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Lançamento Gênesis do Conhecimento - O Filho da Serpente Alada - Mervyn Eagle


MERVYN EAGLE

O Filho da Serpente
Alada
Os Caminhos de um
Iniciado

Tradução
Antônio Trânsito

Cone Editora
1999


Esclarecimentos

A autora afirma que a civilização chamada Tolteca foi apenas
uma remanescência degenerada da verdadeira cultura
Tolteca, que alcançou seu apogeu há muitas centenas de
milhares de anos. O mesmo é verdadeiro com os maias,
incas e astecas, todos eles com raízes na civilização Atlante,
que atingiu a glória e a subseqüente destruição há mais de
400 mil anos. A civilização atlante era muito similar à nossa,
surpreendentemente, e as causas que levaram à sua queda
estão hoje tão ativas em nossa civilização moderna quanto
estiveram naquele remoto passado primordial.
Por trás de grandes construções, igrejas, quartéis e imensas
indústrias da maior parte das cidades modernas distinguem-
se nítidos os pensamentos-formas de outras construções há
muito transformadas em pó, que ali estiveram uma vez e ali
estão de novo, tendo-se projetado, às vezes no mesmo lugar,
induzindo seus construtores a reconstruí-las de acordo com
padrões há muito esquecidos, se bem que ainda claramente
perceptíveis no mundo invisível.
O mesmo acontece com pessoas, governos, raças,
movimentos coletivos, grupos, revoluções e guerras. Há, por
assim dizer, uma espécie de "reencarnação" ou
reincorporação de eventos, assim como de pessoas e coisas,
uma por vezes causando a outra.
Todos os atos, uma vez executados, todos os pensamentos
uma vez pensados compelem-nos a repeti-los, estabelecendo
um hábito.
Os primeiros pensamentos-formas por nós criados na
Atlântida tinham um poder muito maior que qualquer coisa
chamada à existência desde então pela mente humana; esses
pensamentos-formas adiantam-se a cada vez que desejamos
fazer algo diferente, original, algo não atado ao passado ou ao
futuro, a ações ou sensações passadas ou futuras, por mais
gloriosas que sejam.
Nosso pensamento, nossa cultura, nossa educação,
sentimentos, hábitos, nosso modo de governar, nossos
divertimentos estão se tornando mais e mais coletivos,
massificados e controlados... e é justo nesse aspecto que a
nociva influência de nosso passado atlante mais se faz sentir,
compelindo-nos a seguir certos caminhos predeterminados.
Essa influência trabalha em especial a partir e sobre o
subconsciente — o nosso próprio, o de nossos líderes,
religiosos e governantes —, sendo percebida de forma clara
na criação de movimentos de massas, em todas as coisas
feitas e construídas coletivamente — tudo pelo assim
chamado bem coletivo, pois o que foi criado em Aztlan
assim o foi, mal existindo então a linha divisória entre o
individual e o coletivo, ainda menos que agora.
O subconsciente é o passado esquecido, ignorado, e quanto
mais fundo o sondamos, tanto mais perto chegamos de
pensamentos-formas e hábitos extremamente antigos e
incrivelmente poderosos. Os líderes, cientistas, idealistas,
políticos e ditadores da época atual acabam invariavelmente
por se encontrar face a face com essas formas e quase
sempre saúdam esses fantasmas do passado como guias e
seres inspiracionais, mensageiros divinos, deuses, mestres ou
coisas semelhantes, ao invés de conhecê-los pelo que são na
verdade e assim libertar-se de sua influência.
Se já não é muito fácil nos elevarmos acima, ou melhor,
reabsorvermos as limitações (pensamentos-formas) por nós
criadas durante nossa vida presente, uma época que ainda
podemos relembrar e investigar, imagine-se como deve ser
muito mais difícil fazer o mesmo com impulsos e hábitos
que têm suas raízes num passado remoto, a ponto de
estarmos inteiramente inconscientes das mesmas.
O subconsciente é como um filme de nosso passado, do
passado de toda a humanidade desde o momento de sua
aparição nesta Terra. E através da "liberação" desse filme,
deixando-o assomar à superfície de nosso ser e dando-nos
conta de sua tremenda significação seremos capazes,
finalmente, de morrer a todos os nossos hábitos e memórias
antigos.
O que chamamos História é apenas uma imagem fiel da
manifestação do subconsciente coletivo, repetindo
incessantemente tudo o que já foi pensado, sentido e feito
antes, impedindo-nos de criar o novo.

Prólogo

Estivera seco por muito tempo — um tempo longo demais
—, por muitos meses cansativos. A poeira vermelha havia
coberto indistintamente amigos e inimigos, sufocando as
gargantas dos combatentes, tingindo rostos suados, irritando
olhos cansados, cobrindo ferimentos abertos, alimentos e
homens tombados.
Mas agora — um sinal, um sinal certo, gritaram alguns, agora
que a grande batalha terminara e um novo rei havia tomado
o lugar do antigo, agora que o Exército Rebelde marchava
pelas largas alamedas da Cidade, agora que as pessoas estavam
voltando às suas casas, hesitantemente, mas ainda assim,
voltando, agora começara a chover.
Um sinal seguro clamavam alguns — de felicidade
duradoura, de prosperidade por acontecer, de paz e bem-
estar sob o novo governante. É certo que as pilhagens ainda
estavam em curso aqui e ali e as casas — tão bonitas e
imponentes — ainda queimavam. E que nos arrebaldes da
cidade, os rebeldes e alguns membros desgarrados do
Exército Legalista ainda se engalfinhavam em esporádicas
escaramuças. Mas o pior havia passado e acabado. E
começara a chover.
Era muito óbvio para todos que por um longo tempo ainda
não se poderia contar mais com autoridades. Os que estavam
no poder, ontem, haviam fugido, e quem podia ter certeza
sobre o futuro? Era melhor aquietar-se por algum tempo e
observar as coisas. Apenas o camponês, vendo as gotas claras
e limpas encharcarem sua terra quente, sentindo o vento
úmido chicoteando seu rosto e olhando nos longos e
faiscantes olhos do trovão, apenas o camponês podia estar
certo, certo do despertar da semente para o abraço úmido da
terra escura, certo do crescimento dos brotos verdes e novos
nos dias por vir.
O novo governante? O que se sabia dele? Os rumores eram
inúmeros e contraditórios como sempre — e, no fim, ficava-
se tão cansado de rumores... Um grande estadista, general
brilhante e devotadíssimo sumo sacerdote, premiando
generosamente os fiéis e obedientes admiravam alguns.
Homem cruel, pessoa intolerante, perversa e desumana,
perseguidor incansável de seus adversários, suspiravam
outros.
Já o velho rei Rahazz, o antigo soberano..., mas era inútil
recordar o que havia passado, o que havia ou não havia sido
o homem que naquele exato momento estava fugindo para
salvar a vida, se já não estivesse morto. Havia perdido a
batalha e ponto final. A vida continuava, era preciso comer e
trabalhar. Melhor olhar em direção ao futuro, seguir seu
próprio arbítrio e ajustar-se. Ajustar-se, adaptar-se e assim
sobreviver.
Quando os soldados vinham saquear a casa do camponês ele
nem sequer se dava o trabalho de contar quantas vezes isso
havia acontecido antes, este sempre se escondia. É claro que
não eram todos maus, alguns até eram decentes, em especial
os camponeses ou filhos de camponeses. Estes costumavam
tentar — sempre — evitar o solo recém-arado e em geral
envergonhavam-se quando os outros vasculhavam sua casa à
procura de bens e alimentos.
O camponês via tudo aquilo de onde se escondia, sem
desperdiçar energia para enfurecer-se, não desejando de
modo algum fazer uma exibição de valentia e indignação de
si mesmo. Mesmo aqueles portadores de violência e
destruição tinham de deixá-lo em paz no final. Tinham de
fazê-lo se queriam continuar comendo. E mais tarde,
inspecionando a casa quase vazia, sempre ficava contente ao
descobrir que não haviam — nenhum deles até agora —
descoberto as preciosas sementes e as gordas batatas
castanho-avermelhadas prontas para o plantio. Enquanto o
rico grão estava ali e sua terra continuava sendo sua terra,
nada mais importava. A semente era a renovação, a vida
eterna, a terra era vida e permanência — tudo o mais
passaria por fim.
Quando soube que a guerra havia terminado, sido travada a
última batalha — coisa que sentiu muito antes de ser
informado a respeito —, nem sequer continuou prestando
atenção aos grupos de soldados cansados que passavam. Ao
menos não enquanto os via cambaleando em direção à
capital... e a maior parte se dirigia para lá. Havia chovido e a
terra estava esperando. Isto era mais urgente que a guerra.
Assim, quando um grupo de derrotados, numa retirada
rápida e silenciosa em direção às montanhas do norte, surgiu
de repente ao crepúsculo, não encontrou tempo para se
esconder. Ficou parado com ar miserável enquanto se
aproximavam, dizendo-lhes:
— É inútil, senhores, muitos outros já estiveram aqui antes
de vocês.
Sem responder, o comandante deu a seus homens ordens de
vasculharem a casa e fez sinal ao camponês para que o
seguisse. Dentro, quando as lâmpadas foram acesas, a
claridade revelou com nitidez o ar faminto dos rostos
magros, o duro cansaço em olhos irritados. O comandante
estava seriamente ferido, um horrível corte desde o pulso ao
longo de todo o antebraço, coberto apenas em parte por uma
bandagem ensangüentada.
Um cavalheiro idoso em roupas civis, de maneiras suaves e a
quem demonstravam muito respeito, estava com eles, notou
o camponês, enquanto a outra metade de sua mente
mantinha-se acompanhando ansiosa os soldados que
revistavam a casa. E desta vez encontravam seus grãos e suas
lindas batatas. Com alegria chamaram o oficial para que
viesse ver o feliz achado.
Quando o homem voltou, as mãos cheias do rico milho
amarelo, para mostrar ao homem quieto, o camponês perdeu
o controle.
— Não, senhor, não o milho... não as batatas — gritou,
precipitando-se para o homem. — Como posso plantar sem
elas?
O comandante ferido agarrou sua garganta com a mão sã e
rugiu:
— Não ouse! Fique satisfeito por não o matarmos por
esconder o alimento de nós. Homem, não comemos há três
dias!
Então, aí estava, pensou o camponês. Haviam chegado
mesmo a isso. Mesmo o grão lhe seria tirado agora. Aquilo e
suas maravilhosas batatas. E, sim, talvez até sua vida.
— Deixe-o, Zenhar — disse o velho atrás dele, numa voz
cansada. — E não toque nas sementes. Isso, ao menos, deve-
se deixar para ele.
O camponês achou que nunca mais veria o desespero e a
fome crua e selvagem que viu então nos olhos azuis que
fixavam o mais velho. E, no entanto, sem dizer nada, o
comandante soltou-o e abriu as mãos, deixando o milho
escorrer para o chão.
— "Ele tem muita autoridade", pensou o camponês,
imaginando se aquela autoridade seria suficiente para
dominar a fome daqueles homens violentos.
— Perdemos a guerra, meu rapaz. E preciso perder também a
honra?
Ríspida e rápida veio a resposta:
— Já não perdemos muito dela, do modo como invadimos
esta
casa?
— Até hoje sempre pagamos pelo que tomamos. Mas essas
sementes não podem ser pagas com ouro.
Curioso, esquecido do medo, o camponês perguntou:
— E fazendeiro também, senhor?
— Isso fui... até bem pouco tempo atrás — o sorriso não
mostrava amargura ou frustração. —Todo o Aztlan foi meu
para lavrar, até há bem pouco tempo.
Depois que partiram, o camponês ergueu-se muito devagar
do local onde se deixara cair de joelhos sobre o milho duro
espalhado. Embora fosse para com sua terra a única lealdade
que conhecia, a grandeza humana merecia uma reverência,
mesmo num soberano derrotado.

Personagens

Aztlan
O mesmo que Atlântida.
Rahazz -
Ex-rei de Aztlan, iniciado nas ciências
ocultas.
Ruan -
Príncipe herdeiro do trono de Aztlan, filho
de Rahazz.
Yahali -
Rei de Aztlan, Sumo Sacerdote das Trevas.
Tlatli
Conceituada vidente da época.
Tchamar
Feiticeiro de Yahali.
Tcoabal -
Senhor dos Morcegos.
Zenhar -
Comandante do Exército de Rahazz.
Nehazz -
Aristocrata de Aztlan.
Sheon-La-
Amor de Ruan.
Tzal
Cão-lobo de Ruan.
Bäar -
Coronel do exército de Yahali, apaixonado
por Sheon-La


Vanzaj -
Jovem atlante.
Lyanta -
Filha de Tchamar.
Vrina -
Brigadeiro, que após a queda de Rahazz,
serviu a Yahali.


Litosê -
Esposa de Vrina.
Zoar -
Capitão da guarda pessoal de Yahali.
Dizan -
Guerreiro fiel a Rahazz.
Desh
Soldado do exército de Yahali, descendente
do povo Elfo.


Beres -
Administrador das terras de Vrina, pai de
Desh.
Caman -
Soldado, amigo de Desh.


Capítulo I

"...então a Quarta Raça cresceu com orgulho. 'Somos os
Reis', diziam, 'somos os Deuses'..."
(Do Livro de Dzyan)

Quando Vanzaj viu seu perseguidor despencar para dentro
do rio aos uivos, não desperdiçou mais nenhum instante,
fugiu, após uma rápida espiada por sobre o ombro para
entrever seus inimigos que corriam com os braços oscilando,
gritando com selvageria. Eram oito contra um, e todos
armados — uma desvantagem grande demais para seu gosto.
Assim, continuou fugindo, com esperança de ser mais
rápido. Quando notou que seus gritos estavam ficando mais
afastados, olhou para trás mais uma vez e caiu numa valeta.
Torcera o tornozelo. Seus perseguidores, notando o esforço,
tomaram novo fôlego e dobraram o empenho.
Amaldiçoando-se, Vanzaj continuou aos tropeções.
Alcançou as primeiras casas da cidade e, através de uma
cerca viva alta e espessa, rodeando um jardim semelhante a
um parque, notou a cintilação de algo muito conhecido.
Com o impulso da última energia, desapareceu através do
portão prateado, coberto de hera.
— Deve estar escondido em algum lugar por aqui — disse um
dos homens que o perseguiam, ofegando e apontando para o
objeto cintilante pousado sobre o gramado. — Vamos dar
uma olhada.
Os outros, com as armas em punho, correram para o
pequeno aparelho semelhante a um bote.
Olhando para o interior do aparelho, aquele que falara
deixou escapar um grito de espanto. E dirigindo o olhar para
as amplas janelas abertas da bela mansão semi-oculta por um
grupo de altos pinheiros, recuou. Seu amigo espiou por sobre
seu ombro, e perguntou com surpresa:
— Qual é o problema? Do que está com medo? E apenas uma
moça adormecida. Quem sabe, talvez seja até mesmo uma
cúmplice daquele sujeito. Vamos acordá-la. Talvez esteja
apenas fingindo dormir... Vamos tratar de lhe fazer umas
perguntinhas.
Mas o primeiro homem empurrou-o para trás, com irritação:
— Idiota! Você não a conhece? É a filha de Tchamar. Você
não pensaria em interrogar a filha do Primeiro Ministro,
pensaria? É aqui que ela mora. Ela jamais sonharia em ajudar
um rebelde. E provável que tenha escapado pela cerca viva e
ganhou a estrada enquanto viemos procurá-lo aqui.
Seu companheiro, empalidecera à menção do nome de
Tchamar. Vanzaj, erguendo-se ligeiro de onde estivem
escondido, alcançou o aparelho com alguns largos passos.
Levantando o domo transparente, saltou rápida e agilmente
para dentro, procurando pelos controles. A força liberada
ergueu a nave para o ar em poucos segundos. Os soldados,
alertados pelo barulho, voltaram-se no mesmo instante,
tentando alcançá-lo com grandes saltos. O que vinha na
frente tocou o aparelho num esforço desesperado, mas não
conseguiu agarrar-se por questão de centímetros e caiu para
trás, praguejando.
Ao alcançar uma altitude mais segura, Vanzaj inclinou-se e
viu todos correndo exasperados de um lado para outro,
sacudindo os punhos e berrando obscenidades.
Sorriu e suspirou com alívio. Ainda sorrindo, fixou a atenção
no manejo do aparelho, perguntando-se o que fazer e para
onde dirigir-se.
Uma voz calma ouviu-se atrás dele:
"Estamos sendo seguidos".
A nave, de súbito deixada a si mesma, deu um mergulho
inesperado. Vanzaj voltou-se num repente e engasgou. Ela
estava sentada com as costas eretas e parecia muito divertida.
Era jovem e também bastante adorável, com uma massa de
cabelo castanho-avermelhado caindo até a cintura e uma
pele macia e clara.
— Bem?! Como vai você? — continuou ela, sorrindo. —
Seria demais perguntar por que me raptou? E em minha
própria nave? Estou certa de que não nos encontramos
antes, ou estarei enganada?
Olhando-o intrigada, pensou nos rapazes que conhecia e nos
poucos entre eles que seriam capazes de um feito
semelhante a esse. Deixou os olhos percorrerem o rosto
aberto e honesto, o corpo forte e bem proporcionado e as
mãos muito hábeis. Então concluiu, pensativa:
— ...E acho que isso é uma pena. Devíamos ter-nos
conhecido há muito tempo...
Finalmente Vanzaj conseguiu balbuciar algo coerente:
— Raptada? Eu não... não tinha a menor intenção de fazê-lo.
Nem sequer a havia notado. Por que eu deveria querer raptar
alguém?
Alguma coisa dura atingiu o veículo com muita força, quase
fazendo com que este emborcasse. A moça gritou e Vanzaj
fez o aparelho recuperar o equilíbrio com certa dificuldade.
— É outra nave! — avisou ela. — Tenha cuidado ou acertarão
da próxima vez!
Mas não houve segundo ataque. O inimigo, pilotando um
aparelho muito maior, foi avisado que a filha de Tchamar se
encontrava com o fugitivo.
— Estão voltando — comentou a moça.
Viram o piloto descrever uma curva e pousar em seguida.
— Mas por quê? — Vanzaj estava intrigado. — Por que, em
nome do céu, estão voltando agora que quase me haviam
agarrado? Isto não faz sentido... — Lembrou-se de que a
garota quase havia encontrado a morte por sua causa e
continuou: — Vou voltar agora. Na verdade não tenho o
direito de arrastá-la comigo, pondo sua vida em perigo.
Ela o estava observando.
— Quanta galanteria e quanta tolice de sua parte. Isso
significaria o seu fim, não é? Não, não irei voltar, é melhor
pensarmos em outra coisa.
Vanzaj, não sabendo o que dizer, ficou em silêncio depois
disso. Notara que o pequeno veículo fora danificado pelo
ataque e estava ficando pesado em suas mãos. Talvez
irrompera um vazamento numa das tubulações — estava
puxando para baixo e para a esquerda agora. Decidiu
procurar por um lugar adequado para aterrissar.
Sobrevoaram por algum tempo um terreno montanhoso e
densamente coberto de floresta. Encontrou, por fim uma
pequena clareira oblonga, rodeada de altas árvores. Baixou
com lentidão, tentando manter o aparelho nivelado, até que
pousaram sobre o chão seco, com apenas um leve solavanco.
Depois de ajudá-la a desembarcar e quando se encontravam
parados lado a lado, disse:
— Realmente, sinto muito. Não a havia notado... estava
ocupado demais fugindo de um destino muito desagradável...
— interrompeu-se, não sabendo o que mais dizer, bem
consciente da proximidade dela.
A jovem encolheu os ombros.
— Bem, não há nada a fazer, de qualquer modo. Melhor
esquecermos e nos tornarmos amigos — estendeu-lhe a
mão. — Meu nome é Lyanta.
— O meu é Vanzaj — ele pareceu aliviado, depois franziu a
testa novamente: — A nave está avariada e não posso
consertá-la aqui.
— Imaginava isso. Nesse caso, será melhor começarmos a
andar para encontrarmos refúgio. E, enquanto isso, poderá
contar-me por que estava sendo seguido pela metade do
exército.
— Pura coincidência — ele amarrou a cara. — Nem sequer
fui heróico. Aconteceu-me por acaso entreouvir uma
conversação numa taberna. Alguns sacerdotes estavam
discutindo um plano para destruir os últimos remanescentes
dos homens de Rahazz em seu esconderijo nas montanhas.
Tribos pequenas, mas fortes e muito rebeldes estão
protegendo-o, como todos sabem. Eles construíram um belo
templo e a influência que está emanando daquele lugar é tal
que o Rei deseja destruí-los a todos de um só golpe: o
templo, Rahazz e as tribos.
— Quando ouvi até esse ponto, percebi que estava me
inteirando de segredos muito perigosos, tentei safar-me o
mais discretamente possível. Ao que parece, não consegui
ser tão discreto assim, uma vez que me viram e enviaram
alguns soldados atrás de mim. Torci o tornozelo e depois
descobri seu aparelho.
— Mas por que não lhes esclareceu que o segredo estaria
seguro com você, um leal seguidor do Rei?
Ele hesitou, lançou-lhe um rápido olhar de esguelha, antes
de replicar:
— Eh... bem, não houve tempo para isso. Eles não deram
oportunidade de me explicar. E se não acreditassem em
mim? Quanto a ser leal... afinal, durante o reinado de Rahazz
as coisas eram bastante diferentes, as pessoas eram mais
felizes e não estavam tão assustadas como estão agora... —
interrompeu-se ao notar a crescente irritação dela, e então
concluiu: — Mas isso não nos diz respeito. Vamos tentar
encontrar um lugar para passar a noite.
Continuaram caminhando em silêncio, a jovem mais irritada
do que aparentava, mergulhada em seus próprios
pensamentos.
"Liberdade! Felicidade! Que bobagens ele esteve falando... e
que pena um rapaz tão atraente e simpático ser tão tolo.
Mesmo sendo verdade que muita coisa mudou desde que o
antigo rei foi derrotado, e nem tudo para melhor. Agora
mesmo papai mandou fazer uma estátua de si mesmo em
escala natural e emprega uma porção de sacerdotes para
venerá-la. Mas qual é o mal? Muitos de meus amigos estão
fazendo o mesmo — algo que era proibido durante o reinado
de Rahazz, exatamente como eram proibidos os sacrifícios
humanos e de animais. Eu, entretanto, nunca mandei fazer
uma estátua de mim mesma porque algum senso do ridículo
sempre impediu que o fizesse. Afinal, é bastante idiota
adorar-se a si mesmo, não é?"
"Ela não me aprova", pensou Vanzaj, "e é muito desejável,
com esses olhos enormes e pestanudos, esses lábios
vermelhos e cheios e essas pernas longas e esguias. Seria
muito excitante beijá-la."
Caminhavam por um bom tempo, quando Vanzaj se deteve:
— É inútil, a floresta ainda continua densa... nenhum sinal de
qualquer ser vivo. Peço desculpas mais uma vez, mas não
tenho idéia de como podemos sair daqui, a não ser por pura
sorte. E você?
Ela olhou ao redor.
— Também não tenho a menor idéia. E está escurecendo... A
melhor coisa será regressarmos até a nave e nos
acomodarmos ali.
Entretanto, não encontraram a nave. E continuaram
perambulando, sem direção, ora tentando um caminho, ora
outro, exaustos e famintos. Vanzaj mancava e tinha de
morder os lábios por causa da dor sempre crescente no
tornozelo.
Então uma tempestade irrompeu e foram fustigados por um
vento frio e ululante, a chuva chicoteando-os no rosto, os
relâmpagos clareando o cenário. Pesados galhos eram
quebrados das árvores altas, desabando e impedindo-lhes o
progresso várias vezes, de modo que tinham de voltar atrás e
tentar outro caminho.
Viram a floresta se tornar menos densa quando a tormenta
estava no auge da fúria. Vanzaj apontou para algo cintilando
entre as árvores, parecendo ser uma construção.
Era um templo. Por algum tempo ficaram parados à margem
da floresta, a chuva encharcando-os, olhando para o alto
edifício de cor laranja plantado no meio da clareira. Então
Vanzaj segurou a mão da moça e juntos correram na direção
do mesmo.
Quando se achavam no pórtico, fora do alcance da
tempestade e da chuva, Vanzaj observou:
— Sei onde estamos. Este templo era muito usado durante o
reinado de Rahazz, mas desde então foi abandonado. Na
verdade estamos com sorte.
Entraram. Da escuridão total que os rodeava ouviu-se um
uivo prolongado. Lyanta agarrou a mão dele de novo, ele riu.
— Não é nada. Apenas o vento lá fora.
Ela sentiu o seu braço rodeando-a e sorriu para si mesma.
— Temos sorte de que este templo não tenha sido usado para
outro tipo de adorações — disse, aconchegando-se mais,
estimulada pelo contato. Esse era realmente um rapaz muito
simpático. E, bocejando: — Estou tão cansada... vou dormir
aí no chão.
Ele a sentiu encostar-se pesadamente de encontro a si e
pouco depois adormeceu também, o queixo mergulhado na
massa de cabelo castanho, ambos os braços a rodeando.
Num pequeno aposento do palácio, mobiliado com luxo,
Tchamar inclinou-se ainda mais para o pequeno espelho
metálico sobre a mesa de mármore. Riu, satisfeito.
— Parece que eles não têm idéia de onde estão na verdade —
disse —, não sabem que lemos usado aquele templo com
regularidade após a queda de Rahazz.
O Rei olhou por sobre seu ombro para o espelho.
— Melhor destruí-lo agora que está adormecido e mais
vulnerável — aconselhou.
Mas Tchamar sacudiu a cabeça.
— Primeiro tenho de prevenir minha filha para que deixe o
templo antes que seja tarde demais e, além disso, assim não
dá tanta satisfação. Gostaria de vê-lo acordado, lutando e
implorando pela vida.
— E se sua filha não quiser deixá-lo?
— Não tenho receios quanto a isso... eu a conheço... com
certeza o abandonará para salvar-se.
Em seu sono Lyanta encontrou-se face a face com o pai.
-— Deixe o templo imediatamente — disse-lhe ele —, saia
agora! Tenho de matar seu companheiro e com esse
propósito irei invocar as influências já presentes aí. Vá
embora.
Ela começou a protestar, queria detê-lo, mas ele se
desvaneceu, deixando-a sozinha. Abriu os olhos. Em meio à
escuridão, começou a sacudir Vanzaj com vigor, chamando-
o repetidas vezes.
Ainda semi-adormecido, ele a ouviu dizer:
— Depressa, Vanzaj. Não há tempo a perder... temos de sair
daqui antes que seja tarde demais. Depressa.
— Sair daqui? — ele se levantou de um salto para o lado dela,
completamente desperto agora. — O que quer dizer? Aqui
estamos a salvo, talvez este seja o único lugar onde possamos
estar a salvo... — tentou ver o rosto dela no escuro: — Qual
é o problema? O que aconteceu?
Ela apertou ainda mais o seu braço, tentando arrastá-lo à
força:
— Escute. Encontrei meu pai em sonho. Ele me avisou para
sair daqui... Queria destruir você porque sabe demais.
Ele a puxou com ambas as mãos de encontro a si,
procurando mais uma vez ver seu rosto:
— Seu pai? Não compreendo... quem...?
— Tchamar, o Sacerdote. Deve ter ouvido falar nele. Venha,
venha depressa.
Ele permaneceu imóvel, deixando os braços caírem ao longo
do corpo.
— Meu Deus... Tchamar. E você é sua filha. Agora
compreendo por que os soldados recuaram de forma tão
inesperada... deviam saber — com um risinho amargo, deu
um passo atrás, para fora do alcance dela. Suponho que seu
pai tenha lhe ordenado para tirar-me daqui... de modo que
eu caia como um patinho na armadilha que na certa armou
para mim lá fora.
Ela não respondeu. Pareceu-lhe que estava ouvindo alguma
coisa. Então sua voz se elevou, carregada de urgência:
— Isso não é verdade. Eu nunca faria tal coisa, mesmo sendo
sua filha. Por favor, acredite em mim. Então não está
sentindo nada? Não sente que não estamos mais sozinhos?
Ele notou a mudança que ocorrera na escuridão ao redor de
ambos. O templo, vazio quando haviam entrado, estava
cheio de presença agora. Uma presença sinistra, invisível,
fechava-se silenciosa sobre eles, vinda de todos os lados.
Sem dizer nada, ele agarrou a mão dela outra vez,
começando a correr para a entrada. Se não tivesse sido tão
confiante, confiante demais, não teriam ficado por tanto
tempo no templo. Muito melhor teria sido ficarem lá fora, na
chuva e na tempestade.
Chocaram-se contra algo duro, mantendo-se em pé com
dificuldade.
— E uma parede, sussurrou ela. — Perdemos o caminho.
Este deve ser o Salão dos Ritos. Oh, Deus, isto é mesmo
terrível.
Gelados de medo, voltaram para trás, apenas para serem
atirados ao chão com grande força, após terem dado apenas
alguns passos.
— Mas isso não é possível — ele estava atônito. — Não havia
parede aqui quando passamos.
— Não é uma parede — replicou ela em voz apagada. — É
um círculo mágico que ele traçou ao redor de nós para evitar
que escapemos. É inútil tentar passar. Acho que fomos
apanhados.
Ele foi sarcástico:
— Maravilhoso o pai que você tem. Um perfeito cavalheiro,
de fato — então se calou, forçando os olhos para ver o que
estava acontecendo.
E gradualmente o negrume deu lugar a um brilho opaco,
avermelhado, no qual podiam discernir formas se movendo.
Eram seres com horríveis malformações. Criaturas com
apenas uma boca vermelha, escancarada, sem dentes, sem
olhos, orelhas ou nariz avançavam para eles. Grandes vermes
castanho-avermelhados deslizavam lentos em sua direção,
deixando uma trilha viscosa. Massas cinzentas disformes
moviam-se mirando-os com olhos vazios e maldosos.
Como seriam capazes de escapar a esses horrores, invocados
pelos ritos aqui celebrados desde a queda de Rahazz? Era
óbvio que fora necessário apenas um pequeno esforço da
parte de Tchamar para dar nova vida a essas criações
malévolas.
Lyanta gemeu baixinho, as unhas se cravando com força na
carne do braço dele. Como de longe, ouviu-a dizendo:
— Se apenas conseguíssemos sair. Eles não suportam a luz, e
o alvorecer deve estar despontando agora.
Uma leve esperança invadiu o coração de Vanzaj. Era
verdade, essas presenças não suportavam a luz do sol. E este
templo não fora originalmente construído para adorar o Sol,
Senhor supremo de toda a criação? Então em algum lugar os
construtores deviam ter incorporado um mecanismo para
abrir o teto e deixar o sol entrar.
Virou-se e correu até a parede contra a qual se haviam
chocado pela primeira vez. Atrás deles, ouviu os monstros
começarem a persegui-los com sons abafados e
borbulhantes. Alcançou a parede e seus dedos começaram a
procurar sobre a superfície lisa e polida.
Ele sentiu algo frio e indizível deslizando por sua perna
acima. Olhando para baixo, deu com dois olhos fixos e
maldosos. Chutou com repulsa, sacudindo a perna, atirando a
coisa para longe num arco amplo. Por um momento as
imundas criaturas pareceram hesitar, depois recomeçaram a
aproximar-se deles.
Por toda parte a parede tinha a mesma suave uniformidade.
Nada que desse esperança a seus dedos em frenética procura.
Talvez o mecanismo se encontrasse em alguma parte de
outro salão... Talvez este não fosse o grande Salão dos Ritos,
como haviam pensado.
Um odor sufocante de morte e sangue invadiu-lhes as
narinas. Lyanta gritou numa voz aguda, inumana. Duas das
criaturas haviam-na alcançado e estavam subindo por suas
pernas. Queria ajudá-la, mas sentiu algo deslizando por sua
própria coxa, e uma boca viscosa e repelente começando a
sugar. Naquele mesmo instante uma das informes massas
cinzentas deu um salto e pousou em sua cabeça,
envolvendo-lhe o pescoço.
Lutou, enchendo-se de extrema repugnância, puxando com
uma das mãos a massa molhada ao redor de seu pescoço, que
começara a sufocá-lo. Sentiu os joelhos dobrarem.
E então os dedos de sua mão esquerda, ainda deslizando
desesperadamente pela parede, tocaram em algo.
Houve um som de pedra deslizando sobre pedra e,
resplandecentes e ofuscantes, os raios do sol nascente
precipitaram-se para dentro do salão, acabando de imediato
com toda a obscuridade.
As criaturas malévolas caíram onde estavam, enrugando e
desmanchando-se até o nada completo.
Por longos momentos permaneceram imóveis, as mãos
cobrindo os olhos para protegê-los da luz. Vanzaj,
destapando os seus primeiro, viu que estavam sozinhos no
gigantesco salão. Com um grito de alegria, abraçou a moça,
que estava reclinada de encontro à parede, num torpor
incrédulo.
— Salvos. Estamos salvos agora Lyanta, exclamou ele,
radiante.
Ela assentiu e então estremeceu.
— Aquelas criaturas. Ugh... Vamos sair daqui depressa. Não
me sentirei segura enquanto não estivermos lá fora.
Não terminara sequer de falar quando ouviram um estrondo
ameaçador. Estarrecidos, olharam um para o outro e depois
ao redor. Lyanta gritou:
— Olhe, olhe ali. O templo está caindo sobre nós.
Nas paredes da gigantesca construção, firmes e uniformes
apenas um instante atrás, viram agora numerosas fendas e
rachaduras, algumas grandes e escancaradas.
Quando começaram a correr, o chão se ergueu em ondas,
fazendo-os perderem o equilíbrio. Caíram um sobre o outro.
Um ruído trovejante estava agora em toda parte. Pequenas
pedras, entulho e detritos começaram a chover sobre eles.
Agarrados um ao outro olhavam, paralisados de medo, para
as paredes que agora oscilavam loucamente. Lyanta cerrou
os olhos, mas Vanzaj continuou olhando, fascinado. O suor
frio o cobria e a língua lhe secara contra o palato.
As tremendas massas de pedra desabariam em seguida e os
esmagariam sem piedade. Tchamar vencera, afinal.
Então uma voz clara e penetrante pronunciou algo num tom
de comando. O que a voz havia dito, Vanzaj não
compreendera, mas deixou de sentir medo. Ficou
estranhamente calmo.
As fendas escancaradas desapareceram de imediato. O chão
ficou imóvel e o grande e pesado edifício voltou a ser o que
fora por longo tempo: imóvel, sólido, indestrutível.
Lentamente os dois se ergueram e caminharam através dos
amplos salões até se encontrarem fora, onde a luz era suave e
dourada.

Capítulo II

Lyanta avistou-o primeiro. Parado à margem da clareira, era
óbvio que já se encontrava ali por algum tempo,
examinando-os com curiosidade. Estava ensopado. A água
escorria da túnica amarela curta e cintilava na pelagem
dourado-e-negro do cão que se achava a seu lado.
— Meu nome é Ruan — disse ele após cruzar a clareira. E
acrescentou inesperadamente: — Nos dias de hoje é preciso
ter muita coragem para fazer frente aos poderes das Trevas.
Admiro-os. Apenas não consigo compreender, na verdade,
por que a filha de Tchamar...
— O quê? — interrompeu-o Vanzaj, excitado. — Como sabia
o que estava acontecendo no interior do templo?
Ruan sorriu:
— Mas isso foi fácil. Templos firmes, bem construídos, não
começam a desmoronar sem mais nem menos, sem qualquer
causa visível. Assim, era claro que alguém em seu interior
devia ser destruído. Decidi interferir.
A garota olhou-o surpresa.
— Você interferiu? Mas como isso é possível? Exceto pelo
Rei, ninguém em Aztlan é mais poderoso que meu pai.
— De minha parte agradeço a todos os céus que afinal
alguém tenha-se mostrado mais poderoso que seu querido
pai — disse Vanzaj secamente. E, para Ruan: — Como
poderei lhe agradecer?
O outro encolheu os ombros:
— Não foi nada. Apenas uma questão de um pouco mais de
conhecimento. E um excesso de autoconfiança por parte de
Tchamar. Aliás, ele desperdiçou muita energia onde apenas
um pouco dela teria sido mais eficiente. Mas temos de nos
apressar, tenho absoluta certeza de que irão enviar soldados
atrás de nós. Não posso acompanhá-los, não ainda, mas vou
mostrar-lhes o caminho para o esconderijo nas montanhas.
O esconderijo de Rahazz. Ali vocês estarão bem seguros.
— Para o norte? Para o esconderijo de Rahazz? Lyanta
mostrou- se realmente irritada. Território rebelde? Não, ali
eu não irei... Vou voltar à capital.
— Território rebelde, sim, e por que não? — Ruan parecia
divertido com o protesto dela. — Você estará muito mais
segura ali... longe do amor de seu pai.
Ela deixou pender a cabeça, ainda mais irritada. Por certo ele
tinha razão. Não tinha escolha..., mas o que os rebeldes lhe
fariam, sabendo quem era?
Lendo seus pensamentos, Ruan disse:
— Não se preocupe. Verá que conosco as coisas são
totalmente diferentes.
Ao examinar a figura prostrada sobre o divã, os olhos de
Yahali estavam, como sempre, vazios de expressão.
O que havia acontecido? O que ou quem causara a derrota de
Tchamar? Apenas ele, o próprio Yahali, tinha mais poder
que esse homem.
Endireitando o corpo, deixou o olhar viajar por todos os
objetos no aposento. Tchamar havia sido completamente
vencido. Isso estava muito claro. Mas por quem? É claro que
havia um, e apenas um..., mas não era provável que Rahazz
se tivesse ocupado desse caso.
Disse então ao criado à entrada:
— Quero ser prevenido logo que seu amo acordar. Ninguém
mais deve ser admitido... isso poderia custar-lhe a vida.
Já era noite quando por fim chegou-lhe a mensagem de que
Tchamar recuperara a consciência. Quando o Rei entrou no
aposento, o Sacerdote começou a falar imediatamente, a voz
rouca de fúria:
— Temos de encontrar aquele homem. O homem que ousou
deter-me. O templo já estava desmoronando... Então ele
comandou... comandou que eu parasse. Lutei contra ele, fiz
tudo que podia, mas era muito forte... Tive de recuar..., além
disso, o amanhecer havia rompido, eu estava em
desvantagem. Quem é esse homem? Temos de encontrá-lo...
— deteve-se, tremendo como se com febre, o rosto lívido
de raiva.
Yahali observava-o, com frieza.
— Se você quer seguir o caminho perigoso até o fim,
Tchamar, terá de aprender a controlar suas emoções...
permanecer frio e vazio de sentimentos.
Voltando as costas, saiu do aposento, deixando o outro só
com seu orgulho ferido. Em seus próprios aposentos,
caminhou direto a uma mesa esculpida com requinte, sobre
a qual havia um prato fundo de prata, cheio de água límpida.
Concentrou-se.
Nada aconteceu de início — então viu como o líquido
começou a cobrir-se com uma chama branca, clara, que foi
se tornando progressivamente mais brilhante até que a água
passou a brilhar com tal intensidade que não mais conseguiu
ficar olhando.
Sorrindo, levantou-se. Havia esperado por algo semelhante a
isso — no entanto não tentou romper a barreira protetora.
Havia outro plano em sua mente.
— Escolha vinte de seus melhores homens e duas das naves
mais rápidas -— disse pouco depois ao capitão de sua Guarda,
Zoar. — Conhece o templo de Nerzam? Em suas
vizinhanças você irá encontrar três pessoas, uma jovem e
dois homens. Ela é a filha de Tchamar. Prenda-os e traga-os
até aqui. Vivos.
Zoar fez uma saudação e partiu. Algum tempo depois duas
naves reais podiam ser vistas voando silenciosas por sobre a
cidade, dirigindo-se para o norte.
"Os prisioneiros, Majestade."
Yahali foi arrancado de um sonho de poder e glória. Vira a si
mesmo erguendo-se até os mais altos picos de um mundo
em adoração, governando sozinho, invencível.
Zoar estava parado junto à porta, a cabeça envolta em
ataduras, o braço direito pendendo inútil junto ao corpo.
Aproximou-se mancando, mantendo-se ereto com
dificuldade. Atrás dele, entre três de seus homens, vinham
Vanzaj e Lyanta.
Yahali mal os olhou.
— E o outro?
Com a mão esquerda, Zoar limpou do rosto o filete de
sangue que vinha se filtrando por entre as ataduras.
— Escapou. Encontramos os três no sopé das montanhas.
Levamos um bom tempo para dominá-los... os dois homens
são lutadores habilidosos. Nunca vi ninguém manejar uma
espada como o que escapou — mesmo com a dor e o
cansaço evidentes, os olhos do capitão brilhavam de
entusiasmo.
Yahali não ficou impressionado.
— E, no entanto, fugiu... não ficou para salvar seus amigos.
Diga- me, ele usou algum outro meio que não o físico,
durante a luta, para defender-se?
— Não usou. E o cão que estava com ele era um animal de
verdade... não era uma imitação — Zoar cambaleou um
pouco, seu rosto se tornara cinzento. Agarrou-se à borda da
mesa para apoiar-se.
O Rei dispensou-o com um gesto da cabeça.
— Você pode ir. Cuide bem dos prisioneiros....
Responsabilizo-o pessoalmente por eles.
Ficando a sós, permaneceu parado por algum tempo,
pensando no que acabara de ouvir. Então encolheu os
ombros. Na certa se enganara. Aquele homem desconhecido
devia ter conseguido derrotar Tchamar apenas por causa da
falta de cuidado e do orgulho desmedido deste último, e não
por causa de sua própria superioridade.
Seus pensamentos começaram a vaguear. Dentro de um mês
haveria uma celebração no templo, uma cerimônia gloriosa.
E com essa finalidade havia encomendado a confecção de
uma estátua do Senhor das Trevas.
Ainda não conhecera o escultor, que insistira em extremo
segredo e reclusão até que terminasse o trabalho. Havia
vindo das colônias distantes. Mas Yahali dera minuciosos
detalhes quanto a como o deus deveria ser representado:
uma figura brutal, meio humana, meio animal, cruel e
apaixonada. O tipo de Senhor que seu povo conhecia bem e
podia compreender.
Zoar mexia-se inquieto na cama. Ao anoitecer fora
acometido por febre alta, com calafrios que faziam seus
dentes bater, embora a noite estivesse quente. Os ferimentos
doíam terrivelmente.
Afinal, enfiando a cabeça dolorida nos braços, conseguira
adormecer, exausto.
Sonhou que alguém havia entrado em seu quarto e se achava
parado junto à cama. O instinto lhe disse que esse alguém era
um inimigo e fez um débil esforço para alcançar as armas.
— Seja justo — murmurou, estremecendo e tentando ver o
rosto do outro. — Se deseja lutar, vamos esperar até que eu
esteja melhor. Que orgulho pode sentir um guerreiro
derrotando um inimigo prostrado?
Ouviu um riso suave, e o visitante dizendo:
— Fique bem quieto, capitão. Não há necessidade de lutar
agora.
Dedos fortes começaram então a afrouxar as ataduras e
limpar
seus ferimentos. Um bálsamo refrescante foi aplicado,
ataduras novas colocadas e então sentiu os mesmos dedos
longos, magnéticos, tocarem sua cabeça, acariciando-a com
suavidade.
Relaxou por completo.
Foi um sonho estranho. Mas quando acordou, dois dias
depois, após um sono profundo e reconfortante, e viu as
ataduras limpas, e sentiu o peculiar odor aromático do
bálsamo, decidiu não contar a ninguém a respeito desse
"sonho".
"Não compreendo por que ele nos deixou", repetia Lyanta,
talvez pela vigésima vez, com tristeza, a cabeça entre as
mãos. Vanzaj podia ver a linha suave e jovem de seu
pescoço e queixo à meia-luz da prisão. "Por que fez isso? Se
tivesse ficado, talvez tivéssemos vencido."
Vanzaj balançou a cabeça.
— Afinal, nada significávamos para ele. Por que deveria se
preocupar?
— Por quê? Se tivesse ficado... talvez... não estivéssemos aqui
agora.
Vanzaj voltou a balançar a cabeça, não querendo mostrar seu
próprio desapontamento por ver Ruan desaparecer para
dentro da mata, o cão em seus calcanhares.
— Por que deveria arriscar a vida por nós?
— Então por que nos ajudou a sair do templo? Não tinha
nenhuma razão para fazer isso.
Vanzaj suspirou. Após um longo silêncio, disse:
— Não sei. Mas gostaria de saber que destino nos aguarda.
Quer dizer: conheço o meu, irão matar-me, não há dúvida
quanto a isso. Mas, e você? O que irá acontecer com você?
Lyanta manteve-se em silêncio. Sabia que, como filha de
Tchamar, estava em certa segurança, assim como sabia qual
seria o destino de seu companheiro. Na noite seguinte
haveria importantes celebrações no imenso templo. Pela
primeira vez o povo iria ver, revelada em todo seu
esplendor, a imagem do Senhor das Trevas. Muito sangue
humano seria derramado, lavando a estátua e o chão do
templo. E entreouvira os guardas comentando que Vanzaj
poderia ser uma das vítimas.
Escondeu o rosto entre as mãos, procurando pensar. O que
sentia por Vanzaj não era mera atração física. Linda e rica,
filha de um dos homens mais poderosos do país, estava
acostumada à admiração de muitos homens. Mas nenhum
deles jamais conseguira reter sua atenção por muito tempo.
Divertira-se com vários, e a morte de qualquer deles nos
altares de Aztlan não a tocaria por mais que um instante.
Agora era diferente, embora não soubesse por quê. Mas os
ritos sangrentos que até aquele momento vira apenas como
costumes religiosos, os quais não lhe interessavam em nada,
agora, de repente, pareciam-lhe cruéis e terríveis, porque
aquele homem estaria entre as vítimas.
Mentalmente viu Yahali erguendo a longa adaga, as pedrarias
cintilando sob as luzes, viu o rosto repugnante da deidade
(sempre considerara repugnantes as imagens do deus), que
logo estaria molhado, salpicado de sangue de seu
companheiro.
Seria inútil apelar para Yahali ou pedir a seu pai que
interferisse. Tchamar nunca fora mais que um boneco, um
fantoche nas mãos do Rei. Nenhuma ajuda poderia vir dele.
— Tenho uma mensagem para o escultor. O Rei deseja saber
se a estátua está pronta, disse Zoar a Tchamar.
— Seus aposentos ficam ali — Tchamar apontou para o final
do longo e amplo corredor. — Mas tome cuidado, seu cão é
perigoso e não permite que ninguém se aproxime do dono.
Irritante, aquela mania dos ricos de se protegerem com
aquelas máquinas que pareciam animais, mas que não
sangravam, pensou Zoar.
Graças ao tratamento que havia recebido das mãos de seu
inimigo, ele estava inteiramente curado. No refeitório dos
oficiais isso fora considerado um milagre — seus ferimentos
haviam sido sérios, sua cura considerada uma questão de
muitos meses.
Com boa disposição, o capitão caminhou pelo corredor até
chegar a uma pesada porta, meio aberta.
No momento seguinte estava prostrado no solo, pesadas
patas sobre o peito, dentes brancos agarrando-lhe o ombro.
Ouviu alguém dar um comando incisivo e o animal soltou-o.
Levantou-se rápido, com palavras irritadas nos lábios para
dirigir ao proprietário do cão. Ao invés disso, sua mão voou
para o cinturão. O jovem sorridente que o encarava não se
moveu. Ao seu lado, o cão continuava rosnando, mostrando
os dentes.
— Então é você... — exclamou Zoar. — Que arrogância o
traz para cá, para a Cidade dos Rios, a você que é inimigo do
governo legal de Aztlan?
— Com efeito, sou um inimigo de seu governo. Legal hoje,
ilegal ontem e talvez, quem sabe, ilegal novamente amanhã?
— Ruan encolheu os ombros. — Se é uma luta que deseja,
tolice completa de sua parte... o cão o mataria mesmo se eu
não o fizesse.
Zoar encarou-o, intrigado. Onde havia ouvido aquela mesma
voz? Por que aquele tom era tão familiar? Quando...?
Então se lembrou e, perplexo, a mão ainda pousada no
punho da espada, perguntou:
— Então, aquele era você, também? Mas por que... por que
se deu ao trabalho de vir ao meu quarto, expondo-se, para
curar meus ferimentos... os ferimentos de um inimigo?
— Por que, afinal, fui eu quem lhe infligiu aqueles ferimentos
e me senti arrependido, de algum modo, ao ver o estado em
que se encontrava. Por que não deixa suas armas
descansarem, ao menos por enquanto, capitão?
O aposento era grande e amplo, uma cama posta num canto.
Uma mesa baixa, com uma pesada jarra de prata e uma
caneca. Em outro canto, notou Zoar, localizada de modo a
receber luz favorável, uma estátua, alta, imponente, mas
coberta com um pano. No chão havia grandes blocos de
ouro.
Zoar encarou o inimigo.
— Se deseja matar-me, por que não agora?
Ruan riu.
— Não há nada mais distante de minha mente. Além disso,
você luta bem e tal idéia poderia custar-me a vida — ele
hesitou. —Ao contrário, gostaria que me ajudasse.
— Ajudasse?
— Sim. Diga-me, o que significa para você ser capitão da
Guarda Real?
— Exatamente isso, estrangeiro. Yahali é meu Rei. Está à
frente do governo legal. Sou o capitão de sua guarda. Não sei
o que tem em mente..., mas não sou um traidor.
Ruan suspirou.
— Gostaria que não falasse tanto sobre legalidade. Mas... o
fato é que desejo libertar meus amigos, o casal que você
prendeu outro dia. E para isso preciso de sua ajuda...
Antes que o indignado Zoar pudesse protestar, ele ergueu a
mão:
— Não. Não diga nada. Sei que esta é uma proposta ilegal...
Sei que não é um traidor, mas não lhe peço que traia seu Rei.
Não irei tocar em um fio sequer de seu cabelo. Apenas peço-
lhe que me ajude a libertar duas de suas muitas vítimas que
nem são de tanta importância assim.
Zoar não respondeu. Na verdade, os prisioneiros não eram
muito importantes, embora Yahali o tivesse responsabilizado
pessoalmente por eles. Por outro lado, tinha razões para se
sentir agradecido a esse escultor.
Agradecido. Naturalmente. Agora percebia por que o outro
fizera o que fizera. Ergueu os olhos, com uma expressão
rancorosa:
— Então foi isso. Você é idêntico a todo o resto. Agora sei
por que veio a meu quarto cuidar de meus ferimentos. A
compaixão não tinha nada a ver com aquilo, não é mesmo?
Por todo o tempo seu plano foi exigir minha ajuda em troca
de seus serviços, não é assim?
Mesmo antes que Zoar acabasse de falar, Ruan ficou muito
pálido. Caminhou para a porta, escancarando-a por inteiro.
— Vá embora logo, capitão — sua voz estava baixa e furiosa.
— Conte ao seu patrão tudo a respeito de quem encontrou
aqui... sobre o que lhe pedi. Conte-lhe tudo. Não irei
impedi-lo. Mas vá. Vá agora!
Os olhos cinza-escuros estavam em brasa, os nós dos dedos
da mão, que agarrava o cinturão, brancos.
Quando Zoar alcançou o final do corredor deserto, deteve-se
e olhou para trás. Não havia ninguém à vista. Virou-se e
retornou. Pela segunda vez naquele dia junto àquela pesada
porta, bateu. Bateu com força, impaciente.
A tarde estava muito avançada quando deixou pela segunda
vez o alojamento do escultor. Dissera, encarando Ruan face
a face à entrada, os rostos de ambos tensos e muito
controlados:
— Voltei para desculpar-me, estrangeiro... embora as
desculpas nunca sejam fáceis para mim.
Diante daquilo Ruan rira.
— Meu Deus! Parece que ambos somos possuídos por um
orgulho muito grande, capitão Zoar. Nunca saberá quão
perigosamente perto esteve da morte há poucos momentos.
Mas fico feliz por ter voltado... é um homem muito corajoso,
também.
No dia seguinte, Zoar enviou um mensageiro com más
notícias. Os prisioneiros haviam sido removidos e levados ao
templo, onde todos os guardas eram sacerdotes. Nem mesmo
o capitão da Guarda Real tinha liberdade de entrar ali sem
permissão pessoal de Yahali. Ruan estava parado junto à
janela quando a notícia chegou.
Ali se estendia ela, cidade altaneira, reservada, adorável.
Cidade das Águas, dos Portões de Ouro, o coração do
poderoso Aztlan. Suas muitas construções coloridas erguiam-
se orgulhosas, seus incontáveis rios e canais eram largos,
verdes e frescos. E no meio dela, numa alta elevação,
encontrava-se o palácio de Yahali, as torres tocando um céu
banhado pelo crepúsculo.
Eras antes, durante o longo reinado da dinastia Tolteca,
houvera felicidade, liberdade e riso por trás dos sete portões
de ouro... e por todo o Aztlan. Mas aquilo fora muito tempo
antes.
Agora o mal reinava supremo em Aztlan. A escuridão havia
afastado a luz.
Luz e sombra, bem e mal, virtude e vício — por que esses
pares eram sempre inseparáveis? Por que um lado nunca
podia existir sem o outro pairando ao fundo?
E no meio, o homem, hesitando, eternamente inseguro, ora
atraído para um lado, ora para outro, sempre lutando, sempre
procurando pela resposta última, absoluta. Sempre tentando
encontrar o caminho da certeza absoluta.
Residiria a resposta, então, em escolher? Ou haveria algum
outro caminho, uma estrada desconhecida, levando à luz que
sempre é, a luz que não projeta sombras?

Capítulo III

Ele estava a um lado do altar, fortemente amarrado, bem
diante da imagem do Senhor, ainda coberta de pano. Era
tudo um horrível pesadelo para o qual Lyanta sabia não
haver despertar.
Via-o lutando com as cordas, desesperadamente. Yahali
estava parado ali perto, rodeado por seus sacerdotes,
vestindo uma túnica púrpura. Sua voz profunda e melodiosa
se elevara numa entonação monótona, assustadora, e, lenta,
uma nuvem começara a se formar acima do templo, uma
névoa escura, impenetrável, pairando acima da multidão.
Ela sabia o que aconteceria em seguida: a orgia que se seguia
à morte, depois que Yahali cravasse a faca no corpo de
Vanzaj, arrancando-lhe o coração e oferecendo-o ao seu
Senhor Supremo.
Certas partes do corpo seriam usadas para preparar uma
beberagem que os sacerdotes iriam distribuir com
liberalidade entre a população. E quando o rito alcançasse o
clímax, as pessoas cairiam inconscientes e de seus corpos
profundamente drogados se ergueriam criaturas ferozes,
cheias de luxúria e sede de sangue, que sairiam à noite para
rondar as mais escuras.
Não iria demorar muito agora. Yahali voltara-se e estava
parado de frente para o prisioneiro. Seus olhos escuros
cravaram-se nos de Vanzaj até o jovem sentir que, aos
poucos, todo o poder de sua vontade, toda a sua força para
resistir começaram a escoar-se como sangue de uma ferida
mortal.
Os olhos de Yahali eram grandes lagos, escuros e profundos,
cujas águas o atraíam para baixo, até o fundo.
Vanzaj parou de tentar libertar-se. Sua impotência era total
agora. O Rei fez um sinal, um sacerdote se aproximou e
cortou-lhe as amarras.
Em desespero, Lyanta viu que ele não movia um músculo;
estava ali parado, forte, bonito e rígido como uma estátua.
Yahali apanhou o punhal no altar, aproximando-se de sua
vítima. Com os olhos enviou um sinal a Tchamar e
aguardou, o braço pronto para golpear. Tchamar, com um
movimento rápido, puxou o tecido dourado que cobria a face
do Senhor.
Por um longo momento fez-se o mais profundo silêncio no
templo então um murmúrio de grande temor percorreu a
multidão. E Yahali, erguendo o olhar para o rosto
desvendado, ficou rígido, a mão apertando-se
convulsivamente ao redor do cabo cravejado do punhal
sacrifical.
Como aquele homem ousara fazer isso?!
Uma face poderosa, cheia de majestade olhava para ele: um
rosto tomado de orgulho sombrio e triste, e desespero
ilimitado. Ali não havia a crueldade selvagem, a luxúria, nem
a paixão diabólica. Ali estava o próprio Senhor da Destruição,
o Grande Adversário. Aquele que está postado do lado
esquerdo do caminho que leva à fonte de todas as coisas.
A multidão, cheia de espanto e temor, recuou silenciosa
diante daquela face arrogante e desdenhosa. A voz de
Tchamar quebrou o silêncio:
— Mas isso é uma vergonha! O escultor ignorou por
completo suas instruções, Majestade!
— Foi o que fez. Faça com que o prendam e o tragam cá em
seguida — ordenou Yahali. — Quem é esse que ousa agir
desse modo? Você não lhe deu instruções detalhadas, por
escrito?
— Assim fiz, Majestade — respondeu Tchamar. — Irei
buscá-lo já.
Yahali olhou outra vez para a estátua. Sim, como ousara?...,
mas também, como soubera? Por um momento, esqueceu
sua raiva. Por que essa extrema tristeza, essa completa
desolação? Voltou-se para Tchamar:
— Prenda-o. Se não conseguir explicar-se, ele servirá esta
noite como sacrifício a esse deus estranho que criou.
— E quanto a esse daí? — o sacerdote apontava Vanzaj.
Yahali sacudiu a cabeça com impaciência:
— Ele não é de nenhuma importância. Leve-o embora. Que
minha guarda o execute ao amanhecer. E leve a moça
também. Para ela tenho outros planos.
Aproximava-se da meia-noite quando Tchamar voltou.
Muitas vítimas haviam sido mortas — os ritos haviam
continuado —, embora Yahali ordenasse que não fossem
oferecidas à estátua do Senhor. Estava esperando pelo
escultor.
Houve uma comoção entre o povo. Homens e mulheres
abriram caminho para uma dúzia de soldados. No meio deles
caminhava Zoar, capitão da Guarda Real, amarrado. Suas
roupas estavam rasgadas e desgrenhadas. Tchamar vinha um
pouco mais atrás. Mas o escultor não se avistava em parte
alguma.
A pergunta nos olhos do Rei, Tchamar respondeu:
— Ele escapou, com ajuda deste traidor miserável, que
deixou os outros partirem livres também. Não suspeitávamos
de nada. Eu lhe entreguei os prisioneiros e fui pessoalmente
prender o escultor. Mas não o encontramos: seu aposento
estava vazio. Ninguém o havia visto. Quando afinal decidi
voltar, um soldado chegou correndo, contando-nos que Zoar
deixara minha filha e seu amante partirem. Eles roubaram
uma nave e se foram. Apenas o capitão ficou para trás.
Mandei que fosse preso.
— O escultor possui um cão?
O sacerdote assentiu:
— Sim. Um animal enorme, meio lobo.
Yahali compreendeu logo. Agora estava seguro... seguro do
que havia começado a suspeitar quando vira Zoar entrar no
templo como prisioneiro.
— Quando o enviei ao escultor com minha mensagem, a
quem encontrou ali, capitão?
Zoar olhou para ele, sem demonstrar medo, nem um pouco
inclinado a mentir.
— Tem razão, Majestade: o escultor e o homem que desejava
que eu prendesse são uma única e mesma pessoa. Não sou
um traidor; nunca pensei em quebrar meu juramento ao Rei
de Aztlan. Mas havia um débito de gratidão a ser saldado.
Yahali franziu as sobrancelhas:
— Gratidão?
— Sim. Ele veio ao meu quarto à noite e cuidou de meus
ferimentos. Eu estava muito debilitado.
O Rei olhou-o de cima abaixo com atenção. Lembrava-se
terem-lhe dito que a condição do capitão era crítica e que
seriam necessários meses para que se recuperasse. E, no
entanto, ali estava, completamente curado. Quem era esse
estranho que possuía poderes tão extraordinários?
Pela segunda vez sentiu uma súbita curiosidade tomar o lugar
de sua raiva. Esfregou a testa com os dedos longos e magros,
tentando lembrar-se. Lembrar-se? O que era que havia
esquecido... o que lhe parecia familiar cada vez que ouvia
alguém mencionar-lhe esse misterioso inimigo? Mas a
recordação não veio e o povo estava esperando pela
continuação do serviço.
Quando viu os olhos de Yahali se voltando para ele
novamente, Zoar soube o que devia esperar. Não havia traço
de piedade ou compaixão naquele rosto duro.
— Pagou seu débito a um rebelde, capitão... e agora irá pagar
seu débito para com seu Rei. Pagará com a vida. Mas não
aqui e nem agora... — e, voltando-se para os soldados: —
Levem-no à Morada dos Morcegos; a morte no altar seria
suave demais para ele.
E, enquanto Zoar ia sendo levado, o Sumo Sacerdote de
Aztlan voltou o rosto para o melancólico deus de ouro e
ergueu as mãos para o alto. Mesmo seus sacerdotes se
encolheram diante do brilho fanático de seus olhos. E
ouviram-no entonar as primeiras palavras de uma invocação
sombria que nunca haviam ouvido antes. Yahali sentiu a si
mesmo crescendo até elevar-se muito acima da multidão
assustada e as dobras de seu manto púrpuro encheram o
templo.
Ah! Agora lhes mostraria quem era. Esta era a sua noite...
esta noite o mundo iria conhecê-lo... seu povo rejubilar-se-ia
e seus inimigos se encolheriam de medo.
E naquela noite todos os poderes das Trevas foram deixados
à solta. Coisas selvagens, rastejantes e brutais, maldosas e
inomináveis, espalhando o terror e o medo por toda parte,
abafaram toda a luz até que apenas a escuridão mais profunda
permaneceu.
Enquanto isso o Adversário Eterno assistia, silencioso, alheio
em sua majestade avassaladora e extrema. Nas chamas
vermelho douradas da luxúria e da crueldade, seus olhos
pareciam cheios de um desprezo infinito.

Capítulo IV

— Não podemos descansar um pouco por aqui? Acha
provável que nos alcancem? perguntou Lyanta.
Ruan viu que ela estava pálida e que os ombros de seu amigo
estavam encurvados. Parou.
— Eles não nos alcançarão mais agora. Desculpem-me, mas a
noite passada, ouvi algo na cidade, algo muito importante.
Isso me fez esquecer do que vocês acabam de passar.
No dia anterior eles haviam sido forçados a pousar quando a
nave enguiçou perto do sopé das montanhas. Desde então
haviam caminhado sem descanso, e agora era já quase meio-
dia.
Encontraram um lugar fresco junto a um riozinho estreito,
porém profundo, à sombra de árvores antigas. Ruan dividiu
as frutas e o pão de milho que trazia, não esquecendo de seu
cão. Lyanta deitou-se sobre a grama, a cabeça sobre o braço,
tentando dormir.
Os outros continuavam conversando.
— O que foi que ouviu na cidade, Ruan? — perguntou
Vanzaj.
— Há uma conspiração em curso para assassinar Rahazz e
seus amigos mais próximos. Espiões conseguiram insinuar-se
nas montanhas e amanhã o Rei e seus seguidores mais leais
serão mortos. Tenho de preveni-los, mas como? Tinha
esperanças de chegar a tempo, com a nave, mas agora...
Vanzaj estava intrigado.
— Mas Rahazz é um Escolhido... deve ter recursos poderosos
à disposição. Com certeza já está sabendo da trama.
Ruan negou com a cabeça.
— Não, isso não é muito provável. Em primeiro lugar, sei que
está ocupado com um plano cuja preparação lhe absorve
toda a atenção. Pois, apesar de todos os seus esforços, a
influência de Yahali está se disseminando e se aproxima o
tempo em que Rahazz e seus amigos não estarão mais
seguros... nem mesmo nas montanhas.
E mesmo que Rahazz seja um iniciado... Yahali também o é.
Muitos como ele ocuparam o trono de Aztlan no passado,
mas nunca houve alguém tão poderoso, tão perigoso e tão
sábio.
— Mas você não pode usar seus poderes e avisá-lo por meio
do pensamento? Isso não seria tão difícil para você, não?
— Normalmente seria até mesmo bem fácil. Mas Yahali criou
um círculo ao redor da cidade e seus arredores, visando
prevenir o envio de tais mensagens. De fora para dentro não
seria muito difícil penetrar, mas não o contrário. Já tentei e
falhei. Além disso, quanto mais tempo permanecia na
capital, tanto menos era capaz de atravessar o círculo. A
atmosfera vinha minando minhas forças mais do que julgara
possível. Não é fácil derrotar um inimigo poderoso como
Yahali em seu próprio território.
Lyanta acordou quando o sol já estava baixo. Acenderam
uma fogueira para se aquecerem contra o frio do vento da
montanha. Então comeram o restante dos alimentos e
ficaram sentados olhando silenciosos para as chamas.
Quando a lua surgiu Ruan levantou-se:
— Todos os anos, nesta época, há uma reunião entre os
Grandes Seres, aqueles que protegem a Quarta Raça. Tentarei
fazer contato com eles esta noite, quando estiverem
reunidos no templo. É a última chance.
Ele se deitou então, chamando o cão com um assobio e
embrulhando-se no manto.
Tzal parecia inquieto e continuou a perambular por entre as
árvores, ganindo baixo.
— Qual é o problema? — perguntou interessado Vanzaj que
o estivera observando. — Parece que está querendo uma
companheira.
— Possivelmente — os pensamentos de Ruan estavam longe,
com os amigos que queria salvar antes do amanhecer.
Por fim Tzal veio com relutância e também se deitou, a
grande cabeça pousada sobre a mão do dono. Continuou a
ganir, suavemente, no fundo da garganta.
Ninguém acordou no meio da noite quando o grande animal
se levantou e desapareceu por entre as árvores adormecidas.
Ouvia agora, com nitidez, embora muito ao longe, o suave
uivo, melodioso e enfeitiçante, chamado tentador de uma
fêmea solitária.
E enquanto corria, distanciando-se cada vez mais em direção
ao lugar em que um grupo de homens silenciosos se achava à
sua espera, seu dono fazia um último esforço para vencer a
barreira protetora de Yahali.
Um último e desesperado esforço, porque amanhã seria tarde
demais... Amanhã ao meio-dia estariam todos mortos.
Seu corpo achava-se deitado na grama, respirando com
suavidade, mas ele próprio estava em pé junto à borda do
círculo, empenhado numa luta sombria com os horríveis
guardiões do Sumo Sacerdote, que tentavam fazê-lo voltar
atrás.
Finalmente recuaram e então permaneceu o último
obstáculo, a própria barreira, uma parede alta, espessa e
negra.
Ruan hesitou e se deteve — e no mesmo instante viu a
parede tornar-se mais alta, mais maciça, mais ameaçadora.
Avistou os rostos de muitos velhos amigos, rostos bem
conhecidos, nunca esquecidos. Suspirou. Havia passado
muito tempo desde que os vira pela última vez. Após a noite
em que perdera sua amada havia deixado Aztlan e
peregrinara por muitos anos em terras estrangeiras. No curto
espaço de tempo desde sua volta vivera principalmente na
capital, rodeado por estranhos e inimigos.
Viu o rosto de Zenhar, que fora seu companheiro de
infância e que era agora um dos principais auxiliares do Rei.
Ali estava também o semblante quieto e sábio do próprio
Rei... E havia muitos outros, sorrindo-lhe calorosos. E todos
seriam massacrados se não fosse bem sucedido.
Devolveu-lhes o sorriso, o coração cheio de saudade. Então
seu olhar percorreu rápido a muralha negra. Sabia que havia
apenas um caminho: para diante, diretamente através dela...
E desta vez não iria falhar. Chegaria a tempo.
A muralha ondulou e ficou transparente. Podia avistar os
contornos enevoados das montanhas à luz branca do luar.
Pela fração de um instante, Ruan abandonara por completo
sua própria personalidade, perdera sua identidade em seu
desejo de salvar os amigos. E, ao fazê-lo, se tornara
invulnerável. Ele não sentiu medo. Nada, ninguém podia
barrar seu caminho. Como se pode lutar contra o que tem
menos substância que a mais leve das plumas, o que está
sendo impelido pelos ventos fortes do amor?
Havia uma tênue radiância a leste quando Ruan deteve-se à
entrada de um pequeno templo branco, construído em meio
a majestosos pinheiros. O templo achava-se nos limites da
cidade — a pequena cidade montanhesa para onde Rahazz
havia fugido após sua derrota, anos antes.
Parado junto a uma pesada coluna revestida de ouro, Ruan
pôde ouvir algo do que estava sendo dito no interior:
"...seus serviçais e auxiliares do Fogo, Terra, Água e Ar serão
marcados e destituídos de poderes, de modo a se tornarem
incapazes de prevenir seus senhores..."
Não continuou ouvindo, nem tentou entrar. A essa reunião
não linha o direito de estar presente. Formou em sua mente
a mensagem para Rahazz.
"O perigo ameaça! Amanhã tentarão assassiná-lo e à maioria
de seus auxiliares. Há traidores mesmo entre amigos muito
próximos. Cuidado!"
Sentiu no mesmo instante que a mensagem havia sido com-
preendida e recebeu a resposta:
"Obrigado. Mas, diga-me, não estou certo... Poderá ser..."
Antes que pudesse responder ouviu o grito. Era um grito
terrível, o berro de um ser humano em total desespero, tão
repleto de horror e dor que sua compaixão fê-lo esquecer
tudo o mais.
Instantaneamente sentiu-se transportado na direção daquele
grito... O templo e as árvores desapareceram... Mas então
sentiu algo segurando-o, puxando-o de volta para seu corpo.
Abrindo os olhos viu Vanzaj parado ao seu lado, chamando-
o pelo nome, o rosto preocupado: Ruan levantou-se de um
salto, olhou rápido ao redor e descobriu a razão.
— É o cão, não é? Tzal desapareceu.
— Sim — disse Vanzaj preocupado. —Achamos melhor
acordá-lo. Ele pode ter encontrado alguma fêmea.
Nos ouvidos de Ruan ainda ressoava o grito que escutara
antes de acordar. E, por alguma razão incompreensível,
associava aquele grito ao desaparecimento do cão.
— Receio que seja obra de nossos inimigos. Querem que eu
saia à sua procura.
— Mas vamos procurá-lo de qualquer maneira — sugeriu
Lyanta.
O sol estava bem alto quando desistiram dos assobios e
chamados infrutíferos. Não havia qualquer sinal de Tzal.
Ruan apontou então para uma trilha íngreme que se perdia
em muitas curvas.
— Sigam aquele caminho até alcançarem o meu pessoal —
disse. — Não há por onde errar e nem mais qualquer perigo.
Eu volto daqui.
— Vai voltar? disse Vanzaj com indignação. — Nesse caso,
iremos também.
— Não. Será muito melhor se não forem. Isto é algo que terei
de fazer sozinho. Além disso, conheço a região muito
melhor que vocês dois — e contou-lhes sobre o grito que
havia ouvido durante o sono.
Quando se foi, Vanzaj disse, aborrecido:
— Então ele pensa que deixarei que enfrente isso sozinho?
Vamos esperar aqui até que tome uma boa dianteira e depois
vamos atrás dele — olhou para a moça, que assentiu.

Capítulo V

Eles foram presos e todos confessaram integralmente. Yahali
lhes havia prometido grandes riquezas e favores invejáveis
caso se tornassem traidores.
O jovem líder estivem ocupado limpando a espada
ensangüentada quando viu seu Rei se aproximar. Saudou-o e
colocou a arma de lado.
— Um deles atacou-me pelas costas e consegui feri-lo.
Pertence a minha própria tribo, um homem que jamais
imaginei capaz de traição.
— Amanhã falarei com eles eu mesmo — disse Rahazz,
vendo os últimos prisioneiros serem levados. — Foi um bom
trabalho, Zenhar.
Zenhar encolheu os ombros quadrados.
— Não foi difícil, depois do aviso que recebemos. Tem idéia
de quem enviou a mensagem, senhor?
O Rei meneou a cabeça devagar, pensativo.
— Não... Não tenho a menor idéia. Quer dizer... por um
momento pensei... — interrompeu-se e depois acrescentou:
— Mas, não, isso não poderia ser.
Zenhar olhou-o com curiosidade: o rosto digno com suas
maçãs altas, o afilado nariz aquilino, os olhos, claros e
serenos. Como o Rei não continuasse, perguntou:
— Alguém que tenha conhecido?
-— Não estou certo. Estava apenas me perguntando... —
pela segunda vez Rahazz não terminou a sentença. O jovem
comandante esperou um pouco, mas como o Rei
continuasse em silêncio, levantou-se, saudando mais uma
vez.
— Preciso ir, agora. Deve ter sido alguém muito poderoso.
De outro modo jamais teria conseguido vencer a barreira.
Gostaria de conhecê-lo.
"Não creio que ele venha." O sucessor de Zoar estava muito
duvidoso. "Seria pura loucura cair numa armadilha tão
óbvia."
— Virá. Não há a menor dúvida, quanto a isso — respondeu
Tchamar. — É claro que se dará conta de que preparamos
esta armadilha para ele... mas virá para salvar seu cão.
Conheci muitos de sua espécie. São todos iguais, prontos a
mergulhar de cabeça em todos tipos de perigos para salvar
outros.
— Até mesmo cães?
— Até mesmo cães.
Os dois homens estavam parados próximo à entrada de uma
enorme caverna, numa planície nua e desolada, repleta de
rochas, com arbustos baixos.
O capitão olhou para a figura humana prostrada perto de sua
boca escancarada... e estremeceu.
Afinal, havia servido sob Zoar por muitos anos, e esta era
uma maneira horrível de morrer, embora seu antigo chefe
com efeito merecesse a morte.
— Por que não deixou que morresse na caverna? —
perguntou.
— Como ele conseguiu sair de novo?
— Creio que encontrou a passagem para fora por acaso —
respondeu Tchamar. — Não há necessidade de forçá-lo a
entrar outra vez. Não viverá por muito mais tempo.
— Escolhi trinta de meus melhores homens, como me
ordenou - disse o capitão. — Embora na verdade me pareça
um exagero.
— Ao contrário, é efetivamente necessário. Aquele homem
sozinho, capitão, é mais perigoso que dez de seus melhores
homens juntos, incluindo você.
O capitão, incrédulo, suprimiu um risinho preconceituoso.
Que covardes eram esses sacerdotes!
— Mas por que toda essa confusão de atrair o cachorro para
longe dele? Não seria mais fácil atacá-lo e prendê-lo de uma
vez?
— Não. Eles haviam alcançado o sopé das montanhas.
Estavam praticamente a salvo. E você sabe que aquelas
montanhas estão enxameando de rebeldes de Zenhar. Além
disso... quero minha vingança pela derrota que sofri em suas
mãos. Por isso vou fazê-lo sentir o sabor das cavernas antes,
e depois, quando já estiver todo quebrado, seu próprio cão
irá destruí-lo.
Com um sorriso selvagem, o sacerdote apontou para sua
esquerda, de onde vinha um rosnado feroz.
— Quando chegou o cão? — perguntou o capitão.
— Nós o trouxemos para cá numa nave, ao amanhecer.
Esperamos por ele na floresta de Dahzen. Lutou como um
demônio e quase matou meu criado, de modo que tivemos
de espancá-lo até a inconsciência.
— E fará o que espera que faça?
— Disso estou certo. Eleja está completamente sob minha
influência... está enfurecido como um cachorro louco.
— E quando espera seu dono?
— Talvez amanhã ã noite. De qualquer modo, deve instruir
seus homens para que se escondam amanhã pela manhã. Ele
não deve encontrar ninguém por aqui.
Aproximaram-se do grupo de soldados, parados ociosamente
ali perto, tentando proteger-se do sol abrasante. Ninguém
prestava qualquer atenção a Zoar, caído junto à entrada da
caverna.
O antigo capitão da Guarda de Yahali havia cessado seus
gemidos e jazia imóvel, indiferente ao calor cáustico. Vez
por outra seu corpo se contraía em espasmos violentos e
convulsivos.
A nave chocou-se duramente contra uma rocha, girou duas
vezes sobre si mesma e então cravou o nariz prateado na
areia quente.
Ruan, que batera com a cabeça de encontro aos painéis,
atordoado e sem fôlego, permaneceu deitado por um longo
tempo antes de, bem devagar, colocar-se em pé.
Havia encontrado o pequeno aparelho pela manhã,
exatamente como Vanzaj e Lyanta o haviam abandonado
meses antes. Submetera-o a um exame minucioso, com
resultados satisfatórios. Embora estivesse danificado, como
Vanzaj lhe contara, mesmo assim o veículo seria capaz de
levá-lo até bem mais perto de seu objetivo.
Não hesitara quanto ao seu destino. O instinto, um instinto
infalível, ao qual seguia naturalmente como a uma
informação segura, assim indicara. Durante o vôo ouvira
ainda uma vez aquele grito, mais débil agora, e mais
resignado, pois a pessoa que o emitira havia perdido qualquer
esperança.
A planície era seca, quente, rochosa, marcada apenas aqui e
ali por empoeiradas árvores anãs. Bem ao sul viu algo, que
era provavelmente a orla de uma floresta, e para o lado leste
pôde discernir, a considerável distância, o que parecia a
entrada de uma caverna. Aquele era o lugar onde muitos
rebeldes eram executados: a Morada dos Morcegos.
Decidiu alcançar as cavernas através da floresta. Embora
exigisse mais tempo, isso era mais seguro. Sem dúvida os
soldados estavam escondidos em algum lugar... talvez não o
esperassem tão cedo.
Desde que pousara havia sentido o perigo por toda parte. Era
uma sensação sinistra que o fazia estremecer mesmo ao sol
abrasador daquele dia. Utilizando-se de cada pequeno
arbusto espinhoso e cada rocha escaldante para manter-se
coberto, alcançou por fim um bosque de árvores retorcidas.
A partir dali as cavernas eram muito mais próximas e
diretamente opostas.
Nada se movia. Sentiu outra vez aquele frio arrepiante
subindo por seu corpo.
Agachou-se. Músculos e nervos tensos, olhos e ouvidos
apurados ao limite, manteve-se nessa posição por longo
tempo,
Nada aconteceu. Nada se moveu. A planície estava quieta,
desolada, infernalmente quente.
Ouviu então de novo aquele grito, agora não mais que um
gemido. Ouvi-o com os ouvidos físicos.
Ergueu-se cauteloso, olhando atento em todas as direções
antes cie começar a busca entre as incontáveis rochas.
Encontrou afinal a forma encolhida, jazendo semi-recostada
de encontro a um rochedo alto, um pouco atrás da caverna.
Após lançar um último olhar ao redor, alcançou o local
numa corrida agachada.
Ajoelhou-se ao lado do corpo e deitou-o de costas. Não
reconheceu imediatamente o antigo capitão da Guarda Real,
mas quando isso se deu, seus lábios se apertaram numa linha
fina e rígida.
Aquele rosto voltado para o seu. A expressão vazia e vidrada
do olhar, as marcas profundas da dor ao redor dos olhos.
Onde estaria o orgulho, a dignidade que tanto apreciara em
Zoar?
Notou que o corpo estava coberto de muitos ferimentos,
alguns deles causados pela sucção de grandes morcegos. O
braço esquerdo estava quebrado.
Ruan ergueu o capitão em seus braços. Não foi tarefa fácil no
calor tórrido sobre as areias escaldantes, mas por fim pôde
baixar Zoar num lugar à sombra.
Arrancando longas tiras de sua túnica limpou os ferimentos
o melhor que pôde. Do largo cinturão retirou um frasco
dourado, cheio de um líquido estimulante, do qual despejou
entre os lábios de Zoar.
Quando por fim o capitão abriu os olhos, não reconheceu
Ruan.
— Você viu Tcoabal? — sussurrou, com um risinho idiota. —
Tcoabal, o Senhor dos Morcegos? — Estremeceu ante a
súbita lembrança: — Não o viu? Vivi com ele e seus súditos
por eras e eras... Tcoabal... — sua voz se extinguiu.
— Zoar — disse Ruan, forçando o outro a olhá-lo. — Não
sabe quem sou eu? Sou seu amigo, o escultor.
Mas o capitão sacudiu a cabeça.
— Não o conheço, senhor. Onde está Tcoabal? Ele eu
conheço. Pertenço apenas a ele. — Zoar riu outra vez aquele
riso idiota, tentou livrar-se das mãos de Ruan, mas voltou a
cair, inconsciente.
O sol era um fogo vermelho e baixo a oeste quando Ruan se
levantou com um suspiro profundo e desalentado. Sua testa
estava coberta de suor, os olhos fatigados. Apenas por uma
vez Zoar parecera reconhecê-lo, e isso somente por um
instante.
Conhecia apenas um homem capaz de curar a mente de
Zoar... se a cura ainda fosse possível. Mas essa pessoa estava
longe, ao norte, e pai a ali chegar em tempo de salvar o
capitão teria de partir sem demora.
Mas se o fizesse, o que iria acontecer a Tzal?
Assim, estava ali parado, vacilando, olhando para o pobre
Zoar, quando alguém lhe golpeou a cabeça com força e
eficiência.
Nem viu o rosto de seus atacantes. Sem emitir um único
som, caiu sobre a grama seca, amarelada do bosque.

Capítulo VI

— Temos de ir encontrar Ruan, disse Lyanta. — Tenho uni
pressentimento de que ele precisa de nossa ajuda.
Vanzaj, a cabeça em seu colo, assentiu e puxou-a para si,
buscando uma vez mais seus lábios.
Levantou-se com relutância, estendendo a mão para ajudar a
jovem.
— Estou muito desolado por interromper, mas preciso de
uma informação urgente — a voz era jovem e alegre, e seu
dono achava-se parado no centro de um grupo de guerreiros,
todos armados até os dentes.
Sua túnica curta era coberta por uma armadura de finas
placas de prata, trabalhadas com arte, indicando um alto
posto militar. De seus ombros pendia um manto de pesada
seda azul e uma faixa de prata cingindo-lhe a cabeça deixava
claro que tinha sangue nobre. Os olhos muito azuis, as
feições cinzeladas. Uma das sobrancelhas era um tanto
repuxada para cima, efeito causado por uma fina cicatriz que,
começando no canto do olho, perdia-se na espessa massa de
cabelo negro sob a faixa cintilante. Em seus braços muito
bronzeados e musculosos, notavam-se largos e pesados
braceletes de prata, um dos quais, o do braço esquerdo,
cobria em parte uma cicatriz profunda, estendendo-se do
pulso ao ombro.
"Um importante chefe montanhês", pensou Vanzaj. "Graças
a Deus... Agora podemos ajudar Ruan com muito mais
eficiência."
Deu um passo para diante, as mãos estendidas, quando um
dos homens, que estivera observando Lyanta com atenção
desde o momento em que lhe pusera os olhos, disse algo ao
comandante em voz baixa.
—Ah! Percebo — a amabilidade desvaneceu-se do rosto e da
voz do jovem. Emitiu uma ordem breve: — Prendam-nos.
Na certa são espiões... e já estou farto de espiões e traidores
nos últimos dias.
Antes que se dessem conta do que estava acontecendo, os
homens haviam rodeado a ambos.
— O que significa isso? — exclamou Vanzaj, indignado. —
Você está errado! Não somos inimigos. Somos amigos, e se
você é do norte contamos encontrar um amigo em você
também.
— Receio que seja engano seu, senhor — veio a fria resposta.
— Eu não o conheço, mas pensaria mais que uma vez antes
de aceitar a filha de Tchamar como amiga.
Lyanta ficou rubra de raiva. Que tolo impertinente! Como
ousava?
— Bem, se não acredita que somos amigos, seria melhor
tomar cuidado — retorquiu com arrogância. — Não esqueça
de que estão no território de Yahali e que afinal vocês não
passam de rebeldes.
Diante disso, Zenhar sentou-se sobre um tronco caído, rindo
baixinho. Ao seu redor os homens dobravam-se de riso.
— Território de Yahali! Já estou tremendo de medo, como
vê. Mas vamos prendê-los da mesma forma, não importa a
quem pertença este território. Amarrem-nos.
Vanzaj pensou depressa. Como poderia ser capaz de ajudar
Ruan se esse montanhês impertinente se recusava a acreditar
neles? Com um movimento brusco, empurrou para os lados
os homens que o cercavam.
De um salto, Vanzaj colocou-se diante de Zenhar, ainda
sentado.
— Ouça — disse com urgência na voz. — Não é tanto o meu
destino que me preocupa, mas o de um amigo de vocês. Ele
nos deixou ontem. Mas agora está em perigo em alguma
parte e se não nos deixar partir, ele irá morrer.
De seu tronco, Zenhar examinou-o de alto a baixo. Esse
homem parecia de fato honesto e preocupado. Mas, por
outro lado, nos últimos tempos a honestidade podia ser
extremamente convincente e desapontadoramente
superficial, ele sabia. Abanou a cabeça:
— Lamento. Não acredito em você...
Vanzaj cerrou e decerrou os punhos. Como gostaria de socar
aquele rosto arrogante! Controlou-se. Não iria ajudar Ruan
fazendo algo tão irrefletido.
Zenhar, adivinhando seus pensamentos, estreitou os olhos,
mas não se levantou. A primeira vista esse homem tinha
coragem. Avaliando-o, notou os ombros largos, a leveza com
que se postava sobre os pés, os músculos rijos. Vanzaj tentou
outra vez, desesperançado.
— Precisa acreditar em mim! E se eu lhe contar que esse meu
amigo tentou enviar-lhes uma mensagem esses dias, para
preveni-los sobre certa conspiração? Estou dizendo a
verdade.
Dessa vez Zenhar levantou-se num instante. Conspiração!
Isto ao menos não poderia ser mentira. E se esse homem
estivesse dizendo a verdade, afinal, e eles abandonassem o
amigo que os havia prevenido?
Deu ordens a seus homens que desamarrassem a moça.
Voltando-se para Vanzaj, observou:
— Você disse a única coisa que poderia ter dito para me fazer
mudar de idéia, ao menos para conceder-lhe o benefício da
dúvida. Nós vamos à procura de seu amigo. Mas possam os
poderes das trevas protegê-lo se mentiu para mim.
Esfregando os pulsos, Lyanta disse, preocupada:
— Não há tempo a perder. Ele está em grande perigo. Está...
nas cavernas de Tcoabal.
— Mas como sabe? Ele próprio não sabia onde ir quando nos
deixou — disse Vanzaj, surpreso.
Ela olhou zombeteira na direção de Zenhar.
— Simplesmente sei, é tudo. Ser filha de Tchamar tem suas
utilidades, mesmo havendo algumas pessoas que não me
consideram digna de sua inestimável amizade.
— Suponho ter merecido isso — comentou Zenhar. Mas
temos de nos apressar. As naves ficaram ao sul desta floresta.
Com o pé calçado de sandália, o sacerdote tocou o homem
inconsciente que jazia diante de si. O gesto foi ofensivo, por
sua indiferença e rancor.
Ruan havia sido deitado sobre seu próprio manto, e, em sua
cabeça, uma mancha escura aumentava aos poucos, sujando
o tecido.
Quando recuperou os sentidos, a meia-noite estava próxima.
Abrindo os olhos, descobriu que não conseguia ver com
clareza, a princípio, gradualmente a visão melhorou e o
primeiro rosto que reconheceu à luz bruxuleante dos
archotes foi o de Tchamar, magro e de lábios estreitos. Ele
falava a um soldado.
Virando devagar a cabeça para o lado, viu Zoar a pouca
distância, aparentemente ainda inconsciente.
Um vento frio assobiava por entre as rochas escarpadas e a
boca escura das cavernas. Várias fogueiras haviam sido acesas
e os soldados se agachavam ao redor, aquecendo-se. Contou
cerca de trinta homens, todos armados. Não teria a menor
chance numa luta.
De algum lugar atrás dele, de dentro da noite, chegavam-lhe
selvagens uivos rosnados e ganidos estranhos, Não percebeu
de imediato que estava ouvindo a voz de Tzal, o grande cão,
e quando se deu conta do fato, não compreendeu. O que
havia sido feito ao cão... e por quê? Qual era a intenção de
Tchamar?
A voz baixa de seu inimigo, ali próximo, interrompeu seus
pensamentos:
— No final das contas você não era tão poderoso quanto
parecia. Em realidade, foi muito fácil levá-lo a fazer o que eu
desejava. E desta vez não terá como escapar.
"Não sei quem é você e porque insiste em interferir nos
negócios tios outros, mas o seu fim está muito próximo
agora. Jamais em minha vida fui derrotado duas vezes pelo
mesmo homem."
Chamou três soldados que forçaram o prisioneiro a se
levantar e o levaram até a entrada da maior caverna. Dali ele
viu outros dois, arrastando Zoar.
Tchamar disse, triunfante:
— Desta vez não cometerei nenhum engano. Em muito
pouco tempo, não restará nada desse seu orgulho insolente.
Irá implorar por misericórdia de joelhos... o Senhor Tcoabal
sabe exatamente como lidar com sua arrogância. Olhe para o
que sobrou de seu amigo, o capitão.
Ruan não respondeu, mas sentiu-se gelar. Gemendo
interiormente, havia notado que justo naquele momento os
olhos de Zoar estavam pousados em seu rosto em evidente
reconhecimento, e até mesmo a sombra de um sorriso.
Por que seu amigo escolhera aquele momento para recuperar
a consciência? Teria sido muito melhor para ele continuar
inconsciente.
Sabia, embora Tchamar não o soubesse, que os tormentos da
caverna iriam afetá-lo muito pouco. Mas sabia também que
Zoar sucumbiria quando forçado a enfrentá-los pela segunda
vez.
Dois soldados colocaram o capitão outra vez em pé,
pretendendo empurrá-lo para dentro da caverna. Zoar, em
plena consciência agora, dando-se conta do que estava por
acontecer, retrocedeu horrorizado, lutando com desespero.
—Afinal sou um soldado. Tenho direito à morte de um
soldado... o direito a uma morte honrosa - disse ao capitão,
seu antigo subordinado.
Mas Tchamar riu:
— O único direito que tem é o direito à morte de um traidor,
à morte de um rebelde, desonrosa e miserável.
Quando atiraram seu amigo para dentro da caverna, Ruan
saltou sobre os soldados, num ataque tão rápido e inesperado
que conseguiu derrubar três deles antes que o dominassem
de novo, após uma luta curta e violenta.
Amarrado desta vez, atiraram-no aos pés de Tchamar.
— Isso serve apenas para apressar seu fim, seu tolo — sibilou
o sacerdote. E, dirigindo-se aos homens: — Atirem-no para
dentro da caverna, também. Vigiem atentamente para que
não possam mais sair. Se tentarem, firam-nos e façam-nos
voltar, mas não os matem.
Os soldados deram alguns passos na direção do prisioneiro —
e então estacaram e ficaram olhando, bocas abertas, olhos
repentinamente arregalados de medo, fixos em algo que
apenas eles conseguiam ver.
O capitão, irritado com a demora, aproximou-se para ver
qual a sua causa.
E ele também se deteve e recuou, tomado de temor.
— A Serpente Emplumada! O Sinal da Serpente!
O silêncio seguiu-se àquelas exclamações. Um silêncio tão
profundo que se podia ouvir o farfalhar das asas dos
morcegos e gritos lúgubres vindos do reino de Tcoabal,
mesclados com os gemidos horrorizados de Zoar,
enfrentando pela segunda vez as torturas das cavernas.
Na luta, as roupas de Ruan haviam sido arrancadas de seu
corpo e, através dos farrapos, todos eles podiam ver agora
aquele símbolo estranho.
Ao redor da cintura, dando a volta aos quadris, a cabeça
levantada exatamente sobre seu plexo solar, estava tatuada
uma serpente alada.
O Sinal da Serpente! O rosto de Tchamar contorceu-se de
ódio. Aquele símbolo... O único símbolo respeitado — senão
temido pelo próprio Rei! E esse homem era um deles... um
dos membros da odiosa Irmandade.
O capitão foi o primeiro a falar, mal conseguindo conter o
júbilo que sentia ao ver o desconforto de Tchamar. Não
gostava de sacerdotes, eram todos covardes, não tinham
idéia do que fosse uma luta leal, eram sempre cheios de
truques e intrigas.
— Sabe o que isso significa, não é mesmo? E uma Ordem
muito poderosa e é inútil fazê-lo entrar na caverna. Aqueles
que usam o Sinal da Serpente triunfaram sobre os morcegos.
E uma de suas iniciações mais elementares. Por que não
executá-lo aqui e agora, de um modo simples e eficiente, o
modo dos soldados? Se apenas der a ordem...
Tchamar fez um gesto selvagem.
— Não! Ele não será executado do seu modo. E mesmo se
fosse o cabeça da Ordem em pessoa, iria morrer do modo
que desejo que morra. Amanhã, ao amanhecer.

Capítulo VII

Quando Ruan reviu seu cão, soube o que lhe estava
reservado. Sentado, apoiado a uma pedra, fora tão bem
amarrado que mal podia se mover. A cabeça doía-lhe muito
e as cordas enterravam-se cruelmente em sua carne.
À apenas alguns passos de distância dois soldados continham
o cão e somente com muita dificuldade conseguiam evitar
que se soltasse.
Tzal havia sido transformado de um ser vivo e inteligente
num instrumento de destruição que rugia, rosnava e urrava
— o instrumento de Tchamar.
Seus olhos estavam enlouquecidos e injetados de sangue;
espuma escorria de sua boca e seus terríveis e afiados dentes
brancos mostravam-se por entre os beiços arreganhados.
Os pensamentos de Ruan recuaram até o tempo em que
recebera o pequeno filhote dourado e negro como presente
de um estranho, numa terra estrangeira.
Estivera banhando-se no rio e acabava de sair da água
quando viu o homem se aproximando. Para sua surpresa, o
viajante o cumprimentá-la em seu próprio idioma:
— Anda muito só, atlante?
Com efeito, andava muito só — saudoso de seu país, saudoso
da jovem que amara e perdera, saudoso dos amigos que
haviam lutado a seu lado durante a última batalha contra os
exércitos de Yahali.
— Tenho estado muito só — admitira —, mas como
adivinhou que sou atlante?
O outro apontara a serpente que rodeava seus quadris.
— Conheço o sinal. Não resta dúvida de que tudo vem de sua
terra, todo o conhecimento que temos por aqui. A
Irmandade é vasta. Também pertenço a ela.
Os olhos do homem eram de um estranho amarelo-dourado
e extremamente oblíquos, a pele muito negra e suave.
Então sentaram-se lado a lado e Ruan falara. Como havia
falado! Sobre sua terra e seu povo, sobre Yahali e a última e
decisiva batalha. Sobre Sheon-La... muito sobre Sheon-La e a
última vez em que a vira, encarando Yahali diante do altar.
Sobre Zenhar, com quem estivera lutando lado a lado
naquele último dia... no dia em que souberam que a batalha
estava irremediavelmente perdida.
Contou sobre como Zenhar bradara: "Quantas vezes são
agora que você salvou minha vida, Ruan?" E sobre como ele
próprio respondera: "E você alguma vez contou quantas
vezes salvou a minha, idiota?"
O homem negro limitara-se a ouvir. E quando se separaram,
tocara com leveza a testa de Ruan com os dedos, dizendo:
— Nós saudamos assim em minha terra, atlante... e aqui tem
algo para torná-lo um pouco menos só — e colocou o filhote
fofo e sonolento nos braços de Ruan.
Agora ouviu Tchamar dizendo:
— Você e seus amigos são tão convencidos do poder do
amor... tão convencidos de que este sempre conquista o
ódio, sempre desvanece as trevas. Mas olhe agora para o seu
cão, escultor... ainda está tão seguro disso?
— Olhe para seu cão! Veja como só lhe foi deixado um único
pensamento agora: destruir você. Observe bem, escultor, e
aprenda que nada é importante: nem o amor, nem o ódio.
Importante é o poder de usá-los como melhor nos convém.
Olhe bem... vou ordenar-lhes que o soltem.
Tzal sentiu caírem as correias. Estava livre para fazer o que
lhe agradasse. Livre para vingar-se — para matar aquela
criatura odiosa sentada tão quieta à sua frente.
O que aconteceu em seguida se deu tão depressa que tudo
estava acabado e feito antes que eles sequer se dessem conta
de que havia começado.
O enorme cão agachou-se para o salto. Seu pêlo brilhava
intensamente ao sol.
Quando saltou, pareceu ficar suspenso no ar, por apenas uma
fração de segundo.
E Ruan, assistindo, impedido de se mover, entreabriu os
lábios sussurrando algo.
E o fez de forma tão suave que não pôde sequer ouvir a
própria voz, pensando mesmo que devia ter sussurrado
apenas na imaginação.
— Tzal!
Nessa palavra concentrava-se todo amor que sentia pelo
esplêndido animal, e a mesma soou como soa o vento nas
alturas, suspirando entre as copas das árvores. Tão suave que
os homens sequer perceberam.
No momento seguinte a besta cairia sobre seu dono e o
rasgaria com os dentes.
— Tzal!
Pareceu então como se o cão recuasse, ainda no meio de seu
salto. Ouviu com clareza o que os outros não conseguiram
ouvir — aquela voz tão sua conhecida.
Ficou confuso. Conhecia aquela voz. Em algum lugar do
passado, há muito tempo, quando o mundo não fora ainda
povoado de inimigos que tinham de ser destruídos, aquela
voz estivera junto dele sempre.
E no breve instante antes de alcançar aquele inimigo, Tzal
lutou com a estranha loucura que o possuía, combateu as
sombras escuras que o rodeavam, estimulando-o a matar seu
dono.
E seu grande e valente coração venceu a batalha.
Ruan sentiu o poderoso corpo cair sobre si com um terrível
baque, cortando-lhe o fôlego. Sua cabeça bateu de encontro
à rocha e a dor aguda quase fê-lo perder a consciência. Mas
nenhuma presa branca rasgou-lhe a carne como estivera
esperando. Ao invés disso havia um leve e feliz resfolegar de
alívio e um focinho macio de encontro ao seu rosto.
Um reconhecimento deliciado via-se agora nos olhos
castanho-dourados, que apenas um pouco antes haviam
estado olhando-o com um frenesi de loucura. A velha
expressão de inteligência voltara.
Ruan quis acariciar o cão, mas as cordas impediram-no de
fazê- lo, lembrando-lhe ao mesmo tempo que ainda estava
em perigo.
Erguendo a cabeça de novo, lentamente, Tzal viu uma
nuvem de névoa se formando diante de seus olhos, uma
nuvem que se tornava mais e mais espessa. Quase não podia
mais enxergar.
Aqueles olhos. De que o lembravam aqueles olhos? Via-os
nítidos: olhos negros, malignos, olhando-o com fúria. Fúria e
algo mais, uma força estranha que conhecia e temia.
Aqueles olhos eram malignos. Olhos que devia destruir antes
de descansar. Eles haviam tentado forçá-lo a fazer... fazer o
quê? Sacudiu a grande cabeça algumas vezes, tentando
afugentar aquela névoa estranha.
Tarde demais Tchamar percebeu o que significava para ele o
olhar estranho e fixo do cão. Tarde demais voltou-se para
fugir, gritando pelos soldados, tateando frenético as roupas à
procura de sua adaga.
Demasiadamente tarde... pois o destino foi mais rápido.
O cão-lobo não emitiu um único som, não latiu, nem
rosnou. Nada. Em silêncio atacou o sacerdote, homem e cão
caindo juntos.
As garras poderosas rasgaram o peito do inimigo, em
silêncio... Os dentes brancos, afiados e fortes cravaram-se
silenciosos em sua garganta.
Em completo silêncio ele matou Tchamar, o sacerdote, antes
que os soldados pudessem interferir. Um estremecimento
sacudiu o corpo de Tchamar... a mão que estivera tentando
em vão agarrar a garganta de Tzal afrouxou. A cabeça pendeu
lentamente para um lado, os olhos fixos com expressão
horrorizada no horizonte distante.
E Tzal também estendeu as patas, imóvel. Sua bela cabeça
encostou-se no corpo do homem que acabara de matar.
Quando os soldados chegaram correndo estava tudo acabado.
O capitão, que chegou à frente dos outros, ajoelhou-se
rápido para examinar o sacerdote.
— É inútil. Está morto e por sua própria culpa. Devia ter-me
ouvido — apontou para Ruan: — Mas podemos
proporcionar-lhe companhia. Matem-no agora, e rápido.
Antes que os outros pudessem obedecer, a planície estava
fervilhando de soldados estranhos, berrando. Homens
bronzeados das montanhas.
Impotente por causa de suas amarras, Ruan teve de
contentar-se em assistir, à distância. Os homens de Yahali,
percebendo estar em inferioridade numérica, tentavam fugir
à luta para alcançar suas naves.
Então Ruan viu Vanzaj e a moça se aproximarem. Eles
cortaram as cordas que o amarravam.
Lyanta olhou por longo tempo para o corpo do pai, alívio e
tristeza misturando-se na expressão de seu rosto
— Nunca houve muito amor entre nós — disse. Ele nunca
teve tempo para mim. Eu o admirava à distância, por causa
de seu poder, sua posição. E ele me admirava pela maneira
como eu usava minha beleza para conseguir as coisas que
desejava. E isso era tudo.
Ruan estivera examinando o cão com cuidado. Este estava
inconsciente e muito fraco, mas seu coração ainda batia.
Então, lembrando-se de Zoar, Ruan levantou-se de um salto
e entrou na caverna. Saiu arrastando o ex-capitão pelos
ombros. Zoar entrara num coma profundo.
A moça tomou Ruan pela mão:
— Olhe, os soldados de Yahali fugiram e os outros estão
voltando. Venha, vou apresentá-lo ao comandante deles.
Zenhar e seus ruidosos rebeldes pararam de perseguir os
inimigos e estavam voltando.
Ruan foi ao encontro deles, porém num passo lento. Sua
cabeça doía tanto que mal conseguia manter os olhos
abertos.
Cobrindo a distância que ainda o separava dos outros,
Zenhar praguejou contra o sol, agora brilhando diretamente
em seus olhos. Estava mais que curioso para conhecer o
homem que salvou e que vinha devagar em sua direção.
Protegendo os olhos com a mão, para ver melhor, parou de
modo tão inesperado e abrupto que o soldado que vinha
atrás, tentando evitar chocar-se com ele, perdeu o equilíbrio
e caiu.
Antes que seus subordinados pudessem refletir sobre o
comportamento peculiar do comandante, Zenhar começou a
correr como um louco.
Toda dignidade esquecida, ele correu, berrando algo que
ninguém, de início, conseguia compreender.
— Ruan! Ruan!
Ao ouvir aquela voz Ruan esqueceu sua dor de cabeça e sua
fraqueza, começando a correr também, deixando os outros
para trás, completamente perplexos.
Haviam sido amigos desde a infância e nada, jamais, fora
capaz de perturbar essa amizade. Há muito tempo, numa
outra vida, uma vida louca, aventurosa e curta, haviam
cruzado os mares juntos. E através das eras reencontraram-se
seguidas vezes, renovando sempre os laços que os
mantinham próximos.
— Ruan! — disse Zenhar depois de terem se abraçado —
Então era você o tempo todo. Se não nos tivesse avisado
naquela noite, não estaria me vendo aqui agora. Onde esteve
durante todos esses anos?
Olhando para o rosto do amigo, os alegres olhos azuis, as
feições bonitas e bem talhadas, Ruan riu, feliz:
— Zenhar! Você não sabe como é bom vê-lo após todo esse
tempo. Como senti falta de vocês todos. Estive muito
longe... e quando afinal estava por chegar em casa tudo isso
aconteceu.
— Graças a Deus! Imagine o que teria acontecido se eu não
tivesse confiado em seus amigos — Zenhar empalideceu
ante o pensamento, e estremeceu.
— Eles parecem se conhecer — observou Lyanta secamente,
olhando para os dois amigos que riam, tagarelavam e davam
palmadas nas costas um do outro: — E pensar na dificuldade
que tivemos para convencer esse teimoso comandante
rebelde, e como ele se recusava a acreditar... — não
terminou a frase, agarrando o braço de Vanzaj e apertando-o
com muita força.
— Olhe — disse ela, excitadamente. — Olhe, os soldados. O
que estão fazendo, em nome dos céus?
Vanzaj, olhando, reteve o fôlego.
Os homens de Zenhar haviam agora alcançado o pequeno
grupo, justo no momento em que Zenhar soltava a mão de
seu amigo.
E o tenente Dizan, o mesmo que reconhera Lyanta ao
primeiro olhar, ao vê-la no sopé das montanhas, não
precisou agora de mais que um relance para reconhecer a
figura alta ao lado de seu comandante. Seu cabelo negro, os
olhos cinzentos, a boca sensível.
Gritou alguma coisa: um grito selvagem, alegre, ininteligível,
elevando a espada no ar.
E todos eles, seguindo seu exemplo, sacaram das armas e se
ajoelharam. E ali, naquela planície desolada, as espadas
cintilando de encontro ao céu quente e azul, saudaram o
jovem desgrenhado, com suas roupas esfarrapadas e
ensangüentadas com a saudação que poderia ser feita apenas
perante o Rei Rahazz e seu sucessor: a Saudação Real.
— O Príncipe Ruan voltou — disse Dizan com simplicidade.

Capítulo VIII

— Você acha que ele escapará desta?, perguntou Ruan, com
ansiedade.
Juntos, estavam colocando o corpo inerte de Tzal, sobre uma
maca improvisada.
— Naturalmente — repondeu Zenhar. — Se alguém pode
curá-lo, é seu pai. Você deveria saber isso.
— Você continua o mesmo velho otimista — riu Ruan.
Espero que esteja certo. Quanto a Zoar...
Ruan viu o ex-capitão sendo levado para uma das naves,
ainda inconsciente. Quis aproximar-se, mas uma onda de
tontura o invadiu. A terra girou; o sol, inesperadamente,
soltou-se do céu e caiu com a velocidade de um raio. Levou
a mão à cabeça enfaixada.
— Eu já estava me perguntando quanto tempo ele iria
agüentar ainda — observou Zenhar, lacônico, amparando o
amigo em seus braços. E olhando do cão para Zoar: —
Realmente, é mais que tempo para que o Rei intervenha.
Ruan achava-se estendido no chão da nave. Sua
inconsciência havia durado apenas alguns minutos.
Lyanta, lembrando-se outra vez de que estavam voando em
direção ao reduto rebelde, considerado por ela mesma, até
bem pouco tempo antes, um perigoso ninho de traidores.
Como seria recebida ali?
Aconchegou-se um pouco mais a Vanzaj. Ele correspondeu
de imediato, entrelaçando os dedos morenos e firmes com
os dela, colocando o outro braço ao seu redor.
— Estamos quase chegando, agora? — perguntou ela.
-— Sim — respondeu Zenhar, que pilotava o aparelho. Não
notou que há pouco estávamos sobrevoando a floresta de
Iavak?
— Iavak — disse Ruan com suavidade. Foi ali que Sheon-
La...
Não terminou a sentença, não viu como Zenhar se voltou
em seu assento, dando-lhe um rápido olhar perscrutador.
Contou-lhes então sobre aquela noite terrível.
— Eles não terminaram a cerimônia naquela noite. A
confusão mostrava que o sacerdote e o povo haviam fugido
em desordem. Mas não consegui encontrar Sheon-La. Eu
estava certo de que ela devia estar morta em algum lugar, um
pensamento que se transformou em certeza quando uma das
pessoas presentes à cerimônia, e a quem encontrei
morrendo entre os arbustos, contou-me que havia visto dois
sacerdotes arrastando-a para a floresta. Mas não consegui
encontrar o corpo.
Duas semanas depois deixei Aztlan. Por quê? Não sei... creio
que principalmente por estar farto de tudo. Farto de mim
mesmo, e em especial, de minha inutilidade, do modo como
falhei quando ela mais precisou de mim... Eu que estava tão
seguro de mim mesmo, de meu conhecimento, de meus
poderes... e que fora impotente nas mãos de Yahali. Nunca
mais a vi, sequer em meus sonhos.
A voz de Zenhar fez-se ouvir, afetuosa:
— Seus amigos o estavam esperando. Por que não voltou para
nós Ruan? Por que não veio para casa, nas montanhas?
— Eu não queria... Suponho que pela mesma razão. Queria
estar só... Queria descobrir tudo por mim mesmo, longe da
influência que moldou minha juventude. Por isso parti e
fiquei só durante sete anos... Meu Deus, como me senti só
durante todos esses anos.
Sem interromper, Yahali ouviu o relato, sobre as ocorrências
nas imediações das cavernas. As janelas do palácio estavam
abertas para deixar entrar a brisa fresca que descia das
colinas.
O Rei, sentado em silêncio junto à janela, olhando para sua
cidade, aparentemente distraído, mas sem perder uma única
palavra do que dizia o oficial.
— E quem eram aqueles soldados estranhos? Gente das
montanhas? Você pode descrever seu comandante?
— Jovem, não muito alto, olhos azuis. Armadura, faixa de
prata na cabeça, cicatrizes na testa e no braço esquerdo.
— Naturalmente. Zenhar e seus homens. Quanto
descaramento. Ninguém ousaria aventurar-se tão longe
dentro de meu território. E pareceu reconhecer o
prisioneiro?
— Sim. Abraçaram-se como se fossem velhos amigos... isso
eu vi antes de embarcar em minha nave. Vi ainda, os
homens se ajoelharem e prestarem a saudação...
— A saudação?
— A saudação dos Toltecas, senhor. A Saudação Real.
Desta vez Yahali voltou-se rápido, os olhos faiscando.
— A Saudação Real? Tem certeza?
— Absoluta.
— Então só podia ser o filho de Rahazz. E isso explica tudo: o
mistério do escultor, o sinal da Serpente, os poderes
excepcionais que aquele jovem possui e que custaram a vida
de Tchamar.
Quando o capitão partiu, Yahali permaneceu longo tempo
sentado, absorto em profundos pensamentos.
E mais uma vez perguntou-se por que, a cada vez que lhe
falavam a respeito de Ruan, tinha a sensação de que havia
algo que esquecera, algo que precisava recordar.
Mas o que havia para recordar? Recuando profundamente no
passado, reviveu com nitidez os acontecimentos mais
importantes de muitas vidas anteriores — como se tivessem
ocorrido há pouco tempo.
Porém nada encontrou para explicar sua sensação. Por que
esse homem insistia em cruzar repetidamente seu caminho?
Quando as naves foram chegando, uma velha que aguardava
na multidão apontou para o brasão de Zenhar: duas espadas
cruzadas, azul sobre campo prateado.
— Vejam, é o nosso comandante. Quem estará trazendo
consigo?
Então, respeitoso, o povo abriu passagem para uma figura
grisalha e ereta, trajada de branco.
— O Rei... é o Rei! — murmuravam excitados. — Alguém
muito importante deve estar chegando para que o Rei venha
recebê-lo em pessoa.
Os aparelhos pousaram. Zenhar dirigiu-se direto a Rahazz,
que aguardava e o recebeu com um aperto de mão, enquanto
seus olhos procuraram, por sobre os ombros robustos do
comandante, a figura esguia que saltava da nave.
— Vim para dar as boas-vindas a meu filho. Obrigado por
trazê-lo para casa, Zenhar.
E o povo, atônito, viu um jovem de roupas em farrapos,
aproximar-se do Rei em poucas passadas. Quando o
reconheceram, o júbilo foi tanto que mesmo o rugido do Rio
Zen, precipitando-se de altas rochas para um poço negro e
profundo nas proximidades, foi totalmente abafado.
— E estes são meus amigos — disse Ruan apresentando
Vanzaj e a moça. — Sem a ajuda deles eu não estaria aqui.
— Mesmo sem essa recomendação eles são bem-vindos -
observou seu pai, notando a apreensão no rosto de Lyanta.
E, tomando calorosamente a mão dela entre as suas,
acrescentou: — Espero que breve se sinta em casa aqui,
criança.
Ela olhou para o rosto suave e calmo, e deixou escapar um
suspiro de alívio. Como pudera recear... o que esse homem
poderia fazer-lhe ?
Bem mais tarde, pai e filho encontravam-se lado a lado num
espaçoso aposento de janelas amplas, todas voltadas para
leste, e cujas paredes eram pintadas de um amarelo suave.
Num divã baixo jazia Tzal, imóvel como estivera desde que
desabara sobre o corpo sem vida de Tchamar. Num canto da
sala, um belo fogo crepitava na lareira.
— O capitão tem uma mente forte; reagiu muito mais
depressa do que imaginei — observou Rahazz. — Está fora
de perigo e o seu cérebro inteiramente são e equilibrado de
novo.
— E Tzal? — perguntou Ruan ansioso.
— Isso irá exigir mais tempo. Seu espírito já está muito
distante e seu corpo fragilizado.
O Rei e seu filho trabalharam a noite toda para salvar a vida
do grande cão.
Por fim, pouco antes do amanhecer, Rahazz saiu de junto do
animal:
— Fiz tudo que poderia fazer. Só o que nos resta é esperar.
Dei ordens para que a Melodia da Primavera seja tocada ao
nascer do sol.
A melodia era como uma criatura que tivesse estado imersa
em sonhos e agora redespertava e avançava com dedos
macios, insistentes e radiantes sobre os brotos verdes,
atraindo a força da vida. Era algo vivo, um ser que se
insinuava através do aposento até o divã onde jazia o animal
e que impunha suas mãos magnéticas sobre o corpo quase
sem vida.
Aquele estranho ser melodioso parecia vir dançando
diretamente do coração da própria criação, e era o mesmo
ser que faz a seiva verde elevar-se poderosa nos troncos das
grandes árvores, a mesma presença que atraía as jovens
plantas através da terra em direção ao sol, a mesma também
que faz uma jovem estremecer sob as mãos acariciantes de
seu amante e atrai, irresistível, uma nova vida do útero
escuro da mãe para a luz do dia.
E Ruan, sentado na beira do divã, ouvia embevecido,
emocionado, sentindo a vida dentro de si agitar-se e
acelerar-se como não ocorria há muito tempo. Era bom estar
em casa, no meio de seu próprio povo, sua própria espécie!
Ao seu lado ouviu-se um profundo suspiro e em seguida uma
pata peluda pousou sobre sua mão.
O cão tentou mover a cabeça um pouco, suspirou outra vez
e abanou lenta, mas distintamente, a cauda espessa.
Rahazz sorriu satisfeito.
— Ele reagiu. Está tudo bem, agora.
Quando o cão mergulhou num sono pesado e saudável eles
deixaram o aposento para juntar-se aos outros, para o
desjejum. Ao entrarem, Zenhar estava falando sobre um
movimento secreto cujo principal objetivo era restaurar um
governo justo e pacífico no país.
— É apenas um pequeno grupo — dizia Zenhar —, e
somente agora entraram em contato conosco. Mas temos
esperança de que o movimento cresça em força e possamos
libertar nossa terra de Yahali e seu reinado maligno.
O Rei ouviu em silêncio durante algum tempo, depois
comentou:
— Você deve ter notado, Zenhar, que Yahali está agora mais
poderoso que nunca. São poucas as pessoas que se colocam,
na realidade, contra ele e seu governo... Quanto aos
sacrifícios sangrentos, vá e converse com as pessoas por ali e
irá encontrar poucas que ficam mesmo indignadas, poucas
que realmente se importam. A pregação de Yahali de que
esse tipo de sacrifícios não apenas é necessário, mas também
essencial para a felicidade do povo, e que a própria existência
de Aztlan seria ameaçada se fossem extintos, já lançou raízes
muito profundas.
Ruan ficou surpreso com o comentário do pai.
— Está sugerindo então pai, que a nossa luta é inútil, que
seria melhor desistirmos e deixarmos tudo nas mãos deles?
O Rei viu o fogo nos olhos do filho, ouviu a indignação
apaixona- da em sua voz e também notou a expressão de
perplexidade que surgiu no rosto de Zenhar.
— Ah, vocês, guerreiros! disse, com um leve sorriso. — E
claro, que não estou dizendo que devem parar de lutar... Vão
em frente, lutem arduamente e bem, e mesmo quando
estiverem seguros de estar perdendo, devem continuar...
desde que sua causa seja justa. Ninguém pode dizer de
antemão quando uma batalha será perdida. E mesmo depois
que tenha sido perdida, devem continuar, em algum outro
tempo, algum outro lugar, e mesmo em algum outro mundo
ou em alguma outra vida.
Eles estavam descansando sobre a grama alta embaixo das
árvores. Nas proximidades o rio formava um lago profundo e
tranqüilo, cercado de rochas cobertas de samambaias que
mesmo ali, longe das impressionantes quedas das cachoeiras,
eram banhadas de espuma.
Ruan estava deitado de costas, semi-adormecido, o grande
cão atravessado sobre os joelhos, já restabelecido. Zoar
sentara-se perto da água, magro e abatido, os olhos morosos
e sombrios, o único que não parecia fazer parte do grupo.
Pouco mais para um lado, a mão no queixo, Zenhar o
observava. Estivera examinando-o por algum tempo,
carrancudo, como se tivesse de tomar uma decisão e
relutasse em fazê-lo.
Sentiu o pé de Ruan tocá-lo de leve:
— Vá até ele... Devia tê-lo feito há uma semana. Qual é o
problema com você? Não vê como ele está infeliz?
— Escute, Ruan, eu não estou certo... — começou, fechando
ainda mais a carranca, mas Ruan interveio.
— Está se levando a sério demais, hoje em dia. É desejo
expresso de meu pai... você sabe disso. E é também uma
ordem de seu Rei... Sabe disso também, não é mesmo?
O jovem comandante levantou-se relutante e dirigiu-se para
o lugar onde o ex-capitão estava sentado, quieto e sozinho.
Sentou-se a seu lado.
— Recebi uma ordem, há uma semana, de meu Rei, capitão
— começou. — Uma ordem a respeito de sua pessoa.
Deveria ter falado com você antes... mas... não estava
seguro... — e aí calou-se.
Quieto, Zoar voltou o rosto magro para ele:
— Por que insiste em dirigir-se a mim usando a patente
militar? Não sou mais capitão.
Zenhar ignorou o comentário, rebatendo:
— Por muitos anos foi capitão da guarda de Yahali... O Rei
Rahazz lhe oferece agora um novo posto aqui, como chefe
de sua guarda pessoal. Terá a patente de coronel... e assim
ficará inferior, em termos militares, apenas a mim.
Uma luz se acendeu nos olhos de Zoar, desaparecendo logo
em seguida.
— E por que não me disse antes? Por que esperou por tanto
tempo?
Os olhos azuis de Zenhar estavam desconcertantemente
francos e diretos.
— Por que não sei se seria prudente. Não sei se podemos
confiar em você.
Zoar ficou mais pálido do que já estava diante desse
comentário rude e conteve-se com dificuldade. Numa voz
muito suave, respondeu:
— Comandante Zenhar, isto é um insulto, terrível e
deliberado. Se não fosse um hóspede em sua casa e não lhe
estivesse devendo a vida, ao menos em parte, iria exigir-lhe
satisfação imediata.
Fez um movimento para levantar-se, mas Zenhar agarrou
seu pulso, evitando que o fizesse.
— Não houve intenção de ofensa. Mas deve compreender.
Rahazz é meu Rei... e sou seu mais próximo conselheiro, seu
chefe de Estado Maior. Além disso, é um homem a quem
admiro e amo, sendo pai de meu melhor amigo. Foi apenas a
preocupação por seu bem-estar que me levou a falar-lhe
como falei.
Zoar inclinou a cabeça:
— Servi a Yahali porque prestei juramento e esse era meu
dever. Mas ao Rei Rahazz... e como gostaria de não ter
conhecido nenhum outro... eu teria servido com o maior
prazer e de todo o coração. Além disso, você parece ter
esquecido que ele também é o pai do homem que salvou a
minha vida uma vez e tentou salvá-la pela segunda vez,
quase à custa de sua própria? — Entretanto, ficaria muito
agradecido se me arranjasse um guia esta noite.
— Um guia? Para levá-lo aonde?
— Para o lugar de onde vim. Vou voltar... é melhor morrer
nas cavernas, do que não merecer a confiança dos amigos.
Mas Zenhar se levantou exibindo um grande sorriso no rosto
bonito. Colocou as mãos nos ombros do outro.
— Vou guiá-lo pessoalmente... para o quartel, coronel, e
apresentá-lo aos homens que ficarão sob seu comando daqui
por diante.
Capítulo IX

Dhar era uma cidade-guarnição típica. O enorme quartel cor
de tijolo dominava seu centro como a vida e os modos dos
soldados dominavam o centro da cidade e os arrebaldes. Por
toda parte homens trajados com a túnica cinza e o cinturão
vermelho do exército de Aztlan caminhavam ou marchavam
pelos caminhos largos de pavimento macio, seus braceletes e
tornozeleiras proclamando a patente. O soldado comum
usava um simples capacete prateado e braceletes sem
adornos, um em cada braço. Quanto mais alto o posto, mais
elaborado era o ornamento da cabeça, mais pesados, largos e
numerosos os braceletes e tornozeleiras.
Os oficiais de patente mais alta tinham direito a braceletes de
ouro, seus cinturões eram ornados com ouro e incrustações
de pedrarias, mas apenas o Rei tinha direito de usar um elmo
de ouro com um sol nascente no centro, o mesmo símbolo
que se repetia em ouro puro nas tachadas da interminável
seqüência de quartéis. Cada raio do sol era revestido de
diamantes e em ocasiões muito especiais o Rei usava os
ornamentos dos braços e das pernas elaborados em delgadas
placas de ouro, cobrindo do pulso ao cotovelo e do
tornozelo ao joelho.
O homem que estivera parado ali, à beira da avenida
principal de Dhar, à sombra de uma grande construção, não
tinha nada a fazer. Permanecera ali por um bom tempo, um
dos pés descansando sobre uma pedra.
Era baixo, bastante magro, de estrutura insignificante, e
usava uma túnica velha de amarelo desbotado, como notou
Vanzaj, no lado oposto da avenida.
"Magro, baixo, ombros encurvados, beirando a meia idade",
ponderou, "mas assim mesmo aposto que seus pés são muito
rápidos e nem de longe é fraco como parece. Pergunto-me
onde foi arranjar essas pernas fortes e musculosas".
Chegara a Dhar naquele mesmo dia e decidira examinar o
ambiente em que se encontrava antes de dar início à sua
tarefa difícil e perigosa. Pareceu-lhe que aquele homem não
seria avesso a dois dedos de prosa e que poderia dar-lhe
algumas informações úteis.
Caminhando despreocupado, atravessou a rua e se deteve
perto do homem trajado de amarelo. Depois de algum
silêncio, puxou conversa.
-— Com eleito, esta cidade é próspera e animada, e seus
habitantes parecem felizes e satisfeitos, não concorda? Disse-
o num tom casual, e o outro apressou-se em concordar. Mas
ao mesmo tempo, seus rápidos olhinhos negros se voltavam
na direção de um punhado de prisioneiros exaustos,
cambaleando entre um grupo de soldados. O homem soube
que eram rebeldes destinados à Morada dos Morcegos e se
perguntou se o jovem estrangeiro os teria notado.
— Nunca estive aqui antes — recomeçou Vanzaj — e ainda
me sinto um pouco perdido.
O outro sorriu, um sorriso amigável.
— Logo irá sentir-se em casa por aqui. É uma cidade alegre e
selvagem, e sua vida noturna é muito conhecida, senão
notória.
— Não poderia contar-me um pouco mais? Gostaria de
conhecer tudo. É possível que fique aqui por algum tempo.
O homem observou que Vanzaj tinha dificuldade em manter
os olhos afastados dos prisioneiros cercados pela escolta.
Baixou o olhar e traçou, com a ponta da sandália, alguma
figura imaginária sobre a pedra lisa, para só depois responder:
— Sim, posso contar-lhe tudo que há para saber a respeito de
Dhar... mas gostaria de dar-lhe um conselho antes. Não sou
espião. Nada tenho a ver com qualquer dos lados. Mas tenha
muito cuidado, seja você quem for. Eles não perdem muito
tempo com inimigos do governo nesta cidade.
Vanzaj não demonstrou qualquer surpresa, embora estivesse
ficando tenso. A percepção desse homem era muito aguçada
ou teria ele próprio se mostrado tão perigosamente
transparente? Abriu a boca para protestar, mas então uma
voz disse junto ao seu ouvido, quase num rosnado:
— Quem? Quem é um inimigo do governo, Nebazz?
Desta vez Vanzaj teve dificuldade em controlar-se. Como
estivera de costas para a rua, não havia visto ou pressentido a
aproximação de quem falara.
Mas o homem, agora parado bem à seu lado, nem sequer o
olhou. Toda sua atenção estava no homenzinho, que não
havia mudado em nada a postura indiferente e que o olhava
com um sorrizinho cínico. Ele suspirou:
— Continua tirando conclusões precipitadas, Bäar. Eu não
estava falando de ninguém em particular. Apenas comentei
com este jovem aqui sobre o destino de todos os inimigos do
Rei. Por que sempre cai sobre mim, meu amigo?
O olhar que Bäar lhe dirigiu era cheio de desagrado e
desconfiança.
— Porque você é neutro demais, casual demais em relação a
certas coisas. Tem muito dinheiro e ainda mais influência na
alta roda, mas não se importa com nenhum lado... se
mantém distante de ambos, distante demais, acho eu. E, no
entanto, todos sabem que não é um covarde e nunca foi.
Para mim, isso é suspeito.
— Então pensa — respondeu Nehazz devagar —, que a
minha assim chamada neutralidade não passa de uma
máscara?
Bäar balançou a cabeça:
— Não. Ainda não. Mas poderia com facilidade se tornar
uma... um dia.
— Este é sem dúvida um bom começo para uma palestra
sobre neutralidade, meu amigo. Não sabia que você tinha
esse talento. Mas suas conclusões à meu respeito estão
erradas. Acontece que simplesmente não estou interessado.
Tudo é muito desimportante e aborrecido para mim.
— Até o dia em que, por uma ou outra razão, você ficará
interessado.
— Significando o quê?
— Significando que já é fácil ver que lado escolherá então.
Enquanto essa discussão se desenrolava, Vanzaj teve
oportunidade suficiente para estudar o recém-chegado. Era
um homem alto, de corpo maciço, com mãos fortes e
quadradas, ombros largos e um queixo poderoso e
proeminente. Entretanto, a sua aparência taurina como um
todo formava um impressionante contraste com um par de
olhos estranhos, de um verde-marinho claro. Ele parecia
olhar através das pessoas, de um modo realmente
desconcertante. Seu cabelo era escuro, salpicado de
cinzento. O largo cinturão que usava era ornamentado com
jóias e o seu cimo, assim como os braceletes e tornozeleiras,
repetiam o mesmo emblema: o de uma águia em vôo, as asas
estendidas e ornadas com diamantes de uma rara coloração
azul. Os olhos do pássaro eram rubis vermelho-sangue.
"Um oficial da Força Aérea", pensou Vanzaj, "e a julgar por
todos esses esplêndidos ornamentos, é no mínimo um
coronel".
— Você parece ter talentos psicológicos — disse Nehazz,
mostrando agora alguma irritação. — Mas não receie. Esse
dia nunca chegará. Está desperdiçando o seu tempo e essa
conversa é aborrecida para mim.
Observaram Bäar girar sobre os calcanhares e desaparecer
com passo decidido por entre a multidão.
— Ele não gosta de você, não é?
— Ele me odeia. E você acaba de ouvir por quê. E um
homem estranho, um lobo solitário, absorvido em sua
carreira... seus talentos militares são consideráveis, conforme
ouvi. Pertence a uma família rica. Nos últimos tempos tenho
ouvido rumores... e não há rumores que eu não ouça... de
que ele se apaixonou por uma linda jovem, suspeita de
pertencer à oposição.
— Ele sabe disso?
-— Se sabe, estou certo de que não acredita. Ela apareceu
aqui em Dhar de repente, ninguém sabe de onde. Tem
muitos amigos, mas nenhum deles, com exceção de Bäar, é
conhecido por sua lealdade a Yahali. Está louco e
desesperadamente apaixonado por ela.
— Sabe que ele estava certo? — Vanzaj viu os olhos negros e
inteligentes focalizarem de repente o seu rosto". — Certo?
Dizendo o que disse sobre minha neutralidade?
— Exato. Por que outro motivo não me denunciou agora
mesmo? Teria sido o seu dever.
— Isso teria provado que eu pertenço a eles, não é assim?
— E agora, o que você provou na verdade?
Nehazz riu.
— Você também, hem? Mas está errado. Eu não o denunciei
por que não tenho uma única prova contra você e porque
não gosto de agradar a Bäar. Razões puramente pessoais.
Tomou Vanzaj pelo braço e começou a conduzi-lo na
mesma direção que Bäar havia tomado. Havia um sorriso
cálido em seu rosto, em lugar do cinismo entediado que
havia mostrado durante toda a conversa com o aeronauta.
— Por que não vem comigo jantar em minha casa? Eu lhe
contarei o que deseja saber sobre a cidade. Dizem, e com
razão, que sou o maior mexeriqueiro de Dhar. Mas devem
admitir também que eu nunca distorço os fatos.
Bäar observava alguns homens jogarem numa taberna do
outro lado da rua, enquanto bebia uma caneca solitária de
forte vinho. Das janelas viu ambos passarem, conversando
animados, mas voltou a cabeça na direção dos jogadores
outra vez, num movimento curto e impaciente. Não queria
pensar mais em Nehazz: um inútil, bom para nada. Ao invés
disso queria pensar nela, com quem tinha um encontro esta
noite e que vinha aparecendo em seus sonhos.
Logo que conhecera a moça foi tocado de imediato por sua
beleza selvagem e sua extraordinária tranqüilidade. Levara-a
a muitas festas e comemorações, mas ela sempre parecera
um pouco deslocada no meio do mundanismo e da
sofisticação, observando em silêncio, não fazendo nunca, na
verdade, parte da alegria. Assim ele passara a levá-la em sua
nave em muitos longos vôos e em caminhadas através da
cidade e para fora, ao campo, falando sem parar sobre si
mesmo, como fazem os homens que estão apaixonados.
Silenciosa, ela ouvia, com apenas algum ligeiro comentário
aqui e ali.
Tarde daquela noite estava parado junto a ela diante de uma
taberna, logo à saída de Dhar. Do interior chegavam música,
gritos e explosões de riso, e podia se distinguir a voz de uma
moça iniciando uma canção num soprano alto e claro.
A jovem ouvia, chocada, não acreditando realmente no que
escutava. Sem dúvida não podia ser... com certeza estava
enganada...
Era o Canto do Sol, a mais sagrada das canções, tornada
irreconhecível, cantada de um modo indecente, obsceno e
brutal. Mas era o Canto. Através das amplas janelas abertas
podiam ver a moça passar girando, cada movimento de seu
corpo, um convite inconfundível.
Na última vez em que ouvira aquela canção, há muito, há
tanto tempo atrás, a mesma era cantada numa voz profunda
pelo sacerdote que celebrava. E daquela vez, ele estivera
parado ao seu lado. Como se sentira orgulhosa então, como
se sentira feliz, protegida e segura de que lodo o bem que
estava provando jamais chegaria ao fim.
Mas isso fora há tanto tempo, um pouco antes da última
grande batalha. E desde então seu orgulho e felicidade se
haviam perdido, exatamente como aquela última grande
batalha fora perdida pelos soldados de Rahazz.
Bäar, que estivera observando-a com atenção, sentiu quão
longe ela estava naquele momento, viu seus olhos se
encherem de tristeza. Segurou-a, brusco e impaciente, pelo
cotovelo.
— Sheon-La! Não adianta. Ele nunca voltou... deve estar
morto. Muitos foram mortos na última guerra e os corpos
nunca encontrados ou identificados — ele sentiu toda a
restrição à qual se havia forçado de modo tão desesperado
durante as últimas semanas quebrar-se e cair desfeita em mil
pedaços. Nunca se acostumara a esperar. Fora acostumado a
dar ordens e a punir aqueles que não obedeciam com rapidez
e precisão.
Apertando-lhe os braços, puxou-a para perto, rude e
imperiosamente, e começou a beijá-la. Sentiu-a ofegar
quando o pesado bracelete de ouro se comprimiu contra seu
corpo, cortando-lhe a carne, mas não se importou. Havia
esperado tempo demais. Não iria continuar esperando. Ela
tentou desviar a cabeça, mas os lábios dele, cálidos e
exigentes, não deixaram os dela até que perdeu o fôlego e
sentiu-se desejando que ele não parasse mais, mas fosse em
frente sempre e sempre. De modo que fosse capaz de
esquecer. De modo que não tivesse que pensar nos perigos
que vinha enfrentando quase todos os dias. De modo que
não pensasse nos passos firmes e ameaçadores da polícia
secreta de Yahali, no súbito desaparecimento de amigos, que
encontravam a morte nos altares do país.
Nos braços desse homem não teria de temer qualquer dessas
coisas, ele estava a salvo do outro lado, o lado triunfante e
seguro, e iria protegê-la de torturadores, sacerdotes e
executores cruéis.
"Oh! Não ter mais de temer a coisa alguma, nunca mais
sentir-se assustada." Abandonou-se suavemente de encontro
a ele, sentindo seu corpo responder de imediato, enquanto o
tempo todo, a boca dele jamais deixava a sua.
Ela fechou os olhos. Sem dúvida ele tinha razão. O outro
jamais voltaria. Por que não deveria gozar deste momento,
agora? Era um homem simpático, limpo e honesto...
E estava tão cansada de sempre dizer "não".
Quando por fim Bäar levantou a cabeça, olhou para seu rosto
por um longo tempo, deliciado e incrédulo.
— Afinal você correspondeu! Jamais pensei — ele se deteve
e, ainda segurando-a por um dos cotovelos, retirou o
bracelete de um de seus largos pulsos, colocando-o no braço
dela.
Houvera, muito tempo antes, outro homem e outro
bracelete. Aquele outro era tão largo e ricamente decorado
quanto este, mas em lugar da águia da Força Aérea, mostrava
uma serpente emplumada, lindamente cinzelada.
Ele tinha os olhos cinza-escuros e ombros largos, e havia
empurrado a peça de ouro pelo seu braço acima até que
quase atingisse o ombro, enquanto ambos riam alegres. Sua
mão hesitara por um instante sobre seu ombro nu e então
deslizara acariciante por seu pescoço. Com a outra puxara-a
de encontro a si, com um fogo escuro nos olhos.
Ela era muito jovem e ficara espantada com seu ardor. Havia
tentado empurrá-lo a princípio, com pouco sucesso, mas por
fim afastara os lábios e colocara uma mão restritiva sobre a
sua boca, mão que ele começara a beijar em seguida. Havia-
lhe dito de modo inquisitivo: — Você é tão diferente do que
eu esperava. Disseram-me que os que pertencem à Ordem
tinham muito pouco tempo para coisas tão baixas quanto o
sexo.
— O quê? — ele a olhara por um momento, atônita, depois
rira até que as lágrimas brotassem em seus olhos. — Baixas?
Meu Deus, quem foi que disse tal coisa? Esta é a melhor que
eu ouvi em anos.
Pensara por um instante enquanto os braços dele a
envolviam outra vez.
— Foi um sacerdote ou algo assim... Esqueci seu nome.
Ele cruzara seus dois braços em suas costas, segurando-os
com uma das mãos enquanto acariciava seu cabelo com a
outra.
— Bem, fosse quem fosse, era um tolo ou um hipócrita...
Como seu cabelo é macio, querida, e sua pele... vou lhe
mostrar agora mesmo como ele estava errado...
Quando a apresentara à seu pai, repetira a observação dela,
sorrindo.
— E isso que pensam de nós, pai, lá fora.
Olhando do Sumo Sacerdote para seu filho, vendo-os
trocarem olhares de divertido espanto, ela explicara:
— Mas foi um de vocês. Um sacerdote. Ele me disse que
aqueles que estão aspirando a uma vida mais elevada, mais
espiritual, teriam de desarraigar o sexo ou ao menos ignorá-
lo, esquecer dele. Disse que era uma força baixa e maligna.
— Desarraigar? Ignorar? Esquecer...? Mas nós, da Serpente
Emplumada, temos de lidar particularmente com forças
desse tipo, forças que não são produzidas por nós mesmos,
mas que nos chegam de fontes poderosas, aterrorizantes e
fogosas. Que tolo cego! E ele era um de nós, criança? E ele
não sabia então que nenhuma espécie de vida, seja espiritual,
seja material, é possível sem esse fogo primordial... que,
quando é expressado através de nossos corpos, chamamos
sexo? A Criação não poderia existir sem ele. Na verdade eu
não sabia que fosse possível em nossas fileiras uma
ignorância tão completa e idiota.
Como aqueles dias haviam sido felizes, sentia-se tão jovem e
radiante. E como se sentia cansada e desanimada agora.
A voz de Bäar chegou até ela, a mão dele apertando-lhe o
braço:
— Sheon-La, você não está ouvindo... Estava lhe dizendo
que deveria ser mais cuidadosa na escolha de seus amigos. As
pessoas com quem está vivendo estão no topo da lista de
suspeitos e podem se tornar perigosas para você também.
Ela pensou: "Perigosas para mim? E em que altura da lista
estaria eu, se apenas soubessem que estive noiva do filho do
Rei rebelde?" Em voz alta, disse:
— São os meus melhores amigos, Bäar. Quando estive muito
doente e sozinha, eles me receberam, demonstrando-me a
maior gentileza.
— Mas você não precisa mais deles, querida. Irei cuidar de
você agora e é necessário deixá-los. Deixe o círculo em que
tem vivido até agora e venha para o meu, para mim.
— E se eu não fosse capaz de me importar muito com seu
círculo, Bäar? E se, talvez por razões que você nunca seria
capaz de compreender, eu odiasse os seus amigos?
Ele tomou seu rosto entre as mãos, forçando-a a olhar para
si.
— O que está tentando dizer-me? Que razões?
A cautela recomendou-lhe então que ficasse quieta. Tentou
afastar suas mãos, mas viu os estranhos olhos verdes ficarem
irritados, sentiu os dedos se apertarem, machucando a pele
de seus maxilares.
Deixou os braços caírem ao lado do corpo, os olhos bem
abertos, negros e muito graves.
— Você mal me conhece. Talvez fosse você quem devesse
ser cuidadoso na escolha de seus... amigos...
— Amigos! — resmungou ele. — Onde arranjou a idéia de
que eu desejava a sua amizade? Quero muito mais de você do
que isso... que lindos olhos você tem, meu amor... E também
não me importo nem um pouco com seu passado.
Ele apertou as mãos enormes ao redor de sua garganta e
então, afastando-as, começou a acariciar seus ombros e
braços, forçando sua cabeça para trás até que perdesse o
equilíbrio e tivesse de agarrar-se a ele para não cair. E beijou-
a novamente e mais uma vez.
Depois ouviu-o rir zombeteiro, murmurando: —Amizade!...
Não quero ser seu amigo. Quero ser seu amante e seu
marido, e isso tão logo quanto possível...
E enquanto seus lábios seguiam lenta e demoradamente o
suave desenho vermelho de sua boca, de um canto a outro,
seus dedos encontraram um seio, tocaram-no de leve, com
surpreendente gentileza, depois se fecharam ao seu redor.
Ela começou a tremer. Era-lhe suficiente saber que quebrara
suas defesas e que o resto seria apenas uma questão de
tempo... tempo e insistência. O lado estratégico da arte do
amor era muito semelhante ao da gueixa, refletiu, enquanto
dizia em voz alta:
— Está vendo, querida? É isso que quero dizer. E não ouse
ser minha amiga... Jamais.
Dois dias depois ele partiu para o norte, numa missão
especial. Relatórios haviam chegado dali informando que
bandos de rebeldes estavam penetrando cada vez mais na
região do sopé das montanhas, atacando forças policiais
locais e patrulhas do exército, roubando armas e alimentos
dos armazéns do exército e empurrando as pequenas unida-
des defensoras cada vez mais para o sul.

Capítulo X

Alcançaram a primeira cidadezinha, local de muitas
escaramuças, rapidamente. Na pista de pouso Bäar foi
recebido pelo comandante militar e, de forma automática,
começara a interrogar o homem sobre a situação, mas
descobriu que tinha dificuldade de concentrar-se nas
respostas.
Desde que deixara Dhar, não fora capaz de afastar a imagem
da moça de sua mente. Ao beijá-la em despedida, lhe pedira
mais uma vez para abandonar seus amigos. Enquanto o fazia
tivera uma sensação desesperada e urgente de que tinha de
convencê-la antes de partir, porque de outra maneira seria
tarde demais.
Ela o olhara com firmeza:
— Não, Bäar. É simplesmente impossível. Você não sabe o
que está pedindo.
Pelo modo como o dissera, pelo modo como sua voz soara,
ele havia detectado algo que o deixou de imediato muito
preocupado e o fez sentir ainda mais a urgência de
convencê-la. Estava consciente do perigo e percebeu com
clareza que ela tinha razão: na verdade não a conhecia muito
bem. Suspeitou então que não era apenas uma questão de
lealdade para com os amigos, mas que algo muito mais
importante estava em jogo.
Entretanto, não conseguiu comovê-la e ela devolveu seu
beijo de uma maneira gentil, mas fraternal, como se jamais
tivesse estado em seus braços, jamais tivesse sentido
qualquer paixão por ele. Em seu caminho para a nave havia
refletido secamente que deveria ter-se lembrado em tempo
que, na guerra e no amor, uma das regras era nunca
subestimar o inimigo, em especial se esse inimigo fosse uma
mulher.
Enquanto os dias passavam ele ia ficando mais e mais
inquieto. As coisas que tinham de ser feitas o eram rápida e
eficientemente, mas de um modo mecânico.
Para aliviar essa perturbadora inquietação começou a sair em
patrulhas com seus homens, patrulhas que com freqüência
os levavam a aventurar-se muito para dentro do território
proibido e selvagemente belo de Zenhar. Atravessavam
riachos, escalavam, ofegantes e suados, rochedos nus;
passavam através de profundas e escuras gargantas, e durante
todo o tempo não encontravam um único rebelde. Na
verdade não encontraram ninguém.
Certa manhã Bäar despertou muito cedo. Uma névoa cobria
os soldados adormecidos e um dos guardas aquecia-se junto a
uma fogueira recém-acesa. Bäar se aproximou, conversou
um pouco com o homem e tomou a bebida quente que lhe
foi oferecida.
Depois disse que iria sair sozinho... eles não deveriam segui-
lo.
— Mas se lhe acontecer alguma coisa, senhor?
Fez um gesto impaciente.
— Nada irá acontecer... e de qualquer modo seria inútil
tentar localizar-me se algo acontecer. Não temos chegado a
resultado algum... não fomos capazes de encontrar sequer
um guia confiável em todas essas aldeias. É inútil continuar
assim. Apenas os rebeldes conhecem os caminhos por aqui.
O homem assentiu e viu-o afastar-se — uma figura alta,
pesada, desaparecendo rapidamente na névoa espessa. Afinal
não era preocupação sua se um ou outro oficial imbecil
insistia em cometer suicídio.
Foi horas depois que Bäar deu com a trilha escondida, por
puro acidente. Ele nunca a teria encontrado num dia claro.
Era uma trilha larga, muito usada, e levava para baixo,
passando por uma profunda garganta e depois subindo de
novo para o topo de uma montanha que, em contraste com
os vales cobertos de nuvens, estava exposta ao sol pleno.
Estimou que a montanha se encontrava a seis horas de
caminhada.
Por um momento pensou em voltar e buscar seus homens,
mas então decidiu-se pelo contrário. Ia antes fazer um
reconhecimento pessoalmente.
Quando desceu através da garganta, a neblina se tornou mais
espessa. Agora não podia ver mais que alguns passos adiante,
mas, o que era pior, a brancura macia e silenciosa por toda
parte dava-lhe uma falsa sensação de segurança. Caminhou
devagar para diante, os pensamentos vagando de volta a
Sheon-La e a como ela lhe aparecera naquele último dia.
Naquela ocasião sentira-se tão consciente do perigo que teve
de controlar-se para não olhar ao redor em busca do inimigo.
No entanto estiveram a sós, juntos.
E tão absorvido se encontrava em seus pensamentos que
caminhou, calma, esquecida e despreocupadamente para a
emboscada que os homens de Zenhar haviam armado para
ele. Quando viu as formas silenciosas emergindo da neblina,
rodeando-o sem ruído, já era tarde demais.
Bäar girou rápido puxando a espada, mas um braço forte e
eficiente rodeou seu ombro e uma perna fê-lo tropeçar e
perder o equilíbrio. Por um instante, reluzindo diante de
seus olhos, viu o símbolo intrincadamente trabalhado do
bracelete do homem. Seu atacante retirou o braço e girou-o
de modo que se enfrentariam.
— Ah! Um coronel. Por falar nisso, o que está fazendo tão
longe de seus homens, senhor?
Observou a aparência do outro num relance: cabeça
orgulhosa, corpo musculoso e bem treinado, olhos grandes,
cinzentos e oblíquos, que o avaliavam. Um segundo relance
revelou a presença de cerca de vinte e cinco montanheses
armados, vestidos apenas de tangas. Ficou parado sem se
mover, furioso com a própria estupidez, esperando pelo que
sabia inevitável, sem esperar clemência.
Então, como ninguém fizesse um movimento, talvez por
desejarem divertir-se à sua custa, disse zombeteiro:
— O que estão esperando, você e seus bravos guerreiros? Ou
receia não ter homens suficientes para matar um oficial do
Rei?
O que lhe aconteceu depois, ali no canyon quieto e distante,
como leve de encarar uma situação que nunca havia
enfrentado antes, tudo isso ele se lembrou duas semanas
depois, quando se encontrava diante de seu chefe, o
comandante da poderosa Força Aérea de Aztlan. Percebeu
então que agora estava diante da pior crise em toda a sua vida
como militar.
Sheon-La fora presa após uma tentativa bem-sucedida de
libertar cinqüenta prisioneiros rebeldes da prisão principal de
Dhar. Assim que aterrissara, Bäar havia sido convocado ao
quartel-general.
O brigadeiro estivera olhando para um mapa da parte do
extremo sul das montanhas de Zenhar, gravado numa chapa
de fino ouro. Não ergueu os olhos assim que Bäar entrou e,
quando o fez, os olhinhos geralmente penetrantes, sob as
espessas sobrancelhas, estavam velados como se desejasse
testá-lo primeiro.
— Vejo que soube da notícia... por isso que o chamei de
volta tão cedo. Diga-me antes, o que ela significa para você?
Apenas alguém com quem dormir?
Bäar sentou-se lentamente, sem dar uma resposta direta. —
Viu- a, senhor?
— Sim. Falei com ela
— E... — os olhos verdes estavam agora um pouco irônicos,
mas o brigadeiro balançou a cabeça.
— Não, Bäar — sua voz estava tensa, como se muito
dependesse do modo como Bäar iria responder. —Você
deve relatar-me a sua posição, sem evasões.
Bäar cobriu o rosto com as mãos, levantou a cabeça e disse
em voz rouca:
— Eu a amo. Quero casar-me com ela. Ela significa tudo no
mundo para mim.
Seria sua imaginação ou viu satisfação e alívio surgirem nos
olhos de seu superior? Qual era o significado dessa
convocação? Onde estava desejando chegar? Então disse,
pensando em voz alta:
— Mas, as coisas podem não ser tão ruins, senhor! Talvez
alguns espiões rebeldes mentirosos tenham tentado safar-se
de dificuldades fornecendo nomes? É verdade que ela era
hóspede de pessoas que estavam sendo vigiadas por nosso
pessoal, mas...
O brigadeiro, ao último comentário de Bäar, deteve-se,
respondendo ríspido:
— Não se iluda... é muito pior que isso. Ela confessou
inteiramente, apenas insiste que ela e os homens mortos
durante a rebelião foram as únicas pessoas envolvidas, que
não havia outros por trás; isso é absurdo.
Esse tinha sido o perigo que a ameaçava. Mas por que, por
que ela tivera de confessar? Talvez eles ainda não
dispusessem de provas, talvez tudo não passasse de meras
suspeitas. Talvez ele pudesse tirá-la daquilo... tinha muita
influência, conhecimentos poderosos em postos elevados...
Disse em voz alta:
— Mas por que ela confessou? Por quê?
— Porque deseja morrer. Está cansada de tudo isso... deseja
colocar um ponto final nisso — disse o brigadeiro, olhando
com simpatia para o subordinado, que estremeceu diante de
suas palavras. — É claro que isso deve feri-lo... ver que ela
sequer estava interessada em manter-se viva por sua causa.
— Mas como descobriu? Está certo de que ela esteve falando
bobagens, contando mentiras grandiosas para fazer-se
interessante, para atrair a atenção? Muitas pessoas são assim...
— disse esperançosamente, perguntando-se até onde o chefe
estaria disposto a ajudá-lo, disposto a fingir que acreditava na
inocência de Sheon-La, disposto até a mentir por ele, talvez.
Por que, senão com tal propósito, estava se comportando
dessa maneira?
Mas o brigadeiro balançou a cabeça, sorrindo um pouco:
— Isso é infantil, não é? Mais do que isso, é impossível.
Infelizmente há algumas provas muito comprometedoras —
apanhou um objeto cintilante de cima da mesa e levantou-o:
— Olhe. Isto foi encontrado após o ataque, perto do portão
principal da prisão. E pertence a ela: embora tenha sido
presa, a princípio, apenas sob suspeitas, admitiu logo que era
seu. O homem que o deu a ela, de quem era noiva, foi morto
em batalha cerca de sete anos atrás — colocou o objeto no
colo de Bäar, continuando: — Entretanto recusou-se
absolutamente a contar quem foi. Mas olhe por si mesmo... a
que tipo de homem um objeto assim iria pertencer?
Apanhando-o, Bäar viu que era ura bracelete masculino de
ouro, de muitos quilates, ornado por uma serpente
emplumada coberta com pedras vermelhas. A serpente, as
asas estendidas, tinha dois rubis por olhos. Revirou a jóia
várias vezes, tentando reunir os pensamentos. Onde havia
visto o mesmo ornamento antes, e em que ocasião? Ouviu o
brigadeiro dizer:
— Não conhece o seu significado? A princípio pensei num
sacerdote, os sacerdotes da ordem proibida usavam esse
símbolo...
Mas Bäar comentou:
— Não, este não é um bracelete de sacerdote. Nenhum usa
pedras vermelhas. Teria usado diamantes. Sem dúvida é um
bracelete de guerreiro. Mas não posso imaginar quem
poderia usar... — parou de falar.
Como vinda de grande distância, ouviu a voz de seu chefe,
mas não compreendeu a palavra, tão abafada e fraca soava.
Além disso, não estava interessado; havia algo que precisava
lembrar.
E num relâmpago viu-se de volta àquela ravina misteriosa,
gelada e desconhecida, onde a névoa estava começando a
clarear e os inimigos o haviam rodeado.
Alguém tinha o braço ao redor de seu pescoço... um braço
envolvido por um bracelete. Viu mais uma vez as gemas
brilharem, sentiu a mesma curiosidade ao notar o símbolo
incomum. E ouviu seu proprietário dizer em tom divertido:
— E evidente que suas idéias à nosso respeito estão todas
erradas, coronel, o que não me surpreende considerando o
homem por quem está lutando. Sim, nós matamos, nós
certamente matamos, mas apenas numa luta leal. E nunca
assassinamos prisioneiros.
"Aquele bracelete era decorado com uma serpente alada..
Aquele bracelete era idêntico ao que tinha agora nas mãos.
Incrédulo, olhara primeiro para seu captor, e depois para os
soldados que esperavam em silêncio:
— Suponho que isso é dito para enganar-me e facilitar sua
tarefa ainda mais... matar-me sem ter de enfrentar qualquer
resistência. Que coragem devem possuir, todos vocês,
rebeldes, assaltantes e vagabundos que são.
Pelo canto dos olhos viu alguns dos homens se mexerem em
óbvia indignação, mas o jovem que o encarava demonstrou
apenas uma leve surpresa. Encarando-o por um momento, o
rosto novamente impassível e inescrutável, havia ordenado:
— Voltem ao acampamento, todos vocês! Relatem ao
comandante Zenhar o que aconteceu aqui e ouçam com
atenção: vocês não devem voltar antes do anoitecer. Está
compreendido? — E, quando os homens começaram a se
afastar: — Esperem. Deixem as armas do prisioneiro... — Ele
desafivelou o cinturão: — Levem todas as minhas armas com
vocês.
Um tenente, ao ouvir a ordem parara, consternado, e girara
de imediato nos calcanhares, enquanto seus homens
estacavam, entreolhando-se e murmurando chocados,
incrédulos.
— Príncipe, não pode fazer isso. Nunca se deve confiar nos
homens de Yahali. Sua vida é valiosa demais para ser
arriscada dessa maneira. E quando o tiver reconhecido...
Estou certo de que Zenhar irá culpar-me até a morte, se algo
lhe acontecer. E seu pai...
Mas Ruan, brusco, o interrompera:
— Volte, Dizan. Nada irá acontecer comigo. Sei o que estou
fazendo.
A névoa se dissipara por completo e o sol estava penetrando
no canyon, iluminando suas profundezas e secando as
samambaias e trepadeiras molhadas agarradas às escarpas
quase verticais.
Quando o último dos homens havia subido a trilha íngreme,
desaparecendo de sua vista na floresta, Ruan apontara para as
armas que Dizan jogara contra a vontade aos pés de Bäar.
Perscrutando o rosto de seu inimigo atentamente, para
descobrir o que havia por trás desse truque, porque não
tinha nenhuma dúvida de que era um truque, Bäar havia se
inclinado e apanhado as armas uma por uma, dizendo
baixinho que não tinha nada a perder e enquanto tentasse
descobrir de que modo afinal eles queriam que encontrasse a
morte, iria procurar tirar o máximo de vantagem de sua
posição por ora melhorada:
— Então? Mas está tão errado, Príncipe... uma vez que foi
assim que o tenente o chamou, o tenente que estava
temeroso de que eu o reconhecesse. Foi realmente muito
tolo em assumir esse risco; ou pensava que eu não iria ver
através de suas maquinações?
E, rindo com sarcasmo, pusera calmamente a espada de
encontro ao peito do outro. Ruan, sentindo a ponta cortar
sua carne, apenas se afastara um pouco, encostando-se
contra uma árvore imediatamente atrás de si.
E ele, Bäar, havia pensado: "Quem é esse homem? Ele não
demonstra medo... absolutamente nenhum medo. E com
certeza está consciente do fato de que, embora seja evidente
que seus homens irão voltar assim que possível por outro
caminho, terei tempo de sobra para matá-lo antes que eles
matem a mim. Ou há alguma outra armadilha escondida,
uma armadilha que não posso ver?" E dissera, aumentando a
pressão de sua espada muito de leve:
— Uma vez que parece ser mesmo uma pessoa importante,
estou certo de que matando-o prestaria um grande serviço ao
meu país e ao meu rei. E quando seus homens voltarem para
cá dentro em pouco...
Mas Ruan havia interrompido:
— Por que continua pensando que isto é uma armadilha,
coronel? Não há nenhuma armadilha. Meus homens não
estarão de volta antes da noite.
Ele rira alto então, um riso curto, duro e desdenhoso,
pressionando sua espada, esperando que os rebeldes viessem
correndo da selva a qualquer momento agora.
Mas nada acontecera. Tudo continuava muito quieto, apenas
o ruído leve de um riacho próximo, o grito agudo de um
pássaro, o farfalhar de algum animal selvagem na grama
molhada e áspera.
Seu inimigo havia colocado uma das mãos contra a lâmina
afiada, empurrando-a ligeiramente para o lado, de modo que
pudesse voltar-se um pouco, cortando os dedos nesse ato.
Com a outra mão apontara para o Norte.
— Dê uma boa olhada, coronel.
E, olhando, vira-os com nitidez: pequenas figuras subindo
para aquele pico de montanha ensolarado.
E quando ficou totalmente consciente de que ninguém
estava escondido por perto para matá-lo, que esse homem
extraordinário pretendia realmente fazer o que dissera e
apenas isso, perguntara mais uma vez a si mesmo: "Quem é
ele?" E então um pensamento tentador surgiu em sua mente
aliviada. "As cartas estão todas em suas mãos agora, Bäar. Por
que não tirar o máximo delas? Lembra-se de que seu chefe
está por se aposentar? Lembra-se que você é o seguinte na
fila das promoções, com apenas um outro colega? Então
pense no que o Rei iria dizer se você matasse ou trouxesse
esse homem consigo triunfalmente, como prisioneiro.
Triunfalmente? Bem, ao menos haveria talvez muito triunfo,
mesmo que apenas na aparência. Ou talvez matar seria mais
seguro? E óbvio que ele é muito importante.. Naturalmente
seria mais um ato de um covarde... Ainda assim... esse
homem é um inimigo do governo, é um rebelde. Por que se
preocupa? E você seria honrado, Bäar! Como você seria
honrado!
Em sua mente via com clareza o rosto escuro do Rei Yahali,
ouvia a voz fascinante a elogiá-lo, notava a inveja nos
sorrisos dos colegas, congratulando-o.
Pequenas gotas de suor se formaram em sua testa e vira,
perplexo, como sua espada tremia. E enquanto seus lábios se
afinavam e endureciam, pensara: "Faça-o! Por que não
deveria? Você deve fazê-lo... Os seus colegas oficiais não
hesitariam em fazer exatamente o mesmo, sem pensar duas
vezes. Isto é guerra. Essas pessoas são rebeldes, escória, boas
para a destruição. Pelo que está esperando?"
Então, com uma selvagem exclamação de desgosto, havia
afastado a espada atirando-a para longe de si num arco
amplo, com tanta violência que esta cravara na terra
encharcada e se mantivera em pé, oscilando. E voltando-se
para Ruan, os olhos sombrios, a mão ainda tremendo:
— Por que fez isso? Que direito tinha de testar-me dessa
maneira? Merece ser morto pela arrogância que demonstrou
submetendo-me a essa tentação!
Seu oponente balançara a cabeça:
— Está subestimando a si mesmo, coronel. Nunca teria feito
o que para muitos outros teria sido a única coisa óbvia a
fazer. De outro modo eu nunca sonharia em me entregar às
suas mãos.
E ele, ainda zangado, porque percebia como estivera
próximo de fazer aquela coisa imperdoável:
— Como podia estar tão seguro... e ainda assim, por que o
fez?
Ruan, ainda apoiado na árvore, encolhera os ombros:
— Eu o fiz num impulso. O fiz porque você tem a honra
escrita no rosto e senti que isso não era apenas algo
superficial. Sabia que nunca se dobraria à pequenez e ao
assassinato — e continuara, apontando para uma rocha larga
e chata: —Vamos nos sentar e conversar. Quando conheço
um homem como você entre os inimigos sempre lamento
esta guerra, porque ela me limita na escolha de meus amigos.
E, rindo: — Não fique tão espantado. Nunca sentiu a mesma
coisa?
Ele, mistificado, não respondera.
— Com certeza deve haver vários entre seus colegas oficiais
que são mais inimigos seus do que jamais virei a ser, mesmo
se tivéssemos de matar um ao outro algum dia...
E ele, mais uma vez, havia pensado: "Quem é esse homem?
Sem dúvida há oficiais que nunca poderia chamar de amigos,
que estão sempre fazendo intrigas, e conspirando para
prejudicar minha carreira e assumir meu lugar".
Hesitando, sentara-se também, percebendo, chocado, que
no momento em que começou a falar, já estava se
desculpando por lutar do lado do Rei Yahali, tão grande fora
a impressão que esse estranho lhe havia causado.
— Nasci e fui criado nas colônias... eles nunca se envolveram
muito na luta pelo poder entre Yahali e Rahazz, como sabe.
Dois anos depois que a guerra terminou, fui transferido para
Dhar...

Capítulo XI

O brigadeiro falava, e ele via bem claro agora:
— Que diabo lhe aconteceu, Bäar? Você parece diferente,
mudado, depois que voltou.
— Hem? — disse ele, ainda meio atordoado, respondendo
então à pergunta com outra pergunta, enquanto continuava
revirando o bracelete entre os dedos: — Quantos homens
teriam o direito de usar isto, senhor? — ainda alimentava
uma pequena esperança.
— Muito poucos. Em realidade, apenas dois. E com certeza
não era o pai...
— O pai?
Seu chefe franziu a testa, surpreso:
— Quer dizer então que não sabe realmente? Eu o soube do
momento em que me trouxeram o bracelete. As únicas duas
pessoas em Aztlan que têm o direito de usar isto são o Rei
Rahazz e seu filho.
Seguiu-se um silêncio longo durante o qual Bäar permaneceu
sentado olhando para o chão com expressão infeliz e
desanimada. Naturalmente. O tenente não havia dito:
"Príncipe... não pode fazer isso... se o tiver reconhecido..."?
O brigadeiro não fez quaisquer comentários, mas continuou
observando-o calma e curiosamente, perguntando-se o que
se passava na cabeça desse homem, um oficial brilhante, mas
também um tanto inflexível, rígido e severo demais. Essa, ao
menos, era sua impressão até aquele dia. Agora já não estava
tão seguro. Parecia tê-lo julgado mal... seria seu amor pela
moça que o havia mudado de modo tão impressionante?
Por fim Bäar rompeu o silêncio com um suspiro,
perguntando:
— Posso vê-la, senhor?
Ele assentiu.
— Eu lhe darei um passe, mas tenha cuidado com o que faz.
Eles já farejaram alguma coisa.
Bäar pôs-se de pé num instante.
— O quê! A polícia secreta? Não! Com certeza isso não é da
conta deles, podemos manter isso entre nós. A polícia da
Força Aérea é capaz de tratar disso!
Abrindo os braços, as palmas para cima num gesto de
resignação, o outro replicou:
— Isso foi o que lhes disse também. Deixei claro que a moça
era apenas alguém sem importância, uma prostituta comum
de oficiais...
Bäar tentou não estremecer.
— E...?
Não ficaram convencidos São como cães, você sabe.
Farejaram um cheiro forte e estavam excitados. Assim,
insistiram em vê-la. E, lógico, eu não podia recusar. Isso teria
tornado a coisa ainda mais suspeita. Fui com eles à prisão.
— E...?
O brigadeiro sorriu secamente:
— Bem, o que espera? Depois que a viram e conversaram
com ela, todos muito polidos, como sempre são na
superfície, saímos. Então disseram que estavam mesmo
surpresos e deliciados por descobrir que as prostitutas dos
oficiais da Força Aérea eram tão... hum... diferentes do tipo
costumeiro.
— Foi tudo que disseram?
— Infelizmente não. Fizeram-me um ultimato. Deram-me
uma semana para resolver o caso e, se a essa altura eu não
tiver resolvido tudo, irão assumir.
— Graças a Deus! Uma semana é mais que suficiente. Dentro
de uma semana terei o caso resolvido para eles, os odiosos
sádicos. Vou mostrar a eles!
Caminhando para a porta, voltou-se de repente para o
superior:
— Estou muito agradecido, senhor — e, hesitando,
examinando interrogativamente o rosto do outro: -— Posso
perguntar por que está se arriscando tanto? Eu... para mim...
o caso é diferente. Eu amo a moça. Mas por que o senhor?
Com certeza não é por mim... ou a conhecia antes?
O rosto do brigadeiro se tornara sombrio e seus olhos
vaguearam até o mapa sobre a mesa. Então falou, e Bäar teve
dificuldade em entender as palavras, que vinham através de
dentes cerrados, num murmúrio feroz:
— Não me agradeça! Não, eu não a conhecia antes. Estou
fazendo isso por mim mesmo... para salvar o que ainda sobra
de meu auto- respeito, para me sentir um pouco menos
envergonhado.
— Envergonhado? Com o que, senhor? E um dos homens
mais respeitados da base. Eu, pessoalmente, sempre o
admirei por sua integridade, sua competência. Nunca tive
superior mais capaz, mais justo.
— Integridade! Respeito! Ah... mas não pode saber, coronel.
Como poderia? Nasceu e foi criado nas colônias, longe de
tudo isto. Além disso, é muito mais jovem. Quando a sua
carreira mal se iniciava, tudo já estava terminado.
Ele levantou o rosto agora, os olhos ardentes, a voz baixa e
desesperada:
— Não, você não poderia saber como era servir a ele. Lutar
por ele. Não sabe como me senti quando vi esse bracelete...
Reconheci a Serpente Emplumada. Depois de anos! Você
não sabe... Como poderia?... O que esse símbolo significou
para mim no passado. Como ele representava a verdade e a
sabedoria, a coragem, a compaixão. A verdadeira grandeza,
verdadeira realeza, verdadeira dignidade. Ali... Naqueles
tempos eu sabia, uma pessoa sabia o que era lutar por algo
em que podia acreditar de todo coração, sem vergonha, sem
dúvidas — balançou a cabeça com tristeza. — Servi-lo era a
maior honra que uma pessoa podia encontrar sobre a Terra.
Eu sabia... e sabendo, escolhi servir o outro quando a guerra
foi perdida. Tinha muitas posses então... tenho muito mais
agora. Yahali foi generoso nas recompensas. Naquela época
eu não desejava tornar-me um rebelde desabrigado e pobre.
E assim convenci a mim mesmo de que havia na verdade
muito pouca diferença entre um soberano e outro. E quando
os soldados... nossos soldados, aqueles que lutavam pela
Serpente, foram derrotados, quando aqueles meus rapazes
que não haviam morrido se encaminharam para suas naves e
as levaram para lugares seguros ou as destruíram, então... eu,
Bäar, eu permaneci e ofereci meus serviços ao outro.
As últimas palavras desse desabafo foram pronunciadas com
ódio, como se estivesse falando sobre algo indizível.
Permaneceram olhando um para o outro durante algum
tempo, o rosto de Bäar demonstrando perplexidade, mas os
olhos verdes muito iluminados e claros, e as feições do
brigadeiro pálidas, atormentadas, as espessas sobrancelhas
negras contraídas. Então Bäar saudou:
— Obrigado por contar-me isso. E estranho como no curso
de apenas alguns dias um ponto de vista fixo pode mudar por
completo.
Ela estava em pé no canto mais afastado da cela e não se
moveu quando a porta foi aberta pelo guarda. Bäar notou
como ela colocou as palmas de encontro à parede
procurando apoio, mas não se mexeu quando entrou.
Rápido, mandou o guarda embora, ordenando que fechasse a
porta atrás de si. E notou que ao ouvir sua voz ela se moveu
apenas um pouco, deu um passo hesitante em sua direção,
saindo das sombras, e então parou de novo, indecisa.
Ao clarão das lâmpadas, viu seus olhos incertos e assustados.
Então ouviu sua voz, rouca, porém distinta:
— Olá... Bäar.
Em poucos passos resolutos ele cruzou a cela e a tomou nos
braços, sentiu-a agarrando-se a ele de modo febril, escutou-a
murmurar:
— Oh, Bäar. Lamento tanto. Como eu lamento.
Nada perguntou, sabendo de imediato o que ela queria dizer,
sabendo que lamentava tê-lo julgado erroneamente. Que
quando o viu entrando não tivera certeza se ele vinha como
amigo ou como inimigo. Abraçando-a com força, ouviu-a
dizer:
— E apenas porque todo esse tempo tive de ser tão
cuidadosa, nunca confiar em ninguém, nunca acreditar por
inteiro nas pessoas. Isso se tornou um hábito... e então,
quando o conheci, não conseguia mais sentir a diferença. Vi
tantos amigos leais fugirem e traírem seus camaradas ao
primeiro sinal de perigo para si próprios. E afinal, você era...
você parecia tanto pertencer ao outro lado. Lamento.
Deveria ter sabido.
Ele disse:
— Como você poderia saber? Nem eu sabia até há pouco
tempo.
Tentou soltar-se, desejando olhá-la no rosto, mas ela não o
deixou.
— Não. Só quero que me abrace um pouco mais. Apenas um
pouquinho para me sentir segura... e junto com você. Tenho
me sentido tão horrivelmente assustada e isolada todos esses
dias...
Ela sentiu seus braços se firmarem mais uma vez, num
abraço que era ao mesmo tempo ferozmente protetor e
terno, sentiu a força cálida de seu corpo, e de repente
percebeu, maravilhada, a mesma coisa que Ruan havia visto
quando conhecera Bäar.
"A integridade quieta, essa força de rocha é real", pensou.
"Nenhuma barganha é possível sob quaisquer circunstâncias
com o senso de honra, de lealdade deste homem." Por que
não havia notado isso antes? Ele nunca negociaria com sua
consciência... mesmo sabendo que caminhava direto para o
desastre.
E Bäar, sentindo que nunca antes haviam estado tão
próximos quanto agora, enterrou uma das mãos nas mechas
espessas e macias de seu cabelo, praguejando em voz baixa.
Se nunca tivesse se afastado naquela manhã enevoada, vindo
a conhecer o outro... Se jamais tivesse colocado os olhos
naquele maldito bracelete!
Ouviu os passos do guarda se aproximando e com gentileza
puxou sua cabeça para trás, pelos cabelos, para poder olhá-la.
Que se danasse tudo. Por que havia conhecido aquele outro?
— Ouça bem, querida. Tenho um plano para tirá-la dessa
confusão, mas precisa fazer exatamente como digo...
Quando terminou, ela disse:
— E depois, Bäar? Que será de sua carreira? Sei quanto o
serviço significa para você.
— Minha carreira? — ele sorriu e encolheu os ombros. — Há
cerca de uma semana arruinei minha carreira por minha
livre e espontânea vontade, e de modo inteiramente
consciente. Você não teve nada a ver com isso.
E seu coração disse: "A sua carreira não foi a única coisa
arruinada. Aquele encontro estranho e inesperado nas
montanhas, conseguiu arruinar também qualquer chance de
felicidade futura para você com essa moça."
Ele suspirou e beijou as mãos e os olhos dela, e depois, de
leve, sua boca.
— Anime-se. Vou ajudá-la a sair disso. Enquanto estiver nas
mãos da Força Aérea tudo é bastante simples.
Uma vez fora dos portões da prisão, caminhando em direção
ao centro da cidade, teve a sensação de que alguém o seguia,
o observava, mas controlou-se e não olhou para trás. Pouco
depois, sentiu alguém tocar seu braço e viu, caminhando
bem junto a si, um homem pálido, alto com a testa larga,
vestido de modo muito discreto. O homem dirigiu-se a ele
com voz suave e controlada:
— Coronel? Sua entrevista, espero, rendeu bons frutos?
Quero dizer... também para nós? Ou sua visita foi apenas por
prazer?
Desnecessário perguntar o que ele tinha com isso... óbvio
que era um deles. Um agente secreto.
Por um curto momento forçou-se a suprimir a raiva que
sentiu crescer dentro de si. Então respondeu, em tom
agradável e suave:
— Bem... como sabe, às vezes é melhor combinar ambos, o
prazer e os negócios? Devo dizer... desta vez ela colaborou
bastante. Dentro de uns dias é provável que eu tenha alguma
boa notícia para vocês, rapazes... Talvez alguns nomes em
postos elevados...
O outro pareceu satisfeito.
— Obrigado, coronel. Espero que seja bem sucedido. E, a
propósito, houve um rumor, algo sobre uma jóia que foi
encontrada... uma jóia de desenho incomum?
"Raios partam esse homem", pensou Bäar, furioso, mas riu de
um modo que esperava ser jovial e bastante estúpido:
— Vejo que ouviu sobre isso também, hem? Entretanto não é
apenas uma jóia... havia várias. Com efeito, ela tem mesmo
uma coleção de anéis, colares e braceletes presenteados por
seus muitos amantes. Tem um dos meus, também, você
sabe. Mas até onde eu saiba, nenhum deles é muito
extraordinário.
Inclinou a cabeça amistosamente para o homem e afastou-se,
misturando-se à multidão. O outro não o seguiu, mas ficou
por algum tempo, pensativo.
Parecia estar tudo muito chato e desinteressante. Um caso
corriqueiro. Ainda assim... a moça na verdade não parecia se
encaixar. Ou seria apenas o fato de ter sido treinado para
suspeitar demais de tudo e de todos?
Mas por que então, até aquele momento, eles não haviam
sido capazes de localizar sequer um oficial que confessasse
ter sido seu amante? No entanto a maioria deles a conhecia,
a admirava, e todos haviam dito que vinha sendo a garota de
Bäar durante um bom tempo.
E se tivessem mentido... por que o teriam feito? Caso
contrário, por que ela o faria? Toda uma coleção de jóias?
Aquele coronel não estaria exagerando?
"Um cavalheiro deseja vê-lo, senhor."
Nehazz, que estivera parado no meio da sala, levantou os
olhos com impaciência:
— Alguém que eu conheça?
— Nunca esteve aqui antes, senhor. É um oficial.
— Faça-o entrar — deixou-se afundar numa cadeira baixa e
trabalhada, e apanhou do chão uma antiga guitarra,
construída em madeira vermelho-escura.
Mas ao invés de tocar ficou olhando com mau humor para as
cordas silenciosas. Poucos minutos antes Vanzaj havia estado
com ele e a visita o deixara inquieto e irritado. Tiveram
mesmo uma discussão. O jovem cabeça-quente queria sua
ajuda para libertar certa moça rebelde, mas quando se
recusara terminantemente, o rapaz ficara zangado. Então,
quando ele próprio retorquira que era sua vida, sua maneira
de pensar, e tudo o mais, por favor, vá para o inferno,
Vanzaj de repente ficara calmo de novo, se desculpara e
partira. Do que gostara ainda menos e o deixara inquieto e
insatisfeito com o rumo geral das coisas.
— Coronel Bäar, senhor.
Ficou tão atônito quando viu o grande oficial parado no
umbral que conseguiu apenas continuar sentado, de boca
aberta. O que teria acontecido ao homem? Parecia mais
magro e seus olhos estavam opacos.
Levantando-se devagar, sem esconder o espanto, disse:
— Certamente isto é uma surpresa, coronel. A que devo a
honra? Talvez tenha vindo afinal para prender-me por atos
secretos e rebeldes?
— Por favor... — Bäar fez um gesto cansado com a mão —
posso imaginar que esteja surpreso. Mas não vamos
desperdiçar o seu e o meu tempo com esse tipo de discussão.
Balançou a cabeça ao convite silencioso de Nehazz para
sentar- se, depois continuou:
— Nunca fomos amigos. No entanto é a única pessoa que
será capaz de fazer o que deve ser feito, e que não posso
fazer pessoalmente — tirando do cinturão um ornamento
cravejado de pedrarias, exibiu-o:
— Já viu isto antes?
Nehazz olhou por algum tempo, depois assobiou.
— Onde o arranjou?
— Não importa. Conhece...?
— Claro que sim. Tão bem quanto você. Apenas a realeza usa
esse símbolo, em tempo de guerra. Isso pode ter pertencido
apenas ao legítimo sucessor do trono Tolteca.
— Isso mesmo. E quero que o devolva a ele.
— Oh? — Nehazz, atônito, olhou para o rosto do outro, mas
não fez qualquer comentário. Com os dedos finos começou a
tocar as cordas de sua guitarra tirando uma melodia
monótona. Teria ouvido mesmo o que ouviu? E após alguns
momentos de silêncio, disse lentamente: — Mas eu pensava
que o jovem morreu anos atrás...
— Não. Ele está vivo... e não importa como sei — a voz de
Bäar estava cortante e peremptória. — Vim vê-lo porque
conhece todo mundo. Decerto que há... certos canais.
Mesmo que não os conheça, para você é fácil descobrir sem
se expor. E quando o devolver, há uma mensagem verbal
para acompanhá-lo.
Os dedos de Nehazz, agarrando as cordas, falharam,
provocando um som horrivelmente desafinado. Colocou o
instrumento no chão com cuidado e levantou-se.
— A mensagem é a seguinte: "A moça ainda está viva." —
Que moça? — perguntou Nehazz, mais para si mesmo do
que a Bäar.
— Não. Quanto menos souber, melhor para você — disse
Bäar.
— Ele irá compreender. O resto é com ele.
— E se me recusar? — agora Nehazz era ele próprio de novo,
alerta. Mas sabia que jamais iria recusar, uma vez que sua
curiosidade havia sido levada a um ponto quase insuportável.
— Por que deveria? — o oficial pareceu genuinamente
perplexo, como se tivesse pedido uma coisa muito comum.
— Há muito pouco perigo para você... e trata-se de um
assunto puramente pessoal entre mim e o proprietário do
bracelete — fez uma pausa, um pequeno movimento com a
cabeça, e então disse: — Estou muito agradecido, Nehazz.
Eu o faria eu mesmo, se pudesse... Mas, para mim, o tempo
está se esgotando. Adeus.
— Meu Deus — disse Nehazz, olhando da porta fechada para
a mesa onde a Serpente Emplumada faiscava e cintilava na
luz. E repetiu:
— Meu Deus... como ele sabia que eu iria aceitar?

Capítulo XII

No caminho para a nave o agente fez a pergunta sem
rodeios:
— Que tipo de bracelete perdeu, na noite em que você e seus
amigos atacaram a prisão?
A moça voltou a cabeça em sua direção, surpresa:
— Mas o brigadeiro deve ter-lhe contado. Ou não o fez? —
pensou um pouco, depois encolheu os ombros. — Não me
lembro... mas penso que era o que me foi dado por um
oficial da infantaria, alguns anos atrás. Um camarada
simpático e muito generoso.
— Seu nome?
Ela mencionou um nome atlante comum, acrescentando: —
...e ouvi dizer que ele foi transferido para as colônias. —
Claro. Transferido. Que beleza! — a entonação foi sarcástica,
mas não a pressionou mais. As peças se encaixavam tão bem
que estava inclinado a acreditar que todos estavam mentindo
juntos, o brigadeiro incluído.
Por algum tempo ficou estudando-a pelo canto dos olhos:
um perfil fino, reservado, cílios longos e pesados, uma boca
doce. E nada no jovem rosto a demonstrar sequer a mais
leve aspereza, o que afinal se poderia esperar diante da vida
desregrada que ela admitira ter levado. E então pensou ter
detectado algo mais, um leve traço de uma qualidade que
não conseguia definir, mas que conhecia bem demais, por
experiência. Era uma espécie de propósito que sempre havia
encontrado naqueles mais dedicados à causa rebelde. Essa
moça tinha-o, embora mascarado com habilidade... ou
estaria apenas sendo tolamente suspeito?
De qualquer modo, o caso estaria fora de suas mãos em
muito pouco tempo agora. E seus amigos na capital eram
com efeito especialistas em arrancar a verdade, mesmo dos
rebeldes mais obstinados. Ainda assim, seria interessante
saber se tinha razão.
Quando subiram no veículo vermelho, o piloto lhe disse:
— Tenho ordens de ir primeiro a Poraj, para apanhar uns
prisioneiros ali. Como sabe, é fora de nossa rota e irá custar-
nos mais duas horas pelo menos.
Ele assentiu.
— Está tudo bem. Vai aterrissar na pista principal?
O piloto balançou a cabeça:
— Não, numa menor, na maioria das vezes deserta e de
pouco uso. E um pouco afastada da cidade, mas é próxima da
prisão... e você sabe que o governo não gosta que as pessoas
saibam que ainda há punhados de rebeldes por aí. Isso
poderia dar-lhes idéias.
Entrou na nave após uma olhada curiosa na direção de
Sheon-La e sentou-se.
A pista de pouso estava localizada na parte oeste de Poraj,
uma cidade extensa, movimentada, de mercadores e
artesãos. Havia um comércio intenso e animado com todas
as partes do reino e em todas as épocas do ano navios vindos
do mundo inteiro coloriam o bonito porto natural. Quando o
aparelho tocou o solo não havia ninguém à vista. A ordem
de passar por Poraj havia vindo do próprio Bäar.
O homem grande havia estado esperando por algum tempo,
meio oculto atrás das árvores que rodeavam o campo, e
quando viu que a nave pousara, começou a caminhar
casualmente em sua direção. Vendo os passageiros
desembarcarem, contou: a jovem, dois soldados e também
aquele agente do governo, e, além disso, é lógico, o piloto.
Não pensara que o homem da segurança iria vir também.
Este se tornaria o maior obstáculo quando se tratasse de
acreditar em sua história bastante fraca.
Cumprimentou o piloto que, após reconhecê-lo, saudou-o.
— Houve uma mensagem... receio que o grupo que está
esperando somente possa vir amanhã. Aconselham-no a
passar a noite na cidade.
Houve um silêncio. O piloto não demonstrou surpresa, os
soldados claramente não estavam interessados.
Mas o homem ao lado de Sheon-La ficou desconfiado.
— E veio pessoalmente para nos dizer isso, coronel? Quanta
cortesia de sua parte, e desnecessária. Por que não mandou
um mensageiro de posto mais baixo? E por que veio tão
armado? Há alguma guerra em curso?
"É claro", pensou Bäar, "isso era de se esperar. Por que não
pensei em alguma desculpa melhor?" Mas, ao invés de
responder, caminhou na direção do piloto que estava se
afastando despreocupado do pequeno grupo.
A voz do agente o deteve:
— Talvez seja melhor voltarmos a Dhar agora e virmos
buscar os prisioneiros amanhã.
— Como quiser — respondeu Bäar em tom despreocupado,
sabendo que esse era um risco que não podia correr. De
volta a Dhar o homem podia descobrir que não houvera
qualquer ordem de voar a Poraj. Tinha de ser aqui e agora.
Alcançou o piloto e começou a falar com ele em voz baixa:
— Há alguns lugares muito simpáticos nesta cidade, capitão,
lugares onde poderia divertir-se. Por que não vai até lá? A
quatrocentos metros daqui irá encontrar todo o transporte
que precisar.
O piloto olhou para o superior com um sorriso enigmático.
Não era bobo, e o amor desse homem por Sheon-La mais a
prisão desta algumas semanas antes eram ainda tema de
conversas no refeitório dos oficiais.
E embora nunca tivesse conhecido a jovem em pessoa, havia
percebido logo que Bäar evitara cuidadosamente olhar a
prisioneira. Muito estranho, considerando que ela era de
uma beleza deslumbrante.
Baixinho, muito baixinho, respondeu:
— Isso é uma ordem, senhor?
Bäar encarou-o de frente agora, a boca firme, mas com um
apelo inconfundível nos olhos.
— É.
— Assim pensei — assentiu o capitão, e continuou no
mesmo tom velado: — Precisa de alguma ajuda, senhor? Há
três deles, como sabe...
— Obrigado, mas não quero que ninguém se arrisque. Esse
assunto é inteiramente meu. Darei um jeito... e muito
obrigado.
O piloto saudou, girou sobre si mesmo e partiu, num passo
fácil e gingado.
— Espere aí! Onde pensa que vai? Você terá de conduzir-nos
de volta a Dhar agora mesmo — a voz do agente era
cortante, de comando, mas inconfundivelmente ansiosa.
O piloto se deteve e, fazendo meia-volta, encarou o homem
zangado que vinha correndo em sua direção. Zombeteira e
insolentemente, replicou:
— Você dando-me ordens? Estou mesmo perplexo, amigo.
Eu recebo ordens apenas de meus superiores e,
definitivamente, não é um deles.
No momento seguinte havia desaparecido entre as árvores
que rodeavam a pista, deixando o outro sem fala.
Por um longo tempo ela iria lembrar a tarde passada no
campo de pouso estreito e mal cuidado, onde a grama havia
crescido alta e selvagem e sobre o qual as montanhas se
inclinavam, os cumes escarpados e ameaçadores.
Por um longo tempo iria se lembrar do rosto de Bäar,
voltado para ela com o sorriso rápido e tranqüilizador, o
cabelo agitado pelo vento, as feições iluminadas pela luz
suave e profunda do sol poente; lembraria do movimento de
seus ombros poderosos quando se virou, rápido, para se
defender do ataque dos soldados.
Um deles saiu voando por cima da cabeça de Bäar, atingindo
o nariz da nave vermelha com um baque surdo. Caiu na
grama e não se levantou.
O outro tinha a arma meio sacada quando o coronel acertou-
o no queixo com o punho esquerdo, e então atirou-se sobre
o homem com todo o seu peso e ambos estatelaram no chão.
O agente secreto sacara sua faca, longa, fina e de aspecto
vicioso, e começara a se aproximar dos homens que lutavam,
quando a moça estendeu a perna e fê-lo tropeçar.
Ele caiu estendido, a faca foi chutada de sua mão. E então ela
estava sentada sobre a sua cabeça, encostando a ponta de sua
própria arma de encontro ao seu pescoço, ouvindo a
torrente de obscenidades abafadas que ele soltava contra a
terra poeirenta.
— Eu devia matá-lo — disse-lhe Sheon-La —, mas o fato é
que não gosto de matar, mesmo a vermes como você. No
entanto... aconselho-o a manter a cabeça quieta... mantenha-
a muito quieta. Também suas mãos... sim, assim mesmo.. .
Ele não era um homem forte, fisicamente, e, além disso, já
sentira como a ponta da faca cortava sua pele. Assim, por
enquanto, decidiu manter-se quieto.
Ela não viu o movimento atrás da nave, atenta em vigiar seu
inimigo, inquieta porque sabia que deveria liquidá-lo.
Uma hora antes da partida da nave, Nehazz havia descoberto
sobre o transporte de Sheon-La para a capital e sobre a
parada planejada em Poraj. Deixando uma mensagem
apressada para Vanzaj, ele próprio e, como disse a si mesmo,
apenas por pura curiosidade —, havia alugado uma nave e
voado a Poraj. No campo de pouso grande, no centro da
cidade, descobria, após discretas perguntas aqui e ali, que
nenhuma outra nave de Dhar havia pousado naquele dia,
nem era esperada.
Depois disso não precisava de muito tempo para deduzir as
coisas. Era óbvio que se tratava de obra de Bäar... e tinha a
sorte de saber sobre a existência da pista de pouso nos
arredores da cidade. Enquanto se dirigia para lá perguntou a
si mesmo se Vanzaj teria recebido sua mensagem em tempo
e se seria esperto o bastante para saber onde encontrá-lo.
Assim, não esperou, e chegou a tempo de ver um dos solda-
dos, aquele que desfalecera após a colisão com a nave, quase
alcançando um Bäar desprevenido, arma na mão.
Quando Bäar ouviu o grito de aviso de Nehazz girou rápido,
desviando-se pelo lado no mesmo movimento, mas não com
rapidez suficiente, recebendo a faca do guarda em cheio no
peito.
Nehazz, correndo a toda velocidade agora, viu pelo canto do
olho o homem sobre cuja cabeça a moça estivera sentada,
jogar Sheon-La para o lado. Agora também estava correndo
na direção do lugar onde Bäar estava num corpo a corpo
com seu atacante.
— Então aqui está o adeus definitivo à neutralidade — disse
Nehazz em voz alta para o mundo em geral, perguntando-se
ao mesmo tempo por que havia vindo armado se realmente
desejava permanecer um mero observador.
Era rápido e seguro com suas pernas finas, musculosas, e seu
braço não tinha perdido muito de sua força desde os dias em
que vencia muitas disputas esportivas. Notando agora que o
agente secreto se ocupava mais uma vez com a moça e assim
não constituía um perigo imediato, agarrou o soldado sobre
Bäar pelo cabelo longo e deu-lhe um puxão hábil e maldoso.
O homem berrou, saltando de cima de um Bäar visivelmente
enfraquecido, e voltou-se surpreso, para enfrentar esse novo
perigo. Apoiando-se num cotovelo, Bäar tentou levantar-se,
sentiu-se tonto, e havia grandes nuvens negras embaçando
sua visão e um sabor morno na boca. Vagamente ouviu a
moça gritar de fúria e angústia quando foi derrubada pela
segunda vez e viu com uma sensação de horror o seu
inimigo saltar na direção de Bäar já ferido.
Bäar recebeu o impacto total do corpo do homem. Houve
uma dor lancinante em seu peito, mas ainda mais lancinante
foi o pensamento de que esta luta ele tinha de vencer a
qualquer custo. Esse homem tinha de ser morto antes que
sua força se esvaísse, ou a jovem estaria perdida.
E apesar das nuvens negras estarem redemoinhando, sua
raiva e seu desespero levaram-no a fazer as coisas certas.
Conseguiu ter o pescoço do homem na curva do braço e,
apesar de mal poder ver qualquer coisa, confiou no instinto
de seus dedos para orientar sua força. Apertou sem piedade
até que seus músculos pareceram se partir e o sangue jorrar
de sua ferida, cobrindo a ambos, sua vontade forçando o
corpo a fazer o que queria. Sentiu os movimentos
convulsivos do homem, sentiu-o cravando as unhas em seu
braço, chutando o ar e a terra. Uma dor insistente fê-lo
ofegar, mas não cedeu. Quanto tempo o inimigo ainda iria
resistir?
"Obedeça-me, corpo", pensou, "obedeça-me apenas um
pouco mais e então você poderá descansar para sempre".
Então uma voz masculina disse:
— Basta agora... relaxe... você pode soltá-lo. Ele não ficará
mais morto do que está.
Então sua vista clareou e viu o rosto magro inclinado
ansiosamente sobre si. Alguma coisa era muito engraçada,
pensou. Mas o que era? Lembrou-se e sorriu para os
irrequietos olhinhos escuros:
— Está vendo, Nehazz? Eu não estava certo em desconfiar de
você? Olhe de que lado você lutou hoje!
Quando Nehazz lhe sorriu de volta, lembrou-se de mais
alguma coisa:
— No meu cinturão. Retire-a depressa. É a chave da casa do
brigadeiro em Poraj. Na estrada para Dhar... a estrada antiga.
Está deserta. Esconda a si mesmo e à moça ali e vá ao norte o
mais rápido que puder.
Ficou em silêncio, sentindo-se muito cansado e desgastado.
Então esse era o fim, o fim de um guerreiro. Como era bom
deitar-se e saber que ela estava segura, e como era bom e
estranho saber que Nehazz estava ali para fazer o resto.
Fechou os olhos. Quando os abriu de novo, o rosto dela
estava ali, e ela chorava, e seus lábios baixaram muito
suavemente sobre os seus. Ela murmurou:
— Bäar, meu amor...
E ele suspirou:
— Oh, garota dos olhos grandes e do espírito fogoso! Eu a
amo muito... — e então, rapidamente, antes que as nuvens
se fechassem de vez, fez a pergunta que estivera em seu
coração desde que soube a quem pertencia o bracelete. Diga-
me... Se... ele voltasse agora, neste momento.... Qual de nós
escolheria?
Ela não hesitou sequer por um segundo.
— Você ainda não sabe? Se eu tivesse de escolher entre
vocês dois? — começou a afastar o cabelo dele da testa
encharcada e sua voz ficou muito clara e terna: — Quem
mais poderia ser senão você? E sempre, e novamente você?
"Pergunto-me se ela está sendo sincera, pensou Nehazz.
Mas, a luz gloriosa naqueles olhos verdes, a felicidade
naquela boca severa!"
E Bäar ergueu a mão direita, admirando-se vagamente diante
de seu estranho peso e acariciou o rosto de Sheon-La com os
dedos manchados pelo próprio sangue.
Ela colocou os lábios em seu cabelo, muito de leve, tomando
cuidado para não incomodá-lo com seu peso, sussurrando
algo que por algum tempo conseguiu manter a escuridão
afastada de seus olhos.
Pouco depois disso veio a quietude da morte.
Ao seu lado, ouviu o homenzinho dizer... de onde havia
vindo e quem seria?
— Ele era uma pessoa muito especial, não é?
"O vento está frio... não percebi antes o quanto", pensou ela.
"E como está tranqüilo e suave o brilho vermelho do sol
sobre o seu rosto."
Disso também iria se lembrar por longo tempo.

Capítulo XIII

Como Bäar havia indicado, a casa do brigadeiro ficava na
antiga estrada de Dhar a Poraj. Uma mansão imponente,
estava quase completamente escondida da vista por uma
vasta selva de altos arbustos e grossas árvores antigas. Aqui e
ali, entre o capim alto, punhados coloridos de flores,
sobreviventes do que fora antes um jardim lindo e bem
cuidado, lutavam desesperadamente pela vida.
Bäar, com sua costumeira meticulosidade, havia deixado a
casa bem estocada de alimentos e outros suprimentos, de
modo que não havia necessidade de saírem. Ousavam
aparecer apenas à noite, para um passeio pelo extenso
jardim.
Várias vezes Nehazz esteve a ponto de revelar à jovem o que
o aeronauta lhe havia contado sobre o bracelete. Antes de
tudo queria estar certo de algumas coisas, até ali não muito
claras. E desejava honrar o homem morto seguindo seu
pedido tão literalmente quanto possível.
Antes de partir para Poraj fizera contatos prometedores, e
fixara a data para um encontro na movimentada cidade.
Assim, na quinta noite após a fuga, enquanto a jovem estava
dormindo, ele saiu, para a estrada deserta, dirigindo-se ao
encontro.
Localizou numa taverna o homem que lhe havia sido
descrito, um indivíduo quieto, franzino, com o rosto
cansado e uma voz macia e murmurante.
Escolheu uma mesa num canto, à sombra da grande porta, e
pediu vinho para ambos. Nenhum dos outros freqüentadores
parecia interessado nele ou em seu companheiro. Então
começou:
— Recebeu minha mensagem? Pode identificar-se?
O outro mal moveu os lábios:
— E você, pode? Foi-me dado a entender que você era de
fora... mas que havia uma importante mensagem pessoal para
alguém.
— É verdade. Para ser transmitida pessoalmente por mim.
Como e onde posso encontrar a pessoa em questão?
Mas o homem sorriu de leve, balançando a cabeça.
— Você não me satisfez. Poderia ser uma armadilha. Nesse
caso eu já me comprometi. Com certeza não pretendo trair
também o seu paradeiro.
— Poderia ser uma armadilha — concordou Nehazz. — Mas
talvez isto sirva? — colocou o bracelete sobre a palma de sua
mão, que estivera oculta sob o tampo da mesa.
Inclinando um pouco a cabeça, o homem viu a serpente
incrustada de jóias e de repente ficou muito quieto, com as
mãos imóveis sobre a mesa. Tomou um longo gole de vinho
antes de olhar para Nehazz.
— Ainda poderia ser uma armadilha. Talvez o bracelete
tenha sido roubado, ou perdido por ele.
Nehazz não respondeu, ficou apenas olhando-o firme,
esperando. Então o outro pareceu chegar a uma decisão
abrupta.
— Há uma grande feira se realizando aqui, inaugurada ontem.
Depois de amanhã à noite, ele estará lá. O resto é com você.
E obrigado pela bebida.
O homem se levantou e se foi sem desperdiçar tempo em
cumprimentos, deixando Nehazz com o problema de como
descobrir entre os milhares de visitantes da feira a pessoa
pela qual estava procurando.
As construções onde a feira —um evento anual — estava
sendo realizado não eram mais do que galpões altos,
espaçosos e abertos. Os pisos e os pilares eram construídos
de mármore brilhante de incontáveis tonalidades diferentes
e os tetos eram móveis, de modo que o ar livre poderia ser
admitido ou não à vontade.
Naquela noite a torrente de visitantes parecia interminável e,
como o mármore, suas peles surgiam numa impressionante
variedade de tons, dentre os quais o moreno-dourado da raça
atlante predominava.
Mais tarde ninguém soube dizer com precisão em que
momento o murmúrio de vozes numa das enormes
construções começou a diminuir e quando as pessoas ali
presentes haviam parado para reunir-se e ouvir.
Todos concordavam, porém, que era muito além de meia-
noite quando naquele determinado pavilhão um jovem
saltou sobre um grande baú revestido de prata, trabalhado
em mil detalhes, com vários símbolos, um tipo de trabalho
famoso numa pequena cidade bem ao sul.
A multidão esperou curiosa, querendo saber que mercadorias
esse homem tinha para vender e de que maneira iria
convencê-los a comprar coisas perfeitamente sem valor por
preços ridiculamente altos.
Esperavam que tivesse uma técnica especial e interessante
que valesse a pena observar e na certa o grande cão-lobo
deitado a seus pés, era parte do jogo. Os vendedores de
drogas milagrosas e poções amorosas eram muitos e alguns
deles tinham métodos muito convincentes.
Desde cedo naquela noite, Nehazz estivera perambulando
pelos pavilhões, alerta para cada evento ou rosto incomum,
mostrando um interesse especial pelos robustos mercadores
montanheses, em suas roupas coloridas, sorrindo, pelo seu
óbvio desprezo pelos moradores das terras baixas.
"Talvez alguns deles pertençam a tribos rebeldes", pensou.
"Talvez mesmo estejam aqui por algum outro propósito que
não comerciar. Se ao menos eu soubesse as diferenças entre
eles, poderia chegar a descobrir onde encontrá-lo."
Era mais de meia-noite quando, bocejando abertamente,
notou como na construção mais ao sul uma multidão estava
se formando. Pôde ver a figura de um homem elevando-se
acima dos outros, mas estava longe demais para ver suas
feições.
"Eu poderia muito bem ouvir esse aí, antes de ir embora",
pensou, suspirando. "Talvez isso me ajude a me manter
acordado. De qualquer modo, esta noite foi desperdiçada."
Começou a abrir caminho através da multidão, os
pensamentos agora concentrados no problema de como
alcançar a segurança das montanhas sem um guia confiável.
"Vou esperar e ver como esse homem vende seja o que for
que tem para vender e então irei para casa", jurou a si
mesmo. "É inútil ficar mais tempo. E antes de partir tentarei
fazer amizade com aquela gente das montanhas e lhes
pedirei sem rodeios que me indiquem um guia. Por que
não?"
Pisando repetidas vezes em pés e murmurando desculpas
automáticas, deteve-se apenas quando atingiu a primeira fila.
Cruzando os braços sobre o peito, ergueu o olhar com um
sorriso sonolento e aborrecido. Primeiro notou o cão
dourado e então, espantado e plenamente desperto, avaliou
seu dono com um relance dos olhinhos vivos. E prendeu o
fôlego.
"Se esse daí tem algo para vender", pensou, "eu sou o rei de
Aztlan. Ou terá a nossa nobreza atual caído tão baixo que
seus membros devem submeter-se a isso para ganhar
dinheiro?"
O que viu foi um corpo ereto, vestido numa tanga vermelha
apertada e uma túnica amarela de mangas curtas, acinturada,
deixando expostas as pernas longas e esplendidamente
musculosas.
Viu também o rosto ardente, bronzeado ao extremo, o que
só podia ser por causa de meses de contínua exposição ao sol
das grandes altitudes; um nariz fino e reto, maçãs altas e
olhos escuros e indagadores.
Olhando para os outros, notou uma ligeira curiosidade na
maioria dos rostos, aborrecimento em outros, mas, também
uma crescente perplexidade nas expressões de alguns dos
homens e mulheres mais bem vestidos.
Quando o jovem ergueu ligeiramente o braço direito para
silenciar a multidão murmurante, viu nítida a parte onde seu
antebraço tinha a pele bem mais clara que o restante.
"Justo a largura de um bracelete de guerreiro", pensou
Nehazz olhando logo para o outro braço, esperando ver a
mesma faixa larga, denunciadora, de pele moreno-clara.
Mas não havia qualquer sinal de uso recente de bracelete. O
braço esquerdo do homem, desde a bainha da manga até as
pontas dos dedos, estava inteiro e uniformemente
bronzeado.
Nehazz exalou um suspiro bastante satisfeito, e então,
apalpando o cinturão, sentiu sua satisfação transformar-se em
desânimo. Havia esquecido de trazer o bracelete.
— Povo de Aztlan! É tempo de agir... Não, não estou falando
para aqueles que, drogados pelo poder e cegos pelo brilho
das riquezas e da posição não mais discernem entre a justiça
e a injustiça, a verdade, a falsidade, não para aqueles cuja
voracidade é tanta que estão dispostos a seguir qualquer
caminho que leve à sua satisfação...
"Estive equivocado", pensou Nehazz. "Este jovem tem algo a
vender afinal... embora receio que vá encontrar poucos
compradores."
— ...mas estou falando àqueles que, por muito tempo, têm
ficado, inquietos e infelizes, por causa daquilo que está
acontecendo em seu país... mas que não ousam agir, ainda
não ousam agir, não desejando colocar em perigo suas vidas
e as de seus entes queridos.
"E estou falando também para aqueles que até agora têm sido
capazes de viver suas vidas em relativa segurança porque...
até agora... a polícia impiedosa e os falsos sacerdotes de
Yahali os têm deixado em paz. Aqueles que, temerosos de
perder mesmo a pouca segurança que têm, não se atrevem a
se levantar contra a crueldade e o terror...
"...Sim, e estou falando para aqueles que estão se esforçando
a fechar os olhos porque abri-los iria tornar a vida
insuportável, abri-los iria forçá-los a ver a injustiça reinar, o
horror crescendo, a violência infligida em nome de um
governante frio e inescrupuloso...
"...Aqueles que em confronto com sua própria consciência,
que lhes grita que ajam, não o ousam, uma vez que agir iria
levá-los ao sofrimento, exílio, tortura e morte. Para todos
esses estou falando... para você, você e você!
"Filhos deste grande país... filhos de meu país, meu Aztlan,
olhem ao redor de si..."
"Será possível que eu esteja mesmo excitado?" ponderou
Nehazz, aturdido. "Eu, o cínico, o cético, o intelectual
aborrecido? Que eu esteja de fato louco e completamente
excitado até o cerne por tudo isso?"
Um homem tentando sair da multidão deu-lhe um
encontrão. Viu um rosto esperto, uma boca fina e zangada,
demonstrando determinação.
Reconheceu logo o outro pelo que era: um agente do
governo a caminho de avisar os soldados. "Ah, filho de
Rahazz, é melhor você luminar seu discurso, e rápido",
pensou.
- Povo de Atzlan... o que foi feito da compaixão, da bondade
e da compreensão? E da sabedoria pela qual nosso país já foi
famoso em todo o mundo? E dos ensinamentos dos Seres
Sábios, filhos da Serpente, que confiaram à nossa raça os
gloriosos segredos? Vocês esqueceram? É possível que
vocês... que nós... esquecemos?
Uma comoção atrás de Ruan atraiu a atenção de Nehazz.
Uma dúzia de homens da montanha estavam parados
formando um cerrado semicírculo atrás do orador. Ruan
ouviu os ruídos e os murmúrios, mas não se virou. Sabia que
os homens de Zenhar haviam chegado.
Exasperado, seu amigo exclamara: — Falar ao povo na Feira
de Poraj! Em público! Homem, você deve estar insano. E
para quê? Suponho que você esteja esperando que ao final de
seu maravilhoso discurso eles irão todos reunir-se ao seu
redor, para aplaudir loucamente e marchar na direção da
capital, seu número aumentando, aumentando e
aumentando pelo caminho? E que irão assaltar o palácio...
não importam aqueles poucos soldados piolhentos... expulsar
Yahali, e viveremos felizes para sempre depois?
Rira com gosto diante dessa imagem. — Certo, não há
ninguém como você, Zenhar. Mas, não estou supondo nada
desse tipo e...
Nesse ponto Zenhar havia começado a gritar com ele: —
Mas por que, por que e por que você quer fazê-lo, então?
Não é apenas que não vão escutá-lo. Estarão muito mais
inclinados a linchá-lo ali mesmo, apenas para mostrar àquele
rei imprestável que súditos leais eles são.
Ele percebeu como seu amigo estava preocupado, ainda mais
porque ele próprio não poderia acompanhá-lo. O Rei
necessitava dele numa missão urgente, cuja importância
ambos conheciam.
— Sei disso... ainda assim preciso mostrar a eles... àqueles
que estão do nosso lado. Preciso dizer-lhes que não estão tão
desesperadamente sozinhos como pensam, que ainda têm
amigos, aliados, pessoas que sentem como eles... e, mais que
isso, que estão preparadas para enfrentar qualquer perigo
para prová-lo.
Zenhar acalmou-se. — Mandarei meus melhores homens
com você... e se deixarem que alguma coisa lhe aconteça...
—, estava ficando furioso de novo, — mandarei cortar suas
gargantas.
E, para os doze homens que selecionou mais tarde,
comandados por Dizan, repetiu isso de forma menos brutal.
Dizan havia assentido logo. — Certo. Se algo acontecer ao
Príncipe, nenhum de nós voltará para relatá-lo. Sua morte
será nossa morte.
Eles chegaram à feira um pouco mais tarde que Ruan, tendo-
se escondido na vizinhança até aquele momento. Uma vez
que pertenciam aos homens mais confiáveis de Zenhar,
todos tinham desempenhado papéis ativos e variados nos
incontáveis ataques às guarnições do norte. Aqui, na Feira,
fervilhando de visitantes de todas as partes do país, havia o
perigo real de serem reconhecidos.
Um espectador, irritado pela maneira rude pela qual estava
sendo empurrado para o lado, levantou a cabeça e abriu a
boca para protestar. O rosto moreno e os olhos carrancudos
que o examinavam fizeram-no mudar de idéia, engolir em
seco e afastar-se apressado.
— ...e quanto à Verdade? Acima de tudo, meu povo... e
quanto à Verdade? A única Verdade que resiste através das
eras, a de que o homem é Um, que a Humanidade não passa
de Um Ser, embora suas formas sejam múltiplas? E que,
portanto, aquele que sacrifica, mata e invalida seus irmãos
nos altares de deuses, não importa quão elevados, por
propósitos não importa quão nobres, não sacrifica senão a si
mesmo? Pois não está assim preparando para si mesmo, em
futuros próximos ou distantes, o mesmo destino cruel, uma
vez que ele e seus irmãos são Um e nunca podem ser
separados?
Quando Nehazz, na beira da multidão, viu o agente voltar,
avançando devagar entre o povo, um sorriso satisfeito no
rosto, soube que não havia tempo a perder. O primeiro grito
do homem do serviço secreto encontrou-o já no ponto mais
estratégico da Feira — de onde as luzes eram controladas.
— Um traidor... Um rebelde! — gritou o homem. —
Derrubem- no! Não o deixem fugir! Matem-no!
De imediato o grito foi ecoado pela multidão, contente por
alguém ter tomado a iniciativa, ter-lhes indicado a maneira
mais segura de escaparem ao perigo e à perplexidade. Os que
se achavam à frente avançaram para o orador, tentando
agarrá-lo pelas pernas... mas apenas para recuar, apressados,
caindo uns sobre os outros, diante dos dentes arreganhados
de um furioso Tzal.
Os soldados alertados pelo agente estavam agora chegando
de todos os lados, apertando o círculo ao redor de Ruan que,
com um assobio para o cão, saltou para trás, para o meio de
seus amigos.
—Abaixo todos os traidores e inimigos de Aztlan — gritou
Nehazz com todas as forças, a mão voando para o
interruptor.
No instante anterior ao estabelecimento da mais completa e
inesperada escuridão, viu como um dos montanheses o
observava com interesse e curiosidade.
Depois disso, a confusão foi indescritível.
Nehazz tentou achar o caminho na direção de Ruan e seus
homens, praguejando e guinchando tão forte como o resto,
embora com os ouvidos alertas para sons reveladores. Em
certo momento, a cauda peluda do cão roçou em suas
pernas, seguida por um rosnado baixo e um grito de dor.
"Um cão muito ocupado", pensou Nehazz, sorrindo,
tentando manter-se na trilha de Tzal.
Uma vez fora, onde a lua crescente proporcionava uma luz
incerta, correu atrás do que pensava serem os homens que
procurava. "Se eu os perder agora, nunca os encontrarei de
novo", pensou, notando com desagrado que já não era tão
bom em corrida quanto havia sido outrora.
E quando alcançou o grupo que estava perseguindo,
descobriu serem soldados de Yahali, olhando-o com
desconfiança. Ofegando, disse:
— Tentei alcançá-los... vi aquele homem com o cachorro...
correr naquela direção... — e apontou ao acaso, uma vez que
de qualquer forma não tinha a menor idéia da direção.
Recomeçou a correr, agora mais atento a alcançar o
esconderijo do que a encontrar os rebeldes. Logo iriam
começar uma busca minuciosa pela cidade, em seus
arredores imediatos. A casa do brigadeiro deixara de ser
segura.
Estava perto da casa, agora. Havia apenas um rio estreito a
atravessar, e depois disso um campo, e estaria no terreno
logo atrás da mansão abandonada. E então chocou-se contra
algo ou alguém, não soube o que, abraçou a pessoa ou objeto
para evitar a queda e sentiu-se atirado com violência ao solo.
Alguém praguejou:
— Saia de meu caminho, seu idiota desajeitado.
Havia homens parados por toda a parte, formas silenciosas
emergindo das sombras. Sem fôlego, levantou-se, devagar,
tentando pensar. Estavam todos armados... soldados tão
perto do esconderijo? Se encontrassem a moça.
"A única coisa a fazer agora é correr de novo, mas desta vez
na direção oposta, para afastá-los da pista", pensou. Mais
tarde sempre poderia explicar que imaginara serem bandidos
e ficara assustado. Poderia dar uma dúzia de explicações, era
muito bom nisso.
Mas não avançou mais que alguns metros antes que o
agarrassem. Seus braços foram forçados para trás e foi
arrastado para um lado da estrada, onde havia outros parados.
Mais adiante, um pouco escondido pela sombra de uma
grande árvore, avistou o cão, imóvel ao lado de seu dono.
Suspirando com imenso alívio contou-lhes que era também
um fugitivo e sobre a jovem escondida na casa e seus
esforços para encontrar alguém que os guiasse para lugar
seguro.
Dizan estava cético e sarcástico:
— É engraçado — observou — como as pessoas viram
rebeldes exatamente ao nos encontrarem. E uma espécie de
magia que possuímos, parece.
Nehazz não disse nada. O homem estava certo.
Suspirando, pensou na mensagem de Bäar. Mas ninguém iria
acreditar nele agora. E não tinha o bracelete consigo.
— Por que não vão até a casa para verem por si mesmos? —
E, a propósito, é um bom lugar para todos se esconderem...
Um dos homens que o seguravam girou-o de repente e
olhou para seu rosto, dando um grunhido satisfeito.
— Penso que talvez esteja dizendo a verdade, tenente —
disse ele. — Estive observando este homem desde o
princípio. Foi ele que desligou as luzes.
Dizan, preocupado porque as coisas estavam saindo pior do
que havia esperado, assentiu:
— Tudo bem. Mostre o caminho. De qualquer modo, se isto
for uma armadilha, você será o primeiro a morrer.
Mas embora o tenente e seu prisioneiro se adiantassem, os
homens não os seguiram, ficando a olhá-los, incrédulos e
chocados. Dizan, já uma dúzia de passos silenciosos e
impacientes à frente, olhou para trás, mal-humorado,
sibilando uma ordem, quando notou a incompreensível
demora dos outros.
Então ele próprio estacou, lembrando-se de algo. Quando
girou sobre os calcanhares, refazendo lentamente seus
passos, Nehazz pôde ver, mesmo à luz fraca da lua, que havia
ficado pálido e parecia muito envergonhado. Parado diante
de Ruan, toda a sua impaciente arrogância desvanecida, disse
humildemente:
— Desculpe-me, Príncipe. Quem sou eu para dizer o que
deve ser feito ou não, uma vez que está presente? Como foi
que pude... — com isto, se calou.
Mas Ruan, com um gesto, dispensou-o de maiores
explicações.
— Compreendo perfeitamente, tenente. O comandante
Zenhar encarregou-o de proteger-me. Assim, a
responsabilidade é inteiramente sua, e as ordens devem ser
suas, também. Quanto a este homem... — fez um sinal com
a cabeça na direção de Nehazz —, não há traição
nele...Hum... ao menos não agora — e dirigindo um rápido
sorriso a Nehazz: Ele é um de nós, embora apenas há poucas
semanas, e ainda está atordoado por seu novo papel. Você
pode confiar nele.
Como sombras fantasmagóricas, eles deslizaram pelos
campos arados atrás da Feira.
Quando por fim, os contornos da grande casa foram vistos
através da mata que a rodeava, Dizan parou:
- Penso que seria melhor que esperasse aqui, Príncipe. Nós
iremos ver se tudo está em ordem lá dentro. Deve ser
protegido acima de Ilido.
Ruan, sorrindo de leve, não protestou.
Mais tarde não saberia o que o fizera escolher aquela direção,
nem por que havia começado a caminhar, ao invés de
esperá-los ali. Mas, além de uma forte urgência de ficar só
um pouco, havia algo mais, algo indefinível.
Sob os seus pés a trilha era musgosa e macia, e havia um
odor de flores silvestres. As árvores, paradas e amigáveis,
estavam filtrando miríades de feixes enevoados de luz
bruxuleante, cujos padrões mudavam a cada hálito do vento.
Houvera pouca reação naquela noite, pensou, apenas agora
admitindo francamente a si mesmo que ficara desapontado.
As pessoas haviam parecido mais atônitas do que ansiosas
por suas palavras, e quando os soldados vieram... rápido
demais... não hesitaram em dar aquele grilo selvagem
reclamando sangue, o grito da multidão assassina.
Mas o que, então, esperara? E os poucos que haviam sentido
algo não iriam mostrar seus sentimentos naquele lugar
público. E, no entanto...
...— mas eu conheço você. Eu os vi a levá-la... os soldados...
depois da grande batalha.
A voz, uma voz masculina, zombeteira e maliciosa, cortando
seus pensamentos, fê-lo estacar de imediato. Ao seu lado, o
cão se agachou, rosnando.
Acalmando-o com a mão, manteve-se imóvel, parado à
margem de uma clareira em cujo centro se via um pequeno
lago. O lago era alimentado pelo riacho que haviam
atravessado antes naquela noite.
A voz, continuando, vinha do outro lado da clareira.
— Todos os seus parentes haviam sido mortos e você estava
inteiramente só naquela casa...
Mantendo-se na sombra, cauteloso, Ruan começou a
arrastar-se devagar ao redor do espaço gramado aberto,
guiado por aquela voz desagradável, que falava com firmeza.
Quando afinal viu seu dono, estava apenas a poucos metros,
completamente escondido pelas árvores e pelo capim que
chegava à cintura. Quando parou e se abaixou, o cão fez o
mesmo, sem qualquer ruído. Eram duas pessoas, via agora. O
homem estava de frente para ele, mas a jovem voltava-lhe as
costas e, além disso, estava semi-encoberta pelos galhos de
espessa folhagem.
Começou a arrastar-se para ainda mais perto. Essa devia ser a
moça sobre quem Nehazz estivera falando. E o homem?
Nehazz não dissera nada sobre o homem. Por um instante,
pensou em revelar-se a eles, mas o homem obviamente não
era amigo e poderia haver mais de sua espécie nas
imediações. E não desejava causar problemas desnecessários
ao já super preocupado Dizan.
— ...que sorte extraordinária! Quando descobrimos o corpo
de seu amante e os dos outros naquele campo de pouso,
ficamos todos no escuro. Interrogar o piloto não ajudou em
nada. Como o chefe ficou furioso!... Recebemos ordens
especiais... — ele balançou a cabeça — estão procurando
você por todo Aztlan, mas parecia não haver esperança. E
então, passar por esta casa hoje, pura sorte, eu não estava
procurando por ninguém. E vi você. É claro, fiquei curioso.
O que uma moça estaria fazendo aqui, sozinha, no jardim de
uma casa abandonada, a essa hora da noite? Então comecei a
segui-la, com esperanças, no mínimo, de uma aventura
agradável.
Alguma coisa em Ruan estava profundamente inquieta.
"Gostaria de ver o rosto dela", pensou. "Como gostaria de ver
seu rosto. Por que ela não diz nada? Por que se mantém tão
quieta?"
Esticou o pescoço para vê-la melhor, mas ele via apenas a
espessa massa de cabelo negro, a curva de um ombro jovem.
— Você não se lembra da noite após a grande batalha? Não se
lembra do que fizeram a você? Você não pareceu gostar
muito, não é mesmo? — ele riu alto: — Oh, sim. Tenho
absoluta certeza de que é a mesma moça. Não se lembra? Eu
fui um deles...
"Estranho", pensou Sheon-La, "mas eu não sinto mais nada"
nem mesmo repulsa, ao lembrar-me." E então, tinham-na
violentado... Tinham usado seu corpo para satisfazer sua
fome masculina. E daí?
"Ela sequer reage", pensou Ruan, notando o cansaço e o
desânimo no modo como estava parada, ouvindo resignada,
o inimigo.
O agente disse:
— Então agora você pensa que nada mais pode feri-la? Não
tem medo de morrer, talvez até dê boas-vindas à morte, não
é assim? Mas está tão errada, minha querida. Não tem idéia
de como a vida pode ser insuportavelmente longa, mesmo
uns poucos segundos antes da morte, quando nossos
especialistas, meus colegas, começam a trabalhar...
Ele esperou um pouco para deixar as palavras penetrarem,
mas como não houvesse a mínima reação, mudou abrupto
de tática e de tom:
— Mas por que deixar seu lindo corpo ser estragado por eles?
— agora a voz estava suave. — Por que não me contar tudo
que sabe... e então eu poderia decidir deixá-la ir em paz? Pois
o que é uma moça diante da força e do poder de Aztlan?
Deu um passo em sua direção:
— Por que não começar agora, por exemplo? Qual é a
verdade sobre aquele bracelete que perdeu perto da prisão?
Se soubesse como estão todos morrendo de vontade de saber
sobre aquele bracelete misterioso...
No meio do capim, a mão de Ruan apertou a pele do cão.
Algo que não ousava dar nome estava nascendo nele. Uma
esperança louca, embora impossível, incrível e insuportável.
De repente a moça riu alto. "Oh, eu irei contar-lhe", pensou.
"Isto ao menos posso contar sem ferir ninguém. Oh, sim, irei
contar-lhe. Vou atirar a verdade em seu rosto repulsivo."
Ruan viu-a voltar-se ligeiramente. Algo cintilou contra o céu
pálido, iluminado pela lua, quando ela, ainda rindo, levantou
o braço:
— Olhe com atenção... este é o bracelete! Este mesmo!
Uma voz clara, baixa, com a qual sonhara durante anos.
Enterrando os dedos ainda mais no pêlo sedoso do cão, Ruan
sentiu a garganta se apertando. Não podia ser... Afinal a voz
não havia sido mais que um sussurro... e sussurrando todas as
vozes parecem iguais. E então seus olhos captaram a
cintilação da jóia ao luar e não precisou de um segundo olhar
para reconhecer o símbolo.
Com um grito rouco pôs-se de pé, justo quando ela dizia,
zombeteira:
— Está silencioso, senhor? Devo descrever-lhe o desenho?
Sheon-La viu o ornamento de ouro passar voando junto
dela, antes que o significado das palavras lhe chegasse. Ouviu
um grito estranho começando num semi-murmúrio, mas
terminando num grito rouco de júbilo.
— Deixe-me dizê-lo por você, meu amor? E uma serpente,
uma Serpente Alada. Eu sei, eu sei. Porque tenho o seu par.
AQUI! — e atirando o pesado bracelete contra o espião
petrificado, acertou-o entre os olhos.
O homem caiu em silêncio e Ruan não lhe deu tempo de
levantar- se de novo. Então, depois que terminou, levantou-
se lentamente, e lentamente também se voltou, os joelhos
sentindo fraqueza e tremor, temendo pelo que seus olhos
poderiam ver, temendo que seu anseio intenso tivesse
enganado sua mente.
"Agora descobrirei que ela é outra pessoa", pensou. "Quando
olhar de perto, será uma estranha, alguém que de alguma
maneira conseguiu ficar com o bracelete após a morte dela e
o usou como talismã."
A jovem ficou rígida, num descrédito total e atordoado
quando reconheceu a cabeça escura e a postura dos ombros
enquanto ele lidava com o agente. Viu-o levantar-se junto ao
corpo de seu inimigo, depois inclinar-se para apanhar o
bracelete que havia atirado contra o homem. Tentou mover-
se, mas não pôde, tentou falar e não encontrou som.
Ele ergueu o olhar para ela num apelo desesperado. Não era
uma estranha.
Ruan sentiu-se começar a tremer, incontrolavelmente, como
se de febre, ouviu a si mesmo... era sua própria voz que saía
naquele sussurro coaxante?
— Então eu disse a ele por você, minha Sheon-La. Quem,
depois de você, poderia ter-lhe contado melhor sobre o
bracelete e sua história, do que eu?
Ela viu-o endireitar o corpo e avançar lentamente em sua
direção, muito ereto agora, as pernas firmes, viu os longos
dedos de ambas as mãos agarrarem com força o bracelete.
Quando a alcançou, ele tomou seu braço esquerdo,
inteiramente incapaz de evitar que os dedos tremessem, e
começou a empurrar a jóia pelo braço acima até que esta
quase alcançasse o ombro despido. E como havia acontecido
naquela outra vez, suas mãos subitamente agarraram-na
pelos ombros e então seus braços se fecharam ao seu redor
num abraço feroz.
Ela sentiu longos e entrecortados suspiros sacudirem o corpo
tenso, sentiu-se tremendo tanto que teve de agarrar-se com
força para não cair, a cabeça enevoada e estranhamente leve.
— Você cheira a luar e a capim silvestre, meu amor, mas o
luar tem um cheiro frio e distante, e o seu é muito próximo e
cálido. É possível que você esteja tão perto agora... tão perto?
— ele enterrou o rosto em seu cabelo — Ah, como
demorou, como demorou, meu amor.
Lembrando-se, ela se afastou um pouco.
— Ruan, você ouviu o que aquele homem disse? Tudo?
Ele olhou para ela, intrigado, depois assentiu.
— Oh, sim, ouvi tudo — e vendo a pergunta em seus olhos,
acrescentou: — E você o amou muito?
Sheon-La pensou em Bäar morto num pequeno campo de
pouso empoeirado e em sua própria solidão desesperada ao
vê-lo daquele jeito. Pensou na mão quadrada, manchada de
sangue acariciando seu rosto, naquela força honesta, aquela
integridade tranqüila.
Sentiu os braços de Ruan apertarem-na com compreensão.
Junto ao seu ouvido, ele sussurrou:
— Não é preciso contar-me. Você o amou, posso senti-lo.
Ele deve ter mesmo sido uma pessoa especial, para ser capaz
de fazê-la amá-lo.
Quando se deu conta da suprema arrogância daquele
comentário, ela esqueceu de imediato tudo sobre Bäar e a
tristeza do passado. Começou a rir de modo incontrolável.
— Isso, senhor, para alguém que pertence a um dos mais
altos graus da Ordem da Serpente, é uma coisa muito pouco
humilde a dizer.
Ele juntou-se ao riso despreocupado e tolo dela ao perceber
o que suas palavras implicavam, sentindo-se alegre e
indiferente a qualquer coisa a não ser essa jovem em seus
braços. Fascinado, notou como pequenas manchas de luz
dançavam em seu rosto levantado, e no cabelo escuro, a cada
vez que movia a cabeça. E quando um pequeno retângulo de
prata, torto e alegre veio pousar sobre seus lábios, ele se
inclinou com súbita paixão, esmagando aquela boca jovem e
doce com a sua, silenciando abruptamente o riso feliz e
borbulhante. Levantou-a nos braços:
-—Vamos procurar um lugar onde fiquemos a sós. Gente
demais aqui.
— Gente? — ela olhou ao redor, espantada. — Não vejo
ninguém.
Ele sorriu. Como era macio o seu cabelo e como era
excitante o contato de seu corpo.
— Eles estão aqui, sim. Na orla desta clareira. Você não se
lembra de Dizan? Um dos melhores homens de Zenhar?
— Dizan, Zenhar... — repetiu ela. — Como será bom
encontrá-los a todos, Ruan.
Ele deu um largo sorriso:
— Mas certamente não agora, meu amor...
Carregou-a para onde as sombras de um bosque escureciam a
grama, além do lago, onde a terra úmida tinha um cheiro
suave e fresco. Quando a depôs no chão, as folhas caídas
farfalharam e a asa de uma mariposa espantada tocou a face
dela. Quando a beijou dessa vez, seus lábios estavam
impacientes, persistentes e dispostos a não abandonar os
dela, enquanto mantinha sua cabeça presa firmemente entre
ambas as mãos.
Ela sentiu a longa e rígida extensão de seu corpo contra o
dela, as mãos em sua pele, descendo do pescoço para os
seios, afastando o tecido de seda antes de começarem a busca
lenta e ansiosa.
Um grilo, saltando junto dela, veio pousar sobre o cabelo de
Ruan, e então perdeu-se na noite branca e quieta.
Ao lado de Dizan, Nehazz disse:
— Teremos de perturbá-los, tenente. Se o inimigo...
Mas o outro fê-lo calar-se, sibilando com desdém:
— Dane-se o inimigo e danem-se os riscos que estamos
correndo por sua causa; e dane-se o dever de um príncipe de
salvar sua preciosa pele em benefício de pessoas que não o
querem e não o merecem, de qualquer maneira! Que vá tudo
para o inferno!
Por sobre o ombro deu ordens rápidas. Seus homens haviam
voltado após levar o agente inconsciente para a casa, onde o
deixaram, fortemente amarrado. Espalharam-se num amplo
círculo de vigilância ao redor daquele imponente grupo de
árvores.
Dizan voltou-se novamente para Nehazz que, surpreso,
notou que seu rosto estava agora relaxado e havia perdido
toda a tensão anterior.
— Cuidaremos para que não seja perturbado. Vamos deixá-lo
esquecer tudo esta noite. Esta cansativa guerra sem fim, seu
sangue real, seus inimigos, o caminho árduo e perigoso que
está destinado a percorrer como um dos Escolhidos, todo
este país maldito, tudo — colocou a mão no braço de
Nehazz. — Esta noite, vamos deixar que seja apenas um
homem. Gloriosa e esplendidamente, apenas e simplesmente
um homem.

Capítulo XIV

Foi durante uma reunião de todos os oficiais do comando
que o brigadeiro recebeu uma mensagem: o chefe da Polícia
Secreta de Poraj queria falar-lhe, estava esperando-o numa
sala contígua.
Perguntou-se rápido o que queriam consigo desta vez.
Poucas semanas antes haviam vindo notificá-lo da morte de
Bäar e da fuga da jovem, tendo-lhe solicitado que os
acompanhasse para identificar Bäar.
Ou era isso que diziam. Tinham entrado em contato consigo
de imediato, naquele mesmo dia fatídico, e ele havia voado
com eles a Poraj, até um pequeno campo de pouso, a poucos
quilômetros da cidade. Havia insistido em voar sozinho,
pilotando sua própria nave, desacompanhado. Não estava
nem um pouco ansioso por esquivar-se de todos os tipos de
perguntas, da espécie que sabia que fariam.
Não haviam removido os corpos ainda. Bäar jazia um pouco
afastado dos outros, coberto por um manto verde. Sentiu que
o manto teria sido posto ali por amigos, talvez mesmo pela
própria moça... estava certo de que nenhum inimigo teria
pensado num gesto tão impulsivo e gentil.
— Deveria ter-nos deixado ocupar-nos do caso desde o
início, brigadeiro. Agora veja o que aconteceu por causa de
sua obstinação.
Fingindo concordar, disse:
— Vocês sabem que normalmente a polícia da Força Aérea
está apta a resolver esse tipo de problema. Já fizeram isso
antes. Eles são bons...
— Tão bons que atrapalharam por completo este trabalho.
Ele encolheu os ombros.
— Suponho que tenham subestimado o amor dele pela
espiã...
Levantou um canto do manto verde, descobrindo o rosto e o
peito de Bäar. Desejou que o homem ainda estivesse vivo,
que abrisse os olhos de modo que pudessem conversar sobre
o que havia acontecido, até mesmo rir juntos. Sentia-se
rodeado por inimigos que iriam atacá-lo imediatamente se
soubessem o que estava se passando dentro de sua cabeça.
Uma ansiedade desesperada começou a tomar conta de si;
como teria gostado de ir para onde a moça devia estar, a
moça e o outro, o homem chamado Nehazz.
Quando lhe perguntaram sobre Nehazz, não precisara
mentir, conhecia o homem apenas ligeiramente, havia-o
encontrado cm uma ou duas ocasiões, eventos sociais. E isso
era tudo.
Mas ele ajudara Bäar nos últimos momentos da luta. Assim
contou um dos soldados, aquele que havia sobrevivido.
Ele não escutara muito bem, deixara seus pensamentos
derivarem enquanto olhava o rosto imóvel de Bäar, notando
a horrível ferida em seu peito. E o agente de segurança,
jazendo um pouco mais adiante com o pescoço quebrado.
Quebrado por Bäar, ele sabia.
— Como é que nunca suspeitou dele?
— O quê? — olhou para o interlocutor, sem vontade de
voltar àquela tagarelice tola. Então encolheu os ombros: —
Nunca sonhei que ele estivesse do outro lado... — respondeu
devagar. —Ainda não consigo acreditar.
Então fora até ali que seu amor pela jovem o havia trazido.
Até esse campo de pouso. Para o final de uma carreira
promissora. Para uma morte sangrenta.
"Que esplêndido. Que maravilhoso" pensou "e, no entanto,
nunca foi um revolucionário. Apenas seguiu até o final seu
coração e seu senso de justiça".
Ou talvez essa fosse a definição correta de um verdadeiro
revolucionário. Alguém que seguia seu coração e seu senso
de justiça até o final.
Enquanto que ele... o brigadeiro estremeceu
inconscientemente, um fato logo notado pelos olhos agudos
que o observavam. Havia lutado por Rahazz, e depois que
tudo fora perdido, trocara sua honra, renunciara a seu
coração por um par de títulos, possessões e confortos torpes.
-— Não está bem, brigadeiro? — a pergunta veio num tom
áspero, mais como uma acusação. Ele endireitou os ombros,
anuindo ligeiramente:
— Sim. Fiquei chocado com o destino de um dos meus mais
fiéis oficiais. Revoltante.
Havia girado sobre os calcanhares e partido, o primeiro a
alcançar as naves. Como era fácil, fingir, ser hipócrita. E
como era cansativo.
E agora, quando afinal entrou na sala onde era esperado,
sabia que eles, furiosos por causa da demora, não tinham
como não se sentir impressionados por sua postura, militar e
arrogante, seguro de si mesmo e de sua posição.
E em poucas palavras que deviam soar acusadoras,
suspeitosas, mas que saíam num tom respeitoso, de desculpas
mesmo, eles lhe contaram o que havia acontecido em sua
casa de campo. Sobre o agente que havia conseguido atrair a
atenção de passantes e que contara uma história incrível,
muito difícil de acreditar, sobre certo bracelete.
O brigadeiro manteve-se alheio e desinteressado.
— O caseiro estava de licença para visitar os pais. Com efeito,
ainda não regressou — disse. — O coronel Bäar com certeza
sabia da existência da casa. E por que não deveria? Não era
segredo. Espero que esses bandidos não tenham danificado a
propriedade.
Ele os acompanhou à casa, que estava fervilhando de
homens da segurança e soldados. E de novo sentiu uma
tristeza por encontrar-se no meio de inimigos, sem ninguém
por perto em quem confiar, com quem sentar-se para
conversar com uma caneca de vinho e partilhar de um
pouco de riso. Mas junto com a tristeza veio uma espécie de
felicidade... porque as coisas haviam saído como desejara.
Exceto pela morte de Bäar. Simulou raiva:
-— Como ousaram invadir a minha casa assim -— e
voltando-se rápido para os homens da segurança -—, e como
foi que vocês não souberam a respeito deles antes de ser
tarde demais?
Riu interiormente ao ver seus rostos espantados, que apenas
um pouco antes haviam-no olhado com suspeita e
desconfiança. O chefe começou até mesmo a gaguejar,
tentando encontrar as palavras certas para explicar, para
refutar o ataque. Mas ele o interrompeu imediatamente:
— Isto é seu trabalho, não é? — perguntou. — Todos
estavam procurando pela moça e aquele homem, qual era
mesmo seu nome... Nehazz?... Vocês todos haviam sido
alertados. E, no entanto, bem embaixo de seus narizes... —
ele se deteve, com ar de desagrado, mostrando claramente
que o fracasso da Polícia da Força Aérea não era nada
comparado ao deles. — Bem, sempre que precisarem de
mim, cavalheiros, vocês sabem onde encontrar-me.
Eles o viram sair pela porta e embarcar na pequena nave no
corpo tia qual se via a águia castanho-avermelhada com seus
olhos de gemas azuis. Não podiam saber que ele fora incapaz
de permanecer por mais tempo na mansão onde vivera com
sua mulher e filhas durante anos antes e depois de ter-se
alinhado a Yahali. Fora contra a vontade dela, e eles haviam
tido longas e apaixonadas discussões sobre o assunto. Mesmo
depois que ele havia jurado lealdade ao novo imperador, ela
tentara convencê-lo a abandonar tudo e fugir consigo para as
montanhas do norte.
Como ele recusasse, ela havia começado a organizar os mais
selvagens e originais tipos de festas, recepções e bailes, e
mesmo, eventos esportivos, convidando a todos que
conhecia. Mesmo o Rei, sempre convidado, veio uma ou
duas vezes festejar com eles. Sua mulher sempre havia sido a
alma daquelas festas, estimulando todos os convidados à
serem felizes, se divertir e relaxar. Ávida era maravilhosa. E
ele havia odiado tudo aquilo.
Até que um dia, depois que ambas as filhas se casaram, indo
viver longe, nas províncias do sul, ele, ao chegar em casa,
havia encontrado seu bilhete: "Lamento. Não posso suportar
mais. Toda a sorte do mundo".
Ela não havia assinado. Abaixo da mensagem, desenhara uma
bandeira, o pavilhão vermelho e dourado da dinastia Tolteca,
com um sol radiante no centro.
Havia destruído o bilhete. Aos amigos dissera que ela o havia
deixado porque não conseguiam mais conviver. Que o amor
havia chegado ao fim. Que ela havia ido morar com uma de
suas filhas, no sul. Que era melhor que as coisas fossem
assim. Nunca a havia visto novamente. Mais tarde deixara a
casa e comprara outra, perto da grande base militar, em
Dhar.
Ao chegar à base, encontrou um homem esperando por ele,
um coronel que conhecia apenas ligeiramente, mas que era
considerado muito capaz e ambicioso.
Agora esse coronel havia encontrado um mapa, um mapa
indicando uma das fortalezas mais inacessíveis de Zenhar...
por que diabos aqueles camaradas haviam cometido um
engano tão estúpido?... e desejava ação. Estava muito
ansioso, esse homem, ansioso por sair, destruir os rebeldes e
conquistar os louros para si.
— Uma vez que encontrou o mapa, coronel — disse ele —,
penso que e justo que prepare o plano. Que acha disso?
Percebeu contentamento e surpresa nos olhos do
subordinado — seu visível esforço para modificar a não
muito lisonjeira opinião que tinha do superior. Os mais
ambiciosos eram aqueles que menos sabiam julgar os outros.
— Muito bem, obrigado, senhor. Farei isso e terei o plano
pronto pela manhã.
O plano, teve de admitir, estava perfeito. Esse homem iria
longe, seus talentos militares eram de fato acima da média.
Não como haviam sido os de Bäar. Esse oficial nunca teria
que lutar contra sua própria compaixão, senso de justiça,
honra. Essas eram características que não possuía.
Reviu o plano, com cuidado, dando-se conta de todos os
seus detalhes. Perfeito demais. Zenhar, alheio ao perigo,
seguro demais da inacessibilidade de suas amadas montanhas,
não seria capaz de reagir em tempo. A fortaleza seria
varrida... abrindo caminho ao coração das terras rebeldes.
O homem diante dele moveu-se ligeiramente, a custo,
contendo sua ansiedade. O brigadeiro levantou os olhos com
um sorriso:
— Posso congratulá-lo, coronel? Fez um trabalho esplêndido.
Entretanto há alguns detalhes que eu gostaria de estudar com
mais cuidado, antes de entregar o plano à infantaria, durante
o fim de semana. E então entraremos em ação
imediatamente.
Enquanto via o outro afastar-se orgulhoso, fez alguns
cálculos rápidos. Três dias eram tudo o que precisava.
Conhecia todos os contá-los e estava perfeitamente
consciente do fato de que, se houvesse desejado, poderia ter
destruído essa fortaleza-chave há muito tempo.
Insinuando-se através dos subúrbios escuros naquela mesma
noite, alcançou uma estrada estreita nos arredores da cidade.
Precisaria da maior parte da noite para alcançar seu destino a
pé. Essa maneira de viajar iria atrair muito menos atenção do
que o uso de qualquer tipo de transporte.
Caminhou num passo enérgico, firme, sem parar em
qualquer ponto do caminho. Era quase meia-noite quando
alcançou o lugar, a cabana de um camponês numa encosta,
quase escondida pelos altos arbustos perfumados, que
proporcionava a principal fonte de alimento para o gado.
Passou-se algum tempo antes que atendessem às suas batidas
insistentes. Quando a porta se abriu, avançou ligeiro,
fechando-a com as costas. Enquanto falava, rápida e
urgentemente, alguém segurava uma lâmpada com a mão
firme, bem na altura em que a luz incidia em cheio em seu
rosto, evitando que visse qualquer coisa.
— Quem devo dizer que enviou a mensagem?
Ele balançou a cabeça.
— Não importa. Eu...
O homem que segurava a lâmpada deu um rápido passo para
diante e retirou o capuz que cobria o rosto do brigadeiro.
Este não se encolheu nem reagiu, apenas fechou os olhos
involuntariamente por causa da luz.
Ouviu um grunhido e algumas palavras sussurradas,
confirmando sua suspeita de que havia várias pessoas naquela
casa.
Depois de deixá-los verem seu rosto por alguns momentos,
deslizou para o lado, puxando de novo o capuz para sobre os
olhos, consciente dos círculos em seus dedos onde haviam
estado seus anéis, as faixas largas deixadas pelos braceletes
que havia retirado, sua largura revelando sua patente.
Virando-se para uma ligeira saudação, segurou o manto junto
ao corpo e retirou-se da casa num segundo, esperando que o
retivessem. Mas a porta se fechou com suavidade atrás de si.
Pelas estrelas, supôs que fosse apenas um pouco depois da
meia-noite. Decidiu não descansar, mas regressar em
seguida.
Não viu a sombra que se movia atrás de si, entrando e saindo
dos arbustos... ou talvez não tenha se importado. Quando a
madrugada rompeu, já havia alcançado os arredores da
cidade, e misturou-se às multidões matinais a caminho do
trabalho ou voltando da diversão. Muito atrás, um homem
movia-se no mesmo passo enérgico que ele, tomando o
cuidado de não alcançá-lo.
A mensagem alcançou Zenhar na noite seguinte. Os olhos
ainda cheios de sono, formulou automaticamente suas
perguntas, ouvindo então em silêncio, enquanto o homem
que seguira o brigadeiro à sua casa descrevia a imponente
mansão, os guardas da Força Aérea postados nos portões,
apresentando armas quando o homem do manto escuro
passou por eles, recebendo sua saudação.
Esperara até que o homem que seguia, saísse uma hora
depois, em uniforme completo, usando anéis e braceletes.
Havia poucas dúvidas na mente de Zenhar. Os esboços do
plano, preparado contra ele e descrito em rápidas palavras
pelo brigadeiro, eram claros demais. Então Vrina não
esquecera o passado e devia ter estado ao menos em parte ao
lado deles por algum tempo. De outra maneira, como
poderia saber do contato que havia procurado, sem jamais
ter revelado seu segredo?
— Iremos evacuar a fortaleza já — ordenou, sua mente já
pensando na emboscada que iria preparar para os soldados de
Yahali.

Capítulo XV

Eram dois dias depois da Feira. Em todos os pavilhões hordas
de trabalhadores estavam desmantelando febrilmente os
estandes, empacotando objetos valiosos, colocando-os em
pequenos e compactos transportes à espera do lado de fora,
os quais, uma vez cheios, partiam rápida e silenciosamente
dirigindo-se para seus vários destinos.
Dois soldados de licença estavam parados assistindo com ar
de preguiça e enfado. Um era um típico atlante, os olhos
oblíquos, cabelo liso e escuro cobrindo-lhe as orelhas, de
constituição robusta. Mas o outro mostrava traços de uma
raça tão diferente que os passantes, notando-o, se detinham
com freqüência para dar uma segunda olhada, im-
pressionados. Ele não parecia consciente do interesse que
suas feições despertavam, ou talvez não se importasse.
Estavam comendo grandes pedaços de pão com queijo que
haviam trazido, numa casa de comidas ao ar livre,
acompanhados por um bom vinho tinto. Via-se um pote de
mel na mesa entre eles, para adoçar o vinho.
Desh disse a seu amigo:
— Este mel me lembra minha mãe.
O outro olhou-o, surpreso:
— Sua mãe?
Desh assentiu, desejava conversar, o vinho fazia-o sentir-se
cálido por dentro e leve.
— Sim. Você sabe que tenho a aparência tão diferente por
causa de minha mãe... Minha pele azulada, minhas mãos,
minhas orelhas, tudo, veio dela.
Seu amigo olhou para aquelas mãos que há muito haviam
deixado de interessá-lo. Eram pontudas e entre os dedos
havia uma espécie de membrana, até a metade de sua
extensão. Não precisava olhar para os pés de Desh, calçados
com as sandálias vermelhas do exército, para saber que eram
normais como os seus próprios. A cabeça também, exceto
pela pele azulada e as orelhas pontudas, meio ocultas sob o
cabelo negro encaracolado, não era muito diferente de
muitas outras. Caman pensou que talvez estivesse
acostumado àquilo, uma vez que se conheciam há algum
tempo e porque as aparências sempre significaram muito
pouco para ele.
— Minha mãe era como este mel... doce, bonita e muito
gentil com todos os seres vivos... humanos, animais e
plantas. Morreu quando eu tinha cinco anos, mas lembro-me
muito bem dela. Morreu, penso eu, porque não suportava
viver tão longe de seu próprio povo, embora amasse meu pai
e ele a adorasse.
— Após sua morte nós, meu pai e eu, íamos com freqüência
visitar minha avó nas montanhas. Foi minha avó quem me
contou uma porção de histórias sobre seu povo, o povo de
minha mãe. Eu sabia que minha avó vivia sozinha para
tornar mais fáceis as visitas de sua filha, pois sua tribo vivia
na parte mais alta das montanhas, um platô fustigado pelos
ventos, praticamente inacessível, como ela dizia. Nunca
estive lá.
— Para o norte, onde Zenhar... — Caman interrompeu-se
espantado, mas Desh permaneceu imperturbável.
— Exato, mas ainda mais alto. E eles se mantêm muito
isolados, por causa de sua diferença. Duvido que tenham
mais que um contato casual com as outras tribos, leais a
Rahazz. São muito tímidos e orgulhosos e, além disso, seus
corpos... às vezes ficam invisíveis.
— O quê?
— Sim, é que seus corpos são feitos de uma substância mais
leve, menos material, embora saibam como densificar-se
quando necessário. Foi assim que minha mãe e meu pai
puderam amar-se e eu nasci. Não tenho esse poder,
infelizmente. Meu corpo é sólido como o de meu pai — riu
ele. Ficar invisível em certos momentos bem que seria
muito conveniente...
Uma voz alta se fez ouvir:
— E por isso que este país está se degenerando. Essa mistura
de raças será o fim de Aztlan, eu lhes digo. Olhem só para
aquele sujeito sentado ali... ali adiante. Aquele azul! E além
do mais, soldado. Revoltante!
Caman enrijeceu, mas seu amigo continuou falando. Não
teria ouvido?
— Esse tipo de gente é bom apenas para os grandes ritos.
Estão degradando a nossa raça. Esses traços inferiores estão
minando nossa força, nosso intelecto, enfraquecendo as
linhas sangüíneas puras.
A mão de Caman procurou instintivamente o cinturão. Mas
havia deixado as armas no quartel, estavam de licença, não
quisera andar armado. Em seguida o homem falou
diretamente com ele:
— O senhor... que vergonha... o senhor, um atlante sangue-
puro deveria ser cuidadoso com suas companhias...
Caman levantou-se devagar, as mãos se abrindo e fechando.
O homem era tão alto quanto ele próprio, mais ou menos da
mesma idade, a calvície avançando, suas roupas muito bem
cortadas, indicando riqueza.
Olhando-o direto no rosto, Caman disse pausadamente:
— Peço-lhe perdão, senhor... o que estava dizendo agora
mesmo sobre o irmão de minha esposa?
Quando pronunciou a última palavra, sentiu que Desh
também se havia levantado e se achava ao seu lado.
Houve um súbito silêncio ao redor. Mesmo os trabalhadores
próximos haviam parado de fazer seus ruídos habituais e
olhavam agora com as bocas abertas para o pequeno grupo:
— Penso, senhor — continuou Caman ainda mais devagar —
, que talvez na verdade não tenha compreendido o que quis
dizer... embora deva admitir que suas palavras nítidas se
ouviam de longe.
O homem que estava ficando calvo não respondeu logo. A
ameaça no tom de Caman era inconfundível... "O irmão de
minha esposa", havia dito? Mesmo sabendo que estava certo,
deveria ter mantido a boca fechada, essa escória era boa
apenas para os ritos nos templos de Aztlan. Sua raça deveria
ser exterminada por completo, de modo a não contaminar a
pura raça atlante. Mas não desejava uma confrontação
pública, não ali, não naquele momento. Isso poderia tornar-
se desagradável para ele. Eles eram soldados e todos sabiam
que o Rei tinha alta estima pelas Forças Armadas, muito mais
do que pelo clero.
Desejava responder em desafio, mas ao invés disso balbuciou
algo inaudível, evitando os olhos de Caman, e em seguida
partiu em passos rápidos até perdê-los de vista. Afastou-se
resmungando consigo mesmo:
— Que revoltante! O governo deveria tomar medidas para
pôr um fim a toda miscigenação. A mistura de raças retarda o
progresso.
Atrás, os dois amigos ficaram olhando para ele antes de
sentar-se e continuar a refeição. Então Desh olhou para o
outro com um grande sorriso:
— Você sabe que esta é a primeira vez que soube que tinha
uma irmã? Por que não me contou antes?
Com isso, ambos começaram a rir divertidos, quase se
engasgando com seu vinho, atraindo olhares curiosos dos
homens próximos, que haviam recomeçado o trabalho,
desapontados com o final pacífico da discussão.
Vários dias mais tarde Yahali recebeu uma petição assinada
por centenas de cidadãos importantes, solicitando
respeitosamente uma interferência rigorosa nas relações
sexuais entre as diferentes raças. Havia uma menção especial
àquela "ridícula raça de pele azulada", considerada pelos
solicitantes como tendo uma influência degradante em
"nossas orgulhosas linhas sangüíneas atlantes".
Depois de ler tudo, o Rei baixou devagar as várias páginas de
papel amarelo quase transparente, coberto por aquela
extensa petição que não o havia impressionado em absoluto,
e até mesmo o aborrecera.
Conhecia todos os argumentos usados pelos racistas e
embora estivesse consciente das vantagens desse tipo de
perseguição, não era assim que desejava o poder. O poder
pelo qual ansiava era sobre as mentes dos homens, seus
pensamentos, emoções, não importando suas aparências.
Mesmo assim, tinha de admitir que a perseguição lhe traria
vítimas fáceis, essenciais à prática dos Grandes Ritos.
Entretanto também poderia trazer inquietação, pois sabia
que a pureza da raça atlante não era mais que uma ilusão tola
daqueles idiotas. Não sabiam como seu próprio sangue era
completamente misturado? E que já o estivera por centenas
e milhares de anos?
Ainda assim, continuou pensando enquanto brincava com a
petição, o povo-elfo era muito diferente. Talvez se pudesse
limitar a perseguição apenas a eles e seus descendentes.
O povo-elfo, ou povo-abelha. A história antiga, muito antiga,
ensinava que haviam acompanhado as abelhas, enviadas do
Planeta Gentil, o planeta Vênus, para ajudar a propagar a
fertilidade das plantas e das árvores por toda a Terra, e
abastecer os humanos de mel.
A criação de abelhas ainda era sua principal fonte de
sustento e, com apenas algumas exceções, tinham o
monopólio absoluto do mel.
Não, não seria sábio persegui-los, seria mesmo estúpido...
entretanto, algumas palavras para desencorajar relações
sexuais entre eles e outras raças, com certeza tranqüilizariam
as mentes estúpidas e estreitas dos solicitantes.
Yahali remexeu-se desconfortável em sua cadeira, deixando
cair as páginas uma por uma no chão, onde ficaram
espalhadas em desordem. Sabia que esse desconforto era
devido ao povo-elfo e às coisas associadas com ele, coisas
históricas.
Eles haviam vindo, os Senhores da Chama, para ensinar
agricultura, artes e ofícios, às raças que então povoavam o
planeta, e o povo-abelha viera com eles.
Haviam ensinado outras coisas também, isso fora registrado
por muitos historiadores confiáveis durante um período
inacreditavelmente longo de tempo. Trouxeram uma espécie
de religião... Haviam ensinado que toda a vida era Una, a
individualidade uma coisa passageira, uma máscara, um
vestuário, e o que havia por dentro era parte de uma Vida
Única partilhada com todos os outros seres.
Uma religião estranha, que ele não aprovava, embora a
História não pudesse ser ignorada, mesmo por ele, e eles
haviam sido instrutores e guias para toda a humanidade. Sua
grandeza, sabedoria e poder não podiam ser negados. E até
os dias atuais, Rahazz e seu povo, ao contrário dele, os
reverenciavam.
Por que esse desconforto?... Ou seria por que estava sentindo
uma espécie de medo? No entanto achava que eles apenas
podiam ter estado enganando o povo, com qual propósito
não sabia. Um com todos os outros seres... A dor que outro
sentia ele não sentia, os gritos das vítimas sacrificadas ao Sol
não eram seus, eram delas. Cada qual era totalmente
separado de todos os outros e cada qual envolvido em sua
luta eterna pelas vantagens pessoais e pelo poder. Que
estupidez enganar as pessoas com frases e idéias falsas sobre
a Unidade de toda a vida, sobre amor, compaixão, piedade.
E, no entanto, esses seres haviam estado incontestavelmente
adiantados em relação à humanidade terrestre, haviam sido
Instrutores, Mestres, seja o que for... Como então podiam ter
cometido erros tão grosseiros, sempre negando a eterna
separatividade de todos os seres vivos?
Por que seus seguidores atuais não conseguiam compreender
que os sacrifícios ao Sol, o grande Coração do sistema solar,
eram absolutamente essenciais ao equilíbrio do planeta, que
o derramamento de sangue, as mortes, eram inevitáveis?
Que quando os corações eram incinerados, a forma exterior
destruída, a energia contida iria retornar à sua origem,
devolvendo o que havia sido emprestado do Sol durante suas
vidas ao proprietário legítimo?
O Coração Solar enchia constantemente o sistema solar
pulsante, tornando possível a vida na terra. Como os planetas
projetavam energia para os outros órgãos do corpo humano,
fígado, pulmões, baço, intestinos, a energia em si mesma
também viera do Sol.
Sem dúvida ao final de uma vida longa ou curta a energia
contida pelo coração humano iria retornar de qualquer
maneira à sua origem: devolvia essa energia pouco a pouco
durante o curso da vida. Mas os sacrifícios eram com
freqüência necessários para reforçar o Poder Solar de um
modo mais rápido.
Em especial durante a Lua Cheia. Quando o Sol estava em
seu ponto mais fraco, debilitado pela Lua e sua história
passada, os bilhões e bilhões de anos em que a humanidade
se desenvolveu no antigo planeta, jovem então, mãe da
Terra, um planeta agora morto e em desintegração,
absorvendo muito da energia solar durante seu período
cheio. Em tais e outras ocasiões, os sacrifícios eram uma
necessidade para ajudar a fortificar o Coração Solar.
As feias estátuas zombando da multidão nos templos nada
tinham a ver com o propósito real dos ritos, apenas mandara
confeccioná-las para aterrorizar o povo, para que ninguém
pensasse nos sacrifícios como revoltantes e injustos, como
sabia que muitos pensavam.
Temendo a ira do deus-demônio, até agora ninguém havia
protestado. Mesmo quando as vítimas não eram escolhidas
entre os inimigos, ou prisioneiros políticos, ou mesmo
criminosos, mas entre homens ou mulheres saudáveis e
leais. Esses eram os sacrifícios que impressionavam alguns e
perturbavam ou mesmo irritavam outros, ele sabia.
Os corações eram incinerados para libertar a energia mais
rapidamente, mas o sangue e a carne eram distribuídos pela
multidão já enlouquecida pelo medo e pelo ritmo mesmérico
dos tambores e das flautas. As orgias que se seguiam eram
necessárias para mantê-los prisioneiros, prisioneiros astrais
de sua própria luxúria, do frenesi, do medo hipnótico. Não se
devia deixá-los pensar ou sentir, pois a reação seria
inevitável.
O longo reinado da dinastia Tolteca, precedendo a sua e da
qual Rahazz era o último soberano, havia, infelizmente, os
tornado vulneráveis a outros tipos de sensações, como a
piedade, compaixão, a suavidade e certo horror a infligir dor
aos seus semelhantes, levando-os tão longe que mesmo as
necessidades urgentes do Coração Solar, que clava vida a
todos, eram negadas.
A Ordem da Serpente Alada, os Irmãos do Fogo, servidores
do Ser Flamejante. Era assim que chamavam a si mesmos,
sempre atrapalhando seu caminho com idéias que sabia
falsas, mas muito poderosas e que, portanto, lhe provocavam
temor. Uma irmandade falsa, conferindo valor a meras
ilusões, formas passageiras de vida.
Apenas o Sol era eterno... Mais uma vez Yahali remexeu-se
com desconforto... No entanto, eles também veneravam o
Sol, eles também usavam o maravilhoso símbolo no centro
de seus estandartes vermelhos e dourados.
Quando venceu a guerra, não havia sido necessário sequer
mudar o símbolo nas mansões oficiais, edifícios do governo
e quartéis, e a entrada do Tribunal de Justiça.
No entanto, durante seus ritos, eles não matavam ou
criticavam qualquer coisa viva. Ao invés disso ofereciam
seus próprios corações ao Sol, ou o que chamavam sua
essência espiritual, ofereciam todas suas capacidades que não
poderiam suportar o fogo solar, sua pureza, para serem
destruídas e queimadas a menos que cinzas durante o ato
simbólico. Um ato místico de purificação.
Mas não viram a necessidade urgente do sacrifício do
coração físico de carne e sangue, eram cegos a isso.
Seus ritos, era preciso admitir, tinham enorme poder
mágico. Acompanhados por danças, cantos e música de
címbalos, tambores e vários tipos de flautas, evocavam
grandes presenças, seres fáceis de serem vistos por aqueles
que ainda não tinham perdido o poder de ver e, de qualquer
modo, muito fáceis de serem sentidos.
Quando era um garotinho de cerca de dez anos, filho do
governador de uma das províncias do sul, durante o reinado
do pai de Rahazz, havia testemunhado muitas vezes tais atos
religiosos e vira aqueles seres pairando sobre e ao redor do
templo e do lado de fora, entre as árvores, dançando e
misturando-se à multidão.
Anos depois, com apenas dezoito, ficara consciente de sua
própria missão no mundo, para a qual seria necessário que
reinasse como o único Emissário do Sol, o elo direto com
Aquilo, sem o que nenhuma vida poderia possivelmente
existir sobre a Terra e outras partes do sistema solar.
Tarde daquela noite Desh e Caman perambulavam perto da
belíssima área do templo, longe da vida noturna de Poraj,
que acabavam de deixar. O único som era o murmúrio do
córrego, atravessando o terreno, ladeado por arbustos
aromáticos. Embora o lugar, com seus terraços floridos
baixando até a estrada entre Dhar e Poraj, estivesse aberto ao
público e o próprio templo estivesse construído a quase um
quilômetro dos portões principais, dificilmente as pessoas
vinham visitá-lo porque influências malignas estavam
prontas a saltar sobre os desavisados. Havia sido diferente,
antes que Yahali se apoderasse do trono de Aztlan. Naquela
época o parque era o local favorito de encontros para
namorados e as crianças brincavam ali durante o dia.
Caman sentou-se ao lado de Desh, num banco de madeira,
perto do riacho.
Fizeram tudo que se esperava de um soldado durante a
licença. Haviam entrado e saído de vários bordéis, se
divertiram com algumas garotas e conversaram um bocado
de bobagens com outras. Haviam dançado, bebido e comido
bastante, e agora seus estômagos estavam forrados de
comida, as cabeças pesadas por causa do azedo vinho de
milho. E agora a vida era um negócio muito doentio.
— Oh, meu Deus — disse Caman, levantando-se e correndo
para os arbustos próximos, de flores brancas, já vomitando
pelo caminho.
Vomitou até que seu estômago ficasse vazio, então tirou as
roupas para aliviar-se também de outro modo. Através de
olhos embaçados viu Desh fazendo o mesmo um pouco mais
longe. Lavaram-se no riacho e depois, estendendo-se na
grama baixa e fresca, dormiram.
Foi Caman quem sacudiu o amigo.
— Acorde. Alguma coisa está acontecendo.
Imediatamente alerta, o treinamento assumindo o comando
de modo automático, Desh comprimiu-se contra o solo ao
ver uma figura deslizar silenciosa na direção do templo.
Agachados seguiram a pessoa, escondendo-se atrás de cada
canteiro de flores, das belas esculturas trabalhadas em pedras
preciosas ou semipreciosas, ametistas, esmeraldas, cristais.
Quando o homem chegou ao templo, deteve-se, retirou algo
de uma sacola que carregava e começou a escrever ou pintar
alguma coisa na parede branca à sua frente.
Desh cutucou o amigo:
— Você pode ver o que ele está escrevendo?
— Não, temos de chegar mais perto. Vamos — foi a resposta
sussurrada.
Quando estavam a cerca de vinte metros do homem,
esconderam-se atrás da última estátua. Esta representava um
casal num apertado abraço, feitos do mais puro cristal de
rocha, cinzelados de tal modo que cada raio de luz que
recebia era refletido mil vezes, transformando a estátua
numa imensa lâmpada de cristal cintilante.
Agora era fácil ler as palavras pintadas em letras grandes e
vermelhas sobre a parede do templo.
— E mesmo um rebelde — sussurrou Desh.
E sem esperar, saltou sobre a figura que acabava de
completar sua tarefa. Houve uma luta breve e então torceu
os braços do homem atrás das costas e Caman, num gesto
rápido, retirou o capuz que cobria sua cabeça.
Lábios vermelhos cheios, uma massa de cabelo escuro e um
par de olhos desafiadores.
Desh assobiou.
— Uma moça. Uma moça rebelde. Oh, não!
Lyanta olhou para eles com mais desdenho que de costume.
— É melhor que vocês me deixem em paz. Não estou
sozinha. Meus amigos estarão aqui a qualquer momento.
— Seus amigos? — Caman sequer se deu o trabalho de olhar
ao redor. — E que me diz de nossos amigos? Estão
espalhados por toda parte. Temos apenas de assobiar e virão
todos correndo.
Escondendo-se atrás de uma estátua de ametista
representando a Árvore da Vida, Vanzaj escutava, enquanto
se preparava para o ataque.
Agora sério, Caman disse:
—Temos de entregá-la à polícia. E melhor irmos andando.
Notando a hesitação de seu amigo, acrescentou: — Vamos!
Você conhece a lei. Lembra-se de nosso juramento?
-— Nosso juramento. Sim. Lembro-me muito bem. A lei.
Diga- me, você ajudou a fazer essa lei?
Caman olhou o outro com expressão intrigada:
— O quê? Não, é claro que não. Você quer dizer...
— Quero dizer que há leis que não deveriam ser levadas a
sério, em especial quando vão de encontro aos nossos
sentimentos e não têm nosso consentimento... Desh se
interrompeu, dando uma risada inesperada.
— Percebo... — uma risada subiu pela garganta de Caman
também. Após ter-se livrado do excesso de comida e vinho
sentia-se muito leve e dono do mundo.
Que diabo, Desh estava certo. Por que deveria sentir-se
obrigado a entregar à polícia qualquer pessoa suspeita de
subversão? Ponderou por alto o significado da palavra. Eles
eram guerreiros, não policiais. E sabia que essa jovem não
teria qualquer chance. Para ela seria a morte certa. Eles eram
muito severos com mulheres rebeldes sob o governo de
Yahali, a lei sendo explícita sobre esse ponto em particular:
"As mulheres dão à luz às crianças, elas dirigem as mentes da
futura raça. Mulheres com tendências subversivas não
devem ser poupadas. O rápido extermínio é o único meio de
evitar problemas futuros para o..."
Extermínio rápido. Desh afrouxou os dedos que seguravam
os braços de Lyanta. Por que se sentia tão maravilhosamente
irresponsável, tão livre?
Foi nesse momento que Vanzaj apareceu, saindo detrás da
Arvore da Vida de ametista, os braços cruzados sobre o
peito. Não compreendia muito bem o que estava se
passando. Entretanto, era óbvio que esses dois camaradas
não estavam de modo algum ansiosos por cumprir seu dever
de soldados. Poderia ser fácil convencê-los. Quando Desh o
viu aparecer, soltou os braços de Lyanta e, esfregando as
mãos, comentou:
— Bem, parece que aí está um dos amigos que você
mencionou. Penso que agora deveríamos ter uma conversa,
todos nós. O que acham?
Caman, ainda atordoado por aquela maravilhosa sensação de
liberdade, assentiu de modo vigoroso:
— Mas é claro. Vamos conversar, fazer amizade e celebrar.
Perguntando-se vagamente o que deveriam celebrar,
começou a remexer em seu cinturão, procurando alguma
coisa.
Mas Desh antecipou-se, estendendo a mão aberta.
— Aqui está. Temos a ocasião correta. Quando alguém faz
novas amizades ou encontra as antigas, deve sempre
celebrar, rejubilar-se — olhando ao redor, estremeceu. —
Mas não aqui. Meu pai estava certo. Este lugar está pesado de
maldade. Vamos descer até perto dos portões, onde as flores
noturnas estão perfumadas.
Dando exemplo, desceu pela trilha, seguido pelos outros, até
chegarem aos portões. Ali sentaram-se, pernas cruzadas.
Desh apanhou seu tubo de prata, que encheu com uma eiva
seca, com cheiro de capim e ervas silvestres.
Fumaram em silêncio, o aroma da fumaça misturando-se
com o perfume intenso das flores próximas. Vanzaj disse,
retendo a fumaça por tanto tempo quanto podia, antes de
exalar:
— Mas vocês fumam? Pensei que os soldados estivessem
proibidos...
Desh assentiu:
— Bem, estão... mais ou menos. Não é coisa bem vista.
Dizem que nos deixa menos agressivos. E temos de estar
sempre prontos a matar, mutilar e derramar muito sangue.
Rios de sangue — ele riu, divertido. — Eles preferem que
fiquemos bêbados com aquele horrível vinho de milho. —
Ugh... coisa horrorosti quando você toma demais. Não é tão
ruim quando você sabe controlar.

Capítulo XVI

NÃO TEMAM. O REI É HUMANO, NÃO DIVINO.
ESPEREM PELO SINAL E TENHAM FÉ...
Essas eram as palavras escritas pelos muros de muitas
construções oficiais e templos por todo o país.
Foi na véspera do Festival de Poraj que Yahali em pessoa leu
essas palavras escritas em berrantes letras vermelhas sobre os
muros do Grande Templo, mas os sacerdotes que leram o
aviso junto com ele não o ouviram pronunciar uma única
palavra. De volta ao palácio ordenou que sua guarda pessoal
fosse dobrada daquele momento em diante. Mas apenas
como precaução, porque não achava que tentariam atacá-lo
pessoalmente. E também não temia que fossem capazes de
provar sua vulnerabilidade de qualquer outra maneira. E
ainda existia a possibilidade de o desafio ser apenas um blefe.
Os principais eventos do Festival de Poraj eram uma luta de
cães entre cães que não eram cães e a conquista das águas. O
Zen era o maior rio de Aztlan, crescendo cada vez mais ao
longo de seu curso pelo acréscimo de muitos tributários,
grandes ou pequenos, e jamais até então alguém havia
conseguido conquistá-lo naquele trecho particular de seu
trajeto, embora todos os anos muitos homens e mulheres o
tentassem. Alguns desistiam na metade, afortunados por
alcançar a margem, incólumes, mas muitos tinham de pagar
caro por sua coragem, às vezes até com a vida.
Situada a cerca de 15 quilômetros fora da cidade, a planície
onde o festival anual acontecia tinha como limite natural as
curvas tortuosas do grande rio formando o trecho mais
perigoso de seu curso.
Cachoeiras, corredeiras, redemoinhos, viciosas rochas
pontiagudas à espera exatamente abaixo da superfície,
invisíveis nas correntes espumantes, seguidas logo depois
por remansos que pareciam profundos e tranqüilos,
escondendo perto do fundo fortes correntes que agarravam
os menos cuidadosos para atirá-los contra as rochas,
impossíveis de evitar mesmo para os mais fortes nadadores.
E então, o rio decidia acalmar-se e continuava sua via
sonolento, serenamente, através das terras baixas, passando
por muitas cidades, grandes e pequenas, até alcançar o mar.
Na parte sul da planície, num pequeno platô voltado para o
norte, erguia-se um palácio de cor alaranjada, rodeado por
uma ampla varanda, as colunas cobertas por uma profusão de
hera, florescendo nessa época do ano, com flores azuis.
Era ali que Rahazz e sua família costumavam passar o verão e
também muitos dias das outras estações, e era ali que,
naquele amplo terraço, Yahali e sua corte, formada pelos dez
mais notáveis de Aztlan, assistiam aos eventos esportivos
todos os anos.
As grandes arquibancadas, rodeando a planície, ficavam
cheias de espectadores despreocupados. Entre os eventos, as
tendas móveis de comidas e bebidas armadas atrás das
arquibancadas eram praticamente assaltadas pelos famintos e
pelos glutões, que devoravam panquecas quentes e
apimentadas, todos os tipos de doces feitos de milho e trigo,
sopas e pão crocante de centeio, recheado de carne, além de
uma infindável variedade de bebidas para satisfazer qualquer
paladar: leite, chocolate e chá servidos em canecas de
cerâmica, vinho e aguardente de uvas, e a bebida ainda mais
forte, chamada taisha feita do melhor milho.
Uma luta corporal, sem armas, entre um campeão atlante e
um estrangeiro de um país vizinho, acabava de terminar
com a vitória do primeiro. Agora que o burburinho e os
gritos haviam diminuído um pouco, a próxima disputa estava
sendo anunciada: a luta contra o rio.
As águas do Zen, prosseguindo em seu curso eterno,
brilhando à luz intensa do sol, ignoravam por completo seu
importante papel no evento seguinte.
Yahali, que com seus aguçados olhos negros não necessitava
do instrumento para enxergar à distância, ao contrário de
muitos dos membros da corte que o rodeava, observou o
primeiro participante subir pelas rochas até chegar à pequena
plataforma lá no alto. Suspirou:
— É fácil demais. Nenhum desses jovens tolos irá vencer.
Isto está ficando mesmo monótono.
Um general sentado próximo dele, comandante das Forças
Terrestres, respondeu surpreso:
— O público não parece pensar isso, considerando o
entusiasmo geral.
— Isso é porque eles não sabem que esses rapazes e moças
irão perder de qualquer maneira. E impossível vencer.
— Mas todos eles são nadadores extremamente hábeis.
— Não é a única condição. Há uma outra ainda mais
importante. Há certas leis...
O general decidiu não insistir no assunto. Naquele momento
os espectadores haviam ficado muito silenciosos. O primeiro
participante, lá no alto, na plataforma, estava esperando pelo
sinal do líder esportivo.
Quando mergulhou, ouviu-se apenas um "Oh!", seguido por
um silêncio tenso na multidão. O homem conseguiu passar
em segurança pelo turbilhão da cachoeira e a excitação
cresceu quando, reaparecendo, alcançou a primeira das
corredeiras. Várias vezes sua cabeça emergiu em busca de ar,
mas a cada vez ficava claro que tinha mais dificuldade em
manter-se na superfície, lutando desesperado para respirar.
Então, desaparecendo de novo e permanecendo submerso
por um tempo considerável, ele emergiu afinal, debatendo-
se com um dos braços, tentando alcançar a margem. A sorte
estava com ele; um espectador parado na água rasa conseguiu
segurar sua mão e puxou-o para terra firme.
O brigadeiro Vrina estava sentado na outra ponta do terraço,
ao lado de um velho sacerdote bastante gentil e míope,
apaixonado por esportes. Vrina sabia que esse sacerdote
participava muito raramente dos ritos, sempre alegando
doença ou fraqueza geral para não fazê-lo. Embora se
encontrassem poucas vezes, Vrina o apreciava, sentia-se
relaxado em sua presença e chegava a baixar a guarda, coisa
que era raro fazer.
De onde estava sentado, Vrina podia ver a suave inclinação
ascendente de suas terras, o rio formando uma divisão
natural com o terreno no qual o palácio de verão estava
localizado. Bem abaixo do palácio estavam armadas muitas
tendas coloridas e plataformas com camarotes onde oficiais
do governo — não os dez principais, mas também não os de
baixa classe—, se haviam acomodado com suas famílias.
As terras do brigadeiro Vrina estendiam-se até tão longe
quanto alguém podia avistar — muitos milhares de acres de
solo bem cuidado, fértil, produzindo o melhor milho de
Aztlan. Mais para o alto, o pomar, e, para o oeste, campos de
trigo de inverno e outros grãos apropriados à estação,
enquanto ainda mais alto se podia avistar a linha escura da
floresta virgem, onde sua propriedade fundia-se com as
terras tribais, o lar daquele guerreiro entre guerreiros,
Zenhar.
Conhecia-os tão bem a todos — Rahazz e sua rainha, Ruan e
seus irmãos, quatro deles, todos mortos agora. Em dias
passados suas famílias se haviam misturado livremente, as
crianças brincando sempre juntas, sempre inventando
excursões para o território desconhecido, preocupando e às
vezes até mesmo alarmando suas mães.
Às vezes fora necessário enviar patrulhas à procura delas,
apenas para encontrá-las todas embaladas, felizes, sujas e
pesadamente adormecidas no coração da floresta, ou sobre a
margem do Zen ou um de seus muitos tributários. E Ruan
protestava:
— Oh, mas não era necessário, realmente não era; nós
estávamos muito bem, sabemos que seguindo o rio ao final
chegaremos em casa. Não havia necessidade de se
preocupar.
E Zenhar resmungando:
— Ah, não, mas eu estou morrendo de fome. Ruan disse que
todos devíamos ser como sacerdotes e sacerdotisas, fazendo
jejum, bebendo apenas água. E bufava mais uma vez: Eu não
quero fazer jejum. Estou faminto.
E suas garotinhas, correndo para ele, que numa das poucas
ocasiões em que começara a se preocupar de verdade
resolvera acompanhar a patrulha ao lado da mulher, Litosê.
— Mas Ruan disse que iríamos fazer uma jangada, papai, e
que iríamos descer o Zen — disseram-lhe animadas as
meninas.
E ele dissera a Ruan:
— Uma jangada? Mas com o quê? Vocês trouxeram facas ou
algo parecido, uma machadinha? E mesmo assim... todas
essas corredeiras... sabem como lidar com elas? São muito
perigosas...
O garoto deixara pender a cabeça, depois olhara-o com
seriedade:
— Mas eu nado muito bem, tio, teríamos dado um jeito.
Então o pequeno Zenhar havia afastado o amigo com o
cotovelo,
mostrando uma excelente faca, muito afiada:
— E nós temos uma faca. Olhe, eu não esqueci. Nunca me
esqueço de trazer uma faca...
— Além disso, tio, quando uma pessoa precisa passar pela
Iniciação, precisa fazer todas essas coisas. A gente não deve
ter medo, jamais — ele olhara para Vrina, orgulhoso, mas
então explodira de repente em lágrimas, correndo para os
braços abertos da mulher de Vrina, que já esperava por ele.
Vrina sabia que desde a morte de sua mãe e o massacre de
seus irmãos, Ruan tinha essas crises de choro nos momentos
mais inesperados e apenas Litosê era capaz de acalmá-lo,
beijando-o e abraçando-o, apertando-o fortemente nos
braços, por muito tempo.
Vrina deteve seus pensamentos, forçando-se a prestar
atenção aos acontecimentos embaixo. Se havia uma coisa
que não desejava relembrar era a maneira pela qual a Rainha
e quatro de seus filhos morreram. Ruan tinha três anos
quando foi deixado sozinho, com apenas um Rahazz
sombrio e muito entristecido para cuidar dele.
Quando tinha aquelas crises de choro, dizia sempre,
soluçando, ter visto sua mãe e seus irmãos, estes últimos
espremidos entre muitas outras crianças, sua mãe atirando-
se, aos berros, contra um homem terrível com algo
semelhante a uma adaga na mão. E então seu pai atacando,
comandando muitos soldados, e as crianças jazendo imóveis,
o sangue se escoando, seus pequenos peitos rasgados.
Pronto, pronto, meu pequeno Iniciado — consolava-o
Litosê.
Agora esqueça, esqueça tudo isso.

A multidão começou a rugir. Outra candidata, desta vez uma
moça muito jovem e magra, achava-se sobre a alta
plataforma rochosa. Até aquele momento nenhum dos
competidores havia passado pelo teste, tendo dois se afogado
e dois outros sido arrastados para fora da água, com vários
ossos quebrados e muito machucados.
No início pareceu que a moça iria conseguir. Após
mergulhar, aflorou duas vezes no turbilhão das corredeiras,
chegando mesmo até bem mais adiante que seu predecessor.
Ali o rio largo, profundo e aparentemente tranqüilo tinha
perigosas correntes no fundo, que deviam ser evitadas, sua
profundidade exata pré-calculada pela ambiciosa nadadora.
Durante longos minutos a jovem não apareceu de novo. Os
observadores de ambos os lados do rio, especialmente
escolhidos para salvar os participantes quando ficasse claro
que necessitavam, viram seu corpo passar flutuando.
Sabendo que naquele ponto a corrente iria chegar muito
perto, um deles fez sinal ao outro, dez metros abaixo, que de
pronto puxou-a para fora antes que se afogasse. Levaram-na
embora, o corpo mole, aparentemente sem vida.
O último participante subia agora para a plataforma. Era alto,
muito bronzeado e usava apenas uma tanga vermelha. Como
os outros, tinha o corpo todo pintado com estranhas figuras,
todas simbolizando espíritos aquáticos e criaturas do rio,
seres de espuma destinados a vencer as entidades malignas
que povoavam o Zen.
Esse homem em particular havia pintado a cintura mais do
que os outros com figuras parecidas com grossas cobras
aquáticas, misturando-se ao vermelho da tanga. Seu rosto
estava oculto por uma máscara de tinta em tons de verde,
azul, branco e negro, representando as feições de um dos
mais temidos espíritos da água, aquele que controla as
correntes subaquáticas.
O sacerdote junto a Vrina, inclinando-se para diante, para
ver melhor através de um poderoso binóculo, comentou:
- Você percebeu o modo como ele caminhava? Aquele é um
Tolteca, sem dúvida.
- Vários dos outros também eram Toltecas — respondeu
Vrina, não muito interessado. — Não consigo ver muita
diferença.
- Hum — fez o sacerdote, balançando a cabeça, como se
em dúvida. — Não sei, mas me parece... — interrompeu-se
subitamente.
O brigadeiro Vrina, agora surpreso pelo tom de voz do
outro, examinou com mais cuidado a figura sobre a
plataforma. Em sua mente uma voz infantil disse: "Mas você
sabe que sou um ótimo nadador, tio."
A rainha, ela própria uma nadadora fabulosa, havia levado o
pequeno Ruan para o rio antes mesmo que soubesse andar.
Começando em pequenos lagos rasos e tranqüilos, ele
perdera aos poucos o medo da água e passava os longos dias
quentes com sua mãe e seus irmãos entrando e saindo do rio,
ocasionalmente acompanhado pelo pai.
Após a tragédia, Ruan voltara sempre que podia para
continuar suas sessões de natação, vez por outra
acompanhado por Zenhar e pelas filhas de Vrina, mas em
geral sozinho, sempre escapando do alcance das várias babás
designadas para cuidar dele.
Uma vez Rahazz havia encontrado o palácio em polvorosa
porque o príncipe, então com sete anos, não havia voltado
de um passeio não permitido pela floresta. Quando Rahazz o
encontrou, estava adormecido à margem do rio e, abrindo os
olhos, dissera:
— Papai, não há mais necessidade de se preocupar. Todo o
perigo se acabou para mim — acomodou-se no colo do pai,
abraçando-o. — Realmente, ela me disse que agora eu sabia
de tudo a respeito da água.
— Ela? Quem, ela? -— perguntou-lhe Rahazz, franzindo a
testa.
— A mulher. A mulher do Zen, é claro. Hoje quase me
afoguei e fiquei em pânico. Então ela me segurou e me
puxou para a pedra, esta pedra onde estamos sentados agora,
e ensinou-me a lei.
Rahazz não disse nada, apenas continuou a escutar.
— A lei das águas, pai! Na água, uma pessoa deve ser como a
água, fluida, maleável, não resistindo nunca. A água nunca
resiste, nunca luta contra nada, disse a mulher do Zen,
apenas continua fluindo. Um nadador deve fazer o mesmo,
disse ela. Nadamos muito, juntos. Não posso explicar todas as
coisas que me mostrou, mas não fiquei com medo de nada,
simplesmente não conseguia ficar com medo. Ela me ajudou
a fazer coisas que nunca pensaria possíveis, coisas perigosas,
e, no entanto, não eram perigosas, porque eu sabia. Eu
conhecia a lei. Nunca me senti tão leve antes, tão ágil.
Antes, houve muitas vezes em que lutei contra a água,
quando estava assustado, mas agora sei fazer melhor. A gente
precisa saber, simplesmente saber como. É mesmo simples.
Acredita em mim, papai?
— Claro que acredito em você. Mas vamos para casa agora,
filho, você está tremendo.
Segurando a mão de Ruan, o garotinho tagarelando sem
parar até chegarem ao palácio, Rahazz caminhou, imerso em
pensamentos. Sete anos era uma idade importante, um ponto
de virada. Ainda assim, ele parecia tão jovem... aquela voz
límpida do garotinho... e agora aquele encontro com a
mulher do Zen.
Naquela noite deu ordens de que dali por diante ninguém
precisaria acompanhar seu filho quando este fosse nadar: —
Não é necessário. Sei que ele estará bem e na melhor
companhia.

No exato momento em que as águas do rio se fecharam
sobre ele, Ruan sentiu-a de imediato ao seu lado. Mas desta
vez não o estava ajudando, apenas observando e mostrando-
lhe que estava próxima.
Naquela vez, aos sete anos, quando quase se afogara e fora
salvo pela mulher do Zen, esta havia aberto certos centros
de força em seu corpo.
"... deste modo, sempre que você entrar na água, se tornará
Invulnerável. Nenhuma rocha será capaz de feri-lo,
nenhuma corrente será forte demais. Lembre-se, a água não
é ferida pelas rochas ou pelas margens de terra de ambos os
lados, nem pelo fundo que a limita. Ela simplesmente
continua fluindo, nada a fere, nada pode retê-la para sempre.
Quando chega o tempo, ela se liberta e continua fluindo.
Seja a água você mesmo."
Depois de passar pelas corredeiras, encarando as pontas
afiadas das rochas, ele sabia que era impossível ser ferido por
elas, ela o dissera. E no momento exato em que foi lançado
contra as rochas, sentiu-se ficar fluido, transformar-se em
água. Seu corpo foi arremessado contra aquelas pontas
espetadas para cima e para os lados, mas seu corpo fluiu
acima e ao lado delas, ao redor de cada obstáculo, apenas
para encontrar outro logo à frente, fazer a mesma coisa e
continuar em seu caminho.
Sabia que não devia permanecer por tempo demais sob a
água. Seu corpo precisava respirar. Assim, emergiu um
pouco além do ponto que a moça antes dele havia alcançado,
respirou profundamente e mergulhou outra vez, até
conseguir ver o fundo e tocá-lo com as mãos. Aqui embaixo
a corrente diminuía sua força, apenas empurrando-o com
suavidade para diante.
Durante longos minutos manteve-se nadando ao longo do
fundo. Logo a corrente começou a ficar mais forte,
precipitando-se para diante com força cada vez maior, até
que avistou as últimas rochas, colocadas tão perto umas das
outras que seria impossível passar sem tocar qualquer uma
delas. Suas bordas eram afiadas e ameaçadoras, e a velocidade
do rio se multiplicava de repente por cem.
Sentiu fortemente a presença da mulher do Zen,
observando-o, quase tocando-o, mas não era necessário.
Havia se transformado em água, tornando-se a correnteza
selvagem e branca do Zen. Sentiu-se passar junto às rochas.
Algo sólido roçou em seu braço esquerdo que, como o
outro, mantinha junto ao corpo, mas foi apenas um contato
leve e não sentiu qualquer dor. E então estava livre e fluindo
para diante.
Agora era mais que tempo de dar ao corpo o que este
merecia. Tempo de respirar. Aqui o rio ficava calmo e muito
fundo. Projetando-se para cima, atingiu a superfície,
inalando o ar em golfadas fortes e profundas.
Quando sua cabeça reapareceu à superfície, um ruído
selvagem e infernal fez-se ouvir na multidão, que o
aclamava, batia palmas, gritando, assobiando e uivando,
louca de excitação.
O velho sacerdote sentado ao lado de Vrina levantou-se,
gritando e agitando os braços, e o resto dos ocupantes do
terraço real seguiu seu exemplo.
— Ele conseguiu! Ele o fez! Ele conseguiu! gritava o
sacerdote, entusiasmado.
Apenas o Rei permanecia sentado, os olhos não se afastando
do homem que continuava nadando, enquanto pensava: "Ele
conhece a Lei. Deve ser um Irmão."
Seguiram-se ainda alguns momentos de suspense para os
espectadores, mas Ruan sabia que tudo havia terminado e,
após alcançar a grossa corda estendida por sobre o rio, para
indicar o final da corrida, nadou em direção à margem,
enquanto os oficiais do esporte já se achavam à sua espera, as
mãos estendidas.
Yahali tentou ver seu rosto, mas a água não havia conseguido
lavar a tinta que o cobria.
De atrás das arquibancadas chegava um latido excitado
seguido por um comando em voz alta. E aí Vanzaj se
esparramou no chão segurando metade da correia de couro
que prendia Tzal. Desde a tribuna real pôde-se ver um cão
preto e dourado saltando para a água, meio ganindo, meio
latindo, seguido por uma multidão excitada, que corria para
encontrar o campeão.
Yahali voltou-se, chamando alguns soldados. Apontando
para a multidão, ordenou:
— Digam àquele homem que se apresente a mim. Se não
estiver disposto, usem a força, mas não o firam. Em voz alta,
meio para si mesmo, disse: — Penso que é um Irmão de um
país estrangeiro, mas sinto que já o encontrei em algum
lugar, antes.
Homens com faixas verdes nos braços começaram os
preparativos para o evento seguinte, considerado o mais
importante de todos. Ruan conseguiu afinal livrar-se da
multidão de admiradores e estava agora fugindo, com Tzal
em seus calcanhares. Desapareceu em uma das tendas
armadas atrás das arquibancadas para acomodar os
participantes e seus auxiliares.
Todos eles, competidores e ajudantes, estavam pesadamente
pintados de todas as cores possíveis, como era costume, de
modo que ninguém soubesse quem era seu adversário,
tornando a ocasião mais interessante por causa das estranhas
máscaras usadas por eles, uma combinação de símbolos
escolhidos e mesmo inventados pelos vários grupos.
Foi formidável — disse Vanzaj entusiasmado, abraçando
Ruan - de tirar o fôlego. Gritamos até ficar roucos.
De fora ouviu-se o som das trompas de chifre e o ruído da
multidão nas tribunas diminuiu.
- Começou — disse Ruan, aparentemente despreocupado,
mas Sheon-La viu a dúvida em seus olhos. Colocou a mão
em seu braço.
- Está certo de que vai fazê-lo? — disse em tom sério. —
Você sabe que, se falhar, Tzal irá pagar o preço, não você.
Isso não é justo.
Ele olhou para o cão-lobo aos seus pés e hesitou.
- Mas todo o Aztlan está esperando pelo sinal — respondeu
por fim. - Tenho de mostrar-lhes que seu soberano não é
um semideus, mas apenas um ser humano. Que ele,
também, pode perder.
- E se você falhar?
- Não, não falharei — Ruan sacudiu a cabeça, tomando
cuidado para não demonstrar a dúvida que sentia no coração.
— Eu vencerei.
- Mas Tzal vai se assustar quando perceber que tipo de
adversário deve enfrentar. E se se recusar a lutar? Ele poderia
até mesmo fugir.
- Não. Ele lutará, com certeza. Cuidarei disso... Não irá
perceber que o inimigo não é um cão como ele mesmo.
Agora Ruan se ajoelhou junto ao cão, segurando a grande
cabeça com as mãos. A moça não tentou mais convencê-lo.
Sabendo que precisava ficar sozinho para fazer o que era
necessário, deixou a tenda.

E, enquanto do lado de fora o barulho aumentava
novamente, indicando que a primeira luta começara, Ruan
contou a Tzal a história di sua raça. Sua voz era sonhadora e
suave, mas seus olhos mantiveram os do cão prisioneiros e
seus dedos longos e esguios acariciavam a cabeça de Tizal
num movimento rítmico e insistente.
- Cão dos Cães... Supercão, cujos ancestrais vieram à terra
vindos do espaço além das estrelas, trazendo a semente do
amor para ser espalhada entre a humanidade, escuta...
Ele se interrompeu e então, balançando a cabeça de Tzal em
seus braços, de um lado para outro, começou a cantar. Era
um canto muito baixo, mal audível a ouvidos humanos, uma
mistura de latidos e uivos, estranhamente melodioso de um
modo sobrenatural, encantando o cão, que tentava enterrar
o focinho ainda mais profundamente nos braços de Ruan.

Capítulo XVII

As lutas de cães eram o clímax do Festival de Poraj todos os
anos. De todas as partes do país, e mesmo de nações vizinhas
e colônias distantes de Aztlan, vinham feiticeiros e magos
para se encontrar, para permitir que os produtos de suas
vontades e mentes competissem uns com os outros. Na
verdade não eram os cães, mas seus criadores que dessa
maneira, lutavam uns contra os outros, batalhas de extremo
poder.
E todos os anos era o imperador de Aztlan que vencia a luta
final. Era sempre o seu cão que permanecia imbatível no
campo.
Embora se conhecessem, os proprietários dos cães não eram
amigos. Amizade era um sentimento que não conheciam,
sendo escravos de suas ambições e da luta pelo poder. Os
mais fracos passavam as vidas conspirando e preparando
armadilhas para os outros, enquanto os mais sábios
mantinham-se friamente alheios a qualquer tipo de contato
íntimo com seus camaradas.
- Olhe, o tempo está mudando — exclamou Vanzaj,
surpreso, quando nuvens espessas e escuras, vindas como de
lugar nenhum, começaram a colocar-se diante do sol,
formando um estranho contraste com o resto do céu, ainda
de um azul claro e brilhante.
- Aquelas nuvens nada têm a ver com o tempo — disse
Nehazz, todo pintado. — Você nunca participou antes desse
Festival? — quando Vanzaj balançou a cabeça, continuou
explicando: — Esses cães, que não são cães, não suportam o
contato direto com a luz do sol. E aí que entram as nuvens.
Para o nosso clero é uma coisa sem importância criá-las.
— Oh, sim, agora me lembro de ter ouvido a respeito.
Esqueci por um momento que não estamos lidando com
cães verdadeiros neste caso.
- Eles são criados mentalmente por seus possuidores disse
Sheon-La. — Mas não há dúvida de que são de carne e osso.
O que falta aqui é o princípio superior, com o qual, nenhum
sacerdote ou feiticeiro e nem mesmo Yahali têm o poder de
imbuí-los.
— Então, na realidade, é uma luta entre seus donos.
- Exato, é de fato uma luta pelo poder. E, é claro, Yahali
sempre vence. Mas todos os anos eles tentam de novo,
procurando derrubá-lo.
Algumas lutas duravam apenas poucos minutos, terminavam
antes mesmo de começar; outras levavam algum tempo para
serem decididas. Cada feiticeiro tinha seus próprios
seguidores, aclamando-o durante a luta, apostando, algumas
vezes com tremendas desvantagens.
Mas afinal a última luta terminou. Na arena via-se triunfante
uma criatura grande, totalmente negra, da forma de cão-
lobo, com olhos vermelhos e malignos, não focalizados em
qualquer coisa externa, objeto, homem ou besta, mas
internamente: um elemental aprisionado na forma de um
cão. O corpo de seu adversário jazia a seus pés, grotescamen-
te deformado.
O homem de vermelho, coordenador do Festival, adiantou-
se, a mão levantada, solicitando silêncio. E como era
repetido todos os anos, porque a tradição o exigia, ele
pronunciou as palavras que anunciavam o encerramento do
Festival.
— Saudações ao vencedor. Se existir alguém desejando
desafiá- lo, que se adiante agora.
— Aceito o desafio... — bradou Vanzaj, com Tzal ao seu
lado. — Que haja uma luta final. Desafio o vencedor.
O apresentador levantou os olhos, mas quando viu Tzal, a
expressão de indiferença desapareceu:
— Mas você deve estar louco! Este é um cão de verdade — e
ao ver que Vanzaj permanecia em silêncio, continuou: — E
seu direito. Não posso recusar. Mas deixe lhe prever que o
senhor irá perder um animal esplêndido.
Vanzaj não reagiu. Inclinando-se, retirou a correia que
prendia Tzal, girou nos calcanhares e se afastou sem uma
palavra.
No campo, no meio daquela imensa sombra escura lançada
sobre a terra pelas nuvens, os dois animais se enfrentaram,
um absolutamente quieto, os olhos vermelhos brilhando,
sem qualquer sinal de medo, o outro, o pelame cintilando, os
beiços arreganhados pondo à mostra os aguçados cientes
brancos.
Quando viram que o desafiante era um cão verdadeiro, os
espectadores perceberam que algo extraordinário estava
acontecendo. Havia algo mais por trás dessa luta à primeira
vista desigual, na qual todas as desvantagens pareciam estar
ao lado daquele magnífico desafiante negro-dourado.
— Mas... ele vencerá? — perguntou Vanzaj a Nehazz.
— Vencerá, se continuar pensando que o outro cão é apenas
um cão como ele mesmo. Se Ruan tiver feito bem seu
trabalho. Em qualquer caso, ele cuidará para que nada
aconteça a Tzal, não se preocupe.
Tzal, impaciente, atacou antes... sem compreender a
estranha imobilidade do inimigo. Com um rosnado, atirou-se
contra o outro, mas errou, suas mandíbulas se fechando
sobre o nada, sentindo ao mesmo tempo os dentes aguçados
em seu pescoço, arrancando chumaços de pêlo.
Como um relâmpago, voltou-se de novo, apenas para ver o
adversário parado ali, imóvel, olhando-o sem, no entanto,
olhar para coisa alguma.
— Se ele é real, por que não está com medo? — perguntou
de si para si o velho sacerdote ao lado de Vrina.
Mas ele não podia ouvir a melodia que Tzal escutava em suas
orelhas pontudas, mantendo o medo à distância, assim como
não podia ouvir a ressonância de sonho daquelas palavras
mágicas:
"Cão entre os Cães... Supercão. Ouça e não tenha medo..."
"Não tenha medo." E assim ele continuou, quase sempre
errando a garganta do outro, ferindo-o apenas
superficialmente enquanto ele mesmo já estava sangrando
por vários ferimentos infligidos quando menos esperava.
No entanto não recuava, embora estivesse intrigado pelo fato
de o outro cão nunca parecer deixar o lugar onde estivera
parado, com sua Incrível rapidez. Mesmo assim, após algum
tempo começou a vacilar, porque não conseguia
compreender a estranheza do seu adversário. Por que ele
nem sequer rosnava ou gania, como deveria, como faria
qualquer cão? Por que esses olhos vermelhos nem sequer
uma vez olhavam pura ele, e, no entanto, nunca erravam
durante esses ataques incrivelmente rápidos?
"Cão entre os Cães... Supercão. Não tenha medo..." Mas
agora ele o ouvia vindo de longe, não mais de dentro de si,
mas de fora, como se o canto estivesse desaparecendo
lentamente e se visse de súbito deixado a sós num grande
campo que não conhecia, enfrentando um adversário cujos
movimentos não conseguia adivinhar.
Ruan, concentrado na luta com toda a intensidade, percebeu
agora que era tempo de interferir. Viu Tzal vacilar, viu a
perplexidade aparecer em seus olhos. Yahali estava
começando a vencer, sua criatura iria inalar Tzal que, diante
dos olhos da multidão silenciosa, começou a recuar, embora
só um pouco. Mas isso era o suficiente.
Yahali está vencendo — disse Lyanta, agarrando com força
os braços de Vanzaj. — Oh, não, agora ele deve fugir. Fuja.
Para o diabo com a honra, Tzal. Fuja, por favor, fuja. Vamos
cuidar para que eles não o agarrem.
- Que pena! Ele está ficando com medo agora. Creio que já
não vai demorar muito. E como sempre, Yahali vence —
olhando para além de Vrina, para onde o imperador estava
sentado, o velho sacerdote viu-o ereto, rígido, as mãos
agarrando os braços da poltrona, os olhos fixos na cena lá
embaixo.
Quando Ruan tomou consciência de que o desenlace da luta
dependia agora somente dele, sentiu-se entrar em pânico.
Um suor frio brotou em sua testa e sua capacidade de
concentração, normalmente enorme, abandonou-o.
Pensamentos caóticos começaram a girar em seu cérebro.
Tinha apenas de dissolver as nuvens negras que pairavam
sobre o campo. Isso colocaria um ponto final na luta de
imediato. Conhecia a magia, os sons suficientemente fortes
para desfazer mais do que uma simples nuvem. Seu
treinamento havia sido longo e meticuloso. Durante alguns
poucos e terríveis segundos permaneceu num espaço aberto
entre duas arquibancadas, as mãos cerradas em punhos,
tentando reunir os pensamentos. E, em seu nervosismo,
produziu os sons bem conhecidos duas vezes.
Mas o que esperava não aconteceu. Em vão esperou, e lhe
pareceu que a grande sombra negra tapando o sol ficara
ainda mais negra.
No meio do campo se achava Tzal, que agora não recuara,
mas também deixara de atacar, apenas esperando, rosnando
para a morte que se aproximava dele com movimentos
inaudíveis, os beiços arreganha- dos até onde os longos
dentes pontudos desapareciam nas gengivas vermelhas.
Olhando com desespero, Ruan viu a cena diante de si
desvanecer-se e dar lugar à uma outra.
Uma planície desolada e rochosa. Ele próprio seguramente
amarrado, encostado a uma rocha, revivendo aqueles
momentos infindáveis em que Tzal, furioso, a baba se
espalhando em todas as direções, se havia atirado sobre ele
para matar. Sentiu o pesado corpo do cão, a dor aguda em
sua cabeça, ao bater com violência contra a pedra.
E o focinho frio de Tzal contra seu rosto, e seu suspiro
profundo e satisfeito.
Ruan sorriu, esquecido do povo nas arquibancadas. Relaxara,
sorriu novamente, aquelas nuvens nada eram para ele. Ainda
sorrindo, emitiu os sons, agora pela terceira vez, mas agora
com o coração e não com a mente, como fizera antes.
O resultado foi surpreendente. Um facho brilhante de raios
de sol atravessou a sombra escura que de negra se tornou
cinzenta, depois branca, desvanecendo totalmente por fim,
deixando o campo, de repente, exposto ao clarão intenso do
sol da tarde.
A Coisa que se parecia tanto a um cão, encolheu por dentro,
começando a formar uma bola, como se algo a tivesse
cortado ao comprido, enquanto Tzal, com um latido
triunfante, saltou para ela, não errando desta vez a principal
artéria de sua garganta, os dentes se cravando enquanto o
sangue começava a correr, vermelho-escuro e espesso.
Quando a soltou, a criatura caiu sobre um lado, emitindo
algo como um suspiro, o único som que fizera durante a luta,
um som abafado em sua garganta. E ali ficou jazendo num
monte amarrotado e enrugado.
Ninguém aplaudiu. Nas arquibancadas havia um silêncio
atônito, os espectadores, olhos arregalados, vendo o incrível
acontecimento diante de si. A criatura do Sumo Sacerdote
vencida por um cão comum, ele próprio derrotado por
quem?
Não podia ser verdade. Isso nunca havia acontecido antes.
Jamais poderia ter acontecido. E então todos os olhos se
voltaram para a tribuna real, onde se achava Yahali, as mãos
ainda agarrando os braços da poltrona, olhos fechados,
pendendo frouxamente para um lado.
O Rei desmaiando, talvez mesmo morrendo. O invencível,
aquele que jamais falhava. E então, ninguém soube como
começou, um sussurro percorreu a multidão, crescendo cada
vez mais, como ondas rolando em direção à costa, seu ruído
crescendo até se desfazer na areia.
O Sinal. E o Sinal! Eles mantiveram a palavra. É o Sinal!
Alguns começavam a deixar as arquibancadas, logo seguidos
por outros, até que todos desceram para o campo, para dar
uma olhada mais de perto no animal derrotado. Na confusão
geral ninguém prestou atenção ao vencedor, que havia
corrido para onde seu dono o esperava, atrás das
arquibancadas.
Ruan, depois de acariciar e conversar com o cão, examinou
as feridas, que já haviam parado de sangrar, e aplicou um
bálsamo. Então se voltou, sabendo que era mais que tempo
de deixar o lugar. Entrando na tenda, consultou os outros
quanto ao que devia ser feito, encontrando, ao sair, dois
soldados curiosos. Olhando-o, um deles disse:
— Uma solicitação do Rei, senhor. Deve apresentar-se na
tribuna real de imediato. Sua Majestade está esperando.
Ruan retribuiu a saudação.
— Sinto-me muito honrado... — seus olhos voltaram-se
rápidos para o palácio, notando a comoção na tribuna.
Poderia ser feito, pensou. Ninguém estava prestando atenção
a coisa alguma a não ser ao Rei, que estava semi-deitado em
sua cadeira, na certa inconsciente, como podia ver dali.
— Vamos, então — disse, colocando as mãos nos ombros dos
dois homens, caminhando entre eles. — É verdade que não
tenho muito tempo, mas é claro que a solicitação do Rei não
pode ser ignorada — continuou tagarelando, sentindo Tzal
em seus calcanhares o tempo todo até que terminaram de
cruzar o espaço aberto separando-os do palácio e alcançaram
a escadaria que levava direto ao terraço.
Ali se deteve:
— Está certo agora. Irei sozinho daqui por diante — em
alguns saltos estava no terraço, mas ao invés de dirigir-se
para onde o Rei estava, rodeado pelo que parecia uma hoste
de médicos proeminentes, correu para o outro lado,
entrando no edifício pelos fundos. Apenas o velho
sacerdote, que estava de partida, viu-o passar e entrar no
palácio.
No interior deste, Ruan correu através das grandes salas de
tetos altos, que conhecia tão bem—, agora completamente
vazias, abandonadas. Chegando ao que fora antes a sala de
jantar, ouviu atrás de si o ruído de madeira estraçalhada e o
som de vozes altas e excitadas. Então já estavam atrás dele.
Mas sabendo o que procurava, sem demonstrar qualquer
vacilação, correu para a parede que tinha diante de si.
Quando a guarda pessoal de Yahali se precipitou para dentro
da sala de jantar, momentos depois, encontrou o lugar vazio.
Nenhum sinal de seu homem. Um minucioso exame daquele
aposento em especial, como também do resto da construção,
não trouxe quaisquer resultados. Mais tarde, ao fazer seu
relatório ao Rei, que havia recuperado a consciência, o
comandante da guarda disse:
— Mais cedo ou mais tarde ele terá de aparecer, senhor.
Meus homens estão esperando por ele dentro e fora.
Mas Yahali balançou a cabeça:
— É inútil. E melhor chamar seus homens de volta. Sem
dúvida o palácio tem entradas secretas, e quem poderia
conhecê-las melhor do que o filho de Rahazz? O lugar foi
construído por seu pai.
Com efeito, Ruan não teve qualquer dificuldade para
encontrar o caminho na confusão de corredores e aposentos
construídos sob o palácio, onde havia brincado com tanta
freqüência quando era criança. A mais ampla e longa das
passagens, sabia, levava direto à propriedade de Vrina,
passando por sob o rio. Antigamente todas as passagens e
aposentos eram iluminados, mas as fontes de energia
estavam há muito tempo desativadas. No entanto, embora
não tivesse estado ali por anos, encontrou o caminho, no
escuro, com tanta facilidade como se tudo tivesse acontecido
ontem.
— Você está certa de que ele escapou como disse? —
perguntou Nehazz, preocupado, à Sheon-La, observando as
pessoas que deixavam o campo, passando pelos amplos
portões abertos, por onde momentos antes o Rei havia
passado.
Sheon-La viu a nave real elevar-se, o sol dourado cintilando
na fuselagem.
— Sem dúvida, tenho certeza — respondeu. —
Costumávamos brincar naquelas passagens subterrâneas,
quando crianças — sorriu ela, relembrando. — Uma de
nossas brincadeiras favoritas era fazer de conta que éramos
discípulos passando por todos os tipos de testes horríveis, e
tínhamos de ficar um bocado de tempo no escuro para
aprender a controlar o elemento terra, para nos
acostumarmos às trevas, a nos sentirmos fechados, sem ver
nenhuma luz. Nossa imaginação era muito viva e quase
sempre ameaçava nos levar consigo. Não era nada divertido,
posso dizer.
— E, com certeza, era Ruan que passava por esses testes com
distinção...
Para sua surpresa, ela balançou a cabeça, rindo.
— Não, de modo algum. Ruan era sempre o primeiro a
acender as luzes, inventando centenas de desculpas, não
querendo demonstrar que estava simplesmente assustado.
Mais tarde, depois dos seus treinamentos no templo,
confessou que esse teste havia sido o mais difícil para ele.

Capítulo XVIII

O Brigadeiro Vrina esperou até que todos tivessem partido.
Apenas os restaurantes atrás das arquibancadas estavam
sendo desmontados agora, após terem servido os últimos
clientes. Havia dito ao piloto de sua nave privada para voltar
à base, pois decidira ficar alguns dias em sua propriedade.
Seu administrador ficaria surpreso, pois não estivera no local
durante mais de um ano. Cruzou o rio a pé e caminhou os
quatro quilômetros até a casa.
Desde que se juntara a Yahali estivera ali apenas uma vez,
depois que sua mulher o deixou. Seu administrador era um
dos melhores, tendo-o acompanhado por anos. A
propriedade continuava produzindo generosas colheitas de
milho e trigo de inverno, colheitas muito acima da média,
assim como as de seu pomar, as dos acres plantados de
batatas-doces, aquelas de sabor especial. Seu gado, vacas e
cabras, era saudável, e o leite e queijo muito apreciados por
compradores ávidos.
Naquela única vez dormira apenas por uma noite na casa,
uma casa que fora tão cheia de risos, divertimento, vozes de
crianças e das canções de Litosê. Era construída de pedras
esbranquiçadas de sua própria pedreira e o telhado
cuidadosamente formado de telhas transparentes, de um
material semelhante a vidro, de várias cores, que deixavam a
luz penetrar em diversos ângulos, tornando possível a Litosê
cultivar as flores que amava, mesmo dentro da casa.
Quando alguém sentia necessidade de afastar o sol por algum
tempo, tinha apenas de puxar uma alavanca para que um
domo construído de material azul-escuro baixasse sobre o
aposento.
Após aquela noite solitária passada na casa vazia, olhando
para as paredes ornadas de alegres tapeçarias, o chão forrado
de esteiras de bambu, as janelas com vidros tão coloridos
quanto o teto, tudo mantido escrupulosamente limpo pelos
criados que insistia em manter pagando um generoso salário,
não havia mais voltado. Uma vez por mês o administrador o
procurava com um relatório detalhado, para receber as
ordens, que eram poucas e se tornavam ainda mais escassas
com os anos.
Uma parte da propriedade, situada ao norte, consistia de
floresta virgem, terraços cobertos de arvoredo que escalavam
montanhas cada vez mais íngremes, que ele jamais sequer
visitara. Essa parte lhe havia sido dada por Yahali depois que
suas tropas haviam praticamente varrido as tribos a quem
pertencia a terra, expulsando aqueles que haviam
permanecido vivos.
Vrina se perguntava com freqüência por que os homens de
Zenhar jamais haviam invadido sua propriedade, nem
saqueado a casa ou roubado, mesmo só como ato de
vingança.
Zenhar certa vez explicara a razão a Dizan:
— Você sabe, eu não posso. Eu visitava com freqüência
aquele lugar. Como éramos felizes, nós crianças... Ruan o
chamava de tio, tio Vrina... sim, eu sei que ele optou por
Yahali. Traição, você diz? Mas ele nunca agiu contra nós...
lutou até o último momento e depois partiu. Não conseguia
suportar as conseqüências da derrota, a perda da pro-
priedade, do status. O status sempre significou muito para
Vrina. Ele não teve participação nos massacres das tribos...
apenas aconteceu que essas terras tribais se limitavam com as
suas e que Yahali as ofereceu a ele.
Dizan assentira pensativamente:
— Sim, percebo. Então não devemos...?
— Não — interrompera Zenhar, enfático. — Não, você deve
deixá-lo em paz... além disso, seu administrador vem
tentando entrar em contato conosco nos últimos tempos,
não sei porque, mas posso imaginar. Não é por ordem de
Vrina, é livre iniciativa do administrador... Talvez algo de
bom acabe acontecendo por aquele lado.
Dizan erguera os olhos, surpreso:
— Seu administrador? Espere um momento... Um viúvo, não
é? Um filho, o único, no exército. Sua mãe pertencia ao
povo dos elfos.
Zenhar confirmara:
— Sim, cerca de 15 anos mais novo que eu. Lembro-me dele
como um bebê engraçado, de pele azul, orelhas pontudas e
os dedos unidos por membranas... sempre sorrindo.
O crepúsculo baixava quando Vrina alcançou a casa. Não
queria perturbar o administrador, que vivia mais adiante,
numa sólida casa em companhia de um par de caseiros
responsável pelos cuidados com o jardim e a residência.
Entrou pela porta dianteira e se deteve. Da sala principal
filtravam-se um raio de luz e o som de vozes e risos. Alguém
dizia:
— Ponha mais lenha no fogo. Está frio aqui.
Vrina franziu a testa. Por que o administrador desejaria
acender um fogo a essa hora na casa vazia, e não em sua
própria?
Caminhando sem ruído, entrou na sala de estar. Uma garota
aquecia as mãos junto ao fogo, um cão adormecido a seus
pés. Ao seu lado, Vrina avistou um jovem cuja postura
parecia familiar, acariciando-lhe os cabelos, as costas voltadas
para o brigadeiro, tentando com a outra mão trazer as mãos
da moça aos lábios.
Havia outros na sala, mas não teve tempo de observar tudo,
porque o cão, despertando, o primeiro a vê-lo, avançou com
um latido alto, tendo sido logo seguido pelo jovem, que lhe
ordenou que ficasse quieto.
O brigadeiro mal prestou atenção ao cão que, antes de
alcançá-lo, foi detido por seu dono. Agora estavam um
diante do outro, apenas alguns passos os separando,
boquiabertos, perplexos.
Vrina sequer sentiu medo como deveria, considerando as
circunstâncias. Ficou apenas olhando.
— Tio Vrina — disse Ruan, os olhos arregalados. Soltando
então o cão, e, adiantando-se de um salto, abraçou o
brigadeiro. Desfazendo o abraço, agarrou os braços de Vrina
com força. — Não posso acreditar.
— O filho de Rahazz — disse Vrina, lágrimas enchendo os
olhos, sentindo como a cálida atmosfera dos dias de outrora
invadia o aposento. — Foi por isso que senti de repente
necessidade de vir aqui outra vez. Que bom encontrá-lo... e
em minha própria casa, meu hóspede! — ele se virou para
esconder as lágrimas que insistiam em correr, enquanto uma
alegria incontrolável começava a tomar conta de si.
— Vinho... devemos tomar vinho e conversar... então
reconheceu a jovem que estava parada junto ao fogo: —
Sheon-La... a garota de Bäar — uma ruga se formou entre
seus olhos.
Da escuridão por trás dele, o administrador disse:
— Já trouxe o vinho, senhor. O melhor de sua adega. Quando
o vi aproximando-se da casa, soube que era realmente uma
ocasião... estava certo de que ficaria feliz ao ver seus
hóspedes.
Sheon-La respondeu:
— Sim, brigadeiro Vrina. A garota de Bäar. Mas, por favor,
sente- se e lhe contarei o que aconteceu, como ele morreu.
Ele me disse que o ajudou. Sinto-me muito agradecida...
Vrina sorriu consigo mesmo, ao notar a preocupação com
que Ruan olhava para a moça. "Ah, você pode ser um Filho
da Serpente plenamente iniciado, mas agora está
simplesmente com ciúmes, algo que não aprendeu a superar
ainda, meu rapaz", pensou enquanto se sentava.
Por fim — como estava feliz! — afastou os pensamentos
sobre sua mulher e filhas para onde o entristecessem menos.
Estava entre amigos, afinal, e podia conversar sem medo
tomando uma caneca de vinho, poderia liberar-se como não
pudera fazer durante anos.
Conversaram, riram e beberam, o Brigadeiro mais do que
devia, ficando com o rosto vermelho, mas ainda assim
conseguindo manter a compostura. Então chegou a hora de
partirem para casa. Vrina levantou- se também. Despediram-
se, entre abraços, um tanto chocados pela consciência da
realidade. Os dias de outrora haviam passado, a bela casa
ficaria vazia de novo, como estivera por longo tempo.
Ruan, já fora da casa, voltou-se para dizer o que desejara
dizer durante toda a noite, sem conseguir reunir a coragem
necessária.
— Tio? Por que não vem conosco? Por favor, venha! Tia
Litosê disse-me que algum dia iria compreender... e ela se
sente só. Deixou de cantar.
Ele ficou parado, um olhar triste.
— Eu compreendo, sim... já há algum tempo. Mas a hora
ainda não chegou. Como eu gostaria que tivesse chegado! —
baixou os olhos com resignação. — Dê minhas
recomendações... não, o que estou dizendo... Dê um grande
abraço àquele seu pai e diga-lhe... — interrompeu-se
abruptamente — Não, não lhe diga nada... Quanto a ela, mi-
nha Litosê, diga-lhe que estou muito mais solitário que ela,
que ao menos está entre amigos. E... — seus olhos se
umedeceram mais uma vez — que desde que ela partiu,
nunca fui capaz de fazer amor com qualquer outra mulher.
O sexo ficou insípido e sem sentido sem ela.
Ruan hesitou, desejando dizer algo, mas, desistindo, segurou
os antebraços do brigadeiro com ambas as mãos, firme,
calorosamente, antes de seguir os outros que já desapareciam
na noite.

O Brigadeiro não dormiu naquela noite, ficando a vagar
durante horas por sua propriedade, seguindo caminhos que
esquecera existirem, através do pomar, sem sequer tocar os
frutos maduros, caminhando pelos campos de trigo em flor.
Sentou-se afinal onde o Zen formava um lago tranqüilo e
profundo. O amanhecer encontrou-o ali, o rosto escondido
nas mãos. O encontro inesperado na casa rompera um dique
que havia construído cuidadosamente em seu coração ao
longo de todos esses anos. Um dique que agora desabara por
completo, sem possibilidades de reparos, liberando as águas
da vida.
O administrador, pai de Desh, trouxe-lhe um manto:
— Deve estar sentindo muito frio, senhor. Permita-me. E em
minha casa o fogo está aceso e o desjejum pronto. Não quer
tomar café conosco?

Capítulo XIX

Rahazz e Zenhar estavam sentados nos degraus mais baixos
do templo, de onde podiam ver o platô abaixo, casas maiores
e menores aqui e ali, rodeadas por jardins carregados de
flores, que se misturavam livremente com altos arbustos. Em
alguns dos jardins haviam pequenas estátuas de jade, cristal,
ametista, representando espíritos da natureza das formas
mais estranhas.
No extremo sul da cidadezinha, uma trilha estreita descia,
uma trilha que, após escalar íngremes gargantas, baixava para
a floresta espessa, horas e horas de caminhada enérgica,
tornando-se mais estreita à medida que se aproximava das
terras tribais onde Zenhar havia nascido, em grande parte
desocupadas agora.
Em vários pontos estratégicos Zenhar tinha postos de vigia
permanentes, todos eles guarnecidos por homens que
perderam tudo que possuíam, inclusive parentes e amigos,
durante o massacre final. Homens afiados de visão e audição,
e amargos de coração. Na cidadezinha a vida continuava
como de costume. Muitas crianças correndo e gritando,
brincando, rindo e querelando. Rahazz estivera observando-
as por um longo tempo.
— Está preocupado. Posso senti-lo — comentou Zenhar. —
Qual é o problema?
— Você está vendo todas essas crianças? — suspirou Rahazz.
— Muito em breve teremos de tirá-las daqui. Muito em
breve.
— Tirá-las daqui? Mas como, para onde e por quê?
— Esta é exatamente a questão. Para onde não é difícil.
Permanece o como, que será muito difícil, senão impossível.
— Percebo. Isso deixa o porquê.
— As coisas estão chegando a um fim, Zenhar. A paz é
apenas aparente. Os planos finais de Yahali estão prontos
para serem executados. E assim...
— E assim lutaremos e...
— E o quê? Somos muito poucos em número e armas. Não
haverá nenhum e...
— Mas Ruan está tentando provocar uma revolta no meio do
povo. Parece que está começando a ter algum sucesso. Não
tem confiança nele?
Rahazz nada disse por um longo tempo. Seu olhar estava fixo
num grupo de crianças pequenas que tentavam subir nos
primeiros degraus da escadaria do templo.
— Não é que eu não tenha confiança. Essa coisa é muito
maior. Mas quem sabe? Talvez meu filho consiga sucesso
onde parece impossível. Mas olhe de novo para essas
crianças. Quantas são... quantas precisaremos tirar daqui
quando Ruan falhar, quando o pior ficar pior ainda?
— Cerca de duzentas, talvez um pouco menos.
— Calcule trezentas. Todos os dias pequenos grupos estão
chegando... homens, mulheres, crianças... fugindo do
território de Yahali. Até o dia final haverá pelo menos
trezentas. Além de suas mães... aquelas que não são
mulheres guerreiras. E as grávidas, e também as avós... Mas
talvez você esteja certo e eu pessimista demais, e nada do
que temo venha a acontecer. Se apenas eles não estivessem
tão seguros, tão terrível e inapelavelmente seguros disso... —
ele se interrompeu, mantendo-se em silêncio por longos
minutos. Por fim, Zenhar não conseguiu suportar mais a
tensão.
— Eles? Quem? E do que eles estão tão certos"?
— Eles... o Conselho da Serpente, da Serpente Alada. Eles
estavam tristes, mas muito seguros. Não viam qualquer
esperança.
— O Conselho da Serpente Alada? — Zenhar sentiu um frio
no estômago. Ouvir o verdadeiro nome da Ordem ser
mencionado, provocava sempre o mesmo efeito sobre ele,
mas continuou perguntando: — E o Chefe, aquele que é o
Primogênito da Serpente, também não viu esperanças?
— Não, não viu. Então você se lembra dele? Você era muito
jovem quando ele apareceu em nosso meio pela última vez.
— Mas me lembro muito bem. Ele me impressionou tanto...
disse Zenhar, relembrando. -— Fiquei totalmente fascinado.
E, no entanto, era tão simples, estava usando as roupas mais
simples, mesmo naquele momento. O que me impressionou
ainda mais.
— Porque você viu o que ele era na realidade. Ele não gosta
de andar regiamente trajado. Apenas o faz em ocasiões
muito especiais.
Agora Zenhar olhou direto para o Rei, com expressão
suplicante. Sua curiosidade sempre o vencia.
— O que significa ser "o Primogênito da Serpente", como
dizem? Quem é ele na verdade?
— Significa que não nasceu de modo usual... — Rahazz se
interrompeu, aparentemente não encontrando palavras. —
Não de homem e mulher. Não da maneira como todos nós
nascemos. Mas é difícil para eu explicar como. Veja... é
como o Sol. O Sol emite raios o tempo todo. Esses raios são
como seus filhos... claro que isto é uma explicação muito
simplista, mas ainda assim serve... eles não são "nascidos".
Foi isso que aconteceu com ele, ele foi como que, emanado
por um certo Ser, um Ser planetário, assim como os raios são
emitidos pelo Sol.
Rahazz levantou-se e começou a descer os últimos degraus,
mas Zenhar o reteve:
— Não me contou o que o Conselho decidiu.
O Rei baixou os olhos, para o rosto enérgico e aberto, a
cicatriz semi-oculta pelo espesso cabelo negro.
— Você não gostaria de ouvir o que decidiram, nem sobre
seu papel na execução da decisão, que será bastante grande.
E quando souber, gostará ainda menos. Mas enfim, até eles
cometem enganos. Espero que desta vez isso tenha
acontecido. Mas se não for assim, quando tudo ficar claro,
você será o primeiro a saber.
Zenhar, levantando-se agora e seguindo o Rei, viu que uma
multidão estava se juntando embaixo, ao redor de um
homem que chegara correndo pela trilha da floresta.
— O príncipe Ruan chegou — disse ele, ofegando. — Eles
estão bem. E ele venceu a disputa, derrotou Yahali!
Rahazz viu como uma mulher alta saiu de uma das casas, o
cabelo castanho mesclado de fios grisalhos, rugas ao redor
dos olhos azuis. Ela subiu devagar para onde o pequeno
grupo conversava, mas não disse nada, simplesmente
permaneceu olhando em silêncio.
Foi Ruan quem a notou primeiro. Em poucos passos
aproximou- se dela e abraçou-a com firmeza, como ela fazia
quando ele, um menininho, era atormentado por suas
próprias visões.
— Lamento, tia Litosê... pedi-lhe que viesse conosco, mas ele
não quis. Disse que o tempo ainda não chegara.
Litosê assentiu:
— Era isso que eu imaginava, embora sentisse uma pequena
esperança... — ela se deteve, sorrindo. — Mas ele me deu
uma mensagem para você, uma mensagem muito pessoal —
disse Ruan, repetindo as palavras de Vrina e abraçando-a
outra vez quando ela começou a chorar incontrolavelmente,
descansando a cabeça em seu ombro, soluçando como ele
com tanta freqüência soluçara em seus braços quando
pequeno.
Naqueles dias terríveis, pensou Rahazz, observando, ela
havia sido de certa forma a única a defender a rainha quando
esta passou por um julgamento após a morte, provando ser
amiga verdadeira. Os outros do Conselho, seus irmãos, não
demonstraram muito calor e compreensão quando as coisas
chegaram àquele ponto.
"Naquela época", pensou Rahazz, "fui forçado a deixar a
pessoa que mais amava no mundo seguir sozinha e sem ajuda
o caminho que havia escolhido e eu não podia fazer nada
para tornar essa estrada menos terrível, não podia sequer
estar ali para lhe mostrar que não estava tão só como havia
pensado, nem tão esquecida. Não podia estar ali até que tudo
tivesse passado e a encruzilhada fatídica ficado para trás."
Apenas alguns meses depois do acontecido todos se
reuniram, porque assim estava determinado nas regras de sua
Ordem.
Reuniram-se no lugar de costume, perto da nascente do Zen,
onde, no alto das montanhas, este começava seu curso em
golfadas espumantes vindas debaixo de pedras negras e
árvores antigas.
Era um lugar que o Rei amava e onde costumava ir sozinho
quando a solidão era necessária e os problemas graves. E ela
também amara muito o lugar.
Naquela ocasião, como em muitas anteriores, estava cheio de
sacerdotes e outros filhos e filhas da Serpente, a maioria
conversando excitadamente, todos tensos e cheios de
importância, uma vez que nunca antes haviam sido
convocados a decidir sobre um assunto tão sério.
"Conversa, conversa e conversa", pensava Rahazz.
"Realmente, conversa demais. Mas então, estou inclinado a
favor dela, e, dane-se tudo, como poderia ser de outra
forma?"
Deixava que os murmúrios e tagarelices passassem por ele,
como a rocha negra sobre a qual estava sentado deixava as
águas passarem. Sem ouvir coisa alguma conscientemente,
sabia pelos olhares lançados em sua direção que estavam
falando a respeito dela... coisas que achavam que ele poderia
não gostar de ouvir.
Conhecia tudo de cor. Cada coisinha que estava sendo dita e
pudesse ser dita por alguém, todos os argumentos. Embora
fosse estranho que poucos deles tentassem dizer algo a favor
da rainha sem um rosário de "mas" e "se".
Entretanto, embora sua mente concordasse com os outros,
seu coração se rebelava e as palavras que sabia que deveria
pronunciar como Sumo Sacerdote e Rei não lhe chegavam
aos lábios.
Eles começaram a ficar inquietos diante de seu silêncio,
sentado ali, sem olhá-los, embrulhado em seu manto
vermelho-escuro, estremecendo por causa do frio do
entardecer... ou por causa daquele outro frio que tentava
congelar seu coração, o frio do dever severo e gélido.
"Muitos meses se passaram", pensou. "Meses em que quase
nunca estive sozinho para confrontar a realidade, sem tempo
para derramar lágrimas sobre essa realidade na confusão e
caos das lutas, contra-ataques e punições, e por fim da
restauração da ordem no país conturbado. Agora eu gostaria
de estar sozinho, soluçar, chorar livremente, mas ainda
assim não tenho permissão. Pois esta é uma assembléia
oficial da Ordem e no final eu... meu Deus, que ridículo... eu
devo me pronunciar sobre sua conduta. Não como seu
amante, seu companheiro e marido, não como o pai de seus
filhos, mas como seu Chefe. Pois ela era também uma filha
da Serpente Alada e, de acordo com as regras, seu erro foi
grave."
Ah, sim, sabia de tudo isso. Não havia necessidade de ser
lembrado das regras severas, uma vez que ela lançara todas
aquelas regras aos ventos como se nada significassem, uma
vez que havia quebrado todos os votos que jurara manter.
Não havia necessidade de lhe contar qual era a penalidade
última para esse tipo de comportamento, uma penalidade
que teria de ser cumprida através de muitas vidas solitárias.
Sabia tudo de cor. No entanto por que então seu coração
estava numa fúria tão tempestuosa, protestando tão
selvagemente, por que não se permitia dizer aquelas palavras
finais, cerrando seus lábios diante dos olhares interrogativos
de seus irmãos?
Não viu o pequeno Ruan chegando, não o viu parar com ar
perdido à beira da água, olhando com incerteza e súplica
para o pai, tão triste e sombrio em seu manto vermelho.
O menininho conhecia todas aquelas pessoas que sempre
foram amigas para ele. No entanto, sentia algo diferente no
ar agora. Não era apenas o fato da perda de sua mãe, sua mãe
que depois de ter sempre estado ali com ele, havia
desaparecido de repente para um lugar qualquer que eles
chamavam "morte" e que o havia deixado sem ninguém para
brincar, pois levara consigo seus quatro irmãos.
Ele os invejava vaga e tristemente. Na certa ela o considerara
pequeno demais para acompanhá-la em sua viagem. Mas por
que seu pai não fora também? Será que ela voltaria logo?
E ali estava seu pai agora, quieto, pálido e de algum modo até
mesmo zangado, sentado ali, sem perceber ninguém.
Mas antes que suas lágrimas começassem a rolar, os passos de
alguém chegaram por trás, um par de mãos o levantou bem
alto e uma voz que conhecia disse algo tão tolo em seus
ouvidos que fê-lo esquecer que ia chorar. Sentiu-se feliz de
repente.
— Ela devia ter percebido que Yahali a estava enganando...
Devia. Mas... e se ele não pretendesse iludi-la? E se ele
tivesse mantido sua palavra, meus amigos?
Essas palavras, de todo inesperadas, e a mão em seu ombro,
fizeram Rahazz erguer os olhos espantado. Os olhos daquele
a quem todos obedeciam, aquele que era chamado "O
Primogênito da Serpente", fitavam os seus com piedade.
— Por que tenta com tanto empenho silenciar esse coração
indignado, meu pobre irmão? Com certeza este é um
momento em que mesmo o Sumo Sacerdote de Aztlan não
deveria ser chamado para presidir o julgamento. Permita-me
tomar seu lugar desta vez.
Sentou-se com as pernas cruzadas no meio deles, sobre uma
rocha lisa e chata, o garotinho em seu colo olhando para a
solene reunião de pessoas.
"Ele realmente se veste com simplicidade demais", pensaram
alguns, olhando para suas roupas gastas. "E também se
comporta de modo simples demais. Isso não parece
adequado. Alguém de tão exaltada posição deveria mostrar
com mais clareza seu esplendor, em especial numa grande
ocasião como esta. Ele... sim, ele parece positivamente
insignificante."
— E vocês chegaram a uma conclusão final?
Havia uns poucos, agora que hesitavam, não mais tão
seguros, de seu senso de justiça, ou talvez apenas temerosos
da opinião do grande homem, que poderia rebaixá-los diante
dos outros. Por fim um deles disse:
— Sim. Achamos que sim. Ao menos... a maioria de nós...
Outro:
— Todos conhecemos a Lei. Com certeza não há
alternativa... ou há?
Outro ainda:
— Existe outra solução? Os regulamentos são claros.
Rahazz fez um movimento involuntário e violento, como se
desejando silenciar o orador, mas reprimiu-se com igual
violência.
— Afinal... ela expulsou a si mesma, não é verdade?...
fazendo o que fez?... Ela rompeu todos os laços conosco...
com a Ordem.
Outro movimento abrupto de Rahazz, desta vez irreprimido.
E sua voz, zangada, repleta de paixão:
— Nós? Por que tentar falar pelos outros? Eu não sei de
nenhum laço rompido ente ela e mim. Nenhuma relação de
amor verdadeiro pode ser cortada desse modo.
— Bem. Não há dúvida de que ela quebrou algumas regras, e
estava bastante consciente, não é verdade? — ele, que era o
Chefe, falou devagar, curvando o braço para acomodar
melhor a criança quase adormecida. No entanto, como seu
Rei e Sumo Sacerdote afirmou, não é possível romper laços
de amor desse modo.
Ela era... é... uma filha da Serpente Alada. Usava o Sinal em
seu corpo. Era completamente Iniciada.
— No entanto, rompeu os votos, suas solenes promessas...
— Ela refutou abertamente a Serpente, difamou tudo que é
mais sagrado. Em público. Repetiu todas as horríveis
mentiras que Yahali a fez repetir sobre nossa, sua Ordem.
Mentiu, deliberada. Vilipendiou a si mesma, a nós, seus
irmãos, e a você, o Primogênito. Ouviu o que disse a seu
respeito?... Sabe disso? Todos estávamos ali. Nós ouvimos!
Não era possível que ele estivesse escondendo um sorriso.
Não, deviam ter sido as sombras brincando em seu rosto.
Como poderia alguém sorrir, sabendo o que ela havia dito a
seu respeito?
— Sim. Ouvi. Acusou-me de coisas horrorosas. Contudo, foi
um esforço de salvar muitas crianças da tortura, da morte
horrível.
— Admitido. No entanto as leis são claras. Devo repetir o
que todos conhecemos tão bem? "Sob nenhuma
circunstância devo trair esta confiança, trair estes votos
sagrados. Nem tortura, nem tentação..."
— Mas nada dito sobre a tortura de crianças pequenas... —
Essas palavras, ditas por Litosê, esposa de Vrina, que havia
sido sua melhor amiga, de algum modo se perderam na
acalorada discussão que se seguiu. — Não adianta repetir. Eu
não me atreveria. Mas me pergunto o que teria feito em seu
lugar. Deixá-los morrer, sabendo que estava limpa e pura, só
para manter os votos?
"Ela os havia visto ali amarrados", pensou Rahazz, "o mais
velho com não mais de doze anos, os mais novos
aprendendo a andar".
E, ela havia pedido num sussurro:
— Yahali! Nem você pode ser tão cruel. Deixe-os ir... eu lhe
imploro.
A voz de Yahali, gehula, cortante:
— Deixarei, Rainha... sob uma condição. Renuncie à
Serpente. Publicamente. Agora. Diante de seu povo. Diga-
lhes que sua Irmandade não passa de uma conspiração para
entregar o povo às mãos do inimigo. Que tudo que a
Serpente ensina são mentiras. Que os irmãos desejam torná-
los todos escravos... Que vocês, sacerdotes, são libertinos
debochados, não passam de hipócritas vorazes e luxuriosos.
Isso e muitas mentiras vergonhosas mais. Ela ficara
mortalmente pálida, mas apenas por um instante... Então,
com um olhar desesperado para o lastimável grupo de
crianças comprimidas umas contra as outras, um pavor
indizível nos olhos:
—Se eu o fizer, irá deixá-los partir? A todos eles, em
segurança, para casa?
— Deixarei. Uma escolta os levará.
Então ela, que era a Rainha, lhes dissera. Numa voz clara e
firme, embora tremendo incontrolavelmente, ela lhes
dissera. Ás mentiras vergonhosas e sujas, as coisas vis,
arrastando na lama tudo o que jurara manter sagrado, puro.
Nenhuma vez sua voz havia falhado, ouvida pela multidão,
boquiaberta, até o lugar onde, na sombra, Rahazz esperava
seus próprios soldados chegarem para começar o ataque.
O Rei estremeceu mais uma vez em seu manto, perdido em
meditação, não percebendo os olhos atentos sobre si,
relembrando seu choque e incredulidade ao ouvir aquelas
palavras inacreditáveis.
E ficara muito mais chocado quando ela terminou e Yahali,
diante de seus próprios olhos, ordenou que as crianças
fossem mortas ali mesmo, os pequenos corações arrancados
dos corpos ainda estremecendo.
Então o ataque começara, ele se precipitara para diante,
vendo- a saltar na direção de Yahali num esforço para deter
o massacre, berrando continuamente. Ela havia mesmo
conseguido arrancar a adaga sacrificial da mão de alguém,
antes de atirar-se sobre Yahali:
— Não! Não, não, não, não, NÃO! Você prometeu. Deixe-os
ir. Oh, meu Deus, NÃO!
Conseguira ferir Yahali antes que ele a lançasse de volta para
os braços dos guardas, ela também ferida.
Depois disso havia apenas a memória da confusão selvagem
de homens lutando, corpos de crianças jazendo imóveis e
mutilados, algumas sendo salvas, Yahali e alguns sacerdotes
escapando. E da multidão, fugindo em pânico ululante da ira
dos soldados do Rei, enlouquecidos por causa do que havia
sido feito às crianças. Tudo isso e a Rainha tentando reviver
os pobres corpos, seu próprio corpo magro devastado por
meses de prisão e tortura.
E quando ele a tomara nos braços, ela apenas dissera:
— Oh, Rahazz. Por que não pôde chegar antes? Por que
demorou tanto? Se apenas pudéssemos ter salvo a todos. Se
apenas...
Ele nada dissera, uma vez que nada havia para dizer...
Somente a embalara nos braços. Qualquer esforço para
acalmá-la teria sido inútil, com o cheiro de sangue ainda nas
narinas, os ecos dos lamentos agoniados nos ouvidos. E
enquanto a abraçava, ele sentira que a vida estava deixando
lentamente seu corpo.
"É muito fácil ler os pensamentos de todos eles", pensou o
Primogênito, "tão fácil como se eles estivessem discutindo
em voz alta".
Litosê, a mulher que fora a melhor amiga da Rainha:
"Em nome do céu, que mais ela poderia ter feito? Afinal
ninguém foi ferido, na realidade, por causa da assim chamada
"confissão"... Mas naturalmente ela deveria saber que Yahali
não iria manter a palavra. Ela deveria... muito fácil dizer
isso... mas, em nome de Deus, como ela poderia estar
segura? Como? Quanto estardalhaço todos eles estão
fazendo... Eu não acho que teria coragem de fazer o que ela
fez... mas não foi a única coisa a fazer que realmente tinha
sentido, naquelas circunstâncias?"
Litosê sentiu os olhos do Primogênito sobre si, assustou-se,
corou e baixou os seus. Mas ele não pareceu estar zangado
consigo, embora fosse óbvio que havia lido seus
pensamentos.
"Bem... aconteceu, afinal. Sempre pensei que havia algo
estranho nela... e a influência que tinha sobre o Rei nem
sempre era boa, também, embora na verdade ninguém
poderia dizer que ela estivesse mal intencionada. Ela era
assim mesmo, embora para uma Rainha Tolteca e Filha da
Serpente, ela realmente, bem..."
Percebendo esses e outros pensamentos, o Chefe não teve
dificuldade em formar um quadro das várias opiniões com as
imagens que passavam por ele em relâmpagos, uma delas
evocada por um sacerdote sentado ao seu lado.
O sacerdote vira um templo e crianças brincando,
divertindo-se deliciadas, fingindo serem sacerdotes e
sacerdotisas, cantando cânticos sagrados, imitando os rituais.
Depois o mesmo templo com muito lixo espalhado, uma
pequena sandália rasgada, um piso de cristal imaculado agora
sujo por pequenos pés enlameados. Numa outra imagem, o
sacerdote queixando-se a Rahazz:
— Coisas sagradas são sagradas. As crianças não deviam ter
permissão para brincar em lugares santos, deviam ser mais
respeitosas. E deixaram o local numa sujeira total.
O sorriso dela:
—Eu lhes direi para limparem. Isso é seu dever.
O sacerdote, tentando ignorá-la, olhando para o Rei:
—Mas essa não é a questão. Os Servidores da Serpente
reúnem-se ali. Elas não deveriam ter permissão!
Novamente o sorriso dela.
-—A Serpente é Vida. A Vida é sagrada, meu amigo. Como
no mundo, seria possível para o Ser Alado ser profanado por
brincadeiras inocentes?
Um olhar do pensador para Rahazz, e outra imagem:
"O homem é, na realidade, fraco. Naturalmente, ela era sua
mulher. Mas seu principal dever é o de Sumo Sacerdote da
Ordem... seja qual for o preço. Engraçado que estou
percebendo agora que ele é fraco. Uma pena. Deveríamos
ter um Rei diferente..."
E Litosê:
"Graças a Deus não sou Rei nem Sumo Sacerdote. Que
terrível ter de fazer o que ele deve fazer, condenar sua
própria mulher, sua amada... Que criatura adorável, alegre e
gentil ela era. O que será que o Chefe vai dizer e o que estará
pensando neste momento? Como tudo isso o afeta? Foi
muito considerado, muito gentil de sua parte assumir. Mas
não direi nem mais uma palavra... nenhuma... Parece que
eles estão ouvindo apenas as próprias vozes.."
— Se ela errou, errou por causa de uma compaixão grande
demais, por causa de ternura demais, um desejo grande
demais de proteger e defender.
A voz, as palavras claramente enunciadas, foram ouvidas por
todos e abafaram de imediato os murmúrios. Todos olharam
para o Primogênito em suas roupas simples, comandando sua
atenção de um modo natural, inevitável, embora não
pudessem dizer o que havia nele que tornava as coisas assim.
— Mas... terá ela errado, meus irmãos? E se o fez... qual
deveria ser sua punição? Qual a punição para o amor, a
piedade, a compaixão?
Há momentos em que mesmo a Serpente considera
adequado suspender o julgamento... Momentos em que leis
mais altas do que as da nossa Ordem... e não duvidem por
um único momento que estas existem... entram em ação,
paralisando as mais baixas, que até aquele momento eram as
únicas que conhecíamos.
Todos pertencemos à mesma Ordem... sim, e ela não
pareceu se preocupar muito com as regras, não é verdade?
Mas talvez ela conhecesse a existência da outra Ordem, uma
Ordem mais abrangente, mais sublime, menos terrena.
Talvez ao fazer o que fez, ela tenha quebrado certos laços,
embora ao fazê-lo tenha tecido alguns outros, quem sabe
muito mais importantes e duráveis do que os que
conhecíamos até agora, meus irmãos.

Naquela noite Rahazz e seis sacerdotes subiram a escadaria
do templo para uma jornada de trabalho árduo.
Na realidade muito cansativo e sério, eles o chamavam
jocosamente entre si "a fabricação de ilusões", sendo a ilusão
fabricada, nesse caso, um fortalecimento semanal de um
falso cenário, que se estendia sobre o templo, casas, terraços
de plantio e outros acidentes geográficos presentes, para
evitar qualquer tipo de identificação.
A ilusão havia sido criada pouco depois de terem se instalado
neste lugar determinado nas montanhas, e era tão perfeita
que até agora nenhuma nave inimiga, em reconhecimento
pela região, fora jamais capaz de detectar qualquer coisa a
não ser a densa floresta, entrecortada pelo brilho do rio Zen,
apressando-se na direção do mar desde um lugar invisível,
muito mais elevado.
O próprio rio não era uma ilusão: aparecendo nos fundos da
cena, atravessava a planície com suas casas e outras
construções, seus jardins e trilhas estreitas, rodeando a pista
de pouso, onde apenas uma ou duas naves se viam
normalmente. As outras estavam estacionadas num abrigo
subterrâneo, pequeno, mas resistente, como a ponte que
cruzava o Zen um pouco mais abaixo.
A falsa imagem de uma floresta de vários tipos de árvores e
arbustos era baseada na vista real e viva do rio. Era fácil
projetar uma imagem parada, porém, muito mais difícil,
embora essencial, dar uma ilusão de vida, de crescimento da
floresta.
Ao reforçar o cenário todas as semanas eles tomavam o
cuidado de introduzir pequenas modificações: os arbustos,
depois de algum tempo, ficavam mais altos, em especial se
havia chovido muito, as folhas perdiam a cor de acordo com
a estação, as árvores explodiam em flores, como as árvores
da floresta real. Bagas e outros frutos apareciam na época
certa e sempre havia o rio, muito vivo, que podia ser visto
fluindo em meio a um trecho de grama, bosques de árvores
verdadeiras capazes de satisfazer até ao mais experiente e
suspeitoso piloto.
Com freqüência um toque extra de realidade era
acrescentado à ilusão, quando revoadas de pássaros subiam
dos jardins, das ruas e das árvores reais, para circular sobre a
área e pousar de novo, ou voar para longe. Do céu parecia
que eles haviam vindo do coração da floresta virgem,
quando na verdade vinham das árvores que alinhavam as
ruas estreitas e os jardins tornados invisíveis pelo trabalho
dos sacerdotes.
A atuação da equipe tinha de ser perfeita, Rahazz sabia.
Juntos conseguiam criar uma ilusão maravilhosa, para a qual
cada um contribuía com suas especialidades (havia três
sacerdotisas entre eles). Um deles era muito bom em
projetar árvores, completas até nos mínimos detalhes. A
especialidade de outro era encaixar a imagem na coisa real,
um detalhe muito importante. Outro ainda encarregava-se
do cuidado especial de carregar as árvores com flores,
algumas ainda em botão, outras já abertas, e frutos,
amadurecendo, maduros, e ou ainda muito verdes, de acordo
com a época do ano, completando detalhes esquecidos.
Apenas o Rei, entretanto, era capaz, em dias especiais,
perigosos, quando mais de uma nave inimiga vinha
sobrevoar aquela região em particular, de proporcionar uma
sensação de movimento, o vento inclinando as copas das
árvores como fazia com as da floresta real. Era sua também a
tarefa de coordenar todas aquelas imagens, vivas ou não, e
cuidar para que tudo fosse como devia ser.


Capítulo XX

Desde o festival de Poraj a notícia se espalhava por todo
Aztlan: "eles" haviam prometido e mantido a promessa. O
primeiro sinal havia sido dado quando o cão do rei acabara
destruído por um cão desconhecido, verdadeiro.
E desde o festival outras coisas começaram a acontecer. Às
vezes no meio de uma reunião de pessoas celebrando este ou
aquele fato importante, às vezes nos mercados, nas saunas,
durante eventos esportivos, em festas elegantes nas grandes
mansões e mesmo nas Casas de Imagens.
Embora a qualidade das histórias exibidas naquelas casas de
imagens houvesse degenerado mais e mais ao correr dos
anos, seu nível técnico era surpreendente, sua perfeição
simplesmente avassaladora, como se os produtores de
imagens, numa espécie de desespero, tivessem decidido
concentrar-se na beleza superficial das imagens, no exterior,
uma vez que não podiam mostrar a verdade, o interior, que
lhes havia sido proibido.
Proibido não era a palavra certa. Desde a derrota de Rahazz
nunca havia sido decretada qualquer lei a respeito de quais
tópicos eram proibidos ou de como deveriam ser
apresentados ou abordados.
Assim, teoricamente, os artistas, os autores e todas as pessoas
necessárias para produzir uma boa história eram
efetivamente livres para criar como lhes agradasse.
Teoricamente. Nenhum censor ficava vigiando ao lado,
ninguém lhes dizia se o que estavam fazendo estava certo ou
não. Eram cuidadosamente deixados a sós com seus sonhos
mais loucos.
Mas quando o resultado de tanta liberdade era afinal
mostrado nas casas de imagens por todo o país, e sucedia ser
encontrado o menor detalhe que não agradasse ao Rei e seus
Ministros da educação, os atores, escritores, produtores e
outros envolvidos desapareciam nos cárceres do Império,
para nunca mais reaparecer.
Depois que isso aconteceu algumas vezes ninguém mais se
aventurou a sentir-se livre para criar diferentemente,
ousadamente. Gradualmente uma autocensura sombria e
férrea se estabelecera naqueles círculos e, gradualmente
também, a qualidade das histórias em imagens havia decaído,
até alcançar os níveis mais baixos de insipidez e idiotice.
No entanto, as casas de imagens estavam sempre cheias e os
produtores não perdiam dinheiro. Isso acontecia porque
existia uma crença geral de que aqueles que adquiriam o
costume de não freqüentar as casas de imagens seriam
denunciados por agentes da polícia e sofreriam o destino
comum a todos os adversários do regime. Assim, ninguém se
importava, o dinheiro continuava rolando e estava claro que
os altares de Yahali continuavam exigindo vítimas.
Assim mesmo, após o Festival de Poraj passou a acontecer
que durante os espetáculos de imagens alguém sentia um
toque ligeiro no braço e ouvia algumas palavras sussurradas
em voz baixa:
— Na lua cheia. O Vale da Luz.
Nunca se conseguia ver o rosto de quem havia sussurrado, e
também ninguém desejava vê-lo. As pessoas não sabiam
como seu desagrado com o regime era conhecido pelos
oponentes deste e em geral passavam vários dias tensas de
pavor, quase em pânico, pensando que a mensagem poderia
ser uma armadilha, que suspeitas de traição, estivessem
sendo testadas desse modo.
Mas logo o medo passava, uma vez que nada mais acontecia
e vários amigos comentavam entre si que também haviam
sido procurados e recebido a mensagem.
Podia ser verdade então que as coisas estavam começando a
mudar e que, na realidade, desde os acontecimentos do
Festival de Poraj, o fim de Yahali poderia estar mesmo
próximo. No entanto as pessoas temiam admitir esse tipo de
pensamento, mesmo quando sozinhas.
O fim de Yahali. Isso parecia impossível. Aztlan era tão
enorme, estendendo-se aos rincões mais distantes da Terra
com apenas uma ou outra pequena região de nações ainda
não engolidas
E quem iria provocar esse fim? Os pequenos e bravos grupos
das montanhas com seu Rei já envelhecendo? Seu filho?
Mesmo ele, o que poderia fazer sem o apoio de um exército
numeroso e bem-treinado? Zenhar era um grande
comandante, mas o número de seus guerreiros tribais era
insignificante. Ainda não haviam sido varridos de vez apenas
por causa dos esconderijos nos quais se entrincheiravam.
E então, em mais um momento de dúvida, lembravam-se das
palavras sussurradas: "Na lua cheia. O Vale da Luz." E em
centenas de lugares, casas de bebidas, lojas, e sim, mesmo
nos templos durante os rituais, era possível que alguém
sentisse um toque no ombro, uma mão segurando-o
levemente pelo braço de modo a não atrair suspeitas no
meio da multidão, um rosto desconhecido semi-oculto nas
sombras e um erguer de sobrancelhas. E sempre as mesmas
palavras: "Na lua cheia. O Vale da Luz."

Sheon-La havia insistido em participar também da tarefa dos
mensageiros:
— Conheço todos os contatos e eles me conhecem. Não há
necessidade sequer de ficar incógnita, especialmente se me
mantiver afastada de Dliar.
Mas quando Lyanta disse que desejava ir também, todos
votaram contra:
— Conhecem-na bem demais na capital e nas outras cidades.
A linda filha de Tchamar, que foi presa e depois libertada
com a ajuda dos rebeldes, desaparecendo após deixar seu pai
morto... Um capitão da guarda voltando para contar algumas
histórias jamais ouvidas. Você já se expôs demais pichando
paredes de templos. Portanto agora devia deixar isso de lado.
— Mas Sheon-La também está correndo um grande risco —
protestou Lyanta:
— Não, não estou — Sheon-La sacudiu a cabeça, enfática. —
Nunca fui a filha de alguém importante, como você. Sou
praticamente desconhecida fora de Dhar... E, além disso,
tenho acesso a muitos contatos subversivos. Você não tem.
Eles poderiam mesmo desacreditar de você lembrando-se de
quem era seu pai.
Estavam na casa de Litosê, bebendo e comendo, os homens
com os braços ao redor das moças, a mão de Ruan
descansando leve sobre um dos seios de Sheon-La,
excitando-a.
Ela tentou afastar-se, mas ele não permitiu.
-— Ruan, pare com isso! Não posso pensar com clareza
quando você faz isso.
Ele riu, abraçando-a com mais força.
-— Mas é exatamente esse o ponto... não quero que você
pense com clareza. Não quero que saia daqui e corra todos
esses riscos...
-— O que ele quer dizer é que não deseja vê-la entrar numa
confusão e arranjar algum outro camarada para livrá-la da
mesma — comentou Vanzaj com um sorriso. — Ele está
apenas com ciúmes ao pensar na possibilidade. Pensei que
isso fosse contra as regras da Ordem.
Sheon-La reclinou-se contra Ruan, puxando seus braços ao
redor de si, enquanto ele respondia a Vanzaj:
— E é... mas é uma das mais difíceis de seguir.
Os agentes de Yahali, sabendo de tudo sobre as mensagens,
escreviam longos relatórios a seus chefes, mas nunca
conseguiam colocar as mãos nos mensageiros.
As ordens de Yahali haviam sido claras:
— Não prendam ninguém. Deixem-nos agir como lhes
agradar. Apenas observem. Relatem tudo com detalhes. Mas
não prendam ninguém.
Os chefes de sua polícia haviam ficado atônitos e o
demonstraram:
— Senhor... eu não compreendo. Não prender ninguém?
Mas isso é perigoso. E se...
— Eu não me importo com o "se". Essas são as minhas
ordens, para serem executadas exatamente como desejo. Está
claro?
Todos abaixavam a cabeça, diziam que estava muito claro e
partiam, realmente atordoados. O que ele teria em mente?
Qual poderia ser a sua estratégia? Não pensava que tanta
gente se reunindo no Vale da Luz seria perigoso? Mas, então,
na certa ele queria agarrar todos ao mesmo tempo, de modo
que ninguém fosse capaz de escapar. Com certeza haveria
muitos, uma grande quantidade de corações para fortalecer o
Coração Solar.
No entanto, o desfiladeiro que constituía o único acesso ao
Vale da Luz, seria sem dúvida guarnecido pelos homens de
Zenhar. Como então Yahali seria capaz de prender as
pessoas presentes à reunião? E se todas essas pessoas
comparecessem armadas? Armadas e decididas a enfrentar os
soldados, soldados em qualquer caso incapazes de tomar o
desfiladeiro sem sofrer pesadas perdas, se conseguissem
tomá-lo!
Haviam demasiadas dúvidas, mas certamente o Rei havia
pensado num plano que não conseguiam antever, um plano
que apenas poderia ser criado por aquela mente fantástica.
Quando todos partiram, Yahali levantou-se e se aproximou
de uma das grandes janelas da sala. A noite apenas começava
e no céu a lua estava branca e muito fina.
"Ela não chegou sequer ao quarto crescente", pensou. "Ainda
há muito tempo para fazer o que deve ser feito."
Todos eles haviam ficado realmente estupefatos com suas
ordens, não sabendo o que ele sabia, e já desde algum tempo.
Após alguns momentos de indecisão, subiu as escadas até a
torre redonda que coroava o palácio, coberta por um domo
de cristal, removível. Nas paredes da sala pendiam grandes
mapas dourados dos céus meridionais e setentrionais, e no
meio estavam instalados vários poderosos telescópios.
Sentou-se a uma mesa coberta de outros mapas, inclinou a
cabeça sobre eles, já perdido em complicados cálculos, os
ardentes olhos negros observando os símbolos que tinha
diante de si sobre o metal precioso. Ao redor, o mundo
cessava de existir; durante essas horas, ouvia as vozes dos
astros, decifrando suas mensagens.
Por fim levantou-se e desceu para os jardins, onde ficou
perambulando até o amanhecer. Os guardas, vendo-o passar
tantas vezes, especularam sobre o olhar fixo de sua magra
face escura. Era óbvio que o Rei estava distante, onde
ninguém seria capaz de segui-lo.
Com efeito, naquela noite a mensagem dos astros havia se
tornado clara para Yahali... sabia agora que o caminho para as
alturas estonteantes do poder estavam abertos. Sim, agora
mesmo a divindade estava ao alcance e ninguém no mundo
seria capaz de detê-lo. Não agora. Não mais. Rahazz, Ruan e
mesmo aquela figura misteriosa chamada "Primogênito da
Serpente" não tinham mais importância, pequenas criaturas
insignificantes desvanecendo-se num passado distante.
Havia vencido.
Na verdade, houvera também uma outra voz, diminuta e
insistente, quase perdida entre todas aquelas, outras
profetizando glórias indizíveis. A essa voz também ouvira e
compreendera, mas não chegou a se preocupar.
Caos? Desastres por todo o país... a morte de milhões não
causada por mãos humanas?
O Rei encolheu os ombros. Comparada àquele outro coro
planetário, contando sobre poder além da imaginação,
conquistas indescritíveis, a pequena voz era nada, embora
tivesse de admitir que essa nota particular de discórdia era
poderosa e muito respeitada pelos astrólogos.
Catástrofes? Desastres? Isso sempre estava ocorrendo aqui e
ali, causando mortes.
Aztlan era enorme e erupções inesperadas, inundações,
terremotos, súbitas tempestades e terríveis ciclones
aconteciam às vezes, até simultaneamente em vários lugares.
Essas coisas eram normais e deviam ser esperadas. Algumas
partes do país eram mais vulneráveis a certos tipos de
desastres, pensou. Assim, obedecendo àquela pequena e
desagradável voz planetária como devia, iria enviar avisos
aos governadores das províncias em questão. Prevenidos de
antemão, seriam capazes de tomar todas as medidas
necessárias para manter a calamidade sob controle, limitando
a perda de vidas humanas e propriedades a um mínimo.
Em qualquer caso, esses desastres não iriam afetá-lo, ao
menos duramente. Seu destino individual nada tinha a ver
com elas, sabia... Mas, como Rei, deveria fazer tudo ao seu
alcance para evitar sofrimento desnecessário para seu povo.
Sheon-La acabara de passar sua mensagem a um vendedor de
rua que conhecia muito bem quando ouviu os gritos:
— Mas aquela é a garota atrás da qual estamos há meses, a
moça cio bracelete. Vamos agarrá-la.
Viu o agente correndo em sua direção, seguido por três
outros, um deles soldado, o resto da multidão olhando,
bastante intrigada, mas sem saber o porquê de toda a
excitação.
Passando através das várias fileiras de barracas no mercado,
mergulhando numa estreita rua lateral, continuou correndo
apenas para descobrir que a rua terminava abruptamente
diante de um alto muro de pedra. Olhou para trás. Seus
perseguidores acabavam de aparecer, o soldado correndo
muito à frente dos outros. Mesmo naquele momento ela
ficou intrigada com o homem, ele parecia tão diferente. Algo
a ver com suas orelhas... E quando ele a alcançou, agarrando
seu braço, ela viu as membranas entre os dedos.
Ficou ainda mais surpresa quando o ouviu dizer por entre os
dentes:
— Que coisa mais estúpida... Você deveria ter feito algo
melhor que escolher uma rua sem saída... qualquer outra,
menos essa — e antes que pudesse responder: — Diga-me: a
quem quer que avise sobre sua prisão? Sou um amigo.
Tudo se passou em alguns segundos e sua hesitação foi
breve. Ruan devia ser avisado. Esse jovem era um soldado,
não pertencia à polícia. Ela lhe deu o nome de Beres, o
administrador de Vrina. Quando os outros os alcançaram,
agradeceram ao soldado-elfo por ajudá-los e ela foi levada.

Desh foi deixado para trás na rua estreita e escura, ainda
tonto com o que acabara de ouvir, olhando para o grupo até
não haver mais nada para olhar.
Beres! O administrador de Vrina. Seu próprio pai. Não podia
ser! Então era nisso que o velho estava envolvido quando o
visitara um mês antes, achando-o ainda mais taciturno e
reticente do que de costume. Suas perguntas haviam
recebido respostas evasivas como:
— Não, meu rapaz, não é nada, apenas solidão. Mas isso faz
parte da vida de um viúvo. Realmente não, apenas negócios.
Nos últimos tempos o preço das colheitas...
Mas Desh não ficara convencido. Algo estava diferente,
podia senti-lo, e as respostas de seu pai eram simplesmente
sem sentido.
Quando se despediu, o pai o havia abraçado demonstrando
preocupação real e dissera:
— Cuide de si, Desh. Os tempos estão negros e ficando ainda
mais negros.
Ele demonstrara surpresa.
— Mas eu estou no Exército, pai, lembra-se? Nada irá
acontecer comigo. Não há nenhuma guerra exceto as
escaramuças costumeiras com os soldados rebeldes.
Seu pai havia assentido:
— Mas é justo isso que me preocupa. Você estar no exército,
quero dizer. Gosta dessa vida?
Pensara por um momento, tentando descobrir no rosto do
pai o motivo verdadeiro da pergunta.
— Bem, em geral é uma vida fácil, embora com freqüência
seja muito tediosa. Por que pergunta? Eles pagam bem e até
agora consegui evitar matar e ser morto.
Beres rira:
— Meu filho, um soldado que não gosta de matar... eles
sabem disso? Isso aparece?
— Eles? Oh, percebo, os oficiais. Não, não sabem. Meu
problema é que não consigo me tornar agressivo o suficiente
para atacar camaradas que não conheço. Simplesmente não
consigo. Outro de meus problemas é que acho a vida do
Exército excitante apenas quando estão se preparando para
uma batalha. Então todo o aborrecimento se vai e o fascínio
se estabelece. Você não tem idéia, todos ficam excitados,
nervosos, e cada um pensa em si como um herói. Mas
apenas antes.
— Mas o que acha ser tão fácil em sua profissão?
— O fato de eu não precisar pensar. Simplesmente sigo as
ordens, você nem sequer sabe de onde elas vêm, há sempre
alguém de posto mais alto dando ordens a alguém de posto
mais baixo, e recebendo-as de alguém ainda mais alto. A
responsabilidade está fora. Somos treinados para não pensar
e com freqüência isso é um alívio. Temos de ouvir a todos os
tipos de lavagem cerebral e, uma vez que não se espera que
pensemos, é bastante fácil engolir tudo. E na verdade um
alívio deixar que os outros pensem por você. Ao menos, eu
achava isso até algum tempo atrás. E então, de repente,
quando esqueci de não pensar, todos os tipos de coisas
estranhas começaram a acontecer.
Ele se lembrou da súbita mudança na expressão do rosto do
pai, o interesse crescendo em seus olhos.
— O que aconteceu?
— Nada, em realidade — ele hesitou —, ou tudo. Comecei a
me comportar bastante contrariamente às regras, a toda
aquela falação que eles costumam despejar sobre nós. Isso
fez com que me sentisse maravilhosamente bem e me
preocupou ao mesmo tempo. Depois entrei em pânico. O
que aconteceria se eu continuasse por esse caminho?
Não respondera quando seu pai perguntou sobre antes do
"depois", alegando que já era tarde, tinha de voltar para
apresentar-se. Sua licença havia terminado. O pai não o
pressionara, mas parecera ficar bem-humorado, abraçando-o
de novo, com calor, demonstrando muita afeição e, sim,
alívio.
Alívio? Sim, aquela era a palavra, e agora sabia por quê.
Portanto agora tinha de prevenir Beres, seu próprio pai, um
rebelde. E ele no Exército Real, tendo ultimamente todos os
tipos de idéias que não deveria ter. Tentou lembrar-se do
que estavam sempre dizendo naquelas palestras. E quanto a
seu juramento? De acordo com os livros, agora deveria parar
de pensar, seguir ordens sempre. Por que se havia alistado se
não acreditava na glória das Forças Armadas? Oh, para o
diabo com tudo. A moça apenas dera o próprio nome e o de
Beres. E assim, havia acontecido pela segunda vez.
Naturalmente, poderia ignorar tudo, voltar ao quartel. Isso
na certa seria a melhor coisa.
Naquela noite mesmo pediu uma licença extra para visitar o
pai que havia adoecido de repente, explicou.

O agente secreto que prendera Sheon-La teve de enfrentar
uma curta e violenta discussão com seu chefe.
— Por que ignorou as ordens do Rei? Você sabe que estamos
proibidos de prender qualquer pessoa antes da lua cheia.
Estou surpreso com sua falta de disciplina e...
-— Mas estivemos à caça dela por vários meses! Sua prisão
não tem nada a ver com a divulgação daquela maldita
mensagem e também acho que o Rei... — nesse ponto o
agente se detivera, espantado, exatamente a tempo de se
colocar em guarda.
O chefe da Polícia Secreta de Poraj examinou-o de alto a
baixo, com frieza:
— Por que parou agora? Essa conversa está ficando bastante
interessante.
Seu subordinado estava furioso, mas procurou não
demonstrá-lo. Estivera tentando encontrar a moça durante
todo esse tempo na esperança de que algum golpe de sorte a
colocasse em suas mãos. E agora que havia acontecido, tinha
de deixá-la ir. Se apenas pudesse mantê-la por um dia ou
dois, para atrair seu amante, o proprietário do bracelete... O
filho de Rahazz por certo viria em seu resgate e, quando o
fizesse, a armadilha estaria preparada. O sucessor de
Tchamar, ficaria muito feliz em cooperar. O Rei estava fora
da capital, visitando as províncias do norte, onde alguma
espécie de rebelião havia começado nos quartéis. Talvez seu
chefe... Ele olhou para o outro:
— Lamento, senhor, naturalmente está certo. Mas não
haveria uma possibilidade de mantê-la por apenas dois dias?
— explicou seu plano com detalhes e notou que este
agradava ao homem.
— Ótimo! Isso faz sentido, mas lembre-se que ela não deve
sofrer qualquer espécie de dano. E depois, deve deixá-la
partir.
— E o Príncipe?
— Ah! Isto é mesmo outro assunto. Se você for bem-
sucedido, iremos mantê-lo detido até o regresso do Rei.

Quando Desh chegou à casa, encontrou o pai tratando de
uma cabra que acabara de dar à luz. Impaciente, entrou no
estábulo, sem fôlego, pois correra sem parar os últimos três
quilômetros.
— Pai... — calou-se, olhando para o homem ao lado de
Beres, que sorria para ele.
— Olá, Desh. Não se lembra de mim?
Sem dúvida se lembrava. Tinha apenas dois ou três anos na
época em que o homem que se achava diante de si teria
talvez... calculou com rapidez... uns dezenove. Tinha-o
carregado para todos os lados para ver os animais, levara-o ao
pomar para comer as frutas suculentas, contara-lhe histórias
sobre heróis esplêndidos lutando contra reis maldosos.
— Sim, eu me lembro — respondeu, realmente atônito.
— Lembro-me de ter ficado em pé sobre seus ombros para
alcançar as frutas mais maduras. E agora estou aqui para...
— Para contar-me que ela foi presa — disse Ruan,
terminando a sentença por ele. — Não é verdade? Cheguei
ontem, sabendo que iria encontrá-lo aqui.
Sentaram-se sobre a palha, Beres observando, o rosto
iluminado, enquanto acariciava a cabra que ainda sofria,
balindo mansamente.
Quando Desh terminou sua história, disse, remexendo no
cinturão:
— Príncipe Ruan... não sei se aprova, mas esta é uma ocasião
especial para mim, muito especial. Não desejaria fumar
comigo?
Dando um puxão final, retirou seu tubo de prata de fumar
juntamente com um saquinho bordado, mas antes que
conseguisse fazer algo, Ruan retirou os objetos de sua mão.
— Permita-me... — olhou por alguns momentos para o tubo,
estudando seus ornatos. — Um belo trabalho. Sei onde os
fazem. Uma aldeia, não muito longe daqui, não é verdade?
— depois, aspirando o aroma do conteúdo da bolsinha,
sorriu: — Uma excelente variedade. Eles cultivam esse tipo
apenas nas províncias do leste. Quando meu pai ainda estava
no poder, eu ia até lá com freqüência — parou de falar por
alguns instantes, colocando as ervas no tubo, depois
continuou: — As plantações estão todas divididas em
pequenos lotes, cada qual cuidado por apenas um homem ou
mulher. Em cada lote se produz uma qualidade diferente, em
aroma e sabor. Tudo depende do proprietário do lote, a única
pessoa que cuida das plantas, pois nenhum outro tem
permissão sequer para tocar os arbustos pertencentes a ele.
Alguns se especializam até em plantar de acordo com a
posição dos planetas, dedicando as ervas a um espírito
planetário em particular.
Ruan acendeu o tubo de prata e inalou profundamente,
retendo a fumaça o mais que podia, oferecendo depois o
tubo a Beres, que se aproximara e, bastante desajeitado,
seguiu seu exemplo, desculpando- se.
— Sinto muito, Príncipe. Não estou acostumado a fazer isso.
— Nem eu, Beres. A erva não deve ser desperdiçada,
destinando- se ao uso apenas em ocasiões especiais, como
seu filho acaba de dizer.
Quando Desh inalou a fumaça, viu que suas mãos, segurando
o tubo, estavam tremendo. Não havia caminho de volta
agora. Estava fumando com o filho de Rahazz depois de ter
passado a mensagem de uma moça rebelde a seu próprio pai,
um rebelde também. E ninguém o havia forçado. A escolha
fora dele mesmo. Talvez não devesse ter começado a sentir e
pensar por si mesmo naquela noite em que ele e Caman
haviam surpreendido Lyanta. Talvez... Olhou rapidamente
para Ruan que o estava observando, notou. Por que se sentia
tão exaltado?
Ofereceu o tubo a Ruan, para outra rodada, imaginando se o
que estava sentindo agora não seria responsabilidade
verdadeira, não aquela que lhe era imposta pelos outros, no
Exército. Fizera uma escolha e se sentia feliz por isso. E
ainda mais feliz porque era a mesma escolha que seu pai
havia feito.
Escolha? Mas aquilo não havia vindo naturalmente, como o
fluir de um rio, como uma onda que se segue a outra? A
escolha implicava algo deliberado, bastante separado e
abrupto, enquanto sua ação não podia ser considerada
exatamente assim...
Talvez tudo tivesse começado muito tempo atrás, no
momento em que seu pai apaixonara-se por sua mãe, antes
de seu nascimento, ou a partir de sua admiração infantil
pelos rapazes e moças que o haviam levado em freqüentes
caminhadas pela propriedade de Vrina e haviam brincado e
rido consigo. Lembrou-se das coisas que seu pai lhe havia
dito quando eles não mais voltaram. Lembrou-se de Zenhar
e Ruan em seus esplêndidos uniformes Toltecas, seus
capacetes brilhantes, os maravilhosos braceletes e
tornozeleiras. Lembrou-se de suas armas, das pequenas e
compactas naves prateadas que pilotavam.
— Eles precisam ir. Há uma guerra em curso — dissera seu
pai.
Mas estarão de volta em breve.
E não haviam voltado, entretanto, e soubera que o monarca
gentil que havia visto muitas vezes no palácio de verão, do
outro lado do rio, havia sido derrotado e fugira. Um outro
tomara seu lugar.
Como uma onda seguindo a outra. Não era a verdadeira
razão de ter-se juntado ao Exército aquela última e
esplêndida visão dos jovens guerreiros, abraçando-o,
dizendo-lhe adeus e que se comportasse?
E quando afinal entrara para o Exército, tudo fora tão
diferente do que havia esperado.
Mas suas primeiras dúvidas verdadeiras surgiram quando foi
chamado para participar da última "limpeza" das terras
tribais, ao norte da propriedade de Vrina, quando havia visto
os corpos mutilados de homens, mulheres e crianças, já em
putrefação, espalhados pelas aldeias abandonadas. Não
haviam encontrado sequer um ser vivo, receberam ordens
de empilhar os mortos e queimar tudo. O fedor havia sido
insuportável, espalhando-se mesmo até a casa de seu pai,
muito abaixo.
Finalmente, havia reunido coragem suficiente para perguntar
ao capitão:
— Mas por que isso foi feito? Essas terras tribais pertencem a
eles, não é verdade, senhor?
O capitão lhe lançara um olhar rápido e aguçado:
— Ordens do Rei. Era necessário, eles eram uma ameaça a
nosso país, a nosso bem-estar, à paz de Aztlan. Todos
pertenciam à tribo de Zenhar.
Desejara perguntar mais, por que mulheres e crianças foram
massacradas e por que nenhum dos homens mortos trazia
armas. Em sua cabeça, em sua mente horrorizada, uma
palavra se impunha com insistência, excluindo todas as
outras: covardia.
Covardia! Um soldado nunca devia ser um covarde,
disseram-lhe inúmeras vezes naquelas intermináveis
palestras. Mas o que era isso senão pura e óbvia covardia, a
matança de homens desarmados, mulheres e crianças?
O modo pelo qual seus colegas soldados o olhavam, todos
eles exceto o bem-humorado e compreensivo Caman,
quando enunciou seus pensamentos em voz alta, preveniu-
o, para que se mantivesse em silêncio.
Zenhar. Aquela era a terra de Zenhar, Zenhar, o rapaz
alegre, impetuoso, que lhe havia ensinado que um soldado
deve sempre cuidar bem de suas armas, limpá-las, afiá-las e
lubrificá-las, mesmo se a "arma" em questão nada mais fosse
que uma pequena e muito insignificante Faca de cozinha.
Mais tarde, no caminho de volta para o quartel, seu capitão
lhe explicara por que as coisas haviam sido feitas daquela
maneira. Falou sobre os incontáveis inimigos do Império, os
rebeldes, sempre atacando-os de surpresa. A obstinação e a
hostilidade das tribos montanhesas. E sobre os deveres de
um soldado.
Durante a conversação assentira várias vezes, mas em sua
mente os corpos imóveis das mulheres, crianças e homens
desarmados permaneceram muito vividos, obliterando todas
as outras imagens durante o longo discurso, mais um sermão
que uma conversa. Por fim, agradecera ao oficial (afinal era
gentil por parte do homem dar-se todo aquele trabalho para
convencer um mero soldado) dizendo que compreendia e
concordava.
Perguntou-se se havia sido por causa de suas afirmações que
o capitão nunca mais o incluíra em batalhas verdadeiras,
sempre inventando para ele e Caman tarefas mais pacíficas,
longe, na retaguarda.

Capítulo XXI

Sheon-La foi levada para dentro do templo por dois guardas,
que então deixaram-na a sós com o sacerdote e o agente de
segurança. O primeiro iria oficiar a cerimônia. Sobre o altar
ela viu a vítima, um homem inconsciente, já sangrando de
muitos ferimentos, gemendo vez por outra. Ferimentos
infligidos por tortura, conforme sabia. O agente lhe contara
como, onde e porquê, estendendo-se até aos menores
detalhes.
Do lado de fora, uma tempestade estava em curso
chicoteando as árvores, casas e campos, mantendo as pessoas
trancadas, de modo que ninguém notou o pedestre solitário
em seu manto ensopado, mantendo- se junto às fachadas das
casas altas, onde as sombras eram mais pronunciadas. O
portão do terreno do templo estava aberto. Ruan não ficou
surpreso por nenhum guarda se adiantar para detê-lo. Estava
claro que eles sabiam que viria, embora se perguntasse o que
estariam esperando dele. Ainda assim, tinha um vago palpite
e por isso viera preparado.
Não se sentia preocupado sobre o destino de Sheon-La: sabia
que Yahali havia dado ordens para não prenderem ninguém
antes da passagem da lua cheia.
— Você pensa que ele não virá — disse o sacerdote,
zombando.
Mas virá. Espere e veja por si mesma.
Sheon-La olhou-o com desprezo:
— Está subestimando-o — disse —, essa armadilha é imbecil
demais. Além disso, todo mundo sabe que por enquanto
ninguém deve ser preso.
Desejava nunca ter enviado aquela mensagem a Beres. O que
queria que ele fizesse? E onde estava Yahali? Teriam a
coragem de ignorar as ordens do Rei?
— Mas o Rei está muito longe, você não sabia? — disse o
agente, lendo seus pensamentos. — E quando voltar, não irá
se preocupar com a morte de uma prisioneira. Uma morte
acidental, uma prisioneira que ficou em pânico quando a
estávamos libertando. Pareceu-nos que não acreditou em sua
própria sorte, imaginou que estávamos fingindo e queríamos
matá-la. Por isso começou a correr. Ficamos todos tão
surpresos, espantados. Por que deveria correr? Tínhamos
acabado de libertá-la. Mas ela continuou correndo e nós atrás
dela para explicar, para acalmá-la, pois afinal as ordens do Rei
haviam sido explícitas. Mas então ela caiu, ferindo a cabeça
numa pedra. E morreu. Um acidente muito infeliz. Mas nada
pudemos fazer a respeito.
Sheon-La manteve-se em silêncio. Então Yahali estava fora.
Novamente desejou não ter pedido àquele soldado elfo para
avisar Beres. Como de longe, ouviu o agente dizer:
— Então eu estava certo. Ele veio, afinal.
E ouviu também a voz de Ruan, fria, controlada.
— Sim — e dirigindo-se ao sacerdote: — Seus olhos ainda
estão bons, Däat. Sou eu.
Estava parado junto à porta, o manto encharcado e
enlameado, a cabeça erguida.
Däat riu baixinho:
— Na verdade não pensei que viesse, embora ele — indicou
o agente com um movimento da cabeça —, estivesse certo
de que viria. Ainda não compreendo. Você é o último da
linha dos Toltecas. Por que deveria arriscar-se por uma
mulher? Você pode conseguir qualquer mulher que deseje.
Há tantas, e a maioria, lindas. Você a ama? Apenas um
sentimento, fugidio e ilusório como todos os sentimentos.
Você devia saber! Não é um iniciado? Uma pessoa ama
profundamente hoje e esquece esse amor amanhã ou no dia
seguinte. Sentimentos, pensamentos, lealdade para com
amigos e parentes... Qual o valor da amizade? E tudo coisa do
momento, passa rápido.
Ruan assentiu, como concordando:
— Mas é claro. Sendo quem é, jamais seria capaz de
compreender. Não vou desperdiçar palavras para fazê-lo ver.
Não há qualquer esperança — e então: — Você tem ordens
de não prender ninguém antes da lua cheia. Portanto seria
melhor obedecer a seu Rei e deixar a moça partir.
— Oh, não! Estou certo de que o Rei Yahali irá compreender,
ficará mesmo satisfeito quando em lugar de um joão-
ninguém insignificante eu lhe entregar o filho de Rahazz.
Além disso, vou deixá-la partir com uma condição, apenas.
Que você, aqui e agora, oficie em meu lugar como meu
substituto, para invocar aqueles poderes que você e os de sua
espécie dizem ser do Mal, embora eu não saiba por que
pensam assim.
"Então era isso que ele queria", pensou Ruan, olhando ao
redor do templo, para onde uma luz avermelhada iluminava
fracamente a figura que gemia sobre o altar. Com um rápido
movimento de ombros deixou cair o manto molhado sobre o
piso de cristal do templo. Sob o manto, sua túnica bordada a
ouro estava seca.
Däat ficou olhando surpreso para as roupas, o largo cinturão
cravejado de diamantes, os braceletes mostrando uma
serpente alada com olhos de diamante. "Roupas sacerdotais",
pensou. Então ele viera preparado. Então sabia o tempo todo
o que lhe seria proposto. Däat começou a transpirar. Olhou
para a porta do templo, agora fechada. Lembrou-se de ter
dito aos guardas para se manterem afastados até que cha-
masse. Ter-se-ia mostrado confiante demais? Vendo o olhar
intrigado do agente deduziu que aquele homem também
estava surpreso e inseguro. Então ouviu Ruan dizer.
— O que está esperando? Estou pronto.
"Meus olhos estão doendo", pensou Däat. "São os diamantes
daquele cinturão infernal. É a sua luz. Não devo olhá-los
diretamente." Com um esforço, levantou os olhos para o
rosto inescrutável diante de si. Era sua imaginação ou havia
ouvido uma risadinha abafada vinda da moça?
Estendeu a mão para o manto púrpura sobre o altar.
— Vista isso, Príncipe. Esse manto pertence a Yahali, Sumo
Sacerdote de Aztlan. Irá ajudá-lo em sua tarefa, estou certo
disso.
Sem qualquer palavra Ruan embrulhou-se no manto. Mas
quando as dobras assentaram pesadamente sobre seus
ombros, soube que a vestimenta iria tornar sua tarefa ainda
mais difícil. Pois a peça trazia uma sensação sombria de
desalento, de carga; era como se ele ouvisse fracos gritos
desesperados. Seu coração apertou-se com uma dor física
cortante, insuportável.
E por um momento sentiu um desejo quase incontrolável de
apanhar a adaga sacrificial e cravá-la no coração do homem
inconsciente deitado sobre o altar. Apenas por uma fração de
segundo, mas o suficiente para que se desse conta dos
perigos do jogo do qual estava participando.
— Deve apenas repetir o que eu estiver dizendo, Príncipe.
Faça como faço. Será fácil.
De início eram apenas palavras, meio cantadas, meio faladas.
Depois vieram os sons de uma cadência definida de sete
batidas, acompanhada por um pequeno tambor de
ressonância inesperadamente forte e profunda, provocando
os ecos mais estranhos, reverberando no espaço acústico do
templo até formar um eco septuplicado, acompanhando e
antecipando-se ao som original que o causava até que ficou
difícil distinguir o que era o que, os sons e os ecos fundindo-
se numa vibração atordoante, penetrando fundo nos corpos
dos presentes.
Ruan, tomando a adaga cravejada nas mãos, abriu os lábios,
repelindo o canto de Däat. A moça estava parada quieta
junto ao altar, a cabeça inclinada. O homem sobre o mesmo
parara de gemer, a inconsciência abrira caminho para a
morte. "Graças a Deus ele está morto", pensou ela, "e o que
Ruan fará agora? O que terá em mente? Sei que está
preparando algo, mas o quê?"
Foi então que notou a diferença no ritmo, tom e intensidade
com os quais ele repetia os sons cantados de modo suave
pelo sacerdote.
"E fácil perceber que ele não está acostumado a esse tipo de
cerimônia", pensou Däat, enquanto continuava cantando de
maneira automática. "Vindo dele, soa tão diferente, a batida
é diferente também. E os sons... não, os sons são os mesmos,
mas o que ele está pensando ao pronunciá-los deste modo?
Parece que perderam seu poder."
Começou a sentir que algo estava mesmo errado quando o
ritmo que batia no pequeno tambor que pegara do altar
começou a mudar. Isso acontecera de forma quase
imperceptível de início, de modo que mal estava consciente
do fato. Mas depois de um longo tempo a sucessão de
batidas, a ênfase e o agrupamento das notas ficaram tão
diferentes que era impossível ignorá-lo.
Däat, espantado, tentou voltar ao ritmo original, pensando
que a mudança era devida à sua própria negligência, a um
lapso momentâneo... O ritual jamais devia ser executado
automaticamente... Mas descobriu que não conseguia, que
suas mãos estavam se movendo por vontade própria,
acompanhando o canto.
Acompanhando o canto? Tentou deter-se, mas não
conseguiu. Era impossível. E o cântico, que devia ser uma
imitação exata do seu, estava agora totalmente diferente. Mas
como?
Escutou atento, apenas batendo o tambor agora, ouvindo a
maneira como Ruan estava executando a cerimônia, sem
compreender.
Outra força estava se fazendo presente, reunindo-se lenta,
como nuvens reunindo-se antes de uma tempestade, uma
força que manipulava a música e a batida, tornando-se cada
vez mais forte.
O canto parecia distorcido, tudo estava diferente. Dáat ficou
muito silencioso, as mãos sobre o tambor batendo contra sua
vontade, no medo desconhecido agarrando-o. Isso não podia
ser verdade, devia ser sua imaginação. Logo os mensageiros
enviados pelo Destruidor iriam começar a povoar o templo
para fazer o que lhes era solicitado.
Ruan teve uma horrível sensação de que estava a ponto de
desmaiar. Diante de si cresciam a imagem do Destruidor,
orgulhoso e sombrio, os olhos chamejantes, e os rostos
distorcidos e bestiais de seus seguidores, numa fila
interminável. Fechou os olhos, oscilando um pouco,
sentindo gotas de suor formando-se em sua testa e sob os
braços. Mas então, recuperando-se, com todo o poder que
possuía naquele momento, expulsou as imagens ameaçadoras
de sua mente, fazendo-as abrirem espaço para outras.
E os sons passaram a vir sem dificuldade, sem qualquer
hesitação, no ritmo poderoso e concentrado acompanhado
pelas batidas do pequeno tambor nas mãos do desesperado
Däat, os olhos esbugalhados, num tom que parecia encher o
templo com irresistível vibração, leve e, no entanto,
extremamente poderosa.
Quando Sheon-La compreendeu o que Ruan estava fazendo,
ficou parada, sem fôlego, ainda mais imóvel que antes, os
olhos fixos nele com o pesado manto de Yahali, diante do
altar baixo e negro.
Däat estava agora suando por todos os poros. Qual era o
problema? O momento supremo estava de fato próximo, mas
algo estava faltando. Algo essencial. Nenhum seguidor do
Destruidor se havia manifestado até agora. Por que tinha
aquela lúgubre sensação de perigo e por que sua mão não
conseguia parar de bater aquele tambor infernal?
Sensação de perigo... e então soube por que os mesmos sons
pronunciados por ele eram tão diferentes vindos do filho de
Rahazz. Agora soube por que o canto cantado por Ruan
soava totalmente desconhecido para ele, o ritmo estranho.
Por que, em lugar da imagem do Grande Destruidor, uma
outra figura havia insistido em insinuar-se em sua mente
durante a cerimônia, uma figura flamejante, radiante, tão
plena de luz que ele, contra a vontade, fechara os olhos
como fizera diante da radiância dos diamantes.
Tentou gritar, chamar os guardas, o agente, qualquer pessoa
capaz de ajudar. Pensou em atirar-se sobre a moça e matá-la.
Amarrada que estava, isso não seria difícil, mas foi incapaz
de mover-se, paralisado pelo medo.
Ruan parou, voltando-se, sem praticar os atos finais do ritual,
não desejando terminar. Não seria necessário e por certo
significaria um tremendo desperdício de energia. As duas
forças iriam agora neutralizar-se uma à outra. E quando
parou, Däat também parou de bater o tambor.
Enquanto os últimos ecos ainda povoavam o templo, sorriu
de leve ao ver o estado em que Däat se encontrava, mas
Sheon-La notou como estava pálido e como seu cabelo
negro estava empapado de suor.
— Fique onde está, sacerdote, disse Ruan, a voz cansada —,
você cometeu um engano imperdoável. Você esqueceu... ou
talvez nunca soube... que a forma é necessária para fazer um
todo perfeito, mas nunca essencial em seu estado puramente
físico. Há estados mais sutis por trás das formas mais
grosseiras e outros ainda mais sutis por trás daqueles.
"Yahali", pensou Däat, sua mente agora num pânico total,
"vou chamá-lo. Tenho autorização para chamá-lo em
necessidade extrema. Nunca o fiz antes, mas agora..."
Ruan leu em seus olhos o que pretendia fazer e agiu rápido.
Não iria terminar. Havia outros meios, mais simples. O
agente estava caído no chão, inconsciente. A cerimônia
havia sido demais para ele.
Rápido e ágil como um tigre apesar do pesado manto, saltou
para o sacerdote, antes que este pudesse entrar em contato
com Yahali. Atirar fora o manto e cortar as cordas que
prendiam Sheon-La, com a adaga sacrificial, foi trabalho de
poucos segundos. Juntos correram para a saída, fechando a
pesada porta atrás de si, e deslocaram-se com rapidez para os
portões. Estava chovendo pesadamente e não havia guardas à
vista.
Poucos dias antes da lua cheia, Beres recebeu uma carta de
Ruan, trazida por Nehazz, que rumava para o Vale da Luz.
...naquele dia, Beres, em que nos encontramos no estábulo,
você, seu filho e eu, não tive tempo de contar-lhe o que lhe
escrevo agora. Portanto, aí vai: Dentro de poucas semanas, o
Rei (que também acontece ser meu pai) irá falar a todos os
que vivem em nosso esconderijo nas montanhas e que se
mantiveram leais a ele. Mas sua mensagem também está
destinada àqueles que, embora vivendo fora, sempre
estiveram ao seu lado em seus corações. Ele irá revelar seus
planos concernentes à nossa emigração para outro país,
onde, longe da degeneração de Aztlan, ele irá, talvez,
estabelecer-se em paz.
Gostaria que você viesse para cá, e se possível seu filho
também, para um pequeno descanso, para respirar, junto
com o ar puro da montanha, também algo da beleza e
sabedoria que reinam neste povoado fundado por um
homem que, ao menos assim penso (mas naturalmente,
como seu filho, estou inclinado à seu favor), foi talvez o
maior rei que já governou Aztlan.
Estou contando com você... Não se preocupe com o
trabalho, Um amigo meu o assumirá durante sua estadia
conosco e tomará conta das plantações e dos animais.
Poucos meses atrás tive uma longa conversa com meu pai
sobre o crescente poder da oposição, o descontentamento
cada vez maior do povo, e lhe pedi para adiar a emigração, se
possível por alguns meses, talvez um ano. Disse-lhe que
achava ser praticamente certo que dentro de poucos meses
nosso povo seria livre de novo e a emigração desnecessária.
Vou lhe contar o que ele disse, como reagiu ao meu
entusiasmo. Estávamos parados lado a lado na torre do
palácio. Longe, muito longe, eu podia avistar uma linha
estreita intensamente azul: o mar.
Não sei, Beres, se você conhece este lugar, não sei se você
conhece a vista que há daqui de nosso belo país, sua e minha
terra natal. Soprava um vento frio e aos últimos raios do sol
poente o cabelo de meu pai brilhava como prata. Eu ainda
podia escutar em meus ouvidos a minha própria voz, tão
confiante, tão ardente. Olhei para Rahazz, o rosto calmo e
sábio cheio de rugas, com os olhos tão incrivelmente jovens
que mais uma vez, como tantas outras, me senti
surpreendido por eles.
"E quando você dará o sinal para a revolução, Ruan?"
perguntou ele, depois de um longo silêncio sem responder à
minha pergunta quanto ao que pensava a respeito de nosso
movimento.
Por que perguntava? O que queria dizer? Eu não disse nada
por algum tempo, estava confuso e a dúvida que sentia havia
tanto tempo agora me avassalava. Talvez ele temesse que as
coisas saíssem de outro modo, que não conseguíssemos
vencer? Talvez soubesse mais do que eu?
Justiça! Era por isso que esses homens e mulheres haviam
aderido à nossa causa, espontaneamente, ou teriam um outro
motivo, mais poderoso? Liberdade! Parado ali naquela torre
enquanto as primeiras estrelas apareciam, parecia impossível
para mim, mesmo ridículo, que alguém no mundo
escolhesse algo diferente da liberdade, a liberdade que é a
verdadeira herança de nossa Raça. Mas talvez eu, você e os
outros estejamos cometendo um engano em pensar que a
humanidade é menos cega do que é... ou talvez seja que nós
somos cegos e perseguimos ilusões. É possível que eles sejam
apenas realistas vendo as coisas como são.
Apenas mais alguns dias e nosso povo terá de escolher, no
Vale da Luz, seja o que for que na verdade quer e que é seu
por direito.
Até agora eu pensava saber qual seria a escolha, mas não
estou mais seguro de nossa vitória.
Aztlan! Nas eras por vir, algum dia o mundo irá ouvir com
admiração a história de nossa civilização inigualável, de sua
glória sem limites.
Irá então esse mesmo mundo contar também, com respeito,
como esse povo, certa vez, colocado diante de uma escolha
difícil, teve a coragem de escolher sabiamente e bem?
Desde aquela conversa com meu pai, meses atrás, não fui
capaz de responder a essa questão, como pensava ser antes.
Apenas sei, como descobri então, que tenho de ir em frente,
e fazendo o que já tenho feito por bastante tempo.
Não sei o que irá acontecer no Vale da Luz. Até este
momento nenhuma visão me revelou o resultado daquela
reunião. Muitas pessoas já foram para lá e outras mais ainda
estão se encaminhando naquela direção. A princípio, apenas
alguns ousaram, mas então mais e mais se juntaram,
esquecendo os temores. Na entrada do desfiladeiro, vigiado
pelos homens de Zenhar, todos são revistados em busca de
armas, mas tenho notícia de que até agora não encontraram
nenhuma, um bom sinal. Também parece que o Rei deu
ordens especiais: a polícia e os soldados devem deixar os
viajantes seguirem sem perturbá-los. Aquilo está começando
a parecer uma peregrinação...

Capítulo XXII

Desh e Caman estavam de serviço no centro de Dhar,
próximo a uma praça pequena, mas muito movimentada,
rodeada de casas de comércio e de refeições. Haviam
recebido ordens para não interferir nas brigas, discussões e
disputas, a não ser que fosse absolutamente necessário, mas
para ficarem muito atentos a quaisquer fatos subversivos que
estivessem acontecendo.
Mas aqui também não deviam interferir, apenas observar,
ouvir e anotar o que estivesse sendo dito, por quem, e em
especial como o povo reagia. Mais tarde deveriam entregar
relatórios detalhados, não deixando fora coisa alguma que
considerassem importante.
Fazia horas agora que haviam estado caminhando para cima
e para baixo pelas ruas que atravessavam e rodeavam a praça.
"Isto está me aborrecendo até a morte", dissera Desh; agora
estavam sentados na calçada diante de uma pequena taberna
alegremente iluminada e acolhedora, cheia de
freqüentadores embriagados e semi-embriagados com suas
garotas.
Olhando para eles, Desh pensou na palestra que tiveram de
suportar — suportar era a palavra certa, pensou irritado —
sobre raça e relações sexuais.
O oficial que proferira a palestra, ou conversa, ou fosse como
fosse que a chamassem, havia falado de puras e menos puras,
inferiores e superiores, e que aqueles que eram verdadeiros
atlantes deviam tomar cuidado com as companhias em que
andavam, especialmente companhias femininas. Era óbvio
que todos os soldados, todos os que pertenciam às Forças
Armadas, eram puros, de outro modo não seriam soldados.
Tão simples assim!
Quando as coisas chegaram a esse ponto, Desh olhara
intrigado para as membranas de suas mãos. De repente sua
pele parecera acusadoramente azul comparada com o
castanho-avermelhado dos outros. Não havia ouvido com
muita atenção até que o palestrante chegasse a essa parte de
seu discurso, mas Caman, enrijecendo ao seu lado e
deixando escapar um resmungo indignado, o trouxera de
volta à realidade.
— Não importa com quem vocês durmam — continuou
zumbindo o oficial, porém tomem cuidado com os eventuais
resultados. Crianças mestiças não devem nascer. E devem
tomar cuidados especiais para evitar contatos sexuais com o
povo elfo. Nossos cientistas, homens muito renomados,
sérios e conscienciosos, depois de exaustivas pesquisas,
chegaram à conclusão de que uma mistura dessas duas raças
levará sem dúvida ao nascimento de crianças inferiores.
Naquele momento Caman erguera a voz:
— Senhor — disse muito respeitoso, mas com uma nota
irritada —, posso fazer uma pergunta? — e quando o orador
assentira: — Compreendo, então, que ninguém pertencente
às Forças Armadas é considerado inferior, não foi isso que
disse?
O rosto do oficial ficou bastante vermelho. "Ele está mesmo
indignado", notou Desh, divertido, "com a possibilidade de
qualquer um que pertença ao Exército ser considerado
inferior".
— E claro, compreendeu perfeitamente, meu rapaz. É isso
mesmo, isso mesmo. Nossos guerreiros são parte da elite,
descendentes diretos de nosso puro tronco atlante. Temos
de manter isso em mente, sempre.
Desh quase se engasgou. Não devia rir, realmente não devia,
mas era possível que o próprio homem estivesse acreditando
em todo aquele lixo?
Alguns poucos como ele estavam sentados na fileira em
frente e viu-os olhando um para o outro, bastante surpresos.
Então, por sobre os ombros, espiaram-no furtivos para ver
como estava reagindo. Sentiu-os inseguros e confusos: então
eram o resultado inferior da mistura de duas raças, mas o fato
de estarem no Exército os tornava superiores, por sua vez...
— Então, senhor — continuara insistindo Caman, olhando
direto para os seus colegas azuis sentados aqui e ali na
audiência —, sermos soldados nos torna puros mesmo se...
mas aqui o oficial interrompeu-o rapidamente:
— Foi o que eu disse, meu rapaz. Você compreendeu bem,
você tem uma mente ágil. E esse é o fim da conversa — com
isso desceu da plataforma de onde estivera proferindo sua
palestra, enquanto os homens se levantavam
respeitosamente esperando que saísse da sala.
E agora estavam sentados na calçada; sentar-se era permitido
em serviço desde que não se freqüentasse as tabernas. Em
especial, era preciso abster-se de beber.
Caman estivera monossilábico desde o final daquela palestra.
"Engraçado", pensou Desh, "ele parece mais zangado do que
eu. Era eu quem devia estar preocupado com minha pele
azul, minhas orelhas pontudas." Conhecia pessoas que
haviam se submetido a operações nas mãos e nos pés, mas
que não tinham tido sucesso em eliminar o tom azul de suas
peles. Por isso haviam inventado que aquela cor era devido à
descoloração, algo errado com a pigmentação e que no final,
depois de muitos anos de tratamento, o castanho-
avermelhado natural iria voltar, embora muito lentamente.
Não deviam permanecer ao luar, contudo, pois era devido a
isso que haviam se tornado tão azuis.
Ao se lembrar disso, Desh começou a rir consigo mesmo e,
depois que contou a Caman sobre o que estava pensando,
seu amigo se juntara a ele no riso até que ambos ficassem
com os olhos marejados de lágrimas.
Estava escuro agora e algumas garotas, todas definitivamente
atlantes puras, notou Desh, saíram da taberna, procurando
clientes. Uma delas se encaminhou para ele, mas, olhando
melhor, recuou depressa. Seria possível que mesmo as
prostitutas haviam sido prevenidas para não se ligarem ao
povo elfo?
Ao pensar a respeito, descobriu que nunca havia visto uma
mulher-elfo pura (a palavra estava começando a soar odiosa
em seus ouvidos) se prostituindo, na certa porque elas não
tinham necessidade de vender seus corpos para poderem
comer. Ao passar fome podiam voltar naturalmente ao seio
de seu povo onde seriam recebidas de braços abertos pela
comunidade. Os elfos, sabia, tinham suas próprias posses
individuais, como roupa, casas e outros objetos, mas o
alimento plantado e o mel colhido pertenciam a todos e
ninguém jamais passava fome entre eles.
Devia ter sido a polícia quem prevenira as prostitutas,
pensou, era possível que tivessem assistido a alguma palestra
também, todas as garotas reunidas diante de um oficial de
polícia sendo informadas sobre quem era inferior é quem era
superior, e se por acaso tivessem de ter um bebê, nunca
deveriam tê-lo de um homem-elfo. Mas de que modo seria
possível para uma prostituta saber quem era o pai de seu
bebê antes que fosse tarde demais?
Estava discutindo o assunto com Caman quando foram mais
uma vez abordados por uma das garotas, que se dirigiu a
Desh e lançou os braços ao seu redor, à primeira vista não se
preocupando nem um pouco com sua aparência não-atlante.
Ele se levantou, a moça pendurada em seu pescoço e
dizendo entre beijos:
— Uma vez que você é um soldado — e deu uma risadinha
—você é puro, pois ninguém que pertença ao Exército pode
ser impuro — ela puxou sua cabeça e beijou-o, entreabrindo
os lábios para ele, o corpo colado ao seu, fazendo-o arrepiar-
se todo.
Ele retirou os braços dela do pescoço. Com efeito, ela estava
bem informada:
— Lamento boneca, mas estamos em serviço. Nada feito esta
noite.
Agora os lábios dela roçaram leves sua orelha, e ele pôde
ouvir as palavras murmuradas:
— Na lua cheia. Vale da Luz.
E depois ela desapareceu, perdida na confusão de gente ao
redor.
Começaram a caminhar através da praça outra vez. Aquela
hora da noite havia muitas pessoas por ali, algumas sozinhas,
outras em grupos e vários casais sentados pelos bancos,
esquecidos do que os rodeava.
Nunca foram capazes de se lembrar como tudo começou. No
meio de toda a aparência casual, pequenos grupos
começaram a formar-se aqui e ali, discutindo os eventos do
dia, os amigos cumprimentando-se ruidosamente.
Sob as poucas lâmpadas, os grupos engrossaram e as vozes,
de início bastante altas, ficaram mais baixas. Caman viu
alguns homens emergirem do nada e caminharem
lentamente até atingir o maior dos grupos que se formava no
meio da praça, sem participar, apenas ouvindo. "Espiões do
governo", pensou, "o que será que acham de tão interes-
sante?" Daquela distância não podiam ouvir o que estava
sendo dito, de modo que também começaram a caminhar na
direção do grupo, que já estava atraindo a atenção de muitos
passantes curiosos.
Quando chegaram mais perto, viram um dos agentes vindo
em sua direção.
— Algo está acontecendo aqui. Observem com atenção e não
se afastem muito.
— Deram-nos ordens para apenas observar e de modo algum
interferir — disse Desh, surpreso. — Quais foram as suas
ordens?
O agente suspirou.
— As mesmas. Por um momento esqueci. Era mais fácil
antes. E me pergunto o que eles têm em mente.
— Não "eles" — corrigiu Caman em tom seco —, "ele". As
ordens vieram direto do Rei.
— Sim, eu sei. E naturalmente está deixando as coisas
correrem porque deseja apanhá-los a todos de uma vez. E
então será um inferno.
Caman concordou.
— Ele sabe o que está fazendo. Toda a diversão virá mais
tarde, é claro.
Parado no meio do grupo que estava atraindo tanta atenção,
um homem falava, excitado.
— Eu sei. Ouvi um deles explicando tudo há uns dias. Dizem
que era o filho de Rahazz, mas eu não podia ter certeza.
Nenhum de nós jamais o havia visto antes.
Vários homens e mulheres estavam agora se aproximando do
grupo central. "Oh, como se pode ficar conspícuo", pensou
Desh. Se todos eram agentes do governo e policiais à
paisana, como se podia saber que os outros também não
eram? Mas o público não parecia se importar, embora com
certeza estivesse consciente de sua presença. O Rei não
havia proibido qualquer prisão até a lua cheia?
— Você o ouviu falar? Quando falou, eu soube que estava
certo, estou cansado da repressão, as pessoas estão sendo
presas, torturadas e mortas apenas porque não concordam
com a injustiça, a opressão. Sem um julgamento, sem um
defensor para representá-las diante das cortes.
- O que aconteceu à justiça?
Outro disse, concordando:
— Dizem que o poder do Rei está diminuindo. Os Toltecas
estão ganhando influência no país. A oposição está ficando
mais forte. E lembra-se do sinal? O Festival de Poraj, o
animal do rei batido por um cão comum, verdadeiro, vivo?
— E quanto àquela mensagem? — era uma mulher que falava
agora. — Todos sabem a respeito da mensagem e muitos já
estão a caminho do vale.
— E o Rei proibiu qualquer prisão até lá. Por quê? Isso não
significa que ele quer ganhar nossa simpatia? Quer mostrar
que não é tão desumano como todos pensamos?
Nesse ponto uma voz feminina, duvidosa, disse:
— Mas o que não sabemos... poderia ser uma armadilha, não
é mesmo? Nesse caso, que Deus nos ajude a todos!
— E quanto aos sacrifícios no templo? Os sacrifícios ao Sol?
Eles nunca aconteciam quando Rahazz ainda governava.
Antigamente nenhum sangue era derramado nos altares,
fosse de homem ou animal.
Nesse ponto fez-se um silêncio súbito, todos os olhos
voltados para o orador, embora ninguém concordasse ou
discordasse às claras.
A religião era realmente outro assunto. Aqui era preciso
evitar pisar em terreno sagrado. Os sacerdotes não haviam
explicado repetidas vezes sobre a necessidade de sacrifícios
de vidas humanas ao Coração Solar? Que as vidas de animais
não eram suficientes? Que esses sacrifícios eram em
benefício de toda a raça humana, que iriam fortificar o Sol e
assim a todos os seres humanos, contribuindo para torná-los
mais saudáveis, mais fortes?
Mas durante o reinado Tolteca qualquer tipo de sacrifício
havia sido proibido. Teria sido por isso que a dinastia perdera
a guerra?
Ninguém prestou qualquer atenção a um pequeno
transporte, compacto, negro, detendo-se silencioso à entrada
de uma rua lateral.
Dois homens desembarcaram, um deles muito alto, o
segundo mais baixo. Ambos vestiam mantos escuros sobre as
roupas. Aproximaram-se devagar da multidão, que estava
ficando cada vez maior e, mais excitada, esgueirando-se por
entre as fileiras de pessoas, o mais baixo um pouco atrás do
outro, até se encontrarem a poucos passos do orador
principal.
— ... governante cruel e desumano. Foi ele que ordenou o
massacre das tribos, não poupando ninguém; foi ele que
decretou a lei de que não seria necessário um julgamento
justo para um rebelde.
Os dois homens que haviam acabado de chegar, decidiram
agora afastar-se um pouco da multidão, parando diante de
Desh e Caman. O mais baixo deu um suspiro de alívio.
— Aqui é melhor. Se alguma coisa acontecer, esses dois
podem ajudar-nos — disse, fazendo um gesto na direção dos
soldados.
O homem alto assentiu, observando:
— Está muito assustado, capitão? Não irá acontecer nada
comigo.
O capitão protestou, indignado:
— Estou aqui para protegê-lo. Uma multidão que escapa ao
controle pode ficar muito perigosa. Por que não quis trazer o
resto da guarda? E se o reconhecerem?
— Não podia importar-me menos. Não tenho medo dessa
gentalha miserável, capitão. Mas, se você tem, está livre para
ir embora.
Essa discussão travou-se num sussurro abafado, mas Desh, o
ombro quase tocando o do capitão, ouviu e admirou-se. Deu
uma rápida olhada para os dois. O que queriam dizer? Por
que o medo? O capitão, ofendido, não disse mais nada.
— ... revolução! Talvez mesmo as forças armadas se juntem a
nós se... — o resto das palavras foi abafado por um aplauso
desencadeado pela palavra "revolução".
O capitão sibilou:
— Quer que os faça prender, Sire? Isso fará com que todos se
calem.
— Não! Que memória curta você tem... Lembra-se de
minhas ordens?
Engolindo em seco, Desh deu um passo involuntário para
trás. Yahali, acompanhado pelo capitão de sua guarda! Olhou
ao redor, desejando estar longe, notando que Caman não
havia ouvido, estava seguindo com grande interesse cada
palavra dita pelos oradores.
Aos poucos os homens e mulheres na praça ficaram mais e
mais excitados, acusando amargamente seu Rei, chamando-o
dos piores nomes, todo o temor esquecido. Muitos fregueses
das casas de bebidas ao redor, começaram agora a aproximar-
se, aplaudindo e brincando com os outros, embora sem saber
exatamente por quê. Para suas mentes semi-embriagadas,
atordoadas, era suficiente participar de algo que parecia valer
a pena, embora não tivessem a menor idéia do motivo.

Capítulo XXIII

Foi quando a excitação atingiu o auge, todos aplaudindo e
gritando, um orador tentando falar mais alto que os outros,
que uma gata cinzenta se aventurou a atravessar a praça,
carregando na boca um gatinho preto.
— Opa, o que temos aqui? — um dos homens, um dos
primeiros que haviam gritado "Abaixo Yahali!", bradou: —
Vejam só o que temos aqui!
Rugindo de riso, inclinou-se e agarrou a gata pelo pescoço. E
então, voltando-se para os outros, teve uma idéia brilhante.
Seus olhos faiscavam:
— Olhem — disse, sacudindo a gata —, olhem, este é Yahali
e nós vamos sacrificá-lo! Vamos matá-lo como ele mata os
outros!
Foi saudado por aplausos selvagens. De todos os lados as
pessoas se lançavam para diante, excitadas, ansiosas por não
perder nada do espetáculo. Nenhum protesto foi ouvido.
Ágata tentou livrar-se, desesperada, deixando cair o gatinho
em seus esforços para desvencilhar-se da mão que a
segurava. Alguém agarrou-o, rindo alto:
— O grande é Yahali e o menor é aquele sacerdote, Däat.
Vamos acabar com ambos... Para o altar! — e em poucos
momentos um altar estava pronto, improvisado com o
emprego de pedras e de mantos.
— Primeiro Däat — gritavam. — Primeiro o sacerdote.
Depois o Rei. O Rei por último!
Um homem, segurando o gatinho preto pela pele do
pescoço, deu um passo à frente para colocar o animalzinho
sobre o altar. Este permaneceu ali, tremendo, incapaz de
reagir, paralisado pelo medo, miando por sua mãe.
Todos estavam tentando passar à frente uns dos outros,
empurrando, acotovelando-se, esticando os pescoços.
Yahali, mais alto que a maioria, viu o ódio misturado com a
delícia naquelas centenas de olhos. Sabia que aos olhos dos
espectadores boquiabertos, os dois animais haviam sido
transformados nele próprio e em Däat. Uma expressão de
satisfação triunfante espalhou-se lentamente por seu rosto.
A voz do homem diante do altar se fez ouvir, clara:
— Primeiro, arrancaremos os olhos, os olhos do tirano. Mas
não muito depressa, vamos devagar. Para que ele possa sentir
o que suas vítimas sentem. Primeiro, um olho... depois, o
outro... Muito, muito devagar...
Ele riu enquanto pronunciava as últimas palavras. Não era
um riso agradável. O gatinho preto tentou escapulir. Com os
olhos ainda azulados pela pouca idade, olhou para a multidão
que barrava seu caminho para a liberdade. Miou mais uma
vez.
De início a gata cinzenta apenas sentira medo. À total falta
de misericórdia que conhecera durante toda a sua vida,
desde que havia nascido numa valeta suja, sempre reagira
com medo. E com um desejo avassalador de escapar de tudo
que a ligava de modo inseparável ao seu pior inimigo: o
homem.
Era uma gata suja, muito insignificante, uma orelha rasgada,
uma ferida semi-aberta na cabeça. Ninguém no mundo
esperava que ela se comportasse como uma supergata. E em
condições normais ela teria agido simplesmente como eles
esperavam: como uma pobre besta, suja e covarde.
Assim, ninguém estava preparado para o que aconteceu.
Algo preto e macio que lhe pertencia estava em perigo e
chamando por ela. Era seu papel proteger seu filhote.
Uma fúria selvagem, um relâmpago cinzento, atirou-se
contra o homem junto ao altar, uma criatura perigosa, de
olhos verdes, que abriu profundos arranhões sangrentos em
seu rosto.
O homem deixou escapar a faca, berrando de dor e fúria,
caindo para trás. Mas quando a gata atacou pela segunda vez,
estava preparado. Recuperando-se, conseguiu segurá-la.
Praguejando, manteve-a à distância do braço até que alguém
a apanhou. Ele se inclinou sobre o gatinho, a faca pronta, o
silêncio ao seu redor ainda maior.
-— Não! Não! — em meio ao silêncio, a voz feminina,
aguada, foi ouvida por todos. — Soltem-nos! Eles não são
Yahali. Eles não são nada além do que são. São apenas gatos.
Eles também querem viver. Deixem- nos em paz!
Abrindo caminho a cotoveladas ela alcançou rápida a
primeira fileira de espectadores e agarrou o braço do homem
quando este estava prestes a baixar a faca.
— Você não se envergonha? — ela desviou a faca, no
momento exato, a força de seu braço muito maior do que
alguém poderia esperar de uma mulher tão delgada.
Tlatli, a vidente, estava voltando para sua aldeia, depois de
ter sido consultada por um aristocrata muito rico, membro
da corte de Yahali. Era o tipo de cliente que detestava, tudo
que desejava saber era se a sua última mulher voltaria para
ele, se tinha outro e se retornaria se lhe desse muito mais
dinheiro e jóias do que já dera. Não desejando desperdiçar
mais dinheiro com a mulher se não tivesse certeza de que
ela voltaria, mandara buscar Tlatli. Seu último amor voltaria
novamente aos seus braços?
Ela lhe dissera sem rodeios que a mulher não voltaria, que já
havia descartado o homem com quem o havia "traído" por
um outro, como ela havia "traído" tantos antes dele, sempre
à procura de quem lhe proporcionasse mais.
E que seria melhor que cuidasse de sua saúde e esquecesse as
mulheres por algum tempo, acrescentara, ao notar a grande
mancha negro-esverdeada estagnada em sua aura ao nível
dos rins e a cinza-escura na altura do fígado. Quanto aos seus
órgãos sexuais, ou melhor, à área da aura que os rodeava,
estava numa total e preguiçosa miséria castanho-
avermelhada.
O medo havia aparecido de imediato nos olhos dele. De que
estava sofrendo e que remédio deveria tomar? Mas não,
sempre cuidara muito bem de seu corpo, alguém deveria
estar desejando sua queda e contratara um feiticeiro para
destruí-lo, invejoso de sua capacidade no amor, sua
influência sobre o Rei (que existia apenas em sua
imaginação).
Ela lhe havia dito que ele próprio era seu pior inimigo e que
sua maneira de viver, comendo quantidades demasiadas de
alimento muito gorduroso, abusando no consumo de bebidas
fortes, substituindo febrilmente uma mulher por outra em
sua cama no esforço de provar sua virilidade, a qual, quando
jovem, havia sido fabulosa, estava acabando com ele.
Nenhum feiticeiro era responsável. Havia-lhe prescrito uma
dieta rigorosa de grãos, muitas frutas e legumes, nenhuma
comida gordurosa, nada de bebidas alcoólicas, pouca carne e
apenas duas refeições por dia. E longas caminhadas diárias.
Ele anotara tudo com seus dedos gordos numa folha de papel
amarelado fino, mas ela sabia que tentaria seguir a dieta no
máximo por dois dias, voltando depois ao seu modo de vida
alegre, dissipado e doentio, certo de que ela não passava de
mais uma charlatã atrás de seu dinheiro em troca de nada.
Entretanto, fora cuidadosa pedindo o pagamento adiantado,
com o que, embora relutante, ele terminara por concordar.
Como despedida, dissera-lhe por sobre o ombro que ele
estaria morto em breve se não seguisse o seu conselho, que
seus rins e fígado já se achavam num estado lastimável. E
lógico, ele não acreditara. Nunca acreditavam, preferindo
pensar que eram vítimas inocentes de um inimigo maligno.
E agora estava indo para casa, a criança em seu útero
mexendo-se continuamente, desde que descera do
transporte público perto da praça, decidindo de repente que
gostaria de caminhar até em casa o resto dos trinta
quilômetros. Caminhar não era problema para ela e seria
muito bom para a criança também.
Estava ansiosa por alcançar a aldeia, mesmo sabendo que
apenas uma casa vazia estava à sua espera. Desde que perdera
o marido, um bêbado imprestável, não conhecera ninguém
interessante ou excitante o bastante com quem partilhar sua
cama. Mas a aldeia era tranqüila e muito bonita, e ela era
respeitada ali por sua profissão. Foi quando, atravessando
apressada a praça, ouviu os gritos e risos: "Este é Däat!
Arranquem-lhe os olhos, depois arrancaremos o coração,
como é o costume". E outras vozes: "Não é assim que se faz.
Você é desajeitado. Dê-me o gato. Vou lhe mostrar como
é..."
Num vislumbre percebeu o que estava acontecendo. O
homem com a faca segurando o gatinho no alto e o outro
agarrando uma gata cinzenta que tentava desesperada e
inutilmente libertar-se. "Mãe e filhote", pensou. "Vou me
tornar mãe também, mas meu filho ainda está dentro de
mim. O dela já está fora e ela está desesperada para protegê-
lo."
O que fez foi inteiramente por impulso: correu para o
homem com a faca e desviou seu braço, protestando.
Ele olhou-a com descrédito: uma mulher grávida, magra,
grandes olhos de gazela, cabelo negro e brilhante. Não podia
ter sido sua mão que desviara seu braço. Parecia muito frágil.
A multidão começou a gritar, com impaciência. Por que
aquela demora? O que estava acontecendo?
— Vá em frente. Vamos acabar com isso! Matem os tiranos!
O que estão esperando?
Tlatli protestou novamente:
— Não! São apenas gatos. Vocês não devem... mas suas
palavras se perderam entre os gritos e o ruído.
Pior. O homem segurando o gatinho examinou-a, e então,
com uma expressão irritada espalhando-se pelo rosto, berrou
para os espectadores:
— Estão vendo o que ela está fazendo? Está interferindo com
nossa liberdade, com nossos direitos. Aquele homem não
disse que devíamos libertar-nos, que tínhamos o direito de
sermos nós mesmos, escolhermos por nós mesmos. E isso
que faremos. Vamos sacrificar os tiranos aqui e agora!
— Não! — interferiu Tlatli outra vez, tentando tirar o gatinho
dele. — Dê-me o gatinho. Você não tem o direito... apenas
para ser empurrada para o lado com tal violência que
tropeçou e perdeu o equilíbrio, caindo no meio da multidão
que havia recomeçado a avançar.
Tentando levantar-se, caiu outra vez, sentindo alguém pisar
em sua mão, que recolheu antes que outros a pisassem
também, tentando proteger a barriga, gritando com todas as
forças, pedindo-lhes para terem cuidado e a ajudarem.
Alguém a suspendeu pelo braço, praguejando com irritação,
e outro, segurando-a pelos sovacos, alçou seu corpo,
colocando-a em pé de novo. Quem? Dois soldados, um de
cada lado, estavam protegendo-a com seus corpos, gritando
com as pessoas ao seu redor, abrindo caminho
agressivamente com os ombros e as ancas. As pessoas, mais
acalmadas com aquela explosão de raiva, continuaram
pressionando, porém com menos intensidade.
O homem, que segurava a gata cinzenta, mostrava-a agora
para todos:
— Vamos acabar com os dois de uma vez só! Por que perder
tempo? — e puxou do cinturão uma pequena faca, de
aspecto perigoso, muito afiada.
— Parem com isso! — exclamou uma voz fria e zangada.
— Parem com isso já, seus tolos estúpidos e loucos. O que
pensam que estão fazendo?
— Parar com isso? O que está querendo dizer? — disse o
homem que havia empurrado Tlatli, olhando intrigado.
Tragam esses gatos aqui — disse o outro, em voz alta e
autoritária, abrindo caminho através da multidão.
— O quê? Não vou fazer isso! Quem é você para interferir
desse modo? Não ouviu o discurso hoje, aqui neste mesmo
lugar? Não ouviu aquele homem falando contra o tirano? Ele
disse, eu me lembro de quase todas as palavras, ele falou tão
bem... nós temos o direito de viver do modo que queremos,
de ser livres. Quem é você? O carrasco de Yahali?
Uma lufada de vento, chegando do mar, derrubou o capuz
que estivera cobrindo a cabeça do recém-chegado, fazendo
com que o sacerdote e o torturador de mentira ofegassem.
— Mas foi a você que ouvimos hoje! Foi você que falou de
liberdade, justiça e direitos para todos nós. E agora quer que
poupemos os tiranos?
A gata cinzenta rosnava e arranhava a mão do homem, o
gatinho estava muito quieto, apenas os olhos demonstravam
o medo que sentia.
Os olhos de Ruan cravaram-se nos do homem.
— Sim, aquele era eu. E agora, dê-me os gatos.
Os dois homens hesitaram sem compreender, atônitos. Mas
o tom de voz de Ruan e a raiva em seus olhos fizeram-nos
obedecer. Sem mais palavra, entregaram os gatos, que Ruan
aninhou nos braços, onde se comprimiram contra seu peito,
sem tentar fugir. A gata cinzenta começou logo a lamber o
filhote.
Quando Ruan havia compreendido o que estavam por fazer,
a certeza exaltada que sentira durante a última semana
abandonara-o de repente, deixando em seu lugar apenas
dúvida e fúria.
Haviam-no ouvido falar naquela manhã. Poucos momentos
antes estavam falando sobre a revolução, sobre a liberdade,
contra a tirania insofrível, a crueldade, sobre seus direitos
como seres humanos.
Mas ali estavam, ansiosos por torturar e matar animais
inocentes como substitutos do Rei e de seus sacerdotes.
A multidão, perplexa com a súbita virada dos
acontecimentos, a segunda interferência em sua diversão,
voltara a murmurar, um murmúrio que se avolumou quando
as pessoas começaram a apertar por todos os lados o círculo
ao redor do estrangeiro alto.
— O que ele está pretendendo? O que está fazendo com os
gatos? Será possível...? Não é o mesmo homem que esta
manhã falou com tanta convicção sobre justiça e liberdade?
E não quer que façamos a nosso modo, que nos divirtamos
apenas um pouquinho? Então sua conversa sobre liberdade é
apenas conversa, senhor? Talvez esteja representando outro
tirano, querendo tomar o lugar de Yahali? Não dêem ouvidos
a ele! Tirem os animais dele. Vamos acabar com tudo isso de
uma vez.
Outra voz se elevou:
— Não, deixem que se explique. Vamos ouvir o que tem a
dizer.
Ruan ficou em silêncio, olhando para os rostos expectantes,
os
olhos ansiosos voltados em sua direção. "Explicar, devo
explicar", pensou. Explicar o quê? Seria possível que eles não
compreendiam, que nenhum deles, com exceção apenas
daquela mulher, quase pisoteada até a morte, havia sentido a
piedade, a indignação e a raiva que ele sentira? "Somos todos
seres humanos juntos, eles e eu... Como é possível que exista
tal abismo entre nós?" A expressão dos olhos deles era de
espanto, perplexidade, não tinham a menor idéia de por que
ele tirara os gatos de suas mãos. Sentiu a si mesmo se
acalmando, a fúria dando lugar ao espanto, ao descrédito e,
por fim, à tristeza. Sentiu-se vazio, impotente. Sua
explicação, qualquer explicação, seria em vão. Eles não iriam,
não poderiam compreender. A vida, o sofrimento dos gatos
nada significavam para eles, como suas vidas nada
significavam para seu Rei e seus sacerdotes. A sensibilidade
estava completamente ausente, não havia nada capaz de lhes
abrir os olhos, de fazê-los ver o que estavam por cometer.
Compaixão, liberdade, piedade apenas adquiriam valor aos
olhos dessa gente quando aplicadas a eles próprios e suas
famílias. Aplicados aos outros, esses valores não significavam
absolutamente nada. Desde que as coisas más fossem
mantidas afastadas de suas portas, de suas vidas individuais,
não lhes importava o que acontecesse a seus vizinhos. Como
seria capaz de explicar o que sentira em relação aos gatos?
Assim, compreendendo, continuou olhando para eles, os
animais nos braços, incapaz de dizer qualquer coisa,
sentindo-se cansado.
Quando afinal falou, sua voz não estava zangada, nem fria.
— Explicar? — encolheu os ombros. — Querem dizer que
ninguém pensou sequer por um instante nos gatos? Eles
também têm direito à vida e à felicidade, exatamente como
todos os outros seres vivos.
Um silêncio curto e surpreso. Depois, alguém falou:
— Esses gatos? Mas eles são apenas animais! O que quer
dizer, senhor?
E outros:
— Está querendo dizer que eles também têm direitos? Mas
suas vidas não valem nada, com certeza. O que quer dizer,
na verdade?
Ele abriu os lábios para tentar explicar o que era para ele tão
simples, tão natural quanto respirar. Mas as palavras não
vieram, de que adiantava falar? Sentiu como Tlatli, ao seu
lado, tomou-lhe suavemente os gatos, ouviu-a sussurrar:
— Tomarei conta deles.
Outra voz, uma voz profunda, melodiosa, plena de zombaria,
disse:
— Mas é possível que não tenham compreendido o Príncipe?
Eu mesmo não o acho tão difícil.
Aquela voz! Um choque percorreu a multidão, um medo
terrível tomando conta de todos. Aquela voz tão conhecida!
O Rei ali, entre eles. Talvez tivesse estado ali por bastante
tempo, ouvindo o que disseram. Meu Deus, o que haviam
mesmo dito? E quem era esse a quem ele chamara Príncipe?
O primeiro desejo da maioria deles foi fugir, sair dali o mais
rápido possível, cada qual tentando recordar o que havia dito
a seu respeito, lembrando-se com clareza que tudo era alta
traição. Queriam fugir, mas seus pés permaneciam arraigados
ao solo, mantendo-os ali, o suor frio brotando de todos os
poros.
Mas o Rei não prestou qualquer atenção aos homens e
mulheres acovardados que o rodeavam. Via apenas aquele
único homem, parado, ereto como uma lâmina, no meio da
praça semi-iluminada.
Seus olhos se encontraram, os cinza-escuros ainda
demonstrando tristeza, e os negros como carvão, profundos
poços imóveis. Yahali viu que o jovem arrogante que o havia
enfrentado muitos anos antes mudara. Durante aquele
encontro na Floresta de Iavak, quando Ruan tentara salvar
Sheon-La, Yahali vira de imediato os pontos fracos em sua
armadura espiritual. Mas agora... "Com certeza você
amadureceu filho de Rahazz", pensou.
— É mesmo uma surpresa, Príncipe — disse em voz alta. —
Lembra-se de nosso último encontro?
— Lembro-me. E fui derrotado aquela vez — respondeu
Ruan, um semi-sorriso nos lábios.
— Eu sempre venço — a voz grave estava muito segura,
muito calma. — Nunca falho.
— Ou melhor — interrompeu Ruan, ignorando suas palavras:
— Ambos fomos derrotados aquela vez. Os poderes que
evocou eram como nada contra a Luz que não respondeu ao
meu apelo desesperado. E outra pessoa, que nunca recebeu
qualquer treinamento, nem era Iniciada de qualquer espécie,
invocou a Luz e obteve resposta.
Enquanto falava, Ruan sentiu uma imagem esquecida
colocar-se à frente de todas as imagens que sua mente
abrigava. Aquela memória veio de um passado distante e,
embora se anunciasse com insistência, não se tornava clara,
permanecendo vaga, os contornos indistintos.
E Yahali também tomou consciência de algo que relacionava
ambos, amarrava-os um ao outro.
Ruan viu uma planície verde sob um sol quente, sentiu uma
brisa suave agitando-lhe o cabelo. Tentou ver mais, mas a
imagem se desvaneceu, desaparecendo, e o presente voltou a
ser o agora. Para sua surpresa, ouviu a própria voz.
— Mas não se lembra daquele outro encontro, ó Rei? Muito
tempo se passou desde então.
Yahali permaneceu rígido. Seus olhos não deixavam o rosto
de Ruan e ele se inclinou para diante, uma ruga na testa,
tentando lembrar- se.
— Mas quero avisar a ambos — disse Ruan de uma maneira
estranha, e automática, parecendo repetir as palavras de um
outro —, tenham cuidado, porque um laço desse tipo é
muito forte, difícil de desfazer, e o caráter de ambos é muito
diferente. Estão seguros do passo que querem dar, vocês
dois?
Yahali pôde se ouvir respirando pesadamente. Essas palavras,
onde e quando as havia ouvido, por que sentia que eram
importantes para ele, ou haviam sido outrora? Um aviso
despercebido?
Mas não teve tempo de pensar mais a respeito porque de
súbito Ruan se dirigiu à multidão:
—Atlantes! Não era vosso desejo ainda há pouco colocar as
mãos sobre aquele que é a causa de vosso sofrimento, vossa
miséria? Não queríeis matá-lo? Se é assim, ei-lo aqui! Há
apenas um homem para defendê-lo e vós sois muitos. O que
estais esperando?
Yahali endireitou o corpo, pareceu que se elevava acima de
todos, seu olhar duro, frio e desdenhoso fixo nas pessoas
diante de si. Sabia que eles tinham um único desejo naquele
momento: desaparecer da praça, de sua presença.
— Sim... O que estais esperando, meu povo, meus súditos
fiéis? Por que não seguis o conselho do Príncipe? Não éreis
vós quem desejava cegar-me, arrancar-me o coração ainda
há poucos momentos? Bem, aqui estou eu, à vossa
disposição, eu, vosso Soberano, o Sumo Sacerdote de vosso
país.
Ninguém se mexeu. Nenhum deles sequer olhou em sua
direção, todas as cabeças estavam baixas. Ninguém ergueu a
voz para encorajai-os outros. Ficaram parados, olhando para
o chão, e estavam assustados.
Então, abruptamente, o tom da voz de Yahali mudou,
tornando-se cortante, feroz e sibilante:
— Vão! Vão imediatamente! Agora! Não tentem se
esconder... meus homens irão encontrá-los, não há um rosto
entre vocês que irei esquecer. Vão para casa e esperem pela
punição que merecem. A punição por alta traição.
Então se foram. Um por um, sem ousar sequer levantar os
olhos para a figura imperiosa e triunfante do senhor de seus
destinos, foram se afastando, silenciosos.
Por fim apenas três permaneceram: Yahali, Ruan e o capitão
da guarda, este último agradecendo aos seus astros por não
ter havido necessidade de provar sua coragem contra
centenas.
— Agora diga-me, Príncipe, quem venceu desta vez?
— Você, ó Rei — respondeu Ruan. — Você venceu, pois o
medo é um poderoso aliado e a sua fama é conhecida. Mas
agora, devo partir
- sem o menor sinal de zombaria, inclinou-se, saudou e
então disse, depois de endireitar o corpo:
— Esta saudação não é para o assassino impiedoso, para o
Sumo Sacerdote egoísta e cruel deste país, mas para o Rei de
Aztlan. Porque, até que o tempo demonstre o contrário, isso
sem dúvida você é!
— Até nosso próximo encontro — disse Yahali —, até o
encontro último e final.
— Que assim seja — Ruan voltou-se e desapareceu nas
sombras escuras de uma ruela estreita.
— Mas por que não o prendemos? — perguntou o capitão. —
Por que não acabamos com ele de uma vez por todas? Havia
vários agentes à paisana presentes aqui. A um sinal meu eles
poderiam ter convocado a guarda.
— Prendê-lo? Isso não teria sido tão fácil. Antes que os
soldados chegassem, ele teria liquidado você. E você se
esqueceu novamente de minhas ordens?
— Ele teria liquidado comigo? Não há dúvida que esse fracote
afeminado não é páreo para mim.
Yahali olhou-o de alto a baixo, zombeteiro. O homem
irritava-o com freqüência. O antigo capitão de sua guarda,
Zoar, fora diferente: inteligente e honesto. Este era apenas
estúpido e presunçoso.
— Fracote afeminado, capitão? Por certo não podemos estar
falando sobre o mesmo homem.
O capitão fez um gesto de indescritível desprezo.
— O modo como ele ficou comovido por aqueles gatos. Eu
não ficaria surpreso se ele explodisse em lágrimas.
Provavelmente ter-se-ia rendido sem resistência. Mas, quem
é ele, Sire... ouvi-o chamá-lo de Príncipe?
— Oh, ninguém... um mero fracote afeminado — veio a
resposta seca. — E também um grande guerreiro, um dos
melhores do país. O último descendente da dinastia Tolteca.
O capitão precisou de todo o caminho de volta ao palácio
para digerir essa informação incrível. Então, quando entrou
com o transporte através dos altos portões, disse afinal:
— Príncipe Ruan? Mas eu não compreendo... poucos
guerreiros são como ele. Então por que esse sentimentalismo
com os gatos?

Desh e Caman haviam escoltado Tlatli até estarem longe da
multidão e chegaram a uma estrada que se afastava da cidade.
— Não podemos ir mais longe — disse Desh —, já estamos
fora da área que devíamos estar patrulhando. Tem certeza de
que ficará bem?
Tlatli assentiu. Soltou os gatos, observou-os correndo através
de um trecho limpo do campo, o gatinho saltando ao redor
da mãe.
— E melhor vocês ficarem longe dos humanos — disse-lhes
ela —, eles não merecem confiança.
Agradecendo aos soldados, ela se afastou apressada,
caminhando com passo firme e decidido. Os dois homens
voltaram ao dever sem demonstrar muita pressa. Viram uma
moça vir correndo da direção oposta; esta tropeçou e teria
caído se Caman não a tivesse amparado. Reconhecendo-a de
imediato, Desh disse:
— Ei, o que você está fazendo aqui? A noite mal começou
ainda e os seus fregueses devem estar esperando-a com
impaciência, tenho certeza.
Era a garota que o havia beijado antes naquela noite,
passando- lhe a mensagem. Reconhecendo-o também, ela
respondeu, sem demonstrar muita simpatia:
— Fregueses? Não se preocupe com meus fregueses, senhor.
Nunca dormiu com uma prostituta? — e sem esperar pela
resposta: — Por que todos parecem pensar que há uma
diferença moral entre os homens que gastam o seu ouro para
pagar por sexo e as mulheres que compram? São exatamente
a mesma coisa, você sabe. Aquelas garotas não são melhores
nem piores do que os homens com quem se deitam.
'"Aquelas" garotas, não "nós" garotas, notou ele. "Então ela
não é uma delas, estava apenas fingindo."
— Não me importa o que você é — disse —, mas gostaria de
conhecê-la melhor. Que acha disso?
Ela olhou-o, erguendo as sobrancelhas, zombando:
— Talvez um dia desses, hem? Como disse antes, você está
de serviço e eu também. Que tal nos encontrarmos no Vale
da Luz, depois de amanhã?
Ela soprou-lhes um beijo e recomeçou a correr. "Está de
serviço", pensou ele, "muitas outras mensagens a passar,
aposto. Mas como poderei encontrá-la, a não ser que me
designem para lá?"
Chamou por ela:
— Espere, por favor. Não devia andar sozinha a essa hora da
noite. Devia saber disso!
Ela parou de correr e esperou até que ele a alcançasse:
— Não se preocupe, soldado. Sou uma mulher guerreira.
Gostaria de me pôr à prova?
Ele segurou seus braços inesperadamente e beijou-a,
soltando-a de novo antes que pudesse reagir.
— Não, não gostaria. Não desse modo. Mas estou morrendo
de vontade de pô-la à prova de outra maneira, muito mais
deliciosa.

Capítulo XXIV

Os relatórios que chegavam dos agentes rebeldes infiltrados
por todo o país nas Forças Armadas eram mais ou menos os
mesmos. Poucos pareciam dispostos a arriscar suas carreiras,
senão suas vidas, e aderir à causa rebelde. O Rei era
conhecido por conceder favores especiais aos militares, os
salários eram altos mesmo para os de patente mais baixa e
nem o clero desfrutava da atenção real dispensada às Forças
Armadas.
Não obstante, muitos soldados e oficiais, e até mesmo
unidades inteiras, admitiam que, em caso de guerra civil,
teriam relutância em apontar suas armas contra parentes e
amigos, e que fariam tudo para evitar enfrentá-los em
combates de fato.
Recebendo ele próprio os mensageiros, ouvindo-os um por
um, Ruan foi ficando cada vez mais quieto.
— Eu devia ter ouvido meu pai — comentou. Não haverá
nenhuma revolução sem que ao menos a maior parte dos
militares coopere, seja recusando-se a lutar, seja aderindo
abertamente à nossa causa. As poucas unidades com que
podemos contar serão massacradas pelos que permanecem
leais a Yahali... são muito pequenas em número — encolheu
os ombros. — Bem, não há como voltar atrás, agora. Já fui
longe demais.
— Mas, com todas as pessoas reunidas ali — disse Nehazz,
consternado —, se falharmos, com certeza haverá um banho
de sangue. E seria fácil para as naves inimigas liquidarem
todos amanhã pela manhã.
Ruan sacudiu a cabeça.
— Não. Tenho notícias de que tio Vrina convenceu o Rei de
que não seria aconselhável enviar as naves para atacar a
multidão. Na certa haverá parentes, amigos e mesmo colegas
dos pilotos em meio a ela. Yahali sabe perfeitamente que
muitas das pessoas reunidas aqui vieram por curiosidade ou
mesmo à procura de diversão e excitação. Uma matança por
atacado poderia conseguir mudar os pensamentos de muitos
membros das Forças Armadas até agora leais a seu Rei. Além
disso, Yahali tem medo deste lugar.
— Medo? Aquele homem com medo? Não posso acreditar.
— Mas é verdade. Depois que venceu a guerra, veio até aqui
para lazer a mesma coisa que fez com todos os templos e,
por alguma razão, falhou.
— Então é verdade — perguntou Lyanta — que ele nem
mesmo conseguiu entrar no templo?
— Não, isso não é verdade. Ele entrou... mas fracassou ao
tentar convertê-lo numa Casa do Mal. Desde então, deixou o
lugar em paz. Penso que foi por isso que concordou tão
prontamente com a proposta de Vrina de não atacar as
pessoas que estão aqui.
Estavam sentados ao redor de uma fogueira acesa no início
da noite; atrás deles erguia-se o Templo de Ametista,
brilhando suave ao luar, um brilho que podia ser visto muito
além dos limites do vale. Armaram suas camas fora, com
vários cobertores tecidos a mão estendidos um sobre o
outro. A noite estava muito seca e fria.
Mais abaixo, no vale, o murmúrio das pessoas podia ser
ouvido e o clarão de muitas fogueiras era visível por toda
parte. Havia o som de risos, música e bater de palmas.
Estavam felizes ali embaixo, sentindo-se protegidos contra
qualquer mal que pudesse cair sobre eles. A atmosfera do
Vale da Luz e a certeza de que os homens de Zenhar
estavam guardando o desfiladeiro, a única saída para o
mundo exterior, deixavam-nos alegres e despreocupados.
Por um longo tempo o grupo permaneceu sentado em
silêncio ao redor da fogueira, até que o sono os venceu e
adormeceram.
Era quase o alvorecer quando Sheon-La sentiu Ruan se
mexer ao seu lado e ouviu-o dizer claramente.
— Amor, meu amor. Abrace-me, abrace-me forte, está tão
escuro aqui.
Ela o sentiu procurando-a por sob o cobertor que estavam
partilhando. Sentou-se imediatamente, encostando a cabeça
dele de encontro ao seio. Ele tremia todo, mas seus olhos
estavam fortemente cerrados.
— Ele quer que eu diga a ele, mas eu... então eles queimam,
queimam até o fim, meu Deus, a dor é terrível... — seus
braços apertaram-se convulsivos ao redor dela, mas seus
olhos continuavam fechados.
Ela não disse nada. Acordá-lo para contar-lhe? Apenas um
pesadelo, disse a si mesma, sabendo perfeitamente bem que
ele estava tendo uma visão. Vinha tendo-as com freqüência,
e nos últimos dias não haviam sido tranqüilizadoras.
Agora ele começava a murmurar, estendendo-se todo sobre
o cobertor verde. Este havia sido tecido por sua mãe:
crianças vermelhas e pequenos animais cor-de-rosa
correndo sobre o verde.
Ela começou a acariciá-lo, as longas e duras linhas de seu
corpo nu, começando por sua cabeça, passando pelos
ombros e descendo até os pés. Sentiu que ele havia
acordado, mas não desejava abrir os olhos, um meio-sorriso
brincando nos lábios. Parecia mais relaxado agora. "Como é
belo o corpo de um homem", pensou. "As linhas esguias, as
cadeiras estreitas e, especialmente neste corpo, nenhum
grama de gordura onde não devia haver."
Deixou uma das mãos descansar do lado interno de sua coxa.
O meio-sorriso de seus lábios abriu-se num sorriso largo. Ele
sentou-se, os olhos ainda fechados, mas muito acordado
agora, e puxou-a para si. E disse, como respondendo aos seus
pensamentos:
— Não, o corpo de mulher é muito mais adorável, mais
delicioso, lia tantas curvas, todas macias e misteriosas, aqui...
aqui... aqui. Tão boas de se tocar... — suas mãos começaram
a passear por seu pescoço, ombros e seios, e então mais
lentamente, desceram pelas ancas, barriga e finalmente as
coxas, a visão ruim completamente esquecida.
Naquele dia o sol despertou-os cedo, um brilho vermelho no
leste. Vanzaj foi o primeiro a levantar-se para ordenhar as
cabras que pertenciam ao caseiro do templo. O velho havia
sido designado por Rahazz quando ainda jovem e desde
então nunca deixara o lugar. Yahali não o havia mandado
embora e nem sequer pensara colocar um substituto.
"Ele é um tirano, impiedoso, cruel, mas é sábio também,"
pensou Vanzaj enquanto ordenhava uma cabra indignada,
segura por seu proprietário. "Ele não desperdiça energia em
coisas sem importância."
Beberam o leite e comeram o pão com queijo de cabra. O
pão estava fresco, ainda quente.
— Comam, senhores e senhoras —, disse o homem, o pão
acaba de sair do forno e há mais quando quiserem.
No vale, as pessoas estavam se mexendo, preparando
desjejum em seus fogões solares ou em pequenas fogueiras,
banhando-se nos muitos riachos que recortavam a área.
Durante a parte final daquele dia, Ruan ficou sentado com as
pernas cruzadas diante do altar no pequeno templo de
ametista, esvaziando a mente para deixar a verdade entrar,
preparando-se para o encontro daquela noite, quando a lua
cheia estaria em Escorpião.
Após o desjejum, ele e os outros caminharam entre as
pessoas reunidas no vale, conversando, rindo e dançando
com elas. Não havia se preocupado em revelar ou esconder a
identidade, saíra em roupas simples como as que todos
estavam usando, conversara da maneira que estavam
acostumados a conversar. E embora ninguém o tivesse
reconhecido de fato, notara olhares intrigados e
interrogativos. Descobrira que eles tinham apenas vagas
noções sobre o que aconteceria se a revolta contra Yahali
falhasse. Poucos deles estavam ali como resultado de sua
própria decisão individual, no mínimo estavam esperando
ser liderados por ele, seu pai, Zenhar ou alguém que lhes
dissesse o que fazer e como fazê-lo. Até agora tinham
seguido Yahali, tinham-no ouvido, obedecido às cegas, mas
agora estavam dispostos a seguir outro, que parecesse
prometer mais, que aos seus olhos parecesse menos
ameaçador, mais compassivo, seguir este outro por muitas
razões, a maioria delas não clara para eles próprios.
Enquanto conversava, pensara no incidente dos gatos,
perguntando-se quantos deles teriam a mesma reação que os
sacerdotes e torturadores de mentira naquela praça da
cidade. Não se sentia exaltado nem triste; sentia-se vazio de
emoção. Não havia mais nada que pudesse fazer, exceto
esperar e ver o que aconteceria.
"Nem você nem eu vencemos aquela noite, ó Rei," havia
dito a Yahali, "Outra pessoa, que nunca recebeu qualquer
treinamento, nem era iniciada de qualquer espécie, invocou
a Luz e obteve resposta."
"Não sei o que aconteceu exatamente, Ruan", havia
respondido Sheon-La à sua pergunta, "mas, seja o que for, eu
não tinha consciência. Quero dizer, não pedi por ajuda.
Estava olhando com um medo entorpecido para os
sacerdotes e Yahali, agrupados ao redor do altar".
"Eles haviam arrastado uma jovem até ali. Ela devia estar
grávida de uns sete meses. Implorava que a deixassem,
dizendo que não pertencia ao inimigo, nem era uma mulher
guerreira e que estava com criança. Eles apenas riam dela".
"Grávida? Mas isso é esplêndido. Assim teremos dois
corações a oferecer ao nosso Senhor, o Sol", disse um deles.
"Antes iremos cortar o pestinha para fora de você, depois o
coração dele, e finalmente o seu. O que acha disso?"
"E assim, trocando pilhérias, eles a haviam arrastado até
muito perto do altar, onde ficou parada tentando proteger a
barriga, num gesto fútil que os fazia rir mais ainda",
terminara ela, estremecendo e, de repente, ficara muito
quieta.
Por fim Ruan havia dito, afastando o cabelo de seu rosto.
"E então o que houve?"
Ela olhara para diante, fixamente, como se não
compreendendo o que estava vendo.
"Não sei na verdade. Apenas me lembro que fiquei furiosa.
Aquelas bestas e o olhar desesperado no semblante daquela
mulher, encolhendo-se diante deles, já semi-hipnotizada,
mas ainda consciente e tentando fugir. E eu... eu de repente
decidi que não importava o que acontecesse comigo, tentaria
salvar a mulher e a sua criança ainda não nascida, eles não
me haviam amarrado, mas, mesmo se o tivessem feito, seria
como nada e assim eu me atirei sobre eles, é estranho que
não estivesse assustada, sentia-me fria e mesmo calma. Juro
que não me lembro como o fiz, mas subitamente a faca
estava em minhas mãos e as cordas que a amarravam,
cortadas. Eles ficaram parados, espantados, tudo se passou
em poucos segundos, eu gritando para a mulher para que
fugisse. Ela não vacilou, levantou-se e estava fora do alcance
deles num instante, desaparecendo por entre as árvores".
"Os soldados, eu sabia, estavam longe. Tinham medo daquele
lugar, alguns sacerdotes também, a Floresta de Iavak é um
lugar maligno. Não foram atrás dela, tinham as mãos
ocupadas comigo. Um deles havia me agarrado pelos cabelos,
mas consegui soltar-me. Então outro segurou-me, berrando:
'Assim você simplesmente apressou seu próprio fim, sua
puta'... e então aconteceu."
Ruan ficara esperando que ela continuasse a história,
lembrando- se de como estivera escondido nas
proximidades, de como havia dito as palavras que apenas
podiam ser ditas nos momentos mais apavorantes... e de
como nada acontecera. Absolutamente nada. Havia lutado
para levantar-se, sentira as nuvens sombrias e pesadas
pairando sobre a cena, pesando sobre ele, imobilizando-o até
que mal pudesse mover-se. Meio levantado, caíra de novo,
soluçando, seu peso triplicado. Com um esforço final
levantara-se, cambaleando, apenas para cair mais uma vez, os
membros pesados como chumbo.
"Mas então aconteceu, Ruan", continuara a voz doce ao seu
lado, c ele sentira sua mão acariciá-lo, suave, "Qual é o
problema? Você não se sente bem? Então houve a luz, uma
luz cegante... você não se lembra? Você estava ali, também.
E com a luz veio uma brisa suave e fresca".
"Mas eles, os sacerdotes, reagiram como se atingidos por um
furacão selvagem... Eu estava tão surpresa que tive de fechar
os olhos por causa da luz, era forte demais. E os vi cobrirem
os olhos, uivando, tentando correr, mas sendo arrastados
como se fossem simples palha naquele furacão, sendo
atirados contra as árvores, esmagados contra o chão
enquanto eu estava ali parada, firme, no meio de uma brisa
refrescante e suave".
"Então fugi, mas o furacão não me atingiu. Ouvi as árvores
caírem por trás de mim, mas não parei para ver..."
Ruan recuperara a consciência muitas horas mais tarde,
encontrando o lugar totalmente deserto, os corpos de vários
sacerdotes jazendo imóveis, alguns deles embaixo de pesados
pedaços do altar destroçado, totalmente destruído por
árvores gigantes, com troncos de ao menos dois metros de
diâmetro. A última coisa que notou antes de desmaiar
novamente foi que não havia qualquer traço, fosse de Yahali,
fosse de Sheon-La.
"Mas o que aconteceu de fato, Ruan? Eu não invoquei os
poderes. Nunca fui ensinada como fazê-lo. Mesmo agora não
saberia. Nem sequer sonhei em invocá-los. Havia desistido
de tudo, sabia que ia morrer, estava preparada para...".
"Sim", interveio Ruan. "E também estava preparada para
salvar a vida daquela mulher grávida. Você não pronunciou
quaisquer palavras mágicas, não tinha anos de extenuante
treinamento em que se apoiar, não tinha qualquer idéia do
que dizer ou de como agir. Para você nenhuma palavra era
necessária, nenhum canto mágico, nenhum incenso, nada
dessa espécie. Ao sentir-se como se sentiu, fazer o que fez,
você os invocou sem chamá-los conscientemente, e dessa
vez eles responderam."
Mas responderam com disposição, espontâneos, não
invocados por palavras, ou submetendo-se a uma grande
energia vital, não dobrados pelo poder, mas atraídos
naturalmente por um coração ardente e compassivo, o seu,
minha Sheon-La, que me ensinou a lição de minha vida na
mais escura das noites, quando pensei tê-la perdido para
sempre."
"Eu pensava amá-la, estava certo de que nenhum amor era
maior que o meu... No entanto, quando invoquei os poderes
da Luz, certo de ser bem sucedido... afinal, não era eu um
Iniciado, não estava trajando a Serpente, eu, um Filho da
Serpente Alada?..."
"Aquele momento era uma batalha entre mim e Yahali. Eu
não me preocupei sequer um instante com você, porque
estava seguro de que iria vencer! Eu era o maior, não era
necessário preocupar-me com você, com sua proteção."
"Meu Deus, Sheon-La... e então, quando me dei conta do
que estava acontecendo, quando percebi que não seria capaz
de salvá-la, naquele momento vi a mim mesmo como
realmente era, e não foi uma imagem lisonjeira."

Capítulo XXV

No Vale da Luz, o templo de ametista elevava-se
luminosamente adorável ao luar branco e silencioso. Nos
degraus inferiores, apenas um pouco acima da terra gramada
do vale, achavam-se os líderes da revolta, conversando entre
si. Dentro de meia hora a Lua, no signo de Escorpião, estaria
exatamente oposta ao Sol.
Na Cidade dos Portões de Ouro, capital do país, o povo
estava celebrando a lua cheia, dançando desvairado pelas
ruas, enchendo as casas de bebidas e de comidas, e
apinhando as praças públicas. No Grande Templo, Yahali
estava oficiando os rituais da lua cheia, como era costume a
cada vinte e oito dias, oferecendo corações humanos para
fortificar o Coração Solar.
O capitão da guarda do Rei tentou mais uma vez convencer
Yahali:
— Senhor, sua vida está em risco, é pura loucura ir até lá! E
se o matarem?
Mas Yahali, apressando-se em direção à pequena nave
estacionada junto aos portões do palácio, com o oficial
protestando em seus calcanhares, não respondeu. Antes de
embarcar, perguntou:
— Você transmitiu minhas ordens?
— Sim. Mais ou menos uma hora depois de partirmos, essas
unidades vão seguir-nos até o Vale da Luz. Mas, desculpe-
me senhor, mesmo assim será impossível tomar aquele
desfiladeiro.
— E quem disse que é minha intenção tomar o desfiladeiro?
— rebateu frio, a voz grave. — Não devia chegar às suas
conclusões com tanta precipitação.
Mais tarde, Ruan não conseguiria se lembrar do que havia
dito naquele discurso, pouco depois do crepúsculo. Havia
tentado memorizar as palavras, soubera exatamente o que
dizer até que se viu parado diante da multidão que o olhava
com tanta expectativa. Então, outras palavras, que ele não
pretendera dizer de modo algum, vieram espontâneas, não
sabia de onde.
Mas soube, quando os aplausos explodiram, quando o
aclamaram com gritos ensurdecedores, que reverberavam
até os cantos mais distantes do vale, que havia feito um
último apelo apaixonado, um apelo nos corações de todos
eles, porque agora sabia o que iria acontecer e por quê.
Em vão tentou afastar aquela sensação de desastre iminente.
Por que havia começado a duvidar da sinceridade, da força
dos homens e mulheres presentes? Já não tinham todos
escolhido, dedicando-se à causa, enfrentando graves perigos
ao fazê-lo? Por que essa dúvida estranha?
Seus amigos, sabia, não partilhavam de suas dúvidas,
pareciam seguros do sucesso, apenas esperando que a revolta
se iniciasse e se espalhasse pelo país, tomasse conta das
Forças Armadas e colocasse Rahazz de volta sobre o trono
que perdera.
— Nunca o ouvi falar desse modo antes — disse Vanzaj.
— Sinto que em pouco tempo nossos sacerdotes irão retornar
para oficiarem em nossos templos.
Um soldado chegou abrindo caminho por entre a multidão,
dirigindo-se direto a Ruan:
— Príncipe, dois homens estão pedindo que os deixemos
passar na entrada do vale. De acordo com suas ordens, desde
uma hora atrás ninguém devia ser admitido a não ser que
conhecesse a senha, mas eles insistem, não querem ir
embora. Exigem que os deixemos passar.
— Exigem? — Ruan franziu a testa. — Não, é impossível. Se
estiverem causando problemas retenha-os até o final da
reunião e depois solte-os.
Mas o soldado continuou parado, hesitando, e então disse,
diante do olhar interrogativo de Ruan:
— Não sei, mas sinto que um deles realmente tem algo
importante a dizer, embora esteja claro que não é um de nós.
Estranho, mas ele estava tão seguro de si... ficou insistindo.
Disse que estava sendo esperado aqui.
— Esperado? — De novo Ruan franziu a testa. — Bem... —
Parou abruptamente ao ver um grupo de pessoas se
aproximando: dois homens em roupas escuras, escoltados
por soldados muito armados. Um desses últimos, separando-
se dos outros, correu em sua direção.
— Eles insistiram em ser trazidos para cá, Príncipe — disse,
desculpando-se. —Assim, pensei que talvez algo importante
estivesse em jogo e não tive certeza do que fazer. De
qualquer modo são apenas dois, não podem causar muito
dano... portanto, trouxe-os para cá.
O grupo deteve-se a apenas alguns passos da escadaria do
templo, os soldados olhando interrogativamente.
Mas Ruan não respondeu. Imóvel, olhou para o mais alto dos
dois recém-chegados, cujo rosto estava praticamente
invisível sob o capuz.
As pessoas começaram a murmurar com impaciência, depois
ficaram em silêncio de novo, por se tornarem gradualmente
conscientes de uma atmosfera de tensão.
— Então nos encontramos mais uma vez, Príncipe — disse a
voz melodiosa, e apenas os da frente ouviram as palavras,
sem reconhecer a voz. Não podiam ver o homem que falara,
rodeado que estava pelos soldados de Zenhar.
Não por medo ou choque, Ruan continuou quieto. Mas
porque naquele momento, não mais se encontrava no Vale
da Luz. Yahali captou o olhar distante naqueles olhos cinza-
escuros, olhos que não pareciam vê-lo. Dando um passo para
diante, abriu a boca para dizer algo sarcástico, mas nenhum
som se ouviu.
Porque ele, também, viu o passado se tornar presente e o
presente, inexistente. O tempo havia perdido o seu
significado e mesmo Yahali, Rei de Aztlan, ainda não havia
nascido, assim como Ruan, filho de Rahazz, era ainda uma
forma vaga e desfocada, num futuro distante.
Quantos anos? Milhares, dezenas de milhares, centenas de
milhares? Mesmo Aztlan ainda era um grande país por vir,
jovem, vigoroso e cheio de possibilidades. Um país imenso,
pouco explorado, povoado por uma nação crescente de
homens e mulheres, nação jovem como a própria terra, e
cheia de promessas.
E ambos, o não-Yahali e o não-Ruan ainda eram jovens de
alma naquele presente distante, dedicando muitos
pensamentos para coisas como lutar, namorar, comer e
beber, levando a vida despreocupada e superficialmente.
Inútil chamá-los por seus nomes futuros, tão futuros, porque
então Ruan não era Ruan ainda e nem Yahali tinha muito a
ver com o futuro Sumo Sacerdote e sua paixão sombria pelo
poder.
Entretanto, e isto é verdade, cada um deles já trazia a
semente do que seria milhares de anos depois. Um deles,
magro e escuro, com um intenso sonho de poder, a realizar-
se muito mais tarde, já mostrando seu primeiro sinal de vida,
suas primeiras tênues indicações de crueldade e frieza,
diferentes da crueldade impensada de seu companheiro.
Em seu amigo, embora Ruan ainda não estivesse formado,
ainda assim havia alguns sinais do que se tornaria,
aparecendo nas expressões de seus olhos, suavizando as
feições guerreiras de outro modo cruas, e lia maneira como
cuidava de seu cavalo, explodindo em fúria quando os outros
maltratavam os deles. Mas esses sinais eram ainda muito
leves, ambos não passavam de jovens despreocupados, e sem
pensamentos, prontos para qualquer coisa que a vida
trouxesse.
Uma brisa suave, soprando sobre uma planície quente e
verde. Estavam parados diante de um altar tosco de madeira,
olhando para um terceiro homem, de feições sérias.
"Mas devo avisar a ambos", dizia esse terceiro homem,
segurando uma faca brilhante na mão direita, aviso-vos
porque tal laço tem muita força e será difícil desfazê-lo, e
vossos traços de caráter são muito diferentes. Estais certos,
vós dois?"
Eles riram alegres diante disso, não dando importância às
palavras. Então se abraçaram dizendo que insistiam em ir até
o fim, com certeza. Como ele podia fazer tal pergunta?
Seriam amigos para sempre, não havia dúvida. E mais uma
vez explicaram àquele sacerdote pessimista que sua amizade
iria resistir, que estavam muito seguros disso.
O sacerdote encolheu os ombros. Então, aproximando-se,
executou a cerimônia curta, simples. Quando terminou, os
amigos abraçaram-se, de novo, rindo. E o que era magro e
escuro disse:
"Nosso sangue está misturado agora, misturado para sempre.
Você é eu e eu sou você, para sempre um em sangue. E
assim, sempre voltaremos a nos encontrar."
Mas quando se voltaram para ir embora, o sacerdote
chamou-os de volta:
"Esse foi vosso desejo", disse com severidade, "e talvez
nunca vos arrependais dele, mas talvez chegue um tempo
em que ireis desejar nunca terdes feito um juramento de
sangue. Então, quando estiverdes frente a frente, completos
estranhos, lembrai-vos que apenas uma coisa será capaz de
romper o laço que vos ata. Então vossa camaradagem será
como nada e cada um estará livre do outro."
Ruan fez um movimento como para se aproximar de Yahali.
Milhares de anos desvaneceram-se num segundo. O futuro
tornara-se o presente.
Estava parado na escadaria do templo do Vale da Luz e os
olhos da multidão cravavam-se nele, cheios de perplexidade.
Diante de si via um soldado alto, de olhos negros, um
camarada de muitas vidas. Estendeu as mãos, murmurando:
— Irmão...
Mas então, o que era verdade e o que não era, qual era a
diferença entre o que estava acontecendo e o que havia
acontecido? Quem era aquele homem parado em silêncio, o
sorriso cheio de desdém, e quem era o outro parado atrás
dele, uma forma menos sólida, um homem mais jovem,
estendendo as mãos... ambos com um sorriso de boas-vindas
no rosto?
— Finalmente... disse Yahali e, enquanto falava, a forma por
trás dele começou a perder substância e cor até tornar-se
apenas um borrão.
— Finalmente sei por que sempre nos encontramos um ao
outro, por que nossos caminhos estão cruzados cio modo
que estão e... — ele se deteve, vacilando, uma espécie de
perplexidade no olhar, vendo com clareza o amigo que havia
sido seu irmão de sangue por tantas vidas, esquecendo-se por
um instante do inimigo... inimigo?... que se colocava entre
ele e suas ambições.
E seu olhar endureceu outra vez enquanto Ruan dizia:
— O que, ó Rei, está buscando aqui? Você, que é das Trevas,
não tem lugar no Vale da Luz.
— Não sabe, Príncipe? — Yahali riu suavemente. — Vim
para encontrar meu povo. Meu lugar, como sempre, é com
meu povo. Neste momento e aqui neste vale, também.
— Está enganado. Ninguém aqui pertence a seu povo.
Yahali não respondeu. E antes que alguém pudesse evitar,
estava parado ao lado de Ruan nos degraus do templo. Com
um movimento rápido, retirou seu longo manto, mostrando
à multidão perplexa o que havia por baixo, as esplêndidas
roupas reais em dourado e negro.
Por trás dele ouviu-se um grito de surpresa e raiva.
Ao perceberem quem estava parado diante deles, um
profundo silêncio substituiu cada murmúrio. Olhando para
aquela forma tão conhecida, todos se mantiveram quietos.
Qual era o significado de tudo aquilo?
— Não temam — ouviu-se a voz de Ruan. — Isto não
significa que nossa causa está perdida. Mas ele, que agora está
parado aqui ao meu lado, insistindo em que é o soberano de
vocês, me diz que estão esperando por ele. É verdade o que
diz? É por ele, então, que estiveram esperando?
E no silêncio, notando quantos estavam atemorizados pela
figura de Yahali em suas roupas maravilhosas, comparando-o
desfavoravelmente ao seu soberano, Ruan suspirou e
encolheu os ombros. "Se é isso que vocês precisam, por que
não?" pensou, "então serei tão infantil quanto todos. Vou
mostrar-lhes o esplendor real". Assim, lento, retirou o manto
escuro, revelando o que havia por baixo: a túnica vermelha,
bordada com os emblemas da dinastia, o largo cinturão de
ouro incrustado de rubis, os braceletes pesados de pedras
preciosas, as tornozeleiras de ouro. Muitos prenderam a
respiração e o silêncio geral aumentou ainda mais.
Nenhuma resposta se ouviu, nem mesmo o menor som.
Alguns queriam gritar num furioso protesto, queriam gritar:
"Matem-no! Peguem-no! Abaixo Yahali!". Mas as palavras
não vieram; exceto por um ou dois brados fracos, logo
abafados, nada foi ouvido.
E ao olhar para aquela forma escura e silenciosa, as imagens
vieram a eles, imagens ligadas em definitivo ao domínio de
Yahali.
Prisões que raramente voltavam a abrir suas portas para
aqueles que nelas entravam; altares sangrentos em templos
majestosos; perseguições implacáveis aos adversários,
massacres, torturas capazes de destruir mesmo os mais fortes
e os mais leais; a Morada dos Morcegos, a Floresta de Iavak.
Então todos se perguntaram:
"O que acontecerá comigo se essa revolução falhar? Nunca
mais encontrarei um lugar para me esconder, para descansar.
Nunca mais estarei a salvo. Não importa onde; ele me viu,
ele sabe, ele jamais esquece. E sua vingança é sem limites.
Serei caçado por toda a terra e morrerei de fome ou me
apanharão e me matarão. Valerá a revolução pelo
sofrimento, pelo risco da tortura e da eliminação?"
Era preciso admitir, o rei era generoso com aqueles leais a
ele, com os que o aclamavam, os que o serviam bem. Para
esses ele dava em abundância, distribuindo com
generosidade possessões e dinheiro.
Seria já tarde demais para jurar fidelidade? Talvez não. E se se
demonstrasse obediência, aqui e agora?
No fim, as únicas coisas importantes eram alimento, trabalho
e lazer. Os ideais eram inúteis, comparados a isso. Não
tinham substância. E afinal era compreensível que o Rei
tentasse acabar com os que não concordavam com ele, que
estavam contra ele.
O significado de justiça, liberdade? Palavras de pompa inútil
quando a Polícia Secreta batia à sua porta, trazendo nas mãos
o temido mandado.
Ruan era um pouco mais alto que o Rei, mas este último
parecia mais impressionante em suas roupas, sua postura
arrogante comparada com a leveza, a gentileza irradiada por
Ruan. Dizan, ao lado deles, viu a tudo com clareza.
Colocando a mão sobre o braço de Ruan disse:
— Príncipe, temos de matá-lo ou tirá-lo daqui. Nosso povo já
está enfraquecendo por causa dele. Não percebe?
Ruan sacudiu a cabeça:
— Se estão enfraquecendo não é por causa dele Dizan, mas
por causa do Yahali em seus corações. O externo não
significa nada agora — e, antes que Dizan pudesse replicar:
— Avise aos outros para ficarem preparados para o pior.
Mande uma palavra também aos que estão guardando a
entrada secreta— Dizan assentiu rápido e desapareceu.
Alguns homens e mulheres, temerosos de chegarem tarde
demais, agora, ergueram as vozes:
— Vida longa para o Rei! Vida longa para o Rei Yahali! Como
se estivessem apenas esperando por aqueles primeiros gritos,
os outros também explodiram numa confusão louca e
desenfreada de vozes:
— O Rei! O Rei! Honra ao Rei! Abaixo com os traidores!
Os líderes que se achavam na escadaria ficaram sem fala,
olhando perplexos para a massa ululante, incapazes de
acreditar no que estava acontecendo. Correndo para Ruan,
formaram um círculo excitado ao seu redor. Nesse meio
tempo, os homens de Zenhar, furiosos, se haviam
precipitado escada acima para apanhar Yahali.
— Não quero acreditar... isto não está acontecendo, na
realidade, disse Lyanta, indignada. — Logo irão recuperar a
razão. Devem estar loucos.
Mas Ruan balançou a cabeça:
— Não... eles acabam de recuperar a razão. Justo agora.
Finalmente — comentou com tristeza. E enquanto o alarido
crescia, Yahali, cercado pelos soldados, parecia calmo e
triunfante.
— Devemos matá-lo, Príncipe? — gritou o capitão, acima do
tumulto, mas Ruan fez gesto que não.
Agora que o momento temido estava acontecendo não
sentia qualquer amargura ao olhar para os rostos zangados,
para os punhos cerrados sacudidos em sua direção. Por ter
lido seus pensamentos, sentindo o que eles sentiram, como
se esses sentimentos, esses pensamentos fossem seus.
Durante um curto momento havia sido um deles, um com
eles em seu egoísmo e pavor.
E agora? Desejara mostrar-lhes seus sentimentos. Esse era
seu povo. Desejara mostrar-lhes sua crença na justiça e na
compaixão, na compreensão, na beleza e na irmandade de
todos os seres vivos. Tivera esperanças de que eles
compreendessem. Mas não haviam compreendido.
— Príncipe — era um dos homens que guardavam o
desfiladeiro —, as tropas inimigas estão se preparando para
um ataque.
— Por quanto tempo vocês serão capazes de retê-los?
perguntou Ruan, pensando rápido.
— O tempo suficiente para que todos deixemos o vale e nos
ponhamos a salvo. E ainda mais — replicou o homem com
presteza. — Quais as ordens?
Antes que Ruan pudesse responder, houve uma comoção
logo abaixo: gritos zangados, o som de armas sendo puxadas,
insultos e berros de dor. Uma centena de homens e
mulheres, alguns deles trazendo crianças pela mão, outros
aninhando-as nos braços, abriam caminho através da
multidão compacta. Um dos homens, com uma espada curta,
obviamente o único entre eles que estava armado, inclinou-
se para Ruan. Seus olhos brilhavam intensamente de
indignação:
— Príncipe, queremos dizer que não vamos mais suportar o
tirano. Não sei por que os outros mudaram de idéia tão
rápido, mas estamos aqui para ficar ao lado de vocês e
permaneceremos fiéis a nós mesmos, não importa o que
aconteça.
Antes que terminasse, sua voz foi abafada por gritos de raiva.
Muitas pessoas tentaram alcançar o pequeno grupo,
ameaçando-o, os punhos cerrados, os olhos zangados. Mas
antes que a luta, aparentemente inevitável, pudesse
acontecer, soldados rebeldes, aparecendo como de lugar
nenhum, cerraram fileiras atrás do porta-voz e de seu grupo.
— Está vendo? Desta vez a vitória é minha — disse a voz
profunda e melodiosa. — É melhor que você se renda. O
jogo está perdido para vocês e, embora seja verdade que
meus homens não serão capazes de tomar o desfiladeiro,
uma palavra minha e os milhares reunidos aqui atacarão os
soldados de Zenhar pela retaguarda. É verdade que estão
desarmados, muitos deles morrerão, mas com certeza seus
soldados terão de se ocupar com eles enquanto minhas
tropas os atacam pela frente.
— Talvez seja assim, — respondeu Ruan, fazendo um gesto
rápido para os soldados que protegiam o grupo que acabara
de jurar lealdade.
Com satisfação, notou que estes o compreenderam de
imediato, começando a afastar o grupo da multidão. —Talvez
seja assim, ó Rei, mas você não porá suas mãos em mim — e
apontando por sobre o ombro: — Você venceu, mas não há
nada que possa fazer para evitar que eu parta. Deve
reconhecer que não há nada que possa fazer para evitar isso.
Viu como os soldados, após falarem às pressas com o líder do
grupo, mantendo o resto da multidão à distância, agora o
apressavam pelas escadas atrás do templo de ametista em
direção ao outro desfiladeiro, que levava diretamente ao
território de Rahazz, também guardado pelos homens de
Zenhar. Quando sumiram de vista, Ruan voltou-se para
Yahali:
— Estou preparado para me render sob uma única condição.
Cada pessoa presente aqui será livre para voltar para casa, ou
para onde desejar ir... e, sem dúvida, aqueles que desejarem
juntar-se a nós, serão livres para fazê-lo. Isso você não
poderá evitar. Meus soldados os levarão em segurança. Mas
os outros... os que desejarem voltar para casa não serão
presos, mortos ou molestados, de qualquer outro modo, seja
agora, seja no futuro.
Yahali não mostrou qualquer emoção ouvindo as exigências
de Ruan. Seria esse homem, então, como sua mãe, a Rainha,
seria com efeito tão ingênuo que...
Mas a voz de Ruan interrompeu seus pensamentos:
— Não, não sou como ela: você não vai me enganar como a
enganou.
— Concedido — disse Yahali. — Será como você diz.
— Rápido demais, ó Rei. Sua resposta veio rápida demais,
disse Ruan, lendo os pensamentos ocultos atrás dos olhos
sombrios. Deu um passo à frente. — Não. Não peço a palavra
de Yahali, Rei de Aztlan, Sumo Sacerdote das Trevas. Peço a
palavra de um guerreiro, o irmão de sangue que ainda vive
dentro de você, aquele que você ainda não foi realmente
capaz de eliminar, não importa quanto tentasse. Lembra-se
de como nosso sangue se misturou naquela vez? Eu não
temo que traia sua palavra porque não pode. Porque sabe que
a irmandade de sangue é ainda muito mais forte do que
pensava. Não é verdade?
Yahali assentiu devagar, olhando profundamente para dentro
de si, surpreso pelo que viu, não gostando do que viu, mas
admitindo que, por mais que desejasse, não seria capaz de
quebrar a palavra dada, da maneira que Ruan exigia. Como
Sumo Sacerdote e Rei de Aztlan era livre para conspirar,
manipular e trair, centenas de vezes se assim o desejasse.
Mas o irmão de sangue ainda vivo dentro de si, infelizmente
ainda muito vivo dentro de si, nunca seria capaz de quebrar
a palavra uma vez comprometida.
Suspirou profundamente e então disse:
-— Percebo. Sabe o que isso significa para você? — Seus
olhos não deixaram o rosto do outro sequer por um instante.
— Sabe que dessa maneira estará renovando um laço que
deveria ser quebrado agora e aqui? Que durante muitas vidas
pela frente você e eu estaremos acorrentados um ao outro,
não ligados, mas verdadeiramente acorrentados, ó Príncipe?
Sentir-se-á sempre atrapalhado, frustrado em seus esforços
para alcançar aquelas alturas estonteantes sobre as quais você
e os seus semelhantes sempre falam.
— Eu sei. E o mesmo acontecerá com você... irmão, disse
Ruan com simplicidade, sem ironia, apenas mencionando
um fato óbvio. — Agora dê-me a sua palavra, a palavra de
um irmão de sangue.
— Está dada. Cada um e todos aqui presentes podem ir onde
desejarem, sem serem molestados, agora ou no futuro.
Era típico dos amigos de Ruan, agora rodeando-o
novamente, que nenhum deles tentasse fazê-lo desistir.
Compreendiam que para ele não havia outra saída. Apenas
Nehazz disse:
— Mas por que esse sacrifício? Eles não valem isso. Estão do
outro lado; jamais levantarão um dedo por nossa causa.
— Mas não estariam aqui se eu não tivesse inventado essa
revolução, chamando-os, pedindo-lhes que viessem e se
juntassem a nós — a resposta foi dada com um sorriso
amargo. — Devo ao menos tentar corrigir meu erro.
O Rei voltou-se para encarar novamente a multidão:
— O Príncipe e eu chegamos a uma decisão. Ninguém
presente aqui será perseguido, preso ou molestado de
qualquer maneira. Todos estão livres para ir onde desejarem.
Ninguém disse nada. Alguns já começavam a mover-se na
direção do desfiladeiro, outros permaneciam parados, como
se em dúvida, mas a maioria começou a seguir a primeira
leva. Daqui e dali, entretanto, homens e mulheres
abandonavam os outros e se encaminhavam para a escadaria
do templo. Não diziam nada sobre lealdade e tirania, apenas
começaram a subir as escadas, um após o outro, ao todo
talvez uns quarenta homens e mulheres. Ruan também subiu
as escadas, para desaparecer dentro do templo. Ali vestiu
roupas mais simples, pedindo a Nehazz para levar as
vestimentas reais de volta para casa.
— Elas apenas iriam me atrapalhar — disse.
— Nós iremos safá-lo desta — disse Sheon-La, tomando seu
rosto entre as mãos. Espere até que Zenhar saiba disso.
Lado a lado desceram as escadas, o homem mais jovem e o
mais velho, observados por todos, mas nenhum dos milhares
que se dirigiam para o desfiladeiro pareceu dar atenção ao
fato, embora não fosse difícil adivinhar o que estava
acontecendo.
— Eles estão deixando-o ir — disse Vanzaj —, simplesmente
assim, sem qualquer preocupação. Saberão eles o que fizeram
esta noite?
Os homens de Zenhar saudaram o filho de seu Rei com
muito respeito. Para o outro homem, ao seu lado, apenas
olharam ameaçadoramente.
Dessa maneira, naquela noite, no coração do povo de
Aztlan, o Senhor das Trevas reinou supremo.

Capítulo XXVI

Foram os pescadores que de início espalharam a história so-
bre o estranho aparecimento, visto com freqüência após o
fracasso da revolução.
Mas aqueles que lidam diariamente com o mar e seus
mistérios são supersticiosos, ou assim considerados, de modo
que muitas vezes suas histórias são vistas como desprovidas
de verdade.
— Eu não o vi apenas uma vez — disse um velho, ao ser
perguntado, enquanto consertava a rede diante de sua casa.
— Outros viram-no também, mas riram de mim quando eu
disse que era o próprio mar que víamos e que, por alguma
razão que não compreendemos, tinha prazer em mostrar-se
para nós. Naquele dia, o sol estivera oculto atrás de nuvens
cinzentas — continuou, enquanto olhava distraído para as
brilhantes ondas azuis — e a água também estava cinzenta,
cinzenta como as nuvens.
— E ele, o mar, aparecendo daquela maneira, ou talvez fosse
ela, ou talvez ambos, era difícil dizer, tinha algo que parecia
um rosto, suas feições eram humanas, mas os olhos, esses
não eram humanos de maneira alguma. Eram azuis, ou
negros, dependendo da cor das ondas e dos céus, muito
negros quando as ondas estavam altas, escuras e mostrando
cristas de espuma. E não eram humanos.
— Ele não permaneceu ali por muito tempo, erguendo-se
muito acima das ondas, olhando para o norte, para o norte
onde estão as montanhas. Era como se estivesse esperando,
esperando algo, talvez um sinal, uma indicação ou
mensagem.
— Naquele dia eu o vi pela primeira vez, porque outras vezes
o vi de novo, mas naquele dia seus olhos estavam cinzentos,
murmurou o velho. Vieram aqui muitas pessoas que ouviram
a respeito, desejando ver por si mesmas. Nunca o viram.
Como poderiam? Elas não pertenciam ao mar, como nós,
nada sabem sobre seus mistérios, vêem apenas um imenso
espaço de água, movido pelo vento. Não podem ver nada
mais.
Essa era a história contada pelos pescadores, uma história
repetida por toda a costa, porém muito mais comum num
ponto onde uma longa laguna entrava terra adentro, perto da
Morada dos Morcegos. Mas, naturalmente, isso era fácil de
ser explicado: perto daquele lugar assustador rumores como
esse brotavam rápidos, crescendo a alturas maravilhosas e
incríveis.
— Mas eu o vi várias vezes — disse o velho pescador. Estava
esperando por uma mensagem.
— Sei onde irão executá-lo, disse Zenhar. —A ele e a vinte
outros condenados por atos subversivos. Existe certo lugar
na floresta de Iavak...
— Iavak? — exclamou Nehazz, atônito. — Mas ele é um
Iniciado. As forças malignas de Iavak não serão capazes de
derrotá-lo. Nesse caso você apenas terá de tirá-lo dali, depois
que ele vencer, apenas terá de liquidar os guardas...
Mas Zenhar olhou para as mãos, com ar miserável:
— Não, isso nada tem a ver com forças ocultas, com magia,
receio... Quer dizer, não da maneira que você pensa. O lugar
em questão está cheio de cobras, as cobras mais perigosas e
venenosas entre todas. Quase todas as cobras evitam os seres
humanos, atacando apenas quando se sentem ameaçadas,
como a maioria dos animais. Mas essa espécie ataca a todos e
a tudo que aparece em seu caminho. São absolutamente
letais.
— Mas você tem certeza de que Ruan não será capaz de
escapar delas? — perguntou Vanzaj, hesitante. — Ele teve
um treinamento especial.
— Não sei. Não estou certo — respondeu Zenhar. — Mas
penso que mesmo para ele será difícil. Elas poderiam picá-lo
mesmo antes que ele saiba o que terá de enfrentar.
Disse-o com calma, mas os outros viram como suas mãos
agarravam a borda da mesa junto à qual estava parado, como
os nós de seus dedos estavam brancos.
A lua já estava em sua fase escura quando um grupo de
prisioneiros foi visto sendo levado para fora dos Portões de
Ouro, para o local onde seriam executados. Eram cerca de
vinte homens e mulheres, todos condenados por tomarem
parte em ações contra o governo. A uma boa distância, eram
seguidos por um segundo grupo, muito menor, com cinco
soldados fortemente armados, escoltando no meio deles um
jovem de olhos cinzentos.
Nenhum de seus colegas prisioneiros sabia quem era ou por
que estava sendo mantido separado deles, e por que seria
morto. Intrigavam-nos também o fato de suas mãos estarem
atadas atrás das costas e os guardas se manterem tão
exageradamente próximos dele durante todo o tempo.
Ruan não sabia o que Yahali tinha em mente, mas sabia que
o caminho por onde estavam indo levava à Floresta de Iavak;
logo puderam ver as formas lúgubres das primeiras árvores
emergindo à distância.
O sol se havia posto e os soldados acenderam suas tochas. Os
prisioneiros que até então haviam nutrido uma leve
esperança de achar um modo de escapar sabiam agora que
essa esperança fora vã.
Sua sorte fora lançada e começaram a imaginar com
desespero que tipo diabólico de fim os aguardaria.
Já haviam penetrado floresta adentro quando os guardas
afinal se detiveram, e na escuridão sombria os prisioneiros
viram que estavam à beira de uma profunda ravina. Mas não
tiveram tempo de ver mais, porque agora receberam ordens
de descer. Alguns, que hesitavam, eram empurrados para
baixo sem piedade.
Ruan era o último. Na escuridão quase total, cada vez mais
afastado da luz das tochas, as mãos amarradas às costas, sua
descida não foi nada fácil. Por toda volta ouvia gritos de
medo e de dor. Durante a última parte da descida, Ruan
perdeu o equilíbrio depois de ter torcido o tornozelo num
tronco caído.
Rolando pela ribanceira abaixo, sem ser capaz de evitar
arbustos, tocos de árvores e pedras, continuou rolando até
bater com a cabeça contra uma pedra e perder a consciência.
Quando abriu os olhos, não conseguiu ver nada, apenas
ouviu as vozes angustiadas dos outros nas proximidades.
Aos poucos se acostumou com a escuridão e observou que
estavam numa espécie de cavidade profunda, larga e
gramada, um buraco imenso, rodeado por altas margens
gramadas. O buraco parecia tão largo quanto era comprido e
havia árvores espalhadas aqui e ali por entre a grama alta.
Tentou levantar-se quando sentiu uma mão tocando seu
ombro e ajudando-o.
— Você é o homem que estava tão bem guardado, não é? —
disse o homem, enquanto desatava os nós de Ruan. — Nos
perguntávamos o que havia acontecido a você e por que está
aqui.
— Eu pertencia à oposição — explicou ele — e o Rei me
odeia por razões pessoais.
— Ao menos devíamos tentar morrer com dignidade, disse o
homem. — Vamos nos reunir aos outros. Melhor ficarmos
juntos até o fim.
Mantiveram-se juntos, sentindo calor e certa segurança na
proximidade um do outro, perguntando a si mesmos como
encontrariam a morte, sendo óbvio que este era o lugar da
execução. De muito acima ouviam, vozes e risos: os guardas,
ali para prevenir que escapassem.
Um som leve, indefinível, foi ouvido, seguido de um
farfalhar rastejante.
— O que é isso? — sussurrou alguém, estremecendo, que é
isso?
Ruan mal ouvia. Perguntou a si mesmo por que exatamente
naquele momento seus pensamentos começaram a vaguear
de repente, não obstante seus esforços para mantê-los
enfocados no perigo iminente que os aguardava.
Estava parado a uma pequena distância do grupo, embora
não soubesse porque se havia afastado, indo encostar-se a
uma árvore, ainda um pouco tonto depois da queda.
O farfalhar misterioso repetiu-se, mas estaria agora vindo de
outra direção ou de vários lugares ao mesmo tempo?
"Tenho de manter meus pensamentos reunidos", ponderou,
"talvez ainda haja uma maneira de salvar-nos a todos. Mas
preciso concentrar-me. Por que de repente tenho tanta
dificuldade em me concentrar?" Seus pensamentos
continuaram vagueando para suas muitas viagens e as coisas
que havia visto depois da derrota na guerra.
Sorriu consigo mesmo, perdido nas memórias. Houvera o
velho... Com um choque retornou à realidade. Os outros
estavam olhando para diante, os olhos arregalados, mudos de
horror.
À apenas alguns passos, formas escuras moviam-se
silenciosas. Dos arbustos baixos, do capim alto e denso
emergiram corpos suaves, deslizantes e frios, e as vítimas
mortalmente aterrorizadas, olharam para os olhos
impassíveis e imóveis de inúmeras cobras.
Gritos abafados eram ouvidos, queriam correr para trás e
escalar as paredes íngremes do buraco, antes morrer nas
mãos dos soldados do que esse horror.
Escapar era impossível. O desfiladeiro todo estava
farfalhando com as cobras.
"Uma execução digna de Yahali", pensou Ruan, sentindo o
desespero mudo dos outros. Não se sentia aterrorizado ou
tomado pelo pavor, estava apenas penalizado por causa deles.
Sentia-se mesmo distraído.
Ainda estava parado junto à árvore, imóvel; sequer pensara
em escapar. Embora não houvesse lua, podia ver o suficiente
para reconhecer as cobras como pertencendo a uma espécie
perigosa ao extremo, cuja picada era inevitavelmente letal
após algumas horas de dor excruciante.
As cobras deslizaram para mais perto, silenciosas. Lá no alto,
as vozes dos guardas. E a luz das tochas, muito fraca,
iluminava o buraco.
Alguns dos prisioneiros soluçavam, tomados de histeria,
outros apenas olhavam, como que hipnotizados pelas cobras,
que haviam agora erguido as cabeças e a parte dianteira dos
corpos, ondulando, como se executando uma dança sinistra.
Aquele velho... Ruan sorriu consigo mesmo enquanto
olhava distraído para uma grande cobra que emergiu diante
de si. O velho havia sido atacado por bandidos e Ruan os
pusera a correr, depois o homem o convidara a acompanhá-
lo à sua casa. "Estou agradecido", dissera. "Por favor, seja
meu hóspede".
A cobra grande, notou, ainda muito distraído, havia
desaparecido de repente.
— Eu vivo na floresta dissera o velho, e Ruan o
acompanhara.
Entraram numa caverna alta, suavemente iluminada.
— Esta é minha casa, estrangeiro. Seja bem-vindo.
— Como sabe que sou um estrangeiro? — perguntara Ruan
surpreso, ao entrar. Mas seu anfitrião não respondera.
Houve então um farfalhar vindo aparentemente de todos os
lados da sala mobiliada e, por instinto, dera um passo para
trás ao notar que o lugar estava cheio de cobras.
Uma serpente com olhos amarelos brilhantes deslizou até o
velho, subiu por sua perna e enrolou-se, confortável, ao
redor de seu pescoço. Outra, negra, com círculos vermelho-
sangue ao redor dos olhos, emergiu do escuro, logo
encontrando um lugar para descansar nos tornozelos do
velho.
Você as hipnotiza? perguntou Ruan, mas seu anfitrião
balançou a cabeça.
— Não, não. Não há necessidade. Não para mim.
Após comerem uma refeição simples e bem preparada, o
velho, que estivera observando Ruan o tempo todo, disse:
— Você não parece ter medo delas.
— Não, não tenho. Por que teria? — e então, rindo: —
Desde que me ignorem.
— Perguntou-me se as hipnotizava. Mas não o faço. Apenas
gosto delas e as compreendo. Mas há poucos como eu.
Na manhã seguinte caminhou por algum tempo com Ruan
antes de se despedir.
— Naturalmente, a maioria de nós detesta cobras — disse —,
mas eu tenho pena delas.
— Pena? Eu pensaria que são bastante capazes de cuidar de si
mesmas, então por que pena?
O velho permaneceu quieto, olhando para ele com seus
brilhantes olhos negros:
— Não sabe, Príncipe? Você que carrega o sinal da Serpente
Alada?
Ruan não respondeu, surpreso. Como o outro sabia a
respeito da tatuagem? E por que o "Príncipe"?
O velho balançou a cabeça.
— Você não é um de nós. Poucos são... Mas você usa o Sinal
e é por isso que vou lhe contar o que deve saber. Não sou
um encantador de serpentes, não as doméstico, nem as
domino, nem as temo. Sinto-me um de sua espécie, às vezes
sinto-me como uma cobra. Eu não as odeio. E quantos
existem que têm pena de cobras?
Ele se encontrava agora numa ravina escura e ampla, ainda
tonto de sua queda. Diante dele a grande cabeça duma cobra
gigantesca ondulava vagarosa de um lado para outro, à
apenas alguns centímetros de seu rosto.
A cabeça de uma cobra ou talvez a cabeça de... A cabeça de
quem? Já havia visto aqueles olhos intensos e brilhantes.
O velho se aproximou dele.
— Lembra-se de mim? Uma vez salvou minha vida, mas essa
não é a razão de minha presença aqui. Você não é um de
nós, mas assim mesmo recebi ordens de ajudá-lo.
O velho achava-se agora ao seu lado, encarando as cobras.
Em seus olhos havia um brilho estranho.
— Certa vez, quando foi meu hóspede, não pareceu temer ou
se importar com a criatura mais temida, mais odiada por
todos. Para você, mesmo o ser mais baixo, o mais temido,
ainda é merecedor de respeito, de consideração, porque
também é parte da vida. Por causa disso nenhuma delas pode
feri-lo e por causa disso também estou aqui, eu que sou mais
cobra do que homem, que tenho pena dessas criaturas
aterrorizantes para o homem e para as bestas também.
A voz se calou e à toda volta os sons leves e farfalhantes, o
sibilar baixo também havia parado; as cobras não estavam
mais se movendo.
Os prisioneiros, prendendo a respiração, viram que todos
aqueles olhos frios e sem expressão estavam fixos em Ruan e
no outro homem perto dele, um homem que não haviam
visto antes.
— Ouçam, cobras. Ouçam bem! Ouçam a lenda da Serpente
Alada. Irmãos, pelo que estão procurando? O que é que
tentam encontrar, éon após éon, deslizando sem descanso
sobre a Terra, o que vocês têm esperança de encontrar na
escuridão refrescante das rochas, dos arbustos verdes, nas
areias quentes do deserto?
As cobras não se moviam. Nenhuma delas prestava mais
qualquer atenção aos prisioneiros boquiabertos.
— Ouçam a Lenda da Cobra que Encontrou; ouçam a Lenda
da Serpente Alada. Vocês se lembram, Seres Sem Asas?
Lembrem-se do dia em que sua busca começou — a voz
estava mais baixa agora, parecia a ponto de sumir, mas,
continuando, exprimiu compreensão, a compreensão de
alguém que sabe. — Eu sou a Serpente Alada, o Ser cuja
busca terminou, o Segredo do Mundo. Meu coração sangra
por minha raça, tentando em vão encontrar na escuridão da
terra o ouro dos astros e a radiância do sol.
— Vocês perderam suas asas quando o mundo nasceu... mas
o tempo é intemporal e vocês voltarão a ganhar o tesouro se
o seu desejo for suficientemente grande e fizer com que
percam seu peso. Caso contrário, estão condenados a buscar
pela eternidade, ao invés de acabar aqui e agora com a luta
inútil, iniciada milhares de ciclos atrás.
— O tempo não passa de uma ilusão, a maior de todas. Vocês
jamais perderam as asas, elas ainda estão com vocês. Foram
vocês que se esqueceram de como usá-las, escolhendo em
lugar disso tornar-se prisioneiras da densidade.
O homem ao lado de Ruan deu agora alguns passos para
diante, até se encontrar no meio das cobras, sussurrando
para elas numa voz ainda mais baixa, até que ficou
impossível ouvir qualquer coisa. Então começou a se afastar
e elas o seguiram uma a uma. E, enquanto se afastava, de
repente desapareceu, desvaneceu-se.
E onde estivera parado alguns momentos antes viam-se
agora os anéis brilhantes de uma enorme cobra escura, a
cabeça elevando-se alto, acima das outras ao seu redor.
Os prisioneiros ainda se apertavam uns contra os outros,
forçando os olhos, temendo que as cobras retomassem, que
tudo não passasse de um truque preparado por seus
executores, apenas esperando que relaxassem para
administrar o golpe final e fatal.
Mas então ouviram-se ruídos fortes chegando do alto, viram
tochas tremeluzindo breve e se apagando, ouviram berros
que soavam como gritos de batalha e, afinal, os sons
inconfundíveis de uma luta.
— Amigos! Aqueles devem ser amigos — gritou um deles. —
Estão atacando os guardas. Vamos subir e ajudá-los!
Tão rápido quanto possível, escalaram as encostas íngremes
de ravina, agarrando-se a tufos de capim, arbustos baixos e
galhos, em qualquer coisa sobre a qual pudessem colocar as
mãos, um ajudando o outro.
Quando suas cabeças apareceram na borda, os soldados de
Zenhar já estavam ocupados amarrando os guardas que não
haviam sido mortos.
Sheon-La foi a primeira a abraçar Ruan, não querendo soltá-
lo, dizendo:
— Íamos descer e enfrentar as cobras, mesmo se isso
significasse a morte certa para todos nós.
Então sentiu uma mão em seu braço e ouviu Zenhar
dizendo:
— Tenha dó, agora é minha vez, ele é meu melhor amigo! —
e, dirigindo-se a Ruan: — O que aconteceu? Mas nós
teríamos descido de qualquer modo, como disse Sheon-La.
Ruan contou-lhe tudo, acrescentando:
— Sem vocês teríamos sido mortos de qualquer maneira,
pelos guardas. Não havia chance de escapar deles. Agora
vamos sair daqui, antes que amanheça. Como conseguiram
chegar?
Haviam se aproximado dos outros prisioneiros, parados num
grupo, falando todos ao mesmo tempo, ainda não
acreditando que estavam salvos.
— Naves. Viemos usando naves — respondeu Zenhar. —
Você sabe que temos apenas algumas, mas para essa ocasião
pensei que deviam ser usadas... Eu sabia a respeito dos
outros, há lugar para todos nós.
Ruan riu.
— Você sempre foi um otimista incorrigível — disse, dando
uma palmada nas costas do amigo.
Os vinte prisioneiros tão miraculosamente salvos
embarcaram nas naves um por um, tagarelando alegres,
ainda não acreditando deveras em sua boa sorte, enquanto a
leste um suave brilho avermelhado rompia através das
últimas sombras da noite.
Zenhar, o primeiro a decolar, com Ruan e Sheon-La a bordo,
apontou o nariz redondo de seu aparelho para o norte.
Meses se passaram, meses que levaram Yahali aos pináculos
do poder, meses em que seus sonhos mais loucos foram
realizados. A oposição fora destruída por completo e muitos
agentes secretos estavam agora procurando outro trabalho,
sentindo-se bastante aborrecidos com a falta de alguma
atividade interessante. O serviço, outrora cheio de excitação,
agora se tornara uma repetitiva questão de rotina e
burocracia. Os poucos casos que ocorriam eram sempre
desprezíveis e insignificantes.
Os muitos templos espalhados pelo país estavam agora
sempre cheios: ninguém mais ousava não participar dos
sombrios rituais, e Aztlan, outrora famosa e admirada pela
sabedoria de seus governantes e seus cidadãos pacíficos, era
agora odiada e temida por países vizinhos e distantes por
causa de sua intolerância e brutalidade.
Nas montanhas as chuvas haviam vindo c passado. As trilhas
que, por serem íngremes e estreitas, atravessando gargantas
profundas, estiveram enlameadas, escorregadias e mesmo
perigosas durante semanas, tornando-se praticamente
intransitáveis, estavam de novo secas e o sol brilhava todos
os dias sobre o pequeno povoado, escondido dos olhos
atentos dos pilotos inimigos pela magia de seus sacerdotes.
Durante a última semana, duas videntes haviam estado
ocupadas comunicando-se com outras, residentes num
pequeno vilarejo da costa, a cerca de oitenta quilômetros de
distância. O vilarejo, constituído de pescadores e suas
famílias, era encravado entre duas altas cadeias de
montanhas cujas extremidades caíam abruptas no mar,
formando ali também, de ambos os lados, altas paredes nuas
de rochedos escorregadios e batidos pela espuma,
estendendo-se até longe dentro da água.
Desde que a guerra fora perdida, os homens e mulheres
daquele lugar haviam continuado leais a Rahazz, sua lealdade
reforçada pelo fato de que se sentiam muito seguros e
protegidos contra qualquer ataque de surpresa. E embora
pouco depois de sua vitória Yahali tivesse enviado tropas
para investigar a veracidade de certos rumores que circu-
lavam na capital, os soldados tiveram de enfrentar enormes
dificuldades para alcançar o lugar, apenas para concluir que
não havia nada de errado. Ninguém conseguiu descobrir que
muitos dos homens e mulheres que viviam ali eram na
verdade hábeis guerreiros além de pescadores, tão
experientes em consertar redes e navegar em seus barcos
como no manejo das armas.
Haviam recebido instruções para começar a carregar os
primeiros navios com alimentos: batatas, peixes, frutas e
algas, tudo desidratado —, suficiente para ao menos
trezentas pessoas durante um mês, no mínimo, senão mais
—, tinham de ser embalados e estocados nos profundos
porões, assim como um amplo suprimento de água para a
primeira semana. Depois disso, o filtro solar, uma pequena
máquina para dessalinizar a água do mar, seria posto em
operação.
Havia sete navios ancorados nas baías de duas ilhas, a cerca
de quatro horas de barco do continente. Haviam sido
abandonados anos antes, após sofrerem pesados danos
durante um terrível temporal que durara semanas. O
próspero armador a quem pertenciam, preferira construir
outros, com equipamentos mais modernos, do que gastar seu
dinheiro nesses cargueiros já antiquados, dando-os, por isso,
como totalmente perdidos, não se preocupando sequer em
tentar vendê-los.
Quando, com o correr dos anos, os ataques inimigos foram
se tornando cada vez mais concentrados e eficientes, Rahazz
enviara vários especialistas à aldeia da costa e, após longas
reuniões com o prefeito e o conselho da aldeia, a restauração
dos navios começara.
Por fora, nada podia ser detectado, as "Sete Irmãs", como
eram conhecidas, continuavam com a aparência que haviam
exibido desde após a tempestade: apenas restos deteriorados
do que haviam sido outrora cargueiros resistentes,
orgulhosos, de alto-mar, agora condenados a apodrecer
lentamente, vítimas fáceis do sol, da água salgada e dos
ventos implacáveis.
Mas uma vez dentro dos mesmos, a imagem mudava por
completo, assumindo um aspecto surpreendentemente
diferente. Uma equipe pequena de operários de extrema
competência, especializada em reparos, trabalhava
febrilmente, alguns martelando e serrando, outros limpando
os destroços, lavando, esfregando, pintando, ajustando
beliches, raspando a sujeira e a ferrugem. As máquinas,
movidas a energia solar e construídas de material à prova de
água marinha, apresentavam-se ainda num estado superior às
expectativas, necessitando um mínimo de atenção. Se
alguma coisa ocorresse mal com elas, tinham a bordo velas
novas e resistentes, pois as antigas haviam apodrecido.
Cada navio poderia transportar com facilidade trezentos
passageiros e a tribulação.
— Mas somos muito mais que isso — comentara Lyanta.
Rahazz a olhara, bastante triste.
— Sim, somos muito mais, mas muitos de nós guerreiros e
guerreiras, irão morrer, é inevitável. Não irá demorar para
que Yahali comece o ataque e temos de manter seus
soldados afastados, para dar tempo aos outros para que fujam.
Ela assentira.
— Vi-os treinando. Acha que eu poderia ser uma guerreira?
Tenho um corpo forte, não sou uma mulher fraca...
O Rei fizera um gesto:
— Sim. Apresente-se a Dizan. Ele irá alistá-la e providenciará
para que comece a treinar: — O último navio irá esperar até
o momento derradeiro pelos guerreiros sobreviventes e
possivelmente feridos, para que embarquem.
— Não será muito perigoso? Lembro-me de que antes de me
juntar a vocês a Força Aérea era muito poderosa. Nós temos
apenas algumas naves. Eles têm tantas... Assim que ele
souber do que está acontecendo irá enviá-las para a praia,
para evitar que embarquemos.
— Você está certa — disse Rahazz, mas não pareceu
perturbado. — Mas isso não irá acontecer, já cuidei do
assunto. E se chegar a esse ponto, não terão muitas naves
para nos aborrecer, posso assegurar-lhe.
Quando Rahazz disse a Zenhar o que se esperava dele, o
comandante do que restara do Exército Tolteca lembrou-se
do que ouvira quando o Rei lhe explicara sobre a decisão do
Conselho:
"Você não gostaria de ouvir o que eles decidiram e sobre seu
papel na execução da decisão, que será bastante grande. Mas
mesmo eles cometem enganos..."
Assim agora tudo se tornara claro, e o Conselho não havia
errado, e também, sem nenhuma dúvida, ele não gostou da
parte que lhe estava destinada e do que estavam esperando
dele.

Capítulo XXVII

Os primeiros a partir foram as crianças. A trilha que tinham
de seguir, conhecida apenas dos poucos guias que as
dirigiam, homens das tribos que viviam nas partes mais
remotas das montanhas. Primeiro deviam ir as crianças...
assim o Rei ordenara. Elas eram as sementes preciosas a
serem salvas a qualquer preço, o núcleo da nova raça.
Primeiro as crianças e as mulheres grávidas, e as mães das
crianças que eram poucas, pois grande parte havia ficado órfã
durante a guerra.
Assim, foram na frente, pequenos seres gorduchos e
sorridentes, inconscientes de qualquer coisa a não ser as
inúmeras pequenas delícias da vida, outros maiores, mais
magros, um tanto espantados, e adolescentes magros, um
pouco tristes por terem de partir, mas excitados ao extremo
por causa da magnífica aventura que os esperava.
Havia muitas trilhas a atravessar, desfiladeiros de paredes
íngremes, escarpadas, de cujos lados a montanha nua caía
diretamente para profundezas escuras e perdidas na neblina.
Ventos gelados, uivantes, de grande força, com freqüência
obrigavam os homens a carregar a maioria das crianças e
avançar cada um amarrado ao da frente até que o abrigo
fosse alcançado.
E depois desciam outra vez em direção às selvas cerradas,
infestadas de insetos, onde postos militares isolados
mantinham vigilância constante sobre a única trilha que o
ser humano poderia seguir.
Mas esses guias não eram humanos, não sempre, não
totalmente... E assim sendo, mantinham, ou melhor, fizeram
sua própria trilha.
Os melhores guerreiros foram com eles, alguns, pais eles
próprios, outros recém-casados e o restante solteiros, jovens
possuídos por uma dedicação ardente e incomum, e uma
compreensão feliz e natural dos pequenos.
— Evitem a luta, não importa o que aconteça. Evitem todo e
qualquer confronto. Sejam silenciosos como as nuvens e
invisíveis como a lua em sua fase escura. E possa a Serpente
Alada protegê-los sempre!
Assim o Rei falara, ao mais valoroso e dedicado de seus
homens, aquele que iria comandar o grupo. E depois:
— Não fique tão preocupado! Sei que a sua maior vontade é
ficar ao lado de meu filho em sua última missão. Eu sei. Mas
é impossível.
Zenhar havia caído de joelhos, implorando:
— Deixe que outro vá e leve as crianças. Deixe que eu...
— Impossível. Apenas você será capaz de realizar essa tarefa.
Ninguém, a não ser você, está preparado para levá-los daqui
e embarcá- los em segurança nos navios. Ninguém melhor
que você...
— Mas...
— Há ocasiões em que o homem deve seguir o caminho
inteiro sozinho... até o fim inevitável. Esta é uma ocasião
assim para ele.
Um protesto:
— E quem irá ajudá-lo se seu próprio pai e o seu melhor
amigo desistem? Quem? Qual é o valor da amizade se o
amigo deve ser deixado sozinho para enfrentar sua luta mais
amarga?
"O cabelo já não é tão negro", pensou o Rei, surpreso. "É
possível que mesmo Zenhar esteja envelhecendo? Então eu
devo estar ficando muito, muito velho mesmo. Por quantos
anos esta luta tem persistido interminavelmente? Quantos
anos, se agora mesmo Zenhar está começando a perder sua
juventude, ele, sempre tão ardente, ansioso e cheio de
entusiasmo? Ah! Mas ele continua assim! O fogo ainda está
ali. O cabelo pode estar embranquecendo, mas, o fogo não
diminuiu. E por causa desse fogo ele terá sucesso. Terá
sucesso onde outros falhariam sem chance e sem culpa. E
depois, tudo terá de certa forma terminado. Como estou
satisfeito por esses tempos de ódio, sangue e maquinações
estarem finalmente chegando a um fim. Ultimamente
descobri que preciso forçar-me para me interessar pelos
muitos truques de Yahali. Na verdade, estou ficando muito
velho."
Com um choque, Zenhar deu-se conta do cansaço no rosto
magro e enrugado, dos ombros caídos, da voz sem ânimo.
Abruptamente, levantou-se, não desejando mostrar as
lágrimas que sentia, lágrimas de tristeza e raiva profunda e
inútil.
Por que, pensou, ao saudar silencioso e girar depressa sobre
si mesmo, por que tinham de perder essa guerra? Nunca
existira um homem mais merecedor do que esse de sentar-se
num trono. Por que não lhe era permitido vencer? Os tolos
estúpidos. Os perversos, os idiotas cegos e egoístas. Os...
O calor de seus pensamentos não manifestados,
permanecendo depois que partiu, fez Rahazz sorrir. Como
era bom sentir o calor amoroso de um ser humano, pensou,
e em especial quando o dever da pessoa foi permanecer
exposta sempre e sempre às lufadas geladas do ódio, àquele
frio que petrifica o coração e traz desespero.
Rahazz encontrou o filho no salão vazio do templo,
encostado ao largo peitoril da janela. De muito abaixo
chegava o rumor do exército, que esperava que lhe
anunciassem quem seria seu comandante, uma vez que
sabiam que Zenhar havia sido designado para uma outra
tarefa, muito importante.
O Rei não falou, para não revelar sua presença, mas
manteve-se quieto, apenas observando, até que por fim Ruan
se levantou, e virou-se para o pai. Seu rosto estava pálido, o
suor brilhando na testa.
— Não me pergunta — sussurrou rouco —, por que estou
desse jeito, pai? — colocou mais uma vez a mão sobre os
olhos, tremendo. — Tive uma visão, uma visão horrível e
assustadora de algumas coisas que irão se passar, que não
podem ser evitadas. E tenho medo! — fez um ligeiro
movimento com a cabeça. — Não, não é a batalha, o sangue,
a dor, a possibilidade de ser ferido ou aleijado que a guerra
traz. Não é isso...
Ele se interrompeu. Rahazz disse:
— Eu sei. E que você viu o que iria acontecer depois. Sei,
porque também o vi — ficou em silêncio outra vez, sem
oferecer qualquer consolo, sem tentar insinuar qualquer
saída fácil, real ou imaginária, sem mostrar a seu filho
qualquer modo possível de escapar do terror que o possuía.
Ao invés, disse: — E sua decisão? Eles estão esperando lá
fora. Esta noite Zenhar está partindo com as crianças. Os
primeiros navios estão prontos.
E Ruan sussurrou:
— Devo ir. Naturalmente, irei... Sim, e isso é o pior. Irei e,
durante lodo o tempo, irei pensar no que vai acontecer
comigo depois, e sentirei medo.
Então, do altar, Rahazz apanhou a capa, um tecido de
amarelo chamejante, que caía em graciosas dobras de seda.
Sobre a seda estava bordada uma serpente emplumada cor de
cobre polido escuro.
Ruan deu um passo atrás, olhando com descrédito ao se dar
conta do que o pai estava por fazer. Rápidos, seus olhos
saltaram da capa para o elmo que se achava sobre o altar. Era
de ouro escuro, de tom acobreado: uma imponente cabeça
de serpente, fundida com grande arte. Ofegou.
— Mas essas não são as vestimentas de guerra, as roupas de
um príncipe Tolteca em batalha... essas...
— Não — interrompeu Rahazz. — Esses são os trajes
cerimoniais de um Grande Protetor... de um Ser Flamejante.
Ruan recuou ainda mais, até encontrar-se de costas contra a
parede.
— Mas isso é um sacrilégio. Esses trajes são vestidos apenas
na mais sagrada das ocasiões. Você deve estar louco!
O Rei não replicou. Ao invés disso, começou a colocar a
capa nos ombros do filho. Mas quando se dirigiu para o altar,
para apanhar o elmo, Ruan colocou as mãos na frente de si,
protestando com veemência.
— Não, não! Eu não sou digno. Não sou digno, estou
dizendo! Você deve estar completamente insano, pai...
Com calma, Rahazz ajustou a brilhante cabeça de serpente
sobre aquela outra cabeça, escura e resistente, depois
colocou as mãos firmemente sobre os ombros do filho,
olhando para o rosto perplexo.
— Não... o Chefe em pessoa deu-me ordens expressas para
fazer isto... — ele sorriu. — Então deve ser ele quem está
louco.
— O quê? —A voz de Ruan era um soluço de total
incredulidade, os olhos cinzas olhando para o pai. — Mas
não sou nada... as inúmeras vezes que falhei, minha
covardia, meu desejo sempre repetido de escapar de tudo
isso... Eu não sou digno, ele não sabe? — tocou o elmo com
admiração. Uma pessoa precisa ser muito forte para usar isto,
para merecer usar isto. Muito compassiva. Não sou nada
disso... Isto é pesado demais para mim, pesado demais!
Ele ficou em silêncio outra vez, depois olhou para o pai que
ficara observando-o, sorrindo levemente.
De repente, Ruan riu, um pequeno riso bastante impotente,
suspirou, e então encolheu os ombros.
Quando o viram descendo os muitos degraus, souberam que
era seu Príncipe vindo para liderá-los na batalha, e
começaram a aplaudir, porque isso provava que ele não
considerava sua vida sagrada demais para ser arriscada junto
com a deles.
Foi apenas quando havia descido a metade daquela altura
estonteante que começaram a apertar os olhos contra a luz
para ver melhor, caindo então num silêncio respeitoso.
Aquilo não era o vermelho e dourado da dinastia. Aquilo,
era...?
Zenhar, que se achava parado, atormentado, junto à
multidão, seu coração numa fúria tempestuosa por não lhe
ter sido permitido ficar para trás, foi o primeiro a cair de
joelhos. Por sobre a multidão silenciosa, a sua voz soou forte
e clara:
— Olhem, guerreiros. E a Serpente em pessoa que irá liderá-
los dessa vez. O Ser Alado enviou um Mensageiro
Flamejante! Honrai-o!
E Zenhar pensou, os punhos cerrados enquanto eles
aplaudiam, sem inclinar a cabeça como os demais e fazendo
um rápido escrutínio da aparência do amigo: "Essas são
vestes de sacrifício... as vestes nas quais um Grande Protetor
se oferece a si mesmo, a sua própria vida, a serviço dos
inocentes, dos jovens, dos fracos. Que inferno, eu não tenho
permissão de estar ao seu lado. Ele deve passar por tudo isso
sozinho".
Por algum tempo já eles haviam tentado penetrar a barreira
colocada por Rahazz para evitar que qualquer notícia
vazasse. Os videntes a serviço das Forças Armadas não
haviam sido capazes de ver mais que uma confusão de
imagens: soldados, casas, plantações nos campos, cadeias de
montanhas, todas as imagens provavelmente sendo
projetadas por suas próprias mentes, incapazes de captar o
que na realidade estava se passando.
Eram muito bem treinados, o Rei sabia, a maioria mulheres.
Mas um após o outro haviam falhado.
Yahali tinha consciência do fato de que, para ultrapassar essa
barreira especial, o vidente tinha de possuir um certo grau de
pureza, de inocência e mesmo bondade, qualidades muito
raras de encontrar naqueles dias. A barreira de Rahazz era
daquele tipo.
Por fim chamaram uma jovem de uma pequena aldeia
bastante afastada. Ela nunca trabalhara para o exército ou
qualquer outra instituição oficial, não pertencia a qualquer
organização reconhecida de videntes, mas sua fama era tal
que não tiveram dúvidas em convocá-la.
Quando Tlatli abriu a porta para seus visitantes e ouviu o que
Imitam a dizer, replicou:
— Está certo... estarei lá depois de amanhã.
Mas o mais velho dos dois homens enviados para buscá-la,
abanara a cabeça:
-— Lamento, senhora, mas o Rei deu ordens expressas para
que a escoltemos. O assunto é muito urgente. Esperaremos
até que prepare sua mala. Sua estadia por certo será longa.
— Longa? — Perguntou, imediatamente em guarda, tensa. —
Como assim?
Procurou dentro de si possíveis comentários desagradáveis
em lugares ou momentos errados, que pudessem ter
ofendido o Rei ou algum alto dignatário. Mas não conseguiu
se lembrar de nenhum. Sempre linha grande cuidado em
não se envolver com essas coisas. Estava contente, como
sempre estivera, em levar sua vida nas proximidades da
aldeia, cuidando de suas flores e ervas, estas últimas em
faixas prateadas entre as flores coloridas, algumas delas
subindo pela treliça de madeira da cerca baixa que separava
seu jardim da rua e dos campos circundantes.
Ainda assim, nunca se podia saber, pensou, indecisa, seu
olhar indo pousar no transporte cinzento do Exército parado
junto ao portão.
Um dos dois homens disse:
— Não é preciso se preocupar, senhora, somos militares,
ligados ao Corpo de Videntes. Estamos seguindo o curso
básico de Vidência, de cinco anos. Mas somos apenas
principiantes.
— Devem estar enganados — disse aliviada. — Eu nunca
segui nenhum curso, deve haver homens e mulheres no
Corpo de Videntes muito mais qualificados do que eu. Eu
sou principalmente autodidata, ainda bastante crua. Seria
incapaz de ajudá-los, receio. O Rei...
— Não, senhora, o Rei sabe que não seguiu nenhum
treinamento. Ainda assim insiste em que venha. Não tem
idéia de como é famosa. E quanto aos videntes do Exército...,
esse é exatamente o ponto. Surgiu um grave problema no
Quartel General e até agora nenhum vidente foi capaz de
resolvê-lo. E o tempo é curto.
Tlatli sentiu-se logo relaxada e, ao mesmo tempo,
preocupada. Então, eles necessitavam mesmo de suas
habilidades profissionais. Mas para o que precisavam delas?
Pensou rápido. Havia rumores insistentes sobre o encontro
final entre Yahali e Rahazz, e ela desejava manter-se neutra a
todo custo, manter-se alheia e cuidar de sua própria vida.
— Está certo, então. Dêem-me tempo para mudar de roupa e
apanhar algumas coisas — resolveu.
Apareceu quinze minutos depois, numa bata solta, lilás,
calçando botas altas e macias, uma bolsa bordada pendendo
do ombro.
— Estou pronta.
As pessoas presentes na Casa da Vidência, oficiais e
sacerdotes, não ficaram impressionadas com sua aparência.
Muito simples, pensaram, pobremente vestida. Se era tão
famosa, por que parecia tão pobre? Ou talvez fosse avarenta?
Essa era também a opinião das outras videntes em suas
roupas bonitas, suas jóias cintilantes (algumas delas neces-
sárias durante o trabalho, pois eram conhecidas por facilitar
sua tarefa), ciumentas da possibilidade de ela ser bem-
sucedida onde haviam fracassado.
Tlatli estava grávida de mais de oito meses e, exceto seus
olhos grandes de gazela, com efeito parecia bastante
insignificante.
A Casa da Vidência erguia-se na periferia de uma pequena
aldeia, bem guardada por encontrar-se perto do território de
Zenhar.
Concentrou-se logo, após sentar-se, desejando ver-se livre
daquilo o mais breve possível e, onde os outros haviam feito
os maiores esforços para penetrar a barreira, durante muitos
dias, sem conseguir, ela sentiu-se apenas um pouco impedida
por um instante e depois atravessou com facilidade.
A criança em seu útero se mexeu. Sentiu-a claramente
excitada, de uma maneira feliz e sonolenta. Desde o início
ela soubera o que a criança sentia, suas pequenas alegrias,
pequenas tristezas e, sim, também os momentos de ansiosa
excitação, ao saber que se aproximava de uma grande
aventura: o nascimento.
Enquanto começava a descrever automaticamente o que via,
sentiu os oficiais se aproximando para não perder nenhuma
palavra do que estava dizendo, alguns deles anotando tudo. E
a criança também estava ficando mais alerta. Estaria
desejando nascer? Não, nada disso, não ainda... mas então, o
quê?
Avistou o esconderijo nas montanhas, o quartel general de
Rahazz. O Templo de Ouro. O milho crescendo alto nos
campos, casas, muitos soldados preparando-se para a guerra.
Abruptamente calou-se, abrindo os olhos, que sempre
costumava fechar para concentrar-se melhor. Desculpou-se,
murmurando algo sobre estar cansada e então fechou de
novo os olhos.
A cena diante dela era espantosamente clara: as crianças, o
que havia acontecido às crianças, onde estavam? Não
continuou relatando, apenas permaneceu quieta, olhando
sem dizer coisa alguma. Sentiu-os esperando, numa grande
expectativa, até mesmo excitados.
Nada de crianças, bebês ou adolescentes; nada de mulheres
exceto por um destacamento de guerreiras sendo treinadas.
Um ar geral de abandono, de evacuação. Parou de ver
quando uma voz baixa e profunda disse a seu lado:
— Vá em frente. Ficou difícil? Para o que estão se
preparando, além da guerra?
Ela não voltou a cabeça. A voz do Rei. Instantaneamente,
bloqueou os pensamentos. O que ele iria ver ou sentir seriam
pensamentos luteis de mulher, sobre como ficara irritada ao
ver as outras moças em suas roupas maravilhosas, sobre
como a pobreza a cansava... e pensamentos sobre seu filho,
pensamentos de mãe. Uma confusão de mexericos de aldeia,
o que haviam dito após a morte de seu marido e assim por
diante.
Havia se treinado durante muitos anos, um caso raro. Era
preciso saber como evitar que os outros vissem o que não
desejava revelar. Sempre que necessário. Olhou para o Rei.
— Sinto muito... a viagem foi longa. Gostaria de me alimentar
um pouco, por favor.
O alimento veio em seguida, sendo-lhe servido com todas as
honras devidas a alguém de sua profissão. Sentiu os olhares
invejosos que lhe lançavam as outras videntes. Enquanto
comia, sentiu uma pequena agitação dentro de si. O bebê...
não entendia... desejava ganhar tempo. Por quê? Comeu
muito devagar, sentindo-se tensa.
Por que esse súbito pânico, essa relutância em continuar?
Não havia nenhum problema. Apenas tinha de relatar o que
via.
O Rei notou como ela evitava a carne suculenta que havia
sido posta em seu prato por sua ordem, comendo apenas
legumes, frutas e bebendo água, ignorando o vinho. Essa
mulher era vegetariana havia algum tempo, concluiu, pois
ordenara que trouxessem a carne para testá-la. Naturalmente,
era uma das coisas essenciais da profissão, aquela dieta. Os
videntes deviam evitar comer "coisas que sangravam". Mas
pelo modo como ela sequer olhara para a carne, demonstrara
que era vegetariana havia um bom tempo. Os outros, ele
sabia, apenas se abstinham durante alguns dias, quando havia
a perspectiva de um trabalho importante, o que com
freqüência fazia com que falhassem quando algo urgente e
inesperado se apresentava, sem dar-lhes tempo para aqueles
dias de preparação.
Então a reconheceu. Sem dúvida, essa era a mulher que
havia salvo os gatos naquela noite. Ótimo, quanto maior sua
sensibilidade, maior seu poder para penetrar naquela barreira
especial.
Ela voltou para a cadeira. Pediu que os outros se
mantivessem um pouco afastados, que mantivessem certa
distância, para que as imagens viessem mais claras. Sabia que
desta vez estava apenas protelando, mas também que uma
das regras de sua profissão rezava que nenhuma influência
externa deveria intervir no processo de ver.
Mesmo Yahali se afastou.
Então viu as crianças. Mas desta vez não começou a falar em
seguida, fingindo ainda estar se preparando para a
concentração. O suor começou a se formar em sua testa,
sentia as axilas úmidas e quentes.
As crianças estavam acampadas todas juntas numa planície
gramada a menos de dez quilômetros do quartel general do
inimigo. As crianças, suas mães, suas avós e outras mulheres.
Quantas? Talvez trezentas, ou mais ainda, e parecia que
outras estavam chegando. E cerca de oitenta homens
escoltando-as, oitenta ou mais. E dois, não, três guias
montanheses. Homens, não, esses mal podiam ser chamados
homens, eram mais como elfos, meio caminhando, meio
voando. Criaturas simpáticas, estranhas e simpáticas. Sentiu-
se logo em contato com eles.
Um dos homens-elfos, sentindo o contato, parou o que
estava fazendo, ficando muito alerta. Soube que ele estava
vendo-a também, sentiu seu súbito alarme e observou seus
movimentos rápidos de pássaro, indo na direção de alguém
que não podia ver. Sua voz aguda, semelhante ao som de
uma flauta, ouviu claramente, chamava:
— Comandante!
Agora seus olhos apreenderam a cena inteira. A pessoa
chamada, uma figura forte, bronzeada, de olhos azuis, semi-
envolta numa capa azul-escura, cabelo escuro, salpicado de
cinza, largos braceletes de prata nos braços, ouvindo as
palavras do guia, uma súbita ruga de preocupação formando-
se na testa. Soube para onde estavam indo, com aquelas e
muitas outras crianças que se juntariam a eles pelo caminho.
Para a costa. Para partir do país. Tropeçara no que era a
missão mais secreta de todas — o êxodo das crianças.
Viu tudo isso em apenas alguns momentos, mas seus lábios,
procurando formar as primeiras palavras, estavam secos e
não emitiram nenhum som. Pediu um copo d'água. E então,
quando começou a falar, dentro de si a criança gargalhou.
A criança gargalhou efetivamente. Não havia outra palavra
para isso. Uma gargalhada alegre, como a de alguém
chegando em casa depois de uma viagem muito cansativa.
"Em casa? Meu Deus, não! Meu bebê, minha criança, não,
não... Eles estão tão longe... como poderei chegar em
tempo? E eles estão, seguindo adiante... eu... nunca, não!"
E então sentiu-se sacudida com violência e estava ali. Não
apenas vendo, estava ali. Os guias, vendo-a, olharam-na
perplexos e então o homem de capa azul-escura viu-a
também, olhando com aquela mesma ruga preocupada na
testa, sem compreender.
Em seu útero, a criança estava delirante de felicidade.
Estendeu as mãos, desejando explicar:
"Sinto muito, é a criança, vocês sabem. Ela é muito forte.
Não desejava me intrometer, mas..."
Abriu os olhos. Eles a haviam deitado num sofá confortável
em outra sala, estavam massageando suas mãos, pés e cabeça.
O médico do Rei estava ele próprio atendendo-a, e o
fazendo com muita competência.
Ela se desculpou:
— Sinto muito. Isso nunca aconteceu antes comigo — mas
não se referia ao desmaio... nunca havia sido arrancada de
seu corpo desse modo abrupto, contra a própria vontade.
— E o esforço — disse o médico —, o esforço de atravessar a
barreira deixou-a exausta. Deve descansar um pouco.
Mas, sem pensar, sentindo-se apressada, ela disse, erguendo-
se:
— Não, estou bem. Vou terminar o trabalho agora. Não há
necessidade de descansar mais. Realmente.
De volta à outra sala, concentrada, toda a cena diante dos
olhos, soube com precisão o que dizer. Começou a falar.
— Impressionante... Estão cuidando dos campos. Crianças
brincam por toda parte, há um serviço sendo realizado no
templo. Posso ouvir música. E, lógico, muitas conversas
sobre a guerra, soldados sendo treinados, mais homens
chegando de toda parte, de todas as tribos. (Não havia
necessidade de mentir aqui, era de conhecimento geral que
todas as tribos das montanhas se haviam reunido ao redor de
Rahazz, jurando lealdade.) Está frio, mas nas casas as lareiras
estão acesas. As mulheres estão ocupadas em seus jardins ou
campos, e cuidando dos bebês. Vejo muitas crianças, uma
grande quantidade de crianças.
Assim ela mentiu, continuou mentindo, descrevendo
detalhes, tipos de uniformes, as condições do tempo... e
enquanto mentia empurrava a verdade que havia visto para
os mais profundos e escuros recessos de sua mente.
Eles lhe deram dinheiro, jóias, as outras videntes observaram
com desdenhosa inveja. O médico ordenou um descanso de
três dias, achando-a bastante fraca.
— Depois disso precisaremos mais uma vez de seus serviços
— disse o chefe do Estado-Maior. Dessa vez teremos uma
sessão de vidência coletiva.
Ela não demonstrou o choque que sentiu.
— Vidência coletiva?
— Sim, uma vez que seus colegas não são capazes de
penetrar a barreira de força, sua tarefa será apenas
retransmitir as imagens que estiver recebendo, no momento
exato em que as receber. Não haverá necessidade de que
descreva nada, apenas continue vendo e eles se sintonizarão.
Ela assentiu:
— Excelente.
No quarto que lhe designaram, contou logo o dinheiro. As
jóias, muito valiosas, poderiam ser trocadas por alimento,
alojamento e roupas quentes, que não havia trazido.
Dissera-lhes que para estar mais bem preparada para a
vidência coletiva iria jejuar por dois dias, pedindo-lhes para
não a incomodarem e trazerem leite somente na noite do
terceiro dia. Com sorte, não descobririam seu
desaparecimento antes disso.
Não queria pensar no modo como esses guerreiros,
responsáveis pelas crianças, iriam recebê-la. Mesmo se algo
lhe acontecesse ou a rejeitassem, não fariam nada contra sua
criança, iriam levá-la consigo, disso estava certa, para onde
quer que estivessem se dirigindo. E calculou que os
alcançaria apenas após ter dado à luz.
Escreveu um bilhete muito policio, desculpando-se com o
chefe do Estado-Maior: "Não posso ficar, senhor. Desculpe-
me. Meu bebê deve nascer a qualquer momento e, de
acordo com a tradição familiar, devo dar à luz sozinha, na
floresta. Depois disso, voltarei e reassumirei o trabalho".
Seu quarto tinha grandes janelas em arco, abertas agora para
o sol poente, e o som da floresta estava muito próximo. As
Casas de Vidência eram sempre localizadas em lugares como
aquele, graças a Deus. Quando tudo ficou quieto, as luzes
apagadas, esgueirou-se pela janela. Foi fácil distrair os
soldados próximos atirando uma pedrinha na direção oposta.
Silenciosamente, desapareceu entre as árvores, uma figura
pequena, sem ter sido percebida. Os guardas retomaram suas
monótonas caminhadas para um lado e para outro logo em
seguida.
Embora estivesse acostumada a caminhar, a subida
permanente e sem tréguas era cansativa, teve de admitir, o
bebê pesado dentro de si, as costas doendo. As primeiras
aldeias que alcançou estavam abandonadas. "Eles também
estão partindo", pensou, "todos parecem estar partindo".
Então, depois de muitas horas extenuantes, no sétimo dia
após ter deixado a Casa da Vidência, chegou a uma aldeia que
ainda apresentava sinais de vida. O ar se havia tornado mais
rarefeito nos últimos dias, e as noites mais frias. Convidaram-
na a sentar-se junto ao fogo, onde muitos homens e
mulheres haviam reunido o conselho da aldeia.
— Vocês também estão de partida? — perguntou, após notar
que não havia crianças na aldeia, apenas adultos.
Uma das mulheres, adivinhando o que ela observara,
explicou:
— As crianças partiram. Mas nós vamos nos juntar a Rahazz.
Ele precisa de homens e mulheres capazes de lutar, para
deter o inimigo até que todos tenham partido.
Ela assentiu. Então, tomando das jóias, ofereceu-as em troca
de comida e roupas quentes para ela e o bebê.
Eles dispensaram as jóias.
— Não, que faríamos com isso? Na batalha? Mas temos
algumas roupas e cobertores para você. E comida também.
Não, por favor, não insista. Estamos todos juntos nisso. Fique
conosco esta noite. Amanhã poderemos acompanhá-la
durante uma parte do caminho. Mas, se deseja alcançar as
crianças, deve se apressar.
Ela acordou pouco depois da meia-noite, decidindo não
esperar por eles, justificando sua decisão aos sentinelas,
despediu-se com um caloroso aperto de mão e então se foi.
Nos últimos — dois, três, quatro? — quilômetros, muito
íngremes, praticamente se arrastou, um tamborilar contínuo
nos ouvidos, os olhos embaçados de fadiga, não sentindo
mais as pernas.
Havia chovido e estava ensopada de suor e água da chuva,
mal sentindo o frio do ar cada vez mais rarefeito da
montanha. Talvez não chegasse em tempo, mas a criança
estava apressando-a para seguir adiante. A criança parecia
saber melhor do que ela própria. Apressava-a: "Não pare, vá
em frente, nós chegaremos, mas não pare".
Então chegou a um ponto em que o caminho se alargava,
formando uma espécie de precária clareira. Passava de meio-
dia e o sol saíra. Percebeu que não poderia continuar. Não
importava o que acontecesse, ela iria, iria.... estranho, a
criança estava muito quieta agora. Havia parado de apressá-
la.
Sentou-se, retirou a capa, estendendo-a no solo da floresta
com as últimas forças, e agora a dor que havia ignorado por
todo o tempo durante a subida chegou em ondas fortes e
constantes. Começou a regular instintivamente a respiração
como vira tantos animais fazerem, durante ocasiões
semelhantes. Então havia perdido, não iria alcançá-los em
tempo. Que pena! O bebê estivera tão determinado a
alcançá-los...
Mas então parou de pensar, precisando de toda a energia
para concentrar-se, as dores não podiam mais ser ignoradas,
logo a criança teria nascido.
Um dos guias encontrou-a desse modo, a criança estendida
sobre sua barriga, já procurando o seio, o cordão umbilical
ainda preso à placenta. Ele se inclinou e, com habilidade,
cortou o cordão com ajuda de uma pequena faca que trazia,
retirando a placenta e enterrando-a sob alguns arbustos
próximos.
Afastando o cabelo de seu rosto, reconheceu-a logo: a
mulher que havia visto fora do corpo, no acampamento, dias
atrás. Uma das videntes de Yahali, aquela que fora capaz de
atravessar a barreira de força.
Levantou-se espantado, correndo até o acampamento para
chamar Zenhar. Essa mulher era perigosa, na certa fora
enviada para preparar-lhes alguma armadilha. Permitir que se
juntasse a eles poderia ser o fim para todos. Era óbvio que se
tratava de uma espiã.
Acompanhado por um Zenhar surpreso, voltou meia hora
depois, conversando excitado durante todo o caminho em
sua voz aguda, semelhante ao som de uma flauta.
Zenhar olhou-a. Cabelo emaranhado, roupas
ensangüentadas, o bebê já sugando gulosamente seu seio. Ela
abriu os olhos, olhou-o por alguns segundos, depois
estremeceu e fechou-os de novo.
"Está com medo de que a deixemos aqui", pensou Zenhar. A
voz do guia ouviu-se ao seu lado:
— Ela é um deles. Vi-a na Casa da Vidência; sacerdotes,
militares, até o Rei, todos estavam ali. Ela foi a única capaz
de atravessar a barreira. Viu-a também, não é verdade? Deve
estar aqui numa missão especial.
Ela ouviu tudo, mas como de muito longe... queria protestar,
explicar. Havia sido chamada sequer sabia para o quê. Não
revelara o segredo, mentira. Estava aqui apenas porque o
bebê desejara nascer aqui, desejara juntar-se a eles. Como
isso iria soar-lhes absurdo... melhor ficar quieta.
— Não podemos levá-la... deixe-a... vamos levar apenas o
bebê — disse o guia.
Suas mãos pontudas estenderam-se e retiraram o bebê do
seio da mãe, com suavidade, mas ainda assim a criança
começou logo a chorar.
Zenhar permaneceu imóvel. O guia já havia se afastado
vários passos, subindo a trilha naquele seu estranho andar de
ave, a criança nos braços. Zenhar resmungou com irritação.
Esses camaradas, eles pensavam que sabiam tudo. Retirou
seu manto, inclinou-se e envolveu-a, erguendo-a um pouco
para fazê-lo, sentindo como estava fria. Levantou-a nos
braços. Ela sentiu o calor da vestimenta, tentou abrir os
olhos, disse algo sobre o sangue estar estragando o manto.
Quando alcançou o guia, viu as rugas na testa do elfo, ouviu-
o dizendo:
— Comandante Zenhar, não devia...
Mas Zenhar passou por ele, a moça em seus braços dizendo:
— Ele tem razão. Não tenho o direito de estar aqui. Vi para
eles, mas eu não... Quando vi todos vocês, as crianças, as
mães, eu menti. Não contei nada. Eu compreendo. Ponha-
me no chão, peço apenas que cuide bem do bebê, ele queria
tanto juntar-se a vocês. Acredita em mim, não é verdade?
Zenhar resmungou e fez um "shhh", não dando qualquer
atenção a expressão de desalento no rosto do guia.
No acampamento improvisaram uma cama para ela, algumas
das mulheres lavaram-na e arranjaram-lhe roupas limpas.
Então Zenhar reapareceu com o bebê. Inclinou-se e disse,
com um sorriso no rosto:
— Não consigo vê-la como inimiga, de maneira alguma...
aqui está o seu bebê.
O último passo a atravessar antes da descida final para a praia
era o mais perigoso. Ali, oculto entre as tendas, naturais ou
abertas pelo homem, estava instalado um bem-treinado
destacamento de guerreiros veteranos que até então nunca
haviam deixado se enganar. Nenhum inimigo jamais
conseguira passar por eles. Era impossível fazê-lo.
"E nós, todos nós", pensava Zenhar, "temos de passar ali sem
sermos vistos". Estava acocorado, desenhando figuras bobas
com um graveto num trecho limpo do chão. "Como se quer
que eu saiba? Estou encarregado. Rahazz pensa que posso
fazer milagres. Uma ova que posso, sou exatamente tão
estúpido como qualquer outro. O paço todo está sendo
vigiado dia e noite e mesmo esses camaradas de pele azul
afirmaram que não temos a menor chance de passar...
mesmo eles parecem perplexos. Então como fico? O que foi
mesmo que Rahazz disse? 'Você é o único capaz de executar
essa tarefa. Somente você.' Ah! que bobagem. Eu não tenho
a mínima... Que diabo posso fazer? Meu Deus, todas essas
crianças serão simplesmente massacradas. E as mulheres?
Pior ainda para elas do que para os homens, são consideradas
mais perigosas por engravidarem. Não haverá clemência para
elas."
Tlatli, amamentando seu bebê à pequena distância, não
precisou ouvir as últimas palavras, ditas com angústia em voz
alta. Estivera lendo seus pensamentos como se fossem dela
mesma.
Nada disse, entretanto. Levantando-se, afastou-se do
acampamento até estar fora da visão. Zenhar, vendo-a
afastar-se, sentiu-se ainda mais desesperado. Por que não a
haviam deixado em paz, a ela e à sua criança? Talvez dessa
forma ela tivesse uma chance, quando agora seria a morte
certa para ela também.

Capítulo XXVIII

Tlatli achou fácil entrar em contato com a guarnição. Não
tão fácil, entretanto, insinuar-se na mente obstinada de seu
comandante, ou completamente imerso nos problemas da
guerra, ou preocupado com a falta de mulheres. Seus
homens vinham se tornando irritados, inquietos, briguentos
e muito aborrecidos.
Mas, afinal, conseguiu penetrar. A imagem que projetou em
sua mente era de si própria, o chefe do Estado-Maior atrás de
si. Yahali um pouco mais afastado. A visão do Rei, ele se
assustou. No fundo, ela projetou vislumbres das videntes,
lindas e jovens.
Assegurou-se de que a imagem se delineasse com nitidez em
sua mente, então transmitiu outra: "Leve seus homens para
lá, é uma ordem!" Projetou então a imagem de outro paço, a
dois dias de marcha: "0 Rei precisa de você ali, um ataque
inimigo é iminente. Isso não deve acontecer, você precisa
reforçar o destacamento".
Sentindo uma súbita desconfiança, fê-lo ver a imagem
completa de uma das videntes, uma garota sensual, macia, os
seios mal ocultos sob a túnica de seda, uma perna bem
torneada. A desconfiança desapareceu. Então, junto com a
imagem da guarnição para onde desejava que fossem,
projetou, uma outra, da aldeia próxima. Garotas caminhando
pelas ruas, uma fileira de casas bem cuidadas com jardins
coloridos. Viu-o sorrir: casas de prazer, aquela aldeia ele
conhecia muito bem, linha uma reputação famosa. Como
seus homens iriam adorar a mudança de rotina!
Enquanto estava ocupada, sentiu alguém por trás de si. "O
guia, ele ainda não confia em mim, pensa que estou aqui para
comunicar-me com o inimigo."
Sem se voltar, estendeu o braço para trás, segurando o dele e
colocando sua mão no próprio ombro. Sendo um homem-
elfo, ele seria suficientemente sensível para sintonizar o que
estava acontecendo. Sentiu-o ficar muito aberto, muito
alerta, e logo ele pôde ver o que ela fazia. Uma imagem do
comandante inimigo absorvido nas visões que ela o fizera
ver e que o guia, também, viu com muita clareza, captando a
mensagem que ela enviava.
Depois cortou o contato. Isso era suficiente, agora teriam
apenasdle esperar para ver o que aconteceria. O guia não
disse palavra, apenas lançou-lhe um olhar curioso, talvez
ainda desconfiado.
Chegou ao acampamento muito mais tarde, vendo que havia
um conselho reunido. Na manhã seguinte, os guias
trouxeram notícias estranhas e felizes. O destacamento
estava se afastando, já deixando o paço. Apenas uma
pequena unidade havia ficado para trás, para guardar a
guarnição. Cerca de trinta homens ao todo, bem
entrincheirados.
Zenhar veio para agradecer-lhe, o guia havia lhe contado.
Ela suspirou.
— Infelizmente ele demonstrou ser um ótimo soldado —
disse, falando do comandante. — Deixou aqueles homens
atrás de si. O que vai fazer agora? Arriscar um ataque?
Naquele momento, o guia passou por eles abrindo caminho
entre as árvores e Zenhar disse:
— Não sei o que ele tem em mente, mas ele diz que sabe
como manejar esses homens. Amanhã, poucas horas depois
do amanhecer, tentaremos passar, se tudo sair de acordo
com o plano.
Estavam parados muito perto um do outro. Ela sentiu sua
proximidade, o braço dele roçando no seu, quando ele virou-
a para si, buscando seus lábios, acariciando seu cabelo.
— Sei que é muito cedo para esse tipo de coisa, Tlatli —
disse. — Muito cedo depois do bebê. Mas esperarei —
beijou-a mais uma vez. — Quero-a muito, mas posso
esperar.
Ele sabia onde estavam as abelhas, sabia sem ter aprendido,
era um instinto que todos eles possuíam, alguns mais, outros
menos. Assim, depois de passar por Zenhar e aquela jovem
que julgara tão mal, dirigiu- se para lá, para o fundo da
floresta, onde havia muitas colméias no alto das árvores. Não
havia necessidade de se aproximar, subir nas árvores para
chegar às copas que recebiam a luz do sol durante o dia todo
e os raios suaves do Planeta Gentil durante a noite toda.
Sentou-se numa clareira, rodeado, como sabia, por muitas
nações. Aquele fora um dia claro, ensolarado, mas agora era
a tarde e em breve o crepúsculo estaria se estabelecendo e as
últimas abelhas chegariam zumbindo às suas colméias cheias
de mel e pólen.
Ele começou a zunir, primeiro de forma quase inaudível,
mas gradualmente mais alto, até que o ar ficou cheio do
zunido de um enxame de abelhas. Pouco depois o zunido
decresceu em intensidade até ficar inaudível outra vez,
ouvido apenas pelas abelhas. Então ele parou e apenas
continuou sentado, esperando, para começar de novo após
um intervalo de profundo silêncio.
Isso repetiu-se por sete vezes. Ainda estava claro, de modo
que pôde vê-las chegando, senti-las voando perto, pousar em
seus braços, sua cabeça, depois se afastarem de novo,
zumbindo o tempo todo.
Por fim levantou-se e começou a dançar. Dançando formou
oitos e ovais, nunca em ângulos agudos, num deslizar suave
no qual o seu passo normal, estranho e semelhante ao de
uma ave, ajudava bastante. E sempre aqueles oitos, primeiro
pequenos, depois maiores e maiores até cobrirem toda a
clareira, acompanhados pelo zunido agudo e misterioso que
emitia.
Dançando, reforçou o contato com os povos que outrora,
milhões de anos atrás, haviam vindo do Planeta Gentil.
Estava escuro quando parou de dançar, mas continuou o
zunido alto. Nenhuma abelha estava à vista agora, mas sabia,
que estavam esperando, ouvindo, esperando pelo que tinha a
dizer.
Embora estivesse acostumado a isso desde criança, como
todos os de seu povo, não sabia como a comunicação era
estabelecida. A cadência do zumbido crescia e diminuía
outra vez, o ritmo mudando todo o tempo, de modo
imperceptível, porém mudando. Nunca sabia de antemão
como fazê-lo, mas de algum modo sempre acabava fazendo
direito, disso estava certo.
A resposta veio, por vezes expressa apenas em silêncio,
outras vezes num zumbido muito baixo, que teria sido
inaudível a ouvidos humanos. Mas não sendo totalmente
humano, ele ouviu.
"Por que deveríamos? Deixe-os em paz. Eles ali, nós aqui..."
"A necessidade é grande, muitas vidas dependem de sua
ajuda."
"Haverá muitas mortes. Dos nossos. Por que deveríamos nos
preocupar? Aqui estamos seguras."
O zumbido ficou mais rápido agora, mais urgente. Sentiu que
estava perdendo terreno, nunca acontecera assim com ele,
mas também nunca pedira por esse tipo de ajuda, de
sacrifício.
Então mudou subitamente de tom, seu zunido soando mais
como uma canção agora, os tons agudos se tornando mais
baixos, muito baixos e graves. Estava cantando uma história
sem palavras:
Sobre os tempos em que súbitas geadas haviam ameaçado as
nações, matando suas larvas ainda sem asas, sobre ventos
furiosos derrubando árvores, deixando-as impotentes,
chuvas pesadas inundando suas colméias.
Sobre os tempos em que ele e seu povo as haviam ajudado,
buscando para elas, com cuidado extremo, outros lugares
onde as futuras abelhas estariam aquecidas e protegidas,
salvando tanto mel quanto possível, descobrindo novos lares
onde futuros ventos e águas não as alcançassem.
E sobre os tempos em que as encontraram amontoadas perto
de suas antigas colméias, quando homens, não do povo-elfo,
haviam chegado e em seus esforços para alcançar o mel,
furiosos por causa dos ferrões, as abelhas não desejando
cooperar, haviam passado a atear fogo às colméias, sempre
que as encontravam, numa ira sem sentido. E como,
naqueles tempos, ele e outros homens e mulheres-elfo as
haviam ajudado, salvo o que havia sido deixado das abelhas
jovens, recolhendo abelhas aturdidas e feridas espalhadas
pelo solo da floresta, nutrindo-as para revivê-las,
descobrindo ou construindo colméias para o resto da
colônia, procurando por rainhas que possivelmente
pudessem ter escapado à destruição.
Depois disso, ficou sentado o resto da noite, pensativo,
lembrando as antigas lendas que seu povo conhecia sobre
sua vinda do Planeta Gentil, junto com as abelhas. Milhões e
milhões de anos antes.
Quando o dia chegou e os primeiros raios do sol começaram
a infiltrar-se na floresta, ainda estava ali sentado, esperando.
Era cedo para que as abelhas saíssem, de modo que
continuou esperando, o sol, aos poucos, tocando sua cabeça,
seu cabelo acobreado. Estendeu as mãos para aquecê-las
quando os primeiros raios, passando através da folhagem,
alcançaram o solo da floresta. As membranas, entre seus
dedos, ficaram quase transparentes sob a luz suave, a pele se
iluminando com um brilho azulado.
Então elas saíram. Um pequeno grupo de operárias,
aparecendo das muitas colméias ocultas por toda parte.
Voaram em sua direção, zumbindo forte e excitadas,
praticamente se detendo em pleno ar. Cada grupo por sua
vez começou a dançar.
Olhando-as pensou que elas dançavam muito melhor que
ele, era preciso ter asas para dançar bem, não havia dúvida.
A dança das criaturas presas à terra, mesmo quando no
máximo da perfeição, nunca era mais que um esforço
desesperado para elevar-se no ar.
Enquanto as abelhas dançavam, os raios do sol, ficando mais
fortes, douravam seus corpos, tornando suas asas invisíveis,
imprimindo milhares de cores aos seus olhos multifacetados.
Observando-as, ele se perguntou por que as pessoas falavam.
Dançar e cantar era suficiente, era tudo que era realmente
necessário. Cada pequeno som dos zumbidos era dividido no
que parecia uma infinidade de outros sons, estes
subdivididos em outros ainda e assim por diante. Cada qual,
com um significado diferente. Por que falar? Por que as
palavras, desafinadas, que dificilmente resultavam em
comunicação e quase sempre em confusão e
desentendimento?
Quando a dança terminou, ele se levantou devagar, um
sorriso nos lábios. Iria à procura de Zenhar agora, para
contar-lhe as boas-novas. As abelhas haviam concordado,
iriam esperar pelo sinal para iniciarem sua parte na tarefa.
As abelhas começaram cedo. Vieram de todos os lados,
saindo de rachaduras, debaixo das pedras, assim como de
cima, mal propiciando aos guerreiros tempo de se darem
conta do que estava acontecendo, ferroando em toda parte
que alcançavam, perseguindo implacáveis o inimigo até os
pontos mais interiores da guarnição, dentro de salas e salões
bem-defendidos, absolutamente invulneráveis contra
qualquer ataque. Mas as abelhas entravam, seu zumbido
zangado elevando-se a um rugido ensurdecedor dentro da
fortaleza, sem hesitar, às centenas de milhares, ferroando a
todos, sempre que conseguiam. O chão, dentro e fora, em
breve estava coberto de abelhas mortas e agonizantes, o ar
cheio de gritos e berros desesperados dos homens, correndo
sem direção, alguns seminus, não tendo tido tempo de se
vestirem.
As crianças, desta vez lideradas pelos dois guias-elfos,
espalharam-se por uma área bastante grande, esperando,
bem escondidas, pelo sinal para iniciar a marcha, rodeadas
por Zenhar e seus homens.
Alguns soldados, ferroados por milhares de abelhas, estavam
caídos ou arrastando-se na trilha que passava pela fortaleza.
Então um dos homens, durante uma trégua no ataque, que
logo seria seguido por outro ainda mais agressivo, se
lembrou. Enquanto tentava retirar algumas abelhas do
cabelo, berrou com todas as forças:
— Homens! Para as cachoeiras, lá embaixo, lá na garganta. É
nossa única chance — e começou a deslizar pela trilha
íngreme de onde, muito embaixo, podia ser vista a cintilação
de água.
Todos ouviram. Aqueles que ainda podiam mover-se,
seguiram- no, meio correndo, meio se arrastando,
rastejando, respirando ofegantes, alguns deles de quatro. Os
mais desesperados simplesmente atiravam-se pela encosta
abaixo, rolando sobre tocos de árvores, pedras e arbustos
espinhosos até chegarem no lugar onde uma queda d'água
formava um poço profundo entre margens cobertas de
musgo. Ali saltavam, rolavam, caíam ou se empurravam para
a água, esquecidos de como era fria.
As abelhas não podiam alcançá-los, mas continuaram
chegando de todos os lados e assim que alguém ousava
levantar a cabeça acima da água por mais que alguns
segundos, era atacado. Um homem, já meio morto, afogou-
se, outros apenas sobreviveram por terem conseguido
encontrar águas mais rasas, onde podiam ficar de pé e
afundar as cabeças quando o inimigo atacava, a dor das
ferroadas temporariamente aliviada pela água gelada.
Um dos soldados, estirado quase morto perto da margem,
sem forças para arrastar-se, viu e ouviu as crianças passarem,
as vozes jovens e claras, os tons agudos de flauta dos guias,
mas pensou que estava sonhando ou delirando. Crianças aqui
em cima? Primeiro as abelhas e agora isso... Tentou levantar-
se, chegando afinal à beira da garganta. Muito abaixo avistou
a água, ouviu os gritos dos companheiros. Antes de rolar
para baixo, olhou para trás e, espantado, viu uma criança
pequena passando, olhando-o nos olhos.
Aquilo não podia ser verdade. Fechou os olhos e começou a
rolar.
A descida não foi fácil porque a chuva começou a cair
vigorosa e várias crianças foram acometidas de febre.
Havia ainda, no mínimo, três dias de caminhada até a praia,
mas por causa das crianças doentes e das mais novas, tiveram
de parar com freqüência para descansar. A reação se fazia
sentir. As semanas longas e cansativas durante as quais
estiveram avançando através da selva, a tensão constante, a
falta de conforto, o exercício exaustivo e as lágrimas estavam
agora começando a aparecer nos jovens rostos cansados.
Os homens eram incansáveis, Zenhar havia escolhido bem.
Sempre contando boas histórias, tolas e alegres, sempre
bem-dispostos, enfrentando com naturalidade mesmo as
situações mais perigosas. Assistidos pelas mulheres,
construíam abrigos contra o vento e a chuva, de modo que,
ao menos à noite, todos pudessem dormir aquecidos em ca-
mas improvisadas. Reuniam lenha, preparando algum
alimento, ou bebida quente ao menos uma vez por dia.
Zenhar dividiu a coluna em duas, enviando as crianças mais
fortes e as mulheres na frente, escoltadas por metade de seus
homens. Estava ficando preocupado com o atraso; aquele
comandante da fortaleza enganado por Tlatli poderia
começar a alimentar suspeitas e decidir enviar alguns
homens de volta para saber se tudo estava correndo bem.
Quando falou disso com Tlatli, ela disse, calmamente:
— Foi exatamente o que ele fez. Ele é muito eficiente. Vi-o
falando agora mesmo... — e, respondendo à pergunta em
seus olhos: — Enviou quinze homens de volta ao paço. Vi-
os conversando com os sobreviventes. Sete dos que deixou
para trás morreram envenenados ou afogados e o resto se
encontra num estado deplorável.
Mas podiam falar. Disseram que não havia razão para que as
abelhas os tivessem atacado, ninguém havia perturbado, por
acidente, uma colméia ou tentado roubar mel. Achavam que
tudo se parecia demasiado a um assalto planejado. Para quê?
Não sabiam, não conseguiam pensar em qualquer razão,
exceto... Mas o camarada com certeza estava delirando,
havia morrido pouco depois...
— Você quer dizer — disse Zenhar com incredulidade —,
que os ouviu falando todas essas coisas?
— Não — riu ela —, li seus pensamentos. E aquele rapaz
ouviu vozes de crianças, viu-as passando, efetivamente as
viu. E também ouviu outras vozes, muito agudas, como tons
de flauta.
O tenente que havia ouvido os sobreviventes balançou a
cabeça.
"Crianças aqui? Coitado. E sons de flauta?" Aí ele
empalideceu de repente e, sem dizer palavra, se levantou e
começou a procurar algo no terreno perto da fortaleza, seus
homens observando-o atônitos.
"Uma voz de flauta", o soldado tinha dito, "como o tom de
uma flauta".
Um homem-elfo. Um guia! Agora o súbito ataque das
abelhas começava a fazer sentido. O povo-elfo ou povo-
abelha. Mesmo assim, crianças? Para o quê, de onde haviam
vindo e para onde estariam indo?
Não encontrou nada, nem mesmo a mais leve das pegadas,
mas o solo era rochoso e havia chovido com bastante
intensidade após o ataque. Até que, descendo a trilha, que
levava à costa por algumas centenas de metros, encontrou a
boneca. Uma boneca de criança, toscamente confeccionada,
suja, feita de panos coloridos, os olhos bordados, o cabelo
feito de lã preta.
Apanhou a boneca de onde estava caída, semi-oculta por
folhas molhadas e olhou-a por um longo tempo, mexendo
em suas pernas, braços, vestido. Lentamente voltou, mas
após juntar-se de novo aos seus homens na borda da encosta,
deu ordens rápidas.
— Rahazz está evacuando seu povo — disse. — Estão
levando as crianças embora.
Sabendo que seria inútil seguir Zenhar, que, estava
convencido disso agora, por certo estaria acompanhado de
um forte destacamento de guerreiros, enviou dois homens
com o relatório ao Quartel General, calculando que
passariam pela barreira de força em poucos dias e então
poderiam enviar as mensagens necessárias da Casa de
Vidência mais próxima.
Mas os mensageiros não chegaram até muito mais tarde. Um
deles caiu e quebrou a perna, seu companheiro buscou ajuda
do povo-elfo numa aldeia próxima. Foram muito gentis e
prestativos, tratando do homem ferido com cuidado,
enquanto ele continuou sozinho. Mas, por alguma razão
misteriosa, perdeu todo o senso de direção, começando a
andar em amplos círculos, até encontrar um daqueles
camaradas azuis que o levou de volta para casa. Finalmente.
Mas então duas semanas se haviam passado.
Foi logo levado à presença do chefe do Estado-Maior.
Estavam todos ali, os oficiais superiores e mesmo Yahali,
olhando com expectativa quando entrou.
Sem dizer palavra, exibiu a boneca, e só então começou a
falar. Ninguém o interrompeu, seguindo o exemplo do Rei.
Por fim Yahali assentiu, enquanto examinava a boneca por
todos os lados, ao ouvir mentalmente a voz de Tlatli: "Não,
não. Entregue-os para mim. São apenas gatos. Deixe-os ir!" E
como ela fora hábil em evitar que sua mente invadisse a dela
durante a vidência.
— Ela viu as crianças a caminho — disse, constatando o fato.
— Poderia ter revelado outras coisas, acho. Mas ela, que se
arriscou por meros gatos não vacilaria em mentir a respeito
das crianças. Então, voltando-se em fúria para o capitão do
Corpo de Videntes, também presente, disse:
— Todos vocês ficarão confinados em seus alojamentos por
três semanas e não receberão qualquer pagamento durante
esse período.
E, voltando-se para Vrina:
— Eles devem ter navios esperando ao longo da costa. Envie
suas naves imediatamente à procura deles. Mas não os
destrua antes que embarquem, apenas depois que tiverem
partido. Começaremos o ataque a Rahazz amanhã cedo ao
invés de dentro de duas semanas. Suas naves também devem
atacar os soldados, sempre que visíveis. Há, certos lugares
que precisam atravessar, onde serão alvo fácil para as naves
— puxou um mapa, traçando algumas linhas, circulando
alguns pontos. — Enquanto estiverem lutando na floresta, as
naves são inúteis, mas assim que saírem, e eles precisam sair,
você irá atacar.
Vrina assentiu.
— Isso acontecerá mais ou menos três semanas depois que
nosso ataque tiver começado — disse —, se eles forem
capazes de resistir por tanto tempo.
— Eles não esperam que comecemos a atacar a partir de
amanhã — disse o Rei. —Talvez a vanguarda seja capaz de
evitar que as crianças embarquem. As marés estão à nosso
favor. Não irão embarcar durante os próximos dez dias.
Depois disso as marés mudarão. Quero surpreendê-los
enquanto ainda estiverem no porto.

À meio caminho da praia as crianças foram recebidas por
homens e mulheres da aldeia que abrigava as "Sete Irmãs".
Trouxeram roupas secas, bebidas quentes e braços fortes para
substituir os braços cansados de carregar os pequenos e
doentes por muitos quilômetros. Já estava escuro quando
alcançaram a aldeia, onde todos encontraram camas e
comida preparada. As crianças doentes foram bem cobertas
para que transpirassem, receberam remédios amargos para
engolir. Os adultos cansados foram massageados e os pés
feridos foram lavados e medicados.
— Todos nós iremos com vocês — disse uma das mulheres a
Zenhar. — Parte de nós constitui a tripulação das "irmãs" e
os outros são passageiros. Irá ficar apenas um pequeno
contingente para receber os que embarcarão nos outros
navios.
Zenhar ficou até tarde daquela noite conversando com o
alcaide, pedindo-lhe que apressasse o carregamento das
provisões, mas o homem levou-o para fora para mostrar-lhe
as furiosas massas de águas negras explodindo contra a praia
e explicando, como Yahali havia dito:
— Teremos de esperar ao menos por mais dez dias. Com
sorte, talvez nove. Nenhuma possibilidade de embarcar até
então. Mas teremos homens vigiando constantemente.
Ninguém irá surpreender-nos. Além disso, eles não sabem,
mesmo se souberem algo sobre o embarque, onde, nesta
extensa costa, o mesmo irá acontecer. Pelo que podem
imaginar, poderá acontecer em vários lugares ao mesmo
tempo.
Depois de banhar e alimentar seu bebê, Tlatli deixou-o
profundamente adormecido numa cama quente, num
aposento grande, cheio de muitas outras crianças e mães,
algumas já dormindo, outras conversando entre si.
Caminhando ao longo da costa, sentia agora como estava
cansada após os longos dias de tensão física e emocional. Sua
casa, com seu amado jardim, parecia infinitamente distante,
perdida para sempre, sabia. E embora tivesse sido o bebê que
a impelira a juntar-se às crianças, sabia também que nunca
teria sido capaz de revelar o que havia visto naquele dia, o
êxodo das crianças, quando todos aqueles homens, com a
respiração contida, esperavam por suas palavras. Lembrou-se
do Rei junto a seu ombro dizendo: "Vá em frente. Ficou
difícil?" E os olhos perspicazes e penetrantes cravados nos
seus. Estremeceu. Se ele tivesse visto através dela naquele
momento! E se os seus soldados ainda os alcançassem, agora
que tinham de esperar que o tempo mudasse? O que fariam
com seu bebê? Será...?
Uma mão ao redor de seu pescoço e a voz de Zenhar,
acariciante, cálida:
— Tlatli... enfim a encontrei. Estive procurando por você por
toda parte.
Ela sentou-se, na areia, puxando-o para seu lado:
— Sente-se. Quero senti-lo perto. Estou com medo do que
pode acontecer se os soldados de Yahali chegarem antes de
partirmos.
— Sim, Eu sei. Também estou com medo!
Com suavidade, ele colocou as mãos sob a camisa que ela
vestia por cima da calça curta, movendo-as devagar,
detendo-se, sentindo seus seios cheios de leite. Então sua
mão direita começou a massageá-la. Ela sentiu um alívio
imediato e disse, admirada:
— Oh, que bom! Isso dá uma sensação maravilhosa. Como
sabia que estava doendo ali?
Ele continuou, massageando com perícia profissional:
— Ora, então não a vi carregando a criança e a bolsa o tempo
todo? Era fácil descobrir onde você estava forçando os
músculos. Entenda, sou um lutador, tenho sido isso durante
toda a minha vida. Como todos nós, sei como depois da
batalha uma pessoa se sente dolorida, tensa, às vezes com
dores infernais. Sabemos tudo sobre massagens. Precisamos
saber! Você nunca viu os rapazes treinando?
—Vi. Assisti sessões de massagem também. Parece-me,
apenas, que aqueles massagistas aplicavam sua arte com
muito mais vigor, para não dizer brutalidade.
Ele riu.
-— É verdade. Mas não posso massageá-la como se fosse um
homem, Tlatli. Você é macia demais. Preciso ser cuidadoso.
Ele a puxou, abraçando-a com firmeza, mantendo-a junto de
si, mas sem qualquer tentativa de aproximação sexual. Ela
ergueu o braço, acompanhando com o dedo a linha irregular
da cicatriz até sob o cabelo, beijando-a lentamente e fazendo
o mesmo com a de seu braço.
— Conte-me onde arranjou essas marcas.
Ele a abraçou com mais força ainda, depois deitou a cabeça
em seu colo, olhando-a nos grandes olhos que lhe sorriam.
Suspirou:
— Vou lhe contar, mas apenas porque por enquanto estou
proibido de fazer amor com você.

Capítulo XXIX

Todas as noites agora o Brigadeiro tinha esse pesadelo. Sem-
pre o mesmo pesadelo, e sempre acordava aterrorizado, o
coração batendo forte, seus próprios gritos ecoando no
quarto. Era verdade que seu sono era vez por outra
assombrado por sonhos ruins, desde que se vendera a Yahali,
mas apenas ocasionalmente, e era fácil colocá-los de lado e
esquecê-los.
Agora, entretanto, o pesadelo voltava noite após noite,
sempre o mesmo pesadelo, desde que as tropas de Yahali
haviam começado seu avanço implacável para o norte.
Vislumbres de uma batalha, sempre a mesma batalha, no
mesmo espaço amplo e aberto de campo. As duas forças
num combate feroz e mortal. E, ah, como via com clareza a
diferença em número e armamentos, e com que clareza via
também o poderio esmagador das tropas de Yahali, em
número infinitamente superior ao do inimigo.
E as naves... suas naves, as naves que mal podiam ser ouvidas
quando voando sozinhas, mas que voando juntas produziam
uma trepidação vibrante e abafada. Suas naves derrubando as
do inimigo e depois exterminando as tropas terrestres. Um
massacre.
Em seu pesadelo sabia com exatidão onde estava localizado
aquele trecho particular de campo. Pois Yahali havia dito,
apontando para determinado ponto do mapa dourado: "Olhe,
ali está o lugar onde eles terão de encontrar-nos em espaço
aberto. Antes disso é inútil, a selva é densa demais. As naves
são inúteis ali. Mas naquele trecho particular acabaremos
com eles".
As coisas haviam ficado tão ruins, o pesadelo tão insistente
que linha medo de ir dormir, ficava sentado por horas a fio,
sozinho, ou em uma ou outra taverna ou cantina de oficiais,
com os colegas, indo para casa apenas pouco antes do raiar
do dia.
Depois de muitas noites passadas desse modo, ficara por fim
tão exausto e atordoado que caiu sobre a cama e adormeceu
logo em seguida.
Então sonhou mais uma vez, mas sabia que este não era um
sonho como os outros. Era como uma visão. Sabia agora que
nada havia a lazer, não para ele. Algumas das naves tinham
de ser desviadas, enviadas a outra parte, em alguma missão
falsa, para longe do verdadeiro campo de batalha. E outras
teriam de ser destruídas para que Rahazz ganhasse tempo. Os
esconderijos das montanhas onde haviam vivido até agora
haviam sido inacessíveis às naves inimigas durante todos
aqueles anos. Mas agora Rahazz e seu povo estavam
deixando o país e um ataque aéreo seria fácil demais.
Por um momento fugidio, Vrina viu um rosto diante de si,
sabendo mais uma vez que não estava sonhando. Estava
vendo. Viu o rosto claramente delineado, o cabelo prateado,
as sobrancelhas escuras, as maçãs altas e a pele
profundamente enrugada. Era um rosto do passado, um
passado que tentara esquecer durante anos que parecia não
se passar nunca.
O rosto de Rahazz, sabia. Não uma lembrança, uma imagem,
um sonho, mas uma visão. Como acontecera recuperar parte
de sua clarividência natural, com a qual nascera, como tantos
outros, mas a qual parecia tê-lo abandonado de algum modo,
não sabia por que nem quando?
Então, foi capaz de ver como antes. Havia um meio-sorriso
nos lábios de Rahazz e uma mensagem se formou na cabeça
de Vrina:
"Sua ajuda seria muito apreciada, poderia salvar muitas
vidas."
Ele encolhia os ombros, olhando suplicante para Rahazz.
"O preço que paguei foi alto demais pelo que recebi em
troca. Sabe, nunca tive oportunidade de contar-lhe. Estou
profundamente envergonhado."
"Eu sei. Isso não importa. Nada importa. Esqueça!" e, quando
uma pergunta começou a se formar em sua cabeça: "Não,
nenhum de seus homens irá perder a vida por causa disso.
Apenas as naves..."
"Mas eu sou o comandante. E terei de trair a todos?"
"Ninguém será ferido. Apenas enganado."
"Percebo. E as naves? Como Aztlan irá defender-se contra
ataques de inimigos vindos pelo ar?"
"Eles construirão outras, muitas outras. Se tiverem tempo... E
aquelas que forem desviadas para o sul permanecerão
intactas. Vou enviar-lhe ajuda para trabalho. Fique
aguardando."
Ele assentiu. E observou:
"Você não mudou..."
"Ah, mas eu mudei, sim", Rahazz sorriu. "Estou velho agora,
e muito cansado."
E então ele se foi e o quarto estava vazio, enquanto alguém
batia à porta.
O subcomandante entrou e Vrina começou logo a dar
ordens, ríspida e curtamente, mal consciente do que estava
dizendo, embora soubesse que o plano era perfeito e que
ninguém teria qualquer suspeita, nem mesmo o Rei.
Perfeito para Rahazz. Para compensar a traição do passado
tinha de passar por cima do juramento mais uma vez, desta
vez traindo Yahali. Uma admiração aguda tomou conta de si.
Era por isso que havia traído Rahazz? Apenas para estar em
condições de ajudá-lo agora, quando este precisava de ajuda
tão desesperadamente?
O brigadeiro Vrina estremeceu. De repente teve uma
sensação de que todos eles, Rahazz, Yahali, ele próprio e
todos os outros, estavam sendo manipulados por forças
desconhecidas. Rahazz saberia disso? Teria ele, Vrina, sido
habilmente manipulado, obrigado a abandonar a Serpente
quando não importava mais se ficasse ou partisse? Apenas
para ser útil, muito mais útil, agora? Amigos, inimigos, tudo
controlado pelas mesmas forças, com que propósito, não
sabia. Talvez tudo não passasse de um jogo, como um jogo
de bola, nada sério. Apenas, para as peças usadas por essas
forças, para os fantoches, aquilo não era um jogo, era algo
mortalmente sério, suas próprias vidas envolvidas.
De novo o brigadeiro estremeceu.
Então vieram os dias da grande batalha. Aquela batalha que
fez os céus sacudirem, as estrelas tremerem e a terra morrer
de mil mortes. Aquela batalha cujo eco até hoje se ouve
através de eras incontáveis, confundindo aqueles que
esqueceram.
Não foi uma batalha para conquistar um reino terreno, uma
vez que esse reino havia sido perdido para além de qualquer
esperança.
Não foi uma batalha para conquistar ou mesmo manter um
lugar para viver, um país próprio, uma vez que todos sabiam
que Aztlan jamais voltaria a ser deles.
Foi uma batalha para proteger as sementes adormecidas; para
proteger as plantas jovens e cheias de promessas, que tinham
de ser levadas à segurança, os brotos ternos da Nova Raça,
provenientes da antiga, outrora tão gloriosa.
Essas jovens sementes tinham de ser levadas e plantadas
outra vez, longe, muito longe, em um solo novo, nu e
virgem, antes que o furacão devastador as esmagasse.
Foi uma batalha para ganhar tempo.
Por isso lutaram, por isso derramaram seu sangue,
entregaram suas vidas; por isso apenas se agarravam,
ofegantes, tropeçando, suspirando, mas tenaz e
implacavelmente, a cada centímetro quadrado da terra
vermelha seca, a cada trecho de campo verde e fresco.
Por essa razão o Ser Dourado, a Serpente Radiante, enviou
todos seus colaboradores para deter o assalto feroz, para
enfrentar as hordas trovejantes do Ser Escuro, o Príncipe
Sombrio.
Para isso lutaram naqueles vales antigos, há muito agora
cobertos pelas ondas de muitos mares silenciosos de águas
escuras e mudas.
Para isso morreram, gritaram, cambalearam naquelas cristas,
à sombra de picos escarpados que desde muito perderam a
água de seus flancos e hoje erguem-se desolados e nus, como
se erguiam outrora cobertos por majestosas florestas.
Quatro semanas, ele sabia, eram necessárias. Quatro semanas
para deter o poderio incrível do exército de Yahali, aquele
muro implacável e invulnerável de propósito férreo.
Quando, ao fim de um dia sem fim, durante o qual haviam
enfrentado o inimigo avassalador como nunca o haviam feito
antes, durante o qual lutaram com tudo que tinham, deram
tudo o que tinham para dar, quando ao final daquele dia
olhara para baixo, de seu elevado esconderijo, para onde
Yahali se reagrupava, ele gritou em desespero porque viu
que as perdas que haviam infligido a um custo tão terrível
para si próprios já estavam sendo substituídas, novos
soldados chegando, substituições descansadas.
As suas próprias reservas, definitivamente as últimas, haviam
chegado mais cedo naquele dia, um pequeno grupo
compacto de montanheses treinados, a flor das forças de
Zenhar sob o comando de Dizan. Eram dolorosamente
poucos.
— Não, não, não, e NÃO! — soluçou Ruan, caindo de
joelhos. — Não agora... desse modo não podemos
continuar... como podemos continuar assim?
Ainda faltavam duas semanas das quatro. Duas semanas
intermináveis antes que os outros estivessem a salvo e sua
missão cumprida. Duas semanas antes que pudessem relaxar
e Dormir!
E, contra o céu resplandecente ele gritou essas palavras, os
punhos cerrados, o suor cobrindo o corpo, o rosto sujo de pó
e sangue:
— Duas semanas! Duas semanas. Duas semanas!
Tirou o elmo para deixar que o vento refrescasse sua cabeça,
atirou a capa para o lado, uma chama esfarrapada, e puxou a
túnica. Tentando levantar-se, sentiu as pernas tremerem de
exaustão. Há quanto tempo não dormia? Quantos, meu Deus,
quantos de seus camaradas haviam conseguido dormir
apenas na morte?
E contra o céu indiferente ele lançou o seu selvagem desafio:
— Por que eu? Por que fui escolhido para realizar essa tarefa
sem esperança? Eu não sou digno, não sou digno! Sou apenas
um covarde, um fraco, um pobre tolo. Não posso continuar
desse modo. Eu desisto... desisto, desisto!
Então, como suas pernas não conseguissem mais mantê-lo
em pé, deixou-se cair, a visão embaçada pela fadiga, a terra
cálida recebendo-o em silêncio, compreensivamente,
mantendo-o contra o seio escuro, puxando-o suave e terna
para as profundezas tranqüilizadores do sono.
— Ele é de todo incansável, eu lhe digo — haviam contado a
Dizan quando este chegou. — Ele simplesmente parece não
precisar de sono ou descanso como nós, e sempre que vê um
oficial no fim da resistência, manda o homem ir descansar
um pouco, assumindo ele mesmo. E sempre que o desastre
ameaça... e você sabe que o único desastre verdadeiro que
nos pode ocorrer é que eles consigam atravessar nossas
linhas e alcançar a costa antes do tempo necessário... sempre
que estamos fraquejando ele está ali e, por alguma magia,
apenas por vê-lo, os soldados acorrem, a confiança retorna e
o inimigo é detido, às vezes até mesmo forçado a retirar-se
por algum tempo.
Quando Dizan subiu o morro para se apresentar, chegou em
tempo de entreouvir o protesto desesperado e os soluços de
seu comandante, em tempo de vê-lo cambalear e então cair,
os braços estendidos, adormecido antes mesmo que toda a
extensão de seu corpo seminu alcançasse o solo.
— Oh, Ser Flamejante — murmurou Dizan, apanhando a
capa de seda e cobrindo o homem adormecido com ela. —
Certa vez montei guarda quando você passava por
momentos muito mais felizes. Esta noite também, parece, a
vigília será minha.
Os homens e mulheres enviados por Rahazz foram
recebidos por Beres, que os alojou temporariamente na
grande casa vazia. Ali receberam seus uniformes da Força
Aérea, providenciados por Vrina.
Depois que Rahazz se comunicara astralmente consigo, o
brigadeiro mandara logo buscar seu administrador. Beres
ouvira-o sem emitir quaisquer comentários, apenas
assentindo vez por outra. Por fim dissera:
— E o senhor, brigadeiro? Quando tudo isso houver passado,
o que irá fazer?
— Talvez eu seja capaz de chegar à costa em tempo. Tentarei
reunir-me a Rahazz. Em qualquer caso reservarei transporte
para levar os rapazes e moças depois da destruição das naves.
E quanto a você, Beres?
Beres se levantara.
— Vou encontrar meu filho hoje. O que irei fazer irá
depender dele.
Vrina dissera:
— Percebo. Você ficará agradavelmente surpreso, acho.
Ontem estive em sua unidade para solicitar que me
emprestasse dois homens para uma tarefa especial. Disse que
gostaria de escolhê-los eu mesmo. Escolhi dois homens,
Caman e Desh. Bastante ao acaso, é claro. Simplesmente por
acaso pensei que esses dois poderiam servir a meu propósito.
Falei com eles a noite passada. Sabem o que se espera deles.
Desh encontrou a moça outra vez na propriedade de Vrina,
onde todos se haviam reunido para receber as últimas
instruções.
Parece que sempre nos encontramos quando estamos em
serviço, não é mesmo? — comentou ela ao vê-lo parado
junto ao pai
— Mas desta vez estamos no mesmo serviço — respondeu
ele. — E mais tarde iremos embora juntos.
Ela concordou, assentindo.
— Sim. Se houver um depois... Não vai ser muito fácil ir
embora.
Desde que decidira fazer o que Rahazz desejava dele, parecia
que nunca mais estava sozinho, pensou Vrina. Agora, estava
sempre caminhando no meio de vários amigos, pessoas que
conhecera, algumas mortas ou desaparecidas, mas outras,
sabia, ainda vivas. E vez por outra via também outros ao seu
lado, que estava certo de não conhecer, de nunca ter visto
antes, mas via-os com nitidez, mesmo que por poucos
instantes: seus rostos, roupas, o modo como caminhavam.
Alguns eram atlantes, como ele próprio, outros pertenciam a
nações negras de além-oceano e alguns eram elfos, aqueles
camaradas estranhos, de pele azul. Os anos de solidão se
haviam desvanecido, estava outra vez com seu próprio povo,
fazendo o que devia fazer.
As naves que seriam usadas para a destruição final e
inevitável das tropas de Rahazz estavam sendo aprontadas, as
últimas verificações feitas. Estavam todas alinhadas, lado a
lado, cerca de uma centena delas, o sol dourado nas asas.
Do outro lado do enorme campo de pouso, outra centena de
naves encontrava-se pronta para decolar no dia seguinte.
Estas eram as que seriam enviadas para o sul, para defender
as fronteiras do país contra um ataque de surpresa de outro
inimigo, existente apenas na imaginação do brigadeiro. Iriam
partir no momento exato, de modo que, na confusão que se
seguiria ninguém teria tempo de verificar as mensagens que
estariam chegando, informando sobre uma súbita invasão do
país por uma nação, não exatamente vassala, mas até então
considerada bastante relutante em enfrentar o poderio de
seu vizinho gigantesco.
A operação em si transcorreu sem incidentes, sem que o
inimigo notasse qualquer coisa errada. Trabalharam
febrilmente durante toda a noite, mas exceto por eles, o
grande campo de pouso permanecia quieto. Nada se movia.
Os soldados de ronda, olhando com atenção à procura de
qualquer coisa suspeita, definitivamente não pertenciam à
Força Aérea de Aztlan.
E no dia seguinte tudo estaria como antes e, lá fora, as naves
cintilantes tão prontas para o vôo como haviam estado
sempre, prontas para o ataque ao que restava das forças de
Rahazz, quando estas finalmente tivessem saído para o
campo aberto numa certa planície, antes da descida final
para a praia.
Foi quando Vrina contou seus ajudantes pela última vez que
descobriu que havia um a mais entre eles. Devagar, sem
alarmar ninguém, começou a contar outra vez, passando por
cada homem ou mulher, parando para uma rápida conversa
em voz baixa, até que chegou ao último, que estava
debruçado sobre uma das naves, dando seus toques finais de
destruição.
Vrina disse:
— Ei, você! Precisa de ajuda?
O outro pareceu bastante relutante em responder,
levantando num vagar a cabeça, mas quando chamou mais
uma vez, pedindo identificação, a mulher, agora via que era
uma mulher, ergueu-se por inteiro e esperou com calma que
chegasse mais perto.
— Lamento, senhor, não me identifiquei antes. Cheguei
tarde e não pude encontrá-lo, de modo que decidi começar a
trabalhar antes e me apresentar depois.
— O quê? Não... não... — disse Vrina, num sussurro rouco.
— Não. Não pode ser você... Litosê?
Ela não respondeu, ficou esperando que chegasse mais perto
e em seguida estava em seus braços.
Ficaram parados por algum tempo, presos num abraço
ardente, em silêncio, até que ele disse olhando com
preocupação para seu rosto:
— Mas você quer dizer... você é uma deles. Foi Rahazz...?
— Não. Eu mesma me apresentei para o trabalho. Não queria
partir com os navios sem você. Teríamos de ser nós dois
juntos, para ficar ou para partir.
— Ficar significará a morte, uma morte muito dolorosa,
depois tio que foi feito aqui. Sabe disso?
— Sem dúvida -— ela tomou seu rosto entre as mãos. —
Deixe- me dar uma olhada em você. Oh, mas você está
maravilhoso à luz das estrelas, querido. Muito bonito.
— Apenas à luz das estrelas — replicou Vrina com
sobriedade — A luz do dia sou apenas um velho triste.
Ela esfregou o nariz de encontro ao seu.
— E eu, apenas uma velha triste. Velha triste encontra velho
triste.
Ele riu.
— Soa muito melancólico dito assim. Mas vamos subir nesta
nave — estendeu a mão. Sentaram-se juntos sobre o
cobertor que ele retirou debaixo do assento do piloto.
— Você sabe que nossas filhas também estão partindo? —
disse Litosê.
— Não, mas imaginei que havia algo quando recebi cartas de
ambas tão estranhas.
— Sim. Elas chegaram em tempo de seguir com as crianças.
Seus maridos ficaram com nossos soldados.
Quando começaram a se beijar e as mãos dele, deslizando
pelo pescoço e ombros dela, estavam por tocar seus seios,
Litosê se afastou inesperadamente.
— Não, Vrina, espere um momento... eu...
— O quê? — perguntou ele, espantado e depois alarmado. —
Você não gosta que a toque, que a sinta? Há algum outro?
— Não, não, é claro que não. Estaria aqui se houvesse?
Apenas... bem, é que não quero desapontá-lo. Quero fazer
amor com você, querido, mas você poderia sentir... bem... é
melhor deixar para lá — e observando seu olhar intrigado: —
Melhor ser mais direta. Vrina, não sou mais jovem, meu
rosto tem muitas rugas e meus seios... Toda a maciez se foi,
todo o frescor.
Vrina suspirou aliviado, tomando-a nos braços, ainda
incrédulo, mas firme:
— Mulher, você pensa que me abstive por tanto tempo de
sexo porque ansiava por seios firmes e rijos, pele macia e
juventude? Tudo isso eu tinha à minha disposição a qualquer
e todo momento. Mas eu não o queria, queria você, Litosê.
Queria apenas você, com rugas e tudo. Além disso... — ele
tomou ambas as mãos dela nas suas e, colocando-as sob a
roupa, moveu-as por seu peito e estômago. — Sente,
querida? Sente como está minha barriga? Está gorda, por
causa de excesso de boa comida e bebida, exercício de
menos e muita ociosidade física. Lembra- se de como você
apreciava e tinha orgulho de meu estômago magro e chato?
Sinta-o agora, está macio e gordo. Você sempre disse que eu
não tinha uma barriga e sim um buraco rígido. Mas agora no
lugar do buraco tenho uma saliência. Está sentindo?
Olharam um para o outro por algum tempo e então
relaxaram, a tensão do encontro inesperado depois de anos
de separação cedeu de repente e ficaram à vontade juntos,
rindo e chorando incontrolavelmente ao mesmo tempo,
desejando falar sobre mil coisas e, no entanto, perma-
necendo mudos em palavras, falavam com as mãos, olhos e
lábios, sentindo, acariciando, excitando-se a cada carícia,
descobrindo a pele um do outro salgada onde as lágrimas
haviam caído.

Capítulo XXX

Eles pararam de lutar quando o vento, abrindo brechas na
chuva e na névoa, permitiu-lhes ver que os navios estavam a
salvo e não podiam mais ser alcançados. Os danos causados à
frota de Yahali pelos voluntários, o último ato do brigadeiro,
que havia praticamente paralisado a poderosa Força Aérea
sob seu comando, haviam cuidado disso.
Assim, Ruan parou de lutar e ficou à espera, rodeado pelos
poucos que se haviam recusado a deixá-lo, sua fadiga
temporariamente atenuada pela chuva.
Quando os alcançaram, ele não se encolheu nem recuou das
mãos que arrancaram seu manto, agora não mais que um
trapo molhado, quando por ordem de Yahali eles arrancaram
o elmo de sua cabeça, destruindo a ambos.
— Vê, Príncipe, como é fácil dar um fim a essas coisas?
Ele estava despido, a não ser pela curta tanga azul escura, os
olhos turvos e vermelhos, o cansaço avassalador voltando
aos ombros. A chuva corria por seu rosto e corpo, lavando a
lama e o sangue em riachos castanho-avermelhados.
— Oh, Rei, será também fácil destruir o que há por trás
desses símbolos?
Quando o levaram, Ruan olhou para trás mais uma vez. Para
captar um vislumbre de coisas irrevogavelmente passadas?
Para buscar rostos que não se achavam mais ali para retribuir
seu sorriso? Para ver uma bandeira sendo cortada e rasgada
em frangalhos por uma espada hostil?
Eles logo o separaram dos outros e durante semanas foi
deixado em isolamento total antes de colocarem mãos à
obra.
Quando Yahali apareceu, viu de imediato que, a devastação
que aparecia no rosto à sua frente, era apenas física. O
homem continuava sendo o que fora antes, o mesmo que
havia conquistado o Zen, salvo os gatos, o mesmo que havia
parado nos degraus do templo do Vale da luz, barganhado
sua vida pelas vidas de outros. A devastação era apenas apa-
rente até aí.
— Está destinado a morrer dentro de poucos dias, Príncipe,
mas estou aqui para dizer-lhe que há modos de salvar sua
vida e a vida da mulher que ama.
Ruan manteve-se em silêncio. De fora ouviam-se os uivos de
um cão, um som triste e solitário.
— Ouça com atenção, Príncipe. Não peço muito. Apenas
algumas palavras, uma explicação. Nada imoral, apenas fatos,
fatos científicos.
Como Ruan se recusasse a responder, o Rei voltou-se e
deixou a cela:
— Pense a respeito, Filho da Serpente. Estarei de volta
amanhã.
No dia seguinte levaram-no para o pavimento superior, para
um quarto grande e vazio, e o amarraram a um banco de
madeira.
Os homens que se puseram a trabalhar nele não eram
torturadores comuns. Estavam usando garbo sacerdotal,
notou. Aquilo estava destinado a ser uma espécie de ritual e
aqueles eram profissionais, especialistas no tratamento do
tipo certo de vítima. Yahali mantinha-se de pé, imóvel,
observando enquanto faziam o que lhes fora ordenado, os
braços cruzados sobre o peito. Seus olhos não deixavam o
rosto pálido sob as luzes brilhantes.
— Tentem tudo. Tudo! — sibilou. — Mas não o matem. Ele
deve ser mantido vivo a qualquer custo.
A princípio Ruan conseguiu não sentir as dores terríveis,
aplicando seu treinamento, seu conhecimento. Mas à
medida que o tempo passava e as torturas se tornavam mais e
mais refinadas e diabólicas, aos poucos começou a dar-se
conta de que estava perdendo terreno. Mais uma vez, como
tantas antes, não seria capaz de resistir a esse homem, mais
uma vez era o inferior, o mais fraco.
Através do quieto escudo de meditação que construíra ao
redor de si para afastar a dor, penetrava agora uma presença
insistente, estrangeira, um ponto inflexível e inabalável de
vontade, tentando perfurar sua consciência. As vontades se
chocaram... Lutaram, inflexíveis.
E no final ele perdeu. Estava outra vez consciente de seu
corpo, consciente de... Aaaah! Aquele primeiro grito de dor
depois de uma hora de silêncio obstinado trouxe uma
expressão de incrível triunfo ao rosto de Yahali. Mas ele não
parou. Impiedoso, forçou ainda mais a resistência de Ruan,
que enfraquecia, até que os gemidos selvagens e contínuos
de sua vítima se tornaram ecos que soavam e ressoavam na
abóbada. Entretanto ele não falava. Nenhuma resposta às
perguntas:
— Mash-mak — disse Yahali, por fim, fazendo sinal aos
torturadores para que se afastassem. — Por que é que
perdemos o poder de gerá-la, se por centenas de anos foi de
uso comum?
Ruan abriu os olhos, buracos profundos num rosto cinzento,
e olhou para Yahali. Sua voz estava fraca:
— Uso errado do poder, ó Rei, leva à perda do poder...
Yahali riu com desdém e impaciência.
— Bobagem. Não sou criança. Você está apenas evitando o
assunto. É sobre ciência e fatos científicos que estou falando.
Além disso, não o desejo para o bem de meu povo, para
destruir e controlar seus inimigos? Por gerações nós, de
nossa raça, possuímos esse poder. Meus antepassados o
conheciam e manejavam até que, pouco a pouco, seus
descendentes o perderam. Não eram homens melhores do
que eu!
— A taça está cheia até a borda, o último limite foi alcançado.
Mandaram parar.
— Procure não fugir à questão. Estou falando sobre fatos,
Príncipe.
Yahali chegou muito perto agora, inclinando o rosto sobre o
de Ruan.
— Outrora fomos irmãos de sangue... você não gostaria de
reforçar o laço outra vez, o laço que agora está quase
inteiramente desfeito? Aquele laço antigo? Em público irei
honrá-lo como meu irmão. Todas as glórias que são minhas
serão suas também. O comando supremo do exército,
riquezas, casas, terras, tudo o que quiser eu lhe darei. Tudo!
Você não gostaria de ser o Sumo Sacerdote de Aztlan,
administrar os assuntos religiosos da maneira que lhe
agradar? Tudo o que está em meu poder, um poder imenso
será seu. Seus amigos partilharão de tudo, a moça que ama
será a principal dama do país e estará sempre à seu lado. E se
você escolhesse deixar Aztlan e juntar-se a seus amigos, seria
livre para fazê-lo. Apenas me conte, irmão, dê-me o
conhecimento de Mash-mak... o poder de reduzir um
exército inteiro a cinzas em poucos segundos. Em benefício
do seu e do meu povo, pelo nosso povo.
Ruan abriu a boca para falar, para dizer que não tinha o
conhecimento secreto que podia desencadear o terrível
poder. Que nunca estivera de posse do mesmo e, dessa
forma... Mas embora, abrisse a boca, as palavras não vieram
porque soube de repente que o que era verdade antes agora
se tornara uma mentira. Que aquele conhecimento era seu.
Que ele sabia!
Sentiu o suor cobrindo seu corpo, sentiu uma agonia
selvagem e terrível que não conhecera antes. Não houvera
perigo de contar um segredo que não conhecia, mesmo sob
o pior tipo de torturas.
Mas agora que sabia, seria capaz de resistir? E pior... valeria a
pena resistir? Poderia salvar sua garota, seus amigos. E como
Sumo Sacerdote de Aztlan...
— Vi os trajes que usava, Príncipe. Você nunca poderá negar
seu conhecimento. Os trajes de um Grande Protetor, alguém
que deve conhecer o Segredo. E você irá contar-me.
"Ele não está mentindo, prometendo-me estas coisas maravi-
lhosas", pensou Ruan. "Está mortalmente sério. Irá manter
sua promessa. Se apenas..."
Teve uma sensação como se a serpente ao redor de seus
quadris tivesse assumido vida, queimando, cauterizando,
erguendo a cabeça flamejante, comprimindo-se contra sua
carne e ateando fogo ao seu corpo inteiro.
Seria aquela a sua própria voz, carregada de desespero e
resignação?
— Perdoe-me... irmão, mas está pedindo a única coisa que
não tenho permissão de lhe dar.
Ao final nem sequer gemia. Sentiu-se carregado por uma
onda de agonia insuportável. Descendo a poços sem fundo
de sofrimento, foi transferido para um centro doloroso
espasmódico e enlouquecedor, incapaz de escapar. Até que o
próprio Senhor da Dor atirou seu manto sobre ele fazendo-o
parar de sentir.
Ao final viram seu corpo rígido relaxar, sua cabeça pender
para o lado, seus punhos se abrirem, mostrando as palmas
sangrentas onde as unhas se haviam cravado.
Os torturadores ergueram os olhos, numa interrogação:
— Não podemos prosseguir, senhor. Não desse modo. Ele já
está próximo da morte. Tentamos tudo que era possível.
Yahali assentiu, examinando o rosto imóvel sob o cabelo
espesso e escuro, procurando pela força que tornava este
homem, de algum modo inexplicável, um vencedor no meio
da derrota.
— Ele não deve morrer — disse Yahali, com expressão
selvagem. —- Não ainda! — então, apontando para a
serpente tatuada no corpo imóvel: — Queimem-na até que
desapareça. Queimem-na!

Ao voltar ao palácio depois de seus esforços vãos para
arrancar de Ruan a verdade sobre Mash-mak, o Rei Yahali
encontrou uma delegação de cientistas muito proeminentes
esperando por ele. Havia sete deles, entre médicos e
biólogos, todos competentes ao extremo, muito seguros de si
mesmos e de sua importância.
Fez com que se sentassem, mandando trazer bebidas e uma
refeição leve. Sabia que haviam estado esperando por horas.
Eles foram direto ao ponto:
— Sire, sabe como nosso país é famoso por suas realizações
científicas, sua pesquisa, sua absoluta objetividade em relação
à verdade dos eventuais descobrimentos científicos, feitos
por qualquer pessoa. Nós... — o porta-voz fez um sinal com
a cabeça em direção aos outros membros da delegação —
nós sempre temos o cuidado de testar e voltar a Instar toda e
qualquer nova teoria que possa surgir. Tudo isso é conhe-
cido, podemos sentir um justo orgulho de nosso progresso.
Mas ultimamente chegamos à conclusão de que deveríamos
tentar penetrar mais fundo nos mistérios da vida e, para
nossa surpresa, sentimo-nos impedidos, bloqueados,
frustrados.
O Rei assentiu.
— Percebo. Então, o que precisam de mim?
— Material, Sire. Muito material. E deve ser do melhor. Os
testes com animais não são suficientemente conclusivos. E
claro que iremos continuar a aplicá-los, são necessários,
interessantes e reveladores, mas apenas até certo ponto. Sem
dúvida não estamos pensando em abandoná-los, mas não são
suficientes, jamais serão. Precisamos de material mais nobre,
material humano, para muitas finalidades. Transplantes de
corações, fígados, outros órgãos. Até mesmo transplantes de
cérebros, mas estes últimos ainda estão numa fase inicial,
embora muito animadora.
Yahali interrompeu brusco:
— Mas vocês têm usado humanos por bastante tempo, não é
mesmo? Sempre lhes enviei, a seu pedido, os rebeldes
menos importantes, os criminosos comuns, aqueles cujos
corações não seriam de muita utilidade para o Senhor Solar e
em épocas em que Ele não tinha necessidade de sacrifícios.
O porta-voz apressou-se a concordar.
— Sem dúvida, Sire. Sem sua ajuda jamais teríamos sempre à
disposição o material necessário para a nossa pesquisa. Mas
do que precisamos agora, e com urgência, é um tipo
diferente de material, o melhor, o mais nobre, o mais
esplêndido. Queremos descobrir de que modo... uma
pequena hesitação aqui, um pigarrear — por exemplo, o
coração do último descendente da dinastia Tolteca é
diferente dos outros. Seu cérebro também, seus nervos. Há
muitos fatos dos quais ainda somos ignorantes. De que modo
tal homem difere dos outros? De onde vem sua força, sua
grandeza, sua inteligência? Como é o corpo de um iniciado
visto do interior? E não seria interessante implantar,
transferir alguns de seus órgãos para outro ser humano? Para
ver se esse outro poderia adquirir algo da inteligência e
grandeza do homem junto com seus órgãos? E seus amigos
também seriam excelente material para estudos científicos...
— Estou vendo — disse Yahali outra vez. — Então vocês são
de opinião que todos os atributos que acabam de mencionar,
os atributos de um grande homem, são unicamente parte de
seus órgãos, seu corpo físico e nada mais. E se forem apenas
veículos de algo além, algo invisível, de grande poder?
As bebidas foram servidas, mas Yahali, em pé junto de sua
cadeira, não comeu nem bebeu nada, enquanto o porta-voz
lhe respondia, um pouco intrigado:
— Veículos, senhor? Veículos do quê? E se são apenas
veículos, devem estar ao menos impregnados pelo que há
por trás.
— Vou pensar a respeito — disse Yahali.
Mas outro homem se manifestou antes que o Rei se voltasse
para partir:
— E a vidente, Sire? A mulher chamada Tlatli? Ouvimos
dizer que a convocou antes da batalha final. Se for apanhada,
talvez pudéssemos descobrir a fonte de seus poderes.
— Irei verificar. Mas receio que a esta altura ela esteja fora de
alcance.
Depois que ele saiu, os cientistas continuaram atacando a
comida com muito deleite, comendo, bebendo e
conversando excitados.
— Ele ficou mesmo interessado. Vocês viram? Ele manterá a
sua palavra, estou certo de que manterá...
— Mal posso esperar pelo momento de dissecar o homem...
— Mas teremos de tomar cuidado para não matá-lo. Ele deve
sobreviver a tudo, de outro modo nossos esforços serão
inúteis.
Encontraram-se, outra vez à entrada da Morada dos
Morcegos. Ruan sorriu quando viu a expressão espantada,
em seus rostos. A luz do dia ensolarado, a cicatriz, resultado
óbvio de uma profunda queimadura, era claramente visível
estendendo-se de sua sobrancelha esquerda até a orelha. Isso
e a maneira lenta e dolorida como se movia, muito diferente
de seus passos usuais, largos e firmes, eram as únicas marcas
visíveis deixadas pelas torturas que havia sofrido. Ficou
satisfeito de que não pudessem ver o resto de seu corpo.
Haviam queimado a Serpente, aplicando ferros quentes, e
onde antes a Cobra se enrodilhara, ao redor de seus quadris,
nada restava senão uma massa horrível de feias cicatrizes
avermelhadas entrecruzadas.
— Tudo passou — disse para eles. — O encontro com Yahali
não foi muito agradável, mas sobrevivi ao suplício, como
podem ver.
Os soldados haviam agora formado um semicírculo diante da
entrada da caverna, aproximando-se e forçando-os a entrar.
— Bem, não é difícil adivinhar o que Yahali tem em mente
— disse Sheon-La.
Estava parada junto a Ruan, a mão na dele, a voz calma.
Ele entrelaçou seus dedos nos dela sem uma palavra. Apenas
ele sabia a respeito das cavernas e das coisas que os
esperavam, coisas mais assustadoras do que podiam imaginar.
Yahali, sabendo que ele, Ruan, como membro da Serpente
Alada nada tinha a temer de Tcoabal e seus morcegos, sem
dúvida teria preparado algo diferente para eles na grande
câmara onde o próprio Tcoabal residia e onde o Sumo
Sacerdote estaria esperando por eles.
O capitão da escolta fez um gesto na direção da entrada da
caverna.
Ruan apertou a mão de Sheon-La, fazendo um sinal com a
cabeça para os outros. No momento seguinte todos os quatro
haviam desaparecido na escuridão.
— Eles têm coragem — comentou um dos soldados. — Não
grilaram nem pediram clemência como faz a maioria.
À distância, um grande cão-lobo estava observando-os. Tzal
não gostava desse lugar, onde quase matara o ser que mais
amava. Mesmo o seu bravo coração sentia medo do mal que
reinava ali.
No interior da caverna, o grupo ficou quieto durante algum
tempo para acostumar os olhos. Logo a escuridão pareceu
menos escura e foram capazes de ver um ao outro no lusco-
fusco cinzento, desde que estivessem próximos. Estavam
parados numa passagem alta e ampla, e no momento nada de
assustador havia à vista. Quando Vanzaj fez um movimento
para avançar, Ruan o deteve.
— Espere um momento — disse. —Antes de continuarmos,
gostaria de preveni-los. Não vou tentar descrever o que
iremos encontrar, porque essas coisas nunca são as mesmas.
Não devemos esquecer que, aconteça o que acontecer, as
criaturas com que podemos topar foram formadas pelo
homem, por toda a espécie humana coletivamente. E se
nossa atitude for a correta, livre de medo, pura, se nos
mantivermos calmos diante desse tipo de horror, nada nos
acontecerá. Séculos de ódio, crueldade e ignorância, e acima
de tudo, medo, criaram estas cavernas e sempre, quando o
homem se afunda ainda mais no pântano do mal verdadeiro
e da degeneração, novas passagens aparecem no Reino dos
Morcegos. E se nós, alguma vez colaboramos com a
construção dessas passagens, povoando-as com os servos de
Tcoabal, é melhor tomarmos cuidado.
Tinham de passar através de um corredor estreito e escuro,
antes de chegar a outro mais ou menos da mesma altura e
largura.
De um momento para outro, sentiram-se estranhamente
sufocados. Nenhum som chegava do exterior e as passagens
agora se tornaram tão escuras e baixas que tinham de inclinar
a cabeça e avançar devagar, apalpando o caminho.
Vez por outra sentiam asas fremindo junto de si, ouviam
gritos fantasmagóricos, mas os morcegos não os atacaram.
Quando a passagem estreita se alargou de novo e puderam
ficar eretos sem baterem as cabeças contra o teto de pedra,
Vanzaj olhou ao redor, com hesitação: havia três corredores
afastando-se daquele onde se encontravam.
— Não importa — disse Ruan. -—Todos se encontram no
final, na Grande Câmara, a câmara de Tcoabal.
Escolheram ao acaso um dos três corredores. Mas a moça ao
seu lado não se moveu e ele sentiu sua mão gelar dentro da
sua. Atrás de si ouviu um grito abafado.
Bem diante deles, a poucos centímetros do piso da caverna,
movia-se algo escuro, uma substância ondulante, uma névoa
espessa como uma nuvem, espalhando-se em ondas. De
início apenas uma linha negra, recortada, fina e muito pouco
visível, que cresceu rápida até encher toda a passagem diante
deles, obstruindo seu caminho. E do centro daquela
substância vinha um gemido suave e contínuo, aumentando
cada vez mais em volume.
Sheon-La, arraigada ao chão de pedra, sentiu algo macio e
úmido de encontro ao rosto. Braços de névoa estenderam-se
em sua direção vindos do centro daquela massa tentando
abraçá-la, milhares de bocas tentando chegar até ela,
emitindo sons vorazes de sucção.
Sentiu como Ruan a puxou para trás com força antes que a
névoa a envolvesse toda. Passo a passo foram forçados a
recuar, passo a passo retrocederam, olhando, hipnotizados,
as testas frias de suor.
E quanto mais se afastavam, com mais rapidez a névoa
inchava, forçando-os para trás, como um animal imenso,
espreitando, brincando com suas vítimas, certo da vitória.
De repente Lyanta não conseguiu mais controlar-se e
voltando-se, emitindo um som estranho e ofegante, correu
para trás ao longo da passagem, arrastando Vanzaj consigo.
Mas logo depois que desapareceram de vista na primeira
curva, os outros ouviram seus gritos de desespero e viram-
nos correndo de volta.
— Não podemos voltar — disse Vanzaj, ofegante. — Está
atrás de nós também. Está em toda parte.
Ficaram parados, umedecendo os lábios secos. De todos os
lados a coisa negra se aproximava silenciosamente. Os
gemidos haviam parado.
— Precisamos atravessá-la — disse Ruan.
— Se não o fizermos, ela irá avassalar-nos e destruir-nos.
Nosso próprio medo, oculto ou não, criou essa coisa; nós lhe
demos forma e apenas nós seremos capazes de destruí-la de
novo.
Não havia nada além de escuridão ao redor, uma escuridão
viva, pegajosa, movendo-se constantemente, abraçando-os,
sugando-os. Sheon-La sentiu-se como sufocando, algo
tomava conta de sua garganta, um ser úmido feito de
negrume, cortando a entrada do ar para seus pulmões.
Mas então, enquanto avançavam devagar, cada qual se
agarrando ao outro, a coisa começou a se recolher, a
escuridão ficou menos espessa, foram capazes de ver outra
vez as paredes das cavernas de ambos os lados. Por fim,
desvanecendo-se cada vez mais, a névoa de medo desa-
pareceu por completo e encontraram-se mais uma vez
sozinhos na passagem vazia. Diante deles, o corredor livre,
desimpedido.
Ruan não se preocupou sobre como deveria reagir ao perigo
adiante. Sabia que era inútil levantar qualquer tipo de
barreira mental ou de outra espécie contra as coisas com as
quais teria de lutar. O que havia pela frente era diferente e
devia ser encontrado sem resistência, sem o conhecimento e
preparação do Iniciado.
Na Câmara de Tcoabal, ele teria de se encontrar sem
quaisquer armas ocultas ou outras, sem atacar ou defender,
sem medo, apenas ele próprio.
A escuridão deu lugar a um leve brilho, ficando mais forte à
medida que avançavam.
— É o brilho do fogo na Grande Câmara — disse Ruan.
Em silêncio, foram avançando, próximos um ao outro. Então
o corredor ficou outra vez mais largo e mais alto, e puderam
ficar em pé. Aqui havia mais ar e puderam respirar com
menos dificuldade.
Então, de forma inesperada, as paredes se alargaram e viram-
se na Câmara de Tcoabal, o clarão do fogo cegando-os por
alguns momentos.
Daquilo que tudo indicava ser uma enorme cratera, um fogo
de brilho avermelhado elevava-se alto, vindo do que
pareciam profundezas insondáveis. Diante de suas chamas
avistaram uma forma alta e ereta, de costas para eles,
indiferente ao grande calor.
Yahali voltou-se e encarou Ruan, não prestando qualquer
atenção aos outros. Nada disse, mas a expressão em seus
olhos dizia mais do que palavras. Por trás dele as chamas
subiam alto, iluminando-o, tocando o teto da caverna, mas
ali não se dobravam forçadas pela barreira de pedra,
atravessando-a diretamente em lugar disso.
Viram que as chamas começavam a tomar forma. Lyanta
desejava fugir, afastar-se de tudo isso, mas não conseguia
desviar os olhos. Línguas vermelhas e estreitas de chamas
transformaram-se em orelhas pontudas, castanho-
acinzentadas, orelhas que eram parte de uma grotesca cabeça
cinzenta, delineando-se com nitidez no clarão.
Vermelhos e malignos, os olhos brilharam na direção deles
selvagemente. Yahali diante do fogo, observava-os e sorria.
Aos poucos começou a ficar escuro na caverna. O clarão
brilhante do fogo estava sendo velado por duas asas
gigantescas que começaram a agitar-se levemente. Asas de
morcego.
Então Tcoabal, Senhor dos Morcegos, ergueu-se das chamas
amarelas para dar boas-vindas a seus novos súditos.
Gigantesco, cinzento e inumano, elevou-se acima deles. Suas
mãos eram garras de morcego, as unhas afiadas como adagas
longas e finas.
Agora Yahali se moveu. No momento exato em que Tcoabal
levantou as garras com ameaça, os beiços arreganhados sobre
os dentes afiados, para lançar-se sobre os invasores, o Sumo
Sacerdote fez um gesto com a mão para detê-lo.
E o Senhor dos Morcegos parou em pleno ar mantendo-se
suspenso sobre os quatro, suportado pelas asas, as garras
preparadas.
— Está vendo, Príncipe? Uma palavra minha e seus amigos
morrerão. Mas você é invulnerável. Tcoabal não pode
causar-lhe dano e eu desejo destruí-los a todos ao mesmo
tempo. Por esse motivo, o Senhor dos Morcegos precisa ser
paciente.
— Como está certo da vitória, ó Rei. Como sabe que será
capaz de destruir-me mais tarde? Não é a primeira vez que
enfrento esse tipo de suplício.
Yahali sorriu, o sorriso de alguém que estava certo da derrota
do adversário, um sorriso que fez Sheon-La estremecer.
— Eu sei. Mas mesmo assim sua destruição está próxima,
mesmo que você tenha o Sinal da Serpente... ou o que resta
dele... em seu corpo. Contra o adversário de quem estou
falando, você será impotente.
Com um movimento abrupto, o Sumo Sacerdote girou sobre
si mesmo voltando-lhes as costas e sua voz ecoou através das
muitas passagens, forte e profunda.
"Chamo-Te, Mestre, chamo a Ti aqui no reino de Tcoabal,
Teu discípulo. Chamo pelo direito de alguém que Te serviu
incessantemente, pois os templos em meu reino sempre
foram Teus e Teu Nome sempre esteve nos lábios dos
sacerdotes.
"E aqui, diante do Fogo nascido da Terra, chamo a Ti para
ajudar-me a fazer Teu trabalho, Tu que és invencível.
"Pois aqui estão aqueles que sempre tentaram barrar meu
caminho, sempre enfrentando-me, Teu mensageiro,
desafiando-me com o nome de Teu Adversário em seus
lábios.
"E um deles traz a Serpente em seus quadris, a Serpente em
cujo nome ousa negar Teu poder ilimitado sobre o Universo.
"Vem então, Tu que és em verdade Rei de Aztlan. Eu,
Yahali, Teu servidor, chamo-Te."
Um terrível e profundo silêncio caiu sobre as cavernas dos
morcegos. Um silêncio pesado e ameaçador. O único
movimento na Câmara de Tcoabal vinha do fogo inquieto.
Presenças entraram na caverna. Criaturas sinistras cercaram-
nos, meio vistas, meio sentidas. Momento após momento os
presentes sentiram coisas invisíveis roçá-los como um vento
não terreno, assustador, fazendo-os estremecer com horror.
Rostos os encaravam, olhos sem expressão em rostos de
pedra, soltando-se das muitas sombras das paredes da
caverna, inclinando-se para adiante. Ruan estava vagamente
surpreso por não conseguir detectar qualquer medo em si
mesmo, mas em lugar disso uma expectativa estranha e
tensa. Vanzaj umedeceu os lábios, os braços apertando
Lyanta com firmeza.
As sombras nas paredes cinzentas ficaram mais compridas, o
clarão do fogo diminuiu sem se extinguir. A luz opaca e
sinistra instalou-se em silêncio na câmara.
Mas eles mal o notaram, incapazes de afastar os olhos
daquela forma que a cada segundo se parecia mais com um
rosto.
E então a câmara não estava mais iluminada pelo fogo, mas
tomada por inteiro por aquele clarão misterioso, vermelho-
opaco. Na semi-obscuridade o rosto agora mudava
continuamente sua expressão, sua forma, passando do bestial
maligno e horrendo para uma sucessão de máscaras
pavorosas e contorcidas, mas sempre mudando, sempre se
transformando.
— Saúdo a Ti, Senhor de Aztlan...
O rosto assumiu muitas formas, horríveis, cruéis,
demoníacas, triunfantes, odiosas, e enquanto o fazia, Ruan
caminhou devagar em sua direção. Sentia seu coração como
um fogo flamejante que parecia envolvê-lo por inteiro,
estendendo-se na direção da figura multifacetada.
— Vaguei pela Terra, visitei seus cantos mais remotos. Vi a
humanidade na miséria e no egoísmo, no ódio e no medo,
onde Tu estavas residindo nos corações dos homens. Vi
guerra, opressão, a crueldade dos poderosos contra a
impotência dos fracos... e vi, também, a implacabilidade dos
fracos após obterem o poder.
— E vi ignorância.
— Mas vi também amor e felicidade verdadeira, esperança e
gentileza, e aquela coragem que não é o oposto do medo.
— E em toda parte onde Te encontrei, também encontrei
Teu Adversário. Nas profundezas da escuridão total criada
por Ti, vi a Ele; nos gritos selvagens e desesperados do
Homem, sempre ouvi o riso divino Dele.
— E nos templos tentei encontrar a resposta à minha
pergunta. Mas as orações dos sacerdotes, não importa quão
grandiosas, pareceram vazias para mim. O incenso,
elevando-se em espirais, espalhava um doce perfume e a
música enchendo os templos soava maravilhosa e me
encantava. Mas não consegui encontrar a resposta à minha
pergunta.
— Aprendi muito, tornei-me sábio à maneira dos homens,
lutando por meus ideais e pelo que, aos meus olhos, era justo
e correto.
— Mas nunca encontrei a resposta à minha busca. E vi que
onde terminava o trabalho das Trevas, ali começava o da
Luz. A Vida sempre se erguia suprema das tristes ruínas da
decadência e da destruição; a sabedoria sempre nascia da
tristeza da ignorância.
O rosto, na câmara, continuou a mudar suas formas,
tornando-se mais repugnante e assustador. As criaturas do
mal precipitavam-se para dentro, povoando a caverna,
juntando-se às outras, apertando o círculo ao redor deles.
Incontáveis morcegos chegaram à câmara batendo as asas,
uma corrente invisível de ar de tom acastanhado circulando
pouco acima de suas cabeças. Então Ruan sussurrou:
— Irmão... eu me recuso... eu não Te reconheço.
— Tua maldade, bestialidade? Não passam de uma máscara.
Mas o que há por trás? Tua hediondez não é senão forma
contorcida... outra máscara. Tua crueldade, falta de
misericórdia, mera armadilha para tolos. Vejo as profundezas
do desespero em Tuas sombras. Não queres partilhar Teu
sofrimento comigo?
Os rostos pararam de mudar e Ele estava ali, revelado, o Ser
chamado por muitos nomes, o Príncipe das Trevas, Senhor
do Rosto Obscuro. Estava parado ali, irradiando majestade,
um rosto grandioso, cortado por linhas de sofrimento.
Sofrimento no rosto do Destruidor?
Um desespero tão ilimitado que todos sentiram-no em si
mesmos como uma dor física. Os olhos do Senhor das
Trevas eram os de alguém que sabe tudo, da miséria do
mundo que nunca acaba, alguém que não conhece esperança
nem saída.
E quando o Adversário voltou seu rosto, Ruan, por apenas
um instante sentiu a confusão e o desejo de afastar seu olhar
daqueles olhos estranhos, impassíveis e sem idade, agora
inteiramente concentrados nele. Uma confusão durante a
qual as hordas malignas se atiraram para diante, ainda mais
ameaçadoras.
Como num sonho, começou a aproximar-se ainda mais do
Destruidor, sem prestar qualquer atenção às criaturas
medonhas que tentavam barrar seu caminho. E como se
obedecendo a uma força irresistível e desconhecida, elas o
deixavam passar, recuando sem molestá-lo. A figura levantou
uma das mãos, num gesto cansado. Seria uma ordem para
suas criaturas atacarem os invasores?
Mas nada aconteceu. O silêncio pareceu estar esperando.
Pelo quê? Ruan continuou:
— Irmão... por que Te escondes de mim? Mesmo o rosto que
estás mostrando agora, embora belo, não passa de uma
máscara. Abandona as máscaras e as formas inúteis, deixa
cair a carga pesada das eras... mostra-me Teu rosto
verdadeiro — estendeu as mãos. —Vê... vim aqui
desarmado. Nenhum símbolo de poder para proteger-me,
nada de exércitos poderosos em formação para travar a
batalha por mim. Então são necessárias armas e exércitos
entre irmãos?
O Senhor do Rosto Escuro não se moveu. Ao redor dos
olhos, profundos e cheios de agonia, havia linhas de dor.
— Venho a Ti como sou. Agora mostra-me quem és. Já em
meu coração estás revelado pelo Fogo, o Fogo de que
ninguém pode esconder-se.
Com um rugido tremendo, o Fogo da Terra elevou-se até
estar preenchendo a câmara de ponta a ponta, penetrando
em cada fenda, cada rachadura. Misturou-se e tornou-se um
com o fogo ardente irradiado por Ruan, avançando até os
cantos mais distantes das cavernas e ainda além. E quando as
chamas desse fogo alcançaram a figura imóvel do
Adversário, recuaram por um instante, como se diante de
uma barreira invisível, depois precipitaram-se, passando
através, por sobre, por trás e ao seu redor, ficando ainda mais
brilhantes.
E tudo se desvaneceu. A Terra se desvaneceu, a humanidade
desapareceu, as estrelas, os sóis e os céus. O Universo não
mais existia.
E apenas o Nada permaneceu. Mas aquele Nada infinito,
intemporal, não era um vácuo, o vácuo que traz desespero.
Era um Nada todo-abrangente, um Nada que era Tudo,
contendo o visível e o invisível, o mal e o bem, um Nada
onipresente e intensamente vibrante.
E do intemporal e infinito onde se achava sozinho, embora
não estivesse sozinho de modo algum, chegou-lhe uma Voz
inesquecível, que era todas as vozes, a essência do Som, a
Voz Daquele que nunca nasceu e nunca morre, a Voz eterna
do Ser Alado.
— Olha para Mim, Filho de Aztlan, pois sou a Resposta a
todas as perguntas. Sou a Sabedoria que procuravas e o Amor
pelo qual teu coração ansiava. Sou a Paz que buscas realizar.
— Sou também o ódio que temias, a Crueldade e Ignorância
contra as quais lutavas. Sou Felicidade e Sofrimento, sou
Medo e a Coragem Verdadeira também. Sou a Tempestade
Selvagem e o Silêncio Infinito. Sou o Rio, de cuja água
necessitas para saciar a sede; sou a Luz e as Trevas ao mesmo
tempo.
— Sou o Príncipe das Sombras, Senhor da Luz, sou a
Resposta a todas as perguntas. Sou o Coração Solar, o Fogo
dos Fogos.
— Sou a Serpente Alada. Nada existe a não ser Eu. Sem Mim
nada existe.
Ruan sentiu-se atingido na cabeça por um relâmpago de pura
luz branca. Lutou para não perder a consciência, mas toda a
sua cabeça pareceu esvaziar-se, cheia apenas com aquele
estranho Fogo branco. Ele oscilou, estendeu as mãos abertas
e então caiu. Junto dele jazia Yahali, agora em profundo
coma, e seus amigos achavam-se estendidos semi-
inconscientes ao redor.
Do Fogo Branco, que havia engolido o Outro, surgiu aquele
que era o Primogênito da Serpente. Não havia nada simples
nele desta vez e aqueles que o haviam criticado durante
aquela reunião de há muito, por causa de sua falta de pompa
e ostentação, teriam ficado embasbacados se o tivessem
podido ver agora. O elmo imponente, três serpentes ferozes
entrelaçadas, as roupas douradas que emanavam uma
tonalidade estonteante de violeta-dourado, o pesado manto
laranja incrustado com incontáveis diamantes, eram
completamente diferentes do manto desbotado com o qual
viera sentar-se no julgamento da Rainha de Aztlan, seu filho
pequeno nos braços.
Ele parou e tocou o jovem na cabeça, muito de leve. Ruan
mexeu- se, fez um esforço para levantar e então deixou-se
cair outra vez, os braços agarrando-se à cabeça.

Capítulo XXXI

A Câmara de Tcoabal estava escura e vazia. Extinguira-se o
Fogo que, rugindo durante eras, ali se havia elevado.
E os morcegos haviam partido. Tcoabal e seu povo haviam
deixado as cavernas onde residiram por centenas de anos. Os
gritos, o constante adejar de asas, o cheiro, as sombras
sempre móveis lançadas pelos morcegos em vôo, tudo isso
havia desaparecido.
Ruan foi o primeiro a recuperar a consciência. Deu-se conta
de que estava se ajoelhando e, olhando para os outros, viu
que ainda estavam inconscientes, embora mexendo-se
levemente. Ali perto jazia Yahali.
Ruan ergueu-se devagar, ainda não de todo consciente do
corpo, mas no instante seguinte sentiu ondas de dor
percorrendo-o, lembrando-lhe as torturas às quais havia sido
submetido. Mancando, aproximou-se dos outros, que
estavam recuperando a consciência. Ruan examinou Yahali,
que continuava imóvel.
— Ainda está vivo — comentou. — Mas apenas por um fio.
Temos de sair daqui já.
— O Fogo está extinto — disse Sheon-La, incrédula. — E
onde estão os morcegos?
— Eles se foram. Tcoabal e seus discípulos deixaram as
cavernas para sempre. Creio que ninguém vai deter-nos mais
daqui por diante.
— Temos de voltar pelo mesmo caminho? — perguntou
Lyanta. E quando ele assentiu: — E os guardas? O que
faremos em relação aos guardas?
— Eles devem ter ido embora. Não tinham ordens para
esperar por tanto tempo, estou certo.
— Por tanto tempo? Não estivemos aqui dentro por mais de
seis horas — disse Vanzaj, surpreso.
Mas Ruan balançou a cabeça, sorrindo.
— Não foram seis horas. Foram seis dias e talvez mais. Nessas
cavernas um dia parece apenas uma hora.
Nenhum perigo os espreitava no caminho de volta. A
atmosfera maligna havia desaparecido das cavernas, agora
não mais que um conjunto de câmaras vazias, rochosas.
Ainda hesitando, saíram para o campo aberto, olhando ao
redor, alertas, prontos a enfrentar qualquer perigo eventual.
O dia estava raiando, mas o sol ainda não se erguera sobre o
horizonte.
— Ninguém aqui — disse Ruan, e suas palavras seguintes
foram incompreensíveis.
Um animal enorme saltou sobre ele. O choque fê-lo perder o
equilíbrio e, após alguns esforços, conseguiu sentar-se
enquanto o cão-lobo continuava com sua demonstração
tempestuosa de afeição.
Continuaram caminhando. Não conversavam muito, felizes
por tudo estar saindo de certa forma bem, até agora, e
ansiosos por alcançar o mar. O caminho que seguiam era
largo, bem conservado e muito usado, embora não
encontrassem ninguém.
— Estranho — disse Lyanta, detendo-se de repente e
olhando ao redor, intrigada. — Algo está errado, mas o quê?
Todos haviam parado agora. "Ela está certa", pensou Sheon-
La, "por que esta calma tão antinatural, para não dizer
opressiva, nas redondezas? E onde estão as pessoas?"
Não havia vento, e embora o sol tivesse acabado de elevar-se
sobre o horizonte, a atmosfera estava carregada de um calor
estranho e sufocante. O silêncio parecia ameaçador.
Tzal também parecia consciente daquilo. Estava inquieto e
começou a ganir de mansinho quando pararam, como se
desejasse apressá-los, como se não houvesse tempo a perder.
— Corram! Não parem! — gritou Ruan.
Suas palavras foram seguidas por um estrondo ainda mais
ameaçador e enquanto corriam, Vanzaj lembrou-se de
Rahazz. Como ele estivem parado na escadaria do templo
naquele radiante dia ensolarado. Como era possível terem
esquecido o que ele dissera naquela ocasião?
"Isso tornou-se inevitável", dissera Rahazz, "nosso povo
escolheu e terá de encarar os resultados de sua escolha.
Portanto teremos de ir embora antes que amanheça o dia em
que nossa raça irá colher o que semeou."
Continuaram correndo, enquanto as trovoadas, tornaram-se
contínuas, um som pesado, rolante, reverberante.
— Estamos quase chegando — disse Ruan. —Atrás daquele
morro está o mar.
Não havia terminado de falar quando o solo sob os seus pés
começou a tremer. De por detrás da montanha veio o som
de algo estralejando, ou melhor, várias coisas estralejando,
seguido por pancadas surdas de coisas pesadas chocando-se
com o chão.
— Não parem! — berrou Ruan. — Temos muito pouco
tempo.
Minutos depois avistaram o mar, mas era um mar
desconhecido, parecendo sinistro no clarão opaco do sol,
uma massa turbulenta e espumante de águas revoltas. Mas
não pararam para refletir no modo extraordinário como o
mar estava se comportando. A costa formava naquele ponto
uma baía profunda, um belo porto natural. Sempre
movimentado, com muitos navios chegando e partindo,
estava agora total e espantosamente vazio, com exceção de
uma traineira solitária ancorada perto de um pequeno cais.
Não parecia haver ninguém a bordo, e do que restara das
casas próximas não chegava qualquer sinal de vida.
Vanzaj foi o primeiro a alcançar a traineira. O barco estava
em condições surpreendentemente boas. Era equipado com
velas extras além do propulsor solar, mas por certo seria
muito difícil manejá-lo com as águas naquelas condições.
Avistou os outros vindo em sua direção, correndo, os braços
cheios de alimentos, cestas de frutas, peixe seco e latas
d'água.
— O proprietário do barco está morto... bem, suponho que
fosse o proprietário — disse Ruan, subindo para bordo e
depositando as coisas que trouxera na pequena cabina.

Yahali levantou a cabeça com dificuldade e olhou ao redor,
entorpecido, para as paredes cinzentas da caverna. Sentia-se
tonto e sua cabeça estava vazia de pensamentos. Entretanto,
sentiu vagamente que as coisas não eram o que deviam ser...
e onde estava o Fogo? Quem ou o quê o havia extinguido?
Ou não estava na Câmara de Tcoabal? Levantando-se com
lentidão caminhou como um autômato para a entrada e, uma
vez fora, partiu em direção ao mar, pelo mesmo caminho
que seus inimigos.
Pouco a pouco, a memória voltou ao seu cérebro
entorpecido, mas não conseguiu passar do momento em que
Ruan se havia dirigido ao Senhor das Trevas. Depois disso
havia apenas um branco.
Um pensamento, entretanto, era muito claro. Havia sido
derrotado, derrotado por um homem cuja completa
destruição estava definida apenas alguns momentos antes,
um homem que já havia prometido entregar às mãos dos
cientistas de Aztlan, para ser dissecado por seus bisturis.
Perdido por inteiro em seus próprios pensamentos sombrios
de ódio impotente, de início sequer se deu conta do rolar
trovejante que vinha da distância, mas quando a terra
começou a mover-se sob seus pés, ficou consciente outra
vez de onde se encontrava. Não estava preocupado com o
tremor de terra, estes eram bastante comuns em seu país,
mas quando viu a nuvem imensa e ameaçadora suspensa
sobre a capital, começou a correr para alcançar a pequena
nave na qual havia chegado.
Quando descobriu que a nave havia sido danificada e que
não tinha meios de repará-la, ficou frio. Quando aquilo fora
feito e por quem? Quem havia ousado? E por quê? Não sabia
que certos voluntários, todos pertencentes ao povo-elfo,
destruíram sistematicamente, por todo o país, as naves
usadas por altos dignatários, para evitar que escapassem
quando descobrissem que não havia outra maneira de fugir.
Mas pouco depois, seus temores se desvaneceram. Por que
preocupar-se? Havia derrotado Rahazz de vez, ninguém seria
capaz de enfrentá-lo agora. Não apenas Aztlan, mas o
mundo achava-se aberto para ele.
Decidido a alcançar a capital por mar, chegou afinal à praia.
A baía estava quieta, vazia diante de seus olhos. A praia
absolutamente deserta, mesmo as gaivotas tendo
desaparecido. Não havia qualquer barco à vista, exceto por
uma traineira muito distante, dançando loucamente nas
ondas.
Olhou por um instante para as casas da pequena aldeia de
pescadores, quase todas em ruínas após o terremoto,
terminando por voltar as costas para o mar. Talvez pudesse
descobrir algum veículo... mas o que teria acontecido com a
população do lugar? Para onde haviam ido todos os
habitantes da região e por que não começaram a tentar
reconstruir as suas propriedades danificadas, como seria o
normal?
Então deram-se outros tremores de terra, uma seqüência
deles, com apenas alguns minutos de intervalo. Várias vezes
foi atirado ao chão, a terra se abrindo, separando-se em
fissuras profundas e largas, o tremor seguinte sempre pior
que o antecedente. Assim, caindo, recuando diante das
fissuras, levantando-se e voltando a cair, ele correu. O fogo
que pairava sobre a capital aumentava a olhos vistos, agora
acompanhado por nuvens negras, como de fumaça.
A cidade, sabia, havia sido construída sobre um vulcão
extinto, extinto há muitas centenas de anos. Os geólogos
vinham declarando que não havia qualquer espécie de
perigo. O vulcão estava extinto e assim permaneceria para
sempre.
"Então erraram", pensou Yahali, sabendo agora que os
tremores de terra não haviam sido do tipo ordinário.
Mantendo o equilíbrio com dificuldade entre dois deles, ele
se voltou. De onde se encontrava ainda podia avistar o mar,
daquela distância habitualmente uma faixa de água azul-
esbranquiçada, agora, entretanto, transformado em massas
de ondas negras imensas e terríveis, explodindo de encontro
à costa num ataque incessante, como jamais havia visto
antes, mesmo durante a tempestade mais furiosa. Daquelas
ondas espumantes e ameaçadoras erguia-se devagar uma
forma estranha, uma criatura. Um ser de cabelos ondulados,
da cor do chumbo, embrulhado em vestes de água corrente,
negra e espumante.
Nos olhos daquele ser, brilhando opacos acima das águas, viu
a inexorabilidade do mar, do elemento que não conhece
quaisquer barreiras e contra o qual toda a resistência é inútil.
Tentou entrar em contato com o Ser, tentou empurrá-lo de
volta com sua vontade férrea e bem treinada, mas ao tentá-lo
sentiu-se de imediato envolvido por uma vontade muito
mais forte que a sua, infinitamente mais forte e, como se
fosse uma simples palha numa tempestade, sentiu o peso do
próprio corpo lançado para trás, indo cair de quatro a quase
um quilômetro de distância.
O Senhor do Mar, pensou Yahali, atemorizado. E viu como o
ser agigantava-se mais e mais, até que por fim, diante de seus
olhos chocados, ele deixou seu reino avançando aos poucos
em direção à terra, o cabelo negro jorrando para trás e a
espuma lançando-se de seu manto.
Yahali foi tomado de um pânico selvagem. Voltando-se,
começou a correr como um demente, sem prestar qualquer
atenção para onde ia, tropeçando a cada passo, nem mesmo
consciente de que os tremores haviam cessado, buscando
acima de tudo a segurança da terra, o mais longe possível
daquela figura que trazia o mar nos olhos.
A segurança da terra...
Correndo até perder o fôlego, olhou para trás pela primeira
vez, viu que sua fuga era inútil. E embora não mais visse o
Senhor do Mar, soube que as ondas estavam rompendo os
laços que as haviam mantido prisioneiras por um tempo tão
longo, atirando-se num ataque implacável contra a terra,
subindo cada vez mais.
"O fim. Este é o fim", pensou Yahali, a mente disparando,
perguntando a si próprio: "Por quê?" Por que e onde havia
errado, errado de maneira tão atroz que não previra isso?
Em vão procurou recordar. Tudo o que fizera, sempre havia
sido feito com consciência. Plenamente alerta, sempre havia
calculado todas as conseqüências possíveis, aceitando de
antemão o que sabia que iria acontecer. Embora cometendo
os atos mais infames, sempre estivera muito consciente do
preço que teria de pagar e, também, de como evitar o
pagamento restaurando o equilíbrio de outro modo. Mas
com isso não havia contado... isso ele não havia previsto.
Parou de correr. Cheio de angústia e desespero ficou
olhando para a água. Onde havia errado?
Quando, num clarão, a compreensão chegou por fim, ficou
chocado, chocado com sua cegueira... era verdade, sempre
havia previsto até as conseqüências menores de suas ações,
aceitara-as, compreendera-as, tentara neutralizá-las criando
forças contrárias. Mas nunca havia previsto o resultado mais
importante e mais óbvio, o único inevitável, inteiramente
lógico.
Pois aquele que presta homenagem ao mal, que faz da
destruição e da violência seus mestres terá de enfrentar, mais
cedo ou mais tarde, e invariavelmente, o próprio mal
evocado por suas ações.
Após a primeira onda selvagem de desespero, vendo que
havia perdido tudo pelo que havia vivido por ter
subestimado o fator mais importante de todos, ficou
estranhamente calmo. Sabia agora onde e como havia
falhado, e nunca havia sido seu hábito fugir das conseqüên-
cias de seus atos.
Lançou um olhar à cidade distante, em chamas, para as
colunas espessas e negras de fumaça que se elevavam muito
acima da cidade dos Portões de Ouro, capital de sua pátria
adorada.
Fora derrotado. Seus sonhos de poder e domínio ilimitado
sobre o planeta haviam acabado. Ao menos em caráter
temporário.
De mãos dadas com a crueldade, a destruição, a violência e a
guerra havia conquistado a coroa e o cetro, acreditando em
sua missão gloriosa.
Agora estava sendo exigido o pagamento... pagamento em
espécie... e o preço era muito mais elevado do que o que
havia barganhado.
O Rei e Sumo Sacerdote de Aztlan cruzou os braços sobre o
peito, voltando o rosto para o mar.
E as águas, elevando-se a alturas incríveis, sem encontrar
nem se importar com qualquer resistência, devastaram a
terra, cobrindo tudo: aldeias humildes e grandes cidades,
templos e quartéis, campos férteis e desertos, florestas
virgens e altas montanhas, deixando de fora apenas os picos
mais elevados das montanhas do norte.
E então se detiveram. E ali permaneceram.

Naqueles picos, transformados em numerosas ilhas, uma
parte do povo-elfo, aqueles que não haviam partido com
Rahazz, permaneceu e sobreviveu ao dilúvio junto com
alguns outros que, por sorte ou algum instinto sobrenatural,
se haviam sentido compelidos a escalar as montanhas antes
que tudo começasse a acontecer, buscando algo do que não
estava conscientes, salvando as vidas desse modo.
Muitas gerações depois, seus descendentes aprenderam
como construir barcos, barcos de junco, de início pequenos,
depois maiores e mais complexos, de modo a conseguirem
comunicar-se com os habitantes de outras ilhas e explorar os
mares que os rodeavam, transformando-se num povo de
famosos navegadores e comerciantes, trocando seu principal
produto, o mel, por outros bens.

Capítulo XXXII

E1es não sabiam durante quanto tempo — semanas, meses,
anos? — haviam sido jogados e balançados em todas as
direções sobre mares sombrios e implacáveis.
Era impossível controlar o barco, estavam inteiramente à
mercê do vento e das ondas que foram seu mestre. Podiam
apenas ter esperanças de que o barco fosse capaz de resistir
até que as águas aplacassem sua fúria. Mas parecia que os
ventos selvagens e o trovejante oceano enlouquecido jamais
iriam parar de ensurdecê-los. Durante o dia, um céu escuro e
sombrio, através do qual o sol enviava, aqui e ali, raios
opacos e sem vida, continuava pendendo pesadamente sobre
eles. Durante a noite nunca conseguiam ver o brilho dos
astros brancos e gentis, chegando a duvidar de sua
existência, sentindo que sua luta não teria fim, que pelo resto
de suas vidas, até que a morte os libertasse, estariam
condenados a continuar sendo jogados com fúria para um
lado e outro sobre o mar hostil.
Sobre o convés amarravam-se a qualquer coisa que parecesse
forte o suficiente para resistir e muitas vezes mal conseguiam
respirar, tão grande a força do vento, das águas explodindo
sem parar sobre o barco.
O sono se tornara impossível, exceto por cochilos
sobressaltados vez por outra, do mesmo modo que as
conversas, abafadas pelos uivos do vento e das águas.
A comida havia sido consumida e da água restava apenas um
pouco. Sentiram-se entorpecer, não percebendo mais o
cansaço. Tampouco o constante manejar das cordas, ferindo-
lhes as mãos, fazia-as arder mais por causa do sal.
Haviam deixado as cabeças penderem, rendendo-se à fome,
à sede, à fadiga extrema e ao desespero.
Então, certo dia, igual a todos os dias, avistaram, ou
pensaram avistar, uma linha longa e escura no horizonte.
Uma miragem... haviam visto tantas antes. Por certo estavam
morrendo ou já mortos. Olharam, ou tentaram fazê-lo, os
olhos doloridos, quase cerrados. Abri-los completamente era
impossível.
Entretanto, a linha escura adiante não desaparecia, nem se
transformava numa massa furiosa e móvel de água. Durante
horas tentaram ajustar a rota do barco, com os movimentos
lentos e pesados, na direção daquela linha negra de
esperança. Mesmo que fosse uma miragem, qualquer coisa
era melhor do que apenas permanecerem inertes.
Por fim desistiram, mas felizmente a linha, imaginária ou
não, não desapareceu, e o barco, de algum modo miraculoso,
por que e como não tinham idéia, continuou mantendo-se
paralelo à mesma.
Naquela noite os ventos mudaram de curso e quando o dia
rompeu, a terra estava muito mais próxima. "Se apenas o
vento parasse por algum tempo", pensou Vanzaj, aplicando
toda a sua força ao leme sem notar qualquer resultado, "eu
poderia mudar um pouco o curso".
Mas o vento não parava e logo adiante avistaram algumas
rochas altas e pontudas surgindo de repente entre as ondas.
Não teria sido tão ruim se apenas tivessem sido lançados
contra as rochas ficando encalhados entre elas, mas em
assaltos repetidos os mares violentos desencalharam o barco,
atirando-o de volta para a água, apenas para lançá-lo outra
vez, com força destruidora, contra as mesmas rochas.
— Cortem as cordas — gritou Vanzaj —, o barco não vai
agüentar por muito tempo.
Com o que restava de suas forças, cortaram as cordas usando
uma faca que Lyanta conseguira conservar por todo aquele
tempo, e enquanto ainda o estavam fazendo, o mar agarrou
de novo a pequena traineira, atirando-a contra as pontas
ameaçadoras, que mal se viam sobre a água cinzenta e
cintilante.
Sabiam que ser excelentes nadadores, como de fato eram,
seria de muito pouca valia nos redemoinhos de espuma que
os rodeavam por todos os lados.
Ruan e Sheon-La foram os primeiros a saltar para a água,
seguidos por Tzal, e os outros dois saltaram logo atrás.
Encontraram um pedaço dos destroços e agarrando-o
fizeram frenéticos esforços para aproximar-se de seus amigos
e afastar-se das rochas.
Enquanto começavam a lutar por suas vidas, a força dos
ventos diminuiu ligeiramente e as ondas pareceram menos
selvagens. Assim, ficou mais fácil agora manterem-se
afastados das pontas aguçadas e mesmo nadar começou a
fazer sentido, ajudando-os a se aproximarem da linha escura
da terra, já não tão distante.
À medida que o vento e a água se acalmavam ainda mais,
eles começaram a sua difícil luta para alcançar aquela bem-
vinda linha negra.
No início nadaram com firmeza e sem parar, mas os muitos
dias de fome e sede sobre a traineira haviam cobrado seu
preço e, aos poucos, a velocidade e intensidade das braçadas
diminuíram. Seus corpos estavam pesados dentro da água e
sentiam as pernas pendendo como chumbo. Muitas vezes
precisaram reprimir o desejo de abandonar tudo e render-se
às calmas profundezas verdes lá embaixo.
Vez por outra eram lançados contra coisas duras, que
pareciam ser rochas, mas poderiam ser qualquer coisa, uma
vez que não sabiam se estavam se debatendo em terras
recentemente inundadas ou no que já havia sido mar por
milhares de anos. Feriam-se, nem sequer sendo capazes de
sentir qualquer espécie de dor, entorpecidos por inteiro.
Por fim, quando apenas a vontade ainda os fazia resistir,
continuar nadando, não se entregar, mal capazes de levantar
os braços e bater as pernas, sentiram areia firme sob os pés.
Silenciosos, pesados de fadiga, começaram a avançar através
da água rasa. Vanzaj foi o primeiro a chegar à praia, e disse
achar melhor continuarem.
— Não sabemos até onde o mar pode chegar ainda. Vamos
adiante, sem parar, até que estejamos seguros de vez.
No dia seguinte, os residentes de uma aldeia próxima os
encontraram, ainda imóveis, nas mesmas posições em que
haviam caído, respirando pesadamente, Ruan com o rosto
enterrado nos braços ao lado de Sheon-La, Lyanta e Vanzaj
um nos braços do outro, e finalmente Tzal, a cabeça áspera
sobre as pernas de Ruan.

Meses mais tarde, quando estavam prontos para partir rumo
à nova pátria, foram alcançados por um mensageiro:
...sei que estão a caminho para juntar-se a nós e Tlatli, essa
vidente incomparável, descreveu com precisão onde se
encontram agora, dizendo que estão bem, mas que levará
algum tempo até chegarem aqui, porque ainda se encontram
muito longe e não podem avançar muito depressa, de vez
que Lyanta sofreu um pouco quando seu bebê nasceu.
Assim, escrevo-lhes a presente para certificar-me... apesar de
eu e Tlatli os termos visto. Um mensageiro os ajudará a
encontrar o caminho mais curto para sua nova pátria.
Estou ficando um pouco impaciente nos últimos tempos,
meu filho, o tipo de impaciência que vem com a velhice.
Não estou doente, meu corpo não está sofrendo, mas as
coisas não me interessam tanto como interessavam antes.
Isto significa que estou em vias de me tornar um mau rei, e,
de qualquer modo, por que não deveria partir? Há tantas
pessoas mais jovens que eu ao meu redor, que seriam
capazes de administrar nossa nova nação muito melhor do
que eu.
De qualquer modo, vocês devem vir, por essas e outras
razões. Sei que chegou o tempo de retirar-me de meu
corpo... mas recebi ordens de, antes de partir, confiar-lhe a
Palavra Secreta.
Eu sei, mas principalmente Eles sabem pelo que você passou.
Eles tomaram nota e também viram como o Sinal da
Serpente foi queimado de seu corpo. Eles estiveram
observando-o durante seu suplício, protegeram-no de coisas
muito mais indizíveis às quais o Feiticeiro desejava submetê-
lo, e que teriam acabado com sua masculinidade nesta vida,
além de outras ainda piores.
Portanto Eles viram que, embora o Adversário conseguisse
queimar a imagem do Ser Alado de seu corpo, ele nunca foi
capaz de tocar seu espírito.
De início seu amigo de tantas vidas, Zenhar, esteve perdido
quanto ao que fazer, tão condicionado se tornara pelas
guerras intermináveis, entre nós e Yahali. Mas agora
começou a plantar e criar cavalos, e raramente testemunhei
tanta ternura quanta encontro naquele guerreiro intrépido ao
lidar com os animais, tanta sensibilidade quanto ao tempo
certo de plantar, ao motivo de as colheitas não estarem
florescendo como deveriam e ao que fazer a respeito.
"Além disso, tornamos-nos amigos de uma tribo pacífica e
cujas terras estão nas proximidades. Deveria dizer uma tribo
pacífica e gentil demais. No começo se mostraram
cautelosos, até mesmo francamente desconfiados, mas agora
nos tornamos amigos. Depois que nos contaram como são
com freqüência importunados por certas tribos guerreiras
perdendo bens, mulheres e homens em batalhas frustrantes
para eles, durante as quais sua extrema gentileza não é
exatamente uma vantagem, Zenhar se lançou ao trabalho
com animação.
Como você poderia esperar, ele dedicou-se a, digamos,
equilibrar aquela gentileza demasiada e está treinando-os
para que se tornem mais semelhantes a guerreiros, mais
agressivos e assim mais eficientes na batalha. E a sua querida
Tlatli descobriu que várias pessoas entre eles têm talentos
extraordinários para a vidência. Diz que alguns são muito
melhores que ela própria, do que duvido, pois sem dúvida
ela é de fato especial.
Entre os membros dessa tribo e nós, existe agora um ir-e-vir
constante, estamos misturando-nos livremente e em breve
seremos ainda mais ligados por causa dos casamentos mistos
que por certo irão ocorrer em futuro próximo.
Conheci um jovem com excepcionais talentos arquitetônicos
e juntos estivemos estudando projetos para a construção de
uma ou duas pirâmides, que servirão tanto para o
treinamento de futuros Iniciados como para a preservação de
muito de nosso antigo conhecimento, para benefício das
raças futuras.
Os planos que elaboramos estão quase terminados e embora
eu não creia que esteja aqui para vê-los executados, estou
certo de que você terminará o trabalho e talvez até venha a
aperfeiçoá-lo, junto com esse meu amigo arquiteto.
Ele pensava que seria difícil construí-las porque
precisaríamos de um monstruoso exército de trabalhadores,
para não dizer escravos, que executassem tal tarefa. Mas
então lhe contei algo sobre o modo pelo qual costumávamos
construir durante tantas gerações em Aztlan, usando o som.
Ele ficou muito mistificado, senão de fato atordoado, pensou
que eu estivesse me divertindo à sua custa, mas após algumas
demonstrações práticas, ficou plenamente convencido.
A única coisa que me irrita é que agora me olha com grande
temor, como se eu fosse um feiticeiro, o que por certo não
sou...
Ruan, lendo essa parte da carta, sorriu consigo mesmo.
Durante toda a sua vida soubera como seu pai costumava
ficar irritado ao extremo com qualquer pessoa que o
considerasse um mago, um grande curandeiro com poderes
mágicos.
"As coisas que faço", costumava explicar Rahazz, exasperado,
repetidas vezes, "estão dentro das leis da Natureza. Nada está
além dessas leis, mesmo que muitas coisas estejam além da
compreensão e conhecimento humanos dessas leis".
... sei que meu neto irá nascer poucos dias depois de sua
chegada aqui. Tenho me sentido bastante triste nos últimos
tempos, com saudades da época em que sua mãe ainda era
viva, pareço ouvir com freqüência as vozes alegres de seus
irmãos e irmãs, assassinados naquele dia terrível.
Como era belo nosso país, Ruan, e agora nada restou dele,
descansando como está, à profundidade de incontáveis
braças abaixo da superfície do mar que o engoliu, nada
permanecendo de sua beleza incrível e selvagem.
As pessoas que lhes deram as boas-vindas com tanta
gentileza, e com as quais vocês têm vivido por um ano
agora, devem ser informadas de que irão ocorrer muitos
outros terremotos e maremotos, embora menores, em futuro
próximo, e que o lugar onde vivem será completamente
submerso em conseqüência.
Não se esqueça de dizer-lhes isso antes de partir e também
que, se desejarem vir a nós, serão com efeito muito bem-
vindas para construírem uma nova nação conosco.
Assim, por favor, apresse-se a vir para casa, filho. Apresse-
se, pois minha hora está próxima e outros deveres me
aguardam. Antes de partir gostaria de ter nos braços o meu
neto, que deve nascer poucos dias depois de sua chegada.
Não sou um Iniciado frio e destituído de emoção, embora
algumas pessoas pareçam pensar assim. Sou muito humano.
E sendo um ser humano, ultimamente estou vendo
acontecer o que já aconteceu, em especial o sofrimento e a
morte dolorosa, violenta, de tantos seres e estou pensando,
perguntando: Por quê? Por quê?
Como estávamos fortes e bondosos, cheios de compaixão e
alegria — tanta alegria. Como andávamos leve na terra
quando nossa peregrinação começou, nossos pés por pouco
não tocavam no chão!
E como nos amávamos! As estrelas, os ventos, a terra, as
águas, o sol. Como nossos corações transbordavam de amor.
Nós nos abraçávamos, dançávamos e cantávamos.
E como tudo aquilo mudou? Por que e quando os nossos
rostos se deformaram, nossa bondade transformou-se em
egoísmo, dignidade em mesquinhez. Quando e por que os
nossos corações esfriaram e endureceram em nossos peitos e
nossos pés, antes tão leves, começaram a ferir cada vez mais
a terra debaixo deles. Quando e por que paramos de
entender as vozes dos ventos, das estrelas e das águas?
E por que o amor transformou-se em ódio de repente e
ficamos com aquela tremenda solidão como nossa única
companheira?
Ruan, dizem que sou um Iniciado (o que significa isso nem
sei), um Escolhido e assim conheço todas as respostas. Ou
deveria! Mas não sei. Não sei todas as respostas.
E agora a pergunta mais importante de todas: por que
durante aquilo que se chama evolução, tantas vidas se
perdem, tantas vidinhas pequeninas (e não somos todos
pequenos?) sofrem, sentem dor e agonizam na terra?
Milhões e milhões de vidas pela eternidade, humanas ou
não. Por que todos aqueles gritos agudos pedindo ajuda, os
gemidos, as lágrimas que nunca param de cair? Os gemidos e
gritos ensurdecedores não são nem sequer notados pelos
grandes deuses e deusas e anjos — para eles uma vida inteira
de sofrimento humano é nada, dura menos que um segundo
em suas vidas. E menos que um arranhão em um dos seus
dedos. Por que eles iriam notar ou sentir?
Mas eu protesto, Iniciado ou não, eu protesto e grito:
Injusto!
Epílogo

Eles se estabeleceram numa terra quase vazia, uma terra de
grandes rios, desertos, campos verdes e altas montanhas, a
terra que mais tarde, muito mais tarde, seria conhecida como
Egito.
E as pirâmides que construíram não foram erigidas do modo
usual, como passaram a ser eras depois. Porque em Aztlan
tudo era som. E tudo é som ainda, mas hoje os nossos
ouvidos estão surdos. Uma árvore crescendo canta uma
canção particular, uma flor se abrindo emite música. O
homem ou outra criatura sofrendo emite oitavas de notas
discordantes e desafinadas.
Entretanto, existe o sofrimento natural, que faz parte do
crescimento. Os sons assim ouvidos são parte da harmonia,
são as notas dissonantes que não deixam de enriquecer a
música.
No princípio era o Som. A palavra falada não passa de um
eco cacarejante, arranhado e estridente de harmonias antigas
e perdidas.
No princípio, nos dias da juventude de Aztlan, podíamos
ouvir todos os sons da vida... como agora ouvimos apenas
seus sons mais grosseiros.
As primeiras pirâmides foram construídas por meio do Som.
Nenhum trabalho escravo, nem imensos exércitos de
soldados para manter os recalcitrantes em servidão, nenhum
povo desesperado que por anos e anos tenha colocado pedra
sobre pedra sob um sol inclemente. Nada de feitores cruéis,
açoites e mortes incontáveis.
As primeiras pirâmides foram construídas pelo Som, sons
fantásticos, sobrenaturais, poderosos, cantos elevados
durante o crepúsculo e o alvorecer. Sem necessidade de
escravos, sem sofrimento humano ou animal, apenas a
colaboração alegre das criaturas que povoam o ar, a terra, o
fogo e a água.
As pirâmides ainda se erguem, herança de uma Raça que
outrora povoou a Terra de norte a sul, de leste a oeste.
Foi devido a essa Raça, nossos únicos ancestrais verdadeiros,
devido aos que sobreviveram à grande catástrofe, que o Egito
se elevou mais tarde a tais alturas. Eles trouxeram consigo
dons espirituais tão luminosos, tão profundos, que no antigo
Egito, muito mais antigo do que se supõe hoje, surgiu uma
civilização inigualada através dos tempos, uma civilização na
qual a liberdade, os direitos humanos, a justiça e a
humanidade significavam mais de fato e de direito que em
todas as outras vindas após, a nossa incluída.

O projétil usado aqui era uma substância invisível à nossos olhos (mas efetivamente sólida e visível
para os atlantes), até agora desconhecida para nossos cientistas. (N. da A.)
Os atlantes conheciam o segredo de produzir e moldar metais preciosos sem o uso do fogo. O ouro
não era minerado. (N. da A.)
A eletricidade era conhecida entre os atlantes, embora a maneira de gerá-la fosse menos complicada e
mais direta do que hoje. (N. da A.)






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Edgar Madruga
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Salvador/BA


 

Lançamento Gênesis do Conhecimento
O Filho da Serpente Alada - Mervyn Eagle
 
 
 
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digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia
 
 
 
 
Sinopse:
 
Há mais de 400 mil anos, na Atlântida, os personagens de O Filho da Serpente Alada viveram uma história rica em aventura, mistério e verdade.
A civilização atlante era muito similar à nossa e as causas que levaram à sua queda estão hoje tão ativas em nossa civilização moderna quanto estiveram naquele remoto passado. Pessoas, governos, raças, movimentos coletivos, grupos, guerras e eventos tendem a se reincorporar: todos os atos uma vez executados, todos os pensamentos uma vez pensados, compelem-nos a repeti-los, estabelecendo um hábito.
 
 
 
 
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