado há quatro dias. Quando Marta soube que Jesus vinha chegando, correu ao seu encontro.

- Senhor - disse ela -, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido. Mas agora estás aqui, e sei que tudo o que pedires a Deus, ele te concederá.


Jesus lhe respondeu: - Teu. irmão ressuscitará.


Evangelho Segundo São João (parâfrase)


Ei, iá, vamos lá!

THE RAMONES


Provavelmente é um erro acreditar que possa haver um limite para o horror que a mente humana pode suportar. Parece, ao contrário, que certos mecanismos exponenciais
começam a prevalecer à medida que o infortúnio se torna mais profundo. Por menos que se goste de admitir, a experiência humana tende, sob muitos aspectos, a corroborar
a idéia de que quando o pesadelo se torna suficientemente terrível, o horror produz mais horror, um mal que acontece por acaso engendra outro, freqüentemente menos
ocasional, até que finalmente a desgraça parece tomar conta de tudo. E a mais aterradora de todas as questões talvez seja simplesmente querer saber quanto horror
a mente humana pode experimentar conservando uma atenta, viva, implacável sanidade. Quase nem é preciso dizer que esses ventos têm seu próprio absurdo tipo Rube
Goldberg. Em determinado ponto, tudo passa a se tornar um tanto engraçado. Pode ser esse o ponto em que a sanidade começa a resgatar a si mesma ou a ceder, sucumbir;
o ponto em que o senso de humor de uma pessoa começa a fazer valer seus direitos.
Louis Creed podia ter nutrido tais pensamentos se estivesse pensando racionalmente depois do enterro do filho, Gage William Creed, a dezessete de maio, mas qualquer
pensamento racional - ou tentativa disso - cessara na casa funerária, onde uma briga de socos com o sogro (bastante grave) resultou num evento ainda mais terrível,
um trecho final de escandaloso melodrama gótico, que espatifou tudo que restava do frágil autocontrole de Rachel. Os lances de revista de terror registrados naquele
dia só se concluíram quando Rachel foi arrastada, gritando, da Sala Leste da Funerária Brookings-Smith, onde Gage jazia num caixão fechado, e entorpecida com um
sedativo pelo marido.


A grande ironia é que ela não teria vivido aquele episódio final, aquela extravagância de horror, podemos dizer assim, se a briga entre Louis Creed e o Sr. Irwin
Goldman, de Dearborn, tivesse ocorrido nas horas de velório da manhã (dez às onze e trinta) e não nas horas de velório da parte da tarde (quatorze às quinze e trinta).
Rachel não comparecera de manhã: simplesmente não fora capaz de ir. Ficou em casa com Jud Crandall e Steve Masterton. Louis não tinha idéia de como teriam atravessado
as últimas quarenta e oito horas sem o apoio de Jud e Steve.
Foi uma sorte para Louis - e uma sorte para todos os três membros restantes da família - que Steve tivesse se apresentado tão prontamente, pois Louis, ao menos
por certo tempo, ficou incapaz de tomar qualquer iniciativa, mesmo uma tão insignificante quanto dar à esposa algum remédio para amortecer a dor profunda. Nem ao
menos reparou que Rachel tinha pretendido vir à visita de manhã com o casaco que usava em casa, do qual arrancara alguns botões. Seu cabelo estava despenteado, sujo,
embaraçado. Os olhos, buracos inexpressivos e sombrios, pareciam tão afundados nas órbitas quanto os olhos de uma caveira. Todo o corpo estava flácido. A carne pendia
do rosto. Naquela manhã, sentou-se à mesa de café mastigando ruidosamente uma torrada sem manteiga e dizendo frases soltas, que não faziam qualquer sentido.
- Sobre aquele Winnebago que você quer comprar, Lou... - dissera em certo ponto.
A última vez que Louis falara em comprar aquele carro fora em 1981.
Louis limitou-se a balançar a cabeça e continuou tomando seu desjejum. Bebia um copo grande de chocolate. O chocolate fora um dos alimentos favoritos de Gage
e naquela manhã Louis quis bebê-lo. Detestava chocolate, mas ainda assim quis bebê-lo. Estava caprichosamente metido no seu. melhor paletó (não era preto, não tinha
paletó preto, mas, pelo menos, era de um cinza bem escuro). Acabara de fazer a barba, tomar banho e pentear o cabelo. Parecia até elegante, embora estivesse entorpecido
pelo choque.
EIlie vestira uma calça jeans azul e uma blusa amarela. Trouxe uma fotografia para a mesa de café. A foto, uma ampliação do instantâneo tirado por Rachel com
a câmara SX-70 que ganhara de Louis e das crianças no último aniversário, mostrava Gage. sorrindo dos fundos do capuz do casaco da Sears, sentado no trenó de Ellie
e puxado pela irmã. Rachel surpreendera Ellie olhando pelo ombro e sorrindo para Gage. Gage devolvia o sorriso.
Ellie trouxe a fotografia, mas não falou muita coisa.
Louis estava incapacitado de perceber o estado emocional da esposa ou da filha; limitava-se a fazer o desjejum, enquanto a mente respirava o acidente vezes sem
conta. Mas no filme de sua mente a conclusão era outra. No filme de sua mente ele era mais rápido, e tudo que acontecia era que Gage levava uma surra por não ter
parado quando o pai e a mãe gritaram.
Era Steve quem realmente prestava assistência a Rachel e Ellie. Proibiu que Rachel fosse ver o corpo na parte da manhã (embora "ver o corpo" não fosse boa expressão,
devido ao caixão fechado; se estivesse aberto, Louis pensou, todos sairiam gritando da sala, inclusive ele) e proibiu terminantemente que Ellie fosse ao velório.
Rachel protestou. Ellie continuou sentada, com a expressão grave, silenciosa, seu retrato com Gage numa das mãos.
Foi Steve quem deu a Rachel a injeção de que ela precisava e a Ellie uma colher de chá de um líquido sem cor. Geralmente Eilie choramingava e resmungava quando
precisava tomar remédios - qualquer tipo de remédio - mas dessa vez bebeu silenciosamente e sem caretas. Por volta das dez horas da manhã estava dormindo no quarto
(sempre com o retrato na mão) e Rachel estava sentada diante da televisão, vendo a "Roda da Fortuna". Suas respostas às perguntas de Steve eram lentas. Permanecia
atônita, mas o rosto perdera aquele olhar de loucura que tanto preocupara (e assustara) Steve quando ele chegou às oito e quinze daquela manhã.
Jud, é claro, fizera todos os preparativos. Fizera-os com a mesma calma eficiência com que tratou do enterro da mulher três meses antes. Mas foi Steve Masterton
quem levou Louis para um canto, pouco antes de ele sair para o velório.
- Talvez ela vá até lá hoje à tarde, se eu achar que vai resistir -disse Steve.
- Tudo bem.
- À tarde, o efeito da injeção já terá passado. Seu amigo, o Sr. Crandall, diz que vai ficar com Ellie durante o velório...
- Está bem.
- Vai jogar monopólio ou alguma coisa com ela...
- Ahn...
- Mas...
- Certo.
Steve parou. Estavam na garagem, a área favorita de Church, o lugar para onde ele trazia os pássaros e ratos mortos. Pelo menos os que Louis encontrava. Lá fora
brilhava o sol de maio e um tordo cruzava apressado o caminho da garagem, como se tivesse importantes negócios a tratar. Talvez tivesse.
- Louis - disse Steve. - Você tem de esfriar um pouco a cabeça.
Louis se virou para Steve, interrogando-o gentilmente com o olhar. Não ouvira muita coisa do que Steve dissera - estava pensando que se tivesse sido um pouco
mais rápido podia ter salvo a vida do filho -, mas não deixou de perceber a última observação.
- Não se sei reparou - disse Steve -, mas Ellie não está falando. E Rachel teve tamanho choque que sua própria noção de tempo parece ter se deformado.
- Certo! - disse Louis. Percebeu mais energia em sua resposta, mas não entendeu por que respondera assim.
Steve pousou a mão no ombro de Louis.
- Lou, elas nunca precisaram tanto de você como agora. E talvez jamais voltem a precisar dessa maneira. Por favor, rapaz. .. Posso dar um remédio à sua mulher,
mas... você... Olhe, Louis, você tem... Oh, Deus, droga, que merda de porra foi acontecer!
Louis viu, com uma espécie de alarme, que Steve começava a chorar.
- Pois é!
Em sua mente, viu Gage correndo pelo gramado em direção à estrada. Gritavam para Gage voltar, mas ele não obedecia (ultimamente sua brincadeira preferida era
correr do papai e da mamãe). Saíram correndo atrás dele, Louis rapidamente deixando Rachel para trás, mas Gage estava com grande vantagem, Gage estava rindo, Gage
estava correndo do papai - era esse o jogo - e Louis ia encurtando a distância, mas muito devagar. Gage corria pelo suave declive do gramado, agora para a beira
da Rodovia 15, e Louis pediu a Deus que Gage caísse (quando crianças pequenas correm, quase sempre caem, porque o controle de uma pessoa sobre as pernas só se torna
realmente eficaz aos sete ou oito anos). Louis pediu a Deus que Gage caísse, caísse, sim, caísse e quebrasse o nariz, e precisasse levar alguns pontos na cabeça,
qualquer coisa, porque agora podia ouvir o ronco de um caminhão vindo na direção deles, um daqueles grandes caminhões com dez rodas, que não paravam de andar de
um lado para o outro entre Bangor e a fábrica da Orinco em Bucksport. Então ele berrou o nome de Gage; achou que Gage tinha ouvido e tinha tentado parar. Gage parecia
ter percebido que era o fim da brincadeira, que os pais não berram
pela gente quando é só uma brincadeira, e Gage tentou parar, e então o som do caminhão era muito alto, o som do caminhão enchia o mundo -era trovejante. Louis se
atirou para a frente num grande arremesso, sua sombra manchando o chão como, naquele dia de março, a sombra da pipa-abutre manchara a relva ainda esbranquiçada pela
neve do terreno da Sra. Vinton. Acreditou que as pontas dos dedos chegaram a roçar nas costas da jaqueta do filho, mas o movimento de Gage já o levara para dentro
da estrada, e o caminhão tinha se tornado um estrondo, a luz do sol brilhava nos pára-choques cromados e o caminhão se transformou no guincho áspero, de fundo de
garganta, de uma buzina externa; e tudo aquilo aconteceu no sábado, três dias atrás.
- Estou bem - disse. - Tenho de ir agora.
- Se você puder esfriar a cabeça e ajudá-las - disse Steve, limpando os olhos com a manga do casaco -, estará ajudando a si mesmo. Vocês três têm de superar
isso juntos, Louis. Não há outro jeito. Todo mundo sabe que não há outro jeito.
- Está bem - Louis concordou e, em sua mente, tudo começou de novo a acontecer, só que dessa vez ele conseguia pular meio metro na frente, agarrar as costas
da jaqueta de Gage e o resultado era diferente.

Quando houve a cena na Saia Leste, Ellie empurrava o marcador de monopólio distraída - e silenciosa - pelo tabuleiro. Jud Crandall estava a seu lado. A menina
sacudiu os dados com uma das mãos e apertou na outra a fotografia em que puxava Gage no trenó.
Steve Masterton achou que Rachel tinha condições de enfrentar o velório à tarde. (À luz dos acontecimentos posteriores, foi uma decisão que veio a lamentar profundamente.)
Os Goldman tinham voado para Bangor naquela manhã e estavam hospedados no Holiday Inn. O pai de Rachel ligara quatro vezes por volta do meio-dia e Steve teve
de ser muito firme com o velho (quase ameaçador na quarta chamada). Irwin Goldman queria ir até lá e nem todos os cães do inferno o fariam ficar longe da filha naquele
momento de necessidade, disse ele. Steve respondeu que naquele momento Rachel precisava descansar um pouco antes de ir ao velório para se refazer o mais possível
do choque inicial. Disse que não conhecia todos os cães do inferno, mas conhecia um médico-assistente, sueco-americano, que não tinha qualquer intenção de permitir
a entrada fosse lá de quem fosse na casa dos Creed antes que Rachel aparecesse em público por sua livre e espontânea vontade. Após o velório daquela tarde, disse
Steve, seria uma satisfação deixar a rede de apoio dos parentes assumir a direção das coisas. Até então, queria que Rachel ficasse sozinha.
O velho xíngou-o em iídiche e bateu o telefone no gancho. Steve ficou na expectativa de que Goldman realmente aparecesse por lá, mas, ao que tudo indicava,
resolvera esperar. Por volta do meio-dia, Rachel parecia um pouco melhor. Pelo menos tinha consciência do período do dia em que estava e foi até a cozinha para ver
se havia sanduíches ou alguma coisa para comer.
- Depois, provavelmente as pessoas vêm pra cá, não é? - ela perguntou a Steve.
Steve concordou com a cabeça.
Não encontrou salsichas, nem carne assada, mas havia um peru na geladeira. Rachel o levou para descongelar no escorredor. Pouco depois, Steve deu uma espiada
na cozinha e viu-a de pé junto a pia, olhando fixamente o peru no escorredor e chorando.
- Rachel?
Ela se virou para Steve.
- Gage gostava muito de peru. Principalmente do peito... Mas nunca mais ele vai comer outro pedaço...
Steve mandou que ela fosse se vestir, sem dúvida o teste final de sua capacidade para se controlar. Quando desceu usando um vestido preto, simples, amarrado
na cintura, e carregando uma pequena carteira também preta (na realidade uma bolsa para acompanhar um vestido de noite), Steve achou que estava muito bem e Jud concordou.
Steve levou-a até a cidade. Ficou com Surrendra Hardu no saguão da Sala Leste e contemplou Rachel deslizar pelo corredor como alma penada, na direção do caixão
coberto de flores.
- Como estão as coisas, Steve? - Surrendra perguntou em voz baixa.
- Terríveis, uma merda! - Steve também respondeu num tom baixo, mas áspero. - Como você achava que elas deviam estar?
- Achava que deviam estar terríveis, uma merda - disse Surrendra, e suspirou.

O problema realmente começara durante o velório na parte da manhã, quando Irwin Goldman recusou-se a apertar a mão do genro.
Sem dúvida, a presença de tantos amigos e parentes forçara Louis a sair um pouco da teia do seu torpor, £orçara-o a reparar no que acontecia ao redor, a voltar-se
para fora. Atingira aquele estágio maleável de dor que os agentes funerários conhecem bem e sabem manejar e dirigir em proveito próprio. Louis foi levado de um lado
para o outro como uma pedra num jogo de gamão.
Do lado de fora da Sala Leste havia um pequeno saguão onde as pessoas podiam fumar e sentar em poltronas confortáveis. As poltronas pareciam ter vindo diretamente
de um leilão tumultuado em algum velho clube masculino inglês que tivesse falido. Ao lado da porta que conduzia à sala do velório, havia um pequeno cavalete de metal
negro, com moldura dourada. Sobre ele fora afixada uma pequena tabuleta que dizia apenas: GAGE WILLIAM CREED. Do outro lado do espaçoso prédio branco, cheio de portas
e corredores como uma boa e velha casa, havia um saguão idêntico na saída da Sala Oeste, onde a tabuleta do cavalete indicava: ALBERTA BURNHAM NEDEAU. Nos fundos
da casa ficava a sala que dava de frente para o rio. O cavalete à esquerda da porta que ligava esta sala com seu respectivo saguão estava vazio; não havia ninguém
lá naquela manhã de terça-feira. No andar de baixo, ficava a exposição dos caixões, cada modelo iluminado por um pequeno spot preso no teto. Se o comprador olhasse
para o teto (Louis olhou e o agente funerário franziu severamente a testa), as sombras dos spots sugeririam a presença de estranhos animais empoleirados pelo salão.
Jud fora lá com ele no domingo, um dia depois da morte de Gage, para escolher o caixão. Entraram pelo andar de baixo e em vez de dobrar imediatamente à direita
para o showroom, Louis, meio atordoado, continuou seguindo o corredor em direção a uma porta branca de vaivém, simples' como aquelas portas que comunicam o salão
com a cozinha em certos restaurantes. Jud e o agente funerário falaram rapidamente e ao mesmo tempo: "Não é por aí!", e Louis desviou obedientemente. Sabia o que
havia atrás daquela porta. Afinal, seu tio fora agente funerário.
A Sala Leste estava mobiliada com fileiras bem-arrumadas de cadeiras dobráveis (aquelas caras, com assento e costas de um forro tipo pelúcia). Logo na frente,
numa área que parecia um misto de nave de igreja com varanda, ficava o caixão de Gage. Louis escolhera o modelo em jacarandá rosado da American Casket Company. "Repouso
Eterno", era assim que o chamavam. Estava forrado com seda cor-de-rosa, tipo pelúcia. O agente funerário concordou que, sem dúvida, era uma bonita urna, e desculpou-se
por não ter nenhuma com forro azul. Louis respondeu que ele e Rachel nunca fizeram tais distinções. O agente concordou e perguntou se ele já havia pensado como ia
custear as despesas do funeral. Caso contrário, poderia acompanhá-lo até o escritório e passar rapidamente em revista três de seus planos de financiamento mais populares...
Na mente de Louis, um locutor apregoou brusca e animadamente: compre agora e pague depois o caixão do seu garoto!
Sentindo-se como participante de um sonho, ele respondeu:
- Vou saldar toda a conta com meu Cartão Master.
- Otimo - disse o agente.
O caixão não tinha mais que um metro e vinte de comprimento, um mini caixão. Não obstante custou a Louis mais de seiscentos dólares. Louis supunha que a urna
se apoiava num cavalete, mas as flores tornavam difícil qualquer verificação e ele não queria chegar perto demais. O cheiro de todas aquelas rosas teriam lhe causado
náuseas.
No fundo do corredor, junto da porta que levava ao saguão-sala de estar, havia um livro sobre um suporte. Preso ao suporte, havia uma caneta esferográfica. Foi
ali que o agente funerário o colocou, para que ele pudesse "receber os pêsames de parentes e amigos".
Supostamente, os parentes e amigos deviam assinar o livro com seus nomes e endereços. Louis nunca fizera a menor idéia da finalidade daquele costume fantástico,
e não seria agora que ia perguntar. Acreditava que quando o funeral acabasse, o livro ficaria com ele e Rachel. Parecia a mais maluca de todas as coisas. Guardava
em algum lugar o álbum da escola primária, o álbum do ginásio e o álbum da faculdade de medicina. Havia tambem o álbum de casamento, com O DIA DO MEU CASAMENTO estampado
na capa, letras imitando ouro numa capa imitando couro. O álbum começava com uma foto de Rachel na frente do espelho, experimentando o véu de noiva na manhã da cerimônia,
ajudada pela mãe; acabava com a foto de dois pares de sapatos do lado de fora de uma porta trancada de hotel. Também havia o "livro do bebê" de Ellie (estavam cansados
de colocar, talvez um pouco exageradamente, novas fotografias nele). Este álbum, com espaços para MEU PRIMEIRO CORTE DE CABELO (onde se acrescentava um anel de cabelo
do bebê) e UPA! (onde se colocava uma foto do bebê caindo de bunda no chão), era simplesmente engraçadinho demais.
Agora, para guardar junto com os outros, havia um novo álbum. Como poderiam chamá-lo?, Louis se perguntou, parado e entorpecido ao lado do suporte com o livro,
esperando a recepção começar. MEU LIVRO DA MORTE? AUTÓGRAFOS DO MEU FUNERAL? O DIA EM QUE
ENTERRAMOS GAGE? Ou quem sabe alguma coisa mais digna, tipo UMA MORTE NA FAMÍLIA?
Virou a capa do livro, que, como a capa de O DIA DO MEU CASAMENTO, era uma imitação de couro.
Não havia nada escrito.
Como era quase de se esperar, a Srta. Dandridge foi a primeira a chegar, a bondosa senhorita que tomara conta de Ellie e Gage em dezenas de ocasiões. Louis recordou
que fora ela quem ficara com as crianças na noite do dia em que Victor Pascow morreu. A Srta. Dandridge viera pegar os meninos e Rachel tinha feito amor com ele,
primeiro na banheira, depois na cama.
Ela estava chorando, chorando muito e ao ver a fisionomia calma, serena de Louis, explodiu em novas lágrimas e se aproximou dele (foi como se tateasse na direção
dele). Louis abraçou-a, percebendo que era assim que as coisas funcionavam, ou pelo menos era assim que deviam funcionar: uma espécie de peso humano que oscilava
de um lado para o outro, afrouxando o impacto da perda, dando-lhe uma válvula de escape dissolvendo a rocha do choque com o calor do pesar.
Sinto muito, a Srta. Dandridge estava dizendo, sacudindo o escurecido cabelo do rosto pálido. Um menino tão meigo. Eu gostava tanto dele, Louis, estou sentindo
tanto, é uma estrada terrível, espero que ponham o motorista do caminhão na cadeia pra sempre, estava indo em muita velocidade, ele era tão meigo, tão doce, tão
esperto, por que Deus quis levar Gage, eu não sei, nós não podemos compreender, não é, mas estou sentindo tanto, tanto, tanto...
Louis confortou-a; abraçou-a e confortou-a. Sentiu suas lágrimas no colarinho, a pressão dos seios contra ele. Ela queria saber onde estava Rachel, e Louis disse
que Rachel estava descansando. A Srta. Dandridge prometeu ir vê-la, e disse que ficaria com Ellie a qualquer hora que precisassem e pelo tempo que precisassem. Louis
agradeceu.
Ela se afastou, ainda fungando, os olhos mais vermelhos que nunca sobre o lenço preto. Já se aproximava do caixão quando Louis a chamou de volta. O agente funerário,
cujo nome Louis não conseguia lembrar, pedira-lhe que fizesse as pessoas assinarem o livro. Que o diabo o levasse se não as mandasse fazer isso.
Convidado misterioso, assine aqui por favor, ele pensou e por pouco não explodiu em cacarejos de riso barulhento, histérico.
Foram os olhos inconsoláveis, pungentes da Srta. Dandridge que afastaram as gargalhadas.
- Senhorita, se importaria em assinar o livro? - pediu, e como parecesse necessário dizer mais alguma coisa, acrescentou: - É para Rachel.
- É claro - disse ela. - Pobre Louis e pobre Rachel.
E subitamente Louis percebeu o que ela ia dizer em seguida, e, por alguma razão, teve medo; contudo lá vinha a coisa, inevitável, como a bala do revólver de
grosso calibre de algum matador. Percebeu que seria repetidamente atingido por aquela bala nos próximos e intermináveis noventa minutos, e de novo na parte da tarde,
enquanto as feridas da manhã ainda estivessem gotejando sangue:
- Graças a Deus, ele não sofreu, Louis. Pelo menos foi rápido.
Sim, foi rápido, não se preocupe, pensou em dizer - ah, como aquilo desarmaria completamente o rosto da Srta. Dandridge e como ele sentiu uma urgência doentia
em dizê-lo, simplesmente borrifar-lhe as palavras na cara. Foi rápido, isso não há dúvida. E é por isso que o caixão está fechado, nada podia ter sido feito de Gage
mesmo se eu e Rachel achássemos que os mortos da família devem ser vestidos com o máximo de apuro, como manequins de grandes magazines, e ainda por cima pintados
com ruge, pó-de-arroz e batom. Foi rápido, minha querida senhorita. Num instante ele estava entrando na estrada e no instante seguinte estava caído no chão, mas
lá na frente da casa do Ringers. A coisa bateu nele, matou-o, depois o arrastou, e é melhor você imaginar que foi rápido. Uns cem metros ou um pouco mais, incluindo
tudo, a extensão de um campo de futebol americano. Eu corri atrás dele, senhorita, saí gritando sem parar o nome dele. Como se eu, um médico, ainda esperasse que
estivesse vivo. Corri dez metros e lá estava o boné de beisebol, corri mais vinte e lá estava um dos tênis 'Guerra nas Estrelas', corri mais quarenta e o caminhão
já tinha saído da estrada, a cabine se dobrando ao meio naquele terreno em frente ao celeiro do Ringers. As pessoas estavam saindo das casas e eu continuei gritando
o nome dele, Srta. Dandridge, e na marca dos cinqüenta metros lá estava a jaqueta virada pelo avesso, e na marca dos setenta lá estava o outro tênis, e depois, lá
estava Gage.
Subitamente, tudo ficou embaçado. Tudo desapareceu de vista. Podia ver obscuramente o canto do suporte onde o livro se cravava na palma da sua mão, mas só isso.
- Louis? - era a voz da Srta. Dandridge. Distante. Um misterioso som de pombos ecoando nos ouvidos dele.
- Louis?
Mais perto agora. Alarmada.
O mundo voltou a entrar em foco.
- Você estábem? -
Ele sorriu.
- Ótimo - disse. - Estou ótimo, senhorita.
A Srta. Dandridge assinou por ela e pelo marido - Sr. e Sra. David Dandrídge - em letras de fôrma arredondadas. Acrescentou também o endereço: Estrada de Old
Buscksport, 67, Rural Box. Depois ergueu os olhos para Louis e abaixou-os .depressa, como se ter aquele endereço na própria estrada onde Gage morrera constituísse
um crime.
- Fique em paz, Louis - ela sussurrou.
David Dandridge sacudiu a mão e murmurou alguma coisa inarticulada, o saliente pomo-de-adão, pontudo como uma flecha, movendo-se para cima e para baixo. Depois,
correu atrás da esposa pelo corredor, para a contemplação ritual de um caixão construído em Storyville, Ohio, um lugar onde Gage nunca fora e onde não o conheciam.

Atrás dos Dandridge vieram todos, numa fila que arrastava os pés. Louis recebeu-os, recebeu os apertos de mão, os abraços, as lágrimas. O colarinho e o ombro
do paletó cinza-escuro logo ficaram bastante úmidos. O aroma das flores começou a atingir até mesmo os fundos da sala e a permear o local com cheiro de enterro.
Era um cheiro de que se lembrava dos tempos de infância, aquele doce, espesso, fúnebre aroma de flores. Pelos cálculos de Louis, informaram-no trinta e duas vezes
de que "Felizmente Gage não sofreu", vinte e cinco de que "Ninguém conhece os caminhos de Deus" e, por último, num total de doze vezes, que "Agora ele está com os
anjos".
A coisa começou a afetá-lo. Em vez daqueles pequenos aforismos irem perdendo qualquer sentido que pudessem ter (assim como nosso próprio nome perde seu sentido
e identidade se for repetido indefinidamente), pareciam perfurar cada vez mais fundo, ameaçando atingir-lhe pontos vitais. Quando a sogra e o sogro fizeram sua inevitável
aparição, já se sentia como um lutador agarrado numa chave de braço.
A primeira coisa que lhe veio à mente foi que Rachel tinha razão... E como tinha razão! De fato, Irwin Goldman estava bem mais velho. Teria.., quantos anos?
Cinqüenta e oito, cinqüenta e nove? Naquela manhã parecia um calmo e circunspecto septuagenário... Quase absurdamente parecido com o primeiro-ministro de Israel,
Menachem Begin, a cabeça calva, os óculos que lembravam o fundo de garrafas de Coca-Cola. Ao voltar da viagem na semana do Dia de Ação de Graças, Rachel dissera
que Irwin Goldman envelhecera, mas Louis não esperava tanto. Sem dúvida, não estaria tão mal no Dia de Ação de Graças. Afinal, ainda não perdera um dos netos.
Dory caminhava a seu lado, o rosto praticamente invisível sob duas - talvez três - camadas de um pesado véu negro. O cabelo estava elegantemente pintado de azul,
cor preferida pelas senhoras idosas que julgam pertencer às classes superiores da América. Vinha agarrada ao braço do marido. Tudo que Louis conseguiu ver atrás
do véu foi o brilho das lágrimas.
E de repente ele achou que era hora de admitir que águas passadas não movem moinho. Não podia mais conservar o velho rancor. De repente, passara a lhe pesar
demais... Ou talvez fosse apenas o peso acumulado de tanta coisa tola.
- Irwin, Dory - ele murmurou. - Obrigado por terem vindo.
Fez um gesto com os braços, como se quisesse ao mesmo tempo apertar a mão do pai de Rachel e abraçar-lhe a mãe, ou, quem sabe, abraçar os dois. De um modo ou
de outro, o fato é que sentiu suas próprias lágrimas cairem pela primeira vez e, por um instante, teve a idéia maluca de que todas as brigas poderiam ser apagadas,
de que ao menos a morte de Gage serviria para fazerem as pazes. Era como se tivesse pisado em alguma novela romântica para senhoras, onde os custos da morte se transformam
em reconciliação, onde a morte é capaz de engendrar alguma coisa mais construtiva que aquela dor interminável, estúpida, sufocante, sempre continuando, continuando,
continuando.
Dory se inclinou, fez um gesto, começou, talvez, a abrir os braços. Disse alguma coisa: "Oh, ..... ." e alguma coisa mais que não deu para entender. E então
Goldman puxou a mulher. Por um momento, criou-se um embaraço entre os três que passou despercebido de todos os outros (excluindo, talvez, o agente funerário, que
discretamente de pé no canto mais afastado da Sala Leste pode ter notado - Louis achou que o tio Carl perceberia). Ele permaneceu com os braços parcialmente estendidos,
mas Irwin e Dory Goldman continuaram tão duros, tão rígidos quanto um casal num bolo de casamento.
Louis viu que não tinha lágrimas nos olhos do sogro: eles brilhavam de raiva. (Será que está pensando que eu matei o Gage para contrariá-lo?) Os olhos pareciam
avaliá-lo, julgá-lo o mesmo homem insignificante e imprestável, o homem que raptara Rachel para causar-lhe toda aquela dor... Depois os olhos desviaram, moveram-se
para a esquerda, para o caixão de Gage, e então se suavizaram.
Louis ainda fez um último esforço.
- Irwin - disse. - Dory, por favor. Temos de enfrentar isso unidos.
- Louis - Dorry disse outra vez... Gentilmente, Louis pensou...
Mas logo estavam se afastando, Irwin Goldman puxando a mulher e não olhando mais para lado nenhum, muito menos para Louis Creed. Aproximaram-se do caixão e Goldman
tirou um pequeno barrete preto do bolso do paletó.
Vocês não assinaram o livro, Louis pensou. Então subiu-lhe pelo tubo digestivo um arroto silencioso, mas tão desagradavelmente ácido que seu rosto se contorceu
num esgar.

O velório da parte da manhã finalmente acabou. Louis telefonou para casa. Jud atendeu e perguntou como iam as coisas. Tudo bem, disse Louis. Depois pediu
que Jud chamasse Steve.
- Se ela conseguir se vestir sozinha, vou deixá-la ir à tarde - disse Steve. - Por você tudo bem?
- Sim - disse Louis.
- Muito bem - disse Steve. - Olhe, vamos nos encontrar para o almoço, está bem?
- Estou bem - Louis respondeu lacônico. - Agüentando o tranco.
Fiz todos assinarem o livro. Todos exceto Dory e Irwin. Esses dois não quiseram.
- Tudo bem - disse Steve. - Olhe, vamos nos encontrar para o almoço, está bem?
Almoço! Encontrar para o almoço! Parecia uma idéia tão fantástica que Louis se lembrou dos livros de ficção científica que lera na adolescência: histórias de
Robert A. Heinlein, Murray Leinster, Gordon R. Dickson. Os nativos aqui no planeta Quark tem um costume estranho quando um de seus filhos morre, Tenente Abelson:
eles se "encontram para o almoço'. Sei que parece grotesco e bárbaro, mas lembre-se, este planeta ainda não foi colonizado pela Terra.
- Certo - disse Louis. - Que tal um bom restaurante para passar o tempo entre as visitas do funeral, Steve?
- Vamos devagar, Lou - disse Steve, mas pelo tom não parecia muito aborrecido. No seu estado absurdo de calma, Louis nunca se sentira tão capaz de analisar as
pessoas. Talvez fosse apenas uma ilusão, mas, naquele momento mesmo, desconfiou que Steve estaria pensando que um jorro súbito de sarcasmo, esguichado com um punhado
de bílis, era preferível ao anterior estado de desligamento da realidade.
- Não se preocupe - disse a Steve. - Que tal o Benjamin's?
- Certo - disse Steve. - O Benjamin' s esta ótimo.
Louis dera o telefonema do gabinete do agente funerário. Na saída, ao passar pela Sala Leste, viu que estava quase vazia, mas Irwin e Dory Golclman continuavam
sentados na primeira fila, as cabeças curvadas. Louis achou que iam ficar ali para sempre.

O Benjamin's foi a escolha certa. Bangor era uma cidade onde se almoçava cedo e por volta de uma da tarde o restaurante já estava quase deserto. Jud fora
junto com Steve e Rachel e todos comeram galinha frita. Durante o almoço, Rachel foi até o banheiro e demorou tanto tempo que deixou Steve nervoso. Ele estava à
beira de pedir à garçonete que fosse verificar, quando Rachel voltou, os olhos vermelhos.
Louis comeu um pouco da galinha e tomou bastante cerveja Schlitz; Jud acompanhou-o copo a copo, falando pouco.
Os pratos voltaram quase intactos, e com seu discernimento meio sobrenatural Louis viu a garçonete, uma moça gorda de rosto bonito, debater-se intimamente sem
saber se devia ou não perguntar se haviam gostado da comida, dar outra olhada nos olhos vermelhos de Rachel e concluir que a pergunta seria inoportuna. Durante o
café, de forma brusca e bastante desagradável, Rachei disse uma coisa que chocou a todos (particularmente a Louis, que começava a ficar sonolento com a cerveja).
- Vou dar as roupas dele para o Exército da Salvação.
- Vai? - Steve perguntou um momento depois.
- Vou - disse Rachel. - De qualquer modo, já estão bem usadas. Todos os casacos.. . as calças de veludo.. . as camisas. Alguém ficará contente em recebê-las.
Ainda podem ser muito úteis. Exceto, é claro, as roupas que ele estava vestindo. Essas estão... destroçadas.
A última palavra causou um choque terríveL Rachel ainda tentou beber o café, mas foi inútil. Logo estava soluçando com o rosto nas mãos.
Foi um momento esquisito. Havia linhas de tensão se cruzando sobre a mesa, mas, de repente, todas pareceram convergir para Louis. Ele percebeu a coisa com aquele
mesmo discernimento meio sobrenatural que experimentava desde a manhã. De todas as suas percepções, aliás, aquela foi a mais nítida, a mais certa. Mesmo a garçonete
sentia as linhas convergentes no ar. Louis observou-a ficar imóvel por um instante diante de uma mesa ao fundo, onde arrumava guardanapos e talheres. De início,
ficou um tanto confuso, mas depois entendeu: esperavam que ele consolasse a mulher.
Não podia fazer isso. Queria fazer. Sabia que era o seu dever. Mesmo assim, não podia. Foi o gato que se atravessou em seu caminho. Súbita e inexplicavelmente.
O gato. A porra do gato. Church com todos os camundongos estraçalhados, com os pássaros que pôs pra sempre fora de forma. Quando os encontrava, Louis limpava prontamente
a sujeira, sem queixa nem comentário, sem absolutamente qualquer protesto. Tinha, afinal, arranjado a sarna para se coçar. Mas será que também era responsável pelo
o que acontecera a Gage?
Olhou para os dedos. Observou os próprios dedos. Viu os dedos rasparem de leve nas costas da jaqueta de Gage. Então a jaqueta de Gage escapou. Gage escapou.
Olhou para a xícara de café e deixou a esposa chorando ao lado dele. Não procurou consolá-la.
Após um momento (provavelmente um momento bem curto em termos do tempo dos relógios, mas que não deixou de parecer longo a todos eles), Steve pôs o braço
em volta de Rachel e apertou-a carinhosamente. Seus olhos caíram sobre os de Louis - um ar de irritação. Louis desviou o olhar para Jud, mas Jud olhava para baixo,
como se estivesse envergonhado. Não havia ajuda ali.
- Sabia que ia acontecer alguma coisa desse tipo - disse Irwin Goldman.
Foi assim que a confusão começou.
- Já sabia disso quando ela se casou com você. "Vai comer o pão que o diabo amassou e muito mais", eu disse. E agora olhe isso... Este caos.
Louis olhou violentamente para o sogro, que aparecera diante dele como se tivesse saído de uma caixa de surpresas, um maligno boneco de barrete; depois,
instintivamente, olhou para onde Rachel devia estar, perto do livro sobre o suporte (o turno da tarde era dela, que não comparecera de manhã), mas Rachel se fora.
Na parte da tarde, o velório estava menos freqüentado. Após mais ou menos meia hora, Louis foi para a primeira fila de cadeiras e ficou ali sentado, perto
do corredor, consciente de muito pouca coisa (marginalmente consciente do mau cheiro das flores saturando o ambiente), exceto do fato de estar muito cansado e sonolento.
Fora só parcialmente a cerveja, ele achava que sua mente finalmente parecia pronta para se desligar por algum tempo. Sem dúvida, isso não era mau. Depois de doze
ou dezesseis horas de sono, talvez conseguisse consolar um pouco Rachel.
Pouco depois sua cabeça afundou e ele se descobriu contemplando as mãos, frouxamente unidas entre os joelhos. Atrás dele, o rumor de vozes ia diminuindo. Quando
retornou do almoço, ficou aliviado ao ver que Irwin e Dory não estavam lá, mas devia ter percebido que aquela ausência era algo bom demais para durar muito tempo.
- Onde está Rachel?
- Com a mãe. De onde nunca devia ter saído - Goldman respondeu. Tinha o estudado ar de triunfo de um homem que tivesse acabado de fechar um bom negócio. O hálito
tinha cheiro de uísque. Bastante uísque. Estava na frente de Louis como um ridículo advogado de província diante de um homem no banco dos réus, um homem indubitavelmente
culpado. O corpo não parecia muito firme.
- O que você disse a ela? - Louis perguntou, sentindo agora um início de pânico. Sabia que Goldman tinha dito alguma coisa. Estava estampado no rosto.
- Nada além da verdade. Eu disse: "Foi isto o que você arranjou, casando-se contra a vontade de seus pais." Eu disse...
- Disse isso mesmo? - Louís perguntou com ar incrédulo. - Não teve coragem de dizer isso, não é?
- Disse isso e ainda mais - Goldman respondeu. - Sempre tive certeza de que as coisas acabariam assim... Assim ou de forma parecida. Percebi o tipo de homem
que você era desde a primeira vez que o vi.
Goldman se inclinou para a frente, exalando um bafo de scotch.
- Você nunca me enganou, seu médicozinho metido a besta... Induziu minha filha a um casamento estúpido, irresponsável, depois a transformou numa lavadora de
pratos, depois deixou o filho dela ser atropelado na estrada como um... um animal.
A maioria dessas palavras não chegou a penetrar na cabeça de Louis. Ele ainda se agarrava â idéia de que aquele homenzinho imbecil pudesse ter...
- Você disse isso? - ele repetiu. - Disse mesmo isso?
- Espero que apodreça no inferno! - disse Goldman e algumas cabeças se viraram acintosamente. Lágrimas começavam a escorrer dos olhos castanhos e vermelhos de
Irwin Goldman. A cabeça calva brilhava sob a luz mortiça das lâmpadas fluorescentes. - Você transformou minha filha adorada numa criada de cozinha... Destruiu o
futuro dela... Levou-a embora... Deixou meu neto morrer numa estrada de província, uma morte suja!
A voz elevou-se num berreiro provocador.
- Onde você estava? Sentado de bunda no chão enquanto ele brincava na estrada? Pensando em seus estúpidos artigos médicos? O que você estava fazendo, seu merda?
Seu merdinha! Assassino de crianças! A.....
E ali estavam os dois. Ali estavam os dois, na frente da Sala Leste. Ali estavam, e Louis viu seu braço avançar. Viu a manga do paletó revelar o punho da camisa
branca. Viu o brilho suave de uma abotoadura. Rachel dera-lhe as abotoaduras no terceiro aniversário de casamento, jamais podendo adivinhar que um dia o marido iria
usá-las para ir ao funeral do filho deles, um filho que na época ainda nem nascera. O punho estava ali na ponta do braço. E entrou em contato com a boca de Goldman.
Sentiu os lábios do velho achatarem, se contorcerem. Sem dúvida foi uma sensação nauseante, esmagar uma lesma seria parecido. Não teve qualquer satisfação fazendo
aquilo. Sob a carne dos lábios do sogro, pôde sentir a severa e firma regularidade da dentadura.
Goldman oscilou para trás. Seu braço bateu de lado no caixão de Gage. Um dos vasos repletos de flores caiu com ruído. Alguém gritou.
Era Rachel, debatendo-se nos braços da mãe que tentava puxá-la para trás. Todos que lá estavam - um total de dez ou quinze pessoas - pareceram petrificados entre
o susto e o constrangimento. Steve levara Jud de volta a Ludlow e Louis estava contente por ele ter feito isso. Não gostaria que Jud testemunhasse aquela cena. Era
uma coisa indecente.
- Não o machuque! - Rachel gritou. - Louis, não machuque o meu pai!
Irwin Goldman, do bem-abastecido talão de cheques, gritou num tom estridente:
- Gosta de bater nos velhos, não é?
Estava sorridente entre um punhado de sangue na boca.
- Gosta de bater nos velhos, não é? Eu já esperava por isso, seu sacana nojento. Eu já esperava por isso.
Louis se virou e Goldman atingiu-o no pescoço. Foi um golpe com o lado da mão, desajeitado mas forte. Pegou Louis de surpresa. Uma dor paralisante, que lhe tornaria
difícil engolir qualquer coisa nas próximas duas horas, explodiu em sua garganta. A cabeça rodopiou para trás e ele caiu no corredor apoiado num dos joelhos.
Primeiro o cheiro das flores, agora eu, pensou. O que é mesmo que diz aquela música dos Ramones? Ei, iá, vamos lá!
Achou que estava com vontade de rir, mas não havia riso dentro dele. Da garganta ferida só saiu um pequeno gemido.
Rachel gritou outra vez.
Irwin Goldman, a boca gotejando sangue, avançou para o genro ajoelhado e chutou-o violentamente nos rins. A dor foi como um jato de angústia. Louis apoiou-se
no tapete para não cair de barriga no chão.
- Você não presta nem pra bater nos velhos, rapaz! - Goldman gritou com um entusiasmo frenético. Chutou novamente Louis, desta vez não acertando nos rins, atingindo
o alto da nádega esquerda com o sapato preto. Louis gemeu de dor e se estatelou no tapete. O queixo bateu no chão com um baque audíveL Mordeu a língua.
- Aí está! - Goldman gritou. - Aí está o chute no traseiro que eu devia ter dado na primeira vez em que rondou lá por casa, seu bastardo. Aí está!
Chutou outra vez, agora na outra nádega. Goldman ria e chorava ao mesmo tempo. Louis reparou que o velho estava com a barba por fazer - um sinal de luto.
O agente funerário correu na direção deles. Rachel se soltara dos braços da Sra. Goldman e também correu, gritando.
Louis se virou com dificuldade e sentou-se no chão. Então o sogro chutou-o mais uma vez, mas Louis pegou-lhe o pé com as duas mãos, apertou-o com força, como
uma bola bem defendida, e puxou o mais forte que pôde.
Goldman foi arremessado para trás, berrando, rodopiando com os braços abertos para tentar manter o equilíbrio. Caiu sobre a urna "Repouso Eterno", de Gage, que
fora fabricada na cidade de Storyville, em Ohio, e não custara nada barato.
Oz, o Gande e Teível acabou de cair em cima do caixão do meu filho, Louis pensou atordoado. A urna caiu do cavalete com um enorme estrondo. A ponta esquerda
caiu primeiro, depois a direita. O trinco estalou. Apesar dos gritos e choros, apesar dos berros de Goldman (que afinal estava apenas brincando de gato e rato),
Louis ouviu o trinco estalar.
O caixão não chegou a abrir, espalhando no chão, para horror de todos, os restos feridos e lúgubres de Gage. Mas Louis teve a mórbida certeza de que só
foram poupados do espetáculo pelo modo como a urna caiu (pelo fato de não ter caído de lado). Podia muito bem ter caído de outro jeito. Mesmo assim, na fração de
segundos antes da tampa encaixar de novo no trinco quebrado, ele viu alguma coisa cinzenta - a roupa que tinham trazido para envolver o corpo de Gage. E uma ponta
rosada. Talvez a mão do menino.
Sentado ali no chão, Louis tapou o rosto e começou a chorar. Perdera todo interesse no sogro, no que acontecia à sua volta, nas suturas permanentes versus suturas
que se dissolviam, no ser supremo do universo. Nesse momento, Louis Creed quis estar morto. E de repente, estranhamente, uma imagem o dominou: Gage nas orelhas de
Mickey Mouse, Gage rindo e apertando as mãos de um enorme Pateta na Main Street em Disney World. Viu a coisa com muita nitidez.
Um dos pés do cavalete também caíra; o outro ficou inclinado contra o tablado baixo. Um pastor poderia subir naquele tablado e fazer um panegírico. Goldman estava
esparramado no meio das flores, também chorando. Pingava água dos vasos derramados. As flores, algumas amassadas e quebradas, exalavam mais forte que nunca um perfume
atroz.
Rachel gritava sem parar.
Louis não podia atendê-la. A imagem de Gage nas orelhas do Mickey Mouse ia se desbotando, mas agora ele ouvia uma voz anunciando que haveria fogos de artifício
no encerramento daquela noite. Tapou o rosto com as mãos, não querendo que ninguém mais o visse, que visse sua face manchada de lágrimas, que visse sua ruína, sua
culpa, sua dor, sua vergonha e, principalmente, que lhe pressentisse o desejo covarde de estar morto, longe de todo aquele infortúnio.
O agente funerário e Dory Goldman tiraram Rachel dali. Rachel ainda estava gritando. Mais tarde, em outra sala (uma sala que Louis presumiu que fosse reservada
especialmente para aqueles que não suportavam a dor: a Sala dos Histéricos, talvez), ficou muito silenciosa. O próprio Louis, entorpecido, mas já controlado e sabendo
o que estava fazendo, deu-lhe uma injeção calmante - depois de insistir para que o deixassem sozinho com a mulher.


Quando chegaram em casa, levou-a para a cama e deu-lhe outra injeção. Depois, puxou-lhe o cobertor até o queixo e contemplou o rosto muito pálido, branco como
cera.
- Rachel, sinto muito - disse. - Daria qualquer coisa para isso não ter acontecido.
- Tudo bem - ela respondeu com voz estranha, apática; em seguida virou de lado, afastando-se dele.
Louis ouviu a maçante questão: Tudo bem com você?, subindo para seus lábios, mas a fez recuar. Não era uma pergunta sincera, não era o que realmente queria saber.
- Você está muito mal? - perguntou por fim.
- Bastante mal, Louis - respondeu a mulher, emitindo depois um som que podia ter sido um riso. - Estou terrível, sem dúvida.
Ainda faltava alguma coisa, mas Louis não seria capaz de fornecê-la. De repente, sentiu um certo ressentimento da mulher, de Steve Masterton, da Srta. Dandridge
com o marido que tinha um pomo-de-adão em forma de flecha, de toda a maldita turma. Por que teria de ser ele o eterno consolador? Que porra era aquela?
Apagou a luz e saiu do quarto. Achou que também não conseguiria fazer grande coisa pela filha.
Por um instante absurdo, contemplando Ellie na obscuridade do quarto, pensou estar diante de Gage; chegou a acreditar que tudo não passara de um pesadelo hediondo,
como o sonho de Pascow levando-o pelos bosques. Por um instante, sua mente cansada agarrou-se à idéia. As sombras ajudavam - havia apenas a luz oscilante da televisão
portátil que Jud levara para o quarto de Ellie.... para ajudá-la a passar as horas. As longas, longas horas.
Mas não era Gage, é claro, era Ellie, que agora não apenas segurava o retrato em que puxava Gage no trenó, como também estava sentada na cadeira do irmão. Trouxera
a cadeira do quarto dele. Era uma pequena "cadeira de diretor", com o assento e as costas de lona. Atrás estava escrito: Gage. Rachel encomendara pelo correio quatro
cadeiras daquelas. Cada membro da família tinha a sua, com o respectivo nome atrás.
Ellie já era muito grande para a cadeira de Gage. Parecia muito apertada e o fundo de lona curvava-se perigosamente. Segurava a fotografia contra o peito e olhava
a tevê, onde passava um filme.
- Ellie - disse o pai, desligando repentinamente a televisão, - hora de dormir!
Ela conseguiu se soltar da cadeira e dobrou-a. Talvez pretendesse levá-la para a cama.
Louis vacilou, querendo falar alguma coisa sobre a cadeira, mas resolveu ceder.
- Quer que eu ajeite o cobertor?
- Quero, por favor - disse ela.
- Você.., quer dormir com a mamãe esta noite?
- Não, obrigada.
- Tem certeza?
A menina sorriu ligeiramente.
- Tenho. Ela puxa o cobertor.
Louis devolveu o sorriso.
- Vamos lá, então.
Em vez de tentar pôr a cadeira na cama, Ellie tornou a abri-la junto da cabeceira, e uma imagem absurda veio à mente de Louis: lá estava o consultório do menor
psiquiatra do mundo.
Enquanto mudava de roupa, Ellie pôs seu retrato com Gage em cima do travesseiro. Vestiu o baby doll, pegou de novo o retrato, foi para o banheiro, pousou o retrato
para lavar o rosto, escovar os dentes, fazer xíxi e tomar o tablete de flúor. Apanhou de novo o retrato e foi se deitar com ele.
Louis se sentou ao lado da filha.
- Ellie, quero que saiba que se continuarmos nos amando, vamos conseguir ultrapassar tudo isso.
Cada palavra era como mover um vagão repleto de fardos molhados; o esforço fazia Louis se sentir exausto.
- Vou desejar com todo o coração - Ellie disse calmamente - e pedir a Deus para Gage voltar.
- Ellie...
- Deus pode trazê-lo de volta se quiser. Pode fazer qualquer coisa que quiser.
- Ellie, Deus não faz coisas desse tipo - disse Louis um tanto angustiado, sua mente revendo Church agachado na tampa do vaso sanitário, fitando-o com aqueles
olhos turvos quando ele estava na banheira.
- Faz sim - disse a menina. - Na aula dê catecismo, o professor nos falou sobre o Lázaro. Ele estava morto e Jesus o trouxe de volta. Disse: "Lázaro, vem para
fora!" O professor explicou que se ele só tivesse dito "Vem para fora!", provavelmente todo mundo que estava enterrado no cemitério teria se levantado e Deus só
queria Lázaro.
Um comentário absurdo surgiu na boca de Louis (se bem que o dia tenha sido saturado de coisas absurdas):
- Isso foi há muito tempo, Ellie.
- Vou deixar as coisas preparadas - disse a menina. - Tenho o retrato e vou sentar na cadeira dele...
- Ellie, você está grande demais para a cadeira de Gage - disse Louis, pegando-lhe a mão quente, febril. - Vai quebrá-la.
- Deus não vai deixar que ela quebre.
O tom de Ellie era sereno, mas Louis observou as olheiras fundas.
Vê-la assim partia-lhe o coração, e ele precisou desviar o olhar. Talvez quando a cadeira do irmão quebrasse, Ellie começasse a entender um pouco melhor
o que tinha acontecido.
- Vou andar com o retrato e sentar na cadeira dele. Também vou tomar o café da manhã por ele.
De manhã, tanto Ellie quanto Gage costumavam tomar um prato de mingau de aveia. Ellie dissera uma vez que Gage devorava o mingau como um bicho-papão; às vezes
reclamava: se o único mingau daquela casa fosse mingau de aveia, preferia comer um ovo cozido... ou até mesmo nada.
- Vou comer aveia mesmo que eu deteste, vou ler todos os livros com figuras do Gage e vou.., vou... você sabe... deixar as coisas prontas....., para o caso...
Agora ela estava chorando. Louis não procurou consolá-la, limitou-se a puxar o cabelo que caía em sua testa. O que ela falava fazia um certo sentido, mesmo que
fosse uma lógica um tanto maluca. Conservar os circuitos abertos. Conservar as coisas em ordem. Conservar Gage no presente, cem por cento presente. Recusar-se a
deixar que ele se afastasse. Lembrar quando Gage fez isso ou aquilo... Sim, aquela foi boa... O velho Gage era um garoto incrível! Aos poucos, a coisa iria deixando
de parecer tão nítida, iria deixando de causar tanta ansiedade. Talvez ela achasse, Louis pensou, que seria fácil demais admitir desde o primeiro momento que Gage
estava morto.
- Ellie, não chore mais - disse ele. - Isto vai passar.
O choro não ....... Chorou por quinze minutos. Na realidade, dormiu antes das lágrimas cessarem. Mas, afinal, dormiu. No andar de baixo, o relógio bateu
dez horas no silêncio da casa.
Se é isto que você quer, Ellie, conserve-o vivo, Louis pensou e beijou-a. Os psicanalistas provavelmente iam achar que não é nada saudável, mas por mim tudo
bem. Porque sei que um dia (talvez esta sexta-feira mesmo) você vai se esquecer do retrato; vou encontrá-lo sobre sua cama, neste quarto vazio, enquanto você anda
de bicicleta no jardim, passeia no terreno atrás da casa ou brinca na casa de Kathy McGown, fazendo roupas de bonecas na maquininha de costura dela. Gage não estará
mais com você, não ocupará mais todo o espaço que existe em sua cabecinha de menina. Terá começado a se tornar "uma coisa que aconteceu em 1984'. Um sopro do passado".
Louis saiu do quarto e parou um instante no patamar da escada, pensando (não seriamente) em ir se deitar.
Sabia do que precisava e desceu para buscar. aqui

Louis Albert Creed estava determinado a se embriagar. No porão, havia cinco caixas de cerveja Schlitz Light. Louis bebia cerveja, Jud também, Steve Masterton
idem, até a Srta. Dandridge beberia às vezes uma ou duas cervejas enquanto tomasse conta dos meninos (da menina, Louis se corrigiu, descendo a escada do porão).
Mesmo Charlton, nas poucas vezes em que fora à casa dele, preferira cerveja (desde que fosse uma cerveja leve) a um copo de vinho. Por isso, no último inverno, Rachel
saíra um belo dia e fizera a desconcertante compra de dez caixas, quando a Schlitz Light estava em promoção no supermercado Brewer A & P. Assim você para de correr
para o Julio's, em Orrington, toda vez que aparece alguém lá em casa, ela dissera. E pára de me repetir o que disse Robert Parker: qualquer cerveja no congelador
depois dos bares fecharem é uma boa cerveja, não é isso? Então beba a que temos em casa e pense nos dólares que está economizando.
No último inverno... Quando as coisas estavam bem. Quando as coisas estavam bem. Engraçado como sua mente fizera rápida e facilmente aquela divisão crucial.
Louis trouxe para cima uma das caixas e pôs as latas no refrigerador. Pegou uma delas e abriu. Com o barulho da porta da geladeira, Church veio ondulando lento
e enferrujado da copa e olhou interrogativamente para Louis. Não chegou muito perto, talvez Louis já o tivesse chutado um número excessivo de vezes.
- Não há nada pra você - disse ao gato. - Já comeu sua lata de ração. Se quiser mais alguma coisa, mate um pássaro.
Church continuou ali, os olhos fixos nele. Louis tomou metade da lata de cerveja e sentiu-a subir à cabeça quase de imediato.
- Você nem ao menos gosta de comê-los, não é? - perguntou. -Matá-los já o satisfaz.
Church se afastou para a sala, concluindo que não conseguiria nada. Louis seguiu-o pouco depois.
De repente, ocorreu-lhe de novo: Ei, iá, vamos lá!
Louis sentou-se em sua poltrona contemplando Church. O gato estava reclinado no tapete, perto do aparelho de tevê, observando Louis, talvez pronto para correr
se Louis se mostrasse agressivo e decidido a lhe dar um chute no traseiro.
Mas Louis apenas ergueu a cerveja.
- A Gage - disse. - A meu filho, que podia ser um artista, um nadador olímpico ou a porra do presidente dos Estados Unidos. O que você diz, seu gato babaca?
Church fitou-o com aqueles olhos baços, estranhos.
Louis bebeu o resto da cerveja em grandes goles que feriram sua garganta ainda sensível, levantou-se, foi até a geladeira e pegou a segunda lata.
Quando acabou a terceira, sentiu que, pela primeira vez naquele dia, recuperara um certo equilíbrio. E depois de atravessar toda a primeira embalagem de seis
latas, achou que daí a mais ou menos uma hora ia conseguir dormir. Voltou da geladeira com a oitava ou nona lata (realmente já perdera a conta e começava a andar
em ziguezague). Seus olhos caíram sobre Church: agora o gato estava sonolento no tapete (ou fingia estar). O pensamento veio tão naturalmente que, sem dúvida, já
devia estar ali há muito tempo, simplesmente esperando a hora de saltar de seu esconderijo na mente.
Quando vai pôr mãos à obra? Quando vai enterrar Gage no anexo do "simitério"de bichos?
E na esteira disso:
Lázaro, vem para fora!
E a voz sonolenta, entorpecida de Ellie:
O professor explicou que se ele só tivesse dito "Vem para fora!", provavelmente todo mundo que estava enterrado no cemitério teria se levantado.
Louis foi atingido por um calafrio de tamanha intensidade que segurou os próprios braços quando o tremor lhe atravessou o corpo. Lembrou-se do primeiro dia de
Ellie na escola, como Gage dormira no colo dele enquanto a menina tagarelava sobre o "Velho MacDonald" e a Sra. Berryman. Ele dissera: Deixe eu pôr o Gage na cama,
e quando levou Gage para o andar de cima foi assaltado por uma terrível premonição, uma premonição que agora era capaz de compreender: naquele dia, em setembro,
uma parte dele soube que Gage ia morrer em breve. Uma parte dele pressentiu que Oz, o Gande e Teível estava à espreita. Era um absurdo, uma coisa tola, uma superstição
besta, do tipo mais vulgar.., e, no entanto, era verdade. Ele soube. Louis derramou um pouco de cerveja na camisa e Church ergueu indagadoramente os olhos para descobrir
se aquilo era um sinal de que o festival de chute ao gato ia começar.

Louis se lembrou da pergunta que fizera a Jud; lembrou-se do modo como o braço de Jud tinha tremido, derrubando duas garrafas de cerveja vazias que havia na
mesa. Uma delas tinha quebrado. Nem devia fazer essa pergunta, Louis!
Mas ele queria fazer a pergunta - ou pelo menos pensar nela. O "simitério" de bichos. O que estava além do "simitério" de bichos. A idéia exercia uma atração
fatal. Havia um equilíbrio lógico que era impossível negar. Church fora morto na estrada; Gage fora morto na estrada. Lá estava Church (diferente, é claro, até mesmo
desagradável sob certos aspectos), mas lá estava ele. Ellie, Gage, Rachel, todos mantinham um relacionamento bastante razoável com o gato. Ele matava pássaros, certo,
e virava alguns camundongos pelo avesso, mas matar pequenos animais era coisa normal num gato. Church de modo algum se transformara num gato Frankenstein. Sob muitos
pontos de vista, era tão bom quanto antes.

Você está racionalizando, uma voz sussurrou. Ele não é tão bom quanto antes. Ele está enfeitiçado, Louis... lembra-se do corvo?
- Meu Deus! - Louis exclamou em voz alta, num tom perturbado, trêmulo, que mal conseguiu reconhecer como seu.
Deus, oh, sim, ótimo, certo. Se havia um momento apropriado para invocar o nome de Deus fora de uma história de fantasmas ou vampiros, o momento era aquele.
Afinal em que - em que, em nome de Deus - ele estava pensando? Estava pensando numa suja blasfêmia em que nem ele mesmo era capaz de acreditar completamente. Pior,
estava mentindo para si mesmo. Não apenas racionalizando, mas simplesmente mentindo.
Então qual é a verdade? Você está querendo tanto a porra da verdade,e qual é a verdade?
A verdade é que Church não era mais absolutamente um gato - comece por aí. Parecia um gato, agia como um gato, mas na realidade era apenas um pobre arremedo.
As pessoas, sem dúvida, não podiam compreender este arremedo, mas podiam senti-lo. Lembrou-se de uma noite em que Charlton fora visitá-los. Era um pequeno jantar
pouco antes do Natal. Depois da refeição, estavam conversando na sala e Church pulou no colo dela. Charlton empurrara imediatamente o gato, um rápido e instintivo
esgar de aversão repuxando-lhe a boca.
A coisa passara em branco. Ninguém fizera comentários. Mas... foi o que houve. Charlton sentira que havia alguma coisa errada com o gato.
Louis acabou de entornar a cerveja e saiu em busca de outra. Seria uma obscenidade se Gage voltasse modificado daquela maneira.
Fez a alça da lata pipocar e tomou um grande gole. Estava bêbado, realmente bêbado, e amanhã estaria com a cabeça em pandarecos. Com Fui de Ressaca ao Enterro
de Meu Filho, por Louis Creed, autor de Como Não Consegui Segurá-lo no Momento Decisivo e várias outras obras.
Bêbado. Certo. E suspeitava agora de que se embriagara porque não seria capaz de pensar naquela idéia maluca em estado sóbrio.
A despeito de tudo, a idéia tinha aquela atração fatal, aquele brilho angustiante, aquele fascínio. Sim, sobretudo isso... Fascínio.
Sentiu Jud atrás dele, falando dentro de sua mente:
Você fez isso porque a coisa se apoderou de você. Agiu daquela maneira porque aquele cemitério é um lugar secreto e você queria compartilhar do segredo... Inventamos
razões... E elas sempre parecem boas razões....... Mas em geraL agimos assim simplesmente porque queremos. Ou porque temos de agir assim.
A voz de Jud, baixa e arrastada, cheia de inflexões do norte, a voz de Jud lhe dava calafrios, lhe arrepiava a pele, fazia os pêlos do cabelo na nuca ficarem
em pé.
Há coisas secretas, ..... . O solo do coração de um homem é mais empedernido.., como o solo no velho cemitério micmac. Mas um homem planta o que pode... e cuida
do que plantou.
Louis começou a passar em revista as outras coisas que Jud lhe dissera sobre o cemitério micmac. Começou a conferir os dados, a classificá-los, a sintetiza-los,
exatamente como fazia quando se preparava para os exames mais importantes na faculdade de medicina.
O cachorro. Spot.
Pude ver os lugares onde o arame farpado o ferira... Não havia pêlo em nenhum desses pontos e a carne parecia meio franzida.
O touro. Outra ficha aberta na mente de Louis.
Lester Morgan enterrou um touro premiado lá em cima. Um touro escocês preto, chamado Hanratty.. . Lester arrastou-o num trenó até o cemitério micmac.. . matou-o
com um tiro duas semanas depois. O touro se tornara traiçoeiro, realmente traiçoeiro. Mas foi o único animal com quem isso aconteceu.
Ele se tornou traiçoeiro.
O solo do coração de um homem é mais empedernido.
Ele se tomou realmente traiçoeiro.
Foi o único animal com quem isso aconteceu.
Mas fez isso principalmente porque se esteve lá em cima, aquele é o seu lugar.
A carne parecia meio franzida.
Hanratty.. . Parece nome de touro?
Um homem planta o que pode... e cuida do que plantou.
Sáo meus ratos. E meus pássaros. Eu enganei os babacas.
É seu lugar, um lugar secreto. Ele pertence a você e você pertence a ele.
Ele se tornou traiçoeiro, mas foi o único animal com quem isso aconteceu.
O que você pretende fazer mais tarde, Louis, quando o vento soprar com força no meio da noite e a lua estender um caminho branco através dos bosques até aquele
lugar? Não quer subir de novo aqueles degraus? Quando as pessoas estão vendo um filme de terror acham sempre que o herói ou a heroína são estúpidos porque sobem
aqueles degraus, mas na vida real as pessoas sempre agem assim... Fumam, não usam cintos de segurança, mudam-se com a família para a margem de estradas movimentadas,
onde as grandes jamantas ficam passando dia e noite de um lado para o outro. E então, Louis, o que você me diz? Quer subir os degraus? Pretende conservar seu filho
morto ou avançar para o que está atrás da Porta Número Um, Porta Número Dois, Porta Número Três?
Ei, iá, vamos lá!
Ele se tornou traiçoeiro... o único animal... a carne parecia.., um homem... seu... dele...
Sentindo que ia vomitar, Louis despejou o resto da cerveja na pia. A sala oscilava em grandes movimentos giratórios.
Houve uma batida na porta.
Durante um bom tempo (pelo menos o tempo pareceu bastante longo), acreditou que fosse apenas em sua cabeça, uma alucinação... Mas a batida continuou, paciente,
sem parar, implacável. E de súbito Louis se descobriu pensando na história da mão do macaco e um terror frio deslizou para dentro dele. Parecia sentir aquela mão
com total realidade física... Era como uma mão sem vida que tivesse sido conservada numa geladeira, mão que bruscamente revivia sem corpo, e deslizava por dentro
de sua camisa para lhe apertar a carne sobre o coração. Era uma imagem tola, tola e de mau gosto, mas, oh, ele não a sentia como uma coisa tola. Não!
Caminhou até a porta. Andou com pés que não podia sentir e levantou o trinco com dedos inseguros. Quando puxou a porta, pensou:
É Pascow. De volta do túmulo e maior do que nunca, como dizem de Jím Morrison. Pascow aí de pé no calçâo de ginástica, cheio de vida, mas bolorento como pão
há um mês dormido. Pascow com sua horrível cabeça destroçada, Pascow trazendo novamente o aviso: não vá lá em cima. Como era aquela velha música do The Animals?
Meu bem, por favor, não vá, meu bem POR FAVOR não vá, você sabe que eu a amo, meu bem, por favor, não vá...
A porta escancarou e ali no degrau, de pé no escuro, no vento daquele meio de noite entre o dia do velório de Gage e o dia do enterro, ali estava Jud Crandall.
O ralo cabelo branco era soprado na friorenta escuridão.
Louis procurou dar uma risada. O tempo parecia ter voltado agilmente para o passado. De novo era o Dia de Ação de Graças. Logo colocariam o corpo rígido e insolitamente
pesado do gato de Ellie, Winston Churchill, num saco plástico de lixo e se poriam a caminho. Oh, não me pergunte o que há; vamos logo fazer nossa visita.
- Posso entrar, Louis? - Jud perguntou. Tirou um maço de Chesterfield do bolso da camisa e pôs um deles na boca.
- Escute - disse Louis -, é tarde e tomei uma pilha de cerveja.
- Ahn, eu posso sentir até o cheiro.
Jud riscou um fósforo, O vento apagou. Riscou outro fósforo fazendo concha com as mãos, mas as mãos tremeram e deixaram de novo o fósforo ao sabor do vento.
Pegou um terceiro fósforo, preparou-se para riscá-lo e então ergueu os olhos para Louis, de pé no umbral da porta.
- Não consigo acender esta coisa - disse Jud. Vai me deixar entrar ou não?
Louis se pôs de lado para Jud passar.
Sentaram-se à mesa da cozinha diante de latas de cerveja. A primeira vez que Jud p6e os pés em nossa cozinha, Louis pensou, um tanto surpreso. Quando estavam
atravessando a sala, Ellie gritara no meio do sono e os dois tinham se congelado como bonecos de algum jogo infantil. O grito, porém, não havia se repetido.
- Muito bem - disse Louis -, o que você está fazendo aqui à meia-noite e quinze do dia em que meu filho vai ser enterrado? Você é amigo, Jud, mas isto já é exagerar
um pouco.
Jud tomou a cerveja, limpou a boca com as costas da mão e encarou Louis. Havia alguma coisa clara e positiva naquele olhar, mas Louis acabou se desviando dele.
- Você sabe por que estou aqui - disse Jud. - Você está pensando em coisas que não devem ser pensadas, Louis. Pior ainda, tenho medo de que esteja pensando seriamente
nelas.
- Não estava pensando em coisa alguma, a não ser em ir me deitar - disse Louis. - Tenho um enterro amanhã.
- Hoje à noite há uma angústia extra no seu coração, um sofrimento além do que seria normal, e eu sou responsável por isso - Jud falou em voz baixa. - Pelo que
sei, posso ter sido até mesmo responsável pela morte de seu filho.
Louis ergueu os olhos, sobressaltado.
- O quê!?... Jud, não fale bobagem!
- Você está pensando em levá-lo lá pra cima - disse Jud. - Não negue que a idéia tem lhe passado pela cabeça, Louis.
Louis não respondeu.
- Até que ponto vai a influência daquele lugar? - disse Jud. - Seria capaz de me dizer? Não, é daro. Eu também não saberia responder, e olhe que vivi toda a
minha vida neste canto do mundo. Sei alguma coisa sobre os micmacs, e aquele lugar sempre foi considerado uma espécie de lugar sagrado para eles.., mas não num bom
sentido. Stanny B me contou. Meu pai também me contou, mais tarde, depois que Spot morreu pela segunda vez. Agora os micmacs, o estado do Maine e o governo dos Estados
Unidos estão brigando na justiça pela posse dessas terras. Quem de fato as possui? Na verdade ninguém sabe, Louis. Ninguém sabe mais. De tempos em tempos, muita
gente tem reivindicado as terras, mas a coisa nunca ficou resolvida. Anson Ludlow, o bisneto do pai do fundador da cidade, é um exemplo. Sua reivindicação talvez
fosse a mais justificada dentre os pretendentes brancos, pois Joseph Ludlow, o Velho, teve tudo isso como concessão do Bom Rei Jorge, um privilégio da época em que
o Maine era apenas uma grande província da Colônia da Baía de Massachusetts. Mas até mesmo ele enfrentou muitos problemas em juízo porque havia outras reivindicações
se cruzando com a dele. Outros Ludlow queriam a área, e também um sujeito chamado Peter Dimmart, que alegava poder provar de forma bastante convincente que, por
debaixo dos panos, também era um Ludlow. . . No fim da vida, Joseph Ludlow, o Velho, tinha pouco dinheiro, mas possuía muitas terras e, de vez em quando, simplesmente
presenteava com duzentos ou quatrocentos acres alguém que tivesse caído em suas boas graças.
- Não há registro de nenhuma escritura? - Louis perguntou, fascinado apesar de tudo.
- Oh, nossos antepassados eram todos rudes demais para registrar escrituras - Jud respondeu, acendendo outro cigarro na ponta do anterior. - A concessão original
da terra diz o seguinte...
Jud fechou os olhos e citou:
- "Do grande e velho bordo que se acha localizado no alto da Crista Quince berry até à beira do Riacho Orrington; assim corre o traçado de norte a sul."
Jud sorriu sem muito humor.
- Mas dizem que o velho e grande bordo caiu em 1882. Por volta de 1900 já estava totalmente apodrecido e coberto de musgo. O Riacho Orrington, por sua vez, foi-se
cobrindo de lodo e transformou-se num pântano nos dez anos entre o fim da Grande Guerra e a quebra da Bolsa de Valores. Um problema e tanto esse estouro da bolsa,
hein! De qualquer modo, não chegou a prejudicar o velho Anson. Ele foi atingido e morto por um raio em 1921, bem no lugar onde está aquele cemitério dos micmacs.
Louis fitava Jud. Jud sorvia a cerveja.
- Não importa. Há muitos lugares onde o problema da posse é tão complicado que nunca fica resolvido e só serve para os advogados ganharem dinheiro. Coisas do
diabo! Mas acho que, no fim, os índios vão conseguir de volta essas terras e acho que é o mais certo. . . Não importa, Louis. Vim aqui esta noite para lhe falar
de Timmy Baterman e do pai dele.
- Quem é Timmy Baterman?
- Timmy Baterman foi um dos vinte e poucos rapazes de Ludlow que foi lutar contra Hitler lá fora. Partiu em 1942. Voltou em 1943, numa urna com uma bandeira
em cima. Morreu na Itália. O pai, Bill Baterman, viveu toda a vida nesta cidade. Quase enlouqueceu quando recebeu o telegrama... mas depois se acalmou. Sabia da
história do cemitério micmac... e logo percebeu o que estava disposto a fazer.
O calafrio voltou. Louis encarou Jud por um longo tempo, tentando ler a mentira nos olhos do velho. Não havia mentira neles. Mas o fato daquela história vir
à superfície naquele momento parecia extremamente conveniente.
- Por que não me contou isto naquela noite? - disse Louis por fim.- Depois daquilo... Depois daquilo que fizemos com o gato? Quando perguntei se já tinham enterrado
alguém lá em cima, respondeu que não.
- Porque você não precisava saber - disse Jud. - Mas agora precisa.
Louis ficou um longo tempo em silêncio.
- Ele foi o único?
- O único de quem eu soube - Jud respondeu num tom grave. - Mas se foi o único a passar por isso? Duvido, Louis. Duvido muito. Gosto bastante daquele sermão
do Eclesiastes - Eu não acredito que haja qualquer coisa nova sob o sol. Oh, às vezes o brilho que cintila sobre uma coisa se modifica, mas isso é tudo. O que foi
experimentado uma vez já foi experimentado antes.., e antes... e antes.
Jud baixou o olhar para as mãos manchadas. Na sala, o relógio bateu suavemente a meia-noite e meia.
- Acredito que um homem com sua profissão esteja acostumado a observar os sintomas para descobrir as doenças que se escondem sob eles... e cheguei à conclusão
de que devia lhe falar sem rodeios quando Mortonson da casa funerária me contou que você havia encomendado uma sepultura comum em vez de um túmulo fechado.
Louis fitou-o por um longo tempo, sem nada dizer. Jud ficou muito vermelho, mas não desviou o olhar.
- Parece que está ficando um tanto bisbilhoteiro - disse Louis por fim. - Isso é um pouco chato.
- Mas não perguntei nada a ele.
- Não diretamente, talvez.
Jud não respondeu. Embora seu rubor ficasse ainda mais carregado (a pele do rosto se aproximou de uma coloração arroxeada), os olhos não tremeram.
Finalmente, Louis suspirou. Sentia-se muito cansado.
- Oh, merda. Não importa. Talvez você tenha razão. Talvez a coisa estivesse em minha mente. Mas se estava, era no fundo. Não pensei muito no tipo de sepultura
que encomendei. Estava pensando em Gage.
- Sei que estava pensando em Gage. Mas você sabe a diferença. Seu tio era agente funerário.
Sim, ele sabia a diferença. Um túmulo fechado era feito de cimento, uma coisa destinada a durar muito, muito tempo. O cimento formava uma urna retangular reforçada
com vigas de aço e, depois da cerimônia fúnebre, um braço móvel abaixava uma tampa de concreto ligeiramente curva sobre o túmulo. A tampa era selada com uma substância
semelhante ao asfalto derretido que os departamentos de estradas de rodagem usam para tapar buracos. O tio Carl contara a Louis que esse material (marca registrada
"Sempre Trancado") adquiria um fantástico poder de vedação depois de estar completamente seco.
O tio Carl, que como todo mundo gostava de contar suas lorotas (pelo menos quando estava em companhia de colegas de profissão, e encarava Louis, que trabalhou
alguns verões com ele, como uma espécie de aprendiz de agente funerário), falou ao sobrinho de uma exumação que fizera por ordem do procurador municipal do Condado
de Cook. Tio Carl fora a Groveland para supervisionar o trabalho. Essas coisas são complicadas, ele dizia, e as pessoas .cujas idéias sobre exumação vêm dos filmes
de terror com Boris Karloff como o monstro do Dr. Frankenstein e Dwight Frye como Igor têm uma visão inteiramente fantasiosa. Abrir um túmulo lacrado não era trabalho
para dois homens com pás e picaretas - a não ser que dispusessem de seis semanas para fazer a coisa. Mas o tempo costumava ser mais curto. O túmulo era aberto com
um guindaste colocado à beira da sepultura. Ao contrário do que se supunha, porém, não se tratava simplesmente de puxar a tampa. Toda a sepultura, as paredes de
concreto já um pouco úmidas e manchadas, era arrancada cio chão. Tio Cal gritou para o operador do guindaste recuar. Queria voltar à funerária e apanhar alguma coisa
que pudesse enfraquecer um pouco a força do lacre.
Das duas uma, ou o operador do guindaste não ouviu ou resolveu continuar por sua própria conta, como um menino num guindaste de brinquedo, com alavancas de plástico,
tentando derrubar um castelo de cartas. Segundo tio Carl, o estúpido operador quase acabou cavando a própria sepultura. A carneira já fora puxada em três quartos
da sua extensão (tio Carl e seu assistente podiam ouvir a água gotejando do fundo da urna de cimento; tinha sido uma semana de muita chuva na região); de repente,
o guindaste tombou e projetou-se com um baque sobre o túmulo. O operador bateu no pára-brisas e quebrou o nariz. As brincadeiras daquele dia custaram ao Condado
de Cook cerca de três mil dólares; dois mil e cem dólares a mais que o preço normal daquelas divertidas operações. Na opinião do tio Carl, o ponto central da história
era que, seis anos depois, o operador do guindaste foi eleito presidente do sindicato local de operadores de máquinas.
Sepulturas comuns eram coisas mais simples. Na realidade, não passavam de modestas caixas de concreto abertas em cima. São colocadas no buraco da sepultura na
manhã do funeral. Ao término da cerimônia, baixa-se o caixão para o seu interior. Os coveiros, então, trazem a tampa, que geralmente se divide em duas partes. Essas
partes são ariadas verticalmente nas extremidades do túmulo, ali permanecendo como suportes de livros. Cada uma dessas partes tem anéis de ferro encaixados nas pontas.
Os coveiros passam correntes por eles e as arreiam suavemente sobre a boca do túmulo. Cada segmento da tampa pesa cerca de trinta, talvez trinta e cinco quilos -quarenta,
no máximo. E não é usado qualquer tipo de lacre.
Um homem abriria uma sepultura dessas com razoável facilidade; era isso que Jud estava insinuando.
Seria razoavelmente fácil um homem desenterrar o corpo do filho e sepultá-lo em outro lugar.
Chiiii.. . chiii. Náo vamos falar dessas coisas. Sio coisas secretas.
- Sim, acho que conheço a diferença entre um túmulo fechado e uma sepultura comum - disse Louis. - Mas eu não estava pensando em... em que você acha que eu estava
pensando?...
- Louis...
- É tarde - disse Louis. - É tarde, estou bêbado e com dor de cabeça. Se tem alguma história para contar, comece logo e acabe logo com ela.
Talvez eu devesse ter bebido martinis, Louis pensou. Assim já estaria suficientemente inconsciente quando ele bateu.
- Tudo bem, Louis. Obrigado.
- Vá em frente.
Jud parou um momento para pensar e começou a fala.
-Naquele tempo (foi durante a guerra), o trem ainda parava em Orrington e Bill Baterman tinha um carro fúnebre estacionado na plataforma, à espera do trem
de carga que traia o corpo do filho Timmy. O caixão foi descarregado por quatro ferroviários. Eu era um deles. No trem, vinha um sujeito do exército encarregado
do registro de óbitos, uma espécie de versão militar de agente funerário, Loms, comum em tempo de guerra... Mas o homem não saltou. Estava bêbado, sentado num dos
vagões de carga ao lado de doze outros caixões.
"Pusemos Timmy na traseira de um Cadillac fúnebre (naquele tempo ainda se ouvia algumas pessoas chamarem os carros fúnebres de 'carruagens rápidas', porque
antigamente a preocupação maior era fazer os corpos chegarem ao cemitério antes de apodrecer). Bill Baterman acompanhou tudo, o rosto duro como pedra, incrivelmente.
. .eu não sei... incrivelmente seco, eu acho. Não deixava cair uma lágrima. Naquele dia, o maquinista do trem era Huey Garber e ele contou que sem dúvida o sujeito
do exército estava fazendo uma viagem muito longa. Disse que o homem já entregara um vagão repleto daqueles caixões em Limestone, Presque Isle, e a partir de lá
ele e os caixões tomaram o rumo suL
"O sujeito do exército se aproximou de Huey, tirou uma garrafinha de uísque barato do bolso do uniforme e disse naquele sotaque macio e arrastado do sul: 'Bem,
Seu Maquinista, hoje o senhor está levando o trem da morte, sabia disso?'
"Huey balançou a cabeça.
"'Bem, está mesmo. Isso é o que chamam de trem fúnebre lá no Alabama.' Huey diz que o sujeito tirou uma lista do bolso e passou os olhos nela. 'Agora temos de
deixar dois caixões em Houlton, depois temos um para Passadumkeag, dois para Bangor, um para Derry, um para Ludlow e por aí vai. Estou me sentindo um leiteiro meio
fedorento. Quer um gole?'".
"Bem, Huey não quis beber alegando que Bangor e Aroostook eram muito rígidas no que dizia respeito a maquinistas com bafo de uísque, mas o sujeito do registro
de óbitos propôs que um fizesse vista grossa à bebedeira do outro. 'Apertamos as mãos e ficou tudo bem', disse Huey".
"E assim continuaram, descarregando aqueles caixões cobertos com bandeiras a cada uma ou duas estações. Entregaram dezoito ou vinte naquele dia. Huey contou
que a coisa continuou assim até Boston, e em cada parada havia parentes chorando e gemendo. Menos em Ludlow. .. E em Ludlow ele ficou assustado ao ver a cara de
Bill Baterman. Bill, disse ele, parecia estar morto por dentro, só à espera de que a alma subisse para começar a cheirar mal. No fim do dia, Huey acordou o sujeito
do exército e os dois fizeram uma farra (beberam quinze ou vinte copos). Huey ficou mais embriagado do que nunca, foi para uma casa de putas, o que nunca fizera
em toda a sua vida, e acordou com uma quantidade de chatos tão grande e repulsiva que chegava a se arrepiar. Disse que se o trem fosse o que chamavam trem da morte,
nunca mais queria voltar a conduzir um deles".
"O corpo de Timmy foi levado para a Casa Funerária Greenspan, na Rua Fern (ficava do outro lado de onde agora é a Lavanderia New Franklin). Dois dias depois,
foi enterrado no Cemitério da Boa Vista com todas as honras militares".
"Bem, é o que eu lhe digo, Louis, a Sra. Baterman já estava morta há dez anos. Morrera com a segunda criança que tinha tentado trazer ao mundo, e isso teve muito
a ver com o que aconteceu. Um segundo filho podia ter ajudado a aliviar a dor, você não acha? Um segundo filho podia ter feito o velho Bill não esquecer que havia
outros sentindo a mesma dor que ele, outros que dependiam da ajuda dele para superar a crise. Acho que, pelo menos sob esse ponto de vista, você teve mais sorte,
isto é, ainda tem uma filha e tudo mais... Uma filha e uma esposa, vivas e bem de saúde".
"Segundo a carta que Bill recebeu do tenente encarregado do pelotão do filho, Timmy foi baleado a 15 de julho de 1943, na estrada que ia para Roma. O corpo foi
embarcado para a América dois dias depois e chegou a Limestone no décimo nono dia. Já na manhã seguinte era colocado no trem da morte de Huey Garber. A maioria dos
praças que morriam na Europa eram enterrados na Europa, mas todos os rapazes que voltaram para casa naquele trem eram casos especiais. Timmy morrera atacando um
ninho de metralhadoras e, após a morte, ganhou a Estrela de Prata.
"Timmy foi enterrado... Não posso jurar, mas acho que foi em 22 de julho... Quatro ou cinco dias depois, Marjorie Washburn, que naquele tempo entregava a correspondência
do correio, viu Timmy caminhando pela estrada na direção da cocheira do Velho York. Bem, Marjorie, que chamavam de Margie, quase atirou o carro fora da estrada e
você pode imaginar por quê. Voltou para os correios, jogou a sacola de couro cheia de cartas ainda não entregues em cima da escrivaninha de George Anderson e disse
que ia pra casa dormir.
"'Margie, você está doente?', George perguntou. 'Está branca como asa de gaivota.'".
"'Levei o maior susto de minha vida e não quero falar sobre isso disse Margie Washburn. 'Também não vou tocar no assunto com Brian, nem com minha mãe, nem com
ninguém. Quando eu for para o céu, se Jesus me pedir pra contar a ele, aí talvez eu conte. Mas não tenho muita certeza.' Depois foi embora.
"Todo mundo sabia que Timmy tinha morrido; o anúncio do enterro saíra uma semana antes no Daily News de Bangor e no American de Ellsworth, com retrato e tudo.
Metade dos moradores da região acompanharam o enterro até a cidade. E de repente Margie o encontrava, caminhando pela estrada - cambaleando pela estrada, ela finalmente
revelou a George Anderson... mas só vinte anos depois, no leito de morte. George me disse que ela parecia ter necessidade de contar a alguém o que havia visto. George
achava que a coisa devia estar pesando na cabeça dela, você sabe...
"Timmy estava pálido, ela confessou, usava calças muito largas e uma surrada e desbotada camisa de flanela, embora naquele dia a temperatura fosse de mais ou
menos trinta e dois graus à sombra. Margie tinha sentido todo o seu cabelo se arrepiar. 'Os olhos dele eram como passas enfiadas em massa de pão. Vi um fantasma,
Georgie. Foi isso o que me assustou tanto. Nunca pensei que veria uma coisa dessas, mas vi.'
"Bem, para encurtar história, logo algumas outras pessoas também viram Timmy. A Sra. Stratton, bem, nós a chamávamos de "Dona" e ninguém sabia se era solteira,
divorciada ou desquitada. Morava numa pequena casa de sala e quarto ali onde a Estrada Pedersen se junta com a Estrada Hancock. Stratton tinha um monte de discos
de jazz e às vezes deixava você participar de uma festinha com ela se você tivesse alguma nota de dez dólares que não fosse fazer muita falta. Bem, ela viu Timmy
da varanda. Disse que o rapaz atravessou a estrada e parou no acostamento.
"Simplesmente ficou ali parado, ela disse, as mãos balançando ao lado do corpo, a cabeça um pouco curvada, como um lutador de boxe à beira de receber um nocaute.
Stratton ficou parada na varanda, o coração a cem por hora, apavorada demais para se mexer. Então disse que ele se virou e parecia um bêbado tentando dar meia-volta.
Uma perna foi à frente, a outra quis se virar para trás e ele quase caiu. A Dona disse que ele olhou em sua direção. ela sentiu as mãos perderem a força. Deixou
cair um cesto com a roupa que acabara de lavar e a roupa se esparramou no chão, sujando-se toda de novo.
"Disse que os olhos de Timmy ..... . disse que pareciam mortos e turvos como bolas de gude, Louis. Mas ele a viu.., e ....... e Stratton contou que falou com
ela. Perguntou se ainda tinha aqueles discos, porque gostaria de ouvir um pouco de vitrola ao lado dela. Talvez naquela noite mesmo. E a Sra. Stratton se trancou
dentro de casa, ficou quase uma semana sem sair, e custou muito a se recuperar do susto.
"Muita gente viu Timmy Baterman. Muitos estão mortos agora, a Sra. Stratton por exemplo. Outros se mudaram. Mas ainda sobraram alguns velhos faladores como eu
que poderão contar a história... se alguém souber lhes perguntar.
"Nós o vimos, é o que estou lhe dizendo, andando pra lá e pra cá na Estrada Peclerson, um quilômetro e meio para leste da casa do pai e um quilômetro e meio
para oeste. Ia de um lado pro outro, de um lado pro outro o dia todo, e pelo que se dizia, a noite toda. Camisa amassada, rosto pálido, cabelo espigado, calça às
vezes aberta e aquele olhar... aquele olhar..
Jud fez uma pausa para acender um cigarro, depois apagou o fósforo e encarou Louis por entre a nuvem dealizante de fumaça azul. E embora a história fosse, é
claro, inteiramente absurda, não havia traço de mentira em seus olhos.
- Você sabe, existem essas histórias e esses filmes (não sei se são verdadeiros) sobre os zumbis lá do Haiti. Nos filmes, eles simplesmente saem cambaleando
por aí, os olhos mortos olhando fíxamente em frente, um passo muito lento, o corpo meio torto. Timmy Baterman era assim, Louis, como um zumbi num filme, mas não
era só isso. Havia mais alguma coisa. Havia alguma coisa em movimento atrás dos olhos dele. Às vezes se podia notar e às vezes não. Alguma coisa atrás dos olhos
dele, Louis. Não acho que se possa chamar aquilo de pensamento. Não sei que maldito nome se poderia dar.
"Antes de mais nada, era um olhar malicioso. O olhar com que devia ter dito à Sra. Stratton que queria ouvir discos com ela. Havia alguma coisa se passando ali,
mas não acredito que fosse pensamento e não acredito que tivesse muito a ver (talvez não tivesse nada a ver) com Timmy Baterman. Lembrava mais um... um sinal de
rádio que viesse de algum lugar. Quando se olhava pra ele, uma idéia vinha logo à cabeça: 'Se ele encostar a mão em mim, vou dar um grito.' Era assim.
"Ia de um lado pro outro, pra cima e pra baixo da estrada. E um dia, quando cheguei do trabalho (deve ter sido, oh, digamos que mais ou menos a 30 de julho),
encontrei George Anderson, o encarregado dos correios, sentado na varanda de trás, tomando mate com Hannibal Benson, que era então nosso segundo representante no
conselho municipal, e Alan Purinton, que era o chefe dos bombeiros. Norma também estava sentada lá, mas não dizia uma palavra.
"George não parava de esfregar o toco da perna direita. Tinha perdido quase toda a perna num acidente na estrada de ferro e o toco o incomodava demais nos dias
quentes e abafados. Mas sofrendo ou não, lá estava ele.
"'Isto já foi longe demais', George me disse. 'Em primeiro lugar, Magie não quer mais entregar a correspondência na Estrada Pedersen. E em segundo lugar, a coisa
está começando a criar problemas com o governo.'
"'Como está criando problemas com o governo?', perguntei.
"Hannibal então disse que recebera um telefonema do Ministério da Guerra. Um tenente chamado Kinsman, cuja função era impedir que uma ou outra intriga cercando
os militares adquirisse proporções maiores. 'Quatro ou cinco pessoas escreveram cartas anônimas para o Ministério da Guerra', explicou Hannibal, 'e este Tenente
Kinsman está começando a ficar um pouco preocupado. Se tivesse recebido apenas uma carta, teria rido e tudo bem. Se fosse a mesma pessoa escrevendo um monte de cartas,
chamaria a polícia estadual em Derry Baracks informando que havia um psicopata em Ludlow com muita raiva da família Baterman. Mas as cartas vinham de pessoas diferentes.
Tinha certeza disso porque as caligrafias eram diferentes. E todas as.cartas diziam a mesma coisa absurda: se Timothy Baterman está morto, seu cadáver anda muito
ágil pra cima e pra baixo na Estrada Pedersen, a cabeça jogando de um lado pro outro.
"'Este Kinsman vai mandar alguém aqui ou talvez ele mesmo venha se a coisa não parar', Hannibal concluiu. 'Vão querer saber se Timmy está morto, ou se houve
algum engano e ele está vivo, andando por aí sem licença do comando. Não gostam de imagina que possa haver algum erro em seus registros de óbitos. E se houve, vão
querer saber quem foi enterrado no caixão de Timmy.'
"Bem, você pode imagina a enrascada, Louis. Ficamos ali sentados quase uma hora, bebendo mate gelado e conversando. Norma perguntou se queríamos sanduíches,
mas ninguém quis.
"Pisamos e repisamos o assunto e, por fim, decidimos ir até a casa de Baterman. Nunca vou esquecer aquela noite, nem que fique duas vezes mais velho do que estou
agora. Estava quente, mais quente que as portas do inferno, o sol caindo detrás das nuvens. Nenhum de nós queria ir, mas tínhamos que ir. Norma percebeu isso antes
mesmo de nós. Me levou pra dentro de casa dando alguma desculpa e disse: 'Não vão ficar aí tagarelando e deixar a coisa passar em brancas nuvens. Precisam toma uma
providência. É uma abominação.'"
Jud mediu calmamente Louis com o olhar.
- Foi assim que ela chamou a coisa, Louis. A expressão foi dela. Uma abominação. E Norma não se esqueceu de cochichar no meu ouvido: 'Se acontecer alguma coisa,
Jud, saia correndo. Não importa os outros (cada um terá de cuidar de si. Fuja daquela casa ao primeiro sinal de perigo.'
"Fomos no carro de Hannibal Benson - aquele filho da puta conseguia todos os cupons de racionamento que queria, eu não sei como. Ninguém falou muito, mas todos
nós fumávamos como chaminés. Estávamos com medo, Louis, não podíamos estar com medo maior. E o único que acabou falando alguma coisa foi AIan Purinton. Disse a George:
'Aposto o que vocês quiserem como Bill Baterman foi pedir ajuda ao diabo naqueles bosques ao norte da Rodovia 15.' Ninguém respondeu, mas lembro que George aquiesceu
com a cabeça.
"Bem, chegamos lá e Alan bateu na porta, mas ninguém veio atender. Então fomos para os fundos da casa e lá estavam os dois. Bill Baterman sentados na espreguiçadeira
perto de uma garrafa de cerveja e Timmy nos fundos do terreno, contemplando aquele sol vermelho, sanguinolento, que ia caindo. Sob o crepúsculo, o rosto dele tinha
um tom alaranjado, como se o tivessem esfolado vivo. E Bill... era como se o diabo já tivesse levado sua alma. Flutuava dentro das roupas. Achei que devia ter perdido
uns vinte quilos. Os olhos estavam afundados nas órbitas, como pequenos animais no fundo de duas cavernas.., e a boca não parava de tremer do lado esquerdo."
Jud fez uma pausa, parecendo meditar, depois mexeu ligeiramente a cabeça.
- Louis, ele parecia possesso...
"Timmy se virou para nós e sorriu. E apenas por vê-lo sorrir uma pessoa já tinha vontade de gritar. Depois se virou de novo para o sol que ia caindo no horizonte.
Bill disse: 'Não escutei vocês baterem o que sem dúvida era uma mentira descarada. Alan batera naquela porta com força suficiente para acordar... para acordar um
defunto".
"Ninguém parecia estar com muita vontade de falar, então tomei a iniciativa. Disse: 'Bill, soube que seu filho morreu na Itália.".
"'Foi um engano', disse ele me olhando de frente".
"'Foi mesmo?', perguntei".
"'Não estão vendo Timmy ali em pé?', ele insistiu".
"'Então quem você acha que estava naquele caixão que foi enterrado no Cemitério da Boa Vista?', Alan Purinton perguntou.
"'E eu sei lá?', disse Bill. 'Isso pouco me importa.'".
"Ele se levantou para pegar um cigarro, mas deixou cair todos os cigarros do maço nos degraus da cozinha, e quando tentou apanhá-los, partiu dois ou três".
"'Provavelmente terá de haver uma exumação', disse Hannibal. 'Sabe disso, não é? Recebi um telefonema do Ministério da Guerra, Bill. Estão querendo saber se
enterraram o filho de alguma outra mãe sob o nome de Tímmy.'".
"'Bem, o que tenho a ver com isso?', disse Bill em voz alta. 'Não é problema meu, certo? Tenho o meu rapaz. Timmy chegou em casa no dia seguinte. Voltou com
neurose de guerra ou algo desse tipo. Está um pouco estranho, mas vai ficar bom.'
"'Vamos colocar as cartas na mesa, Bill', disse eu, ficando repentinamente furioso. 'Se e quando abrirem aquele caixão do exército, vão encontrá - lo vazio,
a não ser que você tenha se dado ao trabalho de enchê-lo de pedras depois que tirou seu filho de lá, e acho que não se preocupou com isso. Sei o que aconteceu; Hanníbal,
George e Alan que vieram comigo sabem o que aconteceu; e você sabe muito bem. Andou rondando lá pelos bosques, Bill, e trouxe um monte de problemas para este lugar
e para si mesmo.'
"'Acho que vocês também sabem onde fica a porta da rua', disse ele 'Não tenho de explicar nada, nem me justificar pra vocês, nem coisa alguma. Quando recebi
aquele telegrama, a vida saiu de dentro de mim. Senti vida escorrendo, como escorre a urina de dentro do meu corpo. Bem, eu consegui trazer meu rapaz de volta. Eles
não tinham o direito de levá-lo. Era apenas um garoto de dezessete anos. Era tudo que me restava de sua querida mãe, e o dever que obrigaram ele a cumprir foi uma
merda. Então foda-se o exército, foda-se o Ministério da Guerra, fodam-se os Estados Unidos da América e fodam-se vocês quatro. Consegui que ele voltasse. E ele
vai ficar bom. Isso é tudo que eu tenho a dizer! Agora façam o favor de dar meia-volta e voltar pelo mesmo caminho de onde vieram!'
"Sua boca tremia tique-tique-tique, o suor lhe cobria a testa em gotas enormes, e foi assim que percebi que ele estava maluco. E eu também teria ficado .......
vivendo com... aquela coisa."
Louis sentia um embrulho no estômago. Bebera cerveja demais e depressa demais. Dai a pouco a cerveja ia se derramar num vômito. A sensação de peso, de carga
no estômago, dizia-lhe que aquilo não ia demorar.
- Bem, não podíamos fazer grande coisa. Estávamos prontos para ir embora. Hannibal disse: 'Bill, que Deus o ajude.'
"Bill respondeu: 'Deus nunca me ajudou. Eu ajudei a mim mesmo.'
"Foi então que Timmy veio andando em nossa direção. Havia alguma coisa errada até no modo dele andar, Louis. Caminhava como um homem velho, muito velho. Suspendia
e abaixava um dos pés num movimento arrastado; depois erguia o outro. Era como ver um caranguejo andar. As mãos pendiam do lado das pernas. E quando ele chegou perto,
podia-se ver marcas vermelhas em seu rosto. Pareciam espinhas ou pequenas queimaduras. Calculo que foi onde a metralhadora Kraut o atingiu. Acho que por pouco não
lhe arrancou a cabeça.
"Tinha cheiro de sepultura. Era um cheiro nauseante, como se tudo dentro dele estivesse sem vida, podre. Vi Alan Purinton levantar a mão para cobrir o nariz
e a boca. O fedor era terrível. Quase esperávamos ver pequenos vermes se contorcendo no cabelo dele..
- Chega - disse Louis num tom áspero. - Já ouvi o bastante...
- Ainda não - disse Jud. Falou com extrema veemência. - Sem dúvida, ainda não. E olhe que não consigo fazer a coisa parecer tão má quanto de fato foi. Só
mesmo quem viu pôde compreender como foi terrível. Ele estava morto, Louis. Mas estava vivo também. E ele... ele... ele sabia coisas.
- Sabia coisas? - Louís puxou a cadeira para a frente.
- Ê. Deitou os olhos em Alan por um longo tempo, uma espécie de sorriso na boca (pelo menos pudemos ver seus dentes) e falou com uma voz muito rouca; todos tiveram
de esticar a cabeça para ouvi-lo. Era como se tivesse cascalho nos pulmões. 'Sua mulher está fodendo com o homem que trabalha com ela na drugstore, Purinton. O que
acha disso? Ela grita quando goza. O que você acha?'
"Alan deu uma espécie de arfada e todos notaram que Timmy conseguira atingi-lo profundamente. Alan está agora num asilo de velhos em Gardener, ou pelo menos
estava até pouco tempo atrás... Já deve estar bem perto dos noventa anos. Na época em que isso aconteceu, tinha cerca de quarenta e havia algum falatório sobre sua
segunda esposa. Era prima em segundo grau e fora morar com Alan e Lucy, a primeira mulher de Alan, pouco antes da guerra. Bem, Lucy morreu, e um ano e meio depois,
Alan se casou com aquela moça. Laurine era o nome dela. Não teria mais de vinte e quatro anos quando casou com Alan. Realmente havia certos comentários em torno
da vida dela, você sabe. Como homem, você ia dizer que tinha uns modos livres e fáceis, mas pouco mais que isso. As mulheres, porém, achavam que era uma moça sem
moral. Talvez o próprio Alan tivesse algumas desconfianças. Ele disse: 'Cale a boca! Cale a boca ou vou lhe da um soco, seja lá que diabo você for!'".
"'Agora chega, Timmy', disse Bill com um aspecto pior que nunca - como se fosse vomitar, perder os sentidos ou ambas as coisas. 'Cale-se agora, Timmy.'
"Mas Timmy não deu importância a Bill. Olhou para George Andersou e disse: 'Aquele neto por quem você sente tanta afeição está apenas esperando você morrer,
meu velho. O dinheiro é tudo que ele quer, o dinheiro que ele acha que você enfiou num cofre do Banco Oriental de Bangor. É por isso que o agrada tanto, embora pelas
costas só faça chacota, tanto ele quanto a irmã. Velho perna de pau, é assim que chamam você', disse Timmy e... Louis, a voz dele estava modificada. Tinha um tom
muito ordinário. Era daquele modo que a voz do neto de George teria soado se... você sabe, se as coisas que Timmy estava dizendo fossem verdadeiras.
"'Ei, velho perna de pau', disse Timmy, 'não acha que eles vão ficar putos quando descobrirem que você é pobre como um rato de igreja porque perdeu tudo em 1938?
Não vão ficar putos, George? Não vão ficar simplesmente putos?'
"George deu um passo atrás, perdeu o equilíbrio, a perna de pau se vergou e ele caiu de costas na varanda de Bill, derrubando a garrafa de cerveja. Estava branco
como a camiseta que usava, Louis".
"Bill ajudou-o a ficar de pé e trovejou para o filho: 'Timmy, pare com isso! Pare com isso!' Mas Timmy não estava disposto a parar. Disse alguma coisa má sobre
Hannibal e também disse alguma coisa má sobre mim...Timmy parecia estar... delirando, eu diria. Sem dúvida estava delirando. Gritava! E nós começamos a recuar, e
depois começamos a correr, arrastando George pelos braços o melhor que podíamos, pois as correias e cintas daquela imitação de perna estavam todas torcidas, a perna
estava completamente torta, o pé virado pra trás e arrastando na relva.
"Na última visão que tive de Timmy Baterman, ele estava nos fundos do terreno, perto do varal, o rosto todo vermelho sob o sol poente, as marcas do rosto bem
nítidas, o cabelo todo espigado e parecendo um tanto... poeirento. Ria e berrava sem parar: 'Velho perna de pau! Velho perna de pau! E o chifrudo do lado! Marido
de puta! Até logo, cavalheiros! Até logo! Até logo!' Continuou rindo, mas o riso era uma espécie de grito, realmente um grito. ... Havia alguma coisa dentro dele...
gritando... gritando... gritando."
Jud parou. Seu peito moveu-se rapidamente para cima e para baixo.
- Jud - disse Louís -, as coisas que esse Timmy Baterman falou a você...eram verdadeiras?
- Eram verdadeiras - Jud sussurrou. - Deus! Era tudo verdade. Às vezes eu costumava ir a um bordel em Bangor. A maioria dos homens faz isso, eu acho, embora
talvez um bom número deles ande sempre na linha com a esposa. Eu simplesmente sentia necessidade - ou compulsão - de transar de vez em quando com uma mulher diferente.
As vezes o sujeito paga uma mulher pra fazer as coisas que não tem coragem de pedir à esposa. Os homens também cuidam de seus jardins, Louis. E sem dúvida o que
eu fazia não era nenhuma coisa terrível. Continuava indo lá as escondidas há oito ou nove anos. Norma não teria me deixado se soubesse da história. Mas alguma coisa
dentro dela morreria para sempre. Alguma coisa preciosa, doce.
Os olhos de Jud estavam vermelhos, inchados e lacrimejantes. As lágrimas do velho são singularmente desagradáveis, Louis pensou. Mas quando a mão de Jud avançou
sobre a mesa, Louis apertou-a com firmeza.
- Ele só nos disse coisas más - Jud continuou pouco depois. - Só coisas más. Deus sabe que há muita coisa ruim na vida de qualquer ser humano, não é? Dois ou
três dias depois, Laurine Purinton deixou Ludlow para sempre. As pessoas que a viram na cidade antes dela subir no trem disseram que exibia dois olhos roxos e tinha
um decote muito decente. Alan nunca fez qualquer comentário sobre o caso. George morreu em 1950, e se deixou alguma coisa para o neto e a neta, eu não sei. Hanníbal
foi chutado do conselho municipal por causa de uma acusação muito semelhante à que Timmy Baterman lhe fizera. Não vou contar exatamente o que foi (você não precisa
saber), mas desvio de fundos públicos se aproxima bastante da coisa, eu acho. Falaram até em processá-lo por desfalque, mas não chegaram a esse ponto. Sem dúvida
perder o cargo já foi punição suficiente, ele nunca mais conseguiu fazer nada na vida.
"Mas aqueles homens também tinham seu lado bom. Isso tem de se admitir, embora as pessoas não costumem se lembrar muito dessas coisas. Foi Hannlbal quem, um
pouco antes da guerra, conseguiu as verbas para começar a construção do Hospital Geral do Maine Oriental. Alan Purinton foi um dos homens mais generosos e mão aberta
que conheci. E a única ambição do velho George Anderson era continuar a vida toda como encarregado dos correios".
"Mas aquela coisa só quis falar sobre o que eles tinham de ruim. Só quis lembrar do mal porque era uma coisa má... e porque sabia que nós representávamos uma
ameaça. O Timmy Baterman que tinha ido pra guerra era um garoto bom, simples, talvez um pouco tolo, mas de bom coração. A coisa que vimos naquela noite, contemplando
aquele sol vermelho... aquilo era um monstro. Talvez um zumbi, um "dibbuk"* ou um demônio. Talvez nem exista nome para designar uma coisa daquelas, mas os micmacs
logo iam descobrir o que era, com ou sem nome."
- E o que era? - Louis perguntou um tanto entorpecido.
- Uma coisa que foi tocada pelo vendigo - disse Jud num tom sereno. Aspirou profundamente, prendeu o ar por um instante, soltou-o. Depois consultou o relógio.
- Está na hora de eu ir embora. Já é tarde, Louis. Falei nove vezes mais do que pretendia.
- Acho que não - disse Louis. - Foi bastante revelador. Conte como tudo acabou.


*No folclore hebraico, uma alma penada que pode entrar no corpo de um homem e controlar suas ações. (N. do T.)

- Duas noites depois, houve um incêndio na casa dos Baterman - disse Jud. - A casa ardeu completamente. Alan Purinton disse que não tinha dúvidas de que
não fora um acidente. Alguém tinha derramado querosene de uma ponta à outra da pequena casa. Três dias depois do incêndio ainda se podia sentir o cheiro.
- Então os dois acabaram carbonizados.
- Oh, sim, acabaram carbonizados. Mas já estavam mortos antes. Timmy fora baleado duas vezes no peito com o revólver que Bill Baterman tinha em casa, um velho
Colt. Foi encontrado na mão de Bill. O que ele fez, ou ao menos parece ter feito, foi matar o filho, deitá-lo na cama e depois esparramar o querosene. Então se sentou
na espreguiçadeira ao lado do rádio, acendeu um fósforo e pôs na boca o cano do 45.
- Jesus! - disse Louis.
- Estavam bastante carbonizados, mas o legista do condado disse que Timmy Baterman parecia já esta morto há duas ou três semanas.
Silêncio, a batida do relógio.
Jud se levantou.
- Eu não estava exagerando quando disse que posso ter matado seu menino, Louis, ou ao menos ter desempenhado algum papel na coisa. Os micmacs conheciam aquele
lugar, o que não quer necessariamente dizer que eles é que o transformaram no que é agora. Afinal, os mícmacs não viveram sempre aqui. Talvez tenham vindo do Canadá,
talvez da Rússia, talvez da Ásia, há muito, muito tempo atrás. Só habitaram o Maine por uns mil anos, talvez dois mil... é difícil saber, porque não deixam muitas
marcas na terra que ocupam. E agora já se foram outra vez do mesmo modo como nós, um dia, também não estaremos mais aqui, embora eu ache que déixaremos traços bem
mais profundos, para uso melhor ou pior por parte dos que nos substituirem. O lugar continuará, Louis, não importa quem viva no Maine. Não é como se alguém fosse
dono do lugar e pudesse levar seu segredo quando se mudasse. É um lugar mau, amaldiçoado, e eu não tinha nada de levá-lo até lá para enterrar aquele gato. Agora
tenho consciência disso. Se você sabe o que é bom para você e sua família, nunca deixe de estar alerta ao poder daquele lugar. Eu não tive forças para resistir.
Você salvou a vida de Norma e eu queria fazer alguma coisa para recompensá-lo, mas aquele lugar fez minhas boas intenções servirem aos seus maus propósitos. Tem
uma força muito grande e acho que essa força atravessa determinadas fases, assim como a lua. Foi cheio de força no passado e estou com medo de que esteja voltando
a ter pleno poder. Estou com medo que o lugar tenha se servido de mim para chegar até você através de seu filho. Você entende, Louis, o que estou querendo dizer?
Encarou Louis com olhos suplicantes.
- Está dizendo que o lugar sabia que Gage ia morrer, não é? - disse Louis.
- Não. Estou dizendo que o lugar pode ter feito Gage morrer porque eu iniciei você na força que existe lá em cima. Estou dizendo que posso ter matado seu filho,
mesmo cheio de boas intenções.
- Eu não acredito nisso - disse Louis por fim, com voz trêmula. Não acreditava, não queria. Não podia.
Apertou com força a mão de Jud.
- Vamos enterrar Gage amanhã. Em Bangor. E é em Bangor que ele vai ficar. Nunca mais pretendo subir ao "simitério" de bichos, muito menos passar para o outro
lado.
- Prometa! - disse Jud num tom áspero. - Prometa!
- Prometo - disse Louis.
Mas no fundo de sua mente, a intenção persistia - um breve cintilar de esperanças que não se dissipavam totalmente.


Mas nenhuma dessas coisas aconteceu.
Todas elas - o caminhão da Orinco roncando, os dedos que tocaram as costas da jaqueta de Gage e depois escorregaram, Rachel preparando-se para ir ao velório
com o casaco que usava em casa, Ellie carregando o retrato de Gage e pondo a cadeirinha dele perto da cama, as lágrimas de Steve Masterton, a briga com Irwin Goldman,
a terrível história que Jud Crandall contou sobre Timmy Baterman -, tudo isso existiu apenas na mente de Louis Creed durante os poucos segundos em que ele corria
atrás do filho, do filho sorridente, até a beira da estrada.
Rachel tinha gritado de novo:
Gage, solte, não CORRA!
Mas Louis não perdeu tempo. E foi se aproximando cada vez mais, cada vez mais de Gage, e, sim, uma daquelas coisas realmente aconteceu: de algum lugar, lá no
fim da estrada, veio o ronco de um caminhão se aproximando. Um circuito de memória se abriu em algum ponto da mente de Louis e ele ouviu Jud Crandall, naquele primeiro
dia em Ludiow, falando com Rachel:
A senhora deve vigiá-los quando eles estiverem perto da estrada, Sra. Creed. É uma estrada perigosa para crianças e animais.
Agora Gage corria pelo suave declive do gramado que se fundia ao acostamento da Rodovia 15, as perninhas gorduchas bamboleando. Sem qualquer hipótese de dúvida
ia cair, se estatelar no chão. Mas ele continuava avançando, e o barulho do caminhão estava sem dúvida muito perto, era diferente daquele som baixo, abafado, que
às vezes Louis ouvia flutuando na cama, quase do outro lado da barreira do sono. Nessas horas parecia até um som agradável, mas agora era apavorante.
Oh meu bom Deus oh meu bom Jesus deixe-me pegá-lo não deixe que ele passe para a estrada!
Louis deu uma acelerada final e até saltou, jogou-se para a frente, paralelo ao chão como um jogador de futebol americano prestes a marcar um tento. Pelo canto
do olho pôde ver sua sombra deslizando na grama... Pensou na pipa, no abutre, na sombra que a pipa foi imprimindo no terreno de Sra. Vinton... E no momento exato
em que a corrida de Gage o fazia entrar na estrada, os dedos de Louis atingiram as costas da jaqueta. - e não soltaram.
Louis puxou o filho para trás, batendo com a cara no chão, batendo no cascalho duro do acostamento, sentindo o nariz sangrar. Ainda por cima, uma dor muito mais
forte subiu-lhe dos testículos.
Ohhh, se eu soubesse que ia jogar futebol, tinha colocado meu suporte atlético.
Mas tanto a dor no nariz quanto a sufocante agonia nos testículos se dissiparam no doce alívio de ouvir Gage berrando. O menino gritava de dor e susto por ter
batido com o traseiro no chão do acostamento, por ter caído pra trás e batido com a cabeça na beira do gramado. Logo depois, seus gritos foram afogados pelo ronco
do caminhão passando e o quase imponente balido da buzina externa.
Louis conseguiu se levantar, apesar da ardência no baixo-ventre, e aninhou o filho nos braços. Segundos depois, Rachel os alcançou, chorando e gritando com Gage:
- Nunca mais corra na estrada, Gage! Nunca mais, nunca mais, nunca mais! A estrada é má! Má!
E Gage ficou tão espantado com o sermão que parou de chorar e arregalou os olhos para a mãe.
- Louis, você está com sangue no nariz - disse ela e depois se abraçou ao marido com tanta força e tão de repente que por um momento ele nem pôde respirar.
- Podia ter sido pior - disse Louis. - Mas acho que fiquei estéril, Rachel. Oh, menina, que dor!
E ela riu tão histericamente que Louis chegou a ficar assustado. Uma idéia lhe veio à cabeça: Acho que se Gage tivesse morrido, ela seria levada à loucura.
Mas Gage não tinha morrido; tudo não passara de um momento diabolicamente detalhado de sua imaginação, um momento em que antecipara a morte do filho, do filho
correndo pelo gramado verde numa tarde ensolarada de maio.
Gage foi para a escola primária e aos sete anos começou a acampar. Nos acampamentos mostrou uma formidável e surpreendente aptidão para nadar. Chegou a causar
uma surpresa quase desagradável aos pais mostrando ser capaz de ficar um mês longe deles sem qualquer trauma psíquico. Aos dez anos, já passava todo o verão fora,
no campíng Agawam, em Raymond; aos onze, ganhou duas fitas azuis e uma vermelha nas piscinas dos quatro campings de Swimathon, que encerraram as atividades de verão.
Tornou-se um rapaz alto, mas continuou sendo o mesmo Gage, carinhoso e um tanto deslumbrado com as coisas que o mundo tinha a oferecer... Para Gage, os frutos da
terra nunca eram amargos nem estavam podres.
Foi um excelente aluno na escola secundária e membro da equipe de natação na John Bapst, a escola paroquial que insistiu em freqüentar estimulado por um bom
parque aquático. Rachel ficou transtornada, mas Louis não se admirou quando, aos dezessete anos, Gage anunciou sua intenção de se converter ao catolicismo. Rachel
achava que tudo era por causa da moça com quem o filho estava saindo, pressentia casamento para breve:
- Aposto o que você quiser, Louis - disse ela -, como essa sirigaita de medalha de São Cristóvão no peito está fazendo a cabeça dele!
O casamento arruinaria os planos universitários de Gage, suas expectativas olímpicas e ia cercá-lo, aos quarenta anos, de nove ou dez pequenos católicos correndo
de um lado para o outro. Pelo menos na visão de Rachel, Gage ia se transformar num motorista de caminhão fumador de charutos e com a barriga inchada de cerveja,
cavando através de Pais-Nossos e Ave-Marias seu caminho para a esclerose pré-cardíaca.
Louís suspeitava que as motivações religiosas do filho não fossem tão longe, e embora Gage tenha de fato se convertido (no dia em que ele cumpriu a façanha,
Louis mandou a Irwin Goldman um postal descaradamente provocador: Talvez você ainda venha a ter um neto jesuíta. Seu genro gentio, Louis), não chegou a desposar
a moça simpática (e sem dúvida nada sirigaita) que tinha namorado durante quase todo o último ano de colégio. Foi para a Universidade Johns Hopkins e integrou-se
na equipe olímpica de natação.
Numa tarde longa, deslumbrante, e que deu motivo para muito orgulho, dezesseis anos depois de Louis ter competido com um caminhão da Orinco pela vida do filho,
ele e Rachel (cujos cabelos já estavam quase totalmente grisalhos, embora ela escondesse o fato sob uma tintura) viram Gage conquistar uma medalha de ouro para os
Estados Unidos. Quando as câmaras da NBC o enquadraram num close, a água ainda gotejando no rosto e o cabelo escorrido, o olhar do rapaz serenou e, ao som do hino
nacional, fixou-se na bandeira. Uma fita lhe cercava o pescoço e, na ponta da fita, a medalha de ouro brilhava contra a pele lisa do peito. Então Louis chorou. Chorou
junto com Rachel.
- Acho que isso coroa tudo - Louis comentou com a voz embargada, virando-se para abraçar a esposa..
Mas ela o contemplou com um horror crescente, o rosto muito envelhecido, como se açoitado por dias, meses e anos de tormentas. O som do hino cessou, e quando
Louis voltou a olhar para a televisão, viu um rapaz diferente, um moço negro, a cabeça cheia de caracóis de cabelo onde as gotas de água ainda cintilavam.
Isso coroa tudo.
O boné.
O boné está...
Oh, meu Deus, o boné está cheio de sangue.

Louis acordou com a luminosidade fria e mortiça das sete horas de uma manhã chuvosa, abraçando o travesseiro. A cabeça latejava terrivelmente no ritmo das batidas
de seu coração; a dor subia e descia, subia e descia. Deu um arroto ácido, que tinha gosto de cerveja velha. O estômago parecia pesado como chumbo. Tinha chorado;
o travesseiro estava molhado de lágrimas, coma se envolvido durante o sono pela choradeira de uma sentimentalóide música caipira. Mesmo sonhando, Louis pensou, uma
parte dele sabia muito bem da verdade e chorara por causa disso.
Levantou-se e tropeçou até o banheiro, o coração correndo em ziguezague dentro do peito, a própria consciência das coisas fragmentada pela ressaca febril. Quase
nem teve tempo de chegar ao vaso sanitário, onde despejou uma enorme golfada da cerveja da noite anterior.
AJoelhou-se no chão, olhos fechados, até sentir-se capaz de se equilibrar em pé. Tateou pela válvula e deu a descarga. Foi até o espelho ver até que ponto os
olhos estavam inchados, mas o espelho fora coberto com um lençol. Então se lembrou. Transportando-se quase sem querer para um passado que fingia ter esquecido, Rachel
cobrira todos os espelhos e tirara os sapatos antes de entrar em casa.
Nada de equipe olímpica de natação, Louis pensou sombriamente, voltando para o quarto e se sentando na cama. O gosto amargo da cerveja impregnava-lhe a boca
e a garganta; ele jurou (não pela primeira nem pela última vez) que nunca mais ia se aproximar daquele veneno. Nada de equipe olímpica de natação, nada de um excelente
aluno no colégio, nada de namoradinha católica nem de conversão, nada do camping Agawan, nada. Os tênis tinham sido destroçados, a jaqueta virada pelo avesso, o
corpo que era uma graça, rechonchudo mas firme, fora quase desmembrado. O boné ficara cheio de sangue.
Naquele momento, sentado ali na cama, nas garras de uma ressaca que o entorpecia, junto da janela onde a água da chuva escorria em gotas preguiçosas, a dor o
assaltou em cheio, como alguma matrona sinistra vinda das galerias do purgatório. Apoderou-se dele para castrá-lo, despedaça-lo, privá-lo de todas as defesas que
porventura ainda tivesse. Louis pôs as mãos no rosto e chorou, rolando de um lado para o outro na cama, pensando que faria qualquer coisa para ter uma segunda chance,
qualquer coisa.


Gage foi enterrado às duas horas daquela tarde. A chuva tinha parado. Nuvens esfiapadas ainda se moviam no céu e a maior parte do cortejo chegou carregando os
guarda-chuvas negros fornecidos pelo agente funerário.
A pedido de Rachel, o diretor do funeral, que oficiou a breve e nada sectária cerimônia à beira do túmulo, leu a passagem de Mateus que começa: "Deixai vir a
mim as criancinhas." De pé num dos lados do tumulo, Louis contemplou o sogro do outro lado. Por um momento, Goldman devolveu o olhar, mas acabou baixando os olhos.
Não devia estar com vontade de brigar. As olheiras pareciam sacolas de correio; em volta do barrete de seda, preta, o cabelo branco e fino como uma teia de aranha
esfarrapada esvoaçava na brisa. Com a barba já meio grisalha cobrindo-lhe o rosto, assemelhava-se mais do que nunca a um inveterado bebedor de vinho. Dava a Louis
a impressão de um homem que nem sabia muito bem onde estava. Louis tentou, mas não pôde extrair do coração qualquer traço de piedade.
O pequeno caixão branco de Gage, com o trinco provavelmente consertado, repousava num par de corrimões cromados à beira do túmulo. O terreno ali fora revestido
com uma grama plástica tão violentamente verde que chegava a doer nos olhos de Louis. Sobre aquela superfície artificial e estranhamente vistosa havia numerosas
coroas de flores.
Louis espiou sobre o ombro do diretor do funeral. Lá atrás havia uma colina baixa, repleta de sepulturas, mausoléus de família e um monumento romanesco com o
nome Phipps gravado. Logo acima do telhado inclinado do monumento a Phipps, viu alguma coisa amarela. Olhou com atenção, tentou descobrir o que era. Continuou a
observá-la mesmo depois que o diretor do funeral pediu: "Inclinemos nossas cabeças para um momento de prece silenciosa." Louis demorou alguns minutos, mas acabou
descobrindo. Era a ponta de um carrinho de mão. Um carrinho de mão cheio de pás, estacionado lá na colina, longe dos olhares dos acompanhantes do enterro de Gage.
Quando a cerimônia do funeral terminasse, Oz apagaria o cigano no calcanhar de suas terríveis botas de trabalho, enfiaria a guimba num bolso qualquer que tivesse
na roupa (num cemitério os coveiros surpreendidos jogando pontas de cigarro no chão são quase sempre sumariamente despedidos - afinal, grande parte da clientela
morreu de câncer no pulmão), pegaria o carrinho de mão, poria as pás em movimento e tiraria seu filho das vistas do sol para sempre... ou pelo menos até o dia da
ressurreição.
Ressurreição... ah, aí está uma palavra
(que você deve tirar de vez da porra da cabeça, sabe muito bem disso).
Quando o diretor do funeral disse "Amém", Louis pegou Rachel pelo braço e levou-a embora. Rachel murmurou um protesto (queria ficar um pouco mais, por favor,
Louis), mas Louis foi irredutível. Caminharam para o carro. Ele viu o diretor do funeral recolhendo os guarda-chuvas (o nome da funerária discretamente impresso
no cabo) e passando-os a um assistente. O assistente os pendurava num suporte que, esticado ali no meio da grama molhada, parecia surrealista. Louis pegou o braço
de Rachel com a mão direita, e com a esquerda a mão de Ellie, que estava de luvas brancas. Ellie usava o mesmo vestido com que fora ao enterro de Norma Crandall.
Jud se aproximou quando Louís acomodava sua família no carro. Também parecia ter passado mal a noite.
- Você está bem, Louis?
Louis balançou afirmativamente a cabeça.
Jud curvou-se para espiar dentro do carro.
- Como vai, Rachel?
- Tudo bem, Jud - ela murmurou.
Jud tocou-lhe o ombro suavemente e desviou os olhos para Ellie.
- E você, minha querida?
- Estou bem - disse Ellie, exibindo um horrível sorriso de tubarão para mostrar o quanto estava bem.
- O que é esse retrato que você tem aí?
Por um instante Louís pensou que a filha ia se agarrar com mais força ao retrato, recusar-se a mostrá-lo, mas com dolorosa prudência Ellie passou-o as mãos de
Jud.
Jud pegou a foto com dedos grandes, dedos que pareciam tortos e quase deformados, que pareciam muito mais adequados para lidar com o câmbio de caminhões enormes
ou engatar peças de grandes máquinas. Mas eram também os dedos que haviam tirado um ferrão de abelha do pescoço de Gage com a suave, decidida habilidade de um mágico.
. . ou de um cirurgião.
- Ora, mas é bonito mesmo! - disse Jud. - Você puxando Gage no trenó. Aposto que ele gostou, não foi, Ellie?
Começando a chorar, Ellie balançou a cabeça.
Rachel ia dizer alguma coisa, mas Louis apertou-lhe o braço: Não fale nada por enquanto.
- Eu costumava puxá-lo muitas vezes - disse a menina, chorando. - Ele ria o tempo todo. Depois entrávamos, a mamãe nos dava chocolate e dizia: 'Vão guardar suas
botas.' Gage agarrava todas as nossas botas e gritava 'Botas! Botas!', gritava tão alto que chegava a doer os ouvidos. Você se lembra, mamãe?
Rachel fez que sim.
- Sim, aposto que foi uma época muito boa, não é mesmo? - disse Jud devolvendo a foto. - Sei que o Gage está morto agora, Ellie, mas você pode guardar as memórias
que tem dele.
- Vou guardar - disse ela esfregando o rosto. - Eu gostava muito do Gage, Sr. Crandall.
- Eu sei, meu bem.
Jud se abaixou e beijou a menina. Quando se levantou, olhou com dureza para Louis e Rachel. Rachel enfrentou o olhar, confusa e um pouco magoada, mas não entendeu.
Louis entendeu muito bem: O que você está fazendo por ela?, os olhos de Jud perguntaram. Seu filho está morto, mas a menina não. O que você está fazendo por ela?
Louis desviou o olhar. Não havia nada que pudesse fazer pela filha, pelo menos ainda não. Ela teria de bracejar sozinha no meio de sua dor. Os pensamentos do
pai ainda estavam repletos de Gage.

Ao anoitecer, um amontoado de nuvens cobrira o céu e um vento forte começara a soprar ao oeste. Louis vestiu uma jaqueta leve, fechou-a até em cima e tirou as
chaves da Civic do suporte na parede.
- Onde você vai, Lou? - perguntou Rachel. Falara sem muito interesse. Depois do jantar, tinha começado de novo a chorar, e embora chorasse baixo, parecia incapaz
de parar. Louis a obrigara a tomar um Valium. Agora estava sentada com o jornal aberto em palavras cruzadas que mal tinha iniciado. Na outra sala, Ellie assistia
silenciosa a um filme na tevê, Uma Casinha no Campo, com o retrato de Gage no colo.
- Acho que vou comprar uma pizza.
- Não ficou satisfeito com o que comeu?
- Não tive muita fome na hora - ele explicou, dizendo a verdade e depois acrescentando uma mentira: - Tenho agora.
Entre três e seis horas daquela tarde, tivera lugar na casa de Ludlow o último rito do funeral de Gage. Foi o rito da comida.
Steve Masterton e a mulher trouxeram uma panela de hambúrguer e talharim. Charlton contribuiu com um pastelão.
- Se sobrar alguma coisa, não precisa ter medo que não estraga -Chariton comentou com Rachel. - E é fácil esquentar.
Os Danniker, lá de cima da estrada, trouxeram um pernil assado. Os Goldman apareceram (nenhum dos dois falou com Louis nem se aproximou dele, coisa que, sem
dúvida, ele não lamentou) com um sortimento de frios em fatias e queijos. Jud também trouxe queijo - uma grande rodela de seu velho favorito, o queijo de rato. A
Srta. Dandridge veio com uma torta de tangerina. E Surrendra Hardu trouxe maçãs. O rito da comida sem dúvida transcendia diferenças religiosas.
Foi a festa do funeral. Embora tenha sido discreta, o constrangimento não foi absoluto. Houve menos bebida do que numa festa comum, mas houve alguma. Louís tinha
jurado que nunca mais tocaria em cerveja, mas achou impossível manter o juramento na atmosfera triste da tarde. Depois de algumas cervejas, pensou em passar adiante
certas histórias de funeral que o tio Carl lhe contara. Nos funerais sicilianos, as mulheres solteiras cortavam com tesoura um pedaço da mortalha do defunto e dormiam
com ele sob o travesseiro, achando que traria sorte no amor; nos funerais irlandeses, faziam-se casamentos simulados e sempre se amarravam os pés do morto (segundo
uma antiga crença céltica, isso impediria que o fantasma do falecido saísse andando por aí). Tio Carl dizia que o costume de prender etiquetas de identificação nos
dedôes dos pés de cadáveres começaram em Nova York: como os primeiros encarregados de necrotérios tinham sido irlandeses, ele acreditava que fosse uma sobrevivência
daquela velha superstição.
Olhando para os rostos que enchiam a sala, Louis concluiu que histórias desse tipo não seriam bem aceitas.
Rachel só perdera uma vez o controle, mas a mãe estava ali para consolá-la. Ela se agarrou a Dory Goldman e soluçou em seu ombro abertamente, com entrega total,
como fora absolutamente impossível chorar no ombro do marido. Talvez porque Rachel achasse que ambos tinham culpa da morte de Gage, talvez porque Louis, perdido
no mundo peculiar de suas fantasias, não encorajasse expansões de dor. De uma forma ou de outra, Rachel procurara consolo na mãe e Dory estava ali para proporcioná-lo,
misturando suas lágrimas âs lágrimas da filha. Irwin Goldman permanecia atrás delas, as mãos nos ombros de Rachel. Olhava para o genro com um mórbido ar de triunfo.
Ellie circulava com uma bandeja de prata cheia de canapés, pãezinhos recheados com um palito espetado em cada um deles. Na mão, apertava o retrato de Gage.
Louis recebeu condolências. Balançou a cabeça e agradeceu. E se tivesse os olhos um tanto distantes, o jeito um tanto frio, as pessoas sem dúvida achariam que
estava se lembrando do passado, do acidente, na vida sem Gage que tinha pela frente. Ninguém (talvez nem mesmo Jud) suspeítava que tinha começado a meditar sobre
a estratégia de roubos de túmulos... teoricamente, é claro; não que pretendesse fazer alguma coisa. Era apenas uma forma de conservar a mente ocupada.
Não que pretendesse fazer alguma coisa.


Louis parou na Orrington Comer Store, comprou duas embalagens de cerveja gelada, cada uma com seis latas, e telefonou para encomendar uma pizza de muzzarela
e cogumelos no Napoli's.
- Quer me dar o seu nome, por favor?
Oz, o Gande e Teível, Louis pensou.
- Louis Creed.
- Está certo, Lou, estamos com muitos pedidos, por isso vai demorar uns quarenta e cinco minutos. Tudo bem pra você?
- Tudo bem - disse Louis, desligando o telefone. Quando voltou ao Civic e ligou o motor, percebeu que, embora existissem umas vinte pizzarias na área de Bangor,
escolhera justamente a que ficava mais perto do Cemitério da Boa Vista, onde Gage fora enterrado.
Bem, e que mal há nisso?, pensou um tanto inquieto. A pizza deles é boa. A massa não é congelada. Usam os punhos para amassá-la na hora, bem ali na frente da
gente... Gage costumava rir...
Ele interrompeu o pensamento.
Passou pelo Napoli's e foi até o Boa Vista. Achou que já desconfiava que ia fazer aquilo, mas qual era o problema? Nenhum.
Estacionou e atravessou a rua para os portões de ferro, que brilhavam na última luz do dia. Em cima, num semicírculo, havia letras também em ferro: Boa Vista.
Na opinião de Louis, a vista não era nem boa nem má. O cemitério estendia-se primorosamente por várias colinas; havia longas aléias de árvores (ah, mas naqueles
últimos minutos de luz do sol, as sombras que as árvores atiravam pareciam poças, poças negras e sujas como água estagnada) e alguns salgueiros chorões.
Não era um lugar silencioso. A rodovia ficava perto, o rumor do tráfego era transportado pelo vento frio, contínuo. O brilho no céu cada vez mais escuro era
o Aeroporto Internacional de Bangor.
Esticou a mão para os portões, pensando: Vão estar trancados - mas não estavam. Talvez fosse cedo demais, e mesmo que os trancassem à noite, seria apenas para
proteger o lugar de bêbados, vândalos e casais de namorados adolescentes. Os dias dos violadores de túmulos e ressurreições
(aí está aquela palavra de novo)
estavam encerrados. O portão da direita se moveu com um leve ruído rangente. Após dar uma olhada pelo ombro para ter certeza de que ninguém o observava, Louis
entrou. Fechou o portão e ouviu o dique do trinco.
Parou na entrada daquela residência suburbana da morte, olhando em volta.
Um lugar agradável e retirado, pensou, mas quem vai concordar comigo? Quem? Andrew Marvel8? Afinal, por que a mente humana conserva tamanha quantidade de inútil
lixo superstícioso?
Então a voz de Jud ecoou dentro de sua mente, preocupada e... assustada? Sim. Assustada.
Louis, o que você está fazendo aí? Está se metendo numa estrada por onde não quer viajar.
Ele afugentou a voz. Se estava atormentando alguém, era apenas a si mesmo. Ninguém precisava saber que fora lá quando a luz do sol mergulhava na escuridão.
Começou a andar para o túmulo de Gage, seguindo por uma pequena trilha. Pouco depois, viu-se numa alameda cheia de árvores; as folhas que nasceram com a primavera
sussurravam lugubremente sobre sua cabeça. O coração batia-lhe com muita força no peito. Os túmulos e mausoléus estavam dispostos em fileiras irregulares. Por certo
haveria um zelador num escritório e, na parede do escritório, um mapa caprichado dos vinte acres do Boa Vista, cuidadosamente dividido em quadrantes, cada quadrante
mostrando os túmulos ocupados e os lugares vagos. Terras à venda. Apartamento de um cômodo. Para os que querem dormir tranqüilos.
Não tem muita coisa a ver com o "símitério "de bichos, ele pensou, e isto o fez parar e refletir um pouco. Não, não tinha. O "simitério" de bichos dera-lhe uma
impressão de ordem brotando quase misteriosamente do caos. Aqueles irregulares círculos concêntricos movendo-se para dentro, pedras toscas, cruzes feitas de tábuas.
Como se as crianças que ali enterraram seus bichos tivessem extraído o padrão de sua própria inconsciência coletiva, como se...
Por um instante, Louis viu o "simitério" como uma espécie de comissão de frente anunciando a entrada do bloco circense. O comedor de fogo puxava o cortejo, dava
um show de graça, porque os donos do circo sabiam muito bem que as pessoas só iam pagar o ingresso se vissem uma ponta da coisa, só iam engolir o bife se sentissem
o cheiro...
Aqueles túmulos, aqueles túmulos em círculos quase druídicos.


8 Poeta satírico inglês (1621-1678). (N. do T.)


Os túmulos no "simítério" de bichos imitavam o mais antigo de todos os símbolos religiosos: círculos decrescentes formando uma espiral que levava não a um ponto,
mas ao infinito; ordem tirada do caos ou caos tirado da ordem, dependendo de como funcionasse a mente do observador. Era o símbolo que os egípcios gravaram nas tumbas
dos faraós, O símbolo que os fenícios desenharam nas sepulturas de seus falecidos reis; foi encontrado em paredes de cavernas na antiga Micenas e os construtores
de Stonehenge fizeram dele um relógio para marcar o tempo do universo; na Bíblia judaico-cristã, apareceu como um redemoinho de dentro do qual Deus falou a Jó.
A espiral era o mais velho símbolo de poder no mundo, o mais velho símbolo humano daquela ponte enroscada que podia haver entre o mundo e o abismo.
Por fim, Louis chegou ao túmulo de Gage. Não havia traço de nenhum carrinho de mão com pás. A grama artificial fora removida, alguém a enrolara assobiando, pensando
na cerveja em Fairmount Lounge no fim do trabalho, guardando-a num galpão qualquer junto a outros apetrechos. Onde Gage jazia sobrara um nítido retângulo de terra
nua, revolvida, cerca de um metro por um metro e meio. A lápide ainda não fora colocada.
Louis se ajoelhou. O vento soprava em seu cabelo, atirando-o de um lado para o outro. Agora o céu estava quase inteiramente negro. Nuvens corriam por ele.
Ninguém jogou um facho de lanterna no meu rosto e perguntou o que estou fazendo aqui. Nenhum cachorro-vigia latiu. O portão não estava trancado. Os dias dos
violadores de túmulos estão encerrados. Se eu tivesse vindo com uma picareta e uma pá...
Voltou a si com um estremecimento. Sem dúvida estava apenas fazendo um perigoso jogo mental consigo mesmo ao imaginar que não haveria ninguém vigiando o Boa
Vista durante a noite. Suponhamos que um zelador ou guarda o descobrissem enterrado até a barriga no túmulo recente do filho? Não era certo que chegasse aos jornais,
mas podia chegar. Podia ser acusado de um crime. Que crime? Violação de túmulos? Improvável. Possivelmente invasão de propriedade ou vandalismo. Mas saindo ou não
nos jornais, a notícia correria. As pessoas iam comentar; era uma história bem suculenta para ser contada: médico local é surpreendido desenterrando o filho de dois
anos de idade, recentemente falecido num trágico acidente na estrada. Perderia o emprego. Mesmo que não perdesse, Rachel ficaria arrepiada com os comentários, Ellie
seria atingida por eles, passaria a ser atormentada na escola por uma interminável tagarelice infantil. Poderiam submetê-lo à humilhação de um teste de sanidade
na esperança de abrandar a pena em juízo.
Mas eu podia trazer Gage de volta para a vida! Gage podia voltar a viver!
Será que acreditava realmente, verdadeiramente, nisso?
De fato acreditava. Tanto antes quanto depois da morte de Gage repetira vezes sem conta que Church não chegara a morrer, ficara apenas sem sentidos... E tinha
aberto caminho para fora da sepultura e voltado para casa. Sem dúvida, uma história infantil com sutilezas horripilantes estilo Poe. Sem saber, o rapaz empilha um
monte de pedras sobre um animal vivo. O fiel felino cava um buraco e volta para casa. Ótimo. O problema é que não foi assim. Church estava morto. Foi o solo do cemitério
micmac que lhe devolveu a vida.
Sentou-se ao lado do túmulo de Gage, tentando colocar em ordem todos os componentes do dilema, da forma mais lógica e racional que a magia negra da coisa permitisse.
Timmy Baterman, agora. Primeiro ponto: ele acreditava na história? Segundo ponto: acreditar ou não, faria alguma diferença?
Apesar de não ser nada conveniente, acreditava, na maior parte da história. Era inegável que se existisse um lugar como o cemitério micmac (como de fato existia)
e se algumas pessoas o conhecessem (como o conheciam alguns dos mais velhos habitantes de Ludlow), mais cedo ou mais tarde alguém tentaria fazer a experiência. A
natureza humana, como Louis a entendia, tornava muito difícil acreditar que a coisa tivesse se limitado a uns bichinhos de estimação e um ou outro valioso animal
reprodutor.
Tudo bem. Mas será que também acreditava que Timmy Baterman fora transformado numa espécie de demônio onisciente?
Aquela era uma pergunta mais difícil, e ele desconfiava dela porque não queria acreditar nela, porque já vira os maus resultados de misturar preconceitos com
realidades.
Não, não queria acreditar que Timmy Baterman fosse um demônio, mas também não permitiria - realmente não podia permitir - que seus desejos lhe ofuscassem a capacidade
de julgamento.
Pensou em Hanratty, o touro. Hanratty, Jud contou, se tornara traiçoeiro. Timmy Baterman de certo modo também se tornara traiçoeiro. Hanratty fora mais tarde
abatido pelo mesmo homem que conseguira arrastá-lo até o cemitério micmac num trenó. Timmy Baterman fora "abatido" pelo pai.
Mas porque Hanratty ficara mau, isso significava que todos os animais ficavam maus? Não. Hanratty, o touro, não provava qualquer regra geral; na realidade, seria
uma exceção à regra geral. Era só olhar para os outros animais: o cãozinho Spot de Jud, o periquito da velha, o próprio Church. Todos tinham voltado modificados
e em todos os casos a modificação fora perceptível. No entanto, pelo menos no caso de Spot, a mudança não fora tão grande a ponto de impedir que, anos mais tarde,
Jud recomendasse o processo de... de...
(ressurreição)
Sim, de ressurreição a um amigo. É claro, ultrapassada a linha divisória ele gaguejara um pouco, tentara se justificar um pouco e acabara fazendo jorrar um monte
de besteira sinistra e confusa, que jamais poderia ser adequadamente chamada de ponto de vista.
Como podia se recusar a aproveitar a oportunidade (aquela única, formidável oportunidade) simplesmente baseado na história de Tímmy Baterman? Uma andorinha,
não faz o verão.
Você está deformando todas as evidências em proveito da conclusão que quer atingir, sua mente protestou. Pelo menos reconheça a maldita verdade sobre a modificação
de Church. Mesmo se deixar de lado os animais caçados - pássaros e camundongos -, o que dizer do jeito dele? Entorpecido... é a melhor expressão para resumir a coisa...
No dia em que você saiu com a pipa. Você lembra como estava Gage naquele dia? Como estava entusiasmado e cheio de vida, reagindo a tudo? Não é melhor se lembrar
dele desse jeito? Quer trazer de volta um zumbi com todos os ingredientes de um filme de terror classe C? Ou mesmo algo tão prosaico quanto um menino excepcional?
Um menino que coma os dedos, que fique olhando de olhos turvas as imagens de tevê e nunca aprenda a escrever o próprio nome? O que disse Jud sobre o cachorro dele?
"Era como lavar um pedaço de carne." E o que você quer? Um pedaço de carne respirando? E mesmo que consiga se satisfazer com isso, como vai explicar â sua mulher
o retorno de Gage? E à sua filha? E a Steve Masterton? E ao mundo? O que vai acontecer na primeira vez em que a Srta. Dandridge enfiar o nariz na entrada da sua
casa e deparar com Gage andando de velocípede no quintal? Pode imaginar os gritos, Louis? Pode imaginá-la arranhando o rosto com as unhas? E o que me diz dos repórteres?
O que me diz quando uma equipe do show dos domingos bater na sua porta para fazer uma gravação com uma criança que ressuscitou?
Será que tudo isso realmente importava ou era apenas a voz da covardia? Seria mesmo incapaz de enfrentar essas coisas? Será que Rachel teria alguma outra reação
além de lágrimas de alegria para receber o filho de volta?
Sim, acreditava que havia uma possibilidade real de que Gage voltasse. .. bem... um pouco modificado. Mas isso alterava a qualidade do amor dos pais? Os pais
amam filhos que nascem cegos, filhos que nascem como gêmeos siameses, filhos que nascem com terríveis deformações físicas. Os pais pleiteiam mercê judicial ou demência
para filhos que ao crescer se tornam assassinos, seqüestradores ou torturadores de gente inocente.
Será então que não amaria Gage mesmo se Gage tivesse de continuar usando fraldas até os oito anos? Se só aos doze anos conseguisse passar do primeiro ano primário?
Mesmo se jamais conseguisse? Deveria então simplesmente renegar o filho como uma... uma espécie de aborto divino quando havia outro recurso?
Mas, Louís, meu Deus, você não vive num vácuo! As pessoas vão dizer......
Cortou o pensamento de uma forma brusca, com raiva. De todas as coisas que não estava disposto a considerar, a primeira delas era provavelmente o comentário
público.
Baixou os olhos para a terra há pouco assentada no túmulo do filho e sentiu uma onda de espanto e horror lhe atravessando o corpo. Sem que tivesse consciência,
movendo-se automaticamente, seus dedos tinham desenhado uma forma na sepultura. Tinham feito uma espiral.
Ele esfregou os dedos de ambas as mãos pela terra, apagando o desenho. E saiu do Boa Vista, correndo, julgando-se de fato um transgressor, acreditando, a cada
volta do caminho, que seria descoberto, detido, interrogado.

Passou bem tarde para apanhar a pizza, e embora a tivessem deixado em cima de um dos grandes fornos, já estava um tanto fria, gordurosa. Tinha gosto de barro
cozido. Comeu um pedaço quando tomou a estrada de Ludlow e atirou o resto pela janela, com caixa e tudo. Não gostava de sujar as ruas, mas não queria que Rachel
visse uma pízza quase intacta na cesta de lixo. O fato poderia despertar certa desconfiança de que não era bem a pizza o que ele tinha em mente quando foi a Bangor.
E agora Louis começava a pensar sobre o tempo e as circunstâncias.
O tempo. O tempo podia ser de uma importância extrema, crucial mesmo. Timmy Baterman ficara morto um bom tempo antes que o pai pudesse levá-lo até o cemitério
micmac. Timmy foi ferido a dezenove... Timmy foi enterrado... Não sou capaz de jurar, mas acho que foi em vinte
e dois de julho... Quatro ou cinco dias depois, Marjorie Washburn... viu Timmy subindo a estrada.
Tudo bem, digamos que Bill Baterman tenha feito a coisa quatro dias após o enterro. original do filho... Não. Se ele tivesse de errar, que fosse pelo lado do
conservantismo. Digamos três dias. Para maior clareza de raciocínio, podia admitir que Tímmy Baterman tivesse voltado da morte em vinte e cinco de julho. Isto é,
haviam passado seis dias entre a morte do rapaz e a sua volta, e aquilo era uma estimativa conservadora. Podia muito bem ter transcorrido dez dias. Para Gage, não
se haviam passado mais de quatro. Um tempo bastante mais reduzido que o de Bill... E ainda seria possível distanciar consideravelmente o caso de Gage do caso de
Bill se...
Se as circunstâncias tivessem sido semelhantes às que possibilitaram a ressurreição de Church. Pois Church morrera na época mais oportuna possível, não é verdade?
A família estava longe quando o gato foi atropelado. Ninguém ficou sabendo da história; a não ser ele e Jud.
A família estava em Chicago.
Para Louis, a peça final se encaixou no lugar com um primoroso dique.


- Você quer que nós o quê? - Rachel perguntou, olhando-o com assombro.
Eram dez e quinze. Ellie fora se deitar. Rachel tomara outro Valium após limpar os detritos da festa do funeral ("festa do funeral" era outra daquelas terríveis
expressões cheias de paradoxos não revelados, como "horas de visitação", no caso de velórios; mas parecia não haver outro modo de qualificar a reunião de pessoas
daquela tarde). Estava silenciosa e sonolenta desde que Louis chegara de Bangor... mas isso não importava.
- Quero que voltem para Chicago com sua mãe e seu pai - Louis repetiu pacientemente. - Eles vão embora amanhã. Se falar com eles agora e marcar logo a passagem
na DeIta, vai conseguir viajar no mesmo avião.
- Louis, você perdeu o juízo? Depois da briga que teve com o meu,....
Louis começou a falar com a rapidez de um tagarela, o que era totalmente contrário ao seu modo de ser. Revelava um entusiasmo um tanto grosseiro. Como um jogador
que assim que sai do banco dos reservas consegue levar a bola até a meta adversária, cortando e costurando, ludibriando com singular e delirante facilidade quem
dele se aproxima. Nunca fora um mentiroso particularmente hábil, e não planejara absolutamente nada, mas um fluxo de mentiras plausíveis, meias-verdades e inspirada
justificação despejou-se com facilidade de dentro dele.
- A briga é uma das razões para eu querer que .você e Ellie voltem com seus pais. É hora de começar a cicatrizar a ferida, Rachel. Percebi isso... senti isso..,
no velório. Quando a briga começou, eu.estava tentando endireitar as coisas.
- Mas esta viagem... Realmente não acho que seja uma boa idéia, Louis. Nós precisamos de você. E você precisa de nós.
Os olhos de Rachel mediram-no com ar incrédulo.
- Pelo menos espero que você precise de nós. E nem eu nem Ellie estamos em condições de...
- Estão em condições de ficar aqui... - disse Louis com determinação. Era como se estivesse começando a delirar de febre. - Gostei quando disse que precisa de
mim e eu também preciso de você e de Ellie. Mas agora este é o pior lugar do mundo para você, meu bem. Gage está em toda parte, em todo canto da casa. Eu e você
sentimos muito, é claro, mas acho que para Ellie as coisas são ainda piores.
Viu a dor cintilar nos olhos de Rachel e percebeu que conseguira atingi-la. Uma parte dele sentiu vergonha daquela vitória fácil. Todos os livros que lera a
respeito da morte diziam-lhe que o primeiro e mais forte impulso da pessoa que perdeu um ente querido é se afastar do lugar onde tudo aconteceu... E aprendera também
que sucumbir a esse impulso pode vir a ser exatamente prejudicial, pois dá a quem está de luto o duvidoso privilégio de não enfrentar a nova realidade. Os livros
diziam que o melhor era a pessoa permanecer onde estava, batalhar com a dor no aconchego do lar, até a dor se transformar em lembrança. Mas Louis não se atreveria
a fazer a experiência com a família em casa. Tinha de se livrar de Ellie e Rachel, ao menos por algum tempo.
- Eu sei - disse ela. - Tenho essa sensação... na casa inteira. Mudei o sofá de lugar enquanto você foi a Bangor... Passei também o aspirador para tentar distrair
minha mente das... das coisas ... e encontrei quatro carrinhos dele... como se estivessem esperando que ele voltasse e... você sabe, brincasse...
A voz, trêmula desde o início, se esfacelara. Lágrimas rolaram pelo rosto da mulher.
- E foi aí que tomei o segundo Valium porque comecei a chorar de novo, do jeito que estou chorando agora... Oh, que droga de novela é tudo ... . Oh, me abrace,
Lou, me abrace por favor!...
Ele a abraçou com carinho, mas se sentiu um farsante. Sua mente tentava arranjar um meio de fazer com que aquelas lágrimas pudessem ser usadas em seu favor.
Sou um sujeito simpático, tudo bem. Ei iá, vamos ló!
- Quanto tempo isso vai durar? - ela soluçou. - Quem sabe se não vai acabar nunca? Se pudéssemos tê-lo de volta, Louis, juro que tomaria conta dele melhor, isto
não ia acontecer. O fato daquele motorista estar correndo muito não me livra, não nos livra, da culpa. Nunca imaginei que uma coisa dessas pudesse acontecer com
ele... A cena fica se repetindo na minha cabeça e me machuca tanto, Louis... Nem quando estou dormindo tenho um segundo de descanso: eu sonho com Gage, uma vez atrás
da outra. . . Eu o vejo correndo na direção da estrada. . . Grito pra ele parar...
- Chíii. .. Agora chega, RacheL
Ela ergueu o rosto inchado.
- O Gage nem estava sendo malcriado, Louis. Pra ele tudo não passava de uma brincadeira... O caminhão veio na hora errada... A Srta. Dandridge telefonou enquanto
eu ainda estava chorando. Leu no American de Ellsworth que o motorista tentou se matar.
- Quê?!
- Tentou se enforcar na garagem da casa dele. Segundo o jornal, está em estado de choque e com uma depressão profunda...
- Pena que não conseguiu morrer - disse Louis brutalmente, mas a voz pareceu distante aos seus próprios ouvidos. Sentiu um calafrio tomando conta do corpo. O
lugar tem poder, Louis... Foi cheio de força no passado e estou com medo de que esteja voltando a ter pleno poder. - Meu filho está morto e esse motorista foi solto
por uma fiança de mil dólares... Vai continuar se sentindo deprimido e com vontade de morrer até que um juiz qualquer casse a carteira dele por noventa dias e na
saída lhe aperte o punho dizendo que está tudo bem.
- A Srta. Dandridge diz que a mulher pegou as crianças e foi embora -Rachel falou sombriamente. - Não leu isso no jornal, mas soube por alguém que conhece um
vizinho dele. Não estava bêbado. Não estava drogado. Nunca teve multas por excesso de velocidade. Mas disse que quando entrou em Ludlow, simplesmente teve vontade
de pisar fundo no acelerador. Disse que não sabe como aconteceu. Simplesmente aconteceu.
Simplesmente teve vontade de pisar fundo no acelerador.
O lugar tem poder... -
Louis afastou esses pensamentos. Pegou suavemente a esposa pelo braço.
- Telefone pra seus pais. Telefone agora. Não há necessidade de você e Ellie passarem outro dia nesta casa. Nem mais um dia.
- Mas não vou sem você. Louis, eu quero que nós... Eu preciso que fiquemos juntos.
- Daqui a três dias, quatro no máximo, vou atrás de vocês.
Se as coisas corressem bem, Rachel e Ellie poderiam voltar em quarenta e oito horas.
- Tenho de achar alguém para me substituir na universidade, pelo menos meio expediente. Posso tirar esses dias de licença, mas não quero deixar tudo nas costas
de Surrendra. Jud pode olhar a casa enquanto estivermos fora. Vou desligar a chave geral e guardar os mantimentos no congelador dos Dandridge.
- A escola de .......
- Ao diabo com a escola. De qualquer modo, as aulas iam acabar daqui a três semanas. Eles vão compreender, em face das circunstâncias. Podem dizer que a dispensaram
antes do tempo. Tudo vai dar certo...
- Louis?
Ele se interrompeu.
- O que foi?
- O que você está escondendo?
- Escondendo?
Ele a encarou diretamente, francamente.
- Não sei do que está falando.
- Não sabe?
- Não. Não sei.
- Não importa. Vou ligar agora para minha mãe... se é isso mesmo o que você quer.
- É - disse ele; as palavras ecoaram em sua mente com um timbre de ferro.
- Talvez seja melhor... para Ellie - disse Rachel.
Ela o fitou com os olhos vermelhos, ainda ligeiramente vidrados por causa do Valium.
- Parece febril, Louis. Pode estar ficando doente.
Antes que ele pudesse responder, Rachel foi até o telefone e ligou para o hotel onde os pais estavam hospedados.


Os Goldman ficaram radiantes com a proposta. Não vibraram tanto com a noticia de que, três ou quatro dias depois, Louis se juntaria à mulher e à filha, embora,
na realidade, não tivessem de se preocupar com isso. Louis não tinha a menor intenção de ir a Chicago.
Na opinião dele, o único obstáculo à viagem de Rachel seria conseguir reservas aéreas tão em cima da hora. Mas também aqui a sorte estava do seu lado. Ainda
havia lugares disponíveis no vôo da Delta de Bangor para Cincinnati e uma rápida verificação comprovou dois cancelamentos num vôo de Cincinnati a Chicago. Ellie
e Rachel só viajariam com os Goldman até Cincinnati, mas chegariam a Chicago apenas uma hora depois deles.
É quase como magia, Louis pensou, desligando o telefone. E a voz de Jud respondeu prontamente: Foi cheio de força no passado e estou com medo...
Ora, vá se foder, ele reagiu grosseiramente. Aprendi a aceitar um bom número de coisas estranhas nos últimos dez meses, meu bom e velho amigo. Mas você acha
que estou disposto a admitir que um pedaço mal-assombrado de chão possa influenciar a reserva de passagens aéreas? Francamente não!
- Tenho de fazer as malas - disse Rachel, examinando as informações sobre os vôos que Louis anotara no bloco perto do telefone.
- Leve só a mala grande - disse Louis.
Ela o encarou, olhos arregalados, um tanto sobressaltada.
- Para nós duas? Louis, você está brincando!
- Tudo bem, leve também duas sacolas de viagem. Mas não vá se estafar pegando uma roupa diferente para cada dia dessas três semanas - ele disse, pensando, principalmente
porque, muito breve, você pode estar de volta a Ludlow. - Leve roupa para uma semana ou dez dias. Tem o talão de cheques e os cartões de crédito. compre o que precisar.
- Mas não podemos... - ela começou num tom incrédulo. Parecia insegura sobre tudo, manobrável, bastante confusa. Louis se lembrou do estranho, atordoante comentário
que a mulher fizera sobre um Winnebago que uma vez ele tivera vontade de comprar.
- Temos dinheiro - disse.
- Bem... acho que podíamos usar as economias que estávamos fazendo para os estudos de Gage, mas vamos demorar um dia ou dois para ter o dinheiro em nossa conta
corrente, fora o tempo para a compensação dos cheques...
O rosto de Rachel começou a se enrugar e entrou de novo em colapso. Louis abraçou-a. Ela tem razão. A dor nos atinge sem parar, nunca dá sinais de ceder.
- Rachei, não - disse ele. - Não chore.
Mas evidentemente ela continuou a chorar... Tinha de chorar.

Quando Rachel fazia as malas no andar de cima, o telefone tocou. Louis correu para atendê-lo, achando que seria alguém do departamento de reservas da Delta informando
que tinham se enganado - não havia lugares disponíveis. Eu devia ter visto que tudo estava indo bem demais.
Mas não era da Delta. Era Irwin Goldman.
- Vou chamar Raquel - disse Louis.
- Não.
Por um instante, não houve mais nada, apenas silêncio. Provavelmente ele está sentado do outro lado, tentando decidir de que palavrão vai me chamar primeiro.
Quando Goldman voltou a falar, sua voz parecia muito tensa. Parecia empurrar as palavras para fora contra alguma forte resistência interior.
- É com você que quero falar. Dory pediu que eu telefonasse para me desculpar pelo.., pelo meu comportamento. E acho, Louis, que eu já estava mesmo com vontade
de lhe pedir desculpas.
Ora, Irwin! Que generosidade de sua parte! Meu Deus, acho que acabei de molhar as calças!
- Não precisa se desculpar - disse Louis, a voz seca e mecânica.
- O que eu fiz foi indesculpável - disse Goldman. Agora não parecia estar empurrando as palavras, parecia estar tossindo. - Sua sugestão de que Rachel e Eileen
fossem lá para casa me fez ver como você reagiu com grandeza a tudo isso.., e como eu fui pequeno.
Havia alguma coisa muito familiar naquele tom, alguma coisa estranhamente familiar.
Então descobriu o que era e a boca se repuxou numa forte contração, como se tivesse mordido um grande limão maduro. Era o modo de Rachel (ela estava completamente
inconsciente disso, Louis tinha certeza) dizer contritamente no fim de certas brigas: Louis, desculpe por eu ter me comportado como uma víbora. Ali estava aquela
voz, despojada da vivacidade, da jovialidade de Rachel, sem dúvida, mas aquela mesma voz dizendo: Louis, desculpe por eu ter me comportado como um bastardo.
O velho levaria a filha e a neta de volta; as duas correriam do Maine para a casa do vovô. Nas asas da Deita e da United, as duas voltariam para o lugar delas,
para o lugar onde Irwin Goldman queria que ficassem. Então ovelho podia se dar ao luxo de ser magnânimo. Dentro do que Irwin
sabia, ele era o vitorioso. Por isso vamos esquecer que eu lhe dei um soco na frente do caixão do seu filho morto, Louis, que o chutei depois que você caiu, que
derrubei o caixão do cavalete e quebrei o trinco para que você pudesse ver - acho que você viu - aquele último pedaço da mão do garoto. Vamos esquecer tudo isso.
Fica o dito pelo não dito.
Por mais terrível que seja, Irwin, seu velho porco, eu queria mais é que você morresse... se isso não estragasse os meus planos.
- Tudo bem, Goldman - ele disse com voz calma. - Foi... bem... foi um dia muito carregado de emoções para todos nós.
- Mas isso não justifica - Goldman persistiu e Louis percebeu (embora não quisesse admitir) que o homem não estava sendo apenas diplomático, não estava dizendo
que lamentava ter se comportado como um bastardo porque tinha conseguido o que queria. Goldman estava quase chorando e falava num tom enfático, a voz trêmula, embargada.
- Foi um dia terrível para todos nós. Graças a mim. Graças a um estúpido velho cabeça de vento. Eu feri minha filha quando ela mais precisava da minha ajuda... Eu
o ofendi, e talvez você também precisasse da minha ajuda, Louis. Que você tenha agido assim... com tanta generosidade... depois de eu ter me comportado daquela maneira...
Isso me faz sentir um lixo. E justamente assim que mereço estar me. sentindo.
Oh, faça-o parar, faça-o parar, antes que eu comece a gritar com ele e estrague tudo.
- Provavelmente Rachel lhe contou, Louis, que tivemos outra filha...
- Zelda. Sim, ela me falou sobre Zelda.
- Foi difícil - Goldman continuou com aquela voz tremida. -Difícil para todos nós. Difícil principalmente para Rachel (Rachel estava lá quando Zelda morreu),
mas também muito difícil para Dory e para mim. Dory quase teve um colapso nervoso...
E o que você acha que Rachel teve?, Louis quis gritar. Pensa que uma criança não pode ter também um colapso nervoso? Vinte anos depois ela ainda se apavora com
a simples idéia da morte. E agora acontece isto. Esta maldita coisa, esta coisa terrível! Não deixa de ser um milagre que não esteja na porra do hospital, sendo
alimentada por um tubo nas veias. Então não me venha dizer como a coisa foi difícil pra você e sua mulher, seu bastardo.
- Desde que Zelda morreu, nós.:. acho que nos agarramos muito a Rachel... Sempre querendo protegê-la... e compensá-la. Compensá-la dos problemas que teve com
as... as costas... durante anos depois da morte da irmã. Reparar nossa culpa por não estarmos lá naquela hora.
Sim, o velho estava realmente chorando. Por que, afinal, ele precisava chorar? Louis teria mais dificuldade em se apegar à pureza, à limpidez de sua raiva. Ficaria
mais difícil, mas não impossível. Sua mente evocou propositalmente a imagem de Goldman pondo a mão no bolso do paletó e tirando o superabundante talão de cheques...
Mas, subitamente, viu Zelda Goldman ao fundo, um fantasma irrequieto numa cama que cheirava mal, o rosto contorcido de rancor e agonia, as mãos contraídas como garras.
O fantasma Goldman. Oz, o Gande e TeíveL
- Por favor - disse ele. - Por favor, Goldman. Irwin. Não fale mais. Não vamos tornar as coisas piores do que já são na realidade, está bem?
- Sei agora que é um homem bom e que fiz um julgamento errado sobre você, Louis. Oh, escute, eu sei o que está pensando. Será que sou tão estúpido? Não. Estúpido
sim, mas não tão estúpido. Acha que só estou dizendo isso porque... Oh, está pensando, oh, sim... Ele está conseguindo o que quer e uma vez tentou me comprar, mas...
mas Louis, eu juro...
- Tudo bem, Goldman - disse Louis suavemente. - Eu não posso... eu simplesmente não posso mais ouvir você falando assim, está certo?
Agora sua voz também tremia.
- Tudo bem - Goldman respondeu e deu um suspiro. Louis achou que era um suspiro de alívio. - Mas me deixe dizer mais uma vez que lhe peço desculpas. Não tem
de aceitar meu pedido. Mas foi para isso que telefonei, Louis. Desculpe.
- Esqueça - disse Louis, fechando os olhos. Tinha uma trovoada na cabeça. - E obrigado, Irwin. Aceito suas desculpas.
- Obrigado a você - disse Goldman. - E obrigado.., por deixar elas irem conosco. Talvez seja isso o que as duas precisam. Vamos espera-las no aeroporto.
- Ótimo - disse Louís, e subitamente lhe ocorreu uma idéia. Era absurda, mas tinha o seu encanto. Deixava o dito pelo não dito... e deixaria Gage. descansar
tranqüilamente no túmulo do Boa Vista. Em vez de tentar reabrir urna porta já fechada, colocaria sobre ela uma tranca, depois um ferrolho duplo.., e jogaria a chave
fora. Faria exatamente o que disse à mulher: colocaria em ordem suas coisas e tomaria um avião para Shytown. Talvez passassem todo o verão em Chicago, ele, Rachel
e a filha adorável. Podiam ir ao zoológico, ao planetário e andar de barco no lago. Levaria Ellie ao topo da Sears Tower e lhe mostraria o meio-oeste se estendendo
pelo horizonte, um grande tabuleiro de jogo cheio de magníficas e variadas paisagens. Depois, quando chegasse o meio de agosto, voltariam para aquela casa que agora
parecia tão triste e sombria, e talvez pudessem começar tudo de novo. Talvez pudessem refazer com novo ânimo suas vidas. Agora o que havia no lar dos Creed era uma
trama feia, urdida com sangue empoçado.
Mas aquilo não seria o mesmo que assassinar Gage? Matá-lo uma segunda vez?
Uma voz dentro dele tentou argumentar que não era bem assim, mas Louis não quis lhe dar ouvidos. Fez incontinenti a voz se calar.
- Irwin, tenho de subir agora. Quero ver se Rachel não precisa de alguma coisa e depois vou fazer com que ela durma.
- Está bem. Até logo, Louís. E mais uma vez...
Se Irwin disser mais uma vez que se desculpa, eu dou a porra de um grito.
- Até logo, Irwin - disse ele e desligou o telefone.

Rachel estava mergulhada numa pilha de roupas quando Louis subiu. Blusas em cima das camas, vestidos nas costas das cadeiras, calças compridas em cabides pendurados
nas maçanetas das portas. Sob a janela, os sapatos se alinhavam como soldados. Parecia estar fazendo as malas devagar, mas com a devida competência. Louis percebeu
que a mulher ia levar pelo menos três malas (talvez quatro), mas não fazia sentido discutir por causa disso. Sem qualquer comentário, começou a ajudá-la.
- Louis - disse ela quando os dois fechavam a última mala (Louis teve de sentar em cima da mala para que Rachel pudesse fechar o zíper) -, tem certeza de que
não há nada que queira me dizer?
- Pelo amor de Deus, querida, o que há?
- Não sei o que há - ela respondeu num tom calmo. - É por isso que estou perguntando.
- O que você acha que vou fazer? Escapulir para um bordel? Me unir a um circo ambulante? O quê?
- Não sei. Mas há qualquer coisa errada. É como se estivesse tentando se livrar de nós.
- Rachel, isso é ridículo!
Falara com veemência, quase exasperação. Mesmo no meio de todo aquele embaraço, não pôde deixar de se sentir um tanto ofendido por ser desmascarado com tanta
facilidade.
Ela sorriu levemente.
- Você nunca foi um bom mentiroso, Lou.
Louis começou a protestar de novo, mas Rachel o interrompeu.
- Ellie sonhou que você tinha morrido. Foi essa noite. Acordou chorando e eu fui ver o que havia. Dormi duas ou três horas com ela e depois voltei para o nosso
quarto. Ela disse que, no sonho, você estava sentado na mesa da cozinha de olhos abertos, mas ela sabia que você estava morto. Disse que podia ouvir Steve Masterton
gritando.
Louis fitou-a com um ar de desânimo.
- Rachel, o irmão acabou de morrer. E normal que ela sonhe que outros membros da .......
- Sim, não fui incapaz de deduzir isso. Mas o modo como ela contou o sonho... os ingredientes.., parecia uma espécie de profecia.
Ela riu baixo.
- Acho que você tinha de estar lá pra ver.
- Sim, talvez - disse Louis.
Parecia uma espécie de profecia.
- Venha dormir comigo - disse Rachel. - O efeito do Valium acabou e eu não quero tomar outro comprimido. Mas estou com medo. Também venho tendo meus sonhos...
- Sonhos?
- Sonhos com Zelda - ela respondeu sem grande ênfase. - Nessas últimas noites, desde a morte de Gage, é só eu adormecer e lá está Zelda. Ela diz que está vindo
e que dessa vez vai me levar. Que ela e Gage vão me levar. Porque deixei que morressem.
- Rachel, isso é...
- Eu sei. Apenas um sonho. Nada de mais. Mas venha dormir comigo, e se puder, afaste de mim os pesadelos, Louis.
Estavam deitados no escuro, bem juntos um do outro num dos lados da cama.
- Rachel? Ainda está acordada?
- Sim.
- Quero lhe perguntar uma coisa.
- Diga.
Ele hesitou, não querendo causar mais sofrimento à mulher, mas precisando saber. Perguntou enfim:
- Você se lembra do susto que tivemos quando Gage tinha nove meses?
- Sim. É claro que me lembro. Por quê?

Quando Gage tinha nove meses, Louis ficou extremamente preocupado com o tamanho de seu crânio. O problema surgiu depois de uma consulta a tabelas cranianas que
mostravam o desenvolvimento normal, mês a mês, da cabeça das crianças. Aos quatro meses, o tamanho do crânio de Gage começou a atingir o limite mais alto da curva,
e depois foi ficando cada vez maior. O menino não tinha dificuldade em manter a cabeça em pé (isso era evidente), mas Louis resolveu levá-lo a George Tardiff, talvez
o melhor neurologista do meio-oeste. Rachel queria saber o que estava errado e Louis dissera a verdade: temia que Gage tivesse hidrocefalia. O rosto de Rachel ficara
muito pálido, mas ela continuou calma:
- Gage me parece normal.
Louis balançou a cabeça.
- A mim também. Mas não quero ignorar esta pequena variação, meu bem.
- Nem deve - disse ela. - Nós não podemos ignorar.
Tardiff mediu o crânio de Gage e franziu a testa. Encostou dois dedos no rosto de Gage e pressionou. Gage se encolheu. Tardiff sorriu. O coração de Louis se
encheu de ternura. Tardiff deu uma bola para Gage segurar. Gage segurou-a por algum tempo e depois a jogou no chão. Tardiff pegou a bola e ficou batendo com ela
no chão, atento aos olhos de Gage. Os olhos de Gage seguiam a trajetória da bola.
- Eu diria que há cinqüenta por cento de chances de que ele seja hidrocefálico - Tardiff explicou mais tarde a Louis em sua saia. - Não, não... realmente as
chances podem ser até um pouco maiores que isso. Mas se houver hidrocefalia, é suave. Ele parece muito esperto. A nova técnica operatória pode resolver facilmente
o problema... se houver problema.
- Isso quer dizer cirurgia cerebral - Louis retorquiu.
- Uma pequena cirurgia cerebral
Louis estudara o processo pouco depois de ter começado a se preocupar com o tamanho da cabeça de Gage, e a operação, destinada a drenar o excesso de fluido,
não parecia assim tão pequena, ao menos de seu ponto de vista. Mas ficou de boca fechada, achando que devia dar graças a Deus pelo fato da operação existir.
- Naturalmente - Tardiff continuou -, é bem possível que seu filho simplesmente tenha uma cabeça um tanto grande para os nove meses. Acho que um exame mais detalhado
do crânio é o melhor ponto de partida. Está de acordo?
Louis concordou.
Gage passou uma noite no Hospital Our Sisters of Charity e foi submetido à anestesia geral. A cabecinha adormecida foi encaixada num aparelho que lembrava um
gigantesco secador de roupas. Rachel e Louis aguardavam no andar de baixo; Ellie estava na casa da avó, vendo o tempo todo a Vila Sésamo no novo videocassete do
avô. Para Louis, aquelas horas tinham sido longas, sombrias. Durante esse tempo, fizera suposições com diferentes graus de morbidez e comparara os resultados. Morte
sob anestesia geral, morte durante uma cirurgia craniana, ligeiro retardamento mental como resultado da hidrocefalia, retardamento cataclísmjco em conseqüência da
mesma coisa, epilepsia, cegueira... Oh, havia infinitas possibilidades. Para mapas realmente completos de calamidades, Louis se lembrou de ter pensado, consulte
o médico que tem dentro de casa.
Tardiff entrou na sala de espera por volta das cinco horas. Trazia três charutos. Colocou um na boca de Louis, outro na de Rachel (ela estava demasiado embasbacada
para protestar) e o terceiro na dele.
- Tudo bem com o menino. Nada de hidrocefalia.
- Acenda esta coisa - Rachel dissera, rindo e chorando ao mesmo tempo. - Vou fumar até vomitar.
Sorridente, Tardiff acendeu os charutos.
Deus o estava salvando para a Rodovia 15, Dr. Tardiff Louis pensou agora.
- Rachel, se ele fosse uma criança com hidrocefalia e se a operação não resolvesse.., mesmo assim teria sido capaz de amá-lo?
- Que pergunta esquisita, Louis!
- Teria sido capaz?
- Sim, é claro. Teria amado Gage não importa o que houvesse com ele.
- Mesmo que fosse retardado?
- Sim.
- Não ia querer interná-lo numa instituição?
- Não, acho que não ia querer - ela respondeu pausadamente. - Sei que com o dinheiro que você está ganhando agora, poderíamos nos dar a esse luxo, isto é, poderíamos
interná-lo numa instituição realmente boa... mas acho que eu ia querer tê-lo junto de nós, se pudéssemos cuidar dele... Por que está me perguntando isso agora, Louis?
-Acho que estava pensando na Zelda - disse ele, atônito com sua própria loquacidade. - Tive vontade de saber se você seria capaz de suportar aquilo de novo.
- Não ia ser a mesma coisa - disse ela, num tom quase animado. - Gage era... bem, Gage era Gage. Era nosso filho. Isso faria muita diferença. Ia ser difícil,
eu acho, mas... será que você ia querer colocá-lo numa instituição? Um lugar como Pineland?
- Não.
- Então vamos dormir.
- É uma boa idéia.
- Sinto que posso dormir agora - disse ela. - Quero ver o dia de hoje por trás das costas.
- Amém - disse Louis.
Um longo tempo depois Rachel falou de novo, num tom sonolento:
- Você tem razão, Louis... são apenas sonhos, névoas...
- Sem dúvida - ele respondeu, beijando-a na ponta da orelha. -Agora durma.
Parecia uma espécie de profecia.
Durante um bom tempo, Louis não conseguiu pegar no sono, e pouco antes de conseguir, viu de relance que a curva minguante da lua o contemplava da janela.


O dia seguinte foi nublado, mas muito quente. Louis suava muito quando, depois de ter despachado as malas de Ellie e Rachel, tirou os talões de bagagem
do computador. Achou que manter-se ocupado só estava lhe fazendo bem, mas não via muita coisa em comum com a última vez em que pusera a família num avião para Chicago,
fora no Dia de Ação de Graças.
Ellíe parecia distante e um tanto esquisita. Várias vezes naquela manhã, Louis levantara os olhos e vira no rosto da filha um ar de estranha especulação.
A culpa do conspirador está atuante demais, rapaz, ele disse para si mesmo.
Ellie não fizera qualquer comentário quando foi informado de que iam todos para Chicago, ela e a mãe na frente. Talvez passassem o verão inteiro lá. Ellie continuou
em silêncio durante todo o desjejum de mingau de aveia. Depois subiu, pôs o vestido e os sapatos que Rachel tinha separado. Foi para o aeroporto com o retrato onde
puxava Gage no trenó e sentou-se calmamente numa das poltronas de plástico no saguão do andar térreo. Louis entrou na fila para pegar as passagens e pelo alto-falante
se ampliavam as informações de chegadas e chamadas para embarque.
O Sr. e a Sra. Goldman apareceram quarenta minutos antes da hora do vôo. Irwin Goldman estava alinhado (e, ao que parece, não suava) num sobretudo de
casimira (apesar da temperatura elevada). Foi até a agência da Avis para entregar as chaves do carro que tinha alugado. Dory Goldman sentou-se ao lado de Rachel
e Ellie.
Louis e Goldman chegaram ao mesmo tempo junto das três. Louis teve um certo receio de que pudesse haver uma reprise da cena de desculpas ao telefone, mas foi
poupado disso. Goldman se contentou com um aperto de mão um tanto frouxo e um murmúrio de alô. O rápido e embaraçado olhar que concedeu ao genro confirmou a certeza
com que Louis despertara naquela manhã: o homem estava bêbado quando falou com ele.
Subiram para o saguão superior pela escada rolante e sentaram-se no salão de embarque. Não conversaram muito. Dory Goldman manuseava nervosa seu exemplar de
um romance de Erica Jeing, mas não chegou a abri-lo. Continuava a lançar olhares, um tanto agitada, ao retrato que Ellie tinha na mão.
Louis perguntou se a filha não queria ir com ele até a livraria, comprar alguma coisa para ler no avião.
Ellie o estava fitando de novo daquele jeito pensativo. Louis não estava gostando. Aquilo o deixava nervoso.
- Vai se portar bem na casa da vovó e do vovô? - perguntou quando atravessavam o saguão.
- Vou - disse ela. - Papai, o inspetor não vai me pegar? Andy Pasioca disse que tem um inspetor na escola encarregado de pegar as crianças que matam aula.
- Não se preocupe com o inspetor - disse Louis. - Vou dar um jeito na escola. Você poderá começar de novo no outono. Não vai haver problemas.
- Espero que tudo corra bem no outono - disse Ellie. - Nunca estive num primeiro grau. Só no jardim de infância. Não sei o que as crianças fazem no primeiro
grau. Talvez só deveres de casa.
- Você vai se dar bem.
- Papai, você ainda anda com raiva do vovô?
Louis abriu a boca.
- Por que diabo você acha que eu ando... que eu estou aborrecido com seu avô, Ellie?
A menina sacudiu os ombros como se a pergunta não tivesse qualquer importância.
- Quando você fala dele, parece estar sempre de ovo virado.
- Ellie, que linguagem vulgar!
- Desculpe.
A menina atirou-lhe aquele olhar estranho, misterioso e depois se aproximou das prateleiras com livros e revistas infantis: Mercer Meyer, Maurice Sendak, Richard
Scarry, Beatrix Potter e aquele velho e famoso Dr. Seuss. Como as crianças descobrem essas coisas? Onde vão buscar essas idéias? O QUE Ellie sabe? Como tudo isso
a está afetando? Ellie, o que você está escondendo atrás desse rostinho pálido? De ovo virado - Cristo!
- Posso ficar com esses, papai?
Pegara um Dr. Seuss e um livro que Louis não via desde a infância, a história do negrinho Sambo e de como um belo dia os tigres comeram as roupas dele.
Nem pensei que isso existia mais, Louis ruminou, atônito.
- Sim - disse ele e os dois foram para a pequena fila da caixa. - Eu e seu avô gostamos muito um do outro.
Louis se lembrou da história que sua mãe contava... Quando uma mulher queria realmente um bebê, "encontrava" um. Lembrou das tolas promessas que fizera de jamais
mentir para os filhos. Aliás, nos últimos dias, estava se transformando num mentiroso bastante promissor. Mas não queria pensar nisso agora...
- Sei - disse Ellie e caiu em silêncio.
O silêncio enervou-o e Louis tentou quebrá-lo:
- Então você acha que vai se divertir em Chicago?
- Não.
- Não? Ora, mas por que não?
Ela ergueu os olhos com aquela expressão misteriosa.
- Estou com medo.
Louis pôs a mão na cabeça da filha.
- Com medo? Querida, com medo de quê? Não está com medo do avião, está?
- Não. Não sei do que estou com medo. Papai, sonhei que fomos ao funeral de Gage e o homem do funeral abriu o caixão e ele estava vazio. Depois sonhei que estava
em casa e olhei no berço de Gage e ele também estava vazio. Mas havia terra dentro dele.
Lázaro, vem para fora.
Pela primeira vez, em muitos meses, ele se lembrou do sonho que tivera após a morte de Pascow... O sonho... E depois acordar e ver que seus pés estavam sujos
e os pés da cama cobertos de barro e lascas de pinho.
Os cabelos se arrepiaram em sua nuca.
- São apenas sonhos - ele disse a Ellie e, pelo menos a seus ouvidos, a voz soou perfeitamente natural. - Vão passar.
- Quero que você vá conosco - disse ela -, ou que nós três fiquemos juntos aqui. Não podemos ficar, papai? Por favor! Não quero ir para a casa da vovó e do vovô...
Quero voltar para a escola, está bem?
- Vai ser por pouco tempo, Ellie - disse ele. - Tenho - engoliu em seco - algumas coisas a fazer aqui e logo estarei com vocês. Então poderemos decidir o que
fazer.
Esperou uma discussão, até mesmo um acesso de raiva estilo Ellie. Teria gostado que isso acontecesse. Era um dado conhecido, não um ingrediente misterioso como
aquele olhar. Mas houve apenas um silêncio inquietante, pálido, que pareceu muito intenso. Podia ter perguntado alguma outra coisa, mas achou que não conseguiria,
talvez a filha já tivesse dito mais do que ele queria ouvir.
Pouco depois de voltar com a menina ao salão de embarque, houve a chamada para o vôo. Com as fichas de embarque na mão, os quatro entraram na fila. Louis abraçou
a esposa e beijou-a com força. Rachel se agarrou a ele por um instante, mas logo se afastou para que Louis pudesse pegar Ellie no colo e dar-lhe uma beijoca no rosto.
Ellie fitou solenemente o pai com aquele olhar de esfinge.
- Não quero ir - ela repetiu, mas tão baixo que, entre o murmúrio e o arrastar de pés dos passageiros que iam embarcar, apenas Louis pôde ouvir. - Também não
quero que mamãe vá.
- Não diga isso, Ellie. Você vai gostar.
- Eu vou gostar - Ellie respondeu -, mas você, como é que fica? Como, papai?
A fila começou a se deslocar. As pessoas começaram a descer a rampa de embarque para o 727. Rachel puxou a mão de Ellie e, por um instante, ela resistiu, fazendo
a fila parar, os olhos fixos no pai... Louis lembrou-se da impaciência da outra vez, os gritos de vamos, vamos, vamos!
- Vá logo, Ellie. Por favor.
Rachel olhou para a filha e viu pela primeira vez aquele olhar sombrio, vago.
- Ellie? - ela exclamou nervosa e, na opinião de Louis, um tanto assustada. - Você está prendendo a fila, meu bem.
Os lábios de Ellie tremeram e ficaram brancos. E então deixou a mãe puxá-la para a rampa de embarque...
Ainda voltou os olhos para o pai e Louis viu um verdadeiro terror em seu rosto. Ele levantou a mão dando adeus com uma falsa alegria.
Ellie não respondeu ao aceno.

Quando Louis deixou o terminal do aeroporto, sua mente foi envolvida por um manto frio. Ele tomou consciência de que pretendia levar a coisa adiante. Sua mente,
suficientemente lúcida para fazê-lo vencer a faculdade de medicina apoiado numa bolsa de estudos e no que a mulher conseguia ganhar trabalhando como balconista das
cinco as onze da manhã, seis dias por semana, tinha se deixado absorver pelo problema e dissecava-o em seus diversos componentes. Era como se fizesse uma prova na
universidade, a maior prova que já enfrentara. E Louis tencionava passar de ano com dez com louvor.
Seguiu para Brewer, a pequena cidade em frente a Bangor, do outro lado do Rio Penobscot. Encontrou uma vaga para estacionar defronte à Watson's Hardware, uma
loja de ferragens.
- Quer alguma coisa? - perguntou um vendedor.
- Sim - disse Louis. - Queria uma lanterna grande, daquelas quadradas, e um suporte para cobri-la.
O balconista era um homenzinho magro, com a testa alta e olhos espertos. Deu um sorriso, mas o sorriso não foi particularmente agradável.
- Vai caçar, meu amigo?
- Como?
- Vai pegar alguns alces hoje à noite?
- Não, não vou - disse Louis sem sorrir. - Não tenho licença.
O homenzinho piscou e acabou rindo.
- Em outras palavras - disse ele -, não se meta onde não é chamado, hum? Bem, vejamos... Não há nenhum suporte para cobrir essas lanternas grandes, mas você
pode levar um pedaço de feltro, fazer um buraco no meio e ajustar no cabo da lanterna. Vai parecer que está com uma lanterninha de bolso.
- Boa idéia - disse Louis. - Vou levar.
- Tudo bem. Quer mais alguma coisa?
- Quero - disse Louís. - Quero uma picareta, uma pá e uma pazinha. Uma pá de cabo curto e uma pazinha de cabo longo. Uma corda forte com dois metros e meio de
comprimento. Um par de luvas de borracha. Um encerado com uns dois e meio por dois e meio.
- Vai ter tudo isso - disse o vendedor.
- Tenho de abrir uma fossa - disse Louis. - Parece que minha fossa está violando alguns regulamentos e tenho uns vizinhos muito barulhentos. Para não me aborrecer,
o melhor é fazer o trabalho de noite. Não sei se vai adiantar cobrir a lanterna, mas .pelo menos vou tentar. Espero que dê certo.
- Oh - exclamou o vendedor -, é melhor colocar um pregador de roupas no nariz quando começar o trabalho.
Louis riu para não decepcioná-lo. As compras chegaram a 58 dólares e 60 centavos. Pagou em dinheiro.
À medida que o preço da gasolina subia, passara a usar cada vez menos a grande camionete. Além disso, já há algum tempo ela estava com um chime perigoso, mas
Louis continuava adiando o conserto. Em parte porque não queria soltar os duzentos dólares que sem dúvida a coisa ia lhe custar, mas principalmente porque era uma
amolação. Agora, quando precisava realmente do velho dinossauro, não se arriscou a pegá-lo.
As compras não caberiam na mala do Civic e Louis estava com medo de voltar a Ludlow com a picareta, a pá e a pazinha de cabo longo dentro do carro. Os olhos
de Jud Crandall eram afiados e seus miolos estavam em perfeito estado. Descobriria logo para que serviria aquilo.
Então percebeu que não havia por que voltar a Ludlow. Tornou a atravessar a Ponte Chamberlain na direção de Bangor e pediu um quarto no Howard Johnson's Motor
Lodge, um motel na Estrada Odlin - de novo perto do aeroporto, de novo perto do Cemitério da Boa Vista, onde o filho estava enterrado. Registrou-se sob o nome Dee
Dee Ramone e pagou adiantado a estada.
Tentou cochilar, pensando que em pouco tempo tudo estaria resolvido. Mas naquela noite teria ainda, para falar como um romance vitoriano, trabalho frenético
pela frente, suficientemente frenético para ser lembrado por toda a vida.
Tentou cochilar, mas o cérebro simplesmente não se calou.
Ficou ali deitado, no anonimato da cama do motel, sob uma gravura indefinida de barcos pitorescos num pitoresco e velho cais de um porto pitoresco da Nova Inglaterra.
Tinha se deitado vestido, as mãos entrelaçadas na nuca. Só tirara os sapatos e pusera as chaves e a carteira com dinheiro na mesa-de-cabeceira. Aquela sensação de
frio não se dissipava; sentia-se totalmente desarraigado de sua gente, dos lugares que lhe eram familiares, até mesmo do trabalho. Poderia estar em qualquer motel
do mundo: em San Diego, Duluth, Bangcoc ou Charlotte Amalie. Não estava em lugar algum e, de vez em quando, um pensamento de extrema estranheza o envolvia: antes
de rever qualquer um daqueles lugares e rostos familiares, veria de novo seu filho.
O plano continuava se desenrolando em sua mente. Examinava-o de todos os ângulos, remexia nele, virava-o pelo avesso, procurava brechas, pontos fracos.
Era como se caminhasse por uma ponte estreita sobre um abismo de insanidade. A loucura o cercava por todos os lados, ondulava sem alvoroço como as asas de uma coruja
de grandes olhos dourados. Ia mergulhando na loucura.
A voz de Tom Rush ecoou sonhadoramente em sua cabeça: Oh, morte, suas mãos são viscosas... Sinto-as em meus joelhos... Você veio e levou minha mãe ... . Não
quer voltar atrás de mim?
Loucura. Loucura em toda a volta, próxima, no seu encalço.
Agarrou-se à ponte estreita da racionalidade; estudou o plano.
Naquela noite, por volta das onze horas, escavaria o túmulo do filho, tiraria o corpo do caixão, embrulharia Gage num pedaço de lona e o colocaria na mala da
Civic. Depois, tornava a fechar o caixão e a encher o túmulo de terra. Voltava para Ludlow, tirava o corpo de Gage da mala... e dava um passeio com ele. Sim, ia
dar um passeio.
Se Gage voltasse, teria de se defrontar com duas possibilidades. Na primeira, via Gage retomando como Gage, talvez atordoado, de raciocínio lento ou mesmo retardado
(só no mais profundo de sua mente esperava que Gage voltasse sem alteração, exatamente como fora - mas, sem dúvida, mesmo isso era possível, não era?), mas ainda
seu filho, o filho de Rachel, o irmão de Ellie.
Na segunda alternativa, via uma espécie de monstro emergindo dos bosques atrás da casa. Passara a aceitar tanta coisa que já não rejeitava a idéia de monstros,
ou mesmo demônios, seres perversos e incorpóreos do além, capazes de se apoderar de um corpo reanimado do qual a primitiva alma tivesse escapado.
De um modo ou de outro, estaria sozinho com seu filho. E faria...
E vou fazer um diagnóstico.
Sim. Era isso o que ia fazer.
Vou fazer um diagnóstico, não apenas do seu corpo mas também do espírito. Vou dar um desconto pelo trauma do próprio acidente, que ele poderá ou não lembrar.
Tendo em vista o exemplo de Church, posso esperar retardamento, talvez suave, talvez profundo. À luz do que vir num período de vinte e quatro a setenta e duas horas,
vou avaliar a possibilidade de reintegrar Gage à família. E se o dano for grande demais - se voltar, por exemplo, como Timmy Baterman deve ter voltado, uma espécie
de demônio -, vou matá-lo.
Como médico, sentia que poderia matar Gage (se Gage fosse apenas um recipiente contendo a alma de algum outro ser) com bastante facilidade. Não se deixaria levar
por súplicas ou artimanhas. Seria capaz de matá-lo como mataria um rato transmissor de peste bubônica. Não precisava haver melodrama na coisa. Uma pílula dissolvida,
talvez duas ou três. Se necessário, uma injeção. Tinha morfina em sua maleta. Na noite seguinte, voltaria ao Boa Vista com o corpo sem vida e tomaria a enterrá-lo,
simplesmente confiando que sua boa sorte funcionaria uma segunda vez (você nem sabe se ela vai funcionar da primeira, ele se alertou). Já tinha pensado na alternativa
mais fácil e segura do "simitério" de bichos, mas não queria o filho lá em cima. Por muitas razões. Uma criança enterrando seu cãozinho cinco, dez ou vinte anos
mais tarde podia deparar com os restos mortais de Gage - essa era uma das razões. Mas a razão mais forte era mais simples. Talvez o "simitério" de bichos ficasse...
perto demais.
Depois de enterrá-lo de novo, voava para Chicago e se unia à família. Ellie e Rachel nunca ficariam sabendo daquela experiência malograda.
Mas voltou à primeira alternativa, a volta de Gage sem alterações excessivas, uma alternativa a que talvez quisesse se agarrar a qualquer custo, movido por todo
o amor que tinha pelo filho...
Ele e Gage deixariam a casa quando o período de exame estivesse concluído; sairiam à noite. Levaria certos papéis com ele, pois nunca mais queria voltar a Ludlow.
Registrava-se num motel com Gage - talvez aquele mesmo onde estava.
Na manhã seguinte, encerrava todas as suas contas correntes e convertia tudo em cheques de viagem American Express (não vá embora com o filho que acabou de ressuscitar
sem o American Express). Ficaria apenas com alguns trocados no bolso.
Voava com Gage para algum lugar, muito provavelmente a Flórida. De lá ligava para Rachel, dizia onde estava, mandava que pegasse Ellie e tomasse o primeiro avião
sem contar à mãe e ao pai para onde ia. Louis achava que era capaz de convencê-la a fazer isto. Não faça perguntas, Rachel. Venha logo. Venha já. Neste minuto.
Diria a Rachel onde estava hospedado (com Gage). Algum motel Rachel e Ellie chegariam de táxi. Levaria Gage até a porta quando as duas tocassem a campanhia.
Talvez Gage estivesse usando um calção de banho.
E então...
Bem, não se atrevia a ir mais adiante. Voltava ao inicio do plano e começava tudo de novo. Achava que se as coisas funcionassem bem teriam de começar vidas novas,
inclusive com novas identidades para que Irwin Goldman não pudesse usar o superabundante talão de cheques para procurá-los. Tais coisas podiam ser arranjadas.
Lembrou-se vagamente do dia em que chegou com a família à casa de Ludlow. Estava tenso, cansado e bastante alarmado, cultivando fantasias de escapar para Orlando
e se empregar como médico na Disney World. Talvez, afinal, aquilo não fosse tão absurdo.
Viu-se vestido de branco, ressuscitando uma mulher grávida que se metera estupidamente na montanha russa e desmaiara. Afastem-se, me deixem passar, deixem-na
respirar, ele se ouviu dizendo; e a mulher abriu os olhos, sorrindo agradecida.
Quando aquela fantasia, não muito desagradável, fugiu de sua mente, Louis adormeceu. Adormeceu quando Ellie acordou no avião, em algum lugar sobre as Quedas
do Niágara, gritando por causa de um pesadelo, as mãos muito apertadas, os olhos espantados e duros; dormia quando a aeromoça precipitou-se pelo corredor para ver
o que havia; dormia quando Rachel, muito nervosa, tentou acalmá-la; dormia enquanto Ellie continuava gritando sem parar: É Gage! Mamãe! É Gage! É Gage! Gage está
vivo! Gage tirou a faca da maleta do papai! Não deixe ele me pegar! Não deixe ele me pegar, papai! -
Dormia quando Ellie finalmente se aquietou e ficou encolhida, tremendo no colo da mãe, os olhos arregalados e sem lágrimas; dormia quando Dory Goldman pensou
que coisa terrível aquilo tudo fora para Elleen e como a neta lembrava Rachel depois da morte de Zelda.
Louis dormiu e acordou às cinco e quinze, com a luz da tarde começando a declinar, a mergulhar na noite próxima.
Um trabalho frenético, ele pensou tolamente, levantando-se da cama.

Quando o vôo 419 da United Airlines pousou no Aeroporto de O'Hare, em Chicago, e descarregou seus passageiros às três e dez, hora-padrão local, Ellie Creed caíra
num estado de quase histeria e Rachel parecia muito assustada.
Se alguém encostasse sem querer no ombro de Ellie, a menina dava um salto e encarava a pessoa com olhos enormes, disformes; todo o corpinho tremeria sem parar,
sem descanso. Era como se estivesse cheia de eletricidade. O pesadelo no avião já fora suficientemente terrível, mas aquilo... Rachel simplesmente não sabia o que
fazer.
Caminhando para o terminal, Ellie deu um passo em falso e caiu. Não se levantou; simplesmente ficou caída, no chão, as pessoas passando em volta dela (às vezes
lhe atirando uma olhadela simpática, mas distraída, própria de passageiros em trânsito que não têm tempo a perder). Rachel a suspendeu.
- Ellie, o que está havendo com você?
Ellie não respondeu.
Atravessaram o saguão para a esteira de bagagens e Rachel viu a mãe e o pai. Acenou para os dois e eles se aproximaram.
- Mandaram que saíssemos do portão de desembarque e esperássemos aqui - disse Dory. - Achamos... Rachei? Eileen está bem?
- Não muito bem.
- Onde fica o banheiro, mamãe? Vou vomitar.
- Oh, Deus - Rachel exclamou num tom de desespero e pegou a filha pela mão. O banheiro de senhoras ficava do outro lado do saguão; ela puxou rapidamente a menina.
- Rachel, não quer que eu vá? - Dory gritou.
- Não, pegue a bagagem; você conhece as malas. Tudo bem conosco.
Felizmente, o banheiro de senhoras estava deserto. Rachel levou a filha para um dos gabinetes, remexendo na bolsa em busca de uma moeda, mas logo percebeu -
felizmente - que havia três com as fechaduras quebradas. Sobre uma dessas fechaduras, alguém escrevera com lápis de cera:
Sir John Crapper era um porco chauvinista!
Rachel abriu a porta depressa; agora Ellie gemia e segurava o estômago. Duas vezes pareceu que ia vomitar, mas o vômito não veio; os arrancos eram arfadas secas
de uma total exaustão nervosa.
Quando Ellie disse à mãe que se sentia um pouco melhor, Rachel levou-a para uma das pias e lavou-lhe o rosto. Ellie estava terrivelmente pálida e tinha grandes
olheiras.
- Ellie, o que você tem? Não quer me dizer?
- Não sei o que eu tenho - disse ela. - Mas desde que o papai me falou da viagem sei que tem alguma coisa errada. Porque havia alguma coisa errada com ele.
Louis, o que você está escondendo? Estava escondendo alguma coisa. Eu notei; mesmo Ellie foi capaz de notar.
Rachel percebeu que também passara todo o dia nervosa, como se estivesse esperando alguma coisa acontecer. Era como se sentia nos dois ou três dias antes das
regras, tensa e nervosa, pronta a rir, a chorar, a ter uma dor de cabeça que latejaria como um apito de trem dentro dela e só ia passar três horas depois.
- O quê? - ela perguntou ao reflexo de Ellie no espelho. - Querida, o que poderia haver de errado com o papai?
- Eu não sei - disse Ellie. - Foi o sonho. Alguma coisa sobre Gage. Ou talvez sobre o Church. Eu não lembro. Não sei.
- Ellie, que sonho foi esse?
- Eu sonhei que estava no "simitério" de bichos - disse Ellie. -Pascow me levou até o "simitério" de bichos e disse que papai ia subir até lá e ia acontecer
uma coisa terrível.
- Pascow?
Um dardo de terror, afiado, mas ainda de forma vaga, atingiu Rachel. De quem era aquele nome; por que lhe parecia familiar? Achou que já tinha ouvido aquele
nome (pelo menos um nome parecido), mas de modo algum conseguia se lembrar onde.
- Sonhou que alguém chamado Pascow levou você até o "símitério" de bichos?
- Sim, foi assim que ele disse que se chamava. E...
Os olhos da menina se arregalaram de repente.
- Lembra de mais alguma coisa?
- Ele disse que foi mandado para avisar, mas não podia interferir. Disse que... Eu não sei... Que estava perto do papai porque os dois estavam juntos quando
a alma dele ....... Eu não consigo lembrar! - ela gemeu.
- Querida, acho que você sonhou com o "simitério" de bichos porque ainda está pensando no Gage. Tenho certeza de que não há nenhum problema com o papai. Está
se sentindo melhor?
- Não - Ellie murmurou. - Mamãe, estou com medo. Você não está com medo?
- Hum-hum - Rachel balançou negativamente a cabeça, um movimento vivo. Depois sorriu.
Mas estava, estava com medo; e aquele nome, Pascow, assombrava-a com sua familiaridade. Sentia que já o tinha ouvido, meses ou anos atrás, ligado a alguma situação
terrível. Esta sensação enervante não a abandonava.
Pressentia alguma coisa - alguma coisa prenhe de significação, inchando, esperando a hora de explodir. Alguma coisa terrível que precisava ser evitada. Mas o
quê? O quê?
- Tenho certeza de que está tudo bem - disse. - Não quer voltar para junto do vovô e da vovó?
- Acho que sim - Ellie respondeu apaticamente.
Uma mulher porto-riquenha entrou com o filho pequeno no banheiro de senhoras, ralhando com ele. Havia uma grande mancha na frente das bermudas do menino e Rachel
se lembrou de Gage com uma intensidade que a paralisou. A emoção foi como novocaína, suavizando seu nervosismo.
- Vamos. Podemos ligar para o papai da casa do vovô.
- Ele estava usando um calção - Ellie falou de repente, voltando-se para o menino.
- Ele quem, meu bem?
- Pascow. No meu sonho ele estava usando um calção vermelho.
Aquilo voltou a deixar o nome momentaneamente em foco, e Rachel sentiu mais uma vez um medo de enfraquecer os joelhos... Depois o nome escapuliu.
Havia muita gente diante da esteira de bagagem; Rachel só conseguiu ver a ponta do boné do pai, o único boné que tinha um penacho. Dory Goldman guardava para
elas duas cadeiras junto à parede e acenava. Rachel levou Ellie pela mão.
- Agora está se sentindo melhor, querida? - Dory perguntou.
- Um pouco melhor - disse Ellie. - Mamãe...
A menina se virou para a mãe e cortou o que ia dizer. Rachel se empinara na cadeira com uma rigidez absoluta, a mão tapando a boca, o rosto pálido. Tinha descoberto.
Tinha descoberto de repente e levado um tremendo golpe. Sem dúvida devia ter lembrado logo, mas na época tentara varrer a coisa da mente. E claro!
- Mamãe?
Rachel se virou devagar para a filha e Ellie pôde ouvir os tendões de seu pescoço estalarem. Afastou a mão da boca.
- O homem do seu sonho disse como era o primeiro nome dele, Eileen?
- Mamãe, você está toda...
O homem do seu sonho disse como era o primeiro nome dele, Eileen?
Dory contemplava a filha e a neta como se ambas tivessem enlouquecido.
- Disse, mas eu não consigo lembrar... Mamãe, você está me machucaaando...
Rachel baixou os olhos e viu que sua mão apertava o pulso da filha como uma algema.
- Era Victor?
Ellie respirou ruidosamente.
- Era, Victor! Disse que se chamava Victor! Mamãe, você também sonhou com ele?
- Não era Paxcow - disse Rachel. - Era Pascow.
- Foi isso o que eu disse. Paxcow.
- Rachel, o que há? - Dory perguntou. Segurou a mão de Rachel e estremeceu por senti-la tão fria. - E o que está havendo com Eileen?
- O problema não é com Eileen - disse Rachel. - Acho que é com Louis. Alguma coisa está acontecendo com Louis. Ou alguma coisa vai acontecer. Fique com Ellie,
mamãe. Quero ligar para casa.
Levantou-se e foi para os telefones públicos, procurando na bolsa uma moeda de vinte e cinco centavos. Fez uma chamada a cobrar, mas não houve ninguém do outro
lado da linha para receber a ligação. O telefone simplesmente tocou.
- Não quer tentar mais tarde? - a telefonista perguntou.
- Sim - Rachel respondeu e desligou:
Ficou parada, olhando para o telefone.
Ele disse que foi mandado para avisar, mas não podia interferir. Disse que.... que estava perto do papai porque os dois estavam juntos quando a alma dele de-de...
Eu não consigo lembrar!
- Desencarnou - Rachel murmurou. Os dedos se cravaram na fazenda da boba. - Oh, meu Deus, a palavra era essa?
Tentou agarrar os pensamentos, colocá-los em ordem. Alguma coisa estava acontecendo, alguma coisa além da perturbação natural pela morte de Gage. O que significava
aquela estranha viagem através do país, uma viagem que tanto se assemelhava a uma fuga? O que Ellie sabia do rapaz que morreu no primeiro dia de trabalho do pai?
Nada, sua mente respondeu implacáveL Você não deixou que ela soubesse de nada, sempre tentando mantê-la afastada de tudo que tivesse alguma relação com a morte;
afastada até da possível morte do gato - lembra-se da tola, estúpida discussão que teve com Louis naquele dia na copa? Você não deixou que ela soubesse de nada...
Porque ficou assustada como está assustada agora. O nome dele era Pascow, Victor Pascow, e até que ponto a situação é séria, Rachel? Até que ponto a situação é grave?
O que, pelo amor de Deus, está acontecendo?
As mãos tremiam de tal forma que ela custou a colocar a moeda no aparelho. Desta vez ligou para a enfermaria da universidade e mandou chamar Charlton, que, um
tanto confusa, aceitou a ligação. Não, não tinha visto Louis e ficaria surpresa se ele tivesse ido trabalhar. Depois deu novamente os pêsames a Rachel. Rachel agradeceu
e pediu que se o marido aparecesse na enfermaria, Charlton o mandasse ligar para ela na casa dos pais. Sim, Louis tinha o número, ela explicou, não querendo dizer
à enfermeira (que aliás, provavelmente já sabia; tinha a impressão de que Charlton não perdia muita coisa) que a casa dos pais ficava a meio continente de distância.
Desligou o telefone, sentindo-se trêmula e um pouco febril.
Ellie ouviu o nome de Pascow em algum lugar, foi só isso. Meu Deus, ninguém cria uma criança numa redoma de vidro como... um hamster ou algo assim. Ellie ouviu
a notícia no rádio. Ou algum menino lhe contou na escola e a coisa ficou gravada em sua mente. Mesmo aquela palavra que ela não conseguiu dizer - suponhamos que
fosse uma palavra difícil, como "desencarnou ' ou "desmateríalizou-se", e daí? Isto não prova nada, exceto que o subconsciente é exatamente o pegajoso papel pega-moscas
que o suplemento do jornal de domingo diz que é.

Lembrou-se de seu professor de psicologia. Ele assegurava que, em condições ideais, a memória conseguiria lembrar o nome de cada pessoa que conhecemos, cada
refeição que comemos e como estava o tempo em cada dia de nossas vidas. Ilustrava essa tese incrível dizendo que a mente humana era um computador com um número assombroso
de chips dc memória - não 16 K, 32 K ou 64 K, mas talvez um bilhão K: literalmente, mil milhões. E quanta coisa cada um desses chips orgânicos seria capaz de estocar?
Ninguém sabia. Mas havia tantos chips, dizia ele, que nenhum deles precisava apagar as informações que armazenara para ser reutilizado. Na realidade, a mente consciente
tinha de deixar alguns desses chips inativos como proteção contra um colapso informacional. "Talvez você não conseguisse lembrar onde colocou as meias", dizia o
professor, "se todos os verbetes da Encidopédia Britânica estivessem estocados nas duas ou três células de memória adjacentes a que sabe das meias."
Aquilo produzira um riso respeitoso na turma.
Mas não estou numa aula de psicologia sob boas lâmpadas fluorescentes, com todo aquele jargão reconfortante escrito no quadro-negro e um elegante professor assistente
embromando, da forma mais jovial possível, os últimos quinze minutos do seu horária. Existe algo de terrivelmente errado aqui e você sabe disso.... Você sente isso.
Não sei o que tem a ver com Pascow, Gage ou Church, mas tem alguma coisa a ver com Louis. O quê? Será...
Subítamente, foi atingida por um pensamento frio como um punhado de gelatina. Pegou de novo o telefone e tirou do escaninho a moeda que o aparelho devolvera.
Será que Louis estava com idéias de suicídio? Era por isso que tinha se livrado delas, quase as empurrando para fora? Será que de alguma forma Ellie tivera uma...
uma... oh, à merda com a psicologia! Será que tivera algum tipo de premonição?
Desta vez pediu uma chamada a cobrar para Jud Crandall. O telefone tocou cinco vezes.., se.... sete. Estava prestes a desligar quando Jud atendeu, quase sem
fôlego.
- Alô?
- Jud! Jud, aqui é...
- Espere um minuto, por favor - disse a telefonista. - Chamada a cobrar da Sra. Louis Creed. Posso completar a ligação?
- Eeeh - disse Jud.
- Perdão, senhor posso completar ou não?
- Acho que pode - disse Jud.
Houve um momento de hesitação enquanto a telefonista traduzia a inflexão do norte para a língua-padrão.
- Obrigada - ela disse por fim. - Pode falar, por favor.
- Jud, você viu o Louis hoje?
- Hoje? Acho que não, Rachel. De manhã fui ao mercado em Brewer e passei a tarde no jardim atrás da casa. Por quê?
- Oh, acho que não é nada, mas Ellie teve um pesadelo no avião e eu simplesmente gostaria de tranqüilizá-la.
- No avião?
A voz de Jud pareceu se elevar um pouco.
- Onde você está, Rachel?
- Em Chicago. Ellie e eu vamos passar umas semanas com meus pais.
- Louis não foi com vocês?
- Vem pra cá no fim da semana.
Agora Rachel já tinha dificuldade em manter a voz calma. Havia alguma coisa no tom de Jud de que ela não gostava.
- Que idéia foi essa de mandar vocês para aí?
- Bem... Não sei... Jud, o que está havendo? Tem alguma coisa errada, não tem? E você sabe mais ou menos o que é...
- Por que não me conta qual foi o sonho de Ellie - disse Jud após uma longa pausa. - Acho que devia contar.

Quando acabou de falar com Rachel, Jud vestiu um casaco leve (o dia nublara, o vento tinha começado a soprar) e, depois de parar no acostamento e se certificar
de que não vinha nenhum caminhão, atravessou a estrada para a casa de Louis. Os caminhões tinham sido a causa de tudo aquilo. Os malditos caminhões.
O problema é que a culpa não era dos caminhões.
Ele podia sentir o "simitério" de bichos - e uma voz um pouco mais distante - chamando por ele. Uma voz que outrora lhe parecera atraente canção de ninar, a
própria voz do bem-estar ou de uma espécie fascinante de poder. Agora, porém, era mais rouca e mais do que agourenta: era ameaçadora e lúgubre. Fique fora disso,
está ouvindo?
Mas não podia tirar o corpo fora. Sua responsabilidade era muito grande.
Viu que o Honda Civic de Louis não estava na garagem. Havia apenas a grande camionete Ford, empoeirada e pouco usada. Foi até a porta de trás da casa e encontrou-a
aberta.
- Louis? - chamou, sabendo que Louis não ia responder, mas precisando de alguma forma romper o silêncio pesado que havia na casa. Oh, a velhice estava começando
a se tornar um inferno; as pernas pareciam entorpecidas e emperradas a maior parte do tempo, a dor nas costas já o afligia depois de apenas duas horas no jardim,
e era como se tivesse um parafuso enfiado no lado esquerdo dos quadris.
Começou a atravessar a casa vagarosamente, procurando algum indício do que temia descobrir (pareço o mais velho assaltante do mundo, ele pensou sem muito humor
e continuou procurando).
Mas felizmente não encontrou nenhuma das coisas que poderiam deixá-lo seriamente transtornado: caixas de brinquedos não enviadas ao Exército da Salvação, roupas
para um menino pequeno guardadas atrás de alguma porta, no fundo de um armário ou sob uma cama; talvez (pior de tudo) o berço cuidadosamente armado no quarto de
Gage. Não havia absolutamente qualquer indício, mas a casa ainda conservava uma desagradável sensação de vazio, como se estivesse esperando ser ocupada com... alguma
coisa.
Talvez eu devesse dar uma chegadinha ao Cemitério da Boa Vista. Ver se está acontecendo alguma coisa por lá. Quem sabe não encontro o Louis no caminho. Posso
lhe pagar um jantar ou algo assim.
Mas o perigo não estava no Cemitério da Boa Vista em Bangor; o perigo estava ali, naquela casa... E atrás dela.
Jud saiu e voltou a atravessar a estrada. Tirou da geladeira uma embalagem com seis latas de cerveja e levou-a para a sala. Sentou-se diante do parapeito da
janela que dava para a casa dos Creed, abriu uma lata e acendeu um cigarro. A tarde declinava ao seu redor e, como acontecia com tanta freqüência naqueles últimos
anos, sua mente começou a recuar no passado, num giro cada vez mais amplo. Se ele pudesse adivinhar os pensamentos de Rachel Creed teria lhe dito que talvez o professor
de psicologia tivesse razão, mas quando se fica mais velho aquela obscura função da memória vai se enfraquecendo pouco a pouco, assim como tudo que existe em nosso
corpo. A pessoa, porém, consegue recordar lugares, rostos e acontecimentos antigos com extraordinária nitidez. Velhas memórias em sépia tornam-se de novo brilhantes,
as cores revivem, as vozes perdem aquele eco abafado pelo tempo e recuperam a ressonância originaL E não se trata absolutamente de algum bloqueio para novas informações,
Jud poderia ter dito ao professor. O nome daquilo era senilidade.
Em sua mente, via outra vez o touro Hanratty de Lester Morgan, os olhos muito vermelhos, atacando tudo que surgia à sua frente, tudo que se movesse. Chegava
a dar chifradas nas árvores quando o vento agitava as folhas. Antes de Lester dar o braço a torcer e abater o animal, todas as árvores no pasto cercado de Hanratty
ficaram marcadas por aquela fúria irracional. Os chifres do animal já estavam lascados e a cabeça sangrava. Na época em que resolveu dar um fim no touro, Lester
vivia cheio de medo - do mesmo modo como Jud estava se sentindo agora.
Continuou a fumar e a beber a cerveja. O dia ia declinando. Ele não acendeu as luzes. Aos poucos, envolvida pela escuridão, a brasa do cigarro foi se transformando
num pequeno ponto vermelho.
Jud permaneceu ali, tomando cerveja e vigiando a entrada da casa de Louis Creed. Quando Louís chegasse, vindo de onde quer que tenha ido, ia atravessar a estrada
para ter uma conversinha com ele. Queria ter certeza que Louis não estava planejando fazer qualquer coisa de que pudesse se arrepender mais tarde.
Ele ainda sentia o suave puxão da coisa, do mórbido poder que habitava aquele lugar do diabo, sentia-o esticando-se para fora do penhasco de rocha apodrecida
onde todos aqueles monumentos tinham sido construídos.
Fique fora disso, está ouvindo? Fique fora disso ou vai ter muito, muito do que se arrepender.
Ignorando o mais que podia aquela voz, Jud continuou ali sentado, fumando, tomando cerveja. E esperando.


Enquanto Jud Crandall estava sentado na cadeira de balanço com encosto de vime, à espera junto do peitoril da janela, Louis fazia uma grande mas insossa refeição
na sala de jantar do Howard Johnson's.
Realmente a comida era abundante e sem gosto - exatamente o que seu corpo parecia precisar. Lá fora, a noite caíra. Os faróis dos carros passando avançavam como
dedos na escuridão.
Comia em grandes garfadas. Um bife. Batatas coradas. Uma guarnição de feijões com um brilho esverdeado que seria impossível encontrar na natureza. Uma fatia
de torta de maçã com uma concha de sorvete em cima, derretendo-se numa pequena poça. Comia numa mesa do canto da sala, vendo gente entrar e sair, achando que poderia
encontrar alguém conhecido. De forma vaga, chegava a querer que isso acontecesse. Teria de responder a perguntas: Onde está Rachel, o que está fazendo aqui, como
vão as coisas?... Talvez as perguntas trouxessem complicações, e quem sabe não estaria realmente ansiando por essas complicações... Uma saída.
Na realidade, um casal que ele conhecia entrou quando estava terminando a torta de maçã e uma segunda xícara de café: Rob Grinnell, um médico de Bangor, e sua
bonita esposa Barbara. Achou que seria visto por eles, sentado naquela pequena mesa do canto, mas a garçonete levou-os para os compartimentos do outro lado da sala,
e Louis perdeu-os inteiramente de vista, excluindo algum relance ocasional do prematuro cabelo grisalho de Grinnell.
A garçonete trouxe a Conta e Louis assinou-a, acrescentando o mero do quarto sob a assinatura. Depois saiu pela porta lateral.
Lá fora, o vento se transformara quase num vendaval. Era uma presença consistente, que sacudia os fios elétricos com um zumbido estranho. Não via nenhuma estrela,
mas teve a sensação de nuvens correndo em grande velocidade acima dele. Parou um momento na calçada, mãos nos bolsos, rosto voltado para o vento. Depois deu meia-volta,
subiu para o quarto e ligou a tevê. Era cedo demais para fazer qualquer coisa mais séria e aquele vento noturno trazia um excesso de sugestões. Deixava-o nervoso.
Assistiu a quatro horas de televisão, oito meias horas de programas humorísticos em canais diferentes. Há muito não via tanta tevê num fluxo contínuo e ininterrupto.
Achou que todas as mulheres que figuram nos quadros de humor eram o que ele e seus colegas de colégio chamavam de "pistoleiras".
Em Chicago, Dory Goldman estava gemendo:
- Voltar? Querida, por que você quer voltar? Você acabou de chegar!
Em Ludlow, Jud Crandall continuava sentado ao lado da janela, fumando e tomando cerveja, imóvel examinando o álbum mental de seu próprio passado e esperando
Louis chegar. Mais cedo ou mais tarde, Louis voltaria para casa, como Lassie naqueles velhos filmes. Havia outros caminhos para o 'simitério" de bichos e o lugar
que havia além dele, mas Louis não os conhecia. Se pretendesse subir até lá, partiria do próprio terreno.
Inconsciente desses outros acontecimentos que, como lentos projéteis, se voltavam não para onde ele estava, mas, na melhor tradição balistica, para onde estaria
mais tarde, Louis continuava diante do televisor a cores do motel. Nunca vira nenhum daqueles programas antes, mas já ouvira rumores sobre eles: uma família negra,
uma família branca, um garotinho mais esperto do que os adultos ricos com quem vivia, uma mulher solteira, uma mulher casada, uma mulher divorciada. Viu todos eles,
sentado numa poltrona do Howard Johnson's Motor Lodge, de vez em quando olhando a noite cheia de vento lá fora.
Quando começou o noticiário das onze, desligou a televisão e saiu para fazer o que estava decidido a fazer talvez desde o momento em que viu o boné de beisebol
de Gage no meio da estrada, cheio de sangue. A sensação de frio envolveu-o de novo, mais forte que nunca, mas havia alguma coisa sob ela - uma brasa de impaciência,
paixão ou mesmo ânsia. Não importa. Isso o faria suportar o frio e não o deixaria esmorecer sob o vento.
Ao ligar o motor da Civic, pensou que talvez Jud tivesse razão sobre o crescente poder daquele lugar, pois sem dúvida ele o sentia agora à sua volta, levando-o
(ou empurrando-o) à frente.
Eu poderia parar? Eu poderia parar mesmo se quisesse?


- Por que você quer voltar? - Dory perguntou outra vez. - Rachel....... Você está transtornada... Uma boa noite de sono...
Rachel só balançava a cabeça. Não podia explicar à mãe por que tinha de voltar. A sensação se agigantara dentro dela do modo como cresce um vento: primeiro um
leve agitar da relva, que mal se nota; o ar começa a se mover com mais força, mais rapidez e toda a calma se dissipa; então as rajadas se tornam fortes o bastante
para fazer ruídos sinistros de uivo em torno dos beirais dos telhados; depois o vento faz a casa estremecer e a pessoa percebe a ameaça do furacão, sente que se
o vento continuar aumentando as coisas começarão a desmoronar.
Eram seis horas em Chicago. Em Bangor, Louis estava apenas se sentando na mesa do canto para aquela refeição farta e sem gosto. Rachel e Ellie mal chegaram a
tocar no jantar. Rachel continuava erguendo os olhos do prato e se defrontando com o olhar sombrio da filha, perguntando o que ela ia fazer sobre o problema que
devia haver com o pai, perguntando o que ela ia fazer.
Ela esperava que o telefone tocasse, que Jud ligasse para dizer que Louis tinha chegado. O telefone tocou uma vez (ela pulou da cadeira e Ellie quase entornou
o copo de leite), mas era apenas uma senhora do clube de bridge, querendo saber se Dory chegara bem.
Estavam tomando café quando, de repente, Rachel jogou o guardanapo sobre a mesa e disse:
- Papai... Mamãe... Sinto muito, mas tenho de ir pra casa. Se conseguir um avião, vou ainda esta noite.
A mãe e o pai ficaram boquiabertos, mas Ellie fechou os olhos numa expressão adulta de alívio - teria sido até engraçada não fosse a tensão do seu rosto, a palidez
de cera na pele.
Os dois não compreenderam e Rachel não podia explicar o que estava sentindo, como não poderia explicar de que forma as pequenas brisas, tão débeis que mal conseguem
agitar as pontas da relva baixa, vão aos poucos ganhando força até se tornarem capazes de danificar uma construção de cimento armado. Não acreditava que Ellie tivesse
ouvido alguma notícia sobre a morte de Victor Pascow e a arquivado no subconsciente.
- Rachel, querida...
O pai falou devagar, gentil, como se deve falar a alguém que caiu nas malhas de uma transitória, mas perigosa histeria.
- Isto é apenas uma reação à morte de seu filho. Você e Ellie estão reagindo fortemente, e quem iria censurá-las? Mas você pode ter um colapso nervoso se não
tentar...
Rachel não respondeu. Foi para o telefone no corredor, procurou Companhias de Aviação nas Páginas Amarelas e discou o número da Delta. Dory se aproximou, perguntando
se ela não achava melhor pensar um pouco mais, se não seria bom discutirem um pouco o assunto, talvez fazer uma lista de pontos a considerar... Ellie postou-se atrás
da avó, o rosto ainda sombrio, mas agora iluminado por uma doce esperança suficientemente nítida para dar a Rachel alguma coragem.
- Deita Airlines - respondeu vivamente a voz do outro lado. - Meu nome é Kim, posso ajudá-la em alguma coisa?
- Espero que sim - disse Rachel. - É extremamente importante que eu viaje de Chicago a Bangor ainda esta noite. É... É uma espécie de emergência, eu acho.
Pode verificar como estão as conexões?
- Pois não - a voz concordou num tom de dúvida -, mas está muito em cima da hora.
- Bem, mas por favor verifique - disse Rachel, a voz com um certo timbre de estridência. - Pode haver algum lugar reservado para a empresa, qualquer coisa.
- Está bem, senhora. Por favor, espere um pouco.
A linha ficou suavemente silenciosa. Rachel fechou os olhos e, pouco depois, sentiu uma mão fria no braço. Abriu os olhos e viu que Ellie tinha chegado
mais para perto dela. Dory e Irwin estavam lado a lado, falando baixo e olhando as duas. Do modo como olhariam para lunáticos, Rachel pensou vagamente e conseguiu
mostrar um sorriso à filha.
- Não deixe que ninguém a detenha, mamãe - disse Ellie em voz baixa. - Por favor.
- Não vou deixar, irmãzinha.
Rachel estremeceu. Era assim que às vezes chamavam Ellie desde o nascimento de Gage. Mas agora ela não era mais a "irmãzinha de Gage", certo?
- Obrigada - disse Ellie.
- É mesmo muito importante, não é?
Ellie concordou com a cabeça.
- Querida, eu acredito que seja. Mas você me ajudaria muito se pudesse me dizer mais alguma coisa. É só o sonho?
- Não. E... É tudo agora. Agora está correndo por dentro de mim, da cabeça aos pés. Você não pode sentir, mamãe? É alguma coisa como...
- Alguma coisa como um vento.
Ellie suspirou um tanto trêmula.
- Mas você não sabe o que é? - a mãe perguntou. - Não se lembra de mais nada do sonho?
Ellie pensou bastante e balançou a cabeça com ar de dúvida.
Papai. Church. E Gage. É tudo que eu lembro. Mas não sei como as coisas se juntaram, mamãe!
Rachel abraçou-a com força.
- Tudo vai ficar bem - disse ela, mas o peso em seu coração não diminuiu.
- Alô, senhora - voltou a funcionária das reservas.
- Sim?
Rachel apertou com mais força o telefone e a filha.
- Acho que posso fazê-la chegar a Bangor... Mas vai chegar muito tarde.
- Não faz mal.
- Tem uma caneta? E complicado.
- Sim, já peguei - disse Rachel, tirando um toco de lápis da gaveta. Achou também o verso de um envelope para escrever.
Rachel ouviu com atenção, anotando tudo. Quando a moça da Delta terminou, ela sorriu e fez um sinal positivo com o polegar para mostrar a Ellie que iam conseguir.
Provavelmente iam conseguir, pensou. Algumas conexões pareciam muito, muito difíceis... Principalmente em Boston.
- Por favor, reserve lugares em todos os vôos - disse Rachel. -E obrigada.
Kim anotou o nome de Rachel e o número do cartão de crédito. Por fim ela desligou o telefone, trêmula, mas aliviada. Olhou para o pai.
- Papai, o senhor vai me levar até o aeroporto?
- Acho que eu devia dizer que não. Talvez a ajudasse a pôr um ponto final nessa loucura.
- Não se atreva! - Ellie gritou com voz estridente. - Isto não é uma loucura! Não é!
Goldman piscou e deu um passo atrás ante a pequena, mas feroz explosão da neta.
- Leve as duas, Irwin - Dory falou em voz baixa no silêncio que se seguiu. - Eu também estou começando a ficar nervosa. Vou me sentir melhor se souber que Louis
está bem.
Goldman encarou a esposa e depois se virou para Rachel.
- Vou levá-la, se é isso que você quer - disse. - Eu... Escute, Rachel, posso ir também, se você quiser.
Rachel balançou a cabeça.
- Obrigada, papai, mas peguei todos os últimos lugares dos vôos. É como se Deus os tivesse reservado para mim.
Irwin Goldman suspirou. Naquele instante, pareceu muito velho e, subitamente, ocorreu a Rachel que o pai era um tanto parecido com Jud Crandall.
- Se quiser, ainda tem tempo de arrumar alguma coisa - disse ele.
- Podemos chegar ao aeroporto em quarenta minutos, se eu dirigir como fazia quando me casei com sua mãe. Por que não lhe empresta a bolsa de viagem,
Dory?
- Mamãe - disse Ellie.
Rachel se virou. O rosto de Ellie estava agora reluzente com um leve suor.
- O que é,meu bem?
- Tenha cuidado, mamãe.

As árvores eram apenas formas que se moviam contra um céu nevoento, iluminado pelo clarão do aeroporto não muito distante. Louis estacionou a Civic na Rua Mason.
A rua circundava o Boa Vista pelo lado sul, e lá o vento quase o impedia de fechar a porta do carro. Teve de empurrá-la com força. O vento lhe encrespava a jaqueta
quando abriu o bagageiro e tirou as ferramentas embrulhadas no pedaço de lona.
Estava num trecho de escuridão entre dois lampiões, de pé no meio-fio com a trouxa de lona nos braços. Observou cuidadosamente se não vinha nenhum carro antes
de atravessar para a cerca com grades de ferro que marcava os limites do cemitério. Não queria que ninguém o visse, nem mesmo algum passante distraído que mal reparasse
nele. A seu lado, os galhos de um velho olmo vergavam sem descanso, fazendo Louis pensar em pontas de gravata num cabide. Deus, estava tão assustado. Aquilo não
era trabalho frenético, era trabalho insano.
Nenhum movimento. Na Rua Mason, os postes distanciavam-se num perfeito contorno branco, atirando fachos de luz numa calçada onde, durante o dia, depois de terminadas
as aulas na Fairmount Grammar School, os meninos andavam de bicicleta, as meninas pulavam corda e brincavam de roda, jamais reparando no cemitério, exceto talvez
no Dia das Bruxas, quando ele adquiriu um certo charme fantasmagórico. Talvez então se atrevessem a cruzar a rua suburbana e pendurar um esqueleto de papel nas altas
grades de ferro, rindo com as velhas piadas: É o lugar mais popular da cidade; as pessoas morrem para vir aqui. Por que não se deve rir dentro do cemitério? Porque
nem todos que moram aí têm espírito esportivo.
- Gage - ele murmurou. Gage estava lá, atrás daquelas grades, injustamente aprisionado sob uma camada de terra escura. E aquilo não tinha graça nenhuma. Vou
tirar você daí Gage, ele pensou. Vou tirar você daí meu garoto, ou morrer tentando.
Louis atravessou a rua com a pesada trouxa nos braços, subiu na outra calçada, olhou de novo ao redor e atirou o embrulho do outro lado das grades. As ferramentas
tilintaram baixo quando bateram no chão. Sacudindo a poeira das mãos, Louis recomeçou a andar. Marcara o lugar. Mesmo se esquecesse, só precisava seguir a cerca
pelo lado de dentro até ficar defronte à Civic, e lá estaria o embrulho.
Mas será que àquela hora o portão ainda estava aberto?
Desceu a Rua Mason até a faixa Pare no asfalto, acossado, perseguido pelo vento. Sombras dançavam e se misturavam no chão.
Virou a esquina para a Rua Pleasant, sempre seguindo o muro. Os faróis de um carro penetraram na rua e Louis se escondeu atrás de um olmo. Não era uma viatura
policial, apenas um furgão seguindo para a Rua Hammond e, talvez, para a estrada. Depois que passou, Louis voltou a caminhar.
Sem dúvida vai estar aberto. Tem de estar.
Atingiu o portão, que formava uma catedral em ferro batido, leve e graciosa entre as sombras atiradas pelos lampiões e agitadas pelo vento. Esticou a mão e empurrou.
Trancado.
Seu estúpido, é claro que está trancado! Você achava mesmo que alguém ia deixar um cemitério nos limites da cidade aberto depois das onze horas? Ninguém é assim
tão descuidado, rapaz, ninguém! E agora o que vai fazer?
Agora teria de escalar o muro e rezar para que nenhum espectador tirasse os olhos do Carson Show a tempo de vê-lo subindo como macaco nas grades, o mais velho
e menos ágil garoto do mundo.
É da polícia? Acabo de ver um garoto velho demais pulando o muro do Cemitério da Boa Vista. É, morrendo de vontade de entrar. Parece que está picaretando alguma
coisa por lá... Brincadeira? Não, não, eu estou morto de sono para brincar. Mas se quiser ponho uma pá de cal no assunto e tudo bem.
Louis continuou seguindo a Rua Pleasant e virou à direita no cruzamento seguinte. As grades de ferro marchavam sem cessar ao lado dele. O vento refrescava e
evaporava as gotas de suor na testa e nas cavidades das têmporas. Sua sombra aumentava e diminuía sob a luz dos lampiões. De
vez em quando dava uma olhada no muro, mas de repente parou e se obrigou a realmente encarar a coisa.
Vai mesmo tentar pular essas grades, rapaz? Não me faça rir.
Louis Creed era um homem razoavelmente alto, bem mais de um e setenta, mas o muro devia chegar a quase três metros. E cada grade de ferro acabava numa decorativa
ponta em forma de seta. Sem dúvida interessante, até que o sujeito escorregasse e caísse com a virilha sobre aquelas flechas, uma força equivalente a cem quilos
esmagando os testículos. E então Louis ficaria ali, torto como um porco no espeto, gritando até que alguém chamasse a polícia e a polícia o levasse para o hospital.
O suor continuava a escorrer, deixando a camisa grudada nas costas. Tudo era silêncio, exceto o débil rumor do último tráfego da noite na Rua Hammond.
Tinha de haver um meio de entrar.
Tinha de haver.
Vamos lá, rapaz, encare os fatos. Você pode estar louco, mas não tão louco assim. Talvez consiga se equilibrar em cima das grades, mas só um atleta treinado
saberia pular para o outro lado sem se espetar. E mesmo admitindo que você conseguisse, como ia sair com o corpo de Gage?
Continuou andando, vagamente consciente de que estava circundando o cemitério sem fazer qualquer coisa construtiva.
Tudo bem, aí está a resposta. Vou para casa esta noite e volto amanhã à tarde. Entro por volta das quatro horas e procuro um lugar para me esconder até que seja
meia-noite ou um pouco mais. Em outras palavras, adio para amanhã o que eu devia ter sido esperto o bastante para já ter pensado ontem.
Boa idéia, Oh, Grande Mestre Louis Creed... E, nesse meio tempo, o que vai fazer com aquela grande trouxa que atirou do outro lado do muro? Pá, picareta, lanterna...
Dava no mesmo se tivesse colocado uma etiqueta em cada ferramenta: EQUIPAMENTO PARA VIOLAÇÃO DE TÚMULOS.
Se bem que o embrulho caíra no meio de arbustos. Será que alguém ia achar?
Em certa medida, fazia sentido supor que ninguém o encontrasse. Mas era insensato confiar na sorte. Seu coração lhe dizia, num tom sereno mas decidido, que não
podia voltar amanhã. Se não fizesse a coisa naquela noite, nunca mais faria. Nunca mais conseguiria arrastar-se de novo àquela loucura. O momento era aquele, era
agora ou nunca.
Ali havia poucas casas; poucos quadrados de luz amarela brilhavam do outro lado da rua (divisou num deles a cintilação cinza e azulada de uma tevê em preto e
branco). Olhando através das grades, Louis percebeu que as lápides eram mais velhas naquele ponto, mais arredondadas, às vezes inclinadas para a frente ou para trás
nelas nevadas e degelos de muitas estações. Mais adiante, havia outro aviso de Pare no asfalto; uma nova curva à direita ia levá-lo a uma rua paralela à Rua Mason,
onde ele havia começado. Quando voltasse ao ponto de partida, o que ia fazer? Comprar mais uma ficha e dar a volta outra vez? Admitir o fracasso?
Os faróis de um automóvel dobraram na rua. Louis se escondeu atrás de outra árvore e esperou o carro passar. O carro seguia muito devagar e, pouco depois, a
luz branca de uma lanterna foi apontada do assento da frente e correu trêmula pela grade. Sentiu um doloroso aperto no coração. Era uma viatura policial inspecionando
o cemitério.
Comprimiu o corpo contra a árvore, a aspereza da casca no rosto, esperando desesperadamente que a árvore fosse grande o bastante para ocultá-lo. O facho da lanterna
virou-se em sua direção. Louis abaixou a cabeça, tentando esconder o reflexo esbranquiçado do rosto. A lanterna atingiu a árvore, desapareceu por um instante, depois
voltou pela direita. Deslizou um pouco pela árvore. Ele viu de relance a sirene apagada na capota do carro. Esperou que as lanternas traseiras ficassem mais vermelhas,
o carro parasse de todo, as portas se abrissem e a lanterna do policial lhe batesse de frente no rosto, apontando-o com um grande dedo branco.
Ei, você! Você aí atrás da árvore! Saia com as mãos na cabeça, queremos ver quem é! Saia AGORA!
Mas o carro de polícia continuou avançando. Atingiu a esquina acendeu devidamente a seta e virou à esquerda. Louis se apoiou de costas na árvore, respirando
depressa, uma secura, um gosto azedo na boca. Achava que iam passar pela Cívic, mas isso não fazia mal. Era permitido estacionar na Rua Mason das seis da tarde às
sete da manhã. Havia muitos outros carros ali. Provavelmente os donos moravam nos prédios do outro lado da rua.
Louís se voltou para a árvore atrás da qual se escondera.
Bem acima de sua cabeça, a árvore se abria em galhos. Talvez pudesse...
Sem pensar uma segunda vez, segurou num dos galhos e ergueu o corpo usando os tênis como alavanca, jogando na calçada algumas lascas da casca. Levantou o joelho
e, pouco depois, tinha um dos pés solidamente plantado no meio da forquilha. Se por acaso o carro de policia voltasse, seus faróis encontrariam um pássaro extremamente
curioso naquela árvore. Tinha de ser rápido.
Passou a um galho mais alto, que se erguia acima das grades. Sentiu-se como o garoto de doze anos que fora outrora.
A árvore não estava imóvel, balançava sem parar ao vento, um balanço quase agradáveL As folhas murmuravam, roçavam umas nas outras. Louis avaliou a situação
e, antes que alguma dúvida o fizesse recuar, pendurou-se na direção do muro, segurando no galho com as mãos entrelaçadas. O galho era talvez um pouco mais grosso
que o antebraço de um homem forte.
Com os tênis oscilando uns dois metros e meio acima da calçada, procurou avançar para as grades. Primeiro uma, depois outra mão. O galho se curvou, mas não parecia
que ia quebrar. Louis estava debilmente consciente de sua sombra, estendendo-se pelo cimento da calçada, uma forma negra de macaco, um contorno amorfo. O vento lhe
tirava o calor das axilas e ele começou a tremer, apesar da quentura que lhe envolvia o rosto e o pescoço. O galho vergava e balançava com seus movimentos. Quanto
mais avançava, mais pronunciada se tornava a curva. Agora as mãos e os pulsos estavam ficando cansados e ele teve medo de que as palmas das mãos, engorduradas de
suor, escorregassem.
Atingiu as grades. Os tênis pendiam uns trinta centímetros acima das pontas de flecha. E daquele ângulo, as flechas não pareciam nada rombudas. Eram de fato
muito afiadas.
Afiadas ou não, percebeu que não apenas suas bolas ficariam em perigo. Se caísse sobre uma daquelas pontas mortais, teria peso suficiente para enterrar-se até
os pulmões. Ao voltar, os policiais encontrariam nas grades do Boa Vista uma decoração prematura e bem apavorante do Dia das Bruxas.
Respirando depressa, quase ofegante, precisando de um momento de descanso, tentou alcançar a cerca com os pés. Por um instante, continuou ali pendurado, os pés
se movendo numa dança aérea, tateando mas não achando.
Um facho de luz atingiu-o e foi se aproximando.
Oh, Deus, é um carro, é um carro vindo...
Tentou mover as mãos mais depressa, mas as palmas escorregavam. E os dedos começaram a fraquejar.
Sempre procurando apoio, virou a cabeça para a esquerda, olhando sob a força que fazia seu braço. Era um carro, mas passou em disparada pelo cruzamento e continuou
subindo a rua sem diminuir a velocidade. Sorte. Se tivesse...
As mãos escorregaram de novo. Sentiu uma chuva de lascas no cabelo.
Um dos pés encontrou apoio, mas a outra perna da calça prendeu numa das pontas de flecha. Cristo, ele não ia conseguir se segurar muito tempo. Desesperado, sacudiu
a perna. O galho mergulhou. Suas mãos tornaram a escorregar. Houve um ruído de roupa rasgando e, de repente, ele estava de pé sobre duas das pontas. Elas se cravaram
nas solas dos tênis e a pressão logo se tornou dolorosa, mas mesmo assim Louis continuou ali. O alívio nas mãos e nos braços era maior que a dor na sola dos pés.
Que figura eu devo estar parecendo!, pensou com um ânimo sombrio e lúgubre. Segurando o galho com a mão esquerda, enxugou na jaqueta o suor da direita. Depois
trocou de mão e enxugou a esquerda.
Ficou mais um instante sobre as pontas das grades, mas logo fez as mãos escorregarem pelo galho. Agora o galho era fino o bastante para não lhe permitir entrelaçar
os dedos com segurança. Balançou o corpo para a frente como Tarzã e os pés abandonaram as grades afiadas. O galho vergou de modo alarmante e ele ouviu um estalo
de arrepiar. Deixou-se levar, caindo de qualquer jeito.
E caiu mal. Bateu numa lápide com um dos joelhos e um jato de dor subiu-lhe pela coxa. Rolou pela grama, segurando o joelho, lábios contorcidos numa espécie
de sorriso, rezando para não ter quebrado a rótula. Por fim, a dor começou a diminuir um pouco e Louis sentiu que podia flexionar a junta. Estaria tudo bem se continuasse
se mexendo e não deixasse a pancada enrijecer a articulação. Talvez.
Ficou de pé e começou a andar ao longo da cerca na direção da Rua Mason e do ponto onde jogara o equipamento. De início o joelho pareceu muito mal, ele coxeava
muito, mas a dor foi suavizando à medida que avançava. Havia aspirinas no estojo de primeiros-socorros da Civic. Devia ter-se lembrado de trazê-las. Mas era tarde
demais. Continuou atento ao movimento lá de fora e se abaixou quando um carro passou.
Do lado da Rua Mason, que talvez fosse a mais movimentada, ele se manteve sempre bem longe da grade, até se ver defronte à Civic. Estava prestes a alcançar os
arbustos onde as ferramentas tinham caído quando ouviu passos na calçada e um riso baixo de mulher. Sentou-se atrás de uma grande lápide (machucara.demais o joelho
para conseguir se agachar) e contemplou um casal subindo a rua. Andavam abraçados pela cintura e alguma coisa na maneira deles se deslocarem de uma poça branca de
luz para a seguinte fez Louis se lembrar de um velho programa de tevê. Num instante, o nome lhe ocorreu: The Jimmy Durante Hour. O que aqueles dois fariam se ele
se levantasse de repente, sombra oscilante naquele silencioso campo da morte, e gritasse num tom cavernoso: "Estamos iniciando a transmissão costa a costa. .
O casal parou numa poça de luz um pouco depois da Civic e se abraçou. Observando-os, Louis sentiu uma espécie de mórbida fascinação e ódio de si próprio. Lá
estava ele, personagem fantástico de um livreto barato de histórias em quadrinhos, espiando casais de namorados de trás de um túmulo.
Será então que a linha divisória é assim tão fina?, ele se perguntou, e o pensamento já lhe era um tanto familiar. Tão fina que você pode transpóla com o mínimo
de alvoroço, bagunça e perturbação? Escalar uma árvore, deslizar por um galho, cair dentro de um cemitério, espiar casais de namorados... e cavar buracos. Será assim
tão simples? Será isto que chamam loucura? Levei oito anos para me tornar doutor, mas numa passada virei violador de sepulturas. Acho que é isso o que as pessoas
chamam vampiro.
Apertou a boca com os punhos para impedir que algum som escapasse e meditou sobre o frio interior que sentia e sobre aquela sensação de incoerência. Louís viu,
diante dos olhos, que havia alguma coisa acontecendo com ele.
Finalmente o casal voltou a caminhar e Louis acompanhou-o com impaciência. Subiram as escadas de um dos prédios de apartamentos. O homem procurou uma chave no
bolso; pouco depois, entraram. A rua ficou de novo silenciosa, exceto pelo vento constante, sussurando entre as árvores e fazendo o cabelo suado de Louis cair sobre
a testa.
Ele correu, ajoelhou e procurou entre os arbustos a trouxa de lona. Lá estava ela, áspera ao toque de seus dedos. Suspendeu-a, ouvindo as ferramentas tilintarem.
Levou-a para o amplo caminho entre os túmulos que conduzia ao portão e parou para se orientar. Seguir em frente, depois virar à esquerda na encruzilhada. Sem problemas.
Avançou pela beira do caminho, pronto a se esconder na sombra dos olmos se fosse descoberto por algum eventual zelador noturno.
Na encruzilhada, virou à esquerda, tomando a direção do túmulo de Gage. E de súbito percebeu apavorado que não conseguia mais se lembrar da aparência do filho.
Parou, contemplando os túmulos enfileirados e a sombria arquitetura dos mausoléus, tentando recuperar a face de Gage. Aos poucos, traços diversos lhe vieram à memória:
o cabelo louro, fino e leve, os olhos oblíquos, os dentes pequenos, brancos, a pequena marca no queixo de quando ele caíra da escada da cozinha na casa de Chicago.
Era capaz de ver esses detalhes, mas não conseguia integrá-los num todo coerente. Via Gage correndo para a estrada, correndo para seu encontro com o caminhão da
Orinco, mas o rosto estava virado.
Tentou se recordar de Gage no berço, no dia em que soltaram a pipa-abutre, mas o olho de sua mente só se defrontou com escuridão.
Gage, onde está você?
Você já pensou, Louis, que pode não estar prestando qualquer serviço a seu filho? Talvez ele se sinta feliz onde está agora... talvez nem tudo seja a besteira
que você sempre pensou que fosse. Talvez esteja com os anjos, ou apenas dormindo. E se estiver dormindo, você sabe o que pode significar acordá-lo?
Oh, Gage, onde você está? Quero você em casa conosco.
Mas será que era realmente senhor de suas ações? Por que não conseguia se lembrar da fisionomia de Gage e por que estava indo contra todas as advertências -
os conselhos de Jud, o sonho com Pascow, o tremor que sentia no fundo do peito...
Pensou nos marcadores de túmulos do "simitério" de bichos, naqueles círculos rudes, se espiralando para o Mistério... E a sensação de frio atingiu-o de novo.
Mas por que, afinal, estava ali parado, querendo se lembrar do rosto de Gage?
Expunha-se à toa.

Pouco depois, encontrou a lápide da sepultura; dizia simplesmente GACE WILLIAM CREED, seguido por duas datas. Alguém fizera uma visita ao túmulo naquela tarde,
havia flores recentes. Quem? A Srta. Dandridge?
Seu coração batia com força, mas devagar. Ali estava; se ia mesmo fazer a coisa, era melhor começar logo. Só tinha pela frente as horas da madrugada; depois
o dia nasceria de novo.
Louis consultou pela última vez o coração e viu que sim, estava disposto a ir em frente. Balançou a cabeça quase imperceptivelmente e tirou um canivete do bolso.
Cortou a fita gomada com que amarrara a trouxa das ferramentas. Desenrolou a lona como um tapete junto ao túmulo de Gage e arrumou as ferramentas sobre ela; era
como se arrumasse os instrumentos para suturar uma ferida ou fazer uma pequena operação na enfermaria.
Ali estava a lanterna com o feltro, como o homem da loja tinha sugerido. Colocara uma moeda em cima do feltro e cortara em volta com o canivete, fazendo um pequeno
circulo. Depois, também com fita gomada, prendera o feltro na lanterna. Ali estava a picareta de cabo curto que provavelmente não teria de usar; só a trouxera por
medida de precaução. Não ia lidar com um túmulo lacrado e não ia encontrar pedregulhos na cova recentemente enchida. Ali estava a pá, a pazínha, o pedaço de corda,
as luvas. Pôs as luvas, pegou a pazinha e começou.
O solo era macio; era fácil cavar. O contorno da sepultura estava bem definido, a terra que cavava era mais macia que a terra nas beiradas. Sua mente fez uma
espécie de comparação automática entre a facilidade daquela escavação e o solo rochoso, implacável, do lugar onde, se tudo corresse bem, tornaria a enterrar o filho.
Lá em cima ia precisar da picareta.
Tentou parar de pensar e se aplicar ao trabalho. la jogando a terra à esquerda do túmulo, trabalhando num ritmo contínuo, mas que se tornava mais difícil manter
à medida que o buraco ficava mais fundo. Entrou na sepultura, sentindo o cheiro úmido e desagradável da terra revolvida, um cheiro que lembrava os verões em que
estagiou com o tio Carl.
Cavador, ele pensou, parando para tirar o suor da testa. Tio Carl dissera que aquele era o apelido de todos os coveiros da América. Os amigos chamavam-nos "cavadores".
Continuou a cavar.
Só parou mais uma vez, e foi para consultar o relógio. Era meia-noite e vinte. Sentiu o tempo deslizar pelo punho como uma substância gordurosa.
Quarenta minutos depois, a pazinha raspou em alguma coisa e os dentes de Louis apertaram o lábio superior com força suficiente para fazê-lo sangrar. Apanhou
a lanterna e iluminou lá embaixo. Ainda havia muita terra mas, numa brecha diagonal, despontava uma superfície cinzenta e prateada. Era a tampa da sepultura. Louis
tirou quase toda a terra, com medo de estar fazendo muito barulho, pois nada era mais barulhento do que uma pá raspando concreto no meio da noite.
Saiu do túmulo e pegou a corda. Passou-a pelos anéis de ferro de um dos segmentos da tampa. Saiu de novo do túmulo, apoiou-se ao lado da lona e segurou as pontas
da corda.
Louis, acho que esta é ... . sua última chance.
Tem razão. É minha última chance e estou disposto a aproveitá-la.
Enrolou as pontas da corda nas mãos e puxou. O quadrado de concreto se abriu facilmente, rangendo. Parou na vertical sobre um quadrado de escuridão, parecendo
antes uma lápide que a tampa de um túmulo horizontal.
Louis puxou a corda dos anéis e atirou-a para o lado. Não precisaria usá-la para remover a outra parte da tampa; podia erguê-la apoiando-se na beira do túmulo.
Entrou de novo no buraco, movendo-se com cuidado, não querendo derrubar a laje de cimento que já levantara, ver os dedos do pé esmagados ou vê-la quebrada (era
bem fina). Pedras chocalharam para dentro do buraco e algumas delas caíram sobre o caixão de Gage, um som oco.
Louis se curvou, segurou a outra metade da tampa e suspendeu. Sentiu os dedos esborracharem alguma coisa fria.
Quando acabou de colocar aquela parte da tampa na vertical sobre a extremidade da cova, baixou os olhos para a mão e viu parte do corpo de uma gorda minhoca
se contorcendo. Com um grito abafado de repugnânda, sacudiu-a na terra ao lado do túmulo.
Então dirigiu para baixo o facho da lanterna.
Lá estava o caixão que, durante o funeral, vira descansar sobre corrimões cromados ao lado da sepultura, então cercado por aquela horrível grama artificial.
Lá estava a caixa-forte onde devia depositar todas as esperanças que acalentara para o filho.
Uma fúria, um calor abrasador cresceram dentro dele, a própria antitese da anterior sensação de frio. Idiotice! A resposta é não!
Louis procurou a pazinha. Levantou-a até a altura dos ombros e golpeou a fechadura da urna - uma, duas, três, quatro vezes. Seus lábios estavam repuxados num
esgar de raiva.
Vou tirá-lo daí, Gage, pode apostar!
O trinco havia soltado desde a primeira pancada, mas Louis continuava batendo, como se não quisesse apenas abrir o caixão, mas arrebentá-lo. Finalmente
recuperou uma certa sensatez e parou, a pazinha no ar, pronta para um novo golpe.
A ferramenta estava empenada e cheia de riscos. Atirou-a de lado e cambaleou para fora da cova com pernas fracas e entorpecidas. Sentia um embrulho no estômago
e a ira tinha se dissipado tão depressa quanto chegou. Uma torrente de frio começava a substitui-la e nunca sua mente se sentira tão só e confusa; era como um astronauta
flutuando para longe da nave durante uma manobra, sentindo apenas impulsos de derivação no meio do céu escuro, respirando forte. Será que Bill Baterman também se
sentiu desse jeito?, ele se perguntou.
Estendeu-se de costas no chão, querendo ver se tinha as emoções sob controle, se estava pronto para continuar. Quando a sensação de entorpecimento abandonou-lhe
as pernas, sentou-se e deslizou para a cova. Pôs o facho da lanterna no trinco e percebeu que não estava apenas quebrado, mas destruído. Sem dúvida, brandira a pazinha
com fúria cega, mas cada golpe atingira o ponto certo, o centro do alvo, como se alguém o guiasse. A madeira em volta lascara.
Louis apoiou a lanterna embaixo do braço. Agachou-se ligeiramente. Suas mãos se abriram e fecharam, como as mãos de um gladiador esperando a hora de participar
do combate mortal. As mãos apalparam.
Encontrou o encaixe na tampa e empurrou os dedos para dentro dele. Parou um instante (não era bem uma hesitação) e abriu o caixão.


RacheI Creed quase pegou o vôo de Boston a Portland. Quase. O que a trouxe de Chicago saiu na hora (já um milagre), aterrissou na hora em La Guardia (outro)
e deixou Nova Iorque só cinco minutos depois do horário. Chegou a Boston quinze minutos mais tarde. Às vinte e três e doze, o que ainda lhe dava treze minutos.
Podia muito bem pegar seu vôo de conexão, mas o ônibus que circunda os terminais aéreos de Logan estava atrasado. Rachel esperou, numa espécie de incessante,
mas contido pânico, andando de um lado para o outro como se precisasse ir ao banheiro, passando de um ombro para o outro a bolsa de viagem que a mãe emprestara.
Quando às vinte e três e vinte e cinco viu que o ônibus não chegava, começou a correr. Os saltos eram pequenos, mas mesmo assim suficientemente altos para causar
problemas. Um dos tornozelos vergou dolorosamente, mas ela só parou o tempo suficiente para tirar os sapatos. Correu de meias, passou pelos terminais de Allegheny
e da Eastern Airlines, respirando forte, sentindo o início de pontadas na cintura.
O ar lhe queimava a garganta, as pontadas se tornavam mais prolongadas e dolorosas. Agora já atravessava o terminal internacional e ali, bem ali, estava a placa
triangular da Delta. Entrou em disparada e quase deixo um dos sapatos cair, mas conseguiu pegá-lo no ar. Eram vinte e três e trinta e sete.
Um dos funcionários do balcão viu-a se aproximar.
- Vôo 104 - ela ofegou. - O vôo de Portland. Já saiu?
O funcionário deu uma olhada no monitor.
- Ainda está no embarque, é o que diz aqui, mas a chamada final foi há cinco minutos. Vou ligar para o controle. Tem bagagem?
- Não - Rachel arfou, tirando de cima dos olhos o cabelo suado. O coração galopava em seu peito.
- Então não espere que eu ligue. Vou tentar... Mas é melhor correr!
Rachel não correu muito depressa - não conseguiria. Mas fez o melhor que pôde. A escada rolante estava parada e ela se lançou pelos degraus de cimento, um gosto
seco na boca. Atingiu o balcão da revista e quase atirou a bolsa para a sobressaltada policial feminina. Esperou que a bolsa lhe fosse devolvida pela esteira, as
mãos se abrindo e fechando. A bolsa mal havia saído da cabine de raios X quando ela a arrebatou pela correia e disparou de novo. A bolsa voou atrás dela, batendo
em seus quadris.
Olhou para um dos monitores enquanto corria.
Vôo 104 Portland Hora 23:25 Portão 31 Em embarque
O portão 31 ficava na extremidade do saguão - e no exato momento em que pôde dar uma olhada no monitor, as letras firmes indicando Em embarque se transformaram
em Partida, piscando rapidamente.
Um grito de frustração veio de seu peito. Entrou na área de embarque a tempo de ver o funcionário removendo a seta com a indicação: Vôo 104, Boston-Portland,
23:25.
- Foi embora? - ela exclamou incrédula. - Foi mesmo embora?
O funcionário olhou-a com simpatia.
- Começou a taxiar às vinte e três e quarenta. Sinto muito, madame. De qualquer modo, se isto é um consolo, pode acreditar que quase conseguiu.
Ele apontou para as amplas janelas de vidro. Rachel viu um grande 727 com o logotipo da Delta, as luzes de árvore de Natal começando a corrida de decolagem.
- Meu Deus, será que ninguém avisou que eu estava chegando? -Rachel gritou.
- Quando chamaram lá de baixo, o 104 já tinha começado a taxiar. Se eu o chamasse de volta, ele ficaria preso na fila saindo da pista 30 e o piloto ia pedir
minha cabeça num prato. Isto para não mencionar os cem passageiros a bordo. Sinto muito. Se chegasse ao menos quatro minutos antes...
Ela se afastou, não querendo ouvir mais nada. Estava na metade do caminho para o balcão de revista quando foi atingida por ondas de fraqueza. Tropeçou para outra
área de embarque e sentou-se até se sentir melhor. Depois tomou a calçar os sapatos, não sem antes tirar uma ponta amassada de cigarro de uma das meias em farrapos.
Meus pés estão imundos e não consegui merda nenhuma, pensou desconsolada.
Levantou-se e voltou para o terminal.
A policial da segurança olhou-a com ar simpático.
- Perdeu?
- Ora se perdi...
- Para onde ia?
- Portland. Depois Bangor.
- Bem, por que não aluga um carro? Se realmente precisa chegar logo a Bangor, acho que vale a pena. Em outras circunstâncias, aconselharia um hotel perto do
aeroporto, mas nunca vi uma pessoa que parecesse ter tanta necessidade de chegar a um lugar como a senhora.
- Preciso mesmo, tem razão - disse Rachel. Ela pensou um pouco. - Sim, acho que eu podia fazer isso, não é? Se houver algum carro disponível nas agências
do aeroporto...
A guarda de segurança riu.
- Oh, elas sempre têm carros. Só quando Logan fecha por causa do tempo é que os carros acabam. O que, aliás, não devia acontecer.
Rachel mal acabou de ouvi-la. Em sua mente, já estava tentando calcular a coisa.
Não ia conseguia chegar a Portland a tempo de pegar o vôo para Bangor, mesmo que se atirasse na estrada a uma velocidade suicida. Teria, então, de dirigir todo
o caminho até Bangor... Quanto tempo levaria? Quantos quilômetros havia até sua casa? Quatrocentos? Foi a estimativa que lhe ocorreu. Alguma coisa que Jud tinha
dito.
Não conseguiria partir antes da meia-noite e quinze, provavelmente só à meia-noite e meia... A estrada era toda de mão única. Achou que tinha chances razoáveis
de cobrir a distância a cem, cento e dez, sem ser detida por excesso de velocidade. Fez rapidamente os cálculos, dividindo quatrocentos por cento e dez. Nem chegava
a quatro horas. Bem... arredondemos para quatro. Afinal, tinha de parar uma vez e ir ao banheiro. E embora dormir lhe parecesse agora uma idéia absolutamente remota,
conhecia bastante bem suas limitações para saber que também teria de parar para beber uma boa xícara de café. Mesmo assim, podia chegar a Ludlow antes do amanhecer.
Repassando mentalmente a idéia, dirigiu-se para a escada - as agências de aluguel de automóveis ficavam um andar abaixo dos salões de embarque.
- Boa sorte, querida - gritou atrás dela a policial de segurança. - Dirija com cuidado.
- Obrigada - disse Rachel
Sentia que realmente fizera juz aos votos de boa sorte.


O cheiro atingiu-o primeiro e Louis recuou, nauseado. Apoiou-se na beira do túmulo, respirando forte, e quando achou que o enjôo estava sob controle,
todo o seu jantar, farto e sem sabor, subiu-lhe num jorro pela garganta. Vomitou na extremidade da sepultura e ficou algum tempo de cabeça baixa, a cabeça arquejando.
Por fim a náusea passou. Cerrando os dentes, tirou a lanterna da axila e iluminou o caixão aberto.
Um horror profundo, que muito se aproximou do choque paralisante, caiu sobre ele. Era o tipo de sensação geralmente reservada para os piores pesadelos, aqueles
de que uma pessoa não gosta de lembrar.
Gage estava sem cabeça.
Louis tremia tanto que teve de segurar a lanterna com ambas as mãos, apertando-a como um policial aprende a apertar o revólver na área de tiro. O facho, porém,
pulava de um lado para o outro e ele demorou um pouco até conseguir apontar de novo o feixe mortiço de luz para dentro dó caixão.
É impossível, disse a si mesmo. Entenda que o que você pensou ter visto é impossíveL
Deslocou devagar o raio estreito de luz pelo corpo de Gage, menos de um metro de extensão. Dos sapatos novos as calças, ao pequeno paletó (ah, Cristo, um menino
de dois anos nunca devia usar um paletó), á gola aberta, à...
Sua respiração adquiriu um tom áspero, demasiado forte para ser uma arfada, e toda a sua fúria pela morte de Gage transformou-se num medo intenso e sufocante
do sobrenatural, do paranormal. Estava cada vez mais certo que cruzara a fronteira para o terreno da loucura.
Remexeu no bolso de trás em busca do lenço. Segurando a lanterna com uma das mãos, inclinou-se de novo para o túmulo, quase ultrapassando o ponto de equilíbrio.
Se uma das partes da tampa caísse agora, sem dúvida ia lhe quebrar o pescoço. Usou delicadamente o lenço para limpar o musgo viscoso que estava crescendo na pele
de Gage - um musgo tão escuro que. momentaneamente, chegara a pensar que toda a cabeça de Gage tinha desaparecido.
O musgo estava úmido, mas era apenas uma camada superficial. Devia ter esperado por isso; tinha chovido e uma sepultura comum não é à prova d'água. Deslocando
o facho da lanterna para ambos os lados, viu que havia uma poça de lama embaixo do caixão.
Lá estava o filho, sob uma fina camada de limo. Apesar de saber que a urna não seria aberta após um acidente tão terrível, o agente funerário fez o melhor que
pôde (era assim que costumavam agir). Olhar para o filho era como olhar para um boneco malfeito. A cabeça se projetava em estranhas direções. Os olhos estavam profundamente
afundados atrás de pálpebras fechadas. Uma coisa branca lhe saía da boca, como uma língua de albino, e Louis achou que talvez tivessem usado um excesso de fluido
de embalsamamento. De qualquer modo era difícil calcular, e com uma criança devia ser quase impossível saber qual era a quantidade suficiente.
Então percebeu que se tratava apenas de algodão. Estendeu a mão e arrancou-o da boca do menino. Os lábios de Gage, estranhamente moles e parecendo um tanto escuros
e inchados demais, fecharam-se com um débil, mas audível plap! Atirou o algodão no fundo do túmulo, onde ele flutuou na poça de lama e reluziu com uma abominável
brancura. Uma das faces de Gage já tinha a aparência encovada de um rosto de velho.
- Gage - sussurrou. - Agora vou tirar você daí, está bem?
Pediu a Deus que ninguém o descobrisse, um vigia fazendo sua ronda da meia-noite e meia pelo cemitério, alguma coisa desse tipo. Mas sabia como agir no caso
de um imprevisto; se o facho de alguma lanterna caísse sobre ele, se alguém o surpreendesse ali, empenhado naquele trabalho sinistro, pegaria a pazinha curva e arranhada
para martelar com ela o crânio do intruso.
Pôs os braços sob o corpo de Gage. O corpo balançou frouxamente de um lado para o outro, e uma repentina, terrível certeza assaltou a mente de Louis: quando
levantasse Gage, o corpo ia se decompor, ia se reduzir a pedaços. Ele ficaria ali, os pés apoiados na beira do túmulo, gritando com os pedaços nas mãos. E era assim
que iam encontrá-lo.
Vá em frente, seu covarde. Vá em frente e termine o trabalho!
Pegou Gage, consciente da umidade fétida, e levantou-o. Era como costumava tirá-lo da banheira, quando nele dava banho antes de dormir. A cabeça do menino pendeu
para o meio das costas. Louis viu o pescoço arreganhado, a nitidez do contorno que prendia a cabeça de Gage nos ombros.
Ofegando, o estômago em convulsões pelo cheiro, pela frouxidão do corpo miseravelmente golpeado, Louis conseguiu tirar o filho do caixão. Por fim, sentou-se
na beira do túmulo com o corpo no colo, os pés pendurados no buraco, uma terrível lividez no rosto, os olhos transformados em buracos negros, a boca repuxada num
trêmulo esgar de horror, pena e angústia.
- Gage - disse ele, começando a balançar o menino. O cabelo de Gage lhe caíra no pulso, tão sem vida quanto arame. - Gage, tudo vai ficar bem, eu juro, Gage,
tudo vai ficar bem, isto vai terminar, é só mais esta noite, prometo Gage, eu amo você, papai o adora.
Louis balançava o filho no colo.


Por volta das quinze para as duas, Louis estava pronto para deixar o cemitério. Sem dúvida o pior de tudo fora pegar o corpo. Foi nesse ponto que aquele astronauta
interior, sua mente, pareceu flutuar mais para longe da nave, em direção ao vácuo. Ali sentado, uma dor latejante nas costas, músculos exaustos saltando, crispando-se,
Louis achou que já estava pronto para continuar seu trabalho. Levá-lo até o fim.
Embrulhou o corpo de Gage na lona e amarrou-o com longas tiras de fita gomada. Depois passou ainda a corda em volta. Poderiam suspeitar no máximo de um tapete
enrolado. Fechou o caixão, pensou um instante e tornou a abri-lo para deixar dentro dele a pazinha empenada. Que o Boa Vista ficasse com aquela relíquia; seu filho
é que ele não teria. Tornou a fechar o caixão e abaixou metade da tampa de cimento. Achou que poderia simplesmente deixar a outra metade cair, mas teve medo de que
ela se quebrasse. Pensou um pouco, passou o cinto pelo anel de ferro e amou suavemente o quadrado de cimento. Em seguida usou a pá para tapar o buraco. Como sempre,
não houve terra suficiente para voltar a encher a cova. Alguém podia reparar na depressão. Ou talvez não. Talvez reparasse e não desse importância. Louis não estava
mais disposto a se preocupar com isso. Ainda tinha muito trabalho pela frente. Trabalho frenético. E já estava muito cansado.
Ei, iá, vamos lá!
- Sem dúvida - Louis murmurou.
O vento aumentou, gemendo entre as árvores e fazendo-o lançar um olhar inquieto ao redor. Colocou a pá, a picareta que ainda teria de usar, as luvas e a lanterna
ao lado da trouxa. Usar a lanterna era uma tentação, mas ele resistiu. Deixando ali o corpo e as ferramentas, tomou o caminho por onde viera e, cinco minutos depois,
chegou à cerca alta de ferro. Lá estava a Civic do outro lado da rua, estacionada junto ao meio-fio. Tão perto e, no entanto, tão distante.
Louis contemplou-o por um momento e depois se afastou numa direção diferente.
Desta vez se distanciou do portão, caminhando ao longo da grade até deixar a Rua Mason depois de uma volta em ângulo reto. Encontrou uma vala de drenagem e estremeceu
com o que viu. Dentro da vala havia montes de flores apodrecidas, camadas e mais camadas, lavadas pela chuva e pela neve.
Cristo.
Não, não Cristo. Aqueles restos estavam depositados para aplacar um Deus muito mais antigo que o dos cristãos. As pessoas o chamaram de diferentes nomes em épocas
diferentes, mas a irmã de Rachel dera-lhe um nome perfeitamente adequado: Oz, o Gande e Teível, Deus das coisas mortas no chão, Deus das flores podres em valas de
esgoto, Deus do Mistério.
Louis ficou olhando para a vala como hipnotizado. Por fim, desviou o olhar com um pequeno suspiro - o suspiro de alguém que foi despertado de um transe hipnótico
pelo final da contagem de dez a um.
Continuou. Não precisou andar muito mais para encontrar o que estava procurando, e suspeitou que sua mente estocara cuidadosamente a informação no dia do enterro
de Gage.
Assomando na escuridão batida pelo vento, ali estava a cripta do cemitério.
No inverno, quando o frio era muito grande e os coveiros não podiam cavar a terra congelada, os caixões ficavam guardados ali. A cripta era também usada quando
havia um número excessivo de funerais.
Louis sabia que de vez em quando ocorriam aquelas vagas de "desagradável freqüência"; em toda comunidade havia certas épocas em que, por motivos que ninguém
podia compreender, morria muita gente.
- Isso equilibra os negócios - dizia tio Carl. - Se tenho no inicio do ano um período de duas semanas em que não morre ninguém, Lou, posso contar que, mais dia
menos dia, terei outro período de duas semanas com dez funerais. Raramente o surto ocorre em novembro e nunca perto do Natal, embora as pessoas achem que morre muita
gente no fim do ano. Essas idéias sobre mortes no Natal são pura tolice. Pergunte a qualquer agente funerário. Em geral as pessoas estão realmente felizes na época
do Natal e querem viver. Por isso vivem. Em fevereiro é que temos um grande acréscimo de negócios. A gripe espanhola pega os velhos e, é claro, vira pneumonia...
Mas não é só isso. Há pessoas que conseguem combater o câncer como bastardos durante um ano, dezesseis meses. Então chega o velho e cruel fevereiro e é como se elas
se cansassem da luta. O câncer simplesmente as embrulha como um tapete. Em 31 de janeiro, estão a pleno vapor, atingem o máximo da vontade de viver. A 24 de fevereiro
já estão enterradas. As pessoas têm ataques do coração em fevereiro, derrames em fevereiro, colapso renal cm fevereiro. É um mês bem ruim. As pessoas estão exaustas
em fevereiro. Em nosso negócio, estamos acostumados a isso... E em junho ou outubro, sem qualquer razão aparente, acontece a mesma coisa. Jamais em agosto. Os negócios
em agosto andam bem devagar. A não ser que haja uma explosão de gasômetro ou um ônibus urbano caia de uma ponte, nunca se chega a preencher uma cripta. de cemitério
em agosto. Mas já tivemos fevereiros em que os caixões se empilhavam em três camadas na cripta. Ficávamos loucos à espera de um degelo para que pudéssemos enterrar
alguns antes de ser preciso alugar uma merda de um anexo qualquer.
Tio Carl rira. E Louis, vendo que compartilhava de segredos que nem mesmo seus professores na faculdade de medicina sabiam, também tinha rido.
As portas duplas da cripta estavam encaixadas numa elevação cheia de relva, uma forma tão natural e atraente quanto um contorno de seio de mulher. O topo da
elevação (que Louis suspeitava fosse escavada, não natural) ficava apenas cerca de meio metro abaixo das decorativas pontas em forma de flecha das grades de ferro
(as grades permaneciam na mesma altura; não acompanhavam a elevação que abrigava a cripta).
Olhou em volta e escalou a encosta. Do outro lado havia um trecho vazio de terreno, talvez uns dois acres de área. Não... não de todo vazio. Havia uma construção
isolada, uma espécie de galpão. Evidentemente pertence ao cemitério, pensou. Devia ser ali que guardavam o equipamento.
Os lampiões brilhavam através das folhas agitadas de um cinturão de árvores (olmos e bordos antigos). As árvores escondiam a área da Rua Mason. Louis não viu
outros movimentos a não ser os do vento.
Sentou no chão e desceu a colina escorregando, com medo de cair e machucar ainda mais o joelho. Voltou para o túmulo do filho.
Quase tropeçou na trouxa de lona. Percebeu que teria de fazer duas viagens, uma com o corpo e outra com as ferramentas. Curvou-se, fazendo uma careta ante o
protesto das costas, e segurou nos braços o rígido embrulho de Gage. Pôde sentir o corpo de Gage escorregar um pouco lá dentro e ignorou absolutamente aquela parte
de sua mente murmurando sem parar que ele havia enlouquecido.
Carregou o corpo até a base da elevação que alojava a cripta do Boa Vista (as duas portas de correr, de aço, davam à cripta um aspecto bizarro de garagem para
dois automóveis). Percebeu que não seria nada fácil transportar aquele embrulho de vinte quilos pela encosta Íngreme, mas preparou-se para executar a façanha. Tomou
distância, pôs a trouxa no ombro e correu em direção à encosta, o corpo inclinado para a frente. Esperava que o impulso o levasse o mais longe possível.
Tinha chegado quase ao topo quando o pé deslizou na relva baixa, escorregadia. Ao cair, porém, tentou atirar o embrulho de Gage o mais alto possíveL O embrulho
atingiu quase a crista da elevação. Louis acabou de subir rastejando, olhou de novo ao redor, não viu ninguém e colocou a trouxa de lona ao lado da cerca. Depois
voltou para pegar o resto das coisas.
Conseguiu chegar de novo ao topo do monte, desta vez com as ferramentas. Calçou as luvas e empilhou junto da trouxa de lona a lanterna, a picareta e a pá. Então
descansou um pouco, encostado nas grades, as mãos segurando os joelhos. O novo relógio digital que Rachel lhe dera no Natal informava que eram duas horas e um minuto.
Concedeu a si mesmo cinco minutos para recuperar o fôlego. Depois se levantou e atirou a pá pela cerca. Ouviu o baque na relva. Tentou enfiar a lanterna num
dos bolsos da calça, mas ela não cabia. Fez então a lanterna deslizar entre duas das grades de ferro e ouviu-a rolar, esperando que não batesse numa pedra e quebrasse.
Lamentou não ter trazido uma mochila.
Tirou o rolo de fita gomada do bolso da jaqueta e amarrou o cabo da picareta na trouxa de lona, dando voltas e voltas para que ficasse bem justo. Continuou dando
voltas até a fita acabar; depois tornou a enfiar o rolo vazio no bolso. Ergueu o embrulho, colocou-o do outro lado da cerca (suas costas protestaram estalando; desconfiou
que teria de pagar por toda a semana seguinte os exercícios daquela noite).Estremeceu ao escutar o baque surdo.
Finalmente passou uma das pernas pela cerca, segurou-se em duas das decorativas pontas de flecha e passou a outra perna. Derrapou um pouco, deixando as pontas
dos sapatos marcadas na terra.
Do outro lado das grades, escorregou pela elevação e caiu na relva. Encontrou de imediato a pá - sob o clarão dos lampiões através das árvores, havia um débil
reflexo em sua lâmina. Passou por maus momentos ao não conseguir achar a lanterna (até onde ela podia ter rolado?). Ficou de quatro e procurou no meio do mato, a
respiração e as batidas do coração estourando nos ouvidos.
Finalmente a encontrou, uma pequena sombra negra, cerca de um metro e meio além do ponto em que pensou que estivesse - assim como a elevação camuflando a cripta
do cemitério, a regularidade daquela forma era notável. Apanhou-a, fechou a mão sobre o feltro que amortecia sua luz e empurrou a pequena çobertura de borracha que
escondia o comutador. A luz se acendeu brevemente na palma da mão. A lanterna estava em ordem.
Usou o canivete para soltar a picareta da trouxa de lona e levou as ferramentas para junto das árvores. Parou atrás da árvore maior, olhando para os dois lados
da Rua Mason. Agora parecia extremamente deserta. Viu apenas uma janela iluminada em toda a rua, um quadrado de luz amarela num sobrado. Talvez alguém sofrendo de
insônia, ou um inválido.
Andando depressa, mas sem correr, passou à calçada. Depois da obscuridade do cemitério, sentiu-se terrivelmente exposto sob a luz dos lampiões; afinal, estava
ao lado do segundo maior cemitério de Bangor, segurando uma picareta, uma pá e uma lanterna. Se alguém o visse, a sugestão seria demasiado óbvia para passar em branco.
Começou a cruzar rapidamente a rua, os passos ecoando. Lá estava a Civic, só cinqüenta metros mais abaixo. Parecia, no entanto, estar a mais de cinco quilômetros.
Continuou andando, o suor escorrendo, atento ao som de algum automóvel, ao barulho áspero de alguma janela se abrindo, a passos diferentes dos seus.
Quando chegou ao carro, apoiou a pá e a picareta no pára-lama e remexeu os bolsos em busca das chaves. Não estavam lá, em nenhum dos bolsos. Novas ondas de suor
irromperam em seu rosto. O coração voltou a disparar, os dentes cerrados tentaram afastar o pânico que ameaçava saltar sobre ele.
Tinha perdido as chaves, muito provavelmente quando caiu do galho da árvore, bateu com o joelho na lápide e rolou pelo chão. As chaves estariam no meio da relva;
mas se tivera dfficuldades em achar a lanterna, como ia conseguir recuperar as chaves? Estava acabado. Um momento de azar e tudo estava acabado.
Mas espere, espere só um maldito minuto. Veja outra vez se não estão em algum bolso. As moedas não caíram... E se as moedas não caíram, as chaves também não.
Desta vez remexeu os bolsos mais devagar, tirando primeiro as moedas, chegando a virá-los pelo avesso.
Nada de chaves.
Apoiou-se no carro, sem saber o que fazer. Sem dúvida teria de escalar de novo a cerca do cemitério, deixar o filho ali, pegar a lanterna, subir de novo na árvore
e passar o resto da noite numa busca insana das...
Subitamente uma luz entrou em sua mente cansada. Abaixou-se e olhou dentro da Civic. Lá estavam as chaves penduradas na ignição.
Deixou escapar um grunhido abafado, correu para o lado do volante, abriu a porta e tirou as chaves. Subitamente ouviu em sua mente a voz autoritária de Karl
Malden, aquela sombria figura paterna com nariz de batata e um antiquado chapéu de aba caída: Tranque o carro. Leve as chaves. Não ajude a tentar o ladrão.
Fez a volta pela traseira da Civic e abriu o bagageiro. Pôs lá dentro a picareta, a pá, a lanterna e fechou. Já tinha se afastado uns dez metros do carro quando
se lembrou das chaves. Desta vez as esquecera penduradas na fechadura do bagageiro.
Estúpido, repreendeu a si mesmo. Se vai continuar agindo de uma forma tão estúpida, é melhor não fazer mais nada!
Voltou e apanhou as chaves.

Tinha pegado Gage nos braços e andado mais da metade do caminho de volta à Civic quando um cachorro começou a latir. ..... . Na realidade, não começou a latir.
Começou a uivar, um áspero gemido enchendo a Rua Mason. Au-aa-UUUUU! Au-aa-UUUUUUU!
Escondeu-se atrás de uma árvore, se perguntando o que ia acontecer, se perguntando o que fazer. Esperou que começassem a acender as luzes de cima a baixo na
rua.
Na realidade, só uma luz se acendeu, numa casa bem em frente às sombras onde estava escondido. Pouco depois, uma voz rouca gritou:
- Cala a boca,Fred!
- Au-aa-UUUUUU! - Fred respondeu.
- Faça-o calar, Scanlon, ou vou chamar a polícia! - alguém gritou do lado onde Louis estava, fazendo-o pular, fazendo-o perceber como era falsa a ilusão de vazio
e desolação. Havia gente por toda a volta, centenas de olhos, e aquele cachorro estava tirando-lhes o sono, seu único cúmplice. Maldito seja você, Fred, ele pensou.
Oh, maldito seja!
Fred começou outro coro. Entrou primorosamente pelo Au-aa, mas antes que pudesse emendar num bom e sólido UUUUUU houve um som forte e vigoroso seguido por uma
série de lamúrias e ganidos baixos.
O silencio foi seguido pelo débil bater de uma porta. A luz lateral na casa do dono de Fred continuou acesa por um instante, depois foi apagada.
Louís se sentiu fortemente inclinado a permanecer na sombra, esperando; sem dúvida seria melhor esperar que o tumulto cessasse por completo. Mas o tempo passava
depressa.
Atravessou a rua com a trouxa e aproximou-se da Civic, não vendo absolutamente ninguém. Fred continuou calado. Segurou a trouxa numa das mãos, pegou as chave,
abriu o bagageiro.
Gage não cabia.
Tentou colocar a trouxa verticalmente, depois na horizontal, depois na diagonal. O bagageiro da Civic era pequeno demais. Podia ter dobrado e imprensado a trouxa
(Gage não ia se importar), mas simplesmente não conseguiria fazer isso.
Vamos, vamos, vamos, saia logo daqui, não perca mais tempo.
Mas ficou parado, perplexo, nenhuma idéia na cabeça, a trouxa com o cadáver do filho nos braços. Então ouviu o motor de um carro se aproximando e, sem pensar
duas vezes, levou a trouxa para o banco ao lado do motorista e acomodou-a no assento.
Fechou a porta, fez a volta pela traseira da Civic, bateu a tampa do bagageiro. O carro passou correndo na esquina e Louis ouviu a balbúrdia de vozes embriagadas.
Instalou-se atrás do volante, deu partida no motor, e estava estendendo a mão para acender os faróis quando foi atingido por um pensamento terrível. E se Gage
estivesse ao contrário, sentado ali com os joelhos e os quadris do lado errado, os olhos encovados fitando a janela de trás em vez do pára-brisas?
Não importa, sua mente respondeu com uma fúria estridente nascida da exaustão. Ainda vai querer se preocupar com isso? Simplesmente não importa!
Mas importa. Realmente importa. É Gage quem está aí. Isso não é uma trouxa de toalhas!
Estendeu a mão e começou a passá-la delicadamente pela superfície da lona, procurando sentir os contornos que havia embaixo. Era como um cego tentando determinar
a forma de um objeto. Por fim atingiu uma saliência que só poderia ser o nariz de Gage. Estava voltado na direção correta.
Só então conseguiu pôr a Civic em movimento e dar início aos vinte e cinco minutos da viagem de volta a Ludlow.


A uma hora daquela madrugada, o telefone de Jud Crandall tocou, ecoando na casa vazia, deixando-o bem desperto. Sonhara em seu cochilo, e no sonho era de novo
um rapaz de vinte e três anos, sentado no banco de uma plataforma da estrada de ferro com George Chapin e René Michaud. Os três passavam entre si uma garrafa de
uísque Georgia Charger (destilado clandestinamente, mas com um selo fiscal estampado no rótulo), enquanto lá fora um vento nordeste enchia o mundo com seu gemido
indecente, silenciando tudo que se movia, inclusive os trens da estrada de ferro B&A.
Continuaram ali sentados, bebendo ao lado da barriguda locomotiva D.flant, vendo o clarão vermelho dos carvões prolongar-se e ondular na atmosfera, as chamas
que lembravam diamantes lançando sombras na plataforma. Contavam as anedotas que os homens guardam anos, como aqueles tesouros de trastes de quintal que os garotos
conservam debaixo das camas; anedotas reservadas para noites como aquela. Como o darão da Deflant, eram histórias sem muitos detalhes, com um darão avermelhado no
centro de cada uma delas e o vento a envolvê-las. Tinha vinte e três anos e Norma estava muitíssimo viva (embora sem dúvida já estivesse na cama, não esperaria por
ele numa noite selvagem dessas); René Michaud estava contando o que houve com um camelô judeu em Bucksport que...
Foi quando o telefone começou a tocar e ele pulou na cadeira, assustado com a rigidez do pescoço, sentindo uma amarga sensação de peso cair dentro dele como
uma pedra - eram, pensou, todos aqueles anos entre os vinte e três e os oitenta e três, todos aqueles sessenta anos, pesando ao mesmo tempo. E no rastro daquele
pensamento: Você se deixou dormir, rapaz. Isso não é maneira de vigiar esta estrada... Não hoje.
Levantou-se, lutando contra a rigidez que também se instalara em suas costas, e foi até o telefone.
Era Raquel.
- Jud? Ele já veio, pra casa?
- Não - disse Jud. - Onde você está? Sua voz parece mais perto.
- Estou mais perto.
Embora a voz realmente parecesse mais perto, havia um rumor distante no fio. Era o barulho do vento, em algum lugar entre a casa de Jud e onde quer que Rachel
estivesse. O vento estava barulhento naquela noite. Um som que sempre fazia Jud pensar em vozes de mortos, suspirando em coro, talvez cantando alguma coisa distante
demais para ser compreendida.
- Estou perto de um posto de pedágio em Biddeford, na auto-estrada do Maine.
- Biddeford!
- Não pude ficar em Chicago. A coisa também estava me atingindo.., O que quer que tenha atingido Ellie, também me atingiu. E você também Jud. Você também sente.
Está em sua voz.
- Pois é.
Ele tirou um Chesterfield do maço e colocou-o no canto da boca. Acendeu com um piparote o fósforo e viu-o bruxulear enquanto as mãos tremiam. Suas mãos não costumavam
tremer - pelo menos não antes daquele pesadelo ter começado. Ouvia as sombrias rajadas de vento do lado de fora. O vento pegava a casa em suas garras e a sacudia.
A força está aumentando. Posso sentir isso.
Vago terror em seus velhos ossos. Um terror como cristal, fino e fraco.
- Jud, por favor, diga o que está acontecendo!
Achava que Rachel tinha o direito de saber... necessidade de saber. E achava que ia lhe contar. Finalmente ia lhe contar toda a história. Mostraria a Rachel
aquela cadeia que fora se forjando elo por elo. O ataque do coração de Norma, a morte do gato, a pergunta de Louis (alguém já enterrou uma pessoa lá em cima?), a
morte de Gage.... E só Deus sabia que novo elo Louis podia estar forjando naquele momento. Finalmente ia lhe contar. Mas não pelo telefone.
- Rachel, como você acabou numa estrada em vez de vir de avião?
Ela explicou como perdera a conexão em Boston.
- Aluguei um carro da Avis, mas estou demorando mais do que pensei. Perdi muito tempo para ir do aeroporto à entrada da rodovia. Só agora atravessei a fronteira
do Maine. Acho que não vou conseguir chegar antes do amanhecer. Mas Jud... por favor. Por favor me diga o que está havendo. Estou tão assustada e nem ao menos sei
por quê.
- Rachel, preste atenção - disse Jud -, vá até Portiand e passe a noite lá, está me ouvindo? Encontre um hotel e procure...
- Jud, eu não posso fazer is...
- ... e procure dormir algumas horas. Não fique aflita, Rachel. Pode ser que alguma coisa esteja acontecendo hoje à noite, mas também pode ser que não. Se algo
estiver acontecendo (se é o que eu penso), sem dúvida você não ia querer estar aqui. Acho que posso cuidar do assunto. E é minha obrigação, porque o que está acontecendo
é culpa minha. E talvez nem haja nada. Chegue aqui amanha à tarde e tudo estará bem. Acho que Louis vai ficar muito contente em se encontrar com você.
- Não vou conseguir dormir, Jud.
- Vai - disse ele, ponderando que todos achavam que não iam dormir; foi o caso dele e provavelmente também o de Pedro, na noite em que Jesus foi preso. Dormir
num posto de sentinela! - Vai conseguir, Rachel. Se cochilar no volante desse maldito carro alugado, se sair da estrada e se matar, o que vai ser de Louis? E de
Ellie?
- Diga o que está acontecendo! Se me disser, Jud, talvez siga seu conselho. Mas tenho de saber!
Quando chegar a Ludlow, quero que venha direto pra cá - disse Jud. - Não para sua casa. Venha aqui primeiro. Vou lhe contar tudo que sei, Rachel. Não se preocupe,
eu estou à espera de Louis.
- Conte - disse ela.
- Não senhora. Não ao telefone. Não vou contar, Rachel Não posso. Vá agora. Vá para Portland e passe a noite num hotel.
Houve uma pausa longa, meditativa.
- Tudo bem - ela disse por fim. - Talvez você tenha razão. Mas pelo menos me diga uma coisa, Jud. É muito grave?
- Posso cuidar do assunto - Jud respondeu num tom calmo. - As coisas não serão piores do que têm de ser.
Os faróis de um carro surgiram lá fora, movendo-se devagar. Jud começou a se levantar, deu uma espiada, mas tornou a sentar quando o veículo ultrapassou a casa
dos Creed e sumiu ao longe.
- Tudo bem - disse Rachel. - Eu acho. Desde o início da viagem estou me sentindo como se tivesse uma pedra na cabeça.
- Deixe a pedra rolar, querida - disse Jud. - Por favor. Poupe-se para amanhã. As coisas aqui vão ficar bem.
- Promete que vai contar toda a história?
- Prometo. Tomamos uma cerveja e vou lhe contar a coisa toda.
- Então até logo - disse Rachel. - Mas amanhã...
- Amanhã - Jud concordou. - Amanha conversamos, Rachel.
Antes que ela tivesse tempo de dizer mais alguma coisa, Jud desligou.

Achou que havia comprimidos de cafeína no armário do banheiro, mas não conseguiu encontrá-los. Pôs o resto da cerveja na geladeira (não sem lamentar) e preparou
uma xícara de café. Levou-a para o parapeito da janela e sentou-se de novo, sorvendo o café e vigiando a estrada.
O café e a conversa com Rachel mantiveram-no desperto e alerta por três quartos de hora, mas de repente sua cabeça começou a cair de novo.
Nada de dormir no posto de sentinela, meu velho. Deixou a coisa tomar conta de você; procurou encrencas e agora tem de pagar por elas. Então, nada de dormir
no cumprimento do dever.
Acendeu um novo cigarro, tragou profundamente e puxou uma tosse áspera de velho. Pôs o cigarro na beira do cinzeiro e esfregou os olhos com ambas as mãos. Um
caminhão de dez rodas passou ruidosamente, luzes correndo pela estrada, avançando através da noite incômoda, cortada de ventanias.
Apanhou-se cochilando de novo, pulou na cadeira e esbofeteou o próprio rosto com as palmas e as costas das mãos, fazendo os ouvidos vibrarem. Agora o terror
lhe apertava o coração, visitante furtivo que se introduzira no fundo de seu peito.
Alguma coisa está querendo me fazer dormir... me hipnotizando... Não quer que eu fique acordado. Porque ele logo estará de volta. Sim, eu sinto isso. E alguma
coisa quer me deixar fora do caminho.
- Não - falou num tom severo. - De modo algum. Está me ouvindo? Vou pôr um paradeiro nisto. Isto já foi longe demais.
O vento gemia em volta dos beirais do telhado e as árvores do outro lado da estrada agitavam as folhas em padrões hipnóticos. Sua mente voltou para aquela noite
junto da chaminé da Defiant na plataforma da estrada de ferro (ficava no lugar onde é agora o Empório de Móveis Evarts em Brewer). Tinham conversado a noite inteira,
ele, George e René Michaud. Era o único que tinha sobrado... René foi esmagado entre dois vagões de carga, numa noite de tempestade em março de 1939; George Chapin
morreu de um ataque cardíaco no ano passado. Entre tanta gente, ele foi o único que sobrou, e os velhos ficam estúpidos. As vezes a estupidez se mascara como benevolência,
às vezes como orgulho - uma necessidade de contar antigos segredos, de passar as coisas adiante, coá-las do velho pote para um novo recipiente...
Então o camelô judeu entrou e disse: "Tenho uma mercadoria que vocês nunca viram. Esses postais aqui, vejam, parecem mulheres na praia, com roupa de banho, até
que a gente esfrega com um pano úmido e...

A cabeça de Jud caiu. O queixo se acomodou devagar, suavemente, no peito.
..... elas aparecem nuas como no dia em que vieram ao mundo! Mas quando as roupas secarem, voltarão a aparecer vestidas! E isso ainda não é tudo! Tenho..."
René contando esta história na plataforma da estrada de ferro, o corpo inclinado para a frente, sorrindo, e Jud segurando a garrafa. Ele sentia a garrafa e suas
mãos se fecharem no ar em torno do gargalo.
No cinzeiro, a brasa na ponta do cigarro ficava cada vez maior. Por fim, caiu e apagou, sua forma se acrescentando ao caprichado monte de cinzas como um signo
mágico.
Jud dormia.
E quarenta minutos mais tarde, quando as luzes traseiras da Civic piscaram lá fora e Louis dobrou à direita entrando com o carro na garagem, Jud não ouviu nada,
não se mexeu nem acordou, assim como Pedro não acordou quando os soldados romanos vieram prender um vagabundo chamado Jesus.


Louis encontrou um novo rolo de fita gomada numa das gavetas da cozinha. Havia também um rolo de corda no canto da garagem, perto dos pneus que tirara da Civic
no último inverno. Usou a fita para amarrar a picareta com a pá, formando uma trouxa. Usou a corda para fazer uma espécie de linga.
Ferramentas na linga. Gage nos braços.
Prendeu a linga nas costas, depois abriu a porta da Civic, puxando o fardo de Gage. O menino pesava muito mais que Church. Talvez chegasse rastejando ao cemitério
micmac e ainda teria de cavar o túmulo, lutando para abrir o buraco no solo pedregoso, implacável.
Bem, ia conseguir. De algum modo ia conseguir.
Louis Creed saiu da garagem, parando para desligar a luz com o cotovelo, parando outra vez no ponto onde o asfalto se transformava em grama. À sua frente, podia
ver o caminho que conduzia ao "simitério" de bichos. Estava bem nítido apesar da escuridão. Forrado de relva rasteira, o caminho brilhava com uma espécie de fosforescência.
O vento enfiava os dedos entre seus cabelos, embaraçando..os. Por um instante, o velho medo infantil do escuro correu-lhe pelo corpo, fazendo-o se sentir
fraco, pequeno, aterrorizado. Ia realmente entrar nos bosques com aquele cadáver nos braços, caminhar sob as árvores batidas pelo vento, passar de sombra a sombra?
E desta vez sozinho?
Não pense mais nisso. Apenas faça.
Louis começou a andar.

Vinte minutos depois, quando chegou ao "simitério" de bichos, seus braços e pernas tremiam de cansaço. Ele se deixou cair numa pedra com a trouxa de lona nos
joelhos, ofegando. Descansou ali por mais vinte minutos, quase cochilando, não sentindo mais medo (a exaustão parecia ter afugentado o medo).
Por fim pôs-se outra vez de pé, não acreditando muito que conseguisse escalar os troncos caídos, mas percebendo de modo um tanto vago que precisava tentar. A
trouxa parecia estar pesando cem quilos em vez de vinte.
Mas o que aconteceu da primeira vez aconteceu de novo; foi como recordar vividamente um sonho. Não, não recordar, reviver. Quando pôs o pé no primeiro tronco
de árvore caído, aquela estranha sensação invadiu-o de novo, uma sensação de quase júbilo. A fraqueza não o abandonou, mas tornou-se suportável - na realidade, sem
importância.
Venha atrás de mim. Venha atrás de mim e não olhe pra baixo, Louis. Náo hesite e não olhe pra baixo. Conheço o caminho, mas temos de atravessá-lo com passo firme,
e depressa.
Sim, depressa e com firmeza, o modo como Jud tirara o ferrão da abelha.
Conheço o caminho.
Mas havia apenas um modo de seguir aquele caminho. Louis pensou. Ou ele se deixa atravessar ou não. Certa vez tentara escalar sozinho os troncos caídos e não
conseguira. Agora, porém, subiu com rapidez e segurança, como tinha feito na noite em que Jud o levara até lá.
Sempre subindo, não olhando para baixo, o corpo do filho em seu sudário de lona estendido nos braços. Subindo até o vento descobrir passagens e câmaras secretas
em seu cabelo, fazendo-o espigar, repartindo-o em direções diferentes.
Ficou lá no alto por um instante e logo começou a descer, o passo rápido, como se descesse um lance de degraus. A picareta e a pá tilintavam e chocalhavam em
suas costas. Em não mais de um minuto chegava de novo ao solo fofo e coberto de gravetos da trilha, o monte de troncos por trás das costas, mais alto que a cerca
do cemitério.
Avançou com o filho nos braços, ouvindo o gemido do vento entre as árvores. Agora aquele som não lhe trazia terror. O trabalho da noite estava quase concluído.


Rachel Creed ultrapassou a placa dizendo Saída 8 Mantenha a Direita para Portland Westbrook, ligou a seta e guiou o Chevette da Avis para a pista de desvio.
Podia ver com nitidez o luminoso verde contra o céu noturno: Holiday Inn. Uma cama, dormir. Um fim para aquela tensão continua, torturante. Um fim (ao menos por
algum tempo) para a saudade mortificante do filho que não estava mais a seu lado. Aquela dor, ela descobrira, era semelhante a das grandes extraçôes dentárias. De
início havia um entorpecimento, mas através dele se podia sentir a dor emboscada, a dor esperando sua vez como um gato com a cauda no ar. E quando passava o efeito
da novocaina, oh, sem dúvida a pessoa não ficava desapontada.
Disse que foi mandado para ....... mas não podia interferir. Disse que estava perto do pai porque os dois estavam juntos quando a alma dele desencarnou.
Jud sabe, mas não quer dizer. Alguma coisa está acontecendo. Alguma coisa.O quê?
Suicídio? Será suicídio? Não Louis; não posso acreditar.., mas ele estava mentindo. A mentira estava estampada nos olhos ..... . Oh, merda, cobria todo o seu
rosto, como se ele quisesse que eu descobrisse.., que eu descobrisse e desse um fim à brincadeira... Porque uma parte dele estava com medo... com muito medo.
Com medo? Louis nunca tem medo!
Subitamente deu uma guinada para a esquerda com o volante do Chevette. O carro teve aquela resposta abrupta, comum aos carros pequensos, pneus guinchando no
asfalto. Por um instante, pareceu que ia capotar. Mas não chegou a tanto. E ela seguiu de novo para o norte, a saída 8, com o confortável Holiday Inn sumindo no
retrovisor.
Viu uma nova placa, um brilho estranho de tinta fosforescente.
PRÓXIMA SAÍDA RODOVIA 12 CUMBERLAND CENTRO DE CUMBERLAND ÁREA DE JERUSALÉM FALMOUTH NORTE DE FALMOUTH.
Área de Jerusalém, ela pensou distraída, que nome estranho. Por alguma razão não é um nome agradáveL.. Venha dormir em Jerusalém...
Mas não dormira naquela noite! Apesar do conselho de Jud, estava agora disposta a dirigir até chegar em casa. Jud sabia o que havia de errado e prometera por
um ponto final na. coisa, mas o homem tinha oitenta e poucos anos e perdera a esposa há apenas três meses. Não depositava grandes esperanças em Jud. Jamais devia
ter permitido que Louis a empurrasse para fora de casa, mas ficara muito abatida com a morte de Gage. E Ellie.... Ellie com o retrato do irmão no trenó, o rosto
desfigurado, era a imagem de uma criança que tivesse sobrevivido a um tornado ou às bombas de caças de mergulho caindo do azul do céu. Em certos momentos, na sombria
vigília da noite, quase chegou a odiar Louis pela dor que ele estava provocando, por não lhe ter proporcionado o consolo de que ela precisava (nem ter permitido
que ela o consolasse), mas não pôde. Ainda o amava muito e o rosto dele parecera tão pálido.., tão temeroso...
O ponteiro do velocímetro estabilizou-se um pouco à direita dos cem por hora. Mais de um quilômetro e meio por minuto. Talvez duas horas e quinze minutos até
Ludlow. Talvez ainda conseguisse chegar antes do nascer do sol.
Tateou pelos botões do rádio, encontrou uma estação de Portland transmitindo rock. Aumentou o volume e cantou junto, procurando se manter acordada. Uma hora
depois, a estação começou a fugir e ela passou para uma emissora de Augusta. Baixou a janela e deixou o vento forte do ar noturno bater em seu rosto.
Teve vontade de saber se aquela noite ia mesmo terminar.


Louis redescobrira seu sonho e estava em suas malhas; a cada momento olhava para baixo, certificando-se de que carregava o corpo num pedaço de lona, não num
saco verde do inferno. Lembrou-se que ao despertar na manhã seguinte à jornada que fizera com Church até lá em cima, mal conseguiu recordar o que tinha feito...
Agora, porém, lembrava muito bem como as sensações tinham sido nítidas, com que intensidade foram experimentadas pelos seus sentidos, como pareceu vivenciar o bosque
como se o bosque fosse uma coisa viva, numa espécie de contato telepático com ele.
Seguia o caminho, subindo e descendo, redescobrindo os pontos onde parecia tão largo quanto a Rodovia 15, onde se estreitava até obrigá-lo a andar de lado para
manter a trouxa livre dos arbutos, onde serpenteava através de grandes e altas catedrais de árvores. Podia sentir o aroma forte da resina de pinho e ouvir o estranho
amassar dos gravetos na sola dos pés - uma sensação bem mais concreta do que um mero som.
Por fim, a trilha começou a se inclinar para baixo de forma mais Ingreme e constante. Pouco depois um dos pés chapinhou em água empoçada, quase atolando no solo
coberto de lodo.., areia movediça, se a informação de Jud fosse digna de crédito. Louis olhou para baixo e viu a água estagnada entre punhados de juncos e arbustos
rasteiros, feios, com folhas tão grandes que pareciam tropicais. Lembrou que também naquela outra noite a luz parecera mais brilhante. Mais carregada de eletricidade.
Este trecho é como a passagem dos troncos. Você precisa andar com passo firme e sem se afobar. Venha atrás de mim e não olhe pra baixo.
Sim, está bem... E aliás alguma vez viu plantas como essas no Maine? No Maine ou em qualquer outra parte? O que pelo amor de Deus são essas plantas?
Não importa, Louis. Simplesmente... continue.
Começou de novo a andar, olhando para o solo úmido, pantanoso, até ver a primeira moita. Depois passou a olhar só para a frente, os pés se movendo de um monte
de relva a outro. Fé é aceitar a gravidade como um postulado, ele pensou. Não aprendera aquilo num curso universitário de teologia ou filosofia, era uma frase que
um dia seu professor de física do colégio lançara no fim da aula.., algo que Louis nunca esqueceu.
Aceitava a capacidade que tinha o cemitério micmac de ressuscitar os mortos e avançava pelo Pequeno Pântano de Deus com o filho nos braços, sem olhar para baixo
ou para trás. Aqueles trechos pantanosos estavam mais barulhentos do que no final do outono. Pererecas faziam ruído entre os juncos, um coro estridente que Louis
achou estranho e nada agradável. Vez por outra, uma rã tangia uma corda grave no fundo da garganta. Não havia avançado mais que uns vinte passos no Pequeno Pântano
de Deus quando alguma coisa começou a esvoaçar com extrema velocidade em torno dele... Talvez um morcego.
A névoa rasteira também começou a rodopiar a seu redor, primeiro cobrindo-lhe os sapatos, depois as pernas, encerrando-o por fim numa luminosa cápsula branca.
A névoa parecia ainda mais brilhante que da outra vez, um fulgor que pulsava como a batida de estranho coração. Jamais sentira tão intensamente a presença da natureza,
uma espécie de força aglutinante, um ser real... possivelmente consciente. O pântano estava vivo, mas não num sentido abstrato. Se lhe pedissem para definir a qualidade
ou natureza daquela vitalidade, não seria capaz. Sabia apenas que era cheia de potencialidades e estava impregnada de energia. No meio dela, Louis se sentia muito
pequeno e muito mortal.
E de repente ali estava aquele som. Também já o ouvira da primeira vez: um riso alto, gorgolejante, que ia se transformando num soluço. Houve silêncio. Depois
o riso voltou, agora na forma de um guincho enlouquecido, que fez o sangue de Louis se congelar nas veias. A névoa deslizava como num sonho ao seu redor. O riso
se extinguiu, deixando apenas o roncar do vento, ouvido, mas já não sentido. Era claro que aquele terreno tinha de ser uma espécie de redoma geológica sobre a Terra.
Se o vento pudesse penetrar ali, teria esfarrapado a névoa. (E Louis não estava muito convencido de que gostaria de ver o que havia atrás dela.)
Você também pode ouvir sons parecidos com vozes, mas são apenas as gralhas do Sul, lá para os lados de Prospect. O som chega até aqui. É engraçado.
- Gralhas - disse Louis e mal reconheceu o som estranho, um tanto fantasmagórico, da própria voz. Mas sentia-se bem. Deus o estava ajudando, ele realmente se
sentia bem.
Hesitou um pouco e depois continuou. Como se para puni-lo daquela breve pausa, o pé escorregou numa moita e ele quase ficou sem sapato. A custo tirou o pé do
limo viscoso da poça d'água.
O riso (se é que era um riso) voltou de novo, desta vez pela esquerda. Momentos depois veio por trás dele.., diretamente por trás dele. Talvez Louis pudesse
se virar e ver, a menos de trinta centímetros de suas costas, uma coisa horripilante, de dentes arreganhados e olhos brilhantes... Mas desta vez nem diminuiu o passo.
Continuou avançando, olhando sempre à frente.
Subitamente, a névoa perdeu a luminosidade e Louis percebeu que havia um rosto no ar, olhando com malícia, fazendo sons esquisitos com a boca. Os olhos, puxados
para cima como numa pintura clássica chinesa, eram uma coisa cinzenta e amarelada, funda, brilhante. A boca estava contorcida num ricto, o lábio inferior parecia
virado pelo avesso, revelando dentes com manchas escuras ou corroídos até as raízes. Mas o que mais o impressionou foram as orelhas, que não eram absolutamente orelhas,
mas chifres curvados... Não eram como chifres do diabo, eram como chifres de carneiro.
Aquela cabeça medonha, flutuante, parecia estar.., falando, ou melhor, rindo. A boca se movia, embora o lábio virado ao contrário nunca voltasse à sua forma
e lugar naturais. Veias palpitavam. As narinas pareciam chamejantes, cheias de vida e respiração, exalando uma fumaça branca.
Quando Louis chegou mais perto, a língua pendeu pela boca. Era muito comprida e pontuda, de uma coloração amarelo-escura. Estava coberta com escamas de pele
e uma delas saltou como a tampa de um poço, liberando um verme branco. A ponta da língua deslizou preguiçosamente no ar, ultrapassando o ponto onde a cabeça poderia
ter seu pomo-de-adão... A cabeça ria.
Segurou Gage com mais força, apertou-o de encontro ao peito, como se quisesse protegê-lo. Seus pés tropeçaram e começaram a deslizar na superfície escorregadia
da moita, onde dificilmente encontrariam um ponto de apoio.
Você pode ver o fogo-de-santelmo... Aquilo que os marinheiros chamam de fogo-fátuo. Tem formas engraçadas, mas não é nada. Se vir alguinas dessas formas e elas
o incomodarem, é só virar o rosto para, o outro lado...
A voz de Jud deu-lhe um novo ânimo. Voltou a lançar-se decididamente à frente, cambaleando a princípio, depois recuperando o equilíbrio. Não olhou para o lado,
mas reparou que o rosto (se fosse realmente um rosto e não apenas uma forma gerada pela névoa e por sua própria mente) parecia sempre se manter na mesma distância.
Segundos ou minutos mais tarde, simplesmente se dissolveu na névoa que ondulava ao redor.
Não era o fogo-de-santelmo.
Não, é claro que não. Aquele lugar estava cheio de espíritos, tenebrosamente repleto. O sujeito podia olhar em volta e ver uma coisa capaz de enlouquecê-lo.
Mas Louis não queria pensar mais nisso. Não era preciso pensar nisso. Não era preciso...
Alguma coisa estava se aproximando.
Louis parou completamente, atento ao ruído... ao inevitável ruido de aproximação. Sua boca se abriu, cada tendão que lhe sustentava o queixo simplesmente cedeu.
Era um som completamente diferente de tudo que já ouvira - um som com vida própria e um som enorme. De algum lugar nas vizinhanças, e cada vez mais perto dele,
os arbustos vinham se rompendo. Ouvia o estalar da vegetação sob a pressão de pés inconcebivelmente grandes. O solo de geléia começou a estremecer numa forte vibração.
Tomou consciência de que estava gemendo...
(ah, meu Deus oh, meu bom Deus o que é isso que está se aproximando através da névoa?)
e mais uma vez apertou Gage de encontro ao peito; percebeu que as pererecas e as rãs tinham silenciado, percebeu que o ar 4mido, nevoento, adquirira um cheiro
estranho e nauseante, como carne de porco estragada.
Não importa o que fosse, era imenso.
O rosto espantado e apavorado de Louis esticou-se cada vez mais, como se seguisse a trajetória de um foguete recém-disparado. A coisa avançava compactamente
em sua direção e ele ouviu o majestoso som de uma árvore - não um galho, mas uma árvore inteira - caindo perto.
Viu alguma coisa.
A névoa desenhou momentaneamente um contorno cinza-azulado, mas aquela forma difusa, mal definida, tinha quase vinte metros de altura. Não era uma sombra, não
parecia um fantasma sem substância, podia sentir o deslocamento do ar à sua passagem, podia ouvir o baque gigantesco de seus pés, a sucção do lodo à medida que eles
avançavam.
Por um instante, acreditou ter visto duas centelhas amarelo-alaranjadas no alto. Centelhas como olhos.
Então o som começou a se extinguir. E enquanto sumia, uma perereca gritou hesitante - uma. Mas foi respondida por outra. Uma terceira juntou-se à conversa, uma
quarta transformou-a numa animada discussão, uma quinta e uma sexta numa convenção de pererecas. Os sons do avanço da coisa (lento, mas não casual; talvez aquilo
fosse o pior de tudo, aquela sensação de caminhada consciente) iam se distanciando para o norte. Pouco a pouco... cada vez mais baixos ..... . desapareceram.
Por fim, Louis voltou a caminhar. Seus ombros e costas estavam enrijecidos por uma dor torturante. Uma camada de suor cobria-o do pescoço aos pés. Os primeiros
mosquitos da estação, recém-saídos do ovo e famintos, viram nele boa oportunidade para uma refeição tardia.
O vendigo, meu Deus, aquilo era o vendigo - a criatura que se move através do norte do país, a criatura que pode nos tocar e nos transformar em canibais. Era
isso. O vendigo passando a uns sessenta metros de mim.
Disse a si mesmo para não ser ridículo, para ser como Jud e afastar as especulações sobre o que pudesse ver ou ouvir além do "simitério" de bichos: eram gralhas,
era o fogo-de-santelmo, eram os gritos de uma torcida de time de futebol. Que fossem qualquer coisa, mas não criaturas que cambaleiam, rastejam, deslizam como cobra,
tropeçam pelo mundo. Que pensasse em Deus, na missa dos domingos, nos ministros episcopais com vestes brancas e brilhantes.., mas que não pensasse em horrores sombrios,
arrastando-se na face escura do universo.
Avançou carregando o filho e o solo voltou a se firmar sob seus pés. Pouco depois chegou a uma árvore caída. Na névoa que se fragmentara, a copa verde-escura
lembrava um espanador que a empregada de um gigante tivesse deixado cair.
A árvore estava partida (despedaçada). As lascas eram tão recentes que a polpa branca e amarela ainda drenava seiva. Louis tocou na seiva ao transpor a árvore.
Era quente. Do outro lado havia uma monstruosa depressão no terreno, que ele atravessou com dificuldade, agarrando-se com mãos e pés. Embora houvesse juníperos e
pés de louro esmagados na terra, recusou-se a acreditar que aquilo fosse uma pegada. Podia ter virado para trás e ver se era realmente o que parecia, mas não o fez.
Simplesmente continuou a andar, a pele fria, a boca quente e seca, o coração disparando.
Seus pés pararam de chapinhar no lodo. Por algum tempo, houve apenas o ruído seco dos gravetos de pinho. Depois caminhou sobre pedras. Estava chegando.
O solo começou a se elevar mais depressa. Louis bateu dolorosamente com a canela numa saliência. E não era apenas um pedaço de rocha. Ele esticou um dos braços
(o tendão do cotovelo, que ficara entorpecido, rangeu um pouco) e tocou-a.
Há degraus aqui. Talhados na rocha. Venha sempre atrás de mim. Agora só precisamos chegar ao topo.
Então começou a subir e a sensação de alegria voltou, de novo superando a exaustão (pelo menos até certo ponto). Não sentia medo enquanto galgava os degraus
sob o incessante rio de vento. Agora o vento estava mais forte, encrespando-lhe as roupas, fazendo as pontas do pedaço de lona que envolvia Gage baterem como tiros
de revólver, sacudirem como o alto da vela de um barco.
Inclinou a cabeça para trás e viu o fantástico esparramar de estrelas. Mas não reconheceu nenhuma das constelações e, perturbado, desviou o olhar. A seu lado
havia uma parede de rocha, não suave mas escarpada, cheia de fendas e saliências, assumindo aqui a forma de um barco, ali de um cão, acolá de um rosto de homem com
olhos fundos, severos. Mas os degraus que tinham sido talhados na rocha eram suaves.
Louis chegou ao topo e parou, a cabeça baixa, o corpo oscilando, o ar circulando com força pelos pulmões (que ardiam como bexigas cruelmente golpeadas). As costas
pareciam perfuradas por um grande caco de vidro.
O vento corria por seu cabelo como um dançarino, rugia em seus ouvidos como um dragão.
Parecia haver mais claridade. Será que da primeira vez o céu estava nublado ou ele simplesmente não se preocupara com isso? Não importa. Agora podia ver melhor
o platô, e isso foi suficiente para fazer um calafrio lhe rastejar pela espinha.
Era idêntico ao "simitério" de bichos.
Evidentemente você já sabia disso, sua mente suspirou enquanto ele observava as pilhas de pedras que outrora tinham servido como monumento fúnebre. Você sabia
disso, pelo menos suspeitava - não círculos concêntricos, mas uma espiral..
Sim. Ali no topo daquela mesa rochosa, voltada para a fria luz do luar e as distâncias escuras entre as estrelas, ali estava uma espiral gigantesca, feita pelo
que os antigos chamariam "mãos versáteis". Mas não havia mais monumentos fúnebres; todos tinham sido desfeitos quando as coisas enterradas lá embaixo voltaram â
vida.., e cavaram para sair. Contudo, as pedras tinham caído de maneira tal que a forma da espiral continuava nítida.
Será que alguém já viu isto aqui do ar?, Louis se perguntou ao acaso, pensando naqueles desenhos que uma tribo de índios ou algum outro grupo fizeram num deserto
da América do Sul. Será que alguém já viu isto aqui do ar, e se viu, o que terá pensado? Eu gostaria muito de saber.
Ajoelhou-se e, com um gemido de alívio, pousou o corpo de Gage no chão.
Por fim, o senso de responsabilidade começou a voltar. Usou o canivete para cortar a fita gomada que amarrava a picareta e a pá penduradas em suas costas. Elas
cafram no chão com um ruído metálico. Louis também se jogou no chão e esticou-se por um instante, braços e pernas abertos, olhando atônito para as estrelas.
O que era aquela coisa nos bosques? Louis, Louis, você acha mesmo que pode haver algo de bom no clímax de uma peça que tem entre seus personagens uma coisa daquelas?
Mas era tarde demais para voltar atrás e ele sabia disso.
E sem dúvida, argumentou consigo mesmo, tudo ainda pode correr muito bem. Não há ganho sem risco, e talvez não haja risco sem amor. Ainda tenho minha maleta,
tudo o que está no andar de baixo mas a da prateleira- de cima do banheiro, aquela que mandei Jud buscar na noite em que Norma teve o ataque do coração. Há seringas
ali e se alguma coisa acontecer... alguma coisa de ruim... ninguém precisa saber a não ser eu.
Seus pensamentos se dissolveram num monótono e inarticulado murmúrio de prece. As mãos procuraram a picareta e, ainda de joelhos, Louis começou a cavar. A cada
golpe da picareta, caía sem forças sobre o cabo, como um velho romano caindo sobre a espada. Mas pouco a pouco o buraco tomou forma e se aprofundou. Tirava as pedras
e empurrava distraído a maioria delas para o monte crescente de terra. Mas separava algumas.
Para o monumento.


Rachel deu tapas no rosto até ele começar a ficar vermelho. Mesmo assim, continuou sonolenta. Certa vez, quando a cabeça começou a cair e ela estremeceu tentando
se manter acordada (agora passava por Pittsfield e a estrada estava vazia), julgou, por uma fração de segundo, que dezenas de olhos a observavam, olhos prateados
e duros, piscando como chamas frias, ávidas.
Então eles se dissolveram nos pequenos espelhos das cercas do acostamento. O Chevette tinha saído da estrada.
Deu uma guinada para a esquerda e os pneus guincharam. Acreditou ter ouvido um leve baque. Talvez o pára-choque dianteiro tivesse batido de lado numa daquelas
aparas. O coração lhe saltou no peito, começou a bater com tanta força entre as costelas que ela viu pequenas manchas diante dos olhos, aumentando e diminuindo no
ritmo dos batimentos. E pouco depois, apesar de ter escapado por um triz, apesar do susto e de Robert Gordon gritando Red Hot no rádio, estava cochilando outra vez.
Foi atingida por pensamentos loucos, paranóicos. "Paranóia, tudo bem", ela murmurou sob o rock and roil. E procurou rir, mas não pôde. Não de fato. Porque os
pensamentos continuaram e, no fundo da noite, adquiriram uma espécie de fantástica credibilidade. Começara a se sentir como um personagem de desenho animado que
corre para dentro do elástico de gigantesca atiradeira. É cada vez mais difícil esticar o elástico, até que, por fim, a energia potencial da borracha fica igual
à energia real do avanço.., a inércia se transforma... em quê?... física elementar... em alguma coisa tentando atirá-la para trás.., fique fora disso, está me ouvindo...
e um corpo em repouso tende a permanecer em repouso... o corpo de Gage, por exemplo.., mas uma vez posto em movimento...
Desta vez o guincho dos pneus foi mais alto, o risco maior; por um instante, houve apenas o som torturante, ríspido do Chevette roçando em cabos de aço, raspando
a tinta, cobrindo-se de arranhões metálicos. Por um instante, o volante não respondeu e Rachel se deu conta apertando o pedal do freio, soluçando. Desta vez tinha
realmente adormecido, não apenas cochilado, mas dormido e sonhado a cem quilômetros por hora. Se não houvesse proteção no acostamento, se estivesse atravessando
uma pequena ponte sem gradil...
Entrou no acostamento, encostou o carro e chorou com as mãos no rosto, atordoada, assustada.
Alguma coisa está querendo me manter longe de Louis.
Quando achou que tinha recuperado o controle, começou de novo a dirigir. A coluna de direção não parecia ter sofrido, mas com certeza teria sérios problemas
quando fosse devolver o carro na agência da Avis do aeroporto de Bangor.
Não importa. Uma coisa de cada vez. Agora tenho de tomar um café - essa é a primeira providência.
Quando chegou à estrada de Pittsfield, virou à direita. Andou mais um quilômetro e meio e entrou num posto de gasolina, entre luzes brilhantes de mercúrio e
o ronco abafado dos motores diesel dos caminhões. Mandou encher o tanque ("Alguém deu uma unhada feia do lado do seu carro", disse o rapaz do posto com um ar de
admiração). Depois foi para o restaurante que cheirava a banha, ovo mal cozido e... graças a Deus, café bem forte.
Bebeu três xícaras, uma atrás da outra, como se tomasse um remédio (um café forte, com muito açúcar). No balcão e nas mesas, havia alguns motoristas de caminhão
brincando com as garçonetes. Sob aquelas luzes fluorescentes consumindo no fim da madrugada, todas as garçonetes conseguiam ficar parecidas com enfermeiras cansadas
e cheias de trabalho.
Rachel pagou e voltou para onde estacionara o Chevette. Ele não queria pegar. Quando a chave virava, o solenóide dava um estalo seco e nada mais.
Rachel começou a bater lentamente com os punhos no volante. Algo estava querendo detê-la. Não havia razão para o carro, novo em folha e com menos de oito mil
quilômetros rodados, enguiçar. Mas era isso que estava acontecendo. Por incrível que pareça, era isso. E lá estava ela, retida em Píttsfield, quase a oitenta quilômetros
de casa.
Prestou atenção ao ronco incessante dos grandes caminhões e teve uma repentina, absurda certeza de que o caminhão que matara Gage se achava entre eles... Não
roncando, mas rindo.
Abaixou a cabeça e começou a chorar.


Louis tropeçou em alguma coisa e se estatelou no chão. Por um inst.ante, achou que não seria capaz de se levantar (a possibilidade de levantar pareceu de fato
muito remota). Ficou ali deitado, ouvindo o coro das pererecas e rãs do Pequeno Pântano de Deus e sentindo o coro de dor e dormência dentro do próprio corpo. Ficaria
deitado até dormir. Ou morrer. Provavelmente morrer.
Podia lembrar-se de ter feito a trouxa de lona deslizar para o buraco que tinha cavado (e depois tornar a encher o buraco de terra, usando apenas as mãos). Talvez
se lembrasse ainda de ter empilhado pedras sobre a sepultura, de uma base ampla a um ponto, como uma pirâmide.
Dai em diante lembrava-se de muito pouco. Obviamente tinha descios degraus, ou não estaria ali... Mas onde estava? Olhando em volta, julgou reconhecer um
dos trechos de velhos e grandes pinheiros não muito longe das árvores caídas. Teria atravessado todo o Pequeno Pântano de Deus sem ter percebido? Seria possível?
Sem dúvida.
Já chega. Vou dormir aqui mesmo.
Mas foi esse pensamento, aparentemente tão confortador, que o fez levantar e seguir caminho. Pois se ficasse ali, aquela coisa poderia encontrá-lo... Talvez,
naquele momento mesmo, estivesse nos bosques à sua espreita.
Esfregou a palma da mão no rosto e ficou absolutamente perplexo ao ver sangue nela. Será que batera com o nariz em algum lugar?
- Mas o que interessa essa porra? - murmurou com voz áspera e cambaleou estupidamente ao redor até encontrar a pá e a picareta.
Dez minutos depois, os troncos caídos surgiram à sua frente. Louis escalou-os, tropeçando várias vezes, mas de alguma forma conseguindo sempre se equilibrar.
No entanto, quando já estava quase do outro lado, olhou para os pés e, de imediato, ouviu um galho estalar (não olhe pra baixo, jud dissera). Outro galho rolou,
fazendo seu pé deslizar, e ele caiu de lado com um forte baque, o vento a golpeá-lo furiosamente.
Que o diabo me leve se este não é o segundo cemitério em que caio esta noite... Que o diabo me leve se ainda não estiver satisfeito.
Começou de novo a tatear em busca da picareta e da pá. Conseguiu pegá-las. Por um instante, examinou o cenário que o cercava, visível à luz das estrelas.
Bem perto dele estava o túmulo de SMUCKY, ELE ERA OBEDIENTE. E de TRIXIE, ATROPELADA NA ESTRADA. O vento ainda soprava forte e ele ouviu o fraco tlitn-tlim-tlim
de um pedaço de metal - talvez uma antiga lata da Dei Monte, trabalhosamente cortada com o alicate do pai pelo triste dono de algum cãozinho, depois achatada com
um martelo e presa numa estaca... A idéia fez o medo assaltá-lo de novo. Mas estava excessivamente cansado para sentir o medo como algo mais que uma palpitação um
tanto nauseante. Fizera a coisa. Aquele contínuo tlim-tlimtlim, brotando da escuridão, convenceu-o de vez que sua missão estava encerrada.
Atravessou o 'simitério" de bichos, ultrapassou o túmulo de MARTA, NOSSA COELHA DE ESTIMAÇÃO, "falecida" em primeiro de março de 1965, aproximou-se da tumba
do GEN. PATTON e do enferrujado pedaço de lata que indicava o lugar de descanso final de POLINESIA. O barulho do metal estava agora mais forte e ele parou, baixando
os olhos. Viu uma peça ligeiramente curva enterrada no chão. Era um retângulo de folha de flandres e, à luz das estrelas, Louis pôde ler: RINGO, NOSSO HAMSTER, 1964-1965.
Aquele era o pedaço de metal que batia sem cessar contra as estacas do arco de entrada do 'simitério" de bichos. Louis estendeu a mão para dobrar a ponta da lata
e... e então congelou, um arrepio percorrendo a espinha.
Alguma coisa estava se movendo lá atrás. Alguma coisa estava se movendo do outro lado das árvores caídas.
O que estava ouvindo era uma espécie furtiva de som - o estalar de gravetos de pinheiro, o estouro seco de um galho, o farfalhar de arbustos. Os sons quase se
perdiam sob o sopro do vento entre os pinheiros.
- .Gage? - Louis chamou com voz rouca.
A própria compreensão do que estava fazendo - de pé ali no escuro, chamando o nome do filho morto - fez sua nuca formigar e arrepiou-lhe as pontas do cabelo.
Começou a tremer sem parar, o corpo inteiro, como se tivesse adoecido de uma febre fatal.
- Gage?
Os sons tinham cessado.
Ainda não; é cedo demais. Não me pergunte como eu sei, mas eu sei. Não é Gage quem está lá embaixo. E... alguma outra coisa.
Lémbrou-se subitamente das palavras de Ellie:
Ele disse "Lázaro, vem para fora! ..... O professor explicou que se ele só tivesse dito "Vem para fora! - todo mundo que estava enterrado no cemitério teria
se levantado.
Do outro lado dos troncos caídos, os sons tinham começado de novo. Do outro lado da barreira. Quase - mas não de todo - abafados pelo vento. Como se alguma coisa
tivesse vindo no seu encalço obedecendo a velhos instintos. Seu cérebro, terrivelmente estimulado, conjurou imagens horríveis e repugnantes: uma toupeira gigante,
um grande morcego que em vez de voar se arrastasse pelos arbustos.
Louis começou a recuar para o arco de entrada do "simitério", não querendo ficar de costas para os troncos caídos - aquela mancha fantasmagórica, pálida cicatriz
na escuridão -, até ver-se bem longe. Então começou a correr, e talvez a quatrocentos metros do ponto onde a trilha deixava os bosques e chegava ao terreno atrás
de sua casa, ainda conseguiu reunir energia suficiente para correr.

Louis jogou a picareta e a pá dentro da garagem e parou um instante ao alto da entrada da casa. Contemplou primeiro o caminho por onde viera, depois, o céu.
Eram quatro e quinze da manhã e ele achou que a alvorada não devia estar muito distante. A luz já teria cumprido três quartos de seu caminho através do Atlântico,
mas por enquanto, ali em Ludlow, a noite ainda era bastante escura. O vento não parava de soprar.
Entrou em casa, caminhando pelo lado da garagem e abrindo a porta de trás. Cruzou a cozinha sem acender a luz e entrou no pequeno banheiro entre a cozinha e
a sala de estar. Ali acendeu a luz e a primeira coisa que viu foi Church, enroscado na tampa do vaso sanitário, fitando-o com aqueles olhos turvos, verde-amarelados.
- Church - disse ele. - Achei que alguém o tinha colocado na rua.
Church limitou-se a fitá-lo de cima do vaso. Sim, alguém pusera Church na rua; ele mesmo se encarregara disso. Lembrava-se muito claramente. Assim como lembrava
de ter substituído a vidraça quebrada no porão e ter dito a si mesmo que o problema estava resolvido. Mas, afinal, a quem quisera enganar? A verdade é que quando
queria entrar, Church entrava. Pois Church era diferente agora.
Pouco importava. No cansaço, no entorpecimento daquele fim de madrugada, nada parecia importar. Sentia-se como alguma coisa menos que humana, um dos estúpidos
e cambaleantes zumbis dos filmes de George Romero ou alguém que tivesse escapado de um poema de T. S. Eliot sobre os homens sem valor. Devo ter parecido um rato,
disparando pelo Pequeno Pântano de Deus e subindo ao cemitério micmac, ele pensou, dando um riso tolo.
- Um espantalho cheio de palha, Church - disse ele num tom de desânimo, agora desabotoando a camisa. - Eis o que eu sou. Pode crer.
Havia um belo ferimento do lado esquerdo, no meio das costelas, e quando tirou as calças viu que o joelho que havia batido na lápide estava inchado como um balão.
Já adquirira uma desagradável coloração arroxeada. Assim que parasse de flexioná-lo, a junta ia enrijecer, ia ficar dolorosamente emperrada (como se tivesse sido
mergulhada em cimento). Parecia um daqueles machucados que podem querer, pelo resto da vida, conviver com a pessoa nos dias chuvosos.
Precisando de algum tipo de conforto, estendeu a mão para tocar em Church, mas o gato pulou da tampa do vaso cambaleando daquela maneira estranha e nada felina.
Ao se afastar, dispensou a Louis um olhar estúpido, amarelo.
Havia mercurocromo no armário do banheiro. Louis sentou na tampa do vaso e passou um pouco no joelho inchado. Depois passou também na parte de baixo das costas
- uma difícil operação.
Saiu do banheiro e foi para a sala. Acendeu a luz e ficou um instante parado ao pé dos degraus, olhando estupidamente ao redor. Como aquilo tudo parecia estranho!
Foi ali que na véspera do Natal deu a safira a Rachel. A safira que escondera no bolso. Ali estava sua poltrona, onde se esforçara para explicar a Ellie os fatos
da morte após o ataque cardíaco que matara Norma Crandall (fatos que, ultimamente, julgava inaceitáveis). A árvore de Natal ficara naquele canto, o peru de cartolina
de Ellie (que lembrava uma espécie de corvo futurista) estivera preso com fita adesiva na janela e, meses antes, a única coisa que havia na sala eram as caixas da
companhia de mudanças, cheias dos objetos da família, transportadas por metade do país desde o Meio-Oeste. Lembrou-se de ter achado que dentro daquelas caixas as
coisas pareciam insignificantes - uma frágil barricada ante o frio do mundo lá fora, onde os nomes e costumes da família não eram conhecidos.
Como tudo parecia estranho... e como gostaria de jamais ter ouvido falar da Universidade do Maine, de Ludlow, de Jud e Norma Crandall, de nada daquilo!
Subiu as escadas desanimado e entrou no banheiro do fim do corredor. Pegou um banco, subiu nele e tirou a pequena maleta preta de uma prateleira em cima do armário.
Levou-a para o quarto, sentou-se na cama e começou a remexer. Sim, lá estavam as seringas para o caso de precisar, e entre os rolos de gaze, tesouras e instrumentos
cirúrgicos cuidadosamente arrumadas, havia ampolas de uma droga fatal.
Se fosse preciso.
Fechou a maleta e colocou-a perto da cama. Apagou a luz e se deitou, as mãos na nuca. Parecia ótimo ficar ali deitado de costas. Seus pensamentos voltaram de
novo para Disney World. Viu-se num caprichado uniforme branco, guiando um furgão branco com um logotipo de orelhas de camundongo - nada que pudesse identificar o
veículo como ambulância, é claro, nada que pudesse assustar o público pagante.
Gage estava sentado a seu lado, a pele muito bronzeada, a parte branca dos olhos só indicando saúde. Bem à esquerda do carro via o Pateta, apertando as mãos
de um garotinho; o garoto parecia atônito de admiraçâo. Lá estava Minie, posando com duas sorridentes avós de calças compridas para a fotografia que uma terceira
avó sorridente tentava tirar. Lá estava uma menina com seu melhor vestido gritando: "Eu gosto de você, Donald! Eu gosto de você, Donald!"
Ele e o filho estavam de plantão. Eram os sentinelas daquela terra mágica e sem parar circulavam no furgão branco, a luz vermelha da sirene habilmente disfarçada.
Esperavam que nada acontecesse, mas se houvesse algum contratempo estavam prontos para interferir. Mesmo ali, num local dedicado a diversões inocentes, era inegável
que havia riscos à espreita; algum homem comprando cartões-postais na Main Street podia pôr a mão no peito, num súbito ataque cardíaco; uma mulher grávida podia
sentir as dores de parto ao descer da Carruagem Celeste; uma adolescente, bela como manequim de capa de revista, podia cair de repente, contorcendo-se num acesso
epiléptico, batendo com a cabeça no chão de cimento quando o ritmo do cérebro começasse a falhar. Ataques de insolação, ataques do coração, ataques do cérebro. Talvez,
no fim de uma noite abafada do verão de Orlando, houvesse até um ataque provocado pela luz do luar. Oz, o Gande e Teível, também estava por ali; podia ser visto
no ponto onde o monotrem entra no Reino Mágico, podia estar espreitando de dentro de um Super-Pateta voador, o olhar turvo, estúpido. Louis e Gage passariam a vê-lo
como qualquer outro divertido personagem do parque, tipo Minie, Mickey, Tio Patinhas ou o estimado Pato Donald. Com ele, porém, ninguém gostaria de tirar retrato;
a ele, ninguém ia querer apresentar o filho ou a filha. Louis e Gage o conheciam tinham se encontrado com ele, tinham lutado contra ele há algum tempo, na Nova Inglaterra.
Oz estava sempre à espreita para nos engasgar com uma bola de gude, para nos sufocar com um saco de lixo, para nos assar num golpe rápido e letal de eletricidade
(disponível na caixa de fusíveis mais próxima, à espera no primeiro bocal de iluminação). A morte podia estar num saquinho de amendoins, no pedaço de carne que mal
mordemos, no maço de cigarros seguinte. Oz estava sempre por perto, supervisionando as passagens da região mortal para a região eterna. Farpas enferrujadas, insetos
venenosos, fios desencapados no chão, fogo nos bosques. Patins rodopiantes que atiram crianças distraídas em cruzamentos perigosos. E quando se entra numa banheira,
Oz também nos acompanha - banho com um amigo. E quando se entra num avião, Oz pega nossa ficha de embarque. Esconde-se na água que bebemos, na comida. Quem está
aí?, você grita no escuro quando está com medo e sozinho; é a resposta dele que ouve: não tenha medo, sou eu. Ei, o que você acha? Você pega câncer no intestino,
que maçada, como uma coisa dessas vai acontecer! Septicemia! Leucemia! Arteriosclerose! Trombose das coronárias! Encefalite! Osteomielite! Ei, iá, vamos lá! Tem
alguém drogado com uma faca na soleira da porta. O telefone toca no meio da noite. Sob os destroços de um carro amassado, em algum desvio da Carolina do Norte, o
sangue se mistura à ferrugem da bateria. Grandes quantidades de pílulas, é só mascá-las. Aquele curioso azulado das unhas depois da asfixia - no final de sua desesperada
batalha para sobreviver, o cérebro aproveita todo o oxigênio que ainda sobra, mesmo o que existe nas células sob as unhas. Ei, pessoal, meu nome é Oz, o Gande e
Teível, mas se quiserem podem me chamar apenas de Oz; diabo, a estas horas já somos velhos amigos. Quando passar de novo por aqui, chamo você para um pequeno colapso
cardíaco congestivo, um coágulo craniano, alguma coisa no gênero; agora não posso ficar, tenho de ir ao encontro de uma mulher que vai ter um mau trabalho de parto,
depois tenho um trabalhinho de inalação de fumaça em Omaha.
E aquela vozinha fina continua gritando: "Eu gosto de você, Donald! Eu gosto de você! Eu acredito em você, Donald! Sempre vou amá-lo e acreditar em você e vou
continuar jovem; o único Oz a viver no meu coração será aquele bondoso mágico de Nebraska! Eu gosto de você..."
Ficamos circulando por aí... meu filho e eu... porque a essência das coisas rão é a guerra ou o sexo, mas só esta nauseante, nobre, desesperada batalha contra
Oz, o Gande e Teível. Eu e Gage, no furgão branco, continuamos circulando sob o brilhante céu da Florida. E a luz vermelha da sirene está escondida, mas vamos usá-la
se houver necessidade... e ninguém precisa saber disso, porque o solo do coração de um homem é mais empedernido, porque um homem planta o que pode... e cuida do
que plantou.
Com esses confusos pensamentos de sonho, Louis Creed foi escorregando, desligando um a um seus fios com o mundo que conhecia quando estava acordado. Por fim,
todos os pensamentos cessaram. A exaustão arrastou-o para uma negra inconsciência sem sonhos.

Pouco antes dos primeiros sinais do amanhecer tocarem o céu no leste, houve passos nos degraus. Eram lentos, arrastados, mas sabiam para onde iam. Uma sombra
se moveu entre as sombras do corredor. E trouxe um cheiro com ela, um mau cheiro. Mesmo sob sono profundo, Louis resmungou e desviou o nariz daquele mau odor. Em
seu rosto havia o contínuo movimento do ar entrando e saindo dos, pulmões.
Por um pequeno lapso de tempo a sombra parou diante da porta. Ficou imóveL Depois entrou. Louis estava enterrado no travesseiro.
Mãos brancas avançaram e houve um estalo, quando a maleta preta perto da cama foi aberta. Houve um retinir, um deslocamento abafado, quando as
coisas lá dentro foram remexidas. As mãos exploravam pondo de lado as drogas, ampolas e seringas que não interessavam. De repente, alguma coisa foi encontrada,
alguma coisa que foi tirada de lá. Na primeira e opaca luz da manhã, houve um brilho prateado. A coisa que era uma sombra saiu do quarto


.
PARTE TRÊS

ÓZ, O
"GANDE E TEÍVEL"

Jesus, porém, comovendo-se e cheio de aflição, aproximou-se do sepulcro. Era uma gruta, com uma pedra tapando a entrada.
- Retirai a pedra! - disse ele.
- Senhor, já deve ter começado a apodrecer. Está morto há quatro dias... - disse Marta.
Jesus fez uma pequena oração, levantou a voz e gritou:
- Lázaro, vem para fora!
E o morto saiu, os pés e as mãos enfaixados, o rosto coberto por um sudário.
Jesus disse a eles:
- Desatai-o e deixai que ele saia.

O EVANGELHO SEGUNDO SAO JOÃO (paráfrase)


- Só agora me lembrei - ela disse histericamente, - por que não pensei nisso antes? Por que você não pensou nisso antes?
- Pensei em quê? - ele perguntou.
- Nos outros dois desejos - ela respondeu rápido. - Só realizamos um.
- E esse não foi suficiente? - ele replicou num tom feroz.
- Não - ela gritou triunfante. - Temos mais um. Vá lá embaixo, pegue-a depressa e deseje que nosso filho viva outra vez.

W.W. JACOBS, A Mão do Macaco

Jud Crandall acordou com um estremecimento, quase caindo da cadeira. Não tinha idéia do tempo que dormira - podia ter sido quinze minutos ou três horas. Consultou
o relógio e viu que eram cinco e cinco. Teve a sensação de que tudo na sala fora sutilmente mudado de lugar e, por ter dormido sentado, tinha uma carreira de dores
nas costas.
Oh, seu velho estúpido, veja o que você fez, veja o que você fez!
Mas ele sabia muito bem; no fundo, sabia muito bem. Não fora só ele. Não adormecera no posto de sentinela, não era tão simples assim, fora induzido a dormir.
A idéia o assustou, mas uma coisa assustou-o ainda mais: o que o acordara? Tinha impressão de ter ouvido um barulho, um...
Prendeu a respiração, atento a qualquer outro som além do roçar de papel do próprio coração.
Havia um ruído - não o mesmo que o despertara, mas outro. O débil ranger de dobradiças.
Jud conhecia cada ruído da casa, que tábuas estalavam no assoalho, em que degraus a escada guinchava, em que calhas do telhado o vento podia uivar e gemer quando
soprava a todo vapor, como na noite passada. Também lhe foi fácil reconhecer aquele som. A pesada porta da frente, que ligava a varanda com o vestíbulo, estava escancarada.
E com auxilio desta informação sua mente foi capaz de recordar o som que a despertara. Fora o lento estender da mola da porta de vaivém da varanda para o passeio
do jardim.
- Louis - ele chamou, mas sem grande esperança. Não era Louis que estava lá. Quem estava lá fora enviado para punir um velho por seu orgulho e vaidade.
Os passos deslocaram-se devagar pelo corredor, sempre na direção da sala.
- Louis? - ele tentou de novo, mas sua voz foi um fraco grasnido, porque agora podia sentir o cheiro da coisa que entrara em sua casa no fim da noite. Era um
cheiro torpe, repugnante - o cheiro de água estagnada num pântano.
Na escuridão, Jud podia perceber formas de grande volume - o armário de Norma, a cômoda gaulesa, o console -, mas não via detalhes. Tentou se levantar, apesar
das pernas parecerem ter se desmanchado. Sua mente clamava que ele precisava de ajuda, que estava velho demais para enfrentar aquilo sozinho; Timmy Baterman já fora
suficientemente terrível e naquele tempo Jud era jovem.
A porta interna de vaivém se abriu e despejou sombras na sala. Uma das sombras era mais substancial que as outras.
Meu Deus, aquele fedor.
Passos se arrastando, no escuro.
- Gage? - Jud perguntou, conseguindo finalmente ficar em pé.
Pelo canto do olho, viu o contorno da cinza do cigarro no cinzeiro com o anúncio de Jim Beam.
- Gage, é você que...
Houve um som hediondo, com alguma coisa de miado, e por um instante todos os ossos de Jud se congelaram. Não era o filho de Louis voltando do túmulo, mas algum
monstro odioso.
Não. Não era nada disso.
Era Church, agachado diante da porta. Era dele aquele som que parecia um miado. Os olhos do animal chamejavam como lâmpadas sinistras.
Então os olhos de Jud moveram-se em outra direção e fixaram-se na coisa que entrara com o gato.
Jud começou a recuar, tentando agarrar seus pensamentos, tentando conservar a lucidez diante daquele cheiro. Oh, aquele frio.., a coisa trouxera o frio com ela.
Jud procurou se equilibrar em pé. Era o gato roçando por suas pernas, fazendo seu corpo oscilar. O som agora parecia um ronrom. Jud afugentou-o com um chute.
O animal arreganhou os dentes e bufou.
Pense! Oh, pense, seu velho estúpido, talvez não seja tarde demais, mesmo agora talvez ainda não seja tarde demais... Voltou, mas pode ser morto de novo... Se
ao menos você conseguisse.. . se ao menos você conseguisse pensar...
Foi recuando para a cozinha e se lembrou da gaveta de utensílios ao lado da pia. Havia um facão de carne naquela gaveta.
Seus pés fracos bateram na porta que levava à cozinha. Ele a empurrou. A coisa que entrara na casa ainda era indistinta, mas Jud podia ouvi-la respirar. Podia
perceber também uma mão esbranquiçada, oscilando para frente e para trás. Havia alguma coisa naquela mão, mas não conseguia ver o que era. A porta de vaivém se fechou
quando Jud penetrou na cozinha. Só então ele se virou e correu para a gaveta. Abriu-a de um golpe e encontrou o velho cabo de madeira do facão. Pegou-o e virou-se
de novo para a porta; chegou a dar um ou dois passos. Um pouco de sua coragem tinha voltado.
Lembre-se, isso não é um menino. Pode gritar quando vir o que você está disposto a fazer, pode chorar. Mas não seja tolo. Já foi tolo demais, meu velho. Esta
é sua última chance.
A porta de vaivém se abriu de novo, mas a princípio só o gato passou por ela. Os olhos de Jud seguiram-no por um instante, mas depois se concentraram de novo
à frente.
A cozinha dava para o leste e as primeiras luzes do amanhecer entravam pela janela, um brilho esbranquiçado, fraco e leitoso. Não era muita luz, mas era suficiente.
Mais que suficiente.
Gage Creed entrou, vestindo o terninho com que o enterraram. O musgo crescia nos ombros e lapelas. O musgo sujava a camisa branca. O fino cabelo louro era uma
pasta de terra. Um dos olhos se defrontava com a parede, fitando o espaço com terrível concentração. O outro fixara-se em Jud.
Gage estava sorrindo.
- Alô, Jud - Gage piou numa voz de bebê, mas perfeitamente compreensível. - Vim para mandar sua alma podre e fedorenta direta para o inferno. Queria me foder,
não é? Não sabia que mais cedo ou mais tarde eu ia voltar e foder você?
Jud ergueu o facão.
- Venha então e mostre se tem coragem. Vamos ver quem vai foder a quem.
- Norma morreu e não vai haver ninguém para chorar por você -disse Gage. - Que rameira ela era, hein? Fodeu com todos os teus amigos, Jud. Dava o cu pra eles.
Era o que ela gostava mais... agora está queimando no inferno, com artrite e tudo. Eu vi a Norma lá, rapaz. Eu vi Norma.
Gage cambaleou dois passos na direção dele, os sapatos deixando marcas de lama no sinteco gasto do chão. Uma das mãos se estendia na. frente do corpo como se
quisesse pegar Jud pelo colarinho, a outra estava escondida atrás das costas.
- Escute, Jud - a coisa sussurrou. Então a boca se abriu, revelando pequenos dentes de leite, e embora os lábios não se movessem, a voz de Norma brotou com nitidez.
- Eu ria de você! Todo nós ríamos de você! Como a gente riiiiiaaaaa... -
- Pare com isso!
O facão se agitou na mão de Jud.
- Trepamos em nossa cama, Herk e eu, depois foi com George, foi com todos eles. Eu sabia de suas putas, você é que nunca desconfiou que tinha casado com uma.
. . Ah, como a gente ria, Jud! A gente se abraçava e riiiiiiiaaa...
- PARE COM ISSO! - Jud gritou.
Avançou contra a pequena e oscilante figura no sinistro terninho fúnebre. Foi aí que o gato disparou da escuridão sob o toro de. cortar carne. Vinha bufando,
orelhas inclinadas para trás acompanhando a curva do crânio. Saltou sobre Jud com grande agilidade.
A mão deixou cair o facão, que deslizou pelo sinteco gasto e arranhado, a lâmina trocando de lugar com o cabo enquanto a arma rodopiava. Bateu no rodapé com
um abafado clangor metálico e foi para baixo da geladeira.
Jud percebeu que fora feito mais uma vez de bobo e sua única consolação foi saber que era a última vez. O gato roçava-lhe as pernas, boca aberta, olhos chamejantes,
bufando como chaleira fervente. E então Gage se aproximou, os dentes se abrindo num mórbido sorriso de contentamento, os olhos redondos e muito vermelhos, a mão
saindo de trás das costas. Jud viu o que estava escondendo desde que entrou. Era um bisturi da maleta preta de Louis.
- Oh, meu bom Jesus - Jud exclamou erguendo a mão direita para proteger o rosto.
E então houve uma ilusão de ótica; certamente seu cérebro devia ter sido atingido porque viu o bisturi de ambos os lados da palma da mão ao mesmo tempo... mas
alguma coisa morna começou a pingar de seu rosto e ele compreendeu.
- Sou eu quem está te fodendo, meu velho! - a coisa que era Gage gritou, rindo de contentamento, soprando um hálito fétido no rosto de Jud. - Sou eu quem está
te fodendo! Vou foder com todos vocês... É isso que eu... quero!
Jud deu golpes no ar e conseguiu pegar o pulso de Gage. A pele se desfez como pergaminho.
Gage arrancou-lhe o bisturi da mão, deixando um buraco vertical.
- Todos vocês... É isso que eu... QUERO!
O bisturi investiu outra vez.
Outra vez.
Outra vez.

- Tente agora, madame - disse o motorista do caminhão, observando o motor do carro que Rachel alugara.
Ela girou a chave. O motor do Chevette voltou a funcionar. O motorista fechou o capô e se aproximou da janela, esfregando as mãos num lenço grande e azul. Tinha
o rosto corado, a fisionomia agradáveL O boné da Dysart's Truck-Stop estava inclinado para trás em sua cabeça.
- Fico muito agradecida - disse Rachel, à beira das lágrimas. - Eu simplesmente não sabia o que ia fazer.
- Ora, qualquer um podia ter feito isso - disse o homem. - Mas é engraçado, nunca vi um problema desses num carro assim tão novo.
- E afinal o que era?
- Um dos cabos da bateria soltou. Ninguém mexeu no motor, não
- Ninguém - disse Rachel, pensando de novo na sensação que tivera, a sensação de correr para dentro do elástico da maior atiradeira do mundo.
- Então devem ter saído do lugar durante a viagem. Mas pode ter certeza que esses cabos não vão dar mais problema. Apertei-os muito bem.
- Posso lhe dar algum dinheiro? - Rachel perguntou timidamente.
O motorista deu uma gargalhada.
- Nada disso, madame. O carreteiro é o anjo da guarda da estrada, não sabia?
Ela sorriu.
- Bem... obrigada, então.
- Quando precisar, estou às ordens.
O homem abriu um sorriso franco, insolitamente cheio de brilho àquela hora da manhã.
Rachel devolveu o sorriso e manobrou cuidadosamente pelo pátio. Olhou para ambos os lados na saída do posto e cinco minutos depois já estava outra vez na estrada
principal, correndo para o norte. O café ajudou mais do que esperava. Agora se sentia totalmente desperta, sem qualquer vestígio de sono, os olhos grandes como maçanetas.
Mas a sensação de mal-estar envolveu-a de novo, aquela absurda impressão de estar sendo manipulada. O cabo da bateria saindo do lugar daquele jeito.
Para detê-la pelo tempo suficiente...
Deu um riso nervoso. Suficiente para quê?
Para acontecer algo de irremediável.
Era uma idéia estúpida. Ridícula. Mesmo assim, Rachel começou a acelerar um pouco mais o pequeno Chevette.
Às cinco horas, enquanto Jud tentava lutar contra um bisturi roubado da maleta preta de seu bom amigo Dr. Louis Creed, e quando Ellie estava acordando e se espreguiçando
na cama, gritando por causa de um pesadelo que, felizmente, não conseguia lembrar. Rachel saiu da auto-estrada, cortou pela Rua Hammond (passando junto do cemitério
onde uma pá era agora a única coisa sepultada no caixão do filho) e cruzou a Ponte BangorBrewer. Por volta das cinco e quinze, já estava na Rodovia 15, a caminho
de Ludlow.

Resolveu ir diretamente para a casa de Jud, pelo menos cumpriria essa parte da promessa. Não viu a Civic. Embora achasse que o carro podia estar na garagem,
a casa tinha um aspecto adormecido, um ar de casa vazia. Nenhuma intuição lhe sugeria que Louis estivesse lá dentro.
Rachel estacionou atrás da pickup de Jud e, olhando, em volta, saltou do Chevette. A grama estava coberta de orvalho, brilhando na clara luz da manhã. Em algum
lugar um pássaro cantou, mas logo ficou em silêncio. Desde seus anos de menina-moça, nas poucas vezes em que se via acordada e sozinha no amanhecer, sem nenhuma
razão para levantar tão cedo, tinha uma sensação de solidão, mas de certa forma se sentia estimulada - um sentimento paradoxal de renovação e continuidade. Naquela
manhã, porém, não experimentou nada tão bom e encorajador. Havia apenas um persistente mal-estar, que não podia atribuir inteiramente às terríveis vinte e quatro
horas que acabara de passar e à recente morte do filho.
Subiu os degraus da varanda e abriu a porta de vaivém, pronta a usar a antiga campainha do vestíbulo. Ficou fascinada com aquela campainha na primeira vez que
foi lá com Louis: gira-se um disco no sentido dos ponteiros do relógio e ouve-se um som alto, mas musical, que apesar de anacrônico era delicioso.
Ia tocá-la quando deu uma olhada no chão da varanda e franziu a testa. Havia marcas de lama no tapete. Olhando à sua volta, percebeu que vinham da porta do jardim.
Eram pegadas muito pequenas; pareciam passos de criança. Interessante é que dirigira a noite inteira e sabia que não tinha chovido. Havia vento, mas não chuva.
Contemplou as pegadas por um bom tempo (de fato, longo demais) e percebeu que teve de obrigar sua mão a se aproximar da campainha. Encostou nela e... e então
deixou a mão cair.
Estou antecipando, é só isso. Antecipando o som da campainha neste silêncio. Provavelmente ele foi dormir há pouco tempo e vou assustá-lo...
Mas não era isso que Rachel temia. Desde que começara a ter problemas em se manter acordada no meio da estrada, ficara nervosa, tomada por uma apreensão difusa,
estranha. Mas aquele medo agudo era uma coisa nova, diretamente relacionada com aquelas pequenas pegadas. Pegadas que eram do tamanho...
Sua mente tentou bloquear o pensamento, mas estava muito cansada, sem reflexos.
... dos pés de Gage.
Oh, pare com isso, por que não pára com isso?
Estendeu a mão e tocou a campainha.
O som foi ainda mais alto do que esperava, mas não tão musical. Pareceu mais um guincho áspero, engasgado no silêncio. Rachel recuou num salto, emitindo um risinho
nervoso que não continha absolutamente qualquer bom humor. Esperou pelos passos de Jud, mas eles não vieram. Houve apenas silêncio e mais silêncio, e ela estava
começando a duvidar se devia ou não obrigar-se a tocar de novo aquele disco de ferro em forma de borboleta, quando veio um som do interior da casa, um som com que
não teria sonhado mesmo nas mais selvagens fantasias.
- ... Ouh!. .. Ouh!
- Church? - ela perguntou, sobressaltada e confusa. Esticou a cabeça, mas evidentemente era impossível ver lá dentro, a vidraça da porta fora coberta com uma
bonita cortina branca. Trabalho de Norma. -Church, é você?
- Ouh!
Rachel pôs as mãos na maçaneta. A porta se abriu. Church estava lá, sentado no vestíbulo com a cauda enrolada em volta das patas. O pelo parecia manchado de
alguma coisa escura. Lama, Rachel pensou, e então viu que havia gotas no bigode do animal, gotas de um líquido vermelho.
Church levantou uma pata e começou a lambê-la, os olhos fixos em Rachel.
- Jud? - ela chamou, agora realmente alarmada. Deu um passo no vestíbulo.
A casa não deu resposta; só havia silêncio.
Rachel procurou raciocinar, mas logo começaram a deslizar em sua mente imagens da irmã Zelda, e isso lhe embotou o pensamento. Como suas mãos tinham ficado deformadas.
Como às vezes, quando estava zangada, costumava bater com a cabeça na parede, ali o papel de parede ficara todo rasgado, mesmo o reboco fora atingido. Mas não era
hora de pensar em Zelda, não naquele momento, quando Jud podia estar machucado. E se tivesse caído? Estava bem velho.
Pense no presente, não nos sonhos de menina, sonhos de abrir o armário e ver Zelda saltar sobre você com aquele rosto sorridente e roxo, sonhos de estar na banheira
e ver os olhos de Zelda espreitando pelo ralo, sonhos de Zelda emboscada no ponto atrás da caldeira, sonhos...
Church abriu a boca, revelando os dentes agudos, e gritou mais uma vez:
- Ouh!
Louis tinha razão, nunca o devíamos ter castrado, ele ficou muito esquisito. Mas Louis achava que a castração ia eliminar os instintos agressivos. Sem dúvida,
estava errrado; Church ainda caça. Ele...
- Ouh! - Church gritou de novo, depois se virou e subiu as escadas correndo.
- Jud? - ela chamou de novo. - Está aí em cima?
- Ouh! - Church gritou do alto dos degraus, como a responder que sim. Depois desapareceu no corredor.
Como ele entrou? Jud o deixou entrar? Mas por quê?
Rachel deu um passo para cada lado, sem saber o que fazer. O pior era que tudo aquilo parecia... parecia ter sido arranjado, como se alguma coisa quisesse que
ela estivesse ali, e...
E então veio um gemido do andar de cima, um gemido baixo e cheio de dor... A voz de Jud, sem dúvida a voz de Jud. Caiu no banheiro, pode ter escorregado,
quebrado uma perna ou mesmo a bacia, os ossos das pessoas velhas são frágeis, e o que, em nome de Deus, está fazendo aí parada, sacudindo-se como se estivesse apertada
para ir ao banheiro? Church estava com sangue nos bigodes, sangue! Jud está ferido e você aí parada! O que está acontecendo com você?
- Jud?
O gemido veio outra vez. E Rachel subiu as escadas correndo.
Nunca estivera no andar de cima. Como a única janela do corredor dava para o oeste, para o rio, ainda estava muito escuro. O corredor era largo e se estendia
em linha reta do poço da escada aos fundos da casa. Um corrimão de cerejeira brilhava com sóbria elegância. Na parede do fundo, havia uma gravura da Acrópole de
Atenas e...
(é Zelda que esteve atrás de você todos esses anos e agora é o momento dela abrir a porta certa e aparecer na sua frente com as costas corcundas e retorcidas
cheirando a medo e morte é Zelda é a vez dela enfim ela vai pegá-la)
o gemido veio de novo, baixo, de trás da segunda porta à direita.

Rachel começou a caminhar para aquela porta, os saltos estalando no assoalho. Era como se estivesse atravessando uma espécie de túnel, não o túnel do tempo ou
um túnel do espaço, mas o túnel da verdade. Sentia-se cada vez menor. A gravura da Acrópole flutuava, ia ficando cada vez mais alta, e a maçaneta de vidro logo estaria
ao nível dos seus olhos. Estendeu
a mão para girá-la... mas antes que pudesse tocá-la, a porta escancarou. Zelda estava lá.
Curvada, retorcida, o corpo tão cruelmente deformado que a transformara numa verdadeira anã, com pouco mais de meio metro de altura. Por alguma razão, estava
usando o paletó com que Gage fora enterrado. Mas tudo bem, era Zelda, os olhos iluminados de uma alegria insana, o rosto tingido de púrpura; era Zelda gritando:
- Finalmente eu voltei pra buscar você, Rachel. Vou torcer suas costas como estão as minhas e nunca mais você vai sair da cama, nunca mais você vai sair da cama
NUNCA MAIS VOCÊ VAI SAIR DA CAMA.

Church se empoleirara num de seus ombros e o rosto de Zelda começou a rodopiar, a se transformar, e entre a mórbida espiral de horror Rachel viu que não era
absolutamente Zelda - como podia ter cometido um erro tão grosseiro? Era Gage. Seu rosto não estava sujo, mas nojento,
salpicado de sangue. E parecia inchado, como se depois de sofrer ferimentos terríveis tivesse sido colado por mãos rudes, relaxadas.
Gritou o nome do filho e estendeu os braços. Gage correu e pôs-se entre eles - mas continuava com uma das mãos atrás das costas, como se escondesse um buquê
de flores colhido em algum fundo de quintaL
- Trouxe uma coisa pra você, mamãe! - ele gritou. - Trouxe uma coisa pra você, mamãe! Trouxe uma coisa, trouxe uma coisa!


Louis Creed acordou com o sol lhe caindo em cheio nos olhos. Tentou se levantar e fez uma careta com a pontada de dor nas costas. Foi muito forte. Caiu de novo
sobre o travesseiro e deu uma olhada em si mesmo. Ainda vestido dos pés à cabeça. Cristo!
Continuou deitado por mais alguns instantes, revestindo-se de coragem para enfrentar a rigidez que tomara conta de cada músculo. Por fim ergueu o corpo.
- Oh, merda - resmungou. Por alguns segundos o quarto oscilou ligeiramente, mas de forma perceptíveL Suas costas latejavam como um dente estragado; quando mexeu
a cabeça, foi como se os tendões do pescoço tivessem sido substituídos por lâminas enferrujadas de serrote. O pior, no entanto, era mesmo o joelho. O mercurocromo
não dera nenhum resultado. Devia ter aplicado a porra de uma injeção de cortisona. No lugar do joelho, a perna da calça estava apertada contra o inchaço. Era como
se houvesse um balão de gás ali embaixo.
- Mas fiz a coisa - murmurou. - Rapaz, oh, rapaz, não sei como consegui!
Curvou muito lentamente o corpo para sentar na beira da cama, apertando os lábios com tanta força que eles ficaram brancos. Depois começou a flexionar um pouco
os membros, atento ao protesto da dor, tentando avaliar até que ponto a contusão era grave, se podia gerar...
Gage! Será que Gage já voltou?
Isto fez com que ficasse de pé apesar da dor. CambaLeou pelo quarto como o velho Chester, companheiro de Matt Dillon. Atravessou a porta, o corredor e entrou
no quarto de Gage. Olhou avidamente ao redor, o nome do filho tremendo nos lábios. Mas o quarto estava vazio. Coxeou para o quarto de Ellie, que também estava vazio,
e depois para o quarto de hóspedes. Este quarto, que dava para a estrada, também estava vazio. Mas...
Havia um carro desconhecido do outro lado da pista. Estacionado atrás da pickup de Jud.
E qual era o mal?
Aquele carro estranho estacionado ali podia trazer problemas, esse era o maL
Louis puxou a cortina e examinou mais detalhadamente o veículo. Era um pequeno carro azul, um Chevette. E enroscado em cima dele, aparentemente dormindo, estava
Church.
Observou um longo tempo antes de soltar a cortina. Jud tinha visitas, era só isso... O que importava? E talvez ainda fosse cedo demais para se preocupar com
o que ia ou não acontecer a Gage; eram apenas nove horas. Nove horas de uma bela manhã de maio. Ia descer, fazer um pouco de café, pegar a almofada elétrica, colocá-la
no joelho e...
E o que Church está fazendo no teto daquele carro?
- Ora, não esquente a cabeça - ele disse em voz alta e começou a mancar para a escada. Gatos dormiam em todo e qualquer lugar, era a natureza do animal.
Exceto que Church não atravessa mais a estrada, está lembrado?
- Esqueça - ele murmurou e parou no meio da escada (que estava tentando descer quase de lado). Cá pra nós, aquilo era estranho. Era...
O que era aquela coisa nos bosques ontem à noite?
O pensamento penetrou espontaneamente em sua cabeça, fazendo-o apertar os lábios do modo como os apertara ao se levantar da cama, só que daquela vez movido pela
dor no joelho. À noite, sonhara com aquela coisa nos bosques. Seus sonhos com a Disney World fundiram-se facilmente, com sinistra naturalidade, aos sonhos com aquela
coisa. Sonhou que ela o tocara, sepultando para sempre todos os bons sonhos, abatendo todas as boas intenções. Era o vendigo, e o convertera não apenas num canibal,
mas no mestre dos canibais. No sonho estivera outra vez no 'simitério" de bichos, mas não sozinho. Bill e Timmy Baterman estavam lá. Jud tambem. Parecia um fantasma,
puxando seu cãozinho Spot por uma corda de varal. Lester Morgan apareceu com Hanratty, o touro, amarrado numa corrente de rebocar automóveis. Hanratty estava deitado
de lado, dopado, e mesmo assim olhava ao redor com uma fúria cega.
Por alguma razão, Rachel também estava lá e tivera algum acidente na cozinha (derramara um vidro de extrato de tomate ou um pires de geléia de morango, pois
o vestido estava salpicado de manchas vermelhas).
E então, erguendo-se de trás das árvores a uma altura titânica, a pele rachada num amarelo de réptil, os olhos como grandes faróis de neblina e no lugar das
orelhas. compactos chifres curvados, lá estava o vendigo, monstro que parecia um lagarto nascido de mulher. Apontou um dedo curvo, afiado como garra, na direção
deles, e todos esticaram o pescoço, atentos...
- Chega - Louis murmurou e estremeceu ao som da própria voz.
Resolveu ir até a cozinha e preparar um desjejum como se fosse um dia normal. Um desjejum de homem solteiro, cheio de estimulantes do colesteroL Dois sanduíches
de ovos estrelados com maionese e um pedaço de cebola em cada um. Estava cheirando mal, suado e sujo, mas deixaria o banho para mais tarde; por ora, não se sentia
com forças para tirar a roupa. Talvez tivesse de apanhar o bisturi na maleta e cortar a pena da calça para deixar o joelho inchado respirar. Sem dúvida, não era
tarefa para um bom instrumento cirúrgico, mas nenhuma das facas que havia na casa cortariam o pano do jeans; as tesouras de costura de Rachel também seriam inúteis.
Mas primeiro o café.
Estava atravessando a sala quando decidiu ir até a janela da frente e dar uma espiada no pequeno carro azul diante da casa de Jud. Lá estava ele, coberto de
orvalho, o que significava que já devia ter chegado há algum tempo. Church ainda estava no teto, mas não dormia. Parecia estar olhando diretamente em sua direção,
um feio olhar verde-amarelado.
Louis recuou depressa, como se alguém o tivesse surpreendido espreitando.
Foi até a cozinha, pegou a frigideira, acendeu o fogo e tirou dois ovos da geladeira. A cozinha estava iluminada, clara, alegre. Tentou assobiar (um assobio
daria um tom adequado aquela manhã), mas não pôde. As coisas pareciam bem, mas não estavam bem. A casa parecia terrivelmente vazia e o trabalho da véspera pesava
em seu corpo. Havia alguma coisa errada, torta; sentiu uma sombra pairando no ar e teve medo.
Mancou até o banheiro e tomou duas aspirinas com um copo de suco de laranja. E estava voltando para junto do fogão quando o telefone tocou.
Não atendeu logo; ficou parado, olhando para o aparelho. Sentia-se atordoado, sem reflexos, participante de um jogo cujas regras lhe eram absolutamente desconhecidas.
-
Não atenda, você não quer atender porque sabe que são más notícias, sabe que a trilha mergulha na escuridão depois da primeira esquina. Acho que não vai querer
ver o que há no fim dessa trilha, Louis, acho mesmo que não vai querer. Portanto não atenda a esse telefone, corra, corra agora, o carro está na garagem, pegue-o
e saia daqui, mas não atenda o telefone...
Atravessou a sala e tirou o fone do gancho, apoiando a mão no quadro de avisos como costumava fazer. Era Irwin Goldman; e assim que Irwin disse alô, Louis viu
as pegadas atravessando a cozinha - pegadas pequenas, marcas de lama. O coração pareceu congelar em seu peito e pôde sentir os olhos se avolumando nas órbitas, saltando
do rosto; achou que se tivesse um espelho na frente veria um personagem de uma pintura do século XVI retratando um asilo de loucos. Eram pegadas de Gage, Gage tinha
estado lá, tinha estado lá enquanto ainda era noite, e, portanto, onde estava agora?
- É Irwin, Louis... Louis? Você está aí? Alô?
- Alô, Irwin - disse ele, já sabendo o que Irwin ia dizer. Compreendia quem viera no carro azul Compreendia tudo. A trilha.., a trilha que ia dar na escuridão...
Agora estava seguindo depressa, escorregando por ela. Ah, se pudesse abandoná-la antes de ver o que havia no fim! Mas era a sua trilha. A trilha que escolhera.
- Por um instante achei que a linha tinha caído - Goldman estava dizendo.
- Não, o telefone escorregou da minha mão - disse Louis. Sua voz era calma.
- Rachel chegou ontem à noite?
- Oh, sim - disse Louis, pensando no carro azul, em Church empoleirado no teto, o carro azul tão tranqüilo lá fora. Seu olho seguia as pegadas de lama no chão.
- Queria falar com ela - disse Goldman. - É urgente. É sobre Eileeen.
- Ellie? O que há com Ellie?
- Realmente acho que Rachel..
- Rachel não está aqui agora - Louis falou num tom áspero. - Foi à padaria comprar pão e leite. O que há com Ellie? Vamos lá, Irwin!
- Tivemos de levá-la para o hospital - Goldman respondeu com relutância. - Teve um pesadelo, ou talvez vários pesadelos a seguir. Ficou histérica e não conseguimos
acalmá-la. Ela...
- E no hospital?
- O quê?
- E no hospital - Louis repetiu impaciente -, deram-lhe algum sedativo?
- Sim, oh, sim. Deram-lhe um comprimido e ela voltou a dormir.
- Disse alguma coisa? O que a deixou tão assustada?
Agora Louis agarrava o telefone com tanta força que chegava a repuxar as juntas dos dedos.
Do outro lado houve silêncio, um longo silêncio. Louis não desligou o telefone, por mais que tivesse vontade de fazê-lo.
- Foi o que deixou também Dory assustada - disse Irwin por fim.
- Ellie balbuciou muita coisa antes de ficar..... antes de começar a chorar sem parar. Dory também ficou ..... . você sabe.
- O que ela disse?
- Disse que Oz o Grande e Terrível, tinha matado sua mãe. Só que não falou assim. Ela disse: "Oz o Gande e Teível", que era como nossa outra filha costumava
falar. Nossa filha Zelda. Louis, eu preferia fazer esta pergunta a Rachel, mas o que vocês contaram a Eileen sobre Zelda e o modo como ela morreu?
Louis fechara os olhos; o mundo parecia oscilar suavemente sob seus pés, a voz de Goldman soava de modo estranho, como se ecoasse através de densas névoas.
Você também pode ouvir sons parecidos com vozes, mas são apenas as gralhas ao Sul, lá para os lados de Prospect. O som chega até aqui.
- Louis, você está ouvindo?
- Ela vai ficar boa? - Louis perguntou, sentindo a própria voz distante. - Ellie vai ficar boa? Fizeram um diagnóstico?
- Choque retardado por causa da morte do irmão - disse Goldman.- Meu próprio médico a examinou. Lathrop. Um bom sujeito. Disse que ela estava com um grau de
febre e que quando acordasse esta tarde talvez já não lembrasse mais do sonho. Mas acho que Rachel devia voltar. Estou um pouco assustado, Louis. Acho que você também
devia vir.
Louis não respondeu. O olho de Deus estava em tudo, como dizia o bom Rei Jarfies. Louis, porém, era um ser inferior e seu olho estava apenas naquelas marcas
de lama.
- Louis, Gage morreu - Goldman estava dizendo. - Sei que deve ser difícil de aceitar, tanto para você quanto para Rachel, mas sua filha está viva e precisa de
você.
Sim, já aceitei. Você pode ser estúpido como um peido, Irwin, mas talvez o pesadelo que houve entre suas duas filhas naquele abril de 65 tenha lhe ensinado alguma
coisa em termos de sensibilidade. Ellie precisa de mim, mas eu não posso ir, porque estou com medo - com um medo terrível - de que minhas mãos estejam manchadas
com o sangue da mãe dela.
Louis contemplou as mãos. Contemplou a sujeira sob as unhas, tão semelhante ~ sujeira que estampava aquelas pegadas no chão da cozinha.
- Tudo bem - disse ele -, eu entendo. Estaremos aí o mais depressa possível, Irwin. Talvez ainda esta noite. Obrigado.
- Fizemos tudo que estava ao nosso alcance - disse Goldman. -Mas acho que já somos muito velhos. Acho, Louis, acho que sempre fomos muito velhos.
- Ela disse mais alguma coisa? - Louis perguntou.
A resposta de Goldman foi como um dobre de finados em seu coração.
- Falou bastante, mas só pude compreender mais uma coisa:
"Pascow está dizendo que é tarde demais".
Ele desligou o telefone e voltou como um sonâmbulo para junto do fogão, sem saber se continuava com o desjejum ou jogava tudo no lixo. A meio caminho da cozinha,
porém, uma onda de fraqueza o envolveu. Sua vista foi dominada por uma atmosfera cinzenta e ele ruiu no chão -"ruiu" é a palavra certa, pois foi como se afundasse
para sempre. Foi caindo e caindo através de profundezas nevoentas, rodopiando sem parar, dando voltas e voltas, desenhando espirais e loops, sem nenhum controle
do mergulho. Então sentiu a pancada no joelho inchado. E o inesperado raio de dor que lhe atravessou a cabeça trouxe-o de volta com um grito de agonia. Por um instante,
ficou ali encolhido, as lágrimas brotando nos olhos.
Por fim, voltou a se levantar e ficou imóvel, oscilando. Mas sua mente estava clara de novo. Já era alguma coisa, não era?
O ímpeto de fugir assaltou-o mais uma vez mais forte que nunca. Chegou a tocar o reconfortante monte de chaves no bolso. Ia entrar na Civic e partir para Chicago.
De lá iria com Ellie para algum lugar. É claro que quando chegasse, Goldman já saberia que havia alguma coisa errada, que alguma coisa estava funcionando mal. De
qualquer jeito, pegada .... . Nem que tivesse de raptá-la.
Então a mão se afastou do monte de chaves no bolso. O que eliminou o ímpeto não foi a profunda fraqueza dentro dele, nem um sentimento de inutilidade, culpa
ou desespero. Foi a visão daquelas marcas de barro no chão da cozinha. Sua mente podia vê-las deixando uma trilha pelo país inteiro, voltando-se primeiro para Illinois,
depois para a Flórida, perambulando pelo mundo, mas sempre procura dele. Você arranjou a coisa, ela é sua, e o que é seu acaba sempre voltando as suas mão..
Mais dia menos dia abriria uma porta e lá estaria Gage, uma paródia demente do antigo eu, sorrindo um riso encovado, o azul-claro dos olhos transformado num
amarelo de dolorosa estupidez. Ou Ellíe abriria a porta do banheiro para o banho matinal e lá estaria Gage dentro da banheira, o corpo salpicado das cicatrizes e
calombos de seu acidente fatal, lavado, mas com o fedor do túmulo.
Oh, sim, aquele dia viria, não tinha a menor dúvida.
- Como pude ser tão imbecil? - gritou para a casa vazia, não se importando de estar outra vez falando sozinho. - Como?
Foi um problema de dor, não de imbecilidade, Louis. Há uma diferença.. . pequena, mas fundamental. A bateria daquele cemitério está em bom estado. Com um poder
cada vez maior, disse Jud, e naturalmente ele tinha razão. Agora você representa uma parte desse poder. Ele se alimentou na sua dor, você o fortaleceu... não, melhor
ainda, você o elevou ao quadrado, ao cubo, à enésima potência. E não foi apenas do seu luto que ele se fartou. Foi também da sua sanidade. Ele devorou sua sanidade.
Sua falha foi apenas a incapacidade de aceitar os fatos, coisa muito comum. Mas isto lhe custou a vida de Rachel, e é quase certo que tenha custado também a vida
de seu melhor amigo. Além, é claro, da vida de Gage. É isso ai. O que acontece quando demoramos muito a mandar embora a coisa que bate em nossa porta no meio da
noite é simplesmente isso: desgraça completa.
Agora eu podia me matar, ele pensou, isso de certa forma figura no programa, não é? Tenho o equipamento na maleta. Foi tudo arranjado, tudo arranjado desde o
começo. Tudo manejado por aquele lugar, pelo vendígo, sei lá por quem mais. A coisa fez com que Church morresse na estrada, e talvez também seja responsável pela
morte de Gage. A coisa trouxe Rachel para casa, mas só para se divertir. E certamente me escalou para fazer aquilo... E eu quis fazer.
Mas tenho de dar um jeito nisso, não é?
Sim. Claro que sim.
Tinha de pensar em Gage. Gage ainda estava lá fora. Em algum lugar lá fora.
Seguiu as pegadas através da sala de jantar, da sala de estar e pelas escadas. Estavam borradas porque tinha pisado nelas. Levavam ao quarto. Tinha estado ali,
Louis pensou maravilhado, tinha estado bem ali. Então, viu que a maleta médica fora aberta.
Os apetrechos, sempre arrumados com muito cuidado, estavam agora em absoluta desordem. Mas Louis não demorou muito para perceber que o bisturi sumira. Cobriu
o rosto com as mãos e sentou-se por algum tempo, um débil som de desespero lhe saindo pela garganta.
Por fim, abriu de novo a maleta e começou a procurar alguma coisa.

Voltou de novo ao andar de baixo.
O som da porta da copa sendo aberta. O som do armário da cozinha sendo aberto, depois fechado com força. O guincho áspero do abridor de latas. Depois o som da
porta da garagem abrindo e fechando. E então, a casa ficou vazia sob o sol de maio, assim como estivera vazia naquele dia de agosto do ano anterior, esperando a
chegada dos novos moradores... como esperada a chegada de outras pessoas em alguma data futura. Talvez um jovem casal sem filhos (mas com esperanças e planos). Jovens
e alegres recém-chegados com um gosto por vinho Mondavi e cerveja Lëwenbfãu; ele encarregado do departamento de crédito do Northeast Bank, ela com um diploma de
odontologia ou três anos de experiência como assistente de oculista. Ele ia rachar uma boa pilha de lenha para a lareira, ela ia usar calças de veludo côtelé, de
cintura alta, e passear no terreno da Sra. Vinton colhendo folhagens de outono para um arranjo de mesa, o cabelo num rabo-de-cavalo, o rosto a coisa mais brilhante
sob o céu cinzento. Não faria idéia de que um abutre invisível pairava nas correntes de ar. Os dois se felicitariam por não serem supersticiosos, pela obstinação
em comprar a casa, apesar das histórias que havia sobre ela. E contariam aos amigos que o preço fora uma galinha-morta, fazendo piadas sobre o fantasma do sótão.
Beberiam outro Lëwenbfãu ou mais um copo de Mondavi, depois jogariam gamão ou monopólio.
E talvez tivessem um cachorro.
Louis parou no acostamento para deixar um caminhão da Orinco, carregado de fertilizantes químicos, passar com estrondo. Então atravessou a estrada para a casa
de Jud, seguindo atrás de sua sombra para o poente. Numa das mãos, levava uma lata aberta de ração de gato.
Church viu-o se aproximar e aprumou o corpo, os olhos atentos.
- Ei, Church - disse Louis, examinando a casa silenciosa. - Não quer a bóia?
Pôs a lata de ração sobre a mala do Chevette e viu Church pular furtivamente do teto e começar a comer. Pôs a mão no bolso do casaco. Church se virou para ele,
tenso, como se quisesse ler seus pensamentos. Louis sorriu e se afastou um pouco do carro. Church recomeçou a comer e Louis tirou uma seringa do bobo. Rasgou o papel
da embalagem e encheu-a com 75 miligramas de morfina. Guardou o frasco e caminhou na direção de Church, que olhou de novo com ar desconfiado. Louís deu um sorriso.
- Vamos, coma tudo, Church. Ei, iá, vamos lá, está bem?
Acariciou o gato, sentiu suas costas fazendo um arco, e quando o animal voltou a comer, Louis pegou-o pelo cangote fedorento e mergulhou fundo a agulha no lombo.
Church teve um espasmo de dor e reagiu com violência, bufando e arranhando, mas Louis apertou a seringa até o fim. Só então o largou. O gato pulou do Chevette,
assobiando como uma panela de pressão, um olhar verde-amarelado, selvagem e mau. A agulha e a seringa pendiam de seu lombo quando ele saltou, depois caíram no chão
e quebraram. Louis ficou indiferente. Tinha outras.
O gato começou a caminhar para a estrada, depois deu meia-volta para a casa de Jud, como se tivesse lembrado de alguma coisa. Quando se aproximava da escada
da varanda, começou a oscilar como um bêbado. Chegou ao primeiro degrau, saltou sobre ele, e então caiu. Caiu de lado no passeio do jardim, a respiração muito fraca.
Louis olhou dentro do Chevette. Se o frio que lhe envolvia o coração ainda não fosse suficiente para confirmar suas suspeitas, ali estava a prova: a bolsa de
Rachel no banco da frente, o cachecol, um punhado de passagens aéreas transbordando de um envelope da Delta.
Quando se virou, o movimento rápido, trêmulo, na coxa de Church tinha cessado. Church estava morto. De novo.
Louis avançou em direção à varanda e subiu a escada.

Gage?
Estava frio no vestíbulo. Frio e escuro. Sua voz caiu no silêncio como uma pedra num poço profundo. Louis atirou outra pedra.
- Gage?
Nada. Mesmo o tique-taque do relógio da sala cessara. Naquela rnanhã, não houve ninguém para lhe dar corda.
Mas havia pegadas no assoalho.
Louis passou à sala. Havia cheiro de cigarros há muito queimados. Viu a cadeira de Jud perto da janela. Estava torta, como se ele tivesse se levantado de repente.
Havia um cinzeiro no parapeito e um nítido rolo de cinza dentro dele.
Jud ficou sentado aí, esperando. Esperando o quê? Esperando por mim, é claro, esperando eu voltar para casa. Só que não viu quando eu cheguei. Seja lá como for,
não viu.
Louis observou as quatro latas de cerveja numa fileira. Não era o bastante para fazê-lo dormir, mas talvez tenha se levantado para ir ao banheiro. O que quer
que tenha acontecido, foi sem dúvida um tanto conveniente demais para ter sido completamente casual, não é?
As marcas de lama aproximavam-se da cadeira. E entre as pegadas humanas, havia algumas leves e sinistras pisadas de gato. Como se Church tivesse chapinhado na
sujeira do túmulo deixada pelos pequenos sapatos de Gage. Dali as pegadas se desviavam para a porta de vaivém que levava à cozinha.
Com o coração batendo forte, Louis seguiu as marcas.
Empurrou a porta e viu os pés de Jud abertos no chão, as calças verdes velhas que usava em casa, a camisa xadrez de flanela. Estava esparramado no meio de uma
grande poça de sangue já quase coagulado.
As mãos de Louis bateram com força nos olhos, como se quisessem tirar-lhe de vez a visão. Mas era impossível não ver. E ele viu os olhos, os olhos abertos de
Jud, acusando-o, talvez acusando também a si próprio por ter iniciado aquilo.
Mas será que foi ele que começou?, Louis se perguntou. Foi mesmo ele?
Jud soubera da coisa por Stanny B., e Stanny B. soubera pelo pai, e o pai de Stanny B. soubera pelo pai dele, o último branco a negociar peles com os índios,
um franco-canadense do tempo em que Franklin Pierce era presidente dos Estados Unidos.
- Oh, Jud, sinto muito - ele sussurrou.
Os olhos brancos de Jud o fitavam.
- Sinto muito - Louis repetiu.
Seus pés pareceram caminhar sozinhos e de repente sua mente estava de volta ao Dia de Ação de Graças, não à noite em que ele e Jud tinham levado o gato até o
"simítério" de bichos e até o cemitério micmac, mas ao peru que Norma pusera na mesa do jantar, os três rindo e conversando, ele e Jud tomando cerveja e Norma um
copo de vinho branco; ele tirara da gaveta de baixo a toalha de mesa de linho branco, exatamente como fazia agora, mas Norma a estendera na mesa, segurando-a com
bonitos e pesados castiçais de estanho, enquanto ele...
Louis viu a toalha cair como um pára-quedas sobre o corpo de Jud, cobrindo-lhe piedosamente o rosto. Quase de imediato, pequenas pétalas do mais profundo e mais
escuro escarlate começaram a manhar o linho.
- Sinto muito - ele disse pela terceira vez. - Sinto tanto...
Então alguma coisa se mexeu no andar de cima, alguma coisa fez um ruído de roçar e a sílaba ficou entalada em seus lábios. Fora um movimento suave, um movimento
furtivo, mas fora proposital. Oh, sim, estava convencido disso. Um som que alguém pretendia que ouvisse.
As mãos quiseram tremer, mas ele não deixou. Aproximou-se do oleado xadrez da mesa da cozinha e pôs a mão no bolso. Tirou de lá mais três seringas, livrou-as
do invólucro de papel e colocou-as em fila sobre a mesa. Tirou mais três frascos e encheu cada uma das seringas com morfina suficiente para matar um cavalo - ou
Hanratty, o touro, se ele estivesse por ali. Depois tornou a colocá-las no bolso.
Saiu da cozinha, atravessou a sala e parou embaixo da escada.
- Gage?
De algum lugar nas sombras lá em cima veio uma risada - um frio e mórbido riso que fez a pele formigar em suas costas.
Ele começou a subir.
Foi uma longa caminhada até o alto daqueles degraus. Pôde muito bem imaginar a emoção de um condenado subindo a escada (mesmo que terrivelmente curta) da plataforma
do cadafalso, as mãos amarradas nas costas, a consciência de que mijaría nas calças quando não pudesse mais assobiar.
Por fim chegou ao patamar, uma das mãos no bolso, os olhos fixos na parede. Quanto tempo ficou ali parado? Não seria capaz de dizer. Podia sentir sua lucidez
começando a escapar. Era uma sensação muito concreta, uma coisa palpáveL Era interessante. Achava que, pouco antes de cair, uma árvore sobrecarregada de gelo no
meio de uma tempestade devia se sentir exatamente assim (se árvores fossem capazes de sentir qualquer coisa, é claro). Era interessante... e não deixava de ser divertido.
- Gage, quer ir para a Flórida comigo?
Aquele riso de novo.
Louis se virou e foi contemplado pela visão da mulher de quem uma vez se aproximara com uma flor nos dentes. Estava estendida no corredor, morta, as pernas esparramadas
como as de Jud, as costas e a cabeça esticadas obliquamente contra a parede. Parecia alguém que tivesse dormido enquanto lia na cama.
Ele se abaixou.
Oh, meu bem, você veio.
O sangue se espalhava no papel de parede em formas absurdas. Fora atacada uma dúzia de vezes, vinte vezes, quem podia saber? O bisturi cumprira sua missão.
E subitamente ele tomou consciência do que estava vendo, conseguiu realmente enxergar o que tinha diante dos olhos... e começou a gritar.
Os gritos ecoaram, vibraram com estridência por uma casa onde, agora, só a morte vivia e caminhava. Olhos esbugalhados, face lívida, cabelo arrepiado nas pontas
- gritava; o som brotava na garganta dilatada como sinos do inferno, guinchos terríveis que assinalavam não o fim do amor, mas da lucidez. Em sua mente, todas as
imagens hediondas soltaram-se ao mesmo tempo. Victor Pascow morrendo no tapete da enfermaria, Church voltando com pedaços de plástico verde nos bigodes, o boné de
beisebol de Gage no meio da estrada, cheio de sangue, e principalmente a coisa que vira perto do Pequeno Pântano de Deus, a coisa que derrubara a árvore, a coisa
que tinha olhos amarelos, o vendigo, criatura do norte do país, a coisa morta cujo toque desperta os mais horríveis apetites.

Rachel não fora apenas morta.
Tinham feito mais alguma coisa... tinham feito mais alguma coisa com ela.
(CLIQUE!)
Houve um estalo dentro de sua cabeça. O som de algum relé entrando em curto e queimando para sempre, o som de relâmpago riscando o céu, o som de uma porta abrindo.
Ergueu os olhos entorpecido, o grito ainda tremendo na garganta e, enfim, lá estava Gage, a boca manchada de sangue, o queixo pingando, os lábios repuxados num
sorriso infernal. Trazia o bisturi numa das mãos.
Mas quando quis dar o primeiro golpe, Louis o empurrou num reflexo instintivo. A lâmina passou rente a seu rosto, mas Gage cambaleou. Desajeitado como Church,
Louis percebeu. Num movimento rápido, deu-lhe um chute no pé, ele caiu pesadamente e, antes que conseguisse se levantar, Louis estava a cavalo sobre ele, um joelho
imobilizando a mão que segurava a lâmina.
- Não - a coisa arquejou. O rosto se torcia, se contorcia. Os olhos eram de inseto, um olhar maligno cheio de uma raiva estúpida. -Louis agarrou com força uma
das seringas e tirou-a do bolso. Teria de ser rápido. A coisa sob ele era como um peixe ensebado, e por mais que lhe dobrasse o pulso, não largaria o bisturi.
Aqueie rosto parecia ondular e se alterar. Ora a face de Jud, morto de olhos abertos; ora o rosto esmagado, podre, de Victor Pascow, os olhos rolando estupidamente
dentro das órbitas; ora, como se estivesse diante de um espelho, era seu próprio rosto o que via, um rosto horrivelmente pálido, enlouquecido. Então aquilo se alterava
de novo, se transformava na face da criatura nos bosques - testa curvada, olhos imóveis e amarelos, língua comprida, bifurcada em pontas, sorrindo e sibilando.
- Não, não, não-não-não...
A coisa deu um çranco sob ele. A seringa caiu-lhe das mãos e rolou pelo chão do corredor. Ele pegou outra e enfiou-a com decisão no fundo das costas de Gage.
Gage berrava, o corpo retesado, escorregando, quase escapando. Com um estranho grunhido, Louis pegou a terceira seringa e aplicou-a no braço de Gage, calcando
o êmbolo até o fim. Saiu então de cima dele e começou a recuar lentamente pelo corredor. Gage se levantou devagar e começou a cambalear em sua direção. Cinco passos,
e o bisturi lhe caiu da mão. Atingiu o chão com a lâmina e ficou cravado na madeira, vibrando. Dez passos, e aquela estranha luz amarela em seus olhos começou a
apagar. Uma dúzia, e ele caiu de joelhos.
Então Gage ergueu os olhos e, por um instante, Louis viu seu filho, seu filho real, o rosto amargurado e cheio de dor.
- Papai! - Gage gritou e depois caiu de frente, batendo com o rosto no chão.
Louis ficou um instante imóvel, depois se aproximou, cauteloso, esperando algum truque. Mas não houve truque, nenhum salto repentino com as mãos arreganhadas
como garras. Enfiou os dedos com perícia pela garganta de Gage, encontrou o pulso e deteve-se nele. Foi médico pela última vez na vida, sentindo o pulso, sentindo
até não haver mais nada, nada por dentro de Gage, nada por fora.
Quando por fim estava tudo acabado, Louis ficou de pé e se afastou pelo corredor até um canto afastado. Agachou-se lá, encolhendo-se como uma bola, apertando-se
muito, muito, contra a parede. Achou que se humilhana mais se pusesse o polegar na boca e foi isso que fez.

Ficou assim por mais de duas horas... E então, pouco a pouco, uma idéia sombria, mas sem dúvida plausível, apoderou-se dele. Tirou o polegar da boca. O polegar
deu um pequeno estalido. Louis se pôs de novo
(ei, iá, vamos lá)
em movimento.

No quarto onde Gage se escondera, tirou o lençol da cama e levou-o para o corredor. Embrulhou nele o corpo da esposa, com carinho, com amor. Estava cantarolando,
mas não se deu conta disso.

Encontrou gasolina na garagem de Jud. Dezoito litros de gasolina numa lata vermelha perto do cortador de grama. Mais do que suficiente. Começou na cozinha onde
Jud jazia sob a toalha de mesa usada no Dia de Ação de Graças. Derramou um pouco por lá. Depois passou para a sala com a lata ainda inclinada, borrifando gasolina
no tapete, no sofá, no suporte de revistas, nas poltronas, e fez o mesmo no vestíbulo e no quarto dos fundos. O cheiro era forte e penetrante.
Os fósforos de Jud estavam ao lado da cadeira onde ele manteve sua infrutífera vigília, em cima do maço de cigarros. Louis pegou-os. Caminhou para a porta da
frente, atirou um fósforo aceso pelo ombro e saiu. A rajada de calor foi imediata e muito intensa, fazendo a pele se contrair em seu pescoço. Bateu a porta e só
se demorou um instante na varanda, vendo a cintilação alaranjada atrás das cortinas de Norma. Caminhou para a porta do jardim, parando mais um instante, recordando
as cervejas que, muito tempo atrás, ele e Jud tinham tomado ali, ouvindo o ronco abafado, mas crescente, do fogo dentro da casa.
Depois foi embora.


Steve Masterton entrou na curva que ficava pouco antes da casa de Louis e viu imediatamente a fumaça - não vinha da casa de Louis, mas da casa do outro lado
da estrada, onde morava o velho Jud.
Fora até lá porque ficara preocupado... profundamente preocupado. Charlton lhe falara do telefonema de Rachel na véspera e isso o deixou curioso para saber onde
Louis estava... o que andava fazendo.
Era uma preocupação vaga, mas lhe dava um certo comichão. Só ficaria sossegado se fosse até lá e visse com os próprios olhos se as coisas estavam bem... Ou tão
bem quanto pudessem estar naquelas circunstâncias.
O período da primavera esvaziara a enfermaria num passe de mágica e Surrendra tinha lhe dito que fosse em paz; podia se virar sozinho se alguma coisa acontecesse.
Por isso Steve subira na Honda, que deixara toda a semana guardada na garagem, e foi para Ludlow. Talvez tenha acelerado um pouco mais que o necessário, mas a preocupação
crescera dentro dele, começara a atormentá-lo. E junto com ela, veio a idéia absurda de que já era tarde demais. Absurda, é claro, mas no fundo do estômago tinha
uma sensação semelhante à que experimentara no outono passado, quando surgiu aquele caso de Pascow - uma sensação de angustiante surpresa e ansiedade quase insuportável.
Não era de modo algum um homem religioso (na universidade fora membro por dois semestres da Sociedade Ateísta e só se desligara quando, em particular e muito confidencialmente,
ouviu de um professor que o fato de pertencer ao grupo podia prejudicar suas chances de obter mais tarde uma bolsa de estudos), mas achava que, como qualquer outro
ser humano, podia se deparar com aquelas condições biológicas ou biorrítmicas que passam por premonição. De certa forma, a morte de Pascow pareceu da o tom inicial
de todo o ano que se seguiria. Sem dúvida, não fora um ano dos melhores. Dois parentes de Surrendra tinham sido presos ao voltar à Índia, algum problema político.
Surrendra acreditava que um deles (um tio de quem gostava muito) podia já estar morto. Surrendra tinha chorado e as lágrimas daquele indiano geralmente bem-humorado
o assustaram. A mãe de Charlton tivera de amputar completamente um dos seios. A enérgica enfermeira não alimentava grandes esperanças sobre as chances de ela se
juntar ao grupo dos que sobreviviam cinco anos. O próprio Steve já fora a quatro enterros desde a morte de Victor Pascow: o da irmã de sua mulher, morta num acidente
de automóveis, o de um primo, morto num estúpido acidente resultante de uma aposta de bar (fora eletrocutado tentando provar que era capaz de subir até o alto de
um poste de luz), o de um avô, e, é claro, o do filho de Louis.
Gostava imensamente de Louis e queria certificar-se de que estava bem. Ultimamente, Louis passara o diabo.
Quando viu os rolos de fumaça, seu primeiro pensamento foi que aquilo era mais uma coisa a ser creditada a Victor Pascow, cuja morte parecia ter removido qualquer
barreira protetora entre o pessoal da enfermaria e um extraordinário surto de falta de sorte. Mas era uma idéia absurda, e a casa de Louis foi a prova. Lá estava
ela, calma e branca, um pedaço da caprichada arquitetura da Nova Inglaterra no sol da manhã.
Havia gente correndo para a casa do velho e, quando Steve fez a curva para a entrada da garagem de Louis, viu um homem atirar-se para a varanda de Jud, parar
junto da porta da frente e depois recua. Foi o melhor que ele fez; pouco depois a vidraça no centro da porta arrebentou e as chamas saltaram através da abertura.
Se o maluco tivesse aberto a porta, o estouro do fogo ia cozinhá-lo como uma lagosta.
Steve saltou e puxou o suporte da Honda, momentaneamente esquecido de Louis. Sentia-se atraído pelo velho mistério do fogo. Meia dúzia de pessoas tinham se juntado
ali; excluindo o pseudo-herói, que continuava parado no gramado dos Crandall, todas se mantinham a uma distância considerável. Agora as janelas entre a varanda e
a casa explodiram. Cacos de vidro dançaram no ar. O pseudo-herói abaixou a cabeça e correu. Chamas subiram como mãos pela parede interna da varanda, estufando a
pintura branca. Enquanto Steve continuava olhando, uma das cadeiras de palhinha foi tomada pelo fogo e estourou.
Sobre os sons do incêndio, ouviu o suposto herói gritar com uma estridência absurda:
- Não vai sobrar nada! Nada mesmo! Se Jud está Lá dentro, já virou um assado! Eu avisei a ele milhares de vezes sobre o querosene naquele barril!
Steve abriu a boca para perguntar se tinham chamado os bombeiros mas nesse momento ouviu um fraco lamento de sirenes se aproximando. Muitas sirenes. Os
bombeiros tinham sido chamados, mas o pseudo-herói tinha razão: não ia sobrar nada. Agora as chamas subiam por meia dúzia de janelas quebradas e as brilhantes telhas
verdes da varanda se transformavam numa membrana quase transparente de fogo.
Então Steve se lembrou de Louis e deu meia-volta. Se Louis estava lá, por que não se juntara aos vizinhos do outro lado da estrada?
Steve captou alguma coisa, um vislumbre, com o canto do olho.
Além do caminho que levava à garagem, havia um terreno que se estendia pela encosta suave de uma enorme colina. O mato, embora ainda verde, já crescera bastante
naquele maio, mas Steve podia ver uma trilha, quase tão caprichosamente roçada quanto a grama de um campo de golfe. Subia em meandros pela encosta, chegando até
os bosques que, espessos e muito verdes, começavam pouco abaixo do horizonte. Foi ali, onde o pálido verde do mato encontrava o verde mais denso e forte dos bosques,
que Steve tinha visto o movimento - um calção branco que parecia estar se movendo. Desapareceu assim que o olho o registrou, mas naquele breve instante lembrara
um homem carregando um fardo branco.
Era Louis, sua mente informou-o com súbita e irracional certeza. Era Louis, e é melhor alcançá-lo rapidamente porque algo terrível aconteceu e, muito breve,
algo ainda mais terrível vai acontecer se você não o detiver.
Ficou indeciso na entrada da garagem, andando de um lado para o outro, o peso do nervosismo tomando conta de seu corpo.
Ei rapaz, agora você já está mesmo assustado, não é?
Sim. Estava. Estava realmente assustado e sem absolutamente qualquer motivo. Mas havia também uma certa... uma certa.
(atração)
sim, uma certa atração ali, alguma coisa em torno da trilha, aquela trilha subindo a colina e talvez continuando entre os bosques. Certamente, o caminho tinha
de conduzir a algum lugar, não é? É claro. Todos os caminhos levam a algum lugar.
Louis. Não se esqueça de Louis, seu estúpido! Veio aqui para falar com Louis, está lembrado? Não veio a Ludlow para explorar os malditos bosques.
- O que encontrou aí, Randy? - gritou o pseudo-herói. Sua voz, ainda estridente e um tanto animada, soou bem alta.
A resposta de Randy foi quase; mas não de todo, abafada pelo crescente lamento das sirenes dos bombeiros.
- Um gato morto.
- Queimado?
- Não parece queimado - Randy replicou. - Só parece morto.
E a mente de Steve respondeu implacavelmente, como se o diálogo do outro lado da rua tivesse algo a ver com o que tinha visto, ou pensava ter visto: aquele vulto
subindo a trilha era Louis.
Pôs-se então a caminho, avançando pela trilha, deixando o fogo para trás. Estava bastante suado quando chegou à beira dos bosques e a sombra das árvores parecia
fresca e agradáveL Havia um suave aroma de pinho e abetos, casca e seiva.
Assim que entrou na mata disparou numa corrida veloz, sem saber muito bem por que corria, sem saber muito bem por que o coração batia com tanta força. A respiração
se transformou num assobio ofegante.
Foi capaz de manter aquela carreira até chegar ao fim de um declive - a trilha era admiravelmente nítida -, mas quando alcançou o arco que indicava a entrada
do "simitério" de bichos seu passo era pouco mais que o de uma caminhada rápida. Sentiu uma forte pontada no lado direito, logo abaixo da axila.
Seus olhos mal puderam registrar os círculos de túmulos, os quadrados de lata batida, as tábuas e pedras servindo como lápides. O olhar fixou-se no espetáculo
bizarro do outro lado da clareira circular. Fixou-se em Louis que, num total desafio às leis da gravidade, escalava um monte de árvores caídas. Avançava pelos troncos
como se subisse uma escada, os olhos bem à frente, como um homem que tivesse sido hipnotizado ou que caminhasse dormindo. Levava nos braços a coisa branca que Steve
vira com o canto do olho. Daquela distância, a forma era evidente: tratava-se de um corpo. Um pé, envolvido num sapato preto com um pequeno salto, pendia de dentro
do fardo. E Steve pressentiu, com súbita e nauseante certeza, que Louis estava carregando o corpo de Rachel.
O cabelo de Louis tinha embranquecido.
- Louis! - Steve gritou.
Louis não hesitou, não parou. Atingiu o topo dos troncos e começou a descer pelo outro lado.
Ele vai cair, Steve pensou incoerentemente. Até aqui teve muita sorte, teve uma sorte fantástica, mas logo vai cair e talvez não quebre só uma perna~.
Mas não caiu. Atingiu o outro lado dos troncos, ficou temporariamente fora da visão de Steve e reapareceu avançando de novo para os bosques.
- Louis! - Steve tornou a gritar.
Desta vez ele parou e se virou para trás.
Steve ficou atônito com o que viu. Além do cabelo branco, Louis tinha o rosto de um homem velho, muito velho.
A princípio, Louis não deu mostras de reconhecê-lo. O reconhecimento foi clareando pouco a pouco, como se alguém estivesse ligando um reostato em seu cérebro.
A boca se crispou. Daí a um instante, Steve percebeu que ele estava tentando sorrir.
- Steve - disse num tom rouco, hesitante. - Alô, Steve. Vou enterrá-la. Tenho de fazer isso sozinho, eu acho. Pode demora até o anoitecer. O solo lá em cima
é muito pedregoso. Sei que você não vai querer me ajudar, não é?
Steve abriu a boca, mas nenhuma palavra saiu. Apesar da surpresa, apesar do horror, queria ajudar Louis. De certa forma, enterrar alguém lá em cima nos bosques
não parecia errado, parecia ...muito natural.
- Louis - conseguiu falar num tom de grunhido -, o que aconteceu? Meu Deus, o que aconteceu? Ela estava.., no fogo?
- Esperei muito tempo com Gage - disse Louis. - Alguma coisa tomou conta dele porque esperei demais. Mas vai ser diferente com Rachel, Steve. Sei que vai.
Louis cambaleou um pouco e Steve percebeu que o amigo enlouquecera... com toda a clareza. Louis estava louco e profundamente exausto. E só o cansaço lhe parecia
pesar na mente desnorteada.
- Posso precisar de alguma ajuda - disse Louis.
- Louis, mesmo que eu quisesse ajuda-lo, não seria capaz de escalar essa pilha de troncos.
- Oh, seria. É fácil. Caminhe normalmente e não olhe pra baixo. Esse é o segredo, Steve.
Então ele se virou e, embora Steve o chamasse, mergulhou nos bosques. Por alguns momentos, Steve ainda pôde ver o branco do lençol cintilando por entre as árvores.
Depois sumiu.
Correu para as árvores caídas e, sem pensar, começou a escalá-las. A princípio tateou com as mãos em busca de apoio, tentando rastejar pelos troncos, mas depois
se aprumou. E ao fazê-lo, uma doida e temerária alegria tomou conta dele - era como respirar oxigênio puro. Acreditou que ia conseguir... E conseguiu. Movendo-se
rapidamente e com segurança, chegou ao topo. Ficou ali por um instante, oscilando, observando Louis avançar pela trilha, a trilha que continuava do outro lado.
Louis se virou e viu Steve. A esposa, enrolada num lençol ensangüentado, estava em seus braços.
- Você pode ouvir sons - disse Louis. - Sons parecidos com vozes. Mas são apenas as gralhas ao Sul, lá para os lados de Prospect. O som chega até aqui. É engraçado.
- Louis...
Mas Louis já se virara.
Por um instante, Steve quase foi atrás dele. Esteve muito, muito perto de fazer isso.
Eu poderia ajudá-lo, se é isso que ele quer... E eu também quero ajudá-lo, não há dúvida. A verdade é essa, pois há mais alguma coisa aqui do que parece à primeira
vista e quero saber o que é. Parece muito... bem... muito importante. Parece um segredo. Um mistério.
Então, um galho estalou sob um de seus pés inclinados. Produziu um ruído seco, enérgico, como o estalar da trave de um revólver. E o barulho deu-lhe consciência
exata de onde estava e do que estava fazendo. O terror saltou sobre ele e ele girou num círculo precário, braços abertos para manter o equilíbrio, a língua e a garganta
tomadas pelo medo. O rosto estampou o esgar sombrio de um sonâmbulo que, ao acordar, descobre que estava caminhando sobre o parapeito de um arranha-céu.
Ela está morta e acho que talvez Louis a tenha assassinado. Louis ficou louco, completamente louco, ....
Mas ali havia alguma coisa pior que a loucura.., algo muito, muito pior. Era como se existisse um ímã naqueles bosques. Ele o sentia agindo sobre uma parte de
seu cérebro, atraindo-o para onde Louis estava levando Rachel.
Vamos lá, siga a ....... Siga a trilha e veja onde ela vai dar. Temos novidades para mostrar a você lá em cima, Steve, coisas que nunca lhe contaram na Sociedade
Ateísta em Lake Forest.
E então, talvez porque aquilo já fora suficiente para encher o dia e perdeu interesse aos olhos de sua mente, a chamada do lugar simplesmente cessou. Steve deu
dois passos fundos, bêbados, pelo lado das árvores caídas. Novos galhos deslizaram com uma algazarra rangente e o pe esquerdo mergulhou num emaranhado de galhos
secos; lascas ásperas, afiadas, descalçaram-lhe o tênis e lhe rasgaram a carne quando ele puxou a perna. Caiu de frente no 'simitério" de bichos, escapando por pouco
de um pedaço de lata de suco de laranja, que facilmente podia ter perfurado seu estômago.
Levantou-se, olhou em volta, atordoado, se perguntando o que havia acontecido.., ou se realmente acontecera alguma coisa. Tudo já começava a parecer um sonho.
Então, do fundo dos bosques atrás das árvores caídas, bosques tão espessos que a luz parecia esverdeada e mortiça, mesmo nos dias mais claros, brotou um riso
baixo, cacarejante. O som era tremendo. Steve não pôde sequer imaginar que espécie de criatura podia ter feito aquele som.
Correu, um dos pés descalços, querendo gritar mas não conseguindo. Ainda corria quando chegou à casa de Louis; ainda queda gritar quando finalmente deu partida
na moto e guinou na Rodovia 15. Por pouco não bateu de lado num carro de bombeiros que vinha de Brewer. Dentro do capacete, o cabelo arrepiara.
Quando voltou a seu apartamento em Orono, já não conseguia lembrar com precisão se fora ou não a Ludlow. Ligou para a enfermaria dizendo que estava doente, tomou
um comprimido e foi deitar.
Steve Masterton nunca mais se lembrou daquele dia... exceto nos sonhos mais profundos, naqueles que surgem nas últimas horas antes do amanhecer. E nesses sonhos,
sentia sempre que algo enorme cambaleava perto dele, algo que esticava a mão para tocá-lo. Mas, no último segundo, ele repelia aquela mão inumana.
Algo com grandes olhos amarelos que brilhavam como faróis de neblina.
As vezes Steve acordava gritando, os olhos arregalados, saltando pelas órbítas. Pensava então: você acha que está gritando, mas é apenas o barulho das gralhas,
lá para o Sul, em Prospect. O som chega até aqui. É engraçado.
Não sabia, não conseguia lembrar, o que aquele pensamento significava. No ano seguinte, pegou um trabalho no centro do pais, em St. Louis.
No tempo que transcorreu entre sua última visão de Louis Creed e a partida para o Meio-Oeste, nunca mais voltou à cidade de Ludlow.

EPILOGO
A polícia veio no fim da tarde. Fizeram perguntas, mas não levantaram suspeitas. As cinzas ainda estavam quentes e ainda não tinham sido revolvidas. Louis respondeu
às perguntas. Eles pareceram ficar satisfeitos. Conversaram do lado de fora e ele usava um chapéu. Isso era bom. Se tivessem visto seu cabelo branco, poderiam ter
feito mais perguntas. O que seria mal. Ele usava luvas de jardinagem, o que também era bom. As mãos estavam ensangüentadas e muito machucadas.
Jogou cartas sozinho até bem depois da meía-noite.
Estava começando uma nova rodada quando ouviu a porta de trás se abrir.
Você arranjou a coisa, ela é sua, e mais cedo ou mais tarde acaba voltando às suas mãos, Louis Creed pensou.
Não se virou, continuou olhando as cartas, enquanto os passos lentos, rangentes se aproximaram. Viu a rainha de espadas. Pôs a mão em cima dela.
Os passos cessaram bem nas suas costas.
Silêncio.
A mão fria caiu no ombro de Louis. A voz de Rachel era um chiado que parecia cheio de terra.
- Querido - disse a coisa.
O Homem do Cortador de Grama - Stephen King

O Homem do Cortador de Grama
Stephen King

Em anos anteriores, Harold Parkette sempre se orgulhara de seu gramado. Possuíra um grande cortador Lawnboy prateado e pagava ao garoto que morava no mesmo quarteirão
cinco dólares por cada vez que o usava para aparar o gramado. Naqueles tempos, Harold Parkette acompanhava os jogos do Boston Red Sox pelo rádio, com uma cerveja
na mão, sabendo que Deus estava no céu e tudo corria bem neste mundo, inclusive seu gramado. No ano passado, porém, em meados de outubro, o destino pregara uma peça
de mau gosto em Harold Parkette. Enquanto o garoto aparava a grama pela última vez naquela estação, o cão dos Castonmeyer perseguira o gato dos Smith e este fora
apanhado pelo cortador de grama. A filha de Harold vomitara meio litro de refresco de cereja no macacão novo e sua esposa tivera pesadelos durante uma semana. Embora
tivesse chegado ao local após o acidente, chegara a tempo de ver Harold e o garoto, de cara esverdeada de enjôo, limpando as lâminas do cortador. A filha dos Parkette
e a Sra. Smith ficaram por perto, chorando, embora Alícia fizesse um intervalo para trocar o macacão por um par de blue jeans e um daqueles revoltantes suéteres
apertados. Ela era gamada pelo rapaz que aparava o gramado. Após uma semana de escutar a mulher choramingar e engolir em seco na cama ao lado, Harold resolvera livrar-se
do cortador de grama. De todo modo, supunha que não necessitava de um cortador de grama. Até então, pagava um rapaz; dali em diante, pagaria um rapaz com um cortador.
E talvez Carla parasse de gemer durante o sono. Talvez ele até conseguisse voltar a trepar com ela. Portanto, levou o Lawnboy prateado à loja Sunoco de Phil e este
começou a regatear. Harold saiu da loja com um pneu Kelly novinho em folha e o tanque do carro cheio de gasolina azul, enquanto Phil colocava o Lawnboy prateado
em lugar de destaque perto

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King de uma das bombas de gasolina em frente à loja, com o letreiro À VENDA pintado a mão. E este ano, Harold simplesmente
ficou adiando a contratação de alguém para aparar a grama. Quando, afinal, telefonou para o garoto do ano passado, a mãe dele informou que Frank fora estudar na
Universidade Estadual. Harold sacudiu a cabeça, maravilhado, e foi à geladeira pegar uma cerveja. O tempo voava, não é mesmo? Universidade... Meu Deus! Continuou
a adiar a solução do problema até que primeiro de maio passou e, depois, junho se escoou com o Red Sox num discreto quarto lugar do campeonato. Nos fins de semana,
Harold sentava-se na varanda dos fundos e observava soturnamente uma infindável procissão de rapazes que ele nunca vira antes aparecerem para dizer alô antes de
arrastarem sua viçosa filha para o cinema local. E a grama crescia e vicejava de modo maravilhoso. Foi um bom verão para os gramados; três dias de sol intercalados
com um de chuva fina, com a regularidade de um relógio. Em meados de julho, o gramado mais parecia uma campina que o quintal de um homem de classe média residente
num bom subúrbio e Jack Castonmeyer começou a fazer todos os tipos de piadas extremamente sem graça, a maioria das quais referentes ao preço do feno e da alfafa.
E Jenny, a filha de quatro anos de Don Smith, passou a esconder-se ali quando havia mingau de aveia no café da manhã ou espinafre no jantar. Um dia no final de julho,
Harold saiu para o pátio quando o jogo estava quase terminando e viu uma marmota passeando alegremente na alameda coberta pela grama crescida. Chegara a hora, decidiu
ele. Desligou o rádio, pegou o jornal e procurou a seção de classificados. E na metade da coluna de Serviços em Tempo Parcial, encontrou o seguinte: Aparo gramados.
Preço razoável 776-2390. Harold telefonou para aquele número, esperando ser atendido por uma dona-de-casa ocupada em passar o aspirador de pó na sala, que gritaria
para chamar o filho que estava no jardim. Ao contrário, foi atendido por uma voz severamente profissional que disse: - Serviço de Jardinagem Pastoral... em que podemos
servi-lo? Cautelosamente, Harold explicou à voz de que maneira o Serviço de Jardinagem Pastoral poderia servi-lo. Chegara àquele ponto, então? Os aparadores de grama
abriam firmas e contratavam pessoal de escritório? Perguntou à voz pelo preço e a voz mencionou um preço realmente razoável. Harold desligou com uma insistente sensação
de inquietação e voltou z varanda dos fundos. Sentou-se, ligou o rádio e observou seu viçoso gramado, fitando depois as nuvens que se movimentavam lentamente no
céu de sábado. Carla e Alícia estavam na casa de sua sogra e ele estava sozinho. Seria uma agradável surpresa para elas se o rapaz que viria aparar o gramado terminasse
antes que voltassem. Abriu outra cerveja e suspirou quando Dick Drago fez uma péssima jogada e perdeu o ponto. Uma leve brisa soprava na varanda fechada por uma
tela. Os grilos cantavam baixinho na grama comprida. Harold grunhiu um comentário desagradável a respeito de

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King Dick Drago e começou a cochilar. Acordou meia hora mais tarde, sobressaltado pela campainha da porta da frente. Derramou
a cerveja ao levantar-se para atender. Um homem trajando macacão de brim sujo de grama estava parado em frente ao alpendre, mascando um palito. Era gordo. A curva
da barriga empurrava o desbotado macacão de tal forma que Hsrold teve a impressão de que o sujeito engolira uma bola de basquetebol. - Sim? - disse Harold Parkette,
ainda zonzo de sono. O homem sorriu, rolou o palito de um canto para outro da boca, ajeitou os fundilhos do macacão e depois empurrou o boné de beisebol para o alto
da testa. Havia uma mancha fresca de óleo de motor na pala do boné. E ali estava o homem, cheirando a grama, terra e óleo, sorrindo para Harold Parkette. - O Serviço
Pastoral me mandou, companheiro - disse ele em tom jovial, coçando a virilha. - Você chamou, certo? Certo, companheiro? Continuou a sorrir, interminavelmente. -
Oh... O gramado... Você? Harold fitava-o estupidamente. - Exato: eu. O aparador de grama soltou uma gargalhada na cara inchada de sono de Harold. Harold afastou-se
desajeitadamente e o aparador de grama avançou a passos pesados, atravessando o vestíbulo, a sala de visitas e a cozinha, chegando à varanda dos fundos. Agora, Harold
reconhecera o homem e tudo estava bem. Vira o tipo antes, trabalhando para o departamento de obras sanitárias e nas turmas de conservação da auto-estrada. Sempre
com um minuto de sobra para se apoiarem nas ferramentas e fumarem Lucky Strikes ou Camels, olhando para os outros como se fossem o sal da terra, capazes de lhe pedir
cinco pratas emprestadas ou de dormir com sua mulher quando lhes desse na cabeça. Harold sempre sentira um leve medo de homens assim; eram sempre bronzeados de sol,
tinham sempre pés-de-galinha nos cantos dos olhos e sempre sabiam como agir. - O gramado dos fundos é a parte principal do serviço - disse ele ao homem, engrossando
subconscientemente a voz. - É quadrado e não existem obstruções, mas a grama está muito crescida. Sua voz voltou ao tom normal e ele a ouviu desculpar-se: - Acho
que me descuidei demais.

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King - Tudo bem, companheiro. Não tem bronca, não. Tudo bem, mesmo - replicou o aparador de grama, sorrindo para Harold com
mil e uma piadas de caixeiro-viajante no olhar. - Quanto mais alta, melhor. Solo saudável, é o que você tem aqui, por Circe. É o que sempre costumo dizer. Por Circe?
O homem que aparava gramados inclinou a cabeça de lado para escutar melhor o rádio. Yastrzemski acabava de perder a jogada. - Torce pelo Red Sox. Sou torcedor dos
Yankees. Voltou ao interior da casa com seu andar pesado, dirigindo-se ao alpendre da frente. Harold observou-o com amargura. Tomou a sentar-se e olhou acusadoramente
por um momento para a poça de cerveja embaixo da mesa, com a lata virada no meio. Pensou em pegar um pano de chão na cozinha, mas decidiu deixar como estava. Tudo
bem. Não tem bronca Abriu o jornal na seção financeira e estudou judiciosamente os preços de fechamento do leilão da Bolsa de Valores. Como bom republicano, considerava
os executivos do mercado de ações de Wall Street, que manipulavam aqueles números publicados pelo jornal, verdadeiros semideuses... (Por Circe? ? ) ... e desejava
freqüentemente ser capaz de entender melhor a Palavra, não como fora entregue no alto da montanha, gravada em tábuas de pedra, mas em abreviaturas enigmáticas como
on, op, pp, pn, 1,25 -. 3. Certa vez, adquirira cautelosamente três ações de uma companhia chamada Midwest Bisonburgers Inc., que falira em 1968. Ele perdera todo
o seu investimento de setenta e cinco dólares. Agora, ao que entendia, bisonburgers eram realmente a sensação que estava por chegar. A onda do futuro. Discutira
o assunto muitas vezes com Sonny, o barman do Aquário do Peixe Dourado. Sonny dissera que o problema de Harold fora estar cinco anos avançado e que ele deveria...
Um repentino rugido ensurdecedor despertou-o do novo cochilo em que ele começava a mergulhar. Harold levantou-se de um salto, derrubando a cadeira e olhando desvairadamente
em volta de si. - Isso é um cortador de grama? - perguntou Harold Parkette às paredes da cozinha. Meu Deus, isso é um cortador de grama? Atravessou a casa correndo
e, com os olhos esbugalhados, espiou pela porta da frente. Nada lá fora, exceto um amassado furgão verde com o letreiro Serviço de Jardinagem

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King Pastoral Ltda. pintado na parte lateral. O rugido ensurdecedor vinha dos fundos, agora. Harold tornou a atravessar a
casa correndo, chegou à varanda dos fundos e estacou, petrificado. Era obsceno. Um travesti. O velho aparador de grama vermelho movido a motor, que o homem trouxera
no furgão, estava funcionando sozinho. Ninguém o empurrava; na verdade, não havia ninguém num raio de um metro e meio dele. Corria febrilmente, rasgando a grama
infeliz do gramado dos fundos de Harold Parkette como um vingador demônio vermelho saído diretamente do inferno. Gritava, roncava e vomitava fumaça azul oleosa numa
espécie de violenta loucura mecânica que deixou Harold doente de terror. O cheiro desagradável. da grama cortada pairava no ar como o odor de vinho azedado. Mas
a verdadeira obscenidade era o homem do cortador de grama. O homem do cortador de grama despira as roupas - totalmente. Elas estavam cuidadosamente dobradas no bebedouro
de pássaros vazio que existia no centro do gramado dos fundos. Nu e manchado de grama, o homem andava de quatro a um metro e meio do cortador de grama, comendo a
grama recém-cortada. Baba verde escorria-lhe pelo peito e pingava da barriga balofa. E cada vez que o cortador fazia uma curva em ângulo reto, o homem ficava em
pé e dava um estranho pulinho, antes de prostrar-se de quatro outra vez. - Pare! - gritou Harold Parkette. - Pare com isso! Mas o homem do cortador de grama não
lhe deu atenção e seu ensurdecedor parente vermelho não diminuiu a velocidade. Na verdade, pareceu aumentá-la. Sua grade de aço niquelado dava a impressão de sorrir
suavemente para Harold ao passar por este. Então, Harold avistou a marmota. Devia estar escondida em aturdido pavor logo à frente do cortador de grama, na faixa
que ia ser ceifada em seguida. De um salto, correu pela faixa de grama já cortada, um animalzinho pardo aterrorizado fugindo em direção à segurança da varanda. O
cortador de grama fez uma curva. Rugindo e cuspindo, passou por cima da marmota e cuspiu em seu rastro pedaços de couro peludo e entranhas sangrentas que fizeram
Harold lembrar-se do gato dos Smith. Depois de destruir a marmota, o cortador de grama voltou ao trabalho principal. O homem do cortador de grama engatinhava velozmente,
comendo grama cortada. Harold ficou paralisado de terror, esquecendo-se completamente dos títulos, ações e bisonburgers Podia até mesmo ver aquela barriga balofa
dilatar-se. O homem do cortador de grama desviou-se e comeu os restos da marmota Foi então que Harold Parkette empurrou a porta de tela e vomitou no canteiro de
zínias.

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King O mundo ficou cinzento e, de repente, ele se deu conta de que estava desmaiando, de que tinha desmaiado. Caiu de costas
na varanda e fechou os olhos... Alguém o sacudia. Era Carla. Ele não lavara a louça nem esvaziara o lixo, mas não importava, embora Carla fosse ficar furiosa. Enquanto
ela o acordava, arrancando-o do horrível pesadelo e trazendo-o de volta ao mundo normal, à normal Carla com sua cinta Playtex e cara dentuça... Dentuça, sim. Mas
não a dentuça de Carla. Carla tinha dentes de aparência fraca, uma dentuça de chimpanzé. Mas aqueles dentes eram... Cabeludos. Naquela dentuça cresciam pêlos verdes.
Quase parecia... Grama? - Oh, meu Deus - disse Harold. - Você desmaiou, companheiro. Certo, há? O homem do cortador de grama estava debruçado sobre Harold, sorrindo
com os dentes peludos. Os lábios e queixo também eram peludos. Tudo era peludo. E verde. O quintal fedia a grama, gás, e demasiado silêncio. Harold sentou-se bruscamente
e olhou para o cortador de grama parado. Toda a grama fora perfeitamente aparada. E Harold notou, com uma sensação de náusea, que não haveria necessidade de passar
o ancinho para remover a grama cortada. Se o homem do cortador de grama deixara escapar uma só folha de grama cortada, Harold não conseguiu localizá-la. Olhou de
esguelha para o homem do cortador de grama e fez uma careta. O sujeito ainda estava nu, ainda gordo, ainda aterrorizador. Filetes de baba verde escorriam-lhe dos
cantos da boca. - O que é isso? - indagou Harold, suplicante. O homem gesticulou com ar benigno para o gramado. - Isso? Bem, é um novo método que o patrão está experimentando.
Dá ótimo resultado. Ótimo, mesmo, companheiro. Matamos dois coelhos com uma só cajadada. Continuamos a avançar para o estágio final e ganhamos dinheiro para sustentar
totalmente nossas outras atividades. Entende? Naturalmente, de vez em quando topamos com algum freguês que não compreende - existem pessoas que não têm o mínimo
respeito pela eficiência -, mas o patrão sempre concorda com um sacrifício. Serve para manter as engrenagens lubrificadas, se você me entende. Harold permaneceu
calado. Uma palavra lhe ecoava no cérebro, a palavra "sacrifício". Mentalmente, ele viu os restos da marmota serem cuspidos pelo velho cortador de

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King grama vermelho. Levantou-se vagarosamente, como um velho atacado de artrite. - Naturalmente - disse ele, só conseguindo
lembrar-se de uma frase de um dos discos de rock rural de Alícia: - Deus regou a grama com sangue. O homem do cortador de grama deu uma palmada na coxa rosada como
uma maçã no verão. - Essa é muito boa, companheiro. É ótima, no duro. Vejo que morou mesmo no assunto. Posso anotar isso quando voltar ao escritório? Talvez seja
até promovido. - Claro - replicou Harold, recuando em direção à porta dos fundos e lutando para manter o sorriso que se apagava. - Vá em frente e termine. Acho que
vou tirar um cochilo... - Certo - disse o homem do cortador de grama, erguendo-se pesadamente. Harold notou a separação desusadamente profunda entre o dedão e o
segundo dedo dos pés do homem, quase como se fosse. um casco fendido como o de um boi. - No princípio, é um tanto chocante - disse o homem do cortador de grama.
- Na verdade, você acabará se acostumando. Observou atentamente a figura corpulenta de Harold. - Talvez até mesmo deseje experimentar. O patrão está sempre procurando
novos talentos. - O patrão - repetiu Harold com voz sumida. O homem do cortador de grama parou no último degrau e olhou tolerantemente para Harold Parkette. - Bem,
ora essa, companheiro. Achei que você tinha adivinhado... Deus abençoe a grama e tudo o mais. Harold sacudiu cautelosamente a cabeça e o homem do cortador de grama
riu. - Pan. O patrão é Pan. Deu um passinho saltitante na grama recém-cortada e o cortador de grama voltou a funcionar com estrondo, começando a avançar ao redor
da casa. - Os vizinhos... - começou Harold. Mas o homem do cortador de grama simplesmente acenou com ar jovial e desapareceu. Lá na frente, o cortador de grama roncava
e zumbia. Harold Parkette recusou-se a olhar,

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King como se a recusa pudesse negar o grotesco espetáculo que os Castonmeyer e os Smith ambos malditos democratas - provavelmente
presenciavam com olhares horrorizados, mas, sem dúvida, com aquela expressão de "eu não lhe disse? " Em lugar de olhar, Harold foi ao telefone e discou para a central
de polícia, cujo número estava no decalque de telefones de emergência colado ao aparelho. - Sargento Hall - disse a voz na outra ponta da linha. Harold enfiou o
dedo no ouvido desocupado e disse: - Meu nome é Harold Parkette. O endereço é East Endicott Street, 1421. Gostaria de dar queixa... De quê? De que ele gostaria de
dar queixa? De um homem que violentava e assassinava seu gramado, dizendo trabalhar para um sujeito chamado Pan, e tem pés como cascos bifurcados? - Sim, Sr. Parkette?
Harold teve uma repentina inspiração. - Gostaria de apresentar queixa de um caso de atentado ao pudor. - Atentado ao pudor - repetiu o Sargento Hall. - Sim. Tem
um homem aparando meu gramado. Ele está... bem... em pêlo. - Quer dizer que ele está nu? - indagou o Sargento Hall, polida mente incrédulo. - Nu! - confirmou Harold,
agarrando-se desesperadamente aos restos de sua sanidade mental. - Nu. Despido. De bunda de fora. No meu jardim da frente. Agora, o senhor quer mandar alguém aqui?
- O endereço é West Endicott, 1.421? - perguntou o Sargento Hall, ligeiramente divertido. - East Endicott! - berrou Harold. - Pelo amor de Deus... - E o senhor diz
decididamente que ele está nu? O senhor pode ver seus... bem... órgãos genitais e assim por diante? Harold tentou falar mas só conseguiu emitir um som engasgado.
O barulho do cortador de grama enlouquecido parecia aumentar cada vez mais, abafando todo o resto do universo. Harold sentiu vômito na garganta. - Pode falar mais
alto? - pediu o Sargento Hall. - Há muito barulho na sua linha... A porta da frente se escancarou.

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King

Harold viu o parente mecânico do homem que aparava grama avançar para o interior da sala. Atrás dele, vinha o próprio homem que aparava grama, ainda completamente
despido. Com algo que se aproximava da verdadeira loucura, Harold viu que os cabelos púbicos do homem eram de grama verde e viçosa. O sujeito girava o boné de beisebol
na ponta de um dedo. - Isso foi um erro, companheiro - disse o homem do cortador de grama em tom de censura. - Você devia ter ficado com "Deus abençoe a grama".
-Alô? Alô, Sr. Parkette... O telefone caiu dos dedos inertes de Harold enquanto o cortador de grama avançava para ele, ceifando o novo tapete índio de Carla e cuspindo
pedaços pardos de fibra. Harold fitou-o como um pássaro hipnotizado por uma cobra, até que ele chegou à mesinha de centro. Quando o cortador de grama jogou a mesinha
para um lado, destroçando-lhe um pé em serragem e lascas de madeira, Harold pulou por cima das costas da poltrona e começou a recuar para a cozinha, segurando a
poltrona como um escudo diante de si. - Isso não vai adiantar nada, companheiro - disse bondosamente o homem do cortador de grama. - Só vai aumentar a sujeira. Agora,
se você me mostrar onde sua mulher guarda a faca de cozinha mais afiada, poderemos acabar logo com esse negócio de sacrifício, sem dor ou sujeira... creio que o
bebedouro de passarinhos serviria... e depois... Harold jogou a poltrona no cortador de grama, que começara ladinamente a flanqueá-lo enquanto o homem lhe atraía
a atenção. O cortador de grama rugiu, contornando a poltrona e lançando fumaça pelo cano de descarga. E, quando Harold abriu a porta de tela da varanda dos fundos
e pulou os degraus, ouviu - cheirou, sentiu - o cortador de grama nos calcanhares. O cortador de grama rugiu e desceu os degraus como um esquiador descendo a rampa
para um salto. Harold correu pelo recém-aparado gramado dos fundos, mas houvera cervejas demais, cochilos demais à tarde. Sentiu a aproximação do cortador de grama,
que lhe chegava aos calcanhares. Então, olhou para trás e tropeçou nos próprios pés. A última coisa que Harold Parkette viu foi a sorridente grade niquelada do cortador
de grama que avançava, balançando-se para trás a fim de exibir as lâminas verdes. E, acima da máquina, a cara gorda do homem do cortador de grama, sacudindo a cabeça
em bem-humorada censura. - Que diabo de coisa - disse o Tenente Goodwin quando os peritos acabaram de tirar a última fotografia. Meneou a cabeça para os dois homens
de jalecos brancos, que trouxeram a maca através do gramado.

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King - Ele deu queixa de um homem nu neste gramado, há menos de duas horas. - É mesmo? - replicou o Guarda Cooley. - É sim.
Um dos vizinhos também telefonou. Um cara chamado Castonmeyer. Julgou que fosse o próprio Parkette. Talvez fosse, Cooley. Talvez fosse. - Senhor? - Enlouquecido
pelo calor - disse gravemente o Tenente Goodwin, batendo com o dedo na têmpora. - Esquizo-foda-frenia. - Sim, senhor - disse respeitosamente o Guarda Cooley. - Onde
está o resto dele? - quis saber um dos homens de jaleco branco. - No bebedouro de pássaros - disse Goodwin, olhando sombriamente para o céu. - O senhor disse bebedouro
de pássaros? - indagou o jaleco branco. - Claro que disse - confirmou o Tenente Goodwin. O Guarda Cooley olhou para o bebedouro de pássaros e, de repente, perdeu
todo o bronzeado da pele. - Maníaco sexual - disse o Tenente Goodwin. - Deve ter sido. - Impressões? - perguntou Cooley com voz engasgada. - Seria melhor você perguntar
por pegadas - replicou Goodwin, apontando para a grama recém-aparada. O Guarda Cooley emitiu um som estrangulado na garganta. O Tenente Goodwin enfiou as mãos nos
bolsos e balançou-se nos calcanhares. - O mundo está cheio de malucos - disse em tom solene. - Nunca se esqueça disso, Cooley. Esquizofrênicos. Os rapazes da perícia
dizem que alguém perseguiu Parkette através de sua própria sala de visitas com um cortador de grama. Pode-se imaginar uma coisa dessas? - Não, senhor. Goodwin observou
o gramado meticulosamente aparado de Harold Parkette. - Bom, como dizem por aí, um sueco de cabelos pretos é certamente um nórdico de cor diferente. Goodwin caminhou
ao redor da casa e Cooley o seguiu. Atrás deles, o cheiro de grama

O Homem do Cortador de Grama - Stephen King recém-cortada pairava agradavelmente no ar.

***
From: Daniel Ribas


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Edgar Madruga
Salvador/BA



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