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O Século XX na Literatura portuguesa

16 DE FEV DE 2010
O século XX

A fase de decadência que a monarquia atravessava deixava já antever
mudanças políticas (a implantação da República parecia inevitável) que
levaram a cogitações
sobre o destino dum país longe da grandiosidade doutras eras. Tal
contemplação do passado confundia-se compreensivelmente com um
sentimento de saudade
que, no início do séc. XX, é mais do que um recurso literário e se
torna mesmo um conceito filosófico.
Teixeira de Pascoaes (1877-1952) será o principal mentor desta
corrente literário-filosófica, cuja doutrina estabelece em obras como
Marânces (1911) e
Elegia de Amor (1924).

A revista Águia, lançada por Pascoaes e editada entre 1910 e 1930,
será a primeira de uma série de publicações literárias periódicas onde
se vão encontrar
os nomes mais significativos e inovadores da literatura portuguesa dos
primeiras décadas do novo século.

Uma das mais efémeras mas mais relevantes seria Orpheu, cujo primeiro
número surgiu em 1915 e iria divulgar em Portugal o Modernismo
europeu, concretamente
o Futurismo de Phillippo Marinetti, autor italiano partidário duma
"actualização" da literatura e da arte em geral em relação aos novos
tempos de progresso
tecnológico.

Os primeiros mentores da Orpheu foram Fernando Pessoa (1888-1935),
Mário de Sá-Carneiro (1890-1915) e Almada Negreiros (1893-1970), o
mais provocador e
versátil de todos, nome também prestigiado das artes plásticas.

Sá-Carneiro publicou alguns contos, mas tornar-se-ia conhecido
sobretudo como poeta. Dispersão (1914) revela logo no título a
dificuldade de concentração,
a pluralidade de opções com que o seu interior se confrontava,
anunciando já o termo trágico que daria à sua vida.

Fernando Pessoa nunca viria a conhecer em vida uma ínfima parcela da
fama de que, décadas depois da sua morte, a sua obra seria alvo. Caso
único na literatura
mundial, Pessoa foi além da sua própria personalidade enquanto
escritor e criou uma série de heterónimos, autores por si imaginados,
com estilos próprios
e diferentes atitudes perante a vida.

A Fernando Pessoa, ele próprio, terá de chamar-se, em literatura,
ortónimo, isto é, autor de textos assinados com o seu nome; são em
grande parte poesia
de carácter filosófico, centrada no mistério da vida. Mensagem foi o
único livro que viu publicado (em 1934) e contém uma abordagem
messiânica de aspectos
da história de Portugal, envolta num grande misticismo.

O primeiro dos mais conhecidos heterónimos criados por Fernando Pessoa
foi Alberto Caeiro, campesino pouco instruído, detentor duma sabedoria
muito própria,
duma capacidade de análise muito natural, mas nem por isso menos
profunda. Álvaro de Campos, a que Pessoa atribui a profissão de
engenheiro naval, é o
arauto do mundo novo, mecanicista, onde o progresso é visível em cada
nova máquina que irrompe na paisagem. As suas odes oscilam entre o
entusiasmo pelas
transformações que marcam as primeiras décadas do novo século e um
certo tédio e desencanto perante a sua própria incapacidade de mudar o
(seu) mundo.
Curiosamente definido (biografado) por Pessoa como um monárquico
exilado no Brasil, Ricardo Reis é um médico apaixonado pelos clássicos
cujos poemas combinam
um carácter morigerador com a defesa da liberdade de cada indivíduo.

Camilo Pessanha (1867-1926) é o primeiro verdadeiro poeta simbolista
português, com uma produção marcada por um ritmo e uma musicalidade
invulgares.

Ex-colaboradores da revista Águia juntaram-se para dar início a uma
nova publicação literária, Seara Nova, que, entre 1921 e 1982, se
tornou especialmente
conhecida pelos ensaios (não só sobre literatura) que as suas páginas
acolheram. Dos vultos inicialmente ligados a esta publicação merecem
destaque o historiador
Jaime Cortesão (1884-1960), o escritor Raul Brandão(1867-1930),
expressionista que se preocupou em dar voz aos menos favorecidos,
descrevendo as suas difíceis
condições de vida, e que obteve alguma popularidade com Os Pescadores
(1923), Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), escritor que foi também
presidente da
república, e Aquilino Ribeiro (1885-1963).

Aquilino Ribeiro imprimiu um tom regionalista aos seus romances a par
duma linguagem riquíssima. O Malhadinhas (1922) e Terras do Demo
(1928), entre outros,
trazem à literatura portuguesa a vida dura dos habitantes das regiões
mais isoladas do país, em descrições que ainda hoje não seriam de todo
despropositadas.

De 1927 a 1940 há a salientar a importância da revista Presença, de
que emergem nomes como José Régio (1901-1969) e Miguel Torga
(1907-1995).

José Régio demonstrou a sua versatilidade em áreas como o teatro, a
poesia, o romance e o ensaio. A temática dos seus trabalhos de ficção
insere-se frequentemente
numa auto-análise a que não é alheio algum misticismo e, sobretudo, o
conflito entre o Homem e Deus. Enquanto ensaísta dedicou-se à
literatura portuguesa,
sendo um dos primeiros a abordar a obra de Florbela Espanca
(1894-1930), poetisa independente de movimentos literários e que ousou
passar a versos uma
sensualidade até então desconhecida na (então ainda escassa)
literatura feminina. Dos seus poemas não está também ausente um
sentimento de desencanto perante
a falta de oportunidades que a vida lhe dava no sentido de alcançar
uma existência de menos sofrimento e solidão, à qual acabou por pôr
termo.

Voltando à revista Presença e à inclusão de Miguel Torga nas suas
páginas, forçoso é referir que o seu espírito intrinsecamente
independente (patente,
por exemplo, num Diário que manteve durante décadas) o levou a atingir
um estatuto relevante na literatura portuguesa que faz com que a sua
obra seja analisada
fora da integração em correntes literárias. Da sua vasta produção, em
que sobressai o talento de contista, merecem destaque Bichos (1940) e
Contos da Montanha
(1941), onde a força da natureza se interliga com uma certa religiosidade.

Dotado do mesmo espírito independente, perante a vida e a literatura,
Ferreira de Castro (1898-1974) começou por escrever fora de Portugal,
já que emigrou
com doze anos para o Brasil, onde trabalhou como seringueiro na
Amazónia e, posteriormente, como jornalista. Emigrantes (1928) e A
Selva (1930) são exemplos
duma prosa vivida que espelha muitos aspectos da sua experiência
pessoal. À medida que a sua obra vai crescendo vão-se notando também
mudanças a nível
da linguagem, mais rica em A Lã e a Neve (1947), e da composição das
personagens, mais aprofundada em A Missão (1954).

Porque relatou muito do que viveu e, essencialmente, porque fez uma
descrição bastante pormenorizada das duras condições de vida das
classes trabalhadoras,
há quem considere Ferreira de Castro o introdutor do Neo-realismo na
literatura portuguesa. A nível ideológico, porém, faltar-lhe-á (e
muitos consideram
isso importante) a militância política (ou mesmo político-partidária)
que, em especial no caso do Neo-realismo português, marcou este
movimento. Após o
golpe de estado de 1926, os partidos políticos (entre os quais o
Partido Comunista Português) só podiam sobreviver na clandestinidade e
a censura foi assaz
severa para com a imprensa e a literatura. A revista Vértice usufruiu
duma actividade regular considerável, tendo em conta os
condicionalismos impostos
pela Comissão de Censura, e foi, por assim dizer, o órgão difusor do
Neo-realismo, tentando, tanto quanto possível, dar expressão literária
aos conflitos
sociais e à luta do proletariado.

Soeiro Pereira Gomes (1909-1949), autor de Esteiros (1941), obra
dedicada a "homens que nunca foram meninos", Alves Redol (1911-1969),
romancista, entre
outros, de Gaibéus (1940) e Barranco de Cegos (1962), e Manuel da
Fonseca (1911-1993), fecundo autor que chegou a ver obras suas
adaptadas ao cinema e
ao teatro após a Revolução de 25 de Abril de 1974, como Cerromaior
(1943) e Seara de Vento (1958), foram alguns dos expoentes desta
corrente literária
empenhada na transmissão duma perspectiva marxista da vida e na
discussão dos problemas dos extractos sociais mais humildes.

O desenvolvimento doutras formas de comunicação social ao longo do
séc. XX tornou alguns escritores nomes familiares do chamado grande
público, o que nem
sempre, todavia, significava que a sua produção literária se tornasse
substancialmente mais lida, uma vez que não se foram desenvolvendo
hábitos de leitura
na população.

Vitorino Nemésio (1901-1978), por exemplo, tornou-se especialmente
conhecido por aparições semanais na televisão nos anos 70, em que
evidenciava um estilo
coloquial cativante que não escondia uma vasta cultura. Atrás de si
tinha, porém, décadas de actividade como escritor e professor de
literatura. Foi poeta,
romancista e ensaísta e deixou vincada na sua obra a origem açoriana e
um sentido apego a tradições populares. Mau Tempo no Canal (1944)
reflecte bem a
consciência social e literária dum escritor fisicamente ausente da sua
terra natal, mas que a ela recorre como tema inesgotável.

Nos anos 60 o cinema foi veículo divulgador de parte da obra de
Fernando Namora (1919-1989), médico de profissão, que passou do
Neo-realismo ao Existencialismo
à medida que, no desempenho dessa actividade, se afastou dos meios
rurais e se radicou nos centros urbanos. Retalhos da Vida dum Médico,
com um primeiro
volume lançado em 1949, relatando experiências vividas no interior do
país, e outro publicado em 1963, já com referências ao exercício da
Medicina na capital,
permitem, por si só, acompanhar a transformação do escritor e foram
adaptados ao cinema, tal como Domingo à Tarde (1961), em que formula
já questões de
ordem metafísica.

A reflexão sobre a natureza humana foi praticamente o tema (mas com
diferentes abordagens) de quase toda a produção literária de Vergílio
Ferreira (1916-1996),
exemplo mais claro do Existencialismo. Também graças a uma conseguida
adaptação cinematográfica, Manhã Submersa, um dos seus primeiros
livros (1944), tornou-se
um êxito literário muito após a sua primeira edição. Escritor dos mais
premiados a nível nacional e internacional, Vergílio Ferreira deixou
num diário
publicado desde 1981, Conta-Corrente, um contributo para o
entendimento das mudanças sociais operadas no Portugal pós-25 de
Abril.

Idêntica contribuição proveio de Natália Correia (1923-1993), muito
mais conhecida pela sua poesia e pela truculência das suas
intervenções na sociedade
portuguesa, antes e depois da re-instauração da democracia. Sem se
integrar numa corrente literária precisa, Natália Correia, que também
abraçou a dramaturgia
e o ensaio e foi responsável pela organização de antologias, toca
pontualmente o Surrealismo, um surrealismo que, em Portugal, surge
algo independente
no tempo em relação às literaturas doutros países.

Mais claramente ligada a essa corrente, mas não presa a ela, é a
produção poética de Alexandre O'Neill (1924-1986), repleta de ironia e
sarcasmo. Como
sucedeu com outros poetas, O'Neill viu (e nisso colaborou
empenhadamente) alguns dos seus textos musicados e interpretados
principalmente por Amália Rodrigues,
a mais prestigiada cantora portuguesa. O fado foi um veículo para a
divulgação junto de todas as classes de poemas de autores como Pedro
Homem de Mello
(1904-1984), oriundo da Presença e profundo estudioso do folclore
português, ou David Mourão-Ferreira (1927-1996), também contista,
ensaísta e professor
catedrático, por cuja obra perpassa um erotismo e uma elegância formal
únicos na literatura portuguesa.

David Mourão-Ferreira foi também o que pode designar-se dum "poeta de
Lisboa", sendo de ter presente que a capital portuguesa foi o último
bastião das
tertúlias literárias. Particularmente a Lisboa se associa também uma
certa boémia intelectual, vivida e admirada, por exemplo, por José
Cardoso Pires (1925-1998),
que preferiu deixar patentes as suas preocupações sociais e políticas
numa literatura objectiva, algo influenciada pelos mestres contistas
norte-americanos
e fortemente crítica em relação à actuação do Estado Novo. O Delfim
(1968) e Dinossauro Excelentíssimo (1972) são romances que revelam uma
oposição contundente
aos valores mais preservados pelo regime anterior à Revolução de 25 de
Abril de 1974 e que mais contribuíam para a atmosfera fechada
(dir-se-ia mesmo sufocante)
então vivida em Portugal. Cardoso Pires consegue um outro grande êxito
literário e de vendas com Balada da Praia dos Cães (1982), sobre um
caso famoso
ocorrido no seio da oposição ao salazarismo no início dos anos 60.

A década de 60, com a eclosão da Guerra Colonial, foi, aliás,
determinante na tomada de consciência política de muitos escritores,
que, mesmo sem uma actividade
militante, usaram a palavra como arma contra a situação vigente.
Sophia de Mello Breyner Andresen (nascida em 1919), após uma fase de
literatura voltada
para o universo infanto-juvenil e duma poesia com uma linguagem
extremamente equilibrada, marcada pela admiração pela civilização
grega, passa com Livro
VI (1962) a mostrar de forma cada vez mais clara a sua oposição a
situações de injustiça. Após a Revolução de Abril, Sophia de Mello
Breyner Andresen tem
sido uma das escritoras mais premiadas e homenageadas.

A chamada Revolução dos Cravos trouxe consigo a abolição da censura e
uma maior divulgação das obras literárias, ainda que já não tanto ao
abrigo de revistas
literárias. Há, de qualquer modo, a salientar o Jornal de Letras,
publicado com assinalável periodicidade desde o início dos anos 80, e
a maior informação
sobre novidades literárias na comunicação social.

Aumentou o número de prémios literários, para primeiras obras e para a
consagração de carreiras. Agustina Bessa-Luís (nascida em 1922),
profícua romancista,
ímpar na capacidade de análise de personagens e situações e
frequentemente influenciada por momentos e figuras da história de
Portugal, é certamente dos
nomes mais premiados. O seu romance A Sibila (1954) é unanimemente
considerado um marco na literatura portuguesa, tendo já constado dos
programas oficiais
do ensino secundário.

A divulgação da literatura nas escolas tem sido alvo de amplo debate,
sendo praticamente impossível chegar-se a uma conclusão sobre que
autores incluir
nas cadeiras ligadas à língua e cultura portuguesa. Os hábitos de
leitura nunca foram grandes (e, sobretudo, nunca foram devidamente
fomentados) entre
os Portugueses, embora haja aumentado o número de bibliotecas, e novas
formas de ocupação dos tempos livres mostram-se, de certo modo,
adversárias da literatura,
pelo menos na sua forma mais tradicional. Alguns jovens autores, muito
em especial na área da poesia, como, por exemplo, José Luís Peixoto ou
Jacinto Lucas
Pires (também com incursões no teatro), têm sido bem-sucedidos na
aceitação dos seus trabalhos, não descurando uma linguagem mais
próxima da que é usada
no dia-a-dia pelas camadas mais jovens e procurando formas actuais
(especialmente no primeiro caso) de divulgação das suas obras.

A transição do séc. XX para o séc. XXI testemunha também o
aparecimento duma literatura leve (é frequentemente chamada de
"light"), fenómeno algo recente
em Portugal mas desde há décadas bastante comum noutras latitudes (com
designações como, por exemplo, "literatura de aeroporto") e que, se
bem que recebida,
no mínimo, com reticências por parte dos círculos mais literatos,
trouxe, pelo menos, a vantagem de ter conseguido atingir assinaláveis
volumes de vendas.
Se os recém-conquistados leitores decidirão "atravessar a ponte" e
alcançar uma outra margem literária, formal e ideologicamente mais
complexa, é uma questão
que fica em aberto para o novo século.

PUBLICADA POR HELENA MARIA EM
04:36

"... para proclamar o direito no país, para destruir o malvado e o
perverso, para impedir que o forte oprima o fraco ...
para assegurar o bem-estar do povo e fazer justiça ao oprimido..."

Código de Hammurabi (Séc. XVIII a.C.)


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Óscar Coelho

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