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Lançamento Gênesis do Conhecimento - A Vez do Gordo - Desfazendo o Mito da Dieta - Jane Ogden

A Vez do Gordo?
Desfazendo o Mito da Dieta

Jane Ogden

Tradução Laura Rumchinsky

Sumário

Agradecimentos
Introdução
1 Modelando a forma feminina: a dieta colocada em
perspectiva
2 Quem faz dieta?
3 Por que tantas mulheres fazem dieta?
4 O que faz quem está de dieta?
5 A indústria do emagrecimento
6 As dietas dão resultado?
7 Por que falham as dietas?
8 Os homens e as dietas
9 Por que continuar a fazer dieta?
10 Desistindo da dieta


Agradecimentos

Meus agradecimentos a Bernadette Duffy, Jackie Ganley,
David Marks, Andrew Lownie e a minha família por seus
valiosos comentários, críticas e sugestões sobre os primeiros
esboços deste trabalho. Também me sinto grata ao Dr. Tim
Roper, da Sussex University, por ter me incentivado a seguir
uma carreira de pesquisas, e à Dra. Jane Wardle, orientadora
de meu doutorado que levou à elaboração deste livro.
Agradeço igualmente a todos que se mostraram dispostos a
conversar longamente sobre comida, mulheres e dietas,
sempre que foi necessário. Registro também minha gratidão
a Robert por ter me apoiado financeira e emocionalmente
durante a feitura deste livro.
A todos os homens e mulheres que participaram de meus
vários estudos e que se prontificaram a falar de forma aberta
e honesta, meu reconhecimento.

Introdução

Com doze anos, eu e minhas amiguinhas nos divertíamos
brincando de "bloqueio", pique alto, pega-pega, queimado e
outros jogos próprios da idade; eu vestia as roupas que já não
serviam para minha irmã, comia tudo o que era colocado à
minha frente e sempre que sentia fome. Aos quatorze anos,
descobri os garotos! Eu costumava rodar pela loja de discos
da vizinhança na esperança de ver o mais recente objeto de
minha afeição, e obrigava minhas amigas a intermináveis
caminhadas em torno da escola, à caça de novidades.
De repente, todo mundo estava fazendo dieta. No café da
manhã, a habitual rosquinha dava lugar a uma maçã, o peixe
com ervilhas e batatas fritas do almoço eram substituídos por
um sanduíche de salada, parcimoniosamente untado com
margarina de baixo teor de calorias e nenhum sabor.
Algumas faziam dieta para imitar as irmãs mais velhas, outras
se viam forçadas pelo medo dos abusos da puberdade, e
outras simplesmente acompanhavam o grupo.
A comida passou a ter uma importância especial. Deixou de
ser algo para aplacar a fome, transformando-se em assunto
central, interesse e prazer.
Em casa, minha mãe sempre tinha as mais recentes revistas
sobre dietas e a última palavra em substitutos para refeições.
As revistas femininas traziam páginas e mais páginas com
dietas e listas de bons e maus alimentos. Lembro ainda de
um artigo que calculava quantos cogumelos crus ou cozidos
seriam necessários para chegar a 1000 calorias— quase 10
quilos!— com fotografias de montes de verduras e legumes
crus. Todo mundo parecia estar fazendo dieta; todo mundo
fazia contagem de calorias, controlava a balança e lia tudo o
que se publicava sobre o assunto.
E, no entanto, ninguém conseguia emagrecer. Apesar
de todo o empenho, ninguém na verdade perdia peso.
Minhas amigas passaram pela adolescência vendo quadris,
coxas e nádegas adquirindo formas femininas, e minha mãe
continuava com o mesmo peso de sempre.
O que na realidade estava acontecendo? O que estava er-
rado? Os livros de dietas dizem "coma menos e você perderá
peso". Todas elas pareciam estar comendo pouco, pelo me-
nos falavam e liam um bocado a respeito, porém sem
nenhuma diminuição no peso.
No curso de minha atividade como psicóloga de campo, tive
oportunidade de travar interessante conversa com uma
mulher de 40 anos, casada, com dois filhos, bastante
atraente, jovial e eternamente em dieta:
— Há quanto tempo você está em dieta?
— Acho que desde que tinha uns 20 anos, provavelmente...
então são vinte anos.
— Qual é o seu peso atual?
— Pouco mais que 66 quilos e meio.
— E quanto você gostaria de pesar?
— Uns 60 quilos.
— Quanto você pesava quando começou a dieta?
— Uns 60 quilos. — Ela mesma começou a rir. — Que me
importa?
Esta mulher passara os últimos vinte anos pensando em
dietas, tentando comer menos, comprando alimentos
especiais, deixando de sair para jantar e gastando uma
fortuna nas últimas novidades para emagrecer. Era uma
mulher normal; não obesa, nem mesmo muito acima do
peso, apenas um pouco mais gorda do que gostaria de ser. E
era adepta de dietas. Mas nunca na verdade conseguiu
perder peso, pelo contrário, havia até engordado mais de 6
quilos.
Perto de 90 por cento da população feminina faz dieta em
alguma época da vida. Muito poucas perdem peso e menos
ainda conseguem se manter magras. O que está aconte-
cendo? Por que tantas mulheres fazem dieta e, no entanto,
não emagrecem? Por que começam uma dieta e por que
continuam? O que há de tão especial em ser magra, e por
que tantas mulheres se sentem gordas?
É o que pretendo responder aqui.
Uma enorme quantidade de mitos envolve as pessoas que
fazem dieta e o seu comportamento. Nós acreditamos que as
pessoas gordas se alimentam diferentemente das magras, que
só os gordos fazem dieta e que esta é a única solução para a
gordura. Nós acreditamos que se alguém não consegue
resultado com uma dieta é porque não tem força de vontade,
e que tudo o que se tem a fazer é comer menos.
Estes são os mitos que me proponho desfazer.
As mulheres, na maioria, fazem dieta porque se sentem
gordas, e não por estarem com excesso de peso prejudicial à
saúde. É verdade que a gordura excessiva pode ter efeitos
negativos sobre a saúde. Mas a constatação de excesso de
peso também pode agir negativamente sobre a saúde, pois
leva à compulsão pela dieta. Tentar viver numa dieta
constante pode provocar depressão e sentimentos de
rejeição, além de diminuir a taxa metabólica. O problema
está na dieta, e não no peso.
É preciso avaliar bem o porquê da dieta.
A magreza está associada ao sucesso, à atração pessoal, à
sexualidade e ao auto-controle. Você faz dieta visando estes
objetivos? Neste caso, trate de encará-los diretamente, e não
tentando perder peso. Os magros não são mais felizes do que
seus semelhantes mais cheinhos, e nem têm maior controle
sobre suas vidas. Institutos e clínicas de emagrecimento
lucram com os sentimentos de inadaptação das mulheres e
promovem a noção de que a dieta as tornará mais magras e
mais satisfeitas com a vida.
Para a grande maioria das mulheres a dieta não dá resultados;
ela cria mais problemas do que os que resolve; a dieta e a
alimentação excessiva transformam-se num círculo vicioso.
Os adeptos da dieta nunca se livram dela, e se tornam
dependentes da indústria do emagrecimento.
Este livro se destina à mulher de compleição média, que é
levada a crer que está acima de seu peso. Ele não apresenta
nenhuma nova maneira de emagrecer, nem uma receita
mágica para se manter magra, mas questiona por que certas
mulheres, que todo mundo considera magras, querem
emagrecer ainda mais. O mundo das dietas é uma poderosa e
lucrativa indústria, e a maioria dos autores se exime de
questionar a verdadeira raiz de seu sucesso: a crença de que
é melhor ser magra e que, para isso, a única maneira é fazer
dieta. Este livro visa a desafiar estas crenças e demonstra que
elas são baseadas em mitos criados e perpetuados por essa
indústria que lhes tira proveito.
A compreensão da dieta nos libera dos sentimentos de culpa
e de auto-desaprovação que sempre estão presentes no
mundo dos que vivem tentando emagrecer. A análise
psicológica proporciona uma explicação compreensível para
o fracasso das dietas e exime de responsabilidade a fraqueza
pessoal. Este livro apresenta a quebra da dieta à luz dos mui-
tos fatores intrínsecos ao processo de emagrecimento. Se
você não perde peso, não é porque não tenha força de von-
tade, mas está reagindo às muitas alterações que ocorrem em
você ao tentar emagrecer.
Abandonar a dieta é uma experiência gratificante, que abre
as portas para a renovação da autoconfiança, da auto-estima
e da aceitação, e nos libera da necessidade de nos cen-
surarmos o tempo todo pelo que somos, em comparação ao
que poderíamos ser num futuro ilusório.

Capítulo 1
Modelando a forma feminina

A dieta colocada em perspectiva

De acordo com antigos registros de que se tem notícia, e
desde que a história vem sendo escrita, o corpo feminino
tem sido visto como algo a ser controlado e dominado. Seja
no costume chinês de enfaixar os pés, na circuncisão
feminina, no uso de anquinhas e espartilhos, sempre se pro-
curava uma maneira de alterar o corpo feminino. Pés, busto,
cintura, coxas e nádegas já foram maiores ou menores,
conforme a moda de cada época. Recheios e enchimentos
serviam para aumentar, e faixas apertadas reduziam as for-
mas. Nenhuma parte do corpo feminino jamais foi aceita
exatamente como era.
As dietas de emagrecimento são o equivalente de nosso
tempo. Nós, mulheres, encaramos nosso corpo com olho
crítico, examinamos cada centímetro dele, desde o tamanho
do nariz até os pelos dos dedos dos pés, para julgar se ele é
aceitável. E hoje em dia a ordem é ser magra. Para se
entender essa obsessão com dietas que marca o final do
século XX, é preciso entender a história por trás da poderosa
necessidade de se modelar a forma feminina.
Temos uma compreensão básica dos termos masculino e
feminino. Homens e mulheres foram mudando ao longo dos
anos, as modas variaram e as condições econômicas se
alteraram, porém certos aspectos permanecem os mesmos:
os homens são maiores que as mulheres, são mais altos e
mais fortes, têm os pés maiores e a cintura mais larga. A
modelagem do corpo feminino freqüentemente se destinava
a acentuar essas diferenças.

O ENFAIXAMENTO DOS PÉS DAS CHINESAS

Um antigo provérbio chinês diz:

Se te importas com um filho, não descuides de seus estudos;
Se te importas com uma filha, não descuides de enfaixar seus
pés. (Tsai-fei lu)

As mulheres costumam ter os pés menores do que os ho-
mens. E a tradição chinesa de enfaixar os pés acentuava essa
diferença. Aspecto importante da vida na China durante
cerca de mil anos, começou a desaparecer apenas no
princípio deste século, quando o Kuomintang promoveu a
"liberação dos pés".

O processo

As meninas começavam a ter seus pés enfaixados em torno
dos sete anos de idade. O processo de mutilação era execu-
tado pela própria mãe e por outras parentas próximas, que
enfaixavam cada pé de modo que o dedo maior ficasse vira-
do para cima e os outros dedos ficassem firmemente presos
sob a planta do pé. A menina era então posta para andar,
apoiando seu peso sobre o pé assim enfaixado; os ossos se
quebravam e o pé era reestruturado até assumir a forma da
"curva do lótus".

O resultado

Depois de um processo sem dúvida torturante, a jovem
acabava com tocos recurvos e doloridos de cerca de oito
centímetros, ficando impossibilitada de correr, e tendo de
andar mancando ou até mesmo ser carregada.
Por que enfaixar os pés?
Na China, a mulher com os pés assim modelados tinha mais
facilidade para casar. As "curvas do lótus" eram encaradas
como objetos de desejo e sedução pelos homens, conforme
um deles se expressou:

O lótus tem características sedutoras especiais e constitui
uma forma de despertar o desejo. Quem poderia resistir à
fascinação e ao encantamento de ter nas mãos e acariciar
algo assim tão suave e delicado como o jade?

As curvas do lótus também simbolizavam obediência e a
certeza de que a esposa não teria condições de fugir. Os pés
transformados em tocos impediam que a mulher tivesse uma
vida independente sozinha, e representavam seu total
desamparo e sujeição ao poder masculino. Talvez o aspecto
mais interessante do costume seja que o trabalho era feito
pelas próprias mulheres. Tratava-se de uma tradição para
mulheres, executada por mulheres. Contudo, embora elas
próprias fossem as mutiladoras, o objetivo de tornar as outras
aceitáveis aos homens era um elemento essencial de
segurança econômica e posição social. As mulheres eram
preparadas para sofrer e para transmitir esse sofrimento
através de sua família como um sinal de que compreendiam
e respeitavam os ideais de beleza dos homens, sem falar do
próprio temor de não conseguir casamento.
No mundo ocidental, encaramos esse tipo de mutilação
como algo terrível e incompreensível para nossos padrões
culturais. Contudo, será ela tão diferente de nossas próprias
tradições?

ESPARTILHOS

Mulheres têm a cintura mais fina que os homens. O esparti-
lho serve para enfatizar essa diferença.
O espartilho representou um papel muito importante no
mundo da moda feminina. Apesar de ser na aparência um
artigo familiar e inofensivo, possivelmente foi o responsável
por mais desmaios, mais costelas partidas e mais músculos
atrofiados do qualquer outra forma de controle do corpo.
A necessidade do espartilho se originou na idéia de que as
mulheres não eram suficientemente fortes para suportar seu
próprio peso. Acreditava-se que a cintura e a espinha dorsal
das mulheres eram fracas demais para agüentar os seios e o
estômago. Naturalmente, o espartilho tinha muitos outros
usos. Criava uma postura ereta, "régia", além de realçar a
cinturinha feminina. Com as variações da moda, o espartilho
servia também para aumentar ou diminuir o estômago, e
para arredondar ou achatar as nádegas. Com o espartilho, as
mulheres não tinham condições de se curvar e, portanto,
tinham que ser servidas e, constantemente sem fôlego,
necessitavam de um braço masculino para ampará-las. Na
realidade, o espartilho se destacava mais por provocar a
própria fraqueza a que se destinava compensar.
Eis a principal mensagem do espartilho: "Eu estou preparada
para mudar meu corpo e sofrer para me tornar
'matrimoniável'." Moldar o próprio corpo para criar a forma
ideal indica a aceitação do papel da mulher na sociedade e a
compreensão dos meios necessários para se tornar desejável.
Indica o reconhecimento da objetificação das mulheres e do
papel importante representado pela atração física na
determinação de sua identidade. Naturalmente, os homens
também podem usar artifícios equivalentes, porém homens
com espartilhos, sapatos de salto alto ou perucas são
ridicularizados. Conforme diz Susan Brownmiller em seu
livro Femininity (Feminilidade), eles:

Têm sido o assunto preferido dos humoristas, sob a teoria
masculina de que o homem de verdade não usa artifícios
para se tornar mais agradável (eles têm outros meios para
provar seu valor). Por outro lado, espera-se que a mulher
dependa de certos truques e sacrifícios para provar sua
natureza feminina.

O espartilho representava a necessidade da mulher de ser o
objeto do desejo dos homens, que poderiam lhes proporcio-
nar a almejada aceitabilidade social.

A QUESTÃO DOS SEIOS

Os seios também foram sempre um assunto problemático.
Grandes, pequenos, caídos ou firmes, sua forma dependia
dos caprichos inconstantes do mundo da moda e dos apre-
ciadores masculinos. Não creio que qualquer outra parte do
corpo tenha merecido tanta atenção, tanta crítica e tanta
fixação obsessiva como o seio feminino.
O simbolismo dos seios é óbvio: eles representam a
sexualidade, a fertilidade e a maternidade. São também uma
lembrança sempre presente de que somos animais e
possuímos "úberes" como as vacas e glândulas mamárias
como todos os outros mamíferos. No entanto, a associação
entre os seios e sua função biológica é constantemente
negada. Seios grandes podem ser suspensos, ter os bicos
realçados ou ser achatados, ao passo que mulheres com
pouco busto usam enchimentos para aumentá-lo. Mas todas
nós tememos o destino biológico de nosso seios. Como diz
Susan Brownmiller em Femininity:

Todos já vimos na Revista Geográfica Nacional muitas fo-
tos de velhas encarquilhadas com tetas caídas e murchas, ou
com seios em forma de úbere pendendo tristemente até a
cintura. Nada sexy, nada agradável ou atraente. Apenas uma
aguda recordação da função da fêmea.
Desligamos nossos seios de sua função biológica e os eleva-
mos à condição de um acessório da moda. É ela que dita sua
aceitabilidade.
Na década de vinte, as mulheres apertavam seios com faixas
para criar o estilo melindrosa, pueril e de peito achatado Já
nos anos cinqüenta, Marilyn Monroe e Jane Russell
decretaram que seios pequenos não eram atraentes, e as
mulheres passaram a usar sutiãs acolchoados, com armações
de arame e que levantavam o busto, para tirar o máximo
daquilo que tivessem. Os anos setenta baniram os sutiãs, mas
apenas seios pequenos poderiam sobreviver sem eles, e a
década de oitenta trouxe de volta a moda dos seios fartos.
As mulheres ocidentais vêm cingindo suas cinturas e bustos
da mesma forma que as jovens chinesas tinham seus pés
enfaixados. As mulheres se submetem às idéias vigentes de
feminilidade para aumentar sua condição "matrimoniável" e
assim conseguir estabilidade econômica e social. Existem
diferenças físicas entre homens e mulheres, e estas
aprendem uma variedade de truques, mutilações e torturas
para enfatizar essas diferenças e, conseqüentemente, a sua
feminilidade. Se a feminilidade é definida como o oposto da
masculinidade, então ser mais diferente dos homens é ser
mais feminina.

LIBERDADE

Enfim chegou a liberdade. As mulheres trocaram seus
espartilhos por cintas elásticas e estas pela liberdade. Os
sutiãs tipo armadura foram substituídos por modelos mais
leves e confortáveis, que por sua vez deram lugar ao luxo de
não se usar sutiã. Permitia-se, e até se esperava, que as
mulheres liberassem seus corpos para voltar à sustentação
natural de carne e músculos. Maravilha! Afinal as mulheres
podiam aceitar seus corpos como eram.
E então surgiu o biquíni e, ao mesmo tempo, Twiggy foi
entusiasticamente lançada no cenário da moda. De repente,
ao se inaugurar uma era de controle e sustentação mais
naturais, somos avisadas de que não devemos ter nada para
controlar ou sustentar. Os biquínis não davam proteção ao
corpo; representavam uma liberdade somente acessível
àquelas sem nenhum centímetro de excesso. Twiggy não
tinha necessidade de usar sutiã ou espartilho; não havia nada
em seu corpo que precisasse ser apertado de um lado, só para
"sobrar" em outro ponto. Mas essa ausência de necessidade
não provinha de um desejo de liberação do corpo feminino,
mas tão somente do fato de ela não ter mesmo nada para
liberar. As mulheres poderiam dispensar o sutiã, quando e
enquanto seus seios assim o permitissem; e espartilhos ou
cintas estavam em desuso, contanto que não existisse nada
que precisasse ser disfarçado ou contido.
Durante séculos, barbatanas, látex, nylon e algodão foram
usados para transformar e corrigir qualquer aspecto do corpo
que estivesse fora do padrão. Mesmo no tempo das esguias
"melindrosas" da década de vinte, sutiãs e espartilhos eram
aceitos como forma de controlar a forma feminina. Hoje,
porém, estamos livres desses artifícios.
Agora só ternos nossa própria carne para controlar.
As mensagens são as mesmas. As formas de seios, nádegas,
coxas e barrigas devem se amoldar aos caprichos do mundo
da moda. Mas, para estar dentro do padrão, temos que mudar
nossos corpos.
Foi nesse ponto que a obsessão pelo emagrecimento colocou
sua ameaçadora cabeça de fora.
Os Vigilantes do Peso apareceram nos Estados Unidos em
1963 e chegaram à Inglaterra em 1967. O primeiro número
da revista Slimming (Emagrecer) saiu em 1969. A década
de sessenta representou o início da onda das dietas.

Capítulo 2
Quem faz dieta?

Os gordos comem de maneira diferente dos magros. Quem
faz dieta são os gordos, exatamente para tentar perder peso.
É isto o que sempre ouvimos dizer.

OS GORDOS COMEM DE MANEIRA DIFERENTE?

Quando vemos uma pessoa magra comendo uma barra de
chocolate, isto quase não nos chama a atenção, pois quem é
magro pode ingerir alimentos de alto teor calórico sem que
os outros realmente notem ou tirem conclusões quanto a
seus hábitos alimentares. Mas, se vemos um gordo fazendo a
mesma coisa, o fato muda totalmente de figura.
"Provavelmente não é o primeiro de hoje", "não é à toa que
está tão gordo" e "certas pessoas não conseguem se
controlar" são comentários que nos ocorrem. Presume-se
que os gordos são gordos porque se alimentam
diferentemente dos magros, que não controlam os alimentos
que ingerem e que comem em excesso.
Diversos estudos foram efetuados nas décadas de sessenta e
setenta para avaliar a força desses preconceitos contra os
gordos. Em 1969 Maddox e Liederman pediram a um grupo
de médicos e estudantes de medicina que classificassem seus
pacientes gordos segundo um conjunto de características
pessoais. Verificaram então que os gordos eram considerados
estúpidos por 97 por cento, malsucedidos por 90 por cento,
fracos por 90 por cento, preguiçosos por 86 por cento,
pouco agradáveis por 69 por cento, infelizes por 65 por
cento, sem força de vontade por 60 por cento, feios por 54
por cento e desajeitados por 55 por cento. Em outro estudo
em 1979, Larkin e Pines concluíram que homens e
mulheres gordos tinham menos probabilidade de serem
recomendados para um emprego por colegas, mesmo que
estes vissem que executavam suas tarefas em igualdade de
condições com os magros.
Uma pesquisa também determinou a idade em que
começamos a ter tais preconceitos. Em 1969, o Dr. Lerner
mostrou desenhos de adultos de diferentes tamanhos a
grupos de crianças de 5 e 10 anos de idade; os adultos
representados eram magros, médios ou gordos. Solicitou-se
então às crianças que descrevessem que tipo de pessoa cada
adulto seria. Os adultos de tamanho médio foram associados
a todas as qualidades positivas, enquanto as negativas foram
atribuídas aos magros e aos gordos. Em outra experiência,
pesquisadores apresentaram às crianças cinco desenhos: uma
criança aleijada, uma criança com a face desfigurada, uma
criança com aparelho ortopédico e muletas, uma criança
com o ante- braço esquerdo amputado e uma criança obesa.
Em seguida, perguntou-se ao grupo "de qual menino(a) você
gosta mais?" Todos consideraram a criança obesa como a de
que gostavam menos. Os pesquisadores concluíram que
essa opinião se devia ao fato de a obesidade ser vista como
culpa da própria criança, e não como algo que causasse
comiseração. Para as crianças pesquisadas, a obesidade era o
resultado de gula, fraqueza e preguiça. Os adultos são
bastante preconceituosos com relação aos gordos, mas, ao
que parece, as crianças não lhes ficam atrás. Até que ponto
estas crenças são baseadas em fatos?
Em vista da crença de que pessoas com excesso de peso são
de certa forma diferentes das magras, a pesquisa tentou
detectar diferenças de personalidade entre os dois grupos. Os
estudos se voltaram para variações em depressão, neurose,
autocontrole e muitos outros traços da personalidade. Os
resultados indicam que, embora alguns gordos sejam
depressivos, outros sejam neuróticos ou possuam pouco
autocontrole, o mesmo acontece com os magros, não
havendo grandes diferenças entre cheinhos e fininhos.
Normalmente se acredita que o gordo tem uma
personalidade "jovial", mas também se diz que uma pessoa
de peso tem que ser "jovial" para compensar. A pesquisa
indica que esse mito não tem fundamento.
E o que mais acreditamos sobre os gordos?
Talvez o maior mito que cerca o assunto seja o de que os
gordos comem demais. A idéia da gordura suscita questões
sobre o que a provoca. A gordura se deve a fatores ambien-
tais ou é resultado da constituição genética de cada um?
Gordura vem de família. A probabilidade de uma criança ser
gorda tem relação direta com o peso de seus pais. Pais gordos
têm 40 por cento de probabilidade de ter filhos gordos,
enquanto a probabilidade de pais magros terem filhos gordos
é muito baixa, cerca de 7 por cento. Porém, pais e filhos
compartilham tanto o ambiente como a constituição ge-
nética e a semelhança, portanto, poderia ser devida a
qualquer um desses fatores.
Casais que vivem juntos muito tempo tendem a engordar ou
emagrecer juntos. Seu ambiente, é semelhante, portanto seu
tamanho também passa a ser semelhante, sugerindo que os
fatores genéticos são secundários. No entanto, nos últimos
anos começaram a se avolumar as provas que apresentam a
genética como principal determinante do peso. Pesquisas
sobre gêmeos incluem a comparação dos pesos de gêmeos
idênticos, porém criados separados, portanto com os mes-
mos genes mas em ambientes diversos. Os estudos também
se ocupam dos pesos de gêmeos fraternos criados juntos,
com genes diferentes, mas ambiente semelhante. Os resulta-
dos indicam que gêmeos idênticos criados separados são
mais parecidos quanto ao peso do que os gêmeos fraternos
criados juntos. A genética parece ter um papel vital na deter-
minação do peso.
Mais convincentes ainda são os estudos feitos com crianças
adotadas, comparando seus pesos com os dos pais adotivos e
também os dos pais naturais. Stunkard, em 1986, detectou
uma clara relação entre o peso de crianças adotadas e o de
seus pais biológicos, e nenhuma conexão com o peso dos
pais adotivos.
Portanto, se a genética é um fator determinante, algumas
pessoas nascem para ser gordas e outras, para ser magras.
Contudo, o ambiente em que se vive também deve ter sua
influência. Qualquer que seja a constituição genética, é
preciso, para começar, que exista o alimento que permite o
ganho de peso, o que levanta a questão vital se os gordos são
gordos porque comem mais do que os magros.
A ingestão de alimentos pode ser medida ou em laboratório
ou com o emprego de métodos mais naturais. Uma das
formas de se fazer essa medida é usar um local de experiên-
cias controlado. A pessoa é orientada a almoçar ou a tomar
parte numa experiência que, supostamente, não tem nada a
ver com alimentação, como, por exemplo, assistir a um
filme, após o que o pesquisador mede o que foi comido. O
alimento pode ser casualmente colocado perto da pessoa, ou
então pode-se pedir-lhe que classifique alguns petiscos com
relação a sabor e qualidade. Tais métodos demonstraram que
não se justifica a pressuposição de que os gordos comem
mais que os magros. Alguns gordos comem muito, mas há
magros que também o fazem. A quantidade ingerida parece
ser determinada pelo indivíduo, e não por seu peso.
Estes tipos de estudos envolvem numerosos problemas. Os
participantes são afetados pela esterilidade do ambiente e
têm consciência de estarem sob observação, o tempo todo.
Testes realizados de forma mais natural tentam superar tais
problemas.
Pesquisadores trataram de avaliar as quantidades ingeridas
tanto por gordos como por magros, empregando a técnica da
observação em bares, restaurantes e refeitórios, notando
quanto comem e verificando que tipo de alimento é
preferido por cada um. Pelo menos vinte estudos já foram
publicados a partir desse tipo de observação, revelando que
não existem diferenças nítidas entre os hábitos alimentares
de gordos e magros, nem qualquer distinção quanto ao tipo
de comida que preferem. Ao que parece, tanto os magrelos
como os gordinhos gostam de doces, de alimentos ricos em
calorias, e ambos comem nas mesmas quantidades.
Pode-se argumentar, porém, que na privacidade de suas
casas os gordos comem mais que os magros. Em 1978,
Coates e colaboradores efetuaram um teste que consistiu em
visitas às casas de sessenta famílias de classe média, para
examinar o que havia em suas despensas. Todos os membros
das famílias foram pesados e chegou-se à conclusão de que
não havia relação entre o tipo físico dos moradores e a quan-
tidade de comida comprada. O fato de alguém ser mais gordo
não significa que coma mais em casa.
E comum esperar-se que o carrinho de compras de um
gordo esteja cheio de doces, guloseimas e biscoitos.
Acredita-se que o gordo sempre pedirá um prato de alto teor
calórico num restaurante e que é assim gordo porque se
entope de chocolate. Os estudos indicam que estes são
apenas alguns dos muitos mitos que cercam os gordos. É
claro que eles comem chocolate, mas os magros também
comem. Todos nós conhecemos alguém do tipo "saco sem
fundo", que come até mais não poder. Pessoas gordas não
comem mais, ou diferentemente, do que as magras; apenas,
têm uma predisposição para assimilar a comida de forma
diferente, acumulando-a como gordura.
Então, de onde vem esse mito?
No início de nosso século, gordura era sinal de saúde e
magreza era indício de desnutrição. Ser gordo significava ter
dinheiro suficiente para comprar comida, enquanto a magre-
za revelava falta de dinheiro. Hoje em dia, no mundo
ocidental [ao menos nos países mais ricos], é de se supor que
todos tenham acesso à alimentação em quantidades
adequadas. Portanto, para explicar os diferentes tipos físicos,
cada um é visto como diretamente relacionado à quantidade
de alimento que ingere.
Esta crença é que faz prosperar a indústria das dietas. O livro
Complete Hip and Thigh Diet (Dieta completa para qua-
dris e coxas), de Rosemary Conley, já vendeu um milhão de
exemplares até agora. Ele propõe uma forma de acabar com
as "gordurinhas que as outras dietas deixam ficar". E associa a
gordura ao excesso de comida; na página 25, por exemplo, a
autora diz: "Creio que comer demais é a maior causa do
excesso de peso". As indicações que temos mostram que não
é bem assim. Comer demais não é exclusividade dos gordos,
alguns magros também o fazem. O excesso de peso parece
ser provocado pela constituição genética de cada um, e não
pela superalimentação. Naturalmente, para engordar é
preciso comer, mas não é preciso comer demais.
Rosemary Conley também descreve com detalhes o tipo de
alimentos que, em sua opinião, as pessoas com excesso de
peso devem ter comido:

Muitos alimentos gordurosos e doces, que são positivamente
recheados de calorias — pão com uma grossa camada de
manteiga, frituras em abundância, tortas de creme, biscoitos,
chocolates, batatas fritas e assim por diante. O tipo de comi-
da que os gordinhos adoram (p. 65).

Será que as pessoas com excesso de peso adoram mesmo
tudo isso? Algumas provavelmente sim, mas também há ma-
gros que apreciam esse tipo de alimentação. Presume-se que
os gordos comem mais e de forma diferente que os magros,
e que esta é a razão de serem gordos.
Judy Mazel, em seu livro A dieta de Beverly Hills (1980),
diz:

É essencial que você exerça controle ao comer certas
combinações. Não se deixe levar pelo coração. Coma como
um ser humano, não como uma pessoa gorda.

Ela acredita que as pessoas gordas comem de forma diferente
das magras, sugere que elas não têm controle, e que comem
por motivos emocionais e não por fome.
O livro Fat is a Feminist Issue (A gordura é uma questão
feminista), de Susie Orbach, causou uma revolução na
atitude das mulheres a respeito de alimentação e peso. Ele
trouxe à tona certos problemas alimentares e estabeleceu
uma base para discussão. Contudo, Susie Orbach também
associa o peso diretamente a algum problema psicológico
subjacente, ao afirmar:

A gordura não se deve a falta de auto-controle ou de força
de vontade. A gordura tem a ver com proteção, educação
sexual, carinho materno, força e afirmação. A gordura é uma
doença social (p. 28).

Também ela acredita que a gordura é sinal de algum proble-
ma relacionado a comida. A autora diz que a gordura é uma
doença, pois crê que as pessoas engordam como resposta às
pressões sociais e pela necessidade de se protegerem do
mundo exterior. Rosemary Conley julga que a gordura se
deve a comida em excesso, enquanto que Susie Orbach
considera que comemos demais para criar uma barreira entre
nós e o mundo.
Por que a gordura tem que estar ligada a algo além do
simples fato de se ser gordo? Por que tem que ser indicativo
de algum problema psicológico? E o que há de errado em
pensar que alguém é gordo porque nasceu com essa predis-
posição? Algumas pessoas gordas têm problemas alimentares,
algumas têm outros problemas psicológicos, mas não todas, e
não mais do que ocorre com as magras. Ser gordo é estar aci-
ma do peso médio. Se sua altura está acima da média, isto
também constitui um problema? E se o tamanho de seus pés
é acima da média (uma questão pessoal), será que existem ra-
zões psicológicas ocultas?
Conforme declarou em 1987 o especialista em obesidade,
Dr. Kelly Brownell:

O reconhecimento da importância da genética ampliou a
visão da sociedade com relação à obesidade, de modo que
não se pode mais invocar problemas psicológicos
simplesmente porque um indivíduo tem excesso de peso.

Segundo ele, chegamos ao ponto em que o tamanho e o tipo
são entendidos em termos de predisposição genética, e não
em termos de problema alimentar. Todavia, essa visão
otimista ainda é um tanto prematura. A noção de que o
biotipo é determinado pela genética vem ganhando terreno,
porém ainda é mais forte a idéia de que a gordura é sinal de
algum problema latente. A questão do peso passou a ter um
significado especial, que lhe foi atribuído e vem sendo
perpetuado por uma indústria crescente.
Por que, então, a indústria do emagrecimento promove este
mito? Se o seu peso não significa nada, a não ser que você
está com alguns quilos a mais, então você não precisa de
ajuda. Mas se o seu peso é sinal de que você tem um
problema de alimentação, neste caso você se coloca auto-
maticamente numa posição que requer uma assistência; você
passa a ser definido como inadaptado ou sem controle e,
portanto, cria-se uma brecha para que alguém lhe preste essa
ajuda. E onde entra a indústria do emagrecimento; ela
oferece ajuda aos "gordos que não conseguem se ajudar a si
próprios". A indústria do emagrecimento precisa vender a
idéia de que gordura é sinal de algum problema, para que ela
possa se ocupar de sua solução. Um problema, por sinal, que
ela própria inventou.

POR QUE CERTAS PESSOAS SÃO GORDAS?

Qual o motivo de certas pessoas serem gordas? Se elas não
comem mais do que as magras, ou de forma diferente delas,
e se a obesidade pode ser explicada por sua constituição
genética, como se manifesta essa tendência genética? Os
estudos sobre os efeitos da predisposição genética para
obesidade analisaram a taxa metabólica assim como o
número de células adiposas de cada indivíduo. Essas duas
perspectivas lançam alguma luz sobre o problema, porém
nenhuma delas traz qualquer conclusão bem definida.

A teoria da taxa metabólica

Nosso corpo utiliza energia para exercícios e atividades
físicas, mas também para executar todos os processos
químicos e biológicos essenciais à vida. O consumo dessa
energia é conhecido como taxa metabólica; esta, na opinião
de alguns, seria menor nos obesos do que em indivíduos
com peso normal. Pessoas com taxas metabólicas menores
queimam menos calorias quando em repouso e, portanto,
necessitam de menor quantidade de alimento para sua
subsistência.
Uma pesquisa recente nos Estados Unidos estudou a ligação
entre a taxa metabólica e o aumento de peso. Um grupo de
cientistas em Phoenix efetuou testes metabólicos com 126
índios Pima, que constituíam um campo interessante por
apresentarem uma excepcional incidência de obesidade —
cerca de 80 a 85 por cento. Durante quarenta minutos os
126 índios permaneceram em repouso e tiveram sua
respiração monitorada, sendo medidos os níveis de oxigênio
consumido e de dióxido de carbono produzido. Nos quatro
anos seguintes, os pesquisadores acompanharam qualquer
alteração no peso e na taxa metabólica desses indivíduos, e
descobriram que aqueles que tiveram um substancial
aumento de peso eram exatamente os que apresentaram as
menores taxas metabólicas no início do estudo. Em outro
estudo, noventa e cinco pessoas foram colocadas numa
câmara respiratória durante vinte e quatro horas, tendo sido
medida a quantidade de energia consumida; este grupo foi
avaliado dois anos depois, e os pesquisadores verificaram que
os que originalmente haviam apresentado um baixo nível de
consumo de energia, tinham quatro vezes mais
probabilidade de apresentar também um substancial
aumento de peso.
Os resultados acima parecem sugerir que existe uma ligação
entre a taxa metabólica e a tendência para engordar. Neste
caso, é possível que certos indivíduos sejam predispostos à
obesidade pelo fato de dependerem de menos calorias para
sua sobrevivência do que os mais magros. No entanto, bem
ao contrário do que se possa supor, não existe nenhuma
prova a indicar que os obesos em geral tenham taxas
metabólicas mais baixas do que os magros. Na verdade, as
pesquisas sugerem que os gordos tendem a apresentar taxas
metabólicas ligeiramente mais altas do que os magros de
altura equivalente. Qual é o significado dessas conclusões
contraditórias? Um fato interessante, que talvez sirva de
explicação para esses resultados, é que o aumento de peso
pode na realidade causar uma elevação da taxa metabólica.
Com efeito, no estudo descrito acima, os índios Pima que
engordaram também apresentaram um aumento em sua taxa
metabólica, a ponto de esta se igualar à dos outros índios do
grupo de teste, cujas taxas já se mostravam mais altas no
início. É possível que indivíduos com metabolismo mais
lento tenham tendência para engordar, mas que, ao ganhar
peso, tenham a taxa metabólica aumentada, de modo a
alcançar a de outros não propensos à obesidade. Portanto, a
explicação para essa equivalência nas taxas metabólicas de
gordos e magros talvez seja que o aumento de peso
provoque um aumento correspondente no metabolismo.
Contudo, este fato ainda não foi demonstrado pelas
pesquisas.

Teoria das células adiposas

Outra teoria proposta para explicar as diferenças na
constituição das pessoas sugeria que os obesos teriam maior
quantidade de células de gordura do que os outros. O
número dessas células é, em grande parte, determinado por
fatores genéticos. Porém, quando o número existente já foi
ocupado, formam-se novas células adiposas a partir de "pré-
adipócitos" preexistentes. A maior parte desse crescimento
da quantidade de células ocorre durante a gestação e na
primeira infância, permanecendo estável ao se alcançar a
idade adulta. Seria o caso de se supor que um bebê
superalimentado venha a se tornar obeso quando crescer,
mas as pesquisas parecem indicar que isto não ocorre. Os
resultados dos estudos nesse campo não são ainda muito
claros, mas, ao que parece, se um indivíduo nasce com
maior número de células adiposas, então elas se encontram
imediatamente disponíveis para serem ocupadas. É possível
que a tendência genética à obesidade se manifeste num
maior número de células adiposas, que são facilmente
ocupadas pela gordura. Um ponto, contudo, já está definido
pelas pesquisas nessa área: uma vez formadas, as células
adiposas não desaparecerão nunca. Uma pessoa obesa, com
um grande número de células adiposas, pode conseguir
esvaziá-las, mas nunca se verá livre delas.
Ouvimos dizer, e acreditamos, que os gordos têm um
problema e comem mais que os magros e de forma diferente
deles. A indústria do emagrecimento faz a promoção desse
problema, para depois oferecer-se para solucioná-lo. As
pesquisas indicam que os obesos são geneticamente
predispostos a engordar e que seu peso não é o resultado de
excesso de comida. No entanto, ainda não está bem claro
como esta tendência genética se manifesta.

QUEM FAZ DIETA É GORDO?

Suponha que você tem um jantar na casa de um amigo.
Você chega e a esposa dele ainda está terminando de se
arrumar. Passando os olhos pela biblioteca, você nota uma
variedade de livros de dietas. Não conhecendo a mulher de
seu amigo, fica a imaginar seu tipo e, provavelmente, espera
que apareça uma gordinha.
Nós acreditamos que "as pessoas fazem dieta porque estão
gordas". Será que isto é verdade? Os que fazem dieta serão
mais gordos do que os que não fazem?
Para começar, é difícil definir o que é ser gordo.
Considerando os dados que temos no momento (ver
Capítulo 3), as pesquisas indicam que pessoas de todos os
tipos e tamanhos fazem dieta. Algumas são gordas, outras
magras. Alguns gordos são perfeitamente felizes com seu
peso e não fazem dieta, ao passo que outras pessoas, que
ninguém julgaria terem problema de peso, se consideram
gordas e querem emagrecer. Os adeptos das dietas têm um
ponto em comum: pensam que são gordos e tentam perder
peso. Vêem a si próprios como mais gordos do que
gostariam de ser. Seu tamanho real não vem ao caso; o que
os leva a fazer dieta é o seu tamanho percebido.
Qual seria a origem desse mito?
"Se você se sente gordo, seu corpo está tentando lhe dar um
aviso: emagreça", são as primeiras palavras do Dr. Barry
Lynch em seu livro The BBC Diet (A dieta BBC). Ele
presume que se você acha que está acima do peso, então
deve estar mesmo. As mulheres, em sua maioria, se sentem
gordas, mas não o são na verdade. As que sofrem de
anorexia com toda certeza se sentem gordas, mas
seguramente não são. O Dr. Lynch comete o erro
característico da indústria do emagrecimento.
Imagine-se acordando pela manhã já se sentindo farta. É um
dia especial e você quer estar com a melhor aparência
possível; no entanto, nada do que você experimenta parece
cair bem. Você então desabafa com quem esteja à seu lado:
"Estou me sentindo horrível hoje", e recebe como resposta:
"Você está horrível; já pensou em fazer uma plástica?" É isto
o que autores como o Dr. Lynch fazem; captam os
sentimentos de autocensura e autocrítica das pessoas e os
tratam como fatos reais. Você se acha feia, então é feia, você
se acha gorda, então é gorda.
O que há de errado em perguntar-se "por que estou me
sentindo gorda? Talvez possa me livrar desse sentimento."
No capítulo "Um país de gordinhos" de seu livro, o Dr. Barry
Lynch escreve: "Um terço da população faz uso regular de
um ou mais produtos para emagrecer. Parece que a norma
neste país é o excesso de peso." Por que os consumidores de
produtos para emagrecer estão acima do peso? Por que todas
as mulheres que compram alimentos pobres em calorias e
revistas que trazem dietas têm que ser gordas? Algumas delas
provavelmente o são, mas muitas outras provavelmente
apenas se sentem gordas e não estão satisfeitas com seus
corpos. Talvez algumas comprem as revistas por causa das
receitas ou pelos casos interessantes que relatam. Quem faz
dieta não está necessariamente acima do peso, e a análise da
clientela que sustenta a indústria do emagrecimento não dá
uma idéia de quem realmente precisa perder alguns quilos.
Os anoréxicos costumam comprar todos os emagrecedores
que aparecem no mercado, lêem todas as revistas
especializadas, mas não são um ilustrativo de que todos os
que gastam seu dinheiro nessa indústria são gordos.
A indústria das dietas oferece seus serviços para os que
querem emagrecer. Ela é usada por mulheres que se acham
gordas, mas age como se essas mulheres realmente fossem
gordas. As revistas não tentam "fazer com que você não se
sinta gorda", elas oferecem várias formas para "fazer com
que você deixe de ser gorda". Mulheres de todos os tipos e
formas compram produtos para emagrecer que se propõem
"fazê-las mais magras" e não "fazê-las se sentirem mais ma-
gras". O problema da maioria dos que fazem dieta é que eles
se sentem gordos, e não que são gordos, mas a indústria das
dietas não faz essa distinção. Portanto, acreditamos que os
que fazem dieta são gordos, e estes vêem reforçada a idéia
que fazem de si mesmos.
Somos brindados com uma enorme quantidade de mitos
sobre dietas, que são aceitos como fatos. É só olhar em torno
e examinar nossas reações com relação aos diversos tipos de
pessoas, para ficar claro que acreditamos que os gordos
comem de maneira diferente dos magros e que os que fazem
dieta são gordos.
Ao que parece, a coisa não é bem assim.

Capítulo 3
Por que tantas mulheres fazem dieta?

Quase 90 por cento das mulheres tentam perder peso por
meio de dietas. Por que tantas mulheres desejam ficar ma-
gras? O que há de tão bom em ser magra? E por que as dietas
foram apresentadas como a solução para o problema da gor-
dura?
A magreza nos faz mais saudáveis e mais atraentes. É o que
sempre ouvimos dizer. Será isso verdade e será que o esforço
para emagrecer é algo tão simples?
SAÚDE E MAGREZA

As mulheres fazem dieta porque ouvem dizer e acreditam
que o excesso de peso não é saudável. O que de fato consti-
tui excesso de peso e quanto de excesso é preciso para re-
presentar risco à saúde são perguntas que não têm respostas
tão simples como somos levados a crer.
A medicina tem investido muito tempo e energia na
investigação dos efeitos negativos do excesso de peso e da
obesidade sobre a saúde. A motivação supostamente vem da
sua preocupação com o bem-estar dos indivíduos afetados,
contudo muitas vezes parece refletir as noções da sociedade
sobre estética e boa aparência.
Considera-se excesso de peso quando o indivíduo está acima
do peso ideal para sua altura e tipo físico. Tais ideais são
medidos de acordo com tabelas de peso-altura desenvolvidas
por companhias de seguros de vida e suas estimativas de
expectativa de vida. As tabelas mais comumente utilizadas
são as projetadas pela Metropolitan Life Insurance
Company dos Estados Unidos, que analisou a longevidade e
o peso dos portadores de suas apólices. Embora apresentem
uma idéia aproximada do que possa ser considerado
saudável, são baseadas nas médias de um grande grupo de
pessoas, e não levam em conta o tipo de vida de cada um, as
porcentagens de gordura versus músculos, a época em que
se deu o aumento de peso, história familiar e constituição.
As tabelas não determinam exatamente quanto cada
indivíduo deve pesar, contudo são freqüentemente
consultadas por médicos e usadas para apoiar suas próprias
preferências pessoais quanto ao peso corporal.
Para dar uma idéia mais aproximada da relação entre saúde e
peso, em 1985 um painel de especialistas do Instituto
Nacional de Saúde nos Estados Unidos decidiu que um peso
de 20 por cento acima da média constitui risco para a saúde,
e que um excesso de 40 por cento passa a ser um grave risco.
No entanto, a massa corporal não é a única indicação de
excesso de peso. Uma pessoa obesa acumula muita gordura
em seu corpo; já um cultor da forma física pode ter o mesmo
peso com muito menos gordura.
Pelo que se vê, a gordura é difícil de ser medida, e a relação
entre peso e saúde é complexa; e, considerando-se que já é
bastante difícil determinar a quantidade de gordura que seria
aceitável, avaliar os riscos à .saúde é ainda mais proble-
mático.
Aceitando-se estes problemas por enquanto, quais são os
riscos previstos? As pesquisas sugerem uma associação entre
o excesso de peso ou a obesidade e uma série de problemas
de saúde.

Hipertensão

As pesquisas indicam que pessoas com excesso de peso têm
2,9 mais probabilidades de ter pressão alta. A hipertensão
não tratada aumenta os riscos de ataques cardíacos, derrames
e problemas renais.

Diabetes

Pessoas com excesso de peso têm mais probabilidades de
desenvolver diabetes do que as com peso normal.

Moléstias nas artérias coronárias

A obesidade pode causar o estreitamento das artérias,
provocando ataques cardíacos e outros problemas correlatos.

Existem vários outros problemas que costumam ser associa-
dos à obesidade, como problemas nas articulações, complica-
ções na gravidez, e até morte!
É preciso assinalar que não é tão simples assim identificar as
associações entre peso e saúde. Em primeiro lugar, o excesso
de peso não provoca necessariamente tais problemas e pode
estar simplesmente refletindo outros problemas subjacentes,
como falta de exercícios e alimentação pobre. Em segundo
lugar, pessoas magras também estão sujeitas a tais distúrbios
e, finalmente, mas talvez mais importante, algumas pessoas
com excesso de peso fazem dieta e, como veremos com
detalhes mais adiante, esta talvez seja, dentre todas, a ameaça
mais perigosa à saúde e ao bem-estar.
No entanto, já tendo provavelmente conseguido atemorizá-
los com os horrores do excesso de peso e da obesidade, há
uma estatística final que é muito importante apresentar neste
ponto. Cerca de 16 por cento da população feminina é
obesa. Mas, aproximadamente 90 por cento das mulheres
britânicas fazem dieta em alguma fase de suas vidas. Por que
todas essas mulheres estão tentando perder peso?
Obviamente, algumas delas o fazem por motivos de saúde,
algumas pelo que acreditam ser motivos de saúde, mas o
restante se inspira em algo diferente. O que será?

MAGREZA E ATRAÇÃO

Uma das mais óbvias motivações para se fazer dieta é a
vontade de emagrecer e ser atraente. Judy Mazel, em seu
livro A dieta de Beverly Hills, sugere que se alguém
comentar "Você está emagrecendo demais", você deve
agradecer. A ordem é emagrecer, e quanto mais, melhor.
Qualquer um que já tenha visitado grandes museus
internacionais, e que tenha admirado os tetos de catedrais e
capelas, conhece o tipo de mulheres grandes e roliças
preferidas pelos homens dos séculos XVII, XVIII e XIX. A
gordura era encarada como sinal de prosperidade, de
alimentação farta, e era também o estado ideal da sexualidade
feminina. As mulheres nascem para ter coxas, quadris, seios,
e as formas roliças eram indicação de fertilidade e beleza.
Hoje em dia, num contraste total, a sociedade nos apresenta
um modelo cada vez mais magro e cada vez menos
feminino.
Revistas, televisão, filmes e publicidade estão sempre a re-
petir que nós, mulheres, devemos ser magras, e que quando
conseguirmos isso nos tornaremos atraentes para o sexo
oposto. Os meios de comunicação não nos dizem apenas que
devemos ser magras, mas o próprio conceito de magreza
parece estar diminuindo com o tempo. Um estudo efetuado
no Canadá analisou os pesos das concorrentes ao concurso
de Miss América entre os anos de 1959 e 1978, chegando à
conclusão de que, enquanto o peso médio da mulher
americana de até 30 anos de idade aumentou em cerca de
140 gramas por ano, o peso das concorrentes diminuiu quase
que exatamente na mesma medida. Na Inglaterra, uma
pesquisa publicada em 1989 examinou as características
físicas da equipe feminina de uma agência londrina que
indicava modelos para revistas como Vogue,
Cosmopolitan e Woman's Own. Os pesquisadores
verificaram as variações nas medidas de altura, busto, cintura
e quadris das modelos, e concluíram que no período de
1967 a 1987 elas foram ficando progressivamente mais altas,
sendo que as medidas de busto e quadris foram diminuindo
com relação à cintura, produzindo uma forma mais
andrógina.
Se as formas e tamanhos apresentados pelos meios de
comunicação ilustram o que se entende por magreza, então,
por definição, quase todas as mulheres estão acima do peso.
A motivação para emagrecer não é exclusiva das que têm
excesso de peso, mas é comum entre as que se imaginam
com alguns quilos a mais. Não podemos ter sempre 16 anos,
nem ter o corpo de uma modelo de 16 anos, portanto, se
aceitarmos as mensagens que nos são enviadas, todas
deveríamos querer emagrecer e, ao que parece, 90 por cento
de nós estão nesse caso.
Em vista da discrepância entre nossos corpos e o corpo ideal,
as mulheres apresentam uma considerável dose de
insatisfação com suas formas. Elas tendem a transmitir uma
espécie de repulsa por certas partes de seu corpo, mais
freqüentemente as coxas, os quadris e as nádegas. No curso
de meu trabalho de pesquisa sobre a questão das dietas,
muitas vezes ouvi mulheres com peso normal dizendo "se ao
menos eu pudesse cortar um pouquinho só das minhas
coxas" ou "seria maravilhoso tirar uma fatia de minhas
nádegas".
Esta auto-depreciação é reforçada pela linguagem empregada
na indústria do emagrecimento. Expressões como "pneus",
"culotes", "coxas de elefante" e "traseiro enorme" são usadas
para descrever o que não deveria existir no corpo. As
palavras demonstram a revolta e o ódio dirigidos ao corpo
feminino e como vemos nosso próprio corpo como inimigo
e algo repelente. Este ódio nos leva a desenvolver nossa
autodepreciação e perpetua a necessidade de nos vermos
livres de tais aberrações. A indústria do emagrecimento não
entende que, quando alguém diz "coxas de elefante", está
refletindo como vê as próprias coxas, e não o seu tamanho
real. A autocrítica reflete nosso estado de espírito e nossa
auto-estima. Contudo, a indústria do emagrecimento encara
a autocrítica como um fato, o amplia e depois oferece meios
de nos livrarmos do excesso das coxas, e não da nossa
percepção das mesmas.
E, afinal de contas, o que há de errado no fato de as mu-
lheres terem coxas, quadris e nádegas? Nada, exceto que nin-
guém mais quer tê-los.
Além da discrepância entre o tipo de corpo desejado e o
real, também se concluiu que as mulheres têm uma visão
distorcida de seu tamanho. A técnica original empregada
para verificar essa distorção consistia em duas lâmpadas
montadas sobre uma barra. A pessoa deveria ficar a uma
determinada distância da barra, e o examinador acionava um
mecanismo que ou aproximava ou afastava as lâmpadas uma
da outra. Ela então era solicitada a dizer quando sentisse que
a distância entre as lâmpadas correspondia à largura de certas
partes de seu corpo. Em 1973, descobriu-se que pacientes
anoréxicas superestimavam o tamanho de seu corpo de
forma significativa e acreditavam que seus quadris, ombros e
cintura eram maiores do que na realidade. Estudos mais
recentes demonstraram que todas as mulheres,
independentemente do seu peso real, superestimam o
tamanho de seu corpo em até 10 por cento, isto é, elas vêem
seu corpo maior do que ele é na realidade.
A sociedade não só dita que, como mulheres, devemos ser
mais magras do que somos, mas, além disso, nós mesmas nos
imaginamos mais gordas do que em verdade somos.
Coloca-se diante de nós o problema de estarmos com ex-
cesso de peso, mas, além disso, o que existe realmente nessas
mensagens?
A mensagem óbvia que vem de toda essa pressão é que ser
esbelta é ser atraente, e que "as magras conquistarão seu
homem". As imagens nos dizem que a magreza é atraente e,
em especial, atraente para o objeto de nossos desejos.
Em estudo realizado em 1988, a imagem do próprio corpo,
atitudes diante do peso e a percepção de preferências de
formas com relação ao sexo oposto foram analisadas pelos
pesquisadores, num grupo de homens e mulheres de duas
gerações. Uma série de silhuetas de corpos progressivamente
maiores foi apresentada aos participantes para que estes
indicassem sua forma ideal, sua forma na ocasião, a forma
mais atraente e a que consideravam a mais atraente para o
sexo oposto. As mulheres foram divididas em mães e filhas e
os homens, em pais e filhos. Os resultados demonstraram
que todos, com exceção dos filhos, julgavam que sua forma
real era maior do que a ideal, confirmando a idéia de que as
mulheres de qualquer idade sempre se julgam acima do peso,
e que os jovens do sexo masculino tendem a achar seus
corpos aceitáveis. É interessante notar que os resultados
também mostraram que as mulheres, tanto "mães" como
"filhas", acreditavam que os homens de suas próprias
gerações preferiam mulheres mais esbeltas do que eles
mesmos haviam escolhido em suas respostas. Esta conclusão
indica que as mulheres tendem a pensar que os homens as
preferem mais magras do que na opinião deles mesmos.
Talvez os meios de comunicação estejam apresentando
imagens que representam a idéia que as mulheres fazem da
preferência masculina, e não exatamente essa preferência.

SER MAGRA SIGNIFICA APENAS SER ATRAENTE?

Superficialmente, magreza significa poder usar a última
moda do ano. A venda de produtos dietéticos e a procura de
clínicas de emagrecimento aumentam com a aproximação
do verão, quando as mulheres já se vêem usando maiôs e
shorts na praia. Nós, mulheres, numa sociedade em que
nosso valor é em grande parte determinado por nossos
atributos físicos, somos a princípio algo para ser visto e, só
em segundo lugar, uma pessoa. Aprendemos a nos avaliar da
maneira com que os outros nos avaliam. Aprendemos a tirar
um sentimento de auto-apreciação e auto-estima da forma
como os outros avaliam nossa capacidade de atração. Uma
crítica à nossa aparência pode destruir nossa crença em nós
mesmas como seres humanos úteis. Conforme diz John
Berger em Ways of
Seeing (Maneiras de Ver): "Homens agem. Mulheres se
mostram. Os homens olham para as mulheres. As mulheres
ficam observando como são observadas". Nós nos vemos
como um reflexo de como os outros nos vêem.
O empenho em emagrecer em parte tem origem no desejo
de ser fisicamente atraente, mas talvez a magreza exerça essa
poderosa influência sobre a sociedade pelo fato de oferecer
um meio possível para se alcançar todas as outras qualidades
que passaram a ser associadas a ela.
O que há de tão irresistível na magreza?
Magreza quer dizer sucesso. Se você for magra, você
conseguirá um bom emprego, subirá na escala social e terá
poder econômico. A mulher apresentada dirigindo-se para o
trabalho ao volante de um carro de luxo, organizando
reuniões e colhendo os louros do sucesso é sempre magra. O
sucesso mostra a capacidade de moldar o futuro. As
mulheres ainda vivem num mundo onde os outros decidem
por elas, e onde suas opções são limitadas. Elas se vêem
numa situação em que a sociedade primeiro constata seu
sexo e lhes nega as oportunidades abertas aos homens, e a
magreza é oferecida como forma de alcançar o sucesso.
Magreza quer dizer controle: controle sobre a alimentação,
controle sobre o trabalho, controle sobre a vida. Sugere a
capacidade de resistir às tentações e de controlar impulsos
indesejáveis. As mulheres são educadas para viver para os
outros; são estimuladas a proporcionar alimento e cuidados,
a ouvir os problemas e dar amor aos outros. A auto-
indulgência é apresentada como fraqueza, e a autonegação,
como objetivo. A magreza é oferecida como uma forma de
retomar o controle.
Magreza quer dizer amor. Se você for magra, será amada e
protegida. Será amada porque é atraente e será protegida
porque a magreza lhe dá uma aparência infantil e, quanto
menor o espaço que você ocupar, maiores serão o cuidado e
a proteção que receberá.
Magreza quer dizer estabilidade psicológica. Se você é gorda,
necessita ser protegida do mundo exterior. A gordura
proporciona uma barreira e um lugar para você se esconder
de seus problemas. Ser magra significa não precisar afastar-se
dos outros. O livro de Susie Orbach, Fat is a Feminist
Issue (A gordura é uma questão feminista), chamou a
atenção de todos para a associação entre peso e sexo. No
entanto, o livro tem como subtítulo "Como emagrecer
permanentemente sem fazer dieta", e o objetivo apresentado
ainda é perder peso e manter-se magra. A autora considera a
gordura como "doença social" e acredita que, uma vez tendo
descoberto como sua gordura age sobre você, e tendo
conseguido perder o medo de ser magra, você perderá peso.
O livro principia dizendo "não fazer dieta e aceitar-se a si
própria talvez seja o segredo para emagrecer" (p. 12). A
magreza continua sendo o objetivo e a gordura, o problema.
Embora Susie Orbach não apóie a indústria do
emagrecimento, a finalidade subjacente é a mesma — perder
peso. E a mensagem é a mesma — magreza significa
estabilidade.
Magreza, atração, controle, sucesso e estabilidade, tudo está
ligado entre si. Para ter sucesso você precisa ser magra, e
para ter o controle você tem que ser estável. Trata-se de uma
forma de generalizar e estereotipar; as imagens nos são
apresentadas sob forma de estereótipos, e nós nos
compreendemos e também aos outros de acordo com essas
imagens. Características independentes se tornam
intimamente associadas e passam a ser uma parte apreciável
do conjunto de expectativas que alimentamos sobre nós
mesmos e sobre os outros.
Mas por que nos servimos desses estereótipos? E por que é
tão importante ser magra e atraente?
Vamos supor que você esteja numa condução e, à falta do
que fazer, fica observando as outras pessoas. À sua frente
está uma jovem lendo um livro; em cinco minutos,
provavelmente você já imaginou o que ela faz, como é, se é
feliz ou infeliz, se é casada, se você gostaria dela e até
detalhes que chegam ao tipo de casa em que mora e a cor de
seu papel de parede! Nós temos essa capacidade de criar uma
caracterização detalhada e complexa de alguém, somente
com um mínimo de informações. Tudo o que sabemos são
fatos como sexo, altura, peso e maneira de vestir, mas a
partir daí extrapolamos para traçar um quadro completo para
nós mesmos.
Para explicar como e por que isto ocorre, psicólogos sociais
desenvolveram uma teoria, conhecida como a teoria da
personalidade implícita, segundo a qual todos nós temos
uma Idéia dos fatores que se encaixam ou não. Ela sustenta
que mesmo um mínimo de informação pode dar origem a
um quadro sobre uma pessoa, pela associação das
características conhecidas com outras desconhecidas. Em
1974, Landy e Sigall efetuaram uma série de experiências
para comprovar essa teoria. Um dos estudos consistia em
pedir a um grupo de homens que dessem notas a alguns
artigos, cada um deles acompanhado da fotografia da suposta
autora, que anteriormente já havia sido classificada como
atraente ou não. Eles deveriam avaliar a qualidade dos
trabalhos, tendo sido constatado que as notas atribuídas
foram fortemente influenciadas pela aparência das supostas
"autoras" — as mais atraentes receberam melhores
avaliações, independentemente do nível do trabalho. Os
pesquisadores concluíram que os participantes do estudo
possuíam uma teoria da personalidade implícita c
acreditavam que a boa aparência estava ligada à capacidade
intelectual. A qualidade conhecida era a atração e eles a
associaram com a qualidade desconhecida: a inteligência.
Em que essa teoria se relaciona com a questão da magreza?
A magreza está associada com a atração e esta, por sua vez, é
associada a inúmeras outras qualidades positivas — eis uma
das razões porque a magreza é considerada tão importante.
Sempre que somos apresentados a alguém ou cruzamos com
uma pessoa, não temos tempo nem capacidade de descobrir
exatamente como são essas pessoas, mas nos sentimos
curiosos por elaborar algum tipo de caracterização. Para
tanto, usamos nossos estereótipos e nossa teoria da
personalidade implícita. Generalizamos a partir de dados
específicos para chegar à informação global. Associamos
atributos físicos e visíveis com qualidades psicológicas não
aparentes, pois a informação física é mais facilmente
acessível. Podemos ver que uma pessoa é magra, portanto
atraente, e a partir daí associamos este fator a uma série de
outras qualidades. E aplicamos este raciocínio a nós mesmos.
Queremos ser magras para que os outros associem este
aspecto com todas as demais qualidades positivas.
As injunções sociais apresentam a magreza como a forma de
nos tornarmos atraentes, mas esta mensagem traz consigo
um pacote completo de outras qualidades associadas e atri-
butos desejáveis. O problema é o excesso de peso, o objetivo
é emagrecer, e a solução que nos é ditada é fazer dieta.

O IMPULSO PARA EMAGRECER E AS DIETAS

Fazer dieta tornou-se algo indissoluvelmente ligado à
magreza. A indústria do emagrecimento monopolizou a
motivação pela perda de peso. Vigilantes do Peso, revistas e
produtos para emagrecer nos fornecem os meios de perder
peso, ao mesmo tempo em que nos ditam que devemos ser
magras. Criou-se um mercado usado em seu próprio
benefício. A indústria prospera com a obsessão e a
motivação que ela mesma eterniza.
De que forma fazer dieta passou a ser sinônimo de ema-
grecer?
A indústria do emagrecimento sobrevive da noção de que,
se você está com excesso de peso é porque come em
excesso, não apenas com relação às necessidades de seu pró-
prio corpo, mas também em comparação com os outros. Ela
sustenta que pessoas acima do peso normal não têm auto-
controle e são incapazes de se privar do prazer de comer. A
estrutura das clínicas de emagrecimento consiste em elogiar
os que conseguem perder peso e repreender os que não con-
seguem. Uma dessas clínicas costumava punir os que não
perdiam peso colocando-os numa espécie de gaiola, usando
uma máscara de porco! Trata-se, evidentemente, de um
exemplo extremo, mas não tão diferente da humilhação de
entrar em fila para subir na balança, ter o peso anunciado em
voz alta diante de um grupo de estranhos, receber o
conselho de se esforçar mais e aparecer como alguém que
obviamente não tem força de vontade.
A dieta vem sendo vendida como a solução para a neces-
sidade de emagrecer. Sempre ouvimos dizer que se fizermos
dieta, perderemos peso. Se você não consegue, é porque não
está seguindo a dieta corretamente, não tem autocontrole e é
incapaz. Coma menos e você pesará menos. Mas, será tão
fácil assim?
As mulheres desejam ser magras. A gordura é associada à má
saúde, mas as que fazem dieta não são necessariamente
gordas — apenas se vêem assim. A silhueta ideal que nos é
apresentada é tão mais esbelta do que a forma mediana, que
deixa a maioria das mulheres se sentindo gorda e com vonta-
de de emagrecer. A magreza não só faz com que sejamos
atraentes, mas traz consigo implicações de sucesso, domínio
e amor. O poder da magreza deriva do estilo de vida a ela
associado. E a solução oferecida é fazer dieta.

Capítulo 4
O que faz quem está de dieta?

Fazer dieta implica comer menos, seguir uma tabela de
alimentação e, é claro, perder peso. Se você não diminui sua
alimentação, não está fazendo dieta — é o que se acredita. Se
você vai jantar com uma amiga que vive fazendo dieta e a
observa "traçar" a entrada, o prato principal e sobremesa,
terminando tudo com bombons de chocolate e menta, logo
pensará: "Ela parou com a dieta. Decidiu aceitar-se como é."
Nós presumimos que fazer dieta significa comer menos, mas
o que fazem exatamente os adeptos das dietas? Será que eles
comem menos do que os que não fazem dieta?

O QUE FAZ QUEM ESTÁ DE DIETA?

O objetivo da dieta é reduzir a ingestão de alimentos. Contu-
do, é discutível se quem faz dieta come menos do que os
que não fazem. Pesquisadores desenvolveram diversos
métodos para medir a quantidade de alimentos ingeridos, o
que obviamente é uma questão complexa. Em estudos de
laboratório, a técnica é apresentar aos participantes uma
variedade de alimentos e oferecer uma refeição; na
abordagem mais natural, as pessoas ficam em seu ambiente
normal, mas são instruídas a completar tabelas de dieta todos
os dias, para se ter o registro de quanto comeram. Ambos os
métodos têm seus problemas, mas mesmo assim
proporcionam algumas conclusões quanto ao
comportamento alimentar.
Vários estudos indicam que, em testes de laboratório, quem
faz dieta consome menos calorias do que os outros. Em
1988, Thompson e colaboradores, trabalhando num am-
biente totalmente controlado, mediram a quantidade
ingerida numa refeição constituída de uma variedade de
sanduíches e biscoitos. Os resultados demonstraram que o
consumo de calorias era menor entre os que faziam dieta.
Em outro estudo, no mesmo ano, Kirkley, Burge e
Ammerman analisaram os hábitos alimentares de cinqüenta
mulheres, através de questionários de auto-avaliação
dietética; durante quatro dias, elas preencheram dados
relativos ao horário das refeições, descrição e quantidade dos
alimentos ingeridos. Mesmo com esse método mais natural,
os resultados indicaram que as que faziam dieta consumiram
menos calorias do que as demais. Pesquisas mais recentes
vêm tentando determinar com mais detalhes a ingestão de
alimentos por parte de quem faz dieta. Em 1989, Laessle e
colaboradores avaliaram a ingestão de alimentos, com o
emprego de um diário alimentar durante sete dias, e
concluíram que a tendência era de os que faziam dieta
consumirem cerca de 400 kcal a menos que os outros,
evitando especificamente alimentos ricos em carboidratos e
gorduras.
Embora tais estudos sugiram que, sob certas condições, as
pessoas que fazem dieta comem menos, vários problemas
envolvem o uso de experiências para entender seu
comportamento alimentar em geral. Por exemplo, é possível
que em laboratório as mulheres comam de maneira diferente
do que fazem em seu ambiente familiar, e é muito provável
que a necessidade de preencher questionários sobre o
almoço e o jantar prejudique a espontaneidade e o prazer de
comer, podendo afetar a quantidade consumida.
Por outro lado, em certas situações, as pessoas que fazem
dieta parecem comer mais do que as que não fazem. Em
1988, Wardle e Beale avaliaram em laboratório o comporta-
mento alimentar de pessoas que faziam dieta. Durante um
certo tempo, elas perderam peso, indicando que sua ingestão
diária total de calorias era menor do que a dos que não fa-
ziam dieta. Porém, no laboratório, os que faziam dieta ten-
diam a comer mais.
Portanto, parece difícil determinar quanto realmente co-
mem os que fazem dieta. Em algumas situações eles parecem
comer menos do que os que não fazem dieta e, em outras,
parecem comer mais, oscilando entre períodos de sub e
superalimentação.
Embora seja interessante a comparação entre quem faz e
quem não faz dieta, o objetivo é reduzir sua ingestão de
alimentos e, portanto, é mais importante saber se, fazendo
dieta, você come menos do que comeria se estivesse se
alimentando normalmente. Ou seja, será que as pessoas
comem menos quando em dieta?
É muito difícil avaliar se a dieta faz seus adeptos comerem
menos. Para tanto, seria necessário examinar um grupo de
mulheres antes que entrassem em dieta, e em seguida
acompanhá-las quando algumas delas começassem. Isto
nunca foi feito. Alternativamente, poderia ser solicitado a
um grupo de mulheres, das que estão eternamente em dieta,
que parassem por algumas semanas. Eu tentei isto e concluí
que a maioria das que faziam dieta na realidade nem sabiam
o que significava "não fazer dieta". Elas haviam estado em
dieta por tantos anos, que contar calorias e controlar a
quantidade de comida já se tornara parte de suas vidas — ao
ponto de elas nem se darem conta do que estavam fazendo.
Quando solicitadas a pararem com a dieta, descobriram que
continuavam com ela, mesmo sem perceber.
Uma outra forma de verificar se os que fazem dieta estão
comendo menos do que se não a fizessem, é acompanhar as
alterações de peso. Levando-se em conta as mudanças na
taxa metabólica (conforme análise no Capítulo 6), a maioria
dos que fazem dieta na realidade nunca apresentam qualquer
redução de peso.
O fato de não perderem peso, ao lado de sua incapacidade de
"não fazer dieta", parece sugerir que a dieta é, princi-
palmente, um estado de espírito. Indica que eles pensam em
comer menos e têm a intenção de comer menos, mas que
tais propósitos não se manifestam necessariamente numa
mudança de comportamento. Alguns dos que fazem dieta
podem perder peso e outros talvez comam menos em geral,
mas a maioria não faz mais do que pensar no assunto.
Fazer dieta é um estado de espírito.
A dieta é algo em que você pensa assim que acorda, planeja
fazer durante todo o dia, para recomeçar amanhã. Faz parte
de sua vida. Os que fazem dieta possuem uma identidade e
um desafio e, ao desafiar seu peso, sentem estar mudando
suas vidas. A dieta proporciona a estrutura para a
organização de seu dia, e os centros de emagrecimento pro-
porcionam o apoio e a vida social que, de outra forma, não
existiriam.
Os que simplesmente pensam na dieta constituem uma
grande porcentagem dos adeptos. Porém, há aqueles que
utilizam estratégias mais arriscadas para perder peso. Tais
métodos são exemplos extremos do desejo de emagrecer, e
sinais de implicações mais perigosas de insatisfação com o
próprio corpo.

FUMO

Pesquisas e estatísticas indicam que o fumo é uma das maio-
res causas de mortalidade e invalidez; no entanto, as pessoas
continuam a fumar. Já está documentado que os fumantes
que largam o vício engordam, e um grande estudo realizado
em 1975 indicou que os fumantes tendem a pesar menos
que não-fumantes, mesmo que estes últimos nunca tenham
fumado. O fumo pode atuar como supressor do apetite e
também dá a quem fuma algo a fazer com as mãos, além de
comer. É difícil (embora provavelmente não impossível!) fu-
mar e comer ao mesmo tempo. Já se sugeriu que uma das ra-
zões do hábito de fumar, especialmente entre as mulheres,
talvez tenha relação com seu temor de engordar. Elas talvez
prefiram os riscos a longo prazo do fumo aos efeitos a curto
prazo do aumento de peso.
Para verificar essa noção, em 1988 foi realizado um estudo
em que 1076 pessoas responderam a um questionário;
constatou-se então que 39 por cento das mulheres fumantes
consideravam o fumo como forma de perder peso; cinco por
cento das mulheres declararam ter começado a fumar para
emagrecer; e os resultados demonstraram que as mulheres,
em maior número que os homens, declararam que o medo
de engordar as impedia de largar o fumo.
Essas mulheres não estavam, necessariamente, acima do
peso, nem se viam ameaçadas pelos problemas causados pelo
excesso de peso. No entanto, preferiam arriscar sua saúde a
longo prazo, a ganhar alguns quilos. O desejo de ser magra
sobrepujava o desejo de viver muito.

VÔMITO

Provocar o vômito para perder peso não se limita
especificamente a mulheres com distúrbios alimentares. Um
número alarmante de pessoas que fazem dieta se valem
desse recurso vez por outra, em seu empenho para
emagrecer. Um estudo recente realizado nos Estados Unidos
revelou que 12 por cento das mulheres que fazem dieta
provocaram o vômito alguma vez. Em outro estudo,
verificou-se que 11,6 por cento de um grupo de
adolescentes em dieta vomitavam após comer em excesso.
Não se poderia classificar essas mulheres num quadro de
distúrbio alimentar; no entanto, elas apresentam sintomas de
distúrbio alimentar em seu desejo de emagrecer.
Provocar o vômito não é moda recente. Os romanos já
costumavam tomar um "vomitorium" para comer o máximo
que agüentassem, vomitar e voltar a comer. Quem faz dieta
costuma provocar o vômito para não engordar. Mas esse
hábito pode ter efeitos colaterais muito graves: provoca
problemas dentários, pela ação dos ácidos digestivos
diretamente sobre os dentes; também ocorrem deficiências
em certos minerais, causando cansaço e fraqueza.
Os que têm o hábito de vomitar não são necessariamente
mais gordos do que os que não o fazem. Apenas, ao que pa-
rece, sua vontade de emagrecer é maior.

USO DE LAXATIVOS

O uso de laxativos também não é exclusivo de mulheres com
distúrbios alimentares. Em estudo recente nos Estados
Unidos verificou-se que 6 por cento de mulheres e 6 por
cento de adolescentes que faziam dieta usavam laxativos
como forma de controlar o peso. Os laxativos parecem fazer
a pessoa se sentir mais leve, por provocarem desidratação e
reduzirem a retenção de líquido, mas, ao que tudo indica,
têm pouca influência sobre o peso, pois quando seu efeito se
faz sentir, a maioria das calorias já terá sido absorvida.

DIETAS DE MÍNIMO TEOR DE CALORIAS

As dietas de proteínas líquidas começaram a aparecer no
mercado em 1976 e 1977, e a dieta de Cambridge foi
introduzida no início dos anos 80. Infelizmente, a agitação
que envolveu esses lançamentos representou sua aplicação
sem o devido controle, e pelo menos cinqüenta e oito
mortes foram registradas entre consumidores de produtos de
proteínas líquidas, e seis mortes entre os seguidores da dieta
de Cambridge. Mais recentemente, um artigo publicado num
jornal da Escócia, em 1990, dava conta que ainda há setenta
e cinco ações pendentes contra a "Nutri/System" nos Estados
Unidos, todas impetradas por pessoas que se queixam dos
efeitos nocivos da dieta de baixa caloria sobre sua saúde. O
artigo explica que "todos os queixosos alegam que a dieta está
diretamente associada aos sérios problemas da vesícula biliar
que vieram a sofrer". Ao que parece, setenta e três desses
indivíduos tiveram suas vesículas biliares removidas, se-
gundo acreditam, como resultado direto daquela dieta.
A maioria das dietas de mínimo teor de calorias existentes
no momento são mais seguras do que suas primeiras simila-
res, mas ainda podem representar perigo, se usadas por pes-
soas às quais não são indicadas, e sem a necessária supervi-
são. O Dr. Wadden, da Universidade da Pennsylvania,
reexaminou o uso dessas dietas e sugere que existe uma apli-
cação para elas, nos casos mais sérios de obesidade (indiví-
duos com 50 por cento a mais do que o peso normal).
Usadas com orientação adequada e nas pessoas certas, pode-
se conseguir uma considerável perda de peso. No entanto,
sem supervisão apropriada, "a maioria dos pacientes
submetidos apenas à dieta de baixas calorias voltam a engor-
dar quase tão rapidamente quanto emagreceram" (1990).
Mas, serão tais dietas seguidas apenas pelos muito obesos?
Um relatório elaborado em 1989 pelo Dr. Pope sugere que
não. Ele revela que os programas de emagrecimento
ofereciam dietas de mínimo teor de calorias a pessoas que
poderiam ser consideradas apenas ligeiramente acima do
peso normal. Com efeito, se examinarmos as campanhas
publicitárias de algumas dessas dietas, fica evidente que seu
público alvo é a mulher média. As modelos usadas nessas
campanhas são jovens de 16 anos, manequim 38 — como
todas as que posam para outras campanhas desse tipo. Se
uma mulher com peso somente um pouco acima do normal
se submeter a tais dietas, os resultados podem ser
desastrosos, com efeitos nocivos sobre o coração e outros
órgãos. E para aquelas mulheres que apenas pensam que
estão gordas, os danos seriam ainda maiores.
E por que essas dietas visam o público médio e não apenas os
seriamente obesos? É uma boa pergunta. Ocorre que os
gravemente obesos são tão poucos, que uma amostra tão
pequena não resultaria em lucro; já o número de mulheres
medianas que querem emagrecer é muito grande,
constituindo-se numa clientela bem maior.
Numa de minhas entrevistas, conversei com uma mulher a
quem o médico havia prescrito uma dieta de baixo teor de
calorias. Ela tinha 50 anos de idade, cerca de um metro e
sessenta de altura, e pesava perto de 67 quilos.
Evidentemente, não poderia ser considerada obesa. Mas ela
pretendia perder alguns quilos e não queria se preocupar
com dietas prolongadas, portanto, pensou que um
tratamento de choque, rápido e enérgico seria o ideal. Ela
não foi advertida sobre os perigos de uma dieta de baixas
calorias e se entregou ao seu objetivo de emagrecer. Na
primeira semana, perdeu três quilos e meio. Um resultado
impressionante! Na segunda, perdeu pouco mais de dois
quilos. De novo, muito bom. Na terceira semana, ela já
estava tão cansada de só tomar líquidos e tão farta de não po-
der comer nada, que acabou desistindo. Nas três semanas se-
guintes, recuperou tudo o que tinha emagrecido.
Ao que parece, esse tipo de dieta está sendo recomendado a
pessoas não muito obesas, o que pode ser perigoso. No
entanto, é bem possível que, por suas próprias
características, o perigo não chegue a ser assim tão grande. É
que a dieta é tão enfadonha, que se torna difícil segui-la por
um tempo suficiente para causar qualquer dano real!

PÍLULAS E REMÉDIOS PARA EMAGRECER

Em 1987, estimava-se em 4 milhões de libras o gasto anual
do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra em remédios
inibidores de apetite. Tais remédios supostamente evitam a
sensação de fome e ajudam a emagrecer. No início, os
médicos costumavam receitar anfetaminas, mas como estas
poderiam vir a causar dependência, esta prática foi deixada
de lado. Hoje em dia, usam-se remédios menos fortes; no
entanto, estes também têm efeitos colaterais desagradáveis,
como insônia, boca seca, letargia, vômitos e dores de cabeça.
Sua eficácia é duvidosa, mas algumas pesquisas indicam que,
a curto prazo, é possível perder mais peso usando remédios
do que apenas fazendo dieta. O que não é de surpreender —
sentir-se mal provavelmente é uma das melhores e mais
óbvias formas que se conhecem para deixar de comer.
Porém, não há provas que sugiram que funcionem a longo
prazo.
Quem usa pílulas?
Se você é obesa e sua saúde sofre as conseqüências do
excesso de peso, então talvez os riscos das pílulas para ema-
grecer possam valer a pena a curto prazo. Porém, tais pílulas
são acessíveis a pessoas de todos os tipos e tamanhos.
Uma pesquisa da revista Which? indicou que quase a
metade das mulheres que consultaram seus médicos com
relação ao seu peso receberam a indicação de remédios para
emagrecer. Será que essas mulheres eram todas obesas? Um
estudo efetuado pelo Observer revela que provavelmente
não. Em 1988, três jornalistas se dirigiram a centros de
emagrecimento, procurando orientação para perder peso;
nenhum deles era obeso e nem mesmo estava acima do
peso, mas a todos foram oferecidas diversas formas de
"pílulas para emagrecer". Não receberam nenhum
aconselhamento e nem sequer lhes foi perguntado por que
desejavam emagrecer. Os remédios prescritos iam desde
placebos até anfetaminas, e foram entregues sem qualquer
recomendação médica.
Os médicos do Serviço Nacional de Saúde não obtêm
nenhuma vantagem financeira ao administrar pílulas para
emagrecer a suas pacientes com peso normal. No entanto, é
mais rápido e emocionalmente menos desgastante passar
uma receita do que discutir por que a paciente quer perder
peso e por que ser magra é tão importante para ela. As
clínicas de emagrecimento, estas sim, lucram com a
indicação de pílulas, pois as pacientes têm que comprá-las, e
o tempo gasto em cada consulta é o menor possível.
Existem poucas evidências que comprovem a eficácia das
pílulas para emagrecer. À curto prazo, elas podem até acele-
rar a perda de peso, porém ao custo de efeitos colaterais
perturbadores. À longo prazo, não há nada para comprovar
que tenham alguma utilidade. Para pessoas que precisam
perder peso por motivos médicos, talvez sejam úteis; mas,
para a maioria das mulheres que simplesmente se sentem
gordas, elas não têm qualquer valor.

DIETAS DE MODA

"A dieta de Beverly Hills", desenvolvida por Judy Mazel em
1980, é o exemplo perfeito de dieta de moda. Ela retrata a
necessidade que as mulheres têm de uma receita mágica para
emagrecer, e também mostra como certos distúrbios
alimentares passam a ser invejados, e como os extremos são
considerados muito mais interessantes e vantajosos do que
qualquer meio-termo.
A autora deve ser a única a admirar explicitamente e mesmo
recomendar uma forma de dieta baseada na indução de um
estado de extrema abstinência alimentar, seguida de pur-
gação. Em artigo recente, Wayne e Susan Wooley, dois
especialistas em obesidade e comportamento alimentar,
dizem que "a dieta de Beverly Hills, pela primeira vez,
apresentou um distúrbio alimentar — anorexia nervosa —
como cura para a obesidade".
A dieta de Beverly Hills revela que Judy Mazel começou
a fazer dieta aos 8 anos de idade e que, já na adolescência,
usava "de tudo: pílulas para a tiróide, pílulas para emagrecer,
laxativos". Ela passou a ter uma obsessão por diuréticos, que
podiam determinar se engordava ou emagrecia até quatro
quilos e meio num só dia. Descobriu, então, que poderia
obter um efeito muito parecido se comesse apenas frutas.
Essa dieta só de frutas é, em essência, a dieta de Beverly
Hills. Ela recomenda períodos de fome, em que só se
comem frutas. A autora aconselha: "Compre bastante...dois
quilos de uvas no dia da uva não é muito" e se vangloria de
"conseguir descascar e comer uma manga dirigindo um carro
de embreagem manual e usando roupa branca". Todavia, tais
períodos de fome existem apenas para compensar as
inevitáveis comilanças. Judy Mazel, sem dúvida, é vítima de
um desejo incontrolável de se empanturrar, que depois exige
um período de fome. Em suas palavras:

Ainda como três porções de panquecas de batata sem
engasgar, um rosbife inteiro num piscar de olho, e uma rica
torta de queijo inteira sem ofegar uma só vez... e você
também pode.

Contudo, para isso, você precisa do efeito diurético de uma
dieta só de frutas no resto do tempo:

Se você tem o intestino solto, alegre-se! Lembre-se que os
quilos deixam o seu corpo de duas maneiras — através dos
intestinos e da urina. Quanto mais tempo você passar no
banheiro, tanto melhor.

A dieta de Beverly Hills recomenda vigorosamente um
distúrbio alimentar como solução para o excesso de peso.
Revela a admiração da autora por quem sofre de anorexia,
por sua esbelteza, e de bulimia, por seus métodos de
controlar o peso. Por outro lado, também revela seu
desespero, conforme as palavras de Wayne e Susan Wooley:
O fato da prática da psicopatologia anoréxica estar sendo tão
bem recebida nos traz uma mensagem.... Os números
indicam que as mulheres têm tanto pavor da gordura, que
não querem mais esperar por um método científico e seguro
de controle do peso. ...A crença predominante é que não há
nada pior do que ser gorda e que, para emagrecer, vale
qualquer sacrifício, inclusive o da saúde.

Dietas de moda, como a de Beverly Hills, são perigosas e se
baseiam na má interpretação dos motivos que levam as
pessoas ao excesso de peso e também da forma como os
alimentos são metabolizados. Contudo, o livro é um
fenômeno de venda. As mulheres seguem essas dietas
porque seu desejo de serem magras suplanta todas as outras
considerações. As dietas já foram descritas como o início da
espiral descendente que leva aos distúrbios alimentares. E a
dieta de Beverly Hills faz uma forte apologia desse caminho.

DIETAS RADICAIS

Para a maioria das pessoas que faz dieta, esta significa pensar
em comer menos, algumas vezes conseguindo, porém
compensando períodos de alimentação reduzida com
episódios de excesso de comida. No entanto, para alguns, a
dieta pode se tornar mais do que um hábito — pode se
transformar numa obsessão que coloca em perigo a própria
vida.


Anorexia nervosa

Anorexia nervosa, ou a "doença do emagrecimento", vem
sendo cada vez mais estudada e documentada nos últimos
anos. A maioria das revistas traz artigos sobre o assunto e
publicações acadêmicas têm seções especiais para atender ao
crescente interesse e preocupação sobre o distúrbio.
A anorexia é descrita como "medo da gordura", "fobia pelo
peso" e "obsessão pela magreza". Parece ocorrer
principalmente em mulheres jovens, e quase sempre tem
origem num episódio de dieta que acaba por fugir ao
controle. Os anoréxicos procuram recusar qualquer
alimentação, ingerindo entre 200 e 300 calorias diárias, e
praticam exercícios vigorosos como forma de evitar
aumento de peso. Demonstram uma intensa aversão por
seus corpos e revelam considerar-se muito mais gordos do
que realmente são. A anorexia ocorre em níveis
especialmente altos entre profissionais como bailarinas,
modelos e manequins, que têm motivos adicionais para se
manterem magras. Entre os anoréxicos, a maioria esmaga-
dora é de mulheres, na proporção de quinze para cada ho-
mem. Contudo, de uns tempos para cá, já se fala que o
número de homens vem crescendo. Os sintomas da anorexia
são muito semelhantes aos relatados por aqueles que vivem
eternamente em dieta (ver Capítulo 7), mas evidentemente
são muito mais graves.

Bulimia nervosa

Quem sofre de bulimia também tem um medo mórbido de
engordar, demonstra grande aversão pelo seu corpo, mas
tende a ser de peso mediano. Costuma ser acometido de
impulsos incontroláveis por comida e do que poderíamos
chamar de "acessos de comilança". Estes podem variar de
curtos episódios de gula, até períodos de várias horas,
representando o consumo de até 55.000 calorias;
freqüentemente são seguidos por períodos de purgação, seja
através de vômitos ou do abuso de laxativos. Como no caso
da anorexia, na bulimia também a maioria é de mulheres,
mas a média de idade parece ser um pouco mais alta. A
bulimia é um distúrbio de caráter íntimo, que costuma crivar
o paciente de sentimentos de culpa e auto-rejeição; por este
motivo, ele evita procurar ajuda médica e pode continuar
com seu problema, sem contar com qualquer assistência ou
intervenção exterior. Várias características comuns à bulimia
também podem ser notadas nos seguidores de dietas, tais
como comida em excesso e auto-aversão, porém em grau
muito mais extremo.
Parecem existir várias razões para a anorexia e a bulimia
terem merecido tanta atenção, não só dos meios de
comunicação, mas também da medicina. A razão mais óbvia
é que ambas podem representar risco de vida e provocar
evidente sofrimento aos pacientes. Também se tornou claro
nos últimos anos que os métodos atuais de tratamento não
parecem ser particularmente bem sucedidos. Mas, além
dessas, ainda existem outras razões mais sutis.
Inveja

O desejo de emagrecer se tornou tão poderoso nestes últi-
mos anos que os anoréxicos e, em menor proporção, os
bulímicos são admirados e mesmo invejados por certos
setores da sociedade. Em recente filme americano, uma
vendedora de loja de roupas diz o seguinte a uma
compradora em potencial: "Minha filha pode vestir qualquer
coisa, ela é feliz, é anoréxica." Trata-se de uma piada, até
engraçada, em parte pelo seu mau gosto, mas também
porque reflete o que muitas mulheres pensam: que as
anoréxicas são as que têm "êxito em suas dietas" e
conseguiram atingir o que a maioria da população feminina
continua a perseguir: a magreza.
As anoréxicas são invejadas por seu autocontrole e auto-
privação. As bulímicas também são invejadas, pois
encontraram uma solução que lhes permite comer à larga,
sem engordar — o equilíbrio perfeito.

O interesse da mídia

Essa inveja se evidencia no interesse público. Qualquer
revista que publique uma nova dieta venderá mais, da
mesma forma como uma com algum artigo sobre desordens
alimentares. O desejo de emagrecer e de conhecer tudo o
que existe em matéria de dieta se traduz no interesse de ler a
respeito das conseqüências das dietas radicais — as desor-
dens alimentares. Talvez a leitura de casos de anorexia seja
semelhante à leitura de histórias de "campeões de emagreci-
mento". Ou talvez seja um consolo pensar "eu posso não
conseguir emagrecer, mas ao menos não sou anoréxica".
Embora esta possa ser uma perspectiva um tanto cínica com
relação ao interesse que vem cercando os problemas
alimentares, este interesse parece refletir o interesse da
mídia sobre como perder peso.

Um interesse pelos extremos

A sociedade sempre se interessou pelos extremos. É muito
mais provável você ouvir falar sobre "depressão" do que so-
bre pessoas apenas "aborrecidas". Jornais cobrem um caso de
assassinato, mas não se interessam por uma mulher que só
apanhou do marido. São os casos extremos que fazem as
manchetes. Com a anorexia e a bulimia, acontece o mesmo;
trata-se de extremos e, portanto, são mais interessantes. São
dramáticas e representam risco de vida.
Porém, são casos extremos e ainda muito raros. Enquanto
perto de 90 por cento da população feminina faz dieta,
apenas cerca de um por cento das mulheres desenvolve a
anorexia, e cerca de 2 por cento desenvolve a bulimia. Estas
estatísticas parecem ser surpreendentemente baixas em
comparação com as apresentadas em livros como Fat is a
Feminist Issue (A gordura é uma questão feminista) de
Susie Orbach e, mais recentemente, The Beauty Myth (O
mito da beleza) de Naomi Wolf, que sugerem cifras muito
mais altas. A publicidade que cerca os distúrbios alimentares
pode nos levar a crer que quase todas as adolescentes
(especialmente nos Estados Unidos) são ou anoréxicas, ou
bulímicas ou obesas! Contudo, muita pesquisa psicológica foi
realizada para verificar a incidência de distúrbios
alimentares, e as estatísticas nem sempre são tão exatas
como se costuma supor.
O principal problema para se avaliar quantos indivíduos
sofrem de algum tipo de desordem alimentar é definir o que
constitui problema clínico. O termo "comilança" criou
muitos problemas de definição; em 1959, Albert Stunkard
registrou seu emprego, com o sentido de comer além do
ponto de sentir fome. Em 1980, a Dra. Jane Wardle avaliou a
epidemiologia da comilança, definindo-a como "devorar
montes de comida, mesmo sem fome". Considerando-se esta
definição, os resultados de seu estudo indicaram que quase
todos os pesquisados se entregavam a uma comilança, pelo
menos uma vez por mês. Susie Orbach também define a
compulsão pela comida, segundo vários critérios: "comer
sem estar fisicamente com fome; não ter controle com
relação à comida, oscilando entre fazer dieta e empanturrar-
se; passar boa parte do tempo pensando e se preocupando
sobre comida e gordura; vasculhar a última novidade em
dieta à procura de informações vitais; sentir-se mal consigo
mesmo como alguém que não consegue se controlar; sentir-
se mal com relação a seu corpo". As definições para
comilança podem variar desde uma conduta alimentar
característica da maioria das pessoas, até um excesso
patológico, e a que for usada é que determina o número dos
que podem ser considerados portadores de algum distúrbio
alimentar.
Para esclarecer esse ponto, estabeleceu-se um critério mais
restrito. The Diagnostic and Statistical Manual of
Mental Disorders 111-DMS 111 (Manual estatístico e de
diagnóstico de distúrbios mentais 111) sugere que para se
fazer o diagnóstico clínico de anorexia ou bulimia, deve
existir uma sintomatologia definida. Indivíduos podem
apresentar alguns desses sintomas, como perda de peso ou
crises de comilança, podendo ser classificados como
portadores de algum distúrbio por certos autores, mas não o
seriam sob o aspecto clínico.
Afora os problemas de definição, existe a questão da
interpretação das estatísticas. Para tanto, torna-se necessário
analisar o universo usado para se chegar aos números finais;
por exemplo, idade, sexo e classe social são fatores que
devem ser levados em conta ao se interpretar uma
estatística. Para melhor esclarecer o assunto, façamos uma
comparação entre vários estudos. Em 1981, Halmi e
colaboradores realizaram uma pesquisa entre estudantes pré-
universitárias americanas, concluindo que 13 por cento delas
apresentavam todos os sintomas necessários para um
diagnóstico de bulimia. No entanto, tratava-se de um grupo
muito limitado, com predominância de jovens brancas e de
classe social elevada, atributos comuns a mulheres com
distúrbios alimentares. Tal estatística é preocupante, sem
dúvida, mas foi obtida num segmento da população mais
propenso a apresentar tais distúrbios. Em estudo mais
recente, Cooper e Fairburn trataram de evitar o problema;
em 1983, foram distribuídos questionários entre mulheres
atendidas por uma clínica de planejamento familiar da
Inglaterra, que provinham de ambientes diversos e repre-
sentavam uma boa amostragem da sociedade. Vinte por cen-
to revelaram ter passado por "uma crise de incontrolável
excesso de comida" nos dois meses anteriores; no entanto,
apenas 1,9 por cento preenchiam os critérios necessários
para um diagnóstico de bulimia, uma proporção muito
menor do que se costuma apresentar. Distúrbios alimentares
são um sofrimento para os pacientes e seus familiares, mas
não são tão comuns como muitas vezes somos levados a
acreditar. O emprego de definições menos restritas e a
seleção de universos específicos podem dar como resultado
cifras mais altas. Estas, por sua vez, quando divulgadas,
tendem a dar mais sensacionalismo a um problema já
bastante desagradável em si, minando o sofrimento sentido
por indivíduos que realmente sofrem de distúrbios
alimentares.
Um dos efeitos desse interesse pelos extremos é que o
comportamento excessivo obscurece a importância de
problemas mais moderados. O perigo e o drama associados
aos distúrbios mais graves trivializam a importância de
dificuldades mais sutis.
Talvez devêssemos nos interessar mais pelos fatos médios
normais, que afetam mais indivíduos médios normais. O
impacto associado aos distúrbios alimentares tira a
importância dos efeitos das dietas, que podem não ser tão
dramáticos ou ameaçadores, mas que afetam a vida de muito
mais gente. Os efeitos das dietas talvez não sejam tão
empolgantes ou traumáticos, mas ainda assim são
importantes e merecem ser entendidos.
Segundo supomos, fazer dieta significa comer menos e
emagrecer. Para alguns, isto se aplica, mas para a grande
maioria, a dieta se tornou um hábito e uma maneira de viver.
Os seguidores de dietas parecem oscilar entre dias em que
comem menos e dias em que comem mais. Alguns perdem
peso, mas a maioria apenas parece pensar em emagrecer.
Eles pensam em comer menos, mas nem sempre o fazem na
prática. Fazer dieta é um estado de espírito, e não um
comportamento.
Para quem faz dieta, existe uma variedade de meios de
perder peso: fumo, indução ao vômito, uso de laxativos,
regimes inadequados e remédios para emagrecer, aos quais
recorrem as mulheres que se sentem gordas. Dietas de
baixos teores de calorias são mesmo especificamente
dirigidas àquelas que simplesmente se acham gordas.
Todas têm um desejo em comum: ser magras. Algumas se
deixam levar por esse desejo de maneira mais extremada que
as outras.

Capítulo 5
A indústria do emagrecimento

Por diversas vezes empreguei as expressões "nos dizem",
"somos levadas a crer", "aceitamos", como se as mulheres
fossem receptoras passivas da informação vendida pela
indústria do emagrecimento, como se elas não tivessem a
independência e a capacidade de questionar e rejeitar. Mas
não é bem assim. Com freqüência se insinua que as mulhe-
res são submetidas a forças além de seu controle. Imagina-se
que os homens ditem como as mulheres sentem, pensam e
como se encaram a si mesmas. Nos últimos anos, porém,
muita coisa mudou. Mulheres tomam decisões e têm
condições de determinar seu futuro, dentro de certos
limites. Mas elas ainda optam por fazer dieta e deixar que a
sociedade dite a silhueta que devem ter. Para entendermos
por que aceitamos tanta coisa do que nos dizem, é preciso
entender quão poderosa é esta indústria do emagrecimento.
Livros, revistas, artigos de jornal, programas de televisão,
vídeos com exercícios, academias de ginástica, tudo isto
compõe o mundo da dieta. Uma das maiores dificuldades
para se avaliar o poder da indústria do emagrecimento é
saber se ela está respondendo a uma necessidade, explorando
essa necessidade ou se é ela quem cria a necessidade.
A indústria do emagrecimento visa atingir as pessoas com
excesso de peso ou as que se imaginam com excesso de
peso? Ela se vale dos sentimentos de inadequação das
mulheres ou proporciona uma forma de acabar com essa
inadequação?

RESPONDENDO A UMA NECESSIDADE

Slimmer, uma revista especializada em emagrecimento,
vendeu 142.000 cópias entre janeiro e junho de 1990. Os
Vigilantes do Peso na Inglaterra têm uma média de 140.000
membros; clubes de emagrecimento contam com 40.000
freqüentadores em média. Parece óbvio que existe uma
necessidade desses serviços, ou pelo menos as pessoas estão
respondendo à oferta dos mesmos.
Mas o que fazem na realidade esses serviços?
Para que a indústria do emagrecimento esteja "respondendo
a uma necessidade", é preciso que tenha como objetivo
tratar de um problema já existente.
Será que ela trata da obesidade?
Há muito que a obesidade vem sendo definida como um
problema de peso. Um peso muito acima do normal pode
provocar muitos outros problemas como ataques cardíacos,
problemas nas articulações e pressão alta.
Nos últimos Vinte a trinta anos, médicos, psicólogos,
nutricionistas é dietistas desenvolveram uma enorme
quantidade de possíveis métodos para tratar a obesidade,
entre os quais cirurgia, imobilização dos maxilares, remédios
inibidores de apetite e assistência psicológica. Os programas
mais usados para perda de peso compreendem a terapia e
modificação do comportamento, uma tentativa bem
documentada que parece produzir relativamente bons
resultados.

O que é modificação comportamental?

O tratamento comportamental da obesidade se baseia na
mudança de hábitos e costumes diários, até se atingir o
objetivo desejado. A premissa básica da terapia do
comportamento é recompensar as condutas benéficas e
desencorajar as prejudiciais. Contudo, a técnica mais recente
de tratamento comportamental tem uma perspectiva mais
ampla e focaliza a conduta alimentar, o apoio social,
exercícios, atitudes e nutrição. O objetivo é modificar as
situações que levam o indivíduo a comer e avaliar as
conseqüências da conduta alimentar. A terapia do
comportamento inclui processos específicos que se destinam
a modificar o comportamento.

Auto-monitoragem

Pede-se à cliente que faça um controle de quando, quanto e
por que come. Assim, aumenta a consciência que ela tem de
si mesma, de forma que o ato de comer não pode "simples-
mente acontecer", e ela tem a possibilidade de avaliar seu su-
cesso e se alguma mudança ocorreu.

Removendo pretextos

A cliente é encorajada a acabar com quaisquer pretextos ou
motivos para comer, por exemplo, guardar os alimentos fora
da vista, só comer num limitado número de locais e em
horários definidos, não comer diante da televisão.

Estímulo (recompensa)

A cliente pode se estimular a si própria ou ser estimulada por
outros. Freqüentemente o auto-controle atua como uma
forma de recompensa, pois ela pode ver a mudança em seu
peso e em sua ingestão de alimentos. Comprar roupas novas
ou receber cumprimentos de amigos também são formas de
estímulo.

Apoio social

As pesquisas indicam que o apoio da família e de amigos é
um fator importante na determinação do grau de sucesso da
cliente.
Mudança cognitiva

Programas comportamentais mais modernos também in-
cluem componentes que visam mudar as atitudes e opiniões
da cliente sobre os alimentos. Acredita-se que as pessoas
obesas fazem juízos negativos a respeito de si mesmas e se
punem por terem falhado em suas tentativas anteriores de
perder peso. Muitos desses julgamentos refletem as atitudes
da sociedade para com as pessoas com excesso de peso, ou
seja, que elas são preguiçosas, gulosas e não têm controle.
Mulheres obesas parecem assumir tais opiniões, o que tende
a minar suas tentativas de emagrecer. Se elas mesmas se di-
zem: "eu sou uma idiota preguiçosa e um fracasso", é pouco
provável que tenham êxito em sua luta contra o excesso de
peso. Sua auto-aversão é que faz com que a previsão se con-
cretize: como acreditam que não vão conseguir, não conse-
guem mesmo. Os programas comportamentais têm por
objetivo mudar essas atitudes e ajudar as pessoas obesas a te-
rem confiança em sua própria capacidade de transformação.
Um outro conjunto de padrões de julgamento que pode ser
prejudicial é verificado nas reações das pessoas obesas aos
alimentos. Muitas vezes, comer algo com alto teor de ca-
lorias será encarado como uma grande comilança, provocan-
do um sentimento de autocensura, que pode levá-las a
comer mais ainda. Os programas comportamentais se
dispõem a ajudar as clientes a colocar sua alimentação no
contexto e aprender a dizer: "Eu não sou uma inútil, uma
escapulida de vez em quando acontece, e agora eu volto para
minha dieta." Assim, evita-se o tipo de atitude "tudo ou
nada", que em geral acaba por fazê-las abandonar a dieta.

Nutrição

Além de aconselhar as pessoas obesas a não ultrapassarem as
1.200 calorias, para mulheres, ou 1.500, para os homens, a
maioria dos programas também inclui informações sobre
alimentação sadia e os componentes corretos de uma dieta.

Exercícios

Os métodos comportamentais podem ser usados para mudar
os hábitos alimentares, mas também para promover a
atividade física. Deve-se dar estímulo e recompensas às
mulheres que gradativamente aumentam suas caminhadas,
sobem a pé em lugar de usar escadas rolantes ou elevadores,
e aos poucos vão melhorando sua forma.
Essa modificação comportamental encontra acolhida nos
clubes e revistas especializadas?
Existem vários aspectos desses programas que as organiza-
ções comerciais vêm claramente adotando em sua estrutura.

Auto-monitoragem

Contagem de calorias e tabelas de pesos são formas de auto-
monitoragem, permitindo a quem faz dieta controlar
exatamente o que come e evitar comer fora do esquema.
Essa forma de modificação do comportamento tem um papel
essencial na organização dos clubes de emagrecimento e na
estrutura das revistas. Contudo, a maioria dos clubes e
revistas não recomenda o controle de onde e quando você
comeu e o que sentiu ao fazê-lo, provavelmente por que isso
levaria muito tempo e exigiria maior dedicação. Tais
componentes são importantes, pois permitem a quem está
seguindo a dieta perceber quando está comendo sem ter
fome e se, ao comer, está reagindo a certos fatos ou estados
de ânimo.

Removendo pretextos

Clubes e clínicas em geral recomendam que você vá ao
supermercado com o estômago cheio e guarde os alimentos
onde não sejam vistos. Aconselha-se também a quem faz
dieta que não compre alimentos com alto teor de calorias, e
que tenha sempre à mão muitos legumes e frutas para
"beliscar". Estas são formas de se evitarem pretextos para
comer, e servem para ilustrar o uso de um princípio
psicológico básico por parte de empresas comerciais.

Estímulo ou aprovação

O estímulo tem uma grande importância no funcionamento
da maioria dos clubes de emagrecimento. O auto-estímulo
decorre do fato de se ver o próprio peso diminuir; nos clu-
bes todos são pesados e cumprimentados quando emagre-
cem, e aconselhados ou mesmo punidos quando não
conseguem. Concursos do tipo "campeão de emagreci-
mento" motivam as pessoas a persistirem com a dieta e re-
compensam quem o faz..Alguns clubes oferecem uma seção
grátis aos sócios que conseguem manter a perda de peso e a
revista Slimmer publica casos interessantes de
emagrecimento. Mas, existem também problemas, quais se-
jam, os efeitos da punição ou a ausência de recompensa.
Teoricamente, quem faz dieta deveria se sentir inibido de
engordar ou de não emagrecer, como forma de encorajar a
redução de peso. Porém, as formas de inibição também po-
dem ser humilhantes e embaraçosas. Os tipos e graus de
castigo para quem não consegue emagrecer variam de um
clube para outro: alguns não anunciam em voz alta o au-
mento de peso, mas aconselham a cliente a se esforçar mais
na semana seguinte; já outros aplicam formas mais radicais,
como vaias, zombarias ou a exibição do grupo dos que
"falharam", diante dos outros. Tais atitudes são
desencorajadoras e muitas vezes podem até fazer com que a
pessoa desista da dieta e não volte mais ao clube.

Apoio social

O apoio dos outros é a principal vantagem de freqüentar um
clube ou instituto de emagrecimento, em lugar de fazer a
dieta sozinho. Ali, todos têm um interesse e um objetivo em
comum, e sempre se encontra alguém com quem conversar
sobre o teor de calorias de um cachorro-quente ou sobre o
que se comeu no dia anterior. Muitos até continuam sócios
depois de terem atingido sua meta de emagrecimento, em
geral pela necessidade de um programa de manutenção do
peso, mas também, acredito, para conservar as amizades e
ter algo a fazer à noite.
Exercícios

Nestes últimos anos, ficou evidente que a indústria do
emagrecimento vem cada vez mais enfatizando os
benefícios da atividade física, como coadjuvante da dieta. Os
clubes de emagrecimento costumam dar uma seção de
exercícios brandos uma vez por semana e, embora não se
saiba ainda como a ginástica pode influir na perda de peso,
ela produz a autoconfiança e eleva o ânimo.

Nutrição

A indústria do emagrecimento vem se mostrando cada vez
mais preocupada com a questão da nutrição. As revistas não
se limitam a publicar artigos sobre calorias, mas também
sobre saúde e estilo de vida.
Contudo, ainda existem vários aspectos dos programas
comportamentais recomendados que a indústria não incluiu
em sua estrutura.

Mudança de mentalidade

A maioria das clínicas de emagrecimento ainda adota a
política de definir certos alimentos como "proibidos" e de
aconselhar seus clientes a evitá-los a qualquer custo.
Chocolate e batatas fritas, por exemplo, são considerados
nocivos, não devendo, portanto, ser incluídos numa dieta, o
que tem como efeito torná-los ainda mais desejáveis; em
conseqüência, quando a pessoa em dieta os consome, perde
a confiança em si mesma e continua a comer.
Os programas de tratamento comportamental para obesidade
são os mais utilizados pelos profissionais do ramo. Seus
efeitos estão bem documentados e os resultados que apre-
sentam têm um grau de sucesso relativamente alto. Os
clubes e revistas de emagrecimento incorporaram algumas
dessas teorias comportamentais em sua estrutura e
funcionamento, e utilizam essas técnicas para ajudar seus
clientes e leitores a perder peso. Pesquisas nesse campo
produziram um conjunto de dados que podem auxiliar os
que se submetem a dietas de emagrecimento, e as
organizações comerciais parecem estar atentas a essas
conclusões. Contudo, é importante saber se tais organizações
estão usando estes métodos para ajudar às pessoas certas: os
obesos e os acima do peso. Não se dispõe de dados para saber
quantas pessoas realmente obesas procuram a indústria do
emagrecimento (isto parece variar de um clube para outro);
os relatórios dizem que existe um certo número delas,
confirmando a idéia de que a indústria está respondendo a
uma necessidade.

EXPLORANDO UMA NECESSIDADE

Os que freqüentam os Vigilantes do Peso têm, em média,
cerca de 16 quilos acima do peso normal. Contudo, essa cifra
é assim alta devido aos poucos membros obesos, que puxam
a média para cima. A maioria só tem aproximadamente seis
quilos acima do normal. Será que eles realmente precisam
perder este excesso, ou estarão respondendo à pressão da
mídia?
Há clubes de emagrecimento que aceitam pessoas com uns
poucos quilinhos a mais. Essas mulheres são levadas a verem
esses poucos quilos como um problema do qual têm que se
ver livres. Não se procura saber o motivo delas quererem ser
só aquele pouquinho mais magras.
A dieta de Cambridge é recomendada somente para quem
tem um grande excesso de peso, isto é, 50 por cento além da
média normal para sua altura. No entanto, ela pode ser
seguida por qualquer um que queira emagrecer — mesmo
que a gordura esteja só em sua imaginação.
Mulheres que não são obesas e nem mesmo estão muito
acima do peso também querem emagrecer. Elas acreditam
que, se perdessem alguns quilinhos, teriam uma vida melhor
e seriam mais felizes. Estas mulheres também freqüentam os
centros de emagrecimento e lêem tudo o que se publica so-
bre dietas.
Somente 16 por cento da população feminina é obesa.
Contudo, a proporção das que fazem dieta é muito maior. Se
a indústria do emagrecimento se dirigisse apenas às que
necessitam fazer dieta por motivos de saúde, sua clientela
seria muito pequena. Mas, ao atrair todas aquelas mulheres
que só querem perder uns quilinhos, a procura passa a ser
enorme. E é exatamente isso o que acontece. As revistas
especializadas não publicam apenas artigos sobre como
emagrecer alguns quilos, mas também os que dizem "como
perder as gordurinhas extras para o verão" e "suas roupas
estão apertadas? Perca o excesso de peso já e rapidamente".
Segundo os Vigilantes do Peso, a média de peso de suas
freqüentadoras vem se tornando cada vez menor nos
últimos seis a sete anos, o que seria uma resposta à tendência
da "mulher desejável" ser mais magra. As pesquisas indicam
que o peso da população em geral está aumentando, porém
nos clubes de emagrecimento as pessoas são cada vez mais
leves. Um estudo realizado em Minneapolis, em 1980,
analisou os pesos e alturas das mulheres que freqüentavam
clubes de emagrecimento, chegando à conclusão de que
mais da metade delas não se enquadrava num critério
objetivo de excesso de peso.

Como a indústria explora esta necessidade de
emagrecer?

A sociedade exerce pressão sobre as mulheres para que se-
jam magras, e a própria idéia de magreza está "emagrecen-
do". A maioria se sente gorda, mas objetivamente não está
acima do peso. Elas têm um problema com seu peso percebi-
do, e não com o peso real, porém a indústria do emagreci-
mento trata essa percepção como um fato. "Estou me
sentindo gorda" é traduzido por "estou gorda", e é onde en-
tra a indústria, oferecendo a solução. A indústria se dirige às
mulheres que não estão satisfeitas com seus corpos.
Rosemary Conley, em seu livro Complete Hip and Tigh
Diet (Dieta completa para quadris e coxas) leva ao extremo
essa extensão do mercado das dietas. Ela relata numerosos
casos de sucesso, muitos dos quais de mulheres que come-
çam por dizer: "Embora eu nunca tenha estado exatamente
além do peso" (p. 35), "Como, de início, eu não estava real-
mente gorda ou com excesso de peso" (p. 31) ou "Dificil-
mente eu seria considerada acima do peso" (p. 29), o que
evidencia que elas não eram gordas, nem se sentiam gordas,
mas mesmo assim faziam dieta. Com isso, o mercado das
dietas se expande ainda mais e oferece seus produtos e
serviços não apenas às mulheres que objetivamente têm
excesso de peso, ou então às que se consideram gordas, mas
às que nem mesmo se sentem gordas. Sob esse prisma,
qualquer mulher, de todo tipo e tamanho, pode recorrer à
dieta para ficar melhor consigo mesma.
Em minhas entrevistas com editores de diversas revistas e
coordenadores de clubes de emagrecimento, eu lhes pergun-
tei se não consideravam exploração acenar com dietas a mu-
lheres que simplesmente se sentiam gordas ou, em alguns
casos, nem mesmo se achavam acima do peso. Ninguém
concordou em ser citado diretamente, mas todos argumenta-
ram que não era sua atribuição contestar o desejo de emagre-
cer de qualquer pessoa. Acreditavam estar respeitando o
direito de cada uma de tomar sua própria decisão e alegaram
que estariam interferindo se questionassem essa vontade de
emagrecer. Em recente programa de televisão, uma repre-
sentante da revista What Diet and Lifestyle disse: "Se
você não está feliz com seu peso, nós lhe oferecemos uma
maneira de mudá-lo." Ela acreditava estar interpretando a
decisão do público de "não estar feliz com seu peso" e
respondia à mesma. Ela não questionou por que tantas
mulheres se sentem gordas ou se haveria uma solução
alternativa para esse sentimento, além da dieta para
emagrecer.
Porém, talvez existam outros meios de responder àquela
insatisfação, sem recorrer ao regime. Todos nós fomos
ensinados a respeitar as atitudes e crenças das outras pessoas;
mesmo que não estejamos de acordo; não contestamos ou
criticamos uma convicção, e acreditamos que cada um tem o
direito de tomar suas próprias decisões. Mas tendemos a
esquecer que tais crenças são o produto de pressões e
expectativas da sociedade, e não são necessariamente
intocáveis. Pela contestação, é possível modificar atitudes e
formar novas crenças. Questionar as opiniões de alguém e
sugerir uma outra maneira de ver as coisas não deve ser
interpretado como interferência.
Mas para a indústria do emagrecimento é mais vantajoso não
contestar tais opiniões. Relatórios recentes demonstram
como seus lucros "engordam", tendo sua clientela
aumentada por um grande número de mulheres que
simplesmente se acham gordas.
A indústria não só responde a uma necessidade, mas tam-
bém explora essa necessidade. Ao se recusar a orientar as
mulheres que não estão acima do peso, mas se sentem gor-
das, ela age como se elas tivessem um problema real de peso.
Ela explora a insatisfação das mulheres com seus corpos para
ampliar seu mercado e lucrar financeiramente.

CRIANDO UMA NECESSIDADE

A indústria do emagrecimento cria a necessidade para si
própria. Ela tem uma grande participação na pressão da
mídia que sugere, e até mesmo dita, que tipo de mulher está
na moda. As revistas usam modelos tamanho 38 para
apresentar as roupas da estação, a publicidade de produtos
para emagrecer, novas dietas e alimentos dietéticos também
mostra sempre mulheres muito magras. Histórias de
mulheres que tiveram êxito em seu objetivo de emagrecer
são publicadas nas revistas, mostrando como elas se sentem
mais felizes e como suas vidas melhoraram. Mas tal êxito é
definido de acordo com as expectativas sociais, e não com o
conceito particular de cada pessoa. Mulheres que
conseguiram emagrecer de cerca de 115 para 90 quilos e
resolveram parar por aí não merecem fotos ou a divulgação
de seus casos. A meta de perda de peso é determinada
segundo o que a indústria acredita ser o seu peso ideal, e não
o ponto em que você passa a se sentir melhor consigo
mesma. Quanto aos outros, que jamais conseguem perder
um grama, nada é publicado; dietas que não dão resultado
não são algo que deva ser encorajado.
A indústria do emagrecimento também apresenta a dieta
como forma de modificar sua vida. As histórias de sucesso,
as promessas de satisfação futura e a constante correlação de
magreza com felicidade promovem a idéia de que para ser
feliz é preciso ser magra, e que fazer dieta é o caminho para
a felicidade. É impossível ler uma revista especializada sem
se sentir gorda e sem fazer planos de passar a comer menos.
Revistas, televisão, filmes, todos nos mostram como deve-
mos ser magras. Para vestir suas roupas e serem seduzidas
pelos heróis, as modelos usadas devem ser magras para
serem atraentes. A indústria do emagrecimento participa
dessa promoção, participa da criação da necessidade da
existência de tal indústria.
A indústria do emagrecimento responde à uma necessidade,
pois mulheres que precisam perder peso podem encontrar
apoio e uma estrutura na forma de clubes e revistas. No
entanto, a indústria também explora a insatisfação das
mulheres com seus corpos, ao tratar seu problema imaginado
como problema real, e ao se oferecer para solucioná-lo. Para
começar, ela é também responsável pela criação desse
problema. Trata-se da indústria perfeita: ao criar um
mercado para si mesma, ela se certifica de que as mulheres
continuarão a se sentir gordas e continuarão a sustentá-la.

Capítulo 6
As dietas dão resultado?

O mundo das dietas se cerca de um saudável brilho de
otimismo. Todas as dietas são vendidas com a certeza de que
"você pode conseguir" e "desta vez você vai emagrecer". O
que se quer mostrar é que as dietas são um sucesso e que
perder peso é muito mais do que apenas uma vaga possibili-
dade. Em Complete Hip and Thigh Diet (Dieta completa
para quadris e coxas) de Rosemary Conley, encontramos
muitos casos de sucesso e cartas de leitoras contando
quantos quilos perderam. Conley tem total confiança e diz
"eu estava determinada a mostrar que minha dieta
funcionava mesmo" (p. 28), relatando que os resultados de
seu questionário indicaram que "ninguém ficou
desapontado" (p. 37). O Dr. Lynch fala a respeito dos
princípios traçados em sua dieta da BBC: "se você os
seguir, você vai perder peso" (p. 37). A perda de peso é
apresentada como uma certeza. Todavia, avaliar o sucesso
real de quem faz dieta traz muitos problemas.
ATÉ QUE PONTO QUEM FAZ DIETA CONSEGUE
ÊXITO?

Uma pesquisa realizada na Grã-Bretanha indica que só uma
em cada dez freqüentadoras de clubes de emagrecimento,
como Vigilantes do Peso, alcança sua meta de emagrecimen-
to. Porém, é difícil entender o que tais números realmente
significam. Os clubes não registram qualquer informação dos
pesos iniciais dessas mulheres, de forma que não há meios
de se saber quantos quilos deveriam perder para sua dieta ser
considerada um sucesso. Além disso, os clubes não têm
condições de proporcionar nenhuma informação se nessa
proporção se incluem todas as mulheres que desistem
porque não conseguiram perder nada, e se representa as que
saem e depois retornam para uma nova tentativa. É possível
que uma freqüentadora que saiu e voltou várias vezes seja
contada de cada vez como nova sócia.
Um dos problemas para se avaliar o sucesso de uma dieta
para emagrecer é saber quantos quilos se pretendia perder ao
começar, o que nos traz a questão de se a pessoa era obesa,
com excesso de peso ou simplesmente se via como gorda. A
maior parte das pesquisas sobre o sucesso das dietas tem
estabelecido quanto emagrecem as pessoas obesas e com
excesso de peso; mas fica difícil determinar a eficácia das
dietas em mulheres de peso mediano, pois estas ou
costumam fazer dieta sozinhas, sem assistência médica ou
psicológica, ou suas alterações de peso se perdem entre as
das obesas.
Em 1984, o Dr. Feinstein, da Escola de Medicina de Yale
(Estados Unidos), calculou que apenas cerca de 12 por cento
das pacientes que procuram ajuda médica para emagrecer
conseguem realmente perder peso. Estimou ainda que
aproximadamente duas destas doze mantiveram o peso. A
comparação destes números com os daquelas que não
passam por controle médico também suscita vários
problemas; este número poderia ser maior do que na popu-
lação média que tenta emagrecer, pois aqui cabe o argu-
mento de que pacientes que procuram auxílio externo têm
maior determinação de conseguir seu intento e estão diante
de um caso de risco de vida. Inversamente, poder-se-ia
argumentar que elas também têm um problema de peso mais
sério e mais difícil de resolver, sugerindo que tal número é
menor do que o que mede a taxa de sucesso da população
em geral.
Talvez seja necessário avaliar separadamente o sucesso das
dietas entre as pessoas obesas e as com peso normal.

Resultados nos casos de obesidade e excesso de peso

Em 1958, Albert Stunkard previu que "95 por cento dos que
fazem dieta recuperam o peso cinco anos após o tratamen-
to". Em 1989, na Filadélfia, o Dr. Thomas Wadden e
colaboradores realizaram um estudo para verificar aquela
estimativa; foram relatados os resultados de uma pesquisa de
cinco anos, durante os quais acompanharam um grupo de
setenta e seis mulheres obesas que haviam tentado
emagrecer. O grupo foi dividido em três, prescrevendo-se
para o primeiro uma dieta de mínimo teor calórico durante
quatro meses, para o segundo, uma terapia de
comportamento incluindo dieta de baixo teor calórico,
incentivos pela perda de peso e assistência para a mudança
de atitudes e conduta com relação à comida, durante seis
meses, e para o terceiro, uma combinação de ambas,
também por seis meses.
A perda de peso inicial foi muito semelhante para todas, que
emagreceram entre 11 e 16 quilos aproximadamente, num
período de seis meses. As mulheres que seguiram a dieta
combinada de mínimo teor calórico e terapia de
comportamento perderam mais peso do que as dos outros
grupos. Porém, após um ano, 95 por cento das mulheres do
primeiro grupo (dieta de mínimo teor calórico) e 64 por
cento das do segundo grupo (terapia de comportamento)
haviam recuperado parte do que haviam emagrecido. O
grupo que recebeu o tratamento combinado apresentou 68
por cento de recuperação de peso. Após cinco anos, a
maioria das mulheres (64 por cento) havia recuperado tudo
o que havia perdido. Na verdade, algumas das participantes
do estudo chegaram a engordar mais ainda, enquanto três
delas conseguiram manter o novo peso.
Estes resultados sugerem que as coisas não são tão sombrias
conforme as previsões de 1958. Contudo, mesmo quando as
mulheres se submetem a um regime severo, com supervisão
e apoio, a perda de peso e, mais especificamente, a
manutenção do peso são muito difíceis. Outros estudos
também investigaram a perda de peso em pessoas obesas e
chegaram a resultados semelhantes. Em 1986, o Dr. Kramer
e colaboradores concluíram que 70 por cento de suas
clientes obesas recuperaram todo o peso que haviam
perdido, e um outro estudo indica que cerca de 81 por cento
das pessoas obesas voltam ao mesmo peso de antes da dieta.
Os números acima dão a entender que ainda não existe um
conjunto de regras fixas e seguras para a perda de peso, nos
casos de obesidade. A dieta pode resultar em perda de peso
no início, mas a manutenção dessa perda é problemática.
Todavia, isto não quer dizer que as pessoas obesas ou com
excesso de peso devam necessariamente desistir ou deixar de
procurar assistência profissional. Muitas pesquisas estão
sendo realizadas, para se encontrar formas mais eficazes de
promover o emagrecimento daquelas pessoas para quem o
excesso de peso constitui risco à saúde. Nos Estados Unidos
existe o programa LEARN, um projeto complexo e
abrangente para pessoas obesas e com excesso de peso, que
dá ênfase à modificação da maneira de viver e estimula a
compreensão de todos os aspectos que envolvem peso e
alimentação, fixando-se não apenas na comida, mas também
nas atitudes para com os alimentos, estado de espírito e
tamanho. Embora não totalmente testado, esse programa
certamente traz algum otimismo a este campo bastante
desanimador.
A dificuldade das pessoas obesas em perder peso tem suas
implicações para as inúmeras mulheres que tentam
emagrecer, não porque estejam objetivamente acima do
peso, mas porque se imaginam gordas — a grande maioria
das que fazem dietas. Para a mulher obesa, de certa forma é
mais fácil fazer dieta do que para aquela que tem peso
mediano. Embora as obesas tenham mais peso a perder e
necessitem de um período maior de esforço conjugado para
alcançarem sua meta de peso, outros fatores contribuem para
tornar sua dieta um pouco mais fácil. Para começar, essas
mulheres muito acima do peso receberão total apoio
externo; as pessoas que lhes são importantes aceitarão que
elas precisam emagrecer e darão o apoio necessário; elas não
se verão rodeadas por amigas que lhes oferecem comida e
dizem que estão ótimas como estão. As preocupações e
problemas de saúde decorrentes da gordura, como falta de
ar, problemas nas articulações, constituem motivação
adicional para emagrecerem. Já as outras, em sua maioria,
não são levadas por essas peocupações e nem recebem o
apoio e incentivo de todos os que as cercam.
Afinal, qual é o grau de sucesso das dietas entre as mulheres
de peso mediano?

Perda de peso entre mulheres de peso mediano.

É muito difícil avaliar quanto perdem as mulheres de peso
mediano quando fazem dieta. Muitas delas seguem a dieta
por sua própria conta e não contam com controle externo,
portanto, não há registros de seu êxito ou fracasso. Também
é difícil avaliar o sucesso de uma dieta em pessoas que
objetivamente não têm necessidade de emagrecer. Pode-se
considerar sucesso uma redução de três quilos, quando em
princípio ninguém além delas mesmas julgou que
precisavam perder esse peso? E se a perda for de seis quilos,
o sucesso é maior? Provavelmente, a melhor forma de se
avaliar o sucesso é comparar o objetivo de emagrecimento
com o peso real após a dieta. Assim, removem-se todas as
noções subjetivas sobre a necessidade de a pessoa fazer dieta,
e é possível avaliar a eficácia de sua disposição de perder
peso.
Pesquisadores apresentaram várias estimativas quanto ao
êxito das dietas na perda e manutenção do peso, entre pes-
soas de peso mediano. A maioria dessas avaliações dá a en-
tender que 5 por cento emagrecem e conseguem manter o
peso. Contudo, quaisquer cifras são muito difíceis de serem
interpretadas. Talvez seja igualmente importante levar em
conta alguns casos individuais.
O questionário abaixo se destina a avaliar o grau de sucesso
da pessoa de peso normal em sua tentativa de emagrecer.
Se você responder às perguntas, verá logo o grau de sucesso.
Não se trata de um exercício para causar angústia ou
desapontamento, mas de um instrumento útil para a
avaliação do comportamento.

Sucesso da dieta

1. Quando você começou a fazer dieta?
2. Há quantos anos foi isto?
3. Quanto você pesava quando começou a fazer dieta?
4. Quanto desejava pesar?
5. Quanto pesa hoje?
6. Quanto gostaria de pesar hoje?

Examine a relação entre suas respostas. Qual é a comparação
entre seu peso atual e o peso que você tinha quando come-
çou a fazer dieta? Qual a comparação entre seu peso ideal,
antes e agora? Quantos anos de sua vida você passou pen-
sando em emagrecer e tentando comer menos? Até que
ponto tudo isso deu resultado? Valeu a pena?
Se você acha que valeu a pena, está de parabéns! Se não tem
certeza ou se acha que na verdade todo o esforço dispendido
não serviu para nada, você não está sozinha.

QUANDO A DIETA É UM SUCESSO

As informações sobre dietas que não dão resultado e sobre
pessoas de todos os tipos e tamanhos que não parecem per-
der peso são bastante desanimadoras. Contudo, algumas pes-
soas parecem conseguir emagrecer. As histórias de sucesso
publicadas nas revistas especializadas têm de vir de algum
lugar. Será que essas pessoas são de alguma forma,
diferentes? Existem fatores que distinguem quem faz dieta
com sucesso de quem não consegue emagrecer?
Um dos fatores que serve como bom indicador da perda de
peso é o sexo — não sua prática, mas se você é homem ou
mulher. Os homens conseguem mais êxito que as mulheres,
tanto para emagrecer como para conservar o peso. Segundo
o representante de um clube de emagrecimento, "os homens
começam a freqüentar os clubes pesando mais do que a
maioria das mulheres, fazem dieta, emagrecem e saem em
menos tempo do que um bom número de mulheres que já
estavam lá antes deles." Como se explica isso?
Existem muitos fatores que parecem ter influência sobre a
perda de peso, fatores esses provavelmente mais
característicos dos homens do que das mulheres.
E quais são esses fatores?
O mais evidente é o número de tentativas anteriores de
emagrecer. Os homens costumam fazer dieta só uma vez.
Eles não passam a vida inteira tentando perder peso, o que já
é um bom prognóstico. Quanto menos dietas forem
tentadas, tanto maior sua probabilidade de emagrecer. Se
você faz dieta, perde peso e depois recupera tudo, fica mais
difícil voltar a emagrecer. Isto ocorre em virtude de
alterações na taxa metabólica e na porcentagem de gordura
no corpo, e de um processo chamado ciclo do peso, que é
analisado com mais detalhes no Capítulo 7. Os homens
fazem dieta uma vez, têm uma alta taxa metabólica e maior
porcentagem de massa muscular, e para eles é mais fácil
emagrecer.
Dietas repetidas têm outros efeitos danosos. Quando não se
consegue emagrecer ou quando se recupera o que foi per-
dido, vem a desilusão. Um dos melhores prenúncios do su-
cesso de uma dieta é você acreditar que vai conseguir.
Homens que nunca fizeram dieta antes não passaram pelos
sentimentos de fracasso associados às constantes dietas e,
portanto, tendem a acreditar que emagrecer é fácil e que po-
dem consegui-lo. Esta crença em seu próprio sucesso
aumenta a probabilidade disso realmente acontecer.
A presença de comida por perto também predetermina o
sucesso ou o fracasso da dieta. Os homens normalmente não
vivem cercados por alimentos, não precisam cozinhar ou
fazer compras para a família, e não são tentados a comer a
toda hora. Quando decidem emagrecer, eles se desligam de
tudo que diz respeito a alimentos, e se concentram
únicamente em comer menos. Já com as mulheres, é
diferente. Quando decidem fazer dieta, precisam continuar a
cozinhar e fazer as compras e proporcionar uma alimentação
de alto teor calórico para todos os outros da família,
enquanto elas tratam de comer menos.
Finalmente, os homens não são pressionados a serem ma-
gros no mesmo grau que as mulheres. Eles decidem fazer
dieta quando estão com excesso de peso muito maior do que
elas, portanto, têm um motivo adicional para emagrecer: a
saúde.
Naturalmente, nem todos que obtêm sucesso na dieta são
homens, e os fatores que favorecem a perda de peso também
podem existir no caso das mulheres. Contudo, os homens
personificam muitos dos fatores que determinam o
emagrecimento.
Existem, porém, outras características associadas ao sucesso
das dietas, que não são necessariamente próprias dos ho-
mens.
O aumento da atividade física parece ser um fator favorável
para o êxito da dieta. Em recente estudo efetuado nos Es-
tados Unidos, ficou demonstrado que a dieta aliada aos
exercícios físicos tem maior probabilidade de levar ao ema-
grecimento do que apenas uma dieta baseada na redução de
calorias. Inicialmente, acreditava-se que os exercícios
provocavam o emagrecimento pelo desgaste de calorias. É
certo que os exercícios queimam calorias, mas num grau
surpreendentemente baixo em comparação com uma
refeição média. O professor Kelly Browndell elaborou uma
tabela para explicar de que forma as calorias são consumidas
na atividade física. Ele calculou que para uma pessoa
pesando cerca de 57 quilos, um sono de dez minutos
consome 10 calorias, uma corrida de dez minutos a uma
velocidade de 9 quilômetros por hora consome 90 calorias, e
subir escadas durante dez minutos, 146 calorias. Um almoço
normal leva provavelmente vinte minutos e consiste de
cerca de 400 calorias! Até pouco tempo atrás também se
acreditava que os exercícios faziam aumentar a taxa
metabólica, mas novas constatações indicam que, embora a
taxa possa se elevar temporariamente, isto só ocorre como
resultado de exercícios intensivos e prolongados.
Contudo, a atividade física parece mesmo favorecer a perda
de peso; de que forma?
Os exercícios têm muitos outros efeitos que indiretamente
influenciam a perda de peso. Em princípio, ajudam a manter
o tecido muscular enquanto o corpo perde gorduras. Além
disso, a atividade física pode proporcionar prazer e diversão,
fazendo esquecer por um tempo os problemas do dia-a-dia.
O aumento da autoconfiança também contribui para um
sentimento geral de autocontrole, que é um fator importante
nas tentativas de se perder peso.

MAS PARA A MAIORIA...

Para a maior parte das pessoas, dietas não funcionam. Não
importa se são obesas ou com excesso de peso, ou se apenas
se imaginam gordas, fazer dieta não as ajuda a ficarem mais
magras. No início, pode ocorrer perda de peso, que, no mais
das vezes, é recuperado, tornando mais difíceis novas
tentativas de emagrecer.
A grande maioria dos que fazem dieta não tem problemas de
obesidade ou de excesso de peso; apenas acham que estão
além do peso. E, no entanto, o desejo de emagrecer faz com
que persistam em fazer dieta. Suas próprias experiências de
tentativas anteriores demonstram que não perderão peso,
mas há sempre a esperança de que "desta vez será diferente".
Para a maioria, porém, cada vez é exatamente igual a todas as
outras.
Para os obesos ou com excesso de peso, talvez haja outros
motivos para insistirem, tentando novos programas e pro-
curando as últimas publicações a respeito do assunto, mas
para a maioria das mulheres, por que continuar a fazer algo
que não traz resultados?

Capítulo 7
Por que falham as dietas?

A indústria do emagrecimento, os médicos e o folclore nos
dizem que se comermos menos, perderemos peso. Trata-se
de uma equação muito simples, envolvendo a energia que o
corpo absorve e a que consome. Se a entrada de energia for
maior do que o consumo, ocorrerá aumento de peso, e se ao
contrário o consumo for maior do que o ganho, então o peso
diminuirá.
Por nossa própria observação, sabemos que habitantes de
países onde há carência de alimentos obviamente comem
menos (porque não têm o que comer) e, pelas fotos que ve-
mos nos jornais, não se pode dizer que tenham excesso de
peso (muito pelo contrário!); os anoréxicos voluntariamente
restringem sua alimentação e conseguem uma considerável
redução de peso. Contudo, quem faz dieta e tenta comer
menos raramente emagrece. O jornal Daily Mail publicou a
seguinte observação a respeito de um grupo de pessoas em
dieta: "Ao que parece, se acabaram gordos e infelizes, o úni-
co motivo é, com certeza, não terem seguido corretamente
suas dietas." Mas, será tão simples assim?
Por que, então, tantas dietas falham?
Como já vimos em capítulo anterior, a maioria dos que fa-
zem dieta parecem oscilar entre períodos em que comem
menos e outros em que comem mais do que quem não faz
dieta.
É difícil determinar exatamente quanto come quem faz
dieta, mas de início gostaria de considerar por que a maioria,
mesmo comendo menos do que quem não faz dieta, e me-
nos do que comeria se não estivesse em dieta, ainda assim
não emagrece.

OS EFEITOS METABÓLICOS DA REDUÇÃO DA
ALIMENTAÇÃO

A dieta afeta a taxa metabólica. Se você passa a comer me-
nos, seu corpo reduz a taxa com que normalmente funciona.
Só em tempos relativamente recentes a maioria dos povos
do mundo ocidental pode dispor de quantidades suficientes
de alimentos. Mas, em termos de presença humana sobre a
terra, ainda temos que estar preparados para enfrentar secas,
falta de alimentos e períodos de fome extrema. A evolução
nos mostra que a fome é muito mais nociva para o corpo e
muito mais provável de levá-lo à morte do que a
superalimentação. Assim, a evolução nos dotou de um
método perfeito para evitar a inanição durante um período
de carência de alimentos: armazenar o excesso, quando
disponível. Tal excesso é guardado principalmente sob a
forma de gordura, a qual é oxidada para produzir energia,
quando necessário.
A taxa metabólica representa a quantidade de energia que é
liberada para uso durante um determinado período de tem-
po. Nossas taxas metabólicas também se adaptam perfeita-
mente à escassez de alimentos. Se reduzimos nossa ingestão
de alimentos, nosso corpo se prepara para recorrer às reser-
vas armazenadas. A taxa metabólica se reduz, de forma que o
corpo continue a funcionar tão eficientemente quanto
possível, isto é, usando um mínimo de energia e de gordura
armazenada. Uma dieta por um período de quatorze dias
pode fazer a taxa metabólica declinar em até 20 por cento.
Um estudo recente da Universidade Rockefeller de Nova
York analisou os efeitos da dieta sobre as necessidades diárias
de energia, utilizando um grupo de pessoas obesas; mesmo já
tendo emagrecido consideravelmente, ainda estavam com
um excesso de peso de 39 quilos em média. Constatou-se
que à medida que emagreciam, suas necessidades diárias de
energia se reduziam na mesma proporção. Após terem
perdido uma média de 56 quilos, suas necessidades de
calorias diminuíram 28 por cento em média, ficando até
menores do que as de pessoas com peso normal. À medida
que perdiam peso, seus corpos consumiam qualquer
alimento disponível com mais eficiência.
Embora seja irritante para quem deseja perder peso, isso faz
sentido para o corpo, que responde a uma história evolutiva
de como enfrentar a falta de comida. Abundância de comida
ainda é um desenvolvimento relativamente recente, e o
desejo de emagrecer pela rejeição do alimento não faz senti-
do para nosso instinto de sobrevivência.
Portanto, mesmo se quem faz dieta consegue comer menos
do que quem não faz, e menos do que comeria se não
estivesse em dieta, esta mesma dieta reduz sua taxa metabóli-
ca. Todo alimento ingerido é usado com mais eficiência, e a
necessidade de metabolizar a gordura é reduzida a um
mínimo. Para emagrecer e manter o peso, quem faz dieta
deve comer menos de forma constante e, para compensar a
redução da taxa metabólica, terá de comer cada vez menos
com o passar do tempo.
Mas, o que acontece nas épocas em que quem faz dieta está
comendo mais do que quem não faz, e talvez até mais do
que comeria se não estivesse em dieta?

QUEBRANDO A DIETA

Costuma-se supor que as dietas não dão resultado porque as
pessoas não estão realmente fazendo dieta. A indústria do
emagrecimento nos diz que quem fracassa em sua dieta não
tem força de vontade ou simplesmente não a está seguindo
direito. A responsabilidade por não conseguir perder peso é
debitada à pessoa que quer emagrecer, sem nenhuma
compreensão do processo que constitui a quebra da dieta.
Trabalhos experimentais demonstram que quem faz dieta
come demais tanto em laboratório como em estudos
naturalistas. Esse comportamento talvez seja um exemplo de
quebra de dieta, sugerindo que não seguir a dieta é um
assunto bem mais complexo do que uma simples falta de
determinação.
Então por que as pessoas não seguem suas dietas? Se tudo o
que têm a fazer é reduzir a quantidade de comida?
Qualquer pessoa que já tenha feito dieta pode fornecer pilhas
de razões para ter parado, e citará centenas de exemplos de
ocasiões em que comeu mais do que pretendia. Os que
fazem dieta se recordam das diferentes causas de seus
episódios de "super-indulgência", mas a maioria continua a
assumir a culpa e se considerar um fracasso.
Ao longo deste capítulo, me reportarei aos resultados de
uma experiência que desenvolvi como parte de minha tese
de doutorado, segundo os quais a quebra da dieta não é culpa
da pessoa que faz a dieta, não reflete inadequação pessoal,
mas é uma conseqüência inevitável da estrutura da dieta. O
ato de comer demais é parte integrante da tentativa de fazer
dieta e resultado de procurar comer menos: um produto
direto da dieta.
No último ano de meu doutorado, realizei um estudo para
examinar os efeitos das dietas e tentar descobrir por que
tantas dietas falham e por que as mulheres quebram suas
dietas. A ação de comer em excesso demonstrada no
laboratório também é relatada pelas pessoas que fazem dieta
em sua vida diária. Muitas mulheres confirmam oscilar entre
dias em que conseguem comer menos e outros em que se
descontrolam completamente.
Imagine-se seguindo fielmente uma dieta de 1000 calorias
diárias durante três dias e, no quarto dia, recebendo um
convite para jantar. Tentadas por toda a comida à sua frente
e pelo fato de ser uma ocasião especial, muitas pessoas que
fazem dieta admitem que comeriam mais nesse jantar do que
fariam se, nos dias anteriores, tivessem se alimentado
normalmente. É como dizer: "Ora bolas! Se é para quebrar a
dieta, que seja em grande estilo." É o que acontece quando
se tenta largar o fumo ou a bebida.
Uma amiga minha costumava fumar somente depois das seis
da tarde. Jamais pensava em cigarros antes dessa hora e,
certamente, não pensaria em fumar cedo pela manhã. Numa
deliberação de ano novo, ela resolveu parar de fumar. A
partir de então, só fazia pensar em fumar, mesmo de manhã.
Acordava desesperada por um cigarro e quando finalmente
cedeu, reparou que nos primeiros dias de volta ao vício
estava fumando mais do que jamais havia feito. O ato de
comer demais constatado nas pessoas que fazem dieta é algo
semelhante.
A princípio acreditava-se que a uma fase de comida em
excesso seguia-se um período de dieta, que as pessoas faziam
dieta por terem uma tendência a comer demais e precisavam
compensar esses episódios de fraqueza. Como vimos no
Capítulo 2, existe todo tipo de pessoas fazendo dieta.
Algumas têm problemas com alimentação, mas a ampla
maioria apenas se imagina fora do padrão ditado pela
sociedade. Não há nada para demonstrar que as pessoas
passam a fazer dieta porque têm fases em que comem de-
mais.
Sugeriu-se então que a dieta é que provocava a comida em
excesso — uma completa inversão da teoria original.
Pesquisadores aventavam que as pessoas em dieta comiam
demais no laboratório e também no dia-a-dia como
conseqüência direta de sua tentativa de comer menos.
Ocorre aqui uma analogia com o caso do fumo: tentar largar
o cigarro traz um desejo maior de fumar, e tentar parar de
comer nos faz comer demais. A diferença é que parar de
fumar é uma boa coisa, mas parar de comer, não!
Esta idéia foi denominada análise Causal do comportamento
alimentar e sugere que tentar não comer, paradoxalmente,
aumenta a probabilidade de se comer demais, exatamente o
que procura evitar quem faz dieta. Tratava-se de uma nova
abordagem do comportamento alimentar das pessoas em
dieta e de uma reavaliação interessante da situação.
Um estudo de Wardle e Beales, em 1988, demonstrou que as
pessoas em dieta tinham tendência a comer em excesso,
tendo os autores concluído que os resultados "confirmavam
a idéia de que a dieta provoca distúrbios na ingestão de
alimentos".
Mas por que é assim? Por que a dieta leva ao excesso de
comida?
É possível que a comida em excesso seja um produto direto
das alterações que ocorrem em conseqüência da dieta. Esta
poderia causar mudanças que aumentassem a tendência de
se comer mais.
A análise causal da dieta e da comida em excesso parecia
indicar que a intensificação da dieta poderia provocar um
aumento dos fatores associados ao excesso de comida. As
pesquisas indicam que podem ocorrer alterações de ânimo,
estado de espírito, controle e fome como resultado da dieta,
provocando um maior desejo de comer.
Existe um estudo clássico, realizado em 1950 pelo professor
americano Ancel Keys e colaboradores, cujo objetivo era
avaliar os efeitos de um período de restrição de calorias e
verificar se a redução da ingestão de alimentos levava a
comer demais. Durante um período de doze semanas, trinta
e seis homens sadios e que não faziam dieta receberam uma
quantidade diária de alimentos cuidadosamente controlada,
que representava cerca de metade de sua alimentação
normal; em conseqüência, eles perderam 25 por cento de
seu peso original. Ancel Keys revela que eles desenvolveram
uma preocupação com comida que muitas vezes fazia com
que a armazenassem ou a furtassem. Eles demonstravam
incapacidade de concentração e alterações de ânimo, sendo
comuns a depressão e a apatia. Ao final do período de
restrição, foi-lhes permitido comer livremente, e muitos
deles comeram sem parar. Relataram a perda de controle
sobre seu comportamento alimentar, resultando por vezes
em comilanças. O autor concluiu que esses efeitos
psicológicos não eram causados pelo próprio processo de
inanição, mas, com maior probabilidade, pelo rigor da dieta a
que foram submetidos.
Em 1988, Warren e Cooper, em estudo realizado em
Cambridge para avaliar os efeitos das dietas tanto no ânimo
como no controle sobre a comida, colocaram sete homens e
sete mulheres numa dieta de restrição de calorias, durante
duas semanas, monitorando todas as alterações diárias.
Constataram um aumento no sentimento de perda de
controle sobre a comida e maior preocupação com a
alimentação.
A dieta parece levar à comida em excesso pela mudança dos
fatores que contribuem para se comer mais. No meu estudo,
tentei determinar quais poderiam ser esses fatores.
Perto de 90 por cento da população feminina já fez dieta em
alguma época da vida. O objetivo do estudo era examinar os
efeitos dessas constantes tentativas de emagrecer e analisar
sua contribuição para a comida em excesso. O fato de não
conseguir perder peso é em geral considerado um sinal de
fraqueza e uma indicação de que a dieta não está sendo
seguida corretamente. Os resultados a seguir indicam que
quem fracassa em sua dieta está apenas respondendo a
alterações que ocorrem durante ela e que sua quebra é
inevitável.

O método do estudo

Para o estudo, foram recrutadas vinte e três mulheres, entre
enfermeiras, secretárias e pessoal administrativo do Instituto
de Psiquiatria de Londres. Publiquei um anúncio pedindo
voluntárias que desejassem tentar perder peso para o verão e
não houve problema para selecionar candidatas suficientes!
Todas ouviram da dietista do hospital uma interessante e
informativa explicação sobre o que constitui uma dieta
saudável e nutritiva, e foram aconselhadas a se manterem
entre 1000 e 1500 calorias diárias. Todas as participantes
elaboraram sua própria dieta, de acordo com seu modo de
viver, o que significava que o estudo seria o mais naturalista
possível. As dietas escolhidas eram bem o reflexo do que
elas fariam para emagrecer, mesmo não participando do
estudo.
No início do período de seis semanas da dieta, todas se
sentiam muito entusiasmadas e confiantes. Achavam que
"agora iriam conseguir" e "desta vez seria diferente". Havia
entre elas um forte sentimento de apoio mútuo e um
reconhecimento de que todas estavam no mesmo barco,
podendo entender como cada uma estava se sentindo.
Escalas de avaliação registravam alterações no humor, no
estado de espírito, na fome e na preocupação com comida e
peso, e uma entrevista incluía perguntas gerais sobre dietas e
outras mais específicas relacionadas ao andamento da dieta
de cada uma, e se elas haviam saído da dieta.
O que acontece quando você faz dieta? Você passa a comer
demais? E que mudanças acompanham a comida em ex-
cesso?

A preocupação com comida

Ao discutir os efeitos do estudo realizado nos Estados Uni-
dos, Keys e seus colaboradores declararam: "A comida, em
todas as suas manifestações, transformou-se no principal as-
sunto de conversas, leituras e fantasias para quase todos os
participantes."
A primeira mudança que se tornou evidente entre as
mulheres de meu estudo foi que elas passaram a se
preocupar com comida.
Numa sociedade como a nossa, em que se espera que as
mulheres façam compras, cozinhem e proporcionem
alimentação para a família, a comida tem um papel
importante em nossas vidas. Passa a ser uma forma de
demonstrar amor e afeição aos dependentes e de pedir o
amor daqueles de quem dependemos. Ao servirmos o jantar
para nossos maridos quando voltam do trabalho (mesmo que
nós mesmas tenhamos estado trabalhando!), mostramos
entender que eles se esforçaram muito (e, damos à entender,
mais do que nós) e que reconhecemos o muito que eles
fazem por nós. As crianças aprendem desde tenra idade que
comer o alimento de sua mãe faz com que ela se sinta segura
e apreciada; também aprendem que recusar a comida que ela
oferece é rejeitar seu amor e a fará se sentir ansiosa e
contrariada. Nós pensamos a respeito de comida em termos
que ultrapassam em muito as limitações de sentir fome e
precisar de alimento.
E, contudo, quando se faz dieta, esse alimento deve ser
evitado. O objetivo da dieta é comer menos daquela
substância que tem um papel central em nossa família e na
vida em sociedade. Intermináveis listas de alimentos passam
a ser proibidos. Tortas de creme, chocolate, batatas fritas,
massas e biscoitos, laticínios, refrigerantes, todos estão fora
dos limites estabelecidos pela dieta. Tornam-se algo especial
e delicioso. Até a publicidade os apresenta como delícias, em
anúncios do tipo "horrível de bom"! E como obviamente
acontece com tudo que é proibido, tornam-se mais atraentes
do que nunca. E, portanto, a vontade de comê-los é maior
do que sempre foi. Quem faz dieta não suspira por saladas;
sonha é com alimentos altamente calóricos — os mesmos
que está tentando evitar. A atenção se fixa naquilo que não
pode comer.
O pior de tudo é que, mesmo estando em dieta e não po-
dendo comer alimentos muito calóricos, a maioria ainda tem
que prepará-los e servi-los para os outros. Se quem faz dieta
pudesse viver num mundo onde todos só ingerissem 1000
calorias diárias, onde as famílias não se sentissem rejeitadas e
aborrecidas se mamãe parasse de comprar biscoitos, e onde
alimentos com altos teores de calorias não fossem
apresentados como algo desejável, tudo seria muito mais
fácil.
No entanto, isso não é possível. Não só vivemos numa
sociedade que já tem a obsessão pela comida, mas também
quando tentamos não comer, ela se torna muito mais atraen-
te e ocupa nosso pensamento mais do que nunca.
Muitas das mulheres que participaram do estudo disseram
que a obrigação de cozinhar para os outros tornava muito di-
fícil manter-se firme na dieta.
Uma delas ofereceu um jantar para alguns amigos e achou
que havia comido mais do que sua dieta permitia. "Eu não
queria ceder, mas senti que depois de preparar uma refeição
completa para todos os convidados, o mínimo que podia
fazer era usufruir de meu esforço", foi sua explicação.
Outra disse: "E domingo e eu tenho que cozinhar para as
crianças, então por que fazer outro prato só para mim, se
posso comer o que já está pronto?" Como já tinha tido o
trabalho de preparar uma refeição, por que preocupar-se em
cozinhar outra?
A alimentação desempenha um papel importante na vida
familiar. Tentar não comer, quando ainda é necessário
cozinhar para todos, torna a dieta muito difícil.
Várias outras mulheres disseram que precisavam cozinhar e
comer com suas famílias, para mostrar toda sua afeição.
Uma delas contou que convidou a filha para comer um
hamburger no almoço e que "não queria ficar isolada, e foi
ótimo almoçarmos juntas".
Uma outra sentia que "precisava alimentar a família
adequadamente" e que "se ofereço a meu marido uma boa
refeição, isto é sinal de amor".
Para as mulheres, amor e família estão intrinsecamente
ligados à alimentação. Tentar fazer dieta significa passar a
encarar a comida de forma diferente, e tentar não pensar em
algo que é crucial em nossas vidas. Fazer dieta nos torna
mais preocupadas com algo que já é muito importante para
nós, como mulheres.
Quais são as conseqüências dessa preocupação com comida?
A comida passa a ser o ponto focai para recompensas,
convites e satisfação. Quanto mais tentamos seguir a dieta,
mais pensamos em comida. E quanto mais pensamos, quem
sabe... mais comemos. Assim, a quebra da dieta passa a ser
compreensível.

Preocupação com o peso

A segunda mudança que se torna evidente nas pessoas que
fazem dieta é sua preocupação e obsessão com o peso. A
motivação original para emagrecer é complexa, porém o
foco principal é sentir-se e parecer mais atraente e também
sentir- se mantendo o controle.
Mas a dieta faz o foco mudar: o importante passa a ser o que
a balança diz. As tabelas de correlação peso/altura não dizem
que o peso ideal é aquele com que nos sentimos bem; elas
dizem que devemos pesar 52 quilos e 400 gramas ou 58
quilos; elas selecionam e determinam quanto devemos pesar.
Cada mulher tem uma estrutura óssea diferente, uma
estrutura facial diferente e idades diferentes. O que é bom
para uma mulher de 30 anos faria uma de 45 parecer
esquálida, e, no entanto, a indústria das dietas nos impinge
um peso específico, como se todas fôssemos iguais.
Quem faz dieta se torna escrava da balança. Muitas vezes,
após uma semana seguindo rigidamente a dieta, a pessoa se
sente muito confiante, está satisfeita consigo mesma e se
sente dona da situação. Numa ocasião, atendi a uma mulher
que chegou se sentindo feliz, triunfante e orgulhosa de sua
semana de dieta; ela subiu na balança com entusiasmo e toda
sua satisfação se esvaiu ao ver que estava com o mesmo peso
da semana anterior. Alguns momentos antes, ela estava se
sentindo ótima, mas tudo foi esquecido e seu estado de
ânimo passou a depender totalmente do número que o
ponteiro indicava. O mais importante agora era o peso, e não
o fato de se sentir bem e segura de si.
Judy Mazel, na Dieta de Beverly Hills, descreve
perfeitamente essa obsessão com a balança; ela diz que a
balança tem "mais efeito sobre nós do que uma bomba
atômica" e mostra como o número no mostrador pode
alterar a realidade de quem está fazendo dieta:

Quando me olhei no espelho, os ossos de meus quadris
tinham sumido... Fiquei horrorizada. A baleia que eu já fora
tempos atrás estava assomando. Fui devagar até a balança,
com medo do que iria ver. Com um olho fechado, quase
sem respirar, olhei para o mostrador. Os números me
encararam — 46. Eu não havia engordado um grama!...
Alegria e alívio tomaram conta de mim e, quando me olhei
novamente no espelho, lá estavam meus ossos.

O que determinava sua realidade não era a forma como se
sentia, mas o que a balança dizia que ela deveria sentir a
respeito de si mesma.
Organizações como clubes de emagrecimento e vigilantes do
peso se criam e se baseiam nessa obsessão com o peso. As
motivações para a dieta são complexas, mas o ponto focal é a
perda de peso. As pessoas ali são colocadas em fila e pesadas
diante de estranhos, e são cumprimentadas se seu peso
baixou. Mas não recebem cumprimentos se estão se
sentindo bem consigo mesmas, mesmo que esta tenha sido
uma importante motivação original para começarem a dieta.
Vejamos o que acontece quando você passa a pensar só no
seu peso.
Para começar, você esquece por que queria fazer dieta. A
vida passa a ser regulada pela balança, e o aumento de sua
auto-estima fica em segundo lugar. E mais importante,
talvez, a preocupação com o peso contribui para o processo
geral da quebra da dieta.
Flutuações de peso ocorrem devido a inúmeras razões. Na
primeira semana de dieta, em muitos casos é possível perder
até 3 quilos ou pouco mais; isto em geral funciona como um
grande incentivo para continuar com a dieta, e aumenta as
expectativas de futuras reduções de peso. Contudo, mais de
metade do que se perdeu é constituído de água, cerca de um
quarto de massa muscular, e apenas um quarto de gordura,
que é exatamente do que queremos nos livrar com a dieta.
Tão logo não haja mais excesso de água no corpo, a perda de
peso da semana seguinte será muito menor, ou mesmo
nenhuma. Se a pessoa estiver preocupada com seu peso,
ficará chocada com isso e se sentirá desencorajada.
Quem faz dieta busca na balança a confirmação e o
reconhecimento de seus esforços, e, no entanto, as
alterações no peso muitas vezes parecem erráticas e não
muito certas. Sentindo-se desiludidas com a dieta, resolvem
"sair para jantar porque não quero mais me aborrecer
fazendo todo aquele esforço para nada" e quebram a dieta,
numa reação perfeitamente compreensível a seu sofrimento
não recompensado.
Uma das principais causas de flutuação do peso é a retenção
de água no período pré-menstrual. Nos dias que antecedem
as regras, muitas mulheres retêm líquido, o que provoca uma
sensação de inchaço e a impressão de que as roupas estão um
pouco mais apertadas do que o normal. Se você está fazendo
dieta, isto se reflete num aumento de quase um quilo no seu
peso, o suficiente para deixá-la cansada dos esforços para
emagrecer. O surpreendente é que, mesmo plenamente
conscientes de que o aumento de peso representa retenção
de líquido e que desaparecerá em alguns dias, as mulheres se
sentem culpadas e encaram o fato como fracasso da dieta.
E sentir-se fracassada pode ser o caminho para comer em
excesso.


Reação diante da comida

Quem faz dieta passa a se preocupar com a própria substân-
cia que está tentando evitar — o alimento. Não todos, mas
os que são proibidos e estão fora dos limites estabelecidos
pela dieta. Tais alimentos são considerados mais estimulantes
e desejáveis, e vão ficando cada vez mais, se não são
comidos durante um certo tempo.
Um comportamento típico constatado em quem faz dieta
sugere que, se a pessoa realmente chega a comer algo
proibido, como uma barra de chocolate ou uma fatia de bolo,
depois irá comer mais do que se não o tivesse feito. Seria de
se esperar que fosse o contrário.
Muitos estudos foram efetuados nos Estados Unidos e na
Inglaterra para explicar este comportamento paradoxal;
nestes estudos, a pessoa que faz dieta é submetida a um teste
onde se pede que coma um alimento de alto teor de calorias.
Trata-se de uma atitude muito difícil para o pesquisador,
embora não seja tão antiética como possa parecer, já que os
participantes sempre têm a opção de dizer não. Pede-se
então que façam um "teste de degustação" e que
experimentem uma variedade de alimentos, Eles são
deixados a sós numa sala, para comerem pouco ou muito,
conforme desejarem. A quantidade do que comeram é então
medida. Constatou-se que, se tiver sido oferecido à pessoa
um "alimento proibido" antes do teste de degustação, ela
comerá mais durante o mesmo do que se tivesse recebido
um alimento neutro, como um biscoito cream cracker.
Este é o paradoxo — seria de se imaginar que eles se
sentiriam mais cheios e, portanto, comeriam menos depois.
Quanto aos que não fazem dieta, estes realmente comem
menos.
Ao fazerem dieta, as pessoas são levadas a reagir de maneira
diferente diante de alimentos proibidos; estes desencadeiam
o ato de comer demais. Suponha que você esteve fazendo
dieta durante duas semanas, mantendo-se firme na tabela de
alimentos de baixa caloria, comendo menos do que as
pessoas à sua volta e sentindo falta das refeições sociais e do
jantar em família. Uma amiga a convida para uma festa;
diante de você está uma maravilhosa variedade de tudo o
que você vem evitando. Não vou comer, você diz a si mes-
ma. Só um sanduichinho, você então diz, só um prato de
doce. E quando se dá conta, já comeu dois pratos cheios,
muito além dos seus limites fixados para a ocasião. Será que
isto acontece porque você simplesmente não tem força de
vontade? É apenas porque você não consegue se controlar?
Para começar, se você não estivesse em dieta, toda aquela
comida não lhe pareceria tão apetecível. Um prato teria sido
bastante; você se sentiria satisfeita e muito entretida em
aproveitar a noitada, sem pensar mais em comida.
Mas a dieta muda tudo. Os alimentos que se tornaram
proibidos levam você a comer mais do que se não estivesse
fazendo dieta. Eles desencadeiam uma reação, e esta reação é
comer em excesso.
O que foi que a dieta mudou, então?
A dieta muda os pensamentos que passam por sua cabeça
quando você come o primeiro "alimento proibido". Em lugar
de apenas saborear o que come, você percebe que certos
alimentos despertam pensamentos específicos. Eu perguntei
a várias mulheres o que elas pensavam depois de comer algo
que achavam que não deviam ter comido.
"já que comi mesmo, então vou aproveitar até o fim" foi uma
resposta comum. Elas viam o episódio de excesso de comida
como um evento isolado em que se empanzinavam.
"Estou farta de ter que fazer dieta, eu vou é comer aos
montes." Muitas disseram que sentiam vontade de se rebelar
contra a dieta; ficavam irritadas por terem de se preocupar
com comida e com seu peso, e queriam ter um pouco de
prazer. Comiam como forma de rebelião contra as pressões
que lhes ditavam o que não deviam comer e para mostrar
que, naquele momento, não estavam dispostas a obedecer.
"Agora que já comi, posso muito bem ceder a todos os
outros desejos de comer." Muitas mulheres pensavam que,
ao fazerem dieta, todos os desejos de comer iam se acumu-
lando por dentro, e era preciso um esforço constante para
ignorá-los. Sentiam que deveria haver um equilíbrio entre o
desejo de comer e o desejo de seguir a dieta, e que comer
algo proibido significava que o primeiro havia sobrepujado o
segundo. Isto lhes quebrava a resistência, e elas então co-
miam o suficiente para compensar — até com excesso — to-
das às vezes em que haviam comido menos do que
desejavam.
Uma delas disse: "estou cansada de dizer não o tempo todo.
Eu quero comer normalmente. Por que devo me privar de
bons pratos?" Esta queria reagir contra toda a pressão para ser
magra, fazendo valer sua vontade e comendo como todo
mundo. E acrescentou: "Tudo está centrado na comida, seu
corpo e a percepção que os outros têm dele. Comer é o mes-
mo que dizer 'para o inferno com toda essa pressão'. Por que
minha aceitação pelos outros deve estar condicionada a um
belo corpo?"
A dieta faz com que alimentos de alto teor calórico se
transformem em regalos, e estes parecem desencadear uma
corrente de pensamentos que podem levar ao excesso de
comida. Num estudo efetuado em 1987 pela Dra. King e
colaboradores, solicitou-se a pessoas que faziam e que não
faziam dieta que classificassem diferentes tipos de alimentos
segundo uma série de qualidades, concluindo-se que os que
faziam dieta tendiam, mais do que os outros, a ver os
alimentos em termos de culpa.
Além disso, tais alimentos parecem agir diretamente sobre a
forma como as pessoas que fazem dieta se sentem a respeito
de si mesmos. Em estudo realizado em 1989, os pesquisa-
dores examinaram os efeitos da comida sobre a imagem que
se faz do corpo e constataram que quem faz dieta não apenas
apresenta uma imagem mais negativa de seu corpo, mas
também que esta imagem fica ainda mais negativa após uma
refeição rica em calorias. O que dá a entender que as pessoas
que fazem dieta não só reagem a determinados alimentos
consumindo-os em excesso, mas que esses alimentos
também afetam diretamente a imagem que fazem do próprio
corpo.
Essas reações aos alimentos não ocorreriam nunca se, para
começar, as pessoas que fazem dieta não estivessem
tentando comer menos. Elas comeriam o que quisessem e
quando quisessem, e a comida não teria um papel tão impor-
tante em suas vidas. Fazer dieta significa que a comida se
torna atraente e, apesar disso, deve ser evitada. E como uma
fita elástica: se a puxamos e em seguida soltamos, toda a
energia necessária para retê-la é liberada. Se não for puxada,
não há energia a ser liberada. A comida se transforma num
gatilho para o comportamento que quem faz dieta quer
evitar — comer — e comer se transforma no gatilho para
comer mais ainda.

Emoções

A dieta altera o estado de espírito, e tais alterações podem
levar ao excesso de comida. É comum a pessoa dizer que se
sente segura e motivada no início de uma dieta. Esta
proporciona uma estrutura e um objetivo, além de uma
forma de enfrentar os problemas da vida. No entanto, a dieta
também causa aflição e sentimentos de inadequação.
As mulheres estabelecem as metas para si mesmas. Elas vi-
sam uma determinada perda de peso e decidem que tudo o
que têm a fazer é passar a comer menos! Mas a coisa não é
tão simples assim, e o fato de não se emagrecer ou de inter-
romper a dieta é depressivo. Não ser capaz de atingir os
objetivos faz com que você se sinta um fracasso. A quebra
da dieta é julgada em termos de falta de força de vontade, e
essa noção é promovida pela indústria do emagrecimento,
quando sugere que perder peso é sinal de controle, a
magreza é sinal de controle, e não obedecer às tabelas da
dieta demonstra fraqueza da pessoa, e não a inadequação da
dieta.
A dieta também desintegra a vida familiar e social. Boa parte
das coisas agradáveis da vida estão centradas na comida.
Qualquer celebração se traduz em comer e beber, uma
reunião familiar transcorre em torno da mesa de jantar. E,
no entanto, a dieta significa privar-se desses prazeres. Ter
que ver os outros comendo, enquanto você se delicia com
sua refeição de baixa caloria, pré-cozida, descongelada e
aquecida no microondas não é propriamente divertido.
Fazer compras para os outros, reservando para si mesma uma
alface especial, é frustrante e, além do mais, alface hoje
depois da cenoura de ontem, convenhamos, é uma chatura.
A dieta é depressiva. Você perde uma porção de coisas e,
embora a constante auto-privação seja gratificante num
convento, na maioria das pessoas provoca um sentimento de
cansaço, tédio e isolamento.
Muitas mulheres disseram que toda a experiência da dieta e
sua interrupção havia sido bastante perturbadora.
Uma delas chegou a dizer: "Meu sentimento é de total
fraqueza e falta de esperança e, embora deteste ser gorda, eu
simplesmente não tenho força de vontade de fazer algo a
respeito." Ela se odiava por não emagrecer, e se sentia
deslocada e deprimida por não conseguir seguir a dieta à
risca.
Outras mulheres qualificavam a si mesmas de "lata de lixo e
comilona", "repugnante" e "desanimada por não conseguir
controlar algo tão simples como comer".
Uma outra disse: "Eu me sinto fraca e envergonhada por me
deixar abater." Ela se sentia desapontada consigo mesma e
inadaptada.
Várias também declararam ter considerado a dieta depressiva
porque não contavam com o apoio de ninguém, em par-
ticular de seus maridos ou namorados.
Muitas mulheres fazem dieta porque querem ser mais
atraentes e acreditam que, se emagrecerem, seus maridos ou
namorados apreciarão a diferença. De fato, muitas fazem
dieta a pedido de seus homens. Recentemente, fiquei irritada
ao ver num programa popular de televisão uma atraente e
esbelta mulher de meia idade receber o conselho de
emagrecer de seu próprio e gordo marido! Ela disse ao
entrevistador que o que mais queria nesta vida era um corpo
perfeito, pois isto faria seu marido feliz. "Ele acha que
minhas coxas são muito grossas", disse ela. E ele, ao seu lado,
acenava afirmativamente com a cabeça, sem reparar na
gordura de suas próprias coxas.
Contudo, muitas mulheres ainda acham que seus maridos
não lhes dão o mínimo apoio, quando tentam emagrecer.
Uma delas declarou: "Estou aborrecida porque meu marido
não me incentiva. E eu queria provar a ele que eu seria capaz
de conseguir." O marido também achava que ela deveria
emagrecer, mas não fazia nada para tornar o processo mais
fácil. Ele reclamava do fato de ela comprar alimentos de
baixo teor de calorias e tinha um sentimento de privação
porque a despensa não estava tão sortida como sempre.
Além disso, ele dizia que ela já havia tentado fazer dieta
tantas vezes sem conseguir emagrecer, então por que esta
vez deveria ser diferente? Por um lado, os maridos ou
namorados podem fazer as mulheres se sentirem gordas, seja
por comentários casuais, seja por uma sugestão direta de que
deveriam perder uns quilinhos, mas quando elas realmente
começam a dieta, eles acham todo o processo irritante.
Outra afirmou que o namorado na realidade a havia
encorajado a quebrar a dieta. Antes, ele vivia fazendo
comentários sobre seu peso, mas quando ela começou a
emagrecer, ele passou a lhe trazer comidinhas e a chamá-la
para jantar fora. Na verdade, ele se mostrava bastante
preocupado com o fato de ela ficar mesmo mais magra; ele
parecia se sentir ameaçado por outros homens e pensava
que, mais elegante, ela o deixaria por algum outro. Ele a
considerava gorda, mas tinha medo de vê-la emagrecer.
A sensação de não contarem com o apoio de maridos ou
namorados foi uma queixa bastante comum, e parecia
aumentar a dificuldade de seguir a dieta e também os
sentimentos de inadequação pelo fato de não perderem
peso.
E qual é a conseqüência dessas alterações de ânimo? —
comer. Sentir-se cansada pode reduzir sua determinação de
comer menos. O desejo de comer suplanta o de se refrear,
provocando a quebra da dieta. A depressão baixa sua
resistência, e os prazeres da comida parecem ainda maiores.
Acreditava-se originalmente que as pessoas gordas comiam
de forma diferente das magras e, em particular, que comiam
como forma de satisfação. Acreditava-se que a comida
reduzia sua depressão e proporcionava uma fonte de segu-
rança e uma recompensa. Hoje em dia, parece que, inde-
pendentemente do peso, a maioria das pessoas come por
prazer e considera o alimento uma forma de recompensa.
Isto se aplica, em especial, às pessoas que fazem dieta — sua
auto-privação é recompensada com comida, a perda de peso
é recompensada com comida, e o fato de se sentirem fartas é
compensado com comida. Estes indivíduos aliviam a depres-
são, causada pela dieta, comendo. Eles comem mais para
afastar o desânimo causado pela tentativa de comer menos.
A dieta se transforma em seu próprio pior inimigo, trazendo
alterações no estado de espírito que vêm a provocar sua que-
bra e a alimentação em excesso.
A dieta causa sofrimento; traz também sensações de fra-
casso, inadequação e isolamento. E comer ajuda a mitigar es-
ses sentimentos.

Os efeitos da dieta sobre o controle da alimentação

A dieta causa problemas com o controle da ingestão de
alimentos. Em certas situações, a tentativa de fazer dieta
provoca um aumento no consumo de calorias. Quem faz
dieta se sente mais fora de controle do que quem não faz, e
experimenta padrões de alimentação caóticos.
O objetivo de quem faz dieta é comer menos e controlar a
ingestão de alimentos. As mulheres costumam atribuir sua
"gordura" percebida à sua incapacidade de comer
corretamente, acreditando que se estão acima de seu peso
desejado é porque comem demais. Elas observam o
comportamento alimentar de outras pessoas e acreditam que
estas comem menos e em horas diferentes, e entendem seu
próprio comportamento em termos de perda de controle. A
dieta é encarada como um meio de impor um autocontrole e
uma estrutura externa sobre sua ingestão de alimentos. No
entanto, nada indica que, antes de fazer dieta, as mulheres
que estão acima de seu peso desejado comam
diferentemente ou passem por mais crises de perda de
controle do que as outras que estão satisfeitas com seu peso.
Nada indica que as mulheres mais gordas estejam mais fora
de controle do que suas colegas magras, ou que as que
decidem fazer dieta tenham passado por mais casos de
excesso de comida do que as outras.
No entanto, há indicação de que a dieta faz aumentar os
casos de perda de controle, tanto imaginada como real. A
imposição da estrutura da dieta sobre a ingestão de alimentos
parece ter um efeito oposto ao desejado.

Perda de controle imaginada

Em vista das limitações estabelecidas pela dieta, qualquer
coisa que se coma além desses limites é encarada como
excesso e atribuída à perda de controle. O que normalmente
seria visto como uma lauta refeição, uma ocasião especial ou
uma festa é considerado como excesso de comida e
indicativo de controle perdido. O impulso de comer, que
normalmente se entende como fome, é registrado em
termos de anseio, e ceder a esse impulso é demonstração de
fraqueza.
Como disse uma mulher: "Quando começo a fazer dieta,
quero comer tudo o que não devo. Quero comprar
alimentos que engordam, quando sei que estou em dieta."
Ela não comia mais do que antes de começar a dieta, mas o
próprio desejo de comer certos alimentos é percebido como
um problema.

Perda de controle real

Um dos principais efeitos da dieta é que ela contribui para a
real perda de controle sobre a alimentação. A dieta provoca
o aumento da preocupação com comida, tornando-a mais
atrativa; altera as reações aos alimentos, fazendo com que
alguns deles se tornem "proibidos", o que desencadeia
estados de espírito específicos, além de causar alterações no
ânimo. Tudo isso contribui para uma real perda de controle,
e a pessoa em dieta acaba comendo mais do que comeria se
não estivesse em dieta.
Uma das mulheres disse que achou a dieta muito difícil.
"A dieta me deixou muito deprimida. Logo no início eu
comi demais; isto me deprimiu, o que me levou a comer
mais ainda. Eu sentia que comer faria com que eu me
sentisse melhor, mas só me fez sentir culpada, e aumentou
meu desejo de comer." Para ela, o resultado da dieta foi
comer mais do que se nem tivesse começado a tentar.
Uma outra declarou: "Não consigo enfrentar agora o
sentimento de privação que me assalta quando começo uma
dieta. Ele vai se acumulando dentro de mim, eu entro em
pânico e como." A dieta a fazia sentir-se despojada e, assim,
mesmo que não estivesse comendo menos, passava a comer
mais para compensar.
A dieta visa a controlar a ingestão de alimentos e reduzir o
seu consumo. Visa a impor uma estrutura sobre o
comportamento da pessoa e provocar o emagrecimento. Mas
parece não alcançar nenhum desses objetivos. As alterações
cognitivas e emocionais que ocorrem como reação à dieta
prejudicam as tentativas de comer menos e provocam o
excesso de comida, exatamente o comportamento que quer
evitar quem faz dieta.

DIETA - UM CÍRCULO VICIOSO

Quais são então as conseqüências de todas essas dietas
fracassadas? E quais são as reações à quebra da dieta?
A dieta se transforma num círculo vicioso, um torvelinho do
qual é difícil se livrar. E a cada volta, os efeitos vão ficando
mais fortes, mais destrutivos, e a perda de peso, menor.

Os efeitos da dieta prolongada

Se quem faz dieta não está realmente perdendo peso, o que
na verdade está fazendo? Ao que parece, todos têm uma coi-
sa em comum: vivem pensando na dieta. Pensam em comer
menos e em emagrecer, mas estes objetivos não são necessa-
riamente atingidos. Algumas vezes emagrecem, outras não,
mas estão sempre tentando. Todos partilham um mesmo
estado de espírito.
À curto prazo, a dieta pode lhe proporcionar uma estrutura,
uma forma de estímulo e apoio, e também uma maneira de
mudar sua vida. Mas a longo prazo, uma dieta sem resultados
provoca depressão, preocupação com peso e alimentação e
episódios de comida em excesso.
Um efeito da dieta, recentemente constatado, é um processo
denominado ciclo do peso, que se aplica às mulheres que
por vezes conseguem perder peso, mas que em seguida
recuperam tudo.
Já aconteceu de você ter feito dieta, ter emagrecido e depois
engordado mais ainda?
Já aconteceu de você ter feito dieta, ter emagrecido,
engordado de novo e, na tentativa seguinte, perceber que
ficou mais difícil perder peso?
Pesquisadores da Universidade da Pensilvania estão
desenvolvendo um projeto sobre ciclos de peso, para testar
os efeitos das "dietas iô-iô". Como tantas pessoas haviam
relatado que emagrecer vai se tornando progressivamente
mais difícil após terem recuperado o que haviam perdido
antes, este efeito foi estudado primeiro em ratos.
Um grupo de vinte e um ratos foi submetido a um processo
de superalimentação, para engordar. A dieta foi, então,
modificada, para que emagrecessem. O ciclo foi repetido
algumas vezes, de forma que os ratos emagreceram e
recuperaram o peso seguidamente. Na primeira vez, foram
necessários vinte e um dias de dieta para os ratos chegarem a
seu peso normal, e quarenta e cinco dias para recuperar o
peso que haviam perdido. Na segunda vez, recebendo a
mesma quantidade de comida, os ratos levaram quarenta e
seis dias para perder a mesma quantidade de peso, e apenas
quatorze dias para recuperar tudo. O que dá a entender que,
em dietas prolongadas, vai ficando cada vez mais fácil
recuperar e cada vez mais difícil perder peso.
Um estudo semelhante foi realizado na Escola de Medicina
da Universidade de Harvard, constatando-se que o padrão se
aplicava a mulheres em dieta. Ao que parece, o
emagrecimento repetido faz com que o corpo utilize a
gordura armazenada de forma mais eficiente, passando a
depender de menos comida. Repetidas dietas e recuperações
de peso colocam o organismo num "processo de inanição",
com redução da taxa metabólica e, mesmo quando o peso
perdido tenha sido recuperado, o corpo ainda espera por
mais privação.
Outras pesquisas sugerem que as "dietas iô-iô" têm
conseqüências ainda mais inquietantes. O peso que se perde
é em massa muscular, e o que se recupera é gordura. Assim,
dietas continuadas tendem a aumentar o teor total de
gordura no corpo. Um estudo realizado na Pensilvânia com
1170 homens revelou que os que apresentaram maiores
flutuações de peso, durante um período de vinte e cinco
anos, também apresentavam maior risco de doenças
cardíacas.
À curto prazo, a dieta pode fazer você se sentir bem. Mas, a
longo prazo, os problemas podem ser maiores do que os
resultados. Se você não emagrecer, vai se achar um fracasso,
a dieta se tornará um hábito e uma forma de vida, e você
passará por todas as alterações psicológicas que parecem
acompanhar as tentativas de perder peso. Mas se você
conseguir emagrecer — e a menos que permaneça magra
para sempre — na próxima vez já será mais difícil, e os
problemas físicos e psicológicos serão maiores do que a
simples questão de você se imaginar mais gorda do que
gostaria de ser.
A dieta leva ao excesso de comida; este provoca o aumento
de peso que, por sua vez, pede uma nova dieta. Com efeito,
a dieta não parece mais estar associada a comer menos. O
que a maioria das pessoas faz quando "está em dieta" é uma
combinação de comer menos e comer mais. Alternam
períodos de restrição alimentar com períodos em que
compensam aquela restrição. Seguir dieta significa tentar
comer menos, mas não necessariamente fazê-lo. O que
todos têm em comum é um estado de espírito: pensam em
comer menos — e isto é tudo. São muito poucos os que
realmente conseguem; a maioria apenas pensa no assunto. É
por esse motivo que a indústria do emagrecimento tem tanta
força. Quem faz dieta na realidade nunca pára; nunca chega
ao ponto de poder se desligar da indústria do
emagrecimento. Porque uma dieta leva a outra dieta e,
portanto, ao uso continuado da sempre crescente indústria
que a estimula.

Capítulo 8
Os homens e as dietas

Há alguns anos, numa entrevista para um novo emprego, eu
tentava explicar meu campo de pesquisas. Após ter feito o
que eu considerava um relato claro e completo de meu
trabalho, o único homem presente disse: "Existe um eviden-
te erro lógico em seu trabalho." Abalada em minha segu-
rança, perguntei do que se tratava. "E quanto aos homens?"
foi o que ele disse. Eu realmente nunca antes havia consi-
derado os homens em relação às dietas. Meu interesse nesta
área vem do próprio fato de eu ser mulher, e eu sempre
pensei que seria bom trabalhar em algo que os homens ainda
não tinham conseguido monopolizar. Este capítulo é uma
concessão àquele entrevistador e aos inúmeros outros
homens que costumavam me dizer: "Para nós é igualmente
difícil."
Os homens também têm seus modelos ideais e seus heróis.
Ao longo dos séculos, a literatura vem nos apresentando
imagens sempre variadas do homem ideal. Em 1813, Jane
Austen escrevia em Orgulho e preconceito:

O Sr. Darcy logo chamou a atenção de todos na sala por sua
figura alta e esbelta, suas feições agradáveis, seu porte nobre;
e pelo rumor que circulou cinco minutos após sua entrada,
de sua renda de dez mil por ano.
Homens atraentes deveriam ser altos, eretos e ricos.
Na década de 50, o tipo físico ideal era o de Charles Atlas.
Os homens podiam comprar um jogo completo para
treinamento e equipamento para modelagem física. Eles
tinham que ser grandes, vigorosos e robustos. Eram homens
de poucas palavras e montes de músculos. E qual é a
mensagem hoje em dia? Existe uma imagem que os homens
queiram acompanhar?
Em geral supõe-se que os meios de comunicação se valem
mais do corpo feminino para promover a venda de uma
ampla variedade de produtos. A maioria dos anúncios de pu-
blicidade continua a usar mulheres para apresentar desde
roupas até carros e produtos de limpeza. Perguntei a vários
homens se eles achavam que também sofriam pressões para
ter uma determinada aparência.
Um executivo do Serviço Nacional de Saúde, de 25 anos de
idade, prontamente respondeu: "Mas, claro!" e a seguir deu
sua descrição detalhada do homem ideal:

Ele tem que ser alto, vestir-se bem (de maneira esportiva,
porém elegante) e exalar prosperidade. O corpo ideal é bem
constituído, com ombros largos, as costas se afinando até um
traseiro firme com covinhas, e nada de barriga.

Ele achava que antes os homens costumavam se orgulhar de
suas barrigas de cerveja, mas que agora se envergonhavam
delas e as disfarçavam.
Outro homem de 25 anos disse que o homem ideal era
representado pelo ator Richard Gere: "Não muito musculoso,
em boa forma e com peso suficiente. Seu corpo realmente
não chega a se fazer notar, mas é capaz de fazer o que se es-
pera dele sem se prejudicar." Para ele, o corpo ideal estava li-
gado à boa forma e à saúde, não deveria ser do tipo que
chamasse a atenção, pois era "assim que o corpo masculino
deveria ser". Já um outro pensava que o homem ideal era
"ágil, bem constituído, pequeno e robusto, de cabelos escu-
ros".
Também perguntei a vários homens o que estas imagens
representavam para eles. A resposta mais comum foi que o
fato de ser alto, esbelto e fisicamente apto significava estar
no controle, e o controle era o que mais importava na
imagem do homem ideal dos anos 90. Também significava
ser saudável e confiante e, portanto, capaz de ter sucesso em
todos os campos da vida.
Com a ascensão da ética do trabalho na década de 80, a
mídia começou a apresentar homens mais esbeltos, com
aparência saudável e de quem trabalha bastante. O homem
ideal não é comodista, está no controle e no comando de sua
vida. O hedonismo parece estar se tornando coisa do
passado, e isto é exemplificado pelo ideal de homem
contemporâneo.
Mas, de onde vêm estas imagens? As pressões parecem vir
de três fontes: outros homens, mulheres e mídia.
Um dos homens declarou: "Os outros homens fazem piadas
sobre aumento de peso. Eles dizem 'você está ficando meio
largado', ou sugerem que você deveria praticar algum
exercício na hora do almoço."
Um outro disse: "Você vive ouvindo as mulheres falando de
traseiros firmes e barriga pequena, e percebe que é disto que
elas gostam." E mais ainda: "Você sabe que as mulheres
acham atraentes certos artistas de cinema; também nota que
elas não conhecem nada a respeito deles, a não ser sua apa-
rência e como são seus corpos, portanto, você compreende
que são seus corpos que os tornam atraentes."
A pressão também vem da mídia. Nos últimos anos, vem
aumentando o número de homens usados em publicidade,
todos eles magros e atraentes de uma forma estereotipada.
Os homens que aparecem nos meios de comunicação se
mostram menos hedonistas e cada vez mais em controle e
reservados. Em recente anúncio de televisão, aparece um jo-
vem apresentando refeições pré-cozidas. Ele é magro,
saudável, e passa a impressão de uma vida regrada e de auto-
controle; ele parece sensível. Os heróis masculinos dos anos
60 e 70 tinham um ar de excesso e de libertinagem; hoje em
dia, os homens são dóceis e controlados. O único
representante dos meios de comunicação (no caso, o cine-
ma) que não se enquadra nessa imagem, na opinião dos ho-
mens que entrevistei, é Jack Nicholson, que personifica total
hedonismo, boa-vida e prazer. Talvez o motivo de sua
atração seja sua óbvia rejeição das normas sociais e sua
capacidade de não se amoldar, não usar de artimanhas e não
ser influenciado pelo que os outros esperam.
É comum as mulheres presumirem que os homens podem
exibir uma maior diversidade de aparências, tamanhos e
formas do que elas. Acredita-se que a personalidade
masculina possa compensar muitas (mas não todas) de suas
características físicas. Woody Allen é considerado um
símbolo sexual, mas sua equivalente feminina nunca teria
conseguido nem passar pela porta do estúdio. De qualquer
maneira, a mídia parece apresentar uma imagem do homem
ideal dos anos 80 e 90. Qual é a reação dos homens a estas
imagens? Estarão eles insatisfeitos com seus corpos?
Em 1968, Diabiase e Hjelle realizaram um estudo para
avaliar a idéia que os homens faziam do tamanho ideal. Gru-
pos de homens gordos, medianos e magros foram colocados
diante de silhuetas de corpos masculinos, igualmente gordos,
magros ou de peso mediano. Solicitados a indicar qual o ta-
manho que preferiam, e por que, todos os participantes,
independentemente de seu próprio tamanho, escolheram a
representação de peso mediano. Para eles, tanto as figuras de
magros como de gordos sugeriam características como
timidez, dependência e retraimento, ao passo que o corpo de
tamanho médio dava a impressão de ser ativo, enérgico e
dominador.
Os participantes desse estudo demonstraram sua preferência
por um determinado tipo físico. Mas, haveria no caso algum
reflexo de insatisfação com suas próprias formas?
Num estudo de 1988, já descrito no Capítulo 3, pediu-se a
homens e mulheres que determinassem seu tamanho ideal e
seu tamanho real. Todas as mulheres apresentaram uma
grande discrepância entre a aparência que julgavam ter e a
que gostariam de ter, o que não ocorreu entre os jovens
participantes masculinos. Independentemente de seu
tamanho real, eles se sentiam satisfeitos com seu peso.
Apesar de os homens indicarem um tamanho ideal e uma
preferência por um determinado tipo de corpo, isto não
parece representar uma insatisfação com sua própria forma,
dando a entender que eles não são diretamente afetados por
preocupações com o peso.
Eu entrevistei um homem de 30 anos de idade, cerca de
1,90 m de altura e pouco mais de 95 quilos de peso, mas que
preferiria pesar em torno de 82 quilos. Mesmo afirmando
preferir pesar menos, ele julgava que seu peso não era tão
importante. "Não creio que meu peso tenha alguma
influência sobre minha capacidade de atração. São duas
coisas independentes. As pessoas nem notam", foi o que
disse.
Perguntei-lhe então se o fato de ser mais pesado do que
gostaria de ser tinha alguma influência sobre o julgamento
que fazia de si mesmo, ao que ele respondeu: "Minha auto-
estima vem da minha capacidade de agir de acordo com um
padrão que eu mesmo fixei, tanto para minha vida
profissional como para a vida social. A atração vem das
atitudes e da personalidade." Ele admitia que boas roupas
faziam-no sentir- se mais atraente, mas que "as pessoas
estavam mais interessadas em suas idéias do que em
músculos".
Em outra entrevista, um homem com 1,80 m de altura e
cerca de 86 quilos disse: "Eu até que gostaria de pesar me-
nos, mas isto não me perturba. Minha preocupação é estar
em forma, pois há muitas outras qualidades associadas à mi-
nha simpatia. Se eu perdesse uns 6 quilos, eu não seria ou
me sentiria mais atraente, simplesmente teria 6 quilos
menos."
Ele também julgava que suas preocupações com peso eram
"meras considerações pessoais; ninguém percebe ou se
incomoda com meu peso. Minha capacidade de atração está
associada a muitos outros fatores".
Pelo que se nota, embora eles preferissem pesar menos, isto
não afetava o julgamento que faziam de seu próprio poder de
atração.
Também entrevistei um homem de 26 anos, com 1,80 m de
altura e cerca de 67 quilos. Este gostaria de ter alguns quilos
a mais. Perguntei-lhe se achava que este fato teria algum
efeito sobre seus sentimentos de atração. Mesmo tendo
consciência do tipo ideal de homem, ele respondeu: "O tipo
de aparência que se espera de um homem não faz a menor
diferença para mim. O mundo da boa aparência é um mundo
totalmente separado do meu, e eu prefiro não ter nenhum
contato com ele. Na realidade, eu nem penso mais na ques-
tão da atração física, tenho muitas outras coisas em que pen-
sar."
A auto-satisfação poda ser entendida em termos de imagem
do corpo e auto-imagem, e da relação entre ambas. A
imagem do corpo se refere apenas ao fato de o indivíduo
estar satisfeito com o próprio corpo, enquanto a auto-
imagem é um conceito mais global associado a uma forma de
auto-apreciação geral. Talvez a auto-satisfação reflita a dife-
rença entre homens e mulheres. Na mulher, o peso tem
maior influência sobre sua imagem do corpo que, por sua
vez, tem maior influência sobre sua auto-imagem. Quanto
aos homens, apesar de preferirem ter um determinado peso,
isto tem apenas um pequeno efeito sobre sua imagem do
corpo e, portanto, não chega ser prejudicial para sua auto-
imagem.
Contudo, há homens que demonstram preocupação com seu
peso. Vejamos o caso de outro de meus entrevistados, um
homem de 25 anos de idade, 1,90 m de altura e cerca de 95
quilos. Para ele, o peso ideal estaria abaixo dos 80 quilos.
Perguntei-lhe por que gostaria de ser mais magro.

Eu me sentiria melhor. Não é uma questão de saúde, mas
principalmente de ser atraente para as mulheres. A gordura é
desagradável. Quando tenho que me despir diante de
alguém, não chego a ficar constrangido, mas também não
me sinto vaidoso. Fico pensando "espero que não se in-
comode e que ainda queira continuar".

Para ele, a forma de seu corpo não era "um bom argumento".
De que forma reagem os homens ã insatisfação com seu
peso? Apenas dois por cento dos membros dos Vigilantes do
Peso são homens, portanto, parece que eles não freqüentam
esse tipo de clubes. Mas será que fazem dieta em casa? Um
dos que entrevistei afirmou:

Na realidade, eu não faço nada, só fico me preocupando com
o fato. Tento comer menos e bebo vinho em lugar de
cerveja, mas é mais uma questão de pensar no assunto do
que fazer algo.... Eu gostaria de ser mais magro, mas não
quero pagar o preço. Não vale a pena o sacrifício.

Um outro homem, com cerca de 13 quilos a mais do que
preferiria pesar, disse: "As vezes eu penso em comer menos,
mas na verdade não consigo nunca. É esforço demais!" Já um
outro, com apenas 6 quilos além do que gostaria de ter,
declarou: "Eu vivo comendo pouco. Já nem me lembro da
última vez em que comi até ficar satisfeito. Acho difícil me
privar de coisas de que realmente gosto, por exemplo, a
manteiga, mas em geral reduzo a quantidade e como uma
salada." Contudo, ele ainda acrescentou que comia a salada,
além de outras coisinhas!
E o que mais fazem eles? Ao que parece, a maioria prefere
fazer ginástica ou caminhar a realmente seguir uma dieta.
Eles tentam mudar seus corpos através de exercícios, e não
reduzindo a comida. Talvez seja porque a comida não tenha
um papel tão importante em suas vidas, talvez seja mais
aceitável que as mulheres digam "estou em dieta". Mas, ainda
assim, eles sofrem pressões para se amoldar a uma forma
específica.
Se o peso é motivo de preocupação para alguns homens, é
possível que também tenham em mente outras característi-
cas físicas.
Em 1955 realizou-se um estudo para determinar que partes
do corpo tinham maior importância para homens e mulhe-
res. Enquanto as mulheres se fixaram nos quadris, coxas e
cintura, entre os homens constatou-se que o ponto fraco
equivalente era a altura. Este parecia ser o fator de maior in-
fluência sobre sua imagem do corpo. Eles associavam a altura
com poder, vigor sexual e capacidade intelectual.
A sociedade espera que o homem seja mais alto do que sua
companheira, e associa a altura masculina a outras qualidades
desejáveis, tais como autoridade e status social. Um estudo
de 1968 avaliou a relação entre altura imaginada e poder.
Um certo Sr. England foi apresentado a vários estudantes de
uma universidade, sendo qualificado ou de bolsista, ou
conferencista, ou docente, ou professor catedrático. Os
estudantes deveriam calcular sua altura. As respostas
indicaram que a altura atribuída aumentava de acordo com a
importância de sua função. A altura era associada ao poder. É
interessante notar que essa associação se estende também à
política. O sociólogo Feldman já dizia em 1971: "Não é por
acaso que desde 1900, em todas as eleições presidenciais nos
Estados Unidos, o vencedor tem sido sempre o mais alto dos
dois principais candidatos." Em 1960, perguntou-se aos
eleitores americanos quem era o preferido e quem eles
pensavam ser o mais alto, entre Kennedy e Nixon; foi
constatado que a preferência e a altura imaginada seguiam
juntas.
Por que a altura é tão importante?
De maneira geral, os homens são de 5 a 10 por cento mais
altos que as mulheres. As meninas têm um crescimento
significativo por volta de seus 13 anos, logo depois de
começarem a menstruar, e ainda ganham alguns centímetros
até atingirem sua altura definitiva aos 18 anos. Rapazes
começam a crescer alguns anos depois, mas continuam
crescendo por um período maior. Aparentemente, esse
período de crescimento mais longo é a razão de os homens
serem mais altos.
Mas, será que os homens precisam ser mais altos?
Segundo os biólogos, as mulheres param de crescer mais
cedo para que possam se preparar para sua função principal:
a reprodução. O argumento é que as jovens não podem gas-
tar energia no crescimento quando essa energia é necessária
para gerar filhos, e que as duas coisas ao mesmo tempo
(crescimento e capacidade de reprodução) exigiriam demais
das reservas do organismo. Montagu assinalou que, nos
primeiros anos após o início da menstruação, as meninas
raramente são férteis, mesmo que aparentem ser, e é nesse
período que se completa o seu crescimento. Isto sugere que
estamos respondendo a uma história de menor expectativa
de vida, e que a reprodução deveria ocorrer o mais cedo e o
mais freqüentemente possível. Para os homens, não existe
essa pressão e, portanto, eles podem crescer por mais tempo.
Além disso, os antropólogos argumentam que os homens
precisam ser mais altos, para poder lutar pela conquista das
parceiras.
Em resultado dessas diferenças biológicas, os homens ten-
dem a ser mais altos do que as mulheres. Nos Estados Uni-
dos, o homem médio é cerca de 13 centímetros mais alto do
que a mulher média. Contudo, os progressos nas condições
de vida e nutrição no mundo ocidental têm produzido não
apenas mulheres mais altas do que homens de outras regiões
do mundo, mas também significam uma maior equivalência
nas alturas de homens e mulheres dentro de uma mesma
comunidade. 10 por cento das mulheres são mais altas do
que 10 por cento dos homens e 5 por cento delas são
maiores do que o homem médio.
Portanto, altura significa virilidade. Mesmo que existam
mulheres altas e homens baixos, coisas grandes são masculi-
nas e coisas pequenas são delicadas e femininas.
Tal associação deriva de uma diferença biológica, mas é
também usada e perpetuada pelas expectativas sociais e pelas
imagens divulgadas pela mídia. Esta, com expressões do tipo
"porções para homens", "tamanhos para homens" e imagens
como "carros grandes são para homens", promove esta
associação. Ela também fica evidente em alguns costumes
tradicionais, como "o homem deve segurar o guarda-chuva
sobre a mulher" e "o homem passa o braço sobre os ombros
da mulher". A Princesa Diana, usando sapatos rasos, é só um
centímetro menor do que o Príncipe Charles, mas no selo
comemorativo do casamento ela foi "encolhida", de modo a
parecer estar olhando para cima. Das duas uma, ou ela estava
abaixada, ou ele estava sobre um banquinho!
Também nós mulheres promovemos esta idéia. Eu própria,
com meus 1,78 m de altura, conheço bem os traumas de ter
namorados mais baixos. Já passei muitas noites andando
encurvada, descendo o meio-fio e calculando a inclinação da
calçada, só para parecer um bocadinho mais baixa. Também
sei como é embaraçoso para o rapaz ter que envolver meus
ombros com seu braço, dando a impressão de que vai deslo-
car o seu ombro. Como mulheres, esperamos que os homens
sejam mais altos, e eles percebem esta expectativa.
No outro extremo dessas considerações sobre altura, Erving
Goffman, em seu livro Estigma, examinou os problemas de
homens bem abaixo da altura mediana. Ele analisa como
esses homens ou deixam de levar uma vida normal, ou po-
dem assumir o papel tradicional dos baixinhos como
"bufões" ou "queridinhos de senhoras abastadas". Já se notou
que quando um homem de baixa estatura escolhe uma
mulher também pequena, a "seqüência do romance" muitas
vezes é acelerada, levando menos tempo entre namoro,
noivado e casamento. Goffman conclui que pessoas baixas se
casam com seus iguais porque afinal encontraram uma
oportunidade, e porque é isso que se espera deles.
Os homens se preocupam com sua estatura. Trata-se de uma
fraqueza, de certa forma comparável à das mulheres com
relação a seu peso, mas será que tem o mesmo efeito danoso
sobre sua auto-imagem?
Existem alguns recursos para o homem que quer parecer
mais alto, tais como sapatos com plataformas e chapéus altos,
mas estes acabam sendo encarados como um tanto ridículos
e até mesmo desesperados. Ao contrário do peso, que ao
menos podemos tentar alterar, não há possibilidade física de
se mudar a altura. Talvez, em vista da inexistência de
alternativas viáveis, os baixinhos têm que se conformar e
aprender a lidar com essa parte desagradável de sua
aparência física. Se a medicina viesse a desenvolver um meio
de acrescentar alguns centímetros à altura, ou talvez sugerir
que uma determinada combinação de alimentos pudesse
resolver o problema da estatura, é provável que os homens
passassem a se preocupar mais com esse aspecto, que viria a
desempenhar um papel mais importante em sua auto-
imagem. Como o que não tem remédio remediado está, a
impossibilidade de mudança reduz a importância do
problema.
Existem ainda outras características físicas especialmente
importantes para os homens?
Num estudo de 1973, pediu-se a um grupo de homens que
classificassem uma lista de características físicas pela sua
ordem de importância na determinação da atração física. De
uma relação que incluía características como peito,
compleição física e rosto, os cabelos apareceram em segundo
lugar, perdendo apenas para a aparência da pele do rosto.
Esta parece ter muita importância para os adolescentes e
jovens no princípio da casa dos vinte, pelo temor da acne ou
pela preocupação com o aparecimento da barba. Mas o tipo
de cabelo e o medo da calvície também parecem ter um
papel central na determinação da imagem do corpo.
A calvície ocorre mais em homens brancos do que em
qualquer outro grupo racial ou sexual. Os genes da calvície
existem nos cromossomos tanto de homens como de
mulheres, mas necessitam dos hormônios sexuais
masculinos para serem ativados e provocarem a queda de
cabelos. Nas mulheres brancas, os cabelos vão ficando mais
ralos gradualmente, mas alguns homens, quando chegam à
casa dos vinte anos, já apresentam entradas pronunciadas ou
mesmo áreas de calvície; aos 50 anos de idade, até 60 por
cento dos homens terão sofrido de queda de cabelos.
Já se falou que a calvície deveria ser encarada pelas possíveis
candidatas ao casamento como um sinal de o homem ter
passado de sua plenitude e de não ter mais condições de
reproduzir. Contudo, este argumento é bem o contrário do
que se conhece do comportamento reprodutivo e da
psicologia dos homens, o que lhes permite continuar a gerar
filhos com freqüência e por bastante tempo ainda. A
ausência de qualquer associação biológica óbvia entre a
sexualidade masculina e a calvície não impede que a questão
capilar seja crucial para a imagem do corpo de muitos
homens, e que a queda de cabelos seja para eles um sério
temor.
Mas, de onde vem esse temor? Por que a calvície não é
simplesmente aceita como uma conseqüência natural da ida-
de ou da ação dos hormônios?
Quantos atores você conhece que sejam carecas? Quantos
homens de televisão assumem a falta de cabelos sem re-
correr a perucas ou outras formas de disfarçar ou corrigir o
fato? Para a mídia, a masculinidade está intimamente ligada a
uma vasta cabeleira. As únicas exceções a esta regra são ato-
res completamente calvos (dois nos vêm logo à lembrança),
sugerindo que optaram por raspar a cabeça e que, se
desejassem, poderiam facilmente deixar crescer os cabelos.
E qual é a resposta dos homens a essa pressão?
Ao contrário da questão da altura, a sociedade oferece várias
maneiras de enfrentar o problema da queda de cabelos. As
soluções existem e alguns homens se valem delas: eles po-
dem usar perucas, ou puxar os fios que lhes restam de um
lado para o outro da cabeça (rezando para não enfrentar uma
ventania), ou se submeter a implantes. Alguns sofrem sério
trauma quando os cabelos começam à cair, alguns encaram o
fato como o fim de sua juventude, e outros, como o fim de
seu poder de atração.
Sobre este assunto, entrevistei vários homens, perguntando
qual era a importância dos cabelos para eles, e se tinham
medo de ficar carecas. A quase totalidade das respostas
indicava que a calvície certamente não era algo que
esperassem. "Horrível" e "inquietante" foram alguns dos
adjetivos usados e "eu pareceria um idiota" foi uma
observação comum.
Houve um que afirmou mesmo desejar ficar calvo. Ele
achava que assim ficaria com um ar sereno e distinto, apesar
de acrescentar que a probabilidade de ele ficar careca era
muito pequena.
Contudo, da mesma forma que as preocupações masculinas
com peso e altura, os problemas de queda de cabelos não
parecem ter um efeito tão profundo sobre sua imagem do
corpo, como a questão do peso tem para as mulheres. Não se
trata aqui de trivializar a insatisfação dos homens com seu
corpo ou de menosprezar sua autocrítica, mas de colocá-las
na perspectiva própria, em comparação com o imenso nú-
mero de mulheres que passam a vida toda a se preocupar
com o peso.
Perguntei a vários homens se eles achavam que havia uma
diferença entre homens e mulheres no tocante a sua
aparência. Surpreendentemente, muitos pareciam estar
cientes dessa diferença e se consideravam com sorte.
Um deles disse: "As mulheres não se sentem atraídas pelos
homens por sua aparência, elas acham suas personalidades
atraentes; já eu a princípio sou atraído pela aparência da
mulher, mas depois todo o resto se torna mais importante."
De um outro, ouvi: "Se você é homem, ser gordo pode lhe
conceder status e sugerir que você é rico e bem-sucedido o
suficiente para comer bons pratos e beber bons vinhos. Se
você é mulher, a gordura significa que você não consegue
impor muito respeito, e que você tem um problema com
comida."
Este mesmo acrescentou: "A atração nos homens tem re-
lação com o caráter e a personalidade, mas nas mulheres é
muito mais uma questão de aparência física."
Um terceiro respondeu: "Os homens talvez não pensem em
si mesmos como sendo atraentes, ou talvez nem mesmo
considerem se e quanto o são, mas põem toda sua energia
para analisar como as mulheres são atraentes. A atração dos
homens pode ser medida pelo grau de atração de suas
acompanhantes."
Mas estarão as coisas mudando?
As mulheres supõem que os homens estão pagando um
preço baixo. Contudo, durante os últimos anos houve um
aumento no número de homens que aparecem em
publicidade e no de revistas destinadas especificamente ao
leitor masculino. Bonitões estereotipados anunciam leite,
carros, alimentos e uma grande variedade de bens de
consumo. As revistas masculinas estão cheias de rapazes
altos, morenos e simpáticos vestindo as roupas da moda, e
até mesmo o mercado dos perfumes masculinos está
crescendo. Estaremos caminhando para um futuro de
homens com a obsessão pela imagem?
Num número recente da revista Cosmopolitan deparei-me
com um artigo que me interessou, intitulado "Homem do
cosmos", e iniciado por uma pergunta: "Estará ele morto de
preocupação por seu pênis, sua barriga, sua mãe?" Os ho-
mens pareciam também estar recebendo o tratamento. O
artigo relacionava os "pontos mais sensíveis" dos homens,
desde o tamanho do pênis até a queda de cabelos, e
descrevia em detalhe cada medo e cada neurose; mostrava-
se até compreensivo, mas ridicularizava de maneira sutil
cada preocupação masculina. Os temores eram considerados
genuínos, mas não tão importantes assim. O artigo estava
intercalado por anúncios de roupas apresentados por
modelos altos e com bastas cabeleiras. O artigo e os anúncios
representavam a combinação perfeita de mensagens para
desenvolver e perpetuar as neuroses masculinas.
Talvez o mundo da publicidade já tenha esgotado a utilização
de mulheres, talvez tenha descoberto o mundo novo do
desejo masculino de se amoldar a uma imagem ideal.
Qualquer que seja a razão, os homens estão aparecendo cada
vez mais no mundo do marketing. E talvez dentro de
alguns anos estejamos começando a ver os danos causados.

DE VOLTA AOS DIAS DE HOJE...

Tanto homens como mulheres sofrem algum tipo de pressão
para adotarem uma determinada aparência e para se
adaptarem à mais recente imagem ideal. Ambos são
apresentados com uma imagem de corpo ideal, mas esta
imagem não parece influenciar tão poderosamente a auto-
imagem dos homens quanto a das mulheres.
Talvez isto esteja relacionado, em parte, ao fato de ainda
haver menor pressão sobre os homens, menor uso deles na
publicidade, e uma maior variedade de homens usados em
filmes e anúncios e apresentados como símbolos sexuais.
Mas é também o resultado da maneira de mulheres e
homens se auto-avaliarem.
Mesmo que os homens se sintam mais gordos do que
gostariam de ser, essa discrepância entre o peso ideal e o real
não é acompanhada por quaisquer sentimentos de
insatisfação, nem se generaliza em auto-aversão. O peso do
homem é independente de sua atração física, que é
independente de seus sentimentos de valor e de avaliação de
sua atração global.
As mulheres são definidas por seu aspecto exterior; sua
identidade começa com sua aparência. O peso tem uma
grande influência sobre sua imagem do corpo que, por sua
vez, tem influência sobre sua auto-imagem. Os homens têm
necessidade de ter uma certa aparência, mas isto não
determina quem eles são.

Capítulo 9
Por que continuar a fazer dieta?

As pessoas que fazem dieta, em sua grande maioria, não são
gordas, apenas se vêem assim. A maioria não perde peso, só
passa o tempo todo pensando em emagrecer. Por vezes
chegam a comer menos, mas depois compensam comendo
demais; podem até perder peso, mas em breve recuperarão
tudo.
Tudo isso é muito perturbador.
Como resultado...
Seria de se supor que quem costuma fazer dieta, sem nunca
perder peso, acabasse por desistir.
Seria de se supor que todos os efeitos adversos das dietas
dissuadissem as mulheres de se lançar em novas tentativas
de emagrecer.
Seria de se supor que o tempo e a energia dispendidos
pensando constantemente sobre o que/quando/como se
come transformassem a dieta numa atividade inaceitável.
Seria de se supor que a maior parte dos que fazem dieta se
desiludissem, e que a indústria do emagrecimento fosse à
falência.
São todas suposições plausíveis, mas não são a realidade.
Entra ano, sai ano, as mulheres perseveram em seu desejo de
emagrecer. Quando uma dieta falha, tenta-se outra. Deixar
de freqüentar um clube de emagrecimento significa voltar
alguns meses depois. Sentir-se um fracasso, cansada de tudo,
viver se preocupando com comida e peso, nada desestimula
quem vive fazendo dieta. O desejo de emagrecer suplanta
qualquer dos efeitos indesejáveis da dieta.
Mas, trata-se apenas do poder da magreza?
As mulheres começam a fazer dieta porque desejam
emagrecer, e porque a magreza é associada a inúmeras outras
qualidades desejáveis. Ser magra significa ter sucesso, estar
no controle e ser atraente. Não importa que já sejam magras,
o objetivo é emagrecer mais ainda.
Mas, alcançando ou não seu objetivo, elas continuam com a
dieta. Esta adquire vida própria.

A DIETA COMO FORMA DE VIDA

Para um grande número de mulheres, a dieta se transforma
num hábito. Torna-se um passatempo e uma forma de vida.
Elas discutem o que comeram durante o dia, o que comeram
no dia anterior e o que vão comer no dia seguinte. A dieta
lhes proporciona um foco. "Você já leu o último número
de...?" "viu a história da campeã de emagrecimento em...?"
Elas fazem dieta juntas, amigas podem comparar suas
anotações e trocar idéias; podem freqüentar o clube de
emagrecimento juntas e podem até vomitar juntas.
Os clubes de emagrecimento muitas vezes assumem o papel
de clubes sociais ou esportivos. Tornam-se o lugar onde as
pessoas se encontram para conversar e fazer amigos. Todos
os freqüentadores de um clube de emagrecimento têm um
interesse e um objetivo em comum. Os clubes também
significam um local onde as pessoas podem se afastar um
pouco das pressões da vida familiar.
No mundo ocidental, as famílias estão ficando cada vez
menores, e a grande família já não é tão grande assim.
Especialmente para as mulheres que ficam em casa com
crianças, é fácil isolar-se. Um clube de emagrecimento
proporciona o lugar para se afastar das tensões da vida
doméstica, fazer novas amizades e encontrar apoio. Na
maior parte, quem freqüenta tais clubes são mulheres, e este
fato talvez reflita não só seu desejo de emagrecer, mas
também sua necessidade de apoio e amizade de outras
mulheres.
As mulheres fazem dieta porque querem perder peso, mas
continuam porque ela se torna uma forma de vida, uma
atividade social e um hábito.

A DIETA COMO UMA FORMA DE MUDANÇA

As vidas das mulheres variam enormemente. Não existem
dois indivíduos com as mesmas expectativas, as mesmas
aspirações, as mesmas lutas e os mesmos problemas. Todos
nós temos formações diferentes, histórias diferentes e
futuros diferentes, mas todos também temos algo em nossas
vidas que gostaríamos de mudar. Esta necessidade de
mudança pode variar de uma fútil vontade de ter uma nova
máquina de lavar, a um desejo de conhecer gente nova, até
um anseio desesperado por uma carreira nova e mais
estimulante. E a maioria de nós também quer mudar algo a
respeito de nós mesmos.
A lista que se segue registra o que as pessoas com freqüência
dizem a respeito de suas vidas e delas próprias. Tudo implica
em mudança. Algumas dessas mudanças são mais possíveis
do que outras, algumas constituem sonhos e outras,
objetivos. Mas são fatores importantes na forma como nos
vemos e ao nosso futuro.

Eu desejaria...
Ser rico(a)
Ter mais amigos
Ter alguém com quem conversar
Ter um companheiro(a)
Ser amado(a)
Não ter companheiro(a)
Ter um emprego
Ter um emprego melhor
Ser bem-sucedido(a)
Ter um lugar bom para morar
Ter mais tempo para mim
Ser mais atraente
Ser mais inteligente
Que as pessoas me notassem
Que meu chefe me desse valor
Poder me sustentar
Poder controlar minha raiva
Ser mais feliz
Ser mais organizado(a)
Ser mais magro(a)

Alguns desses desejos implicam alterar o que acontece ao
nosso redor; outros significam transformações em nós
mesmos, e alguns constituem uma interação das duas coisas.
A maioria envolve esforço, ajuda, apoio e um pouquinho de
sorte para se conseguir; o restante pode entrar no rol das
impossibilidades.
Qual é a relação disso tudo com as dietas? Algumas vezes,
perder peso parece ser a única coisa na vida de uma mulher
que ela se sente capaz de conseguir.
Imagine que você acorda no dia 1a de janeiro, cheia de
resoluções para o ano novo. Você decide que neste ano:

1. Vai ser promovido(a)
2. Vai encontrar "alguém" especial
3. Vai alargar seu círculo social
4. Vai ser uma pessoa mais simpática
5. Vai emagrecer

Tais resoluções, como os desejos acima, são todas difíceis de
atingir e, de um certo modo, podem estar fora de seu
controle. Você poderia pensar: "Meu chefe é quem vai
decidir se terei ou não uma promoção" e "Não posso
simplesmente resolver andar pela rua e encontrar um novo
amor", mas pode dizer: "Pelo menos posso fazer de tudo
para emagrecer."
As mulheres vivem numa sociedade que ainda é controlada
pelos homens. A mulher ganha em média 63 por cento do
salário médio de um homem. A maioria dos cargos
superiores são ocupados por homens; as profissões em que as
mulheres ainda predominam são as de professora,
enfermeira e secretária, ao passo que os homens ainda são
maioria como conferencistas, médicos e diretores de
empresas. Existem menos opções abertas às mulheres. E
difícil a mulher conseguir uma promoção porque ainda se
presume que ela deixará o emprego quando tiver seus filhos,
que não se dedica o bastante a seu trabalho, e que é menos
capaz.
Em conseqüência, as mulheres sentem que suas vidas estão
fora de seu controle. Elas podem até tomar decisões sobre
seu futuro e sua vida, mas a concretização dessas decisões vai
depender da reação da sociedade. As mulheres se
empenham em demonstrar todo o seu potencial, mas estão
sujeitas a normas sociais e a expectativas que se contrapõem
a seus esforços.
Além desses impedimentos sociais à sua auto-realização, elas
não são incentivadas a descobrir onde reside seu potencial, e
nem se espera que elas tomem as rédeas de suas vidas. O
papel da mulher sempre foi o de aceitar passivamente o que
a vida venha a colocar em seu caminho. Ela é educada para
aceitar e não contestar qualquer coisa que lhe aconteça.
Em última análise, as mulheres sentem que não têm o
controle sobre suas vidas.
E a dieta lhes oferece um meio de ao menos tentar mudar
algo. Ela representa uma maneira de retomar o controle e de
mudar um aspecto desagradável da vida. Todas nós temos
sonhos e objetivos. Se não temos condições de alcançar a
maioria deles, pelo menos podemos tratar de mudar algo:
nosso peso.

A DIETA ADQUIRE UMA VIDA PRÓPRIA

A dieta se transforma num hábito e dá uma oportunidade de
mudança e, em razão disso, também adquire uma vida
própria. A magreza acena com o sucesso, o amor, o controle
e a estabilidade, e a dieta assume todos esses aspectos.
Nós acreditamos que, se fizermos dieta, retomaremos o
controle sobre nossa vida. Sentimos que estamos fazendo
dieta por nós mesmas, e que ela é uma forma de criar uma
mudança, quando tantos aspectos de nossa vida parecem
imutáveis. Uma dieta bem-sucedida serve de compensação a
outros campos de nossa vida em que o sucesso nos foge. E
dirigir o foco para a perda de peso é uma compensação para
uma vida sem um foco.
A dieta é encarada como uma maneira de alterar não só o
peso, como também a vida. A dieta se torna um fim em si
mesma, e não um meio para atingir um fim. Embora o
objetivo inicial fosse emagrecer, este objetivo passa a ser a
própria dieta. As mulheres continuam a fazer dieta apesar
dos fracassos, porque mesmo não havendo perda de peso, a
dieta se transforma numa forma de vida e numa finalidade
em si mesma. E não existe objetivo final a dizer quão magras
devemos ser. O objetivo é ser mais magra sempre. Todas
querem ser mais magras. O processo de emagrecer é o que
constitui a dieta.

Capítulo 10
Desistindo da dieta

Nós precisamos desistir de fazer dieta. Nós precisamos parar
de querer perder peso e precisamos parar de sustentar a
indústria do emagrecimento.
É necessário compreender a razão que nos leva a fazer dieta,
e então encontrar algo em substituição. A dieta serve a uma
função, e esta função não pode simplesmente ser removida;
ela deve ser substituída.

POR QUE VOCÊ FAZ DIETA?

Por motivo de saúde

Seu peso está prejudicando sua saúde? Neste caso, talvez
você deva tentar mesmo emagrecer. Mas para a maioria dos
seguidores de dieta não é o que ocorre.

Não gosto do meu corpo

A maioria das mulheres não está satisfeita com seu corpo.
Nas ocasiões em que nos vemos num espelho, de corpo in-
teiro, totalmente nuas, examinamos criticamente cada centí-
metro, espetamos nossa carne com desagrado, encolhemos a
barriga e retesamos as nádegas. Ou então, apagamos a luz e
nos afastamos.

A seguir, damos um questionário que ressalta como somos
críticas a nós mesmas. Ele abrange cada aspecto do corpo,
não apenas o peso, e serve para demonstrar que as coisas não
são sempre como gostaríamos. Para descobrir até que ponto
vai sua crítica, assinale como você considera cada parte do
seu corpo: muito grande, muito pequena, normal; na quarta
coluna, acrescente suas próprias observações, como excesso
de pêlos, sardas, sinais, ou qualquer característica que se
aplique, pois nem sempre só o tamanho importa.

Eu acho meu/minha, meus/minhas ...
Outros

Nariz
Muito
grande
Muito
pequeno
Normal ...
Olhos
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Boca
Muito
grande
Muito
pequena
Normal ...
Bochechas
Muito
grandes
Muito
pequenas
Normais ...
Cabelos
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Ombros
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Braços
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Antebraços
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Axilas
Muito
grandes
Muito
pequenas
Normais ...
Mãos
Muito
grandes
Muito
pequenas
Normais ...
Dedos
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Seios
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Estômago/

barriga
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Nádegas
Muito
grandes
Muito
pequenas
Normais ...
Coxas

Muito
grandes
Muito
pequenas
Normais ...

Pele
Muito
grande
Muito
pequena
Normal ...
Joelhos
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Batata

da perna
Muito
grande
Muito
pequena
Normal ...
Pés
Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
Pernas
Muito
grandes
Muito
pequenas
Normal ...
Tornozelos


Muito
grandes
Muito
pequenos
Normais ...
(Em alguns casos, grande/pequeno englobam noções como
grosso/fino, longo/curto)

Você se acha crítica de si mesma? Quantos aspectos você
considerou normais? Você gosta de seu corpo? Você se
sente vaidosa dele?
Se tantas mulheres desgostam tanto de seus corpos, como
seria o corpo feminino perfeito? Quem serve de parâmetro
ou base de comparação? Se nossos corpos são imperfeitos,
em algum lugar deve existir uma mulher com tudo certinho!
Se fazemos dieta por não gostarmos de nossos corpos, então
precisamos aprender a aceitá-los e apreciá-los como são. Só
nós mesmas é que nos criticamos, ninguém mais nota que
nosso nariz é muito grande ou que nossas nádegas estão
caídas, a menos, evidentemente, que anunciemos a todos o
que achamos errado em nosso corpo. As mulheres não gos-
tam de seus corpos e acreditam que os outros também não
gostem. Muitos dos homens cujas entrevistas registrei no
Capítulo 8 declararam que, mesmo preferindo ter menos
peso, não achavam que isso fosse um problema ou que fosse
notado por alguém. Mas as mulheres transformam seus
próprios sentimentos de insatisfação com seus corpos num
problema que, no seu entender, é igualmente importante
para todo mundo. O fato de não gostarem de seus corpos é
um componente central de sua identidade, que tem
influência sobre seus sentimentos de auto-valorização.
Como, então, aprender a apreciar o que passamos tanto
tempo odiando? Uma das melhores maneiras de gostarmos
de nosso corpo é olhar para ele. O seguinte exercício pode
ajudar:
Primeiro, é preciso ter um bom espelho de corpo inteiro,
que seja fiel e não reflita uma imagem distorcida. Espelhos
que fazem você parecer maior do que é causam depressão, a
menos que você diga a si mesma: "Na realidade, eu sou me-
nor do que isto." Os que a fazem parecer menor podem ser
lisonjeiros, mas você provavelmente vai concluir: "Pareço
magra no espelho, mas sei que na verdade estou mais gorda."
Em seguida, arme o cenário. Tome um banho relaxante e se
delicie com um bom sabonete ou um novo xampu. Volte
para o quarto onde está o espelho; é melhor estar sozinha no
início, mas fazê-lo com uma amiga pode até ser mais
divertido! A luz pode ser total ou reduzida, dependendo de
como você se sentir melhor; sua música favorita pode
compor a cena, além de um copo de vinho.
Olhe-se então no espelho. Examine cada centímetro e
aprenda a olhar para as partes normalmente ignoradas ou
ocultas. A princípio, veja seu corpo de forma objetiva;
examine-o como se fosse de outra pessoa. Se você não gosta
de sua barriga, examine-a. Não desaprove, mas acostume-se
a olhar e aceitar. As coxas são, a propósito, uma região difícil
de ver por completo; vire-se e observe-as enquanto se
move. Pergunte a si mesma: "Por que não gosto de meu
corpo?", ou coisa parecida, e afaste todo julgamento
emocional. Trate de vê-lo como ele realmente é.
Agora é hora de examinar-se subjetivamente. Observe quais
as partes de que você gosta e quais as de que não gosta.
Algumas delas lhe despertam emoções diferentes? Você se
sente vaidosa de umas, e de outras não? Focalize primeiro as
"partes boas", e depois as "partes más". Verifique se existem
quaisquer diferenças reais entre as duas, ou se se trata apenas
de sua percepção.
Repita essa operação em outros dias. Note como seu humor
afeta a forma como você vê seu corpo. Nós acreditamos no
ditado: "Se você parecer bem, se sentirá bem." Mas o inverso
também é verdadeiro: "Se você se sentir bem, parecerá
bem." Quando nossos sentimentos são positivos, nossos cor-
pos podem nos parecer perfeitos e nós nos vemos com orgu-
lho. Se estamos aborrecidos, tudo o que vemos são marcas
de celulite e flacidez. Kathrin Perutz expressou tudo isso
perfeitamente em seu livro Beyond the Looking Class
(Além do espelho):
Quando estou num dia bom, posso ver meus olhos castanhos
escuros, cílios longos, uma boca sensual, pele lisa e um nariz
encantador. Num mau dia, tudo isso se eclipsa e só o que
percebo são as bolsas sob os olhos, rugas, cabelos
encarapinhados, lábios grossos e nariz achatado. Num dia
péssimo, não há quase nada para ver, exceto uma sombra de
humanidade indefensável quando desvio meu olhar. Mas
num dia magnífico, belos olhos me contemplam, cheios de
amor, humor e inteligência, (p. 173)
O que precisamos é aprender a distinguir entre nossa
percepção negativa de nossos corpos e a realidade. E
devemos gostar da realidade.
Talvez maior ainda do que o temor de examinar nosso
próprio corpo é o medo de expô-lo aos outros. Você já se
despiu diante de outra pessoa com as luzes apagadas? Ou,
deitada na cama com seu companheiro, você pensa em en-
colher a barriga ou esconder suas coxas? Ou talvez você des-
cobriu que na praia certas posições são inconcebíveis?
Na Inglaterra, é muito raro as pessoas exporem seus corpos
diante de outros. Na maior parte do ano, vive-se sob a
proteção de camadas de roupas que disfarçam e escondem
uma porção de defeitos. Quando se tira a roupa, o mais
comum é que seja na privacidade do lar, e apenas diante de
pessoas em quem se confia. Presumimos que todos os outros
serão tão críticos de nossos corpos como nós mesmos, pois
não há nada que indique o contrário. Se ninguém nunca nos
vê sem roupas, como podemos saber se nossa aparência será
criticada?
Já durante as férias, a coisa muda de figura. Recentemente,
estive no sul da França. No começo, ficava na praia olhando
para meu corpo branco, que parecia em estado de choque
por estar sendo tão exposto. Deitava-me de barriga para
cima, porque só queria mostrar meu lado mais favorável, e
me vestia de novo para ir almoçar. Então percebi que estava
rodeada por pessoas quase nuas, de todos os tipos e tama-
nhos, algumas mulheres em biquínis perfeitamente
ajustados, outras com as carnes estourando por todos os
lados, e parei de me preocupar. Em mais alguns dias, eu já
estava completamente feliz. Em férias, a maioria das pessoas
esquece seus cuidados. Existem muitas outras coisas para
fazer e para aproveitar. E no momento em que vemos nossa
carne nua exposta ao mundo, sem que ninguém critique, ou
desmaie de susto, ou desate a rir, compreendemos que não
temos o que temer e que podemos seguir adiante.
Mas esta sensação muitas vezes se esvai quando voltamos
para casa. Como, então, aprender a aceitar que os outros ve-
jam nosso corpo? Eis algumas sugestões:
Para começar, tente o exercício do espelho descrito
anteriormente, junto com mais alguém. Uma amiga pode
tornar a coisa mais divertida, e um companheiro acrescenta
um elemento de excitação. Os corpos então serão
comparados e cada um apontará ao outro as partes de que
não gosta. Eu me lembro de uma ocasião, ainda na faculdade,
quando me preparava para sair com um grupo de amigas e,
enquanto nos vestíamos, uma delas de repente exclamou:
"Deus, como detesto os bicos dos meus seios, são tão
pequenos!" Começamos então a comparar nossos bustos, e
cada uma parecia ter suas queixas pessoais, mas ninguém
conseguia entender o motivo da preocupação das outras.
Viu-se que os mamilos pequenos eram quase do mesmo
tamanho que os das outras, e que todas tínhamos pelo
menos alguns pêlos crescendo ao seu redor! E muito raro
que mulheres vejam os corpos de outras, a menos que
estejam vestidos e encobertos. É muito fácil acreditar que
você é diferente de todo mundo, porque não há ninguém
para servir de comparação. A simples exposição é a maneira
mais fácil de compreender que mesmo o corpo
aparentemente mais perfeito é bem semelhante ao seu pró-
prio corpo.
Outra técnica é tentar andar pela casa sem roupas.
Acostume-se a ficar nua enquanto assiste televisão ou
prepara o jantar. Não tenha pudor de entrar em provadores
coletivos de lojas e de ir nadar numa piscina pública.
Aprenda a sentir-se confiante em sua aparência, e entenda a
reação das outras pessoas com relação a você. Se seus
sentimentos sobre seu corpo forem positivos, os outros
também responderão de forma positiva. Examine suas
próprias reações a respeito dos outros. Você não nota a
flacidez das outras, então por que estariam elas interessadas
na sua?
Como já dizia Oscar Wilde, "amar-se a si mesmo é o prin-
cípio de um longo romance". Como mulheres, devemos
parar de nos criticar e colocar nossos corpos em perspectiva.

Se eu fosse mais magra, tudo seria melhor

As pessoas fazem dieta para emagrecer e acreditam que ser
mais magra é a forma de fazer a vida melhor.
Ser magra tem muitos significados além de simplesmente
pesar menos. Para identificar o que ser magra significa para
você, responda ao questionário a seguir, assinalando a
alternativa que melhor se aplique ao seu caso:

Quantas vezes você já pensou: Se eu fosse mais magra...



Seria mais feliz
Seria mais atraente
Seria mais popular
Seria mais confiante
Seria mais eficiente no trabalho
Teria mais sucesso
Seria mais sociável
Eu me sentiria mais no controle
Poderia mostrar a todos que tenho força de vontade
Eu me sentiria mais positiva


Conte um ponto para cada "nunca", dois pontos para "algu-
mas vezes", e três para "freqüentemente", e some tudo. A
maior contagem possível é trinta, e a menor, dez.
O questionário ilustra como é importante ser magra e
quantas outras mudanças você espera que a magreza lhe tra-
ga, além de simplesmente pesar menos. Uma contagem mui-
to alta indica que você espera muitas transformações.
Se você faz dieta porque sente que o fato de ser magra traz
soluções para muitos dos problemas de sua vida, então é
necessário que você coloque a magreza na devida proporção.
Se você pensa que, sendo mais magra, poderá mudar sua
vida, combata esses pensamentos.
Isto não é fácil, pois a associação entre a magreza e uma vida
feliz é intrínseca à nossa percepção de nós mesmos.
Contudo, com um certo grau de esforço e dedicação é possí-
vel perceber como tal associação é ridícula.
O exercício descrito a seguir visa demonstrar como é pos-
sível dissociar a magreza de todas as outras qualidades
supostamente a ela relacionadas.
Pense em tudo que você seria capaz de realizar ou sentir, se
pesasse menos. Para tanto, imagine-se como você é agora e,
em seguida, como seria se fosse mais magra, e procure ava-
liar qual seria a diferença. Faça uma lista dessas diferenças e,
ao lado de cada uma, escreva todas as razões possíveis para
que não seja assim.
Em seguida, damos uma lista de alguns dos possíveis
significados de ser mais magra, e a razão porque a magreza
não deve ter tal significado.

Magreza e atração

Acreditamos que se apenas fôssemos mais magras, seríamos
mais atraentes. Mas, que ponto de magreza devemos atingir
para, de repente, nos tornarmos atraentes? Afinal de contas,
a maioria das mulheres que fazem dieta já são consideradas
magras por todos os outros; mas elas ainda sentem que
emagrecer mais pode ser uma vantagem. A dieta faz você se
sentir infeliz, preocupada com comida e com peso, e um
fracasso — e nada disso é uma qualidade que denote atração.
Quem não consegue resultados na dieta pode se sentir inútil
e sem força de vontade. A atração vem do fato de você
gostar de si mesma e de apresentar ao mundo exterior uma
pessoa que inspire estima. Em lugar de aumentar, a dieta di-
minui sua atração.
E se você conseguir perder peso, isto a fará mais atraente?
Qual será o peso ideal, ou você continuará achando que se
pudesse ser um pouquinho só mais magra, seria ainda mais
atraente? Observe as pessoas ao seu redor. Serão as magras
mais atraentes? Suas amigas mais magras se sentem mais
atraentes? A atração tem a ver com o uso de seu corpo de
uma maneira positiva e com o fato de você se sentir
confiante em seu corpo. Simplesmente ser mais magra não
proporciona tudo isso, mas sua atitude para consigo mesma,
sim.

Magreza e sucesso

Ver a perda de peso como o caminho para o sucesso é algo
frustrante em si mesmo. Tentar fazer dieta abala quaisquer
sentimentos de sucesso, uma vez que perder peso é tão difí-
cil. A dieta está associada a sentimentos de fracasso que se
expandem para outras áreas de sua vida. E sentir-se um
fracasso não é a melhor forma de ter sucesso. Tentativas
repetidas de fazer dieta podem contribuir para uma baixa
auto-estima, o que irá atuar para impedir o sucesso. Por que
perder tanto tempo tentando emagrecer e sentir-se mal
quando isto não ocorre? O sucesso da dieta é muito difícil,
então por que escolher a perda de peso como campo para o
sucesso?
E se você conseguir perder peso, isto fará com que tenha
mais sucesso? Ou você estará simplesmente mais magra?
Magreza e felicidade

A mensagem de que magreza é felicidade nos é imposta,
portanto, tentamos ser magras. Qualquer que seja o peso que
tenhamos, queremos ficar mais magras ainda. Mas
emagrecer é difícil, causa depressão, e pode se transformar
numa triste forma de vida. Se nunca chegamos a alcançar o
objetivo de emagrecer, ficamos constantemente
desapontadas e aborrecidas conosco. E desapontamento e
aborrecimentos não fazem ninguém se sentir feliz. Mesmo
que se alcance o peso desejado, pessoas magras não são mais
felizes do que as mais gordas, porque ainda querem ser mais
magras.
A felicidade implica em gostarmos de nós mesmas e não
estarmos sempre nos criticando; implica em nos sentirmos
seguros e no controle e orgulhosos do que temos a oferecer.
A dieta representa o oposto. Tentar emagrecer cria um
estado de constante autodesaprovação, é uma tarefa difícil e
gera uma visão negativa de quem somos no presente,
enquanto procura mostrar o que poderíamos ser num futuro
ilusório.

Magreza e controle

Sempre nos dizemos: "Se eu ao menos pudesse controlar
meu peso, seria capaz de controlar minha vida." Mas o peso
se controla a si mesmo, e se regula em torno de um ponto
fixo, razoavelmente estável. A dieta impõe uma forma
antinatural de controle sobre algo que se auto-regula. A
constante tentativa de comer menos, algumas vezes
conseguindo e outras levando ao excesso de comida, destrói
este controle e pode deixar a pessoa que faz dieta com
menos controle do que tinha antes de começar. À curto
prazo, a dieta pode proporcionar uma estrutura, mas, a longo
prazo, a tentativa de limitar a quantidade de comida pode
criar o caos. E o fato de sentir-se fora de controle na
alimentação pode se generalizar para outras áreas de sua
vida. Tentar emagrecer viria a destruir, e não aumentar, seu
senso de controle.
Portanto, se chegarmos a compreender por que fazemos
dieta, e pudermos encontrar algo para substituí-la, será
possível abandoná-la.

A VIDA SEM DIETAS

Como seria a vida sem dieta?
Suponha-se não fazendo dieta. Imagine qual seria sua
aparência e como se sentiria. Você está gorda e feia, e se
sente infeliz?
Abandonar a dieta é como largar um vício; é difícil visualizar
a vida sem ela. A sugestão para que as pessoas parem de fazer
dieta muitas vezes provoca reações bem fortes. Ao longo de
meu trabalho, encontrei inúmeras pessoas que criticavam
minha crença de que a dieta é autodestrutiva. Considero
oportuno reproduzir aqui alguns destes comentários, e
demonstrar quantas destas críticas se baseiam nos mitos que
envolvem as dietas, e que não têm fundamento em fatos.
"É fácil para você dizer 'não faça dieta', mas eu me sentiria
mais feliz se fosse mais magra." Esta mulher associa a dieta
com magreza, e magreza com felicidade. Em primeiro lugar,
na maioria das vezes a dieta não faz a maioria das pessoas
emagrecer e, em segundo, o fato de ser mais magra não faz a
maioria das pessoas felizes.
"Você está bem, não é gorda, mas eu preciso continuar a
fazer dieta." Primeiramente, esta mulher pressupõe que só as
pessoas gordas fazem dieta. Mulheres de todos os tipos e
tamanhos fazem dieta, pois perto de 90 por cento delas se
acham mais gordas do que desejariam ser; a dieta é motivada
pela gordura percebida, e não pela gordura real. Em segundo
lugar, ela acredita que se continuar com a dieta, emagrecerá.
A dieta envolve pensar em emagrecer, mas não
necessariamente consegui-lo. Basta considerar o pequeno
número de pessoas que têm êxito em sua dieta, para
entender que esta não significa perder peso.
"Se eu não fizesse dieta, eu seria enorme." Para esta, a dieta
evita que as pessoas engordem demais. Algumas conseguem
limitar a ingestão de alimentos continuadamente e por
longos períodos, de forma a manter seu peso abaixo dos
limites naturais. Se estas pessoas voltassem a comer as
mesmas quantidades que Comiam antes de começar a dieta,
provavelmente engordariam devido à diminuição de sua taxa
metabólica. Contudo, a maioria dos que fazem dieta não
come menos de forma geral, mas oscila entre fases de pouca
comida e outras de comida em excesso. O que fazem é
apenas pensar em comer menos. Neste caso, se parassem de
fazer dieta, não iriam engordar, mas deixariam de se
preocupar com comida e de se sentir infelizes.
Desistir da dieta é um passo positivo. A dieta não vai fazê-la
mais magra, mais feliz, controlada ou bem-sucedida, então
por que continuar?
Quais são os benefícios de não fazer dieta?

Aceitação

Parar de fazer dieta significa que você pode se aceitar pelo
que é agora, em lugar de esperar que alguém melhor surja no
futuro. Significa que você pode se orgulhar de si mesma e
não mais ter que fazer infindáveis comparações com
modelos mais magras e mais bonitas. Conforme diz Anne
Dickson em seu livro The Mirror Within (O espelho
interior), tais comparações são:

Um processo tão automático que por vezes esquecemos de
nos perguntar — muito grande/pequeno/curto, para quem?
Conscientes da necessidade de certos pontos de atração,
comparamos estes fragmentos com as modelos da mídia, em
geral sem pensar em ninguém em especial, e nos
classificamos em fragmentos e em face de algum ideal
interior.

Pare de fazer dieta e você poderá deixar de fazer essas
comparações críticas. O que passa a importar é você no
presente, e a diferença entre o que você é e o ideal futuro
pode ser esquecida.

Liberdade

Parar de fazer dieta significa libertar-se de pensar em
comida, sonhar com ela e privar-se de comer. Significa que
você pode sair para jantar quando quiser, e participar
animadamente de reuniões sociais. Parar com a dieta
significa comer as mesmas coisas que c resto da família e não
mais ter que preparar duas refeições diferentes. Significa
liberdade de preencher seu tempo com outros interesses. O
tempo não precisa mais ser gasto com o planejamento de
dietas e com a leitura de livros especializados, mas pode ser
aproveitado para todas as outras coisas boas que há para
fazer.

Confiança

Parar de fazer dieta significa que você não terá mais que
enfrentar desapontamentos, sentimentos de fracasso e
depressão. Você não precisará mais impor-se metas
inatingíveis, que só trazem culpa e uma sensação de
fraqueza. Sua confiança e auto-estima crescerão quando
você deixar de se atormentar o tempo todo com auto-
desaprovação.

Comportamento alimentar

Seu comportamento alimentar mudará. A dieta provoca
alterações em todos os fatores que constituem a alimentação.
Tentar comer menos provoca: depressão, que leva a comer
para melhorar o ânimo; preocupação com comida, que leva a
pensar nela e, portanto, a comer mais; preocupação com o
peso, que leva a comer como compensação quando não se
perde nada; sentimento de perda de controle e, em
conseqüência, oscilações entre comer de menos e comer de
mais; sentimento de privação e aumento da ânsia de comer;
transformação de certos alimentos em iguarias, o que os faz
mais desejáveis e, assim, mais consumidos.
O objetivo da dieta é fazer comer menos, mas,
paradoxalmente, pode levar ao excesso de comida. Quando
se desiste da dieta, este problema desaparece. No início,
talvez você coma para sentir a recém-descoberta liberdade
de não estar em dieta, mas gradualmente a comida deixará de
ter um papel importante em sua vida. Pare de fazer dieta e
você pensará menos na comida. Você comerá quando
estiver com fome, e não quando seu anseio por comida se
tornar forte demais para ser ignorado. Você não desejará
devorar pratos cheios de doces e alimentos altamente
calóricos, porque, sabendo que pode comê-los a qualquer
hora, eles perderão a atração do proibido. Quando se está em
dieta, imagina-se como seria maravilhoso ter tortas de creme
todos os dias, mas na realidade isto se tornaria enfadonho.
Pare de fazer dieta e comer se tornará menos importante
para você.
Pare de fazer dieta e siga sua vida apreciando todas as outras
coisas que ela nos oferece.





---------------------
Edgar Madruga
http://groups.google.com.br/group/bons_amigos
Salvador/BA


 
 
Lançamento Gênesis do Conhecimento
A Vez do Gordo - Desfazendo o Mito da Dieta - Jane Ogden
 
 
 
links ao final da mensagem
 
 
 
digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia
Agradecimentos a Cláudia Lamarão pela doação do livro para o Memorial do Conhecimento
 
 
 
Sinopse:
 
Por que tantas pessoas passam a vida fazendo dieta? E por que tão poucas chegam a perder peso?
Perto de 70 por cento das mulheres se submetem a dieta em alguma época de suas vidas. Muito poucas perdem peso e menos ainda conseguem se manter magras. Qual é o motivo? Neste livro polêmico, Jane Ogden explica porque as dietas não funcionam e afirma que ninguém tem culpa se não consegue perder peso - acima de tudo, diz ela, o melhor é parar com as dietas e oferece uma alternativa - não uma pílula mágica para se perder peso, mas uma forma de ficarmos bem conosco e pararmos de pensar que, se nos sentimos gordos, é porque devemos estar gordos.
 
Jane Ogden (PhD) é professora de Psicologia na Middlesex Polytechnic.
 
 
 
 
 
 
 

PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento:

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