Andréa Frediani
JERUSALÉM
Tradução
Joana Angélica d'Ávila Melo
BERTRAND BRASIL
2011
AGRADECIMENTOS
Muitas pessoas me ajudaram inconscientemente na redação
deste romance, o qual, como quer que seja julgado, é sem
dúvida rico de inspirações. Fizeram isso através de
intermináveis e freqüentemente acaloradas discussões ou de
simples trocas de opiniões, que em parte eu incluí no texto.
Há, porém, quem o tenha feito conscientemente,
fornecendo-me materiais, informações e sugestões úteis para
este trabalho. Refiro-me a Marco Lucchetti, a Giorgio
Albertini e, não por último, ao meu inflexível editor,
Roberto Galofaro. A todos eles, aqui vão meus mais sinceros
agradecimentos.
Quero também expressar minha gratidão a Corrado Augias,
cujo livro Investigação sobre Jesus me impeliu a aprofundar
meus conhecimentos sobre o Jesus histórico e sobre a Igreja
primitiva, sugerindo-me a idéia em torno da qual este
romance é inspirado.
Sumário
Nota do autor
PRIMEIRA PARTE - CAMINHO
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
SEGUNDA PARTE - ASSALTO
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11
Capítulo 12
TERCEIRA PARTE - ASSÉDIO
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
Capítulo 16
Capítulo 17
Capítulo 18
Capítulo 19
Capítulo 20
Capítulo 21
QUARTA PARTE - CONQUISTA
Capítulo 22
Capítulo 23
Capítulo 24
Capítulo 25
Capítulo 26
Capítulo 27
Epílogo
Posfácio
Nota do Autor
Você diz "cruzada" e evoca um choque titânico de
civilizações. Mas e se tivéssemos a coragem de considerá-la
algo mais prosaico? Por exemplo, um acerto de contas entre
as três religiões monoteístas? Ou até mesmo entre
personagens ambiciosos em busca de uma terra prometida
ou de um resgate existencial? Isso poderia valer tanto para os
turcos, que agrediram o Império Bizantino, e os árabes,
provocando o pedido de ajuda ao Ocidente por parte de
Constantinopla, quanto para os próprios cruzados, ansiosos
por reservarem para si mesmos uma fatia de glória nos locais
da Paixão de Cristo.
E então, se se tratou de acerto de contas, por que não ir além
e atribuir à cruzada objetivos de consolidação de uma fé
sobre cujas origens, na confusa passagem do judaísmo ao
cristianismo, pesam até hoje muitas sombras? Estamos no
campo da ficção, no qual tudo é lícito. Ou quase.
Paradoxalmente, mil anos atrás, havia muito mais certezas
no campo religioso, e uma dúvida também podia ser motivo
suficiente para desencadear uma guerra.
O enredo narrado neste livro contém alguns dados histórica
e filologicamente incontestáveis, que utilizei como eixos do
relato. Em ordem cronológica, os fatos indubitáveis
poderiam ser sintetizados como a seguir.
. Um certo Tiago, o Justo — quer fosse ele irmão de Jesus,
algum parente ou qualquer outra pessoa —, foi um dos
chefes mais respeitáveis da Igreja primitiva em Jerusalém e
morreu justiçado antes da queda da cidade, destruída pelos
romanos em 70 d.C.
— A Igreja das origens viveu um contraste lancinante,
claramente identificável nas Epístolas de são Paulo, entre os
defensores da evangelização apenas entre os circuncidados e
aqueles a favor da conversão dos gentios.
— A Batalha de Manzikert, em 1071, provocou uma
profunda crise institucional e militar no Império Bizantino,
impelindo Constantinopla a pedir a ajuda do Ocidente,
concretizada, um quarto de século depois, na Primeira
Cruzada.
— Em sua marcha rumo à Terra Santa, as cruzadas populares,
que introduziram a dos príncipes, produziram uma série de
pogroms nas cidades germânicas ao longo do Reno,
particularmente em Espira, Worms e Mogúncia, onde eram
fortes as comunidades judaicas. Uma vez na Ásia, os
massacres se renovaram, agora em detrimento não só dos
muçulmanos, mas até dos cristãos ortodoxos que estavam
sob o jugo islâmico.
— Os turcos chegados havia poucas décadas à Ásia Menor e
os árabes do Egito estavam em luta quando os cruzados se
apresentaram na Ásia, em 1097. Além disso, o império dos
turcos já se desagregara, fracionando-se numa miríade de
potentados pouco propensos a se aliarem entre si. Essa
situação favoreceu, sem dúvida alguma, a ação dos cruzados,
e facilitou o sucesso do empreendimento deles.
— A Primeira Cruzada não dispunha de um verdadeiro chefe
operacional, e o resultado disso foram os incessantes
confrontos entre os comandantes, além de deserções de
alguns deles para seguir as respectivas ambições.
— Depois do primeiro assalto frustrado às muralhas de
Jerusalém, os cruzados padeceram quase um mês de
privações, sobretudo por causa da escassez de água, antes de
tentarem de novo e, finalmente, expugnarem a cidade.
— Uma vez dentro das muralhas, os cruzados perpetraram
um dos mais cruéis massacres da história, sem dúvida,
superado pelos de Gêngis Khan e Tamerlão, mas certamente
não pelo de Saladino, um século depois.
O restante da narrativa é produto da minha imaginação, a
começar pelos oito protagonistas. E é de pura fantasia o
manuscrito em torno do qual gira a história que escrevi,
embora os trechos que citei dele sejam, em ampla medida,
baseados nos textos canônicos (Evangelhos, Epístolas de são
Paulo e de Tiago em particular). Qualquer erro do livro, por
conseguinte, deve ser atribuído única e exclusivamente ao
subscritor.
Andréa Frediani
PRIMEIRA PARTE
CAMINHO
Anano, considerando que a ocasião era favorável, uma vez
que Festo morrera e Albino ainda se encontrava em viagem,
convocou os juízes e fez comparecerem diante deles o irmão
de Jesus — dito o Cristo —, cujo nome era Tiago, e alguns
outros. Depois de tê-los acusado de infringir a lei, entregou-
os a eles para que fossem apedrejados.
Flávio Josefo, Antigüidades judaicas, 20, 197
Após o martírio de Tiago e a conquista de Jerusalém,
ocorrida logo depois, existe uma forte tradição segundo a
qual os apóstolos e os discípulos do Senhor ainda vivos,
junto àqueles que eram ligados ao Senhor segundo a carne,
reuniram-se, vindos de todas as partes [...], para escolher
uma pessoa adequada a suceder a Tiago. Para sentar-se na
cadeira episcopal foi eleito por unanimidade Simeão bar-
Cleofas, de quem falam os Evangelhos e que era, diz-se,
primo do Salvador.
Eusébio de Cesaréia, História eclesiástica, 3, II, I
Jerusalém, agosto de 70 d.C. Assédio dos romanos de Tito
Devastação. Escombros. Carnificina. Horror. Sacrilégio. Era
somente isso que Zoker avistava diante de si.
Em um instante, a visão apocalíptica que o sol incendiado do
crepúsculo lhe oferecia, com angustiante evidência, havia
apagado a imagem mental de sua cidade, a qual ele
abandonara com toda a comunidade ebionita sete anos antes:
uma interminável abundância de edifícios, circunscrita e
subdividida por imponentes muralhas e torreões
sobranceiros a íngremes penhascos, e dominados pelo alti-
plano do Templo, cujos revestimentos de ouro e prata
refletiam fulgores ofuscantes. E uma poderosa fortaleza, a
Antônia, cujas quatro torres angulares se pretendiam rumo
ao céu sobrepujando a área sacra; e os viçosos arredores do
perímetro urbano, os ricos vales entrecortados por muretas,
sebes, paliçadas para as hortas, árvores e bosques e jardins.
Zoker buscava desesperadamente com os olhos algo de
familiar, algo que lhe recordasse a primeira parte de sua vida.
Vasculhava a lúgubre paisagem para desencavar um
testemunho do próprio passado e do motivo que o induzira a
retornar. Mas não havia nada, nada que lhe permitisse avistar
pistas da atividade de Tiago, o Justo, de seus sermões ao
longo das escadarias do Templo, das procissões que ele
encabeçava para protestar contra os sacerdotes e o rei Agripa
II, dos sacrifícios aos quais presidia diante do povo.
Antes mesmo de elevar o olhar diante de si, havia percebido
que aquela já não era a terra onde nascera. Ao longo das
encostas do monte Scopus, ao qual ele subira para ter uma
visão do conjunto de Jerusalém, não tinha divisado uma só
árvore; no entanto, recordava que justamente a densa
presença de árvores sempre o impedira, quando menino, de
despencar ladeira abaixo.
Uma vez no topo, seus pés tinham percorrido um terreno
plano, batido por solas militares, nivelado pelos
aquartelamentos que durante muito tempo três legiões
romanas haviam mantido sobre a colina, antes de deslocar-se
para o lado oposto.
Procurou o Templo. Mas, no lugar dele, no monte que o
acolhera por seis séculos, havia um acúmulo disforme de
detritos negros. Somente alguns pedaços da arcada do
magnífico pórtico ainda estavam de pé, tornando mais
angustiante a lembrança da imponência do edifício. Zoker se
habituara a considerá-lo o mais sagrado do mundo, e nunca
teria pensado que ele pudesse ser profanado a tal ponto;
nunca, nem mesmo quando se escandalizava com as
ofensivas oferendas feitas ali pelos não circuncidados, as
quais Saulo de Tarso, desentendendo-se com Tiago, havia
tolerado.
Em sua mente, poucas lembranças eram mais vividas que a
do dia do Kippur de oito anos antes, no qual vira seu tio
Tiago sair do Sancta Sanctorum trajando os paramentos
sacros de sumo sacerdote. Naquele dia, Zoker o observara,
envolto numa aura de santidade. Sobre a cabeça, Tiago trazia
uma tiara de bisso com orla azul; uma coroa de ouro
apresentava em relevo as quatro letras sagradas de Deus.
Usava uma veste azul, longa até os pés, rica de franjas das
quais pendiam romãs, símbolo do raio, e campainhas,
símbolo do trovão. Cingia seu peito uma faixa de cinco
cores: ouro, púrpura, vermelho, linho e azul — as mesmas
das cortinas do Templo e também de seu mantelete, preso
por duas fivelas de ouro —, sobre as quais estavam gravados
os nomes dos epônimos das doze tribos de Israel. E doze
eram igualmente as pedras que pendiam na frente, em
fileiras de três: sardônica, topázio, esmeralda, carbúnculo,
jaspe, safira, ágata, ametista, liguro, ônix, berilo, crisólita. Tais
nomes jamais haviam entrado na cabeça de Zoker enquanto
quem oficiava era apenas o sumo sacerdote; mas tão grande
era seu orgulho pelo papel desempenhado pelo tio que ele se
obstinara em aprendê-los então.
O sumo sacerdote Anano havia concedido também a Tiago
que pregasse no Templo no dia da expiação, mas ficara
ressentido com o espetacular consenso que este havia
suscitado junto ao povo. Desde então, o tio fora objeto de
todo gênero de acusação de impureza: ter ousado pronunciar
o nome de Deus; ter entrado, contaminado, no sacro
santuário de Israel. Na realidade, tratava-se apenas de procu-
rar pretextos para calar um ícone da oposição, um homem
respeitado e até venerado, que ousara recriminar o rei Agripa
e lembrar aos sacerdotes seus deveres para com o povo
hebreu, o respeito às Sagradas Escrituras e às prescrições
religiosas, a escandalosa aquiescência deles aos dominadores
romanos.
Zoker buscou com o olhar a Antônia, sem ver nada além de
uma esplanada irregular no ponto para onde o instinto havia
guiado seus olhos. Tentou reconstituir a aparência de sua
cidade, da qual recordava a harmoniosa alternância entre as
elevações e as baixadas que separavam uma área da outra. Em
vez disso, divisou vários terraple- nos fortificados, muitos
dos quais culminavam em rampas sobre as quais se
elevavam, semi-destruídas ou ainda íntegras, abandonadas
ou fervilhantes de homens, torres de assédio diante das quais
se percebia, invariavelmente, uma brecha na muralha
circundante.
Procurou o tríplice circuito de muralhas que ao norte havia
encerrado a cidade nova. Mas a fortificação mais externa
tinha desaparecido, assim como o casario que antes povoava
o campo dos Assírios. De resto, também ali os romanos
haviam montado um de seus acampamentos. Agora, em
contraposição, o acampamento mais consistente deles ficava
no lado oposto, no ângulo ocidental, e parecia a única área
organizada naquele apocalipse. Zoker viu outro
acampamento à sua esquerda, no monte das Oliveiras, e
vestígios da presença de mais um a oeste, diante do palácio
de Herodes. Uma trincheira de terra e paliçadas ligava todos
eles, cingindo o que restava da cidade em um torniquete
através do qual, ele não conseguiu evitar pensar, era
improvável passar.
Buscou a densa área povoada da Cidade Baixa, feita de
terraços muito próximos e vielas estreitas, mas, em vez disso,
viu uma sombria alternância de escombros ainda
fumegantes, clareiras e habitações ainda intactas.
Por último, procurou a Cidade Alta, o setor mais distante de
seu ponto de observação. Finalmente, identificou um
espetáculo familiar: ela ainda estava ali, tal como a deixara e
como a recordava. Não havia vazios nem escombros onde
ele tinha morado, e onde esperava encontrar, ainda, aquilo
pelo qual tinha vindo. No entanto, a colina sobre a qual
ficava esse setor estava circundada por uma série de
terraplenos em construção, tétrico prelúdio aos próximos
assaltos dos romanos. Havia um no lado ocidental, diante do
palácio de Herodes, outro que preenchia a baixada na
direção do monte do Templo, e mais um a setentrião, em
frente ao Xisto, a esplanada para as exibições ginásticas.
Mas foi só quando ele focalizou a circunvalação que seus
olhos foram invadidos pelo horror.
Um manto lúgubre encobria os sinais da operosidade dos
habitantes, que durante séculos tinham esculpido a terra
com suas obras. As ravinas e as encostas da vertente oriental
da cidade, ao longo do vale de Josafá, estavam cheias de
corpos jogados sobre o terreno. E entre as pilhas de
cadáveres se erguiam, como tétricos sucedâneos das árvores,
centenas de cruzes, das quais pendiam inertes os corpos
putrefatos dos rebeldes, expostos à visão dos assediados.
O verdadeiro problema, pensou Zoker, era o fosso que cingia
a cidade. Se conseguisse ultrapassá-lo, penetrar além das
muralhas não seria impossível. Quem quer que tivesse vivido
em Jerusalém conhecia os túneis e as galerias que corriam
por baixo das construções; se não tivessem sido todos
descobertos e obstruídos, ainda haveria como chegar à
Cidade Alta. Depois, quanto ao que ele encontraria, bastava
esperar que Simeão bar-Cleofas ainda estivesse vivo e de
posse do memorial de Tiago, o Justo. Lá dentro morria-se de
fome, era capaz de jurar.
Mas Zoker estava ali para aquilo. Para salvar Simeão, primo
de seu pai. Para recuperar o memorial e evitar que Tiago
caísse no esquecimento, ao qual as mentiras de Saulo de
Tarso o estavam condenando. E para restabelecer a verdade
sobre o homem extraordinário que era o objeto do memorial
de Tiago.
Jeshua.
I
Manzikert, Anatólia oriental, agosto de 1071. Batalha
entre o exército bizantino do imperador Romano IV
Diógenes e as tropas do sultão turco seljúcida
— Emanuel! Corra à retaguarda e comunique a Ducas que
venha ao nosso encontro e proteja a retirada! O sol já vai se
pôr e não faz sentido ir adiante. Estamos desconectados das
alas e os turcos evitam o confronto! — gritou o imperador,
montado em seu cavalo branco, enquanto se defendia das
investidas algo hesitantes de dois seljúcidas da cavalaria
pesada.
Envolto pela nuvem de poeira que os cascos dos cavalos
levantavam, Emanuel mal enxergava o comandante
supremo. Mas o escutara muito bem, e logo partiu a galope,
desferindo seu kontarion, a comprida lança de que dispunha
a cavalaria couraçada, contra um turcomano surgido de uma
das tendas do acampamento adversário. Atingido direto no
peito. Muito bom, pensou ele, para quem, apenas algumas
semanas antes, ainda manejava com grande dificuldade a
lança longa.
Estava em sua primeira campanha e já se encontrava em
pleno combate contra as tropas do sultão seljúcida, ao lado
do imperador Romano IV, o general mais valente que o
Império Bizantino podia ostentar desde os tempos de Basílio
II. E era um orgulhoso membro dos hikanatoi, os cadetes da
alta nobreza que faziam parte das tagmata, as tropas de
Constantinopla.
Vinham combatendo desde o amanhecer. Pelo menos eles,
os regimentos da capital sob o comando direto do imperador
no centro das fileiras, haviam conseguido chegar ao campo
inimigo, mas Emanuel tinha a impressão de que os turcos
não haviam feito muita coisa para impedi-los. Ao contrário,
os adversários pareciam mais combativos contra as alas, nas
quais haviam obrigado os gregos a avançar muito mais
lentamente. Os bizantinos ainda estavam em superioridade
numérica, mas, quanto àquela tática... parecia de fato
comprometida, com os quatro setores em que era dividido o
exército imperial bastante afastados uns dos outros.
Mas não havia motivo para preocupação: no máximo, o
combate seria apenas preliminar e a decisão da batalha,
deixada para o dia seguinte. Um bom resultado,
considerando-se a excessiva subdivisão das forças e a
deserção, ao anoitecer da véspera, do contingente de turcos
oguzes, que haviam aderido aos confrades seljúcidas. Um
episódio, este último, que custara a Emanuel sua primeira
decepção. De fato, justamente entre os mercenários oguzes
o jovem soldado fizera seu primeiro amigo naquela
campanha: um integrante da cavalaria ligeira chamado Firuz,
o único que o tinha defendido, encorajado e treinado
quando todos os companheiros mais experientes zombavam
dele por sua incapacidade no uso do kontarion.
Emanuel se afeiçoara sinceramente àquele turco simpático,
feio de arrepiar, refratário a qualquer forma de limpeza,
desengonçado ao caminhar, por causa do hábito de se firmar
sobre o cavalo, e quase ridículo ao falar hesitantemente o
grego. O desconcerto diante da traição de Firuz emparelhava
com o desalento por seu desaparecimento sem nenhum
aviso prévio.
De qualquer modo, dissera a si mesmo, Romano Diógenes
era um exímio comandante, corajoso e experiente; a ele
bastaria compactar as fileiras para fazer uma retirada sem
danos. E no dia seguinte, ou até naquele mesmo entardecer,
certamente chegariam para reforçar o exército as divisões de
infantaria varegue e armênia enviadas a sudoeste, ao lago
Van, ou pelo menos a cavalaria pesada franca dos
mercenários de Roussel de Bailleul.
Impelido pelo otimismo, Emanuel continuou a cavalgar
rumo à retaguarda comandada por Andrônico Ducas, mas,
de soldados bizantinos, não encontrou qualquer indício. "Ou
nós viemos muito depressa ou eles, muito devagar", pensou,
com uma pontinha de apreensão.
Divisou uma nuvem de pó e umas silhuetas indistintas, após
um tempo que lhe pareceu longo demais. Também não
entendeu por que não conseguia avizinhar-se, embora os
soldados cavalgassem em sua direção. Depois, compreendeu.
Não estavam cavalgando ao seu encontro.
Ele é que os estava seguindo.
Eram as costas deles, e os dorsos dos cavalos, as silhuetas que
Emanuel distinguia com dificuldade na poeira do planalto
anatólio.
Acelerou até alcançar o último da coluna.
— O que estão fazendo? Devem vir ajudar o imperador! Ele
precisa de vocês! Tenho ordens de reuni-los às tagmata,
antes que escureça! — gritou.
O soldado se voltou, mas não deu indícios de parar, para não
perder o contato com o resto do contingente.
— O imperador? Mas ele não está morto?
— Morto? Quem lhe disse isso? Está vivo, e combatendo
como um leão! Vocês deveriam estar mais próximos do
centro! — respondeu Emanuel, irritado.
— Não existe mais um centro. Fomos derrotados. O
imperador morreu. Foi o que Ducas nos disse. Queremos
salvar nossa pele. Procure fazer isso também, se puder —
replicou o cavaleiro, sem demonstrar a mínima dúvida.
— Idiota! Eu vim do centro! Estamos inteiros e o imperador,
vivo e atuante! Vai entender ou não? Quero falar com o
chefe de sua unidade!
— Balelas. Você deve ser um daqueles de Nicéforo Briênio
que vêm nos pedir ajuda. Cada um por si, amigo!
"Esse Ducas os manipulou muito bem. E nisso que dá confiar
um ponto nevrálgico da formação a um adversário
político...", pensou Emanuel, o qual mesmo assim não se deu
por vencido.
— Mostre-me seu comandante, eu já disse! — gritou de
novo, dando ao próprio rosto a expressão mais respeitável
que seus dezoito anos lhe permitiam.
Em instantes, topou com uma cúspide de lança apontada
para seu pescoço.
— Vá embora, já mandei, e fuja também, se for esperto.
Como quer que seja, seu imperador está perdido, todos aqui
sabem disso — concluiu o outro, em tom definitivo.
— Eu não disse? O imperador é um cavalo vencido —
comentou o chefe dos mercenários francos, Roussel de
Bailleul, enquanto, junto com seu estado-maior, observava
do alto de uma colina os movimentos das tropas nos
arredores de Manzikert.
— A fama militar dele é imerecida. Como é que alguém pode
truncar as forças em duas partes na véspera de um confronto
importante? — acrescentou seu vice.
— Na verdade... quando mandou que nós e os varegues
fôssemos tomar Khilat, ele não sabia que teria de enfrentar o
exército inteiro do sultão... — observou um adolescente
atrás deles.
— Quem falou? — inquiriu com desprezo o vice-
comandante, voltando-se.
— É o meu escudeiro. Tem a mania de abrir a boca quando
não é interpelado — esclareceu Bailleul, com uma expressão
de tédio.
O outro esquadrinhou o jovem. Este não devia ter mais de
treze ou catorze anos, e, no entanto, era alto como um
homem-feito. Robusto também. Seus olhos, de um azul
intenso, pareciam subtraídos a um homem pelo menos vinte
anos mais velho; destacavam-se num rosto imberbe,
imaturo, no qual as espinhas eram mais freqüentes do que os
ralos pelos da barba.
— Agora, até os escudeiros se metem a discorrer sobre
estratégia... — prosseguiu o guerreiro, sem aliviar seu tom de
superioridade.
— De qualquer modo, é uma questão que não nos interessa
mais. Já vimos o suficiente. É hora de escapulir — disse o
comandante, virando o cavalo.
— Mas como, senhor! — O jovem se plantou diante dele. —
Nós vamos embora? Quinhentos cavaleiros seriam úteis ao
imperador! Ele ainda pode se sair bem!
— Não me faça perder a paciência, rapaz. Já tolerei demais
sua insolência — grunhiu Roussel. — Em Constantinopla,
quem controla os cordões da bolsa são os aristocratas, e não
aquele coitado ali embaixo, que combate praticamente
sozinho, até mesmo na pátria. Nós, mercenários, devemos
pensar no futuro — continuou, impelindo seu cavalo contra
o do escudeiro.
Este, porém, não pretendia dar-se por vencido e agüentou o
choque.
— Embora sejamos mercenários, supõe-se que também
somos homens honrados — insistiu. — Existem outras
motivações além do dinheiro. Devemos ajudar Romano. Ele
é o nosso empregador!
— Empregador? — Roussel explodiu numa gargalhada
obscena. — Daqui a pouco já não teremos um empregador,
e, portanto, é melhor agirmos para encontrar facilmente
outro trabalho. Está vendo aquele ali ao longe? — perguntou,
apontando o contingente em fuga, comandado por
Andrônico Ducas. — Pois é, nosso próximo patrão será ele,
ou algum de seus parentes...
— Não, se cumprirmos nosso dever! O imperador só precisa
de um contingente que lhe cubra a retirada! — continuou o
jovem.
— Como se chama este fedelho que pretende nos dar lições
de vida, afora as de estratégia? — perguntou outro cavaleiro
do estado-maior.
— Ricardo — respondeu De Bailleul, com uma risadinha. —
Está comigo há pouco tempo. Seu pai era um dos meus mais
fiéis subalternos normandos, caído em uma campanha
contra os petchenegues na Grécia. No início do ano, a mãe
veio me pedir que o tomasse como escudeiro e, em nome da
memória do pai, não pude recusar. Mas está me dando tanta
dor de cabeça que, juro a vocês, assim que chegarmos a
Constantinopla vou me livrar dele!
— Eu é que não quero mais servir num contingente
comandado por um chefe tão vil! — rebateu Ricardo,
mantendo-se firme onde estava.
O gelo desceu entre os presentes. Nem mesmo um dos mais
íntimos subalternos de Roussel teria o topete de afrontar
daquela maneira seu chefe, veterano de mil batalhas, cuja
fama era temida em muitas frentes de guerra, do
Mediterrâneo ao mar Negro. Todos aguardaram a réplica do
comandante.
Por alguns instantes, Emanuel continuou cavalgando junto
ao último soldado da coluna de Ducas, indeciso sobre o que
fazer. Gostaria de tentar falar com alguém importante, mas
tinha a impressão de que dessa conversa não obteria nada, a
não ser mais perda de tempo. Por fim, virou o cavalo e
começou a retornar ao campo de batalha, dirigindo-se para a
direita, a fim de avisar a ala comandada por Teodoro Aliates
sobre a deserção de Ducas.
Encontrou o contingente bloqueado pelos contínuos
disparos de flechas adversárias. Os cavaleiros turcos se
aproximavam a galope, em pelotões, até a distância de tiro,
arremessavam os dardos em seqüência e retornavam às suas
fileiras, para ceder a vez a outras divisões que agiam do
mesmo modo. Emanuel observou que os inimigos
enfrentados pelo imperador haviam sido bem menos incisi-
vos, e já não teve dúvidas quanto à intencionalidade da tática
deles, cujo objetivo, agora evidente, era distanciar e separar
o centro e as alas.
Para se garantir, começou a procurar alguém que tivesse
sobre o elmo a ampla crista de oficial e a correspondente
faixa sobre a couraça. Não lhe foi fácil encontrar um: quase
todos os combatentes se escondiam atrás dos escudos, sobre
os quais continuavam a chover dardos. Por fim, desencavou
um oficial.
— Venho da parte do imperador. Ele está batendo em
retirada. Detenham-se para esperá-lo — disse.
— E a reserva? Não deveríamos vê-los passar ao centro?
Emanuel hesitou antes de responder, temendo que a notícia
da deserção da retaguarda, após a dos mercenários turcos,
ocorrida na véspera, pudesse induzir os soldados ao
esmorecimento. Mas informá-los de que, agora, a salvação
do imperador só dependia deles também podia constituir
uma motivação decisiva para estimulá-los a resistir. Decidiu
arriscar:
— Eles... bem, eles já se retiraram — disse, quase engrolando
as palavras.
— Retiraram? Fugiram, você quer dizer! — respondeu o
oficial.
— Fomos derrotados! O imperador está se retirando e Ducas,
fugindo! — Emanuel ouviu alguém gritar. A voz era a de um
simples skutatos que tinha acompanhado o diálogo e
imediatamente percebido as conseqüências.
Emanuel olhou o interlocutor, esperando que este
repreendesse o homem, mas o oficial não parecia querer
desmentir seu subordinado. Em pouco tempo o boato se
espalhou, as fileiras se desmancharam e os soldados
começaram a recuar de maneira esparsa, sem que Emanuel
pudesse intervir de algum modo. Os próprios oficiais se
empenharam a fundo, não para bloquear a fuga de seus
comandados, mas para dar a ela uma aparência de ordem.
O jovem cavaleiro compreendeu haver perdido a última
oportunidade para dar ao seu imperador a cobertura que este
lhe pedira. Amaldiçoou a própria ingenuidade, a excessiva
franqueza e a falta de experiência, que o tinham impedido de
mentir. Por um instante, dominado pela vergonha, esteve
tentado a se unir à ruptura da ala, mas depois chicoteou o
cavalo em direção à vanguarda, mantendo- se bem atento
para não se jogar na boca dos turcos. Cavalgou furiosamente,
indiferente às flechas que lhe caíam ao redor, com o
pensamento fixo nas explicações que deveria fornecer ao
comandante supremo.
Quando se viu diante de Romano, hesitou demoradamente
antes de fazer seu relatório. A situação se tornara crítica. As
flechas inimigas tinham abatido quase todos os cavalos, e
muitos combatentes, para não expor um alvo muito amplo,
haviam renunciado aos animais ainda vivos. Emanuel tinha
um só desejo, agora: morrer ao lado do imperador, quem
sabe salvando-lhe a vida.
— E então? Quer me dizer o que devemos esperar, por são
Demétrio? — perguntou o imperador, ofegando atrás de dois
subordinados que o defendiam dos ataques de um pelotão
turco mais audaz do que os outros.
— Ducas foi embora. Ao que parece, difundiu-se o boato de
que Vossa Majestade havia morrido, e eu não consegui
convencê-los do contrário... — disse Emanuel, inclinando a
cabeça.
— Era de esperar, tratando-se daquele maldito velhaco. Deve
estar indo a Constantinopla, a fim de preparar-se o terreno
para a sucessão! — exclamou Romano, irritado, mas nem um
pouco surpreso. — E as alas? Estas, pelo menos, ficaram para
nos dar cobertura?
Para um jovem e ambicioso cadete da nobreza de
Constantinopla, agora era difícil dizer a verdade. Esta lhe
saiu com voz embargada:
— Pois é... assim que souberam a respeito de Ducas, também
se retiraram, dando por certa a derrota...
— E quem lhes contou sobre Andrônico? — interpelou-o o
imperador.
— Bem, eles deduziram... das minhas palavras...
Por um instante, Romano fitou Emanuel nos olhos,
esmagando-o com o peso de sua mirada. Em seguida, antes
de se voltar e recomeçar a combater, sentenciou:
— Erro meu. Não se escolhe um recruta para uma tarefa tão
delicada.
Emanuel sentiu uma fisgada no estômago: o sabor azedo da
humilhação. Demorou um pouco a desmontar do cavalo,
puxar a espada e colocar-se ao lado de Romano; moveu-se
acompanhado por uma sensação de náusea, distante e
separado do cenário sobre o qual já caíra a escuridão.
Os gritos de guerra de um destacamento de cavaleiros turcos
de contornos indistintos, que atacava a divisão enfileirada
diante do imperador, trouxeram sua mente de volta ao
campo de batalha. Emanuel se lembrou de seu propósito e,
gritando "Kyrie Eleison!", correu em direção aos camaradas
mais avançados.
Estes já se encontravam às voltas com as cutiladas das
cimitarras inimigas quando o jovem chegou para ajudá-los.
Cortou os jarretes do cavalo inimigo mais próximo, de modo
que o cavaleiro foi parar no chão à sua mercê, expondo o
pescoço à lâmina. Depois de extrair da vítima a espada,
Emanuel correu para perto do imperador, que se encontrava
em maus lençóis contra dois cavaleiros.
O jovem se jogou com todo o ímpeto contra o flanco de um
dos dois inimigos, e o turco, ocupado com Romano, só o viu
tarde demais. Emanuel o derrubou do cavalo, mas também
perdeu o equilíbrio e se viu lutando no solo. Rolou na poeira
junto com o adversário, ao alcance dos cascos do animal,
mas este, escoiceando, acabou por atingir o muçulmano na
cabeça.
Emanuel retomou a espada e se levantou, imediatamente
procurando o imperador com o olhar. Romano acabava de
perder o escudo, e sua espada parecia uma magra defesa
contra a lança do adversário.
O jovem soldado bizantino, agora também sem escudo, não
hesitou um instante e se atirou entre os dois, justamente
quando o turco erguia o braço para desferir o golpe. Certo de
que ia morrer, Emanuel quis encarar seu provável matador.
Era Firuz.
-Vá.
Roussel de Bailleul acompanhou sua lacônica ordem com um
gesto do braço, indicando o campo de batalha.
— O que está esperando? Afinal, vai combater com eles, não?
— reiterou, em meio ao silêncio geral.
— Como assim? Sozinho? — respondeu Ricardo, depois de
olhar ao redor e constatar que nenhum dos presentes
manifestava a intenção de segui-lo.
— Claro. Você teria as mesmas possibilidades de
sobrevivência que nós quinhentos — interveio o vice-
comandante. — Além disso, não estará sozinho: lá se
encontram o imperador com todos os seus soldados... ainda
vivos — acrescentou, antes de explodir numa gargalhada.
— Mas... eu jamais combati... — tentou dizer o rapaz.
— E daí? Não é o que você queria? Ânimo! Observaremos
daqui sua coragem, e depois diremos à sua mãe que você
lutou valorosamente, quando dermos a ela a notícia de sua
morte — retrucou Roussel.
— Mas eu não quero morrer antes de ter me tornado um
guerreiro!
Roussel se aproximou dele com ímpeto e, estendendo a mão,
agarrou-lhe a gola e lhe gritou na cara:
— Escute bem, rapazinho: se quiser se tornar um guerreiro,
você deve, antes de mais nada, demonstrar coerência entre
as palavras e os atos. Não disse que assumiu um
compromisso com o imperador? Pois bem, vá ao encontro
dele e não nos amole mais; até porque, seja como for, esta é
a última campanha que você faz comigo. Demonstre-nos se
pode aspirar a se tornar um homem. E, se morrer, paciência.
Na guerra, acontece.
E largou-o, empurrando-o para trás. Com grande esforço,
Ricardo conseguiu se manter em cima da sela e, em seguida,
recuperado o equilíbrio, olhou ao redor mais uma vez.
Alguns dos presentes mostravam um olhar sério e
compungido; a maioria disfarçava risadinhas sob os bigodes.
Desconsolado, o jovem esporeou o cavalo e, de cabeça baixa,
partiu a galope rumo aos milhares de pontinhos escuros ao
longe. Experimentou o punho da espada, perguntando-se se
seria capaz de desembainhá-la diante de um inimigo para
deter um golpe. O medo de matar só era superado pelo de
ser morto.
E se não fosse rápido o bastante? Se, no calor da luta,
carecesse de precisão? Se não imprimisse à cutilada a
potência necessária?
Depois viu um pelotão de turcos cavalgar para fora das
fileiras, provavelmente em missão de reconhecimento ou
para preparar uma manobra de bloqueio. Notou que todos
portavam arcos, e outro medo o assaltou.
E se uma flecha o atingisse antes que ele pudesse fazer
alguma coisa?
Percebeu que o tinham visto, e logo sentiu um calor úmido
na altura do púbis.
O que fazer?
O golpe não veio.
No instante em que os olhos dos dois haviam se cruzado,
Emanuel ficara por demais espantado para ter medo. Depois,
o braço de Firuz permanecera dobrado para trás, e o turco
dera um violento puxão no cavalo, virando-se e afastando-se
a galope, sendo logo engolido pela escuridão.
Antes que surgissem outros adversários, Emanuel teve
tempo de notar que seu amigo, para lhe salvar a vida, havia
renunciado a se vangloriar da captura do imperador. Depois,
Romano chamou sua atenção, acenando-lhe para se
posicionar ao lado dele.
A essa altura, por toda parte viam-se aflorar na sombra
apenas os turbantes dos turcos. Os bizantinos viam
esvoaçarem os muqalläb, as amplas sobrevestes com faixas,
usadas pelos adversários, e as cimitarras deles cintilarem no
escuro; volta e meia sibilava algum dardo, cujo único
objetivo era manter alta a tensão dos gregos.
Entre os cristãos, nenhum se iludia ainda quanto à
possibilidade de que alguém, quer se tratasse de Teodoro
Aliates, Nicéforo Briênio, Andrônico Ducas ou Roussel de
Bailleul, viesse socorrê-los. Por algum tempo, esperaram que
os turcos se retirassem ao cair da noite, mas logo ficou
evidente que eles não tinham essa intenção. Pelo contrário:
quanto mais escurecia, mais se aproximavam, até acuá-los.
Várias vezes o imperador chamou os seus para reuni-los e
conduzir uma tentativa de ruptura do cerco, mas no escuro
era impossível organizar uma formação em cunha, capaz de
penetrar as fileiras turcas: a cada vez, os bizantinos
confrontavam o inimigo já dispersos, sem a necessária
coesão. E assim recuavam, deixando para trás alguns caídos,
e só com dificuldade conseguiam reconstituir o alinhamento.
Emanuel, na verdade, tornara-se o guarda-costas do
imperador. E consideraria isso uma grande honra, se tivesse
sido uma promoção, e não seu sentimento de culpa, a levá-lo
para junto de Romano.
O que restava do exército bizantino se esfarelara em muitos
grupos pequenos e isolados entre si. Emanuel não tinha
como saber que sorte coubera às outras divisões. Na sua,
constituída pelo imperador e por algumas dezenas de
combatentes, tinha a sensação de que, em qualquer
momento que escolhessem, os turcos poderiam desfechar o
ataque decisivo.
Ocupado em enfrentar um adversário, o jovem só percebeu
tarde demais outro seljúcida que investia contra o imperador,
infligindo-lhe um talho de cimitarra no flanco. Emanuel se
precipitou contra o turco, obrigando-o, com uma série de
golpes, a recuar. Depois voltou-se para o soberano, que
estava prostrado, embora tentasse desesperadamente se
manter de pé, a fim de não desmoralizar seus soldados. O
jovem se apressou a segurá-lo, e notou que ele perdia muito
sangue. Ouviu seus companheiros gritarem que o imperador
estava ferido.
— É o fim! É o fim! — berrou alguém, logo depois.
Verdade. Era realmente o fim, pensou Emanuel.
Fugir.
Para um garoto de treze anos, sozinho diante do inimigo e
em sua primeira experiência de guerra, não havia outra coisa
a fazer. Ricardo tentou se convencer de que, para ele, jovem
e ainda destreinado, essa não seria uma opção tão covarde
quanto para outro combatente mais tarimbado.
Precisava sobreviver, se quisesse se tornar um guerreiro e
demonstrar sua coragem realizando grandes façanhas. Se
morresse logo, passaria por um idiota petulante e mais nada.
As primeiras flechas começaram a sibilar ao seu redor bem
antes do que ele esperava. Aqueles turcos podiam atirar de
muito, muito longe.
Virou o cavalo, deu-lhe um puxão, esporeou-o e galopou na
direção de seus companheiros, cujas silhuetas minúsculas e
indistintas conseguia divisar. Para não oferecer aos
perseguidores um alvo muito fácil, estendeu-se ao máximo
sobre o dorso do cavalo.
Logo se convenceu de que o alinhamento em espera no alto
da colina dissuadiria os turcos de avançar mais, e sua tensão
diminuiu. Veio, porém, o temor à reação dos companheiros.
Preparou-se para enfrentar o indefectível sarcasmo deles,
mas, assim que começou a elaborar justificativas, uma
terrível fisgada se irradiou pelo seu glúteo esquerdo.
Por são Miguel Arcanjo, tinha sido alvejado!
Portanto, ainda não estava fora do alcance dos arcos turcos.
Foi invadido pelo pânico. Virou-se por um instante e os viu
ainda bem distantes. Seus companheiros, ao contrário,
estavam bem próximos. Pressionou o cavalo com os estribos
e incitou-o com gritos desesperados, impelido pelo terror de
sequer ver dispararem a flecha que poderia matá-lo.
Cavalgou como um louco, imaginando tê-los sempre atrás de
si. Procurou ler o assédio dos perseguidores na atitude de
Roussel e seus comandados, cujas silhuetas ele enxergava
agora distintamente, embora lhe fosse difícil manter os olhos
abertos ao sol afogueado do ocaso. De início, os cavaleiros
cristãos lhe pareceram enfileirados para a batalha, um ao lado
do outro, com as lanças em riste e os elmos abaixados, mas
depois, à medida que se aproximava, viu-os assumir uma
postura de repouso, apoiando os antebraços ao longo do
pescoço dos cavalos e erguendo os elmos.
Mesmo assim, continuou a esporear o cavalo, até alcançá-los.
Só então, ao notar suas expressões divertidas, virou-se para
ver onde estavam seus perseguidores.
Não havia mais ninguém.
Emanuel não conseguira permanecer com o imperador. Um
mameluco havia desarmado e capturado Romano, enquanto
ele enfrentava outros dois inimigos. Depois, vira que o
deitavam numa cama de campanha e o carregavam. Aquela
altura, os oficiais superiores proclamaram a rendição, e logo
depois alguns turcos oguzes tinham percorrido as fileiras
cristãs, levando todos os graduados. Por último, tinham
vindo prender os soldados, que, subdivididos em grupos,
haviam sido alojados em recintos improvisados.
Emanuel observou seus companheiros. Os gregos estavam
prostrados. As perdas não tinham sido elevadas, mas não
havia um único soldado que não exibisse ferimentos, menos
ou mais graves. Em seus olhos baços, na gestualidade lenta,
na atitude apática, liam-se o esforço de um dia inteiro
passado em combate e o desalento por tê-lo feito em vão.
— Preocupado? Não deve. Sultão não faz nada a vocês,
gregos, se imperador assina acordo para cessão territórios. —
Aquela voz, o curioso sotaque e o jeito de falar lhe eram
familiares.
— Firuz! — exclamou, tentando disfarçar a alegria por aquele
encontro. Seu amigo, embora lhe tivesse poupado a vida,
continuava sendo um traidor.
Fosse como fosse, aquele era um discurso que devia ser
contestado.
— Ao que parece, durante semanas fui amigo de um traidor...
— disse, tentando fazer sua frase parecer uma simples troca
de pontos de vista, e não uma acusação.
— Você errado. Eu não traidor.
— Ah, não? E como chamaria alguém que larga para trás o
próprio comandante na véspera da batalha e depois luta
contra ele? — insistiu Emanuel.
— Eu não abandonar imperador. Eu sempre esteve com
sultão.
— Ao que eu saiba, você combatia por nós, até ontem...
— Não. Eu finge. Sultão me confiou missão espiar.
Terminado trabalho, eu volta para meu comandante. Não
podia lutar contra ele.
Emanuel não teve forças para polemizar sobre os dúbios
meandros morais que um papel desse tipo comportava. E ele
mesmo seguramente não estava livre de máculas, para poder
julgar aquele burlesco homenzinho atarracado. Mas nem por
isso se dispunha a revelar a ele a própria culpa.
— Então, eu deveria apenas lhe agradecer por ter me
poupado, no campo de batalha?
— Eu não precisa disso. Faria de novo. Você bom
combatente e bom homem.
— Seja como for, não creio que seu belo gesto adiantará
muito. Imagino que, aqui, nós, bizantinos, estejamos todos
destinados a um péssimo fim...
— Não verdade. Sultão Alp Arslan quer vantagens práticas da
vitória. Imperador morto e vocês mortos não serve. E,
também, sultão sabe que em Constantinopla estão lutando
por poder. Se Romano volta, guerra civil, talvez, e isso bom
para Islã.
— Aí está, isto mesmo. Se vocês venceram, foi só porque
Ducas nos traiu — retrucou Emanuel, com desdém. — E
também porque os mercenários não chegaram a tempo. —
Omitiu o motivo que o envolvia mais diretamente.
— Vocês era o tempo todo, muitos mais do que nós, não?
Então, por que não venceu?
— Porque nossa tática se baseava na colaboração entre os
setores, que falhou em conseqüência da traição, foi isso —
respondeu Emanuel, desconsolado.
— Não. Colaboração entre setores não aconteceu porque
nossa tática levou centro longe das alas e da reserva. Eu tinha
dito a sultão que Romano é comandante que vai sempre em
frente, sem pensar conseqüências. Assim, nosso centro
recuado sempre, para fazer vocês avançar, enquanto nossas
alas detinham suas alas...
Era exatamente a sensação que Emanuel tivera enquanto
combatia. Portanto, a idéia havia sido mesmo de Firuz.
Brilhante, sem dúvida. Mas ele preferiria ser esquartejado a
admitir isso.
— Vocês jamais poderiam saber se essa sua tática funcionaria
também com Ducas e os mercenários presentes — disse,
encerrando a discussão.
Quando Firuz se afastou, o desalento voltou a abrir caminho
no ânimo de Emanuel, e foi nesse estado que ele passou o
resto da noite. Compreendeu que não encontraria paz
enquanto não se redimisse, e desejou que o imperador lhe
desse uma nova oportunidade. Se era verdade aquilo que seu
amigo turco afirmava — e as probabilidades eram altas —,
Romano precisaria de todos os homens disponíveis para se
defender do ataque de seus inimigos internos, e não daria
importância a minúcias. Até mesmo um imbecil como ele
mesmo, que se demonstrara incapaz de cumprir uma tarefa
que não exigisse apenas o mero uso das armas, poderia se
revelar útil.
Se os turcos libertassem o soberano, refletiu Emanuel, seria
por um preço muito alto, que Ducas usaria como pretexto
para destituí-lo. Romano não desistiria tão facilmente, e
haveria guerra civil: uma guerra talvez até mais perigosa para
o Império Bizantino do que a própria derrota sofrida naquele
dia em Manzikert.
Se, ao contrário, o sultão não os deixasse livres... bem, então
para Emanuel seria difícil escapar a um terrível destino de
escravidão e talvez até a uma conversão forçada ao Islã. Em
ambos os casos, sua fúlgida carreira no exército estava
comprometida.
Para sempre.
Ricardo tentou descer do cavalo, mas a dor lancinante no
glúteo não lhe permitiu erguer-se da sela. Esperou que
alguém o ajudasse, mas ninguém se mexeu. Todos o
encaravam com um ar de comiseração e, pior, alguns já
começavam a virar o cavalo na direção oeste, rumo a
Constantinopla, como se agora já não houvesse nada que
pudesse lhes chamar a atenção.
Sentiu-se consternado. Nos breves instantes em que, durante
a perseguição, conseguira pensar naquilo que o esperava
quando retornasse aos seus companheiros, havia se
preparado para agüentar a zombaria deles.
Mas não o desprezo.
— Ninguém vai me ajudar? Fui ferido, se por acaso vocês não
tiverem notado — disse afinal, irritado.
— Não é uma flecha, garoto. É um rabo: o rabo de um
cachorro que começa a ganir e a fugir diante de uma sombra
de perigo — retrucou Roussel, antes de também virar o
cavalo, confirmando assim o próprio desinteresse pela sorte
de seu escudeiro.
Os outros o imitaram, até que já não havia um só cavaleiro
perto de Ricardo. Ele os viu desfilar diante de si, sem que
ninguém lhe concedesse um olhar. Sequer tentou pedir
ajuda mais uma vez, temendo receber outras respostas
mortificantes.
Quando o último cavaleiro da coluna já se tornara um
pontinho indistinto contra o último raio de sol incendiado,
moveu-se também rumo ao ocidente, mantendo-se a
distância do grupo, como o réprobo que seu comportamento
o condenara a ser.
II
Mogúncia, Germânia, outubro de 1088.
Comunidade Judaica
Rebeca foi abrir a porta com resignação, cansada, disfarçando
a custo o despeito pela atitude de Sara. A irmã, como de
hábito, sequer erguera o olhar de seus brinquedos para dar
mostras de querer ir abrir, ao menos desta vez. A mãe delas
morrera havia um mês, mas as visitas de condolências
pareciam não acabar; às vezes, era pesado ser filha de um dos
mais estimados rabinos da comunidade judaica de Mogúncia.
Rebeca esquadrinhou demoradamente o personagem que viu
diante de si após abrir a porta. Agora, eles vinham até de
longe, pensou, entediada. Poderiam ter se apresentado
durante a doença da mãe, refletiu, com um daqueles
portentosos medicamentos trazidos do Oriente, em vez de
vir incomodar o luto delas somente agora, obrigando-as a
recordar a cada momento os tristes e recentes fatos.
Fosse como fosse, aquele sujeito vinha mesmo de longe, a
julgar pela quantidade de poeira que o cobria. Sobrepunha-se
à garota exibindo um chapelão piramidal, de ponta cortada e
abas estreitas, e um amplo manto inteiramente envolto ao
redor do corpo e preso na base do pescoço por um grande
fecho. A veste, só um pouco mais longa, lhe aflorava os
tornozelos. Atrás dele, um rapazinho de aspecto modesto
segurava as rédeas de um cavalo e de um burrico super-
carregado de bagagens.
— Shalom aleichem, minha jovem. E esta a casa do rabi
Isaac bar-Mosche? — perguntou o indivíduo, com um
sotaque que Rebeca jamais tinha ouvido. Se ele era judeu,
como parecia, de qualquer modo não era asquenazim.
— Gam lechá. E aqui — confirmou a garota, ainda
concentrada em examinar o visitante.
— Eu gostaria de falar com ele. Vim de muito longe para vê-
lo — disse o outro, em tom ligeiramente impaciente.
Intimidada, Rebeca respondeu:
— Está dando aula na yeshivá, mas volta daqui a pouco. —
Hesitou quanto a recebê-lo, estando o pai ausente. Mas
aquele homem, por mais inquietante que fosse seu aspecto,
não lhe parecia uma ameaça. Por fim, decidiu que seria
descortês deixá-lo ali fora. — Pode esperá-lo aqui, se preferir
— acrescentou, convidando-o a entrar.
O homem aceitou de imediato. Acenou ao ajudante para que
fosse alimentar os animais e, depois de dar uma olhada rápida
na sala, dirigiu-se à cadeira mais próxima, que estava junto de
Sara. Tirou o manto, jogou-o sobre a mesinha e se sentou
pesadamente, levantando uma nuvem de poeira que foi cair
sobre os brinquedos da menina. Sara o olhou de través: não
era o melhor modo de cair nas suas graças, caprichosa e
ciumenta de suas coisas como era ela.
Só então os traços duros e cansados do homem se
abrandaram e se abriram num esboço de sorriso.
— Desculpe, minha pequena, mas depois de centenas de
milhas em viagem não se presta muita atenção aos detalhes.
As estradas, aqui na Europa, são um verdadeiro desastre... —
disse ele, aflorando a face de Sara com o dorso da mão.
— O senhor vem das terras asiáticas? — perguntou Rebeca de
repente, aproveitando aquele primeiro vislumbre de
disponibilidade por parte do recém-chegado para satisfazer
sua curiosidade inata. Mas também para desviar os olhos do
estrangeiro de cima da irmãzinha, que, com sua beleza
promissora, costumava chamar a atenção de todos os que a
viam. Sara possuía feições delicadas, sem nada que parecesse
excessivo ou defeituoso; Rebeca, que já começava a mani-
festar os traços de uma mulher, exibia, ao contrário, um
nariz comprido demais e zigomas marcados, que
prenunciavam o desenvolvimento de um rosto com linhas
nada suaves.
— Venho de Jerusalém. Já esteve lá? — respondeu o homem,
mantendo uma expressão afável.
— Não, nunca. Deve ser uma cidade extraordinária —
comentou Rebeca, para animá-lo a falar.
E o homem não se fez de rogado:
— De fato, é a cidade mais bonita do mundo. Mais do que
Roma, mais do que Constantinopla, mais do que Bagdá. E eu
conheci todas elas. Mesmo agora que os turcos a subtraíram
aos árabes do Egito, lá um judeu pode viver bem. Nenhuma
cidade no mundo pode oferecer tantos estímulos, tantos
testemunhos do passado e tantas oportunidades para o
futuro.
Depois de uma pequena pausa, prosseguiu:
— As ruas estão sempre cheias de vida e de atividade. Os
contatos e as trocas entre pessoas de etnias e religiões
diferentes são a norma. E, também, era a nossa cidade. Estou
certo de que até nas comunidades sefardim e asquenazim
aqui na Europa tem-se a percepção da importância de
Jerusalém na nossa história, embora os romanos nos tenham
obrigado a sair de lá quase mil anos atrás. E estou igualmente
certo de que, por mais agradável e vantajosa que seja a
permanência de um judeu em outro país, ele conserva
Jerusalém e a Palestina em seu coração, e é para lá que
gostaria de retornar.
Fascinada pelo entusiasmo do visitante, Rebeca se percebeu
desejando que o pai voltasse o mais tarde possível da
academia de estudos judaicos. Sabia muito bem que, uma vez
em casa, ele monopolizaria a atenção do estrangeiro.
Ofereceu-lhe algo para beber.
— O que o trouxe até aqui? — atreveu-se a perguntar. Sua
vitalidade mental a levava, com muita freqüência, a
ultrapassar os limites impostos pela timidez de uma garota e
pela reserva de uma mulher.
O homem sorriu, surpreendido por aquele arrojo.
— Tem a ver com Jeshua, mais conhecido como Jesus Cristo.
Conhece esse nome?
— Quem não conhece o profeta que os cristãos veneram
como filho de Deus? Inclusive nos lembram muitas vezes,
até mesmo aqui, onde nossa comunidade é respeitada, que
nós o matamos — respondeu Rebeca.
— Pois é... Mas o que você sabe sobre como ele viveu, sobre
sua existência? — insistiu o outro.
— Não muito. Só que pregou e foi crucificado...
O estrangeiro assumiu a atitude catedrática que o pai dela
mostrava quando pretendia lhe explicar a Torá.
— Viveu na época em que os romanos dominavam a Judéia,
tolerando uma soberania nominal sobre a Galiléia por parte
dos reis da família de Herodes, que eram de sangue em
grande parte árabe. Naquele tempo, o país era percorrido por
dúzias de profetas que pregavam a iminente vinda de um
Messias oriundo de Israel para dominar o mundo e
anunciavam o advento do fim dos tempos e do juízo final.
"E para cada profeta havia uma seita, um movimento
religioso, uma corrente política, algumas a favor da
dominação romana, outras contra. Provavelmente Jeshua era
um estudante rabínico, um fariseu, capaz de curar as pessoas
com o toque das mãos. Recebido o batismo, convenceu-se
de ter sido investido pelo Espírito Santo e de ser ele o eleito,
o Messias. Tornou-se um fariseu apocalíptico. Era um judeu
ortodoxo, pregava o respeito à tradição da Torá, mas
exaltando as prescrições do Levítico a favor dos pobres e dos
humildes.
Ou melhor, exaltou a pobreza e a humildade como os
caminhos mais curtos para obter a salvação.
"Pelo mesmo motivo antipatizava com fariseus, escribas e
saduceus então no poder, culpados de ter suavizado os
preceitos da tradição religiosa e liquidado o próprio papel de
guias religiosos do país, para conservar o apoio dos romanos.
Aos trinta anos, foi a Jerusalém em peregrinação e provocou
desordens em torno do Templo. Provavelmente, uma parte
do povo viu nele um ponto de referência, o símbolo da luta
anti-romana, do zelo religioso e do desprezo pelas classes
comprometidas com os dominadores. Assim, acabou sendo
considerado um subversivo e caiu nas mãos dos romanos,
que o justiçaram como rebelde, ou seja, crucificando-o.
Depois, seu túmulo foi encontrado vazio, e seus discípulos
disseram que ele havia ressuscitado..."
— São histórias de mais de mil anos atrás. O que isso tem a
ver conosco? — perguntou Rebeca, cuja mente receptiva, a
essa altura, havia sido devidamente solicitada.
— E sobre isso que preciso falar com seu pai. E não convém
que outros tomem conhecimento do assunto. Contente-se
com saber que, após a morte de Jeshua, seus seguidores, mais
tarde chamados de cristãos, se dividiram em duas correntes
principais, uma guiada pelos parentes dele, particularmente
por seu irmão Tiago, e outra por Saulo, aquele que os cristãos
chamam de são Paulo. Os primeiros pretendiam se dirigir
apenas aos judeus, convencidos de que assim secundariam os
propósitos de Jeshua, enquanto Paulo se fez defensor da
difusão do cristianismo junto aos gentios e incircuncidados.
Por fim, a corrente de Paulo venceu, graças, sobretudo, à
destruição de Jerusalém durante a revolta anti-romana, a qual
provocou a dispersão da comunidade judaico-cristã e só
deixou sobreviverem as correntes menos hostis aos
dominadores...
Rebeca decidiu que não podia ficar ignorando todo o resto.
De jeito nenhum. Sua mente começou a planejar um jeito de
escutar a conversa que ocorreria entre o estrangeiro e o pai.
A chegada do rabino não lhe deu tempo para refletir.
— Rebeca? Não quer me apresentar nossa visita? — ouviu ela
atrás de si.
A garota se voltou, enquanto Sara pulava de pé e corria para
o pai. Com manifesta alegria, Isaac acolheu a caçula entre os
braços, ergueu-a do chão num abraço e manteve o olhar
sobre o estrangeiro.
— Ele veio de Jerusalém, pai — informou Rebeca,
censurando-se pela enésima vez por não conseguir ser
igualmente expansiva com o genitor.
O estrangeiro se levantou.
— Shalom aleichem, rabino Isaac. Eu me chamo Jacó e
venho da Palestina. Preciso falar com o senhor — disse, em
tom respeitoso mas decidido.
Rebeca leu nos olhos do pai uma gratidão muda àquele
indivíduo, que entrava em sua casa por um motivo que não
se referia à sua esposa. Fazia anos, desde quando ela
adoecera, que as pessoas iam visitá-los só para se informar
sobre a saúde dela, e, depois de sua morte, para as
condolências de praxe e para assegurarem-se de que eles
estavam bem.
— Aleichem shalom, estrangeiro. Por favor, fique à vontade
e vamos conversar — respondeu Isaac, revelando um
evidente interesse. Rebeca se regozijou: amava o pai mais do
que conseguia demonstrar.
— Seria conveniente falarmos a sós. Trata-se de uma questão
muito delicada — disse o visitante, voltando a ficar sério.
O rabino pensou um pouco, pousou no chão a filha mais
nova e disse a Rebeca:
— Vão brincar lá fora, até eu chamar.
Irritada, Rebeca tomou pela mão a irmã, que, por sua vez,
recolheu duas bonecas de trapo, e as duas saíram juntas. A
mente da garota recomeçou a elaborar idéias para não perder
o resto da narrativa. Já na rua, ela olhou ao redor, em busca
de uma oportunidade. Identificou uma num grupo de
meninos que brincava do lado oposto. Deixou a irmã com
eles e correu até embaixo da janela mais próxima do ponto
onde os dois interlocutores tinham se sentado para
conversar. Mesmo incomodada pelos gritos das crianças,
conseguiu compreender que eles ainda estavam nas
formalidades.
— Vocês tiveram problemas com os cristãos aqui em
Mogúncia? — perguntou o visitante.
— Eu diria que não, há pelo menos setenta anos, isto é, desde
quando o imperador mandou expulsar os judeus da cidade —
respondeu Isaac. — Por outro lado, nós aqui seguimos ao pé
da letra as orientações traçadas pelo fundador da academia,
Rabbenu Gershom. Assim, somos bem flexíveis na
interpretação das leis talmúdicas: por exemplo, consideramos
possível ter relações de negócios com os não judeus durante
as festas cristãs.
— Hummmm... nesse caso, o zelo de vocês diante da lei não
terá se perdido? — perguntou Jacó, cético.
— Está brincando? — retrucou o rabino, quase indignado. —
Vou lhe citar as palavras de um poema do próprio Rabbenu
Gershom: "Eles nos impõem não invocar o Senhor, aceitar
como Deus um mísero ídolo, inclinar-nos ante as imagens
para adorá-las." Para ele, e para nós, os cristãos permanecem
uns idolatras que crêem na Trindade, rezam diante de
estátuas e divinizaram um ser humano. Mas somos uma
minoria e, afinal, precisamos sobreviver... De resto, nada
mudou: a Aliança prossegue, apesar de tudo. E nossa tarefa
esperar a vinda do Messias, que nos libertará, restaurando a
nação e o trono de Davi e redimindo o mundo. Eu gostaria
de lhe apresentar um dos nossos mais insignes comentadores
do Talmude. Ele ensina em Worms, não longe daqui.
Chama-se Rashi e sabe tratar dessas questões melhor do que
ninguém.
— No entanto, ao que eu saiba, as coisas não vão muito bem
para os judeus na Europa — comentou o visitante. — Sei que
alguns anos atrás um exército francês, em viagem pela
Espanha para combater os muçulmanos, massacrou alguns
judeus ao longo do caminho... e há muito tempo a Igreja
cristã baixa leis discriminatórias contra nós.
— Se é por isso, não está longe a época na qual em Toulouse,
na Páscoa, o bispo esbofeteava publicamente um judeu para
puni-lo pelo crime de ter mandado matar Jesus — confirmou
Isaac. — Mas, em geral, as pessoas comuns e os nobres
acham mais conveniente interagir conosco, em vez de nos
boicotar. Nós, por nossa vez, evitamos irritá-los; inclusive,
paramos de enfatizar a necessidade de só comer e beber
alimentos preparados por judeus e, por conseguinte, faz
tempo que renunciamos a converter os escravos. Também já
não fazemos circularem libelos como Toledot Jeshu, que
ridicularizavam os Evangelhos e a vida de Jesus.
Flexibilidade, isso é que é necessário!
— Mas o ambiente está mudando — replicou o visitante. —
As pessoas se endividam e se tornam cada vez mais pobres, e
não podem evitar invejar os judeus, que, ao contrário, estão
cada vez mais ricos, graças também às taxas que impõem
sobre os empréstimos a juros.
— Somos forçados a isso! — interveio o rabino. — Não
gozamos de nenhuma garantia legal, e precisamos nos
salvaguardar de algum modo!
— E justamente esse o ponto. Nós, judeus, não temos direitos
civis na Europa. Dependemos da benevolência que a Igreja e
os governantes nos concedem de vez em quando.
Benevolência que eles podem suprimir no momento em que
já não considerarem conveniente a colaboração com a
comunidade judaica. Eu viajei, e sei o que estou dizendo. Em
qualquer caso, estamos sempre por um fio, que de uma hora
para outra pode se romper. Somos apenas tolerados, o
senhor sabe, e periodicamente vem à tona o ódio atávico
pelo que eles acreditam que fizemos a Jesus. Até mesmo sua
filha me lembrou isso. — Rebeca teve um sobressalto. — Se
as coisas, aqui em Mogúncia, atualmente andam bem para
vocês, não é assim em toda parte. Em Jerusalém, achamos
que chegou o momento de fazer alguma coisa.
— E o que pretendem fazer? Fugir todo mundo para o
Oriente, para a Mesopotâmia, para a Babilônia? Para muitos
de nós, a vida que construímos está aqui, na terra de
Askenaz — objetou Isaac.
— Haveria uma saída, e é por isso que vim procurá-lo —
disse Jacó, sopesando as palavras. — Sua reputação é
conhecida até em Jerusalém. O que o senhor sabe do
memorial de Tiago?
— O memorial de Tiago? Um rabino me falou do assunto
justamente em Jerusalém, uns vinte anos atrás — respondeu
Isaac, perplexo. — Tiago era irmão de Jeshua. Sucedeu-lhe
como primeiro patriarca de Jerusalém, mas depois foi
apedrejado pelo Sinédrio e deixou o lugar para outro irmão
ou primo de Jeshua, Simeão. Tiago havia autorizado a adesão
de um dos primeiros perseguidores dos cristãos, Saulo, um
fariseu convertido após uma viagem a Damasco, onde fora
curado, após uma queda de cavalo, por um dos mestres da
seita. Como o irmão, Tiago era muito respeitoso à lei de
Moisés; o mesmo não ocorria com Paulo, que já não
considerava necessários à salvação a circuncisão, a
observância das prescrições alimentares, as leis da pureza, o
sábado como dia de repouso etc.
"De início, sua pregação fez mais sucesso nas sinagogas
abertas aos não judeus, e, portanto, ele estabeleceu como seu
objetivo a difusão do novo credo no mundo greco-romano.
Para isso, segundo o memorial, Paulo difundiu uma
interpretação da morte de Jeshua que atribuía a
responsabilidade pelo fato aos judeus, e não aos romanos.
Daí a visão veladamente anti-semita apresentada nos
Evangelhos e nas obras selecionadas para compor o cânone
da Igreja cristã. Em suma, parece que o Jeshua judeu zeloso,
de quem Tiago foi testemunha ocular e herdeiro direto,
desapareceu na memória das pessoas, cedendo o lugar ao
Jesus imanente e helenista criado por Paulo, que só o
conhecera através de suas visões. Talvez as coisas tenham
sido realmente assim, mas não creio que esse memorial
exista de verdade", afirmou o rabino, abrindo os braços.
"Provavelmente, é só uma lenda criada no decorrer do
tempo pelos judeus da diáspora, para encontrar uma lógica
nas perseguições das quais fomos objeto ao longo dos
séculos."
Seu interlocutor deu um sorriso sutil, com presunção,
levantou-se e se encaminhou para a porta. Assim que
percebeu os passos dele, Rebeca escapuliu para junto das
outras crianças. Mas, com o rabo do olho, ficou observando
a saída da casa, diante da qual, enquanto isso, o servo de Jacó
reaparecera com os dois animais. Viu o visitante tirar do
dorso do burrico uma sacola, colocando-a no ombro antes de
entrar de volta. Logo depois, Rebeca se precipitou de novo
para seu posto embaixo da janela, disposta, desta vez, até a
espiar.
Diante do olhar curioso de Isaac, Jacó acomodou
cuidadosamente a bagagem sobre a mesinha. Com estudada
lentidão, extraiu dali um invólucro de tecido, abrindo-o em
seguida e revelando três pergaminhos, enrolados e
costurados um ao outro.
— Pois está bem aqui, diante dos seus olhos — disse
solenemente.
— Como... como isso chegou às suas mãos? — perguntou
Isaac, lívido, inconscientemente dando voz a Rebeca, que só
com dificuldade conseguira reprimir um grito.
— Sempre esteve conosco. Eu sou um recabita, como Tiago,
embora naquele tempo eles fossem chamados de ebionitas.
Só então o rabino notou que os trajes de seu visitante eram
de linho: algo estranho, com a estação fria que já se fizera
anunciar amplamente. Ele bem sabia que ebionitas e
recabitas não podiam vestir nada que fosse produto de uma
relação sexual. Ergueu da mesinha um dos rolos e o sopesou,
começando timidamente a estendê-lo. O pergaminho estava
com as bordas estragadas e irregulares, e era muito mais
escuro do que o rabino imaginava. Notou que o texto estava
em grego.
— Por que o mostra a mim? Não sou um de vocês — disse,
perturbado.
Jacó se sentou de novo e respirou fundo. Isaac compreendeu
que uma longa explicação estava a caminho e se instalou por
sua vez, devolvendo o rolo à mesinha. O outro começou:
— Discutimos longamente se seria ou não oportuno divulgar
estes documentos. Como eu dizia antes, muitos de nós
acham que a história futura ainda reserva aos judeus muitas
tragédias e discriminações. Ou melhor, em minha opinião, e
na de outros, será cada vez pior. E tudo isso por quê? Porque
os cristãos nos consideram os assassinos de seu Jesus.
Fez uma pausa para permitir que o rabino refletisse sobre a
causa de todos os males dos judeus. Em seguida, prosseguiu:
— Agora, escute bem: os Evangelhos, influenciados pela
visão de Paulo e escritos após a repressão à revolta,
apresentaram a morte de Jesus como uma conspiração de
fariseus e saduceus à qual o povo inteiro deu seu apoio, e que
os romanos, embora fossem contrários, tiveram de secundar.
Aquele Pôncio Pilatos, o procurador da Judéia, tentou fazê-
los ponderar, segundo a versão canônica, mas os judeus
pareciam não querer outra coisa senão a morte de um
conterrâneo, a ponto de preferir deixar vivo um criminoso
comum e assassino como Barrabás.
"Ninguém parece notar que, entre os judeus, a crucifixão era
considerada anátema, e que os romanos colocavam na cruz
os sediciosos, mas não os blasfemos, os quais, em
contraposição, o Sinédrio apedrejava. Ninguém lê os
Evangelhos com espírito objetivo; do contrário, veriam que
Jeshua não tinha nenhuma intenção de fundar uma nova
religião, e que todo o aparato do cristianismo nasceu algumas
décadas depois dele, tomando um caminho diferente
daquele que ele havia indicado e Tiago, aperfeiçoado.
Ninguém nota que o artífice dessa operação foi Paulo, um
cidadão romano ansioso por desvincular os preceitos cristãos
do contexto judaico e difundi-los no ambiente greco-
romano. E ninguém parece perceber, enfim, que Jesus era
judeu, e não cristão!"
— E como você pretende demonstrar isso? — perguntou
Isaac, que no fundo já intuía a resposta.
— Está tudo nos pergaminhos que eu lhe trouxe. São o
testemunho direto de Tiago, que, ao contrário de Paulo,
tinha conhecido Jeshua. No documento, está escrito que
Jeshua não se proclamava filho de Deus, mas apenas
"consagrado" por Deus. Está escrito que ele se dirigia
somente aos judeus, invocando o respeito aos ditames do
Levítico sobre a Piedade, ou seja, o respeito aos preceitos de
Deus, e sobre a Justiça, o respeito ao próximo e aos pobres.
Está escrito que se recusava até a curar os gentios, e não
queria sequer comer com eles, com as meretrizes e com os
publicanos; em suma, com todos aqueles personagens
impuros cuja companhia lhe atribuíram. Está escrito que
foram os romanos a justiçá-lo, porque ele exortava a não
pagar os tributos e perturbava a ordem pública.
— Admitindo-se que tenha sido assim, o que eu tenho a ver?
— quis saber o rabino, desconfiado.
— Achamos que chegou o momento de difundir o conteúdo
do memorial. E nossa única possibilidade de sobrevivência.
Os cristãos, quando souberem que não somos nós os
responsáveis pela morte de Jesus, vão nos deixar em paz.
Nós, recabitas, somos uma comunidade menosprezada, que
não goza de nenhuma credibilidade nem de apoios. Além
disso, não estamos radicados na Europa, onde o cristianismo
é mais difundido. Precisamos de alguém respeitável, com as
relações certas, que se encarregue dessa difusão junto às altas
esferas da Igreja cristã e aos soberanos europeus. Pensamos
no senhor, e foi por isso que eu trouxe o documento para cá.
A partir deste momento, eu gostaria de confiá-lo à sua
responsabilidade.
Desta vez, Rebeca não conseguiu reprimir o grito. Para sua
sorte, este se confundiu com os das crianças que brincavam
ali perto.
A reação de seu pai não foi menos veemente:
— Isto é um absurdo! Vocês de fato acham que, depois de
mil anos e da consolidação de uma instituição hoje estável e
ramificada como a Igreja católica, os cristãos estariam
dispostos a sequer levar em consideração uma eventualidade
dessas?
O visitante não se alterou.
— Há mais um motivo pelo qual foi decidido entregá-lo ao
senhor. Alguns altos prelados têm conhecimento da
existência do memorial e de sua localização. Não por acaso,
várias vezes certos peregrinos, ou supostos peregrinos,
estiveram em Jerusalém fazendo perguntas a respeito. E,
numa dessas vezes, até estiveram perto de encontrá-lo. Isso
demonstra que a Igreja o teme, e está ciente da ameaça que
ele representa pela sua simples existência como instrumento
para guiar as consciências. Vale a pena tentar, não?
— De maneira nenhuma — emendou o rabino. — Pedir
desculpas nunca foi o forte dos homens, e dos Estados e
instituições menos ainda. Poderíamos por acaso esperar isso
de quem pensa haver obtido sua autoridade a partir do
próprio Deus? Além do mais, significaria também jogar-lhes
na cara que Jesus é assunto nosso, quando, na verdade, nos
foi roubado por eles. Como acha você que encarariam isso?
Aqui, na terra de Askenaz, fazemos tantos esforços para
estar de acordo com eles, e depois lhes apresentamos uma tal
coisa? Absurdo! Inconcebível!
— Por favor, rabi, pense em longo prazo! — insistiu Jacó. —
De início, talvez não encarem muito bem. Mas, com o
passar dos anos, ou talvez dos séculos, esta se tornaria uma
nova verdade a levar em conta e, aos poucos, até o povo
esqueceria o lugar-comum do judeu assassino de Cristo!
Afinal, a Igreja, o papa, os bispos se inspiram nos preceitos
de compreensão do próximo que o próprio Jesus pro-
pugnava e, com o tempo, conseguiriam mudar a mentalidade
das pessoas...
— Como bom recabita, você vive num estado de pureza
espiritual, sem nenhum vínculo com o mundo real! —
reagiu Isaac, desconsolado. — Os personagens de quem fala
são expoentes das mais importantes famílias da Europa. São
homens de poder, empenhados em gerir enormes
patrimônios que a Igreja acumulou graças às convicções dos
fiéis; convicções que eles sem dúvida não querem colocar
em risco! Você faz idéia de quantas abadias existem na
Europa? De quantos indivíduos, para fugir da pobreza dos
campos e dos abusos dos poderosos, escolhem a vida
monástica como via de salvação terrena, antes mesmo que
de salvação espiritual? E o que dizer do Império Bizantino?
Esse aí vocês de Jerusalém deveriam conhecer melhor do
que os Estados europeus! Por acaso não sabem que todo o
aparato estatal se baseia na religião? O meu Deus! — gritou,
desesperado, invocando os céus. — Por que devíeis atribuir
logo a mim uma responsabilidade dessas, mandando um
pobre despreparado, que não sabe nada das coisas do mundo,
me entregar o documento mais polêmico que existe?
Jacó pareceu sinceramente surpreso. Por alguns instantes,
olhou-o perplexo, sem saber o que falar.
— Eu... creio que o senhor está exagerando — disse, afinal.
— Cabe-lhe identificar as pessoas certas para desencadear o
processo que levará à reabilitação do nosso povo. Seria
imperdoável ter uma tal possibilidade e não aproveitá-la. Não
tenho mais nada a acrescentar, exceto que os anciãos da
minha comunidade me mandaram confiar os rolos ao
senhor, e eu cumpri minha missão. Deste momento em
diante, o documento está sob sua responsabilidade, e cabe-
lhe decidir o que fazer dele. Só espero que decida pelo
melhor, rabi. Shalom aleichem.
Estas últimas palavras Jacó já as disse da soleira. Com o canto
dos olhos, notou Rebeca. Muito espantada para se mover a
tempo, a garota se deixara surpreender ainda junto da janela.
O recabita esboçou um sorriso, que ela não soube retribuir.
Rebeca exibia uma expressão determinada e quase zangada, a
mesma que assumia quando tomava uma decisão que,
considerando-se seu temperamento, era sempre definitiva.
Nesses momentos, os traços de seu rosto se mostravam ainda
mais ásperos.
Entrou em casa com passos firmes e fitou o pai bem nos
olhos.
— Pai, quero que você me ensine grego — disse, num tom
que não admitia réplicas.
III
Avignon, Provença, setembro de 1095.
Palácio Episcopal
— Santidade, chegou o conde de Saint-Gilles, Raimundo de
Toulouse — anunciou o monge adido ao pontífice. Urbano
II se acomodou no trono da sala de audiências do palácio
episcopal de Avignon. O diácono que estava com ele abriu
os braços, num gesto de impaciência.
— O conde se fez esperar. Se demorasse mais, teríamos de
partir sem poder vê-lo... — sussurrou ao ouvido do papa.
— O importante é que chegou. Agora, poderemos conversar
calmamente com ele — respondeu, pacato, o pontífice. —
Mande-o entrar — disse ao seu ajudante.
Raimundo de Toulouse notou de imediato a profunda
diferença entre os dois religiosos diante dos quais se
prostrou. O homem sentado se movia com extrema lentidão,
mais para dar um significado aos próprios gestos do que pela
idade; o outro, pouco mais moço, gesticulava até quando não
falava, com movimentos repentinos, fugazes. O primeiro
exibia uma expressão cansada, mas altiva, o rosto escavado e
zigomas pronunciados, grandes olhos tristes e intensos, a
fronte ampla apesar do anel de cabelos ao redor da tonsura; o
segundo mostrava olhos vigilantes e inquietos, era bem-
nutrido, quase juvenil, e nele não havia nada que evocasse
respeitabilidade.
— Conde Raimundo! — começou Urbano, estendendo a mão
para o beijo ritual do anel. — E um prazer finalmente
encontrar um dos homens cujo apoio tanto favoreceu nossa
causa! — acrescentou, referindo-se aos sete anos de lutas
contra o anti-papa e o rei germânico.
— Santidade, é para mim uma honra, além de motivo de
grande alegria, encontrar-vos e ser informado dos vossos
projetos. Antes de mais nada, felicito-vos por terdes
finalmente conseguido assumir o pleno controle de Roma,
reduzindo vosso adversário Clemente a condições
inofensivas. Sem ele em Latrão, o autodenominado
"imperador" Henrique pouco poderá fazer para tentar
novamente minar vossa credibilidade.
— Ah, mas na realidade isso ainda não acabou — suspirou o
pontífice. — Nosso bom amigo, o conde de Vermandois,
assumiu a difícil tarefa de consolidar ainda mais o controle
da cidade capitolina. Com o impostor Clemente no Castel
Sant Ângelo, ainda não estamos seguros. Esperamos poder
voltar a exercer nossa missão em Roma com toda a
tranqüilidade; mas, até lá, é aqui que minha presença é
necessária — disse o papa, acenando a Raimundo para que se
reerguesse. Sua voz era baixa e as palavras, escandidas.
— De fato, Sua Santidade tinha urgência de lhe falar. Temos
esperado sua chegada com ansiedade. E uma sorte que o
senhor tenha chegado a tempo — sentiu necessidade de
acrescentar o diácono. Sua voz, como Raimundo foi
obrigado a notar, era estridente, e tão afetada quanto a crítica
velada que ele expressara.
Urbano não escondeu seu agastamento pela intervenção.
Olhou arrevesado para o colaborador, fazendo uma leve
careta com os lábios finos escondidos por bigodes e barba.
— Este é o irmão Sigfrid, que realizou para nós uma preciosa
investigação — disse a seguir, virando-se para Raimundo —
e, como o senhor pôde constatar, está muito ansioso por
informá-lo a respeito, para que, juntos, possam tirar
conclusões e elaborar um plano de ação.
— Como sempre, estou inteiramente à vossa disposição —
apressou-se a dizer o conde, perguntando-se que tipo de
investigação um indivíduo tão desagradável podia
desenvolver.
A um aceno do papa, o diácono pigarreou — mais pelo
embaraço do que para abrir caminho às palavras — e iniciou
a exposição:
— Pois bem... conde, a cristandade está em grave perigo.
Corre- se o risco de uma divisão entre os fiéis que poderia
levar a conseqüências de alcance imprevisível — começou.
O conde ficou um pouco desconcertado. Tinham-no
chamado para falar do cisma que se arrastava com a Igreja do
Oriente havia quase meio século? Sob seu ponto de vista, os
bizantinos podiam até rezar missa com um rito diferente do
ocidental. Eram sutilezas que não interessavam muito a ele,
como senhor laico. Além disso, não estava prevendo ir a
Constantinopla no futuro imediato e, como havia algum
tempo já deixara para trás a juventude, não pretendia ir de
modo algum.
— Bom... eu sei que, para a Igreja de Roma, é motivo de
grande angústia que os gregos não reconheçam a autoridade
do papado; mas, afinal, continuamos sempre coirmãos na fé
em Cristo, e me parece inacreditável que se possa chegar,
por divergências formais, à ruptura definitiva.
— Não antecipe conclusões, conde — interveio Urbano. —
E verdade, as divergências com os confrades gregos são
motivo de angústia para nós, mas não tanto quanto aquilo
que o irmão Sigfrid descobriu. Prossiga — acrescentou,
dirigindo-se ao diácono.
Este recomeçou, não sem antes lançar uma olhadela de
triunfo a Raimundo, que, por sua vez, sustentou o olhar sem
mudar de expressão:
— Espero conseguir expor, na minha imensa inadequação, a
extensão do perigo, conde — disse o diácono. — Para um
indivíduo como eu, de modesta capacidade dialética, é difícil
explicar conceitos tão delicados na presença do sumo
pontífice, retomando o fio após as necessárias interrupções
do interlocutor — provocou-o. Mas depois viu que
Raimundo não lhe dava nenhuma satisfação e prosseguiu: —
Enfim, parece que está para circular um documento capaz de
colocar em discussão muitos dos fundamentos sobre os quais
se baseia nossa Santa Madre Igreja. Como sabe, nossos
Padres, em sua infinita sabedoria, fizeram uma escolha na
vasta produção de testemunhos sobre a vida e as obras de
Nosso Senhor, identificando as narrativas mais confiáveis e
coerentes, aquelas que, mais do que outras, destacavam a
divindade de Cristo.
"Muitos desses testemunhos foram descartados, e, entre eles,
alguns não acrescentavam nada de significativo a tudo que já
fora relatado nos textos selecionados, enquanto outros
estavam cheios de mentiras, como freqüentemente acontece
diante de eventos extraordinários, como aqueles ligados ao
nascimento, à pregação, à morte e à ressurreição de Nosso
Senhor. Uma das verdades apresentadas nos textos
canônicos é a clara responsabilidade dos judeus na morte de
Cristo. Eles o quiseram na cruz, e os romanos tiveram de
satisfazê-los. Ademais, ainda que aquela raça torpe não se
tivesse feito ré de um crime tão atroz, bastariam sua negação
da divindade de Cristo e seus desprezíveis costumes
religiosos, econômicos e sociais para fazer deles um povo
que os cristãos deveriam manter a distância e, se necessário,
castigar inexoravelmente.
"Apesar de tudo, porém, ao longo dos séculos, a Igreja cristã
se mostrou muito tolerante, emitindo no máximo, de vez em
quando, alguma lei que tutelasse os cristãos, sem com isso
discriminar os judeus. Prova disso é o fato de eles
continuarem a viver entre nós, em comunidades cada vez
mais numerosas e prósperas, com freqüência até mais
prósperas do que as nossas. Ainda assim, sentem-se
perseguidos, a ponto de imaginarem um desprezível plano
para dividir a cristandade. De fato, estariam pretendendo
difundir um documento segundo o qual Jesus não somente
era judeu — o que é óbvio, porém não relevante, a não ser
para quem quer fazer uso da figura dele —, mas também
dirigia sua pregação exclusivamente aos judeus. E teria sido
morto apenas pelos romanos!"
Sigfrid fez uma pausa significativa. Desta vez, não poderia
dizer que fora interrompido.
— Perdoe-me, irmão Sigfrid — disse Raimundo, nem um
pouco impressionado, embora o eclesiástico tivesse dado às
suas últimas palavras uma ênfase especial —, mas não me
parece uma coisa tão ameaçadora assim. Deve ser tomada
por aquilo que é: uma tentativa pueril de justificação...
— O senhor teria razão — interveio o papa —, se não fosse o
fato de que eles querem fazer o texto passar por redigido
nada menos que pelo irmão de Jesus, e seu imediato
sucessor. Um homem que teria tido profundos confrontos
com são Paulo.
— Irmão de Jesus? Mas Jesus não tinha irmãos! Como podia
tê- los? Ele era... é o filho de Deus! — retrucou o conde,
sinceramente escandalizado.
— Numa leitura atenta, os textos canônicos se prestariam a
interpretações malévolas. De fato, em diferentes ocasiões
fala-se de parentes genéricos de Jesus, e esse Tiago é citado
várias vezes até por são Paulo e nos Atos, embora existam
diversos personagens com esse nome — esclareceu o papa.
— Mas, naturalmente — acrescentou Sigfrid —, admitindo-
se que realmente se trate de parentes próximos, estes
poderiam ser, no máximo, meios-irmãos, ou seja, filhos do
primeiro casamento de José, como Orígenes foi o primeiro a
supor, há uns oito séculos, ou então primos, como escreveu
são Jerônimo. Por outro lado, na língua hebraica só existe
um termo para definir qualquer grau de parentesco —
explicou.
— Seja como for, quem quer que tenha escrito o texto do
qual estamos falando, eles o apresentam como testemunha
ocular...
alguém que viu diretamente a atuação de Jesus e que
contestou a obra de conversão promovida por são Paulo —
disse o pontífice.
— Mas... João escreveu um Evangelho, e era o discípulo
predileto de Jesus... — opinou Raimundo, cada vez mais
confuso.
— A dúvida — disse Sigfrid.
— Como assim?
— A divulgação de tal texto seria suficiente para instilar a
dúvida nas pessoas — explicou Urbano. — E claro que se
trata de um depoimento falso. Mas mostra um Jesus
diferente daquele que conhecemos. Sob certos aspectos, até
oposto àquele que conhecemos. Nele, apresenta-se uma luta
sem exclusão de golpes entre o grupo filo-judaico que
encabeçava a família de Jesus e o filo-romano guiado por são
Paulo. E trata-se de uma verdadeira denúncia contra são
Paulo, que teria adotado métodos discutíveis para fazer
triunfar seu ponto de vista. Por conseguinte, é um ataque
direto à Igreja, que, apesar do cisma com os gregos, manteve
uma unidade substancial durante um milênio.
— Nem todos os cristãos conhecem a diferença entre xiitas e
sunitas no mundo muçulmano — acrescentou Sigfrid. — Ela
se originou das lutas que se desencadearam logo após a
morte de Maomé entre, de um lado, os membros da família
dele, que se consideravam seus sucessores naturais, e, de
outro, os califas. Já o mundo cristão evitou tudo isso, com
uma orientação comum que foi se afirmando ao longo dos
séculos, um cânone ao qual se submetem todas as igrejas da
cristandade, e um ponto de referência, o papado de Roma,
que não mudou desde os tempos de são Pedro.
Raimundo pensou que os patriarcas de Constantinopla
discordariam um pouco a respeito disso. Mas não falou nada.
Limitou-se a perguntar:
— Isso significa que poderia haver algo de verdadeiro
naqueles textos?
O papa e o diácono se entreolharam, um esperando que o
outro tomasse a palavra. Mas Sigfrid não abriu a boca. Foi
Urbano quem disse aquilo que havia para dizer:
— A coisa não tem muita importância. O que importa, na
verdade, é evitar enfraquecer a cristandade e a autoridade da
Igreja. Temos muitos teólogos capazes de desmontar, ponto
por ponto, qualquer teoria extravagante destinada a corroer a
solidez da doutrina cristã. Mas, se chegássemos a discutir a
questão, já seria tarde demais. Aquele memorial não deve ser
divulgado de modo algum, custe o que custar.
— E é aí que precisamos do braço secular — completou
Sigfrid.
— Como assim? — teve de perguntar Raimundo, ainda
transtornado pelas revelações.
— Veja, meu caro conde — disse Urbano, em tom
paternalista —, quisemos revelar esse segredo ao senhor, e
somente ao senhor, porque o consideramos o súdito mais
fiel da Igreja e o mais insuspeito entre os homens que gozam
de reputação e poder. E precisamos de um interlocutor de
confiança e capacitado para o grande plano que temos em
mente. — De novo, o papa cedeu a palavra a Sigfrid.
— Certamente o senhor está lembrado — continuou o
diácono — de que no fim do inverno se realizou, em
Piacenza, ao sul dos Alpes, um grande concílio, do qual
participaram mais de cinco mil eclesiásticos da França e da
Itália. Naquela circunstância, estavam presentes inclusive os
enviados do imperador bizantino Aleixo Comneno, os quais
pediram insistentemente a remessa de ajuda a
Constantinopla, a fim de confrontar a ameaça turca, a cada
dia mais premente. Os bandos de infiéis turcomanos,
segundo nos informaram, agridem os peregrinos com
freqüência sempre maior e os impedem de chegar a
Jerusalém, isso quando não os roubam, seqüestram ou até
matam.
"Os embaixadores também se mostraram dispostos a
colaborar para a superação das controvérsias que nos
separam dos confrades gregos, e que Sua Santidade, em sua
grande sabedoria, até hoje se empenhou em sanar, com
sucesso. Por conseguinte, Sua Santidade se comprometeu
pessoalmente com os embaixadores e com o imperador a
enviar um exército consistente em auxílio ao império
bizantino. Isso não poderá senão favorecer grandemente a
causa cristã, tanto porque os turcos deixarão de constituir
uma ameaça quanto porque os gregos, humildemente cheios
de gratidão pelo papado, finalmente reconhecerão a
supremacia de Roma."
Urbano fez sinal de querer prosseguir.
— Depois do concilio, porém, concluímos que o Ocidente
não deveria se limitar a mandar um contingente — disse. —
Nosso ilustre e pranteado predecessor Gregório VII já tinha
imaginado conduzir um exército à Terra Santa e libertar os
lugares da Paixão de Cristo, há séculos nas mãos dos infiéis.
Pois bem: não temos condições de nos transferirmos para a
Ásia, mas estamos convencidos de que, para restituir à
cristandade os lugares que ela considera mais sagrados, é
necessário um esforço da cristandade inteira. Por que nos
limitarmos a libertar Constantinopla das pressões dos
muçulmanos? Passando à ofensiva, poderíamos recuperar os
territórios mais meridionais, a Síria inteira e a Palestina! E
Belém, Nazaré, Jerusalém. E o Santo Sepulcro! E não seria o
imperador bizantino a recuperá-los, mas a cristandade em
seu conjunto! A essa altura, a Igreja de Roma, a única
verdadeira herdeira de Cristo, a promotora da recuperação
dos lugares santos, não encontraria dificuldades para obter o
controle das igrejas orientais! — Finalmente, aqueles olhos
tristes começaram a brilhar.
— Tudo isso constitui um projeto muito nobre, Santidade —
interveio o conde de Toulouse —, mas o que tem a ver com
o memorial cuja existência me revelastes?
— Tem a ver pelo fato de que, com base em nossas
informações mais recentes, ele se encontra em Jerusalém —
especificou Sigfrid.
Seu tom dava a entender que somente um idiota não
conseguiria ligar as duas coisas. Raimundo, porém, já tinha a
resposta pronta:
— Mas, então, pode-se tentar obtê-lo de algum outro modo,
sem provocar uma guerra entre dois blocos contrapostos...
— arriscou.
— Ah! Caro conde! Acha que já não tentamos isso? —
respondeu o papa, desconsolado. — Faz anos que
procuramos descobrir sua localização exata e apossar-nos
dele, enviando agentes à Jerusalém para investigar. Quando
os que detinham a cidade eram os árabes do Egito, ainda era
possível agir com certa liberdade, e mesmo assim não
descobrimos nada, afora a existência e o conteúdo do
memorial. Depois, com o advento dos turcos, tudo ficou
mais difícil: saiba que os dois últimos grupos enviados por
nós sequer conseguiram chegar à cidade...
"No entanto", continuou Urbano, "estamos definitivamente
convencidos de que promover um grande empreendimento,
grosso modo como aqueles conduzidos na península Ibérica,
mas em escala ainda maior, é a maneira mais vantajosa de
proceder, para a Igreja e para a cristandade inteira. Se
conseguirmos, não só reconduziremos ao aprisco os indóceis
coirmãos orientais como também estenderemos nossa
influência à Ásia, e, assumindo o controle de Jerusalém,
estaremos em posição confortável para nos apossarmos do
manuscrito e esconjurar divisões ulteriores. Constantinopla
recuperaria territórios sobre os quais já não tem soberania há
meio milênio, e isso graças à nossa ajuda: e então o
imperador e o patriarca de lá não mais poderiam negar,
como se obstinaram a fazer até hoje, a supremacia do único
vigário de Cristo na Terra.
"Finalmente a cristandade se veria de novo unida em um só
objetivo concreto, talvez o único em condições de induzir
os homens, dos poderosos aos humildes, a abandonarem suas
miseráveis rixas, as controvérsias e os litígios, para
colaborarem todos juntos.
Quantas guerras de fronteiras, que tantos sofrimentos
trouxeram à nossa sociedade, finalmente acabariam, se todos
se coligassem para tomar a cruz e conduzir uma guerra justa,
com a certeza de conseguir o reino dos céus?
"Sim, porque esse santo empreendimento garantiria, a quem
se fizesse partícipe dele, a salvação eterna e a remissão dos
pecados. Diante de tal prêmio, ninguém ousará continuar
preso aos seus interesses cobiçosos e mesquinhos, já que terá
a possibilidade de empregar suas energias em busca de um
alvo tão superior e puro!"
O conde ficou impressionado pela força de persuasão que o
papa sabia transmitir quando se empolgava. Não por acaso,
pensou, em roucos anos Urbano havia conseguido subverter
a situação que via o rapado em uma condição de
inferioridade perante os reis germânicos. E não duvidou de
que aquele ancião, aparentemente frágil, fosse o único em
condições de estimular a lacerada cristandade a um esforço
comum de tão vasto alcance.
Mas seu próprio papel no projeto ainda não estava muito
claro para ele.
— Seria um empreendimento clamoroso, sem igual na
história do mundo... — comentou — e sinto-me não
somente honrado e orgulhoso por fazer parte dele, mas
também ansioso por trazer minha contribuição. De que
modo se pode traduzir minha incumbência?
Na realidade, já identificara esse modo, e esperou que os
desejos do papa fossem na mesma direção. Havia
ultrapassado os cinqüenta anos, carregando uma discreta
fama militar graças às guerras contra os muçulmanos na
península Ibérica, e esperava-o uma tranqüila velhice em
suas vastas propriedades na Provença. Agora, surgia-lhe uma
alternativa para ligar o próprio nome a um grande conflito,
combatido em nome da fé, para libertar os lugares de Cristo
e tutelar os interesses da Igreja. Era o melhor que a sorte lhe
podia conceder.
— Pois bem, conde — disse Sigfrid —, seria de ótimo
auspício que o senhor mostrasse seus entusiásticos apoio e
adesão desde o primeiro momento. Digamos, logo após o
discurso que Sua Santidade fará coram populo, no próximo
mês, no concilio de Clermont. Sua respeitabilidade impeliria
muitos a segui-lo, e teríamos a garantia de um apoio em
massa. Além disso, já que falamos do assunto, o senhor seria
nossa principal referência na questão do memorial, e saberia
o que fazer, uma vez conquistada a Cidade Santa.
Raimundo estava impaciente por fazer seu pedido; antes,
porém, precisava assegurar-se de quem o papa pretendia
envolver efetivamente.
— Mas... afora o rei da Germânia — disse, tomando o
cuidado de não o chamar de imperador —, que papel terão
os soberanos no empreendimento?
— Nenhum, esperamos — apressou-se Urbano a esclarecer,
sem muitos circunlóquios, e isso provocou um grande
entusiasmo em seu interlocutor. — Gostaríamos que nossas
relações com os reis da França e da Inglaterra fossem
melhores, mas, infelizmente, muitas vezes seus atos se
demonstraram contrários aos preceitos religiosos que, como
reis, eles deveriam respeitar mais do que ninguém. Apesar da
excomunhão, Filipe de França não renunciou ao seu
casamento sacrílego com a condessa de Anjou e, além disso,
continua a favorecer a simonia. Guilherme II da Inglaterra,
por sua vez, obstaculiza de todos os modos o arcebispo de
Canterbury, Anselmo, que com tanto zelo procura aplicar
nossas diretivas em matéria de investiduras eclesiásticas.
"Ademais, a presença deles em nossa cruzada", prosseguiu o
papa, "subtrairia à Igreja, pelo menos em parte, o controle
que ela pretende manter sobre o empreendimento. Há o
risco de surgirem problemas e confrontos entre os
representantes eclesiásticos e os monarcas, ao passo que,
parece-nos, quem não está iludido e envaidecido por uma
coroa, mesmo possuindo meios quase equivalentes, pode
comportar-se de maneira mais humilde e razoável. E
também, a cruzada fosse conduzida pelos monarcas, haveria
o risco de eles usarem a questão do memorial em seu próprio
benefício, e não no da Igreja."
— Estou lisonjeado pela confiança que tendes na minha
modesta pessoa, Santidade. Será meu sagrado dever
informar-vos a cada momento sobre as operações e as
motivações das minhas decisões no campo de batalha, na
qualidade de comandante do exército cruzado. — Pronto,
havia dito.
Sigfrid olhou imediatamente o pontífice, que devolveu a
mirada acompanhando-a com um fugaz aceno de
assentimento. Não suficientemente fugaz, porém, para
escapar a Raimundo.
— Na verdade, conde — explicou Urbano —, como lhe
dissemos, Deus será o guia do empreendimento, de modo
que a Igreja tenciona reservar para si o comando. Não por
acaso, esperamos que quem se fizer cruzado costure uma
cruz de tecido sobre a cota, a fim de deixar claro que age em
nome de Cristo e, por conseguinte, de Seu vigário na Terra,
já que Nosso Senhor Jesus Cristo disse: "Quem não carrega a
própria cruz e não vem atrás de mim não pode ser meu dis-
cípulo." Portanto, desejamos que não haja uma
preeminência particular de um comandante sobre os outros,
mas somente uma relação mais estreita entre nós e alguns
deles, especialmente o senhor.
— Mas... Santidade... vós mesmo dissestes não ter condições
de ir à Terra Santa! — interrompeu Raimundo, sem
conseguir disfarçar totalmente sua aflição. — E uma
campanha dessas deve ter um chefe, um chefe em campo,
quero dizer; se não, estará destinada ao fracasso! —
acrescentou.
— Concordo com o senhor, conde — respondeu Urbano,
com a costumeira mansidão. — De fato, aspiramos a que
todos os participantes se submetam às diretrizes do nosso
representante, o bispo Ademar, de Le Puy, que assumiu a
honra de conduzir à Terra Santa os soldados de Cristo. Por
outro lado, temos certeza de que o imperador de Bizâncio,
Aleixo, tentará de todas as maneiras assumir o controle do
empreendimento, já que estaremos indo recuperar os
territórios pertencentes ao Império Bizantino. Um senhor
laico não teria suficiente autoridade aos seus olhos, mas
duvido que ele venha a fazer muitas pressões sobre o
representante direto do sumo pontífice, que deu ouvidos ao
seu pedido de ajuda e em relação ao qual ele se sentirá no
dever de mostrar uma certa gratidão.
— Naturalmente — acrescentou Sigfrid, satisfeito com a
decepção que transparecia no rosto de Raimundo —, o bispo
necessitará de um estado-maior que o aconselhe quanto aos
assuntos mais... terrenos. A competência militar dos grandes
senhores será preciosa para conquistar os centros em poder
dos muçulmanos, e igualmente preciosos serão os recursos
que eles pretenderão empregar, em termos de homens e de
dinheiro. Portanto, será levado em conta o empenho de cada
senhor feudal em servir à causa do Senhor, e a preeminência
sobre os outros será conquistada em campo. Ademais,
subentende-se, é oportuno recordar isso mais uma vez, que
os bizantinos também quererão dar a última palavra sobre as
operações militares.
Não havia como discordar: a questão do comando geral tinha
sido pensada adequadamente. O conde já não podia abrir a
boca sem parecer venal e interessado. Podia apenas esperar
ser suficientemente hábil e afortunado para descobrir a pista
que levasse ao memorial e fazer pesarem os resultados de sua
investigação. Quanto ao resto, dedicar a última parte de sua
vida a uma causa tão santa podia ser uma boa atitude.
Afinal, não havia modo mais seguro de garantir a si mesmo a
salvação eterna. Além disso, ir conquistar terras no Oriente
oferecia sedutoras alternativas a uma velhice tediosa na
França, bancando o espectador dos pruridos sentimentais do
rei Filipe...
Sim, claro: apesar de tudo, devia realmente ser grato ao papa
por ter pensado nele antes de qualquer outro.
Não o decepcionaria.
IV
Civetot, mar de Mármara, outubro de 1096.
Cruzada popular de Pedro, o Eremita
— Devagar com essas mãos! — exclamou o ferido, enquanto
Inês aplicava sobre o corte mal suturado ao longo do flanco
dele as ervas medicinais que o cirurgião lhe dera. — Você
devia se limitar a fazer o que sabe fazer melhor, sua puta! —
acrescentou, irritado, acompanhando as palavras com um
gesto obsceno da língua.
A mulher se retraiu de chofre, deixando caírem os
medicamentos, que foram acabar no chão empoeirado,
inutilizando-se.
— Idiota! E agora, como vou tratar seu ferimento?
— Esqueça o ferimento e use essas mãos para tratar do meu
espírito — disse o outro, empurrando com dificuldade suas
bragas imundas para os joelhos e desnudando-se até além
do púbis.
Como única resposta, Inês se levantou, agarrou-o com ambas
as mãos pelos tornozelos e começou a arrastá-lo. Aquele
homem não era particularmente robusto, refletiu, tinha
perdido muito sangue e não eram muitos os passos que a
separavam do médico. Ele que cuidasse do sujeito.
— O que está fazendo? Vou assar você no espeto, cadela
nojenta! — ouviu-o gritar, enquanto o puxava atrás de si sem
dar muita atenção às pedras que afloravam do terreno. "Vai
me assar no espeto", pensou; "talvez este aqui seja um dos
que nas últimas semanas devastaram os subúrbios de Nicéia,
assando realmente no espeto as crianças, e até mesmo os
gregos sujeitos aos turcos." Diziam-se coisas horríveis sobre
aquelas incursões, e Inês estava contente por não ter
participado delas.
Mas à batalha, sim, gostaria de ter ido naquele dia! Em vez
disso, estava ali no campo socorrendo os refugos do exército,
aqueles soldados improvisados que haviam enganado o
tempo, à espera do exército dos príncipes, saqueando e
depredando as zonas ao longo da fronteira com o sultanato,
atacando quase exclusivamente a população pobre, ainda por
cima cristã, que não tinha outra culpa afora a de morar na
área que acabara sob o controle dos turcos.
Perguntou-se o que aqueles gregos pensavam dos
"libertadores" que o imperador enviara para ajudá-los. Talvez
os homens tivessem mostrado um senso maior de disciplina
se estivesse presente Pedro, o Eremita, aquele santo homem
cuja pregação veemente a impressionara a ponto de induzi-
la, na primavera, a se unir à multidão de partida para o
Oriente. Mas Pedro estava em Constantinopla fazia algum
tempo, e os chefes do exército cruzado competiam para ver
quem colhia o butim mais consistente, sem atentar para a
religião professada pelas vítimas nem para os métodos, que
muitas vezes descambavam para atrocidades e torturas de
todo tipo.
Inês se dera conta, havia muito, de que eles não passavam de
uma gentalha desorganizada e ignorante das mais
elementares regras militares. Não por acaso, Pedro, enquanto
estivera ali, havia pedido aos chefes que tivessem paciência,
que esperassem os príncipes, que entendiam de guerra mais
do que ninguém. Mas Gualtério de Breteuil, Gualtério Sem-
Haveres, Reinaldo de Broyes, Foulcher de Orléans, Hugo de
Tubingen e Gualtério de Teck, todos eles fidalgo- tes de
escasso relevo, não o tinham escutado, ansiosos que estavam
por obter glória militar como comandantes, e não como
subordinados. Assim, acontecera o desastre de Xerigordon,
poucos dias antes, com os germânicos massacrados pelos
turcos justamente no castelo que pensavam haver
conquistado.
E agora aqueles loucos tinham ido enfrentar o próprio sultão,
que vinha chegando de Nicéia com um exército consistente.
Mas pelo menos seria uma batalha em plena regra, ora se
não! E ela queria estar presente. Havia tomado a cruz para
prestar um serviço ao Senhor, expiar sua vida de pecadora e
combater os infiéis. Era saudável, jovem, robusta e estava
certa de saber combater até melhor do que muitos
campônios e pedintes que haviam se improvisado em
soldados naquela campanha. Quando mais não fosse,
aprendera a se defender de clientes demasiado arrogantes ou
violentos, e nos corpo a corpo havia conseguido sobrepujar
homens bem mais robustos do que ela. Fazia tempo que
sabia usar bem a faca, e nas últimas semanas havia praticado
com a espada.
Além disso, não tinha medo. Era capaz de apostar que não se
podia dizer o mesmo de muitos de seus companheiros.
Mas não havia nada a fazer. Para aqueles animais, ela era
sempre "Inês, a puta". Sua única tarefa era a de recreá-los ou,
no máximo, ser útil aos médicos, cuidando de doentes e
feridos que, em grande parte, tinham sofrido uma facada de
uma mulher que haviam estuprado, uma queimadura numa
casa que haviam incendiado, uma contusão por uma pedra
que algum camponês desesperado lançara neles.
— Inês! O que está fazendo? E esse o modo de servir ao
Senhor? Torturando seus correligionários?
O soldado que ela arrastava havia atenuado progressivamente
seus protestos, até se calar de vez; talvez tivesse desmaiado,
ou até morrido. Inês já não se preocupava muito com isso. A
voz que escutou atrás de si era outra. Uma voz que, a
contragosto, ela conhecia bem demais.
— E daí? Espero que você seja indulgente comigo, tanto
quanto foi com animais do tipo deste aqui — retrucou Inês,
erguendo os olhos para o céu. — Eles também torturaram
correligionários, não? Aposto que não hesitou em absolvê-
los... — acrescentou, num tom que, apesar de tudo, não era
particularmente ressentido.
Não conseguia se enfurecer de jeito nenhum, quando
discutia com Anselmo. Aquele monge cluniacense
desajeitado e gordo, sempre de cara vermelha — não sabia se
pelo embaraço de ter que lidar com uma mulher como ela
ou se pelo esforço de se movimentar com aquele corpanzil
—, no máximo a entediava, mas não a irritava. Ele se unira
ao exército cruzado na Lorena e parecia se sentir no dever
de transformá-la numa mulher direita. Até agora, seus
esforços tinham sido inúteis: Inês sabia que, fosse como
fosse, a participação no empreendimento lhe garantiria a
remissão dos pecados no fim, e por isso não via motivo para
viver diferentemente de como vivera até então. Não se
lembrava de ter ganhado o pão de outro modo, desde
quando era menina, e tampouco de ter recebido da mãe um
exemplo diferente. E, afinal, entre eles havia gente que
assassinava crianças cristãs com a certeza da impunidade
final; ela não via por que deveria se sentir culpada por ter
dado — bem... vendido — um pouco de prazer aos homens.
— A mesma soberba de sempre — respondeu o monge,
ofegando por causa da corrida. — Quem lhe dá o direito de
julgar os que combatem pelo Senhor? Se eles cometeram
erros, foi só por excesso de zelo. Esses aí — disse, apontando
os feridos que jaziam no solo — estavam cegados pelo ardor
da luta por uma causa justa!
— Erros? Está falando de erros, padre, ou de horrores? Acha
que tudo se justifica em nome da fé? Quer dizer que o papel
da Igreja e o de justificar os crimes mais atrozes? — rebateu
ela, sem parar de arrastar sua carga.
Anselmo a encarou desconsolado. Às vezes era difícil
replicar a Inês. Embora ignorante, guiada pelos instintos
semi-pagãos das pessoas rudes e desprovida do respeito
devido a quem sabia mais do que ela, a moça era esperta.
E bonita, também. Ele era obrigado a constatar isso, sempre
que os dois discutiam. Em certas ocasiões, devia lutar para
reprimir o desejo pelo corpo dela, e se descobrira com inveja
daqueles para quem era suficiente pagar para vê-la nua, tocá-
la, beijá-la...
Detestava-se por isso. Sentia não ser um bom homem de
Igreja, permitindo que semelhante estorvo condicionasse
seu ânimo, que do contrário seria puro e devotado
exclusivamente ao Senhor. Sempre, em suas conversas, o
desejo por ela sobrepujava qualquer outra consideração, e
Anselmo já não conseguia pensar com lucidez, chegando até
a perder o confronto verbal, que ele deveria dominar.
Agora mesmo, ao vê-la com os músculos tensionados no
esforço de arrastar aquele peso morto, com a pele luzidia e
lisa, os ombros mais largos do que o normal e os braços bem-
torneados, os seios proeminentes e harmônicos, a cintura
estreita, ainda mais afinada pelo fôlego retido, as longas
pernas de linhas definidas no impulso contra o terreno e, por
fim, o rosto altivo, com os traços marcados pelo vício,
Anselmo tinha dificuldade em encontrar argumentos para
contestar as provocações dela.
Então mastigou umas frases pouco inspiradas, como de
hábito:
— A Igreja tem muitos papéis que são obscuros para você, e
caminhos que, como os do Senhor, são infinitos. Repito que
não lhe cabe julgar as obras dela, nem os fins, sobretudo
enquanto você continuar a viver no pecado. E, também,
preferiria que nossos companheiros, induzidos à violência
pela pobreza, pelo desespero e pela ignorância, tivessem
continuado a cometer semelhantes atrocidades na Europa,
em sua casa? — conseguiu dizer.
— Eu preferiria que eles pensassem menos em afanar tudo
que encontram e mais nos turcos. Mas talvez seja mais fácil
roubar os desarmados. Veremos como se arranjam na
batalha, a começar por hoje. Se tivessem me permitido
segui-los, estou certa de que seria um bom exemplo para
muitos deles... — respondeu Inês, zombeteira.
— Ímpia! Uma mulher na batalha? Seria certamente um
artifício do diabo! Não haveria mais esperança de redenção
para você!
Inês explodiu numa gargalhada. Largou a presa, plantou as
mãos nos quadris e inflou o peito, aumentando, assim, a
perturbação de seu interlocutor.
— Ora, faça-me o favor, padre! Os homens combatem e
obtêm a vida eterna. Eu combato e ganho a condenação
eterna?
— Claro! Não está na ordem natural das coisas. A mulher não
deve combater. Cabe ao homem fazê-lo. Quer subverter a
ordem que o próprio Deus criou? Isso é heresia! — disse
Anselmo, arrependendo-se imediatamente do ardor com
que havia falado. A sujeição que ele nutria ante aquela
mulher sempre o impelia a moderar o tom e a preferir uma
postura paternalista.
Fosse como fosse, lembrou-se de que, antes de ir rezar a
missa, convinha fazer alguma coisa por aquele coitado que a
mulher havia sacudido impiedosamente. Por fim,
aproximou-se para impedir que Inês o arrastasse mais.
Avizinhou-se justamente quando ela agarrava um tornozelo
do homem. Tentou antecipar-se, mas acabou pousando a
mão sobre o pulso dela.
Olhou-a, embaraçado, com a testa perolada de suor,
retraindo a mão num impulso repentino. Ela aproveitou a
ocasião para soltar uma nova gargalhada, e então Anselmo
tentou lhe desviar a atenção para o ferido, que já não parecia
propriamente ferido.
Parecia morto.
Foi tomado pela agitação.
— Pronto! Está morto, não vê? Você o matou! E eu nem
pude administrar a ele os sacramentos! — gritou.
Inês se inclinou e encostou o rosto ao do homem no solo,
para lhe conferir a respiração. Em seguida balançou a cabeça.
— E você se preocupa com quê? Ele morreu combatendo os
"infiéis", não? Ganhou a remissão dos pecados, portanto não
super-valorize seu papel, padre.
Anselmo foi tomado por tremores. Seu hábito estava
encharcado de suor ao redor do pescoço.
— Mas... o que está dizendo?! Este homem podia vir a ser
muito precioso para a causa do Senhor, e você o matou, com
seu descuido. E nem se sente culpada!
Inês o agarrou pela gola e o empurrou para cima do soldado,
obrigando-o a se inclinar e grudando a cara dele na do outro.
Anselmo percebeu uma respiração débil, fétida, e se retraiu
assim que Inês o soltou.
— Viu? Eu não matei ninguém que não pudesse se defender
— disse ela, soltando de novo uma gargalhada franca.
Anselmo recuou mais, trôpego.
— Às vezes, penso que o demônio está dentro de você.
Agora, vou celebrar a missa e, além de pelos nossos soldados,
rezarei também pela salvação de sua alma. Se eu não o fizer,
não vejo como você poderia obtê-la... — declarou,
afastando-se.
Inês o seguiu com o olhar, continuando a rir. Viu-o
aproximar- se de um rústico altar campal; os cruzados
tinham erguido vários, desde quando o imperador,
aborrecido pelos saques deles nos subúrbios de
Constantinopla, convidara-os a se transferirem para a Ásia à
espera dos príncipes com seus exércitos. Tinham acampado
na margem oriental do mar de Mármara, na localidade que
os gregos chamavam de Kibotos e os francos, de Civetot.
Quase diariamente, os navios bizantinos iam e vinham da
capital para abastecê-los de víveres, e, para falar a verdade,
nunca lhes haviam faltado vinho, azeite e cereais.
Não havia razão para viverem na desordem e no
descontentamento. No entanto, desde os primeiros dias
muitos ficaram aflitos por combater, e indefectivelmente
nasceram invejas de todo tipo pelos que tinham conseguido
obter algum butim. O campo se tornara um local de rixas
entre germânicos e italianos, entre germânicos e franceses,
um caótico mercado de trocas e compra e venda no qual a
não havia ninguém que se preocupasse com a manutenção
da ordem e da limpeza.
As tendas haviam sido armadas sem nenhum critério, sem
um projeto, um desenho em comum. As pilhas de lixo e
resíduos se amontoavam, emanando um odor pestilencial,
sem que ninguém pensasse em eliminá-las, e não era raro
vê-las ao lado de homens feridos ou doentes. As fogueiras
dos bivaques, os espetos e os utensílios necessários se
espalhavam por toda parte, sem solução de continuidade
com montes de dejeções, tanto de homens quanto de
animais.
Entre os peregrinos que tinham se tornado cruzados, eram
muitos os que levavam consigo família e haveres. As
crianças brincavam com o que encontravam, disputavam,
lutavam, gritavam, completamente abandonadas a si
mesmas. As mulheres que já tinham perdido seu homem nas
primeiras escaramuças se prostituíam ou simplesmente se
ofereciam a outro cruzado, na esperança de encontrar, com
o novo companheiro/patrão, a fortuna com que haviam
sonhado ao deixar o Ocidente. Fosse como fosse, sequer
experimentavam organizar alguma coisa.
Os animais de carga vagavam livres, abatendo barracas com
seu passo vagaroso, remexendo rejeitos e excrementos e
transformando a desordem em caos.
Parecia o acampamento de um exército derrotado.
No entanto, os cruzados ainda não tinham enfrentado uma
batalha, e o quartel-general ficava a poucos quilômetros.
Talvez, pensava Inês, parecesse o acampamento de um
exército destinado à derrota.
Anselmo ainda estava convocando os doentes e os feridos
em condições de se aproximar do altar quando um cavalo
com xabraque, pertencente a um dos quinhentos cavaleiros
que haviam partido rumo a Nicéia, entrou galopando
enlouquecido pelo campo, com uma flecha espetada na
garupa.
Logo depois chegou outro. Desta vez, o cavaleiro estava na
sela.
Só que era um turco.
O tempo fechou em torno de Inês, arrebatada pela imagem
do primeiro inimigo de Cristo que já vira. Por um instante
interminável, ela ficou olhando a armadura dourada, que o
recobria da cintura ao peito, o elmo pontudo com duas
plumas, o capuz em malha de ferro que lhe descia pelos
ombros, o amplo escudo redondo e o arco.
Em pouco tempo, eram dezenas de turcos a penetrarem no
acampamento. Havia também alguns cavaleiros cristãos dos
que haviam partido poucas horas antes, mas, longe de opor
resistência, cuidavam de prosseguir, para além daquele
espaço, a fuga iniciada onde quer que tivesse acontecido a
batalha.
Inês viu um grupo de muçulmanos se lançar sobre os feridos
próximos ao altar de Anselmo e decepar cabeças com os
golpes oblíquos de suas longas espadas. O monge estava
petrificado de terror, aparentemente incapaz de agir. Mesmo
assim, os turcos, depois de massacrarem todos os que ainda
se agüentavam de pé, encarniçaram-se contra os enfermos
deitados no chão. Primeiro passaram por cima deles,
esmagando-os com os cascos dos cavalos, e depois desceram
das selas e concluíram o trabalho com as cimitarras.
A mulher apalpou o próprio flanco, assegurando-se de ter
consigo a faca que a mãe lhe dera à beira da morte, e em
seguida correu para Anselmo, que não conseguia mover um
só músculo. Enquanto isso, um dos turcos, já encharcado
pelo sangue das vítimas, pulou sobre o altar e se preparou
para saltar em cima do monge. O muçulmano se deteve por
uns instantes, e Inês notou que ele ria. Compreendeu que o
homem estava se divertindo com o terror de Anselmo, ou
talvez somente de suas vestes talares. Isso lhe possibilitou
aproximar-se por trás, e sem ser notada.
Agarrou a faca. Pretendia feri-lo nas costas, mas, quando
ainda estava a uns dez passos, viu o turco girar e descer a
lâmina, e não teve escolha.
Lançou.
Assim que vira os turcos irromperem no acampamento
cruzado, Anselmo percebera estar em perigo, mas nem por
isso tentara escapar. Não era coragem, nem inconsciência,
mas simples pânico: um pânico ridículo que lhe tirava
qualquer espírito de iniciativa. Não se moveu nem mesmo
quando o turco estava quase em cima dele.
Imaginou que seria golpeado. Mas, em vez disso, viu o
inimigo sofrer um contragolpe e se voltar de repente. Depois
vislumbrou Inês, de pé, poucos passos atrás do cavaleiro.
Observou este último recolher o punhal com cabo de
marfim da jovem, e compreendeu o que acontecera: a
armadura havia protegido o soldado da penetração da lâmina,
e agora ele e Inês não teriam escapatória.
O seljúcida não tinha pressa. Para um soldado, ainda por
cima pesadamente armado, degolar uma mulher e um
monge não devia ser problema, e era claro que ele estava
pregustando o divertimento. Aproximou-se de Inês soltando
risadinhas galhofeiras, mas mostrou uma expressão de
espanto quando viu que ela não fugia.
A mulher tinha decidido apostar tudo na própria agilidade. O
lançamento da faca havia sido um gesto de puro instinto: o
único resultado obtido fora o de afastar de Anselmo a
atenção do infiel; a partir daquele momento, Inês começara
a acionar o cérebro. Tudo que precisava fazer era evitar a
previsível cutilada que o turco se dispunha a desfechar.
O golpe chegou, mas a lâmina da cimitarra foi parar no solo.
Um instante antes, a mulher se esquivara para a esquerda, ou
seja, para o lado do soldado não protegido pelo escudo;
então, recolheu um punhado de terra e jogou-o na cara do
atacante, que já se lançara para a frente. Inês aproveitou para
saltar nas costas dele e agarrar-lhe o pescoço. Segundos
depois, afrouxou a preensão do braço direito, procurando
com os dedos o olho do turco. Tateou a borda superior do
elmo, enquanto o muçulmano se debatia na tentativa de
livrar-se dela, e depois, com toda a força de que dispunha,
afundou polegar, indicador e médio.
Encontrou matéria que cedia, e um fluxo quente lhe
inundou a mão. Com um movimento brusco, arrancou o que
lhe restara entre os dedos e depois caiu no chão, enquanto o
adversário soltava a cimitarra e o escudo e levava as mãos ao
rosto, urrando de maneira desumana. Inês se voltou e viu
que Anselmo continuava de pé junto do altar, petrificado
como antes. Levantou-se e correu para ele.
— Ânimo, depressa! Vamos correr para o mar! — gritou,
controlando se o turco não se aproximava. Anselmo
balbuciou a meia-voz:
— Satanás... Satanás se apossou de você... — e opôs uma
resistência branda, quando ela lhe agarrou o braço para puxá-
lo.
— Então, se você conseguir se salvar, significa que deverá
agradecer a Satanás... — respondeu Inês, finalmente
fazendo-o se mover.
Começaram a correr. Por enquanto, porém, os turcos
tinham à disposição muitas vítimas inermes, e não
atentavam para os alvos em movimento: muitos dos doentes
e feridos sequer tiveram tempo de levantar a cabeça de seus
catres, antes que as cimitarras descessem sobre eles.
Depois de percorrerem uns cinqüenta metros, Anselmo
começou a ofegar. Pouco adiante, algumas crianças
choravam apavoradas, invocando a ajuda das mães, as quais,
por sua vez, mandavam aos gritos que os filhos fugissem.
Um grupo de infantes turcos se aproximava. Inês olhou ao
redor e percebeu uma carroça abandoná-la, com um burro
ao lado. Esperou que o companheiro ainda tivesse fôlego
suficiente para alcançá-la. Mas, bem naquele momento,
entre eles e os turcos se interpuseram três mulheres, duas
jovens e uma mais velha, com a clara intenção de bloquear
os muçulmanos antes que estes chegassem às crianças.
Inês recomeçou imediatamente a correr, arrastando
Anselmo atrás de si. Após algumas dezenas de passos, virou-
se para conferir as condições do monge, e viu lá atrás que os
turcos tinham assassinado a mulher mais velha e aprisionado
as outras.
Deu um novo puxão em Anselmo. Mas o monge estava
quase cianótico, e ela compreendeu que não podia esperar
dele outros esforços.
Só havia uma coisa a fazer.
— Escute — disse a ele, agarrando-o pelos ombros. — Eu
corro rara atrelar o burro à carroça. Enquanto isso, você vai
ao meu encontro no seu ritmo.
O monge a encarou com expressão apalermada. Sem esperar
a resposta, Inês saiu correndo, alcançou o animal e o desatou
da paliçada. Encontrou o arreio de dorso na carroça, pegou-o
e colocou-o s obre o burro.
Anselmo ainda estava a algumas dezenas de metros quando
Inês se instalou na boléia, pronta para partir. Ela teve que
esperá-lo e, finalmente, com um gesto de impaciência,
ajudou-o a subir à carroça.
Já em cima, e só então, Anselmo recuperou a palavra:
— Você devia me deixar com esses desgraçados — disse,
enxugando o suor. — Minha tarefa é assisti-los nos
momentos mais difíceis... — acrescentou, sem muita
convicção.
— De fato, eu vi como você os assistia. E uma verdadeira
desgraça que eles não possam se valer do seu precioso
apoio... — respondeu ela, cáustica, enquanto puxava as
rédeas do burro.
Depois, decidida, tomou a direção do mar, na intenção de
apossar-se de um dos barcos ancorados ao longo da costa.
Mas em seu campo visual entrou o grupo de crianças que
fugiam de um cavaleiro turco. Inês calculou que dava tempo
de fazê-las subir. Então, desviou de chofre e foi ao encontro
delas.
— Quer confortar alguém? Chegou sua oportunidade: o
melhor conforto que você pode oferecer a esses aí é ajudá-
los a subir! — gritou para Anselmo.
O monge esperou que a andadura diminuísse até quase parar
e estendeu a mão ao menino mais próximo, mas este se
arranjou sozinho, agarrando-se à lateral da carroça e saltando
para cima dela. Os outros o imitaram, mas eram muitos, e
Inês teve que esperar para resgatar todos, antes de retomar
uma velocidade constante.
Mas o animal estava puxando um peso excessivo para suas
forças e seu passo continuou lento. As crianças começaram a
berrar que o turco já estava perto. Inês se voltou bem a
tempo de ver uma delas, atingida no peito por uma lança,
desabar no assoalho da carroça.
— Anselmo, pegue as rédeas! — gritou ao monge. Este
hesitou, de novo petrificado, mas um segundo grito de Inês,
quase histérico, obrigou-o a obedecer. Os dois trocaram de
lugar, enquanto o turco desembainhava a cimitarra e investia
contra a carroça. Algumas crianças soltavam insultos contra
o agressor, mas a maioria berrava e chorava. Inês abriu
caminho entre elas e, quando chegou ao corpinho
transpassado pela lança, agarrou a haste, no ponto onde a
arma penetrara, e ficou aguardando junto à borda o assalto
do cavaleiro inimigo.
Esperou-o até o último instante. Quando o turco se preparou
para atacar, ela pegou fortemente a lança, arrancou-a e
empurrou-a contra o muçulmano. Golpeado, este perdeu o
equilíbrio e caiu da sela.
As crianças soltaram gritos de triunfo, enquanto Anselmo,
que observara a cena continuando a segurar as rédeas, fitava
a mulher com olhos e boca escancarados.
Inês perscrutou a devastação que ia ficando para trás, da qual
surgiam os primeiros incêndios. Viu também outros
cavaleiros inimigos prestes a alcançá-los. Depois dirigiu o
olhar para o mar; na costa, surgia um castelo destruído.
Dúzias de cristãos se acotovelavam na areia, disputando as
embarcações.
Havia mais possibilidades de salvação na fortaleza, para a
qual outros fugitivos também corriam.
— Dirija-se àquele castelo, vamos! — gritou ela para
Anselmo.
Na realidade, chamar aquele edifício de castelo era até
excessivo. Ele devia ter sido um, antigamente, mas agora era
pouco mais que uma ruína, com diversos trechos da muralha
desmoronados e todos os vãos desprovidos de portões. Inês
percebeu que o burro não agüentava mais e resolveu que
seria melhor prosseguir a pé. Ordenou que todos descessem
e até empurrou Anselmo para o solo. Mas não abandonou a
carroça; deixou o burro atrelado e ela mesma começou a
puxar o animal.
Se os turcos se dirigissem logo para eles, não haveria a
menor possibilidade de alcançar a fortaleza. Mas os
perseguidores preferiram seguir para o mar, onde se viam
centenas de cristãos amontoados e indefesos. Assim, após
um tempo que lhe pareceu interminável, Inês conseguiu
fazer o burro transpor a entrada do castelo. Anselmo se
mantinha grudado a ela, ao passo que as crianças tinham
corrido para dentro antes deles, unindo-se aos outros
fugitivos que haviam encontrado refúgio ali.
Uma vez dentro das muralhas, Inês se sentou no chão,
apoiando as costas na roda da carroça. A tensão lhe faltara de
repente, e o cansaço se sobrepôs. Foi então que Anselmo
recuperou a palavra:
— Eu... eu — balbuciou — nunca vi uma mulher tão
corajosa... nunca! Ou melhor, nunca vi nem mesmo um
homem tão corajoso! Você é extraordinária! E evidente que
foi o Senhor quem lhe infundiu tanta coragem e tanta
prontidão! Não existe prova melhor do que essa, para atestar
que nossa causa é santa! O Senhor operou um milagre e
transformou uma mulher em valente defensora da fé!
Inês ainda estava sem fôlego, mas não conseguiu evitar
responder. Aquele monge despertava todo o seu cinismo.
— Ah, é? Como assim, se poucos minutos atrás era Satanás
quem me infundia força? E, também, como devemos encarar
o desastre do qual escapamos? Também é uma prova da
nossa santa causa?
— Natural! O Senhor quer nos submeter à prova, e ver se
estamos dispostos a sofrer para servi-Lo! Mas, agora, vamos
pensar em você: precisa descansar. Venha, acomode-se aqui
— disse ele, sentando-se também e oferecendo-lhe o colo
como travesseiro.
— Pois eu acho que nossos sofrimentos nós é que vamos
procurar por conta própria... — comentou Inês, cansada
demais para enxergar algo malsão na oferta do monge. Foi
nessa posição que um soldado italiano os encontrou pouco
depois. Ao vê-lo, Anselmo retraiu instintivamente a mão
com que acariciava a fronte da mulher. Não saberia dizer se
o soldado o tinha visto, porque este se mostrou interessado
em outra coisa.
— Afastem-se da carroça. Precisamos de todos os meios
disponíveis para bloquear as entradas e os vãos — disse, sem
muitos cumprimentos.
— Eu a trouxe aqui dentro justamente para isso — disse Inês,
levantando-se.
O soldado a encarou por um instante, embasbacado, e depois
com a superioridade de quem acreditava ter o monopólio das
boas idéias em matéria militar.
— Mas o que aconteceu? A batalha... — aproveitou Anselmo
para perguntar.
— Pode-se dizer que quase não houve batalha — respondeu
o italiano, desconsolado. — Eles surgiram repentinamente
dos bosques que margeavam a estrada, apenas a cinco
quilômetros daqui, e nos sepultaram sob uma chuva de
flechas. Não tivemos escolha a não ser fugir! — concluiu,
com um gesto de irritação.
— E agora? O que vai acontecer? — insistiu o monge.
O soldado desatrelou da carroça o burro, já moribundo, e
deslocou o veículo para junto da entrada. Sua resposta se fez
esperar.
— Se quisermos ser otimistas — explicou —, podemos
esperar que os turcos, depois de massacrarem o exército e
depredarem o acampamento, vão embora saciados de butim
e de sangue, deixando-nos em paz aqui dentro até a chegada
do socorro. Certamente o imperador mandará de
Constantinopla algum destacamento, assim que os primeiros
fugitivos chegarem à capital por mar. Agora, porém, saiam
daqui; precisamos obstruir esta entrada.
Mas logo mudou de idéia. Puxou a espada e perfurou o que
restava do burro.
— Ou melhor, esperem; me ajudem a deslocar este bicho até
a abertura. Para fechar o buraco, tudo serve — disse,
inclinando-se a fim de empurrar o animal pelo dorso.
Docilmente, os outros dois o imitaram.
— Creio que você tem razão — comentou Anselmo. —
Agora, os turcos vão passar o resto do dia roubando as
pessoas ao longo da costa e saqueando o acampamento.
Imagine se ainda vão arcar com um assédio! Amanhã de
manhã, no máximo, aparecerão os navios bizantinos. O
Senhor, em sua imensa bondade, quis nos poupar, pelo
menos a nós — acrescentou, com uma satisfação
decididamente excessiva.
— Pois é. Pena que aqueles lá, na costa, não possam dizer o
mesmo — comentou Inês, um instante antes que o soldado,
acreditando já ter levado a carcaça do burro até a altura certa,
acenasse para que eles parassem de empurrar.
Os três se reergueram quase ao mesmo tempo, ofegando
pelo esforço. Pouco depois, Inês escutou um ruído surdo ao
seu lado. Virou-se e viu que, entre ela e Anselmo, já não
estava o italiano. Então olhou para o solo.
Uma flecha havia trespassado o pescoço do soldado. Ela
hesitou por um instante, antes de olhar lá fora. Os turcos
estavam chegando.
V
Mogúncia, 23 de maio de 1096.
Cruzada popular dos germânicos
O rabino Isaac bar-Mosche entrou em casa com as faces
rubras e uma expressão carrancuda.
— Rápido, arrumem tudo de que vão precisar. O bispo
Rothard nos ofereceu refúgio. Vamos para o palácio
episcopal — disse, com uma irritação que não escapou à filha
mais velha.
— Ainda acha, pai, que não precisamos nos preparar para o
pior? - respondeu Rebeca, que jamais aprendera a manter o
devido respeito pela autoridade paterna. — Não lhe bastam
as notícias vindas de Espira e Worms?
— Eu não me preocuparia muito com o que aconteceu em
Espira. Os cruzados mataram onze judeus, é verdade. Mas
eram uns poucos facínoras, cujas mãos o bispo mandou
cortar, com o assentimento do chefe deles. E no que se
refere a Worms... bem... não se pode acreditar num
alucinado que chega montado num jumento dizendo que
apenas cinco dias atrás houve um pogrom contra oitocentos
judeus, ainda por cima com a colaboração da população!
— Ah, é? Então, por que estamos indo para o palácio
episcopal? - rebateu a jovem. — Excesso de cautela?
Isaac encarou a filha, desconsolado e cansado. Não
conseguira casá-la, embora Rebeca já estivesse em idade
núbil. Muitas vezes, ele se perguntava se a causa seria o
aspecto dela, com nariz demasiado adunco, olhos muito
esbugalhados, zigomas excessivamente pronunciados, queixo
comprido demais, dentes muito salientes ou seu
temperamento exasperante.
A moça não suportava não ter a última palavra numa
discussão: uma última tirada que sua inteligência viva e
brilhante freqüentemente transformava numa alfinetada no
interlocutor, privando-o da força de retrucar. Interessava-se
por tudo, e nunca de modo superficial, muitas vezes
mantendo em condição de inferioridade quem quer que
tentasse confrontá-la. Qualquer cortejador logo percebia a
perspectiva que o esperava: ter de sustentar uma luta
cotidiana para afirmar o privilégio de ser homem. Assim,
todos preferiam ignorá-la e renunciar àquele pouquinho de
beleza e fascínio que porventura tivessem encontrado nela.
— Excesso de zelo por parte do rabino-chefe Calônimo, em
minha opinião — respondeu finalmente Isaac, resignado a
dizer tudo à filha, antes que ela lhe arrancasse as
informações com sua insistência. — E, em parte, também, a
péssima fama do chefe cruzado, o conde Emich de
Leiningen, já famoso, antes desta história, por sua propensão
à violência. Parece que ele comanda mais de quinze mil
pessoas, entre as quais muitos cavaleiros. Imagine que
Calônimo quis assegurar para nós a proteção do bispo
doando-lhe trezentos marcos de prata, para evitar equívocos,
e se afirmou disposto a pagar ao margrave todas as despesas
para ter também o apoio dele.
— É tão terrível assim esse conde Emich? Talvez seja apenas
um valente guerreiro, ansioso por combater no Oriente os
inimigos de sua fé...
Quem falou não foi Rebeca, mas sua irmã Sara, que estava
escutando a conversa. Sua atenção tinha sido despertada pela
menção ao chefe cruzado: não um padre, como Pedro, o
Eremita, ou Gottschalk, os quais haviam mobilizado outros
exércitos para ir ao Oriente. O pouco que fora dito bastava
para excitar sua fantasia, na qual os louros cavaleiros
germânicos cristãos tinham sempre um lugar de destaque.
— Os "valentes guerreiros" que enchem seus sonhos de
eterna adolescente — respondeu duramente a mais velha —
estão a tal ponto, ansiosos para combater por sua fé que se
sentem muito contentes por poderem se exercitar conosco,
os judeus. Entre eles, há quem pense que não faz sentido ir
até a Ásia para assassinar gente que não matou Cristo,
quando têm os deicidas ao lado de casa!
Ao dizer isso, Rebeca olhou o pai, renovando a muda
admoestação que lhe dirigia desde anos antes, sempre que
entravam no assunto. Desde quando começara a estudar o
memorial de Tiago, ela havia repetidamente criticado Isaac
por ter decidido não o divulgar.
Suas admoestações, porém, nunca permaneciam mudas por
muito tempo:
— Viu o que acabou nos acontecendo, pai? Teríamos tido
muito tempo para revelar ao mundo a verdade sobre a
pregação e a crucifixão de Jesus, sem precisar chegar a este
ponto — disse afinal.
— E quem lhe garante que as coisas não seriam ainda piores?
— retrucou o rabino. — Agora, trata-se apenas de sintomas
do delírio coletivo que se apossou da cristandade. Vai passar.
Se eu tivesse divulgado os pergaminhos, provavelmente o
principal objetivo da cruzada seríamos nós. Em vez disso,
pelo menos temos assegurada a proteção das autoridades.
Creio que as quinhentas moedas de ouro que enviamos
meses atrás a Godofredo de Lorena para que ele não nos
molestasse produziram o efeito desejado: por acaso o
imperador Henrique não escreveu a todos os seus vassalos,
laicos e eclesiásticos, ordenando que cuidassem da nossa
segurança?
— Você sabe muito bem que isso foi uma belíssima extorsão.
Desse modo, praticamente financiamos a cruzada de
Godofredo. E muitos outros senhores e fidalgotes tomaram
empréstimos a juros às comunidades judaicas, antes de partir.
Não me surpreenderia que se aproveitassem das
circunstâncias para se livrarem ao mesmo tempo das dívidas
e dos credores... — respondeu Rebeca.
— Afinal, de que você tem medo? — gritou o pai,
impaciente, como sempre ficava quando chegava a ponto de
não saber retrucar. — Nós tomamos todas as providências,
não está vendo? O bispo e o margrave nos garantiram que
preservarão nossa vida mesmo à custa da deles. Nenhum
cruzado ousaria assaltar um palácio episcopal: do contrário,
que cristãos seriam eles? Além disso, saiba que mandamos ao
próprio conde de Leiningen nada menos que sete libras de
ouro..
— Portanto, outro resgate, como se não bastasse a cifra
hiperbólica entregue a Godofredo de Lorena! Ainda assim,
obviamente você acredita que isso poderia não bastar, se
julga mais prudente nos refugiarmos na residência do bispo.
Acha que eu não sei a que nível chegou a histeria coletiva
dos cristãos? Que o conde Emich afirma ter estigmas de
santidade nos pulsos? E que alguns do grupo dele se puseram
em marcha pretendendo seguir um ganso animado pelo
espírito celeste? Acha possível esperar comportamentos
lógicos e racionais de gente tão desvairada? Se fossem
poucos, poderíamos liquidá-los com alguns cortes na cara,
mas são muitos, muitos, e se alimentam reciprocamente com
sua loucura...
— Então, se vocês pagaram ao conde, ele nem vai aparecer
na cidade! — exclamou Sara, decepcionada. — Arre! Nunca
se vê um homem de verdade por aqui! Só mercadores e
artesãos, rabinos e padres, camponeses e servos!
Como freqüentemente acontecia, Rebeca reprimiu com
dificuldade sua irritação pelas palavras da irmã.
— Os homens de verdade, como você os define, estão lá
fora. Imagine o tratamento que lhe reservariam, na condição
de mulher atraente e judia! — gritou.
Desconsolado, Isaac olhou as duas filhas. Rebeca iria
consumir o homem ao lado do qual decidisse ficar. Sara, ao
contrário, se consumia na espera pelo homem certo. A
primeira ninguém queria; quanto à segunda, eram até demais
os que a desejavam, só que ela não desejava ninguém.
A beleza de Sara era tão evidente que, até para os homens
brilhantes, deixava em segundo plano sua manifesta
superficialidade. Seus traços angelicais impeliam quem quer
que a conhecesse a desejar protegê-la: inclusive o pai e a
irmã, que a preservavam de quaisquer ameaças, mimando-a e
talvez distanciando-a cada vez mais da realidade.
— Por favor, não percamos tempo nessas disputas estéreis. E
você, Rebeca, não é hora de recriminar — disse Isaac. —
Acabem logo de arrumar nossas coisas e vamos.
— ... Esperando encontrar tudo em seus lugares, quando
voltarmos — ironizou Rebeca.
O pai ergueu os olhos para o céu.
— Tente confiar em Deus, de vez em quando... —
respondeu, resignado.
— E os rolos, o que fazemos com eles?
— Deixe-os aqui mesmo. Creio que estarão em segurança, no
alçapão sob o piso. Aconteça o que acontecer à casa, ali
embaixo permanecerão íntegros e escondidos.
— Ah! Então você acha mesmo que existe algum risco! Nesse
caso, é melhor que os levemos conosco.
— Mas como faremos? — Se a filha se inclinava a agir
daquele modo, nem mesmo uma extenuante discussão
conseguiria fazê-la mudar de idéia. — Eles são estorvantes e
frágeis, corremos o risco de arruiná-los ou de perdê-los.
Alguém poderia pedir explicações, e o que responderíamos?
— Não se preocupe. Eu cuido disso — concluiu Rebeca.
Isaac se resignou: sabia muito bem que a filha preferiria
divulgar os rolos havia tempo. Se ainda não o tinha feito, era
porque só recentemente aprendera bem o grego, e queria
terminar de estudá-los antes que eles lhe fossem subtraídos.
O palácio episcopal estava no caos mais completo. Milhares
de judeus haviam buscado asilo ali, lotando todos os quartos
e salões dos dois andares do edifício. Quem havia sido
menos rápido — entre estes, o próprio Isaac com as filhas —
tivera de se contentar com um lugar no pátio interno,
transformado numa espécie de acampamento desorganizado.
Havia gente que viera só com a roupa do corpo, ao passo que
outros tinham quase esvaziado suas casas, e agora
improvisavam abrigos com seus próprios trastes.
Brigava-se para disputar o espaço disponível. Muito poucos,
aliás, conseguiram dormir. O tempo estava clemente,
embora a primavera tardia da zona renana fosse totalmente
inadequada a servir de cenário para uma noite ao ar livre.
Mas a tensão e a angústia dos que não compartilhavam o
otimismo do rabino alimentaram prantos e gritos até o
alvorecer, impedindo o sono até mesmo dos poucos de
ânimo mais tranqüilo.
Rebeca notou que muitos haviam levado suas armas. Sabia
que, dentro da comunidade judaica, diversas pessoas
possuíam armadura, elmo e espada, mas duvidava de que
algum dia os tivessem usado, mesmo que só em treinamento.
Ela também não tinha dormido. E não se tratava apenas de
sua ansiedade, contra a qual precisara lutar demoradamente
para ter alguns instantes de calma, mas também dos
lamentos e das sacudidelas a que sua irmã a submetia. No
entanto, Sara não experimentava uma grande agitação.
Talvez a experimentasse, na realidade, se tivesse percebido
claramente a situação e os perigos potenciais que pesavam
sobre a comunidade. Suas reclamações se deviam, sobretudo,
ao desconforto, ao aborrecimento por ter que dormir ao lado
de estranhos, longe de sua casa, praticamente no chão.
No meio da noite, Rebeca precisou se levantar e tomá-la pela
mão, conduzindo-a sob a luz fraca das tochas em busca de
uma localização menos incômoda; na outra mão, levava duas
cobertas, a fim de preparar para ela um enxergão decente.
Depois de perambular entre corpos e bagagens e de ouvir
insultos de todo tipo, as duas moças chegaram a um canto do
pórtico onde havia restado um espaço estreito, mas
suficiente para receber o corpo miúdo de Sara. Só então a
jovem caiu num sono leve, que durou até que o sol estivesse
alto no céu.
Rebeca retornou ao seu lugar, junto do pai, e manteve os
olhos abertos até o amanhecer, preparando-se em seguida,
como todos os outros, para a notícia de que o exército dos
peregrinos tinha avançado.
Informações sobre a presença de destacamentos cruzados
diante dos muros chegavam sem parar, mas não vinha
nenhum boato sobre alguma tentativa deles no sentido de
entrar na cidade. Provavelmente, disse Isaac, estavam só
esperando o grosso do exército, ou então negociando o
reabastecimento em munições e víveres.
Rebeca desejou com todo o coração que seu pai estivesse
certo. Mas no meio do dia, quando já quase se convencera
de que era isso mesmo, ouviu baterem freneticamente no
portão do palácio. O pátio inteiro se agitou, e a moça, que
estava longe da entrada, não conseguiu entender o que os
indivíduos que haviam batido disseram aos guardas
colocados pelo bispo para vigiar o portão. Finalmente, a
notícia veio:
— Alguém abriu as portas da cidade! E sem que os peregrinos
pedissem! — disseram ao seu pai.
— Calma, calma! — gritou Isaac aos mais próximos. — Não
há razão para temer. Tivemos amplas garantias quanto à
nossa segurança. Além disso, estamos sob a proteção do
bispo e do margrave. Basta não cometermos tolices ou
agirmos por impulso! Vocês verão que, no máximo, eles vão
entrar só para buscar alguma comida.
Isaac abriu caminho em meio ao tumulto e se dirigiu à
entrada, aonde estava indo também o rabino-chefe
Calônimo bar-Meshulam. Mas já se ouviam outras pancadas
no portão, novamente fechado. Os guardas só abriram após a
insistência dos rabinos, e a informação que receberam,
pensou Rebeca de imediato, devia ser devastadora, porque
imediatamente depois os soldados correram a buscar refor-
ços, e um coro de gritos e lamentos se elevou da parte
próxima ao muro de contorno.
A jovem tentou avançar para falar com o pai, mas percebeu
estar indo contra a corrente. De fato, a grande maioria das
pessoas tentava chegar ao interior do edifício. Enquanto isso,
porém, alguns correligionários, entre os quais o próprio
Calônimo, tiravam de sacas seus armamentos e os
envergavam. Rebeca conseguiu alcançar um dos armados,
agarrou-o pela gola da cota e perguntou:
— Quais são as notícias? O que aconteceu?
— Os peregrinos estão enxameando na cidade. Dizem que as
portas se abriram sozinhas, e consideram isso um sinal do
crucificado.
— Um sinal de quê? — perguntou ela de novo.
— De que devem vingar o sangue dele.
Tudo começou a girar em torno de Rebeca. Ela viu ações e
gestos ao redor, mas, por algum tempo, não teve condições
de estabelecer a seqüência e a localização deles. Viu o portão
ser trancado. Viu outros guardas do bispo acorrerem à
entrada. Viu, ainda, seus amigos e conhecidos envergarem a
cota de malha e se precipitarem rumo à entrada. Viu o
portão vibrar sob as fortes pancadas vindas do exterior.
E depois viu-o escancarar-se de chofre, arremessando para
trás os que se haviam amontoado nas vizinhanças. Uma selva
de lanças, espadas, achas de armas e até forcados avançou,
em busca de sangue.
Sangue judeu.
De repente, Rebeca se deu conta de que o pai se encontrava
perto da entrada e, à diferença de Calônimo, desprovido de
armadura, além de ser velho demais para suportar os
choques da multidão; os rolos estavam a poucos metros dela,
com as pessoas ao redor ameaçando cair em cima dos
documentos de uma hora para outra; Sara se encostava à
parede do palácio, apavorada e trêmula.
Devia protegê-los. Todos eles.
Passou alguns instantes decidindo a quem ou a quê deveria
dar prioridade. Por fim, as circunstâncias decidiram por ela.
Os guardas do bispo limitaram-se a trocar uns poucos golpes
com os cristãos que se espalhavam pelo pátio. Os soldados
haviam percebido que alguns moguncianos tinham se unido
aos peregrinos, e não ousavam enfrentar amigos, conhecidos
e talvez até parentes. Um após o outro, os guardas deixaram
cair a espada e se retiraram para o palácio. Junto ao portão
permaneceram somente os poucos judeus que portavam
armas; todos os outros afluíam, em busca de refúgio, para o
interior do palácio, onde se encontrava o bispo Rothard.
Rebeca se viu no chão, atropelada pelos seus correligionários
em fuga. Tentou rolar para a direita, procurando alcançar a
sacola que continha os pergaminhos, mas seu movimento
bloqueou a corrida de um fugitivo, que acabou lhe caindo
em cima, plantando-lhe no flanco uma cotovelada
involuntária. Logo depois, quando ainda tentava recuperar o
fôlego, ela recebeu no rosto um soco — desta vez,
intencional — do mesmo indivíduo, louco de medo e
furioso por ter sido atrapalhado.
Indiferente à dor no lábio, do qual sentiu fluir o calor do
sangue, estendeu o braço para pegar a sacola dos rolos, que
ela via a pouca distância de si, mas um pé lhe pisou a mão,
provocando uma dor lancinante. Ajoelhou-se e, nessa
posição, encolheu-se sobre a sacola, dizendo a si mesma que
cuidaria primeiro dos pergaminhos, antes mesmo que do pai
e da irmã, só porque estavam mais próximos.
Finalmente, se levantou. A multidão estava um pouco
menos compacta, e os assaltantes ainda eram contidos por
uma fina linha de defesa, constituída por poucas dezenas de
judeus armados. Atrás deles, outros correligionários, homens
e mulheres, jaziam de joelhos e cabeça baixa, ocupados em
rezar.
Entre eles, encontrava-se também Isaac.
Depois Rebeca se voltou. Entre os fugitivos, viu de relance a
irmã, que pedia socorro.
Agora que estava de posse do manuscrito, constatou que sua
escolha se limitava a duas alternativas. Devia tirar dali o pai,
muito próximo dos combates. Mas também devia levar a
irmã para dentro do palácio, visto que Sara não parecia
conseguir fazer isso sozinha.
Em um instante, elaborou a estratégia. Lançou-se em direção
à irmã, distribuindo cotoveladas, empurrões e pontapés até
alcançá-la. Sara urrava desesperada, já sem atentar para o que
acontecia ao seu redor.
— Chega, chega! — gritou-lhe Rebeca. — Sou eu, Sara, sou
eu! — continuou dizendo, até que a irmã demonstrou
reconhecê-la.
— Tire-me daqui, tire-me daqui! — exclamou a jovem,
agarrando-se a ela e apertando-a com força.
— Não será possível. Você tem que fazer isso sozinha.
Preciso pensar em nosso pai, agora. Entendeu? — respondeu
Rebeca, tentando se mostrar firme.
— E eu? Quem vai pensar em mim?
— Escute: você pode perfeitamente se mover com suas
pernas. Portanto, entre no palácio e procure chegar ao
apartamento privativo do bispo. Lá, ninguém ousará tocá-la.
Compreendeu?
— Sozinha eu não consigo, não consigo! — estridulou Sara.
— Você tem que vir comigo!
Rebeca lhe deu um tabefe. Nunca fizera isso, mesmo tendo
tido que servir praticamente de mãe para ela.
— Vá, estou dizendo! — berrou, com toda a determinação e
autoridade de que era capaz.
Funcionou. Sacudida pela reação da irmã, mais do que havia
sido pelo perigo, Sara não disse uma palavra e, enxugando as
lágrimas, moveu-se de início lentamente e depois correndo,
desaparecendo junto com os outros pela entrada do palácio.
Só então Rebeca se voltou, para localizar o pai. Mas o que
viu fez com que ela deixasse cair a sacola com os rolos.
Os adoradores do crucifixo tinham completado a invasão
com sucesso. Eram muitos, ávidos de sangue e de vingança,
cheios de furor destruidor. Por todo o terreno jaziam corpos,
sobre os quais se debruçavam os judeus, ajoelhados, rezando.
A alguns deles os peregrinos e os concidadãos ofereciam a
possibilidade de converter-se, antes de desfecharem o golpe
mortal.
Mas não a Isaac, o qual, expondo a nuca, deu sua resposta
antes mesmo que o interpelassem.
A lâmina desceu, implacável. A cabeça do rabino rolou no
chão e um peregrino jogou-a longe com um pontapé.
Rebeca havia assistido à cena inteira. Horrorizada, soltou um
uivo, que chamou a atenção dos cruzados. Reunindo forças
para vencer o desespero, recolheu a sacola e se aproximou da
entrada do palácio, abrindo caminho entre os feridos que se
amontoavam na soleira.
Atrás de si, ouvia gritarem injúrias de todo tipo contra o
bispo "protetor dos deicidas".
Compreendeu que o edifício não era mais seguro do que o
pátio onde havia visto degolarem o pai. Ainda podia sair, mas
não admitia deixar Sara à mercê daquela turba endemoniada.
Já falhara com o pai, e não se perdoaria se deixasse a irmã
morrer também. Rumou decidida para o primeiro lance da
escada. Mas o caminho estava obstruído pelos
correligionários que tentavam subir, pelos que perdiam o
equilíbrio e escorregavam para o térreo e por todos os que
resolviam se deter para esperar a morte. Ao redor, já não se
via um só guarda do bispo.
Os peregrinos não perderam tempo afastando os judeus que
se acumulavam na entrada. Transfixaram-nos e ergueram os
corpos usando as espadas como alavanca, jogando-os às
costas e irrompendo como demônios no salão do térreo.
Rebeca emborcou uma mesa e se escondeu atrás, grudando-
se à parede e esperando aproveitar o instante mais oportuno
para subir. Ninguém a notou: os cruzados se dirigiam todos
para a escada, onde se oferecia à visão deles o maior número
de alvos. Com o objetivo de abrir caminho para chegar ao
bispo, varreram todos os obstáculos com as armas, já sem dar
a ninguém a possibilidade de se converter. A moça viu pais
subirem precipitadamente arrastando atrás de si os filhos,
mães que carregavam bebês nos braços perderem o
equilíbrio e caírem diretamente sobre a ponta das espadas,
maridos servirem de escudo à fuga das mulheres.
Só saiu do esconderijo quando na sala só restavam os mortos.
Agora, o massacre se transferira para o andar superior, aonde
ela chegou saltando pilhas de cadáveres ao longo dos
degraus, depois de escorregar várias vezes em riachos de
sangue. Nos apartamentos privados do bispo, a atenção dos
cristãos se concentrava mais nas alfaias e nas jóias do que nos
judeus que ainda vagavam pelo palácio.
Quando ainda se encontrava no alto do lance, Rebeca viu
caírem-lhe em cima dois de seus correligionários que se
precipitavam escada abaixo, quase sem serem incomodados.
Outros, ao contrário, haviam se entrincheirado nos
aposentos, cujos acessos os peregrinos tentavam arrombar,
mais para procurar butim do que para continuar matando.
Rebeca compreendeu que a irmã devia estar num daqueles
cômodos: esperou que os adoradores do crucifixo
derrubassem a porta mais próxima, detendo-se na retaguarda
deles. A porta caiu após alguns golpes com o ombro, mas
logo atrás havia uma amassadeira de pão atravessada, e no
fundo do aposento uma mãe com duas filhas pequenas.
Rebeca viu a mulher cortar a garganta das meninas e depois
usar a faca em si mesma, pouco antes de os cristãos
irromperem ali dentro e se atirarem aos móveis e utensílios,
sem lançar sequer um olhar para os três corpos.
O cômodo seguinte já tinha sido aberto e outros corpos
jaziam no chão. Alguns judeus eram puxados para fora, em
lágrimas, pedindo a Deus que os perdoasse pela sua apostasia.
Pelo menos desta vez, Rebeca se sentiu grata pela sua escassa
formosura, que, aliada à grande confusão, contribuía para
fazê-la passar despercebida. Mas ocorreu-lhe que, pelo
mesmo motivo, a irmã corria perigos mais graves do que
qualquer outra.
Olhou mais à frente, e percebeu um grupo de alucinados
correndo em direção a ela, a caminho da escada. Achou que
ia morrer, mas depois atentou para as palavras deles: o bispo
não se encontrava em seus aposentos, e sim na capela, e
estava fugindo. Encolheu-se contra a parede e os deixou
passar; os fanáticos, se por acaso a notaram, não quiseram
perder tempo com ela, enquanto a presa mais ambicionada
estava escapando.
Pouco adiante ficava o apartamento privado de Rothard, para
onde sugerira que Sara fosse. Alcançou-o e viu que a porta
estava arrombada. Lá de dentro provinham risadas
indecorosas.
Depois, também percebeu gritos de mulher.
De mocinha.
Avançou para a soleira, apertando contra si a sacola dos
pergaminhos. Adiantou timidamente a cabeça e viu um
grupo de homens acotovelando-se ao redor do suntuoso
baldaquino do bispo. Todos dirigiam sua atenção para o leito,
e nenhum fez caso de Rebeca, nem mesmo quando sua
figura inteira se recortou no vão.
Um dos idolatras se afastou do grupo soltando imprecações.
Só então Rebeca pôde ver o leito. Viu uma jovem com as
roupas rasgadas, o rosto inchado, os braços e os tornozelos
presos pelas fortes garras daqueles animais.
Era o rosto de Sara, mais escondido por equimoses e sangue
do que pelas silhuetas de seus carrascos.
O homem que se afastara viu Rebeca.
— E você? Está olhando o quê?
— Soltem a moça! — gritou ela, instintivamente.
Os outros também se voltaram.
— Vamos, João, tente com essa aí. Talvez, com as feias, você
consiga! — disse um deles.
Rebeca se retraiu, procurando com o olhar algum objeto que
lhe servisse como arma. Mas o quarto já fora esvaziado de
tudo.
Em seguida ouviu passos atrás de si e, recuando mais,
chocou-se com alguém que vinha chegando às pressas.
Virou-se e viu outros cruzados, outros bárbaros.
Já não havia saída.
— Mas o que estão fazendo? Agora chega! Vocês já causaram
suficientes desgraças! — gritou o homem em quem Rebeca
tropeçara, afastando-a com um empurrão enérgico sem
sequer olhar para ela.
Era o único, notou a jovem, que usava elmo e cota de malha.
Os outros, diante dele, pareciam uns maltrapilhos.
Um dos cruzados que circundavam a cama deu-se ao
trabalho de responder:
— Ora, vamos, Ricardo, deixe-nos terminar. Não é garantido
que tenhamos muitas oportunidades assim no futuro... —
disse, sorrindo afavelmente.
O homem que ele chamara de Ricardo avançou mais, sem
dizer uma palavra. Assim como havia afastado Rebeca,
empurrou dois dos que se apinhavam ao redor do
baldaquino, um dos quais já descera as bragas. Nenhum
pareceu reagir. Claramente, pensou Rebeca, aquele Ricardo
era um comandante, ou então um personagem de algum
modo respeitado e temido. Até porque nem sequer precisara
puxar a espada da bainha.
— Essas coisas não têm nada a ver com nossa tarefa de
converter os judeus ou de fazê-los pagar por seus crimes! —
exclamou o soldado, antes de finalmente pousar o olhar
sobre a vítima das sevícias.
Sua expressão suavizou-se de repente, e ele permaneceu
fitando Sara mais demoradamente do que seria lícito esperar.
Estendeu a mão e lhe segurou delicadamente o pulso,
enquanto a jovem soluçava e, com a outra mão, tentava se
cobrir.
— Não será você quem está querendo se divertir com ela,
hein? — disse um soldado, soltando uma risadinha de
escárnio.
Ricardo nem se voltou. Seu braço esquerdo girou para trás e
o depravado foi lançado ao solo por um poderoso tapa com
as costas da mão.
— Mais alguém acha que eu sou um animal como vocês? —
gritou Ricardo, assumindo novamente a expressão
determinada e autoritária que Rebeca havia percebido no
rosto dele pouco antes. — Saiam daqui, vamos! O conde está
precisando de homens para carregar víveres — acrescentou,
depois de constatar que ninguém ousava lhe responder.
Para surpresa de Rebeca, todos obedeceram e, lentamente,
saíram do quarto. O olhar de Ricardo continuou fixado em
Sara, que, por sua vez, não conseguia desviar os olhos de seu
salvador. Ele tirou o elmo, revelando uma cabeleira louro-
afogueada e a nuca raspada, segundo a moda normanda;
depois segurou a jovem pelas axilas, sentando-a na cama e
ajeitando-lhe ao redor os travesseiros.
— Está sentindo dor? — perguntou, limpando com
delicadeza o sangue do rosto dela com a fímbria do lençol.
— Eu... eu levei muitas pancadas, mas eles não tiverem
tempo de... pelo menos, creio... — respondeu Sara, com um
fio de voz. Seu olhar dizia muito mais.
Rebeca decidiu que chegara o momento de chamar a
atenção para si.
— Agradeço-lhe por ter salvo minha irmã... Ricardo — disse.
Só então ele demonstrou se dar conta da presença dela.
— Certos excessos são intoleráveis, mesmo contra os
assassinos de Cristo — respondeu, dando de ombros.
Rebeca teve um sobressalto. Olhou a sacola com os
pergaminhos e mordeu os lábios.
— Como sabe que foi nosso povo quem matou seu deus?
Você estava lá? Viu o que aconteceu? — retrucou, irritada.
— Todos sabem. Está escrito nos Evangelhos e os padres
afirmam isso há séculos — replicou o homem. — Mas eu
não me importo muito com essas coisas. Seja como for, se
quiserem evitar outros problemas, vocês devem ir embora
daqui. Eles virão procurar butim — acrescentou, decidido.
— Você nos acompanha? — pediu Sara, imediatamente.
— Só até o pátio. Depois, terão de se arranjar, a não ser que
prefiram ir para sua casa. Mas desconfio que o bairro judaico
já foi todo revirado — respondeu Ricardo, esboçando até um
sorriso.
— Mas você é um cavaleiro importante. Poderia nos proteger
— replicou a jovem, fazendo uma espécie de beicinho.
— Eu não sou um cavaleiro.
— Um guerreiro famoso?
— Também não. Sou apenas um errante que vai pelos
bosques em busca de lenha, mel e mais o que possa ser útil
aos senhores ricos. E tive a sorte, durante uma caçada, de
salvar de um urso o conde Emich, que depois se lembrou de
mim e me confiou um comando subordinado — respondeu
pacientemente Ricardo, enquanto ajudava Sara a se levantar.
— E quantos judeus vocês ainda pretendem massacrar, antes
de cruzarem armas com um muçulmano? — insistiu Rebeca,
sem saber se o estava alfinetando por causa de seu natural
espírito polêmico ou para desviar a atenção dele em relação à
irmã.
— Se não parar com isso, você pode até ser o único judeu
que eu vou matar — retrucou ele, enquanto lhe agarrava um
braço e a puxava para fora do quarto, segurando, com a outra
mão, a de Sara.
O ruído de passos provenientes do andar inferior o induziu a
estacar antes de transpor a soleira.
— Já estão chegando. Não sei se poderei detê-los, se não
pertencerem à minha unidade. Exceto se disser que vocês se
converteram... — sugeriu, virando-se para Sara.
— Bem... até poderíamos... — arriscou-se a dizer a jovem,
olhando timidamente para a irmã mais velha.
— Está brincando? — reagiu Rebeca. — Nosso pai, um
rabino, morreu oferecendo o pescoço aos idolatras, e nós,
por medo, vamos renunciar à nossa fé?
— Seria só para salvar a pele. Depois, quando sairmos, vocês
podem voltar aos ritos que preferirem... — disse Ricardo,
respondendo a Rebeca, mas fitando Sara.
— Nem pensar. — Foi a resposta da irmã mais velha. Sara se
submeteu baixando a cabeça, encabulada pelo que lhe
parecia um excesso de zelo.
Ricardo suspirou e balançou a cabeça, finalmente olhando
para Rebeca, mas de esguelha. Depois perscrutou ao redor,
detendo-se finalmente na janela.
— Só há um caminho para sair daqui — disse, levando-as
para diante da abertura. Em seguida se debruçou à janela e
olhou para cima. — Como eu imaginava. Falta pouco para o
telhado. Se eu as impelir, vocês devem alcançá-lo.
— E depois? — perguntou Rebeca, não muito convencida.
— Depois, tentem subir ao topo apoiando-se nas telhas, e
esperem ali até que eu vá buscá-las. Mesmo que se passem
muitas horas.
Imediatamente, para ganhar tempo, soergueu Sara, que,
docilmente e com certa complacência, se deixou içar para
além do vão.
— Conseguiu? — perguntou, depois de elevá-la até o máximo
de suas possibilidades.
— Pronto, já estou no telhado — respondeu a jovem lá de
cima.
Ricardo olhou para Rebeca.
— E então? Vamos nos mover? — disse, impaciente.
Ela hesitou, desconfiada.
— Se incendiarem o edifício, teremos um fim terrível.
— Duvido que cheguem a tanto. De qualquer modo —
redargüiu Ricardo, acenando com a cabeça para a porta, de
onde provinham cada vez mais fortes os rumores da turba
que se aproximava —, você sempre pode escolher outro
destino... — Pela primeira vez, não usou com ela um tom
duro. Apenas zombeteiro.
Rebeca refletiu por mais um instante. Não sabia se o que
mais a incomodava era dar razão àquele idolatra ou permitir
que ele a tomasse nos braços. Decidiu que tudo devia se
subordinar à salvação delas e dos rolos e, dispensando a ajuda
dele, içou-se sozinha ao parapeito da janela, levando consigo
a sacola. Então esperou que Ricardo a segurasse pelos
tornozelos e a impelisse para o alto.
— Seria mais fácil se você deixasse essa sacola no chão —
disse o homem.
— De modo algum — respondeu ela, apertando os
pergaminhos ainda mais contra o corpo.
Ricardo suspirou de novo e se decidiu a içá-la, enquanto ela
tentava passar a sacola a Sara. Esta, porém, tinha se apressado
a alcançar o topo e, ao ser chamada pela irmã, precisou
voltar com cautela até a parte mais inclinada. As telhas
tremiam, ameaçando soltar-se. Sara parou, mas ainda estava
muito longe da borda para conseguir receber os rolos das
mãos de Rebeca.
— Venha, estou mandando! — bradou Rebeca.
— Andem depressa, maldição! — berrou Ricardo.
Da escada, provinham vozes:
— Aqui estão todos mortos! Vejamos se lá em cima alguém
ainda está vivo.
Rebeca também ouviu. Com uma das mãos, agarrou-se à
borda do telhado e gritou à irmã:
— Bom, fique onde está. Vou jogá-la para você agora. Tente
pegá-la!
Depois escutou a irmã reclamar que não conseguiria fazer
isso, mas jogou assim mesmo, aterrorizada pelas vozes hostis
cada vez mais próximas.
Sara estendeu instintivamente as mãos para pegar o objeto,
mas enrijeceu todo o resto do corpo para se manter ancorada
à superfície do telhado.
Falhou.
A sacola aterrissou sobre as telhas, pouco distante dela, e
escorregou lentamente, seguindo o declive. Sara proferiu
uma expressão irritada, e, só por isso, Rebeca, cujo rosto
estava sob o beirai, percebeu que ela não tinha conseguido.
Instintivamente, ergueu as mãos, às cegas, agarrando a sacola
um instante antes que ela caísse no vazio. Mas seu impulso
repentino balançou Ricardo, que quase caiu também. O
homem se abaixou de repente, e esse movimento fez Rebeca
perder o equilíbrio. Ela oscilou para trás, rumo ao vazio.
Ricardo conseguiu se firmar nos joelhos e, colando-se à
parede abaixo da janela, continuou segurando os tornozelos
de Rebeca, que agora pendia de cabeça para baixo. Com
grande esforço, puxou-a para dentro e, enquanto recuperava
o fôlego, ouviu as vozes se tornarem cada vez mais
próximas.
Jogou o elmo no chão e tirou a cota de malha. Em seguida,
puxou a espada da bainha, provocando um sobressalto em
Rebeca, e cortou a armadura, dividindo-a em duas partes
unidas por uma tira delgada de argolas de ferro. Então se
esticou para fora da janela.
— Como se chama sua irmã? — perguntou a Rebeca.
— Sara. E eu me chamo... — começou ela a responder.
— Sara! Sara! Pegue estas argolas que vou lhe jogar e segure
firme! — interrompeu-a Ricardo, içando-se até o parapeito.
O lançamento deu certo na primeira tentativa. Então ele
arrancou a sacola das mãos de Rebeca e a prendeu à corda
improvisada. Depois gritou a Sara que puxasse, enquanto
descia da janela e acenava a Rebeca para subir. De novo,
içou-a, e, desta vez, livre do fardo, a jovem conseguiu
alcançar o telhado.
— Encontro vocês mais tarde. Se puder — gritou Ricardo
para ela, quando a julgou em segurança.
Um instante depois, os outros peregrinos irromperam no
quarto.
— O que lhe aconteceu? — perguntaram, enquanto as duas
irmãs escutavam.
— Nada... Alguns judeus desesperados me atacaram e
rasgaram minha cota de malha. Consegui me livrar e os
joguei lá embaixo, mas um deles levou consigo a armadura...
— respondeu o soldado, deixando que os companheiros se
debruçassem à janela para confirmar suas palavras. O solo
estava cheio de corpos trucidados, e eles não tiveram
dificuldade de acreditar.
E isso tampouco lhes importava.
Rebeca aproveitou o amplo ângulo de visão que o telhado
lhe oferecia para observar ao redor. Do bairro judaico subiam
chamas, e gritos ferozes provinham de todas as direções.
Gritos selvagens por parte dos peregrinos, mas também dos
próprios moguncianos, que, no entanto, até aquele dia, não
haviam mostrado clara hostilidade ante os judeus.
Recordou as longas discussões com o pai, aquele pai que ela
vira ser degolado pouco antes. Várias vezes os dois tinham
divergido quanto à necessidade de tornar público o
memorial, e Isaac sempre fizera a mesma objeção: as coisas
não pareciam ameaçar precipitar- se dentro de pouco tempo.
E, no final, as coisas haviam se precipitado. Mais do que se
poderia imaginar. Bandos imensos de cristãos enlouquecidos
percorriam a Europa massacrando todos os judeus que
podiam, a despeito de acordos, resgates e seguros de todo
tipo. Mesmo que a situação voltasse à normalidade, após o
delírio pelas expedições ao Oriente, como seria possível
viver entre comunidades que haviam se mostrado dispostas a
agredi-los com ferocidade inaudita, sob governantes
incapazes de defendê-los ou até mesmo determinados a
prejudicá-los?
Não, agora os judeus já não podiam pensar em viver na
Europa.
Olhou para Sara. Apesar dos maus-tratos, o rosto dela ainda
conservava um oval perfeito, os traços ainda eram delicados
e harmoniosos. As roupas estavam rasgadas e talvez, pensou
Rebeca, seu corpinho delgado sentisse frio. A irmã acabara
de sofrer uma experiência que marcaria qualquer mulher. No
entanto, mostrava uma expressão nem um pouco angustiada,
deprimida ou desesperada. Seus olhos miravam longe,
sonhadores, e em sua boca se desenhava a sombra de um
sorriso.
Rebeca não teve dificuldade para identificar em Ricardo o
motivo daquela recuperação repentina. Para a irmã, aquele
belo normando que a salvara representava o primeiro
homem de verdade que se materializava a partir de seus
sonhos.
E era um idólatra. Um daqueles que as perseguiam, embora
por um instante tivesse sido movido pela compaixão,
salvando-as.
Não. De maneira alguma. Não podia permanecer na Europa e
correr o risco de sua irmã acabar nas mãos de algum daqueles
sanguinários adoradores do crucifixo.
Só havia um lugar para onde podia pensar em levar Sara e os
rolos, disse Rebeca a si mesma. Um lugar cujos governantes
eram mais tolerantes do que aqueles selvagens. Um lugar
razoavelmente seguro, aonde aquela gentalha desorganizada
jamais chegaria.
Jerusalém.
VI
Jerusalém, agosto de 1098.
Os turcos assediados pelos árabes fatímidas
O tiro do trabuco abalou pela enésima vez os muros da
cidade sitiada pelos árabes. O emir Jamal al-Ashraf ficou
satisfeito ao ver que aquele setor do circuito de muralhas
também começava a dar sinais de desmoronamento. De fato,
o grão-vizir Shah-an-Shah al-Afdal havia confiado
justamente a ele a coordenação das quarenta máquinas de
arremesso que o exército fatímida, conduzido pelo grão-vizir
em pessoa, havia trazido do Egito.
Tarefa nada simples a sua. Os árabes possuíam o mais
consistente e moderno parque obsidional que já fora visto
nos campos de batalha havia longo tempo. Máquinas capazes
de esboroar, com tiro cruzado, as mais sólidas muralhas, até
mesmo as de Jerusalém, renomadas por sua espessura; apesar
disso, o grão-vizir havia recomendado não danificar demais
o circuito, e sim fazer um trabalho suficiente para induzir os
turcos a se renderem.
Ordens desse tipo podiam custar a carreira de qualquer
comandante subordinado. Somente com a ajuda de Alá um
humilde mortal poderia acertar a justa medida nos
bombardeios, sem provocar a repreensão do comandante
supremo. Não por acaso, nos quarenta dias passados desde o
início do cerco, várias vezes o grão-vizir tinha manifestado
sua impaciência pelos escassos resultados obtidos, que
haviam prolongado o empreendimento além das mais
razoáveis expectativas.
Aqueles dois governadores turcos, os irmãos Soqman e
Ilghazi, sabiam agir como guerreiros, pensou admirado o
emir, embora tivessem fama de péssimos administradores.
Justamente por isso, os árabes haviam chegado diante dos
muros convencidos de que os dois não conseguiriam o apoio
da população, e confiantes de que a cidade lhes seria
entregue com a simples ameaça de um assédio. No entanto,
haviam realmente precisado manter o cerco.
Os turcos até se permitiram algumas surtidas. Jamal al-Ashraf
tinha perdido três trabucos. Três máquinas de lançamento
destruídas pelo fogo, ateado durante os ataques noturnos aos
seus acampamentos, por pelotões saídos sabe-se lá de onde.
O assédio ameaçava prolongar-se tanto quanto o de vinte e
dois anos antes, com os papéis trocados: naquele então, os
turcos seljúcidas, de fé sunita, haviam subtraído a cidade aos
árabes, desencadeando em seguida o massacre de todos os
muçulmanos xiitas ali residentes.
Desta vez, a coisa não evoluiria do mesmo modo, jurou a si
mesmo o emir. "Nós, árabes, somos mais evoluídos que os
turcos", refletiu. "Não devemos descambar para os excessos
desses neófitos do Islã, cuja ferocidade não é mitigada pelas
palavras do Profeta."
Ainda assim, convinha ganhar tempo, pensou. Os francos,
aqueles ocidentais que se definiam como "cruzados",
estacionavam havia meses em Antioquia, litigando sobre
quem devia governar a cidade conquistada. Mais cedo ou
mais tarde, porém, prosseguiriam sua campanha rumo ao sul:
com a pesada derrota que haviam infligido ao poderoso emir
turco Kerbogha, de Mossul, e aos seus aliados, ao norte não
havia mais ninguém que pudesse ameaçá-los seriamente, e
era presumível que, com a retaguarda logística assim
garantida, voltassem o quanto antes suas ambições para a
Palestina. Pelo menos, essa era a impressão que os
embaixadores do grão-vizir tinham tido em sua visita a
Antioquia. A atitude dos francos mudara. Já não pareciam
inclinados a uma aliança franco-egípcia contra os turcos,
com vistas a repartir os territórios seljúcidas.
Eles queriam Jerusalém para si.
E, o que era pior, o imperador bizantino não parecia capaz
de fazer valer seu peso político sobre os francos, e muito
menos a própria soberania nos territórios que estes haviam
reconquistado. As relações diplomáticas que, no passado,
Jamal estabelecera em Constantinopla tinham sido
praticamente liquefeitas pelo avanço franco. Os sucessos dos
ocidentais, e sua progressiva emancipação perante o império,
inutilizavam a intercessão do imperador em favor da aliança
franco-egípcia, além de esvaziarem qualquer acordo que o
grão-vizir pretendesse estipular com Constantinopla.
Por isso, era necessário conquistar logo a cidade, mas
danificando suas defesas o mínimo possível. Havia a
possibilidade concreta de precisar suportar um assédio por
parte dos francos. Não que eles constituíssem uma grande
ameaça: tinham conquistado Antioquia somente graças à
traição, estavam profundamente divididos e já extenuados
pela campanha, e tampouco podiam dispor de equipamento
bélico adequado. Não conseguiriam expugnar Jerusalém, se a
encontrassem íntegra por obra dos árabes.
Até lá, porém, era preciso conquistá-la, al-Quds, "a Santa".
— Emir, emir! — ouviu que o chamavam. — Sua Excelência
o grão-vizir ordenou que sejam suspensas as operações. Uma
delegação de turcos veio parlamentar — disse um soldado,
assim que se aproximou. "Já era hora", pensou Jamal, e
perguntou:
— Já se sabe de alguma coisa?
— Eles ofereceram a rendição, em troca da possibilidade de
saírem em segurança — respondeu o subordinado.
De novo fatímida, finalmente. A Santa, a cidade que o
Profeta situava abaixo somente de Meca e Medina, estava
mais uma vez em mãos árabes. Ao entrar no séquito do grão-
vizir pela Porta de Jaffa para tomar posse de Jerusalém, Jamal
al-Ashraf não pôde evitar observar com olhar de peregrino e
de fiel a cidade que, por quarenta longos dias, havia
observado como guerreiro.
A majestade do circuito de muralhas apresentava-se
parcialmente reduzida pelos evidentes danos aos muros e
torreões. Reconstituir plenamente sua eficiência daria
trabalho, pensou, antes de se censurar por ter feito, apesar de
tudo, uma consideração de caráter militar. O emir balançou a
cabeça e transpôs a porta, vendo pairar acima de si a
imponente silhueta hexagonal da cidadela, a chamada Torre
de Davi.
Depois, a cidade. Uma selva de habitações dispostas em
vários níveis, entremeadas por edifícios religiosos e
pontilhadas por minaretes, estendia-se até onde seu olhar
podia alcançar. Era o fundo do cenário no qual se haviam
instalado os dois governadores, com seu estado-maior e a
guarda pessoal. Tinham feito de tudo, pensou o emir ao vê-
los, para não dar a impressão de haver cedido por se
encontrarem em dificuldade; quase todos os componentes
da delegação trajavam elegantes muqallah de brocado, com
aplicações nas orlas, nas faixas e na gola, de cores berrantes e
vivazes, com figuras geométricas ou florais. As calças eram
longas e nas laterais corriam outros motivos decorativos. Os
adereços de cabeça variavam desde os clássicos turbantes,
arrematados na testa por um rubi, até os chapéus dos quais
pendiam até o pescoço abas bordadas. Um dos guardas usava
um chapéu rígido, de forma vagamente triangular, alto,
margeado de peliça e com uma tira metálica na testa. Os
bigodes deles eram extremamente bem-cuidados, e os mais
longos eram atados nas extremidades.
Alguns traziam pendurada à sela, ao lado da ampla aljava,
uma mortífera clava com dentes em ponta, e nenhum,
naturalmente, estava desprovido de arco. Os escudos eram
redondos ou em forma de flor, com a borda recortada em
pétalas hemisféricas. Alguns dos turcos portavam no flanco
espadas curvas, outros, muito curtas, e outros, ainda, longas e
de lâmina reta.
Os soldados pareciam enfeitados para uma parada: exibiam
bainhas bordadas em ouro e prata, armas luzidias bem
evidentes, armaduras e corseletes resplandecentes, e
montavam cavalos tratados e bem-nutridos. Não davam em
absoluto a impressão de gente reduzida ao extremo por mais
de um mês de assédio. No entanto, não seria difícil descobrir
se aquilo não passava de uma fachada: afinal, os outros
soldados deveriam se apresentar, e era bem improvável que
aparecessem nas mesmas condições.
Shah-an-Shah al-Afdal e os dois governadores depostos
desenvolveram com grande cortesia recíproca a cerimônia
de transmissão do cargo, à qual Jamal assistiu com certa
relutância e com impaciência. Agora que, após quarenta dias
de antecâmara, havia colocado os pés em Jerusalém, o emir
estava ansioso por ir rezar na mesquita construída sobre a
rocha sagrada de onde Maomé subira ao céu, no lado oposto
da cidade. Justamente àquela rocha, antes mesmo que o
edifício fosse erguido, o califa Omar planejara ir, assim que
os árabes, quatro séculos e meio antes — e apenas poucos
anos após a morte do Profeta —, haviam conquistado "a
Santa", tirando-a dos bizantinos. E, como Omar, também o
grão-vizir ambicionara entrar em Jerusalém montado num
camelo branco.
A atenção de Jamal, que depois das primeiras formalidades
vinha se deslocando progressivamente para aquilo que o
circundava, foi atraída de repente pelo gesto de um cavaleiro
da guarda pessoal dos dois ortoquidas: aquele com chapéu
rígido. Com um movimento repentino, o guerreiro extraiu a
espada da bainha e, antes que os guardas fatímidas pudessem
reagir, lançou-a com violência.
No chão.
Não havia errado o golpe. Havia justamente pretendido
fincar a lâmina no terreno. Também perceberam isso os
guardas árabes, que, num primeiro momento, puxaram
igualmente suas espadas e se prepararam para jogar-se contra
aquele turco. Depois de constatarem que ele se desarmara
por conta própria, contiveram-se à espera de ordens.
Todos fitaram o grão-vizir, para ver sua reação. Este, que
justamente nesse momento se encontrava no meio do
caminho entre as duas fileiras, junto com Soqman e Ilghazi,
instintivamente colocou- se entre os dois comandantes
turcos.
— O que significa esse gesto? — perguntou, voltando-se
diretamente para um dos dois interlocutores.
— Nada com que você deva se preocupar, na verdade —
apressou-se a tranqüilizá-lo Soqman. Ou talvez fosse Ilghazi.
— Aquele homem não aceitou nossas decisões quanto à
rendição, e esse é seu modo de manifestar isso...
— E vocês permitem a um subalterno tal manifestação de
discordância? Que raça de comandantes são vocês? —
observou o grão- vizir, escandalizado.
A voz do governador se fez mais baixa. Mas não o suficiente
para que Jamal não pudesse ouvi-lo.
— Veja bem... ele é uma espécie de herói para a tropa —
apressou-se a dizer, embaraçado. — Não é apenas um
guerreiro de grande experiência, com muitas campanhas nas
costas; também foi ele quem conduziu com sucesso as
surtidas, incendiando as máquinas de vocês. Se o
puníssemos, poderíamos provocar uma revolta dos soldados,
e aí mesmo é que não se conformariam às nossas decisões.
Afinal de contas, trata-se de um guerreiro leal, que se
submete às ordens, limitando-se a manifestar sua
divergência. Em última análise, ele até constitui um bom
exemplo para quem tiver sangue quente: é a melhor
demonstração de que convém se adequar ao comando de um
superior, mesmo que não se esteja de acordo...
Com que então, aquele era o fulano que destruíra as
máquinas e fora esperto o bastante para não se deixar
apanhar, pensou Jamal. O emir perscrutou o cavaleiro. A
expressão carrancuda e ameaçadora deste acentuava as
muitas rugas que lhe sulcavam o rosto, nas poucas partes
expostas. A barba, em grande parte branca, constituía-se de
uma longa ponta sob o queixo, ao passo que sob as faces
corria uma linha sutil e apenas esboçada. Apesar da idade
sem dúvida avançada, o físico robusto e compacto dava a
impressão de grande força, e o olhar, fixo à sua frente,
mostrava extrema determinação.
Jamal viu que o grão-vizir também havia observado o
homem.
— O que você não aprova, soldado? — perguntou al-Afdal ao
cavaleiro, demonstrando um interesse insólito por um
obscuro combatente.
O homem não pestanejou. E, por um período de tempo
superior ao que o respeito pelo grão-vizir impunha, sequer
moveu os lábios.
— Esta rendição prematura — respondeu finalmente,
lacônico.
— Acha que vocês poderiam ter vencido? — decidiu-se
Jamal a intervir.
— Acho que poderíamos resistir muito mais tempo, impondo
à população e a nós mesmos um regime mais austero, sem
dissipar as provisões em rega-bofes. — Só então ele moveu
fugazmente os olhos, na direção de seus dois comandantes.
— E acho que poderíamos ter adotado táticas defensivas
mais eficazes, se tivéssemos tido a disposição de reforçar à
noite as porções de muro danificadas durante o dia, ou de
promover mais surtidas.
— E isso lhes permitiria manter a posse da cidade? — insistiu
o grão-vizir, calando com um gesto do braço os dois
governantes impacientes por intervir.
— Talvez. Talvez tivesse induzido vocês a renunciar ao
assédio. Ou talvez apenas nos permitisse conquistar o
respeito dos adversários. O que não é pouco, para um
combatente profissional como eu.
— Bem, agora você é livre, segundo as condições
estabelecidas pelos seus chefes. Livre para ir combater em
outro lugar e ganhar novamente o respeito dos adversários
que vier a enfrentar — retrucou o grão-vizir, considerando
encerrada a questão.
— Não combaterei mais para chefes tão indignos —
acrescentou, porém, o cavaleiro.
Al-Afdal não considerou esta última declaração importante a
ponto de fazê-lo se voltar para responder mais uma vez. Mas
Jamal quis prosseguir:
— Peço-lhe desculpas, grão-vizir — disse em voz alta,
virando-se para seu comandante em chefe, mas tratando de
se fazer ouvir também pelo soldado. — Precisamos de
homens valorosos assim. Se este aí não quer mais combater
pelos turcos, eu gostaria de tê-lo na minha guarda, com sua
aprovação.
— Por que não? — disse o grão-vizir, dando de ombros. —
Naturalmente, você assume todas as responsabilidades.
Espero que tenha percebido bem o caráter dele —
respondeu.
Jamal se dirigiu então ao homem:
— Ouviu, soldado? Se quiser, pode fazer parte da minha
guarda pessoal — disse.
Finalmente o cavaleiro moveu o rosto e os olhos, encarando
o interlocutor.
— Durante as surtidas, eu o vi coordenar a reação dos seus.
Constatei que o senhor é um chefe valoroso e hábil. Aceito.
— Muito bem — concluiu o emir. — Como é o seu nome?
— Firuz — respondeu o turco.
Após a transmissão dos cargos de direção da "Santa", o grão-
vizir pôde afinal visitar a Cúpula da Rocha. Mas não Jamal, a
quem al-Afdal havia confiado a tarefa de ir ao bairro judaico
para tranqüilizar os habitantes, a fim de que não temessem
que suas garantias viessem a desaparecer com o revezamento
entre o governo turco e o árabe. O emir levou consigo Firuz
e outros três componentes de sua guarda e se deslocou para
o norte, deixando-se preceder justamente pelo turco, que
lhe serviu de guia.
O encargo havia suscitado um certo aborrecimento em
Jamal. E não só porque postergava sua visita à Rocha. Em
relação aos judeus, sempre alimentara sentimentos
ambivalentes; os mesmos, aliás, que transpareciam nos
Textos Sagrados. Como os cristãos, os judeus
compartilhavam com os muçulmanos a origem a partir de
Abraão, através dos dois filhos deste, Isaac e Ismael: o
primeiro, progenitor de Israel, e o segundo, dos árabes,
mas... mas Maomé tivera problemas com eles, em Medina, e
o Corão dizia que "terão fogo na outra vida porque se
separaram de Deus e de Seu enviado".
— Com quem você serviu, em suas campanhas? —
perguntou o emir à sua nova aquisição, mais para enganar o
tempo do que por interesse real.
— Com o sultão Alp Arslan e o emir Taraug, na campanha
que culminou com a grande vitória de Manzikert —
começou Firuz a enumerar. — Naquela guerra, eu me
infiltrei no exército bizantino do imperador Romano IV
Diógenes. Depois passei às ordens de Atsiz ibn-Abaq,
participando da primeira conquista de Jerusalém e da de
Damasco. Mais tarde servi com o príncipe Tutush até a
defesa de Alepo, para em seguida entrar no exército de
Jerusalém do príncipe Ortoq: um grande chefe militar, com
o único defeito de ter deixado dois herdeiros imbecis.
— Você diz sempre o que pensa, é? — comentou Jamal.
— Não teria respeito por mim mesmo, se não o fizesse. Tive
que mentir até às pessoas de quem eu aprendera a gostar,
quando estive infiltrado, e isso não me agradou nem um
pouco.
O turco girou para a esquerda, seguindo mais devagar para
ter ao seu lado o emir. Jamal notou que ele não tinha uma
das mãos, a esquerda, cujo coto o escudo havia escondido até
então.
— E a mão? Como você a perdeu? — perguntou, curioso e
impressionado pela coragem demonstrada por um homem
maneta.
Firuz deu de ombros.
— Foi na batalha por Alepo, contra Solimão ibn-Kutulmish.
Um adversário conseguiu trespassar meu escudo com um
golpe aproximado de lança, e a ponta perfurou também meu
pulso.
— E depois? — insistiu o emir. — E estranho que o
ferimento não tenha cicatrizado sem que você perdesse a
mão.
— Não podia. Não depois que usei a haste da lança como
alavanca para desequilibrar os três adversários que estavam à
minha frente, matando-os em seguida com a cimitarra...
Arrepiado, Jamal imaginou a cena. Aquele indivíduo
baixinho, atarracado, quase um monstrengo, tivera o topete
de abater três inimigos com uma haste que ele sequer
segurava com a mão, mas sim sustentava através do pulso e
do escudo...
Sim. Tinha feito uma boa aquisição.
De fato, precisava de um guerreiro tarimbado, no qual
pudesse confiar. Alguém a quem pedir conselho
veladamente, sem oferecer aos seus pares pretextos para
notar sua relativa inexperiência militar. Sua vida transcorrera
em grande parte no Cairo, à sombra dos jogos de poder entre
os grão-vizires e os califas, ou então como membro de
missões junto aos Estados e as potências que lidavam com o
califado fatímida. Embora tivesse estudado longamente as
táticas de guerra e as técnicas de combate aproximado,
jamais tivera, até então, a possibilidade de colocá-las em
prática.
Só graças às amizades influentes de que usufruía havia
conseguido um posto de destaque no exército que al-Afdal
havia conduzido à Síria. Precisava de muito mais para
construir o perfil de guerreiro e de comandante ao qual
aspirava, e ao qual seu patrimônio e seu nascimento o
predispunham naturalmente. E estava bem determinado a
não recuar diante de nenhum desafio, assim como a
aprender tudo que houvesse para aprender. Com a
humildade prescrita pelo Profeta, que havia dito: "Não
caminhes sobre a terra desdenhoso e altivo: não a podes
despedaçar nem poderás lançar-te acima das altas
montanhas."
Talvez esse Firuz fosse a pessoa adequada para aconselhá-lo.
Essa constatação, porém, não atenuou seu mau humor pela
tarefa que o aguardava. Não era um encargo daqueles que
pudessem lhe servir para aumentar sua estatura de guerreiro,
e diplomata ele havia sido até por tempo demasiado, em sua
precedente carreira civil. Portanto, foi com ânimo ainda
contrariado que transpôs os limites do bairro hebraico.
Viu que era esperado. Evidentemente, pensou Jamal, os
judeus haviam prodigalizado muito ouro para estimular os
dois governadores derrotados a defender a causa deles junto
aos vencedores, e estavam ali aguardando os resultados do
investimento. Era dinheiro desperdiçado: o grão-vizir não
tinha nenhuma intenção de prejudicá-los, nem a eles nem à
exígua comunidade cristã que vivia um pouco mais a
sudeste, em bairro próprio.
Eram muitos, nas ruas. Formara-se uma aglomeração, na qual
lhe pareceu perceber as pessoas mais velhas na primeira fila.
Deviam ser os rabinos, ou pelo menos os chefes da
comunidade. Um deles, que envergava um chapéu de abas
largas, uma peliça sobre os ombros, um manto e uma túnica
que desciam até os tornozelos, foi ao encontro de Jamal.
— Ilustre emir, estamos gratos pelo generoso interesse que...
— tentou dizer.
Jamal lhe acenou que parasse.
— Eu falo grego. Não precisa se esforçar para se expressar em
árabe — disse e, quando o outro inclinou a cabeça em sinal
de deferência, desceu do cavalo e anunciou: — Vim
tranqüilizá-los quanto às intenções do grão-vizir, que
representa nosso califa al-Mustali. Reconquistamos a cidade
que nos foi deslealmente subtraída anos atrás, e nossa
presença, longe de constituir uma ameaça para os interesses
de vocês, e tampouco para os dos cristãos, é, sobretudo, uma
garantia de maior segurança para sua incolumidade e para
seus negócios. Dentro em pouco, nossa autoridade será
restaurada em toda a região, tornando mais seguras as vias de
comunicação e, portanto, dando-lhes a possibilidade de sair e
entrar na cidade sem correr o risco de serem agredidos por
bandos de salteadores, que os turcos não se ocupavam em
controlar. Temos conhecimento do péssimo regime a que os
últimos governantes submeteram a cidade — acrescentou.
— Nossa administração será mais equânime e se preocupará
com restituir prosperidade aos que tiveram motivo para
lamentar-se sob o governo turco. O grão-vizir deixará um
governador em Jerusalém, ao qual vocês poderão recorrer na
certeza de que seus pedidos serão escutados.
— E como nos arranjaremos com os francos que
conquistaram Antioquia e assolam impunemente a Síria?
Uma voz de mulher.
Das fileiras posteriores.
— Quem falou? — gritou o emir.
A aglomeração ondulou no centro, abrindo-se para deixar
passar alguém. Do tumulto emergiu uma mulher, de traços
nada delicados, mas de postura altiva e determinada,
totalmente desprovida, logo avaliou o emir, da sujeição que
deveria experimentar no meio de tantos homens e perante
um conquistador.
Uma vez diante dele, ela não abriu a boca. Esperou que ele
falasse.
Que descarada!
— O que deseja saber, então? — inquiriu Jamal, fazendo um
enorme esforço para dissimular seu aborrecimento.
— Aquilo que todos gostariam de saber, mas não têm
coragem de perguntar — retrucou a mulher, olhando ao
redor e recebendo miradas embaraçadas ou de desprezo. —
Como pode o senhor nos pintar um quadro tão idílico,
omitindo a possibilidade concreta da chegada de um exército
poderoso e sedento por conquista?
Era uma pergunta à qual Jamal não tinha vontade de
responder. Até porque era a mesma que faria ao grão-vizir.
Antes da resposta, deixou passarem alguns instantes. Esperou
que não tomassem tal atitude por indecisão, mas apenas pelo
tédio de ter que falar com uma pessoa que não tinha título
para se dirigir a ele.
— Todos os peregrinos cristãos que desejarem chegar em paz
a Jerusalém serão bem-vindos — disse, afinal. — Os
armados, porém, não serão aceitos. Seja como for, esses a
que você se refere ainda estão longe, e nada nos faz pensar
que desejem, e, sobretudo, que possam, alcançar Jerusalém.
Quero lembrar a todos que há negociações em andamento
não só com o imperador, por conta de quem eles agem, mas
também com os chefes dos próprios francos, a fim de che-
garmos a uma distribuição dos territórios tomados aos
seljúcidas e definir as respectivas zonas de influência. — Era
uma história velha e obsoleta, mas convinha repassá-la agora.
— Eles não se deterão, acredite — rebateu a mulher. — Sei o
que estou dizendo. São movidos por um furor cego, que os
torna incapazes de dar um limite às ações cometidas em
nome de sua fé.
Logo depois de falar, a judia se deslocou um pouco, e os
olhos de Jamal caíram sobre a pessoa que estava
imediatamente atrás dela.
Outra mulher.
Mais jovem.
Mais bonita.
A mais bonita que ele já vira.
SEGUNDA PARTE
ASSALTO
E aconteceu que, terminadas essas parábolas, Jesus partiu
dali. E, tendo-se dirigido à sua pátria, ensinava às pessoas que
freqüentavam a sinagoga, e estas se maravilhavam e diziam:
"Mas de onde lhe vieram essa sabedoria e esses milagres?
Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama
Maria e seus irmãos, Tiago, Judas, José e Simão? E suas irmãs
não estão todas entre nós?"
Mateus 13, 53-56
E os numerosos ouvintes se espantavam e diziam: "De onde
lhe vem isso? E que sabedoria é essa que lhe foi dada? E esses
prodígios realizados por suas mãos? Não é ele o carpinteiro,
o filho de Maria, o irmão de Tiago, de José, de Judas e de
Simão? E suas irmãs não estão aqui entre nós?"
Marcos 6, 2-3
Feito isso, desceu a Cafarnaum junto com sua mãe e seus
irmãos.
João 2,12
Jerusalém, 70 d.C.
Zoker conferiu se trazia no flanco a sica, o punhal recurvo
que os zelotas utilizavam para suas execuções. Depois
concentrou-se na escolha do itinerário menos perigoso.
Esperou que a noite caísse definitivamente e então moveu-
se rumo à trincheira inimiga que o separava do monte das
Oliveiras, em busca de um ponto pouco vigiado e
transponível. Recolheu uma dolabra esquecida no chão por
algum legionário romano e, muito lentamente, portando
aquela espécie de picareta, desceu de volta a encosta,
aproximando-se gradativamente da barreira. Como previa, a
trincheira era escassamente controlada. A parte oriental da
cidade já se encontrava inteiramente nas mãos dos romanos,
que agora dirigiam seus esforços à parte oposta, diante do
palácio de Herodes. Após a queda da Antônia, do Templo e
da Cidade Baixa, o perímetro da trincheira romana diminuíra
significativamente, estreitando-se em torno da cidade alta, a
única ainda nas mãos dos rebeldes.
Portanto, nenhum sentinela o notou quando ele começou a
ladear a paliçada em busca de uma estaca menos firme que as
outras e mais fácil de arrancar. "Esses romanos são eficientes
demais!", resmungou, depois de procurar inutilmente. Já ia
desistir de encontrar uma falha na perfeita máquina de
guerra romana quando seu olhar agora habituado à escuridão
notou duas estacas que não aderiam muito bem entre si.
Escalou de imediato o terrapleno sobre o qual estava fincada
a paliçada e, chegado à base desta, trabalhou cautelosamente
com a picareta, removendo a terra em torno de uma das
estacas e depois empurrando esta última para alargar o vão.
Finalmente, a estaca se deslocou e Zoker pôde se esgueirar
para além da trincheira, forçando a estreita passagem que
havia obtido. Do outro lado da paliçada, seu olfato foi
invadido por um mau cheiro que ele não conhecia: deviam
ser os corpos insepultos. Quando seu olhar se habituou à
tênue luz da lua que vazava sobre o fundo do vale, o judeu
começou a distinguir nas irregularidades do terreno os
cadáveres de seus concidadãos: muitos tinham sido
grotescamente deformados pela queda de que haviam sido
vítimas ou pela subseqüente passagem dos engenhos bélicos
dos romanos.
Tentou não se deixar dominar pelo horror. As sentinelas
mais próximas estavam no alto, com as silhuetas
evidenciadas pelos reflexos das lorigas e dos elmos. Ele
arrancou uma nesga da túnica e envolveu o rosto com ela,
como uma máscara. O acre fedor da morte era insuportável
até mesmo à uma certa distância, e rastejar entre os
cadáveres, decidiu, era o único sistema que poderia lhe
garantir o acesso à cidade sem que o notassem. Começou a
se mover, mas, uma vez em contato com os primeiros
corpos, não conseguiu evitar o vômito.
Resolveu, então, que a melhor maneira de avançar seria rolar
sobre os corpos, e descobriu que esse era também um bom
sistema para evitar observar aquilo sobre o qual passava. Foi
em frente por um trecho, até precisar se deter porque a
náusea se tornara intolerável. Reabriu os olhos e viu-se
encarando uma cabeça que se soltara do osso do pescoço. Só
uns raros filamentos ainda a ligavam ao resto do corpo. O
rosto, deformado pelo impacto com o terreno a partir de
uma altura considerável — talvez até da esplanada do
Templo —, não conservara nada da conformação original. A
visão o mergulhou novamente no pesadelo que ele
acreditara poder dominar.
Tentou retomar o movimento, mas precisou parar outra vez:
com a vista enevoada, não percebeu estar próximo a um
poste, e acabou chocando-se contra ele.
Já sabia do que se tratava, mas não conseguiu evitar olhar
para cima. Dois pés imóveis, cravados à base do lenho.
Zoker jamais vira de perto um crucificado. Os romanos
distribuíam penas desse gênero aos sediciosos, embora, antes
do início da guerra, tivessem escolhido para seu pai, Judas, a
decapitação. Quanto a Jeshua, Zoker ainda não tinha nascido
quando chegara a vez dele. Observou o condenado,
imaginando o tio na mesma posição. O pobrezinho estava
com a cabeça encaixada nos ombros, quase no meio do
peito: a morte por sufocação havia chegado quando ele já
não tinha forças nos braços para se manter elevado.
Balançou a cabeça e recomeçou a rolar, mas logo percebeu
que estava agora todo emporcalhado de lama: um misto de
terra e sangue, a julgar pelo odor.
Sentindo um calafrio, prosseguiu até chegar a uma pilha de
madeirame e terriço, da qual viu aflorarem os restos de uma
torre móvel, daquelas que os romanos chamavam de
helépoles. Deduziu que se tratava de um terrapleno
construído pelos romanos para aproximar dos muros sua
torre. Os judeus deviam ter conseguido miná-lo ou incendiá-
lo, e a estrutura viera abaixo engolindo o maquinário que a
encimava.
Estéril sucesso para os defensores, agora liquidados, pensou
Zoker, antes de começar a rastejar sobre os detritos. Já do
outro lado do entulho, retomou o fôlego e se dispôs a
enfrentar novos corpos humanos empilhados. Tentou se
orientar. Pareceu-lhe estar mais ou menos na altura da penha
sobre a qual durante séculos o Templo havia imperado, mas a
aparência da cidade estava tão mudada que era difícil
reconhecer pontos de referência seguros.
Havia um modo de apurar se ele tinha visto certo. Valia a
pena gastar nisso um pouco de tempo. Zoker ficou de quatro
e perscrutou o entorno, em meio à escuridão. Continuou a
se mover sobre os joelhos até notar uma aresta de mármore
que aflorava de outro monte de corpos. Deslocou os
cadáveres com extrema cautela, para não chamar a atenção
das sentinelas, até descobrir a esteia que esperava encontrar.
O túmulo de Tiago, o Justo.
Tinham-no sepultado exatamente onde ele caíra. Zoker
reviu mentalmente a cena à qual fora obrigado a assistir, oito
anos antes. Tendo sobrevivido à queda, Tiago havia tentado
levantar-se, mas os membros inferiores, fraturados em vários
pontos, tinham cedido. Zoker o vira apoiar-se nos braços
para fitar nos olhos os presentes, pagos pelo sumo sacerdote
Anano e por Agripa, e que já se dispunham a lançar as
pedras. Vira-o emergir da saraivada, lívido e ensangüentado,
e dizer, com um fio de voz: "Meu Deus, perdoa-os porque
não sabem o que fazem!", antes que um dos mais exaltados
lhe estraçalhasse o crânio com um bastão de lavador de
roupas.
O povo começara a se aproximar só depois que os assassinos
foram embora; lentamente, formara-se uma aglomeração que
havia começado a injuriar os filo-romanos. Pouco antes do
início da guerra, Anano viria a ter um fim ainda pior nas
mãos dos zelotas apoiados pelo povo ansioso por vingar seu
benjamim, Tiago.
Depois, alguém espalhou o boato de que Tiago era o último
baluarte de Jerusalém; sem ele, a cidade estava destinada à
destruição. Seu túmulo tornou-se um ponto de referência
para todos aqueles que ainda compartilhavam o sonho
messiânico dos ebionitas/nazireus, dos essênios e dos zelotas,
convencidos de que a profecia da Estrela estava próxima de
se realizar, e de que retornaria o Messias, o qual, com o
auxílio das fileiras celestes, distribuiria o Juízo como chuva,
dando a cada um segundo as próprias obras.
Da cena da execução Zoker jamais pudera esquecer um
detalhe. Após o golpe de misericórdia infligido a Tiago, o
jovem tinha olhado para o alto, na direção do Templo. Ali,
vira o sumo sacerdote Anano, o rei Agripa, sua irmã e
amante Berenice, mas, sobretudo, Saulo.
Saulo. O ex-fariseu que havia assumido o nome de Paulo e
que, vinte anos antes, já agredira o tio nas escadarias do
Templo. Saulo. O homem que, apesar de seu zelo,
desobedecera às diretivas de Tiago e pretendera dar uma
impostação radicalmente diferente à pregação, ele que o
Salvador sequer havia conhecido em pessoa.
Zoker se obrigou mais uma vez a deixar de lado as
lembranças do tio. Tinha decidido valer-se do canal
subterrâneo que partia da nascente de Gihon para alcançar a
piscina de Siloé, mais ao sul. Ao que recordava, lá dentro
havia derivações que o levariam à Cidade Baixa e, desta, à
alta.
Recomeçou a rolar, até que topou novamente com um
poste. Os lamentos que provinham do alto não lhe deixaram
dúvidas quanto à natureza do obstáculo: era um crucificado.
Um crucificado vivo.
Temeroso, olhou para os pés cravados do pobrezinho. Ao
redor dos cravos, cada um dos quais trespassava o pé pouco
abaixo do tornozelo, havia uma ampla área lívida,
dificilmente perceptível sob o copioso sangue represado.
Levantou devagarinho o olhar, observando os músculos
horrivelmente contraídos das pernas, sobre as quais recaía
todo o peso do corpo. De fato, viu que o condenado, na
tentativa de respirar, fazia força sobre os membros inferiores
para erguer a caixa torácica em ângulo reto com os braços,
cravados pelos pulsos. Resistia apenas por alguns instantes,
para em seguida abandonar-se novamente à gravidade e à
asfixia, até que a apnéia o induzia de novo a se reerguer.
Naquela posição inatural, explicara-lhe certa vez o tio Tiago,
que assistira à crucifixão do irmão, era possível inspirar, mas
não expirar. Desse modo, o corpo se enchia de ar, mas só era
possível expeli-lo firmando-se nos pés, coisa que, com o
passar do tempo, ficava cada vez mais fatigante e, por fim,
insustentável.
Horrorizado, Zoker se perguntou há quanto tempo aquele
coitado estava na cruz. Ouvira falar de condenados que
resistiam até por vários dias. Seu tio Jeshua tinha durado só
três horas, mas provavelmente o que cedera havia sido o
coração, talvez por causa das sevícias sofridas antes que o
pregassem ao lenho.
O homem crucificado respirava afanosamente quando se
esticava, e gemia quando se prostrava. Zoker hesitou em fitá-
lo, embora percebesse que ele o buscava. Quando finalmente
os olhos dos dois se encontraram, o jovem logo
compreendeu qual era o pedido formulado por aquelas
pupilas desesperadas. Era incrível e terrível, pensou, como
naquela aflição extrema a vontade contrastava com o
instinto. A primeira levava o condenado a desejar a morte; o
segundo, a prolongar a vida e, por conseguinte, o suplício e
os sofrimentos.
Procurou algum objeto contundente com o qual pudesse
atender à muda súplica do concidadão. Remexeu entre as
pilhas de mortos, encontrando, afinal, um pedaço de trave
apenas chamuscado pelas chamas, com o qual poderia
quebrar as pernas do condenado e dar-lhe uma morte veloz.
Lançou um último olhar ao rosto do crucificado, acreditando
perceber gratidão nele, e em seguida desfechou vários golpes
seguidos contra as canelas do infeliz. Sentiu os ossos se
quebrarem. Parou, hesitando em olhar para cima, até não
ouvir mais nenhuma respiração. Só então ergueu a vista, e
pareceu-lhe que tudo havia acabado.
E agora, disse a si mesmo, à fonte de Gihon.
VII
Jerusalém, junho de 1099
— Quem é o próximo? — gritou Inês com voz aborrecida,
saindo da tenda. A luz do sol lhe feriu os olhos, habituados
ao escuro, assim que ela botou a cabeça para fora. Ajeitou os
fartos cabelos ondulados, que lhe caíam nos ombros e se
insinuavam como raízes pela roupa aberta sobre o peito.
Uma ostentação à qual ela não sabia resistir, desde quando se
livrara das rígidas disposições que a obrigavam, no Ocidente,
a usar coifa e manto para deixar evidente sua profissão.
Da tenda, logo emergiu atrás dela um soldado, que se
despediu com um tapa em seu traseiro e uma visível
expressão de saciedade impressa no rosto, enquanto ajeitava
as bragas.
— O próximo? Mas você nunca se cansa de suas
obscenidades? — escutou o cliente que, esfregando as mãos,
já se preparava para entrar. O homem virou-se e viu ao seu
lado um monge gorducho, pingando suor e arquejante, com
poucos cabelos ao redor da tonsura, o nariz de ponta
demasiado esférica em relação aos lados, bochechas rubras e
olhos cujos globos, redondos, pareciam querer sair das
órbitas de uma hora para outra.
Anselmo.
O monge empurrou o cliente para um lado e reiterou a
admoestação na cara de Inês, que não se dignara a lhe
responder:
— Você, mulher, que se oferece à cupidez dos homens
mesmo diante deste lugar sagrado, que os pés de Nosso
Senhor pisaram, persevera em sua ação nefanda? — gritou
para ela, provocando risadinhas e cochichos entre os
presentes.
Inês deu de ombros.
— Tão sagrado que, dentro em pouco, aqui, as pessoas vão se
massacrar umas às outras. Eu pelo menos ofereço prazer, e
não morte, e sem dúvida o Senhor não pode se aborrecer
comigo por isso.
— Você esquece que todos estes — e Anselmo indicou os
clientes em espera — infligirão morte ou morrerão em nome
do Senhor! Vão ganhar a remissão dos pecados e se tornarão
mártires da fé. E você, o que pretende ganhar, com sua
conduta escandalosa? Eles se livram dos pecados, e você os
acumula!
— Que nada! — Inês riu. — Justamente porque todos estes aí
podem estar mortos amanhã, eu os faço saborear os últimos
momentos de felicidade. Isso não é uma missão? Eu não
mereço também a remissão dos pecados?
— Mas você faz isso por dinheiro, acima de tudo! — replicou
o monge, indignado. — Age por interesse, e não por amor
ao próximo, admitindo-se que se possa considerar amor o
fato de se rebaixar dessa maneira com qualquer um, e não
com quem a ama. — Percebeu ter dito uma frase ambígua e,
ruborizado, virou-se repentinamente para os clientes. —
Vão embora, rápido! Esta mulher está aqui com os
peregrinos porque decidiu mudar de vida! Ela quer se redi-
mir! Não a façam recair no abismo do pecado! — gritou para
o grupo de homens que esperavam sua vez.
A hilaridade deles aumentou ainda mais, e ninguém fez
menção de ir embora.
— O que está fazendo? — berrou Inês, séria, agarrando-o
pelo braço e acentuando assim o embaraço dele. — Estamos
em Jerusalém há quatro dias, só hoje eu comecei a ter alguns
clientes, e você os despacha?
— Sem dúvida, esqueceram-se de você! Após mais de dois
anos de espera, estão finalmente diante da cidade do Senhor!
Eles têm respeito e submissão a estes lugares santos, uma
submissão que sua presença e seu ofício infame ameaçam
comprometer!
— Não creio que tenha sido por submissão que o príncipe
Tancredo de Hauteville, assim que chegou a Belém, colocou
seu próprio estandarte no alto da igreja da Natividade... —
respondeu Inês, zombeteira.
— E de fato aquele normando sacrílego foi justamente
recriminado pelo seu ato blasfemo. Aliás, ele pertence a uma
raça sacrílega por definição... — insistiu Anselmo.
— Ei, alto lá! — disse, mais divertido do que indignado,
aquele a quem cabia usufruir dos serviços de Inês. — Eu sou
normando, e estou aqui para combater em nome do Senhor.
Admito não ser um crente fervoroso, mas não me considero
sacrílego. Aquilo foi apenas o gesto de um fidalgote
ambicioso.
— Se seu comportamento fosse digno do de um peregrino,
você não deveria estar diante desta tenda — replicou
Anselmo.
— Pelo contrário, ele tem toda a razão — interveio Inês,
virando-se para o monge. — Você ofendeu este homem,
Anselmo, e deveria pedir desculpas... — disse,
esquadrinhando o normando da cabeça aos pés, com uma
lentidão que lhe permitiu captar todos os detalhes daquela
imponente e harmoniosa figura.
— Agora vai começar até a fazer o elogio de um estranho?
Você aprecia todo mundo, menos quem realmente leva a
sério sua salvação — lamentou-se o monge, percebendo o
interesse que transparecia do olhar de Inês.
— Bem, uma coisa são as motivações religiosas e outra, as
necessidades físicas... Somente resolvendo as segundas este
soldado poderá se concentrar nas primeiras, já que a carne é
fraca e nem todos têm a força de caráter de um monge... não
é, Anselmo? — comentou Inês, continuando a fitar seu
cliente e esticando os cantos da boca num sorriso cada vez
mais convidativo.
Anselmo percebeu que o olhar do normando era igualmente
explícito, e de imediato colocou-se entre os dois para
interromper aquele jogo de sedução. Depois agarrou Inês por
um braço e puxou-a para um pouco mais longe, atrás da
tenda.
— Você reduz o amor a uma necessidade física... E faz disso
um comércio ilícito... — disse, irritado. — Você... você... é
uma puta! — gritou na cara dela.
Inês explodiu numa gargalhada desenfreada.
— E só agora você percebeu, paspalhão? O que eu devo fazer
para convencê-lo a se resignar? Acha que eu sou uma
pecadora? Muito bem: consideraria minha conduta menos
repreensível se dos meus ganhos eu conservasse apenas o
mínimo indispensável para viver, e lhe entregasse o resto
para você dar em esmolas? — propôs.
Anselmo já tomara fôlego para vomitar mais desprezo em
cima dela. Em vez disso, porém, bloqueou-se, e seus olhos
esbugalhados giraram por todo o tempo em que ele
permaneceu calado.
— Está dizendo que me entregaria seus ganhos torpes e me
deixaria usá-los da maneira que eu achar conveniente? —
perguntou afinal, incrédulo.
— Se você parar de defini-los como torpes, sem dúvida. Seria
um contra-senso aceitar um dinheiro que lhe parece sujo,
não? — respondeu ela.
— Bem, não, se for possível fazer dele um uso piedoso... Em
nosso exército há milhares de peregrinos que mal
conseguem se sustentar... sobretudo, agora que está difícil
fazer provisões: não existe nada para comer nos arredores, e
as fontes de água foram todas envenenadas. Eu poderia
comprar comida para os mais desesperados. Afinal de contas,
quem tem dinheiro para andar com prostitutas não tem
problemas de alimentação, e será como se os mais fortes
alimentassem os mais fracos — avaliou Anselmo, satisfeito.
— Viu? Não se encaixa nos preceitos do Senhor? Então,
estamos de acordo — disse Inês, fazendo menção de se
afastar.
— Um momento — deteve-a o monge. — Quanto você
ganha por cliente? — perguntou.
— Em geral, a tarifa mínima é de meio soldo, ou seja, seis
denários... Mas depende dos trabalhos pedidos pelo cliente.
Por exemplo, para um servicinho de...
— Entendi, entendi — apressou-se Anselmo a cortar. — Em
suma, seis denários, em princípio. Você deverá me dar pelo
menos quatro... — arriscou. Depois, vendo que Inês se
limitava a abrir os braços em sinal de assentimento, acenou-
lhe para retornar aos clientes. Assim que a viram reaparecer,
soldados e peregrinos desfizeram o ajuntamento,
reorganizando-se em fila.
E o primeiro continuava sendo o normando vigoroso.
— Um soldo — disse Anselmo a ele, estendendo a mão com
firmeza.
O homem encarou Inês, incrédulo.
— O quê? — disse. — Com uma cifra dessas, eu consigo todo
o harém do califa do Cairo...
O monge se apressou a replicar, antes que a mulher o fizesse:
— É a tarifa especial para os normandos. Esta mulher acaba
de admitir colocar seu discutível talento a serviço da Igreja e
de uma causa piedosa. Portanto, se você realmente quiser...
ahn... recorrer aos serviços dela, esse é o valor que deve
pagar. Não tem dinheiro suficiente? Pena. Se de fato não for
capaz de sufocar seus pruridos, procure alguma outra... —
sentenciou.
Inês balançava a cabeça e o observava, com as mãos nos
quadris.
— Acabou? — disse, olhando-o de través. Depois, desviou a
mirada para o cliente. — Não lhe dê ouvidos, amigo. — E
dirigiu a ele o sorriso mais sensual de que era capaz. — Na
realidade, com você eu iria até de graça. Mas o monge aqui
está falando a verdade: uma parte dos meus ganhos vai para
os pobres. Portanto, alguma coisa você deve me dar. O que
achar que eu valho... — acrescentou, abrindo os braços e
inflando o peito, para ter certeza de que o homem notava
todos os seus dotes.
O sujeito os notara, e como. Sorriu para ela, piscando o olho,
e, com um aceno de entendimento, remexeu nos bolsos,
enquanto Anselmo apertava os punhos em sinal de irritação.
Qualquer possível negociação, porém, foi bruscamente
interrompida pela chegada de um cavaleiro, inteiramente
equipado, que parou bem diante da tenda, levantando uma
nuvem de poeira sobre os presentes.
— O senhor de Lorena, Godofredo, requisita seus serviços,
mulher! — gritou ele a Inês. — E pagará bem. Mas você
deve ir imediatamente.
— O duque Godofredo! Até um homem tão pio caiu na sua
teia! Não é possível! — escandalizou-se Anselmo. — Não
pode ser culpa dele, não pode! Sua beleza enfeitiça todo
mundo, é isso! Agora eu entendi! Não é culpa dos homens, é
você, é você que nos... que os enfeitiça! — Então lembrou-
se do acordo e lhe veio à mente a vantagem que os
peregrinos obteriam dele. — Está bem, está bem. Pode ir —
acrescentou, repentinamente calmo.
Inês suspirou. Depois fitou nos olhos o normando e suspirou
de novo, insinuando-lhe que aquela nova tarefa a enfastiava.
Mas não podia abrir mão dela. Não convinha contrariar um
dos chefes do exército. E também, pensou, com o dinheiro
que iria obter poderia silenciar de uma vez por todas a
consciência de Anselmo. Talvez.
— Parece que hoje nós dois não podemos nos divertir —
disse ao normando, abrindo os braços. — Fica para outra
vez, espero...
— Não se preocupe. Certos prazeres são mais intensos
quando se fazem aguardar... — respondeu o homem, com
expressão cúmplice.
Ela ainda o encarou por alguns segundos.
— No entanto, devo compensar você por tudo isto. Volte
logo. Não me deverá nada. Como é seu nome? — perguntou,
sob o olhar desalentado de Anselmo.
— Ricardo.
O pavilhão de Godofredo, duque de Lorena, não era afinal
tão suntuoso quanto Inês imaginava. Anselmo, por sua vez,
diria que os senhores também estavam ali em peregrinação,
e eram obrigados a uma postura humilde.
— Você é uma bela mulher. Também é competente no seu
ofício? — perguntou o duque.
— Isso não sou eu que posso julgar, meu senhor —
respondeu ela, com um sorriso malicioso, com o qual
tentava mascarar o temor que sentia crescer dentro de si.
Na realidade, Godofredo de Lorena não lhe pareceu tão
carismático quanto ela esperava de um personagem daquele
nível. Tinha um aspecto meio acanhado e, desprovido dos
trajes e das armas de cavaleiro, poderia facilmente ser
tomado por um humilde artesão. A testa curta e os olhos
muito próximos um do outro e do nariz achatado conferiam-
lhe uma expressão permanentemente aborrecida. Era baixo e
atarracado, embora tivesse membros bem esculpidos, que
Inês pôde observar desde o início, pois o duque se fizera
encontrar de torso nu. Baixando o olhar, ela notou que as
pernas eram decididamente tortas, e talvez não só por causa
do hábito de cavalgar.
Ainda assim, sentia-se em sujeição. Às vezes isso lhe
acontecia, diante de algum fidalgote ou de alguém mais
instruído do que ela; pelo menos, até o momento de
permitir que o cliente violasse sua intimidade. Então,
esboroava-se qualquer imagem que ela tivesse criado
mentalmente, e o homem lhe aparecia em toda a sua norma-
lidade. Só então se sentia a patroa, ainda que se fizesse pagar
para deixar que o cliente a supusesse sua escrava.
— Ao que parece, você ganhou certa fama entre Antioquia e
este lugar — disse Godofredo, despindo-se completamente e
aguardando que Inês fizesse o mesmo. — Eu pedi a melhor,
e me trouxeram você. Quando se agregou ao exército?
— Na verdade, desde Constantinopla — respondeu ela,
tirando a roupa e cuidando de dar um significado a cada
movimento. — Eu fazia parte do grupo de Pedro de Amiens
e estava entre os que escaparam ao massacre de Civetot.
— Ah, sim, aquele monte de imbecis — replicou divertido o
duque, aproximando-se. — Entre tantos milhares de
peregrinos, não havia um que soubesse alguma coisa de
assuntos militares. E o problema é que parte daquela
gentalha agora está no nosso exército... — acrescentou,
acariciando com mãos ásperas aquilo que Inês começara a
revelar.
Enquanto a mulher refletia sobre a escassa diferença entre as
tropas que ela acompanhara à Ásia três anos antes e as
conduzidas pelos renomados chefes da cruzada, o duque
ajudou-a a se livrar do camisão. Depois arrastou-a sem
grandes cuidados para o leito e se deitou de barriga para
cima, na certeza de que, a partir daquele momento, ela
saberia o que fazer.
De fato, Inês sabia. Com clientes mais tímidos, ou com os
mais ativos e arrojados, nem sempre identificava logo a
melhor atitude para lhes saciar a ânsia de prazer. Mas os
homens como Godofredo eram previsíveis demais. Sentiam-
se os patrões, não experimentavam nenhum embaraço nem
consideração por ela como ser humano. Ela só precisava
colocar-se a serviço deles com a disposição de um artesão,
contentando-lhes o senso de superioridade sem
encorajamentos nem lisonjas.
Mostrou a Godofredo sua habilidade com as mãos, em
seguida com a boca e finalmente com a bacia, acomodando-
se em cima dele e surpreendendo-o com um movimento dos
quadris, sinuoso e veemente, quase como se quisesse desafiar
a capacidade de resistência dele.
O duque não resistiu por muito tempo. Aliás, ninguém seria
capaz de agüentar aquela pressão constante, que
habitualmente induzia um homem a urrar de prazer. Mas ele
não urrou, grunhiu e depois afastou-a, como se precisasse se
livrar daquele apertão envolvente.
Tinha conseguido, também desta vez, disse Inês a si mesma.
Tornara-se patroa de quem acreditava dominá-la. Agora, até
um duque como Godofredo não mais exercia sobre ela
nenhuma autoridade, a não ser exterior. Esse era seu modo
de saborear um poder que sua condição humilde lhe
interditava.
Godofredo não a mandou sair. Permaneceu deitado de
costas, fitando o teto por algum tempo, segurando-lhe o
braço e aflorando-lhe a pele do ombro até o pulso, sem dizer
nada e lançando-lhe apenas uma olhada fugidia de vez em
quando. Pouco depois, Inês viu que seu cliente estava quase
pronto para repetir a experiência, mas esperou que fosse ele
a levar a mão dela até seu ventre.
— Você é competente. Fiquei com vontade de repetir —
disse, átono, sem revelar nenhuma emoção.
— Naturalmente, o senhor me pagará o dobro — respondeu
ela.
— Naturalmente. — Mesma distância, mesma frieza nos
olhos.
Um feixe de luz inundou o rosto dele. A entrada da tenda se
escancarara e duas maciças silhuetas escuras se recortavam
contra a abertura.
— Godofredo! Não perca tempo com as putas, mexa-se e
venha conosco, temos novidades! — disse um, entrando
sem muitas considerações.
Assim que eles transpuseram a soleira, Inês pôde ver-lhes o
rosto. Ela os conhecia. Um era o irmão de Godofredo,
Eustáquio. Ninguém o considerava uma figura de primeiro
plano, e ele certamente parecia menos audacioso do que o
duque e, principalmente, do que o outro irmão mais jovem,
Balduíno de Boulogne, que meses antes havia abandonado a
cruzada para obter um reino mais a leste, na Armênia. O
outro era Roberto de Flandres, um nobre riquíssimo, que até
agora parecera mais devoto e menos belicoso do que os
outros chefes da expedição.
— De que se trata? — perguntou Godofredo, sem fazer
menção de se levantar.
— Daquilo de que falamos hoje de manhã — respondeu seu
irmão. — Aqui corremos o risco de morrer de sede, se
esperarmos mais. Vamos dar aos egípcios o tempo de nos
agredir com um exército de reforço, além de tudo?
— O conde de Toulouse insiste em um ataque às muralhas —
acrescentou Roberto. — E eu concordo com ele. E verdade
que não temos máquinas de assédio nem a possibilidade de
conseguirmos madeira para construí-las. Os árabes fizeram
bem o seu trabalho, tirando-nos qualquer possibilidade de
sustento. Mas, se prepararmos muitas escadas, podemos
tentar transpor as muralhas. Lá dentro, não devem ser
tantos, a ponto de conseguirem fazer todos nós recuarmos.
Temos o Senhor do nosso lado: podemos estar certos de que
Ele fará os soldados voarem para além das ameias.
Inês, que enquanto isso havia começado a se vestir, não
acreditava que o Senhor facilitaria tanto assim. Se não, onde
ficaria o sacrifício? Sem dúvida, Ele não tinha simplificado as
coisas no tempo da cruzada popular, três anos antes.
— E daí? O que há de novo, em relação a hoje de manhã? —
perguntou Godofredo, sentando-se finalmente.
— Parece que do outro lado, fora da cidade, no monte das
Oliveiras — disse Eustáquio —, vive um velho eremita
cristão com fama de santidade. Decidimos que os príncipes
devem ir visitá-lo e, na oportunidade, perguntar-lhe como
será mais conveniente agir para agradar ao Senhor.
Godofredo deu um suspiro profundo, e Inês não
compreendeu se era por considerar aquela decisão um
aborrecimento ou por levá-la muito a sério. Nem mesmo a
expressão dele lhe permitiu entender alguma coisa. O duque
se limitou a dizer "Está bem", levantou-se e se vestiu.
Só quando já estava na soleira pareceu se lembrar dela.
— Ah! — exclamou, virando-se e dando-lhe uma olhada
fugaz. Voltou até a mesinha e tirou moedas de prata de uma
bolsa. — Isto aqui é para você, mulher — acrescentou,
jogando para Inês mais do que ela esperava.
VIII
— E então? Ele ficou satisfeito? Quanto lhe deu? —
perguntou Anselmo, assim que Inês retornou à própria
tenda. Havia permanecido ali, esperando-a.
Ela balançou a cabeça.
— Então, agora tudo ficou lícito? — respondeu, jogando-lhe
o punhado de moedas.
— O Senhor previu a existência de mulheres como você. A
prostituta exerce uma função fundamental na sociedade —
replicou o monge, com os olhos brilhando, ao ouvir o
tilintar das peças. — Impede que os homens seduzam
jovenzinhas de bons costumes e tementes a Deus, casadas ou
virgens. Até santo Agostinho diz isso.
— Ou monjas, talvez...
— Não diga tolices. Quem abusa das monjas é um sem Deus,
um pagão, uma besta feroz. — Enquanto isso, Anselmo
recolhia e contava o dinheiro. — Bom. Eu diria que você
pode ficar com estas duas moedas. As outras vão para as
pessoas em dificuldade — concluiu, guardando as restantes
nas dobras do hábito.
— Só enquanto estivermos aqui em Jerusalém, não se
esqueça! — retrucou Inês. — Agora, se você não se
incomodar, vou tomar banho. Não creio que trabalharei
mais, por hoje — acrescentou, saindo da tenda.
— Já encerrou? Está brincando? Ainda falta um pouco para o
anoitecer! Pense em quantas pessoas você poderia ajudar, até
o final do dia! — reclamou Anselmo, seguindo-a.
— Não conte com isso. Claro que, se aquele normando
reaparecesse... — respondeu Inês, acelerando o passo.
Sempre se divertia ao ver Anselmo se esfalfar para arrastar
seu corpanzil atrás dela. E agora havia encontrado outra
maneira de angustiá-lo. Era sua pequena vingança por ter
permitido que ele, de um modo ou de outro, administrasse
sua vida.
Chegaram a um reservatório de água que os árabes de
Jerusalém haviam tornado não potável, jogando carcaças de
animais lá dentro. Mas continuava boa para se lavar e se
refrescar, pelo menos: em certos momentos do dia, o calor
era insuportável, mesmo à sombra e dentro das tendas.
Anselmo o viu antes de Inês: justamente o homem que ele
não queria rever.
— Escute, acho melhor esquecer esta água. Talvez esteja
infectada — disse de repente, tentando fazê-la voltar.
Tarde demais.
— O duque ficou satisfeito? — O normando estava ali, com
outros companheiros, e parecia ansioso para puxar conversa.
— Ricardo... Certo? — respondeu Inês. — Todos ficam
satisfeitos... — continuou, exibindo um sorriso sedutor.
— Aposto que você está se lavando para mim... — replicou
ele.
— Nada feito, amigo — apressou-se Anselmo a intervir. —
Ela está se lavando porque, por hoje, acabou. Passe amanhã,
se não conseguir frear seus impulsos bestiais.
— Como assim? — interpelou-o Inês, assumindo uma
expressão estupefata. — Você não disse que eu ainda deveria
trabalhar hoje?
— Mas, com esse aí, você disse que não cobraria, não?
Portanto, não vale a pena...
— Eu não disse que vou. Disse que iria até de graça... —
retrucou ela, encarando Ricardo.
— Bem... talvez seja melhor adiarmos mesmo para amanhã...
— disse o normando, com uma risadinha. — Ir depois de
um duque é meio comprometedor, e eu me sentiria um
pouco embaraçado...
— Fique tranqüilo, porque eu tiro qualquer um do embaraço,
amigo. O resto, depois, é com você... — replicou Inês.
— Você quase, quase me convenceu. Sinto que estarei em
boas mãos — gracejou Ricardo, sob o olhar escandalizado de
Anselmo, transtornado pela cumplicidade entre os dois.
— Então, é bom que eu passe no corpo um dos meus
melhores ungüentos, para um cliente tão ávido... — disse
Inês. — Vá me procurar na minha tenda daqui a pouco —
acrescentou, antes de se voltar e sair dali.
Ricardo a seguiu com a vista, admirando-lhe os movimentos
sinuosos. Depois topou com o olhar arregalado de Anselmo
e não pôde evitar uma gargalhada.
Justamente nesse instante passou um pequeno pelotão de
soldados bizantinos. Era apenas um punhado de homens que
ficavam sempre em grupo, sentindo-se objeto do desprezo
que os ocidentais alimentavam pelos gregos, sobretudo após
certas incompreensões no início da campanha.
— Lá vão eles, aqueles hipócritas gregos — disse um dos
companheiros de Ricardo. — É preciso ser muito descarado
para sair por aí com esse ar presunçoso, depois de tudo que o
imperador deles nos fez.
O soldado se referia ao cerco de Antioquia, um ano e meio
antes. Naquela circunstância, os cruzados tinham se sentido
traídos pelo soberano grego Aleixo, que, segundo eles, não
somente não os ajudara a conquistar a cidade como havia até
conspirado com os turcos para prejudicar seus próprios
aliados. A tensão determinara a retirada do contingente
bizantino, conduzido pelo general Tatício. Aqueles poucos
soldados tinham permanecido a título pessoal, mas sua
presença havia sido um motivo constante de atrito na tropa,
embora os gregos fizessem de tudo para evitar problemas.
Anselmo os considerava muito pios, ainda que seguissem
rituais diferentes daqueles da Igreja de Roma. Fosse como
fosse, pareciam-lhe soldados sérios, avessos a patuscadas,
livres da luxúria, morigerados e comedidos ao falar o parco
latim no qual sabiam se expressar.
Exatamente os combatentes ideais para o Senhor. Pena que
fossem tão refratários a aceitar a autoridade papal.
E também pareciam muito eficientes, do ponto de vista
militar. Anselmo nunca os vira desleixados, marchavam
sempre em ordem e compactos, com muito mais disciplina
do que os combatentes ocidentais. Procuravam fazer
frutificar seu tempo a cada momento do dia, com exercícios
e trabalhos úteis, até porque ninguém os envolvia em
distrações de qualquer gênero.
Até mesmo o equipamento deles, por mais curioso que fosse
aos olhos de um ocidental, conferia-lhes uma dignidade que
faltava aos exércitos dos príncipes latinos. Eram todos
infantes pesados, dotados de um colete acolchoado e
pespontado que denominavam bam-bakion, e que não
tiravam nem mesmo nas horas mais quentes do dia. Jamais
se separavam de suas compridas lanças e tampouco das
maças, ditas matzoukion, que portavam penduradas no cós.
Ao longo dos braços e abaixo da cintura pendiam várias
camadas de tiras de couro, enquanto as canelas eram
protegidas por grevas de metal. Levavam a espada numa
bainha pendurada num boldrié a tiracolo, e o escudo,
redondo, ia do chão até a cintura. Seus elmos eram cônicos
ou escorridos em chapéu, com uma modesta plumagem no
alto, substituída por uma crista no caso do oficial. Este, que a
Anselmo parecia muito ponderado e, sem dúvida, gozava da
plena confiança de seus poucos homens, usava também uma
faixa em torno do tórax e atada sobre o peito. O monge
nunca o vira elevar a voz, e ele dava a impressão de
comandar os subalternos apenas com rápidos acenos.
Que haviam permanecido a título pessoal era o que eles
sustentavam. Mas não o que os soldados ocidentais
acreditavam.
— O que vocês vão relatar hoje ao seu imperador, aquele
covarde? — recomeçou o briguento.
Mas os gregos não eram dos que aceitam provocações, e
nenhuma resposta veio. Continuaram a caminhar, de cabeça
erguida e com o olhar fixo à frente, imitando a atitude de seu
comandante.
Quem quisesse desafiá-los devia ir além.
Por exemplo, plantar-se bem à sua frente.
— Entendi, entendi — disse o implicante, detendo-se no
caminho deles. — Tal imperador, tais soldados. Os covardes
não costumam reagir... — prosseguiu. Logo depois, outros
três latinos belicosos o flanquearam.
O comandante bizantino, à frente do pelotão, não se deteve
quando chegou à altura da linha dos quatro ocidentais. Sem
dizer uma palavra, tentou passar entre dois deles, dando uma
leve, mas decidida pancada com o ombro naquele que havia
falado.
— Ei! Vocês todos viram! Ele me empurrou! — disse o
ocidental.
Só então o grego julgou necessário falar:
— Pare com isso, rapaz. Seus chefes não aprovariam — disse
com voz profunda, num latim escandido. A espessa, mas
bem-tratada barba lhe dava um aspecto carismático, como se
não bastasse sua figura imponente. Sem dúvida, mais
imponente do que a de seu antagonista.
— Ah, ah! Nossos chefes detestam vocês tanto quanto nós!
— afirmou outro soldado. — E, embora não nos autorizem
expressamente a isso, certamente não nos punirão se dermos
a vocês uma lição — acrescentou. Um instante depois,
Ricardo e Anselmo eram os únicos que haviam permanecido
contemplando a cena, sentados.
Todos os outros ocidentais tinham feito uma roda em torno
do pequeno pelotão bizantino.
— Parem, parem, estamos todos aqui por uma só causa... —
sentiu-se Anselmo no dever de dizer, aproximando-se. — A
causa do Senhor, tenham isso sempre em mente.
Porém o mais jovem dos provocadores não tinha intenção
de aliviar a pressão.
— Isto não é assunto para você, padre — disse a Anselmo,
afastando-o com firmeza. — Deixe os soldados resolverem
essas coisas e pense, de preferência, em rezar pelos
verdadeiros defensores da fé.
— Mas aqui somos todos defensores da fé! — protestou o
monge.
— Ora, mas se esses aí estão mais de acordo com os infiéis do
que conosco! — interveio outro, aproximando-se também
do comandante bizantino, que agora era acossado por dois.
— Não é verdade, amigo? — disse ao grego, dando-lhe uma
palmadinha no queixo.
Foi demais, até para aquele ponderado e cauteloso guerreiro
bizantino. Este agarrou o ocidental pelo pescoço com uma
das mãos, levantou-o e em seguida o atirou ao solo. Mas não
percebeu que, às suas costas, outro latino se aproximava
empunhando um facão.
Anselmo o viu erguer o braço e esteve prestes a gritar. Mas
seu grito se deteve na garganta quando, em seu campo
visual, irrompeu aquele normando, Ricardo, o qual segurou o
pulso do soldado e conseguiu desviar a trajetória da lâmina.
O oficial grego virou-se a tempo de compreender o que
estava acontecendo. A intervenção do normando deixara um
pouco desconcertados os seus companheiros, com os quais,
até pouco antes, o próprio Ricardo tinha rido e gracejado;
por isso, nenhum deles se mexeu enquanto os dois lutavam
para se desarmarem reciprocamente. Após alguns instantes,
Ricardo se viu com o facão na mão, enquanto seu
antagonista jazia no solo com as mãos no rosto e o nariz
arroxeado por uma cotovelada bem assestada.
— Corre o rumor de que logo, logo atacaremos — disse
Ricardo, voltando-se para todos os presentes. — Acho mais
sensato poupar nossas forças. Querem perder o assalto e o
butim por algum ferimento ou contusão numa briga idiota?
Ninguém encontrou palavras para lhe responder. Nem
mesmo o sujeito que fora parar no chão, e a quem Ricardo
até deu a mão para ajudá-lo a se levantar. Em poucos
minutos, todos os ocidentais se afastaram.
— É um prazer constatar que entre vocês existe alguém
dotado de bom-senso — declarou o comandante bizantino,
apertando a mão dele.
Ricardo deu de ombros.
— Tenha um pouco de paciência. Este não é um verdadeiro
exército, como o de vocês...
— Mas o Senhor saberá dar a eles a força para combater da
melhor maneira, no momento certo — interveio Anselmo.
— Por acaso não o fez até agora, ajudando-nos a vencer
todas as batalhas que enfrentamos e a expugnar todas as
cidades que assediamos?
— Tenho a impressão de que isso aconteceu graças às
divisões entre os turcos, mais do que por méritos nossos; e
também esses fatímidas são adversários novos, bem mais
organizados — respondeu Ricardo.
— Eu diria a mesma coisa, se não temesse ofender alguém —
acrescentou o comandante, sorrindo.
— Mas vocês são bons combatentes — afirmou Ricardo. —
Sempre os apreciei como militares, desde a época de
Manzikert. Apesar da derrota, demonstraram ser excelentes
soldados; pelo menos, os que não se retiraram...
— E como é que você sabe? Estava lá, por acaso? — inquiriu
o grego, cujo interesse ficou mais evidente.
— Bom, em certo sentido... — A expressão de Ricardo traiu
seu embaraço. — Eu estava no contingente de Roussel de
Bailleul. Um simples escudeiro. Os chefes decidiram não
intervir, e nos limitamos a observar a batalha do alto de uma
colina.
— Não sabe o quanto nós os odiamos, naquele dia... —
respondeu o bizantino. — Com que então, você interveio
agora para aliviar o sentimento de culpa que vem carregando
há quase trinta anos... — acrescentou, mais em tom
espirituoso do que crítico. — Como é seu nome?
— Eu me chamo Ricardo, e talvez você tenha razão. E o seu?
— Emanuel. E não se preocupe. Eu também tenho algo a me
censurar, a propósito daquele triste dia... — respondeu o
grego. Em seguida, anuviou-se e mudou de assunto: — Sabe?
Sob certos aspectos, se todos vocês estão aqui, é justamente
por causa daquela derrota...
— Como assim? Ah, já sei: vocês foram obrigados a renunciar
a diversos territórios, depois daquela batalha perdida, e
acabaram tendo que solicitar ajuda na Europa — replicou
Ricardo.
— Bem, não tanto por causa da derrota quanto pelo que
aconteceu logo depois: uma guerra civil, que lançou o
império no caos — explicou Emanuel. — Quando nosso
atual imperador, Manuel Comneno, assumiu o poder, os
turcos haviam se apossado de muito mais do que o
combinado, e nós, desgastados por anos de lutas internas e
de progressivas reduções das forças armadas, já não tínhamos
tropas para opor a eles. Se o imperador Romano Diógenes
não tivesse sido traído, os turcos teriam deixado de constituir
uma ameaça para os limites de Bizâncio, e por um bom
tempo.
— Na verdade, eu me lembro de ter admirado a disciplina
dos pelotões de vocês. Como conseguem não desfazer as
fileiras, nem mesmo na iminência do confronto? —
perguntou Ricardo, admirado.
Anselmo percebeu que, ao menos por enquanto, o
normando parecia ter esquecido que Inês o esperava.
E se absteve cuidadosamente de lhe recordar isso.
Saulo afirma que Moisés, tendo descido do Sinai, colocou um
véu sobre o rosto, para que os filhos de Israel não vissem o
fim daquilo que é efêmero. Por que negar que Deus havia
reconstituído o Zelem, sua verdadeira imagem no rosto de
Moisés, que Adão havia perdido, e que aquele rosto estava
demasiado resplandecente da glória de Deus para que um ser
comum pudesse suportar a visão dele? Saulo é um blasfemo,
e difunde essas monstruosidades entre os gentios, ainda por
cima atribuindo-as a Jeshua, que jamais pôs em discussão os
preceitos da Torá, mas apenas a correta aplicação deles por
parte dos sacerdotes.
Rebeca refletia sobre as palavras de Tiago, que passavam
diante de seus olhos ao longo do rolo que ela estendera em
cima da mesa. Sabia muito bem que, a partir do momento
em que os francos haviam se apresentado diante dos muros
de Jerusalém, aqueles manuscritos corriam o risco de acabar
nas mãos deles, ou, pior ainda, de serem destruídos na
eventual conquista da cidade. Sabia que precisava escondê-
los num lugar seguro, onde eles ficassem a salvo mesmo que
Jerusalém caísse; sabia que devia falar disso com alguém,
para evitar que o segredo morresse com ela.
Tinha até percorrido, com a ajuda de um judeu local, as
galerias que corriam sob a cidade, para encontrar um ponto
onde pudesse deixá-los ou então um caminho de fuga, no
caso de os eventos se precipitarem. Mas depois se
convencera de que Jerusalém resistiria ao assédio.
Fosse como fosse, não queria se separar daqueles rolos.
Tampouco pretendia informar outros judeus sobre a
existência deles, temendo que reagissem como o pai; algum
poderia até revelar a localização dos documentos aos
cristãos. Lera-os mais de uma vez, mas tinha certeza de que
grande parte do que significavam ainda lhe fugia, e
continuava a relê-los e a estudá-los. Ao mesmo tempo, apro-
fundava seus conhecimentos sobre o cânone da Igreja cristã,
que parecia dever quase tudo à impostação do rival de Tiago,
a saber, Paulo, e do Tanakh, que os cristãos haviam
distorcido, transformando-o naquele Antigo Testamento,
cujo único objetivo era anunciar o advento da divindade
deles.
Seu pai teria compreendido, bem antes e mais do que ela,
pensou, desconsolada. Mas ele sempre se recusara a
aprofundar a leitura do texto, limitando-se a olhadas
superficiais e deixando para estudá-lo melhor no futuro. Um
futuro que os adoradores do crucifixo haviam lhe subtraído,
com um apressado golpe de espada.
Ainda havia tempo? Talvez sim. Os egípcios conheciam bem
seu ofício. Por outro lado, esperava-se a chegada a qualquer
momento de um exército de apoio do Egito, comandado
justamente pelo grão-vizir.
A vida dela, afinal de contas, não tinha mudado muito
naqueles poucos dias de assédio. A única medida repressiva
adotada pelo governador havia sido a expulsão dos cristãos da
cidade e, francamente, Rebeca não se dispunha a reprová-lo:
era razoável achar que eles poderiam favorecer seus
correligionários — embora fossem cristãos de rito grego —,
e, além disso, tratava-se de muitas bocas a mais para
alimentar; em caso de bloqueio dos víveres, certamente
pesariam sobre a distribuição das provisões...
— Chegou o emir, com aquele seu inseparável cão de
guarda. Você bem sabe o que deve fazer... — informou Sara,
interrompendo o fluxo dos pensamentos da irmã.
Rebeca sorriu, assentindo em silêncio. Até mesmo num
momento tão delicado, Jamal al-Ashraf achava tempo para
visitá-las, a despeito das múltiplas incumbências que seu
papel de braço direito do governador Iftikhar ad-Dawla lhe
impunha. Tinha sido justamente ele a lhe inspirar confiança
na capacidade dos fatímidas para resistir ao assédio franco.
O paradoxo, contudo, era que o emir vinha para tranqüilizar
a irmã caçula, mas não havia jeito de a jovem sossegar. Sara
vivia aterrorizada, desde os primeiros rumores sobre a
chegada dos francos a Belém. A lembrança das violências
sofridas em Mogúncia durante o pogrom do conde Emich,
três anos antes, nunca a abandonara, acentuando sua
tendência natural a temer não só o perigo, mas também a
remota possibilidade de que este se apresentasse.
Havia também outra lembrança que não a abandonara: a
imagem daquele Ricardo que a salvara de seus carrascos. Ela
vivia fantasiando sobre aquele encontro e, mesmo sabendo
que jamais teria a possibilidade de revê-lo, elaborava histórias
fantásticas sobre outros atos heróicos de seu salvador e sobre
os momentos de amor entre os dois. Rebeca lhe recordara
várias vezes que, naquele dia, Ricardo sequer havia voltado
para resgatá-las, como prometera. Sara respondia que ele
podia muito bem ter sido obrigado a modificar seus planos
por causa das ordens dos superiores, e Rebeca não achava o
que retrucar.
A irmã mais velha também lhe recordara que a cruzada do
conde Emich tinha fracassado, e todos sabiam que seus
componentes haviam sido mortos, aprisionados ou tinham
se dispersado após os confrontos com os húngaros, antes
mesmo de chegarem à Ásia. Mas, embora não houvesse
nenhuma possibilidade de que aquele Ricardo estivesse
acampado fora das muralhas, Sara continuava sonhando
poder encontrá-lo, um dia, e coroar um amor que, baseado
num único e fugaz episódio, ela imaginava como a mais
sublime expressão do vínculo entre homem e mulher.
Rebeca, ao contrário, achara Ricardo um simples soldado,
como tantos, talvez apenas mais humano, mais educado...
Bem, e também mais garboso, de fato. Mas estava contente
que a cruzada dele tivesse acabado mal. Se existisse a remota
possibilidade de sua presença entre os francos acampados
diante das muralhas, era certo que Sara tentaria de tudo para
entrar em contato com ele.
Perguntou-se pela enésima vez como Sara consideraria o
emir, se os eventos de Mogúncia não a tivessem levado a
idealizar seu salvador. Jamal era fascinante, educado,
respeitoso, inteligente, brilhante, culto, compreensivo, rico,
respeitado pelos chefes fatímidas, até amado pelos seus
colaboradores e subalternos e... perdidamente apaixonado
por Sara. Esperava pacientemente ser correspondido, sem
nunca ultrapassar os limites de uma discreta corte, sem
demonstrar frustração ou agastamento pela atitude pouco
disponível e até antipática da jovem. E, no entanto, a cobria
de presentes e de atenções, procurando, inclusive, elevar-lhe
o espírito de horizonte limitado, mas sem jamais forçá-la ou
criticá-la.
Fazia tempo que Rebeca renunciara a aprimorar a irmã e
torná-la mais responsável. A última tentativa havia sido a de
envolvê-la no estudo e na valorização do memorial de Tiago,
mas não houvera jeito de fazê-la captar a importância do
documento. Jamal, ao contrário, não desistia, e sem dúvida
também naquele dia iria exibir toda a sua sabedoria e sua
erudição para impressioná-la.
— Salam aleik, Rebeca! Vim tranqüilizá-las quanto ao
andamento das operações e acalmar sua irmã, que julga os
infiéis prestes a conquistar Jerusalém — disse o emir.
— Bem, eles são muitos, e ferozes. Você não devia estar aqui,
mas no alto das muralhas, controlando os movimentos deles
— respondeu Sara, sem muita cerimônia e sem olhar para
ele.
O emir ficou impassível. Continuou à porta, recortando
contra o vão sua magnífica figura de guerreiro, o capacete
amarelo do qual descia um pano branco quase até a cintura, a
malha de ferro e, sobre esta, uma aljuba de cor púrpura
pespontada de linho, apertada na cintura por uma faixa com
aplicações em tecido, e uma longa veste, atada na frente, que
cobria as botas.
Rebeca notou que, ao contrário, o fiel Firuz, o ameaçador
guarda turco que acompanhava Jamal por toda parte, havia
arqueado levemente as sobrancelhas. Para além da soleira da
porta, entrevia- se a figura de outro soldado da guarda
pessoal do emir, um árabe em trajes com aplicações e um
turbante do qual pendia um revestimento de couro rústico;
na mão, o homem segurava um grande para-sol em forma de
prisma.
Com um sorriso paciente, Jamal se sentou e ilustrou a
situação:
— Não há nenhuma necessidade de minha presença
constante sobre as muralhas. Os infiéis, afinal, não são tantos
como você supõe. Pelo contrário, são tão poucos e
estropiados que sequer conseguem circundar a cidade com
suas tropas. Limitaram-se a acampar em três setores
distintos, deixando-nos a possibilidade de concentrar
homens e máquinas somente nesses pontos.
— E quais seriam os setores? — perguntou Rebeca, sobretudo
para demonstrar interesse e polidez, ao passo que a irmã não
prestava a mínima atenção.
— Temos informações precisas a respeito. Muitas das forças
deles estão concentradas justamente deste lado, ao longo da
muralha setentrional. Os normandos de Roberto, o filho do
conquistador da ilha britânica, estão distribuídos diante da
Porta de Herodes. Pouco mais a oeste, diante da Porta de
Damasco, encontram-se as forças de Roberto de Flandres.
Ainda mais a ocidente, diante do bairro cristão, acamparam
os normandos da Itália de Tancredo de Hauteville, e no
ângulo que coincide com a cidadela e com a Porta de Jaffa se
posicionaram os lorenos do duque Godofredo. Em todo o
resto do circuito de muralhas, o único setor ameaçado é o
sul-ocidental em frente ao monte Sião, onde acamparam as
tropas do conde de Toulouse.
— Você quer dizer que, ao sul e ao leste, eles não nos
ameaçam? — quis saber Rebeca, após esperar por alguns
momentos que a irmã interviesse.
Mas Sara não dissera nada.
— Exato — respondeu o emir. — Por outro lado, a encosta é
muito íngreme nesses lados. Os vales do Cedron e da Geena
ficam muito distantes das muralhas, e não vejo como eles
poderiam subir aos espaldões sem construir rampas. Enfim,
uma coisa bem trabalhosa.
Rebeca pensou que, em Massada, mil anos antes, os romanos
haviam conseguido. Mas aquela era outra história. Ela bem
sabia que os chamados cruzados não tinham nem o tempo
nem a organização dos antigos dominadores de seu povo.
— E daí? Afinal, eles podem arrombar os pontos onde
concentraram suas forças, não? — Quem fizera a pergunta
havia sido, imprevisivelmente, Sara. Devia estar de fato
aterrorizada, pensou a irmã.
— Bem improvável — apressou-se a responder o emir,
contente por ser útil ao objeto de seu desejo. — Com as
tropas árabes, ahdath, isto é, a milícia citadina, e os
mercenários sudaneses, nossa guarnição tem um número
mais que respeitável de defensores. E em geral os atacantes
não têm esperanças de prevalecer, exceto se forem em
número muito, mas muito maior que o dos defensores:
digamos, num percentual de quatro para um, no mínimo.
Além disso, nós temos quarenta trabucos e eles, nenhum.
Podemos alvejá-los do alto das muralhas como e quando
quisermos, e, mesmo que tentassem se aproximar e escalá-
las, nunca chegariam aos espaldões.
Fez uma pausa, a fim de dar tempo às duas moças para
refletir sobre suas palavras. Depois recomeçou:
— O governador mandou cortar e esconder nas cavernas
toda a madeira existente nos arredores; por conseguinte, os
infiéis não têm como construir máquinas obsidionais com as
quais possam se aproximar das muralhas ou demoli-las. E,
mesmo que conseguissem montar uma catapulta, já
providenciamos o reforço do circuito com sacos de algodão
e feno, que absorverão qualquer golpe.
Ridículo, pensou Rebeca. Um homem tão brilhante e
poderoso, refém de uma mocinha desmiolada e inepta. Ela
jamais cairia nessa esparrela. Com ninguém.
— Mas então poderiam nos fazer morrer de fome e sede —
insistiu Sara.
— Nada disso. — Jamal estava cada vez mais satisfeito por
finalmente poder transmitir segurança à jovem judia. Era um
primeiro passo, após um ano de corte frustrante. — O
governador mandou afastar da área todos os rebanhos que
pudessem constituir fonte de alimento para os infiéis. Parece
que só Tancredo conseguiu umas ovelhas nos arredores de
Belém, e você verá que eles vão disputá-las. Mas,
principalmente, Iftikhar envenenou todos os poços num raio
de dez quilômetros, e os cristãos vão precisar se afastar
muito para obter água, expondo-se às nossas emboscadas.
Quanto ao reservatório de Siloé, que fica logo abaixo das
muralhas, eles não perdem por esperar: vamos nos divertir
praticando tiro ao alvo.
"Nós, porém, estamos garantidos. Temos víveres à disposição
para vários meses, e nossas cisternas estão cheias de água
potável. O sistema de esgotos funciona muito bem e não há
risco de doenças. Se eles teimassem em nos submeter a um
bloqueio, só conseguiriam cair nas mãos do grão-vizir, que
logo chegará com um exército imponente, em resposta ao
pedido de ajuda que o governador lhe enviou assim que os
infiéis apareceram por aqui.
"Se algum dia existiu um assédio no qual os assediantes
tiveram pouca ou nenhuma possibilidade", concluiu Jamal,
visivelmente comprazido, "é justamente este. Alá decidiu
que os descrentes se dêem muito mal neste
empreendimento. Vocês verão que eles serão obrigados a
atacar logo, e farão péssima figura. Estamos esperando um
assalto desesperado, de uma hora para outra."
— Precisaremos ver qual dos dois exércitos confiará mais na
ajuda de seu próprio deus — comentou Rebeca. — Muitas
vezes, a convicção de combater pela fé leva um soldado a
realizar atos que eram impensáveis momentos antes.
Experimentamos isso em nossa pele, em Mogúncia.
Veremos quem tem determinação e ferocidade maiores...
— Rebeca, permita-me explicar a você e a Sara que Deus é
único, na realidade — esclareceu Jamal. — Está escrito:
"Cremos naquilo que foi revelado a nós, cremos naquilo que
foi revelado a vós. Nosso Deus e vosso Deus são um só, e a
Ele estamos submissos." Esse versículo tanto pode estar
dirigido a vocês, judeus, quanto aos cristãos. Pertencemos
todos ao mesmo tronco religioso, o semítico. Quando eu era
embaixador em Constantinopla, tive várias oportunidades de
conversar sobre essas coisas com gregos cultos. Reflitam: o
credo cristão começa com a declaração "Creio em um só
Deus"; o primeiro artigo do Corão diz: "Não há outro deus
senão Deus"; e, no Shemá hebraico, suponho que no
Deuteronômio, diz-se: "O Senhor é nosso Deus, o Senhor é
um só." Estamos tão próximos e, no entanto, não nos damos
conta...
— Pois sim! Vá dizer isso àqueles alucinados que mataram
meu pai e tentaram me violentar, só porque somos judeus!
— replicou Sara, quase choramingando.
— Eles acreditam que os judeus mataram Jesus. Mas, "na
realidade, não o mataram em absoluto", diz o Corão —
afirmou com segurança o emir. — Jesus foi escolhido por
Deus, antes de ser crucificado, e substituído por um sósia.
Deus jamais deixaria morrer um profeta Seu, é óbvio! Manes,
o fundador do maniqueísmo, afirmava que o corpo de Jesus
era um fantasma e, como tal, não podia ser crucificado.
— Os judeus não mataram Jesus, até porque quem fez isso
foram os romanos — assegurou Rebeca, sabendo muito bem
o que dizia. — Entre os judeus, a crucifixão era considerada
anátema, ao passo que os dominadores romanos costumavam
crucificar os rebeldes, e não os blasfemos; o sinédrio, por sua
vez, condenava-os à morte por apedrejamento. Mesmo
assim, os cristãos acabaram substituindo Deus por Jesus
Cristo, ou, na melhor das hipóteses, colocando-os lado a
lado, tomando literalmente o conceito puramente simbólico,
várias vezes recorrente tanto no Tanakh quanto no cânone
cristão, de "filho de Deus". No Livro de Samuel, Deus afirma,
a respeito de Salomão: "Eu lhe serei pai e ele me será filho."
Nos Salmos, um rei escuta de Deus: "Tu és meu filho, eu
hoje te gerei", e em outro lugar um rei diz: "Tu és meu pai,
meu Deus e rocha da minha salvação."
— De fato, aos cristãos devem ser imputados sobretudo dois
erros — concordou Jamal. — Como afirma o Corão, eles,
sem se darem conta, acreditam em quatro divindades
diferentes, entre as quais a deusa Maria, engravidada por
Deus pai. Sob certos aspectos, são politeístas. E também,
assim como vocês, judeus, não crêem que Maomé era o
profeta anunciado por Moisés.
— Vocês estão me dando dor de cabeça com essas histórias!
Amanhã poderemos estar todos mortos, e vocês aqui
discorrendo sobre religião! — reclamou Sara.
— Mas, minha querida! Já expliquei que você não corre
nenhum risco — respondeu o emir, em tom gentil. Se ficara
exasperado pela superficialidade da moça, certamente não o
demonstrava. — Mais do que falar de religião, estamos
tentando estabelecer um ponto de encontro entre nossos
povos. E eu quero muito que nossos povos se encontrem.
Alá disse: "A vós é permitido contrair matrimônio com
mulheres crentes de boa condição e com as que pertencem
àquela gente a quem a Escritura foi revelada antes que a
vós..."
Sara não pareceu ter captado a mensagem, ou talvez tenha
apenas fingido não a perceber.
Rebeca, de seu canto, só a muito custo conseguiu reprimir
uma risada. Aquela era a investida mais explícita que o emir
já fizera à sua irmã...
IX
Inês acordou furiosa. Ficara muito tempo esperando por
Ricardo, mas este não dera sinal de vida. Para se manter
livre, havia até recusado uns clientes que vieram procurá-la à
noitinha. Anselmo, em contraposição, tinha aparecido, mas
não sabia dizer que fim havia levado aquele normando.
Saiu da tenda sem sequer se pentear, decidida a encontrá-lo
e a lhe dizer poucas e boas. Já lá fora, compreendeu de
imediato que o dia recém-começado traria algumas
novidades. Havia uma grande agitação, os homens
caminhavam mais depressa do que o habitual e, sobretudo,
estavam todos em armas. Soldados em completa malha de
ferro, alguns até nas pernas e a maior parte sobre a cabeça,
outros com perneiras de malha bem justas e outros ainda
com bragas, às vezes protegidas por tiras de couro; couraças
com placas de couro fervido ou de chifre, achatadas ou em
escamas, também com reforços em ferro, ou coletes de
tecido acolchoado. Portavam no braço compridos escudos
triangulares, com a borda superior reta ou hemisférica, e
escudos redondos, grandes ou pequenos. Empunhavam
espadas longas, metidas numa fissura da cota, à maneira
normanda, ou penduradas ao cinturão; lanças com ponta em
folha ou em losango, algumas com estandarte de três pontas,
outras desprovidas disso, ou, como alternativa, achas de cabo
longo, pequenas bestas, atiradeiras. Usavam elmos em calota
ou cônicos, com ou sem narigueira, mas também chapelões
de aba larga, coifas de linho ou chapéus de ferro com borda
ampla; por fim, os soldados de extração mais baixa
envergavam camisões sem proteção e empunhavam foices
como única arma de defesa.
Uma variedade extrema de equipamentos e trajes, mas
também de cores, entre as quais se destacavam o vermelho,
o verde e o amarelo, e às vezes o ouro dos cavaleiros de
maior relevo. Como traço comum, aquele multiforme
exército de combatentes oriundos de toda a Europa
ostentava a cruz, que cada um trazia pintada no elmo, no
escudo ou no estandarte, ou então costurada sobre a túnica
de tecido que muitos usavam sobre a couraça.
A última vez em que Inês havia visto semelhante agitação
tinha sido no dia do último ataque a Antioquia. Logo
compreendeu o que significava aquilo e começou a procurar
Anselmo para pedir notícias. Não imaginava que o assalto
ocorreria tão cedo: do contrário, teria aproveitado o
momento de intimidade com Godofredo de Lorena e pedido
a ele permissão para participar do combate. Agora, sem a
recomendação de algum figurão, ninguém lhe permitiria
portar armas.
Viu que todos convergiam para o setor mais setentrional,
rumo à Porta de Damasco e ao campo de Roberto de
Flandres. Diante dela desfilaram também os homens da
França meridional, com o conde de Toulouse à frente, um
homem idoso cujo porte altivo e sereno sempre induzira
Inês a considerá-lo o chefe carismático da cruzada,
sobretudo após a morte do bispo Ademar, suprema
autoridade do empreendimento em nome do papa.
Ela não conseguia compreender por que uma campanha de
tamanha importância para a cristandade não tinha um
comandante único sobre o exército. Como era possível que
os senhores tornados cruzados em nome de um ideal
superior não conseguissem encontrar dentro de si a
humildade para se submeter às ordens de algum outro?
Desde o primeiro momento, as diatribes deles tinham sido
de domínio público, e, se as discórdias haviam diminuído
progressivamente, era só porque alguns contendores tinham
abandonado a cruzada para seguir seus interesses pessoais. As
tropas haviam passado — desperdiçado? — quinze meses em
Antioquia, somente para decidir a quem caberia a posse da
cidade. Esta fora obtida pelo normando que ostentava a
carreira militar mais prestigiosa entre todos os aspirantes ao
comando supremo, Boemundo de Taranto, filho de
Guiscardo, o acérrimo inimigo dos bizantinos. E ele sequer
levara em consideração a possibilidade de entregá-la ao
imperador grego, que, afinal de contas, era o legítimo
destinatário.
Inês não sentia a menor simpatia por Boemundo:
desabusado, agarrado aos próprios interesses, soldado demais
para poder se assemelhar, ainda que vagamente, a um
peregrino em busca de remissão dos pecados. Tê-lo perdido
talvez fosse um bem para a cruzada, mas ter perdido
igualmente suas tropas, que haviam permanecido com ele
para vigiar e defender Antioquia, não o era.
Antes disso, já fora embora o conde de Blois, Estêvão,
cunhado de Roberto da Normandia. Havia simplesmente
fugido, todos sabiam, no momento mais nebuloso do
empreendimento — mas pouco antes da vitória decisiva
sobre Antioquia —, levando consigo seu robusto e bem
equipado exército. Também se afastara o irmão mais novo do
duque Godofredo, Balduíno de Flandres. Tinha ido ajudar
um monarca armênio mais a leste, e corriam rumores de que
acabara ficando ele mesmo com a coroa. E não somente
levara consigo outros soldados, como também a notícia de
seu sucesso havia impelido muitos a irem ao seu encontro.
E agora, diante de Jerusalém, o objetivo mais importante de
todos, a cidade do Santo Sepulcro, estava um exército sem
condições de rodear sequer a metade do circuito murado.
Um exército esfalfa- do por dois anos de campanha,
desprovido de um comandante e de máquinas de assédio,
mas convencido de poder expugnar a cidade protegida —
talvez tanto quanto Constantinopla — pelas muralhas mais
imponentes do mundo
Até uma puta era capaz de compreender que se tratava de
uma iniciativa desesperada.
Pior ainda: louca.
Talvez tivesse razão quem sustentava que o Senhor cuidaria
de dar a vitória aos cruzados, por mais insuficientes que
fossem as forças deles. De fato, não parecia haver outro
modo de vencer.
Mas por que, afinal, o Senhor deveria ajudar homens que,
como afirmara o pio bispo Ademar em Antioquia, tinham se
tornado culpados de soberba, banditismo e luxúria? Inês
recordava muito bem que o prelado impusera um jejum de
três dias como expiação, mas muitos, e ela antes de todos,
tinham rido disso: havia muito tempo que a carestia de que o
exército era vítima transformava a penitência em algo quase
paradoxal.
No entanto, agora lhe parecia que nenhum dos soldados que
acorriam ao setor norte seria contido por dúvidas ou
temores. A determinação e o entusiasmo que impregnavam
o exército tornavam extraordinariamente semelhantes as
expressões do obtuso e do inteligente, do nobre e do plebeu,
do culto e do ignorante.
Até mesmo no rosto de Anselmo havia determinação e
entusiasmo.
— Deduzo que vamos atacar... — disse Inês a ele, assim que
o viu aproximar-se.
— Pois é. Hoje você está de folga, por força da situação. — O
monge estava radiante. — O santo homem que os chefes
foram encontrar no monte das Oliveiras disse que eles não
temessem: Deus ajudará Seus soldados e a cidade será nossa
ainda na noite de hoje! Venha comigo. O assalto se
concentrará no setor onde Roberto de Flandres acampou;
você cuida dos feridos e eu administro a extrema-unção aos
mártires moribundos.
Inês teve a sensação de que, naquele dia, os mártires seriam
muitos.
Aquelas muralhas davam medo. Mais do que as de Nicéia,
que os bizantinos haviam surripiado dos ocidentais antes
mesmo que estes conseguissem assaltá-las. Mais ainda do que
as de Antioquia, que, aliás, os cruzados não tinham
realmente expugnado, a não ser pela traição que lhes abrira
as portas. Na verdade, pensou Ricardo, enquanto chegava à
posição de assalto, era a primeira vez em dois anos que eles
tentavam um verdadeiro ataque a uma cidade. Perguntou-se
como poderiam alcançar os espaldões sem torres de assédio,
sem aríetes e sem trabucos para abrir brechas. Havia
somente escadas à disposição dos soldados: escadas feitas às
pressas nas últimas horas antes do amanhecer, além de
cordas com ganchos; era fácil prever que os primeiros a usá-
las se ofereceriam como vítimas sacrificais aos defensores
postados nos espaldões.
Ou até mesmo antes de chegarem às muralhas. Havia muito
poucos manteletes e anteparos, para que os soldados
pudessem aproximar-se delas sem constituírem alvos fáceis
para os projéteis adversários. E aquelas poucas coberturas
móveis disponíveis, suficientes para proteger somente
poucos homens, tinham sido atribuídas em sua maior parte
aos sapadores, aos quais cabia a tarefa ingrata de alcançar a
base das muralhas e minar-lhes a estabilidade com enxadas e
pás.
Mas não havia um só mantelete revestido de couro, o único
material capaz de proteger do fogo aqueles artefatos. Ricardo
se alegrou por estar destinado a morrer empunhando uma
espada, e não uma enxada. Como soldado, fora enviado ao
matadouro sem nenhuma forma de proteção, e lutaria com a
plena consciência de poder ser golpeado de um momento
para outro; mas os sapadores... os sapadores acabariam
assados um instante depois de cultivarem a ilusão de estarem
protegidos pelas coberturas...
Só agora, pensou, estava adquirindo uma experiência
concreta de guerreiro, e já se arriscava a encerrar a carreira.
E a vida, talvez. Sua primeira batalha de verdade, após
décadas de exílio voluntário nos bosques, tinha sido apenas
três anos antes, ao lado do conde Emich de Leiningen,
depois das fáceis razias em Espira, Worms e Mogúncia. E
fora um desastre. A guarnição húngara bastara uma única
surtida para fazer uma carnificina entre os cruzados, durante
o assédio ao castelo no Danúbio que protegia o limite do
reino da Hungria. Ele conseguira escapar com uns poucos
cavaleiros franceses e, uma vez na Palestina, tinha sido
agregado ao contingente de Roberto da Normandia. Depois
vieram as batalhas campais de Nicéia, Dorileia e Antioquia,
durante as quais ele descobrira ser um bom combatente.
Tentou compreender as ordens que chegavam de seu
comandante, mas as palavras do duque Roberto eram
abafadas pelo pisoteio dos cascos e pelos relinchos dos
cavalos, pelo ruído das ferragens dos soldados, pelos gritos
destes para se chamarem reciprocamente, pelo rangido das
rodas dos manteletes colocados em posição, pelo rumor das
escadas arrastadas sobre o terreno poeirento. Precisou
interrogar um sujeito à sua frente para saber que já se
preparavam para atacar e que era preciso dispor-se em
cunha. Recuou, não por medo, claro, mas por saber que nas
fileiras anteriores impunha-se a presença dos guerreiros mais
encouraçados: ele já não tinha a cota de malha, desde
quando havia parado de servir ao conde Emich. Conseguira
obter um elmo cônico sem narigueira e com a ponteira
dobrada para a frente, mas só porque o subtraíra a um caído
em Doriléia. De resto, um colete acolchoado, sem mangas, e
um modesto escudo redondo eram as únicas outras
proteções de que dispunha.
Antes que a coluna se pusesse em movimento e levantasse
tanta poeira a ponto de lhe obscurecer a vista, teve tempo de
ver as ameaçadoras silhuetas dos trabucos que se delineavam,
a intervalos regu- lares, atrás dos muros e das torres de
Jerusalém.
Emanuel sabia que aquilo aconteceria. Haviam-no chamado,
colocado uma escada em suas mãos e ordenado que tentasse
escalar as muralhas. Enquanto seu general, Tatício,
permanecera com o exército franco, os chefes ocidentais
não tinham ousado expor muito descaradamente ao perigo
os aliados. Mas já na batalha por Antioquia haviam ordenado
aos gregos que ocupassem a primeira linha, e isso custara a
vida à metade dos homens que escolheram permanecer com
ele.
Agora, só lhe restavam sete soldados. Sete combatentes,
suficientemente loucos para considerá-lo digno de confiança
e segui-lo até onde ele quisesse conduzi-los. Afinal, apesar
da longa carreira e da vasta experiência acumulada em
guerras, Emanuel não havia realizado nenhuma proeza
memorável; justamente por isso, jamais chegara a comandar
unidades mais consistentes do que um bandon. No entanto,
o respeito e a estima, e até o afeto, que os subalternos
tinham lhe demonstrado em cada circunstância e em cada
campanha haviam atenuado parcialmente o desprezo que ele
alimentava por si mesmo pela escassa acuidade de que dera
provas no início. E experimentara um certo orgulho quando,
depois de declarar a Tatício que pretendia permanecer com
os francos, um punhado de subalternos decidira permanecer
com ele.
Graças a esses homens, conseguira suportar naqueles longos
meses a patente hostilidade que, em todas as ocasiões, os
francos manifestavam em relação a ele. Jamais quisera ser
aceito como um companheiro daqueles semibárbaros
analfabetos, combatentes por puro instinto e sem nenhum
preparo tático, mas havia esperado que sua decisão de
permanecer lhe angariasse pelo menos o respeito deles. Em
pouco tempo, chegara a desejar apenas que o deixassem em
paz, mas até esse objetivo se revelara uma miragem.
Ouviu a ordem de ataque. O comandante gritou: "Deus o
quer!", e todos os outros, a começar pelos padres, na
primeira fileira, fizeram-lhe eco, menos os seus soldados,
que bradaram "Kyrie Eleison!". Emanuel ergueu a espada e,
ecoando-os, apontou-lhes as muralhas.
Jamal teve forças para sorrir. Olhou Firuz, ao seu lado, e viu
que ele também havia torcido os cantos da boca. Não havia
trabucos entre as fileiras francas, nem atrás delas. Não se
viam aríetes nem torres móveis.
Ainda assim, eles tinham desencadeado o assalto à cidade.
Até o último instante, o governador havia considerado
aqueles movimentos convulsos como simples manobras de
adestramento, ou até como sinais de alguma disputa entre
contingentes. No entanto, reforçara o lado setentrional, para
onde pareciam convergir as forças inimigas, mesmo
considerando os trabucos, dispostos sobre os espaldões,
suficientes para manter os infiéis longe das muralhas.
Para o emir, sob cuja responsabilidade ficavam as máquinas
de arremesso, isso significava conquistar glória a baixo preço.
Tratava-se apenas de esperar que os atacantes chegassem ao
raio de alcance das catapultas, e, a julgar pela corrida
alucinada com que estavam avançando, eles logo entrariam
naquele perímetro.
Jamal deu rápidas olhadas à direita e à esquerda para conferir
se todos estavam em posição. Cada máquina dispunha de
dois encarregados junto à extremidade mais comprida do
balanceiro, onde estava pendurada a funda carregada com a
pedra. Do lado oposto, partiam numerosas cordas que outros
serventes se mantinham prontos a puxar com força e
simultaneamente, para provocar a elevação da outra parte do
braço.
Mais uma vez, verificou se junto de cada trabuco havia um
número suficiente de pedras para carregá-lo. Estabeleceu
que, ao seu sinal, os primeiros a atirar fossem os trabucos
maiores e mais potentes, que ele mandara instalar em
alternância com os menores. A um novo sinal, bem
próximo, partiria a segunda descarga, enquanto as primeiras
máquinas eram recarregadas, mas com pedras mais pesadas,
para que o lançamento fosse menos longo.
Não previa outros tiros. Se, mais tarde, os infiéis
continuassem avançando, apesar das perdas, havia outros
remédios.
— Eles não avançam compactos e em formação. Vai ser mais
difícil — disse Firuz, atento a que os outros não o
escutassem.
Isso também agradava a Jamal naquele turco. Ele sopesava
tudo que dizia, e sempre refletia sobre as conseqüências de
suas palavras. A observação tinha sido muito pertinente, e
poderia gerar insegurança nos homens, se a ouvissem.
— É verdade. Não faz muito sentido dispersar um exército já
disperso. Os projéteis produzem pouco efeito sobre um
ataque tão caótico. Veremos. Podemos apenas esperar que
eles se intimidem — respondeu Jamal ao seu guarda.
O emir observou atentamente a maré adversária,
perscrutando a poeira que ela levantava ao avançar. De
início, os diversos contingentes se mantinham bem distintos
um do outro, deixando nítidos corredores delimitados pelas
respectivas alas de cavalaria e pelos estandartes, que
afloravam de vez em quando acima da nuvem que velava
tudo. Mas depois alguns cavaleiros não tinham sabido resistir
à tentação de ultrapassar a infantaria, e os peões de cada
contingente estavam se espalhando até quase se misturarem
com os das unidades dos flancos.
Já à distância de tiro dos trabucos montados sobre os
espaldões apresentava-se à visão de Jamal uma massa
confusa, com poucas soluções de continuidade. Era o
momento. O emir deu a ordem:
— Atirem! Allah Akbar!— berrou, com todo o fôlego de que
dispunha. Quinze balanceiros saltaram simultaneamente para
o alto, arremessando outras tantas pedras.
Desde os primeiros rumores sobre o ataque, Rebeca se
arrependera de ter dado ouvidos a Jamal. "Você vai ver",
dissera o emir à sua irmã. "Mesmo que eles tentem um
assalto, não serão capazes de ultrapassar sequer a primeira
muralha, e um assédio seria mais prejudicial para eles do que
para nós." Por isso, até a noite anterior, ela não se
empenhara em predispor seu ânimo para uma nova batalha,
a segunda de sua vida após o morticínio de Mogúncia, três
anos antes. Nem se preocupara em encontrar um
esconderijo para o manuscrito, no caso de os francos —
também passara a chamá-los assim, como se usava ali no
Oriente — conseguirem superar as defesas egípcias.
Mas, agora que escutava as vozes exaltadas provenientes dos
espaldões, os gritos e recriminações de seus correligionários
por não terem saído dali antes do início do assédio, as brigas
entre eles quanto à necessidade de ajudar os defensores,
desejava ter tomado providências. Quais? Não fazia idéia.
Sequer havia refletido sobre o assunto, nos dias precedentes,
absorta como estava no estudo do memorial.
— Estão chegando, estão chegando! Você os ouve? Estão
vindo! — berrou Sara, tomada pelo pânico.
— Não diga tolices! — retrucou Rebeca, num tom de voz
igualmente alto. — O que você está escutando são as vozes
dos defensores. Lembra-se do que Jamal disse? Não temos
nada a temer. Eles não são capazes de transpor as muralhas.
— Tentava convencer a si mesma, mais do que persuadir a
irmã.
— Vão entrar. Vão entrar, com certeza — insistiu Sara,
botando as mãos na cabeça e abandonando-se a um pranto
desenfreado. — Não se lembra deles em Mogúncia, como
estavam endemoniados? Ninguém consegue deter aqueles lá.
Querem nutrir de sangue o deus deles! São uns animais
ferozes! Animais!— gritou, com voz esganiçada.
Rebeca se aproximou e abraçou-a, apertando-a com força.
Naqueles três anos, muitas vezes a irmã revivera em sonho o
trauma da tentativa de estupro. Se Sara não se abandonara à
depressão, ou, pior ainda, à loucura, era só porque seus
pesadelos tinham sempre um final feliz, com a irrupção de
seu salvador. Em geral, antes do alvorecer, aquele Ricardo a
levava para uma terra exuberante e próspera, onde judeus e
gentios podiam viver juntos sem encontrar a hostilidade das
pessoas.
— Os muçulmanos também extraem forças de seu deus. O
ímpeto interior deles não é menos intenso. Confie em nosso
Deus, você também. Se realmente houvesse perigo, eu teria
corrido a esconder o manuscrito, não? — mentiu Rebeca,
esperando dar à irmã a prova definitiva de sua própria
segurança.
Sua intuição se revelou correta. A menção aos rolos pareceu
acalmar Sara, cujo pranto se transformou lentamente em
soluços, enquanto ela se abandonava entre os braços de
Rebeca como uma filha nos da mãe.
As duas tiveram um sobressalto quando ouviram um
poderoso grito coral de triunfo, proveniente dos espaldões.
As máquinas de Jamal haviam feito lançamentos.
O céu desceu de repente. Na retaguarda logística, Ricardo se
movia em uma nuvem de pó, e só a muito custo conseguia
ver as costas do companheiro que o precedia. Também não
lhe era possível perceber um rumor que não fosse o
produzido pelos passos e pelos gritos dos soldados ou pelo
clangor das armas que se chocavam umas contra as outras.
Como ele, ninguém escutou o sibilar do projétil antes que
este fendesse a poeira e aparecesse, como que por magia, a
poucos palmos de suas vítimas. Ricardo ouviu um pesado
baque junto de si, segundos antes de se voltar e ver três
companheiros esmagados por um enorme pedregulho, que
continuou a rolar interrompendo a corrida dos que vinham
atrás e aleijando mais de um.
Por um instante, guardou na memória a imagem fugaz da
cabeça despedaçada e torcida de um dos soldados golpeados,
antes de ser atingido pelo truculento efeito dominó
desencadeado por outro projétil, caído pouco adiante.
Após o impacto com o companheiro que ia à sua frente,
Ricardo perdeu o equilíbrio e precipitou-se no solo, de
costas. Quase perdeu os sentidos: só depois de alguns
instantes recuperou o fôlego e a lucidez e se levantou com
dificuldade.
Recomeçou a avançar, mais por força de inércia do que por
convicção. Tropeçou numa escada abandonada no chão e
procurou alguém que o ajudasse, utilizando a extremidade
que ele havia levantado para bloquear dois companheiros.
— Enlouqueceu? O que está fazendo? Deixe-nos passar! —
berraram eles.
— Ajudem-me a carregá-la. Sozinho, não consigo! — gritou,
e os dois, após refletirem um instante, obedeceram.
A nuvem de pó tornava indistintos os contornos do alvo e
não permitia calcular com exatidão a distância que os
separava da base das muralhas. Ricardo puxava a extremidade
mais avançada da escada; depois de alguns passos, sentiu uma
repentina onda de calor sobre a cabeça, apesar do elmo.
Logo em seguida, o calor o atingiu nas costas.
Sem deter a própria corrida, tentou se voltar, desacelerando
e girando o pescoço, que ainda lhe doía.
Mas então teve que parar.
A escada estava em chamas, assim como seus dois
companheiros.
Satisfeito, Jamal observara suas pedras ceifarem vítimas na
confusa investida dos francos. Havia ordenado quatro
descargas, antes de constatar que os inimigos já estavam
muito próximos e que convinha passar a outros expedientes.
Perscrutando a nuvem de poeira, viu-os formigarem lá
embaixo em agregados incoerentes, amplos vazios alternados
com setores onde os soldados se aglomeravam a tal ponto
que se atrapalhavam reciprocamente.
Fosse como fosse, continuavam avançando, e agora
dificilmente renunciariam à tentativa de escalar as muralhas.
Mandou que os operadores das máquinas para projéteis
incendiários as carregassem. Dispunha de várias delas, cada
uma com quatro braços que giravam sobre um eixo vertical.
De cada extremidade em forma de colher partia um
recipiente; dentro deste, uma mistura preparada segundo um
sucedâneo da fórmula secreta que durante séculos havia
permitido que os bizantinos alvejassem os adversários com
um fogo que nem a água conseguia extinguir.
Ao seu sinal, os braços começaram a girar. E a lançar, em
rápida sucessão, quatro séries de projéteis, que deixaram para
trás uma esteira de fogo antes de aterrissar entre as fileiras
inimigas e transformar os soldados em muitas tochas
humanas.
Desta vez, a corrida dos francos pareceu perder impulso.
Muitas unidades do caótico exército se detiveram, e em
outras viram-se grupos de soldados movendo-se já não para
diante, mas lateralmente, na tentativa de se distanciarem das
piras e dos companheiros em chamas, que em vão pediam
ajuda.
Desta vez, tinham sentido o golpe, e muito.
O emir fitou comprazido o leal Firuz, e depois ordenou que
os operadores carregassem novamente. Por alguns instantes,
contemplou os trabalhos de preparação do novo tiro, até que
o turco chamou sua atenção, exortando-o a olhar mais uma
vez para baixo.
Os infiéis haviam recomeçado a avançar.
Quase todos.
As massas incandescentes não tinham atingido nem
Emanuel nem seus homens. Aquela espécie de fogo grego
caíra bem na sua frente, mas ele tivera tempo de desviar a
trajetória e evitá-lo. Não, porém, o último de seus
subalternos, um rapaz que só havia percebido o projétil tarde
demais.
Atraído pelos gritos do jovem, o oficial parou de chofre e
correu para ele; encontrou-o de joelhos, envolto pelas
chamas, e empurrou-o para o chão com o escudo. Com a
sola dos calçados, rolou-o várias vezes na poeira, até que
daquele corpo só se ergueu fumaça. Não podendo fazer mais
nada pelo coitado sem se furtar à batalha, deixou-o ali,
contentando-se com ter evitado que ele ardesse até morrer.
Acenou aos seus para que retomassem o avanço, enquanto
muitos outros os ultrapassavam e se lançavam, decididos, em
direção à muralha, agora próxima. Viu caírem outros
projéteis incendiários, que desta vez aterrissaram longe
deles, e teve uma intuição. Gritou aos seus homens que
cerrassem fileiras bem atrás de si e dispusessem os escudos
acima da cabeça, para encostá-los uns nos outros e não
deixar espaços livres.
Logo depois escutou os sibilos e em seguida os impactos e
vibrações das flechas sobre os escudos. Deu graças à própria
experiência, assim como ao Senhor, por ter recorrido àquele
anteparo bem a tempo. Olhou ao redor e viu que os outros
pelotões não haviam sido igualmente previdentes.
X
Por enquanto, seu papel estava concluído, pensou Jamal. Só
lhe restava desembainhar a cimitarra e esperar para lutar
com arma branca, como um soldado comum. Com suas
máquinas, dizimara os infiéis, mas ainda via muitos: tinham
sido astutos, teve de admitir, em concentrar quase todas as
suas forças naquele setor limitado.
Não tiveram medo. Os únicos vãos abertos em suas fileiras
eram os dos caídos, e não de fugitivos.
Agora, porém, era a vez dos arqueiros sudaneses, que o
governador distribuíra em primeira linha. Já estavam prontos
ao longo dos adarves, depois de envergarem escudos e
maças, em sua costumeira posição de tiro, com um joelho
apoiado no chão, os longos arcos tensionados, o rosto negro
e com cicatrizes emoldurado pelo turbante branco, o vistoso
traje de brocado adamascado.
Jamal viu o governador ordenar que os arqueiros lançassem,
e num instante aqueles hábeis atiradores encaixaram e
desfecharam as flechas com alça de mira alta, para depois
desferirem um novo tiro com alça de menor alcance.
Olhou para baixo. Viu vários cristãos contorcendo-se no
solo, com as mãos no ponto onde a flecha se espetara. Os
que haviam permanecido ilesos tentavam avançar segurando
o escudo sobre o elmo, mas agora os únicos que conseguiam
ficar próximos entre si eram os que traziam as escadas. Todos
os outros vagavam solitários, distantes um do outro, cada um
pensando em si mesmo.
Depois, notou um pelotão de soldados que se mantinham
unidos. Tão unidos que seus sete escudos os cobriam como
um manto protetor.
Entrecerrou os olhos e observou melhor. Eram todos
escudos redondos, mais amplos do que aqueles usados
habitualmente pelos francos como alternativa aos mais
comuns, triangulares.
Eram bizantinos.
E pareciam prestes a alcançar as muralhas.
Horrorizado, Ricardo largou a escada, transformada em um
tição ardente. Os dois homens que o tinham seguido a
contragosto, envoltos também eles pelas chamas, debatiam-
se entre gritos lancinantes. "E culpa sua!", acreditou ouvir
em meio àquele desumano agregado de sons proveniente do
que restava dos lábios deles. Um dos dois estendeu os braços
em sua direção e se aproximou, naquilo que Ricardo
entendeu como uma tentativa de lhe transmitir, por pura
vingança, a fogueira que estava dilacerando seu corpo.
Escapou. Escapou para a frente, rumo às muralhas, na esteira
dos companheiros que o precediam, olhando ao redor para
localizar a escada mais próxima. Viu-a pouco depois, mas viu
também dois dos homens que a seguravam despencarem no
chão transfixados pelas flechas, que assoviaram bem junto
dele.
Instintivamente, colocou-se de flanco em relação às
muralhas, para não expor aos arqueiros um alvo muito
amplo, e ergueu o escudo acima de si. A precaução se
revelou providencial um instante depois, quando um forte
impacto balançou o próprio escudo, com a vibração
produzida pelo dardo que se cravara nele.
Continuou de olho no grupo com a escada, mas ao mesmo
tempo devia prosseguir avançando de flanco, além de olhar
para baixo, a fim de evitar tropeçar nos cadáveres sempre
mais numerosos.
Por pouco não caiu sobre a carcaça de um cavalo, surgida
repentinamente por trás da nuvem de fumaça levantada pelo
enésimo projétil incendiário.
Viu-se junto do grupo com a escada bem perto do fosso
fronteiro à muralha, um obstáculo para qualquer máquina de
cerco e até para os cavalos, mas não para infantes dispostos a
se lançarem lá dentro sem parar de correr. Nenhum de seus
companheiros hesitou, quando se tratou de descer o declive,
embora o ímpeto da corrida desequilibrasse alguns, que
rolaram até o fundo, expondo-se aos dardos arremessados
dos espaldões.
Em breve, o fosso se encheu de feridos, de cadáveres e de
dardos espetados no terreno. Muitos foram mortos pelos
próprios companheiros, os quais não puderam evitar passar
por cima deles para tomar impulso e alcançar o aclive que
levava à base da muralha. O próprio Ricardo, deslocando-se
para se esquivar da queda de um companheiro atingido por
um dardo, ouviu um berro sufocado embaixo de si; com o
calcanhar, acabara de despedaçar o osso do pescoço de um
soldado que jazia com uma flecha na perna.
Não se deteve para refletir sobre o que havia provocado
involuntariamente, a fim de não expor um alvo fixo aos
arqueiros distribuídos sobre os espaldões. Repôs o escudo
acima do elmo e procurou segurar uma extremidade da
escada que os companheiros tentavam içar ao longo do
aclive. Quando ele finalmente conseguiu firmá-la nas mãos,
a escada se estabilizou e, junto com os outros, Ricardo
iniciou a subida.
Agora, apresentava-se outro problema. No alto do aclive, na
base da muralha externa, os defensores haviam instalado
espontões de madeira, tão próximos entre si que era
impossível encontrar um vão, sobretudo com a escada.
Um soldado tentou entrar com ímpeto entre duas estacas,
com o flanco voltado para a muralha. Não calculou bem a
distância e viu-se com a coxa rasgada por uma ponteira;
ainda por cima, ao permanecer imóvel no lugar, expôs-se à
chuva de projéteis. Desabou sem vida sobre os espontões,
tornando-se um obstáculo ao avanço dos companheiros.
Outro experimentou passar cautelosamente entre os postes
pontiagudos. Evitou o risco de ser perfurado pelas estacas,
mas, como se movia muito devagar, não o de ser atingido
pelas flechas.
Urgia ter uma idéia, pensou Ricardo.
Firuz havia empunhado o arco e possibilitado que o
comandante admirasse também sua habilidade no tiro, nem
um pouco afetada pela sua deficiência. De fato, o turco havia
encaixado uma prótese de madeira no braço desprovido de
mão. O artefato terminava com uma ranhura, que Firuz
utilizou para firmar o fuste do arco, enquanto, com a mão
direita, retesava a corda.
Jamal o observou enquanto ele encaixava a flecha,
debruçava-se das ameias, olhava para baixo e disparava.
Várias vezes. Fazia isso com extraordinária freqüência para
um homem daquela idade, e com uma precisão espantosa.
Não parecia lançar os dardos no aglomerado de soldados,
mas sim dirigi-los para um alvo bem preciso, já que eles
acabavam regularmente cravando-se nos francos.
Agora, os inimigos se amontoavam no fosso. A
extraordinária altura das muralhas de Jerusalém fazia-os
parecer bem pequeninos, muitas miniaturas de escudos que
pareciam voltear no ar sem um apoio, mas com os dardos
cravados na parte externa como hastes de trigo. O terreno,
sobretudo no centro do fosso, mostrava-se cheio de
cadáveres, amontoados uns sobre os outros numa cova
comum na qual a poeira se misturava ao sangue, criando uma
lama escura que recobria os corpos.
Os gritos de dor dos feridos misturavam-se aos de
encorajamento e de exaltação daqueles que se lançavam
contra a barreira de espontões. Alguns já estavam
superando-a, e viam-se escadas apoiadas à muralha. Jamal se
voltou e conferiu se estavam bem acesos todos os fogos que
ardiam sob os caldeirões de óleo. Depois, antes mesmo de
dar a ordem a Firuz, viu que este colocava o arco a tiracolo e
agarrava uma das varas anti-escada apoiadas no chão.
O pequeno pelotão de bizantinos enfileirados em testudo
conseguiu manter uma aparência de coesão, mesmo quando
desceu o declive do fosso. Já embaixo, Emanuel se voltou
para olhar, cuidando sempre de manter o escudo sobre a
cabeça. Os espaços deixados durante a descida haviam lhe
custado mais um soldado, que jazia sentado no declive
segurando a coxa perfurada por um dardo e esquecendo que
devia se cobrir. O comandante sequer tivera tempo de
imaginar um modo de protegê-lo quando o viu ser
novamente atingido, desta vez no pescoço, para em seguida
estatelar-se no chão e rolar até o fundo, juntando-se aos
outros cadáveres.
Logo atrás, viu afluírem dezenas de francos, encorajados pela
coesão que aquele grupinho de gregos demonstrava. Muitos
se enfileiraram na retaguarda de seus subordinados,
esperando que aqueles seis se sacrificassem para instalar a
escada. Tentou expulsar da mente a desagradável sensação de
que os ocidentais se aproveitavam da coragem e da eficiência
de seu grupo e começou a pensar na barreira de espontões.
— Façam como eu! — gritou aos seus, após refletir um
instante. Depois subiu até as estacas e, com uma série de
cutiladas, despedaçou-as. Os subordinados fizeram o mesmo,
e em poucos instantes liberaram um trecho suficiente para
fazer passar a escada e encostá-la à muralha. Enquanto isso,
vinham chegando com escadas outros francos, alguns dos
quais abriam caminho entre os espontões imitando Emanuel.
O comandante grego pretendia ser o primeiro a subir, e para
isso esperou que o artefato ficasse estável sobre o terreno.
Mas dois dos seus se anteciparam: ele não saberia dizer se
pelo ímpeto ou se para proteger seu chefe. Logo atrás, os
latinos pressionavam, igualmente ansiosos por subir, ao passo
que os mais recuados, pouco dispostos a esperar sua vez
expondo-se imóveis ao tiro inimigo, deslocavam-se para uma
escada vizinha.
Emanuel estava no meio da subida quando ouviu os soldados
que o precediam gritarem de maneira lancinante. Quase de
imediato, sentiu esguichos de líquido fervente respingarem
em seu rosto e em suas mãos. Os dois subordinados
perderam o equilíbrio e caíram para trás, resvalando nele
antes de se precipitarem no solo. O oficial agüentou o
choque agarrando-se à escada com toda a força, e em seguida
percebeu estar exposto de frente à série de merlões lá no
alto.
Sabia que precisava chegar ao cimo antes que os egípcios
tivessem tempo de jogar sobre ele outro caldeirão de óleo.
Empenhou-se em escalar com toda a agilidade de que era
capaz, esperando que quem o seguia fizesse o mesmo. Nas
ameias entre os merlões, debruçaram-se dois rostos escuros
envoltos em turbantes brancos, acima dos quais ondulavam
as maças destinadas a baixar sobre o primeiro assaltante que
alcançasse o topo.
— Joguem a escada sobre as estacas! — gritou Ricardo aos
soldados que a seguravam junto com ele. Os homens o
fitaram sem entender ou, se entenderam, consideraram
absurda sua exortação.
— Joguem-na para a frente, estou mandando! — repetiu e,
para expressar melhor sua idéia, deu o primeiro impulso.
Empurrado pelo normando, o artefato aterrissou justamente
sobre as pontas das estacas; disso resultou uma espécie de
pedestal ao longo da base das muralhas.
— Empilhem o máximo de corpos que puderem! — gritou
de novo Ricardo. Deteve-se apenas um instante para refletir
que havia sido justamente ele a favorecer semelhante
barbárie. Mas logo se recuperou e deu o exemplo, arrastando
o cadáver que estava sob seus pés para o aclive abaixo da
muralha. Os outros o imitaram; embora alguns caíssem
vítimas das flechas, elevando as pilhas de corpos, logo se
criou uma rampa macabra que preenchia um amplo setor do
fosso, permitindo o acesso ao pedestal constituído por escada
e espontões.
Como Ricardo havia previsto, muitos soldados perceberam
que naquele ponto era mais fácil ultrapassar o fosso, e não
hesitaram em valer-se da rampa e da passarela para alcançar a
base da muralha. Em pouco tempo, um amplo setor do
circuito foi acometido por uma série de escadas, pelas quais
os soldados começaram a subir de maneira caótica.
Ricardo também tentou fazer isso, mas um companheiro
particularmente zeloso, gritando como louco, empurrou-o
quando ele já se encontrava no primeiro degrau. Depois, o
normando não conseguiu espaço na aglomeração que se
formara na base da escada. Quando já não se via um só
degrau livre, o artefato começou a oscilar por alguns
instantes até cair para trás, precipitando ao solo os que
subiam e esmagando os que estavam embaixo. Ricardo olhou
para cima e viu que a causa dessa derrubada havia sido uma
vara com ganchos, a qual ainda se projetava das ameias.
Logo em seguida debruçaram-se outros arqueiros, e uma
nova chuva de flechas o obrigou a se proteger sob o escudo,
enquanto tentava alcançar outra escada. Topou com um
grupo de sapadores que, munidos de pás e enxadas,
escavavam com fúria a base da muralha, protegidos
precariamente por outros soldados que soerguiam uma tábua,
à maneira de cobertura. Os esforços deles lhe pareceram
decididamente patéticos, diante do tamanho imponente das
muralhas e da chuva de flechas que os investia, mas depois
notou que havia luz na cavidade, ao longo da camada
inferior da primeira linha de blocos de pedra, e
compreendeu que havia alguma possibilidade de solapar os
alicerces.
Por alguns instantes, deteve-se para refletir sobre a escolha a
fazer. Substituir um dos soldados feridos e tentar entrar por
baixo, ou alcançar a escada e experimentar subir?
Em ambos os casos, as probabilidades de morrer eram
enormemente superiores às de chegar ao outro lado.
Quando as primeiras escadas foram apoiadas ao longo das
muralhas, Inês e Anselmo finalmente puderam entender
alguma coisa do desenvolvimento do assalto. De fato, só
então os soldados emergiram da nuvem de poeira que, de
longe, escondera-os dos civis que permaneceram na
retaguarda. No mesmo instante, porém, os feridos
começaram a voltar, trazidos nos braços de companheiros
que estavam em condições só um pouco melhores que as
deles.
Ao verem que Inês tinha água, ataduras e substâncias
medicinais, amontoavam-se bem à sua frente, invocando um
rápido curativo nos ferimentos, à espera do médico. A
mulher preferiria acompanhar o combate, mas a insistência
dos feridos a obrigou a se debruçar sobre eles e a prestar
assistência.
Os gemidos de um homem com a perna queimada lhe
impuseram uma rápida escolha do remédio a adotar para
aliviar a dor dele. Depois de derramar delicadamente um
pouco d'água sobre a chaga, Inês observou com atenção os
recipientes que o médico lhe dera. Conhecia bem as
compressas de sanícula, uma erva que no passado ela usara
com freqüência em ferimentos. Mas sabia poder dispor,
neste caso, também de um preparado de cim... cimbalária,
pareceu-lhe recordar, específico para queimaduras.
Esforçou-se por recapitular. O frasco com a cruz verde
continha pelargônio, hemostático. O de cruz branca, lúzula,
para ferimentos em geral. A cruz amarela indicava a
alquemila, cicatrizante. A azul, óleo de aquiléia, outro
hemostático. Por fim, acreditou identificar aquilo de que
necessitava num frasco assinalado por uma cruz vermelha.
Pingou algumas gotas num pedaço de pano e começou a
passá-lo suavemente sobre a chaga. Mas a cada instante
levantava a cabeça, procurando observar o que acontecia ao
longo do circuito de muralhas. Com o passar do tempo, foi
prestando menos atenção à intensidade de seu toque.
— De leve, sua puta feia! — gritou o paciente.
— Ninguém nunca me chamou de feia! — respondeu ela
com um sorriso irônico, finalmente atentando mais para o
que fazia.
— Sem dúvida você não presta um serviço ao Senhor,
tratando tão mal quem precisa de cuidados! Concentre-se no
que está fazendo! — gritou-lhe Anselmo, que, ao contrário,
acompanhava com extremo interesse o espetáculo ao longo
das muralhas.
— Pelo menos me conte o que está acontecendo! —
exclamou Inês, desalentada.
— O quê? Ah, sim — murmurou Anselmo, como se
retornasse de um estado de catalepsia. — Bem, o que você
quer que eu diga? Agora, são muitas as escadas apoiadas às
muralhas, mas também vejo várias sendo empurradas para
trás. Em dois setores, os soldados de Cristo conseguiram
alcançar os espaldões. Estão combatendo encarniçadamente,
sem dúvida impelidos pela força do Senhor, circundados e
agredidos por dúzias de inimigos...
— E o que mais? E o que mais? — incitou-o a mulher, ávida
por descrições. Quase não deu importância à chegada do
médico, que se encarregou do primeiro paciente e lhe
passou outro.
Anselmo demorou ainda um pouco para responder.
— Nos que estão nas escadas, o inimigo lança um líquido,
talvez óleo fervente. Vejo muitos caírem, mas outros os
substituem e recomeçam a subir. Ninguém parece ter medo.
Se isso não for o estímulo do Senhor, não vejo o que pode
dar a eles tanta coragem! — exclamou, admirado. — Pronto!
Agora, os defensores não sabem se enfrentam os que sobem
pela direita ou os que sobem pela esquerda. Finalmente, os
infiéis também despencam dos espaldões. Os nossos estão
abrindo caminho entre os merlões, mantendo os
muçulmanos ocupados e permitindo que os outros subam!
Conseguimos! Conseguimos!
Inês se deixou contagiar pelo entusiasmo do monge.
Levantou-se, abandonando sem grandes cuidados um outro
ferido que o médico lhe entregara para que ela tamponasse a
hemorragia após a extração de uma flecha. Por alguns
instantes, viu o espetáculo descrito por Anselmo, mas depois
os lamentos do ferido e os protestos do doutor induziram-na
a retomar o trabalho.
Mas não pretendia renunciar à crônica da batalha:
— Não se atreva a parar de contar! — disse ao monge, no
tom mais ameaçador que conseguiu adotar. — ... Do
contrário, de mim você não recebe nem mais um soldo para
seus pobres!
Emanuel viu dois defensores girarem as maças denteadas
fora dos merlões, em busca de sua cabeça. Ele, porém, tinha
um plano, embora limitado por aquelas condições. Subiu
mais uns degraus, detendo- se pouco antes do topo, mas
dando aos defensores a impressão de estar ao alcance das
maças. De fato, ambos desfecharam o golpe. Ao mesmo
tempo, Emanuel relaxou de repente a preensão com que se
segurava à escada; um instante depois, solto no ar, agarrou o
degrau inferior, descendo também.
Como previra, os muçulmanos toparam com o vazio,
desequilibrando-se e abrindo a guarda. Imediatamente,
Emanuel subiu de novo e desferiu uma dupla cutilada para
um lado e para outro, ferindo os dois no pescoço. As duas
figuras se separaram como as metades de uma maçã e diante
do grego abriu-se um vão, do qual ele se aproveitou para
saltar logo sobre as ameias e aterrissar nos espaldões. Na
mesma hora, outros soldados o seguiram.
Mal conseguira se estabilizar quando um árabe o defrontou.
Ou melhor, devia ser um núbio, pensou Emanuel, porque
apresentava a pele escura como aqueles que ele havia
eliminado pouco antes. Também este empunhava uma maça,
girando-a acima da própria cabeça. Se pretendia atemorizá-
lo, bem, tinha conseguido. O grego ficou na defensiva,
esperando o golpe e tratando de esconder o máximo do
corpo atrás do escudo.
A maça desceu afinal, num movimento mortífero. Mas o
impacto aconteceu justamente sobre o umbo do escudo: a
forma deste, em cúpula, preservou-o da ruptura e de
eventuais conseqüências no braço de Emanuel.
Era o momento de contra-atacar. O grego não perdeu tempo
e logo desfechou uma cutilada, que partiu de baixo para a
esquerda, em diagonal, e cortou a mão que empunhava a
arma. A essa altura, bastou-lhe empurrar para o solo o que
restava do adversário, mas a queda deste não fez mais do que
revelar um novo inimigo, prestes a enfrentá-lo. Por sorte,
agora eram numerosos os francos sobre os espaldões, e ele
não corria o risco de ser atacado por muitos muçulmanos.
Para sua grande surpresa, o guerreiro que estava à sua frente
lhe pareceu um turco — mas estes não haviam sido expulsos
um ano antes? —, a julgar pelos trajes: um colete lamelar,
provavelmente em chifre, que começava pouco acima dos
peitorais e terminava na cintura, e uma malha de ferro que
partia do elmo e descia ao redor do pescoço. O escudo era
redondo, e não amendoado, talvez porque se tratava de um
cavaleiro.
Emanuel cruzou sua lâmina com a do muçulmano, que já se
aproximara bastante. Enquanto os dois empurravam as
espadas uma contra a outra, na tentativa recíproca de se
repelir, notou que também os traços, ásperos e duros, eram
mais semelhantes aos de um turco do que às linhas suaves e
bem-cuidadas do rosto de um árabe.
Ásperos demais.
Duros demais.
Lembravam-lhe os de um seljúcida que ele conhecera muito,
muito tempo antes.
Não teve tempo de tirar conclusões. O adversário o
empurrou para trás e em seguida se lançou contra ele,
aproveitando-se de seu desequilíbrio. Vendo-se sobrepujado
pelo inimigo, que já lhe desferia golpes com a cimitarra,
Emanuel não pôde senão apará-los ou evitá-los, deslocando-
se com toda a agilidade de que dispunha.
Não conseguia passar ao contra-ataque. O outro se mostrava
forte como um boi; além disso, a dúvida de que ele fosse
justamente o turco que havia conhecido na campanha de
Manzikert o constrangia, limitando sua combatividade.
Como diabos se chamava? Devia se lembrar, se quisesse
deter aquela fúria.
Outra cutilada lhe chegou sobre o escudo, com uma força
que o fez cair no chão.
Estava à mercê do turco. Este se preparou para desferir o
golpe definitivo. Emanuel o viu empunhar a cimitarra com
as duas mãos e erguê-la acima da cabeça. Sentiu-se perdido.
"Firuz...", pensou.
— Firuz! — gritou, e o berro lhe saiu tão fraco que ele temeu
não ser ouvido.
Mas o outro havia escutado.
Emanuel o viu se deter de repente e procurar seu olhar. Por
um instante, os dois se encararam, e o primeiro percebeu
que o segundo também o reconhecera, finalmente.
O grego não lhe deu tempo de fazer mais nada. Rolou para
diante, rumo à rampa de acesso aos espaldões, e desceu-a em
tal velocidade que se arriscou a cair. Quando se viu lá
embaixo, deu mais uns passos de corrida, na direção da
segunda muralha. Depois se voltou. Outros cristãos o
imitavam, e alguns até haviam conseguido levar consigo as
escadas.
Olhou para cima, procurando Firuz, e o viu lutar contra três
adversários.
Chuva de dardos. Aliás, previsível ali embaixo, na base das
muralhas. Ricardo estava certo de que seu escudo, suspenso
acima da cabeça, já se parecia com o lombo de um porco-
espinho. Esperava que os defensores, ocupados com os
assaltantes nas escadas, não conseguissem lançar fogo ou
óleo fervente em cima dele. Esperava que a tábua que
protegia os sapadores ocultasse os progressos de seus com-
panheiros. Esperava que os muçulmanos não considerassem
os esforços deles tão ameaçadores a ponto de justificar um
empenho maior em eliminá-los.
Em vez disso, porém, ali embaixo o trabalho prosseguia. E
prosseguia bem. O amplo buraco escavado sob a camada
inferior dos blocos de pedra, na base da muralha, finalmente
permitiu que os sapadores removessem o amontoado de
rochas disseminado sob a barreira, substituindo-o por achas
de lenha à maneira de escoras. O risco era o de ver alguém
surgir dali de baixo, mas Ricardo duvidava que, dentro da
cidade, os soldados atentassem para alguma coisa que não se
referisse ao que acontecia sobre os espaldões.
Após escavarem os alicerces, chegou o momento de atear
fogo à estrutura. Então todos se entreolharam, esperando
que alguém se oferecesse para ir procurar material
combustível. Quem se decidiu foi Ricardo, que retrocedeu
em busca de um dos projéteis incendiários lançados pelos
defensores. "E improvável", pensou, para se encorajar, "que
os muçulmanos ainda se preocupem com o que acontece
abaixo e fora das muralhas. Certamente, não estarei correndo
riscos."
Olhou para o alto, e viu que de fato os defensores estavam
todos empenhados no corpo a corpo sobre os espaldões.
Alguns cristãos até puxavam a escada para cima, a fim de
usá-la contra o segundo circuito de muralhas.
Ricardo não teve dificuldade de encontrar o que buscava. No
escudo subtraído a um morto, recolheu umas brasas caídas
de um recipiente quebrado e retornou, levando-as
equilibradas sobre um braço, enquanto, com o outro,
continuava protegendo a cabeça.
Os companheiros acompanharam apreensivos os seus
movimentos, até que ele os alcançou. Jogou as brasas na base
das escoras, as quais, graças aos sopros dos sapadores, em
poucos instantes foram envolvidas pelas chamas. Os soldados
se afastaram, sempre cuidando de se abrigarem sob a tábua
que os cobria. Ao lado, outros cristãos continuavam subindo,
mas alguns perceberam o que eles estavam fazendo e se
detiveram para aproveitar aquela oportunidade.
Finalmente, a estrutura cedeu. Só então os blocos de pedra
que se apoiavam nela começaram a se deslocar, para em
seguida desabar com fragor, amontoando-se numa pilha
incoerente que, apenas um minuto antes, havia feito parte
de uma das muralhas mais imponentes do mundo
conhecido.
Os cruzados exultaram, embora a poeira levantada pelo
desabamento os impedisse de ver a brecha. Os mais
próximos, contudo, não esperaram que a nuvem se
dispersasse e se lançaram ao assalto da passagem, aos gritos
de "Deus o quer!". Por alguns instantes ainda, Ricardo
permaneceu contemplando o resultado de seu trabalho,
vendo diversos soldados desaparecerem na poeira, antes de,
por sua vez, subir o aclive do pequeno e irregular monte de
pedras que se criara.
Escalou-o com a ajuda das mãos, mantendo os olhos e a boca
fechados para se defender dos detritos que ainda flutuavam
no ar. Descobriu-se gritando também "Deus o quer!", mas
logo o percebeu e se impôs o silêncio. A última vez em que
havia glorificado a Deus tinha sido muito, muito tempo atrás,
e nunca, nem mesmo nos momentos mais empolgantes ou
nos mais deprimentes da campanha na Ásia, havia deixado
de lado seu ceticismo habitual; nunca se deixara envolver
pelo delírio coletivo.
Mas agora estava entrando em Jerusalém, e isso tinha um
significado, até para ele. Ao menos do ponto de vista militar,
como cúmulo de seus esforços para ser um bom combatente,
e talvez como início de uma carreira que lhe proporcionasse
o reconhecimento também dos outros guerreiros.
Emergiu da nuvem de poeira. Estava no alto do entulho, e
embaixo, diante de si, vislumbrou os confrontos entre seus
companheiros e os primeiros adversários que haviam
acorrido para tentar vedar a brecha. Virou-se, e atrás viu
chegarem muitos outros companheiros, inclusive a cavalo,
atraídos pela possibilidade de entrar na cidade sem precisar
transpor a muralha.
Do interior, os egípcios continuavam afluindo, por enquanto
em número superior ao dos cristãos. Ricardo decidiu não se
arriscar a uma entorse, se descesse. Preferiu jogar-se em
cima de um dos inimigos mais próximos, sobre o qual
aterrissou fazendo-o bater no chão a cabeça protegida apenas
pelo turbante. O muçulmano parecia fora de combate, mas,
para evitar equívocos, o normando lhe cortou a garganta.
Depois, levantou-se e enfrentou um novo adversário. Ou
melhor, dois: ao primeiro, que envergava uma longa túnica
branca acolchoada e empunhava uma espécie de alabarda,
com um minúsculo escudo redondo preso ao braço,
acrescentara-se um segundo soldado, mais couraçado, com
um elmo envolto por um turbante, uma cota de malha de
ferro e, por cima, uma armadura lamelar de couro e
finalmente uma espécie de túnica sem mangas recobrindo-
lhe o torso. Empunhava uma lança comprida, enquanto no
outro braço trazia um amplo escudo redondo.
Atrás dos dois muçulmanos, o caminho para a segunda
muralha parecia aberto. Com isso, Ricardo teve forças para
enfrentá-los com uma fúria que os deixou atônitos. Perfurou
em pleno peito aquele menos armado, antes mesmo que ele
tratasse de se proteger com o pequeno escudo.
O outro se pôs em alerta e atacou de lança, mas sem atingir o
alvo. Ricardo tentou cortar a haste com uma cutilada, mas
pegou-a só de raspão, e o inimigo se reposicionou. O
comprimento maior da arma dava ao muçulmano uma nítida
vantagem, da qual ele procurou desfrutar. Ricardo não
renunciou à idéia de neutralizar a lança e, na segunda
investida do inimigo, esquivou-se para que a ponta se
chocasse contra seu escudo e resvalasse de lado, dando-lhe a
oportunidade de desferir um golpe de talho. A haste não se
quebrou, mas o impacto fez cair a arma da mão do árabe, que
se apressou a puxar a cimitarra.
As duas lâminas se impactaram, uma, duas, muitas vezes,
antes de Ricardo conseguir superar o outro em rapidez,
atingindo-o no ombro. Mas o único efeito que obteve foi o
de desencaixar uma placa de couro da proteção dele. No
contra-ataque, o egípcio ergueu à altura de seu rosto uma
cutilada horizontal destinada a cortar-lhe a cabeça rente ao
pescoço. O normando teve tempo de se abaixar, mas não foi
suficientemente ágil para evitar que a lâmina da cimitarra lhe
atingisse o elmo. Este rolou para longe, deixando-o atordoa-
do por um instante.
Para sua sorte, enquanto ele ainda estava pouco reativo, o
instinto de sobrevivência lhe sugeriu levar o escudo à frente,
e isso lhe permitiu aparar o golpe seguinte, que o árabe
desfechou praticamente sem possibilidade de erro. Superado
o instante de confusão, Ricardo recomeçou a girar a espada,
buscando desesperadamente o ataque decisivo.
Golpeou várias vezes o escudo do egípcio até conseguir
rachá-lo em dois. Finalmente, a lâmina de Ricardo
encontrou campo livre para acometer o adversário e o feriu
sob a axila esquerda.
Ele olhou ao redor. Alguns cruzados estavam bloqueados por
opositores tenazes, mas outros já se lançavam ao assalto da
segunda linha de muralhas, além da qual ficava a área
habitada. Podia dar uma ajuda aos companheiros em torno
do entulho da brecha ou, então, prosseguir rumo à muralha
para ser um dos primeiros a tentar transpô-la.
A primeira linha de muralhas parecia agora impossível de
defender, pensou Jamal. Mesmo que seus homens
conseguissem repelir os francos que haviam alcançado os
espaldões, não havia como refrear os que entravam por
baixo, através da brecha recém-aberta. Em sua cimitarra
havia sangue de pelo menos três inimigos, mas, se não
achasse um modo de chegar ao segundo circuito, logo se
veria rodeado pelos infiéis e condenado a morrer nos
espaldões.
Olhou a torre à sua esquerda, da qual partia a passarela para
as muralhas recuadas. Estava próxima. Mas, com três francos
recém-surgidos das ameias, era como se ela ficasse do outro
lado da cidade. Pensou em pedir ajuda a um subordinado,
mas não havia nenhum deles livre da pressão adversária, de
modo que decidiu enfrentá-los sozinho. Tentou descobrir
vantagens na situação, e concluiu que dois dos três
adversários estavam equipados à ligeira, desprovidos de pro-
teções corporais e de escudos; um deles, cujo rosto se
escondia sob as melhor, dois: ao primeiro, que envergava
uma longa túnica branca acolchoada e empunhava uma
espécie de alabarda, com um minúsculo escudo redondo
preso ao braço, acrescentara-se um segundo soldado, mais
couraçado, com um elmo envolto por um turbante, uma
cota de malha de ferro e, por cima, uma armadura lamelar de
couro e finalmente uma espécie de túnica sem mangas
recobrindo- lhe o torso. Empunhava uma lança comprida,
enquanto no outro braço trazia um amplo escudo redondo.
Atrás dos dois muçulmanos, o caminho para a segunda
muralha parecia aberto. Com isso, Ricardo teve forças para
enfrentá-los com uma fúria que os deixou atônitos. Perfurou
em pleno peito aquele menos armado, antes mesmo que ele
tratasse de se proteger com o pequeno escudo.
O outro se pôs em alerta e atacou de lança, mas sem atingir o
alvo. Ricardo tentou cortar a haste com uma cutilada, mas
pegou-a só de raspão, e o inimigo se reposicionou. O
comprimento maior da arma dava ao muçulmano uma nítida
vantagem, da qual ele procurou desfrutar. Ricardo não
renunciou à idéia de neutralizar a lança e, na segunda
investida do inimigo, esquivou-se para que a ponta se
chocasse contra seu escudo e resvalasse de lado, dando-lhe a
oportunidade de desferir um golpe de talho. A haste não se
quebrou, mas o impacto fez cair a arma da mão do árabe, que
se apressou a puxar a cimitarra.
As duas lâminas se impactaram, uma, duas, muitas vezes,
antes de Ricardo conseguir superar o outro em rapidez,
atingindo-o no ombro. Mas o único efeito que obteve foi o
de desencaixar uma placa de couro da proteção dele. No
contra-ataque, o egípcio ergueu à altura de seu rosto uma
cutilada horizontal destinada a cortar-lhe a cabeça rente ao
pescoço. O normando teve tempo de se abaixar, mas não foi
suficientemente ágil para evitar que a lâmina da cimitarra lhe
atingisse o elmo. Este rolou para longe, deixando-o atordoa-
do por um instante.
Para sua sorte, enquanto ele ainda estava pouco reativo, o
instinto de sobrevivência lhe sugeriu levar o escudo à frente,
e isso lhe permitiu aparar o golpe seguinte, que o árabe
desfechou praticamente sem possibilidade de erro. Superado
o instante de confusão, Ricardo recomeçou a girar a espada,
buscando desesperadamente o ataque decisivo.
Golpeou várias vezes o escudo do egípcio até conseguir
rachá-lo em dois. Finalmente, a lâmina de Ricardo
encontrou campo livre para acometer o adversário e o feriu
sob a axila esquerda.
Ele olhou ao redor. Alguns cruzados estavam bloqueados por
opositores tenazes, mas outros já se lançavam ao assalto da
segunda linha de muralhas, além da qual ficava a área
habitada. Podia dar uma ajuda aos companheiros em torno
do entulho da brecha ou, então, prosseguir rumo à muralha
para ser um dos primeiros a tentar transpô-la.
A primeira linha de muralhas parecia agora impossível de
defender, pensou Jamal. Mesmo que seus homens
conseguissem repelir os francos que haviam alcançado os
espaldões, não havia como refrear os que entravam por
baixo, através da brecha recém-aberta. Em sua cimitarra
havia sangue de pelo menos três inimigos, mas, se não
achasse um modo de chegar ao segundo circuito, logo se
veria rodeado pelos infiéis e condenado a morrer nos
espaldões.
Olhou a torre à sua esquerda, da qual partia a passarela para
as muralhas recuadas. Estava próxima. Mas, com três francos
recém-surgidos das ameias, era como se ela ficasse do outro
lado da cidade. Pensou em pedir ajuda a um subordinado,
mas não havia nenhum deles livre da pressão adversária, de
modo que decidiu enfrentá-los sozinho. Tentou descobrir
vantagens na situação, e concluiu que dois dos três
adversários estavam equipados à ligeira, desprovidos de pro-
teções corporais e de escudos; um deles, cujo rosto se
escondia sob as amplas abas de um chapelão, dispunha de
um forcado como única arma. Por conseguinte, não os
considerou especialmente perigosos.
O terceiro, porém, tinha cota de malha, elmo e escudo
triangular. Estava ao lado da cimitarra de Jamal, e este o
atacou procurando, ao mesmo tempo, com o escudo, manter
afastados os outros dois. Mas logo percebeu que havia
subestimado a ameaça representada pelo forcado. Enquanto
cruzava a própria cimitarra com o infante pesado, o emir se
sentiu espetar duas vezes pela longa arma daquele que lhe
parecera um camponês. As três pontas do forcado não
faziam grande efeito sobre seu couraçamento, dotado de
uma armadura lamelar de couro e chifre sobreposta à malha
de ferro, mas contribuía para desequilibrá-lo a cada impacto,
tornando-o mais vulnerável aos ataques do mais perigoso dos
três.
Tinha de colocar entre si e este último os dois infantes
armados à ligeira. Deslocou-se até o parapeito interno e, com
um movimento repentino, achou-se diante do combatente
que lhe parecia mais desprovido: viu que ele segurava a
espada como se esta fosse uma enxada. Foi fácil fazer valer
seu peso maior empurrando-o com o ombro, para situar-se
bem junto ao parapeito, com o desprovido ao lado e o que
trazia o forcado na frente. O terceiro, aquele pesadamente
armado, estava agora mais atrás, junto à série de merlões que
dava para o exterior.
Após uma certa hesitação, os dois camponeses lhe caíram
em cima. O emir agiu fulminantemente: evitou a investida
do forcado afastando-se para a esquerda e, tendo desarmado
o adversário menos difícil com um golpe de talho do escudo,
atacou-o de cabeça baixa e, com a ponteira do próprio elmo,
perfurou-lhe o peito, protegido apenas pelo camisão. Ao
mesmo tempo, sua cimitarra partiu o cabo do forcado do
outro.
O homem ferido levou as mãos ao peito e, com expressão
incrédula, deixou-se cair além do parapeito, enquanto o
outro agarrava com as duas mãos o que lhe restava do
forcado e tentava atingir Jamal na cabeça: um gesto
desesperado, que expôs seu tronco à cimitarra do emir. Este
o transfixou e depois empurrou o corpo inanimado para cima
do infante pesado, retardando-lhe o avanço, enquanto ele
mesmo se deslocava rumo à torre.
Conseguiu chegar aos degraus pouco antes de perceber atrás
de si o perseguidor. Virou-se, em equilíbrio precário, e
começou a duelar com o franco de uma posição mais alta,
conquanto menos estável. Com o escudo, aparou a saraivada
de golpes desfechados pelo adversário; compreendeu que
este era propenso a desperdiçar energias e limitou-se a se
defender, subindo de vez em quando um degrau para
alcançar a plataforma e ficar não somente mais alto em
relação a ele como também numa superfície mais cômoda,
invertendo as condições iniciais.
O outro continuou a cobri-lo de golpes, subindo por sua vez
os degraus, até que Jamal finalmente chegou à plataforma. Só
então se deteve e, aproveitando o ímpeto do franco,
surpreendeu-o com a guarda aberta. Desfechou o golpe, o
primeiro, e foi definitivo. Feriu-o no ombro, mas o impacto
desequilibrou o cristão, que despencou desastrosamente
escada abaixo. O emir o viu imóvel nos degraus inferiores e,
sem verificar se ele estava vivo ou morto, tratou de se retirar
antes que sobreviessem os outros.
Alcançou a passarela que ligava as duas linhas de muralhas, já
apinhada de árabes em retirada. Enquanto a percorria, lançou
um olhar ao redor, em busca de Firuz. Na última vez em que
o vira, o turco estava às voltas com pelo menos três
adversários sobre os espaldões, e Jamal duvidava que os
tivesse vencido. Depois, porém, recordou que ele mesmo se
encontrara em igual situação e conseguira se livrar. Se havia
alguém que podia até fazer melhor era justamente aquele
seljúcida...
Notou que muitos francos já partiam para o assalto à segunda
linha de muralhas. Pareceu-lhe absurdo que eles tivessem
conseguido arrombar a primeira em poucas horas. Os
fatímidas detinham todas as vantagens: uma guarnição
numerosa, máquinas de lançamento, copiosas provisões e
reservas. O governador não desprezara nenhuma medida
para deixar os sitiantes numa situação de desconforto,
subtraindo-lhes todos os recursos disponíveis na área. Além
disso, os infiéis haviam chegado diante de Jerusalém
desprovidos de máquinas de assédio, com escassos meios de
sustento, levando consigo velhos, mulheres e crianças, e
alguns de seus cavaleiros montavam bois, em vez de cavalos.
Ao longo do caminho, tinham perdido muitas unidades de
seu exército, e não estavam em número suficiente para
rodear sequer a metade do circuito de muralhas.
No entanto, haviam ultrapassado a barreira externa.
Pareciam uns endemoniados, sem consciência do perigo e,
por conseguinte, capazes de qualquer coisa. Isso os tornava
extremamente perigosos: mas Alá não podia permitir que
conquistassem tão facilmente a Santa, logo eles que, somente
poucos meses antes, haviam expugnado Ma'rrat an-Nu'man
executando ao longo de três dias chacinas inauditas,
massacrando mulheres, crianças, inócuos estudiosos e
velhos, levando destruição a toda parte. Não, Ele não podia
permitir que os infiéis entrassem em Jerusalém e ali
descarregassem a mesma ferocidade selvagem e bárbara.
"O Deus, se meus homens perecerem hoje, Tu não mais
encon- trarás quem Te adore!", gritou voltando-se para o
céu, como havia gritado o Profeta durante a carnificina de
Badr.
XI
Agora, os rumores da batalha estavam mais próximos.
Parecia até que os confrontos eram bem junto à casa delas,
pouco acima do telhado. Sobre sua cabeça, Rebeca ouvia
com terror o choque das armas, os gritos dos combatentes,
os berros lancinantes dos feridos, os passos das botas sobre
os espaldões, os baques dos soldados que se precipitavam dos
adarves.
E os lamentos de Sara. Eram tão freqüentes e intensos que,
muitas vezes, abafavam os ruídos provenientes do exterior.
Rebeca preferiria dizer a ela que a situação estava sob
controle, que os árabes estavam vigiando os francos ao longo
do circuito externo das muralhas e que as máquinas de Jamal
não permitiriam que eles chegassem aos espaldões.
Sua irmã, porém, era preguiçosa e desatenta, mas não
estúpida. Sem dúvida havia compreendido que as coisas não
estavam indo como o emir fizera esperar. Certamente as
defesas tinham cedido, pelo menos a primeira linha, e agora,
na melhor das hipóteses, a batalha se deslocara para o pátio
interno entre os dois circuitos.
Rebeca foi tomada pelo desalento. Disse a si mesma que, se
eles tinham ultrapassado a primeira linha, podiam também
ultrapassar a segunda. E logo estariam ali. Entrariam em sua
casa. Olhou para a irmã, que soluçava cobrindo o rosto com
as mãos, e em seguida para os rolos, ainda abertos sobre a
mesa para lhe dar a ilusão, agora desfeita, de que tudo seguia
normalmente, embora a poucos passos de distância houvesse
pessoas se massacrando.
Seria possível que aquele homem, que vivera mais de mil
anos antes justamente ali, em Jerusalém, desse àqueles
soldados a força para realizar semelhante empreendimento?
Tinham-no transformado em um deus, ou melhor, no mais
poderoso de seus deuses, dentro de um panteão que
compreendia uma versão mais banal e marginal de Yahvé,
uma estranha e incompreensível entidade que era o Espírito
Santo e até a mãe, Maria, de igual modo
incompreensivelmente virgem.
Jamal errara ao prever uma defesa fácil, assim como errara ao
dizer que todos os povos das Escrituras tinham o mesmo
deus. Talvez fosse possível presumir algo assim no caso de
muçulmanos e judeus, mas os cristãos tinham tomado um
caminho diferente, haviam mudado as Escrituras,
transformando o Tanakh no Antigo Testamento,
modificando-lhe a ordem cronológica para que as profecias
de Malaquias viessem por último, a fim de anunciar o adven-
to do Cristo, ou melhor, o retorno de Elias nas vestes de João
Batista:
Eis que vos enviarei o profeta Elias, antes que chegue o
grande e terrível dia do Senhor
E depois tinham acrescentado aquele seu novo testamento,
que não era senão o produto do pensamento de Paulo, e não
de Jesus.
Uma religião nascida sobre um equívoco, sobre um mal-
entendido a respeito de outra religião, e sobre a obra de
mistificação de um hebreu, transformara-se na mais
sanguinária máquina de guerra que a humanidade já
conhecera. Uma nova aliança entre uma divindade e um
povo, a qual parecia mais forte do que a antiga aliança
estipulada por Moisés com Yahvé. Uma máquina de guerra
que parecia capaz de encontrá-la onde quer que ela se
refugiasse, assim como de derrotar, massacrar e aniquilar
quem quer que se fizesse paladino de uma crença diferente.
Rebeca sentiu que sua própria fé se abalava, enquanto sua
habitação estremecia sob as vibrações produzidas pelos
movimentos dos combatentes, cada vez mais próximos.
Tinha sido o Senhor a lhe dar forças, pensou Emanuel. Mas,
sobretudo, a permitir-lhe superar incólume a primeira linha,
apesar de ter sido ele um dos primeiros a enfrentar os
defensores sobre os espaldões. Cristo havia operado um
milagre, fazendo-o encontrar Firuz; já era a segunda vez que
aquele turco o poupava em batalha, embora, nesta última
circunstância, sem dúvida não se pudesse dizer que o fizera
conscientemente. Devia existir um desígnio divino por trás
daquele encontro, refletiu; talvez o Senhor pretendesse lhe
mandar um sinal de que o perdoara pela tolice de Manzikert,
permitindo-lhe entrar em Jerusalém. Com determinação
renovada, saiu em busca de uma escada.
Observou ao redor, para localizar seus homens. Na confusão
dos combates sobre os espaldões, todas as unidades haviam
se dividido e era raro que comandantes e subordinados ainda
estivessem juntos, uma vez transposta a barreira. Depois, seu
olhar caiu em um dos seus, que circulava pelo pátio com um
dos braços ensangüentado. Acenou para que ele fosse ao seu
encontro.
— Comandante, todos os outros morreram. Só restamos nós
— disse o grego, um jovem diligente e consciencioso para o
qual Emanuel havia desejado uma longa carreira. — Vamos?
— acrescentou o rapaz, apontando a segunda linha.
Emanuel fitou o corte que se abria no braço esquerdo do
soldado, balançou a cabeça e respondeu:
— Eu vou. Você retorna ao acampamento para ser medicado.
Não está em condições de lutar.
— Estou, sim, claro! — protestou o jovem. — O braço com
que seguro a espada está bom. Ainda posso matar muitos
desses infiéis!
— Ah, é? E a escada? Como você vai subir, com esse braço
rasgado? Vá lá para trás. E uma ordem — replicou o
comandante, em tom decisivo.
O rapaz baixou a cabeça e, com tristeza, fez meia-volta.
Emanuel lhe deu um tapinha de encorajamento no braço
saudável e em seguida dirigiu-se ao segundo circuito de
muralhas. As escadas mais próximas haviam sido tomadas de
assalto por cruzados entusiasmados e ansiosos por subir,
apesar das centenas de homens de turbante que surgiam das
ameias com cimitarras, lanças e maças, além de todos os
arcos tensionados e já em ação.
Emanuel ouviu o sibilar de dardos junto de si, mas não tratou
de se proteger com o escudo. Agora, estava certo de que o
Senhor não o deixaria morrer naquele dia. Depois, porém,
viu serem trespassados alguns francos que, tão entusiasmados
quanto ele, avançavam em direção à muralha, e perguntou-
se quantos daqueles estariam igualmente convencidos de ter
superado a primeira linha por vontade celeste.
A dúvida abalou sua determinação só por um instante. Ele
foi até o pé de uma escada, esperando sua vez de subir.
Estava prestes a galgar o primeiro degrau quando o artefato
se moveu, inclinando-se para trás. Emanuel foi obrigado a se
afastar para o lado, a fim de não ser derrubado pela queda. A
escada despencou, lançando ao solo seus ocupantes e
esmagando os que haviam ficado embaixo. Nem todos se
reergueram, e muitos dos que o fizeram foram imediata-
mente abatidos por uma descarga de flechas.
Emanuel correu para pegar a escada para uma nova tentativa
de subida. Inclinou-se para segurar a extremidade,
soerguendo-a acima dos corpos que jaziam imóveis sob ela.
Deteve-se por um instante, ao reconhecer o cadáver do
soldado a quem, um instante antes, havia ordenado que se
retirasse. Os olhos estavam abertos e um fio de sangue lhe
escorria da boca, mas a expressão parecia serena. A expressão
de quem morrera convencido de ter cumprido o próprio
dever, mesmo havendo desobedecido a uma ordem.
Recuperou-se da tristeza e acabou de levantar a escada. "A
mim, nada pode acontecer", disse a si mesmo.
"Não agora."
Ricardo não acreditava que, para auxiliá-lo, se ele viesse a se
encontrar em dificuldades, alguém renunciasse a ser o
primeiro a entrar na Cidade Santa. No entanto, deteve-se
perto dos entulhos e ajudou o companheiro mais próximo,
perfurando no flanco o árabe com o qual o outro combatia.
Livre da pressão adversária, o companheiro escapou para a
frente, enquanto ele se sentia no dever de continuar
desobstruindo o caminho para o resto do exército, que vinha
chegando com os comandantes.
Não por acaso, da nuvem de poeira que ainda pairava sobre a
brecha emergiu pouco depois a figura de Raimundo de
Toulouse, protegido por sua guarda pessoal e flanqueado pelo
porta-estandarte. O caminho se apresentava praticamente
livre, porque quase todos os muçulmanos estavam em
retirada, já determinados a apostar tudo na defesa recuada ao
longo da segunda linha de muralhas. Assim, o conde pôde
seguir adiante, quase sem dignar-se a lançar um olhar aos
poucos duelos ainda em curso em torno dos escombros.
Ricardo considerou ter feito o suficiente, e deixou que os
últimos defensores fossem enfrentados pelos respectivos
adversários. Correu também rumo à nova linha de defesa, já
tomada de assalto por centenas de cruzados. Não encontrou
espaço para subir numa escada e teve de se resignar a
esperar, quase imóvel, em meio ao tumulto, com o risco de
ser alvejado pelos projéteis que choviam dos espaldões. Mas
o dardejamento não demorou a rarear, porque os defensores
estavam cada vez mais empenhados em combater as
irrupções no alto das muralhas.
Por enquanto, não parecia possível abrir espaço. Os árabes
estavam bem localizados, determinados a defender a última
linha de barreiras e, sobretudo, eram muitos. Para romper o
bloqueio, pensou Ricardo, seria necessário dispor de uma
escada com degraus tão largos que pudessem receber ao
mesmo tempo um batalhão inteiro de assaltantes. Ou então,
concluiu, colocar muitas escadas, uma junto da outra. Mas,
como os cristãos chegavam aos merlões um de cada vez, sem
poder contar com a ajuda lateral de um companheiro,
qualquer esforço de conquistar os espaldões podia ser
considerado inútil.
De repente viu Emanuel, aquele bizantino com quem havia
conversado na tarde anterior. Era facilmente reconhecível,
com seu equipamento tão diferente do de todos os outros
combatentes. O grego já estava no topo de uma escada, e
lutava como um leão para não ser derrubado. De algum
modo, conseguira se ancorar solidamente ao último degrau e
proteger-se com o escudo, tudo com o mesmo braço,
enquanto, com o outro, desfechava cutiladas que sempre
acertavam o alvo.
Resistia naquela posição havia um tempo incrivelmente
longo. De fato, o cruzado que o seguia pouco abaixo mostrou
sinais de impaciência, gritando-lhe alguma coisa, sem dúvida
não um encorajamento. Curioso — e também admirado pela
coragem dele —, Ricardo continuou a observar o bizantino,
que finalmente conseguiu encontrar um espaço para
transpor o último degrau e firmar o pé no parapeito entre os
merlões.
Mas o companheiro que o seguia, com um gesto grosseiro de
irritação, não esperou um instante e subiu por sua vez,
acabando por chocar seu elmo contra as canelas de Emanuel.
O bizantino tentou se manter de pé, mas se expôs à lança de
um defensor. Ricardo viu o grego precipitar-se lá embaixo,
em cima da multidão de soldados, muitos dos quais brandiam
espadas e lanças com as pontas voltadas para o alto. Foi
engolido num instante. Se não morrera no impacto, pensou
Ricardo, devia ter acabado trespassado por alguma cúspide,
ou então pisoteado e sufocado pelos companheiros, que sem
dúvida não teriam dedicado grandes atenções a um
bizantino.
Fez um gesto de aborrecimento. Emanuel era um valente, e
sequer lhe parecera um dos muitos exaltados que, uma vez
na Terra Santa, haviam agido sem freios inibidores, na
convicção de serem justificados em tudo pela fé: uma fé que,
às vezes, parecera a Ricardo apenas um pretexto para
desencadear toda a sordidez e bestialidade que um ser
humano era obrigado a reprimir na vida cotidiana, regulada
pela justiça e pelo contexto social.
Ricardo também estava ali por interesse, mais do que por um
Deus que lhe parecia distante, distante demais para que ele
se convencesse de Sua existência. Estava ali para se redimir,
para fazer carreira no exército e demonstrar a si mesmo que
era sem dúvida um guerreiro de verdade. Mas, apesar de seu
ceticismo, às vezes se considerava mais zeloso pela causa do
Senhor do que todos aqueles que gritavam como alucinados:
"Deus o quer!", e depois agiam impelidos pela avidez de
posse e pela embriaguez de exercer um poder efêmero sobre
os mais fracos.
Vieram-lhe à mente os massacres que, a contragosto, havia
compartilhado no caminho do Oriente com o conde Emich,
as roubalheiras e os estupros em detrimento dos judeus, que
mais tarde vira repetidos, nas mesmas modalidades, também
na Terra Santa em detrimento dos muçulmanos, e até dos
cristãos ortodoxos submetidos aos turcos.
Desejou não ser inferior àquele grego e abriu caminho a
golpes de ombro entre os companheiros, a fim de chegar às
escadas. Alcançou uma e começou a subir. Não deu ouvidos
aos protestos dos companheiros dos quais havia ocupado o
lugar, e empurrou aquele que o precedia para que acelerasse
a subida.
Nos instantes seguintes, viu caírem um após outro os que
estavam acima dele, até que chegou a um passo do topo,
ocupado por mais um soldado. Em seguida ouviu gritos de
dor, e compreendeu que nem mesmo aquele tinha
conseguido, até porque lhe caiu em cima um instante depois.
Tentou absorver o impacto e sustentar o corpo inanimado
com a cabeça e o escudo, valendo-se dele como proteção.
Quando sentiu um mínimo de estabilidade, recomeçou a
subir. Deixou que retalhassem o cadáver com as cimitarras,
perfurassem-no com as lanças, batessem-lhe com as maças,
enquanto ele mesmo continuava a ascender, até encontrar-
se à altura dos espaldões. Então juntou todas as suas forças e
lançou o corpo martirizado contra os defensores mais
próximos, abrindo assim um espaço e saltando os merlões.
Por um instante, não teve adversários diante de si, e assim
pôde se estabilizar sobre a plataforma. Aproveitou para
agredir de imediato o árabe que defrontava outra escada. Este
precisou se defender, e isso permitiu que seu adversário
direto chegasse aos espaldões, enquanto outro cristão
também conseguia emergir da escada de Ricardo.
Agora, os cruzados no alto das muralhas eram muitos, e
podiam proteger o acesso dos outros.
Estavam dentro. E a consciência de se encontrarem
realmente no interior da Cidade Santa multiplicava suas
forças. Até Ricardo se sentiu arrastado pela exaltação dos
companheiros, embora, para ele, Jerusalém fosse apenas um
objetivo militar. Enfrentou decidido os dois muçulmanos
sobre os quais havia lançado o cadáver, mas logo recebeu
auxílio dos seus companheiros que haviam subido depois.
Ele mesmo trespassou um dos dois, enquanto o outro foi
jogado lá embaixo por um dos cruzados que o ajudavam.
O normando se debruçou no parapeito interno para ver que
fim levara o adversário, mas não conseguiu distingui-lo.
Em contraposição, viu um mundo de inimigos que, do
interior da cidade, corria para as rampas de acesso aos
espaldões.
Mas como tinham feito? Jamal se perguntou como os infiéis
haviam conseguido abrir uma passagem nos espaldões até
mesmo na segunda linha de muralhas. Na verdade,
dispunham apenas de escadas! Somente o desespero, mais do
que a fé no deus deles, podia torná-los capazes de tal proeza,
e o emir se convenceu de que, no final, sua fé e a de seus
correligionários prevaleceria sobre o puro desespero.
Chamou os guardas pessoais que lhe restavam e moveu-se
rumo ao setor onde acontecera a invasão, abrindo caminho
entre seus companheiros, ocupados em repelir as tentativas
dos infiéis. De fato, os francos estavam concentrando seus
esforços nos pontos onde a defesa muçulmana parecia haver
cedido, e faziam convergir, inclusive, as escadas.
Quando chegou ao setor mais encarniçado, Jamal o
encontrou cheio tanto de muçulmanos quanto de cristãos,
empenhados numa luta feroz pela sobrevivência. Seus
guardas se anteciparam, lançando-se à refrega para lhe abrir
caminho, antes mesmo que ele lhes desse ordem para isso. Já
não havia somente cavaleiros e soldados profissionais na
plataforma: aos guerreiros de elmo e cota de malha
acresciam-se os peregrinos armados apenas de foices,
forcados e enxadas, com gorros ou chapelões na cabeça e
protegidos unicamente pelo camisão. Não pareciam
especialmente perigosos, mas criavam confusão e
determinavam, com seu grande número, um combate tão
cerrado que quase não lhes permitia brandir as cimitarras.
Jamal varreu alguns com suas cutiladas, mas tropeçou nos
corpos deles quando tentou avançar para enfrentar um
infante pesado, que acabava de eliminar um de seus guardas.
Desequilibrado, só teve tempo para opor o escudo à espada
do franco, antes de cair no chão.
A segunda cutilada inimiga o atingiu nas costas. Mas,
provavelmente por causa do exíguo espaço à disposição, o
franco devia ter vibrado o golpe sem poder carregá-lo,
porque a lâmina não conseguiu trespassar a couraça do emir.
Após permanecer um instante em apnéia, Jamal se apoiou
nos braços para se soerguer e, com os joelhos ainda
dobrados, aparou outro golpe com o escudo. Já de pé, passou
ao contra-ataque, girando a cimitarra tanto quanto o espaço
restrito lhe permitia.
O cristão parecia cansado e manteve-se na defensiva, até que
o emir o desequilibrou chocando escudo contra escudo e
golpeando horizontalmente com a cimitarra, atingindo o
flanco do outro. Nesse momento, ouviu um grito de dor que
lhe ressoava no ouvido esquerdo. Virou-se e viu um franco
de pé sobre as ameias, bem ao seu lado. Com uma das mãos,
o cruzado mantinha uma lança apontada para ele, e com a
outra segurava uma cimitarra que o trespassara em pleno
estômago, com tal profundidade que dela só se via o cabo.
Não havia nenhum árabe ali perto, enquanto o infiel caía aos
seus pés. Evidentemente, a cimitarra havia sido lançada por
alguém. Jamal viu um soldado ofegante, coberto de poeira e
sangue, que o fitava.
Firuz.
"Um instante atrás", pensou Ricardo, "tínhamos obtido
superioridade numérica. Agora, parecemos um pelotão no
meio de um exército." A situação tinha mudado de repente,
a partir do momento em que parecera que os cruzados
poderiam entrar. Agora, grande parte dos muçulmanos
confluíra para o setor no qual acontecera o rompimento, de
modo que os cruzados se viam divididos em mirrados
bolsões isolados uns dos outros.
Os cristãos eram alvejados a partir de vários pontos: dos
adversários presentes na plataforma, que os pressionavam à
direita e à esquerda; das torres, das quais partia um
dardejamento constante; de baixo e ao longo das escadas, de
onde provinham ininterruptamente lanças e flechas. Ricardo
escutou alguns oficiais cruzados exortando as tropas a
insistir, e em seguida viu o conde de Toulouse tentar invadir
mais adiante.
Procurou seguir Raimundo. Se não continuassem a ação,
aproveitando a posição avançada que haviam obtido, eles
dificilmente conseguiriam fazer isso em outro momento. O
conde lutava com coragem, e seus homens demonstravam
uma eficiência e uma coesão superiores aos dos outros
contingentes, até mesmo aos dos normandos itálicos, os
quais tinham fama de guerreiros valentes.
Tratava-se de ganhar as rampas que levavam dos espaldões
ao interior da cidade. Ricardo empurrava, como todos os
outros, e volta e meia algum dos árabes enfileirados diante
dele perdia o equilíbrio e rolava até embaixo ou caía
diretamente para além do parapeito. Às vezes, ele e seus
companheiros conseguiam golpear um com a espada. Mais
freqüentemente, porém, uma flecha disparada das torres
trespassava um cruzado de um lado a outro, ou então um
árabe se aproveitava da guarda alta de um cruzado para lhe
rasgar o estômago.
Apesar dos esforços, os cristãos, após um combate que
Ricardo achou demoradíssimo, não haviam feito nenhum
progresso; pelo contrário, seu raio de ação tinha recuado
progressivamente, e as rampas pareciam mais distantes. O
normando teve a sensação de que seria apenas questão de
tempo até que todos os que haviam chegado aos espaldões,
permanecendo substancialmente imóveis, fossem
exterminados pelas flechas.
O conde de Toulouse, a quem todos se reportavam, também
deve ter percebido isso, porque da multidão emergiu um
grito dele: "Retirada! Retirada!", que logo ricocheteou de
boca em boca, alcançando até os que ainda se encontravam
do lado de fora, perto dos merlões. Mas Raimundo, na
tentativa de se fazer ouvir pelo máximo possível de soldados,
gesticulou até perder o equilíbrio. Já estava sobre a rampa
interna de acesso aos espaldões e caiu sobre os degraus,
rolando em seguida alguns metros mais abaixo.
Ricardo viu o conde à mercê dos adversários: após a ordem
de retirada, muitos haviam recuado o raio de ação, deixando
Raimundo bastante isolado. Pensou que, se o conde
morresse, ou caísse prisioneiro, a cruzada perderia seu chefe
mais respeitável, e talvez até o mais sensato e equilibrado. O
empreendimento acabaria nas mãos de gente obtusa como
Godofredo de Lorena, de aventureiros como Tancredo, ou
de homens desprovidos de pulso como Roberto da
Normandia.
Raimundo tinha de ser salvo.
Ricardo se voltou para captar a atitude dos seus
companheiros. Todos hesitavam, até os homens do conde.
Então se lançou, esperando que seu gesto estimulasse outros
a imitarem-no. Do contrário, sozinho, jamais conseguiria.
Firmando-se bem nas pernas, abriu caminho com o próprio
escudo, empurrando e fazendo despencar o adversário que
lhe obstruía o acesso à rampa. Este caiu para trás, na direção
dos degraus, indo acabar em cima dos dois companheiros
que o seguiam e desencadeando um efeito dominó em
detrimento dos muçulmanos lá embaixo.
Ricardo não hesitou em aproveitar o espaço criado ao longo
da rampa e se precipitou por ela abaixo até encontrar
oposição. Mas, como vinha do alto, sua arrancada lhe
permitiu varrer com a simples impulsão do escudo outros
dois adversários, catapultando-os para a base da rampa.
Pouco adiante encontrava-se o conde, já resignado a ser feito
prisioneiro; ao ver o normando, porém, recuperou a
confiança, predispondo-se a lutar.
Ricardo o viu manquejar. Evidentemente, a queda deixara
sua marca. Mesmo assim, o conde enfrentou dois árabes que
o haviam atacado. O normando interveio, agredindo um dos
dois no flanco, mas outra dupla de muçulmanos já se lançava
contra ele.
Havia muitos. Ricardo matou mais um, mas de novo dois
adversários o atacaram frontalmente e no flanco descoberto.
Viu-se liquidado. Girou a bacia e o tronco para a direita,
apresentando o escudo ao inimigo que antes se encontrava à
sua frente, e tentou sustar as cutiladas dele, enquanto
detinha com a espada os golpes do outro. Por alguns
instantes ainda, continuou a duelar e a aparar com o escudo,
até que, de repente, os golpes cessaram.
Não teve tempo de perguntar-se por quê. O adversário
frontal o pressionava, absorvendo toda a sua atenção.
Repeliu uma nova cutilada e depois usou o escudo, de talho,
para desarmar o árabe, atingindo-lhe o pulso. Então lhe
decepou a cabeça bem rente ao pescoço. Só então se voltou
e viu o outro egípcio no chão, perfurado por uma lança.
Olhou para cima e viu descerem outros cruzados, um dos
quais devia ter lançado.
Deu um suspiro de alívio e se preparou para enfrentar os
dois árabes que atacavam Raimundo. Derrubou um,
empurrando-o por trás com o escudo, e depois o eliminou
com a espada. O outro se viu então às voltas com dois
inimigos, Ricardo e Raimundo, mas, antes que as espadas se
cruzassem, chegaram outros egípcios.
Ricardo se interpôs entre o muçulmano e o conde:
— Conde, suba de volta, rápido! Eu cubro sua retaguarda! —
gritou.
Após hesitar um instante, Raimundo se dirigiu à rampa, ao
longo da qual haviam se renovado os combates entre as
vanguardas dos dois exércitos. Ricardo tentou segui-lo, mas
teve dificuldade em galgar os degraus mantendo longe as
cúspides das lanças inimigas. Os dois só conseguiram subir
porque, graças aos duelos que muçulmanos e cristãos haviam
desencadeado, a rampa se transformara num corredor
estreito, constituindo um obstáculo mais para os per-
seguidores do que para os fugitivos.
Quase no topo, contudo, uma ponta de lança atingiu Ricardo
na coxa; o grito dele chamou a atenção de Raimundo, que
até então não se voltara. O conde lhe estendeu a mão,
fitando-o nos olhos com uma expressão de altiva gratidão, e
ajudou-o a subir o último lance. Só então, ao ver Raimundo
no alto das escadas, os outros cristãos lá embaixo recuaram,
mas muitos acabaram perfurados pelas lanças inimigas após
alguns degraus.
Em poucos instantes, pressionados pelos árabes, todos os
cruzados presentes na plataforma se amontoaram junto aos
merlões, na tentativa de ganhar as escadas de madeira, a fim
de descer de volta ao pátio entre as duas linhas de muralhas.
Apesar do tumulto, os soldados abriram caminho para o
conde, o qual pôde chegar a uma escada protegido pelos seus
homens. Mal apoiou o pé no primeiro degrau, Raimundo
olhou Ricardo, que perdia muito sangue da coxa, e em
seguida lhe estendeu a mão, convidando-o a descer com ele.
Ricardo sentiu de repente a hostilidade de todos aqueles que,
poucos instantes antes, tinham-no visto como seu
inspirador.
Muitos dos soldados na segunda linha de muralhas estavam
destinados a dar cobertura para a retirada geral, e suas
probabilidades de sobrevivência eram decididamente
escassas: nenhum estava disposto a reconhecer o direito dele
a escapar junto com o comandante.
Balançou a cabeça e tentou retribuir o olhar de gratidão que
o conde lhe dirigira. Raimundo começou a descer, e no
mesmo instante sua cabeça desapareceu da visão de Ricardo.
Ao seu lado, o normando viu um soldado se jogar
voluntariamente muralha abaixo. Virou-se para o interior.
Os árabes estavam bem próximos.
E eram milhares.
Estava acabando como era previsível que acabasse. Menos
previsível tinha sido o rompimento da primeira linha,
pensou Jamal; de qualquer modo, agora os infiéis estavam
em fuga e, pior para eles, a penetração em profundidade lhes
causara muito mais perdas do que um simples combate sob
as muralhas externas.
O emir viu com satisfação que a retirada dos francos estava
se transformando em uma debandada. Para conseguir fugir à
pressão árabe, os cristãos até se jogavam lá embaixo, com a
única esperança de aterrissar sobre as pilhas de mortos junto
às muralhas e assim evitar quebrar o pescoço. Com
freqüência, porém, mesmo os que conseguiam chegar às
escadas acabavam no vazio, porque os defensores só
precisavam empurrá-los para fora.
E mais: quem conseguia descer ficava sujeito aos dardos
vindos dos espaldões e das torres; agora, os arqueiros
lançavam suas flechas certos de golpear somente cristãos
naquela tropelia. Jamal viu muitos infiéis atingidos nas costas
quando escapavam: não era uma bela propaganda para o deus
deles, pensou, mas sim o justo preço que pagavam por sua
absurda pretensão de conquistar, apenas com a força do zelo
religioso, uma das cidades mais fortificadas do mundo.
O emir subiu a uma torre, para observar melhor a debandada
adversária, depois de obrigar Firuz a ir se medicar. O turco
queria a todo custo participar da perseguição, embora
estivesse coberto de ferimentos. Eram apenas pequenos
talhos e incisões que, com o tempo, enriqueceriam o
mostruário de cicatrizes naquele corpo já desgracioso, mas
de todos aqueles cortes saía muito sangue, e Jamal não queria
perder seu melhor guarda por mero descuido.
Olhou na direção das muralhas externas. Agora, os francos
eram alvejados de três lados. De fato, os árabes podiam valer-
se das passarelas entre o primeiro e o segundo circuitos para,
com facilidade, praticar tiro ao alvo no pátio. Os defensores
que permaneceram sobre os espaldões do circuito interno
continuavam, por sua vez, a disparar flechas enquanto os
fugitivos estivessem ao seu alcance.
O pátio não demorou a se encher de cadáveres, sobretudo de
infantes leves e camponeses simples que, impelidos pelo
entusiasmo após o arrombamento, mas sem nenhuma
proteção contra as flechas, nem escudos, nem armaduras,
haviam seguido os verdadeiros combatentes.
O grande massacre, porém, verificava-se junto à muralha
externa, justamente ao redor da brecha. Os árabes haviam
renunciado a perseguir os francos, para deixar o campo livre
aos arqueiros. Assim, ao acúmulo de pedras desmoronadas
foram se acrescentar as pilhas dos corpos trespassados. Com
amarga ironia, Jamal pensou que, se os arqueiros
continuassem a fazer tão implacavelmente o seu trabalho,
bem cedo a brecha estaria preenchida por cadáveres, e os
francos em fuga se veriam diante de uma cortina sem
solução de continuidade.
XII
Faltavam ainda alguns passos para chegar ao hospital de
campo, mas Ricardo não conseguiu ir adiante e estatelou-se
no chão, esgotado, com a dor cada vez mais lancinante na
coxa. Ninguém foi ajudá-lo, simplesmente porque ninguém
fez caso dele. Todos tinham suas preocupações: uns queriam
se tratar, outros, procurar alguém disposto a tratá-los, e
outros ainda, como os padres, distribuir bênçãos e
absolvições aos que pareciam não poder passar daquela noite.
Além disso, havia mulheres com seus filhos, as quais
vagavam em busca dos companheiros, na esperança de
encontrá-los pelo menos entre os feridos. Os gritos e
lamentos delas, além de sua perambulação sem rumo,
contribuíam para aumentar a confusão na retirada daquela
falida ação de assalto, ainda mais amarga para quem chegara a
um passo da área habitada de Jerusalém.
O entusiasmo exibido nas faces e na atitude dos cruzados no
início da manhã havia cedido a vez, após três horas de duro
e inútil combate, ao desconsolo e à decepção, à desconfiança
e à tristeza, e em certos casos até ao desespero. "Deus nos
abandonou!" era a frase que Ricardo mais escutava daqueles
que ainda tinham forças para falar. Os outros, e eram a maior
parte, preferiam o silêncio, mas suas expressões eram
eloqüentes.
O que o normando experimentava, em contraposição, era
puro desencanto. Não possuindo o fervor religioso dos
outros, desde o início havia considerado a ação como aquilo
que ela deveria parecer a qualquer pessoa sensata: uma
iniciativa irracional, sem nenhuma lógica militar e
prejudicada pelo senso de onipotência que os cruzados
haviam adquirido por chegarem invictos à Palestina.
Os egípcios eram mais coesos do que os turcos. Todos
tinham fingido não saber disso, alimentando a ilusão de
encontrar nos árabes as mesmas divisões que haviam
permitido aos ocidentais conquistarem uma vitória atrás da
outra naqueles dois anos de campanhas no Oriente, mesmo
quando as condições pareciam impossíveis: em Dorileia e
em Antioquia, por exemplo. O que lhes permitira vencer,
refletiu Ricardo, não havia sido o estímulo do Senhor, mas
sim os limites políticos dos turcos, fracionados em muitos
Estados pouco dispostos a colaborar um com o outro. E,
agora, tinha sido a arrogância dos cruzados a fazê-los perder.
Deus, admitindo-se que existisse, não tinha nada a ver com
aquilo.
Enquanto jazia no chão esperando recuperar as forças e
alcançar o hospital de campo, perguntou-se se todos aqueles
que haviam perdido a vida ali ganhariam a remissão dos
pecados e o paraíso, como afirmavam os padres. Afinal, não
tinham morrido pela causa do Senhor, mas pela própria
soberba, pela superficialidade e pela obtusidade dos chefes.
Ninguém vai para o paraíso por isso.
Finalmente, perguntou-se por que ele conseguira se safar.
Seu ceticismo o tornara menos soberbo? O Senhor deveria
premiar, se fosse o caso, aqueles que se dedicam a ele, e não
os céticos. Pura sorte? E, se fosse, como era possível
conciliar a sorte com a vontade de Deus?
Reconstituiu a inacreditável dinâmica de sua retirada, a partir
do momento em que havia posto a salvo o conde Raimundo
na escada, renunciando a segui-lo.
Tinha tentado unir-se aos outros que permaneciam nos
espaldões, na tentativa de refrear a pressão muçulmana, mas
percebera que a perna ferida não lhe permitia um apoio
sólido para combater. Durante alguns instantes, havia
considerado a possibilidade de simplesmente jogar-se dos
espaldões.
Além disso, as escadas tinham um soldado quase em cada
degrau, e todos os que se acotovelavam em torno delas à
espera de vaga acabavam, inevitavelmente, expondo as
costas às lanças árabes. Portanto, ele subiu a um merlão,
ainda decidido a se lançar lá do alto, mas depois deu uma
olhada na escada lotada ao seu lado e teve uma idéia.
Jogou-se. Mas não no terreno lá embaixo. Seus braços ainda
funcionavam plenamente, e ele decidira confiar-lhes sua
salvação. Estendeu-os para a escada, agarrando no ar a trave
vertical, como um trapezista. Seu corpo bateu violentamente
contra a trave e contra um soldado que a ocupava. Este,
havendo se arriscado a cair, reagiu com uma joelhada no
esterno de Ricardo, e ele teve de fazer o máximo de força
para não afrouxar a preensão.
De fato, ainda se encontrava muito no alto para se soltar.
Pendurado em ângulo agudo em relação à inclinação da
escada, continuou a deslocar as mãos ao longo da trave,
enquanto dúzias de solas lhe roçavam os nós dos dedos.
Quando a dor nas mãos se tornou insuportável, deixou-se
cair, mas já estava a pouca distância do solo e, uma vez lá
embaixo, o único dano que sofrerá havia sido o impacto
sobre o ferimento na perna.
Levantara-se com dificuldade, recolhera o escudo de um
cadáver e depois, claudicante, correra o quanto podia rumo à
brecha da muralha externa. E, enquanto dúzias de flechas
sibilavam ao seu redor, pensara ironicamente que ele mesmo
havia ajudado a abrir aquela brecha, pouco antes, sem saber
que ela lhe serviria como caminho de fuga.
Fora ultrapassado por um grande número de companheiros,
em condições de correr melhor do que ele. E observou-os
serem feridos por flechas que poderiam talvez tê-lo atingido,
se ele tivesse sido mais veloz. Ficara exposto ao
dardejamento inimigo por um tempo superior ao dos
companheiros, mas, incrivelmente, vira-se ainda vivo,
escalando o entulho da brecha, indiferente aos arranhões e
lacerações que os detritos produziam em todo o seu corpo. Já
do outro lado, havia sido engolido pela tropelia do grosso do
exército, que lhe fornecera uma proteção maior até que ele
se encontrasse fora do alcance dos arqueiros muçulmanos. E
tinha até encontrado um ou outro companheiro que o
ajudara a se manter de pé, acompanhando-o por trechos
breves.
Ricardo retornou dos próprios pensamentos e levantou a
cabeça, avaliando o quanto ainda lhe faltava para chegar a
alguém que pudesse tratar de seu ferimento. Seu olhar caiu
sobre uma mulher que se inclinava sobre um ferido para
enfaixá-lo.
Era aquela prostituta que ele deveria ter encontrado na noite
da véspera.
Olhou melhor. Sua visão estava parcialmente enevoada pelo
esforço e pelo suor que ainda lhe pingava da testa. Sim, era
de fato aquela mulher, não havia dúvida. Até porque ao seu
lado se mantinha aquele monge balofo que parecia ter um
certo vínculo com ela. Soergueu-se nos braços e procurou se
levantar. Só conseguiu na segunda tentativa, e a muito custo
deu os poucos passos que faltavam para alcançá-la.
Desabou aos seus pés.
— Viu? — conseguiu dizer. — Eu me prostro diante do seu
fascínio.
Inês só o percebeu no momento em que ele se estatelou no
chão. Teve um sobressalto e o perscrutou longamente.
Primeiro com surpresa, depois com alegria — mas só por um
instante —, em seguida com desprezo e finalmente com
dureza.
— Veja só quem aparece... — disse, em tom ríspido. — Isso
é hora de se apresentar? — acrescentou, esforçando-se por
mostrar um sorriso de superioridade.
— Eu andei... muito ocupado — ofegou Ricardo, a quem esse
último esforço havia custado realmente muito.
— Claro, claro... Tenho certeza de que você começou a
atacar a cidade sozinho, desde ontem à noite — rebateu ela,
sem mudar de expressão. Enquanto isso, continuava a se
dedicar ao outro ferido.
— Você poderia... estancar meu sangramento e enfaixar a
ferida? — replicou Ricardo, com um fio de voz.
— Não vê que estou ocupada? Espere sua vez! — disse Inês,
ainda mais azeda. — Ou melhor, vá se arrastando e ache
alguém que lhe faça o curativo!
— Mas, Inês! — Ricardo ouviu a voz daquele monge. — Isso
é maneira de acolher um ferido? Você não está se
comportando como cristã. — Anselmo o reconhecera e,
mesmo não gostando de sua presença, obrigara-se a intervir
a seu favor.
— Bem, se ele me implorar, eu até posso ajudá-lo... —
respondeu Inês, ostentando indiferença.
Ricardo se enfureceu. Tinha passado o inferno para escapar,
e agora uma mulherzinha estúpida, ferida em seu orgulho,
ameaçava deixá-lo morrer dessangrado.
— Ora, se eu não imploro nem mesmo ao Senhor, imagine se
imploraria a você! — berrou, juntando todo o fôlego de que
dispunha.
Tarde demais, deu-se conta de que uma frase daquele tipo
iria fazê-lo perder seu único defensor.
— As coisas que eu sou obrigado a escutar! Então, por que
você estaria aqui? Foi por isso que nós perdemos. A tropa
não tinha fé suficiente! — replicou Anselmo, indignado.
— Ouvi alguém dizer que a fé sem obras não conta muito. Há
quem não esteja de acordo, mas, neste caso, é verdade: a fé
sem obras, obras de assédio, não foi suficiente. — Quem
respondera não tinha sido Ricardo, mas o ferido de quem
Inês estava cuidando.
O normando o encarou, desejoso de cumprimentá-lo por ter
expressado, com lúcida ironia, aquilo que ele mesmo teria
respondido. Só então o reconheceu.
O comandante bizantino.
— Emanuel! — gritou, com um largo sorriso. — Mas eu o vi
cair da escada! Pensei que você havia morrido!...
— Vocês se conhecem? — interveio Inês, curiosa.
— Desde ontem à noite — respondeu o grego. — Seu amigo
interveio a meu favor e a favor do meu pelotão — um véu
de tristeza lhe desceu sobre os olhos quando ele se lembrou
de seus homens —, detendo uns arruaceiros. E também este
monge aqui tentou acalmar os ânimos — acrescentou,
dirigindo o olhar para Anselmo.
Inês também lançou um olhar para Anselmo. Mas
completamente diferente.
— Você não me disse que não sabia que fim tinha levado o
normando?
Para sorte do monge, Emanuel recomeçou:
— Eu caí, sim, mas só levei uma bela pancada. Acho que
desmaiei por alguns instantes. Seja como for, quando
acordei, o exército já estava em retirada, e eu tinha um corte
no braço, causado não sei pelo quê...
— Quantos dos seus sobreviveram? — perguntou Ricardo.
— Nenhum. Fomos os primeiros a transpor as muralhas. —
Com o braço, Emanuel acenou a Inês para que ela se
deslocasse até seu interlocutor.
A mulher ainda hesitou por um instante, mas depois pegou
as ataduras e o ungüento hemostático e se aproximou de
Ricardo.
Ampliou o rasgão nas bragas dele e, com um tampão, aplicou
delicadamente o ungüento sobre a ferida. Dignou-se até a
lhe dirigir um sorriso.
— Sem dúvida, eu preferiria que essas mãos me tocassem
nessa parte em outras oportunidades... que não faltarão,
espero — disse ele, antes de atentar novamente para o grego.
— Vocês foram mandados para serem os primeiros a escalar
as muralhas, eu diria, numa ação que não tinha nenhuma
probabilidade de sucesso. Isso é bem pior do que zombar do
seu pelotão ou comprar briga no campo...
Anselmo se sentiu obrigado a intervir contra o normando:
— Eu tinha razão em desconfiar de você desde o primeiro
momento — acalorou-se. — A ação não deu certo porque o
exército não se comportou dignamente, nos dias anteriores.
Lembra-se de Antioquia? Não se chegava a resultado
nenhum, e o bispo Ademar, que sua alma esteja em paz,
obrigou todo mundo a rezar e jejuar, como todo bom cristão
deveria fazer. E, então, tomamos Antioquia! Vocês verão
que o mesmo acontecerá com Jerusalém. O Senhor quis nos
mandar apenas uma advertência, avisando que nos
comportássemos melhor!
— Advertência?! Centenas, talvez milhares de mortos, e você
considera isso apenas uma advertência? — replicou Ricardo,
sorrindo amargamente. — Seja como for, se não estou
enganado, nós partimos para o assalto, sobretudo, porque
aquele eremita, no monte das Oliveiras, disse que Deus nos
levaria à vitória...
— Mas aquele eremita não sabia que raça de exército
dissoluto era este! — rebateu Anselmo. — A previsão dele só
valia para um exército digno do Senhor!
— A verdade é que o Senhor não tem nada a ver com nossos
assuntos — insistiu Ricardo. — Ele deixa que nos degolemos
reciprocamente, talvez porque não queira intervir, talvez
porque não possa. E isso na melhor das hipóteses...
— As coisas que eu tenho de escutar! As coisas que eu tenho
de escutar! — exclamou Anselmo, levando as mãos aos
poucos cabelos.
— E na pior das hipóteses? Vamos ouvir — emendou
Emanuel, curioso pelas posições do normando. Era a
primeira vez que lhe acontecia de encontrar alguém tão
cético.
— Bem... na pior... Muitas vezes, penso que não foi Deus
quem criou o homem, mas o homem quem criou Deus... —
disse Ricardo em voz baixa, olhando para longe.
— Senhor! Por que fizeste morrerem tantos bons cristãos e
deixaste vivo um indivíduo devotado a Satanás? — invocou
Anselmo, cada vez mais transtornado. Já Inês, embora não
compartilhasse nada do que o normando expressava, olhava
para este com incrédula admiração, impressionada pela sua
personalidade excêntrica.
— Esse episódio foi a melhor prova do desinteresse dele, de
sua impotência ou, pior ainda, de sua ausência, não acha? —
prosseguiu Ricardo, que, depois dos cuidados de Inês, se
sentia decididamente melhor. — E, no que se refere a
Satanás, é evidente que, se eu não creio na presença de
Deus, também não creio na de Satanás...
— Não posso suportar essa conversa por mais tempo. Vou
embora! — gritou Anselmo, vermelho de fúria. — E você
deveria vir junto, Inês, e se dedicar a gente mais digna! E
pensar que eu a exortei a cuidar dele!...
Mas Inês não tinha a menor intenção de se afastar do
normando. Aquelas opiniões tão estranhas, incomuns, até
imorais, tinham conferido à figura estatuária dele, envolta
em trajes rasgados e empoeirados, encharcada de suor,
arranhada e cortada, respingada de sangue próprio e alheio,
uma sensualidade que jamais lhe parecera tão atraente em
alguém.
Por um instante, achou que não ficava bem manifestar isso
muito abertamente, mas depois concluiu que, se havia uma
vantagem em seu ofício, era a de não precisar se empenhar
em parecer uma mulher direita. Nenhuma mulher era
realmente direita, nem desejava ser, mas a maioria se sentia
no dever de se mostrar como tal.
— Creio que você vai precisar de assistência também durante
a tarde. E talvez até mesmo esta noite... — disse a ele,
acariciando-lhe a perna em torno do ferimento.
— E você me daria essa assistência... sem remuneração? —
perguntou Ricardo, com um sorriso indagador.
— Claro. Não tínhamos combinado assim, ontem? E,
também, hoje você combateu, e tem direito a serviços
suplementares...
— Eu, no seu lugar, não perderia a oportunidade, amigo —
interveio Emanuel, com um sorriso de cumplicidade para
Ricardo.
— Na verdade, não tenho nenhuma intenção de perdê-la...
—- replicou o normando, acariciando o flanco de Inês com
uma das mãos e apoiando-se na outra para se levantar.
— Quer uma ajuda, soldado?
Uma voz respeitável levantou-se de repente atrás dele.
Ricardo se voltou e reconheceu o conde Raimundo. Então
baixou a cabeça, em sinal de deferência.
— Eu é que deveria me inclinar para você, soldado. Tinha
esperança de encontrá-lo ainda vivo — respondeu
Raimundo. — Mulher, agora vá saindo, porque eu devo falar
com este valente.
Inês fitou Ricardo e hesitou por mais um instante, o que lhe
rendeu uma olhadela irritada por parte do conde. Assim que
ela se afastou, Raimundo pôde mostrar sua gratidão:
— Você hoje deu provas de grande coragem. Se não fosse sua
intervenção, nenhum dos meus teria movido um dedo para
me salvar e eu certamente estaria morto agora — disse,
ajoelhando-se e apoiando uma das mãos no ombro do outro.
— Fiz o que me pareceu certo. O senhor é um chefe sensato,
e, se viesse a nos faltar, a expedição seria prejudicada.
— Como é o seu nome?
— Ricardo.
— De onde vem?
— Eu sou normando. Meu pai estava com o duque
Guilherme quando este conquistou a Inglaterra, e depois foi
ser mercenário em Constantinopla, por pouco tempo, antes
de morrer.
— E você? Continuou o ofício de seu pai? Estranho. Combate
bem, mas não me pareceu equipado como um guerreiro...
— Na verdade, não o continuei. Fui para o Ocidente e me
coloquei a serviço nos feudos e nas aldeias como lenhador,
onde estivesse ou onde precisassem de gente. Vivi nas
florestas durante décadas...
— Seja como for, um homem livre de vínculos feudais. Em
todo caso, demonstra ter sangue de guerreiro nas veias,
como seu pai. E o que o levou a empunhar a espada?
— Uma velha promessa... que fiz a mim mesmo... e a
oportunidade de combater por uma boa causa.
— Uma santa, causa, você quer dizer. Em que contingente
está enquadrado?
— Estou com o duque Roberto.
— Bom. Agora, me escute — concluiu o conde. —
Precisamos conversar. A sós. Meus homens vão ajudá-lo a ir
até meu pavilhão. Lá, receberá os cuidados necessários. No
momento, estou ocupado, e depois quero falar com o duque
Roberto. Quando puder, procuro você.
E foi saindo, sem esperar réplica. Ricardo, por sua vez, não
tinha nada a objetar. Ter caído nas graças do mais respeitável
chefe da cruzada, e por méritos exclusivamente bélicos,
deixava-o feliz e constituía o melhor encorajamento para sua
remissão, ou mesmo, talvez, o início daquela carreira militar
que outrora, muito tempo antes, havia constituído seu único
objetivo. O terror que ele havia experimentado em
Manzikert e nos anos imediatamente seguintes, sempre que
pensava em se alistar de novo, era agora uma longínqua e
desbotada lembrança.
Esqueceu seu encontro com Inês, deixando-se docilmente
carregar na padiola por dois provençais. Já na tenda do
conde, saboreou o frescor que o ambiente lhe oferecia, e
mais ainda o refrigério de um banho perfumado, antes de lhe
trazerem um suntuoso repasto de peixe na brasa,
aromatizado com uma erva que lhe pareceu timo, e, além
disso, servido numa escudela de vidro, um luxo que ele
jamais se concedera. Bebeu um vinho excelente, encerrou
com abundância de frutas, e uma sobremesa à base de mel
adoçou seu palato.
Jamais havia consumido uma refeição tão requintada.
Quando visitava as aldeias para entregar a lenha aos
camponeses, em geral lhe ofereciam pão, favas, ervilhas,
couve, alface e, no máximo, queijo, ovos e leite. Em geral,
comia melhor quando vivia nos bosques, onde tinha a
possibilidade de capturar e cozinhar gamos, lebres ou javalis.
Logo após saborear o último bocado de doce, Ricardo sentiu
seus olhos se fecharem. Raimundo o encontrou adormecido,
mas bastou-lhe apoiar a mão no ombro dele e sacudi-lo
levemente para acordá-lo.
— Sente-se melhor? — perguntou, esperando com paciência
que Ricardo se livrasse do torpor do despertar e recuperasse
a lucidez.
— Muito melhor. Foi uma jornada dura — conseguiu dizer o
normando, com a fala ainda empastada.
— É verdade. Dura e decepcionante. Não tivemos fé
suficiente, e esse foi o resultado. Mas, por outro lado, sem
máquinas nós precisávamos de um milagre, e evidentemente
não o merecemos...
Ricardo mordeu os lábios para não manifestar diante do
conde o seu ceticismo. Sabia da devoção de Raimundo, o
único a acreditar que a Lança Sagrada descoberta em
Antioquia por aquele camponês, Pedro Bartolomeu, era
realmente aquela com a qual o legionário Longino havia
perfurado o flanco de Cristo. Mais tarde, diante do ceticismo
geral, Pedro Bartolomeu submetera-se a um ordálio para
demonstrar que santo André de fato lhe aparecera numa
visão, indicando o esconderijo da relíquia. Tendo
atravessado as chamas, morrera das queimaduras após doze
dias de agonia, e mais ninguém tinha dado crédito à lança.
Ninguém, exceto Raimundo, que continuara a conservá-la
como uma relíquia sacra, sustentando ter visto Pedro sair
ileso da fogueira, antes de ser lançado de volta lá dentro pela
multidão.
O conde registrou o silêncio de seu interlocutor e
prosseguiu:
— Temos que encontrar madeira. Precisamos disso para
construir máquinas de assédio, o mais depressa possível,
antes que os egípcios mandem do Cairo um exército de
socorro. Outro assalto como o de hoje e não restará um só
cruzado na Terra Santa. Sem falar, é claro, daqueles que já
nos abandonaram para cuidar de seus próprios interesses.
Ricardo não teve dificuldade de captar a referência a
Boemundo de Taranto, acérrimo inimigo do conde, mas
também ao irmão de Godofredo, Balduíno.
O normando começava a se perguntar aonde o conde queria
chegar. Raimundo pareceu ter lido seus pensamentos:
— Falei com seu comandante, o duque Roberto — disse. —
Ele atendeu ao meu pedido: você combaterá comigo. Preciso
de um soldado assim, corajoso e cheio de iniciativa.
Naturalmente, pagarei para você um equipamento decente,
e, sobretudo, uma cota de malha de ferro.
Em certo sentido, Ricardo já esperava por isso.
— E uma honra inesperada, senhor. Combater com um
comandante de sua experiência sem dúvida me fará crescer
como guerreiro — disse, e não achou que havia mentido ou
simplesmente bajulado seu novo chefe.
— Na verdade — especificou o conde —, não quero que
você seja apenas um soldado sob minhas ordens. O assédio
durará o estritamente necessário à preparação de um assalto
adequado. Por todo o tempo em que estivermos diante das
muralhas, eu o quero como meu ordenança, e, se as coisas
andarem bem, caberá a você um pedaço de terra por estas
bandas.
— Eu... não estou certo de ter feito o bastante para merecer
isso — respondeu Ricardo, agora realmente confuso.
— Mas fez, sim, sem saber — esclareceu o conde. — De fato,
sua capacidade de iniciativa o torna o indivíduo ideal para
uma tarefa mais delicada. O papel de ordenança é só um
pretexto. Quero que você seja meus olhos e meus ouvidos a
respeito de um assunto do qual fui encarregado pelo sumo
pontífice Urbano em pessoa.
A atenção de Ricardo era máxima.
— Quando entrarmos em Jerusalém — prosseguiu Raimundo
—, você deverá tratar de localizar um documento que, como
soubemos antes do início da cruzada, está escondido na
cidade, provavelmente no interior da comunidade judaica.
Trata-se de escritos mentirosos, que põem em discussão a
divindade de Cristo Nosso Senhor e dão uma visão negativa
de são Paulo. Não têm nenhum valor histórico nem
religioso, mas poderiam criar fraturas na cristandade. Por
isso, devemos tomar posse deles antes que as falsidades que
contêm sejam difundidas. Amanhã eu lhe darei outras
informações. E uma coisa sobre a qual também informei,
segundo o desejo do legado papal, o duque Godofredo, que
por sua vez fará o possível para encontrar os tais
documentos. Naturalmente — concluiu, dando um peso
maior a estas últimas palavras —, não preciso lhe dizer o
quanto desejo ser eu aquele que os entregará ao pontífice.
Homem de confiança de Raimundo de Saint-Gilles, conde
de Toulouse. Sem dúvida alguma, Ricardo jamais poderia ter
esperado concluir de semelhante maneira aquela jornada,
nem mesmo em seus sonhos de glória mais ousados. E
também havia o assunto dos escritos... Raimundo não o
interrogara sobre seu zelo religioso, evidentemente dando
por certo que sua presença no exército cruzado atestava
suficientemente um alto grau de fé.
Na realidade, não tinha curiosidade pelo conteúdo daqueles
textos, nem lhe interessava saber por que eles ameaçavam
tanto a cristandade. Tendo por longos períodos vivido
sozinho nos bosques, muitas vezes refletira sobre a
intromissão da Igreja na vida diária, sobre sua pretensão de
dominar as consciências e impor tediosos e repetitivos
rituais, intoleráveis limitações ao prazer, trabalhos, con-
tribuições e corvéias aos camponeses, tanto quanto ou até
mais do que os senhores laicos.
A religião o deixava indiferente, e às vezes até o irritava. Mas
aqueles documentos ele iria procurá-los. Não por zelo
religioso, mas por ambição.
De repente lembrou-se de que a jornada, que provavelmente
só ele acreditava poder salvar, não havia acabado. Podia
encerrá-la dignamente com aquela Inês, que parecia tão
ansiosa por lhe conceder suas graças. Moveu-se tão depressa
quanto seu ferimento lhe permitia e, coxeando, chegou
diante do pavilhão onde, na véspera, entrara na fila em vão.
Mas não havia fila alguma. Deu uma espiada para dentro da
tenda e encontrou-a vazia. Olhou ao redor e notou aquele
padre, Anselmo, ajoelhado e absorto em suas orações.
Aproximou-se e, indiferente ao empenho que o monge
dedicava à prece, interrompeu bruscamente o balbucio dele:
— Sabe onde está Inês? — perguntou, sem cumprimentos.
Anselmo se esforçou por manter a concentração e
continuou a rezar, sem voltar a cabeça e ostentando querer
ignorá-lo. Mas Ricardo não se deu por vencido e insistiu:
— Eu lhe fiz uma pergunta, padre! Afinal, você pode
interromper suas orações por um instante, não?
Nada, embora o rosto do monge tivesse ficado vermelho.
Ricardo lhe deu um empurrão.
— Ora, vamos! Ignorar um postulante não é espírito cristão!
— disse, esboçando um sorriso.
Anselmo também sorriu, levantando-se da poeira na qual o
empurrão de Ricardo o derrubara.
— Os serviços de Inês foram novamente requisitados pelo
duque Godofredo. Vai demorar muito, suponho... —
respondeu, retornando às suas preces com cara de intensa
satisfação.
Os gritos de triunfo haviam anunciado a vitória. E a salvação.
Jerusalém estava salva. Os judeus estavam salvos.
Ao menos por enquanto, pensou Rebeca. Ouvira-os acima
de sua cabeça, os adoradores do crucifixo, prontos a se
lançarem sobre ela e sobre a irmã, como tinham feito três
anos antes. Naquele momento, enquanto se interrogava
sobre as intenções da horda de peregrinos armados fora dos
muros de Mogúncia, não sabia do que eles eram capazes, e a
expectativa, embora carregada de tensão, não produzira a
angústia vivida nesta nova circunstância.
Desta vez, sabia. Sabia que nada os deteria, se entrassem. Ne-
nhum escrúpulo, nenhuma contenção, nenhuma piedade.
Nenhuma humanidade. Uma horda feroz e bárbara, incapaz
de experimentar sentimentos diferentes do ódio e desejos
que não fossem de sangue e violência.
A horda não pensava. Os componentes da horda não
pensavam; talvez antes, talvez depois, mas nunca durante.
Para a horda, valia tudo. E não havia regras.
Depois de ter visto a horda em ação, você já não pode ser a
mesma, refletiu. Vive o que lhe resta viver no temor perene
de que um grupo de homens, qualquer grupo de homens,
venha a fazer a mesma coisa. A ser uma horda. A destruir
como uma horda. A saquear como uma horda. A estuprar
como uma horda. Você vê dois, três homens, e se pergunta
se, juntos, eles chegarão a anular sua própria humanidade e a
se transformar numa entidade única, feroz, destrutiva.
Olhou para a irmã. Uma vítima da horda.
Rebeca se deu conta de não estar sendo totalmente honesta
nem objetiva. Três anos antes, alguém saíra da horda.
Alguém as ajudara. Alguém capaz de conservar a própria
humanidade e uma consciência. Um homem emergira
daquela selva de bestas sanguinárias.
Não podia censurar a irmã por ter se apaixonado por ele. Ele
a salvara. E era bonito, ao que recordava.
Perguntou-se quais sentimentos teria experimentado por
aquele homem se, daquela vez, em Mogúncia, ela estivesse
no lugar da irmã.
Mas era inútil. Ela nunca estava no lugar da irmã.
Ouviu baterem à porta. Sabia que não podiam ser os
cruzados, mas ainda assim engoliu em seco, de tensão. O
legado da horda.
Foi abrir, e lhe apareceu Jamal. Pouco ou nada exibia da
pompa e da elegância demonstradas em sua última visita
antes da batalha. Empoeirado, sujo de sangue, suado, as
roupas rasgadas, estava com os ombros curvados pelo
cansaço e uma respiração ofegante que ela nunca vira num
homem sempre tão comedido. Parecia mais velho. No
entanto, conservava uma dignidade que ela jamais tivera
dificuldade em reconhecer, a despeito dos comentários
pouco lisonjeiros da irmã, para quem ele era untuoso,
tedioso e pedante.
— Salam aleik, Rebeca. Vim pessoalmente anunciar a vocês
nossa vitória — disse o emir, dando-lhe uma mirada
apressada, para logo depois relancear ao redor em busca de
Sara, sentada num canto.
— Alecha shalom, emir. Você é bem-vindo, naturalmente.
Com que então, o perigo foi afastado? — perguntou Rebeca,
convidando-o a entrar.
— Sem dúvida. Fugiram com o rabo entre as pernas. E
deixaram montes de mortos no terreno. Se, antes, já eram
poucos para assediar uma cidade, agora são realmente um
número risível.
— E mesmo? Sério? — perguntou Sara, acordando de seu
abatimento.
— Claro! — respondeu o emir, feliz por ter de imediato
suscitado o interesse de Sara, concretizando assim o objetivo
de sua visita. — A esta altura, nada poderia permitir que eles
tomassem a cidade. A lição foi pesada para os infiéis.
Imprevisivelmente, Sara se levantou e correu para ele,
jogando- lhe ao pescoço os braços. Era muito mais baixa do
que o emir, e limitou-se a encostar a cabeça naquele peito
ofegante pela fadiga, e agora também pela emoção. Por
alguns instantes, Jamal ficou surpreso, quase embaraçado
diante do olhar perplexo e divertido de Rebeca, sem saber o
que fazer; depois, com timidez e cautela, apoiou
delicadamente as mãos nas costas de Sara e manteve-as ali,
até que ela se afastou, sorridente e aliviada.
— Mesmo assim, a batalha foi muito dura. Aqueles cristãos
são excelentes combatentes. Corajosos, tenazes, hábeis com
as armas. É quase lamentável termos exterminado tantos
valiosos guerreiros. Mas, por outro lado, foram eles que nos
agrediram. Vieram para nos expulsar daquilo que é nosso.
Está escrito: "Combatei a fundo no caminho de Deus,
combatei contra quem vos combate, mas não sejais os
primeiros a combater. Deus não quer bem aos agressores.
Matai-os onde quer que se encontrem, fazei-os saírem do
lugar de onde vos expulsaram."
Rebeca pensou que Jerusalém, antes mesmo de pertencer a
árabes e turcos, havia sido bizantina, e antes ainda romana, e
primeiramente hebraica. Mas manteve para si essa
consideração. Quem falou foi Sara:
— Mas eu os escutei muito próximos. Transpuseram a
primeira muralha, não foi? E você havia dito que eles não
tinham essa possibilidade... — comentou, com um interesse
que continuava surpreendendo a irmã.
— É verdade, eles se revelaram mais perigosos do que o
previsto. Mostraram grande determinação, e talvez os
tivéssemos subestimado. Mas nem mesmo uma grande
determinação permite fazer o impossível, e, dos poucos que
conseguiram alcançar os espaldões da segunda muralha,
duvido que tenha sobrevivido algum... — respondeu o emir,
que parecia a Rebeca mais radiante pelas perguntas de Sara
do que pela vitória. — E você, minha cara? Está mais
tranqüila agora? Deve ter sentido muito medo... —
acrescentou, virando-se para a jovem.
Rebeca balançou imperceptivelmente a cabeça. Conhecia a
mirada de Sara em todas as suas variantes, e os olhos dela,
naquele momento, não estavam perdidos nos do emir.
Jamal não se demorou muito. Tinha vindo, explicou, só para
ver como as duas estavam. Voltaria com mais calma, tinha
"muitas coisas a contar ainda à minha pequena Sara", disse.
No momento, devia retornar às suas obrigações militares e
relatar os fatos ao governador.
— O que foi aquela gentileza toda com o emir, assim de
repente? — apressou-se Rebeca a perguntar, assim que o
visitante saiu.
— Gentileza? Não sei... — respondeu Sara, com indiferença.
— Eu estava contente pela vitória e manifestei minha
alegria, só isso...
... E o emir acreditava ser correspondido... Rebeca pensou
que a coisa não estava indo nada bem.
TERCEIRA PARTE
ASSÉDIO
Dos apóstolos não vi nenhum outro, a não ser Tiago, o irmão do Senhor.
São Paulo, Epístola aos Gálatas I, 19
Não temos o direito de conduzir conosco uma irmã, como fazem os outros apóstolos e os irmãos
do Senhor, e Cefas?
São Paulo, Primeira Epístola aos Coríntios 9,5
Mas quando Cefas veio a Antioquia, confrontei-o abertamente, porque ele merecia censura. De
fato, antes que viessem alguns da parte de Tiago, comia junto com os pagãos; mas, depois da vinda,
começou a me evitar e a manter-se à parte, por temor dos circuncidados.
São Paulo, Epístola aos Gálatas 2, 11-12
Rezavam continuamente junto com algumas mulheres, entre as quais a mãe de Jesus, e com os
irmãos dele.
Atos dos Apóstolos I,14
Jerusalém, 70 d.C.
Seu objetivo, a fonte de Gihon, já estava próximo. Zoker
respirou fundo por alguns instantes, contemplando o acesso
ao manancial, para onde confluíam as torrentes subterrâneas
que corriam sob as colinas de Jerusalém. Ao redor,
amontoavam-se numerosos baldes; carroças estacionadas
aguardavam os animais de tração que as puxariam até os
postos de guarda. Durante o dia, supôs, aquele lugar devia ser
muito freqüentado.
Restos de antigos torreões sobrepunham-se à entrada. Entre
as pedras disseminadas ao longo da parede rochosa do monte
Ophel entrevia-se a embocadura do túnel escavado quase
oito séculos antes para fazer escoar a água até o setor sul-
oriental da cidade.
Todos em Jerusalém conheciam a história daquela obra
admirável, que o rei Ezequias havia promovido sob a
dominação assíria. Duas equipes de escavadores tinham
aberto o caminho na rocha nua, praticamente às apalpadelas
e nem sempre em linha reta, uma de sudoeste para nordeste,
a outra na direção oposta, para depois se encontrarem no
meio do trajeto, depois de terem escavado por quase
trezentos passos cada uma. Haviam sido necessários mais de
seis meses, com turmas formadas por um operário que
apicoava a rocha enquanto os outros recolhiam e removiam
as pedras.
Infelizmente para Zoker, aquele túnel era uma das passagens
subterrâneas que os romanos tinham conseguido localizar,
apressando-se a guardá-la para impedir a fuga dos assediados.
Duas sentinelas munidas de tochas controlavam a entrada,
mas, sobretudo, poucos passos à frente, cinco crucificados,
dispostos em semicírculo, surgiam como clara advertência a
quem, vindo de dentro, ainda quisesse tentar a sorte.
Zoker não tinha tempo nem condições de procurar um
acesso menos guardado. Sabia que nas imediações
desembocava outro canal, mais antigo, coberto com grandes
lajes escondidas pela folhagem; mas localizá-lo diante dos
guardas romanos estava fora de questão. Pensando bem, era
até uma sorte que houvesse apenas duas sentinelas, sinal
evidente de que o túnel já não era considerado perigoso.
Além disso, os dois soldados eram auxiliares com armamento
leve, escudos ovais, menores do que os dos legionários, e
cota de malha, em vez daquela de placas; para completar, um
deles estava sem o elmo. Provavelmente o comandante
romano Tito, refletiu Zoker, preferia enviar todas as tropas
pesadas às verdadeiras operações de assédio.
Perguntou-se de que lado os dois romanos esperavam uma
cilada. De dentro, sem dúvida. Mas também de frente,
eventualmente.
Não do alto, por certo.
Zoker apanhou uma pedra tão grande quanto sua palma.
Então mirou a ampla fenda que constituía a entrada do túnel
e lançou-a. A pedra ecoou no escuro, às costas dos soldados,
que instintivamente se voltaram.
Zoker aproveitou para saltar de pé e segurar-se à cruz mais
próxima, que escalou com a agilidade de um gato,
segurando-se ao corpo inerte do condenado. Assim que se
viu no alto, ainda esperou um instante até que o olhar dos
romanos convergisse para a entrada do túnel; em seguida,
colocou-se de pé, em equilíbrio precário, sobre os braços
horizontais da cruz, e se lançou em cima dos dois inimigos.
Aterrissou agarrando ambos pelo pescoço. Bateu a cabeça
um contra a do outro, usando em seguida os corpos para
suavizar o próprio impacto sobre o terreno. Reergueu-se
prontamente, controlando o estado de suas vítimas. O que
estava sem elmo parecia decididamente fora de combate,
mas o outro dava a impressão de estar apenas atordoado.
Zoker deu-lhe um pontapé, pegou uma tocha e entrou de
imediato no canal, descendo uns degraus e esgueirando-se
por uma nova abertura, estreita e baixa, para além da qual se
viu com água corrente até os joelhos.
Depois de alguns passos, ouviu o guarda gritar e, em seguida,
lançar-se à sua perseguição. A modesta ponta curva de sua
sica não lhe oferecia nenhuma garantia diante da lança do
romano, a não ser que ele pudesse desfrutar do efeito
surpresa. Decidiu parar e se esconder na água, esperando
agüentar até a chegada do soldado.
Apoiou a tocha na borda e retornou algumas dezenas de
passos, para induzir o perseguidor a concentrar a própria
atenção na fonte de luz. Tomou bastante fôlego e se
estendeu no fundo. Passou assim algum tempo, sem que
nenhum rumor lhe chegasse aos ouvidos.
Sentiu os pulmões lhe pressionarem o peito e as têmporas
pulsarem com intensidade insuportável. Lutou contra o
impulso de emergir, e depois se obrigou a abrir os olhos. No
fluir da corrente, distinguiu a custo o movimento de duas
estreitas silhuetas que avançavam para ele. Esperou que
aquelas duas pernas estivessem a um palmo de seu rosto,
antes de reunir as forças que lhe restavam, saltar de joelhos e
desfechar o golpe.
A sica penetrou, afundando até o punho. Um berro que o
eco da caverna tornou desumano. Zoker emergiu da água e
viu que havia perfurado o inimigo na altura da virilha, pouco
abaixo da malha de ferro.
O judeu extraiu a arma e golpeou de novo, desta vez na
garganta. Apoiou-se à borda do canal, retomando o fôlego
por alguns instantes; depois recolheu a tocha e recomeçou a
correr. Da entrada do túnel vinha o eco de vozes, mas ele se
convenceu de que os inimigos não o perseguiriam por longo
trecho. Provavelmente, consideravam-no um dos muitos
assediados que saíam em busca de alimento, pelos quais não
valia a pena arriscar-se a sofrer uma emboscada dentro das
galerias.
Seguiu em frente, ultrapassando corpos putrefatos que
boiavam na água. A maioria certamente era de vítimas dos
romanos, mas um dos cadáveres tinha uma sica espetada no
ventre. Conferiu: era um circuncidado. Segundo os rumores
que circulavam até na Peréia, os sicários eram
particularmente ferozes com seus próprios concidadãos, ou
pelo menos com os que eles não consideravam úteis à defesa
da cidade.
Seu limiar de atenção se aguçou um pouco mais. Podia haver
adiante um posto de bloqueio, e talvez os que se
encontravam lá não tivessem muitas sutilezas inclusive com
ele. Enveredou por uma derivação à direita, esperando estar
no caminho certo para a Cidade Alta. Avançou, já fora da
água, por uma galeria mais estreita e em leve aclive. Não se
passou muito tempo e uma luz débil aflorou ao longe. Zoker
engoliu em seco e continuou a avançar.
— Vocês, aí em cima! Eu sou um circuncidado! — gritou,
em aramaico. Se fossem zelotas, pelo menos não o tomariam
por um romano.
Nenhuma resposta.
XIII
Inês acordou com muita sede.
O campo já se encontrava em plena atividade. Ela devia ter
dormido mais do que o lícito na tenda do duque Godofredo,
que demonstrara uma energia inesgotável, como se sua
excitação fosse diretamente proporcional à quantidade de
sangue que ele vira correr ao longo da jornada.
Tinham prosseguido por grande parte da noite: pausas
breves, muito movimento, poucas palavras e quase todas de
circunstância. Inês duvidava que aquele Ricardo soubesse
mostrar a mesma vitalidade. No entanto... no entanto,
decerto seria mais intenso. Ao menos para ela.
Experimentou imaginar-se com o normando e se espantou,
visto que havia tempo não fantasiava de olhos abertos sobre
os momentos de intimidade com os clientes. Isso lhe
acontecera nos primeiros tempos, quando ela ainda era uma
jovenzinha ingênua, capaz de sentir alguma emoção diante
da perspectiva de se deitar com um homem. Mas isso havia
durado pouco: clientes bárbaros, indiferentes, soberbos
tinham-na habituado a não esperar nada interessante e
estimulante de encontros cujo único fruto era o dinheiro.
A secura que sentia no palato tirou-a de seus pensamentos,
induzindo-a a se erguer do leito, sobre o qual notou diversas
moedas. Sempre generoso o duque, refletiu, enquanto
ajeitava as roupas. E sempre distante, como convém se
comportar com uma puta. Para esta segunda ocasião, ela
havia esperado uma certa familiaridade; às vezes, acontecia.
Deu de ombros e saiu para procurar água.
O dia seguinte ao de uma batalha perdida. A decepção da
tropa era evidente nas faces e nas atitudes dos soldados e dos
peregrinos. Igualmente perceptível era a desorientação
deles, a incerteza quanto ao futuro imediato. Embora não a
ouvisse claramente, Inês lia nas expressões dos homens a
pergunta "O que faremos agora?"; uma pergunta que, na
verdade, ela também se fazia. Não era necessário ser
estrategista para saber que um segundo assalto não teria
possibilidades de sucesso maiores que as do primeiro. Pelo
contrário: seriam muito menores. E ainda mais escassas eram
as possibilidades de submeter a cidade a um assédio sem a
madeira necessária para as máquinas.
Para piorar, muitos cruzados provinham dos mais rigorosos
climas da Europa setentrional e toleravam mal o calor que os
envolvia do amanhecer ao ocaso, dificultando até o repouso
noturno. Faltava muito para a hora terceira, e o sol já
sobressaía ameaçadoramente alto no céu, perseguindo com
seus raios quem quer que buscasse algum frescor nos poucos
pontos cobertos da planície ao redor de Jerusalém.
Água. Durante a noite, Godofredo lhe dissera que as reservas
estavam próximas de se esgotar, e os chefes haviam proibido
o uso do líquido para banho ou refrigério. Inês se deslocou
até sua tenda, junto da qual havia dois barris para as
necessidades das prostitutas. Encontrou-os vazios.
— O que foi feito da água? — perguntou a uma mulher.
— As últimas gotas foram usadas durante a noite, para os
feridos da batalha — explicou a outra, balançando a cabeça.
— E agora? Como vamos prosseguir?
— Alguns soldados pegaram jumentos e bois e partiram com
os guias em busca de fontes não contaminadas. Parece que
ficam a várias léguas daqui... Eles não retornam tão cedo —
respondeu a mulher, resignada.
Inês, porém, não tinha nenhuma intenção de se resignar. Foi
procurar Anselmo; os padres, pensou, sempre se arranjavam
nesses casos, e ele certamente iria ajudá-la. Encontrou-o
rezando. A coisa ainda conseguia espantá-la, depois de uma
vida transcorrida, por motivos óbvios, de preferência longe
dos religiosos. E, também, sua religiosidade era rural,
herdada dos pais e ligada a rituais antigos que a Igreja
considerava pagãos.
O fato de aquele monge parar a cada três horas para rezar,
alheando-se de tudo que o circundava, às vezes a fazia sorrir.
Mas, agora, Inês não pretendia dar a ele outros pretextos para
fazê-la se sentir inadequada ao empreendimento. Perguntou-
se o que teria acontecido se ela tivesse confidenciado a
Anselmo o verdadeiro motivo pelo qual estava participando
da cruzada... Os religiosos nunca lhe haviam inspirado
confiança suficiente para induzi-la a se abrir com eles,
embora a Igreja exortasse constantemente os fiéis à
confissão. Mas justamente uma confissão, a única que ela já
fizera, custara-lhe anos de tormentos e remorsos.
— Você bebeu água? — perguntou a Anselmo, quando o viu
se levantar.
— Agora de manhã, não. Precisamos esperar a volta dos
soldados enviados para trazê-la — respondeu Anselmo, num
tom que não deixava transparecer nenhuma ansiedade.
— E acha que ainda vai resistir muito, com este calor?
— Não, francamente não. Mas você vai ver que eles voltam
logo.
— Sem dúvida. E haverá um assalto à carga deles, ainda mais
furioso do que foi o das muralhas...
Ouviu Anselmo engrolar alguma coisa a respeito do fato de
que os chefes saberiam gerir o assunto e distribuir com
sensatez as provisões. Inês achava que os comandantes, se
haviam sido tão pouco sensatos brigando entre si desde o
início da expedição, a ponto de atrair as críticas da tropa, e
conduzindo os soldados a um assalto desatinado, dificilmente
saberiam demonstrar mais sagacidade nesta circunstância.
Depois seus pensamentos se deslocaram para outro assunto.
Ricardo. Sentia-se curiosa por saber como ele estava e por
que, mais uma vez, faltara ao encontro. Afinal, Godofredo
mandara chamá-la tarde, e o normando teria tido bastante
tempo para ir vê-la. Era a primeira vez em que ela topava
com uma atitude tão morna da parte de um homem; de um
homem que não fosse monge, claro.
Talvez, refletiu, tivesse sido demasiado agressiva e explícita.
Talvez devesse fazer-se desejar. Fosse como fosse, era ele
que não aparecera. Portanto, era ele quem deveria procurá-
la.
Concluiu, não sem fazer um esforço, que não moveria um
dedo.
A hora sexta passou sem que viesse qualquer abastecimento
de água. O sol já alcançara o ápice no céu e, nas horas
imediatamente subseqüentes, tampouco atenuou sua
impiedosa obra de desidratação. Inês se viu desocupada.
Ninguém se apresentou para solicitar seus serviços, e, por
outro lado, ela também não se sentia disposta a prodigalizar
esforços para dar um pouco de prazer a quem, entre a
decepção pelo assalto falhado e a fraqueza resultante da
canícula, precisaria de grande dedicação para conseguir
levantar pelo menos o moral
Por volta da hora nona chegou um destacamento. Ou, ao
menos, o que restava dele. Eram cinco, entre os quais um
ferido, e não traziam nem bois nem burricos.
— Perderam os animais num confronto com os
muçulmanos, nos arredores da fonte — explicou Anselmo a
Inês. — Parece que sofreram uma emboscada. Agora, não
será fácil obter água. Os inimigos sabem que a estamos
procurando, e devem ter predisposto surtidas para nos
impedir.
— À piscina, vamos à piscina! Hoje jorra água! — ouviram
gritar pouco adiante.
— Piscina? O que é isso? — perguntou Inês.
— Trata-se de um poço ao pé das muralhas, na parte
meridional do vale do Cedron — explicou Anselmo, cuja
voz soava empastada, com cada palavra acompanhada por
um som semelhante ao ruído do pisoteio sobre folhas secas.
— Lá, Jesus curou um cego. A água jorra de um túnel
justamente sob as muralhas, mas só de três em três dias, por
algum motivo que só o Senhor conhece. Embora não tenha
sido contaminado, é muito exposto aos tiros dos arqueiros
sobre os espaldões...
— Então, essas pessoas vão se suicidar... — concluiu Inês,
apontando o movimento que se seguira à exortação.
— O quê? Para onde vão? — Anselmo se voltou e só então
percebeu o que acontecia às suas costas. — Mas aonde vocês
estão indo? Enlouqueceram? Nem mesmo o Senhor poderá
salvá-los, se se expuserem tanto ao perigo! — gritou, mas
ninguém demonstrou tê-lo escutado.
— Temos que detê-los. Venha me ajudar! — disse o monge a
Inês, que o encarou demoradamente, surpresa pela repentina
determinação dele. Depois também se moveu, embora não
muito confiante no êxito da piedosa iniciativa adotada pelo
amigo. Acotovelaram-se os dois em meio à aglomeração de
homens, mulheres, crianças e animais de carga que se
moviam rumo ao sul. Inês tentou segurar um menino,
gritando à mãe, que o precedia, para que parasse. Como
única resposta, a mulher fitou-a com olhos alucinados e
levantou um braço, tentando lhe arranhar o rosto. Inês se
afastou a tempo, mas enquanto isso a outra lhe tirou o
menino. Em um instante, mãe e filho desapareceram na
poeira levantada pelo tropel.
À medida que prosseguia em direção ao sul, a multidão
aumentava, recolhendo ao longo do caminho outros
peregrinos, civis e militares, contagiados pelo desespero e
impelidos pela esperança de matar a sede.
Várias vezes Anselmo tentou bloquear as mulheres, os
velhos e as crianças, mas, apesar de seu corpanzil, a cada vez
arriscou-se a ser atropelado. A determinação lhe faltou
depois que ele viu aflorarem da multidão algumas tonsuras e
batinas. Só então percebeu que qualquer esforço era inútil:
Inês o viu separar-se dos outros e tomar o caminho a
montante, para além do vale da Geena, que margeava as
muralhas da cidade, a fim de se manter fora do alcance de
tiro dos defensores.
Ela ainda tentou deter alguém, mas um tapa a induziu a
desistir igualmente e a seguir a direção de Anselmo. Viu-o
ofegar no meio da subida e alcançou-o em pouco tempo,
prosseguindo com ele o percurso a montante.
— Afinal, como você pretendia convencer uma multidão
desesperada e impelida por uma esperança? — inquiriu.
— O Senhor não pode querer que tudo dê errado neste
empreendimento, feito justamente por Sua glória — disse o
monge, depois de recuperar o fôlego.
Antes que Inês pudesse replicar, a atenção deles foi atraída
pelo que acontecia mais embaixo, na base da elevação sobre
a qual surgia Jerusalém. Os peregrinos mais ágeis haviam
chegado junto à chamada piscina, e só então se tornaram
prudentes; a distância em relação às muralhas não permitia
estabelecer com absoluta segurança se o tanque estava ou
não fora do alcance das flechas muçulmanas. A piscina, um
retângulo com a profundidade de pelo menos dois homens
postos um sobre o outro, era dotada de robustos muros de
pedra, escadas de acesso à base e meios-fios ao longo das
bordas. De um túnel com grade fluía intermitentemente um
jato d'água.
Em pouco tempo criou-se um tropel em torno do perímetro
do tanque. Chegaram também os animais de carga, bois,
jumentos e mulas que muitos tinham dificuldade em conter.
Finalmente um homem desceu os degraus e entrou
cautelosamente na água, um passo de cada vez e olhando
para o alto, na direção das muralhas. Todos ficaram
observando, com a respiração suspensa.
O peregrino caminhou por alguns instantes, imerso até a
cintura, depois se inclinou e bebeu. Mal se reerguera da água
quando um sibilo fendeu o ar.
A primeira flecha havia sido disparada.
Durante sua trajetória, os únicos rumores vindos da multidão
foram os mugidos e o pisoteio dos animais. O dardo
ricocheteou na parede rochosa a montante da piscina,
chegando inofensivo às vizinhanças desta.
Ao que parecia, o poço estava muito distante para as flechas
dos inimigos.
O homem dentro d'água levantou a cabeça e emitiu um
berro de triunfo, que constituiu o sinal para os outros.
De imediato, os homens, as mulheres e os animais que se
haviam aglomerado no perímetro da piscina lançaram-se
dentro, uns descendo os degraus, outros saltando
diretamente e outros, ainda, impelidos por quem estava
atrás. Os homens empurravam mulheres e crianças para
ultrapassá-los, jogando-os contra os cascos de animais que
escoiceavam enlouquecidos ou fazendo-os precipitarem-se
na água.
Inês notou alguns movimentos nos espaldões. Viu
numerosos arqueiros preparando-se para atirar.
Instintivamente, deu um grito, na impossível tentativa de
avisar às pessoas que a primeira flecha talvez tivesse sido
apenas uma cilada.
Um instante depois, centenas de flechas se irradiaram dos
merlões.
Caíram sobre os homens em torno da piscina.
E caíram sobre os homens dentro da piscina.
Saulo diz: "A letra mata, o espírito dá vida." Mas o homem é justificado com base nas obras, e não
somente na fé. De fato, assim como o corpo sem o espírito está morto, de igual modo a fé sem
obras está morta.
Saulo diz: "Decaem da graça e não têm nada a ver com Cristo aqueles que procuram a justificação
na Lei." Saulo diz: "Todas as coisas são lícitas, e a Lei é uma escravidão." Mas, se julga a Lei, ele já
não é um observador da Lei, e sim um juiz. Lê-se em Números: "Quem observa toda a Lei, mas
tropeça em um só ponto que seja, torna-se culpado de tudo." O Messias nos disse: "Sede perfeitos
como Vosso Pai Celeste é perfeito. Quem observa com atenção a Lei perfeita, a Lei da liberdade,
e nela persevera, não como ouvinte desatento, mas como verdadeiro executor, será bem-
aventurado em suas obras." E ainda: "Não penseis que eu vim para abolir a Lei ou os Profetas; não
vim para aboli-los, mas para dar-lhes cumprimento. Em verdade vos digo: enquanto não passarem
o céu e a terra, nem uma só vírgula passará da Lei sem que tudo seja cumprido. Portanto, quem
transgredir um só desses preceitos, ainda que mínimo, e ensinar os homens a fazerem o mesmo,
será considerado mínimo no Reino dos Céus; mas quem os observar e os ensinar será considerado
grande no Reino dos Céus."
Saulo diz: "Não é necessária nenhuma autorização para difundir a palavra de Deus. Nossa
autorização não foi escrita com tinta, mas pelo espírito do Deus vivo, não está gravada sobre placas
de pedra, mas sobre as placas de carne do coração de quem escuta." Porém, se alguém pensa ser
religioso, mas não refreia a língua e engana assim seu coração, sua religião é vã.
Saulo diz: "Ninguém é imundo. Para pregar o Evangelho, é preciso fazer-se judeu com os judeus,
gentio com os gentios." Mas lê-se em Ezequiel: "Nenhum estrangeiro, incircuncidado de coração
e incircuncidado na carne, entrará no meu santuário." E também: "Os sacerdotes indicarão ao
meu povo o que é santo e o que é profano, o que é limpo e o que é imundo." O Messias nos
exortava a não nos dirigirmos aos pagãos, mas somente às ovelhas desgarradas de Israel.
Quem quer ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus. A amizade do mundo é a
inimizade de Deus. Nós reprovamos as riquezas daqueles de quem Saulo quer fazer-se amigo.
Acaso não são os ricos que tiranizam os pobres e os arrastam perante os tribunais? Acaso não são
eles que blasfemam contra o belo nome que foi invocado acima de nós? Lê-se no Levítico: "Ama
teu próximo e não sejas mais rico do que os outros."
Saulo diz: "Vós sois falsos apóstolos, operários fraudulentos, disfarçados de apóstolos de Cristo",
mas quem é ele para falar mal do irmão e para erigir-se em juiz de seu vizinho? Quem é ele para
definir como falsos apóstolos aqueles que viveram ao lado do Messias, ele que nem sequer o
conheceu, a não ser em suas visões? Em seu coração ele tem inveja amarga e espírito de
competição; vangloria-se e mente contra a verdade. Erige-se em mestre, ignorando que todos
nós receberemos um julgamento mais severo. Sua língua é um pequeno membro que apregoa
grandes coisas.
Saulo diz: "Israel fez-se inconsciente instrumento de redenção da humanidade, condenando
Cristo à cruz e permitindo-lhe, assim, salvar o homem por meio do seu sacrifício." Mas ele omite
a responsabilidade dos pagãos. O assentimento de uns poucos sacerdotes corruptos e blasfemos,
submissos aos gentios, não é culpa do povo inteiro, que acolheu com alegria e esperança Suas
palavras de justiça, de redenção e de vida eterna.
Rebeca havia lido demais, para aquele dia. Finalmente,
decidiu- se a enrolar de novo o pergaminho que abrira sobre
a mesa, no meio de outros textos. Desde quando se
encontrava em Jerusalém, tivera oportunidade de confrontar
os rolos com os textos canônicos cristãos, que o rabino-
chefe da comunidade hierosolimita, a seu pedido, havia
obtido dos cristãos ortodoxos, antes que estes fossem
expulsos da cidade.
Refletiu sobre a oportunidade perdida pelo pai. Ela não
dominava a doutrina necessária, nem o conhecimento
aprofundado da língua grega, para captar todas as referências
e pistas que era possível extrair daquele rico texto. No
entanto, sua vontade e sua curiosidade lhe haviam
permitido, em apenas três anos, identificar as surpreendentes
contradições que o memorial destacava naquilo que os
cristãos chamavam de "Novo Testamento". Havia localizado,
nas citações que Tiago fazia do pensamento de Paulo,
trechos das epístolas do próprio Paulo, mas também dos
Evangelhos. Por outro lado, as réplicas de Tiago ecoavam a
epístola transmitida em seu nome, inserida no cânone
neotestamentário, mas às vezes, e isso era realmente
paradoxal, ecoavam também os próprios Evangelhos.
Rebeca estava se convencendo de ter identificado no
próprio cânone neotestamentário as duas tendências opostas
que dilaceravam o movimento cristão original. Até
acreditava poder estabelecer o que permanecera do
ensinamento do rabi e o que havia sido interpolado pelo
partido adversário, o dos "heréticos", débeis defensores da
Lei hebraica, universalistas, pacifistas, pouco propensos a
fazer distinções entre pobres e ricos, entre hebreus e
gentios, entre puros e impuros, e convencidos da natureza
divina do crucificado.
Se o pai tivesse disposto de uma vontade como a dela, teria
construído, com a doutrina de que era conhecedor, uma
defesa incontestável do caráter judaico ortodoxo,
nacionalista, revolucionário e estritamente humano do
crucificado. E talvez, pensou, muitas coisas teriam mudado.
Ela não se sentia capaz de construir coisa alguma, mas pelo
menos estava bem decidida, enquanto as circunstâncias
permitissem, a aprofundar seus conhecimentos.
E se os Evangelhos tivessem sido escritos depois das obras de
Paulo? Poderiam ter refletido o pensamento e as orientações
dele, já que seu ponto de vista prevalecera. Por outro lado,
aquele homem que lhes havia confiado os rolos tinha dito
que os Evangelhos davam uma imagem negativa dos judeus e
bajulavam os romanos. Isso podia ser uma prova de que
haviam sido escritos após a destruição de Jerusalém e do
Templo, quando a Palestina já estava totalmente submetida
aos dominadores, e nada que não fosse aprovado por eles
poderia transparecer.
Sem dúvida as posições de Tiago, tão nacionalista, xenófobo,
zeloso cumpridor da Lei hebraica, não podiam agradar aos
romanos. E provavelmente tratava-se das mesmas do próprio
Jeshua, visto que Tiago fora designado como seu sucessor e
não era possível que tivesse assumido posições radicalmente
divergentes das de seu predecessor e irmão. Nos Evangelhos,
haviam permanecido alguns traços dos ensinamentos
originais do rabi, o que resultava em óbvia contradição com
outras passagens.
Segundo o relato de Tiago, Jesus era um rabi que pregava
contra o laxismo e a corrupção da casta sacerdotal, cada vez
mais distante da aplicação da Lei, e contra a opressão dos
romanos. Por isso, e só por isso, fora justiçado na cruz por
estes últimos. Como um sedicioso que, com seu zelo,
obstaculizara para si mesmo o apoio das classes judaicas
dominantes. E, provavelmente, alguém havia acabado por
identificá-lo com o descendente de Davi que, segundo a
profecia da Estrela, resgataria Israel, conforme previa um dos
chamados Salmos de Salomão:
Senhor, faz com que o filho de Davi reine sobre Israel.
Cinge-o de força para que esmague os reis malvados.
Faz com que ele purifique Jerusalém dos pagãos que a oprimem.
Com uma maça de ferro, destruirá todos os haveres deles.
Cancelará da terra os pagãos com uma palavra de sua boca.
Não por acaso, refletiu Rebeca, nos Evangelhos atribuía-se a
Jeshua uma genealogia que o fazia remontar justamente a
Davi. Fosse verdade ou não, aquele indivíduo certamente
extraordinário tornara-se um símbolo para os hebreus, um
símbolo que, amargamente — e para fazê-lo sobreviver ao
esquecimento ao qual os dominadores tinham condenado os
sediciosos —, seus discípulos transformariam no promotor
da unificação universal em nome de Roma: um papel que
não poderia estar mais distante dos valores da Lei mosaica,
que o próprio Jeshua havia defendido e aplicado — embora
fazendo algumas correções —, com uma coerência bem
maior do que aquela narrada nos Evangelhos.
De fato, não escapavam a Rebeca certas incongruências
contidas nos textos canônicos. Como, por exemplo, no
Evangelho de Mateus, no qual se lia que Jesus exortava seus
discípulos a "não andar entre os pagãos" e, pouco adiante, a
"instruir todas as nações".
O Evangelho de Lucas era rico em referências ao fato de que
os gentios eram mais apreciados por Deus do que os hebreus,
porque, embora menos informados sobre a expectativa pelo
único e verdadeiro Deus, haviam extraído mais frutos de seu
escasso conhecimento. Nele, por exemplo, Jesus louvava a
solicitude de um centurião romano por um servo doente,
declarando jamais ter encontrado tanta fé em seu povo.
Rebeca foi reler o trecho: "O servo que, conhecendo a
vontade do patrão, não tiver disposto ou agido conforme a
vontade deste, receberá muitos açoites, mas aquele que, não
a conhecendo, tiver feito coisas merecedoras de açoites,
receberá poucos. E a quem foi dado pouco, será pedido
muito, e a quem foi confiado muito, será pedido muito
mais."
Numa leitura atenta, parecia mesmo que Jeshua advertia os
hebreus de que não traíssem a aliança mosaica, da qual ele se
fazia promotor, porque o dia do juízo estava próximo e cada
um receberia de acordo com o que tinha dado. Daí a atribuir
a Jeshua, ao término de sua trajetória terrena, uma nova
aliança, que cancelasse a mosaica e abrangesse também os
pagãos...
Sem dúvida, era de fato um assunto candente, pensou
Rebeca, olhando o manuscrito. Sobretudo agora que os
cristãos estavam às portas. Ela se refugiara em Jerusalém para
escapar à fúria deles, e agora os tinha a poucos metros de
distância, ainda mais ameaçadores e organizados do que três
anos antes. Se soubessem da existência daquele memorial,
redobrariam seus esforços para conquistar a cidade. Devia
decidir separar-se dos pergaminhos e escondê-los num lugar
seguro, e precisava encontrar alguém em quem confiar, a
quem revelar o segredo da localização e do valor deles.
Quando chegara à cidade, havia procurado, com muita
discrição, encontrar algum recabita que a ajudasse, mas fora
informada de que aquela comunidade tinha emigrado
definitivamente para o sul da Arábia.
No entanto, devia de qualquer maneira achar alguém que
protegesse os textos. Alguém que percebesse a importância
deles e estivesse interessado em assegurar-lhes a
sobrevivência. Isso, porém, excluía os outros judeus: como
acontecera com seu pai, alguém poderia temer ulteriores
represálias por parte dos cristãos, se por acaso eles fossem
divulgados.
Rebeca ouviu baterem à porta. Logo em seguida, o inevitável
"Salam aleik", na costumeira voz profunda de Jamal. Desde
quando Sara havia manifestado aquela efusão repentina,
ligada exclusivamente ao alívio pela extinção do perigo do
assalto cristão, o emir vinha visitá-las com mais freqüência
ainda, mas parecia não perceber que a jovem retornara à sua
indiferença habitual.
Rebeca observou o árabe entregar-se às costumeiras mesuras
e apresentar à sua irmã os presentes de sempre, com os quais
a casa delas já estava lotada: ungüentos, especiarias, sedas
refinadas, que Sara apreciava, embora não a tornassem mais
receptiva em relação a ele. Depois observou os livros e os
pergaminhos espalhados sobre a mesa, perguntando-se se
não seria o caso de fazê-los desaparecer.
Então teve uma idéia.
XIV
— Você tem nas mãos um documento excepcional e
terrivelmente perigoso. — Foi esse o primeiro comentário
de Jamal, quando Rebeca lhe explicou no que estava
trabalhando. — Supondo-se que seja autêntico, claro. Mas,
mesmo que não o fosse, a simples existência dele bastaria
para conturbar a cristandade.
— Meu pai afirmava que esse texto provocaria represálias
ulteriores contra os hebreus — respondeu Rebeca.
— E talvez não estivesse totalmente errado — replicou o
emir. — Mas o que se diz aí quanto à natureza de Jesus?
Rebeca desenrolou os pergaminhos e procurou um trecho
que pudesse satisfazer a curiosidade do interlocutor. Já
conhecia ponto por ponto os assuntos tratados no texto,
embora ainda lhe faltasse compreender plenamente o
significado de alguns deles.
— Veja aqui — apontou a Jamal. — Esta passagem me parece
bastante significativa.
Saulo diz: "O Deus pai enviou o filho para resgatar os pecados dos homens, como sacrifício
supremo." Mas como pode existir uma tal blasfêmia? Saulo retoma o tema da remissão dos
pecados contido no Livro de Isaías: "O justo, meu servo, justificará muitos, e carregará em seus
ombros a iniqüidade deles", e se confunde tomando o Messias, o escolhido de Deus, por Seu filho,
sem compreender o significado da filiação divina. O escolhido pelo Senhor senta-se à direita Dele
e o que é essencial é sua função, e não a genealogia.
"Eu sou Deus e não homem", lê-se no Livro de Oséias, e isso atesta que é impossível uma
mescla entre humano e divino. O próprio Deus disse de Salomão, filho de Davi: "Eu lhe serei pai
e ele me será filho. Se fizer o mal, eu o castigarei." E, nos Salmos, Deus diz de um rei: "Tu és
meu filho, eu hoje te gerei", e um rei se dirige assim a Yahvé: "Tu és meu pai, meu Deus e rocha
da minha salvação."
Deus adota os justos, torna-os seus filhos.
Na Divindade não podem existir um pai e um filho, visto que a Divindade é indivisível. Um pai
precede forçosamente um filho, porque, se coexistissem desde sempre, seriam gêmeos. Jeshua
era filho de Deus enquanto adotado por Ele, como consagrado. Quando se alcança a perfeita
santidade, é-se adotado por Deus.
Saulo diz: "Cristo instituiu uma nova aliança, que substitui aquela estipulada entre Deus e Moisés
e testemunhada pela Torá. Uma aliança que compreende todos os povos, e não somente o
hebraico, à espera do reino dos céus." Mas, para Jeshua, existia um só reino, o de Yahvé.
— Huummm... de fato, no Corão, Jesus nega ter usurpado
Deus de algum modo — comentou o emir, após alguns
instantes de reflexão. — Alá pergunta a Jesus se ele e Maria
são duas divindades além de Deus, e Jesus lhe responde que
jamais afirmou semelhante coisa. Ele é um nabi, um profeta,
e também um rasul, um mensageiro, nada além disso. Como
tal, não morreu, mas sim foi escolhido por Deus antes de
acabar na cruz, ascendendo ao céu e sentando-se ao lado de
Alá à espera do Fim dos tempos. Segundo o pensamento
xiita, Jesus foi o único dos profetas a ascender ao céu, assim
como Enoque e o sobrinho de Maomé, Hussein. "Na
realidade, os hebreus não o mataram em absoluto", lê-se no
Corão. Já o Sahih, coletânea dos ensinamentos do Profeta,
assim motiva a exclusão dos cristãos do paraíso: "Eles dirão:
Sempre adoramos Jesus, o filho de Deus. E lhes será
respondido: Estais mentindo. Deus nunca tomou alguém
como mulher ou filho."
— Para nós, judeus, Elias e Eliseu também subiram ao céu —
esclareceu Rebeca.
— Pensamento xiita? Você quer dizer muçulmano? — A
observação de Jamal havia suscitado uma curiosidade inédita
até em Sara, que parecia interessada.
Um apaixonado está sempre disposto a amplificar qualquer
sinal que ecoe suas esperanças de ser correspondido,
ignorando os muitos indícios que testemunham o contrário,
pensou Rebeca, enquanto esperava a resposta do emir.
— Minha querida, o mundo muçulmano está dividido em
duas grandes famílias, que penam para encontrar uma
conciliação — apressou-se Jamal a explicar. — Nós, árabes
egípcios, por exemplo, pertencemos ao ramo xiita, de shi'ah,
que significa "divisão". Conforme acreditamos, o verdadeiro
sucessor de Maomé é Ali ibn Abi Talib, que desposou a filha
do Profeta, Fátima, mas foi somente o quarto dos califas. Seu
filho Hussein o sucedeu, mas foi morto em Kerbala, e é o
maior mártir venerado por nós, xiitas.
"Segundo os sunitas — de sunnah, 'ortodoxia' —, porém, o
legítimo sucessor do Profeta foi justamente aquele que se
tornou califa após a morte dele, ou seja, Abu Bakr, que ficara
ao lado de Maomé durante as lutas para afirmar a Verdadeira
Fé. Nós, xiitas, também acreditamos que os imames, os guias
da prece viva, podem funcionar como intermediários entre o
homem e Alá, ao passo que os sunitas não crêem que
existam homens capazes de ser uma ligação entre Deus e os
fiéis. Meu guarda pessoal, por exemplo — acrescentou,
apontando Firuz, empertigado um pouco fora da entrada da
casa —, é um sunita, como todos os turcos seljúcidas. Isso
não me impede de confiar nele e de considerá-lo um
excelente amigo. Mas, infelizmente, é raro que isso aconteça
entre xiitas e sunitas."
— Talvez tenha sido justamente por essa razão que os
cristãos chegaram até aqui — arriscou Rebeca. — Se todos os
muçulmanos, árabes e turcos, tivessem se unido contra o
inimigo comum, duvido que eles percorressem tanta
estrada...
— Como negar? — assentiu Jamal, desconsolado. — Essa
divisão torna muito mais débil a nossa jihad, a luta contra os
infiéis pela afirmação da verdadeira fé. Por outro lado, é
justamente por isso que o memorial cuja posse você detém
poderia representar uma grande vantagem também para nós,
muçulmanos, além de para vocês, hebreus...
Em seguida, o emir preferiu conduzir a conversa para temas
mais estritamente religiosos:
— Assim como nós, muçulmanos, o próprio Jesus
consideraria blasfema a religião que seus sucessores
construíram em torno de sua figura. De servo de Deus
transformaram-no em um deus. Ele era um messias, o
messias que anunciou a vinda do Profeta. No Corão, declara:
"Povo de Israel, na verdade eu sou um mensageiro de Deus.
Vim para confirmar aquilo que foi revelado antes de mim
pelo Antigo Testamento. Vim para trazer o feliz anúncio de
um mensageiro que chegará depois de mim: seu nome será
Ahmad." Em árabe, ahmad significa "digno de louvor".
Maomé veio para purificar o judaísmo e o cristianismo.
— Além disso, segundo o que posso perceber lendo os
Evangelhos deles, o próprio Jeshua insistia em esclarecer que
era apenas um homem — completou Rebeca. — No
Evangelho de Marcos, por exemplo, quando o chamam
"mestre bom", pede que não o chamem assim, porque
"ninguém é bom, a não ser Deus". Nesse Evangelho, Jeshua
recita o Shemá, a profissão de fé em um só Deus, o Senhor,
adotada em todas as sinagogas. O Jesus descrito pelo
evangelista Marcos está em busca de seu ser, ao passo que no
de João, um Evangelho provavelmente posterior, tem
certeza de ser o filho de Deus: "Antes que Abraão fosse, eu
sou", proclama. Isso demonstraria o processo que levou à
divinização de Jeshua, sancionada séculos depois nos
concílios da Igreja. Para os romanos e para os gregos, era
muito mais aceitável uma religião cujo fundador fosse um
semideus cuja mãe, por sua vez, tinha sido fecundada por
uma entidade divina: experimente imaginar quantos existem,
na mitologia grega e na romana.
"Por outro lado, o Tanakh está cheio de testemunhos sobre
os encontros entre os profetas e Yahvé, de Moisés em
diante. Nos Evangelhos, ao contrário, não há uma só
passagem que ateste um encontro entre Jesus e Deus, uma
coisa que, se já se esperaria de um profeta, até poderia ser
dada como certa entre pai e filho. Além disso, na cruz Jeshua
pronuncia palavras de descrente, dizendo que Deus o
abandonou. Será possível que um ungido, um consagrado
por Deus, afirme tal coisa, quer seja considerado como filho
de Deus, como messias ou como profeta? Nos três casos, ele
deveria conhecer antecipadamente o próprio destino."
— E, além do mais, agora temos esse memorial. Quem
escreveu que Jesus era somente um homem, ainda que
excepcional, foi o irmão dele, um de seus discípulos e seu
sucessor... — comentou o emir. — Não fala de ressurreição
do corpo, nega a encarnação e a redenção através de
sacrifício. Em essência, desmonta tudo aquilo que constitui a
base da religião cristã.
— Ou, pelo menos — objetou Rebeca —, muda os
pressupostos dela, restituindo a Jeshua sua origem hebraica e
sua vontade de se colocar a serviço da Torá interpretando-a,
e não a superando, como prefeririam seus seguidores. Sem
dúvida, não é possível que o irmão e sucessor promovesse
conceitos contrários aos dele...
— Ao passo que é muito possível que quem fez isso tenha
sido alguém interessado em agradar aos dominadores
romanos... — acrescentou Jamal.
— Poderíamos dizer que o verdadeiro Judas, o traidor de
Jeshua, foi Paulo, e não seu discípulo... — Sorriu Rebeca
amargamente.
— Ainda que, com isso, tenha feito a fortuna da nova
religião...
— Pois é. Se Jeshua não tivesse tido um promotor hábil como
Paulo, seria apenas um dos muitos profetas justiçados pelos
romanos por seu messianismo e por suas exortações a não
pagar os tributos. E talvez fosse menos conhecido no mundo
do que seu contemporâneo Hillel, que não dizia coisas muito
diferentes das dele...
— Agora, porém, devemos garantir a sobrevivência deste
manuscrito — observou Jamal, voltando ao que interessava.
— Tenho certeza de que a cidade poderá resistir ao assédio
sem dificuldade, até a chegada do grão-vizir, mas não
devemos excluir a presença de espiões e traidores. Portanto,
convém que você não mantenha em sua casa documentos
tão delicados; e eu tampouco posso conservá-los, pois estou
muito exposto. Trata-se de encontrar um esconderijo seguro,
até que passe a tempestade. Depois, poderemos entregá-lo ao
grão-vizir, que certamente encontrará a maneira de extrair
deles a maior vantagem possível, para nós, muçulmanos...
mas também para vocês, judeus.
Ficaram ambos sem falar, por alguns instantes. Jamal refletiu
sobre o quanto a descoberta de tal documento poderia
favorecer sua carreira. Na verdade, era um resultado maior
do que um triunfo militar no campo de batalha...
Rebeca se perguntou se fizera bem ao falar daquilo com o
emir, cujos objetivos eram indubitavelmente políticos.
Concluiu que estava sozinha e, afinal, precisava se apoiar em
alguém. Se este fosse poderoso e influente, melhor.
E poderosos, entre os hebreus, não existiam. Só restavam
mesmo os árabes...
— Já não temos esperanças... — principiou o duque Roberto
da Normandia no conselho de guerra que os grandes do
exército haviam convocado dois dias depois do malogro
diante das muralhas de Jerusalém.
— Para você é fácil falar — contestou-o, indignado, Roberto
de Flandres. — Você volta para seu confortável ducado na
Normandia, que seu pai construiu e defendeu durante
décadas, e usufrui dele sem ter feito nada para merecê-lo.
Mas e nós? E eu? Não tenho nada à minha espera no
Ocidente.
Ricardo ouvira dizer que os chefes da cruzada não faziam
senão brigar, quando se tratava de decidir estratégias e
objetivos, sem cuidarem de dissimular muito suas ambições
terrenas. Sabia disso como todos sabiam, porque os rumores
circulavam e divergências daquele tipo eram um dos mais
freqüentes assuntos de conversa entre as tropas. Mas era a
primeira vez que assistia diretamente às discussões, graças ao
seu novo comandante, Raimundo de Saint-Gilles, que o
quisera presente à reunião como seu ordenança.
— Senhores, senhores! — interveio o bispo normando
Arnulfo de Martorana, o eclesiástico de maior autoridade
depois da morte de Ademar de Le Puy, ao menos até a
chegada de um novo legado pontifício. — Não é assim que
podemos servir ao Senhor. Acham que, falando em termos
tão materiais, obterão Seu apoio ao empreendimento?
Ricardo imaginou que os eclesiásticos deviam ter repetido
mil vezes esse tipo de advertência, mas sem resultados.
— A obtenção de fins temporais não contraria o
cumprimento dos votos feitos antes de partir, padre —
objetou Godofredo de Lorena. — Aqui, estamos discutindo
sobre estratégia militar e política, e qualquer questão
debatida está a serviço do Senhor, pois tem como finalidade
a conquista da Cidade Santa.
— Pois então falemos dessas estratégias, em vez de nos
perdermos em parolagens inúteis! — interveio Raimundo de
Toulouse. —
Estamos todos de acordo que não podemos desistir agora? —
perguntou, olhando os presentes.
Todos assentiram, uns com mais convicção, outros com
menos. Estes últimos, refletiu Ricardo, talvez o fizessem só
pelo temor de parecerem covardes como o conde de Blois,
que diante dos muros de Antioquia tinha ido embora.
— Bom. Estabelecido isso, trata-se então de decidir a conduta
a adotar. Novo assalto ou assédio? Eu sou pelo assédio —
prosseguiu Raimundo. De novo, aguardou a resposta.
O normando Tancredo, o mais jovem da companhia,
declarou-se de acordo com ele. Seguiram-se os outros, que
mostraram a mesma opinião. Godofredo, porém, percebera
que Raimundo falava como comandante supremo,
limitando-se a expor aos subordinados suas próprias
conclusões, e tentou assumir as rédeas da discussão:
— São duas as questões que devemos resolver, se quisermos
jogar todas as nossas cartas em um assédio — declarou, com
solenidade. — Devemos abrir vias seguras de abastecimento
hídrico, sem a cada vez nos arriscarmos a perder dúzias de
homens por um odre de água, e devemos encontrar madeira
para construir máquinas de assédio: essas muralhas são
espessas demais para pensarmos em demoli-las sem aríetes
ou trabucos, e muito altas para escalar sem torres móveis.
— Era o que eu pretendia dizer, na verdade — afirmou
Raimundo, no qual Ricardo percebeu um certo
aborrecimento.
— E onde você pensa encontrar a madeira necessária? Entre
outros problemas, naquilo que restou do nosso exército não
abundam nem sequer engenheiros capazes de construir
coisas assim... — observou Tancredo, em tom de sabichão.
Ricardo notou que o jovem normando se dirigira a
Raimundo, e não a Godofredo, que, no entanto, havia
introduzido o assunto. Era o conde de Toulouse, e não os
lorenos, que Tancredo queria deixar em dificuldades. Ao que
parecia, estava se formando uma articulação entre
germânicos e normandos contra os franceses meridionais.
Tancredo era um esquentado, ainda mais perigoso do que
seu tio Boemundo, que pelo menos sabia ser diplomático
quando necessário. Tê-lo do lado contrário, refletiu ainda
Ricardo, podia ser um verdadeiro problema para Raimundo,
que se arriscava a ficar isolado.
— Pois bem... — principiou o conde de Toulouse, tentando
não demonstrar hesitações e dúvidas. Não conseguiu, porém,
esconder a irritação por uma pergunta tão espinhosa, cuja
resposta ele deixaria de bom grado para Godofredo. — De
agora em diante, cada expedição será precedida por
batedores leves, escoltados por arqueiros, com a tarefa de
abrir o caminho aos destacamentos encarregados do
transporte e da defesa das provisões e dos materiais
encontrados. Devemos criar corredores de segurança —
continuou, indicando o mapa aberto sobre a mesa —, tanto
na direção do litoral quanto na do rio Jordão e do mar
Morto. Por enquanto, eu desprezaria o norte, onde as colinas
próximas a Nablus e Nazaré poderiam dificultar a defesa
contra emboscadas.
— Mais fácil de falar do que de fazer — observou Godofredo,
que podia se permitir qualquer objeção, visto que não era ele
quem devia expor a estratégia. — A costa é patrulhada pela
frota fatímida, e imediatamente além do Jordão as forças
adversárias podem assaltar nossos destacamentos sempre que
nos aproximarmos do rio. Além disso, atravessá-lo me
parece inviável.
— Sem contar que, de uma hora para outra, o grosso do
exército egípcio poderia nos agredir a partir do sul... —
acrescentou Roberto de Flandres, mais do que nunca
disposto a secundar o irmão.
A um observador superficial, pensou Ricardo, pareceria que
todos se dirigiam a Raimundo porque o reconheciam como
chefe indiscutível da expedição. Mas era exatamente o
contrário: pediam-lhe luzes para deixá-lo em dificuldades e
obrigá-lo a renunciar às suas pretensões de comandante
supremo.
Mas o conde de Toulouse sabia agüentar bem a pressão.
— Com o exército do Cairo eu não me preocuparia, por
enquanto — respondeu, seguro. — O governador da cidade
deve ter enviado um pedido de socorro à capital quando nós
chegamos diante das muralhas ou, na pior das hipóteses, nos
dias imediatamente anteriores. Por conseguinte, devemos
considerar o tempo necessário ao grão-vizir para reunir um
exército. Além disso, como se tratará de um exército sem
dúvida consistente, os árabes levarão tempo para conduzi-lo
do Egito até aqui. Digamos que, sendo pessimistas, temos um
mês para preparar um assalto como deve ser... No que se
refere à frota inimiga, sua presença não nos impede de
desbastar a rota no interior, até chegarmos perto da costa.
— E como pretende empregar esse mês, se nos falta madeira?
Realmente não tinham intenção de lhe dar trégua, pensou
Ricardo.
— Em minha opinião, a madeira não falta. Foi escondida —
replicou o conde, com a mesma convicção inabalável com
que continuara a afirmar a autenticidade da Lança Sagrada
descoberta por Pedro Bartolomeu. — Todas as árvores
cortadas e as máquinas utilizadas pelos árabes no ano passado
para assediar Jerusalém... eles não podem tê-las destruído
nem levado todas para dentro da cidade. Uma coisa é cortar
uma árvore ou desmontar uma máquina, e outra é destruir
ou transportar tudo. Convém procurar nos arredores da
cidade. Além disso, nossas patrulhas, adequadamente
protegidas como eu já disse, encontrarão madeira mais
longe, assim como encontrarão água e víveres...
— Você é tão otimista que poderia ser definido como
leviano. E ninguém pode se permitir ser leviano quando é
responsável por milhares de homens... — observou
Godofredo, que em geral não parecia se preocupar muito
com a sorte daqueles que ele enviava para a morte em
batalha, refletiu Ricardo.
— E, mesmo que encontrássemos madeira, quem nos dará as
cordas, os pregos e os parafusos necessários para construir as
máquinas? — objetou Tancredo, com o atrevimento
habitual. — Acha que vai encontrar alguma loja nos centros
habitados por estas bandas? Ou pensa que os muçulmanos
esconderam inclusive essas coisas, junto com a madeira?
— Talvez o conde disponha de engenheiros capazes de
construir máquinas com peças de encaixe... — Agora,
também Roberto de Flandres, encorajado pela atitude do
irmão e de Tancredo, fizera-se irreverente.
— E preciso confiar no apoio do Senhor. E agir de maneira a
merecê-lo, naturalmente — respondeu Raimundo, sem
mostrar qualquer perturbação. — Afinal de contas, é por Ele
que estamos combatendo, não?
A reunião do estado-maior terminou deixando para trás uma
desagradável esteira de desarmonia entre os chefes, embora
tivesse sido obtido um acordo genérico quanto à estratégia a
adotar. Porém, refletiu Ricardo enquanto Raimundo o
liberava, qual seria a eficácia de uma estratégia aceita
somente para demonstrar que seu idealizador era incapaz de
comandar?
Perguntou-se o que deveria dizer aos companheiros, que
certamente o cobririam de perguntas. Não gostaria de
desmotivá-los ainda, falando-lhes das dissensões às quais
tinha assistido. Muitos deles já estavam esgotados pelas
privações, e somente a grande fé que os sustentava,
alimentada continuamente pelos padres agregados ao
exército, permitia-lhes continuar acreditando que aquele
empreendimento poderia ter um resultado positivo.
Ricardo, por sua vez, sem dúvida não podia afirmar ser
sustentado pela fé. Mas considerava ter encontrado, no
desejo de remissão e de crescimento, um estímulo
igualmente poderoso.
Não queria se prestar aos interrogatórios dos soldados.
Queria se divertir, de preferência. Lembrou-se de que ainda
devia aproveitar a oferta daquela prostituta: Inês era o nome
dela. Seu novo cargo lhe deixava menos tempo para se
entregar às mulheres; talvez fosse o caso de se valer do
momento de liberdade.
Dirigiu-se ao acampamento dos lorenos, onde a moça
exercia seu ofício. Bela mulher, pensou. Devia ser agradável
estar com ela. E também parecia bem-disposta.
Além disso, até o duque de Lorena dava a impressão de ter
ficado satisfeito com o trabalho dela, visto que a chamara de
novo. Habitualmente, os soldados tendiam a mudar de
prostituta, tanto por ser mais divertido fazer comparações
quanto para não se arriscarem a gastar seu dinheiro em algo
já experimentado.
Até agora, mais do que outras coisas, tinham sido as
circunstâncias a lhe oferecer a possibilidade de ir com aquela
prostituta, pagando ou não. Havia acontecido e pronto. Não
existira, de antemão, aquela vontade que com freqüência
atua como propulsor para o desejo. Desta vez, porém, via-se
impelido por uma determinação que crescia à medida que
ele focalizava sua atenção sobre aquela mulher.
Sentiu-se invadido por uma forte excitação.
Aumentou a cadência dos passos, até quase correr. Chegou
diante da tenda de Inês e viu que não havia ninguém ali fora.
"Bom. Vou fazer uma surpresa a ela", pensou. "Se de fato
estiver ansiosa por me encontrar, como me pareceu, só
poderá ficar contente por me ver."
Entrou decidido na tenda, sem se anunciar. Lá dentro estava
escuro, naturalmente, mas a luz filtrada para o interior
quando ele levantou o pano que fechava a entrada lhe
revelou o que estava acontecendo, antes mesmo da reação
dos ocupantes.
— Mas que diabo você quer? Espere sua vez! — reclamou um
homem, deitado no chão, nu. Suas mãos acariciavam um
dorso magnífico, coroado por ombros robustos que
ressaltavam uma cintura tão fina a ponto de parecer ajustada
sobre si mesma, e um traseiro perfeitamente redondo.
— Não ouviu? Não gosto que me olhem enquanto estou
trabalhando... — disse Inês, girando o pescoço de modo
quase inatural para fitá-lo.
Ricardo teve a impressão de captar um sorriso malicioso
naquele olhar, mas a penumbra o deixava inseguro.
A penumbra? Não seria o papel de bobo? Foi essa dúvida que
o acompanhou enquanto, já desprovido de sua habitual
afoiteza, ele baixava o pano da tenda e, sem dizer uma
palavra, dispunha-se a esperar sua vez.
Ricardo logo recuperou a confiança. Essa mulher está ansiosa
para estar comigo, disse a si mesmo. Que importância terá
dado à minha entrada vexaminosa? Certamente, pensou,
comprazido, empregará toda a sua consumada arte para se
livrar o quanto antes daquele homem. E uma mulher como
aquela, concluiu, quando se empenha, é capaz de saciar um
cliente em poucos instantes...
Os poucos instantes passaram sem que da tenda saísse
vivalma. Em contraposição, pareceu-lhe escutar gemidos e
suspiros, tanto de homem quanto de mulher. Com o tempo,
gemidos e suspiros se tornaram mais inteligíveis,
transformando-se finalmente em gritos, mais uma vez de
homem e de mulher.
Bem. Devem ter acabado, imaginou, embora tenham
demorado mais do que o previsível. Levantou-se,
removendo a poeira do fundilho das bragas com uns tapas e
esfregando as mãos. Aproximou-se da entrada, pronto para
se introduzir lá dentro assim que o cliente saísse. Mas depois
achou que não devia se mostrar muito ansioso e recuou,
detendo-se a poucos passos de distância.
Não saiu ninguém.
Devem estar negociando o pagamento, pensou. "O típico
pão- duro... Diz que não tem dinheiro e que pagará assim
que puder... Que amolação!"
Nada ainda.
"Mas é estranho", disse a si mesmo, após mais uns minutos
de espera. "Se estivessem negociando, eu ouviria a discussão.
Ou melhor, depois desse tempo todo, eles deveriam até estar
brigando, se ainda não tiverem entrado em acordo..."
A tenda continuava fechada.
Começou a ficar nervoso. Uma sensação desagradável,
quando era acompanhada, como naquele momento, pela
excitação.
Gostaria de gritar, irromper na tenda e jogar longe aquele
homem, agarrando depois a mulher com toda a força. Mas
ainda estava suficientemente lúcido para perceber que, se
fizesse isso, o papel de bobo desempenhado pouco antes não
seria nada, em comparação.
Olhou a tenda com tal intensidade que quase esperou
enxergar através do couro que a revestia. Mas não obteve
nenhum sinal. Então aguçou os ouvidos.
Nada.
Aproximou-se, na esperança de conseguir alguma indicação
sonora.
Finalmente, ouviu alguma coisa.
Gemidos e suspiros.
Afastou-se de chofre da parede da tenda, como se um braço
fosse sair repentinamente de uma fissura para lhe dar um
soco. Depois, encostou de novo o ouvido.
Mais gemidos e suspiros.
De homem e de mulher.
Ou melhor, na verdade, os da mulher pareciam mais
intensos...
Não conseguiu mais tirar o ouvido da superfície da tenda.
"Logo na minha vez", disse a si mesmo, despeitado, "tinha de
aparecer um dos poucos soldados com muito dinheiro à
disposição, e vitalidade suficiente para se permitir duas
vezes, uma logo após a outra..." Decerto, concluiu, aquele
era um trânsfuga que não havia lutado no assalto, ou um
covarde que permanecera na retaguarda, ou então não fora
capaz de transpor nem sequer a primeira muralha...
Aguardou mais, e mais, e mais. Parecia uma relação
interminável. Sempre que os suspiros aumentavam de
intensidade, ele esperava ouvir gritos logo depois, mas, ao
contrário, os suspiros recomeçavam, cada vez mais
desagradáveis.
Os gritos, quando vieram, foram mais fortes, mais intensos e
mais prementes do que os do amplexo anterior. Ricardo não
conseguiu evitar imaginar os dois ofegantes, cobertos de
suor, extenuados.
Afastou-se da tenda e aguardou ainda mais, tentando assumir
uma atitude indiferente.
Por fim, o pano que fechava o pavilhão se abriu e o homem
apareceu. Estava mesmo ofegante, coberto de suor,
extenuado.
Mas com uma expressão bastante feliz e saciada.
— É de enlouquecer! — disse ele a Ricardo, enquanto ia
embora. — Esta aí lhe concede um segundo turno, se você a
satisfizer no primeiro!
— Infelizmente, como você sabe, a água está racionada e,
para nós, as putas, já é muito se nos derem alguma para
beber. Mas, para tomar banho, imagine... — disse Inês,
saindo ofegante da tenda, coberta de suor, extenuada. E
seminua, com os longos cabelos negros colados na testa e
nas faces. — Espero que não se incomode se estou suja de
suor e do sêmen do meu cliente anterior... — acrescentou,
convidando-o para entrar, com um sorriso que a Ricardo
pareceu de zombaria.
— Não devia ser tão especial assim aquela sua oferta de se
conceder sem pagamento. Eu soube que você costuma fazer
ofertas vantajosas, do tipo "duas pelo preço de uma..." —
retrucou Ricardo, cáustico, sem se mover.
— Você não deve ter achado tão especial assim a minha
oferta, se demorou tanto a aproveitá-la... — replicou ela, sem
modificar sua expressão.
Ricardo se manteve calado por alguns instantes, sem saber o
que responder. Depois, não achou nada melhor a dizer,
exceto:
— Fui promovido, e minhas obrigações se multiplicaram. Ser
ordenança do conde de Saint-Gilles não é nenhuma
bagatela...
— Gostei de ver que você conseguiu um instante livre para
se conceder algum prazer no meio de todos os seus deveres
— observou ela. — Bem, vamos, então? Ou não lhe agrada
uma puta sem perfumes nem ungüentos?
— Bem, pois é... eu... não, você é bonita de qualquer jeito,
mas... - balbuciou Ricardo, intimidado por aquela atitude
agressiva. A essa altura, sua excitação se atenuara.
— Não me diga que um soldado rude e valoroso como você é
enjoado...
— Enjoado nada! — protestou Ricardo. — E que eu... Está
bem... - acrescentou, não muito convicto.
— Ele não é enjoado, está é ocupado. — A voz vinha detrás
de Ricardo. O normando se voltou. Diante dele, havia um
jovem mensageiro do estado-maior de Raimundo.
— Procurei você por toda parte. O conde está chamando. Há
novidades importantes.
— Que tipo de novidades? — perguntou Ricardo, quase
agradecido ao companheiro por tê-lo livrado do embaraço.
— Uma flotilha anglo-genovesa conseguiu transpor o
bloqueio egípcio e atracar no porto de Jaffa.
XV
Emanuel ainda se perguntava por que o tinham acordado
antes do alvorecer. Estava em marcha com uma unidade
lorena havia horas, sob um sol devastador, ainda por cima
para um homem a pé e com armadura completa. Invejava os
vinte cavaleiros, confortavelmente montados, que iam
adiante dele e dos outros quarenta e nove infantes, em
grande parte besteiros. Obviamente, ninguém se mostrara
propenso a lhe dirigir a palavra.
Sabia apenas que se dirigiam a Jaffa. Por orgulho, tinha
evitado pedir mais informações, embora duvidasse que os
infantes soubessem mais do que ele. Perguntaria, se fosse o
caso, ao comandante da expedição, o conde Galdemar, que
entre suas tropas gozava de um estranho apelido,
Carpinello, cujo significado lhe fugia. Era um tipo rústico,
como, aliás, grande parte dos francos, e parecia muito
contente com a missão que lhe fora confiada, qualquer que
fosse ela.
Na opinião de Emanuel, porém, não havia nada para se
comprazer. Eram um punhado de homens, percorrendo um
território não totalmente liberado, onde, de um momento
para outro, podiam aparecer os muçulmanos. A base fatímida
mais próxima ficava poucos quilômetros a oeste, em
Ascalon, e era previsível que eles patrulhassem o território.
E, também, o que iam fazer em Jaffa? A cidade era apenas
um acúmulo de pedras e tijolos, e até o castelo estava
desmoronado, à exceção de uma única torre.
Emanuel teve a desagradável mas não inédita sensação de
fazer parte de um contingente-isca, que atraísse o inimigo
sobre si para permitir o desenvolvimento de alguma outra
ação. Além disso, se o tinham inserido no grupo, significava
que eles eram apenas gente sacrificável...
Sob o elmo e a armadura, estava encharcado. Seus
companheiros não lhe pareciam em melhores condições do
que ele: todos cobertos de suor e ofegantes, embora a
caminhada não fosse muito rápida. A julgar pela posição do
sol, sem dúvida já passara a hora terça, e ele avaliou que já
deviam ter feito metade do percurso. Ao que imaginou,
certamente se encontravam na planície que se estendia em
torno de Ramleh, a primeira e única cidade muçulmana que
os cruzados tinham ocupado, quatro dias antes de chegarem
a Jerusalém, graças à fuga dos habitantes.
A ofuscante luz do sol tornava tudo indistinto. O horizonte
tremulava, e só apertando os olhos podiam-se vislumbrar
aproximativamente os contornos. Por isso, Emanuel e os
outros sentiram as vibrações do terreno antes mesmo de
distinguirem a nuvem de poeira aproximando-se a partir do
sudoeste.
Viraram-se todos para aquela direção, aguardando que a
nuvem se fizesse mais próxima para enxergar melhor o que a
alimentava. Carpinello ordenou que parassem, dispondo a
frente na direção da possível ameaça, com os cavaleiros nas
alas, dez de cada lado, os besteiros alinhados no centro e,
atrás deles, a infantaria pesada.
Mesmo na retaguarda, Emanuel conseguiu ver do que se
tratava, assim que a poeira ficou mais próxima. Embora
indistintas, percebiam-se as silhuetas de cavaleiros.
Centenas de cavaleiros.
Árabes. E também turcos.
A missão era daquelas delicadas. Ou melhor, a mais delicada
entre as muitas já executadas para obter víveres, desde
quando estavam diante das muralhas de Jerusalém. Ricardo
se sentia honrado por fazer parte dela, até porque Raimundo
de Toulouse colocara à sua disposição uma cota de malha
completa, com capuz e elmo, um equipamento de que o
normando não dispunha desde os tempos de Emich.
Mas, sobretudo, sentia-se aliviado por não fazer parte da
vanguarda, à qual cabia a tarefa infausta de chamar a atenção
do inimigo, com o objetivo de liberar o caminho até Jaffa
para o verdadeiro contingente de apoio.
Estranho, pensou Ricardo enquanto marchava sob o sol
abrasador, que os egípcios tivessem negligenciado a
vigilância de um porto tão próximo de Jerusalém, mesmo
dispondo de uma frota imponente e senhora absoluta do
mar. Depois de conseguirem se esgueirar através da malha
árabe, os genoveses tinham alcançado Jaffa e solicitado uma
tropa para o que restava da cidade, ou seja, a torre
sobranceira ao porto. O pedido fora acompanhado de uma
lista detalhada das mercadorias que os navios — dois
genoveses e quatro ingleses — transportavam: cordas,
pregos, parafusos e tudo que fosse necessário à construção de
material obsidional, além de uma grande quantidade de
víveres. Isso havia sido suficiente para que os chefes
cruzados organizassem uma imediata expedição de apoio.
Mas convinha descartar todos os riscos de perder aquela
carga tão preciosa. Assim, Godofredo tivera a idéia de fazer o
verdadeiro contingente ser precedido por uma companhia
que atraísse a atenção do inimigo, certamente emboscado
para bloquear qualquer passagem para o mar. O fato de ele
ter escolhido para o sacrifício seus próprios homens, refletiu
Ricardo, revelava muito sobre a consideração que o duque
tinha pela vida dos combatentes. Fosse como fosse,
Raimundo havia aprovado o plano sem fazer objeções.
Ricardo e os outros tinham partido cerca de uma hora depois
do conde Galdemar. A rigor, portanto, não corriam riscos, ao
menos no trajeto de ida. Qualquer problema despencaria
antes sobre os germânicos. Já os provençais só precisariam
observar a situação, verificar a posição de Galdemar e deixar
que este se arranjasse com os muçulmanos, passando ao
largo sem se envolver na escaramuça e, possivelmente, sem
que o inimigo sequer os visse. Por outro lado, o comandante
dos cinqüenta cavaleiros, Raimundo Pilet, parecia conhecer
bem seu ofício, e não menos experiente era o comandante
dos duzentos infantes que o seguiam, Guilherme de Sabran,
sob cujas ordens estava o próprio Ricardo. Ou seja, parecia
uma missão não particularmente perigosa, embora de grande
significado estratégico e logístico.
Tinham acabado de entrar na planície de Ramleh. Agora não
havia colinas que limitassem a visibilidade e era possível,
mesmo com as dificuldades ligadas à refração do sol,
estender o olhar por um raio muito amplo. Para quem estava
montado, então, o horizonte não tinha segredos.
— O senhor também está vendo aquela grande nuvem de
poeira, ali a noroeste, comandante? — disse um cavaleiro
que ia ao lado de Raimundo Pilet.
— De fato, estou vendo. E é bem grande. O que acha,
Guilherme? — perguntou o comandante ao seu colega da
infantaria, junto do qual marchava o próprio Ricardo, na
qualidade de ordenança do conde de Toulouse.
— Pois é. Ao que parece, nossos amigos germânicos atraíram
um bom punhado de muçulmanos. Portanto, não devem ter
restado muitos em circulação por aqui... — respondeu
Guilherme.
— Bom, precisamos apenas nos desviar para oeste e chegar a
Jaffa seguindo ao longo da costa... — concluiu Pilet.
— Até porque são germânicos... além do único traidor
bizantino que ficou grudado às nossas bragas... Gente que é
melhor perder do que encontrar! — comentou Sabran, com
total displicência.
"Um bizantino? Emanuel!", pensou Ricardo. Um frêmito de
irritação o percorreu. Apenas dois dias antes, aquele grego se
demonstrara um dos cruzados mais valorosos, e perdera seu
contingente inteiro para abrir caminho ao assalto. E os
comandantes, longe de apreciar-lhe a coragem, ainda
usavam-no como chamariz e, o que era pior, desprezavam-
no mais do que nunca.
Mas ele não concordava com isso. Não era como eles. Era
ambicioso, talvez desabusado, mas não tinha preconceitos, e
dispunha-se a julgar as pessoas pelo que valiam, não pelo que
representavam.
Por um instante, perguntou-se se sua ausência de
preconceitos se devia ao seu ceticismo religioso, antes de se
concentrar num modo de salvar o grego.
O conde Galdemar tinha criado a frente mais ampla possível
para evitar ser cercado, mas seu esforço se revelou inútil.
Quando a cavalaria inimiga ficou mais próxima, Emanuel
constatou que deviam ser pelo menos uns seiscentos, à
primeira vista. Quase dez vezes o número deles.
O comandante optou por uma tática agressiva. Emanuel o
compreendia: enquanto o inimigo ainda estivesse à distância
de um tiro de besta, convinha aproveitar, antes que as
centenas de arqueiros árabes e turcos desencadeassem sua
ação, que se prenunciava devastadora. Não que umas trinta
flechas de besta pudessem incidir de maneira significativa
sobre uma formação tão imponente. Por mais eficazes que
fossem e de maior alcance em relação aos arcos, essas armas
eram carregadas muito mais lentamente e, com toda a
probabilidade, os cristãos não teriam tempo de efetuar uma
nova saraivada.
Galdemar ordenou aos besteiros que atirassem na
aglomeração envolta por uma nuvem de poeira. Logo depois,
mandou-os pendurar as bestas nos flancos e continuar o
ataque, abrigados atrás dos escudos, a fim de se protegerem
das flechas inimigas.
Depois de alguns passos, Emanuel viu surgir da poeira um
primeiro disparo de dardos. Postou-se instintivamente de
lado, colocando o escudo diante do corpo, e sentiu de
imediato um impacto violento, seguido da típica vibração da
flecha recém-espetada na madeira. O companheiro que
estava junto dele foi menos afortunado: o dardo destinado a
ele penetrou-lhe o pé, pregando-o ao solo e obrigando-o a
permanecer no mesmo lugar.
A maior parte das flechas se plantou no terreno fronteiro.
Mas não quando veio a segunda descarga, que investiu em
cheio o pequeno enfileiramento cristão. Alguns cavaleiros se
viram sem montaria, e entre os infantes abriram-se vazios.
Então os muçulmanos partiram para o ataque. Emanuel os
viu avançar e, depois, a cerca de cem metros, dividirem-se
em duas alas e dirigem-se aos flancos cruzados. O cerco era
apenas uma questão de instantes.
Galdemar percebeu isso e ordenou a disposição em círculo.
Os cavaleiros que ainda dispunham de uma montaria
desceram da sela e obrigaram os animais a se deitarem,
utilizando-os como anteparos. Logo, os sobreviventes
haviam formado um círculo delimitado por uns quinze
cavalos, que depois de outra chuva de flechas se tornaram
outras tantas carcaças.
Os muçulmanos se mantiveram à distância de tiro ainda por
bastante tempo, continuando a alvejar os cruzados com a
ação dos arqueiros. O único efeito que obtiveram, porém, foi
a criação de uma espécie de caniçal em torno do círculo e no
interior dele. De fato, do lado externo os cruzados estavam
protegidos pelas carcaças dos cavalos, e do interno pelos
escudos, que cada combatente havia pendurado às costas. Os
besteiros, nesse meio-tempo, tinham possibilidade e tempo
de carregar, mirar e atirar, mas o número das vítimas que
eles ceifavam era quase imperceptível, no mar de guerreiros
que girava ao redor da barricada.
Em seguida, Emanuel viu os muçulmanos se deterem de
repente. Observou-os enquanto o comandante deles os
reunia em quatro seções que se dispuseram respectivamente
nos quatro pontos cardeais. Todos desceram dos cavalos e se
enfileiraram em várias linhas, permanecendo imóveis, com o
único movimento dos altos estandartes agitados pelo vento
débil, à espera da ordem de ataque.
Estavam prestes a investir.
De todos os lados.
— Abandoná-los aos muçulmanos me parece uma péssima
idéia estratégica.
— Como disse? — perguntou Guilherme de Sabran, olhando
incrédulo o normando que o conde de Toulouse colocara ao
lado dele.
— Claro — respondeu Ricardo. — Se deixarmos que os
inimigos os massacrem e não fizermos nada para espantar os
muçulmanos, estes nos atacarão quando voltarmos ou, pior
ainda, pelas costas, antes mesmo de chegarmos a Jaffa.
Guilherme não gostava de Ricardo. Tinha a impressão de que
o conde de Toulouse o instalara ao seu lado para controlá-lo.
Considerava-o um simples espião, um leva e traz de
Raimundo, sem nenhum mérito militar. Mas duro na queda,
e muito. E o que acabava de dizer não era nada insensato.
— Mas eles podem ser muitos. Talvez demais, até para nós. E
nos arriscaríamos a prejudicar a missão... — opinou, não
muito convencido.
— E a recuperação do material dos anglo-genoveses é o fator
decisivo para o êxito do assédio — interveio Pilet, que havia
escutado tudo.
— Mas quantos os senhores acham que eles são? No máximo
algumas centenas, e não, certamente, um exército — insistiu
Ricardo. — Temos a nosso favor o fator surpresa, e somos
muito mais numerosos do que a vanguarda. Sem dúvida, eles
não esperam outro contingente.
Os dois comandantes ficaram refletindo.
— E arriscado demais — disse Pilet. — Na melhor das
hipóteses, mesmo que prevalecêssemos no confronto,
perderíamos muitos homens. E não podemos nos permitir
isso, tanto para esta missão quanto para o assédio em geral.
— Não se evitarmos o confronto, limitando-nos a fazê-los
acreditar que somos um exército inteiro... — arriscou
Ricardo.
— E como você pensa fazer isso? Não trouxemos conosco
um padre que implore a Deus um milagre... — comentou
Guilherme, sarcástico.
— Não há necessidade da intervenção divina, se usarmos um
pouco de bom-senso — rebateu Ricardo, ignorando o tom
odioso do comandante. Dirigiu-se então a Pilet, que parecia
alimentar menos ressalvas quanto a ele, além de ter mais
autoridade: — Podemos amarrar umas touceiras na cauda dos
cavalos. E nós, infantes, iríamos atrás deles. Se nos
enfileirarmos numa frente bastante ampla, poderemos
levantar uma tal poeira que faremos o inimigo acreditar que
somos um exército. A essa altura, sem dúvida os egípcios
teriam medo de ser apanhados entre dois fogos e se
retirariam.
— Veja só que estrategista refinado! — agrediu-o Guilherme.
— Mas se até ontem você era um civil que nunca havia
combatido antes desta campanha! Só porque teve a sorte de
salvar o traseiro do conde de Toulouse, agora pretende dar
aulas a guerreiros experientes?
— No entanto, isso pode funcionar... — considerou Pilet. —
Se os fizéssemos crer que somos muitos, os muçulmanos
poderiam até se esquivar da linha de fogo e voltar,
resignados, para Ascalon...
— Sem contar que os germânicos nos ficariam agradecidos
por terem sido salvos e se sentiriam em dívida com os
provençais, ao menos parcialmente — continuou Ricardo.
— Uma coesão maior não seria ruim, tendo em vista o que
nos espera nas próximas semanas. Será necessária uma
colaboração, para resistirmos às duras condições do assédio...
— Não acredito muito na gratidão deles. Mas é lícito esperá-
la... Que seja, então. Vamos mandar uns homens recolherem
touceiras e arbustos, no menor prazo possível. Acho que
tive mesmo uma boa idéia — concluiu Pilet, marcando o fim
da discussão, sob o olhar irado de Guilherme e ante um
risinho de comiseração por parte de Ricardo, resignado à
mesquinhez dos seus chefes.
Em poucos instantes, cada infante trazia consigo um feixe de
galhos. Os cavaleiros só precisaram de um tempo
ligeiramente superior para conseguir atar os arbustos à cauda
dos cavalos. Logo em seguida Pilet dispôs os homens numa
única linha com a cavalaria dos lados, deixando amplo
espaço entre um combatente e outro. Ordenou que
começassem a marchar em passo acelerado. Imediatamente
levantou-se uma imensa nuvem de poeira, da qual emergiu o
próprio comandante, que cavalgou na frente para observar o
efeito obtido.
Voltou às suas fileiras com ar visivelmente satisfeito.
Eram cerca de duzentos e cinqüenta, mas de longe pareciam
dez vezes mais.
Os muçulmanos veriam chegar um exército imponente.
Para Emanuel e seus companheiros, o único consolo era que
a barricada havia pelo menos obrigado os inimigos a
renunciar aos projéteis e a desmontar. Se quisessem varrer
dali os cruzados, os muçulmanos não tinham alternativa ao
corpo a corpo, que até então haviam tentado evitar, sabendo
que dispunham de armamento inferior. O resultado do
confronto não mudaria, pensou Emanuel, mas pelo menos
os cristãos mandariam vários para o túmulo.
Tirou das costas o escudo e o firmou ao longo do antebraço
esquerdo, agitando a espada com a mão direita e incitando os
muçulmanos a avançar. Seus companheiros fizeram o
mesmo, olhando-o finalmente com uma expressão
semelhante ao respeito. Os inimigos logo o imitaram e
começaram a marchar, primeiro lentamente e depois
correndo. Diante de si, Emanuel via mais de cem deles. Deu
uma olhada fugaz à direita e à esquerda: a seu lado havia, no
máximo, uns quinze homens.
Os primeiros muçulmanos se lançaram contra a barreira,
tentando transpor a carcaça atrás da qual Emanuel os
esperava. A precária base de apoio, contudo, obrigou-os a
abrir a guarda, e o grego conseguiu trespassar os dois
primeiros. Um terceiro conseguiu penetrar entre ele e o
companheiro ao lado, mas Emanuel mudou de
empunhadura, girando o guarda-mão entre os dedos, e feriu
o egípcio no tórax com um golpe para trás e a lâmina voltada
para baixo.
Recuperou prontamente a empunhadura regulamentar, bem
a tempo de se defender de outro adversário, que para atacá-
lo se colocara de pé sobre a barriga do animal morto. Mas o
egípcio, empurrado por um companheiro vindo de trás,
perdeu o equilíbrio e caiu diretamente sobre a ponta da
espada de Emanuel.
Este se viu com a arma presa no corpo do árabe recém-
eliminado e precisou usar o escudo para deter os golpes do
novo inimigo. Enquanto isso, à sua direita, o companheiro
que lhe protegia o flanco tombava perfurado por uma lança,
abrindo caminho à irrupção de outros muçulmanos. Em
instantes, abriram-se outros vazios por todos os lados, e os
muçulmanos não demoraram a alcançar a superioridade
numérica no interior do círculo: em parte porque muitos
haviam entrado, em parte porque restavam poucos cristãos
vivos.
A Emanuel só restou defender seu lado direito com o corpo
do último homem que ele matara e do qual não conseguia
extrair a espada. Várias cimitarras se abateram sobre o
cadáver, até que o grego conseguiu livrar-se dele, jogando-o
contra os inimigos que o acuavam e recuperar a espada.
Sempre repelindo com o escudo o adversário da esquerda,
preparou-se para vender caro a própria vida a quem estivesse
ao alcance de sua lâmina.
Mas, justamente nesse momento, ouviu uma série de berros
entre as fileiras muçulmanas. Os que se encontravam diante
dele se voltaram de chofre, expondo-lhe as costas. Emanuel
aproveitou-se imediatamente, perfurando o guerreiro mais
lento em recuar. O outro já estava distante, ocupado em
transpor a carcaça do cavalo. O grego o perseguiu e desceu-
lhe uma cutilada no pescoço, fazendo-o estatelar-se sobre o
animal. Depois, olhou ao redor. Seus companheiros também
estavam golpeando adversários que lhes expunham as costas.
Todos os outros muçulmanos se retiravam, procurando
alcançar os respectivos cavalos.
Pouco adiante, uma grande nuvem, da qual emergiam
estandartes.
Estandartes cruzados.
Parecia até fácil demais, refletiu Ricardo. De fato, ao ver os
adversários a pé, Raimundo Pilet havia pensado em não se
limitar a apavorá-los, mas também em atacá-los antes que
eles chegassem aos cavalos. Os cruzados surpreenderam-nos
de guarda baixa, muitos desprovidos de escudos, espalhados
em pequenos grupos, sem sequer uma aparência de
enfileiramento. As espadas e as lanças dos cristãos tiveram
toda a comodidade para buscar as partes não protegidas dos
soldados em debandada, insinuando-se nos pescoços, nas
axilas, nas virilhas, amputando braços e pernas sem precisar
temer outra reação, afora a tentativa de se subtrair à
perseguição.
Ricardo perdeu a conta de suas vítimas. Abriu caminho até o
círculo, enquanto seus companheiros desafogavam a ânsia de
sangue continuando a exterminar os impotentes inimigos,
lançavam-se sobre os cavalos para apossar-se deles,
recolhiam as armas que os muçulmanos abandonavam na
fuga.
Quando se desembaraçou do último adversário entre ele e a
barricada, Ricardo deparou com a desoladora visão de um
acúmulo de mortos caídos sobre as carcaças dos cavalos, um
obstáculo demasiado alto para deixar perceber o que restara
atrás. O normando avançou mais um pouco, baixando
finalmente a espada e o escudo. Ocupou-se em escalar a
barreira, tropeçando algumas vezes nos cadáveres.
Parecia uma fossa comum. Dezenas de corpos jaziam uns
sobre os outros, no meio de uma chuva de flechas.
Numa segunda olhada, Ricardo notou que alguns homens
ainda se moviam. Estavam sentados, e somente suas cabeças
afloravam entre uma pilha e outra de cadáveres. Um ou
outro o fitava por sua vez, sem conseguir dizer nada.
Procurou Emanuel. Morto ou não, disse a si mesmo, ele
deveria ser distinguível de imediato, por causa do
equipamento diferente. Mas a poeira e o sangue haviam
tornado os soldados muito semelhantes entre si, e também o
cadáver do grego podia estar embaixo dos outros.
Decidiu chamá-lo:
— Emanuel! Emanuel! — repetiu.
— Ao que parece, você está criando o hábito de vir me
ajudar... - respondeu um dos homens sentados, o único que
até então mantivera a cabeça inclinada.
— Voltaram! Voltaram! — gritava Anselmo pelo
acampamento afora, desde quando acolhera a coluna
retornada da expedição a Jaffa. Seu entusiasmo não diminuiu
sequer quando ele irrompeu na tenda de Inês, sem se
perguntar se ela estaria trabalhando ou não.
Na realidade, sabia muitíssimo bem que, quando a mulher
estava no interior do pavilhão, na esmagadora maioria dos
casos ocupava-se com um homem, mas a boa notícia, a
primeira desde quando o assédio havia começado, dava-lhe
uma excelente desculpa para entrar de chofre, a fim de
informá-la, talvez encontrando-a como Deus a tinha feito.
E, de fato, assim a encontrou. Inês havia recém-concluído
com um jovem soldado de aparência assustada e ainda não se
vestira.
— Mas como se permite? Saia daqui! — reagiu ela, assim que
o viu.
— Sou um religioso. Não tenho as pulsões sórdidas que levam
vocês a se comportarem como animais. A mim, as pessoas
podem se mostrar tão nuas como quando se confessam: eu
não julgo e não me deixo envolver... — replicou Anselmo,
aparentemente indignado. Mas as gotas de suor lhe desciam
mais copiosas, embora ele estivesse finalmente à sombra.
— Esqueça... O que você ia dizendo? — continuou Inês,
enfiando a roupa.
Anselmo implicou com o rapaz:
— O que ainda está fazendo aqui? — agrediu-o. — Não
acabou de satisfazer seus apetites bestiais? Enquanto você se
comporta como Deus não gosta, outros, uns heróis,
combatem e morrem pela causa do Senhor. Vergonha!
Vergonha!
O jovem, com ar humilhado e contrito, mostrou ao monge
as duas moedas que estava prestes a entregar a Inês como
pagamento pelo serviço.
— Entregue a mim! — intimou-o Anselmo, estendendo a
mão. — Os proventos da atividade imunda desta mulher são
para os necessitados!
— Veja só! — exclamou Inês, quando o rapaz saiu. — Quanta
autoridade com os jovens, hein? Eu só queria ver você
igualmente seguro com os homens, os de verdade... —
escarneceu.
— Quer saber da situação ou não? — respondeu Anselmo,
tentando mudar de assunto.
— Claro... Não foi para isso que você entrou na minha tenda
sem pedir licença?
O monge ignorou a alusão.
— Pois bem — recomeçou. — As expedições retornaram de
Jaffa. E foi um sucesso! O Senhor nos mandou um sinal! E
que sinal! Agora, temos tudo que é necessário para construir
as máquinas de assédio...
— Menos a madeira.
— Esta vai aparecer também, pode ter certeza. O Senhor
nunca faz as coisas pela metade — continuou Anselmo. —
Os nossos chegaram bem a tempo de livrar do cerco da frota
egípcia as tripulações das galés. Tiveram que abandonar as
embarcações no porto, mas quantas dádivas de Deus
trouxeram junto com os marinheiros! E só perdemos uma
parte do primeiro contingente, que era de modesta
importância...
— Só? E assim que lhe parecem algumas dezenas de caídos?
— rebateu Inês, sarcástica.
— Claro! Não lamento por eles — replicou Anselmo, como
se estivesse explicando a coisa mais óbvia do mundo. — São
mártires da fé. Ganharam o reino dos céus, um privilégio que
nem todos serão capazes de conseguir.
— Ah, é? Então, por que você não está ansioso por ir ao
encontro deles? Dê um passeiozinho abaixo das muralhas...
— O que isso tem a ver? Eu ainda tenho um papel a exercer,
aqui na Terra. O Senhor me levará quando assim o decidir.
Não sou eu que devo escolher quando morrer. E se eu me
fosse antes de ter prestado ao Senhor os serviços que Ele
espera de mim? E, também, o suicídio é pecado mortal,
lembre-se...
O bom da religião, pensou Inês, era que, graças a ela,
conseguia- se um modo de justificar qualquer coisa, das
carnificinas contra pessoas indefesas à pura e simples
covardia. No entanto, haviam lhe ensinado que Jesus
exortava a amar os próprios inimigos e a apresentar a outra
face... Era o conceito que mais a convencera a deixar de lado
— não exatamente cancelar — as crenças de seus conterrâ-
neos, que a Igreja rotulava de pagãos.
— De qualquer modo, se lhe interessa saber — prosseguiu
Anselmo, para atrair a atenção dela —, entre os
sobreviventes se encontram aquele seu normando e o grego
amigo dele... Ou melhor, o bizantino é um dos poucos
remanescentes do primeiro contingente...
Não foi preciso dizer mais. Inês terminou de se vestir às
pressas, ajeitou os cabelos, segurou-o por um braço e o
conduziu para fora da tenda.
— Vamos recebê-los. Deve haver alguns querendo descansar
entre os braços de uma mulher, não?
Perguntou a direção certa e depois arrastou atrás de si o
monge, que precisou fazer um grande esforço para manter o
passo. Eram muitos os que acorriam aos retornados do
empreendimento, e Inês foi obrigada a abrir caminho no
meio de uma multidão festejante e curiosa. Lutou para
conseguir chegar à primeira fila, mesmo aproveitando-se do
corpanzil e do hábito de Anselmo para abrir espaço.
Uma vez na dianteira, os dois viram todos os chefes mais
importantes da cruzada em torno de Raimundo Pilet, o
comandante da expedição. Os sobreviventes já estavam
tomando o rumo dos respectivos acampamentos, enquanto
numerosas carroças cheias de mercadorias e víveres eram
vigiadas pelos guardas escolhidos para isso. Inês identificou
Ricardo e Emanuel, que se cumprimentavam, e avançou para
eles em passo decidido.
— Cá estão nossos corajosos soldados! — exclamou,
abraçando-os com grande entusiasmo. — Hoje, o exército
deve muito a vocês. E nós, prostitutas, também. Vocês
elevaram o moral da tropa e merecem um prêmio...
Os dois a encararam surpresos, sem compreender.
Depois, Ricardo se iluminou.
— Você faz ofertas especiais também hoje? — perguntou
com petulância, convencido de que ela estava buscando uma
desculpa para levá-lo consigo. — Então, acho que vou
aproveitar... — acrescentou, trocando um aceno de
entendimento com Emanuel e segurando o braço de Inês, a
fim de saírem dali.
— Espere! — exclamou ela, livrando-se da mão dele e
voltando- se para Emanuel. — Eu soube que este bravo
combatente grego fazia parte do primeiro contingente. Ele
se arriscou mais, portanto tem direito à precedência. Você
passa mais tarde, se não estiver ocupado com o conde de
Toulouse... Ou então, se tiver pressa, recorra a alguma das
minhas colegas...
E saiu levando Emanuel, que não opôs resistência. Ricardo
ficou ali, empalado, olhando Anselmo com consternação; o
monge se limitou a abrir os braços e dar de ombros,
invocando compreensão com uma careta.
XVI
— Valha-me o Senhor, esta pesquisa se transformou numa
obsessão! — gritou Sara, impaciente, agarrando os códices
abertos sobre a mesa e jogando uns dois no chão. — Uma
mulher não deveria pensar nestas coisas!
Rebeca estava demasiado absorta nas próprias reflexões para
reagir a tempo e impedir a irmã de se lançar sobre os livros.
Instintivamente, pousou as mãos sobre os pergaminhos, bem
mais perecíveis.
— Se pelo menos você estudasse a Torá! Ah, se nosso pai a
visse perdendo todo esse tempo com os textos dos
adoradores do crucifixo! Já não sei o que pensar a seu
respeito!... — acrescentou Sara, socando a mesa.
Rebeca se afastou cautelosamente dos rolos e se inclinou
para apanhar os livros caídos.
— Você já parou para pensar que sobre nossos ombros pesa
uma responsabilidade enorme pelo nosso povo? —
respondeu, tentando manter a calma. — Será possível que
nunca tenha tido a curiosidade de conhecer o conteúdo dos
documentos que nos chegaram às mãos?
— Não me importam esses textos nem suas conseqüências.
Isso não é assunto para nós. E, também, se nosso pai não
perdeu tempo com eles, significa que não representam nada
verdadeiramente importante.
— Como você pode ser tão superficial? — rebateu Rebeca. —
Nosso pai estava precavido e atemorizado. Se tivesse
sobrevivido ao pogrom de Mogúncia, certamente teria se
dedicado de corpo e alma a esses documentos.
— Mas você foi além disso! — replicou Sara, indignada. —
Começou a estudar até os textos deles!
— Era inevitável! Eu devia tentar compreender por que uma
figura tão importante para a história do cristianismo, como
esse Tiago, é tão marginal no cânone neotestamentário —
forçou-se Rebeca a explicar, recorrendo a toda a sua
paciência. — No entanto, mesmo não levando em conta este
memorial, não faltam testemunhos sobre a existência dele.
No Evangelho de Lucas, a propósito do nascimento de
Jeshua, diz-se que Maria pariu seu filho primogênito. Nos de
Mateus, Marcos e João, fala-se de irmãos de Jesus. E são
irmãos mesmo, e não parentes genéricos, porque se trata de
evangelhos escritos em grego, cujo termo adelphós é
indiscutível. Não estamos falando de textos em hebraico ou
em aramaico, nos quais o grau de parentesco,
respectivamente ah e aha, é genérico, e, aliás, em grego, tem
um correspondente em sínghenos, "consangüíneo". Foi
Jerônimo, quase quatro séculos depois da morte de Jeshua,
quem afirmou que os Evangelhos teriam sido traduções do
original hebraico ou aramaico, atribuindo assim à palavra
adelphós o significado de "parente" ou "primo". Uma
interpretação clamorosamente forçada: afinal, por que os
redatores teriam decidido falar sempre de irmãos, e não de
"consangüíneos"? E por que não teriam escolhido o termo
grego para "primo", anepsiós?
"Além disso, Jerônimo identificou Tiago irmão de Jeshua
com Tiago filho de Alfeu, um dos doze apóstolos, e a Igreja
cristã, já orientada a fazer de Maria uma virgem perpétua,
aceitou entusiasticamente essa interpretação tranqüilizadora.
Tiago, o Justo, foi então denominado, até para diminuí-lo,
"Tiago Menor", distinguindo-o do Tiago filho de Zebedeu e
venerado em Compostela. Até esse momento, os próprios
Padres da Igreja não haviam tido dificuldade em reconhecer
que Jeshua tinha irmãos; no máximo, a partir de Orígenes e
do bispo de Salamina, Epifânio, consideravam-nos meios-
irmãos, filhos do primeiro casamento de José. Epifânio sus-
tentava que José tinha oitenta anos quando tomou Maria
como esposa; para isso, baseava-se numa obra atribuída
justamente a Tiago e que circulava na época, mas que não foi
inserida nos textos oficiais porque era manifestamente
inacreditável e irreal."
Sara cobriu os ouvidos com as mãos. Balançou a cabeça.
Fechou os olhos. Mas Rebeca já não precisava de
interlocutor nem de auditório.
— Inclusive Paulo, ao mencionar o chefe da Igreja de
Jerusalém, que ele conhecia pessoalmente, fala do irmão do
Senhor, adelphós; e, quando é o caso, usa também o termo
anepsiós, ao referir-se a um primo. Calculei que em todos os
textos cristãos o termo adelphós é citado trezentas e
quarenta e três vezes, e, quando não se está falando de Jesus,
sempre se refere inequivocamente a irmãos carnais. Por
outro lado, quando nos Evangelhos se fala dos irmãos do
Senhor, estes são sempre associados à mãe, e não a outros
possíveis parentes.
"Você me pergunta por que eu leio os Evangelhos. Mas se dá
conta de que em Mateus faz-se Jesus dizer: 'Os inimigos do
homem serão aqueles de sua casa? E até, em Lucas, diz-se:
'Se alguém vier a mim e não odiar seu pai, sua mãe, sua
mulher, os filhos, os irmãos, as irmãs, não pode ser meu
discípulo'! E em João: 'Nem mesmo seus irmãos acreditavam
nele.'
"Por acaso não está claro que se trata de um modo de criticar
os familiares de Jeshua, que pertenciam à facção oposta
àquela que prevaleceu, assim como o dito de Jesus 'Ninguém
é profeta em sua terra', e a frase, em Mateus, 'Que seu sangue
recaia sobre nós e sobre os nossos filhos', são modos de
criticar os hebreus? Você não compreende que excluir Tiago
da história significa esconder a herança hebraica de Jeshua e
sua adesão à Lei mosaica, e que atribuir sua morte aos
hebreus significa separar radicalmente o cristianismo do
hebraísmo?"
Cada vez mais inflamada, Rebeca pegou um dos livros que
havia recolhido do chão.
— Está vendo isto? — perguntou. — São os chamados Atos
dos Apóstolos. Pois bem, Tiago foi eleito sucessor de Jeshua
e também sofreu o martírio. No entanto, não se fala em
absoluto de sua eleição nem de sua morte. Mas, no capítulo
15, Tiago aparece como aquele que, no concilio de
Jerusalém, toma a palavra por último, resume os debates e
propõe as decisões que farão parte do decreto apostólico;
além disso, usa a palavra "krino", que nos atos jurídicos em
grego significa "eu decreto", como se fosse justamente ele
quem preside à assembléia. Tiago poderia ser considerado o
primeiro papa, mas a tradição, com base no que Jesus declara
em Mateus, preferiu Pedro a ele. No entanto, o próprio
Paulo, em sua Epístola aos Gálatas, define Pedro como
subordinado a Tiago. Mas, quando o cristianismo se tornou
religião de Estado no Império Romano, já não havia uma
Igreja de Jerusalém, havia uma Igreja de Roma, e foi com
esta que os romanos estipularam um pacto. O primado de
Pedro serviu para justificar a primazia da Igreja de Roma em
relação às outras; a figura de Tiago, chamado em toda parte
de "irmão do Senhor", é motivo de embaraço para a Igreja,
tanto pelo seu vínculo carnal com uma suposta divindade
como por seu vínculo com Jerusalém e com a matriz judaica
do cristianismo; decerto, seu zelo pela Lei mosaica parecia
decididamente desagradável para uma Igreja de origem
pagã...
— Mas o que você sabe disso? Que tipo de competência tem
para criar todas essas teorias? — reagiu finalmente Sara. —
Você não é um rabino, nem um padre cristão. E apenas uma
mulher. Apenas uma mulher! O dia em que não tivermos
mais esses malditos textos será de grande alegria para mim!
— Eu sou uma mulher, é verdade, mas uma mulher
habituada a se arranjar sozinha. E isso me faz igual ou
mesmo superior a um homem. Coisa que certamente você
não pode dizer de si mesma, já que não passou um só dia de
sua vida sem depender de alguém... — retrucou Rebeca,
azeda, arrependendo-se logo depois.
A frase infeliz acertou em cheio, assim como o tapa que a
irmã lhe assestou em resposta. Rebeca segurou a outra mão
dela, que estava prestes a golpeá-la de novo.
— Peço desculpas. De verdade. A tensão nos prega feias
peças. Prometo que, de agora em diante, vou procurar passar
mais tempo com você, em vez de me deixar absorver
completamente por essas coisas — disse, esforçando-se por
assumir uma expressão doce e um tom conciliador.
— Já era hora! Lá fora estão milhares de indivíduos
sanguinários que poderiam entrar na cidade de um momento
para outro e me levar daqui, e você nem perceberia! —
continuou Sara a reclamar, soluçando. — Ou melhor, talvez
até ficasse contente: sem mim ao seu lado, finalmente as
pessoas a enxergariam! — concluiu.
Rebeca esperou. Mas a irmã olhou para outro lado, fazendo
beicinho, sem dar a impressão de ter se arrependido. Então a
mais velha mordeu o lábio, tentando resistir à tentação de
reagir. Sentiu que não conseguiria, mas justamente nesse
momento bateram à porta.
Ela foi abrir, enquanto Sara permanecia em silêncio, fitando
a parede, bancando a vítima.
— Salam aleik!— Foi a costumeira saudação de Jamal al-
Ashraf, o qual, como de hábito, esperou um aceno de
Rebeca para transpor a soleira.
Rebeca se perguntou havia quanto tempo o emir estava do
lado de fora e se ele teria escutado a briga. Da expressão de
Jamal não transparecia nada, e, fosse como fosse, ele não
sabia o idioma hebraico. Com o olhar, o árabe procurou Sara,
que não se voltara em absoluto para ele. Cumprimentou-a
assim que viu a silhueta dela na penumbra; depois, vendo
que ela não se virava, dirigiu-se a Rebeca:
— Acho que encontrei um esconderijo adequado para seus
rolos - disse. — Amanhã, acompanharei vocês, com uma
escolta consistente, até o rio Jordão. Ao longo da costa
norte-ocidental do mar de Sal, em um lugar chamado
Qamar, que em árabe significa "lua", existem muitas
formações rochosas, depressões e cavernas onde poderemos
depositá-los, enquanto a guerra não acaba. Depois, iremos
recuperá-los e os entregaremos ao grão-vizir.
Finalmente, Sara se voltou. Um amplo sorriso de alívio
sulcava seu rosto esplêndido, ligeiramente estriado pelas
lágrimas.
— Senhores, como eu disse em nossa última reunião,
devíamos apenas ter confiança em Deus — principiou
Raimundo de Toulouse no conselho de guerra, com um
amplo sorriso de satisfação que não escapou ao seu
ordenança. — Retornamos de uma bela vitória que nos
proporcionou material precioso. E agora, em benefício
daqueles que ainda não sabem, o ilustre Tancredo irá
informá-los de sua nova descoberta — acrescentou.
— Muito bem — começou o sobrinho de Boemundo de
Taranto.
— Hoje de manhã, eu tinha ido às minhas propriedades de
Belém para um pequeno recenseamento. Depois, decidi
avançar até um pouco mais ao sul, rumo a Hebron, em
inspeção. Afinal, pensei, esse era o setor que havíamos
explorado menos. Havia uma área bastante retalhada, e eu
tropecei entre as rochas. Quando apoiei os pés no fundo de
uma vala, notei imediatamente que a terra estava remexida e
fofa. Revolvi-a um pouco e... adivinhem! Embaixo, havia
umas tábuas. Continuei a cavar e vi dezenas de varas, galhos
de árvore e mais tábuas. Logo compreendi que se tratava da
madeira que os egípcios tinham feito desaparecer. Já dei
ordens para que tudo seja trazido nos animais de carga que
nos restaram.
— Um momento — interveio Roberto da Normandia,
indignado. — Suas propriedades? Como assim? Não
tínhamos dito que toda discussão sobre Belém ficava adiada
para depois da conquista de Jerusalém?
— Repito o que já disse antes — respondeu o jovem
normando. — Eu fui o primeiro a colocar o próprio
estandarte no alto da igreja da Natividade. A
responsabilidade por aquele lugar sagrado é minha. Podem
me chamar como quiserem, rei, advogado, defensor, vassalo
da Igreja; seja como for, eu sou senhor de Belém! — excla-
mou, olhando Godofredo em busca de apoio.
Mas, antes que o duque de Lorena pudesse intervir, um dos
eclesiásticos que assistiam à reunião quis dar seu palpite:
— Isso é blasfêmia! — bradou o capelão do duque da
Normandia, Arnulfo Malecorne de Rohes. — Como ousa
reivindicar a posse do lugar onde nasceu o Senhor? Seu
desejo de obter bens terrenos é superior ao de agradar a
Deus!
— Ora! — retrucou Tancredo, não menos indignado. —
Balduíno de Lorena tem um reino na Armênia, meu tio tem
o dele em Antioquia, e não creio que tenham sido levantadas
mais questões quanto a isso. Então, por que eu não posso ter
Belém?
— Bom... se se tratar apenas de defender Belém, eu não veria
nisso nenhum mal... — interveio o bispo Arnulfo de
Martorana, tendencialmente disposto a secundar as ambições
de seu conterrâneo.
— Padre — interveio Godofredo, em tom paciente. — Aqui,
ninguém quer tirar nada do Senhor. Mas, mesmo que
vençamos esta guerra, estaremos dentro de um território
hostil, circundados por inimigos de Cristo; portanto, é
necessário escolher chefes que se encarreguem da difícil
tarefa de conservar para o Senhor estes locais sacros,
evitando que eles voltem às mãos dos infiéis. A Igreja precisa
de defensores temporais, assim como o papado sempre
precisou do império como braço secular, como principal
colaborador para fazer triunfar a fé.
A Ricardo, ocorreu que papado e império estavam em luta
havia muito tempo, na Europa, e a população pagava o
preço, com anarquia e guerras civis. Colaboração coisa
nenhuma!
Godofredo prosseguiu:
— Com tal objetivo, a ocasião é propícia para conversarmos a
respeito da soberania de Jerusalém. Afinal, deveremos
decidir alguma coisa sobre esse ponto, e talvez seja bom
fazer isso agora, sem nos perdermos em discussões quando
tivermos de organizar a defesa, após a conquista.
— Não há nada para conversar! E Sua Santidade quem deverá
decidir! A cidade retornará à soberania do papa, e um
patriarca agirá por conta dele! — observou Arnulfo
Malecorne, escandalizado.
"Mas, afinal, não se tratava de territórios a serem restituídos
ao Império Bizantino?", gostaria de observar Ricardo.
— Humm... poderia decorrer um longo período de tempo,
até que Sua Santidade nos fizesse chegar seu parecer... —
opinou Roberto de Flandres.
— Exato — acrescentou Godofredo, enquanto seu irmão
mais novo, Eustáquio, assentia. — Um longo período de
tempo, durante o qual deveremos nos defender de insídias
de todo tipo. Não esqueçamos que árabes e turcos estão
fazendo causa comum, e isso os torna muito mais
ameaçadores. Estaremos entre dois fogos, ao norte e ao sul,
além de ao oriente; e, mesmo a ocidente, o mar sem dúvida
não nos é amigo. Para não falar do Império Bizantino: o
imperador preferiria que as coisas evoluíssem de maneira
totalmente diversa e, certamente, com a ingratidão que lhe é
própria, não moverá um dedo para nos ajudar nos momentos
de maior dificuldade. E necessária uma autoridade central,
que ainda assim se valha do precioso conselho de seus pares.
Naturalmente, se tal honra me coubesse, eu jamais sonharia
em pretender o título de rei para a cidade que foi cenário da
Paixão de Cristo... — arriscou, quase com displicência.
— O senhor? — exclamou Raimundo, indignado. — O
senhor, que serve a um soberano excomungado, pretenderia
reinar sobre um lugar tão sagrado? Seria um insulto a Cristo!
Quase seria preferível deixar Jerusalém com os infiéis!
— Quero lembrar-lhe, senhor conde, que o próprio pontífice
quis que eu fosse informado de todos os detalhes da
expedição, o que me coloca em plano de confiabilidade igual
ao seu, aos olhos da Santa Igreja — respondeu Godofredo,
melífluo, aludindo, como deduziu Ricardo, ao assunto do
manuscrito.
Ao que parecia, pensou ainda o normando, embora eles
estivessem dispostos a se engalfinhar em relação a tudo, um
só tema não tinha sido posto sequer minimamente em
discussão: a conquista de Jerusalém era considerada coisa
certa.
Contudo, havia alguém disposto a cortar de chofre aquela
digressão.
— Mas não estávamos aqui para falar da madeira? —
observou o conde de Toulouse. Afinal, avaliou Ricardo, o
maior problema era esse. — Não esqueçamos que o Senhor
só nos permitirá conquistar Jerusalém se nos esforçarmos
por expugná-la. Não seria conveniente resolver como dividir
entre nós e como usar a madeira descoberta pelo príncipe de
Hauteville?
— Eu cedo minha madeira ao duque Godofredo — disse
Tancredo, em voz baixa.
— E eu vou usá-la para fazer uma torre móvel, um aríete e,
se sobrar alguma, também trabucos e manteletes... —
acrescentou Godofredo, comprazido.
Consternado, Raimundo de Toulouse olhou para Roberto da
Normandia e para seu próprio ordenança.
— Mas... — balbuciou, virando-se para o duque de Lorena —
a madeira tem que ser dividida... somos um único exército...
— Dividida? — disse Godofredo, explodindo numa
gargalhada. — Para fazer o quê? Para obter duas torres
baixas, que não nos serviriam de nada? E melhor uma só
torre, que alcance a altura dos espaldões. Por conseguinte, a
madeira, já que não é suficiente para todo o exército, deve
ficar com quem se deu o trabalho de procurá-la. Ou você é
tão egoísta e ambicioso que não se incomoda de prejudicar
nossas possibilidades?
— Mas quem encontrou a madeira não foi você... —
emendou o conde, irritado.
— E daí? O príncipe Tancredo considera que eu posso
aproveitá-la melhor do que ele, e me cede sua parte de bom
grado.
"Está claro que o eixo entre lorenos e normandos do sul se
transformou numa vassalagem dos segundos em relação aos
primeiros", refletiu Ricardo. "Quem sabe quanto Godofredo
terá desembolsado para obter a submissão do jovem
Tancredo, um pobretão sem propriedades nem rendas, cujos
olhos devem ter brilhado ao ver o dinheiro com que o
duque o seduziu? Dinheiro obtido, em grande parte, da
extorsão que ele impôs aos judeus do Reno", concluiu,
amargurado.
Raimundo balançou a cabeça, derrotado. Quando saiu da
tenda, puxou Ricardo à parte.
—- Eu também quero uma torre. Se ele conseguir penetrar e
eu tiver que me limitar a segui-lo, não poderei exigir nada.
Vá dizer a Raimundo Pilet que prepare uma expedição de
trezentos infantes e cem cavaleiros, além de várias carroças e
animais de carga, à qual você e seu amigo grego devem se
agregar. Quero que obtenham toda a madeira possível.
Fiquem fora o tempo que for necessário, mas encontrem-na.
— Aonde devemos nos dirigir? — quis saber Ricardo,
perguntando-se ao mesmo tempo se seu chefe estaria
ordenando uma missão arriscada por irritação contra os
lorenos, por ambição pessoal ou pela causa de Cristo. Mas
concluiu imediatamente que, naqueles indivíduos, era difícil
distinguir onde acabava uma motivação e começava outra.
— Sigam rumo ao Jordão e ao mar de Sal. E, se não
encontrarem nada, desloquem-se para o norte, até a Samaria;
é longe, eu sei, mas a região é cheia de florestas —
respondeu o conde.
Jamal al-Ashraf fazia uma bela figura, à frente de uma coluna
de soldados. Foi o que Rebeca pensou, ao vê-lo cavalgar e
sobressair-se na sela com uma verdadeira atitude de
comando, embora a prudência o tivesse induzido a não se
vestir diferentemente dos subalternos que o acompanhavam.
Avançava com o torso ereto, com o xale branco que lhe
envolvia o elmo e lhe descia pelos ombros, terminando ao
longo da garupa do cavalo. Rebeca se perguntava por qual
obscuro motivo sua irmã não se sentia minimamente
fascinada por aquele emir tão gentil e, no entanto, tão
respeitável, sensato, de bela presença. Verdade que ele era
um muçulmano, e não um judeu; ela, porém, não seria
preconceituosamente contrária a uma união entre os dois;
seria, sim, e radicalmente, se se tratasse de um cristão.
Naquele dia, Sara nem sequer quisera vir. Meio estranho,
avaliara Rebeca; normalmente, ela não gostava de ser deixada
sozinha. Evidentemente, a perspectiva de um passeio sob o
sol abrasador era demais para sua proverbial apatia, e a
presença de Jamal sem dúvida não constituía estímulo
suficiente para fazê-la vencer a preguiça.
Embora Sara não falasse do assunto havia tempo, Rebeca
tinha certeza de que ela ainda pensava naquele homem que a
salvara em Mogúncia. Um daqueles amores impossíveis que
tinham contribuído para arrancar sua irmã à realidade,
deixando-a irresoluta como mulher. Não que ela mesma se
sentisse realizada, admitiu para si mesma. Mas sentia-se
muito pouco disposta a aceitar a soberania de um homem
sobre sua vida para conseguir encontrar equilíbrio e uma
clara identidade feminina.
Perguntou-se por que se deixava levar por tais divagações, e
justamente naquela hora. Afinal, estava prestes a se separar
dos manuscritos, aos quais se apegara ainda mais
estreitamente do que à irmã. Talvez fosse mais lógico dirigir
a eles um último pensamento. Nos últimos tempos, as
memórias de Tiago, o Justo, haviam sido sua razão de viver,
e, no fundo, ela temia não saber encontrar outra, depois.
Fosse como fosse, mesmo que Jamal não demorasse a recu-
perar os rolos, estes já não seriam de sua competência.
Aquelas memórias haviam lhe permitido refletir muito sobre
a natureza das religiões, impelindo-a a aprender mais sobre a
cristã, que ela sempre desprezara sem realmente conhecê-la.
No entanto, é preciso conhecer o inimigo para poder julgá-
lo.
Sob certos aspectos, devia admitir, a gigantesca mistificação
que o homem de Tarso havia montado sobre Jeshua
constituía um progresso em relação ao nacionalismo, ao
conservadorismo e ao ascetismo de Tiago. Indubitavelmente,
os conceitos transmitidos nos Evangelhos e nas Epístolas de
Paulo eram fascinantes; só que ela não conseguia ver, nos
cristãos, a vontade de aplicar aqueles edificantes preceitos de
harmonia com o próximo, ainda que este fosse o inimigo.
Mas, por outro lado, não podia culpá-los por isso: Rebeca
achava que o ser humano não era muito conduzido por
sentimentos tão absorventes.
— Preocupada?
Absorta em suas reflexões, Rebeca não percebera que Jamal
havia retardado o passo e se colocara ao lado da carroça na
qual ela viajava.
— Eu deveria? — respondeu, com um sorriso cansado.
— Compreendo o quanto lhe desagrada se separar desses
documentos — disse o emir, indicando com um aceno de
cabeça a sacola pendurada no dorso de um burro. — Mas é o
melhor a fazer. E, também, você e sua irmã estão sob a
proteção de um emir, não têm nada a temer, em relação ao
futuro. Seja qual for o uso que o grão-vizir decidir fazer
desses textos, de todo modo vocês serão tuteladas. E... à
respeito de sua irmã...
"Pronto, chegamos lá. E a primeira vez que conversamos
sem a presença de Sara. Eu já devia esperar por isso", pensou
Rebeca.
— Sara é uma jovem preciosa. Você deve ter notado que eu
estou muito interessado nela... — prosseguiu Jamal,
visivelmente encabulado. — Parece tão frágil... Tem uma
necessidade constante de atenção. E, também, maneiras
muito aristocráticas, que se adequariam muito bem à casa de
um emir...
Com dificuldade, Rebeca conseguiu conter um sorriso:
afinal, tinha demasiada consciência do contraste entre os
modos arrogantes e rebuscados da irmã e os sentimentos
mesquinhos, as escassas qualidades de que ela era dotada:
numa palavra, da profunda diferença entre o que Sara
aparentava e o que oferecia.
Mas devia responder alguma coisa àquele terno enamorado.
Alguma coisa que não o desencorajasse. Ainda que, ocorreu-
lhe, Jamal parecesse suficientemente seguro de sua escolha
para não se deixar acovardar por sombrias perspectivas.
— Bem... — começou, tentando encontrar palavras que não
o ferissem, mas que tampouco o iludissem.
— Emir, emir! — gritou nesse momento o guarda pessoal,
que galopava velozmente na direção deles. Rebeca se sentiu
grata a Firuz por ter lhe concedido mais tempo para pensar
numa resposta adequada.
O turco falou em grego, para que ela também o entendesse:
— Grande coluna infiéis, ao sul. Talvez trezentos guerreiros,
talvez mais.
Rebeca sentiu uma fisgada no estômago. Eles não eram mais
do que cinqüenta.
— São poucos! Vamos aproveitar e dar a eles mais uma boa
lição! — gritou Raimundo Pilet, apontando a espada na
direção do grupo de muçulmanos avistados ao norte.
— Mas o conde nos deu ordem de conseguir material de
construção, sobretudo. Não podemos perder tempo em
escaramuças... — arriscou Ricardo, que seguia logo depois
dele.
— Está brincando? Estamos em nítida superioridade
numérica. Renunciar ao confronto seria uma estupidez.
Talvez, se os atacarmos, eles percam a vontade de nos armar
emboscadas, e com isso também liberaremos o caminho para
os próximos contingentes de aprovisionamento... —
replicou o comandante, visivelmente exaltado.
Em seguida, passou a estabelecer disposições para o ataque:
— Avante! Eles nos viram e estão tentando chegar a um vau
no Jordão. Se conseguirem, nós os perderemos! Divida-se a
cavalaria em duas alas e proceda rumo aos flancos dos infiéis
para bloqueá-los! Quanto à infantaria, avance frontalmente!
Deus o quer!
Ricardo só teve tempo de olhar desconsolado para Emanuel,
que retribuiu a mirada, antes de marchar em passo acelerado
rumo ao objetivo. A cavalaria os precedeu, tentando fechar
imediatamente ao inimigo qualquer via de fuga, mas o
terreno era irregular e acidentado, e alguns egípcios, em
grupo ou individualmente, esquivaram-se do cerco a tempo
e desapareceram entre as baixadas e as elevações.
— Em ordem esparsa! Peguem todos eles! — gritou
Raimundo Pilet à infantaria, quando se aproximou dos
adversários, enquanto os cavaleiros mantinham ao alcance
das lanças os muçulmanos que eles haviam conseguido
aprisionar. Junto com muitos companheiros, Ricardo e
Emanuel escalaram um aclive rochoso em perseguição aos
fugitivos, perdendo-se de vista logo depois.
Mesmo arriscando-se repetidamente a escorregar pelo
terreno pedregoso, Ricardo chegou depressa ao topo. Abaixo
dele abria-se um vale estreito, e depois um novo aclive, além
do qual ficavam as margens do mar de Sal. Havia uma
miríade de anfractuosidades onde os muçulmanos podiam
ter se escondido, tanto na encosta que ele se dispunha a
descer quanto na do outro lado.
Não podia voltar para perto de Raimundo sem ter
encontrado nenhum árabe. Pilet, e principalmente Sabran,
iriam se aproveitar disso para depreciá-lo junto ao conde de
Toulouse.
Desceu resoluto a ladeira, perscrutando o panorama com
atenção, na tentativa de captar algum movimento que lhe
desse indício da presença do inimigo.
— Não podemos permanecer aqui atrás. Temos que nos
mover, embora correndo o risco de sermos vistos — disse
Jamal a Rebeca, que apertava contra si a sacola com os
pergaminhos.
— Você evitou enfrentar o inimigo para me proteger — disse
ela como única resposta, olhando a panturrilha
ensangüentada, que uma saliência de rocha havia lacerado.
— Éramos muito poucos para resistir, e até Alá consideraria
estúpido semelhante martírio — respondeu Jamal. — Dei
ordem de nos espalharmos porque só assim teríamos mais
possibilidades. Infelizmente, a cavalaria deles teve tempo de
bloquear alguns dos meus homens. Mas, pelo menos, vi que
Firuz escapou.
— E agora, o que você pretende fazer? — perguntou Rebeca,
não muito convencida.
— Alcançar a outra vertente e seguir na direção do Jordão.
Com a ajuda de Alá, poderemos conseguir. — Ele olhou ao
redor e não viu nenhum movimento. — A hora é esta.
Venha comigo — disse, e saiu a descoberto, dirigindo-se em
linha reta para o fundo do uádi.
O emir caminhou velozmente, antes de perceber que
Rebeca, claudicante pelo ferimento na perna, não conseguia
acompanhá-lo. Voltou e pegou a sacola que ela carregava,
para aliviá-la pelo menos daquele estorvo. Rebeca a entregou
após alguma hesitação, e em seguida Jamal retomou a
caminhada, embora mais lentamente, para permitir que
Rebeca mantivesse seu passo. O terreno, porém, era muito
escorregadio, e a moça avançava com extrema cautela. "Se
aparecer um deles, posso enfrentá-lo. Mas, se for um grupo,
estaremos perdidos", pensou o árabe.
Apareceu um. Só um.
Instintivamente, Rebeca soltou um berro. O emir nem
tentou escapar. Devolveu-lhe a sacola e desembainhou a
cimitarra, aguardando o ataque do adversário.
Perscrutou-o, enquanto este se aproximava. Era um infante
pesado, com cota de malha, elmo com narigueira, bem
assentado na cabeça, e escudo. Ele, porém, todo empoeirado,
com as roupas rasgadas e um anônimo gibão acolchoado, já
desprovido de escudo e elmo, dificilmente parecia um
oficial; e muito menos o tomariam por um emir.
Quando se viram a poucos passos de distância, o olhar do
homem caiu sobre Rebeca. Ele pareceu hesitar por um
momento, talvez somente pela surpresa; em seguida, porém,
colocou-se em posição de ataque, e, um instante depois,
Jamal recebeu a primeira cutilada. Foi um golpe enérgico,
mas o árabe o aparou facilmente e passou ao contra-ataque;
só que sua investida se chocou contra o escudo do cristão. O
contragolpe o desequilibrou, expondo-o à réplica do
antagonista. O árabe foi rápido em se esquivar, mas, desse
modo, deixou inadvertidamente o franco entre si e Rebeca.
Ao se dar conta da ameaça que pairava sobre a moça, Jamal
atacou de imediato, embora estivesse desprovido de escudo e
em posição desfavorável no declive, sobre um terreno
escorregadio. Conseguiu deter a espada adversária, mas
desequilibrou-se e caiu, perdendo a cimitarra. O outro logo
lhe saltou em cima, apontando a espada para sua garganta.
Do chão, Jamal viu Rebeca se jogar contra o flanco do cristão
e tentar lhe segurar o braço.
Emanuel desceu rapidamente a encosta. No fundo do uádi,
viu um companheiro duelando com um muçulmano.
Acelerou o passo para ajudá-lo, mas logo percebeu que o
cristão havia levado a melhor e decidiu continuar a busca.
Olhou ao redor. Havia muitos refúgios capazes de esconder
um adversário. Podia haver um ali perto, oculto atrás de uma
saliência de rocha. Devia prestar atenção para não se deixar
surpreender.
Avançava com cautela e discrição, na esperança de que,
assim, os fugitivos não se dessem conta de sua presença e,
acreditando-se seguros, saíssem a descoberto. Aguçou os
ouvidos para captar qualquer sinal da proximidade de um
inimigo.
Chegou a um esporão rochoso. A pedra escondia a ladeira
imediatamente subjacente, mas, para todo o resto do uádi,
constituía um ótimo ponto de observação, permitindo-lhe
enxergar a distância ao longo de ambos os lados do vale.
Pareceu-lhe escutar uma respiração abaixo de si. Olhou
adiante, além da ponta do esporão. Após alguns instantes de
espera, notou que umas pedrinhas deslizavam pela ladeira.
Havia alguém atrás da rocha.
Refletiu por um instante. Fosse quem fosse, não sairia dali
enquanto percebesse uma presença acima de sua cabeça. E
tampouco Emanuel podia descer, sem correr o risco de ser
surpreendido.
Refletiu por mais um instante e, em seguida, refazendo os
próprios passos, voltou atrás.
Deteve-se mais acima. Tirou cautelosamente as botas,
deixando-as ali; depois, tentando não dar importância às
pedrinhas que lhe espetavam a planta dos pés, aproximou-se
lentamente da ponta do esporão. Escalou-a, deitou-se e
esperou.
Não precisou aguardar muito. Após um breve tempo, um
turbante apareceu além da rocha. O muçulmano estava
verificando o alto. Emanuel recuou um pouco, embora
estivesse suficientemente grudado ao terreno para não ser
notado.
Viu o turbante se deslocar para a frente. Era o momento. "Se
eu não pular agora em cima dele, não o pego mais", pensou,
antes de se ajoelhar e dar um salto em mergulho.
O impacto foi menos duro para ele do que para o adversário.
Emanuel sentiu o choque com a couraça e com os sólidos
músculos do inimigo, mas este bateu violentamente contra o
terreno. Rolaram juntos por alguns passos, ambos aturdidos
pela pancada. O bizantino, porém, foi mais rápido ao reagir e
estendeu as mãos, agarrando o pescoço do antagonista.
O muçulmano não pareceu em condições de se defender.
Procurou aproximar seu rosto do de Emanuel, para lhe dar
uma cabeçada, mas o aperto do grego era muito firme.
Tentou atingi-lo com socos nos flancos, mas o fôlego já lhe
faltava e os golpes chegavam débeis. No entanto, era forte
como um touro, e Emanuel não conseguia imobilizá-lo
totalmente.
Depois, de repente, o bizantino relaxou a preensão.
— Mas eu a conheço! — disse o franco, após encarar Rebeca
mais atentamente.
A moça, por sua vez, fitou-o sem compreender. Jamal, de
sua posição incômoda, também fitou o homem que apontava
uma espada para sua garganta. Este último tirou o elmo e se
deixou observar.
— Você... você é aquele normando que nos ajudou em
Mogúncia... — conseguiu dizer Rebeca, após alguns
instantes, durante os quais a cena se fixara como numa
tapeçaria.
— Mas é claro! Já sei quem é você! Agora me lembrei! —
exclamou o cristão, batendo o elmo na coxa. — E a irmã
daquela esplêndida jovem judia que eu tirei das mãos dos
meus soldados!
— Pois é... — Rebeca não conseguiu dissimular totalmente a
irritação pela expressão de seu interlocutor.
— Pelo que vejo, acabaram encontrando proteção junto aos
muçulmanos... Sua irmã também está por aqui?
— Obviamente, os muçulmanos têm mais respeito pela
minha gente, e também são mais civilizados — replicou ela,
áspera.
— Suponho que ela tenha vindo com você. Está aqui por
perto?
— Ela... está em Jerusalém...
— Bem, mais uma razão para conquistar a cidade — observou
ele, zombeteiro. Em seguida, voltou-se para o árabe, que
continuava no chão. — Não sei o que vocês vieram fazer
aqui, mas são meus prisioneiros, certo?
— Depois de me ajudar uma vez, vai me prejudicar agora? —
retrucou Rebeca.
— Não posso deixá-la ir. Algum outro a pegaria, e seria muito
menos delicado. E, também, seu acompanhante é um árabe,
e eu combato os árabes...
O homem — Rebeca lembrou que ele se chamava Ricardo
— acenou com a espada para que Jamal se levantasse. Este se
reergueu sem dizer uma palavra. Em seus olhos, Rebeca
percebia a humilhação por ter se deixado dominar e o
aborrecimento por não ter conseguido velar pela segurança
dela, como prometera.
— Não tenha medo. Sei que você pensa que nós, cristãos,
somos animais, depois do que fizeram em Mogúncia. Mas eu
não sou, e espero conseguir lhe demonstrar isso. Agora,
porém, caminhem — disse Ricardo, repondo o elmo.
Logo depois, surgiram no campo visual deles mais dois
armígeros do exército cristão. Assim que os viu, Rebeca se
apressou a colocar a tiracolo do normando a sacola com os
pergaminhos.
— Por favor, é uma coisa muito importante para mim. Se a
encontrarem comigo, vão tomá-la imediatamente. Fique
com ela, e não lhe farão perguntas. Você me devolve
quando for possível — disse a Ricardo, tentando suavizar os
traços do rosto numa expressão de súplica.
Jamal a olhou, lívido.
— E o único modo de salvar os textos — tranqüilizou-o
Rebeca, falando em grego para que o outro não a entendesse.
— Conheço este soldado. Apesar de tudo, é um homem
justo.
Depois, porém, perguntou-se se o emir teria a mesma
consideração, ao saber que se tratava do homem por cuja
culpa, provavelmente, Sara jamais poderia amá-lo.
— Não nos vimos durante quase trinta anos, e agora isso
acontece duas vezes em poucos dias... — disse Emanuel,
relaxando o aperto na garganta do muçulmano. Este saltou
para o contra-ataque assim que se sentiu livre, mas depois se
deteve de repente, reconhecendo-o também.
— Alá decidido nossos destinos se cruzam de novo. Talvez
tem motivo.
— Ah! — gargalhou Emanuel. — Era disso que eu sentia mais
falta quanto a você: seu modo de falar em grego! — Depois
ficou sério de repente. — Até pouco tempo atrás, árabes e
turcos não se gostavam. Como foi que você veio parar aqui
com os egípcios?
— Eu em Jerusalém ano passado, durante assédio fatímida.
Depois eles entram na cidade, eu envergonhado de defesa
meus chefes e escolhe servir no exército egípcio —
respondeu Firuz, evitando informar ao velho amigo seu
papel ao lado do emir. Não era o caso de deixar os cristãos
saberem que, entre seus companheiros de viagem,
encontrava-se também um personagem de relevo.
— Dias atrás, você me poupou novamente, Firuz. Como fez
há décadas... — recordou-lhe o bizantino.
— Matar você não mudava história da batalha, mas talvez
mudava minha vida. Preferido não arriscar.
— Você sempre foi sensato — disse Emanuel, balançando a
cabeça.
— Eu pensar muitas vezes seu destino depois batalha
Manzikert - disse Firuz. — Achava você morrido em guerra
interna junto seu imperador...
— De fato, permaneci ao lado dele até o fim — explicou-lhe
o grego. — Voltamos a Constantinopla para retomar o poder,
quando soubemos que ele tinha sido deposto pelos Ducas,
mas éramos muito poucos. Houve uma batalha fora das
muralhas e terminou mal, para nós. Acabei entre os
prisioneiros. Um dia, vieram me dizer que Romano havia
perguntado por mim e me levaram até ele. Encontrei-o em
cima de uma cama, numa poça de sangue, rodeado por um
bando de médicos que tentavam conter a hemorragia. Os
opositores haviam decidido poupá-lo em atenção à
imperatriz, mas tinham vazado seus olhos, a fim de
incapacitá-lo para governar.
Emanuel fez uma pausa e deu um suspiro profundo. Aquela
lembrança lhe doía.
— Mas tinham feito um péssimo trabalho, talvez
deliberadamente — prosseguiu. —- As feridas tinham se
infeccionado, e eu o vi sofrer de maneira atroz. Nos três dias
em que permaneceu vivo, teve sempre febre alta e delirou
muitas vezes. A primeira coisa que me disse, assim que
conseguiu falar, foi que eu devia jurar fidelidade ao novo
regime. Estava mais preocupado com a segurança do império
do que com uma vingança contra os adversários. Sabia que o
Estado dispunha de poucos homens e que não havia
dinheiro para contratar mercenários, e não pretendia
enfraquecê-lo com outras guerras civis. E sabia também que
seus adversários pensariam duas vezes antes de matar todos
os prisioneiros. Afinal, continuávamos sendo soldados, e
seríamos úteis para eles.
"Quando morreu, eu estava ao seu lado. Agradeci ao Senhor
por ter dado um fim aos seus sofrimentos."
— Seu imperador era valoroso. E também homem leal.
Mandou parte de resgate a sultão, antes de morrer, ainda que
governo oficial não reconhecia acordos — comentou Firuz.
Passaram-se uns minutos de silêncio. Ambos, o grego e o
turco, perdiam-se em suas recordações.
Foi Firuz quem o rompeu:
— Mas que você faz aqui? Império não mais interessado em
cruzada. Agora é assunto de francos — disse.
— Não, é também assunto meu — respondeu Emanuel. —
Naquele dia, em Manzikert, cometi um erro. Um erro que
talvez tenha custado a vida ao meu imperador. E ele sabia.
Mesmo assim, me quis ao seu lado na hora da morte. Passei
toda a minha carreira nas armas tentando me redimir, mas
ainda não consegui. Então, espero que o Senhor me dê a
oportunidade de fazer isso na cidade onde morreu e
ressuscitou.
— Creio você quer morrer por seu deus. Acha só assim pode
se redimir.
— Talvez. Mas acho que não tenho escolha.
— Escolha sempre existe. Só não existe se pessoa não quer
escolher.
Mais silêncio.
— E agora, em sua opinião, o que devemos fazer? —
perguntou Emanuel, sinceramente confuso.
— Soldado como você não dúvidas. Você fez mim
prisioneiro.
— Não é tão fácil — respondeu Emanuel, desconsolado. —
Você não cumpriu, comigo, seu dever de soldado. E por
duas vezes. Não posso condenar a pessoa a quem devo a
vida. E não poderia assegurar sua incolumidade, se você
acabasse prisioneiro. Como deve saber, um grego não é nada
no exército franco.
— Eu habituado proteger, não ser protegido. Não preocupar
comigo.
Emanuel ficou olhando para ele, em silêncio. E refletindo.
Obrigou-se a pensar depressa; de uma hora para outra,
podiam aparecer outros companheiros, e então ele não teria
mesmo escolha.
— Vá embora — disse, afinal.
— Você não poder — respondeu Firuz, balançando a cabeça.
— Eu poder, eu poder — retrucou Emanuel, arremedando-o.
— É um assunto entre mim e minha consciência. Vá
embora, já mandei, antes que alguém o veja.
Firuz se levantou, recolheu sua cimitarra e fez menção de se
afastar. Mas voltou-se por um instante.
— Próxima vez nos encontramos, talvez não possível se
comportar assim. Talvez obrigados a combater — disse.
— E a morrer. Eu sei. Mas isso não mudará as coisas como
foram até agora — respondeu Emanuel, exortando-o com
um aceno da mão a sair dali.
XVII
Chegaram todos exaustos, afogueados e sedentos ao
acampamento cruzado. Os cavaleiros, os infantes e,
sobretudo, os prisioneiros, que na Samaria tinham arcado
com o trabalho mais pesado, cortando as árvores e
colocando-as sobre as carroças e os animais de carga. Os
infantes haviam se revezado, mas os muçulmanos traba-
lharam sem descanso, tanto que um deles, já moribundo,
fora abandonado ao longo do caminho.
Nem mesmo Rebeca tivera alguma trégua. Os soldados
estavam contentes por encontrar uma mulher entre os
fugitivos, e tinham-na transformado na mesma hora numa
espécie de vivandeira, mas uma vivandeira desprovida de
qualquer liberdade, obrigada a cumprir também tarefas de
serva e a sofrer insultos, ofensas e humilhações de todo tipo,
embora a presença de Ricardo evitasse o pior.
Jamal, por sua vez, já se sentira humilhado demais para dar
peso às mortificações às quais os francos o submetiam,
como, de resto, faziam com os outros prisioneiros.
Tomaram-no por um oficial de média patente, e não lhe
deram uma importância especial. Isso significava que devia
labutar tanto quanto os outros, mas, sabendo que seus
homens extraíam dele a força para suportar tudo aquilo,
procurava dar o exemplo trabalhando com mais ânimo do
que todos, sem nunca se lamentar e com uma altivez que até
irritava os carcereiros.
Na frente oposta, Ricardo gostaria de conversar com Rebeca
e, sobretudo, de lhe pedir notícias da irmã; a lembrança de
Sara se enfraquecera com o tempo, mas a notícia da presença
dela em Jerusalém havia renovado a atração sentida em
Mogúncia ao conhecê-la.
Contudo, temia chamar demasiada atenção sobre a
prisioneira e deixara para interrogá-la no acampamento,
onde esperava dar menos na vista. Nesse meio-tempo, nem
mesmo ele se poupara de qualquer esforço, coordenando a
coleta de madeira com tenacidade incansável, uma tarefa que
Pilet lhe jogava de bom grado sobre os ombros, para se
dedicar à caça com os outros cavaleiros.
Emanuel tampouco se furtou à lida. Mas, enquanto Ricardo
se ocupava porque estava ansioso por manter a estima do
conde de Toulouse, o bizantino, como sempre, sentia-se no
dever de fazer mais do que os outros para conquistar o
respeito de todos; ou, pelo menos, como objetivo mínimo e
mais alcançável, para evitar que os francos manifestassem
abertamente seu desprezo em relação a ele.
Tinham se ausentado do acampamento havia três dias, mas
sua chegada, embora tivessem coletado muita madeira, não
despertou especial entusiasmo. Emanuel observou as pessoas
e achou-as mudadas. Estavam queimadas pelo sol,
particularmente os germânicos, que mostravam sofrer com o
calor mais do que qualquer um no exército. Todos se
revelavam mais magros, mais secos e mais emaciados, e era
raro ver alguém fazendo movimentos que não parecessem
cansados, lentos e sofridos.
Até mesmo quem trabalhava na torre móvel de Godofredo o
fazia em ritmo brando, quase apático. Os homens, dispostos
em torno do único patamar construído, davam machadadas
sem tomar impulso e deixando transcorrer tempo demais
entre um golpe e outro. Os que fixavam os pinos martelavam
com pouco empenho, prolongando ao infinito qualquer
operação de cavilhamento.
Poucos falavam, e quem era obrigado a fazê-lo parecia ter
acabado de acordar, a voz empastada, ruídos desagradáveis
que acompanhavam as palavras. Os lábios estavam
ressequidos, rachados, exangues. Não havia sorrisos, nem
sequer entre as crianças, que haviam renunciado a brincar,
preferindo descansar uma ao lado da outra nos poucos locais
à sombra deixados para elas pelos adultos e pelos velhos.
Havia quem circulasse seminu, batendo continuamente a
espada contra a superfície externa do escudo e provocando
um ruído tão mais incômodo quanto mais se destacava no
silêncio geral. Outros, desprovidos de armas, caminhavam
pisoteando violentamente o terreno, levantando uma nuvem
de poeira que os acompanhava aonde quer que fossem.
Curioso, o grego perguntou a um velho o motivo daquela
estranha atitude.
— Isto aqui está cheio de tarântulas. Muitos morreram das
picadas. O ruído as afugenta, pelo menos — respondeu o
outro com olhar vazio, perdido no horizonte.
"O que eu ainda estou fazendo aqui?", perguntou-se
Emanuel. "Eles me desprezam, morre-se de fome, de sede e
de calor, os chefes brigam entre si, o exército egípcio pode
chegar a qualquer momento e nos massacrar, a glória do
Senhor é apenas um álibi para todos. Talvez até para mim."
Refletiu sobre o que Firuz lhe dissera. Na verdade, não
queria escolher. Não era ao Senhor que devia pedir perdão,
mas ao seu imperador. E Romano o perdoara. Mas ele jamais
havia perdoado a si mesmo, e estava em busca de um
pretexto, o enésimo, para continuar a batalha pessoal contra
o peso que carregava nos ombros. E, até agora, havia
procurado uma infinidade de pretextos. A glória do Senhor
era o único que lhe faltava, o mais nobre, o mais elevado.
Mesmo assim, continuava sendo um pretexto.
— Vamos procurar Anselmo? — sugeriu Ricardo,
interrompendo suas reflexões.
— Para quê?
— Lá está — apontou o normando. — Quero pedir a ele um
favor.
O monge havia claramente emagrecido. A cabeça careca
estava coberta de chagas e queimaduras, o hábito lhe escorria
pelas costas como um manto. Ao lado dele encontrava-se
Inês, ocupada em passar um pano úmido sobre os lábios e o
rosto de um velho peregrino. Ricardo esfregou mentalmente
as mãos, imaginando que aquela era a situação ideal para o
que ele tinha em mente.
— Veja só, também temos Inês aqui! — começou. — Não
está no trabalho?
A mulher o encarou com ostensiva indiferença, sem
responder.
Quem o fez foi Anselmo:
— Trabalho? Este é o trabalho dela, agora. Aliviar os
sofrimentos dos enfermos. Ao que parece, o Senhor está nos
infligindo todas essas privações para obrigar os depravados a
conterem suas pulsões imundas. A esta altura, quem ainda
tem algum dinheiro prefere gastá-lo por uma gota d'água, e
não para extrair prazer de uma mulher!
— Mas Inês faz aquilo por vocação, mais do que por dinheiro
— observou ironicamente Ricardo. — Desde quando a
conheci, já a vi trabalhar mais vezes de graça do que em
troca de pagamento... Não é verdade, Inês? Com maior
razão, agora deveria aliviar as pessoas que sofrem... —
acrescentou, lançando-lhe um olhar provocador.
— Só quando estou com vontade. E agora não estou —
respondeu ela, mais seca do que a língua do velho a quem
estava acudindo.
— Como foi a expedição? — interveio Anselmo, para evitar
que a conversa degenerasse. — Vi que vocês coletaram
bastante madeira.
— De fato. A propósito, eu queria lhe pedir uma cortesia —
respondeu Ricardo ao monge, enquanto por um instante
ainda olhava Inês, que por sua vez evitava fazer o mesmo. —
O que pensa dos judeus?
— O que eu penso? Que são os assassinos de Cristo, como
todos sabem, e por isso não consigo amá-los — respondeu
Anselmo. — Além disso, fizeram causa comum com o Islã.
Mas convém que reste algum vivo, para eterno testemunho
do crime deles, e por isso eu abomino quem gostaria de
exterminá-los. Hoje, exatamente como os cristãos, existem
judeus bons e judeus maus, que não levam em conta o crime
de seus antepassados.
— Para um padre, você tem bastante bom-senso. Muito bem
— replicou Ricardo. — Portanto, é a pessoa certa. Preste
atenção: três anos atrás, ao passarmos por Mogúncia com o
conde Emich de Leiningen, meus companheiros
massacraram um monte de judeus. Eu fiz o que pude para
salvar alguns. Pois bem, entre os prisioneiros que fizemos na
zona do mar de Sal há uma moça a quem ajudei naquela
ocasião. Queria que você se ocupasse dela um pouco, ou pelo
menos procurasse evitar que a tratem muito mal. Penei
muito para livrá-la do massacre em Mogúncia, assim como a
irmã, e não queria que lhe acontecesse alguma coisa agora,
justamente por minha causa, visto que fui eu quem a
capturou, quando ela fugia com um árabe.
Anselmo ficou meio perplexo. Porém, refletiu, o interesse
que o normando parecia alimentar por aquela judia podia
representar um bom motivo para induzir Inês a parar de
pensar nele; por isso, não demorou muito a captar as
vantagens implícitas na proposta de Ricardo.
— Se é para lhe evitar sentimentos de culpa que poderiam
prejudicar sua conduta em batalha, faço isso de bom grado
— respondeu com um amplo sorriso, olhando Inês de
soslaio. Como, aliás, Ricardo também estava fazendo.
Ambos notaram a maneira insana como ela esfregava o pano,
já seco, na língua do coitadinho.
"Reconfortar o pobre, vestir o nu, socorrer quem se
encontra na adversidade, consolar o aflito." Anselmo
continuou a repetir para si mesmo a regra beneditina, a fim
de convencer-se de que estava fazendo a coisa certa, indo
levar um prato de pão e queijo à judia de quem Ricardo lhe
pedira para cuidar. E jamais deixaria de cumprir a regra,
pensou. Nem mesmo com os judeus, embora alguns de seus
confrades tivessem exultado com os pogroms realizados
pelos cruzados, três anos antes. Às vezes, na verdade, o
exemplo de muitos homens da Igreja, até mesmo priores e
bispos, levava-o a pensar que se tratava de disposições ideais
e irrealizáveis, como aquela de "oferecer a outra face" que
Cristo havia transmitido. Ninguém conseguia aplicá-las
realmente, e ele, quando se esforçava por fazê-lo, sentia-se
quase ridículo diante dos outros.
No entanto, continuaria tentando cumpri-las. Era seu modo
de servir melhor ao Senhor, compensando as outras
carências, como o desejo da carne, que o atormentava de
maneira ilícita para um monge. Consolava-se dizendo
sempre a si mesmo que seus confrades podiam até ser
capazes de dominar os impulsos diabólicos, mas talvez
achassem pesado reconfortar o pobre, vestir o nu, socorrer
quem se encontra na adversidade, consolar o aflito.
Chegou ao recinto dos prisioneiros. O local era praticamente
igual àqueles dos poucos animais de carga de que os cruzados
ainda dispunham. A única diferença, notou, era a presença
mais consistente de sentinelas. Ninguém se preocupara em
separar a única mulher dos outros prisioneiros, ao menos por
enquanto.
— Rebeca? Rebeca é você? — gritou ele, aproximando-se da
cerca.
— Você tem alguma dúvida sobre quem poderia ter um
nome desses aqui dentro, padre? — respondeu a moça, com
uma boa dose de agressividade.
— Foi só para chamar sua atenção... — replicou Anselmo,
intimidado e aborrecido com aquela reação. — Bom, Ricardo
me pediu que a ajudasse a suportar este cativeiro. Por
enquanto, eu lhe trouxe algo para comer. Você é mulher e,
portanto, mais frágil, por isso, deve se alimentar mais do que
os outros.
— Suas idéias sobre as mulheres continuam pouco claras,
padre — disse Rebeca, quase lhe arrancando das mãos o
prato com a comida. Anselmo gostou de constatar que,
apesar da atitude altiva, aquela jovem não conseguia
esconder uma desesperada necessidade de ajuda. Mas o
sorriso que estava prestes a se formar em sua boca
transformou-se numa careta de estupor quando ele a viu
chamar um árabe, sentado pouco adiante, e oferecer-lhe
metade do alimento.
— Mas... Ricardo insistiu que você se revigorasse... Desse
jeito, ele vai me repreender, se você não comer o
suficiente... — protestou.
— Já expliquei a Ricardo que este homem me ajudou tanto
quanto ele o fez no passado. Por conseguinte, se vocês
pretendem me dar uma mão, saibam que farei o mesmo com
ele — avisou a mulher, indicando Jamal com um aceno de
cabeça.
"Socorrer quem se encontra na adversidade, consolar o
aflito...", repetiu Anselmo a si mesmo, fechando os olhos por
um instante.
— Seja como for, eu lhe agradeço. Não estou habituada a
encontrar ajuda e compreensão nos cristãos, e muito menos
entre os padres — Rebeca sentiu-se no dever de acrescentar.
Anselmo sabia muito bem do que ela estava falando. Mas,
claro, não podia secundá-la.
— Engana-se. A ordem cluniacense se esforça por manifestar
compreensão e tolerância pelo seu povo. Sem dúvida, alguns
não esquecem que vocês enviaram Nosso Senhor à morte, e
por isso não conseguem oferecer a outra face...
— Mesmo que assim fosse, você gostaria de ser punido por
um crime cometido pelo avô do avô do avô de seu avô? —
respondeu ela, retomando o tom áspero com que o recebera.
— Na verdade, não. Consciente de que Cristo é amor, a
Igreja se esforça por proteger vocês, mas, infelizmente, nem
sempre consegue. E também, às vezes vocês inegavelmente
dificultam nossa tarefa, com seus tráficos suspeitos e a usura
exagerada de que se tornam culpados... — justificou-se
Anselmo.
— Por acaso a Igreja nos deixou outro modo de viver? —
replicou Rebeca, com veemência crescente. — Ela proíbe o
empréstimo a juros, e assim os cristãos nos procuram para
pedir dinheiro emprestado. Se nossas taxas são altas, é só
porque vivemos sob a ameaça constante de reações e leis
anti-semitas, e afinal precisamos nos garantir de algum
modo.
— Não sou tão obtuso como alguns de meus confrades a
ponto de lhe tirar totalmente a razão... — admitiu o monge.
Rebeca teve dificuldade em acreditar que havia encontrado
um eclesiástico capaz de mostrar uma mentalidade tolerante.
Ainda assim, decidiu aproveitar:
— Quanto à proteção que a Igreja teria nos concedido, não
há nada mais falso. Faz séculos que seus mais "insignes"
representantes não nos deixam em paz, alimentando as
discriminações e as perseguições. Conhece os escritos dos
chamados "Padres da Igreja"? Aqueles que vocês tornaram
"santos"? Conhece João Crisóstomo, o qual afirmava que o
povo hebreu era dominado pela depravação moral,
compunha-se de porcos e bodes capazes unicamente de
mutilar um ao outro, e que entrar numa sinagoga equivalia a
entrar num prostíbulo? E que os judeus seriam crucificados,
assim como crucificaram Cristo? E que para nós não seria
possível nenhuma expiação, e tampouco indulgência ou
perdão? Ou Tertuliano, que nos acusava de ter renegado
Deus? E Efrém, que nos acusava de ter trocado o Pai por um
bezerro, e o filho por um ladrão? E João Damasceno, para
quem o sábado foi dado aos judeus pela vulgaridade deles e
pela propensão ao acúmulo de bens materiais? E Maximino,
segundo o qual o povo hebraico era Caim? E Agostinho de
Hipona, para o qual os hebreus eram um povo escravo da
carne, inimigo de Deus e principal responsável pela morte
do Salvador, a quem aprisionaram, cobriram de injúrias,
amarraram, cingiram com uma coroa de espinhos,
desonraram, fustigaram, martirizaram, penduraram numa
cruz e perfuraram com uma lança? E Eusébio de Cesaréia,
que se comprazia com a destruição do povo de Israel em
razão de sua descrença? Ou Justino, o Mártir, que atribuía
nossa miserável condição de exilados à cólera divina? E
Hilário de Poitiers, que procurava demonstrar como os
judeus eram um povo perverso e desprezado por Deus? Ou
Gregório de Nissa, para o qual os hebreus eram deicidas,
inimigos da graça e da fé de seus pais, pecadores, homens
malvados, servos do demônio, víboras, caluniadores,
escarnecedores? E, por fim, o que dizer do Código
Teodosiano, o cânone jurídico do império, no qual os judeus
eram descritos como uma seita maligna e pecaminosa,
constituída por seres desprezíveis? O que você acha? Não é o
suficiente para induzir príncipes, reis e povo a nos
perseguirem?
— Mas... essas palavras estão ligadas às disputas e ao espírito
da época... — conseguiu dizer Anselmo, quase atordoado
pela veemência da moça, mas também pelo grau de
conhecimento dela. — Não têm um valor absoluto e
eterno...
— Por quê? Hoje o espírito mudou? Seja como for —
prosseguiu Rebeca —, todo discurso sobre o assunto é
comprometido por um erro básico: os judeus têm pouco ou
nada a ver com a morte do Cristo de vocês. Até porque
vocês parecem esquecer que Jesus era um dos nossos, pois se
tratava de um judeu...
Houve um momento de silêncio. Anselmo precisou de
alguns instantes para absorver o impacto dessa declaração.
— Ele era judeu, é verdade, mas também um novo tipo de
judeu, que seu povo não aceitou... — atrapalhou-se.
— Engana-se. Alguns dos ensinamentos de Jeshua que vocês,
cristãos, consideram interpretações pessoais da ortodoxia
hebraica eram compartilhados por outros rabis da época: as
opiniões dele sobre o divórcio eram as do sábio Shammai,
aquelas sobre o amor ao próximo eram professadas também
pelo rabi Hillel, e aquelas sobre o sábado e sobre a
ressurreição eram típicas dos fariseus. A definição "novo tipo
de judeu" é mais adequada ao são Paulo de vocês do que a
Jesus, ou melhor, Jeshua. Jeshua era um rabino que
interpretava a Torá e exortava as pessoas a confiar na Aliança
com Yahvé, dirigindo-se somente "às ovelhas perdidas de
Israel", criticando o pouco zelo dos sacerdotes e anunciando
a vinda iminente do reino de Deus, em particular para os
pobres e os oprimidos. Paulo virou as costas à Lei mosaica e
atribuiu a Cristo a instituição de uma nova Aliança, que
deixava Yahvé em segundo plano e visava a converter os
gentios. Aliás, na Epístola aos Gálatas, afirma que foi o
próprio Cristo quem lhe revelou a missão entre os pagãos.
Não teria sido necessário ressaltar isso, se tal missão estivesse
incluída nos ensinamentos de Jeshua... — Rebeca falava
agora com todo o ímpeto.
— Por acaso você está possuída pelo demônio? — rebateu
Anselmo, que continuava exortando-se a "consolar o aflito".
— Eu vim aqui para ajudá-la, mas não permitirei que o diabo
se manifeste pela sua boca. Você diz coisas sem sentido. Na
Epístola aos Romanos, são Paulo diz que Abraão é o pai de
todos os crentes, circuncidados ou não; na Epístola aos
Gálatas, afirma que está plenamente alinhado com a tradição
hebraica antiga, porque foram Moisés e todos os que se
reportam às obras da Lei que se afastaram da fé de Abraão,
corrompendo-lhe a pureza com a história do bezerro de
ouro. Se ele passa por cima da Lei de Moisés, é para
restaurar, através da Nova Aliança de Cristo, a pureza
originária. Foram os próprios hebreus que rejeitaram os
ensinamentos de Jesus, ensinamentos de amor e fraternidade
universal...
— Aí está, essa é justamente a maior mistificação! — replicou
Rebeca, acalorada. — Quem crucificou Jesus foram os
romanos, e não os hebreus. Eram eles que decidiam quem
seria enviado à morte, e não seus lacaios hebreus! Aliás,
entre os hebreus a crucifixão era considerada anátema.
— Os romanos podem até ter feito isso, mas a contragosto e
sob as instâncias dos sacerdotes hebreus... com todo o povo
atrás. E como afirma são Pedro em seu primeiro discurso
como missionário: "Portanto, que toda a casa de Israel saiba
com certeza que Deus constituiu Senhor e Cristo aquele
Jesus que vós crucificastes"! — rebateu Anselmo.
— Não! Os romanos crucificaram Jesus assim como
crucificaram um monte de sediciosos, numa época em que
os judeus se dividiam entre os rebeldes contrários à
dominação estrangeira e os colaboracionistas. Os Evangelhos
descrevem Jesus sendo aclamado pelo povo quando entra
em Jerusalém, capturado às escondidas para não fomentar
rebeliões e, um instante depois, desprezado e vilipendiado
pela massa, que chega a preferir libertar Barrabás, em vez
dele: uma conduta totalmente incoerente, fruto dos esforços
dos redatores dos escritos, ou dos copistas sucessivos, no
sentido de cancelar as responsabilidades dos romanos. Aliás,
a descrição do processo é tão absurda que não se
compreende como lhe foi dada credibilidade. O uso judaico
não previa que se instituíssem processos no dia de Páscoa e
nos dias festivos em geral; a instrução ocorre na calada da
noite e a sentença é emitida no mesmo dia, um
procedimento, este último, previsto apenas em caso de
absolvição. Desenvolve-se numa casa particular e não em
público, na área do Templo. Por fim, faltam as duas
testemunhas necessárias para a condenação à morte.
Acrescente-se, ainda, que entre os quatro evangelistas
sequer existe acordo quanto às acusações...
"O próprio Pôncio Pilatos, de maneira totalmente
inverossímil, foi descrito como um procurador com pouca
autoridade e personalidade fraca, vítima das circunstâncias, e
que se comporta, ainda por cima, como um hebreu do
Deuteronômio, no qual está escrito: 'E todos os anciãos dessa
cidade lavarão as mãos sobre a novilha desnucada no leito da
torrente e dirão: nossas mãos não derramaram este sangue.'
E todas essas mistificações, para quê? Para esconder um fato
que, de outro modo seria óbvio: a execução de um sedicioso
por parte dos romanos."
— O que você diz é absurdo. Jesus não era um sedicioso! —
retrucou Anselmo, fremente de indignação. — Era um
pacifista convicto e não dava trabalho aos romanos. Se tanto,
aos hebreus...
— Ah, é? E por que no Evangelho de Lucas os escribas e os
sumos sacerdotes afirmam "Encontramos aquele que
instigava nosso povo, impedia-o de pagar os tributos a
César"?
— Já que cita os Evangelhos, você deveria concluir a frase:
"... e afirmava ser o Cristo, um rei". Essa é a acusação
completa!
Provavelmente, um acréscimo posterior. Jeshua não se dizia
um rei, embora talvez se considerasse consagrado, ungido
por Deus, ou seja, um "cristo", em grego, tradução do
aramaico meshishá. Por outro lado, também pode ser que o
povo o visse como ponto de referência da hostilidade contra
os romanos e lhe atribuísse um título régio. Aliás, Flávio
Josefo, a única testemunha direta que nos disse como foram
as coisas naquele período conturbado, afirma textualmente:
"Pessoas desprovidas de notícias de primeira mão, baseando-
se em falatórios e histórias sem fundamento, escrevem
relatos confusos, enquanto as afirmações das testemunhas
oculares são falsificadas para adular os romanos ou denegrir
os hebreus, e exaltação ou difamação, tomam o lugar da
representação verídica dos fatos." Como vê, eu sei de cor
esse trecho Aproveitando o silêncio embasbacado de
Anselmo, Rebeca prosseguiu:
— Reflita, padre! Todos os textos inseridos no cânone de
vocês não são relatos históricos, mas documentos cuja
intenção é converter as pessoas! Não lhe basta o que Lucas
escreve sobre a exortação de Jeshua a não pagar os tributos?
Bem, então pense na ocasião em que Pilatos o manda a
Herodes Antipas, que lhe pergunta se ele é um "galileu".
Quem quer que conheça a realidade hebraica daquele
período sabe muito bem que o termo "galileu" não se refere
à proveniência geográfica, mas à eventual pertença ao
movimento fundado por Judas, o Galileu, justamente na
época em que Jeshua nascia. A época da primeira revolta
hebraica contra o domínio romano, cujo promotor, que
também pode ser considerado o primeiro zelote, acabou,
veja que coincidência, crucificado junto com seus
seguidores...
— Jesus, um zelote? Esta é a mais nefanda das heresias! Jesus
invocava a paz universal! — reagiu finalmente o monge.
Mas não conseguiu continuar.
— A versão do Jeshua pacifista é outra mistificação para
torná-lo aceitável pelos dominadores — logo recomeçou
Rebeca. — Os seguidores de Paulo atribuíram a Jeshua as
expectativas de Isaías, segundo o qual o Príncipe da Paz
orientaria o povo a transformar as espadas em relhas de
arado. Aliás, parece mesmo que essa estratégia compensou,
não? Dificilmente o cristianismo teria sobrevivido, se não
bajulasse os conquistadores...
— Os Evangelhos dão um quadro bem preciso e inequívoco
de Jesus — conseguiu dizer Anselmo. - E é uma mensagem
de paz, fraternidade e amor. Eu também conheço o Velho
Testamento, e sei, por exemplo, que Jeremias considerava os
nacionalistas responsáveis, com sua intransigência, por atrair
desventuras sobre o povo de Israel; ou melhor, estava
convencido de que o próprio Deus queria a submissão dos
hebreus a um exército estrangeiro e pagão. Por isso, foi
considerado traidor pela comunidade religiosa hebraica.
Exatamente como Jesus...
O monge tomou fôlego e concluiu sua tirada, com uma
maldade resultante da exasperação:
— Quem afirmar o contrário é blasfemo e de má-fé... ou
hebreu. Ou, quem sabe, muçulmano...
— E é em nome da paz, da fraternidade e do amor que vocês
vieram até aqui para destruir, estuprar, matar e conquistar?
— Uma nova voz entrara na inflamada discussão.
Jamal.
Anselmo ficou petrificado.
— Você... você conhece o idioma latino? — conseguiu
perguntar, após alguns instantes.
— Estou esperando sua resposta — devolveu o árabe.
— Viemos aqui apenas para retomar o que vocês subtraíram à
cristandade, séculos atrás, logo após o desaparecimento de
seu profeta, destruindo, estuprando, matando e
conquistando... — disse finalmente Anselmo.
— Se é por isso, os hebreus também tomaram a Palestina
combatendo e matando, no tempo do rei Davi — explicou
Jamal. — Não se pode justificar aquilo que se faz com base
no que aconteceu séculos antes. Aliás, esse é o mesmo
princípio usado por vocês, cristãos, quando perseguem os
hebreus. Mas Rebeca acabou de lhe explicar que ele se
fundamenta numa mentira.
— Não me parece que vocês, muçulmanos, sejam assim tão
mansos. Quem pode negar que sua religião é baseada na
guerra, ao passo que a cristã o é no amor? O Corão promove
a sensualidade; o cristianismo, a continência...
— Quero lhe recordar que, no Corão, lê-se: "Os crentes
combatem pelos seus bens e assumindo as conseqüências no
caminho de Deus" — respondeu o egípcio. — E ainda: "A
jihad mais sublime é quando alguém diz uma palavra
verídica na presença de um soberano tirânico"; "Rechaça o
mal com o bem, e quem é teu inimigo se tornará amigo
cheio de ternura". Em relação à suposta sensualidade, esta é
desmentida pela prescrição de um mês de jejum diurno por
ano e da abstenção completa de vinho, assim como pela
recomendação da prece cinco vezes por dia; além disso, o
zakat, o efeito purificador da beneficência, prevê que um
significativo percentual das rendas dos fiéis seja destinado
aos pobres: "São apenas dois os homens a invejar
verdadeiramente: aquele a quem Alá deu a Escritura e
transcorre com ela as noites; e aquele que de Alá recebeu a
riqueza e a distribui dia e noite com mão caritativa", diz o
Corão, no qual se lê também: "Quem não dá por amor ao
próximo não dá por amor a Deus." Ora, admitindo-se que
Jesus fosse aquele descrito pelos Evangelhos, vocês não
conseguiram respeitar nem mesmo aquela mensagem de
amor: os valores da glória, da avidez e do sangue eclipsaram
os propugnados pelo seu Jesus.
— Não conheço suficientemente o Corão para contestar suas
citações com outras que, pelo que sei, afirmam exatamente o
contrário, ou seja, a imposição de sua crença mediante a
guerra... — objetou Anselmo. — Em meu modo de ver, o
mártir cristão é aquele que morre por sua fé sem opor
resistência; e a história dos primeiros cristãos está cheia de
exemplos disso. Já o mártir muçulmano é alguém que morre
por sua fé no campo de batalha.
— Mas só para se defender! —- retrucou ainda o árabe. —
Está escrito: "Combatei a fundo no caminho de Deus,
combatei contra quem vos combate, mas não sejais os
primeiros a combater. Deus não quer bem aos agressores."
Mas, sem dúvida, nós costumamos sepultar o cadáver de um
soldado com as roupas ainda sujas de sangue e sem as
abluções habituais, a fim de que, no Dia do Juízo, que para os
mártires se segue imediatamente à morte, o caído possa exi-
bir suas vestes como prova de heroísmo. O próprio Profeta
disse: "Eu gostaria de combater pela causa de Deus para
sofrer o martírio, e depois ressuscitar e ser novamente
martirizado."
"E, quanto à imposição religiosa, o Livro afirma: 'Que não
haja coerção em matéria de liberdade religiosa.' Não
pretendemos ser os únicos, mas somente os preferidos por
parte de Deus, e não somos intolerantes. Vocês ousariam
negar que, sob o domínio muçulmano, outras crenças
viveram e prosperaram? A própria presença de hebreus e
cristãos ortodoxos dentro das muralhas de Jerusalém é a
prova disso. A verdadeira jihad dos crentes é aquela voltada
para si mesmos, e é de natureza exclusivamente moral, para
combater as forças do mal que querem desviá-los do
caminho reto e roubar-lhes a alma."
— Eu não diria exatamente que aquilo que vocês fizeram
quando conquistaram quase toda a costa do Mediterrâneo,
meio milênio atrás, pode ser definido como apenas uma
guerra defensiva, ou moral — observou Anselmo. — E os
não muçulmanos subjugados a vocês só podem viver
pagando pesados tributos... ao passo que, entre nós, os
hebreus ficam ricos.
— Não faz nenhum sentido confrontar os ideais próprios
com as ações de outrem — disse Jamal. — Seria como
comparar o homem com Deus. Enquanto homens, somos
falíveis e perfectíveis. Erramos com uma freqüência
vergonhosa. Mas os ideais é que devem ser confrontados
entre si. Ou então as ações, mas somente num plano estri-
tamente humano. A verdade de Deus não pode ser limitada a
uma só religião. Segundo o Corão, é justo que existam mais
crenças, e que estas entrem em competição recíproca. "Se
Deus quisesse, teria feito de vós uma comunidade única, mas
não fez. Ele quer vos colocar à prova por meio daquilo que
vos revelou. Disputai uns com os outros para fazer o bem,
visto que vosso retorno será rumo a Deus. Só então Ele vos
iluminará quanto às coisas sobre as quais estiverdes em
discórdia", lê-se.
"Veja bem, monge, primeiro eu o escutei dizer a Rebeca
que, segundo Paulo, os hebreus se desviaram do pacto entre
Deus e Moisés e que o cristianismo teria restaurado a fé
antiga. Rebeca, por sua vez, acusou vocês, cristãos, de terem
criado um novo pacto, introduzindo a figura de Cristo. Eu
poderia continuar esta discussão até o infinito, dizendo-lhes,
como está escrito, que Abraão não era hebreu nem cristão,
mas muçulmano, e que, diferentemente daqueles que se
desviaram, o Islã se liga diretamente à religião de Abraão,
evitando, porém, os caminhos errôneos percorridos por
hebreus e cristãos.
"Aqui, cada um pode acusar os outros de terem se desviado
da fé do nosso pai comum, Abraão, cujos filhos, Isaac e
Ismael, deram vida às respectivas raças. Eu prefiro recordar o
trecho do Corão no qual se narra o que aconteceu aos
cristãos da Arábia sul-ocidental há quase meio milênio,
quando um tirano iemenita tentou obrigá-los a abjurar
cortando-lhes uma parte do corpo, a começar pela mão
direita, sempre que respondiam afirmativamente à pergunta
sobre se eram cristãos. Nele se lê: 'Malditos aqueles que se
sentaram em círculo para desfrutar do espetáculo daquilo
que sofriam os crentes, culpados unicamente de haver
acreditado no Deus poderoso e digno de louvor', como
prova do quanto nós, muçulmanos, apreciamos a devoção a
Deus.
"Se as três religiões semitas parassem de se guerrear e
reconhecessem suas raízes comuns, todas poderiam
subscrever uma profissão de fé comum, segundo o que
afirma o Corão: 'Cremos naquilo que vos foi revelado. Nosso
Deus e vosso Deus são um só, e nele somos muslimun.'"
— Eu certamente não quero ser "muçulmano". Sou cristão e
disso me vanglorio, embora não possa criticar seu desejo de
paz e fraternidade — opinou Anselmo.
— No entanto, não deveria se envergonhar de ser muslimun
— provocou-o Jamal. —- Sê-lo implica, literalmente, uma
dedicação que tem Deus como objeto e, como fim, a
obtenção da paz. Todo homem de bom-senso e de
espiritualidade deveria tender a isso, ainda que sob formas
diversas.
— Você é um soldado bem estranho. Fala como um homem
de religião, mais do que como um combatente. Talvez não
devesse ter empreendido a carreira das armas... — observou
Anselmo, bem menos encolerizado do que quando discutia
com Rebeca.
— Na fé muçulmana — prosseguiu o árabe —, em geral não
existem sacerdotes, ministros de culto, nem intermediários
entre o homem e Deus. O Livro é mais do que suficiente. O
homem e Deus não podem se comunicar diretamente. Está
escrito: "Por que tem o homem de pretender que Deus
converse com ele? Deus não o faz senão por revelação ou
por trás de um véu ou, ainda, enviando um mensageiro que
revele, com Sua permissão, aquilo que Ele quer."
"Assim, cada fiel é responsável pelo conhecimento da
Escritura revelada. Vocês, cristãos, delegam essa relação
entre o homem e Deus a padres como você, e isso comporta,
inevitavelmente, que os fiéis sejam mais mornos, e até mais
ignorantes, permita-me dizer, quanto aos seus preceitos
religiosos."
— Se é por isso, nem mesmo Jeshua falou explicitamente de
ministros de culto. E outra das invenções da Igreja nascida
depois dele... — interveio Rebeca, que até então havia
deixado Jamal falar, cheia de curiosidade pela capacidade
dialética do egípcio.
— Ah, é? Então, o que seriam os apóstolos? — respondeu
Anselmo, recuperando na mesma hora a expressão irada que
as palavras do árabe haviam atenuado progressivamente.
— Somente uma metáfora do fato de que a autoridade dele se
estendia sobre as doze tribos de Israel...
— Preste bem atenção, mulher — retrucou Anselmo. — Se,
cada vez em que eu vier lhe prestar socorro, você me
receber com essas teorias blasfemas, terá de sofrer tanto
quanto os outros, porque eu não virei mais, e darei um jeito
para que mais ninguém a ajude. Fui claro? — acrescentou,
tentando assumir uma atitude ameaçadora, que sua cara,
ainda rubicunda, apesar das privações, tornava muito
improvável.
E, de fato, Rebeca não o levou a sério, deixando aflorar um
sorriso que contagiou Jamal. Anselmo foi embora
vociferando. Mas aquilo que escutara dos dois interlocutores
logo o induziu a refletir. A pergunta de Ricardo, que
desejava saber se ele havia auxiliado a jovem, respondeu com
um inaudível "hum-hum", avançando absorto nos próprios
pensamentos sem sequer dirigir um olhar ao normando.
Naquela noite, não pregou o olho.
Inês, em contraposição, dormiu bem. Havia seguido
Anselmo, instigada pela curiosidade de conhecer a mulher
pela qual Ricardo parecia ter tantos cuidados. E observara a
discussão entre eles por todo o tempo, a distância, escondida
atrás de uma carroça. Tinha notado, com prazer, os traços
rudes da suposta rival, e vira-os se tornarem ainda mais duros
quando a outra se acalorava; tinha avaliado seu físico maciço,
ao menos em comparação com o dela mesma; tinha escutado
sua voz quase estridente, e até petulante, que não transmitia
nem jamais poderia transmitir nada de sensual.
E, sobretudo, deliciara-se com a total ausência de
feminilidade naquela judia desmazelada e triste.
Mas claro, concluiu, satisfeita: poderia até ajudar uma mulher
assim. E talvez, ajudando-a, conquistar Ricardo através dela,
revelando-se confiável e gentil aos olhos do normando.
Coisa que não deveria privá-la do prazer de continuar
mostrando indiferença a ele...
O relatório ao governador Iftikhar ad-Dawla havia lhe tirado
as últimas forças. E Firuz precisava delas, para a tarefa que se
aprestava a cumprir. Tampouco poderia evitá-la; sabia que
Jamal gostaria que ele a realizasse.
Por todo o fatigante trajeto do mar de Sal até Jerusalém,
sozinho, a pé, sedento, sob o sol escaldante, temendo ser
picado por uma tarântula ou surpreendido por uma patrulha
cristã em missão de reconhecimento, Firuz havia pensado,
sobretudo, em como explicar a Sara a captura de sua irmã.
Tinha visto a judia se afastar, com os pulsos amarrados, no
séquito dos infiéis e ao lado de Jamal, e agradecera a Alá que
seu comandante ainda estivesse vivo; se Deus decidira
poupá-lo, significava que desejava dar-lhe a possibilidade de
ser libertado pelo seu fiel guarda ou de ele mesmo se libertar,
mais cedo ou mais tarde.
Embora nunca tivesse conversado com a mais jovem das
duas hebréias, Firuz sabia que aquela notícia seria para ela
um duro golpe. Era frágil, a moça, e totalmente dependente
da irmã. Bonita, sem dúvida, mas desenxabida. Incapaz. Um
peso morto. Uma mulher para jamais ser escolhida como
esposa. No entanto, o chefe dele a queria mais do que
qualquer outra coisa.
Isso o obrigava a cuidar dela. Coisa que não o agradava. Não
o agradava nem um pouco. Mas o que o agradava não tinha
importância. Agora que o emir caíra prisioneiro dos infiéis,
cabia a ele protegê-la. E o faria, ao menos enquanto não
descobrisse um modo de fazer seu comandante entrar de
volta em Jerusalém.
Desejou que Jamal se empenhasse em permanecer vivo.
Desejou que ele não provocasse os carcereiros, que resistisse
aos trabalhos pesados e às privações aos quais o
submeteriam. Desejou que os cristãos se obstinassem mais
um pouco no assédio, para que ele tivesse tempo de ir
libertar o emir. Seguramente, pensou, enquanto entrava no
bairro judeu, essa seria uma tarefa mais agradável, e talvez
mais fácil, do que aquela que o esperava dali a pouco. Ao
longo da vida, havia enfrentado em batalha muitos
momentos desesperadores, e jamais hesitara; formara muitos
jovens guerreiros, enquadrara companheiros presunçosos,
envergonhara superiores incapazes, sempre demonstrando
saber captar os potenciais e as fraquezas de quem lhe estava
diante. Ganhara a estima dos seus comandantes, não só por
sua coragem na guerra, mas também e, sobretudo, pela
sensatez que parecia transparecer de suas poucas palavras.
Mas, com uma mulher, nunca havia dialogado. Bem, às
vezes trocara umas palavras com companheiras ocasionais.
Mas só frases fugazes, ordens, informações práticas, nada que
se assemelhasse a uma conversa. Nunca imaginara que elas
entendessem. Ou melhor, que tivessem vontade de
entender. Sempre as considerara uma espécie de ornamento,
nem sequer muito interessante, com o qual a interação
representava um desperdício de tempo. Pelo menos,
enquanto não escutara Rebeca falar.
Aquela, sim, era uma mulher capaz de entender. Ele não
havia apreendido tudo o que ela dizia a Jamal, mas
compreendera o suficiente para julgá-la uma mulher de
personalidade e intelecto incomuns. Era alguém que
entendia. Era curiosa, e isso o agradava. Jamais havia
escutado outras mulheres fazerem perguntas ou propô-las a
si mesmas.
Sara, ao contrário, parecia a Firuz mais uma das tantas belas
estatuetas desprovidas de substância, com o agravante de ter,
em comparação com as mulheres muçulmanas, uma
desagradável tendência a se lamentar e a querer centralizar
as atenções sobre si mesma.
Embora tivesse tido muito tempo à sua disposição, diante da
porta da moradia das duas irmãs o turco ainda se viu
desprovido de palavras que lhe parecessem adequadas às
circunstâncias. Bateu mecanicamente, quase desejando que
Sara não estivesse em casa. Mas bem sabia que, sem a irmã,
ela nunca iria a lugar algum.
De fato, a jovem veio abrir a porta, ainda que após uma
demora que o fizera imaginá-la ausente.
— Sim? — disse Sara, com expressão sonolenta e entediada.
Seus cabelos estavam desgrenhados e o rosto não revelava
nenhum cuidado. Mesmo assim, continuava bonita.
— Salam — limitou-se a dizer Firuz, aguardando que ela
dirigisse a conversa, na esperança de que isso lhe facilitasse
as coisas.
Mas Sara não parecia tê-lo reconhecido. Depois de mais
alguns instantes de silêncio sob o olhar interrogativo da
jovem, ele foi obrigado a se apresentar.
— Sou guarda pessoal de ilustre emir Jamal al-Ashraf.
Lembrar eu? — arriscou, em seu grego aproximativo.
— Ah, sim, é verdade. Eu deveria reconhecê-lo. Embora
vocês, muçulmanos, sejam todos iguais, uma cara feia como
a sua eu devia identificar de imediato — respondeu ela, com
a expressão já não entediada, mas aborrecida. — Onde está
minha irmã? Vocês não foram juntos?
— De fato. Mas só eu volta — disse ele, interrompendo-se
logo. Percebera que havia sido brutal, mas não sabia como se
comportar diferentemente.
— Como assim? Como assim? — exclamou ela, aflita.
— Os outros todos prisioneiros ou mortos. — Realmente,
não sabia fazer melhor.
— Mortos? Mas como, mortos? Minha irmã, morta? E eu
sozinha, sem mais ninguém que cuide de mim? — gritou
Sara na cara dele.
Firuz notou que ela não pensava nem um pouco em Jamal.
Fez menção de abrir de novo a boca, mas Sara o cumulou de
insultos:
— Porco muçulmano, cachorro sarnento! E você não a
defendeu? O emir o levou para defendê-la! Para quê, diabos,
você serve agora? — Depois passou às vias de fato,
esbofeteando-o, até que ele conseguiu lhe segurar os pulsos.
— Eles não mortos. Estavam juntos. Eles prisioneiros —
disse, mas os gritos dela abafaram suas palavras.
Tentou repetir a informação, mas Sara lhe desfechou um
pontapé um instante antes de perceber o que o turco queria
dizer. Só então se acalmou. Mas não com as palavras.
— E o que muda com isso? Vão matá-los, mais cedo ou mais
tarde, e isso depois de lhes infligir quem sabe quantos
sofrimentos! E eu vou ficar sozinha do mesmo jeito!
— Você não sozinha. Eu cuida você. Esta é vontade meu
comandante.
— Ah, é? E de que me serve? Você só sabe combater e ficar
aí estático, do lado de fora da porta. Eu preciso de muito
mais! — replicou Sara, a quem não sorria a perspectiva de
ver sempre por perto aquele tipo desagradável. A muito
custo, havia suportado Jamal, mas este turco ela não podia
nem ver.
— Eu vai libertar sua irmã... e Jamal al-Ashraf. Mas, agora,
você diz o que precisa, e eu faz — respondeu Firuz, que
precisou recorrer a toda a sua força de vontade e à paciência
de que era dotado.
— Preciso de pão. Estava indo me abastecer, mas agora não
quero mais sair. Essas notícias me transtornaram. Cuide
disso, mas depressa, estou com fome.
— Está bem — disse o turco, sem se alterar.
E foi saindo, mas justamente nesse momento o muezim
chamou os crentes para a prece. Então ele avançou alguns
passos, distanciando-se um pouco da casa e detendo-se com
o sol à sua direita.
Incrédula, Sara o viu pronunciar a frase Allahu akbar de
braços erguidos. Transpôs depressa a soleira da casa e se
aproximou dele, gritando-lhe na cara:
— Eu lhe pedi um favor e você pensa nos seus assuntos? E
assim que vai cuidar de mim? Estou com pressa, entendeu?
Vá logo, senão eu vou contar ao emir, quando ele
reaparecer!
Sem dizer uma palavra, nem desviar o rosto da direção de
Meca, Firuz afastou a jovem com um braço, arremessando-a
para a porta por onde ela saíra. Em seguida retomou a prece,
recitando a Fatiha, a primeira surata do Corão, ajoelhando-se
e apoiando a testa e as palmas das mãos na poeira da rua.
Sara ficou olhando-o por mais alguns instantes, com aversão
e desprezo, antes de se reerguer e entrar em casa,
abandonando-se então a um pranto copioso que ela não
interrompeu nem mesmo quando Firuz, pouco tempo
depois, retornou com o pão.
XVIII
Trabalhar com este calor é uma forma de tortura, pensou
Ricardo. Na verdade, combater também seria, mas, nesse
caso, a exaltação e a excitação, além do medo, suprimem
tanto o calor quanto o frio. Içar traves sobre os ombros,
serrá-las, pregá-las uma à outra não é exatamente o tipo de
atividade, concluiu, que envolve o indivíduo a ponto de
fazê-lo esquecer as condições sob as quais está agindo.
No entanto, tinha consciência de que as esperanças restantes
de conquistar Jerusalém dependiam daquele trabalho.
Godofredo de Bouillon e Raimundo de Toulouse haviam,
cada um, confiado a um engenheiro de confiança a
construção de uma torre móvel, além de uma série de
máquinas de aproximação e de arremesso. E trabalhava-se
com afinco, oficialmente porque a obra devia ser concluída
antes da chegada do exército egípcio.
Ricardo, porém, tinha a impressão de que os dois
comandantes estavam obrigando os homens a turnos
forçados, a fim de se superarem reciprocamente. A
construção das torres parecia ter se tornado uma
competição, como se o prêmio para quem terminasse
primeiro fosse o comando geral do assalto.
Ainda assim, os soldados não se poupavam. Os chefes
haviam divulgado que a água, racionada, seria distribuída em
maior quantidade a quem tivesse contribuído para a
construção do maquinário; por isso, todos se dispunham a
suar e afadigar-se mais, desde que experimentassem de vez
em quando a embriaguez de sentir a água deslizar pelo palato
ardente e pela garganta ressequida.
Ricardo, por sua vez, não havia escolhido participar.
Raimundo decidira que ele assumisse a função de ajudante
do engenheiro Guilherme Ricou, e, como tal, o normando
organizava as equipes de trabalho e estabelecia os turnos.
Também devia se ocupar dos prisioneiros muçulmanos, aos
quais tinham sido atribuídas as tarefas mais pesadas e
ingratas. Resolvera manter consigo Emanuel, o único em
quem confiava totalmente, mas não era fácil tê-lo ao alcance
da mão: o grego não sabia nem queria ficar parado e evitava
até ser revezado, unindo-se à equipe seguinte.
— O que você ainda quer demonstrar? — perguntou-lhe
Ricardo, pingando suor, embora não estivesse labutando.
— Seus companheiros têm memória curta, e é melhor
considerar cada dia como o primeiro, para evitar que me
dificultem demais a vida — respondeu o bizantino, sem
parar de serrar a trave com a qual estava lidando.
— Estranho. Até parece que, para você, esta é uma "cruzada"
mais do que para qualquer outro. Você está realmente
ganhando a remissão dos seus pecados — comentou o
normando.
— E você? Também não considera estar ganhando o perdão
do Senhor? Já percorreu uma longa estrada, desde quando se
agregou ao exército — replicou o grego.
— Bah! Não estou aqui por isso — disse Ricardo, dando de
ombros. — Se alguém pecou na vida, certamente não é
matando que poderá expiar seu pecado, apesar do que os
padres afirmam. Estou aqui somente para me tornar um
guerreiro, como era meu pai. Antes de vir para a Terra Santa,
a ação mais corajosa que pratiquei foi tirar mel de uma
colméia. Afora isso, meus dias nos bosques transcorriam em
busca de córtex, que eu dava a quem extraía dele o tanino
para curtir couro, de cipós para trançar e fazer cordas ou de
ramos a queimar para fazer cinzas que, depois, eu entregava
aos fabricantes de vidro e sabão.
— Atividade bem estranha para um tipo ambicioso como
você. Parece que se arranjava um pouco em tudo, sem ter
um verdadeiro ofício — comentou seu interlocutor.
— Uma atividade indispensável — frisou Ricardo. — Por
duas razões: eu não queria me comparar com os outros,
porque temia a avaliação deles, e tampouco aprender a fazer
verdadeiramente alguma coisa, a fim de me iludir achando
que só sabia ser guerreiro e me lamentar porque não me fora
dada essa possibilidade... Na realidade, eu tinha apenas medo.
Medo de não estar à altura da minha ambição, e do meu pai.
Emanuel pensou que, também para seu amigo, Manzikert
devia ter representado uma experiência devastadora, por
algum motivo que Ricardo não queria lhe revelar; aliás, ele
também não gostava de falar daquele dia. Fosse como fosse,
não pôde evitar perceber que os dois haviam reagido de
maneira oposta. Ele se lançara à carreira militar para buscar a
expiação; o outro havia fugido dela, para mais tarde ver na
cruzada, depois de muitos anos, uma oportunidade de
remissão.
— Vou falar com o amigo da judia. Ele parece estar
trabalhando mais do que qualquer outro — disse Ricardo,
interrompendo as reflexões de Emanuel. — Afora você,
naturalmente... — acrescentou, com um sorriso.
O normando se aproximou de Jamal, que se arrastava sob o
sol, carregado de traves como uma mula. Ajudou-o a
sustentar o peso, sob o olhar interrogativo do guarda mais
próximo.
— Pare um instante e venha comigo. Você realmente
merece beber água — disse.
— Não preciso. Sou um soldado — respondeu Jamal, depois
de terminar o trajeto e descarregar a madeira. — Em vez
disso, dê minha ração a Rebeca. Para ela é vital, e não creio
que, entre vocês, alguém se preocupe com uma judia.
— Como quiser — retrucou Ricardo, impressionado pela
altivez do egípcio, mas também curioso pela atitude
protetora que ele demonstrava em relação à moça.
Gostaria de levar pessoalmente a água para ela. Estava
ansioso por lhe perguntar pela irmã, a quem estava agora
bem decidido a reencontrar, uma vez conquistada Jerusalém.
Cuidaria de protegê-la dos excessos dos companheiros, e aos
diabos com o butim! Estava ali para fazer carreira no
exército, e não para ficar rico; se, a esse objetivo, ainda
acrescentasse a mulher mais bonita que ele se lembrava de
ter visto algum dia, poderia se considerar satisfeito.
Infelizmente, não podia se afastar do acampamento por
muito tempo. Então, limitou-se a ir até o setor dos civis, no
qual previa encontrar Anselmo. Localizou-o junto de um
altar rústico, onde o monge se preparava para celebrar uma
missa. Inês o acompanhava, com vinho e hóstia nas mãos.
Ricardo não conseguiu reprimir um sorriso, pensando
naquela bizarra aproximação entre sacro e profano.
— Pode levar este jarro d'água para a judia? — pediu ao
monge. Olhou para Inês e acrescentou: — Quem envia é o
árabe amigo dela...
— Não percebeu que eu estou para celebrar a missa? —
retrucou Anselmo, irritado. — Peça a algum outro, se estiver
com pressa — concluiu, virando-lhe as costas.
— Mas eu posso ir. Sem mim você se arranja, não? —
interveio Inês, contente por aproveitar a oportunidade de
satisfazer sua curiosidade em relação à prisioneira.
O normando ficou desconcertado, exatamente como a
mulher queria. Mas lhe cedeu o jarro, enquanto Anselmo
resmungava alguma coisa sobre o fato de que, agora,
precisaria encontrar outra pessoa para lhe passar a hóstia e o
vinho no momento da comunhão. Sem perda de tempo,
Inês se encaminhou para o recinto dos prisioneiros. Estavam
todos na labuta, naturalmente, menos Rebeca.
— Eu lhe trouxe água! — gritou, para atrair a atenção dela.
A judia se aproximou.
— E você, quem é?
— Uma amiga do monge Anselmo e de Ricardo, não tenha
medo. Eles me enviaram. Meu nome é Inês. Como se sente?
— Dentro das muralhas ficava-se melhor. Lá não nos falta
nada. Aqui, porém, acho que quase todos passam mal, e não
só os prisioneiros — respondeu Rebeca, com um esboço de
agradecimento, enquanto recebia o jarro.
— Apesar de tudo, confiamos que o Senhor nos dará a
vitória. Trata-se de agüentar até que as máquinas fiquem
prontas. Bom, eu tenho uma curiosidade: por que Ricardo se
preocupa tanto com a sua sorte? — emendou Inês, puxando
logo o assunto que a interessava.
— Qual nada! — respondeu Rebeca, desconsolada. — Não é
com minha sorte que ele se preocupa, mas com a da minha
irmã. Acho que se impressionou muito com ela quando a
conheceu, três anos atrás. Está me tratando bem por causa
dela...
Inês sentiu algo desagradável no estômago. Então, a rival
existia, embora não fosse aquela que se encontrava à sua
frente. Achou que precisava de uma amiga e cúmplice, e
ninguém melhor do que esta moça podia assumir tal papel:
conhecia bem a rival e, além de tudo, ficaria mais contente
por ver Ricardo com uma cristã do que tendo- o como
cunhado.
— Você gosta de Ricardo? — perguntou, à queima-roupa.
Rebeca hesitou.
— Bem... é um cristão...
— Não lhe perguntei de que religião ele é. Perguntei se você
gosta dele — retrucou Inês, mais decidida.
— Sem dúvida, é um homem fascinante. Presumo que agrada
a muitas mulheres. Aliás, minha irmã também agrada a todos
os homens que a conhecem...
"Decididamente, ela preferiria vê-lo comigo do que com a
irmã", calculou Inês. Resolveu que lhe convinha torná-la sua
amiga.
— Você é a mulher dele? — perguntou Rebeca.
— O quê? Oh, não! — respondeu Inês. — Eu sou a mulher
de todos e de nenhum. Estou aqui para aliviar os
padecimentos dos pobres soldados, sobretudo...
— Ah! — exclamou Rebeca, após um instante de hesitação.
— Compreendo. E como veio até aqui para exercer seu
ofício?
Inês não se sentia levada a buscar a amizade e a confiança de
Rebeca somente por pura estratégia feminina.
Instintivamente, simpatizava com aquela judia. Talvez
porque ela era feia. Então, decidiu lhe revelar aquilo que
havia ocultado de todos:
— Veja... aqui, todos afirmam estar na Terra Santa para obter
o perdão de seus pecados — explicou. — Mas eu acho que,
em vez disso, eles buscam outras coisas, bem mais terrenas,
continuando a pecar. Não acho que devo expiar meu ofício.
Afinal de contas, não faço mal a ninguém, pelo contrário:
evito que muitas donzelas virtuosas acabem vítimas dos
apetites dos homens. Mas tenho algo a expiar, sim. E
pertence ao meu passado. Não fui uma boa cristã, e espero
que o Senhor possa me perdoar, um dia. Meus pais eram
camponeses e não davam muita importância ao que os
padres pregavam, durante as missas às quais a Igreja obrigava
as pessoas da aldeia a assistir. Eles praticavam... magias,
feitiços, manobras diabólicas, segundo os padres. Aliás, como
todos na aldeia. Mas estavam apenas respeitando as tradições
e as superstições de seus antepassados, antes que a Igreja
chegasse aos campos e impusesse seus ritos e suas preces.
Para nossa família, era normal fazer sortilégios com
meimendro nas épocas de seca, recitar encantamentos
durante o uso de ervas medicinais, tratar da sarna ingerindo
urina ou a própria pele morta, ou ainda uma sopa de piolhos,
sentar-se numa encruzilhada sobre um couro de touro para
adivinhar o futuro, adorar o sol, a lua e as estrelas...
— O cristianismo é uma derivação direta do paganismo, mais
que do judaísmo — interveio Rebeca, falando mais consigo
mesma do que com a interlocutora. — Hoje, estou
convencida disso. Algo que foi muito bem compreendido
pelo imperador Constantino e pelos que o ajudaram a impor
a religião cristã como religião de Estado...
— Como? — disse Inês, que não tinha entendido coisa
alguma.
— Nada. Continue.
— Em suma, cresci assim, digamos — recomeçou a
prostituta. — Meu pai morreu quando eu ainda era menina.
Teve fogo de santo antônio, num período de grande
carestia, durante o qual precisamos nos arranjar com o pão
feito com farinhas estragadas. Minha mãe tentou ressuscitá-
lo esfregando as mãos dele com um ungüento dado por uma
mulher da aldeia que sabia fazer poções. O padre, quando
veio benzer o corpo, surpreendeu-a assim e, em vez de
confortá-la, decidiu lhe impor a penitência de vinte dias a
pão e água. Mas não tínhamos pão, e por isso ela só
consumiu água. Morreu em poucas semanas, me deixando
somente uma faca que havia sido de meu pai. Comecei cedo
no meu ofício, para sobreviver. Aos catorze anos,
engravidei. Apesar da vida que levava, eu gostaria de criar
um filho. Mas não tive essa possibilidade: o bebê nasceu
morto. Na aldeia, alguém me dissera que as crianças mortas
sem ter recebido o batismo retornam à Terra e perseguem os
vivos. Assim, na mesma noite em que ele foi sepultado, eu o
desenterrei e perfurei seu coração com um bastão pontudo.
Inês deu um suspiro profundo e recomeçou:
— Depois o levei dali, para escondê-lo em outro lugar onde
não o encontrassem. Sabia que a Igreja não tolerava esses
usos. Mas alguém me viu e foi contar ao padre. Este veio me
procurar, me obrigou a me confessar e quis me impor dois
anos de jejum pelo que eu tinha feito. Eu não havia
entendido nada do que os padres nos ensinavam. Desde
então, sempre me comportei como boa cristã. Tirando o
meu ofício, claro... Mas aquele padre fez com que eu me
sentisse como se tivesse infligido uma segunda morte ao
meu filho.
Rebeca se aproximou dela, apertando-lhe um braço para
confortá-la.
— Ou seja, você está aqui porque tem esperança no perdão?
— perguntou.
— Bem, espero que, com minha participação neste
empreendimento, Cristo Nosso Senhor vá me perdoar.
Também quero combater, para melhor merecer Seu perdão.
— De quem? De Cristo ou de Deus? Ou, quem sabe, da
Virgem Maria, mãe de seu deus? — perguntou
maliciosamente Rebeca.
— O que você quer dizer? Há diferença entre os dois
primeiros? Não são a mesma coisa? — retrucou Inês,
confusa.
Rebeca bateu delicadamente as mãos nos ombros dela. "São
mesmo uns politeístas. E não se dão conta disso!", pensou.
O dia havia sido duro. O calor, opressivo. A sensação do
tempo que fugia, correndo velozmente rumo à chegada do
exército egípcio de socorro, levava todos a dedicarem o
máximo empenho à preparação do assalto decisivo. Quem
não estava envolvido na construção do maquinário
participava das expedições para conseguir víveres e água. Já
os peregrinos não combatentes tinham sido enviados aos
arredores em busca de galhos, cipós e ramos verdes, a fim de
preparar treliças a serem usadas como anteparos contra os
projéteis vindos dos espaldões. Outros, ainda, estavam
encarregados de esfolar animais de todo tipo — exceto os de
carga, ainda necessários para o transporte de mantimentos e
materiais — para obter couros com os quais se pudessem
revestir as torres móveis, impermeabilizando-as contra a
agressão do fogo.
E, no fim da jornada, o estribilho era sempre o mesmo: aqui,
morre-se de sede.
Ricardo estava escoltando Jamal ao campo dos prisioneiros,
antes de retornar à sua tenda. Refletia sobre a necessidade de
agilizar as operações de assédio, não tanto pela temida
chegada dos reforços do Egito quanto pelas dificuldades
ligadas ao aprovisionamento de água. Era essa a verdadeira
urgência. Mais alguns dias e alguém iria morrer de
desidratação. Ele já tivera notícia de uns peregrinos que, em
desesperada busca de água, tinham se arriscado a ir à piscina
de Siloé. As flechas dos defensores os haviam perfurado
antes mesmo que os infelizes pudessem beber um gole. Sabia
de outros que estavam se organizando para ir até lá durante a
noite. Mas, com os espaldões iluminados intensamente, a
fim de manter alto o alerta, não duvidava que teriam o
mesmo fim.
— Dou a você tudo que tenho por um gole d'água! — Suas
reflexões foram interrompidas por um soldado macilento
que se arrastava a custo em direção a eles. Ricardo o viu
estender a mão, oferecendo-lhe um punhado de moedas.
— Não tenho nada para lhe dar. Vá descansar, soldado —
limitou-se a responder, sem reduzir o passo.
O outro se aproximou mais.
— Ora, vamos, vê-se que você bebeu. Você tem água, sim.
Também quero! — insistiu.
Ricardo tentou ignorá-lo, mas o homem o segurou pela
manga, obrigando-o a parar.
— Já o mandei ir embora! Não tenho nada para lhe dar! —
repetiu o normando.
Revoltado, o soldado lhe deu um safanão.
— Maldito canalha! Só dispõe de água porque é amigo do
conde de Toulouse! — disse. Em seguida, implicou com o
árabe: — Até aos infiéis vocês dão de beber! E deixam
apodrecer ao sol os que vieram até aqui para combater pelo
Senhor! — berrou, saltando em cima de Jamal.
O emir foi parar no chão, mas, antes mesmo que Ricardo
pudesse intervir, conseguiu que o adversário o soltasse.
Então o empurrou, mas o soldado puxou a espada que trazia
presa ao flanco e fez menção de desfechar uma cutilada.
Jamal se desviou um segundo antes da trajetória vertical da
lâmina, e depois foi ágil em colocar a bota sobre o pulso do
antagonista, impedindo-o de erguer o braço e forçando-o a
relaxar a preensão na empunhadura.
Empurrando-o para baixo, obrigou-o a largar a espada. Em
seguida, com a mesma perna com a qual o desarmara, deu-
lhe uma joelhada no estômago que fez o cristão se dobrar
sobre si mesmo. Foi quase agachado que este último recebeu
no maxilar um soco bem assestado que o lançou ao solo, sem
sentidos.
O emir recomeçou a caminhar em direção ao campo dos
prisioneiros, convidando Ricardo, que o observava
admirado, a fazer o mesmo.
— Nem tive tempo de intervir em sua defesa. Mas,
sinceramente, em nenhum momento achei que você
precisasse de minha ajuda — disse o normando.
— Foi fácil até demais. Estava fora de si aquele homem. Foi
como surrar um bêbado — respondeu o árabe.
— Se seus correligionários combatessem assim, nós não
teríamos vencido todas as batalhas nem chegado até aqui —
comentou Ricardo.
— Vocês apenas se beneficiaram dos litígios e das cisões
entre os muçulmanos. No momento, estamos mais divididos
do que os cristãos.
— Não diga isso: na Europa, há o partido favorável ao papa e
o que apóia o rei germânico com seu papa — respondeu
Ricardo.
— Então, se as posições estivessem invertidas e nós
atacássemos a Europa, talvez vocês se vissem em dificuldade.
Mas a confiança em demasia pode subir à cabeça. E, diante
das muralhas de Jerusalém, seu exército corre o risco de se
arrepender por não ter se contentado com os primeiros
sucessos. A fé excessiva em seu deus pode se voltar contra
vocês — insistiu Jamal.
— Os outros até podem ser impelidos pela fé. Mas eu prefiro
me basear na experiência, e esta me diz que, no corpo a
corpo, nós somos superiores. Basta conseguirmos transpor
aquelas muralhas, e de nada lhes adiantará invocar o seu
Alá...
— No entanto, desde quando reconquistamos a cidade, os
peregrinos cristãos podiam entrar e sair à vontade. Ninguém
jamais os impediu de prestar homenagem a Cristo em seu
sepulcro...
— Na verdade, as notícias que nos chegavam eram
totalmente diferentes... — observou ainda Ricardo. —
Falava-se de ataques, sevícias, emboscadas, perseguições...
— Isso era o que os interessados em vir até aqui, ou em fazer
vocês virem até aqui, pretendiam induzi-los a crer. Não nego
que, quando a cidade estava em poder dos turcos, alguns
grupos de patrulheiros fora do controle dos atabegues
tenham assaltado os peregrinos. Mas nós mantivemos a
ordem e usamos de grande tolerância, como é nosso
costume. Vocês vêm morrer a troco de nada.
— À troco de nada, não — explicou Ricardo. — Você
mesmo disse que há interessados em vir para cá. Fique
sabendo que todos, do comandante supremo ao último dos
peregrinos, têm algo a ganhar na Terra Santa. Porque, se um
europeu está aqui, significa que alguma coisa lhe falta no
lugar de onde veio. Ao grão-senhor, um feudo, um território
para administrar e oprimir; ao pobretão, o mínimo
indispensável à sobrevivência. E também há quem tenha a
ilusão de encontrar o perdão para seus pecados e de ganhar o
paraíso. São coisas, todas elas, pelas quais vale a pena arriscar
a vida.
— E você, a qual categoria pertence? — perguntou Jamal.
— A uma categoria só minha, talvez: sou ambicioso, mas
também tenho algo a expiar.
Tal consideração provocou nele uma associação de idéias: o
manuscrito que Raimundo lhe ordenara procurar e a
presença de uma judia no acampamento. Decidiu enfrentar o
assunto com Rebeca, embora estivesse mais impaciente em
perguntar a ela pela irmã.
Uma vez no campo dos prisioneiros, Ricardo se informou
sobre as condições dela, contendo a impaciência a muito
custo. Era o assunto que menos o interessava, em relação aos
outros sobre os quais pretendia conversar.
— Queria lhe fazer uma pergunta delicada — disse, quando
achou que não iria ferir demais a suscetibilidade da moça. —
Em sua comunidade, por acaso você ouviu falar de um
manuscrito de um autodenominado "irmão de Jesus", um
texto que estaria circulando em Jerusalém há bastante
tempo?
Não lhe escapou a olhadela que Rebeca lançou ao amigo
árabe, que estava parado pouco adiante. Também conseguiu
captar o olhar do muçulmano em resposta.
— Nunca ouvi falar — respondeu Rebeca, após um silêncio
que pareceu excessivo. — Mas, como você sabe, eu vivo em
Jerusalém há pouco tempo, e não estou muito informada
sobre o que circula na comunidade judaica.
— Pode se tratar de alguma coisa que é mantida oculta.
Nunca ouviu falar nem mesmo de algum grupo que guarde
um segredo? — insistiu ele, não muito convencido.
— Se eu não conheço o que circula, imagine se posso
conhecer aquilo que é mantido oculto... — respondeu a
moça, dando de ombros.
Ricardo fitou-a por alguns instantes, buscando seus olhos.
Depois, encarou também o árabe. As pupilas dos dois
ziguezagueavam esquivas para todos os lados.
O normando ainda hesitou um pouco, procurando as
palavras para induzi-los a falar mais. Acabou desistindo,
virando-se e saindo dali. Mas, poucos passos adiante, ouviu
que o chamavam:
— Escute... estou precisando das minhas coisas — disse a
judia. — Poderia me trazer aquela sacola, assim que puder?
Ricardo entrou pensativo em sua tenda. E cansado, muito
cansado. Desabou pesadamente no pedaço de feltro que
constituía sua cama, despertando os protestos confusos dos
companheiros que já cochilavam ao seu lado. Estava prestes
a se deitar de costas quando, ainda sentado, seu olhar caiu
sobre a sacola de Rebeca, apoiada no canto da tenda mais
próximo ao seu lugar.
Só então se lembrou de que a moça havia lhe pedido que a
devolvesse. Absorto demais em tentar compreender o que
ela lhe escondera, tinha deixado esse assunto em algum
canto da mente. Permaneceu imóvel, olhando
demoradamente a sacola. Depois se levantou, pegou-a e a
levou para seu enxergão. Ainda hesitou um pouco, mas
resolveu abri-la. Tirou de dentro três rolos, que lhe
pareceram de pergaminho. Lentamente, com atenção,
estendeu um.
Grego.
Conservava lembranças muito vagas daquele idioma. Até o
tinha aprendido, quando havia morado em Constantinopla,
na infância, mas não o falava nem o lia havia trinta anos e,
mesmo conseguindo identificar quase todos os caracteres, na
verdade não compreendia o sentido das palavras.
Mas tampouco podia se permitir ignorar o conteúdo
daqueles documentos. Recordou que conhecia pelo menos
duas pessoas capazes de ajudá-lo.
— Quero saber qual é o assunto destes rolos!
O tom era peremptório, quase uma ordem. Emanuel, Inês e
Anselmo olharam Ricardo, perturbados tanto pela sua atitude
decidida quanto pela repentina necessidade de prolongar
uma jornada que consideravam já concluída.
O primeiro a se aproximar dos documentos foi Emanuel.
Estavam todos em sua tenda, aliás. Ele dormia ali sozinho,
desde que seus companheiros tinham morrido. Desenrolou
um e, aproximando-se da tocha, começou a decifrá-lo.
— Leia em voz alta! — intimou-o Ricardo.
Emanuel hesitou um pouco, antes de atendê-lo. Manteve o
olhar sobre o texto e só depois de um tempo levantou a
cabeça e encarou o amigo. Depois, fitou também Anselmo.
Só então começou a falar, lendo o pergaminho: "Eu, Tiago
bar-Josef, chefe da comunidade dos ebionitas e dos nazireus
de Jerusalém que reconhece em Jeshua, meu irmão carnal, o
Messias enviado por YHWH para incitar o povo hebreu a
respeitar a Aliança, declaro mentirosas e blasfemas as pala-
vras de Saulo de Tarso, dito Paulo, o qual difunde notícias e
opiniões erradas sobre Jeshua, sem jamais tê-lo conhecido..."
— Pare! — reagiu Anselmo, mais rapidamente do que
Ricardo. Colocou a mão sobre o pergaminho e, arriscando-se
a arruiná-lo, tentou fechá-lo. — Que absurdo é este? Onde
você achou isto aqui? - perguntou, furioso, ao normando.
Confuso, Ricardo demorava a reagir. Não conseguia acreditar
que o destino lhe tivesse entregado aquilo que, para seu
comandante, era um dos objetivos da cruzada.
— Quer me dizer o que significa isto? Há palavras blasfemas
neste texto! Por que está com você? — insistiu Anselmo,
agarrando-o pela gola, enquanto Emanuel mergulhava
novamente na leitura, mas sem falar.
O normando se livrou do monge sem sequer olhá-lo.
Depois, afastou Emanuel e pegou os rolos, guardando-os na
sacola. Sem dizer nada, saiu da tenda levando consigo a
tocha que iluminava o interior.
— Não creia que consegue escapulir assim! Vou no seu
encalço até que você me explique alguma coisa! — gritou
Anselmo, e o seguiu. A Emanuel e a Inês só restou fazer o
mesmo.
Ricardo não se dignou a responder, mas tampouco tentou
detê-los. Os três foram atrás dele, até que, com grande
estupor, viram-no entrar no recinto dos prisioneiros.
Anselmo logo fez valer suas vestes talares ante os guardas e
entrou também, levando atrás de si Emanuel e Inês. Esta
última não tinha a mínima idéia do que estava acontecendo,
mas sua curiosidade se multiplicara a partir do momento em
que havia compreendido que a solução da coisa apontava
para Rebeca. Alcançaram Ricardo bem na hora em que o
normando se plantava diante da judia e de Jamal.
— Eu trouxe sua sacola. Aqui está — começou Ricardo,
virando-se para a moça. — Mas também olhei o que havia
dentro — acrescentou.
— E daí? — O tom de Rebeca era insolente, mas só para
esconder a preocupação.
— E daí, como? Não acha que nos deve explicações? —
interveio Anselmo.
Rebeca olhou Jamal. Este assentiu. Ela deu um suspiro
profundo.
— Vocês o leram? — perguntou. Mas era uma pergunta
retórica.
— Só o início. Mas foi o suficiente para perceber que se trata
de uma grande mistificação de vocês, judeus — declarou
Anselmo, enquanto Ricardo não tirava os olhos de cima da
moça.
Rebeca pensou que nunca um homem a olhara tão intensa e
demoradamente. Gostaria que fosse por outro motivo.
— Nenhuma mistificação — disse, por fim. — São
pergaminhos que uma pequena comunidade hebraica
conserva há gerações. Três anos atrás, foram parar nas mãos
do meu pai e, após a morte dele, eu os guardei. Estávamos
indo escondê-los quando vocês nos capturaram.
— Estávamos?— perguntou Ricardo.
— Conheço o conteúdo desses rolos, e a estava ajudando —
interveio o árabe.
— Prossiga — disse Ricardo, dirigindo sua atenção para a
moça.
— Trata-se de um testemunho direto do irmão de Jesus,
Tiago, que o próprio Jesus escolheu como seu sucessor e
como porta-voz de Yahvé. O autor polemiza com Saulo de
Tarso, o são Paulo de vocês, sobre o rumo a ser dado à
difusão dos ensinamentos do rabi. Tiago, frisando que seu
irmão pretendia dirigir-se unicamente aos hebreus, contesta
a posição de Paulo, o qual pretende difundir esses ensina-
mentos entre os não circuncidados. E acusa Paulo de ter
deturpado a mensagem de Jesus para torná-la mais aceitável
por romanos e gregos, privando-a de todos os aspectos mais
estritamente hebraicos, deixando de lado os preceitos da
Torá, abrandando os tons messiânicos e levando ao extremo
as características não violentas do movimento.
— Que heresia você está dizendo? — interrompeu-a
Anselmo, indignado. — A mensagem do Senhor é de amor
universal. Não há necessidade de extremar as posições de
quem ensina a oferecer a outra face! Diz santo Agostinho:
"Quem acredita compreender as Divinas Escrituras ou
qualquer parte delas no sentido de não edificar o dúplice
amor a Deus e ao próximo não as compreende em absoluto"!
— Jeshua aplicava as regras de amor ao próximo contidas no
Levítico, das quais seu "sermão da montanha" é uma clara
exposição — continuou Rebeca. — Mas, como zeloso
cumpridor da Lei, combatia a corrupção e o laxismo dos
sacerdotes e dos políticos, assim como os protetores
romanos destes. De seu irmão Tiago, que certamente era
como ele, dizia-se que tinha os joelhos calosos pela fre-
qüência com que se ajoelhava para rezar. Tiago era um
nazireu, ou seja, "consagrado", devotado ao celibato vitalício
e também vegetariano; não permitia que nenhuma navalha
tocasse sua cabeça e só usava vestimentas de linho, ou seja,
de fibras vegetais, porque não podia ter contato com tecidos
animais ou com qualquer coisa que fosse produto de uma
relação sexual. E, como Tiago foi designado sucessor de
Jeshua segundo um grande número de fontes, canônicas e
apócrifas, é óbvio que este último era também um nazireu.
Aliás, quando, no processo, ele é definido como "nazareno",
na realidade pretende-se dizer "nazireu". Se você ler a obra
de Flávio Josefo, que, afinal, era comandante militar da
Galiléia antes de se passar para os romanos, verá que esse
historiador cita um grande número de localidades, mas
nunca Nazaré, que talvez nem existisse então... Portanto, o
termo "nazareno" é uma transposição imprópria do termo
"nazireu", que deriva do hebraico nezer, isto é, o diadema,
ou a coroa, do sumo sacerdote, em que estava escrito
"consagrado a Deus", o que também era identificado pelas
longas madeixas dos consagrados. Jeshua e Tiago eram ambos
rigorosos e, provavelmente, xenófobos. O pacifismo
universal é só uma interpretação de Paulo para tornar o
movimento menos suspeito aos olhos dos romanos e
distingui-lo de todas as outras seitas messiânicas e hostis aos
dominadores — concluiu a moça. — Jeshua não amava os
romanos e tampouco os lacaios deles, isto é, os sacerdotes do
Sinédrio, que de fato colaboraram para sua crucifixão por
obra dos próprios romanos.
— Quem o matou foram vocês, hebreus, e não os romanos!
— insistiu Anselmo.
— Não. Os hebreus, no máximo, apedrejavam por blasfêmia,
o que de fato fizeram com o próprio Tiago, trinta anos após a
morte do irmão. Séculos depois, quando o cristianismo se
tornou a religião oficial do Império Romano, o imperador
Constantino e seus sucessores imediatos deram a guinada
definitiva no processo de culpabilização dos hebreus, já
iniciado com Paulo. Assim, cancelaram a responsabilidade
dos romanos na execução de Jeshua, encontrando nos
hebreus, que tantos aborrecimentos haviam dado ao
império, um bode expiatório oficial — retrucou ela.
— Essa mulher tem o demônio dentro de si! É instruída, ou
melhor, acredita ser. Na realidade, como todas as mulheres
que tentam se elevar em relação à sua condição feminina,
tem apenas uma grande confusão na cabeça. — Anselmo
não desistia. Não podia desistir.
— Sei. E talvez eu mesma tenha escrito este texto —
ironizou Rebeca. — Caro padre, não sou eu quem deve lhe
ensinar que nos Evangelhos, quando Jesus chega a
Jerusalém, descreve-se uma multidão exultante que o acolhe
e o festeja. Mas, pelas cartas de são Paulo e pelos Atos dos
Apóstolos, sabe-se também que o próprio Paulo quase foi
linchado por ter querido introduzir os estrangeiros no
Templo, contaminando-o. Acha que os hebreus teriam
recebido Jesus com tanto entusiasmo, se ele tivesse querido
fazer o mesmo? Se ele fosse o Jesus dos Evangelhos, aquele
que comia com os odiados publicanos e conversava com um
centurião?
— Na verdade, até o mataram!
— Não eles. No máximo, a casta sacerdotal filo-romana.
— Mas os Evangelhos estão aí! E desmentem você a cada
versículo!
— Tem certeza? Em muitos deles, é verdade. Mas são aqueles
que refletem as tradições ligadas à orientação de Paulo, já
que foram todos escritos após a morte de Jesus, e até,
provavelmente, após a destruição de Jerusalém. E difícil
acreditar que tenham sido realmente redigidos pelos
apóstolos. Não por acaso, são veladamente anti-semitas e
decididamente tendenciosos ao atribuírem aos hebreus a
culpa pela morte de Jesus: "Que seu sangue recaia sobre nós
e sobre os nossos filhos", escreve o autor do Evangelho de
Mateus, abrindo caminho às perseguições de que fomos
vítimas durante séculos! Até na boca do próprio Jeshua
colocam-se palavras terríveis contra seu povo: "Vós sois os
filhos do demônio, que é vosso pai, e quereis obedecer aos
desejos do vosso pai. Quem é de Deus escuta as palavras de
Deus. Por isso não as escutais, porque não sois de Deus", lê-
se no Evangelho de João! Mas tudo isso é absurdo, pois Jesus
era hebreu e não podia pensar desse modo sobre seu próprio
povo... No máximo, implicava com algumas categorias, por
exemplo, os fariseus, os saduceus e os escribas, "guias cegos",
"raça de víboras", não enquanto tais, visto que suas
orientações doutrinárias eram semelhantes, mas enquanto
expressão da corrupção político- religiosa e da submissão ao
poder romano. Já notou que sobre os zelotas, ao contrário,
Jesus nunca diz nada de ruim? Não acha isso estranho? No
entanto, os zelotas eram anti-romanos violentos e
integralistas em grau máximo. Um pacifista ansioso por
converter os romanos deveria considerar os zelotas como
adversários irredutíveis... Mesmo assim, muitos vestígios do
verdadeiro ensinamento de Jesus permaneceram aqui e ali,
originando contradições que só podem ser resolvidas com
um grande esforço de imaginação.
— As contradições, como você as chama, são fruto inevitável
da obra de homens comuns — retrucou, ainda, Anselmo. —
A vida de Jesus é inegavelmente uma revelação divina, mas
quem a redigiu foram seres humanos, estragados por erros e
pecados...
— Mas, se Tiago era tão importante, por que não se fala dele
nos Evangelhos e nos outros textos? — interveio Ricardo.
— Porque Paulo venceu — respondeu Rebeca. — Em suas
epístolas, como Anselmo deveria saber, ele demonstra fortes
contrastes com Tiago, o chefe da comunidade hierosolimita,
tanto a propósito das questões relativas ao apostolado entre
circuncidados e não circuncidados quanto sobre o consumo
de alimentos lícitos ou ilícitos. Depois deles, o cristianismo
tomou de fato o rumo desejado por Paulo, e nos
testemunhos sobre a vida de Jesus foram canceladas quase
todas as referências à sua família, cujas posições eram exata-
mente contrárias àquelas que prevaleceram. A história é
escrita sempre pelos vencedores, inclusive no campo
religioso. E depois, com a destruição do Templo e da própria
Jerusalém, aquilo que poderíamos chamar de "cristianismo
hebraico" quase desapareceu, deixando o caminho livre para
aquele que podemos definir como "romano-helênico". E, se
permaneceu alguma referência a Tiago nos textos que vocês
consideram sacros, achou-se um modo de transformar o
irmão de Jesus num personagem secundário, marginal, ou de
substituí-lo por outros. Não por acaso, com freqüência se faz
Jesus dizer que quem adere ao seu movimento deve odiar os
próprios familiares; lembra-se de Mateus? "Os inimigos do
homem serão aqueles de sua casa." No entanto, Jeshua tinha
quatro irmãos e pelo menos duas irmãs, segundo os próprios
evangelhos de Mateus e Marcos.
— Essa é a blasfêmia suprema! — exclamou Anselmo,
exasperado. — Jesus não podia ter irmãos! No máximo, teria
meios-irmãos, filhos do primeiro casamento de José, em
última instância, ou então primos! Na cruz, Jesus confia sua
mãe ao apóstolo João, dizendo a ela: "Mulher, aqui está o teu
filho", coisa que ele certamente não diria se tivesse irmãos! E
são dois os apóstolos chamados Tiago: um, filho de Zebedeu,
e outro, de Alfeu. Na própria Epístola de Tiago, no Novo
Testamento, o autor se professa "servo do Senhor Jesus
Cristo", e não irmão!
— Não é necessário muito para modificar, excluir ou
acrescentar alguma palavrinha num título — rebateu Rebeca.
— Isso vale para os Evangelhos, nos quais o nome de Tiago
pode ter sido substituído por outros menos embaraçosos para
a Igreja, e vale, sobretudo, para um documento, como a
epístola em seu nome, que se refere apenas a preceitos
morais e não fala em absoluto de Jeshua. Devo lhe recordar
que, no século IV, o cristianismo se tornou religião de
Estado? E que a razão de Estado pode ter justificado pesadas
intervenções sobre aquilo que não parecia condizente com
os propósitos do imperador e das altas hierarquias
eclesiásticas? Não é difícil, para um copista, acrescentar
"Jesus Cristo" a "servo do Senhor"; aliás, "Senhor" é o termo
pelo qual os antigos hebreus chamavam Yahvé, já que não
era permitido pronunciar o nome de Deus. E um termo
desses pode criar confusão...
"Por outro lado", recomeçou ela logo depois, sem dar tempo
a Anselmo para replicar, "por que Jeshua não poderia ter
irmãos? Porque sua mãe era virgem quando o concebeu,
através do Espírito Santo? Isso não é dito nem pelos
Evangelhos nem pelas epístolas de Paulo."
— Já que é tão sabichona, você deveria se documentar —
replicou o monge. — Em Lucas, a Santa Virgem Maria
pergunta ao Anjo como poderá dar à luz, "pois não conheço
varão", e o Anjo responde: "O Espírito Santo descerá sobre
ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra; por
isso, aquele que nascerá será chamado Santo, Filho de Deus."
— Uma perfeita réplica dos mitos greco-romanos, eu diria...
Ouso levantar a hipótese de que esse evangelho não foi
escrito por um hebreu, mas por um gentio convertido,
conhecedor das lendas sobre a fecundação de Reia Sílvia,
mãe de Rômulo e Remo, por obra de Júpiter...
— Ah, é? E você, que é judia, não conhece o trecho do
Velho Testamento, em Isaías, que diz: "Eis que a Virgem
conceberá e parirá um filho"? Mito grego coisa nenhuma! —
retrucou prontamente o monge.
— Claro que o conheço. Tão bem que até sei lhe dizer que
termina com "e o chamará Emanuel", que significa "Deus
está conosco" — replicou Rebeca. — Pois bem, o profeta se
referia ao rei davídico Ezequias, a quem de fato definiu,
entre outras coisas, como "Deus poderoso, Pai para sempre".
Ligar esse trecho a alguém que se chamava Jeshua,
atribuindo-lhe um nascimento divino, é uma verdadeira
distorção, até porque ele se baseia numa tradução errada do
termo hebraico almah, "mulher jovem", transformado em
parthenos, "virgem", na Septuaginta, a versão para o grego
escrita no Egito para todos os hebreus de língua grega que
não compreendiam a Torá. E, se estudar bem a Septuaginta,
você descobrirá que os evangelistas utilizaram justamente
esse texto para redigir a vida do seu Jesus, atribuindo a este
último muitos episódios nos quais se fala de um "ungido", ou
seja, um christos, quer se tratasse de um rei, de um profeta
ou de um sacerdote!
— E claro! A vinda de Jesus era amplamente prenunciada!
Por fim, Sua vinda, como diz são Paulo, realizou o projeto de
Deus. O filho Deste é a razão, o objetivo e o ápice do plano
divino! — observou Anselmo.
— Mas Jeshua não pode ser de natureza divina! — replicou
Rebeca. — O próprio Evangelho de Mateus afirma que José
"tomou consigo sua esposa e não a conheceu enquanto ela
não pariu o filho". Se esta não for uma referência ao
conhecimento carnal, então vocês, eclesiásticos, não fazem
senão refutar o óbvio! A realidade é que nem os Evangelhos
nem as Epístolas de Paulo mencionam a Imaculada
Conceição... simplesmente porque, então, sequer se falava
do assunto. E, como se trata de textos cujo objetivo é
converter as pessoas, imagine se seus autores iriam perder a
oportunidade de oferecer essa prova evidente da divindade
de Cristo! Em vez disso, semelhante absurdo só apareceu
séculos depois, porque parecia inconcebível que o fundador
de uma religião não fosse um ser divino...
Jamal interveio com sua citação:
— Está escrito: "Professam os cristãos: o Messias é o filho de
Deus. Tais são as palavras de suas bocas, imitando assim as
daqueles que, antes deles, já não acreditavam. Aniquila-os,
Deus, aniquila-os! Como são imbecis! Escolheram como
Senhores, em vez de Deus, seus doutores e seus monges,
assim como escolheram o Messias, o filho de Maria, ao passo
que lhes fora ordenado adorar somente o único Deus."
— Não espero que pobres de espírito como vocês, judeus e
muçulmanos, compreendam o conceito da Santíssima
Trindade — respondeu Anselmo, dirigindo-se a ambos.
— A verdade — prosseguiu Rebeca — é que a versão atual do
cristianismo derrotou as outras, que proclamavam a
humanidade de Jesus. Derrotou a corrente que recorria, por
exemplo, a Nestório, o qual desejava que Maria fosse
proclamada Christotokos, "mãe de Cristo", e não Theotokos,
"mãe de Deus", para evitar fazer dela uma deusa nos moldes
daquelas do paganismo; ou o arianismo, que foi silenciado
pelo credo niceno; ou os pobres nazireus, que no entanto
eram os mais diretos e mais fiéis discípulos de Jesus... O
objetivo da trindade é justificar a substituição do Pai pelo
Filho, da Aliança originária pelo cristianismo tardio, do povo
hebraico pelos gentios! E justificar também o politeísmo de
vocês, composto por pelo menos quatro deuses!
— Pelo menos desta vez sou eu que quero lhe fazer uma
citação — rebateu Anselmo. — Como escreve o sumo santo
Agostinho, "quando dizemos que a raiz é madeira, o tronco
é madeira e os ramos são madeira, não queremos dizer que
são três madeiras, mas só uma. Portanto, ninguém pense que
seja absurdo chamar de Deus o Pai, de Deus o Filho e de
Deus o Espírito Santo, e afirmar que eles não são três deuses
da Trindade, mas um só Deus e uma só substância". As três
manifestações da substância divina são simultâneas, e não
sucessivas: como uma mulher, que pode ser ao mesmo
tempo mãe, esposa e guardiã da casa. Padre Atanásio, após
dois séculos de debates, estabeleceu que Pai e Filho são
homoousion, "da mesma substância". E, também, vocês
estão ignorando o início do nosso credo: "Creio em um só
Deus..."
— Você não percebe o quanto são obscuras e forçadas as
coisas que diz? — replicou imediatamente Rebeca. — As
elucubrações dos padres de sua Igreja são a demonstração de
que nas Escrituras não se encontrou uma prova irrefutável da
divindade de Cristo. Se é para confrontar citações, você deve
recordar o episódio narrado nos Evangelhos, aquele do
homem rico que deseja herdar a vida eterna e pergunta a
Jesus, chamando-o de bom mestre, o que deve fazer para
obtê-la. Deve recordar também que Jesus responde: "Por que
me chamas de bom? Ninguém é bom, exceto Deus."
Portanto, sem dúvida não se considerava uma divindade. E,
logo depois, exorta o interlocutor a seguir os mandamentos e
a se tornar pobre. Aí está: neste trecho se encontra todo o
ensinamento de Jeshua, o verdadeiro ensinamento de
Jeshua, que invocava o respeito à Regra Áurea, fundamento
da lei hebraica: "Tudo aquilo que quereis que os homens vos
façam fazei-o vós a eles: esta é, na verdade, a mensagem da
Lei e dos Profetas", lê-se em Mateus, o qual se reporta ao
Levítico! O que há nisso de diferente do que ensinava o rabi
Hillel, contemporâneo de Jesus, que, ao lhe pedirem para
resumir a Torá, respondia: "Não faças ao próximo aquilo que
julgas detestável para ti mesmo. A Torá está inteira aí. O
resto é só comentário"? Vocês, cristãos, pegaram um
excelente homem, que curava os outros e pregava o advento
do reino de Deus, a purificação e a assistência, o respeito à
Torá e à pobreza, e fizeram dele não somente o filho de
Deus, mas o próprio Deus!
— Mas ele é o filho de Deus! Por conseguinte, ele mesmo é
Deus!
— Absurdo — prosseguiu a judia. — Vocês manipularam as
expressões "filho de Deus" e "filho do Homem". Jeshua
consideraria blasfemo aquilo que lhe foi atribuído,
transformando-o em Jesus. Todos os justos e os homens
profundamente religiosos são filhos de Deus; eram-no os reis
de Israel, enquanto consagrados, e, em última instância, todo
o povo hebreu. Os antigos textos sacros são cheios de
citações a respeito. E também, se ele fosse verdadeiramente
filho de Deus, os Evangelhos afinal deveriam narrar algum
encontro dele com o Pai, não? Mas como? Diversos profetas
se encontraram com Deus, e Seu filho, não? Na realidade,
Jeshua falava em nome de Deus, e em seus ensinamentos
não havia um reino de Jesus, nem uma nova Aliança, mas
somente um reino de Deus e a antiga Aliança do povo
hebreu com Deus, que devia ser consolidada. Como hebreu
praticante que era, ele jamais sonhou abolir a Lei mosaica,
nem fundar uma nova religião!
— Agora chega! — gritou Ricardo de repente, tentando tapar
com a mão a boca de Rebeca, que se esquivou logo. — Ao
que parece, não há como fazer você parar. Mas essas coisas
não me interessam. Vocês dois poderiam falar durante dias,
permanecendo sempre nas respectivas posições. Toda
discussão a respeito de religião é estéril, porque cada um
considera indiscutível o próprio credo. O que eu sei é que
meu comandante quer estes documentos e, agora que você
me explicou do que se trata, vou entregá-los a ele —
concluiu, virando-se para sair dali.
Rebeca o agarrou pelo braço.
— Pare, por favor! Assim, você vai condenar o povo hebreu!
— gritou, ante o estupor dos outros.
— O que você quer dizer? — retrucou ele. Alguma coisa o
impelia a escutá-la. Os outros também prestaram atenção,
exceto Anselmo, o qual, se pudesse, amputaria as próprias
orelhas, desde que não a ouvisse.
— Quero dizer que este manuscrito é uma prova claríssima
de que os hebreus não têm nada a ver com a morte de Jesus.
E nossa última esperança de demonstrar que não merecemos
as perseguições de que temos sido objeto durante séculos —
disse Rebeca, com expressão implorante.
Ricardo se livrou da mão dela e continuou a caminhar. E a
pensar no quanto aquele manuscrito seria proveitoso para
sua carreira.
— Por favor! Reflita! Você nos salvou uma vez. Quer nos
condenar agora? — insistiu a moça, seguindo-o e obrigando-
o de novo a parar.
— Entregue-o! Entregue-o! É um acúmulo de mentiras! —
gritou por sua vez Anselmo. Emanuel e Inês se calavam,
impressionados e indecisos.
— Protegerei você e sua irmã. Mas, agora, devo entregá-lo —
respondeu Ricardo, seco.
— E quem lhe dará proteção? — interveio Jamal,
aproximando- se dele. — E a todos vocês?
— Como assim? — perguntou Ricardo, perplexo.
— Este é um segredo importante demais para seus chefes
permitirem que alguém que tenha conhecimento dele
sobreviva.
Ricardo não soube o que responder. Quem o fez foi
Anselmo:
— Está brincando? São apenas mentiras. Provavelmente, isso
foi escrito por algum judeu, em tempos recentes. A Igreja o
queimará e o esquecerá. — Mas em sua voz notava-se um
leve tremor.
— Eu lhe imploro, Ricardo! Você não é sem coração como
seus companheiros de batalha — reiterou Rebeca. —
Demonstrou isso em Mogúncia. Bem sabe que, se esse
documento permanecer em nossas mãos, um dia teremos a
possibilidade de divulgá-lo sob nossas condições. Mas, se o
entregar à Igreja, ele terá realmente o fim que Anselmo
previu...
Até Inês se aproximou dele.
— Faça o que ela pede — disse, sob o olhar atônito de
Anselmo. — Não entendi muito, mas me parece claro que
Jesus era hebreu, já que nasceu por estas bandas, quando o
território era povoado por hebreus. Então, como pode ter
sido morto pelo seu próprio povo?
— Ninguém é profeta em sua terra. Foi o próprio Jesus quem
disse. Leve-o a Raimundo e Godofredo! — insistiu Anselmo.
Continuaram a falar. Todos ou quase todos. Mas Ricardo já
não os escutava. Sentia-se presa de um conflito interior,
entre sua ambição de agradar a Raimundo e fazer carreira no
exército, e o desejo de secundar aquela mulher, irmã da
jovem que ele desejava mais do que qualquer outra.
Finalmente, decidiu tentar superar o impasse baseando a
escolha não na conveniência pessoal, mas no valor dos
próprios rolos, ao menos segundo a opinião que havia
formado sobre eles.
Se na Igreja uma determinada linha de pensamento se
afirmara, concluiu, devia ser a correta, apesar do pouco
significado que pudesse ter para ele.
Foi ao encontro de Raimundo.
XIX
Ricardo se aproximou da tenda de Raimundo de Toulouse
com certa circunspecção. Às vezes se detinha, perguntando-
se se estaria fazendo a coisa certa e tentando não pensar nas
palavras de Rebeca. Para criar coragem, imaginava-se sobre
um cavalo com suntuosa gualdrapa, à frente de um grupo de
armígeros e com seu porta-estandarte ao lado, enquanto
entrava num castelo de sua propriedade, entre populares
festejantes pelo retorno de seu senhor. Então recomeçava a
caminhar, para enfrentar novamente os mesmos dilemas.
Levou muito mais tempo do que o necessário para se
apresentar no quartel-general do conde. Os dois guardas
empertigados diante da entrada olharam-no longamente,
intrigados por sua atitude hesitante. Finalmente, ele se
decidiu a pedir que o anunciassem ao comandante.
Um dos dois soldados desapareceu atrás do limiar e
reapareceu logo depois, convidando-o a entrar. Ricardo o
seguiu mecanicamente, apertando contra o flanco a sacola de
Rebeca, que levava a tiracolo.
A luz tênue de duas velas iluminava a custo o rosto cansado
de Raimundo, sentado diante de uma grande prancha de
madeira sobre a qual se estendiam os mapas do setor de
operações. O conde também lhe pareceu ter uma expressão
intrigada. "Evidentemente", pensou o normando, "minha
atitude dubitativa é óbvia demais."
— Quais são as notícias, Ricardo? Não me dê outras ruins,
por favor, porque a situação já não está das melhores — disse
o comandante. — Temos que atacar de qualquer maneira
dentro de dez dias; com o desânimo que reina entre nossas
fileiras, tivemos muitas deserções, inclusive hoje. Se
continuar assim, chegaremos ao assalto com poucas centenas
de homens, ainda por cima desmotivados, desnutridos e
desidratados...
— Minhas notícias são boas, no mínimo — respondeu
Ricardo, cauteloso.
— Descobriu um modo de construir a torre em dois dias? —
presumiu Raimundo, cáustico.
— Não. Mas encontrei pistas do manuscrito que o senhor me
encarregou de procurar. — Pronto, havia dito.
— E mesmo? Interessante...
Quem havia falado não era o conde. Da sombra no canto da
tenda emergira de repente uma silhueta, que avançava
lentamente para a tênue fonte de luz.
Ricardo demorou para reconhecê-lo. Era aquele diácono
com cara de abutre a quem via às vezes ao lado de Raimundo
ou de Godofredo. Tinha escutado chamarem-no de "irmão
Sigfrid", mas nunca entendera que papel ele exercia na Igreja
e na expedição. Ao contrário dos bispos presentes
oficialmente na cruzada, o diácono não participava das
reuniões do estado-maior nem era visto entre as fileiras de
soldados antes de uma batalha, exortando os combatentes a
darem o melhor de si pela causa do Senhor.
No entanto, quando aparecia, estava sempre próximo dos
figurões.
E ninguém o apresentava. Nunca.
— Quer nos dizer mais alguma coisa a respeito, ou está se
divertindo em nos deixar ansiosos? — acrescentou o
diácono, após uns instantes de silêncio.
— Pois é. Fale logo, vamos! — exortou-o o conde. O tom de
Raimundo era mais peremptório, autoritário, e o de Sigfrid,
mais melífluo. No entanto, era o segundo que perturbava
Ricardo.
Hesitou ainda um pouco. Não tinha previsto a presença
daquele homem nem compreendia a função dele.
— E então? Preciso lhe recordar o quanto um documento
desses é importante para a Igreja e para o Senhor? — insistiu
o diácono. — Quanto mais cedo tomarmos posse dele, mais
cedo extinguiremos a ameaça que paira sobre a cristandade.
E mais cedo tiraremos dos hebreus amaldiçoados pelo
Senhor a possibilidade de nos prejudicar com suas mentiras...
Não. Já não podia contar. A coisa acabaria exatamente como
Rebeca havia previsto.
— Na realidade... é uma pista débil... mas considerei
oportuno informá-lo, meu senhor — disse Ricardo ao
comandante, para ganhar tempo. — Eu... tenho razões para
crer que o manuscrito ainda está dentro de Jerusalém, no
bairro judeu — continuou, quase balbuciando.
— Não está nos dizendo nada de novo. Disso já sabíamos.
Quem lhe deu a informação? — pressionou-o Raimundo.
Ricardo se lembrou de que um dos prisioneiros árabes tinha
morrido poucas horas antes, em conseqüência da infecção
num ferimento recebido durante o confronto perto do mar
de Sal.
— Imaginei que os hebreus depositários de tal segredo teriam
comentado o assunto com seus paladinos muçulmanos, para
assegurar a proteção do manuscrito. Então, interroguei os
prisioneiros egípcios, e um deles me revelou ter ouvido falar
a respeito. Parece que o texto está sendo conservado na
sinagoga... — disse.
— E mesmo? E ele só lhe contou isso? — emendou Sigfrid,
num tom que pareceu a Ricardo bastante desafiador. Mas
talvez esta fosse só uma impressão, reforçada pelo incômodo
que aquele indivíduo lhe provocava. Ou, quem sabe, o fruto
de seu sentimento de culpa pelas mentiras que estava
pregando ao comandante.
— Sim. Não sabia mais nada — limitou-se a responder.
— Se você o trouxer aqui, nós mesmos o interrogaremos.
Talvez, com métodos um pouco mais... persuasivos,
consigamos fazê-lo contar mais alguma coisa... — continuou
o sinistro diácono.
— Infelizmente, trata-se do prisioneiro morto no início da
tarde de hoje. Estava doente por causa de um ferimento, mas
mesmo assim nós o fizemos trabalhar nas máquinas. Não
agüentou... — replicou Ricardo, esforçando-se por assumir
uma expressão decidida.
Seguiram-se alguns instantes de silêncio, cheios de tensão.
— Mas veja só... — comentou o irmão Sigfrid. — E por que
você não correu a nos falar imediatamente dessas
revelações? Por que deixou para vir somente agora à noite?
— Não me pareceu que fizesse muita diferença. Preferi me
dedicar à construção das máquinas, coisa que, no momento,
me parece ter prioridade absoluta diante de qualquer outra
questão... como acaba de dizer o conde — respondeu
Ricardo, aborrecido e perturbado pelo tom inquisitivo do
diácono. Buscou o conforto do olhar de Raimundo, mas o
conde parecia absorto em suas reflexões.
Mais uns instantes de silêncio.
De novo, foi o abutre quem o rompeu:
— O que você tem nessa bolsa? — perguntou bruscamente.
— Aqui? — disse o normando, aturdido, indicando a sacola
que trazia a tiracolo. — Bah... nada de importante. Desenhos
e anotações para a construção dos trabucos... Por quê? —
perguntou, decididamente alarmado.
— Posso ver? — rebateu o irmão Sigfrid, dando um passo à
frente.
Instintivamente, Ricardo retrocedeu, enquanto seu
interlocutor lhe lançava um olhar suspeitoso.
O conde Raimundo veio em seu auxílio:
— Chega de perder tempo. Vamos aproveitar estas poucas
horas para recuperar as forças — disse. — Precisaremos de
muitas, amanhã e nos próximos dias. Seja como for —
acrescentou, virando-se para o diácono —, confio
plenamente em meu ordenança. — E em seguida, olhando
Ricardo: — Está liberado. Vá descansar.
Ricardo fitou o eclesiástico, percebendo no rosto dele uma
expressão de raiva. Inclinou a cabeça em sinal de deferência
e saiu da tenda, dando um profundo suspiro de alívio.
De volta à sua própria tenda, refletiu sobre o que fazer com a
bolsa, sobretudo agora que havia despertado a suspeita
daquele diácono que parecia ter tanta importância. Mantê-la
sempre consigo significaria confirmar as suspeitas e se expor
ao risco de ser revistado a qualquer momento. Mas
tampouco podia restituí-la a Rebeca, que não teria como
escondê-la.
Emanuel? Era um bizantino, não tinha amigos no
acampamento e dificilmente alguém interagia com ele se não
fosse obrigado a isso. Se lhe pedisse, era certo que ele
aceitaria de bom grado guardá-la. Até porque estava sozinho
na tenda. Mas, justamente porque era detestado pelos outros,
havia sempre o risco de alguém querer prejudicá-lo, e o
manuscrito iria junto. Alguns dias antes, o grego lhe
confidenciara que um germânico havia ameaçado incendiar
sua tenda... Não, Emanuel também não serviria.
Anselmo? Era um religioso, sem dúvida, e aparentemente
bastante zeloso. Mas Ricardo já o conhecia o suficiente para
saber que o monge era boa pessoa e, ao contrário de muitos
de seus confrades, acabava sempre fazendo a opção menos
danosa para os seres humanos.
Mas continuava sendo um religioso. Não podia confiar
totalmente nele.
Quem restava?
Inês.
Mas claro! Quem imaginaria que um documento tão
importante estava nas mãos de uma prostituta?
Além disso, aquela mulher tinha um fraco por ele, apesar da
atitude indiferente que parecia manter havia algum tempo.
Sim, Inês era a única escolha possível. Em passos rápidos,
Ricardo se dirigiu à tenda dela, finalmente tranqüilizado.
Ficaria, porém, bem menos sossegado se soubesse que, logo
após sua saída do pavilhão de Raimundo, o eclesiástico com
cara de abutre o seguira, levando consigo um dos guardas do
conde.
— Resolvi não o entregar ao meu comandante. Gostaria que
você o guardasse — disse Ricardo a Inês, estendendo-lhe a
bolsa, depois de tê-la chamado educadamente para fora da
tenda onde ela tinha ido repousar.
— Por que eu? — perguntou Inês, sinceramente espantada.
— Porque, em você, eu confio.
— Por quê?!
— Não sei. Talvez porque você seja a única, nesta história,
que não tem interesse em divulgá-lo ou em destruí-lo...
— E melhor você dizer que não tem alternativa...
— Pode ser. Mas resta o fato de que em você eu confio.
— Não parecia, até agora. Por que tanta insistência em ajudar
aquela moça?
— Você faz muitas perguntas. Guarde e pronto, não chega?
— Não houve nada entre nós que justifique toda essa
confiança. Você tem que ser franco comigo, se quiser minha
ajuda.
— Tem razão. Não houve nada ainda. Mas isso pode ser
resolvido — disse Ricardo, avizinhando-se.
Inês não recuou. Mas tampouco se adiantou. Coube a
Ricardo estender os próprios lábios para os dela. As bocas se
encontraram e, por um instante, se fundiram.
Mas só por um instante. Inês se retraiu.
— Eu lhe fiz uma pergunta — disse, tentando ostentar uma
indiferença que lhe era difícil simular.
Ricardo suspirou e fez uma careta.
— Ajudo-a porque me parece absurdo todo esse ódio contra
os judeus... Não creio que as pessoas devam lutar entre si
com base em preconceitos... — limitou-se a responder,
achegando-se de novo.
Mas Inês se afastou.
— Não seria por causa da irmã? Sara, acho que esse é o
nome... — disse, num tom só um pouco mais azedo do que
ela gostaria.
— Por que mencionar Sara agora? O que tem a ver? —
espantou-se ele.
— Rebeca me contou que ela é muito bonita e que você a
salvou, em Mogúncia. Continua pensando nela, não é?
Ricardo compreendeu que devia desmenti-la. Do contrário,
não poderia em absoluto confiar numa mulher enciumada.
Aproximou- se novamente do rosto dela.
— Você está superestimando a questão. Não importa o que
eu fiz no passado. Importa o que faço agora. E o que estou
fazendo agora é beijá-la — disse, com o rosto sempre
próximo.
Ela sentiu-lhe o hálito e experimentou um forte arrepio ao
longo das costas. Desta vez, deixou-se arrastar pela própria
boca, que desejava ardentemente o contato com os lábios
dele. Fundiram-se de novo.
Passou-se algum tempo, até que Inês encontrasse forças para
se retrair mais uma vez.
— Não precisa me comprar, para conseguir o que quer —
disse. Olhou a bolsa e pegou-a. — Bom, vá descansar. Eu
trato de esconder isto num lugar seguro.
Ricardo estendeu a mão, tentando brandamente atraí-la de
novo. Mas Inês permaneceu rígida e evitou olhá-lo. Ele
desistiu de fazer outra tentativa.
— Você é uma amiga de verdade — disse, antes de se voltar
e se afastar.
— Sei. Uma amiga de verdade... — limitou-se Inês a repetir,
com expressão amarga. Mas Ricardo já estava longe demais
para ouvi-la.
Escondido atrás de uma carroça, junto com o soldado que
levara consigo, o irmão Sigfrid tinha observado toda a cena,
embora sem poder captar as palavras que os dois haviam
trocado.
Resolveu continuar controlando Inês.
Do lado de dentro das muralhas, a jornada também fora
pesada. De repente, do alto dos espaldões notara-se uma
abundância de madeira nos acampamentos dos francos. Os
defensores observavam, preocupados, a construção das
torres e dos trabucos. O governador Iftikhar al-Dawla tinha
sido rápido em adotar medidas adequadas à situação, dando
imediatamente a ordem de utilizar as reservas de madeira no
interior da cidade para construir, ao menos nos setores
ocidental e setentrional das muralhas, plataformas que
elevassem o nível dos espaldões e dos adarves entre uma
torre e outra.
De igual modo, os defensores tinham recebido palha e
cordame naval para encher sacos de tecido rústico e
pendurá-los ao longo das muralhas, a fim de protegê-las dos
impactos dos projéteis que eram esperados para dali a pouco.
Firuz havia colaborado ativamente nos preparativos para a
defesa. Graças à consideração de que gozava no exército
fatímida por sua renomada fidelidade a Jamal al-Ashraf,
passara temporariamente às ordens de outro emir, com o
acordo, porém, de retornar às fileiras de Jamal se houvesse
oportunidade para tal. E essa oportunidade ele mesmo
pretendia criá-la de imediato. Naquela mesma noite.
Terminada a jornada de trabalho, pedira audiência ao
governador, a fim de obter permissão para uma surtida com
o objetivo de libertar seu comandante. Iftikhar havia
manifestado grande perplexidade por uma iniciativa tão
temerária. "Se esperarmos mais", objetara o turco, "nós
vamos perdê-lo. Lá fora as condições são duríssimas para os
sitiantes, imagine-se para os prisioneiros."
— Eu não gostaria de perder também você, além de Jamal al-
Ashraf. Você é um dos soldados mais valorosos.
— Recuperar Jamal al-Ashraf é mais importante do que me
perder.
Por fim, Iftikhar se convenceu. Perguntou de quantos
homens
Firuz precisaria, mas este respondeu que pretendia ir
sozinho. O governador tinha conhecimento das proezas
realizadas pelo turco durante o assédio fatímida no ano
anterior e decidiu confiar nele.
Na realidade, Firuz não tinha propriamente um plano. Havia
trabalhado muito ativamente, naquele dia, e não se
interrompera para pensar em como organizar a surtida. Só
começou a refletir sobre a estratégia a adotar quando se viu
fora das muralhas, depois de transpor discretamente a Porta
de Jaffa, sem turbante nem proteções. Tinha uma única
certeza, nem tão inabalável assim.
Os francos haviam erguido três acampamentos: ao norte, a
oeste e a sudoeste. Tratava-se de compreender para onde
Jamal fora levado.
O bom-senso lhe sugeria que os prisioneiros teriam sido
utilizados para a construção das máquinas, e, sobretudo, das
torres, cuja presença ele não havia identificado no
acampamento setentrional. O setor sudoeste devia ser
descartado, porque, ficando distante das muralhas, obrigaria
os infiéis a um trajeto longo demais para posicionar as
máquinas.
Conclusão: os prisioneiros estavam no acampamento central,
o dos germânicos.
Já era noite alta. Graças à luz da lua e das estrelas, porém,
Firuz conseguia enxergar o perfil do vaiado que os cruzados
haviam construído como defesa para seu acampamento mais
próximo, justamente o dos germânicos, diante da Torre de
Davi. As tendas deles, e presumivelmente o campo dos
prisioneiros, ficavam além daquela trincheira.
Nos dias precedentes, ele tinha visto os francos
desmontarem a paliçada com a qual haviam cingido os
setores ocupados e utilizarem aquela madeira para construir
as máquinas. No lugar dela, surgira da noite para o dia um
terrapleno irregular, cuja altura eles haviam
progressivamente aumentado com mais terra e alguns
pedregulhos. Tratava-se, porém, de uma barreira
relativamente baixa e muito fácil de transpor. O lado externo
exibia um declive suave, tornado insidioso apenas por
algumas estacas pontudas, fincadas na terra acrescida, mas
que não constituíam uma verdadeira ameaça para o
assaltante.
Ali fora, quase não havia sentinelas. Ficariam demasiado
expostas às surtidas provenientes da cidade. Firuz via um ou
outro soldado de ronda, em correspondência com os
estreitos vãos de passagem, mas estava claro que os infiéis
não esperavam ataques. Ocorreu-lhe que, naquelas
condições, poderia esperar alguns dias e conduzir uma ação
para incendiar o maquinário, tal como fizera no ano anterior.
Mas se deu conta de que, após a tentativa daquela noite, os
francos ficariam mais atentos, e as eventuais surtidas teriam
menores probabilidades de sucesso.
Em suma, transpor a barreira não era difícil. O difícil era não
se fazer notar pelas sentinelas no vão mais próximo. As
tochas estavam distribuídas a tão pouca distância que
somente uma pequena zona no meio permanecia totalmente
às escuras. Ele se concentrou num ponto a uns cinqüenta
passos de um dos vãos. Decidiu simplesmente galgar a
barreira, ajudando-se com as raras estacas para se içar.
Naquele setor, a luz das tochas não chegava, e ele confiava
em poder passar sem chamar a atenção.
Mesmo assim, decidiu esperar a troca de guarda, para se
aproveitar da distração dos francos. Então se manteve
acachapado sobre o terreno, na vala rasa que escolhera como
ponto de observação.
Pouco depois, o cansaço da pesada jornada começou a se
fazer sentir. Ele constatou que, abandonando-se deitado
daquele jeito, corria o risco de adormecer. Mas, logo quando
já ia perdendo sua luta contra o sono, percebeu um certo
movimento perto do vão. Saiu do torpor, balançando
vigorosamente a cabeça, e tentou compreender se se tratava
da troca de guarda.
Viu que eram duas sentinelas. Mas estavam brigando. Não
conseguia compreender o que elas se diziam, até porque
logo passaram às vias de fato. Um dos dois empurrou o outro
contra a barreira. Este perdeu o equilíbrio e caiu. O outro lhe
saltou em cima, golpeando-o violentamente no elmo com o
escudo.
Firuz decidiu sair e rastejar até o ponto escuro da barreira.
Chegou a tempo de ver que o guarda ainda de pé escapulia
para fora do acampamento, e concluiu que ele estava
desertando, após uma inútil tentativa de convencer o outro a
segui-lo. O turco ouvira dizer que os francos estavam se
desagregando; seus companheiros tinham surpreendido uns
mirrados grupos inimigos perambulando rumo ao setentrião
e haviam disposto deles como bem queriam. Presu-
mivelmente, aquele sujeito teria o mesmo fim.
Apressou-se a alcançar a barreira. No vão não havia mais
ninguém, afora o soldado desmaiado. Isso lhe deu uma idéia.
Levantou-se e se aproximou do franco. Olhou em torno.
Ainda ninguém. Tirou-lhe o elmo, o escudo, a espada, e
equipou-se. Com um pouco de sorte, seria confundido com
um deles.
Afastou-se do valado e entrou no acampamento. Nos
arredores não havia ninguém. Era compreensível. Afinal, os
francos tinham poucos recursos à disposição e estavam
trabalhando vigorosamente sob o sol escaldante durante o
dia. Ninguém tinha vontade nem forças para se manter
acordado à noite, exceto aqueles que haviam recebido ordem
de fazê-lo. Isso o fez concluir que a presença de outras
sentinelas, dentro do acampamento, lhe permitiria localizar
o setor dos prisioneiros.
Passou em meio às primeiras tendas e notou certo
movimento. Havia alguém agachado, murmurando palavras
incompreensíveis. Continuou a caminhar, tomando o
cuidado de não se aproximar muito. Percebeu que se tratava
de um padre, ocupado em rezar. Sabia que, entre os cristãos,
somente os padres tinham momentos de prece
preestabelecidos, mesmo durante a noite. Seguiu adiante.
Viu uma mulher saindo de uma tenda, com uns andrajos
impregnados de sangue e a expressão transtornada pela
fadiga e pela dor. Uma esposa que havia cuidado em vão de
seu homem? Seguiu adiante.
Topou com uma área cercada. Dentro, alguns animais. Na
maioria, de carga: jumentos, mulas, bois, mas também um ou
outro cavalo maltratado. Dois civis se encostavam à paliçada,
presumivelmente para montar guarda. Mas um dormia, e o
outro parecia prestes a também cair no sono.
Em seguida, finalmente os viu. Eram muitos os guardas que
vigiavam o recinto dos prisioneiros. Um recinto quase igual
ao dos animais, com a única diferença de um minúsculo
cubículo sem teto em um canto, onde, presumivelmente, os
muçulmanos iam fazer suas necessidades.
A luz das tochas permitiu-lhe observar a posição dos
prisioneiros ali dentro. Estavam todos deitados, repousando,
em ordem esparsa, e somente uns poucos se localizavam
junto à paliçada circundante.
Firuz decidiu que o único jeito de alcançar seu senhor era
chegar pelo menos à latrina. Os soldados dispostos em torno
do recinto eram ao todo uns vinte, a uma distância de cerca
de trinta passos um do outro. Alguns estavam sentados,
outros ainda rigidamente de pé. Para sua sorte, o que estava
próximo à latrina cochilava, encostado à cerca.
Aproximou-se dele. O outro não lhe deu importância. Ou
talvez dormisse: Firuz não conseguiu saber. Olhou ao redor e
viu que o guarda mais próximo o observava. Deixou-se ver,
enquanto dava um tapinha no soldado ao seu lado, como se
quisesse exortá-lo a ficar de pé. Na realidade, golpeou-o no
pescoço, matando-o na mesma hora com uma hábil pressão.
Aguardou que o outro guarda se voltasse e depois ergueu
violentamente o cadáver, procurando mantê-lo de pé.
Esperou estar dando a impressão de que o soldado
caminhava com as próprias pernas e de que ele o conduzia a
algum lugar para lhe dar uma boa lição.
Não escutou nada atrás de si, e deduziu que o primeiro
guarda havia mordido a isca. Chegado à altura de uma
carroça, arrastou sua vítima e a deixou ali, substituindo o
elmo que usava, em capacete, pelo do morto, que era em
chapéu com abas. Trocou também o escudo, ficando com o
redondo do cristão e deixando para trás aquele que estava
usando, de forma amendoada.
Voltou à posição de guarda, fazendo um sinal de
assentimento ao outro soldado, que o observava
distraidamente. Permaneceu de pé, até para demonstrar que
a reprovação tinha sido eficaz. Esperou um tempo razoável,
e então decidiu que era hora de ir ao banheiro.
Com um aceno, indicou ao outro que estava com dor de
barriga. O guarda aquiesceu. Firuz entrou no recinto e, em
seguida, na latrina. Rapidamente, abandonou as armas,
espiou para fora, a fim de verificar se o outro não o olhava,
saiu e foi se agachar perto do prisioneiro mais próximo.
Agora, não se distinguia dos demais.
Deu uma sacudidela no muçulmano para acordá-lo.
— Onde está o emir Jamal al-Ashraf? — perguntou.
O prisioneiro demorou alguns instantes para acabar de
despertar e para reconhecê-lo.
— Você... é o turco... Firuz! Também foi capturado?
— Não. Quero tirar o emir daqui. Onde ele está?
— Ali, junto da judia — respondeu o homem, indicando um
local pouco adiante.
— Agora, escute — disse Firuz. — Vá até a latrina. Lá
encontrará elmo, escudo e espada. Pegue-os e vá se plantar
fora do recinto, bem diante do cubículo. Finja que é um
guarda.
O muçulmano obedeceu prontamente.
— Que Alá ajude você a tirá-lo daqui — limitou-se a dizer,
dando-lhe um tapa no ombro.
Firuz caminhou na direção indicada pelo soldado, até que
viu seu comandante. Este dormia. O turco lhe deu também
uma sacudi- dela.
Jamal, quando abriu os olhos e o viu, de início não disse
nada. Sorriu e apoiou uma das mãos no ombro dele.
— Está aqui como prisioneiro ou como libertador? —
perguntou.
— Estou aqui para soltá-lo. Mas precisamos agir depressa.
— Eu tinha certeza. Só que não devemos sair daqui sozinhos
— esclareceu o emir.
Firuz assentiu. Sabia que o chefe lhe pediria isso. Ambos se
voltaram para Rebeca. Ela estava acordada e os olhava.
— Eu não vou — disse, com aparente serenidade.
— Como assim? Está brincando? — surpreendeu-se Jamal.
— De maneira nenhuma. Eu fico.
— Posso perguntar por quê, em nome de Alá? — exclamou
consternado o árabe.
— Não posso abandonar os rolos. Sou a guardiã deles e espero
recuperá-los. Se eu fugir, nunca mais os terei — respondeu
Rebeca, decidida.
— E não pensa em sua irmã? Ela não é importante para você?
— insistiu Jamal.
— Não vem ao caso o que é importante para mim, mas só o
que é importante, e pronto. De Sara você cuidará, tenho
certeza. Não preciso lhe pedir que tome conta dela —
respondeu a moça.
— Cuidarei dela, seja como for. Prometo. Que Alá esteja com
você. — Foi a frase conclusiva do emir, a quem Firuz já
puxava pela manga.
— Como você pretende sair? — perguntou Jamal ao turco.
— Deixei de guarda um dos nossos, com as armas de um
franco. Atrás de uma carroça, aqui perto, há outro uniforme.
Vamos pegá-lo e sairemos. Houve deserções nos vãos da
barreira.
— Tenho uma idéia melhor — interveio Rebeca.
Inês sequer levou em consideração a hipótese de esconder o
manuscrito em sua tenda. Compartilhava aquele abrigo com
outras prostitutas e, além disso, por motivos óbvios, havia ali
um contínuo vaivém de homens, embora o afluxo de
clientes tivesse se reduzido significativamente nos últimos
dias.
Mas fazia uma idéia bem precisa do local para onde devia
levá-lo. Sabia da existência de uma formação rochosa um
pouco ao sul do acampamento, à qual já ninguém ia porque
entre os seixos fervilhavam tarântulas. À noite, os temíveis
aracnídeos não constituíam uma ameaça, e ela estava
bastante decidida a aproveitar esse fato para esconder a
sacola embaixo de uma rocha ou dentro de uma cavidade.
Fez o trajeto inteiro em passos rápidos, sem perceber que, a
pouca distância, duas sombras não a perdiam de vista. Outra,
porém, seguia paralelamente a ela, mas suficientemente
afastada para não ser vista nem por ela nem pelas outras
duas.
Chegou à formação rochosa. Olhou ao redor e não lhe
pareceu ver ninguém nas vizinhanças.
Observou a disposição das rochas, que se escalonavam ao
longo do suave declive cobrindo buracos e asperezas. Bateu
os pés no solo, uma, duas, várias vezes. Não satisfeita,
recolheu um ramo e fustigou o terreno, enquanto subia por
entre as pedras à procura de uma cavidade.
Nesse meio-tempo, Sigfrid, acompanhado por um armígero
loreno, não parava de observá-la. Ao vê-la concentrada em
busca de um esconderijo, aproveitou para aproximar-se mais.
Notou que ela tentava deslocar uma pedra de tamanho
médio e foi tomado pela agitação. De início, havia pensado
em aguardar que Inês fosse embora, para depois subtrair o
que ela escondera. Mas tinha também consciência da
extrema periculosidade daquele lugar, e achou conveniente
tomar-lhe a sacola antes que ela a fizesse desaparecer.
— Vá avisar ao duque Godofredo que provavelmente uma
mulher está com o manuscrito de que falamos. E traga-o
logo para cá — disse ao soldado que o acompanhava. O zelo
do conde Raimundo não o convencia, e, além disso, ele
estava aborrecido com o modo como o francês o tratara
diante de seu lugar-tenente. Era melhor compartilhar com o
duque de Lorena o mérito pelo encontro dos rolos. — Mas,
antes — acrescentou —, deixe comigo sua faca.
Depois que o soldado desapareceu na escuridão, o diácono se
aproximou da mulher, que já ia colocando a sacola dentro de
um buraco.
— O que você está escondendo, sua puta?
Inês deu um salto. Nem sequer o ouvira se aproximar.
Não respondeu.
— Não me ouviu? O que está escondendo? — repetiu Sigfrid.
— Coisas minhas. Nada que lhe interesse — respondeu ela,
hesitante.
— Este é um empreendimento realizado sob o signo do
Senhor. Tudo que acontece interessa à Igreja.
— São... uns mantimentos que furtei de um cliente. Vim
escondê-los para ter o que comer, quando não houver mais
nada... — Foi a resposta que ocorreu a Inês.
— E os dá como refeição às tarântulas? Não teme não
encontrar nada, quando vier buscar? — insistiu ele.
— Vai implicar com o alimento de uma pobre prostituta que
sobrevive com dificuldade? Os senhores, padres importantes,
certamente não têm esses problemas — respondeu Inês, que
não o conhecia, mas recordava muito bem em que
companhia o tinha visto. Aquele não era um dos monges
que ficavam no meio do povo. Era um dos que só apareciam
ao lado dos poderosos e sempre mantinham certa distância
dos pobres.
— Se fosse comida, seguramente não. Mas quero conferir se
é comida mesmo. Entregue-me essa bolsa — disse Sigfrid,
sem mais delongas.
Inês a deixou cair no buraco.
— Venha buscar — disse, apalpando o flanco em busca de
sua faca. Mas logo se lembrou de tê-la deixado na tenda,
quando decidira que aquela jornada estava encerrada.
O diácono fez um gesto de irritação. Puxou e brandiu a
própria faca, cuja lâmina brilhou à luz da lua.
— Recolha a bolsa. Agora. Se não, vou estripar você —
retrucou, brandindo a arma com maior teatralidade.
Inês não se moveu.
— Não — limitou-se a dizer, mesmo tremendo de medo.
Sigfrid avançou para ela. Inês se inclinou, mas não para
recuperar a sacola. Apanhou uma pedra e se preparou para
jogá-la contra o atacante. Este se aproximou. Ela a lançou,
atingindo-o de raspão num ombro. O diácono soltou um
grito sufocado e se dobrou sobre si mesmo, mas recomeçou
a brandir a arma, com expressão ainda mais feroz.
Já não lhe interessava obrigá-la a entregar a bolsa. Agora, só
queria ter a satisfação de degolá-la. Inês compreendeu e
recuou, mas à sua retaguarda havia rochas altas demais para
que ela pudesse ultrapassá-las sem dar ao homem tempo
suficiente para alcançá-la. Sigfrid levantou o braço e se
preparou para desfechar a cutilada.
De repente, surgiu da sombra uma silhueta, que se atirou
sobre o diácono. Os dois rolaram pelo declive, lutando
selvagemente. Inês não conseguia distingui-los, enroscados
como estavam, o primeiro para golpear com a faca, o recém-
chegado para bloquear o braço do antagonista e impedir o
ataque.
De início, a mulher culpou a escassa visibilidade. Depois
percebeu que não os distinguia porque eles estavam vestidos
da mesma maneira.
Ambos usavam batina.
Continuaram a lutar, sem dizer uma palavra. A briga era
acompanhada apenas por bufidos, gritos abafados, ofegos.
Inês gostaria de intervir em favor de seu defensor, mas não
conseguia identificá-lo. Viu somente que dois braços
diferentes se entrelaçavam em torno do punhal, cuja lâmina
girava convulsamente no ar, descendo volta e meia quando
um braço prevalecia sobre o outro.
Por fim, o punhal desapareceu entre as vestes misturadas.
Seguiu-se um grito estrangulado, muito mais forte, longo e
intenso do que os precedentes. Depois, mais nada. Só a
respiração arfante do sobrevivente.
Inês se perguntou se devia fugir.
— Eram dois. O outro deve ter ido pedir ajuda. Pegue a
sacola e vamos embora daqui — disse o homem, levantando-
se com dificuldade.
A débil luz da lua finalmente iluminou seu rosto, coberto de
suor.
— Anselmo! — gritou Inês.
A alvorada se avizinhava. Mas a certa distância ainda era
difícil distinguir, num homem, algo mais do que a silhueta.
Jamal contava justamente com esse fator. Assentou o elmo e
o escudo e empunhou a espada, os quais, no intervalo de
poucos instantes, do guarda vizinho à latrina haviam passado
a Firuz, ao outro árabe que assumira o lugar deste e, por fim,
a ele.
Saiu do cubículo e, em passos decididos, foi para perto de
Firuz. Simultaneamente, conforme o combinado, Rebeca se
levantou e se dirigiu ao guarda mais próximo, que finalmente
estava se perguntando o que era toda aquela estranha
movimentação de seu colega.
A moça se aproximou e disse, tentando mostrar a
desenvoltura que Inês exibiria nas mesmas circunstâncias:
— Soldado! Não se entedia de nos vigiar por toda a noite?
Acrescentou até um sorrisinho malicioso. Mas não o
manteve
por muito tempo, temendo que parecesse uma careta,
considerando- se sua escassa capacidade de seduzir os
homens.
De fato, a sentinela não se mostrou nem um pouco
perturbada.
— E daí? — respondeu, em tom seco.
— Daí... — Rebeca hesitou. Realmente não conseguia
pronunciar aquelas frases. — Daí... você poderia tirar
proveito disso com um passatempo interessante, se me
arranjasse um pouco d'água... — Que dificuldade para falar
tais coisas!
— Como assim? O que você quer dizer? — perguntou o
soldado. Não parecia ter compreendido.
Rebeca suspirou. Aquele sujeito não era nada esperto. Ou,
então, ela não tinha sido suficientemente explícita. Refletiu
por alguns segundos: de tanto estudar, havia se habituado a
usar uma linguagem muito douta. Nada que servisse para
seduzir um homem. Muito menos um soldado rústico e
ignorante.
Tentou de novo:
— Se você me der um pouco d'água, eu posso lhe dar outra
coisa... — E tentou de novo o sorriso malicioso. Teve a
impressão de que se saiu melhor, porque o rosto do
guerreiro se iluminou. Os olhos dele a esquadrinharam.
Rebeca sentiu sobre si a mirada concupiscente do homem,
que avaliava suas formas sob a roupa.
Ele não pareceu se impressionar muito com o que percebia,
pois levou algum tempo nesse exame. Por fim, contudo,
decidiu que ela seria melhor do que nada.
— Agora eu não tenho água. E, também, como você
pretende me pagar? Quero um adiantamento, enquanto isso.
Vamos até a latrina? — disse, passando a língua sobre a barba
imunda.
Rebeca sentiu uma repulsa incontrolável. A simples idéia de
se fechar naquele cubículo fedorento com um indivíduo de
aparência terrivelmente sórdida a deixava horrorizada. Mas,
justamente nesse momento, desencadeou-se a segunda fase
do plano:
— Sabe o que vou fazer, amigo? Levo este bastardo à piscina
de Siloé e o faço pegar água para nós. Se nos avistarem dos
espaldões, tanto faz, atiram nele... — disse Jamal, vestido de
guerreiro franco e arrastando atrás de si Firuz, em tudo
semelhante a um prisioneiro.
Rebeca sentia o coração na garganta. Por mais profundo
conhecedor de idiomas que Jamal fosse, seu latim não havia
sido totalmente impecável. Ela esperou que fosse só uma
impressão ditada pela própria tensão. Por outro lado, jamais
conhecera alguém que falasse um latim desprovido de
inflexões e expressões em língua vulgar, à exceção de alguns
padres.
Mas seu desagradável interlocutor parecia ter caído na
esparrela. Olhou-a e disse:
— Ouviu? Daqui a pouco, você terá água. Podemos ir fazer
logo aquilo. Vá — acrescentou, dirigindo-se a Jamal. — Eu,
enquanto isso, fico me divertindo. E traga muita água. Vou
precisar, depois...
Rebeca não soube se ficava contente porque seus amigos iam
conseguir se safar ou aterrorizada pelo que a esperava.
Lançou a eles um olhar de despedida e os observou
enquanto eles saíam do recinto e se distanciavam na noite
rumo ao oriente.
— Vamos, depressa, eu também não posso me ausentar por
muito tempo — disse o soldado, puxando-a pela mão depois
de entrar no recinto. Rebeca se sentiu arrastada sem grandes
cuidados em direção ao cubículo.
— Não quero mais! — conseguiu dizer, tentando se plantar
no lugar.
— O quê? Ah, não, linda! — soprou-lhe na cara o guerreiro.
— Agora já me deu vontade. Mexa-se! — acrescentou,
puxando-a mais.
— Não! Não quero! — repetiu Rebeca, já percebendo o fedor
que emanava da latrina, depois que o soldado abriu a porta. E
viu que seria obrigada a fazer o que havia combinado com
Jamal, se não conseguisse impedir o estupro.
Então deu um berro.
De repente um numeroso grupo de prisioneiros egípcios os
circundou. Inevitavelmente, dois dos guardas mais próximos
correram para eles, com as lanças em riste.
— Para trás! Para trás! — gritou o armígero que a arrastava,
assustado com o olhar ameaçador dos árabes, que, no
entanto, permaneciam inertes e em silêncio. Rebeca sabia
que eles não agrediriam o cristão, para não chamar a atenção
dos outros soldados. Mas aquilo que estava acontecendo já
bastava para criar alarme. De fato, ela escutou um dos
guardas gritar aos companheiros que fossem buscar reforços.
Enquanto isso, o soldado que a agarrara havia parado de
puxá- la. Visivelmente preocupado, tentava repelir os
muçulmanos, que o circundavam de perto, mas sem agredi-
lo.
Um brado, porém, ecoou na escuridão:
— Alarme! Topei com o cadáver de Rinaldo! E sem as armas!
— Um soldado que fora buscar ajuda havia chegado à altura
da carroça onde Firuz tinha abandonado o corpo do soldado
morto.
— Aquele infiel que estava indo buscar água o matou! —
gritou de volta o soldado que segurava Rebeca, afastando-a,
abrindo caminho entre os árabes ao seu redor e saindo do
recinto. Passou os instantes seguintes, pelo que a judia
conseguiu compreender, explicando ao companheiro a
história da água.
Não tinha sido exatamente assim, pensou Rebeca, mas
enquanto isso fora dado o alarme. De fato, um dos dois
cristãos correu para leste, a fim de interceptar os fugitivos.
Em breve, a moça escutou outras vozes provenientes de
diversas partes do acampamento.
Não soube se pedia a Deus ou a Alá que Jamal e Firuz
conseguissem escapar.
Mas, se Jamal tinha razão, era a mesma coisa.
— O que você fazia aqui? — perguntou Inês ao monge, que
acabava de lhe salvar a vida.
— Eu a segui.
— Por quê?
— Creio que isso lhe foi útil...
— Certo. Mas, ao que parece, não basta que me sigam os
inimigos. Os amigos também o fazem... Saiba que até as
putas têm direito a um pouco de privacidade, apesar de
tudo... — observou ela.
Anselmo baixou os olhos, visivelmente encabulado.
Inês não conseguiu levar adiante sua atitude ressentida.
Aproximou-se dele e o abraçou. Sentiu-o estremecer de
emoção.
Quando se separou do monge, viu que ele chorava.
— Por quê? — perguntou.
— E ainda pergunta? Matei um homem. Um confrade ainda
por cima!... — exclamou Anselmo, desesperado.
— Ele não era bom. Isso deveria aliviar sua consciência...
— Quem sou eu para estabelecer quem é bom e quem é mau?
E, também, não o matei por isso, mas só porque... não queria
que ele lhe fizesse mal...
Inês o abraçou de novo. Depois recuperou seu típico senso
prático feminino.
— Precisamos sair logo daqui. Você mesmo disse. Vou
buscar a sacola.
Apanhou um ramo e o enfiou no buraco, fazendo-o passar
pela corda da bolsa e puxando-a.
— E agora, o que você vai fazer com isto? — perguntou ele,
ainda soluçando.
— Só me resta levá-la para dentro da minha tenda. Vou
enterrá-la embaixo de meu enxergão...
— Eu a defendi para salvar sua vida — especificou Anselmo -
mas não esses textos ignóbeis. Você deveria entregá-los a
Raimundo ou a Godofredo.
Inês deu um suspiro profundo.
— Não acha que eles me eliminariam, se soubessem que isto
está comigo? Eu, que nem entendi do que se trata! Para
piorar, iriam me atribuir a morte deste homem.
Anselmo também suspirou. Não podia negar o que ela dizia.
— Tome cuidado — limitou-se a recomendar.
O transtorno surgiu de repente. E justamente quando parecia
que eles poderiam passar ilesos através das malhas
modorrentas do exército cristão. Firuz já entrevia a distância,
no débil clarão da aurora, o vão pelo qual havia passado,
agora novamente vigiado por dois guardas.
Mas o problema estava atrás deles. Firuz não compreendia o
que diziam os soldados que os tinham avistado, mas Jamal
sim. "Ei, amigo, bloqueie esse infiel!", gritavam-lhe,
tomando-o por um cristão. Mas ele continuava avançando
rumo ao vaiado.
Os homens em sua retaguarda não conseguiam entender.
Por que o colega que ia ao lado do prisioneiro não se
detinha? Seria um desertor? Igualmente surpresos pareciam
os dois guardas lá na frente. Ficaram parados, embora em
atitude atenta, até que os dois muçulmanos chegaram à
barreira defensiva. Atrás aproximava-se um denso grupo de
armígeros, ainda muito confusos para correr.
— Aonde vão? — perguntou um dos guardas a Jamal,
apontando a lança para o ventre dele.
— Estou levando este prisioneiro para buscar água na piscina
de Siloé — disse o emir.
— Detenham-nos! — ouviu-se gritar do interior do campo.
Tinham chegado também os soldados provenientes do
recinto dos prisioneiros.
— Você não pode nem... — disse o guarda, sem conseguir
terminar a frase. Com a espada que levava oculta sob o
camisão, Firuz acabava de perfurá-lo no tórax; no mesmo
momento, a espada de Jamal acabava no estômago do outro
soldado.
Os dois muçulmanos começaram imediatamente a correr.
Tinham sobre os perseguidores uma boa vantagem, que
aumentou graças às hesitações dos cristãos em se
aventurarem fora do valado, por medo de agressões inimigas.
Os francos acabaram recorrendo às poucas máquinas de
lançamento já prontas.
Jamal e Firuz ainda correram desabaladamente por um
trecho, sem serem perturbados. A respiração ofegante os
impediu de perceber o primeiro assovio que fendeu o ar
acima de suas cabeças.
O projétil aterrissou, imprevisível, bem à frente. Tão perto
que Firuz não conseguiu retardar a corrida e acabou
tropeçando na pedra, despencando desastrosamente no solo.
Jamal compreendeu que ele se machucara, embora o turco
tivesse se limitado a emitir um grunhido. Deteve-se e tentou
ajudá-lo a se levantar. Outro projétil caiu poucos passos à
esquerda dos dois.
— Deixe-me. Vá embora — disse Firuz, soltando-se do emir
e recusando-se a se erguer.
— Eu não me perdoaria nunca — respondeu Jamal, tentando
novamente colocá-lo de pé.
— Assim, morreremos os dois. Não era esse o meu objetivo
— replicou o turco, ainda opondo resistência. De sua
expressão transparecia uma dor física quase insuportável.
Outra pedra. Bem atrás deles.
— O único objetivo que importa é o que Alá nos reservou.
Portanto, Ele é quem decidirá — retrucou o árabe,
soerguendo-o com muita cautela.
Firuz sentiu um joelho ceder. Não se lamentou, mas seu
comandante compreendeu que ele tinha fraturado algum
osso. Então lhe cingiu a cintura e tentou sustentá-lo
fazendo-o se apoiar nele e passando o braço esquerdo do
turco, o maneta, sobre sua nuca. Recomeçaram a caminhar.
Firuz evitava apoiar o peso sobre a perna quebrada,
saltitando sobre a boa e contando com o amparo do árabe.
Mas a marcha era tremendamente lenta e o esforço de Jamal,
imenso.
Uma nova pedra os aflorou.
Outra passou-lhes acima da cabeça.
Andavam muito devagar. Jamal parou e ordenou a Firuz que
tomasse impulso com a perna boa. Depois se inclinou um
pouco e o carregou nas costas. Com tanto peso, não tinha
muita autonomia, mas só faltavam poucas dezenas de passos
para estar fora do alcance das máquinas inimigas.
O emir recomeçou a caminhar, em ritmo mais intenso do
que antes. Mas logo sentiu o esforço e temeu não conseguir
dar mais um passo. Pensou em Sara e avançou um pouco.
Devia conseguir. Para lhe falar da irmã, para cuidar dela. Para
participar da vitória segura que se prenunciava aos crentes,
depois que ele vira de perto o desva- lido exército dos infiéis,
afligido pela sede, pelas deserções, pelas divisões de
comando, e ameaçado pela chegada do grão-vizir.
Devia conseguir.
Ouviu um projétil cair atrás de si. E outro, ainda mais atrás.
Deu mais alguns passos. Estava no limite de suas forças.
Outro baque. As suas costas, mais longe ainda.
Agachou-se, permitindo que Firuz tocasse o solo com
delicadeza.
Jogou fora o elmo, o único equipamento cristão que havia
conservado em sua fuga. Reergueu-se e de novo ofereceu o
ombro ao turco, que se apoiou nele com imenso respeito.
A Porta de Jaffa estava aberta. Fogueiras ardiam dentro de
sua moldura. Silhuetas se recortavam na luz. Soldados à
espera do retorno deles.
XX
Inês dormiu mal. Saber-se deitada em cima dos escritos que
já tinham custado a vida de uma pessoa e ameaçavam a
existência de quem sabe quantas outras não era exatamente o
tipo de pensamento que a ajudasse a conciliar o sono.
Tampouco lhe foi fácil, uma vez de pé, afastar-se da tenda
para as incumbências cotidianas. Sempre que era obrigada a
isso, inventava algum pretexto para retornar e conferir se
tudo estava em ordem.
Teve esperança de receber clientes, a fim de não perder de
vista seu catre em nenhum momento, só que não era mais
tempo para prazeres desse gênero. Era pela água, e somente
pela água, que os homens se dispunham a pagar, e o
desalento, o cansaço, o calor cada vez mais opressivo já
tinham extinguido qualquer impulso sexual.
E ela tampouco gostaria de receber outro tipo de pagamento,
claro. Já nas primeiras horas da manhã, a necessidade de
matar a sede era o único motivo pelo qual desejava um
cliente. Pensou em ir pedir ajuda a Ricardo, que gerenciava a
água para os prisioneiros e era muito próximo do conde de
Toulouse, mas depois decidiu que jamais se humilharia a tal
ponto aos olhos dele. Se o normando quisesse recompensá-la
pela responsabilidade que ela havia assumido, ele que viesse
lhe trazer água.
Mas Ricardo não veio.
Em compensação, apareceu um soldado em péssimas
condições. Arrastou-se até ela em passos dificultosos,
lutando para manter a posição ereta. Nas mãos, trazia um
recipiente.
— Tenho água. Se você me divertir um pouco, posso lhe dar
alguma, depois — disse. Ao abrir a boca para falar, ele deixou
ver, entre uma palavra e outra, a língua dessecada e coberta
de pústulas. Inês se perguntou como era possível que um
homem capaz de desperdiçar água com uma prostituta
estivesse tão desidratado. Sabia de gente que, sob risco de
vida, ia à fonte de Siloé para obtê-la, e depois a revendia a
peso de ouro. Mas também supunha que, antes de
comercializá-la, essas pessoas usassem uma parte para se
revigorar.
Mas talvez, pensou, em alguns a ânsia por dinheiro superava
até a consciência de precisar sobreviver. Naquele sujeito que
a muito custo se agüentava de pé diante dela, talvez o desejo
de prazer superasse o de dinheiro e de sobrevivência.
Não. Havia algo que não a convencia.
— Primeiro me dê água. Depois eu o divirto — disse Inês.
— Não confia? Eu realmente tenho água aqui dentro —
respondeu o outro, agitando o recipiente e fazendo-a ouvir o
rumor do líquido que se movia.
— Está bem. Então, apenas me deixe vê-la. E prová-la,
também.
O soldado não se deu por vencido:
— Ah! Por quem você me toma? Depois acaba bebendo e me
mandando embora...
— Eu não conseguiria nem mais um cliente, se ele soubesse
que não mereço confiança...
— Nada feito.
Inês ficou tentada. Tinha a garganta ardente, os lábios
gretados e secos, e não vislumbrava para tão cedo a
possibilidade de matar a sede.
— Dê a água a ela.
Quem falou foi outro homem, surgido apenas naquele
momento.
Godofredo de Lorena.
O duque não trazia cota de malha, nem escudo ou elmo.
Usava somente a longa sobreveste sem mangas que
costumava colocar sobre a couraça. E tinha a espada no
flanco, naturalmente, além de um pequeno odre nas mãos.
No entanto, sua autoridade era evidente.
O soldado hesitou.
— O que está esperando, idiota? Mandei você dar água a ela
— repetiu Godofredo, dando um passo à frente.
— Meu senhor, deixe estar... Não tem importância. Mudei de
idéia. Não estou mais com vontade de me divertir com esta
aqui... — disse o homem, visivelmente atemorizado.
— Ah, é? Então, você mesmo pode beber esta água, não?
— Sim, claro, mais tarde...
— Não. Agora.
Inês conhecia o olhar que acompanhava as palavras do
duque de Lorena. Já o vira outras vezes. Expressava maldade?
Não. Era algo mais: era... indiferença total ao destino de
quem estava diante dele. Deixava o interlocutor convencido
de que o duque, se quisesse, seria capaz de lhe fazer coisas
terríveis, sem experimentar um pingo de remorso.
Com um olhar desses, Godofredo não precisou repetir.
Hesitante, o soldado encostou o recipiente à boca. Afastou-o
imediatamente, e Inês pôde perceber que ele se limitara a
molhar os lábios.
Godofredo desembainhou a espada.
— Não vou falar de novo — disse, apontando a arma para a
garganta do homem.
Desta vez, o soldado bebeu. Inês viu-lhe o pomo de adão
subir e descer três vezes. Passaram-se poucos instantes. O
homem caiu de joelhos, levou as mãos ao estômago e emitiu
um rugido de dor. Godofredo não se mexeu. Contemplou-o
enquanto o outro se contorcia, gritava, rolava pelo chão.
Observou-o com interesse mórbido, até que o soldado
revirou os olhos e permaneceu imóvel; um líquido
espumoso lhe escorria da boca.
Ainda estava vivo, mas não agüentaria por muito mais
tempo.
Godofredo recolheu o recipiente e o mostrou a Inês. A
mulher aproximou o rosto e sentiu um bafo pestilento que
feriu violentamente suas narinas. Olhou lá dentro e viu uma
água pútrida, com insetos boiando e mais alguma coisa que
ela não soube definir.
— Eu posso lhe oferecer água límpida, em vez dessa nojenta
que a tropa consome — disse o duque a Inês, empurrando-a
delicadamente para a entrada da tenda. — E não só isso.
Também lhe darei muito dinheiro pelos seus serviços.
Desconfio que você não está fazendo bons negócios
ultimamente — acrescentou, com um sorriso que nunca
ficava bem na cara dele.
Inês se deu conta de que devia lhe agradecer, inclusive pela
intervenção. Mas percebia que algo não estava certo.
— Eu lhe sou grata por me poupar da agonia que aquele
homem sofreu, meu senhor — disse.
— Você mesma já tinha compreendido que ele a estava
tapeando! — observou Godofredo com displicência,
enquanto lhe tirava a roupa, com a mesma indiferença com
que alguém se veste.
Ela concluiu que sua desconfiança era apenas a reação
natural à atitude ambígua e distante de Godofredo, o qual
sempre parecia assistir de fora àquilo que fazia, como se
movesse os fios de um espetáculo no qual alguém
desempenhava o papel dele.
O duque lhe ofereceu o odre e depois observou-a beber.
— Beba sem interrupção — sugeriu —, deixando que a água
lhe saia da boca e escoe ao longo do corpo. — Inês gostaria
de reservá-la para o resto do dia, mas nem pensou em
discutir. Entre a que ingeriu e a que desperdiçou, esvaziou o
odre, enquanto Godofredo a observava, depois de se instalar
comodamente sobre a esteira.
Em cima do manuscrito.
Inês rezou para que o duque não percebesse a terra remexida
embaixo do leito, que tornava irregular a superfície sobre a
qual se estendia a esteira. Apressou-se a se deitar também,
mostrando repentinamente grande iniciativa e procurando,
como quem não quer nada, colocar-se de barriga para cima,
insinuando-se sob ele.
Mas bem sabia que Godofredo preferia ficar embaixo. De
fato, o duque não lhe deu a possibilidade de se deitar
completamente. De repente lhe cingiu a cintura e a
soergueu, colocando-a sobre seu próprio ventre. Inês sabia o
que devia fazer: seu cliente mais importante não tinha muita
fantasia. Esfregou seu quadril sobre o do homem.
Quando o sentiu pronto, deixou-se penetrar e continuou a se
mexer. Mas a tensão que a invadia tornava seus movimentos
menos suaves do que das outras vezes. Godofredo
demonstrou não gostar daquelas investidas, chamando-a à
ordem com um tapa na coxa e um grunhido de
desaprovação.
Ela tentou agradá-lo, mas não conseguia evitar pensar na
bolsa enterrada ali embaixo. Ou melhor, embaixo das costas
do duque. Alongou-se para a frente, esfregando o busto no
rosto de Godofredo, e tentou abraçá-lo enfiando os braços
sob o dorso dele, tanto para conferir a superfície da esteira
quanto para distraí-lo.
Mas não houve jeito: Godofredo empurrou-a para trás. Não
queria proximidade com uma puta, mas só o prazer.
Resignada, Inês se perguntou se aquele homem sem alma
teria algum dia buscado o contato com uma mulher e
intensificou o movimento dos quadris.
— Espere! — gritou ele de repente. Tirou-a de cima de si e
depois deslocou o peso do próprio corpo para o lado,
levando junto a esteira. Deu uma olhada apressada para o
lugar que ocupara até um instante antes e depois intimou-a a
retomar a posição.
"Então, alguma coisa o estava incomodando", pensou Inês,
enquanto recomeçava a cavalgá-lo. Sua reflexão se
confirmou quando ela mesma também olhou: a terra estava
remexida e nem o peso dos dois havia conseguido aplanar as
pequenas elevações que ela, após sepultar a sacola, não
cuidara de eliminar.
Perguntou-se se aqueles montículos de terra seriam
suficientes para chamar a atenção de Godofredo e despertar
suas suspeitas. Enquanto lhe desse prazer, certamente não.
Mas, quando tudo estivesse concluído, podia ser...
Depois, à medida que os suspiros do duque aumentavam,
transformando-se em rugidos, convenceu-se de que seus
temores eram injustificados. Como um pouco de terra
remexida poderia despertar suspeitas? E no duque de Lorena,
então, o qual tinha muitas outras coisas em que pensar...
Relaxou. Tratou de satisfazer ao máximo as expectativas do
cliente, e em seguida decidiu que chegara o momento
adequado para voltar às suas demandas.
Deixou-o rolar sobre um flanco, ofegante pelo esforço.
Esperou mais alguns instantes e depois fez a solicitação:
— Renuncio ao dinheiro que iria receber, meu senhor, e
peço, em vez disso, a possibilidade de participar do assalto —
disse, tentando se expressar do mesmo modo, seco e
autoritário, que Godofredo empregava com ela.
O duque explodiu numa gargalhada.
— E o que pretende fazer? Subir numa torre móvel e ser a
primeira a se lançar na passarela que leva aos merlões? —
inquiriu, em tom de escárnio. — E inclusive usando cota de
malha, espada, elmo e escudo, que você nem saberia
segurar?
— Por que não? — respondeu Inês, tentando manter uma
certa altivez no olhar. — Eu sei usar uma espada. Posso me
preparar em poucos dias. Observei os soldados durante os
treinamentos e conheço os movimentos...
Godofredo parecia sinceramente divertido.
— Uma mulher na primeira fileira? O que os infiéis
pensariam de nós? Talvez se convencessem de que somos
um monte de desesperados e ganhassem coragem... Nem
pense nisso...
— Mas nós somos um monte de desesperados! As pessoas
morrem de sede, desertam, adoecem. Se o senhor me der
um elmo, ninguém perceberá, no meio dos outros, que eu
sou uma mulher, e pelo menos farei número. Não me diga
que nosso número é suficiente para assaltar as muralhas, meu
senhor!
— Com a ajuda de Deus, é mais do que suficiente... Até lá...
— e Godofredo tirou umas moedas de uma bolsinha no cinto
— ... até lá... estas moedas são apenas um adiantamento do
que você poderá receber, se me entregar o manuscrito. E
poderá inclusive combater, se realmente quiser... —
acrescentou, com um olhar sinistro que contrastava com o
tom aparentemente conciliador da proposta.
— Manuscrito? Que manuscrito? — exclamou ela, assustada.
— Aquele que você pode ter recebido de alguém ontem à
noite. Um soldado meu me disse que o viu nas mãos de uma
mulher que lhe pareceu "a minha puta"... — explicou ele,
num tom que pareceu a Inês verdadeiramente ameaçador.
— Não era eu. E óbvio, meu senhor. O que posso saber, eu
que não sei ler, de qualquer manuscrito? — respondeu ela,
tentando sustentar o olhar terrível do duque.
Um tapa violento lhe atingiu a face, fazendo-a oscilar para
trás.
— Infelizmente, meu soldado viu a mulher de longe, e à
noite. Portanto, não tem certeza de nada... — especificou
Godofredo. — Essa mulher também matou um homem de
Deus. Se não foi você, sugiro que procure entre suas colegas
ou entre as peregrinas que seguem o exército. Se você achar
o manuscrito, eu a cobrirei de ouro, e nem levarei em
consideração a possibilidade de ter sido você — concluiu,
encaminhando-se para a saída da tenda.
Mas logo se deteve e retornou. Ela ainda estava sentada na
esteira, muda, com a mão apoiada no montículo de terra que
encobria o manuscrito.
— Mas se você estiver com ele... — disse ainda Godofredo.
E, antes de se voltar e sair definitivamente, desfechou-lhe
um pontapé no flanco e lhe jogou no chão a espada.
— Meu bom amigo! Alá quis restituir sua coragem e sua
sabedoria à defesa da Santa! — disse o governador Iftikhar,
abraçando Jamal assim que este transpôs a soleira de sua casa.
— Alá... e a coragem do meu fiel Firuz, o melhor guarda-
costas do mundo — respondeu Jamal, retribuindo o abraço.
— Certamente, certamente... eu sempre digo: se todos os
turcos fossem como Firuz — replicou o governador,
convidando ambos a se sentarem —, nós, egípcios, jamais
teríamos podido manter ou reconquistar algum território na
Ásia.
Depois de ter concedido o justo reconhecimento ao turco,
Iftikhar voltou a dirigir sua atenção a Jamal.
— O que você pode me dizer sobre os infiéis? Não quero
retê-lo por muito tempo, pois sei que você precisa de
repouso, antes de retornar às suas responsabilidades. Como
estão os preparativos deles para o assalto?
Jamal gostaria de dispor de mais tempo antes de fazer ao seu
comandante um relatório adequado. Mas a curiosidade do
governador era mais do que legítima. Então pigarreou, para
clarear a voz ainda marcada pelo afã da longa e recente
corrida.
— Bem, governador... na verdade eles estão trabalhando com
muito empenho. E, ao que parece, conseguiram encontrar
madeira. Sei de pelo menos duas torres móveis, tão altas
quanto os espaldões, e de uma menor. Sei também que estão
construindo um grande aríete e alguns trabucos. Não faço
idéia de onde pretendem arrombar com o aríete, mas, como
o vi na área dos germânicos, creio que, se as posições deles
não mudarem, será perto da Torre de Davi que concentrarão
o esforço máximo.
— Então, será ali que aumentaremos a altura dos espaldões e
reforçaremos as muralhas... — assentiu o governador,
satisfeito. — Quanto tempo você acha que eles ainda levam
antes de estarem prontos para o ataque?
— É difícil saber — observou Jamal. — Se mantiverem o
ritmo que impuseram a mim e aos outros prisioneiros, não
creio que demorem mais do que uma semana. Claro, é
preciso ver se a falta d'água não os obriga a desacelerar...
— Ou a desistir de vez — replicou Iftikhar. — Mas o que me
diz do moral e das condições físicas? Que efeito teve sobre
eles a notícia de que neste mês chegará do Cairo o exército
de socorro?
— O fato de termos conseguido fugir, aproveitando inclusive
a displicência deles nas medidas de vigilância, revela muito
sobre suas condições — explicou Jamal. — Estão com o
moral baixo, e exaustos. Os germânicos, principalmente, não
estão habituados a este calor, e eu os vi se arrastando
cansadamente pelo campo, reclamando, brigando. Degolam-
se por um pouco de água, e os chefes têm dificuldade de
mantê-los sob controle. Por outro lado, os príncipes estão
desacreditados por causa de seus litígios contínuos, e não
gozam de grande respeito entre os soldados. Que eu saiba,
nenhum conseguiu se impor como comandante supremo; ou
melhor, parece que não fazem outra coisa senão discutir
sobre quem assumirá o papel de rei de Jerusalém, depois de
conquistarem a cidade. Sei de deserções contínuas, e
presumo que o número dos infiéis se reduziu consideravel-
mente. Eles têm uma massa de peregrinos não combatentes
com os quais devem dividir as já magras provisões, e isso cria
ainda mais instabilidade nos acampamentos.
Os olhos de Iftikhar al-Dawla brilhavam.
— Você me descreveu um exército arruinado. Ou melhor,
em debandada, ouso dizer — observou ele, excitado. — Se
de fato tiverem a coragem de nos assaltar, irão ao encontro
de uma derrota que comprometerá definitivamente a
permanência deles nestas terras... Já imagino o que
acontecerá. O restante de seus exércitos retornarão ao norte,
para serem completamente eliminados pelos emirados tur-
cos, e suas possessões isoladas, como em Antioquia e na
Armênia, acabarão varridas em poucos meses. A aventura
deles chegou ao fim. Alá os puniu por sua presunção.
Firuz abriu a boca para intervir, mas Jamal o silenciou com
um aceno da mão.
— Eu não seria tão otimista, governador — objetou, certo de
ter interpretado o pensamento de seu subalterno.
— Como assim? — perguntou Iftikhar, surpreso. — Você me
descreveu um exército de desesperados sem comando, sem
recursos, com o moral no chão. O que há para temer?
— Justamente isso que você acaba de dizer — respondeu o
emir.
— Eu descrevi um exército de gente que não tem nada a
perder. E não existe ninguém mais perigoso do que quem
não tem nada a perder. Afinal, eles ainda são numerosos, e
sabem que a conquista da Santa mudará não somente sua
existência como também, tenho certeza, sua condição após a
morte. Muitos não têm para onde nem para quem voltar, e
até os príncipes prefeririam morrer sob as muralhas de
Jerusalém a retornar à Europa. É a última possibilidade deles
- concluiu, tentando dar ênfase máxima ao conceito —, e
pode estar certo de que, quando chegar o momento, farão
tudo que estiver ao seu alcance para entrar na cidade. E para
morrer em nome da glória de seu deus. Os padres estão com
eles justamente para lhes lembrar isso a toda hora.
— Bobagem! — objetou Iftikhar, com indiferença. — Como
pode semelhante exército de desvalidos nos ameaçar
realmente? Pelo contrário, até espero que ataquem. Será a
vitória mais fácil, completa e clamorosa que os exércitos de
Alá terão obtido, desde os tempos da batalha do Yarmuk.
Você vê as coisas de maneira sombria só porque está
cansado. Um dia de repouso lhe devolverá o otimismo e a
convicção. Vá logo para casa e apresente-se amanhã para as
novas disposições — concluiu, liberando Jamal e Firuz com
um gesto da mão.
O emir saiu dali perplexo. Meditou sobre sua leviandade, que
o impelira a traçar para o governador um quadro que,
provavelmente, faria até o mais experiente dos comandantes
baixar a guarda. Se tivesse podido deixar seu relato para a
manhã seguinte, seguramente encontraria o modo e o tempo
para refletir sobre as conseqüências de sua descrição e seria
mais precavido. Deu-se conta de que o mero dado objetivo
era bastante confortador para um ouvinte interessado, mas
era preciso ter visto pessoalmente o desespero daqueles sol-
dados, a feroz ambição daqueles chefes, a obstinada
convicção daqueles padres, para compreender como tais
fatores podiam jogar a favor de uma vitória dos infiéis.
Afastou esses pensamentos, a fim de se preparar para a tarefa
que pretendia cumprir antes de ir descansar. Havia
prometido isso a Rebeca, mas, mesmo que não tivesse
assumido tal compromisso, não hesitaria em correr àquela
casa. Somente o dever de fazer seu relatório a Iftikhar o
impedira de ir diretamente ao bairro judeu.
Quando bateu à porta dela, deixando Firuz um pouco atrás
de si, seu coração pulsava com intensidade até superior à
suscitada pelos projéteis inimigos durante sua fuga rumo às
muralhas de Jerusalém.
Sara a abriu após um tempo que pareceu a Jamal
intoleravelmen- te longo. Mas o espetáculo que ela ofereceu
aos seus olhos valeu a expectativa. Esplêndida, como sempre,
embora desalinhada e tensa, com olheiras e ombros
curvados.
Esmagada pelas preocupações com eles, coitadinha.
— Oh! Jamal... Firuz conseguiu trazê-los de volta... E Rebeca,
onde está? Vou ter que brigar com ela... — disse Sara,
antecipando a saudação do árabe e rapidamente desviando o
olhar do emir para Firuz e em seguida esquadrinhando os
arredores, em busca da irmã.
— Salam aleik, Sara. Rebeca não está conosco. Escolheu
permanecer lá — disse o emir, tentando atrair o olhar dela.
— Escolheu?— reagiu Sara após um instante de silêncio,
necessário para absorver a idéia. — Que tipo de escolha seria
essa de continuar prisioneira? Vocês a deixaram lá, foi isso!
— exclamou a jovem, elevando o tom de voz.
— Não, não, eu vou lhe explicar... — Jamal tentou abraçá-la e
levá-la para dentro da casa.
— O que você pretende explicar? Que a abandonou para
voltar aos seus preciosos encargos militares? Não há o que
explicar! Nem sequer em atenção a mim você quis cuidar da
minha irmã! — retrucou ela, esbracejando para se soltar dele.
Em seguida entrou e tentou fechar a porta. Mas o emir
estendeu um braço e a porta se deteve. Sara foi lá para
dentro mesmo assim e se sentou, amuada.
— Não foi como você está pensando. E, no entanto, devia
conhecer o temperamento de sua irmã... — disse Jamal,
entrando também e dirigindo-se para Sara, até se ajoelhar, a
fim de aproximar seu rosto do dela, que continuava sentada,
de cabeça baixa.
— Pensou que, sem minha irmã, eu cairia nos seus braços
sem opor resistência, hein? Acha que eu não tenho
alternativas? Que não sei me arranjar sozinha? — disse Sara,
soluçando.
Jamal tentou acariciá-la. Desta vez, a jovem não reagiu.
— Eu lhe garanto que Rebeca decidiu ficar, porque havia
deixado os rolos de Tiago com uma pessoa que conhecia, e
pretendia recuperá-los...
— Ela os entregou a alguém? — exclamou Sara, espantada. —
Como pode imaginar que eu vá engolir semelhante
estupidez? Quem você acha que Rebeca conhece entre
aqueles animais? E como poderia entregar a um adorador do
crucifixo uma coisa à qual é tão apegada? Pare de mentir!
— Não estou mentindo. Ela os deixou, creio, com um cristão
que conheceu em Mogúncia...
A atenção de Sara se reacendeu.
— Em Mogúncia? É um mogunciano? Ora, mas os habitantes
da cidade nos odiavam... Pode-se dizer que fomos embora de
lá por causa disso...
— Não, minha querida, não é mogunciano. E um normando,
eu acho — apressou-se Jamal a tranqüilizá-la. — Sei que
salvou vocês, quando os francos assaltaram sua cidade. E sei
que Rebeca se sente segura com ele. Tenho certeza de que
esse indivíduo achará uma saída para-
Os olhos de Sara de repente mostraram uma luz que o emir
não conhecia nela.
— Ele nos salvou? — bradou a jovem na cara do emir,
agarrando-o pelos ombros. — E um homem alto, vigoroso,
louro? — perguntou, esperançosa, com o coração disparado.
— Isso mesmo. Acho que o nome é Ricardo... lembra-se
dele?
— Ricardo! — gritou Sara, em êxtase, levantando-se num
salto. Começou a girar pelo aposento, caminhando
freneticamente, batendo os punhos nos flancos. Berrava, sob
o olhar perplexo de Jamal: — Eu pressentia! Pressentia que
iria revê-lo!
O emir não entendia. Não conseguia entender se ela estava
contente ou contrariada. A única coisa que lhe parecia clara
era que a mulher a quem amava estava agitada, de um modo
ou de outro, e era seu dever, além de seu prazer, confortá-la
e tranqüilizá-la. Levantou- se e se aproximou de novo. Mas
Sara estava arisca e escapulia, como se não pudesse resistir à
necessidade de se mover continuamente, como se precisasse
liberar a energia que a invadira de repente.
— Não se preocupe. Aconteça o que acontecer, não lhe
faltará nada. Você será minha esposa, logo após a vitória.
Silêncio. Sara estava longe. E continuava a se movimentar.
— Recuperaremos sua irmã e o manuscrito, e vocês irão
comigo para o Cairo, onde o grão-vizir terá grande prazer
em acolhê-las. Viverão na minha residência — prosseguiu
Jamal.
Mais silêncio. Mais distância.
— E verá que, se lhe parecer conveniente, agradeceremos de
algum modo a esse Ricardo por ter cuidado das duas quando
eu não podia fazê-lo... — continuou o emir.
Desta vez, Sara o encarou. Como se só naquele momento
tivesse percebido a presença dele.
— O quê? O que está dizendo?! Ele foi o primeiro a cuidar de
mim, muito antes de você!
— Como assim?
— Claro! É ele que eu quero! E ele o homem no qual sempre
pensei! E ele que eu amo! E é ele a pessoa que quero para
cuidar de mim, de agora em diante!
— Mas... você está falando de um infiel!... — Jamal estava
consternado demais para achar algo sensato a dizer.
— Estou falando de um homem, que demonstrou saber
enfrentar qualquer perigo por mim. Um homem alto,
corajoso, forte, doce, como nenhum outro homem jamais
poderia ser.
— Mas... ele vai morrer, como todos os cristãos
suficientemente loucos para atacar uma cidade guarnecida
como a Santa. — De repente, o emir sentiu todo o cansaço
do duro aprisionamento e da fuga. — Estão no limite, estão
morrendo de sede e desertando, e não têm esperança de
sobrevivência...
— Ele não. Ele entrará na cidade e me salvará, me levará
daqui.
— Mas do que deveria salvá-la? Aqui você está em segurança,
todos cuidamos de você...
— Ele vai me salvar de seus próprios companheiros, de você
e dos seus correligionários. De todos. E se para isso for
necessário que os francos conquistem a cidade, bom, então
que a conquistem. Ou melhor, até espero. Até porque ele
me salvará de qualquer violência.
— Você não pode estar falando sério! — exclamou Jamal,
arrasado. — Quer que eles destruam a cidade na qual vive há
três anos? A Santa? Quer um soldadinho desesperado, sem
nada para lhe oferecer? Eu acabei de lhe pedir que seja
minha esposa e lhe ofereci um futuro radioso e tranqüilo,
como rica mulher de um emir, na cidade mais evoluída do
mundo. Como pode escolher algo diferente?
Sara mudou de expressão. Já não estava sonhadora e
inspirada.
— Acha realmente — disse, carrancuda e com uma risadinha
de escárnio — que eu possa levar em consideração a idéia de
ser sua mulher? Ou melhor, uma de suas mulheres? E aturar
por toda a vida o seu pedantismo, suas contínuas citações do
Corão, sua ambição de se tornar sei lá que tipo de
comandante, seus tediosos compromissos cortesãos e
diplomáticos? E você me ofereceria um futuro radioso? Se
for como todos os momentos que tive de passar até agora em
sua companhia, prefiro mil vezes continuar sozinha!
Houve um silêncio. Um silêncio pesado, devastador.
Ninguém se moveu. Jamal não tinha mais forças para
retrucar. Sara, por sua vez, só agora se dava conta daquilo
que havia dito, mas não tinha vontade nem capacidade de se
desculpar, e uma vergonha crescente a inibia. Quanto a
Firuz, havia permanecido do lado de fora da casa, obrigando-
se a não intervir, para não cobrir de tabefes aquela
mulherzinha estúpida.
Foi o emir quem acabou rompendo o melancólico afresco
pintado em poucos instantes pelas palavras de Sara. Afastou-
se, levantando a cabeça e endireitando os ombros, para sair
da vida daquela mulher com a dignidade da qual a cena feita
por ela o privara.
— Cuide dela de agora em diante. Eu não posso mais — disse
a Firuz, assim que se viram a alguns passos de distância da
casa.
XXI
Vento proveniente do sul. Vento quente, opressivo,
sufocante, fustigante. Violento.
E poeira. Poeira corrosiva, a areia que o vento levantava e
fazia turbilhonar, agredindo cruzados e peregrinos,
desmontando tendas, virando odres de preciosa água,
recobrindo o alimento racionado, retardando a construção
das máquinas, exasperando os cavalos, asfixiando os animais
de carga.
E fedor. O fedor insuportável das carcaças que, cada vez
mais numerosas, enchiam os acampamentos dos cristãos. Na
maioria animais de carga e cavalos, incinerados por alguns
homens diligentes enquanto o vento não subia. Depois, os
chefes tinham decidido que os despojos fossem enterrados,
mas o solo se tornara excessivamente duro e árido para ser
escavado e os homens, cansados demais para acrescentar
trabalho extraordinário às suas incumbências cotidianas.
Os monges conseguiam impor pelo menos o sepultamento
dos corpos humanos: velhos, mulheres e crianças mortos de
inanição, homens enlouquecidos pela sede, assassinados por
um gole d'água. Os que se suicidavam por desespero eram
ignorados, ou no máximo expelidos a pontapés para as
margens do acampamento. Eram os únicos que não
ganhariam o perdão dos pecados.
Inês, por sua vez, tinha outras preocupações. Não ousava
tirar os rolos do esconderijo. Sabia que Godofredo poderia
mandar vistoriar a tenda de uma hora para outra, e por isso
não se afastava, dando a impressão de aguardar clientes que,
àquela altura, não viriam mais. Precisava se comunicar com
Ricardo ou com Rebeca, perguntar-lhes como se comportar,
mas não podia procurá-los sem falhar na tarefa de guardiã do
documento. Teve a esperança de que algum deles, Emanuel,
Anselmo ou o próprio Ricardo, passasse por ali, e enquanto
isso decidiu enganar o tempo com a espada que Godofredo
lhe deixara.
Com que então, finalmente, iria combater. Pensou que seria
conveniente um pouco de treinamento e, desafiando o
vento e o calor do sol, saiu da tenda. No espaço fronteiro,
ensaiou algumas investidas e desfechou cutiladas, como
havia visto os soldados fazerem. Experimentou contra o
vento, para se habituar a um esforço maior, mas logo sentiu
os olhos arderem por causa da poeira. Então tentou a favor
do vento, mas já estava cansada e precisou parar para
repousar.
Só nesse momento notou o soldado. Ele estava a pouca
distância, dando a impressão de olhar para outro ponto. Mas
na realidade não havia mais nada para olhar, e ela tampouco
o via ocupado numa atividade qualquer. O homem
simplesmente se mantinha ali, estático, com sua silhueta um
pouco balançada pelo vento.
Inês não demorou a compreender. Godofredo esperava
apenas que ela se traísse. Aquele soldado havia sido mandado
pelo duque para espioná-la.
Ainda estava refletindo sobre como se comportar quando
Anselmo apareceu.
Um belo problema.
— O que você está fazendo com essa espada na mão? —
perguntou o monge, lutando contra o vento para manter
abaixadas as faldas do hábito.
— Quero combater, e o duque Godofredo gentilmente me
deu permissão — respondeu ela. Depois, dando uma espiada
no guarda, acrescentou: — Estou mesmo precisando de um
cliente. Pelo menos, para conseguir água. Você pode me
arranjar um?
Anselmo a encarou, espantado.
— Enlouqueceu? — disse. — Onde quer que eu os encontre?
E melhor você pensar no que fazer com o...
— Mas é claro que você pode encontrá-los... Aquele
normando, por exemplo — interrompeu Inês, tratando de se
fazer ouvir pela sentinela. — Aposto que ele viria de bom
grado ficar comigo. Por que não vai chamá-lo? —
acrescentou, indicando com a cabeça o soldado.
De início, Anselmo ficou desconcertado, porque não
compreendia. Depois compreendeu, e ficou mais
desconcertado ainda.
— Se você quer mesmo... — limitou-se a dizer, afastando-se.
Inês recomeçou a se exercitar, e continuou até que viu surgir
Ricardo.
— Não tenho com que lhe pagar, mulher. Mas, já que você
insiste em aprender a combater, posso lhe ensinar... —
começou o normando, a quem, evidentemente, Anselmo
tinha explicado a situação.
— Por que não? — respondeu Inês, e logo se colocou em
posição de defesa. — Já que, até agora, você não demonstrou
outros talentos, eu poderia me contentar com isso... —
acrescentou, com um sorriso malicioso.
— Sua posição defensiva é ridícula. Poderia lhe ser fatal... —
disse ele, desembainhando a espada e tocando-a rapidamente
no ombro direito, depois de fintá-la no esquerdo.
— Você lamentaria? — perguntou Inês, ensaiando uma
cutilada de través bem desajeitada, que terminou
miseravelmente na lâmina do homem.
— Recue a perna esquerda, quando investir desse modo. Isso
dará mais força e impulso ao golpe, e talvez você consiga
alcançar o corpo do adversário antes que o escudo ou a
espada a detenham. E... claro que eu lamentaria... Seria um
fracasso para seu mestre! — replicou ele, mostrando o ataque
correto.
— Ah! Só por isso, então! — respondeu Inês, dando uma
cutilada vertical tão lenta que Ricardo teve tempo para se
esquivar e ver o golpe terminar no solo. — E pensar que eu
esperava agradá-lo, ao menos um pouquinho... Certos
favores só são pedidos a uma mulher por quem o homem se
sente atraído, não? — insinuou.
— É verdade! Mas você está disposta a executá-los até o fim?
Seja como for, a cutilada vertical é muito previsível, e,
sobretudo, ineficaz contra quem está equipado com elmo e
escudo. É melhor a horizontal, se você não quiser golpear
com uma estocada — disse ele, girando sobre si mesmo e
chegando com a espada a um palmo do flanco de Inês.
Ela o imitou, com muito pouco êxito.
— Eu gostaria, mas não à vista de todos. Certas coisas
deveriam ser feitas longe de olhos indiscretos... —
respondeu, perdendo o equilíbrio e acabando por desferir
uma cutilada quase atrás de si.
— Então, você poderia pedir a uma colega que as faça. Basta
que lhe transmita aquilo que adquiriu com sua experiência...
— replicou Ricardo, acrescentando: — Sugiro-lhe que tente
sempre os ataques frontais. Você não tem força para
desfechar cutiladas, nem a coordenação e o treinamento
necessários, mas é suficientemente ágil para desequilibrar o
adversário alongando o braço ou para se esquivar do contra-
ataque. Experimente alguns...
Ela investiu mais vezes. Não o acertou, mas em duas ocasiões
conseguiu evitar ser alcançada pela réplica dele. Depois
recomeçou a desferir cutiladas, apesar da admoestação do
amigo, e ele a deixou agir, detendo os golpes a pouca
distância do próprio rosto.
— Você tem preferência por alguma? Tome cuidado, porque
eu sou ciumenta... — disse ela, quando os rostos se
encontravam a um palmo um do outro.
Ele se desviou, girando sobre si mesmo, e ela o sentiu atrás
de si, aflorando-lhe a garganta com a lâmina da espada.
Sentiu também a respiração dele no ouvido.
— Claro que sim, aquela gordinha — sugeriu Ricardo. —
Dela você não deve ter ciúme, não? Ela não pode ser
definida como bonita, e também é religiosa demais... Sob
aquelas vestes largas, quem sabe o que pode esconder...?
Inês se abaixou de repente, virou-se e, num instante, pousou
a lâmina de sua espada sobre a nuca dele. Um sorriso
triunfante lhe iluminou o rosto.
— Eu diria que você me ensinou bastante. Acho que chegou
o momento de lhe dar aquilo pelo qual me pagou tão
generosamente, e adiantado... — disse, baixando a espada.
— Por que não? Tenho pouco tempo, mas deve ser mais do
que suficiente para um encontro memorável. Ou então, se
esperarmos um pouco mais, acabaremos por fazê-lo dentro
das muralhas de Jerusalém... — respondeu ele, repondo a
espada na bainha.
— Mas você não tem tempo nenhum! — A voz era de
Anselmo, que sobrevinha acalorado e ofegante.
— O que acha de ir cuidar de seus assuntos, de uma vez por
todas? — respondeu Inês com um gesto de irritação,
olhando Ricardo para buscar seu assentimento.
— Acreditem, desta vez eu não queria interrompê-los —
disse o monge. — Mas foi o conde Raimundo quem mandou
chamá-lo, Ricardo. Aconteceu um problema. Esta manhã,
pelo menos trezentos soldados se dirigiram ao Jordão para
serem batizados. Mas, assim que chegaram lá, enganaram os
padres e fugiram. Parece que tudo estava preparado... —
explicou, desconsolado.
— Uma deserção em massa? Realmente não precisávamos
disso para a força do exército e para o moral dos que
restaram. E melhor que eu vá logo. Até porque, Inês, você
sabe o que fazer... — disse Ricardo à mulher, apertando-lhe
o braço em sinal de encorajamento, antes de se deixar
engolir pelo vento.
Inês sabia o que fazer.
— Padre, eu queria me confessar — disse.
— O quê?
Ela deu uma olhada fugaz para o soldado de vigia. Ele ainda
estava ali.
— Mas é claro. Parece que combateremos logo, não? E não
quero morrer sem ter confessado meus pecados. Venha
dentro da tenda, se conseguir entrar em semelhante lugar de
perdição, naturalmente...
Anselmo hesitou alguns instantes e depois a seguiu, dando
também uma rápida olhada para o soldado de Godofredo. Já
lá dentro, viu-a deslocar a esteira, cavar o chão e tirar a
bolsa.
— Guarde-a no lugar onde pretendíamos colocá-la ontem à
noite. Depois, ache um jeito de informar Ricardo, Rebeca e
Emanuel — disse Inês.
Embaraçado, o monge pegou a sacola, virou-se e levantou o
hábito, remexendo-se demoradamente até conseguir fazer o
objeto desaparecer embaixo dos panos. Fez menção de ir
embora, mas parou pouco antes da saída.
— Não quer aproveitar para se confessar realmente?
— Talvez eu faça isso, um dia. Mas não a um padre: ele ficaria
escandalizado — respondeu Inês. — E muito menos a um
padre amigo, que depois eu não conseguiria encarar...
Inevitavelmente, Anselmo se perguntou por que o guarda se
movera justamente no momento em que ele saía da tenda. E
a única resposta que achou foi que, agora, era ele quem
estava sendo vigiado por aquele soldado. Virou-se
fugazmente umas duas vezes, para confirmar sua suposição,
mas esperando que se tratasse apenas de uma projeção de seu
medo.
Não era. O soldado continuava em seu encalço, embora
desse a impressão de estar interessado em outra coisa.
Então o monge parou. Já não podia ir à rocha das tarântulas.
Apressou-se a ter uma idéia. Mudou de direção e se
encaminhou para o setor onde estavam construindo a torre
de Raimundo de Saint-Gilles. Depois parou de novo e foi
tentado a entregar a bolsa àquele soldado. Imaginou que esse
podia ser um modo de obter do Senhor o perdão por ter
assassinado um homem, ainda por cima um confrade. Não,
era só um álibi para esconder de si mesmo o medo que o
assaltava. O temor e a vergonha de decepcionar Inês e os
poucos amigos que fizera naquela aventura apavoravam-no
mais do que a eventual punição divina. Recomeçou a
caminhar.
Prosseguiu rápido, cada vez mais rápido, desafiando o vento
que o fustigava no flanco. Virou-se de novo: o soldado ainda
o seguia. Seu movimento repentino para girar sobre si
mesmo, porém, fez cair a sacola, na qual ele até se arriscou a
tropeçar. Tomado pelo pânico, não se voltou nem mesmo
para conferir se seu perseguidor havia notado alguma coisa,
esperando que o véu de poeira levantado pelo vento tivesse
ocultado a cena.
Mas sabia que não era assim. O soldado teria que ser cego
para não tê-lo visto manuseando as próprias roupas. Se não
quando a bolsa caíra, pelo menos quando ele a recolhera e a
guardara de volta sob o hábito, no flanco, apertando o
cordão da cintura para manter o manuscrito junto do corpo.
Fosse como fosse, já estava chegando à meta. Alcançou-a
poucos passos depois e logo avistou Ricardo e Emanuel,
empenhados no trabalho. A torre estava a uma boa altura,
com o segundo piso quase completado. Mas, naquele
momento, não era isso que interessava a Anselmo.
Emanuel o cumprimentou, mas ele respondeu com uma
saudação geral, dirigida também aos outros soldados, embora
já se aproximasse do bizantino. Ricardo, por sua vez, estava
mais distante, ocupado em falar com uns serventes, e nem o
tinha notado.
O monge viu uma pilha de lenha junto do grego e,
aparentando cansaço, sentou-se em cima dela, deixando
discretamente a bolsa se encaixar entre as traves. Notou que
o soldado de Godofredo ainda estava nas proximidades, e até
se oferecera para dar uma ajuda.
Sabendo-se escutado e observado, Anselmo respondeu
vagamente quando Emanuel resolveu interpelá-lo.
— O que está fazendo aqui? — perguntou-lhe o bizantino.
— Nada de especial. Eu tinha uns instantes de folga, e então
vim ver como andam os trabalhos. — Enquanto isso,
afrouxava o cordão da cintura e deixava que a sacola sob o
hábito deslizasse ao longo do flanco e da perna, para
finalmente ir parar entre as traves amontoadas.
— Se pelo menos não houvesse este maldito vento! —
lamentou-se Emanuel. — Dificulta o trabalho e nos obriga a
um esforço maior. Somos obrigados a parar mais
freqüentemente do que gostaríamos...
— Vocês já avançaram muito, pelo que vejo.. — replicou
Anselmo, traçando sinais com a ponta do pé e tentando
chamar a atenção do interlocutor para o que estava fazendo.
Emanuel notou o estranho comportamento do monge, mas,
depois de observar rapidamente os sinais, compreendeu de
imediato que era melhor não dar nada a entender.
Continuou a lançar olhares fugazes para o solo, falando do
que lhe vinha à cabeça:
— Sim. Como vê, estamos quase no terceiro nível, aquele do
qual será lançada a ponte que outra equipe está construindo
aqui ao lado. Depois faremos mais um nível, descoberto e
dotado de merlões, sobre o qual poderemos instalar pelo
menos uns dois trabucos. Isso nos permitirá alvejar do alto
os espaldões.
— É mesmo? Impressionante... — Enquanto isso, Anselmo
continuava a mover o pé.
— Na realidade — explicou ainda Emanuel, percebendo que
devia esticar a conversa —, como temos pouca madeira à
disposição, fomos obrigados a nos arranjar para fazer a torre
tão alta, e, como vê, economizamos nas plataformas.
Preferimos limitar a estabilidade aos pisos superiores, que
receberão as máquinas e os combatentes. Nos inferiores, ao
contrário, faltam algumas traves. Esperemos que ninguém
tropece, quando subir para revezar com os outros... —
concluiu, ao perceber que Anselmo havia completado seu
trabalho com o pé.
— Muito bem. Agora, é melhor que eu vá. Bom trabalho... e
cumprimente Ricardo por mim — disse o monge, erguendo-
se da pilha de lenha e afastando-se em passos lentos, com a
alma cheia de angústia por aquilo que, como temia, poderia
lhe acontecer.
Instantes depois, o soldado que acompanhara o diálogo se
aproximou, com uma trave sobre os ombros, da pilha de
lenha onde Anselmo estivera sentado. Os movimentos do
monge com o pé não tinham lhe escapado e ele olhou o
chão, curioso. O vento já apagara quase todos os sinais. Mas
ainda permaneciam alguns, meio esfumados. O soldado
tentou compreender do que se tratava. Parecia uma escrita,
mas ele não sabia ler, e por isso não fazia idéia do significado.
Por outro lado, conhecia alguns caracteres por tê-los visto de
relance, algumas vezes. E aqueles não lhe pareceram os
caracteres do alfabeto, nem dos números.
Na realidade, não poderia reconhecê-los.
A escrita estava em grego.
— O duque Godofredo quer lhe falar — disse o soldado,
metendo a cabeça dentro da tenda de Anselmo. Este já
esperava por isso. Esperava ser convocado desde o momento
em que voltara ao seu enxergão, e tinha pedido ao Senhor
que lhe desse forças para suportar aquilo a cujo encontro
estava indo. Não para evitá-lo, porque sabia merecê-lo, mas
para suportá-lo.
Suas preces, na realidade, tinham sido convulsas e confusas.
Num momento, ele rezava pelo perdão do homicídio
cometido, em outro, por ter escondido aqueles documentos
que podiam prejudicar a credibilidade da Igreja. E, num
terceiro, por seus impulsos de concupiscência em relação a
Inês.
Ao ouvir a ordem do soldado, levantou-se, resignado, e o
seguiu docilmente, de cabeça baixa, em silêncio, até o
quartel-general do duque de Lorena. Ao entrar no pavilhão,
viu-se diante de Godofredo e de mais dois homens: gente
rude, cujos olhares ferozes pesavam como rochas sobre seu
sentimento de culpa.
Godofredo não falou logo. Observou-o, estudou-o, esquadri-
nhou-o, para entender com que tipo de homem iria lidar, e
para atemorizá-lo com seu olhar proverbial, de cuja eficácia
tinha plena consciência.
— Considera-se um bom homem de Deus, padre? —
perguntou afinal, sem convidar Anselmo para se sentar.
— Eu... não tenho competência para me julgar. O Senhor o
fará, quando me chamar à Sua presença... — conseguiu
responder o monge.
— Pelo que sei a seu respeito, temo que o julgamento divino
venha a ser muito negativo. E também tenho a impressão de
que você bem cedo se verá junto Dele...
— Eu me submeto às Suas vontades. Se pequei, é justo que eu
pague. Sou apenas um homem e, como tal, cometo muitos
erros.
Godofredo começou a andar lentamente em torno dele.
— Pois é. Talvez demasiados erros. Tira o dinheiro das putas...
Entende-se com os gregos cismáticos... Esconde
documentos preciosos... Mas... — observou — você poderia
aliviar sua posição diante do Senhor, e até diante da justiça
terrena, se nos revelasse o que sabe sobre certos rolos que
poderiam causar grande dano à Igreja, se acabassem em mãos
erradas...
— Eu... não sei do que o senhor está falando, duque... —
Anselmo tinha a fronte perolada de suor e seus olhos
evitavam a mirada ferino de Godofredo.
— Veja bem, monge — continuou Godofredo, aproximando-
se dele. — Eu estou agindo por conta do Senhor. Fui
diretamente investido nessa função por meio da nossa Santa
Madre Igreja e do sumo pontífice. Por conseguinte, não
existe nenhum escrúpulo que possa me limitar no exercício
do meu sagrado encargo. Nada que possa me deter. E muito
menos um padreco desgraçado que pretende dirigir o curso
de eventos muito, mas muito maiores do que ele.
— Continuo não entendendo do que o senhor está falando...
— A voz do monge estava embargada, reduzida a quase um
gemido fraco.
— Ah, não? Vai me dizer que não sabe nada do manuscrito
de um suposto Tiago, que se professa "irmão do Senhor", um
documento que os judeus assassinos teriam escondido em
Jerusalém, ou até mesmo aqui, entre estas tendas, com a
colaboração de algum apóstata traidor?
— É a primeira vez que ouço falar disso... — conseguiu dizer
Anselmo, com grande esforço.
— Mas, então, por que parece tão aterrorizado? Por que
transpira tanto? — interpelou-o Godofredo, agarrando-o pela
gola.
— Porque... porque sou um covarde...
— Nesse caso, é melhor me dizer o que sabe. — Godofredo o
soltou e se afastou. — Porque, do contrário, meus homens
têm ordem de empregar qualquer meio para convencê-lo a
desembuchar a verdade — disse, e apontou os dois que
estavam com ele.
Anselmo os observou. Ambos seguravam um bastão. Depois
olhou melhor: cada bastão tinha pregos espetados na
extremidade.
O monge engoliu em seco.
— Eu... não posso lhe dizer o que não sei — gaguejou,
dirigindo ao Senhor uma última prece.
O mesmo Senhor que ele sentia haver traído repetidamente.
Emanuel aguardou que o soldado que havia seguido Anselmo
se distanciasse e, depois, foi procurar na pilha de traves. Lá
no fundo estava a bolsa. Ele esperou que os outros homens
fossem comer, apanhou-a e dirigiu-se até Ricardo, de quem
só se aproximou quando o viu sozinho.
— A bolsa com o manuscrito já não se encontra nas mãos de
Inês. Estava com Anselmo, não sei por que motivo, e este a
deixou comigo. Estava sendo vigiado...
— Então, agora eles sabem que você a tem. Maldição! —
reclamou Ricardo, olhando ao redor.
— Não creio. Anselmo, sabendo-se observado, enquanto
falávamos escreveu com o pé, na areia, uma mensagem em
grego. Dizia: "Estou sob vigilância. A sacola com os rolos
está entre as traves. Pegue-a e a esconda, mas nunca me
conte onde." O que ele queria dizer, em sua opinião?
Ricardo refletiu.
— Creio que ele teme ser submetido a interrogatório, e, se
este for conduzido por Godofredo, não será uma brincadeira.
Talvez tema não conseguir resistir. A esta altura, estamos
todos em perigo. Todos nós que sabemos da existência desse
manuscrito.
— O que você pensa fazer? — perguntou Emanuel,
preocupado.
— Não sei. O fato é que precisamos tomar uma decisão
rapidamente.
O normando continuou a refletir por todo o tempo da pausa
para descanso. Pouco antes de ele retomar o trabalho,
porém, chegou um mensageiro do quartel-general de
Raimundo e lhe disse:
— O conde o chama para uma reunião urgente do estado-
maior.
— Você sabe do que se trata? — quis saber Ricardo.
— Parece que os bispos tomaram uma iniciativa... Mais do
que isso eu não sei — respondeu o outro.
O mensageiro saiu dali, continuando a circular para chamar
os outros participantes. Ricardo olhou para a sacola e, em
seguida, para Emanuel.
— Tive uma idéia. Não consigo imaginar esconderijo mais
seguro do que o pavilhão do conde.
— Enlouqueceu? Vai entregá-la justamente a ele? — retrucou
o bizantino, surpreso.
— Eu não disse isso. Sossegue. Sei o que estou fazendo —
respondeu o normando, pegando a sacola e afastando-se.
O soldado do duque levantou o bastão. Instintivamente,
Anselmo cobriu o rosto com os braços. Bem nesse
momento, um guarda entrou na tenda.
— Senhor duque, estão à sua espera no quartel-general do
conde Raimundo. Também foram convocados seu irmão e
os outros chefes do exército — anunciou.
Com um aceno, o duque ordenou ao seu subalterno que não
prosseguisse.
— Você tem mais um pouco de tempo para refletir, padre.
Mas, quando eu voltar, quero saber tudo — disse ao monge,
e saiu da tenda em passos rápidos.
Ricardo chegou ao pavilhão de Raimundo com duas sacolas.
Acabava de passar por sua tenda para pegar outra, com
alguns dos mapas que o conde às vezes consultava. De fato,
como ordenança do comandante, o normando conservava as
cartas geográficas do setor de operações e as submetia ao
conde sempre que este as solicitava.
A tenda já estava lotada quando ele chegou. Ali se
encontravam o conde, naturalmente, e os outros
comandantes, Tancredo de Hauteville, Roberto de Flandres
e Roberto da Normandia. Presentes também os bispos e os
expoentes eclesiásticos, agora inevitáveis em ocasiões como
aquela, a começar pelo capelão do próprio conde, Raimundo
de Aguilers, e pelo de Roberto da Normandia, Arnulfo
Malecorne de Rohes, e ainda o irmão de Ademar de Le Puy,
Guilherme-Hugo de Monteil. Havia também um simples
padre, Pedro Desidério, com seu senhor, Isoardo de Gap, um
comandante de segundo escalão.
Ricardo se perguntou o que podia significar a presença
daquele padre. Este se impusera à atenção geral no início da
primavera, declarando ter tido uma visão na qual o bispo
Ademar, morto havia algum tempo, contorcia-se no fogo do
inferno por ter mostrado dúvidas sobre a autenticidade da
Lança Sagrada. Mas o crédito de que ele gozava graças ao
apoio do conde Raimundo desmoronara de repente, após a
morte de Pedro Bartolomeu no ordálio da Sexta- Feira Santa.
Quando Godofredo e o irmão chegaram, teve início a
reunião.
— Convoquei-os aqui — começou o conde Raimundo —
porque isso me foi pedido por Guilherme-Hugo de Monteil,
irmão do nosso venerado bispo Ademar, de cuja santidade
sentimos verdadeiramente a falta. Portanto, passo a ele a
palavra — acrescentou, apontando o prelado.
Guilherme pigarreou. Sempre tivera que suportar o carisma
do irmão e o pesar que todos sentiam pela morte dele.
— Pois bem. Tenho aqui comigo Pedro Desidério, que, como
todos sabem, meu venerado irmão escolheu como veículo
para se comunicar com o mundo. Pedro afirma, e não tenho
motivos para duvidar, que Ademar lhe apareceu de novo e
declarou que, se os exércitos do Senhor ainda não
conquistaram Jerusalém, foi só porque nós, que nos dizemos
cristãos, estamos buscando nossos objetivos pessoais e
egoístas, em vez de nos concentrarmos no bem comum e
trabalharmos todos juntos. Portanto, deixemos de lado as
nossas disputas e reconciliemo-nos uns com os outros, para
expulsar o maligno e alcançar o alvo a que nos dispusemos.
— E era necessário esse padre para nos dizer isso? — objetou
Roberto da Normandia. — Não precisamos das supostas
visões desse padre mentiroso para nos chamar à ordem.
Devemos nos arranjar sozinhos para dirimir nossas
controvérsias, em vez de darmos ouvidos a quem apoiou
uma pessoa que não resistiu a um ordálio... — acrescentou,
encarando, sobretudo, Godofredo e Raimundo, os principais
responsáveis pelo impasse.
Raimundo o interrompeu de imediato e não perdeu a
oportunidade de reiterar suas convicções.
— Você bem sabe que Pedro Bartolomeu tinha superado o
ordálio — disse. — Foi a multidão que o lançou de volta ao
fogo, só para tocar a sagrada veste que ele usava e que o
protegera das chamas. Só então ele se queimou mortalmente.
Para mim, isso demonstra suficientemente que a Lança, que
conservo em minha capela, é a verdadeira e, por
conseguinte, sagrada. Agora, silêncio, e pode continuar,
Guilherme.
Este recomeçou, embora em tom mais temeroso:
— Meu insigne irmão não se limitou a nos exortar à
concórdia. Também pediu que expiássemos nossas culpas,
com um jejum de três dias e uma peregrinação em torno da
cidade, descalços, todos juntos e com o coração arrependido.
Se fizermos isso, é certo que dentro de nove dias
conquistaremos Jerusalém... — concluiu, olhando em
seguida para Pedro Desidério, que respondeu com um aceno
de assentimento.
Ricardo aproveitou a atenção geral dirigida ao irmão de
Ademar para manusear os mapas, que amontoou junto à
mesa, encostando a sacola dos rolos às outras.
O primeiro comentário veio de Tancredo:
— E deveremos fazer os homens jejuarem por três dias,
enfraquecendo-os ainda mais, justamente antes do ataque?
Na verdade, isso significa nos condenarmos com nossas
próprias mãos! — disse o jovem normando.
— Você só pensa no lado prático do assunto — retrucou
Raimundo. — Pense, porém, no efeito que isso exerceria
sobre o moral dos homens. Agora, eles estão desertando em
massa. Uma penitência os convenceria de que existe um
meio para nos purgarmos de nossos pecados e multiplicaria
as forças e a confiança deles...
— Além disso — acrescentou Roberto da Normandia —,
poderíamos consolidar nossa autoridade de comando, se nos
vissem fazendo penitência. E isso só poderia aumentar a
potência do nosso exército.
— E, sabendo que dentro de nove dias poderemos conquistar
a cidade, os homens multiplicariam seus esforços para
terminar as máquinas... — completou Roberto de Flandres.
— De qualquer modo, dentro de nove dias devemos tentar o
assalto. Do contrário, teremos às nossas costas o exército
egípcio... - observou, ainda, Tancredo.
— Verdadeiro ou não, este assunto merece ser levado em
conta - interveio Godofredo, interrompendo bruscamente
Tancredo; este, por outro lado, era seu vassalo, e não ousou
replicar. — Podemos ficar aqui durante horas, discutindo se
esse padre é ou não um embusteiro. Mas não é isso que nos
interessa. Convém, de preferência, estabelecer se tal política
é compensadora. Em minha opinião, sim — explicou. —
Seja qual for a intenção de cada um de nós, nosso objetivo
comum é transpor aquelas muralhas...
— O importante, porém — especificou o bispo de Rohes,
Arnulfo —, é que, durante três dias, todos se abstenham
realmente de qualquer ato que possa ofender o Senhor, ou
que possa atrair para vocês a reprovação da tropa. De
qualquer ato — concluiu ele, peremptório.
— Você ainda tem três dias para refletir, pedir perdão ao
Senhor pelas suas ações e fazer penitência, padre — disse
Godofredo a Anselmo, assim que retornou à sua tenda. —
Aliás, como todos. Vou mantê-lo detido. Você jejuará como
todo mundo, e beberá o mínimo necessário de água para se
manter vivo. Mas, se ao fim desses três dias não falar —
acrescentou, adotando o tom e o olhar com os quais sabia
aterrorizar os interlocutores —, garanto-lhe que não partirei
para o assalto da cidade sem ter encharcado aqueles bastões
no seu sangue...
— Anselmo desapareceu. Não consigo encontrá-lo — disse
Ricardo a Rebeca quando foi vê-la, no dia seguinte. O
número dos prisioneiros havia diminuído naqueles últimos
dias. Um, Jamal, fugira, e outros quatro tinham morrido de
inanição. A judia só sobrevivia porque Ricardo e Emanuel se
ocupavam dela, e também graças aos trabalhos menos
pesados, em relação aos homens, aos quais era obrigada.
— Os rolos estão com ele? — perguntou Rebeca, muito
apreensiva.
— Não. Estão comigo — respondeu Ricardo. — Na verdade,
guardei-os na tenda do conde Raimundo, mas no meio de
coisas às quais só eu tenho acesso. E o último lugar onde
Godofredo mandaria procurá-los, e o conde, por sua vez,
nem sabe que eles estão fora das muralhas, embora tivesse
me dado o encargo de encontrá-los, quando entrarmos em
Jerusalém — observou, consciente do efeito que a revelação
teria sobre a moça. — E Godofredo tampouco informaria
Raimundo sobre a presença desses manuscritos no acampa-
mento cristão. Quer ter o mérito pelo achado deles, para
obter benemerências por parte da Igreja...
Rebeca arregalou os olhos, perplexa.
— E você, com um encargo desses, por que renunciou a se
aproveitar das circunstâncias? Poderia fazer uma bela figura!
— Observou, comovida.
Ricardo hesitou, antes de responder:
— Não sei. Talvez não exista uma razão que prevaleça sobre
as outras. Para sua sorte, Rebeca, eu não sou muito religioso,
e para mim aqueles rolos não representam nada. Além disso,
estou inclinado a crer na autenticidade deles. E há sempre a
questão de sua irmã. Não quero prejudicá-la de maneira
alguma; nem a ela... — hesitou mais um pouco — ... nem a
nenhum membro da família dela... — disse, fitando-a nos
olhos.
Rebeca desviou a mirada, sem saber se fizera isso por reação
à referência a Sara ou simplesmente por não ter conseguido
sustentar aqueles olhos, que a faziam estremecer sempre que
a encaravam. Tentou frear a comoção; não fazia sentido,
aliás: para Ricardo, ela era apenas um reflexo da atração que
ele nutria por Sara.
Ricardo teve a impressão de haver dito algo que a ferira.
Fitou-a de novo, demoradamente, estudando-lhe os gestos, a
respiração levemente ofegante, o olhar esquivo. Perguntou-
se como era possível que duas irmãs fossem tão diferentes.
Uma, Sara, belíssima, o que tornava supérfluo qualquer outro
juízo a seu respeito. Outra, aquela que estava à sua frente,
nem um pouco agradável de aspecto, mas rica de qualidades:
inteligência, força de vontade, conhecimento, intensidade
de atitudes e de palavras.
Jamais se dera conta de que a beleza de certas pessoas não
reside na aparência.
— É realmente tão importante assim, para você, a
sobrevivência daquele texto? — perguntou, sobretudo para
ouvi-la falar mais.
— É importante para o meu povo, e também para a verdade
— explicou Rebeca, procurando disfarçar qualquer emoção
que não se referisse ao assunto da conversa. — Você mesmo
pode ver que a mensagem de paz que a Igreja procura
transmitir está em aberta contradição com sua atitude
intolerante e com o comportamento mundano de seus
expoentes. Ela ensina o amor ao próximo, mas traz todos
vocês para lutar contra quem não pensa da mesma maneira.
Prega o desapego aos bens terrenos, mas ostenta a opulência
de seus bispos. Como você pode pensar que uma instituição
tão contraditória e hipócrita tenha contado a verdade sobre
como nasceu e consolidou o próprio poder? Porque é de um
poder que estamos falando, um poder terreno e material, que
decide o destino terreno dos homens, antes mesmo do
espiritual. Como você pode pensar, por conseguinte, que a
Igreja permitiria a existência de textos que a desmentem tão
clamorosamente?
Ricardo baixou a cabeça. Jamais escutara uma mulher falar
desse modo. Realmente, era verdade: a beleza de Rebeca
estava em suas qualidades.
Faria de tudo para mantê-la viva e levá-la consigo. Quando
conseguisse se unir definitivamente a Sara, gostaria de ter
por perto uma mulher assim...
Inês jamais se sentira tão ignorada pelos homens como
naqueles dias de jejum e abstinência. Soldados e peregrinos
tinham até medo de serem vistos ao seu lado, para não cair
em tentação ou apenas para esconjurar qualquer ilação a
respeito deles. Se tentasse buscar companhia ou simples
informações, evitavam-na como se ela tivesse a peste.
Até Anselmo não se apresentara mais. Provavelmente
porque sua condição de religioso havia, por esta vez,
prevalecido sobre seus impulsos. Ricardo, então, nem
pensar. Tinha desaparecido, mas Inês foi obrigada a
reconhecer, a contragosto, que isso não era novidade. No
entanto, sentia-se suficientemente segura das próprias graças
e de suas capacidades para ter certeza de que, se conseguisse
ao menos uma vez tê-lo nos braços, ele não lhe escaparia
mais. Contudo, por uma razão ou por outra, a coisa não tinha
evoluído, e Ricardo continuava sendo aquele presunçoso
fugidio que só se lembrava dela quando precisava.
Inês vagava pelo acampamento procurando um rosto amigo.
Sentia as mordidas da fome, e pouco a consolava saber que
todos estavam nas mesmas condições, até os príncipes. O
vento sul tinha decrescido, mas o sol estava cada vez mais
quente, e de nada adiantavam os poucos goles d'água que lhe
cabiam quatro vezes por dia, após os quais seus lábios e sua
garganta recomeçavam a arder.
Ninguém se ocupava mais dos cadáveres dos animais, cujo
fedor impregnava todos os cantos. As carcaças, desventradas
pelas aves e corroídas pelos insetos, agora se disseminavam
por toda parte, e havia até quem as usasse como anteparo
contra os raios do sol, sem se importar com a putrefação.
Inês passou os dedos sobre os lábios. Estavam secos, ásperos.
Imaginou que já não parecia muito apetecível para um
homem. Aliás, bastava-lhe observar as outras prostitutas para
se dar conta daquilo em que se transformara. Elas também
vagavam, tentando não ser ignoradas. Desgrenhadas, o rosto
marcado por olheiras e rugas, inexistentes até poucos dias
antes, lábios cobertos de pústulas, faces encovadas.
Se seu estado também fosse aquele, era melhor que Ricardo
não a visse.
Em compensação, avistou Emanuel e lhe acenou de longe. O
bizantino, que estava transportando umas cordas, percebeu-
a, mas hesitou em ir ao seu encontro. Inês também se
deteve, para não deixá-lo embaraçado. Depois, porém,
recomeçou a caminhar. Afinal, pensou, tinha corrido riscos
por eles, e agora merecia alguma explicação.
Emanuel olhou ao redor, visivelmente constrangido. Mas
não se afastou.
— Obrigada por não ter fugido — disse Inês, em tom ácido.
— Devo estar um horror, certamente, mas há somente
poucos dias, na minha tenda, você parecia apreciar o que eu
tinha a lhe oferecer...
— Não, não é isso... — disse ele, tentando se justificar.
— Eu sei. Não quer que os outros pensem que você não
consegue manter a abstinência. Se um único soldado pecar,
todo o exército poderia se ressentir, não é? — provocou ela.
— Também não. Você não soube de nada? — respondeu
Emanuel, renunciando a convencê-la e apostando em lhe
despertar a curiosidade.
— O que eu deveria saber?
— Anselmo desapareceu logo depois de me deixar os rolos —
explicou o bizantino. — Estava sendo seguido por um
homem de Godofredo. Portanto, provavelmente o duque
sabe que ele estava com os rolos. E não é garantido que
Anselmo não fale, se Godofredo o torturar. E por isso que
não devemos ter contato entre nós. Eles estão tentando
descobrir quem mais sabe do assunto — acrescentou,
olhando novamente ao redor.
— Anselmo desapareceu... — Foi só o que Inês conseguiu
dizer.
De repente, um soldado.
Parecia loreno.
— Eu gostaria, gostaria muito! — exclamou Emanuel em voz
alta. — Mas não quero prejudicar o êxito do iminente assalto
com minha luxúria. Vá embora! — disse a Inês.
— Você não passa de um maricas, é isso! — respondeu ela
com ostensiva irritação, mandando-o àquela parte com um
gesto eloqüente do braço.
Inês se afastou, mostrando-se enfurecida. Depois, fingiu
perceber só naquele momento a presença do soldado.
Mudou de direção e se dirigiu a ele:
— E você? Também é um maricas como aquele lá? —
perguntou assim que chegou perto, provocando-o com
requebros exagerados. — Vamos, um homem não pode
sobreviver sem comer e sem se divertir...
Viu-o estremecer e deixar transparecer uma excitação mal
disfarçada. Isso a gratificou; apesar de tudo, ainda conseguia
perturbar um homem. Mas as normas para os soldados eram
rígidas e nada aconteceu.
Por outro lado, refletiu, não tinha a menor vontade de
divertir alguém. Estava muito preocupada com Anselmo.
Ela mesma o envolvera naquela história, aproveitando-se da
atração que exercia sobre o monge, e agora Anselmo
enfrentava dificuldades. Sérias dificuldades, provavelmente,
considerando-se que estava nas mãos do impiedoso
Godofredo. O sentimento de culpa de Inês era ainda
aumentado pelo afeto que, afinal, ela sentia por aquele
eclesiástico irresoluto, com o qual, querendo ou não, havia
compartilhado muitos percalços no decorrer daqueles
últimos três anos.
Teve o impulso de ir procurar o duque e perguntar pelo
destino de Anselmo. Mas logo compreendeu que, fazendo
isso, condenaria tanto Anselmo quanto a si mesma,
revelando a ligação entre eles dois. Desconsolada, retomou o
caminho de sua tenda, obrigando-se a uma espera aflitiva.
QUARTA PARTE
CONQUISTA
Pilhas de cabeças, de mãos e de pés podiam ser vistas pelas
ruas da cidade. Era necessário atentar para onde pisar, em
meio aos corpos de homens e de cavalos. Mas isso não é
nada, comparado ao que aconteceu no Templo de Salomão,
um lugar onde habitualmente se oficiam os ritos sacros. O
que aconteceu ali? Se contasse a verdade, eu ultrapassaria
vossa capacidade de compreensão. Assim, basta dizer que,
no Templo e no pórtico de Salomão, os homens cavalgaram
com sangue que chegava aos seus joelhos e às rédeas dos
animais. Realmente, foi mesmo um esplêndido juízo de
Deus que aquele lugar se enchesse do sangue dos infiéis, já
que havia tão demoradamente sofrido a blasfêmia deles.
Raimundo de Aguilers, Historia Francorum qui ceperunt Jerusalem
Jerusalém, 70 d.C.
— Podem me ouvir? Eu sou hebreu! — continuou Zoker a
gritar, avançando com cautela pelo túnel, na direção do
ponto de luz. Fosse como fosse, tinha sua sica, e venderia
caro sua pele.
— E quem nos diz isso? — respondeu finalmente alguém.
Zoker soltou um suspiro profundo.
— Vou me aproximar lentamente. Julguem vocês se eu
pareço um romano — disse, com leve tremor na voz.
— Mas, claro, deixe que ele se aproxime... — Ouviu alguém
dizer, em tom não exatamente acolhedor.
O jovem deu mais alguns passos, até que a luz das tochas lhe
permitiu vislumbrar três homens mal-encarados, todos com
uma sica na mão.
Zelotes.
— Bem, você pode não ser romano, mas isso não quer dizer
nada - disse um deles. — Eu nunca o vi. Pode ser um
daqueles lacaios dos romanos.
— Eu sou um ebionita, ou nazireu, como preferirem. Como
poderia ser favorável aos romanos? — respondeu Zoker
prontamente. E era verdade. — Sou parente de Simeão bar-
Cleofas, nosso patriarca. Quem mais se opôs ao domínio
romano foi justamente a minha família.
— Ah, sim, aquele velho que está sempre sozinho, sempre à
parte - interveio outro. — É idoso demais para ser útil à
defesa, mas pelo menos não subtrai provisões aos homens
sadios, já que não come nada...
— Sim! Ninguém jamais pensou ir perturbá-lo em casa; até
porque todos sabem que não encontrariam nada... É verdade
que os ebionitas se gabam de não possuir coisa alguma, mas
seus sacerdotes, assim como você e ele, nazireus... bah! Não
sei como conseguem sobreviver sem comer carne, sem usar
roupas de lã, sem uma mulher... — comentou outro, e isso,
por algum motivo, desencadeou a hilaridade dos três.
— Mas vocês, ebionitas, não tinham ido para a Peréia, depois
que seu patriarca anterior foi justiçado? — perguntou um dos
guardas.
— Eu voltei para proteger Simeão. — Pensando bem,
convinha seguir a linha da sinceridade.
— Ah, é? E pretende entrar e sair da cidade quando bem
entender? — observou, malicioso, um dos zelotes,
repentinamente sério. — Aqui há uma guerra em curso, caso
não saiba. Embora vocês não se importem com isso...
— Acabei de informar que nós somos contra os romanos —
respondeu Zoker, cauteloso.
— E acha que isso basta? E fácil afirmar ser contra os
romanos e deixar aos outros a tarefa de expulsá-los... —
rosnou o homem na cara dele, exibindo seus dentes podres.
— Ebionitas, essênios, nazireus, vocês todos não servem
para nada, com essa sua vida contemplativa...
— Você é um homem sadio. Se entrar, estará obrigado a
colaborar na defesa — acrescentou um dos três.
— Claro. De fato, tenho intenção de combater. Deixem-me
entrar, e, depois que eu vir como está meu tio, vou me
plantar no alto das muralhas — apressou-se Zoker a dizer,
fazendo menção de avançar.
Mas um dos três obstruiu a saída com o próprio corpo e
disse:
— Eu acho que você é um trapaceiro. Está levando comida
para seus sequazes e seu tio.
— Bem... os ebionitas afirmam que ninguém deve possuir
mais do que os outros, certo? Portanto, se tem comida e não
a divide, você não está observando seus preceitos... —
acrescentou o segundo.
— Ou se empanturrou antes de vir até aqui, sem pensar em
alimentar quem se desdobra pela causa da liberdade — disse
o terceiro, aproximando-se também.
— Ou então ainda está com a comida. Seria bom conferir.
Dispa- se! — intimou-o o primeiro, brandindo a sica.
Decididamente, três eram demais. Zoker olhou seu punhal e
foi tentado a usá-lo.
— Experimentem me tocar e eu acabo com pelo menos um
de vocês — ameaçou, com a expressão mais feroz que
conseguiu assumir, apontando a arma.
Os três zelotes se bloquearam. Nenhum deles queria ser a
vítima.
— Convém levá-lo a João ou Simão, que podem resolver o
que fazer com ele — concluiu, afinal, o mais próximo. —
Venha comigo — acrescentou, dirigindo-se a Zoker.
Este deu um profundo suspiro de alívio e seguiu o homem,
olhando de vez em quando para trás, a fim de se assegurar de
que os outros permaneciam em seus postos. O zelote não
disse uma palavra, até que desembocaram ao ar livre, e
Zoker tampouco tinha vontade de conversar. E muito
menos de ir ao encontro dos chefes zelotas. A situação,
decidiu, havia melhorado bastante: livrar-se de um
acompanhante em espaço aberto era bem mais fácil do que
fugir de três numa galeria estreita.
Mas o outro parecia vigilante. Além disso, era certamente o
mais nutrido dos três, sinal de que se tratava do mais feroz e
desabusado.
A Cidade Alta estava como Zoker a recordava, ao que podia
perceber na escuridão, só aqui e ali atenuada pela luz de
alguma tocha. Logo, porém, ele começou a perceber os
sinais da tragédia que os habitantes viviam. Às vezes cruzava
com algum e, observando-o atentamente, notava o abdome
terrivelmente inchado. Outros escavavam freneticamente na
base de uma edificação, na esperança de encontrar algum
talo de grama para enganar o estômago.
Uma casa estava com o teto arrasado, evidentemente por um
projétil de balista, de escorpião ou de onagro. Em muitas
habitações, contudo, somente as portas estavam derrubadas;
Zoker ouvira dizer que, naquele período, os bandos de
zelotes arrombavam as casas trancadas imaginando encontrar
ali alguma comida escondida.
Viu também cadáveres abandonados pelas ruas. Após ter
atravessado montes deles quando ainda se encontrava fora
das muralhas, teria se impressionado muito pouco se não
notasse que eram corpos dilacerados.
Pelos cães, pelas aves.
Talvez.
Perto do palácio de Herodes, toparam com dois indivíduos
que conversavam animadamente num canto. Um deles não
parecia inchado como os demais e, assim que avistou Zoker
e seu acompanhante, escondeu dentro das vestes aquilo que
trazia na mão.
— Venha comigo — disse o zelote a Zoker, encaminhando-
se para os dois. — E hora de ver se você pode ser útil à
causa. O que estavam fazendo? O que você escondeu sob a
roupa? — perguntou furioso ao concidadão, agarrando-o pela
gola. E, sem esperar resposta, empurrou-o contra uma
parede, puxando-lhe a túnica até rasgá-la. O outro tentou
fugir, mas o zelote apontou a sica para sua garganta. Das
vestes do homem, enquanto isso, haviam surgido uns tufos
de grama e um cinto, coisas que, naquelas circunstâncias,
constituíam alimento pelo qual havia quem se dispusesse a
pagar em ouro.
— Muito bem, muito bem. Temos aqui dois espertinhos —
comentou o zelote, com olhar maldoso. — Um propõe uma
amostra de coisas comestíveis a outro que se dispõe a
adquiri-las. Isso significa, meu amigo — concluiu, voltando-
se para Zoker —, que o primeiro tem comida guardada, e o
segundo, dinheiro. Ou seja, trataram de não colocar nada
disso à disposição de seus libertadores.
— Comida? Isso aí? — observou Zoker, consternado,
apontando o cinto de couro.
— Enfrente três meses de assédio e logo o achará delicioso.
Aliás, fervido, o couro não é tão ruim assim, posso lhe
assegurar — respondeu sorrindo o zelote. Depois voltou-se
de novo para suas duas vítimas, com um profissionalismo
que denotava uma certa familiaridade com aquele tipo de
interrogatório.
— Vamos, falem. Vocês sabem o que acontece aos
reticentes. Quero saber onde escondem as reservas de
alimento e o dinheiro.
Ambos, apavorados demais para falar, acenaram
negativamente com a cabeça. O zelote os esbofeteou e
depois meteu a ponta da sica numa das narinas do suposto
comprador.
— Eu sempre tenho comigo uns grãos-de-bico para essas
eventualidades. Garanto a você que, se alguma coisa tiver
sido escondida, não demora a aparecer. E, se eles não
estiverem escondendo nada, pelo menos não mijam por
algum tempo... rá, rá, rá! — disse a Zoker.
Em seguida, abriu um saquinho que trazia pendurado à
cintura, tirou um punhado de grãos-de-bico e deu alguns a
Zoker.
— Agora é com você. Pegue este aqui — ordenou, aludindo
ao indivíduo que ele supunha dispor de dinheiro — e enfie
os grãos no buraco que ele tem para urinar.
Aquele homem, pensou Zoker, era um salteador
profissional. Um salteador autorizado, que se instalava nos
subterrâneos não tanto para vigiar o acesso quanto para
roubar quem tivesse ido obter comida; evidentemente, havia
visto em sua presença uma oportunidade para voltar à
superfície e recomeçar a extorquir as pessoas.
Era o momento de se livrar de tão desagradável companhia.
Assim que recebeu as sementes, Zoker desfechou um
pontapé no baixo-ventre do zelote, puxou a própria sica e o
feriu na barriga.
O homem caiu sem emitir um gemido.
— Agora, fujam! — gritou aos outros dois. Depois se afastou,
rumando diretamente para a casa de Simeão. Virou-se só por
um momento, poucos passos adiante, para conferir se não
estava sendo seguido. Viu o sujeito que minutos antes se
dispunha a pagar por um pouco de alimento puxar a sica da
cintura do zelote morto, trespassar o outro e remexer
furiosamente na roupa deste para arrancar com os dentes os
talos de grama que haviam ficado presos nela.
Horrorizado, Zoker saiu correndo. Só desacelerou quando
teve medo de chamar atenção, e, a partir desse momento,
avançou em passos rápidos. Esperava de todo o coração
encontrar Simeão ainda vivo; nesse caso, se necessário,
aguardaria a noite seguinte para tentar sair da cidade. De
qualquer modo, era o memorial de Tiago que ele precisava
tirar dali a qualquer custo; assim lhe fora solicitado pelos
membros da comunidade ebionita.
Chegou à casa de Simeão. A porta estava intacta, como lhe
haviam confirmado os três zelotes. E apenas cerrada, como
ele percebeu assim que encostou a mão nela. Mas alguma
coisa, logo atrás, impedia a abertura completa. Experimentou
empurrar, e um braço imóvel surgiu no chão, bem no limiar.
Com o coração disparado, empurrou mais, conseguindo
afinal criar um espaço para entrar. Olhou para baixo e viu um
corpo de bruços, apunhalado nas costas.
Fez menção de virá-lo, quando ouviu uma voz:
— Não se preocupe, é só o ajudante. Simeão está aqui,
comigo...
Zoker finalmente ergueu o olhar e viu o tio pendurado numa
viga do teto, com os braços em ângulo reto e os pés atados à
trave de sustentação. Crucificado, mas ainda vivo.
Para o tórax de Simeão estava apontado um punhal. A mão
que segurava a arma mal surgia de uma sobreveste com
mangas amplas e dotada de um capuz que escondia o rosto
do algoz.
— Afinal, alguém tem que me dizer onde estão os
documentos... — disse este último, voltando o rosto para
Zoker.
— Você! — exclamou o jovem, chocado, deixando cair a
sica.
XXII
Godofredo de Lorena lançou na cara do escudeiro os sapatos
que este lhe passara, a última peça do vestuário. E, já que
havia começado, fez o mesmo com o elmo. O jovem, para
seu azar, tinha esquecido que os príncipes, em testemunho
de sua vontade de penitência, deviam participar descalços e
com a cabeça descoberta da procissão em torno de
Jerusalém.
O duque saiu da tenda usando camisão e cota de malha, além
do escudo e da espada. Nada mais. Estava prestes a se dirigir
para o norte, ao vale de Refraim, onde fora estabelecido que
os penitentes se reunissem, quando mudou de idéia e rumou
para o lado oposto, chegando a uma pequena tenda vigiada
por dois guardas, aos quais acenou para que entrassem com
ele.
O homem que se encontrava ali dentro, encolhido no solo,
quase não reagiu à sua irrupção. Permaneceu deitado, mal
abrindo os olhos, solicitados pela luz filtrada através da
abertura, e lançou ao duque uma rápida mirada, antes de
baixar de novo as pálpebras.
— Quer me dizer alguma coisa agora, padre? — perguntou
Godofredo, dando um pontapé no monge, só para se
assegurar de que ele estava acordado.
— Nada que possa ajudá-lo — respondeu Anselmo com um
fio de voz, a boca empastada e a garganta seca.
Godofredo o encarou com desprezo.
— Você me envergonha. Um homem que consagrou a vida a
Deus recusa-se a servi-Lo exatamente diante da cidade onde
o Senhor morreu — comentou.
— ... e também ressuscitou — conseguiu dizer o monge.
— Sim, mas você não vai ressuscitar, a não ser no inferno —
replicou o duque. — Hoje, padre, chegou para todos nós o
momento de pedir perdão a Deus pelos nossos pecados.
Todos faremos isso com uma procissão em torno da Cidade
Santa. Mas você o fará aqui dentro, e desta vez os meus
homens o ajudarão. Hoje à noite, quando eu voltar, quero
que me diga tudo. Mas tudo mesmo.
Godofredo saiu logo da tenda, seguido pelos dois soldados.
— Batam nele o dia inteiro, a intervalos regulares. Mas não o
matem. Quero encontrá-lo vivo, e não só em condições de
falar, mas também ansioso por isso — disse a eles, antes de
se encaminhar para o norte junto com seu estado-maior, que
o aguardava pouco adiante.
Ricardo não via o exército enfileirado desde o dia do
primeiro assalto às muralhas. Um dia que já parecia distante
no tempo e nebuloso na lembrança. Saiu bem cedo do
acampamento fronteiro ao monte Sião, ao lado do conde
Raimundo. Atrás deles, a longa coluna de guerreiros
provençais, todos descalços, sem elmo e com o capuz da
cota de malha descido sobre os ombros. Ricardo pensou que
raramente, e nunca durante o dia, o conde havia exposto sua
careca à luz do sol, e se perguntou como ele resistiria.
O vento matinal fazia ondularem os estandartes do condado
de Toulouse e dos feudatários de nível menor. Entre eles,
despontavam também as imagens dos santos suspensas em
longos mastros, que os padres haviam tomado o cuidado de
levar consigo, as cruzes de diferentes tamanhos e dos mais
variados revestimentos e, por fim, aquela que Raimundo
considerava a Lança Sagrada, conservada num estojo
transportado por quatro servos.
Avançando rumo ao norte, a coluna transpôs o
acampamento dos lorenos e depois o dos normandos
meridionais, recolhendo-lhes os contingentes à medida que
passava. Depois se deteve no vale de Refraim, onde
encontrou as fileiras dos normandos da Inglaterra e da
Normandia. Os eclesiásticos de todos os exércitos, em
grande parte vestidos de branco, confluíram numa só
coluna, que avançou ainda mais para o norte, a fim de se
colocar à frente do cortejo. Também ali estava Pedro de
Amiens, o Eremita, que apenas poucos dias antes havia sido
agarrado pelos cabelos e trazido ao acampamento após uma
tentativa de deserção. Ricardo sorriu, lembrando que ele
havia sido o primeiro e mais extremado adepto da cruzada...
Dezenas, centenas de tonsuras começavam a brilhar sob os
primeiros raios do sol, buscando proteção sob as compridas
sombras das muitas cruzes, relíquias e imagens de santos que
se elevavam acima dos homens.
Emanuel se aproximou de Ricardo.
— Não vejo Anselmo nem mesmo no cortejo dos padres e
dos bispos. Estou preocupado — disse.
— Eu sei. Esta noite, depois da procissão, vou investigar. Seja
como for, não creio que eles queiram se privar de homens
válidos às vésperas do ataque. No máximo, esperarão a
conquista da cidade para forçar a mão — respondeu o
normando, voltando logo depois para o lado de seu
comandante.
"Isso se conseguirmos conquistá-la...", pensou Emanuel,
fitando as muralhas. Nos espaldões, os defensores se
apinhavam em plena formação de batalha; as lanças deles, os
arcos, os elmos e os turbantes afloravam entre um merlão e
outro. Logo atrás entreviam-se os cimos dos minaretes, mas
o bizantino sabia que justamente ali ficava o Calvário, com a
igreja do Santo Sepulcro, o local onde todos aqueles que se
haviam feito cruzados almejavam entrar.
O grego se perguntou o que os muçulmanos estariam
pensando daquela estranha parada. Viam os assediantes que
se enfileiravam diante das muralhas, mas não atacavam,
traziam as armas, mas não os elmos, as armaduras mas não as
botas, haviam construído as máquinas mas não as usavam,
faziam-se conduzir pelos padres e não pelos comandantes.
A voz dos eclesiásticos deu o sinal de partida. Os padres
entoaram cânticos e salmos e se puseram a caminho,
seguidos de perto por todos os príncipes, de primeiro e de
segundo escalões. Depois foi a vez da tropa, que se
desdobrou como uma serpente, sem solução de continuidade
entre os contingentes. Por fim, encaminharam-se também
os peregrinos, uma massa desvalida de velhos, mulheres e
crianças, os que haviam sobrevivido ou não tinham querido
desertar.
Ricardo se colocou imediatamente atrás dos príncipes, à
frente da coluna dos simples guerreiros. Assumiu a
incumbência com o ceticismo de quem não acreditava que
aquilo pudesse adiantar alguma coisa, esperando perceber a
mesma atitude entre os companheiros. Em vez disso, porém,
desde quando começou a caminhar não ouviu ninguém
rindo, ou mesmo apenas conversando, nem entre os
príncipes que o precediam nem na tropa que o
acompanhava.
O silêncio só era quebrado pelo ruído dos passos dos
penitentes e pelo salmodiar dos padres, que os outros
ecoavam.
Todos pareciam levar o assunto muito a sério. Mais uma vez,
Ricardo não conseguia compreender aquela estranha mistura
de devoção e falta de escrúpulos, de religiosidade e
ferocidade, que caracterizava os homens aos quais se unira.
Seria fácil explicar isso como pura hipocrisia, mas ele sabia
que não era assim. Tinha consciência de que naqueles
homens conviviam duas naturezas, aparentemente anta
gônicas, mas, na realidade, conciliáveis e até
complementares, porque se referiam a duas esferas
diferentes, a terrena e a celeste.
A esfera celeste sempre acabava justificando e desculpando
grande parte dos atos da terrena. Um verdadeiro paradoxo,
se fosse verdade que havia sido criada para tornar melhores
os homens... Um dos dois soldados puxou de um saco um
dos bastões com pregos que Anselmo tinha visto fugazmente
três dias antes. O guerreiro tinha o rosto muito vermelho,
marcado pelo sol. Uma careta de escárnio lhe sulcou a cara
queimada, enquanto ele passava o outro bastão ao
companheiro, que experimentou a eficácia dos pregos
passando-os sobre as pontas dos dedos endurecidas pelo
calor, pela poeira e pelo trabalho pesado.
Depois, dirigiu a mesma careta ao monge. Anselmo a
distinguiu claramente na penumbra da tenda; em seguida,
viu o braço do soldado se levantar e o bastão descer.
Em cima dele.
Que alegria quando me disseram:
Iremos à casa do Senhor!
E agora nossos pés se detêm
às tuas portas, ó Jerusalém!
Jerusalém foi construída
como cidade compacta.
Para lá sobem juntas as tribos,
as tribos do Senhor,
segundo a lei de Israel,
para louvar o nome do Senhor.
Lá estão postos os assentos do juízo,
os assentos da casa de Davi.
Implorai paz para Jerusalém:
que haja paz para aqueles que te amam,
que haja paz sobre tuas muralhas,
segurança nos teus baluartes.
Para meus irmãos e amigos
eu direi: sobre ti esteja a paz!
Para a casa do Senhor nosso Deus,
pedirei: para ti, o bem.
Os salmos entoados pelos eclesiásticos ditavam o ritmo da
procissão. Às vezes, contudo, alguém se detinha para
contemplar os lugares sacros junto dos quais passava, ou
rompia o silêncio da tropa apontando-os a um companheiro.
Nenhum dos cruzados jamais os vira em sua vida, antes de
empreender o assédio; mas, logo após a chegada do exército,
os cristãos dos arredores e os expulsos de Jerusalém tinham
secundado de bom grado a curiosidade dos peregrinos,
servindo-lhes de guias ao redor das muralhas; mediante
pagamento, naturalmente, porque afinal precisavam
sobreviver.
Ricardo viu um soldado de Raimundo cair de joelhos e rezar
diante daquele que outro indicou como o túmulo de santo
Estêvão, o primeiro mártir cristão. Muitos outros o imitaram.
Depois, pros- seguindo rumo a leste, a tropa passou ao lado
do túmulo da Virgem. Ricardo escutou mil vozes se
levantarem ao seu redor, recitando a Ave-Maria, numa
ladainha dissonante que cada um iniciava por sua própria
conta, dependendo do instante em que entrava em contato
visual com o monumento, encimado pelos restos de outra
edificação mais recente e situado abaixo do nível da estrada.
Não pôde evitar pensar em Rebeca, que considerava Maria
uma simples mulher, à qual só posteriormente fora atribuída
uma natureza incomum.
Para o normando, tudo era novo. Ele não se incluía entre os
que, nos dias anteriores, haviam se informado sobre a
localização dos vestígios da tradição cristã; por isso, eram os
próprios companheiros que lhe serviam de guias,
comentando de vez em quando aquilo que encontravam
pelo caminho. Após entrarem no vale de Josafá, a nordeste
da cidade, alguns apontaram aquela que definiram como a
gruta sagrada, onde Cristo havia ensinado o Pai-Nosso aos
discípulos e previsto a destruição de Jerusalém. Rebeca,
imaginou Ricardo, sustentaria que essa previsão era um claro
indício de que os Evangelhos tinham sido escritos depois da
destruição da cidade e, portanto, bem depois da morte de
Cristo.
Só então lhe ocorreu que já ultrapassara, e desde algum
tempo antes, o setor das muralhas além do qual devia viver
Sara. Estranho, refletiu, que até aquele momento tivesse
pensado em Rebeca, e não nela. No entanto, alimentara a
esperança de que aquele árabe, Jamal, informasse Sara de sua
presença entre os cruzados e de que a jovem estivesse
ansiosa pela sua chegada.
Pueril. Realmente pueril. E altamente improvável, pensou.
A dor no ombro direito era lancinante. Levantando a mão
esquerda, Anselmo tentou aliviar as fisgadas com a pressão
das pontas dos dedos. Não conseguiu, mas continuou
massageando a parte machucada. O verdugo havia usado o
bastão com uma fração modesta de sua força. Mesmo assim,
o contato com os pregos havia sido devastador. O monge
sentiu o sangue quente lhe escoar ao longo do braço, sobre o
hábito, que logo se tingiu de escuro.
Agora, cabia ao outro soldado. O mesmo esgar zombeteiro.
A mesma cara queimada de sol. Ou talvez fosse o primeiro
homem que se preparava para bater pela segunda vez.
Instintivamente, Anselmo retraiu o ombro esquerdo. Era ali
que esperava o segundo ataque. Este, porém, desabou
novamente sobre o ombro direito.
Por um instante, os pregos ficaram espetados em seus dedos.
Mas só por um instante. O soldado puxou de volta o bastão, e
os pregos rasgaram a mão do monge, antes de se soltarem da
carne.
Faz com que lhes venha, ó Senhor, o rei deles, filho de Davi;
quando vires, ó Senhor, que ele pode reinar sobre Israel, teu
servo. Dá-lhe forças para abater quem governa injustamente,
para libertar Jerusalém das nações que a levam à destruição.
As nações pagãs servirão sob teu jugo, e ele glorificará o
Senhor em um lugar visível de toda a terra, e libertará Israel
tornando-o santo como foi: dos confins do mundo virão
nações para ver a sua glória, para ver a glória do Senhor com
a qual Deus o glorificou. E será um rei justo, temeroso de
Deus, e não haverá injustiça em seus dias, porque todos
serão santos e o rei deles, o ungido do Senhor.
Oliveiras de tronco tortuoso, que ninguém ousara tocar,
apesar da desesperada necessidade de madeira. Eram as do
horto de Getsêmani, e pareciam tão antigas que,
provavelmente, haviam assistido à noite em que Jesus
aceitara sofrer e morrer na cruz, para carregar sobre seus
ombros os pecados do mundo.
Pecados que o mundo continua cometendo, refletiu Ricardo,
e com a mesma displicência com a qual os cometia na época
daquele suposto sacrifício. Talvez seja essa, pensou ainda, a
prova mais evidente de que aquela morte na cruz não tivera,
para a humanidade, o efeito salvador que os cristãos
pretendiam lhe atribuir. Rebeca diria... sim, ela diria
justamente isso.
A estrada era agora em aclive. A procissão se dirigia ao
monte das Oliveiras, o lugar onde acontecera a ascensão do
Senhor. Havia até quem esperasse ver alguma coisa, no topo
do monte: um sinal da presença divina no céu, talvez uma
aparição que encorajasse os soldados e os exortasse ao último
e supremo esforço.
Do cume, porém, só se avistava o panorama: um amplo e
profundo cenário que a ocidente, para além das muralhas de
Jerusalém, apresentava minaretes e cúpulas de mesquitas, e a
oriente a cidade de Jerico, o rio Jordão e o mar Morto. O
exército ocupava todo o altiplano e grande parte das encostas
quando Arnulfo de Rohes, de pé sobre uma pedra no ponto
mais alto do monte e circundado por bispos e príncipes em
meio a estandartes e relíquias, começou a falar.
Ricardo havia permanecido numa das vertentes, ultrapassado
na subida pelo entusiasmo dos companheiros. De vez em
quando captava algumas palavras, suficientes, contudo, para
compreender o sentido das frases. Arnulfo falava de
determinação e zelo, de convicção e fé, de confiança no
auxílio do Senhor. Curioso, o normando abriu caminho
entre os ouvintes e chegou mais perto.
— Temos padecido, combatido os infiéis e sofrido
longamente para alcançar esta meta. — Arnulfo apontava
Jerusalém, para a qual todos se voltaram. — Mas por acaso o
Senhor não padeceu, combateu o demônio e sofreu
longamente, antes de cumprir seu extremo sacrifício
justamente ali, em Jerusalém? Quem somos nós para pre-
tender sofrer menos? Nós, Seus humildes servos, vindos até
aqui para fazer Sua vontade, para recuperar Sua herança,
hoje espezinhada pelos ímpios! Aí está ela, a digna
compensação por todas as fadigas de vocês; aí estão eles, os
lugares onde Deus perdoará todos os seus pecados e
abençoará todas as suas vitórias!
Uma ovação geral se levantou sobre o monte. Os homens
caíram de joelhos e contemplaram a cidade que significava a
redenção deles.
— Lê-se no Apocalipse de João: "O anjo me transportou em
espírito até um grande e alto monte, e me mostrou a cidade
santa, Jerusalém, que descia do céu, de Deus, resplandecente
da glória de Deus!" — gritou Arnulfo, apontando Jerusalém.
Agora só existia a esfera celeste, pensou Ricardo.
Anselmo levou à boca a mão lacerada, para sugar o sangue.
Era um modo de se dessedentar, além de uma tentativa de
aliviar a dor. Tentativa, apenas. Não havia como atenuá-la,
por enquanto. E ele também sabia que, quando conseguisse
se habituar, os homens desfeririam outro golpe.
Pensou em Jesus Cristo, em suas trinta e nove chibatadas.
Perguntou-se se teria forças para suportar outras tantas
bordoadas. Perguntou-se se Ele lhe daria forças para suportá-
las.
E se perguntou se Ele o estaria considerando entre os bons
ou entre os maus. Entre os bons, porque defendia seus
amigos; ou entre os maus, porque agia contra os interesses
daqueles que O representavam na Terra.
Desde o momento em que aquele memorial havia aparecido,
uma sensação o acompanhara: a Igreja não tinha respeitado a
mensagem de Jesus. E não era necessário recorrer ao
memorial. Bastava ler os Evangelhos para compreender o
quanto aqueles conceitos de fraternidade universal e de
reino dos céus estavam distantes da atitude dos que se
arrogavam o direito de promovê-los. Semelhante
contradição, embora óbvia, jamais lhe passara pela cabeça,
antes que as palavras de Rebeca insinuassem a dúvida em seu
espírito. Mas aquela mulher contestava o cristianismo como
tal, e ele, só a Igreja e aquilo que esta impelia os fiéis a
fazerem.
Viu o soldado erguer o bastão e se perguntou onde ele
bateria desta vez.
Fechou os olhos. Não conseguia mais encarar de frente a
dor.
Sentiu o impacto no ombro esquerdo.
Não queria dar aos seus carrascos a satisfação de ouvi-lo
berrar, mas não conseguiu evitá-lo. Gritou, no mesmo
momento em que ouviu um poderoso clamor se levantar do
outro lado da cidade.
— Muitas vezes — prosseguiu Arnulfo, depois que a ovação
se atenuou — prejudicamos nossos desígnios por causa da
discórdia. Os príncipes não deram o bom exemplo e, assim,
entre os soldados também houve confrontos por questões
mesquinhas, brotaram rancores, consumaram-se vinganças
que nos afastaram do sagrado fim ao qual nosso
empreendimento deve tender. Não esqueçam por que
estamos aqui! E, sobretudo, por Quem estamos aqui!
Esqueçam as ofensas, perdoem a quem vocês acham que os
prejudicou, ajudem os mais fracos, deixem-se inspirar pelo
amor fraterno que deveria guiar um exército que
compartilhou tantos sofrimentos e que age por amor a
Cristo! Só então o Senhor verá que somos dignos de Sua
glória e nos concederá a vitória!
Arnulfo ainda estava falando quando Ricardo viu Raimundo
se locomover e ir ao encontro de Tancredo, a quem abraçou
teatralmente. O gesto de reconciliação do conde provocou
uma nova ovação e foi seguido por uma ciranda de
emulações. Todos os príncipes fizeram o mesmo, e em torno
de Ricardo os homens apertavam-se as mãos, abraçavam-se e
choravam de comoção. Muitos circulavam em meio à
multidão à procura de alguém com quem tinham tido diver-
gências; quando o encontravam, pediam-lhe perdão, que o
outro concedia de bom grado, suplicando ao interlocutor
que o perdoasse também. Alguns se comprometeram a dar o
futuro butim em esmola, enquanto quem já possuía um
pedaço de terra apregoava a intenção de doar uma parte
desta aos mais desvalidos.
Depois de se reconciliarem, os nobres também proclamaram
seus bons propósitos: Godofredo de Lorena fez ouvir sua voz
potente para declarar que destinaria aos pobres a metade da
renda de qualquer coisa que obtivesse no Oriente.
Acrescentou, ainda, que abandonaria sua soberba e manteria
uma atitude mais humilde, compreensiva e conciliadora.
Anselmo estava com as costas devastadas pelas feridas
causadas pelos pregos, e os ossos doloridos pelas pancadas do
bastão. Depois do quinto golpe, que lhe perfurara as coxas,
enroscara-se sobre si mesmo, de bruços, oferecendo aos
algozes sua parte posterior. Parecia rezar, e de vez em
quando realmente o fazia, quando a dor pelo último golpe
recebido se atenuava, restituindo-lhe um pouco de lucidez.
Mas justamente então vinha uma nova bastonada e sua
mente não mais lhe permitia formular pensamentos
coerentes.
O enésimo golpe o surpreendeu sobre os calcanhares nus,
que se rasgaram sob o choque dos pregos. Encolheu-se de
lado.
Pediu a Deus que o fizesse morrer logo. De medo, talvez.
Mas sabia que Ele não lhe concederia isso.
Seria fácil demais. E ele tinha muito a expiar.
E, também, não tinha muita certeza de que Deus estava do
seu lado.
Os infiéis pareciam enlouquecidos. Marchavam em torno da
cidade desde a madrugada, descalços, e cantavam, exibiam
suas cruzes ridículas, berravam de alegria a cada proclamação
de seus sacerdotes. O governador Iftikhar al-Dawla havia
seguido o percurso deles desde o começo da procissão,
ladeado pelo seu estado-maior, tentando compreender qual
era o objetivo daquilo. Depois, quando os vira subir ao
monte das Oliveiras, voltara aos seus assuntos, considerando
que, ao menos naquele dia, o inimigo não tinha intenção de
assaltar a cidade.
Agora, a tensão suscitada inicialmente pelos estranhos
movimentos dos francos se atenuara, e alguns emires até
riam do que estavam vendo.
— Só lhes resta essa palhaçada, para se considerarem um
exército — disse um dos comandantes que contemplavam o
espetáculo do alto dos espaldões, junto com Jamal.
— Essa palhaçada, como você a chama — interveio
energicamente este último —, serve para eles se
fortalecerem. E justamente esse tipo de coisa que os torna
perigosos...
— Perigosos? Aquela mixórdia de desvalidos? — Fez questão
de comentar outro emir. — Se não foram capazes de entrar
na cidade quando estavam frescos, o que podem fazer agora
que estão reduzidos, maltratados por semanas de calor, de
falta d'água e de víveres?
Duvido que o ataque deles, se por acaso acontecer, seja mais
ameaçador do que esse passeio que estão fazendo hoje...
Afinal, você os viu?
— Vi muito bem. E até de perto, muito mais do que você —
replicou Jamal, irritado pela superficialidade daquele
comandante, o qual iria inevitavelmente transmiti-la aos seus
subordinados. — E lhe asseguro que é justamente essa
condição desesperadora que os torna guerreiros temíveis:
extraem força do sofrimento, convencendo-se assim de
emular seu deus, que viveu sua Paixão aqui em Jerusalém.
Os outros o olharam sem compreender. Mas, a essa altura, a
opinião deles já se espalhara pela tropa. Um soldado içou até
os espaldões uma cruz grosseira, da altura de um homem, e
outros dois agitaram-na acima das ameias, a fim de que os
cristãos a vissem. Obtida a atenção dos adversários, içaram
um deles sobre o artefato, e este se agarrou ao braço
horizontal. Depois começou a gritar imitando o grasnido de
um ganso, alternando-o com o canto do galo, enquanto, ao
redor, os companheiros riam e chamavam aos berros os
infiéis para que viessem "salvar seu deus".
Instintivamente, Jamal se encaminhou para eles, a fim de
fazê-los parar, mas outro emir o deteve:
— Deixe-os. Os homens têm o direito de brincar, de vez em
quando. Ridicularizar o inimigo diminui a tensão e torna
mais confiante a tropa...
— Mas aumenta nos infiéis o desejo de vingança. E, se
conseguirem entrar, eles nos farão pagar também por essa
afronta... — observou Jamal, aborrecido.
— Entrar? Aqueles paspalhões? Se Alá os deixar fazer isso,
será apenas para nos permitir massacrá-los à vontade, no
corpo a corpo... — comentou seu interlocutor.
— Ou para castigar nossa soberba — replicou Jamal. Mas suas
palavras se perderam no alarido que reinava sobre os
espaldões. Agora já não havia soldado que não se divertisse
provocando os assediantes, escarnecendo da aglomeração no
monte das Oliveiras com insultos de todo tipo e
ridicularizando aquele ritual com gestos teatrais e obscenos.
Através do vale, o eco de suas gargalhadas chegava aos
infiéis.
Jamal balançou a cabeça, desalentado. Procurou Firuz com o
olhar; sentiu-se confortado ao ver, pelo menos nele, a tensão
e a concentração que seriam aconselháveis numa guarnição
prestes a enfrentar o último e desesperado esforço de um
bando de assediantes sem mais nada a perder.
A indignação substituiu a exaltação. Arnulfo de Rohes parou
de falar, visivelmente perturbado pelo estardalhaço
proveniente dos espaldões. Os soldados observaram
consternados os muçulmanos brincando com a cruz e
escutaram, nervosos, as risadas e os gracejos provenientes
das muralhas.
Os rostos, até pouco antes em contemplação extasiada,
assumiram expressões ferozes; as espadas pendentes dos
cintos foram desembainhadas, as bocas que entoavam salmos
prorromperam em ameaças e insultos dirigidos aos
defensores. Ricardo permaneceu em silêncio, observando o
que acontecia entre bispos e príncipes. Viu-os conversarem
animadamente entre si, e em seguida alguém impeliu para a
frente um velho com espessa barba branca.
Pedro de Amiens.
Queriam que ele falasse. Embora sua tentativa de fuga o
tivesse desacreditado pesadamente aos olhos da tropa, os
bispos ainda esperavam que sua proverbial eloqüência
dirigisse a raiva dos soldados para reações mais construtivas
do que as simples escaramuças verbais.
E Pedro não os decepcionou. Quando falou, depois que os
príncipes chamaram a atenção dos homens batendo com as
espadas nos escudos, ficou claro por que ele havia
conseguido mobilizar uma massa enorme de pessoas na
Europa, três anos antes, mesmo sendo um obscuro padre de
província.
— Vocês estão ouvindo as ameaças e as blasfêmias dos
inimigos do verdadeiro Deus! — gritou. — Portanto, jurem
defender Jesus Cristo, prisioneiro e crucificado uma segunda
vez pelos infiéis. Sim, eu juro sobre a piedade de vocês e
sobre suas armas: o reinado dos ímpios chegou ao fim!
Suas primeiras palavras ainda foram interrompidas e abafadas
por alguns protestos. Depois, fez-se silêncio.
— O exército do Senhor só precisa se mostrar — prosseguiu
—e toda aquela massa inútil de infiéis se dissipará como
sombra. Hoje eles ainda estão cheios de orgulho e
insolência, mas amanhã estarão gelados de terror e cairão
imóveis diante de vocês, como aqueles guardas do Sepulcro
que sentiram as armas lhes fugirem das mãos e tombaram
mortos de pavor, na hora em que um terremoto anunciou a
presença de um Deus ressuscitado. Mais alguns momentos e
essas muralhas que foram por demasiado tempo o refúgio
dos infiéis serão a morada dos cristãos; essas mesquitas que
se erguem sobre as ruínas cristãs servirão de templos ao
verdadeiro Deus, e Jerusalém só escutará os louvores ao
Senhor!
O silêncio que se seguiu à conclusão de seu discurso fez
chegarem novamente aos ouvidos dos cruzados as zombarias
provenientes dos espaldões. Mas foi só por um instante. A
ovação subseqüente abafou qualquer som ou rumor
circundante; em meio aos gritos de triunfo, os cristãos
desceram o monte, a fim de se dirigirem para o sul, rumo ao
vale do Cedron, completando, assim, o contorno das
muralhas.
Agora já não havia regularidade nas agressões dos dois
verdugos. Podiam ficar sem espancá-lo durante um período
que a Anselmo até parecia longo; quando ele tentava
finalmente relaxar, eis que vinha um novo golpe. Então
esperava contar com um intervalo igualmente longo para
aliviar a tensão, mas o golpe seguinte chegava imediatamente
depois, dilacerando-o, arrancando-lhe a pele, fundindo à
carne viva o tecido do hábito.
Anselmo chorava, perguntando-se se caíra em tais apuros
para demonstrar alguma coisa a si mesmo, a Deus ou a Inês,
ou então por já se sentir inimigo dos outros prelados, os
quais, traindo a mensagem de Cristo, haviam-no traído
também.
Não conseguia achar uma resposta. Não queria achar uma
resposta. Temia encontrar uma justificativa para se salvar e
trair os amigos.
Soluçava. E quanto mais soluçava, mais os dois esbirros de
Godofredo riam. E batiam.
Grande é o Senhor e digno de todo louvor, na cidade do
nosso Deus. Seu santo monte, altura estupenda, é a alegria de
toda a terra. O monte Sião, morada divina, é a cidade do
grande soberano. Deus, em seus baluartes, mostrou-se
fortaleza inexpugnável. Eis que os reis se aliaram e
avançaram juntos, mas então viram: e, atônitos, tomados de
pânico, logo fugiram.
Ainda salmos. Mas a essa altura o passo dos cruzados era
veloz, graças também à estrada em declive. Todos estavam
ansiosos por completar o contorno, voltar aos seus
acampamentos, lançar-se ao trabalho e terminar as máquinas
no menor prazo possível. Agora, porém, percorriam o setor
menos familiar. Somente quem havia participado das
patrulhas de reconhecimento já tinha visto a parte oriental
da cidade, que, por causa das íngremes ladeiras abaixo das
muralhas, os comandantes haviam excluído do bloqueio
parcial a que submetiam o perímetro urbano. Como muitos,
portanto, Ricardo via o vale do Cedron pela primeira vez, e,
como os outros, ficou impressionado pela majestade das
escarpas que o delimitavam e pela escura silhueta das
muralhas que se recortavam no alto contra o sol que
começava a desaparecer atrás dos merlões.
Enquanto vagava com o olhar sobre o imponente altiplano
que, até mil anos antes, havia sido a esplanada do Templo,
foi atraído pelas palavras de um companheiro, que lhe
indicou o túmulo dito de são Tiago. Deslocou o olhar para a
esquerda, na direção do oriente, e ao pé da escarpa viu uma
série de pequenos templos de feituras diferentes,
encastoados na rocha. Perguntou ao soldado qual era o
sepulcro, e este lhe apontou uma espécie de caverna
quadrada, em cujo acesso surgiam duas colunas encimadas
por uma arquitrave.
Gostaria de conferir aquilo com... Rebeca, pensou, e ouvir a
opinião dela a respeito. Tentou imaginar o que a moça lhe
diria: um santo que a Igreja havia transformado, de irmão e
sucessor de Jesus, em um de seus discípulos... E só porque,
talvez, ele ficara famoso demais, em sua época, para que se
pudesse cancelá-lo completamente da história do
cristianismo!
Enquanto isso, já tinham chegado à piscina de Siloé. A partir
daquele ponto, quase todo o exército conhecia a área: de
fato, embora o setor meridional tivesse ficado fora do
bloqueio, eram poucos os que não tinham tentado, pelo
menos uma vez, obter água da fonte.
Ainda havia cadáveres em torno da piscina. Estavam ali
havia muitos dias, putrefatos e decompostos, como prova do
risco que se corria ao escolher aquela solução para matar a
sede, ou mesmo para especular com a água que se conseguia
recolher.
Instintivamente, Ricardo se retraiu para leste, na direção das
encostas do monte do Escândalo. Outros, ao contrário,
quiseram aproveitar a confusão do cortejo e a distração dos
defensores no alto das muralhas, os quais ainda riam às
gargalhadas. Ou talvez ainda se encontrassem no estado de
exaltação que havia impregnado a tropa no monte das
Oliveiras e se sentissem invulneráveis, ou apenas favorecidos
pelo apoio do Senhor.
Assim, houve quem descesse à piscina, primeiro com cautela
e depois com maior decisão. E até bebeu. Tal exemplo levou
outros à imitação, e em breve eram muitos os cruzados
apinhados em torno da fonte.
Foi então que começaram a chover flechas. Sem que se
interrompessem as risadas nos espaldões.
E novos cadáveres se acrescentaram aos já putrefatos e
decompostos.
— Hoje, eu me reconciliei com Deus, padre. E você?
Anselmo mantinha havia muito tempo a fronte apoiada no
solo. Tinha recebido os últimos golpes com resignação,
quase como se aquelas fisgadas atrozes fizessem parte do seu
corpo: uma doença como outras que muitos sofrem, como as
dores nos ossos, no estômago, na cabeça.
Pareceu-lhe estranho que um dos algozes lhe dirigisse a
palavra. Ao longo de todo o dia, não tinham feito isso em
momento algum.
Virou-se; seus olhos foram fustigados pela luz que penetrava
através da fissura de entrada da tenda.
As silhuetas eram três.
Ele demorou um pouco a compreender que aquele no
centro era Godofredo de Lorena. Ligou a figura imponente à
voz ouvida pouco antes, e disse com um fio de voz:
— Acredite... Não sei. Não sei mesmo...
— Que pena. Se você tem dúvidas, significa que nem sequer
tentou. É o único, hoje, que não fez isso.
XXIII
Rebeca demorou um pouco a reconhecer o que restava do
padre com quem havia travado acaloradas discussões.
Tinham-no abandonado a curta distância dela, no recinto
dos prisioneiros, com um pequeno odre de água ao lado. A
moça só compreendeu que ele estava vivo porque seu
corpanzil se movia de maneira rítmica, escandindo uma
respiração ofegante. Era a única coisa, afora o hábito
ensangüentado, que o diferenciava dos dois cadáveres de pri-
sioneiros árabes ao lado dos quais tinha sido colocado e que
ninguém se preocupara em remover, como, aliás, em
qualquer outra parte do acampamento cruzado.
Aproximou-se. O monge jazia de lado e um débil lamento
acompanhava sua respiração. Ela viu o odre e sentiu-se
tentada a beber, mas depois decidiu usar a água para socorrer
o pobrezinho. Molhou uma das mãos e passou-a
delicadamente sobre o rosto de Anselmo, a única parte do
corpo dele que não tinha ferimentos. Também com
delicadeza, levantou-lhe a cabeça e encostou o odre à sua
boca, permitindo que ele bebesse. Então, com extremo
cuidado, começou a livrá-lo das roupas, descolando
lentamente o linho que se grudara aos ferimentos. Por fim,
usou o hábito, imundo, manchado de sangue seco e rasgado
em vários pontos, para envolver o ferido, protegendo-o do
contato com o solo e do relento.
— Eu... não falei... garanto. Eles ainda não sabem quem está
envolvido... — conseguiu dizer Anselmo, assim que foi
capaz de articular alguma palavra.
Rebeca ficou profundamente surpresa.
— Por que fez isso? Você é um homem de fé, não tinha
obrigação de resistir para defender uma coisa que a
desmente...
— Então... digamos que fiz por mim, mais do que por
vocês... — replicou ele com um fio de voz, antes de fechar
os olhos e adormecer.
Emanuel foi o primeiro à saber de Anselmo. Na volta da
procissão penitencial, Ricardo sentira vontade de ver
Rebeca, e teria preferido ir ele mesmo levar água para ela.
Mas o conde o chamara para planejar o último esforço, e só
lhe restara enviar o grego para ver a prisioneira.
— Parece que ele não falou — disse Emanuel, quando, no
início da manhã, encontrou Ricardo. — Mas ignoramos o
quanto Godofredo sabe, até agora.
— Ontem à noite, a assembléia geral dos chefes e dos bispos
deu a si mesma um ultimato — explicou Ricardo. — Até
amanhã as máquinas deverão estar prontas. O ataque está
previsto, improrrogavelmente, para depois de amanhã.
Duvido que Godofredo tenha dito alguma coisa a Raimundo;
provavelmente quer ser ele mesmo a desencavar o
manuscrito. E, se ainda não sabem de nada, não creio que
empregarão seus esforços para investigar nestes dois dias.
Devemos fazer o máximo para preparar o ataque, e qualquer
outra coisa está subordinada a esse objetivo.
— Tem certeza de que estamos fazendo a coisa certa? Quer
dizer... e se estivéssemos defendendo uma causa perdida, ou
até mesmo falsa?
— Em dúvida, eu a defendo — especificou Ricardo. — E a
vantagem de não acreditar mais em nada, exceto em alguns
seres humanos. E eu acredito naquela mulher. O que devo
fazer agora é tirar daqui o memorial, antes do ataque. Assim,
se por acaso eu tombar na batalha, ele não ficará nas mãos do
conde e algum de vocês poderá ir recuperá-lo. Procurarei
pensar num esconderijo mais seguro...
— Eu vou com você?
— Não. A estratégia do assalto prevê que o esforço para o
arrombamento seja concentrado diante do setor norte-
oriental da cidade — respondeu o normando. — Godofredo
de Lorena se encarregará disso com sua torre, junto com
Roberto de Flandres e Roberto da Normandia. Então o
duque, para integrar suas forças, requisitou homens de
outros contingentes, e Raimundo de Toulouse prefere
manter consigo os soldados de militância mais antiga. Por
isso você será enquadrado com os lorenos no centro das
fileiras, e dificilmente teremos ainda oportunidade de nos
ver. Você deve se apresentar ao estado-maior do duque esta
manhã. Quanto ao resto, os provençais do conde executarão
com a outra torre um ataque diversivo no sul, contra a Porta
de Sião; a terceira torre, a menor, será confiada ao príncipe
Tancredo, que manterá constantemente sob ameaça o ângu-
lo norte-ocidental da cidade, o da Torre de Davi, a fim de
que os defensores não levem muitos homens e máquinas
para o outro lado.
— Somos suficientemente numerosos para sustentar
adequadamente duas ações diversivas, além do ataque
principal? — perguntou Emanuel, perplexo.
— Calculou-se que restaram treze mil homens hábeis em
armas, entre os quais mil e duzentos cavaleiros. Seja como
for, não temos escolha. Os egípcios sobrepujariam
facilmente uma tentativa de arrombamento concentrada em
um único setor... — explicou o normando.
— E o que eu faço para saber onde você esconderá o
manuscrito?
— Espero descobrir um modo de informar todos vocês...
Agora vá, e boa sorte. Espero revê-lo ainda, e dentro de
Jerusalém — respondeu secamente Ricardo, que sentia pesar
sobre si a pressão das múltiplas frentes nas quais estava
empenhado.
— Eu também espero — respondeu por sua vez Emanuel,
após alguma hesitação. — Não poderia desejar um
companheiro de armas mais digno do que você... —
acrescentou, vendo-o se afastar.
Não percebeu se Ricardo o escutara.
Aquele dia não foi prazeroso para ninguém. E tampouco o
seguinte. Mas, para Emanuel, foi menos prazeroso do que
para qualquer outro. Ser agregado ao contingente loreno se
revelou uma punição. Entre as tropas de Raimundo, o
bizantino havia encontrado colocação própria, e, embora os
mais intolerantes mal suportassem sua presença, grande
parte dos soldados agora o tratava como um deles.
Mas os germânicos, com os quais nunca havia combatido,
manifestavam a seu respeito, na melhor das hipóteses, um
desprezo mudo. Emanuel era sempre o último a quem
deixavam um gole d'água, embora fosse um dos
trabalhadores mais incansáveis. Era constantemente mantido
na ignorância das ordens e das disposições, e obrigado a
intuir o que havia a fazer ou o que se esperava dele. Quando
lhe dirigiam a palavra, era só para lhe passar as tarefas mais
desagradáveis e estafantes, as mesmas que pesavam sobre os
poucos prisioneiros muçulmanos ainda vivos.
Quando o encarregaram da distribuição de água, teve um
impulso de raiva, mas também o bom-senso de reprimi-lo.
Forneceu-a a todos os que se ocupavam com ele do
acabamento da torre, deixando para beber somente no fim,
para não indispor os companheiros. Chegada a vez do
último, só restara no odre muito pouca água, mas suficiente
para duas pessoas.
— Já bebeu? — perguntou-lhe o soldado a quem ele estendia
o recipiente.
— Ainda não.
O outro se atracou com o odre e consumiu o que restava.
— Sinto muito. Tinha ficado só um pouquinho, no fundo...
— disse, restituindo-lhe o odre, sem esconder um sorriso
maligno.
Em vez de reagir à provocação, Emanuel se perguntou se já
não havia feito o suficiente, em sua carreira e naquela
campanha específica, para expiar o erro da juventude. Aos
olhos dos companheiros, seu empenho parecia não bastar
nunca. E aos olhos de Deus? Também Ele continuava a
encará-lo com desprezo?
O que deveria fazer ainda?
Não teve tempo de refletir mais, nem de lamentar de novo
sua própria condição. Trabalhou inclusive à noite, em turnos
apertadíssimos que só permitiam um repouso fugaz. Ao fim
do segundo dia, a torre e o aríete estavam prontos. Alguns
colegas tinham morrido durante a construção, no extremo
sacrifício de cumprir seu dever, e isso induziu Emanuel a se
envergonhar por sua autocomiseração.
Pouco antes de cair a noite, chegaram as mulheres com as
carroças nas quais haviam empilhado as proteções para a
torre: dúzias de couros de boi e de camelo, costurados uns
aos outros depois da última matança dos poucos animais de
carga que restavam. Se as coisas dessem errado, pensou
Emanuel, todos fugiriam deixando para trás as carroças e seus
haveres.
Junto com os companheiros, o bizantino se encarapitou nos
andaimes da torre e pregou nas laterais os couros recém-
chegados, dos quais dependia a resistência do artefato às
agressões do fogo inimigo. Em seguida, os homens
esvaziaram a bexiga nos recipientes predispostos para
recolher a urina que, misturada com vinagre, seria utilizada
para tornar os couros refratários às chamas.
Havia escurecido quase totalmente quando o duque chegou
para inspecionar o trabalho já realizado. Godofredo
experimentou a solidez da plataforma e das traves de
sustentação; depois subiu ao primeiro patamar e aos
seguintes, conferindo o panorama que se obtinha das
respectivas seteiras. Chegando ao penúltimo piso, ordenou
que baixassem a ponte levadiça, para conferir o mecanismo
de acionamento. Satisfeito com a demonstração, subiu ao
topo, de onde controlou a distância entre os merlões e a
altura do parapeito frontal; por fim, exortou os operários a
terminarem o trabalho de montagem da roqueira, que
alvejaria do alto os defensores postados nos espaldões.
Visivelmente satisfeito, o duque ordenou que se
organizassem turmas destinadas a arrastar a torre até o local
escolhido para o ataque. Tratava-se de um longo trajeto,
sobretudo porque devia ser percorrido longe das muralhas,
com amplo raio, a fim de evitar que os defensores
percebessem a movimentação. Godofredo quis que o
encargo fosse atribuído aos não combatentes e aos soldados
menos valorosos, para permitir que as tropas selecionadas
repousassem e rezassem, em vista do assalto previsto para a
manhã seguinte.
Emanuel não duvidou que estaria entre os escolhidos para a
incumbência, embora tivesse igual certeza de que, no dia
seguinte, seria também colocado na primeira fileira para
combater.
Em ambos os casos, não se enganou.
Ricardo se perguntou o que diabos diria aos seus amigos.
Tinha escondido os rolos dentro de um buraco entre as
pedras. E então? Deveria confiar a guarda daquele
manuscrito a um bizantino que corria tanto quanto ele o
risco de morrer em batalha, a um padre barbaramente
espancado e quase incapaz de se mover, a uma judia
destinada a continuar prisioneira ou a uma prostituta
submetida a estreita vigilância?
Demorara algum tempo até conseguir gozar de um momento
de folga para retirar os rolos do quartel-general de Raimundo
e levá-los às rochas das tarântulas. O conde só lhe permitira
ir descansar ao término do segundo dia de trabalho,
pedindo-lhe antes, por sorte, que levasse para ele os mapas.
Assim, Ricardo tinha conseguido pegar também o
manuscrito e mantê-lo consigo sem dar na vista.
Agora que o fizera desaparecer, tratava-se, portanto, de
informar os outros. Refletiu sobre a iniciativa a tomar. Estava
ansioso por ver Rebeca e por se inteirar das condições de
Anselmo; por isso, resolveu se dirigir, como primeira etapa,
ao campo dos prisioneiros.
Ao chegar, não lhe foi difícil vislumbrá-los. Aquela altura, o
recinto estava quase vazio, já que ninguém cuidara mais de
manter vivos os muçulmanos. Rebeca, por sua vez, havia
passado os últimos dois dias costurando couros. Anselmo
estava ajoelhado, rezando. Depois de olhar ao redor, para se
assegurar de que não tinha atraído a atenção de ninguém,
Ricardo chamou Rebeca e lhe ofereceu água.
— Como está Anselmo? — Sentiu-se no dever de perguntar,
embora estivesse mais interessado em saber dela.
— Poderia ficar bom, se tratassem dele. Mas parece que, se
morrer, ninguém vai se importar. Hoje vieram vê-lo dois de
seus confrades, mas ele não quis lhes falar e os dois foram
embora sem insistir muito.
— Eu posso entender — comentou Ricardo. — O que ele
diria? Que se sujeitou a um espancamento para defender uma
coisa que prejudicaria a Igreja?
— Acho que ele tinha razões pessoais para se colocar do meu
lado, razões que não têm muito a ver com o memorial e com
o que este representa — assentiu a moça. — Como você,
aliás — acrescentou.
Ricardo ficou um pouco embaraçado. Não conseguiu
responder logo, dando tempo a Rebeca para observar:
— Amanhã você vai procurar minha irmã, não é?
— Amanhã atacaremos. E lhe prometo que farei o possível
para encontrar Sara e salvá-la — declarou ele.
— Não precisa prometer. Sei que você fará isso de qualquer
modo... — respondeu Rebeca, virando a cabeça para o outro
lado e olhando as muralhas, cuja silhueta imponente se
recortava na escuridão.
— E, após a conquista da cidade, darei um jeito de libertar
você também e de deixá-la viver em paz sob a nova
administração — acrescentou o normando.
— Em paz? Acha que vocês, francos, seriam capazes de viver
em paz com as outras religiões, se vencerem? — opinou ela,
com desprezo.
— Deveremos. Teremos que agir do mesmo modo como
fizeram os muçulmanos, que governaram sobre sunitas,
cristãos ortodoxos e judeus. Não se pode pretender
administrar com intolerância um lugar de raças, religiões,
culturas e costumes diferentes. Afinal, esta é uma cidade
santa para várias crenças...
— E acha que seus chefes e seus bispos conseguirão? —
retrucou Rebeca. — Todos eles carregam consigo os
preconceitos de sua terra, a intolerância que demonstraram
até agora, e certamente não poderão mudar da noite para o
dia. Sem contar que a guerra ainda vai durar por muito
tempo, mesmo que vocês conquistem a cidade, porque os
egípcios não se resignarão à perda de Jerusalém: a presença
de vocês induzirá turcos e árabes a se coligarem e o Império
Bizantino a se empenhar em expulsá-los daqui. Não. Nunca
haverá paz nesta terra.
— Talvez não para esta geração. Mas as próximas, os filhos e
os netos dos chefes deste empreendimento, aqueles que
nascerão nestas paragens, serão diferentes, tenho certeza. Os
vínculos com a Europa se atenuarão até quase desaparecer —
insistiu Ricardo, cada vez mais impressionado pela lucidez de
intelecto da jovem.
— Engana-se. Sabe por quê? Porque eles nunca poderão
cortar as ligações com a Europa. Viverão numa situação
perene de assédio, mesmo admitindo-se que consigam
consolidar as próprias conquistas, e deverão recorrer com
freqüência à ajuda dos conterrâneos europeus, os quais, em
troca, exigirão vantagens e privilégios, para cuja obtenção
será preciso desencadear permanentemente novas guerras.
— Como você é pessimista... — comentou Ricardo, sem
saber o que mais dizer.
Mas Rebeca ainda não tinha terminado:
— Isso que está acontecendo agora é perfeitamente inútil.
Massacres, destruição e lutas que só vão trazer outros
massacres, destruição e lutas, não importa como termine este
empreendimento. Serve apenas para presentear um
momento de glória a fidalgotes de meia-tigela que, de outro
modo, passariam a existência em guerrinhas de pouca monta,
pelas quais certamente ninguém entra para a história.
Aconteça o que acontecer amanhã, durante séculos ainda
serão lembrados Godofredo de Bouillon, além de seu rei,
Henrique, Raimundo de Toulouse, além de seu rei, Felipe,
Roberto da Normandia, além de seu pai, Guilherme, e
Tancredo de Hauteville, além de seu avô, Roberto de
Guiscardo. Não é por acaso que, entre vocês, não existem
grandes nomes.
— A glória militar é importante. O que mais permanece de
um homem, após sua morte?
— Pois é. Por isso é tão importante se valer de qualquer
pretexto, até mesmo da religião, para obtê-la...
Desnorteado, Ricardo se calou. Gostaria de responder que
ele não se interessava em absoluto pela religião, que não era
hipócrita a ponto de apregoá-la aos quatro ventos para
justificar seus atos bélicos. Mas percebeu que semelhante
desculpa o rebaixaria aos olhos daquela mulher, a cuja estima
aspirava: a verdade era que estava secundando as intrigas de
seus chefes, e isso era mais do que suficiente para torná-lo
cúmplice deles.
— Eu... eu escondi seu manuscrito na rocha das tarântulas,
diante do monte Sião. E bom que você saiba, para o caso de
me acontecer alguma coisa — disse, afinal, lembrando-se em
seguida que a conservação daqueles rolos estava
estreitamente ligada à liberdade e ao grau de segurança de
que Rebeca se beneficiaria no futuro. — Vou tirar você
daqui e lhe dar a possibilidade de viver tranqüila onde achar
melhor. Espero obter autoridade suficiente, após a conquista,
para influir sobre esse tipo de decisão...
— E você? Vai ficar em Jerusalém com minha irmã? —
replicou ela, desafiando-o a fitá-la nos olhos.
Desta vez, foi ele quem virou a cabeça para o outro lado.
— Preciso... preciso encontrar um jeito de informar isso a
Inês e Emanuel. Você precisa contar com eles, no caso de...
— Não soube como terminar a frase. Um instante depois, já
estava longe, à procura do grego.
Não o encontrou. Os guerreiros escolhidos por Godofredo já
estavam indo dormir, e os outros, conforme lhe foi
informado, empenhados na transferência da torre. Ricardo
concluiu que não havia como encontrar Emanuel e dirigiu-
se à tenda de Inês.
Constatou que havia fila. Evidentemente, refletiu, espantado,
muitos soldados haviam decidido satisfazer um último
desejo, temendo não sobreviver à batalha. Claro, tinham
feito penitência e assumido o compromisso de conter suas
pulsões, mas, às vésperas de uma batalha decisiva, uma
concessão à carne talvez fosse considerada lícita. Até
porque, concluiu, tanto a morte quanto a conquista da
cidade significariam a remissão dos pecados...
Mas ficou igualmente espantado ao ver que Inês não se
encontrava na tenda, entre as prostitutas: poucos passos
adiante, exercitava-se com a espada contra uma estaca
plantada no terreno, devendo enfrentar também a
insistência petulante de um soldado que não aceitava outra
mulher.
Achou-a muito mais incisiva em suas investidas e cutiladas
do que antes lhe parecera. Fosse como fosse, a cena deu a
Ricardo uma idéia.
— Que história é essa? Não exerce mais a função? — gritou
ele, dirigindo-se a Inês, que ainda não o tinha notado.
— É o que estou dizendo a este imbecil! — respondeu ela,
após um instante de hesitação. — Hoje eu não trabalho. Não
existe mais "Inês, a puta". Só existe "Inês, a guerreira"... —
acrescentou, dando o enésimo empurrão no soldado, que
tentava abraçá-la proclamando que pagaria com o butim que
o esperava no dia seguinte.
— Quero me divertir agora. Até hoje não fiz aquilo com você
e quero fazer imediatamente. Amanhã posso estar morto! —
retrucou o soldado, aproximando-se mais.
Inês se bloqueou por alguns instantes, possibilitando que o
outro lhe colocasse as mãos em cima. Porém, assim que o
sentiu mexer em suas roupas, deu-lhe um tapa. O soldado
puxou a espada da bainha e tentou apontá-la para o queixo
dela, mas Inês conseguiu afastar a lâmina com a própria
arma. O homem se dispôs a desfechar outro golpe, mas desta
vez a espada que o deteve foi a de Ricardo.
— Sugiro que você saia já daqui. Se não, terá de enfrentar
duas espadas... — disse o normando.
O soldado não esperou para ouvi-lo duas vezes e escapuliu
imediatamente.
— Não creia que eu vá desistir da minha decisão só porque
você me ajudou. Eu me arranjaria sozinha — apressou-se
Inês a dizer, procurando ser escutada também pelos da fila.
— Não duvido — replicou Ricardo. — Mas a verdade é que,
entre mim e aquele homem, você sai ganhando, se
realmente for escolher só um esta noite...
— Eu já lhe disse que não tenho intenção de...
Ricardo a interrompeu de repente. Segurou-a pela cintura e a
beijou.
Após alguns instantes de resistência, ela deixou cair a espada
e correspondeu, esticando-se na ponta dos pés e passando os
braços ao redor do pescoço dele.
Ficaram assim por um bom tempo.
— E agora, o que você quer fazer? — perguntou ela com voz
sumida, quando finalmente se separaram.
— Aquilo que me trouxe aqui, não?
— Vai ter que me pagar bem, se quiser se divertir...
— Como não? Garanto-lhe um percentual sobre o butim de
amanhã.
— E quem me assegura que você estará vivo para respeitar o
acordo?
— Se é verdade que pretende combater, você também pode
não estar em condições de receber, amanhã. Então, como
ficamos?
Ela ainda hesitou. Depois segurou a mão dele e o puxou para
a tenda. Colocou a cabeça para dentro. Outra prostituta
estava terminando o trabalho com um cliente.
— Vamos com isso. Agora é minha vez. Só esta, e depois a
tenda é novamente de vocês — disse Inês, categórica.
O casal não demorou. Alguns instantes depois, Inês e
Ricardo puderam entrar.
— Pena que tudo tenha sido uma encenação... — disse ela,
esperando a iniciativa do homem.
— Pois é... — respondeu ele, muito menos decidido do que
antes. — Na verdade, eu tinha vindo para lhe dizer que
escondi o manuscrito na rocha das tarântulas... num buraco
entre duas pedras dispostas em arco — disse. — E para lhe
pedir que cuide de Rebeca e Anselmo, se me acontecer
alguma coisa.
— Anselmo! Você tem notícias de Anselmo?
— Seu amigo Godofredo o deixou mal. Mas ele não falou,
segundo Rebeca me disse. Agora está no recinto dos
prisioneiros. Suponho que o duque quer voltar a torturá-lo
depois do ataque.
Inês se agachou no chão.
— Coitadinho! Não pensei que demonstrasse tanto caráter —
comentou, olhando fixamente à sua frente. Depois se
recobrou. — E o que você quer que eu faça por eles?
Ele também se abaixou.
— Que você tente ajudá-los a fugir, durante o ataque. Depois,
peguem o manuscrito e vão para Belém. Eu irei encontrá-los
e farei Rebeca emigrar daqui.
— Só ela ou a irmã também?
— Q que você sabe da irmã? — replicou ele, aborrecido.
— Os boatos correm. Não só sobre os rolos...
— Isso não tem nada a ver. Trata-se também de Anselmo.
Não quer salvá-lo?
— Tenho intenção de combater, amanhã. Estou esperando
essa oportunidade há anos. Você não pode me privar disso...
— respondeu ela, com excessivo rancor.
— Então, é um problema que deixo à sua consciência —
concluiu Ricardo, levantando-se.
Bem nesse momento, ouviram distintamente os soldados
saudarem lá fora o duque Godofredo. Em poucos segundos
ela se despiu, ajoelhou-se diante de Ricardo e lhe cingiu a
cintura. Logo depois, o duque assomou à entrada e os
observou por um instante.
— Não tenho tempo para esperar. Terminem logo — disse
afinal, desaparecendo atrás dos panos da tenda.
— Eu me pergunto se ele veio por minha causa ou porque
alguém avisou que você estava aqui... — disse ela, baixinho.
Ricardo a esquadrinhou. Era terrivelmente atraente aquele
corpo atlético, bem modelado, sinuoso, tornado mais
resplandecente, à luz da tocha, pelo suor que lhe escorria ao
longo das curvas.
Engoliu em seco.
— Não temos como saber. Mas não quero dar na vista,
portanto é melhor que eu vá embora logo... — respondeu,
virando-se e saindo lentamente da tenda, depois de dar uma
última olhada para ela.
Já lá fora, topou com o duque, que aguardava a poucos passos
de distância. Fitaram-se longamente.
— Creio que já o vi outras vezes com essa puta... — disse
Godofredo.
— Eu poderia dizer o mesmo de sua pessoa, senhor duque...
— respondeu Ricardo, seguindo para seu acampamento.
A torre se materializara à primeira claridade do alvorecer
ante os olhos dos defensores sonolentos, nos espaldões em
torno da Porta de Herodes. Primeiro como silhueta
indistinta na luz fraca da aurora e, depois, como presságio de
assalto iminente. As sentinelas tinham ido imediatamente
chamar o governador, que chegou com todo o estado-maior
quando grande parte da cidade ainda dormia.
— Eu não imaginava que eles soubessem fazê-la tão alta —
disse Iftikhar al-Dawla dirigindo-se aos seus emires e
particularmente a Jamal, que o informara sobre a construção.
— A primeira vista, é até mais alta do que as armações com
que aumentamos a altura dos espaldões... — disse um emir.
— E se atacarem à nossa direita, depois da Porta de Herodes
— observou Jamal —, não temos essas armações para opor a
eles...
— Duvido que se espalhem tanto — disse o governador. —
Afinal, são relativamente poucos, e não tentarão arrombar
justamente na extremidade norte-oriental da cidade. Podem,
talvez, tentar um ataque diversivo. Mas com certeza farão o
assalto na ponta norte-ocidental...
Um soldado chegou correndo.
— Governador! Apareceu uma torre muito alta no sul, diante
da Porta de Sião!
Iftikhar al-Dawla olhou para Jamal.
— Viu? Estão tentando duas ações diversivas nos dois
extremos. Agora, esperemos ver surgir outra torre, e talvez
mais alguma coisa, diante da Porta de Jaffa... — disse,
satisfeito.
— Talvez seja conveniente reforçar as defesas na altura
desses dois pontos — arriscou Jamal.
— Por enquanto, não. Prefiro manter a maior parte dos
trabucos a oeste — retrucou o governador. — É razoável
pensar que eles tentarão arrombar daquele lado. O objetivo
dessas duas torres grandes é justamente nos induzir a
desguarnecer as defesas em sua frente principal de ataque...
Jamal não achava que a presença daquelas monstruosidades
pudesse ser associada a ataques secundários, mas preferiu
manter silêncio, para não dar sempre a impressão de ser um
ranheta. De resto, Iftikhar al-Dawla convidou o estado-
maior a segui-lo até a cidadela, para observar o que
apareceria daquele lado.
Ainda estavam no meio do trajeto quando um soldado
proveniente da cidadela veio ao encontro deles, esbaforido.
— Governador! Os infiéis estão posicionando uma torre
diante da Torre de Davi!
— Eu já imaginava. Mandem deslocar alguns trabucos dos
outros setores para a cidadela — comandou.
— Um momento! — interveio Jamal, intrigado pela
expressão do soldado, o qual, à diferença dos outros
mensageiros, havia falado apenas de "uma torre", sem
especificar o tamanho do artefato. — Qual é a altura dela? —
perguntou ao homem.
— Bem... não é muito grande, eu diria. Quase não alcança o
topo das muralhas... — respondeu o outro, perplexo.
Jamal encarou o governador.
— Ainda tem certeza de que o ataque principal será no oeste?
As torres mais altas estão no norte e no sul.
Iftikhar al-Dawla pareceu incerto.
— Já estamos perto da cidadela. Convém ir conferir — disse,
obstinado.
Passou-se ainda algum tempo até que o estado-maior
chegasse à fortaleza e subisse aos espaldões. Dali, era possível
ver não só a torre, mas também as tropas alinhadas em torno
dela.
— Não são muitos... — admitiu um dos emires.
— A esta altura, trata-se de saber se concentrarão o esforço
máximo no norte ou no sul. São muito poucos para se
dividirem em dois contingentes iguais... — logo calculou
Jamal.
— Você, que esteve entre eles, o que acha que farão? —
perguntou-lhe Iftikhar al-Dawla, finalmente mostrando
querer levar em consideração as opiniões do emir.
Jamal limpou a garganta.
— Ao sul, estavam acampadas somente as tropas francesas.
Considerando que grande parte do exército franco tem o
campo à direita e à esquerda da saliência norte-ocidental,
presumo que deveríamos nos preocupar mais com o setor
setentrional.
O governador pensou um pouco. Ainda não estava
totalmente convencido.
— Que seja. Voltemos à Porta de Herodes — disse. — E
vamos deslocar daqui quatro trabucos, colocando-os a
nordeste. Mas, no sul, quero manter todos. Nunca se sabe.
De novo, a comitiva do governador se movimentou, para
retornar ao ponto de partida. Quando chegou aos espaldões
norte- orientais, a situação já se apresentava muito clara.
Estavam quase todos ali, enfileirados, e certamente não para
uma nova procissão.
Formação de batalha. Um soldado atrás do outro, um pelotão
atrás do outro, um contingente atrás do outro.
Uma máquina atrás da outra.
Jamal tentou contá-los. Impossível. Com uma olhada rápida,
porém, calculou que mais ou menos dois terços de todo o
exército franco estavam bem ali.
Diante dos combatentes, as máquinas. Trabucos e roqueiras,
em quantidade muito superior àquela que ele os imaginava
capazes de construir. E um aríete imponente, constituído
por uma casamata móvel, revestida de couro, da qual surgia,
na parte frontal, um longo tronco reforçado com ferro na
extremidade. E muitos anteparos munidos de rodas, atrás dos
quais certamente se ocultava um grande número de
guerreiros. E carroças, muitíssimas carroças empurradas por
serventes, porque os animais de tração estavam todos
mortos, e lotadas de feixes de lenha, areia e tudo que fosse
necessário para preencher o fosso que corria ao longo da
muralha externa.
E a torre.
A torre, que fervilhava de soldados no topo, estava colocada
no centro do alinhamento, dividindo-o em dois setores
quase equivalentes. Os cavaleiros formavam as primeiras
fileiras e podiam ser contados: cerca de oitocentos,
repartidos em pelo menos três grupos, com base nos
estandartes. Suas inquietantes silhuetas ocultavam a
consistência e a profundidade das unidades de infantaria, das
quais, ainda assim, vislumbravam-se elmos e escudos.
Diante de todos, até dos cavaleiros, até das máquinas, muitos
homens desarmados, a cavalo e a pé.
Padres.
Padres, os únicos dos quais se podia distinguir algo mais do
que a silhueta. Destacavam-se principalmente suas mitras,
mas Jamal se deteve também nos trajes. Notavam-se
claramente os ricos bordados aplicados nas dalmáticas, nas
túnicas e nas casulas, em que predominava o branco.
Agitavam seus báculos, em muitos dos quais penduravam-se
os sudarii, tornando-os semelhantes aos vexilos dos
cavaleiros que vinham atrás. Jamal sabia que alguns daqueles
bastões traziam o lema Guia, domina, castiga: uma exortação
que cada um daqueles senhores empenhados na iniciativa
provavelmente acreditava poder atribuir a si mesmo.
O emir pensou em Rebeca e nas críticas dela à degeneração
que a Igreja cristã havia sofrido. Perguntou-se se sua própria
religião, a verdadeira fé, iria corromper-se igualmente dentro
de um milênio, ou mesmo dali a cinco séculos. Mas pensar
na judia o fez lembrar-se de Sara, que ele havia tentado, sem
muito êxito, cancelar de sua mente. Sentiu uma fisgada no
peito e obrigou-se a se concentrar na batalha iminente.
Voltou a observar os padres. Desta vez, não estavam à frente
de todos para conduzir uma procissão.
Estavam ali para abençoar o ataque.
O emir deslocou o olhar para seus correligionários. De
repente, estes já não pareciam tão confiantes quanto no dia
da procissão ou como poucos minutos antes. Percebeu a
preocupação e a angústia naqueles rostos, até mesmo na
expressão do governador, que, no entanto, deveria
tranqüilizar todos com sua credibilidade.
Interpretou os pensamentos deles, porque eram também os
seus. Os infiéis eram poucos, estavam desesperados,
sedentos, mal armados, mas organizados, determinados,
motivados e sem alternativa à vitória.
E já se movimentavam, sem que Iftikhar al-Dawla tivesse
aproveitado todo o tempo à sua disposição para preparar as
medidas defensivas.
Desejou rezar. Levantara-se do leito às pressas, sem poder
dirigir a Alá a primeira das cinco preces diárias. Mas
recordou o trecho do Corão que justificava o adiamento da
oração em caso de ataque inimigo: "Agradaria aos infiéis que
negligenciásseis vossas armas e vossas salmodias, para
irromper repentinamente sobre vós."
Teve esperança de ainda poder rezar, depois.
Ouviu o governador ordenar — com excessiva energia, para
infundir segurança nos subordinados — que as forrações e os
acolchoados dispostos ao longo das muralhas a oeste da Porta
de Damasco fossem removidos e transferidos para leste. Em
minutos, dúzias de soldados correram para a esquerda, para
logo reaparecerem arrastando pesadas urdiduras estofadas
com sacos cheios de cordame naval e vime. Mas revestir o
trecho ameaçado das muralhas não seria tarefa de poucos
instantes.
Nesse meio-tempo iam chegando outros trabucos, mas não
havia como içá-los aos espaldões em tempo útil. Depois de
falar sobre isso com o governador, Jamal decidiu dispô-los a
uma distância das muralhas suficiente para garantir
lançamentos que ultrapassassem a cabeça dos defensores.
Bem sabia que esse expediente limitava em grande parte o
alcance das máquinas, tornando-as utilizáveis somente a
curta distância, com os atacantes já próximos às muralhas.
Alguns serventes acenderam as brasas para o fogo grego a ser
arremessado pelas roqueiras. Afluíram outros armígeros, e os
espaldões se encheram a tal ponto que os arqueiros achavam
difícil obter espaço para alvejar os inimigos sem que um
companheiro os desequilibrasse.
— Estão avançando! — alguém gritou, e o olhar de Jamal se
dirigiu novamente para o exterior. Os padres haviam se
deslocado para os lados, e os serventes empurravam trabucos
e roqueiras para a frente. O resto permanecia imóvel.
O emir exortou os soldados que lidavam com os
revestimentos a se apressarem, mas já sabia que eles não
teriam tempo para opor aos primeiros projéteis inimigos os
anteparos adequados. E tampouco seria fácil completar o
trabalho, uma vez iniciado o lançamento por parte dos
francos. Ordenou aos serventes que carregassem os trabucos,
mesmo sabendo que as máquinas adversárias se deteriam só
um pouco fora do alcance dos engenhos sobre os espaldões,
mas suficientemente perto para alcançar e abalar, com seus
arremessos, pelo menos a base das muralhas.
E se por acaso conseguisse alvejá-las, Jamal tinha consciência
de que só poderia infligir-lhes um dano inferior ao que os
defensores sofreriam. De fato, mesmo admitindo que
poderia atingi-las com seus projéteis, sabia que as máquinas
francas estavam dispostas em ordem esparsa, enquanto as
suas estavam todas agrupadas sobre os espaldões. Por
conseguinte, os projéteis dos adversários tinham muito mais
possibilidades de acertar o alvo.
Fosse como fosse, evitou comunicar suas sensações aos
subalternos e até ao governador. Continuou exortando os
soldados, mas, quando viu as máquinas inimigas pararem
para que os serventes as carregassem, ordenou o primeiro
lançamento, embora determinando o tiro de apenas quatro
trabucos, metade daqueles de que dispunha, para
experimentar a distância sem desperdiçar projéteis.
Quatro fundas com balanceiro foram acionadas
simultaneamente. Mil olhos acompanharam a longa
trajetória das pedras.
Longa, mas não o suficiente.
Jamal viu os projéteis aterrissarem a poucos passos da linha
dos trabucos inimigos e rolarem para a frente até roçarem as
máquinas, mas sem nenhum efeito.
Agora, era a vez deles.
Observou pelo menos dez braços lançadores se levantarem e
outros tantos projéteis voarem de suas extremidades. O
assovio inicial de cada um foi aumentando até se transformar
no rumor de um vento forte.
Também o tiro deles foi longo.
Suficientemente longo.
Um, dois, três, cinco baques, que fizeram estremecer os
espaldões e vibrar as poucas armações de madeira recém-
instaladas.
Jamal se debruçou e olhou para baixo.
Algumas pedras rachadas, outras empurradas para dentro.
A muralha estava rompida.
XXIV
O caminho rumo à defesa principal dos muçulmanos era
longo. O conde de Toulouse, pensou Ricardo, havia se
encarregado de uma tarefa radicalmente oposta à de
Godofredo. De fato, o duque de Lorena se encontrava a
pouca distância do duplo circuito de muralhas, e desde o
início do ataque seus homens seriam submetidos a uma dura
prova pela reação adversária.
Os provençais, em contraposição, tinham rumado para o
ângulo sul-ocidental da defesa, constituído pela Porta de
Sião, pouco guarnecida. Mas a verdadeira obstrução
meridional era o perímetro interno de muralhas, muito mais
distante. Entre os dois circuitos, um território de poucas
construções e bastante acidentado dificultaria o subseqüente
avanço da torre móvel, que exigiria um intenso trabalho dos
serventes para aplanar o caminho.
Enquanto isso, tratava-se de arrombar a muralha externa,
construída na época bizantina e parcialmente derruída:
tarefa não impossível, porque não parecia que os árabes a
tivessem dotado de máquinas de lançamento, e tampouco
havia um verdadeiro fosso que impedisse a aproximação da
torre. A verdadeira batalha, aquela que os companheiros
situados na parte oposta já estavam enfrentando, seria
iniciada somente depois.
O avanço da torre assinalou o início do ataque. Ladeavam-na
os poucos trabucos à disposição do conde, o qual montava
seu animal à frente de duzentos cavaleiros dispostos na ala
esquerda do enfileiramento. Outros tantos avançavam na ala
oposta, enquanto o setor central, em correspondência com a
torre móvel, distinguia-se por uma linha de manteletes, atrás
dos quais se escondiam os três mil infantes subordinados ao
conde de Toulouse.
Ricardo gozava de uma visão de conjunto que muitos
comandantes considerariam invejável. Sobrepunha-se a
todos, até aos defensores instalados nos espaldões, em
virtude de sua localização no piso superior da torre,
protegido pelo parapeito e ao lado de um trabuco. Podia até
avistar, a distância, o circuito interno.
A uma ordem de Raimundo, os homens se detiveram e
deixaram que os trabucos exercessem sua ação demolidora.
Iniciou-se um pertinaz lançamento de projéteis, a que os
defensores foram obrigados a assistir impotentes, sem
poderem reagir sequer com os arqueiros, incapazes de
alcançar a linha ao longo da qual os atacantes se apinhavam.
Os cristãos ficaram observando como os pedaços de rocha
arremessados se abatiam sobre as enormes pedras
aparelhadas do circuito de muralhas, e de vez em quando
comemoravam ao constatar as rachaduras que se formavam,
golpe após golpe, no setor ao lado da porta. Em pouco
tempo, esperneavam impacientes. Queriam atacar. Mas
Ricardo sabia que o conde só pretendia avançar depois que
se abrisse uma brecha, a fim de obrigar os defensores a
conter a invasão tanto abaixo quanto no alto dos espaldões.
Mais lançamentos e mais espera. As pedras do circuito
começaram a se fragmentar ou a cair para o lado de dentro,
abrindo as primeiras frestas. Um grito de triunfo se elevou
entre as fileiras cristãs, e alguns fizeram menção de se
adiantar por iniciativa própria. Foram chamados de volta,
mas nem todos deram ouvidos aos apelos, e dois soldados
chegaram isolados ao pé da muralha, só para acabarem
sepultados sob uma chuva de dardos.
Novos arremessos pelos trabucos. Os raios de luz que se
filtravam através do circuito se tornaram feixes; as frestas,
janelas e, em seguida, portas. E, finalmente, o vão aberto: um
amontoado de pedras despedaçadas e caídas, que até uma
criança poderia escalar.
Imediatamente, veio o sinal de ataque. As trombetas soaram,
os cavalos relincharam, as rodas da torre rangeram, os
escudos se chocaram uns contra os outros para criar uma
espécie de testudo, os homens prorromperam em um coral
"Deus o quer!"
Ricardo se deu conta de também haver gritado. Mordeu a
língua e continuou a fitar o alvo, ordenando que o trabuco
ao seu lado continuasse atirando no local escolhido para
baixar a ponte levadiça da torre, com o objetivo de demolir
as armações sobre os espaldões e afastar dali os defensores.
Era a primeira vez que se avizinhava das muralhas de uma
praça-forte vendo-as do alto. Achou aquilo fantástico. Tinha
a impressão de ser uma espécie de deus que se precipitava do
céu sobre o campo de batalha, e lhe foi difícil resistir à
empolgante sensação de onipotência que o invadia.
Quando chegou a poucos passos dos espaldões, pôde ver as
expressões dos defensores e perceber o terror deles. A essa
altura, cedeu à exaltação e se sentiu invencível. Desceu
rapidamente a escadinha e abriu espaço entre os soldados
prontos para lançar a passarela. Queria ser o primeiro. Por si
mesmo, por Roussel de Bailleul, que quase trinta anos antes
o acusara de covardia, por seu pai, que teria tido orgulho
dele, por sua mãe, que morrera em Constantinopla oprimida
pela vergonha.
O guincho foi acionado e a ponte baixou sobre as ameias da
muralha. Escancarou-se, assim, a passagem para os espaldões,
e Ricardo foi o primeiro a transpô-la, saltando da passarela
aos gritos de "Eu o quero!" Emanuel procurou resguardar o
lado direito do corpo, não escondido pelo escudo, atrás do
anteparo móvel que havia junto dele. Bem a tempo. O
bizantino percebeu claramente o rumor surdo do impacto
das primeiras flechas contra as tábuas atrás das quais se
ocultara. Em seguida, o que vibrou foi seu escudo, sob o
choque de um dardo levemente espetado na madeira.
Um instante depois, viu-se exposto novamente aos projéteis
inimigos. Um dos homens aglomerados atrás do mantelete o
empurrara para fora, gritando: "Não há espaço, seu grego
bastardo!"
Sozinho, não podia avançar sem se arriscar a ser alvejado.
Estacou e aguardou as fileiras seguintes, incorporando-se a
elas e dispondo-se em testudo, com o escudo acima da
cabeça, ao lado do soldado mais externo da formação.
Por enquanto, nada de escadas. A tarefa dos primeiros
assaltantes era preencher o fosso para criar uma plataforma
apta a suportar o avanço da torre, mas também a passagem
dos manteletes. Atrás destes últimos estavam diversos
caixotes com feixes de lenha, tirados das carroças pouco
antes do início do ataque. E também os sapadores, esperando
alcançar a base das muralhas e escavar os pontos onde o
choque dos trabucos havia sido mais eficaz, dando assim o
golpe de misericórdia na estrutura.
No alto dos espaldões, os arqueiros muçulmanos
continuavam lançando flechas, inclusive na vertical. Entre
eles, assomavam os servos com óleo fervente, aquecido em
caldeirões dispostos sobre os braseiros de fogo grego.
Debruçavam-se das ameias para executar seu trabalho, e
então os besteiros cristãos atiravam, inexoráveis, con-
cedendo a quem estava embaixo um instante de alívio.
Emanuel se viu junto do fosso. Uma flecha se plantou diante
de seu pé direito. Mais uma entre as pernas. Ele se jogou no
chão e rolou até um anteparo, já pontilhado de flechas. Um
soldado estava às voltas com um caixote de lenha, mas
sozinho não conseguia levantá-lo, e os outros estavam
ocupados. O bizantino foi ajudá-lo e, juntos, lançaram o
conteúdo no fosso, usando em seguida o invólucro vazio
para se proteger de novos disparos de flechas. O outro,
porém, perdeu o escudo; mal colocou a cabeça para fora,
uma delas lhe trespassou o olho e saiu pela nuca. Emanuel
fez menção de retornar ao anteparo, mas depois se deteve e,
empurrando com os pés o corpo sem vida do companheiro,
lançou-o no fosso.
Buscou proteção atrás do mantelete, olhou ao redor e, não
vendo ninguém capaz de ir ao seu encontro, impeliu-o para
a frente com o ombro, valendo-se da seteira para conduzi-lo
até onde queria. Manobrou-o para a direita, na direção do
setor do fosso que lhe parecia mais cheio de detritos, e, ao
chegar à borda, empurrou-o para dentro.
O anteparo de madeira se acomodou sobre a lenha,
constituindo a espessura que faltava para preencher o
desnível, além de uma plataforma estável para permitir a
passagem de outros artefatos. Repentinamente sem proteção,
Emanuel também se jogou no fosso e tentou chegar à
margem oposta arrastando-se sobre o acúmulo de detritos.
Ao se voltar, percebeu que os companheiros estavam
aproveitando seu expediente. Outros manteletes se
aprestavam a usar a plataforma. Soergueu-se um pouco para
observar melhor o que acontecia atrás de si. Um instante
depois, sentiu uma onda de calor lhe rodear a cabeça.
Inês tinha recebido ordem de empurrar uma carroça de
lenha. Queria combater e, em vez disso, fora obrigada a
exercer tarefas de animal de carga. Não precisara suplicar a
Godofredo que a deixasse pelo menos participar do combate.
Qualquer pessoa em condições de se manter de pé fora
convocada. Agora, os príncipes já não se prendiam a
sutilezas.
Mas estava na retaguarda de todos os outros combatentes.
Dispunha de uma espada e, no entanto, se limitava a encher
de detritos a carroça, que outros esvaziavam a fim de
transferir o conteúdo para os cestos destinados ao fosso.
Não tirava os olhos da frente de batalha, à espera de uma
oportunidade. Observava os companheiros avançarem
progressivamente, seguindo os movimentos dos anteparos
de madeira, dos quais um número cada vez maior, com o
passar do tempo, transpunha o fosso e alcançava as muralhas.
Depois foi a vez das escadas, que os soldados passavam um
ao outro até entregá-las a quem já estava abaixo dos
espaldões. Levantavam-se, caíam para trás, mas alguém
sempre os recolocava de pé. Os homens tombavam,
atingidos por flechas ou por óleo fervente, mas havia sempre
alguém abaixo deles para substituí-los.
Em seguida, viu a torre se mover também, para finalmente
percorrer o último trecho que a separava das muralhas. Foi
então que abandonou sua tarefa e correu para perto do
artefato, onde se apinhavam os homens encarregados de
empurrá-lo. Ouviu as flechas assoviarem ao seu redor e um
arrepio de terror a percorreu. Era a primeira vez que
experimentava a sensação de estar exposta a um perigo tão
desconhecido e imprevisível que ela não sabia como
enfrentá-lo.
Acabou tropeçando nos serventes, parados no mesmo lugar
na tentativa de movimentar a torre, obstaculizada por alguns
cadáveres espalhados pelo terreno. Um dos homens que a
empurravam se lançou para a frente a fim de retirar dali o
corpo mais próximo, mas foi atingido e, em segundos,
transformou-se também num obstáculo a remover.
Inês escutou aquele que devia ser o chefe dos serventes
ordenar a um homem que fosse arrastar os corpos, mas este
se recusou. A mesma resposta foi dada por outro e, em
seguida, por mais um.
A mulher tentou não pensar. Agiu por instinto. Saiu do raio
de proteção da torre, percorreu a lateral desta e jogou-se no
solo, agarrando os pés do cadáver que obstruía a roda direita.
Sempre rastejando, puxou-o, sem atentar para as flechas que
se espetavam no terreno ao seu redor. Percebeu um berro de
aprovação vindo de trás. Estimulados pelo seu exemplo,
outros dois serventes correram para a frente, removendo
outro corpo.
Finalmente, a torre recomeçou a avançar e Inês rolou para
trás dela, recebendo os cumprimentos dos outros. Continuou
a segui-los até que o artefato chegou junto ao fosso, bem
diante da Porta de Herodes. Ela deu uma olhada para a
frente: o desnível estava preenchido e a torre podia avançar
até a porta. No entanto, os serventes não empurravam mais.
Ao olhar para trás, Inês compreendeu o motivo. Vinha
chegando o aríete. Da torre partiu uma barragem de
artilharia, com flechas de besta e de arco, além de pedras da
roqueira instalada no topo, para dar cobertura ao avanço do
artefato que deveria arrombar o portão.
O aríete avançou ao longo da ponte de detritos amontoados
pelos atacantes. Vinte homens o empurravam, protegidos
dentro da casamata móvel que o continha.
Ouviu-se distintamente o primeiro golpe. O portão vibrou. O
tronco no interior da casamata recuou e, em seguida, foi
novamente impelido para a frente. Novo golpe, nova
vibração.
Desta vez, surgiu uma pequena rachadura no bronze do
portão, ao longo da linha de união entre as duas folhas.
Inês ergueu o olhar. Viu os defensores se esconderem atrás
dos merlões ou entre os destroços da armação destruída
pelos golpes da roqueira, para evitar as flechas provenientes
da torre móvel. Não se mostravam em condições de ameaçar
a ação do aríete, que parecia poder continuar agindo
imperturbado. Mas a mulher viu um turbante surgir atrás dos
merlões. Abaixo do turbante, não um rosto, e sim um pote
do qual saía fogo. O soldado que o segurava lançou-o lá
embaixo, segundos antes de ser trespassado por um dardo.
O olhar de Inês se deslocou imediatamente para o ponto
onde o objeto havia caído. O muçulmano tinha acertado o
alvo.
A casamata estava em chamas.
Ricardo abriu caminho pelos espaldões a golpes de espada.
Não atentou para aqueles que matava, feria ou derrubava lá
do alto empurrando-os com o escudo. O que lhe importava
era chegar ao outro lado e abrir o portão por dentro. O
afluxo de outros companheiros lhe permitiu ganhar os
degraus de acesso aos espaldões e descer alguns, antes de ser
obrigado a se deter ante a oposição dos adversários.
Dali, não conseguiu avançar por um bom tempo. Depois,
notou com o canto dos olhos algum movimento mais
embaixo. Logo em seguida, viu-se combatendo com um só
inimigo ao longo da escada. Os outros haviam desaparecido,
para enfrentar os cristãos que apareceram atrás deles através
da brecha aberta pelo tiro dos trabucos.
Dominou facilmente o adversário e finalmente desceu,
colocando de novo os pés no solo onde surgia Jerusalém,
ainda que na área externa. Deslocou-se até o portão e ajudou
os companheiros envolvidos no corpo a corpo. Sempre
ampliando o raio de ação perto da entrada, o grupo de
cristãos conseguiu alcançar o mecanismo de fechamento da
porta. Dois deles o destravaram, enquanto os outros, entre os
quais Ricardo, serviam-lhes de anteparo, constituindo um
cordão contra os assaltos dos defensores.
O normando ouviu as dobradiças rangerem atrás de si.
Assestou um golpe decidido no adversário mais próximo,
para mantê-lo afastado por alguns instantes, e voltou-se para
ver. O portão estava se abrindo, e, pelo espaço entre as duas
metades, avançava, em toda a sua imponência, a torre de
Raimundo, prestes a transpor a entrada.
Ricardo se voltou de novo para enfrentar o inimigo. Mas já
não havia nenhum. Este se encontrava longe, como todos os
outros, em fuga rumo à última linha de defesa.
Firuz fez um gesto de irritação. Não parecia haver modo de
deter a ação do aríete. O invólucro deste ardia, mas os
couros que envolviam o artefato garantiam uma resistência
maior ao fogo. Para piorar, da torre móvel plantada a poucos
passos dali, os combatentes derramavam vinagre sobre a
casamata, a fim de circunscrever a ação das chamas.
E os impactos prosseguiam. O portão vibrava com
intensidade cada vez mais forte; agora ribombava, e o bronze
que o revestia soava como um toque de finados. Um olhar
de entendimento trocado com Jamal deixou claro a Firuz o
que fazer. O turco abandonou os espaldões com alguns
companheiros e, junto com eles, lançou-se sobre duas
carroças próximas às muralhas. Empurrou os bois atrelados
aos veículos para junto do portão, cuja deformação ele
distinguia claramente no ponto onde a ação do aríete insistia;
depois matou os animais, cuidando de fazê-los caíram um
sobre o outro. Por fim, amontoou-os sobre as próprias
carroças, criando uma barreira protetora para amortecer os
golpes do engenho inimigo.
As carcaças dos bois balançavam a cada golpe do aríete, mas
o portão havia parado de vibrar. Aquela, porém, era uma
solução temporária. Seria necessário muito mais, e Jamal
sabia disso. Mandou que seu guarda pessoal subisse de volta e
o ajudou a criar seteiras improvisadas amontoando sobre os
espaldões as traves das armações, demolidas pelas pedras
inimigas. Valendo-se desses anteparos feitos às pressas, Firuz
e outros atiradores experientes recomeçaram a alvejar com
flechas incendiárias as proteções do aríete e, com simples
dardos, os combatentes no alto da torre, para impedi-los de
jogar mais vinagre sobre as chamas.
A casamata estava agora envolta pelo fogo. Mas a madeira,
protegida pelas peles encharcadas de vinagre, não se rachava.
O emir teve então a esperança de que a temperatura, no
interior, ficasse insuportável a ponto de obrigar os ocupantes
a sair.
Contudo, o portão já vibrava de novo.
Emanuel agradeceu ao Senhor que os elmos fornecidos ao
exército bizantino dispusessem de uma ampla aba, que
impedira grande parte do óleo fervente de escorrer sobre seu
rosto. Mesmo assim, vários esguichos e filetes haviam lhe
descido sobre as faces, o nariz, a boca e até as pálpebras,
provocando queimaduras.
Não conseguia manter os olhos abertos por mais de alguns
instantes. Sobretudo o direito. Supôs que um borrifo lhe
atingira a córnea. Projetou-se para fora do fosso, mantendo o
escudo acima do corpo. Sentiu alguns impactos. Flechas.
Perdeu o equilíbrio ao tropeçar num cadáver. Rolou de novo
para o fosso. Por um instante manteve-se deitado de costas,
oculto pelo escudo, e tentou refrescar o rosto abanando-o
com a mão. Nada: a ardência aumentava.
Perguntou-se o que deveria fazer. Não queria morrer antes
de entrar em Jerusalém. Estava a um passo do perdão de
Deus, buscado por toda a sua carreira, mas, se não
conseguisse entrar na cidade, o Senhor não lhe concederia a
remissão de seu pecado em Manzikert,
Ainda tentou se levantar. O impacto de uma flecha sobre o
escudo retumbou em seus ouvidos e o derrubou novamente
no chão.
De fato parecia que o portão estava prestes a ceder. Mas os
serventes do aríete estavam no limite. Destruídos pela
fadiga, sem dúvida, mas também consumidos pela tórrida
temperatura que se desenvolvera na casamata. Inês viu sair
um, depois outro; um terceiro desmaiou aos pés dos que
ainda tinham forças para empurrar o artefato.
Um dos serventes da torre adiantou-se rapidamente, a fim de
assumir o lugar dele, mas foi trespassado por uma flecha.
Outro tentou a mesma coisa e com ele tudo correu bem, se é
que se podia chamar de correr bem o fato de se aproximar
daquela fornalha. Inês entrou às pressas na torre, abriu
caminho entre os homens, atônitos, subiu a escada até a
primeira plataforma e encontrou uns baldes. O olfato lhe
permitiu distinguir os de vinagre dos de água, e foi para estes
últimos que dirigiu sua atenção. Derramou um deles sobre
seu corpo antes que os homens pudessem detê-la, desceu,
saiu da torre e se precipitou para dentro da casamata.
A mudança de temperatura foi brusca e devastadora, mas a
camada de água com que ela se encharcara lhe permitiu
absorvê-la. Passou a empurrar junto com os outros e deu sua
contribuição para desfechar os golpes seguintes do aríete.
Pouco depois chegou outro soldado, também todo molhado,
e, em seguida, mais um. Ao que parecia, o expediente de
Inês fora adotado pelos companheiros, que de fato a
cumprimentaram com um tapa no ombro; um deles, na
verdade, deu-o em seu traseiro.
E veio o golpe do arrombamento. A cabeça do aríete não
parou no ponto onde vinha se detendo e avançou um pouco.
Os serventes penaram para puxá-la de volta: olhando pela
seteira frontal, Inês viu que ela estava bloqueada entre as
duas folhas do portão, já entreabertas. Com novo esforço, o
grupo conseguiu trazer para trás o balanceiro. Depois
desferiu um novo golpe contra uma só folha, ampliando a
abertura.
A investida seguinte já não encontrou oposição: metade do
portão se escancarou com relativa facilidade, e o evento foi
saudado por gritos de triunfo dentro da casamata e na torre.
Detrás desta última enxameou uma multidão de guerreiros,
dirigindo-se ao vão aberto. Simultaneamente, os
lançamentos vindos do alto da torre se intensificaram,
obrigando os defensores a enfrentar dois ataques ao mesmo
tempo.
Destruídos pela fadiga e esmagados pelo calor, os ocupantes
da casamata se prostraram do lado de fora. Mas não Inês, que
se sentia suficientemente fresca para participar da invasão.
Puxou da espada e transpôs a abertura junto com muitos
outros. Diante de si, viu enfileiradas várias dezenas de árabes
e sudaneses, alguns com o arco já tensionado, outros com a
espada desembainhada.
Agora, estava cara a cara com o inimigo.
E eles a esperavam para matá-la.
De repente, Emanuel já não sentiu o assovio de flechas ao
seu redor. Só compreendeu o motivo quando ouviu as
palavras de um companheiro, que berrava: "Tomamos a
Porta de Herodes! Entramos!"
Deduziu que muitos defensores haviam se deslocado
rapidamente para o setor onde o vão se abrira, deixando
desguarnecida uma parte dos espaldões acima dele. De fato,
percebeu ao seu lado a correria dos companheiros, os quais
gritavam que pretendiam recolocar ao longo das muralhas as
escadas que haviam sido empurradas para trás nas tentativas
anteriores.
Ele também queria subir, embora a ardência no rosto só
fizesse aumentar. Levantou-se dificultosamente, mas
arriscou-se a uma nova queda após o choque com um
companheiro que acorria à escalada. Abrindo os olhos só de
vez em quando, aproximou-se de uma escada tomada de
assalto pelos companheiros e aguardou sua vez.
Mas havia sempre alguém que chegava correndo e o
afastava, aproveitando-se de sua hesitação.
Depois de esperar algum tempo, abriu os olhos o suficiente
para interpor o braço entre a escada e o soldado seguinte;
este bateu repentinamente com a boca no cotovelo dele e foi
obrigado a lhe ceder a passagem. Emanuel se deixou guiar
pelo rumor produzido nos degraus por quem o precedia,
arriscando-se também a uma pancada nos dentes; só abriu os
olhos quando percebeu diante de si não mais a penumbra da
muralha, mas a luz do sol que se erguia sobre a cidade.
Inês temia, sobretudo, as flechas. Detestava a idéia de acabar
trespassada antes mesmo de se pôr à prova trocando algumas
cutiladas com um adversário. Mas, com tantos arcos
apontados, inclusive em sua direção, viu-se em maus lençóis.
Os arqueiros encaixaram as flechas.
Atiraram.
Acertaram.
Mas não Inês.
Ela viu caírem ao seu redor diversos soldados, logo
substituídos por outros. Perguntou-se por que não a tinham
mirado, e a única explicação que achou foi que os arqueiros
inimigos haviam preferido eliminar de imediato, aqueles que
lhes pareciam mais perigosos. Decidiu partir para diante
antes que eles atirassem de novo e correu para o arqueiro
mais próximo, agredindo-o antes que ele tivesse tempo de se
livrar do arco para puxar a cimitarra.
O golpe que Inês lhe desfechou no pescoço não foi
suficientemente forte para cortar a cabeça dele, mas abriu
um amplo ferimento que o deixou fora de combate. Ela não
teve tempo de se parabenizar. O árabe que estava ao lado da
vítima já trazia a espada desembainhada.
E nenhum outro inimigo para atacar, exceto ela.
Dos adversários, agora, Ricardo só via as costas. E cada vez
mais distantes. Corriam velozes, os árabes, não por medo,
disso ele tinha certeza, mas pela pressa de organizar uma
sólida linha de defesa ao longo do circuito interno de
muralhas. Perseguiu-os por um trecho curto, mas depois,
junto com os companheiros, preferiu poupar as energias para
aquilo que o esperava. A trajetória rumo ao confronto
decisivo ainda era longa, e dificilmente a batalha se
concluiria naquele dia. Era preciso fazer a torre atravessar a
Porta de Sião. Virando-se para trás, ele viu que o artefato
estava justamente transpondo a entrada, embora os soldados
lá no topo fossem obrigados a demolir a parte inferior do
arco de sustentação, para permitir que a torre passasse
embaixo.
Virou-se de novo, avaliando o terreno diante de si. O
governador egípcio havia pensado também na eventualidade
que acabava de ocorrer e tornara irregular o terreno do
amplo espaço compreendido entre as duas linhas de
muralhas. Buracos por toda parte, pedregulhos, montes de
terra, carroças abandonadas, arbustos e troncos cortados e
postos de través deixavam o percurso terrivelmente aci-
dentado para a torre móvel.
Ricardo foi ladeado pelo conde Raimundo, que vinha
chegando a cavalo.
— Não será fácil levar a torre até o circuito interno... —
disse, assim que o viu desmontar.
— Pois é — observou o comandante, frustrado. — Disponha
uma série de esquadrões para desentulhar o terreno.
Removam-se troncos e pedras. Preencham-se os buracos
com terra e estabilize-se o terreno com tábuas. Depois,
sempre que a torre se detiver atrás de um obstáculo, mande-
os esvaziar os buracos e carregar as carroças com terra,
tábuas, pedras e troncos. Quando estivermos diante das
muralhas, utilizaremos esse material de refugo, o mesmo
com que os muçulmanos pretendiam nos deter, para
preencher o fosso.
"Sim", pensou Ricardo. "A verdadeira batalha só começará
amanhã." A não ser que, do outro lado, Godofredo tivesse
conseguido penetrar logo a segunda linha de muralhas, que
era quase adjacente à externa...
Inês se esquivou de uma primeira cutilada. Seu movimento
rápido fez o árabe malograr, mas seu contra-ataque foi detido
pelo escudo dele. Graças a isso, o adversário empurrou-a para
trás, fazendo-a perder o equilíbrio. A mulher caiu ao solo e
seu peito ofegante pelo terror se expôs à lâmina da cimitarra,
prestes a cair sobre ela.
Emanuel seguiu na esteira dos outros. Dirigiam-se à Porta de
Herodes, e cada soldado estava determinado a dar sua
contribuição para varrer qualquer resistência junto ao
baluarte, permitindo assim o afluxo maciço dos
companheiros à área entre as duas linhas de muralhas.
O grego não tinha certeza de que seria útil, mas nem por isso
renunciaria a combater. Na pior das hipóteses, concluiu,
seria útil a si mesmo, se não ao exército. Continuou
avançando precariamente, tropeçando e parando com
freqüência, pela necessidade de fechar os olhos e refrescar o
rosto abanando-se com a mão. Para sua sorte, porém, a meta
estava próxima, e, após um breve trajeto, seus olhos feridos
vislumbraram a esplanada fronteira à entrada.
Muitas figuras indistintas se agitavam diante da porta.
Turbantes e elmos, espadas e cimitarras, escudos redondos e
amendoados revoluteavam na poeira chocando-se uns
contra os outros, em um ressoar de rumores surdos que
guiavam Emanuel mais do que as fugazes imagens que sua
visão lesada lhe oferecia.
Inês pôde perceber a tempo o novo golpe desfechado pelo
árabe. Girou-se de lado, mas sentiu a carne das costas lhe
arder de repente. A espada tocara o terreno, mas, um
segundo antes, havia roçado seu corpo.
Encarou o adversário. O jogo se reapresentava, agora com
menores possibilidades, para ela, de limitar os danos a um
simples talho de raspão. O árabe se preparou para desferir
uma cutilada oblíqua, a fim de evitar o risco de errar
novamente. Inês apertou o punho da espada e a dispôs na
vertical, tentando aparar a lâmina inimiga.
Viu o muçulmano preparar o golpe erguendo a ponta da
cimitarra além do ombro esquerdo, acima do escudo.
Mas uma silhueta vinda do alto irrompeu de repente em seu
campo de visão. A figura caiu sobre seu inimigo,
empurrando-o na direção dela. Inês se sentiu investida pelo
peso de dois homens.
Impacto duríssimo, contusões por toda parte.
Levou alguns instantes para recuperar a lucidez. Sobre seu
corpo, na mesma posição em que tantos clientes a tinham
possuído, jazia seu inimigo. Mas, desta vez, não tinha sido o
homem a penetrá-la. De fato, a espada que Inês empunhava
havia trespassado o peito do árabe e saído pelas costas.
Com dificuldade, ela o removeu de cima de si. Extraiu a
espada e logo viu levantar-se lentamente, ao seu lado, o
soldado que a salvara. Seu olhar mal distinguia o rosto dele,
coberto de poeira. Não havia face, mas carne viva, nem
sobrancelhas, mas pele queimada, nem olhos, mas pálpebras
derretidas, nem nariz, mas excrescência descarnada.
No entanto, havia nele algo familiar. Ela devia tê-lo
conhecido, antes que ele se transformasse naquele horror.
— Com que então, você acabou combatendo, hein? —
perguntou o homem, com voz arrastada, mas reconhecível.
— Emanuel! — exclamou ela, levando as mãos à boca.
Agora a primeira linha parecia perdida. Jamal recebeu do
governador a ordem de recuar, mas não tinha intenção de
abandonar aos infiéis os trabucos instalados sobre a muralha
externa. Bloqueou alguns soldados que já corriam rumo ao
interior, impelindo-os para o setor das máquinas, sobre o
qual estavam prestes a despencar os francos que haviam
alcançado os espaldões graças às escadas. Firuz o viu e
compreendeu na mesma hora, indo ao encontro dele em
poucos instantes.
Mais um instante e seria tarde. O emir dividiu em duas partes
o pelotão de que dispunha, instalando a mais consistente,
que confiou ao próprio Firuz, como cordão protetor contra o
assalto dos infiéis. Manteve consigo os outros e, com a ajuda
deles, soergueu os trabucos, um de cada vez, acima das
ameias, fazendo-os precipitarem-se lá embaixo e
observando-os se despedaçarem no impacto com o terreno.
Enquanto isso, seguia com o canto dos olhos a ação de Firuz
e companheiros. Não agüentariam por muito tempo. Diante
deles, a fileira de francos se tornava cada vez mais longa e
compacta, e alguns soldados árabes já tinham tombado.
Ainda restavam dois trabucos. A pressão dos infiéis parecia
agora insustentável. Jamal concluiu que não havia tempo
para pensar numa máquina de cada vez, como fizera até
então. Dividiu ainda mais suas magras forças e se encarregou
de levantar um trabuco com a ajuda de apenas três soldados,
enquanto outros quatro faziam o mesmo. Um esforço atroz,
incitado pelo clangor de espadas que ele escutava cada vez
mais perto de seu flanco. A linha estava cedendo, e suas
forças também, quando chegou o momento de dar o último
impulso para ultrapassar o parapeito.
O trabuco caiu.
A linha cedeu.
Os cristãos avançaram.
Uma surtida após a outra, como era previsível. O avanço dos
cristãos no setor meridional prosseguia lentamente, não só
por causa das dificuldades encontradas pela torre para
superar os obstáculos, como também pelas contínuas ações
defensivas dos soldados egípcios de cavalaria e dos que
montavam camelos. Saíam pelas portas, em esquadrões,
aproximavam-se dos inimigos o suficiente para alvejá-los
com flechas e depois desapareciam de novo dentro das
muralhas.
Os cavaleiros cristãos se enfileiraram junto com as alas da
infantaria para enfrentá-los e persegui-los. Mas eram
cavalaria pesada, lenta demais para alcançar os arqueiros
montados em cavalos árabes, armados à ligeira e tão rápidos
quanto poderiam ser os adversários.
Os dardos muçulmanos colheram muitas vítimas, novos
corpos que os serventes tiveram de remover do caminho da
torre. As surtidas rarearam e, por fim, cessaram somente nas
proximidades da muralha interna, espessa, imponente e bem
guardada por guerreiros e máquinas de lançamento. Ricardo
ainda estava absorto, observando a disposição dos
defensores, quando viu voar pelos ares o primeiro projétil,
uma pedra atirada por um trabuco e que aterrissou não muito
longe dele.
Ouviu a ordem de interrupção proveniente de Raimundo.
Freadas pela torre, as tropas provençais tinham levado quase
toda a tarde para alcançar a segunda linha, e parecia
imprudente tentar um novo assalto àquela hora. O conde
subiu à torre, que lhe garantia um panorama melhor, e do
topo conseguiu observar o largo fosso que se estendia diante
da muralha. Por mais que os assaltantes dispusessem agora de
fartas quantidades de material de refugo, seria necessário
muito tempo para preencher o desnível. Convinha, declarou
Raimundo, que a noite fosse dedicada a essa tarefa.
Por conseguinte, o comandante ordenou que se formasse
uma cabeça de ponte fora do alcance dos trabucos instalados
no alto dos espaldões e se organizassem equipes para
preencher o fosso.
Não seria uma noite agradável, pensou Ricardo.
Inês ajudou Emanuel a se soerguer. Não conseguia tirar os
olhos de cima dele, dividida entre a repulsa e a compaixão
por aquele rosto devastado. Era supérfluo perguntar como
aquilo acontecera.
— Eu... eu não tinha reconhecido você — admitiu.
— Não me é difícil acreditar — respondeu ele, levantando-se
todo dolorido.
O instante de silêncio entre os dois amplificou em seus
ouvidos o rumor da batalha que se desenrolava ao redor: de
um lado, a irrupção dos cruzados, cada vez mais maciça, e de
outro, a resistência progressivamente mais branda dos
árabes.
Inês decidiu mudar de assunto
— Teve oportunidade de falar com Ricardo? — perguntou,
lembrando-se daquilo que o normando lhe pedira.
— Recentemente, não...
— Bem, então convém que você saiba — continuou ela,
mesmo se perguntando de que adiantaria revelar o novo
esconderijo do manuscrito a um homem que não parecia ter
ainda muita vida pela frente — onde Ricardo ocultou os
rolos.
— Diga.
Mas vinha chegando gente por trás deles. Eram muitos. Uma
nova onda de cristãos entusiasmados pela passagem
finalmente aberta depois de horas e horas de combate, e
ansiosos por atacar também a segunda linha defensiva, antes
que os árabes tivessem tempo de guardá-la e consolidá-la.
Inês se sentiu empurrada para a frente e Emanuel
desapareceu de sua vista. Ela só conseguiu parar já aos pés da
nova barreira, ao lado de um fosso no qual, pelo impacto,
acabou caindo junto com outros soldados.
Loucura, pensou. O primeiro circuito fora superado graças à
acurada preparação do assalto. O segundo se apresentava tal
como o infeliz ataque de poucas semanas antes, sem recursos
e sob o único impulso da exaltação. A chuva de flechas que
desceu dos espaldões sobre ela e seus companheiros
confirmou-lhe as escassas probabilidades de sucesso da nova
tentativa.
Jamal viu Firuz se inclinar para evitar uma cutilada
horizontal, encolher-se sobre si mesmo e deslocar-se
levemente na direção do adversário. Seu movimento fez
tropeçar o antagonista, que caiu para a frente, imediatamente
seguido pelos companheiros que se acotovelavam atrás dele.
O turco emergiu a custo daquela mistura, trespassando quem
havia sido igualmente ágil para se reerguer. A espada de
Jamal desceu sobre outro franco particularmente ansioso por
levantar-se e lutar, e durante alguns instantes o grupo de
muçulmanos se viu sem perseguidores. O emir e os
subalternos logo se aproveitaram disso, alcançando a rampa
antes que os inimigos se reorganizassem e voltassem a atacá-
los. Uma vez abandonados os espaldões, constataram ter
criado entre eles e os cristãos uma distância suficiente para
garantir a fuga.
A área entre as duas linhas de muralhas pululava de
combatentes de ambos os exércitos, mas os muçulmanos em
retirada ainda estavam em superioridade numérica. Portanto,
não tiveram dificuldade de ganhar o acesso ao interior da
cidade, da qual os defensores nos espaldões repeliram com a
mesma facilidade os assaltantes suficientemente audazes para
avançar até o fosso.
Jamal subiu imediatamente aos espaldões. Observou a
situação e deduziu que já não havia como rechaçar os infiéis
para além da linha externa. Depois olhou o horizonte, na
direção do ocidente, captando a última nesga do sol
purpúreo que declinava. Com a mesma segurança,
estabeleceu que o inimigo não teria condições de fazer um
sério assalto ao circuito interno.
Se estivesse no lugar dos comandantes cristãos, pensou,
trataria de consolidar a posse da linha externa e de fazer
avançarem as máquinas, a fim de transferir o novo assalto
para o dia seguinte.
Pediu notícias das outras frentes. Disseram-lhe que também
no sul os francos estavam perto da barreira interna, mas não
pareciam tendentes a atacá-la. Na Porta de Jaffa, porém, não
tinham ido além de simples ações de distúrbio.
Por conseguinte, qualquer resolução do conflito estava
postergada. O momento realmente decisivo seria o da
jornada seguinte.
Mas dificilmente alguém repousaria, naquela noite.
De ambos os lados.
Após o assalto impensado, a fuga desastrosa. Ou melhor,
apenas um recuo, na estreita área entre as duas linhas de
muralhas, em direção àquela mais externa, já solidamente
guardada pelos cristãos. Entre os que haviam ido parar no
fosso, poucos conseguiram se esquivar. Muitos, entre os que
escaparam à primeira descarga de flechas, não tiveram
alternativa senão levantar-se e tentar voltar atrás. Tentar.
A maioria foi atingida nas costas por uma ou mais flechas,
quando saía da vala ou poucos passos após se afastar dela.
Inês tinha conseguido se livrar, mas só porque estava entre
os primeiros a emergir do fosso: os que a seguiam lhe
serviram involuntariamente de escudo. Aliás, fora
empurrada lá para dentro contra a própria vontade: ao
contrário dos outros, estava bem consciente de que a
exaltação pelo provisório sucesso na primeira muralha não
seria uma arma suficiente por si só para expugnar também a
segunda. Mais uma vez, seriam necessários a torre, as
escadas, os trabucos e, sobretudo, o tempo.
Finalmente, a escuridão havia sido boa conselheira. Os dois
exércitos estavam aproveitando-a para consolidar as
respectivas posições, que, sobretudo no setor entre a Porta
de Herodes e o bairro judeu, jamais tinham estado tão
próximas.
A procura de Emanuel, Inês transitou entre cadáveres,
feridos, soldados prostrados pela fadiga. Da retaguarda
afluíam carroças com víveres para abastecer os combatentes
e material de refugo para encher o fosso que corria ao longo
do último baluarte da cidade. Os padres circulavam entre os
soldados para benzer os mortos, consolar os feridos e exortar
os outros a darem o melhor de si no dia seguinte. Suas
ladainhas constituíam um murmúrio contínuo em meio aos
sons alternantes produzidos pelo rangido das carroças, pelos
lamentos dos feridos, pelas ordens dos comandantes e dos
oficiais, pelos esforços dos serventes para posicionar as
máquinas. As mulheres reviravam os cadáveres e
examinavam os feridos para localizar os cônjuges, e os gritos
delas, de desespero ou de alegria, assinalavam o resultado de
suas buscas. As crianças corriam e saltavam de um lado a
outro para conseguir armas entre os combatentes mortos,
soltando berros de triunfo sempre que podiam elevar ao céu
uma espada ensangüentada ou um escudo despedaçado.
Naquele acúmulo caótico de combatentes e civis, mortos e
vivos, homens e animais, Inês bem cedo renunciou à
esperança de localizar o bizantino. Concluiu que só por
acaso poderia cruzar com ele, e estava muito cansada para
passar as horas seguintes perambulando no escuro à procura
de um homem que podia até estar morto.
Simplesmente deitou-se no chão para repousar. O sono
chegou quase no mesmo instante.
Emanuel já estava até se acostumando à idéia. Os
medicamentos aplicados nele, após a conclusão do ataque, só
haviam aliviado momentaneamente a ardência e as fisgadas
de dor na face. Pelo menos os olhos, a única parte de seu
rosto, além da boca, não coberta pelas ataduras, tinham
recomeçado a funcionar, embora o direito só lhe permitisse
uma visão embaçada.
E assim, refletiu, chegara ao término de sua carreira. A noite
e a vigília que ele se aprestava a viver como incapacitado,
quase inábil para a guerra, seriam certamente as últimas de
sua existência como soldado. Talvez até fossem as últimas
em sentido absoluto: o médico lhe anunciara a possibilidade
concreta de que sobreviessem infecção e febre,
suficientemente fortes para levá-lo à morte. Na melhor das
hipóteses, dificilmente conseguiria combater na manhã
seguinte.
Perguntou-se se havia alcançado o objetivo que se propusera
ao participar daquela campanha. Teria feito o bastante para
ganhar o perdão de Deus? Trinta anos antes, levara sua pátria
a perder uma batalha fundamental, condenando
indiretamente seu imperador à queda e ao suplício, antes de
uma morte atroz. E, desta vez, mesmo marginalizado,
mesmo num exército que não era o seu, teria realmente
contribuído para o esforço comum de conquistar Jerusalém,
como quer que terminassem as coisas?
Mas, sobretudo — porque era isso que de fato importava —,
teria dado uma contribuição significativa para a causa do
Senhor?
Não. Temia que não.
Gostaria de conversar sobre o assunto com Anselmo. Fizera
mal em nunca lhe falar sobre sua conta em suspenso com
Deus. Quem mais, senão aquele monge, puro, modesto,
disposto a defender uma prostituta e uma mulher judia, ainda
que a causa delas pudesse ser nociva até ao Senhor, poderia
aconselhá-lo, confortá-lo, explicar-lhe o que Deus esperava
dele?
Agora era tarde demais. Provavelmente não reveria
Anselmo, e a dúvida de não ter feito o bastante pelo Senhor
o consumia.
Só havia uma coisa a fazer.
Agradeceu à sorte — mas não ao Senhor — que Inês não
tivesse tido tempo de terminar o que estava lhe dizendo,
quando o encontrara durante a batalha. E tampouco iria
procurá-la para perguntar.
Levantou-se e, guiado pela luz das tochas, acompanhou o
curso das muralhas rumo à posição de Godofredo de Lorena.
Depois de alguns passos, mudou de idéia. Voltou atrás e
seguiu em direção ao sul.
Era noite alta quando chegou ao setor guardado pelos
provençais. Disse às sentinelas que dispunha de informações
importantes para o conde de Toulouse. Precisou insistir,
sobretudo porque seu rosto completamente oculto pelas
ataduras tornava-o suspeito. Finalmente o desarmaram e o
conduziram a Raimundo.
Encontrou o comandante provençal ainda acordado numa
tenda improvisada, em cujo interior, ainda assim, haviam
sido recriadas todas as comodidades às quais um aristocrata e
um chefe tinham direito. Raimundo estava sozinho, ocupado
em estudar os mapas do assalto iminente.
— Preciso lhe falar com extrema urgência, senhor conde —
disse Emanuel.
— Quem é você? De qual unidade provém? — perguntou o
comandante, mais curioso pelo aspecto dele do que pelo
início da conversa.
— Isso não tem importância. Só tem importância aquilo que
tenho para lhe dizer — respondeu o bizantino, sentindo um
aperto no estômago.
XXV
Para os provençais, nenhum repouso. Mas, provavelmente,
tampouco para os germânicos e os normandos, pensou
Ricardo. O objetivo naquela noite era preencher o fosso,
criando pelo menos uma rampa para a torre. A questão das
escadas seria resolvida de manhã.
Mas os defensores vigiavam. O propósito dos cristãos era
amplamente previsível, e isso induzira os árabes a iluminar
bastante o alto das muralhas, com um número extraordinário
de tochas. O expediente respondia a uma dupla intenção:
permitir a conclusão dos trabalhos de elevação dos
espaldões, sobre os quais surgiram de um momento para
outro, armações que competiam em altura com a torre
móvel dos cruzados, mas também tornar visível aos
assediados a zona imediatamente subjacente, a fim de
permitir que os arqueiros alvejassem aqueles que
pretendessem se aproximar.
Assim, os primeiros que tentaram descarregar lenha no fosso
tinham sido trespassados pelas flechas sem sequer levar a
termo sua tarefa. Depois, os cristãos ficaram mais cautelosos,
e para os oficiais não foi fácil encontrar quem se prestasse a
executar ações tão arriscadas. Acabaram obrigando alguns,
mas a inevitável e triste sorte destes não havia favorecido o
moral dos homens.
Portanto, arriscavam-se a chegar ao confronto matinal,
refletia Ricardo, com um exército não só prostrado pela
noite insone e pela exaustão como também desmotivado e
temeroso. Raimundo, que era do mesmo parecer, correra a
tomar providências. Surgido de repente entre os soldados, o
conde declarara sua intenção de atribuir um prêmio em
dinheiro a quem se encarregasse de encher o fosso.
A proposta alimentou não somente o espírito de iniciativa e
a coragem, mas também a fantasia dos guerreiros. Cada um
passou a imaginar expedientes para se aproximar das
muralhas, valendo-se das coberturas mais improváveis e
improvisadas. Havia os manteletes, claro, mas fazê-los
avançar na escuridão era um problema, por causa dos
numerosos cadáveres que jaziam perto do fosso. Então um
grupo de soldados formou um testudo com os escudos,
levando feixes de lenha com a mão que habitualmente
segurava a espada; outro grupo juntou três escadas e
revestiu-as com couros provisoriamente subtraídos aos
anteparos móveis, usando-as como proteção.
Um soldado pediu emprestados dois escudos aos
companheiros, prometendo dividir com eles o prêmio,
acrescentou o seu e pendurou os três numa trave. Avançou
sustentando aquela espécie de treliça de treinamento com
ambos os braços e arrastando com os pés os feixes atados aos
tornozelos. Não deu certo, porque no momento de lançar o
material no fosso ele tropeçou e se descobriu, oferecendo o
tronco aos muçulmanos, que não hesitaram em aproveitar.
Os dois soldados que lhe haviam confiado os escudos só
puderam recriminar a si mesmos pela própria irreflexão.
Outros ainda, mais temerosos, lançaram pedras e traves
como se se tratasse de dardos, e alguns até instalaram feixes
na colher do braço lançador das roqueiras. O resultado foi
que o fosso se encheu razoavelmente, embora não o
bastante. Mas, sobretudo, ninguém dormiu: até mesmo
aqueles a quem cabia o turno de repouso não resistiam à
tentação de observar as várias tentativas dos companheiros,
apostando entre si e com os próprios incursionistas sobre o
êxito das ações.
Ricardo preferiu se esquivar, renunciando ao espetáculo.
Deslocou-se para a retaguarda, onde percebeu uma atmosfera
bem diferente. De fato, nas proximidades do fosso
estacionavam somente os soldados ainda galvanizados pelo
combate recém-concluído. Eram os que preferiam
transcorrer a vigília da noite decisiva de sua carreira militar,
e de sua própria existência, continuando a desafiar o perigo,
a fim de evitar pensar nele, ou simplesmente entregando-se
a patuscadas em grupo e considerando lícita qualquer
diversão.
Mas havia outro tipo de soldado, e era o mais difundido. Era
aquele que preferia ficar sozinho, rezando ou refletindo
sobre sua vida passada, sobre os pecados e os erros
cometidos. Era aquele que pensava nas pessoas a quem
amava perguntando-se se as reveria, que sentia angústia,
medo, até terror ante aquilo que o aguardava no dia seguinte,
que relembrava com saudade, se convocado pelo seu senhor,
a vida mais tranqüila nos campos, que se interrogava sobre as
próprias escolhas e, sobretudo, sobre aquela de se ter feito
cruzado.
Ricardo se perguntou a qual categoria ele mesmo pertencia.
Logo depois de haver recomeçado a combater, três anos
antes, não teria hesitado em se colocar na primeira. Sempre
pensara que parecer um valentão, ostentar segurança, tentar
se manter no centro das atenções, demonstrar uma atitude
de camaradagem fosse a conduta mais adequada a um
soldado. Mas, no decorrer daquela longa campanha e,
sobretudo, durante o último assédio, sua postura havia
mudado. Ele havia mudado. Talvez tivessem sido as
matanças, as atrocidades gratuitas e os massacres aos quais
assistira e dos quais participara de má vontade durante a
cruzada a fazê-lo recuperar uma dimensão mais
despretensiosa e reservada; a mesma que ele mantivera
durante anos, quase três décadas, vivendo nos bosques como
um eremita.
Ou talvez tivessem sido as irmãs judias.
Mas qual das duas?
Inês acordou sobressaltada. Talvez tivesse sido um rumor
repentino, talvez o sono muito agitado ou, ainda, a posição
incômoda. Parou de se perguntar o motivo após um instante,
tentando, em vez disso, compreender quanto faltava para a
alvorada e, por conseguinte, para o ataque.
Um leve clarão havia acendido o céu. Não, não devia faltar
muito. Com uma atenção que jamais lhes dedicara até esse
momento, observou a lua e as estrelas, cuja luz intensa
estava se enfraquecendo. Perguntou-se se ainda iria revê-las.
Tinha combatido, durante o dia recém-transcorrido. Tinha
combatido e estivera perto da morte várias vezes, embora
valendo-se apenas de expedientes para ser útil ao exército
sem enfrentar o corpo a corpo. De fato, se não fosse
Emanuel, teria levado a pior, na única ocasião em que
precisara usar a espada.
Não que tivesse medo de morrer. Afinal, era melhor morrer
em batalha, durante um empreendimento que valia o perdão
de Deus, do que na Europa, velha e cansada, roída por
doenças transmitidas pelos clientes, evitada e desprezada
pelos mesmos homens que antes haviam pago, às vezes até
regiamente, para possuí-la.
Agora, provavelmente, Emanuel já não podia ajudar
ninguém. Talvez até estivesse morto. E Ricardo... se não
tivesse morrido também, estaria muito ocupado, nas horas
seguintes, para pensar em Rebeca e Anselmo. No entanto,
alguém devia pensar neles. O monge estava destinado a
morrer, se ela não o ajudasse. Ricardo lhe pedira isto: uma
manifestação de estima, pelo menos.
Perguntou-se se amava aquele normando ou se o desejava
porque não o tivera. Nunca amara ninguém e não conhecia a
profundidade dos próprios sentimentos. Percebia apenas que
havia algo diferente, nela, quando pensava naquele fanfarrão;
algo que não lhe era familiar, algo mais do que a atração
experimentada no passado por outros homens.
E Anselmo... aquele monge literalmente se condenara para
salvá-la. Não podia deixá-lo morrer nas mãos de Godofredo.
Concluiu que sua contribuição ao exército durante o assalto
seria marginal, mas, ao monge e à judia, fundamental.
De repente, não teve mais dúvidas.
Levantou-se e se dirigiu com a espada no flanco para além da
linha externa de muralhas, rumo ao velho acampamento dos
lorenos.
Se assim o governador tinha ordenado, assim seria feito. As
primeiras luzes do amanhecer, Jamal abandonou a posição
setentrional para ir ao encontro de Iftikhar al-Dawla no pólo
oposto, no ângulo sul-ocidental. Os infiéis começavam agora
a se movimentar para preparar o ataque.
Não o agradava separar-se de Firuz, a quem tivera de deixar
junto da Porta de Herodes. Olhou o turco que havia sido seu
inseparável e fiel guarda pessoal por um ano inteiro; o
homem que lhe permitira, com sua coragem e um espírito
de iniciativa sem igual, voltar a comandar as próprias tropas,
em vez de morrer como escravo entre os infiéis; o homem
que, quando podia, ainda cuidava de sua Sara.
Até mesmo naquela noite, em vez de descansar, Firuz fora
verificar as condições da jovem. E sem que isso lhe tivesse
sido ordenado. Jamal soubera, assim, que Sara havia dormido
na sinagoga com grande parte dos judeus e que não lhe
faltara nada. O conforto pela momentânea segurança da
moça não conseguiu, porém, cancelar no emir a angústia por
se afastar daquele amigo silencioso e austero, sensato e
equilibrado, a quem, com toda a probabilidade, já não
reveria.
Sim, porque, apesar do otimismo do governador e das
condições do confronto, objetivamente ainda muito
favoráveis aos muçulmanos, Jamal tinha a sensação de que o
convívio entre eles estava chegando ao fim.
Tendo deixado para trás o setor setentrional, já na altura da
Porta de Jaffa ele escutou os gritos de alarme dos defensores
nos espaldões, assinalando o início do ataque. Presumindo
que o mesmo acontecia no sul, acelerou o passo. Ladeou as
muralhas além da cidadela, e o movimento que viu nos
espaldões meridionais confirmou suas suspeitas: o assalto
havia começado.
Escalou correndo a rampa que levava às ameias e, em
seguida, subiu até a torre onde se agitava ao vento o
estandarte do governador. Iftikhar al-Dawla o convidou a
olhar para fora. A primeira coisa que Jamal notou foi a torre
móvel, que avançava lentamente rumo ao fosso. Então
observou melhor para ver se este último a suportaria. Havia
um esboço de rampa, mas ainda incompleto, e ele não
duvidou que os esforços dos francos, nas horas seguintes,
seriam dedicados a preencher aquele desnível.
Depois percebeu uma vibração repentina ao seu redor. Os
infiéis já tinham começado a fazer trabalharem os trabucos e
as roqueiras.
O irmão de Godofredo de Lorena, Eustáquio de Boulogne,
tinha sido gentil, afinal, pensava Emanuel, enquanto
avançava ao lado dos companheiros rumo à nova linha de
muralhas. Ao passar em revista os feridos para verificar
quem ainda tinha condições de lutar, o nobre loreno havia
levado em consideração a vontade dele no sentido de
prosseguir no combate; logo depois, fornecera-lhe um elmo
cilíndrico, daqueles que os cavaleiros usavam, com uma
única fenda em cruz para olhos, nariz e boca.
Na realidade, sentia-se um pouco ridículo. Seu equipamento
já era uma estranha miscelânea de estilos, com armas de
grego e de latino, de cavaleiro e de infante. Mas qualquer
traje é bom para buscar a morte, refletiu. Não lhe restava
mais nada. Como quer que fosse aquele dia no campo de
batalha, qualquer eventual apêndice à sua vida seria penoso,
no físico e no moral.
Por isso, oferecera-se para terminar o preenchimento do
fosso. Mas cuidou bem de não se deixar derrubar logo, a fim
de não perder a possibilidade de transpor as muralhas. Queria
morrer, sim, mas dentro de Jerusalém, no lugar onde
morrera também o Senhor.
Voavam mais flechas do que na véspera, mais jatos de óleo
fervente, mais dardos, mais odres de materiais inflamáveis.
Os muçulmanos sabiam que precisavam lançar mão de todos
os seus recursos, que deviam descobrir até as energias mais
insuspeitadas. Mas os cristãos também estavam determinados
a desenvolver todos os esforços de que eram capazes.
Tancredo de Hauteville havia trazido a torre menor para
junto da de Godofredo. Juntos, os dois artefatos constituíam
uma ampla base sobrelevada de onde os assaltantes
alvejavam constantemente os espaldões. Os soldados se
mostravam incansáveis, alternando-se em lançar feixes de
lenha no fosso, apoiar escadas à muralha, substituir os
companheiros que tombavam.
Emanuel evitou a morte várias, vezes, marcando encontro
com ela para o lado de dentro das muralhas. Esteve no fosso,
nas escadas, atrás e à frente dos manteletes e, finalmente, foi
o último, junto com um pelotão de companheiros, a dispor
as tábuas que deviam estabilizar a rampa criada pelos detritos
para a passagem do aríete.
Logo depois dedicou-se ele mesmo a este último, entrando
na casamata e ajudando os companheiros a empurrar o
tronco basculante. Era o último da fila e, no momento de
tomar impulso, recuava quase até o limite da entrada
posterior. Após diversos golpes, experimentou inclinar-se
para fora e verificar como estava a obra de demolição. Uma
rápida olhadela para a muralha lhe confirmou que ainda
havia muito a fazer. Em seguida, olhou também para o alto, a
fim de observar os espaldões.
Havia um trabuco içado até os merlões.
Era óbvio, pensou. Os muçulmanos deviam ter achado que
as máquinas já não eram úteis a curta distância, e ocorrera-
lhes que um modo eficaz de deter o aríete seria jogar em
cima dele alguma coisa muito pesada.
Um trabuco, justamente.
— Saiam! Saiam todos! — bradou imediatamente, mas só
dois lhe deram ouvidos. Os outros não o escutaram ou,
então, decidiram prosseguir. A máquina dos defensores lhes
caiu em cima um instante depois, espatifando-se sobre o teto
da casamata e reduzindo-a a um amontoado de traves
despedaçadas e soltas, do qual afloraram membros partidos e
ensangüentados.
Ouviu-se dos espaldões um grito coral de triunfo. Emanuel
se precipitou para trás da torre. Os outros dois não
conseguiram: os dardos os alcançaram antes que eles
pudessem dar poucos passos.
Agora, a rampa estava cheia de detritos. Obstáculos ao
avanço da torre, último recurso que restara aos assediantes
para penetrar as defesas inimigas. Veio a ordem de
desobstruir a ponte. Emanuel se viu incluído num batalhão
de vinte homens que se dispuseram em testudo e avançaram
até o acúmulo de traves.
Choveu de tudo sobre a formação. Cada soldado resguardava
com seu escudo aquele que o precedia; os componentes da
primeira linha, porém, mantinham o escudo diante do
corpo, tentando afastar o entulho com os pés e com o braço
direito. Emanuel estava situado na lateral e também
mantinha o escudo embaixo, junto ao flanco, contando com
a proteção de um companheiro para a cobertura sobre a
cabeça.
Flechas, pedras e até pedaços de rocha destinados ao
arremesso dos trabucos caíam continuamente dos espaldões
e era questão de poucos instantes que a compacidade da
formação se desfizesse. O primeiro a tombar foi um dos que
estavam na frente: perdeu o equilíbrio e se precipitou da
rampa depois de receber uma pedrada na cabeça. O que
vinha atrás ocupou imediatamente o lugar dele,
encarregando-se de deslocar os detritos restantes, mas agora
o testudo havia perdido a coesão e outros projéteis se
insinuaram entre os escudos.
De repente, como que tomados pela consciência comum de
não poderem agir de outro modo, todos os componentes da
formação renunciaram a cobrir uns aos outros e colocaram o
escudo acima da cabeça, jogando-se sobre os detritos e
concentrando-se apenas na remoção destes. Os obstáculos
acabaram logo no fosso, mas permaneceram na rampa os
corpos, trespassados pelos dardos, de quase todos os
soldados.
Emanuel se viu dentro do fosso, em meio aos detritos e aos
cadáveres dos companheiros. Rastejando e usando o escudo
como cobertura, assomou à superfície da rampa; viu que dois
corpos jaziam bem no centro. Tinham de ser removidos.
Sempre rastejando ao longo do terreno para não ser notado
pelos defensores, pegou uma trave solta e, pousando-a sobre
a ponte, usou-a para empurrar os corpos em direção ao lado
oposto.
Após várias tentativas, conseguiu liberar a superfície. Agora,
se tentasse sair do fosso, ofereceria aos atiradores
muçulmanos um alvo fácil demais; não tinha escolha, a não
ser permanecer ali embaixo, confundindo-se entre cadáveres
e detritos, à espera da chegada da torre.
Não precisou esperar muito. Godofredo, quando viu do alto
do artefato o caminho desimpedido, deu ordem de avançar.
Em pouco tempo, Emanuel viu a sombra imponente da torre
obscurecer a luz do sol. Constatou que ela também o
escondia da visão dos defensores; então aproveitou para sair
do fosso e se içar à traseira da fortaleza móvel.
Os cruzados finalmente estavam posicionados para tentar o
arrombamento.
E ele, Emanuel, continuava vivo.
Ainda vivo, e postado no setor nevrálgico.
Balanço positivo.
"Sem dúvida, eu podia ter me decidido antes...", disse Inês a
si mesma, ao ver o céu se tornar cada vez mais claro, após
sair pela Porta de Herodes. Porém, refletiu, embora perdesse
a vantagem de agir no escuro, ganhava outra, representada
pelo recomeço da batalha, que certamente distrairia os
guardas do recinto dos prisioneiros.
Tecnicamente, podia ser acusada de deserção. Mas, depois de
uma derrota, isso já não teria importância. E, depois de uma
vitória, ninguém se preocuparia com o fato de uma mulher
ter se subtraído ao combate decisivo; pelo contrário, teriam
uma pessoa a menos com quem dividir o butim.
Deixou à sua direita os acampamentos de Roberto da
Normandia e Roberto de Lorena e dirigiu-se ao sul, rumo ao
campo de Godofredo. Ultrapassou a trincheira que havia
assinalado por quase um mês o limite de segurança dos
assediantes. Dois guardas vigiavam o local, mas não deram
nenhuma atenção à passagem de uma mulher, ainda que ela
trouxesse uma espada no flanco. O campo, além disso, ainda
estava cheio de mulheres, e mais de uma tinha ido e voltado
às posições mais avançadas, a fim de procurar filhos e
maridos. Outras, porém, haviam permanecido do lado de
dentro da trincheira, tratando de feridos e enfermos ou
simplesmente cuidando das crianças. Inês se perguntou que
fim levariam se os muçulmanos vencessem e, por alguns
instantes, relembrou aquilo que acontecera três anos antes
em Civetot.
Mas logo se refez. Naquele momento, devia pensar na
incolumidade de uma só mulher e de Anselmo. Os primeiros
rumores do novo assalto trouxeram-na de volta ao presente.
Voltou-se rapidamente, tentando ver alguma coisa, mas os
setores do confronto ficavam, um, muito mais ao sul, e o
outro, no lado oposto, e dos combates só lhe chegava o eco.
Acelerou o passo, detendo-se a uma distância suficiente para
não ser notada pelos guardas. Havia somente dois. Obvio:
não era necessário um destacamento para vigiar uma mulher
e um padre todo moído.
Viu que Anselmo estava de pé. Bom sinal: pelo menos, não
precisaria arrastá-lo. Agora, tratava-se de descobrir o modo
de levar dali os dois, monge e judia, de preferência sem se
manchar de homicídio.
Teve uma idéia.
Aproximou-se dos guardas com passo seguro. Demorou-se
um instante, quando percebeu que Rebeca e Anselmo a
tinham visto: não queria que demonstrassem conhecê-la, e
fez um imperceptível movimento de negação com a cabeça,
para fazê-los entender que evitassem qualquer reação. A
judia compreendeu e colocou precipitadamente uma das
mãos sobre a boca de Anselmo, que estava prestes a falar.
— Mensagem do duque Godofredo. Um de vocês deve ir ao
encontro das tropas dele, na Porta de Herodes! — anunciou
Inês aos dois soldados.
— Quem disse? — respondeu um, cético.
— O duque, naturalmente. Está precisando de todos os
homens disponíveis — retrucou ela.
— E por que enviou uma mulher para nos dar o recado? —
replicou o outro, ainda desconfiado.
— Eu era a única que ele considerou dispensável. A batalha
está encarniçada e exige gente em condições. Decidam
quem deve ir, mas logo! — insistiu Inês.
Os dois a encararam, perplexos. Desejavam fortemente que a
mensagem fosse verdadeira. Morriam de vontade de
participar da batalha e consideravam frustrante haver
chegado ao combate final sem estar presentes; mas,
sobretudo, sem ter a possibilidade de ganhar o butim.
— Não trouxe nada por escrito? — perguntou o mais cético.
— Por quê? Vocês sabem ler?
— Não... mas... o sinete do duque seria uma garantia... —
observou o homem.
— Imagine se o duque estava preocupado com coisas desse
tipo! Você não se dá conta daquilo que está acontecendo lá?
— insistiu ela, inflamada. — O duque está no alto da torre
móvel, dando ordens a todos, e não há soldado que não
esteja empenhado em tentar o arrombamento. Até os feridos
estão se lançando contra as muralhas. E enquanto vocês,
aqui, ficam vadiando, seus companheiros morrem...
Houve uns instantes de silêncio.
— Pode ser que agora já tenham entrado e estejam iniciando
o saque... — acrescentou Inês, na esperança de que esse
argumento fosse decisivo.
— Talvez seja verdade que o duque a enviou. Não a
reconhece? E a puta de Godofredo... — disse o soldado que
parecera menos desconfiado.
Seu interlocutor ainda hesitou.
— Então, quem vai? Vamos disputar? — disse,
desembainhando a espada e colocando-se em posição de
combate.
— O primeiro que conseguir tocar o outro — respondeu o
colega, puxando a dele por sua vez.
Embora a torre estivesse junto à muralha havia tempo, o
conde de Toulouse não conseguia dar a ordem de lançar a
ponte levadiça. Fazer isso significaria mandar para a morte
certa quem quer que se valesse dela para chegar aos
espaldões. De fato, havia muitíssimos defensores
concentrados naquele ponto: seus arcos tensionados
constituíam um fator dissuasivo para quem ousasse colocar
sequer a cabeça fora das seteiras.
Ricardo percebeu a preocupação nos olhos de seu
comandante. Perguntou-se se Raimundo estaria desejando
para Godofredo um insucesso semelhante ou se ainda teria
esperança num arrombamento, viesse de onde viesse.
Encontravam-se ambos no alto da torre, e o espetáculo a que
assistiam era desalentador. As escadas estavam quase todas
no chão, empurradas para trás pelos expedientes dos
muçulmanos. O fosso estava preenchido somente em alguns
pontos, muitos dos quais de cadáveres. Os anteparos móveis
jaziam em grande parte sobre o terreno, incendiados,
demolidos ou inutilizáveis. Os soldados haviam ficado
temerosos e já não avançavam com a mesma decisão
demonstrada no início do assalto.
— Somos muito poucos, muito poucos... — comentou
baixinho Raimundo, que, balançando a cabeça, olhava
desconsolado para baixo. Seguramente, pensou Ricardo,
aconteça o que acontecer, haverá recriminações sobre a
distribuição das forças de ataque.
— Vamos tentar usar manualmente os projéteis da roqueira
para abrir o caminho... — arriscou o normando,
aproximando-se do conde.
Raimundo observou o monte de pedras que jazia num canto
da plataforma. Agora, com a torre muito próxima das
muralhas, elas já não teriam nenhuma utilidade para os
lançamentos do trabuco.
— Concordo — respondeu. — Pegue quatro homens e
joguem as pedras com as mãos. Alternem os lançamentos
com o mesmo número de arqueiros; que eles atirem no
mesmo momento. Ordene que, no andar inferior, os
soldados se preparem para descer a ponte quando eu
mandar, assim que perceber uma abertura entre os defen-
sores — acrescentou.
Ricardo comunicou as ordens ao plano inferior; depois,
agarrou uma pedra e dispôs os outros homens ao longo do
parapeito, alternando lançadores e atiradores. Quando
Raimundo deu o sinal convencionado, baixando o braço,
arremessou com toda a força o projétil. A pedra ultrapassou a
custo as ameias e caiu em cima de um defensor, jogando-o
ferido no chão. O que estava ao lado deste recebeu uma
flecha no pescoço e acabou fora de combate. Depois os
egípcios trataram de estreitar as fileiras, mas, por um
instante, abrira-se um vão.
Funcionava, talvez.
Ricardo pegou outra pedra. Simultaneamente, Raimundo
gritou que baixassem a ponte e saltassem logo fora dela. A
nova descarga de pedras e flechas acompanhou o
movimento do guincho de acionamento da passarela, que se
prendeu às ameias pelos grampos instalados em sua
extremidade. Imediatamente, os guerreiros cristãos se
lançaram um atrás do outro ao longo da ponte. Caiu o
primeiro, atingido por uma flecha.
Caiu o segundo, também vítima de um dardo.
O terceiro chegou aos merlões, mas apenas para ser ceifado
por uma cimitarra árabe.
O quarto transpôs as ameias e conseguiu duelar por alguns
instantes, antes de tombar sob os golpes inimigos. Enquanto
isso, porém, os seguintes conseguiam irromper sobre os
espaldões.
Do alto, já não se podiam lançar pedras. A luta estava muito
próxima e havia o risco de acertar os companheiros. Os
arqueiros também não podiam mais atirar no amontoado de
homens; ainda assim, continuaram sua ação dirigindo-a
contra os defensores que, de ambos os lados dos espaldões,
tentavam convergir para o centro do confronto.
— Eu também vou, conde — disse Ricardo, tomando escudo
e espada e olhando o comandante.
— Certo. Você e esses que atiraram as pedras — disse
Raimundo, voltando-se para os outros.
Ricardo se encaminhou para a abertura da qual partia a
escada para o piso inferior.
— Um momento! — gritou o conde atrás dele.
O normando se deteve já sobre o alçapão.
— Você é um excelente soldado, Ricardo. Depois,
precisamos conversar — disse Raimundo, olhando-o com
grande intensidade, como se quisesse estudá-lo.
Ricardo permaneceu em silêncio por um instante.
— Como queira, meu senhor — respondeu, afinal, antes de
desaparecer pela escada.
Não teve tempo de refletir sobre as palavras ambíguas do
conde. Mal se viu embaixo, percebeu que não era possível
avançar. Havia uma grande aglomeração diante da saída, e o
movimento não era para fora.
Era para dentro.
A tropelia não lhe permitiu enxergar o que estava
acontecendo na ponte, mas não foi difícil compreender. O
ataque já falhara e a passarela estava nas mãos dos
defensores, que se serviam dela para contra-atacar.
— Puxem para cima! Puxem para cima! — gritou Ricardo,
tentando, em vão, alcançar os cabrestantes para levantar a
ponte.
Ninguém o escutou. Um árabe acabava de entrar com uma
tocha na mão.
Fogo grego.
Mil espadas trespassaram de imediato o muçulmano, mas não
impediram que a tocha caísse junto da parede, onde não
havia peles encharcadas como no lado externo.
Era apenas madeira. Um instante depois, a lateral da torre se
transformou numa parede de chamas.
Fogo grego. Era previsível, pensou Emanuel, depois de subir
lentamente até o último piso. Assim que o duque Godofredo
dera ordem de aproximar das muralhas a torre, os defensores
tinham arremessado contra as laterais do artefato vasos de
terracota com a mistura incandescente. A madeira era
revestida por espessas camadas de couro embebidas em
urina, mas cedo ou tarde as chamas lamberiam alguma trave
descoberta, sobretudo embaixo, e então qualquer
oportunidade de conquistar as muralhas desapareceria.
Tratava-se de baixar a ponte e chegar aos espaldões antes que
isso acontecesse.
Godofredo ordenou um denso tiro de cobertura do alto da
torre, mas a ação de arqueiros e besteiros não parecia
suficiente para debilitar as defesas muçulmanas. Nessas
condições, não havia como alcançar os espaldões. O duque
esperou um pouco, e depois notou uma fagulha caindo sobre
uma das coberturas acolchoadas que os defensores haviam
pendurado ao longo das muralhas. Uma pequena nuvem de
fumaça se levantou no ponto onde acontecera o contato.
— Arqueiros! — gritou Godofredo. — Embebam as pontas
das flechas em piche! Aproximem-nas das chamas e atirem
contra as proteções das muralhas!
"Genial!", pensou Emanuel. "Uma cortina de fumaça é justa-
mente o que necessitamos para limitar a eficácia da defesa."
O bizantino observou as flechas de seus companheiros
golpearem abaixo das ameias. Em pouco tempo a palha e o
cordame naval contidos nas urdiduras pegaram fogo,
levantando nuvens que não demoraram a formar uma
tapagem entre defensores e atacantes. A vantagem, porém,
era toda dos cristãos, que podiam empurrar em direção às
muralhas já sem temer as flechas dos arqueiros adversários.
Godofredo ordenou imediatamente o avanço da torre, mas
recomendou que este fosse oblíquo. Os serventes de um
lado empurraram primeiro, e em seguida os do outro.
Emanuel sentiu as vibrações produzidas pelo movimento
daquela estrutura de quatro pisos sobre uma superfície
irregular, enquanto escutava o rangido das rodas e os gritos
de esforço dos homens encarregados da impulsão. Para não
perder o equilíbrio, teve que se agarrar ao parapeito.
Foi muito rápido. As muralhas estavam próximas e a torre,
que já ultrapassara o fosso, parou de repente. A ponte.
Agora, era a vez da ponte.
E, depois, a dos homens.
Firuz tinha lágrimas nos olhos. Aquela fumaça acre não só o
impedia de ver o inimigo já próximo, como também o
obrigava a manter cerradas as pálpebras. Sabia diante de quais
ameias estava a torre, mas não a que distância. Imaginava
que ela surgiria em meio à névoa artificial, vários passos à sua
direita, mas mantinha-se vigilante e atento a qualquer sinal
que pudesse trair a presença do artefato.
Observava seus companheiros no flanco direito, os quais
continuavam a lançar flechas às cegas. A atmosfera parecia
irreal, a tensão era mais palpável do que nunca, bem mais do
que sempre fora na iminência de um impacto entre fileiras
contrapostas. A sensação de perigo prevalecia sobre a
exaltação que acompanha os combatentes nos instantes
anteriores ao confronto: Firuz intuiu que, como ele, os
outros fiéis sentiam os membros rígidos, o estômago
apertado, a respiração afanosa.
O enorme objeto desembocou da névoa. Enganchou-se aos
merlões com um baque possante. Mas não à direita do turco.
Diante dele.
A ponte levadiça.
Escudos e espadas se materializaram de repente, antes
mesmo dos elmos e cotas de malha.
Os dois guardas do recinto dos prisioneiros levaram um bom
tempo para dirimir sua briga. Ambos procuravam vencer a
disputa e participar da batalha, e pensavam mais em se
defender do que em atacar, para não correr o risco de se
expor. Inês não acompanhou o duelo. Lançava olhadelas
furtivas a Rebeca e a Anselmo, com o propósito de
tranqüilizá-los e fazê-los saber que tudo estava sob controle.
Na realidade, não estava. Ela não fazia idéia de como se livrar
do soldado que restasse. Rebeca, por sua vez, mostrava-se
vigilante e parecia ter compreendido muito bem as
intenções de Inês, ao passo que Anselmo só casualmente
cruzava o olhar dela; o monge parecia abúlico, vazio,
desprovido de interesse pelo que o circundava.
A contenda terminou. Segundos depois de tocar o
adversário, o vencedor já desaparecera, nas asas do
entusiasmo pela participação na batalha e, sobretudo, no
saque. Inês observou o outro. A expressão dele era a de um
homem desiludido e frustrado.
O soldado não demorou a manifestar suas sensações:
— Que vida miserável! — exclamou, dirigindo-se a ela. —
Eu sou obrigado a ficar aqui, servindo de ama-seca a um
padre e uma judia, enquanto todos têm a possibilidade de
combater e de se ajeitar para a vida toda! Até você —
acrescentou, apontando a espada que Inês trazia no flanco —
, uma puta, pôde participar da batalha... e eu não!
Aí está a oportunidade, pensou Inês. Mas queria ganhá-la nas
condições certas.
— Esta puta... como diz você — respondeu, plantando as
mãos nos quadris e assumindo uma atitude de desafio —,
treinou longamente, e sabe se arranjar muitíssimo bem num
combate, fique sabendo...
— Ora, faça-me o favor! No máximo, você pode se arranjar
muito bem combatendo na cama. Vê-se que compensa ser a
puta do duque...
Todas essas alusões depreciativas à sua profissão começavam
a aborrecê-la. Enfrentar aquele paspalhão já não era somente
uma questão tática. E também, afinal, se Godofredo deixara
aqueles sujeitos ali, significava que eles realmente eram os
dois soldados mais incapazes de seu contingente.
— Ah, é? — replicou, sinceramente indignada. — Quer
apostar como eu me saio melhor do que você? Vamos,
ponha-se em guarda - disse, desembainhando a espada.
O soldado explodiu numa gargalhada grosseira.
— Não me faça rir! Volte depois da batalha, e, se for o caso,
podemos nos ver na minha tenda, mas para outro tipo de
encontro... - respondeu, sem tocar a própria espada.
Inês avançou para ele e lhe desfechou uma cutilada contra o
escudo, que o homem mantinha apoiado no solo, ao longo
da perna. O objeto caiu, mas o soldado não se preocupou em
apanhá-lo.
— Puta sem-vergonha! — exclamou, puxando finalmente a
espada. — Você precisa mesmo de uma lição!
No impulso de raiva, desferiu um golpe desajeitado e
previsível, que Inês aparou com facilidade. Depois outro, e
mais outro, conseguindo apenas cruzar a lâmina da mulher.
Esta lutava exclusivamente na defesa, com o firme propósito
de não o matar, limitando-se a desarmá-lo. Teve a
possibilidade de investir sobre a guarda descoberta do
adversário, mas não a aproveitou, buscando, de preferência,
mirar o pulso dele para privá-lo da arma.
Alcançou o objetivo. Sua lâmina encontrou o punho do
antagonista, e a dele foi parar no chão. Ela foi rápida em
colocar o pé em cima, mas o homem estava muito irritado
para pensar em recolher a espada caída. Ficou encarando a
mulher com ódio, antes de se lançar sobre ela de mãos nuas.
Inês apontou a espada, e o soldado se deteve de chofre.
Fremia de vontade de se vingar, mas, com a ponta da espada
a pouca distância de sua cara, foi obrigado a se render.
— Está bem, você venceu, mas só graças a um golpe de sorte.
Agora, devolva minha espada — disse.
Inês manteve sua arma apontada contra ele, inclinando-se
lentamente para recolher a outra, mas sem perdê-lo de vista.
Quando se reergueu, viu o soldado estender a mão para
receber a espada. Ela, porém, virou o tronco e lançou-a no
recinto, na direção de Rebeca, que se apressou a apanhá-la.
— O que significa isso? — perguntou o soldado, claramente
agitado.
— Significa que agora você fica aqui quietinho, quietinho —
respondeu Inês, aproximando mais a ponta da espada. E, em
seguida, virando-se para Rebeca, acrescentou: — Quanto a
você, pegue aquelas cordas penduradas na cerca e me traga.
XXVI
A primeira coisa em que Ricardo pensou enquanto todos os
companheiros tentavam se pôr a salvo, saltando da torre ou
pendurando-se às peles ao longo da parede externa, foi que o
conde estava lá no topo. Mas a zona da escada já estava em
chamas, e ele não tinha como subir, tanto quanto os de cima
não podiam mais descer. O conde e os outros estavam
perdidos.
O fogo havia envolvido o homem ao lado de Ricardo,
transformando-o numa tocha ardente. O pobrezinho correu
para ele em busca de ajuda, mas Ricardo não teve escolha a
não ser afastar-se e deixá-lo cair no vazio.
As chamas já o alcançavam. Mas, sobretudo, estavam
rachando a estrutura, ameaçando até mesmo o piso superior
de desabar a qualquer momento. Não havia tempo a perder.
Ele se livrou do escudo e se debruçou para fora, na parte
traseira da torre. Olhou para o alto, a fim de ver quanto
distava do topo, e depois para a lateral, a sua própria altura.
Um dos soldados que haviam tentado escapar para a parte
externa, segurando-se ao revestimento de couro a fim de
descer, pendia trespassado por uma flecha, que o mantinha
fixado à parede.
E os dardos continuavam a chover. A solução parecia
perigosa demais. Não havia escolha, porém. A única
possibilidade era subir ao longo da quina posterior. Ricardo
se agarrou à viga vertical e iniciou a escalada. Uma flecha
passou de raspão. Outra se espetou a um palmo de sua mão.
Lá em cima, reinava o caos. Ele havia deixado uns quinze
soldados e, agora, encontrava no máximo a metade. Ainda
teve tempo de ver dois que se atiravam de cabeça para baixo.
Outros tantos jaziam mortos, varados pelas flechas.
O conde.
Raimundo estava caído embaixo de um dos cadáveres. Não
parecia ferido, mas se movia com dificuldade,
aparentemente desfalecido. Ricardo se aproximou e removeu
o morto de cima dele, depois tomou-o pelo braço e o ajudou
a se levantar. Raimundo ainda parecia confuso, mas não o
suficiente para impedi-lo de perceber a situação.
— Veio morrer comigo? — perguntou.
— Não. Vim salvá-lo — respondeu Ricardo, inclinando-se a
fim de olhar para baixo. Pular dali estava fora de questão. E
descer agarrando-se aos couros parecia sem esperança, com
os dardos que choviam a cada instante. O normando
recolheu dois escudos e, utilizando a correia com a qual eles
eram pendurados ao corpo durante a marcha, prendeu um ao
flanco e outro no ombro.
Sentiu a plataforma afundar sob seus pés. Chamas
começaram a brotar do piso inferior, lambendo-lhe os pés.
Algumas traves cederam.
Raimundo ficou perplexo. Provavelmente havia esperado
que um dos escudos fosse para ele, e ficara decepcionado ao
ver que Ricardo os tomara só para si. Pareceu ainda mais
desconcertado quando o normando o exortou a se livrar do
peso da cota de malha. Mas Ricardo o tranqüilizou com um
gesto da mão e, em seguida, transpôs o parapeito, agarrando-
se ao couro pregado logo abaixo deste. Acenou ao conde que
fizesse o mesmo, mas posicionando-se à sua direita, mais
perto da traseira da torre, cujo topo se desmanchava
rapidamente.
O conde o seguiu, mas ainda estava atordoado e sua preensão
não parecia firme. Ricardo tinha previsto isso; assim que o
viu à sua altura, cingiu-o com o braço livre, ajudando-o a se
sustentar. Manteve a mesma posição enquanto descia
lentamente a parede, sem atentar para os impactos que
percebia sobre os escudos, repetidamente causados pelas
flechas.
O esforço era atroz. Com um braço ele segurava a si mesmo
e, com o outro, o conde. Agarrava-se ao couro que recobria
a parede, depois o soltava e agarrava-se de novo poucos
palmos abaixo, com fisgadas de dor e cansaço cada vez mais
intensas nas mãos.
Sentiu a torre ceder lá em cima. Tições ardentes caíram ao
longo das laterais do artefato, lambendo o corpo dele e o do
conde. Sentiu uma pancada sobre o elmo e uma lufada de
calor lhe abrasou o rosto. Mas limitou-se a apertar os dentes.
Quase no final da descida, foi tentado a se deixar cair, mas
temeu por Raimundo e se impôs um último esforço, até
perceber o terreno sob a planta dos pés. Sentiu um novo
impacto no escudo. Ainda não estavam em segurança, e ele
não devia cometer o erro de baixar a guarda só porque se
encontrava no chão. Empurrou o conde, ainda pouco
reativo, para trás do que restava da torre, onde se amontoa-
vam outros soldados. Depois tratou de recuar mantendo
exposto somente o lado protegido pelos escudos, já
perfurados por dezenas de dardos.
Finalmente, chegou também à zona protegida, onde todos
felicitavam o conde. Mas Raimundo só tinha olhos para ele.
— Mais uma vez, você me salvou a vida. Eu lhe sou
duplamente devedor — disse ao normando, assim que o teve
ao alcance da voz.
Os soldados enxamearam para fora da torre de Godofredo,
um atrás do outro, em rápida sucessão. Emanuel desejou
pertencer ao primeiro pelotão, mas sabia que o duque não
pretendia conceder tal honra a soldados não lorenos.
Debruçou-se ao parapeito, mas só viu a passarela abaixo de si
lotada de combatentes que, avançando, desapareciam na
nuvem de fumaça. Mas o que acontecia além da ponte, isso
ele não conseguia enxergar.
Alguns instantes depois, contudo, viu um soldado ser
empurrado para trás, e outro se precipitar segurando entre as
mãos o ventre rasgado. Mas logo os outros que se seguiam
mergulharam na nuvem; os gritos e o clangor das espadas
que ele ouviu para além da camada de fumaça fizeram-no
compreender que estavam dando trabalho aos defensores.
Os soldados continuaram avançando, sem encontrar
oposição, antes de desaparecerem na névoa.
Já era evidente que o impulso máximo devia ser produzido
agora: alguns vãos tinham sido abertos, do outro lado daquela
barreira visual; não por acaso, as escadas que outros cruzados
apoiavam ao longo das muralhas encontravam menos
oposição. Godofredo se deu conta disso e ordenou que
também os homens do topo seguissem para os espaldões, ou
melhor, ele mesmo foi o primeiro a descer ao piso inferior
para percorrer a ponte levadiça. Emanuel o seguiu e, em
breve, se viu disputando o acesso à passarela com uma massa
de companheiros.
Quando chegou a sua vez, a ponte estava tão cheia de
guerreiros que o avanço era difícil. O grego o percorreu
lentamente, empurrando o companheiro que o precedia e
pressionado por quem vinha atrás, até entrar na cortina de
fumaça. Para além desta, Jerusalém.
A redenção?
A espera de uma vida.
E Jerusalém se abriu aos seus olhos, uma vez transposta a
nuvem artificial. Cúpulas e minaretes, altos palácios e
extensões de casas brancas serviam de fundo ao combate que
se desenvolvia a poucos passos dele. Os espaldões estavam
lotados por ambos os exércitos, mas os muçulmanos não
pareciam capazes de deter o fluxo dos assaltantes que, cada
vez mais numerosos, transpunham as ameias. Ele também
saltou da ponte, obtendo passagem a golpes de escudo e de
espada.
Parecia difícil encontrar algum defensor livre da perseguição
por parte de um ou mais antagonistas. Emanuel foi tentado a
se esgueirar para a frente, mas não seria decoroso conquistar
o terreno sem abrir caminho combatendo, e resolveu ajudar
os companheiros já empenhados. Viu Godofredo duelar
encarniçadamente com um adversário e, ainda mais perto,
um germânico em dificuldades contra dois árabes. Correu
em auxílio ao germânico, agredindo no flanco um dos
inimigos do colega.
Agora, estavam por toda parte. Firuz aproveitou um instante
de alívio da pressão adversária para olhar ao redor: os infiéis
não estavam entrando somente pela ponte levadiça, mas
também pelas escadas encostadas à direita e à esquerda de
sua posição. Os defensores não podiam se permitir parar e
avaliar aonde acorrer para refrear a penetração, sem permitir
outros afluxos de cristãos.
O turco teve a nítida sensação de que tudo havia acabado.
Ou melhor, seu instinto lhe dizia que aquilo era o fim. Mas
não permitiu que a decepção condicionasse sua
combatividade. Jogou-se contra um grupo de adversários já
prestes a alcançar a rampa que levava para baixo. Enfrentou
um, agredindo-o com o próprio peso. O infiel perdeu o
equilíbrio e foi parar em cima de outro cristão, cujo elmo
cilíndrico Firuz notou fugazmente.
O primeiro foi vítima fácil de sua cimitarra. Tarde demais,
porém, ele se deu conta de que o outro ainda constituía uma
ameaça. De fato, o turco não tinha acabado de extrair sua
lâmina do corpo inerte recém-trespassado quando o infiel de
elmo cilíndrico caiu sobre ele com a espada.
Por um instante, Firuz viu-se perdido. Mas o adversário,
incompreensivelmente, permaneceu alguns instantes a mais
com o braço erguido, antes de baixar uma cutilada,
permitindo a Firuz recuperar a cimitarra e afundá-la
diretamente no estômago do atacante. O cristão soltou a
espada e tombou de joelhos, levando consigo a arma que o
penetrara e segurando as vísceras.
— Firuz... — murmurou, antes de cair de bruços. A lâmina
da cimitarra lhe saía pelas costas em todo o seu
comprimento.
— Emanuel! — gritou o turco, horrorizado, tirando-lhe o
elmo. Confirmou a identidade dele sem precisar remover as
ataduras que lhe envolviam o rosto. Permaneceu imóvel,
sem tratar de extrair a própria arma nem tirar os olhos do
corpo já inerte do velho amigo. Nem mesmo quando sentiu
uma dor atroz na região do rim. Só então virou rapidamente
o olhar, para observar, incrédulo, uma espada enfiada no
próprio flanco.
Sentiu as forças abandonarem-no, de repente, e a vista se
velar. A última coisa que enxergou foi a silhueta indistinta do
corpo de Emanuel, sobre o qual se prostrou.
A última coisa que ouviu foram os passos dos cristãos, que
acorriam ao interior da cidade, a começar pelo bairro
judaico, já sem encontrar qualquer resistência.
Lamentou não mais poder cuidar da segurança de Sara.
Perguntou-se se seu comandante se encarregaria disso.
Não teve tempo de se dar uma resposta.
Não parecia que alguém os perseguia. E era uma sorte,
porque Anselmo caminhava muito mais devagar do que as
duas mulheres. Certo, ainda era gordo, apesar das privações;
seguramente, também estava enfraquecido pelas torturas
sofridas e dolorido pelos ferimentos e contusões recebidos.
Porém, pensava Inês, havia nele algo mais, que lhe tirava até
a vontade de agir.
— O que Anselmo tem? — decidiu-se a perguntar a Rebeca,
enquanto se aproximavam da rocha das tarântulas.
— Não sei — respondeu a judia, abrindo os braços. — Até
perguntei, mas ele não quis me responder. Acho que se
sente desprezível por ter defendido o manuscrito de Tiago,
que nega tudo aquilo em que ele acreditava e de que, talvez,
ainda esteja convencido...
— Mas, então, por que defendeu aqueles textos, se não
acredita neles?
— Para demonstrar alguma coisa a si mesmo, creio. Ou a
você.
— A mim? Mas por quê? — Inês estava estupefata.
— Isso certamente não sou eu que posso dizer. Não conheço
a natureza da relação entre vocês. Mas suponho que ele lhe
tem um apego especial...
Inês refletiu por alguns instantes.
— Somos bons amigos, e juntos vivemos muitas aventuras,
nestes últimos três anos. E também certa vez eu lhe salvei a
vida. Talvez ele se sinta em dívida comigo.
— E, pode ser... — replicou Rebeca, não muito convicta.
A prostituta preferiu não continuar aquela conversa. Olhou
novamente para Anselmo: se por acaso a escutara, o monge
não demonstrava nenhuma reação. Não era o momento de
se preocupar com isso, tinham de pegar aqueles benditos
documentos e, em seguida, fugir para Belém e lá
permanecer; pelo menos, enquanto Ricardo não fosse ao seu
encontro.
Tentou agilizar o passo, mas Anselmo mantinha sempre o
mesmo ritmo lento. Por sorte, a meta deles estava próxima.
Deviam chegar às margens do campo dos provençais, diante
do monte Sião; depois, já fora do raio de ação dos cruzados,
seria mais fácil fazer desaparecerem os próprios rastros.
Inês puxou Anselmo pela manga, sem obter grande
resultado. O monge nem a olhava, pela primeira vez em três
anos. Ela desejou falar com ele, perguntar o que havia
acontecido e por quê. Mas precisaria arrancar as respostas, e
então decidiu deixar para outra hora.
Chegaram às proximidades da rocha. Rebeca saltou
instintivamente para a frente, alcançando-a primeiro.
— Onde está? — gritou para Inês.
— Desloque-se para a direita. Veja aquelas duas rochas
dispostas em arco. Está no buraco do meio — respondeu a
prostituta, de longe. Depois, porém, olhou para o céu e seus
olhos foram ofuscados pelos raios do sol. — Pare! —
acrescentou imediatamente.
— Hein? Por quê? — inquiriu Rebeca, aproximando-se
mesmo assim do buraco e inclinando-se para o terreno, a fim
de observar melhor a conformação dele.
Inês começou a correr. Rebeca estava com o rosto quase
rente ao buraco. Em poucos passos, a prostituta chegou junto
dela. Empurrou-a para o lado segundos antes que a judia se
ajoelhasse.
— O que deu em você? — perguntou Rebeca, reerguendo-se.
Inês lhe apontou o céu.
— O sol — disse. — A esta hora, as tarântulas pululam...
Rebeca se mostrou consternada.
— E agora? Não podemos esperar.
— Eu também não. — Uma nova voz. Mas uma voz
conhecida.
O soldado que elas tinham amarrado com cordas.
Estava sem fôlego. Devia ter corrido muito. Evidentemente,
queria resolver o assunto antes de ser repreendido pelos
superiores por ter deixado escaparem uma mulher e um
padre estropiado.
— Qualquer coisa que tenham escondido aí, o duque vai
gostar de saber. E, com um pouco de sorte, vocês receberão
a visita dele lá no recinto... — disse, com um sorriso de
escárnio.
Aproximou-se. Sua espada apontou para o peito de Rebeca.
Inês, por sua vez, sacou a dela e apontou-a para ele.
— Primeiro, você vai ter que nos dominar. E não me pareceu
ser um grande combatente...
— Ela é menos ainda, creio — respondeu o homem,
indicando Rebeca e pressionando a lâmina no meio de seu
peito arfante.
Inês olhou o soldado. Depois olhou Rebeca. A judia retribuiu
a mirada: estava à espera de ordens.
A prostituta levantou sutilmente as sobrancelhas e recuou de
leve a cabeça. Rebeca fez um sinal de entendimento e se
lançou para trás, subtraindo-se à ponta da espada. Antes que
o soldado alongasse o braço, a espada de Inês já estava sobre
a lâmina dele, desviando-lhe a direção.
O homem se jogou contra ela com veemência, embora
descoordenado, e para Inês foi difícil agüentar aquele
ímpeto. Os golpes vinham de cima, poderosos, contínuos, e
ela vacilava na tentativa de lhes opor sua lâmina, recuando,
passo a passo, cada vez mais debilmente. Sentiu-se confusa.
Não achava modo nem tempo de preparar um contra-ataque,
ou mesmo apenas um movimento que a deixasse em
condições de replicar.
Perdeu o equilíbrio. Caiu no chão. O homem correu para
cima dela. Preparou o golpe.
Em seguida, a cabeça do soldado estremeceu. Um objeto
contundente a golpeara. Inês não se deteve para pensar e
logo ergueu o braço que ainda empunhava a espada. A
lâmina trespassou o estômago do adversário, que desabou no
chão. Atrás dele apareceu Rebeca, ofegante, com uma pedra
na mão, pronta para lançá-la se a primeira não tivesse sido
suficiente.
A judia se aproximou e ajudou-a a se levantar. Observaram o
homem que tinham acabado de matar. Inês extraiu do corpo
a espada, esfregou-a sobre o cadáver para limpá-la do sangue
e a repôs na bainha. Depois, lembrou-se de Anselmo.
Olhou ao redor. Não o viu logo.
Localizou-o somente quando seu olhar bateu na rocha. O
monge estava ali, junto ao buraco, de joelhos. Ao lado dele, a
sacola com os manuscritos.
Mas também três enormes aranhas de patas robustas e
alongadas, e dorso entre o cinza, o fulvo e o negro.
Tarântulas.
Ao norte, os cruzados tinham entrado. A notícia se espalhou
entre os provençais, provocando desconcerto. Dizia-se que
o duque Godofredo havia até consentido a Tancredo e a
Roberto da Normandia que se valessem do arrombamento
conduzido por ele, e, assim, os normandos, além dos
germânicos, estavam enxameando na cidade, aproveitando
para se apoderarem dos butins mais ambicionados.
Ricardo observou Raimundo. Um segundo antes, tivera a im-
pressão de que ele quisera lhe dizer alguma coisa. Agora,
porém, via-o perdido numa irritação compreensível e com a
mente voltada para o que sucedia na frente oposta.
Transferir-se e entrar pelo norte seria um reconhecimento
implícito da superioridade de Godofredo; o normando teve
certeza de que o conde preferiria continuar a operar no
ponto onde estavam.
Sara.
Também sua mente, de repente, voltou-se para o que estava
acontecendo a setentrião. Se eles tinham arrombado naquela
parte, fariam grande estrago em tudo que achassem em seu
caminho.
E no caminho ficava o bairro judaico, antes de qualquer
outra coisa.
— Senhor conde, peço permissão para me unir às forças que
acabaram de entrar pelo norte — disse ele a Raimundo de
Toulouse.
— Mas por quê? Se nós também entrarmos, será também
graças ao seu valor. Godofredo e Tancredo não precisam de
você. Nós, sim — respondeu o comandante.
— Mas, se o senhor quiser que eu cumpra a tarefa que me
atribuiu, procurando aquele manuscrito que tanto deseja —
replicou Ricardo, que dispunha de um pretexto pronto e
coerente —, convém que eu entre agora. Se eles tiverem
tempo de percorrer a cidade, podem encontrá-lo antes ou
até destruí-lo inadvertidamente...
O conde refletiu um pouco.
— Está bem. Vá, e me relate tudo, depois.
Em segundos, Ricardo já se afastara na direção norte.
Raimundo se voltou para dois soldados de sua guarda pessoal,
que vigiavam junto dele.
— Sigam-no — ordenou. — E não o percam de vista. Quero
saber de todos os movimentos dele. Todos.
Fazia tempo que Jamal via afluírem civis e militares ao setor
onde, junto com o governador, estava vigiando as tentativas
de arromba- mento por parte dos provençais. Alguns subiam
às muralhas a fim de observar as ações dos assediantes, mais
do que para dar uma mão, mas a maioria se aglomerava
abaixo dos espaldões, gritando de terror, chorando,
lamentando-se e pedindo, aos berros, apoio e ajuda.
Combater naquelas condições era difícil. Precisava-se de
toda a concentração possível para repelir as tentativas
francas de alcançar os espaldões pelas escadas, interromper
suas escavações para minar as muralhas, enfrentar os
disparos de flechas de seus besteiros. E, com tudo isso,
aquela massa de prófugos reclamava atenção, sem se
interessar nem um pouco pela defesa. Para piorar, agora
também convinha se preocupar com os efeitos dos
lançamentos dos trabucos cristãos sobre as pessoas; cada
projétil que transpunha os espaldões, mesmo que não
causasse danos, acabava inevitavelmente semeando o pânico.
Mas nem assim os civis recuavam. Pelo contrário, vinham
chegando até se amontoarem abaixo das muralhas, como se
buscassem nos soldados atracados com o inimigo uma
proteção que as circunstâncias tornavam totalmente
improvável.
Iftikhar al-Dawla estava desencorajado. Jamal o via dar
disposições cada vez menos convictas aos subalternos,
mover-se mais lentamente, com o olhar já perdido no vazio.
Perguntou-se quanto tempo poderia durar a defesa naquelas
condições. Teve uma primeira resposta logo depois, ao ver
um franco em trajes civis subir aos espaldões com uma
escolta de soldados. Deu-se conta de que, havia alguns
minutos, os assediantes tinham suspendido os ataques.
Perplexo, observou aquela que em tudo parecia uma
delegação abrir caminho entre os defensores e se dirigir ao
governador, com o qual os cristãos se entretiveram por
bastante tempo, em aparente cordialidade.
Foi ao encontro de Iftikhar al-Dawla somente quando os
francos se retiraram.
— Você se entende com os infiéis e não me chama? —
agrediu-o.
— Eu não estava seguro de que você aprovaria. Portanto, agi
por conta própria, mandando um emissário convidar o
conde de Toulouse para parlamentar. Aliás, minha função
me faculta isso — respondeu o governador, sem fitá-lo nos
olhos.
— O quê? O que eu podia não aprovar? Que acordos você
fez?
O governador hesitou.
— Garanti imunidade para nós e para toda a gente que nos
procurou em busca de proteção — respondeu, sempre
olhando para outro lado. — O conde nos concede uma hora,
a partir deste momento, para chegarmos à cidadela e nos
trancarmos lá dentro até que eles consigam frear os excessos
da soldadesca...
— Ah! Nada disso! Os comandantes não querem frear os
excessos da soldadesca! Estão aqui pelo butim e vão deixar as
tropas agirem até se embriagarem de sangue e dinheiro! Ou,
melhor, esperam que os soldados lhes obtenham riqueza e
escravos. Pode ter certeza de que o único motivo pelo qual
os chefes não vão sujar as mãos é que outros o farão por eles!
— E o que nós podemos fazer? — O governador abriu os
braços.
— Já os temos às nossas costas, além de à nossa frente. Daqui
a pouco estaremos entre dois fogos e teremos o mesmo fim
do setor setentrional...
Jamal pensou com tristeza em Firuz.
— E você acha que devemos ficar refugiados dentro da
cidadela como camundongos e tapar os ouvidos, para não
ouvirmos os gritos de dor dos nossos irmãos, o clangor das
espadas dos infiéis despencando sobre eles, os berros das
nossas mulheres estupradas e seviciadas?
— O conde me deu amplas garantias de que seus homens não
farão nada desse gênero. Somente quando a cidade for
pacificada é que eles se dedicarão à coleta do butim —
afirmou Iftikhar al-Dawla. Depois, porém, demonstrando ser
o primeiro a não acreditar nas próprias palavras, acrescentou:
— Seja como for, é o único modo que temos para salvar pelo
menos uma parte da população. Inclusive nós mesmos. Você
não quer continuar vivo?
— A esse preço, não — retrucou o emir, virando-se e
descendo a escada.
Sabia o que lhe restava a fazer. Se a cidadela se tornaria o
único lugar seguro da cidade, era para lá que devia levar Sara.
— Por quê? Por que fez isso, seu velho estúpido? — gritou
Inês para Anselmo, agarrando-o pela gola. Mas o monge não
respondia.
Estava cianótico, os olhos arregalados, um fio de baba
descendo da boca, e, se ela não o segurasse pelo hábito, já
teria caído emborcado no chão.
Inês passou o braço por trás da nuca dele e o acomodou
sobre o terreno, chorando. Sentiu a mão de Rebeca lhe
segurar o ombro para confortá-la.
Virou-se de chofre.
— E você? Sabe me explicar o porquê de tudo isso? Você,
que comprometeu todos nós com seu maldito documento!
— bradou-lhe na cara, com rancor.
Rebeca tentou abraçá-la, mas Inês se esquivou. Preferiu
abraçar o corpo já sem vida de Anselmo, sobre o qual se
inclinou, ainda chorando.
A judia estava prestes a estender de novo a mão, mas a
retraiu, voltando-se para recolher a sacola com os rolos.
Depois se encaminhou para o leste. Pela primeira vez na
vida, não havia encontrado o que replicar.
Com o canto dos olhos, Inês a viu se afastar.
— Para onde está indo, agora?
— Para onde você não pode vir. Já criei muitos problemas
com esta história, como você mesma disse.
— Pare. E me perdoe pelo que eu disse. Não creio que
Anselmo gostaria que eu lhe falasse assim. E Ricardo
também não iria querer.
— Não, eu é que lhe peço perdão. Perdoem-me todos vocês.
Esta história toda foi uma loucura. Anselmo morreu por ter
percebido que só com a morte poderia resolver seu conflito
interior. Mas a razão primeira do conflito dele foi o meu
egoísmo. Servi a uma causa improvável, nebulosa, abstrata,
com a soberba de uma mulher insatisfeita que se acreditava
uma estudiosa arguta; e fiz isso em detrimento de seres
humanos, pessoas das quais aprendi a apreciar a coragem,
além de uma lealdade que nem era admissível esperar de um
grupo de desconhecidos. Agora me envergonho de mim
mesma, pois sei que, num mundo onde as pessoas não têm
escrúpulos em usar os ideais para buscar seus próprios fins,
existem indivíduos dispostos, ao contrário, a renunciar aos
seus ideais para ajudar os outros; pessoas de todas as
nacionalidades e crenças religiosas, capazes de não se deixar
envolver pela vontade geral de prepotência, mas sim de
pensar e agir de maneira autônoma e coerente, nem sempre
por vantagem pessoal, terrena ou ultraterrena. Ou melhor, às
vezes contra a própria vantagem pessoal... Mais uma vez,
peço-lhe perdão — concluiu. — Você, Anselmo, Ricardo,
Emanuel, Jamal e Firuz não merecem nada menos do que
um enorme respeito, qualquer que tenha sido a motivação
que os impeliu a me ajudar. Se os usei, e provavelmente o
fiz, foi inconscientemente.
Inês não replicou. Em vez disso, levantou-se e foi ao
encontro de Rebeca, oferecendo-lhe o abraço que ela
mesma havia recusado pouco antes. Só falou depois:
— Voltemos à minha última pergunta. Para onde você
pretende ir? — perguntou.
— Para Jerusalém. Agora devo pensar em Sara, minha irmã.
Se os cristãos entrarem, ela está condenada. E, mesmo que
não entrem, preciso cuidar dela.
— Vou com você.
— Nem pense nisso — replicou a judia, decidida.
— Se é verdade o que você disse sobre nós, devo ter fé no
meu modo de ser. E também Anselmo, com seu sacrifício,
me indicou o caminho a seguir — insistiu Inês.
— Já os envolvi demais nos meus problemas. Não quero que
alguém arrisque ainda a vida pelas minhas convicções.
— Então, digamos que eu vou pela sua irmã... — especificou
Inês. E também por Ricardo, naturalmente. Mas isso ela não
disse a Rebeca, enquanto a pegava pelo braço e a impelia na
direção da cidade.
Jamal continuava cruzando com fugitivos. Neste passo,
pensou, a cidadela não poderia conter todos os prófugos e,
mesmo admitindo que conseguiria salvar Sara, achava difícil
fazê-la entrar. À medida que subia rumo ao norte, as
expressões que percebia no rosto dos concidadãos eram cada
vez mais aterrorizadas, reflexo do contato com os infiéis.
Ouvia dizer que os francos estavam se dirigindo à área
oriental, para a mesquita al-Aqsa e a Cúpula da Rocha. Não
duvidava de que profanariam ambas, e de que quem tivesse
se refugiado ali, contando com a sacralidade do lugar para a
própria salvação, simplesmente se ofereceria indefeso às
espadas deles. A reflexão lhe deu asas nos pés: de fato, o
mesmo valia para a sinagoga. Dificilmente os cristãos a
respeitariam.
Passou ao lado da igreja de são Tiago, onde era conservada a
cátedra do homem que Rebeca lhe revelara ser o irmão de
Jesus. Prometera-se ir visitar o edifício, mas nunca tivera
tempo. Duvidou que algum dia viesse a ter essa possibilidade.
Jamal continuou subindo rumo à Porta de Jaffa, dobrando
em seguida a leste para chegar à artéria principal da cidade,
aquela que havia sido o cardo* romano. Passou junto da
oliveira milenar na qual, como se supunha, Jesus fora
acorrentado à espera do processo do sumo sacerdote. Uma
vez no caminho central, fez-se mais atento. Os infiéis
podiam surgir de um momento para outro, se fosse verdade
que estavam afluindo à área sagrada.
Cobriu rapidamente o percurso em descida que levava ao
vale e depois subiu de novo. Viu guerreiros egípcios e
sudaneses, e também milícias citadinas, correndo em grupos
esparsos, uns em direção ao oriente, outros ao encontro
dele, na direção sul. Deixou à sua esquerda a cidadela, com
os vizinhos e imponentes alicerces do que havia sido o
palácio do rei Herodes, e em seguida, passou ao lado do
Santo Sepulcro e do Gólgota. E ali percebeu os primeiros
francos.
A maioria se aglomerava diante da entrada da Anástase, o
nicho construído sobre o túmulo de Jesus, ou então mais no
alto, a breve distância, em torno da igreja edificada no topo
do monte Calvário. Estavam todos ansiosos para entrar,
agradecer a Deus e rezar, ou talvez, pensou Jamal sem
espanto, para depredar. Mas alguns corriam atrás dos
fugitivos, com as cotas e os escudos sujos de sangue; outros
duelavam com árabes suficientemente corajosos para ainda
opor resistência. Ele também o faria, prometeu a si mesmo,
mas depois; agora, precisava deixar Sara a salvo.
Só desejava passar através das malhas do avanço adversário
sem ser notado e chegar o mais depressa possível à sinagoga.
E de fato os soldados inimigos não atentavam para ele,
preferindo se concentrar na busca de butim dentro das casas
ou, eventualmente, na perseguição aos inermes: velhos,
mulheres e crianças, não suficientemente ágeis para fugir
rumo ao sul depois dos primeiros sinais de invasão.
Viu dois cristãos se lançarem sobre uma mulher que fugia
com um menino nos braços. Um dos soldados empurrou-a
para o chão e lhe abriu as pernas, o outro agarrou o bebê
pelos tornozelos e bateu-o várias vezes contra a quina da
casa de onde mãe e filho acabavam de sair.
Jamal se forçou a não intervir. Devia prosseguir sua corrida.
Mas foi obrigado a parar logo depois. Um guerreiro franco,
evidentemente convencido de que ia ser atacado por ele,
dispôs-se a enfrentá-lo. Jamal desembainhou a espada e fez o
mesmo; evitou a cutilada do outro e, com o escudo, jogou-o
no chão, prosseguindo sua corrida. Cruzou com outros dois,
tão empenhados em puxar uma carroça cheia de objetos
sacros — a presença de cruzes douradas atestava o saque a
uma igreja — que nem o perceberam. Outros o ignoraram de
igual modo, para se concentrar no butim recolhido numa
mesquita.
Ao que parecia, pensou, os conquistadores não faziam
distinções de fé. Ali estava o verdadeiro móvel da adesão
deles ao empreendimento.
Tinha quase chegado ao bairro judaico. Mas entrar lá não
seria fácil. Aquele havia sido o primeiro setor saqueado da
cidade, e muitos guerreiros cristãos ainda circulavam pelas
ruas, à caça de objetos de valor, dinheiro, pessoas
desafortunadas a quem atacar e edificações a invadir a ferro e
fogo.
Deu-se conta de ser o único indivíduo em armas, não
pertencente ao exército conquistador, a circular por ali. De
fato, dois francos perceberam isso e se lançaram contra ele.
Logo atrás dos atacantes, Jamal viu a sinagoga.
Estava em chamas.
Sara viu cair diante de si um tição ardente. Alguém o lançara
de uma janela. Gritou aterrorizada, retraindo-se, mas a
sinagoga estava lotada de gente e não havia espaço para se
subtrair ao incêndio que já começava a irromper no interior.
Ela olhou para cima: do lado de fora, o fogo lambia quase
todas as janelas.
O edifício inteiro estava circundado pelas chamas.
O fogo atingira as roupas de um velho rabino ao lado dela.
Logo depois alcançou os assentos de madeira, reduzindo
ainda mais o espaço à disposição dos refugiados. Os gritos
ecoaram no alto teto do local. Em poucos instantes, o rabino
se transformou em uma pira funerária, e as chamas que o
envolviam atingiram Sara.
A jovem viu arder a orla de suas vestes e, aos gritos, jogou-se
instintivamente contra a parede. Diante dela havia muita
gente, mas todos se esquivaram, temendo ser atingidos pelo
fogo. Assim, Sara pôde prosseguir e apagar as chamas
esfregando-se à alvenaria. Mas a fila de assentos chegava até
ali; alimentado pelo braseiro dos móveis, o fogo ameaçou-a
de novo.
Encontrou o nicho para os rolos da Torá e se encolheu ali
dentro, justamente quando a cortina de chamas passava
junto dela. Depois olhou para o lado, na direção do
matroneu: a escada para subir até lá estava tomada de
assalto. Aquela altura o térreo já era atravessado por línguas
de fogo, e o piso mais elevado tinha parecido à maioria a
única esperança de salvação, embora temporária. Sara deixou
o nicho e caminhou rente à parede em direção à escada.
Uma mulher lhe obstruiu o caminho com gritos dilacerantes,
arrancando a própria veste inflamada. Seu corpo estava
coberto de queimaduras. Sara a empurrou, cheia de horror, e
prosseguiu sua corrida.
As chamas haviam alcançado a base da escada, impedindo o
acesso. Ao lado ficava uma das duas entradas da sinagoga e,
pouco adiante, a fonte para as abluções. Nenhuma das
pessoas que precediam Sara ousava transpor a cortina de fogo
e acessar as escadas, mesmo sabendo que, de um momento
para outro, seriam alcançadas pelas chamas. Por isso,
deixaram a jovem passar. O terror dela se transformara em
pânico.
Então viu a fonte das abluções. Notou que ainda havia água.
Encolheu-se sobre si mesma e saltou o fogo. Imediatamente
depois, como calculara, caiu na fonte, e o contato com a
água logo apagou as chamas que haviam começado a se atear
à sua roupa e aos seus cabelos. Saiu da fonte, com a veste
chamuscada e rasgada, e subiu a escada até o balcão já cheio
de gente.
Olhou para baixo. O fogo recobria toda a superfície da
sinagoga e não havia mais ninguém, vivo, que não estivesse
completamente envolto pelas chamas. Uma fumaça acre
subia, recobrindo os sobreviventes ali em cima. Gritos de
terror, preces, lamentos, invocações a Deus se misturavam
aos acessos de tosse.
Sara chorou. Pela fumaça que lhe agredia os olhos, pelo calor
insuportável, pelo medo que lhe triturava as vísceras.
Sentiu alguma coisa ceder embaixo de seus pés. Todos
gritaram.
O balcão estava desabando.
Jamal se jogou no meio dos dois soldados francos. Com o
escudo, aparou o golpe do da esquerda, e, com a espada, o
ataque vindo da direita. Depois de passar entre eles, virou-se
e trespassou um, mas não pôde evitar que o outro o
golpeasse no ombro esquerdo. A dor o obrigou a jogar fora o
escudo, mas não o impediu de reagir com uma investida
desesperada, que balançou o adversário, obrigando-o a se
descobrir e a expor o peito.
Depois de extrair do corpo a espada ensangüentada, o emir
tirou de sua segunda vítima a cota de malha e recomeçou a
corrida, mesmo cambaleando por causa do cansaço e da dor
causada pela ferida. Outros francos se aprestavam a
confrontá-lo, mas, quando compreenderam que ele se dirigia
à sinagoga envolta em chamas, pararam, curiosos, para
admirar o espetáculo.
— Se ele quer ser assado lá dentro, que vá!
— E, se conseguir fazê-los sair, nós nos divertiremos
degolando um a um!
Jamal alcançou a entrada correspondente à abside. O
portãozinho estava ardendo. O fogo parecia destinado a
alcançar em pouco tempo a edificação adjacente, uma casa
de dois pisos ainda íntegra. Jamal lançou fora a espada, mas
não a malha de ferro que subtraíra ao soldado morto; então
começou a escalar a parede externa da habitação, segurando-
se aos interstícios entre um bloco de pedra e outro. Já no
alto, içou-se sobre o teto, de onde podia ver à altura dos
olhos uma das janelas da sinagoga.
Levantou-se para tomar impulso, apertou fortemente com
ambas as mãos a malha de ferro e, em seguida, saltou.
À muito custo conseguiu se agarrar ao peitoril da abertura. A
malha de ferro lhe permitiu agüentar o contato com o calor
da pedra aquecida, mas o ombro ferido cedeu, obrigando-o a
permanecer por alguns instantes pendurado apenas pelo
braço direito. Conseguiu se içar até ver lá dentro. Havia
sobreviventes, e estavam todos no piso superior. Embaixo,
só devastação e chamas.
Içou-se mais, a fim de se preparar para entrar. Pareceu-lhe
notar algum movimento na estrutura do balcão. Descartou
tal pensamento, convencendo-se de que era a agitação dos
sobreviventes a lhe dar essa sensação, mas em seguida viu
dois homens perderem o equilíbrio e caírem lá embaixo.
Olhou melhor. Sim, o balcão estava cedendo.
Olhou de novo.
Ela estava ali.
Estava com os cabelos chamuscados, o rosto enegrecido, a
roupa reduzida a farrapos. Mas estava viva.
Foi então que o balcão desabou. Jamal viu a superfície sobre
a qual se amontoavam os refugiados se desintegrar em
poucos instantes e homens, mulheres e crianças
despencarem no vazio. Ergueu-se uma nuvem de fumaça,
mas não produzida pelo fogo. Uma pilha de detritos se
formara na abside, uma espécie de ilha circundada por um
mar de chamas.
Braços, pernas, corpos afloravam daquele acúmulo de
entulho que, com o desmoronamento, havia sufocado o
incêndio embaixo dele, mas também havia alguns
sobreviventes.
Jamal procurou-a desesperadamente com os olhos, como se
a força de sua mirada conseguisse fazê-la emergir dos
escombros. Encontrou-a. De joelhos, ferida, coberta por
uma pátina de poeira e fuligem, mas ainda viva.
Ele não hesitou mais.
Jogou-se lá dentro.
XXVII
Acelerou o passo, mas o tumulto já era tanto que ele não
podia avançar rapidamente. Mais de uma vez, tropeçou em
cadáveres espalhados pelo terreno: homens dilacerados,
mulheres desventradas. Observava estas últimas com
atenção, esperando não ver Sara. Esperou também
reconhecê-la, três anos após um encontro fugaz, mas
indelevelmente impresso em sua memória, e com a
perspectiva de encontrar, na melhor das hipóteses, uma
jovem sofrida e maltratada.
Não havia muitas mulheres por ali. E nunca estavam
sozinhas ou incólumes. Ricardo as perscrutava, forçando-se a
não atentar para os sofrimentos delas; havia sempre a
possibilidade de que Sara tivesse sido engolida pela multidão
ou acabado prisioneira de alguém.
Estava caminhando na direção onde supunha encontrar o
bairro judaico. Mas não tinha uma idéia muito precisa de
como agir. Deveria procurar em todas as casas? Nos locais de
culto? E, mesmo que a encontrasse, ela o reconheceria? Ou,
ao contrário, no meio de tanta agitação, iria fugir, tomando-o
por um dos agressores?
Sentiu-se ridículo. Envolvera-se numa busca sem esperança,
que só um estúpido presunçoso poderia conceber. Balançou
a cabeça, furioso consigo mesmo e, no entanto, incapaz de
desistir.
Em seguida a viu.
Não. Sara não.
A irmã. Rebeca. E também Inês.
Que diabo faziam ali? E juntas ainda por cima?
Foi um salto na voragem, o de Jamal. Transpôs o mar de fogo
e aterrissou na ilha de escombros. Um impacto terrível, uma
dor lancinante na tíbia. Talvez a tivesse fraturado.
Não deu importância a isso. Estava a poucos passos de Sara,
finalmente.
Levantou-se mancando e estendeu o braço para ela. A jovem
estava com as mãos na cabeça e berrava. O emir segurou-a
por um ombro, mas ela se soltou sem olhar. Então ele
agarrou-a pelo outro e tentou abraçá-la, mas Sara continuava
a se esquivar.
— Sou eu! Jamal! — gritou o emir, prendendo-lhe o rosto
entre as mãos. Só então ela pareceu reconhecê-lo. —
Vamos, eu a levo para fora! Confie em mim! — continuou
ele, colocando-a nas costas.
Do monte de entulho até a saída eram poucos passos. Mas
em meio ao fogo. As labaredas vinham até a altura do peito,
e Jamal levantou Sara mais ainda, sustentando-a com os
braços erguidos acima da cabeça. Procurou ignorar a dor na
perna, que a muito custo lhe permitia se manter de pé, e a
das costas, que quase o impedia de agüentar uma carga que,
em outras circunstâncias, seria leve. Depois se jogou no
fogo, sentindo a pele se encolher ao contato com as chamas
e a ardência invadi-lo até dentro dos ossos.
Chegou à saída no instante mais longo e atormentado de sua
vida. As chamas que subiam ao longo das duas folhas da
porta eram mais altas. Ele empurrou com os pés o que havia
restado do móvel com que os refugiados a tinham travado,
levantou Sara ainda mais, esticando o braço com o qual a
sustentava, e usou o outro para puxar o ferrolho.
Com as chamas que já o envolviam até o turbante, bateu
com o ombro nas folhas, abrindo-as. Nesse momento, seu
braço erguido cedeu e o corpo de Sara entrou em contato
com sua cabeça inflamada. O que restava das vestes da jovem
pegou fogo, mas ele percebeu e a deixou cair; ela rolou pelas
pedras misturadas com terra batida e o fogo apagou.
Jamal ardia. Os poucos francos que haviam decidido
acompanhar a cena riam às gargalhadas. Sara se levantou,
dolorida, e viu aquele homem transformado em tocha lhe
estender a mão. Parecia uma saudação.
Horrorizada, enojada, ela se retraiu, virando a cabeça para o
outro lado.
O emir caiu de joelhos e, depois, estendido no solo, deixou-
se consumir pelo fogo sem um gesto, sem um movimento.
Sara olhou ao redor, soluçando. Agora estava quase nua,
chamuscada, e poucos cabelos lhe restavam. Mas as formas
de seu corpo conservavam a harmonia de sempre, e os
espectadores perceberam.
— Muito gentil aquele árabe recuperar para nós uma
mercadoria tão preciosa... — disse um franco.
— Agora, este espetáculo terá uma conclusão ainda mais
divertida... — disse outro.
— Não creio — discordou uma voz.
Feminina.
— Pois é. Acho que vocês devem renunciar ao final, rapazes
— acrescentou outra voz.
Masculina.
Inês de um lado.
Ricardo de outro.
E Rebeca um pouco atrás.
— Ricardo! — gritou Sara, correndo para o normando, sem
fazer caso da irmã e contornando, desatenta, o corpo
incendiado de Jamal, que ainda se movia debilmente na
poeira.
Ricardo não foi ao encontro dela. Recebeu-a entre os braços,
confuso, tentando reconhecer aquela mulher com poucos
cabelos, a figura miúda — bem mais do que ele recordava —,
a roupa reduzida a farrapos chamuscados, a pele enegrecida e
coberta de queimaduras.
Jamal, em meio ao crepitar de suas próprias chamas, um
segundo antes de sua vida se extinguir, ainda ouviu-a dizer
ao normando, deslumbrada:
— Eu tinha certeza de que você viria me salvar de novo...
Ricardo perscrutou-a longamente. Tentou acariciar o que lhe
restava de cabelos. Não sabia o que dizer. Inês também a
fitava, perguntando-se o que aquela mulher tinha de tão
especial para fazer aquele homem extraordinário perder a
cabeça. Depois olhou Ricardo e compreendeu que ele estava
se perguntando a mesma coisa.
A prostituta sentiu um frêmito de satisfação, mas não o deu a
perceber. Rebeca, porém, tinha se aproximado da irmã.
Chamou-a. Ao ver que ela não a escutara, gritou com força:
— Sara!
A jovem saiu do êxtase.
— Rebeca... você voltou... Agora, estão aqui todas as pessoas
que gostam de mim... — disse, voltando a fitar Ricardo.
— Não exatamente — replicou Rebeca, com sua habitual
tendência a especificar. — Falta Jamal. Sabe notícias dele?
— Claro. Está ali — respondeu Sara, apontando para trás com
displicência.
Rebeca olhou horrorizada a silhueta em chamas que acabava
de se imobilizar.
— Ele... salvou você? — perguntou com voz embargada,
aproximando-se do cadáver ardente.
Finalmente, Sara parou de fitar Ricardo e inclinou a cabeça,
olhando para o chão.
— Humm... sim — respondeu a meia-voz, como uma
menina encabulada.
Rebeca se sentiu fremir de raiva. Estava para abrir a boca,
mas um dos soldados presentes não lhe deu tempo...
— Amigo, essa judia é nossa — gritou, dirigindo-se a Ricardo.
— Chegamos primeiro. A não ser que você seja amigo dos
judeus, e não nosso, porque, nesse caso... — insinuou,
erguendo a espada.
— Nesse caso o quê? — replicou Ricardo, afastando Sara com
decisão e brandindo por sua vez a espada. — Vamos
combater entre nós por uma mulher? Há muito o que
depredar aqui em Jerusalém. O que estão esperando?
— Que você nos entregue a mulher.
— Venham buscar — respondeu Ricardo.
— Não banque o engraçadinho. Nós somos cinco e você, só
um.
— Dois — esclareceu Inês, agitando a própria espada.
— Três — completou Rebeca, agarrando uma trave que jazia
no chão.
Houve alguns instantes de silêncio entre os presentes.
Apesar dos berros e ruídos de guerra que se ouviam ao
redor, todos puderam perceber distintamente o crepitar das
chamas que ainda envolviam o corpo de Jamal.
Em seguida, um dos soldados partiu para o ataque. Escolheu
Inês. A mulher se esquivou em cima da hora para evitar o
golpe e imediatamente lhe assestou outro no dorso,
aproveitando-se do desequilíbrio dele. A cota de ferro salvou
o adversário, que ainda assim foi parar no chão. Ela lhe
desfechou um pontapé no rosto, fazendo rolar para longe o
elmo, e depois acabou com ele enfiando-lhe a espada
verticalmente, no pescoço.
Outro já se preparava para atingi-la com uma cutilada nas
costas. Mas o berro de Sara ao ver Rebeca desestabilizar o
cristão com a trave permitiu que Inês se voltasse a tempo e
acertasse no estômago o novo antagonista.
Nesse meio-tempo, Ricardo enfrentava os outros três,
enquanto Sara se colocava rapidamente atrás dele. O
normando atuou defensivamente, usando a espada a fim de
aparar as cutiladas dos adversários. Mesmo quando tinha a
possibilidade de atacar, preferia renunciar a isso para não
deixar a jovem a descoberto.
Conseguiu resistir até que as duas mulheres vieram em seu
socorro. Rebeca, mantendo a bolsa a tiracolo, tinha agora a
espada e o escudo de uma das duas vítimas de Inês, embora
não parecesse saber usá-los. A prostituta avançou decidida,
atraindo a atenção de um dos atacantes de Ricardo. Só então
o normando se adiantou um passo, aproveitando a distração
do adversário para trespassá-lo no flanco.
No mesmo momento Rebeca, consciente de não poder
competir com soldados, livrou-se da espada lançando-a
contra um dos guerreiros ainda vivo. Este não usava malha
de ferro, mas somente um camisão de couro sem mangas; a
arma o feriu no ombro e ele fugiu sem fazer qualquer
tentativa de defesa. O outro não hesitou em lhe seguir o
exemplo.
— Ótima equipe... — comentou Inês, sorrindo. — Podemos
nos oferecer como guarda-costas de algum soberano, e não
de uma mulherzinha amedrontada.. — acrescentou,
encarando Sara com ar de superioridade.
— Esqueça — respondeu Ricardo. — Devemos sair logo
daqui e deixar a salvo estas duas moças.
— Mas, desta vez, você irá depois ao nosso encontro, não? —
quis saber Sara.
— Aqui, ninguém está em condições de prever o que será de
nós daqui a pouco — respondeu resoluto o normando,
virando-se em seguida para Rebeca. — Eu poderia levá-las
para a cidadela, onde estão se refugiando o governador e
todos os cidadãos da parte meridional da cidade. Eles fizeram
acordos com o conde de Toulouse e ninguém poderá tocá-
los. Mas existe o problema do manuscrito. O conde
certamente mandará revistar todo mundo para encontrá-lo.
— De novo esse manuscrito... E então? — interveio Inês.
— Então, devemos nos dirigir a leste e tentar sair por lá.
Depois, toma-se o rumo do Jordão. Do outro lado do rio,
vocês estarão a salvo — explicou Ricardo.
— E você, o que vai fazer? Vai nos deixar lá e voltar para os
adoradores do crucifixo? — insistiu Sara. — Vem até aqui
para me salvar e depois me abandona de novo?
Ricardo achou que não devia responder. Não queria se
rebaixar aos olhos das outras duas mulheres. E eram
mulheres de cujo respeito ele fazia questão. Por outro lado,
não teve oportunidade de dizer alguma coisa.
— Lá estão elas! Ali! — Ouviu alguém gritar pouco adiante, a
nordeste. Olhou na direção de onde provinham os gritos e
viu um pelotão de soldados a pé, um dos quais os apontava.
— É aquele que nós fizemos ir embora do acampamento! —
disse Inês, dirigindo-se a Rebeca. — Depressa, vamos fugir!
— acrescentou, começando a correr, e virando-se somente
para conferir se os outros três a seguiam.
Seguiam.
Inês estava terrivelmente excitada. Jamais se sentira tão viva,
vital, necessária. Já não era um brinquedo para os homens,
mas um perigo para eles. Descobria em si mesma, atitudes de
comando e uma determinação da qual não se acreditava
capaz. Sentia-se importante para aquele grupinho de pessoas.
Longe de odiar Rebeca por tê-la arrastado àquela história,
era- lhe secretamente agradecida.
Não teriam esperanças se a cidade estivesse semi-deserta.
Mas havia pelas ruas uma confusão inaudita: perseguidores,
perseguidos, desvalidos, cadáveres, carcaças de cavalos e
camelos, ruínas, fogueiras, carroças abandonadas, num
mercado caótico onde a única coisa que se podia adquirir era
a morte.
Ricardo tomou Rebeca pelo pulso e a exortou a passar à
frente, a fim de guiá-los. Ela o encarou, perturbada por
aquele contato, e por sua vez segurou a irmã e ladeou Inês,
indicando-lhe o caminho a seguir. Caminhavam
sobressaltados, nunca em linha reta, chocando-se
ininterruptamente contra fugitivos cuja cabeça, instantes
depois, era separada dos ombros por uma espada cruzada.
Rebeca tropeçou num crânio, fazendo-o rolar na direção de
Sara, que se deteve e berrou mais do que havia feito até
então.
Ricardo impeliu a jovem, que reagiu agarrando-se a ele,
quase impedindo-o de prosseguir. O normando olhou para
trás: seus perseguidores estavam próximos, mas no meio
havia uma multidão de indivíduos ocupados em se massacrar
reciprocamente. Ele segurou Sara pela cintura, colocou-a
sobre os ombros e recomeçou a abrir caminho em meio ao
tumulto, arriscando-se a receber uma cutilada destinada a um
árabe que lhe passava ao lado.
Inês também se voltou. O homem que ela enganara no
acampamento parecia o mais decidido na perseguição. Abria
espaço entre as pessoas com ímpeto, ignorando os outros
fugitivos e derrubando até mesmo os companheiros
empenhados na matança. Quando teve a mulher ao seu
alcance, pegou um dardo e lançou-o com toda a força: a
arma foi parar diretamente nas costas de um civil árabe que
tentava escapar de outro cristão, o qual protestou com ele
por ter lhe roubado o prazer de degolar sua vítima. Com
horror, Inês viu que da cintura dele pendiam quatro braços,
macabros troféus amputados de suas vítimas inermes.
Continuaram a correr, desejando não ver o que acontecia ao
redor. Um menino atado à cauda de um cavalo e arrastado na
poeira. Outro com a cabeça esmigalhada entre dois escudos.
Uma pilha de cabeças. Um velho pendurado a uma trave
pelos tornozelos, nu, espancado nas partes íntimas pelas
empunhaduras das espadas. Outro pendurado pelos genitais.
Homens reduzidos a uma pasta pelos cascos dos cavalos.
Homens dentro de uma poça de sangue. Vísceras espalhadas
pelo chão. Uma carroça lotada de objetos sacros. Mulheres
cortadas ao meio na vertical, inclusive com a cabeça partida
em duas metades, como uma maçã. Mulheres ainda vivas
nos braços dos cruzados, mas que prefeririam estar mortas.
Mulheres obrigadas a assistir às torturas contra os próprios
filhos.
Risadas, gargalhadas obscenas e vulgares dos estupradores,
dos assassinos, dos seviciadores. Gritos, urros dilacerantes e
atrozes de suas vítimas.
O horror.
O inferno, pensou Ricardo. Seus companheiros tinham
vindo para ganhar o paraíso e, em vez disso, tinham criado
um inferno. O maior inferno já visto sobre a Terra. E, ironia
da sorte, por certo os padres lhes teriam prometido e
confirmado o paraíso justamente graças àquele inferno.
Quanto mais prosseguiam para leste, mais a tropelia
aumentava. Os muçulmanos fugiam todos naquela direção, e
os cruzados os perseguiam. Os quatro, apertados em meio a
um mar de pessoas, arriscavam até a se perder uns dos
outros. Ricardo exortou Rebeca e Inês a lhe darem as mãos.
Tentaram então avançar em fila indiana, mas a prostituta
acabou indo na frente, Rebeca atrás com a sacola dos rolos e
o normando no meio, ainda levando Sara sobre os ombros.
Desse modo, Rebeca se viu cara a cara com a irmã.
— Você percebeu que Jamal morreu para salvá-la? — gritou.
— Sim, claro que sim, eu percebi. Acha que sou alguma
estúpida?
— Estúpida? Não. Insensível. Sem coração. Como pode tê-lo
ignorado assim? Aquele homem a amava. A ponto de
morrer. E o demonstrou.
— Mas eu não. Eu amo Ricardo, e não posso fazer nada.
— Mas o que isso tem a ver? — emendou Rebeca. — Um
homem morreu para defendê-la. Você pode amá-lo ou não,
mas não pode deixar de ter consideração por ele, de lhe dar
um pouco de atenção na hora da morte! Ele escolheu
morrer, em vez de se salvar!
— Teria morrido do mesmo modo, como todos estes aqui ao
redor. Apenas pensou em ser útil, só isso...
Ricardo não pôde evitar intervir:
— Não foi assim. Ele poderia se refugiar na cidadela com o
governador e salvar a própria vida, por força dos acordos
com Raimundo de Toulouse. — O normando estava
desconcertado.
Sara não respondeu.
Rebeca e Ricardo refletiram.
Inês exortou todos a acelerar o passo.
Estavam no vale do Tyropeion, ao lado do Haram esh-Sherif,
o recinto nobre, como os muçulmanos chamavam a área da
esplanada do Templo. Era ali que a matança estava atingindo
o ápice. Evidentemente, os egípcios tinham se refugiado na
área sacra com a intenção de preparar ali a última defesa, mas
os francos não lhes permitiram isso, alcançando-os antes que
eles pudessem se entrincheirar. Rebeca viu, para além do
muro de sustentação, a cúpula da mesquita al-Aqsa cheia de
gente: homens e mulheres que se agarravam
desesperadamente uns aos outros para não cair lá embaixo,
onde os aguardavam as espadas dos francos. As sete arcadas
do vestíbulo frontal eram um formigueiro de pessoas: sobre
as cabeças delas volteavam espadas e lanças, que com
freqüência desapareciam no tumulto, para reemergir entre
esguichos de sangue.
Uma multidão se concentrava também ao redor da Cúpula da
Rocha, cerca de cem passos mais ao norte. As arcadas de
acesso, das quais, segundo a tradição, eram destinadas a
pender as balanças para pesar a alma dos mortos, estavam
realmente se enchendo de cadáveres. O mármore cinza e as
maiólicas com arabescos que revestiam as paredes externas
estavam respingados de vermelho. A cúpula, cujo ouro
resplandecia à luz já declinante do sol, parecia um astro
prestes a cair sobre a Terra, como sinal do apocalipse em
curso.
Rebeca se perguntou se os prófugos tinham se abrigado
também na caverna subjacente à Rocha, onde se dizia que
Davi, Salomão, Elias e o Profeta haviam pregado. Sem dúvida
os cristãos também os alcançariam ali. Se era verdade que no
Poço das Almas se reuniam as dos defuntos, para rezar à
espera do Juízo Final, os mortos não precisariam percorrer
um longo caminho nem esperar muito tempo.
Pensou que o pobre Jamal a teria considerado blasfema.
Perguntou-se se um dia ainda poderia discutir com alguém
tão brilhante e tolerante. Ou, melhor, perguntou-se se ainda
poderia discutir com quem quer que fosse.
Ricardo a exortou de novo. Pois é, Ricardo. Certo, ele não
dispunha da cultura do emir, mas, em compensação, parecia
ter o espírito igualmente aberto, refletiu ainda, antes de se
concentrar na fuga.
Voltavam-se alternadamente, só para constatar que os
perseguidores não os perdiam de vista, embora não
conseguissem ganhar terreno. Por outro lado, de nada
serviria alcançar uma saída com os olhos deles ainda em suas
costas.
Logo depois, as coisas pareceram se complicar. De sudoeste
avançavam outros cruzados, cuja presença bloquearia, dali a
pouco, o acesso ao setor meridional. Eram os provençais de
Raimundo de Toulouse, explicou Ricardo, os quais
finalmente haviam entrado na cidade depois de dar ao
governador e aos prófugos que o acompanhavam o tempo
necessário para se abrigarem na cidadela. Somente a porção
sudeste do núcleo habitacional permanecia aparentemente
livre, mas convinha ir depressa, antes que a subida das tropas
francas bloqueasse todos os acessos à parte meridional de
Jerusalém.
Rebeca apanhou um tição caído de uma edificação em
chamas. Depois passou à frente do grupo e tomou, sem
hesitações, uma ruela que contornava a esplanada, descendo
para a margem oriental da cidade. Inês a seguiu, enquanto
Ricardo se atrasava um pouco, por causa da obstrução de
alguns civis cristãos que acorriam à área sacra, a fim de
participar do massacre. Alguns passos adiante, Inês se voltou,
e só então percebeu que um dos perseguidores já estava
perto do normando. Viu Sara se contorcer, gritando de
medo, e Ricardo se mover com dificuldade na tentativa de se
defender. Correu para ajudá-los enquanto o soldado
desfechava uma cutilada, que o normando conseguiu evitar
deslocando-se com surpreendente rapidez.
Sara caiu no chão e, na tentativa de se proteger atrás de
Ricardo, rolou entre os pés dele, fazendo-o tropeçar. O
adversário preparou um novo golpe, mas Inês surgiu de
improviso no meio do tumulto e o trespassou no estômago.
— Se tivéssemos deixado você participar do primeiro assalto
— comentou o normando com um sorriso, levantando-se e
ajudando Sara a fazer o mesmo —, talvez pudéssemos ter
conquistado esta cidade logo, sem tantos sofrimentos...
— E talvez nossos companheiros não estivessem tão
exasperados, depois de um mês de assédio, a ponto de se
abandonarem a um massacre destas proporções —
respondeu ela.
— Não conte muito com isso... — replicou Ricardo.
Recomeçaram a abrir caminho entre as pessoas. Enquanto
isso, os perseguidores não desistiam. Pelo contrário:
pareciam até mais numerosos.
— Venham atrás de mim! — gritou Rebeca. Desceu uma
escadaria e se meteu entre os escombros de palácios
imponentes, que haviam pertencido à primeira dinastia
islâmica. Um ou outro fugitivo corria em busca de um
esconderijo contra a fúria homicida dos cruzados, mas, no
conjunto, havia agora pouca gente.
Rebeca circulava entre as ruínas com segurança. Esperava
que a multidão tivesse impedido os perseguidores de vê-los
se desviarem.
Nada feito.
Os soldados ainda vinham atrás. Inês os viu segundos antes
de transpor os restos daquilo que havia sido um muro
divisório entre jardins. Disse isso a Rebeca, que se detivera
para perscrutar as ruínas. Um instante depois, a judia
localizou uma abertura no terreno, exortou-os a segui-la e
desceu uma rampa de degraus irregulares. Ricardo não
hesitou, mantendo-se logo atrás, enquanto Inês ficou
contemplando um pouco o tortuoso vão, amplo e quase da
altura de um homem. Depois deu uma olhada para trás,
percebeu que os perseguidores ainda não estavam à vista e
entrou.
A tocha de Rebeca e a luz débil que se filtrava de fora lhes
possibilitaram continuar bastante expeditos, apesar das
contusões e dos arranhões que o contato com as estreitas
paredes de pedra e com os seixos lhes provocavam.
Enfrentaram com a mesma decisão uma nova rampa, para,
em seguida, desacelerar somente ao fim dos degraus; alguns
passos adiante, o túnel pareceu se alargar, permitindo que
Ricardo ladeasse Rebeca.
— Você sabe aonde estamos indo? — cochichou.
— Só sei que daqui a pouco vamos descer mais e recomeçar a
caminhar. A certa altura, haverá uma espécie de bifurcação:
à direita, chega-se logo à fonte de Gihon, e à esquerda toma-
se uma galeria comprida que leva ao exterior, até a piscina de
Siloé. Talvez alguém já tenha vindo de fora para buscar água,
assim é melhor irmos para a piscina — respondeu a moça.
— Como é que você conhece estes túneis?
— Muita gente os conhece aqui em Jerusalém. Eles existem
há tempos imemoriais, para permitir aos habitantes, em caso
de assédio, tirar água da fonte, que se situa fora das muralhas.
Prosseguiram rapidamente, graças à largura maior do túnel,
mas, nos pontos onde o declive era mais forte, os degraus,
apenas esboçados na rocha e consumidos pelo tempo,
obrigavam-nos a desacelerar. De novo, uma luz flébil surgiu
diante deles. Desta vez, vinha de baixo. Um buraco
vagamente redondo no terreno. Rebeca entrou
cautelosamente por ali, procurando encontrar uma sólida
base de apoio para os pés e protuberâncias na rocha às quais
pudesse se agarrar. Inês a seguiu imediatamente, enquanto
Ricardo cuidou de Sara, que olhava a borda da voragem com
um misto de medo e repulsa. O normando pegou a jovem
pelas axilas, e só então ela pareceu se tranqüilizar, deixando-
se conduzir docilmente para baixo, onde as mãos robustas de
Inês se aprestaram a sustentá-la. Finalmente, Ricardo
também desceu, e só então Rebeca retomou a caminhada,
guiando a fila ao longo de um túnel cujo teto baixo obrigava
o normando e a francesa a baixarem a cabeça.
Estavam com água até os joelhos, e a largura da galeria só
permitia a passagem de uma pessoa por vez. Sara não
demorou a claudicar, obrigando o resto do grupo a reduzir a
marcha.
O teto, agora, era mais alto.
— Por que não leva de novo nos braços essa aí? — propôs
Inês a Ricardo, sem tratar de esconder o despeito. O
normando não disse uma palavra; deteve-se para esperar
Sara, tentando observar os traços dela na sombra. Se a
escuridão não tivesse tornado indefiníveis as expressões, a
jovem perceberia que o homem por quem suspirava a estava
olhando com pena. Fosse como fosse, ele a segurou com
delicadeza e carregou-a novamente nas costas, recomeçando
a caminhar. O nível da água se elevou progressivamente,
sem, no entanto, ultrapassar a cintura.
As respirações ofegantes que ecoavam no túnel, o barulho
dos passos e o rumor da água impediam de perceber
qualquer rumor que não fosse produzido por eles mesmos;
no entanto, não parecia que os perseguidores tivessem
intuído a direção que os quatro haviam tomado.
Mesmo assim, mantinham-se bem atentos a não produzir
sons e ruídos fortes demais, para evitar assinalar sua presença
a quem estivesse atrás ou adiante. Ricardo começava a sentir
o peso de Sara, que se agarrara a ele com força. Isso
contribuía para tirar o fôlego do normando, e o
comportamento da jovem, contraposto à atitude decidida e
resoluta das outras duas mulheres, deixava-o menos
determinado e convicto.
A certa altura, Ricardo pisou em falso. Perdeu o equilíbrio e
deixou cair a moça, que, por sua vez, foi parar na água.
Apavorada, Sara gritou. Seu grito ribombou por todo o
conduto, dando a impressão de que poderia se propagar até a
superfície.
— Se nos pegarem, saberemos a quem agradecer... —
comentou Rebeca, cuidando de se fazer ouvir pela irmã, que
Ricardo estava ajudando a se levantar.
— Você acha mesmo que eu sou uma inútil, um peso para os
outros, uma ingrata e insensível, não é? — gritou-lhe Sara,
com raiva.
Rebeca não respondeu. Inês virou a cabeça para o outro
lado.
— Claro. Nem precisa falar. Sua expressão já é bastante
eloqüente — continuou Sara. — Mas, se me despreza tanto,
por que veio me salvar?
— Você é minha irmã. E tudo que me resta — respondeu
finalmente Rebeca, olhando Ricardo por um instante.
O normando sustentou o olhar.
— Não sou tão má quanto você acredita. Apenas tenho muito
medo. De tudo. Inclusive de ficar sozinha — justificou-se
Sara.
— Eu também estou começando a ter medo; se não
apressarmos o passo. Se eles tiverem nos ouvido, não
demorarão a nos alcançar — interrompeu-os Inês,
impaciente.
Sua declaração decidida encerrou a discussão. Recomeçaram
a caminhar um atrás do outro, Sara por último, dando a mão
a Ricardo. Avançaram assim sem outros incidentes ou
ameaças, enquanto o túnel se tornava cada vez mais alto,
mas também mais estreito. As paredes pareciam querer
esmagá-los e o espaço para a passagem parecia delineado para
uma figura humana. Depois, um vislumbre de luz apareceu
diante deles. Rebeca apressou o passo e a luz se tornou cada
vez mais intensa, até que os cobriu de todo.
Caminhando finalmente sobre uma base estável de pedra
aparelhada, com a água correndo ao seu lado por um canal
estreito, chegaram à abertura semicircular do túnel. Estavam
na piscina de Siloé.
Avançando ao longo da borda interna, que mal aflorava da
água, subiram a rampa de íngremes degraus à esquerda,
lentamente, com muita cautela. Diante deles, o vale do
Cedron e, ao fundo, o monte do Escândalo. O sol já se
encontrava atrás da escarpa e das muralhas de Jerusalém; dali
a pouco, viria o ocaso. Olharam para a direita, na direção do
vale da Geena, e não viram ninguém. À esquerda, um
esporão de rocha.
E um cavalo.
Dois cavalos.
Na sela, outros tantos cavaleiros, os elmos com a viseira
abaixada, escudo, cota imaculada, lanças com estandarte.
O estandarte de Toulouse.
Atrás dos dois cavaleiros, um punhado de infantes.
Rebeca se sentiu confusa. Instintivamente, fez menção de
voltar para o túnel, mas topou com Ricardo, que vinha logo
atrás.
— É inútil. Estamos diante do conde Raimundo de Saint-
Gilles — disse o normando, fitando seu comandante.
Ouviram passos ressoarem no túnel. Cada vez mais
próximos. Cada vez mais fortes. Surgiu do lado de fora um
soldado. Era o guarda do recinto dos prisioneiros. Sempre
ele. Reconheceu Rebeca e Inês. Notou que a primeira
carregava a sacola.
— Aí está o que o senhor procurava, duque! Nas mãos dessa
judia suja! — gritou, erguendo a espada sobre a cabeça de
Rebeca.
A lâmina desceu. Sara gritou "Não!", interpondo-se entre a
arma e a irmã.
O golpe partiu ao meio a cabeça de Sara.
Rebeca soltou um berro.
Inês apontou sua espada para o soldado.
Ricardo acolheu com a ponta da própria espada um outro
armígero que subia da piscina.
Godofredo de Lorena.
Um dos dois cavaleiros apontou a lança para Ricardo.
— Pare! — gritou o outro cavaleiro. Era Raimundo. Fez o
animal avançar até o normando, enquanto outros soldados
saíam da galeria.
— Você me salva e depois me trai, Ricardo? — inquiriu o
conde, levantando a viseira do elmo e fitando seu lugar-
tenente.
Ricardo não soube como reagir. Muitas emoções juntas, até
para um cínico como ele: surpreendido em flagrante pelo
seu comandante, acuado por Godofredo de Lorena, obrigado
a assistir à morte da mulher a quem acreditara amar.
Baixou os olhos, envergonhado, e pousou-os sobre o cadáver
dilacerado de Sara, que Rebeca, de joelhos e em prantos,
segurava entre os braços.
— Essa gente está com aquilo que o sumo pontífice nos
encarregou de procurar — declarou Godofredo, encarando
primeiro Raimundo e em seguida Inês, a quem dirigiu um
olhar de desprezo.
— Eu sei. Quem me contou foi justamente um deles —
respondeu calmamente o conde de Toulouse. — E pensar
que o senhor não conseguiu extrair essa informação, nem
mesmo torturando aquele pobre padre... — acrescentou,
manifestando sua desaprovação à atitude do duque.
— Tão pobre e tão piedoso que escondeu documentos que
podiam prejudicar a Santa Madre Igreja. Mereceu tudo que
aconteceu a ele — replicou Godofredo, sem se alterar.
— Um momento... Como os senhores souberam? —
interrompeu-os Ricardo.
— Seu amigo bizantino. Aquele Emanuel... — respondeu
Raimundo. — Ele foi me procurar ontem à noite. Estranho,
não? Em vez de se apresentar ao comandante a quem estava
subordinado... Vê-se que torturar padres não lhe serviu de
nada, duque — prosseguiu, virando-se para Godofredo. —
Mas, ao que parece, o senhor veio à saber do mesmo modo...
— acrescentou.
Godofredo se dignou a explicar:
— Eu estava rezando no Santo Sepulcro quando meus
homens me informaram que essa puta — e, naturalmente,
apontou Inês — havia entrado no perímetro com sua amiga
judia. Mandei segui-las e depois fui ao encontro dos
soldados...
— Não posso acreditar que Emanuel tenha nos traído... —
disse Rebeca, ainda soluçando.
— E eu não posso acreditar que fui traído pelo meu lugar-
tenente — replicou Raimundo. — Mas não creio que vocês
devam considerar traidor aquele bizantino. Ele estava
convencido de que vocês não tinham escapatória e me
confidenciou quem escondia os rolos. Em troca, obteve
minha palavra de honra de que não lhes faria nada; foi por
isso que ele não o procurou, duque Godofredo. Deve ter
pensado que a palavra de um torturador de padres não tinha
o menor valor. Era um homem honesto, e creio que esse
manuscrito constituía para ele um grande peso; tinha vindo a
Jerusalém para buscar Deus e certamente achou que negar à
Igreja um documento desses não combinava com seus
propósitos.
— Você deu sua palavra, mas eu não! — exclamou
Godofredo, dando um passo em direção a Rebeca, com a
espada desembainhada. — Eu mato esses três, como cães!
Principalmente essa puta, que me enganou desde o primeiro
momento! — acrescentou, fitando Inês.
A prostituta sustentou o olhar, mas não falou.
Raimundo fez seu cavalo avançar, colocando-se entre o
duque e os outros.
— Você não vai matar ninguém — declarou, gélido,
bloqueando o braço de Godofredo com a haste de sua lança.
— Para mim, é questão de honra. Não somente fiz a
promessa ao grego, mas também impediria você de qualquer
maneira, pelo homem que me salvou a vida duas vezes. Eles
nos entregarão os manuscritos e nós os deixaremos ir.
Godofredo fez um gesto de irritação e refletiu por alguns
instantes.
— Só se for eu a entregá-los ao sumo pontífice — disse,
afinal.
Desta vez, foi Raimundo quem refletiu.
— Está bem — respondeu, voltando-se em seguida para o
normando. — Ricardo, agora estamos empatados.
Em seguida se dirigiu a Rebeca. Não falou nada. Limitou-se a
estender o braço, esperando a bolsa.
Rebeca ainda mantinha entre os braços o cadáver da irmã.
Por alguns instantes, não se moveu. Olhou a mão do conde.
— Não... não fomos nós, judeus, que matamos seu deus... —
disse.
Ricardo a encarou, lívido. Mesmo naquelas circunstâncias,
ela
ainda se metia a fazer polêmica.
— Mulher, minha paciência tem limite. Entregue-me esta
bolsa — retrucou Raimundo.
— É a única esperança para nós, judeus. A única esperança
de não continuarmos sofrendo perseguições.
— A Santa Madre Igreja deve tutelar sua integridade — disse
o conde. — Sobretudo agora que a cristandade assumiu
novamente a responsabilidade por estes lugares sacros. Seu
povo, minha jovem, sofreu muito pela culpa de seus
antepassados, não nego. Infelizmente, até mesmo a fé mais
branda encontra aplicações imperfeitas, por causa da
falibilidade dos seres humanos. Mas uma religião que invoca
a fraternidade universal é o melhor modelo ao qual um
homem pode tender, ainda que jamais consiga alcançá-lo.
Agora, peço-lhe pela última vez: entregue-me essa bolsa.
Rebeca refletiu. Olhando a embocadura do túnel, viu que
havia um respiradouro livre para entrar na piscina. Moveu-se
rapidamente e, insinuando-se entre Godofredo e um dos
soldados dele, aproximou-se do fluxo de água.
— Prefiro jogá-la na água e arruinar os rolos — disse,
ameaçando deixar cair a sacola.
Raimundo não se alterou. Disse apenas:
— Mesmo assim, obteremos nosso objetivo, não acha?
Godofredo esboçou um sorriso depreciativo.
— Nesse caso, eu já não me sentiria vinculado por nenhum
acordo e tiraria uma bela satisfação... — disse por sua vez,
lançando uma olhada eloqüente para Inês e acariciando a
lâmina da espada.
Rebeca refletiu um pouco mais. Pensou em Emanuel, em
Jamal, em Firuz, em Anselmo, em Sara, em seu pai. Aqueles
rolos haviam causado demasiadas vítimas entre as pessoas
que lhe eram caras, direta ou indiretamente. Ela não
conseguiria suportar outros mortos.
Estendeu o braço com a sacola para Godofredo, que arrancou
das mãos dela o objeto. Depois de examinar avidamente o
conteúdo, o duque fez um aceno aos seus soldados.
— Vamos embora — disse. — Não temos mais nada a fazer
aqui. — E se afastou pelo vale da Geena.
Os homens que haviam ficado se entreolharam. Após alguns
instantes de silêncio, Raimundo se debruçou na sela e,
esboçando um sorriso, perguntou:
— E vocês, o que farão agora?
Inês era quem tinha as idéias mais claras.
— Meu senhor — respondeu —, eu gostaria de continuar
como soldado. Peço permissão para me unir às suas tropas e
servi-lo, com uma fidelidade que não lhe trará
arrependimento.
Raimundo a observou um pouco e assentiu:
— Que seja — disse, virando-se em seguida para Rebeca. —
E você, judia?
Rebeca hesitou.
— Antes de mais nada, vou sepultar minha irmã. Ela me
salvou a vida, e eu jamais a suporia capaz de semelhante
gesto. Depois, creio que devo me afastar de Jerusalém.
Talvez volte para a Europa, para o Reno... — concluiu.
Raimundo encarou Ricardo, que acompanhara com atenção
as respostas das duas mulheres. E isso não havia escapado ao
conde, que disse:
— Naturalmente, você pode continuar servindo no meu
exército, na mesma função que exercia antes. Eu lhe
confiarei um pequeno feudo aqui na Terra Santa. Mas, se não
quiser continuar combatendo conosco, não vou censurá-lo.
Então lhe darei um prêmio em dinheiro e o deixarei ir para
onde quiser. — E se dispôs a esperar a resposta.
Ricardo hesitou, olhando ora uma, ora outra mulher,
dispostas respectivamente à sua direita e à sua esquerda.
Inês se colocou de perfil, assumindo uma postura
veladamente provocante e fitando-o demoradamente com
um sorriso convidativo, antes de olhar para o outro lado.
Rebeca lançou a Ricardo apenas uma olhada fugidia,
baixando a cabeça assim que cruzou com a mirada dele, sem
se mover nem falar, embora esboçando um sorriso
encabulado.
Ricardo perscrutou Inês, observando seu porte altivo, o rosto
sem defeitos, a cintura alta e os ombros largos, os cabelos
longos e ondulados que lhe desciam pelas costas e sobre os
seios proeminentes. Depois observou Rebeca, seus cabelos
presos, o nariz pronunciado, o queixo pontudo, as costas
encurvadas, os fianças largos demais.
Os olhos intensos.
O espírito indômito.
O normando voltou o olhar para o alto, na direção das mura-
lhas. Colunas de fumaça subiam além dos merlões, gritos
atroavam no vale, clangores de armas ressoavam no ar.
Jerusalém tinha caído.
Mas não era o fim. Haveria mais incêndios, mais gritos, mais
clangor de armas.
O massacre estava só no início. E também a luta contra os
reinos islâmicos estava só no início.
Não para ele, porém. Sua busca estava concluída.
— Creio que irei para a Europa — disse afinal, aproximando-
se da judia.
EPÍLOGO
Judéia, 107 d.C.
Zoker sabia não ter mais muito tempo de vida. Recordou
aquela noite de trinta e sete anos antes, quando, pela
primeira vez, tinha visto homens crucificados. Centenas de
homens crucificados. Naquele momento, espantara-se com a
absurda vontade de sobrevivência deles, que os levava a
fazer força sobre as pernas, soerguer a caixa torácica e
continuar respirando, mas conseguindo apenas prolongar o
suplício e os sofrimentos.
E agora ele estava fazendo o mesmo. Fizera-o por todo o dia
anterior e durante a noite, desde quando os solertes
funcionários do imperador Marco Ulpio Trajano o tinham
pregado à cruz, ao lado de seu irmão Tiago. Este havia
sucumbido logo, justamente como o Messias, o tio Jeshua.
Na realidade, o que o espantara não tinha sido a brevidade da
agonia de Tiago, mas a demora da sua: o estilo de vida,
enquanto nazireus, tornara-os bastante longevos, e tais
padecimentos destroncariam corpos bem mais jovens, que
havia muito tempo tinham deixado para trás a idade em que
os homens já podiam se considerar velhos.
Pela enésima vez, impeliu para cima as panturrilhas
entorpecidas, alavancando-se sobre o cravo que lhe
perfurava ferozmente os tornozelos. Arqueou o esterno,
arfando para inspirar. E recomeçou a esgotar o ar,
perguntando-se por quanto tempo resistiria desta vez.
A lembrança daquela noite entre os crucificados, diante das
muralhas de Jerusalém, conduziu-o mentalmente àquilo que
acontecera no perímetro interno. À corrida pelas galerias, a
fim de escapar da sentinela romana, ao encontro com os
zelotas, à chegada à casa de Simeão. A imagem que seu olhar
havia captado acompanhara-o por todo o resto da vida, e
Zoker tinha certeza de que ela se reapresentaria até mesmo
no momento, já próximo, em que ele fecharia os olhos para
sempre.
Ainda via Simeão, o primo de seu pai, crucificado, embora
com cordas, nas traves do teto, assim como o carrasco
tentando extorquir dele o segredo do manuscrito de Tiago, o
Justo. E via também a si mesmo, jovem e atlético, recuperar-
se da surpresa e se lançar contra aquele homem,
imobilizando-o e desarmando-o.
Lançara-lhe uma chuva interminável de acusações, aquelas
que lhe reservava havia anos e aquelas às quais o incitavam
as circunstâncias do momento. E, por fim, aquelas
provocadas pela reação daquele homem, pela extraordinária
dialética e pela força impressionante que ele sabia dar às suas
palavras, a ponto de ter sabido impelir até Tiago, o Justo, a
rever as próprias posições e chegar a um compromisso sobre
a difusão da Boa-Nova.
Zoker ouvira-o admitir que não se opusera à execução de seu
patriarca e, pior, que até assistira ao suplício, ao lado do
sumo sacerdote Anano. Ouvira-o vangloriar-se de ter
ajudado os romanos a superar os obstáculos para a conquista
de Jerusalém, indicando-lhes a melhor estratégia e os setores
mais débeis.
Tinha desejado matá-lo, por todas aquelas traições: aos seus
chefes, à sua fé, ao seu povo.
No entanto, não pudera evitar deixá-lo falar ainda mais. E
não esquecera as palavras dele, interrompidas por um projétil
romano caído sobre a casa, o que lhe permitira fugir com
Simeão e o memorial.
— Uma religião deve unir, e não dividir — dissera o
homem, antes de desaparecer entre os escombros do teto
derrubado. — Uma religião deve salvar, e não condenar. O
pacto entre Yahvé e Moisés criou uma contraposição entre
Israel e os outros povos. A Nova Aliança de Cristo reúne os
povos sob o único Deus, irmana todos os homens em Jesus
Cristo. Por que o Senhor deveria se submeter ao sacrifício da
cruz para resgatar um povo que já era escolhido por Deus?
Não, o Salvador sofreu e se imolou para que todos pudessem
ser salvos. Todos! Pelo pecado de um só, Adão, todos foram
constituídos pecadores; e agora, pelo sacrifício de um só,
Jesus Cristo, todos serão salvos!
"Cristo me investiu da missão de fazer vocês superarem o
zelo estéril por obras e preceitos que os escravizaram, para
convidá-los a praticar, guiados pelo influxo do Espírito, o
amor, a caridade, a alegria, a paz, a mansidão, a fidelidade e a
bondade. Se a Lei fosse essencial à salvação, o sacrifício de
Cristo seria inútil. Lembra-se do que Deus disse a Abraão?
'Em ti serão abençoadas todas as gentes."
Conseqüentemente, todos aqueles que têm fé são
abençoados junto com Abraão. Deus concebeu a vinda e a
morte vicária de Jesus Cristo para lembrar a vocês que o que
importa para a salvação é a fé, e não as obras, e que todos
podem ser salvos, e não somente o povo de Israel!
"Eu falo pela autoridade não de um profeta, não de um
messias, mas do filho de Deus. Porque somente Deus pode
conceber e promover uma fraternidade universal; qualquer
outro homem, por mais extraordinário que seja, não pode
unir todas as gentes. Por conseguinte, Jesus é Deus. O pacto
mosaico, Jerusalém, o próprio Israel são apenas partes de um
todo, que os hebreus gostariam de transformar em
obstáculos, e é necessário removê-los para que a mensagem
de Cristo chegue a todos. Cristo é o sinal de que Deus
decidiu ocupar-se de todos os homens, e não só dos
israelitas! Cristo é o testemunho, perante todo o mundo, de
que Deus é Deus, e não um dos romanos, gregos, egípcios ou
persas!
"Vocês, com seu mesquinho apego às tradições, com seu
nacionalismo e a intolerância que demonstraram,
condenariam Cristo ao esquecimento e transformariam a
crença nele em uma religião de poucos e perseguidos eleitos.
Vocês tiveram nas mãos a salvação do mundo, mas seus
preconceitos os impediram de reconhecê-la! Deixaram-se
abater pela crucifixão do Senhor, sem compreender que a
salvação da humanidade extrai justamente dela a sua origem!
"Graças ao que Ele me transmitiu, pude enfim interpretar o
significado do sacrifício de Jesus Cristo e transformar uma
derrota em uma vitória!
"Eu sou Paulo de Tarso, o ministro da reconciliação, a quem
vocês deveriam agradecer, se aquele que está ligado a vocês
pela carne for conhecido por todos como Deus, e não como
um messias de Israel! E é a mim que devem agradecer se
ficarem livres do fardo do pecado, a morte, e tiverem a vida
eterna!
POSFÁCIO
A história da Igreja primitiva encontrou seu principal
cronista em Eusébio, bispo de Cesaréia e conselheiro
espiritual do imperador Constantino, o Grande. Pelo menos,
sua História eclesiástica é a mais rica entre as coletâneas de
fontes sobreviventes, permitindo-nos fazer uma idéia da
evolução do cristianismo nos três primeiros séculos de sua
existência. Entre outras coisas, Eusébio escreve que, durante
o reinado de Trajano, foram crucificados dois descendentes
de um irmão de Jesus chamado Judas. Fornece até os nomes
deles: Tiago e Zoker, assegurando também que eles
"presidiram a todas as Igrejas como testemunhas e membros
da família do Senhor". Por outro lado, o mesmo autor refere
várias notícias sobre Tiago, o Justo, "irmão do Senhor",
derivando-as em grande parte das Memórias de Hegésipo,
uma obra que lamentavelmente se perdeu.
Mas, afora Eusébio de Cesaréia, na Igreja primitiva muitos
falaram de Tiago, o Justo, e dos irmãos de Jesus. Na abertura
de cada parte deste romance, transcrevi algumas das fontes e
das citações existentes, que extrapolei de uma coletânea bem
mais ampla, privilegiando aquelas extraídas dos textos
canônicos. Em particular, a tradição que identifica em Tiago
o sucessor de Jesus, o primeiro bispo de Jerusalém e, por
conseguinte, em substância, o primeiro papa, em vez de
Pedro, é por demais difundida nos Evangelhos apócrifos e
entre os Padres da Igreja para ser apenas uma mera invenção
posterior. O Evangelho de Tomé é um exemplo disso. Nele,
lê-se: "Os discípulos disseram a Jesus: 'Sabemos que tu nos
deixarás: quem será grande acima de nós?' Jesus lhes
respondeu: 'Aonde fordes, seguireis Tiago, o Justo, aquele
por motivo do qual foram criados o céu e a terra.'"
Por outro lado, entre os Evangelhos canônicos somente o de
Mateus relata a bem conhecida investidura de Pedro por
parte de Jesus. Depois, com a destruição de Jerusalém e a
transferência de Pedro para Roma, teria prevalecido a
tradição que fazia justamente de Pedro o primeiro sucessor
de Cristo, sancionando a preeminência da cidade capitolina.
De passagem, vale a pena assinalar que, seja num texto
canônico como a Epístola aos Gálatas, de são Paulo, seja num
apócrifo como as Homílias clementinas, o próprio Pedro
pareceria subordinado a Tiago.
Portanto, é bem compreensível que a existência desse Tiago
e de seu papel represente até hoje um problema. Tratava-se
de uma figura verdadeiramente importante da Igreja
primitiva, de um personagem demasiado incômodo para
encontrar lugar na tradição canônica.
Igualmente palpável é o conflito que surgiu, logo após a
crucifixão de Jesus, sobre a atitude a manter quanto à
evangelização. Ao que nos parece entender, a comunidade
de Jerusalém, presidida por Tiago — mas talvez não só por
ele —era favorável à difusão da mensagem de Cristo apenas
entre os circuncidados, ou seja, o povo hebraico; outros,
provavelmente aqueles menos ligados ao ambiente palestino,
ou seja, os hebreus helenizados, encabeçados por são Paulo,
queriam uma difusão também entre os gentios não
circuncidados. Além disso, com base nas indicações das
fontes, devemos considerar provável o pertencimento dos
parentes de Jesus — qualquer que fosse o grau de parentesco
que os ligava a Cristo — à facção que poderíamos definir
como "perdedora", isto é, a dos nacionalistas.
A queda de Jerusalém nas duas revoltas sucessivas entre os
séculos I e II d.C. deve ter representado uma guinada na
evolução do cristianismo; seguramente, sua matriz judaica,
de início predominante, redimensionou-se até se limitar a
alguma seita marginal, com epicentro bem distante dos
lugares que realmente importavam. Sobreviveu apenas o
judaísmo de algum modo tolerado pelos dominadores
romanos, ou seja, o rabínico e o cristão de tendência
universalista/pacifista, já desprovido das conotações
subversivas que haviam acompanhado o início do
movimento. Sua afirmação acabou por redimensionar a
responsabilidade dos romanos na morte de Jesus,
amplificando a dos compatriotas dele: uma operação
espontânea desde a Diáspora, e provavelmente tornada
consciente e programática a partir do momento em que o
cristianismo se tornou religião oficial do Império Romano.
No que se refere a são Paulo, que teve tão grande papel na
construção da nova religião, devemos admitir, com Riccardo
Calimani (Paolo, 1'ebreo che fondò il Cristianesimo,
Mondadori, Milão, 1999), que seu destino permanece
envolto na lenda. No final do século II d.C., Tertuliano
escreve que ele morreu decapitado em Roma; mais de um
século depois, Eusébio de Cesaréia parece confirmar isso,
mas situando o episódio numa data mais tardia. E pouco
demais para levar em conta essa informação, o que me
ofereceu a possibilidade de imaginar um encontro entre
Paulo e Zoker em Jerusalém, durante o assédio de Tito.
Por fim, o Jesus histórico e o desenvolvimento do
cristianismo dos primórdios são temas de estudos
relativamente recentes, mas que já contam com uma vasta
bibliografia. Na Itália, cabe a Corrado Augias e Mauro Pesce,
com Investigação sobre Jesus (Bertrand Brasil, 2011), o
mérito de terem trazido esses aspectos à atenção do grande
público, traduzindo para uma linguagem compreensível as
doutas indagações de exegetas e biblicistas, peritos e
especialistas de várias confissões, autores de textos
francamente árduos para o curioso comum, mas também
para o crente que se considere conhecedor das Escrituras.
E o debate sobre a natureza dos indivíduos citados como
irmãos e irmãs de Jesus se encaminha cada vez mais para um
reconhecimento deles como irmãos de sangue. Não somente
exegetas protestantes, mas até insignes estudiosos católicos,
como J. P. Meir, professor na Catholic University of
America, ou ainda o dominicano François Refoulé, diretor
da Escola Bíblica de Jerusalém, não tiveram dificuldade em
admitir isso.
Quanto a Tiago, enfim, sua figura vem se revalorizando
progressivamente, após milênios de olvido. Para este
romance, fui tentado a utilizar as corajosas teorias de Robert
Eisenman, expostas na circunstanciada obra James, the
brother of Jesus (Penguin, 1998); contudo, por mais
brilhantes e engenhosas que sejam, considerei-as demasiado
temerárias, e teria sido francamente difícil expô-las e
motivá-las numa obra de ficção. Mais equilibrado, em
contraposição, pareceu-me o volume de Pierre-Antoine
Bernheim, Tiago, irmão de Jesus (Record, 2003), bastante
cauteloso em sua exposição, tanto que não desagradará a
quem quer que se considere ofendido por estudos de tal
gênero.
Bertrand Brasil, 2011.
Também chamada "Cruzada dos Nobres" ou "dos Cavaleiros". As populares se
tornaram conhecidas igualmente por "Cruzadas dos Mendigos". (N. T.)
Askenaz — filho mais velho de Gômer (Gen 10,3); seus descendentes formam os citas (Jer. 1,27). Na
literatura posterior, o nome Asquenaz denota os povos germânicos Rifa e Torgarma. (N. do E.)
Espécie de calção largo, de comprimento até os joelhos. (N. T.)
O mesmo que balestras. (N. T.)
Grande escudo de madeira movimentado sobre rodas ou cilindros, usado para resguardar grupos de
soldados. (N. T.)
Braço lançador. (N. T.)
Diminutivo de carpine (em português, "carpino" ou "carpa"), árvore da família das betuláceas. (N.
T.)
Ou fogo sagrado, fogo de santo antão. Trata-se do ergotismo, doença causada pelo esporão-do-
centeio (Claviceps purpurea), fungo que pode infectar cereais comestíveis. (N. T.)
Antigas máquinas bélicas de arremesso. (N. T.)
11 Antiga máquina de guerra para lançar pedras. Neste romance, o autor também usa o termo
(petriera, em italiano) para se referir às que arremessavam projéteis incendiários. (N. T.)
Área destinada às mulheres. (N. T.)
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Edgar Madruga
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Salvador/BA
Lançamento Gênesis do Conhecimento Jerusalém - Andréa Frediani links ao final da mensagem digitalização, formatação e revisão - Lucia Garcia agradecimentos pela doação do ebook para o Memorial do Conhecimento Sinopse: Jerusalém, 70 d.C. Um jovem, membro da família de Jesus, salva as memórias escritas por Tiago, irmão de Cristo, da devastação romana promovida por Tito. Mais de mil anos depois, o manuscrito reaparece, em Mogúncia, nas mãos da comunidade hebraica, que pretende usá-lo como prova da absoluta inocência dos judeus na morte de Jesus. Agora, em 1099, enquanto a cidade é assediada pelos cruzados, o precioso documento está novamente em Jerusalém, onde os chefes cristãos o procuram a fim de impedir que a mensagem provoque uma cisão no cerne da Igreja. Oito destinos se entrelaçam à sorte do memorial de Tiago: duas irmãs judias, sobreviventes ao pogrom dos cruzados na Germânia; uma prostituta semipagã e um monge cluniacense que escaparam do desastroso epílogo da cruzada de Pedro, o Eremita; um emir árabe e três ex-combatentes da Batalha de Manzikert: um normando, um bizantino e um turco. Entre perseguições e assaltos, segredos e confissões, os oito personagens lutam e combatem pela Cidade Santa, e também para resgatar as sombras do próprio passado. Assim, terminam por ter de proteger a si mesmos e aos que amam do assédio e das ambições dos chefes da expedição cruzada, além de manter a dignidade e a humanidade, malgrado o impiedoso fanatismo e a intolerância que os circundam. Reconstruído com vívido realismo, tanto nos episódios sangrentos como nas sombrias motivações dos agentes do conflito, ganha corpo o choque entre duas religiões, a cristã e a muçulmana, o qual cresce em ferocidade dia após dia, até o insensato massacre final.
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