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[eBooks] - Filosofia e sociologia - Parte II

#Este conjunto de textos procura suprir a necessidade de professores e alunos universitários
que não dispõem de livros introdutórios mais abrangentes, enfocando as diferentes Ciências
Sociais, voltados para a realidade brasileira.
O livro foi planejado para servir como "base para o encaminhamento de discussões, em sala de aula, e referencial para a busca de posteriores aprofundamentos em bibliografias
específicas", para disciplinas introdutórias, como "Introdução às Ciências Sociais", "Fundamentos às Ciências Sociais" etc., ministradas em cursos não específicos
de "Ciências Sociais".
Reunindo 15 textos de educa-
dores, de reconhecida competência nas suas áreas de atua-
ção, "o resultado final, como o leitor poderá constatar, é rico e heterogêneo, retratando a diversidade de enfoques que se verifica atualmente no debate acadêmico".

Este livro foi digitalizado por Raimundo do Vale Lucas, com a
intenção de dar aos cegos a oportunidade de apreciarem mais uma
manifestação do pensamento humano..

INTRODUÇÃO AS CIÊNCIAS SOCIAIS

#NELSON CARVALHO MARCELLINO (ORG.)
INTRODUÇÃO ÀS CIÊNCIAS SOCIAIS
PAPIRUS EDITORA

#Capa Francis Rodrigues Copidesque Ana Elisa de Arruda Penteado
Revisão Verônica M Shiba
Mana Alexandra Cardoso de Almeida
Silvia Dutra Valderramas
148
2a ed
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Introdução as ciências sociais / Nelson Carvalho Marcellmo (org ) -2sed - Campinas, SP Papirus 1988
Bibliografia
ISBN 85-3O8-OO51-6
1 Ciências sociais 2 Sociologia l Marcellmo, Nelson Carvalho, 195O
CDD-3OO
3O1
índices para catalogo sistemático:
1 Ciências sociais 3OO
2 Sociologia 3O1
11§ Edição
2OO2
Proibida a reprodução total ou parcial da obra de acordo com a lei 9 61O/98 Editora afiliada a Associação Brasileira dos Direitos Reprograficos (ABDR)
DIREITOS RESERVADOS PARA A LÍNGUA PORTUGUESA (c)M R Cornacchia Livraria e Editora Ltda- Papirus Editora Fone/fax (19) 3272-45OO-Campinas - São Paulo - Brasil E-mail
editora@papirus com br - www papirus com br

#SUMARIO
APRESENTAÇÃO 7
CIÊNCIA, COISA BOA 9
Rubem Alves
AS CIÊNCIAS SOCIAIS E O PROCESSO HISTÓRICO 17
Arnaldo Lemos Filho
SOCIOLOGIA E SOCIEDADE 27
Dalva Maria Bertoni Bedone
A ANTROPOLOGIA SOCIAL 39
Carlos Rodrigues Brandão
POLÍTICA E COTIDIANO: AS MIL E UMA FACES DO PODER .... 49
Adalberto Paranhos
ECONOMIA POLÍTICA 59
Alcides Ribeiro Soares
O DIREITO E AS NORMAS SOCIAIS 69
Carlos Alfredo Ramos Checchia
PSICOLOGIA SOCIAL E COMPORTAMENTO SOCIAL 77
Manse Aparecida de Lima
A HISTÓRIA COMO CIÊNCIA HUMANA . . : 83
Coraly Gará Caetano

#A GEOGRAFIA HUMANA E O ESPAÇO SOCIAL ............ 87
Waldyr Verinaud Mayer
METODOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ............... 95
Dulce Mana Pompeo de Camargo Leme
DEPARTAMENTALIZAÇÃO E UNIDADE
DAS CIÊNCIAS SOCIAIS ...................... 1O1
Nelson Carvalho Marcellino
O BRASIL E A SOCIEDADE DE CLASSES
Doraci Alves Lopes .
" "
1O9
SUBDESENVOLVIMENTO E CULTURA .............. 115
José Luís Sanfehce r , ^
A AUTOMAÇÃO E AS CIÊNCIAS HUMANAS ............ 123
Regis de Morais t - , , "
l
l

#APRESENTAÇÃO
Na minha prática como educador, venho sentindo a necessidade de contar com o auxílio de obras que sejam dirigidas aos estudantes, respeitando suas características
próprias, entendendo-os dentro do contexto social no qual estão inseridos. Essa necessidade assume intensidade ainda maior no caso de disciplinas introdutórias às
Ciências Sociais, principalmente sendo ministradas em cursos não específicos de "Ciências Sociais", que contam com uma clientela sem familiaridade com essa área
de conhecimentos. Na verdade, não dispomos de livros introdutórios mais abrangentes, enfocando as diferentes Ciências Sociais, voltados para a realidade brasileira,
o que dificulta sobremaneira o estudo de disciplinas como "Introdução às Ciências Sociais", "Fundamentos de Ciências Sociais" etc.
Foi procurando suprir essa necessidade que pensei num livro que pudesse servir como base para o encaminhamento de discussões, em sala de aula, e referencial para
a busca de posteriores aprofundamentos em bibliografias específicas. Assim surgiu este conjunto de textos, cujo conteúdo procura enfocar as principais Ciências Sociais,
seus temas centrais de análise, questões gerais sobre o contexto histórico e a metodologia, além de alguns problemas específicos que dizem respeito à realidade brasileira.
A preocupação básica do livro, considerando seu caráter predominantemente iniciador, é com as Ciências Sociais no seu fazer-se, na sua unidade e na discussão de
seus limites e suas possibilidades. Paralelamente, são analisados conceitos fundamentais como Sociedade, Cultura, Poder, Classes Sociais etc., em suas relações com
as Ciências que os investigam e com a realidade concreta. , .
1. A classificação das Ciências Sociais é bastante polêmica, variando segundo os diferentes autores. Sem entrar no mérito das "classificações", cuja discussão envolve
a inclusão ou não da História e da Geografia, e tendo em vista a necessidade fundamental de situar os estudantes na sua dimensão espaço-temporal, incluí capítulos
destinados a essas disciplinas. Outros ramos de conhecimento não puderam ser abordados por absoluta falta de espaço.

#Pela própria natureza das Ciências Sociais, este trabalho não poderia ficar sob a responsabilidade de um único autor. Dessa forma, o conteúdo foi dividido em 15
tópicos, cada um deles entregue a profissionais de reconhecida competência nas suas áreas de atuação. Não foi obedecido, na escolha dos autores, qualquer critério
que privilegiasse abordagens específicas, pois entendi que dessa forma estaria falseando a realidade das Ciências Sociais. O resultado final, como o leitor poderá
constatar, é rico e heterogêneo, retratando a diversidade de enfoques que se verifica atualmente no debate acadêmico. Como o livro se destina a ser ponto de partida
para discussões e aprofundamentos em sala de aula, caberá aos alunos, auxiliados pelos professores, distinguir e criticar as diferentes concepções detectadas nas
abordagens implícitas em cada capítulo.
Além da reconhecida competência, outro ponto em comum entre os participantes do livro é que todos são educadores que vivenciam, no seu dia-a-dia, a realidade das
salas de aula. Essa é uma característica importante na determinação da linguagem utilizada. Como poderá ser observado na leitura, os autores, de modo geral, se dirigem
ao público-alvo de maneira simples e clara, procurando esclarecer os conceitos, sempre que possível, à medida que surgem no decorrer dos textos.
Foi recomendado aos auiores, sempre que o tema comportasse e visando a uma unidade do trabalho, que procurassem efetuar suas colocações de uma perspectiva histórica,
a partir do seu posicionamento próprio e que, mesmo focalizando as questões do ponto de vista geral, a ênfase fosse dada à realidade brasileira.
Para facilitar as discussões em sala de aula, e tendo em vista o conjunto do trabalho, os artigos tiveram que ser escritos em poucas laudas, o que sem dúvida foi
um desafio para os autores, com espaços tão reduzidos para abordagens abrangentes e que comportam, cada uma delas, livros inteiros.
Levando em conta a necessidade de continuidade e aprofundamento das discussões que os textos, aqui reunidos, pretendem apenas iniciar, os autores indicam, ao final
de cada capítulo, uma pequena bibliografia básica, com exceção do primeiro e do último capítulos, cujos autores têm livros específicos sobre os assuntos abordados,
indicados nas suas apresentações.
Ao apresentar o resultado do trabalho final, gostaria de dirigir um apelo aos colegas professores e aos alunos para que colaborassem com críticas e sugestões, baseadas
nas suas experiências pessoais no trato com os textos.
Nelson Carvalho Marcellino

#CIÊNCIA, COISA BOA...
Rubem Alves
Fernando Pessoa dizia que "pensar é estar doente dos olhos". No que eu concordo. E até amplio um pouco: "pensar é estar doente do corpo". O pensamento marca o lugar
da enfermidade. Ah! Você duvida. O meu palpite é que, neste preciso momento, você não deva estar tendo pensamentos sobre os seus dentes, a menos que um deles esteja
doendo. Quando os dentes estão bons, não pensamos neles. Como se eles não existissem. O mesmo com os olhos. Você só tomará consciência deles se estiver com problemas
oculares, miopia ou outras atrapalhações. Quando os olhos estão bem a gente não pensa neles: eles se tornam transparentes, invisíveis, desconhecidos, e através de
sua absoluta transparência e invisibilidade o mundo .aparece. O corpo inteiro é assim. Quando está bom, sem pedras no sapato, sem cálculos renais ou hemorróidas,
sem taquicardias ou enxaquecas, ele fica também transparente, e a gente se coloca inteiramente, não nele, mas na coisa de fora: o caqui, a árvore, o poema, o corpo
do outro, a música. Quando o corpo está bem, ele não conhece. Claro que tem pensamentos; mas são pensamentos de outro tipo, de puro gozo, expressivos de uma harmonia
que não deve ser perturbada por nenhuma atividade epistemológica.
Mas basta aparecer a dor para que tudo se altere. A dor indica que um problema apareceu. A vida não vai bem. É aquela perturbação estomacal, mal-estar terrível,
vontade de vomitar, e vem logo a pergunta: "Que foi que comi? Será que bebi demais? Ou teria sido a lingüiça frita? Pode ser, também,
1. Füósofo, educador, doutor em Füosofia pela Un.vers.dade de Pnnceton (New Jersey), professor da Faculdade de Educação da Umcamp, autor, entre outras obras, de
Füosofia da ciência (Brasiliense)

#que tudo tenha sido provocado por aquela contrariedade que tive...". Essas perguntas que fazemos, diante de um problema, são aquilo que, na linguagem científica,
recebe o nome de hipóteses. Hipótese é o conjunto de peças imaginárias de um quebra-cabeça, que acrescentamos àquela que já temos em mãos com o propósito de compreendê-la.
Compreender, evidentemente, para evitar que o incômodo se repita. Pensar para não sofrer. Deve haver, no universo, milhões e milhões de situações que nunca passaram
pela nossa cabeça: nunca tomamos consciência delas, nunca as conhecemos. E que elas nunca nos incomodaram, não perturbaram o corpo, não lhe produziram dor. Só conhecemos
aquilo que incomoda. Não, não estou dizendo toda a verdade. Não é só da dor. Do prazer também. Você vai almoçar numa casa e lá lhe oferecem um prato divino, que
dá ao seu corpo sensações novas de gosto e olfato. Vem logo a idéia: "Que bom seria se, de vez em quando, eu pudesse renovar este prazer. E, infelizmente, não posso
pedir para continuar a ser convidado". Usamos então a fórmula clássica: "Que delícia: quero a receita...". Traduzindo para os nossos propósitos: "Quero possuir um
conhecimento que me possibilite repetir um prazer já tido". O conhecimento tem sempre o caráter de receita culinária. Uma receita tem a função do permitir a repetição
de uma experiência de prazer. Mas quem pede a repetição não é o intelecto. É o corpo. Na verdade, o intelecto puro odeia a repetição. Está sempre atrás de novidades.
Uma vez de posse de um determinado conhecimento, ele não o fica repassando e repassando. "Já sei", ele diz, e prossegue para coisas diferentes. com o corpo acontece
o contrário. Ele não recusa um copo de vinho, dizendo que daquele já bebeu, nem se recusa a ouvir uma música, dizendo que já a ouviu antes, nem rejeita fazer amor,
sob a alegação de já ter feito uma vez. Uma vez só não chega. O corpo trabalha em cima da lógica do prazer. E, do ponto de vista do prazer, o que é bom tem de ser
repetido, indefinidamente.
O desejo de conhecer é um servo do desejo de prazer. Conhecer por conhecer é um contra-senso. Talvez que o caso mais gritante e mais patológico do que estamos dizendo
(todas as coisas normais têm a sua patologia) se encontre nesta coisa que se chama exames vestibulares: a moçada, pela alegria esperada de entrar na universidade,
se submete às maiores violências, armazena conhecimento inútil e não digerível, tortura o corpo, nega-lhe os prazeres mais elementares. Por quê? Tudo tem a ver com
a lógica da dor e do prazer. Há a dor
1O

#incrível de não passar, de ser deixado para trás, de ver-se ao espelho como incapaz (no espelho dos olhos dos outros); e há a fantasiada alegria da condição de
universitário, gente adulta, num mundo de adultos. Claro, coisa de imaginação... E o corpo se disciplina para fugir da dor e para ganhar o prazer. E logo depois,
passado o evento, o corpo, triunfante, trata de se desvencilhar de todo conhecimento inútil que armazenara, esquece quase tudo, sobram uns fragmentos - porque agora
a dor já foi ultrapassada e o prazer foi alcançado. A gente pensa para que o corpo tenha prazer.
Alguns dirão: "Absurdo. É verdade que, em certas situações, conhecimento tem essa função prática. Mas, em outras, não existe nada disso. Na ciência, a gente conhece
por conhecer, sem que a experiência de conhecimento ofereça qualquer tipo de prazer". Duvido. Cientista que fica horas, dias, meses, anos em seu laboratório não
fica lá por dever. Pode até ser que haja pessoas assim: trabalhar por dever. Só que elas nunca produzirão nada novo. O senso de dever pode ensinar as pessoas a repetirem
coisas: excelentes técnicos de laboratório, bons funcionários, discípulos de Kant (um homem que desprezava o prazer e achava que certo mesmo só as coisas feitas
por dever). com o que concordaria o venerável Santo Agostinho, que propôs a curiosa teoria, ainda defendida por certas lideranças religiosas, de que o jeito certo
de fazer o sexo é "sem prazer, por dever", burocratas fiéis aos relógios de ponto. Cozinheiro por dever só faz comida sem gosto. Cientista também. Não consegue ver
nada novo, bicho sem asas, tartaruga fiel, rastejante. Idéias criativas requerem vôos da imaginação, aquilo que, em linguagem psicanalítica, tem nome de "investimento
libidinal", coisa que a linguagem irreverente diz de maneira mais direta e metafórica: "tesão" - quando o corpo fica in/tenso de desejo, tenso por dentro, querendo
muito. E é só por isso que o cientista fica lá, anos a fio - como verdadeiro apaixonado. Tudo por um único momento de êxtase: aquele em que, após um enorme sacrifício,
ele diz: "Consegui! Eureka!". E ele sai como doido, possuído pelos deuses, pela alegria de uma descoberta. E então me dirão: "Mas este não é um prazer do corpo.
Não é como comer caqui ou fazer amor...". Como não? Será que não percebem que o pensamento é um dos órgãos de prazer do corpo, justamente como tudo o mais? Jogar
xadrez: coisa do pensamento, que dá prazer. Lutar com um problema de matemática: coisa do pensamento, que dá prazer. E a decifração dos enigmas da natureza, dos
seres humanos. Cada

#11

#enigmaé um mar desconhecido que convida: atra\ essar o oceano Atlântico num barco a vela, sozinho. E quando a gente é capaz de fazer a coisa, vem a euforia, o sentimento
de poder: fui capaz; isso tem a ver com um desejo fundo que mora em cada um: ser objeto do olhar admirado do outro, ser o primeiro... E é isso que explica o curioso
(e eticamente condenável) costume que tem os cientistas de esconder os resultados das suas pesquisas, trancá-los a sete chaves. Ora, se o objetivo dos cientistas
fosse o progresso da ciência, tratariam de tornar públicas as conclusões preliminares de suas investigações, para que os resultados fossem atingidos mais depressa.
Ao contrário. Mais importante para eles é a possibilidade de serem os primeiros, seus nomes aparecendo nas bibliografias e nas citações, evidências de admiração
e potência intelectual. E assim é: mesmo quando estamos envolvidos nas tarefas mais absurdamente intelectuais, o que está em jogo é esse corpo que deseja ser admirado,
respeitado, mencionado, invejado. Narcisismo: sem ele não sairíamos do lugar. Claro que a ciência pode trazer muitas coisas boas para o mundo (e também más), mas
o que está em jogo, no dia-a-dia da ciência, é esse cálculo de benefícios sociais, mas o simples prazer que pessoas derivam desse jogo/brincadeira intelectual.
Um dos mais lindos documentos da história da ciência foi produzido por Kepler, depois de conseguir formular as suas três leis sobre o movimento dos planetas:
Aquilo, que 22 anos atrás profetizei,
tão logo descobn os cinco sólidos entie as órbitas celestes;
aquilo em que firmemente cri, muito antes de haver visto a Harmonia de
Ptolomeu,
aquilo que, no título deste quinto livro, prometi aos meus amigos,
mesmo antes de estai certo de minhas descobertas:
aquilo que, há 16 anos, pedi que fosse piocurado;
aquilo, por cuja causa devotei às contemplações astronômicas
a melhor parte de minha vida. juntando-me a Tyho Brahe:
finalmente eu trouxe à luz, % :
e conheci a sua veidade além de todas as minhas expectativas...
12
Assim, desde há 18 meses, a madrugada,
desde há três meses, a luz do dia e,
na verdade,

#há bem poucos dias o próprio Sol da mais-
maravilhosa contemplação brilhou.
Nada me detém.
Entrego-me a uma verdadeira orgia sagrada.
Os dados foram lançados. O livro foi escrito.
Não me importa que seja lido agora ou apenas pela posteridade.
Ele pode esperar 1OO anos pelo seu leitor, se o próprio Deus esperou "- - "
seis mil anos para que um homem contemplasse a Sua obra
Seria preciso parar e analisar cada frase.
Tudo está saturado de emoção: esperança, crença, amor, promessas, disciplina, sacrifício, uma vida inteira em jogo. Para quê? Kepler não podia imaginar nada de prático
como decorrência de suas investigações. O que estava em jogo era apenas o prazer da visão, ver aquilo que ninguém jamais havia visto. E toda a espera se realizava
numa experiência indescritível de prazer.
Coisa estranha, esta fascinação pelo desconhecido.
Curiosidade. É tão forte que estamos dispostos até a perder o paraíso, pelo gozo efêmero de ver aquilo que ainda não foi visto. É assim que a nossa estória começa,
num dos mais antigos mitos religiosos. Preferimos morder o fruto do conhecimento, com o risco de perder o Paraíso, pela alegria de um outro gozo: saber...
Ali está, diante de nós, a coisa fascinante. Mas não nos basta ver o que está de fora. É preciso entrar dentro, conhecer os seus segredos, tomar posse de suas entranhas.
Não é isso que acontece com a própria experiência sexual? Os judeus, no Antigo Testamento, empregavam uma única palavra para designar o ato de conhecer e o ato
de fazer amor. "E Adão conheceu a sua mulher, e ela ficou grávida...". É assim mesmo que acontece no conhecimento. Primeiro, o enamoramento. Quem não está de amores
corn um objeto não pode conhecê-lo. Depois vêm os movimentos exploratórios, a penetração, o conhecimento do bom que estava oculto, experiência de prazer maior ainda.

#O fascínio do giro das estrelas, dos descaminhos dos cometas, a beleza dos cristais, jóias simétricas -ah! quem fez a natureza deve serum joalheiro para fazer coisas
tão lindas assim, e também um grande geômetra, para traçar nos céus os caminhos matemáticos dos astros; quem sabe um músico, que toca músicas inaudíveis aos ouvidos
comuns, e somente perceptíveis aos que conhecem as harmonias dos números! - os ímãs, seres parapsicológicos. que puxam o ferro sem tocar, todos os corpos do espaço,
grandes ímãs, se puxando uns aos outros, atração universal, amor universal, as marés que balançam aos ritmos da lua e do sol, as plantas, mistérios, também ao ritmo
da luz, suas harmonias com as abelhas, a loucura, os sonhos, esta fantástica loteria que se chama genética, os animais arranjados em ordem de complexidade crescente,
tudo sugerindo que uns foram surgindo dos outros, Darwin, a inflação, que bicho é este, que ninguém consegue domar?, nossa permanente intranqüilidade, seres neuróticos,
psicóticos, altares, os homens e mulheres diante de seres invisíveis, os deuses, a agressividade, o sadismo, por que será que há pessoas que sentem prazer no sofrimento
dos outros?, as massas, boiadas estouradas, sem limites e sem moral, "Heil Hitler!", e as pessoas lutam para deixar de .fumar e não conseguem e, de repente, sem
nenhum esforço, algo acontece por dentro, e param de um estalo...
Não há limites para os mistérios.
Alguns parecem pequenos, e moram nas coisas simples do cotidiano. E nisso o cientista tem algo que o liga ao poeta. Porque um poeta é isto, alguém que consegue ver
beleza em coisa que todo mundo pensa ser boba e sem sentido. Por favor, leia a Adélia Prado, mulher comum que os deuses, brincalhões, dotaram desta graça incompreensível
de poder transfigurar o banal em coisa bela, aquilo de que ninguém gosta em coisa erótica. Como no seu poema sobre limpar peixes com o seu marido. O cientista é
a pessoa que é capaz de ver, nas coisas insignificantes, grandes enigmas a serem desvendados, e o seu mundo se enche de mistérios. Moram em nós mesmos, nos gestos
que fazemos, nas doenças que temos, em nossos sonhos e pesadelos, ódios e amores; na nossa casa, no jardim, pela rua... Outros parecem enormes e têm a ver com o
início do universo, as profundezas do espaço, as funduras da matéria. Mas tudo é parte de um mesmo universo maravilhoso, espantoso, que nos faz tremer de gozo e
de terror, quando nos abrimos para o seu fascínio e penetramos os seus segredos.

#14
Há o mistério das coisas, há o mistério das pessoas, universos inteiros dentro do corpo, mundos bizarros que afloram nas alucinações dos psicóticos, e que nos arranham
vez por outra, dormindo ou acordados, as funduras marinhas da Cecília Meireles, as florestas de Rilke, Édipos, Narcisos, pessoas grandes por fora onde moram crianças
órfãs, grandes solidões que buscam a presença de outras, os mundos da cultura e da sociedade, das festas populares e das grandes celebrações coletivas e, repentinamente,
damo-nos conta de que os enigmas da Via Láctea são pequenos demais comparados àqueles das pessoas que vemos todo dia. Só que nossos olhares ficaram baços, e não
percebemos o maravilhoso ao nosso lado. Se fôssemos tomados pelo fascínio, então pararíamos para ver e veríamos coisas de que nunca havíamos suspeitado.
Mas, em tudo isso, é preciso não esquecer de uma coisa: ciência é coisa humilde, pois se sabe que a verdade é inatingível. Nunca lidamos com a coisa mesma, que
sempre nos escapa. Aquilo que temos são apenas modelos provisórios, coisas que construímos por meio de símbolos, para entrar um pouco no desconhecido.
O professor entrou em sala, primeira aula de química, e escreveu no quadro: thO. E perguntou "O que é isto?". A meninada respondeu, ansiosa por mostrar o que sabia:
"E água". Aí o professor escreveu a mesma fórmula numa folha de papel, colocou dentro de um copo e lhes ofereceu, dizendo: "Então bebam...".
Não, ciência não é vida. Da mesma forma que l-fcO não é água. Na ciência a gente só lida com coisas faladas e escritas, hipóteses, teorias, modelos, que a nossa
razão inventou. A vida, ela mesma, fica um pouco mais além das coisas que falamos sobre ela.
A vida é muito mais que a ciência. Ciência é uma coisa entre outras, que empregamos na aventura de viver, que é a única coisa que importa. É por isso que, além da
ciência, é preciso a sapiência, ciência saborosa, sabedoria, que tem a ver com a arte de viver. Porque toda a ciência seria inútil se, por detrás de tudo aquilo
que faz os homens conhecer, eles não se tornassem mais sábios, mais tolerantes, mais mansos, mais felizes, mais bonitos... Ciência: brincadeira que pode dar prazer,
que pode dar saber, que pode dar poder.
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#Há coisas bonitas. E também coisas feias: ortodoxias, inquisições, fogueiras, manipulações de pessoas, ameaças de fim de mundo ...
Mas não há como fugir. E bem pode ser que as pessoas descubram no fascínio do conhecimento uma boa razão para viver, se elas forem sábias o bastante para isso, e
puderem suportar a convivência com o erro, o não saber e, sobretudo, se não morrer nelas o permanente encanto com o mistério do universo. Assim, cada um poderá
se descobrir como ar/tesão que planta, nas oficinas da ciência, as sementes do mundo de amanhã (parodiando as palavras do poeta...).
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AS CIÊNCIAS SOCIAIS E O PROCESSO HISTÓRICO
Arnaldo Lemos Filho
A sociologia não se afirma primeiro como explicação científica e, somente depois, como forma cultural de concepção do mundo.
Foi o inverso o que se deu na realidade. Ela nasce e se desenvolve
como um dos florescimentos intelectuais mais complicados das situações de existência nas modernas sociedades industriais
Florestan Fernandes 1971, p 274
Não se pode negar que duas preocupações se fazem constantemente presentes no espírito humano: dominar a natureza e explicá-la. A primeira é responsável pelo processo
civilizatório e pelo aparecimento da sociedade, enquanto a segunda, simultânea e relacionada à primeira, tem determinado a produção de conhecimentos sobre a natureza
e a sociedade, tais como o mito, a religião, a filosofia e a ciência.
O objetivo deste capítulo é analisar o processo histórico do aparecimento das Ciências Sociais, isto é, mostrar o momento em que os fenômenos sociais começaram a
ser objeto do conhecimento científico e estudar os fatos históricos que propiciaram o surgimento e a formação destas ciências.
A preocupação em conhecer e explicar os fenômenos sociais sempre se fez presente na história da humanidade. Mas a tentativa de se dar uma explicação científica ao
comportamento social e às condições sociais de existência dos seres humanos é um produto recente do pensamento. Foi somente na Idade Moderna,
1. Licenciado em Filosofia e Teologia, mestre em Ciências Sociais e professor do Depto. de Ciências Sociais da PUC-Campmas e das Faculdades Padre Anchieta, Jundiaí-SP
17

#corn a emergência da sociedade capitalista, que alguns pensadores se esforçaram em aplicar o método científico ao conhecimento dos fenômenos que acontecem na vida
social, tendo em vista as crises e desordens sociais provocadas pelas transformações que ocorreram na sociedade.
A filosofia social
A preocupação dos pensadores em relação aos fenômenos sociais, no período anterior à formação da sociedade industrial, era mais filosófica do que científica. Embora
sua atenção fosse despertada pelas causas econômicas e políticas que abalavam continuamente as estruturas sociais do seu tempo, em lugar de tomarem uma atitude objetiva
diante dos problemas que se lhes apresentavam, levados por razão de ordem prática, preocupavam-se mais em descobrir os remédios que trouxessem uma solução para as
crises sociais. Os estudos a respeito da vida social tinham sempre por objetivo propor formas ideais de organização da sociedade, mais do que compreender-lhe a organização
real. Assumiam, portanto, um ponto de vista normativo, no sentido de buscarem estabelecer normas ou regras para a vida social, e finalista, no sentido de proporem
como finalidade da vida social a realização desta organização social. Florestan Fernandes lembra que mesmo as filosofias greco-romanas e medievais, que deram relevo
especial à reflexão sistemática sobre a natureza humana e a organização das sociedades, contrastam singularmente com a explicação científica. É que "elas tinham,
corn efeito, por objeto, não explicar as sociedades tais e quais elas foram, mas indagar o que as sociedades devem ser, como elas devem organizar-se para serem tão
perfeitas quanto possível".3
Na Antigüidade, por exemplo, esses estudos eram fragmentários. Limitavam-se a reflexões esparsas a respeito de algumas questões sociais, nunca reunidos, entretanto,
num sistema coerente. Embora Platão (427/348 a.C.) com A República e As leis e Aristóteles (385/322 a.C.) com A Política tivessem tomado a sociedade em sua integridade,
organizada em Cidade-Estado (polis),
2. Florestan Fernandes 196O. p. 31.
3. Emile Durkheim, Sociologie et sciencei, ,ociale!. Paris, 1914, apud Florestan Fernandes, op. cit.,p. 31.
18
o fator político sob o domínio de um interesseipurameste.ético tinha prioridade
sobre o fator social. ; ..--,.,-. M- ! -
Isso significava que os pensadores antigos, não tomando a própria sociedade
#como um objeto específico de conhecimento, apreenderam, como objeto essencial de estudo, uma parte da vida social, como a política ou a moral, mas numa perspectiva
normativa e finalista.
O longo período da Idade Média foi pouco propício ao progresso científico e, conseqüentemente, ao estudo científico dos fatos sociais. Os pensadores medievais prendiam-se
a discussões metafísicas que conduziam à justificação da fé cristã. Tudo girava em torno dos interesses da Igreja que monopolizava todo o pensamento da época. A
preocupação com julgamentos de valor apriorísticos, o apelo constante à autoridade e ao dogmatismo religioso impediam o desenvolvimento da investigação científica.
A sociedade não era pensada no seu todo e, se havia certa preocupação com os problemas sociais, os estudos eram também fragmentários e caíam no âmbito da filosofia
ética e religiosa. Podemos dizer que a filosofia, durante todo o período medieval, permaneceujierivada de uma fonte revelada como preparação da salvação da alma.
Voltavam-se os teólogos à construção de um ideal a priori, embora utópico, da vida social, porque eles não concebiam senão uma sociedade fundada sobre os princípios
religiosos, uma imagem terrestre da cidade de Deus. É o que caracterizava, por exemplo, a obra fundamental de Santo Agostinho (354.43O), A Cidade de Deus, e a elaboração
da filosofia cristã, a chamada filosofia escolástica, que alcançou o mais alto nível em São Tomás de Aquino (1227-1274), com A Suma Teológica.
Da filosofia social às ciências sociais
Já no final da Idade Média despontou um movimento de reação à escolástica. Foram os prenuncies da libertação do pensamento ao dogmatismo católico que se efetivou
finalmente no período agitado do Renascimento, quando se abriram novas perspectivas ao saber humano. A influência teológica, que não permitia ver as coisas senão
à luz dominante da salvação eterna, deu lugar a uma perspectiva muito mais independente que favorecia a livre discussão de questões do ponto de vista racional. Foi
sendo elaborado um novo tipo de
19

#conhecimento, caracterizado por uma objetividade e realismo que marcaram a separação nítida do pensamento do passado, modificação tão claramente definida que se
poderia dizer que um novo estágio se iniciava na explicação dos fenômenos da natureza e, conseqüentemente, dos problemas sociais e humanos. Foi o estágio do conhecimento
baseado na experimentação de que nos fala Kilpatrick, iniciado ruidosamente por Galileu Galilei (1564-1642) e que fará depois, o século XX, "o século de ouro da
ciência", na expressão de Whitehead. Em relação à interpretação ou à explicação dos fenômenos da natureza, a ciência substitui inteiramente a filosofia, pois torna-se
sinônimo de "ciências naturais". Estas desprendem-se do tronco comum que era a filosofia, conseguindo delimitar seu campo de estudo com objetos específicos: A Física,
no século XVII, com Galileu, Química, no século XVIII, com Lavoisier, e a Biologia, no século XIX, com Claude Bernard, Haeckel e outros.
As mesmas condições que propiciaram a especificação das "ciências naturais" favoreceram as chamadas "Ciências Sociais":
A mesma paixão pela realidade e o mesmo espírito de investigação que deram largas em descobertas no mundo da natureza, voltaram-se finalmente para o mundo da natureza
humana e para as relações sociais, num tentativa de compreender estas de igual. E, de maneira idêntica, mesmo método que provara tão bem no estudo do universo físico
for transportado para o novo campo de estudo que fica desde então impregnado do espírito científico.4
Por outro lado, é necessário procurar os fatores específicos da formação das Ciências Sociais. Eles se encontram nas condições materiais e intelectuais do desenvolvimento
do mundo moderno. As Ciências Sociais não são somente produto da reflexão de alguns pensadores, mas o resultado de certas circunstâncias históricas e de algumas
necessidades materiais e sociais (Martins 1984, p. 1O).
Para Florestan Fernandes, três séries de convergências parecem responsáveis pela lenta mas progressiva substituição da concepção normativa e especulativa por uma
representação positiva de vida social: fatores de natureza
4. Neumeyer Osborn, A comunidade e a sociedade: Introdução à sociologia. São Paulo: Ed. Nacional, 1961, p. 355.
2O
sociocultural, fatores de natureza intelectual e fatores decorrentes da própria dinãomica do chamado "sistema de ciências".

#fatores socioculturais
Uma série de mudanças ocorridas na vida política e econômica da Europa, tais como a ascensão da burguesia, a formação do Estado Nacional, a descoberta do Novo Mundo,
a Revolução Comercial, a Reforma Protestante, contribuiu para modificar a mentalidade do homem moderno. O século XVIII, principalmente, assistiu a fatos fundamentais
que definiram o desaparecimento da sociedade feudal e a consolidação da sociedade capitalista. Um destes fatos foi, sem dúvida, a Revolução Industrial. Iniciada
na Inglaterra, nos meados do século, provocou transformações profundas na sociedade européia, tornando problemática a própria sociedade. Trouxe mudanças na ordem
tecnológica, pelo emprego intensivo e extensivo de um novo modo de produção com o uso da máquina; na ordem econômica, pela concentração de capitais, constituição
de grandes empresas provocando a acumulação de riquezas; e na ordem social, pela intensificação do êxodo rural e conseqüente processo de urbanização, desintegração
de instituições e costumes, introdução de novas formas de organização da vida social, e, sobretudo, a emergência e a formação de um proletariado de massas com sua
específica consciência de classe.
Antes, as formas estabelecidas da vida social se revestiam de caráter sagrado: era como se o próprio Deus tivesse estabelecido as normas que deveriam reger as ações
humanas, o que tornava essas normas, de certo modo, intocáveis. No mundo moderno, uma exigência geral de eficiência, no sentido de encontrar solução para as crises
e os problemas provocados pelos novos acontecimentos, fez com que muitas formas de organização social, até então sagradas, passassem a ser vistas como produto histórico
e sujeitas a transformações. Desse modo, a validade das normas e das formas de organização social estabelecidas deixa de ser vista como algo de absoluto e indiscutível.
Tal atitude secularizada, isto é, alheia às coisas sagradas, favoreceu a difusão de um espírito crítico e de objetividade diante dos fenômenos sociais.
5. Florestan Fernandes, op. cit., p. 31.
m

#Fatores intelectuais
Simultaneamente às mudanças ocorridas na vida econômica e social, modificações surgiram nas formas de pensamento, nos modos de conhecer a natureza e a sociedade.
A contribuição de alguns pensadores, a partir do século XVI, foi fundamental para a formação das Ciências Sociais. Já no final da Idade Média houve um florescimento
de utopias, descrições pormenorizadas de sociedades ideais: Thomas Morus (1478-1535), com A utopia, Jean Bodin (153O-1596), com A República, Francis Bacon (1561-1626),
corn Nova Atlantis e Campanella (1568-1634), com A Cidade do Sol, apresentaram os seus projetos de uma nova sociedade.
O emprego sistemático da razão, como conseqüência de sua autonomia diante da teologia, possibilitou a formulação de uma nova atitude intelectual, o racionalismo,
não só em relação aos fenômenos da natureza, mas também em relação aos fenômenos humanos e sociais.
Algumas contribuições foram básicas. Maquiavel (1469-1527), com O príncipe, e Hobbes (1588-1679), com O Leviatã, consideravam ser a vida da sociedade baseada no
uso da força. Maquiavel, ao separar a ética da política, favoreceu a constituição de uma ciência política. O já citado Francis Bacon apresentava um novo método de
conhecimento, baseado na experimentação, que tomava o lugar do conhecimento teológico. Descartes (1596-165O), em Discurso sobre o método, introduzia a dúvida metódica
no conhecimento, favorecendo uma nova forma de conhecimento baseado na razão.
De um modo especial, a Filosofia da História foi um fator decisivo na formação das Ciências Sociais. Foram os filósofos da história que tiveram a responsabilidade
por uma nova concepção de sociedade como algo mais do que uma sociedade política ou o Estado, possibilitando a distinção entre Estado e sociedade civil (Bottomore
1918). A idéia geral do progresso que ajudaram a formular influiu profundamente na concepção que o homem tem da história e da sociedade. Viço (1668-1774), em Os
princípios de uma ciência nova, afirmava que é o homem que produz a história e que a sociedade poderia ser compreendida porque constitui obra dos próprios indivíduos.
Adam Ferguson
22
(1723-1816), em Ensaio histórico sobre a sociedade civil, discutiu a natureza da sociedade e suas instituições.
Esse interesse pela História e pelo desenvolvimento foi despertado pela rapidez e profundidade das transformações sociais e econômicas e também pelo contraste
#das culturas que as viagens dos descobrimentos revelaram. O acúmulo de informações sobre os costumes e as instituições "exóticas" dos povos não-europeus colocou
a nu a extraordinária variedade das formas de organização social.
Mas sobretudo na França, nos séculos XVII e XVIII, a contribuição da filosofia foi extraordinária. Diante da situação social do país, resultado das contradições
das classes sociais, os filósofos franceses pretendiam não apenas transformar as formas de pensamento, mas a própria sociedade. Afirmavam que, à luz da razão (Iluminismo),
é possível modificar a estrutura da velha sociedade feudal. Condorcet (1742-1794) queria aplicar os métodos matemáticos no estudo dos fenômenos sociais. Montesquieu
(1689-1755), em O espírito das leis, definia pela primeira vez a idéia geral de lei ("relações necessárias que derivam da natureza das coisas") e afirmava que os
fenômenos políticos estavam sujeitos às leis naturais, invariáveis e necessárias, tanto quanto os fenômenos físicos. Rousseau (1712-1778), em suas teorias de O contrato
social, teve uma influência decisiva na formação da democracia burguesa e, conseqüentemente, na mudança das instituições sociais.
A Revolução Francesa (1789) trouxe o poder político à burguesia, destruiu os fundamentos da sociedade feudal e promoveu profundas inovações na vida social. Mas,
junto com a Revolução Industrial, trouxe crises e desordens na organização da sociedade, o que levou alguns pensadores a concentrar suas reflexões sobre as suas
conseqüências. Surge então o positivismo. Preocupados em encontrar "remédios" para as crises sociais do momento, os positivistas queriam explicar os problemas sociais
que ocorriam e chegaram à conclusão de que os fenômenos sociais, como os físicos, estavam sujeitos a leis rigorosas. Saint-Simon (176O-1825) preconizava a transferência
de todo o poder da sociedade para as mãos dos cientistas e industriais, com o objetivo de restaurar a ordem social. Mas é com seu discípulo Augusto Comte (1798-1857)
que as Ciências Sociais, de um modo específico a Sociologia, começaram a se delinear como ciências autônomas. Principal representante do positivismo francês, Comte
não só deu o nome à nova ciência, que antes denominara Física Social, mas empreendeu a primeira
23

#tentativa sistemática da caracterização de seu objeto, métodos e problemas fundamentais, bem como a primeira tentativa de determinar a sua posição no conjunto das
ciências.
A idéia central do positivismo é muito simples: nas Ciências Sociais, como nas ciências da natureza, é necessário afastar os preconceitos e as pressuposições, separar
os julgamentos de fato e os julgamentos de valor.6 A finalidade é, nas Ciências Sociais, atingir a mesma neutralidade, imparcial e objetiva, que se atinge na Física,
na Química e na Biologia. Daí se evidenciam as implicações ideológicas conservadoras dessa concepção: se as leis sociais são leis naturais, a sociedade não pode
ser transformada. Ao contrário dos filósofos iluministas, considerados negati vistas por Augusto Comte, o positivismo privilegia a aceitação passiva do status quo
social.
O sistema de ciências
A terceira série de fatores, também decisiva para a formação das Ciências Sociais, está na própria dinãomica do "sistema de ciências". A evolução das ciências está
diretamente ligada à necessidade de controlar a natureza e compreendê-la. Vimos que as crises provocadas pelos acontecimentos sociais do século XVIII provocaram
uma convicção de que os métodos das ciências da natureza deviam e podiam ser estendidos aos estudos das questões humanas e sociais, e que os fenômenos sociais podiam
ser classificados e medidos. No mundo moderno, o conhecimento científico se tornou o sistema dominante de concepção do mundo e, aos poucos, os fenômenos sociais
também caíram sob o seu domínio. É evidente que não se pode dizer que essa dinãomica seja a causa do surgimento das Ciências Sociais, porque, na verdade, as leis
científicas não passaram a ser aplicadas à realidade social simplesmente porque eram aplicadas com sucesso no conhecimento dos fenômenos da natureza. Mas, sem dúvida,
principalmente a partir do século XVIII, a necessidade de se desenvolver técnicas racionais para controlar os conflitos criados pelas crises da época acabaria levando
à formação das Ciências Sociais.
6. Michael Lowy, "Objetividade nas ciências sociais". Método Dialético e teoria política. Rtó de Janeiro: Paz e Terra, 1975, p. 11.
24
As Ciências Sociais
Não é objetivo deste capítulo analisar como se deu a divisão das Ciências Sociais, isto é, explicar o momento histórico em que o estudo científico
#da sociedade se subdividiu em várias ciências, cada uma especializada num aspecto particular da vida e da organização da sociedade, como a Economia, a Antropologia,
a Sociologia, a Política. Ao analisar a formação das Ciências Sociais, Bottomore conclui que, no início, elas foram absorvidas pela Sociologia que era uma ciência
enciclopédica, evolucionista e positiva. Enciclopédica porque se ocupava da totalidade da vida social do homem e da totalidade da história. Evolucionista porque,
sob a influência da Filosofia da História, reforçada pela teoria biológica da evolução, concebia a sociedade como um organismo e tentava formular leis gerais de
evolução social. Positiva porque era concebida como uma ciência de caráter idêntico ao das ciências naturais. Mas sobretudo, tornou-se a ciência da nova sociedade
industrial, adquirindo não só um caráter científico, mas sobretudo ideológico, pois idéias conservadoras e radicais entraram no seu desenvolvimento, dando origem
a teorias conflitantes e provocando controvérsias que continuam até hoje (Bottomore, op. dt, p. 2O).
Atualmente, Sociologia, Antropologia, Economia e Política são ciências com objetos de estudo específicos e que se relacionam mutuamente, pois os fenômenos sociais
são extremamente complexos. Mas a definição do objeto de cada ciência social decorre também da resposta que se dê à questão sobre o que torna possível a organização
social das relações entre os homens. A tradição das Ciências Sociais possui três respostas clássicas a esta questão: a de Emile Durkheim, a de Max Weber e a de Karl
Marx. São considerados os clássicos das Ciências Sociais, não só porque representam pontos de vista distintos a respeito da objetividade científica do conhecimento
da vida social, mas porque a riqueza e profundidade teórica de suas obras constituem elementos básicos para a explicação científica dos fenômenos sociais. Durkheim
(1858-1917), seguindo a tradição positivista de Comte, preocupou-se em estabelecer um método e definir o objeto da Sociologia, ao mesmo tempo que procurou encontrar
soluções para a manutenção da sociedade que surgiu após as revoluções. Para ele a organização social é possível graças ao consenso ou à "consciência coletiva" e
a Sociologia tem como objeto o "fato social". Weber (1864-192O) enfatiza os aspectos subjetivos e simbólicos das relações sociais e delimita o campo de estudo da
Sociologia dentro da noção de "ação social". Marx
25

#(1818-1883), ao contrário do positivismo, que busca a manutenção e a preservação da sociedade capitalista, parte de uma crítica radical a este tipo de sociedade.
Concebe a organização da sociedade como resultante das relações de produção e toma as relações de classe como objeto próprio da Sociologia.
Até hoje as contribuições destes clássicos têm sido fonte de inspiração para os cientistas sociais. À esteira deles, têm-se desenvolvido estudos que favorecem a
consolidação de uma mentalidade científica no tratamento dos diversos campos das relações sociais. Os acontecimentos do século XX, tais como o crescimento do capitalismo,
monopolizando produtos e mercados, a eclosão das guerras mundiais, a organização do proletariado, as revoluções socialistas, o desenvolvimento dos meios de comunicação,
da informática, ao mesmo tempo que se tornam objeto de análise das Ciências Sociais, trazem questionamentos básicos sobre a sua própria existência.
Muitas vezes as Ciências Sociais têm sido usadas para produzir conhecimentos de interesse das classes dominantes, tornando-se instrumentos de controle, o que acarreta
a burocratização e a domesticação de suas pesquisas. Outras vezes, mantêm uma postura crítica diante da ideologia dominante, trazendo como conseqüência perseguições
e incompreensões.
A verdade é que não existe ciência definitiva, pois o conhecimento renova-se continuamente. Mas, seja enfatizando os fatores de estabilidade e manutenção da organização
social, seja concebendo a sociedade como uma realidade de conflitos e contradições, seja valorizando mais os seus aspectos teóricos, seja dando primazia às pesquisas
empíricas, as Ciências Sociais têm, ao longo do processo histórico, encontrado o seu lugar no quadro das ciências.
Bibliografia
BOTTOMORE, T.B. "O estudo da sociedade". Introdução à sociologia. 4a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1973.
CASTRO, Ana Maria e DIAS, Edmundo F. Introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro. Eldorado, 1974.
FERNANDES, Florestan. "A Sociologia: Objeto e principais problemas". Ensaios de Sociologia geral e aplicada. São Paulo: Pioneira, 196O.
MARTINS, Carlos Barbosa. O que é sociologia. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Col. Primeiros Passos, vol. 57)
26
SOCIOLOGIA E SOCIEDADE

#Dalva Maria Bertoni Bedone
O nascimento da Sociologia
A Sociologia nasceu como resultado de uma situação histórica evo-
lutna no auge da época designada, com certa imprecisão, como feudal
" e do período moderno mdustnal-capitalista; nasceu como conseqüência do interesse despertado pela descoberta de que relações tidas até
então como naturais fossem de fato mutáveis e históricas."
A Sociologia surgiu num momento de desagregação da sociedade feudal e consolidação da sociedade capitalista. O que propiciou o seu nascimento foram as transformações
econômicas, políticas e culturais que ocorreram no século XVIII, como conseqüência das Revoluções Francesa e Industrial, que iniciaram e possibilitaram a formação
de um processo de instalação definitiva da sociedade moderna.
Desde o seu início, a Sociologia tem se preocupado com tudo o que acontece no interior da sociedade, principalmente com os conflitos entre as Classes Sociais.
O seu surgimento aconteceu a partir da necessidade de se realizar uma reflexão sobre as transformações, as crises e os antagonismos de classes, experimentados pela
então nascente sociedade industrial. Isso vem possibilitar uma nova forma de pensar, que se caracterizou como Positivismo,
Licenciada em Ciências Sociais, mestranda em Sociologia e Educação, professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Campinas e socióloga do Centro de Atenção
Integral da Saúde da Mulher (Caism), da Unicamp
R. Darendorf. "Sociologia e sociedade industrial". In. M.A. Foracchi e J de S. Martins (orgs ) Sociologia e sociedade, p. 12O.
27

#cuja preocupação básica consistiu na organização e reestruturação da sociedade, buscando a preservação e manutenção da nova ordem capitalista.
A Sociologia Positivista e a sociedade capitalista moderna
Estando a sociedade desorganizada e anárquica, em razão da duas revoluções sofridas, surgiu um conhecimento positivista, iniciado e desenvolvido por Saint-Simon
(176O-1825), Augusto Comte (1798-1857) e Émile Durkheim (1858-1917), cujas principais características examinaremos separadamente, por autor.
Saint-Simon é considerado o iniciador do positivismo e o verdadeiro pai da Sociologia, tendo sido altamente influenciado pelas idéias revolucionárias, principalmente
dos filósofos iluministas. Vivenciou a sociedade francesa pósrevolucionária, que se encontrava em estado de desorganização geral, e acreditava que o industrialismo
trazia consigo a possibilidade de satisfazer as necessidades da população, e que a ordem e a paz, na nova sociedade, poderiam ser propiciadas pelo progresso econômico.
Para Saint-Simon a elite, formada pelos industriais e cientistas, deveria fornecer melhores condições de vida à classe trabalhadora, elaborar normas de comportamento
para atenuação dos conflitos existentes entre as classes sociais e propiciar "Ordem, Paz e Progresso", através de um processo de acomodação.
A inexistência de uma ciência da sociedade consistia numa grande falha na área do saber. Saint-Simon apontava a necessidade de uma ciência que, tendo como objetivo
a sociedade e que, utilizando-se dos mesmos métodos das ciências naturais, deveria, ao investigar a realidade social, buscar leis sobre o progresso e sobre o desenvolvimento
dos homens na sociedade, principalmente da classe trabalhadora, refreando os possíveis "ímpetos revolucionários".
Augusto Comte (1798-1857) retomou algumas idéias de Saint-Simon, sistematizando-as. Comte foi um grande defensor da moderna sociedade capitalista. A sua obra se
fundamentou também no estado de caos em que se encontrava a sociedade européia após a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. Para ele, "para haver coesão e
equilíbrio na sociedade, seria necessário restabelecer a ordem nas idéias e nos conhecimentos, criando um conjunto
28
de crenças comuns a todos os homens" (Martins 1982, p. 46). Acreditava que um espírito positivo dentro da sociedade levaria à sua organização. Ligou a nova ciência,
Sociologia, com o Positivismo, denominando-a inicialmente de "Física-Social".

#Tal como Saint-Simon, Comte admitia que a latente sociedade industrial necessitava passar por algumas mudanças, que deveriam ser comandadas pelos industriais e
cientistas, para que o progresso pudesse aparecer de uma forma gradual, como conseqüência da ordem instalada. A Sociologia, ao estudar e explicar os acontecimentos
da sociedade, seria o elo que ligaria a "Ordem" da sociedade ao "Progresso".
Émile Durkheim (1858-1917), preocupado com a questão social, procurou estabelecer o objeto da Sociologia e elaborar um método de investigação próprio.
Durkheim vivenciou um período de crises econômicas, que provocaram conflitos constantes entre as classes trabalhadoras e os proprietários dos meios de produção.
No início do século XX, ocorreram progressos econômicos propiciados pela utilização do petróleo e da eletricidade como fontes de energia. Nesse período, as idéias
socialistas surgiram, justificando a partir dos fatos econômicos as crises sofridas pelas sociedades européias. Durkheim discordava dessas idéias, acreditando que
os problemas da sociedade eram muito mais "morais" do que econômicos, e que ocorriam devido à fragilidade da época.
Durkheim considerava a sociedade como um sistema formado pela associação de indivíduos e com características próprias e que esta, ao transmitir a cultura aos seus
componentes, inculcava crenças e práticas sociais. Via na sociedade "o fim e a fonte da moral". Encarava a moral como "social", em inúmeros sentidos. "As regras
morais são sociais na origem, são gerais dentro de uma dada sociedade, e pressupõem a associação humana, impõem obrigações sociais aos indivíduos, proporcionando
um quadro de referência externo para o indivíduo, vinculam-no fins sociais, e envolve altruísmo."
Para ele a divisão de trabalho propiciada pela nova formação de produção industrial provocava muito mais solidariedade entre os homens, levando muito mais a uma
interdependência, do que aos conflitos sociais.
3. S. Lukes. "Bases para a interpretação de Durkheim". In: G. Cohn. Sociologia: Para ler os
clássicos, p. 32.

#Durkheim acreditava que a ciência poderia, através de suas investigações, encontrar soluções para os problemas da época. A Sociologia deveria se ocupar dos fatos
sociais. Fato social, em sua opinião, consistia em "toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior, que é geral na
extensão uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independentemente das manifestações individuais que possa ter".
Assim, o modo de vida, a forma de agir dos indivíduos na sociedade, além de serem criados e estabelecidos pelas gerações passadas, possuiriam a qualidade de serem
coercitivos. Nessa óptica, a função da Sociologia seria buscar soluções para os problemas sociais, favorecendo assim a normalidade da sociedade, convertendo-se em
técnica de controle social e manutenção do poder vigente.
Sociologia científica ou marxista
KarlMarx (1818-1883), filósofo social e economista alemão, ao lado de Friedrich Engels (182O-19O3), elaborou um pensamento sociológico crítico, mediante estudos
sobre as relações sociais e o modo de produção capitalista, ligando esses fatores às mudanças capazes de provocar a transformação da sociedade.
Ao contrário do pensamento positivista que pregava a manutenção da ordem capitalista, o pensamento socialista analisava a nova sociedade como transitória e, ao evidenciar
seus antagonismos e suas contradições, realizava uma crítica a esse tipo de sociedade. A partir do pensamento socialista, surgiu, portanto, um pensamento sociológico
altamente crítico e negador da sociedade capitalista. Marx e Engels, em suas lutas políticas, buscaram explicar o conjunto da sociedade, colocando em evidência suas
dimensões globais.
O pensamento socialista evidenciava a desigualdade social existente na sociedade capitalista, cuja origem se encontrava na dominação exercida sobre a classe trabalhadora.
Utilizava-se da teoria sobre materialismo histórico, dialético, a teoria da mais-valia e a luta de classes, para explicar como se processava essa dominação, apontando,
a partir daí, uma saída para o proletariado.
4. Durkheim 1966, p. 12.
3O
A teoria sobre o materialismo histórico se constitui num fator de fundamental importância para a análise sociológica, uma vez que não se trata de determinação mecânica
do econômico, mas de uma forma específica de tratamento da dominação da sociedade que evidencia a luta de classes como fenômeno político, colocando nas mãos dos
homens o poder de condução da sociedade, e apontando o socialismo
#como fase de transição entre o capitalismo e o comunismo, com o objetivo de se obter uma sociedade sem classes e sem conflitos sociais.
Marx procurou esclarecer os condicionamentos históricos da desigualdade social e da dominação nas sociedades, identificando o capitalismo como marcado pela posse
da riqueza econômica, distinguindo os donos dos meios de produção, dos que nada possuem além da sua força de trabalho. O pensamento marxista revelou a historicidade
do conhecimento e do ser humano, e da formação socioeconômica, destacando que as sociedades humanas encontram-se em contínua transformação e que os conflitos e as
contradições existentes entre as classes sociais constituem o motor da história.
A teoria social que surgiu da inspiração marxista não se limitou a ligar política, filosofia e economia. Tentou estabelecer uma ligação entre teoria e prática, ciência
e interesse de classe. O conhecimento da realidade social deve se converter em um instrumento político, capaz de orientar os grupos e as classes sociais para transformação
da sociedade. A função da sociologia, nessa perspectiva, não era a de solucionar os "problemas sociais", com o propósito de restabelecer o "born funcionamento"
da sociedade, como pensavam os positivistas. Longe disso, ela deveria contribuir para a realização de mudanças radicais na sociedade. Sem dúvida que foi o socialismo
marxista que despertou a vocação crítica da Sociologia unindo a explicação e alteração da sociedade, ligando-a aos movimentos de transformação da ordem existente.
A sociologia científica se iniciou a partir da concepção de práxis, por Marx:
a) "A noção de práxis pressupõe a reabilitação do sensível e a restituição do prático-sensível", ou seja, o mundo humano foi criado e
5. Martins, op. cit., p. 56.
6. H.A. Lefebvre. ""Práxis": Arelaçlo social como processo". /": M.A. ForaccJri e J.S.Martins,
(orgs.), op. cit., p. 18O.
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#transformado pelos homens. As relações que os seres vivos mantêm entre si fazem parte desse mundo sensível, onde o ser "sujeito" dessa realidade permite-lhe exercer
atividade, refletir e ter desejos.
b) "O homem (ser humano) é, antes de mais nada, ser de necessidade". Em todo ser humano, a necessidade aparece como fundamento. As necessidades apresentam-se como
individualizadas, sociais, políticas, imediatas, cultivadas, naturais, artificiais, reais e alienadas. "O estudo das necessidades revela um entrelaçamento de processos
dialéticos. O homem difere do animal na medida em que, para conseguir o objeto de suas necessidades, criou instrumentos e inventou o trabalho. A necessidade é, ao
mesmo tempo, ato (atividade) e relação, em si mesma complexa, com a natureza, com outros
o
seres humanos, com objetos." O trabalho se apresenta não somente como produto de objetos e instrumentos, mas também de novas necessidades não somente na produção,
como também da produção. A história inteira tem se caracterizado pelo crescimento e desenvolvimento das necessidades.
c) "O trabalho participa do movimento dialético, necessidadetrabalho-gozo". O trabalho consiste num momento prático e histórico e divide-se biológica, técnica
e socialmente. É nele que os homens mantêm relações técnicas e sociais, e é através dele que a desigualdade social se acentua.
Tanto no social como no homem tudo é ato e obra. Mesmo a necessidade histórica
supõe a passagem pela ação - a PRÁXIS - do possível ao real e dá lugar à iniciativa. Toda possibilidade abre dois caminhos: o de uma alienação maior e o de uma desalienação.
A alienação tende também a "tomar-se mundo". A desalienação é atingida pela luta consciente, cada vez mais consciente com a entrada em cena da classe operária,
contra a alienação. Por toda parte o homem social sempre inventa e cna; por toda parte ele sempre é vítima de suas obras.
7. Idem,p. 181.
8. Idem, p. 182.
9. Idem, pp. 183 e 188,
32
A práxis, no seu mais alto grau (criador, revolucionário) inclui a teoria que ela vivifica e verifica. Ela compreende a decisão teórica como a decisão da ação. Supõe
tática e estratégia. Não existe atividade sem projeto; ato sem programa, práxis política sem exploração do passível e futuro.

#Ao explicar as relações que os homens estabelecem entre si na sociedade, a teoria social elaborada por Marx e Engels vai fornecer à Sociologia subsídios fundamentais
para análise das funções do Estado, da ideologia, da alienação e da compreensão das relações que são estabelecidas entre as classes sociais. Dessa forma, a Sociologia
assume a função de realizar a crítica da sociedade capitalista, e se compromete com a construção de uma nova ordem, baseada na igualdade social.
A Sociologia compreensiva de Max Weber
Max Weber (1864-192O) procurou dar uma orientação compreensiva, conceituando subjetivamente a ação social, baseando-se critérios internos dos indivíduos participantes
e no fato de os seres humanos serem diretamente conscientes de suas ações. Definiu como objeto da sociologia a ação social, atribuindo-lhe um caráter subjetivo.
Weber criou um método de comparações para o estudo da realidade social. Suas análises sociológicas foram realizadas a partir da comparação de coisas humanas; comparou
o desenvolvimento das sociedades orientais e ocidentais buscando semelhanças em situações históricas semelhantes. Construiu conceitos que servem de instrumentos
metodológicos para medir a realidade, chamando-os de "tipos ideais".
Weber lutou pela efetiva separação entre conhecimentos empíricos e julgamento valorativo; entre o conhecimento particular e unilateral e todas as modalidades de
captação da totalidade; entre realidade empírica c essência do ser.
1O. H.A. Lefebvre. ""Práxis": A relação social como processo". In: M.A. Foracchi e J.S.Martins
(orgs.), op. cü., pp. 183 e 188.
11- K. Jasper. "Método e visão do mundo em Weber". In: G. Cohn, op. cit., p. 128.
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#De acordo com Weber, o conhecimento empírico pode fornecer meios capazes para implementar ou impedir o alcance dos fins propostos, e identificar como a linha de
ação é afetada por outros valores. Mas não se pode generalizar o valor ou o fim. O conhecimento empírico, bem como a valoração, repousam sobre uma cuidadosa separação
de ambos.
A Sociologia, segundo Weber, é uma ciência que tem por objeto compreender claramente a conduta humana, fornecendo explicações das causas e conseqüências de sua
origem. Para ele são as atitudes que explicam a conduta social; assim, torna-se necessário pesquisar a natureza e a operação desses fatores, levando-se em consideração
se essas atitudes são afetadas ou modificadas por motivos e ações de outros indivíduos. A conduta social seria o caminho para a compreensão da situação social e
o entendimento das intenções. Dessa maneira, a Sociologia se caracteriza como o estudo das interações significativas de indivíduos em suas relações com os outros
na sociedade, sendo seu objetivo a compreensão da conduta social.
Weber considerava que a ação social podia ser:
- racional, visando aos fins: que consiste em agir conforme expectativas em relação à conduta de outros homens ou objetos. Age racionalmente aquele que avalia a
sua ação de acordo com os fins, meios e conseqüências;
- racional, visando aos valores: quando a ação é direcionada pelos valores (ético, estético, religioso etc.), próprios de condutas específicas, sem nenhuma relação
corn o resultado. O sentido da ação reside na própria ação;
- afetiva, ou conduta emocional: determinada por estados afetivos ou sentimentais. Também se baseia na própria ação, e não no resultado;
- tradicional: determinada pelos costumes, pelas ações cotidianas.
Segundo Weber, dificilmente a ação social orienta-se exclusivamente por um ou outro tipo. Esses são "tipos ideais", criados para fins de pesquisa. A ação social
real é mesclada dos caracteres gerais dos tipos apresentados.
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Weber colocou o fenômeno da racionalidade como de fundamental importância para o entendimento do mundo moderno, apresentando-a como o caráter fundamental do estilo
de vida ocidental. A racionalização promove um sistema de dependência entre os indivíduos, levando-os à mecanização, não somente na economia, como na ciência. A
partir de estudos sobre a racionalização da sociedade moderna, Weber estabeleceu uma ligação entre racionalidade e liberdade e auto-responsabilidade
#dos indivíduos na sociedade.
Weber realizou estudos sobre a dominação, apresentando os diferentes motivos de existência da obediência, evidenciando que é a natureza dos motivos de aceitação
que determina os tipos de dominação existentes, e que cada tipo diferencia-se dos demais em função de sua "legitimidade".
Como a sua preocupação centrava-se na racionalidade da sociedade capitalista, ele estudou mais profundamente a dominação legal de caráter racional, que é identificada
nas organizações burocráticas. Weber estudou a burocracia para combater seu domínio absoluto sobre a sociedade, embora tenha reconhecido sua necessidade funcional,
numa sociedade de massa. Colocou a burocracia como fator social dominante, enquanto prevalecer a unidade de produção dominante no capitalismo, que é a indústria
organizada burocraticamente.
Os estudos de Weber consistem numa contribuição muito importante à pesquisa sociológica, abordando temas os mais variados como o direito, a economia, a história,
a religião, a política, a arte e a música. Procurou conhecer a fundo a essência do capitalismo moderno, ressaltando a eficiência e a precisão das empresas organizadas
racionalmente. Ao contrário de Karl Marx, Weber via no capitalismo a expressão da modernização e a forma de racionalização do homem moderno.
Teoria Sociológica Funcionalista
Talcott Parsons (19O2), sociólogo norte-americano, contribuiu para o desenvolvimento da Sociologia, com seus estudos sobre os sistemas sociais e a sociedade moderna.
Sofreu forte influência de Weber, definindo como objeto de estudo da Sociologia a ação social. Os seus estudos se fundamentaram no funcionamento das estruturas sociais.
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#Para Parsons, a sociedade, ou sistema social mais geral, é formada pelos sistemas culturais, sistemas de personalidade e organismos comportamentais, que são definidos
como constituintes primários. Entendeu a estrutura social como resultante do processo de institucionalização da sociedade (idéias, valores, símbolos etc.) que se
realiza mediante a formação das instituições sociais: família, escola, direito etc.
Para ele, os sistemas sociais possuem quatro funções específicas:
- Estabilidade normativa - envolve os valores e sua aceitação pelos membros da sociedade;
- Integração - assegura a organização e a coordenação entre diferentes unidades do sistema, visando ao funcionamento do todo;
- Consecução de fins - corresponde à definição de objetivos a serem atingidos pelas unidades e pelo todo social;
- Adaptação - conjunto de meios para atingir os fins desejados.
Segundo Parsons, o sistema social é aberto e está em constante relação com o meio ambiente, quer físico, quer biológico, a personalidade e a cultura de seus componentes.
Ocorrendo mudanças, surge a necessidade de modos funcionais de ajustamento.
Outro sociólogo que muito contribuiu para o enriquecimento dos postulados da teoria funcionalista foi Robert Merton (191O), com estudos relacionados a novos conceitos
funcionais da sociedade moderna.
A Sociologia latino-americana
A Sociologia na América Latina inicialmente sofreu influências européia e norte-americana. Na medida em que a sua preocupação se volta para as questões que envolvem
as nações subdesenvolvidas, ou em vias de desenvolvimento, ela vai sofrer influências da teoria marxista.
Os estudos sociológicos latino-americanos buscam analisar os problemas concernentes ao subdesenvolvimento, às relações de dependência e suas interferências no sistema
cultural, econômico e político da sociedade; abordam
36
as questões agrária, jurídica, de ensino, aspectos de humanizacão da vida
urbana, formas de controle social etc.
A Sociologia brasileira
Nas décadas de 192O e 193O, o pensamento social brasileiro estava centrado em análises da formação da sociedade brasileira, abordando questões sobre
#escravatura, abolição, estudos sobre os índios e negros e sobre o deslocamento do eixo de dominação campo-cidade.
Nos anos 4O e 5O, a Sociologia voltou-se para questões relativas aos problemas sociais, girando em torno de análises sobre a classe trabalhadora, padrão de vida,
salários e estudos de comunidades rurais.
Na década de 196O, a preocupação da Sociologia dirigiu-se para o período desenvolvimentista, que se iniciou com o processo de industrialização do país, preocupando-se
corn as questões agrárias e os movimentos sociais na cidade e no campo. Foram efetuados também estudos sobre atividades políticas e as inquietações sociais propiciadas
pelas mudanças de governo de Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros e João Goulart, culminando com a instalação do regime militar em 1964.
A partir de 1964, os trabalhos sociológicos voltaram-se para os problemas socioeconômicos e políticos originados pelas crises e tensões da sociedade, em decorrência
do regime militar.
Em 198O, passando o país por um processo de redemocratização, ocorreu a profissionalização da Sociologia e sua volta ao ensino médio. Além da preocupação quanto
às mudanças econômicas, políticas e sociais, propiciadas pela instalação da "Nova República", as discussões e os estudos da Sociologia voltam-se para questões relativas
à mulher, ao menor, ao trabalhador rural e urbano, à posse da terra, ao ensino etc.
Bibliografia
CASTRO, A.M. e DIAS, E.F. Introdução ao pensamento sociológico. 9a ed. Rio de Janeiro: Eldorado, 1983.
37

#COHN, G. Sociologia: Parigler os clássicos. Rio de Janeiro: Livros Técnicos e Científicos, 1977.
DEMO, P. Sociologia. Uma introdução crítica. 2a ed. São Paulo. Atlas, 1985.
DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. 4a ed. São Paulo: Cia. Ed. Nacional,
1966.
FERRARI, A.T. Fundamentos de sociologia. São Paulo, McGraw-Hill, 1983. FORACCHI, LA e MARTINS, J.S. (orgs ). Ideologia e sociedade Rio de Janeiro: Livros Técnicos
e Científicos, 1981.
MARTINS, C.B. O que é sociologia. 3a ed. São Paulo. Brasiliense, 1982. PARSONS, T. O sistema das sociedades modernas. São Paulo: Pioneira, 1974. WEBER, M. Ensaios
de sociologia. 5a ed. Rio de Janeiio: Zahar, 1982.
38
A ANTROPOLOGIA SOCIAL
Carlos Rodrigues Brandão
Acadêmicos que se chamam antropólogos sociais são de dois tipos O protótipo do primeiro foi St, ]ames (1845-1941), autor de The Golden Bough Ele foi um homem de
saber monumental que não tinha experiência direta com a vida dos povos primitivos sobre os quais escreveu Ele esperava descobrir verdades fundamentais sobre a natureza
da psicologia humana, comparando os detalhes da cultura humana numa escala mundial O protótipo do segundo foi Bromslair Malmoivisk (1884-1942), nascido na Polônia
e naturalizado inglês, que passou grande parte de sua vida acadêmica analisando os resultados da pesquisa que ele mesmo conduziu por um período de quatro anos numa
única e pequena aldeia na distante Melanésia Seu objetivo foi mostrar como essa exótica comunidade "funcionava" como um sistema social, e como seus membros progrediam
do berço ao túmulo Ele estava mais interessado nas diferenças entre as culturas do que na sua abrangente similaridade
(Edmund Leach, Repensando a antropologia)
O que estão fazendo os antropólogos?
Diferenças à parte, ou justamente por causa delas, o que é a Antropologia? O que é a Antropologia Social? Há muitas maneiras de responder a essas
1. Antropólogo, doutor em Ciências Sociais pela USP, professor do Departamento de Ciências Sociais da Unicamp, autor de diversas obras antropológicas, pedagógicas
e literárias

#2 As diferenças aqui são tanto científicas quanto nacionais Antropologia Social é um termo essencialmente britânico Antropologia Cultural, norte-americano e Etnologia
e Etnografia,
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#questões e certamente a pior delas seria através de uma simples definição Sobretudo no caso da Antropologia Social, qualquer definição corre o risco de mais esconder
do que de desvelar o sentido e a prática que a fazem ser, hoje, o que ela é Afinal, vista de longe e apressadamente, a Antropologia Social mais parece a face tardia
e quase pitoresca das ciências sociais A figura do antropólogo que ainda usa o chapéu de caçador, o mesmo que um dia usaram alguns de nossos heróis dos filmes da
"África", carregado de apetrechos pendurados pelo corpo e de perguntas exóticas pelos vãos da cabeça, simpático e inutilmente curioso, muitas vezes é sugerida No
entanto, uma razoável e crescente produção de estudos que percorrem hoje em dia quase todas as sociedades e culturas do planeta sugere que poucas têm sido as ciências
da experiência humana que conseguiram aportar tantas e tão necessárias respostas a perguntas que, por debaixo do que aparentam possuir de "pitoresco", encerram questões,
necessárias e intrigantes a respeito dessa experiência e das vidas que as vivem em sociedade e como culturas
ate algum tempo atras, francês Neste pequeno estudo usarei o termo mais amplo Antropologia que alguns associam a idéia de Antropologia Geral e Antropologia Social
De fato, e com essa nomenclatura e com uma ênfase originalmente mais inglesa que a Antropologia se desenvolveu no Brasil Assim, quase todos os cursos de formação
de antropólogos a nível de pós-graduação se reconhecem como programas de Antropologia Social", como no caso dos cursos de mestrado do Museu Nacional da Universidade
de Brasília e da Unicamp
Vejamos como um antropólogo inglês cuja introdução" pode ser lida com proveito, estabelece a relação de nomes Na Grã Bretanha o termo "antropologia" designa de
um modo vago uma serie de diferentes ramos de estudo que estão mais ou menos associados, embora a associação derive algumas vezes mais do fato histórico de terem
desenvolvido juntos como estudos "evoluciomstas" do homem sendo originalmente pensados juntos, do que qualquer relação intrínseca Assim a antropologia física, a
arqueologia pre-histonca, a tecnologia primitiva a etnologia etnografia são reunidas a antropologia social sob a rubrica de antropologia, enquanto a sociologia não
o e, muito embora seus problemas e métodos envolvam em grau considerável os da antropologia social Assim não e de se surpreender que a palavra antropologia" signifique
coisas d,versas a pessoas diferentes" (Beattie 1971, pp 22-23)
3. you usar aqui varias vezes os termos sociedade e cultura Melhor esclarecer
#a sua diferença complementar de uma vez Recorro a um texto muito claro de Roberto Da Matta "Iniciemos nossa visão das diferenças entre sociedade e cultura descartando
a visão eclética segundo a qual os dois fenômenos são parte de uma mesma coisa a realidade humana com suas
Mas dizer que a Antropologia lida com o estudo do homem, a Antropologia Cultural com o da cultura e a Antropologia Social com o da sociedade, é tão desesperadamente
vago quanto afirmar que a Astronomia estuda o universo, a Física a matéria e a Biologia a vida Foi justamente para escapar de observações redutoras desse tipo que,
quando o antropólogo Chfford Geertz procurou explicar o que a Antropologia é, ele recomendou que a resposta fosse buscada entre os próprios antropólogos, isto é,
no que eles estão fazendo e "assumindo" como Antropologia E ele estende a receita a qualquer outra ciência.
Se você quer compreender o que e a ciência, você deve olhar, em primeiro lugar, não para as teorias ou as suas descobertas, e certamente não para o que os seus apologistas
dizem sobre ela você deve ver o que os praticantes da ciência fazem (Geertz 1978 p 15)
Muito bem, então o que é que estão fazendo os que se dizem antropólogos e, entre eles, os antropólogos sociais?
diferenças ocorrendo a nível de angulação, como se tudo dependesse apenas da posição do investigador O fato concreto e que existe no plano mesmo da pratica antropológica
erudita ou ingênua uma noção destas diferenciações Um exemplo simples tornara mais claro o que digo posso ver uma sociedade de formigas em funcionamento Mas formigas
não falam e não produzem obras de arte que marquem diferenças entre formigueiros específicos Em outras palavras, embora a ação das formigas modifique o ambiente
- sabemos que elas são em muitos casos uma praga - esse ambiente e modificado sempre do mesmo modo e com o uso das mesmas matérias químicas, caso se trate de uma
mesma espécie de formigas Essa constância e uniformização diante do tempo permite que se explicite um primeiro postulado importante entre as formigas (e outros animais
sociais) existe sociedade mas não e\iste cultura Ou seja existe uma totalidade ordenada de indivíduos que atuam como coletividade Existe também uma divisão de trabalho,
de sexos e idades Pode haver uma direção coletiva e uma orientação especial em caso de acidentes e perigos - tudo isso que sabemos ser essencial nas definições de
sociedade Mas não ha cultura porque não existe uma tradição viva conscientemente elaborada que passa de geração para geração que permita
#individualizar ou tornar singular e única uma dada comunidade relativamente as outras (constituídas de pessoas da mesma
espécie)" (Da Matta 1981, pp 47-48)
41

#Em antropologia ou, de qualquer forma, em antropologia social, o que os seus praticantes fazem é a etnografia. E éjustamente ao compreender o que é a etnografia
, ~ ou, mais exatamente, o que é a prática da etnografia, é que se pode começar a entender o que representa a análise antropológica como uma forma de conhecimento
(Idem, ibid)
E o que é que os antropólogos estão fazendo agora? O que é sua etnografial Tomemos aqui o exemplo do próprio Geertz, já que ele nos desafia. No mesmo livro, A interpretação
das culturas, há alguns capítulos que revelam uma notável experiência etnográfica. Em um deles Geertz procura decifrar como as pessoas da ilha de Bali, na Malásia,
constróem e usam socialmente sistemas de significação em que os nomes e sentidos da própria pessoa mesclam-se aos do tempo - melhor, das várias dimensões do tempo
-, às dos espaços e das relações da vida social e, no fim das contas, a praticamente todo o mundo que a imaginação e o pensamento ordenado e ancestral dos balineses
consegue abarcar e tornar uma representação. Ali, como em qualquer outra sociedade, diferentes categorias de tempo e pessoa enredam-se com outras, para construírem,
juntas e interligadas, como em uma teia muito complexa de símbolos e significações, como que mapas sociais. Mapas que, ao mesmo tempo em que desenham as diversas
dimensões do real, sinalizam para todos e cada um os seus caminhos e percursos ali, ou seja, os sistemas codificados de regras e princípios que dizem a todos, e
a cada um, quem é cada sujeito em relação aos outros, a que obrigações ele está sujeito, como deve se comportar diante do pai e da mãe. dos irmãos, dos outros parentes
consangüíneos (como o irmão da mãe) ou afins (como a sua futura sogra), dos vizinhos e companheiros de trabalho, das pessoas de sua idade, mais moças e mais velhas,
das autoridades civis e religiosas e, até mesmo, dos antropólogos.
Regras e princípios que, de um ou de outro modo, a todos são impostos. Imposições com as quais todos lidam, ora acatando-as, porque crêem nos seus fundamentos jurídicos,
éticos, religiosos, ou associados simplesmente aos costumes, sem os quais as pessoas de qualquer comunidade crêem ser muito difícil viver. Mas imposições contra
as quais os desejos da pessoa conspiram muitas vezes o que, em boa medida, provoca a própria dinãomica da vida social.
42
£ o que estamos fazendo nós, aqui?
Eis aí um exemplo de antropólogo em ação, logo, aí está uma face da resposta
#à pergunta feita. Mas se ela fosse trazida ao nosso próprio caso, talvez a resposta pudesse ficar ainda mais próxima. O que estão fazendo hoje os antropólogos no
Brasil? Fosse no passado e seria mais fácil responder, porque haveria por certo uma maior uniformidade. Quase todos os nossos primeiros antropólogos, estrangeiros
ou nacionais, durante vários anos estiveram envolvidos com pesquisas junto a sociedades indígenas, ou os nossos grupos tribais. Nossos índios foram o seu primeiro
"objeto de estudo" e mesmo hoje em dia há antropólogos fazendo pesquisas etnográficas em suas aldeias e tribos.
A alguns é possível que interesse, de modo abrangente, a descrição de todos os aspectos de uma cultura primitiva, desde as relações ecológicas e econômicas, por
meio das quais homens e mulheres de uma sociedade lidam com a natureza e distribuem entre si os produtos do seu trabalho, até o sistema de ritos e mitos, com que
a cultura da tribo coletivamente constrói o seu universo peculiar de símbolos e significados, que vão da língua à religião.
A outros pode ser que pareça mais produtivo enfocar algum aspecto mais específico, como a organização do sistema de parentesco, os rituais associados à morte da
pessoa, ou, ainda, o sistema de classificação de plantas e animais. Entre estes, uns poderão tomar o "aspecto parcial" de sua etnografia, como uma porta de entrada
a partir de onde procurarão explicar relações, estruturas e formas de organização e modificação da sociedade e da cultura, mais amplas e necessariamente mais integradas,
isto é, mais capazes de se explicarem umas através das outras. Assim, a análise detida de um sistema de ritos funerários pode ajudar a compreender como a cultura
de uma tribo constrói socialmente as suas pessoas e as distribui entre diferentes categorias de seres humanos, assim como a maneira como as pessoas "construídas"
percebem o seu mundo e a si próprias. Já a outros poderá interessar, pelo menos em um primeiro momento, a simples descrição etnográfica de um aspecto especializado
da cultura, como o sistema de composição musical dos índios suyá, ou a maneira como os carajás elaboram uma tecnologia de produção de artefatos de palha.
Concentrar a atenção, a teoria e a pesquisa em sociedades e culturas mais simples, ditas também "de pequena escala"; procurar, a partir dos estudos feitos
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#"ali", explicações densas.e abrangentes para algumas questões intrigantes a respeito de "todos os homens", e "todas as sociedades"; buscar insistentemente comparar,
integrar e totalizar fatos sociais, eis alguns procedimentos tradicionais da Antropologia Social.
Ora, uma de suas características presentes é o fato de que, originada no passado como uma espécie de ramo especializado da Sociologia dedicado expressamente à compreensão
da vida coletiva através do estudo de sociedades "de pequena escala", a Antropologia Social tomou vários rumos.4 Assim, dos nossos índios a nós todos não haverá
sujeito, dimensão ou aspecto de nossa sociedade que não sejam hoje lugar e assunto de interesse sistemático da Antropologia. A própria biografia de alguns de nossos
antropólogos mais conhecidos poderia revelar isso. Saídos quase todos do "mundo dos índios", alguns se dirigiram à análise do que tem acontecido com os "índios",
quando eles foram obrigados a mergulhar no, ou a conviver com o "mundo dos brancos", e esse foi o caminho pelo qual se desenvolveu todo um fértil campo de pesquisas
a respeito de relações interétnicas5 Mas logo tais relações foram estendidas também aos negros e a outras minorias raciais ou nacionais. A outros antropólogos motivou
a descrição de nossas comunidades camponesas tradicionais e, junto a seus vizinhos de ofício, os sociólogos, eles deram origem aos "estudos de comunidade" no Brasil.6
4. Vejamos como uma antropóloga, inglesa, Lucy Man, tiaça tal descendência "Uma perspectiva alternativa é que a Antropologia Social é um ramo da Sociologia, sendo
as outras Ciências Sociais os seus vizinhos mais próximos . Portanto a Sociologia é o estudo da sociedade, sendo a Antropologia um ramo daquela ciência" (Mair 1972,
p 9).
5. Sobre esta questão gostaria de sugerir ao leitor o livro Identidade e etnia, construção da pessoa e resistência cultural Mas, pelo menos para quem deseje realizar
estudos mais aprofundados sobre o assunto, recomendo com ênfase redobrada a leitura dos artigos indicados em minha resenha bibliográfica, ao final do livro
6. Vejamos uma vez mais, como Roberto Da Malta sintetiza exemplarmente a situação. "Este elenco relativamente pequeno de instituições exprimia também um elenco reduzido
de assuntos considerados como relevantes para a pesquisa. Para o estudante atento e dotado de espírito crítico, havia algumas áreas privilegiadas para a pesquisa
Elas eram, resumidamente, as seguintes" a)
#a dos estudos monograficos de "índios" (na linha de Baldus, Fernandes, Wagley e Galvão e, sobretudo, Curt Nimuenda|u, "brancos" (na tradição dos estudos de "comunidade"
norte-americanos, como surge no trabalho de Emílio Williems, Donald Pierson,
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Daí em diante a Antropologia Social praticamente não conheceu mais barreiras à sua persistente e rigorosa curiosidade. "Do índio à boca do lixo", foi a manchete
corn que o jornal Movimento um dia quis traduzir o "movimento" de atualização da Antropologia no Brasil. E é evidente que o que acontece entre nós é apenas um reflexo
local de alguma coisa que, principalmente de uns 2O anos para cá, acontece em todos os lugares onde a Antropologia se desenvolveu. Não imaginemos, no entanto, que
o seu interesse, ao mesmo tempo totalizador e diferenciado, obedece a divisões grosseiras como: "índio", "negro" ou "branco", algo equivalente a "homens da floresta",
"do campo" ou "da cidade". Essas repartições, grosseiras e evidentes demais para serem úteis e corresponderem à realidade do que acontece, apenas ocultam os redutos
das trocas entre os homens, desde onde pensa e pesquisa a Antropologia Social de hoje.
Porque é justamente a trama complexa - difícil mesmo de ser decifrada, porque pode sempre se oferecer a novas leituras, cada vez que é perguntada - das infinitas
teias de relações entre tipos de sujeitos sociais uns com os outros, uns através dos outros, por meio de seus símbolos, de seus poderes e de suas instituições sociais,
aquilo que interessa à Antropologia desvelar. O estudo vagarosamente etnográfico dos índios tapirapés continua sendo hoje tão importante e atual quanto foi há mais
de 3O anos. Mas hoje não é menos importante a análise dos motivos, dos significados e das formas pelas quais, quatro vezes por ano, essa tribo mais aparentemente
complicada, que somos nós mesmos, abandona a rotina e o trabalho e se dedica com fervor aos ritos do Carnaval. Os estudos tradicionais sobre as comunidades camponesas
são renovados com o interesse que despertam os movimentos modernos dos mesmos camponeses, quando em luta por sua terra. A mulher, a criança, o bandido, o capelão
de roça, o profeta urbano de um novo surto religioso, os grupos tradicionais ou renovadoramente minoritários, ou então
Wagley e Galvão, Antônio Cândido e tantos outros) e "negros" (na tradição clássica de Nina Rodrigues, Arthur Ramos e, modernamente, Pierson, Landis
#e Edson Carneiro), b) a dos estudos de contato ou de integração de minorias étnicas ou religiosas à sociedade nacional brasileira. No fundo estávamos no tempo em
que toda a Antropologia Cultural se resumia em estudos de "brancos", "índios" e "negros", com muito pouca consistência crítica a respeito da constituição destas
categorias como objeto de estudo e com pouco interesse na análise de suas relações concretas em casos específicos" (Da Matta, op cit, pp 179-18O)
45

#este ator surpreendente que é o homem comum em seus dias de cotidiano, eis os sujeitos cuja vida ou cujo modo peculiar de participação na vida de todos nós tem
suscitado velhas e novas perguntas à Antropologia.
Unidade e diferença
Resta então uma pergunta. Muito bem, se a Antropologia Social sai do estudo exclusivo dos grupos primitivos que a fizeram ser diferente de outras ciências sociais,
e se volta sobre os atores, as relações e as instituições sociais que sempre foram o objeto de estudo da Sociologia, da Ciência Política e da História, o que é que
dá à Antropologia a sua singularidade?
É preciso responder dizendo de saída que algumas diferenças e oposições que foram importantes no passado, hoje em dia, são francamente secundárias. Ao invés de criar
rivalidades e confusões, isso tem contribuído muito para a melhoria da qualidade do diálogo entre todos os cientistas sociais. Obviamente um dos resultados disso
tem sido a capacidade de todas as ciências humanas e, entre elas, as sociais, de reverem freqüentemente não só as suas fronteiras, como também as suas teorias, métodos
e significados. Até alguns anos atrás a idéia de acontecimento e de história parecia pouco importante para antropólogos dedicados ao estudo de povos em que a própria
percepção do tempo é lenta, às vezes evasiva e até mesmo hostil à história. Mas hoje em dia, tanto para compreender tais povos quanto para desvelar o sentido das
trocas que entre si vivem pessoas, povos e grupos sociais imersos na história e variadamente conscientes de serem parte dela, os antropólogos aprendem com os historiadores
a incorporar as suas categorias aos seus estudos. Do mesmo modo, a Antropologia tem contribuído bastante para a revisão dos próprios interesses e questões dos historiadores.
Mas, voltemos à questão colocada. Existe alguma coisa que torne a Antropologia Social uma área específica das ciências sociais? De certa maneira, sim, e sob alguns
aspectos isso é relevante. Não demarca mais fronteiras geográficas ou sociais entre ela e a Sociologia, por exemplo. Demarca modos de abordagem, formas de formular
perguntas, estratégias próprias de conduzir a investigação, ênfases na busca de explicações.
46
Vejamos algumas delas. Em primeiro lugar a Antropologia Social parece não ter perdido a sua vocação holística. Traduzo essa palavra com arde mistério. Mais do que
sempre pretender explicar "tudo de todas as coisas" a respeito
#da sociedade que investiga, a Antropologia opta por explicá-las o mais possível, desde o ponto de vista das relações que produzem, a totalidade dos fenômenos sociais
de que são parte. Proveniente da investigação de sociedades "simples", em que o sentido do todo domina a razão de ser de cada uma de suas partes de vida social e
simbólica, a Antropologia aspira ainda a lidar com estruturas, relações e símbolos sociais como fatos sociais totais, feliz expressão de Mareei Mauss, um dos fundadores
da Antropologia Social.
Outra de suas características é o que chamamos de relativismo que, para alguns antropólogos, não faz parte apenas de uma das lógicas da ciência, mas é também um
artigo de fé. Aqui se defende o ponto de vista de que as culturas humanas se eqüivalem como valor e experiência, não se reduzindo umas às outras, não sendo mensuráveis
umas pela escala de uma suposta "evolução" de outras e explicando-se plenamente, cada uma delas, de acordo com os termos da lógica de seu próprio sentido.
Isso remete a uma aparente contradição com que os antropólogos despertam e vão dormir. Falo da oposição entre duas idéias. A idéia de que cada sociedade cria ao
longo de sua história soluções culturais próprias, que apenas se explicam de acordo com a lógica dos sistemas que produzem (e a tarefa do antropólogo é aplicar
a lógica de sua ciência para decifrar a da cultura que estuda) e que têm justamente no dado da diferença o seu mais expressivo valor como produto e sentido de trocas
e dos trabalhos dos e entre homens reais e concretos de cada sociedade versus a idéia de que o que torna necessário e importante estudar tão a fundo em tantas culturas
diferentes é a possibilidade de estabelecer entre elas comparações que tornem possível compreendermos, para além das diferenças, o significado do comportamento humano,
das regras, dos princípios e dos códigos que regem diferencialmente tais comportamentos, das instituições sociais que são o resultado de seu trabalho, ou seja, do
persistente trabalho coletivo das condutas entre os homens e do sentido que, ao vivê-las, eles e a sua sociedade atribuem a elas: de um jogo de baralho que entre
amigos se joga à noite, aos jogos do poder, da ciência, da magia ou da religião.
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#Mas a esperança da Antropologia é a de que justamente o estudo particular, mas nunca necessariamente isolado, de culturas e suas sociedades seja um meio para que
teorias de explicação de fenômenos e sentidos sociais mais abrangentes possam ser pouco a pouco construídas. O que não significa em absoluto que se possa esperar
reduzir toda a complexidade da vida social a um conjunto simplificado e universal de regras ou de leis definitivas. Ao lado das outras ciências sociais, a Antropologia
precisou amadurecer para abandonar esse sonho antigo que nunca foi mais do que a sua própria ilusão.
Uma última característica da Antropologia poderia ser ainda lembrada. Tal como as outras, ela não opõe a Antropologia às suas vizinhas, mas reforça uma intenção
de ênfase. Desde alguns de seus fundadores entre fins do século passado e o começo do nosso, a Antropologia Social é essencialmente uma ciência dedicada a compreender
a sociedade humana a partir de suas representações sociais, aquilo que fazem os seus sujeitos quando vivem e pensam a sua vida cotidiana. Melhor ainda, alguns antropólogos
preferem defender que a Antropologia estuda a sociedade como um sistema de símbolos e significados.
Bibliografia
BEATTIE, John. Introdução à antropologia social. São Paulo: Editora Nacional/Edusp,
1971.
BRANDÃO, Carlos Rodrigues. Identidade e etnia, construção da pessoa e resistência cultural. São Paulo: Brasiliense, 1985.
DA MATTA, Roberto. Relativizando, uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981.
GEERTZ, Clifford. "Por uma teoria interpretativa da cultura". A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
MAIR, Lucy. Introdução à antropologia social. Rio de Janeiro: Zahar, 1972.
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i POLÍTICA E COTIDIANO:
AS MIL E UMA FACES DO PODER
Adalberto Paranhos
Muita gente torce o nariz ou franze a testa quando se começa a falar de política. Há mulheres que, quando estoura na sala a discussão sobre política, correm para
a cozinha, pois, afinal de contas, "política é assunto pra homem". Homens e mulheres, indistintamente, por vezes trocam as palavras pelo silêncio, fugindo às discussões
políticas sob o cômodo pretexto de que "religião e
#política não se discutem". Jovens, numa proporção assustadoramente grande, voltam as costas para as questões políticas, preferindo ficar "na sua", e disparam sua
condenação inapelável: "política é caretice". E por aí vai. Torna-se inevitável reconhecer que as ações políticas andam em baixa na bolsa de valores populares.
Política normalmente é identificada a todo um repertório de golpes baixos. Nela prevaleceria o jogo sujo dos interesses particulares e egoísticos, a atração irresistível
pelo poder, que funcionariam muitas vezes como o passaporte para a entrada no mundo privilegiado dos ricos e no círculo estreito das pessoas de grande projeção.
A demagogia seria, em geral, a sua senha.
Num certo sentido, a caracterização da atividade política como algo que sugere práticas desonestas e promessas não cumpridas, feitas às vésperas das eleições, não
deixa de ter procedência. Nessa perspectiva, o baixo conceito quando não o preconceito - generalizado em relação à política e aos políticos evidencia, pelo menos,
um determinado grau de consciência crítica de diferentes
l - Licenciado em Ciências Sociais, cursou pós-graduação em Ciência Política (Unicamp), professor de Política da PUC-Campmas, autor do livro Dialética da dominação
(Dominação ideológica e consciência de classe). Campinas: Papirus, 1984. Ex-diretor da revista Cara a Cara.
49

#segmentos da população, com base em sua experiência cotidiana. As classes trabalhadoras, por exemplo, estão fartas de assistir ao funcionamento da máquina política,
acima de tudo, para atender aos interesses das classes dominantes, integradas por grandes industriais, banqueiros etc. Daí a tomarem a política como atividade voltada
para as minorias é um passo. Algumas pessoas talvez até preferissem, ainda que momentaneamente, ser surdas e cegas em vez de terem que suportar a demagogia berrada
por certas propagandas eleitorais despejadas pelo rádio e pela tv. Cansado disso, alguém, em sinal de protesto, pichou um muro da cidade litorânea de Itanhaém com
uma seta apontando para o mar e a seguinte inscrição: "Oceano Atlântico - obra de Maluf".
Se essas manifestações captam, com alguma consciência crítica, o que é, na prática, a política institucional, me parece necessário, porém, sair do campo das simples
constatações e perguntar: a quem interessa, no fundo, a permanência dessa aura de descrédito que cerca o conceito de política, numa palavra, o aviltamento do seu
significado? Não é difícil perceber.
Ora, se encararmos a política, em geral identificada à política institucionalizada, simplesmente como "coisa que interessa a eles, os ricos", e nos afastarmos de
qualquer tentativa de exercer nossa influência política para alterar os rumos da situação, em princípio as classes dominantes até terão motivos para nos agradecer.
Será mais fácil para elas conservarem-se como classes privilegiadas. Se se considerar que a omissão consiste numa forma de presença - em muitos casos, a pior delas,
bem entendido - a nossa não-participação e o nosso alheamento diante da política constituem também um ato político, reforçando, por via indireta, aqueles que tiram
partido da manutenção da situação vigente. Por isso, a meu ver, precisamos ir além dos significados mais comuns - e freqüentemente muito empobrecedores - que recobrem
a política. Conceituar o que vem a ser política não é algo pacífico entre os estudiosos do assunto. Estou entre aqueles que entendem que somos todos, conscientemente
ou não, seres políticos, como seres sociais que estabelecem entre si relações de poder na sociedade. Nesse sentido o que me interessa, sobretudo, é resgatar uma
dimensão,
2. Para uma análise clássica do Estado, na visão marxista, como um Estado de classe, vide Engels, l9S5.Vide ainda Gramsci, 1978
5O
comumente perdida, do conceito de política como espaço de criação individual e coletiva, múltiplo, contraditório, conflituoso, aberto, no cotidiano da
#existência humana, à expressão dos mais diferentes desejos e interesses. Redescobrir, revalorizar em outros termos a política assume, do meu ponto de vista, o caráter
de trabalho inadiável para todos quantos queiram levar as ações políticas a percorrerem novos caminhos, superando os descaminhos em que elas se meteram.
corn a palavra, Maquiavel " " ""
Quando se analisa o significado de política, convém retomar, mesmo que por alto e sem a intenção de delinear a trajetória histórica da chamada ciência política,
uma ou outra formulação importante de pensadores e cientistas que se dedicaram ao seu estudo.
O que se denomina de ciência política encontra seu objeto de investigação e análise num elenco considerável de preocupações que envolvem, em termos gerais, as ciências
sociais. Toma como eixo a questão do poder, do Estado, do governo, das relações de dominação, da autoridade, abrindo campo para o estudo, entre muitos outros temas,
da ideologia, dos partidos políticos, dos sindicatos, gravitando, assim, prioritariamente, em torno de determinadas instituições políticas e sociais.
Se recuarmos no tempo, verificaremos que em pleno período feudal a reflexão política estava imersa na teologia, sinal de uma época em que a Igreja
- aliás, portadora de um tremendo poder econômico, político e social - corporificava a ideologia dominante. Os filósofos medievais acreditavam, na esteira dos ensinamentos
de São Paulo apóstolo, que "todo poder está em Deus", afirmando com isso as bases divinas do Estado. Este era concebido como o promotor do bem comum e a política
deveria ser então regida pela ética.
Em meio às múltiplas transformações que vão sacudir a sociedade feudal à medida que ocorre a transição para o capitalismo, a Renascença italiana se destaca como
impulsionadora de um novo modo de ver a política, sobressaindo, aí, a figura de Maquiavel. Para esse pensador florentino, que rompe as concepções tipicamente medievais,
o poder real "é tudo menos divino".
3. Sobre o assunto, vide Sabine 1964, e Cassirer 1976.
51

#Ele tratou da política como atividade essencialmente humana. Nessa perspectiva, ao analisar, num dos mais notáveis capítulos (XXV) de O Príncipe, a capacidade humana
para resistir ao "destino" ou à "sorte", Maquiavel lembra, machismo à parte, que "a sorte é mulher: e é necessário, para dominá-la, bater-lhe e contradizê-la". Além
do mais, ele contribuiu para desgarrar o pensamento político de reflexões meramente idealistas, deixando claro que "por ser da minha intenção escrever coisa útil
para quem a compreenda, pareceu-me de mais conveniência procurar a verdade real das coisas, e não o que sobre elas nos é dado imaginar".
Nesse sentido, Maquiavel nos ensina que de nada adianta alimentarmos ilusões acerca da política - tipo "política é a arte de governar voltada para o bem comum" -
quando a vida política desmente isso a cada dia. Na prática - e é esse o significado do realismo de Maquiavel que aqui me interessa valorizar - as aparências freqüentemente
se confundem com a realidade e muitos governantes, cientes de que na política oficial normalmente a versão é mais importante do que o fato, ou melhor, transforma-se
no próprio/a/o, acabam, por exemplo, por buscar justificativas inclusive na religião para os mais diversos procedimentos. Afinal, como observou Maquiavel, o governante,
ao ser visto e ouvido, deve dar a impressão "de que é todo clemência, todo boa-fé, todo integridade, todo humanidade, todo religião. Quanto a esta última qualidade,
é a que mais importa aparentar".
Dono de um realismo que por vezes choca, trazendo, porém, as pessoas de volta à realidade da política institucional, Maquiavel dissertou sobre os mais variados meios
utilizados pelos homens para atingir o poder estatal, nele manter-se e expandir o seu poderio, vendo nisso um atestado de virtú, ou seja, de eficácia política. E,
sabiamente, constatou, entre outras coisas, que o príncipe, para evitar ser odiado, deveria abster-se de se apropriar tanto dos bens como das mulheres dos seus súditos,
pois "os homens mais depressa se esquecem da morte
A
do pai que da perda do patrimônio".
Às voltas com a política oficial do seu tempo, Maquiavel estava, enfim, preocupado em estudar empiricamente, isto é, concretamente, como era a vida
4. Citações extraídas de O Príncipe, de Maquiavel, respectivamente pp. 1O8, 68, 78 e 74.

#52
política, em vez de envolvê-la em nebulosas considerações sobre como ela deveria ser se não fosse o que era. Preocupava-o, sim, o que ela poderia ser na sua Itália,
ou, mais especificamente, na sua Florença, a partir do que ela efetivamente era. Daí ser ele reconhecido como um marco na história do pensamento político.
Política e poder, seus usos e abusos
Um sociólogo particularmente interessado nas questões políticas, o alemão Max Weber, discutiu o conceito de política num célebre discurso, pronunciado em 1918, com
o título "A política como vocação". Depois de lembrar que o significado de política é bastante abrangente a ponto de compreender até mesmo a "política de uma esposa
prudente que busca orientar o marido", ele se atem, basicamente, à política num sentido restrito, identificada, a rigor, com a política institucional. "Daí "política"
para nós - diz Weber significar a participação no poder ou a luta para influir na distribuição de poder, seja entre Estados ou entre grupos dentro de um Estado."
Nessa perspectiva, a política tem como ponto de referência o Estado. Dessa maneira, por exemplo, para além das disputas entre os partidos políticos que aspiram a
assumir o governo, uma luta à primeira vista de natureza "econômica" contra a política salarial imposta pelo governo consiste também numa luta política porque, por
intermédio dela, se exerce pressão sobre o Estado visando a influir na repartição do poder. O mesmo se aplica às lutas de mulheres por creches, de setores da juventude
pela descriminalização da maconha, de artistas e intelectuais perseguidos pela tesoura da censura, de parcelas da população pela humanização dos presídios etc. Há
um denominador comum entre essas demandas, por mais diferentes que sejam: seu alvo é o Estado, numa tentativa de levar o poder estatal a acatar umas tantas reivindicações.
Mas, a meu ver, é preciso dar um passo adiante e valorizar outras dimensões da política, ou melhor, concebê-la igualmente num sentido amplo. Vista dessa forma, política
implica relações de poder, ainda que inconscientes, independentemente de fazer do Estado um ponto de referência. Por outras
5. Weber 1974, pp. 97-9
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#palavras, nessa concepção, política é algo que atravessa o nosso cotidiano na medida em que as relações de poder se manifestam, inclusive em circunstâncias e lugares
por vezes insuspeitados. Na cama, por exemplo, quando um homem se preocupa tão-só com o seu gozo e o seu prazer, pouco se importando com a satisfação da mulher,
estamos assistindo, evidentemente, a uma relação sexual que revela, entretanto, componentes de dominação, de poder. Isso também se torna perceptível em hospitais
psiquiátricos, onde toda uma bateria de dispositivos disciplinadores, a serviço do adestramento dos pacientes a determinadas modelizações de comportamento, é posta
em prática. No trabalho, quando o negro é preterido em favor de um branco, embora, paradoxalmente, se diga que no Brasil não existe preconceito racial porque "o
negro reconhece o seu lugar", está aí um privilégio para uns e um preconceito contra outros que configura uma relação de poder. Uma relação política, portanto.
Concebida nesses termos, é também uma exigência política, reveladora da força dos patrões, a imposição de exames de urina para que moças sejam contratadas em certas
empresas, bem como a dispensa de mulheres casadas ou ainda a disciplina fabril que limita a x vezes ao dia a ida de operários aos sanitários.
Diante disso, pergunto: alguém pode manter-se à margem das relações políticas estabelecidas na sociedade? Mesmo que não o queiramos, somos permanentemente envolvidos
pelas e nas relações de poder que perpassam todos os poros da vida social. Afinal, até a política do avestruz - a política da omissão
- é, como já disse, um ato político.
Mas o poder não deve ser encarado exclusivamente como algo que atua sobre nós, como se nos limitássemos a ser objeto de sua ação. Ele também é exercido por nós,
o que nos coloca simultaneamente na condição de sujeitos e objeto do exercício do poder. Assim, quando homossexuais assumem a luta pelo direito à sua opção sexual
- o que, aliás, se sintoniza com a luta pelo respeito à liberdade individual - eles exprimem uma reação aos padrões serializados de comportamento. Nesse aspecto,
os homossexuais, normalmente objeto do escárnio dos portadores de uma visão conservadora sobre a sexualidade, não só sofrem a ação do poder dominante como, ao mesmo
tempo, reagem contra ele (a rigor, independentemente do seu grau de consciência e do seu engajamento ou não no "movimento gay", o próprio fato de os homossexuais
existirem e persistirem em práticas sexuais tidas como "anormais" constitui um ato políti-
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#co). Isso se aplica, igualmente, aos defensores das rádios livres: ao pregarem a realização da "reforma agrária na terra e no ar" eles praticam a pirataria cultural
e questionam a propriedade e o usufruto dos poderosos meios de comunicação, recorrendo às "barricadas hertzianas".
Todos, consciente ou inconscientemente, somos fatores de poder na sociedade. Tomando essa constatação como ponto de partida, podemos então criticar uns tantos (maus)
usos da concepção de poder, que não deixam de trazer embutidas determinadas práticas políticas questionáveis.
corn muita freqüência as pessoas tendem a identificar poder com Estado, o que se evidencia inclusive na linguagem da esquerda quando se afirma que "precisamos tomar
o poder" ou se formulam fervorosos votos revolucionários de que, um belo dia, "chegaremos ao poder". Em primeiro lugar, esse discurso supõe que o poder é constituído
menos por relações políticas, concebidas num sentido amplo, e se configura muito mais como alguma coisa que se torna ou se arrebata. Nesse sentido, coisifica-se
o
poder: ele estaria especialmente nos aparelhos, ou melhor, no aparelho-mor, o aparelho estatal. Em segundo lugar, se "ainda chegaremos lá, ao poder", é porque, de
uma forma ou de outra, o concebemos, pelo menos por ora, como algo distante de nós.
A tendência, nesse caso, é a de estabelecermos uma relação de alteridade com o poder. A política e o poder são vistos essencialmente como a política e o poder do
outro. O Estado deteria o poder, que estaria até geograficamente confinado nele. Ou por outra, as classes dominantes seriam os "donos do poder". Levadas essas posições
às últimas conseqüências, de um lado se situariam os poderosos, os que tudo ou quase tudo podem; de outro lado, os oprimidos, os dominados, os que nada ou quase
nada podem.
Isso transparece, de algum modo, na nossa maneira de falar. Quantas vezes já não se disse - a partir de um raciocínio economicista - que os despossuídos economicamente
seriam, conseqüentemente, destituídos de poder? Essas visões mais vulgares sobre os usos da noção de poder trazem implícita uma concepção elitista: o poder seria
coisa das "elites"; as classes populares são então definidas com base em atributos negativos: elas careceriam de poder. Na falta de poder, só lhes restaria - por
uma questão de mera lógica de raciocínio - pôr-se à espera de que as autoridades e as classes dominantes paternalmente viessem em seu socorro para suprir-lhes a
carência de poder.
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#- " No fundo, quer se tenha consciência disso ou não, esse tipo de discurso faz sobressair a força do poder instituído em oposição à fraqueza do poder instituínte.
Contribui para desestimular, mesmo que implicitamente, a capacidade de organização autônoma e independente das classes trabalhadoras como fator de poder. Ora, por
mais poder que o Estado e as classes dominantes concentrem em suas mãos, esse poder consiste numa realidade dialética, contraditória, e não se manifesta sem provocar
resistências - maiores ou menores, conforme a circunstâncias históricas - das classes dominadas. A reação de trabalhadores sem-terra e de posseiros obrigando o governo
Sarney a implementar, ainda que timidamente, um Plano Nacional de Reforma Agrária, é apenas um dentre muitos exemplos disponíveis de poder popular.
Que conclusão se pode tirar disso tudo? Se somos todos, como já enfatizei, fato rés de poder Q, além do mais, se o podernão se resume tão-somente ao poder estatal,
todos aqueles que se integrem à luta pela democratização da sociedade e das relações humanas são convidados a atacar as relações autoritárias de poder que se expressam
tanto no âmbito do Estado como no cotidiano da vida social e afetiva.
Volto a repetir que as relações de poder são multiformes, apresentam mil e uma faces e não escolhem lugar para se manifestarem. Daí Michel Foucault referir-se ao
poder como algo que circula, ou seja, como algo que funciona e se exerce em cadeia. Nesse sentido, é necessário ficar alerta para o fato de que o poder não se esgota
nas relações de exploração e de dominação entre as classes.
Dividir, rigidamente, o mundo em classes dominantes e dominadas, como se, a partir disso, tudo tivesse a devida explicação, pode nos levar a fechar os olhos diante
de situações em que o trabalhador - dominado pelas relações ditatoriais que imperam no mundo das empresas - muitas vezes se comporta, no trato com sua mulher, como
agente de dominação, assumindo, pois, o papel de dominador. O que, aliás, não significa dizer que o machismo - como relação de poder - seja privilégio dos homens:
sem dúvida, existem mulheres tão ou mais machistas que os homens e, por esse aspecto, a opressão machista também não se reduz a uma equação mecânica segundo o modelo
homem (dominador) x mulher (dominada). Esses papéis sociais freqüentemente aparecem embara-
6. Vide Foucault 1981.
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#lhados, incapazes de serem percebidos em toda a sua extensão pela ótica dos analistas mais simplistas. Afinal de contas, o machismo não tem sexo.7
Por isso, reafirmo que o poder não se localiza espacialmente aqui ou ali, nem se concentra apenas nesse ou naquele sujeito histórico. Ele está por toda parte e diz
respeito a todos nós, mesmo que reconheçamos, como é óbvio, que certas classes, grupos sociais ou indivíduos dispõem de mais poder do que outros. E se ele se exprime
sempre de maneira contraditória, não há como admitir a dominação absoluta: nos aparelhos do Estado, nas empresas, nas
Q
relações cotidianas convivem, contraditoriamente, a dominação e a resistência.
Mais do que isso, o poder, nas suas manifestações profundamente contraditórias, se instala de forma conflitiva também em nós. Por outras palavras, ele não constitui
simplesmente algo exterior às pessoas. Como ressalta Félix Guattari, "o inimigo não está só nos imperialismos dominantes. Ele está também em nossos próprios aliados,
em nós mesmos, nessa insistente reencarnaçáo dos modelos dominantes". Daí a atenção que Guattari dirige às questões micropolíticas, à economia do desejo, aos modos
de produção da subjetividade capitalística, encarados como uma indústria de base do sistema capitalista. E a importância atribuída não somente às transformações
macropolíticas como também às "revoluções moleculares" que inaugurem novos processos de singularizações, a partir de novas atitudes e novas formas de sensibilidade.
Enfim, se o poder é plural-, a revolução não pode ser conjugada no singular.
Vale ainda acrescentar outra observação. Qualquer que seja a forma de concebermos o que é poder, não devemos, a meu ver, identificar inteiramente, ao contrário do
que é comum, poder e dominação. Nem toda relação política envolve necessariamente uma relação de dominação. Não admitir isso eqüivaleria a descartar a possibilidade
de expressão política, como um ato de criação coletiva e individual, orientada para a negação das múltiplas relações de dominação existentes na sociedade e no cotidiano
das relações humanas.
Uma última palavra, que faz as vezes de conclusão. Entendida a política na acepção ampla com que trabalho, a chamada ciência política transborda os
7. Sobre a face erótica da dominação, vide Mantega (coord.) 1979.
8. A propósito, vide Paranhos 1984.
9. Vide Guattari e Rolnik 1986, p. 48.
1O. Sobre distintas concepções acerca do poder, vide Lebrun 1981.

#$7

#seus limites convencionais e dissolve as linhas demarcatórias rígidas entre as diversas ciências humanas. Embora as relações de produção, por exemplo, sejam enquadradas
normalmente nos domínios do "econômico" e, conseqüentemente, da Economia, como isolar, artificialmente, a presença nessas mesmas relações de mecanismos de poder
- no caso, de disciplinarização da força de trabalho - associados a práticas e valores de conteúdo ideológico? Ora, o poder político e a dominação ideológica não
são ao mesmo tempo expressão e condição para a existência de determinadas relações sociais de produção? Ou por outra, como separar nitidamente os campos do "econômico"
e do "político" se estes se cruzam e se articulam de maneira indissociável? Por isso e muito
mais, só nos resta, para não sermos atropelados pela realidade, tentar analisar os acontecimentos sociais fora de modelos rígidos preestabelecidos. E, para tanto,
um passo decisivo consiste em procurarmos romper os nós da camisa-deforça com que muitos vestiram a ciência política.
Bibliografia
-"í.
CASSIRER, Ernst. O mito do Estado. Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. 1Oa ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. 2a ed. Rio de Janeiro: Graal, 1981.
GRAMSCI, Antônio. Maquiavel, a política e o Estado moderno. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.
GU ATT ARI, Félix e ROLNIK, Suely. Micropolítica (Cartografias do desejo). Petrópolis: Vozes, 1986.
LEBRUN, Gérard. O que é poder. 3a ed. São Paulo: Brasiliense, 1981.
MANTEGA, Guido (coord). Sexo & poder. São Paulo: Brasiliense, 1979.
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1965.
PARANHOS, Adalberto. Dialética da doutrinação (Dominação ideológica e consciência de classe). Campinas: Papirus, 1984.
SABINE, George H. História das teorias políticas, vol. 1. São Paulo: Fundo de Cultura, 1964. WEBER, Max. Ensaios de sociologia. 3a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.
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ECONOMIA POLÍTICA
Alcides Ribeiro Soares

#Objeto
A economia política estuda o modo de produção social nas diferentes etapas de seu desenvolvimento.
Para tornar claro seu objeto é preciso, primeiramente, elucidar o que se entende por modo de produção social. Em seguida, é necessário explicitar quais são essas
etapas.
Impõem-se, para isso, esclarecimentos prévios sobre alguns conceitos básicos relacionados com os fundamentos da sociedade, a partir da atividade produtiva do homem.
Sabe-se que a base"da vida social é constituída pela produção dos bens materiais, utilizados pelo homem, para suprir suas necessidades.
A produção desses bens decorre fundamentalmente de três elementos: o trabalho, os meios de trabalho e os objetos de trabalho.
O trabalho é a atividade do homem dirigida no sentido da produção da riqueza material. É a atividade do homem orientada no sentido de adaptar os materiais da natureza
para a satisfação de suas necessidades.
Ao exercer sua atividade sobre a natureza para a produção dos bens de que necessita, o homem adquire novos conhecimentos e se organiza socialmente. Isolado, o homem
é incapaz de adaptar a natureza de maneira a satisfazer
l- Bacharel em Ciências Econômicas, mestre em Ciência, doutor em Ciência, professor titular do Departamento de Economia da PUC-SP e da Faculdade de Ciências Econômicas,
Contábeis e Administrativas da PUC-Campmas.
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#suas necessidades. Somente organizado em grupos, socialmente, ele pode realizar essa adaptação.
Conseqüentemente, o homem, ao transformar os materiais disponíveis na natureza, também se transforma. Portanto, em certo sentido, homem é produto do próprio trabalho.
Os meios de trabalho são todas as coisas que auxiliam o homem a exercer sua ação sobre os objetos de trabalho, adaptando-os para a satisfação de suas necessidades.
São meios de trabalho as máquinas e os equipamentos, os edifícios destinados a fins produtivos, as instalações produtivas, as ferrovias, rodovias, instalações portuárias,
aeroportuárias, as usinas hidroelétricas, enfim, todo o aparelhamento produtivo. Dentre os meios do trabalho, são os instrumentos de trabalho, principalmente as
máquinas-ferramentas, que ocupam posição fundamental, decisiva, no processo produtivo.
Os objetos de trabalho são todas as coisas sobre as quais se exerce o trabalho do homem, mediante o uso dos meios de trabalho. São objetos de trabalho todas as matérias-primas,
o solo agrícola, as jazidas minerais, as florestas etc. Em suma, a terra e suas entranhas constituem o objeto universal de trabalho.
Considerados em seu conjunto, os meios de trabalho e os objetos de trabalho formam os meios de produção.
O homem, com seus conhecimentos e habilidades orientados para fins produtivos, mais os meios de produção, sobretudo aqueles por ele criados, constituem as forças
produtivas da sociedade.
Na produção dos bens materiais de que se utilizam para a satisfação de suas necessidades, os homens contraem inúmeras relações entre si, denominadas relações de
produção ou econômicas. E é somente dentro dos limites dessas relações sociais que se realiza a produção.
"Na produção, os homens não agem apenas sobre a natureza, mas também uns sobre os outros. Eles somente produzem colaborando de uma determinada forma e trocando entre
si suas atividades. Para produzirem, contraem determinados vínculos e relações mútuas e somente dentro dos limites desses vínculos e relações sociais é que se opera
sua ação sobre a natureza, isto é, se realiza a produção."
2. Marx e Engels 1977, vol. 3, p. 69.
6O
Em conjunto, as forças produtivas e as relações de produção constituem o
#modo de produção. As épocas históricas distinguem-se entre si, não pelo que se produz, mas pelo modo como se produzem os objetos de que o homem se utiliza para
satisfazer suas necessidades. O modo de produção caracteriza a própria época histórica.
A economia política é uma ciência social que trata da produção material sob forma historicamente determinada, sobre as leis econômicas peculiares a cada modo de
produção. As leis econômicas expressam a essência dos fenômenos e processos econômicos, os nexos internos causais e as relações de dependência que existem entre
eles. Cada modo de produção possui uma lei econômica fundamental, que lhe é inerente. Lei esta que determina os aspectos principais do modo de produção, e que lhe
exprime a essência.
A economia política investiga, antes de tudo, as leis específicas de cada fase do desenvolvimento da produção e da troca, e só depois de haver realizado essa investigação,
pode formular algumas leis verdadeiramente gerais, aplicáveis à produção e à troca em seu conjunto. Portanto, as diferentes formações sociais, em seu desenvolvimento,
não se determinam apenas por suas próprias leis econômicas, mas também pelas leis econômicas gerais e vigentes em todas as formações sociais, como é a lei da correspondência
entre as relações de produção e o caráter das forças produtivas. Em outras palavras, as formações sociais, embora se diferenciem umas das outras pelas leis econômicas
específicas inerentes a um determinado modo de produção, acham-se unidas entre si por algumas leis econômicas vigentes em todas as formações sociais.
As leis econômicas são objetivas, isto é, existem independentemente de nossa vontade e refletem os processos reais de desenvolvimento econômico.
Modos de produção
De acordo com a maioria dos autores marxistas, a história da humanidade conhece cinco modos de produção: modo de produção comunal-primitivo ou modo de produção
da comunidade primitiva (comunismo primitivo); modo de produção escravista (escravismo); modo de produção feudal (feudalismo); modo de produção capitalista (capitalismo);
modo de produção comunista (comunismo), cuja etapa inferior é o socialismo."
3. Esta classificação possui caráter essencialmente didático. Para um estudo mais aprofundado
61

#Segundo os citados autores, esses modos de produção tendem a ser observados entre todos os povos, ressalvadas as particularidades do desenvolvimento de cada um.
Traços distintivos essenciais desses modos de produção social:
L Modo de produção comunal-primitivo:
- Instrumentos de trabalho extremamente rudimentares e baixíssimo nível de produtividade de trabalho.
1 - - Inexistência da propriedade privada sobre os meios de produção e, conseqüentemente, inexistência de classes sociais.
- Propriedade coletiva dos meios de produção, trabalho coletivo e ( " ^ distribuição igualitária dos bens produzidos. ""-" ""-
- Divisão natural do trabalho, isto é, por sexo e idade.
Em síntese, a lei econômica fundamental do modo de produção comunalprimitivo consiste na luta permanente para assegurar a sobrevivência em condições precárias dos
membros da comunidade, mediante a posse coletiva dos meios de produção, o trabalho coletivo e a distribuição igualitária dos bens produzidos, por meio do uso de
instrumentos de trabalho extremamente rudimentares.
2. Modo de produção escravista:
corn a desagregação da comunidade primitiva, resultante de diversos fatores, entre os quais, o avanço tecnológico e o aumento da produtividade do trabalho, torna-se
viável, surge e se desenvolve o modo de produção escravista, cujos traços característicos são:
- Propriedade privada dos senhores de escravos sobre os meios de produção, bem como sobre os próprios trabalhadores (escravos). -
da questão, recomenda-se a leitura das seguintes obras, entre outras Marx, Prefácio à Contribuição à crítica da economia política, Formações econômicas pré-capitalistas
e O Capital, Engels, A origem da família, da propriedade privada e do Estado; Marx e Engels, Manifesto do Partido Comunista
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- Produtividade do trabalho relativamente elevada, permitindo ao trabalhador criar um sobreproduto que é apropriado pelo senhor de escravos (sobreproduto é a produção
que ultrapassa aquela necessária à sobrevivência do trabalhador). O sobreproduto é criado pelo sobretrabalho, que é a fração do tempo trabalhado além daquele necessário
à produção do mínimo de que o trabalhador (escravo) necessita para sua sobrevivência.

#- Divisão social do trabalho: entre a cidade e o campo, entre pastores e agricultores, entre artesãos, entre o trabalho manual e o trabalho intelectual etc.
- Produção destinada essencialmente ao consumo local.
A escravidão é a primeira e mais brutal forma de exploração do homem pelo homem.
O escravismo caracterizou a vida econômica e social da chamada Antigüidade Clássica (Grécia e Roma). Outras antigas civilizações, como as do Egito, Babilônia, índia
e China, desenvolveram-se, também, em grande medida, à base do trabalho escravo.
As relações escravistas de produção esgotaram, porém, suas potencialidades de desenvolvimento, tornando-se, portanto, estreitas para manter em seu interior o desenvolvimento
das forças produtivas.
As forças produtivas entraram, assim, em contradição com as relações sociais de produção, exigindo a superação destas. As novas relações de produção surgidas com
a desagregação do trabalho escravo ensejaram um mais livre desenvolvimento das forças produtivas, em comparação com as condições vigentes na sociedade escravista.
Surge, assim, o modo de produção feudal, cujas características essenciais são a seguir mencionadas.
3. Modo de produção feudal:
- Propriedade privada dos senhores feudais sobre os meios de produção.
- Propriedade incompleta dos senhores feudais sobre os servos da gleba. Estes, embora estejam vinculados ao feudo, já dispõem de mais liberdade, possuem instrumentos
de trabalho e outros bens próprios.
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#- Divisão da sociedade em duas classes sociais fundamentais: senhores feudais (donos da terra) e servos da gleba (camponeses).
- Crescente divisão social do trabalho.
- Produção destinada predominantemente ao consumo local.
A lei econômica fundamental da sociedade feudal é o pagamento da renda da terra pelos camponeses aos senhores feudais em trabalho gratuito, em produto ou em dinheiro.
Ao esgotar suas potencialidades, as relações feudais de produção cederam lugar às relações capitalistas de produção.
O modo de produção capitalista tem, em síntese, as características essenciais a seguir apresentadas.
4. Modo de produção capitalista:
- Propriedade privada sobre os meios de produção e divisão da sociedade em duas classes sociais fundamentais antagônicas, novas e qualitativamente diferentes das
classes sociais dos modos de produção escravista e feudal: a burguesia e o proletariado.
- Avanço sem precedentes dos conhecimentos científicos e tecnológicos.
- Generalização da produção de mercadorias, isto é, da produção destinada à venda, ao mercado. Tudo, na sociedade capitalista, se transforma em mercadoria, inclusive
a força do trabalho.
- O trabalhador, diferentemente do que ocorre nas sociedades escravista e feudal, já não é mais um escravo, nem servo da gleba. Ele é livre para vender sua força
de trabalho à classe capitalista no mercado. É livre num duplo sentido: pode vender sua força de trabalho ao capitalista que lhe fizer a melhor oferta, isto é, lhe
pagar o melhor salário; e é livre, também, porque não possui meios de produção para criar os bens de que necessita para sua subsistência e, dessa maneira, está sempre
disponível para o trabalho assalariado.
A lei econômica fundamental do capitalismo é a exploração do trabalho assalariado pelos capitalistas, para a produção da mais-valia.
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Como é sabido, o modo de produção capitalista surgiu do modo de produção feudal. Em sua evolução, o capitalismo percorre duas etapas: o capitalismo pré-monopolista
e o capitalismo monopolista (imperialismo). A característica inerente a cada uma delas, e que as torna diferentes entre si, é que o capitalismo pré-monopolista é
aquele período do desenvolvimento do capitalismo em que
#existiu a livre concorrência, ao passo que, no capitalismo monopolista, a livre concorrência é substituída pelo monopólio.
Essas duas etapas possuem, porém, um fundamento comum: a propriedade privada sobre os meios de produção e a exploração da força de trabalho pela classe capitalista,
para a produção da mais-valia.
Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha, na França e em outros países economicamente desenvolvidos, o capitalismo pré-monopolista predominou até os últimos decênios
do século XIX, quando os processos gerados na economia capitalista conferiram nova característica ao capitalismo: a livre concorrência deu lugar ao domínio dos monopólios,
que passaram a desempenhar papel decisivo no desenvolvimento da sociedade.
5. Modo de produção comunista:
O modo de produção comunista nasce do interior do modo de produção capitalista. Seu traço característico essencial consiste na abolição da propriedade privada sobre
os meios de produção e no estabelecimento da propriedade social sobre estes.
O princípio que rege a etapa socialista é "a cada um, de acordo com seu trabalho", enquanto o que orienta a etapa comunista é "a cada um, de acordo com suas necessidades".
O modo de produção comunista, desde sua fase inferior (o socialismo), além de basear-se na propriedade social, estatal, sobre os meios de produção, assenta-se na
economia planificada. A planificação é realizada para o conjunto da economia nacional, por regiões, localidades e unidades produtivas, e, ainda, por ramos da economia
do país. A eficácia da planificação econômica socialista está condicionada à ampla participação das massas trabalhadoras na elaboração e execução dos planos.
O estabelecimento do domínio absoluto da propriedade social sobre os meios de produção em todos os ramos da economia nacional faz com que o novo
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#regime se baseie em relações de produção que excluem a exploração do homem pelo homem, abolindo as próprias causas que originam essa exploração: faz surgir a sociedade
sem classes.
A propriedade socialista dos meios de produção é a propriedade social, a propriedade coletiva dos próprios trabalhadores. Os membros da sociedade socialista, possuindo
em comum os meios de trabalho e os objetos de trabalho, os empregam no processo de trabalho em seu próprio benefício.
Diferentemente do ocorrido com a propriedade coletiva primitiva, gerada pela fragilidade do homem diante da natureza, a propriedade socialista é o resultado de
um grande desenvolvimento das forças produtivas da sociedade.
A transição de um modo de produção social para outro
Segundo o ponto de vista do materialismo histórico, os modos de produção mencionados tendem, ressalvadas as particularidades do desenvolvimento de cada povo, a ser
observados universalmente.
Dentro da seqüência apresentada, cada modo de produção é substituído por outro mais jovem e qualitativamente superior.
Mas é somente após cumprir seu papel histórico, isto é, desenvolver e esgotar suas potencialidades, que um modo de produção dá lugar a outro.
A passagem de um modo de produção social, ou regime de produção social, para outro dá-se sob a forma de saltos qualitativos, após longo período de acumulação de
contradições.
As forças produtivas da sociedade, em seu desenvolvimento, atingem níveis tais, que entram em contradição com as relações de produção existentes. Essas relações
de produção, peculiares a cada modo de produção, nascem, crescem e amadurecem, cumprem seu papel histórico. Porém, a partir de certo momento, tornam-se estreitas
para o nível de desenvolvimento alcançado pelas forças produtivas, passando a constituir-se num entrave a esse desenvolvimento.
Torna-se, assim, imprescindível uma mudança nas relações de produção, sua substituição por outras mais jovens e qualitativamente superiores. Karl Marx sintetiza
seu pensamento sobre o processo histórico, as relações de produção, as formações socioeconômicas e as formas de transição de uma para outra, com as seguintes palavras:
66
Em Bruxelas, para onde me transferi em virtude de uma ordem de expulsão imposta - . pelo Sr. Guizot, tive ocasião de prosseguir nos meus estudos de economia
#política, iniciados em Paris. O resultado geral a que cheguei e que. uma vez obtido, serviu de fio condutor aos meus estudos, pode resumir-se assim: na produção
social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que correspondem a uma determinada
fase do desenvolvimento das suas forças produtivas materiais. O conjunto dessas relações de produção forma a estrutura econômica da sociedade, a base real sobre
a qual se levanta a superestrutura jurídica e política e à qual correspondem determinadas
formas de consciência social.
O modo de produção da vida material condiciona o processo da vida social, política e espiritual em geral. Não é a consciência do homem que determina o seu ser, mas,
pelo contrário, o seu ser social é que determina a sua consciência. Ao chegar a uma determinada fase de desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade
se chocam com as relações de produção existentes, ou, o que não é senão a sua ,5- , . expressão jurídica, com as relações de propriedade, dentro das quais se desenvol-
, - , veram até ali. De forma de desenvolvimento das forças produtivas, estas relações se convertem em obstáculos a elas. E se abre, assim, uma época de revolução
social. Ao mudar a base econômica, revoluciona-se, mais ou menos rapidamente, toda a imensa superestrutura erigida sobre ela. Quando se estudam essas revoluções,
é preciso distinguir-se sempre as mudanças materiais ocorridas nas condições econômicas de produção e que podem ser apreciadas com a exatidão própria das ciências
naturais, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, numa palavra, as formas ideológicas em que os homens adquirem consciência desse
conflito e lutam para resolvê-lo. E do mesmo modo que não podemos julgar um indivíduo pelo que ele pensa de si mesmo, não podemos tampouco julgar estas épocas de
revolução pela sua consciência, mas, pelo contrário, é necessário explicar esta consciência pelas contradições da vida material, pelo conflito existente entre as
forças produtivas e as relações de produção. Nenhuma formação social desaparece antes que se desenvolvam todas as forças produtivas que ela contém, e jamais aparecem
relações de produção novas e mais altas antes de amadurecerem no seio da própria sociedade antiga as condições materiais para a sua existência.
Cabe, finalmente, observar que o conceito de formação socioeconômica é mais abrangente que o de modo de produção. O modo de produção, como já

#4. Marx e Engels 1977, vol. 3, pp. 3O1-3O2.
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#foi dito, compreende as forças produtivas e as relações de produção. Já a formação socioeconômica é constituída pelo modo de produção e a correspondente superestrutura
ideológica (jurídica, política, filosófica, artística, religiosa etc.). Por outro lado, é necessário deixar claro que o marxismo, estudado em seu conjunto, não afirma
a obrigatoriedade de que todos os países e povos, em seu desenvolvimento ascendente da comunidade primitiva ao comunismo (sujeito a ziguezagues e a retrocessos temporários),
devam passar por todas as formações socioeconômicas. A história conhece casos de países que, em decorrência de causas objetivas, passaram ao feudalismo sem ter que
viver sob o escravismo. Além disso, na atualidade, verifica-se a passagem de alguns países ao socialismo, evitando a formação capitalista plena.
O marxismo demonstra que o modo de produção constitui a base da formação socioeconômica. Entretanto, isso não significa a subestimação do papel da superestrutura,
das relações políticas, jurídicas, filosóficas, religiosas, artísticas etc., no desenvolvimento da sociedade.
Essa subestimação conduz ao economicismo, estranho à dialética marxista.
Bibliografia *
ENGELS, F. A origem dafamília, dapropriedadeprivada e do Estado. São Paulo: Global Editora. GUIMARÃES, Alberto Passos. Quatro séculos de latifúndio. Rio de Janeiro:
Paz e Terra. LENIN, V.I. O imperialismo, fase superior do capitalismo. São Paulo: Global Editora. MARX, K. O capital, 6 vols. São Paulo: Difusão Européia do Livro.
. Salário, preço e lucro. São Paulo: Global Editora.
. Prefácio à "Contribuição à crítica da economia política". In: MARX, K. e
ENGELS, F. Textos, vol. 3. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977.
_. "Trabalho assalariado e capital". //;: MARX, K. e ENGELS, F. Textos, vol.
3. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977. PRADO JR., Caio. História econômica do Brasil. São Paulo: Brasiliense. SOARES. Alcides Ribeiro. Princípios de economia política (Uma
introdução à leitura
de O capital). São Paulo: Global Editora. SODRÉ, Nelson Werneck. Brasil: Radiografia de um modelo. Petrópolis: Vozes.
68
O DIREFrO E AS NORMAS SOCIAIS
Carlos Alfredo Ramos Checchia
"Ubijus ibi societas, ubi societas ibijus."

#Esse brocardo latino reflete bem o pensamento romano clássico a respeito do direito. Brocardo é o nome que usualmente se dá aos provérbios, às máximas ou axiomas
das ciências jurídicas. Por intermédio desse pensamento, os criadores da ciência das leis pretenderam cristalizar a indissolubilidade do binômio direito/sociedade.
"Onde houver direito haverá sociedade, onde houver
sociedade haverá direito."
Se incontestável é a afirmativa clássica para as sociedades modernas e não se pode mesmo conceber um grupo social vivendo um estado anárquico, a universalidade de
sua verdade não se estende através dos tempos.
Nem sempre sociedade e direito coexistiram na história da humanidade. Fizéssemos talvez uma pequena correção no brocardo romano, ou seja, "onde houver norma social
haverá sociedade, onde houver sociedade haverá norma social", daí sim sua validade seria irretorquível e atemporal.
O que é uma norma social
É o nome que se dá às leis da sociedade.
Toda lei, independentemente do campo em que se situe, quer seja ela do mundo natural ou físico, ou do mundo social, é sempre um produto da inteligência humana.
1. Bacharel em Direito, especializado em Direito Civil, com extensão em Filosofia e Teoria Geral do Direito, advogado militante, professor da Faculdade de Direito
da PUC-Campinas.
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#Todas as leis são genéricas, abstratas. Estabelecem elas as relações necessárias para que ocorra um fenômeno. As leis descrevem a maneira pela qual os meios necessários
devem ser dispostos para que ocorra um determinado resultado. À disposição conveniente dos meios chamamos ordem. Dessa forma, a lei é sempre a fórmula da ordem.
Na sociedade, por meio das leis ou normas sociais, os meios sociais são dispostos convenientemente para que os resultados sociais desejáveis sejam alcançados.
Norma social e sociedade
O homem não existe fora da sociedade. Eventualmente se tem notícia de algo que possa contrariar essa afirmativa. Às vezes, em virtude da imaginação fértil do romancista,
como o fez Defoe com seu Robinson Crusoé, ou em decorrência de um fato extraordinário, como aquele do soldado japonês que permaneceu sozinho numa ilha do Pacífico,
guardando-a contra a invasão norte-americana de 1944 a 198O, quando a guerra terminara em agosto de 1945.
O homem fora da sociedade não se submete a regras de convivência, já que possui total liberdade. As normas sociais são imperativos que restringem a liberdade do
indivíduo.
Imaginemos, pois, como se possível fosse, um homem sozinho na natureza. Teria ele liberdade plena, já que poderia fazer tudo aquilo que lhe aprouvesse, como: caçar
ou domesticar animais, percorrer todos os lugares, apanhar frutos, trazer para junto de si minerais preciosos etc. O limite de sua liberdade seria única e exclusivamente
aquele imposto pela sua capacidade física. Sua liberdade só não seria absoluta porque suas faculdades são limitadas. Não poderia ele voar ou dar volta ao mundo em
poucos minutos. Mas de resto, sua simples vontade seria o único elemento orientador de seu comportamento.
Se porventura fosse colocado um outro homem junto àquele preexistente, e que viessem ambos a compor uma sociedade, para que possível fosse a convivência, indispensável
seria a organização dessa sociedade.
É importante fixarmos que, no aspecto objetivo, os homens vivem e orientam sua conduta na busca da felicidade. É aquilo que chamamos realização.
7O
Essa realização se dá à medida que os homens se apropriam de coisas que lhes são externas, ou seja, da própria natureza, quer materiais, concretas ou abstratas.
O homem sozinho no universo tem liberdade total porque pode apropriar-se daquilo que tenha vontade. Porém, se forem dois os homens convivendo nesse
#mesmo universo, para que haja a paz entre eles é necessário que suas condutas sejam limitadas, pois o universo continua um só e cada um deles não pode pretender
a apropriação de todas as coisas, sob pena de impedir a realização do outro.
A limitação das condutas humanas é realizada pela própria inteligência do homem através das normas sociais.
Se tivesse existido esse exemplo imaginário de um homem só no universo e a posterior companhia de outro indivíduo, forçosamente, só se constituiria uma sociedade
mediante a norma social. Provavelmente bastaria traçar-se um risco no chão, ficando um lado para cada um.
Se essa norma social tornou plausível a sociedade, também acabou tirando 5O% da liberdade do homem preexistente, para que o outro pudesse ter um espaço de liberdade
equivalente, que lhe garantisse a possibilidade de realização.
Se um terceiro homem for adicionado àqueles dois, nova adequação dos meios terá de ser estabelecida. Novas regras terão de ser observadas para que se garanta a possibilidade
de realização de todos os componentes do grupo. Cada qual deverá permanecer com 33% da liberdade disponível.
E assim por diante. Cada indivíduo que é adicionado a um grupo social implica sempre a perda de uma parcela de liberdade dos preexistentes.
Nós nem sempre percebemos claramente essa realidade, tendo em vista a complexidade da sociedade moderna, altamente diferenciada em suas partes. A maneira de compensarmos
o excesso populacional é aumentar a produção de bens de consumo, de tal maneira, que a oferta dos mesmos possa atender à demanda decorrente das necessidades individuais.
Eis aqui a razão pela qual o conceito de excesso populacional não é um problema de densidade demográfica, mas muito mais da capacidade de produção de um grupo social.
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#As normas sociais e os grupos primitivos
As sociedades primitivas possuíam uma estrutura organizacional bastante simples. Apresentavam um detalhe importante: a intensa solidariedade entre os indivíduos.
Todos no grupo faziam a mesma coisa, coabitavam, guerreavam juntos, amavam os filhos da mesma tribo. Assemelhavam-se tais sociedades às colônias, que são comunidades
de animais, como o formigueiro, a colméia, a alcatéia. Quando observamos as colônias, temos a impressão de que os indivíduos estão mais preocupados com o todo do
que com si próprios. Todos no grupo comportam-se sempre da mesma maneira.
Nas sociedades primitivas, todos os homens agem também da mesma forma. A solidariedade intensa deixa pouco espaço para que alguém se conduza fora do convencional.
Nesses grupos primitivos existem normas sociais e a natureza delas varia de acordo com o objeto do interesse do homem com sua conduta.
O comportamento mais simples é a moral, que é o nome dado à conduta do homem em relação ao seu semelhante. Os comportamentos morais mais freqüentes no grupo tendem
a cristalizar-se em regras de conduta. Chamamos tais regras de normas morais.
A religião é outra forma primitiva de conduta humana. Nela o homem diferencia sua postura. Aliás, essa diversidade de posturas dos homens na sua conduta, dependendo
do objeto de sua relação, diferencia nitidamente os seres racionais dos animais que têm um repertório único de condutas diante do universo.
Se Deus não existisse, o homem o teria inventado, como realmente o fez o primitivo. Os deuses daquelas épocas nada tinham a ver com o nosso Deus. A divindade era
atribuída aos entes que atemorizavam ou deslumbravam o homem. O sol, a lua, o trovão eram deuses nas tribos primitivas.
As normas religiosas eram estabelecidas das maneiras mais singulares possíveis. Se durante dias a tribo era castigada por tempestade e de repente parava a chuva
e saía o sol, a coincidência de qualquer fato ocorrer naquele instante seria o bastante para tornar-se regra religiosa que pudesse agradar o deus da chuva. Aos deuses
mais importantes, eram imoladas as virgens mais formosas, pois ficariam agradecidos e retribuiriam com benesses divinas.
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Os homens, como seres que consomem para sobreviver, vão aprender a produzir, não dependendo apenas da depredação da natureza, fato esse que lhes impunha
#o nomadismo. Surgem também nesses grupos pré-históricos normas sociais de cunho eminentemente econômico, como economizar (quem não economiza acaba na miséria),
estocar (quem não guardar no verão morrerá de fome no inverno) e muitas outras.
O trato social é um outro comportamento humano que se diferencia do moral, porque nele os indivíduos se comportam com polidez sem que sua conduta seja totalmente
resultante de uma manifestação consciente de vontade. É o caso das pessoas que se cumprimentam ao cruzar na rua, podendo às vezes até nutrir antipatia entre si.
As normas sociais, que conforme seu objeto são morais, religiosas, econômicas, de trato social e muitas outras, são leis que regulam a conduta dos homens.
Esses grupos primitivos são organizados através das normas sociais que, embora não sejam escritas, estão na consciência de todos e muito bem guardadas num armário
a que chamamos costume.
Costume é, pois, o repositório das normas sociais de um povo.
Os grupos sociais primitivos não possuem o direito e isso não lhes faz falta.
Aquela solidariedade social, intensa, é fator suficiente para provocar no grupo o atendimento geral dos preceitos contidos nas normas morais.
A sociedade primitiva tem como fim ela própria, ou seja, os homens vivem em sociedade para preservar o todo.
A evolução das sociedades primitivas e as normas sociais. Surge o direito
À medida que o homem se desenvolve culturalmente, aprendendo, entendendo e modificando a própria natureza, a sociedade vai também se alterando estruturalmente.
A produção é fundamental para a sobrevivência humana, desde que a pura e simples depredação vai desaparecendo com a fixação dos grupos em determinados territórios
e com a diminuição do nomadismo.
Em nome da otimização da produção em relação ao trabalho, as partes sociais vão se diferenciando a fim de atingirem a especialização.
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#Os homens, que antes faziam todos as mesmas coisas no grupo, passam a se aplicar nas tarefas mais compatíveis com suas tendências, inclinações ou habilidades.
Dessa forma, os mais pacientes dedicam-se à agricultura, os mais fortes à guerra, as mulheres às tarefas de suporte, e outros, ainda, mais habilidosos manualmente,
à fabricação de armas e utensílios.
Quanto mais se especificam as partes sociais, menor é a solidariedade remanescente no grupo. Os homens, perdendo o diuturno contato com outros homens, libertam-se
daquele compromisso maior que é o todo, para agir mais em função de seus objetivos individuais.
E as normas sociais, que, sobretudo, são regras de preservação de cada indivíduo em coesão ao todo, passam a ser descumpridas com maior freqüência.
Tais violações das regras contidas nos costumes põem em perigo a integridade do grupo, pelas comoções internas que fatalmente provocam.
Imprevisível imaginarmos as conseqüências sociais decorrentes das violações das leis sociais. Infrações leves poderiam provocar represálias, reações em cadeia que
levariam grupos à desintegração. Como infrações graves, ficassem, talvez, restritas às frustrações das vítimas ou prejudicados.
Alguma coisa teria de ser feita para que os homens pudessem preservar seu habitai social. Justamente a providência que será tomada é a separação das normas sociais
mais importantes. Não importam suas naturezas. Podem ser normas morais, religiosas, econômicas, de etiquetas e outras mais. O único critério é a valoração de cada
uma mediante juízos médios subjetivos.
Essas normas, já separadas das demais, vão ser elevadas a uma nova categoria. Passam a ser normas especiais cujo cumprimento passará a ser exigido de todos os membros
do grupo. São agora essas normas especiais obrigatórias. A única maneira de os homens serem obrigados a fazer ou deixar de fazer é pela força.
As normas jurídicas, nome que se dá a essas normas obrigatórias, passam a ser cobradas de todos, pela força. com o aparecimento das normas jurídicas, surge o direito,
que é a ciência pela qual se organiza a sociedade e, com ele, surge também o governo, que é a entidade responsável por dizer quais são essas normas, bem como pela
fiscalização de seu cumprimento pelos componentes do grupo.
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O direito é, sobretudo, um conjunto de normas sociais que são assumidas pelo governo e, em nome do grupo, exige de todos o seu cumprimento.

#Os governos democráticos, que levam em conta a vontade popular, adotam um direito compatível com a identidade do grupo, recolhido da melhor tradição, do costume
desse mesmo grupo.
Os governos deturbados, sempre autoritários e antidemocráticos, quase sempre desconsideram as normas sociais naturalmente desenvolvidas no costume local, para impor
leis criadas em seu próprio interesse.
Direito legítimo é aquele que consagra a vontade popular. Suas leis representam a vontade do povo. Direito ilegítimo é aquele ditatorialmente imposto. Suas leis
são elaboradas no sentido de atender a interesses particulares dos governantes.
A ciência do direito
O conjunto das leis de um povo é chamado direito objetivo. A palavra direito tem vários sentidos análogos ligados às ciências jurídicas. No sentido mais amplo possível,
direito significa a própria ciência jurídica. Engloba todas as leis existentes e mais um grande número de princípios que são fixados como verdadeiros axiomas e que
dão a individualidade característica da própria ciência.
Direito é, sobretudo, conjunto de leis. É algo mais ainda. Não tivesse a ciência do direito seus princípios próprios, seria praticamente impossível fazerse a adequação
das normas gerais e abstratas aos fatos sociais, individualizados
e concretos.
Bibliografia
ALTA VILA, Jayme de. A testemunha na história e no direito. São Paulo: Melhoramentos, 1967, 163 pp.
CHAVES, Antônio. "Direito das obrigações". Tratado de direito civil, vol. 2, t. l. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1984.
RÃO, Vicente. O direito e a vida dos direitos, vol. l, t. 1. São Paulo: Saraiva, 1978.
TELLES, Jr., Goffredo da Silva. "Autoridade. Autorização, autorizar...". Enciclopédia Saraiva do direito, vol. 9. São Paulo: Saraiva, 1978.
75

#PSICOLOGIA SOCIAL E COMPORTAMENTO SOCIAL
Marise Aparecida de Lima
A psicologia social começou a ser estudada e a se desenvolver após a Primeira Guerra Mundial. Foi nos Estados Unidos que a psicologia social teve, nesse momento,
seu destaque como um estudo científico e sistemático.
Por que nesse momento? Existia uma preocupação e uma necessidade de compreender as crises sociais que surgiam mundialmente. Os psicólogos sociais começaram a estudar
fenômenos de liderança, comunicação, conflitos, relações grupais e outros, buscando respostas para uma maior compreensão da realidade. Pesquisas e experimentos foram
realizados na busca de técnicas e procedimentos que pudessem ser utilizados para intervir nas relações sociais e proporcionar uma vida melhor para os homens.
Em geral, todos os estudos se preocupavam em descobrir fórmulas de ajustamento de comportamentos individuais ao contexto social. Isso se dava porque os psicólogos
sociais compreendiam que a ação do indivíduo era causada por fatores internos, tais como traços de personalidade, motivos, ou até mesmo por instintos. A sociedade
era colocada apenas como o local em que o comportamento do indivíduo se concretizava.
Esse momento configura o grande equívoco: a psicologia social isolando o indivíduo da sociedade. Os psicólogos sociais admitiam que um poderia influenciar o outro,
mas colocavam de um lado o homem, de outro a sociedade, considerando-os como fenômenos distintos. Negavam, dessa forma, a sua interdependência; não viam que entre
os diversos fenômenos não existe apenas
l Licenciada em Psicologia, psicóloga especializada em Psicologia Escolar e Aprendizagem, professora do Instituto de Psicologia da PUC-Campmas, na disciplina
Psicologia Social
77

#uma relação de condicionamento e influências múltiplas e intermináveis, mas que são partes de um mesmo todo que se movimenta incessantemente. Há a necessidade de
uma análise dialética explicando que fenômeno algum pode ser compreendido isoladamente. Os fenômenos podem ser compreendidos e explicados se levarmos em consideração
as suas ligações indissolúveis com os outros fenômenos que os circundam.
A psicologia social não considerava, em nenhum momento, a existência de classes sociais com interesses antagônicos. Os conflitos eram encarados como uma doença
social, algo a ser prevenido, evitado ou curado como uma anomalia num corpo sadio. Dentro dessa concepção, uma greve de trabalhadores seria analisada como uma anomalia
e não como uma conseqüência da luta de classes numa sociedade onde os trabalhadores estão submetidos à exploração capitalista.
A psicologia social, da década de 195O até os primeiros anos da década de 196O, persistiu nesse caminho, tentando dar respostas aos problemas sociais. Começaram
a surgir questionamentos e críticas e, ao final da década de 196O, principalmente na França, surgiram críticas mais incisivas à psicologia social. Essas críticas
se referiam ao caráter ideológico da psicologia social que mantinha as relações sociais sem qualquer possibilidade de alteração. Uma concepção, portanto, conservadora.
A psicologia social, na América Latina, era reproduzida a partir dos conhecimentos desenvolvidos nos Estados Unidos.
A crise da psicologia social foi denunciada em 1976 em Miami, no Congresso de Psicologia Interamericana, que contava com a participação de psicólogos sociais de
vários países da América Latina. Foi em 1979, no congresso realizado em Lima, Peru, que a redefinição da psicologia social surgiu como uma necessidade. Era urgente
o desenvolvimento de uma psicologia social voltada para as condições próprias de cada país. No Brasil, foi fundada a Abrapso (Associação Brasileira de Psicologia
Social) e a preocupação tem se pautado em conhecer o indivíduo no conjunto de suas relações sociais e inserido numa sociedade dividida em classes. Os caminhos da
psicologia social se clarificaram no sentido de que não se pode conhecer o comportamento humano isolando-o, como se existisse em si mesmo.
78
Atualmente, a psicologia social reúne condições para estudar o indivíduo e suas manifestações específicas, grupais e sociais num contexto histórico,
#concebendo o homem como sujeito, transformador não só de sua própria vida, mas também da sociedade em que vive.
No entanto, a psicologia social, no Brasil, ainda não tem conseguido responder às questões específicas do nosso momento histórico. Decorrência da dependência cultural,
os temas investigados geralmente desprezam aspectos relevantes, sem levar em consideração a aplicabilidade ao contexto brasileiro.
Todo saber serve direta ou indiretamente à prática. E o que é a prática? É a atividade social, na qual se compreende o trabalho do homem, sua atividade nos terrenos
político e social, na produção dos bens materiais e na experimentação científica. E se o saber da psicologia social não tem conseguido intervir diretamente no contexto
brasileiro, esse saber está contribuindo para a manutenção da situação atual:
Se o homem não for visto como produto e produtor, não só de sua história pessoal, mas da história da sua sociedade, a psicologia estará apenas reproduzindo as condições
necessárias para impedir a emergência das contradições e a transforma-
7
çao social."
Como sabemos, a neutralidade só existe nos discursos daqueles que querem a manutenção da nossa sociedade tal como está. E a psicologia social tem que se posicionar
firmemente ao lado daqueles que querem transformá-la.
Dentre os temas importantes para a psicologia social, alguns se destacam, tais como: socialização, processo grupai e relações de trabalho.
Socialização
O primeiro grupo social fundamental no processo de socialização é o grupo familiar. Toda criança passa por um processo de maturação biológica e o seu desenvolvimento
depende da intervenção dos adultos. Porém, essa intervenção se dará de formas diferentes, dependendo da condição social da criança.
2. Codo e Lane (orgs) 1985, p 15
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#Na sociedade capitalista, em cujo meio se estabelecem relações entre classes sociais antagônicas, ou seja, relações entre explorados e exploradores, a origem de
classe da criança determina uma condição específica de infância. Não há por que acreditarmos numa natureza infantil, pois não existe igualdade nas condições de "ser
criança".
Portanto, a concepção de uma natureza infantil mascara as diferentes condições a que são submetidas as crianças, dependendo de sua origem de classe.
Processo grupai
Num primeiro momento, a socialização ocorre dentro do grupo familiar que vai favorecer a internalização de certos aspectos. Evidentemente, esses aspectos serão decorrentes
da classe social da família e, conseqüentemente, da percepção que seus membros possuem da realidade. Esse processo de internalização se amplia com a inserção da
criança em outros grupos sociais, dentre os quais a escola.
Posteriormente, a complexidade das relações de produção leva o indivíduo a internalizar as representações ideológicas da sociedade, incorporando uma concepção de
mundo que o mantenha ajustado. Assim sendo, não há como analisar o indivíduo sem remetê-lo ao grupo a que ele pertence, à sua classe social. A ação grupai só pode
ser compreendida dentro de uma perspectiva histórico-social que leve em consideração as determinações econômicas, institucionais e ideológicas da sociedade. Portanto,
qualquer grupo tem a função histórica de manter ou de transformar as relações sociais.
Relações de trabalho
O trabalho, como criador de valores de uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem, quaisquer que sejam as formas de sociedade, é necessidade
natural e eterna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza e, portanto, de manter a vida humana.
Karl Marx
As relações de trabalho do homem determinam o seu comportamento. sua linguagem, seus planos para o futuro, seus afetos e suas esperanças. Os
8O
horários em que deve levantar-se e deitar-se também são determinados pelo lugar onde trabalha. Esse lugar também determina a preocupação ou não com a vestimenta
e a aparência de um modo geral. A linguagem também sofre alterações sob influência direta do trabalho.

#O estudo da psicologia social, assim como de outras ciências sociais, deve partir das relações de produção. O modo de produção capitalista permeia toda a atividade
do homem. Implica a existência de duas classes sociais: uma, que detém o capital e os meios de produção, e outra, que vende sua força de trabalho.
Quando Marx colocou a questão do duplo caráter do trabalho, permitiu que se chegasse à essência da exploração capitalista, na qual a força de trabalho é uma mercadoria
especial que, ao ser consumida no processo de produção, cria valor.
É imprescindível que a compreensão do homem na sociedade capitalista leve em consideração a sua dimensão histórica de agente transformador. Torna-se cada vez mais
importante romper com a visão fragmentada do homem, que trata separadamente o que é inseparável. É necessário combater a visão de neutralidade, porque ela não existe.
Esse é o grande desafio para quem se compromete com o avanço democrático no Brasil. Para os profissionais da área de humanas, o desafio é maior por serem também
responsáveis na produção do conhecimento. Numa sociedade capitalista dependente que acaba de sair de um período de ditadura militar, essa não é uma tarefa fácil,
mas evidências históricas permitem acreditar na sua possibilidade.
Bibliografia
CODO, Wanderley e LANE, Silvia T.M. (orgs.). Psicologia social. São Paulo: Brasi-
liense, 1985.
HARNECKER, Marta e URIBE, Gabriela. Cadernos de educação popular, l vols. São
Paulo: Global Editora, 198O.
LANE, Sílvia T.M. O que é psicologia social. São Paulo: Brasiliense, 1985. (Primeiros
passos).
81

#A fflSTÓRIA COMO CÍÊ&CIA HUMANA
Coraly Gara Caetano
O que os homens procuram no passado são as transformações do
sujeito da ação no relacionamento dialético homem mundo são as
transformações da sociedade humana
Tal como nas demais ciências humanas, a história tem como objetivo compreender o significado das ações humanas em suas múltiplas e diversas manifestações seus desejos,
problemas, valores artísticos, religiosos, morais, políticos, éticos e econômicos "A historia nos ajuda a conhecer quem somos, por que estamos aqui, que possibilidades
humanas se manifestaram " Mas, mesmo tendo como preocupação fundamental o estudo do homem em sociedade e compartilhando o mesmo objeto das demais ciências sociais,
na pratica, o fazer a história, os diversos modos com que os historiadores se apropriam desse objeto, a maneira como relacionam seus instrumentos de analise com
as fontes, os documentos com que trabalham, tudo isso acaba por tornar a história uma ciência distinta no conjunto das ciências humanas
Segundo Jaques lê Goff, historiador contemporâneo, a palavra historia vem do grego antigo histoire, forma derivada da raiz mdo-européia weid, ver
Essa concepção da visão como fonte essencial de conhecimento leva nos a idéia de que o histor- aquele que vê - e também aquele que sabe hiítonen em grego antigo
1 Licenciada em Historia mestre em Historia (Unimep) professora do Departamento de
Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia MG
2 Goldmann 1967 p 23
3 Thompson 1981 p 57
83

#Vista por esse ângulo, a história, como um modo de conhecimento, como uma busca de explicação científica, está diretamente vinculada às concepções de verdade, à
ideologia e aos interesses políticos que o historiador, como sujeito social, defende.
Dessa forma, nos defrontamos com várias tendências na produção historiográfica baseadas em diferentes concepções de verdade com que os sujeitos históricos, no
caso os historiadores, se identificam, tais como o idealismo, o positivismo, o marxismo, o estruturalismo etc. Evidentemente, numa sociedade como a nossa, em que
o saber e a ciência conferem poder, a história se vincula à questão mais ampla da luta política.
É preciso, portanto, reformular e escrever a história constantemente e repensar, considerando-se a nossa situação na sociedade, que tipo de história é divulgada,
ensinada e transmitida, e que tipo de história pode esclarecer e nos ajudar a compreender as contradições sociais existentes na sociedade burguesa em que vivemos.
Bibliografia
BORGES, Vavy Pacheco. O que è" história. São Paulo: Brasiliense, 1981.
BRAUDEL, Fernand. História e ciências sociais. Lisboa: Presença, 1972. ,,
CERTEAU, Michel. A escrita de história. Rio de Janeiro: Forense, 1975.
GARDINER, Patrick. Teorias da história. Lisboa: Fund. Callouste Gulbenkian, 1972.
GOLDMANN, Lucien. Ciências humanas e filosofia. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1967.
LEFORT, Claude. As formas de história. São Paulo: Brasiliense, 1979. "
LÊ GOFF, Jaques. Reflexões sobre a história. Lisboa: Edições 7O, 1972.
. A nova história. 1982.
LÊ GOFF et alii. "Memória - história". Enciclopédia Einandi, vol. l. Lisboa: Imprensa Nacional, Casa da Moeda.
RICOEUR, Paul. História e verdade. Rio de Janeiro: Forense, 1968.
SCHAFF, Adam. História e verdade. Lisboa: Estampa, 1974.
THOMPSON, E.P. A miséria da teoria (Um planetário de erros). Rio de Janeiro: Zahar, 1981.
VEYNE, Paul. O inventário das diferenças (História e sociologia). São Paulo: Brasiliense, 1983.
86
A GEOGRAFIA HUMANA E O ESPAÇO SOCIAL
Waldyr Verinaud Mayer
O estudo da geografia humana e do espaço social, dentro de uma perspectiva abrangente em que o componente internacional está presente, é um complexo de relações
dinãomicas entre espaços de diferentes níveis e funções.
Esses diferentes espaços são organizados pelo homem, apresentando variados níveis de integração, onde se reflete o sistema de funcionamento político, econômico e
social. Mas essa organização espacial atua também como um componente do espaço, oferecendo, por exemplo, maiores ou menores facilidades às mudanças, numa perspectiva
espaço-temporal de desenvolvimento.
Para situarmos a ação do homem dentro do espaço, apresentaremos as diferentes concepções desse termo, um pequeno histórico da geografia humana, bem como sua relação
corn o espaço social e a conclusão do assunto.
Espaço - organização do espaço e espaço de relação
A superfície da Terra é composta de massas continentais que representarn 51O milhões de km2, diferenciadas por espaços, com características próprias e originais,
e é nesses espaços que encontramos as nações do globo.
As coletividades humanas se desenvolvem nesses espaços dentro de um jogo d^forç as históricas, milenares, que vêm demarcando as fronteiras políticas
titular do Departamento de Geografia e da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e Administrativas da PUC-Campmas; doutor em Ciências modalidade Geografia;
representante das Universidades Particulares do Brasil na Comissão Internacional de ^eografia.
87
#e imprimindo a cada uma delas características sociais, culturais, econômicas e políticas, diferenciando assim os espaços entre si.
Esse desenvolvimento das coletividades humanas está ligado ráosó às forças históricas, como também às forças naturais.
corn base na definição de espaço dada por Oliver Dollfus:
Espaço geográfico é o esteio de sistemas de relações, algumas determinadas a partir de dados do meio físico (arquitetura de volumes rochosos, clima, vegetação) e
outras provenientes das sociedades humanas, responsáveis pela organização do espaço em função da densidade demográfica, da organização social e econômica, do nível
das técnicas, em uma palavra: de toda essa tessitura pejada de densidade histórica a que damos o nome de civilização.
Podemos afirmar que os diferentes povos da Terra estão impregnados de história, uma história que foi estabelecida através desse sistema de relações a que se refere
Dollfus, que é o resultado das relações provindas das manifestações dos homens. Desses diferentes tipos de relações é que decorreram as diferentes formas de ocupação
da Terra ou, ainda, as diferentes formas de organização do espaço.
A definição de Pierre George vem esclarecer essa organização do espaço:
A organização do espaço corresponde aos atuais empreendimentos destinados a modelar o espaço herdado, para neles se introduzirem as estruturas técnicas, jurídicas
e administrativas que derivam de um espírito de sistematização da sua utilização.
Portanto, dentro desse tipo de organização espacial surgiram as diferentes formas de espaço: o espaço agrícola, o espaço industrial, o espaço urbano e o espaço não
organizado, que é o espaço ocupado pelas sociedades primitivas.
Dentro desse quadro de existência espacial, o espaço social é o mais abrangente, pois ele faz parte de todas as outras formas de espaço e é dentro do espaço social
que cada um de nós está colocado, assumindo a vida, com posições ou papéis os mais diferenciados, dentro da sociedade do mundo contemporâneo.
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Sobre o assunto, Pierre George, em seu livro Geografia da população, faz a seguinte referência: "A mais inelutável das razões da desigualdade entre os homens é hoje
a sua origem geográfica, isto é, o lugar onde nascem".
O problema espacial do mundo contemporâneo é tão sério para a sociedade atual, que a própria geopolítica considera os grandes espaços como uma forma de poder, não
só para aqueles que o possuem, mas também para aqueles povos que o exploram - é o caso dos países desenvolvidos e dos países subdesenvolvidos - pois as coletividades
humanas, nos dias atuais, estão submetidas a sistemas de relações fixados não mais em termos de pequenas comunidades locais e regionais, mas sim em termos mundiais,
isso porque com os avanços da tecnologia, dos sistemas de transportes e comunicações, o mundo pode ser considerado como uma grande ilha e, conseqüentemente, o espaço
social deve ser analisado nas suas particularidades próprias e originais assim como no seu conjunto.
Dentro dessa filosofia apresentada, as atividades assumidas por aqueles que detêm o poder de decisão repercutem não mais de modo isolado, mas sim no todo. Para provar
isso, está aí o caso das duas grandes potências - EUA e URSS - que, politicamente, assumiram o poder de decisões no mundo contemporâneo, com suas sérias repercussões
sociais, políticas e econômicas.
Atualmente, dentro dos estudos da geografia humana, podemos afirmar que o mundo atual é hoje um só, pois o espaço geográfico é um grande espaço de relação.
Pierre George, em seu livro Sociologia e geografia, define o espaço de relação:
Deve ser compreendido como sendo as diferentes categorias de espaço envolvidas pelas atividades humanas. O espaço de relação é um dado concreto. No caso de uma área
de influência política ou econômica pode ter dimensões continentais ou mesmo planetária.
Após essa análise espacial, faremos uma pequena revisão do histórico da geografia humana, a partir das primeiras idéias que surgiram na Antigüidade.
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#Pequeno histórico da geografia humana ""*- -"--"-"
Os primeiros estudos da geografia humana apareceram na Antigüidade. Muitos escritores observaram e constataram que, na superfície da Terra, existiam profundas diferenças
entre os costumes dos homens. Muitos viajantes, desde Heródoto, as têm descrito, muitos historiadores e mesmo moralistas, desde Tucidides, as têm tomado como base
de suas reflexões filosóficas.
A idéia de a geografia humana constituir-se em uma ciência somente surgiu no fim do século XVIII. Até essa época, o estudo dos fatos agrupados com o nome de geografia
humana consistia no modo de vida dos homens na superfície da Terra, modos de agrupamento, em uma simples descrição, olhada, sobretudo, como um conhecimento de caráter
utilitário e prático, ou como uma imagem pitoresca dos costumes e das diferentes maneiras de ser dos povos.
Embora até essa época muitos autores houvessem tratado do problema das relações do homem com o meio, foi somente no século XIX que o assunto mereceu maior atenção.
Os primeiros passos foram dados na Alemanha por Alexandre von Humboldt (1769-1859) e Karl Ritter (1779-1859), que procuraram demonstrar em suas obras que entre os
fenômenos físicos e os fenômenos da vida há relações constantes de causa e efeito.
Humboldt, autor de Cosmos, como naturalista, interessou-se em estudar os fenômenos físicos e em mostrar, por exemplo, a influência de fatores, como a altitude, a
temperatura, a umidade, a seca, sobre a formação dos vegetais.
Ritter publicou sua obra, com 19 volumes, intitulada A geografia de acordo com a natureza e a história do homem, e mostra que em geografia humana a natureza não
é o único poder causai e que o próprio homem é, na superfície da Terra, um agente de transformação e de vida. A natureza e o homem (Natur und Ceschichte), como dizia
Ritter, "são os dois termos perpetuamente associados" entre os quais deve gravitar o pensamento do geógrafo.
Entretanto, coube a Friedrich Ratzel (1844-19O4) a glória de ter sido o verdadeiro criador da geografia humana quando publicou, em 1882, a obra Antropogeografia.
Seguiram-se notáveis estudos feitos por cientistas alemães.
No século atual ocorre um maior destaque dos geógrafos franceses e norte-americanos. Na França, Vidal de Ia Blanche (1845-1918), Jean Brunhes, Camille Valaux, Lucien
Febvre, Albert Demangeon, Pierre Deffontaines e outros.
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As doutrinas de Ratzel e de La Blanche foram divulgadas em quase todos os países do globo, inspirando diversas obras que vieram contribuir para vulgarizar a nova
ciência, nas várias esferas do conhecimento humano.
Evolução da geografia humana e o espaço social
Para estudar a evolução da geografia humana, a partir do início do século até os dias atuais, teríamos que analisar a própria evolução da ciência geográfica; como
o assunto é muito complexo e não dispomos de espaço suficiente para essa análise completa que deveria ser feita da geografia tradicional, da nova geografia, da geografia
humanística, da geografia idealista, da geografia radical e da geografia têmporo-espacial, analisaremos a geografia humanística e a geografia radical, ciências geográficas
que estão diretamente ligadas à geografia humana e ao espaço social.
Para os estudos da geografia humanística tomamos como base os trabalhos de Yi-Fu Tuan, Anne Buttimer, Edward Relph e Mercer e Powell, que possuem a fenomenologia
existencial como filosofia subjacente. As raízes mais antigas da ciência estão em Kant e em Hegel, mas os significativos mais recentes da fenomenologia são atribuídos
à filosofia de Edmund Husserl (1859-1939).
A análise do espaço social dentro da geografia humanística é bastante complexa, pois essa geografia valoriza a experiência do indivíduo ou do grupo, visando a compreender
o comportamento e as maneiras de sentir das pessoas em relação a seus lugares. Para cada indivíduo, para cada grupo humano, existe uma visão do mundo que se expressa
por intermédio de suas atitudes e valores para com o quadro ambiente. É o contexto pelo qual a pessoa valoriza e organiza o seu espaço e o seu mundo, e nele se
relaciona. Dentro desse contexto, os geógrafos humanistas chegam à conclusão de que sua abordagem merece o rótulo de humanista, pois estudam os aspectos do homem
que são mais diretamente humanos: significação, valores, metas e propósitos (Entrikin 1976). Dentro desses estudos, as noções de espaço e lugar surgem como muito
importantes para essa tendência geográfica.
O lugar é aquele onde o indivíduo se encontra ambientado, no qual está integrado. Ele faz parte do seu mundo, dos seus sentimentos e suas afeições e é o "centro
de significância ou um foco de ação emocional do homem". O lugar
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#não é toda e qualquer localidade, mas aquela que tem significância afetiva para
uma pessoa ou grupo de pessoas.
Em 1974, ao tentar estruturar o setor de estudos relacionados com a percepção, as atitudes e os valores ambientais, Yi-Fu Tuan propôs o termo topofilia, definindo-o
como "o elo afetivo entre a pessoa e o lugar ou quadro físico".
Dentro do nosso estudo, o espaço social estaria diretamente relacionado com a filosofia que se desenvolve dentro do centro de significância ou um foco de ação emocional
do homem.
O espaço social e o seu relacionamento com a geografia humana tornam-se mais complexos ainda quando a abordagem é feita dentro de uma geografia radical, que teve
a sua origem na década de 196O.
Surge a geografia radical dentro de um mundo contestatório, época em que os Estados Unidos defrontavam-se com a Guerra do Vietnã, época da luta pelos direitos civis,
da crise da poluição e da urbanização, e é dentro dessa nova geografia que uma corrente geográfica passa a ser crítica e atuante nas diferentes formas de espaço
e, principalmente, visando aos aspectos socioeconômicos das populações.
Para analisar os modos de produção e as formações socioeconômicas, os geógrafos radicais têm por base a filosofia marxista. Quando inserida no contexto radical do
movimento científico, ela tem por objeto colaborar ativamente para a transformação radical da sociedade capitalista em direção à socialista, pelo incentivo à revolução;
por essa razão a geografia radical deve ser marxista (Folke 1972).
Como a própria filosofia desenvolvida pela geografia radical está demonstrando, as modificações do espaço social são muito complexas e profundas, pois tais modificações
podem ocorrer nos mais diferentes espaços do globo, apresentando para esses espaços sociais novas características relacionadas com os aspectos econômicos e com
os setores da economia.
A geografia radical já apresenta algumas tendências para a realização de seus trabalhos. Maria Dolores Garcia (1978), em sua análise sobre a geografia radical anglo-saxônica,
apresenta quatro tendências básicas:
1. Orientação anarquista, centralizada na Universidade de Simon Fraser e na de Clark, nesta última salientando o trabalho de Richard Peet. Essa linha remonta suas
origens aos trabalhos de Peter Kropotkin e Elisée Reclus;
2. Orientação popular radical, que se caracteriza pelo contato direto dos geógrafos com as populações das áreas e dos bairros a serem investigados. O geógrafo participa
e orienta a população para solucionar seus problemas e traçar suas reivindicações. A obra de Willian Bringe (1971) é exemplo desse tipo de procedimento;
3. Orientação para o Terceiro Mundo, exemplificada pelos trabalhos de J.M. Blaut(1973,1975,1976), destinada a propor análises sobre o desenvolvimento e o imperialismo,
entre vários outros temas;
4. Orientação marxista, que se baseia no estudo das obras de Marx e Engels, na procura de fundamentos teóricos e na sua aplicação aos problemas socioeconômicos de
expressão espacial. Os trabalhos de David Harvey (1973, 1974, 1975, 1976) são expressivos como exemplos dessa orientação.
No Brasil já encontramos diversas traduções relacionadas com a geografia radical. Mencionamos as seguintes obras: Yves Lacoste, A geografia serve antes de mais
nada para fazer a guerra (1977); Massimo Quaine, Marxismo e geografia (1979) e David Harvey, Justiça social e a cidade (198O).
Entre os geógrafos brasileiros, Milton Santos vem se salientando nessa perspectiva geográfica com diversos artigos e obras mais expressivas desenvolvidas, como
Geografia nova (1978) e Economia espacial (1979). Carlos Gonçalves (1978) e Ruy Moreira (1979) também elaboram artigos relacionados com a geografia radical.
A título de conclusão
Sendo a geografia uma disciplina científica e a geografia humana uma parte dessa disciplina, todos os esforços devem ser orientados na busca de conhecimento da realidade,
independentemente de posturas, correntes, modismos e temas de interesse.
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#Da análise que fizemos do espaço e da geografia humana, observamos que a diversidade dos fenômenos que podem ser envolvidos na perspectiva espacial e social, bem
como as grandes mudanças que estão ocorrendo na geografia, fazem com que a especialização se torne uma necessidade e uma realidade.
corn a evolução e o avanço do conhecimento científico e a necessidade da grande especialização no campo da geografia, muitos temas que agora são tratados pela geografia
humana passarão a ser analisados por outras disciplinas.
No caso do estudo do espaço social, os geógrafos devem se preocupar com a explicação da realidade e, para isso, buscar a essência, desenvolver e testar constantemente
as teorias e não devem se preocupar em estabelecer limites em termos de técnicas, métodos, temas e campo de atuação, desde que esteja presente a preocupação com
a dimensão espacial. Importantes subsídios para atingir essa finalidade são dados pela sociologia.
Bibliografia
ADAS, Melhem. Estudos de geografia. São Paulo: Editora Moderna, 1981.
BETTANINI, Tonino. Espaço e ciências humanas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
CHISTOFOLETTI, Antônio. Perspectivas da geografia. São Paulo: Difel, 1982.
SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo: Hucitec, 1982.
. Espaço e sociedade. Petrópolis: Vozes, 1982.
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METODOLOGIA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Dulce Maria Pompeo de Camargo Leme
"".,* *
O que entendemos por metodologia?
Nem todos os nossos alunos percebem o que seja a metodologia, porque o conhecimento metodológico sugere uma postura perante a realidade e a prática social. As dificuldades
encontradas, no entanto, não devem levar à mistificação da questão.
Ao aluno deve ficar claro que qualquer pessoa pode se manifestar acerca da realidade social, e que, por mais simples que pareça, essa reflexão supõe uma concepção
de mundo. Portanto, encontrando-se o homem inserido numa determinada realidade social, este precisa ser constantemente motivado no sentido de interrogar, problematizar
e dar respostas às inúmeras questões que lhe são apresentadas. Essa relação do homem com o meio em que vive leva-o a procurar uma explicação, um conhecimento dos
fenômenos para poder superá-los e, conseqüentemente, transformá-los. É através da reflexão que o sujeito se assume como problematizador do real.
As diferentes visões de mundo apresentadas pelo sujeito perante o objeto do conhecimento relacionam-se às diferentes concepções metodológicas perante a realidade.
Em nosso entender, a metodologia é o conjunto de técnicas, de instrumentos, que acompanham o método - a trajetória teórico-prática - no processo de conhecimento
do social.
l Licenciada em Ciências Sociais (PUC-Campmas), curso de especialização em História (Unimep), mestre em Sociologia (Unicamp), doutoranda em Educação (Unicamp) e
professora do Departamento de Metodologia do Ensino da Faculdade de Educação da Unicamp
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#Em certo sentido, métodos e técnicas são atividades distintas, apesar de existir uma relação indissolúvel entre ambos. O método exige técnicas condizentes à postura
adotada pelo sujeito. Enquanto o método decorre da concepção de mundo diante das relações objetivas que existem no real, a técnica constitui um conjunto de processos
destinados a produzir os instrumentos necessários para o conhecimento dessas relações. Em síntese, a metodologia é o conjunto de decisões a serem tomadas a partir
de uma visão de mundo do sujeito perante o objeto para a obtenção do conhecimento.
Nesse processo, classes ou determinados setores de classes desenvolvem sua própria concepção de mundo, interpretando a realidade com base em pressupostos que lhes
são próprios e específicos. Uma vez que a realidade social se compõe de fenômenos que se relacionam entre si, é importante destacar que essas relações não se dão
livremente, ao acaso, mas sim obedecem sempre a determinações históricas, ou seja, são configuradas num espaço-tempo determinado que lhes garante a especificidade.
No entanto, dependendo dos pressupostos adotados, não são todas as abordagens metodológicas que aceitam a historicidade do método, ou melhor, que inserem os fatos
no espaço-tempo que lhe são próprios.
Em suma, é o método que permitirá a delimitação de fronteiras claramente definidas, permitindo delinear os objetivos do conhecimento e as formas de investigação.
Uma determinada visão da realidade pressupõe uma opção metodológica correspondente.
Perspectiva histórica
Para entendermos um pouco mais as colocações anteriores, é importante lembrarmos que as ciências humanas se originaram no século XIX, das ciências naturais, que
lhes emprestaram inicialmente o método. Seu precursor foi Augusto Comte (1798-1875), que defendeu a possibilidade de utilização do método de análise das ciências
naturais pelas ciências sociais.
É com Émile Durkheim (1857-1917) que tem início a trajetória metodológica das ciências sociais. Em As regras do método sociológico (1895), Durkheim propõe uma interpretação
particular do social e com ela um conjunto
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de regras para orientar o desenvolvimento da sociologia como ciência das realidades, partindo da observação e tratando os fatos sociais como coisas. Para ele, o
apelo à realidade concreta era o critério de cientificidade no processo de conhecimento.
Após a progressiva emancipação das ciências humanas, ocorreram profundas alterações no método dessas ciências. Do saber contemplativo, em que o sujeito é mero espectador
passivo do real, em que há supervalorização das técnicas de investigação e onde a verdade está contida nos fatos, dispensando a intervenção da teoria, passa-se à
concepção de um sujeito ativo que constrói os seus próprios esquemas de observação, verificação e transformação da realidade.
Nessa segunda concepção, a realidade científica não será, portanto, a realidade espontânea e passivamente observada, mas uma realidade constantemente reconstruída.
O conhecimento do social não se reduzirá apenas à existência e ao estudo dos fatos que são, isso sim, elementos para reflexão e construção desse saber. Diz Marx
(1818-1883): " ... Na produção social da sua vida, os homens contraem determinadas relações necessárias e independentes da sua vontade, relações de produção que
correspondem a uma determinada fase de desenvolvimento das suas forças produtivas materiais...".
Por outro lado, há necessidade de se ressaltar uma terceira abordagem que defende em excesso a valorização teórica do sujeito no processo de conhecimento. Por exemplo,
o método compreensivo de Max Weber (1864-
192O) considera que o cientista possui dons especiais. Para ele a ciência não responde aos problemas da vida prática nem pode modificar o mundo. Essa postura defende
a neutralidade do cientista perante o objeto de conhecimento.
O ensino das ciências sociais no Brasil
Historicamente, as ciências sociais no Brasil passaram, inicialmente, dos anos 5O até mais ou menos os anos 7O, por um processo de ensino voltado fundamentalmente
para a pesquisa empírica, sem a preocupação de uma fundamentação teórica para o assunto estudado.
2. Durkheim 1895, pp. 17-18.
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#A partir dos anos 7O, como uma reação a essa postura, desenvolve-se uma tendência oposta, ou seja, a de descarregar no aluno as informações mais diversas, priorizando-se
modelos de análise distantes da nossa realidade social.
Tanto uma como outra dessas abordagens metodológicas, além de desconsiderar o contexto histórico do fato em estudo, não oferecem ao aluno condições para que este
estabeleça relações entre a teoria e a prática. Contribuem elas para que as análises metodológicas, ainda hoje, estejam profundamente marcadas pelo conservadorismo.
Ou o trabalho do aluno limita-se à pesquisa empírica, às constatações do senso comum, ou limita-se à mera pesquisa bibliográfica, geralmente, sem coerência metodológica.
As diferentes ciências humanas (economia, sociologia, política e antropologia), da forma como estão sendo ensinadas, distanciam o aluno da realidade e dos problemas
da sociedade. Isso se justifica pelo fato de que a realidade social, dada a complexidade da sociedade atual, não se encontra compartimentada, exigindo, no seu estudo,
a ação conjugada das ciências sociais. No entanto, freqüentemente, o formalismo do ensino separa as ciências sociais entre si, desconsiderando o contexto social,
histórico e cultural.
Assim, ou se priorizam modelos que não levam em conta o contexto histórico e social ou, por outro lado, não se permite ao aluno ultrapassar o nível do cotidiano,
das noções que lhe são estritamente familiares. Enquanto a visão acrílica não oferece subsídios para que o aluno ultrapasse as evidências do senso comum, a postura
de dono da verdade leva o aluno apenas a construções teóricas puras, sem nenhuma relação com a realidade, tornando-o incapaz de dialogar ou questionar as situações
concretas. Seu discurso se limitará apenas ao uso de noções teóricas, sem uma perspectiva crítica.
Para que o educando faça sua opção, há necessidade de que lhe sejam apresentadas diferentes abordagens metodológicas. Isso é fundamental, porque, se o aluno não
tem essa visão metodológica, ele não conseguirá acompanhar criticamente as disciplinas que cursa na universidade. Ele não será capaz de captar ou até mesmo de identificar
as posições conservadoras ainda presentes no pensamento intelectual nacional, onde a tendência principal é apenas transmitir a teoria abstratamente. Oferecer aos
alunos informações sobre os teóricos, como, por exemplo, Durkheim, Marx e Weber, não contribui em nada para que eles consigam fazer a
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nonte para o real. Da mesma forma, o simples contato com essa realidade, sem a reflexão teórica necessária, não permite a produção de conhecimento, uma vez que
as observações não ultrapassam o nível do aparente.
Ensino e metodologia crítica
Diante do exposto, resta-nos enfatizar que uma metodologia crítica deve sempre procurar proporcionar ao aluno o contato com a realidade que o cerca. Devemos prepará-lo
para saber relacionar a teoria à prática. Se o aluno consegue situar o conhecimento dentro de sua própria evolução histórica, ele acaba por descobrir que muitas
vezes o real difere das interpretações que lhe foram ensinadas anteriormente. É importante, portanto, que o educando tenha consciência de sua dimensão espaço-temporal,
para poder questionar os processos de mudança social por meio de uma crítica metodológica continuada. Ele deve, a partir de um determinado ponto de vista, tomar
consciência do processo que está vivendo. Por exemplo: o fato de viver num país da América Latina que possui uma problemática específica e ao mesmo tempo universal.
Ao aluno devem ser colocadas as abordagens metodológicas existentes sobre a questão, chamando a atenção para a predominãoncia de óticas abstratas e generalizantes,
cobertas de conceitos e tipologias que não permitem aparecer, por exemplo, a luta de classes.
Finalmente, há necessidade de ressaltar, novamente, que a produção de conhecimento em ciências sociais implica que os principais acontecimentos sociais, econômicos,
políticos e culturais do problema investigado sejam tratados em sua unidade. Daí a importância de recorrer à interdisciplinaridade, para não correr o risco de obter
um conhecimento parcial e fragmentado do real.
Reafirmamos, ainda mais uma vez, que todo homem, para produzir conhecimento, deve ser crítico, questionador e ter uma postura metodológica cujas técnicas de investigação
sejam coerentes com a sua visão de mundo, aliando a forma ao conteúdo dominado.
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#Bibliografia
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BRUYNE, Paul et alti. Dinãomica da pesquisa em ciências sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1977.
CASTRO, Ana M. e DIAS, Edmundo F. Introdução ao pensamento sociológico. Rio de Janeiro: Eldorado, 1985.
DURKHEIM, Emile. As regras do método sociológico. Várias edições.
GOHN, M. Glória M. "A pesquisa das ciências sociais: Considerações metodológicas". Cadernos Cedes n2 12, 1984.
GOLDMANN, Lucien. "O método em ciências humanas". Ciências humanas e filosofia: O que é a sociologia? São Paulo: Difel, 1972.
GRAMSCI, Antônio. Concepção dialética da história. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.
LOWY, Michel. Método dialético e teoria política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. MARX, Karl. Prefácio à "Contribuição à crítica da economia política". In: MARX,
K. e ENGELS, F. Textos, vol. 3. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977.
. Posfácio à 2a edição alemã de O capital. Várias edições.
THIOLLENT, Michel. Crítica metodológica, investigação social e enquete operária. São Paulo: Polis, 1981.
. Metodologia da pesquisa-ação. São Paulo: Cortez, 1985.
WEBER, Max. Ciência e política: Duas vocações. São Paulo: Cultrix, 1972.
1OO
DEPARTAMENTALIZAÇÃO E UNIDADE DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Nelson Carvalho Mtircellino
A discussão sobre a unidade e departamentalização do conhecimento não é exclusiva das ciências sociais. Está presente quando se enfoca qualquer um dos níveis do
conhecimento científico e faz parte do debate que hoje se trava não só no âmbito acadêmico das instituições de ensino e pesquisa, mas também na aplicação das teorias,
tendo em vista a solução de problemáticas específicas.
Essa breve abordagem do assunto prende-se ao campo das ciências sociais e, longe de pretender fornecer elementos originais ao debate, tem a finalidade de chamar
a atenção daqueles que se iniciam no terreno do social para esse ponto polêmico e de difícil solução, mas de cujo entendimento depende muito a postura que se adotará
no trato das questões sociais.
A unidade do mundo social, com o entrelaçamento de aspectos econômicos, culturais, políticos etc., pode ser constatada pela simples observação do cotidiano, sem
haver necessidade de recorrer à ciência. Basta que se lance mão de alguns temas, a título de exemplo, como a violência urbana, a reforma agrária, ou a marginalidade
e participação política, para que se conclua que uma única questão social comporta análises de vários ângulos, mas que qualquer um deles, isoladamente, não dá conta
da sua totalidade.
O campo de investigação das ciências sociais é caracterizado por uma unidade - a vida do homem em sociedade, complexa e composta de uma multiplicidade de aspectos
que se interpenetram.
l Licenciado em Ciências Sociais, mestre em Filosofia da Educação, doutorando em Educação pela Umcamp. É professor do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Campinas.
1O1
#Falando em termos de objetos das ciências, esse seria o objeto material das ciências sociais, aquilo que elas investigam de modo geral e que deveria assegurar também
uma unidade dos conhecimentos produzidos. No entanto, para continuarmos raciocinando em termos de objetos, cada ciência possui também o seu objeto formal, aquilo
que é investigado especificamente. Por intermédio de seus objetos formais de investigação, cada ciência social se propõe a dar conta de um aspecto da realidade social,
abordando essa realidade complexa de uma perspectiva particular.
Como os diversos aspectos da vida social se interpenetram, não é por acaso que os campos de investigação das ciências sociais são de difícil delimitação, não existindo
claros e rígidos limites divisores.
A especialização das disciplinas científicas acelerou-se a partir do século XIX, graças ao triunfo do positivismo. Como indica Japiassu, esse triunfo "(--) suscitou
a repartição do espaço mental do saber em departamentos isolados e com fronteiras rígidas". Esse procedimento foi levado a efeito tendo por base a necessidade de
fixação dos objetos particulares das disciplinas. O territorialismopositivista, como denomina o autor, tem seu espaço cada vez mais dividido pela especialização.
"Tudo se passa como se o aprofundamento de um domínio qualquer do saber só fosse possível ao preço de uma restrição da superfície do campo estudado. A fragmentação,
produto da divisão das ciências, torna-se esmi galhamento"."
O esmigalhamento do saber permite que Georges Gusdorf, no prefácio do livro de Japiassu, conclua que o desenvolvimento e a diversificação das disciplinas fazem com
que elas percam, cada vez mais, a ligação com a realidade humana. E Gusdorf vai além, afirmando que "devemos considerar como alienada e alienante toda ciência que
se contenta em dissociar e em desintegrar seu objeto". Conclui que "é absurdo, é vão, querer construir uma pretensa ciência do homem, se tal ciência não encontra
na existência humana, em sua plenitude concreta, seu ponto de partida e seu ponto de chegada".4
2. Japiassu 1976, p. 1O1.
3. lbid.,p. 49. ;-
4. Ibid , p. 2O.
1O2
Outro ponto a considerar com relação à departamentalização do conhecimento das ciências sociais é que a especialização não ocorreu de maneira racional ou obedecendo
a um esquema definido, como bem observa Mills. Segundo ele, as disciplinas se desenvolveram sozinhas, fruto de exigências e condições específicas e sem nenhum plano
geral orientador. Além disso, são muitos os desacordos sobre suas relações e a especificação de cada uma. O mesmo autor chama a atenção para o risco de se valorizar
em demasia a departamentalização das ciências sociais, uma vez que o rigor no estabelecimento dos limites pode fazer crer que as instituições estudadas, econômica,
5 política etc., constituam sistemas autônomos.
Mas o aprofundamento do conhecimento exige a especialização e, portanto, a delimitação e a autonomia de cada ciência, o que não implica a impossibilidade da colaboração
entre as várias disciplinas. Cada uma delas significa uma possibilidade de conhecer a realidade, nunca de maneira única ou na sua totalidade, mas parcialmente, reduzindo-a
a uma de suas dimensões. O entrecruzamento e as mútuas interpretações entre as ciências humanas são lembrados por Foucault, que destaca também a multiplicação das
disciplinas intermediárias. Para ele, "... a sobreposição de vários modelos não é um defeito de método. Só há defeito se os modelos não foram ordenados e explicitamente
articulados uns com os outros".
Sendo assim, é necessário que os especialistas nas diversas disciplinas tenham consciência da parcialidade e relatividade das suas áreas de domínio e, dessa forma,
tomem contato com disciplinas diferentes, evidentemente não em busca de novas especializações, mas para que, com uma sólida cultura geral, possam perceber os pontos
de ligação existentes entre elas, intercambiar elementos e saber onde buscar teorias e métodos capazes de auxiliar o seu trabalho em situações específicas.
A grande questão que é colocada, quando se abordam a departamentalização e a unidade das ciências sociais, prende-se à busca de alternativas que, sem deixar de reconhecer
as especializações das várias disciplinas, procurem a
5. Mills 1975, pp. 152-153.
6. Michel Foucault 1981, p. 375.
1O3
#integração dos seus domínios, o que de fato se verifica na realidade social. E essa questão não se coloca somente no campo do conhecimento, mas também no campo
da ação, de intervenção na realidade social.
E sobretudo no campo da ação que vêm se caracterizando algumas propostas alternativas viabilizadas pela realização de trabalhos em equipes multidisciplinares ou
pluridisciplinares. Ambas as equipes reúnem especialistas em duas ou mais disciplinas para o estudo de uma determinada questão. Na verdade, as duas propostas "realizam
apenas um agrupamento, intencional ou não, certos "módulos disciplinares" sem relação entre as disciplinas (o primeiro) ou com algumas relações (o segundo): um
visa à construção de um sistema disciplinar de apenas um só nível e com diversos objetivos; o outro visa à construção de um sistema de um só nível e com objetivos
distintos, mas dando
o
margem a certa cooperação excluindo toda coordenação". O que ocorre é a justaposição de várias disciplinas, onde certos conhecimentos são emprestados, sem que cada
um dos setores envolvidos seja modificado ou enriquecido.
Embora signifiquem avanços com relação às visões monodisciplinares, tanto a multi quanto a pluridisciplinaridade deixam muito a desejar no que diz respeito à relação
entre a unidade do conhecimento e a unidade da realidade analisada. No fundo, ambas são somatórios de visões monodisciplinares, simples agrupamento de ciências,
cada qual com sua linguagem fechada, sendo que os especialistas, por sua própria formação, permanecem ilhados no seu saber, ignorando os demais.
A alternativa que parece realmente contemplar a busca da unidade das ciências sociais é a interdisciplinaridade. Não raro, os termos multi, pluri e interdisciplinar
são confundidos, aplicando-se incorretamente a denominação interdisciplinar ao mero agrupamento de especialistas em torno de uma questão proposta. Na realidade,
como nos lembra Gusdorf, no prefácio já referido, "a exigência interdisciplinar impõe a cada especialista que transcenda sua própria especialidade, tomando consciência
de seus próprios limites para acolher as
7. Japiassu, op.cit., p. 44.
8. Ibid., p. 73.
1O4
contribuições de outras disciplinas. Uma epistemologia da complementaridade, ou melhor, da convergência, deve, pois, substituir a da dissociação".
A diferença entre as três propostas situa-se na "intensidade de trocas entre os especialistas" e no "grau de integração real das disciplinas".1O O interdisciplinar
exige muito mais do que a soma de conhecimentos; o que se busca é superar os limites de cada disciplina, e ele "pode ser caracterizado como o nível em que a colaboração
entre as diversas disciplinas ou entre os setores heterogêneos de uma mesma ciência conduz a interações propriamente ditas, isto é, a uma certa reciprocidade nos
intercâmbios, de tal forma que, no final do processo interativo, cada disciplina saia enriquecida". Há incorporação de resultados, empréstimo de métodos e técnicas
e de esquemas conceituais, na procura da ultrapassagem das fronteiras entre as diversas ciências.
Pode-se dizer que o interdisciplinar é uma reação à fragmentação do conhecimento e à departamentalização do saber acadêmico, divorciados da realidade social que
os origina e com a qual deveriam guardar relação, não compartimentada, mas na sua globalidade. O empreendimento interdisciplinar, na procura da unidade das ciências
sociais, não se prende somente a uma crítica à departamentalização da universidade, como também procura estabelecer de fato a sua ligação com a sociedade, na tentativa
de colaborar na solução das questões colocadas pela dinãomica social, questões essas que não podem ficar na dependência de esferas setorizadas de conhecimento. Por
isso, o interdisciplinar constitui também uma tentativa de adequar o ensino e a pesquisa às atividades profissionais requeridas pelas comunidades.
Nesse último aspecto se situa o grande risco da alternativa interdisciplinar, ou seja, a possibilidade de que ela se converta na mera adequação da ciência aos conhecimentos
fundados nas necessidades imediatistas de setores produtivos da sociedade. Como destaca Japiassu, "o grande risco do interdisciplinar está justamente em converter-se
na ideologia da tecnoestrutura, em suas três dimensões: burocracia industrial, tecnocracia ou gestão profissional, saber técnico necessário ao processo de inovação".
9. Japiassu, op.cit., p. 26.
1O. Ibid., p. 74.
11. Ibid., p. 75.
12. Ibid., p. 216.
1O5
#A proposta interdisciplinar está baseada numa nova forma de entendimento do método científico. Este deixa de se restringir a uma pesquisa particular sobre fatos
para basear-se sobretudo nas relações verificáveis na realidade social. A adoção da comparação é um imperativo que se coloca na procura da unidade do conhecimento
sobre a complexidade da vida social. "O trabalho comparativo, técnico ou empírico, é o aspecto mais promissor para o desenvolvimento da ciência social hoje".
Uma série de obstáculos, no entanto, tende a dificultar a realização da colaboração entre as diversas disciplinas, na tentativa de amenizar os efeitos da departamentalização
do conhecimento. A própria organização das universidades em departamentos isolados, e com freqüência sem relações uns com os outros, faz com que o conhecimento
fique setorizado em compartimentos estanques e que um economista, por exemplo, não tenha contato com a psicologia ou a antropologia e, por sua vez, o antropólogo
ou o psicólogo não tenham nem sequer noções de economia. A própria estrutura da universidade não favorece esse intercâmbio e, além disso, os corpos docente e discente
parecem mais seguros sobre o estudo e a pesquisa em apenas um ramo bem delimitado do conhecimento. Dessa forma, o planejamento dos currículos, as exigências das
diferentes carreiras acadêmicas ligadas ao mercado de trabalho setorizado, e até mesmo a confusão da linguagem específica de cada uma das ciências, constituem dificuldades
práticas para o estabelecimento de relações substanciais entre as várias ciências sociais.
Enfatizando, como venho fazendo, a necessidade da busca da unidade do conhecimento sobre a realidade social, posso dar a impressão de estar negando a validade da
especialização. Em absoluto não é essa a posição que defendo. O fato de pregar a necessidade de cooperação e coordenação entre as diversas ciências não exclui a
especialização. Pelo contrário, só se pode falar em interdisciplinaridade desde que cada disciplina tenha elementos competentes no seu ramo, com sólida especialização.
Para que se estabeleça o diálogo entre as disciplinas é fundamental que cada uma seja autônoma. "Onde não
13. Mills, op.dt.,p. 151.
14. Japiassu, op cit., pp. 9O-1O2.
15. Mills, op.cit.,p. 153.
1O6
houver independência disciplinar, não pode haver interdependência das disciplinas".16 A competência específica em cada setor do conhecimento é pré-requisito para
o interdisciplinar, uma vez que este não pode suprir a incompetência setorial. É necessário deixar claro que "a unidade das disciplinas não significa que se queira
reduzir certos fenômenos a fenômenos de outra natureza. Também não exclui a diversidade de interpretações, mas reclama um pluralismo de perspectivas, já que se trata
de realizar uma unidade e não uma unificação".
Quero ressaltar é que a especialização não deve se fechar aos outros domínios do conhecimento. Se considerarmos como Japiassu que especialização não implica necessariamente
isolamento, toda especialização assim entendida deve
l R
ter por base uma sólida cultura que possa determiná-la. Não é necessário, como afirma Mills, que se domine o campo de todas as ciências, mas que o cientista se familiarize
corn elementos que possam ser interessantes no seu domínio de investigação. Nesse sentido, esse autor chega a propor que a especialização deve ser baseada em problemas,
e não obedecendo aos limites acadêmicos.
Mills recomenda, na tentativa de análise de qualquer das questões significativas de nossa época, uma visão integrada que leve em conta o momento histórico, a abrangência
do estado-nação como moldura do estudo, a visão de conjunto, englobando o exame dos diversos componentes e variáveis do assunto em pauta, e, finalmente, que se parta
da problemática e não de limites acadêmicos impostos.2O Evidentemente essas recomendações não podem ser seguidas por um especialista fechado em seu campo de conhecimentos,
sem abertura para as ligações que se verificam com as demais ciências sociais.
Na busca da superação dos limites da departamentalização das ciências sociais é necessário que nos lancemos na tarefa de caminharmos em direção à sua unidade. Trata-se
de contemplar o desejo da síntese do conhecimento sobre o social, fragmentada pela especialização. Nessa caminhada, além de uma nova concepção da especialização,
fundada na cultura geral e aberta aos outros domínios
16. Japiassu, op.cit., p 129.
17. Ibid.,p. 2O4 (gnfos meus).
18. /te/., p. 195.
19. Mills, op.cit., p. 155.
2O. Mills, op.cit., pp. 144-155.
1O7
#do saber, é necessário que se lance mão, também, da filosofia. "Um saber sobre o homem, capaz de integrar todas as explicações propostas pelas diversas
21
ciências, não pode prescindir da filosofia". Seu papel não deve ser superestimado, como instância superior ditadora de princípios prontos e trazidos de fora. Ela
deve ser encarada como instância crítica interna, "na medida em que ela se apresenta como a única disciplina em condições de fazer a unidade do objeto das ciências
humanas, e na medida, também, em que impede cada uma delas de hipertrofiar-se em mito totalizante". Como destaca Severino, "a interdisciplinaridade favorecerá o
encontro convergente das perspectivas das ciências humanas com a filosofia, em busca da significação profunda". Esse autor chama a atenção especificamente para
o papel da filosofia social: "As ciências sociais representariam assim o momento da adesão ao existir social enquanto a filosofia social representaria aquele esforço
para um distanciamento. Em síntese, etapas de um mesmo processo de constituição de um mesmo discurso fundante".
Quero, pois, enfatizar a necessidade da cooperação entre as diversas especialidades das ciências sociais e da filosofia, visando a uma complementaridade que caminhe
na busca da superação dos rígidos limites do conhecimento departamentalizado, para que se possa, por intermédio de uma prática interdisciplinar, fundada na competência
específica, caminhar para a efetiva correspondência entre a unidade do mundo social e do conhecimento das ciências que o têm por objeto.
Bibliografia
FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas; uma arqueologia das ciências humanas. São Paulo: Martins Fontes, 1981, pp. 361-4O4. (Capítulo 1O - "As ciências humanas").
JAPIASSU, Hilton. Interdisciplmandade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
MILLS, C. Wright. A imaginação sociológica. 4a ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975, pp.
144-155. (Capítulo 7 - "A variedade humana").
SEVERINO, Antônio Joaquim. "A situação da filosofia social na sistemática filosófica". Reflexão n2 14, pp. 91-97. Campinas: PUC-Campmas.
21. Japiassu, op.cn, p. 2O3.
22. Ibid.p 145.
23. Severino, p 92.
1O8
O BRASIL E A SQOEOAD1 DE CLASSES
. . Doraci Alves Lopes
Os estudantes, quando ingressam na universidade e entram em contato com disciplinas introdutórias das ciências sociais, sentem-se perdidos. Se os temas de estudos
abordarem aspectos da sociedade brasileira, o problema é ainda maior. Em geral, estão motivados a conhecer a realidade em que vivem, mas a maioria desconfia do que
vai encontrar pela frente, pois aprendeu desde cedo que as chamadas matérias decorativas só existem para serem decoradas mesmo, ou então para dar um verniz no currículo
acadêmico.
As queixas, principalmente contra estudos sociais, repetem-se anualmente. A obrigatoriedade de decorar nomes de grandes personagens, datas, fatos e locais, desde
o ensino fundamental é motivo de queixas constantes. No entanto, os alunos entendem que"o estudo de história é imprescindível para se desenvolver qualquer conhecimento
no campo das ciências sociais. Mas habituaram-se a conhecer a sociedade brasileira através de heróis da classe dominante, que desfilam na memória dos estudantes
como um álbum de fotografias estranhas, sem nenhum sentido entie si. Os processos políticos, tais como a Independência, a Abolição, a República, e assim por diante,
compõem uma seqüência de bravuras estanques, para serem mais facilmente digeridas.
Os processos econômicos também não ficam atrás; são reduzidos à idéia Á& progresso técnico e uma evolução natural de mecanismos econômicos. Essas imagens definem
um conceito universal para a sociedade capitalista, sem tempo e lugar histórico definidos, e longe do cotidiano de cada um de nós.
1. Bacharel em Ciências Sociais, mestranda em Sociologia (Umcamp) e professora do Departamento de Ciências Sociais da PUC-Campmas.
1O9
#Esse tipo de ensino coloca os estudantes na condição de público espectador, de assistentes de uma ação histórica que se dá fora de seu alcance e compreensão. Tal
modelo pedagógico visa à desqualificação política permanente de todo estudante (ou qualquer cidadão) que decida deixar a condição de agente passivo da história presente
ou futura.
Na universidade, esse sentimento de impotência e de exclusão política pode provocar alguns conflitos, porque muitos esperam (inclusive estudantes) que o desenvolvimento
de aspectos fundamentais da vida social, o senso crítico e um conhecimento científico aconteçam dentro dos limites desse ensino tradicional.
Como vimos, a tendência do ensino fundamental e médio é a de consolidar uma visão elitista de mundo, onde o desenvolvimento da sociedade dependerá sempre da direção
e do controle de alguns poucos homens ilustres.
No ensino superior, o fantasma das matérias decorativas pode reaparecer; o perigo está na supervalorização do ensino teórico em prejuízo, mais uma vez, de um conhecimento
alternativo e crítico da sociedade em que vivemos. A fixação de conceitos e teorias é feita por meio de definições soltas, provocando uma mistificação do saber científico,
do pensamento de determinados autores, e ocultando o contexto social e político onde este saber foi produzido. Essa postura acadêmica reforça a mesma filosofia de
ensino anterior, transferindo para alguns especialistas a competência para analisar e propor alterações e mudanças em todos os níveis da sociedade, inclusive no
plano científico.
Nossa intenção, ao problematizar essa visão dominante, vi venciada pelos estudantes desde o ensino fundamental, é justamente introduzir a preocupação de pensar o
Brasil (no passado, presente e futuro) como uma sociedade de classes. Para tanto, iremos tecer algumas considerações sobre o conceito de classes sociais. * - * "
!
Classes sociais: uma abordagem inicial
Ressaltamos que, apenas para efeito de exposição, vamos recorrer ao uso abstrato dos conceitos de classe dominante e classe dominada. Na realidade, elas não existem
de forma tão transparente em nenhuma sociedade de classes. Estamos utilizando, portanto, uma representação esquemática para abrir uma
11O
discussão em torno do conceito de classes sociais. Tal como ocorre com as análises históricas, há antes um debate polêmico e não um consenso sobre o assunto. Assim
mesmo, tentaremos caracterizar pelo menos duas posições importantes a esse respeito.
Existem autores que entendem o conceito do ponto de vista da estratiflcação social: isso significa que existem tantas classes quantas forem as necessidades de classificação
dos indivíduos de uma sociedade ou grupo social. Ao levantarem, por exemplo, o nível de renda, de status, o grau de escolaridade, religião, cor ou profissão dos
indivíduos, estão constituindo diferentes classes sociais, o que corresponde, muitas vezes, à mesma noção de camadas, grupos ou setores sociais. Desse modo, poderemos
pertencer a uma classe superior em termos de escolaridade (ter pós-graduação), mas cair numa classe inferior em função do nível de renda. Por outro lado, um feirante
pode pertencer a uma classe baixa do ponto de vista do status profissional, mas ser incluído numa classe alta devido ao seu nível de consumo.
As classes ou grupos decorrentes dessa visão de sociedade aparecem mais como uma hierarquia e somatório de indivíduos isolados, que podem ser estruturados e reestruturados
em função dos interesses que estão orientando essas análises e pesquisas. A leitura da realidade, nesse caso, é fragmentada e recortada por aspectos,acentuadamente
quantitativos, vinculada a objetivos mais imediatos, tais como medir o padrão de consumo e a dinãomica de determinadas relações de mercado, ou mesmo do comportamento
social.
Outros autores, por sua vez, defendem o conceito com base no caráter histórico da estrutura social. Quer dizer, as classes sociais não são imutáveis nem podem ser
criadas pelo nosso pensamento. Cada período histórico tem uma estrutura social particular. Assim, as classes sociais não existem por definição, mas somente quando
se expressam na realidade concreta. Portanto, só temos condições de compreender o conceito se nos ocuparmos do estudo da história propriamente dita, se dá o enfrentamento
entre as classes dominante e dominada.
É fundamental reconhecer, no entanto, a existência de grupos (camadas ou setores) sociais com influências e condições político-econômicas distintas no interior
da classe dominante e da classe dominada. Essa posição, longe de dificultar, facilita o estudo da formação e características da estrutura social
111
#brasileira, além de explicitar as principais contradições sociais que marcam de maneira única cada período histórico do país, evitando uma noção de sociedade linear
e predeterminada em seu desenvolvimento.
Podemos dizer, resumidamente, que as contradições sociais expressam o projeto político mais amplo tanto da classe dominante como da dominada. O projeto da primeira
é conservar e garantir a posição privilegiada de dominação e exploração, enquanto o da segunda é colocar um fim à situação de desigualdade social e subordinação
a que está submetida.
Caberia observar ainda que, por mais complexa e heterogênea que uma estrutura de classes possa ser, não dissolve ou descaracteriza a contradição entre os que detêm
o capital e os que possuem apenas a força de trabalho. Muitas outras contradições podem ser identificadas entre grupos sociais de uma mesma classe social, mas isso
não significa que elas vão adquirir um potencial político suficiente para fazer desaparecer a contradição principal, mesmo quando são capazes de rupturas na ordem
existente (como a Revolução de 3O ou o Golpe de 64).
Alguém pode perguntar pelo que se costuma chamar de classe média neste momento. Diríamos que a tendência dos setores médios é oscilar entre um e outro projeto de
classe. Mas encontramos situações nas quais alguns setores se comprometem mais diretamente com os interesses da classe dominante, enquanto outros setores, com
os da classe dominada.
Há, ainda, os que acreditam na capacidade da dita classe média de formular um projeto de sociedade próprio. Vêem a possibilidade de sua autodeterminação política,
constituindo-se, enfim, numa terceira força social, independente do jogo de forças políticas estabelecido entre as classes antagônicas.
Após essas noções gerais sobre o conceito, gostaríamos de retornar à nossa questão inicial.
2. A utilização do conceito de classe média é extremamente problemática, pois determinadas correntes de autores não acatam a existência da mesma, preferindo utilizar
outras definições: pequena burguesia, camadas intermediárias, setores médios. Ver, por exemplo, Nicos
Poulantzas, "As classes sociais". In: Zenteno (coord.). As classes sociais na América Latina,
pp. 91-116.
112
É preciso "redescobrir" o Brasil - - l --
A preocupação atual de muitos setores do ensino, especialmente aqueles ligados à área das ciências humanas, é chamar a atenção dos estudantes para a história dos
que são rotulados de ausentes, marginais e até mesmo irracionais pela visão dominante.
Para que isso seja possível, é preciso redescobrir o Brasil, conhecê-lo de outra maneira. O estudo da história social do trabalho passa a ter então um papel fundamental
para que possamos compreender como e por que índios, negros, trabalhadores rurais e urbanos têm ousado resistir e se opor (de maneira pacífica ou armada) às mais
variadas formas de exploração ao longo do desenvolvimento do capitalismo no Brasil.
É sempre bom lembrar que a classe dominada - os vencidos - nunca esteve em condições políticas, econômicas e culturais favoráveis para transmitir a sua versão dos
fatos sociais para o conjunto da sociedade. Por isso mesmo, é grande a responsabilidade da universidade em trabalhar, com os estudantes, interpretações históricas
críticas e diversas, que demonstrem o caráter de classe de nossa sociedade, evidenciando seus movimentos de rupturas, avanços e retrocessos.
Trata-se, concluindo, de defender e recuperar uma indispensável dimensão da realidade, para aprofundar e dinamizar as discussões teóricas e conceituais das disciplinas
das ciências sociais.
Tentar ignorar esse problema significa impedir uma articulação que deve ser constantemente perseguida entre o cotidiano acadêmico e a realidade, entre a teoria e
a prática, o discurso e a necessidade concreta de solução das questões sociais.
Bibliografia
CABRINI, Conceição et alii. O ensino de história: Revisão urgente. São Paulo: Brasi-
liense, 1986.
FENELOS, Déa Ribeiro (org.). "Sociedade e trabalho na história". Revista Brasileira de
História n2 11, vol. 6, set. 1985/fev. 1986. São Paulo: Marco Zero.
113
#GOLDMANN, Lucien. Ciências humanas e filosofia: O que é a sociologia? Paulo: Difel, 1986.
IANNI, Octávio (org ) Karl Man Sociologia São Paulo Ática, 1979
NUN, José. "A rebelião do coro: Novos personagens irrompem na cena política". Revista Desvios (2), agosto, 1983.
SILVA, Marcos A. (org.). Repensando a história. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1984.
VELHO, Otávio G.C.A.; PALMEIRA, Moacir G.S. e BERTELLI, Antônio Roberto
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ZENTENO, Raul Benítez (coord.). As classes sociais na América Latina: Problemas de conceituação. Tradução de Galeno de Freitas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
114
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* " José Luís Sanfelice
O desafio que agora nos é apresentado sugere-nos a participação em um livro que pudesse servir como base para o encaminhamento das discussões em sala de aula e referencial
para a busca de posteriores aprofundamentos em bibliografias específicas. Deseja-se ter, no conjunto da obra, textos introdutórios abrangentes, na área das ciências
sociais, voltados para a realidade brasileira. O público principal ao qual devemos nos dirigir é aquele composto por alunos que cursam a disciplina de Introdução
às Ciências Sociais ministrada nos primeiros anos dos cursos de ciências econômicas, contábeis, administrativas e outros.
Como atender a essas exigências, num limite de seis laudas, abordando o tema "Subdesenvolvimento e cultura"?
Propomos que nosso diálogo se inicie com uma consulta ao Novo Dicionário Aurélio para que ele nos informe sobre os significados das palavras subdesenvolvimento
e cultura. Procedendo dessa maneira, logo constatamos que o substantivo subdesenvolvimento (de sub+desenvolvimento) expressa: "1. Desenvolvimento abaixo do normal.
2. Estado de um país ou de uma região cuja estrutura social, política e econômica reflete uma utilização deficiente dos fatores de produção, isto é, os recursos
naturais, o capital e o trabalho, e uma deficiente articulação entre eles."
Ainda com o auxílio do Novo Dicionário Aurélio, observamos que a palavra cultura, por sua vez, designa: "1. Ato, efeito ou modo de cultivar. 2. Cultivo. 3. O complexo
dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos coletivamente
l. Mestre e doutor em Educação, atualmente professor do Departamento de Filosofia e História da Educação da Faculdade de Educação da Unicamp
115
#e característicos de uma sociedade... 4. O desenvolvimento de um grupo social, uma nação etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores;
civilização, progresso..."
Dispondo desses significados das palavras subdesenvolvimento e cultura, destaquemos os seguintes aspectos:
a) O conceito de subdesenvolvimento, genericamente designando qualquer desenvolvimento abaixo do normal, expressa um certo tipo de desenvolvimento: o desenvolvimento
abaixo do normal. Pode
parecer um mero jogo de palavras, mas não é. Nem sempre percebemos que, ao utilizarmos a palavra subdesenvolvimento, estamos nos referindo a um certo desenvolvimento;
, b) O conceito de subdesenvolvimento expressando especificamente o
, - . estado de um país ou região com uma utilização deficiente dos fatores
de produção, embora seja de uso freqüente, pode nos conduzir a equívocos. A idéia estado, situação de um país ou região, não é muito dinãomica. Estado ou situação
parecem manifestar aqui realidades mais ou menos estáticas, fechadas em si mesmas e deficientes. Além do mais, nos dois casos citados, sempre podemos questionar
os critérios do que se esteja estabelecendo por desenvolvimento normal ou abaixo do normal e questionar também os critérios que se estabelecem para o que será ou
não considerado deficiente.
c) Por sua vez, os significados atribuídos pelo Novo Dicionário Aurélio à palavra cultura lembram-nos, logo ao ser anunciado o primeiro deles, algo tão simples e
ao mesmo tempo tão complexo que raramente nos provoca a atenção. Cultura é o "ato, efeito ou modo de cultivar". Cultura é cultivo, ou seja, antes de tudo cultura
é trabalho, trabalho humano transformando a natureza. Não é por acaso que dizemos cultura do milho, do arroz, da cana-de-açúcar etc., apontando para um longo processo
de relação do homem com a natureza que implica trabalho, uso de técnicas, aplicação de conhecimentos e obtenção de resultados;
d) A palavra cultura, todavia, identifica de forma mais explícita o amplo conjunto de resultados adquiridos coletivamente pelos ho-
116
mens no transcorrer do processo de transformação que exercem sobre a natureza, sobre os resultados culturais anteriores ao seu momento histórico e entre si mesmos.
É por isso que a palavra cultura pode designar "o complexo de padrões de comportamento, das crenças, das instituições e doutros valores espirituais e materiais transmitidos
coletivamente e característicos de uma sociedade..."; e) Finalmente, e por decorrência do tema que nos é proposto, não podemos não registrar que a palavra cultura
pode expressar também "o desenvolvimento de um grupo social, uma nação etc., que é fruto do esforço coletivo pelo aprimoramento desses valores; civilização, progresso..."
Os conceitos de cultura e desenvolvimento interpenetram-se e comunicam aspectos comuns de uma mesma realidade. Dessa forma, podemos dizer que toda a cultura de uma
determinada sociedade constitui-se na materialização da maior ou menor complexidade do seu desenvolvimento.
Todos esses esclarecimentos, entretanto, parecem-nos ainda muito abstratos. Propomos então um segundo passo para o nosso diálogo: compreendermos um pouco os próprios
fenômenos que se convencionou denominar de subdesenvolvimento e de cultura.
Segundo nosso entendimento, o melhor caminho para realizarmos esse percurso é efetuar uma abordagem dos fenômenos subdesenvolvimento e cultura indagando pelo processo
por intermédio do qual se produzem o subdesenvolvimento e a cultura, ou seja, analisando a origem desses fenômenos e ao mesmo tempo relacionando-os. Cabe-nos, pois,
buscar novos esclarecimentos.
Nós já apontamos que o conceito de subdesenvolvimento, nos seus significados gerais e específicos, necessariamente se relaciona com o conceito de desenvolvimento.
O conceito de subdesenvolvimento sempre resulta de um critério comparativo porque ele se aplica às situações em que se identifica um desenvolvimento aquém dos padrões
considerados normais, aquém dos níveis considerados eficientes ou de qualidade superior. Daí decorre o fato, por exemplo, de os especialistas estabelecerem normas,
medidas, características econômico-sociais e culturais a serem consideradas para identificar se um país, ou região, é desenvolvido ou subdesenvolvido. Já apontamos,
entretanto, que
117
#o uso da palavra subdesenvolvimento nem sempre nos dá a idéia de que ela se refere a uma realidade com um certo tipo de desenvolvimento. Isso é um equívoco.
Simplesmente opor desenvolvimento a subdesenvolvimento por critérios comparativos é ocultar a dinãomica das relações estabelecidas entre si pelas diversas sociedades
capitalistas. A comparação parece indicar patamares, estágios autônomos de cada sociedade isoladamente: sociedades desenvolvidas de um lado e subdesenvolvidas de
outro, mas tendo estas a possibilidade de um dia se igualarem às primeiras. Na realidade, não temos evidências nem de uma coisa nem de outra.
Em primeiro lugar é preciso que consideremos, do ponto de vista lógico, a possibilidade de afirmarmos que todas as sociedades encontram-se em desenvolvimento. com
exceção de um estado puramente natural, isto é, a natureza considerada independentemente do homem, sem a presença humana, portanto, sempre temos um processo de desenvolvimento
porque os homens e as sociedades estão, de maneira contínua, produzindo sua existência. O que podemos constatar, pois, é a realidade das situações naturais não desenvolvidas
- não procede dizer subdesenvolvidas - e das situações sociais em desenvolvimento.
Por outro lado, a idéia de que as sociedades consideradas subdesenvolvidas alcancem um dia as sociedades desenvolvidas é uma suposição que nos dá a entender que
as sociedades desenvolvidas param seu desenvolvimento, enquanto as outras continuam a tê-lo ou, pelo menos, que as sociedades ditas subdesenvolvidas conseguem desenvolver-se
mais velozmente do que as já desenvolvidas, possibilitando-lhes assim igualarem-se. Ora, mas ocorre exatamente o contrário. As relações entre as sociedades capitalistas
implicam que as desenvolvidas extraiam das demais ainda melhores condições para o seu próprio dinamismo e, claro, em prejuízo das outras. Observemos, entretanto,
que para explicitar tais situações podemos nos utilizar do conceito de subdesenvolvimento porque assim estaremos designando que o desenvolvimento de um país ou região
se dá de forma subordinada ao desenvolvimento de outros. Uma espécie de condição colonial permanente, embora instável e mutável porque ao longo da história tem adquirido
diferentes manifestações. No caso específico do Brasil, por exemplo, a subordinação se deu primeiro no âmbito do antigo sistema
118
colonial; depois na associação ao tipo de colonialismo criado pelo imperialismo das primeiras grandes potências capitalistas mundiais (Inglaterra) e na atualidade
se manifesta na vinculação ao desempenho do capitalismo monopolista que integra as economias nacionais.
O conceito de subdesenvolvimento, portanto, não é um conceito abstrato para comparar diferenças entre países, como se cada um deles constituísse uma realidade estática
e não relacionada entre si. Desenvolvimento e subdesenvol-
vimento são aspectos de um mesmo processo do modo de produção capitalista. Esses aspectos resultam historicamente das relações que o modo de produção capitalista
- sempre visando à maior acumulação de capital e à concentração da propriedade privada dos meios de produção - estabelece entre as diferentes sociedades com a finalidade
de continuar sua expansão. Por outro lado, as sociedades em condição de subordinadas desenvolvem, internamente, as características desse mesmo capitalismo com sua
estrutura de classe, formas de representação política e organização do Estado, ou seja, constituem-se também em capitalistas. O fenômeno desenvolvimento-subdesenvolvimento
pode assim reproduzir-se no interior do próprio país economicamente subordinado - o que ocorre nas relações entre o Sudeste e Nordeste brasileiros, por exemplo -
beneficiando a burguesia local já aliada à burguesia internacional.
Como diz Florestan Fernandes:
... cumpre observar que o capitalismo monopolista está alterando rapidamente o quadro dos ajustamentos entre nações desenvolvidas e subdesenvolvidas, estimulando
o aparecimento de um "padrão de interdependência" que subjuga de forma sem precedentes (sem nenhum vínculo "colonial" ou "imperialista") as economias satélites.
Esse processo afeta até as economias nacionais autônomas; mas é nas nações subdesenvolvidas da Europa, da América Latina, da Ásia e da África que as conseqüências
estão assumindo os aspectos mais dramáticos. (1975, p. 47)
Postas essas observações acima, voltemos às relações possíveis de serem estabelecidas pela proposta do tema "Subdesenvolvimento e cultura".
Temos que falar novamente do ponto de vista lógico para concluirmos que: se os conceitos de cultura e desenvolvimento interpenetram-se; se desenvolvimento e subdesenvolvimento
são aspectos relacionados das características
119
#próprias do modo de produção capitalista; se o subdesenvolvimento é um certo tipo de desenvolvimento; se todas as sociedades estão em desenvolvimento porque produzem
sua existência; então, todas as sociedades produzem também a cultura, mas se há uma subordinação do desenvolvimento de certos países ou regiões a outros, nesses
casos a cultura dos subordinados tendencialmente será também subordinada. "Ao nível do fluxo civilizatório, o eixo da verdadeira história cultural da sociedade capitalista
dependente se desloca para fora, para os núcleos de produção e de difusão da civilização consumida. As sociedades subdesenvolvidas, independentemente do seu atraso
ou avanço relativos, não possuem recursos materiais e humanos para inverter sua condição de focos de consumo da cultura, e dia a dia vêm aumentar a distância histórica
que as afasta quer daqueles núcleos, quer da própria autonomização cultural." (Fernandes, op.cit., p. 48.)
Nas condições do capitalismo monopolista, portanto, havendo uma universalização das leis desse modo de produção, tendencialmente ocorre também uma universalização
dos valores culturais e ideológicos ao mesmo tempo em que a produção cultural, ou seja, a forma mesma pela qual as sociedades subordinadas produzem seu próprio desenvolvimento,
efetiva-se também de maneira subordinada. Nos países subordinados montam-se, por exemplo, produtos de tecnologia sofisticada para o consumo, sem que esses mesmos
países possuam o domínio dos conhecimentos científicos e tecnológicos necessários para a referida produção.
Embora todas as sociedades estejam produzindo cultura, é certo que, com diferentes características, nem todos participam igualmente dos resultados culturais universalmente
obtidos e isso difunde a idéia de que as sociedades desenvolvidas são cultas e as subdesenvolvidas incultas. Difunde-se
também a idéia de que as sociedades são subdesenvolvidas em decorrência da sua própria falta de cultura, escondendo-se assim as condições históricas e objetivas
nas quais estas sociedades estão mergulhadas no quadro geral das relações capitalistas: fornecedoras de matéria-prima; importadoras de produtos industrializados;
possuidoras de farta mão-de-obra barata disponível às multinacionais e aos capitalistas locais; consumidoras de tecnologias importadas sem dominá-las; consumidoras
de produtos culturais alienígenas de qualidade bastante questionável (músicas, literatura, modismos etc.); empobrecidas e endivi-
12O
dadas inclusive pela condescendência da burguesia local em face da burguesia internacional; carentes de uma política educacional e cultural estimuladora do desenvolvimento
das suas próprias características; detentoras de altíssimos índices de analfabetismo, mortalidade infantil e miséria absoluta; politicamente autoritárias inviabilizando
a participação e expressão da vontade da grande maioria das suas populações; com as pessoas tendo uma perspectiva de tempo de vida reduzido e alienadas, pela exploração
interna e externa, na constante produção da mais-valia, condição real na qual existem.
A conclusão que podemos tirar, portanto, é que os países ou regiões que se encontram numa situação de subordinados economicamente tendem a produzir uma cultura também
subordinada, mas, considerando a finalidade didática deste texto, gostaríamos de encerrar com a provocação das seguintes questões: Existe alguma possibilidade de
que os países subordinados venham a ser autônomos? Existe a possibilidade de que uma cultura produzida de forma tendencialmente subordinada venha a se constituir
em elemento significativo para a criação de condições favoráveis ao desenvolvimento e cultura autônomos?
Bibliografia
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IANNI, O. Sociologia e sociedade no Brasil. São Paulo: Alfa-Ômega, 1975, 137 pp. PINTO, Álvaro V. Ciência e existência. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1969, 537 pp.
SALVADOR, A.D. Cultura e educação brasileiras. Petrópolis: Vozes, 1974, 257 pp.
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SOARES, Alcides R. Monopólio, dívida externa e inflação: A política econômico-financeira no Brasil, a partir de 1964, e suas conseqüências para a classe trabalhadora.
São Paulo: Fix, 198O, 6O pp.
SODRÉ, N. Wernek. Síntese da história da cultura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1979, 136 pp.
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#A AUTOMAÇÃO E AS CIÊNCIAS HUMANAS
Regis de Morais
i f
Fala-se hoje em duas revoluções industriais havidas A primeira delas ter-se-ia iniciado no final do século XVIII, substituindo cada vez mais o trabalho movido à
energia muscular por atividades movidas por novos recursos energéticos combustão de carvão, energia a vapor d"água, eletricidade etc Essa primeira fase passou a
ser conhecida como a era da automatização, pois foi caracterizada pela invenção de engenhos mecânicos que eram sistemas abertos funcionando a uma velocidade suficientemente
baixa para que o operário humano pudesse sempre intervir na atividade da máquina
Atualmente, afirma-se, já superamos o predomínio da automatização e entramos em cheio no período da automação Trata-se agora de uma segunda revolução industrial,
na qual se procura cada vez mais substituir certas operações da inteligência humana por façanhas da inteligência eletrônica A automação se caracteriza pela invenção
e pelo aperfeiçoamento de máquinas eletrônicas, que funcionam à base de microcircuitos e são sistemas fechados, isto e, o homem só tem o papel de programar e aproveitar
resultados Ele não pode intervir no funcionamento do computador, uma vez que os processamentos se dão a velocidades inimagináveis
Ora, as coisas ditas assim nos deixam no nível do que apenas vem ocorrendo com as máquinas É preciso termos bem claro que, se a automatização produziu uma revolução
social de costumes no século XIX, a automação está
l Mestre em Filosofia Social pela PUC Campinas doutor em Educação pela Umcamp professor de ambas as citadas universidades e autor entre outras obras de Filosofia
da ciência e da tecnologia (Papirus)
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#promovendo uma revolução que promete ser ainda mais profunda. De repente, esse homem que não faz tanto tempo assim vivia na floresta e lidava com arcos e flechas,
vê-se diante de um computador - máquina cuja velocidade de raciocínio matemático transforma o ritmo do nosso próprio raciocínio numa coisinha ridícula.
O computador transcodificou toda a nossa vida. Vale dizer: depois desse invento assombroso, os códigos sociais de vida foram de tal modo transformados que já não
dá mais para ler o nosso mundo com uma chave interpretativa (conjunto de valores e princípios) do chamado mundo pré-tecnológico. Fala-se até desta nova fase como
uma pós-históría, pois se houve uma pré-história em razão da falta de textos escritos que documentassem e relatassem o viver humano, e depois houve uma história
em razão do surgimento desses textos escritos, hoje em dia, quanto mais os fatos do nosso tempo são digitados e armazenados matematicamente nas memórias dos computadores,
tendem a desaparecer de novo os documentos e textos. É a pós-históría.
Antes da primeira revolução industrial, o tipo humano básico foi o camponês: comungante com a natureza, dela dependente, paciencioso e marcadamente conservador
em seus costumes e valores, até mesmo em razão do predomínio da tradição oral. A industrialização criou o operário, concentrando-o em cidades crescidas - espaços
de acentuada contradição humana - e fazendo-o sentir-se mais dependente das máquinas (inclusive da máquina administrativa). Por sua vez, o operário pôde perceber-se
mais claramente explorado, o que fez dele não um conservador, mas, diversamente, um revolucionário. Hoje, foi de tal profundidade a transformação operada pela automação
(e ainda está sendo, mais e mais), que o tipo humano básico passou a ser o funcionário: distanciado da natureza, descrente da política, de mente burocratizada e
corpo amestrado, atento apenas à eficiência e às promoções para subir na vida, melhorar o status financeiro.
A introjeção de um mundo excessivamente tecnifícado empurra o funcionário para a atrofia da qualidade interior de si como pessoa. Ele vê a sociedade transformada
num imenso aparelho e sente dificuldade de se sentir pessoa dentro da mecânica social. A sociedade organizacional o envolve: nasce em organizações (maternidades),
cresce em organizações (escolas), trabalha no interior de organizações (empresas), envelhece dependendo de organizações
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(institutos de previdência) e, quando finalmente morre, a organização funerária
se incumbe de sepultá-lo ou de cremá-lo.
Em nome da tecnologia chega-se a coisas espantosas. O governo japonês construiu uma cidade-laboratório chamada Ohara, onde instalou, para o dia-a-dia dos moradores,
uma tecnologia "do século XXI". Famílias aceitaram, para receber bom salário, ir morar em Ohara a fim de que suas reações diárias fossem estudadas por psicólogos,
médicos, sociólogos e outros. Num ambiente de completa automação, de um conforto impensavelmente sofisticado, as crianças de Ohara começaram a se matar. com cerca
de 6 mil moradores, Ohara registrava (1984) o mais elevado índice de suicídio infantil do mundo, na faixa etária que percorre dos 5 aos 1O anos de idade. Lazer eletrônico
e tédio desumanizante: armas terríveis.
Pois bem. Esse homem invadido e violentado pelo mundo tecnocientífico, que atravessa profunda crise de identidade - esse homem que é mais um enigma, é o objeto das
atuais ciências humanas. Pensemos um pouco nisso.
O complexo objeto das ciências humanas
Desde o início dos tempos o ser humano se mostrou uma realidade fugidia, contraditória, dinãomica e mutante e, por isso mesmo, uma realidade complexa. E as ciências
humanas vêm se dedicando à acurada pesquisa sobre os modos de ser do homem, sendo que falta-lhes sempre uma coisa prévia: antes de avaliar o agir de um ser, refletir
esse próprio ser em sua dimensão ontológica. Não é próprio do homem ser indiferente, pois este é uma realidade de paixão. Já dizia o filósofo Schopenhauer que a
vontade humana é um gigante que carrega no ombro um anãozinho chamado razão. O anão cochicha e cochicha ao ouvido do gigante, e este, vez ou outra, concede cumprir
o que o pequeno ser lhe sugere.
Uma coisa é certa: o ser humano é o mais formidável experimento cósmico, que veio sendo aperfeiçoado através dos milhões de anos que medeiam entre o seu surgimento
e o nosso hoje. Nós, homens do século XX, nos sentimos em profunda crise e, em conseqüência disso, não nos percebemos como um experimento cósmico assim tão feliz.
É que trazemos em nós como que a nostalgia de um paraíso perdido e temos dificuldade de nos situar neste nosso tempo em que tudo se encontra em questão, nossa época
que um pensador
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#francês chamou apropriadamente de "o tempo da dinãomica do provisório", quando um nomadismo de valores e costumes deixa-nos estonteados. Uma coisa, todavia, é indiscutível:
compreender as peculiaridades do agir sem antes haver refletido sobre as peculiaridades do ser que age é algo um tanto despropositado e que deixa a qualquer um o
sabor da confusão.
Na antigüidade grega havia o médico e o fármaco. Médicos recebiam os enfermos, ouviam a história dos seus males, observavam-nos, até que chegassem àquilo que era
o momento mais alto do seu trabalho: o diagnóstico. A diagnose era o trabalho por excelência do médico. Descoberta a origem da doença e a sua localização, o enfermo
era enviado (de posse do diagnóstico) ao fármaco, o farmacêutico que era - este sim! - incumbido de medicar e desenvolver a terapia de cura. Assim, a medicina e
a farmácia se punham como duas atividades complementares. Sou tentado, hoje em dia, a imaginar que o papel das ciências humanas é o do médico: o do interesse pela
diagnose social, traçando a história e o perfil real dos males que enfermam um dado grupo. E imagino também que compete às políticas administrativas e à assistência
social (respeitada em sua dignidade profissional) o papel do fármaco grego. Cientistas humanos - ou hermeneutas, mais propriamente - não curam; mas oferecem todo
o mapeamento necessário aos administradores e aos servidores sociais. Aliás, pensando melhor, se as ciências humanas informassem com simplicidade e rigor ao meio
social, o papel da cura passaria a competir, num primeiro plano, aos já citados; num segundo plano, a toda a sociedade.
Há de se perguntar, com razoável sofreguidão, em tudo isso, onde está o papel da automação junto às ciências humanas?
Em nenhuma outra época da história humana tantos e tão profusos dados foram coletados sobre o homem, graças às memórias dos computadores em grande medida. São dados
médicos, sociais, econômicos, históricos, arquitetônicos, prospectivos e de mil outras naturezas. Por isso, a automação vem a ter, na facilitação da prática memorativa
das ciências, um papel formidável. A capacidade de retenção de dados do computador é sua mais formidável façanha, sendo que a isso se segue a inimaginável velocidade
de processamento desses dados a partir de um sistema preparado para a obtenção de um determinado tipo (ou mais de um) de raciocínio matemático, desenvolvido por
linearidade ou por confronto.
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Hoje não podemos, em sã consciência, dizer que as ciências todas e dentre estas as ciências humanas, possam prescindir da contribuição da informática. Vejamos um
pequenino e curioso exemplo. Quando, na indústria aeronáutica, surgiu o problema de se calcularem os pontos de atrito (pontos de ataque) das asas do magnífico avião
Concorde, foi feito um cálculo estimativo de quantos matemáticos seriam necessários para realizar aquelas contas usando uma técnica pessoal. Verificou-se que seriam
necessárias duas equipes de calculistas que trabalhassem revezando-se durante 8OO anos. Pois bem; computadores altamente avançados receberam a programação devida
e realizaram todos os cálculos desejados para as asas do Concorde em cerca de 56 minutos.
Ora, a prática das análises humanas às vezes exige sistemas sofisticados de entrecruzamento de dados, e tudo isso pode ser imensamente beneficiado pela computação,
desde que se possa contar com programadores de alto gabarito. Todavia, por mais que atualmente esteja sendo pesquisada a inteligência artificial, em sentido até
mesmo de substituição futura à inteligência humana, o que ainda temos - e isso me parece muito bom! - é que a interpretação essencial dos resultados de processamento
ainda precisa correr por conta dos seres humanos, pois concerne à sensibilidade intuitiva e à busca de sensatez: coisas que o computador ainda não pode ter ou fazer.
As ciências humanas podem verdadeiramente e devem se beneficiar dos recursos da automação, desde que não façam do computador um deus Moloch e se deixem subverter
pelo deslumbramento de uma mecanização desumanizante em nome - veja-se que ironia! - das ciências humanas.
Promessas e ameaças da automação
Chesterton já dizia que o imprevisto é uma lei básica da história. E hoje estamos perplexos porque, se no século XIX Alexander Herzen, maravilhado com a invenção
da telegrafia, disse: "Seria terrível ver Gêngis Khan com um telégrafo na mão", agora temos muito medo de, em pleno obscurantismo moral do nosso século, vermos
novos Gêngis Khan com um computador à mão.
As nações ricas do dito Primeiro Mundo ameaçam dominar a informática e, por intermédio dela, lançar o restante da humanidade numa situação de ainda mais completo
servilismo. A catalogação e o processamento dos dados humanos
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#pode passar a servir a um determinado tipo sectário de ciências humanas, de intenção despudoradamente manipuladora. Algo parecido com europeus que inventaram,
no interior da etnologia, a antropometria e a frenologia e vieram cá para os países pobres medir crânios e ossos faciais para demonstrar cientificamente que éramos
gente ainda muito atrasada e de instintos criminosos.
Foi preciso um grande cientista humano francês chamado Claude LéviStrauss corajosamente dizer: nós, europeus, temos bancado idiotas no confronto com os tais povos
que chamamos, ideologicamente, de primitivos. O fato para o qual os cientistas europeus ainda não tinham acordado, segundo Lévi-Strauss era o de que há culturas
viajantes e aquisitivas (caminham sempre em busca de algo e com uma meta estabelecida e, enquanto caminham, vão se apossando do que encontram pela estrada), enquanto
que há culturas divagantes e f nativas:
as que divagam pelo gosto de divagar sem caminharem para lugar algum determinado e têm como ideal para os seus dias simplesmente fruir a doce aventura de viver.
Um dos principais criadores do computador, o Dr. Norbert Wiener, tinha clara noção de que nesse invento residiam todas as possibilidades: com ele, os homens poderiam
resolver os graves problemas da entropia do seu mundo (degeneração em todos os níveis), bem como os homens poderiam concluir a destruição de sua vida sobre a Terra.
Assim, a função maravilhosa e positiva, tanto quanto a função desastrosa e apocalíptica da automação - isso ficaria por conta da nossa capacidade de traçar um projeto
lúcido de vida, ou rabiscar um plano macabro de morte.
Algo fica claro: o relógio da civilização não pode ser atrasado. Sociedades altamente complexificadas precisarão sempre de ajuda da informática computacional. Estamos
corn uma vida transcodificada. Toda ciência e, nesse âmbito geral, as ciências humanas não podem simplesmente virar as costas aos auxílios que podem ser dados pela
computação.
De qualquer forma vivemos um momento tenso. Neste fim de século somos seres privilegiados, porque: ou somos os últimos homens, ou seremos os parteiros de uma nova
civilização que se anuncia.
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\deflang1046\pard\plain\f2\fs20 DICION\'c1RIO FILOS\'d3FICO \

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\par Voltaire \

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\par APRESENTA\'c7\'c3O \

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\par N\'e9lson Jahr Garcia \

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\par \~\~\~\~\~ Voltaire (1694- 1778) foi um dos maiores pensadores de seu tempo. Seu estilo, inconfund\'edvel, est\'e1 presente em todos os seus romances, pe\'e7as teatrais, trabalhos sobre filosofia e ci\'eancias. O tra\'e7o mais marcante de seus textos \'e9 a agressividade inteligente, manifesta atrav\'e9s de cr\'edticas \'e1cidas e de uma ironia grave, geralmente beirando o sarcasmo. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 o patrono deste site, cujo lema \'e9 "Ridendo Castigat Mores" (com o riso se castigam os costumes). \~\~\~\~\~ Voltaire, com humor, castigou reis, nobres, ministros, religi\'f5es, teorias cient\'edficas e filos\'f3ficas. Nesse aspecto "Dicion\'e1rio filos\'f3fico" \'e9, talvez, o trabalho mais significativo. N\'e3o perdoou autoridades, costumes, cren\'e7as ou teorias; \'e9 dif\'edcil lembrar alguma que n\'e3o tenha sido alvo de sua verve. \

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\par \~\~\~\~\~ Suas cr\'edticas procuram demonstrar as contradi\'e7\'f5es embutidas nas concep\'e7\'f5es que ataca. \'c0s vezes o faz de forma leve e sutil, como neste argumento, em que ridiculariza a certeza humana: \

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\par \~\~\~\~\~ Se pergunt\'e1sseis a todos os homens antes de Cop\'e9rnico:- O sol levantou- se hoje? O sol se p\'f4s? \~\~\~\~\~- Temos absoluta certeza - responder- vos- iam \'e0 uma \~\~\~\~\~ Tinham certeza, e no entanto estavam errados. \

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\par \~\~\~\~\~ Em outros momentos, investe com mais severidade: \~\~\~\~\~ Pretendiam alguns escritores europeus que nunca haviam estado na China que o governo de Pequim era ateu. Wolf elogiara Pequim. Logo, Wolf era ateu. Melhores silogismos nunca souberam forjar a inveja e o \'f3dio \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (1 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 56] \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o raro recorre \'e0 hostiliza\'e7\'e3o aberta: \~\~\~\~\~ As inimit\'e1veis trag\'e9dias de Racine foram todas criticadas, e pessimamente: porque as criticaram rivais. Certo, os artistas s\'e3o juizes de arte competentes, por\'e9m quase sempre lhes falta integridade. \

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\par \~\~\~\~\~ Chega a apelar para a pilh\'e9ria: \~\~\~\~\~ Assistia eu certa vez \'e0 representa\'e7\'e3o de uma trag\'e9dia em companhia de um fil\'f3sofo. \~\~\~\~\~- Como \'e9 belo! - dizia ele. \~\~\~\~\~- Que viu o sr. de belo? \~\~\~\~\~- O autor atingiu seu fim. \~\~\~\~\~ No dia seguinte ele tomou um purgante que lhe fez efeito. \~\~\~\~\~- O purgante atingiu seu fim - disse- lhe eu. Eis um belo purgante. Ele compreendeu n\'e3o se poder dizer que um purgante seja belo, e que para chamar belo a alguma coisa \'e9 preciso que nos cause admira\'e7\'e3o e prazer. Conveio em que a trag\'e9dia lhe inspirara estas duas emo\'e7\'f5es, e que nisso estava o to kalon, o belo. \

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\par \~\~\~\~\~ Em outros casos o chiste chega a ser corrosivo: \~\~\~\~\~ Ben al Betif, digno chefe dos derv\'eds, disse- lhes um dia: "Meus irm\'e3os, muito conveniente \'e9 que useis com toda freq\'fc\'eancia esta f\'f3rmula sagrada do nosso Alcor\'e3o: Em nome de Deus mui misericordioso, pois Deus usa de miseric\'f3rdia e v\'f3s aprendereis a pratic\'e1- la com repetir freq\'fcentemente os termos que recomendam uma virtude sem a qual poucos homens restariam sobre a terra. Mas, meus irm\'e3os, abstende- vos de imitar esses temer\'e1rios que a todo transe se jactam de trabalhar pela gl\'f3ria de Deus. Se um jovem imbecil sustenta uma tese sobre as categorias, tese presidida por um ignorante encasacado, n\'e3o deixa de escrever em grossos caracteres no cabe\'e7alho de sua tese: Ek Allah abron doxa: ad majorem Dei gloriam. Um bom mu\'e7ulmano fez pintar o seu sal\'e3o gravando em sua porta essa tolice; um saca carrega \'e1gua para maior gl\'f3ria de Deus. \'c9 um costume \'edmpio, piedosamente posto em uso. Que dir\'edeis de um pequeno tchauch que ao limpar a privada do nosso ilustre sult\'e3o gritasse: "Para maior gl\'f3ria do nosso invenc\'edvel monarca"? H\'e1 certamente maior dist\'e2ncia do sult\'e3o a Deus que do sult\'e3o ao pequeno tchauch. \

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\par \~\~\~\~\~ Voltaire n\'e3o simpatizava com men\'e7\'f5es a milagres e reprovava: \~\~\~\~\~ Segundo a energia do termo, um milagre \'e9 uma coisa admir\'e1vel. Nesse caso, tudo \'e9 milagre. A ordem prodigiosa da natureza, a rota\'e7\'e3o de cem milh\'f5es de globos ao redor de um milh\'e3o de s\'f3is, a atividade da luz, a vida dos animais, constituem perp\'e9tuos milagres. \~\~\~\~\~ Segundo as id\'e9ias aceitas, chamamos milagre \'e0 viola\'e7\'e3o dessas leis divinas e eternas. Assim, quando houver um eclipse do Sol durante a Lua cheia, quando um morto fizer a p\'e9 duas l\'e9guas de caminho levando a cabe\'e7a de baixo do bra\'e7o, isto quer dizer que sucedeu um milagre. \

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\par \~\~\~\~\~ O tema da ressurrei\'e7\'e3o tampouco o animava, disparava com precis\'e3o: \~\~\~\~\~ Gabam- se- lhes as pir\'e2mides. Mas as pir\'e2mides s\'e3o monumentos de um povo de escravos. \

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\par Foi preciso p\'f4r de baixo de canga toda uma na\'e7\'e3o, sem o que essas vis massas n\'e3o teriam sido levantadas. Que finalidade tinham? Conservar em uma pequena c\'e2mara a m\'famia de algum pr\'edncipe, de algum governador, de um intendente qualquer, porque ao cabo de mil anos sua alma devia reanim\'e1- la. Mas se esperavam a ressurrei\'e7\'e3o dos corpos, por que lhes extraiam os miolos antes de embalsam\'e1- los? Ser\'e1 que os eg\'edpcios deviam ressuscitar sem c\'e9rebro? \

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\par \~\~\~\~\~ Incomodava- o a idolatria, com presteza denunciava: \~\~\~\~\~ Escreveram- se volumes imensos, debitaram- se sentimentos diversos sobre a origem desse culto rendido a Deus ou a v\'e1rios deuses sob figuras sens\'edveis: esta multitude de livros e de opini\'f5es n\'e3o atesta sen\'e3o ignor\'e2ncia. N\'e3o se sabe quem inventou as vestes e os cal\'e7ados e quer- se saber quem primeiro inventou os \'eddolos? \

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\par \~\~\~\~\~ Contra as cr\'edticas, Voltaire devolvia outras, muitas vezes em defesa do criticado: \~\~\~\~\~ Dizem alguns te\'f3logos que o divino imperador Antonino n\'e3o era virtuoso; que era um est\'f3ico ten\'e7oeiro que, n\'e3o contente de governar os homens, ainda queria ser estimado por eles; que fazia reverterem a si pr\'f3prio os benef\'edcios que fazia ao g\'eanero humano; que foi toda a sua vida justo, trabalhador, benfeitor por simples vaidade, e que apenas enganou os homens com a sua virtude; neste caso exclamarei: "Meu Deus, dai- nos a basto velhacos desta laia !" \

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\par \~\~\~\~\~ Outro exemplo sugestivo: \~\~\~\~\~ Um mendigo dos arredores de Madri esmolava nobremente. Disse- lhe um transeunte: - O sr. n\'e3o tem vergonha de se dedicar a mister t\'e3o infame, quando podia trabalhar? - Senhor, respondeu o pedinte - estou lhe pedindo dinheiro e n\'e3o conselhos. E com toda a dignidade castelhana virou- lhe as costas. Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n\'e3o suportava reprimendas. \

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\par \~\~\~\~\~ Esse era o genial Voltaire. A leitura de suas obras nos faz meditar melhor sobre nossos pensamentos e a forma como os comunicamos. Podemos n\'e3o rir de suas frases, mas um sorriso discreto e salutar \'e9 inevit\'e1vel. \

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\par \'cdNDICE Apresenta\'e7\'e3o Biografia do autor Abra\'e3o Alma Amizade \

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\par Amor Amor Pr\'f3prio Amor Socr\'e1tico Anjo Antrop\'f3fagos Apis Apocalipse Ateu, Ate\'edsmo Batismo Belo, Beleza Bem (Supremo) Bem (Tudo Est\'e1) Cadeia dos Acontecimentos Car\'e1ter Catecismo Chin\'eas Catecismo do Japon\'eas Catecismo do P\'e1roco Certo, Certeza C\'e9u dos Antigos (O) China (Da) Circuncis\'e3o Convuls\'f5es Corpo Cristianismo Cr\'edtica Destino Deus \

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\par Escala dos Seres Estados, Governos Ezequiel (De) F\'e1bulas Falsidade das Virtudes Humanas Fanatismo Fim, Causas Finais Fraude Fronteiras do Esp\'edrito Humano Gl\'f3ria Gra\'e7a Guerra Hist\'f3ria dos Reis Judeus e Paralip\'f4menos \'cddolo, Id\'f3latra, Idolatria Igualdade Inferno Inunda\'e7\'e3o Irracionais Jeft\'e9 Jos\'e9 Leis (Das) Leis Civis e Eclesi\'e1sticas Liberdade (Da) Loucura Luxo Mat\'e9ria Mau \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (5 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

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\par Messias Metamorfose, Metempsicose Milagres Mois\'e9s P\'e1tria Pedro Preconceitos Religi\'e3o Ressurrei\'e7\'e3o Salom\'e3o Sensa\'e7\'e3o Sonhos Supersti\'e7\'e3o Tirania Toler\'e2ncia Virtude Notas \

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\par BIOGRAFIA DO AUTOR \

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\par \~\~\~\~\~ FRAN\'c7OIS- MARIE AROUET, filho de um not\'e1rio do Ch\'e2telet, nasceu em Paris, em 21 de novembro de 1694. Depois de um curso brilhante num col\'e9gio de jesu\'edtas, pretendendo dedicar- se \'e0 magistratura, p\'f4s- se ao servi\'e7o de um procurador. Mais tarde, patrocinado pela sociedade do Templo e em particular por Chaulieu e pelo marqu\'eas de la Fare, publicou seus primeiros versos. Em 1717, acusado de ser o autor de um panfleto pol\'edtico, foi preso e encarcerado na Bastilha, de onde saiu seis meses depois, com a Henriade quase terminada e com o esbo\'e7o do OEdipe. Foi por essa ocasi\'e3o que ele resolveu adotar o nome de Voltaire. Sua trag\'e9dia OEdipe foi representada em 1719 com grande \'eaxito; nos anos seguintes, vieram: Artemise (1720), Marianne (1725) e o Indiscret (1725). \

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\par \~\~\~\~\~ Em 1726, em conseq\'fc\'eancia de um incidente com o cavaleiro de Rohan, foi novamente recolhido \'e0 Bastilha, de onde s\'f3 pode sair sob a condi\'e7\'e3o de deixar a Fran\'e7a. Foi ent\'e3o para a Inglaterra e a\'ed se dedicou ao estudo da l\'edngua e da literatura inglesas. Tr\'eas anos mais tarde, regressou e publicou Brutus \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (6 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

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\par (1730), Eriphyle (1732), Za\'efre (1732), La Mort de C\'e9sar (1733) e Ad\'e9la\'efde Duguesclin (1734). Datam da mesma \'e9poca suas Lettres Philosophiques ou Lettres Anglaises, que provocaram grande esc\'e2ndalo e obrigaram a refugiar- se em Lorena, no castelo de Madame du Ch\'e2telet, em cuja companhia viveu at\'e9 1749. A\'ed se entregou ao estudo das ci\'eancias e escreveu os El\'e9ments de le Philosophie de Newton (1738), al\'e9m de Alzire, L'Enfant Prodigue, Mahomet, M\'e9rope, Discours sur l'Homme, etc. \~\~\~\~\~ Em 1749, ap\'f3s a morte de Madame du Ch\'e2telet, voltou a Paris, j\'e1 ent\'e3o cheio de gl\'f3ria e conhecido em toda a Europa, e foi para Berlim, onde j\'e1 estivera alguns anos antes como diplomata. Frederico II conferiu- lhe honras excepcionais e deu- lhe uma pens\'e3o de 20.000 francos, acrescendo- lhe assim a fortuna j\'e1 consider\'e1vel. Essa amizade, por\'e9m, n\'e3o durou muito: as intrigas e os ci\'fames em torno dos escritos de Voltaire obrigaram- no a deixar Berlim em 1753. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sem poder fixar- se em parte alguma, esteve sucessivamente em Estrasburgo, Colmar, Lyon, Genebra, Nantua; em 1758, adquiriu o dom\'ednio de Ferney, na prov\'edncia de Gex e a\'ed passou, ent\'e3o, a residir em companhia de sua sobrinha Madame Denis. Foi durante os vinte anos que assim viveu, cheio de gl\'f3ria e de amigos, que redigiu Candide, Histoire de la Russie sous Pierre le Grand, Histoire du Parlement de Paris, etc., sem contar numerosas pe\'e7as teatrais. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Em 1778, em sua viagem a Paris, foi entusiasticamente recebido. Morreu no dia 30 de mar\'e7o desse mesmo ano, aos 84 anos de idade. \

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\par ABRA\'c3O \

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\par \~\~\~\~\~ Abra\'e3o \'e9 um desses nomes c\'e9lebres na \'c1sia Menor e na Ar\'e1bia, como Tot entre os eg\'edpcios, o primeiro Zoroastro na P\'e9rsia, H\'e9rcules na Gr\'e9cia, Orfeu na Tr\'e1cia, Odin nas na\'e7\'f5es setentrionais e tantos outros mais conhecidos por sua celebridade do que por uma hist\'f3ria bem comprovada. N\'e3o falo aqui sen\'e3o da hist\'f3ria profana, pois quanto \'e0 dos judeus, nossos mestres e nossos inimigos, em quem cremos e que detestamos, tendo sido a hist\'f3ria desse povo visivelmente escrita pelo pr\'f3prio Esp\'edrito Santo, temos por ela os sentimentos que devemos ter. Dirijo- me apenas aos \'e1rabes; que se gabam de descender de Abra\'e3o por Ismael; que acreditam ter sido esse patriarca o fundador de Meca, onde teria morrido. O fato \'e9 que a ra\'e7a de Ismael foi infinitamente mais favorecida por Deus do que a ra\'e7a de Jac\'f3. Uma e outra, \'e9 verdade, produziram ladr\'f5es. Mas os ladr\'f5es \'e1rabes foram incomparavelmente superiores aos ladr\'f5es judaicos. Os descendentes de Jac\'f3 n\'e3o conquistaram mais que uma faixa de terra insignificante, que perderam. Os descendentes de Ismael avassalaram parte da \'c1sia, parte da \'c1frica e parte da Europa, edificaram um imp\'e9rio mais vasto que o imp\'e9rio dos romanos e enxotaram os judeus de suas cavernas que estes chamavam terra da promiss\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Bem dif\'edcil seria, \'e0 luz da hist\'f3ria moderna, ter sido Abra\'e3o pai de duas na\'e7\'f5es t\'e3o diferentes. Dizem que nasceu na Cald\'e9ia, filho de pobre oleiro que ganhava a vida fazendo pequenos \'eddolos de barro. \'c9 pouco veross\'edmil que esse filho de oleiro se haja abalan\'e7ado a ir fundar Meca a trezentas l\'e9guas de dist\'e2ncia, de baixo do tr\'f3pico, tendo de vingar desertos intransit\'e1veis. Se foi um conquistador, certamente ter- se- \'e1 dirigido ao belo pais da Ass\'edria. Se, como o despintam, n\'e3o passou de um pobre diabo, ent\'e3o n\'e3o ter\'e1 fundado reinos sen\'e3o na pr\'f3pria terra \

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\par \~\~\~\~\~ Reza o G\'eanesis que tinha Abra\'e3o setenta e cinco anos ao emigrar do pa\'eds de Har\'e3, ap\'f3s a morte de seu pai Tareu o oleiro. O mesmo G\'eanesis, por\'e9m, diz que Tareu, tendo gerado Abra\'e3o aos setenta anos, viveu at\'e9 a idade de duzentos e cinco anos, e que Abra\'e3o s\'f3 saiu de Har\'e3 depois da morte do pai. Portanto \'e9 claro, segundo o pr\'f3prio G\'eanesis, que Abra\'e3o contava cento e trinta e cinco anos quando deixou a Mesopot\'e2mia. Saiu de um pais id\'f3latra para outro pa\'eds id\'f3latra: Siqu\'eam, na Palestina. Por que? Por que deixou as f\'e9rteis margens do Eufrates por terras t\'e3o remotas, est\'e9reis e pedregosas? A l\'edngua caldaica devia ser muito diferente da l\'edngua de Siqu\'eam. N\'e3o se tratava de lugar de com\'e9rcio. Siqu\'eam dista da Cald\'e9ia mais de cem l\'e9guas. \'c9 preciso transpor desertos para l\'e1 chegar. Mas Deus queria que Abra\'e3o realizasse essa viagem. Queria mostrar- lhe a terra que s\'e9culos depois haviam de habitar seus p\'f3steros. Custa ao esp\'edrito humano compreender os motivos de tal peregrina\'e7\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Mal arriba ao montanhoso rinc\'e3o de Siqu\'eam, obriga- o a fome a abandon\'e1- lo. Vai para o Egito em companhia de sua mulher, \'e0 procura de com que viver. Duzentas l\'e9guas medeiam de Siqu\'eam e Menfis. Ser\'e1 natural ir buscar trigo t\'e3o longe? Num pa\'eds de que nem se sabe a l\'edngua? Estranhas viagens empreendidas \'e0 idade de quase cento e quarenta anos. \

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\par \~\~\~\~\~ Traz a Menfis sua mulher Sara. Sara era extremamente jovem em compara\'e7\'e3o com ele, pois n\'e3o contava mais que sessenta e cinco anos. Como fosse muito bonita, Abra\'e3o resolveu tirar proveito de sua beleza. "Fa\'e7amos de conta que voc\'ea \'e9 minha irm\'e3, - disse- lhe - " a fim de que me acolham com benevol\'eancia". "Fa\'e7amos de conta que \'e9 minha filha" - devia dizer. O rei enamora- se da jovem Sara e presenteia o pretenso irm\'e3o com muitas ovelhas, bois, burros, mulas, camelos e servos. O que prova que j\'e1 ent\'e3o era o Egito um reino poderoso e civilizado - por conseguinte antigo - e que se recompensavam magnificamente os irm\'e3os que vinham oferecer as irm\'e3s aos reis de Menfis. \

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\par \~\~\~\~\~ Tinha a jovem Sara noventa anos, segundo a Escritura, quando Deus lhe prometeu que Abra\'e3o, que ent\'e3o tinha cento e sessenta, lhe daria um filho. \

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\par \~\~\~\~\~ Abra\'e3o, que gostava de vigiar, tomou o caminho do h\'f3rrido deserto de Cades, acompanhado da mulher gr\'e1vida, sempre jovem e bonita. Como acontecera com o rei eg\'edpcio, enamorou- se tamb\'e9m de Sara um rei do deserto - O pai dos crentes pregou a mesma mentira que no Egito: fez passar a esposa por irm\'e3. O que mais uma vez lhe valeu ovelhas, bois e servos. Pode- se dizer que, gra\'e7as a sua mulher, Abra\'e3o se tornou riqu\'edssimo. \

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\par \~\~\~\~\~ Os comentaristas escreveram um n\'famero prodigioso de volumes para justificar o procedimento de Abra\'e3o e conciliar a cronologia. Cumpre- me, pois, a eles remeter o leitor. S\'e3o todos esp\'edritos finos e sutis, excelentes metaf\'edsicos, senhores sem preconceito e profundamente avessos \'e0 pedanteria. \

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\par ALMA \

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\par \~\~\~\~\~ Seria maravilhoso ver a pr\'f3pria alma. Conhece- te a ti mesmo (1) \'e9 excelente preceito, mas s\'f3 a Deus \'e9 dado p\'f4- lo em pr\'e1tica. Quem mais pode conhecer a pr\'f3pria ess\'eancia? \

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\par \~\~\~\~\~ Alma chamamos ao que anima. \'c9 tudo o que dela sabemos: a intelig\'eancia humana tem limites. Tr\'eas \

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\par quartos do g\'eanero humano n\'e3o v\'e3o al\'eam, nem se preocupam com o ser pensante. O outro quarto indaga. Ningu\'e9m obteve nem obter\'e1 resposta. \

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\par \~\~\~\~\~ Pobre fil\'f3sofo! V\'eas uma planta que vegeta, e dizes vegeta\'e7\'e3o, ou alma vegetativa. Notas que os corpos t\'eam e comunicam movimento, e dizes for\'e7a. V\'eas teu c\'e3o de ca\'e7a aprender contigo teu of\'edcio, e crias instinto, alma sensitiva. Tens id\'e9ias combinadas, e dizes esp\'edrito. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas que entendes tu por estas palavras? Aquela flor vegeta. Existir\'e1 por\'e9m um ser material vegeta\'e7\'e3o? Aquele corpo impele outro. Por\'e9m encerra ele em si um ente distinto - for\'e7a? Aquele c\'e3o traz- te uma perdiz. Existir\'e1 por\'e9m um ser chamado instinto? N\'e3o te ririas de um raciocinador (teria sido preceptor de Alexandre) que te dissesse Todos os animais vivem; logo, encerram uma forma substancial a vida? \

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\par \~\~\~\~\~ Se uma tulipa pudesse falar e dissesse: Minha vegeta\'e7\'e3o e eu somos dois seres juntos formando um s\'f3, n\'e3o te ririas da tulipa? \

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\par \~\~\~\~\~ Vejamos primeiro o que sabes, e do que est\'e1s certo. Que andas com os p\'e9s. Que digeres com o est\'f4mago. Que sentes com todo o corpo. Que pensas com a cabe\'e7a. \

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\par \~\~\~\~\~ Pois bem. Pode a tua raz\'e3o s\'f3 por s\'f3 dar- te luzes suficientes para conclu\'edres, sem um recurso sobrenatural, que tens uma alma? \

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\par \~\~\~\~\~ Os primeiros fil\'f3sofos, quer caldeus, quer eg\'edpcios, disseram: For\'e7oso \'e9 haver em n\'f3s algo que produza o pensamento; esse algo deve ser extremamente sutil: sopro, fogo, \'e9ter, substrato, um t\'eanue simulacro, uma entel\'e9quia, um n\'famero, uma harmonia. Finalmente, segundo o divino Plat\'e3o, \'e9 um composto do mesmo e do outro. S\'e3o \'e1tomos que pensam em n\'f3s, disse Epicuro depois de Dem\'f3crito. Mas, meu amigo, como pensa o \'e1tomo? Confessa que nem o imaginas. \

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\par \~\~\~\~\~ Aceita- se seja a alma um ser imaterial. Mas v\'f3s n\'e3o concebeis o que seja esse ente imaterial. \~\~\~\~\~- N\'e3o, - respondem os s\'e1bios - por\'e9m conhecemos sua natureza: pensar. \~\~\~\~\~- Como o sabeis? \~\~\~\~\~- Porque ela pensa. \~\~\~\~\~- Oh s\'e1bios! Muito receio que sejais t\'e3o ignorantes quanto Epicuro. A natureza de uma pedra \'e9 cair porque ela cai. Pergunto- vos: que a faz cair? \

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\par \~\~\~\~\~- Sabemos que uma pedra n\'e3o tem alma. \~\~\~\~\~- De acordo. \~\~\~\~\~- Sabemos que uma nega\'e7\'e3o, uma afirma\'e7\'e3o n\'e3o s\'e3o divis\'edveis, n\'e3o s\'e3o partes da mat\'e9ria. \~\~\~\~\~- Da mesma opini\'e3o. Mas a mat\'e9ria, que ali\'e1s desconhecemos, tem qualidades n\'e3o materiais, n\'e3o \

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\par divis\'edveis. Possui gravita\'e7\'e3o para um centro, que Deus lhe deu. Essa gravita\'e7\'e3o n\'e3o \'e9 formada de partes, n\'e3o \'e9 divis\'edvel. A for\'e7a motriz dos corpos n\'e3o \'e9 ente composto de partes. A vegeta\'e7\'e3o dos corpos organizados, sua vida, seu instinto, n\'e3o s\'e3o seres \'e0 parte, seres divis\'edveis. N\'e3o podeis cortar em duas a vegeta\'e7\'e3o de uma rosa, a vida de um cavalo, o instinto de um c\'e3o, da mesma forma como n\'e3o podeis cindir em duas uma sensa\'e7\'e3o, uma nega\'e7\'e3o, uma afirma\'e7\'e3o. Portanto vosso grande argumento inferido da indivisibilidade do pensamento absolutamente nada prova. \

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\par \~\~\~\~\~ Que chamais ent\'e3o vossa alma? Que id\'e9ia tendes dela? Por v\'f3s mesmos, sem revela\'e7\'e3o, n\'e3o podeis admitir em v\'f3s sen\'e3o um poder de v\'f3s desconhecido de sentir, de pensar. \

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\par \~\~\~\~\~ Agora dizei- me sinceramente: \'e9 esse poder de sentir e pensar o mesmo que vos faz digerir e andar? Confessais que n\'e3o. Porque debalde ordenaria vosso entendimento a vosso est\'f4mago doente: Digere! Ele n\'e3o digeriria. Debalde vosso ser imaterial intimaria a vossos p\'e9s gotosos: Caminhem! Eles n\'e3o caminhariam. \

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\par \~\~\~\~\~ Com raz\'e3o observaram os gregos n\'e3o ter o pensamento quase nenhuma influ\'eancia no funcionamento dos \'f3rg\'e3os. Admitiam para os \'f3rg\'e3os uma alma animal. Para o pensamento uma alma mais t\'eanue, mais sutil: um nous. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas eis a alma do pensamento que em milhares de ocasi\'f5es governa a alma animal. Ordena a alma pensante \'e0s m\'e3es que apreendam: as m\'e3os apreendem. Por\'e9m n\'e3o pode ordenar ao cora\'e7\'e3o que bata. Ao sangue que circule. Que se forme o quilo. Tudo isso se faz independentemente dela. A\'ed est\'e3o as vossas duas almas metidas em maus len\'e7\'f3is e feitas p\'e9ssimas donas de casa. \

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\par \~\~\~\~\~ Claro que a primeira alma n\'e3o existe. N\'e3o passa do movimento dos \'f3rg\'e3os. Em guarda, homem! Tua fraca raz\'e3o n\'e3o \'e9 capaz de provar a exist\'eancia da outra tamb\'e9m. N\'e3o podes conceb\'ea- la sen\'e3o pela f\'e9. Tu Nasces. Vives. Ages. Pensas. Velas. Dormes. Sem saber como. Deus conferiu- te a faculdade de pensar como tudo o mais. E se n\'e3o viesse ensinar- te nas idades assinaladas pela sua provid\'eancia que tens uma alma imaterial e imortal, dela n\'e3o terias prova alguma. \

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\par \~\~\~\~\~ Relanceemos os interessantes sistemas arquitetados pela tua filosofia em torno dessas almas. \~\~\~\~\~ Um diz que a alma humana \'e9 parte da subst\'e2ncia do pr\'f3prio Deus. Outro que \'e9 parte do todo infinito. Terceiro que foi criada ab eterno. Quarto que foi feita e n\'e3o criada. Outros afirmam que Deus as fabrica \'e0 propor\'e7\'e3o necess\'e1ria, e que chegam no instante da c\'f3pula. Alojam- se nos anim\'e1lculos seminais, exclama este. N\'e3o, diz aquele, v\'e3o habitar as trompas de Fallopio. Todos v\'f3s estais errados, interv\'eam aqueloutro: a alma espera seis semanas at\'e9 que esteja formado o feto; ent\'e3o se acomoda na gl\'e2ndula pineal; se, por\'e9m, encontra um germe maligno, volta, a espera de melhor ocasi\'e3o. A \'faltima opini\'e3o \'e9 que sua morada \'e9 no corpo caloso. \'c9 o local que lhe atribui La Peyronie. Era preciso ser primeiro cirurgi\'e3o do rei de Fran\'e7a para dispor assim do alojamento da alma. Pena \'e9 que o corpo caloso do ar. La Peyronie n\'e3o tenha tido a mesma fortuna que o dono. \

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\par \~\~\~\~\~ Diz Santo Tom\'e1s (quest\'e3o septuag\'e9sima quinta e subseq\'fcentes) que a alma \'e9 uma forma subsistante per se. Que est\'e1 em todas as coisas. Que sua ess\'eancia difere de sua pot\'eancia. Que h\'e1 tr\'eas almas vegetativas: nutritiva, aumentativa, generativa. Que a mem\'f3ria das coisas espirituais \'e9 espiritual. Que a mem\'f3ria das coisas corporais \'e9 corporal. Que a alma racional \'e9 uma forma imaterial quanto \'e0s opera\'e7\'f5es \

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\par e material quanto ao ser. Sto. Tom\'e1s escreveu duas mil p\'e1ginas dessa for\'e7a e dessa clareza. \'c9 o pai da escola. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o \'e9 menor o n\'famero de sistemas forjados sobre a maneira de sentir da alma depois de desertar do corpo por meio de que sente. Como ouvir\'e1 sem ouvidos. Como olfatar\'e1 sem nariz. Como tocar\'e1 sem m\'e3os. Que corpo retomar\'e1 de futuro: o que tinha aos doze ou aos oitenta anos? Como o eu, a identidade da mesma pessoa subsistir\'e1. Como a alma de um indiv\'edduo tornado cretino \'e0 idade de quinze anos e que cretino tenha morrido aos setenta anos retomar\'e1 o fio das id\'e9ias interrompido na puberdade. Por que milagre uma alma que haja perdido uma perna na Europa e um bra\'e7o na Am\'e9rica reencontrar\'e1 essa perna e esse bra\'e7o. (Que, tendo se transformado em legumes, ter\'e3o virado sangue de algum outro animal). \

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\par \~\~\~\~\~ Singular \'e9 n\'e3o haver nas leis do povo de Deus palavra sequer a respeito da espiritualidade e imortalidade da alma. Nem no Dec\'e1logo, nem no Lev\'edtico nem no Deuteron\'f4mio. \

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\par \~\~\~\~\~ Em passo algum - e sobre isto n\'e3o paira a menor d\'favida - Mois\'e9s promete aos judeus recompensas e castigos em outra vida. Nem lhes fala da imortalidade da alma. N\'e3o lhes acena com c\'e9u nem os amea\'e7a com inferno. Tudo \'e9 temporal. \

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\par \~\~\~\~\~ Antes de morrer diz- lhes no Deuteron\'f4mio: "Se depois de terdes filhos e netos v\'f3s prevaricardes, sereis exterminados no pa\'eds e reduzidos a n\'famero \'ednfimo entre as na\'e7\'f5es. \

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\par \~\~\~\~\~" Eu sou um deus cioso que pune a iniq\'fcidade dos pais at\'e9 terceira e quarta gera\'e7\'e3o. \~\~\~\~\~" Honrai pai e m\'e3e para que vivais longo tempo. \~\~\~\~\~" Nunca vos faltar\'e1 o que comer. \~\~\~\~\~" Se seguirdes deuses estrangeiros sereis destru\'eddos... \~\~\~\~\~" Se obedecerdes tereis chuva na primavera como no outono. Tereis frumento, \'f3leo e vinho. Tereis feno para os vossos animais. Para que comais e vos farteis. \

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\par \~\~\~\~\~" Gravai estas palavras em vossos cora\'e7\'f5es, em vossas m\'e3os, aos vossos olhos. Escrevei- as em vossas portas. Para que vossos dias se multipliquem. \

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\par \~\~\~\~\~" Fazei o que vos ordeno sem tirar nem p\'f4r. \~\~\~\~\~" Se se erguer um profeta e vos predisser causas prodigiosas; se a predi\'e7\'e3o for verdadeira e se cumprir; e se ele vos disser: Vamos! Sigamos deuses estrangeiros...- matai- o incontinenti. E que todo o povo vos acompanhe. \

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\par \~\~\~\~\~" Quando o Senhor vos entregar na\'e7\'f5es estrangeiras, degolai a todos. N\'e3o poupeis um s\'f3 homem. N\'e3o tenhais piedade de ningu\'e9m. \

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\par \~\~\~\~\~" N\'e3o comais aves impuras como a \'e1guia, o grifo, o ixiao. \

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\par \~\~\~\~\~" N\'e3o comais animais que ruminem e que n\'e3o tenham a unha fendida, como o camelo, a lebre, o porco espinho, etc. \

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\par \~\~\~\~\~" Observando todos os preceitos sereis aben\'e7oados na cidade como no campo. Aben\'e7oados ser\'e3o os frutos do vosso ventre, da vossa terra, dos vossos animais... \

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\par \~\~\~\~\~" Se n\'e3o observardes todos os mandamentos e todas as cerim\'f4nias, amaldi\'e7oados sereis na cidade como no campo... Padecereis fome, pobreza. Morrereis de mis\'e9ria, de frio, de pen\'faria, de febre. Tereis ronha, rabugem, f\'edstula. Tereis \'falceras nos joelhos e na barriga das pernas. \

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\par \~\~\~\~\~" O estrangeiro vos emprestar\'e1 a onzena, e v\'f3s n\'e3o lhe emprestareis a onzena... Por n\'e3o servirdes ao Senhor. \

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\par \~\~\~\~\~" E comereis o fruto do vosso ventre. A carne dos vossos - filhos, etc. ". \~\~\~\~\~ \'c9 manifesto nada haver em todas essas promessas e amea\'e7as que n\'e3o seja temporal. Nem uma palavra sobre imortalidade da alma. Nem uma palavra sobre vida futura. \

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\par \~\~\~\~\~ Muitos comentadores ilustres foram de parecer que Mois\'e9s estava perfeitamente avisado destes dois grandes dogmas. Provam- no com palavras de Jac\'f3, que julgando que seu filho fora devorado pelas feras, exclamou em sua dor: "Eu acompanharei meu filho \'e0 sepultura, in infernum, ao inferno". Isto \'e9: eu morrerei, j\'e1 que meu filho morreu. \

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\par \~\~\~\~\~ Provam- no ainda com trechos de Isa\'edas e Ezequiel. Por\'e9m os hebreus a quem falava Mois\'e9s n\'e3o podiam ter lido Ezequiel nem Isa\'edas. Porque Ezequiel e Isa\'edas s\'f3 viveram muitos s\'e9culos depois. \

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\par \~\~\~\~\~ In\'fatil discutir quanto aos sentimentos secretos de Mois\'e9s. O fato \'e9 que nas leis p\'fablicas ele nunca falou de vida futura. Todos os castigos, todos os pr\'eamios, restringe- os ao presente. Se conhecia a vida vindoura, por que n\'e3o exp\'f4s expressamente t\'e3o importante dogma? E se n\'e3o a conheceu, qual o objeto de sua miss\'e3o? \'c9 o que perguntam muitas personagens ilustres. E respondem que o Mestre de Mois\'e9s e de todos os homens se reservava o direito de explicar a bom tempo aos judeus uma doutrina que eles n\'e3o estavam em condi\'e7\'f5es de compreender quando no deserto. \

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\par \~\~\~\~\~ Houvesse Mois\'e9s anunciado o dogma da imortalidade da alma, n\'e3o o teria combatido uma grande escola de judeus. N\'e3o teria sido autorizada pelo estado a grande escola dos saduceus. Os saduceus n\'e3o teriam ocupado os primeiros cargos. De seu seio n\'e3o teriam sa\'eddo grandes pont\'edfices. \

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\par \~\~\~\~\~ Parece que s\'f3 depois da funda\'e7\'e3o de Alexandria os judeus se cindiriam em tr\'eas seitas: fariseus, saduceus, ess\'eanios. Ensina o historiador fariseu Jos\'e9 no livro 13 das Antig\'fcidades que os fariseus acreditavam na metempsicose. Criam os saduceus que a alma se extinguia com o corpo. Para os ess\'eanios - \'e9 ainda Jos\'e9 quem o afian\'e7a - a alma era imortal; segundo eles as almas, sob forma a\'e9rea, desciam do fast\'edgio do firmamento violentamente atra\'eddas pelos corpos. Ap\'f3s a morte as almas das pessoas boas iam morar al\'e9m oceano, num pa\'eds onde n\'e3o fazia calor nem frio, n\'e3o ventava nem chovia. Lugar de todo em todo oposto era o desterro das almas ruins. Tal a teologia dos judeus. \

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\par \~\~\~\~\~ Aquele que devia ensinar todos os homens veio condenar essas tr\'eas seitas. Sem ele, por\'e9m, jamais \

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\par saber\'edamos coisa alguma da pr\'f3pria alma. Porque os fil\'f3sofos nunca souberam nada certo e Mois\'e9s, \'fanico verdadeiro legislador do mundo antes do nosso, Mois\'e9s que falava com Deus face a face e n\'e3o o via sen\'e3o pelas costas, deixou os homens em profunda ignor\'e2ncia dessa magna quest\'e3o. H\'e1 apenas mil e setecentos anos que estamos certos da exist\'eancia e imortalidade da alma. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ C\'edcero n\'e3o tinha mais que d\'favidas. Seus netos aprenderam a verdade com os primeiros galileus que arribaram a Roma. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas antes disso, e at\'e9 depois disso em todo o resto da terra onde n\'e3o penetraram os ap\'f3stolos, cada um devia dizer \'e0 pr\'f3pria alma: Que \'e9s tu? De onde vens? Que fazes? Para onde vais? Tu \'e9s n\'e3o sei que, que pensa e que sente. Mas ainda que pensasses e sentisses cem bilh\'f5es de anos, nada saberias por tuas pr\'f3prias luzes, sem o aux\'edlio de Deus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Homem! Deus outorgou- te o entendimento para bem procederes e n\'e3o para penetrares a ess\'eancia das coisas por ele criadas. \

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\par AMIZADE \

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\par \~\~\~\~\~ Contrato t\'e1cito entre duas pessoas sens\'edveis e virtuosas. Sens\'edveis porque um monge, um solit\'e1rio, pode n\'e3o ser ruim e viver sem conhecer a amizade. Virtuosas porque os maus n\'e3o adjungem mais que c\'famplices. Os voluptuosos careiam companheiros de devassid\'e3o. Os interesseiros re\'fanem s\'f3cios. Os pol\'edticos congregam partid\'e1rios. O comum dos homens ociosos mant\'eam rela\'e7\'f5es. Os pr\'edncipes t\'eam cortes\'e3os. S\'f3 os virtuosos possuem amigos. C\'e9tego era c\'famplice de Catilina. Mecenas era cortes\'e3o de Ot\'e1vio. Mas C\'edcero era amigo de \'c1tico. Que estabelece esse conv\'eanio entre duas almas ternas e honestas? As obriga\'e7\'f5es s\'e3o mais ou menos intensas consoante a sensibilidade de uma e de outra e o n\'famero de servi\'e7os prestados, etc. \

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\par \~\~\~\~\~ O entusiasmo da amizade foi mais forte entre gregos e \'e1rabes que entre n\'f3s. S\'e3o admir\'e1veis as hist\'f3rias que teceram esses povos em torno deste sentimento. N\'e3o temos iguais. Somos em tudo um pouco secos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A amizade era objeto de religi\'e3o e legisla\'e7\'e3o entre os gregos. Os tebanos tinham o regimento dos amantes. Magn\'edfico regimento! Houve quem o tomasse por um regimento de sodomitas. Engano: seria tomar o acess\'f3rio pelo essencial. A amizade era prescrita na Gr\'e9cia pela lei e pela religi\'e3o. Infelizmente tolerava- se a pederastia. Ali\'e1s: toleravam- na os costumes. \'c9 preciso n\'e3o imputar \'e0 lei abusos vergonhosos. Voltaremos ao assunto. \

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\par AMOR \

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\par \~\~\~\~\~ Amor omnibus idem (2). Cumpre recorrermos \'e0 imagem. O amor \'e9 a estopa da natureza bordada pela \

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\par imagina\'e7\'e3o. Quereis ter uma id\'e9ia do amor? Vede os pardais do vosso jardim. Vede vossos pombos. Contemplai o touro que levam \'e0 novilha. Admirai aquele soberbo cavalo que dois de vossos camaradas conduzem \'e0 \'e9gua que passiva o espera e arreda a cauda para receb\'ea- lo. Observai como seus olhos chamejam. Ouvi seus relinchos. Admirai aqueles saltos, aquelas curvetas, aquelas orelhas em p\'e9, aquela boca que Se abre com ligeiras convuls\'f5es, aquelas narinas aflantes bafejando inflamadamente, aquelas crinas que se empinam e esvoa\'e7am, o movimento imperioso com que se lan\'e7a sobre o objeto que lhe destinou a natureza. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas n\'e3o os invejeis. Pensai nas vantagens da esp\'e9cie humana. Que contrabalan\'e7am for\'e7a, beleza, ligeireza, impetuosidade todos os predicados de que a natureza dotou os irracionais. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 animais que n\'e3o conhecem o gozo. Carecem desse prazer os peixes escamados. A f\'eamea lan\'e7a sobre a vasa milh\'f5es de ovas e o macho que as encontra fecunda- as com o s\'eamen sem preocupar- se com a dona. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A maioria dos animais que se acasalam n\'e3o experimenta prazer por mais que um \'fanico sentido. Satisfeito o apetite est\'e1 tudo acabado. Nenhum animal sen\'e3o v\'f3s conhece os afagos. Todo o vosso corpo \'e9 sens\'edvel. Vossos l\'e1bios sobre tudo experimentam uma vol\'fapia inexaur\'edvel - prazer exclusivo da vossa esp\'e9cie. Enfim podeis amar em qualquer tempo, enquanto os animais s\'f3 o podem em \'e9pocas determinadas. Se refletirdes nestas preemin\'eancias direis com, o conde de Rochester: "O amor, em um pa\'eds de ateus, faria adorar a Divindade" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como recebeu o dom de aperfei\'e7oar tudo o que lhe concedeu a natureza, o homem aperfei\'e7oou o amor. A higiene, o cuidado com o pr\'f3prio corpo, tornando a pele mais delicada, aumentam o prazer do tato. O zelo da pr\'f3pria sa\'fade faz mais sens\'edveis os \'f3rg\'e3os da vol\'fapia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todos os outros sentimentos de presto se amalgamam com o amor como metais em fus\'e3o com o ouro. \~\~\~\~\~ V\'eaem refor\'e7\'e1- lo a amizade, a estima. S\'e3o outros elos de uni\'e3o os dotes do corpo e do esp\'edrito. \

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\par Nam facit ipsa suis interdum famina factis, morigerisque modis, et mundo corpore cultu, ut facile insuescat secum vir degere vitam. (Lucr\'e9cio, liv. 4). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Principalmente o amor pr\'f3prio estreita esses liames. Palmeamo- nos a pr\'f3pria escolha, e as ilus\'f5es em chusma s\'e3o ornamentos dessa obra de que a natureza lan\'e7ou os alicerces. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eis o que possu\'eds de superior aos animais. Se, por\'e9m, fru\'eds prazeres que eles desconhecem, tamb\'e9m quantos sofrimentos padeceis de que eles nem t\'eam id\'e9ia! O que h\'e1 de horr\'edvel para v\'f3s \'e9 haver a natureza em tr\'eas quartos da terra envenenado os prazeres do amor e as fontes da vida com um mal tremendo, a que s\'f3 o homem est\'e1 sujeito e que lhe infecciona os \'f3rg\'e3os da gera\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Esta peste n\'e3o \'e9 como tantas outras doen\'e7as filhas de nossos excessos. N\'e3o foi a dissolu\'e7\'e3o que a introduziu no mundo. As Frin\'e9ias, as La\'edses, as Floras, as Messalinas n\'e3o foram v\'edtimas dela. Nasceu em \

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\par ilhas onde os homens viviam na inoc\'eancia e de l\'e1 propagou pelo mundo antigo. \~\~\~\~\~ Se alguma vez se p\'f4de acusar a natureza de desamar a pr\'f3pria obra, de contradizer o pr\'f3prio plano, de tramar contra os pr\'f3prios fins, foi ent\'e3o. N\'e3o t\'ednhamos o melhor dos mundos poss\'edveis? Se C\'e9sar, Ant\'f4nio, Ot\'e1vio n\'e3o foram v\'edtimas desse mal, por que o foi Francisco I? N\'e3o, direis, tudo foi disposto da melhor forma poss\'edvel. Quero crer. Mas \'e9 dif\'edcil. \

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\par AMOR PR\'d3PRIO \

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\par \~\~\~\~\~ Um mendigo dos arredores de Madri esmolava nobremente. Disse- lhe um transeunte: \~\~\~\~\~- O sr. n\'e3o tem vergonha de se dedicar a mister t\'e3o infame, quando podia trabalhar? \~\~\~\~\~- Senhor, - respondeu o pedinte - estou lhe pedindo dinheiro e n\'e3o conselhos. - E com toda a dignidade castelhana virou- lhe as costas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Era um mendigo soberbo. Um nada lhe feria a vaidade. Pedia esmola por amor de si mesmo, e por amor de si mesmo n\'e3o suportava reprimendas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Viajando pela \'cdndia, topou um mission\'e1rio com um faquir carregado de cadeias, nu como um macaco, deitado sobre o ventre e deixando- se chicotear em resgate dos pecados de seus patr\'edcios hindus, que lhe davam algumas moedas do pa\'eds. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Que ren\'fancia de si pr\'f3prio! - dizia um dos espectadores. \~\~\~\~\~- Ren\'fancia de mim pr\'f3prio? - retorquiu o faquir. - Ficai sabendo que n\'e3o me deixo a\'e7oitar neste mundo sen\'e3o para vos retribuir no outro. Quando fordes cavalo e eu cavaleiro. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tiveram pois plena raz\'e3o os que disseram ser o amor de n\'f3s mesmos a base de todos as nossas a\'e7\'f5es na \'cdndia, na Espanha como em toda a terra habit\'e1vel. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sup\'e9rfluo \'e9 provar aos homens que t\'eam rosto. Sup\'e9rfluo tamb\'e9m seria demonstrar- lhes possu\'edrem amor pr\'f3prio. O amor pr\'f3prio \'e9 o instrumento da nossa conserva\'e7\'e3o. Assemelha- se ao instrumento da perpetua\'e7\'e3o da esp\'e9cie. Necessitamo- lo. \'c9- nos caro. Deleita- nos - E cumpre ocult\'e1- lo. \

\par \

\par AMOR SOCR\'c1TICO \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por que motivo um v\'edcio que se fosse geral extinguiria o g\'eanero humano, atentado infame \'e0 natureza, \'e9 contudo t\'e3o natural ? Parece o \'faltimo degrau da corrup\'e7\'e3o refletida - Entanto manieta de cotio adolescentes que nem sequer tiveram tempo de ser corrompidos. Entra cora\'e7\'f5es tenros que n\'e3o \

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\par conhecem nem a ambi\'e7\'e3o, nem a fraude, nem a sede de riqueza. \'c9 a juventude cega que, por instinto mal definido, se precipita na deprava\'e7\'e3o apenas dobra a inf\'e2ncia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Bem cedo se manifesta a inclina\'e7\'e3o rec\'edproca dos sexos. Mas, diga- se o que se disser das mulheres africanas e da \'c1sia meridional, essa inclina\'e7\'e3o \'e9 geralmente muito mais forte no homem que na mulher. \'c9 uma lei que a natureza ditou aos animais. \'c9 sempre o macho que ataca a f\'eamea. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sentindo essa for\'e7a que a natureza come\'e7a a insuflar- lhes e n\'e3o encontrando o objeto natural do instinto, atiram- se os jovens machos da nossa esp\'e9cie sobre o que melhor se lhe semelhe. N\'e3o raro, pela frescura da tez, pelo lustre das cores, pela do\'e7ura dos olhos, durante dois ou tr\'eas anos um jovem parece- se a uma rapariga. Se o amamos, \'e9 porque a natureza se equivoca. Amamos nele o sexo a que evoca sua beleza. At\'e9 que, dissipando- se a semelhan\'e7a, a natureza se corrige \

\par \

\par Citraque juventam oetatis breve ver et primos carpere flores( 3) \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Assaz sabido \'e9 ser esse equ\'edvoco da natureza muito mais comum nos climas suaves que nos gelos do norte. Porque nos climas mais doces o sangue \'e9 mais quente e mais freq\'fcente a ocasi\'e3o. Da\'ed o que n\'e3o se considera mais que uma fraqueza no jovem Alcib\'edades ser uma abomina\'e7\'e3o num marinheiro holand\'eas ou num vivandeiro moscovita. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o posso admitir que, como se pretende, tenham os gregos autorizado semelhante licenciosidade. Cita- se o legislador S\'f3lon por haver dito em dois maus versos: \

\par \

\par Algum dia inda amar\'e1s um glabro e belo rapaz. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas seria S\'f3lon legislador quando escreveu essa rid\'edcula parelha? Ainda era jovem. E quando o libertino se fez s\'e1bio, n\'e3o iria incluir .tamanha inf\'e2mia nas leis da sua rep\'fablica. \'c9 como se se acusasse Teodoro de Besis de ter pregado o homossexualismo em sua igreja por haver, na juventude, dedicado versos ao jovem C\'e2ndido e dito: \

\par \

\par Amplector hunc et illam. \~\~\~\~\~ Abusa- se do texto de Plutarco, que, em suas tagarelices no Di\'e1logo do Amor, faz dizer a uma personagem que as mulheres n\'e3o s\'e3o dignas do amor verdadeiro. Outra personagem, por\'e9m, sustenta devidamente o partido das mulheres. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Certo \'e9, tanto quanto o pode ser a ci\'eancia da antig\'fcidade, que o amor socr\'e1tico n\'e3o era um amor infame. A palavra amor foi que enganou. O que se chamavam os amantes de um jovem era nem mais nem menos o que s\'e3o hoje os infantes de companhia dos nossos pr\'edncipes, os jovens companheiros de educa\'e7\'e3o de um menino distinto, participando dos mesmos estudos, dos mesmos exerc\'edcios militares institui\'e7\'e3o guerreira e santa de que se abusou como das festas noturnas e das orgias. \

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\par \~\~\~\~\~ A tropa dos amantes institu\'edda por Laio era um corpo invenc\'edvel de jovens guerreiros unidos pelo juramento de dar a vida uns pelos outros. Foi o que de mais belo possuiu a disciplina antiga. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Asseveram Sexto Emp\'edrico e outros que o homossexualismo tinha guarida nas leis da P\'e9rsia. Que citem o texto da lei. Que mostrem o c\'f3digo dos persas. Mas ainda que o provem eu n\'e3o acreditarei Direi que \'e9 mentira. Porque n\'e3o seria poss\'edvel, n\'e3o \'e9 da natureza humana elaborar uma lei que contradiz e ultraja a natureza. Lei que aniquilaria o g\'eanero humano se fosse literalmente observada. Pr\'e1ticas vergonhosas toleradas pelas leis do pa\'eds! Sexto Emp\'edrico, que duvidava de tudo, devia duvidar dessa jurisprud\'eancia. Se vivesse em nossos dias e visse dois ou tr\'eas jesu\'edtas abusarem de alguns escolares, teria direito de concluir ser tal deprava\'e7\'e3o permitida pelas constitui\'e7\'f5es de In\'e1cio de Loiola? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Era t\'e3o comum o amor entre rapazes em Roma que ningu\'e9m pensava em puni- lo. Ot\'e1vio Augusto, esse assassino devasso e poltr\'e3o que teve o desplante de exilar Ov\'eddio, achou muito natural que Virg\'edlio cantasse Aleixo e Hor\'e1cio escrevesse odes a Ligurino. N\'e3o obstante, sempre subsistiu a lei Scant\'ednia, preventiva da pederastia. Rep\'f4- la em vigor o imperador Filipe, que expulsou de Roma os meninos que se dedicavam ao of\'edcio. Enfim n\'e3o creio que em tempo algum na\'e7\'e3o civilizada haja lavrado leis contra os pr\'f3prios costumes. \

\par \

\par ANJO \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Enviado em grego. Baldio ser\'e1 acrescentar que os persas tinham peris, os hebreu malakhs, os gregos seus daimones. Mas talvez nos aclare saber que uma das primeiras id\'e9ias do homem foi interpor seres intermedi\'e1rios entre a Divindade e n\'f3s. S\'e3o os dem\'f4nios, os g\'eanios ideados pela antig\'fcidade. O homem sempre criou os deuses \'e0 sua imagem. Viam- se os pr\'edncipes transmitir suas ordens por mensageiros: ent\'e3o a Divindade tamb\'e9m tinha seus correios. Merc\'fario, Isis, eram mensageiros, arautos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os hebreus - povo conduzido pela pr\'f3pria Divindade - a princ\'edpio n\'e3o deram nomes aos anjos que por fim Deus condescendia em enviar- lhes. Tomaram de empr\'e9stimo os nomes que lhes davam os caldeus, quando a na\'e7\'e3o judaica esteve cativa em Babil\'f4nia. Miguel e Gabriel s\'e3o referidos pela primeira vez por Daniel, escravo entre aqueles povos. O judeu Tobias, que vivia em N\'ednive, conheceu o anjo Rafael, que viajou com seu filho para ajud\'e1- lo a reaver certa soma que lhe devia o judeu Gabael. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se faz nas leis dos judeus, isto \'e9, o Lev\'edtico e o Deuteron\'f4mio, a menor men\'e7\'e3o \'e0 exist\'eancia dos anjos. Muito menos ao seu culto. T\'e3o pouco criam em anjos os saduceus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nas hist\'f3rias judaicas, por\'e9m, os anjos s\'e3o a basto falados. Eram corporais e tinham asas nas costas, como imaginaram os antigos que tivesse Merc\'fario nos calcanhares - \'c0s vezes escondiam- nas sob as vestes. Como n\'e3o teriam corpo se bebiam e comiam? Se os habitantes de Sodoma quiseram cometer o pecado da pederastia com os anjos que foram \'e0 casa de L\'f3? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Segundo Ben Memon, admitia a antiga tradi\'e7\'e3o judaica dez graus, dez ordens de anjos - Primeira: cheios acodesh - puros, santos. Segunda: ofamim - r\'e1pidos Terceira: oralim - fortes. Quarta: chasmalim flamas. Quinta: seraphim - centelhas. Sexta: malakhim - mensageiros, deputados. S\'e9tima: eloim - deuses \

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\par ou juizes. Oitava: ben eloim - filhos dos deuses. Nona: cherubim - imagens. D\'e9cima: ychim - animados. \~\~\~\~\~ N\'e3o consta nos livros de Mois\'e9s a hist\'f3ria da queda dos anjos. Seu primeiro testemunho d\'e1- no- lo o profeta Isa\'edas, que, apostrofando o rei, exclama: "Que \'e9 feito do exator das tribos? Os pinheiros e cedros regozijam- se com sua queda. Como ca\'edste do c\'e9u, \'f3 Helel, estrela da manh\'e3?"( 4). Traduziu- se Helel pela palavra latina L\'facifer. Depois, em sentido aleg\'f3rico, deu- se o nome de L\'facifer ao pr\'edncipe dos anjos que ati\'e7aram a guerra no c\'e9u. Finalmente o termo, que significa f\'f3sforo e aurora, tornou- se nome do diabo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A religi\'e3o crist\'e3 funda- se na queda dos anjos. Os que se revoltaram foram precipitados das esferas que habitavam ao inferno, no centro da terra, e transmudaram- se em diabos. Um diabo transfigurado em serpente tentou Eva e desgra\'e7ou o g\'eanero humano. Jesus veio resgatar os homens e vencer o diabo, que ainda nos tenta. Essa tradi\'e7\'e3o fundamental, contudo, s\'f3 a refere o livro ap\'f3crifo de Enoque. E ainda assim muito outra da tradi\'e7\'e3o aceita. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o trepida Santo Agostinho (carta cent\'e9sima nona) em reportar tanto aos anjos bons como aos anjos maus corpos livres e \'e1geis. Reduziu o papa Greg\'f3rio II a nove coros, nove hierarquias ou ordens os dez coros de anjos admitidos pelos judeus. S\'e3o eles: serafins, querubins, tronos, domina\'e7\'f5es, virtudes, pot\'eancias, arcanjos e finalmente os anjos, que emprestam o nome \'e0s oito outras hierarquias. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tinham os judeus no templo dois querubins, cada um com duas cabe\'e7as - uma de boi e outra de \'e1guia - e seis asas. Representamo- los hoje sob a forma de uma cabe\'e7a solta com duas asinhas abaixo das orelhas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pintamos os anjos e os arcanjos sob a figura de jovens com um par de asas nas costas. Quanto a tronos e domina\'e7\'f5es, ainda ningu\'e9m se lembrou de retrat\'e1- los. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz Sto. Tom\'e1s (quest\'e3o cent\'e9sima oitava, artigo 2o.) estarem os tronos t\'e3o pr\'f3ximos de Deus quanto os serafins, pois \'e9 sobre eles que se acha sentada a Divindade. Scot contou um bilh\'e3o de anjos. Tendo o antigo mito dos g\'eanios bons e maus passado do Oriente \'e0 Gr\'e9cia e Roma, consagramo- lo admitindo para cada pessoa um anjo bom e outro mau. Um ajuda- a e o outro molesta- a do nascimento, \'e0 morte. Ainda n\'e3o se estabeleceu, contudo, se esses anjos bons e maus mudam continuamente de posto ou s\'e3o rendidos por outros. Consulte- se sobre o ponto a Suma de Sto. Tom\'e1s \

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\par \~\~\~\~\~ Outro ponto que tem dado pano a muita controv\'e9rsia \'e9 o lugar onde se conjuntariam, os anjos - no ar, no v\'e1cuo ou nos astros? N\'e3o aprouve a Deus p\'f4r- nos a par dessas quest\'f5es. \

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\par ANTROP\'d3FAGOS \

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\par \~\~\~\~\~ Falamos do amor. \'c9 duro passar de pessoas que se beijam a pessoas que se comem. N\'e3o resta d\'favida terem existido antrop\'f3fagos. Encontramo- los na Am\'e9rica, onde \'e9 poss\'edvel que ainda os haja. Na antig\'fcidade n\'e3o foram os ciclopes os \'fanicos a se alimentarem \'e0s vezes de carne humana. Conta Juvenal que entre os eg\'edpcios - esse povo t\'e3o s\'e1bio, t\'e3o famigerado por suas leis, esse povo t\'e3o piedoso que adorava crocodilos e cebolas - os tentiritas comeram certa vez um inimigo que lhes caiu nas m\'e3os. N\'e3o o \

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\par diz de outiva: estava no Egito, porto de T\'eantiro, quando se cometeu o crime quase aos seus olhos. E lembra, ao relatar o caso, os gasc\'f5es e saguntinos, que outrora se alimentaram de carne dos pr\'f3prios compatriotas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Em 1725 trouxeram- se quatro selvagens do Mississipi a Fontainebleau - Tive a honra de falar- lhes. Havia entre eles uma dama do pa\'eds, a quem perguntei se havia comido gente. Respondeu- me muito singelamente que sim. Fiquei um tanto escandalizado, e ela desculpou- se dizendo ser prefer\'edvel comer o inimigo, depois de morto, a deix\'e1- lo servir de pasto \'e0s feras; que demais o vencedor merecia a prefer\'eancia. N\'f3s outros, em batalha campal ou n\'e3o, por fas ou por nefas matamos nossos vizinhos e. pela mais vil recompensa pomos em fun\'e7\'e3o o engenho da morte. Aqui \'e9 que est\'e1 o horror. Aqui \'e9 que est\'e1 o crime - Que importa que depois de morto se seja comido por um soldado, por um urubu ou por um c\'e3o? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Respeitamos mais os mortos que os vivos. Cumpria respeitar uns e outros. Bem fazem as na\'e7\'f5es que chamamos civilizadas em n\'e3o meter no espeto os inimigos vencidos. Porque se fosse permitido comer os vizinhos, come\'e7ariam a comer- se entre si os pr\'f3prios compatriotas, o que seria grande desdouro para as virtudes sociais. Mas as na\'e7\'f5es que hoje s\'e3o civilizadas n\'e3o o foram sempre. Todas elas foram muito tempo selvagens. E com o sem n\'famero de revolu\'e7\'f5es de que tem sido palco o mundo, o g\'eanero humano foi ora mais ora menos numeroso. Sucedeu com os homens o que hoje sucede com os elefantes, le\'f5es, tigres, cujas esp\'e9cies minoraram consideravelmente. Quando uma regi\'e3o estava ainda escassamente povoada de seres humanos e as artes eram rudimentares, os homens se dedicavam \'e0 ca\'e7a. O h\'e1bito de se alimentarem do que matavam facilmente levou- os a tratar os inimigos como tratavam os cervos e javalis. A supersti\'e7\'e3o fez imolar v\'edtimas humanas. A necessidade as fez comer. \

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\par \~\~\~\~\~ Qual o crime maior: reunir- se religiosamente para cravar em honra da Divindade uma faca no cora\'e7\'e3o de uma menina enfitada, ou comer um bandido morto em leg\'edtima defesa? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ No entanto h\'e1 muito mais exemplos de meninas e meninos sacrificados que de meninas e meninos comidos. Quase todas as na\'e7\'f5es conhecidas sacrificaram crian\'e7as. Os judeus imolavam- nas. \'c9 o que se chamava o an\'e1tema um verdadeiro sacrif\'edcio. Ordena- se no cap\'edtulo 27 do Lev\'edtico n\'e3o se pouparem as almas viventes prometidas, por\'e9m em ponto algum se prescreve que sejam comidas. Isto era outro caso: tratava- se exclusivamente de uma amea\'e7a. Como vimos, disse Mois\'e9s aos judeus que caso n\'e3o observassem as cerim\'f4nias, n\'e3o s\'f3 teriam ronha, como as m\'e3es comeriam os pr\'f3prios filhos. Positivamente no tempo de Ezequiel os judeus deviam comer carne humana, pois diz esse profeta no cap\'edtulo 39 que Deus os faria comer n\'e3o apenas os cavalos dos seus inimigos, mas ainda os cavaleiros e os outros guerreiros. \'c9 positivo. De fato, por que n\'e3o teriam os judeus sido antrop\'f3fagos? Seria a \'faltima coisa a faltar ao povo de Deus para ser a mais abomin\'e1vel na\'e7\'e3o da terra. \

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\par \~\~\~\~\~ Li nas anedotas da hist\'f3ria da Inglaterra do tempo de Cromwell que uma sebeira de Dublin vendia excelentes candeias feitas com gordura de ingl\'eas. Certa vez queixou- se- lhe um de seus fregueses de que as candeias j\'e1 n\'e3o eram t\'e3o boas como antes. - Ah, - disse ela - \'e9 que este m\'eas faltaram ingleses. Pergunto eu: quem o mais culpado: quem passava os ingleses \'e0 faca ou a mulher que fazia velas com sua banha? \

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\par APIS \

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\par \~\~\~\~\~ Era o boi Apis adorado em Menfis como deus, como s\'edmbolo ou como boi? \'c9 de crer que os fan\'e1ticos nele vissem um deus, os cultos mero s\'edmbolo e que o vulgo ignorante adorasse o boi. Ter\'e1 Cambises feito bem, quando conquistou o Egito, em matar esse boi com as pr\'f3prias m\'e3os? Por que n\'e3o? Com isso fez ver aos imbecis que se podia passar seu deus \'e0 faca sem que a natureza se armasse para vingar o sacril\'e9gio. \

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\par \~\~\~\~\~ Incensaram- se muito os eg\'edpcios. N\'e3o sei de povo mais desprez\'edvel. Encarrapatou- se- lhes sempre no car\'e1ter e no governo um v\'edcio radical que os fez um povo de eternos e vis escravos. Que tenham, em \'e9pocas imemoriais, conquistado a terra. Na clareira dos tempos hist\'f3ricos, por\'e9m, avassalaram- nos quantos povos quiseram dar- se ao trabalho - ass\'edrios, persas, gregos, romanos, \'e1rabes, mamelucos, turcos, enfim, toda gente, salvo os cruzados, que n\'e3o lhes conheciam a fraqueza. Foi a mil\'edcia dos mamelucos que venceu os franceses. N\'e3o h\'e1 talvez mais que duas coisas sofr\'edveis nessa na\'e7\'e3o: primeiro, que adorando um boi nunca constrangeram quem adorasse um macaco a mudar de religi\'e3o; segundo, terem inventado a chocadeira artificial. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Gabam- se- lhes as pir\'e2mides. Mas as pir\'e2mides s\'e3o monumentos de um povo de escravos. Foi preciso p\'f4r de baixo de canga toda uma na\'e7\'e3o, sem o que essas vis massas n\'e3o teriam sido levantadas. Que finalidade tinham? Conservar em uma pequena c\'e2mara a m\'famia de algum pr\'edncipe, de algum governador, de um intendente qualquer, porque ao cabo de mil anos sua alma devia reanim\'e1- la. Mas se esperavam a ressurrei\'e7\'e3o dos corpos, por que lhes extraiam os miolos antes de embalsam\'e1- los? Ser\'e1 que os eg\'edpcios deviam ressuscitar sem c\'e9rebro? \

\par \

\par APOCALIPSE \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Justino o M\'e1rtir, que escreveu pelo ano de 170( 5) da nossa era, \'e9 quem primeiro fala no Apocalipse. Perfilha- o ao ap\'f3stolo Jo\'e3o o Evangelista. Perguntando- lhe o judeu Trif\'e3o se n\'e3o cria que Jerusal\'e9m devesse ser algum dia restaurada, respondeu Justino que sim, como o acreditavam todos os crist\'e3os que pensavam com acerto. "Houve entre n\'f3s" - diz - "uma personagem de nome Jo\'e3o, um dos doze ap\'f3stolos de Jesus, o qual predisse passar\'e3o os fi\'e9is mil anos em Jerusal\'e9m". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foi opini\'e3o por muito tempo aceita pelos crist\'e3os a de um reinado de mil anos. Esse per\'edodo desfrutava de grande cr\'e9dito entre os gentios. Passados mil anos retomavam os corpos as almas entre os eg\'edpcios. O mesmo espa\'e7o de tempo, et mille per annos, penavam as almas no purgat\'f3rio de Virg\'edlio. A nova Jerusal\'e9m de mil anos teria doze portas, em mem\'f3ria dos doze ap\'f3stolos. A forma seria quadrada. Comprimento, largura e altura seriam de doze mil est\'e1dios - quinhentas l\'e9guas - de maneira que as casas teriam tamb\'e9m quinhentas l\'e9guas de alto. Haveria de ser bem desagrad\'e1vel morar no \'faltimo andar. Mas enfim \'e9 o que diz o Apocalipse, cap\'edtulo 21. \

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\par \~\~\~\~\~ Se foi Justino o primeiro em atribuir o Apocalipse a S. Jo\'e3o, personalidades houve que lhe refugaram o testemunho, atendendo a que no mesmo di\'e1logo com o judeu Trif\'e3o diz ele que, consoante o relato dos ap\'f3stolos, Jesus Cristo, descendo ao Jord\'e3o, ferveu- lhe e inflamou- lhe as \'e1guas. O que n\'e3o consta em \

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\par nenhum dos escritos dos ap\'f3stolos. \~\~\~\~\~ O mesmo S. Justino n\'e3o hesita em citar os or\'e1culos das sibilas. E pretende ter visto restos das celas em que, no tempo de Herodes, foram encerrados no farol de Alexandria os setenta e dois int\'e9rpretes. O testemunho de um homem que teve a m\'e1 fortuna de ver tais celas parece indicar mas \'e9 que devia ser metido nelas. \

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\par \~\~\~\~\~ Posteriormente Sto. Ireneu, que tamb\'e9m acreditava no reinado de mil anos, diz ter sabido de um velho que o Apocalipse era de autoria de S. Jo\'e3o( 6). Mas j\'e1 se reprochou a Sto. Ireneu o haver escrito n\'e3o deverem existir sen\'e3o quatro Evangelhos pela s\'f3 raz\'e3o de ter o mundo apenas quatro partes, quatro serem os ventos cardeais e n\'e3o ter Ezequiel visto mais que quatro animais. Chama ele a isso demonstra\'e7\'e3o. Em singularidade, a demonstra\'e7\'e3o do ar. Ireneu n\'e3o fica atr\'e1s da vis\'e3o do sr. Justino. \

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\par \~\~\~\~\~ Clemente de Alexandria, nas Electa, s\'f3 se refere a um Apocalipse de S. Pedro, a que se reportava extraordin\'e1ria monta. Tertuliano, partid\'e1rio ferrenho do reinado de mil anos, n\'e3o se contenta em afirmar que S. Jo\'e3o predisse a ressurrei\'e7\'e3o e o reinado milen\'e1rio na cidade de Jerusal\'e9m: quer tamb\'e9m que esta Jerusal\'e9m j\'e1 se come\'e7ava a formar no ar; que todos os crist\'e3os da Palestina, e at\'e9 os pag\'e3os, a tinham visto durante quarenta dias sucessivos \'e0s \'faltimas horas da noite. Infelizmente, por\'e9m, mal despontava o dia a cidade se esvaecia. \

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\par \~\~\~\~\~ Em seu pref\'e1cio sobre o Evangelho de S. Jo\'e3o e nas Homilias, cita Or\'edgenes os or\'e1culos do Apocalipse, mas igualmente cita os or\'e1culos das sibilas. J\'e1 S. Dinis de Alexandria, que escreveu por meados do s\'e9culo III, diz em um de seus fragmentos conservados por Eus\'e9bio (7) que a quase totalidade dos eruditos rejeitava por uma boca o Apocalipse como livro destitu\'eddo de raz\'e3o. Que esse livro n\'e3o o escreveu S. Jo\'e3o, e sim um tal Cerinto, que se servira de um grande nome para dar mais peso a suas fantasias \

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\par \~\~\~\~\~ O conc\'edlio de Laodic\'e9ia (360) n\'e3o recenseou o Apocalipse entre os livros can\'f4nicos. Singular \'e9 haver Laodic\'e9ia repulsado um tesouro que lhe fora enviado expressamente, e que tamb\'e9m o refutasse o bispo de \'c9feso, cidade em que se descobrira, enterrado, esse livro de S. Jo\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Para todos S. Jo\'e3o ainda padejava na sepultura, fazendo a terra levantar e baixar continuamente. Entanto esses mesmos senhores certos de que S. Jo\'e3o n\'e3o estava de todo morto, tamb\'e9m estavam certos de que ele n\'e3o escrevera o Apocalipse. Os advogados do reinado de mil anos, n\'e3o obstante, mantiveram- se irremov\'edveis em sua opini\'e3o. Sulp\'edcio Severo (Hist\'f3ria Sagrada, livro 9) chama insensatos e \'edmpios aos que n\'e3o acatavam o Apocalipse. Afinal, depois de muita d\'favida, muita oposi\'e7\'e3o de conc\'edlio a conc\'edlio prevaleceu o parecer de Sulp\'edcio Severo. Deslindado o mist\'e9rio, decidiu a igreja ser o Apocalipse incontestavelmente de S. Jo\'e3o. N\'e3o h\'e1, pois, apelar. \

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\par \~\~\~\~\~ Atribu\'edram as comunh\'f5es religiosas cada qual a si as profecias desse livro. Nele viram os ingleses as revolu\'e7\'f5es da Gr\'e3 Bretanha. Os luteranos, as convuls\'f5es da Alemanha. Os reformados da Fran\'e7a, o reinado de Carlos IX e a reg\'eancia de Catarina de M\'e9dicis. Todos tiveram igualmente raz\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Bossuet e Newton comentaram o Apocalipse. As declama\'e7\'f5es eloq\'fcentes de um e as sublimes descobertas de outro foram- lhes, todavia, muito mais honrosas que seus coment\'e1rios. \

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\par ATEU, ATE\'cdSMO \

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\par \~\~\~\~\~ Antigamente, quem quer que tivesse um segredo numa arte corria o risco de passar por bruxo. Toda seita nova era acusada de degolar crian\'e7as em seus mist\'e9rios. Todo fil\'f3sofo que se desgarrasse da j\'edria da escola era criminado de ate\'edsmo pelos fan\'e1ticos e espertalh\'f5es. E condenado pelos cretinos. \

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\par \~\~\~\~\~ Anax\'e1goras tem o atrevimento de pretender n\'e3o ser o sol conduzido por Apolo montado numa quadriga: chamam- lhe ateu e o obrigam a expatriar- se. \

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\par \~\~\~\~\~ Arist\'f3teles \'e9 culpado de ate\'edsmo por um sacerdote. N\'e3o podendo fazer punir o caluniador, retira- se para Calcis. Mas a morte de S\'f3crates \'e9 o que de mais odioso tem a hist\'f3ria da Gr\'e9cia \

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\par \~\~\~\~\~ Quem primeiro induziu os atenienses a verem um ateu em S\'f3crates foi Arist\'f3fanes, que os comentadores admiram por ter sido grego, esquecendo- lhes que S\'f3crates tamb\'e9m o era. \

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\par \~\~\~\~\~ Esse poeta c\'f4mico, que n\'e3o foi nem c\'f4mico nem poeta, n\'e3o seria admitido entre n\'f3s a representar farsas na feira de Saint- Laurent. Parece- me muito mais vil e desprez\'edvel do que o despinta Plutarco. Eis o que diz o s\'e1bio Plutarco de tal farsista: "A linguagem de Arist\'f3fanes denuncia o miser\'e1vel charlat\'e3o que \'e9. S\'e3o as gra\'e7olas mais canalhas e repugnantes. N\'e3o chega a agradar o povo e as pessoas de discernimento e pundonor n\'e3o o toleram. N\'e3o h\'e1 quem suporte sua arrog\'e2ncia, e sua malignidade \'e9 intoler\'e1vel \'e0s pessoas de bem"( 8). \

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\par \~\~\~\~\~ A\'ed est\'e1 - para diz\'ea- lo de passo - o Tabarin que a sra. Dacier tem o ousio de admirar. Eis o homem que de longe confeccionou o veneno com que juizes infames assassinaram o homem mais virtuoso da Gr\'e9cia. \

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\par \~\~\~\~\~ Curtidores, sapateiros e costureirinhas de Atenas aplaudiram uma com\'e9dia em que se representava S\'f3crates suspenso num cesto proclamando que n\'e3o existiam deuses e jactando- se de haver roubado uma capa enquanto ensinava filosofia. Um povo cujo mau governo permitia t\'e3o infames licen\'e7as bem merecia o fim que teve - ser vassalo dos romanos e hoje dos turcos. \

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\par \~\~\~\~\~ Demos um salto \'e0 antig\'fcidade. Detenhamo- nos na rep\'fablica romana. Os romanos, muito mais s\'e1bios que os gregos, nunca perseguiram fil\'f3sofos por motivo de opini\'f5es. A mesma isen\'e7\'e3o n\'e3o exal\'e7a os povos b\'e1rbaros que medraram por sobre os destro\'e7os do imp\'e9rio romano. Desde que o imperador Frederico II questiona com o papa, que o acusam de ate\'edsmo e de ter escrito com seu chanceler de Vin\'e9ia o livro Dos Tr\'eas Impostores. \

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\par \~\~\~\~\~ Manifesta- se o nosso grande chanceler do Hospital contr\'e1rio \'e0s persegui\'e7\'f5es: \'e9 quanto basta para levar a tacha de ateu. Homo doctus, sed verus atheos. Um jesu\'edta que se acha t\'e3o abaixo de Arist\'f3fanes quanto Arist\'f3fanes o est\'e1 de Homero, um miser\'e1vel cujo nome se tornou rid\'edculo entre os pr\'f3prios fan\'e1ticos, em uma palavra, o jesu\'edta Garasse, em toda gente v\'ea ate\'edstas. \'c9 assim que chama a todos aqueles contra quem investe. De ate\'edsta acoima ele Teodoro de Besis. Foi ele quem induziu em erro a respeito de Vanini. \

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\par \~\~\~\~\~ O desgra\'e7ado fim de Vanini n\'e3o nos move a indigna\'e7\'e3o nem a piedade como o de S\'f3crates porque Vanini n\'e3o passava de um pedante estrangeiro sem m\'e9rito nenhum. Mas a verdade \'e9 que n\'e3o era ateu, como se pensava. Muito pelo contr\'e1rio \

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\par \~\~\~\~\~ Tratava- se de um pobre padre napolitano, pregador e te\'f3logo de seu mister, polemista apaixonado das q\'fcididades e dos universais, et utrum chimera bombinans in vacuo possit comedere secundas intentiones. N\'e3o tinha, por\'e9m, a veia do ate\'edsmo. Sua no\'e7\'e3o de Deus era da mais s\'e3 e acatada teologia. "Deus \'e9 o princ\'edpio e o fim, pai de um e de outro, prescindindo de um e de outro. Eterno sem estar no tempo. Onipresente sem se achar em parte alguma. N\'e3o tem passado nem futuro. Est\'e1 em tudo e fora de tudo, tudo governando, tudo havendo criado - Imut\'e1vel, infinito, imparticular. Seu poder \'e9 sua vontade, etc." \

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\par \~\~\~\~\~ Vangloriava- se Vanini de renovar este belo conceito de Plat\'e3o abra\'e7ado por Averrois: que Deus criou uma cadeia graduada de seres cujo \'faltimo anel se ata ao seu trono eterno. Id\'e9ia em verdade mais sublime que veraz, mas t\'e3o distante do ate\'edsmo quanto o ser do n\'e3o ser. \

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\par \~\~\~\~\~ Viajou com o fito em dinheiro e pol\'eamicas - infelizmente, por\'e9m, a senda da disputa conduz a polo contr\'e1rio ao da riqueza. Granjeiam- se tantos inimigos irreconcili\'e1veis quantos os s\'e1bios ou pedantes com quem se ter\'e7a a palavra. Nem foi outra a origem da desdita de Vanini - Custaram- lhe seu calor e grosseria na discuss\'e3o o \'f3dio de n\'e3o poucos te\'f3logos, um dos quais - Francon ou Franconi, amigo de seus inimigos - o acusou de ateu e de pregar o ate\'edsmo. \

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\par \~\~\~\~\~ Teve esse Francon ou Franconi, esteado por algumas testemunhas, a barb\'e1rie de sustentar na acarea\'e7\'e3o o que tivera o descaramento de falsear. Interrogado no banco dos r\'e9us acerca do que pensava de Deus, respondeu Vanini adorar com a igreja um Deus em tr\'eas pessoas. Tomando uma palha do ch\'e3o: "Basta isto" - disse "para provar que existe um criador". Pronunciou ent\'e3o magn\'edfico discurso sobre a vegeta\'e7\'e3o e o movimento e sobre a necessidade de um Ser Supremo, sem o qual n\'e3o existiria nem movimento nem vegeta\'e7\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ O presidente Grammont, que ent\'e3o se achava em Tolosa, transcreve esse discurso na sua Histoire de France, hoje t\'e3o esquecida. Por inconcept\'edvel preju\'edzo pretende o mesmo Grammont que Vanini dissesse tudo isso mais por vaidade ou medo que por persuas\'e3o interior \

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\par \~\~\~\~\~ A que arrimar o julgamento temer\'e1rio e atroz do presidente Grammont? Patente \'e9 que a resposta de Vanini o absolvia da crimina\'e7\'e3o de ate\'edsmo. Que sucedeu, por\'e9m! Esse caipora abeberara- se tamb\'e9m de medicina. Encontraram em sua casa um sapo que ele conservava vivo em um vaso com \'e1gua: foi a conta para ser tachado de feiticeiro. Disseram que o sapo era o seu deus. Emprestaram sentido \'edmpio a diversos passos de seus livros - o que \'e9 fac\'edlimo e muito comum - tomando obje\'e7\'f5es por respostas, interpretando com mal\'edcia uma ou outra frase equ\'edvoca, envenenando express\'f5es inocentes. Por fim a fac\'e7\'e3o que o perseguia extorquiu dos juizes a senten\'e7a que o condenou \'e0 morte. \

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\par \~\~\~\~\~ Para justificar tal crime, havia- se mister fazer pesarem sobre esse infeliz as cal\'fanias mais medonhas. O menor e muito menor Mersenne levou a dem\'eancia a ponto de imprimir que Vanini partira de N\'e1poles com doze ap\'f3stolos para converter o mundo ao ate\'edsmo. Santa ingenuidade. Como poderia ter um pobre padre doze homens a seu dispor? Como poderia convencer doze napolitanos a viajarem dispendiosamente para propagar aos quatro ventos uma doutrina abomin\'e1vel e revoltante - com risco de \

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\par vida? Seria um rei bastante poderoso para pagar doze pregadores de ate\'edsmo? Ningu\'e9m, antes de Mersenne, aventurara semelhante absurdo. Depois dele, por\'e9m, toda gente se p\'f4s a estribilh\'e1- lo, com ele envenenando jornais e dicion\'e1rios hist\'f3ricos - E o mundo, que gosta do extraordin\'e1rio, aceitou \'e0 carga cerrada essa f\'e1bula. \

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\par \~\~\~\~\~ O pr\'f3prio Bayle, nas suas Pens\'e9es Diverses, fala de Vanini como de um ateu - Serve- se desse exemplo para estribar seu paradoxo de poder subsistir uma sociedade de ateus; afirma que Vanini era um homem de costumes rigorosamente regrados, e ter sido o m\'e1rtir de sua opini\'e3o filos\'f3fica. Engana- se tanto num ponto como noutro. Depreende- se dos Dialogues de Vanini, escritos \'e0 imita\'e7\'e3o de Erasmo, ter ele tido uma amante de nome Isabelle. Era livre no escrever como no viver. Por\'e9m n\'e3o ateu. \

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\par \~\~\~\~\~ Um s\'e9culo ap\'f3s sua morte o s\'e1bio La Croze e aquele que adotou o nome de Philal\'e8the( 9) empreenderam justific\'e1- lo. Mas como ningu\'e9m se interessa pela mem\'f3ria de um infeliz napolitano, que para agravo de seus pecados era p\'e9ssimo escritor, passaram quase despercebidas essas apologias. \

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\par \~\~\~\~\~ O jesu\'edta Hardouin, mais culto que Garasse e n\'e3o menos temer\'e1rio, denuncia como ateus no livro Athei Detecti os Descartes, Arnauld, Pascal, Nicole e Malebranche. Que, por\'e9m, felizmente n\'e3o tiveram a mesma sorte que Vanini. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas voltemos \'e0 quest\'e3o de moral aventada por Bayle: se seria poss\'edvel uma sociedade de ateus. Sublinhemos \'e0 primeira ser grande a contradi\'e7\'e3o em torno do problema. Os que mais indignadamente se levantaram contra a opini\'e3o de Bayle, os que com maior carga de inj\'farias lhe desmentiram a possibilidade de uma sociedade de ateus, com o mesmo aferro sustentaram mais tarde ser o ate\'edsmo a religi\'e3o do governo da China. \

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\par \~\~\~\~\~ Positivamente enganaram- se no que respeita ao governo chin\'eas. Se houvessem lido os \'e9ditos desse vasto pa\'eds teriam visto n\'e3o serem outra coisa sen\'e3o serm\'f5es, serm\'f5es repletos de refer\'eancias ao Ser Supremo, guia, vingador e premiador. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se enganaram menos quanto \'e0 impossibilidade de uma sociedade at\'e9ia. E n\'e3o sei como p\'f4de o sr. Bayle esquecer um exemplo conclusivo que talvez valesse a vit\'f3ria a sua causa. \

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\par \~\~\~\~\~ Por que imposs\'edvel uma sociedade at\'e9ia? Porque sem um freio os homens n\'e3o poderiam viver em harmonia? Por nada poderem as leis contra os crimes secretos? Por ser preciso um Deus vingador que puna, neste ou em outro mundo, os malfeitores escapos \'e0 justi\'e7a humana! \

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\par \~\~\~\~\~ Ilus\'e3o. Os judeus, muito embora n\'e3o ensinassem as leis de Mois\'e9s nenhuma vida por vir, n\'e3o amea\'e7assem castigos depois da morte, n\'e3o ensinassem aos primeiros judeus a imortalidade da alma, os judeus, longe de ser ateus, longe de contar subtrair- se \'e0 vingan\'e7a divina, foram os mais religiosos dos homens. N\'e3o somente criam na exist\'eancia de um Deus eterno, como o acreditavam constantemente em sua presen\'e7a. Temiam ser castigados na pessoa de si mesmos, da mulher, dos filhos, na posteridade, at\'e9 a quarta gera\'e7\'e3o. E esse freio era poderos\'edssimo. \

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\par \~\~\~\~\~ Entre os gentios, por\'e9m, muitas seitas houve desempe\'e7adas de quaisquer ferrop\'e9ias. Os c\'e9pticos \

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\par duvidavam de tudo - De tudo inopinavam os acad\'eamicos. Estavam persuadidos os epicuristas de que a divindade n\'e3o metia a colher torta nos neg\'f3cios dos homens, e em verdade n\'e3o admitiam deuses de esp\'e9cie alguma. Abrigavam a convic\'e7\'e3o de n\'e3o ser a alma de natureza substancial, mas rasamente uma faculdade que nasce e morre com o corpo. N\'e3o tinham, por conseguinte, outras r\'e9deas al\'e9m da moral e da honra. Verdadeiros ateus eram os senadores e cavaleiros romanos. Para quem n\'e3o os temem e deles nada esperam os deuses n\'e3o existem - Era pois o senado romano um congresso de ateus contempor\'e2neos de C\'e9sar e C\'edcero. \

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\par \~\~\~\~\~ Na ora\'e7\'e3o pr\'f3 Clu\'eancio diz o grande orador ao senado reunido: "Que mal lhe pode trazer a morte? N\'f3s impugnamos todas as f\'e1bulas ineptas dos infernos. Que ent\'e3o lhe tirou a morte? Nada mais que a sensa\'e7\'e3o da dor". \

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\par \~\~\~\~\~ Querendo salvar a vida de seu amigo Catilina perante o mesmo C\'edcero, n\'e3o lhe objeta C\'e9sar que condenar \'e0 morte n\'e3o \'e9 punir, que a morte n\'e3o \'e9 nada, sen\'e3o apenas o fim dos sofrimentos, momento mais feliz do que fatal? E n\'e3o reconheceram C\'edcero e todo o senado a justeza de tais raz\'f5es? N\'e3o h\'e1 neg\'e1- lo. Vencedores e legisladores do mundo conhecido formavam uma sociedade de homens destemerosos dos deuses - verdadeiros ateus, portanto. \

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\par \~\~\~\~\~ Pondera Bayle a seguir se n\'e3o \'e9 a idolatria mais perigosa que o ate\'edsmo, se crime maior n\'e3o ser\'e1 nutrir sobre a divindade conceitos indignos que dela descrer. E opina com Plutarco ser prefer\'edvel n\'e3o ter de Deus concep\'e7\'e3o nenhuma a te- la m\'e1 - Em que pese a Plutarco, por\'e9m, ineg\'e1vel \'e9 ter sido infinitamente prefer\'edvel para os gregos temer Ceres, Netuno, J\'fapiter, a n\'e3o temer coisa alguma. Irrecusavelmente \'e9 necess\'e1ria a santidade dos juramentos, e antes fiar- se em quem creia que um falso juramento ser\'e1 punido do que em quem pense poder jurar falso impunemente. N\'e3o h\'e1 d\'favida ser prefer\'edvel, em uma cidade policiada, ter uma religi\'e3o ainda que m\'e1 a n\'e3o ter nenhuma. \

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\par \~\~\~\~\~ Parece- me que Bayle devia antes examinar qual o mais nocivo, se o fanatismo, se o ate\'edsmo. O fanatismo \'e9 certamente mil vezes mais funesto, porquanto o ate\'edsmo n\'e3o inspira, como ele, paix\'e3o sanguin\'e1ria. O ate\'edsmo n\'e3o se op\'f5e ao crime: o fanatismo o ati\'e7a. Suponhamos com o autor do Commentarium Rerum Gallicarum fosse ateu o chanceler do Hospital. N\'e3o elaborou ele sen\'e3o leis s\'e1bias, n\'e3o aconselhou sen\'e3o modera\'e7\'e3o e conc\'f3rdia: os fan\'e1ticos cometeram as mortandades de S\'e3o Bartolomeu. Havia- se Hobbes por ateu: entanto viveu tranq\'fcila e inocentemente. Os fan\'e1ticos de seu tempo ensanguentaram a Inglaterra, Esc\'f3cia e Irlanda. Spinoza, sobre ser ateu, ensinava o ate\'edsmo: parece contudo n\'e3o ter sido ele quem participou do assass\'ednio jur\'eddico de Barneveldt, quem fez em tra\'e7alhos os irm\'e3os de Witt e os comeu \'e0 grelha. \

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\par \~\~\~\~\~ O mais das vezes s\'e3o os ateus s\'e1bios audazes e tresmalhados que raciocinam mal e que, n\'e3o compreendendo a cria\'e7\'e3o, a origem do mal e outras dificuldades, recorrem \'e0 hip\'f3tese da eternidade das coisas e da necessidade. \

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\par \~\~\~\~\~ Aos ambiciosos, aos voluptuosos, falta- lhes tempo para raciocinar e abra\'e7ar maus sistemas. T\'eam mais que fazer que comparar Lucr\'e9cio com S\'f3crates \~\~\~\~\~ \

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\par \'c9 o que sucede conosco. \~\~\~\~\~ O mesmo n\'e3o se dava com o senado romano, composto na quase totalidade de ateus que ateus eram \

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\par te\'f3rica e praticamente. Isto \'e9: que n\'e3o acreditavam nem na Provid\'eancia nem na vida futura. Era uma congrega\'e7\'e3o de fil\'f3sofos, de voluptuosos e ambiciosos, todos nocentissimos e que perderam a rep\'fablica. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o me agradaria o depender de um pr\'edncipe ateu cujo interesse fosse mandar- me pilar num morteiro. N\'e3o quereria, se fosse soberano, ter de tratar com cortes\'e3os ateus cujo interesse fosse envenenar- me: ser- me- ia necess\'e1rio estar tomando ao acaso contravenenos todos os dias. \'c9 pois absolutamente imprescind\'edvel aos pr\'edncipes e aos povos o estar profundamente gravada nos esp\'edritos a id\'e9ia de um Ser Supremo, criador, condutor, remunerador e vingador. \

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\par \~\~\~\~\~ H\'e1 povos ateus, assevera Bayle em suas Pens\'e9es sur les Com\'e8tes. Os cafres, hotentotes, tupinamb\'e1s e muitas outras pequenas na\'e7\'f5es n\'e3o t\'eam Deus. \'c9 poss\'edvel. Mas isso n\'e3o quer dizer que neguem Deus n\'e3o o negam nem o afirmam, porque nunca ouviram falar em tal. Dizei- lhes que Deus existe, e cre- lo- \'e3o facilmente. Dizei- lhes que tudo se faz pela natureza das coisas, e cre- lo- \'e2o da mesma forma - Pretender que sejam ateus \'e9 o mesmo que pretender que sejam anticartesistas: n\'e3o s\'e3o nem contra nem a favor de Descartes. S\'e3o verdadeiras crian\'e7as. Uma crian\'e7a n\'e3o \'e9 at\'e9ia nem teista: n\'e3o \'e9 nada. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que concluir de tudo isso? Que o ate\'edsmo \'e9 um monstro pernicios\'edssimo para os que governam, e igualmente para os estadistas em disposi\'e7\'e3o, ainda que cidad\'e3os inocentes, pois podem um dia ou outro ser elevados \'e0 bol\'e9ia do poder. Que, se n\'e3o \'e9 t\'e3o funesto como o fanatismo, \'e9 quase sempre fatal \'e0 virtude. Ajuntemos principalmente que hoje em dia h\'e1 menos ateus que nunca, depois que os fil\'f3sofos reconheceram n\'e3o haver nenhum ser vegetante sem germe, nenhum germe sem des\'edgnio etc., e que o trigo n\'e3o nasce da podrid\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ge\'f4metras n\'e3o filos\'f3ficos enjeitaram as causas finais, por\'e9m os verdadeiros fil\'f3sofos as admitem. E, como disse um autor conhecido, o catequista anuncia Deus \'e0s crian\'e7as e Newton o demonstra aos s\'e1bios. \

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\par BATISMO \

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\par \~\~\~\~\~ Palavra grega que quer dizer imers\'e3o. \~\~\~\~\~ Como sempre se guiam pelos sentidos, facilmente imaginaram os homens que quem lavasse o corpo tamb\'e9m lavava a alma. Havia nos subterr\'e2neos dos templos eg\'edpcios grandes cubas para os sacerdotes e iniciados. Desde tempos imemoriais que os hindus se purificaram nas \'e1guas do Ganges, e ainda hoje essa cerim\'f4nia est\'e1 muito em voga. Da \'cdndia passou \'e0 Jud\'e9ia. Era costume entre os hebreus batizar todos os estrangeiros que abra\'e7assem a lei judaica e n\'e3o quisessem submeter- se \'e0 circuncis\'e3o. Sobre tudo batizavam- se as mulheres, que n\'e3o faziam essa opera\'e7\'e3o, salvo na Eti\'f3pia, onde a circuncis\'e3o era de lei. Tratava- se de uma regenera\'e7\'e3o. Criam os hebreus, como os eg\'edpcios, que o batismo dava alma nova. Consultem- se sobre o assunto Epif\'e2nio, Memonide e la Gemara. \

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\par \~\~\~\~\~ Jo\'e3o batizou- se no rio Jord\'e3o. Ali tamb\'e9m ele batizou Jesus, que, conquanto nunca haja batizado ningu\'e9m, condescendeu todavia em consagrar essa cerim\'f4nia \

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\par \~\~\~\~\~ Em si, todos os sinais s\'e3o indiferentes. Confere Deus sua gra\'e7a ao sinal que lhe aprouver escolher. \

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\par Bem cedo tornou- se o batismo em primeiro rito e chancela da religi\'e3o crist\'e3. Contudo, embora fossem circuncidados, n\'e3o se sabe ao certo se receberam o batismo os quinze primeiros bispos de Jerusal\'e9m \

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\par \~\~\~\~\~ Muito se abusou desse sacramento nos primeiros s\'e9culos do cristianismo. Nada era mais comum que aguardar a agonia para receber o batismo. \'c9 assaz ilustrativo o exemplo do imperador Constantino. Eis como raciocinava: O batismo de tudo expurga; portanto posso matar minha mulher, meus filhos, todos os meus parentes; depois batizo- me e irei para o c\'e9u - O que efetivamente levou a pr\'e1tica. O exemplo era perigos\'edssimo. Paulatinamente foi se abolindo o vezo de esperar a morte para tomar o banho sagrado. \

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\par \~\~\~\~\~ Sempre conservaram os gregos o batismo por imers\'e3o. Pelo fim do s\'e9culo VIII os latinos, havendo estendido sua religi\'e3o \'e0s G\'e1lias e \'e0 Germ\'e2nia, receosos de que a imers\'e3o pudesse matar as crian\'e7as nos pa\'edses frios, substitu\'edram- na por simples aspers\'e3o, o que lhes custou numerosos an\'e1temas de parte da igreja grega. \

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\par \~\~\~\~\~ Perguntou- se a S. Cipriano se estavam realmente batizadas as pessoas que, em vez de tomarem o banho, eram apenas borrifadas. Respondeu ele (septuag\'e9sima sexta carta) que "achavam muitas igrejas n\'e3o serem crist\'e3s tais pessoas; quanto a ele, era de parecer que sim, bem que sua gra\'e7a fosse infinitamente menor que a das imersas tr\'eas vezes conforme o uso". \

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\par \~\~\~\~\~ Entre os crist\'e3os, desde que um indiv\'edduo recebia a imers\'e3o estava iniciado. Antes do batismo era simples catec\'fameno. Para iniciar- se era de mister apresentar cau\'e7\'f5es, respons\'e1veis, - a que se dava um nome correspondente a padrinho - a fim de que a igreja se certificasse da fidelidade dos novos crist\'e3os e n\'e3o fossem divulgados os mist\'e9rios. Essa a raz\'e3o por que nos primeiros s\'e9culos fossem os gentios geralmente t\'e3o mal instru\'eddos dos mist\'e9rios crist\'e3os quanto o eram os crist\'e3os dos mist\'e9rios de Isis e de Eleusina. \

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\par \~\~\~\~\~ Assim se expressava Cirilo de Alexandria em seu escrito contra o imperador Juliano: "Falaria do batismo se n\'e3o temesse que minhas palavras chegassem aos n\'e3o iniciados". \

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\par \~\~\~\~\~ Data do s\'e9culo II o costume de batizar crian\'e7as. Era natural desejassem os crist\'e3os que seus filhos, que sem esse sacramento seriam condenados \'e0s penas eternas, dele fossem apercebidos. Concluiu- se enfim ser necess\'e1rio ministr\'e1- lo ao fim dos oito primeiros dias de vida por ser essa entre os judeus a idade da circuncis\'e3o. Ainda conserva o costume a igreja grega, conquanto no s\'e9culo III o uso a tenha levado a subministrar o batismo \'e0 morte. \

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\par \~\~\~\~\~ Quem morria na primeira semana de exist\'eancia estava condenado, asseveravam os padres da igreja mais rigorosos. No s\'e9culo V, por\'e9m, ideou Pedro Cris\'f3logo o limbo, esp\'e9cie de inferno suavizado, e propriamente lindes do inferno, extramuros infernais, para onde iriam as criancinhas finadas sem batismo, e onde estariam os patriarcas antes da descens\'e3o de Jesus Cristo aos infernos. De sorte que desde ent\'e3o prevaleceu a opini\'e3o de que Cristo desceu ao limbo e n\'e3o ao inferno. \

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\par \~\~\~\~\~ Perguntou- se se, nos desertos da Ar\'e1bia, poderia um crist\'e3o ser batizado com areia: respondeu- se que n\'e3o. Se se poderia batizar com \'e1gua impura: estabeleceu- se ser conveniente \'e1gua munda, mas que em \'faltima inst\'e2ncia servia \'e1gua barrenta. \'c9 f\'e1cil ver que toda essa disciplina foi ditada pela prud\'eancia dos primeiros pastores. \

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\par BELO, BELEZA \

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\par \~\~\~\~\~ Perguntai a um sapo que \'e9 a beleza, o supremo belo, o to kalon. Responder- vos- \'e1 ser a sapa com os dois olhos exagerados e redondos encaixados na cabe\'e7a min\'fascula, a boca larga e chata, o ventre amarelo, o dorso pardo. Interrogai um negro da Guin\'e9 O belo para ele \'e9 - uma pele negra e oleosa, olhos cravados, nariz esborrachado. Indagai ao diabo. Dir- vos- \'e1 que o belo \'e9 um par de cornos, quatro garras e cauda. Inquiri os fil\'f3sofos. Responder- vos- \'e3o com aranz\'e9is. Falta- lhes algo de conforme ao arqu\'e9tipo do belo em ess\'eancia, o to kalon. \

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\par \~\~\~\~\~ Assistia eu certa vez \'e0 representa\'e7\'e3o de uma trag\'e9dia em companhia de um fil\'f3sofo. \~\~\~\~\~ - Como \'e9 belo! - dizia ele. \~\~\~\~\~ - Que viu o sr. de belo? \~\~\~\~\~ - O autor atingiu seu fim. \~\~\~\~\~ No dia seguinte ele tomou um purgante que lhe fez efeito. \~\~\~\~\~ - O purgante atingiu seu fim - disse- lhe eu. - Eis um belo purgante. \~\~\~\~\~ Ele compreendeu n\'e3o se poder dizer que um purgante seja belo, e que para chamar belo a alguma coisa \'e9 preciso que nos cause admira\'e7\'e3o e prazer. Conveio em que a trag\'e9dia lhe inspirara estas duas emo\'e7\'f5es, e que nisso estava o to kalon, o belo. \

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\par \~\~\~\~\~ Realizamos uma viagem \'e0 Inglaterra. L\'e1 se representava a mesma pe\'e7a, impecavelmente traduzida. Fez bocejarem todos os espectadores. \

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\par \~\~\~\~\~- Oh! - exclamou o fil\'f3sofo - o to kalon n\'e3o \'e9 o mesmo para os ingleses e os franceses. \~\~\~\~\~ Ap\'f3s muita reflex\'e3o concluiu ser o belo extremamente relativo, como o que \'e9 decente no Jap\'e3o \'e9 indecente em Roma, o que \'e9 moda em Paris n\'e3o o \'e9 em Pequim. \

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\par BEM (SUPREMO) \

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\par \~\~\~\~\~ Muito discutiu a antig\'fcidade em torno do supremo bem. Que \'e9 o supremo bem? Seria o mesmo que perguntar que \'e9 o supremo azul, o supremo acepipe, o supremo andar, o ler supremo, etc. \

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\par \~\~\~\~\~ Cada um p\'f5e a felicidade onde pode, e quanto pode ao seu gosto. Quid dem? quid non dem? Renuis tu quod jubet alter... \

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\par Castor gaudet equis; ovo prognatus eodem pugnis...( 10). \~\~\~\~\~ Sumo bem \'e9 o bem que vos deleita a ponto de polarizar- nos toda a sensibilidade, assim como mal supremo \'e9 aquele que vos torna completamente insens\'edvel. Eis os dois p\'f3los da natureza humana. Esses dois momentos s\'e3o curtos. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira. Supremo bem e supremo mal s\'e3o quimeras. \

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\par \~\~\~\~\~ Conhecemos a bela f\'e1bula de Cr\'e2ntor, que fez comparecer aos jogos ol\'edmpicos a Fortuna, a Vol\'fapia, a Sa\'fade e a Virtude. \

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\par \~\~\~\~\~ Fortuna: - O sumo bem sou eu, pois comigo tudo se obt\'e9m. \~\~\~\~\~ Vol\'fapia: - Meu \'e9 o pomo, porquanto n\'e3o se aspira \'e0 riqueza sen\'e3o para ter- me a mim. \~\~\~\~\~ Sa\'fade: - Sem mim n\'e3o h\'e1 vol\'fapia e a riqueza seria in\'fatil. \~\~\~\~\~ Virtude: - Acima da riqueza, da vol\'fapia e da sa\'fade estou eu, que embora com ouro, prazeres e sa\'fade pode haver infelicidade, se n\'e3o h\'e1 virtude. \

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\par \~\~\~\~\~ Teve o pomo a Virtude \~\~\~\~\~ A f\'e1bula \'e9 engenhosa, mas n\'e3o solve o problema absurdo do supremo bem. Virtude n\'e3o \'e9 bem, sen\'e3o dever. Pertence a plano superior. Nada tem que ver com as sensa\'e7\'f5es dolorosas ou agrad\'e1veis. Com c\'e1lculos e gota, sem arrimo, sem amigos, privado do necess\'e1rio, perseguido, agrilhoado por um tirano voluptuoso aboletado no fausto, o homem virtuoso \'e9 infelic\'edssimo, e o perseguidor insolente que acaricia uma nova amante em seu leito de p\'farpura, felic\'edssimo. Podeis dizer ser prefer\'edvel o s\'e1bio perseguido ao perseguidor impertinente. Podeis dizer amar a um e detestar ao outro. Mas esquece- vos que le sage dans les fers enrage. Se n\'e3o concordar o s\'e1bio, engana- vos: \'e9 um charlat\'e3o. \

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\par BEM (TUDO EST\'c1) \

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\par \~\~\~\~\~ Armou- se grande estardalha\'e7o nas escolas e at\'e9 entre as pessoas que raciocinam quando, parafraseando Plat\'e3o, lan\'e7ou Leibnitz seu edif\'edcio do melhor dos mundos poss\'edveis, dizendo que tudo corria \'e0s mil maravilhas (11). Afirmou ele no norte da Alemanha que Deus n\'e3o poderia fazer mais que um \'fanico mundo. Plat\'e3o pelo menos concedera- lhe a liberdade de fazer cinco, pela raz\'e3o de cinco serem os corpos s\'f3lidos regulares: tetraedro ou pir\'e2mide trifacial de base igual \'e0s faces, cubo, hexaedro, dodecaedro, icosaedro. Mas como o nosso mundo n\'e3o tem a forma de nenhum dos seus cinco s\'f3lidos, devia conceder a Deus uma sexta forma. \

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\par \~\~\~\~\~ Deixemos em paz o divino Plat\'e3o. Leibnitz, que certamente era melhor ge\'f4metra e mais profundo \

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\par metaf\'edsico que ele. prestou ao g\'eanero humano o servi\'e7o de lhe fazer ver que devemos estar content\'edssimos e ter sido imposs\'edvel a Deus fazer por n\'f3s mais do que fez. Que necessariamente Deus escolhera entre todos os partidos sem contradita o melhor. \

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\par \~\~\~\~\~- E o pecado original? - perguntavam- lhe. \~\~\~\~\~- Foi o que podia ser - explicavam Leibnitz e seus amigos. Mas praceiramente escrevia ele entrar o pecado original necessariamente no melhor dos mundos. \

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\par \~\~\~\~\~ Ora essa! Ser expulso de um lugar de del\'edcias onde se viveria eternamente se n\'e3o se tivesse comido uma ma\'e7\'e3! Como! Chafurdado na mis\'e9ria, p\'f4r no mundo filhos miser\'e1veis que tudo h\'e3o de sofrer, que tudo far\'e3o sofrer aos outros! Que! Padecer todas as doen\'e7as, sofrer todos os mart\'edrios, morrer na dor, e como refrig\'e9rio ser assado na eternidade dos s\'e9culos! Seria esse o melhor quinh\'e3o que tinha Deus para nos dar? Nada tem de bom para n\'f3s. E em que poderia t\'ea- lo para Deus? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Compreendia Leibnitz nada ter que responder. Escreveu tamb\'e9m ma\'e7udos livros, mas calou o ponto. \~\~\~\~\~ Negar a exist\'eancia do mal, pode neg\'e1- la rindo um Luculo refestelado na opul\'eancia, ap\'f3s lauto jantar libado em companhia dos amigos e da amante no sal\'e3o de Apolo. Mas que ponha a cabe\'e7a \'e0 janela. Ver\'e1 o que \'e9 o mundo. \

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\par \~\~\~\~\~ Repugna- me citar. \'c9 empresa de ordin\'e1rio espinhosa: negligencia- se o que precede e o que segue a cita\'e7\'e3o, e se exp\'f5e a querelas. Cumpre- me, todavia, citar Lact\'e2ncio, padre da igreja, que em seu cap\'edtulo 13, Da C\'f3lera de Deus, p\'f5e estas palavras na boca de Epicuro: "Ou Deus quer abolir o mal do mundo e n\'e3o pode; ou pode e n\'e3o quer; ou nem pode nem quer; ou enfim quer e pode. Se quer e n\'e3o pode \'e9 impotente, o que contradiz a natureza divina; se pode e n\'e3o quer, \'e9 mau, o que n\'e3o \'e9 menos contr\'e1rio \'e0 sua natureza; se n\'e3o quer nem pode, \'e9 a um tempo mau e impotente; se quer e pode (a \'fanica conjuntura que conv\'eam a Deus) qual ent\'e3o a origem do mal sobre a terra?" \

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\par \~\~\~\~\~ O argumento \'e9 instante. Lact\'e2ncio respondeu muito mal, dizendo que Deus quer o mal por\'e9m nos deu a sabedoria, com que podemos alcan\'e7ar o bem. A resposta \'e9 fraqu\'edssima. Sup\'f5e que Deus n\'e3o podia dar a sabedoria sen\'e3o de par com o mal. Demais n\'f3s possu\'edmos uma sabedoria agrad\'e1vel! \

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\par \~\~\~\~\~ A origem do mal foi sempre um abismo de que ningu\'e9m conseguiu lobrigar o fundo. Da\'ed tantos fil\'f3sofos e legisladores antigos se socorrerem de dois princ\'edpios, um do bem e outro do mal. Tif\'e3o era o princ\'edpio do mal entre os eg\'edpcios, Arim\'e3 entre os persas. Adotaram essa teologia, como se sabe, os maniqueus. Como por\'e9m anteriormente nunca falaram nem em um nem em outro desses princ\'edpios, conv\'eam n\'e3o lhes dar ouvidos. \

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\par \~\~\~\~\~ Entre os absurdos de que regurgita o mundo, n\'e3o \'e9 dos menores este, que pode entrar no rol dos nossos males: imaginar dois seres todo poderosos duelando- se para ver quem d\'e1 mais de si ao mundo, e acordando um conv\'eanio como os dois m\'e9dicos de Moli\'e8re Passe- me o em\'e9tico que lhe farei a sangria. \

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\par \~\~\~\~\~ Rasteando os platonistas, pretendeu Basil\'eddio no primeiro s\'e9culo da igreja que Deus acometera a tarefa de forjar o nosso mundo aos \'faltimos de seus anjos, os quais n\'e3o sendo l\'e1 muito peritos desalinhavaram as coisas como a\'ed est\'e3o. Refuta tal f\'e1bula teol\'f3gica esta obje\'e7\'e3o irretorqu\'edvel: n\'e3o \'e9 de \

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\par Deus onipotente e onisciente confiar a constru\'e7\'e3o de um mundo a arquitetos inaptos. \~\~\~\~\~ Sentindo a obje\'e7\'e3o, preveniu- a Sim\'e3o asseverando que em virtude do p\'e9ssimo desempenho da incumb\'eancia Deus condenou aos infernos o anjo que presidia \'e0 oficina celeste. Por mais esturricado que esteja, contudo, a condena\'e7\'e3o desse anjo n\'e3o nos cala o sofrimento. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o responde melhor \'e0 obje\'e7\'e3o a aventura de Pandora dos gregos. Inegavelmente a hist\'f3ria da boceta que encerra todos os males e em cujo fundo jaz a esperan\'e7a \'e9 uma bela alegoria. Mas essa tal Pandora, t\'ea- la Vulcano t\'e3o somente para fazer pique a Prometeu, que havia feito um homem de barro. \

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\par \~\~\~\~\~ Os hindus n\'e3o foram mais engenhosos: tendo criado o homem, Deus lhe deu uma droga que lhe asseguraria permanente sa\'fade; o homem carregou seu asno dessa droga, o asno ficou com sede, a serpente ensinou- lhe uma fonte: enquanto o asno bebia a serpente pilhou a droga. \

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\par \~\~\~\~\~ Imaginaram os s\'edrios que, tendo o homem e a mulher sido criados no quarto c\'e9u, quiseram comer de uma torta em vez de ambr\'f3sia, seu manjar natural. A ambr\'f3sia exalava- se pelos poros. Comendo a torta, por\'e9m, era preciso ir \'e0 secreta. O homem e a mulher pediram a um anjo lhes indicasse onde ficava tal reparti\'e7\'e3o do Para\'edso. - Est\'e3o vendo - disse- lhes o anjo - aquele planetinha insignificante, a uns sessenta milh\'f5es de l\'e9guas daqui? Pois \'e9 l\'e1. - Para l\'e1 se foram, e l\'e1 os deixaram. Desde ent\'e3o o mundo \'e9 o que \'e9. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 o caso de perguntar aos s\'edrios por que Deus permitiu que o homem comesse da torta e que temos n\'f3s que ver com o pato. \

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\par \~\~\~\~\~ Para nos forrarmos ao t\'e9dio, saltemos do quarto c\'e9u ao Sr. Bolingbroke. Este homem, incontestavelmente genial, deu ao c\'e9lebre Pope seu plano de tudo est\'e1 bem, que de fato l\'e1 vem palavra por palavra nas obras p\'f3stumas de Bolingbroke, e que anteriormente inserira Shaftesbury em seus Caracter\'edsticos. Leia- se o cap\'edtulo deste livro dedicado aos moralistas. L\'e1 se encontrar\'e1: \

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\par \~\~\~\~\~" H\'e1 muito que responder a essas lam\'farias sobre defeitos da natureza. Como saiu t\'e3o impotente e falha das m\'e3os de um ser perfeito? Mas eu nego que a natureza seja imperfeita... Sua beleza resulta das contrariedades. De perp\'e9tuo combate nasce a conc\'f3rdia universal... \'c9 preciso que cada ser seja imolado a outros: os vegetais aos animais, os animais \'e0 terra... Demais n\'e3o ser\'e1 por amor de miser\'e1vel verme que as leis do poder central e da gravita\'e7\'e3o, de que decorrem o peso e o movimento dos corpos celestes, ser\'e3o perturbadas. Miser\'e1vel verme que, por muito bem protegido que esteja por essas leis, longe n\'e3o est\'e1 o dia em que por elas mesmas ser\'e1 reduzido a p\'f3 de traque". \

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\par \~\~\~\~\~ Bolingbroke, Shaftesbury e Pope - lapid\'e1rio dos primeiros - n\'e3o solvem a quest\'e3o melhor que os outros. Seu tudo est\'e1 bem n\'e3o diz sen\'e3o que o todo \'e9 regido por leis imut\'e1veis. Quem n\'e3o sabe disso? Para ningu\'e9m \'e9 novidade saber, depois dos netos, que as moscas foram feitas para ser comidas pelas aranhas, as aranhas pelas andorinhas, as andorinhas pelas pegas, as pegas pelas \'e1guias, as \'e1guias para ser mortas pelos homens, os homens para matar- se uns aos outros, ser comidos pelos vermes e em seguida pelo diabo. \

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\par \~\~\~\~\~ Eis a\'ed ordem n\'edtida e constante entre os animais de todas as esp\'e9cies. Em tudo existe ordem. Quando se forma um c\'e1lculo em minha bexiga, verifica- se uma mec\'e2nica admir\'e1vel. Pouco a pouco aparecem no sangue sucos calculosos, que se filtram nos rins, passam pelas ur\'e9teres, caem na bexiga e ali se \

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\par depositam em virtude de excelente atra\'e7\'e3o newtoniana; forma- se a concre\'e7\'e3o, que cresce, e eu sofro dores mil vezes piores que a morte, por mais maravilhosamente ordenado que esteja o mundo. Um cirurgi\'e3o que aperfei\'e7oou a arte inventada por Tubalcain enterra- me um ferro agudo e trinchante no perineu, agarra o c\'e1lculo com suas tenazes: por um mecanismo necess\'e1rio, a pedra se desfaz sob seus esfor\'e7os. E pelo mesmo mecanismo necess\'e1rio entrego a alma ao diabo em meio de tormentos medonhos. Tudo isso est\'e1 bem. Tudo isso \'e9 conseq\'fc\'eancia evidente dos inalter\'e1veis princ\'edpios f\'edsicos. Reconhe\'e7o- o. Mas, como v\'f3s, j\'e1 o sabia \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se f\'f4ssemos insens\'edveis, nada haveria que dizer a esta f\'edsica. N\'e3o se trata disso, por\'e9m Pergunto- vos se n\'e3o existem males sens\'edveis, e de onde prov\'eaem. "N\'e3o existem males" - decreta Pope em sua quarta ep\'edstola acerca do tudo est\'e1 bem. "Ou, se os h\'e1 particulares, comp\'f5em o bem geral". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Singular bem geral, constitu\'eddo de c\'e1lculos, gota, de todos os crimes, de todos os sofrimentos, da morte e da condena\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A queda do homem \'e9 o emplasto que aplicamos a todas essas doen\'e7as particulares do corpo e do esp\'edrito, que v\'f3s chamais sa\'fade geral. Mas Shaftesbury e Bolingbroke escarnecem do pecado original. Pope n\'e3o se digna mencion\'e1- lo. \'c9 evidente que tal sistema solapa a religi\'e3o crist\'e3 nos alicerces, e n\'e3o explica coisa alguma. \

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\par \~\~\~\~\~ No entanto foi h\'e1 pouco aprovado por muitos te\'f3logos, que de bom grado admitem os contr\'e1rios. Assim sendo, a ningu\'e9m \'e9 preciso invejar o consolo de raciocinar como melhor puder sobre o dil\'favio de males que nos assoberba. Justo \'e9 conceder aos doentes sem esperan\'e7a que comam o que quiserem. Chegou- se at\'e9 a pretender ser esse sistema consolador. "Deus" - leciona Pope - v\'ea com os mesmos olhos morrer o her\'f3i e o pardal, precipitar- se na ru\'edna um \'e1tomo ou mil planetas, formar- se um mundo ou uma bolha de sab\'e3o". \

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\par \~\~\~\~\~ Deliciosa consola\'e7\'e3o! N\'e3o sentis grande lenitivo com o decreto do sr. Shaftesbury, que diz, Deus n\'e3o vai modificar suas leis eternas por um miser\'e1vel verme como o homem? Convenha- se contudo ter esse verme direito de lamentar- se humildemente e lamentando- se diligenciar compreender por que tais leis eternas n\'e3o foram feitas para bem de todos. \

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\par \~\~\~\~\~ O sistema do tudo est\'e1 bem apresenta o autor da natureza como um d\'e9spota poderoso e mau, pouco se incomodando que seus caprichos custem a vida a milhares de seres humanos, enquanto os restantes arrastam seus dias na pen\'faria e na dor. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Longe de consolar, a teoria do melhor dos mundos poss\'edvel \'e9 desesperadora. O problema do bem e do mal permanece um caos inextric\'e1vel para todos aqueles que perquirem de boa f\'e9. Para os polemistas, \'e9 um motivo de chiste: s\'e3o for\'e7ados brincando com os pr\'f3prios grilh\'f5es. Para o povo n\'e3o pensante, \'e9 o caso de peixes transportados de um rio para um reservat\'f3rio; n\'e3o alimentam a menor id\'e9ia que est\'e3o ali para ser comidos na quaresma. \

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\par \~\~\~\~\~ Nada sabemos do porqu\'ea do nosso destino. Cumpre subpor ao fim de quase todos os cap\'edtulos da metaf\'edsica as duas letras dos juizes romanos, quando n\'e3o entendiam uma causa: N. L., non liquet, - n\'e3o \'e9 claro. \

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\par CADEIA DOS ACONTECIMENTOS \

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\par \~\~\~\~\~ H\'e1 muito que se cr\'eaem os acontecimentos encadeados uns aos outros por invenc\'edvel fatalidade - o Destino - que \'e9 em Homero superior ao pr\'f3prio J\'fapiter. Sem refolhos confessava o soberano dos deuses e dos homens n\'e3o poder impedir que seu filho Sarp\'e9don morresse no prazo preestabelecido. No momento em que devia nascer Sarp\'e9don nascera, nem poderia deixar de ser assim. N\'e3o podia morrer em outro lugar sen\'e3o diante de Tr\'f3ia. N\'e3o podia ser enterrado sen\'e3o em L\'edcia. Seu corpo, no prazo preestabelecido, produziria legumes que se transmudariam em subst\'e2ncia de alguns licienses. Seus herdeiros haveriam de estabelecer nova ordem em seus estados. Essa nova ordem influiria nos reinos vizinhos. Do que resultariam novas disposi\'e7\'f5es de guerra e paz com os vizinhos dos vizinhos de Licia. E assim sucessivamente o destino da terra dependeu da morte de Sarp\'e9don, a qual dependeu de outro acontecimento, que por seu turno se ata por interm\'e9dio de outros \'e0 origem das coisas. \

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\par \~\~\~\~\~ Tivesse um \'fanico desses fatos acontecido diferentemente, outro fora o mundo. Ora, imposs\'edvel que o mundo atual existisse e n\'e3o existisse ao mesmo tempo: portanto imposs\'edvel fora a J\'fapiter salvar a vida do filho, por muito J\'fapiter que fosse. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz- se que este sistema da necessidade e fatalidade inventou- o Leibnitz em nossos dias, chamando- lhe raz\'e3o suficiente. Entretanto \'e9 antiqu\'edssimo. N\'e3o \'e9 de hoje que n\'e3o h\'e1 efeito sem causa e que muitas vezes a mais insignificante das causas produz os maiores efeitos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Conta o sr. Bolingbroke que lhe proporcionaram ocasi\'e3o de concertar o tratado particular da rainha Ana com Lu\'eds XIV as questi\'fanculas da sra. Marlborough e da sra. Masham. Esse tratado conduziu \'e0 paz de Utrecht. A paz de Utrecht firmou Filipe V no trono de Espanha. Filipe V conquistou N\'e1poles e Sic\'edlia \'e0 frente da casa da \'c1ustria. Deve o pr\'edncipe que \'e9 atualmente rei de N\'e1poles seu trono \'e0 sra Masbam. N\'e3o o seria, talvez nem existisse, se a duquesa de Marlborough tivesse sido mais complacente para com a rainha de Inglaterra. Sua exist\'eancia dependia em N\'e1poles de uma tolice a mais ou a menos na corte londrina. Examinai a situa\'e7\'e3o de todos os povos do mundo: \'e9 o que \'e9 por for\'e7a de uma s\'e9rie de acontecimentos aparentemente insulados, por\'e9m realmente bara\'e7ados em \'edntimo emaranhamento. S\'e3o tudo rodagens, pol\'e9s, cabos, molas dessa m\'e1quina colossal. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O mesmo sucede na ordem f\'edsica. Um vento que sopre do fundo da \'c1frica ou dos mares austrais acarreta parte da atmosfera africana que recai em chuva nos decl\'edvios dos Alpes. Essas chuvas fecundam nossas terras. Nosso vento do norte, por sua vez, leva nossos vapores daqui para o continente negro. N\'f3s beneficiamos a Guin\'e9 e a Guin\'e9 nos beneficia. A cadeia se estende de cabo a cabo do mundo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Parece- me contudo abusar- se demais desse princ\'edpio. Conclui- se n\'e3o haver e mais \'ednfimo \'e1tomo que n\'e3o tenha influ\'eddo na disposi\'e7\'e3o atual do mundo inteiro. Que n\'e3o h\'e1 o menor acidente, quer entre os homens, quer entre os animais, que n\'e3o seja anel essencial da grande cadeia do destino. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Entendo eu: todo efeito tem evidentemente sua causa, remontante de causa em causa at\'e9 o abismo da eternidade. Mas nem toda causa transmite seu efeito at\'e9 o fim dos s\'e9culos. Todo acontecimento decorre um de outro, admito. O presente sai do passado. O futuro sair\'e1 do presente. Tudo tem pai. Mas nem tudo tem filhos. Precisamente como numa \'e1rvore geneal\'f3gica: toda fam\'edlia remonta, como \'e9 sabido, a Ad\'e3o, \

\par \

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\par \

\par mas na fam\'edlia muitos indiv\'edduos morrem sem deixar posteridade. \~\~\~\~\~ Existe uma \'e1rvore geneal\'f3gica dos acontecimentos. Incontestavelmente os habitantes das G\'e1lias e de Espanha descendem de Gomer e os russos de Magogue, seu irm\'e3o mais novo: encontra- se esta genealogia em tantos livros ma\'e7udos! Nesse p\'e9, n\'e3o h\'e1 negar devermos a Magogue os sessenta mil russos em armas hoje \'e0s portas da Pomer\'e2nia e os sessenta mil franceses que combatem nas abas de Francfort. Mas que Magogue haja expectorado \'e0 direita ou \'e0 esquerda ao p\'e9 do C\'e1ucaso, tenha dado duas ou tr\'eas voltas em redor de um po\'e7o, haja dormido do lado esquerdo ou direito, n\'e3o vejo como possa isso ter influ\'eddo capitalmente na resolu\'e7\'e3o tomada pela imperatriz da R\'fassia Elizabete de enviar um ex\'e9rcito em socorro da imperatriz romana Maria Teresa. Que meu c\'e3o sonhe ou n\'e3o quando dorme, n\'e3o percebo que rela\'e7\'e3o poder\'e1 ter t\'e3o importante fato com os neg\'f3cios do gr\'e3o mogol. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 necess\'e1rio atentar em que nem tudo \'e9 cheio na natureza e que nem todo movimento se transmite consecutivamente at\'e9 descrever a volta ao mundo. Lance- se n'\'e1gua um corpo de mesma densidade. Facilmente se compreender\'e1 que ao cabo de algum tempo assim o movimento do corpo como aquele que comunicou \'e0 \'e1gua se extinguem. O movimento consome- se e repara- se. Por conseguinte o movimento que possa ter produzido Magogue escarrando num po\'e7o n\'e3o pode ter influ\'eancia no que hoje se passa. na R\'fassia e na Pr\'fassia. Nem todos os acontecimentos pret\'e9ritos s\'e3o pais dos acontecimentos presentes. Todo acontecimento atual prov\'e9m em linhas diretas do passado. Por\'e9m milhares de linhas colaterais h\'e1 que em nada os interessam. Repitamos: tudo tem pai, mas nem tudo tem filhos. Retornaremos ao assunto ao falar do Destino. \

\par \

\par CAR\'c1TER \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A palavra grega impress\'e3o, gravura. \'c9 o que em n\'f3s gravou a natureza. Podemos apag\'e1- lo? Transcendental quest\'e3o. Se tenho o nariz de esconso e olhos de gato, posso escond\'ea- los sob uma m\'e1scara. Poderei encobrir melhor o car\'e1ter? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Apresenta- se perante Francisco I de Fran\'e7a, a fim de queixar- se de uma preteri\'e7\'e3o, um indiv\'edduo de natural violento e impetuoso. O semblante do pr\'edncipe, a postura respeitosa dos cortes\'e3os, o local mesmo impressionam- no fundamente. Maquinalmente baixa os olhos, a voz rude se abranda e faz o pedido humildemente. Crer- se- ia nascido t\'e3o manso quanto os cortes\'e3os em meio dos quais parece quase desconsertado. Entretanto facilmente descobre Francisco I em seus olhos baixos, por\'e9m acesos de um fogo sombrio, nos m\'fasculos retesos do rosto, nos l\'e1bios contracerrados, que esse homem n\'e3o \'e9 t\'e3o humilde como aparenta. Esse homem acompanha- o a P\'e1via, \'e9 aprisionado com ele e com ele levado para Madri. J\'e1 n\'e3o lhe infunde a mesma impress\'e3o a majestade do rei. Familiariza- se com o objeto de seu respeito. Um dia, ao descal\'e7ar- lhe as botas, e fazendo- o desleixadamente, Francisco, azedado pelo infort\'fanio, ralha- lhe. Nosso homem manda o rei plantar batatas e atira as botas pela janela. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nascera Sixto Quinto petulante, opini\'e1tico, soberbo, impetuoso, vingativo, arrogante. As provas do noviciado parecem ter- lhe ado\'e7ado o car\'e1ter. Mal come\'e7a a desfrutar de certo cr\'e9dito em sua ordem, lan\'e7a- se contra um guardi\'e3o e alomba- o a punhadas. Inquisidor em Veneza, exerce o cargo com insol\'eancia. Cardeal, \'e9 possu\'eddo della rabbia papale. Embu\'e7a na obscuridade sua pessoa e seu car\'e1ter. \

\par \

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\par \

\par Mascara- se de humilde e moribundo. Elegem- no papa: \'e9 quando d\'e1 \'e0 mola do natural toda a elasticidade longo tempo retesada pela pol\'edtica. \'c9 o mais arrogante e desp\'f3tico dos soberanos. \

\par \

\par Naturam expellas furca, tamen usque recurret. \~\~\~\~\~ Religi\'e3o, moral, s\'e3o freios retentores do car\'e1ter. N\'e3o podem, por\'e9m, mat\'e1- lo. Enclausurado, reduzido a dois dedos de sidra \'e0s refei\'e7\'f5es, pode o b\'eabedo deixar de embriagar- se, mas ansiar\'e1 sempre pelo vinho. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A idade amolenta o car\'e1ter. Transforma- o em uma \'e1rvore que n\'e3o d\'e1 sen\'e3o um ou outro fruto abastardado, mas sempre da mesma natureza. Enodoa- se, cobre- se de musgo, caruncha. Jamais deixar\'e1 de ser carvalho ou pereira, por\'e9m. Se fosse poss\'edvel alterar o car\'e1ter, a gente mesmo o plasmaria a bel prazer, seria senhor da natureza. Podemos l\'e1 criar alguma coisa? N\'e3o recebemos tudo? Experimentai animar o indolente de cont\'ednua atividade, inspirar gosto \'e0 musica a quem care\'e7a de gosto e de ouvido. N\'e3o tereis melhor resultado do que se empreenderdes dar vista a cego de nascen\'e7a. N\'f3s aperfei\'e7oamos, esborcelamos, embu\'e7amos o que nos estereogravou a natureza. N\'e3o h\'e1, por\'e9m, alterar- lhe a obra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Direis a um criador: - O Sr. tem peixe demais nesse viveiro; assim eles n\'e3o vingam. Seus campos est\'e3o sobrelotados de gado; o capim n\'e3o d\'e1, os animais emagrecer\'e3o. - Com isso deixa o nosso homem que as solhas lhe comam metade das carpas, e os lobos metade dos carneiros. Os restantes engordam. Gabar- se- \'e1 ele dessa economia? Este campon\'eas \'e9s tu mesmo. Uma de tuas paix\'f5es devorou as outras, e tu julgas haver triunfado sobre ti pr\'f3prio. N\'e3o parecemos quase todos n\'f3s com aquele velho general de noventa anos que, encontrando alguns jovens oficiais mexendo com umas mo\'e7as, perguntou- lhes col\'e9rico: "Senhores, \'e9 esse o exemplo que lhes dou?". \

\par \

\par CATECISMO CHIN\'caS \

\par \

\par (Ou di\'e1logos de Cu Su, disc\'edpulo de Cong- fu- tseu, com o pr\'edncipe Cu, filho do rei de Lou, tribut\'e1rio do imperador \'e7hin\'eas Gnenv\'e3, 417 anos antes da nossa era. Traduzido em latim pelo padre Fouquet ex- jesu\'edta. Encontra- se o manuscrito na biblioteca do Vaticano, n\'famero 42.759). \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que devo entender quando me dizem que adore o c\'e9u (Chang ti)? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se trata do c\'e9u material que vemos, que n\'e3o \'e9 outra coisa sen\'e3o ar, composi\'e7\'e3o de todas as \

\par \

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\par \

\par emana\'e7\'f5es da terra. Imenso disparate seria adorar vapores. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pois n\'e3o me surpreenderia. Parece- me que os homens cometeram disparates ainda maiores. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De fato. Mas v\'f3s estais destinado a governar. Cumpre- vos ser s\'e1bio. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 tantos povos que adoram o c\'e9u e os planetas! \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os planetas n\'e3o passam de mundos como o nosso. Temos tanto motivo para adorar a areia e o barro da Lua, por exemplo, como a Lua para se p\'f4r de joelhos diante da areia e do barro da Terra. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que se quer dizer quando se fala: O c\'e9u e a terra, acenda ao c\'e9u, seja digno do c\'e9u? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz- se tremenda asneira. N\'e3o existe c\'e9u: cada planeta \'e9 circundado como que de uma casca chamada atmosfera, e gira no espa\'e7o em torno de seu sol. Cada sol \'e9 centro de por\'e7\'e3o de planetas que o acompanham espa\'e7o em fora. N\'e3o existe alto nem baixo, subida nem descida. Compreendeis que se habitantes da Lua dissessem que se sobe para a Terra, que era preciso tornar- se digno da Terra, diriam \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (36 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

\par \

\par um absurdo. Da mesma forma proferimos uma frase sem nexo quando dizemos ser necess\'e1rio fazer- se digno do c\'e9u. \'c9 como se diss\'e9ssemos: \'e9 preciso tornar- se digno do ar, digno da constela\'e7\'e3o do Drag\'e3o, digno do espa\'e7o. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Creio compreender. Devemos adorar somente o Deus que criou o c\'e9u e a terra. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Isso! S\'f3 Deus merece ser adorado. Mas quando dizemos que Deus fez o c\'e9u e a terra, piamente proferimos uma grande ingenuidade. Porque, se por c\'e9u entendemos o espa\'e7o portentoso em que Deus acendeu tantos s\'f3is e fez girar tantos mundos, \'e9 mais rid\'edculo dizer o c\'e9u o a terra do que dizer as montanhas e um gr\'e3o de areia. Infinitamente menor que um gr\'e3o de areia \'e9 o nosso globo perto desses quintilh\'f5es de mundos, em meio aos quais desaparecemos. Tudo o que podemos fazer \'e9 juntar nossa d\'e9bil voz ao coro dos seres incont\'e1veis que no abismo da amplid\'e3o rendem homenagem a Deus. \

\par \

\par C. \

\par \

\par Ent\'e3o enganaram- nos quando nos disseram que Fo desceu do quarto c\'e9u e se nos apresentou sob a forma de um elefante branco? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Isso s\'e3o hist\'f3rias que os bonzos contam \'e0s crian\'e7as e aos velhos. N\'e3o devemos adorar sen\'e3o o autor eterno de todos os seres. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas como p\'f4de um ser fazer os outros? \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (37 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Olhai aquela estrela - Acha- se a um trilh\'e3o e quinhentos bilh\'f5es de lis( 12) do nosso min\'fasculo globo. Dela projetam- se raios que v\'eam formar em nossos olhos dois \'e2ngulos iguais pelo v\'e9rtice. Os mesmos \'e2ngulos formam nos olhos de todos os animais. N\'e3o vedes nisso um des\'edgnio evidente? N\'e3o vedes nisso uma lei admir\'e1vel? Ora, quem faz uma obra sen\'e3o um obreiro? Quem elabora leis sen\'e3o um legislador? Existe pois um obreiro, um legislador eterno. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas quem fez esse obreiro? Como \'e9 ele? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Meu pr\'edncipe, passeando ontem pelos arredores do pal\'e1cio mandado construir pelo rei vosso pai, ouvi dois grilos conversando, um dos quais dizia: - Que pal\'e1cio formid\'e1vel! - Sim, - disse o outro - com toda a minha presun\'e7\'e3o confesso que deve ser algu\'e9m mais poderoso que os grilos o autor de tal prod\'edgio. Mas nem imagino quem seja. Vejo que h\'e1 de existir, mas n\'e3o sei quem \'e9. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confesso serdes um grilo mais entendido que eu. O que me agrada em v\'f3s \'e9 n\'e3o pretenderdes saber o que ignorais. \

\par \

\par Segundo di\'e1logo C. S. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (38 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ent\'e3o convindes haja um ser todo poderoso, existente por si pr\'f3prio, supremo artes\'e3o de toda a natureza? \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sim. Mas se existe por si mesmo nada pode demarc\'e1- lo, est\'e1 em toda parte. Acha- se ent\'e3o em toda a mat\'e9ria, em todas as partes de mim mesmo? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por que n\'e3o? \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nesse caso eu pr\'f3prio seria parte da divindade. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o me parece certa a conclus\'e3o. Este caco de vidro \'e9 de todos os lados penetrado pela luz. Entanto ser\'e1 ele luz? N\'e3o; \'e9 simplesmente areia. Tudo est\'e1 em Deus, n\'e3o resta d\'favida: o que tudo anima em tudo deve estar. Deus n\'e3o \'e9 como o imperador da China, que mora em um pal\'e1cio e transmite suas ordens por calao. Desde que exista, necess\'e1rio \'e9 que sua exist\'eancia encha todo o espa\'e7o e todas as suas obras. E j\'e1 que est\'e1 em v\'f3s \'e9 uma advert\'eancia cont\'ednua para que nada fa\'e7ais que vos possa envergonhar em sua presen\'e7a. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que fazer para ousar olhar- se a si mesmo sem repugn\'e2ncia e sem pejo diante do ser supremo? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (39 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ser justo. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que mais? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ser justo. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas diz a seita de Lao Quium n\'e3o existir justi\'e7a nem injusti\'e7a, v\'edcio nem virtude. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz a seita de Lao Quium n\'e3o existir sa\'fade nem doen\'e7a? \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o, ela n\'e3o diria tamanho absurdo. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Absurdo t\'e3o grande e mais funesto \'e9 pensar n\'e3o existir sa\'fade nem mol\'e9stia da alma, virtude nem v\'edcio. Os que disseram ser tudo a mesma coisa s\'e3o monstros. Ser\'e1 a mesma coisa criar o filho ou esmag\'e1- lo em cima de uma pedra? Assistir \'e0 m\'e3e ou cravar- lhe um punhal no cora\'e7\'e3o? \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (40 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Fazeis- me estremecer. Eu execro a seita de Lao Quium. Mas s\'e3o tantos os matizes do justo e do injusto! As vezes fica- se perplexo. Quem saber\'e1 precisamente o que \'e9 permitido e o que n\'e3o o \'e9? Quem ser\'e1 capaz de estabelecer seguramente as fronteiras que separam o bem do mal? Que norma me dais para discerni- los? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ As normas de Cong- fu- tseu, meu mestre: "Vive como ao morrer desejarias ter vivido. Trata o pr\'f3ximo como queres que ele te trate" \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confesso que tais m\'e1ximas devem ser o c\'f3digo do g\'eanero humano. Mas que me importar\'e1 ao morrer ter bem vivido? Que ganharei com isso? Acaso, ao se quebrar, se sentir\'e1 feliz aquele rel\'f3gio por haver bem soado as horas? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Aquele rel\'f3gio n\'e3o sente, n\'e3o pensa N\'e3o pode ter remorsos, ao passo que v\'f3s os tendes quando vos sentis culpado. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E se, ap\'f3s cometer muitos crimes, vier a n\'e3o mais os sentir? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (41 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 57] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nesse caso seria preciso reprimir- vos. E ficai certo que entre os homens que n\'e3o gostam de ser oprimidos algu\'e9m haveria que vos tolheria as m\'e3os. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quer dizer que Deus, que est\'e1 neles, consentiria que fossem maus depois de t\'ea- lo permitido a mim? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Deus vos galardoou com a raz\'e3o: que dela n\'e3o abuseis nem v\'f3s nem eles. N\'e3o somente ser\'edeis infeliz nesta vida, como ainda quem vos disse n\'e3o o ser\'edeis em outra? \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quem vos disse existir outra vida? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Na d\'favida, procedei como se existisse. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se eu tivesse certeza de que n\'e3o existe? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Desafio- vos. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (42 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par Terceiro di\'e1logo C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas para poder ser punido ou recompensado quando deixar de existir, for\'e7oso \'e9 que subsista em mim algo que sinta e que pense. Ora, se antes de nascer nada de mim havia que sentisse ou pensasse, como haver\'e1 depois que morrer? Que poderia ser essa parte inconcept\'edvel de mim mesmo? Subsistir\'e1 o zumbido daquela abelha \'e0 sua morte? Subsistir\'e1 a vegeta\'e7\'e3o desta planta a seu desarraigamento? Vegeta\'e7\'e3o n\'e3o \'e9 uma palavra de que nos servimos para exprimir a maneira inexplic\'e1vel como quis o Ser Supremo que a planta absorvesse os sucos da terra? Tal e qual, alma \'e9 uma palavra inventada para exprimir pobremente e obscuramente os princ\'edpios essenciais da vida humana. Todos os animais se movem. A esse poder de mover- se chamamos for\'e7a ativa. Mas n\'e3o existe um ser distinto - for\'e7a ativa. Temos paix\'f5es, mem\'f3ria, raz\'e3o. Por\'e9m raz\'e3o, mem\'f3ria, paix\'f5es n\'e3o s\'e3o, \'e9 claro, coisas a parte. N\'e3o s\'e3o seres em n\'f3s existentes. N\'e3o s\'e3o indiv\'edduos de exist\'eancia pr\'f3pria: s\'e3o termos gen\'e9ricos por n\'f3s inventados para expressarmos nossas id\'e9ias. Alma - mem\'f3ria, raz\'e3o, paix\'f5es - n\'e3o passa pois de uma palavra. Quem anima a natureza de movimento? Deus. Quem faz vegetar as plantas? Deus. Quem d\'e1 vida aos animais? Deus. Quem gera o pensamento humano? Deus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se a alma humana fosse um an\'e3ozinho que habitasse o nosso corpo, governando- nos os movimentos e as id\'e9ias, n\'e3o denotaria isso impot\'eancia e artif\'edcio indignos do eterno artes\'e3o do mundo? N\'e3o seria ele capaz de fazer \'e1tomos por si pr\'f3prios dotados de movimento e pensamento? Ensinastes- me grego, fizestes- me ler Homero. Reputo Vulcano um ferreiro divino quando faz tr\'edpodas de ouro que se apresentam sozinhas perante o conselho dos deuses. Vil charlat\'e3o parecer- me- ia por\'e9m se houvesse escondido no corpo das tr\'edpodas um moleque que, sem que ningu\'e9m percebesse, as fizesse mover- se. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Criaram frios sonhadores a fantasia de atribuir o movimento dos astros a g\'eanios que incessantemente os impelissem espa\'e7o em fora. Mas Deus n\'e3o poderia ver- se reduzido a t\'e3o m\'edsero recurso. Em uma palavra, para que duas molas quando basta uma? N\'e3o ousareis negar tenha Deus o poder de animar o ente pouco conhecido a que chamamos mat\'e9ria. Por que ent\'e3o haveria de recorrer a outro agente? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mais: que seria essa alma que t\'e3o liberalmente dais ao nosso corpo? De onde veio? Quando? Seria preciso plantar- se tempo sem tempo o Criador do universo a coca da uni\'e3o de homem e mulher, observando atentamente o instante em que sa\'edsse um germe do corpo do homem e entrasse no corpo da mulher para ent\'e3o enviar- lhe \'e0s pressas uma alma? E se o germe morresse, que seria da alma? Teria sido criada inutilmente, ou esperaria outra oportunidade. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Estranha ocupa\'e7\'e3o para o senhor do mundo. Tanto mais que n\'e3o se veria abarbado apenas com as c\'f3pulas da esp\'e9cie humana: precisaria ter olhos para a reprodu\'e7\'e3o de todos os animais, porque todos os animais t\'eam mem\'f3ria, id\'e9ias, paix\'f5es. E se para criar sentimentos, mem\'f3ria, id\'e9ias, paix\'f5es fosse necess\'e1ria uma alma, cumpriria a Deus afanar- se incessantemente a forjar almas para elefantes, pulgas, mochos, peixes, bonzos. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (43 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~ Que id\'e9ia ter\'edeis do arquiteto de tantos milh\'f5es de mundos apeado a fazer cavilhas invis\'edveis da manh\'e3 \'e0 noite a fim de perpetuar sua obra? \

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\par \~\~\~\~\~ A\'ed tendes \'ednfima parte das raz\'f5es que me fazem duvidar da exist\'eancia da alma. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Raciocinais de boa f\'e9. E vosso sincero parecer, err\'f4neo embora, h\'e1 de ser grato ao Ser Supremo. Podeis enganar- vos, mas n\'e3o o procurais. Sois, pois, desculp\'e1vel. Mas vede que n\'e3o me propusestes sen\'e3o d\'favidas, e d\'favidas tristes. Admiti verossimilhan\'e7as mais consoladoras. \'c9 duro ser aniquilado; esperai viver. Sabeis que um pensamento n\'e3o \'e9 mat\'e9ria, nada tem que ver com a mat\'e9ria: por que h\'e1 de ser t\'e3o dif\'edcil crerdes que Deus vos haja inoculado um princ\'edpio divino que - indissol\'favel - escape \'e9 morte? Ousareis dizer imposs\'edvel terdes uma alma? N\'e3o, certamente. E sendo poss\'edvel, n\'e3o ser\'e1 muito prov\'e1vel? Enjeitareis um sistema t\'e3o belo e t\'e3o necess\'e1rio ao g\'eanero humano? Por somenos impedimentos? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Grato ser- me- ia abra\'e7ar tal sistema, de vez que me fosse provado. N\'e3o sou. senhor de ver o que n\'e3o enxergo. Sempre me impressionou a id\'e9ia grandiosa de que Deus tudo criou, em tudo est\'e1, tudo penetra, a tudo inspira vida e movimento. E se, estando em toda a natureza, se acha em todas as part\'edculas do meu ser, n\'e3o vejo que necessidade tenho de uma alma. Para que um pequeno ente subalterno, quando sou animado do pr\'f3prio Deus? De que me serviria essa alma? Nossas pr\'f3prias id\'e9ias, n\'e3o somos n\'f3s quem as elaboramos: acodem- nos n\'e3o raro a despeito de n\'f3s mesmos; temo- las enquanto dormimos. Tudo em n\'f3s se opera sem a nossa interven\'e7\'e3o. Por mais que a alma dissesse ao sangue e aos esp\'edritos animais: Circulai, pe\'e7o- vos, de tal ou tal maneira, eles circulariam eternamente e impassivelmente da forma que Deus lhes ditou. Prefiro ser m\'e1quina de um Deus que se me evidencia a s\'ea- la de uma alma de cuja exist\'eancia duvido. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Pois bem! Se vos anima o pr\'f3prio Deus, nunca profaneis com crimes a sua presen\'e7a. E se vos deu uma alma, que essa alma jamais o ofenda. Num sistema como noutro tendes vontade. Sois livre, dispondes do poder de fazer o que quiserdes; usai desse poder para servir a Deus que vo- lo outorgou. Bom \'e9 que sejais fil\'f3sofo: necess\'e1rio que sejais justo. S\'ea- lo- eis ainda mais quando crerdes possuir uma alma imortal. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (44 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~ Dignai- vos responder- me: n\'e3o \'e9 verdade ser Deus a suma justi\'e7a? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Sem d\'favida. E ainda que fosse poss\'edvel deixar de s\'ea- la (o que \'e9 uma blasf\'eamia) eu mesmo quereria proceder com eq\'fcidade. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Quando estiverdes no trono, n\'e3o \'e9 verdade ser vosso dever recompensar as a\'e7\'f5es virtuosas e punir as culposas? Querer\'edeis que Deus n\'e3o fizesse o que v\'f3s mesmo fareis? Sabeis que h\'e1 e sempre haver\'e1 nesta vida virtudes infelizes e crimes impunes. Necess\'e1rio \'e9 pois que bem e mal encontrem seu julgamento em outra exist\'eancia. Foi esta id\'e9ia t\'e3o simples, t\'e3o natural, t\'e3o geral que gerou em tantas na\'e7\'f5es a cren\'e7a da imortalidade da alma e da justi\'e7a divina, que a julgar\'e1 quando se despir do despojo mortal. Haver\'e1 sistema mais razo\'e1vel, mais conforme \'e0 Divindade e mais \'fatil ao g\'eanero humano? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Por que ent\'e3o muitas na\'e7\'f5es n\'e3o o abra\'e7aram? Sabeis haver em nossa prov\'edncia coisa de duzentas fam\'edlias de antigos sin\'fas( 13) que habitaram outrora parte da Ar\'e1bia P\'e9trea. Pois nem eles nem seus avitos jamais creram a alma imortal. T\'eam seus Cinco Livros, como n\'f3s temos nossos Cinco Quings( 14). Li- lhes a tradu\'e7\'e3o; suas leis, necessariamente semelhantes \'e0s de todos os outros povos, ordenam- lhes respeitar os pais, n\'e3o furtar, n\'e3o mentir, n\'e3o cometer o adult\'e9rio nem o homic\'eddio. N\'e3o lhes falam, por\'e9m, de recompensas e castigos em outra vida. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Se essa id\'e9ia ainda n\'e3o se desenvolveu nesse pobre povo, desenvolver- se- \'e1 sem d\'favida algum dia. Demais, que nos importa uma insignificante e miser\'e1vel na\'e7\'e3o quando babil\'f4nios, eg\'edpcios, hindus, todos os povos civilizados admitiram esse dogma t\'e3o salutar? Se estiv\'e9sseis doente, refugar\'edeis um rem\'e9dio aprovado por todos os chineses s\'f3 porque meia d\'fazia de b\'e1rbaros das montanhas n\'e3o o tomariam? Deus concedeu- vos a raz\'e3o, e diz- vos a raz\'e3o que a alma deve ser imortal. \'c9 o pr\'f3prio Deus que vo- lo diz, portanto. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (45 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas como poderei ser recompensado ou punido quando j\'e1 n\'e3o for eu mesmo, quando nada existir do que constitui a minha pessoa? T\'e3o somente por for\'e7a da mem\'f3ria \'e9 que sou sempre eu mesmo. Ora, a mem\'f3ria, perd\'ea- la- ei na derradeira doen\'e7a. Haver\'e1 ent\'e3o um milagre depois de minha morte que ma restitua, para que eu retorne \'e0 exist\'eancia? \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Nesse caso um pr\'edncipe que houvesse decapitado a fam\'edlia para reinar, tiranizado os s\'faditos, eximir- se- ia de culpa dizendo a Deus: - N\'e3o fui eu, eu perdi a mem\'f3ria, v\'f3s vos equivocais, eu j\'e1 n\'e3o sou a mesma pessoa. - Julgais que Deus se daria por achado com semelhante sofisma? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Pois bem. Seja, rendo- me. Se praticaria o bem por mim pr\'f3prio, f\'e1- lo- ei igualmente para comprazer ao Ser Supremo. Eu pensava bastar minha alma ser justa nesta vida para ser feliz em outra. Vejo que tal opini\'e3o \'e9 boa para os povos e para os pr\'edncipes, mas o culto de Deus me preocupa. \

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\par Quarto di\'e1logo C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Que achais de esquisito em nosso Chu Quing, esse primeiro livro can\'f4nico t\'e3o respeitado por todos os imperadores chineses? Para servir de exemplo ao povo trabalhais um campo com as pr\'f3prias m\'e3os reais e dele ofertais as prim\'edcias a Chang- ti, a Tien, ao Ser Supremo. A ele sacrificais quatro vezes ao ano. Sois rei e pont\'edfice. Prometeis a Deus todo o bem que estiver em vosso poder. N\'e3o h\'e1 nisso algo que repugne? \

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\par C. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (46 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~ Sei que Deus n\'e3o tem nenhuma necessidade de nossos sacrif\'edcios e de nossas preces. N\'f3s \'e9 que temos precis\'e3o de nos sacrificarmos e de orar. O culto de Deus n\'e3o foi estabelecido por ele, mas por n\'f3s. Muito me apraz orar, e quero sobretudo que minhas ora\'e7\'f5es n\'e3o sejam rid\'edculas. Porque se me ponho a gritar que "a montanha do Chang- ti \'e9 uma montanha gorda, \'e9 que n\'e3o se deve olhar para as montanhas gordas,"( 15) e fa\'e7o fugir o Sol e apagar a Lua, seriam essas algarvias do agrado do Ser Supremo, \'fateis a meus s\'fadito e a mim mesmo? \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o suporto principalmente a dem\'eancia das seitas. De um lado vejo Lao Tseu concebido pela uni\'e3o do c\'e9u e da terra e cuja m\'e3e o carregou no ventre durante oitenta anos. N\'e3o tenho mais f\'e9 em sua doutrina do aniquilamento e da ren\'fancia universal que nos cabelos brancos com que nasceu ou na vaca preta que montou para ir pregar sua doutrina. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o creio mais no deus Fo, ainda que tenha tido por pai um elefante branco e prometa a vida eterna. \~\~\~\~\~ Mais que tudo me desagrada serem tais fantasias continuamente pregadas pelos bonzos, que seduzem o povo para govern\'e1- lo. Fazem- se respeit\'e1veis por mortifica\'e7\'f5es que repugnam \'e0 natureza. Uns se privam toda a vida dos alimentos mais salutares, como se n\'e3o se pudesse agradar a Deus sen\'e3o com um mau regime. Outros p\'f5em argolas de ferro no pesco\'e7o, o que por vezes lhes d\'e1 um ar dign\'edssimo. Enterram cravos nas coxas, como se fossem t\'e1buas. E o povo segue- os em chusma. Se um rei decreta um \'e9dito que os desagrada, dizem- vos friamente que tal \'e9dito n\'e3o se encontra no coment\'e1rio do deus Fo, e que mais vale obedecer a Deus que aos homens. Como remediar t\'e3o extravagante e nociva doen\'e7a popular? Sabeis ser a toler\'e2ncia o princ\'edpio do governo da China como de todos os povos da \'c1sia. N\'e3o vos parece, por\'e9m, funesta semelhante indulg\'eancia, quando exp\'f5e um imp\'e9rio a ser transtornado por opini\'f5es fan\'e1ticas? \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Que o Chang- ti me livre de querer desenvolver em v\'f3s o esp\'edrito de toler\'e2ncia, virtude t\'e3o respeit\'e1vel, que \'e9 para a alma o que \'e9 para o corpo a liberdade de saciar a fome. Permite a lei natural a cada um crer o que quiser, como se alimentar do que bem entender. O m\'e9dico n\'e3o pode matar os clientes por n\'e3o terem observado a dieta prescrita. N\'e3o assiste ao pr\'edncipe o direito de mandar prender os s\'fadito que n\'e3o pensarem como ele. Mas cumpre- lhe prevenir perturba\'e7\'f5es, e se for s\'e1bio, fac\'edlimo lhe ser\'e1 extirpar as supersti\'e7\'f5es. Sabeis o que se passou com Da\'e3o, sexto rei da Cald\'e9ia, h\'e1 cerca de quatro mil anos? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o. Dar- me- eis prazer contando- mo. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (47 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Os sacerdotes caldeus adoravam as solhas do Eufrates. Diziam que uma solha memor\'e1vel - Oan\'e9s ensinara- lhes outrora a teologia, que essa solha era imortal, tinha tr\'eas p\'e9s de comprido e um pequeno crescente na cauda. Por amor de Oan\'e9s era proibido comer solhas. Levantou- se grande barulho entre os te\'f3logos a fim de saber se a solha Oan\'e9s era macho ou f\'eamea Os dois partidos se excomungaram reciprocamente e por n\'e3o poucas vezes chegou- se a vias de fato. Eis o que fez o rei Da\'e3o para p\'f4r termo \'e0 referta. \

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\par \~\~\~\~\~ Ordenou a ambas as fac\'e7\'f5es um rigoroso jejum de tr\'eas dias, findo o qual chamou \'e0 sua presen\'e7a os partid\'e1rios da solha f\'eamea, que assistiram a seu jantar. Mandou trazer uma solha de tr\'eas p\'eas de comprimento, em cuja cauda fizera desenhar um crescente. \

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\par \~\~\~\~\~- \'c9 este o vosso deus? - perguntou aos doutores. \~\~\~\~\~- Sim, majestade. Tem o crescente na cauda e seguramente h\'e1 de ter ovas. \~\~\~\~\~ Ordenou o rei que se abrisse a solha, que se evidenciou macho. \~\~\~\~\~-. Estais vendo n\'e3o ser o vosso deus, pois n\'e3o tem ovas, - concluiu o rei. E comeu- a com seus s\'e1trapas, com grande regozijo dos te\'f3logos das ovas, que viam frito o deus dos advers\'e1rios. \

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\par \~\~\~\~\~ Em seguida mandou virem os doutores do outro partido. Mostrou- lhes um deus de tr\'eas p\'e9s de longo, com um crescente na cauda e que tinha ovas. Afirmaram os doutores ser o deus Oan\'e9s, e que era macho. Como da primeira vez, o rei mandou frit\'e1- lo e viu- se que era f\'eamea. Ent\'e3o, evidenciando- se ambos os partidos igualmente tolos, e como n\'e3o tivessem almo\'e7ado, disse- lhes o bom rei Da\'e3o que n\'e3o tinha sen\'e3o solhas para dar- lhes de jantar. E os doutores comeram- nas gulosamente, fossem f\'eameas ou machos. Terminou a guerra civil, todos bendisseram o rei e de ent\'e3o em diante toda gente fez servir \'e0 mesa quantas solhas lhe aprouvesse. \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Muito simpatizo com o rei Da\'e3o. Prometo imit\'e1- lo na primeira ocasi\'e3o que se apresentar. Sem viol\'eancias, hei de impedir o quanto possa que se adorem Fos e solhas. \

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\par \~\~\~\~\~ Sei que existem em Peg\'fa e Tonquim pequenos deuses e talap\'f5es que dizem fazer baixar a lua no minguante e predizer claramente o futuro, isto \'e9, verdadeiramente o que n\'e3o existe, porque o futuro n\'e3o existe. No que de mim depender, vedarei aos talap\'f5es virem ao meu imp\'e9rio inventar o futuro e arriar \'e0 lua. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (48 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~ Que humilha\'e7\'e3o haver seitas que v\'e3o de cidade em cidade a propagar seus mitos, como charlat\'e3es vendendo suas drogas! Que opr\'f3brio para o esp\'edrito humano presumirem na\'e7\'f5ezinhas insignificantes ser a verdade exclusividade sua, e que o vasto imp\'e9rio da China chafurde no erro! Ent\'e3o n\'e3o seria o Ser Supremo sen\'e3o o deus da ilha Formosa ou de Born\'e9u? Abandonaria o resto do mundo ? Meu caro Cu Su, ele \'e9 o pai de todos os homens. A todos permite comer solhas. Ser virtuoso \'e9 a mais digna homenagem que se lhe possa render. Um cora\'e7\'e3o puro \'e9 o mais sublime dos templos, como dizia o grande imperador Hiao. \

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\par Quinto di\'e1logo C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ De vez que amais a virtude, como a praticareis quando fordes rei? \~\~\~\~\~ N\'e3o sendo injusto nem para com meus vizinhos nem para com meu povo. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o basta n\'e3o fazer o mal. Devereis praticar o bem. Dareis o que comer aos pobres empregando- os em trabalhos \'fateis, e n\'e3o presenteando- os com a ociosidade. Embelezareis as estradas reais, abrireis canais, construireis edif\'edcios p\'fablicos, estimulareis as artes, premiareis o m\'e9rito em que quer que se manifeste, perdoareis as faltas involunt\'e1rias. \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ A isso chamo n\'e3o ser injusto. Trata- se de deveres. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Pensais como verdadeiro rei. Mas h\'e1 o rei e o homem, a vida p\'fablica e a vida privada. Logo vos casareis. Quantas esposas contais ter? \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (49 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Tenho que uma d\'fazia ser\'e1 o suficiente. Mais poderia furtar- me ao trabalho. N\'e3o gosto desses reis que t\'eam trezentas esposas e setecentas concubinas, e milhares de eunucos para servi- las. Essa mania de eunucos sobretudo parece- me um tremendo ultraje \'e0 natureza humana. Que se capem, quando muito, os galos. Com isso ficam melhores de comer. Nunca se viram, por\'e9m, eunucos na panela. Para que mutil\'e1- los? Tem o dalai lama cinq\'fcenta eunucos para cantarem em seu pagode. Gostaria de saber se \'e9 grato ao Chang- ti ouvir as vozes de taquara rachada desses cinq\'fcenta desmembrados. \

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\par \~\~\~\~\~ Acho tamb\'e9m muito rid\'edculos esses bonzos que n\'e3o se casam. Gabam- se de ser mais s\'e1bios que os demais chineses. Pois bem! Que fa\'e7am ent\'e3o filhos s\'e1bios. Boa moda essa honrar o Chang- ti privando- o de adoradores! Singular maneira de servir o g\'eanero humano, dando- lhe o exemplo da pr\'f3pria extin\'e7\'e3o! Dizia o bom pequeno lama Stelca ed isant Errepi( 16) que todo padre devia fazer o maior n\'famero de filhos poss\'edvel. Ele pr\'f3prio dava o exemplo e foi muito \'fatil em seu tempo. Por mim casarei todos os lamas e bonzos e lamizas e bonzas que tiverem voca\'e7\'e3o para esta santa obra. Ser\'e3o melhores cidad\'e3os, e com isso creio prestar grande benef\'edcio ao reino de Lou. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Oh que excelente pr\'edncipe teremos! Fazeis- me chorar de alegria. Mas certamente n\'e3o tereis s\'f3 mulheres e s\'fadito. Porque afinal n\'e3o se pode passar a vida a lavrar \'e9ditos e fabricar filhos. Sem d\'favida tereis amigos? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ J\'e1 os tenho, e bons. Advertem- me de meus defeitos e eu tomo a liberdade de apontar- lhes os seus. Consola- me e eu os consolo. A amizade \'e9 o b\'e1lsamo da vida, b\'e1lsamo superior ao do qu\'edmico Erueil( 17) e at\'e9 aos saquetes do grande Ranoud( 18). Admira- me n\'e3o se haver feito da amizade um preceito de religi\'e3o. Desejaria inseri- lo em nosso ritual. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Preservai- vos de semelhante arbitrariedade. A amizade j\'e1 \'e9 sagrada por si mesma. Nunca a forceis. O cora\'e7\'e3o precisa ser livre. Se fiz\'e9sseis da amizade um preceito, um mist\'e9rio, um rito, uma cerim\'f4nia, \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (50 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par milhares de bonzos, pregando e escrevendo suas tolices, cobririam esse sentimento de rid\'edculo. N\'e3o deveis exp\'f4- lo a semelhante profana\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas como procedereis em rela\'e7\'e3o aos vossos inimigos? Vinte vezes recomenda Cong- fu- tseu que os amemos. N\'e3o vos parece um pouco dif\'edcil? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Amar os pr\'f3prios inimigos? Se \'e9 t\'e3o comum! \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ Como o entendeis? \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Como \'e9 de mister, creio; Fiz o aprendizado da guerra sob o pr\'edncipe de D\'e9con( 19) contra o pr\'edncipe de Vis Brunck. Quando um inimigo era ferido e ca\'eda em nossas m\'e3os; trat\'e1vamo- lo como se fosse nosso irm\'e3o. Muitas vezes demos o pr\'f3prio leito a inimigos feridos e prisioneiros, dormindo- lhes ao p\'e9 sobre peles de tigre estendidas no ch\'e3o. Serv\'edamo- los n\'f3s mesmos. Que mais querer\'edeis? Que os am\'e1ssemos como se ama \'e0s amantes? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Muito me edifica tudo o que dissestes, e desejaria que todas as na\'e7\'f5es vos compreendessem. Porque me afirmam haver povos assaz impertinentes para dizer que n\'f3s n\'e3o conhecemos a verdadeira virtude, que nossas boas a\'e7\'f5es n\'e3o passam de pecados espl\'eandidos, que necessitamos das li\'e7\'f5es de seus talap\'f5es para que nos ensinem bons princ\'edpios. Coitados! Mal aprenderam a ler e escrever e j\'e1 querem ensinar aos pr\'f3prios mestres! \

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\par Sexto di\'e1logo \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (51 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o vos repetirei todos os lugares comuns que h\'e1 cinco ou seis mil anos se repisam entre n\'f3s acerca de todas as virtudes. H\'e1 virtudes que n\'e3o o s\'e3o sen\'e3o para n\'f3s mesmos, como a prud\'eancia para guiar a alma, a temperan\'e7a para governar o corpo - meros preceitos de pol\'edtica e higiene. Verdadeiras virtudes s\'e3o as virtudes \'fateis \'e0 sociedade: fidelidade, magnanimidade, benefic\'eancia, toler\'e2ncia, etc. Gra\'e7as aos c\'e9us n\'e3o h\'e1 av\'f3 entre n\'f3s que n\'e3o ensine aos netos todas essas virtudes. Elas constituem o cimento da nossa juventude, na cidade como na aldeia. H\'e1 contudo uma grande virtude que come\'e7a a ser esquecida, o que \'e9 deplor\'e1vel. \

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\par C. \

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\par \~\~\~\~\~ Qual \'e9? Vamos, dizei- me, eu tomarei a peito realent\'e1- la. \

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\par C. S. \

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\par \~\~\~\~\~ A hospitalidade. Essa virtude t\'e3o social, esse sagrado liame entre os homens, que come\'e7a a relaxar- se desde que temos tavernas. Ao que dizem, veio- nos essa perniciosa institui\'e7\'e3o de certos selvagens do Ocidente. Parece que esses miser\'e1veis n\'e3o t\'eam casas para acolher os viajores. Que prazer receber na grande cidade de Lou, na linda pra\'e7a de Honch\'e3, na casa de Qui, um generoso estrangeiro rec\'e9m chegado de Samarcande, para quem me tornaria de ent\'e3o em diante um homem sagrado e a quem todas as leis divinas e humanas - obrigariam a receber- me em sua casa quando eu viajasse pela Tart\'e1ria e a ser meu amigo \'edntimo! \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os b\'e1rbaros de que vos falava s\'f3 recebem os forasteiros quando pagos, e ainda assim em achavascados cochicholos. Vendem caro esse acolho miser\'e1vel. Apesar de tudo ou\'e7o dizer que essa pobre gente se presume superior a n\'f3s e se vangloria de ter moral mais pura. Querem que seus pregadores falem melhor que Cong- fu- tseu. Enfim pretendem ensinar- nos justi\'e7a por venderem mau vinho nas estradas reais, suas mulheres sa\'edrem como loucas pelas ruas e dan\'e7arem enquanto as nossas cultivam bichos de seda. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Acho plaus\'edvel a hospitalidade e pratico- a com prazer. Mas receio o abuso. Existem, nas cercanias do grande Tibete, povos que vivem pessimamente alojados, amantes de andejar, que sem motivo algum \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (52 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par seriam capazes de palmilhar o mundo de ponta a ponta. Entanto, se fordes ao grande Tibete desfrutar entre eles do direito da hospitalidade, n\'e3o vos dar\'e3o cama nem comida. Coisas tais podem fazer desgostar da polidez. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O mal \'e9 pequeno e f\'e1cil de remediar, n\'e3o se recebendo sen\'e3o pessoas bem recomendadas. N\'e3o h\'e1 virtude que n\'e3o ofere\'e7a seus riscos. Por isso mesmo \'e9 belo abra\'e7\'e1- las. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Qu\'e3o santo e s\'e1bio \'e9 o nosso Cong- fu- tseu! N\'e3o h\'e1 virtude que n\'e3o inspire. Em suas senten\'e7as est\'e1 a felicidade dos homens. Eis uma que me vem \'e0 mem\'f3ria - a q\'fcinquag\'e9sima terceira: \

\par \

\par Recompensai os benef\'edcios com benef\'edcios e jamais vos vingueis das inj\'farias. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Qual a m\'e1xima, qual a lei dos povos do Ocidente compar\'e1vel a moral t\'e3o pura? Em quantos passos preceitua Cong- fu- tseu a humildade! Se os homens praticassem esta virtude jamais haveria querelas sobre a terra. \

\par \

\par C. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Li tudo o que escreveram Cong- fu- tseu e os \'e1rabes dos s\'e9culos passados a respeito da humildade. Mas ningu\'e9m me parece t\'ea- la definido com exatid\'e3o. Talvez seja pouca humildade atrever- me a increp\'e1- los, mas tenho pelo menos a humildade de confessar n\'e3o os haver compreendido. Dizei- me, que pensais dessa virtude? \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Obedecer- vos- ei humildemente. Reputo a humildade a mod\'e9stia da alma, porque a mod\'e9stia exterior n\'e3o passa de civilidade. Ser humilde n\'e3o \'e9 negar a si pr\'f3prio uma superioridade que se possa ter adquirido sobre outrem. Um bom m\'e9dico n\'e3o pode deixar de reconhecer saber mais que seu cliente em del\'edrio. For\'e7a \'e9 que um professor de astronomia admita ser mais ciente que seus disc\'edpulos. N\'e3o podendo neg\'e1- lo, n\'e3o deve todavia presumir- se. Humildade n\'e3o \'e9 abje\'e7\'e3o: \'e9 corretivo do amor pr\'f3prio, como a mod\'e9stia o \'e9 do orgulho. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (53 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par C. \

\par \

\par . \~\~\~\~\~ Pois bem! \'c9 no exerc\'edcio de todas essas virtudes e no culto de um Deus simples e universal que quero viver, longe dos del\'edrios dos sofistas e das ilus\'f5es dos falsos profetas. No trono, o amor ao pr\'f3ximo ser\'e1 minha virtude, o amor a Deus minha religi\'e3o. Desprezarei o deus Fo e Lao Tseu e Vichn\'fa, que tantas vezes se encarnou entre os hindus, e Samonocodom, que baixou do c\'e9u para fazer de escaravelho entre os siameses, e os camis, vindos da lua ao Jap\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Desgra\'e7ado do povo suficientemente cretino e b\'e1rbaro para pensar existir um Deus exclusivamente para o recanto do mundo em que habita! \'c9 uma blasf\'eamia. Se a luz do sol alumia todos os olhos, n\'e3o iluminaria a luz de Deus mais que uma m\'edsera na\'e7\'e3o num canto do globo! Que blasf\'eamia! Que dislate! A Divindade fala ao cora\'e7\'e3o de todos os homens, e de extremo a extremo do mundo devem un\'ed- los os la\'e7os da caridade. \

\par \

\par C. S. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O s\'e1bio filho o rei de Lou! Falastes como que inspirado pelo pr\'f3prio Chang- ti. Sereis um pr\'edncipe digno. Fui vosso mestre, agora sou vosso disc\'edpulo. \

\par \

\par CATECISMO DO JAPON\'caS (20) Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 verdade que antigamente os japoneses n\'e3o sabiam cozinhar, que haviam entregue seu reino ao grande lama, que o grande lama decidia soberanamente do que dev\'edeis comer e beber e de tempos em tempos vos enviava um pequeno lama a fim de cobrar tributos, pagando- vos com um sinal de prote\'e7\'e3o feito com os dois primeiros dedos e o polegar? \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ai! Nada mais verdadeiro. Todos os cargos de canusi( 21) - os grandes cozinheiros da nossa ilha conferia- os o lama, e n\'e3o certamente por amor de Deus. Al\'e9m disso todas as fam\'edlias seculares pagavam \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (54 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par uma on\'e7a de prata por ano a esse grande cozinheiro do Tibete. Em paga dava- nos minguados pratos de horr\'edvel paladar chamados sobejos. E quando lhe dava na veneta alguma nova fantasia, como declarar guerra aos povos do Tangate, escorchava- nos com subs\'eddios suplementares. Muitas vezes nos queixamos, por\'e9m baldamente, quando n\'e3o nos fazia pagar mais ainda. Por fim o amor, que tudo resolve maravilhosamente, libertou- nos dessa servid\'e3o. Um de nossos imperadores desaveio- se com o grande lama por causa. de uma mulher. Mas devo confessar que quem mais nos valeram nessa quest\'e3o foram os nossos canusi, tamb\'e9m chamados paiscospie. A eles devemos a liberta\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eis o que se deu. \~\~\~\~\~ O grande lama tinha uma mania engra\'e7ada: julgava sempre ter raz\'e3o. Uma vez ou outra, pelo menos, queriam os nossos canusi t\'ea- la tamb\'e9m. O grande lama achou absurda tamanha pretens\'e3o. Nossos canusi n\'e3o arredaram p\'e9 e romperam definitivamente com ele. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E de ent\'e3o em diante vivestes sem d\'favida felizes e tranq\'fcilos? \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o inteiramente. Fomos perseguidos, dilacerados, devorados durante perto de dois s\'e9culos. Em v\'e3o pleiteavam nossos canusi ter raz\'e3o. Somente h\'e1 cem anos s\'e3o razo\'e1veis. Tamb\'e9m, desde ent\'e3o podemos orgulhosamente considerar- nos uma das na\'e7\'f5es mais felizes da terra. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como podeis ser felizes se - a crer no que me disseram - vosso imp\'e9rio se acha dilacerado por doze fac\'e7\'f5es de cozinha? No m\'ednimo tereis doze guerras civis por ano. \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por que? Ser\'e1 que por termos doze chefes de cozinha, cada qual com uma receita diferente, deveremos matar- nos em vez de jantar? Pelo contr\'e1rio, comeremos todos \'e0s mil maravilhas, cada um do cozinheiro que mais lhe agradar. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (55 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De fato gostos n\'e3o se devem discutir. A hist\'f3ria, por\'e9m, \'e9 que ningu\'e9m se compenetra disso. Discutem, e da discuss\'e3o \'e0s do cabo \'e9 um passo. \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Depois de muito discutirmos, vendo que com isso s\'f3 t\'ednhamos que perder, acabamos optando tolerar- nos mutuamente. Era, n\'e3o h\'e1 d\'favida, o melhor partido que nos restava tomar. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Poder\'edeis dizer- me quais s\'e3o os chefes de cozinha que partilham a vossa na\'e7\'e3o na arte de beber e comer? \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Primeiramente h\'e1 os breuseh, que em caso algum vos dariam morcela ou lardo. Preconizam as fontes puras da cozinha do tempo do on\'e7a. Prefeririam morrer a mordiscar um frango. Quanto ao mais, ex\'edmios calculadores, e fosse o caso de dividir uma on\'e7a de prata entre eles e os onze outros cozinheiros, a\'e7ambarcariam logo a metade, deixando o resto para os que melhor soubessem contar. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Presumo n\'e3o costumais cear com gente t\'e3o esdr\'faxula? \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Claro. Em seguida v\'eam os pispatas, que em determinados dias da semana e em boa parte do ano prefeririam cem vezes comer rodelas de rodovalhos, trutas, linguados, salm\'f5es, esturj\'f5es, a saborear uma \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (56 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par fritada de vitela que lhes ficaria por um nada. \~\~\~\~\~ Quanto a n\'f3s outros canusi, somos devotos apreciadores de carne de vaca e de certa pastelaria que em japon\'eas se diz pudim. Toda gente conv\'e9m em que os nossos cozinheiros sejam muito mais h\'e1beis que os dos pispatas. Ningu\'e9m melhor que n\'f3s sabe preparar o garum dos romanos, as cebolas do antigo Egito, a pasta de gafanhoto dos primeiros \'e1rabes, a carne de cavalo dos t\'e1rtaros. Sempre h\'e1 o que aprender nos livros dos canusi, comumente chamados paiscospie. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Escuso- me de falar dos que comem a Teluro, assim como dos adeptos do regime de Vicalno, dos batistandos e que tais. Os quekars, por\'e9m, merecem aten\'e7\'e3o particular. S\'e3o os \'fanicos convivas que nunca vi se emborracharem nem praguejarem. Dific\'edlimos de enganar, tamb\'e9m nunca enganam ningu\'e9m. Parece que a lei que manda amar o pr\'f3ximo como a si mesmo foi feita especialmente para eles. Porque, verdade se diga, como pode um japon\'eas dizer amar o pr\'f3ximo como a si pr\'f3prio se por uma bagatela mete- lhe uma bala de chumbo na cabe\'e7a ou decapita- o com um cris de quatro dedos de largo? Quando ele pr\'f3prio vive em constante risco de ser degolado ou engolir balas de chumbo? Com mais propriedade se dir\'e1 que ele odeia o pr\'f3ximo como a si mesmo. Os quekars nunca tiveram desses furores. Dizem eles serem os homens ef\'eameros vasos de argila e que n\'e3o vale a pena se despeda\'e7arem deliberadamente uns contra os outros. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confesso que se n\'e3o fosse canusi n\'e3o me desagradaria ser quekar. For\'e7a \'e9 reconhecer que n\'e3o h\'e1 meio de brigar com cozinheiros t\'e3o pac\'edficos. H\'e1 outros, em n\'famero incont\'e1vel, a que chamamos diestas. D\'e3o os diestas de comer a toda gente indiferentemente e em sua casa sois livre de comer o que vos der na l\'edngua - recheado, lardeado, sem recheio, sem lardo, com ovos, com \'f3leo; perdiz, salm\'e3o, vinho palhete, vinho tinto, tudo lhes \'e9 indiferente. Contanto que fa\'e7ais alguma ora\'e7\'e3o a Deus antes ou ap\'f3s o jantar, ou simplesmente antes do almo\'e7o, e sejais honrado, de bom grado rir\'e3o convosco \'e0 custa do grande lama, de Vicalno, de Memn\'e3o e o mais que segue. Felizmente reconhecem que nossos canusi s\'e3o dout\'edssimos em mat\'e9ria culin\'e1ria, e sobretudo nunca falam em cercear nossas rendas. Assim, vivemos na mais ed\'eanica harmonia. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas a final deve haver uma cozinha predominante, a cozinha do rei. \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confesso- o. Mas naturalmente depois de seus gordos banquetes o rei est\'e1 derretendo de bom humor e n\'e3o p\'f5e embargos \'e0 digest\'e3o de ningu\'e9m. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (57 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E se algum cabe\'e7a dura encasquetar de comer no nariz do rei salsichas que lhe repugnem? Se se reunirem armados de grelhas quatro ou cinco mil desses indiv\'edduos para cozer suas salsichas? Se insultarem as pessoas avessas e salsichas? \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nesse caso ser\'e1 preciso puni- los como b\'eabedos que perturbam o repouso dos cidad\'e3os. Previmos o perigo. S\'f3 os que comem \'e0 real s\'e3o contemplados com as dignidades do estado. Todos os outros podem comer como lhes ditar a fantasia, por\'e9m s\'e3o exclu\'eddos dos cargos. Soberanamente interditos e punidos sem remiss\'e3o s\'e3o os tumultos \'e0 mesa. Atalha- se cuidadosamente toda discuss\'e3o, consoante o preceito do grande cozinheiro japon\'eas Sufi Raho Cus Flac( 22), que escreveu na l\'edngua sagrada: \

\par \

\par Natis in usum laetitae scyphis pugnare Thracum est... \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O que quer dizer: O jantar foi feito para g\'e1udio recatado e mundo, e n\'e3o se devem atirar copos \'e0 cabe\'e7a. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Com essas m\'e1ximas vivemos felizmente em nossa terra. A liberdade individual roborou- se sob os nossos tecosema. Cresce nossa riqueza. Possu\'edmos duzentos juncos de linha, e constitu\'edmos o terror dos nossos vizinhos. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por que motivo ent\'e3o o bom versificador Recina( 23), filho do poeta indiano do mesmo nome, t\'e3o delicado, t\'e3o exato, t\'e3o harmonioso, t\'e3o eloq\'fcente, disse em uma obra did\'e1tica rimada intitulada A Gra\'e7a (n\'e3o As Gra\'e7as): \

\par \

\par O Jap\'e3o, onde brilharam tantas luzes, hoje \'e9 um triste acervo de loucas vis\'f5es - ? \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O pr\'f3prio Recina de que me falais \'e9 um grande vision\'e1rio. Ignorar\'e1 esse m\'edsero hindu que fomos n\'f3s \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (58 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par quem lhe ensinamos o que \'e9 a luz? Que se na \'cdndia conhecem a rota dos planetas, a n\'f3s o devem? Que fomos n\'f3s quem ensinamos aos homens as leis primordiais da natureza e o c\'e1lculo do infinito. Que, se \'e9 preciso descer a coisas mais triviais, conosco aprenderam os hindus a construir juncos segundo propor\'e7\'f5es matem\'e1ticas? Que nos devem at\'e9 os borzeguins chamados meias do of\'edcio com que cobrem as pernas? Seria poss\'edvel que tendo inventado tantas coisas admir\'e1veis ou \'fateis n\'e3o f\'f4ssemos n\'f3s mais que loucos, e que um homem que escreveu em versos os desvairos de outrem fosse o \'fanico s\'e1bio? Deixe- nos com a nossa cozinha, e se quiser que fa\'e7a versos sobre assuntos mais po\'e9ticos. \

\par \

\par Hindu \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que quereis. Ele est\'e1 intoxicado dos preconceitos de sua terra, de seu partido e dos seus pr\'f3prios. \

\par \

\par Japon\'eas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Arre! Quanto preconceito! \

\par \

\par CATECISMO DO P\'c1ROCO Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ent\'e3o, caro Te\'f3timo, ides ser p\'e1roco no interior? \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 verdade. Deram- me uma paroquiazinha, mas prefiro- a a uma grande. Minha intelig\'eancia e atividade s\'e3o restritas. N\'e3o poderia, por certo, dirigir setenta mil almas, pois s\'f3 tenho uma. Admirou- me sempre a confian\'e7a dos que p\'f5em ombros \'e0 empresa de manobrar o leme desses imensos distritos. A mim me falecem for\'e7as para me abalan\'e7ar a tanto. Um rebanho muito grande me amedronta, conquanto possa prestar algum benef\'edcio a um pequeno. Estudei suficientemente jurisprud\'eancia para impedir, tanto quanto me for poss\'edvel, que meus paroquianos se arruinem em demandas. Sei de medicina o bastante para prescrever- lhes rem\'e9dios simples quando ca\'edrem doentes. Conhe\'e7o de agricultura o quanto basta para dar- lhes l\'e1 uma vez ou outra um conselho \'fatil. O senhor do lugar e sua esposa s\'e3o pessoas honradas, que \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (59 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par me ajudar\'e3o a praticar o bem. Espero ser feliz e felizes fazer os meus paroquianos. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o sentis n\'e3o ter uma esposa Seria um grande consolo. Como seria agrad\'e1vel encontrardes no lar, ap\'f3s haver pregado, cantado, confessado, comungado, batizado, enterrado, uma mulherzinha doce e virtuosa, que cuidasse de vossa roupa e de vossa pessoa, que vos desagastasse na sa\'fade e vos assistisse na doen\'e7a, que vos brindasse com bonitos filhos cuja boa educa\'e7\'e3o aproveitaria ao estado! Lamento- vos, a v\'f3s que servis aos homens, de vos ver privado de t\'e3o necess\'e1rio lenitivo. \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A igreja grega incita os cl\'e9rigos ao casamento. O mesmo faz a igreja anglicana e os protestantes. Diversamente pensa a igreja latina, e for\'e7oso \'e9 que me submeta. Talvez hoje, que o esp\'edrito filos\'f3fico realizou t\'e3o not\'e1veis progressos, um concilio institu\'edsse leis mais consoantes \'e0 humanidade que o conc\'edlio de Trento. Nesse em meio, por\'e9m, devo conformar- me \'e0s leis vigentes. \'c9 custoso, bem o sei, mas tanta gente melhor que eu a tanto se resignou que n\'e3o devo murmurar. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ S\'e1bio sois e s\'e1bia \'e9 a vossa eloqu\'eancia. Como contais pregar aos camponeses? \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como pregaria a reis. Falar- lhes- ei a todo instante de moral e jamais de controv\'e9rsias. Defende- me Deus aprofundar a gra\'e7a concomitante, a gra\'e7a eficaz a que se resiste, a suficiente que n\'e3o basta. Veda- me inquirir se tinham corpo os anjos que comeram com Abra\'e3o e L\'f3, ou se fingiram comer. H\'e1 mil coisas que meu audit\'f3rio n\'e3o entenderia, e eu t\'e3o pouco. Diligenciarei fazer gente de bem e igualmente s\'ea- lo. Mas n\'e3o farei te\'f3logos, e se- lo- ei o menos poss\'edvel. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (60 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Oh que excelente cura! Hei de comprar uma casa de campo na vossa par\'f3quia. Que pensais da confiss\'e3o? \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A confiss\'e3o \'e9 um \'f3timo freio contra os crimes, que nos legou a mais remota antig\'fcidade. Era costume, outrora, confessar- se na celebra\'e7\'e3o de todos os mist\'e9rios. Imitamos e santificamos esta s\'e1bia usan\'e7a. A confiss\'e3o move os cora\'e7\'f5es ulcerados de \'f3dio a perdoar e os ladr\'f5es \'e0 devolu\'e7\'e3o do furto. Tem suas inconveni\'eancias: h\'e1 muitos confessores indiscretos, particularmente entre os monges, que n\'e3o raro ensinam \'e0s mo\'e7as mais indec\'eancias que todos os rapazes de uma aldeia. Nada de pormenores na confiss\'e3o. N\'e3o se trata de interrogat\'f3rio judicial, sen\'e3o do reconhecimento das pr\'f3prias faltas perante Deus, feito por um pecador nas m\'e3os de outro pecador, que de seu turno tamb\'e9m se acusar\'e1. N\'e3o se faz esse desabafo salutar para satisfazer a curiosidade de ningu\'e9m. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E a excomunh\'e3o? Us\'e1- la- eis? \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o. H\'e1 rituais em que se excomungam as bailarinas, os feiticeiros e os comediantes. N\'e3o precisarei proibir a entrada \'e0 igreja \'e0s bailarinas, pois nunca a freq\'fcentam. N\'e3o excomungarei os feiticeiros, pois n\'e3o os h\'e1. Quanto aos comediantes, como os pensiona o rei e autoriza- os o magistrado, abster- me- ei de os difamar. At\'e9 vos confesso, como a amigo, que muito aprecio a com\'e9dia. quando n\'e3o vai de encontro aos costumes. Nutro verdadeira paix\'e3o a O Misantropo, At\'e1lia e outras pe\'e7as que me parecem da escola da virtude e do decoro. O senhor da minha aldeia faz representar em seu castelo pe\'e7as dessa natureza por jovens de talento. Tais espet\'e1culos inspiram a virtude em cons\'f3rcio com o prazer. Educam o gosto, ensinam a bem falar e bem pronunciar. N\'e3o vejo nisso sen\'e3o uma recrea\'e7\'e3o inocente e at\'e9 muito \'fatil. Conto, para ilustrar- me, assistir a esses espet\'e1culos. Fa- lo- ei todavia em camarote fechado, para n\'e3o escandalizar os simples. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quanto mais me revelais vossos sentimentos, mais desejo tornar- me vosso paroquiano. Uma coisa preocupa- me: como fareis para evitar que os camp\'f4nios se embriaguem nos dias de festa? \'c9 essa a \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (61 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par solenidade com que as celebram. Haveis de v\'ea- los prostrados pelo \'e1lcool, cabe\'e7a pensa, m\'e3os desca\'eddas, estrouvinhados, reduzidos a estado mais vil que o dos brutos, reconduzidos titubeantes para casa pelas esposas desfeitas em pranto, incapazes de enfrentar o trabalho no dia seguinte, muitas vezes doentes e embrutecidos para o resto da exist\'eancia. Ve- los- eis, enfunados pelo vinho, travar rixas sangrentas, atarracarem- se como feras, e n\'e3o raro desfecharem em morte estas cenas que cobrem de opr\'f3brio a esp\'e9cie humana. Perde o estado mais s\'fadito em festas do que em batalhas. Como atalhareis em vossa par\'f3quia t\'e3o execrando abuso? \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Meu partido est\'e1 tomado. Consentirei, instarei at\'e9 que cultivem seus campos nos dias de festa, ap\'f3s o servi\'e7o divino, que celebrarei ao alvorecer. O \'f3cio do feriado \'e9 que os leva \'e0 taverna. N\'e3o h\'e1 cabida, nos dias consagrados ao trabalho, para a devassid\'e3o e o assass\'ednio. O trabalho moderado \'e9 propiciador de sa\'fade do corpo e da alma. Demais, necessita- o o estado. Suponhamos pessimistamente cinco milh\'f5es de homens cujo trabalho di\'e1rio renda dez mil r\'e9is por indiv\'edduo. Ao cabo de um ano, cinco milh\'f5es de homens in\'fateis durante trinta dias ser\'e3o trinta vezes cinco milh\'f5es de notas de dez mil r\'e9is perdidas pelo estado em m\'e3o de obra. Ora, claro \'e9 que Deus jamais preceituou semelhantes desperd\'edcios e borracheiras. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Assim conciliareis a religi\'e3o e o trabalho. Um e outro foram prescritos por Deus. Servireis a Deus e ao pr\'f3ximo. Mas que partido tomareis em face das disputas eclesi\'e1sticas? \

\par \

\par Te\'f3timo \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nenhum. Como controverter a virtude, se a virtude prov\'e9m de Deus? Discutir, s\'f3 as opini\'f5es dos homens. \

\par \

\par Ar\'edston \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Oh excelente p\'e1roco! Sapientissimo p\'e1roco! \

\par \

\par CERTO, CERTEZA \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (62 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que idade tem vosso amigo Crist\'f3v\'e3o? \~\~\~\~\~ Vinte e oito anos. Vi sua certid\'e3o de casamento e de batismo, conhe\'e7o- o desde crian\'e7a. Tem vinte e oito anos, tenho certeza, estou certo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mal acabo de ouvir a resposta desse homem t\'e3o seguro do que diz e de vinte outros que o corroboram, venho a saber que, por motivos secretos e singular engenho, se antedatou a certid\'e3o de batismo de Crist\'f3v\'e3o. Aqueles com quem falei nada sabem ainda. No entanto, sempre tiveram certeza do que n\'e3o \'e9. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se pergunt\'e1sseis a todos os homens antes de Cop\'e9rnico: \~\~\~\~\~- O sol levantou- se hoje? O sol se p\'f4s? \~\~\~\~\~- Temos absoluta certeza - responder- vos- iam \'e0 uma \~\~\~\~\~ Tinham certeza, e no entanto estavam errados. \~\~\~\~\~ Sortil\'e9gios, adivinha\'e7\'f5es, obsess\'f5es foram durante longo tempo as coisas mais certas do mundo aos olhos de todos os povos. Quanta gente presa dessas ilus\'f5es n\'e3o estava certa do que presumia ver! Hoje acha- se menos em voga essa certeza. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Vem visitar- me um jovem estudante de geometria. Principiante, ainda se acha \'e0s voltas com a defini\'e7\'e3o dos tri\'e2ngulos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- N\'e3o \'e9 certo - pergunto- lhe - que os tr\'eas \'e2ngulos de um tri\'e2ngulo s\'e3o iguais a dois \'e2ngulos retos? \~\~\~\~\~- N\'e3o s\'f3 n\'e3o tenho certeza - responde- me - como nem sequer compreendo claramente essa proposi\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Demonstro- lha. Certifica- se, e para o resto da vida. \~\~\~\~\~ Eis a\'ed uma certeza muito diferente das anteriores. Aquelas n\'e3o eram mais que probabilidades que, examinadas, revelaram- se erros. A certeza matem\'e1tica, por\'e9m, \'e9 imut\'e1vel e eterna. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Existo. Penso. Sinto. Ser\'e1 isso t\'e3o certo quanto uma verdade geom\'e9trica? Sim. Por que? Porque as verdades se provam pelo princ\'edpio de que nada pode ser e n\'e3o ser ao mesmo tempo. N\'e3o Posso existir e simultaneamente n\'e3o existir, sentir e n\'e3o sentir. Um tri\'e2ngulo n\'e3o pode ter cento e oitenta graus - a soma de dois \'e2ngulos retos - e ao mesmo tempo n\'e3o os ter. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De mesmo valor s\'e3o pois a certeza f\'edsica de que existo, de que sinto e a certeza matem\'e1tica, embora de g\'eaneros diversos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O mesmo n\'e3o acontece com a certeza que se funda em apar\'eancias ou testemunhos un\'e2nimes dos homens. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (63 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~- Ora essa! Ent\'e3o n\'e3o estais certo de que Pequim existe? N\'e3o tendes em casa estofos de Pequim! Indiv\'edduos dos mais diversos pa\'edses e opini\'f5es, que escreveram violentamente uns contra os outros pregando a verdade em Pequim, n\'e3o vos asseveraram a exist\'eancia dessa cidade? \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Acho muit\'edssimo prov\'e1vel ter existido tal cidade. Mas n\'e3o apostaria a vida em como exista, se bem n\'e3o hesite em apost\'e1- la em como os tr\'eas \'e2ngulos de um tri\'e2ngulo perfazem dois retos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Estampou- se no Dictionnaire Encyclop\'e9dique uma coisa jovial\'edssima. Sustenta- se l\'e1 que, se mo dissesse toda Paris, eu deveria estar t\'e3o seguro, t\'e3o certo de que o marechal de Saxe ressuscitou, como o estou de que ele venceu a batalha de Fontenoy, quando toda Paris mo assevera. O racioc\'ednio \'e9 admir\'e1vel: Creio em Paris quando toda ela me diz coisa moralmente poss\'edvel; portanto n\'e3o devo cre- la quando me diz coisa moral e fisicamente imposs\'edvel. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Parece que o autor queria rir, e que o outro autor que se extasia ao fim desse artigo escrito contra si pr\'f3prio tamb\'e9m o queria. \

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\par C\'c9U DOS ANTIGOS (O) \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se um bicho da seda desse o nome de c\'e9u ao frouxel que lhe envolve o casulo, n\'e3o raciocinaria pior que os antigos chamando c\'e9u \'e0 atmosfera, que \'e9, como muito bem diz o Sr. de Fontenelle em seus Mondes, o cot\'e3o do nosso casulo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os vapores que se exalam dos mares e do solo e formam as nuvens, os meteoros e os trov\'f5es, foram a princ\'edpio tomados pela morada dos deuses. Em Homero os deuses sempre descem em nuvens de ouro. Vem da\'ed ainda hoje representarem- nos os pintores sentados em uma nuvem. Mas como era justo estivesse o senhor dos deuses mais a vontade que os outros, deram- lhe uma \'e1guia por ve\'edculo, por ser a ave que mais alto voa. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Vendo os senhores das cidades morarem em cidadelas eretas nas assomadas das montanhas, julgaram os antigos gregos que os deuses tamb\'e9m. deviam ter uma cidadela, e colocaram- na na Tess\'e1lia, no monte Olimpo, cujo v\'e9rtice n\'e3o raro se amortalha de nuvens De sorte que seu pal\'e1cio se achava no mesmo n\'edvel do c\'e9u. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Estrelas e planetas, que parecem engastados na ab\'f3bada azul da atmosfera, foram transformados em outras tantas moradas de deuses. Sete dentre estes tiveram cada um seu planeta. Os outros alojaram- se onde melhor puderam. Em sala a que conduzia a via l\'e1ctea reunia- se o conselho geral dos deuses: necess\'e1rio era que tivessem seu congresso no ar, j\'e1 que os homens tinham seus pa\'e7os municipais na terra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando os tit\'e3s, esp\'e9cie de animais entre os deuses e os homens, declararam uma guerra just\'edssima aos deuses em vindica\'e7\'e3o de sua heran\'e7a paterna - sendo como eram filhos do C\'e9u e da Terra - n\'e3o tiveram mais que empilhar duas ou tr\'eas montanhas umas sobre outras para se tornarem senhores do c\'e9u e \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (64 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par do castelo do Olimpo. Neve foret terris securior arduus aether, affectasse ferunt regnum coeleste gigantes, altaque congestos struxisse ad sidera montes. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Essa f\'edsica de crian\'e7as e de velhos era antiqu\'edssima. Contudo \'e9 muito prov\'e1vel tivessem os caldeus id\'e9ias t\'e3o s\'e3s quanto n\'f3s do que se chama o c\'e9u. Colocavam eles o Sol no centro do nosso mundo planet\'e1rio, em dist\'e2ncia da Terra aproximadamente a mesma reconhecida hoje. Em torno do Sol faziam girar a Terra e todos os planetas, ensina- nos Aristarco de Samos. \'c9 o verdadeiro sistema do universo, posteriormente reeditado por Cop\'e9rnico. Os fil\'f3sofos, por\'e9m, guardavam o segredo para si, a fim de serem mais respeitados pelos reis e pelo povo, ou antes, para n\'e3o serem perseguidos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 t\'e3o familiar aos homens a linguagem do erro que ainda chamamos c\'e9u aos vapores e ao espa\'e7o entre a Terra e a Lua. Dizemos subir ao c\'e9u, como dizemos que o Sol gira, conquanto saibamos que n\'e3o \'e9 assim. Possivelmente, para habitantes da Lua, n\'f3s \'e9 que somos o c\'e9u. Cada planeta coloca o seu c\'e9u no planeta vizinho. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se se perguntasse a Homero para que c\'e9u tinha ido a alma de Sarp\'e9don, onde estava a de H\'e9rcules, p\'f4r- se- ia o grande poeta em cal\'e7as pardas. Certamente responderia com versos harmoniosos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como saber se a alma a\'e9rea de H\'e9rcules se acharia mais a vontade em V\'eanus ou Saturno que na Terra? Ou estaria no Sol? \'c9 de crer que n\'e3o estivesse muito a vontade nessa fornalha. Finalmente, que entenderiam os antigos por o c\'e9u? Ignoravam o que fosse. Sempre disseram o c\'e9u e a terra. \'c9 como se dissessem o infinito e um \'e1tomo. Propriamente falando n\'e3o existe c\'e9u. O que h\'e1 \'e9 uma quantidade prodigiosa de globos girando no vazio do espa\'e7o, um dos quais \'e9 a Terra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Criam os antigos que ir aos c\'e9us era subir. A verdade, por\'e9m, \'e9 que n\'e3o se sobe de um astro a outro. Est\'e3o os corpos celestes tanto abaixo como acima do nosso horizonte. Assim, supondo que, tendo vindo a Pafos, V\'eanus regressasse a seu planeta quando este se houvesse posto, n\'e3o subiria em rela\'e7\'e3o ao nosso horizonte: pelo contr\'e1rio, desceria, e nesse caso deveria dizer- se descer ao c\'e9u. Por\'e9m os antigos n\'e3o alcan\'e7avam tais sutilezas. Tinham no\'e7\'f5es vagas, incertas, contradit\'f3rias sobre tudo que concernia \'e0, f\'edsica. Escreveram- se volumes de l\'e9gua e meia a fim de saber o que pensavam acerca de um sem n\'famero de quest\'f5es que tais. Bastariam duas palavras: n\'e3o pensavam. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sempre \'e9 bom excetuar alguns s\'e1bios Mas vieram mais tarde. Poucos manifestaram seus pensamentos, e foi o quanto bastou para que os charlat\'e3es os mandassem para o c\'e9u pelo caminho mais curto \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pretendeu um escritor, chamado, creio; Pluche, promover Mois\'e9s a grande f\'edsico. J\'e1 antes outro o conciliara com Descartes e dera \'e0 estampa o Cartesius Mosaizans. A dar- lhe ouvidos foi Mois\'e9s quem primeiro concebeu os turbilh\'f5es e a mat\'e9ria sutil. \'c9 no entanto por de mais sabido que Deus, fazendo Mois\'e9s um grande legislador, um grande profeta, nem sequer lhe passou pela veneta faz\'ea- lo professor de f\'edsica. Mois\'e9s ensinou aos judeus qual era seu dever, mas n\'e3o lhes disse palavra de filosofia. Calmet, que compilou \'e0s pazadas e sem nunca raciocinar, fala de sistema dos hebreus. Por\'e9m esse povo grosseiro \

\par \

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\par \

\par nunca teve sistema algum. Nem sequer possu\'edam escola de geometria. O termo era grego para eles. Sua ci\'eancia era o of\'edcio de corretor e a usura. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Deparam- se em seus livros algumas id\'e9ias obscuras, incoerentes, dignas em tudo por tudo de um povo b\'e1rbaro, sobre a estrutura do c\'e9u. Seu primeiro c\'e9u era o ar. O firmamento, s\'f3lido e de gelo, sustinha as \'e1guas superiores, que ao tempo do dil\'favio vazaram desse reservat\'f3rio por portas, esclusas e cataratas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Acima do firmamento ou das \'e1guas superiores estava o terceiro c\'e9u ou emp\'edreo, para onde foi arrebatado S. Paulo. Formava o firmamento uma esp\'e9cie de meia ab\'f3bada continente da Terra. O Sol n\'e3o girava em torno da Terra porque sequer concebiam que a terra fosse redonda. Chegando ao ocidente, voltava ao oriente por caminho desconhecido. E se n\'e3o se via era em virtude de que, como disse o bar\'e3o de Foeneste, desandava de noite. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todas essas fantasias, adotaram- nas os hebreus dos outros povos. Considerava o c\'e9u a maioria das na\'e7\'f5es, tirante a escola dos caldeus, como um s\'f3lido. A Terra, fixa e im\'f3vel, era mais longa um grande ter\'e7o de oriente a ocidente que de meio dia a norte. Da\'ed as express\'f5es longitude e latitude, por n\'f3s perfilhadas. Claro que, desta forma, era imposs\'edvel haver ant\'edpodas. Sto. Agostinho trata a id\'e9ia de ant\'edpodas de absurdo, e diz expressamente Lact\'e2ncio: "Haver\'e1 indiv\'edduos t\'e3o est\'fapidos a ponto de crerem que possa haver homens de cabe\'e7a para baixo?" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pergunta S. Cris\'f3stomo em sua d\'e9cima quarta homilia: "Onde est\'e3o os que pretendem que os c\'e9us sejam im\'f3veis e de forma circular ?" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz ainda Lact\'e2ncio no livro terceiro das Institui\'e7\'f5es: "Poderia demonstrar- vos com uma enfiada de argumentos que \'e9 imposs\'edvel que o c\'e9u circunde a Terra" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que diga quanto quiser o autor do Espet\'e1culo da Natureza terem sido Lact\'e2ncio e S. Cris\'f3stomo grandes fil\'f3sofos. Responder- lhe- eis terem sido grandes santos e que para tanto n\'e3o \'e9 indispens\'e1vel ser bom astr\'f4nomo. Acredit\'e1- los- eis no c\'e9u: mas for\'e7a \'e9 confessardes que ignorais em que ponto precisamente. \

\par \

\par CHINA (DA) \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Vamos \'e0 China a procura de terra, como se nos faltasse. Tecidos, como se de tecidos carec\'eassemos. Certa erva para infundir n'\'e1gua, como se nossos climas n\'e3o produzissem s\'edmplices. Em paga timbramos em querer converter os chineses. Zelo plausibil\'edssimo. Mas nem por isso precisamos contestar sua antig\'fcidade e lan\'e7ar- lhes a tacha de id\'f3latras. Que dir\'edeis de um capuchinho que, depois de generosamente acolhido pelos Montmorency em um de seus castelos, quisesse persuadi- los de que s\'e3o nobres feitos da noite para o dia, como os secret\'e1rios do rei, e os acusasse de id\'f3latras por encontrar no castelo duas ou tr\'eas est\'e1tuas de condest\'e1veis a quem os Montmorency votassem profundo respeito? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Proferiu certa vez o famoso Wolf, catedr\'e1tico de matem\'e1ticas na universidade de Halle, um magn\'edfico discurso em louvor da filosofia, chinesa. Elogiou a essa milen\'e1ria. estirpe de homens - diferentes de n\'f3s \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (66 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par pela barba, pelos olhos, pelo nariz, pelas orelhas e pelo racioc\'ednio - o adorarem um Deus supremo e amarem a virtude Rendia essa justi\'e7a aos imperadores da China, aos colao, aos tribunais, \'e0s letras. A justi\'e7a que se rende aos bonzos \'e9 um pouco diferente. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Wolf atra\'eda a Halle um milheiro de estudantes de todas as na\'e7\'f5es. Havia na mesma universidade um professor de teologia - atendia ao nome de Lange - que n\'e3o atra\'eda ningu\'e9m. Este homem, desesperado por gelar de frio sozinho no locut\'f3rio, resolveu perder o professor de matem\'e1ticas. Macaqueando os de sua igualha, acusou- o de n\'e3o crer em Deus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pretendiam alguns escritores europeus que nunca haviam estado na China que o governo de Pequim era ateu. Wolf elogiara Pequim. Logo, Wolf era ateu. Melhores silogismos nunca souberam forjar a inveja e o \'f3dio. Corroborado por uma cabala e um protetor, achou o rei de Inglaterra conclusivo o argumento de Lange e prop\'f4s ao matem\'e1tico um dilema formal: deixar Halle em vinte e quatro horas ou ser pendurado - Como tinha e quisesse conservar a cabe\'e7a no lugar, Wolf escolheu o primeiro alvitre. Sua retirada subtraiu ao rei duzentos ou trezentos mil escudos anuais, que era quanto fazia entrar no reino esse fil\'f3sofo pela aflu\'eancia de disc\'edpulos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Serve este exemplo para mostrar aos soberanos que nem sempre \'e9 conveniente dar ouvidos \'e0 cal\'fania e sacrificar um grande homem \'e0 inveja de um imbecil. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Voltemos \'e0 China. \~\~\~\~\~ Como \'e9 que nos atrevemos, n\'f3s, c\'e1 do fim do Ocidente, a disputar encarni\'e7adamente e com torrentes de inj\'farias por deslindar se houve ou n\'e3o catorze pr\'edncipes na China antes do imperador Fo- hi, e se Fo- hi viveu a tr\'eas mil ou dois mil e novecentos anos antes da era vulgar? Engra\'e7ad\'edssimo que dois irlandeses se pusessem a brigar em Dublin por saber quem foi, no s\'e9culo XII, o possessor das terras que hoje me pertencem. N\'e3o \'e9 evidente que deveriam deix\'e1- lo a mim, que tenho os arquivos em m\'e3os? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O mesmo, penso eu, \'e9 o caso dos primeiros imperadores da China: cumpre recorrer aos tribunais do pa\'eds \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Agatanhai- vos quanto vos aprouver por amor dos catorze primeiros pr\'edncipes que reinaram antes de Fo- hi. N\'e3o conseguir\'e3o provar vossos bate- bocas mais que j\'e1 ent\'e3o era a China densamente povoada e vivia sob o imp\'e9rio da lei. Agora pergunto- vos: n\'e3o sup\'f5e prodigiosa antig\'fcidade uma na\'e7\'e3o sedimentada, com leis e pr\'edncipes? Pensai em quanto tempo \'e9 necess\'e1rio para que singular concurso de circunst\'e2ncias leve a descobrir o ferro nas minas, se empregue na agricultura e se inventem as artes. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os que fazem filhos a penadas imaginaram um c\'e1lculo interessant\'edssimo. Por uma suputa\'e7\'e3o do arco da velha, d\'e1 o jesu\'edta P\'e9tau \'e0 terra, duzentos e oitenta e cinco anos ap\'f3s o dil\'favio, popula\'e7\'e3o cem vezes maior do que n\'e3o ousamos atribuir- lhe hoje. Menos c\'f4micos n\'e3o s\'e3o os c\'e1lculos dos Cumberland e Whiston. N\'e3o tinham esses ing\'eanuos sen\'e3o que consultar os registros das nossas col\'f4nias na Am\'e9rica para se desencantarem. Ficariam sabendo qu\'e3o pouco se multiplica o g\'eanero humano, e que n\'e3o raro diminui em vez de aumentar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Deixemos, pois, n\'f3s que somos de ontem, n\'f3s descendentes dos celtas, n\'f3s que mal acabamos de surribar as florestas de nosso selvagem habit\'e1culo, deixemos os chineses e hindus desfrutarem em paz de \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (67 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par seu maravilhoso clima e de sua antig\'fcidade. Sobretudo demos de m\'e3o a essa hist\'f3ria de xingar de id\'f3latras o imperador da China e o subabe do Dec\'e3. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o \'e9 preciso, todavia, ser fan\'e1tico do m\'e9rito chin\'eas \'c9 verdade ser a constitui\'e7\'e3o desse imp\'e9rio a melhor do mundo, a \'fanica fundada no poder paternal (o que n\'e3o obsta que os mandarins n\'e3o vivam a espancar os filhos), a \'fanica na qual \'e9 punido o governador de prov\'edncia que ao deixar o cargo n\'e3o seja aclamado pelo povo. A \'fanica que instituiu pr\'eamios \'e0 virtude, de passo que em todas as outras na\'e7\'f5es as leis se limitam a castigar o crime. A \'fanica que imp\'f4s suas leis aos pr\'f3prios vencedores, enquanto n\'f3s ainda vivemos sujeitos aos costumes dos borg\'fandios, francos e godos que nos avassalaram. Deve- se reconhecer, todavia, ser o vulgacho governado por bonzos t\'e3o canalha quanto o nosso. Que, como n\'f3s, n\'e3o perdem ocasi\'e3o de escorchar o estrangeiro Que nas ci\'eancias nos caranguejam a reboque com dois s\'e9culos de atraso. Que como a n\'f3s gafa- os sem conto de preconceitos rid\'edculos. Que acreditam, como por muito tempo cremos, em talism\'e3s e na astrologia judici\'e1ria. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confessemos ainda que ficaram queixica\'eddos ante o nosso term\'f4metro, ante o costume de gelarmos licores com salitre e ante todas as experi\'eancias de Torricelli e Otto de Guericke, exatamente como o ficamos, quando presenciamos pela primeira vez a esses brincos da f\'edsica. Que seus m\'e9dicos n\'e3o curam melhor que os nossos as doen\'e7as mortais e que, tal qual como aqui, na China as mol\'e9stias triviais s\'e3o relegadas aos cuidados exclusivos da natureza. Nada disso impede, por\'e9m, que h\'e1 quatro mil anos, quando sequer sab\'edamos ler, j\'e1 estivessem os chins de posse de todas as coisas essencialmente \'fateis de que hoje fazemos alarde \

\par \

\par CIRCUNCIS\'c3O \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ao narrar o que lhe disseram os b\'e1rbaros cujos pa\'edses viajou, Her\'f3doto, como a maioria dos nossos viajores, n\'e3o nos diz mais que tolices. N\'e3o devemos dar- lhe cr\'e9dito, igualmente, quando fala da aventura de Giges e Candolo, de \'c1rion montado num delfim, do or\'e1culo consultado para saber o que fazia Creso, o qual respondeu que ele estava cozendo uma tartaruga numa panela tampada, do cavalo de Dario que, tendo sido o primeiro em nitrir, proclamou seu dono rei, e de cem outras f\'e1bulas pr\'f3prias para divertir crian\'e7as e ser compiladas por ret\'f3ricos. Quando, por\'e9m, fala do que viu, dos costumes dos povos que estudou, das, antig\'fcidades que submeteu a exame, a\'ed sim dirige- se a gente grande. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Quero crer" - diz no livro Euterpe - "que os habitantes da C\'f3lchida sejam origin\'e1rios do Egito. Julgo- o mais por mim mesmo que de outiva, porque verifiquei ser mais viva a recorda\'e7\'e3o dos antigos eg\'edpcios na C\'f3lchida que no Egito a lembran\'e7a dos velhos costumes de Colchos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Pretendia esse povo praieiro do Ponto Euxino ser uma col\'f4nia fundada por Sesostris. Quanto a mim, j\'e1 o conjeturava, n\'e3o somente por serem adustos e terem os cabelos frisados, mas porque os povos da C\'f3lchida, Egito e Eti\'f3pia s\'e3o os \'fanicos na terra que sempre praticaram a circuncis\'e3o. Quanto aos fen\'edcios e aos habitantes da Palestina, confessam ter copiado tal pr\'e1tica aos eg\'edpcios. Da mesma forma os s\'edrios, que hoje estanciam \'e0s abas do Term\'f3don e da Part\'e9nia, e seus vizinhos m\'e1crons reconhecem n\'e3o haver muito tempo que se conformaram a esse costume eg\'edpcio. \'c9 esse at\'e9 um dos principais atestados de sua ascend\'eancia. egipc\'edaca. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (68 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~" Quanto \'e0 Eti\'f3pia e ao Egito, como a circuncis\'e3o \'e9 antiqu\'edssima tanto num como noutro, n\'e3o sei qual dos dois tenha importado essa cerim\'f4nia. O mais prov\'e1vel, contudo, \'e9 terem- na recebido os et\'edopes dos eg\'edpcios. Assim como, contrariamente, desterraram os fen\'edcios o uso de circuncidar as crian\'e7as rec\'e9m nascidas desde que se intensificou seu com\'e9rcio com os gregos." \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 evidente, de acordo com esse passo de Her\'f3doto, que muitos foram os povos que receberam a circuncis\'e3o do Egito. Nenhum, por\'e9m, jamais pretendeu t\'ea- la importado dos judeus. A quem atribuir ent\'e3o a origem desta pr\'e1tica: a uma na\'e7\'e3o de que confessam hav\'ea- la perfilhado cinco ou seis outras, ou a uma na\'e7\'e3o muito menos poderosa, menos comerciante, menos guerreira, encafurnada num canto da Ar\'e1bia P\'e9trea, que nunca comunicou a povo nenhum o mais insignificante de seus costumes? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Dizem os judeus ter sido outrora caritativamente acolhidos pelos eg\'edpcios. N\'e3o \'e9 muito veross\'edmil haver o povo \'ednfimo imitado um uso do grande povo? N\'e3o \'e9 natural terem os judeus adotado um ou outro costume de seus senhores? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Conta Clemente de Alexandria que, viajando o Egito, Pit\'e1goras foi obrigado a deixar circuncidar- se para ser admitido em seus mist\'e9rios. Quer dizer que era absolutamente imprescind\'edvel ser circunciso para ingressar no sacerd\'f3cio eg\'edpcio. Tal sacerd\'f3cio j\'e1 existia quando Jos\'e9 foi dar com os costados no pa\'eds das pir\'e2mides. Antiqu\'edssimo era o governo, e as cerim\'f4nias se observavam com a mais escrupulosa exatid\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confessam os judeus ter permanecido duzentos e cinco anos no Egito. E dizem n\'e3o haver praticado a circuncis\'e3o nesse espa\'e7o de tempo. Claro \'e9 por conseguinte que os eg\'edpcios n\'e3o poderiam ter- lhes copiado essa pr\'e1tica enquanto os tiveram como h\'f3spedes. Te- lo- iam feito posteriormente, depois de os judeus lhes haverem roubado todos os vasos que lhes tinham sido emprestados e se rasparem a sete p\'e9s para o deserto levando consigo o fruto do roubo, segundo seu pr\'f3prio testemunho? Adotar\'e1 um senhor o selo da religi\'e3o de um escravo que o roubou e fincou p\'e9 no mundo? N\'e3o o admite a natureza humana. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz- se no livro de Josu\'e9 que os judeus foram circuncidados nos desertos: "Eu vos livrei do que constitu\'eda o vosso opr\'f3brio entre os eg\'edpcios". Ora, qual podia ser esse opr\'f3brio para uma na\'e7\'e3o encravada entre a Fen\'edcia, Ar\'e1bia e Egito, sen\'e3o o que os tornava desprez\'edveis aos olhos destes tr\'eas povos? Como livr\'e1- los desse opr\'f3brio? Livrando- os de um pouco de prep\'facio. N\'e3o \'e9 o sentido natural do trecho a cima citado? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Diz o G\'eanesis que Abra\'e3o foi circunciso. Mas Abra\'e3o esteve no Egito, que era havia muito reino florescente, governado por poderoso rei. Nada impede que nesse reino t\'e3o antigo fosse a circuncis\'e3o praticada desde muito tempo antes que se formasse a na\'e7\'e3o judaica. Demais a circuncis\'e3o de Abra\'e3o foi um caso insulado. S\'f3 depois de Josu\'e9 foi que se vulgou entre seus p\'f3steros esse sacramento. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ora, antes de Josu\'e9 os israelitas aprenderam, como eles mesmos confessam, muitos costumes dos eg\'edpcios. Imitaram- nos em n\'e3o poucos sacrif\'edcios, cerim\'f4nias, como os jejuns \'e0s v\'e9speras das festas de Isis, as ablu\'e7\'f5es, o costume de rapar a cabe\'e7a dos padres, o incenso, o candelabro, o sacrif\'edcio da vaca ru\'e7a, a purifica\'e7\'e3o com hissopo, a abstin\'eancia da carne de porco, a avers\'e3o aos utens\'edlios de cozinha dos estrangeiros, tudo atestando que o diminuto povo hebreu, mau grado sua antipatia \'e0 grande na\'e7\'e3o eg\'edpcia, retivera infinidade de usos de seus ex- senhores. O bode Hazazel, que enviavam ao deserto \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (69 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par carregado dos pecados do povo, era vis\'edvel imita\'e7\'e3o de uma pr\'e1tica eg\'edpcia. Os pr\'f3prios rabinos conv\'eam em que a palavra Hazazel n\'e3o \'e9 hebraica. Nada obsta portanto que os hebreu hajam imitado os eg\'edpcios na circuncis\'e3o, como o fizeram seus vizinhos \'e1rabes. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nada de extraordin\'e1rio h\'e1 em que Deus, que santificou o batismo, t\'e3o antigo entre os asi\'e1ticos, santificasse tamb\'e9m a circuncis\'e3o, n\'e3o menos antiga entre os africanos. J\'e1 dissemos ser senhor de conferir suas gra\'e7as aos sinais que se dignar eleger. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Demais de tudo, desde que, sob Josu\'e9, os judeus foram circuncisos, mantiveram essa pr\'e1tica at\'e9 nossos dias. O mesmo fizeram os \'e1rabes. Os eg\'edpcios, por\'e9m, que a princ\'edpio circuncidavam os jovens de ambos os sexos, com o tempo deixaram de submeter as mo\'e7as a tal opera\'e7\'e3o, terminando por restringi- la aos sacerdotes, astr\'f3logos e profetas. \'c9 o que nos ensinam Clemente de Alexandria e Or\'edgenes. Efetivamente, nunca se ouviu dizer que os Tolemeus tivessem sido circuncidados. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os autores latinos, que tratam os judeus com t\'e3o profundo desprezo que lhes chamam curtas Apella, por deris\'e3o, credat Judaeus Appella, curti Judaei, n\'e3o d\'e3o ep\'edtetos tais aos eg\'edpcios. Hoje a circuncis\'e3o \'e9 de regra no Egito, mas por outra raz\'e3o: porque o mafomismo adotou a antiga circuncis\'e3o da Ar\'e1bia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foi essa circuncis\'e3o \'e1rabe que passou \'e0 Eti\'f3pia, onde ainda se circuncidam os jovens de ambos os sexos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o h\'e1 negar ser \'e0 primeira vista bem estranha a cerim\'f4nia da circuncis\'e3o. Mas note- se que em todos os tempos os sacerdotes do Oriente se consagraram a suas divindades por marcas particulares. Entre os padres de Baco o sinal era uma folha de hera gravada a buril. Diz Luciano que os devotos da deusa Tais imprimiam sinais no pulso e pesco\'e7o. Os sacerdotes de Cibele faziam- se eunucos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 muito prov\'e1vel que os eg\'edpcios, que veneravam o instrumento da gera\'e7\'e3o e carregavam- lhe a imagem em suas prociss\'f5es, tivessem a id\'e9ia de oferecer a Isis e Osiris, deuses que presidiam a todos os fen\'f4menos de reprodu\'e7\'e3o, uma part\'edcula do membro por que quiseram essas divindades que o g\'eanero humano se perpetuasse. S\'e3o os antigos costumes orientais t\'e3o diferentes dos nossos que nada parecer\'e1 extraordin\'e1rio a quem quer que tenha um pouco de leitura. Um parisiense fica admirado ao saber que os hotentotes cortam aos filhos um dos test\'edculos. Os hotentotes ficariam admirad\'edssimos se soubessem que os parisienses conservam os dois. \

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\par CONVULS\'d5ES \

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\par \~\~\~\~\~ Dan\'e7ou- se pelo ano de 1724 no cemit\'e9rio de Saint- M\'e9dard. Deram- se no local um sem n\'famero de milagres, de que nos d\'e1 amostra uma can\'e7\'e3o da duquesa de Maine: \

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\par Um engraxate \'e0 real, do p\'e9 esquerdo aleijado, teve por gra\'e7a especial ser do direito privado \

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\par \~\~\~\~\~ Como \'e9 sabido, as convuls\'f5es miraculosas continuaram at\'e9 que foi posto um guarda no cemit\'e9rio. Em nome do rei veda- se entrar doravante a Deus neste lugar. \

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\par \~\~\~\~\~ Os jesu\'edtas, como se sabe, j\'e1 n\'e3o podendo fazer de tais milagres desde que seu Xavier esgotara as gra\'e7as da Companhia ressuscitando nove mortos contados a dedo, lembraram- se, para balan\'e7ar o cr\'e9dito dos jansenistas, de estampar uma imagem de Jesus Cristo vestido de jesu\'edta. Como ainda \'e9 sabido, escreveu um burl\'e3o do partido jansenista em baixo da estampa: \

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\par Que jesu\'edtas manhosos! De medo que vos am\'e1ssemos, estes monges engenhosos vos vestiram \'e0 sua imagem. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os jansenistas, a fim de melhor provar que jamais Cristo poderia tomar o h\'e1bito de jesu\'edta, puseram Paris de pernas para o ar e carrearam o mundo para sua banda. O conselheiro parlamentar Carr\'e9 de Montgerou apresentou ao rei um relat\'f3rio in- 4 de todos esses milagres, atestados por milhares de testemunhas. Foi metido, como de direito, sob grades, onde se tratou de restabelecer- lhe o c\'e9rebro pelo regime. Mas a verdade sobrepaira a todas as persegui\'e7\'f5es: os milagres se perpetuaram durante trinta anos a fio, sem solu\'e7\'e3o de continuidade. Chamava- se s\'f3ror Rosa, s\'f3ror Iluminada, s\'f3ror Prometida, s\'f3ror Confita: a\'e7oitavam- nas at\'e9 o sangue, e no dia seguinte estavam como se nada houvesse acontecido. Vergastavam- lhe o est\'f4mago bem encoura\'e7ado, bem estofado, sem sequer sentirem. Punham- nas ao fogo, o rosto emplastado de pomadas, e nada de queimar. Enfim, como todas as artes se aperfei\'e7oam, terminou- se por fincar- lhes espadas nas carnes e por crucific\'e1- las. Chegou- se at\'e9 a crucificar um te\'f3logo famoso( 24), tudo para convencer o mundo do rid\'edculo de certa bula, o que se poderia ter feito sem tanto custo. Nesse em meio jesu\'edtas e jansenistas uniram- se contra o Esp\'edrito dos leis, e contra... e contra... e contra ... e contra... E temos o ousio, depois de tudo isso, de escarnicar dos lap\'f5es, dos samoiedas e dos negros! \

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\par CORPO \

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\par \~\~\~\~\~ Assim como n\'e3o sabemos o que seja esp\'edrito, ignoramos o que seja corpo. Percebemo- lhe apenas propriedades. Mas que \'e9 o ente em que residem tais propriedades? Tudo \'e9 corpo, dizia Dem\'f3crito e Epicuro. N\'e3o existem corpos, contravinham os disc\'edpulos de Z\'eanon de El\'e9ia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Berkeley, bispo de Cloyne, foi o \'faltimo que, por cem sofismas capciosos, pretendeu provar que os corpos n\'e3o existem. Eles n\'e3o t\'eam, disse, nem cor, nem odor, nem calor. Tudo isso est\'e1 em vossas sensa\'e7\'f5es e n\'e3o nos objetos. O Sr. Berkeley podia ter- se poupado ao trabalho de demonstrar semelhante verdade: conhecemo- la de sobejo. Mas da\'ed passa \'e0 extens\'e3o, \'e0 solidez, que s\'e3o ess\'eancias do corpo, e \

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\par julga provar n\'e3o haver extens\'e3o num retalho de pano verde porque em verdade o pano n\'e3o \'e9 verde. A sensa\'e7\'e3o do verde acha- se t\'e3o somente em v\'f3s: por conseguinte a impress\'e3o de extens\'e3o n\'e3o est\'e1 tamb\'e9m sen\'e3o em v\'f3s. Ap\'f3s destruir a extens\'e3o, conclui que a solidez cai consequentemente por si mesma, e que portanto nada existe al\'e9m das nossas id\'e9ias. De sorte que, segundo esse doutor, dez mil homens trucidados por dez mil balas de canh\'e3o n\'e3o passam em suma de dez mil apreens\'f5es da nossa alma. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ S\'f3 mesmo o sr. bispo de Cloyne seria capaz de cometer tamanho rid\'edculo. Presume demonstrar que n\'e3o existe extens\'e3o porque com lunetas um corpo lhe parece quatro vezes maior que a olho desarmado, e quatro vezes menor com aux\'edlio de outro vidro. Da\'ed concluir que, n\'e3o podendo um corpo ter quatro, dezesseis e um s\'f3 p\'e9 de extens\'e3o ao mesmo tempo, tal extens\'e3o n\'e3o existe. Logo nada existe. Bastava- lhe medi- lo e dizer: n\'e3o importa o tamanho que me pare\'e7a ter, este corpo tem tantos cent\'edmetros. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Muito f\'e1cil lhe seria ver que o caso da extens\'e3o e da solidez n\'e3o \'e9 o mesmo dos sons, das cores, dos sabores e dos odores. Claro que estes s\'e3o impress\'f5es subjetivas em n\'f3s excitadas pela configura\'e7\'e3o das partes. A extens\'e3o, por\'e9m, n\'e3o \'e9 sensa\'e7\'e3o. Se se consumir este lenho, deixarei de sentir calor. N\'e3o sendo ferido o ar, n\'e3o ouvirei. Estiole- se esta rosa e j\'e1 n\'e3o lhe sentirei o perfume. Independentemente de mim, entretanto, este lenho, este ar, esta rosa t\'eam extens\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nem merece refuta\'e7\'e3o o paradoxo de Berkeley. \~\~\~\~\~ Cai a talho saber o que o levara a semelhante paradoxo. H\'e1 muito tempo tive com ele algumas palestras. Disse- me que a origem de sua opini\'e3o era o n\'e3o se poder conceber o que seja o sujeito da extens\'e3o. Efetivamente ele triunfa em seu livro quando pergunta a Hilas o que \'e9 esse sujeito, esse substrato, essa subst\'e2ncia. "\'c9 o corpo estendido" - responde Hilas. Ent\'e3o o bispo, sob o nome de Filonous, p\'f5e- se a escarnec\'ea- lo. E o pobre Filonous, percebendo ter dito que a extens\'e3o \'e9 sujeito da extens\'e3o, e que cometeu uma rata, fica atalhado e confessa nada compreender, que n\'e3o existe corpo nem t\'e3o pouco mundo material, que s\'f3 existe o mundo intelectual. \~\~\~\~\~ Bastava Hilas dizer a Filonous: N\'f3s nada sabemos sobre a ess\'eancia desse sujeito, dessa subst\'e2ncia estendida, s\'f3lida, divis\'edvel, m\'f3vel, figurada, etc. N\'e3o a conhe\'e7o mais que o sujeito que pensa, que sente e que quer. Mas sua exist\'eancia \'e9 t\'e3o ineg\'e1vel como a deste, pois tem propriedades essenciais de que n\'e3o h\'e1 despoj\'e1- lo. \

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\par \~\~\~\~\~ Somos como a maior parte das damas de Paris, que se regalam em r\'e9gios banquetes sem saber o que entra nos acepipes. Semelhantemente, desfrutamos dos.. corpos sem saber de que se comp\'f5em. De que \'e9 feito o corpo? De partes, que por sua vez se resolvem em outras partes. Que s\'e3o as \'faltimas part\'edculas? Sempre corpos. Dividireis eternamente e jamais passareis disso. \

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\par \~\~\~\~\~ Afinal um sutil fil\'f3sofo, notando que um painel se comp\'f5e de ingredientes de natureza diversa, e uma casa de materiais dos quais nenhum \'e9 casa, imaginou (de maneira um pouco outra) serem os corpos constitu\'eddos de infinidade de seres infinitamente pequenos que n\'e3o s\'e3o corpos - as m\'f4nadas. Tal sistema n\'e3o deixa de possuir certa exeq\'fcibilidade, e se fosse revelado eu o creria at\'e9 muito poss\'edvel. Todos esses entes \'ednfimos seriam pontos matem\'e1ticos, esp\'e9cies de almas que n\'e3o esperariam mais que uma capa para se vestirem: seria uma metempsicose cont\'ednua. Uma m\'f4nada estaria ora numa baleia, ora numa \'e1rvore, ora no corpo de um pelotiqueiro. \'c9 um sistema e tanto. Tenho- o no mesmo conceito que a declina\'e7\'e3o dos \'e1tomos, as formas substanciais, a gra\'e7a vers\'e1til e os vampiros de dom Calmet. \

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\par CRISTIANISMO \

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\par \~\~\~\~\~ Pesquisas hist\'f3ricas. - N\'e3o poucos eruditos manifestaram sua surpresa em n\'e3o se lhes deparar no historiador Jos\'e9 o menor tra\'e7o a respeito de Jesus Cristo. Porque todos s\'e3o acordes hoje em que o breve trecho que lhe dedica o historiador fariseu em sua Hist\'f3ria foi interpolado. No entanto o pai de Jos\'e9 devia ter sido testemunha de todos os milagres de Jesus. Jos\'e9 era da casta sacerdotal, parente da rainha Mariana, esposa de Herodes. Esparrama- se nas mais ociosas minud\'eancias sobre os mais corriqueiros atos desse pr\'edncipe, e contudo n\'e3o diz palavra sobre a vida ou morte de Jesus. Demais esse historiador, que n\'e3o encapa nenhuma das crueldades de Herodes, cala o mortic\'ednio de todas as crian\'e7as por ele ordenado atento \'e0 nova de que nascera um rei judeu. Conta o calend\'e1rio grego catorze mil crian\'e7as degoladas nessa ocasi\'e3o. \'c9 o mais abomin\'e1vel dos crimes de todos os soberanos. N\'e3o tem s\'edmile na hist\'f3ria da civiliza\'e7\'e3o. A acontecimento t\'e3o singular quanto execr\'e1vel, entretanto, n\'e3o faz a mais leve refer\'eancia o melhor escritor que em todos os tempos possu\'edram os judeus, o \'fanico prezado por gregos e romanos. T\'e3o pouco regista ele o aparecimento da nova estrela que teria acendido no c\'e9u ap\'f3s o nascimento do Redentor, fen\'f4meno ruidoso que n\'e3o devia escapar a um historiador esclarecido como Jos\'e9. Mant\'e9m sil\'eancio ainda sobre as trevas que, \'e0 morte do Salvador, com o sol a pino cobriram toda a terra por espa\'e7o de tr\'eas horas, e sobre a grande quantidade de t\'famulos que ent\'e3o se abriram e a multid\'e3o dos justos ressurretos. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o cessam os eruditos de manifestar sua surpresa de ver que nenhum historiador romano regista semelhantes prod\'edgios, consumados sob o reinado de Tib\'e9rio, aos olhos de uma guarni\'e7\'e3o e de um governador romano, que devia ter enviado ao imperador e ao senado relat\'f3rio circunstanciado do mais miraculoso evento que ouvidos humanos ouviram contar. A pr\'f3pria Roma devia ter- se imerso durante tr\'eas horas em espessas trevas. Deviam assinalar tamanho prod\'edgio os fastos de Roma e de todas as na\'e7\'f5es. Deus n\'e3o quis fossem tais coisas divinas escritas por m\'e3os profanas. \

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\par \~\~\~\~\~ Outras dificuldades empacham os eruditos na hist\'f3ria dos Evangelhos. Observam eles que em S. Mateus Jesus diz aos escribas e aos fariseus que sobre eles recairia todo o sangue inocente derramado na terra, desde Abel at\'e9 Zacarias, filho de Baraque, por eles assassinado no templo. Ora, a hist\'f3ria dos hebreus n\'e3o menciona, afirmam os eruditos, nenhum Zacarias morto no templo, nem antes nem depois do advento do Messias. O \'fanico historiador a registar o fato \'e9 Jos\'e9, livro 4, cap\'edtulo 19, ao falar do s\'edtio de Jerusal\'e9m. Da\'ed suspeitaram eles ter o Evangelho segundo S. Mateus sido escrito depois da tomada de Jerusal\'e9m por Tito. Mas todas as d\'favidas e obje\'e7\'f5es dessa esp\'e9cie se dirimem desde que se considere a infinita divers\'e3o que for\'e7osamente h\'e1 de haver entre os livros divinamente inspirados e os livros dos homens. Aprouve a Deus envolver numa nuvem t\'e3o respeit\'e1vel quanto obscura o seu nascimento, sua vida e sua morte. Em tudo diferem seus m\'e9todos dos nossos. \

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\par \~\~\~\~\~ Outro ponto que tem quebrado a cabe\'e7a aos literatos \'e9 a diferen\'e7a das duas genealogias de Cristo. S. Mateus d\'e1 por pai a Jos\'e9, Jac\'f3, a Jac\'f3, Mat\'e3, a Mat\'e3, Eleazar. S. Lucas, ao contr\'e1rio, diz que Jos\'e9 era filho de Heli, Heli de Matate, Matate de Lev\'ed, Lev\'ed de Jana, etc. \

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\par \~\~\~\~\~ Engasga- os ainda a suposi\'e7\'e3o de Jesus n\'e3o ser filho de Jos\'e9, mas de Maria. Atalham- nos tamb\'e9m certas d\'favidas quanto aos milagres do nosso Redentor, atentos os escritos de Sto. Agostinho, Sto. Hil\'e1rio e outros, que atribu\'edram ao relato de tais milagres sentido m\'edstico, aleg\'f3rico. Exemplos: a figueira \

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\par amaldi\'e7oada e secada para n\'e3o dar frutos, quando n\'e3o era tempo de figo. Os dem\'f4nios enviados no corpo de porcos, num pa\'eds onde n\'e3o havia porcos. A \'e1gua transformada em vinho ao fim de um repasto, quando os comensais j\'e1 se achavam excitados. Todas essas cr\'edticas dos doutos, por\'e9m, confunde- as a f\'e9, que com isso n\'e3o faz sen\'e3o aviventar- se. Outro n\'e3o \'e9 o escopo deste artigo sen\'e3o rastear o fio hist\'f3rico e dar uma id\'e9ia tanto quanto poss\'edvel exata dos fatos sobre que ningu\'e9m discute. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Primeiramente, Jesus nasceu sob a lei mosaica, segundo esta lei foi circuncidado, dela cumpriu todos os preceitos e celebrou todas as festas. S\'f3 pregou moral. N\'e3o revelou o mist\'e9rio da pr\'f3pria encarna\'e7\'e3o nem disse aos judeus haver nascido de uma virgem. Recebeu a b\'ean\'e7\'e3o de Jo\'e3o nas \'e1guas do rio Jord\'e3o, cerim\'f4nia a que muitos judeus se submetiam, conquanto ele pr\'f3prio jamais tenha batizado ningu\'e9m. N\'e3o falou dos sete sacramentos - Humanamente n\'e3o se colocou em nenhuma hierarquia eclesi\'e1stica. Ocultou a seus contempor\'e2neos ser filho de Deus, eternamente gerado, consubstancial a Deus, e que o Esp\'edrito Santo procedia do Pai e do Filho. N\'e3o disse que sua pessoa se compunha de duas naturezas e de duas vontades. Quis que esses grandes mist\'e9rios fossem revelados aos homens no decorrer dos tempos por aqueles que haviam de ser esclarecidos pelas luzes do Esp\'edrito Santo. Vivo, em nada se arredou da lei de seus pais. N\'e3o mostrou aos homens mais que um justo grato a Deus, perseguido pelos invejosos e condenado \'e0 morte por magistrados prevenidos. Quis que sua Santa Igreja, por ele fundada, fizesse o resto. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Fala Jos\'e9 no cap\'edtulo 12 de sua Hist\'f3ria de uma seita de judeus rigoristas, recentemente fundada por um tal Judas galileu - "Eles desprezam" - diz - "os males terrenos, triunfando dos tormentos pela const\'e2ncia. Preferem, pela gl\'f3ria, a morte \'e0 vida. Optaram sofrer ferro e fogo, deixar que lhes quebrassem os ossos a pronunciar a menor palavra contra seu legislador ou comer carnes vedadas". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O retrato parece quadrar aos juda\'edstas e n\'e3o aos ess\'eanios. Palavras de Jos\'e9: "Judas foi autor de uma nova seita, de todo ponto diversa das tr\'eas outras - de saduceus, fariseus e ess\'eanios". A breve trecho: "S\'e3o judeus de nacionalidade. Vivem unidos entre si, e consideram v\'edcio a vol\'fapia". Denota o sentido natural da frase ser dos juda\'edstas que fala o autor. \

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\par \~\~\~\~\~ Seja como for, conheceram- se esses juda\'edstas antes que os disc\'edpulos de Cristo constitu\'edssem partido consider\'e1vel no mundo. \

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\par \~\~\~\~\~ Os terapeutas eram uma sociedade diferente de ess\'eanios e juda\'edstas. Tiravam aos ginossofistas da \'cdndia e aos bramas. "Anima- os" - atesta F\'edlon - "um \'edmpeto de amor celeste que os transporta ao entusiasmo dos bacantes e coribantes e guinda- os ao estado de contempla\'e7\'e3o a que aspiram. Esta seita nasceu em Alexandria, ent\'e3o in\'e7ada de judeus, e alastrou ferazmente pelo Egito". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os disc\'edpulos de Jo\'e3o Batista tamb\'e9m proliferaram um pouco no Egito, mas principalmente na S\'edria e Ar\'e1bia. Medraram outrossim na \'c1sia Menor. Dizem os Atos dos Ap\'f3stolos (cap\'edtulo 19) haver Paulo encontrado muitos deles em \'c9feso, aos quais indagou: \

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\par \~\~\~\~\~"- Recebestes o Esp\'edrito Santo \~\~\~\~\~- Nem sequer ouvimos falar que houvesse um Esp\'edrito Santo. \~\~\~\~\~- Que batismo recebestes \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (74 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par \~\~\~\~\~- O batismo de .Jo\'e3o." \~\~\~\~\~ Existiam, nos primeiros anos que se seguiram \'e0 morte de Cristo, sete sociedades ou seitas distintas entre os judeus: fariseus, saduceus, ess\'eanios, juda\'edstas, terapeutas, disc\'edpulos de Jo\'e3o e disc\'edpulos de Cristo, cujo diminuto rebanho Deus conduzia a sendas desconhecidas da sabedoria humana. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foram os fi\'e9is apelidados crist\'e3os em Anti\'f3quia, por beira do ano 60 da era vulgar. No imp\'e9rio romano, como adiante veremos, foram conhecidos por outros nomes De primeiro n\'e3o se distinguiam sen\'e3o pela denomina\'e7\'e3o de irm\'e3os, santos ou fi\'e9is. Deus, que baixara \'e0 terra a fim de ser exemplo de humildade e pobreza, dera assim toscos alicerces \'e0 sua igreja e guiara- a no mesmo estado de humilha\'e7\'e3o em que lhe aprouvera nascer. Foram os primeiros crist\'e3os homens obscuros, trabalhadores manuais. Diz o ap\'f3stolo Paulo que ganhava a vida construindo tendas. S. Pedro ressuscitou a costureira Dorcas, que fazia os h\'e1bitos dos irm\'e3os. Os fi\'e9is reuniam- se em Jope, em casa de um curtidor de nome Sim\'e3o, reza o cap\'edtulo 9 dos Atos dos Ap\'f3stolos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Secretamente os fi\'e9is se infiltraram na Gr\'e9cia, e de l\'e1 alguns conseguiram transladar- se a Roma de contrabando com os judeus, a quem os romanos permitiam o funcionamento de uma sinagoga. N\'e3o se lhes separaram logo. Observavam a circuncis\'e3o e, como alhures j\'e1 se advertiu, os quinze primeiros bispos de Jerusal\'e9m foram todos circuncidados. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ao tomar consigo Tim\'f3teo, que era filho de pai gentio, o ap\'f3stolo Paulo circuncidou- o com as pr\'f3prias m\'e3os no lugarejo de Listra. Tito, por\'e9m, outro disc\'edpulo seu, n\'e3o se deixou circuncidar. Mantiveram- se os irm\'e3os disc\'edpulos de Cristo em uni\'e3o com os judeus at\'e9 que Paulo foi perseguido em Jerusal\'e9m por levar estrangeiros ao templo. Acusavam- no os judeus de querer substituir a lei mosaica por Jesus Cristo. Foi para expungir- se dessa acusa\'e7\'e3o que o ap\'f3stolo Jaques prop\'f4s ao ap\'f3stolo Paulo fazer- se rapar a cabe\'e7a e purificar- se no templo com quatro judeus. que haviam feito voto de se barbearem. "Tomai- os convosco" - disse- lhe Jaques (cap\'edtulo 21, Atos dos Ap\'f3stolos). - "Purificai- vos com eles, e que todos saibam ser falso o que de v\'f3s se diz e que continuais a observar a lei de Mois\'e9s". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Paulo foi criminado tamb\'e9m de impiedade e heresia, e seu processo durou longo tempo. Evidencia- se por\'e9m das pr\'f3prias acusa\'e7\'f5es contra ele assacadas que ele viera a Jerusal\'e9m para observar os ritos judaicos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ S\'e3o palavras textuais de Paulo a Festo (cap\'edtulo 25 dos Atos): "N\'e3o pequei nem contra a lei judaica nem contra o templo". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os ap\'f3stolos anunciavam Cristo como judeu, observador da lei judaica, enviado de Deus para faz\'ea- la observar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" A circuncis\'e3o \'e9 \'fatil" - diz o ap\'f3stolo Paulo (cap\'edtulo 2, Ep\'edstolas aos Romanos) - "se observais a lei. Mas se a violais vossa circuncis\'e3o torna- se em prep\'facio. Se o incircunciso observa a lei, \'e9 como se fosse circunciso. Verdadeiro judeu \'e9 o que o \'e9 interiormente". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ao falar de Jesus em suas Ep\'edstolas, n\'e3o revela esse ap\'f3stolo o mist\'e9rio inef\'e1vel da consubstancialidade do Crucificado com Deus. "Por ele fomos salvos" - diz (cap\'edtulo 5, Ep\'edstolas aos \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (75 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 58] \

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\par Romanos) "da c\'f3lera de Deus - Pela gra\'e7a concedida a um s\'f3 homem - Jesus Cristo - derramou- se sobre n\'f3s o dom divino. Pelo pecado de um s\'f3 homem, reinou a morte. Por um s\'f3 homem - Jesus - os justos reinar\'e3o." E no cap\'edtulo 8: "N\'f3s, os herdeiros de Deus e os co- herdeiros de Cristo." No cap\'edtulo 16: "A Deus, que \'e9 o s\'e1bio \'fanico, honra e gl\'f3ria por Jesus Cristo. -. - V\'f3s estais em Jesus, e Jesus est\'e1 em Deus" (1a. Aos Cor\'edntios, cap. 3). E (ibd., cap. 15, v. 27): "A ele tudo est\'e1 sujeito, que a ele Deus tudo sujeitou". \

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\par \~\~\~\~\~ Teve- se certa dificuldade em explicar este lan\'e7o da Ep\'edstola aos Filipinos: "Nada fa\'e7ais por gl\'f3ria v\'e3. Crede mutuamente pela humildade que os outros vos s\'e3o superiores. Abrigai os mesmos sentimentos que Jesus, que, achando- se em miss\'e3o de Deus, nem por isso cogitou usurp\'e1- lo a ele se igualando". Penetra- o e esclarece- lhe o verdadeiro sentido uma carta que nos legaram as igrejas de Viena e Li\'e3o, escrita no ano 117, precioso monumento da antig\'fcidade. Louva- se nela a mod\'e9stia de alguns fi\'e9is: "Eles n\'e3o quiseram" reza - "aureolar- se do t\'edtulo de m\'e1rtires (por algumas tribula\'e7\'f5es) a exemplo de Jesus, que, em representa\'e7\'e3o divina, n\'e3o cogitou usurpar a qualidade de par de Deus". Assim tamb\'e9m diz Or\'edgenes em seu Coment\'e1rio sobre Jo\'e3o: "Mais irradiante foi a grandeza de Jesus humilhando- se "do que se tivesse usurpado a paridade com Deus". Efetivamente, seria vis\'edvel contra senso a interpreta\'e7\'e3o contr\'e1ria. Que significaria: "Crede os outros superiores a v\'f3s. Imitai Jesus, que n\'e3o cogitou ser usurpa\'e7\'e3o igualar- se a Deus"? Seria contradizer- se grosseiramente, seria dar um exemplo de grandeza por um exemplo de mod\'e9stia. Seria pecar contra o senso comum. \

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\par \~\~\~\~\~ Assim fundava a sabedoria dos ap\'f3stolos a igreja nascente. Sabedoria que a disputa sobrevinda entre os ap\'f3stolos Pedro, Jaques e Jo\'e3o de um lado e Paulo de outro n\'e3o conseguiu turbar. Essa disputa sobreveio em Anti\'f3quia. O ap\'f3stolo Pedro, tamb\'e9m chamado Cefas, ou ainda Sim\'e3o Barjone, comia com os gentios conversos e com eles n\'e3o observava as cerim\'f4nias da lei nem a distin\'e7\'e3o das carnes. Comiam, ele, Barnab\'e9 e outros disc\'edpulos, indiferentemente carne de porco, carnes afogadas de animais que tinham o p\'e9 fendido e que n\'e3o ruminavam. Havendo chegado, entretanto, numerosos judeus crist\'e3os, com eles S. Pedro retornou \'e0 abstin\'eancia das carnes proibidas e \'e0s cerim\'f4nias da lei mosaica. \

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\par \~\~\~\~\~ A medida era prudente. Ele n\'e3o queria escandalizar os judeus crist\'e3os seus companheiros. Por\'e9m Paulo levantou- se contra ele com um pouco de dureza. "Eu lhe resistia" - disse- lhe no rosto - "porque era conden\'e1vel". (Ep\'edstola aos G\'e1latas, cap. 2). \

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\par \~\~\~\~\~ Essa querela parece tanto mais extraordin\'e1ria da parte de S. Paulo quanto a princ\'edpio ele fora perseguidor, o que o devia tornar mais modesto, fizera sacrif\'edcios no templo de Jerusal\'e9m, circuncidara seu disc\'edpulo Tim\'f3teo e cumprira os ritos judeus que agora censurava em Cefas. Pretende S. Jer\'f4nimo que essa disputa entre Paulo e Cefas era de encomenda. Diz em sua primeira Homilia, tomo 2, que eles fizeram como dois advogados que, para ter mais autoridade sobre os clientes, se escandecem e se aferrotoam no tribunal. E sugere que, pretendendo Pedro Cefas pregar aos judeus e Paulo aos gentios; simularam querelar, Paulo para carear os gentios, Pedro para conquistar os judeus. Sto. Agostinho, por\'e9m, n\'e3o est\'e1 pelos autos: "Amofina- me" - escreve na Ep\'edstola a Jer\'f4nimo - "que um t\'e3o grande homem se torne patrono do embuste, patronum mendacii". \

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\par \~\~\~\~\~ De mais a mais, se Pedro ia pregar aos judeus judaizantes e Paulo aos estrangeiros, \'e9 muito prov\'e1vel que Pedro n\'e3o haja vindo a Roma. Nenhuma men\'e7\'e3o fazem dessa viagem os Atos dos Ap\'f3stolos. \

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\par \~\~\~\~\~ Seja como for, foi por volta do ano 60 da nossa era que os crist\'e3os come\'e7aram a desquitar- se da \

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\par comunh\'e3o judaica, o que tantas encrencas e persegui\'e7\'f5es lhes custou de parte das sinagogas de Roma, Gr\'e9cia, Egito e \'c1sia. Acusaram- nos seus irm\'e3os judeus de irreligiosidade, ate\'edsmo e excomungavam- nos tr\'eas vezes nos dias de sabate. Mas Deus protegeu- os em meio ao alude das persegui\'e7\'f5es. \

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\par \~\~\~\~\~ Pouco a pouco proliferaram igrejas, e antes do fim do primeiro s\'e9culo ultimou- se o div\'f3rcio entre judeus e crist\'e3os. O governo romano ignorava essa separa\'e7\'e3o. Nem o senado nem os imperadores tinham olhos para as brigas de um partido insignificante que at\'e9 ent\'e3o Deus conduzira na obscuridade e s\'f3 insensivelmente trazia \'e0 luz diurna. \

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\par \~\~\~\~\~ Balancemos o estado em que a esse tempo se achava a religi\'e3o do imp\'e9rio romano. Em quase toda a terra gozavam de cr\'e9dito os mist\'e9rios e as expia\'e7\'f5es. Imperadores, grandes e fil\'f3sofos, \'e9 verdade, n\'e3o tinham a menor f\'e9 em tais mist\'e9rios. Mas o povo, que em mat\'e9ria de religi\'e3o dita a lei aos grandes, impunha- lhes a necessidade de se conformarem aparentemente com seu culto. Cumpre, para encade\'e1- lo, arrastar as mesmas cadeias que ele. O pr\'f3prio C\'edcero iniciou- se nos mist\'e9rios de Eleusina. A concep\'e7\'e3o monoteica era o principal dogma que se anunciava nessas festas misteriosas e magn\'edficas. N\'e3o h\'e1 negar serem as ora\'e7\'f5es e os hinos que desses mist\'e9rios nos restam o que de mais piedoso e admir\'e1vel possui o paganismo. \

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\par \~\~\~\~\~ O serem os crist\'e3os tamb\'e9m monote\'edstas muito lhes facilitou a convers\'e3o dos gentios. Alguns fil\'f3sofos da seita de Plat\'e3o bandearam para o cristianismo. A\'ed est\'e1 por que foram plat\'f4nicos todos os padres da igreja dos tr\'eas primeiros s\'e9culos. \

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\par \~\~\~\~\~ O zelo inconsiderado de alguns n\'e3o conseguiu opor empe\'e7os \'e0s verdades fundamentais. Reprovou- se a S. Justino, um dos primeiros padres, o haver dito em seu Coment\'e1rio sobre Isa\'edas que, em reinado de mil anos sobre a terra, os santos gozariam de todos os bens sensuais. Reputou- se- lhe crime o dizer na Apologia do Cristianismo que, tendo Deus criado a terra, deixou- a aos cuidados dos anjos, que, enamorando- se das mulheres, lhes fizeram filhos, que s\'e3o os dem\'f4nios. \

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\par \~\~\~\~\~ Condenou- se a Lact\'e2ncio e outros padres o terem dado cr\'e9dito aos or\'e1culos das sibilas. Pretendia ele haver a sibila Eritr\'e9ia composto estes quatro versos gregos, que traduzo \'e0 corti\'e7a da letra: - Com cinco p\'e3es e dois peixes - ele alimentar\'e1 cinco mil homens no deserto. - E, juntando os sobejos, - doze cestos encher\'e1. \

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\par \~\~\~\~\~ Acoimou- se outrossim aos primeiros crist\'e3os a falsa alega\'e7\'e3o de certos versos acr\'f3sticos de uma antiga sibila, os quais come\'e7avam todos pelas letras iniciais do nome de Jesus Cristo dispostas na mesma ordem. \

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\par \~\~\~\~\~ Esses escr\'fapulos anticient\'edficos de alguns crist\'e3os n\'e3o impediram a igreja de realizar os progressos que lhe reservava Deus. Primitivamente os crist\'e3os celebravam seus mist\'e9rios em casas retiradas, em subterr\'e2neos, de noite. Da\'ed, atesta Min\'fatio F\'e9lix, lhes veio o apelido de lucifugaces. F\'edlon chamava- os gesseanos. Nos quatro primeiros s\'e9culos foram mais comumente conhecidos por galileus e nazarenos. Sobre todas essas denomina\'e7\'f5es, todavia, prevaleceu a de crist\'e3os. \

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\par \~\~\~\~\~ Nem a hierarquia nem as pr\'e1ticas foram estabelecidas de uma vez. Os tempos apost\'f3licos foram diferentes dos que se lhes seguiram. Ensina- nos S. Paulo (1a. Aos Cor\'edntios) que estando os irm\'e3os retinidos - circuncisos ou n\'e3o - s\'f3 podiam falar dois ou tr\'eas profetas, e se entrementes algu\'e9m tivesse \

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\par uma revela\'e7\'e3o, o profeta que tomara a palavra era obrigado a calar- se. \~\~\~\~\~ Sobre esse uso da igreja primitiva ainda hoje se fundam muitas comunh\'f5es crist\'e3s, em cujas reuni\'f5es n\'e3o h\'e1 hierarquia. Inicialmente qualquer pessoa tinha o direito de falar na igreja, tirante as mulheres. A santa missa de hoje, que se celebra de manh\'e3, primitivamente celebrava- se \'e0 tarde e era a ceia. Esses costumes mudaram \'e0 propor\'e7\'e3o que a igreja se fortaleceu. Sociedade mais extensa exigia evidentemente maior n\'famero de regulamentos, e a prud\'eancia dos pastores soube conformar- se \'e0s diferen\'e7as de tempo e lugar. \

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\par \~\~\~\~\~ Abonam S. Jer\'f4nimo e Eus\'e9bio que, constitu\'eddas as igrejas, paulatinamente foram se distinguindo cinco ordens eclesi\'e1sticas: os vigilantes. - episcopoi - de onde prov\'eaem os bispos; os antigos da sociedade - presbyteroi - padres; os serventes ou di\'e1conos - diaconoi; pistoi - crentes, iniciados, isto \'e9, os batizados, que participavam das ceias dos \'e1gapes; finalmente os catec\'famenos e energ\'famenos, candidatos ao batismo. O h\'e1bito era o mesmo para as cinco ordens. Todas deviam manter o celibato, testemunham o livro de Tertuliano dedicado a sua mulher e o exemplo dos ap\'f3stolos. Nos tr\'eas primeiros s\'e9culos nenhuma representa\'e7\'e3o, pintada ou esculpida, presidia a suas reuni\'f5es. Os crist\'e3os escondiam cuidadosamente seus livros aos gentios, n\'e3o os confiando sen\'e3o aos iniciados. Nem aos catec\'famenos era permitido recitar a ora\'e7\'e3o dominical. \

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\par \~\~\~\~\~ O que mais caracteristicamente distinguia os crist\'e3os, e que veio at\'e9 nossos dias, era o poder de espantar os diabos com o sinal da cruz. Conta Or\'edgenes no Tratado contra Celso, n\'famero 133, que Antinous, divinizado pelo imperador Adriano, fazia milagres no Egito por for\'e7a de encantamentos e prest\'edgios. Acrescenta, entretanto, bastar a simples pronuncia\'e7\'e3o do nome de Jesus para os diabos deixarem o corpo dos possessos. \~\~\~\~\~ Tertuliano vai mais longe e dos fundos da \'c1frica proclama: "Se vossos deuses n\'e3o confessarem ser diabos na presen\'e7a de um vero crist\'e3o, de bom grado vos veria derramar o sangue desse crist\'e3o". (Apolog\'e9tica, cap\'edtulo 23). Haver\'e1 coisa mais evidente? \

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\par \~\~\~\~\~ Efetivamente, Jesus Cristo enviou seus ap\'f3stolos a fim de correr os dem\'f4nios. Dom de expuls\'e1- los tiveram tamb\'e9m os judeus, porque, quando Jesus livrou possessos e espaventou os diabos no corpo de uma vara de porcos e operou outras curas que tais, disseram os fariseus: expulsa os dem\'f4nios pelo poder de Belzebu. - Se \'e9 por Belzebu que eu os expulso - retrucou Jesus - por quem os expulsam vossos filhos!" \'c9 incontest\'e1vel que os judeus se gabavam desse poder. Tinham exorcistas e exorcismos. Invocavam o nome do deus de Jac\'f3 e de Abra\'e3o. Introduziam ervas consagradas no nariz dos demon\'edacos. (Jos\'e9 relata parte dessas cerim\'f4nias). Esse poder sobre os diabos, que os judeus perderam, transmitiu- se aos crist\'e3os, que tamb\'e9m parecem t\'ea- lo perdido desde algum tempo. \

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\par \~\~\~\~\~ Compreendia o poder de expulsar os dem\'f4nios tamb\'e9m o de desfazer as opera\'e7\'f5es da magia. Porque a magia esteve em voga em todos os tempos e em todas as na\'e7\'f5es. Todos os padres da igreja a ela se referem. Observa S. Justino (Apolog\'e9tica, livro 3) ser muito comum invocar- se a alma dos mortos, tirando da\'ed um argumento em favor da imortalidade da alma. Lact\'e2ncio (Institui\'e7\'f5es Divinas, livro 7) diz que "Se ous\'e1sseis negar a subsist\'eancia da alma ao corpo, o mago vos convenceria do contr\'e1rio fazendo- a aparecer". Ireneu, Clemente Alexandrino, Tertuliano, o bispo Cipriano, todos afirmam a mesma coisa Verdade \'e9 que hoje tudo mudou e que j\'e1 n\'e3o existem magos nem endemoninhados. Mas certamente voltar\'e3o \'e0 cena quando for da vontade de Deus. \

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\par \~\~\~\~\~ Quando as sociedades crist\'e3s se tornaram mais ou menos numerosas e muitas se levantaram contra o \

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\par culto do imp\'e9rio romano, contra elas agiram rigorosamente os magistrados e sobretudo as perseguiu o povo. N\'e3o se perseguia aos judeus, que gozavam de privil\'e9gios particulares e se encaramujavam em suas sinagogas. Permitia- se- lhes o exerc\'edcio de sua religi\'e3o, como ainda o permite a Roma de hoje. Todos os cultos do imp\'e9rio eram tolerados, embora n\'e3o os adotasse o senado. \

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\par \~\~\~\~\~ Tendo por\'e9m os crist\'e3os se declarado inimigos de todos esses cultos, e sobretudo da religi\'e3o do imp\'e9rio, expuseram- se muitas vezes a cru\'e9is prova\'e7\'f5es. \

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\par \~\~\~\~\~ Um dos primeiros e mais c\'e9lebres m\'e1rtires foi In\'e1cio, bispo de Anti\'f3quia, condenado pelo pr\'f3prio imperador Trajano, ent\'e3o na \'c1sia, e por ordens suas transportado a Roma a fim de ser exposto \'e0s feras. Isso num tempo em que ainda n\'e3o era costume trucidar crist\'e3os em Roma. Ignora- se de que tenha sido acusado junto desse imperador, afamado pela dem\'eancia. Necess\'e1rio era que In\'e1cio tivesse inimigos figadais. De qualquer forma, conta a hist\'f3ria de seu mart\'edrio haver- se encontrado em seu cora\'e7\'e3o, gravado em letras de ouro, o nome de Jesus Cristo. Da\'ed apelidarem- se os crist\'e3os em alguns lugares te\'f3foros, como a si pr\'f3prio se chamava In\'e1cio. \

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\par \~\~\~\~\~ Conserva- se uma carta sua em que pede aos bispos e aos crist\'e3os n\'e3o se oporem a seu mart\'edrio, fosse porque j\'e1 ent\'e3o eram os fi\'e9is em n\'famero suficiente para impedi- lo, fosse porque os houvesse bastante acreditados para obter- lhe a gra\'e7a. Not\'e1vel \'e9 ter- se consentido que, ao ser trazido a Roma, os crist\'e3os desta cidade fossem receb\'ea- lo. O que prova que se punia nele a pessoa e n\'e3o a seita. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o foram continuadas as persegui\'e7\'f5es. Escreve Or\'edgenes (Tratado contra Celso, livro 3): "Poucos foram os crist\'e3os que morreram por sua religi\'e3o. S\'f3 muito raramente se verificavam execu\'e7\'f5es dessa natureza". \

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\par \~\~\~\~\~ Tantos carinhos dispensou Deus a sua igreja que, a despeito de seus desafetos, fez que tivesse cinco conc\'edlios (congressos tolerados) no primeiro s\'e9culo, dezesseis no segundo e trinta no terceiro. Por vezes tais congressos foram proibidos, quando a falsa prud\'eancia dos magistrados temia que degenerassem em tumultos. Poucos s\'e3o os processos verbais que nos restam de proc\'f4nsules e pretores que condenaram crist\'e3os \'e0 morte. S\'f3 \'e0 vista desses documentos poder\'edamos julgar das acusa\'e7\'f5es contra eles assacadas e de seus supl\'edcios. \

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\par \~\~\~\~\~ Temos um fragmento de Din\'eds de Alexandria, no qual se relata o extrato da chancelaria de um proc\'f4nsul do Egito sob o imperador Valeriano. Ei- lo: \

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\par \~\~\~\~\~ Introduzidos na sala de audi\'eancia Din\'eds, Fausto, M\'e1ximo, Marcelo e Querem\'e3o, disse- lhes o prefeito Emiliano: "Tomastes conhecimento, pelas palestras que convosco tive e por tudo que a respeito tenho escrito, qu\'e3o bondosos t\'eam sido nossos pr\'edncipes em rela\'e7\'e3o a v\'f3s. Repito- o: a v\'f3s mesmos entregaram vossa conserva\'e7\'e3o e vossa sa\'fade. Vosso destino est\'e1 em vossas m\'e3os. Uma \'fanica coisa vos pedem, coisa que a raz\'e3o exige a toda pessoa razo\'e1vel: que adoreis os deuses protetores de seu imp\'e9rio e renegueis a esse culto contr\'e1rio \'e0 natureza e ao bom senso". \

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\par \~\~\~\~\~ Respondeu Din\'eds: "Nem todos os homens t\'eam os mesmos deuses. Cada um adora os que julga verdadeiramente serem- no." \

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\par \~\~\~\~\~ Replicou o prefeito Emiliano: "Vejo que sois ingratos e que abusais da bondade dos imperadores. Pois \

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\par bem: n\'e3o continuareis nesta cidade. Mand\'e1- los- ei para Cefro, nos confins da L\'edbia, conforme ordem que receb\'ed dos nossos imperadores. N\'e3o penseis reeditar l\'e1 vossas reuni\'f5es nem orar nesses lugares a que chamais cemit\'e9rios: tal vos \'e9 terminantemente vedado, e n\'e3o o permitirei a ningu\'e9m". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nada mais possivelmente verdadeiro que esse processo verbal. Evidencia- se que houve tempo em que eram proibidas as reuni\'f5es dos crist\'e3os, assim como entre n\'f3s se interdiz aos calvinistas congregarem- se em Languedoc. Chegamos at\'e9, uma vez ou outra, a fazer enforcar e rodar ministros e pregadores que promoveram congressos a despeito da lei. Na Inglaterra e Irlanda, igualmente, pro\'edbem- se as reuni\'f5es de cat\'f3licos romanos, e ocasi\'f5es houve em que os delinq\'fcentes foram condenados \'e0 morte. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mau grado essas interdi\'e7\'f5es das leis romanas, Deus inspirou a muitos imperadores a indulg\'eancia para com os crist\'e3os. O pr\'f3prio Diocleciano, que os ignorantes t\'eam como perseguidor, Diocleciano, cujo primeiro ano de reinado ainda se enevoa na idade dos m\'e1rtires, foi durante muitos anos protetor declarado do cristianismo, a ponto de numerosos crist\'e3os deterem dos principais cargos ao p\'e9 de sua pessoa. Chegou a tolerar que em Nicomedia, sua resid\'eancia, se elevasse uma igreja defronte a seu pal\'e1cio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Infelizmente prevenido contra os crist\'e3os, de quem temia viesse algum dia a se lamentar, o c\'e9sar Gal\'e9rio fez Diocleciano destruir a catedral de Nicom\'e9dia. Um crist\'e3o mais piedoso que reportado fez em peda\'e7os o \'e9dito do imperador, acendendo a famosa persegui\'e7\'e3o que condenou \'e0 morte mais de duzentas pessoas em toda a extens\'e3o do imp\'e9rio romano, sem contar as que, contra as formas jur\'eddicas, sacrificou a f\'faria do populacho, sempre fan\'e1tico e sempre b\'e1rbaro. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ T\'e3o copioso \'e9 o rol dos m\'e1rtires que seria conveniente cuidar de n\'e3o baralhar a hist\'f3ria dos verdadeiros confessores da nossa santa religi\'e3o com o perigoso emaranhado de f\'e1bulas e falsos m\'e1rtires. \

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\par \~\~\~\~\~ O beneditino dom Ruinart, por exemplo, homem ali\'e1s de tanta instru\'e7\'e3o quanto respeit\'e1vel e zeloso, devia ter escalrachado com mais discri\'e7\'e3o seus Atos Sinceros. N\'e3o \'e9 s\'f3 escabichar um manuscrito em meio \'e0 papelada do abade de Saint- Beno\'eet- sur- Loire ou de um convento de celestinos de Paris, conforme a um manuscrito dos fuldenses, e decret\'e1- lo aut\'eantico. \'c9 necess\'e1rio que seja antigo, escrito por contempor\'e2neos e, sobretudo, que estampe o selo da verdade. \

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\par \~\~\~\~\~ Exemplo: o caso do jovem Romano, que a hist\'f3ria situa no ano 303. Romano obtivera, em Anti\'f3quia, o perd\'e3o de Diocleciano. Sentencia o sr. Ruinart, no entanto, ter sido ele condenado ao fogo pelo juiz Asclep\'edades. Judeus presentes ao espet\'e1culo haveriam mofado do jovem S. Romano, acoimando aos crist\'e3os o abandon\'e1- los seu Deus \'e0 tortura do fogo, ele que salvara ao forno Sidraque, Misaque e Abdenago. Presto se levantaria, no mais sereno do tempo, uma tempestade que apagaria o fogo. Ent\'e3o o juiz teria ordenado que se cortasse a l\'edngua ao jovem Romano. Encontrando- se ali o primeiro m\'e9dico do imperador, oficiosamente desempenharia a fun\'e7\'e3o de algoz, cortando- lhe cerce a l\'edngua. De improviso o jovem, que era tartamudo, come\'e7aria a parolar muito a prazer. Assombrando- se o imperador de que se falasse t\'e3o bem sem l\'edngua, o m\'e9dico, para reiterar a experi\'eancia, cortaria a l\'edngua ao primeiro passante que visse, o qual morreria instantaneamente. \

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\par \~\~\~\~\~ Eus\'e9bio, de quem o beneditino Ruinart extraiu esse conto, devia respeitar um pouco mais os verdadeiros milagres operados no Velho e Novo Testamento (que ningu\'e9m ter\'e1 o desplante de p\'f4r em d\'favida) e n\'e3o enxertar- lhes hist\'f3rias t\'e3o suspeitas, que podem escandalizar os simples. \

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\par \~\~\~\~\~ Essa \'faltima persegui\'e7\'e3o n\'e3o se estendeu a todo o imp\'e9rio. Havia ent\'e3o na Inglaterra uns brotos de cristianismo, os quais se eclipsaram incontinenti para logo p\'f4r a cabecinha de fora sob os reis sax\'f5es. In\'e7adas de crist\'e3os estavam as G\'e1lias meridionais e a Espanha. Muito os protegeu em todas essas prov\'edncias o c\'e9sar Const\'e2ncio Cloro. Teve at\'e9 uma concubina crist\'e3: a m\'e3e de Constantino, conhecida por Sta. Helena. Porque o fato \'e9 que nunca se provou que fossem casados, e efetivamente, ao esposar a filha de Maximiano H\'e9rcules, em 292, Const\'e2ncio recambiou- a. Helena, contudo, conservara sobre ele grande ascend\'eancia, inspirando- lhe profunda afei\'e7\'e3o a nossa santa religi\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Preparou a divina Provid\'eancia, por vias que mais parecem humanas que divinas, o triunfo de sua igreja. Const\'e2ncio Cloro morreu no ano 306, em York, Inglaterra, quando os rebentos que tivera da filha de um c\'e9sar mal se haviam emancipado dos cueiros, n\'e3o podendo portanto candidatar- se ao trono. Fez- se Constantino eleger em York por cinco ou seis mil soldados, alem\'e3es, gauleses e ingleses na maior parte. Nada augurava que semelhante elei\'e7\'e3o, realizada sem consentimento de Roma, do senado e dos ex\'e9rcitos, pudesse prevalecer. Deus, n\'e3o obstante, deu- lhe a vit\'f3ria sobre Max\'eancio, eleito em Roma, e por fim desembara\'e7ou- o de todos os rivais. De tudo isso depreende- se que n\'e3o o tornara indigno dos favores do c\'e9u o haver assassinado todos aqueles que dele se aproximaram, a pr\'f3pria mulher e o pr\'f3prio filho. \

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\par \~\~\~\~\~ Imposs\'edvel duvidar do que a respeito relata Z\'f3simo. Diz que, mordido de remorsos depois de tantos crimes, Constantino perguntou aos pont\'edfices do imp\'e9rio se ainda havia expia\'e7\'e3o poss\'edvel para ele, ao que lhe responderam n\'e3o conhecer. Verdade \'e9 que tamb\'e9m n\'e3o a houvera para Nero, que n\'e3o ousara assistir aos sacros mist\'e9rios na Gr\'e9cia. Estavam em voga, entretanto, os taurob\'f3lios, e seria dif\'edcil crer que um imperador que tudo podia n\'e3o encontrasse um padre que lhe concedesse sacrif\'edcios expiat\'f3rios. Menos cr\'edvel ainda ser\'e1 que, absorvido pela guerra, sua ambi\'e7\'e3o, seus projetos e rodeado de bajuladores, tivesse Constantino tempo para sentir remorsos. Acrescenta Z\'f3simo que um padre eg\'edpcio vindo da Espanha, que tinha acesso a sua porta, prometeu- lhe a expia\'e7\'e3o de todos os seus crimes dentro da religi\'e3o crist\'e3. Desconfia- se tratar- se de \'d3zio, bispo de C\'f3rdova. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Seja como for, Constantino comungou com os crist\'e3os, se bem nunca tivesse sido catec\'fameno, e reservou o batismo para a hora da morte. Mandou construir a cidade de Constantinopla, que se tornou centro do imp\'e9rio e da religi\'e3o crist\'e3. Ent\'e3o a igreja tomou uma forma augusta. \

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\par \~\~\~\~\~ Note- se que desde o ano 314, antes de Constantino fixar resid\'eancia em sua nova cidade, os que haviam perseguido os crist\'e3os foram por estes punidos de suas crueldades. Os crist\'e3os lan\'e7aram a mulher de Maximiano ao Oronte, degolaram todos os seus parentes e trucidaram no Egito e Palestina os magistrados que mais abertamente tinham se declarado contra o cristianismo. Identificadas a vi\'fava e a filha de Diocleciano, que se haviam refugiado em Tessal\'f4nica, atiraram- nas ao mar. Seria de desejar dessem os crist\'e3os menos ouvidos ao esp\'edrito de vingan\'e7a. Mas quis Deus, que castiga segundo a sua justi\'e7a, que as m\'e3os dos crist\'e3os se tingissem do sangue de seus perseguidores apenas as tivessem desvencilhadas. \

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\par \~\~\~\~\~ Convocou, reuniu Constantino em Nic\'e9ia, em frente a Constantinopla, o primeiro conc\'edlio ecum\'eanico, presidido por \'d3zio. L\'e1 se decidiu a magna quest\'e3o que agitava a igreja, referente \'e0 divindade de Jesus Cristo. \

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\par \~\~\~\~\~ Uns esposavam a opini\'e3o de Or\'edgenes, que diz no sexto cap\'edtulo contra Celso: "Endere\'e7amos as nossas preces a Deus por Jesus, que est\'e1 entre as naturezas criadas e a natureza incriada, que nos transmite a gra\'e7a de seu pai e, na qualidade de pont\'edfice nosso, dep\'f5e a Deus as nossas ora\'e7\'f5es". Estribavam- se outrossim em diversos passos de S. Paulo, alguns dos quais transcrevemos p\'e1ginas atr\'e1s. Sobretudo arrimavam- se a estas palavras de Cristo: "Meu pai \'e9 maior que eu". Viam em Jesus o primog\'eanito da cria\'e7\'e3o, a mais pura emana\'e7\'e3o do Ser Supremo, mas n\'e3o Deus precisamente. \

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\par \~\~\~\~\~ Outros, ortodoxos, traziam \'e0 luz argumentos mais conformes \'e0 divindade eterna de Jesus, como este: "Meu pai e eu somos a mesma coisa" Palavras que seus advers\'e1rios interpretavam como significando: "Meu pai e eu temos o mesmo des\'edgnio, a mesma vontade. N\'e3o tenho outros desejos sen\'e3o os de meu pai". Capitaneavam os ortodoxos primeiro Alexandre, bispo de Alexandria, e depois Atan\'e1sio. No partido contr\'e1rio alinhavam- se Eus\'e9bio, bispo de Nicomedia, o padre Ario e mais dezessete bispos e numerosos padres. Logo de sa\'edda azedou- se a disputa por haver Alexandre tratado de anticristos seus advers\'e1rios. \

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\par \~\~\~\~\~ Enfim, ao cabo de muita discuss\'e3o assim se pronunciou o Esp\'edrito Santo no conc\'edlio pela boca de duzentos e noventa e nove bispos contra dezoito: "Jesus \'e9 o filho \'fanico de Deus, gerado do Pai, isto \'e9, da subst\'e2ncia do Pai, Deus de Deus, luz da luz, vero Deus de vero Deus, consubstancial ao Pai. Cremos igualmente no Esp\'edrito Santo, etc." Foi esta a f\'f3rmula do conc\'edlio. V\'ea- se pelo exemplo o quanto prevaleciam os bispos sobre os simples padres. Dois mil membros da segunda ordem perfilhavam o parecer de Ario, segundo rela\'e7\'e3o de dois patriarcas de Alexandria que escreveram a cr\'f4nica dessa cidade em \'e1rabe. Ano foi exilado por Constantino. Logo o foi tamb\'e9m Atan\'e1sio, e Ario de novo chamado a Constantinopla. Por\'e9m t\'e3o fervorosamente pediu Mac\'e1rio a Deus que o fizesse morrer antes de entrar na catedral que foi atendido. Faleceu Ario a caminho da igreja, no ano 330. Em 337 finou- se Constantino. Entregou seu testamento a um padre ariano e morreu nos bra\'e7os do chefe dos arianos, Eus\'e9bio, bispo de Nicomedia, s\'f3 se batizando \'e0 hora da morte. Deixou a igreja triunfante, embora dividida. \

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\par \~\~\~\~\~ Tremenda guerra estalou entre os partid\'e1rios de Atan\'e1sio e os de Eus\'e9bio, e o chamado arianismo vigorou longo tempo em todas as prov\'edncias do imp\'e9rio. \

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\par \~\~\~\~\~ Juliano o fil\'f3sofo, cognominado o Ap\'f3stata, tentou p\'f4r cobro a tais divis\'f5es, por\'e9m em v\'e3o. \~\~\~\~\~ O segundo conc\'edlio geral reuniu- se em Constantinopla, em 381. Esclareceu- se ent\'e3o o que o conc\'edlio de Nic\'e9ia n\'e3o julgara a prop\'f3sito dizer sobre o Esp\'edrito Santo, e acrescentou- se \'e0 f\'f3rmula niceana que "O Esp\'edrito Santo \'e9 senhor vivificante procedente do Pai, e adorado e glorificado como o Pai e o Filho". \

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\par \~\~\~\~\~ S\'f3 no s\'e9culo IX estatuiu gradativamente a igreja latina proceder o Esp\'edrito Santo do Pai e do Filho. \~\~\~\~\~ Em 431 o terceiro conc\'edlio geral realizado em \'c9feso resolveu que Maria foi de fato m\'e3e de Deus, e que Jesus tinha duas naturezas e uma pessoa. Querendo Nest\'f3rio, bispo de Constantinopla, que a Santa Virgem fosse chamada m\'e3e de Cristo, declarou- o judas o conc\'edlio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Confirmou a dualidade de naturezas de Cristo o conc\'edlio de Calced\'f4nia. \~\~\~\~\~ Refiro- me a lume de palha aos s\'e9culos subsequentes por sobejamente conhecidos. Infelizmente todas essas disputas eram pomo de guerras, de forma que volta e meia a igreja se via obrigada a combater. \

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\par Aprouve a Deus, a fim de provar a paci\'eancia dos fi\'e9is, que no s\'e9culo IX gregos e latinos rompessem definitivamente. Aprouve- lhe ainda que se formassem no Ocidente vinte e nove cismas sangrentos para o p\'falpito de Roma. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Entretanto quase toda a igreja grega e toda a igreja da \'c1frica foram avassaladas pelos \'e1rabes, em seguida pelos turcos, os quais erigiram a igreja de Mafoma por sobre as ru\'ednas da de Cristo. A igreja romana subsistiu, por\'e9m, manchada de sangue por mais de seiscentos anos de disc\'f3rdia entre o imp\'e9rio do Oriente e o sacerd\'f3cio. Tornaram- na at\'e9 mais poderosa essas dissens\'f5es. Bispos e abades na Alemanha transformaram- se em pr\'edncipes, e paulatinamente os papas investiram- se de dom\'ednio absoluto em Roma e numa regi\'e3o de cem l\'e9guas. Assim experimentou Deus sua igreja por humilha\'e7\'f5es, tumultos e esplendor. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ao descambar do s\'e9culo XVI a igreja latina perdeu metade da Alemanha, a Dinamarca, Su\'e9cia, Inglaterra, Esc\'f3cia, Irlanda, Su\'ed\'e7a e Holanda. Territorialmente essas perdas foram vantajosamente compensadas pelas conquistas espanholas na Am\'e9rica. N\'e3o, por\'e9m, quanto ao n\'famero de s\'faditos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Para compensar o desmembramento da \'c1sia Menor, S\'edria, Gr\'e9cia, Egito, \'c1frica, R\'fassia e as outras na\'e7\'f5es de que falamos, parece que a Divina Provid\'eancia lhe reservava o Jap\'e3o, Siam, \'cdndia e China. S. Francisco Xavier, que levou o Santo Evangelho \'e0s \'cdndias Orientais e ao Jap\'e3o, quando l\'e1 foram em busca de mercadorias os portugueses, fez in\'fameros milagres, atestados todos pelos RR. PP. jesu\'edtas. Dizem at\'e9 que ressuscitou nove mortos. Na Flor dos Santos abate o R. P. Ribadeneira esse n\'famero para quatro, o que ali\'e1s j\'e1 \'e9 bastante. Quis a Provid\'eancia que em menos de cem anos milhares de cat\'f3licos romanos enxameassem as ilhas do Jap\'e3o. Por\'e9m o diabo semeou seu joio em meio da boa semente. Tramaram os crist\'e3os uma conjura\'e7\'e3o acompanhada de uma guerra civil, em que foram totalmente exterminados (1638). Os japoneses fecharam as portas do pa\'eds a todos os estrangeiros, salvo aos holandeses, em quem viam mercadores e n\'e3o crist\'e3os, mas que ainda assim foram obrigados a espezinhar a cruz para obter permiss\'e3o de vender suas mercancias na pris\'e3o onde os trancafiaram logo que puseram p\'e9 em Nagasaqui. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Recentemente a China proscreveu a religi\'e3o cat\'f3lica, apost\'f3lica e romana, bem que com menos crueldade. Em verdade os jesu\'edtas n\'e3o ressuscitaram mortos na corte de Pequim. Contentaram- se em ensinar astronomia, fundir canh\'f5es e ser mandarins. Suas intempestivas contendas com dominicanos e outros de tal forma escandalizaram o grande imperador Iong- tching que este pr\'edncipe, que era a justi\'e7a e a bondade em pessoa, teve a cegueira de proibir em seu estado o ensino da nossa santa religi\'e3o, no seio da qual nem os pr\'f3prios mission\'e1rios viviam em paz. Expulsou- os paternalmente, fornecendo- lhes meios de subsist\'eancia e ve\'edculos at\'e9 os confins de seu imp\'e9rio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Toda a \'c1sia, toda a \'c1frica, metade da Europa, todas as col\'f4nias inglesas e holandesas da Am\'e9rica, todas as tribos americanas n\'e3o domadas, todas as terras austrais, que constituem um quinto do globo, permanecem presa do dem\'f4nio, para provar esta santa senten\'e7a: "Muitos s\'e3o os chamados, mas poucos os eleitos". Se h\'e1 na terra um bilh\'e3o e seiscentos milh\'f5es de homens, como pretendem os entendidos, cerca de sessenta milh\'f5es pertencer\'e3o \'e0 santa igreja romana cat\'f3lica universal: ou seja, mais da vig\'e9sima sexta parte da popula\'e7\'e3o do mundo conhecido. \

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\par CR\'cdTICA \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o pretendo falar dessa cr\'edtica de escoliastas, que se limita a substituir por outra pior uma frase de um escritor antigo que antes se entendia muito bem. N\'e3o me refiro \'e0s cr\'edticas de lei que, na medida das for\'e7as humanas, devassaram os mais rec\'f4nditos escaninhos da hist\'f3ria e da filosofia antigas. Viso \'e0s criticas que descambam para a s\'e1tira. \

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\par \~\~\~\~\~ Um amador de letras lia certa vez Tasso comigo. Antolhou- se- lhe esta est\'e2ncia: Chiama gli abitator dell'ombre eterne il rauco suon della tartarea tromba. Treman le spaziose atre caverne; e l'aer cieco a quel rumor rimbomba: n\'e8 s\'ec stridendo mai dalle superne regioni dei cielo il folgor piomba; n\'e8 s\'ec scossa giammai trema la terra, quando i vapori in sen gravida serra (25). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Leu em seguida ao acaso v\'e1rias est\'e2ncias dessa for\'e7a e harmonia. \~\~\~\~\~- Ora! - exclamou - ent\'e3o \'e9 isso o que o seu Boileau chama farfalhice? Ent\'e3o \'e9 assim que pretende rebaixar um grande homem que viveu cem anos antes dele para melhor entronar outro grande homem que viveu dezesseis s\'e9culos antes, e que teria ele pr\'f3prio rendido justi\'e7a a Tasso? \~\~\~\~\~ Console- se. Vejamos as \'f3peras de Quinault. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Logo \'e0 abertura do livro deparou- se- nos com que nos abespinharmos com a cr\'edtica. Dando com os olhos na tradu\'e7\'e3o do admir\'e1vel poema Armida, lemos: \

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\par Sidonie \

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\par La haine est affreuse et barbare, l'amour contraint les cours dont il s'empare \'e0 souffrir des maux rigoureux. Si votre sort est en votre puissance, faltes choix de l'indiff\'e9rence: elie assure un repos heureux. \

\par \

\par Armide \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (84 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par Non, non, il ne m'est pas possible de passer de mon trouble en un \'e9tat paisible; mon coeur ne se peut plus calmer; Renaud m'offense trop, il n'est que trop aimable; c'est pour moi d\'e9sormais un choix indispensable de le ha\'efr ou de l'aimer. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Lemos de fio a pavio a pe\'e7a Armida, na qual o g\'eanio de Tasso recebe novos encantos das m\'e3os de Quinault. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Veja s\'f3, - observo a meu amigo - no entanto \'e9 este Quinault que Boileau sempre se esfor\'e7ou por fazer ver como o mais reles escrevinhador. Chegou a meter na cabe\'e7a de Lu\'eds XIV que esse escritor gracioso, comovente, pat\'e9tico, elegante, outro m\'e9rito n\'e3o tinha al\'e9m do que tomava de empr\'e9stimo ao m\'fasico Lulli. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Compreende- se. Boileau n\'e3o invejava o m\'fasico, por\'e9m invejava o poeta. Que pensar de um homem que, para rimar um verso em aut, denigre ora Boursault, ora H\'e9nault, ora Quinault, conforme esteja bem ou mal com esses senhores? \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Mas, para que n\'e3o se arrefece a sua repugn\'e2ncia da injusti\'e7a, ponha a cabe\'e7a \'e0 janela, veja aquela bela fachada do Louvre, por que se imortalizou Perrault. Este homem de invulgar habilidade era irm\'e3o de um acad\'eamico sapient\'edssimo, com quem Boileau tivera uma disputa eis o quanto bastou para levar a tacha de arquiteto ignorante." \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Depois de breve sisma, prossegue meu amigo com um Suspiro: \~\~\~\~\~- Assim \'e9 a natureza humana - Em suas M\'e9moires, acha o duque de Sully de inquinar de maus ministros o cardeal de Ossat e o secret\'e1rio de estado Villeroi Tudo fez Louvois para deslustrar o grande Colbert. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- N\'e3o se agatanhavam pessoalmente - reparo. - Trata- se de uma estupidez restrita quase exclusivamente \'e0 literatura, \'e0 cavila\'e7\'e3o e \'e0 teologia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Tivemos um homem de m\'e9rito: Lamotte, que comp\'f4s est\'e2ncias bel\'edssimas: Quelque fois au feu qui la charme r\'e9siste une jeune beaut\'e9, et contre elle- m\'eame elle s'arme d'une p\'e9nible fermet\'e9. H\'e9las! cette contrainte extr\'eame la prive du vice qu'elle aime, pour fuir la honte qu'elle hait. La s\'e9v\'e9rit\'e9 n'est que faste, et l'honneur de passer pour chaste la r\'e9sout \'e0 l'\'eatre en effet. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (85 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par En vain ce s\'e9v\'e8re sto\'efque, sous mille d\'e9fauts abattu, se vante d'une \'e2me h\'e9ro\'efque toute vou\'e9e \'e0 la vertu: ce n'est point la vertu qu'il aime; mais son coeur, ivre de lui- m\'eame, voudrait usurper les autels, et par sa sagesse frivole il ne veut que parer l'idole qu'il offre an culte des mortels. \

\par \

\par Les champs de Pharsale et d'Arbelle ont vu triompher deux vainqueurs, l'un et l'autre digne mod\'e8le que se proposent les grands coeurs. Mais le succ\'e8s a fait leur gloire; et, si te sceau de la victoire n'e\'fbt consacr\'e9 ces demi- dieux, Alexandre, aux yeux du vulgaire, n'aurasit \'e9t\'e9 qu'un t\'e9m\'e9raire, et C\'e9sar qu'un seditieux. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Este autor" - continuo - "foi um s\'e1bio que por mais de uma vez emprestou o encanto dos versos \'e0 filosofia. Escrevesse sempre est\'e2ncias desse quilate e teria sido o maior dos poetas l\'edricos. Sem embargo, foi justamente quando produzia desses primores que dele disse um contempor\'e2neo: \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um certo pato, ca\'e7a de galinheiro. \~\~\~\~\~" Em outro lugar: \~\~\~\~\~ De seus versos a enfadonha - beleza. \~\~\~\~\~" Em outro: \

\par \

\par ... S\'f3 vejo um sen\'e3o: falta a essas odes descavalgar o verso a Quinault para atingir a perfei\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" E, nesse ciscar de imperfei\'e7\'f5es, em tudo encontra secura e quebra de harmonia. \~\~\~\~\~" Quer ver as odes que anos depois escreveu esse mesmo censor que julgava Lamotte de c\'e1tedra e o difamava como inimigo? Leia: \

\par \

\par Cette influence souveraine \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (86 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par n'est pour lui qu'une ilustre cha\'eene qui l'attache au bonheur d'autrui; tous les brillants qui l'embellisent, tons les talents qui l'ennoblissent, sont en lui, mais non pas \'e0 lui. \

\par \

\par Il n'est rien que te temps n'absorbe, ne d\'e9vore, et les faits qu'on ignore sont bien peu diff\'e9rents des faits non avenus. \

\par \

\par La bont\'e9 qui brille en elle de ses charmes les plus doux est une image de celle qu'elle voit briller en vous. Et, par vous seule enrichie, sa politesse, affranchie des moindres obscurit\'e9s est la lueur r\'e9fl\'e9chie de vos sublimes clart\'e9s. \

\par \

\par Ils ont vu par la bonne foi de leurs peuples troubl\'e9s d'effroi la crainte heureusement d\'e9\'e7ue, et d\'e9racin\'e9e \'e0 jamais la haine si souvent re\'e7ue en survivance de la paix. \

\par \

\par D\'e9voile \'e0 ma vue empress\'e9e ces d\'e9it\'e9s d'adoption, synonymes de la pens\'e9e, symboles de l'abstraction. \

\par \

\par N'est. ce pas une fortune, quand d'une charge commune deux moities portent le faix, que la moindre le r\'e9clame, et que du bonheur de l'\'e2me le corps seul fasse les frais? \

\par \

\par \~\~\~\~\~- N\'e3o era preciso - conv\'e9m meu judicioso amante das letras - dar coisas t\'e3o detest\'e1veis para modelo \'e0queles a quem t\'e3o azedamente criticava. Antes deixasse em paz seu advers\'e1rio com seu m\'e9rito e ficasse ele com o que tivesse. Mas, que quer voc\'ea? O genus irritabile vatum \'e9 doen\'e7a da mesma bilis que o atormentava outrora. O p\'fablico perdoa essas tacanhezas \'e0s pessoas de talento porque n\'e3o quer sen\'e3o se divertir. Ele v\'ea, numa alegoria intitulada Plut\'e3o, juizes condenados a ser esfolados e a sentar- se nos infernos em um banco coberto com as pr\'f3prias peles em vez de flores de lis. Pouco importa ao leitor que \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (87 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par os juizes o mere\'e7am ou n\'e3o, que tenha ou n\'e3o raz\'e3o o autor que os cita perante Plut\'e3o. L\'ea esses versos unicamente por prazer. Se lhe agradam, n\'e3o quer mais. Se lhe desagradam, p\'f5e de lado a alegoria e n\'e3o daria um passo para fazer confirmar ou cassar a senten\'e7a. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" As inimit\'e1veis trag\'e9dias de Racine foram todas criticadas, e pessimamente: porque as criticaram rivais. Certo, os artistas s\'e3o juizes de arte competentes, por\'e9m quase sempre lhes falta integridade. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Excelente cr\'edtico seria o artista senhor de bom cabedal de ci\'eancia e de bom gosto, isento de preju\'edzos e inveja. O que \'e9 dif\'edcil encontrar." \

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\par DESTINO \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De todos os livros que at\'e9 n\'f3s chegaram, o mais antigo \'e9 Homero. \'c9 em Homero que se nos deparam os costumes da antig\'fcidade profana, os her\'f3is e deuses toscamente talhados \'e0 imagem do homem. Em Homero tamb\'e9m encontramos os embri\'f5es da filosofia e sobretudo a id\'e9ia do destino, que \'e9 senhor dos deuses como s\'e3o os deuses senhores dos homens. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Debalde quer J\'fapiter salvar Heitor. Consulta os destinos, pesando numa balan\'e7a os destinos de Heitor e Aquiles: diz a sorte que o troiano ser\'e1 irrevogavelmente morto pelo grego, e nada pode opor- lhe o soberano dos deuses. Apolo, o g\'eanio guardi\'e3o de Heitor, \'e9 ent\'e3o obrigado a abandon\'e1- lo( 26). N\'e3o que Homero n\'e3o seja pr\'f3digo de id\'e9ias opostas, consoante o privil\'e9gio da antig\'fcidade. Mas enfim \'e9 o primeiro em que aparece a no\'e7\'e3o do destino. Devia estar, pois, muito em voga em seu tempo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os fariseus, na pequena na\'e7\'e3o judaica, s\'f3 conceberam o destino muitos s\'e9culos depois, porquanto, embora tenham sido os primeiros judeus letrados, eram muito novos em rela\'e7\'e3o aos gregos. Mesclaram em Alexandria parte dos dogmas dos est\'f3icos \'e0s antigas id\'e9ias judaicas. Chega a pretender S. Jer\'f4nimo n\'e3o ser sua seita muito anterior \'e0 nossa era. \~\~\~\~\~ Os fil\'f3sofos sempre prescindiram de Homero e dos fariseus para se persuadirem de que tudo est\'e1 sujeito a leis imut\'e1veis, tudo est\'e1 determinado, tudo \'e9 efeito necess\'e1rio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ou o mundo subsiste pela pr\'f3pria natureza, pelas leis f\'edsicas, ou formou- o um Ser Supremo conforme supremas leis. Num caso como noutro as leis s\'e3o imut\'e1veis e tudo \'e9 necess\'e1rio. Os corpos graves tendem para o centro da terra, n\'e3o podendo tender a repousar no ar. Pereiras nunca poderiam dar ananases. O instinto de um espanhol n\'e3o pode ser o instinto de um austr\'edaco Tudo se acha ordenado, engranzado e limitado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o pode o homem ter mais que certo n\'famero de dentes, cabelos e id\'e9ias. Tempo vem em que inevitavelmente perde os dentes, os cabelos e as id\'e9ias \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Contradit\'f3rio seria que ontem n\'e3o fosse ontem e hoje n\'e3o fosse hoje. T\'e3o contradit\'f3rio como se o que h\'e1 de ser pudesse deixar de s\'ea- lo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se pudesses torcer o destino de uma mosca, nada te impediria de tra\'e7ar o destino de todas as outras \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (88 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par moscas, de todos os outros animais, de todos os homens, de toda a natureza. Enfim, serias mais poderoso que Deus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Dizem os cretinos: O m\'e9dico arrancou minha tia aos bra\'e7os da morte, f\'ea- la viver dez anos mais do que deveria viver. Outra modalidade de imbecis - os capazes, - sentenciam: O homem prudente forja o pr\'f3prio destino. \

\par \

\par Nullum numen abest, si sit prudentia, sed te nos facimus, fortuna, deam, coeloque locamus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Asseveram profundos pol\'edticos que se oito dias antes que se decapitasse Carlos I se tivessem assassinado Cromwell, Ludlow, Ireton e uma d\'fazia de outros parlamentares, esse rei ainda podia ter vivido e morrer no leito. T\'eam raz\'e3o. E poderiam acrescentar que se o mar houvesse tragado toda a Inglaterra esse monarca n\'e3o teria morrido em um pat\'edbulo junto a Whitehall, ou sala, branca. Por\'e9m as coisas estavam dispostas de maneira que Carlos teria irrevogavelmente o pesco\'e7o cortado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o resta d\'favida que o cardeal de Ossat era mais prudente que um louco das Petites- Maisons. Mas n\'e3o \'e9 evidente que os \'f3rg\'e3os do s\'e1bio de Ossat n\'e3o eram os mesmos que os de um desmiolado, da mesma forma como os de uma raposa diferem dos de um grou ou uma calhandra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O m\'e9dico salvou tua tia. Mas n\'e3o contradisse a natureza: obedeceu- lhe. Claro que tua tia n\'e3o podia deixar de nascer sen\'e3o na cidade em que nasceu, em ocasi\'e3o certa ter certa mol\'e9stia, que o m\'e9dico n\'e3o podia estar alhures sen\'e3o na cidade em que estava, que tua tia for\'e7osamente o chamaria a ele, o qual necessariamente lhe prescreveria os rem\'e9dios que a curaram. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Cr\'ea um campon\'eas haver geado em seu campo por acaso. Mas um fil\'f3sofo sabe que n\'e3o existe acaso e que era imposs\'edvel, na constitui\'e7\'e3o deste mundo, que precisamente naquele dia n\'e3o geasse precisamente naquele lugar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 pessoas que, aterrorizadas ante essa verdade, s\'f3 concordam pela metade, como devedores que oferecem metade aos credores e pedem mora para a outra metade. Existem, dizem elas, acontecimentos necess\'e1rios e acontecimentos n\'e3o necess\'e1rios. Engra\'e7ado um mundo metade em ordem metade em desordem. Que parte do que acontece precisava acontecer, outra n\'e3o. Basta chegar- se- lhe um pouco mais o nariz para ver ser absurda semelhante teoria. Mas h\'e1 muitos indiv\'edduos que nasceram para raciocinar mal, outros para n\'e3o raciocinar .e outros para perseguir os que raciocinam. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Perguntareis: \~\~\~\~\~- E a liberdade? \~\~\~\~\~ N\'e3o vos entendo. N\'e3o sei o que seja essa liberdade de que falais. H\'e1 tanto tempo discutis acerca de sua natureza que seguramente n\'e3o a conheceis. Se quiserdes, ou melhor, se puderdes examinar calmamente comigo o que se deve entender por essa palavra, saltai \'e0 letra L. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (89 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par DEUS \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Imperante Arc\'e1dio, Log\'f4macos, teologal de Constantinopla, empreendeu uma viagem \'e0 C\'edtia, e deteve- se ao p\'e9 do C\'e1ucaso, nos f\'e9rteis plainos de Zefirim, nos t\'e9rminos da C\'f3lchida. Estava o bom velho Dondindaque em sua ampla sala baixa, entre seu grande aprisco e a vasta granja. Estava ajoelhado em companhia da mulher, dos cinco filhos e cinco filhas, seus pais e seus criados, e cantavam os louvores a Deus ap\'f3s ligeiro repasto. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Que fazes, id\'f3latra? - perguntou- lhe Log\'f4macos. \~\~\~\~\~- N\'e3o sou id\'f3latra - retorquiu Dondindaque. \~\~\~\~\~- Claro que o \'e9s, pois \'e9s cita e n\'e3o grego. Que cantavas em tua b\'e1rbara geringon\'e7a da C\'edtia I \~\~\~\~\~- Todas as l\'ednguas soam da mesma forma aos ouvidos de Deus. Cant\'e1vamo- lhe os louvores. \~\~\~\~\~- Eis uma coisa extraordin\'e1ria! Uma fam\'edlia cita que ora a Deus sem ter sido instru\'edda por n\'f3s! \~\~\~\~\~ Seguiu- se um di\'e1logo entre o grego Log\'f4macos e o cita Dondindaque, pois o teologal sabia um pouco de cita e o outro um pouco de grego. Encontrou- se esse di\'e1logo num manuscrito conservado na biblioteca de Constantinopla \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Vejamos se sabes teu catecismo. Por que oras a Deus? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Justo \'e9 que adoremos o Ser Supremo que tudo nos deu. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Oh! Para um b\'e1rbaro n\'e3o est\'e1 mal. E que lhe pedes? \

\par \

\par Dondindaque \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (90 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ Agrade\'e7o- lhe os bens de que gozo e os males com que lhe apraz provar- me. Abstenho- me por\'e9m de pedir- lhe seja o que for. Melhor que n\'f3s sabe ele o que nos falta. Demais poderia dar- se que quando eu pedisse bom tempo meu vizinho pedisse chuva. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ah! Logo vi que ia dizer alguma asneira. Passemos a plano mais elevado. B\'e1rbaro, quem te disse que Deus existe? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Toda a natureza. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o basta. Que id\'e9ia tens do Ser Supremo? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que \'e9 o meu criador, meu soberano, que me recompensar\'e1 quando praticar o bem e me castigar\'e1 quando cometer o mal. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que frioleiras! Vamos ao essencial - Deus \'e9 infinito secundum quid ou segundo a ess\'eancia? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (91 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o vos entendo. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sujeito tapado! Deus est\'e1 algures ou ao mesmo tempo em tudo e fora de tudo? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o sei... Como quiserdes. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ignorante! Pode Deus demover o acontecido? Pode fazer que um bast\'e3o n\'e3o tenha duas pontes? Como ver\'e1 o futuro: como futuro ou como presente? Como faz para tirar o ser do nada e para aniquilar o ser? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tais coisas nunca me passaram pela cabe\'e7a. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que sujeito bronco! Bem, vejo que preciso baixar a trave. Dize- me, meu amigo, achas que a mat\'e9ria possa ser eterna? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que me importa que seja eterna ou n\'e3o? Eu, posso afirmar que n\'e3o o sou. De qualquer forma, Deus \'e9 o meu senhor. Deu- me a no\'e7\'e3o de justi\'e7a, devo segui- la. N\'e3o quero ser fil\'f3sofo, quero ser homem. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (92 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ S\'e3o o diabo, essas cabe\'e7as duras! Vamos aos poucos: Que \'e9 Deus? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Meu soberano, meu juiz, meu pai. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o \'e9 isso o que pergunto. Qual \'e9 sua natureza? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ser poderoso e bom. \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas \'e9 corporal ou espiritual? \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como quereis que o saiba? \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Arre! N\'e3o sabes o que \'e9 um esp\'edrito? \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (93 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nem imagino: de que me serviria isso? Tornar- me- ia acaso mais justo? Seria melhor marido, melhor pai, melhor amo, melhor cidad\'e3o? \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 absolutamente necess\'e1rio ensinar- te o que seja esp\'edrito. Escuta: \'e9, \'e9, \'e9... Bem, fica para outra ocasi\'e3o. \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Muito receio que me f\'f4sseis dizer o que ele n\'e3o \'e9. Permiti- me fazer- vos a meu turno uma pergunta. Vi h\'e1 muito um de vossos templos: por que motivo pintais Deus com uma longa barba? \

\par \

\par Log\'f4macos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 quest\'e3o muito complexa, que requer instru\'e7\'f5es preliminares. \

\par \

\par Dondindaque \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Antes de receber vossas instru\'e7\'f5es, vou contar- vos o que me aconteceu certo dia. Eu acabava de fazer construir uma privada no fim de meu jardim, quando ouvi uma toupeira conversando com um besouro: \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Eis uma bela f\'e1brica! - dizia a toupeira. - Deve ser uma toupeira bem poderosa o autor dessa obra. \~\~\~\~\~- Gracejais - respondeu o besouro. - Bem sabeis que foi um besouro, um besouro genial o arquiteto desse edif\'edcio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Desde ent\'e3o resolvi nunca discutir. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (94 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par ESCALA DOS SERES \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A primeira vez em que li Plat\'e3o e observei essa grada\'e7\'e3o de seres desde o mais \'ednfimo \'e1tomo at\'e9 o Ser Supremo, essa escala impressionou- me fundamente. Considerando- a por\'e9m atentamente, esvaeceu- se o grande fantasma, como outrora fugiam as apari\'e7\'f5es ao canto do galo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De princ\'edpio compraz- se a imagina\'e7\'e3o em ver a transi\'e7\'e3o impercept\'edvel da mat\'e9ria bruta \'e0 mat\'e9ria organizada, das plantas aos zo\'f3fitos, dos zo\'f3fitos aos animais, dos animais ao homem, do homem aos g\'eanios, dos g\'eanios revestidos de corpo a\'e9reo a subst\'e2ncias imateriais, e enfim mil ordens diferentes dessas subst\'e2ncias que, de belezas a perfei\'e7\'f5es, se escadeiam at\'e9 Deus. Essa hierarquia \'e9 muito do gosto dos ing\'eanuos, que v\'eaem o papa e seus cardeais seguidos dos arcebispos e bispos, ap\'f3s quem v\'eam os curas, os vig\'e1rios, os simples padres, os di\'e1conos, os subdi\'e1conos, os frades e finalmente, fechando a coluna, os capuchinhos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por\'e9m h\'e1 um pouco mais de dist\'e2ncia entre Deus e suas mais perfeitas criaturas que entre o santo padre e o decano do sacro col\'e9gio. O decano pode vir a ser papa, enquanto o mais perfeito dos g\'eanios criados pelo Ser Supremo jamais poder\'e1 vir a ser Deus. Entre Deus e ele h\'e1 o infinito. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ T\'e3o pouco entre os animais e vegetais se verifica essa pretensa escala ou grada\'e7\'e3o. Prova est\'e1 em existirem plantas e animais extintos. J\'e1 n\'e3o temos m\'farices. Era proibido entre os judeus comer o grifo e o ixi\'e3o, esp\'e9cies hoje desaparecidas, diga o que disser o Sr. Bochart. Onde ent\'e3o escala? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ainda que n\'e3o se houvessem extinto algumas esp\'e9cies, patente \'e9 que isso pode acontecer. Os le\'f5es, os rinocerontes come\'e7am a rarear. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Muito provavelmente existiram ra\'e7as humanas hoje desaparecidas. Quero crer contudo que todas hajam subsistido, da mesma forma como os brancos, negros, cafres, a quem a natureza deu um avental da pr\'f3pria pele, caindo do ventre ao meio das coxas; os samoiedas, cujas mulheres t\'eam um mamilo de belo \'e9bano, etc. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o h\'e1 visivelmente um vazio entre o macaco e o homem? N\'e3o \'e9 f\'e1cil imaginar um b\'edpede implume que seria inteligente sem usar da palavra nem ter o nosso aspecto, que poder\'edamos domesticar, que correspondesse aos nossos macacos e nos servisse? E entre essa nova esp\'e9cie e o homem n\'e3o poder\'edamos conceber outras? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Acima do homem colocais no c\'e9u, v\'f3s, divino Plat\'e3o, uma s\'e9rie de subst\'e2ncias celestes. Cremos n\'f3s outros em algumas dessas subst\'e2ncias porque no- lo ensina a f\'e9. Mas v\'f3s, que raz\'e3o tendes para cr\'ea- las? At\'e9 parece que n\'e3o falastes ao g\'eanio de S\'f3crates, e que o simpl\'f3rio Heres, expressamente ressurreto para vos p\'f4r ao corrente dos segredos do outro mundo, nada vos tenha ensinado acerca de tais subst\'e2ncias. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A pretensa escala n\'e3o \'e9 menos descont\'ednua no mundo sens\'edvel. \~\~\~\~\~ Que grada\'e7\'e3o - pergunto - h\'e1 entre os vossos planetas? A Lua \'e9 quarenta vezes menor que o nosso \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (95 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par globo. V\'eanus \'e9 quase do tamanho da Terra. Merc\'fario descreve uma elipse muito diferente da circunfer\'eancia percorrida por V\'eanus e \'e9 vinte e sete vezes menor que n\'f3s. O Sol \'e9 um milh\'e3o de vezes maior que o planeta em que vivemos, Marte cinco vezes menor. Marte completa seu giro em dois anos, J\'fapiter, seu vizinho, em doze, Saturno, o mais afastado de todos, conquanto menor que J\'fapiter, em trinta. Onde a tal grada\'e7\'e3o? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Depois, como quereis que em imensos espa\'e7os vazios haja uma cadeia que tudo ligue? Se alguma cadeia existe, \'e9 certamente a descoberta por Newton. \'c9 ela que faz todos os globos do mundo planet\'e1rio gravitarem uns em torno dos outros no v\'e1cuo infinito. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Admirado Plat\'e3o, v\'f3s n\'e3o contastes mais que f\'e1bulas! Na ilha de Cassit\'e9rides, onde em vosso tempo os homens viviam completamente nus, nasceu um fil\'f3sofo que ensinou aos homens verdades t\'e3o grandes quanto pueris eram vossos devaneios. \

\par \

\par ESTADOS, GOVERNOS \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Qual o melhor? - At\'e9 o presente n\'e3o conheci quem n\'e3o tenha governado algum estado. N\'e3o falo dos ministros que governam efetivamente, uns dois ou tr\'eas anos, outros seis meses, outros seis semanas. Falo de todos esses senhores que, \'e0 hora das refei\'e7\'f5es ou em seus gabinetes, exp\'f5em seu sistema de governo, reformando os ex\'e9rcitos, a igreja, a magistratura e as finan\'e7as. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O abade de Bourzeis meteu- se a governar a Fran\'e7a pelo ano de 1645, sob o nome do cardeal de Richelieu, e escreveu seu Testamento Pol\'edtico, no qual procurou arrolar a nobreza na cavalaria por tr\'eas anos, fazer pagar a talha aos tribunais de contas e aos parlamentos e privar o rei do produto dos seus impostos sobre o consumo. Afirma ele que, para entrar em campanha com cinq\'fcenta mil homens, por economia \'e9 preciso levar cem mil. Assevera que s\'f3 a Proven\'e7a tem mais belos portas de mar que a Espanha e It\'e1lia juntas \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O abade de Bourzeis n\'e3o tinha viajado. Ali\'e1s sua viagem acha- se repleta de anacronismos e erros. Faz o cardeal de Richelieu assinar como nunca assinou e falar como nunca falou. E gasta um cap\'edtulo inteiro para dizer que a raz\'e3o deve ser a pauta do estado, e a se esfor\'e7ar por provar essa descoberta. Essa obra das trevas, esse bastardo do abade de Bourzeis passou muito tempo por filho leg\'edtimo do cardeal de Richelieu. E todos os acad\'eamicos, em seus discursos de recep\'e7\'e3o, n\'e3o deixavam de louvar desmedidamente essa obra prima de pol\'edtica. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O senhor Gatien de Courtilz, vendo o extraordin\'e1rio sucesso do Testamento Pol\'edtico de Richelieu, fez imprimir em Haia o Testamento de Colbert, com uma pomposa carta do senhor Colbert ao rei. Est\'e1 claro que se esse ministro tivesse feito semelhante testamento, seria preciso interdiz\'ea- lo; entretanto, esse livro foi citado por alguns autores. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Outro velhaco cujo nome se ignora partejou o Testamento de Louvois, pior ainda, se poss\'edvel, que o de Colbert. E um abade de Chevremont tamb\'e9m fez testar Carlos, duque de Lorena( 27). \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (96 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O senhor de Bois Guillebert, autor do D\'e9tail de la France, impresso em 1695, apresenta o projeto inexeq\'fc\'edvel do d\'edzimo real sob o nome do marechal de Vauban( 28). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um louco sem eira nem beira chamado La Jonch\'eare escreveu em 1720 um projeto de finan\'e7a em 4 volumes. E alguns parvos citaram essa produ\'e7\'e3o como obra de La Jonch\'eare, o tesoureiro geral, imaginando que um tesoureiro n\'e3o pode escrever um mau livro de finan\'e7as. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas \'e9 preciso convir em que homens avisados, dignos sem d\'favida de governar, t\'eam escrito sobre a administra\'e7\'e3o dos estados, seja na Fran\'e7a, na Espanha ou na Inglaterra. Seus livros t\'eam feito muito bem: n\'e3o porque hajam corrigido os ministros ent\'e3o no governo, j\'e1 que um ministro n\'e3o se corrige de modo algum nem pode ser corrigido: \'e9 \'e1rvore j\'e1 muito crescida; basta de instru\'e7\'f5es, basta de conselhos; escasseia- lhe tempo para os ouvir, arrasta- o a corrente dos neg\'f3cios. Mas esses bons livros formam a juventude destinada aos cargos. Formam os pr\'edncipes, e a segunda gera\'e7\'e3o \'e9 instru\'edda. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ultimamente tem sido examinado de perto o forte e o fraco dos governos. Dizei- me, v\'f3s que haveis viajado, vivestes e vistes, sob que esp\'e9cie de governo desejar\'edeis ter nascido? Compreendo que um grande propriet\'e1rio de terra, na Fran\'e7a, n\'e3o desgostaria de haver nascido na Alemanha: seria soberano em vez de vassalo. A um par de Fran\'e7a muito agradariam os privil\'e9gios do pariato ingl\'eas: seria legislador. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O magistrado e o financeiro achar- se- iam melhor em Fran\'e7a que alhures. \~\~\~\~\~ Mas que p\'e1tria escolheria um homem s\'e1bio, livre, um homem de fortuna med\'edocre e sem preconceitos? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um membro do conselho de Pondich\'e9ry, senhor de s\'f3lida cultura, voltou \'e0 Europa por terra em companhia de um br\'e2mane mais instru\'eddo do que o comum dos br\'e2manes. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Que tal achais o governo do gr\'e3o mogol? - perguntou o conselheiro. \~\~\~\~\~- Abomin\'e1vel - respondeu o br\'e2mane. - Como quereis que um estado seja bem governado pelos t\'e1rtaros? Nossos rajas, nossos omr\'e1s, nossos nababos est\'e3o muito contentes; mas os cidad\'e3os muito ao contr\'e1rio, e milh\'f5es de cidad\'e3os s\'e3o alguma coisa. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O conselheiro e o br\'e2mane percorreram, conversando, toda a alta \'c1sia. \~\~\~\~\~- Cheguei a uma conclus\'e3o - disse o br\'e2mane: - que n\'e3o existe sequer uma rep\'fablica em toda esta vasta parte do mundo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Houve outrora a de Tiro, - retrucou o conselheiro - mas n\'e3o durou muito. Houve ainda outra, perto da Ar\'e1bia P\'e9trea, num recanto denominado Palestina, se \'e9 que se pode honrar com o nome de rep\'fablica uma horda de ladr\'f5es e de onzeneiros governados ora por juizes, ora por esp\'e9cies de reis, ora por grandes pont\'edfices, escravizados sete ou oito vezes e enfim expulsos do pa\'eds que usurparam. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Julgo, - disse o br\'e2mane - que n\'e3o deve haver sobre a terra sen\'e3o pouqu\'edssimas rep\'fablicas. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (97 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par Raramente s\'e3o os homens dignos de se governar por si mesmos. Tal felicidade n\'e3o deve pertencer sen\'e3o a povos pequenos, que se insulem em ilhas ou entre montanhas, como coelhos a se esconderem dos carn\'edvoros. Mas sempre acabam sendo descobertos e devorados. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando os dois viajantes chegaram \'e0 \'c1sia Menor, perguntou o conselheiro ao br\'e2mane: \~\~\~\~\~- Acreditar\'edeis ter existido uma rep\'fablica formada num canto da It\'e1lia, que durou mais de quinhentos anos e possuiu esta \'c1sia Menor, \'c1sia, \'c1frica, Gr\'e9cia, G\'e1lias, Espanha e toda a It\'e1lia? \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Ent\'e3o, cedo se transformou em monarquia? - perguntou o br\'e2mane. \~\~\~\~\~- Adivinhastes - respondeu o outro; - por\'e9m essa monarquia caiu e vivemos a fazer empoladas disserta\'e7\'f5es para encontrar a causa de sua decad\'eancia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Perdeis vosso tempo inutilmente, - disse o hindu: - esse imp\'e9rio caiu porque existia. Tudo cai. Espero que assim aconte\'e7a tamb\'e9m ao imp\'e9rio da Mong\'f3lia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- A prop\'f3sito - disse o europeu. Julgais ser necess\'e1rio mais honra num estado desp\'f3tico e mais virtude numa rep\'fablica? - Tendo feito com que se lhe explicasse o que se entende por honra, respondeu o hindu ser de opini\'e3o que ela era mais necess\'e1ria numa rep\'fablica, e a virtude a mais precisa num estado mon\'e1rquico. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Porque - explicou - um homem que pretenda ser eleito pelo povo n\'e3o o ser\'e1 se n\'e3o for honrado. Ao passo que na corte poder\'e1 obter facilmente um cargo, segundo a m\'e1xima de um grande pr\'edncipe, que disse que para o conseguir n\'e3o deve o cortes\'e3o ter honra nem humor. Com respeito \'e0 virtude, \'e9 preciso te- la muita numa corte para ousar dizer a verdade. O homem virtuoso est\'e1 bem mais \'e0 vontade na rep\'fablica, por n\'e3o precisar bajular ningu\'e9m. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Acreditais - interrogou o europeu - que as leis e religi\'f5es sejam feitas para os climas assim como os agasalhos forrados para Moscou e os tecidos de gaza para Del\'ed? \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Sim, sem d\'favida - disse o br\'e2mane. Todas as leis que concernem o f\'edsico s\'e3o calculadas pelo meridiano em que se habita; para um alem\'e3o basta uma mulher, um persa precisa de tr\'eas ou quatro. Da mesma natureza s\'e3o os ritos da religi\'e3o. Como desejar\'edeis que eu, se fosse crist\'e3o, dissesse a missa em minha prov\'edncia, onde n\'e3o h\'e1 p\'e3o nem vinho? Quanto aos dogmas, o caso \'e9 outro: o clima nada faz. Vossa religi\'e3o n\'e3o nasceu na \'c1sia, de onde foi expulsa? N\'e3o subsiste no Mar B\'e1ltico, onde era desconhecida? \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Em que estado, sob que dom\'ednio preferir\'edeis viver? - perguntou o conselheiro. \~\~\~\~\~- Em qualquer parte que n\'e3o a minha terra, - respondeu o companheiro - e encontrei muitos siameses, tonquineses, persas e turcos que diziam outro tanto. \

\par \

\par \~\~\~\~\~-. Mas, - ainda uma vez disse o europeu - que estado escolher\'edeis? - Respondeu o br\'e2mane: \~\~\~\~\~- Aquele onde apenas se obedecesse \'e0s leis. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (98 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par \~\~\~\~\~- \'c9 uma velha resposta, - arg\'fciu o conselheiro. \~\~\~\~\~- E n\'e3o \'e9 m\'e1 - disse o br\'e2mane. \~\~\~\~\~- Onde fica esse pa\'eds? - perguntou o conselheiro. \~\~\~\~\~- \'c9 de mister procur\'e1- lo - respondeu o br\'e2mane. \

\par \

\par EZEQUIEL (DE) \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De alguns passos singulares desse profeta e de alguns h\'e1bitos antigos \~\~\~\~\~ Sabe- se hoje muito bem que n\'e3o se devem julgar os costumes antigos pelos modernos. Quem desejasse reformar a corte de Alcinos, na Odiss\'e9ia, tomando como modelo a do gr\'e3o turco ou a de Lu\'eds XIV, n\'e3o seria bem recebido pelos s\'e1bios. Quem reprovasse a Virg\'edlio o haver representado o rei Evandro coberto com uma pele de urso e acompanhado de dois c\'e3es para receber os embaixadores, seria um mau cr\'edtico. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os costumes dos judeus de antanho s\'e3o ainda mais diferentes dos nossos que aqueles do rei Alcinos, de Nausica, de sua filha e do bonacheir\'e3o Evandro. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ezequiel, escravo dos caldeus, teve uma vis\'e3o perto do ribeir\'e3o de Cobar, que se perde no Eufrates. \~\~\~\~\~ N\'e3o nos devemos admirar de que ele tenha visto animais de quatro faces e quatro asas, com p\'e9s de bezerro, nem das rodas que caminhavam por si mesmas e continham o esp\'edrito da vida: esses s\'edmbolos at\'e9 agradam \'e0 imagina\'e7\'e3o. Mas v\'e1rios cr\'edticos se revoltaram contra a ordem que lhe deu o Senhor de comer durante trezentos e noventa dias, p\'e3o de cevada, de frumento e de milho, coberto de excremento. \

\par \

\par \~\~\~\~\~- Irra! - exclamou o profeta. - Minh'alma at\'e9 hoje n\'e3o tinha sido polu\'edda. \~\~\~\~\~ Respondeu- lhe o Senhor: \~\~\~\~\~- Pois bem, eu te darei estrume de boi em lugar de excrementos humanos, e tu comer\'e1s teu p\'e3o com esse estrume. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Visto n\'e3o ser absolutamente de uso comer tais confeitos com o p\'e3o, a maioria dos homens acha essas ordens indignas da majestade divina. Entretanto, deve- se lembrar que o estrume de vaca e os diamantes do gr\'e3o mogol s\'e3o perfeitamente iguais, n\'e3o s\'f3 ante os olhos de um ser divino mas tamb\'e9m aos do verdadeiro fil\'f3sofo. Com respeito \'e0s raz\'f5es que Deus poderia ter para impor ao profeta um tal almo\'e7o, n\'e3o nos cabe procur\'e1- las. \~\~\~\~\~ Basta fazer ver que essas ordens, que nos parecem estranhas, n\'e3o se afiguraram tais aos judeus. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (99 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 verdade que a sinagoga n\'e3o permitia, no tempo de S. Jer\'f4nimo, a leitura de Ezequiel antes da idade de trinta anos. Mas isso porque no cap\'edtulo 18 ele diz que os filhos n\'e3o arcar\'e3o com a iniq\'fcidade dos pais e que j\'e1 n\'e3o se dir\'e1: os pais comeram ra\'edzes verdes e os dentes dos filhos ficaram embotados. \

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\par \~\~\~\~\~ Nesse ponto ele se achava em contradi\'e7\'e3o com Mois\'e9s, que no cap\'edtulo 28 dos N\'fameros afirma que os filhos sofrem a iniq\'fcidade dos pais at\'e9 terceira e quarta gera\'e7\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Ezequiel, no cap\'edtulo 20, faz ainda dizer ao Senhor ter ele dado aos judeus preceitos que n\'e3o s\'e3o bons. Eis por que a sinagoga interdisse aos jovens uma leitura que poderia p\'f4r em d\'favida a irrefragabilidade das leis de Mois\'e9s. \

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\par \~\~\~\~\~ Aos censores de nossos dias, ainda mais os surpreende o cap\'edtulo 26 de Ezequiel: eis como o profeta se arranja para fazer conhecer os crimes de Jerusal\'e9m. Ele apresenta o Senhor dizendo a uma mo\'e7a: \

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\par \~\~\~\~\~" Quando nascestes, ainda n\'e3o vos tinham cortado o cord\'e3o umbilical, ainda n\'e3o \'e9reis batizada, est\'e1veis completamente nua, eu me apiedei de v\'f3s; depois crescestes, vosso seio se formou, vossas axilas cobriram- se de veios; eu passei, eu vos vi, eu compreendi que era o tempo dos amantes; eu cobri vossa ignom\'ednia; estendi por sobre v\'f3s o meu manto; viestes a mim; eu vos lavei, perfumei, vesti bem e bem aqueci; dei- vos um chale de l\'e3, braceletes, um colar; eu vos pus j\'f3ias no nariz, brincos nas orelhas e uma coroa na fronte, etc. \

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\par \~\~\~\~\~" Ent\'e3o, confiando em vossa beleza, fornicastes por vossa conta com todos os passantes... E trilhastes um mau caminho... e vos prostitu\'edstes at\'e9 nas pra\'e7as p\'fablicas e abristes as pernas a todos os passantes... e vos deitastes com os eg\'edpcios... e enfim pagastes amantes e lhes fizestes presentes a fim de que se deleitassem com outras mo\'e7as. O prov\'e9rbio \'e9: Tal m\'e3e, tal filha; e \'e9 isso que se diz de v\'f3s, etc." \

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\par \~\~\~\~\~ Ainda com maior indigna\'e7\'e3o se insurgem contra o cap\'edtulo 28. Uma m\'e3e tinha duas filhas que perderam muito cedo a virgindade; a maior chamava- se Oola e a menor Ooliba. "... Oola era louca pelos jovens senhores, magistrados, cavaleiros; deitou- se com eg\'edpcios desde a mais tenra mocidade... Ooliba, sua irm\'e3, fornicou mais ainda com oficiais, magistrados e cavaleiros bem parecidos; descobriu sua vergonha e multiplicou suas fornica\'e7\'f5es. Procurou com arrebatamento os abra\'e7os daqueles cujo membro se parece com o de um asno e que expandem a sua semente como cavalos..." \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Essas descri\'e7\'f5es que escandalizam tantos esp\'edritos fracos n\'e3o significam, entretanto, sen\'e3o as iniq\'fcidades de Jerusal\'e9m e de Samaria; as express\'f5es que nos parecem livres n\'e3o o eram ent\'e3o. A mesma franqueza aparece sem receio em mais de um ponto das Escrituras. Fala- se freq\'fcentemente em abrir a vulva. Os termos de que elas se servem para explicar o contato de Booz com Rute, de Judas com sua nora, n\'e3o s\'e3o desonestos em hebreu, mas se- lo- iam em nossa l\'edngua. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se usa v\'e9u quando n\'e3o se tem vergonha de sua nudez. Como \'e9 poss\'edvel que se ruborizasse uma pessoa nos tempos passados ao ouvir falar dos \'f3rg\'e3os genitais, quando era costume toc\'e1- los \'e0queles a quem se fazia alguma promessa? Era um sinal de respeito, um s\'edmbolo de fidelidade, como outrora entre n\'f3s punham os senhores feudais suas m\'e3os entre as dos seus senhores soberanos. \

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\par \~\~\~\~\~ Traduzimos os test\'edculos por coxa. Eliezer pousa a m\'e3o sobre a, coxa de Abra\'e3o; Jos\'e9 pousa a m\'e3o sobre a coxa de Jac\'f3. Esse costume era antiq\'fcissimo no Egito. Os eg\'edpcios estavam t\'e3o longe de ligar \'e0 \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (100 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par ignom\'ednia coisas que n\'f3s n\'e3o ousamos nem descobrir nem nomear, que conduziam em prociss\'e3o uma grande figura do membro viril chamada phallum, para agradecer aos deuses a bondade demonstrada em fazer servir esse membro \'e0 propaga\'e7\'e3o do g\'eanero humano. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todos esses fatos provam bem que nossos decoros n\'e3o s\'e3o os mesmos dos outros povos. Em que tempo houve entre os romanos maior polidez do que no s\'e9culo de Augusto? Entretanto, Hor\'e1cio n\'e3o tergiversou em dizer numa pe\'e7a moral: \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nec vereor ne, dum futuo, vir rure recurrat( 29). \~\~\~\~\~ Um homem que entre n\'f3s pronunciasse a palavra correspondente a futuo seria considerado um b\'eabado indecente; essa e v\'e1rias outras palavras de que se servem Hor\'e1cio e outros autores nos parecem ainda mais indecorosas do que as express\'f5es de Ezequiel. Desfa\'e7amo- nos de nossos preconceitos quando lermos autores antigos ou quando viajarmos por na\'e7\'f5es long\'ednquas. A natureza \'e9 a mesma em toda parte e os costumes em toda parte diferentes. \

\par \

\par F\'c1BULAS \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o s\'e3o as mais antigas f\'e1bulas visivelmente aleg\'f3ricas? A primeira que conhecemos dentro de nossa maneira de calcular o tempo n\'e3o \'e9 aquela que vem no nono cap\'edtulo do livro dos Juizes? Tratava- se de escolher um rei entre as \'e1rvores; a oliveira n\'e3o queria abandonar o cuidado do seu azeite, nem a figueira o de seus figos, nem a vinha o de seu vinho, nem as outras \'e1rvores o de seus frutos; o espinheiro, que nada tinha de bom, tornou- se rei, porque tinha espinhos e podia praticar o mal \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A antiga f\'e1bula de V\'eanus, tal como a relata Hes\'edodo, n\'e3o \'e9 uma alegoria de toda a natureza? As partes da gera\'e7\'e3o ca\'edram do \'e9ter \'e0s costas do mar; V\'eanus nasce dessa escuma preciosa; seu primeiro nome \'e9 o de amante da gera\'e7\'e3o: existir\'e1 imagem mais sens\'edvel V\'eanus \'e9 a deusa da beleza; a beleza deixa de ser amada se caminhar sem as gra\'e7as; a beleza faz nascer o amor; o amor tem qualidades que trespassam os cora\'e7\'f5es; leva uma venda que esconde os defeitos do objeto amado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A sabedoria \'e9 concebida no c\'e9rebro do senhor dos deuses sob o nome de Minerva; a alma do homem \'e9 um fogo divino que Minerva mostra a Prometeu, que se serve desse fogo divino para animar o homem. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 imposs\'edvel deixar de reconhecer nessas f\'e1bulas uma pintura viva de toda a natureza. A maioria das outras f\'e1bulas s\'e3o ou corrup\'e7\'f5es de hist\'f3rias antigas ou caprichos da imagina\'e7\'e3o. Sucede com as antigas f\'e1bulas o mesmo que com os nossos contos modernos: h\'e1 as morais que s\'e3o encantadoras; outras s\'e3o ins\'edpidas. \

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\par FALSIDADE DAS VIRTUDES HUMANAS \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (101 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ Quando o duque de La Rochefoucaud escreveu os seus pensamentos sobre o amor pr\'f3prio, pondo a descoberto esse impulso do homem, um senhor Esp\'edrito, do Orat\'f3rio, escreveu um livro capcioso intitulado: Da falsidade das virtudes humanas. Diz esse Esp\'edrito que a virtude n\'e3o existe; mas, por gra\'e7a termina cada cap\'edtulo reconsiderando a caridade crist\'e3. Assim, segundo o senhor Esp\'edrito, nem Cat\'e3o, nem Aristides, nem Marco Aur\'e9lio, nem Epicteto foram pessoas de bem; estas apenas podem ser encontradas entre os crist\'e3os. Entre os crist\'e3os, apenas os cat\'f3licos s\'e3o virtuosos ; entre os cat\'f3licos seria ainda necess\'e1rio excetuar os jesu\'edtas, inimigos dos oratorianos; portanto a virtude n\'e3o se acha sen\'e3o entre os inimigos dos jesu\'edtas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Esse senhor Esp\'edrito come\'e7a por dizer que a prud\'eancia n\'e3o \'e9 uma virtude, e a raz\'e3o \'e9 o ser freq\'fcentemente enganada. \'c9 como se se dissesse que C\'e9sar n\'e3o foi um grande capit\'e3o por ter sido derrotado em Dirr\'e1quio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se o senhor Esp\'edrito fosse um fil\'f3sofo, n\'e3o teria examinado a prud\'eancia como uma virtude e sim como um talento, como uma qualidade \'fatil, feliz: pois um celerado pode ser prudente e eu conheci gente dessa esp\'e9cie. Que inf\'e2mia pretender que ningu\'e9m pode ter virtude sen\'e3o n\'f3s e nossos amigos!( 30). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que \'e9 a virtude, meu amigo? \'c9 praticar o bem: pratiquemo- lo e ser\'e1 o suficiente. Ent\'e3o, n\'f3s te explicaremos o motivo. Como! Segundo teu modo de ver n\'e3o existiria nenhuma diferen\'e7a entre o presidente de Thou e Ravaillac, entre C\'edcero e esse Pop\'edlio ao qual ele salvou a vida e que lhe cortou a cabe\'e7a por dinheiro? E considerar\'e1s Epicteto e Porf\'edrio libertinos por terem seguido os nossos dogmas? Tamanha insol\'eancia revolta. E n\'e3o vou adiante para n\'e3o perder as estribeiras. \

\par \

\par FANATISMO \

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\par \~\~\~\~\~ Fanatismo \'e9 para a supersti\'e7\'e3o o que o del\'edrio \'e9 para a febre, o que \'e9 a raiva para a c\'f3lera. Aquele que tem \'eaxtases, vis\'f5es, que considera os sonhos como realidades e as imagina\'e7\'f5es como profecias \'e9 um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte \'e9 um fan\'e1tico. Jo\'e3o Diaz, retirado em Nuremberg, firmemente convicto de que o papa \'e9 o Anticristo do Apocalipse e que tem o signo da besta, n\'e3o era mais que um entusiasta; Bartolomeu Diaz, que partiu de Roma para ir assassinar santamente o seu irm\'e3o e que efetivamente o matou pelo amor de Deus, foi um dos mais abomin\'e1veis fan\'e1ticos que em todos os tempos p\'f4de produzir a supersti\'e7\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Polieuto, que vai ao templo num dia de solenidade derrubar a destruir as est\'e1tuas e os ornamentos, \'e9 um fan\'e1tico menos horr\'edvel do que Diaz, mas n\'e3o menos tolo. Os assassinos do duque Francisco de Guise, de Guilherme, pr\'edncipe de Orange, do rei Henrique III, do rei Henrique IV e de tantos outros foram energ\'famenos enfermos da mesma raiva de Diaz \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O mais detest\'e1vel exemplo de fanatismo \'e9 aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despeda\'e7ar, na noite de S\'e3o Bartolomeu, seus concidad\'e3os que n\'e3o iam \'e0 missa. \~\~\~\~\~ H\'e1 fan\'e1ticos de sangue frio: s\'e3o os juizes que condenam \'e0 morte aqueles cujo \'fanico crime \'e9 n\'e3o pensar como eles; e esses juizes s\'e3o tanto mais culpados, tanto mais merecedores da execra\'e7\'e3o do g\'eanero humano, quanto, n\'e3o estando tomados de um acesso de furor como os Cl\'e9ment, os Chat\'eal, os \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (102 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par Ravaillac, os G\'e9rard, os Damien, parece que poderiam ouvir a raz\'e3o. \~\~\~\~\~ Quando uma vez o fanatismo gangrenou um c\'e9rebro a doen\'e7a \'e9 quase incur\'e1vel. Eu vi convulsion\'e1rios que, falando dos milagres de S. P\'e1ris, sem querer se acaloravam cada vez mais; seus olhos encarni\'e7avam- se, seus membros tremiam, o furor desfigurava seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o h\'e1 outro rem\'e9dio contra essa doen\'e7a epid\'eamica sen\'e3o o esp\'edrito filos\'f3fico que, progressivamente difundido, ado\'e7a enfim a \'edndole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, \'e9 preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religi\'e3o n\'e3o bastam contra a peste das almas; a religi\'e3o, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma- se em veneno nos c\'e9rebros infeccionados. Esses miser\'e1veis t\'eam incessantemente presente no esp\'edrito o exemplo de Aode, que assassina o rei Egl\'e3o; de Judite, que corta a cabe\'e7a de Holoferne quando deitada com ele; de Samuel, que corta em peda\'e7os o rei Agague. Eles n\'e3o v\'eaem que esses exemplos respeit\'e1veis para a antig\'fcidade s\'e3o abomin\'e1veis na \'e9poca atual; eles haurem seus furores da mesma religi\'e3o que os condena. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ As leis s\'e3o ainda muito impotentes contra tais acessos de raiva; \'e9 como se l\'easseis um aresto do Conselho a um fren\'e9tico. Essa gente est\'e1 persuadida de que o esp\'edrito santo que os penetra est\'e1 acima das leis e que o seu entusiasmo \'e9 a \'fanica lei a que devem obedecer. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que, consequentemente, est\'e1 certo de merecer o c\'e9u se vos degolar? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De ordin\'e1rio, s\'e3o os velhacos que conduzem os fan\'e1ticos e que lhes p\'f5em o punhal nas m\'e3os: assemelham- se a esse Velho da Montanha que fazia - segundo se diz - imbecis gozarem as alegrias do para\'edso e que lhes prometia uma eternidade desses prazeres que lhes havia feito provar com a condi\'e7\'e3o de assassinarem todos aqueles que ele lhes apontasse. S\'f3 houve uma religi\'e3o no mundo que n\'e3o foi abalada pelo fanatismo, \'e9 a dos letrados da China. As seitas dos fil\'f3sofos estavam n\'e3o somente isentas dessa peste como constitu\'edam o rem\'e9dio para ela: pois o efeito da filosofia \'e9 tornar a alma tranq\'fcila e o fanatismo \'e9 incompat\'edvel com a tranq\'fcilidade. Se a nossa santa religi\'e3o tem sido freq\'fcentemente corrompida por esse furor infernal, \'e9 \'e0 loucura humana que se deve culpar. \

\par \

\par Assim, das asas que teve, \'cdcaro perverteu o uso; teve- as para seu bem e as empregou em seu dano. (Bertaud, bispo de S\'e9ez). \

\par \

\par FIM, CAUSAS FINAIS \

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\par \~\~\~\~\~ Parece que seria preciso estar fora de si para negar que os est\'f4magos sejam feitos para digerir, os olhos para ver e os ouvidos para ouvir. De outro lado, \'e9 preciso ter um estranho amor \'e0s causas finais para afirmar que a pedra foi feita para construir casas e que os bichos da seda nasceram na China para \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (103 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par que tenhamos cetim na Europa. \~\~\~\~\~ Mas, objeta- se, se Deus fez visivelmente uma coisa preconcebida, fez portanto todas as outras com um des\'edgnio. \'c9 rid\'edculo admitir a Provid\'eancia num caso e neg\'e1- la em outros. Tudo o que est\'e1 feito foi previsto, coordenado. Nenhuma coordena\'e7\'e3o h\'e1 sem objeto, nenhum efeito sem causa; portanto tudo \'e9 igualmente o resultado, o produto de uma causa final; portanto \'e9 t\'e3o verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para levar lunetas e os dedos para ser ornados de diamantes quanto \'e9 verdade que os ouvidos foram feitos para ouvir os sons e os olhos para receber a luz. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Creio ser muito f\'e1cil esclarecer essa dificuldade. Quando os efeitos s\'e3o invari\'e1veis em todo lugar e em todos os tempos, quando esses efeitos uniformes s\'e3o independentes dos seres a que pertencem, ent\'e3o existe uma causa final vis\'edvel. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todos os animais t\'eam olhos, e enxergam; todos t\'eam uma boca com a qual comem; um est\'f4mago ou coisa semelhante, pelo qual digerem; todos, um orif\'edcio que expele os excrementos, todos um \'f3rg\'e3o gerador: e esses dons da natureza operam neles sem aux\'edlio de meios artificiais. Eis ai causas finais claramente estabelecidas, e seria perverter nossa faculdade de pensar pretender negar uma verdade t\'e3o universal. Por\'e9m as pedras, em toda parte e em todos os tempos, n\'e3o fazem constru\'e7\'f5es. Nem todos os narizes levam lunetas. Nem todos os dedos t\'eam anel; nem todas as pernas s\'e3o cobertas por uma meia de seda. Um bicho de seda, portanto, n\'e3o foi criado para cobrir as pernas assim como a vossa boca foi feita para comer e vosso posterior para ir \'e0 secreta. Existem, pois, efeitos produzidos por causas finais e grande n\'famero de outros que n\'e3o o s\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por\'e9m tanto uns como outros figuram igualmente no plano da provid\'eancia geral: nada sem d\'favida pode ser feito mau grado seu, nem mesmo sem ela. Tudo que pertence \'e0 natureza \'e9 uniforme, imut\'e1vel, \'e9 obra imediata do Senhor; foi ele quem criou leis pelas quais a Lua entra em tr\'eas quartos nas causas do fluxo e do refluxo do oceano e o Sol no quarto; foi ele que deu movimento de rota\'e7\'e3o ao Sol, mediante o qual esse astro envia, em cinco minutos e meio, raios de luz aos olhos dos homens, dos crocodilos e dos gatos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas se depois de tantos s\'e9culos n\'f3s nos lembramos de inventar tesouras e espetos, de tosquiar com umas a l\'e3 dos carneiros e de os cozer com os outros para com\'ea- los, que outra coisa se pode inferir sen\'e3o. que Deus nos fez de modo que um dia nos torn\'e1ssemos necessariamente industriosos e carniceiros? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Naturalmente os cordeiros n\'e3o foram feitos de forma alguma para ser cozidos e comidos, porquanto grande n\'famero de na\'e7\'f5es se abst\'eam dessa coisa horrorosa; os homens n\'e3o foram criados essencialmente para se chacinarem, pois os br\'e2manes e os quakers n\'e3o matam ningu\'e9m; mas a massa de que somos feitos produz mortic\'ednios freq\'fcentes, assim como produz cal\'fanias, vaidades, persecu\'e7\'f5es e impertin\'eancias. N\'e3o que a forma\'e7\'e3o do homem seja precisamente a causa final de nossos furores e de nossas tolices: porque uma causa final \'e9 invari\'e1vel em todos os tempos e lugares; por\'e9m os horrores e os absurdos da esp\'e9cie humana n\'e3o figuram menos na ordem eterna das coisas. Quando batemos o trigo, o batedor \'e9 a causa final da separa\'e7\'e3o do gr\'e3o. Mas se esse batedor, batendo o gr\'e3o, esmaga tamb\'e9m milhares de insetos, n\'e3o \'e9 por nossa vontade determinada, nem t\'e3o pouco por acaso: \'e9 que esses insetos se encontraram nessa ocasi\'e3o sob o nosso cacete e a\'ed deviam estar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 em virtude da natureza das coisas que um homem \'e9 ambicioso, que esse homem arregimenta \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (104 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

\par \

\par algumas vezes outros homens, que seja vencedor ou que seja batido; mas jamais se poder\'e1 dizer: o homem foi criado por Deus para ser morto na guerra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os instrumentos que a natureza nos deu n\'e3o podem ser sempre causas finais em movimento, que tenham efeito infal\'edvel. Os olhos, dados para ver, n\'e3o est\'e3o sempre abertos; cada sentido tem seus momentos de repouso. Existem at\'e9 sentidos que nunca usamos. Por exemplo, uma pobre imbecil, encerrada num convento aos catorze anos, fecha para si a porta de onde deveria sair uma nova gera\'e7\'e3o, para sempre; mas a causa final n\'e3o deixa de subsistir, ela agir\'e1 logo que seja livre. \

\par \

\par FRAUDE \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se \'e9 preciso usar de fraudes piedosas com o povo. \~\~\~\~\~ O faquir Bambabefe encontrou um dia um dos disc\'edpulos de Cong- fu- tseu, que chamamos Conf\'facio, e esse disc\'edpulo chamava- se Uang; e Bambabefe sustinha que o povo tem necessidade de ser enganado, e Uang pretendia que jamais se deve enganar quem quer que seja; e eis em resumo a sua disputa. \

\par \

\par Bambabefe \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 preciso imitar o Ente Supremo, que n\'e3o nos mostra as coisas tais como s\'e3o; ele nos faz ver o Sol sob um di\'e2metro de dois ou tr\'eas p\'e9s, n\'e3o obstante esse astro ser um milh\'e3o de vezes maior do que a Terra; ele nos faz ver a Lua e as estrelas deitadas sobre um mesmo fundo azul, enquanto na realidade est\'e3o a dist\'e2ncias diferentes; quer que uma torre quadrada nos pare\'e7a redonda de longe; quer que o fogo nos pare\'e7a quente, apesar de n\'e3o ser nem frio nem quente; enfim ele nos cerca de erros convenientes a nossa natureza. \

\par \

\par Uang \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Isso a que chamais erro n\'e3o o \'e9 absolutamente. O Sol, tal como est\'e1 colocado a milh\'f5es de milh\'f5es de l\'e9guas al\'e9m do nosso globo, n\'e3o \'e9 o que vemos. Realmente, n\'f3s n\'e3o percebemos, nem podia deixar de s\'ea- lo, sen\'e3o o Sol que se grava em nossa retina, sob um \'e2ngulo determinado. Nossos olhos n\'e3o nos foram dados para conhecermos as grandezas e as dist\'e2ncias; s\'e3o precisos outros recursos e opera\'e7\'f5es para conhec\'ea- las. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Bambabefe ficou muito admirado dessas proposi\'e7\'f5es. Uang, que era muito paciente, explicou- lhe a teoria da \'f3tica; e Bambabefe, que tinha um certo tino, rendeu- se \'e0 evid\'eancia das demonstra\'e7\'f5es do disc\'edpulo de Cong- fu- tseu; em seguida reencetou a disputa nestes termos: \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (105 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par Bambabefe \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se Deus n\'e3o nos engana quanto aos nossos sentidos, como eu pensava, deveis convir ao menos em que os m\'e9dicos enganam sempre as crian\'e7as para o seu pr\'f3prio bem: dizem- lhes que lhes est\'e3o dando a\'e7\'facar, e na realidade trata- se de ruibarbo. Portanto, meu caro faquir, posso muito bem enganar o povo, que \'e9 t\'e3o ignorante como as crian\'e7as. \

\par \

\par Uang \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tenho dois filhos e jamais os enganei; disse- lhes quando estiveram doentes: "Eis um rem\'e9dio muito amargo, \'e9 preciso ter coragem para tom\'e1- lo; se fosse doce vos faria mal". Nunca admiti que suas amas e seus preceptores lhes metessem medo contando- lhes hist\'f3rias de feiti\'e7arias; \'e9 assim que os criei, como cidad\'e3os corajosos e s\'e1bios. \

\par \

\par Bambabefe \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O povo n\'e3o nasceu t\'e3o feliz como vossa fam\'edlia. \

\par \

\par Uang \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todos os homens se parecem; nasceram com as mesmas disposi\'e7\'f5es. Os faquires \'e9 que corrompem a natureza dos homens \

\par \

\par Bambabefe \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ensinamos- lhes muitos erros, reconhe\'e7o- o; mas \'e9 para o seu pr\'f3prio bem. Fazemo- lhes crer que se n\'e3o comprarem nossos cravos bentos, se n\'e3o expiarem seus pecados dando- nos dinheiro, tornar- se- \'e3o, na outra vida, cavalos de posta, c\'e3es ou lagartos: isto os intimida, e ent\'e3o eles se tornam pessoas de bem. \

\par \

\par Uang \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (106 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ Mas n\'e3o percebeis que dessa forma perverteis essa pobre gente? Existem entre o povo, mais do que se pensa, pessoas que raciocinam, que zombam de vossos cravos, de vossos milagres, de vossas supersti\'e7\'f5es, que v\'eaem muito bem que n\'e3o se ir\'e3o transformar nem em lagartos nem em cavalos de posta. Que acontece? Elas t\'eam bastante bom senso para ver que v\'f3s lhes pregais uma religi\'e3o impertinente, e n\'e3o o t\'eam, entretanto, suficiente para se elevar numa religi\'e3o pura e isenta de supersti\'e7\'f5es como \'e9 a nossa. Suas paix\'f5es lhes fazem pensar que n\'e3o existe religi\'e3o, uma vez que a \'fanica que lhes ensinam \'e9 rid\'edcula; tornai- vos pois culpado de todos os v\'edcios aos quais elas se atiram. \

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\par Bambabefe \

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\par \~\~\~\~\~ De forma alguma, porquanto n\'f3s apenas lhes ensinamos uma boa moral. \

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\par Uang \

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\par \~\~\~\~\~ Ser\'edeis lapidado pelo povo se lhe ensin\'e1sseis uma moral impura. Os homens s\'e3o feitos de forma tal que querem cometer o mal mas n\'e3o admitem que lho preguemos. Seria simplesmente necess\'e1rio n\'e3o imiscuir uma s\'e1bia moral com f\'e1bulas absurdas, pois enfraqueceis com vossas imposturas, de que poder\'edeis vos abster, essa moral que sois for\'e7ados a ensinar. \

\par \

\par Bambabefe \

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\par \~\~\~\~\~ Como! Julgais que se pode ensinar a verdade ao povo sem a sustentar pelas f\'e1bulas? \

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\par Uang \

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\par \~\~\~\~\~ Creio- o firmemente. Nossos letrados s\'e3o da mesma massa que nossos alfaiates, tintureiros e camponeses. Adoram um Deus criador, remunerador e vingador Eles n\'e3o contaminam o seu culto com sistemas absurdos nem cerim\'f4nias extravagantes; e h\'e1 muito menos crimes entre os letrados que entre o povo. Por que n\'e3o nos dignarmos instruir nossos oper\'e1rios como instru\'edmos nossos letrados? \

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\par Bambabefe \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (107 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ Cometer\'edeis uma grande tolice; \'e9 como se pretend\'easseis que eles tivessem a mesma polidez, que fossem jurisconsultos: isso n\'e3o \'e9 poss\'edvel nem conveniente. \'c9 preciso que exista p\'e3o branco para os amos e p\'e3o negro para os dom\'e9sticos. \

\par \

\par Uang \

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\par \~\~\~\~\~ Reconhe\'e7o que nem todos os homens devam ter os mesmos conhecimentos; mas h\'e1 coisas necess\'e1rias a todos. \'c9 necess\'e1rio que cada um seja justo, e a maneira mais segura de inspirar a justi\'e7a a todos os homens \'e9 inspirar- lhes a religi\'e3o sem supersti\'e7\'e3o. \

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\par Bambabefe \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 um belo projeto, mas impratic\'e1vel. Julgais que seja suficiente aos homens acreditar num Deus que puna e recompense? V\'f3s me dissestes acontecer freq\'fcentemente que os mais avisados entre o povo se revoltam contra minhas f\'e1bulas; da mesma forma se revoltar\'e3o contra vossa verdade. Dir\'e3o: Quem me pode assegurar que um Deus pune a recompensa? Onde est\'e1 a prova? Que miss\'e3o tendes? Que milagre fizestes para que eu vos creia? Eles zombar\'e3o de v\'f3s muito mais do que de mim \

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\par Uang \

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\par \~\~\~\~\~ Eis o vosso erro. Imaginais que h\'e3o de sacudir o jugo de uma id\'e9ia honesta, veross\'edmil, \'fatil a toda gente, uma id\'e9ia que est\'e1 em perfeito acordo com a raz\'e3o humana, por que se rejeitam as coisas indecorosas, absurdas, in\'fateis, nocivas, que fazem fremir o bom senso. \

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\par \~\~\~\~\~ O povo est\'e1 sempre muito disposto a crer nos magistrados: quando seus magistrados n\'e3o lhe prop\'f5em sen\'e3o uma cren\'e7a razo\'e1vel, aceita- a de boa vontade; essa id\'e9ia \'e9 muito natural para ser combatida. N\'e3o \'e9 necess\'e1rio dizer precisamente como \'e9 que Deus punir\'e1 e recompensar\'e1; basta que se creia em sua justi\'e7a. Asseguro vos que vi cidades inteiras que n\'e3o tinham outro dogma, e s\'e3o tamb\'e9m aquelas onde mais encontrei a virtude. \

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\par Bambabefe \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (108 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ Tomai tento; encontrareis nessas cidades fil\'f3sofos que vos negar\'e3o tanto as penas como as recompenses. \

\par \

\par Uang \

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\par \~\~\~\~\~ Dever\'edeis dizer que tais fil\'f3sofos negariam ainda com maior vigor vossas inven\'e7\'f5es; assim nada lucrais nesse ponto. Quando mesmo existissem fil\'f3sofos que n\'e3o estivessem em acordo com meus princ\'edpios, n\'e3o deixariam de ser pessoas de bem; n\'e3o deixariam de cultivar a virtude, que dever\'e1 ser abra\'e7ada por amor, e n\'e3o por medo. Mas afirmo- vos que fil\'f3sofo algum jamais estar\'e1 plenamente certo de que a Provid\'eancia n\'e3o reserve castigos aos maus e recompensas aos bons; porque se eles me perguntarem quem me disse que Deus pune, eu lhes perguntarei quem lhes disse que Deus n\'e3o pune. Enfim, asseguro- vos que os fil\'f3sofos me auxiliar\'e3o, longe de me contradizerem. Quereis ser fil\'f3sofo? \

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\par Bambabefe \

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\par \~\~\~\~\~ Com todo gesto; n\'e3o o digais por\'e9m aos faquires. \

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\par FRONTEIRAS DO ESP\'cdRITO HUMANO \

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\par \~\~\~\~\~ Est\'e3o em toda parte, meu pobre doutor. Queres saber por que teus p\'e9s obedecem a tua vontade e teu f\'edgado n\'e3o? Desejas saber como se forma o pensamento em teu miser\'e1vel entendimento e esta crian\'e7a no \'fatero desta mulher? Dou- te tempo para me responderes. Que \'e9 a mat\'e9ria? Dez mil tratados escreveram teus colegas em torno do assunto. Encontraram algumas qualidades dessa subst\'e2ncia: as crian\'e7as conhecem- nas tanto como tu. Mas afinal que \'e9 essa subst\'e2ncia? E que vem a ser isso que batizaste de esp\'edrito, do voc\'e1bulo latino que quer dizer sopro, n\'e3o lhe dando nome melhor por n\'e3o teres a menor id\'e9ia do que seja? \

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\par \~\~\~\~\~ Olha este gr\'e3o de trigo que lan\'e7o \'e0 terra e dize- me como cresce para produzir uma haste apendoada de uma espiga. Explica- me como a mesma terra produz uma ma\'e7\'e3 no alto daquela arvore e naqueloutra uma castanha. Poderia desfiar- te um inf\'f3lio de \

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\par perguntas a que n\'e3o deverias responder sen\'e3o por estas palavras: Nada sei. \~\~\~\~\~ No entanto tu colaste grau, arreias chap\'e9u alto e envergas nas\'f3culos, e te chamam mestre. \

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\par \~\~\~\~\~ E aquele outro impertinente, por ter comprado um cargo, presume haver comprado o direito de julgar e condenar o que n\'e3o entendei \~\~\~\~\~ A divisa de Montaigne era: Que sei eu? A tua \'e9: Que n\'e3o sei eu? \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (109 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par GL\'d3RIA \

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\par \~\~\~\~\~ Ben al Betif, digno chefe dos derv\'eds, disse- lhes um dia: "Meus irm\'e3os, muito conveniente \'e9 que useis com toda freq\'fc\'eancia esta f\'f3rmula sagrada do nosso Alcor\'e3o: Em nome de Deus mui misericordioso, pois Deus usa de miseric\'f3rdia e v\'f3s aprendereis a pratic\'e1- la com repetir freq\'fcentemente os termos que recomendam uma virtude sem a qual poucos homens restariam sobre a terra. Mas, meus irm\'e3os, abstende- vos de imitar esses temer\'e1rios que a todo transe se jactam de trabalhar pela gl\'f3ria de Deus. Se um jovem imbecil sustenta uma tese sobre as categorias, tese presidida por um ignorante encasacado, n\'e3o deixa de escrever em grossos caracteres no cabe\'e7alho de sua tese: Ek Allah abron doxa: ad majorem Dei gloriam. Um bom mu\'e7ulmano fez pintar o seu sal\'e3o gravando em sua porta essa tolice; um saca carrega \'e1gua para maior gl\'f3ria de Deus. \'c9 um costume \'edmpio, piedosamente posto em uso. Que dir\'edeis de um pequeno tchauch que ao limpar a privada do nosso ilustre sult\'e3o gritasse: "Para maior gl\'f3ria do nosso invenc\'edvel monarca"? H\'e1 certamente maior dist\'e2ncia do sult\'e3o a Deus que do sult\'e3o ao pequeno tchauch. \

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\par \~\~\~\~\~" Que tendes de comum, vermes miser\'e1veis da terra chamados homens, com a gl\'f3ria do Ser Infinito? Pode ele amar a gl\'f3ria? Pode receb\'ea- la de v\'f3s? Pode sabore\'e1- la? At\'e9 quando, b\'edpedes implumes, fareis Deus. \'e0 vossa imagem? Como!. Por serdes v\'e3os, porque amais a gl\'f3ria, pretendeis que Deus a ame tamb\'e9m Se existissem v\'e1rios deuses, cada um deles, \'e9 poss\'edvel, poderia desejar obter o sufr\'e1gio dos seus semelhantes. Seria essa a gl\'f3ria de Deus. Se se pudesse comparar a grandeza infinita com a extrema baixeza, esse Deus seria como o rei Alexandre ou Scander, que n\'e3o desejava entrar em lide sen\'e3o com reis. Mas v\'f3s, pobres diabos, que gl\'f3ria poder\'edeis dar a Deus? Cessai de profanar o seu nome sagrado. Um imperador chamado Ot\'e1vio Augusto proibiu que o louvassem nas escolas de Roma por temer que seu nome fosse envilecido. Mas v\'f3s n\'e3o podeis nem envilecer o ente supremo nem honr\'e1- lo. Humilhai- vos, adorai e calai- vos". \

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\par \~\~\~\~\~ Assim falou Ben al Betif; e os dervis exclamaram: "Gl\'f3ria a Deus! Ben al Betif bem falou". \

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\par GRA\'c7A \

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\par \~\~\~\~\~ Consultores sagrados da Roma moderna, ilustres e infal\'edveis te\'f3logos, ningu\'e9m mais do que eu respeita vossas divinas decis\'f5es; mas se Paulo Em\'edlio, C\'edpi\'e3o, Cat\'e3o, C\'edcero, C\'e9sar, Tito, Trajano, Marco Aur\'e9lio tornassem a essa Roma a que dedicavam outrora certo cr\'e9dito, hav\'edeis de dizer- me que ficariam um tanto admirados de vossas decis\'f5es sobre as gra\'e7as. Que diriam eles se ouvissem falar da gra\'e7a de sa\'fade segundo Sto. Tom\'e1s e da gra\'e7a medicinal segundo Cajetan; da gra\'e7a exterior e interior, da gra\'e7a gratuita, da santificante, da atual, da habitual, da cooperante; da eficaz, que algumas vezes n\'e3o surte efeito; da suficiente, que \'e0s vezes n\'e3o basta; da vers\'e1til e da c\'f4ngrua? Em boa f\'e9, compreenderiam eles mais do que eu e v\'f3s? \

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\par \~\~\~\~\~ Que necessidade teriam esses pobres homens de vossas instru\'e7\'f5es sublimes? Parece- me ouvi- los dizer: \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (110 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ Meus reverendos padres, sois uns g\'eanios terr\'edveis; pens\'e1vamos tolamente que o Ser Eterno n\'e3o se guia jamais pelas leis particulares como os v\'eds humanos, mas sim por suas leis gerais, eternas como eles. Nenhum de n\'f3s jamais imaginou que Deus se assemelhasse a um suserano insensato que concede um pec\'falio a um escravo e recusa alimenta\'e7\'e3o a outro; que ordena ao maneta amassar- lhe a farinha, a um mudo que lhe leia o jornal, a um perneta que lhe sirva de mensageiro. \

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\par \~\~\~\~\~ Tudo \'e9 gra\'e7a da parte de Deus. Fez, ao globo que habitamos, a gra\'e7a de form\'e1- lo; \'e0s \'e1rvores, a gra\'e7a de faz\'ea- las crescer; aos animais a de os nutrir. Mas, - dir- se- \'e1 - no caso de um lobo encontrar no seu caminho um cordeiro para seu almo\'e7o, enquanto outro lobo morre de fome, ter\'e1 feito Deus a esse primeiro lobo uma gra\'e7a particular? Ter- se- \'e1 ocupado, por uma gra\'e7a obsequiosa, em fazer nascer um carvalho de prefer\'eancia a outro carvalho ao qual faltou seiva? Se em toda a natureza todos os seres est\'e3o sujeitos \'e0s leis gerais, por que motivo uma \'fanica esp\'e9cie constituiria exce\'e7\'e3o? Por que deveria o senhor absoluto de tudo ocupar- se mais em dirigir o interior de um \'fanico homem do que conduzir o resto da natureza inteira? Por que extravag\'e2ncia mudaria ele alguma coisa no cora\'e7\'e3o de um curland\'eas ou biscainho, enquanto nada modifica das leis que imp\'f4s a todos os astros? \

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\par \~\~\~\~\~ Que mis\'e9ria o supor que ele faz, desfaz, refaz continuamente nossos sentimentos! E que aud\'e1cia o nos julgarmos \'e0 parte de todos os seres! Ainda n\'e3o \'e9 sen\'e3o para aqueles que confessam serem todas essas mudan\'e7as imaginadas. Um savoiano, um bergam\'e1sio, ter\'e1 na segunda feira a gra\'e7a de mandar dizer uma missa por doze soldos; na ter\'e7a ir\'e1 \'e0 tasca, e a gra\'e7a lhe faltar\'e1; na quarta ter\'e1 uma gra\'e7a cooperante que o conduzir\'e1 \'e0 confiss\'e3o, mas n\'e3o ter\'e1 a gra\'e7a eficaz da contri\'e7\'e3o perfeita; na quinta feira haver\'e1 uma gra\'e7a suficiente que n\'e3o lhe bastar\'e1, como j\'e1 dissemos. Deus trabalhar\'e1 continuamente no c\'e9rebro desse bergam\'e1sio, ora com energia, ora debilmente, e o resto da terra nada ser\'e1 para ele! N\'e3o se dignar\'e1 imiscuir- se no interior dos hindus e dos chineses! Se ainda vos sobrar uma part\'edcula de raz\'e3o, meus reverendos padres, n\'e3o achais esse sistema prodigiosamente rid\'edculo? \

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\par \~\~\~\~\~ Desgra\'e7ados, vede esse carvalho que alevanta a fronde \'e0s nuvens e esse cani\'e7o que rasteja a seus p\'e9s! N\'e3o direis que a gra\'e7a eficaz foi dada ao carvalho e faltou ao cani\'e7o. Elevai os olhos ao c\'e9u, vede o eterno demiurgo criando milh\'f5es de mundos que gravitam todos entre si merc\'ea de leis gerais e eternas. Vede a mesma luz refletir- se do Sol a Saturno e de Saturno a n\'f3s; e, nesse acordo de tantos astros arrastados por uma r\'e1pida corrente, nessa obedi\'eancia geral de toda a natureza, ousai crer, se o puderdes, que Deus se ocupa em conceder uma gra\'e7a vers\'e1til a s\'f3ror Teresa e uma gra\'e7a concomitante a s\'f3ror In\'eas. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c1tomo, a quem um tolo \'e1tomo disse que o Eterno tem leis particulares para alguns \'e1tomos de tua vizinhan\'e7a; que ele concede sua gra\'e7a \'e0quele e nega- a a este; que aquele que n\'e3o possu\'eda gra\'e7a ontem te- la- \'e1 amanh\'e3, - n\'e3o repitas essa tolice. Deus fez o universo e n\'e3o criar\'e1 ventos novos para remover alguns gravetos de palha num canto desse universo. Os te\'f3logos s\'e3o como os combatentes de Homero, que acreditavam que seus deuses ora se armavam contra eles, ora a seu favor. Se Homero n\'e3o fosse considerado como poeta, se- lo- ia como blasfemador. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 Marco Aur\'e9lio quem fala e n\'e3o eu: porque Deus, que vos inspira, me concede a gra\'e7a de acreditar em tudo o que dizeis, tudo o que tendes dito, tudo o que disserdes. \

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\par GUERRA \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (111 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par \~\~\~\~\~ A mis\'e9ria, a peste e a guerra s\'e3o os tr\'eas ingredientes mais famosos deste mundo vil. Podem- se colocar na classe da mis\'e9ria todas as m\'e1s alimenta\'e7\'f5es a que a pen\'faria nos for\'e7a a recorrer para abreviar nossa vida na esperan\'e7a de a suster. \

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\par \~\~\~\~\~ Compreendem- se na peste todas as doen\'e7as contagiosas, que s\'e3o em n\'famero de, dois ou tr\'eas mil. Esses dois presentes nos v\'eam da Provid\'eancia, A guerra, por\'e9m, que re\'fane todos esses dons, nos vem da imagina\'e7\'e3o de trezentas ou quatrocentas pessoas disseminadas pela superf\'edcie do globo sob o nome de pr\'edncipes ou ministros; \'e9 provavelmente por essa raz\'e3o que em v\'e1rias dedicat\'f3rias se chamam imagens vivas da Divindade( 31). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O mais determinado adulador convir\'e1 sem esfor\'e7o em que a guerra acarreta sempre a peste e a mis\'e9ria, por pouco que tenha visto os hospitais dos ex\'e9rcitos da Alemanha,( 32) ou que tenha passado em aldeias onde se fez algum grande movimento militar. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 sem d\'favida uma bela arte a de desolar os campos, destruir as casas e fazer morrer, anualmente, quarenta mil homens sobre cem mil. A principio essa inven\'e7\'e3o foi cultivada por na\'e7\'f5es reunidas para o bem comum; por exemplo, a dieta dos gregos declarou \'e0 dieta da Fr\'edgia e dos povos vizinhos que ia partir num milheiro de barcos de pesca a fim de os exterminar, se o pudesse. \

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\par \~\~\~\~\~ O povo romano reunido julgou ser de seu interesse ir combater antes da colheita contra o povo dos v\'e9ios ou contra os volscos. E, alguns anos antes, todos os romanos, estando encolerizados contra todos os cartagineses, bateram- se longo tempo em mar e em terra. N\'e3o sucede o mesmo hoje em dia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um genealogista prova a um pr\'edncipe que este descende em linha reta de um conde cujos pais tinham feito um pacto de fam\'edlia, h\'e1 trezentos ou quatrocentos anos, com uma casa de que nem sequer existe mem\'f3ria. Essa casa tinha vastas pretens\'f5es sobre uma prov\'edncia cujo \'faltimo possessor morreu de apoplexia: o pr\'edncipe e seu conselho concluem sem dificuldade que essa prov\'edncia lhe pertence por direito divino. Essa prov\'edncia, que est\'e1 situada a algumas centenas de l\'e9guas, perde seu tempo em protestar que n\'e3o o conhece, que n\'e3o tem nenhum desejo de vir a ser governada por ele; que, para dar leis \'e0 gente, \'e9 preciso ao menos ter o seu consentimento: tais discursos chegam aos ouvidos do pr\'edncipe, cujo direito \'e9 incontest\'e1vel. Este encontra imediatamente um grande n\'famero de homens que nada t\'eam que fazer nem que perder; veste- os com um grosso pano azul a cento e dez soldos cada um, borda seus chap\'e9us com fio branco ordin\'e1rio, f\'e1- los manobrar um pouco e marcha para a gl\'f3ria. \

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\par \~\~\~\~\~ Os outros pr\'edncipes que ouvem falar desse ex\'e9rcito tomam parte nele, cada um segundo seu poder, e cobrem uma pequena plan\'edcie do pa\'eds de tantos matadores mercen\'e1rio como Gengis C\'e3, Tamerl\'e3o, Bajaz\'e9s jamais tiveram em seu s\'e9quito. \

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\par \~\~\~\~\~ Povos bastante afastados ouvem dizer que vai haver guerra e que h\'e1 cinco ou seis soldos di\'e1rios a ganhar se quiserem participar da coisa: dividem- se dentro em pouco em dois bandos, como ceifeiros, e v\'e3o vender seus servi\'e7os a quem os queira empregar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ent\'e3o essas multid\'f5es se atiram umas contra outras, n\'e3o s\'f3 sem ter interesse algum no processo, mas \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (112 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par sem mesmo saber do que se trata. S\'e3o seis pot\'eancias beligerantes ao mesmo tempo, ora tr\'eas contra tr\'eas, ora duas contra quatro, ora uma contra cinco, detestando- se todas igualmente entre si, unindo- se e atacando turno a turno; todas de acordo num \'fanico ponto, o de fazer todo o mal poss\'edvel. \

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\par \~\~\~\~\~ O maravilhoso dessa empresa infernal \'e9 que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o pr\'f3ximo. \

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\par \~\~\~\~\~ Se um chefe n\'e3o teve a felicidade de fazer degolar sen\'e3o dois ou tr\'eas mil homens, n\'e3o agradece a Deus; mas assim alcance um ativo de uns dez mil exterminados pelo fogo e pelo ferro, e por c\'famulo de gra\'e7a alguma cidade seja totalmente destru\'edda, ent\'e3o canta- se aos quatro ventos uma longa can\'e7\'e3o, composta numa l\'edngua desconhecida de todos os que combateram e repleta de barbarismos. A mesma can\'e7\'e3o serve tanto para os casamentos ou nascimentos como para as mortes: o que \'e9 imperdo\'e1vel, sobretudo na na\'e7\'e3o mais famosa por suas novas can\'e7\'f5es. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Paga- se por toda parte um certo n\'famero de arengadores a fim de celebrar essas jornadas mort\'edferas; uns vestem- se com longos gib\'f5es pretos, encimados por uma capa curta; outros usam uma camisa por cima da roupa; outros levam um tirante matizado por cima da camisa. Todos falam muito; citam o que se fez outrora na Palestina, a prop\'f3sito de um combate em Veter\'e1via. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O resto do ano esses indiv\'edduos declamam contra os v\'edcios. Provam em tr\'eas pontos e por ant\'edteses que as damas que espalham ligeiramente um pouco de carmim nas bochechas ser\'e3o objeto de eternas vingan\'e7as do Eterno; que Polieuto e At\'e1lia s\'e3o obras demon\'edacas; que um homem que manda p\'f4r sobre sua mesa duzentos escudos de peixe fresco num dia de quaresma beneficia sua sa\'fade, e que um pobre homem que come dois soldos de carneiro ir\'e1 para sempre a todos os diabos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ De cinco ou seis mil declama\'e7\'f5es dessa esp\'e9cie, apenas existem tr\'eas ou quatro, compostas por um gaul\'eas chamado Massil\'e3o, que um homem honesto pode ler sem desgosto; mas em todos esses discursos n\'e3o h\'e1 um s\'f3 orador que ouse insurgir- se contra esse flagelo e esse crime da guerra, que cont\'e9m todos os flagelos e todos os crimes. Os desgra\'e7ados arengadores falam sem cessar contra o amor, que \'e9 a \'fanica consola\'e7\'e3o do g\'eanero humano e a \'fanica maneira de o reparar; nada dizem dos esfor\'e7os abomin\'e1veis que fazemos para destru\'ed- lo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Fizestes um p\'e9ssimo serm\'e3o sobre a impureza, \'f3 Bourdaloue! mas nenhum sobre essas mortes variadas em tantos lugares, sobre essas rapinas, sobre esses banditismos, sobre essa raiva universal que desola o mundo. Todos os v\'edcios reunidos de todas as idades e de todos os lugares jamais igualar\'e3o os males produzidos por uma \'fanica campanha. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Miser\'e1vel m\'f3dico de almas, gritais durante cinco quartos de hora por causa de algumas picadas de espinho e nada dizeis sobre a enfermidade que nos estra\'e7alha em mil peda\'e7os! Fil\'f3sofos moralistas, queimai todos os vossos livros, Enquanto o capricho de alguns homens fizer lealmente degolar milhares de nossos confrades, a parte do g\'eanero humano consagrada ao hero\'edsmo ser\'e1 o que de mais afrontoso existe em toda a natureza. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que s\'e3o, que me importam a humanidade, a benefic\'eancia, a mod\'e9stia, a temperan\'e7a, a do\'e7ura, a sabedoria, a piedade, quando meia libra de chumbo atirada de seiscentos passos me inutiliza o corpo e morro aos vinte anos entre padecimentos inexprim\'edveis, no meio de cinco ou seis mil agonizantes, \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (113 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par enquanto meus olhos que se abrem pela \'faltima vez v\'eaem a cidade em que nasci destru\'edda pelo fogo e pelas chamas, e os derradeiros sons que meu ouvido percebe s\'e3o gritos de mulheres e de crian\'e7as que expiram sob as ru\'ednas, tudo pelos pretensos interesses de um homem que n\'e3o conhecemos? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E o que \'e9 pior, a guerra \'e9 um flagelo inevit\'e1vel, Se observarmos bem, todos os homens adoraram o deus Marte. Sabaote, entre os judeus, significa o deus das armas; mas Minerva, em Homero, considera Marte um deus furioso, insensato e infernal. \

\par \

\par HIST\'d3RIA DOS REIS JUDEUS E PARALIP\'d4MENOS \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todos os povos escreveram sua hist\'f3ria, desde que o puderam fazer. Os judeus tamb\'e9m escreveram a sua. Antes que tivessem reis viviam sob o regime teocr\'edtico; eram julgados e governados pelo pr\'f3prio Deus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando os judeus desejaram um rei como os povos seus vizinhos, o profeta Samuel declarou- lhes da parte de Deus que eles rejeitavam o pr\'f3prio Deus: assim findou a teocracia entre os judeus quando teve princ\'edpio a monarquia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Poder- se- ia, pois, dizer sem blasfemar que a hist\'f3ria dos reis judeus foi escrita como a dos outros povos, e que Deus n\'e3o se deu ao trabalho de contar, ele mesmo, a hist\'f3ria de um povo que j\'e1 n\'e3o governava. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 com extrema desconfian\'e7a que se aventa essa opini\'e3o. O que a poderia confirmar \'e9 que os Paralip\'f4menos contradizem freq\'fcentemente o Livro dos Reis na cronologia e nos fatos, assim como os nossos historiadores profanos se contradizem algumas vezes. Demais, se Deus sempre escreveu a hist\'f3ria dos judeus, ser\'e1 preciso crer, portanto, que continua a escrev\'ea- la, porque os judeus continuam a ser o seu povo querido. Eles dever- se- \'e3o converter um dia e parece que ent\'e3o estar\'e3o tamb\'e9m no direito de considerar a hist\'f3ria de sua dispers\'e3o como sagrada, assim como t\'eam direito de dizer que Deus escreveu a hist\'f3ria dos seus reis. \

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\par \~\~\~\~\~ Pode- se ainda fazer uma reflex\'e3o: \'e9 que, tendo sido Deus o seu \'faico rei durante longo tempo e em seguida seu historiador, deveremos ter para com todos os judeus o mais profundo respeito. N\'e3o h\'e1 algibebe judeu que n\'e3o esteja infinitamente acima de C\'e9sar e Alexandre. Como evitar prosternar- se diante de um adelo que vos prova que sua hist\'f3ria foi escrita peia pr\'f3pria Divindade, enquanto as hist\'f3rias gregas e romanas n\'e3o nos foram transmitidas sen\'e3o por profanos? \

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\par \~\~\~\~\~ Se o estilo da Hist\'f3ria dos Reis e dos Paralip\'f4menos \'e9 divino, as a\'e7\'f5es relatadas nessas hist\'f3rias nada t\'eam de divino. Davi assassina Urias; Isbosete e Mifibosete s\'e3o assassinados; Absal\'e3o assassina Am\'e3o; Joabe assassina Absal\'e3o; Salom\'e3o assassina Adonias, seu irm\'e3o; Baasa assassina Nadabe; Zambri assassina Ela; Amri assassina Zambri; Acabe assassina Nabote; Je\'fa assassina Acabe e Jor\'e2m; os habitantes de Jerusal\'e9m assassinam Amazias, filho de Joas; Selum, filho de Jabes, assassina Zacarias, filho de Jerobo\'e3o; Mana\'eam assassina Selum, filho de Jabes; Faceu, filho de Rom\'e9lio, assassina Fac\'e9ia, filho de Mana\'eam; Ozeu, filho de Ela, assassina Faceu, filho de Rom\'e9lio. Silenciamos outros card\'e1pios de \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (114 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par assass\'ednios. \'c9 preciso compreender que se o Esp\'edrito Santo escreveu essa hist\'f3ria, n\'e3o escolheu um assunto muito edificante. \

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\par \'cdDOLO, ID\'d3LATRA, IDOLATRIA \

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\par \~\~\~\~\~ Idolo vem do grego , figura; , representa\'e7\'e3o de uma figura; , servir, reverenciar, adorar, O termo adorar \'e9 latino, existindo v\'e1rias acep\'e7\'f5es diferentes: significa levar a m\'e3o \'e0 boca falando com respeito, curvar- se, ajoelhar- se, saudar e, enfim, comumente, render um culto supremo. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 \'fatil assinalar aqui que o Dictionnaire de Tr\'e9voux come\'e7a esse artigo por dizer que todos os pag\'e3os eram id\'f3latras e que os hindus ainda o s\'e3o. Primeiramente, n\'e3o se chamava pag\'e3o a ningu\'e9m antes de Teod\'f3sio o Jovem; esse nome foi dado ent\'e3o aos habitantes dos burgos da It\'e1lia, pagorum incolae, pagani, que conservavam sua antiga religi\'e3o. Em segundo lugar, o Indost\'e3o \'e9 maometano e os maometanos s\'e3o inimigos implac\'e1veis das imagens e da idolatria. Terceiro, n\'e3o se deve chamar id\'f3latras a muitos povos da \'cdndia que pertencem \'e0 antiga religi\'e3o dos parsis, nem a certas castas que n\'e3o adoram \'eddolos. \

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\par Exame \

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\par \~\~\~\~\~ Se houve alguma vez um governo id\'f3latra \~\~\~\~\~ Parece n\'e3o ter existido jamais nenhum povo sobre a terra que tenha tomado esse nome de id\'f3latra. Esse termo \'e9 uma inj\'faria, uma palavra ultrajante, tal como a de gavachos( 33), que os espanh\'f3is davam outrora aos franceses, e o de maranes( 34) que os franceses davam aos espanh\'f3is. Se se tivesse perguntado ao senado de Roma, ao Are\'f3pago de Atenas, \'e0 corte dos reis da P\'e9rsia: "Sois id\'f3latras!" - mal entenderiam a pergunta. Ningu\'e9m teria respondido: "Adoramos imagens e \'eddolos". N\'e3o se encontra o termo id\'f3latra, idolatria nem em Homero, nem em Es\'edodo, nem em Her\'f3doto, nem em qualquer outro autor da religi\'e3o dos gentios. Jamais existiu \'e9dito, lei alguma que ordenasse a adora\'e7\'e3o de \'eddolos, que fossem usados como deuses, que se considerassem como deuses. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando os capit\'e3es romanos e cartagineses conclu\'edam um tratado, invocavam todos os seus deuses. "\'c9 na sua presen\'e7a" - diziam eles - "que juramos a paz". Ora, as est\'e1tuas de todos esses deuses, cuja enumera\'e7\'e3o seria muito longa, n\'e3o participavam da tenda dos generais. Consideravam os deuses como presentes \'e0s a\'e7\'f5es dos homens, como testemunhas, como juizes e com certeza n\'e3o era o simulacro que constitu\'eda a divindade. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Com que olhos viam, pois, as est\'e1tuas das suas falsas divindades nos templos? Com os mesmos olhos, se se permitir esta express\'e3o, com que vemos as imagens dos objetos de nossa venera\'e7\'e3o. O erro n\'e3o era adorar peda\'e7os de m\'e1rmore ou de madeira, mas adorar uma falsa divindade, representada por essa \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (115 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par madeira e por esse m\'e1rmore. A diferen\'e7a entre eles e n\'f3s n\'e3o \'e9 que eles tivessem imagens e n\'f3s n\'e3o. A diferen\'e7a \'e9 que suas imagens representavam seres fant\'e1sticos de uma religi\'e3o falsa e as nossas representam seres reais duma religi\'e3o verdadeira. Os gregos tinham a est\'e1tua de H\'e9rcules e n\'f3s a de S. Crist\'f3v\'e3o; tinham Escul\'e1pio e sua cabra e n\'f3s S. Roque e seu c\'e3o; tinham J\'fapiter armado com um feixe de raios e n\'f3s Sto. Ant\'f4nio de P\'e1dua e S\'e3o Jaques de Compostela. \

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\par \~\~\~\~\~ Quando o c\'f4nsul Pl\'ednio endere\'e7a suas preces aos deuses imortais, no ex\'f3rdio do Paneg\'edrico de Trajano, n\'e3o \'e9 \'e0s imagens que se dirige. Essas imagens n\'e3o eram imortais. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nem os \'faltimos tempos do paganismo nem os mais remotos oferecem um \'fanico fato que possa fazer concluir que se adorassem \'eddolos. Homero fala apenas de deuses que habitavam o alto Olimpo. O palladium, ainda que ca\'eddo do c\'e9u, era apenas um penhor sagrado da prote\'e7\'e3o de Palas; era a ela que se venerava no palladium. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por\'e9m os romanos e os gregos ajoelhavam- se diante das est\'e1tuas, davam- lhes coroas, incenso, flores, conduziam- nas em triunfo nas pra\'e7as p\'fablicas. N\'f3s santificamos esses costumes, e n\'e3o somos id\'f3latras. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ As mulheres, em tempos de seca, carregavam as est\'e1tuas dos deuses depois de haver jejuado. Caminhavam descal\'e7as, descabeladas, e em breve chovia a c\'e2ntaros, como dizia Petr\'f4nio, et estatim urceatim pluebat( 35). N\'e3o consagramos esse uso, ileg\'edtimo entre os gentios e leg\'edtimo sem d\'favida alguma entre n\'f3s? Em quantas cidades n\'e3o se levam a p\'e9s nus os altares dos santos para obter as b\'ean\'e7\'e3os do c\'e9u por seu interm\'e9dio? Se um turco, um letrado chin\'eas presenciasse essas cerim\'f4nias, poderia, por ignor\'e2ncia, acusar- nos desde logo de p\'f4r nossa confian\'e7a em imagens que assim transportamos em prociss\'e3o; bastaria, por\'e9m, uma palavra para os desmentir. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Surpreendemo- nos do n\'famero prodigioso de declama\'e7\'f5es debitadas em todos os tempos contra a idolatria dos romanos e dos gregos; e mais ainda, nos surpreendemos ao saber que n\'e3o foram id\'f3latras. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Existiam templos mais privilegiados que outros. A grande Diana de \'c9feso tinha mais reputa\'e7\'e3o do que uma Diana de aldeia. Operavam- se mais milagres no templo de Escul\'e1pio em Epidauro que em outro qualquer dos seus templos. A est\'e1tua de J\'fapiter Ol\'edmpico atra\'eda mais oferendas que a de J\'fapiter Paflag\'f4nio. Mas, desde que \'e9 preciso sempre opor aos costumes de uma religi\'e3o verdadeira os de uma religi\'e3o falsa, n\'e3o tivemos n\'f3s, durante v\'e1rios s\'e9culos, mais devo\'e7\'e3o a certos altares do que a outros? N\'e3o levamos mais ofert\'f3rios a Nossa Senhora de Loreto que a Nossa Senhora das Neves? \'c9 a n\'f3s que compete saber se esse pretexto serve para nos acusar de idolatria. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se imaginara sen\'e3o uma s\'f3 Diana, um s\'f3 Apolo, um \'fanico Escul\'e1pio, e n\'e3o tantos Apolos, Dianas e Escul\'e1pios, com seus respectivos templos e est\'e1tuas. Est\'e1 pois provado, tanto quanto o pode ser um ponto hist\'f3rico, que os antigos n\'e3o criam em que uma est\'e1tua fosse uma divindade, que o culto n\'e3o podia ser relacionado a essa est\'e1tua, a esse \'eddolo e que, consequentemente, os antigos nada tinham de id\'f3latras. \

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\par \~\~\~\~\~ Um populacho grosseiro, supersticioso, que n\'e3o raciocinava, que n\'e3o sabia duvidar nem negar nem crer, que acorria aos templos por ociosidade e porque a\'ed os pequenos s\'e3o iguais aos grandes, que levava sua oferenda por costume, que falava continuamente de milagres sem nunca haver examinado um deles, \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (116 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par e que n\'e3o estava acima das v\'edtimas que causava; esse populacho, digo, bem podia, \'e0 vista da grande Diana e de J\'fapiter Tonante, ser ferido de um terror religioso e adorar, sem o saber, a pr\'f3pria est\'e1tua. \'c9 o que em nossos templos aconteceu algumas vezes a nossos grosseiros concidad\'e3os. Entretanto, n\'e3o cessamos de lhes dizer que \'e9 aos bem- aventurados, aos imortais, recebidos no c\'e9u, que eles devem solicitar, e n\'e3o a figuras de madeira e de pedra, e que apenas devem adorar a Deus. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os gregos e romanos aumentaram por apoteoses o n\'famero de seus deuses. Os gregos divinizavam os conquistadores, como Baco, H\'e9rcules e Perseu. Roma erigiu altares aos seus imperadores. Nossas apoteoses s\'e3o de g\'eanero diferente; temos santos em substitui\'e7\'e3o a seus semideuses, seus deuses secund\'e1rios; mas n\'e3o os consideramos merc\'ea de seus postos ou conquistas. Elevamos templos a homens simplesmente virtuosos que seriam, na maioria, completamente ignorados sobre a terra se n\'e3o tivessem sido colocados no c\'e9u. As apoteoses dos antigos inspiravam- se na lisonja, as nossas no respeito \'e0 virtude, mas essas antigas apoteoses constituem ainda uma prova convincente de que os gregos e romanos nada tinham propriamente de id\'f3latras. Est\'e1 claro que n\'e3o admitiam mais uma virtude divina na est\'e1tua de Augusto e Cl\'e1udio do que em suas medalhas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ C\'edcero, em suas obras filos\'f3ficas, n\'e3o deixa sequer supor que nos possamos enganar quanto \'e0s est\'e1tuas dos deuses, confundindo- as com os pr\'f3prios deuses. Seus interlocutores fulminavam a religi\'e3o estabelecida; mas nenhum deles sonha em acusar os romanos de empregar o m\'e1rmore e o bronze para as est\'e1tuas de suas divindades. Lucr\'e9cio n\'e3o reprova essa tolice a ningu\'e9m, ele que tudo reprova aos supersticiosos. Portanto, ainda uma vez, essa opini\'e3o n\'e3o existia, n\'e3o se fazia dela id\'e9ia alguma; n\'e3o existiam id\'f3latras. \

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\par \~\~\~\~\~ Hor\'e1cio faz falar a uma est\'e1tua de Pr\'edapo, fazendo- lhe dizer: "Eu fui outrora um tronco de figueira; um carpinteiro, n\'e3o sabendo se faria de mim um Deus ou um banco, determinou enfim tornar- me um deus, etc."( 36). Que concluir desse gracejo? Pr\'edapo era dessas pequenas divindades subalternas abandonadas ao gracejo; esse pr\'f3prio gracejo \'e9 a prova mais evidente de que essa figura de Pr\'edapo, que se colocava nas hortas para espantar os p\'e1ssaros, n\'e3o era muito venerada. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Dacier, entregando- se ao esp\'edrito comentador, n\'e3o deixou de observar que Baruch predissera essa aventura dizendo: "Eles ser\'e3o apenas o que quiserem os art\'edfices ;" por\'e9m ele deveria observar tamb\'e9m que se pode dizer outro tanto de todas as divindades. \

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\par \~\~\~\~\~ Pode- se, de um bloco de m\'e1rmore, fazer t\'e3o bem um fog\'e3o como uma figura de Alexandre ou de J\'fapiter, ou qualquer outra coisa mais respeit\'e1vel. A mat\'e9ria de que eram formados os querubins do Santo dos Santos teria podido servir igualmente \'e0s fun\'e7\'f5es mais vis. Um trono, um altar, s\'e3o menos venerados porque um oper\'e1rio poderia ter feito com seu material uma mesa de cozinha? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Dacier, em lugar de concluir que os romanos adoravam a est\'e1tua de Pr\'edapo e que Baruch o predissera, deveria pois concluir que os romanos se riam dela. Consultai todos os autores que falam das est\'e1tuas dos seus deuses e n\'e3o encontrareis nenhum que fale em idolatria: eles dizem expressamente o contr\'e1rio. Vedes em Marcial: \

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\par \~\~\~\~\~ Qui finxit sacros auro vel marmore vultus non facit ille deos.... (37). \

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\par \~\~\~\~\~ Em Ov\'eddio: \~\~\~\~\~ Colitur pro Jove forma Jovis( 38). \~\~\~\~\~ Em Est\'e1cio: \~\~\~\~\~ Nulla autem effigies, nulli commissa metallo forma Dei; mentes habitare et pectora gaudet( 39). \~\~\~\~\~ Em Lucano: \~\~\~\~\~ Estne Dei sedes, nisi terra et pontus et aer?( 40). \~\~\~\~\~ Far- se- ia um volume de todos os passos que afirmam que as imagens s\'e3o somente imagens. \~\~\~\~\~ Apenas o caso em que as est\'e1tuas concediam or\'e1culos pode fazer pensar que essas est\'e1tuas tinham alguma coisa de divino. Mas certamente a opini\'e3o reinante era a de que os deuses tinham escolhido determinados altares, determinadas imagens, para a\'ed descerem algumas vezes, para a\'ed dar audi\'eancias aos homens, para lhes responder. N\'e3o vemos em Homero e nos coros das trag\'e9dias gregas sen\'e3o preces a Apolo, que dava seus or\'e1culos nas montanhas, em tal templo, em tal cidade; n\'e3o h\'e1, sem d\'favida, em toda a antig\'fcidade, o menor vest\'edgio de preces dirigidas a uma est\'e1tua. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os que professavam a magia, os que a julgavam uma ci\'eancia ou que fingiam cr\'ea- lo, pretendiam ter o segredo de fazer os deuses descerem \'e0s est\'e1tuas; n\'e3o os grandes deuses, mas os deuses secund\'e1rios, os g\'eanios. \'c9 o que Merc\'fario Trismegista chamava fazer deuses; \'e9 isso que Sto. Agostinho refuta em sua Cidade de Deus. Por\'e9m mesmo isso mostra evidentemente que as imagens nada tinham de divino, porquanto era preciso que um mago as animasse. Parece- me que era muito raro um mago ter habilidade suficiente para dar alma a uma est\'e1tua, para faz\'ea- la falar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Numa palavra: as imagens dos deuses n\'e3o eram deuses. J\'fapiter e n\'e3o sua imagem lan\'e7ava o trov\'e3o; e n\'e3o era a est\'e1tua de Netuno que agitava os mares nem a de Apolo que fazia a luz. Os gregos e os romanos eram gentios, polite\'edstas e n\'e3o id\'f3latras. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se os persas, os sabaenses, os eg\'edpcios, os t\'e1rtaros, Os turcos foram id\'f3latras e de que antig\'fcidade \'e9 a origem das imagens chamadas "\'eddolos". Hist\'f3ria do seu culto. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 um grande erro chamar id\'f3latras aos povos que renderam culto ao Sol e \'e0s estrelas. Essas na\'e7\'f5es n\'e3o tiveram por muito tempo nem imagens nem templos. Se se enganaram, foi em atribuir aos astros o que deviam ao criador dos astros. O dogma de Zoroastro ou Zerdusto, recolhido no Sadder, apresenta tamb\'e9m um ente supremo, vingador e remunerador; e isto est\'e1 bem longe de ser idolatria. O governo da China n\'e3o teve jamais nenhum \'eddolo;, conservou sempre o culto simples do Senhor dos C\'e9us, King- tien. Gengis C\'e3, entre os t\'e1rtaros, n\'e3o era id\'f3latra nem possu\'eda imagem alguma. Os mu\'e7ulmanos, que in\'e7aram a Gr\'e9cia, \'c1sia Menor, S\'edria, P\'e9rsia, \'cdndia e \'c1frica, chamam aos crist\'e3os id\'f3latras, infi\'e9is, pois acreditam que eles rendem culto \'e0s imagens. Quebraram v\'e1rias est\'e1tuas que encontraram em Constantinopla, em Santa Sofia, na igreja dos Santos Ap\'f3stolos e em muitas outras que converteram em mesquitas. A apar\'eancia os enganou como sempre engana os homens e lhes fez crer que templos dedicados aos santos \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (118 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par que tinham sido homens outrora, imagens desses santos veneradas de joelhos, milagres operados nesses templos eram provas irretorqu\'edveis da mais consumada idolatria. Contudo, n\'e3o h\'e1 nada disso. Os crist\'e3os n\'e3o adoram, na verdade, sen\'e3o um Deus \'fanico e n\'e3o veneram nos seus bem- aventurados sen\'e3o a pr\'f3pria virtude de Deus que age em seus santos. Os iconoclastas e os protestantes lan\'e7aram a mesma tacha de idolatria \'e0 igreja e a mesma resposta lhes foi dada. \

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\par \~\~\~\~\~ Como muito raramente tiveram os homens id\'e9ias precisas e menos ainda exprimiram suas id\'e9ias por termos precisos e inequ\'edvocos, apelidamos id\'f3latras os gentios e sobretudo os polite\'edstas. Escreveram- se volumes imensos, debitaram- se sentimentos diversos sobre a origem desse culto rendido a Deus ou a v\'e1rios deuses sob figuras sens\'edveis: esta multitude de livros e de opini\'f5es n\'e3o atesta sen\'e3o ignor\'e2ncia. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se sabe quem inventou as vestes e os cal\'e7ados e quer- se saber quem primeiro inventou os \'eddolos? Que importa um trecho de Sanconi\'e1ton, que viveu antes da guerra de Tr\'f3ia? Que nos ensina ele quando diz que o caos, o esp\'edrito, isto \'e9, o sopro, enamorado de seus princ\'edpios, lan\'e7ou- lhes os alicerces, que tornou o ar luminoso, que o vento Colpo e sua mulher Bau geraram \'c9on, que \'c9on gerou Genos, que Cronos, seu descendente, tinha dois olhos atr\'e1s como na frente, que se tornou Deus e que presenteou o Egito a seu filho Tot? A\'ed tendes um dos mais respeit\'e1veis monumentos da antig\'fcidade. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Orfeu, anterior a Sanconi\'e1ton, nada nos poder\'e1 dizer de novo em sua Teogonia, que Dam\'e1cio nos transmitiu. Apresenta o princ\'edpio do mundo sob a figura de um drag\'e3o de duas cabe\'e7as, uma de touro, outra de le\'e3o, um rosto \'e0 metade, a que chama rosto- deus, e asas douradas nas costas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Podeis, por\'e9m, dessas estranhas id\'e9ias, tirar duas grandes verdades: uma, que as imagens sens\'edveis e os hier\'f3glifos s\'e3o da mais alta antig\'fcidade; outra, que todos os fil\'f3sofos antigos reconheceram um primeiro princ\'edpio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quanto ao polite\'edsmo, o bom senso vos dir\'e1 que, desde que existiram homens, isto \'e9, fr\'e1geis animais capazes de raz\'e3o e de loucura, sujeitos a todos os acidentes, \'e0 doen\'e7a e \'e0 morte, esses homens sentiram sua fraqueza e sua depend\'eancia; reconheceram facilmente a exist\'eancia de alguma coisa mais poderosa que eles; sentiram uma for\'e7a na terra que fornece seus alimentos, uma no ar que os destr\'f3i com freq\'fc\'eancia, uma no fogo que consome e na \'e1gua que submerge. Que mais natural, em homens ignorantes, que o imaginar seres que presidissem a esses elementos? Que mais natural que venerar a for\'e7a invis\'edvel que fazia luzir diante dos olhos o Sol e as estrelas? E, desde que se desejou formar uma id\'e9ia dessas for\'e7as superiores ao homem, que mais natural ainda que o figur\'e1- las de uma maneira sens\'edvel? Poderia ser de outra forma? A religi\'e3o judaica, que precedeu \'e0 nossa e que foi dada por Deus, estava repleta dessas imagens sob as quais se representa Deus. Ele se digna falar num espinheiro a linguagem humana; aparece sobre uma montanha; os esp\'edritos celestes que envia v\'eaem todos sob forma humana; enfim o santu\'e1rio est\'e1 repleto de querubins, que s\'e3o corpos de homens com asas e cabe\'e7as de animais. \'c9 o que deu lugar ao erro de Plutarco, T\'e1cito e tantos outros que reprovaram aos judeus o adorar uma cabe\'e7a de asno. Deus, apesar de sua proibi\'e7\'e3o de se pintarem e esculpir figuras, dignou- se pois proporcionar- se \'e0 fraqueza humana, que solicitava que se lhe falasse aos sentidos por meio de imagens. \

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\par \~\~\~\~\~ Isa\'edas, no cap. 6, v\'ea o Senhor sentado sobre um tronco e a cauda de seu vestido que enchia o templo. O Senhor estende sua m\'e3o e toca a boca de Jeremias, no cap\'edtulo 1 desse profeta. Ezequiel, no cap\'edtulo 3, v\'ea um trono de safira, e Deus lhe aparece como um homem sentado em seu trono. Essas imagens n\'e3o alteram em nada a pureza da religi\'e3o, que jamais empregou quadros, est\'e1tuas, \'eddolos, para representar \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (119 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 46: 59] \

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\par Deus aos olhos do povo. \~\~\~\~\~ Os letrados chineses, os parsis, os antigos eg\'edpcios n\'e3o tiveram \'eddolos; mas em breve Isis e Osiris foram figurados; em breve Bel, em Babil\'f4nia, foi um grande colosso; Brama foi um estranho monstro na pen\'ednsula da \'cdndia. Os gregos principalmente multiplicaram os nomes dos deuses, as est\'e1tuas e os templos, mas sempre atribuindo a suprema pot\'eancia a seu deus Zeus, chamado pelos latinos J\'fapiter, senhor dos deuses e dos homens. Os romanos imitaram os gregos. Esses povos colocaram sempre todos os deuses no c\'e9u, sem saber que \'e9 que entendiam pelo c\'e9u e pelo seu Olimpo; n\'e3o havia o m\'ednimo ind\'edcio de que esses deuses habitassem nas nuvens, que apenas s\'e3o \'e1gua. Colocaram- se, primeiro, sete deuses em sete planetas; por\'e9m ao depois a morada de todos os deuses foi a amplid\'e3o celeste. \

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\par \~\~\~\~\~ Os romanos tiveram seus doze grandes deuses, seis var\'f5es e seis f\'eameas, a que chamaram Dii majorum gentium: J\'fapiter, Netuno, Apolo, Vulcano, Marte, Merc\'fario; Juno, Vesta, Minerva, Ceres, V\'eanus, Diana. Plut\'e3o foi ent\'e3o esquecido; Vesta tomou seu lugar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Em seguida vinham os deuses minorum gentium, os deuses ind\'edgetes, os her\'f3icos, como Baco, H\'e9rcules, Escul\'e1pio; os deuses infernais, Plut\'e3o, Pros\'e9rpina; os do mar, como Tetis, Anfitrite, as Nereidas, Glauco; depois as Dr\'edadas, as N\'e1iadas; os deuses dos jardins, dos pastores. Havia- os para cada profiss\'e3o, para cada a\'e7\'e3o da vida, para as crian\'e7as, para as jovens casadouras, para as casadas, para as amantes; houve o deus Pete. Divinizaram- se por fim os imperadores. Nem esses imperadores, nem o deus Pete, nem a deusa Pertunda, nem Pr\'edapo, nem Rum\'edlia, a deusa das tetas, nem Esterc\'fatio, o deus do guarda- roupa, foram na verdade considerados como senhores do c\'e9u e da terra. Os imperadores tiveram templos algumas vezes, os pequenos deuses dom\'e9sticos n\'e3o os tiveram; mas todos tiveram sua figura, seu \'eddolo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tratava- se de pequenos bonecos com os quais se ornavam os gabinetes; brinquedos para velhas e crian\'e7as, que n\'e3o estavam autorizados por nenhum culto p\'fablico. Deixava- se que cada particular tivesse as supersti\'e7\'f5es que melhor lhe agradassem. Encontram- se ainda esses pequenos \'eddolos nas ru\'ednas das cidades antigas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se ningu\'e9m sabe quando os \'eddolos come\'e7aram a ser fabricados, sabe- se em compensa\'e7\'e3o que remontam \'e0 mais alta antig\'fcidade. Tareu, pai de Abra\'e3o, construiu Ur, na Cald\'e9ia. Raquel roubou e carregou os \'eddolos de seu av\'f4 Lab\'e3o. N\'e3o \'e9 poss\'edvel ir mais longe. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas que no\'e7\'e3o precisa tinham as na\'e7\'f5es antigas a respeito desses simulacros? Que virtude, que pot\'eancia lhes atribulam? Julgava- se que os deuses desciam do c\'e9u para se meterem nessas est\'e1tuas, ou que lhes comunicavam uma parte do esp\'edrito divino, ou que n\'e3o lhes comunicavam coisa alguma? \'c9 este tamb\'e9m um assunto sobre o qual se tem escrito inutilmente; \'e9 claro que cada homem julgava segundo a sua parcela de raz\'e3o, ou de credulidade, ou de fanatismo. \'c9 evidente que os padres ligaram as divindades o mais que puderam \'e0s suas est\'e1tuas, a fim de conseguirem maior n\'famero de oferendas. Sabe- se que os fil\'f3sofos reprovavam essas supersti\'e7\'f5es, que os guerreiros as escarneciam, que os magistrados as toleravam e que o povo, sempre absurdo, n\'e3o sabia que fazer com elas. \'c9 esta em poucas palavras a hist\'f3ria de todas as na\'e7\'f5es a quem Deus n\'e3o se fez conhecer. \

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\par \~\~\~\~\~ Pode- se fazer a mesma id\'e9ia do culto que todo o Egito rendia a um boi e que v\'e1rias cidades renderam a um c\'e3o, a um s\'edmio, a um gato, a cebolas. H\'e1 muita apar\'eancia de que de come\'e7o tenham servido como \

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\par emblemas. Em seguida um certo boi Apis, um certo c\'e3o chamado Anubis, foram adorados; comia- se diariamente carne de boi e cebolas; \'e9 por\'e9m muito dif\'edcil saber que pensavam as velhas do Egito a respeito dos bois e das cebolas sagradas. \

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\par \~\~\~\~\~ Os \'eddolos falavam com freq\'fc\'eancia. Comemoravam- se em Roma, no dia da festa de Cibele, belas palavras que a est\'e1tua pronunciara ao ser transladada do pal\'e1cio do rei At\'e1lio. \

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\par Ipsa peti volui; ne sit mora, mitte volentem: dignus Roma locus quo deus omnis eat( 41). \

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\par \~\~\~\~\~ Eu quis que me levassem, levai- me depressa; Roma \'e9 digna de que todos os deuses se estabele\'e7am nela. \

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\par \~\~\~\~\~ A est\'e1tua da Fortuna falara: os Cipi\'f5es, os C\'edceros; os C\'e9sares, na: verdade, n\'e3o acreditavam; mas a velha a quem Encolpo deu um escudo a fim de que comprasse gansos e deuses bem poderia acredit\'e1- lo. \

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\par \~\~\~\~\~ Os \'eddolos tamb\'e9m concediam or\'e1culos, e os sacerdotes metidos no oco das est\'e1tuas falavam em nome da Divindade. \

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\par \~\~\~\~\~ Como, no meio de tantos deuses e de tantas teogonias diferentes e de cultos particulares, jamais houve guerras de religi\'e3o entre os povos chamados id\'f3latras? Essa paz foi um bem que nasceu de um mal, do erro mesmo: porque, reconhecendo cada na\'e7\'e3o v\'e1rios deuses inferiores, achou bom que os seus vizinhos tivessem tamb\'e9m os seus. Se excetuardes Cambises, a quem se reprova o haver matado o boi Apis, n\'e3o encontramos na hist\'f3ria profana nenhum conquistador que tenha maltratado os deuses de um povo conhecido. Os gentios n\'e3o tinham nenhuma religi\'e3o exclusiva, e os sacerdotes pensavam apenas em multiplicar as oferendas e os sacrif\'edcios. \

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\par \~\~\~\~\~ As primeiras oferendas foram frutos. Em breve foram necess\'e1rios animais para a mesa dos sacerdotes; eles pr\'f3prios os degolavam; tornaram- se carniceiros, e cru\'e9is; enfim introduziram o costume horr\'edvel de sacrificar vitimas humanas e sobretudo crian\'e7as e mocinhas. Jamais os chineses nem os parsis nem os hindus foram culpados de tais abomina\'e7\'f5es; mas em Hier\'f3polis, no Egito, Segundo Porf\'edrio, se imolaram homens. \

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\par \~\~\~\~\~ Na T\'e1urida sacrificavam- se os estrangeiros; felizmente os sacerdotes da T\'e1urida n\'e3o deviam ter muitas pr\'e1ticas. Os primeiros gregos, os cipriotas, os fen\'edcios, os tirenses, os cartagineses tiveram essa supersti\'e7\'e3o abomin\'e1vel. Os pr\'f3prios romanos incorreram nesse crime de religi\'e3o, e informa Plutarco que eles imolaram dois gregos e dois gauleses para expiar os deslizes de tr\'eas vestais. Proc\'f3pio, contempor\'e2neo do rei dos francos Teodoberto, diz que estes imolaram homens quando entraram na It\'e1lia com esse pr\'edncipe. Os gauleses, os germanos, praticavam comumente esses sacrif\'edcios afrontosos. N\'e3o se pode ler a hist\'f3ria sem conceber grande horror ao g\'eanero humano. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 verdade que, entre os judeus, Jeft\'e9 sacrificou sua filha e Saul esteve prestes a imolar seu filho; e \'e9 verdade que aqueles que estivessem votados ao Senhor por an\'e1tema n\'e3o poderiam ser resgatados como se resgatavam os animais, sendo mister que perecessem. Samuel, sacerdote de Deus, cortou em peda\'e7os com o aux\'edlio de um santo cutelo o rei Agague, prisioneiro de guerra a quem Saul perdoara, e Saul foi \

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\par reprovado por ter observado o direito das gentes com esse rei. Mas Deus, senhor dos homens, pode tirar- lhes a vida quando quiser, como quiser e para o que quiser; e n\'e3o compete aos homens colocar- se no posto de senhor da vida e da morte e usurpar os direitos do Ente Supremo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A fim de consolar o g\'eanero humano do quadro horr\'edvel desses piedosos sacril\'e9gios, \'e9 importante saber que, em quase todas as na\'e7\'f5es chamadas id\'f3latras, existia a teologia sagrada e o erro popular, o culto secreto e as cerim\'f4nias p\'fablicas, a religi\'e3o dos s\'e1bios e a do vulgo. N\'e3o se ensinava sen\'e3o um Deus aos iniciados nos mist\'e9rios; basta um relance de olhos sobre o hino atribu\'eddo ao velho Orfeu, que se cantava nos mist\'e9rios de Ceres Eleusina, t\'e3o c\'e9lebre na Europa e na \'c1sia: "Contempla a natureza divina, ilumina teu esp\'edrito, governa teu cora\'e7\'e3o, trilha o caminho da justi\'e7a; que o Deus do c\'e9u e da terra esteja sempre presente aos teus olhos: ele \'e9 \'fanico, existe por si mesmo; todos os seres devem- lhe a sua exist\'eancia; ele os sustenta a todos; ele jamais foi visto pelos mortais e v\'ea todas as coisas" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que se leia ainda este passo do fil\'f3sofo M\'e1ximo de Madauro, em sua Carta a Santo Agostinho: "Qual o homem suficientemente grosseiro e est\'fapido para duvidar haver um Deus supremo, eterno, infinito, que nada engendrou de semelhante a si pr\'f3prio e que \'e9 o pai comum de todas as coisas?". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 milhares de provas de que os s\'e1bios abominavam n\'e3o s\'f3 a idolatria mas tamb\'e9m o polite\'edsmo. \~\~\~\~\~ Epicteto, esse modelo de resigna\'e7\'e3o e paci\'eancia, esse homem t\'e3o grande de uma condi\'e7\'e3o t\'e3o baixa, n\'e3o fala sen\'e3o de um \'fanico Deus. Eis uma de suas m\'e1ximas: "Deus me criou, Deus est\'e1 ao redor de mim; levo- o comigo por toda parte. Poderia eu macul\'e1- lo com pensamentos obscenos, com a\'e7\'f5es injustas, com desejos infames? Meu dever \'e9 agradecer a Deus por tudo, louv\'e1- lo por tudo e n\'e3o cessar de o bendizer sen\'e3o quando cessar de viver". Todas as id\'e9ias de Epicteto giram sobre esse princ\'edpio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Marco Aur\'e9lio, t\'e3o grande, qui\'e7\'e1, sobre o trono do imp\'e9rio romano, como Epicteto na escravid\'e3o, fala com freq\'fc\'eancia, realmente, dos deuses, seja para se conformar \'e0 linguagem corrente, seja para exprimir seres intermedi\'e1rios entre o Ser Supremo e os homens; mas em quantos pontos n\'e3o faz ele transparecer que apenas reconhece um Deus eterno, infinito! "Nossa alma" - diz - "\'e9 apenas uma emana\'e7\'e3o da Divindade. Meus filhos, meu corpo, meus esp\'edritos, v\'eam- me de Deus." \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os est\'f3icos, os plat\'f4nicos, admitiam uma natureza divina e universal; os epicuristas negavam- na. Os pont\'edfices n\'e3o citavam sen\'e3o um \'fanico Deus nos seus mist\'e9rios. Onde, pois, os id\'f3latras? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ali\'e1s, \'e9 um dos grandes erros do Dictionnaire de Mor\'e9ri o dizer que no tempo de Teod\'f3sio o Jovem j\'e1 n\'e3o existiam id\'f3latras sen\'e3o nos remotos pa\'edses da \'c1sia e da \'c1frica. Havia na It\'e1lia muitos povos gentios ainda, mesmo no s\'e9timo s\'e9culo. O norte da Alemanha, desde o Weser, n\'e3o era crist\'e3o ao tempo de Carlos Magno. A Pol\'f4nia e todo o setentri\'e3o ficaram longo tempo depois dele no que chamamos idolatria. A metade da \'c1frica, todos os remos de al\'e9m Ganges, o Jap\'e3o, o populacho da China, cem hordas de t\'e1rtaros conservaram seu antigo culto. Apenas h\'e1 na Europa alguns lap\'f5es, alguns samoiedas, alguns t\'e1rtaros que perseveraram na religi\'e3o de seus avitos. \

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\par \~\~\~\~\~ Terminemos por fazer notar que, nos tempos que chamamos entre n\'f3s idade m\'e9dia, cham\'e1vamos ao pa\'eds dos mafomistas Pag\'e2nia; trat\'e1vamos de id\'f3latras, adoradores de imagens, um povo que as abomina. Confessemos ainda uma vez que os turcos s\'e3o mais escus\'e1veis de nos julgar id\'f3latras quando v\'eaem nossos altares carregados de imagens e de est\'e1tuas. \

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\par IGUALDADE \

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\par \~\~\~\~\~ Que deve um c\'e3o a um c\'e3o, um cavalo a um cavalo? Nada. Nenhum animal depende de seu semelhante. Tendo por\'e9m o homem recebido o raio da Divindade que se chama raz\'e3o, qual foi o resultado? Ser escravo em quase toda a terra. \

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\par \~\~\~\~\~ Se o mundo fosse o que parece dever ser, isto \'e9, se em toda parte os homens encontrassem subsist\'eancia f\'e1cil e certa e clima apropriado a sua natureza, imposs\'edvel teria sido a um homem servir- se de outro. Cobrisse- se o globo de frutos salutares. N\'e3o fosse ve\'edculo de doen\'e7as e morte o ar que contribui para a exist\'eancia humana. Prescindisse o homem de outra morada e de outro leito al\'e9m do dos gansos e capros monteses, n\'e3o teriam os Gengis C\'e3s e Tamerl\'f5es vassalos sen\'e3o os pr\'f3prios filhos, os quais seriam bastante virtuosos para auxili\'e1- los na velhice. \

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\par \~\~\~\~\~ No estado natural de que gozam os quadr\'fapedes, aves e r\'e9pteis, t\'e3o feliz como eles seria o homem, e a domina\'e7\'e3o, quimera, absurdo em que ningu\'e9m pensaria: para que servidores se n\'e3o tiv\'e9sseis necessidade de nenhum servi\'e7o? \

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\par \~\~\~\~\~ Ainda que passasse pelo esp\'edrito de algum indiv\'edduo de bofes tir\'e2nicos e bra\'e7os impacientes por submeter seu vizinho menos forte que ele, a coisa seria imposs\'edvel: antes que o opressor tivesse tomado suas medidas o oprimido estaria a cem l\'e9guas de dist\'e2ncia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Todos os homens seriam necessariamente iguais, se n\'e3o tivessem precis\'f5es. A mis\'e9ria que avassala a nossa esp\'e9cie subordina o homem ao homem - O verdadeiro mal n\'e3o \'e9 a desigualdade: \'e9 a depend\'eancia. Pouco importa chamar- se tal homem Sua Alteza, tal outro Sua Santidade. Duro por\'e9m \'e9 servir um ao outro. \

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\par \~\~\~\~\~ Uma fam\'edlia numerosa cultivou um bom terreno. Duas fam\'edlias vizinhas t\'eam campos ingratos e rebeldes: imp\'f5e- se- lhes servir ou eliminar a fam\'edlia opulenta. Uma das duas fam\'edlias indigentes vai oferecer seus bra\'e7os \'e0 rica para ter p\'e3o. A outra vai atac\'e1- la e \'e9 derrotada. A fam\'edlia servente \'e9 fonte de criados e oper\'e1rios. A fam\'edlia subjugada \'e9 fonte de escravos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Imposs\'edvel, neste mundo miser\'e1vel, que a sociedade humana n\'e3o seja dividida em duas classes, uma de opressores, outra de oprimidos. Essas duas classes se subdividem em mil outras, essas outras em sem conto de cambiantes diferentes. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nem todos os oprimidos s\'e3o absolutamente desgra\'e7ados. A maior parte nasce nesse estado, e o trabalho cont\'ednuo impede- os de sentir toda a mis\'e9ria da pr\'f3pria situa\'e7\'e3o. Quando a sentem, por\'e9m, s\'e3o guerras, como a do partido popular contra o partido do senado em Roma, as dos camponeses na Alemanha, Inglaterra, Fran\'e7a. Mais cedo ou mais tarde todas essas guerras desfecham com a submiss\'e3o do povo, porque os poderosos t\'eam dinheiro e o dinheiro tudo pode no estado. Digo no estado, porque o mesmo n\'e3o se d\'e1 de na\'e7\'e3o para na\'e7\'e3o. A na\'e7\'e3o que melhor se servir do ferro sempre subjugar\'e1 a que, embora mais rica, tiver menos coragem. \

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\par \~\~\~\~\~ Todo homem nasce com forte inclina\'e7\'e3o para o dom\'ednio, a riqueza, os prazeres e sobretudo para a indol\'eancia. Todo homem portanto quereria estar de posse do dinheiro e das mulheres ou das filhas dos outros, ser- lhes senhor, sujeit\'e1- los a todos os seus caprichos e nada fazer ou pelo menos s\'f3 fazer coisas muito agrad\'e1veis. Vedes que com estas excelentes disposi\'e7\'f5es \'e9 t\'e3o dif\'edcil aos homens ser iguais quanto a dois pregadores ou professores de teologia n\'e3o se invejarem. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tal como \'e9, imposs\'edvel o g\'eanero humano subsistir, a menos que haja infinidade de homens \'fateis que nada possuam. Porque, claro \'e9 que um homem satisfeito n\'e3o deixar\'e1 sua terra para vir lavrar a vossa. E se tiverdes necessidade de um par de sapatos, n\'e3o ser\'e1 um referend\'e1rio que vo- lo far\'e1. Igualdade \'e9 pois a coisa mais natural e ao mesmo tempo a mais quim\'e9rica. \

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\par \~\~\~\~\~ Como se excedem em tudo que deles dependa, os homens exageraram essa desigualdade. Pretendeu- se em muitos pa\'edses proibir aos cidad\'e3os sair do lugar em que a ventura os fizera nascer. O sentido dessa lei \'e9 visivelmente: Este pais \'e9 t\'e3o mau e t\'e3o mal governado que vedamos a todo indiv\'edduo dele sair, por temor que todos o desertem. Fazei melhor: infundi em todos os vossos s\'faditos o desejo de permanecer em vosso estado, e aos estrangeiros o desejo de para a\'ed vir. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nos \'edntimos refolhos do cora\'e7\'e3o todo homem tem direito de crer- se de todo ponto igual aos outros homens. Da\'ed n\'e3o segue dever o cozinheiro de um cardeal ordenar a seu senhor que lhe fa\'e7a o jantar; pode todavia dizer: "Sou t\'e3o homem como meu amo; nasci como ele chorando; como eu ele morrer\'e1 nas mesmas ang\'fastias e com as mesmas cerim\'f4nias. Temos ambos as mesmas fun\'e7\'f5es animais. Se os turcos se apoderarem de Roma e eu virar cardeal e meu senhor cozinheiro, tom\'e1- lo- ei a meu servi\'e7o". Tudo isso \'e9 razo\'e1vel e justo. Mas, enquanto o gr\'e3o turco n\'e3o se assenhorear de Roma, o cozinheiro precisa cumprir suas obriga\'e7\'f5es, ou toda a humanidade se perverteria. \

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\par \~\~\~\~\~ Um homem que n\'e3o seja cozinheiro de cardeal nem ocupe nenhum cargo no estado; um particular que nada tenha de seu mas a quem repugne o ser em toda parte recebido com ar de prote\'e7\'e3o ou desprezo; um homem que veja que muitos monsignori n\'e3o t\'eam mais ci\'eancia, nem mais esp\'edrito, nem mais virtude que ele, e que se enfade de esperar em suas antec\'e2maras, que partido deve tomar? O da morte. \

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\par INFERNO \

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\par \~\~\~\~\~ Desde que os homens come\'e7aram a viver em sociedade devem ter percebido que n\'e3o poucos criminosos escapavam \'e1 severidade das leis. Puniam- se os crimes p\'fablicos: restava estabelecer um freio para os crimes secretos. S\'f3 a religi\'e3o poderia ser esse freio. Persas, caldeus, eg\'edpcios, gregos, imaginaram castigos depois da morte. De todos os povos antigos que conhecemos foram os judeus os \'fanicos que n\'e3o admitiam sen\'e3o castigos temporais. Rid\'edculo \'e9 crer ou fingir crer, baseando- se em passos obscur\'edssimos, que as antigas leis judaicas aceitavam a exist\'eancia do inferno, no Lev\'edtico como no Dec\'e1logo, quando o autor de tais leis n\'e3o diz uma \'fanica palavra que possa ter a menor rela\'e7\'e3o com os castigos da vida futura. Ter- se- ia direito de dizer ao redator do Pentateuco: "Sois um homem inconseq\'fcente, sem probidade e falto de senso, inteiramente indigno do nome de legislador que vos arrogais. Como conheceis um dogma t\'e3o altamente refreador, t\'e3o necess\'e1rio ao povo como \'e9 o do \

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\par inferno, e n\'e3o o anunciastes expressamente? Enquanto o admitem todas as na\'e7\'f5es que vos cercam, contentai- vos em deixar adivinhar este dogma por comentaristas que vir\'e3o quatro mil anos depois de v\'f3s e que torcer\'e3o vossas palavras para encontrar o que n\'e3o dissestes? Se, conhecendo esse dogma, dele n\'e3o fizestes a base da vossa religi\'e3o, ou sois um ignorante que n\'e3o sabia ser essa cren\'e7a universal no Egito, Cald\'e9ia e P\'e9rsia, ou sois um homem pessimamente avisado". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando muito podiam ou autores das leis judaicas responder: "De fato somos muito ignorantes. De fato aprendemos a escrever demasiadamente tarde. De fato nosso povo era uma horda selvagem e b\'e1rbara que, confessamos, errou perto de meio s\'e9culo por \'ednvios desertos. De fato usurpamos um diminuto pa\'eds pelas mais odiosas rapinas e as mais nefandas crueldades que regista a hist\'f3ria. N\'e3o t\'ednhamos o menor com\'e9rcio com as na\'e7\'f5es policiadas: como quer\'edeis que invent\'e1ssemos - n\'f3s, os mais terrestres dos homens - um sistema totalmente espiritual?. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" N\'e3o nos serv\'edamos da palavra correspondente a alma sen\'e3o para exprimir a vida. N\'e3o conhecemos nosso Deus e seus ministros, seus anjos, sen\'e3o como entes corporais: a distin\'e7\'e3o de alma e corpo, a id\'e9ia de uma vida ap\'f3s a morte s\'f3 podem ser fruto de longa medita\'e7\'e3o e filosofia muito fina. Perguntai aos hotentotes e aos negros, que habitam um pa\'eds cem vezes maior que o nosso, se conhecem a vida futura. Cremos haver feito muito persuadindo nosso povo de que Deus punia os malfeitores at\'e9 a quarta gera\'e7\'e3o fosse pela lepra; fosse por mortes s\'fabitas, fosse pela perda do pouco que possu\'edssem". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Replicar- se- ia a essa apologia: "V\'f3s inventastes um sistema cujo rid\'edculo entra pelos olhos: o malfeitor bem aboletado na vida e com a fam\'edlia a prosperar devia naturalmente rir- se de v\'f3s". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Responderia o apologista da lei judaica: "Enganai- vos: para um criminoso que raciocinasse bem haveria cem que nem raciocinariam. Aquele que, cometido um crime, n\'e3o se sentisse punido na pr\'f3pria pessoa nem na do filho, temeria pelo neto. Demais, se n\'e3o tivesse hoje alguma \'falcera asquerosa, a que freq\'fcentemente estamos sujeitos, t\'ea- la- ia ao cabo de alguns anos. Em toda fam\'edlia sobrev\'eam desgra\'e7as e f\'e1cil nos era faz\'ea- las crer enviadas pela m\'e3o divina, vingadora das faltas secretas". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Seria f\'e1cil retrucar a essa resposta, dizendo: "Vossa escusa \'e9 inconsistente, pois diariamente pessoas honestas perdem a sa\'fade e os bens. E se n\'e3o h\'e1 fam\'edlia a que n\'e3o aconte\'e7am infort\'fanios, e se tais infort\'fanios s\'e3o castigos de Deus, ent\'e3o todas as vossas fam\'edlias eram fam\'edlias de estafadores". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O padre judeu ainda poderia retorquir. Diria existirem males pr\'f3prios da natureza humana e males expressamente enviados por Deus. Mas far- se- ia ver a esse raciocinador o quanto \'e9 rid\'edculo pensar ser a febre e o granizo ora puni\'e7\'e3o divina, ora efeito natural. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Enfim, fariseus e ess\'eanios, entre os judeus, admitiram a cren\'e7a de um inferno a sua moda. Esse dogma j\'e1 passara de gregos a romanos, e foi perfilhado pelos crist\'e3os. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Muitos santos da igreja n\'e3o acreditaram nas penas eternas. Parecia- lhes absurdo torrar eternamente um pobre diabo s\'f3 por haver roubado uma cabra. Em v\'e3o clama Virg\'edlio no sexto canto da Eneida: \

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\par ... Sedet aeternunque sedebit infelix Theseus( 42). \

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\par \~\~\~\~\~ Em v\'e3o pretende achar- se Teseu para todo o sempre sentado numa cadeira, sendo tal postura o seu supl\'edcio. Criam outros ser Teseu um her\'f3i que n\'e3o se acha no inferno, mas nos Campos El\'edseos. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o h\'e1 muito um piedoso e honrado huguenote( 43) pregou e escreveu que um dia os precitos teriam sua merc\'ea, que cumpria haver propor\'e7\'e3o entre pecado e supl\'edcio e que a falta de um momento n\'e3o podia merecer um castigo infinito. Os padres seus confrades depuseram esse juiz indulgente. Disse- lhe um deles: "Meu caro, n\'e3o creio no inferno mais que voc\'ea. Mas \'e9 bom que o creiam a sua criada, o seu alfaiate e tamb\'e9m o seu procurador". \

\par \

\par INUNDA\'c7\'c3O \

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\par \~\~\~\~\~ Ter\'e1 existido um tempo em que o globo foi inteiramente inundado? Isso \'e9 fisicamente imposs\'edvel. \~\~\~\~\~ Pode ser que, sucessivamente, o mar tenha coberto todas as terras, umas ap\'f3s outras; e isto n\'e3o pode ter acontecido sen\'e3o gradativa e lentamente, numa prodigiosa s\'e9rie de s\'e9culos. O mar, em quinhentos anos, retirou- se de \'c1guas Mortas, de Frejus, de Ravena, que eram grandes portos, e deixou cerca de duas l\'e9guas de terreno em seco. Mediante essa progress\'e3o \'e9 evidente que lhe teriam sido necess\'e1rios dois milh\'f5es e duzentos e cinq\'fcenta mil anos para dar volta ao nosso planeta. Fato bem not\'e1vel \'e9 que esse per\'edodo se aproxima muito do que seria preciso ao eixo da terra para se levantar e coincidir com o equador: movimento muito veross\'edmil que h\'e1 cinq\'fcenta anos come\'e7ou a ventilar- se, e que requer para a sua efetua\'e7\'e3o um espa\'e7o de mais de dois milh\'f5es e trezentos mil anos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os leitos, as camadas de conchas descobertas por todas as costas a sessenta, a oitenta, a cem l\'e9guas mesmo do mar, constituem prova incontest\'e1vel de que ele depositou pouco a pouco seus produtos marinhos sobre terrenos que eram outrora as margens do oceano; por\'e9m que a \'e1gua tenha coberto inteiramente todo o globo de uma vez, \'e9 na f\'edsica uma quimera absurda demonstrada como imposs\'edvel pelas leis da gravidade, pelas leis dos fluidos, pela insufici\'eancia da quantidade de \'e1gua. N\'e3o que se pretenda atacar de forma alguma a grande verdade do dil\'favio universal, relatada no Pentateuco: ao contr\'e1rio, \'e9 um milagre, portanto \'e9 preciso cr\'ea- lo; \'e9 um milagre, portanto n\'e3o p\'f4de ter sido executado por leis f\'edsicas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tudo \'e9 milagre na hist\'f3ria do dil\'favio: milagre que quarenta dias de chuva tenham inundado as quatro partes do mundo e que a \'e1gua tenha se elevado quinze c\'f4vados a cima de todas as mais altas montanhas; milagre que tenham existido cataratas, portas, aberturas no c\'e9u; milagre que todos os animais se tenham dirigido para a Arca, vindos de todas as partes do mundo; milagre que No\'e9 tenha encontrado com que aliment\'e1- los durante seis meses; milagre que todos os animais tenham cabido na Arca, com todas suas provis\'f5es; milagre que a maioria n\'e3o tenha morrido; milagre que tenham encontrado com que se nutrir ao sair da Arca; milagre, ainda, mas de outra esp\'e9cie, que um tal Le Pelletier( 44) tenha julgado explicar como todos os animais puderam caber e nutrir- se naturalmente na Arca de No\'e9. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ora, sendo a hist\'f3ria do dil\'favio a coisa mais miraculosa de que jamais se falou, insensato seria o \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (126 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par explic\'e1- la: trata- se de mist\'e9rios que se acreditam pela f\'e9; e a f\'e9 consiste em crer no que a raz\'e3o absolutamente n\'e3o cr\'ea, o que constitui, ainda, outro milagre. \

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\par \~\~\~\~\~ Assim a hist\'f3ria do dil\'favio universal \'e9 como a da torre de Babel, da burra de Bala\'e3o, da queda de Jeric\'f3 ao som das trombetas, das \'e1guas transformadas em sangue, da passagem do Mar Vermelho e de todos os prod\'edgios que Deus se dignou fazer em favor dos eleitos de seu povo; trata- se de profundezas que o esp\'edrito humano n\'e3o pode sondar. \

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\par IRRACIONAIS \

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\par \~\~\~\~\~ Que ingenuidade, que pobreza de esp\'edrito, dizer que os irracionais s\'e3o m\'e1quinas privadas de conhecimento e sentimento, que procedem sempre da mesma maneira, que nada aprendem, nada aperfei\'e7oam! (45) \

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\par \~\~\~\~\~ Ent\'e3o aquela ave que faz seu ninho em semic\'edrculo quando o encaixa numa parede, em quarto de c\'edrculo quando o engasta num \'e2ngulo e em c\'edrculo quando o pendura numa \'e1rvore, procede aquela ave sempre da mesma maneira? Esse c\'e3o de ca\'e7a que disciplinaste n\'e3o sabe mais agora do que antes de tuas li\'e7\'f5es? O can\'e1rio a que ensinas uma \'e1ria, repete- a ele no mesmo instante? N\'e3o levas um tempo consider\'e1vel em ensin\'e1- lo? N\'e3o v\'eas como ele erra e se corrige? \

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\par \~\~\~\~\~ Ser\'e1 porque falo que julgas que tenho sentimento, mem\'f3ria, id\'e9ias? Pois bem, calo- me. V\'eas- me entrar em casa aflito, procurar um papel com inquietude, abrir a escrivaninha, onde me lembra t\'ea- lo guardado, encontr\'e1- lo, l\'ea- lo com alegria. Percebes que experimentei os sentimentos de afli\'e7\'e3o e prazer, que tenho mem\'f3ria e conhecimento. \

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\par \~\~\~\~\~ V\'ea com os mesmos olhos esse c\'e3o que perdeu o amo e procura- o por toda parte com ganidos dolorosos, entra em casa agitado, inquieto, desce e sobe e vai de aposento em aposento e enfim encontra no gabinete o ente amado, a quem manifesta sua alegria pela ternura dos ladridos, com saltos e car\'edcias. \

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\par \~\~\~\~\~ B\'e1rbaros agarram esse c\'e3o, que t\'e3o prodigiosamente vence o homem em amizade, pregam- no em cima de uma mesa e dissecam- no vivo para mostrar- te suas veias mesaraicas. Descobres nele todos os mesmos \'f3rg\'e3os de sentimento de que te gabas. Responde- me, maquinista, teria a natureza entrosado nesse animal todos os elat\'e9rios do sentimento sem objetivo algum? Ter\'e1 nervos para ser insens\'edvel? N\'e3o inquines \'e0 natureza t\'e3o impertinente contradi\'e7\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Perguntam os mestres da escola o que \'e9 ent\'e3o a alma dos irracionais. N\'e3o entendo a pergunta. A \'e1rvore tem a faculdade de receber em suas fibras a seiva que circula, de desenvolver os bot\'f5es das folhas e dos frutos: perguntar- me- eis o que \'e9 a alma da \'e1rvore? Ela recebeu estes dons. O animal foi contemplado com os dons do sentimento, da mem\'f3ria, de certo n\'famero de id\'e9ias. Quem criou esses dons? Quem lhes outorgou essas faculdades? Aquele que faz crescer a erva dos campos e gravitar a Terra em torno do Sol. \

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\par \~\~\~\~\~ As almas dos brutos s\'e3o formas substanciosas, disse Arist\'f3teles e depois de Arist\'f3teles a escola \'e1rabe, \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (127 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par depois da escola \'e1rabe a escola ang\'e9lica, depois da escola ang\'e9lica a Sorbonne e depois da Sorbonne ningu\'e9m. \

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\par \~\~\~\~\~ As almas dos brutos s\'e3o materiais, proclamam outros fil\'f3sofos, nem mais nem menos felizes que os primeiros. Em v\'e3o perguntou- se- lhes o que \'e9 alma material: precisam convir em que \'e9 a mat\'e9ria que sente. Mas quem deu sensibilidade \'e0 mat\'e9ria? Alma material... Quer dizer que \'e9 a mat\'e9ria que d\'e1 sensibilidade \'e0 mat\'e9ria. E n\'e3o saem desse c\'edrculo. \

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\par \~\~\~\~\~ Ouvi outra sorte de irracionais racionando sobre os irracionais: A alma dos brutos \'e9 um ser espiritual que morre com o corpo. Que prova tendes disso? Que id\'e9ia concebeis desse ser espiritual que em verdade tem sentimento, mem\'f3ria e sua medida de id\'e9ias e associa\'e7\'f5es, mas que jamais poder\'e1 saber o que sabe uma crian\'e7a de dez anos? Os maiores irracionais s\'e3o os que aventaram n\'e3o ser essa alma nem corpo nem esp\'edrito. A\'ed est\'e1 um curioso sistema. N\'e3o podemos entender por esp\'edrito sen\'e3o algo desconhecido e incorporal: a isto pois reduz- se o sistema desses senhores a alma dos seres brutos \'e9 uma subst\'e2ncia nem corporal nem incorporal. \

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\par \~\~\~\~\~ A que atribuir tantos e t\'e3o contradit\'f3rios erros? Ao vezo que sempre tiveram os homens de querer saber o que seja uma coisa antes de saber se existe. Dizemos a ling\'fceta, o batoque do fole, a alma do fole. Que \'e9 essa alma? Um nome que dei \'e0 v\'e1lvula que, quando toco o fole, baixa e sobe para dar entrada e sa\'edda ao ar. \

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\par \~\~\~\~\~ O fole n\'e3o tem alma de esp\'e9cie alguma. \'c9 simplesmente uma m\'e1quina. Quem toca, por\'e9m, o fole dos animais? J\'e1 o disse: aquele que move os astros. Tinha raz\'e3o o fil\'f3sofo que disse: Deus est anima brutorum. Mas devia ter ido mais longe. \

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\par JEFT\'c9 \

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\par \~\~\~\~\~ Ou dos sacrif\'edcios de sangue humano \~\~\~\~\~ Evidencia- se do texto do livro dos Juizes que Jeft\'e9 prometeu sacrificar a primeira pessoa que sa\'edsse de sua casa para vir felicit\'e1- lo pela sua vit\'f3ria sobre os amonitas. Sua filha \'fanica se lhe apresentou; ent\'e3o ele lhe rasgou a roupa, imolando- a ap\'f3s ter- lhe permitido ir prantear nas montanhas a desdita de morrer virgem. Durante muito tempo as filhas judias celebraram essa aventura, chorando a filha de Jeft\'e9 por quatro dias( 46). \

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\par \~\~\~\~\~ Em que tempo essa hist\'f3ria foi escrita, que seja uma imita\'e7\'e3o da hist\'f3ria grega de Agamenon e Idomen\'e9ia ou tenha sido imitada, que lhe seja anterior ou posterior, n\'e3o \'e9 isso o que examino; atenho- me ao texto: Jeft\'e9 votou sua filha em holocausto e cumpriu o seu voto. \

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\par \~\~\~\~\~ Ordenava expressamente a lei judaica que se imolassem os homens votados ao Senhor. "Nenhum homem votado obter\'e1 resgate mas receber\'e1 morte sem remiss\'e3o". A Vulgata traduz: Non redimetur, sed morte morietur( 47). \

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\par \~\~\~\~\~ Foi em virtude dessa lei que Samuel cortou em peda\'e7os o rei Agague, a quem Saul perdoara; e justamente por haver poupado Agague Saul foi admoestado pelo Senhor e perdeu o seu reino. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (128 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par \~\~\~\~\~ Eis, pois, sacrif\'edcios de sangue humano claramente estabelecidos; n\'e3o h\'e1 ponto hist\'f3rico melhor averiguado. N\'e3o se pode julgar de uma na\'e7\'e3o a n\'e3o ser por seus arquivos e pelo que ela refere de si pr\'f3pria. \

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\par JOS\'c9 \

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\par \~\~\~\~\~ A hist\'f3ria de Jos\'e9, considerada apenas como objeto de curiosidade e literatura, \'e9 um dos monumentos mais preciosos da antig\'fcidade que at\'e9 n\'f3s chegaram. Parece ser o modelo de todos os escritores orientais; \'e9 mais tocante do que a Odiss\'e9ia de Homero, pois um her\'f3i que perdoa \'e9 mais comovedor do que aquele que se vinga. \

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\par \~\~\~\~\~ Consideramos os \'e1rabes como os primeiros autores dessas fic\'e7\'f5es engenhosas que foram traduzidas para todas as l\'ednguas; n\'e3o vejo, por\'e9m, neles, aventura alguma compar\'e1vel \'e0 de Jos\'e9. Porque ela \'e9 maravilhosa em sua quase totalidade e o fim pode fazer verter l\'e1grimas de enternecimento. \'c9 um jovem de dezesseis anos invejado por seus irm\'e3os; \'e9 vendido por eles a uma caravana de mercadores israelitas, conduzido ao Egito e comprado por um eunuco do rei. Esse eunuco tinha uma mulher, o que n\'e3o \'e9 de admirar: o Quizlar Aga, eunuco perfeito, a quem arrancaram todo o aparelho genital, tem um serralho em Constantinopla; deixaram- lhe os olhos e as m\'e3os e a natureza n\'e3o perdeu seus direitos no seu cora\'e7\'e3o. Os outros eunucos, aos quais apenas cortaram os test\'edculos, empregam ainda, muitas vezes, o \'f3rg\'e3o principal; e Putifar, a quem Jos\'e9 foi vendido, bem poderia pertencer ao n\'famero desses eunucos. \

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\par \~\~\~\~\~ A mulher de Putifar apaixona- se pelo jovem Jos\'e9 que, fiel ao seu sino e benfeitor, rejeita as car\'edcias dessa mulher. Ela irrita- se e acusa Jos\'e9 de pretender seduzi- la. \'c9 a hist\'f3ria de Hip\'f3lito e Fedro, de Belerofonte e Estenob\'e9ia, de Hebro e Damasipe, de Tanis e Perib\'e9ia, de Mirtila e Hipod\'e2mio, de Pel\'e9ia e Demeneto. \

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\par \~\~\~\~\~ Dif\'edcil \'e9 conhecer a origem de todas essas hist\'f3rias, mas nos antigos autores \'e1rabes h\'e1 um passo concernente \'e0 aventura de Jos\'e9 e da mulher de Putifar que \'e9 bastante engenhoso. O autor sup\'f5e que Putifar, duvidoso entre sua mulher e Jos\'e9, n\'e3o olhou para a t\'fanica de Jos\'e9, que sua mulher rasgara, como uma prova do atentado do jovem. \

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\par \~\~\~\~\~ Havia um menino no ber\'e7o, no aposento da mulher; Jos\'e9 disse que ela lhe rasgara e tirara a t\'fanica na presen\'e7a da crian\'e7a. Putifar consultou o menino, cujo esp\'edrito era bem desenvolvido para sua idade; a crian\'e7a falou a Putifar: "Verificai se a t\'fanica est\'e1 rasgada na frente ou atr\'e1s: se o estiver na frente \'e9 prova de que Jos\'e9 quis tomar vossa mulher a for\'e7a; se, pelo contr\'e1rio, estiver rasgada por detr\'e1s, \'e9 prova de que vossa mulher correu em sua persegui\'e7\'e3o". Putifar, gra\'e7as ao g\'eanio desse menino, reconheceu a inoc\'eancia do seu escravo. \'c9 assim que essa aventura foi relatada no Alcor\'e3o pelo antigo autor \'e1rabe. Ele se esquece de nos dizer a quem pertencia a crian\'e7a que julgou com tanto esp\'edrito; se existisse um filho da Putifar, Jos\'e9 n\'e3o teria sido o primeiro homem desejado por essa mulher. \

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\par \~\~\~\~\~ Seja como for, Jos\'e9, segundo o G\'eanesis, \'e9 posto na pris\'e3o e ali se encontra em companhia do copeiro e do padeiro do rei do Egito. Esses dois prisioneiros sonham \'e0 noite: Jos\'e9 explica os seus sonhos; \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (129 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par prediz- lhes que no lapso de tr\'eas dias o copeiro ser\'e1 agraciado e o padeiro enforcado, o que n\'e3o deixou de suceder. \

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\par \~\~\~\~\~ Dois anos ap\'f3s o rei do Egito sonha tamb\'e9m; seu copeiro revela- lhe a exist\'eancia de um jovem judeu, na pris\'e3o, que \'e9 o primeiro homem do mundo em compreender os sonhos; o rei faz vir \'e0 sua presen\'e7a o jovem, que lhe prediz sete anos de abund\'e2ncia e sete de esterilidade. \

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\par \~\~\~\~\~ Interrompamos um pouco o fio da hist\'f3ria para verificar de que prodigiosa antig\'fcidade \'e9 a interpreta\'e7\'e3o dos sonhos. Jac\'f3 viu em sonho a escada misteriosa no alto da qual estava Deus em pessoa; aprendeu em sonho o m\'e9todo de multiplicar os rebanhos, m\'e9todo que jamais deu resultado sen\'e3o para ele pr\'f3prio. O pr\'f3prio Jos\'e9 soubera por um sonho que um dia haveria de dominar seus irm\'e3os. Abimeleque, muito antes, fora advertido em sonho de que Sara era mulher de Abra\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Voltemos a Jos\'e9. Logo que explicou o sonho do fara\'f3, foi nomeado primeiro ministro. \'c9 de se duvidar que exista hoje um rei, mesmo na \'c1sia, capaz de conceder t\'e3o elevado cargo pela simples explica\'e7\'e3o de um sonho. O fara\'f3 deu por esposa a Jos\'e9 uma filha de Putifar. Sabe- se que esse Putifar era sumo sacerdote de Heli\'f3polis: n\'e3o foi pois o eunuco, seu primeiro senhor; ou se o fosse, teria naturalmente outro t\'edtulo que n\'e3o o de sumo sacerdote, e sua mulher teria sido m\'e3e mais de uma vez. \

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\par \~\~\~\~\~ Entretanto a mis\'e9ria chegou, como o havia predito Jos\'e9, e este, a fim de merecer as boas gra\'e7as do seu rei, obrigou todo o povo a vender suas terras ao fara\'f3; e toda a na\'e7\'e3o se tornou escrava para conseguir trigo: reside nesse fato, aparentemente, a origem do poder desp\'f3tico. \'c9 preciso notar que jamais um rei fez melhor neg\'f3cio; mas tamb\'e9m o povo n\'e3o tinha motivos para bem dizer o primeiro ministro. \

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\par \~\~\~\~\~ Enfim, o pai e os irm\'e3os de Jos\'e9 tiveram tamb\'e9m necessidade de p\'e3o, pois a mis\'e9ria assolava naquele tempo a terra inteira. N\'e3o vale a pena relatar aqui a forma por que Jos\'e9 recebeu seus irm\'e3os, como os perdoou e enriqueceu. Encontramos nessa hist\'f3ria tudo que constitui um interessante poema \'e9pico. Exposi\'e7\'e3o, articula\'e7\'e3o, reconhecimento, perip\'e9cia e maravilhoso. Nada mais caracter\'edstico do g\'eanio oriental. \

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\par \~\~\~\~\~ O que o bom Jac\'f3, pai de Jos\'e9, respondeu ao fara\'f3, deve bem comover os que sabem ler. "Qual \'e9 vossa idade?" - perguntou- lhe o rei. - "Tenho cento e trinta anos", - respondeu o velho, - "e ainda n\'e3o encontrei um dia feliz nesse curto peregrinar". \

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\par LEIS (DAS) \

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\par \~\~\~\~\~ Nos tempos de Vespasiano e Tito, em que os romanos se dedicavam a abrir o ventre dos judeus, um israelita riqu\'edssimo, que n\'e3o tinha o m\'ednimo desejo de sofrer id\'eantica opera\'e7\'e3o, fugiu com todo o ouro que ganhara em seu of\'edcio de usur\'e1rio, conduzindo para Eziongaber toda a sua fam\'edlia, que consistia em sua velha mulher, um filho e uma filha. Levava tamb\'e9m consigo dois eunucos, um dos quais lhe servia de cozinheiro, outro de lavrador e vinhateiro. Um bom ess\'eanio que conhecia o Pentateuco de cor servia- lhe de capel\'e3o. Embarcaram- se no porto de Eziongaber, atravessaram o mar a que chamamos Vermelho e que de vermelho nada tem, e entraram no golfo P\'e9rsico, a fim de procurar a terra de Ofir, \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (130 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par sem saber onde ficava. Podeis crer como verdade absoluta ter sobrevindo uma terr\'edvel tempestade que atirou a fam\'edlia hebraica \'e0s costas das \'cdndias; o navio naufragou numa das ilhas Maldivas, chamada hoje em dia Padrabranca, que era ent\'e3o deserta. \

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\par \~\~\~\~\~ O velho rica\'e7o e a velha se afogaram; o filho, a filha, os dois eunucos e o capel\'e3o salvaram- se; tiraram da melhor forma algumas provis\'f5es do navio, constru\'edram umas pequenas cabanas na ilha e a\'ed puseram- se a viver comodamente. Sabei que a ilha de Padrabranca est\'e1 situada a cinco graus da linha, e que a\'ed se encontram os maiores cocos e os melhores ananases do mundo. Era pois muito agrad\'e1vel viver ali enquanto noutros lugares se degolavam os restos da na\'e7\'e3o querida; mas o ess\'eanio lamentava- se considerando que talvez n\'e3o houvesse mais judeus sobre a terra e que a semente de Abra\'e3o iria terminar. \

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\par \~\~\~\~\~" A v\'f3s somente compete ressuscit\'e1- la - disse o jovem judeu: desposai minha irm\'e3. - Bem o desejaria, - disse o capel\'e3o, - por\'e9m a lei se op\'f5e. Eu sou ess\'eanio fiz voto de jamais me casar; a lei manda que cada um cumpra o seu voto: acabe- se a ra\'e7a judaica se assim se quer, mas certamente eu jamais casarei com vossa irm\'e3, por bonita que for. \

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\par \~\~\~\~\~- Meus dois eunucos n\'e3o lhe podem fazer filhos, - retornou o judeu; - fa- los- ei portanto eu, com vosso benepl\'e1cito e vossa b\'ean\'e7\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~- Antes queria eu ser mil vezes degolado pelos soldados romanos, - respondeu o capel\'e3o, - do que me acumpliciar num incesto; se ela fosse vossa irm\'e3 paterna, ainda era poss\'edvel, a lei o permite; mas n\'e3o, ela \'e9 vossa irm\'e3 materna; isso \'e9 abomin\'e1vel. \

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\par \~\~\~\~\~- Compreendo - disse o jovem - que seria um crime em Jerusal\'e9m, onde outras filhas judias estariam \'e0 minha disposi\'e7\'e3o; mas na ilha de Padrabranca, onde apenas vejo cocos, ananases e ovos, creio ser coisa bem permiss\'edvel". \

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\par \~\~\~\~\~ O judeu casou, pois, com sua irm\'e3, e teve uma filha, apesar dos protestos do ess\'eanio: foi o \'fanico fruto de um casamento que um julgava leg\'edtimo e outro abomin\'e1vel. Ao cabo de catorze anos a m\'e3e morreu; disse o pai ao capel\'e3o: "Desfizestes- vos finalmente de vossos preconceitos? Quereis desposar minha filha? - Deus me preserve disso! - retrucou o ess\'eanio. - Pois bem! ent\'e3o eu casarei com ela, disse o pai; seja o que for; mas n\'e3o quero que a semente de Abra\'e3o seja reduzida a nada". O ess\'eanio, espantado com t\'e3o horr\'edvel prop\'f3sito, n\'e3o quis saber de continuar a viver com um homem que desrespeitava a lei e fugiu. O rec\'e9m casado perdeu seu tempo em gritar- lhe: "Ficai comigo, meu amigo; eu observei a lei natural, eu sirvo \'e0 p\'e1tria, n\'e3o abandoneis os vossos amigos". O outro deixou- o gritar, metida que tinha, sempre, a lei na cabe\'e7a, e fugiu a nado para a ilha pr\'f3xima. \

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\par \~\~\~\~\~ Era a grande ilha de Atola, muito povoada e civilizada; apenas chegou fizeram- no escravo. Aprendeu a balbuciar a l\'edngua de Atola; queixou- se amargamente pelo modo inhospitaleiro por que fora recebido: disseram- lhe que era a lei, e que desde que a ilha estivera a ponto de ser atacada de surpresa pelos habitantes da de Ada, estabelecera- se sabiamente que todos os estrangeiros que ali fossem ter seriam submetidos como escravos. "Isso n\'e3o pode ser uma lei", - disse o ess\'eanio, - "pois n\'e3o est\'e1 escrito no Pentateuco. Responderam- lhe que em compensa\'e7\'e3o estava escrito no digesto do pa\'eds, e ele permaneceu escravo: tinha, ali\'e1s, um \'f3timo senhor que o tratava muito bem e ao qual se prendeu pelos mais fortes la\'e7os de amizade. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (131 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par \~\~\~\~\~ Alguns assassinos vieram um dia para matar o dono e roubar- lhe seus tesouros; perguntaram aos escravos se estava em casa e se tinha muito dinheiro. "Juramo- vos - responderam os escravos - que ele n\'e3o tem dinheiro algum e que n\'e3o est\'e1 em casa". Disse por\'e9m o ess\'eanio: "A lei n\'e3o me permite mentir; juro- vos que est\'e1 em casa e que tem muito dinheiro". Assim o dono foi roubado e morto. Os escravos acusaram o ess\'eanio perante os juizes de haver tra\'eddo seu patr\'e3o; o ess\'eanio alegou que n\'e3o quisera mentir, nem mentiria por nada no mundo; e foi enforcado. \

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\par \~\~\~\~\~ Essa historieta e muitas outras parecidas foram- me contadas na \'faltima viagem que fiz \'e0s \'cdndias. Quando cheguei, fui a Versalhes para alguns neg\'f3cios; vi passar uma bela mulher seguida de grande n\'famero de outras tamb\'e9m bel\'edssimas. "Quem \'e9 essa mulher?" perguntei ao meu advogado no parlamento, que viera comigo: pois tinha um processo no parlamento de Paris, em virtude dos h\'e1bitos que adquiri nas \'cdndias, e desejava ter constantemente meu advogado comigo. "\'c9 a filha do rei, - disse ele: - \'e9 encantadora e caridosa; \'e9 uma grande pena que, em caso algum, jamais possa ser rainha de Fran\'e7a. \

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\par \~\~\~\~\~- Como, - disse- lhe eu - se tiv\'e9ssemos a desgra\'e7a de perder todos os seus parentes e pr\'edncipes de sangue (o que Deus n\'e3o permita!) ela n\'e3o poderia herdar o reino de seu pai? - N\'e3o, - disse o advogado - a lei s\'e1lica se op\'f5e formalmente a isso - - E quem fez essa lei? - perguntei ao advogado. - Nada sei a .esse respeito, - disse ele; - mas costuma- se dizer que um antiqu\'edssimo povo chamado s\'e1licos, que n\'e3o sabiam ler nem escrever, tiveram um tempo uma lei escrita a qual dizia que em terra s\'e1lica nenhuma filha podia herdar; e essa lei foi adotada em terras n\'e3o s\'e1licas. - Pois eu - respondi - casso- a por minha conta; afirmastes- me que essa princesa \'e9 encantadora e caridosa; portanto ela teria um direito incontest\'e1vel \'e0 coroa se a infelicidade a tornasse \'fanica remanescente do sangue real: minha m\'e3e herdou de seu pai e eu quero que a princesa herde do seu". \

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\par \~\~\~\~\~ No dia seguinte o meu processo foi julgado numa das c\'e2maras do parlamento: perdi por unanimidade; explicou- me o meu advogado que eu teria ganho tamb\'e9m por unanimidade numa outra c\'e2mara. "Eis uma coisa bem c\'f4mica - disse- lhe eu; - de modo que, cada c\'e2mara, cada lei. - Sim, - disse ele - h\'e1 vinte e cinco coment\'e1rios sobre a lei municipal de Paris; isto \'e9, provou- se vinte e cinco vezes que a lei municipal de Paris est\'e1 errada; e se houvesse vinte e cinco c\'e2maras de juizes haveria tamb\'e9m vinte e cinco jurisprud\'eancias diferentes. Temos, - continuou ele - a quinze l\'e9guas de Paris uma prov\'edncia chamada Normandia, onde ser\'edeis julgado de forma muito diferente daqui". \

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\par \~\~\~\~\~ Isto deu- me vontade de ver a Normandia. Para l\'e1 me dirigi com um de meus irm\'e3os. Encontramos no primeiro hotel um jovem que se lamentava, desesperado; perguntando- lhe em qual a causa de sua desgra\'e7a, respondeu- me que era ter um irm\'e3o mais velho. \

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\par \~\~\~\~\~- Em que consiste pois a grande desgra\'e7a de ter um irm\'e3o mais velho? - perguntei- lhe; - meu irm\'e3o \'e9 mais velho do que eu e no entanto vivemos muito bem juntos. \

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\par \~\~\~\~\~- Ah! senhor, - disse- me ele, - a lei aqui tudo concede aos primog\'eanitos sem nada deixar aos ca\'e7ulas. \~\~\~\~\~- Tendes raz\'e3o - disse- lhe eu - de estar zangado; em nossa cidade repartimos igualmente, e nem sempre os irm\'e3os se estimam melhor por isso." \

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\par \~\~\~\~\~ Essas pequenas aventuras proporcionaram- me belas e profundas reflex\'f5es sobre as leis, e verifiquei serem elas como nossos trajes: em Constantinopla fui obrigado a usar um d\'f3lman, em Paris um gib\'e3o. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (132 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par \~\~\~\~\~ Se todas as leis humanas s\'e3o apenas conven\'e7\'f5es, disse eu, o que vale \'e9 fazer- se um bom contrato. Os burgueses de Deli e Agra dizem ter feito um p\'e9ssimo contrato com Tamerl\'e3o; os burgueses de Londres felicitam- se pelo \'f3timo ajuste que fizeram com o rei Guilherme de Orange. \

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\par \~\~\~\~\~ Um cidad\'e3o de Londres dizia- me certo dia: "\'c9 a necessidade que faz as leis, e a for\'e7a as faz observar". Perguntei- lhe se a for\'e7a n\'e3o fazia tamb\'e9m leis em algumas ocasi\'f5es, e se Guilherme, o Bastardo e o Conquistador, n\'e3o lhes havia dado ordens sem estabelecer contrato algum. "Sim", - disse ele - "nesse tempo \'e9ramos uns bois; Guilherme nos colocou uma canga e nos fez caminhar a golpes de aguilh\'e3o; depois nos transformamos em homens, por\'e9m os cornos nos ficaram e com eles maltratamos todos os que pretendem que trabalhemos para eles e n\'e3o para n\'f3s mesmos". \

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\par \~\~\~\~\~ Tomado de todas estas reflex\'f5es comprazia- me em pensar que existe uma lei natural, independente de todas as conven\'e7\'f5es humanas: o fruto de meu trabalho deveria ser meu; devia honrar meu pai e minha m\'e3e; n\'e3o tenho direito algum sobre a vida do meu pr\'f3ximo e meu pr\'f3ximo n\'e3o o tem sobre a minha, etc. Mas, quando pensei que, de Codorlaomor at\'e9 Mentzel (48), coronel dos hussardos, cada um mata lealmente e saqueia o pr\'f3ximo com uma ordem de autoriza\'e7\'e3o no bolso do colete, fiquei bem aflito. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Contaram- me que entre os ladr\'f5es havia leis, e que as havia tamb\'e9m na guerra. Perguntei quais eram essas leis da guerra. "A lei", me dizem, "de enforcar um bravo oficial que tenha resistido numa p\'e9ssima posi\'e7\'e3o, sem canh\'e3o, a um ex\'e9rcito real; a lei de enforcar um prisioneiro porque o advers\'e1rio enforcou um dos vossos; a lei de p\'f4r a fogo e sangue as aldeias que n\'e3o tiverem enviado sua contribui\'e7\'e3o no dia designado, segundo as ordens do gracioso soberano das vizinhan\'e7as". - "Muito bem, disse eu, eis o Esp\'edrito das leis". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Depois de bem informado, descobri que existem s\'e1bias leis mediante as quais um pastor \'e9 condenado a nove anos de c\'e1rcere por ter dado um pouco de sal estrangeiro a seus carneiros. Meu vizinho foi arruinado por um processo: mandou cortar dois troncos que lhe pertenciam, em seu bosque; foi punido portanto por n\'e3o ter podido observar uma formalidade que n\'e3o p\'f4de conhecer; sua mulher morreu na mis\'e9ria e seu filho arrasta a vida mais infeliz. Confesso que essas leis s\'e3o just\'edssimas, n\'e3o obstante a sua execu\'e7\'e3o ser um bocado dura; d\'e3o- me por\'e9m calafrios as leis que autorizam cem mil homens a degolar lealmente cem mil vizinhos. Pareceu- me que a maioria dos homens receberam da natureza um senso comum suficiente para fazer leis, mas nem todo mundo tem justi\'e7a suficiente para fazer boas leis. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Reuni os agricultores simples e tranq\'fcilos de um lado a outro da terra; todos eles convir\'e3o em que deve ser permitido vender aos vizinhos o excedente do seu trigo e que a lei contr\'e1ria \'e9 inumana e absurda; que as moedas representativas dos g\'eaneros dever\'e3o ser t\'e3o puras como os frutos da terra; que um pai de fam\'edlia dever\'e1 ser dono de sua casa; que a religi\'e3o deve reunir os homens a fim de os unir e n\'e3o para fazer deles fan\'e1ticos e perseguidores; que os que trabalham n\'e3o devem ser privados dos frutos de seu trabalho com o fim de alimentar a supersti\'e7\'e3o e a ociosidade: eles far\'e3o numa hora trinta leis desta esp\'e9cie, todas \'fateis ao g\'eanero humano. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Chegue por\'e9m Tamerl\'e3o e subjugue a \'cdndia; ent\'e3o n\'e3o vereis sen\'e3o leis arbitr\'e1rias. Uma asfixiar\'e1 uma prov\'edncia para enriquecer um rendeiro de Tamerl\'e3o; outra transformar\'e1 num crime de lesa majestade o ter falado mal da mulher do primeiro camarista de um raja; terceira apoderar- se- \'e1 da metade \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (133 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par da colheita do agricultor, contestando- lhe o resto; enfim existir\'e3o leis mediante as quais um bedel t\'e1rtaro vir\'e1 arrancar vossos filhos do ber\'e7o, far\'e1 do mais robusto um soldado e do mais fraco um eunuco, deixando o pai e a m\'e3e sem consolo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ora, que vale melhor ser: o c\'e3o de Tamerl\'e3o ou seu s\'fadito? \'c9 claro que a regalia do seu c\'e3o \'e9 muito superior. \

\par \

\par LEIS CIVIS E ECLESI\'c1STICAS \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foram encontradas nos pap\'e9is dos jurisconsultos estas notas, que talvez mere\'e7am um pouco de exame. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que jamais lei eclesi\'e1stica alguma seja v\'e1lida sen\'e3o mediante san\'e7\'e3o expressa do governo. Foi desse modo que Atenas e Roma nunca tiveram querelas religiosas. Tais lit\'edgios s\'e3o patrim\'f4nio das na\'e7\'f5es b\'e1rbaras ou transformadas em b\'e1rbaras. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que apenas o magistrado possa permitir ou proibir o trabalho nos dias de festa, pois n\'e3o cabe aos padres proibir aos indiv\'edduos o cultivo de seus campos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que tudo o que concerne aos casamentos dependa exclusivamente do magistrado, e que os padres se atenham \'e0 augusta fun\'e7\'e3o de os aben\'e7oar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que o padre interessado seja puramente um objeto da lei civil, porquanto apenas ela preside, ao com\'e9rcio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que todos os eclesi\'e1sticos sejam submetidos em todos os casos ao governo, porquanto s\'e3o s\'fadito do estado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que em tempo algum se cometa o ato rid\'edculo e indecoroso de pagar a um padre estrangeiro a primeira anualidade da renda de uma terra que cidad\'e3os deram a um padre concidad\'e3o. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que padre algum jamais possa subtrair a um cidad\'e3o a m\'ednima prerrogativa, sob pretexto de que tal cidad\'e3o seja um pecador, pois o padre pecador deve rezar pelos pecadores e n\'e3o julg\'e1- los. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que os magistrados, os lavradores e os padres paguem igualmente os impostos do estado, pois todos pertencem igualmente ao estado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que n\'e3o haja sen\'e3o um peso, uma medida, um costume. \~\~\~\~\~ Que os supl\'edcios dos criminosos sejam \'fateis, um homem enforcado n\'e3o serve para nada, e um homem condenado aos trabalhos p\'fablicos ainda serve \'e0 p\'e1tria, constituindo uma li\'e7\'e3o viva. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que toda lei seja clara, uniforme, precisa: interpret\'e1- la \'e9 quase sempre corromp\'ea- la. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (134 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que nada, a n\'e3o ser o v\'edcio, seja infame. \~\~\~\~\~ Que os impostos sejam sempre proporcionais. \~\~\~\~\~ Que a lei jamais esteja em contradi\'e7\'e3o com o uso: porque se o uso \'e9 bom, a lei nada vale. \

\par \

\par LIBERDADE (DA) A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eis uma bateria de canh\'f5es que atira junto aos nossos ouvidos; tendes a liberdade de ouvi- la e de a n\'e3o ouvir? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 claro que n\'e3o posso evitar ouvi- la. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Desejar\'edeis que esse canh\'e3o decepasse vossa cabe\'e7a e as de vossa mulher e vossa filha que estivessem convosco? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que esp\'e9cie de proposi\'e7\'e3o me fazeis? Eu jamais poderia, em meu s\'e3o ju\'edzo, desejar semelhante coisa. Isso me \'e9 imposs\'edvel. \

\par \

\par A \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (135 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Muito bem; ouvis necessariamente esse canh\'e3o e, tamb\'e9m necessariamente, n\'e3o quereis morrer, v\'f3s e vossa fam\'edlia, de um tiro de canh\'e3o; n\'e3o tendes nem o poder de n\'e3o ouvi- lo nem o poder de querer permanecer aqui. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Isso \'e9 evidente. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Em conseq\'fc\'eancia, destes uma trintena de passos a fim de vos colocardes ao abrigo do canh\'e3o: tivestes o poder de caminhar comigo estes poucos passos? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nada mais verdadeiro. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E se f\'f4sseis paral\'edtico? N\'e3o ter\'edeis podido evitar ficar exposto a essa bateria; n\'e3o ter\'edeis o poder de estar onde agora estais: ter\'edeis ent\'e3o necessariamente ouvido e recebido um tiro de canh\'e3o e necessariamente estar\'edeis morto? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Nada mais claro. \

\par \

\par A \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (136 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Em que consiste, pois, vossa liberdade, sen\'e3o est\'e1 no poder exercido pelo vosso indiv\'edduo de fazer o que a vossa vontade exigia com absoluta necessidade? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Embara\'e7ais- me; ent\'e3o a liberdade \'e9 apenas o poder de fazer o que bem entendo? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Refleti um pouco. Vede se a liberdade pode ser outra coisa. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Neste caso o meu c\'e3o de ca\'e7a \'e9 t\'e3o livre como eu; ele tem necessariamente a vontade de correr quando v\'ea uma lebre e o poder de correr se n\'e3o estiver doente das pernas. Eu nada tenho, pois, mais do que meu c\'e3o: reduzis- me ao estado das bestas. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eis uma s\'e9rie de pobres sofismas dos pobres sofistas que vos instru\'edram. Eis que estais despeitado por n\'e3o serdes livre como vosso c\'e3o. Ora, n\'e3o vos pareceis com ele em mil coisas? A fome, a sede, o velar, o dormir, os cinco sentidos, n\'e3o s\'e3o em v\'f3s como nele? Pretender\'edeis cheirar com outro qualquer \'f3rg\'e3o al\'e9m do nariz? Por que quereis uma liberdade diferente da que ele tem? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por\'e9m eu tenho uma alma que raciocina muito bem, e o meu c\'e3o n\'e3o pensa coisa alguma. Ele apenas tem id\'e9ias simples, enquanto eu tenho mil id\'e9ias metaf\'edsicas. \

\par \

\par A \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (137 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pois muito bem! Sois mil vezes mais livre do que ele, isto \'e9, tendes mil vezes mais poder de pensar do que ele; por\'e9m vossa liberdade \'e9 perfeitamente igual \'e0 dele. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como? Eu n\'e3o tenho a liberdade de querer o que desejo? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que entendeis com isso? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O que toda gente entende. N\'e3o se diz diariamente: "As vontades s\'e3o livres"? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um prov\'e9rbio n\'e3o \'e9 uma raz\'e3o; explicai- vos melhor. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Penso que sou livre de querer como melhor me agradar. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Com vossa licen\'e7a, isso n\'e3o tem o m\'ednimo sentido; n\'e3o percebeis que \'e9 rid\'edculo dizer: "Eu quero \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (138 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par querer"? Necessariamente, v\'f3s desejais em conseq\'fc\'eancia das id\'e9ias que se vos apresentam. Quereis casar, sim ou n\'e3o? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas e se eu vos disser que n\'e3o quero nem uma nem outra coisa? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Responder\'edeis como aquele que disse: "Uns pensam que o cardeal Mazarino est\'e1 morto; outros, que est\'e1 vivo; eu n\'e3o creio nem numa coisa nem noutra". \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pois bem, quero casar- me. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Isto \'e9 responder! Por que quereis casar? \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Porque estou apaixonado por uma bela rapariga, bem educada, muito rica, que canta muito bem, filha de pais honestos e que me ama, assim como sua fam\'edlia. \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eis uma raz\'e3o. Vedes, pois, que n\'e3o podeis querer sem raz\'e3o. Declaro- vos que tendes a liberdade de vos casar: isto \'e9, que tendes o poder de assinar o contrato. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (139 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Como! Eu n\'e3o posso querer sem motivo? Que sucede ent\'e3o a este outro prov\'e9rbio: Sit pro ratione voluntas: minha vontade \'e9 minha raz\'e3o, eu quero porque quero? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Isso \'e9 absurdo, meu caro amigo, pois haveria em v\'f3s um efeito sem causa. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que? Quando jogo par ou \'edmpar tenho ent\'e3o um motivo para escolher par em vez de \'edmpar? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sim, sem nenhuma d\'favida. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ E qual \'e9 essa raz\'e3o, por obs\'e9quio? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 que a id\'e9ia de par se apresentou ao vosso esp\'edrito mais do que a id\'e9ia oposta. Seria muito c\'f4mico que nalguns casos desej\'e1sseis por existir uma raz\'e3o para o vosso desejo e que noutros desej\'e1sseis sem motivo. Quando vos quereis casar, sentis a raz\'e3o dominante, evidentemente; n\'e3o a sentis quando jogais par ou \'edmpar, e contudo \'e9 mister que exista uma. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (140 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas, uma vez ainda: sou ou n\'e3o sou livre? \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Vossa vontade n\'e3o \'e9 livre mas vossas a\'e7\'f5es o s\'e3o. Tendes a liberdade de fazer quando tendes o poder de fazer. \

\par \

\par B \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas, todos os livros que li sobre a liberdade de indiferen\'e7a... \

\par \

\par A \

\par \

\par \~\~\~\~\~ S\'e3o tolices: n\'e3o existe liberdade de indiferen\'e7a; \'e9 um termo destitu\'eddo de senso, inventado por pessoas que o n\'e3o possuem. \

\par \

\par LOUCURA \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se trata de reeditar o livro de Erasmo, que na atualidade n\'e3o seria mais do que um lugar comum bastante ins\'edpido. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Chamamos loucura a essa doen\'e7a dos \'f3rg\'e3os do c\'e9rebro que impede um homem de pensar e de agir como os outros. N\'e3o podendo gerir seus bens, \'e9 interdito; n\'e3o podendo ter id\'e9ias de acordo com a sociedade, \'e9 exclu\'eddo; se for nocivo, \'e9 enclausurado; se for furioso, trancafiam- no. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 importante observar que esse homem, entretanto, n\'e3o carece de id\'e9ias; ele as tem como todos os outros enquanto acordado e, freq\'fcentemente, enquanto dorme. Poder- se- \'e1 perguntar como sua alma espiritual, imortal, alojada em seu c\'e9rebro, recebendo todas as id\'e9ias por meio dos sentidos coordenados e divididos, n\'e3o possa concluir um julgamento s\'e3o. Ela v\'ea os objetos como os viam a alma de Arist\'f3teles e de Plat\'e3o, de Locke e de Newton; ouve os mesmos sons, tem o mesmo sentido do tacto: por que \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (141 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par motivo, pois, recebendo percep\'e7\'f5es que os mais s\'e1bios experimentam, comp\'f5e um conjunto inevitavelmente extravagante? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se essa subst\'e2ncia simples e eterna possui para as suas a\'e7\'f5es os mesmos instrumentos das almas dos c\'e9rebros mais s\'e1bios, deve raciocinar como eles. Que o impediria? Claro que se um maluco v\'ea vermelho e os s\'e1bios azul; se quando os s\'e1bios ouvem uma m\'fasica o louco ouve o zurrar de um asno; se quando eles est\'e3o no serm\'e3o o louco julga estar na com\'e9dia; se quando eles ouvem sim, ele entende n\'e3o, ent\'e3o sua alma deve pensar ao contr\'e1rio das outras. Mas o louco tem as mesmas percep\'e7\'f5es que eles; n\'e3o h\'e1 nenhuma raz\'e3o aparente pela qual sua alma, tendo recebido mediante os sentidos todos os seus utens\'edlios, n\'e3o os possa usar. Ela \'e9 pura, dizemos; n\'e3o est\'e1 sujeita por si pr\'f3pria a nenhuma enfermidade; ei- la provida de todos os recursos necess\'e1rios; passe o que se passar em seu corpo, nada poder\'e1 mudar a sua ess\'eancia; contudo, ei- la encerrada num manic\'f4mio. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Essa reflex\'e3o pode fazer supor que a faculdade de pensar, doada por Deus ao homem, esteja sujeita a desarranjos como os outros sentidos. Um louco \'e9 um doente cujo c\'e9rebro sofre, como o gotoso \'e9 um doente que sofre dos p\'e9s e das m\'e3os; ele pensa com o c\'e9rebro, assim como anda com os p\'e9s, sem nada conhecer nem do seu poder incompreens\'edvel de andar, nem do seu n\'e3o menos incompreens\'edvel poder de pensar. Sofre- se a gota no c\'e9rebro como nos p\'e9s. Enfim, ap\'f3s mil reflex\'f5es, \'e9 preciso convir em que somente a f\'e9, talvez, possa convencer- nos de que uma subst\'e2ncia simples e imaterial seja pass\'edvel de doen\'e7a. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os doutos ou os doutores dir\'e3o ao louco: "Meu amigo, n\'e3o obstante teres perdido o senso comum, tua alma \'e9 t\'e3o espiritual, t\'e3o pura, t\'e3o imortal como a nossa; por\'e9m nossa alma est\'e1 bem alojada e a tua o est\'e1 mal; as janelas da casa est\'e3o fechadas para ela; falta- lhe ar, ela sufoca". O maluco, em seus bons momentos, lhes responderia: Meus amigos, pensais \'e0 vossa moda, o que \'e9 discut\'edvel. Minhas janelas est\'e3o t\'e3o abertas como as vossas, porquanto eu vejo os mesmos objetos e ou\'e7o as mesmas palavras: \'e9 pois necess\'e1rio que, ou minha alma empregue mal os seus sentidos, ou seja ela pr\'f3pria um sentido viciado, uma qualidade depravada. Numa palavra, ou minha alma \'e9 louca por sua pr\'f3pria conta ou eu n\'e3o tenho alma". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um dos doutores poder\'e1 responder: "Meu irm\'e3o, Deus criou, \'e9 poss\'edvel, almas loucas, assim como criou almas s\'e1bias." O louco replicar\'e1: "Se eu fosse acreditar no que me dizeis, seria ainda mais louco do que j\'e1 sou. Por obs\'e9quio, v\'f3s que sabeis tanto, dizei- me, por que sou louco ?" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se os doutores tiverem ainda um pouco de bom senso lhe responder\'e3o: "Ignoro- o absolutamente." Eles n\'e3o compreender\'e3o por que um c\'e9rebro tem id\'e9ias incoerentes; n\'e3o compreender\'e3o melhor por que outro c\'e9rebro tem id\'e9ias regulares e coerentes. Julgar- se- \'e3o s\'e1bios, e ser\'e3o t\'e3o loucos como ele. \

\par \

\par LUXO \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 dois mil anos que se declama contra o luxo, em verso e em prosa, por\'e9m amando- o sempre. \~\~\~\~\~ Que n\'e3o se disse dos primeiros romanos? Quando esses salteadores devastaram e pilharam as \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (142 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

\par \

\par colheitas dos seus vizinhos, quando, para aumentar sua pobre aldeia, destru\'edram as pobres aldeias dos volscos e dos sanitas, eram homens desinteressados e virtuosos: ainda n\'e3o tinham podido roubar ouro, nem prata, nem pedrarias, porque n\'e3o havia nos burgos o que saquear. Nem seus bosques nem seus hortos tinham perdizes ou fais\'f5es e louva- se a sua temperan\'e7a. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando, pouco a pouco, eles pilharam tudo, roubaram tudo, desde os confins do Adri\'e1tico ao Eufrates, quando tiveram bastante esp\'edrito para gozar o fruto de suas rapinas durante setecentos ou oitocentos anos; quando cultivaram todas as artes, apreciaram os prazeres e at\'e9 os fizeram gozar aos vencidos, ent\'e3o cessaram, diz- se, de ser s\'e1bios e honestos. \~\~\~\~\~ Todas essas declama\'e7\'f5es servem para provar que um ladr\'e3o jamais dever\'e1 comer o jantar que tomou de um terceiro nem vestir o traje que roubou, nem enfeitar- se com o anel, produto de seu saque. \'c9 preciso, dizes, atirar tudo isso ao rio a fim de viver como gente honrada; digam antes que n\'e3o se deveria roubar. Condenai os salteadores quando saqueiam, n\'e3o os trateis por\'e9m como insensatos quando desfrutam de boa f\'e9 o produto de seus roubos. Quando um elevado n\'famero de marinheiros ingleses se enriqueceu na tomada de Pondich\'e9ry e de Havana, n\'e3o teriam eles o direito de gozar em Londres como paga do trabalho que tiveram nos confins da \'c1sia e da Am\'e9rica? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Desejariam os declamadores ver enterradas zelosamente as riquezas adquiridas na guerra, pela agricultura, pelo com\'e9rcio e pela ind\'fastria? Eles citam os lacedem\'f4nios. Por que n\'e3o citam tamb\'e9m a rep\'fablica de S\'e3o Marinho? Que benef\'edcios fez Esparta \'e0 Gr\'e9cia? Teve ela alguma vez homens como Dem\'f3stenes, S\'f3focles, Apeles, F\'eddias? O luxo de Atenas criou grandes homens em todo g\'eanero; Esparta teve alguns capit\'e3es e ainda em n\'famero menor do que as outras cidades. V\'e3o \'e9 que uma rep\'fablica t\'e3o pequena como a dos lacedem\'f4nios conserve a sua pobreza. Chega- se \'e0 morte tanto na mis\'e9ria como gozando daquilo que nos pode tornar a vida agrad\'e1vel. O selvagem do Canad\'e1 subsiste e atinge a velhice como o cidad\'e3o ingl\'eas que tem cinq\'fcenta mil guin\'e9us de renda. Mas quem ir\'e1 comparar, jamais, o pa\'eds dos iroqueses \'e0 Inglaterra? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que a rep\'fablica de Ragusa e o cant\'e3o de Zug fa\'e7am leis suntu\'e1rias: eles t\'eam raz\'e3o, \'e9 preciso que o pobre n\'e3o gaste al\'e9m de suas posses; mas li nalgum lugar( 49): \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Sabei que se o luxo enriquece um grande estado p\'f5e a perder um pequeno". \~\~\~\~\~ Se por luxo entenderdes o excesso, sabemos muito bem que em tudo o excesso \'e9 pernicioso: na abstin\'eancia como no epicurismo, na economia como na liberalidade. N\'e3o sei como pode acontecer que, nas minhas aldeias, onde a terra \'e9 ingrata, os impostos pesados, a proibi\'e7\'e3o de exportar o trigo que foi semeado, intoler\'e1vel, n\'e3o existe contudo um colono que n\'e3o tenha uma boa roupa de banho e n\'e3o seja bem cal\'e7ado e bem nutrido. Se esse colono trabalha com a sua bela roupa, com linho branco, os cabelos frisados, polvinhados, eis certamente um grande luxo e uma impertin\'eancia; mas o fato de um burgu\'eas de Paris ou Londres comparecer ao espet\'e1culo vestido como esse campon\'eas seria interpretado como a sordidez mais grosseira e rid\'edcula. \

\par \

\par Est modus in rebus, sunt certi denique fines, quos ultra citraque nequit consistere rectum \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando se inventaram as tesouras, que n\'e3o pertencem sem d\'favida \'e0 mais remota antig\'fcidade, o que \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (143 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par n\'e3o se disse contra os primeiros que cortaram as unhas e apararam uma parte dos cabelos que lhes caiam sobre o nariz? Foram tratados como pequenos burgueses e pr\'f3digos os que compravam mui caro o instrumento da vaidade a fim de falsificar a obra do Criador. Que enorme pecado encurtar os cornos que Deus fez nascer nas extremidades de nossos dedos Era um ultraje \'e0 Divindade. Ainda foi pior quando se inventaram as camisas e as chinelas. Sabe- se com que furor os velhos conselheiros, que jamais as tinham usado, gritaram contra os jovens magistrados que se deram a esse honesto luxo. \

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\par MAT\'c9RIA \

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\par \~\~\~\~\~ Os s\'e1bios a quem se pergunta o que \'e9 a alma, respondem que nada sabem a esse respeito. Se se lhes pergunta o que \'e9 a mat\'e9ria, d\'e3o a mesma resposta. \'c9 verdade que alguns professores e principalmente alguns escolares conhecem perfeitamente tudo isso: e quando repetem que a mat\'e9ria \'e9 extensa e divis\'edvel, julgam haver dito tudo; mas quando s\'e3o solicitados a responder o que significa essa coisa extensa, ficam embara\'e7ados. "Isso \'e9 composto de partes, dizem". E essas partes de que s\'e3o compostas? S\'e3o os elementos dessas partes divis\'edveis? Ent\'e3o eles emudecem ou falam muito, o que \'e9 igualmente suspeito. Esse ente quase desconhecido a que chamamos mat\'e9ria \'e9 eterno? Todos os antigos assim o julgaram. Ter\'e1 ele, de per si, a for\'e7a ativa? V\'e1rios fil\'f3sofos o imaginaram. Os que o negam, t\'eam o direito de neg\'e1- lo? N\'e3o concebeis que a mat\'e9ria possa ser alguma coisa por si pr\'f3pria. Mas como podeis afirmar que ela n\'e3o tenha por si mesma as propriedades que lhe s\'e3o necess\'e1rias? Ignorais qual \'e9 a sua natureza e lhe recusais formas que est\'e3o nessa mesma natureza: porque, afinal, desde que ela \'e9, faz- se absolutamente necess\'e1rio que tenha uma forma, que seja figurada; e, desde que \'e9 necessariamente figurada, ser\'e1 imposs\'edvel a exist\'eancia de outras formas ligadas \'e0 sua configura\'e7\'e3o? A mat\'e9ria existe, n\'e3o a conheceis sen\'e3o mediante vossas sensa\'e7\'f5es. Ah! de que servem todas as susceptibilidades do esp\'edrito desde que raciocinamos? A geometria nos ensinou grande n\'famero de verdades, a metaf\'edsica bem poucas. Pesamos a mat\'e9ria, medimo- la, decompomo- la; e, al\'e9m dessas opera\'e7\'f5es rudimentares, se quisermos dar um passo sentimos em n\'f3s a impot\'eancia e adiante de n\'f3s um abismo. \

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\par \~\~\~\~\~ Perdoai, por merc\'ea, ao universo inteiro, que se enganou ao julgar que a mat\'e9ria existisse por si pr\'f3pria. Poderia proceder de forma diversa? Como imaginar que o que \'e9 sem sucess\'e3o n\'e3o o foi sempre? Se n\'e3o fosse necess\'e1ria a exist\'eancia da mat\'e9ria, por que existe ela? E se era preciso que ela fosse, por que n\'e3o teria sido sempre? Nenhum axioma foi t\'e3o universalmente aceito como este: Nada se faz de nada. Com efeito, o contr\'e1rio \'e9 incompreens\'edvel. O caos precedeu em todos os povos a disposi\'e7\'e3o que uma m\'e3o divina fez no mundo inteiro. A eternidade da mat\'e9ria jamais ofendeu em povo algum o culto da Divindade. A pr\'f3pria religi\'e3o jamais procurou impedir que um Deus eterno fosse reconhecido como o senhor de uma mat\'e9ria eterna. Somos muito felizes, hoje, ao ser informados pela f\'e9 que Deus tirou a mat\'e9ria do nada. Por\'e9m, na\'e7\'e3o alguma foi instru\'edda a respeito desse dogma; os pr\'f3prios judeus ignoraram- no. O primeiro vers\'edculo do G\'eanesis diz que os deuses Eloim (n\'e3o Eloi) fizeram o c\'e9u e a terra; n\'e3o dizem que o c\'e9u e a terra foram criados do nada. \

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\par \~\~\~\~\~ F\'edlon, do \'fanico tempo em que os judeus tiveram alguma erudi\'e7\'e3o, diz em seu cap\'edtulo da cria\'e7\'e3o: "Deus, sendo bom por sua natureza, n\'e3o insuflou a inveja na subst\'e2ncia, na mat\'e9ria, que por si mesma nada tinha de bom, que n\'e3o tem de sua natureza sen\'e3o a in\'e9rcia, a confus\'e3o, a desordem. Dignou- se torn\'e1- la boa, de m\'e1 que era". \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (144 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par \~\~\~\~\~ A id\'e9ia do caos desemaranhado por um deus encontra- se em todas as teogonias antigas. Hes\'edodo repetiu o pensamento do Oriente quando disse em sua Teogonia: "O caos foi o primeiro a existir" Ov\'eddio foi o int\'e9rprete de todo o imp\'e9rio romano quando disse: \

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\par Sic ubi dispositam, quiscuis fuit ille deorum, congeriem secuit... (50). \

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\par \~\~\~\~\~ A mat\'e9ria \'e9, pois, nas m\'e3os de Deus, como a argila nas do oleiro, se se nos permite o uso dessas d\'e9beis imagens para exprimir o poder divino. \

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\par \~\~\~\~\~ A mat\'e9ria, sendo eterna, devia ter propriedades eternas, como a configura\'e7\'e3o, a for\'e7a de in\'e9rcia, o movimento e a divisibilidade. Mas essa divisibilidade n\'e3o \'e9 sen\'e3o a resulta do movimento: pois sem movimento nada se divide, nem se separa ou coordena. O caos teria sido um movimento confuso, e a coordena\'e7\'e3o do universo um movimento regular imprimido a todos os corpos pelo senhor do mundo. Mas como poderia a mat\'e9ria ter movimento pr\'f3prio? Da mesma forma que tem, consoante todos os antigos, estens\'e3o e impenetrabilidade. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas n\'e3o podemos conceb\'ea- la sem extens\'e3o, e podemos conceb\'ea- la sem movimento. A isto se responde: "\'c9 imposs\'edvel que a mat\'e9ria n\'e3o seja perme\'e1vel; ora, sendo perme\'e1vel, \'e9 preciso que alguma coisa passe continuamente por seus poros; para que passagens, se nelas nada passasse?" \

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\par \~\~\~\~\~ De r\'e9plica em r\'e9plica, n\'e3o acabar\'edamos mais; o sistema da mat\'e9ria eterna apresenta grandes dificuldades, como todos os sistemas. O da mat\'e9ria formada do nada n\'e3o \'e9 menos incompreens\'edvel. Deve- se admiti- lo sem pretender dar- lhe raz\'e3o; nem tudo explica a filosofia. Quantas coisas incompreens\'edveis somos for\'e7ados a admitir, mesmo na geometria? Podemos conceber que duas linhas andem paralelamente sem nunca se encontrarem? \~\~\~\~\~ Responder- nos- \'e3o naturalmente os ge\'f4metras: "As propriedades das assintotas vos foram demonstradas; n\'e3o podeis deixar de admiti- las; mas a cria\'e7\'e3o, n\'e3o: por que a admitia? Que dificuldade achais em crer, como todos os antigos, na mat\'e9ria eterna ?" Por outro lado dir- vos- \'e1 o te\'f3logo: "Se acreditardes que a mat\'e9ria \'e9 eterna, reconhecereis portanto dois princ\'edpios, Deus e a mat\'e9ria; ca\'eds agora no erro de Zoroastro e Man\'e9s". \

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\par \~\~\~\~\~ Nada responderemos aos ge\'f4metras, porque aquela gente nada conhece al\'e9m de suas linhas, suas superf\'edcies e seus s\'f3lidos. Mas podemos dizer aos te\'f3logos: "Em que sou maniqueu? Eis aqui pedras que um arquiteto n\'e3o fabricou; ele ergueu uma constru\'e7\'e3o imensa; n\'e3o admito dois arquitetos; as pedras brutas obedeceram ao poder e ao g\'eanio". \

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\par \~\~\~\~\~ Felizmente, seja qual for o sistema que abracemos, nenhum prejudica a moral: porque, que importa que a mat\'e9ria tenha sido feita ou ordenada? Deus \'e9 igualmente nosso senhor absoluto. Devemos ser igualmente virtuosos em um caos desemaranhado ou em um caos criado do nada; quase nenhuma dessas quest\'f5es metaf\'edsicas influi na conduta da vida: tais disputas s\'e3o como as alegres periquitices que temos \'e0 mesa: depois de comer cada um esquece o que disse e vai para onde o chamam seu interesse e seu gosto. \

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\par MAU \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (145 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par \~\~\~\~\~ Vivem a gritar- nos que a natureza humana \'e9 essencialmente perversa, que o homem nasceu mau e filho do diabo. Nada menos ponderado: porque, meu amigo, tu que me dizes que toda gente nasceu perversa, tu me advertes pois de que nasceste tal, que \'e9 preciso que eu desconfie de ti como de uma raposa ou de um crocodilo. - Oh! nada disso! - dizes, - eu me regenerei, n\'e3o sou nem herege nem infiel, podeis fiar- vos em mim. - Mas o resto do g\'eanero humano, que \'e9 ou herege ou o que chamas infiel, n\'e3o ser\'e1 pois um conjunto de monstros? E todas as vezes que falares a um luterano ou a um turco dever\'e1s estar certo de que te roubar\'e3o ou assassinar\'e3o: pois s\'e3o filhos do diabo; nasceram ruins; um nada tem de regenerado e o outro \'e9 degenerado. Seria muito mais razo\'e1vel, muito mais belo, dizer aos homens: Nascestes bons; vede qu\'e3o afrontoso seria corromper a pureza do vosso ser. Seria de mister proceder com o g\'eanero humano como procedemos com os homens em particular. Se um c\'f4nego leva uma vida escandalosa, n\'f3s lhe dizemos: "\'c9 poss\'edvel que desonreis a dignidade de c\'f4nego? " Faz- se lembrar a um magistrado que ele tem a honra de ser conselheiro do rei e que deve dar o exemplo. Diz- se a um soldado a fim de encoraj\'e1- lo: "Recorda que pertences ao regimento de Champagne" Dever- se- ia dizer a todo indiv\'edduo: "Lembra- te de tua dignidade de homem". \

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\par \~\~\~\~\~ E, com efeito, n\'e3o obstante a possuirmos, temos sempre necessidade dela: pois que quer dizer esta frase freq\'fcentemente empregada em todos os povos, concentrai- vos em v\'f3s mesmo? Se houv\'e9sseis nascido filho do diabo, se vossa origem fosse criminosa, se vosso sangue fosse composto de um licor infernal, esta express\'e3o concentrai- vos em v\'f3s mesmo significaria: consultai, segui vossa natureza diab\'f3lica, sede impostor, assassino, \'e9 a lei de vosso pai. \

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\par \~\~\~\~\~ O homem n\'e3o \'e9 ruim de nascimento; torna- se depois, assim como adoece. Alguns m\'e9dicos se lhe apresentam e dizem: "Nascestes j\'e1 doente." Pile est\'e1 perfeitamente certo de que esses m\'e9dicos, por mais que fa\'e7am, n\'e3o o curar\'e3o se sua doen\'e7a \'e9 inerente a sua natureza; esses pr\'f3prios argumentadores s\'e3o bem doentes. \

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\par \~\~\~\~\~ Reuni todas as crian\'e7as do universo, e n\'e3o vereis nelas sen\'e3o inoc\'eancia, do\'e7ura e timidez; se houvessem nascido m\'e1s, malfeitoras, cru\'e9is, mostrariam algum sinal, tal como as serpentezinhas procuram morder e os tigrinhos arranhar. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas a natureza n\'e3o concedeu ao homem mais armas ofensivas do que aos coelhos e aos p\'e1ssaros, n\'e3o lhes pode dar um instinto que os conduza \'e0 destrui\'e7\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Portanto o homem n\'e3o \'e9 mau de nascimento. Por que ent\'e3o existe t\'e3o grande n\'famero de infetados por essa peste da ruindade? \'c9 que aqueles que os dirigem, sendo colhidos pela doen\'e7a, comunicam- na ao resto dos homens, como uma mulher atacada do mal que Crist\'f3v\'e3o Colombo trouxe da Am\'e9rica espalha esse veneno de extremo a outro da Europa. O primeiro ambicioso corrompeu a terra. \

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\par \~\~\~\~\~ Ides dizer- me que esse primeiro monstro desenvolveu o germe do orgulho, da rapina, da fraude, da crueldade, que existe em todos os homens. Sei muito bem que em geral a maioria de nossos irm\'e3os pode adquirir esses defeitos; estar\'e1 por\'e9m toda gente contaminada pela febre p\'fatrida, pelos c\'e1lculos renais, apenas por que todos est\'e3o expostos? \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (146 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par \~\~\~\~\~ Existem na\'e7\'f5es inteiras completamente boas: os filad\'e9lfios, os banianos nunca mataram pessoa alguma; os chineses, os povos de Tonquim, de Lao, de Siam, do pr\'f3prio Jap\'e3o, durante v\'e1rias centenas de anos n\'e3o conheceram a guerra. Apenas de dez em dez anos \'e9 poss\'edvel ver um desses crimes que comovem a natureza humana nas cidades de Roma, Veneza, Paris, Londres, Amsterd\'e3, cidades onde, de feito, a cupidez, m\'e3e de todos os crimes, \'e9 extensa. \

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\par \~\~\~\~\~ Se os homens fossem essencialmente maus, se nascessem completamente submetidos a um ser t\'e3o malfeitor como infeliz, que para se vingar de seus supl\'edcios lhes inspirasse todos os seus furores, ver- se- iam todas as manh\'e3s maridos assassinados por suas mulheres e pais por seus filhos, como podemos contemplar no alvorecer do dia frangos estrangulados por uma doninha que lhes sugou o sangue. \

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\par \~\~\~\~\~ Se houver um bilh\'e3o de homens sobre a terra ser\'e1 muito; isto d\'e1 aproximadamente quinhentos milh\'f5es de mulheres que costuram, que cozinham, que alimentam seus filhos, que tomam conta da casa ou cabana pr\'f3pria, e que falam um certo mal de suas vizinhas. N\'e3o vejo que grande mal essas pobres inocentes fazem sobre a terra. Sobre esse n\'famero de habitantes do globo h\'e1 duzentos milh\'f5es de crian\'e7as no m\'ednimo, que com toda certeza n\'e3o saqueiam nem matam, e cerca de outro tanto de velhos e doentes que o n\'e3o podem fazer. Restar\'e3o quando muito cem milh\'f5es de jovens robustos e capazes de praticar o crime. Desses cem milh\'f5es noventa est\'e3o continuamente ocupados em for\'e7ar a terra, merc\'ea de um trabalho prodigioso, a fim de que esta lhes d\'ea alimentos e roupas; esses n\'e3o t\'eam igualmente tempo para fazer o mal. \

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\par \~\~\~\~\~ Nos dez milh\'f5es restantes est\'e3o compreendidos os ociosos que prezam a boa companhia das mesas, que desejam viver doce e tranq\'fcilamente, os homens de talento ocupados com suas profiss\'f5es, os magistrados, os padres, visivelmente interessados em levar uma vida pura, ao menos na apar\'eancia. Como verdadeiros maus, portanto, apenas restar\'e3o alguns pol\'edticos, amadores ou profissionais, e alguns milhares de vagabundos que lhes alugam os seus servi\'e7os. Ora, imposs\'edvel seria atuar um milh\'e3o de bestas ferozes ao mesmo tempo; e nesse n\'famero est\'e3o inclu\'eddos os assaltantes das estradas reais. Tendes, pois, quando muito, sobre a terra, nos tempos mais borrascosos, um homem sobre mil a quem se pode chamar mau. \

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\par \~\~\~\~\~ H\'e1 pois infinitamente menos mal sobre a terra do que se diz e pensa. E \'e9 ainda muito, sem d\'favida: assistimos a desgra\'e7as e crimes horr\'edveis; por\'e9m o prazer de se lamentar e exagerar \'e9 t\'e3o grande que \'e0 m\'ednima arranhadela ser\'edeis capaz de bradar que a terra regurgita de sangue. Fostes enganado, todos os homens s\'e3o perjuros. Um esp\'edrito melanc\'f3lico que sofreu uma injusti\'e7a v\'ea o universo coberto de danados, como um jovem voluptuoso ceando com sua dama, ao sair da \'d3pera, n\'e3o acredita na exist\'eancia de infelizes. \

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\par MESSIAS \

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\par \~\~\~\~\~ Messiah ou Meshiah em hebreu; Christos ou Eleimmenos em grego; Unctus em latim; Ungido. \~\~\~\~\~ Vemos no Velho Testamento que o nome de Messias foi dado a pr\'edncipes id\'f3latras ou infi\'e9is. Est\'e1 \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (147 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par dito( 51) que Deus enviou um profeta para ungir Je\'fa, rei de Israel. Anunciou ele a un\'e7\'e3o sagrada a Hazael, rei de Damasco e S\'edria, pois esses dois pr\'edncipes eram os Messias do Alt\'edssimo para punir a casa de Acabe. \

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\par \~\~\~\~\~ No 45o. de Isa\'edas o nome de Messias \'e9 expressamente dado a Ciro. "Assim disse o Eterno a Ciro, seu ungido, seu Messias, de quem tomei a m\'e3o direita, a fim de que eu submeta as na\'e7\'f5es diante dele, etc.". \

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\par \~\~\~\~\~ Ezequiel, no cap\'edtulo 28 de suas revela\'e7\'f5es, d\'e1 o nome de Messias ao rei de Tiro, a quem tamb\'e9m chamava Querubim. "Filho do homem, - disse o Eterno ao profeta, - pronuncia em altas vozes uma queixa ao rei de Tiro, e diz- lhe: \

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\par \~\~\~\~\~" Assim disse o Senhor, o Eterno. Eras o sinete da semelhan\'e7a de Deus, repleto de sabedoria e perfeito em beleza; foste o jardim do \'c9den do Senhor, (ou, segundo outras vers\'f5es) eras todas as del\'edcias do Senhor. Tuas vestes eram de sard\'f4nica, de top\'e1zio, de jaspe, de cris\'f3lita, de \'f4nix, de berilo, de safira, de escarb\'fanculo, de esmeralda e ouro. O que sabiam fazer teus tambores e tuas flautas esteve contigo; eles foram aprontados no dia de tua cria\'e7\'e3o; foste um Querubim, um Messias". \

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\par \~\~\~\~\~ Esse nome de Messiah, Christ, era dado aos reis, aos profetas e aos grandes sacerdotes dos hebreus. Lemos no 1o. dos Reis, XII, 5: "0 Senhor e seu Messias s\'e3o testemunhas", isto \'e9: "0 Senhor e o rei que estabeleceu". E alhures: "N\'e3o toqueis em meus ungidos nem fa\'e7ais mal algum a meus profetas". Davi, animado do esp\'edrito de Deus, deu em v\'e1rias ocasi\'f5es a Saul, seu sogro renegado, que o perseguia, o nome e a qualidade de ungido, de Messias do Senhor. "Deus me guarde" - diz freq\'fcentemente - "de levantar a m\'e3o sobre o ungido do Senhor, sobre o Messias de Deus!" \

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\par \~\~\~\~\~ Se o nome de Messias, ungido do Senhor, foi dado a reis id\'f3latras, a renegados, foi tamb\'e9m mui freq\'fcentemente empregado em nossos antigos or\'e1culos para designar o verdadeiro ungido do Senhor, esse Messias por excel\'eancia, o Cristo, filho de Deus, enfim o pr\'f3prio Deus. \

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\par \~\~\~\~\~ Se compararmos todos os diversos or\'e1culos que se aplicam de ordin\'e1rio ao Messias, n\'e3o pode haver ao que parece dificuldade alguma capaz de favorecer os judeus, no sentido de justificar, se o pudessem, sua obstina\'e7\'e3o. V\'e1rios grandes te\'f3logos concordam que, no estado de opress\'e3o sob o qual gemia o povo judeu, e depois de todas as promessas que o Eterno lhe fez com tanta freq\'fc\'eancia, podia suspirar pela vinda de um Messias vencedor e libertador, e que assim se torna de certa forma escus\'e1vel o n\'e3o haver a princ\'edpio reconhecido esse libertador na pessoa de Jesus. \

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\par \~\~\~\~\~ Pertencia ao plano da sabedoria eterna que as id\'e9ias espirituais do verdadeiro Messias permanecessem desconhecidas pelas multid\'f5es cegas; foram- no ao ponto de os doutores judeus tomarem o cuidado de n\'e3o negar sen\'e3o os trechos que alegamos deverem ser entendidos como referentes ao Messias. Dizem v\'e1rios que o Messias j\'e1 veio na pessoa de Ezequias; \'e9 tamb\'e9m o pensamento do famoso Hilel. Outros, em grande n\'famero, pretendem que a cren\'e7a da vinda de um Messias n\'e3o \'e9 absolutamente um artigo fundamental de f\'e9, e que esse dogma, n\'e3o assomando nem no Dec\'e1logo nem no Lev\'edtico, n\'e3o passa de uma esperan\'e7a consoladora. \

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\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios rabinos dizem n\'e3o duvidar que, segundo os antigos or\'e1culos, o Messias n\'e3o tenha vindo nos tempos determinados; mas que ele n\'e3o envelhece, que ficar\'e1 sobre esta terra e esperar\'e1, para se \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (148 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par manifestar, que Israel tenha celebrado como \'e9 de mister o sabate. \~\~\~\~\~ O famoso rabino Salom\'e3o Jarqu\'ed ou Rasqu\'ed, que viveu no princ\'edpio do duod\'e9cimo s\'e9culo, diz em suas Talm\'fadicas que os antigos hebreus acreditaram que o Messias nascera no dia da \'faltima destrui\'e7\'e3o de Jerusal\'e9m pelos ex\'e9rcitos romanos; \'e9, como se costuma dizer, chamar o m\'e9dico depois da morte. \

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\par \~\~\~\~\~ O rabino Quinqu\'ed, que tamb\'e9m viveu no duod\'e9cimo s\'e9culo, anunciou que o Messias, cuja vinda julgava muito pr\'f3xima, expulsaria da Jud\'e9ia os crist\'e3os que a possu\'edam at\'e9 aquele momento; \'e9 verdade que os crist\'e3os perderam a Terra Santa; mas foi Saladino quem os venceu; por pouco que esse conquistador tenha protegido os judeus declarando- se a seu favor, parece que em seu entusiasmo eles o transformaram em seu Messias. \

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\par \~\~\~\~\~ Os autores sacros, e o pr\'f3prio Nosso Senhor Jesus, comparam freq\'fcentemente o reino do Messias e a eterna beatitude a dias de esponsais, a festins; por\'e9m os talmudistas abusaram estranhamente dessas par\'e1bolas; segundo eles, o Messias dar\'e1 a seu povo, reunido na terra de Cana\'e3, uma refei\'e7\'e3o cujo vinho ser\'e1 o mesmo feito por Ad\'e3o no Para\'edso terrestre, e que se conserva em vastas adegas, guardadas pelos anjos no centro da terra. \

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\par \~\~\~\~\~ Servir- se- \'e1 de in\'edcio o famoso peixe chamado o grande Leviat\'e3, que engole de um s\'f3 trago um peixe maior do que ele, o qual n\'e3o deixa de ter trezentas l\'e9guas de comprimento; toda a ma\'e7a das \'e1guas est\'e1 apoiada sobre Leviat\'e3. Deus, a princ\'edpio, criou um macho e uma f\'eamea; mas temendo que eles revolvessem a terra e enchessem o universo de seus semelhantes, Deus matou a f\'eamea, salgando- a para o festim do Messias. \

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\par \~\~\~\~\~ Os rabinos acrescentam que se matar\'e1 para esse festim o touro de Beemote, que \'e9 t\'e3o grande que come diariamente o feno de mil montanhas; a f\'eamea desse touro foi morta no princ\'edpio do mundo, para que uma esp\'e9cie t\'e3o prodigiosa n\'e3o se multiplicasse, o que apenas poderia ser prejudicial \'e0s outras criaturas; asseguram por\'e9m que o Eterno n\'e3o a salgou, pois a vaca salgada n\'e3o \'e9 t\'e3o boa como o Leviat\'e3. Os judeus acrescentaram ainda tanta f\'e9 a todas essas fantasias rab\'ednicas que \'e9 freq\'fcente jurarem sobre a parte do boi de Beemote que lhes cabe. \

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\par \~\~\~\~\~ Depois de id\'e9ias t\'e3o grosseiras sobre a vinda do Messias e sobre o seu reino, ser\'e1 para admirar que os judeus, tanto antigos como modernos, e v\'e1rios mesmo dos primeiros crist\'e3os, desgra\'e7adamente imbu\'eddos de todas essas loucuras, n\'e3o tenham podido elevar- se \'e0 id\'e9ia da natureza divina do ungido do Senhor, nem atribu\'edram as qualidades de Deus ao Messias? Vede como os judeus se exprimem l\'e1 das alturas em sua obra intitulada Juaei Lusitani Quaestiones ad Christianos. "Reconhecer" - dizem - "um homem- Deus \'e9 forjar um monstro, um centauro, o composto estranho de duas naturezas que n\'e3o se poderiam aliar". Acrescentam que os profetas n\'e3o ensinam absolutamente que o Messias deve ser homem- Deus, que fazem distin\'e7\'f5es expressas entre Deus e Davi, que consideram o primeiro, senhor, o segundo, servidor, etc. \

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\par \~\~\~\~\~ Sabe- se muito bem que os judeus, escravos da letra, jamais penetraram como n\'f3s o sentido das Escrituras. \

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\par \~\~\~\~\~ Quando o Salvador apareceu, os preconceitos judeus se ergueram contra ele. O pr\'f3prio Jesus Cristo, para n\'e3o revoltar seus esp\'edritos cegos, parece extremamente reservado sobre o artigo de sua divindade: \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (149 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 00] \

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\par "Ele queria" - diz S\'e3o Cris\'f3stomo - "acostumar insensivelmente seus auditores a crer num mist\'e9rio grandemente elevado acima da raz\'e3o". Se toma a autoridade de um Deus perdoando os pecados, isto revolta todos os que o testemunham; seus milagres mais evidentes n\'e3o podem convencer de sua divindade aqueles mesmos em favor dos quais opera. Quando perante o tribunal do soberano sacrificador ele admite com mod\'e9stia ser filho de Deus, o sumo sacerdote rasga- lhe a roupa, rompendo em blasf\'eamias. Antes do enviado do Esp\'edrito Santo os ap\'f3stolos nem sequer suspeitavam a divindade de seu mestre; ele os interroga sobre o que pensa o povo a seu respeito: respondem- lhe que uns o tomam por Elias, outros por Jeremias ou qualquer outro profeta. S\'e3o Pedro precisa de uma revela\'e7\'e3o particular para conhecer que Jesus \'e9 o Cristo, o filho de Deus vivente. \

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\par \~\~\~\~\~ Os judeus, revoltados contra a divindade de Jesus Cristo, recorreram a toda sorte de meios para destruir esse grande mist\'e9rio; deturpam o sentido dos seus pr\'f3prios or\'e1culos, ou n\'e3o os aplicam ao Messias; pretendem que o nome de Deus, El\'f3i, n\'e3o \'e9 particular \'e0 divindade, sendo at\'e9 concedido pelos autores sagrados aos juizes, aos magistrados, em geral aos elevados em autoridade; citam, com efeito, grande n\'famero de passos das Santas Escrituras que justificam esta observa\'e7\'e3o, mas que n\'e3o concedem a m\'ednima aten\'e7\'e3o aos termos expressos dos antigos or\'e1culos que falam do Messias. \

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\par \~\~\~\~\~ Enfim, pretendem que se o Salvador, e depois dele os evangelistas, os ap\'f3stolos e os primeiros crist\'e3os chamam Jesus o filho de Deus, esse termo augusto n\'e3o significava nos tempos evang\'e9licos sen\'e3o o oposto dos filhos de Belial, isto \'e9, homem de bem, servidor de Deus, em oposi\'e7\'e3o a um malvado, um homem que n\'e3o teme a Deus. \

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\par \~\~\~\~\~ Se os judeus contestaram a Jesus Cristo a qualidade de Messias e sua divindade, nada esqueceram para torn\'e1- lo desprez\'edvel, para atirar sobre o seu nascimento, sua vida e sua morte, todo o rid\'edculo e todo o opr\'f3brio imaginado pela sua obstina\'e7\'e3o criminosa. \

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\par \~\~\~\~\~ De todas as obras produzidas pela cegueira dos judeus, nada h\'e1 de mais odioso e extravagante do que o antigo livro intitulado: Sepher Toldos Jeschut, extra\'eddo da poeira dos arquivos pelo sr. Wagenseil, no segundo tomo de sua obra intitulada: Tela ignea, etc. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 nesse Sepher Toldos Jeschut que se l\'ea uma hist\'f3ria monstruosa da vida do nosso Salvador, forjada com toda paix\'e3o e m\'e1 f\'e9 poss\'edveis. Assim, por exemplo, ousaram escrever que um tal Panter ou Pandera, habitante de Betl\'eam, se apaixonara por uma mulher casada com Jocan\'e3. Teve desse com\'e9rcio impuro um filho que foi chamado Jesu\'e1 ou Jes\'fa. O pai desse menino foi obrigado a fugir, retirando- se para Babil\'f4nia. Quanto ao jovem Jes\'fa, foi enviado \'e0 escola; mas, - acrescenta o autor - teve a insol\'eancia de levantar a cabe\'e7a e de se descobrir diante dos sacrificadores, em lugar de se apresentar \'e0 sua frente com a cabe\'e7a baixa e o rosto coberto, como era costume: ousadia que foi vivamente punida; o que deu lugar ao exame de seu nascimento, que se revelou impuro e em breve o exp\'f4s \'e0 ignom\'ednia. \

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\par \~\~\~\~\~ Esse detest\'e1vel livro Sepher Toldos Jeschut era conhecido desde o segundo s\'e9culo; \'e9 citado por Celso com confian\'e7a e Or\'edgenes refuta- o no nono cap\'edtulo. \

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\par \~\~\~\~\~ Existe outro livro tamb\'e9m intitulado Toldos Jeschut, publicado no ano de 1705 pelo Sr. Huldrich, que segue mais de perto o Evangelho da inf\'e2ncia mas que comete, a todo momento, os anacronismos e faltas mais grosseiros. Faz nascer e morrer Jesus Cristo no reinado de Herodes, o Grande; pretende terem sido dirigidas a esse pr\'edncipe as queixas sobre o adult\'e9rio de Panter e de Maria, m\'e3e de Jesus. \

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\par \~\~\~\~\~ O autor, que toma o nome de Jonat\'e3, que se diz contempor\'e2neo de Jesus Cristo e morador em Jerusal\'e9m, adianta que Herodes consultou os senadores de uma cidade da terra de Ces\'e1rea sobre o caso de Jesus Cristo. N\'e3o seguiremos um autor t\'e3o absurdo em todas as suas contradi\'e7\'f5es. \

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\par \~\~\~\~\~ No entanto \'e9 a favor de todas essas cal\'fanias que os judeus se entret\'eam em seu \'f3dio implac\'e1vel contra os crist\'e3os e contra o Evangelho; nada esqueceram eles para alterar a cronologia do Velho Testamento e para espalhar d\'favidas e dificuldades sobre o tempo da vinda do nosso Salvador. \~\~\~\~\~ Ahmed- ben- Cassum- al- Andacusi, mouro de Granada que viveu nos fins do s\'e9culo XVI, cita o antigo manuscrito \'e1rabe que foi encontrado junto a seis l\'e2minas de chumbo, gravado em caracteres \'e1rabes, numa gruta perto de Granada. D. Pedro y Quinones, arcebispo de Granada, prestou ele pr\'f3prio testemunho. Essas l\'e2minas de chumbo que chamamos de Granada foram depois transladadas para Roma, onde, ap\'f3s um exame de v\'e1rios anos, foram finalmente condenadas como ap\'f3crifas, sob o pontificado de Alexandre VII; n\'e3o continham sen\'e3o hist\'f3rias fabulosas concernentes \'e0 vida de Man\'e1 e seu filho. \

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\par \~\~\~\~\~ O nome de Messias, acompanhado do ep\'edteto falso, ainda se d\'e1 a esses impostores que, em \'e9pocas diversas, procuraram mistificar a na\'e7\'e3o judaica. Houve desses falsos Messias antes mesmo da vinda do verdadeiro ungido de Deus. O s\'e1bio Gamaliel fala( 52) de um certo Teodas cuja hist\'f3ria se l\'ea nas Antig\'fcidades Judaicas de Jos\'e9; livro 20, cap\'edtulo 2. Jactava- se de haver passado o Jord\'e3o a p\'e9 seco; conseguiu grande n\'famero de adeptos que o seguiam; mas os romanos, caindo sobre sua tropa, dizimaram- na, cortaram a cabe\'e7a do desgra\'e7ado chefe e a expuseram em Jerusal\'e9m. \

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\par \~\~\~\~\~ Gamaliel fala tamb\'e9m de Judas, o Galileu, que \'e9 sem d\'favida o mesmo mencionado por Jos\'e9, no cap\'edtulo 12 do segundo livro da Guerra das Judeus. Diz que esse falso profeta reunira quase trinta mil adeptos; por\'e9m a hip\'e9rbole \'e9 o caracter\'edstico do historiador judeu. \

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\par \~\~\~\~\~ Desde os tempos dos ap\'f3stolos viu- se Sim\'e3o, cognominado o M\'e1gico (53), seduzir os habitantes de Samaria a ponto de o considerarem como a virtude de Deus. \

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\par \~\~\~\~\~ No s\'e9culo seguinte, no ano 178 e 179 da era crist\'e3, sob o imp\'e9rio de Adriano, apareceu o falso Messias Barco Queba, \'e0 testa de um ex\'e9rcito. O imperador enviou contra ele J\'falio Severo, que depois de v\'e1rios encontros encerrou os revoltosos na cidade de Biter; manteve um assedio obstinado e foi violent\'edssimo em suas repres\'e1lias; Barco Queba foi preso e condenado \'e0 morte. Adriano julgou n\'e3o poder prevenir as revoltas cont\'ednuas dos judeus, sen\'e3o proibindo- os por \'e9dito de irem a Jerusal\'e9m; estabeleceu, mesmo, postos de vigil\'e2ncia nas portas dessa cidade, para proibir a entrada ao resto do povo de Israel. \

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\par \~\~\~\~\~ Lemos em S\'f3crates, historiador eclesi\'e1stico( 54), que no ano 434 apareceu na ilha de C\'e2ndia um falso Messias chamado Mois\'e9s. Dizia- se o antigo libertador dos hebreus, ressuscitado para os libertar de novo. \~\~\~\~\~ Um s\'e9culo depois, em 530, houve na Palestina um falso Messias chamado Juli\'e3o; anunciou- se como um grande conquistador que, \'e0 frente de sua na\'e7\'e3o, destruiria pelas armas todo o povo crist\'e3o; seduzidos por suas promessas, os judeus, armados, massacraram muitos crist\'e3os. O imperador Justiniano enviou tropas contra ele. Travou- se batalha contra o falso Cristo: foi preso e condenado ao supl\'edcio extremo. \

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\par \~\~\~\~\~ No princ\'edpio do s\'e9culo VIII Sereno, judeu espanhol, apresentou- se como Messias, pregou, teve disc\'edpulos e morreu como eles na mis\'e9ria. \

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\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios falsos Messias surgiram no s\'e9culo XII. Apareceu um na Fran\'e7a, sob o reinado de Lu\'eds, o Jovem; foi enforcado, ele e seus correligion\'e1rios, sem que jamais se conhecessem os nomes nem do mestre nem dos disc\'edpulos. \

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\par \~\~\~\~\~ O s\'e9culo XIII foi fertil\'edssimo de falsos Messias; contam- se sete ou oito, aparecidos na Ar\'e1bia, na P\'e9rsia, na Espanha e na Mor\'e1via. Um deles, que se fazia chamar David el Re, passou por ter sido um grande m\'e1rtir, seduziu os judeus, vendo- se \'e0 testa de um partido consider\'e1vel; mas esse Messias foi assassinado. \

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\par \~\~\~\~\~ Jacques Zieglerne, da Mor\'e1via, que viveu em meados do s\'e9culo XVI, anunciou a pr\'f3xima manifesta\'e7\'e3o do Messias, nascido, segundo afirmava, havia catorze anos. Ele o tinha visto, dizia, em Estrasburgo, e guardava com cuidado uma espada e um cetro para lhos entregar quando ele estivesse em idade de ensinar. \

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\par \~\~\~\~\~ No ano de 1624 outro Zieglerne confirmou a predi\'e7\'e3o do primeiro. \~\~\~\~\~ Em 1666 Sabat\'ea Sev\'ed, nascido em Alepo, se apresentou como o Messias predito pelos Zieglerne. Principiou por pregar nas estradas reais e no meio dos campos; os turcos riram- se dele, apesar da grande admira\'e7\'e3o dos seus disc\'edpulos. Parece que n\'e3o agradou \'e0 maioria da na\'e7\'e3o hebraica, pois os chefes da sinagoga de Smirna lavraram contra ele uma senten\'e7a de morte; mas livrou- se da pena, sofrendo somente o medo e o ex\'edlio \

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\par \~\~\~\~\~ Contratou tr\'eas casamentos que n\'e3o chegou a realizar, segundo se diz. Associou- se a um certo Nat\'e3 Lev\'ed: este fez o papel do profeta Elias, que devia preceder o Messias. Dirigiram- se a Jerusal\'e9m e Nat\'e3 anunciou Sabat\'ea Sev\'ed como o libertador das na\'e7\'f5es. A popula\'e7\'e3o judaica declarou- se a seu favor; mas os que tinham alguma coisa a perder o anatematizaram. \

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\par \~\~\~\~\~ Sev\'ed, para fugir \'e0 borrasca, retirou- se para Constantinopla, e de l\'e1 para Smirna. Nat\'e3 Lev\'ed enviou- lhe quatro embaixadores que o reconheceram e saudaram publicamente na qualidade de Messias; essa embaixada teve certa influ\'eancia no povo e mesmo em alguns doutores, que declararam Sabat Sev\'ed Messias e rei dos hebreus. Mas a sinagoga de Smirna condenou seu rei a ser empalado. \

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\par \~\~\~\~\~ Sabat\'ea p\'f4s- se sob a prote\'e7\'e3o do cadi de Smirna, e teve em breve ao seu favor todo o povo judeu. Fez erguer dois tronos, um para ele e outro para sua esposa favorita; tomou o nome de rei dos reis e deu a Jos\'e9 Sev\'ed, seu irm\'e3o, o de rei de Jud\'e1. Prometeu aos judeus assegurar a conquista do imp\'e9rio otomano. Chegou mesmo \'e0 insol\'eancia de fazer riscar da liturgia judaica o nome do imperador, substituindo- o pelo seu. Foi remetido \'e0 pris\'e3o dos Dardanelos. Os judeus tornaram p\'fablico que: s\'f3 se poupara a sua vida por que os turcos sabiam muito bem que ele era imortal. O governador dos Dardanelos enriqueceu- se \'e0 custa dos presentes que os hebreus lhe prodigalizaram para visitar o seu rei, o seu Messias, prisioneiro que, entre grades, conservava toda a sua dignidade, deixando que lhe beijassem os p\'e9s. \

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\par \~\~\~\~\~ Entretanto o sult\'e3o, que tinha a sua corte em Andrinopla, resolveu acabar com essa com\'e9dia; mandou chamar Sev\'ed e disse- lhe que se ele fosse Messias deveria ser invulner\'e1vel; Sev\'ed concordou. O gr\'e3o senhor mandou que o colocassem como alvo das flechas de seus pagens; o Messias compreendeu logo nada ter de invulner\'e1vel e pretextou que Deus apenas o enviara para render testemunho \'e0 santa religi\'e3o \

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\par mu\'e7ulmana. Fustigado pelos ministros da lei, tornou- se mafomista e morreu desprezado igualmente por judeus e mu\'e7ulmanos: o que desacreditou de tal forma a profiss\'e3o de falso Messias que Sev\'ed foi o \'faltimo deles.( 55). \

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\par METAMORFOSE, METEMPSICOSE \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o \'e9 muito natural que todas as metamorfoses de que a terra est\'e1 repleta tenham feito imaginar, no Oriente, onde tudo foi imaginado, que nossas almas passam de um corpo a outro? Um ponto quase impercept\'edvel torna- se um verme, esse verme se transforma em borboleta; uma bolota se transforma num tronco, um ovo num p\'e1ssaro; a \'e1gua torna- se nuvem e trov\'e3o; a madeira troca- se em fogo e cinza; tudo enfim, na natureza, parece metamorfose. N\'e3o tardamos em atribuir \'e0s almas, que olhamos como t\'eanues figuras, o que vemos sensivelmente nos corpos mais grosseiros. A id\'e9ia da metempsicose \'e9 talvez o mais antigo dogma do universo conhecido, e reina ainda em grande parte da \'cdndia e da China. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 ainda bastante natural que todas as metamorfoses de que somos testemunhas hajam produzido essas antigas f\'e1bulas que Ov\'eddio recolheu em sua obra admir\'e1vel. Os pr\'f3prios judeus tiveram tamb\'e9m suas metamorfoses. Se N\'edobe foi transformada em m\'e1rmore, Edite, mulher de L\'f3, foi transmutada numa est\'e1tua de sal. Se Eur\'eddice ficou nos infernos por ter olhado para tr\'e1s, \'e9 tamb\'e9m pela mesma indiscri\'e7\'e3o que essa mulher de L\'f3 foi privada da natureza humana. O burgo habitado por Baucis e Fil\'eamon, na Frigia, transformou- se em um lago; a mesma coisa sucedeu a Sodoma. As filhas de Anjo transformavam a \'e1gua em \'f3leo; temos nas Escrituras uma metamorfose mais ou menos parecida, por\'e9m mais verdadeira e mais sagrada. Cadmo foi transformado em serpente; a virgem de Aar\'e3o tornou- se serpente tamb\'e9m. \

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\par \~\~\~\~\~ Os deuses tamb\'e9m mudam- se muitas vezes em homens; os judeus jamais viram anjos sen\'e3o sob a forma humana: os anjos comeram na casa de Abra\'e3o. Paulo, em sua Ep\'edstola aos Cor\'edntios, diz que o anjo de Sat\'e3 lhe deu bofetadas: Angelos Satana me colaphisei. \

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\par MILAGRES \

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\par \~\~\~\~\~ Segundo a energia do termo, um milagre \'e9 uma coisa admir\'e1vel. Nesse caso, tudo \'e9 milagre. A ordem prodigiosa da natureza, a rota\'e7\'e3o de cem milh\'f5es de globos ao redor de um milh\'e3o de s\'f3is, a atividade da luz, a vida dos animais, constituem perp\'e9tuos milagres. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Segundo as id\'e9ias aceitas, chamamos milagre \'e0 viola\'e7\'e3o dessas leis divinas e eternas. Assim, quando houver um eclipse do Sol durante a Lua cheia, quando um morto fizer a p\'e9 duas l\'e9guas de caminho levando a cabe\'e7a de baixo do bra\'e7o, isto quer dizer que sucedeu um milagre. \

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\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios f\'edsicos afirmam que, nesse sentido, n\'e3o existe milagre algum, e eis aqui seus argumentos. \~\~\~\~\~ Um milagre \'e9 a viola\'e7\'e3o das leis matem\'e1ticas, divinas, imut\'e1veis, eternas. Mediante essa \'fanica \

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\par exposi\'e7\'e3o, um milagre \'e9 uma contradi\'e7\'e3o nos termos. Uma lei n\'e3o pode ser mut\'e1vel a violada. Mas uma lei, diz- se- lhes, sendo estabelecida por Deus mesmo, n\'e3o poder\'e1 ser suspensa pelo seu autor? T\'eam a ousadia de responder que n\'e3o e que \'e9 imposs\'edvel que o Ser infinitamente s\'e1bio tenha estabelecido leis para as violar. Um homem, dizem eles, n\'e3o desmonta sua m\'e1quina sen\'e3o para faz\'ea- la melhor; ora, \'e9 claro que, sendo Deus, ele fez essa imensa m\'e1quina o melhor que pode: se viu que haveria alguma imperfei\'e7\'e3o, resultante da natureza da mat\'e9ria, ele a preveniu desde o come\'e7o; assim jamais h\'e1 de mudar nada. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Demais, Deus nada pode fazer sem raz\'e3o; ora, que raz\'e3o poderia lev\'e1- lo a desfigurar por algum tempo a sua pr\'f3pria obra? \'c9 em favor dos homens, diz- se- lhes. Ser\'e1, pois, ao menos em favor de todos os homens respondem eles: pois \'e9 imposs\'edvel conceber que a natureza divina trabalhe para alguns homens em particular e n\'e3o para todo o g\'eanero humano; mesmo o g\'eanero humano \'e9 pouca coisa: \'e9 muito menos do que um pequeno formigueiro em compara\'e7\'e3o com todos os entes que preenchem a imensid\'e3o. Ora, n\'e3o \'e9 a mais absurda das loucuras imaginar que o Ser Infinito invertesse em favor de tr\'eas ou quatro centenas de formigas nesse pequeno peda\'e7o de lodo, o movimento eterno dessas molas imensas que fazem mover o inteiro universo? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas suponhamos que Deus desejou distinguir um pequeno n\'famero de homens com favores particulares: seria preciso que mudasse tudo o que estabeleceu para todos os tempos e todos os lugares. Ele n\'e3o tem, por certo, necessidade alguma dessa mudan\'e7a, dessa inconst\'e2ncia, para favorecer suas criaturas: seus favores est\'e3o encerrados em suas pr\'f3prias leis. Ele tudo preveniu, tudo ordenou para elas; todas obedecem irrevogavelmente \'e0 forca que imprimiu para todo o sempre na natureza. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por que faria Deus um milagre? Para realizar um plano qualquer concernente a alguns seres vivos! Portanto: n\'e3o pude, com os meus decretos divinos, com minhas leis eternas, preencher um certo plano; vou mudar minhas id\'e9ias eternas, minhas leis imut\'e1veis, e tratar de executar o que n\'e3o consegui fazer por elas. Tal fato seria um sinal de sua fraqueza, e n\'e3o de sua pot\'eancia. Seria, parece, nele, a mais inconcept\'edvel contradi\'e7\'e3o. Portanto, ousar supor que Deus realiza milagres \'e9 realmente insult\'e1- lo (se \'e9 que os homens podem insultar Deus); \'e9 dizer- lhe: "Sois um ente fr\'e1gil e inconseq\'fcente". Portanto, \'e9 absurdo crer em milagres, \'e9 desonrar de certo modo a Divindade. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Insiste- se com esses fil\'f3sofos, dizendo- lhes: "\'c9 in\'fatil exaltardes a imutabilidade do Ente Supremo, a eternidade de suas leis, a regularidade de seus mundos infinitos; nosso pequeno peda\'e7o de lodo est\'e1 repleno de milagres; as hist\'f3rias est\'e3o t\'e3o repletas de prod\'edgios que estes se tornam acontecimentos naturais. As filhas do sumo sacerdote Agno trocavam tudo o que bem entendiam em trigo, em vinho ou \'f3leo; At\'e1lida, filha de Merc\'fario, ressuscitou v\'e1rias vezes; Escul\'e1pio ressuscitou Hip\'f3lito; H\'e9rcules arrancou Alceste dos bra\'e7os da Morte; \'c9ros voltou ao mundo ap\'f3s ter passado quinze dias nos infernos; R\'f4mulo e Remo nasceram de um deus e uma vestal. O Pal\'e1dio tombou dos c\'e9us na cidade de Tr\'f3ia; a cabe\'e7a de Orfeu concedia or\'e1culos depois de sua morte; as muralhas de Tebas se constru\'edram por si pr\'f3prias ao som das flautas dos gregos; as curas realizadas no templo de Escul\'e1pio eram numerosas, e temos ainda monumentos repletos de nomes de testemunhas oculares dos milagres de Escul\'e1pio. \

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\par \~\~\~\~\~" Citai- me um \'fanico povo no qual n\'e3o se tenham operado prod\'edgios incr\'edveis, principalmente nos tempos em que mal se sabia ler e escrever". \

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\par \~\~\~\~\~ Os fil\'f3sofos n\'e3o respondem a essas obje\'e7\'f5es sen\'e3o rindo e dando de ombros; mas os fil\'f3sofos crist\'e3os \

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\par dizem: "Cremos perfeitamente nos milagres operados em nossa santa religi\'e3o; cremo- los mediante nossa f\'e9, e n\'e3o pela nossa raz\'e3o, que nos guardamos bem de ouvir: porque, quando fala a f\'e9, sabemos que a raz\'e3o n\'e3o deve dizer palavra. Temos uma cren\'e7a firme e integral nos milagres de Jesus Cristo e dos ap\'f3stolos, mas permiti- nos duvidar um pouco de v\'e1rios outros; permiti, por exemplo, que suspendamos nosso julgamento sobre o que concerne a um homem simples ao qual se deu o nome de grande. Ele afirma que um pequeno monge estava t\'e3o acostumado a realizar milagres que o prior lhe proibira exercer seu talento. O pequeno monge obedeceu; mas tendo visto um pobre telhador cair do alto de um telhado, ficou indeciso entre salvar- lhe a vida e manter a santa obedi\'eancia. Ordenou apenas que o telhador permanecesse suspenso a meio caminho do solo, at\'e9 nova ordem, e correu de pressa a contar ao seu prior o estado das coisas. O prior absolveu- o do pecado que cometera iniciando um milagre sem licen\'e7a e permitiu que o terminasse, contanto que nunca mais o repetisse. Concede- se aos fil\'f3sofos desconfiar um pouco dessa hist\'f3ria". \

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\par \~\~\~\~\~ Mas como ousar\'edeis negar, diz- se- lhes, que S. Gerv\'e1sio e S. Prot\'e1sio tenham aparecido em sonho a Santo Ambr\'f3sio, que lhe tenham ensinado o lugar onde estavam escondidas as suas rel\'edquias, que Sto. Ambr\'f3sio as tenha desenterrado e que elas curaram um cego? Sto. Agostinho estava nessa \'e9poca em Mil\'e3o; \'e9 ele quem nos conta o milagre: Immenso populo teste, diz em sua Cidade de Deus, livro 22. Eis um milagre dos melhor averiguados. Os fil\'f3sofos dizem que n\'e3o acreditam em nada disso; que Gerv\'e1sio e Prot\'e1sio n\'e3o apareceram a pessoa alguma; que pouco importa ao g\'eanero humano saber onde est\'e3o os restos de suas carcassas; que n\'e3o concedem maior cr\'e9dito a esse cego que ao de Vespasiano; que \'e9 um milagre inutil\'edssimo; que Deus nada faz de in\'fatil; e se mant\'eam firmes em seus princ\'edpios. Meu respeito a S. Gerv\'e1sio e S. Prot\'e1sio n\'e3o me permite ser do pensar desses fil\'f3sofos: apenas registo sua incredulidade. Fazem grande caso da passagem de Luciano que se encontra na Morte de Peregrino. "Quando um trapaceiro chega a se transformar em crist\'e3o, \'e9 porque tem certeza de ficar rico". Mas como Luciano \'e9 um autor profano, n\'e3o deve ter nenhuma autoridade entre n\'f3s. \

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\par \~\~\~\~\~ Esses fil\'f3sofos n\'e3o podem se resolver a crer nos milagres operados no segundo s\'e9culo. Perdem tempo as testemunhas oculares em escrever que o bispo de Smirna, S. Policarpo, tendo sido condenado a ser queimado, e sendo atirado \'e0s chamas, ouviram uma voz do c\'e9u gritar: "Coragem, Policarpo! S\'ea forte, mostra que \'e9s homem!"; que ent\'e3o as chamas da fogueira se separaram de seu corpo, formando um pavilh\'e3o de fogo ao redor de sua cabe\'e7a, e que do meio da fogueira saiu uma pombinha; enfim, foi necess\'e1rio decepar a cabe\'e7a de Policarpo. "Que vale um milagre desses?" - dizem os incr\'e9dulos: - "por que motivo as chamas perderam sua natureza e por que o machado do carrasco n\'e3o perdeu a sua? Como se explica que t\'e3o elevado n\'famero de m\'e1rtires tenham sa\'eddo s\'e3os e salvos do \'f3leo fervente, e n\'e3o puderam resistir ao gume do fac\'e3o? Responde- se que \'e9 a vontade de Deus. Mas os fil\'f3sofos desejariam ter visto todas essas coisas com os seus pr\'f3prios olhos antes de acreditar. \

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\par \~\~\~\~\~ Os que fortificam seus racioc\'ednios pela ci\'eancia vos responder\'e3o que os padres da igreja perceberam v\'e1rias vezes por si pr\'f3prios j\'e1 n\'e3o se realizarem, os milagres de seus tempos. S. Cris\'f3stomo diz expressamente: "Os dons extraordin\'e1rios do esp\'edrito eram dados mesmo aos indignos, porque ent\'e3o a igreja necessitava de milagres; hoje, por\'e9m, eles n\'e3o s\'e3o concedidos nem mesmo aos dignos, pois a igreja j\'e1 n\'e3o os necessita". Em seguida ele concorda em que n\'e3o h\'e1 mais pessoas capazes de ressuscitar mortos, nem mesmo que curem os doentes. \

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\par \~\~\~\~\~ O pr\'f3prio Sto. Agostinho, apesar do milagre de Gerv\'e1sio e de Prot\'e1sio, diz em sua Cidade de Deus: "Por que n\'e3o se repetem hoje os milagres de outrora?" E ele mesmo explica as raz\'f5es: "Cur, inquiunt, \

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\par nunc illa miracula quae praedicatis facta esse none fiunt? Possem quidem, dicere necessaria prius fuisse quam crederet mundus, ad hoc ut crederet mundus" \

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\par \~\~\~\~\~ Objeta- se aos fil\'f3sofos que Sto. Agostinho, n\'e3o, obstante tal confiss\'e3o, fala no entanto de um velho remend\'e3o Hip\'f4nio que, tendo perdido sua casaca, foi pregar na capela dos vinte m\'e1rtires; que ao regressar encontrou um peixe em cujo corpo. estava um anel da ouro, e que o cozinheiro que fritou o peixe disse ao remend\'e3o:, "Eis o que os vinte m\'e1rtires vos d\'e3o" \

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\par \~\~\~\~\~ A isso respondem os fil\'f3sofos que nada existe nessa hist\'f3ria que contradiga as leis da natureza, que a f\'edsica n\'e3o chega a ser abalada pelo fato de um peixe encerrar um anel de ouro e que um cozinheiro tenha dado esse anel a um remend\'e3o; que n\'e3o h\'e1 nisso nenhum milagre. \

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\par \~\~\~\~\~ Se se lembrar a esses fil\'f3sofos que segundo S. Jer\'f4nimo, em sua Vida do Eremita Paulo, esse eremita teve v\'e1rias conversa\'e7\'f5es com os s\'e1tiros e faunos, que um corvo lhe levava todos os dias, durante trinta anos, a metade de um p\'e3o para o seu jantar e um p\'e3o inteiro no dia em que Sto. Ant\'f4nio foi visit\'e1- lo, eles poder\'e3o responder ainda que esse grande fato n\'e3o se choca com a f\'edsica, que s\'e1tiros a faunos podem ter existido e que, em todo caso, se essa hist\'f3ria \'e9 uma puerilidade, nada tem de comum com os verdadeiros milagres do Salvador e seus ap\'f3stolos. V\'e1rios bons crist\'e3os combateram a hist\'f3ria de S. Sim\'e3o Estilita, escrita por Teodoreto. Muitos milagres que passam por aut\'eanticos na igreja grega foram postos em d\'favida por muitos latinos, da mesma forma que v\'e1rios milagres latinos foram desacreditados pela igreja grega; vieram em seguida os protestantes, que maltrataram os milagres tanto de uma como de outra igreja. \

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\par \~\~\~\~\~ Um s\'e1bio jesu\'edta( 56) que pregou durante muito tempo nas \'cdndias lamenta- se de que nem ele nem seus confrades jamais puderam fazer um milagre. Xavier lamenta- se em muitas de suas cartas de n\'e3o possuir o dom lingu\'edstico; diz que entre os japoneses ele \'e9 como uma est\'e1tua muda. Entretanto, os jesu\'edtas escreveram que ele ressuscitou oito mortos; \'e9 muito; mas \'e9 tamb\'e9m preciso considerar que ele os ressuscitou h\'e1 cem mil l\'e9guas daqui. Ao depois houve gente que pretendeu ser a aboli\'e7\'e3o dos jesu\'edtas na Fran\'e7a um milagre muito maior do que os de Xavier e In\'e1cio. \

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\par \~\~\~\~\~ Seja como for, todos os crist\'e3os conv\'eam em que os milagres de Jesus Cristo e dos ap\'f3stolos s\'e3o de uma verdade incontest\'e1vel, mas que se pode duvidar de todo ponto de alguns milagres feitos nos \'faltimos tempos e que n\'e3o t\'eam uma autenticidade positiva. \

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\par \~\~\~\~\~ Desejar- se- ia, por exemplo, para que um milagre fosse bem constatado, que se realizasse na presen\'e7a da Academia das Ci\'eancias de Paris, ou da Sociedade Real de Londres, e da Faculdade de Medicina, assistido por um destacamento do regimento de guardas a fim de conter a multid\'e3o, que poderia, com uma indiscri\'e7\'e3o, impedir a pr\'e1tica do milagre. \

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\par \~\~\~\~\~ Perguntou- se um dia a um fil\'f3sofo o que diria se visse o Sol deter sua marcha, isto \'e9, se o movimento da Terra ao redor desse astro cessasse, se todos os mortos ressuscitassem e se todas as montanhas se precipitassem ao mar, tudo para provar alguma importante verdade, como por exemplo a gra\'e7a vers\'e1til. "Que diria?" - respondeu o fil\'f3sofo: - "Tornar- me- ia um maniqueu, diria que existe um princ\'edpio que desfaz o que o outro fez". \

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\par MOIS\'c9S \

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\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios s\'e1bios julgaram que o Pentateuco n\'e3o pode ter sido escrito por Mois\'e9s. Dizem que da pr\'f3pria Escritura se evidencia que o primeiro exemplar conhecido foi encontrado no tempo do rei Josias, e que esse \'fanico exemplar foi apresentado ao rei pelo secret\'e1rio Saf\'e3. Ora, entre Mois\'e9s e essa aventura do secret\'e1rio Saf\'e3 existem mil cento e sessenta e sete anos pelo c\'f4mputo hebraico. Porquanto Deus apareceu a Mois\'e9s no espinheiro ardente no ano do mundo dois mil duzentos e treze, e o secret\'e1rio Saf\'e3 publicou o Livro da Lei no ano do mundo tr\'eas mil trezentos e oitenta. Esse livro encontrado sob o reinado de Josias foi desconhecido at\'e9 o retorno da sujei\'e7\'e3o a Babil\'f4nia; e diz que foi Esdras, inspirado de Deus, que deu \'e0 luz todas as Santas Escrituras. \

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\par \~\~\~\~\~ Ora, seja Esdras ou outro quem escreveu esse livro, isso \'e9 absolutamente indiferente desde que o livro foi inspirado. N\'e3o est\'e1 dito no Pentateuco que Mois\'e9s tenha sido seu autor; \'e9 pois permitido atribu\'ed- lo a outro homem qualquer, a quem o esp\'edrito divino o ter\'e1 ditado. \

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\par \~\~\~\~\~ Alguns contraditores acrescentam que nenhum profeta citou os livros do Pentateuco, que n\'e3o \'e9 referido nem nos Salmos nem nos livros atribu\'eddos a Salom\'e3o, nem em Jeremias nem em Isa\'edas nem, enfim, em livro can\'f4nico algum. Os termos que respondem aos de G\'eanesis, \'caxodo, N\'fameros, Lev\'edtico, Deuteron\'f4mio, n\'e3o s\'e3o encontrados em nenhum escrito, quer seja do Novo ou do Velho Testamento \

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\par \~\~\~\~\~ Outros mais ousados formularam as seguintes quest\'f5es: \~\~\~\~\~ 1a. - Em que l\'edngua Mois\'e9s teria escrito, estando num deserto selvagem? N\'e3o poderia ter sido sen\'e3o em eg\'edpcio: porque, por esse pr\'f3prio livro, v\'ea- se que Mois\'e9s e todo o seu povo nasceram no Egito. \'c9 prov\'e1vel que n\'e3o falassem outra l\'edngua. Os eg\'edpcios n\'e3o se serviam ainda do papiro, os hier\'f3glifos eram gravados sobre m\'e1rmore ou madeira. Diz- se at\'e9 que as t\'e1buas dos mandamentos foram gravadas sobre pedra. Portanto teria sido necess\'e1rio gravar cinco volumes sobre pedras polidas, o que requereria esfor\'e7os e tempo prodigiosos. \

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\par \~\~\~\~\~ 2a. - \'c9 poss\'edvel que num deserto onde o povo judeu n\'e3o tinha nem sapateiros nem alfaiates, e onde o Deus dos universos foi obrigado a realizar um milagre cont\'ednuo para conservar as velhas roupas e sapatos dos judeus, se tenham encontrado homens suficientemente h\'e1beis para gravar os cinco livros do Pentateuco sobre m\'e1rmore ou madeira? Responder- se- \'e1 que, entretanto, foram encontrados oper\'e1rios capazes de fazer um bezerro de ouro, e que em seguida reduziram o ouro em p\'e1; que constru\'edram um tabern\'e1culo; que o adornaram com trinta e quatro colunas de bronze com capit\'e9is de prata; que urdiram e recamaram v\'e9us de linho, de jacinto, de p\'farpura e escarlate; por\'e9m esses pr\'f3prios fatos fortificam a opini\'e3o dos contraditores. Respondem n\'e3o ser poss\'edvel que, num deserto onde tudo faltava, se houvessem feito obras t\'e3o requintadas; que teria sido preciso come\'e7ar por fazer sapatos e t\'fanicas; que os que carecem do necess\'e1rio n\'e3o se podem entregar ao luxo, e que \'e9 evidente contradi\'e7\'e3o afirmar a exist\'eancia de fundidores, gravadores, escultores, tintureiros, recamadores, quando n\'e3o se tinham nem roupas, nem sand\'e1lias, nem p\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ 3a. - Se Mois\'e9s houvesse escrito o primeiro cap\'edtulo do G\'eanesis, ter- se- ia proibido a todos os jovens a leitura desse primeiro cap\'edtulo? Ter- se- ia respeitado t\'e3o pouco o legislador? Se fosse Mois\'e9s quem disse \

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\par que Deus pune a iniq\'fcidade dos pais at\'e9 a quarta gera\'e7\'e3o, teria Ezequiel dito o contr\'e1rio? \~\~\~\~\~ 4a - Se Mois\'e9s houvesse escrito o Lev\'edtico, poderia ter- se contradito no Deuteron\'f4mio? O Lev\'edtico pro\'edbe casar com as cunhadas, o Deuteron\'f4mio o ordena. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ 5a. - Teria Mois\'e9s falado em seu livro a respeito de cidades que ainda n\'e3o existiam no seu tempo? Teria dito que as cidades que para ele estavam ao oriente do Jord\'e3o, ficavam ao ocidente? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ 6a. - Teria ele registado quarenta e oito cidades lev\'edticas num pa\'eds onde jamais houve dez cidades, e num deserto por onde errou sempre sem ter uma casa? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ 7a.- Teria prescrito regras para os reis de Deus quando n\'e3o s\'f3 n\'e3o existiam reis entre esse povo como, pelo contr\'e1rio, estava ele em estado de completa ru\'edna, sendo prov\'e1vel que nunca os possu\'edsse? Como! Teria Mois\'e9s ditado preceitos para a conduta de reis que n\'e3o vieram sen\'e3o quinhentos anos depois dele, sem nada deixar dito aos juizes e pont\'edfices que o sucederam? Esta reflex\'e3o n\'e3o induz a crer que o Pentateuco foi composto nos tempos dos reis e que as cerim\'f4nias institu\'eddas por Mois\'e9s apenas foram uma tradi\'e7\'e3o? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ 8a. - Como pode ter ele dito aos judeus: "Eu vos fiz sair em n\'famero de 600 mil combatentes da terra do Egito, sob a prote\'e7\'e3o de vosso Deus"? N\'e3o lhe teriam os judeus respondido: "\'c9 preciso que tenhais sido bem t\'edmido para n\'e3o nos atirar contra o fara\'f3 do Egito; ele n\'e3o nos poderia opor um ex\'e9rcito de duzentos mil homens. Jamais o Egito teve tal n\'famero de soldados em p\'e9 de guerra; n\'f3s os ter\'edamos vencido facilmente, ser\'edamos os donos do seu pa\'eds. Como o Deus que vos fala assassinou para nos agradar todos os primog\'eanitos do Egito, e, se houver nesse pa\'eds trezentas mil fam\'edlias, isto faz trezentos mil homens mortos numa noite, a fim de nos vingar; e v\'f3s n\'e3o imitastes o vosso Deus! E v\'f3s n\'e3o nos destes esse pa\'eds f\'e9rtil que ningu\'e9m poderia defender! V\'f3s nos fizestes sair do Egito de m\'e3os a abanar, para fazer que morr\'eassemos nos desertos, entre os precip\'edcios e as montanhas! Ter\'edeis podido, ao menos, conduzir- nos diretamente a essa terra de Cana\'e3 sobre a qual n\'e3o temos direito algum, mas que nos prometestes e na qual ainda n\'e3o pudemos entrar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Era natural que da terra de Gessen march\'e1ssemos para Tiro e Sidon, ao longo do Mediterr\'e2neo; mas v\'f3s nos fizestes passar quase todo o istmo de Suez; v\'f3s nos fizestes penetrar no Egito, quase passar Menfis, e n\'f3s nos encontramos em Beel Sefon, nas margens do Mar Vermelho, voltando as costas \'e0 terra de Cana\'e3, tendo caminhado 80 l\'e9guas nesse Egito que desej\'e1vamos evitar, e enfim prestes a perecer entre o mar e o ex\'e9rcito do fara\'f3! \~\~\~\~\~" Se houv\'e9sseis desejado livrar- nos dos nossos inimigos n\'e3o ter\'edeis tomado outra rota e outras medidas? Deus nos salvou com um milagre: o mar foi aberto para que pass\'e1ssemos; mas, ap\'f3s um tal favor, seria preciso deixar- nos morrer \'e0 fome e \'e0 fadiga nos horr\'edveis desertos de Etam, de Gades Barne, de Mara, de Elim, de Orebe e de Sinai? Todos os nossos pais pereceram nessas solid\'f5es atrozes, e v\'f3s vindes dizer, depois de quarenta anos, que Deus teve um cuidado particular com nossos pais!"? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eis o que esses judeus murmuradores, esses filhos injustos dos judeus vagabundos mortos nos desertos poderiam ter dito a Mois\'e9s se ele lhes houvesse lido o \'caxodo e o G\'eanesis. E o que n\'e3o deveriam eles dizer e fazer a respeito do bezerro de ouro! "Como! Ousais dizer- nos que vosso irm\'e3o fez um bezerro de ouro para nossos pais quando est\'e1veis com Deus na montanha, v\'f3s que ora nos dizeis ter falado com Deus face a face e ora que apenas o vistes pelas costas! Mas, enfim, v\'f3s estivestes com esse Deus e vosso irm\'e3o funde num s\'f3 dia um bezerro de ouro e no- lo d\'e1 para que o adoremos; e, em lugar de \

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\par punir o vosso indigno irm\'e3o, fazeis dele nosso pont\'edfice e ordenais a vossos levitas degolar vinte mil homens do vosso povo! Te- lo- iam sofrido nossos pais? Dizeis- nos que, n\'e3o contente com essa carnificina incr\'edvel, fizestes ainda massacrar vinte e quatro mil dos vossos pobres acompanhantes porque um deles se deitara com uma madianita, quando v\'f3s mesmo desposastes uma madianita; e acrescentais que sois o mais doce de todos os homens! Ainda algumas a\'e7\'f5es dessa do\'e7ura e ningu\'e9m restaria para contar a hist\'f3ria. \

\par \

\par \~\~\~\~\~" N\'e3o, se f\'f4sseis capaz de uma tal crueldade, se a tiv\'e9sseis podido exercer, ser\'edeis o mais b\'e1rbaro de todos os homens, e todos os supl\'edcios seriam insuficientes para expiar um t\'e3o estranho crime" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ S\'e3o essas, pouco mais ou menos, as obje\'e7\'f5es feitas pelos s\'e1bios \'e0queles que julgam Mois\'e9s autor do Pentateuco. Mas responde- se- lhes que os caminhos de Deus n\'e3o s\'e3o os dos homens; quer Deus experimentou, conduziu e abandonou o seu povo por uma sabedoria que nos \'e9 desconhecida; que os pr\'f3prios judeus durante dois mil anos julgaram haver sido Mois\'e9s o autor desses livros; que a igreja, que sucedeu \'e0 sinagoga e que \'e9 infal\'edvel como ela, decidiu esse ponto de controv\'e9rsia, e que os s\'e1bios devem calar- se quando a igreja fala. \

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\par P\'c1TRIA \

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\par \~\~\~\~\~ P\'e1tria \'e9 um conjunto de v\'e1rias fam\'edlias; e, como se sustenta comumente a pr\'f3pria fam\'edlia por amor pr\'f3prio, quando n\'e3o se tem um interesse contr\'e1rio pelo mesmo amor pr\'f3prio se sustenta sua cidade ou sua aldeia que se chama sua p\'e1tria. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quanto mais essa p\'e1tria se torna grande menos \'e9 amada, porque o amor repartido se debilita e \'e9 imposs\'edvel amar enternecidamente uma fam\'edlia muito numerosa, que apenas se conhece. Aquele que se queima na ambi\'e7\'e3o de ser edil, tribuno, pretor, c\'f4nsul, ditador, grita que ama a sua p\'e1tria, e n\'e3o ama sen\'e3o a si pr\'f3prio. Cada qual deseja estar seguro de poder deitar- se, de ter sua cama pr\'f3pria, sem que outro homem se arrogue o poder de o mandar deitar- se alhures; cada um deseja estar seguro de sua fortuna e de sua vida. Todos formam assim os mesmos desejos, e ent\'e3o o interesse particular se transforma em interesse geral: n\'e3o se vota sen\'e3o por si pr\'f3prio quando se vota pela rep\'fablica. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 imposs\'edvel existir sobre a terra um estado que n\'e3o seja governado a princ\'edpio como rep\'fablica: \'e9 a marcha natural da natureza humana. Algumas fam\'edlias se re\'fanem, de in\'edcio, contra os ursos e contra os lobos; a que tem sementes de trigo fornece- as, em troca, \'e0quela que apenas tem lenha. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quando descobrimos a Am\'e9rica encontramos todas as tribos divididas em rep\'fablicas; apenas existiam dois remos em toda essa parte do mundo. De milhares de na\'e7\'f5es somente duas encontramos subjugadas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foi assim, tamb\'e9m, no Velho Mundo; tudo era rep\'fablica na Europa antes dos r\'e9gulos de Etr\'faria e Roma. Encontramos ainda hoje rep\'fablicas na \'c1frica, - Tr\'edpoli, Tunis, Arg\'e9lia, na nossa parte setentrional, s\'e3o rep\'fablicas de bandidos. Os hotentotes do meio dia vivem ainda como se diz que viveram nos primeiros anos do mundo, livres, iguais entre eles, sem senhores, sem submiss\'f5es, sem dinheiro e quase sem necessidades. \

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\par \~\~\~\~\~ A carne de seus carneiros nutre- os, sua pele os veste, cho\'e7as de madeira e de pedra s\'e3o seus ref\'fagios; s\'e3o os mais grosseiros de todos os homens, mas n\'e3o o sentem, vivem e morrem mais docemente do que n\'f3s. \

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\par \~\~\~\~\~ Restam na nossa Europa oito rep\'fablicas sem monarcas: Veneza, Holanda, Su\'ed\'e7a, Genebra, Lucas, Ragusa, G\'eanova e S\'e3o Marinho( 57). Pode- se considerar a Pol\'f4nia, a Su\'e9cia, a Inglaterra como rep\'fablicas sob um rei; mas a Pol\'f4nia \'e9 a \'fanica que usa o seu nome. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pois bem, o que ser\'e1 melhor - que vossa p\'e1tria seja um estado mon\'e1rquico ou um estado republicano? H\'e1 quatro mil anos se discute essa quest\'e3o. Perguntai a solu\'e7\'e3o aos ricos, eles preferem a aristocracia; interrogai o povo, ele quer a democracia: apenas os reis preferem a realeza. Como, portanto, \'e9 poss\'edvel que quase toda a terra seja governada por monarcas? Perguntai- o aos ratos que propuseram pendurar uma campainha no pesco\'e7o do gato (58). Mas, na verdade, a verdadeira raz\'e3o \'e9, como se disse, que os homens s\'e3o mui raramente dignos de se governar por si pr\'f3prios. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 deplor\'e1vel que quase sempre para ser bom patriota deva- se ser inimigo do resto dos homens. O velho Cat\'e3o, esse \'f3timo cidad\'e3o, dizia sempre no senado: "Tal \'e9 minha opini\'e3o, e que se arruine Cartago". Ser bom patriota \'e9 desejar que sua cidade se enrique\'e7a pelo com\'e9rcio e seja poderosa pelas armas. \'c9 claro que um pa\'eds n\'e3o pode ganhar sem que outro perca e que n\'e3o pode vencer sem fazer desgra\'e7ados. \

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\par \~\~\~\~\~ Tal \'e9, pois, a condi\'e7\'e3o humana, que desejar a grandeza do seu pa\'eds \'e9 desejar mal aos seus vizinhos. Aquele que pretendesse que a sua p\'e1tria n\'e3o fosse jamais nem menor nem maior, nem mais rica nem mais pobre, seria o cidad\'e3o do universo. \

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\par PEDRO \

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\par \~\~\~\~\~ Em italiano Piero ou Pietro; em espanhol Pedro; em latim Petrus; em grego Petros; em hebraico Cepha. Por que os sucessores de Pedro tiveram tantos poderes no Ocidente e nenhum no Oriente? \'c9 o mesmo que perguntar por que os bispos de Wurtzburg e de Salzburg se atribu\'edram direitos regalianos nos tempos da anarquia, de passo que os bispos gregos sempre foram s\'faditos. O tempo, a ocasi\'e3o, a ambi\'e7\'e3o de uns e a fraqueza de outros tudo fizeram e far\'e3o neste mundo. \

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\par \~\~\~\~\~ A essa anarquia ajuntou- se a opini\'e3o e a opini\'e3o \'e9 a rainha dos homens. N\'e3o que na realidade tenham uma opini\'e3o bem determinada, mas palavras fazem- lhe as vezes. \

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\par \~\~\~\~\~ Conta- se no Evangelho que Jesus disse a Pedro: "Dar- te- ei as chaves do reino dos c\'e9us." Os partid\'e1rios do bispo de Roma sustentaram, pelo s\'e9culo XI, que quem d\'e1 o mais d\'e1 o menos; que os c\'e9us rodeiam a terra e que Pedro, tendo as chaves do continente, tinha tamb\'e9m as chaves do conte\'fado. Se se entender por c\'e9us todas as estrelas e todos os planetas, \'e9 evidente que, segundo Tom\'e1sio, as chaves dadas a Sim\'e3o Barjone, cognominado Pedro, eram um passaporte. Se se entender por c\'e9us as nuvens, a atmosfera, o \'e9ter, o espa\'e7o em que rolam os planetas, n\'e3o existem serralheiros, segundo Me\'farsio, \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (160 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par capazes de fazer uma chave para essas portas. \~\~\~\~\~ As chaves na Palestina eram uma cavilha de madeira que se ligava a uma correia. Jesus disse a Barjone: - "O que ligares na terra ser\'e1 ligado nos c\'e9us" - Os te\'f3logos do papa conclu\'edram que os papas tinham recebido o direito de ligar e desligar os povos do juramento de fidelidade feito aos seus reis e de dispor ao seu bel prazer de todos os reinos. \'c9 concluir magnificamente. As comunas, nos estados gerais da Fran\'e7a, em 1302 dizem em seu requerimento ao rei que "Bonif\'e1cio VIII era um b... que pensava que Deus prendia e ligava ao c\'e9u o que Bonif\'e1cio ligava na terra". Um famoso luterano da Alemanha (segundo penso, Melanchton) custava um pouco a digerir que Jesus houvesse dito a Sim\'e3o Barjone, Cefa ou Cefas: "Tu \'e9s Pedro e sobre esta pedra construirei o meu templo, minha igreja". N\'e3o podia conceber que Deus tivesse empregado semelhante jogo de palavras, uma agudeza t\'e3o extraordin\'e1ria, e que a pot\'eancia do papa fosse baseada num trocadilho. \

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\par \~\~\~\~\~ Pedro passou por ter sido bispo de Roma; sabe- se por\'e9m que nesse tempo e muito depois n\'e3o houve bispo algum particular. A sociedade crist\'e3 s\'f3 tomou forma em fins do segundo s\'e9culo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Pode ser que Pedro tenha feito a viagem a Roma; pode ser, tamb\'e9m, que tenha sido posto na cruz, com a cabe\'e7a para baixo, n\'e3o obstante n\'e3o ser esse o costume; n\'e3o h\'e1, por\'e9m, prova alguma de tudo isso. Temos uma carta firmada por ele, na qual diz estar em Babil\'f4nia: alguns canonistas judiciosos pretenderam que por Babil\'f4nia se deveria entender Roma. Assim, supondo- se que ele a tenha datado de Roma, poder- se- ia concluir que a carta foi escrita em Babil\'f4nia. Durante muito tempo tiraram- se conclus\'f5es iguais e \'e9 assim que o mundo foi governado. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Em Roma pagou- se regiamente a um santo homem por uma sim\'f4nia; perguntaram- lhe se acreditava em que Sim\'e3o Pedro estivera no pa\'eds; respondeu: "N\'e3o vejo que Pedro a\'ed tenha estado, mas Sim\'e3o, tenho a certeza"( 59). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Quanto \'e0 pessoa de Pedro, \'e9 preciso levar em considera\'e7\'e3o que Paulo n\'e3o \'e9 o \'fanico que se escandalizou pela sua conduta; foi contestado face a face, ele e seus sucessores. Esse Paulo reprovava- lhe acremente o comer carnes. proibidas, isto \'e9, porco, presunto, lebre, enguia, ixi\'e3o e Pedro defendeu- se dizendo que vira o c\'e9u abrir- se na sexta hora proximamente, e uma grande toalha que descia dos quatro cantos do c\'e9u, a qual estava repleta de enguias, de quadr\'fapedes e p\'e1ssaros, e que a voz de um anjo gritara: "Matai e comei". \'c9, segundo as apar\'eancias, essa mesma voz que gritou a tantos pont\'edfices: "Matai tudo e: comei a subst\'e2ncia do povo", diz Wollaston. \

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\par \~\~\~\~\~ Casaubon n\'e3o podia aprovar a maneira por que Pedro tratou o bom Ananias e Safira, sua mulher. Com que direito, diz Casaubon, um judeu escravo dos romanos pende ordenar ou admitir que todos os que acreditassem em Jesus deveriam vender suas herdades e trazer o resultado de sua venda a seus p\'e9s? Se algum anabatista, em Londres ordenasse a mesma coisa a seus irm\'e3os, n\'e3o seria preso como sedutor sedicioso, como ladr\'e3o que n\'e3o se deixaria de enviar a Tyburn? N\'e3o \'e9 horr\'edvel fazer Ananias morrer porque, tendo vendido seus fundos e dado o dinheiro a Pedro, reteve para si e sua mulher alguns escudos a fim de n\'e3o morrer de fome? Apenas Ananias foi morto, sua mulher chegou. Pedro, em vez de adverti- la caridosamente de que acabava de matar seu marido de apoplexia por haver guardado alguns \'f3bulos e de lha recomendar que tomasse cuidado consigo pr\'f3pria,. deixa- a cair numa armadilha. Pergunta- lhe se seu marido deu todo seu dinheiro aos santos. A boa mulher responde que sim e recebe morte instant\'e2nea. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (161 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par Isso \'e9 duro. \~\~\~\~\~ Conr\'edngio pergunta por que Pedro, que matou assim esses que lhe deram todos os seus bens, n\'e3o mandou antes matar todos os doutores que fizeram Jesus Cristo morrer e que o fustigaram a ele pr\'f3prio mais de uma vez? O' Pedro! fazeis morrer dois crist\'e3os que vos deram sua esmola e deixais viver aqueles que crucificaram vosso Deus! \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Por muito que pare\'e7a que Conr\'edngio n\'e3o estava em pa\'eds de inquisi\'e7\'e3o ao fazer esses quesitos ousados, Erasmo, a prop\'f3sito de Pedro, acentuou uma coisa bem singular: que o chefe da religi\'e3o crist\'e3 come\'e7ou seu apostolado por renegar Jesus Cristo, e que o primeiro pont\'edfice dos judeus come\'e7ara seu minist\'e9rio por construir um bezerro de ouro e ador\'e1- lo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Seja como for, Pedro nos \'e9 descrito como um pobre que catequizava pobres. Ele se parece com esses fundadores de ordens que viviam na indig\'eancia e cujos sucessores se tornaram grandes senhores. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O papa, sucessor de Pedro, ora ganhou, ora perdeu; mas ainda lhe restam cinq\'fcenta milh\'f5es de homens mais ou menos sobre a terra, submissos em muitos pontos \'e0s suas leis, al\'e9m de seus s\'fadito imediatos. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ter um senhor a trezentas ou quatrocentas l\'e9guas da pr\'f3pria casa; esperar para pensar que esse homem tenha parecido pensar; n\'e3o ousar julgar em \'faltimo recurso um processo entre alguns de seus concidad\'e3os atendendo \'e0s comiss\'e1rios nomeados por esse estrangeiro; n\'e3o ousar tomar posse dos campos e das vinhas que se obtiveram do pr\'f3prio rei sem pagar uma soma consider\'e1vel a esse senhor estrangeiro; violar as leis de seu pa\'eds que pro\'edbem desposar uma sobrinha, e casar com ela legitimamente pagando a esse senhor estrangeiro uma soma ainda mais consider\'e1vel; n\'e3o ousar cultivar seu campo no dia em que esse estrangeiro quer que se celebre a mem\'f3ria de um desconhecido que ele instalou no c\'e9u por sua pr\'f3pria conta; \'e9 isso mais ou menos o que significa admitir um papa; s\'e3o essas as liberdades da igreja galicana. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 alguns outros povos que levam ainda mais longe sua submiss\'e3o. Vimos em nossos dias um soberano (60) solicitar ao papa a permiss\'e3o de fazer julgar pelo seu real tribunal alguns monges acusados de parric\'eddio, n\'e3o obter tal permiss\'e3o e n\'e3o ousar cumprir o julgamento. \~\~\~\~\~ Sabe- se perfeitamente que outrora os direitos dos papas iam mais longe; estavam colocados muito acima dos deuses da antig\'fcidade; pois esses deuses passavam por dispor dos imp\'e9rios, e os papas dispunham deles de fato. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Disse Esturbino que se pode perdoar \'e0queles que duvidam da divindade e da infalibilidade do papa quando se reflete: \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que quarenta cismas profanaram o p\'falpito de S. Pedro e vinte e sete o ensang\'fcentaram; \~\~\~\~\~ Que Estev\'e3o VII, filho de um padre, desenterrou o corpo de Formoso, seu predecessor, e fez cortar a cabe\'e7a do cad\'e1ver; \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Que S\'e9rgio III, r\'e9u convicto de assassinato, teve um filho de Mar\'f3zia, o qual herdou do papado; \

\par \

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\par \~\~\~\~\~ Que Jo\'e3o X, amante de Teodora, foi estrangulado em seu leito; \~\~\~\~\~ Que Jo\'e3o XI, filho de S\'e9rgio III, foi c\'e9lebre pela sua devassid\'e3o; \~\~\~\~\~ Que Jo\'e3o XII foi assassinado em casa da amante; \~\~\~\~\~ Que Benedito IX, comprou e revendeu o pontificado; \~\~\~\~\~ Que Greg\'f3rio VII foi o autor de quinhentos anos de guerras civis sustentadas por seus sucessores; \~\~\~\~\~ Que enfim, entre tantos papas ambiciosos, sanguin\'e1rios e devassos, houve um, Alexandre VI, cujo nome \'e9 pronunciado com o mesmo horror que os de Nero e Cal\'edgula. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 uma prova, diz- se, da divindade de seus caracteres, o terem subsistido a tantos crimes; mas se os califas tivessem tido uma conduta ainda mais afrontosa, teriam ent\'e3o sido ainda mais divinos. \'c9 assim que arrazoa D\'e9rmio; por\'e9m os jesu\'edtas lhe responderam. \

\par \

\par PRECONCEITOS \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O preconceito \'e9 uma opini\'e3o sem julgamento. Assim em toda a terra inspiram- se \'e0s crian\'e7as todas as opini\'f5es que se desejam antes que elas as possam julgar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Existem preconceitos universais, necess\'e1rios, e que representam a pr\'f3pria virtude. Por toda parte ensina- se \'e0s crian\'e7as reconhecer um Deus remunerador e vingador; a respeitar, a amar seu pai e sua m\'e3e; a considerar o roubo como um crime, a mentira interessada como um v\'edcio, antes que elas possam adivinhar o que vem a ser um v\'edcio e uma virtude. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ H\'e1 pois \'f3timos preconceitos: s\'e3o os que o julgamento ratifica quando se raciocina. \~\~\~\~\~ Sentimento n\'e3o \'e9 mero preconceito, \'e9 alguma coisa muito mais forte. Uma m\'e3e n\'e3o ama a seu filho porque se lhe disse que o deve amar; ela o quer extremosamente mesmo contra sua vontade. N\'e3o \'e9 absolutamente por preconceito que correis em socorro de uma crian\'e7a desconhecida prestes a cair num precip\'edcio ou a ser devorada por uma fera. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 por\'e9m por preconceito que respeitareis um homem revestido de certos h\'e1bitos, andando gravemente, falando da mesma forma. Vossos pais vos disseram que dev\'edeis inclinar- vos diante desse homem: v\'f3s o respeitais antes de saber se merece vossos respeitos; cresceis em idade e conhecimentos percebeis que esse homem \'e9 um charlat\'e3o empedernido de orgulho, de interesse e artif\'edcio; desprezais o que reverenci\'e1veis, e o preconceito cede lugar ao julgamento. Acreditastes por preconceito nas f\'e1bulas com que embalaram vossa inf\'e2ncia; disseram- vos que os tit\'e3s moveram guerra aos deuses e que V\'eanus foi amante de Ad\'f3nis; aos doze anos tomastes tais f\'e1bulas por verdades, agora, aos vinte anos, como alegorias engenhosas. \

\par \

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\par \~\~\~\~\~ Examinemos em poucas palavras as diferentes esp\'e9cies de preconceitos, a fim de p\'f4r nossos neg\'f3cios em ordem. Seremos, talvez, como aqueles que, no tempo do sistema de Law, perceberam que tinham calculado riquezas imagin\'e1rias. \

\par \

\par Preconceitos dos sentidos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o \'e9 curioso que nossos olhos nos enganem sempre, mesmo quando temos a melhor vista do mundo, e que ao contr\'e1rio nossos ouvidos n\'e3o nos enganem nunca? Se vosso ouvido bem conformado ouvir: " Sois bela, eu vos amo," estais bem certa de que n\'e3o vos disseram - "Odeio- vos, sois feia". Mas vedes um espelho liso: est\'e1 demonstrado que vos enganais, \'e9 uma superf\'edcie muito desigual. Vedes o Sol com mais ou menos dois p\'e9s de di\'e2metro: est\'e1 demonstrado que ele \'e9 um milh\'e3o de vezes maior do que a Terra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Parece que Deus tenha posto a verdade em vossos ouvidos e o erro em vossos olhos; estudai por\'e9m a \'f3tica, vereis que Deus n\'e3o vos enganou de forma alguma, e que \'e9 imposs\'edvel que os objetos vos pare\'e7am diferentes do que os podeis ver no estado presente das coisas. \

\par \

\par Preconceitos f\'edsicos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O Sol se ergue, a Lua tamb\'e9m, a Terra est\'e1 im\'f3vel: - eis a\'ed preconceitos f\'edsicos naturais. Mas que as lagostas sejam boas para o sangue, pois estando cozidas s\'e3o vermelhas como ele; que as enguias curem a paralisia, pois se agitam; que a Lua influa nas nossas doen\'e7as, pois um dia observou- se que um doente teve um aumento de febre durante o curso da Lua: essas id\'e9ias, e milhares de outras, s\'e3o erros de velhos charlat\'e3es, que julgaram sem raciocinar e que, enganando- se, enganaram os outros. \

\par \

\par Preconceitos hist\'f3ricos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ A maioria das hist\'f3rias foram cridas sem exame, e essa cren\'e7a \'e9 um preconceito. F\'e1bio Pictor relata que, muitos s\'e9culos antes dele, uma vestal da cidade de Alba, indo buscar \'e1gua com o seu c\'e2ntaro, foi violada e deu \'e0 luz a R\'f4mulo e Remo, que eles foram nutridos por uma loba, etc. O povo romano acreditou nessa f\'e1bula; n\'e3o perdeu tempo em examinar se naqueles tempos existiam vestais no L\'e1cio, se era poss\'edvel que a filha de um rei sa\'edsse de seu convento com seu c\'e2ntaro, se era prov\'e1vel que uma loba amamentasse dois meninos em vez de os comer como fazem todos os lobos. Estabelece- se ent\'e3o o preconceito. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Um monge escreveu que Clovis, estando num grande perigo na batalha de Tolbiac, fez voto de se tornar crist\'e3o se conseguisse escapar; \'e9 por\'e9m natural que uma pessoa se dirija a um deus estrangeiro em \

\par \

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\par tal ocasi\'e3o? N\'e3o \'e9 precisamente num momento desses que a religi\'e3o na qual se nasceu age mais fortemente? Qual \'e9 o crist\'e3o que, numa batalha contra os turcos, n\'e3o se dirigir\'e1 antes \'e0 Santa Virgem que a Mafoma? Acrescenta- se que um p\'e1ssaro levou a santa ampola em seu bico a fim de ungir Clovis e que um anjo trouxe a aurifl\'e2mula para o conduzir. O preconceito cr\'ea em todas as historietas desse g\'eanero. Os que conhecem a natureza humana sabem que o usurpador Clovis e o usurpador Rol\'e3o ou Rol se tornaram crist\'e3os para governar mais seguramente a crist\'e3os, como os usurpadores turcos se tornaram mu\'e7ulmanos para governar mais seguramente os mu\'e7ulmanos. \

\par \

\par Preconceitos religiosos \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se vossa sina vos contou que Ceres preside ao trigo ou que Vichn\'fa e Xaca se transformaram em homens v\'e1rias vezes, ou que Samonocodom veio destruir uma floresta, ou que Odin vos espera em sua sala l\'e1 na Jutl\'e2ndia, ou que Mafoma ou outro qualquer fez uma viagem ao c\'e9u; enfim se vosso preceptor vem em seguida refundar em vosso c\'e9rebro o que vossa ama a\'ed gravou, tendes com que vos divertir para o resto da vida. Vosso julgamento quer elevar- se contra tais preconceitos; vossos vizinhos, e sobretudo vossas vizinhas, berram contra a impiedade, e vos assustam; vosso derv\'eds, temendo ver diminu\'eddas as suas rendas, denuncia- vos ao cadi, e esse cadi vos manda empalar se o puder, porquanto o seu desejo \'e9 mandar sobre idiotas, e cr\'ea que os idiotas obedecem melhor do que os outros. E esse estado de coisas durar\'e1 at\'e9 que vossos vizinhos e o derv\'eds e o cadi comecem a compreender que a cretinice n\'e3o serve para coisa alguma e que a persegui\'e7\'e3o \'e9 abomin\'e1vel. \

\par \

\par RELIGI\'c3O Primeira quest\'e3o \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O bispo de Glocester, Warburton, autor de uma das mais s\'e1bias obras que j\'e1 se escreveram, assim se exprime, p\'e1gina 8, tomo 1o.: \~\~\~\~\~" Uma religi\'e3o, uma sociedade que n\'e3o est\'e1 fundada sobre a cren\'e7a numa outra vida deve ser sustida por uma provid\'eancia extraordin\'e1ria. O juda\'edsmo n\'e3o est\'e1 fundado sobre a cren\'e7a numa outra vida; portanto o juda\'edsmo foi sustido por uma provid\'eancia extraordin\'e1ria". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios te\'f3logos se ergueram contra ele; e como se retorquem todos os argumentos, retorquiram o seu; disseram- lhe: \

\par \

\par \~\~\~\~\~" Toda religi\'e3o que n\'e3o estiver baseada sobre o dogma da imortalidade da alma e sobre as penas e recompensas eternas \'e9 necessariamente falsa; ora, o juda\'edsmo n\'e3o conheceu esses dogmas; portanto o juda\'edsmo, longe de ser sustido pela Provid\'eancia, era, segundo vossos princ\'edpios, uma religi\'e3o falsa e b\'e1rbara que atacava a Provid\'eancia". \

\par \

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\par \

\par \~\~\~\~\~ Esse bispo teve alguns advers\'e1rios que lhe afirmaram que a imortalidade da alma era conhecida entre os judeus, nos pr\'f3prios tempos de Mois\'e9s; ele lhes provou por\'e9m mui evidentemente que nem o Dec\'e1logo, nem o Lev\'edtico, nem o Deuteron\'f4mio tinham uma \'fanica palavra a respeito dessa cren\'e7a, e que \'e9 rid\'edculo pretender turvar e corromper algumas passagens dos outros livros para concluir da\'ed uma verdade que n\'e3o est\'e1 absolutamente anunciada no livro da lei. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O senhor bispo, tendo escrito quatro volumes para demonstrar que a lei judaica n\'e3o propunha nem penas nem recompensas depois da morte, jamais p\'f4de responder a seus advers\'e1rios de maneira satisfat\'f3ria. Estes lhe diziam: "Ou Mois\'e9s conhecia esse dogma e ent\'e3o enganou os judeus n\'e3o o manifestando; ou ignorava- o, e nesse caso n\'e3o tinha conhecimentos suficientes para formar uma boa religi\'e3o. Com efeito, se a religi\'e3o fosse boa, por que teria sido abolida? Uma religi\'e3o verdadeira deve ser para todos os tempos e todos os lugares; ela dever\'e1 ser como a luz do Sol que ilumina todos os povos e todas as gera\'e7\'f5es". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Esse prelado, por esclarecido que fosse, teve muito trabalho em se livrar de todas essas dif\'edceis proposi\'e7\'f5es; por\'e9m qual o sistema isento de dificuldades! \

\par \

\par Segunda quest\'e3o \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Outro s\'e1bio muito mais filos\'f3fico, que \'e9 um dos mais profundos de nossos dias, apresenta fortes raz\'f5es para provar que o polite\'edsmo foi a primeira religi\'e3o dos homens, e que se come\'e7ou por crer em v\'e1rios deuses antes que a raz\'e3o fosse suficientemente esclarecida para n\'e3o reconhecer sen\'e3o um Ente Supremo. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Ouso crer, ao contr\'e1rio, que se principiou por reconhecer um \'fanico Deus, e que em seguida a fraqueza humana adotou v\'e1rios deles; e eis como concebo a coisa: \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 indubit\'e1vel haverem existido burgos antes que se constru\'edssem grandes cidades, e que todos os homens foram divididos em rep\'fablicas antes de ser reunidos em grandes imp\'e9rios. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 bem natural que um burgo atemorizado pelo trov\'e3o, afligido pela perda de suas colheitas, maltratado pelo burgo vizinho, sentindo todos os dias a pr\'f3pria fraqueza, pressentindo por toda parte um poder invis\'edvel, tenha terminado por dizer: "Existe algum ser acima de n\'f3s que nos causa bens e males". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Parece- me imposs\'edvel que tenha dito: "H\'e1 dois poderes". Por que v\'e1rios? Principia- se sempre pelo simples, em seguida vem o composto e ami\'fade, enfim, volta- se ao simples merc\'ea de luzes superiores. Tal \'e9 a marcha do esp\'edrito humano. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Qual \'e9 esse ente que se teria invocado a princ\'edpio? Seria o Sol? Seria a Lua? N\'e3o creio. Examinemos o que se passa entre as crian\'e7as; representam mais ou menos o que s\'e3o os homens ignorantes. N\'e3o percebem a beleza nem a utilidade do astro que anima a natureza, nem os socorros que a Lua nos presta, nem as varia\'e7\'f5es regulares do seu curso; n\'e3o o pensam, est\'e3o muito acostumadas a todas essas coisas. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (166 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par N\'e3o se adora, n\'e3o se cr\'ea sen\'e3o aquilo que se teme; todas as crian\'e7as olham para o c\'e9u com indiferen\'e7a; mas estruja o trov\'e3o e elas tremer\'e3o, ir\'e3o se esconder. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Sem d\'favida, os primeiros homens agiram de forma id\'eantica. Apenas umas esp\'e9cies de fil\'f3sofos que assinalaram o curso dos astros ensinaram tamb\'e9m a admira\'e7\'e3o e adora\'e7\'e3o; os cultivadores simples e sem luz alguma n\'e3o conheciam o bastante para perfilhar t\'e3o nobre erro. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Portanto, uma aldeia ter- se- \'e1 limitado a dizer: "H\'e1 uma pot\'eancia que troveja, que atira neve sobre n\'f3s, que faz morrer nossos filhos: acalmemo- la; mas como? Vemos que acalmamos com pequenos presentes a c\'f3lera das pessoas irritadas: fa\'e7amos pois pequenos presentes a essa pot\'eancia. \'c9 tamb\'e9m preciso dar- lhe um nome. O primeiro que se oferece \'e9 o de Chefe, Dono, Senhor; essa pot\'eancia \'e9 pois chamada Senhor. \'c9 provavelmente a raz\'e3o pela qual os primeiros eg\'edpcios chamaram ao seu deus Knef; os s\'edrios, Adonai; os povos vizinhos, Baal ou Bel, ou Melch, ou Moloch; os citas, Papeu: palavras que significam Senhor, Mestre. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foi assim que se encontrou quase toda a Am\'e9rica dividida numa multid\'e3o de pequenas popula\'e7\'f5es, tendo todas seu deus protetor. Os pr\'f3prios mexicanos, os peruvianos, que eram grandes na\'e7\'f5es, tinham apenas um deus: uns adoravam Manco Capaque, outros o deus da guerra. Os mexicanos davam ao seu deus guerreiro o nome de Vitzlipufzli, assim como os hebreus haviam cognominado o seu senhor de Sabaoth. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o \'e9 por uma raz\'e3o superior e cultivada que todos os povos come\'e7aram a reconhecer uma \'fanica divindade. Se tivessem sido fil\'f3sofos, teriam adorado o deus de toda a natureza, e n\'e3o o deus de uma aldeia; teriam examinado essas rela\'e7\'f5es infinitas de todos os seres, que provam um ente criador e conservador; por\'e9m eles n\'e3o examinaram nada, eles sentiram. A\'ed est\'e1 o progresso de nosso fr\'e1gil entendimento; cada burgo sentiu sua fraqueza e a necessidade de um forte protetor. Imaginou esse ser tutelar e terr\'edvel residindo na floresta vizinha, ou na montanha, ou numa nuvem. Apenas imaginou um s\'f3 deus, pois o burgo n\'e3o tinha sen\'e3o um chefe na guerra. Imaginou- o corporal, porque era imposs\'edvel figur\'e1- lo de outra forma. N\'e3o podia crer que o burgo vizinho n\'e3o tivesse tamb\'e9m o seu deus. Eis por que Jeft\'e9 disse aos habitantes de Moabe: "Possu\'eds legitimamente o que vosso deus Camos vos fez conquistar; deveis deixar- nos gozar dos bens que nosso deus nos concedeu por suas vit\'f3rias"( 61). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Tais palavras ditas por um estrangeiro a outros estrangeiros s\'e3o not\'e1veis. Os judeus e os moabitas tinham desapossado os naturais do pa\'eds; uns e outros apenas tinham o direito da for\'e7a, e uns disseram aos outros: - "Vosso Deus vos protegeu em vossa usurpa\'e7\'e3o, tolerai agora que nosso Deus nos proteja na nossa". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Jeremias e Amos perguntaram um ao outro "que raz\'e3o teve o deus Melcom para se apoderar do pa\'eds de Gade". Parece evidente, por essas passagens, que a antiguidade atribu\'eda a cada pa\'eds um Deus protetor. Encontram- se ainda hoje vest\'edgios dessa teologia em Homero. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ \'c9 bem natural que havendo- se aquecido a imagina\'e7\'e3o dos homens e tendo seu esp\'edrito adquirido conhecimentos confusos, tenham eles multiplicado seus deuses, e estipulado protetores para os elementos, mares, florestas, fontes, campos. Quanto mais examinaram os astros, mais foram feridos pela admira\'e7\'e3o. Poder- se- \'e1 n\'e3o adorar o Sol, quando se adora a divindade de um ribeiro? Desde que o \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (167 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par primeiro passo foi dado, a terra em breve foi coberta de deuses; e enfim desce- se dos astros aos gatos e \'e0s cebolas. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Entretanto \'e9 preciso que a raz\'e3o se aperfei\'e7oe; o tempo forma, enfim, os fil\'f3sofos que percebem que nem as cebolas, nem os gatos, nem mesmo os astros concertaram a ordem da natureza. Todos esses fil\'f3sofos babil\'f4nicos, persas, eg\'edpcios, citas, gregos e romanos admitem um Deus supremo remunerador e vingador. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Eles n\'e3o o dizem a princ\'edpio ao povo: pois quem falasse mal das cebolas e dos gatos diante das velhas e dos padres teria sido lapidado; quem quer que reprochasse aos eg\'edpcios o fato de comerem os seus deuses, acabaria sendo ele pr\'f3prio devorado, como, de feito, Juvenal nos relata que um eg\'edpcio foi morto e comido completamente cru numa disputa de controv\'e9rsia (62). \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Mas que se fez? Orfeu e outros estabeleceram mist\'e9rios, que os iniciados prometeram mediante juramentos execr\'e1veis nunca revelar, e o principal desses mist\'e9rios \'e9 a adora\'e7\'e3o de um \'fanico Deus. Essa grande verdade penetra metade da terra; o n\'famero dos iniciados torna- se imenso. \'c9 verdade que a antiga religi\'e3o sempre subsistiu; mas, como n\'e3o \'e9 contr\'e1ria ao dogma da unidade de Deus, deixa- se que subsista. E por que aboli- la? Os romanos reconhecem o Deus optimus maximus; os gregos t\'eam o seu Zeus, seu Deus supremo. Todas as outras divindades s\'e3o apenas intermedi\'e1rias: imperadores e reis s\'e3o instalados no posto de deuses, isto \'e9, de bem- aventurados; \'e9 por\'e9m certo que Cl\'e1udio, Ot\'e1vio, Tib\'e9rio e Cal\'edgula n\'e3o s\'e3o considerados como criadores do c\'e9u e da terra. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Numa palavra, parece provado que, no tempo de Augusto, todos os que tivessem uma religi\'e3o reconheciam um Deus superior, eterno, e v\'e1rias ordens de deuses secund\'e1rios, cujo culto foi chamado mais tarde idolatria. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os judeus jamais foram id\'f3latras: porque, n\'e3o obstante terem admitido alguns malakhim, anjos, seres celestes de uma categoria inferior, sua lei n\'e3o ordenava de forma alguma que tais divindades secund\'e1rias tivessem culto entre eles. Adoravam os anjos, \'e9 verdade, isto \'e9, prostravam- se diante deles quando bem entendiam; mas, como isto n\'e3o sucedia com freq\'fc\'eancia, n\'e3o havia cerimonial nem culto estabelecido para eles. Os querubins da arca n\'e3o recebiam homenagem alguma. Era costume adorarem os judeus abertamente um \'fanico Deus, assim como a multid\'e3o inumer\'e1vel dos iniciados o adoravam secretamente em seus mist\'e9rios. \

\par \

\par Terceira quest\'e3o \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Foi ao tempo em que o culto de um Deus supremo estava universalmente estabelecido na opini\'e3o de todos os s\'e1bios, na \'c1sia, na Europa e na \'c1frica, que a religi\'e3o crist\'e3 nasceu e se desenvolveu. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O platonismo auxiliou bastante a compreens\'e3o de tais dogmas. O Logos, que para Plat\'e3o significava a sapi\'eancia, a raz\'e3o do Ser Supremo, tornou- se em nossos tempos o Verbo e uma segunda pessoa de Deus. Uma metaf\'edsica profunda e acima da intelig\'eancia humana foi um santu\'e1rio inacess\'edvel no qual se desenvolveu a religi\'e3o. \

\par \

\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (168 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o procuremos repetir aqui como Maria foi declarada m\'e3e de Deus, como se estabeleceu a consubstancialidade do Pai e do Verbo e a process\'e3o do Pneuma, \'f3rg\'e3o divino do divino Logos, duas naturezas e duas vontades resultantes da hip\'f3stase, e enfim a manduca\'e7\'e3o superior, a alma nutrida tal como o corpo dos membros e do sangue do Homem- Deus adorado e comido sob a forma do p\'e3o, presente aos olhos, sens\'edvel ao paladar, e contudo anulado. Todos os mist\'e9rios foram sublimes. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Come\'e7ou- se, desde o segundo s\'e9culo, por esconjurar os dem\'f4nios em nome de Jesus; depois se expulsavam em nome de Jeov\'e1 ou Ihaho: pois conta S. Mateus que tendo os inimigos de Jesus dito que ele esconjurava os dem\'f4nios em nome do pr\'edncipe dos dem\'f4nios, ele lhes respondeu: "Se \'e9 por Belzeb\'fa que eu esconjuro os dem\'f4nios, em nome de quem o fazem vossos filhos?" \

\par \

\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se sabe em que tempo os judeus reconheceram por pr\'edncipe dos dem\'f4nios a Belzeb\'fa, que era um Deus estrangeiro; sabe- se por\'e9m (e \'e9 Jos\'e9 quem no- lo diz) que havia em Jerusal\'e9m exorcistas especiais para esconjurar os dem\'f4nios dos corpos dos possessos, isto \'e9, dos homens atacados de doen\'e7as singulares, as quais se atribu\'edam ent\'e3o em grande parte da terra a g\'eanios malfeitores. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Exconjuravam- se pois os dem\'f4nios com a verdadeira pronuncia\'e7\'e3o de Jeov\'e1 hoje perdida, e com outras cerim\'f4nias esquecidas hoje em dia. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Esse exorcismo por Jeov\'e1 ou outros nomes de Deus estava ainda em uso nos primeiros s\'e9culos da igreja. Or\'edgenes, disputando contra Celso, diz- lhe, no. 262: "Se, invocando Deus ou jurando em seu nome, chamam- no o Deus de Abra\'e3o, de Isaque e de Jac\'f3, alguma coisa h\'e1 de haver nesses nomes, cuja natureza e for\'e7a s\'e3o tais que os dem\'f4nios se submetem a quem os pronuncia; mas se o chamamos com outro qualquer nome, como Deus do mar ardente, suplantador, esses nomes n\'e3o ter\'e3o virtude. O nome de Israel traduzido em grego nada operar\'e1; pronunciai- o por\'e9m em hebreu, com os outros termos necess\'e1rios, e imediatamente operareis a conjura\'e7\'e3o". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ O pr\'f3prio Or\'edgenes, no n\'famero 19, diz estas palavras not\'e1veis: "H\'e1 nomes que t\'eam uma virtude natural, como os que empregam os s\'e1bios entre os eg\'edpcios, os magos da P\'e9rsia, os br\'e2manes da \'cdndia. O que chamamos magia n\'e3o \'e9 uma arte v\'e3 e quim\'e9rica, tal como o pretendem os est\'f3icos e os epicuristas: nem o nome de Sabaote nem o de Adonai foram feitos para seres criados; mas pertencem a uma teologia misteriosa que se liga ao Criador; de l\'e1 vem a virtude desses nomes quando coordenados e pronunciados segundo as regras, etc.". \

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\par \~\~\~\~\~ Assim falando Or\'edgenes n\'e3o apresenta seu sentimento particular: exprime a opini\'e3o universal. Todas as religi\'f5es ent\'e3o conhecidas admitiam uma esp\'e9cie de magia; distinguia- se a magia celeste e a magia infernal, a necromancia e a teurgia: tudo a\'ed era prod\'edgio, adivinha\'e7\'e3o, or\'e1culo. Os persas n\'e3o negavam os milagres dos eg\'edpcios, nem os eg\'edpcios os dos persas; Deus permitiu que os primeiros crist\'e3os fossem persuadidos dos or\'e1culos atribu\'eddos \'e0s sibilas, e lhes deixou ainda alguns erros pouco importantes, que n\'e3o corrompiam o fundamento da religi\'e3o. \

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\par \~\~\~\~\~ Coisa grandemente not\'e1vel \'e9 que os crist\'e3os dos dois primeiros s\'e9culos votavam o maior horror aos templos, aos altares e \'e0s imagens. \'c9 o que diz Or\'edgenes, no. 374. Tudo mudou depois com a disciplina, quando a igreja recebeu uma forma constante. \

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\par Quarta quest\'e3o \

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\par \~\~\~\~\~ Desde que uma religi\'e3o \'e9 legalmente estabelecida num estado, todos os tribunais se ocupam imediatamente de impedir que se modifiquem a maioria dos atos praticados nessa religi\'e3o antes de ter sido publicamente acatada. Os fundadores reuniam- se secretamente apesar dos magistrados; hoje n\'e3o se permitem as assembl\'e9ias p\'fablicas sen\'e3o sob os olhos da lei, e todas as associa\'e7\'f5es que se afastarem dela s\'e3o proibidas. A antiga m\'e1xima era que \'e9 melhor obedecer a Deus do que seguir as leis do estado. Apenas se ouvia falar em obsess\'f5es e possess\'f5es, o diabo andava \'e0 solta na terra: j\'e1 hoje o diabo n\'e3o sai de sua morada. Os prod\'edgios, as profecias, eram necess\'e1rias ent\'e3o: j\'e1 n\'e3o se admitem. Um homem que profetizasse calamidades nas pra\'e7as p\'fablicas seria metido num manic\'f4mio. Os fundadores recebiam secretamente dinheiro dos fi\'e9is; um homem que recolhesse hoje dinheiro para dele dispor sem ser autorizado pela lei teria que responder perante a justi\'e7a. Assim, est\'e3o completamente fora de uso todos os caibros que serviram para construir o edif\'edcio. \

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\par Quinta quest\'e3o \

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\par \~\~\~\~\~ Depois da nossa santa religi\'e3o, que sem d\'favida alguma \'e9 a \'fanica boa, qual ser\'e1 a menos m\'e1? \~\~\~\~\~ N\'e3o seria a mais simples? N\'e3o seria aquela que ensinasse muita moral e pouqu\'edssimos dogmas? a que tendesse a tornar os homens justos sem os tornar absurdos? a que n\'e3o ordenasse absolutamente crer em coisas imposs\'edveis, contradit\'f3rias, injuriosas \'e0 Deidade e perniciosas ao g\'eanero humano, e que n\'e3o ousasse amea\'e7ar com as penas eternas os que tivessem o senso comum? N\'e3o seria aquela que n\'e3o sustentasse sua cren\'e7a por interm\'e9dio de tribunais nem inundasse a terra de sangue por causa de sofismas inintelig\'edveis? aquela que de um equ\'edvoco, um jogo de palavras e duas ou tr\'eas cartas sobrepostas n\'e3o fizesse um soberano, e um Deus de um padre freq\'fcentemente incestuoso, homicida e envenenador? a que n\'e3o submetesse os reis a esse padre? a que n\'e3o ensinasse sen\'e3o a adora\'e7\'e3o de um Deus, a justi\'e7a, a toler\'e2ncia e a humanidade? \

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\par Sexta quest\'e3o \

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\par \~\~\~\~\~ Diz- se que a religi\'e3o dos gentios era absurda em muitos pontos, contradit\'f3ria, perniciosa; mas n\'e3o se lhe teriam imputado maiores males do que na realidade praticou, e mais tolices do que pregou? \

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\par \~\~\~\~\~" Pois em ver J\'fapiter mudado em touro, - serpente, mono ou outra coisa qualquer, - nada de belo encontro - nem me admirar\'e1 se suceder". (Pr\'f3logo de Anf\'edtrion). \

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\par \~\~\~\~\~ Sem d\'favida isto \'e9 muito impertinente; mostrem- me, por\'e9m, em toda a antig\'fcidade um templo dedicado a Leda deitando com um mono ou com um touro. Houve em Atenas ou Roma algum serm\'e3o \

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\par para encorajar as mo\'e7as a fazer crian\'e7as com os macacos do seu p\'e1tio? As f\'e1bulas recolhidas e ornadas por Ov\'eddio constituem a religi\'e3o? N\'e3o se parecem elas \'e0 nossa Lenda Dourada, \'e0 nossa Flor dos Santos? Se algum br\'e2mane ou dervis nos viesse objetar a hist\'f3ria de Santa Maria egipciana, a qual, n\'e3o tendo com que pagar aos marinheiros que a conduziram ao Egito, deu a cada um deles o que chamamos favores, \'e0 guisa de dinheiro, dir\'edamos ao br\'e2mane: "Meu reverendo padre, estais enganado, nossa religi\'e3o n\'e3o \'e9 a Lenda Dourada". \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Reprovamos aos antigos seus or\'e1culos, seus prod\'edgios: se eles voltassem ao mundo e pud\'e9ssemos contar os milagres de Nossa Senhora de Loreto e os de Nossa Senhora de \'c9feso, para que lado penderia a balan\'e7a? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Os sacrif\'edcios humanos foram estabelecidos em quase todos os povos, mas muito raramente postos em uso. Apenas temos a filha de Jeft\'e9 e o rei Agague imolados entre os judeus, porque Isaque e J\'f4natas jamais o foram. A hist\'f3ria de Ifig\'eania n\'e3o \'e9 muito acreditada entre os gregos; os sacrif\'edcios humanos s\'e3o muito raros entre os antigos romanos. Numa palavra, a religi\'e3o pag\'e3 fez derramar pouqu\'edssimo sangue, enquanto a nossa alagou a terra. A nossa \'e9 sem d\'favida a \'fanica boa, a \'fanica verdadeira; mas fizemos tanto mal por seu interm\'e9dio que quando falamos das outras devemos ser modestos. \

\par \

\par S\'e9tima quest\'e3o \

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\par \~\~\~\~\~ Se um homem quiser persuadir de sua religi\'e3o a estrangeiros ou compatriotas n\'e3o dever\'e1 empregar a do\'e7ura mais insinuante e a mais acareante modera\'e7\'e3o? Se come\'e7ar por dizer que o que ele anuncia est\'e1 demonstrado, encontrar\'e1 uma multid\'e3o de incr\'e9dulos; se ousar dizer- lhes que eles n\'e3o rejeitam a sua doutrina sen\'e3o porque ela condena as suas paix\'f5es, que o seu cora\'e7\'e3o corrompeu o seu esp\'edrito, que eles apenas t\'eam uma raz\'e3o falsa e orgulhosa, ele os revolta, anima- os contra si, arruina ele pr\'f3prio o que quer edificar. \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Se a religi\'e3o que anuncia \'e9 verdadeira, torn\'e1- la- \'e3o a insol\'eancia e o arrebatamento mais verdadeira? Ficais encolerizados quando dizeis que \'e9 preciso ser d\'f3cil, paciente, benfeitor, justo, preencher todos os deveres da sociedade? N\'e3o, porque todo mundo \'e9 do vosso parecer. Por que, pois, dizeis inj\'farias ao vosso irm\'e3o quando lhe pregais uma metaf\'edsica misteriosa? \'c9 que o seu bom senso irrita o vosso amor pr\'f3prio. Tendes o orgulho de exigir que vosso irm\'e3o submeta a sua intelig\'eancia \'e0 vossa; o orgulho humilhado conduz \'e0 c\'f3lera, nem \'e9 outra a sua origem. O homem ferido por vinte balas numa batalha n\'e3o fica encolerizado; mas um doutor ferido pela recusa de um sufr\'e1gio torna- se furioso e implac\'e1vel. \

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\par RESSURREI\'c7\'c3O \

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\par \~\~\~\~\~ Conta- se que os eg\'edpcios n\'e3o constru\'edram as suas pir\'e2mides sen\'e3o para fazer t\'famulos e que os seus corpos embalsamados por dentro e por fora esperavam que suas almas viessem reanim\'e1- los ao fim de mil anos. Mas se os seus corpos deviam ressuscitar, por que a primeira opera\'e7\'e3o dos perfumistas era \

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\par perfurar- lhes o cr\'e2nio e tirar- lhes o c\'e9rebro? A id\'e9ia de ressuscitar sem c\'e9rebro faz supor (se se permitir a express\'e3o) que os eg\'edpcios n\'e3o o tinham muito vivo; \'e9 preciso, por\'e9m, considerar que a maioria dos antigos julgava que a alma estivesse no peito. E por que deveria estar no peito mais do que em qualquer outra parte? \'c9 que, com efeito, em todos os nossos sentimentos um pouco violentos experimentamos perto do cora\'e7\'e3o um confrangimento ou uma dilata\'e7\'e3o, que fez pensar ser ali o alojamento da alma. Essa alma era qualquer coisa de abstrato, de a\'e9reo; era uma figura leve que vagava pelo espa\'e7o at\'e9 encontrar de novo seu corpo. \

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\par \~\~\~\~\~ A cren\'e7a da ressurrei\'e7\'e3o \'e9 muito mais antiga do que os tempos hist\'f3ricos. At\'e1lida, filha de Merc\'fario, podia morrer e ressuscitar ao seu bel prazer: Escul\'e1pio restituiu a vida a Hip\'f3lito; H\'e9rcules a Alceste; P\'e9lopes, tendo sido cortado em peda\'e7os pelo pai, foi ressuscitado pelos deuses. Conta Plat\'e3o que Eros ressuscitou por quinze dias somente. \

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\par \~\~\~\~\~ Os fariseus, entre os judeus, s\'f3 adotaram o dogma da ressurrei\'e7\'e3o muito tempo depois de Plat\'e3o. \~\~\~\~\~ H\'e1 nos Atos dos Ap\'f3stolos um fato bem singular e digno de aten\'e7\'e3o Jac\'f3 e v\'e1rios dos seus companheiros aconselharam S. Paulo a ir ao templo de Jerusal\'e9m observar todas as cerim\'f4nias da antiga lei, por crist\'e3o que ele fosse, "a fim de que todos saibam", dizem- lhe, "que tudo o que se diz de v\'f3s \'e9 falso e que continuais a guardar a lei de Mois\'e9s". \

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\par \~\~\~\~\~ Ent\'e3o S. Paulo foi durante sete dias ao Templo, mas no s\'e9timo foi reconhecido. Acusaram- no de l\'e1 ter ido com estrangeiros e de o ter profanado. Eis como ele se livrou da entaladura: \

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\par \~\~\~\~\~" Ora, sabendo Paulo que uma parte dos que l\'e1 estavam eram saduceus e outra fariseus, gritou na assembl\'e9ia: "Meus irm\'e3os, eu sou fariseu e filho de fariseu; \'e9 por causa da esperan\'e7a duma outra vida e da ressurrei\'e7\'e3o dos mortos que me querem condenar" (63). N\'e3o houvera nenhuma quest\'e3o da ressurrei\'e7\'e3o dos mortos em todo esse neg\'f3cio; Paulo dizia- o apenas para atirar os fariseus e saduceus uns contra os outros. \

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\par \~\~\~\~\~ V. 7. "Paulo, tendo assim falado, motivou uma dissens\'e3o entre os fariseus e saduceus, e a assembl\'e9ia foi dividida. \

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\par \~\~\~\~\~ V. 8. "Porque os saduceus dizem que n\'e3o h\'e1 ressurrei\'e7\'e3o, nem anjo, nem esp\'edrito, enquanto os fariseus reconhecem um e outro, etc.". \

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\par \~\~\~\~\~ Pretendeu- se que J\'f3, que \'e9 muito antigo, conhecesse o dogma da ressurrei\'e7\'e3o. Citam- se as suas palavras: "Sei que o meu redentor est\'e1 vivo e que um dia a sua reden\'e7\'e3o se erguer\'e1 sobre mim, ou que eu me erguerei do p\'e9, que minha pele voltar\'e1 e que ainda verei Deus em minha carne".( 64) \

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\par \~\~\~\~\~ Mas v\'e1rios comentadores entendem por essas palavras que J\'f3 espera que h\'e1 de melhorar em breve de sua doen\'e7a, e que n\'e3o permanecer\'e1 sempre deitado na terra como estava. H\'e1 provas de que essa explica\'e7\'e3o seja verdadeira, porque ele gritou aos seus falsos e empedernidos amigos: "Por que ent\'e3o dizeis: persigamo- lo?" ou ent\'e3o: "Porque direis: porque n\'f3s o perseguimos". Isso evidentemente n\'e3o quer dizer: "Arrepender- vos- eis de me haver ofendido quando me virdes no meu primeiro estado de sa\'fade e opul\'eancia"? Um doente que diz: "Eu me levantarei", n\'e3o diz: "Eu ressuscitarei". Dar sentidos for\'e7ados a \

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\par passagens claras \'e9 o meio seguro de jamais se entender. \~\~\~\~\~ S. Jer\'f4nimo coloca o nascimento da seita dos fariseus muito pouco tempo antes de Jesus Cristo. O rabino Hilel passa por ser o fundador da seita farisaica, e esse Hilel foi contempor\'e2neo de Gamaliel, o mestre de S\'e3o Paulo. \

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\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios desses fariseus acreditavam que somente os judeus ressuscitariam e que o resto dos homens n\'e3o valiam a pena. Outros sustiveram que n\'e3o se ressuscitaria sen\'e3o na Palestina, e que os corpos daqueles que forem enterrados alhures ser\'e3o secretamente transportados para Jerusal\'e9m, a fim de se juntarem \'e0 sua alma. Mas S\'e3o Paulo, escrevendo aos habitantes de Tessal\'f4nica, diz- lhes que "O segundo advento de Jesus Cristo \'e9 para eles e para ele, que eles ser\'e3o testemunhas". \

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\par \~\~\~\~\~ V. 16. "Porque logo que o sinal for dado pelo arcanjo e pelo som da trombeta de Deus o pr\'f3prio Senhor descer\'e1 do c\'e9u, e os que estiverem mortos em Jesus Cristo ressuscitar\'e3o por primeiros". \

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\par \~\~\~\~\~ V. 17. "Depois n\'f3s que somos vivos e que tenhamos sobrevivido at\'e9 ent\'e3o seremos elevados com eles \'e0s nuvens para irmos perante o Senhor, no meio do ar, e assim viveremos para sempre com o Senhor" (65). \

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\par \~\~\~\~\~ Essa importante passagem n\'e3o prova evidentemente que os primeiros crist\'e3os esperavam ver o fim do mundo, como de feito se prediz em S. Lucas, no tempo mesmo em que viveu S. Lucas? \

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\par \~\~\~\~\~ Acreditava Sto. Agostinho que as crian\'e7as, e mesmo as crian\'e7as natimortas, ressuscitariam na idade madura. Os Or\'edgenes, os Jer\'f4nimos, os Atan\'e1sios, os Bas\'edlios n\'e3o creram que as mulheres pudessem ressuscitar com o seu sexo. \

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\par \~\~\~\~\~ Enfim, sempre disputamos sobre o que fomos, sobre o que somos e sobre o que seremos. \

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\par SALOM\'c3O \

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\par \~\~\~\~\~ Teria sido Salom\'e3o rico como se disse? \~\~\~\~\~ Afian\'e7am os Paralip\'f4menos que o "melk" Davi, seu pai, deixou- lhe cerca de vinte milh\'f5es de nossa moeda corrente, segundo o c\'e1lculo mais modesto. N\'e3o h\'e1 tal soma de dinheiro corrente em toda a terra e \'e9 muito dif\'edcil que Dav\'ed tivesse podido amealhar tamanho tesouro no pequeno pa\'eds da Palestina. \

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\par \~\~\~\~\~ Salom\'e3o, segundo o terceiro livro dos Reis, tinha quarenta mil coudelarias para os cavalos de suas carruagens. Quando mesmo cada coudelaria n\'e3o contivesse mais que dez cavalos, isso somaria apenas o n\'famero de quatrocentos mil que, juntos a seus doze mil cavalos de sela, teria feito quatrocentos e doze mil cavalos de batalha. \'c9 muito para um "melk" judeu que jamais praticou a guerra. Essa magnific\'eancia n\'e3o tem exemplo num pa\'eds que apenas produzia asnos e onde hoje n\'e3o existe outra montaria. Mas parece que os tempos mudaram. \'c9 verdade que um pr\'edncipe t\'e3o s\'e1bio, que tinha mil mulheres, podia ter tamb\'e9m quatrocentos e doze mil cavalos, quando mais n\'e3o fosse para lev\'e1- las a passeio ou ao longo do lago de Genezar\'e9 ou de Sodoma, ou \'e0 torrente de Cedr\'e3o, que \'e9 um dos s\'edtios mais deliciosos da terra, embora, \

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\par na verdade, essa torrente esteja seca durante nove meses do ano e o terreno seja um tanto rochoso. \~\~\~\~\~ Mas teria esse s\'e1bio Salom\'e3o realmente escrito as obras que lhe atribuem? \'c9 veross\'edmil, por exemplo, que seja o autor da \'e9gloga intitulada C\'e2ntico dos C\'e2nticos? \

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\par \~\~\~\~\~ Pode ser que um monarca que possu\'eda mil mulheres dissesse a uma delas: "Que ela me beije com um beijo de sua boca, pois seus seios s\'e3o melhores do que o vinho". Um rei e um pastor, quando se trata de beijar na boca, podem se exprimir da mesma maneira. \'c9 verdade que \'e9 muito estranho haver- se pretendido que foi a mo\'e7a quem assim falou elogiando os seios do amante. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o negarei que um rei galante tenha podido fazer que sua amante dissesse: - "Meu bem amado \'e9 como um ramilhete de mirra, ele morar\'e1 em meus seios". N\'e3o entendo muito bem o que significa esse ramilhete de mirra; mas enfim, quando a bem amada diz ao bem amado que lhe passe a m\'e3o direita sobre o pesco\'e7o e a abrace com a direita, entendo muito bem. \~\~\~\~\~ Poder- se- ia pedir algumas informa\'e7\'f5es ao autor do C\'e2ntico quando diz: "Vosso umbigo \'e9 como uma ta\'e7a na qual h\'e1 sempre algo que beber; vosso ventre \'e9 como um alqueire de trigo; vossos seios s\'e3o como duas crias de cervo e vosso nariz \'e9 como a torre do monte L\'edbano". \

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\par \~\~\~\~\~ Confesso que as \'e9glogas de Virg\'edlio s\'e3o de outro estilo; mas cada um tem o seu, e um judeu n\'e3o \'e9 obrigado a escrever como Virg\'edlio. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 aparentemente um belo efeito de eloqu\'eancia oriental dizer: "Nossa irm\'e3 \'e9 ainda pequena, ela n\'e3o tem seios. Que faremos de nossa irm\'e3? Se \'e9 um muro, construamos sobre ele; se \'e9 uma porta, fechemo- la". \

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\par \~\~\~\~\~ Belas coisas, belas anedotas para Salom\'e3o, o mais s\'e1bio dos homens... Era, dizem, seu epit\'e1lamo para o seu casamento com a filha do fara\'f3; \'e9 por\'e9m natural que o genro do fara\'f3 deixe sua bem amada durante a noite para ir passear em seu jardim das nogueiras, que a rainha corra sozinha, descal\'e7a, atr\'e1s dele, que seja espancada pelos guardas da cidade e que estes lhe tirem a roupa? \

\par \

\par \~\~\~\~\~ Poderia a filha de um rei ter dito: "Eu sou morena, mas sou bela como as peli\'e7as de Salom\'e3o"? Tais express\'f5es poder- se- iam atribuir a um pastor, porquanto ao cabo de contas n\'e3o h\'e1 grande rela\'e7\'e3o entre peli\'e7as e a beleza de uma mo\'e7a. Mas, enfim, as peli\'e7as de Salom\'e3o poderiam ter sido admiradas em seu tempo, e um judeu do povo, que fazia versos \'e0 amante, poderia ter dito, em seu linguajar judeu, que jamais rei algum tivera roupas de pele t\'e3o bonitas como as dela; quanto ao rei Salom\'e3o, deveria estar muito entusiasmado com suas peli\'e7as para compar\'e1- las \'e0 amante: se um rei de nossos dias compusesse um tal epit\'e1lamo para o seu casamento com a filha de um rei vizinho n\'e3o passaria, com toda certeza, pelo melhor poeta de seu reino. \

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\par \~\~\~\~\~ V\'e1rios rabinos sustiveram que n\'e3o s\'f3 essa pequena \'e9gloga voluptuosa n\'e3o era do Salom\'e3o, mas que tamb\'e9m n\'e3o era aut\'eantica. Teodoro de Mopsueste tinha id\'eantica opini\'e3o, e o c\'e9lebre Gr\'f3tio chama ao C\'e2ntico dos C\'e2nticos obra libertina, flagitiosus; contudo ela est\'e1 consagrada, e \'e9 considerada como uma perp\'e9tua alegoria dos esponsais de Jesus Cristo com sua igreja. \'c9 preciso n\'e3o esquecer que a alegoria \'e9 um pouco forte, nem se sabe que poderia a igreja deduzir do ponto em que o autor diz que sua irm\'e3 n\'e3o tem seios, e que, se \'e9 um muro, \'e9 preciso construir sobre ela. \

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\par \~\~\~\~\~ O livro da Sabedoria tem um tom mais s\'e9rio; por\'e9m n\'e3o pertence mais a Salom\'e3o do que o C\'e2ntico dos C\'e2nticos. Atribui- se comumente a Jesus, filho de Siraque, outros a F\'edlon de Biblos; mas, seja quem for o autor, parece que no seu tempo ainda n\'e3o existia o Pentateuco, porque ele diz no cap\'edtulo 10 que Abra\'e3o quis imolar Isaque no tempo do dil\'favio, e, por outro lado, fala do patriarca Jos\'e9 como de um rei do Egito. \

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\par \~\~\~\~\~ Os Prov\'e9rbios foram atribu\'eddos a Isa\'edas, a Elzias, a Sobna, a Eliacin, a Joaqu\'ea e a v\'e1rios outros. Mas, quem quer que seja que compilou essa colet\'e2nea, de senten\'e7as orientais, n\'e3o h\'e1 o menor viso de verdade em que tenha sido um rei quem se deu a tal trabalho. Teria ele dito que "O terror do rei \'e9 como o rugido de um Le\'e3o"? \'c9 assim que fala um s\'fadito ou um escravo, que a c\'f3lera do seu senhor faz tremer. Teria Salom\'e3o falado tanto da mulher impudica? Teria dito: "N\'e3o olheis o vinho quando se afigura claro e sua cor brilha atrav\'e9s do copo"? \

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\par \~\~\~\~\~ Ponho francamente em d\'favida a exist\'eancia de copos no tempo de Salom\'e3o: \'e9 uma inven\'e7\'e3o muito recente; toda a antig\'fcidade bebia em ta\'e7as de madeira ou de metal; e essa \'fanica passagem indica que essa obra foi elaborada por um judeu de Alexandria muito tempo depois de Alexandre. \

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\par \~\~\~\~\~ Resta o Eclesiastes, que Gr\'f3tio pretende ter sido escrito sob o reinado de Zorobabel. Sabe- se perfeitamente com que liberdade o autor do Eclesiastes se exprime; sabe- se que ele disse que: "Os homens nada t\'eam mais do que as bestas; que mais vale nunca ter nascido, do que existir; que n\'e3o existe nenhuma outra vida; que a \'fanica coisa boa em tudo isso \'e9 podermos diverti- nos com aquela a quem amamos". \

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\par \~\~\~\~\~ Pode ser que Salom\'e3o tenha feito tais discursos a algumas de suas mulheres; pretende- se tratar- se de obje\'e7\'f5es; por\'e9m essas m\'e1ximas, de ar um tanto libertino, nem de leve se parecem a obje\'e7\'f5es, e entender num autor o contr\'e1rio do que ele diz \'e9 zombar da humanidade. \

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\par \~\~\~\~\~ Ali\'e1s, v\'e1rios padres pretenderam que Salom\'e3o tenha feito penit\'eancia; assim, pode- se perdo\'e1- lo. \~\~\~\~\~ Por\'e9m, que esses livros tenham ou n\'e3o sido escritos por um judeu, que nos importa? Nossa religi\'e3o crist\'e3 alicerceia- se sobre a judaica, mas n\'e3o sobre todos os livros que os judeus escreveram. Por que ser\'e1 o C\'e2ntico dos C\'e2nticos mais sagrado para n\'f3s do que as f\'e1bulas do Talmude? Porque, diz- se, n\'f3s o inclu\'edmos no c\'e2non dos hebreus. E que \'e9 esse c\'e2non? Uma colet\'e2nea de obras aut\'eanticas. Essa \'e9 boa! Uma obra, por ser aut\'eantica, \'e9 divina? Uma hist\'f3ria dos reis de Jud\'e1 e de Siqu\'eam, por exemplo, ser\'e1 algo mais que uma hist\'f3ria? Eis um estranho preconceito. N\'f3s abominamos os judeus, e queremos que tudo o que por eles foi escrito e por n\'f3s recolhido traga o sinete da Divindade. Jamais se viu contradi\'e7\'e3o t\'e3o palp\'e1vel. \

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\par SENSA\'c7\'c3O \

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\par \~\~\~\~\~ As ostras t\'eam, diz- se, dois sentidos; as toupeiras, quatro; os outros animais, como os homens, cinco. Algumas pessoas admitem um sexto, mas \'e9 evidente que a sensa\'e7\'e3o voluptuosa de que pretendem falar reduz- se ao sentimento do tato e que cinco sentidos constituem o nosso quinh\'e3o. \'c9 nos imposs\'edvel \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (175 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par imaginar ou desejar mais que isso. \~\~\~\~\~ Pode ser que em outros planetas existam sentidos de que n\'e3o fazemos a m\'ednima id\'e9ia; pode ser que o n\'famero de sentidos aumente de planeta em planeta e que o ser que tem sentidos in\'fameros e perfeitos seja o termo de todos os seres. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas, n\'f3s outros com os nossos cinco \'f3rg\'e3os, qual \'e9 o nosso poder? Sentimos sempre contra nossa vontade, e jamais por que o desejemos; \'e9- nos imposs\'edvel deixar de ter a sensa\'e7\'e3o que a nossa natureza nos destina quando o objeto nos fere. O sentimento est\'e1 em n\'f3s mas n\'e3o depende de n\'f3s. N\'f3s o recebemos; e como o recebemos? Sabe- se perfeitamente que n\'e3o h\'e1 nenhuma rela\'e7\'e3o entre o ar agitado e as palavras que me cantam e a impress\'e3o que essas palavras gravam no meu c\'e9rebro. \

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\par \~\~\~\~\~ Admiramo- nos do pensamento; mas o sentimento \'e9 igualmente maravilhoso. Um poder divino lampeja na sensa\'e7\'e3o do \'faltimo dos insetos como no c\'e9rebro de Newton. Contudo, que milhares de animais morram \'e0 vossa vista, n\'e3o vos inquietareis pelo que possa vir a ser a sua faculdade de sentir, embora tal faculdade seja obra do Ser dos seres; v\'f3s os olhais como m\'e1quinas da natureza, nascidas para morrer e dar lugar a outras. \

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\par \~\~\~\~\~ Como e por que a sua sensa\'e7\'e3o deveria subsistir quando eles j\'e1 n\'e3o existem? Que necessidade teria o autor de tudo o que existe de conservar as propriedades cujo sujeito est\'e1 destru\'eddo? Equivaleria a dizer que o poder da planta chamada sensitiva de retrair suas folhas subsiste mesmo quando a planta deixa de existir. Perguntareis sem d\'favida como, se a sensa\'e7\'e3o dos animais morre com eles, o pensamento do homem jamais perecer\'e1. N\'e3o posso responder a essa quest\'e3o, n\'e3o sei o bastante para resolv\'ea- la. S\'f3 o autor eterno da sensa\'e7\'e3o e do pensamento sabe como a concede e como a conserva. \

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\par \~\~\~\~\~ Toda a antig\'fcidade afirmou que nada existe em nosso entendimento que n\'e3o tenha passado por nossos sentidos. Descartes, nos seus romances, pretendia que tiv\'e9ssemos id\'e9ias metaf\'edsicas antes de conhecer os seios de nossa ama; uma faculdade de teologia proscreveu esse dogma, n\'e3o porque fosse um erro, mas porque era uma novidade; em seguida adotou esse erro, porque fora destru\'eddo por Locke, fil\'f3sofo ingl\'eas, e era necess\'e1rio que o ingl\'eas errasse. Enfim, depois de haver mudado tantas vezes de princ\'edpios, ela tornou a proscrever essa antiga verdade, que os sentidos s\'e3o as portas do entendimento. Fez como esses governos sobrecarregados de d\'edvidas que ora d\'e3o livre curso a certas c\'e9dulas e ora as interdizem; mas desde muito tempo que ningu\'e9m quer saber das c\'e9dulas dessa faculdade. \

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\par \~\~\~\~\~ Todas as faculdades do mundo jamais impedir\'e3o os fil\'f3sofos de ver que n\'f3s come\'e7amos por sentir e que nossa mem\'f3ria n\'e3o \'e9 sen\'e3o uma sensa\'e7\'e3o cont\'ednua. Um homem que nascesse privado dos seus cinco sentidos seria privado de toda id\'e9ia, se pudesse viver. As no\'e7\'f5es metaf\'edsicas n\'e3o nos chegam sen\'e3o pelos sentidos: pois como medir um c\'edrculo ou um tri\'e2ngulo se n\'e3o se viu ou tocou um c\'edrculo e um tri\'e2ngulo? Como conceber uma id\'e9ia mesmo imperfeita do infinito sem estabelecer limites? E como estabelecer limites sem os ter visto ou sentido? \

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\par \~\~\~\~\~ A sensa\'e7\'e3o envolve todas as nossas faculdades, disse um grande fil\'f3sofo (66). \~\~\~\~\~ Que concluir de tudo isso? V\'f3s que ledes, que pensais, conclu\'ed. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (176 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par SONHOS \

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\par Somnia, quae mentes ludunt volitantibus umbris, non delubra deum nec ab oethere nurnina mittunt, sed sibi quisque facit (67). \

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\par \~\~\~\~\~ Mas como, estando todos os sentidos mortos no sono, existe um sentido que vive? Como, nossos olhos n\'e3o vendo mais, vossos ouvidos nada entendendo, vedes, contudo, e ouvis em vossos sonhos? O c\'e3o est\'e1 na ca\'e7a, em sonho; late, segue a presa. O poeta faz versos dormindo; o matem\'e1tico v\'ea figuras; o metaf\'edsico raciocina bem ou mal: temos exemplos contundentes. \~\~\~\~\~ Ser\'e3o esses os \'fanicos \'f3rg\'e3os da m\'e1quina que funcionam? \'c9 a alma pura que, subtra\'edda ao imp\'e9rio dos sentidos, usufrui dos seus direitos em liberdade? \

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\par \~\~\~\~\~ Se os \'f3rg\'e3os, por si s\'f3s, produzem os sonhos \'e0 noite, por que n\'e3o produzir\'e3o tamb\'e9m, s\'f3s, as id\'e9ias de dia? Se a alma pura, tranq\'fcila, no repouso dos sentidos, agindo por si pr\'f3pria \'e9 a causa \'fanica, o sujeito \'fanico de todas as id\'e9ias que tendes dormindo, por que ser\'e3o essas id\'e9ias quase sempre irregulares, desarrazoadas, incoerentes? Como! \'c9 no momento em que essa alma est\'e1 menos turbada que ela tem mais perturba\'e7\'f5es em todas as suas imagina\'e7\'f5es! Ela est\'e1 livre e \'e9 louca! Se houvesse nascido com id\'e9ias metaf\'edsicas como o dizem tantos escritores que sonham de olhos abertos, suas id\'e9ias puras e luminosas do Ser, do infinito, de todos os primeiros princ\'edpios deveriam despertar em si com a maior energia quando o corpo est\'e1 adormecido: nunca se seria bom fil\'f3sofo sen\'e3o em sonho. \

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\par \~\~\~\~\~ Seja qual for o sistema que abraceis, sejam quais forem os esfor\'e7os v\'e3os que fa\'e7ais para provar a v\'f3s mesmos que a mem\'f3ria agita o vosso c\'e9rebro, que vosso c\'e9rebro agita vossa alma, \'e9 mister convirdes em que todas as vossas id\'e9ias vos acodem durante o sono, sem v\'f3s e apesar de v\'f3s: vossa vontade n\'e3o interv\'eam a\'ed. \'c9 portanto certo que podeis pensar sete ou oito horas seguidas sem ter a m\'ednima vontade de pensar, sem mesmo estar seguro de que pensais. Ponderai isto tudo: procurai adivinhar o que vem a ser o complexo do animal. \

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\par \~\~\~\~\~ Os sonhos foram sempre um grande objeto de supersti\'e7\'e3o; nada mais natural. Um homem vivamente comovido pela doen\'e7a de sua amante sonha que a v\'ea morrer; ela morre no. dia seguinte: portanto, os deuses predisseram- lhe a sua morte. \

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\par \~\~\~\~\~ Um general do ex\'e9rcito sonha que vence uma batalha; ganha- a, com efeito: os deuses o advertiram de que seria vencedor. \

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\par \~\~\~\~\~ N\'e3o se levam em considera\'e7\'e3o sen\'e3o os sonhos que foram confirmados; esquecem- se os outros. Os sonhos participam grandemente da hist\'f3ria antiga, tal como os or\'e1culos. \

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\par \~\~\~\~\~ Assim traduz a Vulgata o fim do vers\'edculo 26 do cap. 19 do Lev\'edtico: "N\'e3o observareis os sonhos".. Mas o termo sonho n\'e3o existe no hebraico e seria muito estranho que se reprovasse a observa\'e7\'e3o dos sonhos no pr\'f3prio livro em que se diz que Jos\'e9 se tornou o benfeitor do Egito e de sua fam\'edlia mediante a explica\'e7\'e3o de tr\'eas sonhos. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (177 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par \~\~\~\~\~ A explica\'e7\'e3o dos sonhos era uma coisa t\'e3o comum que a gente n\'e3o se limitava a essa pr\'e1tica: era preciso ainda adivinhar algumas vezes o que outro homem sonhara. Nabucodonosor, tendo olvidado um sonho que tivera, ordenou aos seus magos a sua adivinha\'e7\'e3o, e os amea\'e7ou de morte caso n\'e3o chegassem a bom fim; mas o judeu Daniel, que era da escola dos magos, salvou- lhes a vida adivinhando o sonho do rei, com a respectiva interpreta\'e7\'e3o. Essa hist\'f3ria e muitas outras poderiam servir para provar que a lei dos judeus n\'e3o proibia a oneiromancia, isto \'e9, a ci\'eancia dos sonhos. \

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\par SUPERSTI\'c7\'c3O \

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\par (Capitulo extra\'eddo de C\'edcero, S\'eaneca e Plutarco) \~\~\~\~\~ Quase tudo o que vai al\'e9m da adora\'e7\'e3o de um Ser Supremo e da submiss\'e3o do cora\'e7\'e3o \'e0s suas ordens eternas \'e9 supersti\'e7\'e3o. O perd\'e3o aos crimes acompanhado de certas cerim\'f4nias \'e9 uma das mais perigosas. \

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\par Et nigras mactant pecudes, et manibu' divis inferias mittunt (68). \

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\par Ah! nimium faciles qui tristia crimina coedis fluminea tolli posse putatis aqua! (69). \

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\par \~\~\~\~\~ Pensais que Deus olvidar\'e1 vosso homic\'eddio se vos banhardes num rio, se imolardes um cordeiro preto e se se pronunciarem sobre v\'f3s algumas palavras. Um segundo homic\'eddio vos ser\'e1 pois perdoado ao mesmo pre\'e7o, e assim um terceiro, e cem mortes n\'e3o vos custar\'e3o mais do que cem cordeiros negros e cem ablu\'e7\'f5es! Fazei melhor, miser\'e1veis humanos: nada de mortes e nada de cordeiros negros. \

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\par \~\~\~\~\~ Que infame id\'e9ia imaginar que um sacerdote de Isis e de C\'edbele, tocando c\'edmbalos e castanholas, vos reconciliar\'e1 com a Divindade! E quem \'e9 pois esse sacerdote de Cibele, esse eunuco errante que vive de vossas fraquezas, para se arvorar intermedi\'e1rio entre o C\'e9u e v\'f3s outros? Que esp\'e9cie de patentes recebeu ele de Deus? Recebe de v\'f3s algum dinheiro para balbuciar algumas palavras, e credes que o Ser dos seres ratificar\'e1 as palavras desse charlat\'e3o? \

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\par \~\~\~\~\~ H\'e1 supersti\'e7\'f5es inocentes: dan\'e7ais nos dias de festa em honra de Diana ou de Pomona, ou de qualquer desses deuses secund\'e1rios de que est\'e1 repleto o vosso calend\'e1rio: pois podeis continuar. A dan\'e7a \'e9 muito agrad\'e1vel, \'e9 \'fatil ao corpo, alegra a alma, n\'e3o faz mal a ningu\'e9m; n\'e3o acrediteis por\'e9m que Pomona e Virtuna se comovam por haverdes saltado em sua honra e que vos puniriam se o n\'e3o houv\'e9sseis feito. N\'e3o existem outra Pomona nem outra Virtuna que a enxada e a p\'e1 do jardineiro. N\'e3o sejais t\'e3o imbecil a ponto de acreditar que vosso jardim se queimar\'e1 por haverdes deixado de dan\'e7ar a p\'edrrica ou a cord\'e1cia. \

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\par \~\~\~\~\~ Existe provavelmente uma supersti\'e7\'e3o perdo\'e1vel e mesmo reconfortante para a virtude: \'e9 a de colocar entre os deuses os grandes homens que foram benfeitores do g\'eanero humano. Melhor sem d\'favida seria olh\'e1- los simplesmente como homens vener\'e1veis e sobretudo procurar imit\'e1- los. Venerai sem culto um \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (178 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par S\'f3lon, um Tales, um Pit\'e1goras; n\'e3o adoreis por\'e9m um H\'e9rcules por ter limpado as estrebarias de Augias e por ter- se deitado com cinq\'fcenta mulheres numa noite. \

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\par \~\~\~\~\~ Guardai- vos de instituir um culto para certos patifes que n\'e3o t\'eam outro m\'e9rito que a ignor\'e2ncia, a vivacidade e a sordidez; que fizeram um dever e uma gloria do \'f3cio e da glotonaria: esses que quando muito foram completamente in\'fateis durante sua vida, merecer\'e3o por acaso a apoteose depois da morte? \

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\par \~\~\~\~\~ Lembrai- vos de que os tempos mais supersticiosos foram sempre os dos crimes mais horr\'edveis. \

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\par TIRANIA \

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\par \~\~\~\~\~ Chamamos tirano ao soberano que n\'e3o conhece por leis sen\'e3o o pr\'f3prio capricho, que se apodera dos bens de seus s\'faditos e que em seguida os arrola para ir tomar os dos vizinhos. N\'e3o existe tal esp\'e9cie de tiranos na Europa. \

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\par \~\~\~\~\~ Distingue- se a tirania de um s\'f3 e a de v\'e1rios. Essa tirania de v\'e1rios seria a de um corpo que invadisse os direitos dos outros corpos e exercesse o despotismo a favor das leis por ele corrompidas. T\'e3o pouco existe essa esp\'e9cie de tiranos na Europa. \

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\par \~\~\~\~\~ Sob qual tirania gostar\'edeis de viver? Sob nenhuma; mas se fosse preciso escolher, eu detestaria menos a tirania de um s\'f3 do que a de v\'e1rios. Um d\'e9spota tem sempre alguns bons momentos; uma assembl\'e9ia de d\'e9spotas jamais. Se um tirano me faz uma injusti\'e7a, poderei desarm\'e1- lo por interm\'e9dio de sua amante, por seu confessor ou por seu pagem; mas uma companhia de graves tiranos \'e9 inacess\'edvel a todas as sedu\'e7\'f5es. Quando n\'e3o \'e9 injusta \'e9 no m\'ednimo impiedosa, e jamais concede favores. \

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\par \~\~\~\~\~ Se tenho apenas um d\'e9spota, salvo- me com o simples colar- me a um muro \'e0 sua passagem; ou por me prosternar, ou por bater a fronte no solo, segundo o costume do pa\'eds; mas se houver uma companhia de cem d\'e9spotas, estarei exposto a repetir essa cerim\'f4nia cem vezes por dia, o que \'e9 exaustivo, quando n\'e3o se tem os fundilhos refor\'e7ados. Se eu tiver uma pequena herdade nas vizinhan\'e7as de um de nossos senhores, serei esmagado; se reclamar contra um parente dos parentes de nossos senhores, estarei arruinado. Que fazer? Temo que neste mundo estejamos reduzidos a um triste dilema: ser bigorna ou martelo. Feliz de quem escapar a essa alternativa! \

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\par TOLER\'c2NCIA \

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\par \~\~\~\~\~ Que \'e9 a toler\'e2ncia? \~\~\~\~\~ \'c9 o apan\'e1gio da humanidade. Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo- nos reciprocamente nossas tolices, \'e9 a primeira lei da natureza. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (179 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par \~\~\~\~\~ Que na bolsa de Amsterd\'e3, de Londres, de Surata ou de Bassor\'e1, os guebros, os banianos, os judeus, os mafomistas, os de\'edcolas chins, os br\'e2manes, os crist\'e3os gregos, os crist\'e3os romanos, os crist\'e3os protestantes, os crist\'e3os quakers fa\'e7am suas trafic\'e2ncias juntos: eles n\'e3o brigar\'e3o de punhal. Por que motivo, pois, nos esganamos quase sem interrup\'e7\'e3o desde o primeiro conc\'edlio de Nic\'e9ia? \

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\par \~\~\~\~\~ Constantino come\'e7ou por baixar um \'e9dito que permitia todas as religi\'f5es; terminou por perseguir. Antes dele os crist\'e3os apenas eram perseguidos quando come\'e7avam a ter alguma for\'e7a dentro do estado. Os romanos permitiam todos os cultos, at\'e9 o dos judeus, at\'e9 o dos eg\'edpcios, pelos quais tinham tanto desprezo. Por que tolerava Roma esses cultos? \'c9 que nem os eg\'edpcios nem mesmo os judeus procuravam exterminar a antiga religi\'e3o do imp\'e9rio, n\'e3o perdendo tempo em revolver terras e mares para angariar pros\'e9litos: o que queriam era ganhar dinheiro; \'e9 por\'e9m incontest\'e1vel que os crist\'e3os desejavam que sua religi\'e3o fosse a dominante. Os judeus n\'e3o queriam que a est\'e1tua de J\'fapiter estivesse em Jerusal\'e9m; mas os crist\'e3os n\'e3o admitiam que estivesse no Capit\'f3lio. Sto. Tom\'e1s tem a boa f\'e9 de convir em que, se os crist\'e3os n\'e3o destronavam os imperadores, \'e9 que o n\'e3o podiam fazer. Sua opini\'e3o era que toda a terra devia ser crist\'e3. Eram portanto inimigos de toda a terra, at\'e9 que esta se convertesse. \

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\par \~\~\~\~\~ Havia entre eles inimigos uns dos outros em todos os pontos de sua controv\'e9rsia. Antes de mais nada \'e9 preciso considerar Jesus Cristo como Deus, os que o negam s\'e3o anatematizados sob o nome de ebionitas, que anatematizam os adoradores de Jesus. \

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\par \~\~\~\~\~ Alguns deles desejam que todos os bens sejam comuns, como pretendem que o tenham sido no tempo dos ap\'f3stolos: seus advers\'e1rios os chamam nicolaitas, acusando- os dos crimes mais infames. Outros, tendentes a uma devo\'e7\'e3o m\'edstica, s\'e3o chamados gn\'f3sticos e perseguidos com furor. Marci\'e3o \'e9 tratado de id\'f3latra por disputar sobre a Trindade. \

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\par \~\~\~\~\~ Tertuliano, Praxedes, Or\'edgenes, Novato, Novaciano, Sab\'e9lio, Donato, s\'e3o todos perseguidos por seus irm\'e3os antes de Constantino; e apenas Constantino fez reinar a religi\'e3o crist\'e3; os atanasianos e eusebianos se separaram; e desde ent\'e3o a igreja crist\'e3 foi inundada de sangue at\'e9 hoje. \

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\par \~\~\~\~\~ O povo judeu era, reconhe\'e7o, um povo bastante b\'e1rbaro. Degolavam sem piedade todos os habitantes de um desgra\'e7ado e pequeno pa\'eds sobre o qual n\'e3o tinham mais direito do que sobre Paris e Londres. Entretanto, quando Naam\'e3 \'e9 curado de sua lepra por se haver banhado sete vezes no Jord\'e3o; quando, para testemunhar sua gratid\'e3o a Eliseu, que lhe ensinou esse segredo, conta- lhe que adorava o Deus dos judeus por reconhecimento, reserva- se a liberdade de adorar tamb\'e9m o Deus de seu rei; pede licen\'e7a a Eliseu, e o profeta n\'e3o hesita em conceder- lha. Os judeus adoravam o seu Deus; mas nunca se admiraram de que cada povo tivesse o seu. Achavam muito natural que Camoes concedesse um certo distrito aos moabitas, contanto que o seu Deus tamb\'e9m lhes desse um. Jac\'f3 n\'e3o hesitou em desposar as filhas de um id\'f3latra. Lab\'e3o tinha seu Deus assim como Jac\'f3 tinha o seu. Eis belos exemplos de toler\'e2ncia entre o povo mais intolerante e cruel de toda a antig\'fcidade: n\'f3s o imitamos em seus furores absurdos, e n\'e3o em sua indulg\'eancia. \

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\par \~\~\~\~\~ \'c9 claro que todo indiv\'edduo que persegue um homem, seu irm\'e3o, porque n\'e3o \'e9 da sua mesma opini\'e3o, \'e9 um monstro. Isto est\'e1 fora de d\'favidas. Mas o governo, mas os magistrados, mas os pr\'edncipes, como dever\'e3o proceder para com indiv\'edduos que t\'eam um culto diferente do seu? Se forem estrangeiros poderosos, \'e9 claro que um pr\'edncipe far\'e1 alian\'e7a com eles. Francisco I., muito crist\'e3o, unir- se- \'e1 aos mu\'e7ulmanos contra Carlos V, muito crist\'e3o. Francisco I dar\'e1 dinheiro aos luteranos da Alemanha para \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (180 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par sustent\'e1- los em sua revolta contra o imperador; mas principiar\'e1, segundo o costume, por fazer queimar alguns luteranos em sua pr\'f3pria casa. Paga- os em Saxe por pol\'edtica; por pol\'edtica queima- os em Paris. Mas que acontecer\'e1? As persegui\'e7\'f5es criam pros\'e9litos; em breve a Fran\'e7a estar\'e1 repleta de novos protestantes. A princ\'edpio deixar- se- \'e3o enforcar, em seguida come\'e7ar\'e3o tamb\'e9m a enforcar. Haver\'e1 guerras civis, em seguida o S. Bartolomeu e esse recanto do mundo ser\'e1 pior que tudo o que antigos e modernos j\'e1 disseram do inferno. \

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\par \~\~\~\~\~ Insensatos, que jamais soubestes render um culto puro ao Deus que vos criou! Desgra\'e7ados, que o exemplo dos noaquidas, dos letrados chineses, dos parsis e de todos os s\'e1bios jamais pode edificar! Monstros, que necessitais de supersti\'e7\'f5es corno o urubu de carni\'e7a! J\'e1 se vos disse, e n\'e3o temos outra coisa que dizer- vos: se tiverdes duas religi\'f5es, elas se trucidar\'e3o; se tiverdes trinta, viver\'e3o em paz. Vede \'f3 gr\'e3o- turco: governa guebros, banianos, crist\'e3os gregos, nestorianos, romanos. O primeiro que experimentar provocar um tumulto \'e9 empalado, e todos permanecem em sant\'edssima paz. \

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\par VIRTUDE \

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\par \~\~\~\~\~ Que \'e9 virtude? Benefic\'eancia para com o pr\'f3ximo. Poderei chamar virtude a outra coisa sen\'e3o ao bem que me fazem? Eu sou indigente, tu \'e9s liberal; eu estou em perigo, tu vens em meu socorro; enganam- me, tu me dizes a verdade; esquecem- me, tu me consolas; eu sou ignorante, tu me instruis: chamar- te- ei sem dificuldade virtuoso. Mas que acontecer\'e1 com as virtudes cardinais e teologais? Algumas delas ficar\'e3o nas escolas. \

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\par \~\~\~\~\~ Que me importa que sejas temperante? \'c9 um preceito de sa\'fade que observas; beneficiar- te- \'e1s com isso e eu te felicito. Tens f\'e9 e esperan\'e7a, redobro- te minhas felicita\'e7\'f5es: elas te conceder\'e3o a vida eterna. Tuas virtudes teologais s\'e3o dons celestes: tuas virtudes cardinais s\'e3o excelentes qualidades que servem para te conduzir ao bom caminho; mas n\'e3o s\'e3o virtudes que se relacionem com o teu pr\'f3ximo. O prudente faz o bem a si, o virtuoso f\'e1- lo aos homens. S. Paulo teve raz\'e3o ao dizer que a caridade implica a f\'e9 e a esperan\'e7a. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas como! admitiremos apenas as virtudes que s\'e3o \'fateis ao pr\'f3ximo? Ent\'e3o! como poderei admitir outras? Vivemos em sociedade; nada existe de verdadeiramente bom para n\'f3s sen\'e3o o que beneficia a sociedade. Um solit\'e1rio ser\'e1 s\'f3brio, piedoso; revestir- se- \'e1 de um cil\'edcio: pois bem, ser\'e1 santo; por\'e9m n\'e3o o chamarei virtuoso sen\'e3o quando praticar algum ato de virtude em proveito dos homens. Enquanto for s\'f3, n\'e3o ser\'e1 nem malfeitor nem benfeitor; nada \'e9 para n\'f3s. Se S. Bruno pacificou as fam\'edlias, se socorreu a indig\'eancia, foi virtuoso; se jejuou, rezou na solid\'e3o, foi um santo. A virtude entre os homens \'e9 um com\'e9rcio de benef\'edcios; o que n\'e3o participa desse com\'e9rcio n\'e3o deve ser considerado. Se esse santo estivesse no mundo, sem d\'favida praticaria o bem; mas enquanto n\'e3o o estiver o mundo ter\'e1 raz\'e3o em n\'e3o lhe conceder o nome de virtuoso: ser\'e1 bom para consigo pr\'f3prio, e n\'e3o para n\'f3s. \

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\par \~\~\~\~\~ Mas, dizeis- me, um solit\'e1rio glut\'e3o, b\'eabedo, entregue \'e0 devassid\'e3o secreta consigo mesmo, \'e9 um vicioso: ser\'e1 portanto virtuoso se tiver qualidades contr\'e1rias \'c9 no que n\'e3o posso convir: ser\'e1 um homem muito vil se tiver de fato os defeitos que dizeis; mas n\'e3o pode ser um vicioso, mau, suscept\'edvel de puni\'e7\'e3o, no que diz respeito \'e0 sua rela\'e7\'e3o com a sociedade, a quem suas inf\'e2mias n\'e3o fazem mal algum. \

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\par Dicion\'e1rio Filos\'f3fico. file:/// C|/ site/ livros_ gratis/ dicionario_ filosofico. htm (181 of 185) [19/ 06/ 2001 11: 47: 01] \

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\par \'c9 de presumir que se entrar na sociedade praticar\'e1 o mal, ser\'e1 um grande criminoso; \'e9 at\'e9 muito mais prov\'e1vel que venha a ser um homem mau do que incerto \'e9 que outro solit\'e1rio, casto, temperante, venha a ser um homem de bem: pois na sociedade os defeitos aumentam e as boas qualidades diminuem. \

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\par \~\~\~\~\~ Faz- se uma obje\'e7\'e3o mais forte; Nero, o papa Alexandre VI. e outros monstros dessa esp\'e9cie fizeram benef\'edcios; ouso responder que foram virtuosos nesse dia. \

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\par \~\~\~\~\~ Dizem alguns te\'f3logos que o divino imperador Antonino n\'e3o era virtuoso; que era um est\'f3ico ten\'e7oeiro que, n\'e3o contente de governar os homens, ainda queria ser estimado por eles; que fazia reverterem a si pr\'f3prio os benef\'edcios que fazia ao g\'eanero humano; que foi toda a sua vida justo, trabalhador, benfeitor por simples vaidade, e que apenas enganou os homens com a sua virtude; neste caso exclamarei: "Meu Deus, dai- nos a basto velhacos desta laia !" \

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\par NOTAS \

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\par (1) Esta inscri\'e7\'e3o acha- se gravada na fachada do templo de Delfos. (2) Virg\'edlio, Ge\'f3rgicas, III, 244. (3) Ov\'eddio, Met\'e1foras, X, 84- 5. (4) Isa\'edas, XIV, 8 e 12. (5) Justino o M\'e1rtir, nascido por volta do ano 114, foi condenado \'e0 morte por R\'fastico, prefeito de Roma, em 168. \

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\par (6) Livro V, cap\'edtulo XXXIII. (7) Hist\'f3ria da Igreja, livro VII, cap\'edtulo XXV. (8) Compara\'e7\'e3o entre Arist\'f3fanes e Menandro. (9) J. Fr. Arpe, autor da Apologia pro Julio Caesare Vanino. (10) Hor\'e1cio, Epigr., II, ii, Sat., II, i. (11) Em seus Ensaios de Teodic\'e9ia sobre a Bondade de Deus, etc., Amsterd\'e3, 1710, in- 8. (12) Li - medida itiner\'e1ria chinesa equivalente a. 576 metros. (13) Sinus denomina\'e7\'e3o dads peios chineses aos judeus das dez tribos que, em sua dispers\'e3o, penetraram at\'e9 a China. \

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\par (14) Os cinco livros sagrados chineses, que cont\'eam a doutrina de Conf\'facio. (15) Salmos, LXVII, 16- 17. (16) Anagrama do abade Castel do Saint- Pierre (17) Anagrama de Leli\'e8vre. (18) Anagrama de Arnoult. (19) Anagramas do pr\'edncipe de Cond\'e9 e do duque de Brunswick. (20) Neste di\'e1logo o japon\'eas figura um ingl\'eas; os cozinheiros designam os padres; o grande lama, o paga; o imperador mencionado, o rei Henrique VIII; paiscopie, anagrama de episcopais, s\'e3o os bispos; breuseh, hebreus; pispatas, papistas; Teluro, Lutero; Vicalno, Calvino; quekars, batistanaos, diestas, etc., respectivamente, quakers, anabatistas, deistas, etc. (Nota de Avenel). \

\par \

\par (21) Canusi - antigos sacerdotes japoneses. (22) Anagrama de Hor\'e1cio Flaco. (23) Anagrama de Racine. Trata- se de Louis Racine, filho do grande Racine. (24) Trata- se de Abraham Chaumeix, crucificado a 2 de mar\'e7o de 1749, na rua Saint- Denis. Foi quem denunciou a Encyclop\'e9die ao parlamento. \

\par \

\par (25) Jerusal\'e9m Libertada, canto IV, 3. (26) Il\'edada, livro XXII. (27) 0 Testament Politique de Charles V, due de Lorraine et de Bar, en faveur du roi de Hongrie, Leipzig, Weitman (Paris), 1696, in- 12, foi editado pelo abade de Chevremont; tem por autor Henri de Straatman, membro do conse1ho \'e1ulico do imperador. \

\par \

\par (28) Testament Politique de M. de Vauban, etc., dans lequel ce seigneur donne les moyens d'augmenter consid\'e9rablement les revenus de la Couronne par l'\'e9tablissement d'une dime royale, etc., 1707 ou 1708, 2 vol. in- i12. A obra aparecera em 1695 sob o t\'edtulo Le D\'e9tail de la France sons le r\'e8gne de Louis XIV. \

\par \

\par (29) S\'e1t., I, ii, 127. (30) Les .Femmes Savantes, III, ii. (31) Foi em virtude deste passo que Larcher chamou Voltaire "besta fera de que se tem tudo a temer". (32) Veja- se, nos Romans, Le Monde comme il va. \

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\par (33) Gavacho em espanhol quer dizer canalha. (34) Denomina\'e7\'e3o dada pelos espanh\'f3is aos \'e1rabes e que, segundo Littr\'e9, se tornou uma inj\'faria significando traidor, p\'e9rfido, tratante. Do espanhol marrano - porco e tamb\'e9m maldito. \

\par \

\par (35) Satyricon, cap\'edtulo XLIV. (36) Sat., I, VIII. (37) Livro VIII, epigr., XXIV. (38) De Ponto, II, VIII. (39) Teb., XII. (40) Livro IX, 578. (41) Ov\'eddio, Fastos, IV. (42) 617- 618. (43) Sua obra intitula- se Apologie de M. Petit- Pierre sur son Syst\'e8me de non \'c9ternit\'e9 des Peines \'e0 Venir, 1761, in- 12. \

\par \

\par (44) Jean Le Pelletier \'e9 autor de uma Dissertation sur l'Arche de No\'e9, Ru\'e3o, 1704, in- 12. (45) Opini\'e3o de Descartes professada nas escolas ao tempo de Voltaire. (46) Veja- se cap\'edtulo XI dos Juizes. (47) Lev\'edtico, cap\'edtulo XXVII, 29. (48) Codorlaomor - rei dos elamitas contempor\'e2neos. de Abra\'e3o. Mentzel - chefe da ala austr\'edaca na guerra de 1741. Tomou Munich a 15 de feverero de 1742. \

\par \

\par (49) Na D\'e9fense du Mondain, do pr\'f3prio Voltaire. (50) Ov\'eddio, Met., I, 32. (51) III dos Reis, cap\'edtulo XIX, 15 e 16. (52) Atos dos Ap\'f3stolos, cap\'edtulo V, 34, 35 e 36. (53) Atos dos Ap\'f3stolos, cap\'edtulo VIII, 9. (54) S\'f3crates, Hist\'f3ria Eclesi\'e1stica, livro II, cap\'edtulo \

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\par XXXVIII. (55) Cf. Ensaio sobre os costumes, capitulo CXCI. (56) Ospiniam, p. 230. (57) Isto foi escrito em 1764. (58) La Fontaine, livro II, f\'e1bula II. (59) Cf. Owen, livro V, epigr. VIII. (60) 0 rei de Portugal Jos\'e9 II. (61) Juizes, XI, 81- 83. (62) S\'e1tira XV, 81- 83. (63) Atos dos Ap\'f3stolos, cap\'edtulo XXIII, 6. (64) J\'f3, XIV, 26. (65) Ep\'edstola aos Tess\'e1lios, cap. IV. (66) Condillac, Trait\'e9 des Sensations, t. II, p. 128. (67) Petr\'f4nio, CIV 1- 3. (68) Lucr\'e9cio, III, 52- 3. (69) Ovidio, Fastos, II, 45- 6. \

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KARL MANNHEIM
ROBERT K. MERTON
C. WRIGHT MILLS


SOCIOLOGIA DO
CONHECIMETO



Organização e Introdução de:
ANTÔNIO ROBERTO BERTELLI
MOACIR G. SOARES PALMEIRA
OTÁVIO GUILHERME VELHO



ZAHAR EDITORES
RIO DE JANEIRO




ÍNDICE

INTRODUÇÃO

O PROBLEMA DE UMA SOCIOLOGIA DO
CONHECIMENTO — KARL MANNHEIM
Tradução de MAURO GAMA e INA DUTRA

SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO — ROBERT KING
MERTON
Tradução de SÉRGIO SANTEIRO

CONSEQÜÊNCIAS METODOLÓGICAS DA SOCIOLOGIA
DO CONHECIMENTO — C. WRIGHT MILLS
Tradução de ÂNGELA MARIA XAVIER DE BRITO


INTRODUÇÃO

Uma apreciação das origens da Sociologia do Conhecimento
basta para nos indicar que esta não surge como uma
especialização da Sociologia como ciência anteriormente
estabelecida: surge, isto sim, junto com a própria Sociologia e
a partir de uma problemática estreitamente vinculada à desta
última. É a Revolução Industrial, desorganizando todo um
sistema de vida estabelecido, que leva os homens a pensarem
no controle não apenas de suas relações com a natureza, mas
no das suas próprias inter-relações. É a mesma Revolução
Industrial que, dessacralizando verdades secularmente
estabelecidas, leva estes mesmos homens a refletirem não
somente sobre as transformações econômico-sociais em
curso, mas também sobre as condições de veracidade e
validade do seu próprio conhecimento, inclusive daquele
novo tipo de conhecimento emergente, e a constatarem a
vinculação entre o pensamento em geral e as condições
existenciais. Ao contrário da velha teoria do conhecimento,
constata-se que não apenas o erro se liga a condições
extrateóricas, mas que todo pensamento se processa numa
totalidade histórico-social.
É na primeira metade do século XX, entretanto, que a
Sociologia do Conhecimento começa a se apresentar como
tal e a ser sistematizada. Só então é que ela ganha um status
universitário. O impulso que o estudo sociológico do
conhecimento tinha tido com o marxismo nos meados do
século XIX tem condições de ser retomado com a crise do
conhecimento desencadeada pela emergência do capitalismo
financeiro, com a crescente concentração da produção e o
desenvolvimento do imperialismo (a indicar uma aparente
recuperação do capitalismo), bem como com a nova
configuração política internacional de que iriam resultar duas
guerras de amplitude e caráter até então desconhecidos, e a
partir dos avanços feitos nas Ciências Físicas e na Psicologia,
como ainda na reflexão filosófica (grandemente influenciada
por tais avanços) desenvolvida pela fenomenologia.
Em tal esforço de compreensão sociológica do conhecimen-
to destaca-se a obra de Mannheim que, incorporando as
contribuições do idealismo alemão e da fenomenologia,
através sobretudo da crítica do trabalho de Max Scheller,
mantém como quadro de referência básico o materialismo
histórico. É importante termos em vista, porquanto, a
exceção de alguns trabalhos de Lênin, pouco divulgados e
das discutidas reflexões de Lukács, dá-se um verdadeiro
bloqueio da reflexão marxista sobre o conhecimento: o
empenho da construção do socialismo em um só país cria
condições para uma dogmatização do marxismo, o que leva
ao abandono da atitude crítica do materialismo histórico de
Marx e Engels. Mas o fato é que, além de ter sido um
verdadeiro repositório do marxismo não-dogmático (ainda
que o final de sua obra descambe para um idealismo até certo
ponto ingênuo), a reflexão de Mannheim é a mais ampla e a
mais profunda da história da Sociologia do Conhecimento. E,
o que é mais importante, o seu relativismo conseqüente,
baseado na análise histórico-estrutural da sociedade e do
conhecimento, parece ser o que de mais fecundo nos deu a
análise sociológica do conhecimento.
Mas nos trinta primeiros anos do século XX, a Sociologia do
Conhecimento, como assinala Merton, permanece como
uma disciplina européia. A Sociologia nos EUA,
desenvolvendo-se fundamentalmente em função de alguns
problemas práticos, não era levada ao tipo de indagação
sobre seus próprios fundamentos, comum entre os
sociólogos do Velho Mundo. O estudo do conhecimento aí
é, antes de mais nada, um estudo de alguns aspectos do
conhecimento "prático", como, por exemplo, comunicação
de massa e propaganda, e voltado para utilizações práticas,
não interessado tanto em porquês, mas fundamentalmente
nos como. O desenvolvimento histórico do capitalismo
naquele país, entretanto, se encarregaria de alterar ainda que
parcialmente (trata-se de toda uma outra tradição intelectual)
tal quadro: a crise de 1929 encontra os Estados Unidos numa
posição central de decisão, e a falência do conhecimento
econômico reflete-se sobre outras esferas, obrigando os
pensadores daquele país a uma reflexão mais profunda em
torno do conhecimento do que a desenvolvida até então.
Por outro lado, a América do Norte era atingida pelo
desenvolvimento das Ciências Sociais na Europa, onde um
funcionalismo à historicista encontrava-se com a tradição
historicista ao relativizar o conhecimento, considerando-o
não em termos de verdadeiro-ou-falso, mas em termos da
função que desempenha num sistema social. Só então,
através do trabalho de teóricos como Merton e Znaniecki, é
que se desenvolve uma Sociologia do Conhecimento nos
EUA, tentando fundir a tradição sociológico-filosófica
européia com a sua própria tradição empiricista — esforço
cuja eficácia não nos cabe aqui analisar.
Nos países subdesenvolvidos, o estudo do conhecimento
(desenvolvido, sobretudo, a partir da década dos 50) assume
também um caráter prático. Trata-se de estudar o
conhecimento em função das exigências do esforço de
emancipação. Faz-se a crítica do "pensamento alienado";
forjam-se instrumentos capazes de, atuando ao nível da
cognição, levarem as massas a uma aceleração em seu
processo de tomada de consciência política. Não há dúvida
de que esse esforço tem produzido frutos, sobretudo
naqueles países em que o esforço de emancipação se vem
operando sem grandes emoções. Entretanto, naqueles
atingidos pela contra-revolução, tal linha de orientação de
pesquisas merece (porquanto o conhecimento simplesmente
prático está sujeito a falências quando não se mostra
imediatamente eficaz) ser repensada.
Este volume pretende, na medida do possível, inserir-se
nessa linha de reflexão.
O artigo "O Problema de uma Sociologia do Conhecimento",
de Karl Mannheim, figura já por demais conhecida do leitor
brasileiro, apresenta seu autor em plena reação contra o
idealismo alemão (trata-se em grande parte de uma crítica a
Max Scheller) e lançando as bases de sua Sociologia do
Conhecimento, que ganharia forma final em Ideologia e
Utopia. Extremamente denso, representa, entretanto, talvez
o que de melhor nos tenha deixado o sociólogo alemão em
forma de artigo. Nele como que se esgota a colocação da
problemática da Sociologia do Conhecimento.
Já em Robert King Merton ("Sociologia do Conhecimento"),
encontramos uma exposição segura e didática da proble-
mática e dos teóricos da Sociologia do Conhecimento,
associada a uma preocupação de operacionalidade
consubstanciada na elaboração de um paradigma para o
estudo concreto do conhecimento. Merton, sociólogo que se
encontra à base do desenvolvimento do moderno estrutural-
funcionalismo nos EUA, preocupado com estabelecer os
fundamentos de uma integração teórica das contribuições
européia e norte-americana ao estudo do conhecimento,
passa em revista as contribuições até então feitas ao estudo
da matéria, demonstrando uma erudição e uma honestidade
intelectual nem sempre encontradas naqueles que se dizem
seus seguidores.
Uma perspectiva profundamente crítica em relação a toda a
Sociologia do Conhecimento é o que nos oferece C. Wright
Mills na sua exposição sobre "Conseqüências Metodológicas
da Sociologia do Conhecimento". Tendo como quadro de
referência geral uma visão histórica dos processos sociais,
retoma, entretanto, como caminho conseqüente à
investigação empírica nesse campo, a contribuição do
pragmatismo de Peirce e Dewey. E, indo mais adiante que
Merton e Mannheim, insiste na contribuição que a
Sociologia do Conhecimento pode trazer à epistemologia.
A tarefa que nos propomos aqui é a de associar uma
introdução à Sociologia do Conhecimento com o lançar o
leitor diante de artigos de alta categoria, de forma que ele
não apenas tenha uma "notícia" dessa disciplina, mas
penetre o mais profundamente possível na sua problemática.
Neste sentido chamamos a atenção para o fato de que a
faceta didática do volume não se encontra tanto neste ou
naquele artigo, mas na recorrência temática dos mesmos. A
preocupação com a contribuição dos clássicos, o sentido de
uma Sociologia do Conhecimento, a historicidade do
conhecimento, as articulações entre o pensamento e a base
existencial são alguns dos eixos que poderão orientar o leitor
em sua reflexão em torno deste volume.
ANTÔNIO ROBERTO BERTELLI
MOACIR SOARES PALMEIRA
OTÁVIO GUILHERME VELHO



O PROBLEMA DE UMA SOCIOLOGIA DO
CONHECIMENTO

KARL MANNHEIM
Tradução de MAURO GAMA e INA DUTRA

1. A Constelação do Problema

O termo "constelação" vem da astrologia e se refere à
posição e relação mútuas das estrelas na hora do nascimento
de um homem. Investigam-se essas relações pela crença de
que o destino da criança recém-nascida é determinado por
essa "constelação". Em um sentido mais amplo, o termo
"constelação" pode designar a combinação específica de
certos fatores em um momento dado; e isso deverá ser
observado quando tivermos certeza de que a presença
simultânea de vários fatores é responsável pela configuração
assumida por um fator no qual estivermos interessados. Para
nós, a astrologia não tem nenhum sentido ou realidade além
do exposto. A categoria de constelação, no entanto, foi
aduzida do contexto descritivo e teórico da astrologia e,
tendo sido incorporada em um novo contexto
weltanschauung, representa, agora, uma das categorias mais
importantes que usamos para interpretar o mundo e a mente
humana. Tem ocorrido também, em outros campos, que
categorias fundamentais sejam desentranhadas no seu
contexto original, quando tornado obsoleto — para serem
utilizadas mais adiante em um novo contexto teórico
próprio. Apesar de pouco ter sido feito até agora para se
estudar em categorias dessa espécie, e apesar de terem sido
praticamente descuidadas em investigações metodológicas,
podemos dizer que são precisamente essas categorias que
constituem o mais valioso instrumental que temos para
interpretar o mundo e dominar os fenômenos que
encontramos tanto na vida diária quanto nas Ciências Cultu-
rais. As categorias da Filosofia da História, em particular (ex.:
"destino"), voltam a ser continuamente férteis, apesar de
numa forma bastante alterada — e nossa interpretação do
mundo estará sempre assentada sobre elas.
A categoria de "constelação", assim destacada do seu con-
texto original, mostrou-se-nos particularmente fértil no
único campo em que ainda poderemos fazer uso, hoje, de
um genuíno instinto metafísico: na contemplação da história
do pensamento. Enquanto a natureza se tornou muda e
despida de significado para nós, ainda temos o sentimento,
ao lidar com a história e também com a psicologia histórica,
de sermos capazes de interligar a essencialidade da interação
das forças básicas, e alcançar os rumos que marcam a
realidade além da superfície tópica dos acontecimentos
diários. A esse respeito, mesmo o intelectual especializado é
um metafísico, quer queira, quer não, pois não pode deixar
de fazer, por causa da sua individualidade, conexões causais
entre acontecimentos separados, e reduzir tudo o que
encontra às forças impulsionadoras que tornam possíveis os
vários eventos individuais. Obviamente, esse tipo de
metafísica, único que nos serve, difere enormemente de
todos os outros tipos de metafísica existentes no passado —
na mesma medida em que a categoria de constelação não
significa para nós o mesmo que, por exemplo, para a astrolo-
gia.
O nosso conhecimento do próprio pensamento humano se
desenvolve numa seqüência histórica; e fomos levados a
levantar este problema da "constelação" pela convicção de
que o próximo estágio possível do conhecimento será
determinado pelo status alcançado pelos vários problemas
teóricos e, também, pela constelação de fatores extrateóricos,
em um momento dado, tornando possível prever-se
determinados problemas se mostrarão solucionáveis.
Especialmente nas Ciências Culturais, estamos convencidos
de que nem toda questão pode ser colocada — muito menos
solucionada — em qualquer situação histórica e de que os
problemas vêm e vão em um ritmo específico que pode ser
apurado. Enquanto nas Matemáticas e na Ciência Natural o
progresso parece, em boa parte, ser determinado por fatores
imanentes, uma questão levando a outra, com uma
necessidade puramente lógica e com interrupções devidas
apenas a dificuldades ainda não solucionadas, a história das
Ciências Culturais mostra um tal progresso "imanente"
apenas para um período limitado. Em outras ocasiões,
problemas não-prefigurados por qualquer coisa imanente aos
processos de pensamento precedentes emergem
abruptamente, e outros problemas subitamente se desfazem;
estes últimos, no entanto, não desaparecem de uma vez por
todas, mas reaparecem, posteriormente, de forma
modificada. Podemos investigar o segredo desse ritmo
ondulatório das sucessivas correntes intelectuais e descobrir-
lhe um padrão significativo apenas pela tentativa de
compreensão da evolução do pensamento como um
processo vital, rompendo, assim, a pura imanência
intelectual da história do pensamento. Aqui, se é válido falar
nesses termos, vemos confirmar-se o ditado de que nada
pode ser intelectualmente um problema se não. tiver sido,
em primeira instância, um problema da vida prática. Se
ampliarmos o nosso campo de visão de acordo com o
exposto, então o problema implicado pela categoria de
"constelação" nos exigirá não apenas observar uma
abordagem sinóptica de todos os problemas teóricos dados
em determinado instante, mas também levar em conta, na
mesma medida, os problemas simultâneos da vida prática.
Nesse ponto, a nossa dúvida assume a seguinte forma: que
fatores intelectuais e vitais tornam possível o aparecimento
de um problema dado nas Ciências Culturais, e até que ponto
eles garantem a solubilidade do problema?
Colocando o nosso problema dessa maneira, podemos afir-
mar que as correntes vitais e práticas, tanto quanto as
correntes teóricas e intelectuais do nosso tempo, parecem
apontar em direção a uma dissolução temporária dos
problemas epistemológicos e em direção à emergência da
Sociologia do Conhecimento como disciplina focal — e
também que a constelação é excepcionalmente favorável à
solubilidade, precisamente, dos problemas dessa disciplina.
Tentaremos, primeiramente, caracterizar a constelação que
deu origem aos problemas da Sociologia do Conhecimento e
descrever as correntes fundamentais que favorecem essa
abordagem. É nossa crença não ser um esforço vão fazer
preliminarmente inquirições dessa natureza antes de
atacarmos qualquer problema da história do pensamento.
Devemos adotar esse procedimento pelo fato de ter o nosso
horizonte se tornado mais largo, e porque a nossa maior
refletividade não somente nos capacita como também nos
obriga a evitar fazer indagações no exato momento em que
elas nos ocorrem, de um modo ingênuo e inconsciente, mas,
pelo contrário, a atentar conscienciosamente para a
formação intelectual dos nossos problemas, para as
constelações responsáveis por sua emergência. Tais in-
vestigações também parece terem-se tornado necessárias
devido à forma específica em que o trabalho, nas Ciências
Culturais, é organizado, ou, mais precisamente, a ausência de
qualquer divisão de trabalho prescrita institucionalmente,
cujo resultado é que cada indivíduo investiga, por si, seus
próprios problemas. À vista disso, uma orientação sinóptica
quanto ao status de todos os problemas desse campo se faz
cada vez mais imperativa. O que necessitamos, entretanto,
não é apenas de um catálogo das correntes e rumos
existentes, mas de uma análise estrutural absolutamente
radical dos problemas que podem surgir em determinada
época, uma análise que não somente informe aos leigos
acerca do que se esteja passando na pesquisa, mas indique as
últimas escolhas realizadas pelo cientista cultural no curso do
seu trabalho, as tensões em que vive e que influenciam seu
pensamento, consciente ou inconscientemente. Tal análise
do trabalho em andamento das Ciências Culturais nos
fornecerá a caracterização mais fundamental da situação
intelectual predominante em nosso tempo.
Se, então, nos indagamos acerca dos verdadeiros e
fundamentais fatores que consubstanciam a constelação que,
necessariamente, deu origem ao problema de uma Sociologia
do Pensamento em nosso tempo, as quatro coisas seguintes
parecerão dignas de menção:

1) O primeiro e mais importante fator, que torna viável a
indagação de questões sociológicas acerca do pensar, é o que
pode ser chamado de auto-transcendência e auto-
relativização do pensamento. Autotranscendência e auto-
relativização do pensamento consistem no fato de que
pensadores individuais, e ainda mais a visão dominante de
uma determinada época, longe de atribuírem primazia ao
pensamento, concebem-no como algo subordinado a outros
fatores mais englobantes — como sua emanação, sua
expressão, seu concomitante, ou, em geral, como alguma
coisa condicionada por alguma outra. Há obstáculos
consideráveis no caminho de uma tal auto-relativização —
assim, acima de tudo o paradoxo do pensador que, ao pla-
nejar relativizar o pensamento, isto é, subordiná-lo a fatores
suprateóricos, postula êle próprio, implicitamente, a validade
autônoma da esfera do pensamento, enquanto pensa e
elabora o seu sistema filosófico; dessa forma, êle arrisca auto-
refutar-se, posto que a relativização de todo pensamento
equivaleria a invalidar também suas próprias afirmações.
Portanto, essa posição envolve o perigo de um circulas
vitiosus teórico. A tentativa de relativizar qualquer outra
esfera, tal como arte, religião etc., não encontra esse
obstáculo; quem quer que esteja convencido de que arte,
religião etc. dependa de um fator mais englobante, como
"vida social", pode afirmá-lo, sem medo de se emaranhar em
autocontradição lógica. Neste último caso, nenhuma
contradição pode surgir, pois, ao afirmar a relação de
dependência em questão, não se precisa postular a esfera da
arte e da religião como algo válido em virtude daquela
afirmação; mas, no que se refere ao pensamento, é claro que
não se pode relativizá-lo sem que se seja, simultaneamente,
um sujeito-pensante, i. e., sem postular a esfera do
pensamento como algo válido.
Podemos escapar a este círculo vicioso concebendo o
pensamento como um fenômeno meramente parcial,
pertencendo a um fator mais englobante dentro da totalidade
do processo mundial e, especialmente, como que
desvalorizando a esfera da comunicação teórica em que essa
auto-contradição se esboça. Para mencionar apenas um tipo
de solução: se alguém insiste em que a esfera do pensamento
(a dos conceitos, julgamentos e inferências) é, simplesmente,
uma esfera de expressão ao invés da constituição (cognitiva)
última de objetos, a contradição, antes insuperável, se
minimiza. Para maior segurança esse método, para se
descartar da contradição teórica, não é imanente à teoria, e
se alguém — para colocar numa forma paradoxal — pensa
"dentro do pensamento" apenas, jamais conseguirá levar a
cabo essa operação mental. Estamos aqui às voltas com um
ato de violação da imanência do pensamento — com um
esforço para compreender o pensamento como um
fenômeno parcial dentro do campo mais vasto da existência,
e para como que determiná-lo a partir de dados existenciais.
O "pensador existencial", no entanto, afirma precisamente
que sua posição última é exterior à esfera do pensamento e
que, para ele, o pensamento nem constitui objetos nem
abrange, em última análise, matérias-de-fato reais, mas
apenas expressa crenças extrateoricamente constituídas e
garantidas. Uma vez que se deprecie o pensamento dessa
forma, contradições internas (cf. Hegel) e paradoxos não
podem mais ser considerados como sintomas de
pensamentos defeituosos — ao contrário, tais sintomas
podem ser valorizados como manifestações de algum
fenômeno extrateórico que seja realmente apreendido na
existência. Desde que os princípios filosóficos últimos estão
suprateoricamente estabelecidos, a progressão histórica de
um sistema filosófico a outro não fica limitada a uma espécie
de refutação teórica. Ninguém abandona um tal princípio
último porque se prove envolver contradições; os sistemas
filosóficos mudam se o sistema vital em que se vive sofre
uma alteração. É, no entanto, importante atentar-se para
esses princípios filosóficos últimos, porque eles estão
envolvidos, de uma forma ou de outra, em toda investigação
das Ciências Culturais.
Se olharmos para a "relativização do pensamento teorético",
de um ponto de vista sociológico e histórico, veremos que
ele pode ser levado adiante de muitas maneiras, dependendo
daquilo sobre que a entidade se assenta e de que se julga que
o pensamento dependa; esse papel pode ser desempenhado
pela consciência mística, pela religiosa, ou qualquer outro
tipo de gnosticismo, ou por uma esfera empiricamente
investigada, subseqüentemente, hipostasiada como realidade
última, tal como a esfera social ou biológica. Em todos esses
casos, o fator de que se julga que o pensamento dependa
contrasta-se com ele como "Existencia", e o contraste entre
"Pensamento" e "Existência" é resolvido filosóficamente de
acordo com o modelo da Filosofia grega. Na maior parte
desses sistemas, a "Existencia" aparece como um todo, em
contraste com o "Pensamento", meramente parcial; e
costuma-se acreditar que, para se apossar da realidade, se
necessita de um órgão supra-racional (i. e., intuição) ou de
uma forma mais elevada de cognição (i. e., o conhecimento
dialético, em contraposição ao conhecimento refletivo).
Mas essa relativização do pensamento não é um fenômeno
exclusivamente moderno. A consciência mística e religiosa
sempre se inclinou a relativizar o pensamento em relação ao
êxtase ou ao conhecimento revelado, e a doutrina da
primazia da vontade representa exatamente mais uma forma
de resolver esse problema da relativização.
Se fosse apenas um caso de auto-relativização, a Sociologia
do Conhecimento poderia ter emergido; em qualquer época
o aspecto característico é, todavia, precisamente o de que
um único fator nunca é razão suficiente para que um
problema surja: o que se requer é toda uma constelação de
tendências mentais e práticas. A nova e distinta feição que
nossa época foi obrigada a ter, em acréscimo à auto-
relativização do pensamento, em geral, para tornar possível a
Sociologia do Conhecimento, foi a da relativização do
pensamento numa direção específica, isto é, com vistas à
realidade sociológica.

2) Em nossas últimas observações, especificamos um fator
mais relevante, cuja análise nos ajudará a completar a
elucidação da constelação total, da qual a Sociologia do
Conhecimento emerge. Após a autoliquidação da
consciência religiosa medieval (um tipo de consciência que,
como vimos, contém elementos transcendendo a pura
racionalidade), constatamos, como sistema englobante
seguinte, o racionalismo do iluminismo. Este sistema, que foi
o único a dotar a Razão de autonomia real, foi, como tal, o
menos indicado a realizar a relativização do pensamento.
Pelo contrário, ele apontava na direção oposta, isto é, em
direção a uma absoluta auto-hipostatização da Razão em
contraste com todas as forças irracionais.
A essa altura, todavia, um fator completamente diferente
emerge, o qual só podemos explicar em termos de
verdadeiros desenvolvimentos sociais, em vez de em termos
do desenvolvimento imanente, de idéias, isto é, para usar
uma expressão de C. Binkmann,, a constituição da ciência
oposicional da Sociologia. O humanismo — primeira
tentativa de grupos laicos se engajarem em pesquisas, no
Ocidente — já representou uma espécie de ciência
oposicional; mas esse tipo de ciência atingiu o estágio
sistemático apenas no período iluminista, que estava por
preparar o cenário para a revolução burguesa. Tanto o núcleo
sistemático quanto o sociológico dessa ciência oposicional foi
a sua hostilidade para com a teologia e a metafísica — e
encontrou sua tarefa principal na desintegração da
monarquia, com sua tradição teocrática residual, e do clero,
que era um dos seus suportes. Nesse conflito, encontramos
pela primeira vez uma certa forma de depreciar idéias que
estavam por se tornar um componente essencial da nova
constelação. Que idéias eram combatidas é de importância
secundária; o que importa é o fato de vermos, aqui, pela
primeira vez, uma espécie de atitude para com idéias que,
daquele ponto em diante, se transformaram na marca
característica de todas as classes emergentes, e que apenas
encontraram sua primeira consciência e formulação refletiva
no marxismo. É o que se pode chamar de "des-mascaradora
mudança de mentalidade". Essa é uma mudança de
mentalidade que não visa a refutar, negar ou colocar em
dúvida certas idéias, porém, antes de tudo, a desintegrá-las
—-mas, de tal forma, que toda a concepção de mundo de um
estrato social se desintegra simultaneamente. Devemos
atentar, a essa altura, para a distinção fenomenológica entre
"negar a verdade" de uma idéia e "determinar a função" que
ela exerce. Ao negar a verdade de uma idéia, ainda a
pressuponho como "tese" e, assim, me coloco sobre a mesma
base teórica (e não mais que teórica) de que a idéia está
constituída. Ao colocá-la em dúvida, continuo a raciocinar
dentro do mesmo padrão categorial que lhe dá origem. Mas
quando nem mesmo levanto a questão (ou, pelo menos,
quando não faço dessa questão o núcleo do meu argumento),
acerca da veracidade daquilo que a idéia estatui, mas que o
considera apenas nos termos da função extrateórica a que se
põe a serviço, então, e somente então, realmente atinjo um
"desmascaramento" que, de fato, representa não uma
refutação teórica, mas a destruição da eficácia prática dessas
idéias.V
Mas, dessa destruição extrateórica da eficácia de proposições
teóricas podemos também distinguir vários tipos. Assim,
podemos apontar outra vez em direção de uma certa
diferença fenomenológica — aquela entre, por exemplo, o
"desmascaramento" de uma mentira como tal e o
"desmascaramento" sociológico de uma ideologia.
Se dissermos que determinada declaração é uma "mentira",
isso também não constitui refutação teórica ou negação do
que a declaração afirma; o que dizemos se refere, isto sim, a
certa relação do sujeito que faz a declaração com a
proposição que expressa. O importante é invalidar aquilo que
a expressão denota, atacando a moral individual da pessoa
que a elaborou. Todavia, na verdade, a denotação teórica de
uma declaração não fica invalidada pela demonstração de que
o seu autor "mentiu". Pode-se dar muito bem que uma
pessoa faça uma afirmação verdadeira e minta ao mesmo
tempo — o que ela diz é objetivamente verdadeiro, mas, "na
sua boca", como se diz, a afirmação é uma mentira.
Reconhecidamente, o uso é variável a esse respeito; o termo
"mentira" é freqüentemente usado no sentido de uma
afirmação falsa feita conscientemente. Mas, inclusive nesse
caso, a "mentira", como distinta do "erro", é mais uma
categoria ética que teórica. O termo "mentira", parece, se
refere a certa relação entre existência real, por um lado, e
certos objetos mentais, por outro; o que quer dizer, que
consideramos afirmações de um indivíduo do ponto de vista
de sua personalidade ética. Contudo não se pode dizer que o
"desmascaramento" de uma mentira seja a mesma coisa que
o "desmascaramento" de uma ideologia, ainda mesmo que
caiam ambos sob o gênero da análise funcional, dirigidos ao
"desmascaramento" de um sujeito, de certos complexos
teóricos, sob o ponto de vista de suas relações com a
realidade existencial.
A diferença essencial entre o desmascaramento de uma
mentira e o de uma ideologia consiste no fato de que a
primeira visa à personalidade moral de um indivíduo e
procura destruí-lo moralmente, revelando-o como um
mentiroso, enquanto o desmascaramento de uma ideologia,
na sua forma pura, ataca, por assim dizer, apenas uma força
sócio-intelectual impessoal. Quando desmascaramos
ideologias, procuramos trazer à luz um processo
inconsciente não para aniquilar a existência moral de pessoas
que elaboram certas afirmações, mas para destruir a eficácia
social de certas idéias através do desmascaramento da função
a que servem. Desmascarar mentiras sempre foi feito; o
desmascaramento de ideologias, no sentido acima definido,
contudo, parece ser um fenômeno exclusivamente moderno.
Também nesse caso, o fato de que a função sócio-psíquica de
uma proposição ou "idéia" seja desmascarada não significa
que ela seja negada ou submetida a uma dúvida teórica —
inclusive não se trata de questão acerca de veracidade ou
falsidade. O que acontece, na verdade, é que a proposição é
"dissolvida": trata-se, aqui, da corrosão existencial de uma
proposição teórica, com uma atitude dirigida para
comunicações teóricas, que negligencia o problema de sua
veracidade ou falsidade, e busca transcender os seus
significados teóricos imanentes, em direção da existência
prátka. A emergência da mentalidade desmasca-radora (que
devemos entender, se quisermos compreender o caráter
distintivo de nosso tempo) é o segundo fator carente de uma
interpretação em termos sociológicos — que representa algo
radicalmente novo, devido não tanto à direção quanto à
forma pela qual a imanência implícita é transcendida. O con-
flito prático das classes sociais deu origem a um novo tipo de
atitude para com idéias que, inicialmente apenas praticadas
com vistas a algumas poucas idéias selecionadas,
transformaram-se mais tarde no protótipo de uma nova
forma de transcender a imanência teórica, em geral.

3) A emergência da mudança de mentalidade
desmascaradora — a história oculta que ainda carece de uma
investigação mais exata — não basta, todavia, para explicar a
causa de termos, hoje, uma constelação permitindo o
desenvolvimento de uma Sociologia do Pensamento.
Devemos ainda mencionar dois fatores mais importantes que
contribuem para configurar a variante contemporânea do
pensamento existencial relativizante.
Primeiro, a "relativização", nos termos em que a
caracterizamos acima (em termos de "desmascaramento" e
"transcendência"), referia-se apenas a certos itens individuais
do pensamento — o seu objetivo ainda era parcial. Segundo,
nós ainda indicamos o terminus do movimento de
transcendência, o absoluto em cuja relação certos itens são
relativizados. E ainda mais, conforme dissemos, o
pensamento, a imanência do significado teórico, não podem
ser transcendidos a menos que coloquemos algo mais
englobante, como um Ser, em contraste com ele — um Ser
cujas ideias sejam concebidas como "expressão", "função", ou
"emanação". Mas, nesse caso, ainda carecemos do ponto de
referência, da esfera ontológica de central importância, a
cujo respeito pode o pensamento ser considerado como
relativo ou dependente. Como dissemos, um tal centro
jamais poderá ser pensado; ele se deslocará sempre para
aquela esfera da vida em que o pensador que sistematiza,
como "ser prático", vive mais intensamente. Em tempos
idos, indivíduos que transcendiam o pensamento "viviam"
nas revelações religiosas, nos êxtases etc.; durante o último e
contemporâneo estágio da evolução da consciência, todavia,
o traço característico foi o fato do senso de realidade se ter
cada vez mais concentrado na esfera histórica e social e de
ser, nessa esfera, o fator econômico considerado como
central. Desse modo, a teoria atualmente não transcendeu
em direção à experiência religiosa ou estática; as classes
emergentes, particularmente, experimentam o campo
histórico e social como o mais imediatamente real; e esta é,
concomitantemente, a esfera que é contrastada com idéias
como "Ser", ou "Realidade", em relação aos quais as idéias são
consideradas como algo parcial, funcional, como mera
"tomada de consciência" de alguma coisa mais englobante.
Esse é um novo tipo de metafísica ontológica, não obstante
haver recebido sua formulação mais definida de um
positivismo antimetafísico.,Que uma tal neometafísica tenha
sido criada pelo positivismo não nos surpreenderá mais,
todavia, se nos lembrarmos que, afinal de contas, também o
positivismo é uma metafísica, visto que configura um
determinado complexo a partir da totalidade do existente e,
como outra metafísica qualquer, hipostasia-o na forma de um
absoluto ontológico. Esse complexo hipostasiado para o
positivismo é aquele das descobertas da ciência empírica. E
está coerente com o deslocamento do centro vital da
experiência para a esfera sócio-econômica que tenha a
Sociologia sido desenvolvida pela corrente positivista.
Quando, em seus últimos escritos, Saint-Simon analisou
trabalhos literários, formas de Governo etc., nos termos do
processo sócio-econômico, especificou aquela esfera que
mais tarde veio a desempenhar, cada vez mais, o papel do
pólo "absoluto", em cuja direção a imanência teórica era
transcendida. Quando a Sociologia se constituiu, dentro da
moldura da consciência positivista, o terminus ontológico do
movimento que transcendia a imanência teórica estava dado.

4) Mas ainda nos falta um traço indispensável à plena
caracterização da constelação contemporânea. Antes que o
atual estágio pudesse ser atingido, o "desmascaramento",
como método, teve que superar a parcialidade que, a
princípio, limitava o seu emprego. Apesar do objetivo ter
sido, desde o seu início, a desintegração da Weltanschauung
total de uma classe dirigente, o que realmente se deu foi,
apenas, a desintegração de certas idéias, cuja natureza
"funcional" foi mostrada em termos sociológicos; as idéias de
Deus, da metafísica etc., foram relativizadas dessa maneira.
Esse empreendimento, não obstante, somente poderia
atingir seu objetivo final quando a natureza presa a interesses
das idéias, a dependência do "pensamento" à "existência",
fossem trazidas à luz, não apenas quanto a certas idéias
escolhidas da classe dirigente, mas de tal forma que a
superestrutura (como diria Marx) ideológica inteira
aparecesse como dependente da realidade sociológica. O que
se devia fazer era demonstrar a natureza determinada
existencialmente de um sistema inteiro de Weltanschauung,
mas do que da idéia deste ou daquele indivíduo. Que não se
poderia, nessa conexão, considerar idéias ou crenças
isoladamente, mas, em vez disso, compreendê-las como
partes mutuamente interdependentes de uma totalidade
sistemática, foi a lição que aprendemos do historicismo
moderno. Questões de detalhe, tais como a que concerne à
exata contribuição de uma ou outra época, ou escola, à
emergência dessa visão totalizante da ideologia (ex.: em que
profundidade está o historicismo germinalmente presente no
Iluminismo, e como a mentalidade romântica tornou
possível a visão global de totalidades históricas), não pre-
cisam ser investigadas aqui. Temos que mencionar, no
entanto, um dos mais importantes representantes do
pensamento histórico, e de quem Marx aproveitou o
conceito de totalidade histórica que lhe permitiu colocar o
problema ideológico acima referido — ou seja, Hegel.
Inclusive no seu pensamento, encontramos o tema da auto-
relativização da teoria, embora peculiarmente modificada.
Assim, Hegel distingue o pensamento "refletivo" do
pensamento "filosófico"; desvaloriza a esfera na qual o
princípio da contradição é válido enquanto comparado ao
verdadeiro movimento da idéia; realça a doutrina da
"dialética da Idéia", segundo a qual as crenças subjetivas dos
homens são meros instrumentos para auxiliar o tráfego de
desenvolvimentos reais. Em todos esses casos, se a palavra
"ideologia" fosse acrescentada, encontraríamos a mesma
concepção fundamental que subjaz à teoria marxista. Tanto
em Hegel quanto em Marx, vamos encontrar, depreciada, a
mera "crença subjetiva", conforme Hegel, ou "ideologia",
conforme a terminologia marxista; essa esfera subjetiva é
privada de sua autonomia em favor de alguma realidade
básica. É uma diferença relativamente insignificante a
existente entre Hegel, que permanece dentro da tradição
idealista, e para quem a realidade básica é mental — e Marx,
que compartilha a colocação positivista da realidade, e define
essa realidade básica em termos de realidade econômica e
social. Apenas porque essa similaridade estrutural existe, a
categoria de "totalidade" pode desempenhar um papel crucial
em ambos os autores: as crenças das pessoas reais não
dependem da existência social dessas mesmas pessoas, de
modo fragmentário, mas é a totalidade do seu mundo
mental, a superestrutura global, que é uma função da sua
existência social. É apenas em decorrência dessa aspiração à
"totalidade" que a tentativa de transcender a teoria com o
subsídio da técnica de "desmascaramento" assume uma nova
forma específica, claramente distinta de todas as versões
anteriores. Como resultado disso, vemos um novo tipo de
relativização, o da invalidação de idéias. Quanto a esse ponto,
podemos relativizar idéias, não por negá-las uma a uma, não
por as colocar em dúvida, não por mostrá-las como reflexos
desse ou daquele interesse, mas demonstrando que elas
fazem parte de um sistema ou, mais radicalmente, de uma
totalidade de Weltanschaung que, como um todo, é ligada a,
e determinada por, um estágio do desenvolvimento da
realidade social. A partir desse ponto, universo em confronto
com universos, já não mais se trata de proposições
individuais em oposição a proposições individuais.
Como vimos, o problema de uma Sociologia do Conheci-
mento surgiu como um resultado da interação de quatro
fatores: 1) a auto-relativização do pensamento e do
conhecimento; 2) o aparecimento de uma nova forma de
relativização introduzida pela mudança de mentalidade
"desmascaradora"; 3) a emergência de um novo sistema de
referência, o da esfera social, a respeito do qual o
pensamento poderia ser concebido como relativo; 4) a
aspiração de tornar essa relativização total, relacionando não
um pensamento ou idéia, mas todo um sistema de idéias a
uma realidade social subjacente.
Quando esse estágio é alcançado, a ênfase original que
acompanha a emergência desses novos padrões de
pensamento é substituída, e diversas formas superficiais de
expressão, originalmente associadas com a nova abordagem,
somem por si mesmas. Desse modo, a ênfase no
"desmascaramento" para determinar a função social das
idéias pode, cada vez mais, ser eliminada. À medida que
nossa teoria adquire maior escopo, adquirimos cada vez
menos interesse em minimizar idéias individuais,
estigmatizando-as de falsificações, enganos, mistificações e
tipos de "mentiras"; estando cada vez mais cientes do fato de
que todo pensamento de um grupo social é determinado pela
sua existência, encontramos cada vez menos espaço para o
exercício do "desmascaramento". O "desmascaramento"
arrosta um processo de sublimação — que o transforma em
mera operação de determinar o papel funcional de qualquer
pensamento. O "desmascaramento" não consiste mais em
coisas tais como descobrir o "crime do padre" e congêneres
— acostuma-se, inclusive, ir um pouco mais longe,
excluindo-se, em muitos casos, o engano consciente; o
objetivo da operação crítica é alcançado quando se especifica
que o locus da idéia a ser combatida pertence a um sistema
teórico "obsoleto" e, ainda mais, a um todo existencial que a
evolução deixou para trás.
A segunda "alteração" que ocorre nesse estágio consiste num
alargamento natural da aspiração à totalidade. Uma vez
familiarizados com a concepção de que as ideologias dos
nossos oponentes constituem, afinal de contas, a função de
suas posições no mundo, não podemos deixar de concluir
que nossas idéias são, também, funções de uma posição
social. E, mesmo, se nos recusarmos a admiti-lo, o oponente
nos obrigará a encarar aquele fato — pois ele,
eventualmente, fará uso também do método de análise
ideológica, e o aplicará ao seu interlocutor. É esta,
precisamente, a característica principal da presente situação:
o conceito de "ideologia" foi inicialmente derivado da
"ciência oposicional", mas não se manteve como privilégio
das classes emergentes. Os seus oponentes também
empregam essa técnica de pensamento — primeiramente, a
burguesia, que foi bem sucedida e está consolidando a sua
posição. Hoje, não é mais privilégio dos pensadores
socialistas observar a determinação social das idéias, que se
transformou em parte integrante da consciência
contemporânea como um todo, um novo tipo de
interpretação histórica que deve ser adicionada às anteriores.
Nessa conexão, o aspecto principal que pede atenção é o fato
de que novos métodos e técnicas de pensamento que vão
surgindo nas Ciências Culturais têm suas origens na realidade
social, mas posteriormente iniciam uma auto-evolução,
eventualmente perdendo contato com seu lugar social de
origem. A essa altura, temos que observar a maneira pela
qual o conteúdo e a função das novas técnicas se modificam
quando perdem seu conteúdo social original. Já vimos dois
exemplos disso: primeiro, a modificação da atitude de
"desmascaramento", isto é, o fato de que certos complexos
teóricos dados são superados indiretamente por referência a
uma visão sinóptica do processo histórico, em vez de pelo
"desmascaramento" de itens isolados; e, em segundo lugar, o
fato de que a escolha da esfera social como um sistema de
referência foi pela primeira vez realizada por uma "ciência
oposicional" e, então, tornou-se, gradualmente, mais ou
menos uma posse comum de todos os campos.
Podemos mencionar um terceiro aspecto da expansão na-
tural e da evolução das idéias, isto é, o fato de que a
tendência fundamental para a auto-relativização
(característica distintiva da mentalidade moderna) não pode
estacionar em qualquer momento dado. Assegurado que
idéias e complexos teóricos são relativos ao Ser — é ainda
possível conceber este Ser não só como essencialmente
imutável, estático, mas também como dinâmico. Mas é
característico do pensamento moderno considerar seu
último ponto de referência — neste caso, o Ser — si-
multaneamente como algo "dinâmico" e "vindo a ser". Não
somente idéias, mas também o "Ser", do qual elas parecem
depender, devem ser reconhecidos como algo dinâmico —
tanto mais que, para aqueles que têm discernimento, os seus
próprios pontos de vista sofrem, também, uma constante
modificação. Isso levanta a necessidade de satisfazer o anseio
de totalidade de um modo mais completo. Não basta
compreender que as "idéias" de uma classe antagônica são
ditadas pela sua "existência", não basta reconhecer que
nossas próprias idéias sejam ditadas pela nossa própria
existência; o que temos de entender é que tanto nossas
"idéias" quanto nossa "existência" constituem componentes
de um processo evolutivo totalizante, no qual estamos
comprometidos. Esse processo global, então, é postulado
como o nosso derradeiro "absoluto" (embora imutável e
evolutivo); ideias conservadoras e progressistas (para usar
esses rótulos ultra-simplificados) aparecem como derivados
desse processo. Em nossa opinião, a presente constelação de
problemas implica esse radical encaminhamento das idéias às
suas últimas conseqüências; e as dificuldades envolvidas
nesse conjunto de teses levam à emergência dos problemas
da Sociologia do Conhecimento.
Temos de retroagir ao ponto em que os problemas oriundos
da realidade social buscam uma solução sistemática e rever as
possíveis soluções viáveis nos vários estágios da evolução da
consciência.

2.Posições Teóricas

Até aqui, delineamos a constelação daqueles fatores que
precisaram ser dados em conjunto, de modo que o problema
da Sociologia do Conhecimento pudesse chegar a emergir.
Mesmo ainda nesta investigação preliminar nossa abordagem
tem sido, principalmente, sociológica: mostramos como uma
corrente oposicional de opinião levou a questões relativas à
determinação sociológica dos modos de pensamento. Tendo
atravessado dois estágios — sendo o primeiro, ou
preparatório, o pensamento da burguesia emergente, o
segundo o da classe oposicional seguinte, o proletariado —
essas idéias adquiriram, entrementes, tal alcance, tal
urgência, que ninguém que queira pensar em categorias de
uma importância genuinamente global pode permitir-se
ignorá-las como componentes do pensamento con-
temporâneo.
Se olharmos a história como um rio dividido em vários
braços, e concebermos a história do pensamento como
também separada em correntes variadas, por alguma
necessidade histórica inevitável (e qualquer estudo mais
minucioso da história não pode senão confirmar semelhante
concepção), neste caso podemos facilmente ser levados a
assumir a posição extrema de que a história das idéias
consiste em seqüências de pensamentos completamente
isoladas, sem a mais leve intercomunicação, de tal maneira
que, por exemplo, pensamento conservador e progressista
teriam, cada um deles, encerrado em si próprio uma tradição
independente de interpretação do mundo. Aqueles que
pensam dessa maneira estão inclinados a adotar ou uma solu-
ção de extrema direita ou uma de extrema esquerda, para o
problema de interpretação da história; levando em
consideração apenas a rota histórica atravessada por seu
próprio grupo, e pelas pretensões por este levantadas, eles
são totalmente incapazes de fazer justiça à função e à
significação dos modos de pensar de outros grupos. Agora
não pode haver dúvida de que as teorias, métodos e atitudes
históricos ou sociológicos se formam sempre em estreita
correlação com a posição social específica, e com os
interesses intelectuais, de uma classe ou grupo social.
Contudo, precisa-se admitir que, após ter uma classe
descoberto algum fato histórico ou sociológico (que está
colocado nesta linha de visão devido à sua posição
específica), todos os outros grupos, quaisquer que sejam seus
interesses, não só podem levar em consideração cada fato
como devem, de algum modo, incorporar cada fato ao seu
sistema de interpretação do mundo.
Uma vez isto admitido, devemos concluir que todos os
grupos, ainda que entregues a suas tradições separadas, pro-
curam, contudo, desenvolver uma imagem globalizante do
mundo, não ignorando qualquer dos fatos trazidos à luz por
algum deles. Por isso, a pergunta que enfrenta uma concreta
Sociologia do Conhecimento é a seguinte: que categorias,
que concepções sistemáticas são usadas pelos diferentes
grupos em um estágio dado, na avaliação de um mesmo fato
descoberto no curso das operações práticas? E quais são as
tensões que aparecém na tentativa de adaptar esses novos
fatos àquelas categorias e concepções sistemáticas? Podemos
afirmar isto mais simplesmente, se deixarmos de lado o papel
das pressuposições sistemáticas a priori no processo do
pensamento; o que perdura, então, é o fato de que correntes
intelectuais diversas não se desenvolvem isoladamente, mas
mutuamente se afetam e se enriquecem; e, no entanto, não
se fundem num sistema comum, mas tentam considerar a
totalidade dos fatos descobertos, partindo de diferentes
axiomas gerais.
Essa visão da estrutura histórico-sociológica do processo
intelectual induz à conclusão de que, em cada momento,
existem vários "pontos de vista" sistemáticos e filosóficos
diferentes, dos quais se pode experimentar a consideração de
um novo fato emergente por uma nova faceta da realidade
cognitiva.
Com efeito, nenhum de nós se coloca num vácuo de
desincorporadas verdades supra-temporais; todos nós
confrontamos a "realidade" com problemas já estruturados e
sistematizações sugeridas, e a obtenção de um novo
conhecimento consiste em incorporar novos fatos à velha
armação de definições e categorias, determinando seu lugar
entre elas. Não queremos negar que "classe" ou "idéia" são
realidades objetivas; todavia, elas carecem do caráter de
"fatos persistentes", atribuído às coisas (também um tanto
erroneamente, ao que parece) em virtude do que nos seriam
apresentadas inquestionavelmente da forma que "são". Que
os conceitos mencionados ("classe", "idéia") são
objetivamente reais, se prova pelo fato de invariavelmente
resistirem às tentativas de que deles se duvida, e de imporem
ao espectador uma espécie de padrão gestaltiano. Mas a per-
gunta sobre o que eles são será respondida de modo
diferente, dependendo dos pontos de vista sistemáticos de
que são examinados. É esta a razão por que é tão fascinante
observar como a descoberta de determinados fatos (tais
como "classe", "ideologia") se relaciona com certos
compromissos sistemáticos e sociais; como, por exemplo, o
conceito de "classe" diz essencialmente respeito a um
pensamento de oposição, enquanto certos conceitos
"orgânicos", como "tradição" ou "protocolo", têm uma
afinidade com o pensamento conservador. O que isso sugere
é que certos compromissos, por assim dizer, nos tornam
sensíveis a certas realidades do passado, do presente ou do
futuro. Entretanto, uma vez que os fatos se tenham tornado
visíveis, eles são também admitidos pelas outras correntes,
na perspectiva específica em que lhes surgiram. E a pergunta
mais provocante talvez seja aquela sobre o meio pelo qual os
preconceitos sistemáticos destes outros grupos modificam,
no seu pensamento, a realidade descoberta por alguma outra
pessoa.
Tudo isso significa, naturalmente, que mesmo as descobertas
científicas especializadas estão fortemente ligadas a certas
pressuposições filosóficas e sistemáticas, e somente se podem
destacar destas últimas no que diz respeito a alguns dos seus
aspectos parciais. Quando novos "dados" estão sendo
interpretados, o reconhecimento de novos "fatos" depende
de que a criação do sistema tenda a um sentido filosófico que
ocorre prevalecer. Como vimos acima, não se pode
estabelecer, de uma vez por todas, de que posições filosóficas
faz uso o pensamento conservador e o progressista,
respectivamente — estas correlações também são dinâmicas
por natureza. É preciso investigar-se histórica e
sociologicamente há quanto tempo, e até que ponto, o
positivismo é um meio caracteristicamente "burguês" de
pensamento; que nuança de positivismo vem a ser uma base
para o pensamento proletário; em que o positivismo de uma
burguesia prosperamente consolidada difere do positivismo e
do materialismo revolucionários; de quanto do pensamento
"dinâmico" se irão apropriar os grupos respectivamente
revolucionário e conservador, e assim por diante.
Não tentaremos investigar a gênese histórico-social dos
vários pontos de vista de que a realidade, atualmente, está
sendo interpretada. Nosso plano é, de preferência, escolher
arbitrariamente um corte transversal dos pontos de vista
contemporâneos e verificar que diferentes princípios
fundamentais estão na base a partir da qual se pode tentar a
análise dos novos problemas que emergem presentemente.
Pois parece termos atingido o estágio em que o problema de
uma Sociologia do Conhecimento, que pertenceu até agora
ao contexto do pensamento progressista, se reconhece como
uma "realidade persistente" e como tal está sendo manejada
também de todos os outros pontos de vista. Havendo
delineado a constelação que tornou possível a emersão do
problema, temos agora de encarar a questão adicional: quais
são as posições sistemáticas preexistentes no pensamento dos
variados grupos com que este problema se depara, no
momento em que ele alcance aquele status de "realidade
persistente" que exige, de cada grupo, dar-lhe atenção? Que
filosofias contemporâneas, que "pontos de vista" permitem
trabalho sistemático sobre esse problema, e qual é a
característica específica desses pontos de vista?
Entre os mais importantes "pontos de vista" filosófico-
sistemáticos, de que se pode tentar a elaboração de uma
Sociologia do Conhecimento, parecem incluir-se,
atualmente, os seguintes: a) positivismo, b) apriorismo
formal, c) apriorismo material (i.e., a escola fenomenológica
moderna), d) historicismo.
Para falar mais exatamente, apenas o positivismo tem dado,
até agora, uma Sociologia do Conhecimento amplamente
desenvolvida, e isto em duas variantes — sendo uma a
chamada teoria materialista da história, que se relaciona com
a nuança proletária do positivismo, e a outra a teoria
"positivisto-burguesa", desenvolvida por Durkheim, Lévy-
Bruhl, Jerusalém etc. O apriorismo formal contribuiu
meramente com uma aproximação inicial ao problema de
uma Sociologia do Conhecimento, sem se ocupar de
investigações históricas minuciosas. Pode-se pensar nessa
conexão das várias nuanças do neokantismo, que obteve
reconhecimento, em parte entre os burgueses, em parte
entre os sociais-democratas.
A discussão mais pormenorizada se reservará para a moderna
escola fenomenológica, do apriorismo material, tanto que, a
esta altura, omitiremos qualquer das caracterizações da
mesma. Uma discussão separada se dedicará também ao
ponto de vista filosófico do historicismo, eminentemente
relevante para o problema da Sociologia do Conhecimento.
Entre os representantes deste ponto de vista, podemos citar
Troeltsch e o marxista de esquerda ortodoxa G. Lukács.
É o debate entre as duas últimas escolas mencionadas
(fenomenologia e historicismo) que consideramos decisivo.
Antes, porém, de acolher essas duas posições, faremos umas
poucas observações sobre as duas escolas primeiro
mencionadas. Nossa própria concepção será apresentada
como seção final deste ensaio.
a) O positivismo, meramente uma filosofia da não-filosofia,
trata o problema da Sociologia do Conhecimento como
pertencente a uma disciplina científica especializada. É, no
entanto, uma escola essencialmente iludida, não só porque
hiposta-sia um conceito particular do empirismo, como
porque defende que o conhecimento humano pode ser
completo sem a metafísica e a ontologia. Além disso, esses
dois princípios são mutuamente contraditórios: uma doutrina
que hipostasia certos métodos paradigmáticos, e as esferas de
realidade a eles correspondentes como "absolutamente"
válidas, se torna desse modo, ela própria, uma metafísica —
não obstante particularmente limitada. Aplicada na prática, a
doutrina positivista tem por conseqüência tomarem os
cientistas, cada um, e em cada campo particular de pesquisa,
o substrato "material", ou o "psíquico", como sendo a
realidade "última", para a qual todos os outros fenômenos
(e.g., intelectuais, artísticos e outros, de ordem cultural)
podem localizar-se no passado. Uma variedade de
positivismo — aquela que toma a esfera econômica para
exprimir a realidade última — é particularmente importante
para a Sociologia do Conhecimento. Os partidários dessa
teoria, especialmente aqueles que representam o "marxismo
vulgar", sustentam, primeiro, que nada existe senão a matéria
e, segundo, que a singular fatualidade persistente da matéria
se revela, na esfera social, pelas relações econômicas; é
nestes termos, então, que se deveria responder pelas
realidades culturais.
Como resposta às decisivas experiências do nosso tempo,
todas as variantes do positivismo foram fundamentalmente
genuínas: de nosso ponto de vista, elas representam uma
reflexão honesta sobre o fato de o centro da nossa
experiência haver-se deslocado da esfera espiritual e religiosa
para a sócio-econômica. Foi o capitalismo, com a
intensificação das lutas de classe por ele causadas, o
responsável por esta mudança dos centros de experiência
para esses campos, bem como pelo fato de o pensamento
científico e tecnológico tornar-se o único protótipo
reconhecido de todo o pensamento. Não é, de modo algum,
surpreendente que uma filosofia, procurando fornecer uma
interpretação do mundo com este tipo de experiência e de
pensamento sendo seu quadro de referência básico,
fundamentou sua epistemologia exclusivamente na Ciência
Natural e, em sua ontologia, atribuiu realidade apenas às
esferas que experimentou como reais — recusando
inteiramente o reconhecimento teórico daquelas esferas que,
em sua experiência prática, apareceram somente na periferia.
Esse defeito, essa unilateralidade, seria facilmente corrigido;
tudo o que se faria necessário seria um alargamento do
horizonte, que permitiria uma transformação da mera anti-
metafísica na compreensão positiva de que todo pensamento
humano é de tal modo estruturado que, em alguma parte,
tem de assumir o Ser absoluto — e, conseqüentemente, tem
de pressupor uma ou outra esfera como absoluta. Mais grave,
porém, é outro defeito do positivismo, isto é, o de que suas
pressuposições fenomenológicas inconscientes são falsas, de
modo que seus métodos são completamente inadequados,
em especial ao tratar da realidade artístico-intelecto-
espiritual.
As descrições positivistas da realidade são
fenomenologicamente falsas, porque seus adeptos — como
naturalistas e psicólogos — são cegos diante do fato de que o
pretendido "significado"' é específico, sui generis, incapaz de
se dissolver em atos psíquicos. São cegos para o fato de que a
percepção e o conhecimento dos objetos significativos
envolvem, como tal, interpretação e entendimento; de que
os problemas surgidos nesta conexão não podem ser
resolvidos pelo monismo científico; e, finalmente, de que
seu naturalismo os impede de ver, de maneira correta, as
relações entre a realidade e o significado.
Apesar dessas observações, devemos reconhecer que foi o
positivismo o primeiro a descobrir e articular o problema de
uma Sociologia do Conhecimento. E, ainda que devamos
considerar os métodos e premissas do positivismo como não
mais suficientes, porque muito estreitos, temos que admitir
que esta doutrina contêm dois pontos que revelam
experiência autêntica e, por conseguinte, até agora
permanecem válidos, mesmo para nós. Um deles é que o
positivismo deu, pela primeira vez, uma formulação
filosófica do fato de ter o homem contemporâneo mudado
seu centro de experiência para a esfera econômico-social —
esta é a orientação "mundana" do positivismo; o outro é seu
respeito pela realidade empírica, que fará a metafísica, sob a
forma de pura especulação, impossível para sempre. Insisti-
mos, pois, que, substantivamente, o positivismo executou a
reviravolta essencial em direção a um caminho de
pensamento apropriado à situação contemporânea;
sistemática e metodologicamente, contudo, não ultrapassou
um nível relativamente primitivo, desde que, por exemplo,
não reconhece o fato de que esta orientação "mundana"
envolvia também uma hipostasia, uma metafísica.
b) A filosofia da validade formal representa um segundo
ponto de vista, do qual se poderia tentar erigir uma
Sociologia do Conhecimento. Tudo o que esta escola tem
conseguido, porém, são meramente uns poucos princípios
de uma teoria geral de Sociologia da Cultura; e não é de
admirar, em nossa opinião, que este tipo de filosofia não
tenha inspirado nenhuma pesquisa sociológica concreta. Pois
a filosofia da validade deprecia o Ser, como se oposto ao
Pensamento, em amplitude equivalente a uma declaração de
completo desinteresse pelo Ser. Essa escola pretende,
primordialmente, compreender o pensamento em termos de
pensamento, isto é, tanto de certo modo imanente como
para dar uma justificação teórica dessa posição "imanentista".
Na verdade, sob este ponto de vista imanente, a diferença
fenomenológica entre "ser" e "significação", para a qual a ati-
tude positivista é necessariamente cega, torna-se facilmente
discernível, e estaremos prontos a fazer justiça à diferença
essencial entre um ato de experiência e a significação por
este pretendida. No entanto, se não se vai além desse ponto
de vista imanente (como no caso da filosofia da validade), tal
dualismo será hipostasiado como alguma coisa absoluta, e o
segundo termo da relação — "significação" — receberá
inevitavelmente uma exagerada ênfase metafísica. A filosofia
da validade se interessa, sobretudo, por salvar a "validade"
das redes da gênese histórica e sociológica e preservá-la na
sublimidade supra-temporal. Mas isso provoca uma ruptura
no sistema: tanto a esfera da "validade" teórica quanto a dos
outros valores são hipostasiadas como absolutos supra-
temporais, enquanto o substrato material em que os mesmos
atualizam é abandonado ao anárquico fluxo do Ser.
Esta filosofia continuou auto-consistente por tão longo tem-
po quanto teve coragem bastante para afirmar — como fez a
filosofia do Iluminismo — sua fé inabalável na Razão e,
seguindo o exemplo das teorias de "lei natural", para declarar
uma posição específica, com a derivação correspondente a
"validade" tida como a única totalmente "correta". (É claro
que, agindo assim, a gente contempla necessariamente do
alto o fato de se estar conferindo validade "eterna" a um
estágio transitório da história do pensamento.) Mas a
consistência interna desse tipo de filosofia se perde tão logo
que, sob a impressão da variabilidade histórica do
pensamento, todas as proposições materiais são apresentadas
como puramente relativas e existencialmente determinadas,
embora a autonomia e a supra-temporalidade sejam
sustentadas em defesa dos elementos formais do pen-
samento, tais como as categorias ou — nas mais novas
variantes desta filosofia — os valores formais.
Sociologicamente, o estágio anterior — a asserção da verdade
exclusiva de uma posição material — corresponde à
autoconfiança da nascente ordem burguesa, que teve
inquebrantável fé em certos dogmas. Quando, porém, mais
tarde, a burguesia foi obrigada a adotar uma posição
defensiva, a ordem social burguesa passou a ser uma mera
"democracia formal", i.e., contentou-se com afirmar o
princípio da completa liberdade de opinião e recusou-se a
fazer uma escolha entre as várias opiniões. Tal atitude
corresponde à pressuposição filosófica de que só pode haver
uma verdade, e de que esta verdade só pode ser expressa de
uma forma; todavia, a tarefa de descobri-la deve ser
abandonada à livre discussão. (Na medida em que este
processo de transição dentro da própria democracia burguesa
é afetado, ele já foi descrito pela análise histórica.)
Filosoficamente, o defeito desta posição consiste em sua
inaptidão para responder, de maneira orgânica, pela unidade
do ser e da significação — problema que inevitavelmente
aparece dentro de qualquer sistema. Além disso, adotar esta
posição significa apresentar-se filosoficamente
aproblemático, e excluir do alcance da pesquisa histórico-
social precisamente as questões mais essenciais de uma
Sociologia do Conhecimento, tais como o problema da
transmutação de categorias e das mudanças na hierarquia das
esferas de valor, como também o que indaga se a presente
suposição de "esferas de valor" isoladas e fechadas não
corresponde simplesmente a uma hipostasia de um estado de
coisas transitório e especificamente moderno. O único
caminho em que os adeptos desta posição filosófica po-
deriam tentar resolver problemas de Sociologia da Cultura, e
particularmente do pensamento, consiste em examinar o
substrato material em que as esferas de valor formais são
atualizadas.
Esta abordagem, contudo, não poderia vir a ser frutífera.
Pois, se a separação entre "forma" e "matéria" se fizer tão
aguda e absoluta assim, a matéria é, por assim dizer,
abandonada à sua própria sorte. Eis também por que esta
escola não poderia produzir nenhuma filosofia material da
história. Além do mais, se a "forma" é tão agudamente
separada da atualização material, todos os produtos culturais
das épocas passadas devem ser observados, inevitavelmente,
em termos de uma "forma de validade" contemporânea.
Desde que ela é somente "matéria" que muda, há somente
uma "arte", uma "religião" etc., e ela, no essencial, é sempre a
mesma que hoje. Essa escola negligencia o fato segundo o
qual — para usar a sua terminologia — a "forma de validade",
atualizada num determinado tempo, é influenciada pelo
substrato material em mudança, de tal modo que uma
transformação na esfera material provoca uma transformação
na esfera da "validade" formal. A "arte" não foi sempre "arte"
na acepção definida pela escola de l'art pour l'art, como se é
tentado a admitir; e, semelhantemente, dependendo do
contexto existencial em que emerge, uma idéia nem sempre
representa "pensamento" e "cognição" no mesmo sentido em
que ocorre com o pensamento matemático e científico,
como a filosofia da validade o afirmaria, tomando
inconscientemente a "forma de validade" do pensamento
científico como se fosse a de todo o pensamento como tal.

3. A Sociologia do Conhecimento Vista da Posição da
Fenomenologia Moderna (Max Scheler)

Depois deste breve levantamento das contribuições do po-
sitivismo e da filosofia da validade formal (neokantismo) ao
problema da Sociologia do Conhecimento, voltamo-nos
agora para um confronto entre duas outras escolas — a
fenomenologia moderna e o historicismo — que nos
permitirá pela primeira vez defrontarmo-nos eficazmente
com os problemas decisivos que estão envolvidos em prover
uma base sólida para uma Sociologia do Conhecimento e da
Cognição.
Em nossa comparação das duas escolas, adotaremos a posição
do historicismo na forma pela qual cremos ser uma doutrina
válida, e analisaremos a abordagem fenomenológica a partir
desse enfoque. Da mesma maneira que há diversas variantes
de historicismo, é possível derivar muitas conclusões
diferentes das premissas fenomenológicas; contudo, na
discussão, não lidaremos com as atitudes fenomenológicas
que são possíveis abstratamente em relação a esse problema,
mas com o esboço fenomenológico de uma Sociologia do
Conhecimento recentemente publicado por Max Scheler.
Do ponto de vista que temos adotado até aqui, o estudo de
Scheler é particularmente interessante como uma ilustração
marcante de nossa tese de que os problemas originalmente
desenvolvidos por uma oposição social são apropriados
posteriormente por pensadores conservadores, e também
provê uma oportunidade de observar a transformação
estrutural que um problema sofre quando é incorporado ao
quadro de referência sistemático de uma teoria baseada numa
tradição diferente. Aqui temos um exemplo concreto de um
estágio final alcançado na carreira de idéias desenvolvidas
primeiramente num dado meio social — um estágio no qual,
reconhecidos como "fatos persistentes", eles são encampados
por um movimento contrário e por ele transformados.
Podemos caracterizar a posição de Scheler numa curta
fórmula dizendo que êle combina vários motivos da escola
fenomenológica moderna com elementos da tradição
católica. Não podemos dizer, sem maiores qualificações, que
a fenomenologia é uma filosofia católica (embora pensadores
católicos como Bernhard Bolzano e Franz Brentano estejam
entre seus precursores); não obstante, em muitos pontos
essenciais presta-se muito bem para corroborar os conceitos
católicos de "atemporalidade", "eternidade", com novos
argumentos. Traçando-se uma linha extremamente definida
entre o conhecimento "fatual" e o "essencial",
fenomenologia oferece evidência concreta que justifica o
dualismo católico do eterno e do temporal — e prepara o
terreno para a construção de uma metafísica não-formal,
intuicionista.
A fenomenologia assevera que é possível se aprender
supratemporalmente verdades válidas em "intuição essencial"
(Wesensschau). Contudo, de fato observam-se divergências
consideráveis entre as intuições alcançadas por diferentes
membros da escola. Essas divergências podem ser explicadas
pelo fato de que as intuições da essência são sempre
dependentes do passado histórico do sujeito. Dentre as
análises fenomenológicas, as mais impressionantes são
aquelas baseadas nos valores católicos tradicionais — nossa
civilização, afinal de contas, é largamente um produto dessa
tradição. Deve-se enfatizar, no que diz respeito a Scheler,
que êle já se dissociou de um certo número de dogmas.
Todavia, isso é menos importante no presente contexto do
que o fato de que ainda está profundamente ligado ao tipo de
pensamento formal exibido pelo catolicismo.
O principal ponto acerca de Scheler e de seu novo ensaio é
que ele tem uma afinidade muito maior com a realidade
atual, e leva muito mais a sério a obrigação de contar com os
novos desenvolvimentos culturais, do que a maioria daqueles
que interpretam o mundo em termos da tradição católica.
Como filósofo de atitude mental sensível e inquieta,
impaciente com limitações e formalismo rígido, não se
satisfaz com uma linha traçada de uma vez por todas entre a
eternidade e a temporalidade; sente-se impelido a explicar os
novos fatores culturais emergentes no mundo. A afinidade
com o presente, implantada em modalidades de pensamento
e experiência conservadores, produz tensões extravagantes
na estrutura de seus argumentos, de tal maneira que o leitor
teme constantemente a explosão do edifício inteiro ante seus
olhos, com as pedras da construção voando em todas as
direções. Já que estamos dando ênfase precisamente aos
problemas complexos inerentes à interação de várias
posições, interessamo-nos primordialmente na maneira pela
qual um representante moderno de uma fase intelectual e
emocional mais antiga vem dominar os novos fatores da
realidade cultural — uma configuração de real significação
simbólica. Pois a riqueza essencial do processo do mundo
histórico-social brota largamente da possibilidade de
"anacronismos" tais como este — tentativas de interpretar
fatores do mundo atual na base de premissas que pertencem
a um estágio de pensamento passado. Há, contudo, uma
tendência particular no tratamento do problema por Scheler,
porque ele não só procura incorporar novos fatores a um
velho quadro de referência como até tenta apresentar a
posição de "historicismo" e "sociologismo" em termos de
uma filosofia de atemporalidade.
Deliberadamente limitaremos a nossa discussão a esse lado
estrutural da teoria de Scheler, e selecionaremos dentre a
riqueza desnorteante de, seus insights apenas os pontos que
são relevantes ao nosso problema de diversas "posições"
intelectuais. Não estamos interessados em detectar erros ou
inexatidões, mas somente em traçar a linha da determinação
histórica que fez esse tipo de pensamento fatalmente o que
é.
A principal característica do ensaio de Scheler é — como
acima foi declarado — a grande extensão abrangida por sua
argumentação: ele tenta analisar o sociológico do ponto de
vista da atemporalidade, o dinâmico a partir de um sistema
estático. Encontramos na sua teoria todos os pontos
enumerados na nossa descrição da "constelação" subjacente à
emergência de uma Sociologia do Conhecimento: a)
pensamento concebido como sendo relativo ao ser; b)
realidade social como o sistema de referência em relação ao
qual o pensamento é considerado relativo; c) uma visão
global da totalidade histórica. Mais ainda, poderemos
também observar em Scheler a "modificação" de uma
tendência original de "desmascarar" para uma Sociologia
imparcial; isto não é surpreendente, uma vez que esta mu-
dança está mais ainda na linha de uma atitude conservadora
do que oposicional. A questão que queremos examinar é em
que medida uma abordagem estática sistematizante pode
fazer justiça ao dinâmico e sociológico — isto é, se uma
filosofia "atemporal" pode tratar adequadamente esses
problemas que surgem da situação intelectual presente.
Scheler, de acordo com o qual a Sociologia do Conheci-
mento tem até hoje sido tratada somente de um ponto de
vista positivista, propõe abordar esse problema de outro
ponto de vista, "o qual rejeita as doutrinas epistemológicas do
positivismo e as conclusões delas deduzidas, e vê no
conhecimento metafísico tanto um postulado "eterno" da
Razão quanto uma possibilidade prática" (Prefácio, p. vi).
Para ele a Sociologia do Conhecimento é parte da Sociologia
Cultural que por sua vez é parte da Sociologia — esta sendo
dividida em Sociologia "Real" e "Cultural". A primeira
examina fatores "reais" dos processos históricos,
especialmente "impulsos", tais como sexual, a fome e o
desejo de poder, enquanto a segunda lida com fatores
"culturais". A Sociologia como um todo, não obstante, tem a
tarefa de "descobrir os tipos e as leis funcionais da interação"
desses fatores, e especialmente de estabelecer uma "lei de su-
cessão" de tais tipos de interação. Desse modo temos aqui,
como em todas as Sociologías da Cultura, a distinção entre
"infra-estrutura" e "superestrutura", mas com a diferença
específica (que caracteriza a posição de Scheler) de que a) a
"infra-estrutura" consiste em fatores psicológicos (impulsos)
antes do que em fatores sócio-econômicos, e b) há uma
linha bastante definida traçada entre as duas esferas, em
contraste com a variante neo-hegeliana do marxismo.
Segundo esta última visão, a relação da "infra-estrutura" para
a "superestrutura" é aquela do todo com a parte; ambos
formam uma unidade inseparável, já que uma certa
configuração "ideal" pode apenas emergir em conjunção com
uma certa configuração "real" e vice-versa; uma certa
"configuração real" também só é possível quando fatores
"ideais" mostram uma determinada configuração. Scheler,
contudo, não é capaz de construir uma teoria histórica desse
tipo, já que baseia sua "Sociologia Cultural" sobre uma teoria
dos impulsos e da mente do homem em geral. Essa teoria
busca determinar as características atemporais do homem e
explicar qualquer situação histórica concreta como um com-
plexo de tais características. Também deixa de estabelecer
uma afinidade mais estreita com o historicismo quando
examina duma maneira "generalizante" a interação dos
fatores "reais" e "culturais" — tomando isso para mostrar uma
lei geral de sucessão, em vez de uma seqüência de fases
temporais concretas, singulares. Embora Scheler se esforce
muito para formular uma "lei" da possível gênese dinâmica
das coisas inseridas numa ordem de "eficácia temporal" (p.
8), é claro que tais "leis" só podem resultar da aplicação das
categorias generalizantes da ciência natural. Esta Sociologia é
apenas consistente quando tenta — à maneira da Ciência
Natural — estabelecer regras, tipos e leis do processo social.
Nesta altura, gostaríamos de chamar a atenção para a
diferença fundamental entre os tipos de Sociologia que são
possíveis hoje. Uma continua a tradição da Ciência Natural
com seu objetivo de estabelecer leis gerais (a Sociologia
ocidental é deste tipo); a outra se prende à tradição da
Filosofia da História (Troeltsch, Max Weber). Para o
primeiro tipo, todo individuo histórico é meramente um
complexo de propriedades gerais, imutavelmente
recorrentes, e o "resto" que não é reduzível a essas
propriedades é negligenciado. O segundo tipo, por outro
lado, caminha na direção oposta. Considera as
individualidades históricas, compreendendo não só
personalidades, mas qualquer constelação histórica na sua
singularidade como o objetivo apropriado para investigação.
O indivíduo, de acordo com essa concepção, não pode ser
determinado por uma combinação de características
desenvolvidas abstratamente, imutáveis; ao contrário, o
historiador deve e pode penetrar o cerne psíquico e mental
de um indivíduo singular diretamente, sem mediação de
propriedades gerais, e depois passar a determinar todas as
características e fatores parciais individualmente. É assim que
procedemos à apreensão da fisionomia de uma face humana;
não combinamos características gerais (olhos, boca etc.), pois
a coisa mais importante é apreender o centro de expressão
singular, e caracterizar os olhos, boca e outros traços à luz
desse insight central. A escola em questão assevera que esse
método espontaneamente empregado na vida diária tem sua
aplicação na ciência também, e de fato tem sido
inconscientemente usado pelos cientistas; já é tempo, então,
de fixar o caráter metodológico desse tipo de conhecimento.
Pois não é o caso de que o "centro de expressão", a
fisionomia particular de uma situação, a linha evolucionária
singular exibida por uma seqüência de acontecimentos, possa
ser apreendida só por intuição e não possa ser comunicada
ou objetivada cientificamente. Todos esses insights de
totalidades podem ser traduzidos em conhecimento
científico controlável, e o atual renascimento de modos de
pensamento histórico-filosóficos pode ser explicado na nossa
opinião pelo desejo de achar um método de comunicação do
que é singular no processo histórico. Na Sociologia da
Cultura é feita a tentativa de analisar situações históricas
singulares em termos de combinações singulares de
propriedades e de fatores sujeitos a um processo constante
de transformação — constelações que em si próprias são
fases num processo genético cuja "direção" geral pode ser
determinada.
Scheler, êle próprio, parece ter consciência do fato de que
uma Sociologia baseada em uma doutrina generalizante da
essência do homem já se tornou algo altamente
problemático, uma vez que as essências gerais devem sempre
aparecer vazias em comparação com os fenômenos mentais
concretos, históricos (uma das razões por que eles podem ser
definidamente separados). Dessa maneira, ele enfatiza (p. 13)
que a mente existe somente numa multiplicidade concreta
de grupos e culturas infinitamente variados, de tal maneira
que é fútil falar de uma "unidade da natureza humana" como
um pressuposto da História e da Sociologia. Isso significa,
todavia, que não podemos esperar qualquer esclarecimento
fundamental da teoria das essências, uma vez que agora é
admitido que ela só pode produzir o esboço formal mais
geral das leis dos atos intencionais. Scheler, na verdade,
coloca-se dessa forma na proximidade imediata do kantismo
e da filosofia formal em geral.
Mas por que essa rejeição sumária da tese da "unidade da
natureza humana", depois de o próprio Scheler propor basear
a Sociologia sobre uma doutrina tão altamente geral da
essência do homem? A resposta de que a unidade
supratemporal do homem (a ser tratada numa teoria geral do
impulso e da mente) refere-se à essência "homem",
enquanto a "multiplicidade concreta" meramente lida com o
fato "homem" — esta resposta, embora esperada, não nos
pode satisfazer. A uma mente humana existindo e se
desenvolvendo apenas numa multiplicidade concreta,
somente uma essência dinâmica "homem" pode cor-
responder; na nossa opinião, não se pode pensar duma
maneira historicista em pesquisa fatual e permanecer estático
na análise essencial. Se devemos, não obstante, apegarmo-
nos a tal doutrina "essencialista" da mente humana e dos atos
intencionais, inspirados por aspirações "supra-temporais",
então permanece o problema de como se pode atingir a
realidade histórica concreta a partir dessa posição. O caráter
questionável de formalização e generalização estática não é
eliminado por se restringir esse modo de pensamento às
"essências". Generalização e formalização são, em nossa
opinião, procedimentos "técnicos" válidos e também têm
seus usos em Sociologia, uma vez que podem ser
empregados para controlar a multiplicidade de dados; para o
pensamento concreto, contudo — para o pensamento acerca
do concreto — servem simplesmente como um trampolim.
Não leva a formalização de fato à distorção, sempre que
encarada do ponto de vista do concreto? Afinal, uma forma é
o que é somente quando em conjunção com a matéria
concreta (histórica) que ela enforma; muda e cresce junto
com a mudança e o crescimento da matéria. Aqueles que se
ocupam em formalização ilimitada apenas se deixam guiar —
precisamente no sentido da distinção feita por Scheler — por
modelos e relações estruturais prevalecentes no mundo
morto, mecanizado, de meras "coisas", e os esquemas assim
obtidos obscurecem a natureza peculiar dos viventes.
Conseqüentemente, estamos nesta altura em presença de um
profundo conflito. Por um lado, Scheler propõe uma doutri-
na da essência "atemporal" do homem; por outro, ele tem
consciência da, e se sente responsável em relação à,
singularidade dos objetos históricos. Esse conflito é
possivelmente a experiência fundamental de nosso tempo
(pelo menos dentro da tradição cultural da Alemanha).
Outra tese bem característica da doutrina de Scheler diz
respeito à "lei da ordem de eficácia dos fatores reais e ideais",
já aludida. A interação dos dois fatores é descrita da seguinte
maneira: a mente é um fator de "determinação", não de
"realização". Isto é, os trabalhos que podem ser criados por
uma cultura são determinados só pela mente, em virtude de
sua estrutura interior; mas o que de fato é criado depende da
combinação particular de fatores reais que predominam no
momento. Assim, a função dos fatores reais é fazer uma
seleção dentre as possibilidades tornadas disponíveis pela
mente. Através dessa função seletiva, os fatores reais
controlam os fatores ideais. Tanto os fatores ideais como
reais existentes num dado momento são, todavia,
inteiramente impotentes face aos fatores reais que estão em
processo de emergência. Constelações de poder em política,
relações de controle de produção na economia, seguem seu
caminho determinado de maneira similar a robots; estão
sujeitos a "uma causação evolucionária cega a qualquer
significado" (p. 10). A mente humana pode no máximo
bloquear ou suspender o bloqueio, mas nunca alterá-las.
O frutífero nessa maneira de olhar o problema é que o fato
do caráter peculiar fenomenológico e estrutural do mental —
que o monismo materialista necessariamente descuida — é
bem visto aqui. Todavia, sua unilateralidade, na nossa opi-
nião, consiste em que Scheler não vai além da afirmação de
uma separação fenomenológica do "real" e do "mental".
Como resultado disso, a separação e a imanência abstrata do
"mental" permanecem inatacadas, mesmo quando por fim se
faz uma tentativa de se efetuar uma síntese, esclarecer o
relacionamento mútuo entre as duas esferas e responder a
questões referentes à sua gênese.
A fim de ilustrar a diferença entre a posição de Scheler e a
representada por nós, mencionaremos um exemplo
mostrando as duas concepções do relacionamento mútuo
entre o concreto e o possível, o real e o mental. Uma dessas
concepções — em direção à qual Scheler parece inclinar-se
em certa medida — é expressa por um dos personagens
numa peça de Lessing que diz que Rafael se tornaria um tão
grande artista ainda que tivesse nascido sem mãos, uma vez
que a visão artística importa mais que a realização visível.
Para uma tal teoria, colocada na tradição platônica, na qual
idéias e modelos são considerados como preexistentes, a
realização é algo secundário. E permanece secundário
mesmo na versão mais moderada dessa concepção de
Scheler. Obviamente aludindo ao exemplo há pouco
mencionado, Scheler diz: "Rafael precisa de um pincel; suas
idéias e sonhos artísticos não o criam. Precisa de patronos
política e socialmente poderosos que o contratem para glori-
ficar seus ideais. Doutro modo seu gênio não se pode
realizar" (p. 10). Scheler enfatiza explicitamente que não tem
em mente nenhuma influência essencial dos fatores reais,
em decorrência do que eles determinariam em parte a
substância dos trabalhos. Essa concepção — que, em sua
essência, dá ouvidos ao platonismo — contrasta com outra
especificamente enraizada na atitude moderna face à vida.
Essa concepção moderna está expressa, por exemplo, na
estética de K. Fiedler. Podemos parafrasear a teoria de
Fiedler, algo livremente, da seguinte maneira: nem o próprio
processo criativo nem a obra como um complexo de
significado deve ser analisado pressupondo-se que o artista
vê antes de começar a trabalhar modelos ante os olhos de sua
mente e que ele meramente os copia a posteriori tão bem
quanto pode. A verdade é que a obra e sua idéia passam a
existir durante o processo da criação. Todo "fator real", toda
linha já desenhada, todo movimento da mão, não somente
determinam aqueles que lhe seguirão, mas também criam
novas possibilidades não-sonhadas de antemão. Todos os
fatores reais, tais como a estrutura da mão humana e os
gestos, a textura particular do material, a constituição
orgânica e psíquica do artista são a fonte de significado nesse
processo. Sua contribuição para o trabalho não é sem efeito
para o significado "imanente" que ele exprime. Portanto, não
deveríamos meramente dizer que o artista deve existir como
um homem — e como este homem em particular — a fim
de que uma possibilidade absoluta do mundo ideal possa
tomar forma (ser realizada) no mundo espaço-temporal. O
que devemos dizer é que a existência do artista —
determinada como esta existência particular — é, em si
mesma, uma condido sine qua non do significado e da idéia
corporificada nos trabalhos específicos. Esta nova maneira de
interpretar a correlação entre "idéia" e "realidade" é também
um componente essencial de nossa concepção do papel dos
"fatores reais" na criação cultural.
Para nós, também, há uma separação fenomenológica entre
Ser e Significado; mas essa dualidade fenomenológica não
mais pode ser considerada como fundamental quando
passamos a examinar ambos os termos como partes de uma
totalidade genética dinâmica — um problema que
seguramente tem significado também dentro do sistema de
Scheler. Quando alcançamos a "existência" como uma
unidade última na qual todas as diferenças fenomenológicas
são canceladas, "Ser" e "Significado" aparecem como esferas
parciais hipostatizadas, as quais são em última instância as
"emanações" de uma e mesma Vida. Para qualquer filosofia
ou teoria da cultura ou de Sociologia (ou como quer que se
possa resolver chamar a síntese última em questão) que
busca transcender à imanência abstrata dos vários produtos
culturais e analisá-los como parte integrante do processo
global da vida, a dualidade fenomenológica não pode ser
mais do que um dispositivo provisório. Neste momento não
se deve objetar que o historiador entregue à pesquisa positiva
não esteja interessado nessas questões metafísicas, já que não
precisa ir além da separação fenomenológica das esferas do
"Ser" e do "Significado", quando tenta fornecer um relato
histórico da evolução imanente das idéias. Essa objeção
aparece simplesmente de uma ilusão positivista que nos
impede de perceber quão profundamente o cientista
supostamente puro está envolvido em metafísica sempre que
dá interpretações, estabelece relações históricas, determina
"tendências" históricas ou coloca fatores "reais" em
correlação com fatores "ideais". Quando se tenta explicar
uma obra em termos de fatos na vida de um artista, ou das
correntes culturais de um período, e assim por diante, ele
inevitavelmente substitui o "significado" imanente das obras
na estrutura global do processo vital, pois privou as obras de
seu caráter como unidades contidas em si mesmas e
preocupou-se em vez disso com a experiência central de-
terminante da maneira de viver e da criatividade cultural de
uma época.
Temos que reconhecer, à luz do que foi dito acima, que há
algo de verdadeiro na concepção materialista da história, de
acordo com a qual é o Ser, a realidade, que cria o setor ideal.
O erro do materialismo consiste meramente na sua
metafísica errônea que equaciona o "Ser", ou a "realidade",
com a matéria. Todavia, na medida em que nega o conceito
do "ideal" como algo absolutamente contido em si mesmo,
como algo que é de algum modo preexistente, ou se
desenvolve dentro de si mesmo, baseado apenas em uma
lógica de significado imanente ou provê à realidade histórica
ou a qualquer outro tipo de realidade do estímulo necessário
que torna a auto-realização possível — na medida em que
nega esse conceito de "ideal", o materialismo está certo. E
não se pode superar esse dualismo idealista se se procede
como Scheler, que combina sua teoria idealista com uma
doutrina de "impotência do mental", uma tese que reflete
simplesmente a transformação que o pensamento
conservador alemão sofreu durante a última fase de seu de-
senvolvimento. O pensamento conservador na Alemanha
afastou-se cada vez mais de suas origens humanísticas desde
o princípio da tendência para a "Realpolitik" e para a política
de poder, e ao mesmo tempo restringiu-se cada vez mais em
presença das realidades sociais recém-emergentes que não
favoreciam aspirações conservadoras. Ê interessante observar
que as classes em ascensão — cujas aspirações são apoiadas
pelos "fatores reais" dominantes em cada época —
consideram esses fatores como essenciais, enquanto os
conservadores, embora possam reconhecer a importância
dos fatores reais, podem caracterizar seu papel e sua
significação apenas como negativos.
Numa palavra, assim que abandonamos a concepção
platonizante, a diferença fenomenológica entre os fatores
reais e ideais fica subordinada à unidade genética do processo
histórico, e nos remeteremos ao ponto de origem onde um
fator real é convertido em um dado mental. De um ponto de
vista meramente fenomenológico (definido como o que não
implica nada além da descrição exata do que é dado,
desprezando aqueles aspectos que estão relacionados com
sua gênese) essa "conversão" do real no mental não pode ser
apreendida, já que de acordo com essa visão a lacuna entre o
simples "Ser" destituído de significado, por um lado, e o
"Significado", por outro, não pode ser preenchida. Já que,
não obstante, como sujeitos que interpretam, somos seres
humanos existentes e temos a experiência imediata de nossa
"existência" na qual fatores reais são convertidos em dados
mentais, somos capazes de levar nossa investigação até o
ponto em que as duas esferas do ideal e do mental se
encontram. Ademais, no que toca a essa conversão, deve ser
notado que muitos fatores classificados como "reais" não são
de forma alguma destituídos de significado e puramente
"materiais". Por exemplo, tende-se, com freqüência, a
considerar dados econômicos e geográficos como pertencen-
do integralmente à esfera "material e natural". Não devíamos
esquecer, todavia — para tomar apenas o primeiro exemplo
mencionado, o da economia — que só a fisiologia do
impulso da fome pertence à simples "natureza", mas que esse
substrato fisiológico se constitui em elemento do processo
histórico apenas na medida em que entra nas configurações
mentais, por exemplo, por assumir a forma de uma ordem
econômica ou outra forma institucional. Isso não deve ser
mal compreendido Não queremos negar o papel
fundamental dos impulsos — e, de modo nenhum, pomos
em discussão que a economia pudes^ se existir sem o
impulso da fome; mas se algo é uma condição necessária para
outra coisa, não precisa ser incondicionalmen te
equacionado com ela. O que nos importa é que as várias
formas de instituições econômicas não poderiam ser
explicadas pelo impulso da fome como tal. O impulso como
tal permanece essencialmente imutável ao longo do tempo,
enquanto as instituições econômicas sofrem constantes
mudanças, e a história se interessa exclusivamente por essas
mudanças institucionais.
O excesso acima e além do substrato puramente fisiológico,
que, sozinho, transforma o instinto em um fator histórico, já
é a "mente". Por conseguinte, não basta dizer que a
economia não existiria sem a mente; deve-se acrescentar que
é este elemento mental que transforma em economia a pura
satisfação do impulso. Se constantemente rebaixamos o
limite do "natural" ao refinar nossas distinções, de tal modo
que o "econômico" antes se identifica com o "mental" que
com o "material", então temos que reconhecer duas esferas
"mentais", cuja relação mútua é a de infra-estrutura e
superestrutura. A questão aqui será de que modo uma esfera
afeta a outra no processo global — como uma mudança
estrutural na infra-estrutura determina uma mudança
estrutural na superestrutura. Certamente, se duas esferas do
"mental" se distinguem dessa maneira, somos de opinião que
a "mente na infra-estrutura" — que implica principalmente
as condições de produção, junto com todas as relações
sociais concomitantes — realmente em parte determina e dá
forma à "mente na superestrutura". Pois não devemos es-
quecer que a "mente na infra-estrutura" é o fator mais
"persistente", se por nenhuma outra razão, então porque são
os componentes desta infra-estrutura que criam o arcabouço
duradouro da existência contínua dos seres humanos — isto
que é geralmente chamado milieu. E desde que a
"conversão" do real ao mental (o mais misterioso evento no
processo histórico) toma lugar dentro do homem como um
ser vivo, a maior força determinante é exercida por aquelas
categorias de significado nas quais o ser humano vive com a
maior intensidade. Não é de forma alguma o caso, como
Scheler parece supor (se o compreendemos acertadamente),
em que a seleção dentre formas mentais preexistentes toma
lugar na superestrutura debaixo da pressão direta de uma
infra-estrutura puramente "natural", mas sim: aquilo que
vagamente se sente como sendo "natureza" se converte nas
várias configurações mentais da infra-estrutura, e dessa
maneira dá forma, primeiro, aos homens como seres
existentes, e depois à realidade cultural como um todo (em
analogia com a concepção de Fiedler do papel co-
determinante dos fatores reais).
O que relutamos em aceitar é, antes de tudo, a introdução da
dimensão "natural" da infra-estrutura, como uma entidade
supra-temporal, imutável, em termos da qual o processo
histórico deve, em parte, ser explicado. Pois um fator causal
desse tipo somente poderia originar combinações de
elementos que, de outra forma, são imutáveis. Certamente,
Scheler fala de "mudanças na estrutura dos impulsos", mas
estas podem ser interpretadas no seu sistema somente como
deslocamentos relativos, isto é, meras modificações
quantitativas; assim, ele sugere que é o "desejo de poder" que
predomina em um momento, o "instinto racial" noutro etc.
Na nossa opinião, contudo, fatores "naturais" desse tipo
apenas podem ser usados como um princípio dinâmico de
explicação do processo histórico se supusermos que sofrem
mudanças qualitativas no curso da história. Uma tal
suposição, de fato, torna-se plausível se nos lembrarmos de
que o "natural" nos vários níveis de suas transformações
"mentais" desempenha um papel histórico diferente cada
vez. Em que momento e de que forma o chamado "desejo de
poder" se pode manifestar — se é que de fato o faz —
depende também da constelação cultural total com que as
várias gerações se defrontam durante o processo de
amadurecimento. Também ligado a isto, não há nenhum
"desejo de poder", como tal, eternamente idêntico a si
próprio, o qual simplesmente é mais ou menos reprimido,
mas a expressão idêntica "desejo de poder" cobre uma grande
variedade de "intenções de vontade" estruturadas e
experimentadas de maneira diferente, tendo cada vez
diferentes objetos como seus correlatos.
Também relutamos em aceitar a colocação de um mundo
mental com uma lógica imanente de significado em face do
qual o mundo histórico com seus "fatores reais" desempenha
apenas um papel seletivo.
Também concebemos a relação dentro do "possível" e do
"atual" duma maneira diversa da de Scheler. Para nós,
também, há a cada momento aquilo que é atual, cercado por
um horizonte de possibilidades; esse horizonte, não
obstante, não é o abstratamente "possível como tal", mas
contém simplesmente aquilo que é possível em uma dada
situação como resultado de certa constelação de fatores. Esse
"horizonte", por sua vez, é meramente o ponto de partida de
um novo processo conduzindo a novas atualizações; isto
sempre envolve o papel completamente novo e criador do
momento e da situação singular. Para nossa concepção do
mundo, então, não é o abstratamente possível que é o mais
elevado; a tônica de valor continua sobre o emergente e o
atual. O real não é, como no sistema de Scheler, uma seleção
sempre inadequada de um tesouro transcendente de formas,
mas uma concretização criadora jorrando de constelações
historicamente singulares.
Só quando consideramos o atual ex post, isto é, depois que
emergiu, ao invés de in statu nascendi, como seria visto do
ponto de vista do centro criador do processo evolucionário
— só então podemos divisá-lo como tendo a estrutura de um
complexo de significado imanente e completamente contido
em si próprio. Só aqueles que focalizam sua atenção
exclusivamente sobre o atual, sobre o produto acabado
desligado de todas as relações funcionais no interior do
processo genético, podem ter a impressão de que o que
aconteceu foi a realização de algo preexistente, de uma
entidade absoluta, contida em si própria. Contudo, já que a
Sociologia Cultural primordialmente se preocupa com a
reconstrução das relações funcionais entre o "atual", por um
lado, e o processo genético passado, por outro, é em nossa
opinião muito arriscado para este ramo do conhecimento
adotar a premissa de um mundo "preexistente" de idéias,
ainda que só no sentido de uma gênese não-temporal de
"significado" puro. Parece-nos que só pode haver uma lógica
imanente do significado para a visão retrospectiva do analista
da estrutura; uma vez que se tenham tornado atuais, todas as
obras da mente mostram uma estrutura significativa e
inteligível. Queremos enfatizar, neste particular, que uma
das mais importantes tarefas é determinar essa estrutura
inteligível de significado de um conjunto de obras atuais,
acabadas.
Discutimos a concepção de Scheler da relação entre infra-
estrutura e superestrutura pormenorizadamente e demos um
relato completo de nossa posição contrária, a fim de mostrar
que até pressuposições na aparência puramente formais de
pesquisa histórica dependem de um ponto de vista social e
de valoração; quisemos demonstrar pormenorizadamente
que também neste campo o processo de cognição, longe de
perceber passo a passo problemas que já lá se encontram em
forma "preexistente", aborda por lados diferentes problemas
derivados da experiência vital de certos grupos pertencentes
à mesma sociedade. Tudo o que distingue a visão estática da
dinâmica é, de certa forma, relacionado com este ponto
central — o da relação entre o ideal e o real. Uma vez que,
para Scheler, a essência última é algo preexistente, pairando
sobre a história, o processo histórico nunca pode alcançar
essencialidade e substancialidade reais em seu sistema, no
qual as entidades estáticas, livremente flutuantes, não são
realmente "constituídas", história não é o mesmo problema
das "posições" na teoria do historicismo. Todo historicismo
prega uma determinação do pensamento pela "posição" do
pensador, mas tais teorias historicistas podem ter uma
inclinação conservadora ou progressista, dependendo se são
concebidas de uma posição "retrospectiva" ou in statu
nascendi.), mas meramente "realizadas", pelo processo
histórico. Tal dualismo agudo nunca pode levar a uma real
filosofia da historia; e o fato de que as decisões
metodológicas são também ligadas a orientações metafísicas
e "vitais", em nenhum lugar está mais claramente visível do
que aqui. Pois agora podemos compreender por que Scheler
decidiu em favor de um tipo generalizante de Sociologia,
quando teve que enfrentar a escolha de qual Sociologia se
deve fazer hoje — se proceder de acordo com o método
generalizante ou procurar uma renovação na base de tra-
dições histórico-filosóficas. Certamente, o caso de Scheler
não é tão simples assim. Como vimos, aparece uma tensão,
no sistema de Scheler, devido ao fato de que, embora sua
doutrina básica seja de valores eternos, ele ainda reconhece
o dinâmico como particularizado em várias "posições" e quer
justificá-lo em termos da doutrina básica. Tanto o largo
alcance de seu plano como a justaposição não-resolvida dos
elementos estáticos e dinâmicos na sua doutrina podem ser
bem vistos a partir da seguinte passagem, na qual Scheler diz
que pretende "pendurar", por assim dizer, o reino dos
valores e idéias absolutos, correspondendo à idéia essencial
do homem, muito mais alto do que todos os sistemas fatuais
de valores se haviam dado conta, até então, na história.
"Assim, abandonamos como totalmente relativos, como
histórica e sociologicamente dependentes das posições
particulares, toda ordenação de bens, objetivos, normas nas
sociedades humanas, expressos por ética, religião, lei, arte
etc., e retemos nada além da idéia do eterno Logos, cujos
segredos transcendentes não podem ser explorados na forma
de uma história metafísica por nenhuma nação, nenhuma
civilização, nem qualquer ou todas as épocas culturais que
emergiram até agora, mas só por todos juntos, incluindo
todos os futuros — por cooperação temporal e espacial de
insubstituíveis, porque individuais, sujeitos culturais
singulares trabalhando juntos em plena solidariedade" (p.
14).
As tensões reveladas por esta passagem ilustram a luta
interna entre a doutrina da eternidade de Scheler e a
consciência histórica do presente; o importante, do nosso
ponto de vista, é que Scheler tenta incorporar em seu
sistema não só teses de naturezas diferentes como também
pressuposições sistemáticas de caráter diferente. Para o
historicista, não existem entidades fora do processo
histórico; elas passam a existir e se realizam dentro dele, e
tornam-se inteligíveis exclusivamente através dele. O
homem tem acesso a entidades que criam história e do-
minam as várias épocas, porque, vivendo na história, está
existencialmente ligado a ela. A história é o caminho — para
o historicista, o único caminho — para a compreensão das
entidades que nela aparecem geneticamente. Mas o abismo
entre o temporal e o eterno, que o sistema de Scheler supõe,
afeta decisivamente sua teoria da interpretação da história.
As entidades reais são supra-históricas; por conseguinte,
contrariamente ao que Scheler diz, a história não pode
contribuir com nada de relevante para a exploração dessas
entidades, ou, se há uma contribuição que a história, como é
concebida por Scheler, pode dar, ela só pode ser algo
limitado.
A história é, no seu sistema, como um mar de chamas
rodeando as entidades eternas. As chamas podem aumentar
ou diminuir; podem aproximar-se das entidades ou delas se
afastar, e o ritmo de seu movimento, imposto pelo destino, é
envolto em mistério; tudo o que sabemos é que alguns
períodos se aproximam mais das entidades do que outros.
Fanáticos pela Idade Média, cuja teoria da história é baseada
no romantismo atual, asseveram que a Idade Média marcou a
maior aproximação das entidades eternas, e especificam o
ponto culminante dentro da Idade Média em vários
momentos, dependendo da natureza de suas próprias
experiências subjetivas. Scheler marca um certo progresso
além dessa estreita glorificação de uma época histórica,
enquanto mantém que cada período e cada civilização tem
uma "idéia missionária" específica, implicando uma estreita
afinidade com um certo conjunto de entidades, que é
diferente em cada caso. Mas ele ainda adere essencialmente à
concepção estática das entidades, pois, a seu ver, as entidades
eternas permanecem dissociadas do fluxo da vida histórica,
sua substância é de natureza diferente da da história. Tudo o
que Scheler admite é um princípio de "acesso": algumas
entidades eternas são primordialmente acessíveis a um grupo
cultural apenas, outras a outro. "Síntese" histórica, então,
consiste em uma combinação de todas as essências desco-
bertas no decurso da história. Essa maneira de olhar as coisas,
contudo, implica certos "saltos" abruptos que não podem ser
enquadrados na nossa experiência fundamental. A teoria de
Scheler contém dois de tais "saltos". Ele admite que os
sistemas concretos de normas são histórica e
sociologicamente determinados, e que a cada momento o
homem está situado dentro da história, mas para ele isto tudo
se aplica apenas enquanto não estamos lidando com uma
compreensão dessas "entidades" cuja realização é a "missão"
da humanidade. No que toca a essas entidades, o homem
histórico repentinamente se torna num conquistador da
temporalidade e adquire uma capacidade super-humana de
sacudir longe toda determinação e limitação histórica. Isso é
um "salto" na teoria de Scheler. Mas também podemos fazer
outra pergunta. Como poderemos saber, analisando a
história, quais das entidades proclamadas pelas diversas
civilizações eram entidades reais, verdadeiras? Por que
critérios podemos julgar que uma certa civilização era
bastante madura para realizar a "missão" da humanidade no
que diz respeito a uma ou outra entidade? Se realmente
desejamos consignar tais papéis a todas as civilizações e
épocas passadas, é claro que não nos basta ter um
conhecimento válido, objetivo, de nossas próprias entidades;
devemos ter poderes intuitivos super-humanos, supra-
históricos, para identificar todas as entidades, ou, pelo
menos, aquelas que emergiram, até agora, no curso da
história. Dessa maneira, o historiador das idéias, ao desempe-
nhar sua intuição essencial, deve transcender à
temporalidade duas vezes: uma vez quando identifica as
entidades eternas designadas para sua própria época, e uma
segunda vez quando interpreta o passado, tentando separar o
genuíno do falso, a essência real da mera aparência subjetiva.
Todavia, isso redunda na postulação de uma absoluta intuição
de essências — pelo menos de todas as essências até aqui
descobertas — a cada momento da história; ou pelo menos a
postulação do caráter absoluto do momento presente. Mas,
então, a idéia de uma "missão" coletiva de todas as épocas e
civilizações, que teria fornecido um ponto de partida para
uma Filosofia da História, perde-se de novo; o processo
histórico como tal é abandonado como inapelavelmente
relativo, e toda significação absoluta é concentrada dentro do
segundo "salto" para além da temporalidade. Scheler tenta
incorporar idéias historicistas dentro de sua teoria da
atemporalidade, e até adota a idéia de visão "perspectivista".
Mas sua concepção estática da eternidade nunca se concilia
com a "posição" de historicismo que ele tenta combinar com
ela.
Para qualquer pessoa cuja experiência metafísica funda-
mental é de um tal caráter (estático), a Sociologia do
Conhecimento — como também todas as outras esferas da
cultura — tem que se tornar algo totalmente secundário. Em
conseqüência, a tarefa real de uma Sociologia do Pensamento
— que na nossa opinião consiste em descobrir a linha geral
de desenvolvimento seguindo a gênese das várias "posições"
— nunca é formulada por Scheler.
Mais uma objeção deve ser feita à doutrina das essências de
Scheler. Ele esquece que qualquer compreensão e
interpretação de essências (e, portanto, das essências
também de épocas passadas) é possível apenas de uma forma
perspectivista. Tanto o que nos é acessível das intuições
essenciais de épocas passadas, quanto como elas se tornaram
acessíveis para nós, depende de nossa própria posição.
Cada "elemento de significação" (se podemos falar de tal
coisa isoladamente) é determinado por todo o contexto de
significação e, em última instância, pela base vital que lhe dá
origem; isso é um insight que devemos ao historicismo.
Assim, um ato de compreensão consiste em incorporar um
"elemento de significação" estranho ao nosso próprio
contexto de significação, cancelando suas relações funcionais
originais e introduzindo-o dentro de nosso próprio padrão de
função. Essa é a maneira pela qual procedemos para
determinar não só os fatos, mas também os "significados"
intencionalmente atribuídos de épocas passadas. Seria um
preconceito "tecnicista" supor que poderíamos integrar
dados mentais (significados) em uma totalidade por
acrescentar um pedaço a outro. Não seria difícil convencer
Scheler que essa maneira de ver é correta, já que ele mesmo
distingue vários tipos de conhecimento e vários tipos de
progresso cognitivo (p. 23). Um conhecimento "aditivo" de
essências inteligíveis seria possível apenas se o
conhecimento essencial fosse do tipo do conhecimento
tecnicista, "cumulativo" (como Scheler o chama). De acordo
com o próprio Scheler, o conhecimento essencial pertence a
um tipo de conhecimento limitado a apenas uma cultura;
mas, se é assim, parece-nos que o conhecimento dos
significados e essências de épocas passadas pode apenas ser
um conhecimento perspectivista, determinado por nossa
posição histórico-existencial, por um lado, e por nosso
sistema básico de axiomas, por outro. Em outro artigo, já
chamamos a atenção que uma caracterização definida da
diferença fundamental entre a racionalidade científico-
tecnológica e o conhecimento filosófico, e entre os padrões
de evolução existentes nestes dois campos, só se torna
possível se retornarmos ao princípio estrutural
sistematizador subjacente a eles. Como tentamos mostrar, o
pensamento científico-tecnológico difere do pensamento
filosófico na medida em que o primeiro tipo de pensamento
completa apenas um e o mesmo sistema durante períodos
sucessivos, enquanto o segundo começa de novos centros de
sistematização, em cada época, ao tentar dominar a
multiplicidade crescente do mundo histórico. Como é o
mesmo sistema que está sendo construído na ciência no
decurso dos séculos, o fenômeno da mudança de significado
não ocorre nesta esfera e podemos imaginar o processo de
pensamento como um progresso direto em direção ao
conhecimento "correto", em última instância, que só pode
ser formulado de uma maneira. Na Física, não há muitos
conceitos diferentes de "força", e se acontece aparecer
conceitos diferentes na história da Física podemos classificá-
los como simples passos preparatórios antes da descoberta do
conceito correto prescrito pelo padrão axiomático do
sistema. A par disso, temos em Filosofia, como também nas
Ciências Histórico-Culturais, estreitamente a elas
relacionado, o fenômeno de uma mudança de significado
intrinsecamente necessária. Todos os conceitos nesses
campos, inevitavelmente, mudam seu significado no decurso
do tempo — e isto precisamente porque eles continuamente
entram em novos sistemas dependentes de novos conjuntos
de axiomas. (Podemos, por exemplo, considerar a maneira,
pela qual cada conceito de "idéia" alterou seu significado: o
que significou para cada época pode ser compreendido
retrocedendo-se aos sistemas totais nas estruturas dos quais o
conceito era definido.) Se observamos a linha de evolução
histórica nesses campos, como também as relações mútuas
dos significados que se sucederam, então podemos observar
não haver nenhum "progresso" em direção a um sistema
único, um significado exclusivamente correto de conceitos,
mas antes o fenômeno da "sublimação" (Aufheben), Esta
"sublimação" consiste no fato de que nestes campos todo
sistema mais recente e mais "elevado" incorpora os sistemas
mais antigos, as relações funcionais, e também os conceitos
individuais pertencentes a esses sistemas. Contudo, quando
isto se dá, os princípios mais antigos de sistematização que
são refletidos nos vários conceitos se cancelam e os
"elementos" tomados dos sistemas mais antigos são rein-
terpretados em termos de um sistema mais elevado e global,
isto é, "sublimado". Só podemos fazer diferença entre os dois
tipos de pensamento (científico e histórico-filosófico)
prestando atenção a essa diferença fundamental na maneira
de construir o sistema; esta é a única maneira de se
reconhecer tal diferença. Uma síntese histórica genuína não
pode consistir em uma adição não-perspectivista de
fenômenos que aparecem sucessivamente, mas somente em
uma tentativa sempre renovada de incorporar as entidades
tomadas ao passado a um novo sistema. A evolução atual e
historicamente observável do pensamento na Filosofia
(como também nas Ciências Culturais a ela relacionadas)
mostra um padrão que contrasta, como vimos, com o padrão
da evolução nas Ciências Naturais — descrevemos este
padrão antes como "dialético", e Scheler agora propõe
designá-lo como "crescimento cultural através de entrela-
çamento e incorporação de estruturas mentais existentes na
nova estrutura" (p. 24). Contudo, o essencial — independen-
temente de diferenças terminológicas — é que no caso em
consideração o pensamento humano é organizado em torno
de um novo centro em cada época, e mesmo que o homem
"sublime" (no sentido hegeliano de Aufheben) seus
conceitos mais antigos através de sua incorporação em
sistemas sempre novos, isto implica uma mudança no
significado, tornando uma síntese aditiva impossível. Uma
vez que se admita que o conhecimento filosófico é
essencialmente determinado e limitado a uma civilização
específica, não é mais possível supor nada a não ser um
sistema dinâmico nessa esfera de pensamento, pois de outro
modo estaríamos lidando com conceitos de um tipo estru-
tural em termos de uma estrutura diferente. Concedendo-se
isto, só o perspectivismo seria possível, isto é, a teoria de que
os vários significados essenciais nascem junto com as épocas
às quais eles pertencem; esses significados essenciais
pertencem a essências que têm rua própria existência num
sentido absoluto, mas o estudioso de história somente os
pode compreender de uma maneira perspectivista, olhando-
os de uma posição que é, ela mesma, um produto da história.
Contudo, esse tipo de perspectivismo de forma alguma
refuta-se a si próprio, contrariamente ao que Scheler diz na
sua crítica de nossa maneira de ver (pp. 115 e segs.), porque
— pelo menos na nossa opinião — tanto as várias épocas,
como as essências que surgem nelas, têm sua própria
existência a despeito de qualquer conhecimento delas que se
possa alcançar subseqüentemente. Como dissemos na
passagem de nosso ensaio acerca do historicismo citada por
Scheler: "O objeto de consideração histórica (o conteúdo,
por assim dizer, de uma época) permanece idêntico "em si
mesmo", mas às condições essenciais de sua cognoscibilidade
pertence o fato de que ele só pode ser apreendido de
posições histórico-intelectuais diferentes — ou, em outras
palavras, que só podemos divisar vários "aspectos" dele" (p.
105). As palavras em itálico desta sentença indicam bastante
claramente que não é nossa intenção usar o perspectivismo
como um meio de dissolver o ser real in se dos objetos da
investigação histórica; sem dúvida, isto seria acertadamente
entendido por Scheler como uma maneira de ver que se
refuta a si mesma. Então, a essência e a existência "atual" do
helenismo não se dissolvem nas várias "perspectivas" abertas
por gerações sucessivas de erudição histórica. É, de fato,
"dada" como uma "coisa em si mesma", abordada de vários
lados, por assim dizer, por interpretações diferentes.
Justifica-se nossa colocação dessa existência real do objeto in
se, porque mesmo embora nenhuma prespectiva única possa
fazer-lhe completa justiça, ele ainda é dado como um
controle que podemos usar para não admitir caracterizações
arbitrárias.
Mencionemos um exemplo pelo qual podemos ilustrar de
maneira mais clara o significado do perspectivismo: a
consciência humana só pode perceber uma paisagem como
paisagem de várias perspectivas; e apesar disso a paisagem
não se dissolve nas várias representações pictóricas possíveis.
Cada um dos possíveis quadros tem uma contrapartida "real"
e pode ser controlada das outros perspectivas a exatidão de
cada uma delas. Contudo, isto implica que a história só é
visível de dentro da história e não pode ser interpretada
através de um "salto" para além da história por se ocupar uma
posição estática fora da história. A posição historicista, que
começa com o relativismo, eventualmente alcança uma
posição qualitativamente absoluta, porque na sua forma final
coloca a própria história como o Absoluto; só isto torna
possível às várias posições, que primeiramente parecem ser
anárquicas, se ordenarem como partes componentes de um
processo global significativo.
De fato, se considerarmos uma época relativamente fechada
da história, tal como o período do início do capitalismo até a
emergência dos sistemas capitalistas plenamente
desenvolvidos, podemos perceber a direção significativa para
a qual a linha do desenvolvimento aponta. Podemos então
interpretar todas as "posições" sociológicas e outras
"posições" teóricas pertencentes àquela época em termos
dessa qualidade de ser dirigida a um objetivo inerente.
Certamente, cada teoria proclamava sua validade absoluta
quando pela primeira vez proposta; todavia, estamos numa
posição de estimar sua potencialidade e verdade relativa. As
teorias frutíferas passadas são justificadas mesmo em
retrospectiva, porque podem sobreviver como problemas e
componentes do sistema mais global em termos do qual
pensamos hoje. Ao mesmo tempo, entretanto, elas são
relativizadas, porque podem sobreviver somente como parte
de um sistema mais global. Não queremos negar que o
historicismo encontre dificuldades — e elas surgem
precisamente neste ponto. Porque enquanto podemos ver o
significado, a direção ao objetivo do desenvolvimento global,
no que toca aos períodos fechados, não podemos ver um tal
significado de objetivo para o nosso próprio período. Como
o futuro é sempre um segredo, podemos tão somente fazer
conjeturas acerca do padrão total de significado do qual o
nosso presente é uma parte; e, já que não podemos ir além
de conjeturas, é bastante compreensível que cada corrente
de pensamento suponha que o significado do objetivo no
presente é idêntico às tendências contemporâneas com que
cada corrente porventura se identifique. Assim, o significado
do objetivo futuro da totalidade da história será visto de
maneira diferente de acordo com o ponto particular que cada
grupo ocupe no processo total; a história da filosofia de um
autor progressista diferirá da de um conservador, e assim por
diante.
Se persistirmos nessa linha de pensamento, podemos até
concluir que épocas tais como as que acabamos de descrever
como relativamente fechadas e por conseguinte
transparentes quanto ao seu significado de objetivo (como o
início do capitalismo) poderiam até certo ponto perder sua
definição de significado e tornar-se problemáticas se
estivessem inseridas em padrões genéticos mais globais.
Disso se segue que cada teoria histórica pertence
essencialmente a uma dada posição; mas isto não significa —
ponto este que queremos enfatizar — concretismo total, a
"fatualidade persistente" dos dados e dos significados
essenciais é dissolvida em diversas perspectivas. Cada um de
nós se refere aos mesmos dados e essências. Naturalmente,
como vimos no nosso capítulo introdutório, um deter-
minado movimento pode descobrir apenas uma limitada
extensão de fatos — aqueles que estão dentro da esfera de
sua reflexão — mas desde que estes fatos se tenham tornado
visíveis, somos todos obrigados a levá-los em conta.
Ademais, compreendemos, olhando as coisas de nossa
perspectiva, a possibilidade e a necessidade de outras
perspectivas; e não importa qual seja a nossa perspectiva,
todos experimentamos a "persistência" controladora dos
dados; assim, cada um tem todas as razões para supor que nos
movemos em um meio de realidade, e por isso podemos
negar todo ilusionismo.
Pode-se perguntar neste ponto por que não nos contentamos
com um simples registro desses fatos que nós próprios
reconhecemos como persistentes — como o positivismo
quereria; por que não eliminamos essas "totalidades de
significado" e os acréscimos à simples fatualidade, somente
os quais podem levar ao perspectivismo, como um resíduo
metafísico que não constitui preocupação da ciência positiva.
Nossa resposta é a de que há algo peculiar acerca da
"persistência", da "positividade" de tais "fatos". Eles são
"persistentes" no sentido de que constituem um controle que
podemos usar para eliminar construções arbitrárias. Mas não
são "persistentes" no sentido de que podem ser apreendidos
fora de qualquer sistema, em isolamento, sem referência a
significados. Ao contrário, só podemos apreendê-los dentro
do quadro de referência de um significado, e eles mostrarão
um aspecto diferente, dependendo do padrão de significado
dentro do qual são apreendidos. Termos tais como
"capitalismo", "proletariado" etc., mudam seu significado, de
acordo com o sistema dentro do qual são usados, e "dados"
históricos só se tornam "fatos" históricos por estarem
inseridos dentro de um processo evolucionário como "par-
tes" ou "estágios".
Aquela época despreocupada e segura de si mesma do
positivismo, na qual era possível supor que se podia asseverar
"fatos" sem qualificá-los, já não existe mais; isto só podia ser
suposto porque se passava por cima do fato da história
positivista da cultura ingenuamente tomar apenas um sistema
de significados, uma metafísica particular, como sendo
absolutamente válida, embora somente pensadores daquela
época pudessem aceitá-los como não-problemáticos. O
positivismo podia esconder com sucesso de si mesmo seu
próprio quadro de referência de significados apenas porque
cultivava nada mais do que a pesquisa especializada num ou
noutro campo; nessas circunstâncias ninguém podia notar o
fato dos pressupostos metafísicos serem baseados sobre uma
visão global e sobre uma Filosofia da História tanto quanto os
das escolas não-positivistas. Nós, por outro lado, já podemos
ver que pelo menos as Ciências Culturais e Históricas
pressupõem metafísica, isto é, um incremento que torna
aspectos parciais em totalidades; e na nossa opinião é muito
mais frutífero reconhecer esse estado de coisas do que
ignorá-lo.
Contudo, como foi afirmado acima, isto não significa que
não sejamos afetados por aqueles aspectos do positivismo
que são "genuínos", em virtude dos quais êle marcou um real
progresso na história do pensamento. Toda metafísica que
emerge após a supremacia do positivismo terá que incorporar
e "sublimar" de alguma forma esses elementos "genuínos" do
positivismo. Este componente "genuíno", contudo, não é
oriundo da posição epistemológica e metodológica do
positivismo, mas, por mais paradoxal que possa parecer, de
sua intenção metafísica, do sentimento vital do qual é
expressão teórica. O estilo positivista de pensamento marca
na história das disciplinas teóricas a mesma transição gradual
que, no campo da política, é designada pelo termo
"Realpolitik", e no da arte, pelo termo "realismo" — uma
transição que deixou sua marca tanto sobre o pensamento
conservador quanto o progressista. Estes termos sugerem
que certas esferas da vida (e.g., economia) ocupam cada vez
mais o centro da experiência e fornecem as categorias
fundamentais em termos das quais todas as outras esferas são
vivenciadas. A transição em questão significa que, na nossa
experiência, a ênfase ontológica se situa sobre o "mundano",
a "imanência", mais do que a "transcendência". Procuramos a
origem de todos os conceitos "transcendentes" apenas nessa
experiência "imanente". Deve-se notar, contudo, que essa
antítese entre "imanência" e "transcendência" é ela própria
ainda expressa na terminologia da velha atitude vital e, por
conseguinte, não pode fazer completa justiça ao que é
essencialmente novo e genuíno no positivismo.
O que chamamos o respeito positivista pela realidade em-
pírica representa um segundo principio positivista que,
eremos, permanece válido para o nosso pensar. Esse respeito
pela realidade empírica (que, todavia, não mais significa para
nós a crença em uma interpretação não-metafísica dos fatos
mentais) consiste em não se poder conceber as entidades
metafísicas fora de um contato essencial com aquele reino da
experiência que representa para nós a realidade última do
mundo. Esta é a principal razão pela qual não podemos
aceitar nenhum "salto" para além da realidade — nem
mesmo em conexão com a construção de um reino
preexistente da verdade e da validade. Não reivindicamos ser
capazes de fazer quaisquer deduções referentes à estrutura da
verdade e da validade, exceto da transformação
empiricamente comprovada da estrutura das várias esferas de
pensamento, tal como encontradas dentro da história. Todos
os tipos essenciais das novas metafísicas sofrem a marca
desse processo de transformação que resulta em uma
elevação constante e segura da posição ontológica do "ima-
nente" e "histórico". Possivelmente foi Hegel quem deu o
mais fundamental passo em direção ao verdadeiro
positivismo quando identificou a "essência", o "absoluto",
com o processo histórico e ligou o destino do absoluto ao da
evolução do mundo. Ainda que as suas proposições
pormenorizadas não possam ser aceitas, sua posição geral é a
mais próxima de nossa orientação imediata.
Concordamos plenamente com Scheler em que a metafísica
não foi e não pode ser eliminada da nossa concepção de
mundo, e que categorias metafísicas são indispensáveis para a
interpretação do mundo histórico e intelectual. Também
concordamos que o conhecimento fatual e o conhecimento
essencial representam duas diferentes formas de
conhecimento, mas não admitimos uma separação abrupta
dos dois — o que pensamos é antes que o conhecimento
essencial apenas vai mais longe e mais fundo na mesma
direção tomada pelo conhecimento fatual. Parece-nos que
uma passagem do conhecimento fatual empírico para a
intuição de essência se está processando continuamente.
Esse dualismo de "fato" e "essência" é completamente
paralelo ao da Ciência Histórica e da Filosofia da História. Há
uma tendência geral de se fazer uma separação definida entre
estas duas disciplinas; mas, na nossa opinião, a maneira de
ver correta é que uma boa parte da "Filosofia da História" já
está entranhada nos vários conceitos que usamos ao
caracterizar fatos particulares — conceitos estes que desem-
penham um papel considerável na determinação do
conteúdo da ciência "empírica". Somos de certa maneira
guiados por um "plano", um "quadro de referência
inteligível" da história sempre que colocamos dentro de um
contexto o fato particular aparentemente mais isolado.
Supor tal continuidade e interpenetração desses dois tipos de
conhecimento não significa, contudo, negar que são
diferentes, qualitativa e hierarquicamente. O que objetamos
é simplesmente o "salto" entre os dois mundos que separa
completamente suas respectivas estruturas — uma
concepção obviamente inspirada pela idéia de conhecimento
baseado em revelação.
Não nos devia surpreender que na tentativa de caracterizar a
posição da qual pode ser construída uma Sociologia do
Conhecimento, tivéssemos que chegar a tais pormenores,
discutindo pressupostos filosóficos, sistemáticos. Afinal, o
problema com o qual nos defrontamos é precisamente quão
longe o tratamento científico empírico de um problema é
influenciado pela posição filosófica, pela metafísica do
investigador.
O confronto das divergências entre a nossa concepção da
Sociologia do Conhecimento e a de Scheler pode ter
esclarecido que ambos nos preocupamos com a mesma
tarefa, isto é, a tarefa implicada no fato de se poder
interpretar os produtos mentais não apenas diretamente
quanto ao seu conteúdo, mas também indiretamente em
termos de sua dependência da realidade e especialmente da
função social que desempenha. Este é o fato que nos coloca a
incumbência de desenvolver uma Sociologia do
Conhecimento e da Cultura. Esta tarefa está sendo atacada de
várias posições filosóficas, todas as quais podem ser atribuí-
das a uma posição social definida. Uma vez que o ponto de
vista filosófico de Scheler postula um sistema de verdades
supra-temporal, imutável (uma posição que, na prática,
sempre resulta em se reivindicar validade eterna para nossa
própria perspectiva histórica e sociologicamente
determinada), ele é compelido a introduzir a "contingência"
dos fatores sociológicos como um artifício posterior dentro
de seu quadro de referência imóvel e supra-temporal. Mas é
impossível incorporar os fatores históricos e sociológicos
organicamente dentro do nosso sistema, se esta abordagem
"de cima" é adotada. Um abismo intransponível separará
então a história do supra-temporal.
Seguimos na direção oposta: para nós, o que é dado de
imediato é a mudança dinâmica de posições, o elemento
histórico. Queremos concentrar nossa atenção sobre isto e
explorar qualquer oportunidade que se ofereça para superar o
relativismo. Isto implica, como tarefa inicial para a Sociologia
do Conhecimento, prestar contas as mais exatas possíveis das
posições intelectuais que coexistem num dado momento, e
de retraçar seu desenvolvimento histórico, pois até as
posições individuais como tais não são "estáticas",
permanecendo imutáveis do começo ao fim; ao contrário, o
fluxo inexorável do processo histórico traz dados sempre
novos à superfície, que pedem interpretação e podem levar a
uma desintegração ou modificação dos sistemas previamente
existentes. Mais longe ainda, um dos aspectos importantes da
evolução das posições intelectuais é a contribuição que elas
trazem ao processo evolucionário global dentro da
sociedade. É possível mostrar, em retrospectiva, de que
maneira cada uma das utopias, e também cada uma das
imagens da história passada ajudaram a moldar a época na
qual emergiram. Existe um conteúdo de verdade
determinado existencialmente no pensamento humano a
cada estágio de seu desenvolvimento; isto consiste em, a
cada momento, fazer-se uma tentativa para aumentar a
"racionalidade" no mundo sócio-intelectual de uma maneira
específica, na direção imposta pelo próximo passo evolutivo.
A tarefa seguinte dessa Sociologia da Cognição (como
deveria ser chamada de direito) consiste em estudar e
explicar esse papel funcional do pensamento social e
existencial nos vários estágios do processo real. A suposição
metafísica aqui implicada (e queremos enfatizar que nossa
teoria realmente pressupõe tal suposição) é que o processo
global dentro do qual as várias posições intelectuais emergem
é um processo significativo. Posições e conteúdos não se
sucedem de uma maneira totalmente aleatória, já que são
parte de um processo global significativo. Todo o problema
da verdade "absoluta" coincidirá, então, com o da natureza
desse significado unitário do processo como um todo; a
dúvida é quão longe somos capazes de apreender o objetivo
evolucionário que pode ser visto num dado momento. Já
indicamos uma resposta para essa dúvida: na medida em que
uma época já está terminada — naturalmente pode-se dizer
terminada apenas no sentido relativo, como o dissemos —
na medida em que se apresenta como uma Gestalt acabada,
podemos especificar o papel funcional dos padrões de
pensamento relativo ao objetivo ao qual o processo
evolucionário se tem orientado. No que toca a processos em
desdobramento, contudo, o objetivo ainda não é dado; e não
pode ser dito existir in se ou de alguma maneira pré-
existente. A este respeito, estamos totalmente in statu
nascendi e nada vemos a não ser o choque de aspirações
antagônicas. Nossa própria posição intelectual está localizada
dentro de uma dessas colocações rivais; conseqüentemente,
só podemos ter uma visão parcial e perspectivista do que se
está desdobrando e também do passado, na medida em que a
interpretação do passado depende da interpretação do
processo em desenvolvimento. Que isto não leva
necessariamente a um ilusionismo, à negação da realidade do
processo histórico, já foi enfatizado. Estamos prontos a
admitir que uma doutrina absolutista no velho sentido não
pode ser desenvolvida a partir dessas premissas sem um
"salto" e uma hipostatização de nossa própria posição. Mas,
então, não podemos nem mesmo visar tal posição absolutista
que, ao cabo, nada mais é do que a hipostatização do padrão
estrutural de uma concepção estática da verdade. Na nossa
opinião, só se pode ainda crer numa "verdade in se" estática
enquanto se deixar de reconhecer que não é um sistema
único que está sendo gradualmente construído no processo
histórico-cultural como no caso do sistema da Ciência
Matemática e Natural. Dentro do processo histórico, o pen-
samento constantemente toma como ponto de partida idéias
centrais novas e sempre mais amplas. A própria idéia de um
"diálogo sublime" dos espíritos de todas as idades, como
Scheler concebe, só pode ocorrer, mesmo como uma
fantasia utópica, a alguém que creia em um sistema de
verdades. Uma vez que se reconheça que um "diálogo" desse
tipo não pode ter lugar dessa maneira simples, se por
nenhuma outra razão ao menos porque toda palavra tem um
significado diferente em culturas diferentes, como resultado
de sua função existencial ser diferente em cada caso — uma
vez que nos tenhamos capacitado disso, ele pode no máximo
conceber, como crença "utópica", a idéia que cada época
contenha em si mesma, de uma forma "sublimada", as
tensões do processo histórico inteiro, que levaram até ela.
Assim, podemos no máximo chegar à crença — por
extrapolação da posição estrutural hoje observada — que a
rivalidade atual dos sistemas e posições antagônicos, e suas
tentativas de incorporar as posições rivais dentro de si
mesmos, indicam uma tendência inerente de todo
pensamento humano a dar contas de toda a realidade, uma
tendência que deixa de alcançar seu objetivo enquanto não
se descobrir um princípio sistemático globalizante. Isto será
refletido na "finitude", na limitação às perspectivas parciais
do pensamento atual. Até onde podemos ver, a realidade é
sempre mais ampla do que qualquer das posições parciais que
ela produz. Então, se extrapolamos, podemos acreditar que
eventualmente será encontrada uma idéia sistemática
central, que permitirá de fato uma síntese do processo
inteiro. Mas não podemos supor que essa grandiosa síntese
seja preexistente — se por nenhuma outra razão, ao menos
porque a situação real que provocaria tal síntese ainda não se
materializou. Nossa "utopia" de síntese total final é superior
àquela de uma verdade estática preexistente porque foi
derivada da estrutura atual do pensamento histórico,
enquanto a última reflete uma mente não-histórica, apegada
a um sistema estático.
Poderíamos começar dessas premissas e ainda assim superar
o relativismo por um "salto", seja por êle proclamar sua
própria posição como fase final da dinâmica inteira (como
Hegel o fez), seja por supor que o pensamento não seria mais
existencialmente determinado no futuro. Todavia, isto
resultaria numa "reestabilização" de uma concepção
originalmente dinâmica. Uma vez que isto tome uma
colocação absolutista vis-à-vis à história, o pensamento de
fato se torna estático; o dinamismo não pretende reconhecer
que a história é mutável, mas aceitar que nossa própria
posição não é menos dinâmica que as outras. Para uma
concepção radicalmente dinâmica, a única solução possível é
reconhecer que nossa própria posição, embora relativa,
constitui-se no elemento de verdade. Ou, para caracterizar a
diferença entre a solução de Scheler e a nossa por uma
metáfora, poderíamos dizer: segundo nossa maneira de ver,
o olho de Deus está sobre o processo histórico (isto é, ele
não é destituído de significado), enquanto a de Scheler cer-
tamente implica que ele olha o mundo com os olhos de
Deus.
Uma simples análise estrutural das duas doutrinas mostra que
nenhuma delas pode superar totalmente as antinomias que
lhe são inerentes. Scheler, que põe o absoluto no começo,
nunca chega a alcançar o dinâmico (ele não pode transpor o
abismo entre o estático e o dinâmico); a outra concepção,
que começa com o deslocamento fatual de uma posição por
outra, não pode alcançar o absoluto — pelo menos, não da
maneira segura de si mesma que era peculiar outrora a um
tipo de pensamento estático. Mas enquanto o
reconhecimento da parcialidade de cada posição, e
especialmente da dele mesmo, faria a teoria de Scheler auto-
contraditória, tal reconhecimento não só não leva a uma
contradição interna na nossa teoria e Sociologia do
Conhecimento, mas também constitui para ela uma instância
confirmatória.
Já que a soma global do conhecimento existente num dado
momento nasce em dependência muito estreita do processo
social real, enquanto o próprio processo se aproxima da
totalidade através da antítese e da confusão, não é
surpreendente que só pudéssemos descobrir diretamente
correntes intelectuais parciais postas umas às outras e só
definir a totalidade como a soma destas correntes parciais
antagônicas. "Onde várias filosofias emergem
simultaneamente", diz Hegel, "temos que nos contentar com
aspectos distintos que, reunidos, constituem a totalidade
subjacente a todas, e é somente por causa da sua parcialidade
que só podemos ver numa a refutação da outra. Ademais,
elas não só especulam acerca de pormenores, mas cada um
propõe um novo princípio; é isto que temos de encontrar.""
Até aqui, em toda esta discussão, tentamos focalizar nossa
atenção sobre os princípios últimos mais amplos cujas
divergências mútuas não representam "especulação acerca de
detalhes", mas ilustram as soluções conflitantes do problema
particular que se nos apresenta, e que podem ser alcançadas
de posições de fato atualmente existentes. Nossa próxima
tarefa é mostrar como os problemas de uma Sociologia do
Conhecimento podem ser tratados da posição dinâmica que
representamos.

4. A Sociologia do Conhecimento a Partir da Posição
Dinâmica

Pensamos que a constelação presente é favorável ao
desenvolvimento de uma Sociologia do Conhecimento,
porque os insights esporádicos na estrutura social do
conhecimento obtidos no período inicial têm-se
multiplicado rapidamente nos tempos modernos, e
alcançaram agora um estágio em que um tratamento
sistemático, ao invés de esporádico e casual, se torna
possível. E precisamente porque esta "casualidade" está agora
sendo mais e mais superada, centra-se cada vez mais atenção
nas premissas filosóficas subjacentes aos achados de detalhe
— premissas até agora não diretamente exploradas. No
momento, até eruditos dedicados a estudos especializados
estão conscientes dessa tendência para fechar o círculo
sistematicamente. O ensaio de Scheler é valioso
principalmente porque apresenta um plano global, um
esboço abrangendo várias disciplinas; e beneficiou-se do fato
do autor ser filósofo e ao mesmo tempo sociólogo. O
trabalho no campo da Sociologia do Conhecimento só pode
ser frutífero se as premissas filosóficas e metafísicas de cada
autor forem abertamente reconhecidas, e se os autores
possuírem a habilidade de observar o pensamento tanto "de
dentro", em termos de sua estrutura lógica, quanto "de fora",
em termos de seu condicionamento e função sociais.
Agora tentaremos indicar como uma Sociologia do
Conhecimento sistemática pode ser desenvolvida baseando-
se numa concepção dinâmica. Já esboçamos os princípios
básicos de nossa abordagem; o que resta fazer é analisar
também os problemas metodológicos relevantes.
Se adotarmos uma concepção dinâmica de verdade e de
conhecimento, o problema central de uma Sociologia do
Conhecimento será o da gênese socialmente condicionada
das várias posições que englobam os padrões de pensamento
disponíveis em cada época determinada. Todo o esforço será
concentrado sobre este ponto único, porque a mudança e
crescimento interno das várias posições contêm para nós
toda a substância do pensamento. A análise sociológica do
pensamento, procedida até aqui apenas de maneira
fragmentária e casual, agora se torna o objeto de um
programa científico global que permite uma divisão do
trabalho, já que foi decidido examinar-se o produto
intelectual de cada período e descobrir em que posições e
premissas sistemáticas se baseava o pensamento em cada
caso. Isto, o primeiro problema maior de uma Sociologia do
Conhecimento, pode ser atacado conjuntamente com o
trabalho feito no campo da "história das idéias", o qual tem
sido extremamente frutífero tanto no que diz respeito aos
métodos como no que toca aos resultados. Em vários campos
(político, filosófico, econômico, estético, moral etc.) a
história das idéias mostra-nos uma variedade extrema de
elementos de pensamento cambiantes; mas esses esforços
atingirão sua culminância, a plena realização de seu
significado, apenas quando tivermos notícia não só acerca de
conteúdos mutáveis de pensamento, mas também acerca das
premissas sistemáticas, freqüentemente apenas implícitas,
sobre as quais uma determinada idéia se baseou em sua forma
original — para ser mais tarde modificada a fim de satisfazer
a um conjunto diferente de premissas, e assim sobreviver
sob novas condições. Isto é: a história das idéias só pode
alcançar seu objetivo, que é dar conta do processo inteiro da
história intelectual de uma forma sistemática, se for suple-
mentada por uma análise estrutural histórica dos vários cen-
tros de sistematização que se sucedem de forma dinâmica.
Realmente vemos um início desse tipo de análise (e. g., em
trabalhos fazendo distinção entre o "romantismo" ou o
"iluminismo" como climas vitais diferentes dando origem a
modalidades diferentes de pensamento); e apenas se levaria
essas idéias às suas últimas conseqüências lógicas se se fizesse
um esforço sistemático para desnudar os axiomas últimos
subjacentes ao pensamento "romântico" e "iluminista"
respectivamente, e definir o tipo de sistema a que pertencem
esses padrões de pensamento com a maior precisão lógica e
metodológica possível hoje em dia. Isto significaria apenas
que se utilizaria para análise histórica a precisão lógica que é
característica do nosso tempo. Já neste ponto, contudo,
temos oportunidade de apontar uma limitação da história das
idéias — sua análise é feita em termos de "épocas". De um
ponto de vista sociológico, tanto as "nações" como as
"épocas" são muito pouco diferenciadas para servir como
base de referência à descrição do processo histórico. O
historiador sabe que uma certa época somente parecerá
dominada por apenas uma corrente intelectual, quando
temos uma visão perfunctória dela. Penetrando mais fundo
no pormenor histórico, veremos cada época dividida entre
várias correntes; pode acontecer, no máximo, que uma
destas correntes alcance dominância e relegue as outras a um
segundo plano. Nenhuma corrente é jamais completamente
eliminada; mesmo quando uma está vitoriosa, todas as outras
que pertencem a um ou outro setor social continuarão a
existir em segundo plano, prontas para reemergir e se
reconstituir num nível mais alto quando for tempo azado. É
bastante pensar no ritmo peculiar com que fases
"racionalísticas" e "românticas" constantemente se
sucederam durante o mais recente período da história
européia, para nos capacitarmos de que estamos lidando aqui
com ramos separados da evolução, que, não obstante, estão
relacionados entre si por alguma lei superior. Contudo, não é
suficiente reconhecer esta evolução em ramos separados;
também devemos levar em consideração a maneira pela qual
as correntes principais sempre se ajustam entre si. Ambos os
problemas têm que ser trabalhados por uma história de idéias
sistemática, como primeiro capítulo de uma Sociologia do
Pensamento. Pois não se pode fazer vista grossa, por
exemplo, ao fato de que toda vez que o romantismo faz um
novo avanço sempre leva em consideração o status do
pensamento racionalista dominante e simultaneamente
existente; não só as duas escolas aprendem uma da outra
como até tentam elaborar uma síntese ainda mais ampla, para
dominar a nova situação.
Não obstante, se não fôssemos mais longe, nunca
produziríamos uma Sociologia do Conhecimento. Por mais
sistemática que seja, uma análise puramente imanente da
gênese das posições intelectuais ainda não passa de uma
história de idéias. Esse trabalho sistemático preliminar na
história de idéias só pode levar a uma Sociologia do
Conhecimento quando examina o problema de como as
várias posições intelectuais e "estilos de pensamento" estão
enraizados numa realidade histórico-social subjacente.
Também em relação a isso, na nossa opinião seria um erro
considerar a realidade, a realidade social, como uma corrente
unitária. Se dentro da história das idéias é um procedimento
muito indiferenciado tomar as épocas como unidade, é um
erro igualmente grande conceber a realidade subjacente ao
processo ideológico como uma unidade homogênea. Afinal,
não se pode duvidar que qualquer tipo mais elevado de
sociedade é composto de vários estratos diferentes, da
mesma maneira que a vida intelectual mostra uma variedade
de correntes; na nossa própria sociedade, a estratificação
pode ser melhor descrita como estratificação de classe. E a
dinâmica global da sociedade é uma resultante de todos os
impulsos parciais emanados desses estratos. A primeira
tarefa, então, será descobrir se há uma correlação entre as
posições intelectuais vistas em imanência e as correntes
sociais (posições sociais). A descoberta dessa correlação é a
primeira tarefa específica da Sociologia do Conhecimento. A
descrição imanente da gênese das posições intelectuais pode
ainda ser considerada como a continuação do trabalho do
historiador de idéias; a história da estratificação social pode
ainda ser vista como parte da história social. Mas a
combinação desses dois campos de investigação introduz
uma abordagem especificamente sociológica. Contudo, é
importante precisamente neste ponto eliminar o natu-
ralismo, como também aquelas atitudes relacionadas à inten-
ção polêmica original da Sociologia. Embora o problema
esboçado acima tenha sido primeiramente formulado em
termos da filosofia marxista da história, devemos, ao estudá-
lo, ter o cuidado de renunciar a toda metafísica materialista e
de excluir (ou reduzir ao elemento de verdade nelas contido)
todas as considerações propagandísticas. Primeiramente, até
a mais superficial vista de olhos nos dados históricos
mostrará que é impossível identificar qualquer determinada
posição intelectual com um determinado estrato ou classe —
como se, por exemplo, o proletariado tivesse uma ciência
própria, desenvolvida num espaço intelectual fechado, e a
burguesia outra, nitidamente separada da primeira. Esse
grosseiro exagero propagandístico pode conduzir tão
somente a uma super simplificação incorreta da história; por
conseguinte, temos que suspender a crença até nos
assegurarmos de quanto de verdade ela contém (pois
contém, de fato, certo elemento de verdade).
Até o exame imanente das várias posições intelectuais e
cognitivas, como é feito por uma história de idéias
sistemática, mostra que elas não pairam no ar ou se
desenvolvem e se ramificam puramente de dentro, mas
devem ser postas em correlação com certas tendências
incorporadas pelos estratos sociais. De início, este "pôr em
correlação" apresentará certa dificuldade para os sociólogos.
A época naturalista do marxismo reconhecia apenas uma
possível correlação entre a realidade social e os fenômenos
intelectuais: a saber, a de uma atitude intelectual ser ditada
por um interesse material. É porque a fase inicial da pesquisa
ideológica era somente motivada por um
"desmascaramento", que ser "ditado por um interesse" era a
única forma de condicionamento social de idéias
reconhecida. Não negamos que certas posições intelectuais
podem ser adotadas e promovidas porque são úteis, seja para
propagar, seja para esconder interesses de grupos; e
admitimos que só pode ser desejável desmascarar tais
atitudes. Contudo, esta motivação por interesse não é a única
correlação que pode existir entre um grupo social e suas
posições intelectuais. A pesquisa ideológica socialista é
parcial, porque concentra primordialmente a atenção sobre a
forma de condicionamento social das idéias que é
representada pela motivação de interesse.
Se a categoria de "interesse" é reconhecida como a única
"relação existencial" implicada em idéias, seremos forçados
ou a restringir a análise sociológica àquelas partes da
superestrutura que manifestamente mostram "cobertura"
ideológica de interesse ou, se sem embargo desejarmos
analisar toda a superestrutura em termos de sua dependência
da realidade social, teremos que definir o termo "interesse"
tão amplamente que êle perderá seu sentido original. Na
nossa opinião, nenhum dos dois caminhos conduz ao
objetivo. Se queremos ampliar a pesquisa ideológica
transformando-a numa Sociologia do Conhecimento, e
combiná-la com o trabalho contemporâneo executado no
campo da história das idéias, a primeira tarefa é superar a
parcialidade de reconhecer na motivação por interesse a
única forma de condicionamento social de idéias. Isto pode
ser facilmente levado a efeito através de uma demonstração
fenomenológica do fato da motivação por interesse ser
apenas uma das muitas formas possíveis pelas quais a adoção
de certas atitudes por uma psique pode ser condicionada pela
experiência social. Assim, pode acontecer que professemos
certa teoria econômica ou certas idéias políticas porque estão
em harmonia com nossos interesses. Mas seguramente
nenhum interesse imediato está envolvido na escolha de um
certo estilo artístico ou de pensamento; não obstante, essas
entidades também não pairam no ar, mas são desenvolvidas
por certos grupos como resultados de fatores histórico-
sociais. No caso de idéias mantidas por interesse direto,
podemos falar de "interesse"; para designar a relação mais
indireta entre o sujeito e aquelas outras idéias podemos usar a
expressão paralela "comprometimento". De fato, é uma das
características mais marcantes da história que um
determinado sistema econômico esteja sempre inserido, pelo
menos quanto à sua origem, em determinado universo in-
telectual, de tal maneira que os que buscam uma
determinada ordem econômica também buscam uma visão
intelectual a ela correlata. Quando um grupo está
diretamente interessado em um sistema econômico está
indiretamente "comprometido" com as demais formas
intelectuais, artísticas, filosóficas etc., que lhe correspondem.
Dessa maneira, o "comprometimento" indireto com
determinadas formas mentais é a categoria mais global no
campo do condicionamento social das idéias.
A motivação por interesse surge, então, como caso parcial
quando comparado com a categoria geral de "compromisso",
e é a esta que devemos recorrer na maioria dos casos quando
queremos precisar a relação entre os "estilos de pensamento"
e as "posições intelectuais", por um lado, e a realidade social,
por outro. Enquanto o método do marxismo "vulgar"
consiste em associar diretamente até os produtos mais
esotéricos e espirituais da mente com interesses econômicos
e de poder de uma certa classe, a pesquisa sociológica que
visa à elucidação da configuração total da vida intelectual não
emulará esta abordagem grosseira; contudo, ansiosa para
salvar o elemento de verdade da filosofia marxista da história,
ela reexaminará cada passo postulado por esse método. Ter-
se-á um começo no sentido de tal revisão se houver a
decisão de só se usar a categoria de motivação por interesse
quando realmente se puder ver os interesses em ação, e não
onde um mero "compromisso" com uma Weltanschauung
existir. Neste ponto podemos lançar mão do nosso próprio
método sociológico que nos ajudará a reconhecer esta
aplicação exclusiva da categoria de interesse como
determinada ela mesma por uma certa constelação histórica,
caracterizada pela predominância da abordagem da
Economia clássica. Se, contudo, a categoria do interesse for
elevada ao grau de um princípio absoluto, o resultado só
poderá ser a redução do papel da Sociologia ao de reconstruir
o homo economicus, embora, com efeito, a Sociologia deva
examinar o homem como um todo. Assim, não podemos
atribuir a um grupo um estilo de pensamento, uma obra de
arte etc., como o próprio dele, baseado em uma análise de
interesse. Podemos, não obstante, mostrar que um
determinado estilo de pensamento, uma posição intelectual,
é englobado por um sistema de atitudes que, por sua vez,
pode ser visto como estando relacionado a um determinado
sistema econômico e de poder; podemos, então, perguntar
quais os grupos sociais que estão "interessados" na
emergência e manutenção desse sistema econômico e social
e ao mesmo tempo "comprometidos" com a visão de mundo
correspondente.
Assim, a construção de uma Sociologia do Conhecimento só
pode ser empreendida tomando-se um caminho indireto
através do conceito de sistema total de uma visão de mundo
(através da Sociologia Cultural). Não podemos relacionar
diretamente uma posição intelectual com uma classe social; o
que podemos fazer é descobrir a correlação entre o "estilo de
pensamento" subjacente a uma dada posição e a "motivação
intelectual" de um certo grupo social.
Se examinarmos a história do conhecimento e do pensa-
mento tendo em mente tais dúvidas, buscando compreender
como está inserida na história do processo real, social, então
acharemos a cada momento não só grupos antagônicos a se
combater como também um conflito de "postulados sobre o
mundo" (Weltwollungen) opostos. No processo histórico,
não são apenas interesses que combatem interesses, mas
postulados sobre o mundo lutam com postulados sobre o
mundo. Este fato é sociologicamente relevante, porque estes
vários "postulados sobre o mundo" (dos quais os diversos
estilos de pensamento são meros aspectos parciais) não se
confrontam de uma maneira arbitrária, desestruturada; antes,
cada postulado está ligado a um certo grupo e se desenvolve
dentro do pensamento daquele grupo. A cada momento, é
apenas um estrato que está interessado em manter o sistema
social e econômico existente e portanto se apega ao estilo de
pensamento correspondente; há sempre outros estratos cujo
ambiente espiritual é um ou outro estágio passado de
evolução, e ainda outros, apenas surgindo, que sendo novos,
ainda não se tornaram autônomos e, portanto, colocam sua
fé no futuro. Uma vez que os diferentes estratos estão
"interessados em" e "comprometidos com" diferentes ordens
e postulados sobre o mundo, sendo algumas coisas do
passado e outros estando apenas emergindo, é óbvio que os
conflitos de valor permeiam todos os estágios da evolução
histórica.
Pode-se demonstrar melhor que um "estilo de pensamento"
pode estar associado à emergência de um determinado es-
trato social pelo fato do racionalismo moderno (como
repetidamente indicamos) estar ligado aos postulados sobre o
mundo e às aspirações intelectuais da burguesia ascendente,
de posteriormente correntes contrárias aliarem-se ao
irracionalismo, e de uma conexão semelhante existir entre o
romantismo e as aspirações conservadoras. Partindo de tais
insights, podemos fazer análises de correlações entre os
estilos de pensamento e os estratos sociais — contudo, estas
só serão frutíferas se as atribuições não forem feitas num
sentido estático — e. g., por identificação do racionalismo
com pensamento progressista e do irracionalismo com
reacionário, em toda constelação que se possa conceber. O
que devemos lembrar é que nem o racionalismo nem o
irracionalismo (particularmente nas suas formas atuais) são
tipos eternos de tendências intelectuais, e que um certo
estrato não é sempre progressista e conservador, respecti-
vamente, no mesmo sentido. "Conservador" e "progressista"
são atributos relativos; se um certo estrato é progressista,
conservador, ou, pior ainda, reacionário, sempre depende da
direção na qual o processo social se está movendo. Na
medida em que a orientação fundamental do progresso
econômico e intelectual progride, estratos que começaram
sendo progressistas se podem tomar conservadores depois de
terem realizado sua ambição; estratos que num dado
momento desempenhavam um papel principal subitamente
podem-se sentir impelidos a fazer oposição à orientação
dominante.
Portanto, é importante, já nesta altura, evitar interpretar tais
conceitos relativos como características eternas; mas deve-
mos fazer ainda outra distinção se queremos fazer justiça à
enorme variedade da realidade histórica. Ao estabelecermos
correlações entre os produtos da mente e os estratos sociais,
devemos distinguir entre estratificação intelectual e social.
Podemos definir os estratos sociais de acordo com o
conceito marxista de classe, em termos de seu papel no
processo de produção. Mas é impossível, na nossa opinião,
estabelecer um paralelismo histórico entre as posições
intelectuais e os estratos sociais assim definidos. A
diferenciação no mundo da mente é grande demais para
permitir a identificação de cada corrente, cada posição, com
uma determinada classe. Por conseguinte, temos que
introduzir um conceito intermediário para efetuar a
correlação entre o conceito de "classe", definido em termos
de papéis no processo de produção, e o de "posição
intelectual". Este conceito intermediário é o de "estratos
intelectuais". Com "estrato intelectual" queremos dizer um
grupo de pessoas pertencentes a uma determinada unidade
social e partilhando de determinado "postulado sobre o
mundo" (do qual podemos mencionar, como partes, o
sistema econômico, o sistema filosófico, o estilo artístico
"postulado" por eles) que num dado momento estão
"comprometidos" com um determinado estilo de
pensamento teórico e de atividade econômica.
Devemos primeiro identificar os vários "postulados sobre o
mundo", sistemas de Weltanschauung, a se combaterem, e
procurar os grupos sociais que advogam cada um; só quando
esses "estratos intelectuais" são especificados, podemos
perguntar que "estratos sociais" a eles correspondem. Assim,
é possível especificar os grupos de pessoas que, num dado
momento, estão unidas numa visão "conservadora", e
partilham de um conjunto de idéias comuns que atravessam
um processo incessante de transformação; o sociólogo da
cultura, contudo, não se deve contentar em abordar esse
assunto de seu ponto de vista doutrinal, mas deve também se
perguntar que "classes sociais" compõem tal "estrato
intelectual". Só podemos compreender a transformação das
várias ideologias baseados nas mudanças da composição
social do estrato intelectual correspondente a elas. O mesmo
se aplica, obviamente, aos tipos de Weltanschauung
progressistas. O proletariado (para mostrar o reverso da
correlação com que estamos lidando) constitui uma classe;
mas esta classe social está dividida quanto aos "postulados
sobre o mundo" de seus membros, como é claramente
mostrado pelo fato do proletariado se filiar a vários partidos
políticos diferentes. O único ponto de interesse para o
sociólogo é este: que tipos de postulados progressistas do
mundo existem num dado momento, quais são os estratos
intelectuais progressistas adeptos deles, e que estratos sociais
dentro do proletariado pertencem a estes vários estratos
intelectuais?
A função peculiar desse conceito intermediário, o de "estrato
intelectual", é tornar possível uma coordenação de
configurações intelectuais com grupos sociais, sem tirar a
nitidez da diferenciação mais interna, seja do mundo da
mente, seja da realidade social. Além disso, temos que levar
em consideração o fato de que em nenhum momento da
história um estrato produz, por assim dizer, no ar, como algo
puramente inventado. Tanto os grupos conservadores como
os progressistas de vários tipos herdam ideologias que de
alguma forma existiram no passado. Grupos conservadores
recaem sobre atitudes, métodos de pensamento e idéias de
épocas remotas e adaptam-nos às novas situações; mas os
grupos recém-emersos também tomam inicialmente idéias e
métodos já existentes, de tal maneira que um corte
transversal das ideologias rivais a se combaterem num
determinado momento também representa um corte
transversal através do passado histórico da sociedade em
questão. Se, contudo, focalizamos nossa atenção
exclusivamente sobre este aspecto de "herança" do assunto, e
tentamos reduzir a êle a relação total entre realidade social e
o processo intelectual, obteremos um tipo completamente
errôneo de historicismo. Se olhamos o processo de evolução
intelectual e o papel dos estratos sociais deste processo
unicamente por esse ponto de vista, de fato parecerá que
nada aconteceu exceto o desdobramento das potencialidades
de antemão dadas. Contudo, é meramente uma peculiaridade
da concepção conservadora do historicismo interpretar-se a
natureza contínua de todos os processos históricos como
implicando que tudo tenha sua origem em algo temporal-
mente precedente. A variante progressista do historicismo
olha o processo da evolução do ângulo do status nascendi.
Só esta perspectiva permite ver que até motivos e aspectos
simplesmente retirados de um predecessor sempre se
transformam em algo diferente devido a esta própria
passagem, apenas porque seu patrono é diferente, e os
relaciona a uma situação diferente. Ou, colocando mais
sucintamente: a mudança de função de uma idéia sempre
implica uma mudança de significado — isto sendo um dos
argumentos mais essenciais em favor da proposição da
história ser um meio criador de significados e não apenas um
meio passivo no qual significados preexistentes, contidos em
si mesmos, realizam-se. Dessa maneira, devemos acrescentar
à nossa lista de categorias este conceito central de toda
Sociologia da Cultura e do Pensamento, o de "mudança de
função"; pois que, sem isto, não poderíamos produzir nada
mais do que uma simples história de idéias.
Todavia, distinguiremos dois tipos de mudança de função:
uma imanente e. uma sociológica. Falemos de uma mudança
imanente de função (no reino do pensamento, para
mencionar apenas um dos campos em que este fenômeno
pode ocorrer), quando um conceito passa de um sistema de
idéias para outro. Termos como "ego", "dinheiro",
"romantismo" etc., significam algo diferente, de acordo com
o sistema dentro dos quais são usados. Com mudança
sociológica de função, entretanto, queremos dizer a
mudança no significado de um conceito ocorrida quando
este conceito é adotado por um grupo que vive num meio
social diferente, de tal maneira que a significação vital do
conceito se torna diferente. Cada idéia adquire um
significado novo quando é aplicada a uma nova situação de
vida. Quando novos estratos encampam sistemas de idéias
oriundos de outros estratos, sempre se pode demonstrar que
as mesmas palavras significam algo diferente para os novos
patronos, porque estes últimos pensam em termos de
aspirações e configurações existenciais diferentes. Esta
mudança social de função é, então, como foi afirmado acima,
também uma mudança de significado. Embora seja verdade
que diferentes estratos sociais, que cultivam o mesmo campo
cultural, partilhem das mesmas idéias "germinais" (esta sendo
a razão pela qual é possível a compreensão de um estrato
para outro), a realidade social em desenvolvimento introduz
algo incalculável, criativamente novo no processo
intelectual, porque as novas situações imprevisíveis, que
emergem dentro da realidade, constituem novas bases de
referência existenciais para idéias familiares. Os estratos
sociais desempenham um papel criador precisamente porque
introduzem novas intenções, novas direções de
intencionalidade, novos postulados sobre o mundo, dentro
do já desenvolvido quadro de referência das idéias dos
estratos mais velhos, que então os apropriam, e assim
sujeitam sua herança a uma mudança produtiva de função.
Estratos sociais diferentes, então, não "produzem sistemas
diferentes de idéias" (Weltanschauung) num sentido
grosseiro, materialista — de que falsas ideologias podem ser
"manufaturadas" — eles os "produzem", antes, no sentido de
que grupos sociais emergentes dentro do processo social
estão sempre em posição de projetar novas direções daquela
"intencionalidade", daquela tensão vital, que acompanha toda
a vida. A razão por que é tão importante no estudo das
mudanças "imanentes" da função de uma determinada idéia
(a passagem de uma unidade de significado para um novo
sistema) observar também as tensões e aspirações vitais que
atuam por trás do pensamento teórico, e que introduzem
antagonismos na vida da sociedade como um todo — a razão
pela qual é tão importante estudar essas tensões reais é ser
extremamente provável que uma mudança imanente de
função seja precedida por uma sociológica, ou seja, que
alterações na realidade social sejam a causa subjacente de
alterações nos sistemas teóricos.
Se abordamos a tarefa de uma Sociologia do Conhecimento
com essas premissas em mente, ela se apresentará da
seguinte forma: a tarefa principal consiste em especificar,
para cada corte transversal do processo histórico, as várias
posições intelectuais sistemáticas nas quais o pensamento dos
grupos e indivíduos criativos foi baseado. Uma vez feito isto,
contudo, essas diferentes tendências do pensamento não
deveriam ser confrontadas como posições num debate
meramente teórico, mas dever-se-ia explorar suas raízes
vitais, não-teóricas. Para fazer isto, primeiramente temos que
descobrir as premissas metafísicas subjacentes às várias
posições sistemáticas; depois devemos perguntar quais dos
"postulados sobre o mundo" coexistentes numa dada época
são os correlatos de um determinado estilo de pensamento.
Quando essas correspondências ficarem estabelecidas,
teremos identificado os estratos intelectuais que se
combatem. A tarefa propriamente sociológica, contudo, co-
meça apenas depois de feita esta análise "imanente" — ela
consiste em descobrir os estratos sociais que compõem os es-
tratos intelectuais em questão. É apenas em termos do papel
desses últimos estratos dentro do processo global, em termos
de suas atitudes em relação à nova realidade emergente, que
podemos definir as aspirações fundamentais e os postulados
sobre o mundo existentes num determinado momento, que
podem absorver idéias e métodos já existentes e os sujeitar a
uma mudança de função — para não falar nas formas recém-
criadas. Tais mudanças de função não são de modo algum
misteriosas; é possível determiná-las com exatidão suficiente
através da combinação de métodos sociológicos com os da
história das idéias. Podemos, por exemplo, retornar à origem
histórica e sociológica de uma idéia e então, seguindo sua
própria evolução, determinar, por assim dizer, o "ângulo de
refração" cada vez que sofre uma mudança de função, pela
especificação do novo centro sistemático ao qual a idéia se
torna ligada, e simultaneamente perguntar que mudanças
existenciais no contexto real são espelhadas pela mudança de
significado.
Como exemplo bastante familiar, podemos mencionar a
mudança da função do método dialético — o leitmouv da
presente discussão. A dialética foi claramente formulada pela
primeira vez por Hegel dentro do quadro de referência de
um postulado sobre o mundo conservador (não discutiremos
a história inicial do método). Quando Marx o encampou,
modificou-o em vários aspectos. Queremos mencionar só
duas dessas revisões. Primeiramente, "colocou-se a dialética
sobre seus próprios pés", ou seja, foi retirada de seu contexto
idealista e reinterpretada em termos da realidade social. Em
segundo lugar, o termo final da dinâmica histórica tornou-se
o futuro em vez do presente. Ambas as modificações, que
representam uma mudança de significado no método,
podem ser explicadas pela "mudança da função" provocada
pelo impacto das aspirações vitais do proletariado que Marx
tornou suas. Podemos explicar os novos traços do sistema
por relembrar que a vida do proletariado gira em torno de
problemas econômicos, e que sua tensão vital é dirigida para
o futuro. Por outro lado, o sistema de Hegel também, pode-
se demonstrar, foi determinado sociologicamente. O fato de
neste sistema a fase terminal do dinamismo da história ser o
presente espelha o sucesso alcançado por uma classe que,
tendo-se tornado autônoma, quer meramente conservar o
que já realizou.
Se definimos a Sociologia do Conhecimento como uma
disciplina que explora a dependência funcional de cada
posição intelectual da realidade diferenciada do grupo social
que lhe está subjacente, e que se coloca a tarefa de retraçar a
evolução das várias posições, então parece que o começo
frutífero, efetuado pelo historicismo, deve apontar a direção
em que são possíveis maiores progressos. Tendo indicado as
premissas sistemáticas que caracterizam o historicismo como
ponto de partida para uma Sociologia do Conhecimento,
passamos a sugerir alguns poucos problemas metodológicos
implicados por esta abordagem. Ao mesmo tempo, todavia,
também quisemos mostrar o método em operação, e por isso
descrevemos as principais "posições" das quais se pode
empreender a elaboração de uma Sociologia do
Conhecimento, na presente constelação. Pensamos que uma
tal análise da situação presente do problema, em termos das
categorias da Sociologia do Conhecimento, contribuiria para
dar a esta disciplina uma noção mais clara de si mesma.

SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO

ROBERT K. MERTON
Tradução de SÉRGIO SANTEIRO

A última geração viu surgir um novo campo especial de
estudos sociológicos: a Sociologia do Conhecimento
(Wissenssoziologie). O termo "conhecimento" deve aqui ser
tomado em seu sentido mais amplo, uma vez que tais estudos
se têm referido a praticamente toda uma gama de produtos
culturais (idéias, ideologias, crenças jurídicas e éticas,
filosofia, ciência, tecnologia). Entretanto, qualquer que seja o
conceito de "conhecimento", a orientação central desta nova
disciplina permanece a mesma: as relações entre o
conhecimento e os demais fatores existenciais de uma
sociedade ou de uma cultura. Mesmo que tal formulação do
objeto central possa parecer genérica e imprecisa, uma
definição mais específica não compreenderia os diversos
enfoques que se lhe tem aplicado.
Torna-se, portanto, evidente que a Sociologia do
Conhecimento se prende a problemas que vêm sendo
discutidos há muito tempo, tanto que encontrou em Ernst
Gruenwald seu primeiro historiador. Contudo, é outro o
nosso interesse com respeito aos vários antecedentes de
teorias correntes. Na verdade, poucas são as observações
atuais que não tenham sido anteriormente registradas, ainda
que por mera alusão. Dizia-se a Henrique IV "Teu desejo,
Henrique, gerou tal pensamento", uns poucos anos antes de
Bacon escrever "A compreensão humana não é apenas luz,
ela está impregnada de vontade e de sentimento; daí derivam
as ciências que se poderiam chamar 'ciências como se
gostaria". E Nietzsche tinha deixado uma série de aforismos
sobre os modos pelos quais as "necessidades" determinam as
"perspectivas" segundo as quais interpretamos o mundo, de
forma que mesmo as percepções sensoriais se permeiam de
juízos de valor. A pré-história da Sociologia do Co-
nhecimento (Wissenssoziologie) vem assim concordar com
Whitehead: "aproximar-se de uma teoria verdadeira e captar-
lhe a aplicação exata são duas coisas bastante diferentes,
como nos tem demonstrado a história da ciência. Tudo o que
existe de importante já foi dito por alguém que, entretanto,
não o descobriu".
Além de todo o problema de suas origens históricas e
intelectuais, existe ainda a indagação dos fundamentos do
interesse que a Sociologia do Conhecimento tem despertado
em nossos dias. Como é bem sabido, tem-se cultivado a
Sociologia do Conhecimento como disciplina distinta
especialmente na Alemanha e na França, ao passo que os
sociólogos americanos somente nas últimas décadas têm
devotado uma atenção cada vez maior aos problemas desta
área. O maior número de publicações e de teses de
doutorado, prova decisiva de seu reconhecimento no
consenso acadêmico, evidencia em parte esse aumento de
interesse.
A explicação imediata, e obviamente inadequada, desse
fenômeno seria encontrada no fato de que os sociólogos
recém-chegados aos Estados Unidos é que trouxeram o
pensamento sociológico europeu. Para sermos exatos, eles se
alinhavam realmente entre os estudiosos da
Wissenssoziologie. Entretanto, isto apenas explica a
disponibilidade dessas concepções entre nós e não, como
também não poderia ser explicado por qualquer outro meio
de difusão cultural, a sua aceitação efetiva.
A Sociologia do Conhecimento encontrou acolhida no
pensamento americano por apresentar problemas, conceitos
e teorias que mais e mais são pertinentes à situação social
contemporânea dos Estados Unidos, situação que vem
adquirindo certas características daquelas sociedades
européias onde inicialmente se desenvolveu esta Sociologia.
A Sociologia do Conhecimento torna-se pertinente num
determinado complexo de condições sociais e culturais.
Devido à intensificação dos conflitos sociais, as diferenças
entre as atitudes, valores e modos de pensar dos grupos vão-
se acentuando, a ponto de a orientação comum que os reunia
anteriormente ser obscurecida por diferenças incompatíveis.
Não se trata apenas da formação de vários universos de
pensamento, mas de que a simples existência de qualquer um
deles desafia a validade e a legitimidade dos demais. A
coexistência de tais perspectivas e interpretações conflituosas
na mesma sociedade conduz a uma ativa e recíproca
desconfiança entre os grupos. Num ambiente de
desconfiança já não se vai indagar do conteúdo das crenças e
das afirmações com provas relevantes; introduz-se uma
pergunta inteiramente nova: como se explica a permanência
de tais pontos de vista? O pensamento se torna funcional;
passa a ser interpretado em termos de suas raízes e funções
psicológicas, econômicas, sociais ou raciais. Em geral, tal
recurso se aplica a casos em que as declarações se apresen-
tem como pouco dignas de crédito, ostensivamente
improváveis, absurdas, tendenciosas, de tal forma que já não
interessa mais examinar as provas contra ou a favor dos
argumentos, bastando descobrir as razões que as motivaram.
Essas declarações adulteradas são "explicadas por" ou
"imputadas a" interesses particulares, motivos inconscientes,
perspectivas destorcidas, posição social etc.
Conseqüentemente, ao nível do senso comum isto leva a
ataques recíprocos à integridade dos opositores, enquanto os
mais sistemáticos procedem a mútuas "análises ideológicas".
Os ataques e análises alimentam essa atmosfera de
insegurança coletiva, e são por ela alimentados.
Nesse contexto social, toda uma série de interpretações do
homem e da cultura, partilhando certos pressupostos
comuns, encontra larga expressão. Apesar de diferirem entre
si sob outros aspectos, não só a análise ideológica e a
Sociologia do Conhecimento como também a Psicanálise, o
marxismo, a semântica, a análise da propaganda, a doutrina
de Pareto e até certo ponto a análise funcional, todas
possuem uma concepção semelhante do papel das idéias. De
um lado se situam a verbalização e as idéias (ideologias,
racionalizações, expressões emotivas, distorções, folklore,
derivações), consideradas como expressivas, derivativas ou
frustradoras (de si ou de outras), todas relacionadas
funcionalmente a algum substrato. De outro lado se
encontram os substratos como são diversamente conceitua-
dos (relações de produção, posição social, impulsos básicos,
conflitos psicológicos, interesses e sentimentos, relações
interpessoais e resíduos). E ao longo de tudo isso sobressai o
tema básico da determinação inconsciente das idéias pelos
substratos; a ênfase na distinção entre real e ilusório, entre
realidade e aparência na esfera do pensamento, crença e
comportamento do homem. E qualquer que seja a intenção
de quem as faz, as análises tendem a se dotar de uma
qualidade corrosiva: tendem a acusar, secularizar, ironizar,
satirizar, alienar, desvalorizar o conteúdo intrínseco à crença
ou ponto de vista firmados. Basta considerar o que sugerem
os termos usados nesses textos para referir crenças, idéias e
pensamentos: mentiras vitais, mitos, ilusões, derivações,
folklore, racionalizações, ideologias, fachadas verbais,
pseudo-razões etc.
A característica comum a todos esses esquemas é a prática de
rejeição do valor aparente das afirmativas, crenças, sistemas
de idéias, reexaminando-os em novo contexto que fornece o
"significado efetivo". As afirmações, normalmente
consideradas por seu conteúdo manifesto, são
"desmistificadas", qualquer que seja a intenção do analista, no
confronto de seu conteúdo com as características de quem as
enuncia, ou da sociedade em que vive. O iconoclasta
profissional, o desmistifica-dor treinado, o analista ideológico
e seus respectivos sistemas de pensamento prosperam numa
sociedade onde grandes grupos de pessoas se vêm
distanciando de valores comuns, onde universos distintos de
pensamento se interligam por desconfianças mútuas. As
análises ideológicas têm sistematizado a ausência de fé nos
símbolos consagrados; daí derivam sua pertinência e
popularidade. O analista ideológico, mais do que formar um
séquito, "dirige-se" a um séquito que "entende" suas análises,
pois estas estão de acordo com suas experiências prévias não-
analisadas.
A sociedade onde a desconfiança mútua se traduz por
expressões populares tais como "quanto ele ganha nisso?";
onde "charlatanice" e "tarimba" há mais de um século são
consideradas vernáculo, e "desbancar" o vem sendo há já uns
dezessete anos; onde a publicidade e a propaganda
originaram uma ativa resistência a se aceitar argumentos
apenas pelo que são; onde o comportamento pseudo-
comunitário, utilizado como dispositivo para se ascender nas
escalas política e econômica, compõe um livro de ampla
tiragem: como fazer "amigos" que possam ser influenciados;
onde as relações sociais cada vez mais são instrumentalizadas
de forma que o indivíduo passa a ver os outros procurando,
antes de mais nada, manipulá-lo e explorá-lo; onde o
crescente cinismo afasta o indivíduo das relações grupais
significativas, e até certo ponto o torna estranho a si mesmo;
onde a incerteza em relação a seus próprios motivos se
expressa na frase indecisa "Isto talvez seja racionalização
minha, mas..."; onde as defesas contra o trauma provocado
por desilusões podem levar a um estado de desilusão per-
manente, que consiste em reduzir as expectativas baseadas
na integridade dos outros, menosprezando a priori seus
motivos e capacidades; em tal sociedade a análise ideológica
sistemática e uma Sociologia do Conhecimento derivada
dessa análise encontram sólidas bases sociais. Os estudiosos
americanos prontamente captaram e assimilaram os
esquemas analíticos, que possibilitavam uma ordenação do
caos de conflito cultural, valores e pontos de vista
antagônicos, com que deparavam.
A "revolução de Copérnico" nessa área de estudos consistiu
na hipótese segundo a qual os fatores históricos e sociais não
condicionam apenas erros, ilusões e crenças ilegítimas, mas
também condicionam a própria descoberta da verdade.
Enquanto se cristalizasse a atenção nos determinantes sociais
da ideologia, da ilusão, do mito e das normas morais, a
Sociologia do Conhecimento não poderia emergir. Era mais
do que claro que, para justificar falhas ou opiniões sem
fundamento, se teria de lançar mão de fatores não-teóricos,
de explicações específicas, uma vez que a realidade do objeto
não poderia justificar erros. No caso de um conhecimento
verificado ou assegurado, entretanto, já se admitia há muito
tempo sua justificação em termos da relação objeto-
intérprete. A Sociologia do Conhecimento surge com a
hipótese fundamental de que se responsabilizasse a sociedade
mesmo pelas "verdades", cujas relações com a sociedade
histórica de que emergiam tinham de ser estabelecidas.
Esboçar rapidamente apenas as principais correntes da
Sociologia do Conhecimento seria apresentar nenhuma e
violentar a todas. A diversidade das formulações de Marx,
Scheler e Durkheim; a variedade de problemas que vão
desde a determinação social dos sistemas de categoria às
ideologias políticas de classe; as enormes diferenças de
envergadura dos problemas, desde a classificação exaustiva
de categorias na história intelectual à localização social do
pensamento de estudiosos negros nas últimas décadas; as
várias delimitações apostas a matéria, desde uma
epistemologia sociológica globalizadora até relações
empíricas entre determinadas estruturas sociais e idéias
correspondentes; a proliferação de conceitos — idéias,
sistemas de crença, conhecimento positivo, pensamento,
sistemas de verdade, superestruturas etc.; os diversos
métodos de validação — desde atribuições plausíveis, mas
não-registradas, às meticulosas análises históricas e
estatísticas — à luz de tudo isso, torna-se necessário
sacrificar os detalhes pelo conjunto num esforço de, ao
mesmo tempo e em poucas páginas, tratar do instrumental
analítico e de estudos empíricos.
Será necessário adotar um esquema de análise para podermos
comparar o grande número de estudos dedicados a esta
matéria. O paradigma seguinte pretende ser um passo nessa
direção. Trata-se, na verdade, de uma classificação parcial e,
espera-se, temporária, que breve desaparecerá na medida em
que der lugar a um modelo analítico mais exato e
aperfeiçoado. Contudo, ele já possibilita uma base para um
levantamento das descobertas já feitas, a indicação de
resultados contraditórios, opostos e consistentes, a
explicitação do instrumental conceptual atualmente em uso,
a determinação da natureza de problemas que têm ocupado
os estudiosos, a avaliação do material que tem sido recolhido,
a indicação das lacunas e falhas características nos tipos de
interpretação existentes. Uma teoria plenamente
desenvolvida de Sociologia do Conhecimento permite a
colocação dos seguintes pontos:

PARADIGMA PARA A SOCIOLOGIA DO
CONHECIMENTO

1 — Onde se situam as bases existenciais dos produtos
mentais?

a. bases sociais: posição social, classe, geração, papel
ocupacional, modo de produção, estruturas de grupo
(universidade, burocracia, academias, seitas, partido político),
"situação histórica", interesses, sociedade, filiação étnica,
mobilidade social, estrutura de poder, processos sociais
(competição, conflito etc.)
b. bases culturais: valores, ethos, "clima de opinião",
Volkgeist, Zeitgeist, tipo de cultura, mentalidade cultural,
visão do mundo (Weltanschauuqgen) etc.

2 — Quais são os produtos mentais submetidos à
análise sociológica?

a. esferas de: crenças morais, ideologias, idéias, categorias de
pensamento, filosofia, crenças religiosas, normas sociais,
ciências positivas, tecnologia etc.
b. aspectos analisados: sua seleção (focos de atenção), nível
de abstração, pressupostos (o que é considerado como
"dado" e o que é considerado "problemático"), conteúdos
conceptuais, modelos de verificação, objetivos da atividade
intelectual etc.

3 — Como se acham os produtos mentais relacionados
às bases existenciais?

a. relações causais ou funcionais: determinação, causa,
correspondência, condição necessária, condicionamento,
interdependência funcional, interação, dependência etc.
b. relações simbólicas, expressivas ou orgânicas: consistência,
harmonia, coerência, unidade, congruência, compatibilidade
(e antônimos); expressão, percepção, expressão simbólica,
Strukturzusammenhang, identidades estruturais, conexões
internas, analogias estilísticas, integração lógico-significativa,
identidade de significado etc.
c. termos ambíguos para designar as relações:
correspondência, reflexos, ligados a, em estreita conexão
com etc.

4 — POR QUÊ? funções latentes e manifestas
atribuídas a estes produtos mentais existencialmente
condicionados.

a. para manter poder, promover estabilidade, facilitar
orientação ou exploração, ocultar relações sociais efetivas,
fornecer motivações, canalizar comportamentos, desviar
críticas, desviar hostilidades, tranqüilizar, controlar a
natureza, coordenar relações sociais etc.

5 — QUANDO se evidenciam as relações atribuídas
entre a base existencial e o conhecimento?

a. teorias historicistas (limitadas a sociedades ou culturas
específicas)
b. teorias analíticas gerais.

É claro que existem outras categorias para classificação e
análise de estudos na Sociologia do Conhecimento que não
podem ser extensivamente desenvolvidas neste trabalho.
Vem daí o eterno problema desde o princípio submetido a
caloroso debate: qual seria a validade epistemológica de um
conhecimento sujeito a implicações existenciais? As
"soluções" apontadas para este problema se apoiam no
postulado segundo o qual a Sociologia'do Conhecimento é
necessariamente uma teoria sociológica do conhecimento, o
que as coloca entre dois pólos: num extremo a tese que versa
"a gênese do pensamento não possui relação necessária com
sua validade"; no extremo oposto se encontra o relativismo
da fórmula — a verdade é "mera" função de uma base social
ou cultural, repousando exclusivamente no consenso social
— o que vem a estabelecer que qualquer teoria de verdade
aceita em uma cultura apresenta um grau de validade igual ao
de qualquer outra.
Todavia, já nos basta o paradigma acima para organizar as
diferentes abordagens e conclusões referentes a esta disci-
plina.
As principais abordagens a serem aqui consideradas são as
utilizadas por Marx, Scheler, Mannheim, Durkheim e
Sorokin. Os trabalhos atuais adotam uma ou outra dessas
teorias, ora modificando-lhes a aplicação, ora se lhes
antepondo. Decidimos omitir outras fontes de estudo,
próprias ao pensamento americano, como o pragmatismo,
visto não terem ainda sido formuladas em termos da
Sociologia do Conhecimento nem mesmo submetidas a
pesquisa de alguma envergadura.
Onde se situam as bases existenciais? Todas as abordagens do
assunto convergem em que existe uma base existencial, na
medida em que o pensamento não pode ser imanentemente
determinado, e que um ou outro de seus aspectos pode ser
derivado de fatores extra-cognitivos. Esta convergência é
apenas formal, desenvolvendo-se posteriormente em uma
enorme variedade de teorias explicando a natureza da base
existencial.
Sob este aspecto, como sob outros, o marxismo ocupa o
centro do debate. Sem entrar no problema exegético da
identificação exata do "marxismo" — somente lembramos a
citação de Marx "je ne puis pas un marxiste" — vamos buscar
suas formulações nos escritos de Marx e de Engels.
Quaisquer que sejam as mudanças ocorridas no
desenvolvimento de sua teoria durante os cinqüenta anos de
trabalho, permaneceu constante a tese de que as "relações de
produção" constituem o "fundamento real" da superestrutura
de idéias. "O modo de produção na vida material determina o
caráter geral dos processos sociais, políticos e intelectuais.
Não é a consciência do homem que determina sua
existência, mas ao contrário sua existência social é que
determina sua consciência".
Procurando funcionalizar as idéias, isto é, relacionar as idéias
dos indivíduos com sua base sociológica, Marx vai situá-las
dentro da estrutura de classes. Pretende não que as demais
influências sejam inoperantes, mas que a classe é o
determinante primordial, sendo assim o mais fecundo ponto
de partida para a análise. Este raciocínio se acha explicitado
no primeiro prefácio do Capital: "...aqui, os indivíduos são
tratados na medida em que personificam categorias
econômicas, em que encarnam relações e interesses
específicos de classe". Abstraindo as demais variáveis e
tomando os homens pelos papéis econômicos e de classe que
desempenham, Marx considera que tais papéis são os
determinantes primordiais, deixando aberta a questão: até
que ponto verdadeiramente atuam em um dado caso de
pensamento e comportamento. Com efeito, uma linha de
desenvolvimento do marxismo, desde a Ideologia Alemã aos
últimos escritos de Engels, consiste na definição (e
delimitação) do alcance em que as relações de produção
efetivamente condicionam o conhecimento e as formas do
pensamento.
Entretanto, tanto Marx quanto Engels, repetidamente e com
insistência crescente, enfatizam que ideologias de um estrato
social dado não provêm tão só das pessoas que se acham
objetivamente inseridas nesse estrato. Já no Manifesto
Comunista, Marx e Engels indicavam que, quando a classe
dominante se aproxima da derrocada, "uma pequena parte...
se une à classe revolucionária... Assim como no passado uma
pequena parte da nobreza passou-se para a burguesia, agora
uma parte da burguesia se passa para o proletariado, e em
particular os ideólogos burgueses, que se elevaram ao nível
da compreensão teórica do movimento histórico como um
todo".
As ideologias podem ser socialmente enquadradas pela
análise de seus pressupostos e perspectivas, e pela
determinação do enfoque de problemas: sob o ponto de vista
de tal ou qual classe. O pensamento não pode ser
enquadrado mecânica e simplesmente estabelecendo a
posição de classe de quem o emite. Ele deve ser atribuído à
classe para a qual é "apropriado", à classe cuja situação social
com seus conflitos de classe, aspirações, temores, limitações
e possibilidades objetivas num dado contexto histórico-social
é por ele expressa. A mais explícita formulação de Marx
aparece no seguinte texto:
Não se deve formar a idéia bitolada de que a pequena
burguesia tem por princípio impor um interesse egoísta de
classe. Antes, ela pensa que as condições específicas de sua
emancipação são as condições gerais, únicas capazes de
salvar a sociedade moderna e de evitar a eclosão da luta de
classes. Tampouco se deve imaginar que os representantes
democráticos são todos uns comerciantes ou que estão
cheios de entusiasmo pelo comércio. No tocante à sua
educação e posição individual, eles podem estar tão distantes
entre si como o céu da terra. O que os faz representantes da
pequena burguesia é o fato de não transpor em espírito os
limites que os burgueses não transpõem em suas atividades, o
que, conseqüentemente, os conduz aos mesmos problemas e
soluções teóricos a que os pequenos burgueses são
conduzidos na prática pelos interesses materiais e pela
posição social. Em geral, é esta a relação que liga os represen-
tantes políticos e literários de uma classe à classe que
representam.
Contudo, se não pudermos inferir as idéias da posição
objetiva da classe de seus expositores, resta-nos uma larga
margem de indeterminação. Constitui-se então um novo
problema em resolver por que alguns se identificam com a
classe social a que efetivamente pertencem, expressando sua
aparência característica de estrato, enquanto outros adotam
pressupostos que não os "de seu próprio" estrato. Uma
descrição empírica do fato não é substituto adequado para
sua explicação teórica.
Quando trata das bases existenciais do conhecimento, Max
Scheler tem a característica de opor suas próprias hipóteses
àsdemais teorias em voga. Distingue Sociologia Cultural do
que chama Sociologia de Fatores Reais (Realsoziologie). Os
dados culturais têm o caráter de "ideal", pertencem ao
domínio das idéias e valores: os "fatores reais" são orientados
no sentido de proceder a mudanças na realidade natural ou
social. Os primeiros são definidos por fins ideais ou
intenções; os últimos derivam de uma "estrutura de
impulsos" (Triebstruktur, por exemplo, sexo, fome, poder).
Scheler considera um erro básico de todas as teorias
naturalistas pretender que fatores reais — seja raça,
geopolítica, estrutura de poder político ou relações de
produção econômica — determinem fatalmente o mundo
das idéias expressivas. Da mesma forma, rejeita todas as con-
cepções ideológicas, espiritualistas e personalistas que erram
por considerar a história das condições existenciais como um
desdobramento unilinear das manifestações do espírito.
Atribui completa autonomia e uma determinada ordenação
aos fatores reais, apesar de sustentar inconsistentemente que
seu desenvolvimento é guiado e dirigido por idéias imbuídas
de valor, que nele se imiscuíram. As idéias por si só não
dispõem inicialmente de eficácia social alguma. Quanto mais
"pura" fôr uma idéia, tanto menor será a força com que atua
no dinamismo social. As idéias não se efetivam, não se
corporificam em desenvolvimentos culturais, a menos que se
as liguem a interesses, impulsos, emoções ou tendências
coletivas e sua incorporação em estruturas institucionais. Só
então passam a exercer alguma influência atuante. É sob este
aspecto que se justificam as teorias naturalistas (por exemplo,
o marxismo). Caso as idéias não se vinculem ao
desenvolvimento imanente de fatores reais, estão fadadas a
se tornarem utopias estéreis.
Outro erro das teorias naturalistas, prossegue Scheler, con-
siste em tomar ao longo de toda a história a mesma variável
independente. Há, no decorrer da história, não uma variável
independente constante, mas uma determinada seqüência
em que os fatores primordiais se apresentam, sucessão que
pode ser resumida numa "lei de três fases". Na fase inicial, as
instituições de parentesco e laços sangüíneos constituem a
variável independente, que mais tarde passa a ser a estrutura
do poder político, e finalmente as condições econômicas.
Portanto, não há constância no primado efetivo dos fatores
existenciais, havendo antes uma variabilidade ordenada.
Desse modo, Scheler procurou relativizar a própria noção de
determinantes históricos. Pretende não apenas ter
confirmado por indução sua "lei das três fases", mas havê-la
deduzido de uma teoria dos impulsos humanos. Sua
interpretação de fatores reais (Real-faktorem) — raça e
parentesco, estrutura de poder, fatores de produção, aspectos
qualitativos e quantitativos da população, fatores geográficos
e geopolíticos — dificilmente constitui uma categoria bem
definida. Pouco significa subscrever a tão diversos elementos
uma mesma rubrica e, de fato, nem seus estudos empíricos,
nem os de seus discípulos, aproveitaram essa coleção de
"fatores". Sugerindo uma variação nos fatores existenciais
significativos, apesar de não ser na seqüência ordenada que
ele não chegou a estabelecer, Scheler caminhou na direção
que a pesquisa subseqüente seguiu.
Assim, Mannheim parte inicialmente de Marx, alargando sua
concepção das bases existenciais. Considerando como dado o
fato de se filiar o indivíduo a vários grupos, torna-se preciso
saber qual desses grupos é o primordial para que se
estabeleçam perspectivas, modelos de pensamento, definição
dos dados etc. Não pretende que a posição de classe seja por
si só o determinante último, no que difere do "marxismo
dogmático". De acordo com Mannheim, um grupo
organicamente integrado vê na história um movimento
contínuo no sentido da realização de seus fins, ao passo que
um grupo socialmente desvinculado e débilmente integrado
partilha uma intuição histórica que enfatiza o casual e o
imponderável. Somente pelo estudo da variedade na
formação dos grupos — gerações, grupos de status, grupos
ocupacionais — e seus modos de pensar característicospode
ser encontrada uma base existencial que corresponda à
grande variedade de perspectivas e conhecimento
existentes.
A posição de Durkheim é, em essência, a mesma, ainda que
ele represente uma tradição diversa. No recente estudo que
realizou em colaboração com Mauss sobre as formas
primitivas de classificação, Durkheim defende que a gênese
das categorias de pensamento se encontra na estrutura e
inter-relações dos grupos, e que variam de acordo com as
mudanças na organização social. Tentando estabelecer as
origens sociais das categorias, Durkheim postula que os
indivíduos se acham mais direta e inclusivamente orientados
pelos grupos de que participam do que pela natureza. As
experiências originais mais significativas se constituem sob a
mediação de relações sociais, que imprimem suas
características no pensamento e no saber. Assim, em seu
estudo de formas primitivas de pensamento, Durkheim trata
da recorrência periódica de atividades sociais (cerimônias,
festas, ritos), da estrutura do clã e das configurações espaciais
na reunião do grupo como sendo bases existenciais do
pensamento. Ainda, aplicando as formulações de Durkheim
ao pensamento da antiga China, Granet estabelece a
organização feudal e a alternância rítmica de uma vida ora
concentrada, ora dispersa, como condições às típicas noções
de tempo e de espaço que dominam a cultura chinesa.
Sorokin se opõe aos autores antecedentes ao elaborar sua
teoria idealista e emanacionista, que deduz todos os aspectos
do conhecimento não de uma base social existencial, mas
davariação de "mentalidades culturais". Essas mentalidades
partem de "premissas maiores": assim, a mentalidade
ideacional concebe a realidade como "um Ser não-material e
eterno"; considera as necessidades como essencialmente
espirituais e como sendo meios para sua satisfação plena "a
minimização auto-imposta ou a eliminação da maior parte
das necessidades físicas". Ao contrário, a mentalidade
"sensorial" limita a realidade àquilo que os sentidos possam
perceber, preocupa-se fundamentalmente com as
necessidades físicas, às quais procura satisfazer ao máximo,
modificando o mundo exterior, ao invés de modificar a si. O
principal tipo intermediário é o de mentalidade idealista que
apresenta um virtual equilíbrio entre os tipos anteriores. De
acordo com Sorokin, os sistemas de verdade e de
conhecimento derivam dessas "mentalidades", isto é, das
premissas maiores de cada cultura. Neste ponto deparamos
com o emanacionismo inerente à posição idealista: torna-se
simplesmente tautológico dizer com Sorokin que "numa
sociedade e cultura sensoriais tem que ser dominante o
sistema de verdade fundado no testemunho dos órgãos dos
sentidos". Afinal, a mentalidade sensorial se caracteriza
justamente por ser aquela que concebe "a realidade como
aquilo que se apresenta aos órgãos dos sentidos".
Além do mais, tais formulações emanacionistas evitam as
questões fundamentais levantadas por outras abordagens da
análise das condições existenciais do conhecimento. Assim
Sorokin considera que a impossibilidade do "sistema de
verdade" sensorial (empirismo) dominar completamente a
cultura sensorial constitui uma prova da "não-integração
total" dessa cultura. Tal atitude equivale a renunciar à
pesquisa das bases do conflito entre os sistemas de
pensamento característicos ao nosso mundo
contemporâneo. E o mesmo acontece com outras categorias
e "princípios" do conhecimento, a que Sorokin tenta aplicar
uma formulação sociológica. Constata, por exemplo, que em
nossa cultura "sensorial" o "materialismo" está menos
disseminado do que o "idealismo", o "temporalismo" e o
"eternalismo" estão quase igualmente difundidos, e o mesmo
se dá com o "realismo" e o "nominalismo", o "singularismo" e
o "universalismo" etc. Uma vez que a mesma cultura admite
tanta diversidade, caracterizá-la como "sensorial" não
possibilita a indicação dos grupos aos quais correspondem
tais ou quais modos de pensar. Sorokin não se prendeu à
exploração sistemática da variação de bases existenciais no
interior de uma mesma sociedade ou cultura, ele se limitou a
assinalar as tendências "dominantes" e as estendeu à cultura
como um todo. Abstraindo as diferenças de perspectiva
intelectual próprias às classes sociais e a outros grupos, nossa
sociedade contemporânea é considerada como um perfeito
exemplo de "cultura sensorial". De acordo com suas próprias
premissas, o método de Sorokin é especialmente apropriado
para uma caracterização global das culturas, sendo impróprio
para a análise das conexões que ligam o pensamento a suas
várias condições existenciais dentro de uma mesma
sociedade.


Quais São os Produtos Mentais
Submetidos à Análise Sociológica?

Basta um exame dos mais breves para se perceber quão vasto
é o conceito de "conhecimento", que engloba todos os tipos
de afirmações e todos os modos de pensar, desde as crenças
populares à ciência positiva. O "conhecimento" tem sido
muitas vezes assimilado ao termo "cultura": de forma que
não apenas as Ciências Exatas como também as convicções
éticas, os postulados epistemológicos, as constatações de fato,
os juízos sintéticos; as categorias de pensamento, as crenças
políticas, as doutrinas escatológicas, as normas morais, os
postulados ontológicos, e as observações de fatos empíricos,
todos são mais ou menos indiscriminadamente considerados
como "existencialmente condicionados". O problema é
saber se todas as "idéias" adotam a mesma relação com a base
sociológica, ou se é preciso distinguir as esferas de
conhecimento, exatamente por ser essa relação variável em
função dos diversos tipos de "idéias". Geralmente tem havido
uma ambigüidade sistemática no que diz respeito a esse
problema.
Somente em seus últimos escritos Engels aceita que a noção
de superestrutura ideológica inclui uma variedade de "formas
ideológicas" que diferem significativamente entre si, isto é,
que não são igual e semelhantemente condicionadas pela
base material. O fato de Marx não ter sistematizado o pro-
blema explica boa parte da imprecisão inicial sobre o que se
deveria incluir na superestrutura e como se achavam
relacionadas aos modos de produção as diferentes esferas
"ideológicas". Coube a Engels a tarefa de esclarecer este
ponto. Trabalhando o termo genérico "ideologia", Engels deu
um certo grau de autonomia à lei.
Tão logo se faz necessária uma nova divisão do trabalho
criando os advogados profissionais, abre-se uma nova esfera
independente que, apesar de depender da produção e do
comércio, ainda possui sua capacidade própria de reagir a
essas esferas. No Estado moderno, o Direito não corresponde
apenas a uma situação econômica geral de que é a expressão,
mas representa também uma expressão consistente em si
mesma, que não pode parecer muito inconsistente devido a
contradições internas. Para que isto se efetive, torna-se
preciso que o Direito ultrapasse o estado de reflexo fiel das
condições econômicas. E quanto mais isso se realiza, tanto
menos acontece que um código jurídico venha a ser a
expressão brutal e grosseira da dominação de uma classe — o
que já seria uma ofensa à "idéia de justiça".
Se isso é o que se passa com o Direito, sujeito ainda a ação
próxima e opressora da economia, com maior razão deverá
acontecer com as demais esferas da "superestrutura
ideológica". O lastro preexistente de conhecimentos e de
crenças exerce a pressão fundamental sobre a filosofia, a
religião e a ciência, enquanto a influência dos fatores
econômicos se efetua apenas por vias indiretas e em "última
instância". Nesses campos, torna-se impossível "deduzir" o
conteúdo e o desenvolvimento das crenças e do
conhecimento meramente de uma análise da situação
histórica:
O desenvolvimento político, jurídico, filosófico, religioso,
literário, artístico etc. funda-se sobre o desenvolvimento
econômico. Entretanto, todas essas esferas reagem entre si e
em relação à base econômica. Não é que a posição
econômica seja a única causa atuante, enquanto tudo o mais
se limite a efeitos passivos. O que existe é uma interação das
esferas sobre a base da necessidade econômica que, em
última análise, predomina sempre.
Se admitimos que a base econômica predomina "em última
análise", estamos admitindo um certo grau de independência
no desenvolvimento das esferas ideológicas. De fato, Engels
assinala:
Quanto mais a esfera específica que estudamos se afasta da
esfera econômica e se aproxima da esfera de pura ideologia
abstrata, tanto maior será o número de acidentes (desvios do
comportamento "esperado") que iremos encontrar em seu
desenvolvimento, tanto mais sua curva tenderá a correr em
ziguezague.
Finalmente, temos uma noção ainda mais restrita do status
sociológico das Ciências Naturais. Marx estabelece uma
distinção marcada entre Ciência Natural e esferas
"ideológicas", numa passagem já bastante conhecida.
Com a mudança da fundação econômica toda a imensa
superestrutura sofre uma transformação mais ou menos
rápida. Para se considerar tais transformações, deve-se
distinguir a transformação material das condições eco-
nômicas de produção, que podem ser determinadas com a
precisão da Ciência Natural, das transformações legais,
políticas, religiosas, estéticas ou filosóficas — em suma, as
formas ideológicas através das quais os homens se tornam
conscientes deste conflito e nele se empenham.
Dessa forma, as Ciências Naturais e a Economia Política, que
se podem igualar em precisão, recebem um status diverso do
atribuído à ideologia. O conteúdo conceptual das Ciências
Naturais não é atribuído a uma base econômica, a que
entretanto se acham sujeitas suas "finalidades" e "materiais":
O que seria da Ciência Natural se não fossem a indústria e o
comércio? Mesmo a mais pura ciência recebe seus objetivos
materiais unicamente do comércio, da indústria, da atividade
sensível dos homens.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, Engels vê a aparição
do materialismo histórico de Marx como tendo sido deter-
minada ela mesma por uma "necessidade" que transparece
nos pontos de vista semelhantes defendidos por
historiadores franceses e ingleses da época, e na descoberta
independente de Morgan da mesma concepção.
Prossegue afirmando que a teoria socialista é a "reflexão"
proletária sobre o moderno conflito de classes, donde o
próprio conteúdo do "pensamento científico" ser
socialmente determinado sem que isso implique a perda de
sua validade.
Havia uma tendência no início do movimento marxista e se
considerar as relações entre as Ciências Naturais e a base
econômica diferentes das relações que ligam os demais
campos do conhecimento e da crença àquela mesma base.
Poderia haver uma determinação social do foco de atenção
que orienta o conhecimento científico, mas não do seu
aparelho conceptual. Sob este aspecto, se consideravam as
Ciências Sociais como diferindo significativamente das
Ciências Naturais. As Ciências Sociais tenderiam a ser
incluídas na esfera da ideologia. Isto foi desenvolvido em
trabalhos marxistas posteriores na tese questionável de que as
Ciências Sociais estão nitidamente ligadas a interesses de
classe, o que as torna inevitavelmente ten denciosas,
proclamando a "ciência proletária" como a única capaz de
apreender certos aspectos da realidade social.
Mannheim segue a tradição marxista a ponto de negar
determinantes existenciais às "Ciências Exatas" e ao
"conhecimento formal", que por outro lado atribui ao
"pensamento científico social, político e histórico, assim
como ao da vida quotidiana". A posição social determina a
"perspectiva", isto é, "a maneira pela qual se vê o objeto, o
que se percebe nele, e como se o conforma a um
pensamento". A determinação situacional do pensamento
não o invalida, mas demarca o campo de pesquisa e os
limites de sua validade.
Se Marx não tratou de analisar distinções na superestrutura,
Scheler caiu no extremo oposto. Distingue uma variedade de
formas do "conhecimento". De início, existem "as concep-
ções do mundo (Weltanschauungen) relativamente
naturais", por exemplo, o que é aceito como sendo dado,
sem que seja necessário ou possível justificar. Tais são, por
assim dizer, os axiomas culturais dos grupos, aquilo que
Joseph Glanvill, há uns trezentos anos, chamava de "clima de
opinião". Uma tarefa fundamental da Sociologia do
Conhecimento seria descobrir as regularidades de
transformação dessas concepções do mundo. E como não
são todas necessariamente válidas, a Sociologia do
Conhecimento não só se irá ocupar de buscar as bases
existenciais da verdade, mas também as da "ilusão social, da
superstição, e de todas as formas de erro cujas origens sejam
sociais".
Essas concepções de mundo constituem organismos em
crescimento e se desenvolvem apenas em longos períodos
de tempo. As teorias mal as afetam. Scheler sustenta, sem
provas suficientes, que somente a mistura de raças ou talvez
a "mistura" de idiomas e de culturas poderá trazer-lhes
modificações essenciais. Sobre essas concepções de mundo,
que apenas se modificam lentamente, erguem-se as formas
de conhecimento mais artificiais que se podem grupar em
sete classes, de acordo comseu grau de artificialidade: 1) mito
e lenda; 2) conhecimento implícito próprio ao linguajar
popular; 3) conhecimento religioso (desde a vaga intuição
emocional até o dogma cristalizado de uma igreja); 4) tipos
fundamentais de conhecimento místico; 5) conhecimento
filosófico-metafísico; 6) conhecimento positivo de
Matemáticas, de Ciências Naturais e de Ciências Culturais; 7)
conhecimento tecnológico. Quanto mais artificiais os tipos
de conhecimento, tanto mais rapidamente se modificam. É
lógico, diz Scheler, que as religiões mudam muitíssimo mais
devagar do que as várias metafísicas, e estas se mantêm por
períodos mais longos do que os resultados das Ciências
Positivas, os quais mudam de hora em hora.
Essa hipótese de ritmos de mudança se assemelha em alguns
pontos à tese de Alfred Weber segundo a qual "a mudança
civilizacional" é mais rápida que a mudança cultural, e
também se parece com a hipótese de Ogburn de que os
fatores "materiais se modificam mais rapidamente do que os
não-materiais". Além de seus defeitos próprios, a hipótese de
Scheler participa das omissões das demais teses mencionadas.
Scheler não indica claramente em parte alguma o que seu
princípio de classificação de tipos de conhecimento — a
chamada "artificialidade" — representa de fato. Por que
conceber, por exemplo, o "conhecimento místico" como
sendo mais "artificial" do que os dogmas religiosos? Scheler
absolutamente não examina em que implica a afirmação de
que um tipo de conhecimento "muda mais rapidamente" do
que outro. Vejamos a curiosa equação que estabelece entre
os novos "resultados" científicos e os sistemas metafísicos;
como comparar o grau de modificação que sofreu o
neokantismo com as modificações da teoria biológica
ocorridas no mesmo período? Scheler audaciosamente
assevera a existência de uma variação de sete graus nos
ritmos de mudança o que, naturalmente, não confirma
através de estudos empíricos. Já se sabendo das dificuldades
que se encontram em verificar hipóteses muito mais simples,
não se vê absolutamente o que uma hipótese complicada
desse tipo pode oferecer.
Apenas alguns tipos de conhecimento são considerados por
Scheler como sociologicamente determinados. Baseando-se
em alguns postulados, que não precisamos examinar, Scheler
afirma:
É indiscutível o caráter sociológico de todo o conhecimento
e formas de pensamento, intuição e apreensão. Ainda que o
conteúdo, e menos ainda a validade objetiva de todo o
conhecimento, não sejam determinados pelas perspectivas
de interesses sociais que os guiam, tal, entretanto, não é o
caso da seleção de objetos do conhecimento. Além disso, as
"formas" dos processos mentais através dos quais se adquire o
conhecimento estão sempre e necessariamente co-
determinadas sociologicamente, vale dizer por sua estrutura
social.
Já que explicar consiste em acrescentar o que é relativa-
mente novo ao que é antigo e familiar, e já que a sociedade é
"mais bem conhecida" do que qualquer outra coisa, seria de
esperar que os modos de pensar e de intuir, e em geral a
classificação das coisas passíveis de serem conhecidas,
fossem co-determinados (mitbedingt) pela divisão e
classificação dos grupos que compõem a sociedade.
Scheler rejeita vivamente todas as formas de sociologismo.
Procura escapar de um relativismo radical recorrendo a um
dualismo metafísico. Apela ao domínio das "essências
atemporais" que, em vários graus, participam do conteúdo
dos juízos; trata-se de um reino inteiramente diverso daquele
de realidade histórica e social que determina o ato dos juízos.
De acordo com o hábil resumo feito por Mandelbaum sobre
esta visão:
O reino das essências é para Scheler um reino de
possibilidades das quais escolhemos um ou outro setor
limitado, presos que somos ao tempo e à nossos interesses. A
escolha do setor que nós, como historiadores, preferimos
depende de nossas avaliações sociologicamente
determinadas, o que nele encontramos é determinado pelo
conjunto de valores absolutos e atemporais implícitos no
passado com que lidamos.
Isso é na verdade anti-relativismo comandado. Simples-
mente afirmar a distinção entre as essências e as existências
representa afastar o relativismo por uma espécie de
exorcismo. O conceito de essências interiores pode ser
conveniente a um metafísico; não se evidencia na pesquisa
empírica. É preciso lembrar que essas noções não
desempenham um papel significativo nos esforços empíricos
de Scheler visando a estabelecer relações entre o
conhecimento e a sociedade.
Scheler indica que os diferentes tipos de conhecimento se
ligam a formas específicas de grupos. O conteúdo da teoria
das idéias de Platão requeria a forma e a organização da aca-
demia platônica. Do mesmo modo, a organização das Igrejas
e seitas protestantes foi determinada pelo conteúdo de suas
crenças, que só se poderiam firmar naquele único tipo
específico de organização social, como foi demonstrado por
Troeltsch. E, de forma semelhante, os tipos comunais de
sociedade (Gemeinschaft) possuem um lastro de saber,
baseado na tradição e transmitido sem que seja submetido a
crítica, não se preocupando eles em descobrir ou enriquecer
o saber. Toda tentativa de verificar o conhecimento
tradicional é proibida por ser considerada blasfêmia, uma vez
que admite a dúvida. Numa sociedade desse tipo, a lógica e o
modo de pensar consagrados são as de uma ars demonstrandi
e não as de uma ars inveniendi. Os métodos ontológicos e
dogmáticos prevalecem sobre os epistemológicos e críticos.
O realismo conceptual sobrepõe-se no modo de pensar ao
nominalismo que iremos encontrar no grupo societal
(Gesellschaft). O sistema de categorias adotado é o
organicista e não o mecanicista.
Durkheim submete a gênese social das categorias lógicas à
investigação sociológica, baseando sua hipótese em três tipos
de provas: A) A variação cultural das categorias e leis da
lógica "prova que elas dependem de fatores históricos e
portanto sociais". B) Uma vez que conceitos são integrados
ao linguajar adquirido pelo indivíduo (esta observação
permanece válidapara a terminologia dos cientistas), e que
alguns desses termos conceptuais se referem a coisas jamais
vividas por nós, enquanto indivíduos, é claro que eles são
produto da sociedade. C) A aceitação ou rejeição dos
conceitos não é determinada meramente por sua validade
"objetiva", mas também por sua adequação a outras crenças
dominantes.
Contudo Durkheim não adere a um tipo de relativismo que
somente admita critérios competitivos de validade. A origem
social das categorias não as torna inteiramente arbitrárias no
seu relacionamento à natureza. Elas são, em graus variados,
adequadas a seu objeto. Entretanto, como as estruturas
sociais variam (e com elas o sistema de categorias), existem
certos elementos "subjetivos" nas construções lógicas
correntes em uma sociedade. Tais elementos subjetivos
"devem ser progressivamente eliminados, à medida que mais
nos quisermos aproximar da realidade". Tal fato se dá em
determinadas condições sociais. Com a extensão dos
contatos interculturais, com a difusão da intercomunicação
de pessoas provenientes de sociedades diferentes, com a
própria expansão da sociedade, rompe-se o quadro de
referências local. "As coisas não se conformam mais aos
moldes sociais em que foram anteriormente classificadas;
precisam ser reorganizadas, atendendo-se aos princípios que
lhes são próprios. A organização lógica se separa da
organização social, tornando-se autônoma. O legítimo
pensamento humano não é um fato primitivo, e sim o
produto da história... Em especial, aquelas concepções
sujeitas à crítica científica metódica atingem um maior grau
de adequação objetiva. A objetividade é vista como
emergindo do social.
Através de toda a sua obra Durkheim permite que uma
epistemologia dúbia se interpenetre com uma análise
substantiva das raízes sociais das designações concretas das
unidades, temporais, espaciais etc. Não nos precisamos unir à
tradicional exaltação das "categorias" como entidades
separadas e conhecidas a priori, para observarmos que
Durkheim não se referia a elas e sim às divisões
convencionais de tempo e espaço. Êle assinalou, de
passagem, que os contrastes existentes a este respeito não
nos deveriam levar a "negligenciar as semelhanças, as quais
não são menos essenciais que as diferenças". Se foi o
pioneiro em relacionar variações no sistema de conceitos a
variações na organização social, Durkheim não conseguiu,
entretanto, estabelecer a origem social das "categorias".
Granet, como Durkheim, atribui grande importância à
linguagem por ser o meio de conformar e fixar os conceitos
e modos de pensar dominantes. Demonstrou no seu estudo
como a língua chinesa não se presta a exprimir conceitos,
analisar idéias ou desenvolver doutrinas discursivas. O chinês
permaneceu irredutível à precisão formal. A palavra chinesa
não cristaliza um conceito a um grau definido de abstração e
generalidade, mas evoca um complexo indefinido de
imagens particulares. Assim, não existe uma palavra que
signifique "velho", existe um grande número de palavras que
"descrevem aspectos diversos da velhice": k'i, aqueles que
necessitam de uma alimentação mais rica; k'ao, aqueles que
respiram com dificuldade, e assim por diante. Essas
evocações concretas impõem uma multidão de outras
imagens, igualmente concretas, representando todos os
detalhes da vida dos velhos: aqueles que devem ser isentos
do serviço militar; aqueles para quem se deve ter pronto
todo o material funerário; aqueles que têm o direito de sair à
rua com um bastão; etc. Essas são apenas algumas das
imagens evocadas pela palavra k'i que, em geral, corresponde
a uma noção que engloba as pessoas de sessenta a setenta
anos. As palavras e as frases possuem sempre um caráter
emblemático, dotado de imagens.
Assim como a linguagem é concreta e evocativa, as idéias
mais gerais do pensamento antigo chinês são todas
concretas, não podendo ser comparadas a nossas idéias
abstratas. Nem o tempo e o espaço são definidos por noções
abstratas. O tempo se desdobra em ciclos e é redondo,
enquanto o espaço é quadrado; os muros das cidades, campos
e terrenos devem formar quadrados. Os campos, edifícios e
cidades devem ser orientados da maneira mais conveniente,
escolhida pelo chefe ritual. As técnicas de divisão e
ordenação do espaço — agrimensura, urbanismo,
arquitetura, geografia política — e as especulações
geométricas que ensejam são todas ligadas a um conjunto de
regras sociais. Como tais regras dependem de assembléias pe-
riódicas, elas reafirmam e reforçam os símbolos que
representam o espaço. As técnicas mencionadas acima
simbolizam a forma quadrada do espaço, seu caráter
heterogêneo e hierárquico; esta é uma concepção de espaço
que só poderia ter surgido numa sociedade feudal.
Apesar de ter Granet estabelecido os fundamentos sociais das
designações concretas de tempo e espaço, não se tornou
evidente que trabalhe com dados comparáveis aos conceitos
ocidentais. Ele analisa as representações mágicas, tradicionais
ou rituais, e estabelece uma comparação implícita com
nossos conceitos positivos, técnicos ou científicos. Mas os
chineses não vivem seu dia-a-dia supondo que o "tempo é
redondo" e o "espaço é quadrado". Assim, a defasagem entre
as esferas de pensamento e de atuação torna duvidosa uma
divisão radical em "sistemas de categorias", uma vez que não
existem denominadores comuns de pensamento e de
conceituação. Granet demonstrou as diferenças qualitativas
entre sistemas conceptuais de alguns contextos, mas não as
de contextos passíveis de sofrerem comparação como, por
exemplo, seria o das atividades técnicas. Suas pesquisas
evidenciam a existência de variedade nos focos de interesse
intelectual das duas esferas, e de diferenças fundamentais nos
pontos de vista que se manifestam no interior da esfera
ritualista, deixando aberto o problema da existência de
obstáculos intransponíveis entre as demais esferas. Dessa
forma, transparece em Granet a mesma falácia da teoria de
Lévy-Bruhl, a de uma mentalidade primitiva "pré-lógica".
Como está demonstrado no trabalho de Malinowski e Rivers,
não existem tais diferenças inconciliáveis, quando se trata de
esferas de pensamento e de atuação, que possam ser
comparadas.
Vai-se encontrar em Sorokin a mesma tendência a atribuir
critérios de "verdade" totalmente heterogêneos a vários tipos
de cultura. Suas formulações ressaltam o fato de que a
atenção das elites intelectuais tende a variar e a se deslocar
de um a outro campo, de acordo com as sociedades
históricas em que vivem. Enquanto em algumas sociedades o
centro de debates focaliza as concepções religiosas e os tipos
de metafísica, outras sociedades se interessam pela ciência
empírica. Mas os diferentes "sistemas de verdade" coexistem
em cada uma dessas sociedades dentro de determinadas
esferas; em nossa época sensorial a Igreja católica se apega a
seus critérios "ideacionais".
O fato de Sorokin admitir critérios de verdade radicalmente
diferentes e heterogêneos o obriga a enquadrar seu próprio
trabalho nesse contexto. Embora se torne necessária uma
longa discussão para documentar esta afirmação, o fato é que
ele jamais resolveu esse problema. Sua posição se altera à
medida que procura escapar de um relativismo radical. A
princípio, declara que suas construções devem ser testadas
como "qualquer lei científica. Primeiro, o princípio deve ser
lógico por sua própria natureza; em segundo lugar, deve
atravessar com sucesso a série de testes de "fatos relevantes",
isto é, deve conformar os fatos e representá-los". 47 Usando
sua própria terminologia, Sorokin adotou a posição científica
característica a um "sistema sensorial de verdade". Mas, ao
expor sua própria posição epistemológica, vai adotar uma
concepção "integralista" da verdade, que procura combinar
os critérios empíricos e lógicos à "intuição" ou "experiência
mística" de caráter "supra-sensível, supra-racional, e
metalógico".
Afirma, então, ser possível a integração desses diferentes
"sistemas de verdade". Com o intuito de justificar a "verdade
da fé" — único critério capaz de o desviar do emprego de
critérios usados pelos trabalhos científicos correntes —
pretende que a "intuição" desempenha um papel importante
como jonte de descobertas científicas. Mas será que isto
resolve o problema? Não se trata das origens psicológicas das
conclusões válidas, mas dos critérios e métodos de validação.
Quais os critérios a serem adotados por Sorokin quando as
intuições "supra-sensoriais" não concordassem com os
resultados da observação empírica? A solução do dilema, a
julgar por seus trabalhos, e não pelos comentários que fez à
sua obra, seria sua opção pela aceitação dos fatos e abandono
da intuição. O que todas estas considerações sugerem é que
Sorokin examina sob a etiqueta geral de "verdade" tipos de
juízos bem distintos e não comparáveis: não se pode dizer
que a análise de uma pintura a óleo, levada a efeito por um
químico, seja, ou não, contrária a um juízo estético da
mesma pintura; da mesma forma, os "sistemas de verdade"
de Sorokin se referem a diferentes espécies de juízo. Ele
mesmo vem a reconhecer tal fato quando assinala que "os
sistemas de verdade, cada qual em seu legítimo campo de
competência, nos dão um conhecimento autêntico dos
aspectos da realidade, que a eles correspondem". Qualquer
que seja a sua atitude pessoal em relação à intuição, ele não
consegue introduzi-la em sua Sociologia como um critério
(somente como fonte) de conclusões cientificamente válidas.

Relações entre o Conhecimento e a Base Existencial

Malgrado ocupar o núcleo de toda teoria da Sociologia do
Conhecimento, o tratamento que tem sido dado a este
problema não o aborda diretamente, senão por implicação.
Todavia, cada tipo de relação conhecimento-sociedade
pressupõe toda uma teoria de métodos sociológicos e de
causalidade social. As teorias mais aceitas têm lidado com um
ou ambos dos dois principais tipos de relacionamento:
relação causal ou funcional; e relação simbólica, orgânica ou
significativa.
Marx e Engels evidentemente só se preocuparam com al-
gumas espécies de relações causais entre a base econômica e
as idéias, nomeando-as alternadamente com os termos
"determinação, correspondência, reflexo, conseqüência,
dependência" etc. Falavam ainda de uma relação de
"interesse" ou de "necessidade"; quando, a um dado
momento do desenvolvimento histórico, os estratos têm
necessidades (supostas), conclui-se que exista uma pressão
decisiva no sentido de desenvolver idéias e conhecimentos
apropriados. A insuficiência dessas diversas formulações vem
atormentando aqueles que, hoje em dia, se inspiram na
tradição marxista.
Já que, como havíamos visto, Marx sustentava que o
pensamento não é um mero "reflexo" da posição objetiva das
classes, ressurge o problema da atribuição do pensamento a
uma determinada base. As interpretações marxistas
dominantes, que se ocupam desse problema, envolvem uma
teoria da história capaz de determinar se, para um dado
estrato da sociedade, a ideologia "corresponde à situação": o
que iria exigir uma construção hipotética daquilo que os
homens pensariam e perceberiam, caso fossem capazes de
compreender a situação histórica adequadamente. Mas tal
discernimento da situação não precisa ser efetivamente
muito difundido dentro de determinados estratos sociais, o
que leva ao problema da "falsa consciência": como triunfam
ideologias que não estão em conformidade nem com os
interesses de uma classe nem com a situação social.
O Manifesto contém uma explicação empírica parcial dessa
"falsa consciência": a burguesia controla o conteúdo da
cultura, e assim difunde doutrinas e padrões estranhos aos
interesses do proletariado. Ou, em termos mais gerais, "as
idéias dominantes em cada época são sempre as idéias da
classe dirigente". Esta é, entretanto, uma explicação parcial;
corresponde no máximo à falsa consciência da classe
subordinada. Talvez explicasse, por exemplo, o fato indicado
por Marx de que mesmo onde o camponês proprietário "por
sua situção pertence ao proletariado, ele não acredita que
pertença". Mas isto não seria pertinente para se explicar a
falsa consciência da própria classe dirigente.
Ainda que não esteja claramente formulado, aparece na
teoria marxista outro tema referente à falsa consciência de
classe. É a noção de ideologia, como sendo uma expressão
involuntária e inconsciente de "motivos reais", constituídos
como interesses objetivos de classes sociais. Sublinhando-se
assim, mais uma vez, a natureza inconsciente das ideologias:
A ideologia é um processo conscientemente efetuado por
aquele que se diz pensador, mas é guiado por falsa
consciência. Os verdadeiros motivos que o impelem
permanecem desconhecidos para ele, ou então não seria um
processo ideológico. Advém daí que ele imagina motivos
falsos ou ilusórios.
A ambigüidade do termo "correspondência" para definir a
relação entre a base material e a idéia só poderá ser
negligenciada pelo apologista entusiasta. As ideologias são
interpretadas como "deformações da situação social", como
simples "expressões" de condições materiais, e como
suporte motivacional para se proceder a reais mudanças na
sociedade, sejam ou não "destorcidas". Quando reconhece
nas crenças "ilusórias" motivos para a ação, o marxismo
atribui uma certa independência às ideologias no conjunto
do processo histórico. Elas já não se reduzem a
epifenómenos. Gozam de uma certa autonomia. A partir de
então se desenvolve a teoria da interação de fatores, que
atribui também à superestrutura, ainda que em relação com a
base material, um certo grau de independência. Engels
explicitamente reconhece a inadequação das formulações
anteriores, ao menos sob dois aspectos: A) Tanto ele quanto
Marx haviam exagerado o papel do fator econômico,
subestimando o papel da interação recíproca, e B) haviam
"negligenciado" o lado formal — a maneira segundo a qual as
idéias se desenvolvem.
As colocações de Marx-Engels estabeleciam a ligação entre
as idéias e a infra-estrutura econômica, na medida em que
esta constitui o marco limitando a extensão de idéias social-
mente eficazes; as idéias que não convierem a nenhuma das
classes sociais em conflito poderão aparecer, mas serão
pouco conseqüentes. As condições econômicas são
necessárias, mas não suficientes, para a emergência e difusão
de idéias que expressem os interesses, ou as perspectivas, ou
ambos, de estratos sociais distintos. As condições
econômicas não exercem um determinismo estrito sobre as
idéias, mas constituem predisposição definida. Podemos
predizer a partir das condições econômicas que tipos de
idéias exercerão influência controladora numa direção que
possa ser eficaz. "Os homens fazem sua história, mas não
como gostariam de fazê-la; não a fazem dentro de
circunstâncias que escolheram, mas dentro das que se acham
dadas e transmitidas do passado". E, no fazer a história, as
idéias e ideologias desempenham um papel definido: basta
considerar a noção de religião como "o ópio das massas"; ou
então a importância que Marx e Engels deram a se fazer o
proletariado "consciente" de seus "próprios interesses". Já
que não existe fatalismo no desenvolvimento da estrutura
social total, mas apenas o desenvolvimento de condições
econômicas que tornam possível e provável a execução de
certas linhas de mudança, os sistemas de idéias podem
desempenhar um papel decisivo na escolha de uma
alternativa, que "corresponda" a um real equilíbrio de forças,
ao invés de optar por outra que, dirigindo-se em sentido
contrário ao da situação de poder existente, está destinada a
ser instável, precária e temporária. Existe uma compulsão
última advinda do desenvolvimento econômico, mas sua
orientação não é a tal ponto detalhada que impeça a total
ocorrência de variação nas idéias.
A teoria marxista da história supõe que, cedo ou tarde, os
sistemas de idéias que não concordam ou com a estrutura de
poder existente, ou com a emergente, tenderão a ser alijados
em benefício daqueles que mais exatamente exprimem o
novo equilíbrio. É esta a visão expressa por Engels na sua
metáfora de "curso em ziguezague" de ideologia abstrata:
pode haver um desvio temporário das ideologias de um eixo
compatível comas relações sociais de produção existentes,
mas tal desvio será, em última instância, retificado. É por isso
que a análise marxista da ideologia está sempre preocupada
com a situação histórica "total", a fim de poder justificar
tanto os temporários desvios de idéias como sua posterior
acomodação às pressões econômicas. E é também por isso
que a análise marxista tem possibilidade de assumir um
excessivo índice de "flexibilidade", a ponto de poder
"explicar" qualquer desenvolvimento como aberração ou
desvio temporário; "anacronismos" e "retardamentos"
tornam-se etiquetas que permitem desfazer-se de crenças
existentes incompatíveis com as expectativas teóricas; a
noção de "acidente" fornece um meio fácil de "preservar" a
teoria contra fatos que desafiariam sua validade. Assim que
uma teoria inclui conceitos tais como "retardamentos", "em-
purrões", "anacronismos", "acidentes", "independência
parcial", e "dependência última", passa a ser tão flexível e
vaga que se pode aplicá-la a não importa que configurações
de dados. Neste caso, como no de várias outras teorias
referentes à Sociologia do Conhecimento, deve-se colocar
uma questão no intuito de determinar a autenticidade de
uma teoria: como invalidar uma teoria? Em uma dada
situação histórica, quais os fatos a contradizê-la e a destituí-la
de fundamento? A menos que se responda diretamente a
esta pergunta, a menos que a teoria não contenha afirmações
passíveis de serem contraditas por dados especificamente
definidos, ela permanece uma pseudoteoria compatível com
qualquer conjunto de dados.
Apesar de ter-se adiantado no que tange a métodos de
pesquisa efetivos na Sociologia do Conhecimento
substantiva, Mannheim não logrou estabelecer de maneira
apreciável as relações do pensamento com a sociedade.
Como ele próprio deixou indicado, fica, depois de analisada,
uma estrutura de pensamento, o problema de atribuí-la a
grupos definidos. Para tanto é preciso não apenas uma
investigação empírica sobre os grupos ou estratos que
substancialmente pensam em tais termos, mas também a
interpretação das causas que conduzem estes, e não outros
grupos, a desenvolver tal linha de pensamento. Esteúltimo
fenômeno implicaria uma psicologia social a que Marinheira
não desenvolveu sistematicamente.
A mais séria insuficiência surgida quanto à análise de
Durkheim foi a de aceitar sem crítica uma teoria ingênua de
correspondência, que estabelecia as categorias de
pensamento como "reflexos" de certos traços da organização
do grupo em que se manifestavam. Assim, "existem
sociedades na Austrália e na América do Norte onde o
espaço é conceituado sob a forma de um imenso círculo,
porque o acampamento ostentava uma forma circular... a
organização social serviu de modelo para a organização
espacial, de que é uma reprodução". Semelhantemente, a
noção geral de tempo advém das unidades específicas de
tempo, diferenciadas a partir de atividades sociais
(cerimônias, festas, ritos). A categoria de classe lógica e os
modos de classificação, que envolvem a noção de hierarquia,
são deduzidos da estratificação e do agrupamento social.
Essas categorias sociais são então "projetadas na nossa
concepção do mundo". Em suma, as categorias "exprimem"
os diferentes aspectos da ordem social. Essa Sociologia do
Conhecimento se ressente de ter Durkheim evitado utilizar
os dados da Psicologia Social.
Scheier estabeleceu a interação como a relação central das
idéias com os fatores existenciais. As idéias interagem com
os fatores existenciais que servem de agentes seletivos,
alargando ou retraindo o domínio em que as idéias virtuais
possam vir a ser efetivamente expressas. Os fatores
existenciais não "criam" nem "determinam" o conteúdo das
idéias; não fazem mais do que representar a diferença entre
o que seja ato e o que seja potência; eles impedem, retardam
ou aceleram a atualização de idéias potenciais. Usando uma
imagem semelhante ao demônio hipotético de Clerk
Maxwell, Scheier declara: "de um modo particular e numa
ordem definida, os fatores existenciais abrem e fecham as
comportas às correntes de idéias". De acordo com Scheier,
tal formulação que atribui aos fatores existenciais a função de
escolher num mundo inclusivo de idéias constitui um sólido
ponto de convergência entre teóricos como Dilthey,
Troelstch, Max Weber e ele próprio.
Scheler igualmente usa o conceito de "identidades estrutu-
rais" ao se referir a postulados comuns ao conhecimento e
crença, de um lado, e à estrutura social, política e
econômica, do outro. Assim, o desenvolvimento do
pensamento mecanicista no século XVI, que veio a dominar
o pensamento organicista anterior, é inseparável do novo
individualismo, da preponderância incipiente da máquina
sobre o instrumento manual, da dissolução incipiente da
comunidade (Gemeinschaft) em sociedade (Gesellschaft), da
produção para um mercado, e da crescente aceitação do
princípio de concorrência no ethos da sociedade ocidental
etc. A concepção da pesquisa científica como sendo um
interminável processo de se acumular conhecimentos para
aplicação prática quando a ocasião se apresenta, e o total
divórcio dessa ciência da teologia e da filosofia não seriam
possíveis sem a destruição simultânea de uma economia
natural de satisfação de necessidades, e sem a aparição do
princípio de aquisição infinita que caracteriza o capitalismo
moderno.
Examinando tais identidades estruturais, Scheler não atribui
primazia nem à esfera sócio-econômica nem à do
conhecimento. Antes, tanto uma quanto a outra são
determinadas pela estrutura impulsiva de uma elite penetrada
pelo ethos social dominante — tese a que Scheler atribui
uma significância toda especial. Assim, a tecnologia moderna
não seria uma simples aplicação de uma ciência pura,
fundada na observação, na lógica e na Matemática. Seria
muito mais o produto de uma orientação no sentido de
controlar a natureza, que definiria tanto os propósitos como
a estrutura conceptual do pensamento científico. Essa
orientação é em grande parte implícita e não deve ser
confundida com os motivos pessoais dos cientistas.
Com essa concepção de identidade estrutural, Scheler se
aproxima da noção de integração cultural ou Sinnzusamment
da identidade estrutural corresponde ao "sistema cultural
significativo" de Sorokin, que implica a "identidade dos
princípios fundamentais e valores que permeiam todas as
suas partes", e que se opõe ao "sistema causal" que implica a
interdependência das partes.
Tendo construído sua tipologia de culturas, Sorokin se dedica
à investigação dos critérios de verdade, ontologia, metafísica,
produção científica e tecnológica, descobrindo uma ten-
dência marcante à sua integração significativa com a cultura
predominante.
Sorokin corajosamente se entregou ao problema de
determinar a extensão a que tal integração se conforma,
tendo que reconhecer, apesar de seus virulentos comentários
a propósito dos estatísticos de nossa época sensorial, a
necessidade de aferição estatística para se estudar a
"extensão" ou "grau" de integração necessária. A esse
reconhecimento segue-se a organização de índices
numéricos dos diversos escritos e autores de cada período, a
classificação em categorias apropriadas, estabelecendo assim
a freqüência relativa (e influência) dos vários sistemas de
pensamento. Qualquer que seja a avaliação técnica sobre a
validez e a fidedignidade dessas estatísticas culturais, Sorokin
guarda o mérito de ter visto o problema do grau e
intensidade de integração, negligenciado por numerosos
investigadores de "culturas integradas" ou
Sinnzusammenhaegen. Acresce o fato de que suas
conclusões empíricas foram largamente baseadas em tais
estatísticas. E suas conclusões evidenciam que sua
abordagem provê mais à colocação do problema das
conexões entre as bases existenciais e o conhecimento do
que à sua solução. Tomemos um exemplo. O "empirismo" é
definido como o sistema sensorial de verdade típico. Os últi-
mos cinco séculos, e em especial o século XIX, constituem a
"cultura sensorial par excellence! Contudo, mesmo nesse
oceano de cultura sensorial os índices estatísticos de Sorokin
assinalam apenas 53% de escritos relevantes no campo do
"empirismo". E nos primeiros séculos dessa cultura sensorial
— fins do século XVI à metade do XVIII — os índices do
empirismo permanecem bastante abaixo dos níveis do racio-
nalismo (que presumivelmente mais se liga a uma cultura
idealista do que à sensorial). O objeto dessas considerações
não é o de colocar em questão a coincidência entre as
conclusões de Sorokin e seu material estatístico: não se quer
perguntar por que nos séculos XVI e XVIII predominava um
"sistema sensorial de verdade", tendo em vista os dados
recolhidos. Antes, tenta indicar que mesmo de acordo com
as premissas de Sorokin, caracterizações globais de culturas
históricas constituem apenas um primeiro passo, a ser
seguido por análises dos desvios em relação às "tendências
centrais" de cada cultura. Já que se introduziu a noção de
grau de integração, não se pode encarar a existência de tipos
de conhecimento não-integrados às tendências dominantes
como meros "amontoados" ou "contingências". Suas bases
sociais têm de ser estabelecidas, o que, entretanto, uma
teoria emanacionista não providência.
Uma noção fundamental para se diferenciar generalizações
do pensamento e conhecimento de toda uma sociedade ou
cultura é a de "audiência", "público", ou o que Znaniecki
chama de "círculo social". A orientação dos pensadores não
se restringe a seus dados, ou a sociedade total, mas a
segmentos específicos daquela sociedade com suas
exigências especiais, critérios de avaliação, de pensamento
"significativo", de problemas pertinentes. É através da
antecipação das exigências e expectativas de audiências
determinadas, passíveis de serem localizadas na estrutura
social, que os pensadores organizam seu próprio trabalho,
definem seus dados, colocam problemas. Quanto mais uma
sociedade se diversifica, tanto maior diversidade de
audiências comporta, tanto maior a variedade dos focos de
interesse científico, de formulações conceptuais, de
processos de verificação de supostos conhecimentos. O
estabelecimento de liames entre cada um desses públicos,
tipológicamente definidos, e sua posição social
correspondente tornarão possível, através da
Wissenssoziologische, a compreensão das variações e
conflitos de pensamento dentro de uma sociedade, problema
que vem necessariamente sendo negligenciado por toda
teoria emanacionista. Assim, os cientistas que na França e na
Inglaterra no século XVII se organizavam em sociedades
científicas recém-formadas se dirigiam a públicos bastante
diferentes daqueles dos sábios que permaneceram nas
universidades tradicionais. A orientação de seus esforços no
sentido de uma explicação "clara, sóbria e empírica" de
certos problemas técnicos e científicos se distinguia
consideravelmente do trabalho especulativo, não-
experimental, daqueles que estavam nas universidades.
Pesquisar tais variações em públicos concretos, explorar seus
critérios distintivos de conhecimento válido e significativo,
relacionando-os à sua posição no contexto social, e
examinando-lhes os processos sócio-psicológicos de
obtenção de determinados modos de pensar constituem o
encaminhamento que fará a pesquisa em Sociologia do
Conhecimento passar do plano da imputação geral ao de
análises empíricas verificáveis.
A exposição precedente se refere à substância fundamental
das teorias correntes. Limitações de espaço nos obrigam a
considerar brevemente outro aspecto dessas teorias, assina-
lado em nosso paradigma: funções atribuídas aos vários tipos
de produtos mentais.

Funções Atribuídas aos Produtos Mentais
Existencialmente Condicionados

As teorias analisadas não se restringem a formular
"explicações causais" do conhecimento, adiantando "funções
sociais" destinadas a responder seja por sua persistência, seja
por sua modificação. Se bem que valha a pena, não
poderemos proceder neste trabalho a um estudo detalhado
dessas análises funcionais.
O traço mais característico da imputação marxista de função
é o de atribuir essas funções a estratos distintos da sociedade,
ao invés de à sociedade como um todo. E isto se aplica tanto
ao pensamento ideológico como à Ciência Natural. Na
sociedade capitalista, a ciência e a tecnologia, que dela proce-
dem, transformam-se em mais um instrumento de controle
nas mãos da classe dominante. Dentro dessa mesma
perspectiva, ao indagar dos "determinantes econômicos" do
desenvolvimento científico, os marxistas têm-se limitado a
assinalar que os resultados científicos possibilitam a satisfação
de algumas necessidades econômicas ou tecnológicas. Mas o
fato de uma teoria científica encontrar aplicações práticas
não implica que as necessidades estivessem
significativamente envolvidas na obtenção desses resultados.
As funções hiperbólicas esperaram dois séculos por uma
aplicação prática, enquanto o estudo de seções cônicas levou
dois milênios antes de ser aplicado na ciência e na
tecnologia. Podemos concluir que as "necessidades"
satisfeitas pela sua aplicação posterior tenham orientado o
interesse dos matemáticos para esses domínios, tendo por
assim dizer havido uma influência retroativa ao curso de dois
ou vinte séculos? Antes que se possa estabelecer o papel
desempenhado pelas necessidades na determinação da
temática da pesquisa científica, faz-se necessário um
inquérito pormenorizado a respeito das relações que ligam o
surgimento das necessidades, seu reconhecimento pelos
cientistas ou por aqueles que selecionam os problemas, e as
conseqüências originadas por esse reconhecimento.
Além de pretender que as categorias emergem do social,
Durkheim indica também suas funções sociais. Todavia, sua
análise funcional visa, antes da elucidação de um sistema de
categorias específico em uma sociedade dada, a própria
existência de qualquer sistema comum a uma sociedade. É
indispensável a existência de um mesmo conjunto de
categorias que permita a intercomunicação e a coordenação
das atividades dos homens. O que os aprioristas vêem como
a compulsão da maneira natural e inevitável de se entender
as coisas é, na realidade, apenas a expressão da "autoridade
mesma da sociedade, substanciada em determinadas
maneiras de pensar, que são condições indispensáveis a toda
atividade comum". Tem que haver um certo mínimo de
"conformidade lógica" se se pretende manter atividades
sociais conjuntas; um conjunto comum de categorias é uma
necessidade funcional. Esta colocação foi desenvolvida
posteriormente por Sorokin, que indica as várias funções
servidas por diferentes sistemas de espaço e tempo sociais.
Outros Problemas e Estudos Recentes.

O que acima vai exposto demonstra a necessidade de novas
investigações dada a diversidade dos problemas.
Scheler indicava a considerável influência que a organização
social da atividade intelectual exerce sobre o caráter de
conhecimento que desenvolve. Um dos primeiros a se
dedicar a este problema nos Estados Unidos, Veblen
apresentou um impressionista e cáustico estudo das pressões
que conformam a vida universitária americana. Já mais
sistematizado, o trabalho de Wilson se ateve aos métodos e
critérios de ingresso no magistério, às atribuições de status e
aos mecanismos de controle atuando sobre os professores,
tendo assim formado sólidas bases para estudos comparativos
posteriores. Através de uma tipologia dos papéis diversos
desempenhados pelos estudiosos, Znaniecki desenvolveu
uma série de hipóteses relacionando esses papéis aos tipos de
conhecimento; os tipos de conhecimento às bases em que os
cientistas são julgados pelos membros da sociedade; as
definições de papel às atitudes em relação ao conhecimento
prático e teórico; etc. Ainda há muito que estudar no que
se refere aos critérios de identificação de classe dos
intelectuais, à sua alienação dos estratos dominantes ou dos
estratos subordinados de uma população, à participação ou
ausência em pesquisas que permeiam implicações valorativas
imediatas que desafiam os arranjos institucionais existentes
opostos a fins culturais, as pressões favorecendo o
tecnicismo e indo contra "pensamentos perigosos", à
burocratização dos intelectuais como processo de
transformar problemas políticos em problemas
administrativos, às áreas da vida social em que se requer
conhecimento especializado e positivo, e àquelas em que a
sabedoria do homem simples é considerada suficiente; em
suma, a mudança de papéis do intelectual e a relação dessas
modificações com a estrutura, conteúdo e influência de seu
trabalho necessitam de atenção crescente, uma vez que as
transformações na organização social mais e mais sujeitam o
intelectual a exigências contraditórias. Cada vez mais se
admite que a influência da estrutura social sobre a ciência
não se reduz a concentrar a atenção dos cientistas em
determinados campos de pesquisa. Além dos estudos a que já
nos referimos, outros têm-se preocupado com as formas de
que se reveste a interferência do contexto social e cultural na
formulação conceptual de problemas científicos. A teoria da
seleção, elaborada por Darwin, plasmou-se no conceito
então dominante de concorrência econômica que, por sua
vez, assumiu uma função ideológica a partir de seu postulado
de uma "identidade natural de interesses". Ao fazer uma
observação meio irônica a respeito das características na-
cionais dos estudos referentes ao treinamento de animais,
Russell orienta um novo tipo de estudos: as relações entre a
cultura nacional e as formulações concetuais. Da mesma
forma, Fromm tem tentado mostrar que o "liberalismo
consciente" de Freud implica a rejeição tácita dos impulsos
considerados pela sociedade burguesa como tabus, e que o
próprio Freud, pela proeminência que concede ao pai, era
um típico representante de uma sociedade que exige
obediência e sujeição.
Da mesma forma tem sido demonstrado que a noção de
causação múltipla é de especial conveniência para o
professor que goza de uma relativa estabilidade, que se atém
ao status quo do qual provêm sua dignidade e subsistência,
que se inclina à conciliação e vê sempre algo de válido em
todos os pontos de vista, tendendo assim para uma
taxonomía que, relevando a multiplicidade dos fatores e a
complexidade dos problemas, o exime de tomar partido.
Tem-se ligado a orientações políticas opostas a ênfase na
"natureza" e no "aprendizado" como determinantes
fundamentais do ser humano. Os que enfatizam o caráter
hereditário alinham-se no campo político entre os
conservadores, ao passo que os defensores da primazia do
ambiente tendem a se engajar nos processos de mudança
social como democratas ou radicais. Entretanto, entre os
estudiosos de Patologia Social, mesmo os que acentuam a
importância do meio social adotam concepções de
"ajustamento social", que supõem implicitamente o
reconhecimento dos padrões de pequenas comunidades
como normas sociais e que, fato muito característico,
menosprezam a possibilidade de que alguns grupos possam
atingir seus objetivos dentro das condições institucionais
existentes. Para que tais perspectivas fossem aceitas, seriam
antes necessários estudos mais sistemáticos. Em todo caso, as
últimas tendências vêm procurando relacionar as perspecti-
vas dos cientistas ao quadro de referências e de interesses
constituídos por suas posições sociais. O caráter questionável
dos enquadramentos sociais, que carecem de uma
fundamentação em bases comparativas adequadas, vem
ilustrado num recente exame dos escritos de estudiosos
negros. Tais trabalhos preferem a adoção de categorias
analíticas a morfológicas, de determinantes ambientais de
comportamento a biológicos, de dados excepcionais a
típicos, o que vem sendo encarado como manifestação do
ressentimento de casta dos escritores negros, sem que se
tenha estabelecido comparação com a freqüência de
tendências semelhantes nos escritores brancos.
O curso atual dos acontecimentos históricos vem desfazendo
toda inclinação a se considerar inteiramente autônomo o
desenvolvimento da ciência e da tecnologia, a se considerar
que esse desenvolvimento se realizasse independente da
estrutura social. Estudos vêm demonstrando que um
controle social cada vez mais visível, e que às vezes cede
lugar a sanções, condiciona a pesquisa e invenção científicas.
Entre eles se situa o de Stern que ainda estabelece o que
corresponde em medicina a resistência à mudança. As
mudanças fundamentais na organização social na Alemanha
forneceram uma espécie de teste experimental da estreita
dependência que existe entre a orientação e amplitude do
trabalho científico, a estrutura de poder e as perspectivas
culturais correspondentes. E os estudos que demonstram
como se colocaram a ciência e a tecnologia a serviço de
exigências sociais e econômicas tornam evidentes as
limitações de qualquer pretensão a se fazer da ciência e da
tecnologia "a base" sobre a qual se deve "ajustar" a estrutura
social.
Não nos seria possível, sem extravasar dos limites do pre-
sente trabalho, prosseguir desenvolvendo a considerável lista
de problemas, que vêm sendo submetidos à investigação em-
pírica. Resta dizermos o seguinte: a Sociologia do
Conhecimento rapidamente ultrapassa sua tendência inicial a
confundir uma hipótese de trabalho provisória com um
dogma incontestável; a quantidade de proposições
especulativas que caracterizaram seus passos iniciais é agora
submetida a testes cada vez mais rigorosos. Embora Toynbee
e Sorokin possam estar com a razão quando falam da
alternância que, na história da ciência, faz um período de
investigação suceder a um período de generalização, parece
que a Sociologia do Conhecimento conseguiu reunir essas
duas tendências no que promete ser uma união fértil. Acima
de tudo, focaliza os problemas que ocupam o centro do
interesse intelectual contemporâneo.

CONSEQÜÊNCIAS METODOLÓGICAS DA
SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO

C. WRIGHT MILLS
Tradução de ÂNGELA MARIA XAVIER DE BRITO
Muitos dos pensadores que se voltaram para este problema
afirmam que a Sociologia do Conhecimento não tem
relevância para a epistemologia; que o exame sociológico das
investigações não tem conseqüências para os critérios de
"veracidade" e "validez". É possível que o problema tenha
sido colocado de forma por demais restrita e rudimentar. A
verdade é que do conhecimento da "posição social" de um
pensador não se pode deduzir a veracidade ou falsidade de
suas afirmações. Neste sentido rudimentar, a Sociologia do
Conhecimento é epistemologicamente inconseqüente. Mas
o assunto é mais complexo; as conseqüências são menos
diretas.
Um exame analítico das posições negativas referentes às
conseqüências epistemológicas da Sociologia do
Conhecimento e uma solução do assunto geral ao qual ela
provavelmente se refere progredirão obliquamente e
incluirão respostas às seguintes perguntas:
1) Qual o caráter, a origem e a função genérica das formas,
critérios de verdade e modelos de verificação epistemoló-
gicos?
2) Exatamente onde, em que conjunturas e em que tipos de
investigação podem os fatores sociais entrar como
determinantes do conhecimento?
É claro que a "veracidade" e a "objetividade" apenas têm
aplicação e sentido em termos de algum modelo ou sistema
de verificação, aceitos. Aquele que sustenta a irrelevância das
condições sociais para a veracidade das proposições deve
estabelecer as condições das quais, em seu entender, a
veracidade depende. Deve especificar com exatidão o que
existe no pensamento que os fatores sociológicos não possam
explicar e em que se baseiam a validez e a veracidade. Os que
adotam a posição negativa devem estabelecer o que são estes
critérios de veracidade e validez, como se originam e como
funcionam. Têm sociais é concebido como se não levasse
consigo nenhuma crítica ou reformulação legítimas dos
critérios "tradicionais" de validez e veracidade. Hans Speier,
ao relatar crença semelhante, fala da "intromissão" da
Sociologia no domínio filosófico e faz uma distinção entre
pensamento "promocional" e "teórico"; este último,
concebido como tendo somente a "verdade" como seu
objetivo, não deve ser analisado sociologicamente. Junto
com Grünwald, Speier diz: "A validez de um julgamento não
depende de sua gênese". Assim, devido a considerações
epistemológicas, Schelting e Speier limitariam o objeto e as
implicações da Sociologia do Conhecimento. R. K. Merton
aparentemente aceita essa posição negativa em "The
Sociology of Knowledge", Isis, XXVII, n.° 3, (75), 502-3. R.
Bain e R. M. Mac Iver, em trabalhos lidos em Atlantic City,
1937, também mostram que não vêem conseqüência
epistemológica alguma da Sociedade do Conhecimento. G.
H. Sabine toma esta posição em "Logic and Social Studies",
Philosophical Review, XLVIII (1930), 173-74.
Fritz Mauthner dirigiu um exame sociológico vigoroso,
embora breve, destes cânones, sugerindo que a difusão dos
estudos da gramática e dos fatores da cultura tradicional
indiana influenciaram sua formulação e persistência. Dewey
ofereceu uma teoria empiricamente baseada na qual encara
essa lógica culturalmente como formuladora das categorias
de linguagem prevalentes na sociedade grega. Mostrou
também o funcionamento das classes e os conseqüentes
fatores estético-sociais nesses critérios de validez e as
condições sob as quais eles aparecem.
O paradigma oficial e monopolístico de validação e vera-
cidade aceitos pela escolástica medieval era certamente
influenciado por fatores tais como "a posição
hierarquicamente centralizada da elite intelectual com seu
poder tanto político quanto intelectual e sua memória, fé e
normas dialéticas de recrutamento estritas. Também pelo
fato de que, em virtude dessa organização social de vários
séculos, os lógica utens e o esquema de percepção de cada
pensador eram comuns a grandes setores da elite".
Será que a posição em questão lembra algumas das for-
mulações epistemológicas mais recentes, digamos, as dos
séculos XVII e XVIII? Mannheim sugeriu judiciosamente
que estas eram condicionadas pelo status revolucionário da
classe média, particularmente por seu caráter "individualista".
E. Conze sugeriu com acerto as "Origens burguesas do
nominalismo". Certamente a epistemologia protestante de
Descartes abre-se à investigação sociológica. E os cânones de
verificação "utilitários" e "experimentais" foram com certeza
impulsionados pelo ethos social do puritanismo do século
XVII.
Tem havido e há diversos cânones e critérios de validez e
veracidade e estes critérios, dos quais dependem as
determinações de veracidade das proposições, estão em sua
permanência e mudança legitimamente abertos à
relativização histórico-social. Além do mais, estamos
lidando com teorias sociológicas referentes ao caráter e
emergência de alguns deles. Os critérios ou modelos de
observação e verificação não são transcendentais. Não se
derivam, em sua pureza teórica, de um céu grego, embora a
"escolha" e o uso de uma parte deles possam ser assim
justificados. Nem são parte de um equipamento "mental"
apriorístico ou inato, concebido para ser intrinsecamente ló-
gico.
Ao contrário: a diversidade histórica de tais modelos
corrobora a visão de Dewey do que eles são gerados e se
derivam de investigações feitas em tempo e sociedades
determinadas. A tese de Dewey sobre o caráter e a situação
histórica das formulações lógicas e epistemológicas nos
fornece explicação empírica para os dados históricos.
Durante quarenta anos, êle sustentou que os modelos de
verificação sobre os quais se baseiam as imputações de
veracidade são formas derivadas de investigações existentes e
não têm sentido quando delas separados. "A investigação (a
lógica, e. g.) é a. causa cognoscendi das formas lógicas, a
investigação primária é a causa essendi das formas que a
investigação sobre a investigação descobre". Um exame
cuidadoso revela que não existe desacordo fundamental
entre as concepções de Dewey e Mannheim sobre o caráter
e a origem genéricos das formas epistemológicas. "A
abordagem indireta da realidade", nos diz Mannheim,
"através da história social será, no fim, mais útil que uma
abordagem lógica direta". A visão de Mannheim coincide
com o programa seguido por Dewey desde 1903, quando êle
abandona as preocupações tradicionais, em torno da relação
ubíqua do pensamento em geral com uma realidade em
sentido lato, por um exame específico do contexto, posição e
efeito de um tipo de investigação.
Em termos das normas em cujas bases as idéias são aceitas ou
rejeitadas, C. S. Peirce analisou quatro segmentos da história
intelectual ocidental. Seu trabalho comparativo e quase-
sociológico foi uma etapa preliminar de sua própria aceitação
de um modelo de observação e verificação que êle mesmo
analisou e generalizou a partir de uma ciência de laboratório.
Mas nem todos os pensadores, nem mesmo filósofos,
procederam à "escolha" de que modelo de verificação
deveria guiar seu pensamento de maneira tão consciente e
exaustiva como Peirce. A "aceitação" (o uso) e a "rejeição" de
modelos de verificação por cada pensador e pelas elites é
outra situação na qual, fatores extralógicos, possivelmente
sociológicos, podem introduzir-se e ter conseqüência para a
validez do pensamento de uma elite.
O modelo "total, absoluto e universal" de "ideologia"
mannheiniano, no qual a posição social influi sobre a
"estrutura da consciência em sua totalidade", incluindo tanto
a forma como o conteúdo, pode ser interpretado como
significando esta relativização histórico-social de um modelo
de veracidade ou a influência de uma "posição social" sobre a
"escolha" de um modelo em detrimento de outro. As
afirmações de Mannheim não contradizem esse enunciado
mais explícito e analítico.
Aqueles que argumentam que as investigações sociológicas
do pensamento não têm conseqüências para a veracidade ou
validez daquele pensamento compreendem mal a fonte e o
caráter dos critérios dos quais a veracidade e a validez
dependem sempre. Esquecem também o fato de que esses
próprios critérios e as aceitações e rejeições seletivas de um
ou outro pelas várias elites são passíveis de influência cultural
e investigação sociológica. Aparentemente eles pressupõem,
sem avaliar as possibilidades, que, dependa a validez do que
depender, ela não pode ser examinada empírica e
sociologicamente. Esta visão é corroborada por uma teoria
pouco definida do conhecimento e da mente, que impede a
análise desses aspectos ou conjunturas nos processos de
conhecimento nos quais fatores extra-lógicos possam
introduzir-se e tornar-se relevantes para a veracidade dos
resultados. Pois seu ataque é, com freqüência, dirigido contra
a visão de que a validez de um julgamento depende de sua
gênese, e inclinam-se a interpretar "gênese" em termos de
uma motivação individual para o pensamento.
É verdade que o modelo corrente de pensamento "cientí-
fico", retirado principalmente das investigações físicas pós-
renascentistas, distingue entre a veracidade dos resultados e
os motivos e condições sociais de uma investigação. Isto
porque este paradigma exige que as afirmações sejam
verificadas através de certas operações que não dependem
dos motivos ou da posição social de quem as faz. A posição
social não afeta diretamente a veracidade das proposições
testadas por este modelo de verificação. Mas as posições
sociais podem muito bem afetar o fato de que este ou algum
outro modelo seja ou não usado por tipos de pensadores hoje
ou em outro período. De maneira alguma este modelo
particular de verificação foi usado por todos os pensadores
em todos os tempos. Na verdade, muitos não o aceitam
atualmente. Muitos cientistas sociais contemporâneos apenas
conhecem nominalmente este modelo da ciência física e seu
"uso" é limitado ao emprego de alguns termos esparsos em
seus escritos. Este modelo particular não existiu e não po-
deria ter existido antes da total ascensão da ciência física na
Europa ocidental, pois se deriva desse tipo de investigação.
Mas até mesmo em investigações que satisfazem esse
paradigma, os motivos ou posições sociais do pensador não
exaurem os aspectos das investigações que se relacionam a
fatores sociais. Qualquer padrão de observação ou verificação
pode em si mesmo ser socialmente relativizado, e a "seleção"
e o uso de qualquer modelo (como também o seu padrão de
difusão específica entre as mais variadas elites) estão abertos
à explicação sociológica. Podem-se mencionar dois outros
aspectos das investigações que estão abertos a possíveis
influências histórico-sociais e que podem influenciar os
critérios e, conseqüentemente, a veracidade e validez dos
resultados:
i) As categorias das quais dependem todas as investigações e
exposições estão relacionadas a situações sociais, a
determinantes culturais. Muitos investigadores indicaram de
que maneira os conceitos, como sub-rogados de contextos
societais, podem dar forma a investigações que,
aparentemente, são desarraigadas e socialmente livres. A
detecção dos significados societalmente condicionados dos
termos de que depende uma investigação pode ser vista
como uma crítica à garantia dos resultados desta. Nos termos
de C. W. Morris, a dimensão pragmática (que inclui a
sociológica) do processo da linguagem é basicamente
relacionada com a semântica e a sintática. O que é
considerado problemático e quais os conceitos disponíveis e
usados podem estar interligados em determinadas
investigações. Deve-se notar que, dentro da perspectiva
sociológica, os problemas que causam a reflexão podem ser
encarados de numerosos ângulos como ligações entre
intelecto e cultura. Focalizar a seleção de problemas em
termos de valores motivacionais é apenas uma, a mais
rudimentar forma de conexão.
ii) Estreitamente ligada a tal visão de categorias está a
teoria social da percepção. Ao adquirir um vocabulário
técnicocom seus termos e classificações, o pensador está
adquirindo como se fora um par de lentes coloridas. Ele vê
um mundo de objetos que são tecnicamente tintos e
padronizados. Uma linguagem especializada constitui
verdadeira forma apriorística de percepção e cognição, que é
certamente relevante para os resultados da investigação. As
epistemologías têm discrepado amplamente quanto às
maneiras pelas quais os elementos empíricos entrariam no
conhecimento. Mas, por mais variada que tenha sido a
incorporação de elementos empíricos, ao olhar o mundo
para verificação, seus conceitos condicionaram aquilo que
viram. Diferentes elites técnicas possuem diferentes capa-
cidades perceptuais. A verificação empírica não pode ser
uma simples e positivista operação reflexa. Assim, as
dimensões observacionais de qualquer modelo de
verificação são influenciadas pela linguagem seletiva de seus
usuários. E esta linguagem não deixa de ter uma marca
histórico-social. As implicações dessa visão social da
percepção para as teorias simples de correspondência da
verdade, e. g., são óbvias. O fracasso em reconhecer tais
embricamentos na investigação, relevantes para a
"veracidade", "objetividade" e "imparcialidade" dos resulta-
dos da investigação, acarreta limitação arbitrária do objeto
legítimo de uma Sociologia do Conhecimento empírica.
Um argumento há muito usado contra todas as formas de
relativismo manifesta-se freqüentemente em discussões
do problema seguinte: ou a própria afirmação e argumento
do relativista são relativos, caso em que êle não tem base
para negar ou afirmar a veracidade do pensamento alheio, ou
seu argumento e afirmação são incondicionalmente
verídicos e, portanto, o relativismo é contraditório em si
mesmo. Este argumento pode ser colocado em forma
estritamente lógica:

a) O pensamento é função de fatores culturais (donde sua
"validade imparcial", "objetiva", é destruída).
b) A Sociologia do Conhecimento é um tipo de pensamento.
c) Portanto, a Sociologia do Conhecimento é função de
fatores culturais (donde não pode ser "objetiva", "válida"). O
próprio Mannheim documentou empiricamente a ligação
dos itens abc. Indicou as condições culturais e políticas da
Sociologia do Conhecimento. São as premissas colocadas
após os "donde" e seus pressupostos que precisamos
examinar.
Estes argumentos anti-relacionísticos aparentemente igno-
ram o caráter e o status das formas epistemológicas (ver i e ii
acima). Pressupõem a existência de uma verdade absoluta
que não tenha nenhuma ligação com a investigação; e apenas
são significativos do ponto de vista de um absolutista. As
imputações do sociólogo do conhecimento podem ser
testadas com referência ao modelo de verificação
generalizado, e. g., por Peirce e Dewey. Sua veracidade está,
então, em termos deste modelo. Mesmo que se admita que
este modelo não é nenhuma garantia absoluta, parece o mais
provável de que dispomos no momento. (Na prática, se
quisermos difundir nosso pensamento entre os pensadores
profissionais de hoje, precisamos colocá-lo nestes termos.)
Os critérios são, por si mesmos, coisas em desenvolvimento.
Uma precondição para "corrigir" este modelo para uso futuro
é usá-lo conscienciosamente agora. [A lógica da]
investigação sobre investigação é... um processo circular
que não depende de nada que seja estranho à investigação. 23
As afirmações do sociólogo do conhecimento fogem ao
"dilema do absolutista" porque se podem referir a um grau de
veracidade e porque podem incluir as condições nas quais
são verídicas. Apenas as afirmações condicionais são
passíveis de ser transladadas de uma perspectiva a outra. As
afirmações podem ser apropriadamente colocadas como
probabilidades, como mais ou menos verazes. E somente
dessa maneira podemos dizer que a investigação científica é
autocorrigível. O sociólogo também pode, sem contradição,
apontar fatores sociais condicionantes do fracasso em usar
este modelo particular.
Mannheim afirma, muito corretamente, que novos critérios
para a ciência social podem emergir das investigações da
Sociologia do Conhecimento. Isso é inteiramente possível.
Elaborarei este ponto mais abaixo. Basta aqui ter consciência
de que "os critérios tradicionais" emergem da análise lógica
dos tipos "tradicionais" de investigação. A tentativa de
restringir o objeto e as implicações da Sociologia do
Conhecimento para salvaguardar suas afirmações está mal
situada e não se adequa às modernas teorias do
conhecimento.
Outra tentativa semelhante é proposta pelos que querem
limitar a Sociologia do Conhecimento à investigação das
tentativas conscientes de um patrocinador para encontrar
um público; das condições sociais de tipos de patrocinador;
de meios para difundir idéias persuasivas de valores etc....
Deste ponto de vista, a Sociologia do Conhecimento pode
não ter nenhuma relevância ou objeto epistemológico
porque pode estudar exaustivamente apenas um tipo
"promocional" de pensamento. Enquanto examina o
"pensamento teórico" ("cuja finalidade é... apenas a
verdade"), ela está aparentemente limitada ao exame da
"seleção de certos problemas". Em acréscimo à motivação
individual existe uma segunda diferenciação entre os dois
tipos de pensamento: o público do filósofo teórico são "as
eternas fileiras dos que buscam a verdade". Nenhuma dessas
diferenciações é suficientemente analítica. A nenhuma
adiantaria dizer-se que se constituem em "qualidades de
pensamento" diferentes. Considero esse público do pensador
teórico como os membros de uma elite técnica,
genericamente delimitada como: a) os que lêem sua obra ou
o que êle pensa que a lêem; ou seja, os que participam com
maior ou menor relevância em seu universo discursivo; b)
são pessoas acostumadas a pôr emdúvida, a criticar e a fixar
suas crenças, i. e., a pensar, 26 de forma tal que satisfaçam as
condições de algum modelo de pensamento, de cujas formas
estejam mais ou menos conscientes e empenhadas em
seguir. Este é o significado do termo "buscar a verdade".
Assim analisado sociologicamente, o pensamento dos
"filósofos" e teóricos certamente se constitui em dados para o
sociólogo do conhecimento. A existência mesma de tal
grupo é sociologicamente significativa. As origens e
conseqüências de tais grupos em contextos variegados têm
recebido pouca atenção explícita. Já mostrei como a
"seleção" dos critérios e os próprios critérios estão abertos à
investigação sociológica, como as categorias da exposição
técnica, os problemas enfrentados e os esquemas perceptuais
podem influenciar a direção e as formas validadoras do
pensamento.
Além do mais, o fato de um pensador desejar ou ser mo-
tivado a atingir a verdade não garante ou implica que suas
afirmações sejam ou não verdadeiras. Muito menos que êle
ou elas estejam abertos à relativização social. "Verdadeiro é
um adjetivo aplicado às proposições que satisfazem as formas
de um modelo de verificação aceito. No modelo atualmente
dominante entre os pensadores seculares, profissionais, a
verificação é independente da motivação individual para
pensar, seja este a "verdade" ou a "persuasão". Não vejo em
que estaremos justificados nesta etapa da pesquisa para
diferençar tipos de pensamento em termos de motivação
epistemológica. Estas não são as espécies de tipos que
precisamos e que podemos usar numa dissecação. Pois seria
preciso uma análise sócio-psicológica de um pensador para
determinar se ele estava realmente, ou acreditava estar,
visando a verdade, i. e., seguindo ou tentando seguir um
modelo de verificação. Poder-se-ia identificar com
propriedade o pensamento teórico apenas em termos de um
modelo de verificação dado. Em pesquisa, não podemos
produtivamente impor o "nosso" ao de pensadores passados.
Tem havido vários modelos no pensamento ocidental, e já
mostrei que estão abertos à relativização histórico-social.
Não existe em nossa era uma forma comum de validação à
qual, todos submetam suas afirmações. Esta condição episte-
mológica apresenta uma oportunidade para estudar
comparativamente as diversas normas em si, sua função e
gênese. Em face da diversidade e confusão epistemológicas,
parece tolice considerar nosso trabalho como irrelevante à
luz de um conjunto arbitrário de normas derivadas de uma
gama particular de investigações ou conglomerados de
crenças miscelâneas.
Mas as tarefas para os sociólogos do conhecimento derivadas
dessas afirmações não estão bem definidas. Precisam ser
indicadas mais precisamente. É claro que, como mostrou
Wirth, aspiramos a contribuir para a "elaboração sócio-
psicológica da própria teoria do conhecimento". Estou
preocupado aqui em mostrar a utilidade deste trabalho para
os sociólogos, i. e., a função metodológica da Sociologia do
Conhecimento.
O sociólogo do conhecimento não precisa contentar-se com
o exame e a relativização fatuais dos aspectos dos processos
cognoscitivos. Pois tal experiência o coloca estrategicamen-
te, em uma base comparativa e contextual, para uma
construção metodológica positiva. Precisamos aqui ter em
mente a identificação de Dewey entre epistemologia e
metodologia. Essa ocorrência acarreta a crença de que a
derivação de normas de algum tipo de investigação (mesmo
se este tem amplo prestígio, e. g., "a ciência física") não é o
fim da epistemologia. Em sua "função epistemológica", a
Sociologia do Conhecimento é especificamente propedêutica
para a construção de uma metodologia consistente para as
Ciências Sociais. Se Mannheim tivesse acertadamente
reconhecido tal coisa, teria evitado ambigüidades e falsas
colocações em sua obra. Mas, de maneira geral, Mannheim
como epistemológico se preocupa em detectare corrigir as
limitações das investigações político-sociais. Em sua análise
dos Métodos de Rice, ele abstrai algumas das noções e
formas que controlam as investigações dos sociólogos
americanos e alemães, critica cada estilo à luz do outro, de
maneira suplementar, e traça sucintamente um elo entre os
dois e um modelo de pesquisa geral que, a seu ver, a
investigação social deve seguir, se deseja resultar em
conhecimento seguro.
Von Schelting incorretamente afirma que Mannheim não
"postula a possibilidade de uma validez objetiva para as
realizações cognoscitivas". De fato, Mannheim não se
detém na mera suposição. Continua, como metodólogo
judicioso, a tentar formulações de critérios para a
investigação social nos termos das formas vigentes de
pensamento social como empiricamente definidas pela lógica
e por uma Sociologia contextual do conhecimento. Se
Mannheim não foi bem sucedido em sua tentativa de
enunciar critérios judiciosos para as investigações sociais, tal
não se deve a falsas concepções do caráter das formas
epistemológicas nem a uma "inconsistência epistemológica".
O desejo de tratar problemas politicamente importantes sem
ser vítima de distorções foi o responsável pelo
desenvolvimento da... Wissenssoziologie na Alemanha.
Este novo ramo de pesquisa, destinado a ser um órgão de
autocontrole crítico, já foi bem sucedido ao detectar e
submeter a controle importantes fontes de erro.
Isto certamente indica um sentido genérico da relevância
epistemológica da Sociologia do Conhecimento. O sociólogo
do conhecimento se congrega ao logicista vigoroso e ao
metodólogo social na construção crítica de métodos mais
judiciosos para a pesquisa social.
Entre os assuntos específicos que ele pode problematizar
com êxito estão os que se referem aos métodos respectivos
das investigações físicas e sociais. Há os que, em nome da
ciência, impõem as formas de procedimento da primeira
sobre a última em bruto; e há investigadores sociais que não
querem ter nada a ver com a Ciência Física. O sociólogo do
conhecimento, baseado em uma compreensão comparativa,
pode não só estabelecer origens sociais para as duas posições
extremadas, mas, construtivamente, implementar a alteração
planejada de certas formas físicas que se julgam adequadas
para conseguir uma transferência produtiva.
O "experimento" como forma de verificação é um exemplo
em pauta. Dewey, e.g., abstraiu esta forma da investigação
física e tentou generalizá-la por toda a "investigação qua
investigação". Suas obras são informadas pelo fracasso em ver
completa e claramente as dificuldades e ambigüidades
associadas com o paradigma físico da investigação e, em
particular, o "experimento", quando aplicado aos dados
sociais. O "experimento" em uma situação societal tem
características e problemas peculiares que o "experimento"
em laboratório não possui. Por exemplo, o "controle" e a
manipulação necessários ao trabalho "experimental", tal
como ocorre na Ciência Física, freqüentemente assume
dimensões políticas e valorativas, o que não ocorre com o
experimento no contexto de laboratório. E a "reconstituição"
de um objeto, que, de acordo com Dewey, se faz necessária
antes que possa funcionar como um objeto do
conhecimento, envolve muitas controvérsias. Para citarmos
a menor, a tentativa de transladar esta técnica de laboratório
para os dados sociais precipita os problemas políticos e
metodológicos com que Dewey e seus discípulos não se
preocuparam frontalmente.
A inadequação neste e em outros pontos sugere que há
necessidade de analisar as pesquisas sociais em seu contexto
cultural e intelectual e tentar articular as regras incipientes
neles implícitas. Dessa maneira, poderemos empiricamente
suplantar as afirmações apriorísticas de que há ou não,
deveria haver ou não, qualquer diferença essencial entre a
investigação social e a Ciência Física. Tal análise permitiria
ainda formulações explícitas e refinadas dos problemas
peculiares à investigação social.
Problemas de "valor" derivam-se daí e frustram a inves-
tigação social. Para ilustrarmos um aspecto do problema:
como os problemas de pesquisa atualmente estudados pelos
cientistas sociais envolvem valorações e como tais tramas
condicionam, se é que de alguma forma o fazem, a
veracidade dos resultados? As questões de valor não devem
ser encaradas überhaupt. Colocadas como emaranhados na
pesquisa social, as questões de valor tornam-se específicas e
genuínas. Precisam ser respondidas por análises sociológicas
das disciplinas e problemas específicos nelas levantados.
Nem só o conteúdo dos valores na investigação social deve
ser detectado, mas também como eles se insinuam e
condicionam a direção, perfeição e garantia dos resultados da
pesquisa, se é que de fato as condicionam. Dessa forma,
podemos ganhar uma posição da qual estaremos aptos a
formular regras de evidência que evitarão que exortações
informem nossos trabalhos. Tais exames contextuais
permitirão definições precisas de assuntos que são vagos no
momento.
Talvez o problema metodológico central das Ciências Sociais
seja derivado do reconhecimento de que freqüentemente
existe uma disparidade entre os tipos motores sociais e
linguísticos do comportamento. Entretanto, o sociólogo do
conhecimento está explicitamente preocupado com
investigações fatuais dos componentes verbais e da ação,
com o "senso comum", e. g., as articulações das várias
culturas. Neste campo, um dos problemas é a determinação
de disparidades diferenciais existentes entre sistemas de
comportamento manifestos e o que é dito pelos atores em
diferentes contextos culturais. Tais investigações sistemáticas
teriam conseqüências para a construção das técnicas de
investigação. Deveriam capacitar o metodólogo a construir
em seus métodos margens de erro padronizadas, taxas
diversas de desconto para os diferentes contextos. Deveriam
mostrar (para vários tipos de ação cultural, sujeitos e modos
de verbalização) quanto e em que direção se orientarão
provavelmente as disparidades entre língua e ação. Dessa
forma, as investigações fatuais devem fornecer uma base para
as regras de controle e orientação da evidência e inferência.
Devido à sua posição acadêmica predominante na Sociologia
americana, a teorização sistemática se especializou em livros-
texto para estudantes, não para pesquisa. Que efeito tem tido
isto no modelo de pesquisa que os sociólogos têm procurado
para verificação de seu trabalho e, daí, em sua validade?
O ideal de intimidade de contato ao qual Cooley pratica-
mente assimilou a concepção de sociedade, com a
conseqüente distorção e parcialidade, tem suas raízes em
certas tradições culturais americanas e em uma compensação
pela atual despersonalização e caráter secundário da vida em
uma ordem urbano-industrial.
A ênfase sobre o processo contínuo como categoria central
na Sociologia americana contribuiu talvez para o esqueci-
mento dos deslocamentos revolucionários na "mudança
social". Visões seguras, baseadas em fatores múltiplos como
causação histórica, são muito convenientes para uma visão
"liberal-democrática" da mudança social politicamente
implementada. Causas pluralísticas são mais fáceis de ser
conduzidas a um ponto em que nenhuma ação é possível; a
manipulação revolucionária exige crença em uma causa
monística.
Estes são os itens fragmentários mais à mão que o sociólogo
do conhecimento está em condição de examinar. A auto-
colocação pormenorizada da Ciência Social, se levada a efeito
sistematicamente e com sensibilidade, não só levará à
detecção de erros nos métodos em vias de surgimento, mas
resultará construtivamente na apresentação de paradigmas
mais judiciosos para futuras pesquisas.

Em Wirtschaft und Gesellschaft, Max Weber procura fazer um relato completo da grande variedade
da estratificação social.
Esta "postulação" não é um "querer" refletidamente consciente, mas uma orientação latente,
inconsciente, análoga ao "motivo de arte" {Kunstwollen) de A. Riegl.
Num contexto puramente econômico, W. Sombart define "classe social" de maneira análoga; cf.
Sozialismus und Soziale Bewegung, 8.a edição, p. 1.
O presente artigo não tratará desses antecedentes. Ernst Gruenwald apresenta um esboço de seus
primeiros desenvolvimentos, pelo menos desde a assim chamada Era das Luzes em Das Problem der
Soziologie des Wissens (Viena-Leipzig: Wilhelm Braumueller, 1934). Para um levantamento recente,
ver H. Otto Dahlke, "The Sociology of Knowledge", H. E. Barnes e F. B. Becker, orgs.,
Contemporary Social Theory (Nova York: Appleton-Century, 1940), pp. 64-89.
Ver Karl Mannheim, Ideology and Utopia (Nova York: Har-court, Brace, 1936), pp. 5-12; 45. P. A.
Sorokin, Social and Cultural Dynamics (Nova York: American Book Co., 1937), II, pp. 412-413.
Freud observou essa tendência a preferirmos buscar as "origens" de afirmações, que nos parecem
verdadeiramente absurdas, a testar sua validade. Suponhamos que alguém sustente que o centro da
terra é feito de doce. "Nossa objeção intelectual se manifestará através de uma distração da atenção;
ao invés de considerar a suposição, se o centro da terra é ou não é feito de doce, perguntaremos que
tipo de homem deve ser este, para meter semelhante idéia na cabeça..." Sigmund Freud, New
Introductory Lectures (Nova York: W. W. Norton, 1933), p. 49. No nível social, uma radical
diferença de perspectivas entre vários grupos sociais provoca não só ataques ad hominem, mas
também "explicações funcionais".
O conceito de pertinência foi proposto pelos precursores marxistas da Sociologia do Conhecimento.
"As conclusões teóricas dos comunistas não se baseiam absolutamente nas idéias ou princípios
inventados ou descobertos por tal ou qual reformador universal. Elas simplesmente exprimem, em
termos gerais, as relações de fato que surgem da luta de classes existente, do movimento histórico
que se desenvolve sob nossos próprios olhos..." Karl Marx e Friedrich Engels, The Com-munist
Manifesto, em Karl Marx, Selected Works (Moscou: Coopera-tive Publishing Society, 1935), I, p.
219.
(Chicago: C. H. Kerr, 1904), pp. 11-12.
Karl Marx, Der Achtzehnte Brumaire des Louis Bonaparte (Hamburgo: 1885), p. 36. (Os itálicos
foram acrescentados pelo autor do artigo.)
Este enunciado baseia-se na mais elaborada formulação de Scheler, "Probleme einer Soziologie des
Wissens", no seu livro Die Wissens-formem und die Gesellschaft (Leipzig: Der Neue-Geist Verlag,
1926), pp. 1-229. Esse ensaio é uma versão revista e melhorada de outro ensaio em seu livro Versuche
zu einer Soziologie des Wissens (Munique: Duncker und Humblot, 1924), pp. 5-146. Para outras
análises sobre Scheler, ver P. A. Schillp, "The Formal Problems of Scheler's Sociology of
Knowledge", The Philosophical Review, 36: pp. 101-120, março, 1927; Howard Becker e H. O. Dahlke,
"Max Scheler's Sociology of Knowledge", Philosophy and Phenomenological and Research, 2: pp.
310-322, março, 1942.
Scheler, Die Wissensformem..., pp. 7, 32.
12 lbid., pp. 25-45. Deve-se notar que Marx já havia há muito tempo rejeitado uma concepção similar
de alterações nas variáveis independentes de que se havia feito ponto de partida para um ataque à sua
Critique of Political Econorny; ver Capital, I, p. 94n.
Karl Mannheim, Ideology and Utopia (Nova York: Harcourt, Brace, 1936), pp. 247-8. Tendo em
vista as recentes e profundas análises da obra de Mannheim, não a trataremos extensamente neste
artigo. Para apreciação do autor, ver R. K. Merton, "Karl Mannheim and the Sociology of Knowledge",
Journal of Liberal Religion, 2: 125-147, 1941.
Emile Durkheim e Marcel Mauss, "De quelques formes primitives de classification", L'Année
Sociologique, 6: 1-72, 1901-02. "... as idéias, mesmo as tão abstratas quanto as de tempo e de
espaço, estão, a cada instante de sua história, em estreita relação com a organização social
correspondente". Como indicou Marcel Granet, este artigo contém algumas páginas sobre o
pensamento chinês, consideradas pelos especialistas como o marco de uma nova época nos estudos da
civilização chinesa.
Emile Durkheim, The Elementary Forms of the Religious Life (Londres: Allen & Unwin, 1915), pp.
443-4; ver também Hans Kelsen, Society and Nature (University of Chicago Press, 1943), p. 30.
Marcel Granet, La pensée chinoise (Paris: La Renaissance du Livre, 1934), e.g., pp. 84-104.
is Ibid., I, p. 73.
is Ibid., I, p. 73.
Encontra-se uma "exceção" a esse tratamento do assunto no contraste que estabelece entre a
tendência dominante do "clero e da aristocracia religiosa proprietária de terras virem a ser as classes
dirigentes na cultura ideacional, e a tendência da burguesia capitalista, da intelligentsia, dos
profissionais liberais, e dos funcionários leigos virem a ser as classes dirigentes na cultura
sensorial...", Ill, pp. 250.
29 Cf. Merton, op. ext., 133-135; Kurt H. Wolff, "The Sociology of Knowledge: Emphasis on an
Empirical Attitude", Philosophy of Science, 10: 104-123, 1943; Talcott Parsons, "The Role of Ideas in
Social Action", American Sociological Review, 3: 652-64, 1938.
21 Certamente este é o fundamento em que se apoia a observação de Scheler: "Uma tese particular de
interpretação econômica da história consiste em subordinar as leis do desenvolvimento de lodo o
conhecimento às leis do desenvolvimento das ideologias". Die Wissensformen .... 21.
Engels, em carta a Conrad Schmidt, a 27 de outubro de 1890, em Marx, Selected Works, I, p. 385.
23 Ibid., I, 393; cf. Engels Feuerbach (Chicago: C. H. Kerr, 1903), pp. 117 e segs. "Ê sabido que certos
períodos de grande desenvolvimento artístico não possuem relação direta nem com o
desenvolvimento geral da sociedade nem com a base material e a estrutura fundamental de sua
organização". Marx, Introdução, A Contribution to the Critique of Politicai Economy, pp. 309-10.
Marx, A Contribution to the Critique of Politicai Economy, p. 12.
25 Marx e Engels, The German Ideology, p. 36 (os itálicos foram acrescentados pelo autor do artigo).
Ver ainda Engels, Socialism: Utopian and Scientific (Chicago: C. H. Kerr, 1910, pp. 24-25, onde as
necessidades de uma classe média em ascensão são utilizadas para explicar a renovação por que
passou a ciência. A afirmação de que "só" o comércio e a indústria podem fornecer-lhes aplicações é
típica da maneira extremista com que os primeiros escritos marxistas postulam as ligações entre a
ciência e as bases materiais sem, no entanto, havê-las testado. Não se pode aceitar termos tais como
"determinação" apenas pelo que significam; sendo característico que venham empregados de
maneira vaga. Nem Marx, nem Engels, precisaram até que ponto existem aquelas relações entre as
atividades intelectuais e as bases materiais.
Engels, em Marx, Selected Works, I, p. 393. Apresentar a ocorrência independente de descobertas e
invenções paralelas como "prova" de que o conhecimento é determinado pela sociedade constitui um
dos mais repetidos temas do século XIX. Já em 1828, havia Macaulay, no seu ensaio sobre Dryden,
observado a respeito da descoberta do cálculo, levada a efeito por Newton e Leibniz: "Com efeito, a
Ciência Matemática atingiu taí ponto que, se nenhum dos dois houvesse existido, o princípio seria, uns
poucos anos mais tarde, inevitavelmente descoberto por um terceiro". E cita outros casos do mesmo
tipo. Os manufatures da época vitoriana partilhavam do ponto de vista de Marx e Engels. Esta tese, que
se baseia na existência independente de invenções semelhantes, tem sido especialmente desenvolvida
em nossos dias por Dorothy Thomas, Ogburn e por Vierkandt.
Engels, Socialism: Utopian and Scientific, p. 97.
V. I. Lenin, "The Three Sources and Three Component Parts of Marxism", em Marx, Selected
Works, I, p. 54.
81 Nikolai Bukharin, Historical Materialism (Nova York: International Publishers, 1925), pp. xi-xii; B.
Hessen, em Society at the
Cross-Roads (Londres: Kniga, 1932), 154: A. I. Timeniev, em Marxism and Modern Thought (Nova
York: Harcourt, Brace, 1935), p. 310; "Somente o marxismo, só a ideologia da classe revolucionária
avançada, é científico".
Mannheim, Ideology and Utopia, pp. 150, 243; Mannheim, "Die Bedeutung der Konkurrenz im
Gebiete des Geistigen", Verhandlungen des 6. deutschen Soziologentages (Tuebingen: 1929), p. 41.
Mannheim, Ideology and Utopia, pp. 256, 264; cf. Merton, "Karl Mannheim...", p. 143.
Scheler, Die Wissensformem.. ., pp. 59-61.
33 Ibid., p. 62.
34 Ibid., p. 55.
Ver a mesma concepção por Dürkheim, citada na nota 14 deste trabalho.
Maurice Mandelbaum, The Problem of Historical Knowledge (Nova York: Liveright, 1938), p. 150;
Sorokin postula uma esfera análoga à das "idéias atemporais", e. g., em seu livro Sociocultural Cau-
sality, Space, Time (Durham: Duke University Press, 1943), p. 215, passim,
Scheler, Die Wissensformen..., pp. 22-23; comparar com a caracterização análoga de "escolas
sagradas" de pensamento, apresentada por Florian Znaniecki, The Social Role of the Man of Knowledge
(Nova York: Columbia University Press, 1940), capítulo 3.
Durkheim, Elementary Forms..., 12, 18, 439.
Ibid., pp. 433-435.
40, p. 438.
41 Ibid., pp. 444-445, 437.
42 Ibid., pp. 87-95.
As distinções entre estes tipos de relações vêm há muito tempo sendo estudadas pelo pensamento
sociológico europeu. Nos Estados Unidos, a mais elaborada colocação do problema é a de Sorokin,
Social and Cultural Dynamics, e.g., I, capítulos 1-2.
61 Cf. os comentários de Hans Speier, "The Social Determination of Ideas", Social Research, 5: 182-
205, 1938; C. Wright Mills, "Language, Logic and Culture", American Sociological Review, 4: 670-680,
1939.
Cf. a formulação por Mannheim, Ideology and Utopia, pp. 175 e segs.; Georg Lukács, Geschite uns
Klassenbewusstsein (Berlim: 1923), pp. 61 e segs.; Arthur Child, "The Problem of Imputation in the So-
ciology of Knowledge", Ethics, 51: 200-219, 1941.
43 Marx e Engels, The German Ideology, p. 39. "Na medida em que (a burguesia) domina como classe e
determina a dimensão e o movimento de uma época, torna-se evidente por si mesmo que o faça em
toda a extensão, isto é, que domine também como pensadores, como produtores de idéias, e que
regulamente a produção e a distribuição de idéias de sua época..."
Engels, em carta a Mehring, a 14 de julho de 1893, em Marx, Selected Works, I, pp. 388-9; Cf. Marx,
Der Achtzehnte Brumaire, p. 33; Critique of Political Economy, p. 12.
BB Marx, Der Achtzehnte Brumaire, p. 39, no trecho onde diz que os Montagnards democráticos
iludiram a si próprios.
Engels, Socialism: Utopian and Scientific, pp. 26-27. Cf. Engels, Feuerbach, pp. 122-23. "O
fracasso no extermínio da heresia protestante correspondeu à invencibilidade da burguesia
ascendente... Nesta ocasião o calvinismo mostrou ser o verdadeiro disfarce religioso adotado pelos
interesses da burguesia da época..."
Marx reconhece a importância motivacional representada pelas "ilusões" da burguesia em ascensão,
Der Achtzehnte Brumaire, p. 8.
Engels, em carta a Joseph Bloch, a 21 de setembro de 1890, em Marx, Selected Works, I, p. 383.
6» Engels, em carta a Mehring, a 14 de julho de 1893, ibid., I, 390.
Cf. Max Weber, Gesammelte Aufsaetze zur Wissenschaftslehre, pp. 166-170.
Não se vai poder, neste trabalho, tratar desse aspecto da obra de Mannheim; cf. Merton, "Karl
Mannheim and the Sociology of Knowledge", loc. cit., pp. 135-139; ver ainda Mills, "Language, Logic
and Culture", loc. cit.
82 Dürkheim, Elementary Forms..., pp. 11-12.
Sorokin, Social and Cultural Dynamics, IV, capítulo 1: I, capítulo 1.
Apesar das estatísticas ocuparem em suas pesquisas empíricas um lugar especial, Sorokin adota a
seu respeito uma atitude ambivalente, que lembra aquela que se atribui a Newton a respeito da
experimentação: não vê nelas mais do que um processo de tornar suas conclusões já realizadas
"inteligíveis e convincentes para o grande público". É de se notar que Sorokin acolhe a observação
segundo a qual as suas estatísticas nada mais são do que uma concessão à mentalidade sensorial
dominante, e já que "eles estão pedindo, vamos dá-las". Sorokin, Sociocultural Causality, Space, Time,
p. 95n. A ambivalência de Sorokin se origina no seu esforço de integrar sistemas de verdade" distintos.
Sorokin, Social and Cultural Dynamics, II, p. 51.
Comparar com B. Hessen, op. cit., R. K. Merton, Science, Technology and Society in 17th Century
England (Bruges: Osiris History of Science Monographs, 1938), capítulos 7-10; J. D. Bernal, The
Social Function of Science (Nova York: The Macmillan Co., 1939); J. G. Crowther, The Social
Relations of Science (Nova York: The Macmillan Co., 1941).
Florian Znaniecki, Social Role of the Man of Knowledge (Nova York: Columbia University Press,
1940).
Em seu tratado An American Dilemma (Nova York: Harper and Bros., 1944), Gunnar Myrdal aponta,
repetidas vezes, as "avaliações veladas" dos cientistas sociais americanos que estudam o negro
americano, e os efeitos de tais avaliações na formulação de "problemas científicos" nesta área de
pesquisa.
Mannheim se refere a uma monografia inédita sobre o intelectual; poder-se-á encontrar bibliografias
gerais em seus livros e no artigo de Roberto Michel: "Intelectuais", Encyclopedia of the Social
Sciences. Entre os artigos recentes encontram-se os de C. W. Mills, "The Social Role of the
Intellectual", Politics, I, abril de 1944; R. K. Merton, "Role of the Intellectual in Public Policy",
apresentado ante a reunião anual da Sociedade Sociológica Americana, em dezembro de 1943; Arthur
Koestler, "The Intelligentsia", Horizon, 9: 162-175. 1944.
Erich Fromm, "Die gesellschaftliche Bendingtheit der psychoa-nalytischen Therapie", Zeitschrift fuer
Sozialforschung, 4: 365-97, 1935.
Erich Fromm, "Die gesellschaftliche Bendingtheit der psychoa-nalytischen Therapie", Zeitschrift fuer
Sozialforschung, 4: 365-97, 1935.
Lewis S. Feuer, "The Economic Factor in History", Science and Society, 4: 174-175, 1940.
66 N. Pastore, "The Nature-Nurture Controversy: a Sociological Approach", School and Society, 57:
373-377, 1943.
MC, Wright Mills, "The Professional Ideology of Social Pathologists", American Journal of Sociology,
49: 165-190, 1943.
William T. Fontaine, "Social Determination in the Writings of Negro Scholars", American Journal of
Sociology, 49: 302-315, 1944.
Bernhard J. Stern, "Resistances to the Adoption of Technological Innovations", em National
Resources Committee, Technological Trends and National Policy (Washington U. S. Government
Printing Office, 1937), pp. 39-66; "Restraints upon the Utilization of Inventions", The Annals, 200: 1-
19, 1938, e para mais referências ver Walton Hamilton, Patents and Free Enterprise (TNEC
Monograph, n.° 31, 1941).
Hartshorne, German Universities and National Socialism; R. K. Merton, "Science and Social Order",
Philosophy of Science, 5: 321-337, 1938.
71 Tal fato é mais notável em tempos de guerra; ver as observações de Sorokin, segundo as quais os
centros de poder militar tenderiam a ser os centros de desenvolvimento tecnológico e científico
(Dynamics, IV, 249-51); cf. I. B. Cohen e Bernard Barber, Science and War (ms.); R. K. Merton,
"Science and Military Technique", Scientific Monthly, 41: 542-545, 1935; Berna!, op. cit.; Julian
Huxley, Science and Social Needs (Nova York: Harper and Bros., 1935).
A análise de von Schelting de Ideologie und Utopie de Mannheim conclui: "O contra-senso começa
quando se acredita que a origem fatual e us fatores sociais... de alguma maneira afetam o valor aas
idéias e concepções assim originadas e, em especial, das realizações teóricas". (American Sociological
Review, I n.° 4, 634.) Assim, o relacionamento de modalidades de pensamento com situações
histórico-
Em acréscimo aos estudos citados acima, ver Sorokin, que isola e utiliza várias formas diferentes de
validação como pontos-chave para estudo. Social and Cultural Dynamics (Nova York, 1937), vol. II.
E. g., Hans Speier fala de uma "propriedade da natureza humana que permite ao homem a busca da
verdade" ("The Social Determination of Ideas", op. cit., pp. 186-193). Para uma visão oposta, ver
abaixo; também A. Goldenwiser's Robots or Gods? (Nova York, 1931), p. 53.
Logic: the Theory of Inquiry (Nova York, 1938), cap. I; "Philosophy", Research in Social Science,
ed. W. Gee, p. 251. Ver também H. Reichenbach, Experience and Prediction (Chicago, 1938), cap. I.
Dewey, "Logic", p. 4.
E. g.( von Schelting, American Sociological Review, p. 667. Deixo em aberto a questão sobre se a
formulação de von Schelting expressa adequadamente ou não a posição de Mannheim. Preocupo-me
não com a defesa ou avaliação da obra de Mannheim ou de von Schelting in toto, mas apenas com este
único ponto. Em geral, contudo, acho o "rela-cionismo" de Mannheim (Ideology and Utopia, esp. pp.
253, 269-70) bastante sustentável. A posição é logicamente imperfeita e insatisfatória apenas do ponto
de vista absolutista.
Cf. a formulação e hábil dissecção de E. Vivas deste argumento (op. ci/., p. 443).
O fracasso de Speier em reconhecer estes pontos como abertos à influência social é provavelmente
condicionado por uma preocupação exclusiva com um tipo de mecanismo sócio-psicológico
vinculando a ideação à cultura. Em seu artigo, êle aceita apenas "a necessidade", "o problema" e "os
interesses" do pensador. "As relações entre idéias e realidade social estão... constituídas por entre as
necessidades" ("Social Determination of Ideas", op. cit-, p. 183). Ver meu "Language, Logic and
Culture", op. cit., no qual esta visão é criticada e outros modos de relação são propostos.
L. Wirth indicou com acerto que uma incipiente Sociologia do Conhecimento com freqüência tem
sido um produto inexplorado das discussões metodológicas. (Prefácio a Mannheim, op. cit., pp. xvu-
XXIII.)
Op. cit., p. 667.
81 Cf. T. Parsons, Structure of Social Action (Nova York, 1937, pp. 593, 601), referências e discussão
do "Wertbeziehung" de Max Weber.
Aqui os sociólogos podem coletar sugestões da historiografia crítica, que tenta situar (cultural e
biográficamente), os observadores dos fatos sociais (e. g., os papas romanos) visando descontar, com
propriedade, suas observações registradas. Este método está consciente das diferenças das ocorrências
societais conforme são vistas ou escritas pelos relatores colocados diversamente. Ver A. Small, Origins
of Sociology, esp. pp. 48, 84-5 e 98; H. E. Barnes, A History of Historical Writings (Norman, Okla.,
1937), cap. X. 38T-V. Smith, Beyond Conscience (Nova York, 1934), e. g.: "A distância social é
[considerada] um terrível destino... imoral à luz de nossa tradição cristã" (p. 111).







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