SIDNEY SHELDON
E TILLY BAGSHAWE
DEPOIS DA
ESCURIDÃO
Tradução de
MICHELE GERHARDT MACCULLOCH
EDITORA RECORD
2010
Para Kerstin e Louis Sparr.
Com amor.
A cobiça, por falta de palavra melhor, é boa.
Ter cobiça é certo.
A cobiça funciona.
A cobiça esclarece, penetra e captura a essência do espírito
evolutivo.
A cobiça, em todas as suas formas — cobiça de vida, de
dinheiro, de amor, de conhecimento —, marcou o
surgimento da humanidade.
GORDON GEKKO, EM WALL STREET, PODER E COBIÇA, 1987
PRÓLOGO
NOVA YORK, 15 DE DEZEMBRO DE 2009
O DIA DO ACERTO de contas tinha chegado.
Os deuses haviam exigido um sacrifício. Um sacrifício
humano. No tempo da Roma Antiga, quando a cidade estava
em guerra, líderes inimigos capturados eram estrangulados
em rituais no campo de batalha em frente à estátua de
Marte, o deus da guerra. Hordas de soldados comemoravam
e gritavam não por justiça, mas por vingança. Por sangue.
Aqui não era a Roma Antiga. Era a Nova York atual, o
coração pulsante da América civilizada. Mas Nova York
também era uma cidade em guerra. Era uma cidade cheia de
sofrimento, de pessoas furiosas que precisavam de alguém
para culpar por sua dor. Hoje, o sacrifício humano
aconteceria no Tribunal de Justiça Criminal de Manhattan.
Mas não seria menos sangrento por isso.
Normalmente, as equipes de TV e hordas de espectadores
abomináveis apareciam apenas para assistir aos julgamentos
de assassinos. Hoje, a ré, Grace Brookstein, não tinha
matado ninguém. Não diretamente. Ainda assim, havia
muitos nova-iorquinos que adorariam ver Grace Brookstein
ser condenada à cadeira elétrica. O filho da puta do marido
dela tinha enganado todos eles. Pior, ele tinha traído a
justiça. Lenny Brookstein — que apodreça no inferno —
tinha debochado dos deuses. Bem, agora os deuses
precisavam ser satisfeitos.
O homem responsável por satisfazê-los — promotor Angelo
Michele, representante do povo — olhou para o outro lado
do tribunal, para sua vítima. A mulher sentada à mesa dos
réus, as mãos calmamente cruzadas à sua frente, não parecia
uma criminosa. Loura e frágil, com 20 e poucos anos, Grace
Brookstein tinha as feições doces e angelicais de uma
criança. Uma ginasta premiada em sua adolescência, ela
ainda tinha o porte de uma bailarina, a coluna ereta como
uma vara, mãos que gesticulavam com leveza e fluidez.
Grace Brookstein era frágil. Delicada. Linda. Era o tipo de
mulher que os homens instintivamente queriam proteger.
Ou seria se não tivesse roubado 75 bilhões de dólares, na
maior e mais catastrófica fraude da história dos Estados
Unidos.
O colapso do Quorum, um fundo de hedge iniciado por
Lenny Brookstein, do qual sua jovem esposa era sócia, fora
um golpe mortal na já abalada economia do país. Juntos, os
Brookstein arruinaram famílias, destruíram indústrias
inteiras e deixaram o então poderoso centro financeiro de
Nova York de joelhos. Eles roubaram mais do que Madoff,
mas não era isso o que mais doía. Diferentemente de
Madoff, os Brookstein não roubaram dos ricos, mas dos
pobres. Suas vítimas eram pessoas comuns: idosos, pequenas
instituições de caridade, trabalhadores, famílias de operários
que lutavam para sobreviver. Pelo menos um jovem pai de
família que ficou desempregado por causa do Quorum se
matou, incapaz de suportar a vergonha de ver seus filhos
jogados nas ruas. Em nenhum momento Grace Brookstein
demonstrou o menor remorso.
É claro que havia aqueles que diziam que Grace Brookstein
não era culpada dos crimes que a levaram ao tribunal. Que
foi Lenny Brookstein, e não sua esposa, quem planejou a
fraude do Quorum. O promotor Angelo Michele abominava
essas pessoas. Liberais de coração mole. Ela sabia de tudo.
Tolos! Vocês acham que a esposa não sabia do que estava
acontecendo? Ela sabia de tudo. Mas não se importava. Ela
gastou os seus fundos de pensão, as economias que vocês
fizeram durante toda a vida, o dinheiro da faculdade de seus
filhos... Olhem para ela agora! Está vestida como uma
mulher que não dá a mínima para o fato de vocês terem
perdido suas casas.
Durante o julgamento, a imprensa dera uma cobertura
especial para as roupas de Grace Brookstein no tribunal.
Hoje, para escutar o veredicto, ela escolhera um vestido
branco Chanel (7.600 dólares), casaco de buelê combinando
(5.200 dólares), sapatos de salto alto (1.200 dólares) e bolsa
(18.600 dólares), ambos Louis Vuitton, e um lindo
sobretudo de vison, feito à mão especialmente para ela em
Paris, um presente de aniversário de casamento do marido.
A primeira edição do dia do New York Post já estava nas
bancas. Acima de uma fotografia de corpo inteiro de Grace
Brookstein chegando ao tribunal, a manchete da primeira
página dizia: QUE APROVEITEM ENQUANTO PODEM!
O promotor Angelo Michele pretendia acabar com os dias
de luxo de Grace Brookstein. Curta o seu casaco de pele,
madame. Esta vai ser a última vez que vai usar um desses.
Angelo Michele era um homem alto e magro de 40 e poucos
anos. Usava um terno simples da Brooks Brothers e o cabelo
escuro e grosso esticado para trás até brilhar no alto da
cabeça como um capacete preto e reluzente. Angelo
Michele era um homem ambicioso e um chefe temido —
todos os promotores juniores morriam de medo dele —, mas
era um bom filho. Seus pais eram donos de uma pizzaria no
Brooklyn. Ou tinham sido donos até que Lenny Brookstein
"perdera" as economias deles e os forçara a decretar falência.
Graças a Deus, Angelo ganhava bem. Sem sua renda, os
Michele estariam sem teto na velhice, sem nada, como
tantos outros trabalhadores americanos. Na opinião de
Angelo Michele, prisão era muito pouco para Grace
Brookstein. Mas era um começo. E ele seria o homem que a
colocaria lá.
Sentado ao lado de Grace na mesa do réu estava o homem
que tinha a obrigação profissional de impedi-lo. Francis
Hammond III, ou "Big Frank", como era conhecido pela
comunidade jurídica de Nova York, era o homem mais
baixo do tribunal. Com 1,60m, ele era pouco mais alto do
que sua pequena cliente. Mas a inteligência de Frank
Hammond era muito maior que a de seus oponentes, era a
de um gigante. Um advogado de defesa brilhante com a
mente de um mestre do xadrez e a moral de um lutador
sórdido, Frank Hammond era a grande esperança de Grace
Brookstein. A especialidade dele era jogar com os jurados —
revelando medos, desejos e preconceitos que nem eles
próprios sabiam que tinham — e tirar vantagem disso em
prol de seus clientes. Apenas no ano anterior, Frank
Hammond fora responsável pela absolvição de dois chefes
da máfia assassinos e um ator molestador de menores. Todos
os seus casos eram famosos, e sempre, no início do
julgamento, acreditava-se que seus clientes seriam
condenados. No início, Grace Brookstein contratara outro
advogado para representá-la, mas seu amigo e confidente
John Merrivale insistira que ela o dispensasse e contratasse
Big Frank:
— Você é inocente, Grace. Nós sabemos disso. Mas o res-
tante do mundo não. A mí-mídia quer vê-la enforcada e
esquartejada. Frank Hammond é o único que pode virar esse
jogo. Ele é um gênio.
Ninguém conseguia entender por que Big Frank permitia
que Grace Brookstein aparecesse todo dia no tribunal com
roupas tão escandalosas. As roupas dela pareciam feitas para
enfurecer ainda mais a imprensa, sem mencionar o júri.
Certamente um erro titânico?
Mas Frank Hammond não cometia erros. Angelo Michele
sabia disso melhor do que ninguém.
A loucura dele tem uma lógica. Tem que ter. Eu só gostaria
de saber qual é.
Ainda assim, isso não importava. Era o último dia do
julgamento e Angelo Michele tinha certeza de que
construíra um caso incontestável. Grace Brookstein cairia.
Primeiro na cadeia. Depois no inferno.
GRACE BROOKSTEIN ACORDARA naquela manhã no quarto de
hóspedes da casa dos Merrivale sentindo-se em paz. Sonhara
com Lenny. Estavam na propriedade que tinham em
Nantucket, que sempre fora a casa preferida de Grace dentre
suas tantas mansões multimilionárias. Eles estavam
caminhando pelo jardim de roseiras. Lenny segurava sua
mão. Grace podia sentir o calor de sua pele, a aspereza
familiar de suas mãos.
— Vai ficar tudo bem, minha querida. Tenha fé, Gracie.
Tudo vai dar certo.
Ao entrar no tribunal naquela manhã, de braços dados com
seu advogado, Grace sentira o ódio da multidão, centenas de
pares de olhos perfurando suas costas. Escutara os
xingamentos. Piranha. Mentirosa. Ladra. Mas agarrou-se à
paz interior, à voz de Lenny dentro de sua cabeça.
Vai ficar tudo bem.
Tenha fé.
John Merrivale dissera a mesma coisa ao telefone na noite
anterior. Graças a Deus, ela tinha John! Sem ele, Grace
estaria completamente perdida. Todas as outras pessoas
tinham-na abandonado na hora em que mais precisara, seus
amigos, até as próprias irmãs. Ratos em um navio afundando.
Foi John Merrivale quem forçou Grace a contratar Frank
Hammond. E agora Frank Hammond a salvaria.
Grace assistiu com atenção às conclusões finais daquele
pequeno homem impetuoso, andando de um lado para o
outro na frente do júri como um galo em uma fazenda. Ela
entendia apenas fragmentos do que Hammond estava
dizendo. Os argumentos legais estavam acima de sua
compreensão. Mas ela tinha certeza de que seu advogado
conseguiria absolvê-la. Então, e só então, o trabalho dela
começaria de verdade.
Sair livre do tribunal é só o começo. Ainda tenho que
limpar o meu nome. Eo de Lenny. Deus, como sinto
saudades dele. Por que Deus o tirou de mim? Por que isso
tudo tinha que acontecer?
Frank Hammond acabou de falar. Agora era a vez de Angelo
Michele.
— Senhoras e senhores do júri. Nos últimos cinco dias,
vocês escutaram muitos argumentos legais complexos,
alguns deles de mim, outros do Sr. Frank Hammond.
Infelizmente, tinha de ser assim. O tamanho da fraude no
Quorum: 75 bilhões de dólares...
Angelo Michele fez uma pausa para deixar a grandeza do
número ser absorvida. Mesmo depois de tantos meses de
repetição, o tamanho do roubo dos Brookstein não deixava
de chocar.
— ... mostra que, pela sua própria natureza, este caso é
complicado. E o fato de grande parte desse dinheiro ainda
estar desaparecido o torna ainda mais complicado. Lenny
Brookstein era um homem perverso. Mas não era burro.
Nem sua esposa, Grace Brookstein, é uma mulher burra. O
rastro que deixaram no Quorum é tão complexo, tão
impenetrável, que a verdade é que talvez nós nunca
recuperemos esse dinheiro. Ou o que sobrou dele.
Angelo Michele olhou para Grace com puro ódio. Pelo me-
nos duas juradas fizeram a mesma coisa.
— Mas, deixem-me dizer o que não é complicado neste
caso. Cobiça.
Outra pausa.
— Arrogância.
E outra.
— Lenny e Grace Brookstein acreditavam que estavam
acima da lei. Como muitos outros da classe deles, os
banqueiros ricos de Wall Street que saquearam este nosso
grande país, que pegaram o dinheiro dos contribuintes, o
dinheiro de vocês, e o desperdiçaram sem a menor
vergonha, os Brookstein acreditavam que as regras do reles
povo não se aplicavam a eles. Olhem para a Sra. Brookstein,
senhoras e senhores. Vocês veem uma mulher que
compreende o que as pessoas simples deste país estão
sofrendo? Vêem uma mulher que se importa? Porque eu não
vejo. Eu vejo uma mulher que nasceu na riqueza, se casou
com a riqueza, uma mulher que considera riqueza, riqueza
obscena, um direito divino seu.
Sentado no tribunal, John Merrivale sussurrou para sua
esposa:
— Este não é um argumento le-legal. É uma caça às
bruxas.
O promotor continuou:
— Grace Brookstein era sócia do Quorum. Com partes
iguais. Ela não era apenas responsável pelas ações do fundo.
Era moralmente responsável por elas. Não se deixem
enganar. Grace Brookstein sabia o que seu marido estava
fazendo. E ela o apoiou e encorajou durante todo o
processo.
"Não deixem que a complexidade deste caso os engane,
senhoras e senhores. Por trás dos jargões e da papelada, de
todas as contas em outros países e transações de derivativos,
o que aconteceu aqui foi muito simples. Grace Brookstein
roubou. Ela roubou porque foi gananciosa. Roubou porque
achou que poderia se livrar."
Ele olhou para Grace uma última vez.
— Ela ainda acha que pode se livrar. Cabe a vocês provar
que ela está errada.
Grace Brookstein observou o promotor Angelo Michele se
sentar. Fora uma performance e tanto, muito mais eloquente
do que a de Frank Hammond. Parecia que o júri queria
aplaudi-lo.
Se ele não quisesse me destruir, eu sentiria pena dele.
Coitado, se esforçou tanto. E com tanta paixão! Talvez, se
tivéssemos nos conhecido em outras circunstâncias, nos
tornássemos amigos.
O consenso da mídia era de que o júri levaria pelo menos
um dia para deliberar. A montanha de provas do caso era tão
grande que não dava para imaginar que eles fossem mais
rápidos. Mas eles voltaram para o tribunal em menos de uma
hora. Exatamente como Frank Hammond dissera que
fariam.
O juiz falou de forma solene:
— Chegaram a um veredicto?
O primeiro jurado, um homem negro de uns 50 anos,
assentiu.
— Chegamos sim, meritíssimo.
— E vocês consideram a ré inocente ou culpada?
O porta-voz do júri olhou diretamente para Grace
Brookstein. E sorriu.
LIVRO UM
Capítulo 1
NOVA YORK, SEIS MESES ANTES
- O QUE VOCÊ ACHA, GRACIE? O preto ou o azul?
Lenny Brookstein estava segurando dois ternos. Era véspera
do Baile de Caridade do Quorum, o mais glamoroso baile de
arrecadação de fundos de Nova York, e ele e Grace estavam
se preparando para dormir.
— O preto — respondeu Grace, sem nem olhar. — É mais
clássico.
Ela estava sentada em sua inestimável penteadeira de
castanheira estilo Luis XVI, penteando seu longo cabelo
louro. O robe de seda champanhe La Perla que Lenny
comprara para ela na semana anterior se ajustava com
perfeição ao seu corpo de ginasta, favorecendo cada curva.
Lenny Brookstein pensou: SOM um homem de sorte.
Depois, riu alto. Sorte é pouco.
LENNY BROOKSTEIN ERA, SEM a menor dúvida, o rei de Wall
Street. Mas não nascera na nobreza. Hoje, todos os Estados
Unidos reconheciam o homem troncudo de 58 anos: o
cabelo grisalho, o nariz quebrado em uma briga de infância
— que ele nunca mandou consertar (por que deveria? Ele
venceu.) —, os olhos cor de âmbar brilhantes e inteligentes.
Essas características formavam um rosto tão familiar para os
americanos quanto o do Tio Sam ou do Ronald McDonald.
De várias formas, Lenny Brookstein era os Estados Unidos.
Ambicioso. Trabalhador. Generoso. Bondoso. Em nenhum
outro lugar ele era mais amado do que ali, em Nova York,
onde nascera. Nem sempre fora assim.
Nascido Leonard Alvin Brookstein, quinto filho e segundo
menino de Jacob e Rachel Brookstein, Lenny teve uma
infância terrível. Mesmo depois de adulto, uma das poucas
coisas que conseguia despertar a raiva raramente vista em
Lenny Brookstein eram os livros e filmes que romantizavam
a pobreza. Memórias da Miséria, era como ele os chamava.
Como esses caras se deliciam com isso? Lenny Brookstein
crescera na pobreza — pobreza esmagadora, destruidora da
alma — e não havia nada de romântico ou nobre nisso. Não
foi romântico quando seu pai chegou em casa bêbado e
bateu na sua mãe até ela ficar inconsciente, na frente dele e
dos irmãos. Ou quando sua amada irmã mais velha, Rosa, se
jogou embaixo de um vagão de metrô depois que três
rapazes da gangue do bairro imundo onde os Brookstein
moravam estupraram-na quando ela voltava da escola uma
noite. Não foi nobre quando Lenny e seus irmãos foram
atacados na escola por comerem comida judaica "fedorenta".
Ou quando a mãe de Lenny morreu de câncer na cervical
aos 34 anos porque não podia sair do trabalho para ir ao
médico tratar suas dores estomacais. A pobreza não uniu a
família de Lenny Brookstein. Ela os separou. E depois, um
por um, ela acabou com cada um deles. Todos, exceto
Lenny.
Lenny largou a escola aos 16 anos e saiu de casa no mesmo
ano. Nunca olhou para trás. Foi trabalhar em uma loja de
penhores no Queens, emprego que lhe deu ainda mais
provas, embora ele nem precisasse, de que os pobres não se
"unem" nos momentos difíceis. Eles pulam uns no pescoço
dos outros. Era difícil ver senhoras entregando objetos de
grande valor sentimental — relógio de um marido morto, a
colher de prata do batizado da filha — em troca de algumas
notas imundas. O Sr. Grady, dono da loja de penhores, fizera
uma cirurgia de ponte de safena um ano antes de Lenny ir
trabalhar para ele. Era evidente que a cirurgia tirara toda a
compaixão de seu coração.
Ele costumava dizer para Lenny:
— Valor não é o quanto uma coisa custa, rapaz. Isso é lenda.
Valor é quanto alguém está disposto a pagar. Ou ser pago.
Lenny Brookstein não sentia o menor respeito pelo Sr.
Grady, nem como pessoa nem como homem de negócios.
Mas nunca se esqueceu da verdade dessas palavras. Depois,
muito depois, elas se tornaram a base da fortuna de Lenny
Brookstein e do sucesso sensacional do Quorum. Lenny
Brookstein compreendia o que as pessoas simples e pobres
estavam dispostas a aceitar. Compreendia que o conceito de
"valor" de uma pessoa era diferente do de outra, e que o do
mercado podia ser ainda outro.
Devo isso àquele velho cretino.
A ascensão de Lenny Brookstein de ajudante de uma loja de
penhores a um bilionário respeitado no mundo inteiro se
tornara uma lenda, parte do folclore do país. George
Washington não contava mentiras. Lenny Brookstein não
fazia um investimento ruim. Após uma bem-sucedida série
de apostas em corridas de cavalos no final de sua
adolescência (Jacob Brookstein, pai de Lenny, era um
apostador inveterado), Lenny decidiu tentar a sorte no
mercado de ações. Na Saratoga e Monticello, Lenny
aprendeu a importância de desenvolver um sistema e
mantê-lo. Em Wall Street, as pessoas chamam um sistema de
"modelo", mas era a mesma coisa. Ao contrário de seu pai,
Lenny também tinha disciplina para reduzir as perdas e
seguir em frente quando precisava. No filme Wall Street:
poder e cobiça, o personagem Gordon Gekko, de Michael
Douglas, faz uma declaração polêmica: "A cobiça é boa."
Lenny Brookstein discordava totalmente da afirmação. A
cobiça não era boa. Pelo contrário, era a ruína de quase todo
investidor malsucedido. A disciplina era boa. Encontrar o
modelo certo e mantê-lo, embaixo de chuva e de sol. Esse
era o segredo.
Lenny Brookstein já era multimilionário quando conheceu
John Merrivale. Os dois não podiam ter menos em comum.
Lenny fizera a própria riqueza, era autoconfiante, um
exemplo de energia e alegria de viver. Nunca falava do seu
passado porque nunca pensava nele. Seus brilhantes olhos
âmbar estavam sempre fixos no futuro, no próximo negócio,
na próxima oportunidade. John Merrivale vinha de uma
classe mais alta, era tímido, racional e depressivo. Um jovem
ruivo e magro, seu apelido era "Palito de Fósforo" na
Harvard Business School, onde ele se formou como
primeiro da turma, assim como seu pai e seu avô. Todo
mundo, incluindo o próprio John Merrivale, esperava que
ele fosse trabalhar em uma das melhores firmas de Wall
Street, Gordon ou Morgan, e começar sua lenta mas
previsível ascensão para o topo. Mas, então, Lenny
Brookstein entrou na vida de John Merrivale como um
meteoro e tudo mudou.
— Estou começando um fundo de hedge — disse Lenny
para John na noite em que se conheceram, em uma festa
oferecida por um amigo em comum. — Eu vou tomar as
decisões sobre investimentos. Mas preciso de um sócio,
alguém com um passado respeitado para me ajudar a trazer
capital de fora. Alguém como você.
John Merrivale ficou lisonjeado. Ninguém nunca acreditara
nele antes.
— Obrigado. Mas não sou de marketing. Co-confie em
mim. Sou um pensador, não um ve-vendedor. — Ele corou.
Maldito gaguejo. Por que diabos não consigo me livrar disso?
Lenny Brookstein pensou: e ele também é gago. Eu não
poderia inventar um cara como este. Ele é perfeito. Lenny
disse para John:
— Escute. Vendedores se encontra em qualquer lugar. O
que eu preciso é de alguém comedido e confiável. Alguém
capaz de fazer com que um banqueiro suíço de 85 anos
confie a ele a poupança de sua mãe. Eu não sou capaz disso.
Eu sou muito... — Ele procurou a palavra certa. —
Extravagante. Preciso de alguém que faça um gestor de
fundos de pensão com aversão ao risco pensar: "Sabe de uma
coisa? Este cara é honesto. E ele sabe o que está fazendo.
Gosto mais dele do que daquele garoto arrogante da Morgan
Stanley." Estou dizendo, John. É você.
Essa conversa acontecera 15 anos antes. Desde então, o
Quorum crescera e se tornara o maior e mais lucrativo fundo
de hedge de todos os tempos, seus tentáculos atingindo cada
pedacinho da vida americana: imóveis, hipotecas, fábricas,
serviços, tecnologia. Um entre seis nova-iorquinos — um
em seis — trabalhava em uma empresa cujo balanço
dependia do desempenho do Quorum. E o desempenho do
Quorum era seguro. Mesmo agora, na pior crise econômica
desde a década de 1930, com gigantes como o Lehman
Brothers e Bear Stears quebrando, e o governo injetando
bilhões em firmas que um dia foram intocáveis, como a
AIG, o Quorum continuava gerando lucros modestos e
consistentes. O mundo estava pegando fogo, Wall Street
estava de joelhos. Mas Lenny Brookstein seguia com seu
sistema, como sempre fizera. E os bons tempos
continuavam.
DURANTE ANOS, Lenny Brookstein acreditou que tinha tudo
o que queria. Comprara casas em todo o mundo, mas
raramente deixava os Estados Unidos, dividindo seu tempo
entre a mansão em Palm Beach, o apartamento na Quinta
Avenida e a propriedade idílica em frente à praia, na ilha de
Nantucket. Ele dava festas às quais todo mundo ia. Doava
milhões de dólares para suas causas preferidas e sentia um
entusiasmo interior. Comprou um iate de 30 pés, decorado
por Terence Disdale, e um jatinho particular A340, no qual
só viajara duas vezes. Às vezes, quando queria sexo, dormia
com uma das modelos que estavam sempre à sua volta. Mas
nunca tinha "namoradas". Estava sempre cercado de pessoas,
muitas das quais gostava, mas não tinha "amigos" no sentido
tradicional da palavra. Lenny Brookstein era amado por
todos que o conheciam. Mas ele não gostava de
"intimidade". Todo mundo sabia disso.
Até conhecer Grace Knowles.
MAIS DE TRINTA ANOS mais nova que Lenny Brookstein,
Grace Knowles era a mais jovem das famosas irmãs
Knowles, socialites nova-iorquinas, filhas do falecido Cooper
Knowles, que trabalhava no setor imobiliário e, em seus
tempos áureos, chegou a valer centenas de milhões de
dólares. Embora nunca tenha sido tão rico quanto "o
Donald", as pessoas gostavam muito mais de Cooper. Mesmo
seus rivais nos negócios invariavelmente o descreviam como
"sedutor", "um cavalheiro à moda antiga". Assim como suas
irmãs mais velhas, Constance e Honor, Grace adorava o pai.
Ela tinha 11 anos quando ele morreu, e sua morte deixou
um vazio na vida dela que nada conseguia preencher.
A mãe de Grace se casou de novo — três vezes no total — e
se mudou de vez para East Hampton, onde a vida das
meninas continuou, da mesma forma que antes. Colégio,
compras, festas, férias, mais compras. Connie e Honor eram
bonitas, e vários dos melhores solteirões de Nova York
corriam atrás delas. Entretanto, todos sabiam que Grace era a
mais bonita das irmãs Knowles. Quando começou a
competir como ginasta, aos 13 anos, em uma tentativa de se
distrair do sofrimento contínuo deixado pela morte do pai,
suas irmãs mais velhas ficaram secretamente aliviadas.
Ginástica olímpica significava muito treino e muitas viagens
para fora do estado. Quando elas estivessem casadas, em
segurança, Grace poderia frequentar festas com elas
novamente. Mas até lá, Connie e Honor encorajaram com
todas as suas forças o romance da irmã mais nova com as
barras paralelas.
Aos 18 anos, os dias de ginasta de Grace acabaram. Mas não
linha mais problema. Nessa época, Connie já estava casada
com um lindo banqueiro de investimento chamado Michael
Gray, que estava em ascensão no Lehman Brothers. E
Honor tinha tirado a sorte grande ao se casar com Jack
Warner, deputado republicano pelo vigésimo distrito de
Nova York. Já havia especulações de que Jack se candidataria
ao Senado e, talvez, um dia até à presidência. O casamento
dos Warner apareceu nas colunas sociais de todos os jornais,
e fotos da lua de mel foram publicadas em vários tablóides.
Como a nova Caroline Kennedy, Honor podia se dar ao luxo
de ser boazinha com a irmã mais nova. Foi Honor quem
convidou Grace para a festa em que a caçula conheceu
Lenny Brookstein.
Mais tarde, tanto Lenny quanto Grace descreveriam seu
primeiro encontro como a famosa faísca. Grace tinha 18
anos, uma criança, sem nenhuma experiência fora do
mundo cheio de mimos e pompa de sua existência em East
Hampton. Até suas amigas ginastas eram ricas. Mesmo
assim, havia algo de extraordinariamente não mimado nela.
Lenny Brookstein tinha se acostumado ao que sua mãe
chamava de mulheres "objetivas". Todas as garotas com
quem Lenny já dormira queriam alguma coisa dele. Jóias,
dinheiro... alguma coisa. Grace Knowles era o oposto. Ela
tinha uma qualidade que o próprio Lenny nunca tivera e
desejava muito. Algo tão precioso e elusivo que ele quase
desistira de acreditar que existia: inocência. Lenny
Brookstein queria prender Grace Knowles. Proteger essa
inocência com as próprias mãos. Possuir essa inocência.
Para Grace, a atração era ainda mais simples. Ela precisava de
um pai. Alguém que a protegesse e a amasse pelo que ela
era, da mesma forma que Cooper Knowles a amara quando
ela era apenas uma menininha. A verdade era que Grace
Knowles queria voltar a ser uma menininha. Voltar à época
em que era total e completamente feliz. Lenny Brookstein
lhe oferecia essa chance. Grace a agarrou com as duas mãos.
Eles se casaram em Nantucket seis semanas depois, na
presença dos seiscentos amigos mais próximos de Lenny.
John Merrivale foi o padrinho; e sua esposa, Caroline, e as
irmãs de Grace foram as damas de honra. Na lua de mel em
Mustique, uma noite Lenny virou-se para Grace, cheio de
receio, e perguntou:
— E filhos? Nunca falamos sobre isso. Imagino que você
vai querer ser mãe em algum momento.
Grace fitou pensativamente o oceano. A suave e prateada luz
da lua brincava nas ondas. Finalmente, ela respondeu:
— Não muito. Claro, se você quiser filhos, ficarei feliz em
lhe dar. Mas estou tão feliz como estamos! Não há nada fal-
tando, Lenny. Você me entende?
Lenny Brookstein entendia.
Era um dos momentos mais felizes de sua vida.
- VOCÊ JÁ SABE O que vai vestir? — Lenny tirou alguns
papéis de sua pasta e colocou os óculos de leitura antes de se
deitar na cama.
— Já — disse Grace. — Mas é segredo. Quero lhe fazer
uma surpresa.
Naquela tarde, Grace passara três horas felizes ao lado de sua
irmã Honor no ateliê de Valentino. Honor sempre tivera um
senso de estilo sensacional, e as irmãs adoravam fazer
compras juntas. O gerente fechara a loja especialmente para
que elas pudessem experimentar os vestidos em paz.
— Estou me sentindo quase uma rebelde. — Grace riu. —
Deixar uma coisa dessas para o último minuto.
— Eu sei! Completamente desleixada, Gracie.
O Baile do Quorum era o evento social da temporada. Sem-
pre acontecia no início de junho e marcava o início do
verão para a elite privilegiada de Manhattan, que se mudava
em massa para East Hampton na semana seguinte. A maioria
das mulheres que iria ao baile na noite seguinte no Plaza
provavelmente começara a planejar seus vestidos meses
antes, como generais antes de uma campanha militar,
encomendando seda de Paris, diamantes de Israel, morrendo
de fome durante semanas para secar a barriga.
É claro que naquele ano alguns gastos seriam cortados, todo
mundo estava falando sobre a economia e como as coisas
andavam mal. Parecia que em Detroit o povo estava se
agitando. Na Califórnia, milhares de sem-teto montaram
barracas nas margens do rio American. As manchetes eram
terríveis. Mas para Grace Brookstein e suas amigas, nada se
comparava ao choque que sentiram no dia em que souberam
que o Lehman Brothers tinha falido. A quebra do Lehman
era uma tragédia bem mais próxima de casa. O próprio
cunhado de Grace, Michael Gray, vira seu patrimônio
líquido se dizimar da noite para o dia. Pobre Connie. Era
realmente horrível. Lenny disse para Grace:
— Precisamos ter uma postura diferente este ano, Gracie. O
Baile do Quorum deve acontecer pois as pessoas precisam do
dinheiro que arrecadamos mais do que nunca.
— Eu sei, querido.
— Mas não podemos ostentar muito, isso é importante.
Compaixão. Compaixão e comedimento. Essas devem ser as
palavras de ordem.
Com a ajuda de Honor, Grace escolhera um vestido de seda
preta, um Valentino muito comedido, praticamente sem
nenhum bordado. E seus sapatos de salto Louboutin? A
própria simplicidade. Ela mal podia esperar para Lenny vê-
la.
Deitando-se na cama ao lado do marido, Grace apagou o
abajur da mesinha de cabeceira.
— Só um segundo, doçura. — Lenny se esticou e acendeu
a luz de novo. — Preciso que assine uns documentos para
mim. Cadê? — Ele procurou nos papéis que cobriam o seu
lado da cama. — Ah, aqui estão.
Ele entregou um documento a Grace. Ela pegou a caneta
dele e estava prestes a assinar.
— Espere aí! — Lenny riu. — Você não vai ler primeiro?
— Não. Por que eu faria isso?
— Porque você não sabe o que está assinando, Gracie. Por
isso. Seu pai nunca lhe disse para não assinar nada antes de
ler?
Grace se inclinou e beijou-o.
— Disse sim. Mas você leu, não leu? Confio minha vida a
você, Lenny, você sabe disso.
Lenny Brookstein sorriu. Grace estava certa. Ele sabia. E
agradecia a Deus todos os dias por isso.
NA ESQUINA DA Quinta Avenida com a parte sul do Central
Park, um exército de repórteres estava reunido na frente da
fachada do Plaza, considerado um ícone da arquitetura
beaux-arts. Lenny Brookstein estava dando uma festa — a
festa — e, como sempre, as estrelas tinham saído de casa.
Bilionários e príncipes, supermodelos e políticos, atores,
astros do rock, filantropos; todos os convidados para o baile
daquela noite tinham uma característica crucial em comum,
e não era uma vontade esmagadora de ajudar os
necessitados. Todos eram vencedores.
O senador Jack Warner e sua esposa, Honor, estavam entre
os primeiros a chegar.
— Dê uma volta no quarteirão — foi a ordem do senador
ao motorista. — Por que diabos você nos trouxe para cá tão
cedo?
O motorista pensou: Dez minutos atrás, você estava no meu
pé para dirigir mais rápido. Decida-se, seu idiota.
— Sim, senador Warner. Desculpe, senador Warner.
Honor Warner analisou o rosto furioso do marido enquanto
entravam na West Fifty-Seventh Street. Ele está assim o dia
todo, desde que voltou da reunião com Lenny. Espero que
não estrague a nossa noite.
Honor Warner tentava ser uma esposa compreensiva. Sabia
que a política era uma profissão estressante. Já era ruim o
bastante quando Jack era deputado, mas desde que se tornara
senador (com a notável idade de 36 anos), as coisas
pioraram. O mundo conhecia Jack Warner como um
messias republicano: um John Kennedy para o novo
milênio. Alto e louro, com um rosto bem delineado, maxilar
forte e olhos azuis que fitavam com firmeza, o senador
Warner era adorado por seus eleitores, principalmente as
mulheres. Ele defendia a decência, os valores familiares
tradicionais, um país forte e orgulhoso que muitos temiam
estar ruindo diariamente sob seus pés. Uma simples cena no
noticiário do senador Warner de mãos dadas com sua linda
esposa e as duas filhas louras pulando em volta deles bastava
para restaurar a fé do povo no Sonho Americano.
Honor Warner pensou: Se eles soubessem...
Mas como poderiam? Ninguém sabia.
Provocativa, ela se virou para o marido:
— Gostou do meu vestido, Jack?
O senador Jack Warner olhou para a esposa e tentou se
lembrar da última vez que a achara sexualmente atraente.
Não que haja alguma coisa errada com ela. Ela é bonitinha,
acho. Não é gorda.
Honor Warner, na verdade, era muito mais do que boniti-
nha. Com seus grandes olhos verdes, cachos louros e maçã
do rosto acentuada, ela era considerada uma mulher
belíssima. Mas não tão bela quanto a irmã Grace, mas ainda
assim era bonita. Naquela noite, Honor usava um Valentino
tomara que caia da cor de seus olhos, bem justo ao corpo.
Era um vestido de parar o trânsito. Para qualquer observador
imparcial, Honor estava muito sensual.
Jack disse de forma brusca:
— Está legal. Quanto custou?
Honor mordeu o lábio inferior com força. Não posso chorar.
Meu rímel vai borrar.
— É um empréstimo. Assim como as esmeraldas. Grace
mexeu alguns pauzinhos.
O senador Jack riu com amargura.
— Como ela é generosa.
— Por favor, Jack.
Honor colocou a mão na perna dele de forma conciliadora,
mas ele afastou a mão da esposa. Batendo na janela de vidro
que os separava do motorista, ele disse:
— Pode virar aqui. Vamos acabar logo com esta noite.
POR VOLTA DAS 21 horas, o Grande Salão de Baile creme e
dourado do Plaza estava lotado. Dos dois lados do salão,
embaixo dos magníficos arcos restaurados, mesas brilhavam
com suas p ratarias polidas. A luz dos candelabros reluzia
nos diamantes das mulheres enquanto estas se misturavam
no meio do salão, admirando os vestidos de alta-costura das
outras e contando historias terríveis das últimas desgraças
financeiras de seus maridos.
— Não podemos pagar a viagem para Saint-Tropez este ano.
Não vai dar para ir.
— Harry vai vender o iate. Acreditam? Ele amava aquela
coisa. Ele venderia os filhos primeiro se achasse que alguém
iria querer comprá-los.
— Ficaram sabendo dos Jonas? Eles acabaram de anunciar a
casa na cidade. Lucy quer 23 milhões, mas neste mercado?
Carl acha que ela vai ter sorte se conseguir vender por
metade disso.
Exatamente às 21h30, o jantar foi servido. Todos os olhares
estavam fixos na mesa mais alta. Cercados pelos puxa-sacos
mais próximos do Quorum, Lenny e Grace Brookstein
estavam sentados com todo o esplendor, e só tinham olhos
um para o outro. Outros anfitriões poderiam ter escolhido os
mais famosos para se sentar à sua mesa. O príncipe Albert,
de Mônaco, estava lá. Assim como Angelina e Brad, e Bono
e a esposa, Ali. Mas os Brookstein se mantinham próximos à
família e aos amigos mais chegados: John e Caroline
Merrivale, o vice-presidente e a segunda-dama do Quorum;
Andrew Preston, outro alto executivo do Quorum, e sua
voluptuosa esposa Maria; senador Warner e sua esposa,
Honor, irmã de Grace Brookstein; e a mais velha das irmãs
Knowles, Constance, com seu marido, Michael.
Lenny Brookstein propôs um brinde:
— Ao Quorum! E a todos que navegam com ele.
— Ao Quorum!
Andrew Preston, um homem bonito e forte com 40 e pou-
cos anos e sorriso gentil e auto-depreciativo, observou sua
esposa se levantar com a taça de champanhe na mão e
pensou: Outro vestido novo. Como vou conseguir pagar?
Não que ela não estivesse maravilhosa nele. Maria sempre
estava maravilhosa. Ex-atriz e estrela de ópera, Maria
Preston era uma força da natureza. Sua cabeleira castanha e
seus seios que desafiavam a gravidade faziam-na linda. Mas
era a sua postura, o brilho dos olhos, a vibração profunda e
rouca de sua gargalhada, o rebolar provocante de seus
quadris que faziam com que todos os homens se jogassem
aos seus pés. Ninguém nunca entendera o que fizera uma
pessoa dinâmica como Maria Carmine se casar com um
executivo padrão como Andrew Preston. Nem o próprio
Andrew entendia.
Ela poderia ter escolhido qualquer um. Um astro do cinema.
Ou um bilionário como Lenny. Talvez tivesse sido melhor
se ela tivesse escolhido outro.
Andrew Preston amava a esposa com todas as suas forças.
Era por causa desse amor e de seu profundo senso de falta de
valor que ele perdoava tanto. Os romances. As mentiras. Os
gastos descontrolados. Andrew ganhava bem no Quorum.
Uma pequena fortuna para o padrão da maioria das pessoas.
Mas quanto mais ele ganhava, mais Maria gastava. Era uma
doença dela, um vício. Mês após mês, ela gastava centenas
de milhares de dólares no Amex. Roupas, carros, flores,
diamantes, suítes de hotel de 8 mil dólares a noite, onde
dormia só Deus sabe com quem... Não importava. Maria
gastava pelo prazer de gastar.
— Quer que eu pareça uma indigente, Andy? Quer que eu
me sente ao lado daquela esnobe da Grace Brookstein
vestida em algum trapo monstruoso?
Maria tinha inveja de Grace. Na verdade, ela tinha inveja de
qualquer mulher. Fazia parte de sua natureza italiana, algo
c|uc Andrew Preston amava nela. Ele tentou tranquilizá-la:
— Querida, você é duas vezes mais mulher do que Grace.
Você poderia vestir um saco de batatas e mesmo assim
chamaria mais atenção do que ela.
— Agora você quer que eu use um saco de batatas?
— Não, é claro que não. Mas, Maria, a nossa hipoteca...
Talvez um de seus outros vestidos, querida? Só este ano.
Você tem tantos...
Foi um erro dizer aquilo, claro. Agora Maria o punira não
apenas comprando um vestido novo, mas o vestido mais
caro que conseguiu encontrar, uma miscelânea de pedras,
plumas e renda. Ao olhar o vestido, Andrew sentiu um
aperto no peito. As dívidas estavam se tornando sérias.
Terei de falar com Lenny de novo. Mas o velho já foi tão
generoso. Quanto ainda posso pressionar antes que ele
reclame?
Andrew Preston colocou a mão no bolso interno de seu
smoking. Quando ninguém estava olhando, jogou três
calmantes na boca e tomou tudo com um gole de
champanhe.
Você sempre soube que seria difícil segurar Maria. Dê um
jeito, Andrew. Dê um jeito.
— Você está bem, Andrew? — Caroline Merrivale, esposa de
John Merrivale, notou o rosto pálido de Andrew Preston. —
Parece que está carregando o peso do mundo nos ombros.
— Não, imagina! —Andrew se forçou a sorrir. — Você está
estonteante hoje, Carol, como sempre.
— Obrigada. Eu e John nos esforçamos para ser comedidos.
Você sabe, dada a atual situação econômica.
Foi uma agulhada proposital em Maria. Andrew deixou
passar, mas pensou de novo em como detestava Caroline
Merrivale. Coitado do John, ser dominado pela mulher, uma
megera como essa, por toda a vida. Não era de se espantar o
fato de ele estar sempre tão para baixo.
Era óbvio para qualquer um que não fosse cego que o
casamento dos Merrivale não era feliz. Para qualquer um,
menos para Lenny e Grace Brookstein. Esses estavam tão
apaixonados, que achavam que todo mundo tinha a mesma
sorte que eles. Fácil manter o amor vivo quando se tem
bilhões de dólares para investir nele. Mas talvez Andrew
estivesse sendo injusto. A jovem Sra. Brookstein não estava
atrás de dinheiro. Ela era ingênua, só isso, e claramente
acreditava que Caroline Merrivale era sua amiga. Grace não
via o olhar de inveja da suposta amiga mais velha sempre
que ela virava as costas. Mas Andrew Preston via. Caroline
Merrivale era uma vadia.
Caroline sempre ressentira a posição de Grace como
primeira-dama do Quorum. Ela teria sido tão mais adequada
para o papel. Com uma beleza masculina, traços inteligentes
e fortes e cabelo preto e curto, Caroline já tivera uma
brilhante carreira como advogada de tribunais. Claro, isso já
fazia anos. Graças a Lenny Brookstein, seu marido, John, se
tornara um homem bem-sucedido e muito rico. Seus dias de
trabalho ficaram para trás. Mas sua ambição estava longe de
acabar.
Por outro lado, John Merrivale nunca fora ambicioso.
Trabalhava duro no Quorum, aceitava o que Lenny
Brookstein resolvia lhe dar e se sentia grato. Caroline o
insultava:
— Você é como um cachorrinho, John. Enroscado no pé
do seu dono, abanando o rabinho lealmente. Não é de se
espantar que Lenny não o respeite.
— Lenny me re-respeita. É você quem não me re-
respeita.
— Não, e por que eu respeitaria? Eu quero um homem,
não um cachorrinho. Você deveria exigir uma participação
acionária maior. Imponha-se.
Andrew Preston olhou para John Merrivale sentado do
outro lado da mesa. Lenny estava no meio de uma piada,
com John devorando cada palavra sua. Andrew pensou: Ele
é brilhante, mas é fraco. Só há lugar para um rei no Quorum.
Caroline Merrivale podia desejar que fosse diferente, mas
continuaria apenas desejando. Estavam todos pendurados no
saco de Lenny Brookstein. E eles tinham sorte. O pobre
Michael Gray, que eslava sentado do lado direito de Maria,
também escutava a história de Lenny. Os Gray eram como
um lembrete ambulante. Em um minuto, estavam em todas
as festas de Manhattan, morando em sua linda casa em
Greenwich Village, passando os verões no sul da França e os
invernos em seu chalé recém-reformado em Aspen. No
minuto seguinte — puf — tudo desapareceu. O boato na
cidade era que cada centavo que Michael Cray tinha estava
investido em ações da Lehman. Os filhos deles, Cade e
Cooper, continuavam estudando em uma escola particular
porque Grace Brookstein, irmã de Connie Gray, insistira em
pagar.
Maria sussurrou no ouvido de Andrew:
— O leilão vai começar daqui a pouco, Andy. Estou de
olho em um relógio Cartier vintage. Você vai arrematar para
mim, ou devo entrar no leilão?
GRACE BROOKSTEIN sorriu e bateu palmas durante o leilão,
mas ficou secretamente aliviada quando terminou e chegou
a hora de dançar.
— Odeio essas coisas — sussurrou ela no ouvido de Lenny
enquanto ele a conduzia pela pista de dança. — Todos
aqueles frágeis egos masculinos tentando gastar cada um
mais que o outro. É uma insolência.
— Eu sei. — A mão de Lenny acariciava as costas dela. —
Mas esses insolentes acabaram de levantar 15 milhões para a
nossa fundação. Com a economia em que está, é um feito e
tanto.
— Vocês se importam se eu interromper? Mal falei com meu
cunhado preferido a noite toda.
Connie, irmã mais velha de Grace, passou o braço pela cin-
tura de Lenny. O casal sorriu.
— Cunhado preferido, hein? — implicou Grace. — Não
deixe Jack escutar isso.
— Ah, Jack. — Connie balançou a mão com desdém. — Ele
está com um mau humor terrível hoje. Eu achei que ser
senador fosse divertido. Qualquer um acharia que foi ele
quem acabou de perder a casa. E o emprego. E as economias
da vida toda. Vamos, Lenny! Alegre esta triste moça, sim?
Grace observou o marido dançar com sua irmã, segurando-a
bem perto de si e oferecendo palavras de conforto. Eu amo
tanto os dois, pensou ela. E os admiro tanto. A forma como
Connie consegue fazer piadas e rir de si mesma enquanto ela
e Michael estão passando por um inferno. E a incrível e
infinita compaixão de Lenny. As pessoas sempre
comentavam como Grace tinha "sorte" de ser casada com
Lenny. Ela concordava. Mas não era o dinheiro de Lenny
que a tornava abençoada. E sim sua generosidade.
É claro, tinha o lado ruim de ser casada com o cara mais
legal do mundo. Tantas pessoas amavam Lenny e contavam
com ele que Grace quase nunca conseguia ter o marido só
para si. Na semana seguinte, eles iriam para Nantucket, o
lugar que Grace mais amava no mundo, para duas semanas
de férias. Mas, é claro, sendo o anfitrião que era, Lenny já
convidara todo mundo que estava à mesa naquela noite.
— Prometa que teremos pelo menos uma noite sozinhos
— implorou Grace quando eles finalmente se deitaram,
naquela noite. O baile tinha sido divertido, mas exaustivo. A
idéia de ainda mais socialização apavorava Grace.
— Não se preocupe. Nem todos vão. E mesmo se forem,
teremos mais de uma noite sozinhos, prometo. A casa é
grande o suficiente para sairmos de fininho.
Grace pensou: É verdade. A casa é enorme. Quase tão gran-
de quanto seu coração, querido.
Capítulo 2
ERA A MANHÃ SEGUINTE ao Baile do Quorum, um sábado.
John Merrivale estava na cama com a esposa.
— Por favor, Ca-Caroline. Eu não quero.
— Eu não me importo com o que você quer, seu verme
patético. Faça!
John Merrivale fechou os olhos e foi para baixo dos lençóis
até estar na altura dos pelos pretos e bem aparados de sua
esposa.
Caroline o insultava:
— Se o seu pau não estivesse mole, eu não precisaria que
você fizesse isso. Mas como você não conseguiu levantá-lo
de novo, é o mínimo que pode fazer.
John Merrivale começou a fazer o que ela tinha mandado.
Odiava sexo oral. Era nojento e errado. Mas já fazia muito
tempo que não podia seguir os próprios desejos. Sua vida
sexual se transformara em uma série de humilhações
noturnas. Nos finais de semana era ainda pior. Caroline
esperava um desempenho matinal nos sábados e às vezes
uma sessão vespertina aos domingos. John não conseguia
compreender como uma mulher que evidentemente o
desprezava ainda podia ter um apetite sexual tão voraz. Mas
Caroline parecia adorar degradá-lo, obrigá-lo a ceder aos seus
caprichos.
Sentindo-a se contorcer de prazer ao toque de sua língua,
John se esforçou para não ter ânsia de vômito. Às vezes,
tinha fantasias sobre fugir. Eu poderia ir para o escritório um
dia e nunca mais voltar para casa. Eu poderia drogá-la e
estrangulá-la enquanto dorme. Mas ele sabia que nunca teria
coragem para isso. Essa era a pior parte do seu casamento
infeliz. Sua esposa tinha razão sobre ele: ele era fraco. Era
um covarde.
No começo, quando se conheceram, John tivera esperanças
de que poderia absorver força da personalidade dominante
de Caroline. Que a autoconfiança e a ambição dela pudessem
compensar a timidez dele. Durante alguns abençoados
meses, isso aconteceu. Mas não demorou muito para a
verdadeira natureza de sua esposa aparecer. A ambição de
Caroline não era uma força positiva, como a de Lenny
Brookstein. Era um buraco negro, um furacão alimentado de
inveja que sugava a vida de todo ser humano que se
aproximava. Quando John Merrivale percebeu o monstro
com quem tinha se casado, já era tarde demais. Se ele se
divorciasse dela, ela o exporia ao mundo como inválido
sexual. Isso seria mais humilhação do que John poderia
suportar.
Felizmente, Caroline só precisou de dois minutos para
alcançar o orgasmo. Assim que conseguiu o seu prazer, ela
se levantou e foi para o chuveiro, deixando John trocando os
lençóis da cama por outros limpos. Não havia a menor
necessidade de ele fazer tal tarefa. Os Merrivale tinham um
pequeno exército de empregados à disposição em sua
mansão na cidade. Mas Caroline insistia que ele fizesse. Uma
vez, quando ela achou que os cantos não estavam perfeitos,
quebrou um vidro de perfume na cara dele. John precisou
levar 16 pontos e ainda tinha a cicatriz na bochecha
esquerda. Ele disse para Lenny que tinha sido agredido por
um ladrão, o que, do seu ponto de vista, não estava longe da
verdade.
Se não fosse por Lenny Brookstein, John Merrivale já teria
se matado havia anos. A amizade de Lenny, seu jeito
carinhoso e tranquilo, sua prontidão em fazer piadas, mesmo
quando os negócios estavam indo mal, era a coisa mais
importante na vida de John Merrivale. Ele vivia para o
escritório e seu trabalho no Quorum, não pelo dinheiro nem
pelo poder, mas porque queria deixar Lenny orgulhoso.
Lenny Brookstein era a única pessoa que acreditara em John
Merrivale. Esquisito e sem atrativos físicos, pálido, ruivo e
com braços e pernas desengonçados, John não era popular
na escola. Não tinha irmãos nem irmãs com quem
compartilhar seus problemas ou comemorar suas pequenas
vitórias enquanto crescia. Até para seus pais ele era uma
decepção. É claro que eles nunca disseram nada. Mas não
precisavam. John podia sentir só de entrar na sala.
No dia de seu casamento com Caroline, ele escutou sua mãe
falar para uma de suas tias:
— É claro que Fred e eu estamos felicíssimos. Nunca acha-
mos que John fosse se casar com uma mulher tão atraente e
inteligente. Para ser honesta, nós já até tínhamos perdido a
esperança de que ele se casasse. Afinal, sejamos francas, ele
é um amor de garoto, mas não é nenhum Cary Grant!
O fato de sua própria esposa o desprezar fazia John sofrer,
mas não o surpreendia. As pessoas o desprezaram a vida
inteira. A amizade de Lenny Brookstein, a enorme
confiança que depositou nele, essa foi a grande surpresa da
vida de John. Devia tudo a Lenny Brookstein.
É claro que Caroline não via as coisas assim. A inveja que ela
sentia de Lenny e Grace Brookstein aumentara com o passar
dos anos ao ponto de agora ela precisar se esforçar para
esconder isso em público. Em particular, John se acostumara
a escutá-la se referir a Lenny como o "velho" e a Grace
como "aquela vadia". Mas recentemente, a aversão de
Caroline estava estampada no rosto. Para John, isso tornava
eventos como o Baile do Quorum, da noite anterior, uma
experiência aterrorizante. Seu amor por Lenny Brookstein
era enorme. Mas o medo que tinha da esposa era ainda
maior. E Caroline Merrivale sabia disso.
No CAFÉ DA MANHÃ, John tentou conversar sobre
frivolidades.
— Ontem, conseguimos arrecadar uma soma s-
significativa, acho, levando tudo em consideração.
Caroline deu um gole em seu café e não disse nada.
— Sei que Le-Lenny ficou satisfeito.
— Quinze milhões? — Caroline riu com desdém. — Isso não
é nada para aquele velho. Ele poderia ter feito um cheque e
acabado com tudo logo. Mas é claro que assim ele não teria
toda a adulação. Todas aquelas pessoas famosas e importantes
dizendo o quanto ele é um bom filantropo. E não podíamos
perder a oportunidade de ter umas 6 mil fotos tiradas da nos-
sa querida Grace, podíamos? Deus me livre!
John espalhou uma fina camada de manteiga em sua torrada,
evitando o olhar da esposa. Ele sabia por experiência própria
que a fúria de Caroline podia mudar de direção em um
segundo. Uma palavra errada e poderia ser toda jogada em
cima dele. Mais uma vez, se amaldiçoou por sua covardia.
Por que tenho tanto medo dela?
Desejando cair nas graças da esposa novamente, ele disse:
— A propósito, Lenny nos convidou para ir a Nantucket na
semana que vem. Mas não se preocupe. Eu disse que não.
— Por que diabos você fez isso?
— Eu... bem, eu... achei que você...
— Você achou? — Os olhos de Caroline brilhavam de raiva.
— Como você ousa achar alguma coisa! — Por um mo-
mento, John achou que ela ia bater nele. E como se não
estivesse envergonhado o suficiente, deixou cair a xícara de
café, que fez barulho ao bater no pires. — Quem mais foi
convidado?
— Todo mundo, a-a-acho. Os Preston. As irmãs de Gr-
Grace. Não tenho certeza.
— E você vai deixar Andrew Preston passar uma semana
puxando o saco de Lenny, tentando passar a sua frente no
Quorum, enquanto você espera e não faz nada? Meu Deus,
John! Como você pode ser tão burro?
John abriu a boca para protestar, mas fechou de novo. Os
negócios não funcionavam assim. Andrew Preston nunca
poderia sonhar em usurpar o lugar de John e nem tentaria.
Ele não ousaria. Mas não adiantava tentar explicar isso para
Caroline.
— Então você quer ir?
— Eu não quero ir, John. Francamente, não consigo
imaginar nada pior do que ficar trancada com aquela
mulherzinha fútil do Lenny durante uma semana em uma
ilha isolada do mundo. Mas eu vou. E você também. — Ela
saiu da sala batendo os pés.
Só então John se permitiu um pequeno sorriso.
Eu consegui. Nós vamos. Nós vamos mesmo!
A psicologia reversa tinha funcionado como um feitiço. Só
precisou de um pouco de coragem. Talvez eu devesse tentar
isso mais vezes.
Capítulo 3
O SENADOR JACK WARNER acordou no sábado de manhã com
uma ressaca terrível. Honor saíra cedo para a aula de ioga. Lá
embaixo, na sala de brinquedos da idílica casa de campo
deles no condado de Westchester, Jack Warner podia
escutar as filhas, Bobby e Rose, gritando a plenos pulmões
uma com a outra.
Que diabos Ilse está fazendo?
A nova babá holandesa pagava um boquete como ninguém,
mas sua habilidade no trabalho deixava muito a desejar. Até
agora, Jack resistira aos pedidos de Honor para demitir Ilse.
Mas naquela manhã ele mudou de idéia. Uma manhã de
sábado ininterrupta na cama valia muito mais do que um
bom boquete. No mundo do senador Jack Warner, era fácil
conseguir bons boquetes. Por outro lado, paz e tranquilidade
eram inestimáveis.
Jack Warner sabia que queria ser presidente dos Estados
Unidos desde os 3 anos. Era agosto de 1974. Seus pais
estavam assistindo à renúncia de Richard Nixon na televisão.
— O que este homem está fazendo, mamãe? — perguntou o
pequeno Jack. Foi o pai quem respondeu:
— Ele está largando o melhor emprego do mundo, filho.
É um mentiroso e um idiota.
Jack pensou a respeito por um minuto.
— Se ele é um idiota, como conseguiu o melhor emprego
do mundo?
Seu pai riu.
— É uma boa pergunta!
— Quem vai fazer o trabalho dele agora?
— Por que você está perguntando, Jack? — O pai o puxou
para seu colo e acariciou seu cabelo. — Quer o emprego
dele?
Sim, pensou Jack. Se é o melhor emprego do mundo, eu
acho que quero.
Até agora, o caminho de Jack Warner para a Casa Branca
tinha sido perfeito. Primeiro da classe em Andover? Sim.
Ficha extensa em trabalho voluntário e serviços à
comunidade? Sim. Graduação em Yale, pós-graduação em
Direito em Harvard, sócio de uma firma de prestígio em
Nova York? Sim, sim, sim. Após dois breves estágios em
campanhas no senado, Jack concorreu ao Congresso,
conseguindo a cadeira do 20° Distrito Congressional em uma
vitória esmagadora com apenas 29 anos. Jack Warner nunca
fez um amigo, aceitou um emprego, foi a uma festa ou
dormiu com alguém sem antes pensar: Como isso pode
afetar meu histórico? Nas raras ocasiões em que dormia com
uma garota menos do que adequada, ele se certificava de que
acontecesse em algum lugar bem longe dos olhos atentos
dos eleitores. Mas esses deslizes eram raros. O objetivo de
Jack era estar no lugar certo, na hora certa com as pessoas
certas. Ele sabia que o seu maior encanto era a boa aparência
tipicamente americana, o ar de autoconfiança e bondade que
ele parecia transmitir sem nenhum esforço.
Como todas as outras coisas na vida de Jack, seu casamento
com Honor Knowles foi uma decisão política cuidadosa-
mente coreografada.
Fred Farrel, o coordenador de campanha de Jack, sentou-se
para conversar com ele.
— Nossas pesquisas indicam que você ainda é visto como
muito jovem para concorrer ao Senado. Precisamos
"amadurecer" sua imagem.
Jack ficou frustrado.
— Como? Devo deixar a barba crescer? Usar colete?
— Na verdade, a barba não é má ideia. Mas o que você
realmente precisa fazer é casar. Uns dois filhos também não
fariam mal. Todas as mulheres solteiras amam você, mas
você precisa conquistar o voto das famílias.
— Tudo bem. Vou pedir Karen em casamento no fim de
semana.
Karen Connelly era namorada de Jack havia dez meses e o
primeiro caso de amor sério da vida dele. Filha única de uma
respeitada família de políticos — o pai de Karen, Mitch,
chegara a ser chefe de gabinete da Casa Branca —, Karen
também era bonita, inteligente e generosa. Ela adorava Jack
incondicionalmente. De vez em quando, os dois falavam em
começar uma família um dia, quando Karen se formasse e a
agenda de Jack no Congresso estivesse menos pesada. Era
evidente que o "um dia" havia chegado.
Fred Farrel franziu a testa.
— Não tenho tanta certeza de que Karen seja a melhor
escolha. Ela é uma menina boa e tudo mais. Mas para sua
esposa...
Jack ficou com raiva.
— O que há de errado com ela?
— Não tem nada de errado com ela. Não leve para o lado
pessoal, Jack. Só estou dizendo que no mundo ideal eu iria
preferir alguém que causasse um pouco de sensação. Não
bonita demais, claro, seria decepcionante para seu principal
eleitorado.
— Mas mais bonita que Karen?
— Mais conhecida que Karen. E não seria ruim também se
ela fosse rica.
— Por quê?
— Para o futuro, garoto. — Fred Farrel balançou a cabeça. —
Suponho que suas ambições políticas não terminem no
Senado?
— Claro que não.
— Bom. Então, comece a pensar de forma prática. Você faz
ideia de quanto custa uma campanha presidencial hoje em
dia?
Jack fazia idéia. Muitos homens ricos tinham perdido tudo
ao correr atrás de suas fantasias com a Casa Branca. Mesmo
assim, casar por dinheiro parecia repugnante.
— Olhe, eu tenho uma garota em mente. Vá conhecê-la,
veja o que acha. Sem pressão.
Três meses depois, o deputado Jack Warner superou sua
repugnância e se casou com a herdeira socialite Honor
Knowles, sob os flashes da imprensa. No dia em que saíram
para a lua de mel, Karen Connelly cometeu suicídio,
cortando os pulsos em uma banheira. Por respeito ao pai de
Karen, a imprensa não divulgou a história.
Para Honor Knowles, o romance relâmpago com o deputado
mais cobiçado e bonito do país era, de longe, a coisa mais
excitante que já acontecera em sua vida. Desde que era uma
menininha, Honor sentia que não recebia atenção. Sua irmã
mais velha, Constance, era o cérebro da família e claramente
a preferida da mãe. Grace, a irmã mais nova, era linda
demais e foi o colírio dos olhos do pai enquanto ele viveu.
Isso tudo deixava Honor sem um lugar. O fato de ela
também ser inteligente e atraente do seu jeito parecia não
importar a ninguém.
Eu sou o estepe. A backing vocal que ninguém percebe. Só
sou popular porque me associam a ela.
O fato de um homem lindo escolhê-la (e não qualquer
homem bonito, mas Jack Warner, um possível futuro
presidente!) era tão emocionante, tão deliciosamente
inesperado, que nunca passou pela cabeça de Honor
questionar os motivos de Jack. Ou a velocidade com que ele
a levou para o altar. Ela logo percebeu que Jack fazia tudo
em alta velocidade. Mal a convidara para sair, já a pedira em
casamento. Assim que ela aceitou, ele reservou a igreja. Mal
voltaram de lua de mel, ele já insistia para que ela
engravidasse.
— Por que a pressa? — Honor riu, acariciando o cabelo
louro dele na cama uma noite. Ela às vezes ainda precisava
se beliscar quando acordava ao lado dele. Jack era tão
perfeito. Não apenas tinha a aparência perfeita, era perfeito
por dentro também. Nobre, corajoso, visionário. Ele queria
tantas coisas boas para os Estados Unidos. — Só estamos
casados há cinco minutos. Não podemos primeiro curtir um
ao outro um pouco?
Mas Jack insistiu. Ele queria uma família e queria agora.
Durante a lua de mel no Taiti, Honor ficara preocupada. Na
primeira manhã em que estavam no resort, Jack recebeu
uma ligação de casa que claramente o perturbou. Ele
cancelou o mergulho que fariam ("Pode ir. Preciso
trabalhar.") e mal falou com Honor o resto do dia. Naquela
noite, enquanto dormia, ele chamava "Karen!". Na manhã
seguinte, quando Honor o questionou, ele ficou na
defensiva.
— Meu Deus, Honor. Agora você vai tomar conta dos
meus sonhos também?
Depois disso, ele passou a semana toda rabugento e afastado,
se recusando a falar sobre o que o estava perturbando e
evitando todas as tentativas de Honor de se aproximar
demais. Ele não queria nem fazer amor. Mas quando
voltaram para Nova York, para imenso alívio de Honor, o
mau humor foi embora. De repente, ele estava atrás dela de
novo.
Ele não ia querer começar uma família se não me amasse,
pensava ela. Esta é a forma dele de se desculpar pelo Taiti. E
sinceramente, por que devemos esperar? O que poderia ser
mais lindo do que ter um mini-Jack correndo pela casa?
A primeira filha deles, Roberta, nasceu nove meses depois,
seguida após um ano pela irmã, Rose. Como as gestações
foram seguidas, Honor ainda estava com alguns quilos a mais
da gravidez de Roberta quando engravidou de Rose. Como
resultado, quando Jack a levou para jantar para comemorar o
segundo aniversário de casamento, Honor estava com 20
quilos a mais que no dia do casamento.
— Por que você não começa a correr de novo? — sugeriu
Jack bruscamente enquanto comiam seus escalopes. — Você
poderia ir com sua irmã e o personal trainer dela. Grace está
com o corpo ótimo no momento. O cara deve saber o que
está fazendo.
Era como se ele tivesse enfiado uma agulha no olho de
Honor. Grace. Por que tudo sempre voltava para Grace?
Quando Honor se casou com Jack Warner, ela se sentiu a
estrela do show pela primeira vez na vida. Enquanto
cresciam, Grace sempre roubava a cena. E o pior é que fazia
isso sem nem mesmo tentar. Só de entrar em um lugar,
Grace já atraía todos os olhares, brilhando com uma luz tão
ofuscante que apagava totalmente a presença da irmã. Honor
tentava sufocar a inveja e o ressentimento que sentia por
Grace. Sabia que Grace a amava e a considerava sua melhor
amiga. Mesmo assim, havia vezes em que Honor Knowles
fantasiava que sua irmã sofria um "acidente". Via Grace
caindo das barras, seu pequeno e perfeito corpo de boneca
contorcido e quebrado no chão do ginásio. Ou um acidente
de carro no qual os lindos traços de modelo de Grace eram
destruídos pelas chamas. As chamas do meu ódio. As
fantasias eram uma vergonha, mas faziam com que se
sentisse bem.
Quando Honor se casou com Jack, pensou: Tudo isso ficou
para trás. Agora sou feliz e famosa, agora que uma pessoa
maravilhosa me ama, posso ser a irmã mais velha que Grace
sempre sonhou.
As coisas não saíram bem assim. Ironicamente, foi Honor
quem apresentou Grace a Lenny Brookstein, em um dos
jantares de Jack para angariar fundos. Duas semanas depois,
Grace anunciou que eles estavam apaixonados.
No início, Honor achou que ela estivesse brincando. Quan-
do percebeu que estava enganada, sentiu-se enjoada.
— Mas, Grace, você tem 18 anos. Ele tem idade para ser seu
avô.
— Eu sei. É loucura! — Grace riu, aquela gargalhada doce
que fazia todos os homens derreterem como manteiga no
forno. — Nunca achei que eu poderia me sentir assim por
alguém como Lenny, mas... estou tão feliz, Honor. De
verdade. E Lenny também. Não pode ficar feliz por nós?
— Querida, eu estou feliz. Se é isso o que você realmente
quer.
Mas Honor não estava feliz. Estava furiosa.
Para Grace não era suficiente se casar com algum investidor
rico normal, como Connie fizera. Ah, não. A madame tem
que fisgar o maior bilionário de Nova York. Os breves cinco
minutos de fama de Honor Knowles já estavam terminando.
Enquanto ficava presa dentro de casa, gorda e exausta como
uma galinha mãe, Grace era mais uma vez o assunto da
cidade. E agora aqui estava Jack, seu próprio marido,
comparando-a desfavoravelmente com sua irmãzinha
porque ela ganhara alguns quilos para dar à luz as filhas dele!
Isso era insuportável.
Mesmo assim, Honor suportava, estoicamente e em silêncio.
Da mesma maneira que ela suportava a forma como Jack a
negligenciava e às filhas, o egoísmo dele, sua ambição
crescente e, mais recentemente, as infidelidades. Ela
emagreceu todos os quilos que ganhara. Para o público, o
senador Jack Warner e sua esposa tinham um casamento de
conto de fadas. Honor não tinha a intenção de desiludi-los.
O faz de conta era tudo que lhe restava, e ela o mantinha,
sorrindo para Jack lealmente durante seus discursos, dando
entrevistas a revistas sobre suas dicas de dona de casa e sobre
o talento de Jack como pai "de mão cheia". É claro que
Honor sabia que a única coisa em que Jack colocava as mãos
ultimamente era nos seios da babá, mas preferia morrer a
admitir isso.
O mesmo se aplicava ao ódio que sentia pela irmã. Por fora,
Honor se mantinha próxima das irmãs, mas principalmente
de Grace. As duas almoçavam juntas duas vezes por semana,
além das viagens de compras regulares e férias em família.
Mas por baixo da fachada de irmã carinhosa, o
ressentimento de Honor fervia como magma.
Jack encorajava a esposa a estreitar os laços com os
Brookstein.
— Todo mundo ganha, querida. Você precisa passar mais
tempo com Grace. Sei o quanto você a ama. E assim, ganho
tempo com Lenny também. Se Lenny Brookstein apoiar
minha candidatura à Casa Branca daqui a quatro anos,
ninguém vai me segurar.
Honor pensou a respeito. Se Jack concorrer à presidência,
vai ter que parar de sair com outras mulheres. É arriscado
demais. Além disso, se ele se tornar presidente, com o
dinheiro de Lenny Brookstein, eu serei a primeira-dama.
Nem Grace poderá superar isso.
Recentemente, porém, o fervor de Jack pelos cunhados
bilionários havia esfriado. Começou com comentários
maliciosos sobre as roupas de Grace e sobre a pança cada vez
maior de Lenny. Nos dias que antecederam o Baile do
Quorum, se transformou em algo mais aberto. Jack estava
bebendo muito. Em casa, quando estava bêbado, ele falava
com Honor sobre a "deslealdade" e a "arrogância" de Lenny
Brookstein.
— Canalha, com quem ele acha que está falando? Com um
de seus empregados? — divagava ele. — Se Lenny quer que
lambam o chão que ele pisa, deve pedir para John Merrivale
ou para aquele puxa-saco do Preston. Eu sou um senador dos
Estados Unidos, diabos!
Honor não fazia ideia do que Jack estava falando. Queria
perguntar, mas tinha medo. Apesar de tudo, Honor Warner
ainda amava o marido. Bem no fundo, tinha certeza de que
se ajudasse na carreira de Jack — se dissesse as coisas certas,
se usasse o vestido certo, se organizasse as festas certas —,
ele acabaria se apaixonando por ela de novo.
Ela não sabia que Jack Warner nunca fora apaixonado por
ela.
JACK DESCEU AS ESCADAS de roupão, procurando algum
remédio para azia. Roberta, a quem seus pais chamavam de
Bobby, pulou nos braços dele.
— Papai! — Loura e gorducha como um querubim
renascentista, Bobby sempre fora uma criança muito
carinhosa. — Use disse que, se não formos boazinhas, não
vamos para In-tucket. Isso não é verdade, é?
Jack colocou a filha no chão.
— Não perturbe seu pai, Roberta — disse Use.
— Mas nós gostamos de In-tucket. Até Rose gosta, não
gosta, Rosie?
Rose, de 4 anos, tirou um batom Dior da bolsa de maquia-
gem da mãe, quebrou-o ao meio e começou a esfregar
aquela cera cor-de-rosa por todo o chão de madeira. Use
estava ocupada demais olhando para o patrão para notar.
— Posso ajudá-lo, senador Warner?
— Não — respondeu Jack. Nantucket. Eu tinha esquecido.
Aquele cretino do Brookstein nos convidou para ir à casa
dele ontem à noite. Como se fôssemos muito bons amigos.
Jack precisara engolir seu orgulho para pedir ajuda a Lenny
Brookstein. Nunca teria feito isso se não estivesse
desesperado. Mas ele estava desesperado, e Lenny sabia
disso. Começara como uma forma de aliviar o estresse.
Algumas apostas inocentes aqui e ali em corridas de cavalos
ou nas mesas de blackjack. Mas quanto mais Jack perdia,
mais suas dívidas aumentavam. O jogo tinha despertado um
lado impulsivo de Jack Warner que nem ele sabia ter. Era
excitante, divertido e viciava. Recentemente esse vício
começara a custar caro em termos financeiros. Mas o maior
risco era político. Jack construíra toda sua carreira sobre sua
reputação como um conservador íntegro e cristão. Podia
não ser ilegal jogar compulsivamente, mas faria com que
perdesse os votos das famílias em um piscar de olhos.
Fred Farrel foi direto.
— Você tem que parar com isso, Jack. Agora mesmo. Pa-
gue tudo o que deve e limpe a sua ficha.
Como se fosse fácil assim! Pagar todas as minhas dívidas?
Com o quê? Toda a herança de Honor tinha sido usada na
casa e na educação das meninas. Como senador, Jack
ganhava 140 mil dólares por ano, uma fração do que
ganhava como advogado, e uma fração muito menor do que
devia agora — e em alguns casos para uns figurões nada
amigáveis.
Não havia como sair dessa. Teria de pedir ajuda ao cunhado.
Seria constrangedor, certamente. Mas quando explicasse a
situação, Lenny o ajudaria. Lenny pensa no longo prazo.
Quando eu me tornar presidente, vou pagar mil vezes mais.
Ele sabe disso.
Mas aconteceu que Lenny não sabia. Em vez de fazer um
cheque, ele lhe dera um sermão.
— Sinto muito por você, Jack. Mas não posso ajudar. Meu
pai jogava. Fez a minha mãe viver um inferno. Se não
fossem os amigos que emprestavam dinheiro para ele uma
vez após a outra, o pesadelo poderia ter acabado muito antes.
E além de tudo, ele perdeu dinheiro que podia ter usado para
pagar o tratamento médico da minha mãe.
Jack tentou manter-se calmo.
— Com o devido respeito, Lenny. Acho que eu não tenho
muito em comum com seu pai. Sou um senador dos Estados
Unidos. Eu mereço esse dinheiro, você sabe disso. É só um
pequeno problema de fluxo de caixa.
Lenny abriu um sorriso amável.
— Nesse caso, tenho certeza de que conseguirá resolver
sozinho. Mais alguma coisa?
Canalha arrogante! Não foi apenas uma recusa. Foi uma
rejeição, Jack não se esqueceria dessa desfeita enquanto
vivesse. Na noite anterior, seu último pensamento fora
mandar Lenny Brookstein enfiar o convite para Nantucket
onde "o sol não brilha". Mas refletindo bem, isso seria um
erro. A verdade era que ele ainda precisava urgentemente de
uma significativa injeção de dinheiro. Honor e Grace, eram
amigas. Talvez se Honor tentasse com a irmã, Grace poderia
convencer seu amado marido a ser racional? É claro que,
para seguir esse caminho, Jack teria de abrir o jogo com
Honor sobre suas dívidas de jogo. Não era uma ideia
atraente. Mas no fim das contas, o que ela faria? Me deixaria?
Acho que não.
Virando-se para Ilse, ele disse:
— Partiremos para Nantucket segunda-feira bem cedinho.
Por favor, providencie tudo para que as meninas estejam
prontas e com as malas arrumadas.
Bobby lançou um olhar de puro triunfo para a babá.
— Viu? Eu disse que nós íamos.
— Sim senhor. Tem mais alguma coisa... especial... que o
senhor queira que eu providencie?
Ilse piscou de forma sensual para ele. Suas intenções não
podiam ser mais claras. Nem as de Jack.
— Não. Você não vai conosco. A partir de segunda-feira,
você está despedida.
Pegou um remédio para indigestão no armário da cozinha,
subiu as escadas e voltou para a cama.
Capítulo 4
CONNIE GRAY ESTAVA no parquinho, vendo seus filhos
brincarem.
Olhe para eles. Tão inocentes. Não fazem idéia que o mundo
deles está desmoronando.
Cade tinha 6 anos e era a imagem do pai, Michael. Com
Cabelo escuro e pele levemente bronzeada, ele tinha o
mesmo rosto feliz, sincero de Mike. Cooper tinha mais de
Connie. Ele era mais claro, os traços mais femininos. E era
uma criança muito mais complexa. Sensível. Ansioso.
Ambos eram muito inteligentes. Com pais como Connie e
Mike, como poderiam não ser? Mas Cooper, de 4 anos, era
um pensador.
O que será que ele pensaria se soubesse o que a sua mãe
planejava? Talvez um dia, quando fosse mais velho, ele
entendesse? Como momentos desesperadores exigem
medidas desesperadas?
A MAIS VELHA DAS IRMÃS Knowles, Connie, fora a primeira
aluna da classe desde o primeiro ano. O orgulho e a alegria
da mãe, Connie precisava lutar pelo respeito e a afeição do
pai.
O coração de Cooper Knowles já tinha dona. Ele pertencia à
filha mais nova, Grace.
Assim como Honor, Connie percebeu cedo que o bebê da
família era "especial", uma criança singularmente cativante e
encantadora. Diferente de Honor, porém, Connie não tinha
a menor intenção de ser coadjuvante de Grace ou de abrir
mão de sua notoriedade. Ela desempenhava seu papel de
cérebro da família com louvor, formando-se como primeira
da turma no ensino médio e sendo aceita em todas as
melhores universidades do país. Embora não se interessasse
muito por beleza e moda, Connie sabia que era atraente,
embora de maneira forte, masculina. Ela fazia todo o
possível para manter sua pele de cetim e o corpo magro com
pernas compridas que os homens tanto admiravam. Ela
podia não estar à altura de Grace em termos de beleza, mas,
sendo oito anos mais velha, não precisava.
Quando Grace tiver idade para ser apresentada à sociedade,
eu já estarei muito bem casada. Aí, ela será problema de
Honor.
E claro, ela estava. Como todas as irmãs Knowles, Connie se
casou por amor. Michael Gray era lindo naquela época. Ele
ainda era bonito, mas quando se conheceram, ele ainda
tinha o físico de jogador de futebol e os traços esculpidos
dos modelos da Armani que faziam todas as secretárias do
Lehman Brothers suspirarem.
Connie continuou trabalhando como advogada até Cade
nascer. Depois disso, não via por quê. Michael era sócio na
Lehman, e ganhava milhões de dólares por ano em bônus.
Claro, a maior parte disso vinha na forma de ações. Mas,
naquela época, quem se importava com isso? As ações dos
bancos só seguiam uma direção: para cima. Se os Gray
gastavam várias vezes o salário base anual de Mike, só
estavam fazendo o que todo mundo fazia. Se você queria
algo caro, como uma casa de praia nos Hamptons ou um
Bentley ou um colar de 100 mil dólares para dar de
aniversário de casamento para sua esposa, 80 precisava pegar
emprestado de suas ações. Era um sistema simples e
tributariamente eficiente, e ninguém questionava. Então, a
Bear Stearns quebrou.
Em retrospectiva, a falência da venerável instituição de
Nova York em março de 2008 foi o começo do fim para
Michael e Connie Gray, e para outros milhares como eles.
Mas, claro, é fácil olhar para trás. Connie se lembrava que na
época era como se algo terrível, sísmico, inimaginável
estivesse acontecendo com outra pessoa. Essas eram as
melhores tragédias. Aquelas que acontecem perto o
suficiente para fazer com que você sinta o frisson do terror e
da excitação, sem afetar realmente a sua vida.
Fazia nove meses desde aquele dia terrível de setembro,
quando o mundo de Connie desabou. Ela ainda acordava
algumas manhãs se sentindo feliz e contente por alguns
breves segundos... até que se lembrava.
O Lehman Brothers pediu concordata no dia 16 de setembro
de 2008. Da noite para o dia, os Gray viram o valor do seu
patrimônio líquido cair de algo em torno de 20 milhões de
dólares para, mais ou menos, um milhão — o equivalente à
pesada hipoteca da casa em Nova York. Depois, o mercado
imobiliário despencou e esse milhão de dólares se
transformou em 500 mil. No Natal, eles já tinham vendido
tudo que tinham menos as jóias de Connie e tirado as
crianças do colégio. Mas o verdadeiro problema não era
tanto a catástrofe em si, mas as reações opostas de Connie e
Mike à situação.
Michael Gray era um homem bom. Um cara confiável. E um
homem bom não fica para baixo por muito tempo.
— Pense nos milhões de pessoas que estão em uma situação
pior do que a nossa — dizia ele constantemente para
Connie. — Temos sorte. Temos um ao outro, dois filhos
maravilhosos, bons amigos e algumas economias. Além
disso, nós dois somos jovens o suficiente para voltar a
trabalhar e começar a ganhar dinheiro de novo. Connie
dizia:
— Claro que somos, querido. — E lhe dava um beijo.
Por dentro, ela pensava: Sorte? Você perdeu o juízo?
Connie Gray não queria voltar a trabalhar e começar a
ganhar dinheiro novamente. Ela não queria colocar as mãos
na massa e tentar de novo. Não queria guardar os problemas
em sua velha mochila e sorrir, sorrir, sorrir; e se Mike
abrisse a boca para falar mais uma insensatez dessas, ela o
estrangularia com a única gravata de seda Hermes que
sobrara.
Connie não tinha o menor interesse em se tornar uma das
destemidas e estóicas sobreviventes do colapso. O sonho
americano não era sobreviver. Era vencer. Connie Gray
queria ser uma vencedora. Tinha se casado com um
vencedor e ele a decepcionara. Agora precisava encontrar
um novo protetor, alguém que pudesse proporcionar uma
vida decente para ela e para os filhos.
O caso com Lenny Brookstein não tinha sido planejado.
Caso! A quem estou querendo enganar? Foram só duas ve-
zes. Lenny deixou isso bem claro na noite passada.
Connie sempre se dera bem com o ilustre marido de Grace.
Em épocas mais felizes, ela e Mike jantavam regularmente
com os Brookstein. Inevitavelmente, era sempre Connie e
Lenny que terminavam a noite se acabando de rir de alguma
piada que só os dois entendiam. Grace sempre dizia a
Connie:
— Sabe, é engraçado. Você e Lenny são tão parecidos.
Parecem feitos do mesmo material. Quando ele fala comigo
do Quorum, eu não faço a menor ideia do que está falando.
Você sabe tudo! É como se você realmente se interessasse.
E Connie sempre se perguntava: Como esses dois puderam
se casar?
Lenny Brookstein era brilhante e cativante, inflexível e
ambicioso, e vivo, a pessoa mais viva que Connie já
conhecera. (írace era... doce. Para Connie não fazia o menor
sentido. Mas não ficava pensando muito a respeito. Naquela
época, ela e Michael eram felizes e ricos, mas de uma forma
mais modesta.
Naquela época...
A primeira vez que aconteceu foi no escritório de Lenny,
tarde da noite. Connie fora conversar em particular com o
cunhado sobre um empréstimo-ponte e sobre a possibilidade
de ajudar Michael a encontrar um novo emprego. Os
diretores do Lehman Unham se tornado os leprosos de Wall
Street, infectados pela falência, intocáveis. Michael era um
bom banqueiro, mas ninguém estava disposto a lhe dar uma
segunda chance.
Connie começara a chorar. Lenny a abraçou. Antes que
percebessem, eles estavam no chão, um nos braços do
outro, e Lenny estava fazendo amor apaixonadamente com
ela. Depois, Connie sussurrou:
— Nós somos tão parecidos, eu e você. Nós dois somos
determinados. Michael e Grace não são assim.
— Eu sei — disse Lenny. — É por isso que precisamos
protegê-los. Eu e você sabemos nos proteger.
Não era a resposta que Connie esperara. Mas não saiu
decepcionada naquela noite do Quorum. Pelo contrário,
uma nova e interessante porta acabara de se abrir. Ao deitar
na cama ao lado de Michael naquela mesma noite, ela se
perguntou, animada, aonde essa porta poderia levá-la.
NÃO LEVOU a lugar nenhum.
Duas semanas depois, Connie dormiu com Lenny de novo,
desta vez em um hotel barato em Nova Jersey. Lenny estava
se corroendo de culpa.
— Não consigo acreditar que fizemos isso. Que eu fiz isso -
corrigiu-se ele. — A culpa não é sua, Connie. Você e
Michael estão passando por um momento muito estressante.
Mas eu não tenho desculpa.
Connie sussurrou com a voz rouca:
— Você não precisa de desculpa, Lenny. Você não é feliz
com Grace. Compreendo isso. Ela nunca foi a mulher certa
para você.
Lenny arregalou os olhos. Olhou para Connie genuinamente
incrédulo.
— Não é a mulher certa para mim? Grace? Meu Deus. Ela
é tudo para mim. Eu a amo tanto, eu... — Ele não terminou
a frase, sentia-se sufocado. Um pouco depois, disse: — Ela
nunca poderá saber disso. Nunca. E isso nunca mais pode
voltar a acontecer. Vamos chamar de um momento de
loucura e seguir em frente, está bem?
— Claro — disse Connie. — Se é o que você quer.
Enquanto dirigia de volta para casa e para Michael, ela mal
conseguia conter sua raiva. Seguir em frente? SEGUIR EM
FRENTE? Para o quê? Para uma vida de penúria com meu
não mais bem-sucedido marido, vivendo das migalhas da
mesa da minha irmãzinha? Vai se foder, Lenny Brookstein.
Você me deve. E agora pode me pagar. Acha que eu vou
deixá-lo voltar para os braços de Grace impunemente?
— MAMÃE, olhe para mim!
Cade estava no balanço. Movimentando as pernas finas para
a frente e para trás tentando ganhar altura, depois pulou no
ar, com um som surdo na areia ao aterrissar.
— Viu como eu fui alto, mãe?
— Vi, sim, meu amor. Foi incrível. — Connie puxou seu
fino xale de verão para cima dos ombros. Cashmere, da
Escócia, fora um presente de aniversário de Grace. Logo
tudo o que temos será presente de Grace. A comida em
nossa mesa, as camisas em nosso corpo.
A idéia de passar a semana seguinte com Lenny e Grace na
magnífica mansão de praia deles era suficiente para deixar
Connie nauseada. Principalmente depois da última conversa
em particular com Lenny na pista de dança do Baile do
Quorum na noite anterior. O cretino teve a audácia de ficar
com raiva dela. Dela! Como se tivesse sido ela quem correra
atrás dele. Ele lhe dera esperanças e depois a jogara fora
como lixo, correndo de volta para sua irmãzinha e para a
vida perfeita deles, e agora Connie devia ficar grata por ele
pagar a passagem aérea para que ela ficasse na mansão de 60
milhões de dólares e assistisse aos dois dando beijinhos?
Foi Michael quem insistiu:
— Eu gostaria de ir. Foi generoso da parte de Lenny nos
convidar, e para mim seria bom me afastar um pouco de Nova
York. Velejar um pouco, respirar o ar da praia.
Michael sempre gostara de Lenny. Mas era Michael. Ele
gostava de todo mundo. Quando Lenny fez o convite no
dia anterior, à noite, Michael quase lambeu a mão dele.
Se ele soubesse onde as mãos de Lenny Brookstein
estiveram - nos meus seios, na minha bunda, entre as
minhas coxas —, não lamberia tão rápido.
Mas Michael Gray não sabia.
Contanto que Lenny fizesse o que era decente e desse a
Connie o que ela queria, ele nunca precisaria saber.
Capítulo 5
A PROPRIEDADE DE Grace e Lenny Brookstein em Nantucket
era uma enorme mansão idílica com telhas cinza que ficava
na Cliff Road, ao norte da ilha. A casa principal ostentava
dez suítes, uma piscina coberta e um spa, uma sala de
cinema com o que havia de mais moderno, uma cozinha de
restaurante e um espaçoso terraço com telhado triangular
(conhecido em Nantucket como "porto das viúvas", porque
no passado as esposas dos marinheiros costumavam subir até
o telhado de suas casas para ficar olhando para o mar, na
esperança de ver os barcos de seus maridos, havia muito
desaparecidos, voltando para casa). Jardins formais, com
lavandas, rosas e cercas vivas em estilo europeu desciam
colina abaixo até uma das mais tranquilas e famosas praias da
ilha. Ao pé dos jardins, ficavam quatro chalés para hóspedes
cercados de glicínias, charmosas casas de boneca de madeira
branca, cada uma com seu pequeno quintal e cerca branca.
Em qualquer outro lugar, esses chalés seriam nauseantes.
Mas ali, naquela ilha mágica congelada em uma era antiga e
mais simples, eles funcionavam.
Pelo menos era o que Grace Brookstein achava. Ela os
construíra e projetara, até o último travesseiro Ralph Lauren
e banheira vitoriana.
Grace adorava Nantucket. Foi ali que ela e Lenny se casa-
ram, sem a menor dúvida o dia mais feliz da vida de Grace.
Mas era mais do que isso. Havia uma simplicidade na ilha
que não existia em nenhum outro lugar. É claro que existia
dinheiro em Nantucket. Muito dinheiro. Pequenos chalés de
pescadores com três quartos mudavam de mãos por mais de
2 milhões de dólares. Durante o verão, restaurantes cinco
estrelas como o 21 Federal e o Summerhouse cobravam
mais por sua lagosta do que o George V em Paris. Butiques
das mais famosas grifes nas ruas Union e Orange exibiam
cardigãs de mil dólares em suas vitrines. Galerias de arte
representando artistas locais vendiam peças por seis dígitos,
às vezes até sete, para os moradores mais ricos da ilha. Ainda
assim, de alguma forma, Nantucket permanecia um lugar
simples. Em todos os anos em que vinha para a ilha, Grace
nunca vira carros esportivos. Bilionários e suas esposas
andavam pela ilha usando short de brim e camisetas de
algodão branco da Gap. Até os iates no porto eram
conservadores, muito menos chamativos do que os de East
Hampton, Saint-Tropez ou Palm Beach. Lenny só atracava
em Nantucket um modesto barco de 47 pés. Ele teria
morrido de vergonha se aparecesse ali com seu Quorum
Queen de 300 pés, embora, na Sardenha, Grace mal
conseguisse tirá-lo dali de dentro.
Nantucket era um lugar onde pessoas ricas fingiam ser po-
bres. Ou, pelo menos, mais pobres. Fazia com que Grace se
sentisse nostálgica, lembrando-se da infância, de uma época
mais simples em sua vida, uma época de prazeres inocentes.
Ela ficava muito feliz com o fato de Lenny gostar tanto da
ilha quanto ela. Além de Le Cocon, o retiro que eles tinham
em Madagascar, não havia nenhum outro lugar na terra em
que Grace se sentisse tão relaxada. Os Brookstein eram
felizes em qualquer lugar, mas aquela casa era onde eram
mais felizes.
Grace e Lenny chegaram três dias antes de seus convidados.
Lenny ainda tinha trabalho para colocar em dia (como
sempre!) e Grace precisava de tempo para conversar com os
empregados e se certificar de que tudo estivesse perfeito
para seus hóspedes.
- Deixem Honor e Connie com os maiores chalés porque
elas têm filhos. Andrew e Maria podem ficar com aquele
mais perto da areia, e os Merrivale podem ficar com o
menor. Caroline já esteve aqui, então tenho certeza de
que não vai se incomodar.
Havia tanto o que fazer! Planejar cardápios, encomendar
flores, ver se todas as bicicletas e varas de pescar estavam
prontas para seus sobrinhos e sobrinhas. Para Grace, parecia
que ela nunca via Lenny.
Na noite anterior à chegada da horda, os dois tiveram um
jantar romântico no Chanticleer, um lindo restaurante
reservado na aldeia de pescadores de Siasconset. Bem, teria
sido romântico se Lenny não tivesse passado a noite toda
grudado ao seu BlackBerry.
- Está tudo bem, amor? Você parece tão estressado.
Grace estendeu o braço por cima da mesa e apertou a mão
dele.
- Desculpe, meu bem. Está tudo bem. Só estou um pouco...
Tem muita coisa acontecendo neste momento. Mas nada
com o que precise se preocupar, meu anjo.
Grace tentou não se preocupar, mas era difícil. Lenny nunca
trazia os problemas do trabalho para casa. Nunca. Naquela
manhã, um mendigo inofensivo pedira um trocado para
Lenny, que lhe passou um sermão de dez minutos sobre
alcoolismo e assumir responsabilidades. Mais tarde, Grace
estava colhendo framboesas no jardim quando entreouviu
gritos pela janela do quarto deles. Ele estava falando ao
telefone com John Merrivale. Grace não conseguiu entender
tudo o que ele dizia. Mas uma frase ficou martelando em sua
cabeça:
— Todos querem um pedaço de mim, John. Os cretinos es-
tão me sugando. Se você estiver certo sobre Preston, depois
de tudo o que fiz por ele... Vou cortar a mão dele fora.
O que ele queria dizer com "me sugando"? E quem eram os
cretinos? Certamente não Andrew Preston. Ele trabalhava
com Lenny desde o primeiro ano. Ele e Maria eram
praticamente da família, assim como os Merrivale.
O único conforto de Grace era que, pelo menos, Lenny es-
tava falando com John. Ela sabia o quanto o marido confiava
nele e o respeitava como um irmão. Independentemente do
problema, Grace tinha certeza de que John saberia o que
fazer. No dia seguinte, ele estaria ali. Então, quem sabe,
Lenny se sentiria mais relaxado.
As FÉRIAS COMEÇARAM tranquilamente. Assim que os
hóspedes chegaram, Lenny ficou mais relaxado, quase o
Lenny de sempre. Com exceção de Jack Warner, que ainda
parecia de mau humor, todos pareciam felizes por estar ali e
determinados a se divertir.
Michael Gray se designou o animador das quatro crianças e
levou as sobrinhas, Bobby e Rose, para pescar caranguejos
com os primos, e deu a todos sorvetes no Jetties Beach.
Grace ficou encantada. Tinha pena de Mike e Connie por
tudo o que tinham passado no último ano. Dava para ver que
as férias estavam fazendo bem a Mike. Quanto a Cooper e o
pequeno Cade, eles estavam no sétimo céu, andando de
bicicleta o dia todo ou cobertos de areia até o pescoço.
Durante o dia, os outros homens — John, Andrew, Jack e
Lenny — velejavam ou jogavam golfe enquanto suas esposas
faziam compras como terapia. Grace adorava dar pequenos
presentes para as irmãs. Nada lhe proporcionava mais prazer
do que gastar seu dinheiro com outros, principalmente
Connie e Honor. Faria o mesmo por Caroline e Maria, mas
achava que nenhuma das duas permitiria.
Elas provavelmente não se sentem à vontade porque sou
muito mais nova do que elas. Pensam em mim como uma
filha. Ainda assim, Caroline sempre tinha sido tão atenciosa
com ela. Grace estava determinada a encontrar uma forma
de mostrar sua gratidão.
— Eu estava pensando em oferecer um jantar especial
amanhã — Grace contou para Lenny no escritório. Ela
estava transbordando animação. — Vou perguntar a John
todos os pratos preferidos de Caroline e pedirei para Felícia
preparar. O que você acha?
Lenny a fitou com carinho.
— Acho uma ótima idéia, Grace.
Grace virou-se para sair, mas ele estendeu o braço e segurou
a mão dela.
— Eu amo você. Sabia disso?
Ela riu e o abraçou.
— Claro que sei. Francamente, Lenny! Que coisa estranha
para se dizer.
- Eu NÃO VOU me sentar ao lado dela. Nem de Lenny. E não
espere que eu bata palmas como uma foca amestrada e nem
demonstre gratidão. Vou deixar isso por sua conta, John.
Caroline Merrivale estava com o humor péssimo. Embora
tivesse insistido para que aceitassem o convite de Lenny
para Nantucket, agora culpava John por tudo. Os passeios
chatos, a companhia monótona, o fato de terem sido
relegados ao pior e menor chalé para hóspedes. Ela se
recusava a ver o "jantar especial" de Grace como outra coisa
a não ser um ato de arrogância.
— Só nã-não faça uma cena, Carol, certo? É só o que lhe
peço.
— É só o que me pede? Que direito você tem de me pedir
alguma coisa? Já falou com Lenny? Sobre o aumento?
John pareceu aflito.
— Ainda não. Não é tão si-simples quanto você parece achar.
— Muito pelo contrário, John. É muito simples. Ou você fala
com ele ou eu falo.
— Não! Você não po-pode! Por favor, deixe Le-Lenny
comigo.
— Certo. Mas então é melhor criar coragem e falar com ele
antes que estas férias acabem. Se eu tiver de escutar mais
uma vez a esposinha fútil dele me dizer o quanto é grata pela
minha incrível amizade, não me responsabilizo pelos meus
atos.
John Merrivale pensou com tristeza: Grace é grata pela sua
amizade. Coitada.
Lenny era um homem de sorte. Esposas como Grace eram
uma em um milhão.
— POR FAVOR, não façam cerimônia. Podem se servir!
Grace estava inexplicavelmente nervosa. O jantar parecia
fabuloso. Felicia tinha se superado como sempre. A sopa de
lagosta estava com um cheiro delicioso e tinha o tom cor-
de-rosa perfeito, o cordeiro assado dava água na boca de tão
suculento em cima das verduras orgânicas e a Pavlova de
framboesa parecia mais uma escultura do que uma
sobremesa, uma torre triunfante de merengue branco como
a neve e frutas vermelhas como sangue. Caroline não
poderia não ficar satisfeita.
Mesmo assim, Grace não conseguia curtir seu triunfo. Mais
cedo, naquele mesmo dia, ela escutara Connie conversando
acaloradamente com Lenny na praia, depois se afastando
com lágrimas nos olhos. Quando Grace alcançou a irmã e
perguntou qual era o problema, Connie a dispensara.
- É Michael — explicou Lenny. — Ele está deprimido. Eles
estão passando por um momento de muito estresse, meu
bem. Não leve para o lado pessoal.
Mas Grace levou para o lado pessoal. Menos de quatro horas
antes, Honor também fora grosseira com ela. Grace só tinha
perguntado se ela queria ir ao spa.
- Nem tudo na vida pode ser resolvido com uma merda de
massagem, Grace, sabia? Deus, essa é a resposta para tudo?
Gastar mais dinheiro mimando a si mesma?
Grace ficou profundamente magoada. Não era uma pessoa
materialista. Honor, mais do que qualquer outro, deveria
saber disso. Para ser justa, Honor pedira desculpas depois.
- É o Jack. Ele está com tanta coisa na cabeça. Acho que o
estresse dele está me afetando. — Grace a perdoou e elas
fizeram as pazes. Mas, ainda assim, a ansiedade continuava.
Talvez estivesse imaginando, mas, para Grace, havia uma
tensão quase palpável ao redor da mesa naquela noite.
Todos estão infelizes. Até Lenny. Quero fazê-los felizes, mas
não consigo.
- A sopa está divina, Grace. Bom trabalho. — Michael Gray
sorriu para sua cunhada.
- Obrigada. — Ela retribuiu o sorriso. Ele não me parece
deprimido.
Maria Preston disse com uma expressão de desprezo:
- É verdade, devemos parabenizar o chef. Ele deve ter
trabalhado como um escravo o dia todo para preparar este
banquete.
Andrew Preston corou. Nem mesmo Grace Brookstein era
burra o suficiente para não perceber uma agulhada como
aquela. Gostaria que Maria se segurasse, mas, após umas taças
de vinho, ela era letal. Já era ruim o bastante ela ter insistido
para vir jantar com um luxuoso vestido de noite Roberto
Cavalli, com uma fenda até a coxa e muito inapropriado para
a ocasião.
— Maria, cara. Todo mundo vai estar vestindo jeans ou
vestidos simples de verão. Você está deslumbrante, meu
anjo, como sempre. Mas não poderia...
— Não, Andy. Não poderia. Eu não sou todo mundo. Ainda
não entendeu isso?
Grace era educada demais para morder a isca de Maria.
Lenny não tinha tais escrúpulos.
— Na verdade é "uma" chef. Felicia. — O tom de voz dele
era comedido. — E ela trabalha duro, mas eu não a chamaria
de escrava. No ano passado, paguei a ela bem mais do que
paguei ao seu marido, Maria.
Andrew corou ainda mais. Maria o fitou com uma fúria
silenciosa.
Grace desejou que o chão se abrisse e a engolisse. Detestava
confrontos. Lenny, por outro lado, estava cansado de pisar
em ovos.
— Senador Warner — disse ele, alegremente. — Está
terrivelmente quieto esta noite. Qual é o problema, Jack?
Não está com espírito de festa?
Se um olhar pudesse matar, Lenny Brookstein teria caído
morto sobre a mesa.
— Não, Lenny, não estou. Os níveis de desemprego no
meu distrito eleitoral chegam a dez por cento. Enquanto
estamos aqui sentados em volta da sua mesa, comendo boa
comida e tomando bom vinho, as pessoas que votaram em
mim estão perdendo suas casas, seus empregos, seus planos
de saúde, sua esperança. E eles contam comigo para tentar
consertar as coisas pra eles. Então, não, não estou com espí-
rito de festa. Se me der licença.
Honor assistiu horrorizada enquanto Jack se levantava da
mesa e deixava a sala. Ele finalmente tinha aberto o jogo
sobre suas dívidas de jogo na noite anterior. Honor não
pregara o olho a noite toda. Foi a exaustão que fez com que
perdesse a cabeça com Grace mais cedo, algo pelo qual
sentiu remorso o dia todo. Não porque se importasse com os
sentimentos de Grace. Mas porque o objetivo daquela
viagem era tentar se aproximar mais de Grace para que ela
influenciasse Lenny a ajudar Jack.
Na noite anterior, Jack tinha dito aos gritos:
— Eu preciso de Lenny Brookstein! Sem o dinheiro dele,
estou acabado, entendeu? Nós estamos acabados.
Honor entendeu. Mas ali estava Jack, saindo da mesa como
uma criança mimada, constrangendo os dois na frente de
todo mundo.
— É melhor eu ir atrás dele — disse ela, resignada. —
Desculpe, Grace. Lenny.
O jantar se arrastou. Depois da saída dos Warner, todo
mundo se esforçou para parecer contente, mas as cadeiras
vazias de Honor e Jack pareciam dois fantasmas no
banquete. John Merrivale fez um brinde, agradecendo a
Grace pelo jantar, mas a gagueira dele ficou tão ruim que
Caroline precisou terminar. Connie saiu antes da sobremesa,
alegando dor de cabeça. Quando a empregada trouxe o café,
os sorrisos forçados dos hóspedes estavam começando a
sumir.
Mais tarde, na cama com Lenny, Grace se debulhou em
lágrimas.
— Foi um desastre, não foi? Por que tudo gira em torno dessa
estúpida economia o tempo todo? Connie e Michael
perdendo a casa, Jack preocupado com o desemprego.
— Acho que esse não é o único motivo do estresse dele,
meu bem.
— Até Caroline e Maria enquanto faziam o cabelo hoje
estavam reclamando sobre como Andrew e John estão
ganhando menos este ano. Odeio isso.
Lenny ficou furioso.
— Maria e Caroline estavam reclamando com você? Está
brincando comigo? Elas têm sorte porque o marido delas
ainda tem emprego. A Comissão de Valores Mobiliários está
nos rondando feito urubus.
Grace engasgou.
— Estão investigando você?
— Não se preocupe, meu bem, não é nada. Uma tempestade
em copo d'água. Eles estão investigando todos os grandes
fundos de hedge no momento. A questão é que são tempos
difíceis, e o Quorum sobreviveu por minha causa. Ou seja,
os maridos daquelas vadias ingratas sobreviveram por minha
causa.
— Por favor, querido — soluçou Grace. — Não fique furioso.
Eu não devia ter dito nada. Não aguento mais brigas esta
noite. Sério, não posso suportar.
Lenny a pegou nos braços.
— Desculpe — sussurrou ele. — Eu estou parecendo um
estraga-prazeres nesta viagem, não estou?
Grace se aninhou no corpo dele. Sempre se sentia feliz e
segura quando estava junto a ele.
— Vou lhe dizer uma coisa. Amanhã de manhã, vou acor-
dar cedo e sair de barco sozinho. Velejar sempre me ajuda a
clarear as idéias. Quando eu voltar para casa, estarei tão
relaxado que você nem vai me reconhecer.
— Parece ótimo. — Grace começou a pegar no sono.
Depois, ela tentaria se lembrar das palavras exatas que Lenny
dissera em seguida. Era tão difícil diferenciar o sonho da
realidade. O que ela achou que ouviu foi:
— Independentemente do que acontecer, Gracie, eu amo
você. — Mas talvez ela tenha sonhado. A única coisa que
sabia é que tinha dormido feliz naquele dia.
Pela última vez.
Capítulo 6
JOHN MERRIVALE APERTOU O cinto de segurança e fechou os
olhos enquanto o bimotor de seis lugares subia através das
nuvens. Sempre com medo de voar, John tinha terror a
esses pequenos aviões. Era como confiar sua vida a um
cortador de grama.
— Não se preocupe. — A mulher ao lado dele sorriu de
forma amável. — É sempre turbulento de manhã cedo, antes
de o sol atravessar as nuvens.
John Merrivale pensou: O sol consegue atravessar as
nuvens? Depois sorriu para si mesmo por estar tão filosófico
logo naquele dia.
Se o cortador de grama não os decepcionasse, eles aterris-
sariam em Boston em 25 minutos. Eram 6h15.
Às 8H15, ANDREW PRESTON tomou seu lugar em um avião
diferente. O Fokker 100 para cem passageiros estava com
apenas dois terços de sua lotação. Acho que poucas pessoas
viajam de Nantucket para Nova York em uma manhã de
terça-feira. Todo mundo foi embora ontem.
Ele ficou confuso na noite anterior quando recebeu um
telefonema já bem tarde solicitando urgentemente sua
presença no escritório. Peter Finch, o chefe da equipe de
investigação da Comissão de Valores Mobiliários que estava
examinando as contas do Quorum, queria vê-lo
pessoalmente. Andrew estava aterrorizado com a reunião.
Podia pensar em algumas razões para Finch tê-lo chamado
de volta para Nova York, e muitas ruins. Por outro lado,
estar longe do escritório fazia com que se sentisse fora do
controle. Acreditava ter coberto seus rastros, mas esses
cretinos da Comissão eram como cães de caça.
De qualquer forma, ele precisava sair de Nantucket. Aquele
chalé de hóspedes estava começando a parecer uma prisão.
Após sua humilhação pública na noite anterior, Maria ficara
histérica e furiosa, xingando Andrew, gritando com ele e até
atacando-o fisicamente. Ao arregaçar a manga da camisa, ele
ainda podia ver os arranhões vermelhos deixados pelas
unhas dela.
— Como você ousa permitir que Lenny Brookstein nos
trate daquela forma! Ele me ridicularizou, e você ficou lá
sentado e não fez nada.
Andrew resistiu à vontade de dizer a Maria que foi ela quem
começara ao tentar ridicularizar Grace. Em vez disso, ele
disse:
— O que você queria que eu fizesse? Ele é meu chefe. Ele
paga as nossas contas.
— Muito mal! Ele paga menos para você do que para a mal-
dita cozinheira. Você não ouviu quando ele disse isso? Isso
não o incomoda?
Andrew tinha escutado. E isso o perturbara. Tinha quase
certeza de que Lenny estava brincando. Se a cozinheira
estava ganhando mais do que ele, ela certamente estava com
um salário muito alto. Mas não era raro escutar sobre a
generosidade de Lenny ao tomar algumas decisões
peculiares. Tentou racionalizar. Por que eu deveria me
importar com o quanto Lenny paga a alguém? Afinal, o
dinheiro é dele. Ele pode fazer o que bem entender. Mas
ainda doía. Talvez, em algum nível subconsciente, isso
justificasse o que Andrew tinha feito.
Maria dormia profundamente quando ele saiu naquela
manhã, exausta da fúria e da bebedeira da noite anterior.
Quando acordasse, estaria com uma tremenda ressaca.
Andrew não queria estar nem a 100 quilômetros de
distância quando isso acontecesse. Agora não precisaria
estar.
— Tripulação, por favor, tome seus assentos para a de-
colagem.
Fechando os olhos, Andrew Preston tentou relaxar.
GRACE SE ENCONTROU com as irmãs para almoçarem no
Cliffside Beach Club.
Após o estranho encontro delas no dia anterior, Connie
estava solícita como nunca com Grace, até a presenteou
com uma linda concha cor-de-rosa que encontrara na praia
naquela manhã.
— Sei que não é muito, mas achei que ficaria bonito na
sua penteadeira.
Grace ficou emocionada. Sabia como era difícil para Connie
se desculpar. A concha valia mais do que mil palavras.
Honor perguntou:
— Maria e Caroline vão conosco?
Usando um leve vestido creme J. Crew que a deixava
desinteressante, e com o cabelo preso em um rabo de
cavalo, Honor parecia exausta. Grace se perguntou se ela e
Jack haviam brigado na noite anterior, depois de ele se
retirar da sala de jantar, mas era educada demais para puxar o
assunto.
— Acho que não. Caroline foi à cidade comprar um qua-
dro. E Maria ainda está dormindo. Acho.
As irmãs se entreolharam.
— Fico imaginando o que ela usa para dormir. — Connie
riu. — Pijama Versace bordado a ouro?
Foi um momento agradável, gostoso. Grace finalmente
começou a relaxar.
A garçonete veio e anotou os pedidos. Elas estavam sentadas
a uma mesa do lado de fora, bem na beira da praia, mas
quando a entrada chegou, nuvens escuras cobriam o céu.
O gerente apareceu.
— Gostaria de passar para uma mesa lá dentro, Sra.
Brookstein? Tenho uma ótima mesa perto da janela para
oferecer às damas. — Naquele instante, um trovão soou e
fez todo mundo pular. Segundos depois, pingos grossos de
chuva começaram a cair sobre a mesa.
— Quero sim, por favor — disse Grace, rindo. Pensou em
Lenny no barco. Espero que ele esteja bem e protegido da
chuva na cabine, e não no deque pegando uma gripe.
JÁ ERAM QUASE 16 horas quando as irmãs chegaram em casa
e a tempestade já estava com força total. Michael Gray as
encontrou na porta da frente.
— Graças a Deus vocês voltaram — disse ele, abraçando
Connie com força.
— Só fomos almoçar no clube, amor. — Ela riu. — Por que
você está em pânico?
— Eu não sabia onde vocês estavam, só isso. Achei que
podiam ter saído para velejar com Jack. As condições não
estão nada boas no mar.
— Jack foi velejar? — O rosto branco de Honor ficou ainda
mais branco. — As meninas estão com ele?
— Não — disse Michael. — Não se preocupe. Bobby e Rose
estão brincando com os meninos na cozinha. Estão um
pouco entediadas, mas só isso.
— E Jack? Alguém teve notícia dele?
— O rádio dele está quebrado.
Os joelhos de Honor começaram a tremer, Jack era um
excelente velejador desde a adolescência, mas uma
tempestade como aquela testa as habilidades de qualquer
um, até as dele.
— Tudo bem — disse Michael. — A guarda costeira acha que
o localizou. Logo teremos mais notícias. Está uma loucura lá,
vocês podem imaginar, mas eles estão tentando trazer todo
mundo de volta para o porto. Entrem, saiam da chuva.
— E Lenny?
Connie e Honor tinham entrado, mas Grace estava conge-
lada na entrada. Chuva pingava de seu cabelo e da ponta de
seu nariz. Parecia ter 12 anos.
Michael Gray franziu a testa.
— Lenny? Achei que ele estivesse no clube de golfe. Foi o
que ele disse aos empregados quando saiu esta manhã.
Porque ele queria ficar sozinho. Não queria que você ou
Jack se convidassem para ir com ele.
— Não. — Grace estava tremendo. — Ele está no barco.
— Alguém foi com ele?
— Não. Acho que não.
Michael tentou esconder sua preocupação.
— Tem alguma ideia de aonde ele ia, Grace? Quais eram os
planos dele?
Grace balançou a cabeça.
— Tudo bem, querida. Não se preocupe. Nós o
encontraremos. Entre, vou ligar para a guarda costeira. Eles
são os melhores. Logo ele estará em casa, você vai ver.
JACK WARNER CHEGOU em casa às 18 horas, encharcado e
muito abalado.
— Nunca vi uma tempestade se aproximar tão depressa.
Nunca. — Honor o abraçou. Sem pensar, Jack retribuiu o
abraço.
Connie e Michael estavam no andar de cima, colocando as
crianças para dormir. Grace, Honor, Caroline e Maria
estavam sentadas na cozinha esperando alguma notícia. O
barco de Lenny ainda estava desaparecido.
John Merrivale tinha voltado de sua viagem de trabalho uma
hora antes. Aproximando-se de Grace, ele a abraçou,
ignorando os olhares furiosos de Caroline.
— Tente não se p-p-preocupar. Lenny é um velejador
experiente.
Grace mal registrou o que ele tinha falado. Estava ocupada
demais rezando.
Perdi um pai, Deus. Por favor, não me deixe perder outro.
EXATAMENTE ÀS 20H17, O telefone tocou. Grace pulou para
atender.
— Alô?
Dez segundos depois, ela desligou. Os dentes tremendo.
— Grace? — Caroline Merrivale se aproximou dela. — O que
é? O que eles disseram?
— Encontraram o barco.
Um coro de "graças a Deus" e "eu disse" ecoou. Quando
todos pararam de se abraçar, Grace disse baixinho:
— Lenny não estava dentro.
Então, ela desmaiou.
Capítulo 7
Mais tarde, as lembranças de Grace do período após o
desaparecimento de Lenny eram como um borrão, um
longo e Ininterrupto pesadelo. Horas se transformavam em
dias, dias em semanas, mas nada parecia real. Ela estava
vivendo em um transe, uma medonha meia-vida da qual só
uma pessoa poderia resgatá-la. E essa pessoa não estava mais
ali.
Após três dias, a guarda costeira encerrou as buscas. Em todo
o mundo, as manchetes anunciavam:
LEONARD BROOKSTEIN DESAPARECIDO, PROVAVELMENTE
MORTO
GÊNIO DOS FUNDOS DE HEDGE PERDIDO NO MAR
HOMEM MAIS RICO DE NOVA YORK PODE TER MORRIDO
AFOGADO
Grace nunca lera nada tão terrível em sua vida. Se, naquela
época, alguém lhe dissesse que o pior ainda estava por vir,
ela não teria acreditado. Como alguma coisa podia ser pior
do que a vida sem Lenny?
Foi John Merrivale quem a levou para casa em Nova York.
As irmãs dela e os outros já tinham voltado quando a busca
foi encerrada, mas Grace não tinha forças para sair de
Nantucket.
— Você não pode ficar enterrada nesta ilha para sempre,
Gracie. Todos os seus amigos estão na cidade. Sua fa-família.
Você precisa de apoio.
— Mas não posso deixar Lenny, John. É como se eu o esti-
vesse abandonando.
— Grace querida, eu sei que é difícil. Te-terrivelmente di-
fícil. Mas Lenny se foi. Você precisa aceitar isso. Ninguém
conseguiria sobreviver nem um dia naquelas á-águas.
Racionalmente, Grace sabia que John estava certo. O difícil
era convencer seu coração. Lenny não estava morto. Não
podia estar. Até que visse o corpo dele com seus próprios
olhos, não perderia as esperanças.
Milagres acontecem. Acontecem o tempo todo. Talvez ele
tenha sido resgatado por um barco pesqueiro. Talvez um
barco estrangeiro, com pessoas simples que não saibam
quem ele é. Talvez ele tenha perdido a memória. Ou
encontrado uma ilha em algum lugar.
Era ridículo, claro. Vozes em sua cabeça. Mas naqueles
primeiros dias, Grace se agarrava a essas vozes como quem
se agarra à própria vida. Eram tudo que tinha lhe restado de
Lenny e não estava preparada para abrir mão delas. Ainda
não.
Quando voltou para o apartamento deles na Park Avenue,
Grace encontrou centenas de buquês de flores esperando
por ela. Havia tantos cartões de condolências que poderia
empilhar até o teto.
— Viu? — disse John.—Todo mundo ama vo-você,
Grace. Todo mundo quer ajudar.
Mas os cartões e as flores não ajudavam. Eles eram
indesejados, lembranças tangíveis de que, para o mundo,
Lenny estava morto.
A 5 QUILÔMETROS DALI, no escritório do FBI dc Nova York,
na Federal Plaza, número 26, três homens estavam sentados
em volta de uma mesa.
Peter Finch, da Comissão de Valores Mobiliários, era um
homem baixo e agradável, completamente careca, a não ser
por uma coroa de cabelo ruivo que fazia com que parecesse
um monge. Normalmente, Finch era conhecido por seu
bom humor. Não hoje.
— O que estamos vendo aqui é a ponta do iceberg — disse
ele, de forma implacável.
— Um enorme e maldito iceberg. — Harry Bain, diretor
assistente do FBI em Nova York, balançou a cabeça sem
acreditar. Aos 42 anos, Bain tinha um dos cargos mais altos
do FBI. Bonito, charmoso e formado em Harvard, com
cabelo muito preto e penetrantes olhos verdes, Harry Bain
tinha evitado dois dos maiores atentados terroristas já
planejados em solo americano. Foram dois casos enormes.
Mas se o que Peter Finch estava dizendo era verdade, aquele
caso seria ainda maior.
— De quanto estamos falando exatamente? — Gavin
Williams, outro agente do FBI que se reportava a Bain, falou
sem levantar o olhar. Ex-funcionário da Comissão, Williams
deixara a agência enojado depois do fiasco de Bernie Madoff.
Um matemático brilhante com os mais altos diplomas em
modelagem financeira, estatística, programação e análise de
dados, quando jovem, ele sonhara em se tornar um
banqueiro de investimentos, chegando a entrar no programa
de treinamento do J.P. Morgan assim que saiu de Wharton.
Mas Gavin Williams não conseguiu. Ele não tinha o instinto
comercial competitivo necessário para chegar ao topo, nem
as habilidades políticas e sociais que ajudaram seus colegas
de turma menos inteligentes a formar fortunas de dezenas
de milhões. Alto e vigoroso, com cabelo grisalho e postura
militar, Williams era um homem solitário, tão austero e frio
quanto uma estátua. Podia até ser brilhante. Mas no mundo
fechado de Wall Street, ninguém queria fazer negócio com
ele.
Profundamente amargurado por causa dessa rejeição, Gavin
Williams decidiu dedicar o resto de sua vida à perseguição
daqueles que chegaram ao topo, catalogando suas
contravenções com um zelo maníaco. No início, trabalhar
na Comissão lhe deu um propósito. Mas isso tudo mudou
depois de Madoff. Os fracassos da agência nesse caso foram
catastróficos. Gavin não trabalhou no caso, mas se sentia
infectado pelo constrangimento coletivo. Enganados por um
simples esquema Ponzi! Só de pensar nisso, Gavin Williams
tinha noites insones, mesmo agora no seu novo emprego
dos sonhos como chefe do departamento de fraudes
financeiras.
Peter Finch disse:
— Ainda não está claro. Superficialmente, as contas parecem
limpas. Mas depois que Brookstein desapareceu, todos os
investidores do Quorum quiseram seu dinheiro de volta ao
mesmo tempo. Foram esses resgates que revelaram o buraco
negro. E está crescendo a cada dia.
— Mas estão faltando bilhões de dólares aqui. — Harry Bain
coçou a cabeça. — Como tanto dinheiro pode simplesmente
evaporar?
— Não pode. Talvez tenha sido gasto. Ou perdido, desviado
para negócios privados especulativos que não davam lucro e
eram controlados por Leonard Brookstein e seus comparsas.
É mais provável que Brookstein o tenha escondido em
algum lugar. É isso que temos de descobrir.
— Certo. — A mente rápida de Harry Bain estava
funcionando. — Quanto tempo até tudo chegar à imprensa?
Finch deu de ombros.
- Não muito. Alguns dias, uma semana no máximo. Assim
que os investidores começarem a falar, será publicado. Nem
preciso dizer as implicações que isso poderá ter na economia
De uma forma geral. O Quorum é maior do que a GM, quase
tão grande quanto a AIG. Quase todos os pequenos negócios
de Nova York estão expostos. Pensionistas, famílias.
Bain entendeu a mensagem.
- Vou formar uma força-tarefa com nossos melhores
homens para trabalhar nisso hoje. No instante em que
chegar alguma informação nova, vocês devem passar para
Gavin. Gavin, você se reporta diretamente a mim. Nada do
que foi dito hoje deve sair desta sala. Entendido? Quero
manter a mídia longe o máximo possível. A polícia de Nova
York também. A última
coisa de que precisamos é daqueles idiotas nos rondando,
sabotando nosso caso.
Peter Finch assentiu. Gavin Williams estava sentado imóvel,
o rosto impassível, inescrutável. Harry Bain pensou: Sinto-
me como Jim Kirk trabalhando com Spock. Sentiu a
conhecida onda de adrenalina ao pensar em liderar aquela
operação vital. Se eu conseguir rastrear esse dinheiro, serei
um herói. Talvez até tenha uma chance na diretoria. Harry
pensou em sua esposa, Lisa, e em como ela ficaria orgulhosa.
Mas é claro, se eu fracassar...
Mas Harry Bain não fracassaria.
Nunca tinha fracassado na vida.
- HAVERÁ UMA REUNIÃO com os curadores dos bens de
Lenny no mês que vem, Grace, no dia 26. Acho importante
que você vá. Se você conseguir su-suportar.
Fazia duas semanas que Grace tinha voltado para Manhattan,
e John e Caroline Merrivale tinham-na convidado para
jantar.
Quando ela recusou o convite, Caroline foi até o
apartamento dela e a obrigou a entrar em um táxi que estava
esperando. Grace parecia aflita.
— Você não pode resolver isso, John? De qualquer forma,
não vou entender uma palavra do que dirão. Lenny sempre
cuidou das coisas legais.
— Você deve ir, Grace — disse Caroline. — John vai estar lá
com você. Mas você é a única beneficiária do legado de
Lenny. Algumas coisas você vai precisar aprovar.
— Sou? A única beneficiária?
Caroline soltou uma risada curta de escárnio.
— Claro que é, querida. Você era esposa dele.
Grace pensou: Ainda sou esposa dele. Não sabemos se ele
está morto. Não com certeza. Mas não tinha força para
brigar. Grace não pôde deixar de notar que Caroline estava
muito mandona desde que Lenny... desde o acidente.
Sempre que John falava com Grace, ele era firme mas
respeitoso. "Eu realmente acho isso e aquilo. Se você puder,
deveria tentar isso e aquilo." Caroline era muito mais
autocrática. "Faça isso. Diga aquilo."
Bem, talvez seja disso que eu preciso neste momento? Deus
sabe que não pareço capaz de tomar nenhuma decisão
sozinha.
Grace concordou em encontrar com os acionistas.
ERA DIFÍCIL APONTAR quando a mudança começou. Como
todas as coisas, começou de forma quase imperceptível.
Primeiramente, as flores pararam de chegar. Depois, os
telefonemas. Convites para almoços e jantares começaram a
escassear. No dia em que Grace fez um esforço e se arrastou
para fora do apartamento — foi para o clube tomar café —
percebeu que muitas de suas antigas amigas a evitavam.
Tammy Rees praticamente saiu corfendo quando deu de cara
com Grace no vestiário, sussurrando um rápido "como vai?"
antes de sair apressada.
Grace tentou falar sobre isso com as irmãs, mas tanto Honor
quanto Connie estavam distraídas, quase distantes.
Nenhuma delas tinha tempo para conversar. Grace até ligou
para a mãe, um sinal de verdadeiro desespero.
Foi um erro.
— Você provavelmente está imaginando coisas, querida.
Por que não faz um cruzeiro para algum lugar? Afaste-se
dessas coisas. Conheci Roberto em um cruzeiro, você sabe.
Nunca se sabe quando o cupido vai atacar.
Um cruzeiro? Nunca mais vou colocar os pés em um barco
na minha vida.
No dia seguinte, o cartão de crédito Amex Platinum de
Grace foi rejeitado na Bergdorf Goodman. Grace sentiu o
rosto ruborizar enquanto as mulheres que estavam atrás dela
na fila a fitavam.
— Acho que deve haver um engano — disse ela,
docilmente. — Meu crédito é ilimitado.
A vendedora foi gentil:
— Tenho certeza de que isso é apenas um engano, Sra.
Brookstein. Mas é melhor resolver com a American Express.
Ficarei feliz em guardar a sacola com o que a senhora
escolheu.
Não quero a maldita sacola! Só vim aqui para me distrair por
cinco minutos. Para esquecer Lenny. Como se algum dia eu
fosse conseguir isso!
— Obrigada, não tem problema. Eu... eu vou para casa
resolver isso.
Grace ligou para a Amex. Um atendente qualquer lhe disse
que a conta de Lenny tinha sido "encerrada".
— Como assim "encerrada"? Quem encerrou? Eu não en-
cerrei conta nenhuma.
— Sinto muito, madame, mas não posso ajudá-la. A conta
do seu marido foi encerrada.
O pior ainda estava por vir. Contas por serviços não pagos
começaram a chegar. Um homem grosseiro ligou para o
apartamento e informou Grace que os pagamentos da
hipoteca estavam cinco meses atrasados.
— Sinto muito, senhor, mas acho que deve estar me
confundindo com outra pessoa. Nós não temos hipoteca.
— Sra. Brookstein. É com a Sra. Brookstein que estou fa-
lando, certo?
— Sim.
— O saldo em aberto de sua hipoteca é de 16 milhões,
762 mil dólares e 14 centavos. Está no nome da senhora e
do seu marido. Gostaria que lhe mandasse os
demonstrativos?
Foi somente quando Conchita, empregada fiel de Grace,
pediu demissão por causa de salários atrasados, "Sinto muito,
Sra. Brookstein, mas meu marido não quer mais me deixar
vir trabalhar. Só se a senhora me pagar", que Grace superou
o constrangimento e confessou suas preocupações
financeiras para John Merrivale.
— É loucura — disse ela, soluçando ao telefone. — Lenny
vale bilhões, mas de repente estou recebendo todas essas
contas. Ninguém aceita os meus cartões. Não consigo
entender.
Houve um longo silêncio do outro lado da linha.
— John? Você está aí?
— Estou aqui, Gracie. Talvez seja melhor você vir me
encontrar.
JOHN MERRIVALE ESTAVA nervoso. Muito mais nervoso do
que de costume. Grace notou a forma como ele ficava
coçando o pescoço, e seus olhos quase não fitavam os dela.
Sentaram-se frente a frente no sofá do escritorio dele,
conforme John começava a explicar.
— Estão correndo boatos já há algum te-tempo, Grace.
Boatos em Wall Street e entre os nossos investidores. Depois
que Lenny... depois do que aconteceu, o FBI se envolveu.
Grace arregalou os olhos.
— O FBI? Por quê? Que tipo de boatos?
— Lenny era um homem br-brilhante. Um investidor sagaz
e discreto. Uma das razões do sucesso do Quorum é que ele
nunca divulgou sua es-estratégia. Como acontece com a
maioria dos melhores administradores de fundos de hedge, o
modelo dele era mu-muito bem guardado.
Grace assentiu.
— Ele me disse que era como herdar a receita do molho de
espaguete da sua avó. Todo mundo que come tenta
adivinhar 0 ingrediente secreto, mas você nunca pode
contar.
— Exatamente. — John Merrivale sorriu. Ela é realmente
uma criança. — Meu trabalho era levantar fu-fundos para o
Quorum. Com o desempenho de Lenny, isso era fácil.
Estávamos re-recusando dinheiro. O trabalho de Lenny era
investir esses fundos. Ninguém, ne-nem mesmo eu, sabia
exatamente onde ele colocava o dinheiro. Até ele
desaparecer, isso parecia não importar.
— Mas depois?
— Apesar de seu tamanho e tremendo sucesso, o Quorum
ainda era fu-fundamentalmente dependente de um homem
só. Quando Lenny desapareceu, as pessoas qui-quiseram
resgatar seu capital. Muita gente. Todos ao me-mesmo
tempo.
— E isso foi um problema?
John Merrivale suspirou.
— Foi. Muito dinheiro está... bem, não sabemos
exatamente onde está. Não está registrado. É complicado.
— Entendo. — Grace pensou a respeito por alguns mo-
mentos. — É por isso, então, que o FBI está envolvido? Para
tentar resolver essa confusão?
John passou a coçar o pescoço com ainda mais força.
— Em um aspecto, sim. Mas, in-infelizmente, tem outros
aspectos desagradáveis. Como a quantia de dinheiro envol-
vida é tão alta: dezenas de bilhões de do-dólares, no
mínimo, a polícia acredita que Lenny pode ter de-
deliberadamente roubado.
— Isso é ridículo! Lenny nunca roubaria. Além disso, por
que ele roubaria o próprio fundo?
— Eu na-não acredito que ele tenha feito isso, Grace. Que-
quero que saiba disso. — John pegou a mão dela. — Mas
outras pessoas, os investigadores do FBI, os jo-jornais, estão
tirando conclusões. Eles dizem que quando a Comissão de
Valores Mobiliários começou a investigar, Lenny sabia que o
Quorum iria quebrar e que ele ficaria exposto. Gr-Grace, eles
estão dizendo que Lenny pode ter co-cometido suicídio.
Grace se sentiu enjoada.
Suicídio? Lenny? Não. Nunca. Mesmo se ele tivesse roubado
algum dinheiro, ele nunca me deixaria. Nunca tiraria a
própria vida.
Ela se esforçou para manter a voz firme.
— O que quer que tenha acontecido naquele barco, John, foi
um acidente. Lenny estava feliz quando me deixou aquela
manhã. Por que o FBI ainda não falou comigo? Eu teria dito
isso a eles!
— Te-tenho certeza de que eles vão querer falar com você a
qualquer momento. Assim que tiverem um a-atestado de
óbito, provavelmente vão começar uma investigação. Neste
momento, a pri-principal preocupação é em localizar o di-
dinheiro desaparecido. Até que isso aconteça, todos os
ativos do Quorum foram congelados, assim como as suas co-
contas pessoais.
Grace parecia tão pequena e perdida, sentada na pontinha do
sofá. Se John Merrivale fosse um homem com mais tato,
teria se aproximado e a abraçado. Mas ele apenas disse:
— Tente não se preocupar. Sei que é difícil. Mas eu e vo-
você sabemos que Lenny não era um ladrão. A verdade vai
acabar aparecendo. Tudo vai ficar bem.
Não, não vai. Não sem Lenny. As coisas nunca vão ficar
bem de novo.
Foi NA MANHÃ SEGUINTE que a tempestade começou.
Investidores furiosos invadiram os escritórios do Quorum,
exigindo seu dinheiro de volta. A CNN exibiu imagens do
que parecia uma revolução, com a polícia tentando afastar os
manifestantes. Em poucas horas, a provável escala do que
agora estava sendo chamada de a Fraude do Quorum era
manchete nos jornais de todo o mundo.
Grace assistiu a tudo pela televisão, chocada. "Leonard
Brookstein, que já foi um dos filantropos mais amados de
Nova York e um ícone norte-americano, hoje está sendo
exposto como talvez o maior ladrão da história dos Estados
Unidos. Do lado de fora dos escritórios do Fundo de Hedge
Quorum, de Brookstein, investidores furiosos queimaram
imagens de Leonard Brookstein, de 58 anos, dado como
morto em um acidente de barco no mês passado."
O telefone tocou. Era John. Grace desmoronou.
— Ah, John! Você viu o que estão falando de Lenny? As
notícias... Não consigo nem assistir.
— Grace, es-escute. Você não está segura. Vo-vou até aí
pegá-la.
— Mas isso é loucura. Por que alguém ia querer me fazer
mal? -— As pessoas perderam a cabeça, Grace. Lenny nã-
não está
aqui. Você é a próxima da fila.
— Mas, John...
— Na-nada de mas. Você deve ficar conosco. Faça as ma-
las. Estarei aí em d-dez minutos.
Dez minutos depois, Grace estava no banco traseiro de um
carro blindado. Ao sair do prédio, um pequeno grupo de
repórteres inoportunos já estava reunido do lado de fora.
Zombaram dela.
— Onde está o dinheiro, Grace?
— Onde Lenny o escondeu?
— Os 70 bilhões estão na sua mala ou você está apenas
contente de nos ver?
Quando John conseguiu colocá-la dentro do carro, Grace já
estava ofegante.
Ela nunca mais colocou os pés em seu apartamento.
— NÃO. NÃO VOU vender. Não posso.
Grace estava na sala de reuniões da firma de advogados
Carter Hochstein. Em volta da mesa, havia seis homens de
aparência ameaçadora, usando ternos escuros. John
Merrivale os apresentou como os curadores de Lenny, os
homens responsáveis por administrar os bens dele.
— Infelizmente, Sra. Brookstein, não tem outra escolha.
Em outras palavras, a senhora não tem dinheiro para
continuar pagando a hipoteca do apartamento. Teremos de
colocar todos os seus ativos no mercado. Historicamente,
seu marido fez a vida pegando empréstimos de grandes
quantias e dando como garantia o valor da participação dele
no Quorum. Agora, estão exigindo o pagamento desses
empréstimos, e a senhora não tem nenhum meio imediato
de pagá-los.
Grace virou-se para John Merrivale, confusa.
— Mas como pode ser? Eu não posso vender algumas
ações de alguma coisa?
John parecia aflito.
— O caso é o seguinte, Grace, até que toda esta confusão no
Quorum se resolva, você n-não tem nenhuma ação para
vender.
— Sra. Brookstein. — Kenneth Greville, o sócio mais velho,
foi direto ao ponto:—A senhora precisa entender. Enormes
quantias de dinheiro estão desaparecidas no Quorum.
Centenas de milhares de investidores do seu marido foram
arruinados. Eles perderam tudo.
Grace pensou: E eu não perdi?
— Até que seu marido seja considerado legalmente morto
e a investigação criminal termine, não podemos tirar
nenhuma conclusão. Mas está parecendo cada vez mais que
o Sr. Brookstein estava envolvido, pelo menos em algum
nível, em atividade fraudulenta de natureza muito séria. As
quantias roubadas...
— Não. — Grace se levantou. — Sinto muito, mas não vou
licar sentada, escutando isso. Meu marido nunca roubou
nada. Lenny não é um ladrão! Ele é um homem bom e
construiu o Quorum do nada. Diga a eles, John.
Kenneth Greville pensou: Ela ainda se refere a ele no
presente. A pobre menina está delirando.
— Sua lealdade é admirável, Sra. Brookstein. Mas é meu
dever, por mais desagradável que seja, informá-la sobre sua
situação financeira atual e, provavelmente, futura. A senhora
não poderá mais continuar morando no apartamento da Park
Avenue. Sinto muito.
Lágrimas escorreram pelo rosto de Grace. Ela se sentiu como
se estivesse algemada a um trem descarrilado. Sua vida
estava desmoronando à sua volta, e ela não tinha o menor
poder para evitar que isso acontecesse.
No JANTAR DAQUELA noite, Caroline Merrivale observou
Grace fitar, com o olhar perdido, a parede da sala de jantar.
Ela mal tocara na sopa, e parecia magra e exausta.
— Coma, Grace. Nesta casa, a nossa regra é nunca desper-
diçar comida boa, não é, John?
John viu o brilho de crueldade nos olhos da esposa. Ela está
amando cada minuto disto. Finalmente, virando o jogo
contra Grace. Parece um gato brincando com um rato antes
de matá-lo.
— Caroline está certa, Grace. Você precisa te-tentar se
manter forte.
Grace levou uma colher de sopa até a boca. Estava fria.
Esforçou-se para não ter ânsia.
— Sinto muito, eu realmente não estou me sentindo mui-
to bem. Se não se importam, eu gostaria de ir para a cama.
Quanto antes o dia de hoje terminasse, melhor. Depois da
reunião com os advogados, ela se sentiu ainda pior do que
no dia em que a guarda costeira lhe deu aquela terrível
notícia. O mundo todo estava falando desse dinheiro
estúpido. Como se me importasse com o dinheiro! A única
coisa que eu quero é que Lenny entre por aquela porta!
Uma empregada apareceu na porta.
— Desculpe interromper, Sra. Merrivale. Mas tem um
policial aqui. Ele disse que precisa tratar de um assunto
urgente com a Sra. Brookstein.
Instintivamente, Grace entrou em pânico.
— Não! Diga a ele para ir embora. Está tarde. Diga a ele
para voltar amanhã.
Caroline riu.
— Não seja boba, Grace. É a polícia, e não uma visita
social. Você tem que ir falar com ele.
— Não, por favor, Caroline. Não posso.
Caroline não ficou comovida.
— Melissa, deixe o policial entrar. Diga a ele que a Sra.
Brookstein vai encontrá-lo em um minuto.
Alguns minutos depois, se sentindo muito nervosa, Grace
entrou no vestíbulo. Esperava encontrar ali um agente do
FBI agressivo para interrogá-la. Em vez disso, um jovem
tímido vestindo um uniforme a cumprimentou. Assim que
ele viu Grace, tirou o quepe em sinal de educação. Grace
sentiu a tensão em seus ombros começar a aliviar.
— Boa-noite, policial. Queria me ver?
— Sim, Sra. Brookstein. Eu, hum... tenho uma notícia para
lhe dar. É sobre seu marido. Talvez seja melhor se sentar.
Irracionalmente, o coração de Grace se encheu de
esperanças.
Ele está vivo! Lenny está vivo! Eles o encontraram! Ah, gra-
ças a Deus. Lenny vai voltar e tudo vai ser como era antes.
Teremos nossas casas e nosso dinheiro de volta, ninguém
mais vai nos odiar...
— Sra. Brookstein?
— Ah, estou bem, obrigada. Passei o dia todo sentada. Você
disse que tem uma notícia para me dar?
— Sim, senhora. — O jovem fitou os sapatos. — Sinto muito
por ter que lhe dar esta notícia. Mas, esta tarde, a guarda
costeira de Massachusetts encontrou um corpo.
Acreditamos que seja o de seu marido. Leonard Brookstein.
Capítulo 8
DONNA SANCHEZ GOSTAVA de seu trabalho no necrotério da
cidade. Seus amigos e sua família não conseguiam entender.
— Todas aquelas pessoas mortas. Você não tem arrepios?
A reação deles fazia Donna sorrir. Uma mulher porto-
riquenha forte, com dedos gordos e redondos como
salsichas e rosto pastoso, Donna crescera em uma família
grande e barulhenta antes de começar sua própria família
grande e barulhenta. Fora do trabalho, a trilha sonora da vida
de Donna Sanchez eram gritos de crianças, louças
quebrando, buzinas de carros, aparelhos de televisão ligados.
Donna gostava dos mortos porque eles eram silenciosos. O
necrotério da cidade na Clarkson Avenue, no Brooklyn, era
branco, limpo e organizado. Fazia com que Donna se
sentisse em paz.
Claro, havia dias ruins. Mesmo depois de oito anos, ver o
corpo de crianças pequenas ainda fazia Donna ficar com os
olhos cheios de lágrimas. Algumas vítimas de acidentes
eram um tanto horripilantes. E os suicidas. A primeira vez
que Donna viu um "saltador", teve pesadelos com o corpo
desfigurado durante semanas: ossos atravessando a pele,
crânio amassado como um melão podre. Normalmente, as
vítimas de afogamento estavam entre as mais fáceis de se
trabalhar. A imersão na água fria fazia com que a
decomposição atrasasse. Donna também percebia que
muitos dos mortos na água tinham uma expressão feliz,
quase de êxtase.
Mas o corpo de hoje não tinha. O brutamontes de cera
deitado na maca não tinha rosto. Os peixes tinham se
encarregado disso. Só o que restava embaixo do toco
dilacerado do pescoço era um tronco enorme e inchado. O
braço e a mão esquerdos estavam miraculosamente intactos,
mas o resto dos membros não estava mais ali, arrancados
como garras de caranguejos. Como os amigos de Donna
diriam, era horripilante.
— Eles realmente vão trazer a pobre da esposa até aqui?
— Como todas as outras pessoas do necrotério, Donna sabia
que os policiais acreditavam que o corpo era de Lenny
Brookstein. Por isso foi trazido para Nova York, a mais de 3
mil quilômetros de distância de onde fora encontrado na
costa de Massachusetts. — Ninguém deveria ser obrigado a
ver seus amados assim.
Duane Tyler, o técnico, zombou. Um garoto negro bonito,
recém-saído do colégio, Duane tinha nascido cínico.
— Guarde a sua compaixão, Donna. Se tem um adjetivo que
não está na lista de Grace Brookstein é pobre. Sabe o que
estão dizendo? O filho da puta roubou milhares de pessoas.
Pessoas simples.
— Eu sei que é isso que estão dizendo. Mas não significa que
seja verdade. Além disso, e se ele fez mesmo? Não é culpa
da esposa.
Duane Tyler balançou a cabeça, com pena.
— Não acredite nisso, menina. Você acha que as esposas
não sabem? Aquelas vadias brancas e ricas? Elas sabem.
Todas sabem.
HARRY BAIN E GAVTN WILLIAMS estavam no gabinete do
promotor.
Todo mundo sabia que os pais de Angelo Michele eram dois
entre os tantos nova-iorquinos arruinados por causa de
Lenny Brookstein. Angelo tinha o melhor cérebro jurídico
da cidade de Nova York, mas Harry Bain se perguntou se,
naquele caso, o julgamento dele poderia ser influenciado. As
primeiras palavras do promotor não o tranquilizaram.
— Bem, eu queria a cabeça de Brookstein em uma bandeja.
Parece que consegui a segunda melhor opção. O tronco em
uma maca.
— Talvez não seja ele — disse Harry Bain.—A esposa está a
caminho para identificar o corpo. Ou o que sobrou dele.
Depois, poderemos fazer a necropsia.
— Ótimo.
Era dever da força-tarefa do FBI encontrar o dinheiro
desaparecido do Quorum. Mas era dever de Angelo Michele
processar os responsáveis pelo roubo. Parte dele estava
satisfeito por terem encontrado um corpo. A possibilidade,
embora remota, de Lenny Brookstein ter fugido de alguma
forma e estar vivendo luxuosamente em uma ilha particular
no Pacífico Sul não deixava Angelo dormir havia semanas.
Mas outra parte dele se sentia roubada. Se Lenny Brookstein
estivesse morto, não poderia ser punido. Alguém precisava
ser punido.
— Conseguiram mais alguma coisa com Merrivale ou
Preston?
— Não. — Harry Bain franziu a testa. — Ainda não. — Ele
tinha interrogado pessoalmente seis vezes os dois executivos
seniores do Quorum, mas não estava nem um pouco mais
perto de desvendar o mistério de como Lenny Brookstein
tinha conseguido fazer desaparecer uma quantia tão alta de
dinheiro. O instinto lhe dizia que os dois homens sabiam
mais do que estavam dizendo. Porém, até agora, não podia
provar. — Mas o agente Williams descobriu algo
interessante.
Angelo Michele fitou Gavin Williams. O homem lhe dava
arrepios. Ele parecia mais um robô do que um ser humano.
Quando falava era de forma monótona, intencionalmente
evitando contato visual.
— Parece que na semana antes de sua morte, Lenny
Brookstein mudou a estrutura corporativa do Quorum.
Essencialmente, tirou John Merrivale, de modo arbitrário, da
condição de sócio.
— Droga. — Angelo Michele balançou a cabeça. Harry Bain
virou a cabeça de lado.
— Isso é ruim?
— Claro. Se Lenny Brookstein era o único sócio legal, vai ser
quase impossível indiciar, muito menos processar, os outros
envolvidos. A não ser que os 70 bilhões apareçam costu-
rados nos bolsos de Merrivale. Estamos ferrados.
— Ele não era o único sócio.
— Mas eu achei que você tivesse dito...
Gavin Williams suspirou, como um professor primário
explicando algo exageradamente simples para uma criança
de 7 anos.
— Eu disse que Lenny tirou as ações de John Merrivale.
Eu não disse que ele era o único sócio. Ele não ficou com
essas ações para ele. Ele as transferiu.
O coração de Angelo Michele estava acelerado.
— Para quem, pelo amor de Deus?
— Para a esposa.
DONNA SANCHEZ disse de forma gentil:
— Tem certeza de que está pronta, Sra. Brookstein? Grace
assentiu. Não importa. Isso tudo é um sonho, um pesadelo.
Quando ela puxar o lençol, eu acordo.
— Será tudo bem rápido. Tente se concentrar na mão. Só
precisamos que você reconheça a aliança de casamento.
Donna puxou o lençol.
Grace jogou a cabeça para trás e gritou.
JOHN MERRIVALE fitou os documentos à sua frente, esfregan-
do os olhos, exausto.
— Deve haver algum e-erro.
Harry Bain acendeu outro cigarro. A fumaça deixou John
enjoado.
— Não tem erro nenhum, John. Esta é a assinatura de
Lenny. E esta a de Grace. Você acha que não mandamos
examinar?
Os documentos eram instruções legais, mudando a estrutura
acionária do Quorum. Eles transferiam todas as ações de
John no fundo para Grace. A data era de 8 de junho, a
véspera do baile do Quorum. Lenny e Grace assinaram.
— Encare a verdade, John. Os Brookstein o enganaram. Eles
estavam planejando pegar o que restava do dinheiro e fugir.
— Não. Lenny não fa-faria isso. Nã-não comigo.
— Leia, John! Está tudo aí, preto no branco. Ele fez. Eles
fizeram, juntos. Você não acha que está na hora de parar de
protegê-los?
John fechou os olhos com força. Era tão difícil pensar. Há
quanto tempo estou nesta sala? Três horas? Quatro? Pensou
em Grace, sozinha no necrotério. A polícia não permitira
que ele a acompanhasse. A coitadinha devia estar
aterrorizada.
— Lenny tinha o direito le-legal de reestruturar a
companhia da forma que bem entendesse. O Quorum era
dele.
Harry Bain o fitou, incrédulo.
— Você está dizendo que não se importa que Lenny
Brookstein o tenha roubado?
— Eu estou dizendo que ele não me roubou.
— Mas ele roubou. Está aqui, preto no branco.
— Ele de-deve ter tido suas razões. Lenny está morto. Não
está aqui para se explicar, para de-defender seu bom nome.
— Seu bom nome? — Harry Bain riu alto. — Lenny
Brookstein? O cara era um safado, John. A mulher dele
também. Mas disso nós sabemos. A pergunta é o que nós
não sabemos? O que você está escondendo de nós?
— Nã-não estou escondendo nada.
— Por que você o está protegendo?
— Ele era meu amigo. — Meu único amigo.
— Ele não era seu amigo. Ele usou você, John. E fez isso
desde o começo. Por que você acha que um cara brilhante
como Lenny precisava de um cara como você na equipe
dele, hein? Nunca se fez essa pergunta?
O tempo todo.
— Porque você lhe dava legitimidade. Por isso. Porque
você o idolatrava e era cegamente leal. Como um cachorro.
John levantou o olhar. Era o rosto de Harry Bain que
zombava dele, mas a voz era de Caroline. Você é um
cachorrinho, John. Você é patético! Cresça e apareça!
— Não, eu não era o ca-cachorro de Lenny. Não era assim.
— Não? Então, o que você era? Porque, do meu ponto de
vista, ou você é um idiota que não viu o que estava
acontecendo bem embaixo do seu nariz, ou você sabia.
— Não. Eu não sa-sabia de nada.
— Não acredito em você, John. Onde está o dinheiro?
— Não sei.
— Onde vocês esconderam o dinheiro, hein? Você e seu
bom amigo Lenny Brookstein. O cara que confiava tanto em
você. Que dependia dos seus conselhos. Onde vocês
colocaram o dinheiro?
— Já disse. Eu nã-não...
— Talvez devêssemos falar com Andrew Preston. Era em
Preston que Lenny realmente confiava?
— Claro que não. Lenny sempre foi muito mais meu a-amigo
do que de Andrew.
— Tão amigo que deu suas ações para Grace?
Um apito estava soando cada vez mais alto na cabeça de
John. Como uma chaleira com água fervendo.
— Onde está, John? Se você não era o cachorrinho de
Lenny, prove.
O apito estava tão alto que John achou que seus tímpanos
fossem estourar.
— ONDE ESTÁ A PORRA DO DINHEIRO, JOHN?
— NÃO SEI! — Caído sobre a mesa, John Merrivale come-
çou a soluçar. — Pelo amor de De-Deus, qual é o problema
de vocês? Eu não sei.
Do outro lado do espelho, Angelo Michele virou-se para o
psicólogo.
— O que você acha?
— Acho que ele está falando a verdade. Ele não sabe de
nada. Ver o documento do sócio acabou com ele.
Angelo Michele assentiu. Eu concordo.
Será que aquele robô do Williams está tendo mais sucesso
com Grace?
— ONDE VOCÊ ESTAVA quando assinou esses documentos?
Grace tentou se concentrar. Ainda se recuperando do cho-
que de ver o corpo de Lenny, era difícil se lembrar de onde
ela estava. O grosseiro homem grisalho sentado à sua frente
era do FBI. Ele a prendera quando estava saindo do
necrotério e a levara para algum lugar, ela não conseguia se
lembrar para onde ou quanto tempo durou a viagem. Agora
ela estava em uma sala branca, sem janelas. Imagens do
corpo mutilado de Lenny apareciam em sua mente como
um filme de terror. O homem continuava falando.
— A data é 8 de junho.
A pele de Lenny, como cera branca, como aquela coisa que
cobre a pele dos recém-nascidos.
— Sra. Brookstein, esses documentos provam que a
senhora intencionalmente se tornou sócia do Quorum
International LLC, com o objetivo de lucrar ilicitamente
com negócios ilegais realizados entre 2004 e 2009.
O dedo inchado de Lenny, a pele estourando em volta da
aliança de casamento.
— O que você sabe sobre o paradeiro dos lucros das
seguintes transações: 2005, Gestão de Inovação de um fundo
de seis anos, executado nas Ilhas Cayman?
— Não sei de nada. — A voz dela era um fraco sussurro.
Gavin Williams se inclinou sobre a mesa até seu rosto ficar a
milímetros do dela. Grace sentiu o hálito azedo dele.
— Não minta para mim, Sra. Brookstein. A senhora vai se
arrepender.
Grace levantou o olhar e fitou os olhos vazios e sem
compaixão dele. Uma pontada fria de medo tomou conta
dela.
— Não estou mentindo.
— A senhora era sócia do fundo do seu marido.
— Sócia? Não. O senhor está errado. Nunca fui sócia. Não
sei nada sobre negócios. Tudo ficava nas mãos de Lenny e
John.
— A senhora nega que esta seja a sua assinatura?
Furioso, Gavin Williams empurrou um papel até o outro
lado da mesa. Grace reconheceu sua própria caligrafia. Mas
não conseguia se lembrar de forma alguma que documento
era aquele, quando o assinara ou por quê. Lenny cuidava de
tudo.
— Eu não nego nada. Eu... eu estou confusa.
Gavin Williams estava gritando.
— 2005, Inovação, Ilhas Cayman.
- Quero meu advogado. — Grace ficou chocada ao escutar
as palavras saírem de sua própria boca. Parece um episódio
ruim de Law & Order.
— O quê?
- Eu... eu disse que preciso de um advogado.
Gavin Williams estava fervendo de frustração. Esperava que,
ao pegar Grace em um momento tão vulnerável, conseguiria
forçá-la a confessar, faria com que desmoronasse. Mas se ela
queria um advogado, ele não podia negar. Vadia.
— Interrogatório encerrado. Desligando o gravador.
Com um olhar de nojo, Gavin Williams saiu da sala.
NA MANHÃ SEGUINTE, todos os jornais tinham manchetes
sobre a prisão de Grace Brookstein e sobre o corpo de
Lenny Brookstein ter sido encontrado.
— Eles encontraram o corpo de Lenny. — Honor Warner
tremia ao ler a matéria.
- Sim, eu sei — disse Jack, sem expressão. — Eu sei ler.
- Como você pode ficar tão calmo? O FBI prendeu Grace.
Você viu a lista de acusações? As coisas de que estão
acusando minha irmã: fraude, lavagem de dinheiro... Grace
mal consegue somar dois e dois! O que nós vamos fazer?
Jack sorriu.
— Fazer? Nós não vamos fazer nada.
— Mas, Jack...
— Mas Jack, o quê? Nós vamos lavar as nossas mãos e
pronto. Honor parecia horrorizada. Jack riu dela.
— Ah, por favor. Não tente fingir que você se importa
com Grace. É um pouco tarde para isso, querida. Você acha
que eu nunca consegui ver o que você sentia durante todos
esses anos?
— O que você está querendo dizer?
— Você acha que eu não sei o quanto você odeia a sua
irmã? O quanto você sempre a odiou?
Honor desviou o olhar, envergonhada. É verdade. Eu a
odeio. Mas deixá-la ir para a cadeia? Tentou outra
abordagem.
— Tudo bem. Vamos esquecer Grace. E nós, Jack? Se
Grace for a julgamento, haverá perguntas. Perguntas sobre
os negócios de Lenny, sobre os colaboradores dele, o que
aconteceu no dia em que ele desapareceu. E se a polícia
descobrir?
— Eles não vão descobrir.
— Mas e se eles descobrirem?
Jack a fitou com frieza.
— Você quer ser a primeira-dama, Honor?
Honor queria. Mais do que qualquer outra coisa.
— Você quer me ver na Casa Branca?
— Claro. Você sabe que sim.
— Então não entre em pânico. Mantenha a boca fechada
e a cabeça baixa. Lenny está morto. Ele não pode mais nos
prejudicar. Mas Grace pode. Só Deus sabe o quanto o velho
contou a ela.
Honor estremeceu. Não tinha pensado nisso.
— Sua irmã ir para a cadeia pode ser a melhor coisa para
nós. Agora, me passe o café, por favor? Está esfriando.
MICHAEL GRAY FICOU horrorizado quando soube das
notícias. Instintivamente, abraçou Connie.
— Sinto muito, querida. Tem alguma coisa que eu possa
fazer?
Connie balançou a cabeça.
— O que qualquer pessoa pode fazer, Mike? Está óbvio
que Lenny e Grace não eram quem nós achávamos que
eram.
Michael Gray parecia surpreso.
— Você não acha realmente que Grace seja culpada dessas
acusações, acha?
Connie deu de ombros.
— Não sei mais o que pensar. O mundo está uma loucura.
— Eu sei, mas lavagem de dinheiro? Grace?
— Não sei por que isso seria tão impossível. Afinal de
contas, olhe para Lenny. Todos o amávamos e
respeitávamos. Mas acabamos descobrindo que ele não
passava de um ladrão e um covarde.
Havia uma maldade na voz de Connie que Michael nunca
escutara antes e aquilo o assustou.
— Todos sabemos que Grace era obcecada por Lenny.
Quem Sabe o que ela pode ter feito para protegê-lo ou ajudá-
lo?
MARIA PRESTON TRATOU a prisão de Grace como um episódio
emocionante de uma de suas novelas.
— A polícia está dizendo que Grace roubou as ações de
John Merrivale. Que ela e Lenny estavam planejando tirar
tudo dele e dos outros investidores e fugir com todo o
dinheiro! "Grace Brookstein é a única sócia viva dos Fundos
Quorum" é o que estão dizendo aqui. "Isso a torna
legalmente responsável por todos os prejuízos do Quorum."
Acredita nisso?
Andrew não conseguia acreditar. Não conseguia acreditar
em nada disso. Desde aquela maldita viagem para Nantucket,
ele mal tinha dormido.
Tive sorte até agora. O FBI tem peixes maiores para fisgar.
Mas eles vão acabar batendo na minha porta. Sei que vão.
Não era da exposição que Andrew linha medo, nem da pri-
são. Era de perder Maria. Tudo o que fizera, fizera por ela. E
ela acha que tudo é um jogo!
— Acho que vou usar meu Dior novo no julgamento.
Aquele fúcsia.
— Nós não vamos ao julgamento.
— Não vamos? Mas, Andy, todo mundo vai estar lá.
— Jesus, Maria, isso não é um maldito espetáculo da
Broadway! — Era tão raro Andrew perder a calma que Maria
apenas o fitou. Até que ela gostava desse novo Andrew,
mais másculo. — Milhões de dólares estão desaparecidos. Os
agentes federais estão em cima de nós. Todo mundo no
Quorum está sob suspeita.
— Bem, não estão mais — disse Maria, contente, cortando
mais uma fatia de panetone. — Parece que o FBI já
encontrou o cordeiro para sacrificar. A pobre e meiga
manteiga-derretida da Grace vai para a cadeia.
Andrew pensou: "espero que vá", depois percebeu que
pensamento terrível tivera.
Quando se tornara tão insensível, tão duro?
Não me reconheço mais. Ah, Maria! O que você fez
comigo?
— VOCÊ NÃO VAI PARA a cadeia, Grace. Vamos fazer as coisas
certas desde o início. Você é inocente e vai alegar
inocência. Certo?
Grace assentiu, fraca. Era tudo tão confuso.
Frank Hammond parecia tão otimista. Não como seu pri-
meiro advogado, Kevin McGuire. Kevin era um velho amigo
de seus pais de East Hampton. Grace ligou para ele no dia
em que foi presa. Queria que ele a salvasse do agente
grosseiro com olhos sem expressão, e ele a salvou. Mas assim
que ficaram sozinhos, ele foi direto ao assunto.
— Como única sócia do Quorum, você é legalmente
responsável pelas ações de Lenny, independentemente de
você ter tomado alguma decisão ou não — disse Kevin. —
Você tem que se declarar culpada.
— Mas eu nem sabia que era sócia.
Kevin McGuire foi solidário, mas firme. Ignorância podia ser
uma defesa moral, mas não legal.
— Você assinou o contrato, Grace. Se você não assumir a
responsabilidade, o juiz poderá ser ainda mais severo na
sentença. — Ele foi firme sobre a fiança também. — Meu
conselho é não pedir fiança.
Grace não podia acreditar.
— Você quer dizer... quer que eu fique na cadeia? Mas pode
levar meses até o caso chegar ao tribunal.
— Vai levar meses. E eu sei que é difícil. Mas acredite em
mim, Grace, você está mais segura presa. Acho que você
não tem noção exata da raiva que as pessoas estão sentindo
de você e de Lenny.
Ele estava certo. Grace não tinha noção. Além da pequena
aglomeração que a cercara quando deixara seu apartamento
para ficar com os Merrivale, ela tivera pouco ou nenhum
contato com o mundo exterior desde que voltara para Nova
York. John se recusava a deixá-la assistir aos noticiários na
TV e não permitia nenhum jornal na casa. No dia seguinte à
declaração oficial do médico-legista atestando que a morte
de Lenny fora um suicídio, Kevin McGuire mostrara
algumas das manchetes das quais ela estava sendo protegida.
BROOKSTEIN ESCOLHE O CAMINHO DA COVARDIA
VIGARISTA COMETE SUICÍDIO E ENGANA A JUSTIÇA
BROOKSTEIN: O CASAL MAIS ODIADO DOS ESTADOS UNIDOS
Uma semana antes, as manchetes teriam-na chocado. Agora,
depois de passar pelo horror de identificar o corpo de
Lenny,
Grace duvidava que alguma coisa mais teria o poder de
chocá-la de novo. Em vez disso, ela se sentia entorpecida.
Desorientada.
Eles estão falando de Lenny? De mim? Como as pessoas
podem nos odiar? Não fizemos nada de errado.
Quanto à ideia de Lenny cometer suicídio, bem, isso era
ridículo. Qualquer um que conhecesse Lenny sabia que ele
amava a vida. Ele se agarraria à vida até o final,
independentemente de qualquer coisa. Foi um acidente,
uma tempestade terrível. Ninguém poderia prever o que
aconteceu naquele dia.
Kevin McGuire continuava tentando fazer com que Grace se
concentrasse no presente, que aceitasse o fato de que pode-
ria ser presa. Mas Kevin não compreendia. A prisão não
assustava Grace. Ela não se importava com o que aconteceria
com ela. Sem Lenny, nada mais importava. O mundo não
tinha mais a menor graça para Grace, não lhe trazia
nenhuma esperança. Eles podem me prender. Minha vida já
acabou mesmo.
Mais uma vez, foi John Merrivale quem a salvou e fez com
que visse as coisas claramente. O mundo todo estava acusan-
do Grace de traí-lo, de conspirar com Lenny para "roubar"
as ações dele do Quorum, mas a lealdade de John
permanecia inabalável.
— É um erro, Grace, certo? Um erro. Não sei por que Lenny
fe-fez isso, mas ele deve ter tido suas razões.
— Você sabe que ele nunca tentaria enganar você, John.
Nenhum de nós tentaria.
— Cl-claro que sei, querida. Claro que sei.
Quando John ficou sabendo do conselho que Kevin
McGuire estava dando para Grace, obrigou-a a despedi-lo na
hora.
— Mas Kevin é um velho amigo — protestou ela.
— Acredito que seja. Mas ele está falando besteiras. De-
declarar-se culpada! Isso é loucura. Precisamos que Frank
Hammond a defenda. Ele é o melhor.
John estava certo, como sempre. Frank Hammond entrou
na vida de Grace como um ciclone. No momento em que o
conheceu, ela sentiu a esperança renascer. Começou a ver
uma luz no fim do túnel. Finalmente, aqui estava seu
defensor, um homem forte, um advogado, alguém que
acreditava nela e que lutaria por ela. Apenas estar na
presença de Frank Hammond fazia Grace se sentir melhor.
Ela perguntou, tímida:
— E fiança? Você acha que existe a chance...?
— Já entrei com o pedido. A audiência é amanhã. Vou
tirá-la daqui.
- Não sei se você sabe... mas não tenho dinheiro. Não posso
pagá-lo.
Grace estava constrangida, mas Frank Hammond continuou
inabalável:
— Esqueça isso. Já está resolvido. Agora, quero que me
escute. Pode fazer isso?
Grace assentiu.
— Esqueça as acusações contra você. Esqueça o
julgamento, esqueça o que as pessoas estão dizendo. É meu
trabalho consertar tudo isso. Entendeu?
- Entendi. — Ele me passa tanta tranquilidade. É como se
estivesse falando com Lenny.
- O seu trabalho é se agarrar à verdade. Você não roubou
dinheiro algum. Lenny não roubou dinheiro algum. O fato
de que tanto dinheiro tenha sumido significa que alguém
deve ter roubado. Quem quer que seja essa pessoa, ela está
tentando incriminar você e seu marido. Esse é o nosso caso.
— Mas quem faria isso?
Frank Hammond sorriu, revelando os dentes amarelados de
um homem velho. Era óbvio que ele não gastava muito de
seus honorários astronômicos no consultório de um
dentista.
— Quem roubaria 70 bilhões de dólares? Noventa por cento
dos americanos, se achassem que poderiam sair livres.
— Tudo bem, então. Quem roubou?
— Não faço idéia. Não importa. Só precisamos estabelecer a
dúvida razoável. O promotor tem que provar que você e seu
marido foram responsáveis.
Grace ficou em silêncio. Após alguns momentos, perguntou:
— Sr. Hammond, o senhor acredita que meu marido se
matou?
Frank Hammond fitou sua cliente bem nos olhos.
— Não, Sra. Brookstein, não acredito.
A partir daquele momento, Grace soube que podia confiar
totalmente em Frank Hammond. Ele vai ganhar a causa. Ele
vai me libertar. E quando ele fizer isso, eu vou descobrir
quem roubou aquele dinheiro e limpar o nome de Lenny.
Capítulo 9
GRACE BROOKSTEIN ESTAVA brincando com os botões do
seu casaco de buclê Chanel enquanto o júri voltava para o
Tribunal 14. Ela estava nervosa, mas não por causa do
veredicto. Sabia que seria considerada inocente. Frank
Hammond lhe dissera isso.
— Apenas faça o que eu disser, Grace, deixe o resto por
minha conta. O júri vai absolvê-la.
Quando Frank falava, era como escutar a voz de um profeta.
Grace seguira as instruções dele ao pé da letra, até mesmo
sobre o que vestir no tribunal.
— Você não deve parecer arrependida. É inocente. Quero
que entre naquele tribunal com orgulho, de cabeça em pé.
Lembre-se: você está representando Lenny, e não apenas
você mesma.
Lenny. Querido Lenny. Você está assistindo, meu amor?
Está orgulhoso de mim?
Não, Grace não estava nervosa por causa do veredicto. E sim
pelo que aconteceria quando o caso acabasse. Como vou
descobrir quem incriminou Lenny? Até então, o FBI
evidentemente fracassara em rastrear mais do que alguns
milhões do dinheiro desaparecido do Quorum. Se eles não
conseguem encontrar dinheiro, que chance tenho eu? Mas
ela precisava fazer isso. Precisava limpar o nome de Lenny.
Já fazia seis meses que ele não estava mais aqui. Já estavam
em dezembro, quase Natal. Meu primeiro Natal como viúva.
Apesar de ser judeu, Lenny sempre adorou o Natal, a troca
de presentes, as festas. Ele tinha um espírito tão generoso.
A voz do juiz soou distante, irreal. Dirigiu-se para o primeiro
jurado.
— Chegaram a um veredicto?
Acho que vou passar o Natal com os Merrivale.
Natal era uma data para se passar com a família, mas as duas
irmãs de Grace tinham-na decepcionado. Nenhuma delas
ligou para ela ou a visitou desde que fora presa. Grace teve
esperanças de vê-los na galeria pública quando o julgamento
começasse, mas Honor e Connie deixaram clara sua
ausência.
Quando eu for inocentada, tenho certeza de que elas vão me
procurar. E quando fizerem isso, eu vou lhes perdoar. Vou
precisar do apoio delas se quiser consertar as coisas. Se
quiser encontrar quem realmente roubou aquele dinheiro.
Quem incriminou meu amado Lenny.
O primeiro jurado olhou para Grace e sorriu. Ela retribuiu o
sorriso. Ele parecia um bom homem.
— E vocês consideram a ré inocente ou culpada da acusa-
ção de fraude de títulos de crédito?
— Culpada.
O promotor Angelo Michele deu um soco no ar. Então não
tinha estratégia nenhuma! "Big Frank" Hammond arruinou
esse caso. Afinal, ele não é tão invencível assim.
Grace começou a sentir as primeiras pontadas de pânico.
Olhou para Frank Hammond, mas os olhos dele estavam fi-
xos no juiz.
— E da acusação de lavagem de dinheiro?
— Culpada.
Não! Eu não sou culpada. Isso é um erro! Eu fiz tudo o que
Frank me mandou fazer.
— Da acusação de perjúrio... Fraude de transferências
eletrônicas... Fraude de correspondência...
As palavras cortavam Grace como lâminas afiadas.
— Culpada... Culpada... Culpada.
— Isso está errado! Por favor, Meritíssimo. Isso é tudo um
erro. Eu sou inocente e meu marido também! Alguém nos
incriminou!
As vaias e os xingamentos vindos da galeria eram tão
ensurdecedores que Grace mal conseguia escutar as próprias
palavras. Levou um minuto para o juiz restabelecer a ordem.
Quando ele conseguiu, virou-se para Grace com raiva.
— Grace Brookstein. A senhora e seu marido roubaram de
investidores uma quantia quase inimaginável de dinheiro. O
sofrimento humano causado pelos seus atos foi enorme.
Mesmo assim, em nenhum momento a senhora demonstrou
o menor remorso. A impressão que fica é que, por causa de
sua posição social privilegiada, a senhora achava que as leis
desse grandioso país não se aplicavam à senhora. Mas elas se
aplicam.
A galeria aplaudiu e gritou em aprovação. Grace podia
escutar a comemoração abafada da multidão do lado de fora,
que assistia ao julgamento em telas especialmente colocadas
para isso.
— Sua decisão de não se declarar culpada neste tribunal,
conhecendo as enormes evidências contra a senhora, já é,
por si só, um crime vil. Por causa desse completo
desrespeito à lei, assim como pelo sofrimento de suas
vítimas, que eu lhe informo a minha decisão sobre a sua
sentença. E não tenho a menor dúvida de que a sua
afirmação em não saber sobre nenhuma ação de seu marido
relacionada aos negócios é uma mentira, uma mentira que a
senhora, sem a menor vergonha, repetiu tanto neste tribunal
como para as autoridades que estão se esforçando para
devolver o dinheiro às vítimas de seu marido. Por isso, a
minha sentença é que a senhora passará o resto de sua vida
privada de liberdade.
O juiz ainda estava falando, dando sua sentença, mas Grace
não o escutava mais. O que aconteceu? O que deu errado?
Frank Hammond estava sentado ao seu lado, curvado sobre
a mesa, a cabeça apoiada nas mãos.
Quando sentiu a mão do meirinho em seu braço, Grace
procurou John Merrivale com o olhar. Ele disse apenas com
os lábios:
— Não se preocupe. — Mas o rosto abatido dele dizia
tudo. Até Caroline, que fora fria e não lhe dera nenhum
apoio durante o julgamento, parecia chocada.
Grace sentiu-se enjoada, não por si, mas por Lenny.
Eu fracassei. Eu o decepcionei.
Como vou poder provar a inocência dele agora?
NA ESCADARIA em frente ao tribunal, Angelo Michele estava
cercado. Uma multidão de pessoas se espremia para apertar
sua mão e dar um tapinha em suas costas. Ele os vingara,
vingara Nova York, vingara os pobres, os despojados, os
sem-teto, vingara todas as vítimas da cobiça e da avareza dos
Brookstein. Uma repórter puxou Harry Bain para um lado.
— Olhe para Michele. Eles o amam. É como se ele fosse
Joe DiMaggio voltando do mundo dos mortos ou coisa
parecida. O cara é um astro do rock.
— Ele é mais do que isso — disse Harry Bain. — Ele é um
herói.
Para Angelo Michele, o show tinha acabado. Mas para Harry
Bain e Gavin Williams, mal tinha começado. Eles ainda
tinham de encontrar o dinheiro.
Capítulo 10
A CONDENAÇÃO E SENTENÇA de prisão perpétua — a pena
cumulativa por todas as cinco acusações dava mais de cem
anos na prisão — de Grace Brookstein foi o assunto mais
importante nos jornais e noticiários de todo o mundo. Grace
não era mais uma mulher, um indivíduo com pensamentos,
esperanças e arrependimentos. Ela era um emblema, um
símbolo de tudo que era corrupto e podre nos Estados
Unidos, das forças do mal que levaram a economia do país à
beira de um colapso e que causaram tanto sofrimento e
angústia. Quando Grace foi tirada do tribunal para esperar
sua transferência para a Penitenciária Feminina Bedford
Hills, uma multidão sedenta de sangue a cercou, a xingou e
zombou dela. Uma mulher conseguiu arranhar seu rosto, sua
unha de acrílico cortando a pele de Grace. Imagens de Grace
Brookstein segurando o rosto ensanguentado enquanto era
levada para o camburão da polícia foram publicadas por todo
o país. Os poderosos tinham caído.
Após uma terrível noite sozinha na cela, Grace teve permis-
são para dar um telefonema às 5 da manhã. Instintivamente,
ela procurou a família.
— Gracie? — A voz de Honor parecia grogue de sono. —
É você?
Graças a Deus. Ela está em casa. Grace poderia ter chorado
de alívio.
— Sim, sou eu. Ah, Honor, é horrível. Eu não sei o que
aconteceu. Meu advogado me disse que tudo ia acabar bem,
mas...
— Onde você está agora?
— Na cadeia. Ainda estou em Nova York, eu... não sei onde
exatamente. É horrível. Eles vão me transferir amanhã. Para
algum lugar aí perto de você. Bedford, acho? Deve ser
melhor. Mas, Honor, você tem que me ajudar.
Houve um longo silêncio. Honor acabou dizendo:
— Não sei como eu poderia, Gracie. Você foi considerada
culpada em um tribunal de justiça.
— Eu sei, mas...
— E você não se ajudou durante o julgamento. Suas roupas.
O que você estava pensando?
— Frank Hammond me disse para me vestir daquela forma!
— Está vendo? Lá vem você de novo. Connie estava certa.
— Como assim? — Grace estava quase chorando. — Connie
estava certa sobre o quê?
— Sobre você. Escute o que está dizendo, Grace: "Lenny me
disse. Meu advogado me disse. John me disse." Quando você
vai começar a se responsabilizar pelos seus atos? Pela sua
vida? Você não é mais a princesinha do papai, Gracie. Não
pode esperar que eu e Connie consertemos tudo para você.
Grace mordeu o lábio até sangrar. Precisava tão
desesperadamente do apoio da irmã, mas tudo que Honor
queria fazer era lhe dar um sermão. Era óbvio que Connie
pensava o mesmo.
— Por favor, Honor! Não sei para quem pedir apoio. Você
não pode pedir ao Jack? Ele é senador, deve ter alguma
influência. Tudo isso é um terrível engano. Eu nao roubei
dinheiro nenhum. E Lenny nunca...
— Sinto muito, Grace. Jack não pode se envolver nisso. Um
escândalo como esse poderia nos arruinar.
— Arruinar vocês? Honor, vou ficar presa o resto da vida.
Lenny está morto. Acusado de um crime que você sabe que
ele não cometeu.
— Não sei de nada disso, Grace. Pelo amor de Deus, acorde!
Aquele dinheiro não sumiu simplesmente. É claro que
Lenny pegou. Ele pegou e deixou você segurando a bolsa.
As palavras eram como uma faca no coração de Grace. Já era
ruim o suficiente que estranhos considerassem Lenny um
ladrão. Mas Honor o conhecia. Ela o conhecia. Como podia
acreditar?
Honor falou as palavras seguintes com uma objetividade
assustadora:
— Você fez sua cama, Gracie. Sinto muito. — Ela
desligou. Você sente muito?
Eu também.
Adeus, Honor.
A VIAGEM NO CAMBURÃO para Bedford Hills foi longa e
desconfortável. O veículo era gelado e fedorento, e as
mulheres ali dentro se aninhavam em busca de calor. Grace
olhou para os rostos delas. Essas mulheres não tinham nada
em comum com lia. Algumas estavam assustadas. Algumas,
desafiadoras. Outras, desesperadas. Mas todas carregavam as
linhas da pobreza e da exaustão em seus rostos. Elas olhavam
para Grace com um puro ódio assassino.
Grace fechou os olhos. Tinha 9 anos, estava em East
Hamplon com seu pai. Era véspera de Natal e Cooper
Knowles estava levantando-a pelo ombro para colocar a
estrela no topo da árvore.
— Você consegue, Grace. É só se esticar mais um
pouquinho!
Ela estava no pódio, com 15 anos, cercada por seus amigos
ginastas. Os jurados estavam colocando uma medalha de
ouro em seu pescoço. Grace procurou na multidão o rosto
de sua mãe, mas ela não estava lá. O treinador disse:
— Esqueça isso, Grace. Se você quer ser uma vencedora,
tem de ganhar por você mesma e não pelos outros.
Era a noite de seu casamento. Lenny estava fazendo amor
com ela, com carinho, delicadeza.
— Vou cuidar de você, Grace. Você nunca mais precisará
se preocupar com nada.
E Grace respondeu:
— Eu amo você, Lenny. Estou tão feliz.
— Saia!
A policial agarrou com força o braço de Grace, que nem
tinha percebido que o camburão tinha parado. Momentos
depois, ela estava tremendo em um pátio deserto com as
outras detentas. Já era final da tarde, estava escuro, e havia
neve no chão. A sua frente, havia um deprimente prédio de
pedra cinza. Atrás dela, e à direita e à esquerda, havia cercas
e mais cercas de arame farpado, contrastando violentamente
contra o céu púrpura da noite. Grace ficou com vergonha ao
perceber que estava chorando.
— Bem-vindas a Bedford Hills. Aproveitem a estada.
TRÊS HORAS DEPOIS, Grace chegou à cela que dividiria com
outras duas mulheres. Àquela altura, ela já sabia que não
sobreviveria a uma semana em Bedford Hills, muito menos
o resto de sua vida.
Preciso sair daqui! Preciso falar com John Merrivale. John
vai me tirar daqui.
O exame físico foi a pior parte. Uma experiência brutal e
degradante que fora planejada para tirar toda a dignidade das
detentas. Funcionou. Grace foi forçada a ficar nua em uma
sala com várias pessoas. Um médico penitenciário inseriu
um espéculo em sua vagina, fazendo um exame
ginecológico. Depois, Grace teve de se inclinar enquanto
um dedo coberto por luva de borracha examinava seu ânus,
provavelmente procurando drogas escondidas. Seus pelos
pubianos foram puxados com força à procura de piolhos.
Durante todo o procedimento, guardas de ambos os sexos
riam e faziam comentários jocosos e nojentos. Grace sentia
como se tivesse sido estuprada.
Depois disso, conduziram-na feito um animal para um
chuveiro tépido e mandaram que se lavasse com um
sabonete antisséptico que queimava sua pele. Depois, ainda
nua, ela ficou em uma fila para cortarem seu longo cabelo
até o comprimento do corte de um garoto. O corte levou 15
segundos, mas foi um procedimento angustiante, roubando
de Grace sua feminilidade, toda a sua identidade como
mulher. Grace nunca mais viu suas roupas. Elas sumiram,
junto com qualquer outro vestígio da pessoa que ela tinha
sido do lado de fora. Tiraram até sua aliança de casamento,
arrancando-a dolorosamente de seu dedo. No lugar de suas
roupas antigas, Grace recebeu três calcinhas, um sutiã que
não servia e um uniforme laranja dois tamanhos maiores
que o dela.
— Aqui.
Uma agente penitenciária forte abriu a porta da cela e
empurrou Grace para dentro. Duas mulheres latinas estavam
deitadas em beliches na caixa sombria de 3 por 2 metros.
Elas murmuraram alguma coisa uma para a outra em
espanhol quando Grace entrou, hesitante, mas a ignoraram.
Reunindo toda a sua coragem, Grace virou-se para a agente.
— Houve algum erro. Gostaria de falar com o diretor, por
favor. Acho que fui transferida para a penitenciária errada.
— É mesmo?
— Sim. Esta é uma penitenciária de segurança máxima.
Fui condenada por fraude, não por assassinato. Aqui não é o
meu lugar.
As mulheres latinas arregalaram os olhos. Mas se a guarda
ficou chocada, não demonstrou.
— Poderá ver o diretor de manhã. Agora, durma. — A
porta da cela se fechou.
Grace deitou em seu beliche. Não conseguiu dormir. Sua
mente estava a mil.
De manhã, vou falar com o diretor. Serei transferida para
uma prisão melhor. Então, vou ligar para John Merrivale e
começar a minha apelação.
Deveria ter ligado para John quando tivera a chance. Não
sabia que impulso estúpido e infantil fizera com que ligasse
para Honor. Era difícil admitir que não podia confiar na
própria família, mas essa era a realidade. Grace precisava
encarar isso.
Lenny considerava John um irmão. John é a minha família
agora. Ele é tudo que tenho.
Estava claro que contratar Frank Hammond fora um enorme
erro. Mas Grace não podia culpar John por isso. O impor-
tante agora era seguir em frente.
Amanhã. As coisas vão melhorar amanhã.
FRANK HAMMOND ESTAVA sentado sozinho em seu carro em
um estacionamento deserto. Observou a imagem familiar de
seu cliente se aproximar pelas sombras. De poucos em
poucos segundos, o homem olhava por cima dos ombros,
nervoso, com medo de estar sendo observado.
Big Frank pensou: Ele é tão patético. Tão fraco. Como um
cervo iluminado por um farol. Ninguém desconfiaria que
um homem como este faria algo tão audacioso. Acho que é
por isso que ele vai escapar impune.
O homem entrou no carro e enfiou um pedaço de papel nas
mãos de Frank.
— O que é isso?
- É um recibo. A transferência bancária foi feita uma hora
atrás.
— Para a minha conta no exterior?
— Claro. Conforme combinamos.
— Obrigado.
Vinte e cinco bilhões de dólares. Era muito dinheiro. Mas
era suficiente? Depois de publicamente arruinar a defesa de
Grace Brookstein, a reputação de Frank Hammond estava
em farrapos. Talvez nunca mais fosse contratado de novo.
Mas agora era tarde para arrependimentos.
- Acredito que tenha ficado feliz com o trabalho.
O cliente sorriu.
- Muito feliz. Ela confiava totalmente em você.
— Então, nossos negócios chegaram ao fim.
Frank Hammond ligou o carro. O cliente colocou a mão em
seu braço.
- Não existem fundamentos para um recurso, não é?
- Não. A não ser, claro, que o FBI encontre o dinheiro
desaparecido. Mas isso não vai acontecer, vai, John?
- Não, não vai. Nã-não nesta vida.
John Merrivale permitiu-se sorrir. Então, saiu do carro e
tranqüilamente desapareceu nas sombras.
O DIRETOR JAMES MCINTOSH estava intrigado. Como todo
mundo no país, ele sabia quem era Grace Brookstein. Ela era
a mulher que ajudara o marido a desviar bilhões de dólares e
depois, inexplicavelmente, aparecera no tribunal bancando a
Maria Antonieta e despertando ainda mais o espírito de
vingança dos americanos.
O diretor McIntosh era um homem cansado, desiludido,
com 50 e poucos anos, poucos fios de cabelo grisalho na
cabeça e um bigode fino. Ele era inteligente e não era
desprovido de compaixão, embora Grace Brookstein fizesse
pouco para inspirar esse sentimento. A maioria das mulheres
que acabavam em Bedford Hills tinha vidas tiradas de livros
de Dickens. Estupradas pelos pais, espancadas pelos maridos,
forçadas à prostituição e ao uso de drogas ainda na
adolescência, muitas delas nunca tiveram a oportunidade de
ter uma vida normal, civilizada.
Grace Brookstein era diferente. Grace Brookstein tivera
tudo, mas, ainda assim, queria mais. O diretor McIntosh não
tinha tempo para esse tipo escancarado de cobiça.
James McIntosh entrou para o sistema penitenciário porque
genuinamente acreditava que podia ajudar. Que poderia
fazer a diferença. Que piada! Após oito anos em Bedford
Hills, seus objetivos eram mais modestos: se aposentar com
a sanidade e a pensão, intactas.
James McIntosh não queria Grace Brookstein em Bedford
Hills. Discutira com seus superiores sobre isso.
— Vamos lá, Bill, dá um tempo. Ela é colarinho-branco.
Além disso, é uma ameaça, pois vai incitar revoltas. Metade
das minhas detentas tem familiares que perderam seus
empregos depois do colapso do Quorum. E a outra metade a
odeia por ser branca e rica e por ter usado um casaco de
vison no julgamento.
Mas não adiantou. Era exatamente porque Grace era tão
odiada que ela seria enviada para Bedford Hills. Em nenhum
outro lugar ela teria proteção.
Agora, menos de um dia depois de sua sentença, ela já estava
incitando problemas, exigindo vê-lo como se ali fosse algum
tipo de hotel e ele fosse o gerente. Qual é o problema, Sra.
Brookstein? Os lençóis não são macios o suficiente? O
champanhe não está bem gelado?
Ele fez um gesto para que Grace se sentasse.
— Pediu para falar comigo?
— Sim. — Grace expirou, tentando tirar o estresse de seu
corpo. Era bom estar sentada em um gabinete, conversando
com um homem educado e civilizado. O diretor tinha
fotografias de sua família na mesa. Era como uma dose
mínima de realidade. — Obrigada por me receber, diretor
McIntosh. Acho que houve algum engano.
O diretor levantou uma sobrancelha.
— Houve?
— Bem... sim. Esta é uma penitenciária de segurança
máxima.
— É mesmo? Eu não tinha notado.
Grace engoliu. De repente, estava nervosa. Ele estava rindo
para ela ou dela?
Esta é a minha chance de explicar. Não posso arruiná-la.
— Meu crime... o crime pelo qual fui condenada... não é
violento — começou ela. — Quer dizer, sou inocente,
diretor. Eu não fiz o que eles disseram que eu fiz. Mas não é
por isso que estou aqui.
O diretor McIntosh pensou: Se eu ganhasse um dólar por
cada detenta que já sentou na minha frente alegando
inocência, já teria me aposentado em Malibu Beach anos
atrás. Grace ainda estava falando:
— O que quero dizer é o seguinte: mesmo se eu tivesse feito
isso, não acho... o que estou tentando dizer é que meu lugar
não é aqui.
— Concordo com você.
O coração de Grace disparou. Graças a Deus! Ele é um
homem sensato. Ele vai resolver as coisas e me tirar desta
fazenda de gado.
— Infelizmente, meus superiores pensam de modo dife-
rente. Eles acham que é dever do Estado não permitir que
você seja linchada. Eles têm medo de que as outras detentas
possam querer... como posso dizer... bater em você com um
pé de cabra até morrer. Ou estrangulá-la com um lençol.
Jogar ácido em seu rosto enquanto você dorme, talvez? Algo
dessa natureza.
Grace ficou branca. Sentiu-se derretendo por dentro de
medo. O diretor McIntosh continuou:
— Por alguma razão, meus superiores acreditam que as
chances de você ser agredida fisicamente em Bedford Hills
são menores do que em qualquer outro lugar. Um equívoco,
na minha opinião. Mas me diga, Grace, o que sugere que eu
faça?
Grace não conseguia falar.
— Talvez se alguma coisa lhe acontecer aqui, eles
reconsiderem a decisão? Você acha que isso seria possível?
O diretor McIntosh fitou Grace bem nos olhos. Foi quando
ela teve certeza.
Elas vão tentar me matar. E ele não dá a mínima. Ele me
odeia tanto quanto elas.
— Vou transferi-la para uma outra ala. Depois, me diga se a
nova cela é mais de seu agrado. Agora, se me dá licença.
A agente levou Grace embora.
As novas companheiras de cela de Grace eram uma
traficante de cocaína negra que pesava uns 90 quilos
chamada Cora Budds e uma morena magra e bonita de 30 e
poucos anos. O nome da morena era Karen Willis.
O agente contara a Grace que Karen dera um tiro e matara o
namorado da irmã.
— As duas pegaram perpétua. Que nem você. Terão tempo
mais do que suficiente para se conhecerem. — O agente
sorriu, como se soubesse bem do que estava falando. Grace
se perguntou se ele estava fazendo alguma insinuação sexual,
mas teve medo de perguntar. Não posso ficar brigando com
sombras. Tenho certeza de que é um mito que todas as
presidiárias são lésbicas.
Grace olhou para Karen e Cora com cuidado, subindo para
seu beliche em silêncio.
O diretor McIntosh me mandou para cá como forma de
punição. É provável que elas tentem me machucar. Preciso
ficar atenta.
Cora Budds levantou seu pesado corpo do beliche e se sen-
tou ao lado de Grace.
— Qual é seu nome, doçura? — Ela fedia a mau hálito e
suor. Grace recuou instintivamente.
— Grace. Meu nome é Grace.
Por alguma razão Cora Budds pareceu achar isso engraçado.
— Grace. Amazing Grace. Ela riu. — Por que que cê tá aqui,
Amazing Grace?
— Hum... fraude — sussurrou Grace. Ainda era estranho e
constrangedor falar essa palavra. — Mas é um engano. Eu
sou inocente.
Cora riu ainda mais.
— Fraude, é? Ouviu isso, Karen? Tem uma golpista inocente
com a gente. Tamo ficando importante! — De repente o
sorriso nos lábios de Cora sumiu. — Ei, só um minuto. Qualé
seu nome mermo?
— Grace.
— Grace de quê?
Por um minuto, Grace hesitou. Grace de quê? Boa pergunta.
Esta situação era toda tão irreal, era como se não tivesse mais
identidade. Quem eu sou? Não sei mais. Finalmente, ela
disse:
— Brookstein. Meu nome é Grace Brookstein. Eu...
Grace nem teve tempo para se esquivar. O punho de Cora
atingiu seu rosto com tanta força que ela escutou seu nariz
quebrar.
— Vadia! — gritou Cora. Ela bateu em Grace de novo. San-
gue jorrava de todo lado. Karen Willis continuava a ler seu
livro como se nada tivesse acontecido.
— Tu é a vadia que roubou todo aquele dinheiro!
— Não! — disse Grace. — Eu não...
— Meu irmão perdeu o emprego por sua causa. Meus velhos
camaradas, tudo na rua, e cê e seu velho comendo caviar.
Devia ter vergonha. Vou fazer cê se arrepender de ter
nascido, Grace Brookstein.
Grace segurou seu nariz. Chorando, disse:
— Por favor, eu não roubei aquele dinheiro.
Cora Budds a agarrou pela camisa laranja do uniforme e
colocou-a de pé. Com uma das mãos, bateu com as costas de
Grace contra a parede, levantando-a com tanta facilidade
como se ela fosse uma boneca de pano.
— Não fala nada! Não fala comigo, sua vadia branca nojenta.
— A cada palavra, Cora batia com a cabeça de Grace na
parede. Sangue quente escorria pelo cabelo recém-cortado
de Grace. Ela começou a perder a consciência.
Karen Willis disse com a voz entediada:
— Calma, Cora. Denny vai escutar.
— Tu acha que eu ligo?
Claro, alguns segundos depois, a porta da cela foi aberta.
Hannah Denzel, conhecida pelas presidiárias como "Denny"
(entre outras coisas), era a agente mais antiga da ala A. Uma
mulher branca, gorda e baixa com sobrancelhas grossas e um
bigode eminente, ela se aproveitava de sua autoridade e
gostava de tornar a vida das detentas o mais miserável e
degradante possível. Avaliou a cena à sua frente. Grace
Brookstein estava deitada no chão com uma poça de sangue
à sua volta. Cora Budds estava de pé como um King Kong
com Fay Wray, só que sem a ternura do macaco. Grace mal
estava consciente, murmurando coisas incoerentes.
Denny disse:
— Quero essa cela limpa.
Cora Budds deu de ombros.
— Diz isso pra ela. Num é meu sangue.
— Certo. Mas faça com que ela limpe. Volto em uma hora.
Naquela noite, Grace ficou deitada na cama, acordada,
morrendo de medo, esperando Cora Budds pegar no sono.
Mais cedo, limpara o próprio sangue, esfregando o chão de
joelhos enquanto Cora observava e Karen lia seu livro. De-
pois de uma hora, Denny voltou, assentiu, aprovando, e
deixou Grace à sua própria sorte. Ela agachou-se no beliche,
esperando Cora atacá-la de novo, mas nada aconteceu. De
uma certa forma, ela gostaria que tivesse acontecido. Nada
era pior do que esperar, o medo por antecipação que corrói
por dentro. Finalmente, vinte minutos antes de as luzes se
apagarem, a porta da cela se abriu e Grace foi levada para o
médico da penitenciária. Após uma limpeza superficial, ela
levou seis pontos na cabeça e colocaram um Band-Aid
ineficaz para ajudar a consertar o nariz, depois mandaram-na
de volta para Cora.
Grace puxou o cobertor até a cabeça. Fazia muito tempo que
não rezava, mas fechou os olhos e abriu seu coração para os
céus.
Por favor, me ajude, Senhor! Por favor, me ajude. Estou
cercada por inimigos. Não é só Cora. Todas as detentas me
odeiam, os guardas, o diretor McIntosh, aquelas pessoas do
lado de fora do tribunal. Até a minha família me abandonou.
Não peço por mim, Senhor. Não me importo mais com o
que vai me acontecer. Mas se eu morrer, quem vai limpar o
nome de Lenny? Quem vai descobrir a verdade?
Grace tentou entender aquilo tudo. Mas cada vez que
encontrava uma peça do quebra-cabeça, as outras
desapareciam.
A voz de Frank Hammond. "Alguém incriminou Lenny."
Mas quem, e por quê?
Por que Lenny me tornou sócia do Quorum e tirou John?
Onde estão os bilhões do Quorum agora?
A dor que o punho de Cora lhe infligira não era nada
comparada à dor da angústia que Grace sentia por dentro.
Estar ali, naquele lugar horrível, era como um pesadelo. Mas
não era. Era a realidade.
Talvez a minha vida de antes fosse um sonho. Eu e Lenny,
nossa felicidade, nossos amigos, nossa vida. Era tudo uma
miragem? Tudo foi construído em cima de mentiras?
Aquela era a maior ironia de todas. Grace havia sido rotulada
de fraudadora e mentirosa. Mas não fora Grace quem
mentira. Foram todas as outras pessoas: suas irmãs, seus ami-
gos, todas as pessoas que comeram na mesa dela e de Lenny,
que davam tapinhas em suas costas nos tempos bons, aper-
tavam suas mãos, que competiam uns com os outros para
homenagearem o rei. O carinho deles, a lealdade, isso era
mentira. Onde estavam essas pessoas agora?
Sumiram, todas. Foram levadas pelo vento. Desapareceram,
assim como os bilhões do Quorum.
Todos, menos John Merrivale.
Querido John.
Grace acordou gritando. Karen Willis colocou a mão sobre a
sua boca.
— Shhh. Vai acordar a Cora.
Grace estava tremendo. Seus lençóis estavam encharcados
de suor. Estava tendo um pesadelo. Começou como um
lindo sonho. Ela estava a caminho do altar em Nantucket, de
braço dado com Michael Gray. Lenny estava esperando de
costas para ela. John Merrivale estava lá, com um sorriso
nervoso. Havia rosas brancas em todos os lugares. O coral
estava cantando "Panus Angelicus". Conforme se
aproximava do altar, Grace percebia um cheiro estranho.
Algo químico como... formol. Lenny se virou. De repente, o
rosto dele começou a se desfazer, derretendo como a cabeça
de uma boneca no forno. Seu tronco começou a inchar até
quase explodir pela camisa, a pele fantasmagóricamente
branca. Então, um membro de cada vez do corpo horrendo
caiu. Grace abriu a boca para gritar mas estava cheia de água.
Enormes ondas de água salgada tinham enchido a igreja,
levando embora os convidados, destruindo tudo no
caminho, entrando nos pulmões de Grace, sufocando-a. Ela
estava se afogando! Não conseguia respirar!
— Você vai acordar a Cora!
Levou alguns segundos para Grace perceber que Karen era
real.
— Ela fica louca da vida quando alguém atrapalha o sono
dela. Você não ia gostar nada de ver Cora quando ela está
nervosa.
Depois do que tinha acontecido mais cedo, a frase de Karen
era tão ridícula que Grace riu. Então, a risada se transformou
em choro. Logo, Grace estava soluçando nos braços de
Karen, todas as perdas, todo o terror e o sofrimento dos
últimos seis meses vindo à tona como o pus de um
furúnculo.
Finalmente, Grace perguntou:
— Por que você não fez nada hoje de tarde?
— Não fiz nada? Sobre o quê?
— Sobre o ataque! Quando Cora tentou me matar.
— Doçura, aquilo não foi nada. Se Cora tivesse tentado matar
você, você estaria morta.
— Mas você nem se mexeu. Ficou ali sentada e deixou que
ela me espancasse.
Karen suspirou.
— Deixe-me perguntar uma coisa para você, Grace. Quer
sobreviver aqui dentro?
Grace pensou. Não tinha certeza. No final, assentiu. Preci-
sava sobreviver. Por Lenny.
— Nesse caso, você tem que entender uma coisa. Ninguém
vai salvar você. Nem eu, nem as guardas, nem seu advogado
de recurso, nem a sua mãe. Ninguém. Você está sozinha
aqui, Grace. Tem que aprender a contar só com você
mesma.
Grace se lembrou do telefonema para Honor.
Quando você vai começar a se responsabilizar pelos seus
atos? Pela sua vida? Você não é mais a princesinha do papai,
Grade. Não pode esperar que eu e Connie consertemos tudo
para você.
Então, ela se lembrou de Lenny.
Vou cuidar de você, Grace. Você nunca mais precisará se
preocupar com nada.
— Conselho é de graça — disse Karen, voltando para seu
beliche. — Mas quando você se lembrar onde escondeu
todo aquele dinheiro, talvez queira me mandar uma gorjeta
de agradecimento.
Grace já ia protestar que era inocente, mas mudou de idéia.
Para quê? Se nem sua família acreditava, por que outra
pessoa acreditaria?
— Claro, Karen. Farei isso.
Grace seguiu o conselho da companheira de cela. Nas duas
semanas seguintes, ficou com a cabeça baixa e guardou seus
pensamentos e medos para si. Ninguém vai me ajudar. Estou
sozinha. Tenho que descobrir como funciona a vida aqui.
Grace descobriu que Bedford Hills era admirada em todo o
país como um modelo por causa de seus programas para
ajudar mães detentas. Das 850 presidiárias, mais de setenta
por cento eram mães por volta dos 30 anos. Grace ficou
surpresa ao saber que Cora Budds estava entre elas.
— Cora é mãe?
— Por que você ficou tão chocada? — perguntou Karen. —
Cora tem três filhos. A mais nova, Anna-May, nasceu aqui
mesmo. A neném veio duas semanas antes do esperado. A
irmã Bernadette fez o parto no chão do centro pré-natal.
Uma vez, Grace tinha lido sobre bebês que nasciam na pri-
são. Ou escutara na televisão? De qualquer forma, se
lembrava de ficar estarrecida e morrendo de pena dos filhos
dessas mães criminosas e egoístas. Mas isso tinha sido em
outra vida, em outra era. Nesta vida, Grace não achava o
centro infantil de Bedford Hills nem um pouco estarrecedor.
Pelo contrário, sendo cuidado por presidiárias e freiras
católicas, era o único lugar de esperança no regime
incansavelmente sombrio da prisão. Grace adoraria
conseguir trabalhar lá, mas não tinha a menor chance.
Karen disse para ela:
— Sangue novo sempre pega os piores trabalhos.
Grace foi colocada para trabalhar nos campos.
O trabalho em si era árduo, cortar madeira na floresta para
construir novos galinheiros, limpando clareiras cobertas de
hera para abrir espaço para casas das aves. Mas eram as horas
que matavam Grace. O "dia" de Bedford Hills não tinha a
menor relação com claro e escuro, ou com o ritmo do
mundo exterior. Após as luzes se apagarem às 22h30, as
presidiárias só tinham quatro horas de sono ininterrupto
antes de luzes fracas se acenderem, às 2h30. Isso era para
que as detentas que trabalhavam no campo pudessem tomar
café da manhã e sair para a madrugada fria às 4 horas. "O
almoço" era servido no salão comunitário às 9h30. O jantar
era às 14 horas, oito horas e meia longas e maçantes antes de
as luzes se apagarem. Grace sentia como se tivesse viajado
para o outro lado do mundo, ficando permanentemente
exausta mas sem conseguir dormir.
— Você vai acabar se acostumando — dizia Karen. Grace
não tinha tanta certeza. O pior de tudo era a solidão. Era co-
mum Grace passar dias inteiros sem falar com nenhuma
outra alma a não ser Karen. Outras detentas tinham amigas.
Grace via as mulheres com quem trabalhava se apoiarem
umas nas outras. Durante os intervalos, elas conversavam
sobre filhos, maridos, recursos. Mas ninguém falava com
Grace.
— Você é uma intrusa — explicou Karen. — Você não é
uma de nós. Além disso, elas acham que você e seu marido
roubaram de gente como a gente. Isso gera muita raiva. Mas
vai passar.
— Mas você não tem raiva — comentou Grace.
Karen deu de ombros.
— Gastei toda a minha raiva há muito tempo. Além disso,
quem sabe? Talvez você realmente seja inocente. Sem
querer ofender, mas você não me parece nenhum mestre do
crime.
Os olhos de Grace se encheram de lágrimas. Ela acredita em
mim. Alguém acredita em mim.
Ela se agarrou às palavras de Karen como a um salva-vidas.
— Brookstein. Você tem visita.
— Eu? — Grace estava voltando do seu serão no galinheiro.
O Natal fora dois dias antes e nevara muito à noite. As mãos
de Grace estavam vermelhas e queimadas de frio e sua
respiração soltava fumaça como de uma chaleira com água
fervente.
— Não estou vendo nenhuma outra Brookstein. O horário
de visita está quase acabando, então é melhor entrar ou não
vai conseguir vê-la.
Vê-la? Grace se perguntou quem poderia ser. Honor. Ou
Connie, talvez. Elas perceberam que foram muito duras
comigo. Vão me ajudar a entrar com um recurso.
O guarda a levou para a sala de visita. Lá, sentada em uma
pequena mesa de madeira, estava Caroline Merrivale.
Usando um sobretudo de pele de raposa, os dedos brilhando
com diamantes como se fosse Cruela de Vil, ela parecia tão
fora de lugar que chegava a ser engraçado, uma visitante de
outro planeta. Grace sentou-se em frente a ela.
— Caroline. Que surpresa.
Durante o julgamento, quando ela estava hospedada na casa
dos Merrivale, Grace sentira uma hostilidade cada vez maior
da parte de Caroline. John, o querido John, se mantivera
firme ao seu lado do início ao fim. Mas Caroline, que um dia
Grace considerara uma amiga tão querida, quase uma
segunda mãe, ficara longe, sendo até cruel às vezes, como se
estivesse gostando de ver o sofrimento de Grace. Ela não
escondera sua irritação sobre a atenção indesejada que a
presença de Grace despertara na imprensa.
— É intolerável, como viver em uma jaula no zoológico.
Quando isso tudo vai acabar? — A deferência que um dia ela
demonstrara a Grace como esposa de Lenny fora substituída
por uma frieza arrogante. Grace tentava não se ressentir.
Afinal, se não fosse Caroline e John, ela teria ficado na rua.
Não teria tido o grande Frank Hammond para defendê-la.
Não teria tido nada. Mas a amargura de Caroline ainda doía.
Ela era a última pessoa que Grace esperava ver em Bedford
Hills.
Caroline olhou em volta, como uma pessoa com medo de
avião procurando a saída de emergência mais próxima.
— Não posso ficar muito tempo.
— Tudo bem. Foi legal de sua parte ter vindo. John recebeu
a minha carta?
Grace escrevera uma carta para John uma semana antes,
perguntando a ele sobre os passos seguintes. O que ela
deveria fazer a respeito de um recurso, deveria contratar um
novo advogado, quanto tempo ele achava que levaria para
que concordassem em rever seu caso etc. Ele ainda não
havia respondido.
— Ele recebeu sim.
Silêncio.
— Ele anda muito ocupado, Grace. O FBI ainda está
procurando o dinheiro desaparecido. John tem ajudado da
melhor forma que pode.
Grace assentiu de forma submissa.
— É claro, eu entendo. — Ela esperou que Caroline falasse
alguma coisa, perguntasse como ela estava aguentando,
talvez, ou se precisava de alguma coisa. Mas ela não fez nada
disso. Desesperada para prolongar seu encontro, o primeiro
com o mundo externo em semanas, Grace começou a
tagarelar:
— Não é tão ruim aqui. Quer dizer, é claro que é ruim, mas a
gente tenta se acostumar. A pior parte é como os dias são
cansativos. Fica difícil se concentrar em qualquer coisa. Fico
pensando em Lenny. Como tudo isso pode ter acontecido.
Quer dizer, alguém nos incriminou, isso é óbvio. Mas depois
disso, as coisas ficam complicadas. Se Deus quiser, quando
John entrar com o meu recurso, vai haver uma luz no fim
do túnel. Mas, no momento, está tão escuro. Eu me sinto
perdida.
— Grace, não vai haver recurso.
Grace piscou.
— Como?
A voz de Caroline se tornou cruel.
— Eu disse que não vai haver recurso. Pelo menos, não com
a nossa ajuda nem com o nosso dinheiro. Olhe, John ficou
do seu lado enquanto pôde. Mas ele tem que enfrentar a
verdade agora. Todos temos.
— A verdade? Como assim? Que verdade? — Grace estava
tremendo.
— Pode parar com a sua cena de Garotinha Perdida —
disparou Caroline. — Comigo não cola. Lenny roubou de
seus investidores e sócios. Ele traiu o coitado do John. Vocês
dois traíram.
— Isso não é verdade! Caroline, você precisa acreditar em
mim. Sei que Lenny mudou a estrutura societária, e é
verdade que não sei por quê. Mas eu sei que ele nunca faria
nada para magoar John intencionalmente.
— Ah, Grace, até parece. Você acha que todo mundo é
burro? Por que você não joga limpo e conta ao FBI onde está
o dinheiro?
Isso era um pesadelo. Uma piada de mau gosto.
— Eu não sei onde o dinheiro está. John sabe disso. John
acredita em mim!
— Não — disse Caroline, sendo grosseira. — Ele não acre-
dita. Ele não quer saber mais de você. Vim aqui hoje para
pedir que você pare de procurá-lo. Depois de tudo que você
e Lenny fizeram a ele, a todos nós, você nos deve pelo
menos isso.
Ela se levantou para sair. Grace se conteve para não se jogar
nos braços dela e implorar perdão. Por dentro, sua garganta
estava rouca de tanto gritar: Não me deixe aqui! Não afaste
John de mim. Ele é minha única esperança. Por favor! Por
fora, ela manteve a boca bem fechada, com medo de que, se
abrisse, os gritos nunca mais parassem.
— Aqui. — Caroline colocou um pequeno embrulho
envolvido em papel de seda na mão de Grace enquanto o
agente estava virado. — John me pediu para lhe dar isso. Ele
é um fraco, um sentimental mesmo. Eu disse a ele que isso
não teria a menor utilidade para você apodrecendo aqui
neste lugar! — Ela soltou uma gargalhada cruel. — Mas
como isso é horrendo e não tem nenhuma utilidade para
mim, acho que pode ficar com você. — Ela se virou e
desapareceu.
Entorpecida, Grace seguiu o agente até sua cela. Escondera o
embrulho dentro da manga e o mantivera ali até estar segura
em seu beliche. Suas mãos tremiam ao abrir,
cuidadosamente retirando o papel de seda. John Merrivale
fora o último amigo verdadeiro de Grace. Meu único amigo.
O que quer que esteja dentro desse embrulho, ele queria que
fosse dela.
Era um broche. Um broche de borboleta, com pedras de
todas as cores. Os olhos de Grace se encheram de lágrimas.
Lenny comprara para ela no último Natal em um brechó em
Key West. Quando a polícia congelou os bens do Quorum,
eles pegaram todos os objetos pessoais de Lenny incluindo
as jóias de Grace. O broche devia ter escapulido do pente
fino. Talvez porque não tivesse valor. Mas, para Grace, não
poderia valer mais se fosse feito de diamantes.
Era um último pedacinho de Lenny. Um último símbolo de
felicidade, de esperança, de tudo que ela perdera para sem-
pre. Era seu passaporte para a liberdade.
Liberdade eterna.
Gentil e carinhosamente, ela soltou o pino do broche de seu
gancho e começou a cortar os pulsos.
Capítulo 11
Ela estava cercada por luzes brancas brilhantes. Mas não do
tipo que traz tranquilidade. E sim daquele tipo que faz os
olhos arderem, penetrando nos cantos mais obscuros de sua
memória, deixando-a sem nenhum lugar para se esconder.
Ela escutou vozes.
Frank Hammond: "Alguém incriminou Lenny e armou para
você levar a culpa. Alguém com informações de dentro do
Quorum."
John Merrivale: "Confie no Frank. Fa-faça tudo o que ele lhe
disser e você vai ficar bem. Não se p-preocupe com o FBI.
Eu cuido deles."
A luz se apagou.
O diretor McINTOSH sentiu gotas de suor escorrerem por
suas costas enquanto fitava a linha verde reta no monitor
cardíaco.
Por favor, Senhor, faça com que ela viva.
Se Grace Brookstein conseguisse se matar sob a sua vigilân-
cia, sua carreira estaria acabada. Daria adeus para sua
aposentadoria, seu descanso, para tudo pelo que trabalhara
tanto nesses últimos oito anos. Nenhuma de suas conquistas,
de suas boas intenções contaria. Naquele momento, James
McIntosh odiava Grace Brookstein mais do que já odiara
qualquer outro ser humano.
Os médicos deram choques no coração de Grace. O
minúsculo corpo dela saltando da cama. A linha verde se
mexeu, então ganhou vida, batendo em um ritmo lento, mas
estável.
— Ela voltou.
O chefe do Departamento Penitenciário do Estado de Nova
York recebeu a ligação no clube de golfe.
— Eu deveria demiti-lo, James. Sem perguntas. Você sabe
disso?
— Sim, senhor.
— Se o boato se espalhar de que nós permitimos que Grace
Brookstein tivesse acesso a um objeto cortante na própria
cela...
— Eu sei, senhor. Isso não vai acontecer de novo.
— Claro que não vai! E o que ela estava fazendo na Ala A,
em primeiro lugar? Nós a mandamos para Bedford Hills para
que ficasse segura.
O diretor McIntosh lutou contra a própria irritação. Grace
Brookstein não merecia ser protegida. Mesmo agora que
estava na cadeia, recebia tratamento especial. Isso lhe
deixava enojado.
— Quando ela estiver bem, quero que fique sob vigilância
contra suicídio 24 horas por dia. Quero que tenha
acompanhamento psicológico, comida decente. Onde ela
está trabalhando?
O diretor McIntosh se preparou.
— Ela está no campo, senhor. No primeiro turno.
— Ela o quê? Você perdeu a cabeça, James? Quero que ela
fique no centro infantil, com as freiras, assim que melhorar.
Capisce? Não quero nem saber o que você pensa dela, daqui
em diante, você vai pisar em ovos com Lady Brookstein. Fui
claro?
— Sim, senhor. Claro como cristal.
Grace acordou para um mundo de dor. Vinha em ondas.
A primeira onda foi física: as pontadas nos pulsos, a secura
na garganta, a dor nos braços e pernas. Quem quer que
tivesse inserido a agulha no seu braço certamente o fizera
com pressa. Para qualquer lado que Grace se virasse, sentia
uma pontada na veia. Toda a região em volta estava roxa.
A segunda onda foi emocional: ela tentara se matar e não
conseguira. Não estava no céu com seu querido Lenny.
Ainda estava aqui, em Bedford Hills, vivendo um pesadelo.
A depressão tomou conta dela.
Mas foi a terceira onda — a angústia mental — que fez com
que Grace se sentasse na cama e arrancasse os cabelos até
que os médicos viessem sedá-la. Em algum lugar do seu
inconsciente, bem no fundo, entre a morte e a vida,
escuridão e luz, a verdade saltara e a agarrara pela garganta.
Em sua mente, ela escutava a voz de Caroline Merrivale,
arrogante e maligna. Não vai haver recurso. John não quer
mais saber de você.
Na hora, Grace pensara: John não. É você. É você quem não
quer mais saber de mim. Você o envenenou. Mas agora,
finalmente, ela percebia. Caroline era apenas a mensageira.
Foi John. Foi John o tempo todo!
Fora John quem traíra Lenny. Ele traíra os dois. Quanto
mais Grace pensava, mais óbvio ficava. John era a única
pessoa íntima o suficiente de Lenny para ter conseguido
roubar aquele dinheiro. Quando a Comissão de Valores
Mobiliários começou a investigar o Quorum, ele deve ter
entrado em pânico. De alguma forma, convenceu Lenny a
mudar a estrutura societária do fundo para que ele, John, não
pudesse levar a culpa quando descobrissem que o dinheiro
estava desaparecido. Claro, a morte repentina de Lenny
deve ter aumentado o risco. A exposição era sempre uma
possibilidade, mas depois da morte de Lenny se tornou uma
certeza. Os investidores do Quorum começaram a pedir seu
dinheiro de volta e a fraude foi revelada. Mas àquela altura,
já estava fácil para John jogar a culpa em Grace. Ela era sócia
de Lenny agora, não ele. Ainda melhor, Grace confiava
nele. Ele se certificara disso. Quando todo mundo virou as
costas para ela, John Merrivale ficou por perto. Não porque
ele gostasse de mim, mas porque ele queria orquestrar a
coisa toda! A investigação do FBI. Meu julgamento. Foi John
quem lidou com a polícia, "protegendo" Grace das perguntas
deles. Foi John quem insistiu que ela demitisse Kevin
McGuire e contratasse Frank Hammond, o advogado que a
arruinara no tribunal. Agora que ela estava segura atrás das
grades, John lavara as mãos. Nem foi homem o suficiente
para ir ele mesmo. Mandou Caroline para fazer o trabalho
sujo.
Olhando para trás, Grace ficou impressionada com a própria
ingenuidade. A forma como implorara para John acreditar
nela com relação à sociedade, para acreditar que ela não
sabia de nada sobre Lenny tê-lo cortado e transferido as
ações dele para ela. Como eu pude ser tão estúpida? Era
interesse dele não ser sócio! Se John fosse sócio, ele seria
legalmente responsável pelo que aconteceu no Quorum. Ele
estaria na cadeia agora, não eu.
Grace não fazia idéia de como John tinha feito isso. Como
conseguira convencer Lenny a mudar a estrutura societária,
muito menos como tinha roubado e escondido todo aquele
dinheiro. Mas ela sabia que ele tinha feito isso de alguma
forma. Mesmo se levasse o resto da sua vida, Grace
Brookstein descobriria como.
Vou descobrir a verdade e nada além da verdade. E quando
eu fizer isso, vou contar para o mundo. Vou limpar o nome
de Lenny e o meu. Vou sair do inferno.
Grace dormiu.
Gavin Williams se sentia sujo.
Só de estar ali, dentro da prisão, cercado por depravadas, era
suficiente para lhe dar arrepios. É claro que o fato de os
malfeitores serem mulheres tornava tudo ainda mais
nojento. Não era natural. Mulheres deveriam ser castas,
limpas e subservientes. Deveriam ser boas e amáveis, como
sua mãe. A mãe de Gavin Williams o adorava. Como você é
lindo, Gavin, ela costumava dizer. Como é inteligente. Você
pode ser qualquer coisa que quiser.
Gavin entrou no banheiro masculino e lavou as mãos pela
terceira vez, escaldando-as embaixo da torneira até que sua
pele estivesse em carne viva.
As mulheres deveriam ser como sua mãe. Mas não eram. No
mundo real, as mulheres eram gananciosas, vadias imundas,
prostitutas que só queriam fazer sexo com os ricos e
poderosos. Caras dos fundos de hedge, bilionários como
Lenny Brookstein, passavam suas vidas se afogando em
boceta. Como Gavin Williams odiava esses homens, com
seus carros chamativos e suas namoradas-troféu, com suas
casas de praia e seus jatos particulares. Ele, Gavin Williams,
era melhor do que os Lenny Brookstein deste mundo. Era
um patriota incorruptível, um Robespierre da atualidade. Era
um revolucionário, trazendo justiça para os Estados Unidos.
Eu sou a espada da lei.
O Senhor Todo-Poderoso diz: "Eu vou puni-los. Os jovens
morrerão, seus filhos e filhas vão morrer de fome. Nenhum
desses conspiradores sobreviverá, pois eu levarei desgraça
para as suas vidas..."
— Sr. Williams?
Gavin ficou de pé no corredor da enfermaria de Bedford
Hills. Uma enfermeira bem jovem o fitou de forma estranha.
— Sim? O que é?
— A Sra. Brookstein está acordada. Pode falar com ela
agora.
Gavin Williams tinha certeza de que Grace Brookstein era a
chave para encontrarem o dinheiro desaparecido. O resto da
força-tarefa do FBI não a via mais como uma testemunha em
potencial. Harry Bain dissera a ele:
— Esqueça Grace, Gavin. Não vai dar em nada. Se ela fosse
contar alguma coisa, já teria feito isso.
Mas Gavin não conseguia esquecer Grace. Seu rosto imundo
de prostituta assombrava seus sonhos durante a noite. Sua
voz zombava dele durante os longos dias passados sobre a
complexa trilha de papéis que Lenny deixara para trás: Eu
sei, provocava ela. Eu sei onde está o dinheiro, você não
sabe.
A imprensa continuava a comparar a fraude do Quorum
com o caso Madoff, mas os dois não podiam ser mais
diferentes. As manobras de Madoff eram tão ridiculamente
consistentes. Era claro para qualquer um que tivesse cérebro
que ele era uma fraude. Ou tinha informações privilegiadas
ou havia montado um esquema Ponzi. Essas eram as duas
únicas possibilidades lógicas. Dado o fato de que ninguém
fazia negócios com Madoff, nenhum dos maiores bancos,
nenhuma corretora, ninguém, tinha de ser Ponzi.
O Quorum era diferente. Todo mundo fazia negócios com
Lenny Brookstein. Não havia uma firma em Wall Street que
houvesse desconfiado, que tivesse previsto o escândalo
prestes a envolver ele e seu fundo de forma tão espetacular.
Os bilhões desaparecidos do Quorum não eram apenas a
imaginação de algum contador criativo. Eles eram reais, mas
Brookstein guardava tão bem o segredo de seus negócios, até
mesmo mandando papéis com seus registros para Cayman
ou Bermudas para serem queimados, que era virtualmente
impossível seguir qualquer negociação até o fim. A não ser
que você estivesse lá dentro. A não ser que você soubesse.
Quando Gavin Williams recebeu a notícia da tentativa de
suicídio de Grace Brookstein, soube na mesma hora que não
podia perder essa oportunidade. Como da última vez em que
a interrogara no necrotério, ela estaria fragilizada. Mas agora,
não haveria advogados para protegê-la, nenhum telefonema,
nenhuma escapatória. Agora, Gavin Williams a pressionaria
até que ela não conseguisse mais respirar. Tiraria a verdade
de Grace Brookstein mesmo se tivesse de fazê-la vomitar
essa verdade.
Para o interrogatório daquele dia, Gavin estava vestido da
mesma forma de sempre: terno escuro e gravata, o cabelo
curto e grisalho repartido cuidadosamente, sapatos pretos tão
polidos que era possível ver a própria imagem refletida no
couro. Disciplina, essa era a chave. Disciplina e autoridade.
Gavin Williams faria Grace Brookstein respeitá-lo. Faria a
depravada curvar-se sobre a sua vontade e desmascararia
Harry Bain, seu chefe, pelo tolo sem visão que era.
Quando Grace viu Gavin Williams, suas pupilas dilataram de
medo.
Gavin Williams sorriu. O terror o excitava.
— Olá de novo, minha querida.
Ela parecia fraca. Menor com a camisola branca da prisão,
ainda pálida por causa da perda de sangue, parecia tão pouco
substancial quanto um fantasma ou fumaça.
— O que você quer?
— Estou aqui para fazer um acordo com você.
— Um acordo?
Isso mesmo, um acordo, sua vadia gananciosa. Não finja que
não entende o conceito. Você é corrupta como o diabo e
ainda vai apodrecer no inferno pelos seus pecados.
— Um acordo que você não vai poder recusar. O
procedimento é simples. Você me dá o número de três
contas. Todas referentes a fundos mantidos na Suíça. Você
conhece todos eles.
Grace balançou a cabeça. Não sabia o número de nenhuma
conta. Já não tinham feito isso da última vez?
— Em troca, providencio para que seja transferida para uma
instituição mental.
— Instituição mental? Mas eu não sou louca.
— Posso lhe garantir, as condições nos sanatórios penais são
consideravelmente superiores às das cadeias como esta aqui.
O número das contas, por favor. — Ele entregou a Grace um
pedaço de papel com cabeçalho de um banco suíço. Grace
fitou o papel e suspirou, fechando os olhos. Os remédios a
deixavam sonolenta. Por mais medo que tivesse desse
homem, era difícil se manter acordada.
— John Merrivale — murmurou ela. — Foi John Merrivale.
Ele ficou com o dinheiro. Ele sabe onde está. Pergunte a ele.
Gavin Williams estreitou os olhos. Típico de uma mulher!
Tentar jogar a culpa em outra pessoa, como Eva culpou a
serpente quando poluiu o mundo com seu pecado. Grace
achava que ele era burro? Achava que o FBI não tinha
investigado John Merrivale e todos os outros do Quorum?
— Não brinque comigo, Sra. Brookstein. Quero os números
dessas contas.
Grace estava prestes a discutir com ele, mas então pensou:
Para quê? Ele não vai me escutar. Ele é maluco. Se alguém
aqui precisa de um sanatório, é esse cara, e não eu.
— Sei o que você está fazendo. Está tentando conseguir
mais. — Gavin Williams a fitou com raiva. — Bem, você
não vai conseguir, entendeu? Não vai conseguir!
Grace olhou em volta, procurando uma enfermeira, mas não
havia nenhuma. Estou sozinha com este doido!
— Não vai haver apelação. Nada de condicional. É o sana-
tório ou você vai morrer neste lugar. Morrer! Escreva os nú-
meros das contas!
— Já disse! Eu. Não. Sei. — Exausta, Grace deitou no
travesseiro. Estava perdendo a batalha para sua consciência.
O sono tomou conta dela.
Gavin Williams observou seus olhos piscarem e fecharem.
O pescoço dela é tão pequeno. Tão frágil. Como o galho de
um salgueiro. Eu poderia estender meus braços e quebrá-lo.
Assim. Colocar minhas mãos em volta do pescoço dela e
apertar até expulsar o demônio que vive ali dentro.
Não havia outros pacientes. Ninguém da equipe médica. Ele
e Grace estavam sozinhos.
Ninguém saberia. Eu poderia fazer isso em uma fração de
segundo. Matar o mau, purgar o pecador.
Em um transe, Gavin Williams esticou as mãos, abrindo e
fechando seus dedos longos e finos. Imaginou a traquéia de
Grace se quebrando sob seus dedos e sentiu sua excitação
aumentar.
— Sei no que o senhor está pensando.
A voz da enfermeira fez com que ele pulasse da cadeira,
literalmente.
— Seus dedos. Sei no que está pensando.
Gavin estava em silêncio.
— O senhor é fumante, não é? Foi a mesma coisa comigo
quando larguei o cigarro. Não conseguimos pensar em outra
coisa, não é? Nem por um segundo.
Levou um momento para Gavin compreender o que ela es-
tava dizendo. Ela acha que eu quero um cigarro. Como se
ele, Gavin Williams, algum dia tivesse sido tão fraco a ponto
de sucumbir a um vício. Em voz alta, ele sorriu e disse:
— Não, não conseguimos.
— Acredite em mim, eu entendo — comentou a enfermei-
ra. — É como uma coceira que não alcançamos. Tem um pá-
tio lá embaixo se o senhor estiver desesperado.
Gavin Williams pegou o papel do banco suíço das mãos
adormecidas de Grace e o colocou de volta em sua pasta.
— Obrigado. Não estou desesperado.
Mas ele estava.
Após duas semanas, Grace voltou para a sua cela na Ala A. O
diretor McIntosh a quisera transferir para sua cela original
com as latinas na menos austera Ala C, mas Grace ficou tão
agitada que os psiquiatras recomendaram que as coisas
fossem feitas como a detenta queria. O diretor ficou
desconcertado.
— Mas Cora Budds deu uma surra nela. Ela é uma das nossas
presidiárias mais violentas. Não entendo. Por que Grace ia
querer voltar para lá?
A psiquiatra deu de ombros.
— Familiaridade?
Não era a primeira vez que James McIntosh refletia sobre o
quão pouco entendia a mente feminina.
As detentas viram a situação de forma mais cruel.
— Não é de se espantar que Cora e Karen estejam tão
animadas. Ficou sabendo? Grace está voltando para a Ala A.
Parece que a temporada de caça às ostras reabriu, meninas!
De fato, quando o momento chegou, Cora Budds
cumprimentou Grace friamente. Alguma coisa tinha
mudado em Grace. O velho medo e a exaustão não estavam
mais lá. No lugar deles, havia uma calma, uma confiança que
deixaram Cora desconfortável.
— Então, você sobreviveu, hein?
— Sobrevivi.
Karen Willis foi mais afetuosa, abrindo os braços e dando
um abraço bem apertado em Grace.
— Por que você não falou comigo se as coisas estavam tão
ruins? Devia ter falado comigo. Eu podia ter ajudado.
Karen Willis não sabia o que a atraía em Grace Brookstein.
Parte disso ela creditava à sua natureza teimosa. Grace era a
oprimida em Bedford Hills, a pária, odiada tanto pelos
opressores quanto pelas detentas. Karen Willis não
acreditava em seguir a maré. Além disso, Karen sabia como
era se sentir um peixe fora d'água, traída pelos próprios
amigos e familiares. Quando ela atirou no namorado
violento de sua irmã Lisa, um estuprador que aterrorizara
Lisa por seis terríveis anos, Karen esperou que sua família a
apoiasse. Em vez disso, eles lhe viraram as costas como um
bando de hienas. Lisa bancou a viúva sofredora: "Nós
tínhamos os nossos problemas, mas eu amava Billy." Ela até
testemunhou contra Karen no tribunal, dizendo que a irmã
era uma pessoa violenta e furiosa que queria se vingar dos
homens, deixando implícito que não agira por amor
fraternal, mas por rejeição sexual."Karen sempre quis Bill. Eu
via. Mas Billy não estava interessado." O promotor mudou a
acusação de Karen de homicídio culposo para homicídio do-
loso. Karen nunca mais falou com ninguém de sua família.
Mas o afeto que Karen Willis sentia por Grace Brookstein
era mais profundo do que o sentimento de abandono que
compartilhavam. Lisa acertara em uma coisa. Karen nunca
fora fã de homens. Estupradores baixinhos e com cara de
fuinha nunca foram seu tipo. Por outro lado, louras frágeis e
inocentes como Grace Brookstein, com enormes olhos e
pernas esbeltas e flexíveis de ginasta, pele macia e sardas no
nariz, eram um assunto completamente diferente. Karen
Willis era bem diferente do estereótipo de presidiária lésbica
predatória. Brincadeiras como "caça às ostras" a deixavam
enojada. Não tinha a menor intenção de forçar a barra com
Grace. Era claro que a garota era heterossexual e estava
sofrendo. Infelizmente, nenhuma dessas duas coisas mudava
o fato de que Karen Willis estava apaixonada por ela.
Quando ficou sabendo que Grace tinha tentado se matar,
Karen desmaiou. Quando lhe contaram que Grace ia
sobreviver, que o pior já tinha passado, ela chorou de alívio.
Grace abraçou sua amiga.
— Você não poderia ajudar, Karen. Não naquela época. Mas
talvez possa me ajudar agora.
— Como? É só me dizer o que precisa, Grace. Estou aqui pra
te ajudar.
— Sei quem incriminou a mim e ao meu marido. Só não sei
como ele fez isso. Preciso de provas. E não sei nem por
onde começar.
Um sorriso iluminou o rosto de Karen. Afinal, talvez pu-
desse ajudar Grace.
— Tenho uma idéia.
Davey Buccola olhou para o relógio e bateu o pé no chão
gelado. Devo estar maluco de vir neste lugar maldito atender
um pedido de Karen.
Davey Buccola era alto, moreno, se não bonito, pelo menos
tinha a aparência bem melhor do que a maioria de seus
colegas de profissão. Tinha pele um pouco morena, com
algumas marcas de acne da adolescência, olhos castanho-
claros inteligentes e traços fortes e masculinos em que
dominava um nariz aquilino, o que lhe dava um ar
predatório, como uma águia. Davey atraía as mulheres. Pelo
menos até levá-las para seu apartamento barato de dois
quartos em Tuckahoe, onde morava com a mãe, ou as
buscasse em casa com seu carro que já tinha 12 anos, o
mesmo que dirigia desde que terminara o ensino médio. O
trabalho de detetive particular era interessante, perigoso e
desafiador. Mas não deixava ninguém rico. Não era como
Magnum.
Davey Buccola tinha uma queda por Karen Willis desde que
eram crianças. Sentiu-se mal quando a prenderam e sua
família lhe virou as costas. O canalha que Karen matou
merecia. Mas Davey não estava ali para ajudar Karen. Estava
ali para ajudar a si mesmo. Precisava de dinheiro, pura e
simplesmente. E Grace Brookstein tinha dinheiro.
Finalmente, os portões da penitenciária se abriram e os
visitantes foram levados para dentro pelos agentes. Davey
Buccola já visitara várias penitenciárias, então conhecia a
rotina. Tirar o casaco, os sapatos, as jóias, passar pelos raios
X, detector de metais, cachorros. Como se fosse pegar um
avião, só que sem as malas e as lojas do Duty-Free. Mas era
mais interessante de assistir. Era possível distinguir as mães
na mesma hora, os ombros caídos e cansados, a resignação
em seus rostos, envelhecidas pelos anos de sacrifício e
sofrimento. Havia alguns maridos, a maioria vagabundos,
acima do peso, com cabelos compridos, sinais de uso
abusivo de drogas. Mas, de uma forma geral, havia poucos
homens na fila de visitantes. Eram mulheres e crianças
enfrentando a depressiva jornada para Bedford Hills na
esperança de manter suas famílias unidas.
Davey pensou: As mulheres são muito menos egoístas do
que os homens.
Então, pensou: Também são muito mais coniventes.
Homens mentem quando precisam. Mulheres, quando é de
seu interesse.
Escutaria o que Grace Brookstein tinha a dizer. Mas não
acreditaria em nada que ela falasse.
Davey entrou na sala de visitantes e sentou-se a uma mesa
de madeira. Uma menininha magra sentou-se na sua frente.
— Acho que você se sentou no lugar errado. Vim falar com
Grace Brookstein.
A menina sorriu.
— Eu sou Grace Brookstein. Muito prazer, Sr. Davey
Buccola.
Davey apertou sua mão e tentou não parecer chocado. Jesus!
O que aconteceu com ela? Ela só está aqui há um mês.
A Grace Brookstein que esperava encontrar era a mulher
com casaco de pele do tribunal, glamorosa, produzida, cheia
de diamantes e desprezo. A menina na sua frente parecia ter
uns 14 anos, com cabelo muito curto e pele pálida. O nariz
estava quebrado e havia sombras escuras embaixo de seus
olhos. Parecia que não comia havia semanas. O uniforme
laranja que ela usava engolia seu corpo minúsculo. Quando
Davey apertou sua mão, percebeu que a pele estava quase
transparente.
— Karen disse que a senhora precisa de ajuda.
Grace dispensou o papo furado.
— Quero que me ajude a provar que John Merrivale
incriminou a mim e ao meu marido.
Karen não falara nada disso. "Ela precisa que você faça umas
investigações" tinham sido as palavras exatas. Nada sobre a
Grace Brookstein ser uma lunática que se convencera de que
o marido tinha sido incriminado. Jesus. Todo mundo sabia
que Lenny Brookstein era tão falso quanto uma nota de 2
dólares.
— John Merrivale. Ele não era o número 2 no Quorum? O
cara que está ajudando o FBI?
Lendo os pensamentos dele, Grace disse:
— Entendo seu ceticismo. Não espero que acredite em
mim. Só estou pedindo para investigar. Estou pesquisando o
máximo que posso da biblioteca daqui, mas você deve saber
que meus recursos são limitados.
— Olhe, Sra. Brookstein.
— Grace.
— Olhe, Grace, eu gostaria de ajudá-la. Mas tenho de ser
honesto. O FBI passou o pente fino nas finanças do
Quorum. Se tivesse alguma prova de que John Merrivale
incriminou seu marido, qualquer prova, a senhora não acha
que eles já teriam encontrado?
— Não necessariamente. Não se confiarem nele. John está
trabalhando com o FBI, Sr. Buccola. Ele faz parte da equipe
de investigação. Ele os convenceu que é um deles. Acredite
em mim, John Merrivale sabe ser muito convincente.
— Convincente é uma coisa. Roubar 70 bilhões e esconder
onde ninguém consegue achar, nem mesmo a Comissão de
Valores Mobiliários, nem as mentes mais brilhantes do FBI,
ninguém... podemos dizer que isso é impossível.
Grace sorriu.
— Acho que foi isso que o meu advogado disse para o júri.
Mesmo assim, estou aqui.
Davey Buccola retribuiu o sorriso. Touché.
— Eu nunca nem tirei um extrato bancário, Sr. Buccola.
John Merrivale é um mago das finanças. Se eu poderia fazer
isso, ele não poderia?
Davey Buccola pensou: eu a subestimei. Ela não é nenhuma
lunática. Desorientada, talvez. Mas não é boba.
— Tudo bem, Sra. Brookstein. Vou investigar. Mas já vou
avisando, não tire conclusões precipitadas. Elas são contra a
minha religião.
— Entendo.
— Se vou pegar o caso, farei isso com a mente aberta. Vou
correr atrás da verdade. A senhora talvez não goste do que
eu vou encontrar.
— Assumo o risco.
— Mais uma coisa que a senhora deve saber: nada acontece
rápido. Este é um caso complicado. Muitas informações são
confidenciais. Tenho fontes no FBI, na polícia e na
Comissão que podem me falar alguma coisa, mas é um
trabalho lento.
Grace olhou para as quatro paredes à sua volta.
— Tempo é a única coisa que me restou, Sr. Buccola. Não
tenho lugar nenhum para ir.
Davey Buccola apertou a mão dela.
— Nesse caso, Sra. Brookstein, sou a pessoa que está
procurando.
— Aonde você vai, benzinho? Volte para a cama.
Harry Bain olhou para o voluptuoso corpo nu da esposa
esparramado sobre o lençol. Depois olhou para o relógio.
Seis da manhã. Maldito Quorum.
— Não posso. Temos uma reunião às 7 horas.
— Não pode dizer que está doente?
— Não. Eu convoquei a reunião.
Todos os Estados Unidos odiavam Lenny Brookstein. Mas,
naquele momento, ninguém o odiava mais do que Harry
Bain.
Sou mais esperto do que Lenny Brookstein, pensara Bain ao
assumir o caso. Não estamos procurando um par de
abotoaduras. Setenta e cinco bilhões de dólares estão
desaparecidos. É como tentar esconder um país. "Com
licença, alguém viu a Guatemala? Um judeu morto do
Queens a extraviou em junho do ano passado"
É claro que encontraria o dinheiro. Como não?
Mesmo assim, aqui estava ele, um ano depois, sem nada.
Harry Bain, Gavin Williams e suas equipes tinham ocupado
a antiga sede do Quorum como base para a investigação.
Com a ajuda de John Merrivale, a força-tarefa gastara
milhões, correndo atrás de pistas por todo o mundo, de
Nova York às Ilhas Cayman, Paris e Cingapura. Entre eles,
Harry Bain, Gavin Williams e John Merrivale tinham
acumulado mais milhas aéreas do que aves migratórias,
produziram papel suficiente para acabar com uma floresta
tropical inteira, fizeram milhares de interrogatórios e
analisaram incontáveis registros bancários. O FBI sabia de
tudo que Lenny Brookstein fizera de janeiro de 2001 a
junho de 2009. Ainda assim, nem sombra do maldito
dinheiro.
O fracasso deles não era devido à falta de esforço. Gavin
Williams podia ser um sujeito esquisito, mas ninguém podia
acusá-lo de falta de comprometimento. Pelo que Harry Bain
sabia, Williams não tinha amigos nem família, nenhuma
vida pessoal. Ele vivia e respirava Quorum, seguindo a
impenetrável e tortuosa trilha de documentos que Lenny
Brookstein deixara para trás com a sede de sangue de uma
raposa faminta. Havia ainda John Merrivale, a pessoa de
dentro que se tornara da polícia. John também era
excêntrico. Tão tímido que chegava a parecer autista, o cara
ainda tremia sempre que se tocava no nome de Lenny
Brookstein. No começo, Harry Bain se perguntara se John
Merrivale não estava envolvido na fraude. Mas quanto mais
sabia sobre as práticas que Lenny Brookstein usava nos
negócios, menos suspeitava de John Merrivale ou de
Andrew Preston, ou de qualquer outro empregado.
Brookstein tinha tantos segredos que fazia a CIA parecer
indiscreta. Cercado por pessoas, um animal social ao
extremo, no final das contas, Lenny não confiava em
ninguém. Ninguém além de sua esposa.
Os boatos na equipe diziam que John Merrivale era infeliz
em casa. Harry Bain encontrara Caroline Merrivale uma vez
e acreditava bem nisso. Aquela vadia provavelmente usava
salto alto e chicote na cama. Ou um uniforme da Gestapo.
Não era de se admirar que John ficasse feliz em trabalhar
longas horas na força-tarefa. Eu também ficaria se fosse
casado com Madame Sadô.
— Muito bem, pessoal. O que temos?
O grupo de elite de agentes do FBI que formavam a força-
tarefa do Quorum fitou o chefe de forma desanimadora.
Uma piada surgiu.
— Gavin está pensando em ir a Bedford Hills de novo, cer-
to, Gav? Ele vai usar seu lendário charme com as damas para
fazer a Sra. B. cantar como um passarinho.
O resto do grupo riu em silêncio. A obsessão de Gavin
Williams em fazer Grace Brookstein falar se tornara uma
piada comum entre eles. Ou Grace não sabia onde Lenny
tinha escondido o dinheiro, ou sabia e não contava de jeito
nenhum. De qualquer forma, Williams estava chutando um
cachorro morto, e todo mundo conseguia ver isso menos
ele.
Gavin não riu junto com os outros.
— Não tenho nenhuma intenção de voltar a Bedford Hills,
Stephen. Sua informação está incorreta.
O brincalhão murmurou para seu parceiro:
— Sua informação está incorreta. Ele é humano? Parece a
porra do R2-D2.
— Não brinca — respondeu o parceiro mais alto. — Obi-
Wan Brookstein, me ajuda. Você é a minha única esperança!
Mais gargalhadas.
Gavin Williams olhou em volta da mesa para seus ditos
colegas. Se pudesse, arrancaria o coração de cada um deles
com as próprias mãos e enfiaria pela garganta do arrogante
do Harry Bain até ele sufocar. Do que estavam rindo? Todos
eles faziam parte da maior e mais vergonhosa operação da
história do FBI. Se ele, Gavin, estivesse comandando o
show, as coisas seriam diferentes. Harry Bain disse:
— Tudo bem, então, nossas fichas estão todas na viagem
para Genebra.
John Merrivale passara as últimas três semanas pesquisando
uma enorme transação de 2006. As pistas só levavam até o
número de uma conta bancária na Suíça, depois esfriavam.
— Gavin, eu quero que você e John viajem juntos desta
vez.
Duas cabeças pensam melhor do que uma.
John Merrivale não conseguiu esconder sua surpresa. Ele e
Gavin Williams costumavam trabalhar de forma
independente, Seguindo pistas separadas. Aquela era a
primeira vez que Bain pedira para que viajassem juntos.
— Eu co-consigo resolver os problemas em Genebra sozi-
nho, Harry.
— Sei que consegue, mas gostaria que vocês dois trabalhas-
sem juntos desta vez.
O relacionamento de John Merrivale com Harry Bain tri-
lhara um longo caminho desde o interrogatório em que
Harry bancara o policial mau antes do julgamento de Grace.
John levara meses para convencer não apenas Bain, mas
toda a força-tarefa, de que estava do mesmo lado que eles,
que era tão vítima de Lenny Brookstein quanto qualquer
outro. Mas aos poucos, com a paciência firme e tranquila na
qual construíra toda sua carreira, John Merrivale conquistou
a confiança de todos. Harry Bain não o amedrontava mais.
Mas, ao mesmo tempo, não queria ir contra ele. John ainda
detestava confrontos. Por mais que a presença monossilábica
e austera de Gavin Williams fosse arruinar a viagem para a
Suíça, John não queria discutir o assunto.
Harry Bain disse:
— Precisamos construir um espírito de equipe. Aproveitar
mais as idéias uns dos outros. De alguma forma, temos de
encontrar uma saída para esse impasse.
John Merrivale tentou imaginar o cenário no qual alguém
aproveitaria uma idéia de Gavin Williams. Bain deve estar
ficando desesperado mesmo.
O vôo de Nova York foi turbulento e desagradável. John
Merrivale sentia seu estômago se contorcer de nervosismo.
Tentou conversar com sua companhia de viagem.
— Claro, legalmente não podemos forçar os suíços a
cooperarem conosco. Mas eu conheço bem o pe-pessoal no
Banque de Genève. Acredito que eu vá co-conseguir
convencê-los a ajudar.
Silêncio. Era como conversar com um cadáver.
Gavin Williams fechou os olhos. "Convencê-los?" "Ajudar?"
Eles são criminosos que lavaram o dinheiro sujo de
Brookstein. Eles deveriam ser torturados até que seus gritos
fossem escutados da Estátua da Liberdade.
— Já fo-foi a Genebra alguma vez, Gavin?
— Não.
— É uma cidade linda. As mo-montanhas, o lago. Eu e
Lenny adorávamos vir para cá.
Gavin Williams colocou sua máscara para dormir.
— Boa-noite.
O avião sacudiu.
John Merrivale tinha uma reserva no Les Amures, um
exclusivo hotel cinco estrelas na parte antiga de Genebra.
Nos velhos tempos, ele e Lenny apreciaram muitas ótimas
refeições no famoso restaurante do Les Amures, que fora
construído no século XIII e decorado com lindos afrescos,
fachadas pintadas e tesouros da arte. Lenny costumava dizer
que era como comer na Capela Sistina.
Gavin Williams se recusou a ficar com ele, preferindo o mais
modesto hotel Eden. Ficava bem à beira do lago, mas Gavin
escolheu, propositalmente, um quarto sem vista que ficava
mais perto da academia e do centro de negócios.
— Não estamos aqui pra nos divertir — disse ele para John,
friamente.
Deus me perdoe.
John pensou de novo em como Lenny teria detestado Gavin
Williams. Sua falta de alegria. Andando sozinho pelas ruas
geladas e medievais de Genebra, ele pensou em como a
viagem SERIA muito mais divertida se Lenny estivesse com
ele.
— Como assim eu não vou?
Gavin Williams parecia pronto para ser amarrado. Ele e John
estavam tomando café da manhã no hotel de Gavin antes da
reunião com o pessoal do Banque de Gèneve.
— Eu tenho um re-relacionamento com esses banqueiros. É
mais provável que eles confiem em mim se eu for sozinho.
— Confiar em você? — Gavin Williams enrolou o
guardanapo em sua mão.
— Isso. O sistema bancário, principalmente na Suíça, diz
respeito à confiança.
Gavin Williams pensou, furioso: Você era o braço direito do
maior ladrão de todos os tempos e tem coragem de falar
sobre confiança? Mesmo agora, mesmo depois da desgraça
do Quorum, ainda é um clube fechado, não é? Você ainda é
um deles — um banqueiro — e eu não sou. Em voz alta, ele
respondeu:
— Não me subestime, John. Já escrevi livros sobre o sistema
bancário suíço.
— Ótimo. Então, você sabe do que estou falando.
— Essas pessoas com quem você diz ter um relacionamento
fazem lavagem de dinheiro. Eles são a escória, e a confiança
deles não vale nada. Eu vou à reunião, gostem eles ou não.
John Merrivale não resistiu a um sorriso de triunfo.
— Infelizmente você não vai, Gavin. Já pedi permissão a
Harry Bain. Eu vo-vou sozinho. Você vai trabalhar com as
informações que eu conseguir tirar deles. Converse com
Harry se não gostou.
— Como posso conversar com Harry? — estourou Gavin. —
São 3 da manhã em Nova York.
— São? — John sorriu de novo. — Que pena.
Três dias depois, eles voltaram para os Estados Unidos.
John Merrivale se reportou a Harry Bain: todo dinheiro que
Lenny colocou em Genebra já tinha tomado outro rumo
havia muito tempo. Uma parte foi usada para o pagamento
de retorno de investimentos aos investidores. O resto foi
desviado para negócios imobiliários na América do Sul.
Gavin Williams iria para Bogotá no dia seguinte para ver o
que conseguia descobrir.
Harry Bain apoiou a cabeça nas mãos. Bogotá. E lá vai
novamente.
— Si-sinto muito sobre Genebra, senhor. Eu realmente
achei que isso nos levaria a algum lugar.
Harry Bain detestava a forma como John Merrivale insistia
em chamá-lo de "senhor". Ninguém mais o chamava assim.
Dissera para John parar com aquilo meses atrás, mas era
como um cacoete verbal do cara. A subserviência era a
segunda natureza dele. Não era a primeira vez que Harry se
perguntara o que atraíra um homem classe A como Lenny
Brookstein a esse devorador de números fraco e covarde.
Não fazia o menor sentido.
— Tudo bem, John. Você fez o que pôde. O FBI agradece
seus esforços.
— O-obrigado, senhor. Vou continuar tentando.
Isso. Estamos todos tentando, mas não tem nenhum prêmio
por esforço. Não aqui.
— John, você se importa se eu lhe fizer uma pergunta
pessoal? Momentaneamente, John pareceu surpreso.
— Isso não te incomoda?
— O que me incomoda?
— Você deve ter perdido milhões por causa de Lenny
Brookstein, certo? Dezenas de milhões.
John assentiu.
— Ver sua vida profissional inteira destruída, seu nome
arrastado para a lama. Isso não... sei lá... testa sua fé na
humanidade?
John Merrivale sorriu.
— Acho que eu nunca tive muita f-fé na humanidade.
— Tudo bem, então. Na amizade.
Em um instante, o sorriso desapareceu.
— Deixe-me falar uma coisa sobre amizade, Sr. Bain.
Amizade é tudo. Tudo. É a única coisa que realmente i-
importa neste mundo. As pessoas podem dizer o que
quiserem sobre mim. Mas eu lhe digo isto: sou um amigo
leal.
Ele se virou e saiu. Harry Bain o observou saindo. Sentiu-se
inquieto, mas não fazia a menor idéia do porquê.
EM um banheiro em Bogotá, Gavin Williams estava embaixo
de um chuveiro gelado, esfregando o corpo com sabão. Era
tão difícil permanecer limpo neste mundo imundo. A
Colômbia era a maior pocilga de todas. Todos os aspectos da
vida aqui estavam doentes, contaminados pela ambição,
infectados pela corrupção. Isso deixava Gavin enojado.
Enquanto se esfregava, enxaguando o corpo maculado, os
pensamentos de Gavin Williams estavam em John
Merrivale. John o humilhara na Suíça. Sem dúvida, ele
estava achando que rira por último. Mas Gavin Williams não
ia deixar passar.
John Merrivale subestimara o homem errado.
Um dia ele se arrependeria.
Capítulo 12
O primeiro ano de Grace em Bedford Hills passou rápido.
A maioria das detentas sentenciadas a longas penas via o
primeiro ano como o pior. Karen descreveu isso para Grace
como "deixar de usar drogas de repente, só que em vez da
droga, o que não se tinha era liberdade". Era uma boa
analogia, mas Grace não se sentia assim. Para ela, o primeiro
ano na prisão foi como acordar de uma vida inteira de sono.
Pela primeira vez, estava vendo a vida como realmente era.
Estava cercada por mulheres com passados comuns,
passados pobres. Mulheres que cresceram a menos de 30
quilômetros de onde Grace cresceu, mas que viveram em
um mundo tão estranho e desconhecido para ela quanto os
campos de arroz na China ou os desertos da Arábia.
Era maravilhoso.
Em sua antiga vida, Grace agora via, as amizades eram como
miragens: alianças frágeis e ocas baseadas apenas no dinheiro
e no status social. Em Bedford Hills, ela pôde observar um
tipo diferente de amizade entre mulheres, uma amizade
nascida da adversidade e fortalecida pelo sofrimento. Se uma
pessoa dizia uma palavra gentil para você ali, estava sendo
sincera. Devagar, com cuidado, Grace começou a criar laços
com Karen, com algumas das garotas que trabalhavam com
ela no centro infantil, até com Cora Budds.
Cora era um poço de contradições. Violenta, mal-humorada
e mal-educada, ela certamente podia ser ameaçadora, como
Grace aprendera na sua segunda noite em Bedford Hills. Mas
Cora Budds também era uma amiga fiel e mãe devotada.
Depois da tentativa de suicídio de Grace, o lado maternal de
Cora assumiu o controle. Foi Cora, até mais do que Karen
Willis, que liderou a campanha para mudar a idéia que as
outras detentas faziam de Grace Brookstein. Quando um
grupo de mulheres no centro deu um gelo em Grace, se
recusando a falar com ela ou mesmo comer na mesma sala,
foi Cora quem as confrontou:
— Vamo dá uma chance pra vadia. Ela num roubou nada.
Tá brincando comigo, ela nem ia saber como.
— Ela é rica, Cora.
— Ela nem é mãe. Como conseguiu ir pro centro infantil? O
diretor tá fazendo favores pra ela.
— Deixa eu falar uma coisa pra vocês. O diretor queria que
ela morresse. Por isso mandou ela pra minha cela. Mas tô
dizendo pra vocês, Grace é legal. Ela num é do jeito que
fizeram ela parecer na televisão e no tribunal. Vamu dá uma
chance pra ela.
Devagar e com má vontade, as mulheres começaram a in-
cluir Grace em suas conversas. Conquistar a aceitação delas,
e depois o afeto, significava mais do que Grace podia
expressar. A sociedade rotulava as detentas de Bedford Hills
como criminosas, párias. Agora, pela primeira vez, Grace se
perguntava se talvez a sociedade não fosse criminosa por
excluí-las. Grace vivera o Sonho Americano durante toda a
sua vida. A fantasia de riqueza, liberdade e a busca pela
felicidade haviam sido sua realidade desde o dia em que
nasceu. Ali, em Bedford Hills, ela testemunhou o outro lado
daquela moeda de ouro: a pobreza desesperada, o ciclo
interminável de famílias partidas, pouca educação, drogas e
crime, o punho de ferro da cultura das GANGUES.
Tudo é uma grande loteria. A prisão era o destino dessas
mulheres, da mesma maneira que a riqueza e o luxo eram o
meu.
Até que alguém roubou isso de mim.
Grace tinha mais sorte do que a maioria das presidiárias. Ela
tinha algo raro, inestimável, uma coisa que outras garotas em
Bedford Hills dariam um olho para ter: um objetivo. Ali, na
cadeia, Grace finalmente tinha algo para fazer, além de
comprar roupas de estilistas famosos ou planejar a próxima
festa. Ela tinha de descobrir o que realmente acontecera no
Quorum. Não dizia respeito à liberdade. E sim à justiça. A
verdade.
Se Grace tivesse de escolher uma palavra para descrevee
como seu primeiro ano na prisão fez com que se sentisse,
seria livre. Essa, talvez, fosse a maior ironia de todas.
Das 9 às 15 horas, todo dia, Grace trabalhava no centro
infantil. O trabalho era recompensador e divertido. Crianças
vinham diariamente passar um tempo com suas mães, e
embora o laço entre mães e filhos geralmente seja óbvio,
ambos os lados se esforçavam para encher as horas em um
ambiente tão aetificial. O trabalho de Grace era facilitar isso,
lhes oferecendo alguma estrutura: histórias, aulas de leitura,
de artes, qualquer coisa que mães e filhos pudessem fazer
juntos sem precisar pensar muito em onde estavam e por
quê. O centro infantil era o único lugar em Bedford Hills
onde as detentas podiam usar roupas "comuns", que as Irmãs
de Caridade lhes davam. A irmã Theresa, que dirigia o lugar,
foi convincente com o diretor McIntosh.
— As crianças ficam com medo dos uniformes. Já é difícil o
bastante reconstruir o relacionamento maternal sem fazer a
mãe parecer uma estranha.
Grace adorava sentir o toque do algodão comum em sua
pele. Adorava a rotina alegre do trabalho: planejar
atividades, preparar as mesas com potes de tinta, pincéis e
papel, fazer brincadeiras com as crianças que a lembravam
de sua infância. Melhor de tudo, amava as crianças. Quando
Lenny estava vivo, nunca sentiu vontade de ser mãe. Mas
agora que ele se fora, era como se a ficha tivesse caído. Todo
seu instinto maternal estava aflorando.
Trabalhando no centro, Grace sentia uma paz interior, como
um zumbido de contentamento que a seguia onde quer que
fosse. Era o único lugar onde conseguia não pensar em
Lenny, John Merrivale e em como ele os traiu. Usando uma
blusa simples de algodão e saia longa de lã, era difícil
distinguir Grace das freiras que dirigiam o centro. Ocorreu-
lhe que a vida na prisão não era muito diferente da vida em
um convento: enclausuradas, cumprindo ordens, os dias
consistiam na mesma série de tarefas simples e satisfatórias.
No centro infantil, Grace sentia a mesma paz interior que
uma freira ao encontrar sua vocação. Exceto que ela não
encontrara Deus. Sua missão era de outro tipo.
O único lado negativo do trabalho de Grace no centro vinha
na forma de Lisa Halliday. Outra habitante da Ala A, Lisa
fora mandada para Bedford Hills depois de um assalto a mão
armada em uma loja em que o balconista ficou
permanentemente paralisado. Uma sapatão violenta com
cabelo louro bem curto e uma cicatriz no queixo, Lisa
Halliday era vista como a líder das presidiárias brancas, uma
minoria que tinha voz ativa. As líderes das presidiárias
desempenhavam um papel importante na administração de
qualquer prisão. E isso era algo que o diretor
McIntosh entendia muito bem. Ele dera a Lisa Halliday um
trabalho agradável no centro infantil que a deixou calma por
um tempo. Até Grace Brookstein aparecer. Lisa Halliday não
escondia de ninguém seu ódio por Grace, que considerava o
"bichinho de estimação" de Cora Budd e uma traidora das
mulheres BRANCAS de Bedford. Sem mencionar uma vadia
que tinha o diretor na palma da mão. Lisa não perdia uma
oportunidade de implicar com Grace ou tentar metê-la em
alguma confusão.
O trabalho de verdade de Grace começava depois das 15
horas, quando ela tinha permissão para passar duas horas na
biblioteca da prisão. Davey Buccola prometera ajudá-la, mas
Grace não tinha nenhuma notícia dele há meses. Impaciente
PARA fazer algum progresso, ela dedicava todas as suas horas
livres à pesquisa sobre o Quorum. Havia muito o que
aprender. Seguindo o conselho de Davey, começara pelo
começo. Leu sobre o mercado de capitais, o que era e como
funcionava. Descobriu pela primeira vez o que um fundo de
hedge realmente fazia — nunca lhe ocorreu perguntar a
Lenny. Pesquisou incontáveis artigos de economia. No
passado, escutava termos como arrocho de crédito e socorro
financeiro o tempo todo. Mas não fazia ideia do que
realmente significavam. Agora seu dever era saber. Queria
entender por que empresas como a Lehman Brothers
faliram. Por que tantas pessoas perderam seus empregos e
suas casas por causa do Quorum. Os primeiros meses foram
como pintar o fundo de uma enorme tela. Só quando
terminasse o céu e o mar agitado, Grace poderia começar a
trabalhar no navio: a fraude que a colocara aqui. Isso, claro,
era a parte mais difícil e complicada do quadro.
Grace descobriu que o maior problema com fundos de
hedge era que eles funcionavam por trás de um véu de
segredos. Executivos como Lenny nunca contavam suas
estratégias de investimento, muito menos detalhes
específicos sobre transações individuais. E isso era
perfeitamente legal.
Karen Willis perguntou:
— Então, como as pessoas sabiam o que estavam compran-
do? Se era um segredo tão grande?
— Não sabiam — respondeu Grace. — Elas olhavam o
desempenho passado e apostavam no futuro.
— Quer dizer como apostar em um cavalo?
— Acho que sim.
— Um risco e tanto, não acha?
— Isso depende do quanto você confia em quem vai cuidar
do seu dinheiro.
As pessoas confiaram em Lenny. Confiaram no Quorum.
Mas alguma coisa dera terrivelmente errado. Quanto mais
ela estudava as matérias que tinham saído em jornais e
revistas, mais Grace entendia por que o FBI fracassara de
forma tão singular em rastrear o dinheiro desaparecido. Com
tantos segredos e fundos passando por diversas contas
diferentes, no país, fora dele, por todo o mundo, era como
passar um pente fino na praia para encontrar um
determinado grão de areia. Ações eram vendidas antes
mesmo de terem sido compradas, criando lucros
"fantasmas", que depois eram alavancados, multiplicados por
três, quatro, dez vezes antes de serem reinvestidos em
estruturas derivativas tão complicadas que deixavam os olhos
de Grace cheios de água.
Davey Buccola finalmente foi visitá-la. Pela expressão do
rosto dele, Grace podia perceber que ele tinha novidades.
Ela mal conseguia conter sua animação.
— Foi John Merrivale, não foi? Ele roubou o dinheiro. Eu
sabia.
— Eu não sei quem roubou o dinheiro.
A animação de Grace sumiu.
— Ah.
— Minha investigação tomou um rumo diferente.
A expressão de Davey era sóbria, os lábios pressionados
formando uma linha cruel. Grace sentiu um aperto no
estômago.
— Como assim? Que tipo de rumo?
Davey pensou: quando eu entrei aqui, ela parecia tão feliz.
Estou prestes a fazer o mundo dela desabar. E se eu estiver
errado? Então, ele pensou: Eu não estou errado. Ele se
debruçou sobre a mesa e pegou a mão de Grace.
— Sra. Brookstein.
— Grace.
— Grace. Sinto muito por ter de lhe dizer isso. Mas acredito
que seu marido foi assassinado.
— Como? — A sala começou a girar. Grace segurou a mesa
PARA não cair.
— Lenny não se matou.
— Eu sei disso. Foi um acidente. A tempestade... — As
palavras se calaram, deixando um silêncio.
— Não foi um acidente. Passei meses investigando as
atividades de John Merrivale no Quorum — disse Davey, —
mas percebi que estava correndo atrás do meu próprio rabo.
Então decidi investigar seu marido. Retrocedi até o
desaparecimento dele, a investigação, o que aconteceu em
Nantucket no dia daquela tempestade. Finalmente, vi a
necrópsia.
Grace engoliu em seco.
— Continue.
— Uma vergonha. Parecia uma piada. Eles assumiram que a
morte foi por afogamento porque o corpo estava molhado e
havia água nos pulmões. Quando toda a merda do Quorum
veio à tona, eles declararam suicídio porque viram que havia
um motivo. Mas água nos pulmões nao significa
necessariamente que a pessoa morreu afogada.
— Não?
— O corpo estava na água havia mais de um mês. É claro que
o pulmão estava cheio de água. A primeira pergunta que
temos que nos fazer em uma morte assim é como a pessoa
foi parar na água e se estava viva ou morta quando isso
aconteceu.
— Então você acha...
— Acho que seu marido já estava morto quando foi parar na
água. Não havia sangue nos pulmões dele. Quando uma
pessoa se afoga no mar, em uma tempestade como aquela... a
pressão de tanta água entrando nos pulmões de forma tão
repentina quase com certeza provocaria uma hemorragia.
— Quase com certeza?
— Não foram apenas os pulmões. Havia outros sinais, os
machucados no torso. Arranhões nos dedos e parte superior
dos braços que podem ser um indício de luta. E a forma
como a cabeça estava machucada. Vi as fotos. E as vértebras.
Aquilo não foi peixe. Só se o peixe tivesse uma guilhotina.
Ou uma faca de açougueiro.
Grace colocou a mão na boca, enjoada.
— Ah, droga, desculpe. Minha intenção não era ser tão
explícito. Você está bem?
Grace balançou a cabeça. Nunca mais ficaria bem. Respirou
fundo, se esforçando para controlar suas emoções.
— Por que nada disso veio à tona durante as investigações?
— Alguma coisa veio. Os machucados foram mencionados,
mas esquecidos. Ninguém queria ver a verdade. Não naquele
momento. Você deve se lembrar, seu marido era o homem
mais odiado do país. Talvez tenha sido simplesmente mais
fácil achar que ele tinha se suicidado, como um covarde, em
vez de vê-lo como uma vítima.
— Mais fácil? — A cabeça de Grace estava girando. Era muita
coisa para absorver.
— Eu queria lhe dizer isso primeiro — disse Davey. — Sei
que é um choque e tanto, mas, na verdade, é uma notícia
boa. Acho que temos o suficiente aqui para reabrir a
investigação, Grace. Seria o primeiro passo para uma
investigação de assassinato.
Grace ficou em silêncio por um bom tempo. Finalmente,
disse:
— Não. Não quero a polícia envolvida.
— Mas, Grace.
— Não.
Alguém tinha matado Lenny como se mata um animal e o
jogado no mar. De que adiantaria a polícia ou os tribunais,
ou o sistema de justiça corrupto e nojento? Que justiça há
para Lenny ou para mim? O país nos amaldiçoou
simplesmente porque era "mais fácil". Eles deixaram o
assassino de Lenny escapar impune e me jogaram aqui para
apodrecer. Bem, que se dane o país. O tempo de justiça
acabou.
Davey estava confuso.
— O que você quer que eu faça?
— Quero que descubra quem fez isso. Se foi John Merrivale
ou qualquer outra pessoa. Quero saber quem matou meu
marido. Quero saber como fez isso. Quero saber tudo e
quero ter certeza. Não estou interessada em dúvida razoável.
Davey disse:
— Tudo bem. E depois?
— E depois pensaremos nos próximos passos.
E depois vou matá-lo.
Depois que as luzes se apagaram, Grace ficou deitada na
cama acordada, sua mente a mil por hora.
Quem quer que tenha matado Lenny tinha de estar em
Nantucket no dia da tempestade. Pode ter sido um estranho.
Mas ela sabia que era pouco provável. Foi alguém próximo
de nós. Só pode. Alguém próximo do Quorum. Do dinheiro
desaparecido.
Pensou nas férias, nos convidados.
Connie e Michael.
Honor e Jack.
Maria e Andrew.
Caroline e John.
A família Quorum. Exceto que eles não eram família. Não
eram amigos. Todos abandonaram Grace na hora em que ela
mais precisara.
Um deles matara Lenny.
Grace não queria mais justiça. Queria vingança. Teria
vingança.
Naquela noite, Grace Brookstein começou a planejar sua
fuga.
Capítulo 13
Karen Willis esfregou os olhos. Eram 2 horas e Grace
Brookstein estava subindo na sua cama.
— Grace? O que houve? Está doente?
Grace balançou a cabeça. Embaixo do cobertor, as duas se
aninharam em busca de calor. Karen sentiu a maciez dos
seios de Grace nas suas costas. O cheiro de sua pele, o
carinho suave de sua respiração. Instintivamente, colocou a
mão por baixo da camisola de Grace, procurando a umidade
sedosa entre suas coxas.
- Eu amo você. — Karen se virou e pressionou os lábios nos
de Grace. Por alguns gloriosos momentos, Grace
correspondeu ao seu beijo. Então, se afastou.
— Desculpe, eu... eu não posso.
Grace ficou dividida. Parte dela queria aceitar o conforto
que Karen estava oferecendo. Afinal, Lenny estava morto.
E Grace amava Karen também, de uma forma. Mas sabia
que não era certo. Não amava Karen daquela forma. Não
realmente. Mesmo se amasse, seria errado dar esperanças a
ela. Principalmente levando em consideração o que estava
prestes a lhe dizer.
Karen pareceu angustiada. Como podia ser tão estúpida?
Interpretara errado os sinais dela.
— Ah, meu Deus. Está com raiva de mim?
— Não, de forma alguma. Por que eu estaria?
— Eu nunca tentaria nada se não tivesse achado... Quer
dizer, você veio para a minha cama.
— Eu sei. Desculpe. Foi culpa minha — disse Grace. — Eu
precisava conversar com você. Preciso do seu conselho.
— Meu conselho?
— É. Vou fugir.
Era a quebra na tensão de que Karen precisava. Riu tanto
que quase acordou Cora.
Grace não entendeu.
— O que é tão engraçado?
— Ah, Grace! Você não pode estar falando sério!
— Nunca falei tão sério em toda a minha vida.
— Querida, é impossível. Nunca ninguém fugiu de Bedford
Hills.
Grace deu de ombros.
— Para tudo tem uma primeira vez, não é mesmo?
— Não para isso. — Karen não estava mais rindo. —Você
está falando sério mesmo, não está? Você perdeu a cabeça,
Grace. Já olhou para fora ultimamente? Tem nove cercas de
arame farpado entre nós e a liberdade, todas elas
eletrificadas. Tem guardas, cães, câmera e armas para todos
os lados.
— Sei de tudo isso.
— Então você não está pensando direito. Olhe, mesmo se
você encontrasse uma forma de fugir, o que não vai porque
é impossível, você tem um dos rostos mais conhecidos do
país. Até onde você acha que vai chegar?
Grace passou a mão pelo nariz quebrado.
— Não é mais tão fácil me reconhecer. Não sou mais como
eu era antes. Além disso, posso me disfarçar.
— Quando te pegarem, vão te matar. Não vão querer saber
de nada.
— Também sei disso. É um risco que estou disposta a
assumir.
Karen acariciou o rosto de Grace na escuridão. Isso era
loucura. Ninguém nunca fugira de Bedford Hills. Se Grace
tentasse, ela certamente seria morta. Mesmo se, por algum
milagre, ela fosse capturada viva, isso significava que Karen
nunca mais a veria. Grace seria transferida para a solitária.
Mandada para fora do estado. Trancada em alguma prisão da
CIA para ninguém mais ouvir falar dela.
— Não faça isso, Grace. Por favor. Não quero perder você.
Grace viu os olhos de Karen se encherem de lágrimas.
Inclinando-se, ela lhe deu um beijo na boca. Foi um beijo
apaixonado, demorado. Um beijo para se lembrar. Um beijo
de adeus.
— Tenho que fazer isso, Karen.
— Não, não tem. Por quê?
— Porque Lenny foi assassinado.
Karen se sentou.
— O quê? Quem disse isso?
— Davey Buccola. Ele encontrou provas, coisas que não
apareceram na investigação.
Então, Davey Buccola colocou isso na cabeça dela. Vou
matá-lo.
— Preciso descobrir quem matou meu marido.
— Mas, Grace...
— Vou encontrar quem fez isso. E, então, vou matar essa
pessoa.
Grace esperou a raiva, o choque, mas eles não apareceram.
Em vez disso, Karen lhe deu um abraço apertado. Karen
lembrou-se de Billy, o namorado de sua irmã. Como pareceu
certo quando aquela bala entrou entre os olhos dele. Apesar
de tudo o que aconteceu desde então, nunca se arrependera
do que fizera. Não queria perder Grace. Mas compreendia.
— Imagino que você tenha um plano.
— Na verdade, era sobre isso que eu queria falar com você.
A irmã Agnes observou enquanto Grace Brookstein arruma-
va um quebra-cabeça e rezou silenciosamente:
Obrigada, Senhor, por me entregar esta alma perdida.
Obrigada por me permitir ser o instrumento de sua
redenção.
A irmã Agnes era freira havia apenas cinco anos. Antes
disso, ela era Tracey Grainger, uma adolescente nada popular
e solitária de Frenchtown, Nova Jersey. Tracey Grainger se
apaixonara por um garoto chamado Gordon Hicks. Gordon
lhe dissera que a amava e Tracey acreditara. Quando Gordon
a engravidou e a abandonou logo em seguida, Tracey foi para
casa e tomou todos os comprimidos que encontrou. O bebê
não sobreviveu.
Nem Tracey Grainger.
A garota que acordou da overdose em uma cama horrível de
hospital, segurando a barriga e chorando de culpa, não era a
mesma em que Gordon Hicks dera o fora. Não era mais a
aluna medíocre que desapontava os pais desde o dia em que
nasceu. Não era mais a aluna antissocial e indesejada que
ninguém convidou para o baile. Esta garota era uma pessoa
totalmente nova. Uma pessoa amada por Deus. Uma pessoa
de valor. Uma pessoa cujos pecados foram perdoados por
Deus, que um dia se uniria a Jesus sob a mão direita do Pai.
Se alguém acreditava na força da redenção, essa pessoa era
Irmã Agnes. Deus a redimira. Ele salvara sua vida. Agora em
seu infinito amor e misericórdia, Ele redimira Grace
Brookstein também. E Ele permitira que ela, irmã Agnes,
desempenhasse um pequeno papel nesse milagre.
Naquela mesma manhã, Grace lhe dissera:
— Sinto-me tão completa aqui, irmã. Trabalhando com es-
sas crianças. Com a senhora. É como se eu recebesse uma
segunda chance na minha vida.
Que satisfação essas palavras trouxeram ao seu coração! A
irmã Agnes esperava não ser culpada do pecado mortal do
orgulho. Precisava se lembrar que fora Deus quem
transformara Grace, não ela. Mesmo assim, Irmã Agnes não
podia deixar de achar que sua amizade contribuíra para
algumas das mudanças em Grace.
Grace também mudara a irmã Agnes. A vida de uma freira
podia ser solitária. A maioria das Irmãs de Misericórdia tinha
idade suficiente para ser sua mãe, se não avó. Nos últimos
meses, passara a valorizar a amizade fácil que parecia ter
crescido entre ela e Grace Brookstein. Os olhares. Os
sorrisos. A confiança.
Grace guardou as peças do quebra-cabeça na caixa, depois
colocou-a de volta na prateleira. Irmã Agnes sorriu.
— Obrigada, Grace. Já terminamos por hoje. Sei que quer ir
para a biblioteca.
— Tudo bem — disse Grace, satisfeita. — Fico feliz em
ajudar. Ah, a propósito, sabe aquela argila que recebemos na
semana passada? Precisamos devolver.
— Precisamos? Por quê?
— Abri seis ou sete caixas esta manhã e todas estavam secas
por dentro. Tentei molhar com água, mas ficam lamacentas.
Vamos ter que devolver.
Que pena, pensou a irmã Agnes. Ela passara boa parte do dia
arrumando aquelas caixas no almoxarifado com irmã
Theresa. Agora teria de tirar tudo de novo.
— Mandei um e-mail para a empresa de entrega — disse
Grace. — Eles vêm buscar na terça-feira às 16 horas.
— Terça-feira? — Irmã Agnes pareceu aflita. — Ah, Grace,
foi tanta gentileza sua providenciar tudo. Mas não posso
supervisionar a entrega na terça. Infelizmente. Uma
delegação do departamento penitenciário estará aqui para
uma inspeção. Depois, eu e Irmã Theresa teremos a nossa
reunião sobre o orçamento para o trimestre. Ficaremos a
tarde toda fora.
— Ah. — Grace parecia decepcionada. Então, de repente, se
iluminou. — Talvez eu possa fazer isso pela senhora?
Detentas da Ala A não podiam ajudar em entregas e
carregamentos. O diretor considerava um risco em potencial
à segurança. Mas Grace estava indo tão bem em sua
reabilitação. Irmã Agnes detestaria passar a impressão de que
não confiava nela.
Grace disse:
— As crianças já esperaram semanas. É uma pena atrasar isso
ainda mais.
— Aquelas caixas são pesadas, Grace — disse a irmã Agnes,
sem jeito. — Precisa de duas pessoas para fazer o trabalho.
— Cora pode me ajudar.
— Cora Budds? — Essa idéia estava indo de mal a pior.
— Ela trabalha na cozinha às terças-feiras, mas costuma
acabar por volta das 15 horas.
Grace parecia tão esperançosa, tão ansiosa para ajudar. Irmã
Agnes hesitou. Que mal pode haver? Só desta vez.
— Bem, acho que... se você tem certeza e Cora pode aju-
dar...
Grace sorriu.
— Carregar um caminhão? Sim, irmã Agnes. Podemos fazer
isso sozinhas, sim.
Seu coração estava batendo tão alto que ficou surpresa de
Irmã Agnes não escutar. Ela era uma mulher doce e
generosa e Grace se sentia mal por enganá-la. Mas não tinha
outro jeito.
Estava começando.
O plano de tentativa de fuga de Grace logo se tornou o
segredo mais mal guardado de Bedford Hills. A idéia era
simples: o caminhão de entrega chegaria ao centro infantil.
Grace e Cora Budds começariam a carregar as caixas de
argila. Enquanto Cora distraía o motorista, Grace voltaria
para o almoxarifado, esvaziaria uma das caixas e entraria ali
dentro. Cora terminaria o trabalho sozinha, certificando-se
de que a tampa da caixa de Grace não estivesse totalmente
fechada, para deixar entrar um pouco de ar e de forma a
ficar bem escondida entre as outras.
A fase seguinte do plano era uma incógnita. Tudo
dependeria da revista de segurança. Caminhões entravam e
saíam de Bedford Hills todos os dias, entregando tudo, de
papel higiênico a detergente e comida. A prisão estava
equipada com os sistemas de segurança mais sofisticados que
existiam. Além de buscas manuais, os guardas usavam cães
farejadores e até escâner infravermelho para inspecionar os
caminhões, além de câmeras que se espalhavam por todos os
cantos de Bedford Hills. Geralmente, as buscas mais
completas aconteciam nos caminhões entrando na prisão.
Havia menos ênfase no que eslava saindo. Mas todas as
buscas ficavam a critério dos guardas. Se eles não gostassem
da cara do motorista ou da aparência de um veículo, ou se
simplesmente estivessem com vontade, podiam segurar as
pessoas por horas, passando os raios X em cada centímetro
quadrado do veículo e da pessoa. Grace esperava que, em
uma noite fria de janeiro, os guardas não estivessem com a
menor disposição para inspecionar caixas e mais caixas de
argila do centro infantil. Mas não poderia saber até que
chegasse a hora.
Uma vez que o caminhão fosse liberado, se fosse liberado, e
eles se afastassem de Bedford Hills, Grace sairia da caixa e se
aproximaria das portas traseiras. Assim que o motorista
parasse em um cruzamento, ela abriria a porta do caminhão
e pularia para a liberdade.
Fácil.
— Não vai funcionar.
Karen se debruçou em cima da mesa e se serviu do aguado
purê de batatas de Grace. Estavam almoçando, poucos dias
antes da tentativa de fuga.
— Obrigada pelo voto de confiança.
— Você já pensou no que vai fazer se conseguir sair daqui?
Grace pensara em pouca coisa além disso. Quando fantasiava
a fuga, se imaginava como uma caçadora, desmascarando o
assassino de Lenny, conseguindo sua vingança. Mas a
realidade era que ela também seria caçada. Para sobreviver,
precisaria de comida, abrigo, dinheiro e um disfarce. Não
fazia ideia de como conseguir nada disso.
— E amigos do lado de fora? Tem alguém em quem possa
confiar? Qualquer pessoa que possa acobertá-la?
Grace balançou a cabeça.
— Não. Ninguém.
Havia apenas uma pessoa em quem confiava. Davey
Buccola. Davey estava trabalhando para conseguir mais
informações, verificando os álibis de todos que estavam com
Grace e Lenny em Nantucket no dia em que ele morreu. Se
Grace fosse procurar alguém do lado de fora, seria ele. Mas
não queria contar isso para Karen.
- Nesse caso, precisamos providenciar um kit de
sobrevivência para você daqui.
— Um kit de sobrevivência?
- Claro. Você vai precisar de uma nova identidade. Na
verdade, algumas novas identidades, para poder seguir em
frente. Carteiras de motorista, cartões de crédito, dinheiro.
Você não vai muito longe como Grace Brookstein.
- Onde vou arranjar uma carteira de motorista, Karen? Ou
um cartão de crédito? É impossível.
- E falou a mulher que acha que vai fugir de Bedford Hills!
Não se preocupe com esses detalhes, Grace. Deixe comigo.
Karen avisara Grace que precisaria contar para "algumas
meninas" sobre seu plano de fuga para conseguir o que
precisavam em tão pouco tempo. Para horror de Grace,
"algumas meninas" se tornou quase toda detenta de Bedford
Hills. Falsificar uma carteira de motorista e um cartão de
crédito não seria uma tarefa fácil. Karen foi forçada a pedir
ajuda por toda a prisão. Internas que trabalhavam no
escritório do diretor, na biblioteca e na sala de computadores
digitaram, fizeram ajustes no Photoshop e plastificaram
durante dias, todas arriscando suas condicionais e seus
futuros por uma chance de ajudar Grace e participar da
Grande Fuga. As únicas pessoas que não sabiam sobre o
plano eram os guardas e Lisa Halliday.
Era discutível se Lisa entregaria Grace; internas fortes
podiam bater em suas rivais e sair impunes, mas dedurar
outra presidiária era considerado tabu. Mesmo assim, Karen
não estava disposta a arriscar.
Grace era grata pela ajuda de todo mundo, mas estava
nervosa.
— Pessoas demais estão sabendo.
— Não são "pessoas" — disse Karen. — São suas amigas.
Pode confiar nelas.
Confiança. Era uma palavra de outra vida, de outro planeta.
A terça-feira amanheceu cinza e fria. Grace mal conseguira
dormir. Durante toda a noite vozes a perseguiram:
Lenny: Independentemente do que acontecer, Grace, eu
amo você.
John Merrivale: Não se preocupe, Grace. Apenas faça o que
Frank Hammond mandar e você vai ficar bem.
Karen: Quando te pegarem, vão te matar. Não vão querer
saber de nada.
Grace não tocou no seu mingau de aveia no café da manhã.
— Você precisa de força — disse Cora Budds. — Come
alguma coisa.
— Não consigo. Vou vomitar.
A negra enorme estreitou os olhos.
— Não tô pedindo, Grace. Tô mandando. É melhor se
controlar, menina. Vou colocar meu traseiro na reta por
você, hoje. Todas nós. Agora come.
Grace comeu.
— Tem certeza de que está bem, Grace? Talvez deva ir se
deitar um pouco.
Era meio-dia e Grace estava no centro infantil. A delegação
deveria chegar às 12h30. Tinha passado a manhã arrumando
e limpando os brinquedos, as mesas, pendurando
trabalhinhos para que o centro ficasse com a melhor
aparência possível. Se a delegação ficasse impressionada,
podia aumentar o orçamento. Ou, pelo menos, não
diminuir. Grace trabalhara de forma incansável como
sempre, mas Irmã Agnes estava preocupada com ela. A pele
dela estava verde quando chegou naquela manhã. Agora
estava terrivelmente pálida. Poucos minutos antes, ao tentar
alcançar uma prateleira mais alta, ficara tonta e quase
desmaiara.
— Estou bem, Irmã.
— Não acho que esteja bem. Você deve ir à enfermaria para
darem uma olhada em você.
— Não! — Grace sentiu sua garganta ficar seca de pânico. A
tenhora não pode me mandar para a enfermaria. Não hoje. E
se eles me segurarem lá a tarde toda? Lembrou-se do que
Cora dissera no café da manhã. Precisava se controlar. — Só
estou um pouco desidratada, só isso. Talvez um copo d'água?
A irmã Agnes foi buscar a água. Quando ela saiu, Grace
BELISCOU as bochechas e respirou fundo algumas vezes, para
se ACALMAR. Quando a freira voltou, ela parecia um
pouquinho MELHOR.
Do canto da sala, Lisa Halliday assistia à cena, desconfiada.
— O que está acontecendo com a Sra. Brookstein? —
perguntou ela para uma das mães, uma jovem negra que
estava há pouco tempo em Bedford Hills. — Ela tá agindo de
um jeito estranho a manhã toda, até para os padrões dela.
— Você também não estaria se fosse se mandar daqui? —
disse a garota. Só de olhar para o rosto de Lisa, ela viu que ti-
nha estragado tudo. Mas já era tarde demais.
— O que que você disse?
— Nada. Eu só... Não sei o que estou falando. São só uns
boatos malucos.
Lisa Halliday ficou com o rosto a poucos centímetros do da
garota.
— Diga.
— Por favor. Eu... eu não podia ter falado nada. Cora vai me
matar.
— Conta tudo agora ou vou dar um jeito de o diretor nunca
mais deixar você ver seu filho.
— Por favor, Lisa.
— Acha que não consigo?
A garota pensou no filho, Tyrone. Ele tinha 3 anos, era
fofinho e gordinho como um urso de pelúcia. Ele chegaria
em meia hora, aninhando-se nela, fazendo desenhos para ela
colocar na cela.
Começou a falar.
As sobrancelhas de Hannah Denzel formavam uma única e
furiosa linha de pelos enquanto guiava os VIPs pelo corredor
até o centro infantil.
— Por aqui, senhoras e senhores.
Denny não gostava de mostrar Bedford Hills para as
"delegações". O grupo de políticos e policiais do importante
grupo de hoje era tão ruim quanto todos os outros: os
benfeitores que vinham visitar a prisão, os padres, os
assistentes sociais, os terapeutas, as freiras, todo o exército
de intrometidos que infestava seu território duas vezes por
ano com pranchetas e recomendações. Nenhum deles
parecia perceber que essas mulheres eram nocivas. Que
estavam em Bedford Hills para serem punidas, não salvas.
Isso enojava Denny.
O grupo aplaudiu o centro infantil, se espalhando pelos
locais de trabalho arrumadíssimos e as áreas de brincadeira.
O diretor McIntosh ficou observando-os como um pai
orgulhoso. Então, seu rosto mudou. Grace Brookstein estava
vagando por uma das estações de trabalho, muito pálida e
com cara de doente. Droga. Tinha se esquecido
completamente de Grace. A última coisa de que precisava
era que sua detenta mais ilustre distraísse a atenção do grupo
da jóia da coroa de Bedford Hills.
Ele sussurrou no ouvido de Hannah Denzel:
— Tire-a daqui. Sem chamar a atenção. Ela é uma distração.
Os olhos cruéis da agente se iluminaram.
— Sim, senhor. — Era disso que ela gostava. Ao se
aproximar de Grace, agarrou-a pelo braço com força. —
Vamos, Brookstein, para a sua cela.
— Minha cela? Mas eu... eu não posso — gaguejou Grace,
estou trabalhando.
— Não está mais. Vamos.
Grace abriu a boca para protestar mas nenhum som saiu. O
pânico subiu pela sua garganta como vômito.
— Algum problema? — a irmã Agnes se intrometeu. —
Posso ajudar?
— Não — respondeu Denny, empurrando Grace para a
porta. Ela não aprovava a presença das freiras em Bedford
Hills. A irmã Agnes devia voltar para o convento, rezar
seu rosário e deixar as presidiárias para os profissionais. — O
diretor quer que esta aqui fique trancada na cela. E ela não
quer uma cena.
Grace lançou um olhar que implorava: Me ajude! A freira
sorriu com ternura para a amiga.
— Não fique triste, Grace. Acho que descansar vai lhe fazer
bem. Aproveite sua tarde de folga. Ainda estaremos aqui
amanhã.
Eu sei, e agora eu também, pensou Grace. Teve vontade de
chorar.
Lisa Halliday só conseguiu sair do centro infantil às 15h45.
A feitora irmã Theresa lhe dera uma lista de afazeres tão
comprida quanto seu histórico policial. Correndo para o
escritório do diretor, ela se aproximou da mesa da recepção.
— Preciso ver o diretor — disse ela, ofegante. — É urgente.
A recepcionista olhou para a mulher grosseira na sua frente,
com trejeitos masculinos e ficou tensa.
— O diretor McIntosh não pode receber ninguém hoje. Ele
está com uma delegação...
— Eu já disse, é urgente.
— Sinto muito — disse a garota. — Ele não está aqui.
— Bem, cadê ele?
O tom de voz da recepcionista ficou mais gelado.
— Fora. Ele tem reuniões o dia inteiro. Algo em que eu
possa ajudar?
— Não — disse Lisa, grosseiramente. — Preciso falar com o
rei e não com o bobo da corte. — Precisava falar com o
diretor, e precisava fazer isso sozinha. Se a notícia de que ela
fora a dedo-duro de Grace Brookstein se espalhasse, estaria
acabada em Bedford Hills.
— Então, não há nada que eu possa fazer.
Lisa sentou o traseiro enorme em uma das cadeiras duras
que ficavam encostadas na parede.
— Tudo bem. Eu espero.
Cora Budds saiu da cozinha, onde trabalhava, às 16h10 e
correu para o centro infantil como combinado. Duas mães
estavam se despedindo de seus filhos enquanto um agente
entediado tomava conta.
Cora perguntou a uma das mães:
— Cadê a Grace?
— Na cela. Denny a tirou daqui horas atrás. Ela não parecia
nada bem.
Cora pensou: Aposto que não parecia mesmo. É isso, então.
Se Grace está na cela, o plano todo foi por água abaixo.
Foi sozinha para o almoxarifado. Talvez seja melhor assim.
GRACE estava sentada em seu beliche, olhando para o nada.
Estava exausta demais para chorar. Era o fim. Só Deus sabia
quando teria outra chance. Talvez demorasse anos para isso
acontecer. Anos nos quais quem matou Lenny ficaria solto,
livre, FELIZ, impune. Esse pensamento era insuportável.
Desatentamente, olhava para o relógio na parede: 15h55...
16 horas... 16h05... O caminhão já devia estar lá. Cora devia
estar carregando-o, sozinha, imaginando o que tinha
acontecido.
Às 16h08, Grace escutou o barulho de chave no cadeado. O
turno de Karen devia ter acabado mais cedo. Pelo menos, ela
ficaria feliz pelo plano de fuga ter dado errado. A porta se
abriu.
— Levante-se. — Os olhos de Denny brilhavam de ódio.
Passara a tarde toda ruminando as palavras da Irmã Agnes
para Grace: Aproveite sua tarde de folga. Como se isso aqui
fosse algum tipo de acampamento de verão! Não havia
nenhuma tarde de folga em Bedford Hills.
— Você perdeu quatro horas de trabalho esta tarde, sua
VADIA ordinária. Achou que estava de férias, não foi? Um
passe livre?
Grace disse baixinho:
— Não, senhora.
— Bom. Porque não existem férias na Ala A. Não enquanto
eu estiver no comando. Você pode compensar essas horas
de trabalho, começando agora mesmo. Vá para o centro
infantil e comece a esfregar o chão.
— Sim, senhora.
— Quando terminar, esfregue de novo. E pode esquecer de
comer hoje à noite. Vai ficar esfregando aquele chão até que
eu vá buscar você, entendeu?
— Sim, senhora.
— VÁ!
Grace saiu da cela e começou a correr pelo corredor. Denny
observou-a se afastar com um sorriso de satisfação no rosto.
Não fazia a menor idéia de que Grace estava correndo por
sua vida.
Cora Budds Já tinha quase terminado de carregar o caminhão
com as caixas.
O motorista reclamou:
— Achei que fosse ter duas. Se eu soubesse, tinha trazido
alguém.
Cora deu de ombros.
— A vida é uma merda, né? — Já estava quase escuro no
pátio úmido atrás do almoxarifado do centro infantil. A
temperatura estava abaixo de zero, mas o vento tornava
ainda mais frio. As caixas eram pequenas, mediam um metro
por um. Olhando para elas, Cora não conseguia imaginar
como Grace ia se apertar dentro de uma. Elas também eram
pesadas. O peso, combinado com o frio de gelar os dedos,
tornava o trabalho ainda mais lento.
— Desculpe o atraso.
Grace estava tremendo de frio sob a luz do poste. Ainda de
saia e uma fina blusa de algodão, suas roupas eram ridículas
para a noite de inverno. O vento cortava a sua pele como
lâminas. Cora Budds arregalou os olhos, surpresa, mas não
disse nada.
O motorista parecia irritado.
— Tá brincando comigo? Essa é a número dois? Ela não
consegue nem levantar uma xícara de café, muito menos
uma caixa de argila.
— Claro que consegue — disse Cora. — Deixa isso com a
gente.
— Por mim, tá bom. — O motorista voltou para o gostoso
calor da cabine do caminhão. — É só me avisar quando
acabarem.
De volta ao almoxarifado, Cora e Grace trabalharam rápido.
A irmã Agnes ou um dos guardas podia voltar a qualquer
minuto. Cora tirou os documentos de Grace do bolso de seu
UNIFORME, enfiando-os no sutiã de Grace. Havia quatro
identidades falsas com cartões de crédito com os mesmos
nomes, um pedacinho de papel com um e-mail anônimo
escrito e um PEQUENO rolo de dinheiro.
- Karen tem uma amiga do lado de fora que vai mandar mais
dinheiro pra você quando precisar. É só mandar um e-mail
DIZENDO quanto precisa, o código postal de onde está e as
iniciais da identidade falsa que estiver usando, e essa pessoa
fará o resto. Leve isso também. — Ela entregou um estilete
prateado a Grace. — Nunca se sabe.
Grace fitou a lâmina sobre a palma de sua mão por um
segundo, hesitando, então, escondeu-a no sapato. Cora abriu
a tampa de uma das caixas, esvaziando-a em velocidade
recorde. De alguma forma, a caixa parecia ainda menor
quando estava vazia.
- Acho que é impossível, Grace. Não ia caber um gato aí
dentro — falou Cora.
Grace sorriu.
- É possível. Eu era ginasta quando era mais nova. Olhe.
Cora observou admirada enquanto Grace entrava na caixa, o
traseiro primeiro, dobrando seus pequenos membros em
volta de si como uma aranha.
— Menina, isso deve doer. — Ela recuou. — Está bem?
— Não é exatamente uma viagem de primeira classe, mas
vou sobreviver. Coloque a tampa. Estou totalmente dentro?
Cora colocou a tampa. Fácil. Com uns 3 centímetros de so-
bra. Abriu de novo.
— Tá toda dentro. Vou carregar as outras caixas agora. Vou
colocar você três filas atrás da porta, para que ninguém te
veja no portão, mas vou deixar a tampa solta pra entrar ar.
— Obrigada.
— Fique bem quietinha até passar pelo portão. Quando es-
tiver lá fora, assim que o caminhão parar, pule.
— Entendido. Obrigada, Cora. Por tudo.
Boa sorte, Amazing Grace.
Cora Budds recolocou a tampa e carregou Grace para a
escuridão.
O DIRETOR McINTOSH olhou Lisa Halliday com
desconfiança.
— É melhor você não estar enganada.
— Não tô.
— Grace Brookstein está na cela dela desde a hora do al-
moço. Além disso, as detentas da Ala A não têm permissão
para trabalhar em entregas. A irmã Agnes conhece as regras.
— A irmã Agnes não sabe a diferença entre a boceta dela e o
pai-nosso.
— Basta! — mandou o diretor. — Não vou admitir que
desrespeite uma voluntária.
— Olha. Num quer checar o caminhão? Tudo bem. Depois,
num diz que num avisei.
O diretor McIntosh não queria checar o caminhão. O dia
tinha sido longo. Queria acabar com a papelada e ir para casa
ficar com sua esposa. Mas sabia que não tinha escolha.
— Tudo bem, Lisa. Deixe comigo.
A escuridão era desorientadora. Grace escutou as portas de
trás do caminhão se fecharem. Por um momento, o medo
tomou conta dela. Estou presa! Mas, então, relaxou,
forçando-se a respirar fundo. Era desconfortável ficar
encolhida dentro da caixa como uma marionete, mas podia
aguentar. O frio, por outro lado, era debilitante. Membro a
membro, Grace sentiu seu corpo ficar dormente. Sua cabeça
doía muito, como se a TIVESSE enfiado em água gelada.
O motor ganhou vida. Estamos nos movendo. Logo, o único
som que Grace conseguia escutar era o de seu próprio
coração batendo. Rezou silenciosamente:
Por favor, Deus, faça com que eles não verifiquem todas as
caixas.
O BARULHO FOI tão alto que o motorista escutou apesar
do SOM alto de seu CD do Bruce Springsteen. Uma das caixas
deve ter caído.
— Que diabo? — Freando, ele saiu da cabine. Malditas
sapatões imbecis. Qual é a dificuldade de empilhar um
monte de caixas? Só precisavam colocar uma em cima da
outra.
Grace escutou as portas de trás se abrirem. Feixes de uma
lanterna entraram pela brecha que Cora deixara aberta acima
de sua cabeça. Prendeu a respiração.
— Droga.
Caixas arrastavam pelo chão de metal do caminhão. Depois
disso, Grace viu que sua própria caixa estava se movendo.
Ah, Deus, não! Ele vai me ver. Mas o motorista não a viu.
Em vez disso, ao puxar sua caixa para a frente, notou a tampa
aberta e fechou-a com um soco. Então, pegou outra caixa e
colocou por cima da de Grace. As portas se fecharam. Ela
sentiu quando o caminhão começou a andar.
Grace começou a suar frio.
Não tinha ar.
Vou sufocar.
Capítulo 14
O DIRETOR MCINTOSH ENTROU no centro infantil,
irritado. Todas as crianças já tinham ido para casa. Uma
única interna estava guardando os últimos brinquedos.
— Você está sozinha?
- Sim, senhor. Estou esperando a irmã Agnes voltar para
trancar tudo.
- Havia uma entrega marcada para às 16 horas. Ela
aconteceu?
- Acho que sim. Cora Budds estava no almoxarifado.
- E Grace Brookstein? Você a viu esta tarde?
- Não, senhor. Cora me disse que ela estava na cela.
O diretor McIntosh relaxou. Lisa Halliday tinha entendido
errado. Não se podia confiar nos boatos de Bedford Hills.
Ainda assim, os protocolos tinham de ser seguidos. Tirou do
gancho o telefone da mesa da irmã Agnes.
Vou morrer!
Grace já estava hiper ventilando. Quando sentiu o caminhão
parando, suas esperanças aumentaram. Deviam estar no
portão. Tentou gritar.
— Socorro! Alguém me ajude!
Durante semanas, aquele momento a aterrorizara, com me-
do de que os guardas a descobrissem. Agora tinha medo do
contrário. Sem ar, ela morreria naquela caixa muito antes de
o caminhão chegar ao depósito.
— Socorro! — Ela estava gritando o mais alto que podia, mas
seus pulmões pareciam não estar funcionando
adequadamente. As palavras saíam baixinhas e sopradas,
abafadas pelas caixas acima e em volta dela. Os guardas não
escutaram nada.
— O que temos aí?
O motorista entregou a papelada.
— Argila para modelar. Umas 2 toneladas.
— Tudo bem, vamos dar uma olhada.
Os dois guardas começaram a abrir a primeira fila de caixas.
Por favor! Estou aqui!
Naquele momento, Grace soube que não queria morrer.
Ainda não. Não daquela forma.
Preciso encontrar o assassino de Lenny primeiro. Preciso
fazê-lo pagar.
Ela começou a ficar tonta. Percebendo que estava come-
çando a perder a consciência, gritou de novo. Um dos
guardas parou.
— Escutou alguma coisa?
Seu companheiro balançou a cabeça.
— Só os meus dentes rangendo. Está congelando aqui fora,
cara. Vamos acabar logo com isso. — Puxou outra caixa,
jogou-a no chão, abriu e olhou dentro. Fez o mesmo com
outra. Depois outra. Quando ia abrir a quarta, o motorista
implorou:
— Vamos lá, caras! Sabem quanto tempo levou pra colocar
toda essa merda aí dentro? Ainda tenho seis horas de estrada
pela frente e estou congelando.
Os guardas se olharam. Escutaram o telefone tocando a
distância, no calor da confortável torre de vigilância.
— OK, pode ir. — Eles assinaram os papéis do motorista e
entregaram a ele. — Dirija com cuidado.
Sessenta segundos depois, o caminhão estava cruzando os
portões de Bedford Hills.
Grace Brookstein ainda estava lá dentro.
Grace acordou com o som do motor ganhando velocidade.
O alívio tomou conta dela.
Estou respirando! Estou viva!
Um dos guardas devia ter soltado a tampa de sua caixa! Por
que eles não me encontraram? É um milagre. Alguém lá em
cima deve estar olhando por mim. Talvez seja Lenny, ou
será o meu anjo da guarda?
Por alguns segundos, Grace ficou eufórica. Consegui sair de
Bedford Hills. Consegui! Mas a realidade logo se impôs.
Ainda faltava muito para estar em casa e livre. Desdobrando-
se devagar e dolorosamente, Grace levantou a tampa e saiu
de seu esconderijo. O caminhão estava gelado e um breu.
Levou um MINUTO para a circulação voltar para as suas
pernas. Assim que se sentiu forte o suficiente, começou a
andar aos tropeços na direção da porta, com os braços
esticados para a frente como um zumbi, procurando a saída.
Depois do que pareceu uma eternidade, seus dedos
encontraram um trinco. Estava duro. Não conseguia movê-
lo. Bem quando ela começou a se perguntar se o motorista
tinha trancado por fora de forma que não conseguiria abrir
por dentro, o trinco se mexeu.
Tudo aconteceu em um instante. A porta de trás se abriu
com tanta força que Grace foi puxada junto. De repente,
estava do lado de fora, segurando-se como à própria vida,
suas pernas batendo no para-choque dolorosamente
enquanto ela estava pendurada por apenas uma das mãos um
pouco acima do solo. Estavam em uma estrada vazia e sem
iluminação, movendo-se a uma velocidade incrível. Qual era
a velocidade? 100 quilômetros por hora? Cento e vinte?
Grace tentou calcular suas chances de sobreviver se caísse.
Antes que encontrasse uma resposta, a estrada se bifurcou.
O motorista virou para a esquerda. Grace sentiu o trinco
escorregar de sua mão, como se alguém tivesse passado
manteiga. Quando se deu conta, estava voando pelo ar como
uma boneca de pano, indo na direção das árvores. A última
coisa que escutou foi sua cabeça batendo no chão.
Depois, nada.
O diretor McINTOSH gritou com Hannah Denzel.
— Por que diabos você a mandou de volta para o centro?
Quem lhe deu essa autoridade?
Denny ficou furiosa. Se Grace Brookstein realmente tinha
escapado, não ia levar a culpa mesmo. Isso era problema do
diretor.
— Eu tenho essa autoridade, senhor. O trabalho das deten-
tas da Ala A é responsabilidade minha. A delegação já tinha
ido embora e Grace tinha trabalho para terminar. Quem deu
autoridade às freiras para deixar detentas da Ala A
supervisionarem entregas?
Os dois guardas do portão norte também estavam no gabi-
nete. O diretor McIntosh os interrogou:
— Têm certeza de que Grace Brookstein não estava naquele
caminhão? Olharam todas as caixas?
Pela expressão no rosto de McIntosh, os guardas perceberam
que a honestidade certamente não era o melhor caminho.
— Todas as caixas. O caminhão estava limpo.
A cabeça do diretor McIntosh estava latejando. Então, onde
está? Ele se virou para Hannah Denzel. — Quero Cora
Budds e Karen Williams aqui agora. Enquanto isso, alerte
todas as unidades policiais. Quero que encontrem o
caminhão, façam-no parar e o revistem. — Ele olhou de
forma ameaçadora para os dois guardas. — Se vocês dois
fizeram besteira, vou querer a cabeça dos dois em uma
bandeja.
- Sim, senhor. — Mas todo mundo na sala sabia que a
primeira cabeça a rolar seria a do diretor.
Grace abriu os olhos devagar. Embaixo dela, havia um
cobertor de mato. Flexível e espinhoso como um colchão
velho de palha, deve ter amortecido sua queda. Ouvia um
zumbido alto em sua cabeça.
Não. Não é a minha cabeça. É lá em cima. São helicópteros.
Estão me procurando.
Não fazia idéia de quanto tempo ficara inconsciente.
Minutos? Horas? O que sabia é que estava congelando, mal
conseguia se mover de tanto frio. Sabia também que estava
correndo sério
perigo. Durante o curto período em que ficara dentro do
caminhão, não podiam ter se afastado mais do que alguns
quilômetros de Bedford Hills. Precisava se distanciar mais do
presídio.
Cuidadosamente, se levantou. Por algum milagre, parecia
que nada estava quebrado. Lentamente, seus olhos se
acostumaram com a escuridão e ela conseguiu ver as
sombras à sua volta. Estava em uma floresta a poucos metros
de uma tranquila estrada rural. Tranquila não. Silenciosa.
Pisar em um simples galho soava como um trovão.
Preciso sair daqui.
Seu lado esquerdo estava machucado e rígido, mas ela
percebeu que conseguia andar sem muito problema. À sua
direita, o caminho das árvores levava a uma subida íngreme.
Vindo do topo do monte, Grace escutou o fraco barulho do
tráfego.
A polícia vai patrulhar a estrada principal. Se eu subir até lá,
triplico as minhas chances de ser pega.
Se não subir, nunca vou conseguir uma carona para sair
daqui.
Ela começou a escalar.
NO TOPO, alguém plantara uma fileira de álamos,
provavelmente para isolar o som. Grace agachou-se atrás
dela, tentando recuperar o fôlego. A escalada a deixara
exausta. A estrada estava movimentada, quase tanto quanto
na hora do rush. Mais uma vez, Grace imaginou que horas
seriam, mas não tinha tempo para ficar pensando nisso.
Tirando as folhas congeladas de sua saia, ela foi para a beira
da estrada e levantou o polegar, como vira as pessoas
fazendo na TV.
Quanto tempo será que vai levar até alguém parar? Se eu não
entrar em um carro logo, vou morrer de hipotermia.
Um carro de polícia soou na escuridão, luzes azuis piscando,
sirenes tocando. Instintivamente, Grace voltou para trás das
árvores, torcendo o tornozelo no solo duro e gelado. Doeu
muito mas ela não ousou gritar, prendendo a respiração na
escuridão, esperando o carro da polícia diminuir a
velocidade e parar. Não parou. Após alguns segundos, o som
das sirenes enfraqueceu até que ela não conseguiu mais
escutá-lo. Grace voltou para a beira da estrada.
Parada ali, com o polegar estendido, batendo o pé para se
aquecer da temperatura abaixo de zero, Grace começou a se
balançar. Ela mal tinha comido o dia todo e a queda do
caminhão a deixara fraca e tonta. As luzes dos faróis dos
carros começaram a se juntar até formar um único feixe
laranja. No estado confuso e congelado de Grace, pareceu
quente e acolhedor. Semi-consciente, ela se dirigiu
tropeçando até ele. O som ensurdecedor da buzina de um
caminhão a despertou.
— Você ficou maluca, moça?
Um homem tinha parado. Com um ombro para fora, ele
estava falando com Grace pela janela do lado do motorista.
Um homem de meia-idade, com bigode grosso e preto e
olhos escuros quase enterrados no rosto, ele parecia ser
parte asiático, mas era difícil ter certeza na escuridão. Dirigia
um caminhão em que estava escrito Serviços Gerais Tommy
com letras pretas na lateral.
— Você não tem casaco?
Grace balançou a cabeça. Logo seu corpo inteiro estava
tremendo, em resposta ao frio e à exaustão. O homem
estendeu o bruço e abriu a porta do carona.
— Entre.
LIVRO DOIS
Capítulo 15
O DETETIVE MITCH CONNORS voltou para sua mesa
pensativo.
Isso é bom ou ruim?
Alto, louro, atlético e grande demais para seu escritório de
paredes envidraçadas, Mitch Connors parecia mais um
jogador de futebol americano profissional do que um
policial. Mergulhando na desconfortável cadeira (Helen
comprara a maldita cadeira para ele dois anos antes, por
causa de sua dor nas costas. Aparentemente ganhara vários
prêmios de design e custara uma pequena fortuna, por isso
não podia jogá-la fora, mas Mitch sempre a detestara), ele
esticou as pernas e tentou pensar.
Eu realmente quero este caso?
Por um lado, seu chefe acabara de lhe dar o que se tornaria,
em algumas horas, a maior e mais famosa investigação do
país. Na noite anterior, Grace Brookstein conseguira fugir de
uma penitenciária de segurança máxima. O trabalho de
Mitch seria encontrá-la, prendê-la e levá-la de volta para a
cadeia.
O chefe dele dissera:
- Você é o melhor, Mitch. Não o colocaria neste caso se não
fosse.
E Mitch sentira uma agradável sensação de orgulho. Mas
sentira outra coisa também. Algo ruim. Mas Mitch não
conseguia discernir o que era.
Culpou a cadeira. Era uma tortura tão grande ficar sentado
nela que não conseguia se concentrar. Ergonômica, até
parece. Acho que Helen comprou essa cadeira para me
atormentar. Para se vingar de tudo que a fiz passar. Então,
pensou: é besteira, Connors, e você sabe disso.
Helen não era desse tipo. Ela era um anjo. Santa Helena de
Pittsburgh, santa padroeira da tolerância.
E você a deixou ir embora.
MITCH Connors crescera em Pittsburgh. Nascera no
próspero subúrbio de Monroeville, onde sua mãe era
considerada a mulher mais bonita do local. Ela se casou com
o pai de Mitch, um inventor, quando tinha 19 anos. Mitch
chegou um ano depois e a felicidade do casal ficou completa.
Por uns seis meses.
O pai de Mitch era um inventor brilhante... à noite. Durante
o dia, ele era um vendedor ambulante de enciclopédia.
Mitch costumava acompanhar o pai nas viagens. O
garotinho assistia admirado enquanto o pai enganava uma
dona de casa atrás da outra.
— A senhora sabe quanto custa, em média, uma faculdade,
madame?
Pete Connors estava de pé na porta da frente de uma casa
deteriorada em Genette, Pensilvânia, usando terno, gravata e
sapatos pretos brilhantes, o chapéu de feltro respeitosamente
na mão. Ele era um homem bonito. Mitch achava que se
parecia com Frank Sinatra. A mulher parada na porta,
usando um penhoar manchado, era gorda, parecia deprimida
e derrotada. Crianças famintas corriam à sua volta como
ratos.
— Não. Não sei dizer, senhor.
A porta estava fechando. Peter Connors deu um passo à
frente.
— Deixe-me lhe falar. Mil e quinhentos dólares. Pode
imaginar isso?
Ela não podia.
— Mas e se eu lhe dissesse que por 1 dólar por semana, isso
mesmo, 1 dólar, a senhora pode dar aos seus filhos o
presente dessa mesma educação bem aqui na sua casa?
— Eu nunca pensei nisso...
— Claro que não! A senhora está sempre ocupada. Tem
contas a pagar, responsabilidades. Não tem tempo para
sentar e ler livros como este. — A um determinado sinal,
Mitch corria até o pai e lhe entregava um livreto com as
palavras Pesquisa Educacional na frente. — Livros que
provam que crianças que têm uma enciclopédia em casa têm
seis vezes mais chances de conseguir empregos de
colarinho-branco.
— Bem, eu...
— O que a senhora acha de ver esse pequenininho aqui
crescer e se tornar um advogado, hein? — Pete Connors deu
uma bala para a criança com o rosto sujo. — Por apenas um
dólar por dia a senhora pode tornar isso realidade, madame.
Ele era como um furacão. Uma força da natureza. Algumas
mulheres, ele intimidava. Outras, ele seduzia. E outras ainda,
ele levava para o andar de cima para aplicar algumas técnicas
"secretas" de venda que Mitch nunca podia ver. Sempre
levava uns 15 minutos, e sempre funcionava.
— Essas mulheres da Pensilvânia! — exclamava o pai de
Mitch depois. — Elas são sedentas por conhecimento.
Nunca vi uma com tanta sede por conhecimento como esta,
Mitchy!
Depois de toda venda, eles iam até a cidadezinha mais
próxima ou posto de gasolina, e Pete Connors comprava um
enorme sorvete para o filho. Mitch voltava para a mãe cheio
de excitação, admiração e calda de chocolate por todo o
rosto. "O papai foi incrível. Devia ter visto o que o papai fez!
Adivinhe quantas vendemos, mãe. Adivinhe!"
Mitch não entendia por que a mãe nunca queria adivinhar.
Por que olhava para o pai com tanta amargura e decepção.
Mais tarde — tarde demais — ele entendeu. Ela podia
aguentar a infidelidade. Mas não podia perdoar a negligência.
Pete Connors era um vendedor natural, mas também era um
sonhador que costumava torrar todo o seu dinheiro
investindo em uma invenção após a outra. Mitch se
lembrava de algumas delas. Houve o aspirador de pó que não
precisava empurrar. Ia render milhões. Depois o frigobar
para o carro. Os sapatos de corrida que massageavam a sola
do pé. O cabide de roupas que tirava os vincos. Mitch
observava o pai trabalhar em cada novo projeto por semanas
até tarde da noite. Sempre que terminava um protótipo, ele
o "revelava" na sala de estar na frente da mãe de Mitch.
— E aí, Lucy? — perguntava, esperançoso, o rosto iluminado
de orgulho e expectativa, como um menininho. A tragédia
era que Peter Connors amava a esposa. Precisava tanto de
sua aprovação. Se ela tivesse lhe dado essa aprovação, pelo
menos uma vez, talvez as coisas tivessem sido diferentes.
Mas a resposta dela era sempre a mesma:
— Quanto você torrou dessa vez?
— Jesus, Lucy, me dá um tempo, tá bom? Sou um homem de
ideias. Você sabia disso quando se casou comigo.
— Mesmo? Bem, vou te dar uma ideia. Que tal pagar a nossa
hipoteca este mês?
A mãe de Mitch costumava dizer que a única coisa que o pai
conseguia economizar era verdade.
No sexto aniversário de Mitch, eles já tinham se mudado da
casa em Monroeville. O novo lugar era um apartamento em
Murraysville. Depois, foi Millvale, uma área cheia de casas
velhas de moleiros. Quando Mitch tinha 12 anos, ele
estavam morando em Hill District, o Harlem de Pittsburgh,
um antro de drogas que cercava o próspero centro da
cidade. Pobres demais para se divorciar, os pais de Mitch se
"separaram". Um mês depois, a mãe estava com um novo
namorado. Eles acabaram se mudando para a Flórida, para
uma bonita casa com palmeiras no jardim. Mitch decidiu
ficar com o pai.
Pete Connors ficou animado.
— Isso é ótimo, Mitchy! Vai ser como nos velhos tempos,
só nós dois. Vamos jogar pôquer à noite. Dormir tarde aos
domingos. Trazer umas garotas bonitas para cá, hein?
Animar um pouco as coisas!
Havia garotas. Algumas até bonitas, mas essas eram pagas. Os
dias de Frank Sinatra de Pete Connors tinham se acabado
havia muito tempo. Ele parecia exatamente o que era: um
trapaceiro cansado com a data de validade vencida. Partia o
coração de Mitch. Conforme o garoto foi crescendo, o pai
começou a ficar com ciúmes da beleza do filho. Aos 17 anos,
Mitch tinha o cabelo louro e os olhos azuis da mãe e as
pernas compridas e os traços fortes e masculinos do pai.
Também dele herdou a lábia.
— Só estou passando o verão em casa, ajudando meu velho.
Volto para a faculdade de administração no outono...
— Meu carro? Ah, eu vendi. Minha priminha ficou doente.
Leucemia. Ela só tem 6 anos, pobrezinha. Eu quis ajudar
com as despesas médicas.
As mulheres acreditavam em tudo.
Helen Brunner era diferente. Tinha 25 anos, uma deusa rui-
va de olhos verdes, e trabalhava para uma instituição de cari-
dade de veteranos de guerra que ajudava os ex-militares
pobres oferecendo refeições e os ajudando em casa. Mitch
nunca soube como o pai convenceu a instituição de caridade
de Helen de que ele fora da Marinha. Pete Connors não
sabia nem nadar. Fotos de barcos o deixavam enjoado. De
qualquer forma, Helen começou a aparecer no apartamento
três vezes por semana. Pete ficou louco por ela.
— Aposto que é virgem. Dá pra notar. Só de pensar naque-
les pentelhos ruivos, já fico com tesão.
Mitch detestava quando o pai falava assim. A respeito de
qualquer mulher, mas principalmente de Helen. Era
constrangedor.
— Vinte pratas como eu como ela antes de você.
— Pai! Não seja ridículo. Nenhum de nós dois vai comer ela.
— Fale por você, garoto. Ela quer. Acredite em quem sabe
das coisas. Todas querem.
Helen Brunner não queria. Pelo menos não com um bêbado
que dizia ser ex-suboficial da Marinha com idade para ser pai
dela. Mitch, por outro lado... Bem, ele era outra história.
Helen fora criada como cristã. Acreditava na abstinência.
Mas Mitch Connors estava testando sua fé até o limite.
Não me deixe cair em tentação. Ao observar Mitch
enquanto ele andava pelo apartamento apertado, sentir os
olhos dele discretamente a fitarem de cima a baixo enquanto
lavava a louça ou arrumava a cama, parecia que Deus a tinha
colocado bem diante da tentação. Mitch se sentia da mesma
forma. Começou a fazer listas.
Razões para não transar com Helen:
1. Ela é uma garota legal.
2. Vou ser atingido por um raio divino durante o ato.
3. Se Deus não acabar comigo, papai vai.
Até que um dia, Helen entrou na lavanderia e encontrou
Mitch só de cueca.
Ela fez uma oração silenciosa. Afaste-me do mal.
Mitch fez a mesma coisa. Pai, me perdoe, pois estou prestes
a pecar.
O sexo foi incrível. Fizeram em cima da máquina de lavar,
no chuveiro, no chão da sala de estar e, finalmente, na cama
de Pete Connors. Depois, Mitch caiu sobre os travesseiros,
tomado por felicidade. Tentou se sentir culpado, mas não
conseguiu, estava apaixonado.
Helen se sentou de repente.
— Não me diga que você quer de novo? — resmungou
Mitch.
— Não. Escutei alguma coisa, acho que é o seu pai!
Helen se vestiu em um segundo. Correndo para a cozinha,
ela começou a lavar panelas. Mitch, cujas pernas pareciam
ter desenvolvido Parkinson repentinamente, tropeçou pelo
quarto, cego de pânico. A porta da frente se abriu.
— Mitch?
Merda. Não havia mais nada a fazer. Completamente nu,
Mitch entrou no armário embutido, fechando a porta. No
fundo do armário, havia um alçapão que levava a uma
pequena área no telhado. Mitch mal conseguiria passar seu
corpo de 1,80m pelo alçapão quando escutou os passos de
Pete no quarto.
— MITCH! — Era um rugido. O velho não era burro. A
combinação do rosto corado e culpado de Helen e lençóis
amassados deve tê-los denunciado. Mitch escutou a porta da
frente abrir e fechar. Inteligentemente, Helen fora embora.
Como Mitch gostaria de estar com ela!
A porta do armário se abriu. A luz penetrou pelo alçapão.
Mitch prendeu a respiração. Houve uma pausa. Camisas
sendo empurradas nos cabides. Então, a porta do armário
fechou.
Graças a Deus. Juro que nunca mais vou transar com nin-
guém na cama do meu pai.
Os passos de Pete Connors voltaram. Então, de repente,
pararam. O coração de Mitch também. Ah, Deus! Por favor!
Nós tínhamos um acordo!
A porta do armário abriu de novo. Então, o alçapão. Quando
Peter fitou o corpo nu do filho, sentiu na mesma hora o
cheiro de sexo.
— Oi, pai. Você sabe onde encontro uma toalha?
Dois minutos depois, Mitch estava na rua. Nunca mais viu
seu pai vivo.
— Quero me casar, Mitch.
Helen e Mitch estavam morando juntos havia três anos.
Com quase 21 anos, Mitch estava ganhando um bom
dinheiro trabalhando em um bar. Helen largara seu trabalho
voluntário para trabalhar como trainee de bibliotecária três
vezes por semana, mas não era o que queria. Já tinha quase
30 anos e sua vontade era ter um filho.
— Por quê?
— Por quê? Você está falando sério? Porque estamos viven-
do em pecado, por isso.
Mitch sorriu.
— Eu sei. Mas não tem sido divertido até agora?
— Mitchell! Eu não estou brincando. Quero ter um filho.
Quero fazer um juramento, começar uma família, fazer as
coisas de maneira careta. Não é isso que você quer também?
— Claro que sim, amor.
Mas a verdade era que Mitch não sabia o que queria. Crescer
vendo os pais brigando o deixara desacreditado no casa-
mento para a vida toda. Amava Helen, esse não era o
problema.
Ou talvez esse fosse o problema. Estar com alguém tão boa,
tão perfeita, o deixava desconfortável. Mitch tinha muito de
seu pai. Um mentiroso por natureza, flertar estava em seu
sangue. Mais cedo ou mais tarde, eu vou decepcioná-la. Ela
vai me odiar, me desprezar pela minha fraqueza. Helen era o
navio, mas Mitch precisava de botes salva-vidas: outras
garotas que podia ter como estepe caso Helen enxergasse a
realidade e percebesse que podia conseguir alguém muito
melhor do que um bartender de Pittsburgh.
— Ano que vem — disse ele. —Assim que meu pai aceitar a
ideia. — Ele disse a mesma coisa no ano seguinte, e no
outro, então, em um espaço de um mês, aconteceram dois
eventos sísmicos que mudariam sua vida para sempre.
Primeiro, Helen o largou.
Depois, seu pai morreu.
Duas semanas depois de Helen Brunner largar Mitch, Pete
Connors morreu esfaqueado do lado de fora de seu
apartamento. Ele perdeu a vida por causa de um Rolex falso,
uma aliança de casamento barata e 23 dólares em dinheiro.
A mãe de Mitch, Lucy Connors, compareceu ao funeral.
Estava glamorosa e bronzeada e nem um pouco triste. E por
que estaria? Ela deu um abraço apertado em Mitch.
— Você está bem, querido? Sem querer ofender, mas você
está horrível.
— Estou bem.
Eu não estou bem. Eu devia estar lá. Eu o abandonei e agora
ele está morto e eu nunca vou poder me desculpar, nunca
vou poder dizer o quanto o amava.
— Tente não ficar tão chateado. Sei que parece cruel, mas
se isso não tivesse acontecido, logo a bebida teria acabado
com ele.
— É cruel.
— Eu vi o relatório da necropsia, Mitch. Sei do que estou
falando. O fígado do seu pai estava igual a nozes em
conserva.
— Cruzes, mãe!
— Sinto muito querido, mas é a verdade. Seu pai não queria
mais viver.
— Talvez não. Mas certamente também não queria que um
drogado enfiasse uma faca em seu coração. Ele não queria
isso. Não merecia isso! — A mãe de Mitch ergueu uma
sobrancelha como se para dizer: há controvérsias, mas ela o
deixou terminar: — E a polícia? O que eles estão fazendo?
Deixaram quem matou meu pai solto por aí. Como se a vida
dele não valesse nada.
— Tenho certeza de que fizeram tudo o que podiam, Mitch.
— Papo furado.
Era papo furado mesmo. A polícia de Pittsburgh fizera o
mínimo, que era preencher a papelada sobre o assassinato de
Peter Connors sem fazer o menor esforço para tentar
encontrar o assassino. Mitch prestou um monte de queixas,
todas educadamente ignoradas. Foi quando ele percebeu:
Pessoas como o meu pai não têm a menor importância. No
final, ele não era diferente daquelas donas de casa que ele
enganava com promessas de uma vida melhor e bons
empregos. Essas pessoas não recebem justiça. Os pobres.
Ninguém se importa com o que acontece com eles.
Duas semanas depois do enterro do pai, Mitch ligou para
Helen.
— Tomei uma decisão.
— Hm? — A voz dela parecia cansada.
— Vou ser policial. Detetive.
Não era o que ela estava esperando.
— Ah!
— Mas não aqui. Preciso ir embora de Pittsburgh. Começar
do zero. Pensei em, talvez, Nova York.
— Que ótimo, Mitch. Boa sorte. — Helen desligou.
Dez segundos depois, Mitch telefonou de novo.
— Estava pensando se você não gostaria de vir comigo. A
gente se casaria primeiro, claro. Achei que poderíamos...
— Quando? Quando a gente se casaria?
— Assim que você quiser. Amanhã?
Seis semanas depois, eles se mudaram para Nova York como
marido e mulher.
Sete semanas depois, Helen estava grávida.
Deram o nome de Celeste para a filha, porque ela era um
presente dos céus. Helen se realizou na maternidade,
andando pelo minúsculo apartamento deles no Queens com
a menina no colo por horas a fio. Mitch também amava o
bebê, claro, com seu cabelo preto e olhos cinza inteligentes
e questionadores. Mas estava trabalhando muitas horas,
primeiro treinando, depois nas ruas. Geralmente, quando ele
chegava em casa, Celeste estava dormindo no berço e
Helen, apagada no sofá, exausta. Imperceptivelmente,
conforme os meses foram passando, Mitch achava cada vez
mais difícil penetrar o casulo de amor que envolvia sua
esposa e filha.
Ele foi promovido e pôde alugar um lugar maior para eles
morarem, esperando que isso fosse deixar Helen feliz. Mas
não DEIXOU.
— Nós nunca vemos você, Mitch.
— Claro que vêem. Poxa, meu amor, não exagere.
- Não estou exagerando. Outro dia, escutei Sally-Ann
perguntar a Celeste se ela tinha pai.
Furioso, Mitch disse:
— Isso é ridículo. E quem é Sally-Ann?
— Ela é a melhor amiga da nossa filha. Sally-Ann Meyer?
Ela e Celeste estão sempre juntas há dois anos, Mitch.
— Mesmo?
— Mesmo.
Mitch se sentiu mal. Queria passar mais tempo em casa. O
problema, como ele disse para Helen, era que os caras maus
nunca tiravam férias. Assaltantes, drogados, líderes de
gangue, estupradores, eles andavam pelas ruas da cidade
todos os dias, fazendo como vítimas os vulneráveis, pobres,
desprotegidos. Pegando pessoas como o meu pai. Ser
detetive era mais do que o emprego de Mitch. Era sua
vocação, da mesma forma que ser mãe era a de Helen. E ele
era ótimo no que fazia.
O divórcio veio do nada, de repente. Mitch chegou em casa
uma noite, esperando encontrar seu jantar na mesa. Em vez
disso, encontrou os papéis do divórcio. Helen e Celeste não
estavam mais lá. Em retrospecto, ele percebeu que as pistas
estavam claras havia muito tempo. Desde que a economia
implodira, o crime vinha crescendo continuamente. Depois
do colapso do Quorum, o desemprego em Nova York
aumentou e, da noite para o dia, uma situação ruim se
tornou vinte vezes pior. Mitch Connors estava na linha de
frente de uma guerra. Não podia simplesmente guardar sua
arma e chegar em casa a tempo para o jantar.
Bem, talvez pudesse. Mas não fazia. Quando percebeu que
sua dedicação exigira em troca seu casamento, já era tarde
demais.
O Departamento de Polícia de Nova York era a vida de
Mitch. Mas isso não significa que ele o adorava. Homens
entravam para a polícia por diferente razões, nem todas
louváveis. Uns curtiam a autoridade que o distintivo lhes
dava. Viciados em poder. Esses eram os piores. Outros
procuravam um senso de camaradagem. Para esses caras, o
departamento era como uma equipe de softball ou uma
fraternidade. Preenchia um vazio na vida deles que
casamento, família e amizades civis não conseguiam. Mitch
Connors compreendia esses caras, mas não se incluía entre
eles. Ele não se tornara policial para fazer amigos nem para
se impor sobre seus colegas cidadãos. Ele entrara para a
polícia como uma forma de reparação pela morte de seu pai.
E porque ainda acreditava que podia fazer a diferença.
Quem quer que tenha matado seu pai tinha saído impune.
Isso não era certo. Culpados mereciam ser punidos. Quanto
a pessoas culpadas ricas, educadas, como Grace e Lenny
Brookstein, esses eram os piores de todos.
Mitch se levantou, chutando a cadeira da tortura de Helen
para longe de seu caminho. Havia algum problema em pegar
case caso. Um lado negativo. Mas qual era?
De repente, percebeu. Claro. O FBI estaria envolvido.
Fazia dois anos desde que a audaciosa fraude dos Brookstein
viera à tona, mas como todos os Estados Unidos sabiam, os
bilhões roubados do Quorum ainda estavam desaparecidos.
Harry Bain, o simpático diretor assistente do FBI em Nova
York, comandava a força-tarefa para encontrar o dinheiro
desaparecido do Quorum, e até agora não tinha encontrado
nada. Os agentes de Bain interrogaram Grace inúmeras vezes
na prisão, mas ela se mantivera fiel à sua história. Ela dizia
que não sabia de nada sobre o dinheiro, e seu falecido
marido também não.
Como a maioria dos homens do Departamento de Polícia de
Nova York, Mitch desconfiava do FBI. Com Grace
Brookstein solta, era inevitável que Harry Bain começasse a
intrometer o nariz formado em Harvard dele no caso de
Mitch, fazendo perguntas, interferindo com testemunhas,
valendo-se de sua superioridade hierárquica. Como o chefe
de Mitch, de forma tão eloquente, colocaria:
— Bain vai ficar grudado no seu rabo como um caso grave
de herpes. É melhor se preparar para se livrar dele.
Mitch estava preparado.
O dinheiro é problema de Harry Bain. Grace Brookstein é
meu. Talvez, se ele capturasse Grace e se tornasse um herói
nacional, Helen o aceitasse de volta. Era isso que realmente
queria? Não sabia mais. Talvez ele não tivesse sido feito para
o casamento.
Estava na hora de começar a trabalhar.
Capítulo 16
Quando entrou no caminhão, o calor atingiu Grace como
um soco.
Seus dedos dos pés e das mãos latejavam enquanto a
circulação começava a voltar. Era bom estar fora da estrada,
mas sabia que não podia confiar em ninguém. Quanto tempo
levaria até que sua fuga se tornasse notícia? Horas? Um dia,
no máximo. Talvez já estivesse nas rádios? Logo
distribuiriam sua foto atualizada...
— Para onde você vai?
Boa pergunta. Para onde ela ia?
Grace olhou para a bússola no painel.
— Para o norte.
O "plano" dela, se é que podia ser chamado de plano, era
encontrar Davey Buccola em três semanas. Tinham um
encontro marcado em Manhattan: Times Square. Foi Davey
quem convenceu Grace a não ir atrás de John Merrivale
assim que fugisse.
— Não arrisque estragar o seu disfarce até que a gente saiba
tudo o que há para saber. — Davey estava convencido de
que estava perto de provar quem tinha matado Lenny. — Só
mais algumas semanas. Confie em mim. — A proposta do
lugar e da hora do encontro fora dele. A teoria dele era que a
Times Square era tão público, tão óbvio, que ninguém
pensaria em procurar Grace lá. — Mesmo que alguém a
reconheça, achará que é um engano. E se Deus quiser, até lá,
ninguém vai reconhecer você. Você já vai ter tido tempo
para mudar sua aparência.
Grace preferia encontrar Davey antes, mas ele foi inflexível.
— Só quando eu tiver mais coisa para contar. Até eu ter
certeza. Todo encontro é um risco. Precisamos que valha a
pena.
Enquanto isso, Grace encontraria um lugar seguro para ficar,
colocaria a cabeça no lugar e, claro, começaria a desenvolver
um disfarce decente. Já estava completamente diferente da
mulher que os Estados Unidos conheceram em seu
julgamento. Ninguém que conviveu com Grace em seus dias
de glória como a rainha de Wall Street a reconheceria agora.
O nariz quebrado, a pele pálida, o cabelo curto e escorrido,
os olhos sofridos e sem brilho; tudo isso a ajudaria a se
proteger nas primeiras horas e dias. Mas Grace sabia que
logo isso não seria o bastante. Precisaria mudar sempre, todo
dia, toda semana, como um camaleão.
Não era só a aparência que precisava mudar. Preciso mudar
por dentro também. Mestres do disfarce, assim como atores
bem-sucedidos, aprendiam como se tornar outra pessoa. Eles
projetavam uma autoconfiança, uma credibilidade, que
funcionava mais do que qualquer máscara ou peruca ou tinta
no cabelo. Grace repetira o mantra sem parar nos dias que
precederam sua fuga.
Grace Brookstein está morta.
Meu nome é Lizzie Woolley.
Sou uma arquiteta de 28 anos de Wisconsin.
— Norte, é?
A voz do motorista trouxe Grace de volta à realidade.
— Onde no norte?
Grace hesitou.
— Só estou perguntando porque você não está carregando
nenhuma mala nem nada. E parece que se vestiu para ir para
a Flórida. — Ele riu. Grace notou a forma como ele olhou
para suas pernas descobertas. Instintivamente, ela as cruzou,
puxando a saia para baixo.
— Saí correndo. Minha... irmã ficou doente.
Era uma mentira tão óbvia que Grace corou. O motorista
pareceu não notar.
— Qual é seu nome, doçura?
— Lizzie.
— Bonito nome. Você é realmente bonita, Lizzie. Mas já
deve saber disso, né?
Grace puxou a gola da blusa para cima, procurando mais
algum botão para fechar, mas não tinha mais nenhum.
Aquele cara estava lhe dando arrepios.
Sem avisar, ele desviou para o acostamento, parando de
repente. Grace deu um pulo.
— Desculpe. Preciso mijar. — Soltando o cinto de segu-
rança, ele saiu.
Grace observou enquanto ele desaparecia atrás do caminhão.
Sua mente estava a mil.
Devo sair? Correr? Não, isso era loucura. Precisava de uma
carona e conseguira uma. Seguiria com ele por uns 80
quilômetros, mais ou menos, depois desceria perto de
alguma cidadezinha. Não posso me dar ao luxo de ficar com
medo de qualquer cara que se aproximar de mim. É isso o
que os homens fazem, não é? Ele é legal.
Dois minutos depois, o motorista voltou. Estava carregando
uma garrafa térmica e um pote de plástico cheio de
sanduíches. Ele deve ter pegado na traseira do caminhão.
— Com fome?
O estômago de Grace roncou alto.
— Estou.
Ele virou a chave e voltou para a estrada.
— Bem, então sirva-se, Lizzie. Eu já comi, mas a minha
esposa sempre faz a mais.
Então, ele é casado. Na mesma hora, Grace relaxou.
— Obrigada. Muito obrigada mesmo.
Ela começou a comer.
Grace acordou na traseira do caminhão com o rosto no
chão. Sua saia de lã tinha sido puxada até os quadris e sua
calcinha, até os tornozelos. O motorista estava em cima dela,
com as mãos entre suas pernas.
— Tudo bem, Lizzie. Boazinha e abertinha. Agora abre pro
papai aqui.
Grace gemeu. Tentou se mexer, mas seu corpo estava pesado
como chumbo. E com o peso extra do motorista em cima
dela, era impossível. Com a mão livre, ele forçou o pênis
para dentro dela.
— Não! — Grace não sabia se tinha dito isso alto ou apenas
em sua cabeça. Não fazia diferença. O homem continuava
entrando, cada vez mais fundo e mais forte. Mas não havia
nada de frenético nos movimentos dele. Ele estava indo
devagar. Satisfazendo-se. Grace sentiu as mãos dele subirem,
entrarem por baixo de seu sutiã até encontrar seus seios.
— E esses peitinhos? — ele estava sussurrando no ouvido
dela, provocando-a. Grace podia sentir os pelos do bigode
dele em seu rosto.
— Está acordada agora, não está, Lizzie? Estou sentindo você
se mexer lá embaixo. — Mais uma penetração. — Qual é a
sensação, doçura? É bom ser comida? Aposto que é. Bem,
não se preocupa, Lizzie, a gente tem a noite inteira.
Ele continuou estuprando-a. Incapaz de se mexer, Grace
tentou pensar. Ele deve ter me drogado. A garrafa térmica.
Ele deve ter colocado alguma coisa no chá. Ela imaginou que
horas deviam ser e onde eles estavam agora. Não estava
escutando o som de tráfego.
Provavelmente estamos em algum lugar escondido. Floresta.
Algum lugar em que ninguém vai me escutar gritar.
O que ele faria quando terminasse: a jogaria na floresta, a
mataria? Devagar, a névoa que tomara conta de sua mente
começou a clarear. Ansioso para penetrá-la, o motorista não
tirara suas roupas, nem os sapatos.
Meus sapatos...
Ao se aproximar do clímax, os movimentos dele estavam
ficando mais rápidos. Grace cerrou os dentes, esperando-o
gozar, mas, de repente, ele parou, saindo de dentro dela e
virando-a para cima como uma boneca de pano. Ao olhar
para o rosto dele, para aqueles olhos asiáticos dançando com
um prazer sádico, Grace soube: Ele vai me matar.
O estupro era apenas a preliminar.
— Abre a boca — mandou ele.
Grace levantou as pernas, abrindo-as bem e depois
fechando-as em torno das costas dele, puxando-o de volta
para dentro dela.
— Me obrigue. — Ela fitou os olhos dele, as pupilas
dilatando de excitação.
Ele sorriu.
— Então, quer dizer que você gosta disso, Lizzie? Melhor
ainda. Vai ser uma noite e tanto.
Ele começou a transar com ela de novo, mais rápido agora.
Grace apertou suas pernas em volta da cintura dele. Dentro
de seu sapato esquerdo, ela começou a mexer os dedos até
sentir o estilete de Cora.
— Isso! Isso mesmo, doçura!
Grace sentiu os músculos se contraírem nos ombros e nas
costas dele. Ele começou a ejacular, e então, de repente, saiu
de dentro dela. Segurando o grotesco pênis com uma das
mãos, ele ajoelhou, abrindo a boca dela com a outra mão.
Grace sentiu o jato quente de sêmen na sua língua, depois
descendo por sua garganta. Ela engasgou. Ele estava rindo,
com os olhos fechados, perdido no prazer sexual. É agora.
Essa é minha chance. Arqueando as costas, com um único e
fluido movimento, Grace arrancou seu sapato, agarrou o
estilete, abriu-o e enfiou no meio das costas dele.
Por uma fração de segundo, o motorista continuou ajoe-
lhado, um olhar de choque e perplexidade no rosto. Então,
ele caiu para a frente, em silêncio, a lâmina ainda cravada
em suas costas como a corda de um brinquedo. Grace
precisou de toda a sua força para sair de baixo dele e tirar a
faca. Sangue espirrou do ferimento como água da torneira.
Grace o empurrou para o lado. Ele estava tentando falar,
mexendo a boca, mas ela só conseguia escutar o sangue
borbulhando. Ela deu um chute forte na virilha dele. Ele já
parecia incapacitado, mas é sempre bom ter mais certeza.
Após revirar os bolsos dele à procura de dinheiro ou
qualquer outra coisa de valor, ela rapidamente puxou a
calcinha, endireitou suas roupas, se certificando de que o
"kit de sobrevivência" de Karen com os documentos ainda
estava com ela. Então, foi para a frente do caminhão e pegou
as chaves e o casaco grosso que ele estava usando quando
lhe dera carona.
Pronto.
Indo de novo para a traseira do caminhão, Grace abriu a
porta. O motorista ainda estava vivo, mas por pouco tempo.
Embaixo dele, a poça de sangue estava ficando maior, como
uma poça de chuva vermelha. Quando ele viu o estilete na
mão de Grace, arregalou os olhos.
— Não! — murmurou ele. — Por favor...
Sua intenção era terminar o trabalho. Cravar a faca no
coração dele, bem fundo, como o pênis doentio de
estuprador dele, até que estivesse morto. Mas ao vê-lo
implorar por misericórdia, escutando-o suplicar pela vida de
forma patética, Grace mudou de ideia.
Por que permitir que ele morra rapidamente? Ele não
merece.
Vou deixar o cretino onde está. E deixá-lo sangrar até mor-
rer, devagar e sozinho.
Grace fechou o estilete, virou-se e saiu correndo.
GRACE levou duas horas até chegar aos arredores da
cidadezinha mais próxima. As placas na estrada diziam que
se chamava Richardsville, no condado de Putnam. O dia
estava amanhecendo. Uma faixa de luz laranja abrindo
passagem pelo céu negro da noite. De tempos em tempos,
durante a longa caminhada, Grace escutara o inconfundível
som de helicópteros no céu. Já estão me procurando. Será
que eles tinham encontrado o motorista do caminhão? Se
eles estavam perto? A adrenalina corria pelo seu corpo
ferido, junto com uma torrente de sentimentos conflitantes:
nojo. Terror. Dor. Fúria. Ela tinha sido estuprada. Ainda
podia sentir o homem repugnante dentro dela, ferindo-a,
violando-a. Ela também tinha matado um homem. Pensando
no medo que ele iria sentir enquanto a vida se esvaísse dele,
sozinho naquela assustadora floresta, Grace reconheceu um
outro sentimento que não lhe era familiar: ódio. Não se
arrependia do que tinha feito. Mas todos os seus sentimento
e pensamentos estavam sendo eclipsados por uma sensação
dominante: exaustão. Precisava dormir.
O Up All Night, um hotel de beira de estrada, parecia saído
de um filme de terror. Na frente, um letreiro de neon que-
brado piscava prometendo luxuosos banheiros individuais e
televisão colorida em todos os quartos! Dentro, o homem
mais velho que Grace já vira na vida roncava tranquilamente
na mesa da recepção. O rosto retorcido dele era coberto de
rugas e seu corpo parecia uma relíquia encolhida. Ele fez
Grace se lembrar de alguém: Yoda.
— Com licença.
Ele acordou com um pulo.
— Posso ajudar?
— Quero um quarto, por favor.
Yoda olhou Grace de cima a baixo. Ela sentiu seu estômago
derreter. Ele está me reconhecendo? Estava tão nervosa que
seus dentes tremiam, mas podia justificar isso com o frio.
Tentara fazer sua voz soar autoritária e firme quando pediu o
quarto, mas o que saiu foi um suspiro amedrontado. Será que
ele está percebendo que fui atacada? Será que está sentindo o
cheiro do cretino em mim? Talvez eu não deva ficar aqui.
Devo seguir em frente? Mas sabia que estava exausta demais
para continuar.
O velho, porém, parecia mais irritado com a presença dela
do que interessado. Após uma longa pausa, ele rosnou:
— Vem comigo — E levou-a por um corredor longo e sem
graça. No final, havia uma porta sem número. — Tá bom aí?
Havia uma cama de solteiro, arrumada com lençóis de
poliéster, cortinas de tecidos florais e um carpete cor de café
coberto de manchas. Em um canto, havia uma minúscula
televisão pendurada na parede. Ao lado, a porta do "luxuoso
banheiro individual" estava aberta, mostrando um luxuoso
vaso sanitário individual sem assento ou tampa e um luxuoso
boxe individual com lodo entre os azulejos.
— Está bom. Quanto lhe devo?
— Quanto tempo vai ficar?
— Não sei ainda. — De repente, se conscientizando de sua
aparência desgrenhada e do fato de que não tinha bagagem,
Grace disse: — Briguei com meu namorado, saí correndo.
Yoda deu de ombros, entediado.
— Vinte dólares por esta noite.
Grace colocou uma nota na mão dele, e ele foi embora.
Trancou a porta e fechou as cortinas. Tirou toda a sua roupa
e foi para o banheiro. Então caiu de joelhos, debruçou-se no
vaso e vomitou. Quando seu estômago estava vazio,
levantou-se e foi para o chuveiro. Embaixo dos jatos fracos
de água, ela se esfregou com o sabonete usado até sua pele
sangrar. Ainda podia sentir as mãos imundas do motorista
em seus seios, o sêmen de estuprador dele em seu rosto, na
sua boca. Na traseira da van havia duas garrafas de água
mineral que ela tinha usado para se lavar da melhor forma
que pôde horas antes, para não levantar suspeitas. Na longa
caminhada até ali, se forçara a se concentrar no banho que a
esperava, em ficar limpa. Mas ela sabia que nunca mais
ficaria limpa de novo.
Ao se secar, Grace teve ânsia de vômito de novo, mas não
havia mais nada dentro dela para colocar para fora. Ela foi
para o quarto e mergulhou na cama. Era um quarto quente.
Recostando-se no travesseiro barato de espuma, ligou a
televisão e viu seu rosto estampado lá. Ou melhor, seu rosto
como ele já fora, havia muito, muito tempo.
Então já se tornou público. Pelo menos, eles estão usando
uma foto antiga. A primeira coisa que vou precisar fazer
amanhã de manhã é providenciar um disfarce antes que
divulguem uma foto nova.
O âncora estava falando.
— Notícia de última hora: Grace Brookstein fugiu de uma
penitenciária de segurança máxima do estado de Nova York.
Brookstein, viúva do bilionário Lenny...
A reportagem continuou, mas Grace não escutou. Nunca se
sentira tão cansada em toda a sua vida. O sono a envolveu
como cobertores de cashmere. Fechou os olhos e deixou
que ele a levasse.
GAVIN WILLIAMS estava gritando:
— Vocês estão cegos? É isso! É a brecha de que estávamos
precisando. Grace vai nos levar diretamente para o dinheiro!
Gavin Williams, Harry Bain e John Merrivale estavam
tomando café da manhã no antigo prédio do Quorum. Era a
manhã seguinte à fuga de Grace e a notícia estava em todos
os jornais.
Harry Bain balançou a cabeça.
— Duvido. Mesmo se ela soubesse...
— Ela sabe onde está.
— Mesmo se soubesse, não chegaria tão longe. A polícia de
Nova York inteira está atrás dela. Aposto que ela vai estar
atrás das grades no final do dia de hoje. Ou isso ou algum
policial com o dedo pesado vai atirar nela.
— Não! Não podemos deixar isso acontecer! — Não era
comum Gavin Williams se descontrolar, mas ele parecia
prestes a chorar. — Grace Brookstein continua sendo a
chave para o nosso caso. Precisamos assumir o controle.
Temos que insistir para que a polícia de Nova York entregue
a investigação para o FBI.
Harry Bain riu.
— Ah, claro. Vou insistir. Tenho certeza de que o chefe de
polícia vai adorar isso.
Gavin Williams olhou para John Merrivale em busca de
apoio. Mas, é claro que John só fitou os sapatos, como o
covarde que era. Furioso, Gavin Williams se levantou e saiu.
John Merrivale disse:
— Sei que não é meu pa-papel dizer isso. Mas acho que
talvez o estresse desse caso esteja sendo pesado demais para
o agente Williams.
Harry Bain concordou.
— Você está certo. Vou transferi-lo. Grace Brookstein se
tornou uma obsessão. Isso está atrapalhando o julgamento
dele. A fuga dela é uma distração e não podemos nos dar a
esse luxo.
— Exatamente.
John Merrivale respirou aliviado.
Não descansaria em paz até que Grace fosse capturada. Ou
melhor, levasse um tiro. A notícia da fuga dela o abalara
demais. Mas a reunião de hoje fora tranquilizadora. Com
Gavin Williams fora de cena, seria ainda mais fácil levar Bain
e sua equipe para a direção errada. Eles acabariam ficando
sem energia, ou dinheiro, ou ambos, e cancelariam a
investigação. Então, finalmente, ele estaria livre. Livre para
ir embora de Nova York, para largar Caroline. Uma vida sem
correntes! No final, tudo teria valido a pena.
— Vo-você acha que vão encontrá-la rápido?
Harry Bain disse:
— Tenho certeza. Ela é Grace Brookstein, pelo amor de
Deus. Onde vai se esconder?
EM SEUS SONHOS, Grace escutou alguém batendo na porta, de
maneira fraca, mas rápida e insistentemente, como um pica-
pau a distância. O barulho ficou mais alto, mais próximo. Ela
acordou.
Tem alguém na porta!
Levantando da cama de um pulo, ela pegou seu estilete e se
enrolou no lençol, tropeçando na escuridão até a porta.
— Quem é?
— É eu.
Yoda. Grace abaixou o estilete e abriu um pouco a porta.
— Vai ficar mais uma noite?
A luz do corredor a deixou cega. Grace piscou.
— Como?
— Perguntei se vai ficar mais uma noite. Já é meio-dia. O
check-out é daqui a meia hora. Se não for ficar, tem que sair
do quarto até lá.
— Ah. Não. Vou ficar.
— Vinte dólares.
Grace pegou mais uma nota do rolo que Karen lhe dera e a
entregou para o velho. Ele pegou sem dar nenhuma palavra,
voltando para sua mesa na recepção como um besouro
decrépito.
Meio-dia! Meu Deus! Eu devia estar apagada mesmo. Grace
abriu a cortina, depois fechou de novo. Claro demais. Jogou
água gelada no rosto, vestiu suas roupas — fediam ao
cretino, mas era tudo o que tinha. Compraria roupas novas
naquele dia. A televisão estava ligada desde a noite anterior.
Grace aumentou o volume. Daquela vez, a matéria era sobre
economia. Mas poucos momentos depois, seu rosto estava
de volta à tela, agora, a foto que tiraram no dia em que
entrou em Bedford Hills. Ainda não se parece nada comigo.
A âncora estava falando:
— Grace Brookstein está desaparecida há 17 horas e até
agora a polícia não tem nenhuma pista. O detetive Mitch
Connors, que está conduzindo as investigações sobre a fuga
de Grace Brookstein, está aqui comigo. Detetive, as pessoas
já estão dizendo por aí que o senhor e sua equipe estão
perdidos. Acha que é uma declaração justa?
Um policial louro e atraente respondeu:
— Não, Nancy, não acho justa. Estamos seguindo diversos
caminhos. Essa investigação começou apenas há algumas
horas. Acreditamos que a presidiária será capturada
rapidamente e estamos trabalhando para conseguir isso.
Grace analisou o rosto do policial. O detetive Mitch Connors
parecia ter sido desenhado por um cartunista da Marvel
Comics, maxilar bem quadrado e firme, olhos azuis.
Fisicamente, ele a lembrava de uma versão mais rústica de
Jack Warner. Mas a expressão dele não parecia nem um
pouco com a de Jack. Talvez parecesse mais com a de
Lenny. São os olhos dele. Ele tem olhos generosos.
Ele ainda estava falando.
— Grace Brookstein e o marido trouxeram um enorme
sofrimento a milhares de pessoas, principalmente aqui em
Nova York. Acredite em mim, Nancy, ninguém quer ver
essa mulher condenada de volta à cadeia mais do que eu.
Não se engane. Nós a encontraremos.
Grace desligou a televisão.
O detetive Connors pode ter olhos generosos, mas ele é meu
inimigo.
Não podia se esquecer disso.
NAQUELA TARDE Grace caminhou até a cidade. Era tudo o
que podia fazer para que seus dentes parassem de tremer,
considerando que seu rosto estava em todos os noticiários e
que a qualquer momento alguém poderia reconhecê-la e
entregá-la para as autoridades. Mas não podia se esconder no
hotel barato para sempre. Precisava de algumas coisas, e
tinha de sair de Richardsville. Karen e Cora tinham lhe
prevenido sobre os perigos de ficar muito tempo em um
lugar só.
Escondida dentro da jaqueta do motorista, Grace andou
pelos corredores do Walmart com a cabeça abaixada. No
caixa, seu coração batia tão forte que ela achou que fosse
desmaiar. Felizmente, a adolescente mal-humorada que
trabalhava ali parecia mais interessada na lasca que saíra de
uma de suas unhas de acrílico do que na cliente nervosa ou
nas suas compras.
— Oitenta e oito dólares; dinheiro ou cartão?
— Dinheiro.
— Obrigada, bom-dia.
A garota nem levantou os olhos. Quando Grace voltou para
seu quarto no Up All Night, já eram quase 16 horas. Trancou
a porta e esvaziou as sacolas do Walmart em cima da cama:
tinta de cabelo, tesoura, maquiagem, desinfetante, calcinha,
sutiã, um pacote com três camisetas, jeans, um gorro e uma
bolsa de ginástica cinza.
Pôs mãos à obra.
O VELHO DA RECEPÇÃO analisou a foto no jornal. Seus
olhos não eram mais os mesmos.
Podia ser?
O nariz da garota era diferente. E o cabelo. Ainda assim,
definitivamente, elas eram parecidas. Ela tinha chegado no
meio da madrugada, sem nenhuma mala. Ele olhou o jornal
de novo. O policial na televisão disse para notificar qualquer
coisa suspeita, por mais trivial que parecesse.
O velho pegou o telefone.
Grace olhou-se no espelho quebrado do banheiro. Mas não
era ela. Era outra pessoa, a primeira de suas quatro
identidades. Lizzie Wooley.
Olá, Lizzie.
Cuidadosamente, Grace limpou todos os rastros de tinta e
mechas de cabelo que tinham caído no chão, jogou-os em
uma sacola vazia do Walmart junto com uma caixa da tinta e
suas roupas velhas, amarrou-a pelas alças e enfiou dentro de
sua bolsa. Vestiu-se rapidamente. As roupas limpas lhe
causaram uma sensação maravilhosa. Por um momento,
Grace pensou em sua antiga vida e sorriu. Naquela época, ela
nunca poderia imaginar que, algum dia em sua vida, uma
calça jeans do Walmart lhe pareceria um luxo! Já gastara dois
terços do dinheiro que Cora e Karen tinham lhe dado. Logo,
teria de entrar em contato por e-mail com o "amigo"
misterioso de Karen e pedir mais. Cora lhe assegurara que
receber dinheiro pelo correio era anônimo e fácil. Só
precisava ir a um dos vários postos, apresentar a identidade
falsa e pegar o dinheiro.
— É como todos os imigrantes ilegais deste país pagam o
aluguel, querida. O trabalho deles é não fazer perguntas.
Mesmo assim, Grace esperava não precisar ter de fazer isso
com muita frequência.
Ela vira os horários dos ônibus mais cedo. O ônibus seguinte
para a cidade saía às 18h15.
Tempo suficiente.
O velho bateu à porta.
Ninguém respondeu. O oficial McInley, o melhor e único
de Richardsville, parecia irritado.
— Achei que você tinha dito que ela estava aqui com
certeza.
McInley soube no momento em que o Velho Murdoch
ligou que isso não daria em nada. Grace Brookstein,
hospedada no Up All Night? Até parece. Ela provavelmente
estava dividindo um quarto com Caco, o sapo, e o coelhinho
da Páscoa. Todo mundo em Richardsville sabia que
Murdoch já estava senil havia anos.
— Ela tá aqui, ora. Eu vi ela entrar com meus próprios
olhos, e ela num saiu mais. Deve tá dormindo.
Pegando a chave-mestra no cinto, o homem destrancou a
porta.
— Senhorita?
O quarto estava vazio. Não apenas vazio, mas impecável. A
cama estava feita, as superfícies limpas. Parecia que ninguém
se hospedava ali fazia semanas.
O oficial McInley revirou os olhos.
— Ela tava aqui, tô te dizendo. Duas noites. Juro por Deus.
Deve ter fugido pela janela.
— A-hã. — Em um macaco voador. — Bem, se você vir a
mulher outra vez, primeiro tenha certeza, depois nos avise.
Capítulo 17
Maria Preston entrou como que flutuando no restaurante
Caprice, no sexto andar do hotel Four Seasons de Hong
Kong. Usando uma túnica de chiffon e as pérolas recém-
compradas no distrito de jóias da cidade de Cantão, ela
sacudiu o jornal para o marido.
— Você viu isso, Andy?
— Vi o quê, meu amor?
— Grace Brookstein fugiu da prisão!
Andrew Preston ficou branco.
— Fugiu? Como assim, fugiu? Não é possível. — Pegando o
jornal, ele leu a matéria da primeira página.
Uma enorme operação policial foi armada ontem à noite em
Nova York depois que a golpista condenada Grace
Brookstein aparentemente fugiu de uma penitenciária de
segurança máxima no Condado de Westchester. Acredita-se
que Brookstein, uma das mulheres mais famosas dos Estados
Unidos, tenha roubado mais de 70 bilhões de dólares em
uma conspiração comandada por seu marido, Leonard...
— Dá para acreditar? — Maria riu enquanto se servia de um
grande copo de suco de laranja. — Fugiu da prisão. Parece
coisa de Desperate Housewives. Daqui a pouco, vão encon-
trá-la desmaiada no banheiro com amnésia e os vinte últi-
mos anos nunca aconteceram! Você acha que vão conseguir
pegá-la?
Andrew estava perplexo demais para falar. Isso era um
desastre. Uma catástrofe. Justo agora que achava que o
pesadelo tinha ficado para trás, Grace tinha de reaparecer
assim e reabrir velhas feridas. Maria parecia achar que isso
era algum tipo de piada. Mas por que não acharia? Ela não
fazia a menor idéia do estresse pelo qual ele vinha passando.
Contanto que tivesse dinheiro para gastar — a viagem para
Hong Kong já custara mais de 40 mil dólares, não incluindo
a quantia astronômica que Maria "investira" em pérolas —,
ela estava feliz. O que importava se Andrew não dormia
bem havia um ano? Se ele deitava na cama deles, na suíte
presidencial de 12 mil dólares por noite com vista para
Victoria Harbour e Kowloon Bay, se contorcendo com
dores no estômago e enxaquecas terríveis, assombrado por
pesadelos envolvendo Lenny Brookstein e o rosto terrível e
cheio de cicatrizes de um homem chamado Donald
Anthony Le Bron? Se não fosse por Maria, nunca teria feito
o que fez. Nunca teria traído um amigo, nunca teria se
tornado um ladrão, nunca teria se associado a tipos como Le
Bron. E, ainda assim, não podia contar para ela.
Simplesmente não podia.
O mais angustiante de tudo era a perda de cabelo. No último
Natal, o cabelo de Andrew começara a cair em tufos, como
um cachorro sarnento. Ele entrou em pânico. Estou me
desfazendo. Literalmente. É o começo do fim.
Graças a Deus foi John Merrivale quem precisou ficar com o
FBI, e não ele. O estresse teria acabado com ele. Andrew
ainda podia ouvir a voz de John Merrivale em sua cabeça,
repetindo seu mantra:
— Mantenha a nossa história e você vai fi-ficar bem. Nós
dois vamos.
Até agora, tinha dado certo. Mas a fuga de Grace mudava
tudo.
— Andy, você está me escutando? Eu perguntei se você acha
que eles vão conseguir capturá-la?
— Tenho certeza que sim. — Eles têm que capturá-la.
— O que que você acha que vai acontecer com ela, depois?
— Não sei. Acho que devem levá-la de volta para a prisão.
Andrew pensou em Grace Brookstein, a menina doce e
ingênua com quem convivera por tantos anos. Pobre Grace.
Ela era a única vítima inocente de toda essa história.
Infelizmente, isso era o que acontecia com carneirinhos
inocentes. Eram levados para o abate.
Maria bebericou seu suco de laranja contente.
— Não fique com essa cara horrível, Andy. Até parece que
a polícia está atrás de você, e não dela. Agora, me dê o
jornal. Tem um lindo vestido Balenciaga no caderno de
moda. Acho que vou mandar copiar,
JACK WARNER VIU a notícia na televisão. Estava em um bar
com Fred Farrel, seu gerente de campanha, discutindo sua
estratégia de reeleição. Quando viu o rosto de Grace na tela
da televisão, engasgou com o pistache.
— Minha mãe do céu! Dá para acreditar nisso?
Fred não podia. As pessoas não fugiam de lugares como
Bedford Hills assim. Não na vida real. Muito menos, esposas
"TROFÉU" louras e lindas como Grace Brookstein.
— Você vai ter de fazer uma declaração.
A brilhante mente política de Fred Farrel já estava a mil.
Aquele não era um bom momento para o escândalo do
Quorum voltar à tona para assombrá-los. Grace
provavelmente seria capturada em poucas horas, mas isso
renovava o interesse da mídia no caso Brookstein, o que
poderia levar meses. Jack não podia ser arrastado para dentro
disso.
— Vou escrever alguma coisa. Enquanto isso, vá para casa e
fique lá.
Jack Warner foi para casa. Durante a viagem de uma hora
até Westchester, ele colocou os pensamentos em ordem.
Fred Farrel não sabia nem da metade. Sabia sobre as dívidas
de jogo e da recusa de Lenny Brookstein em pagá-las. Mas
Jack Warner tinha alguns outros esqueletos em seu armário
além do jogo. Segredos explosivos que podiam destruí-lo e
dar um fim às suas esperanças políticas.
Lenny sabia a verdade. Mas Lenny está morto, queimando
no inferno, que é onde ele merece estar.
A questão era se ele tinha levado o que sabia com ele para o
túmulo? Ou se tinha contado para a sua amada esposa?
Enquanto Grace estava trancada na prisão, isso não
importava. Mas agora ela estava solta, correndo pela própria
vida. Descontrolada, com nada a perder.
Não posso deixar aquela vadia me destruir. E não vou.
Honor correu para a entrada para encontrá-lo. Os olhos dela
estavam vermelhos e inchados. Era óbvio que ela tinha
chorado.
— Ah, Jack! Você viu os jornais?
— Claro que vi. — Ele a empurrou para dentro. A imprensa
poderia chegar a qualquer momento. — Pelo amor de Deus,
se controle. Por que está chorando?
Honor não sabia. Sempre invejara Grace, se ressentira com
ela, chegara até a odiá-la. Ao mesmo tempo, a condenação
de sua irmãzinha a perturbava. Grace era tão capaz de
participar de uma fraude sofisticada quanto de trocar um
pneu ou preencher uma declaração de imposto de renda.
Honor sabia disso melhor do que ninguém. Eu devia ter
deposto a favor dela no julgamento. Ou, pelo menos, ter ido
visitá-la na prisão. Mas não fui. Eu fiz o que Jack me mandou
fazer. Eu sempre faço o que Jack manda.
— Disseram na televisão que ela pode até levar um tiro. Que
o público em geral é um risco maior para ela do que a
polícia.
— E daí? — Jack não estava interessado nos problemas de
Grace. Estava interessado nos seus. — Fred está escrevendo
um pronunciamento para mim. Até lá, quero que você e as
crianças fiquem em casa. Não fale com ninguém sobre
Grace. Entendeu?
Honor assentiu.
— Se ela tentar entrar em contato com você, deve me avi-
sar imediatamente. Não à polícia, mas a mim.
— Sim, Jack.
Ele começou a subir as escadas. Ela chamou:
— Jack? Por que você acha que ela fez isso?
— Como assim?
— Por que ela fugiu? Ela devia saber do risco em que estava
se colocando. Sem mencionar que assim ela acaba com
qualquer chance para uma apelação. Apenas me parece tão...
imprudente. Tão pouco característico dela.
Jack Warner deu de ombros.
— Talvez ela tenha mudado. A prisão muda as pessoas,
sabia?
Assim como a política, pensou Honor. Olhou-se no espelho
do corredor e estremeceu. Não reconheceu a pessoa que se
TORNARA.
- FUGIU? Meu Deus!
Michael Gray tinha passado o dia em seu novo barco, um
presente de aniversário de casamento de Connie. Não
soube da notícia até se sentar à mesa para jantar.
— Eu sei. Nunca diria que ela faria algo assim. Escondida
em um caminhão de entrega, dá para acreditar? E dizem que
é "segurança máxima".
Michael pareceu triste.
— Você acha que nós devíamos... não sei, tentar ajudá-la de
alguma forma?
Connie arregalou os olhos.
— Ajudá-la? O que você está querendo dizer? Como
poderíamos ajudá-la? Sendo mais específica, por que
deveríamos ajudá-la depois do que ela fez?
Michael Gray amava a esposa e cedia às opiniões dela sobre a
irmã. Mas nunca se sentira à vontade com todo mundo
lavando as mãos e virando as costas para Grace depois do
julgamento. Na época, não lhe pareceu certo. Agora, de
alguma forma, parecia menos certo ainda.
Tanta coisa tinha acontecido desde a maldita viagem para
Nantucket um ano e meio atrás. Naquela época, Grace e
Lenny tinham tudo: um casamento perfeito, fortuna, e ele e
Connie não tinham nada. Michael Gray não tinha se
esquecido daqueles dias sombrios. Perder seu emprego na
Lehman foi como perder o pai ou a mãe. A Lehman
Brothers era muito mais do que um empregador. Dera a
Michael sua identidade, seu valor. Quando a empresa faliu,
foi como a morte. Mas Michael não teve tempo para ficar de
luto. Foi atingido por uma crise após a outra, vendo suas
economias desaparecerem, depois a casa. O pior de tudo foi
a distância crescente entre ele e Connie. Michael Gray
sentia que seria capaz de enfrentar qualquer coisa com o
apoio da esposa. Mas a cada golpe, Connie se afastava mais
dele. Até a forma como ela olhava para ele naquela época,
tão decepcionada, tão enojada, quase como se o que tinha
acontecido fosse culpa dele, como se ela o culpasse pelo
sofrimento deles... Só de lembrar já começava a suar frio.
Tudo isso fora há apenas 18 meses, mas parecia em outra
vida. Desde então, passaram pelo colapso do Quorum, a
morte de Lenny, a prisão de Grace, o julgamento... E agora
isso. Era surreal. Conforme a sorte de Grace começou a ir
embora, alguma corda invisível pareceu começar a levantar
a vida de Michael e Connie, para fora da lama e de volta para
o calor do sol. Michael conseguiu um emprego em um
pequeno escritório de consultoria. O salário não era ótimo,
mas ele tinha participação acionária. Mais importante, ele
tinha uma razão para se levantar da cama todos os dias. Isso
não tinha preço. Connie se tornou menos distante e mais
carinhosa. A decepção sumiu. Em seu lugar, apareceu o
velho olhar de amor, aquela combinação única de confiança,
desejo e respeito que fazia Michael achar que podia mover
montanhas. Ele a amava tanto.
Ela é a minha força e a minha fraqueza. Eu morreria por ela
e mataria por ela. E ela sabe disso.
Mas o melhor ainda estava por vir. Alguns meses depois que
Grace começou a cumprir sua pena em Bedford Hills, o
advogado de Connie a chamou para uma reunião.
Aparentemente, algum parente idoso e distante tinha
deixado para ela alguma coisa no testamento. Michael
esperara algumas ações ou talvez uma jóia.
Na verdade, sua esposa recebera 15 milhões de dólares.
Naquela noite, ela fez amor com ele com uma paixão que
Michael não via desde que tinham se casado. Ele até
brincou:
— Acho que ser uma mulher rica combina com você,
amor. Connie sorriu.
— Acho que sim. Vamos comprar uma casa nova, Mike. Esta
casa tem muitas recordações dolorosas.
— Ei, mas também tem muitas recordações boas, não tem?
Foi aqui que as crianças nasceram. Você realmente quer sair
daqui?
Connie não hesitou:
— Quero sim. Quero um recomeço. Para todos nós. Sem
olhar para trás.
Eles venderam a casa.
— Não posso acreditar que você realmente queira ajudar
Grace. De onde tirou essa idéia?
Eles estavam na sala de estar da casa nova. Connie fizera
todo o possível naquele Natal, decorando toda a casa em
branco e prata. Sendo uma mulher tradicionalista, se
recusava a tirar qualquer enfeite antes da noite de Reis. Ao
voltar para casa, Michael sentia como se estivesse entrando
na gruta do Papai Noel.
— Não sei. De nenhum lugar específico. Nós temos tanto, só
isso.
— E Grace não tem? — Connie riu amargamente. Sempre
que conversavam sobre Grace ou Lenny, o ódio dela parecia
ressurgir, como um demônio enjaulado quando era solto. —
Aquele dinheiro do Quorum está em algum lugar, Mike. O
FBI tem certeza de que a pobre Grace sabe onde ele está.
Quem somos nós para dizer o contrário?
Mike queria dizer a família dela, mas não disse. Tinha medo.
Ao ver o medo nos olhos dele, Connie se acalmou.
Bom. Ele não vai forçar esse assunto. Ele me ama demais.
Connie estava estarrecida com a fuga da irmã. A Grace que
ela conhecia nunca teria a audácia para planejar nada tão
ousado, muito menos passar a perna na polícia. Bem no
fundo, Connie sabia que Grace não tinha nada a ver com o
roubo dos bilhões do Quorum.
Ela não está atrás do dinheiro. É alguma outra coisa.
Da verdade, talvez?
Mike ainda não fazia ideia do envolvimento de Connie com
Lenny Brookstein. Nem questionara a herança misteriosa.
Ele é tão crédulo. Como Grace. Connie queria que as coisas
continuassem assim.
Passando os braços em volta do pescoço de Michael, ela
sussurrou:
— Quero que sejamos felizes, querido. Deixar o passado para
trás. Você não quer?
— Claro que quero, meu amor. — Ele a abraçou com força.
— Então, não vamos mais falar sobre ajudar Grace. Esse
capílulo das nossas vidas está encerrado.
Capítulo 18
Estar em Nova York de novo, revisitando os locais e
sentindo os cheiros, não era bem como estar de volta
à sua casa. Ela se sentia mais segura na cidade. Sua
nova aparência também ajudava: cabelo bem curto,
cor de chocolate, maquiagem escura, roupas largas e
masculinas. Uma garota em Bedford Hills lhe dissera
que mudar a maneira de andar alterava drasticamente
a percepção das pessoas. Grace passara horas aper-
feiçoando um modo de andar menos feminino, com
passos longos. Ainda ficava nervosa ao ver seu "antigo
rosto" em todas as televisões e bancas de jornal. Mas
conforme os dias foram passando, ela ficou mais
confiante com a combinação do seu disfarce e do
anonimato que a multidão da cidade lhe oferecia, pelo
menos.
No seu segundo dia na cidade, ela se aventurou em
um pequeno cibercafé e mandou um e-mail para o
endereço que Karen lhe dera usando o código
especificado: 200011209LW. Grace esperava que isso
significasse, "por favor, mande 2 mil dólares para o
CEP 11209 em Nova York no nome de Lizzie
Wooley", mas ainda tinha medo que alguma coisa
desse errado. Dois mil era muito para pedir ou pouco?
Um pouco tarde demais ela percebeu que não fazia
idéia se o amigo de Karen tinha muito dinheiro ou
não, ou quanto estava disposto a mandar para ela. Por
outro lado, não queria se arriscar a precisar fazer isso
toda semana, não com metade da polícia do país atrás
dela.
Na verdade, pegar o dinheiro foi tão tranquilo quanto
Cora dissera que seria. Havia um balcão dos correios
na farmácia da esquina. Um homem gordo e
deprimido de mais ou menos 40 anos olhou a
identidade de Grace e, sem nem mesmo fazer contato
visual com ela, muito menos examinar seus traços,
entregou a ela um envelope cheio de dinheiro e um
recibo.
— Aqui está, Srta. Wooley. Tenha um bom dia.
Grace começou a pensar menos em ser capturada e
mais em seu iminente encontro com Davey Buccola.
Davey vinha pesquisando os álibis de todo mundo que
ela e Lenny convidaram para Nantucket naquele
maldito final de semana. Ainda não parecia muito real
para Grace a idéia de que os Preston ou os Merrivale
ou mesmo uma de suas irmãs tivessem feito algo tão
terrível: roubado todo o dinheiro, matado Lenny,
causado a sua prisão e saído impune. Mas que outra
explicação havia? Esperava que quando visse o
resultado concreto da pesquisa de Davey Buccola,
tudo ficasse mais claro. Tudo dependia desse
encontro.
Sozinha no minúsculo estúdio, Grace pegou vários
recortes de jornais e os arrumou em cima da cama.
Ali estavam todos: Honor e Jack, Connie e Mike,
Andrew e Maria, e, claro, John e Caroline. Entre eles,
esses oito rostos continham a chave para a verdade.
Ao lado deles, um pouco afastado, Grace colocou uma
nona foto: a do detetive Mitch Connors, o homem
cujo dever era capturá-la. Definitivamente, ele era
atraente. Grace se pegou perguntando se ele era
casado e se amava a esposa tanto quanto ela amara
Lenny.
É claro que ele acabaria conseguindo capturá-la. A
sorte dela não duraria para sempre. Mas isso não
importava para Grace. O que importava era fazer o
que tinha de fazer.
Fechando os olhos, ela falou com Lenny, suas
palavras meio promessa, meio oração:
CONSEGUIREI FAZER ISSO, MEU AMOR. FAREI POR NÓS DOIS.
VOU DESCOBRIR QUEM O TIROU DE MIM E FAZÊ-LO PAGAR.
PROMETO.
Ela dormiu e se sentiu mais forte.
- Mais chá, detetive? Meu marido deve chegar a
qualquer momento.
Honor Warner estava visivelmente nervosa. Mitch
percebeu como as mãos dela tremiam ao levantar o
bule de prata da bandeja. Líquido marrom e quente
respingou por toda a toalha branca que cobria a
mesinha.
— Não, obrigado, Sra. Warner. Foi a senhora mesma
quem eu vim ver. Sua irmã tentou entrar em contato
com a senhora depois da fuga?
— Entrar em contato comigo? Não, de forma alguma.
Se Grace tivesse ligado, eu teria avisado a polícia
imediatamente.
Mitch virou a cabeça para o lado e sorriu de forma
simpática.
— Teria mesmo? Por quê?
Aquela mulher o deixava intrigado. Ela era irmã de
Grace Brookstein. Em determinada época, para todos
os fins, haviam sido próximas. Elas até se pareciam.
Mas quando Grace perdeu tudo, Honor Warner
desapareceu.
— Como assim? Não entendi.
— Só estou querendo dizer que Grace é sua irmã —
explicou Mitch. — Seria compreensível se a senhora
quisesse ajudá-la. Não seria errado.
Isso pareceu abalar Honor. Ela olhou em volta, como
se procurasse uma forma de fugir. Ou talvez estivesse
procurando microfones ou câmeras escondidos? Será
que ela achava que estava sendo observada? Ela
acabou dizendo:
— Grace fez muitos inimigos, detetive. Ela está
correndo mais perigo fora da prisão do que dentro.
Estou pensando na segurança dela.
Mitch se esforçou para não rir. ATÉ PARECE.
— A senhora não foi ao julgamento.
— Não.
— Pelo que estou sabendo, a senhora nunca visitou
sua irmã em Bedford Hills.
— Não.
— Por quê?
— Eu... meu marido... nós achamos que seria melhor
assim. Jack trabalhou tanto para chegar onde ele está
hoje. Se os eleitores o associarem ao Quorum... bem.
O senhor entende.
Mitch não fez o menor esforço para esconder seu
nojo. Entendia perfeitamente.
Lendo os pensamentos dele, Honor disse, na
defensiva:
— Meu marido fez muita coisa boa para seus
eleitores, detetive. MUITA coisa boa. É certo que a
imagem dele fique manchada por causa da ganância
de Lenny Brookstein? Grace fez as escolhas dela.
Estou preocupada com ela, mas... — Ela deixou o final
da frase no ar.
Mitch se levantou.
— Obrigado, Sra. Warner. Sei o caminho da porta.
Foi a mesma história com Connie Gray.
— Minha irmã mais nova nunca aprendeu a se
responsabilizar pelos próprios atos, detetive Connors.
Grace acredita que tem DIREITO à riqueza, à beleza, à
felicidade, à liberdade. Não importa o quanto isso
custará aos outros. Então, respondendo à sua
pergunta, não, não sinto pena dela. E certamente não
tive notícias dela. E nem espero ter.
COM AMIGOS COMO OS DE GRACE BROOKSTEIN, QUEM PRECISA
DE INIMIGOS?
Falando com a amarga e fria irmã de Grace, Mitch
quase sentiu pena da mulher cuja ganância deixara
Nova York de joelhos. A raiva de Connie era como
uma presença física na sala, emanando do corpo dela
como calor de um radiador. O ambiente estava
pesado.
— Tem mais alguém de quem você se lembre?
Alguém para quem Grace poderia ligar ou com quem
poderia contar? Uma amiga de escola talvez? Um
namoradinho de infância?
Connie balançou a cabeça.
— Ninguém. Quando Grace se casou com Lenny, ela
foi completamente envolvida pelo mundo dele.
— Você parece não aprovar.
— Eu e Lenny... Digamos que nós não éramos
próximos. Sempre achei que ele e Grace não
combinavam. De qualquer forma, ela não tem velhos
amigos. John Merrivale apoiou Grace por um tempo,
até que Caroline conseguiu colocar juízo na cabeça
dele. Coitado do John.
— Por que coitado do John?
— Ah, detetive. Você o conheceu. Ele adorava Lenny.
Foi cachorrinho de Lenny durante anos.
— Ele certamente era mais do que isso, não?
— John? Não. Nunca. — Connie riu de forma cruel. —
A mídia faz com que ele pareça um mago das
finanças, UMA PESSOA ESSENCIAL DO QUORUM. É uma farsa!
Ele não era nem sócio, mesmo depois de vinte anos.
Lenny o usou. Grace também. E ele está até agora
limpando a sujeira do Quorum. Não é de admirar que
seus colegas do FBI ainda não tenham encontrado o
dinheiro. É como um cego guiando outros.
O clima da coletiva de imprensa foi hostil. O povo
queria respostas e Mitch Connors não as tinha.
Já fazia quase uma semana desde a dramática fuga de
Grace Brookstein de Bedford Hills e a pressão estava
cada vez maior em cima de Mitch e sua equipe para
mostrar algum progresso. A mídia parecia ter
colocado na cabeça que a polícia estava escondendo
informações. Mitch sorriu. QUEM DERA! A verdade era
que ele não tinha nada. Grace Brookstein fugira da
cadeia e sumira. Ela não entrara em contato com
ninguém, nem com a família nem com os amigos. No
dia anterior, em uma ação que foi interpretada
corretamente como desesperada, a polícia de Nova
York ofereceu uma recompensa de 200 mil dólares
para quem desse alguma informação que os levasse a
capturar Grace. Foi um erro. Em duas horas, a equipe
de Mitch recebeu mais de oitocentas ligações.
Aparentemente, Grace Brookstein fora vista em todos
os lugares de Nova York à Nova Escócia. Duas pistas
pareciam poder levar a algum lugar, mas acabaram em
nada. Mitch se sentia como uma criança tentando
pegar bolhas de sabão, sem saber para que lado se
virar e destruindo tudo que tocava. E pensar que ele
tinha achado que este caso seria fácil.
— Só isso por hoje, pessoal. Obrigado.
O grupo de jornalistas dispersou. Mitch voltou para
seu escritório para se esconder, mas parecia que
naquele dia não teria trégua. O tenente-detetive
Henry Dubray não era fácil na maior parte do tempo.
Sentado na cadeira de tortura de Mitch como um sapo
gigante, ele parecia ainda pior do que de costume. Sua
pele estava manchada e destruída pela bebida, e o
branco de seus olhos estava amarelo como girassol. A
pressão do caso Brookstein estava cobrando tributo de
todos eles.
— Mitch, me dê uma boa notícia.
— Os Knicks ganharam ontem à noite.
— Estou falando sério.
— Eu também. Foi um jogo ótimo. Você não viu?
Mitch sorriu. Dubray não.
— Desculpe, chefe. Não sei o que dizer. Não temos
nada.
— O tempo está acabando, Mitch.
— Eu sei.
Dubray saiu. Não havia mais nada a dizer. Ambos
sabiam da realidade. Se Mitch não conseguisse alguma
pista concreta nas próximas 24 horas, ele seria
afastado do caso. Rabaixado, certamente. Talvez até
demitido. Mitch tentou não pensar em Celeste e na
cara escola particular em que Helen queria matriculá-
la. No momento, odiava Grace Brookstein.
Olhou para o quadro branco na parede de seu
gabinete. A foto de Grace estava no meio. Em volta
dela, como as pontas de uma estrela, havia vários
grupos de fotos: funcionários e presidiárias de
Bedford Hills; família e amigos de Grace; conexões no
Quorum; pessoas do público em geral que tinham
dado as pistas mais significativas. COMO TANTAS FONTES
PODIAM LEVAR A LUGAR NENHUM?
O telefone tocou.
— Ligação para o senhor na linha um, detetive
Connors.
— Quem é?
— Grace Brookstein.
Mitch deu uma gargalhada.
— Ah, obrigado, Stella. Não estou no clima para
trotes. Ele desligou. Trinta segundos depois, o
telefone tocou de novo.
— Stella, já disse, tenho problemas o suficiente sem...
— Bom-dia, detetive Connors. Aqui é Grace
Brookstein.
Mitch congelou. Após escutar a horas de gravação do
testemunho de Grace no julgamento, ele teria
reconhecido sua voz em qualquer lugar. Ele acenou
freneticamente para seus colegas do lado de fora do
gabinete.
— É ela — disse ele, apenas com os lábios. —
Rastreiem a ligação.
Ele fez um esforço consciente para falar devagar. Não
podia demonstrar sua excitação. Mais importante
ainda, precisava fazê-la falar por tempo suficiente
para conseguir rastrear.
— Olá, Sra. Brookstein. O que posso fazer pela
senhora?
— Pode me escutar.
A voz era a mesma das gravações do julgamento, mas
o tom era diferente. Mais duro, mais determinado.
— Estou escutando.
— Alguém incriminou meu marido e a mim. Eu nunca
roubei dinheiro nenhum, nem Lenny.
Mitch fez uma pausa, tentando mantê-la na linha.
— Por que está me dizendo isso, Srta. Brookstein?
Não sou do júri. Sua condenação não teve nada a ver
comigo.
— É SRA. Brookstein, sou viúva e não divorciada,
detetive.
VOCÊ É UMA TOLA. NUNCA DEVIA TER FEITO ESTA LIGAÇÃO.
APENAS CONTINUE FALANDO.
— Estou falando isso porque eu o vi na televisão e o
senhor parece um homem bom. Honesto.
O elogio surpreendeu Mitch.
— Obrigado.
— O senhor parece um homem que gostaria de saber
da verdade. Não é?
NA VERDADE, EU SOU UM HOMEM QUE QUER MANTER VOCÊ NA
LINHA PELOS PRÓXIMOS DEZ SEGUNDOS, NOVE... OITO.
— Sabe, Sra. Brookstein, a melhor coisa que a
senhora poderia fazer neste momento é se entregar.
— SEIS... CINCO...
Grace riu.
— Por favor, detetive. Não insulte a minha
inteligência. Preciso ir agora.
— Não. Espere! Posso ajudá-la. Se a senhora for
inocente, como diz, existem canais legais...
DESLIGOU.
A linha ficou muda. Mitch olhou, cheio de esperança,
para os colegas do outro lado do vidro, mas a forma
como balançaram a cabeça mostrou a ele o que já
sabia.
— Mais dois segundos e nós teríamos conseguido.
Mitch afundou em sua cadeira e apoiou a cabeça nas
mãos.
Na mesma hora, o telefone tocou de novo. Mitch
atendeu como um amante esperando o telefone tocar,
na esperança de que fosse ela.
— Grace?
Uma voz de homem respondeu.
— Detetive Connors?
Mitch sentiu a esperança se esvair dele como sangue
de uma veia aberta.
— É ele.
— Detetive, meu nome é John Rodville. Sou o chefe
de internações do Centro Médico Putnam.
— Sim — disse Mitch, exausto. O nome não dizia nada
para ele.
— Temos um paciente aqui que foi trazido na semana
passada com uma facada nas costas. Ele estava em
coma até esta manhã. Não achamos que ele iria
sobreviver, mas conseguiu.
— Que ótimo, Sr. Rodville. Fico feliz por ele.
Mitch estava prestes a desligar quando o homem
disse, contente:
— Realmente achei que fosse ficar. Principalmente
porque ele identificou Grace Brookstein como a
pessoa que o atacou.
Capítulo 19
Mitch entrou no centro de terapia intensiva.
— Detetive Connors. Estou aqui para ver Tommy
Burns. — Ele mostrou o distintivo para a enfermeira
de plantão.
— Por aqui, detetive.
O chefe da internação contara toda a história do
motorista do caminhão para Mitch. Segundo Tommy
Burns, ele era um jardineiro autônomo que, por
acaso, dera carona para uma moça a poucos
quilômetros de Bedford Hills na terça-feira à noite. A
mulher usava o nome de Lizzie. Eles já tinham per-
corrido uns 60 quilômetros para o norte quando ela,
de repente, puxou uma faca, forçou-o a entrar na
floresta, o esfaqueou, roubou seu dinheiro e o deixou
ali para morrer.
— Umas crianças locais o encontraram. Estavam
caçando. Mais umas horas e ele teria sangrado até
morrer.
— Ele acredita que essa Lizzie que o atacou, na
verdade, é Grace Brookstein?
— Ele parece certo disso. Algumas horas depois que
ele acordou, pediu para ligar a televisão. O rosto de
Grace Brookstein apareceu no jornal e ele ficou
louco. Tivemos que sedá-lo. Ele quer falar com o
senhor, mas ainda está muito fraco, então, pegue
leve. A mulher e os filhos dele ainda não o viram.
Mitch pensou: ESPOSA E FILHOS. O COITADO É PAI DE
FAMÍLIA. MAS É CLARO QUE GRACE BROOKSTEIN NÃO LIGAVA
PARA ISSO. ELA PEGOU UMA CARONA, USOU-O PARA O QUE
QUERIA, DEPOIS DEIXOU-O PARA MORRER NA FLORESTA,
SOZINHO. Lembranças dolorosas sobre a morte de seu
pai voltaram. O assassino de Pete Connors nunca seria
preso. Mas Grace Brookstein com certeza seria.
Homens como Tommy Burns mereciam justiça.
Mereciam ser protegidos.
Mitch se aproximou da cama de Tommy Burns cheio
de compaixão.
Quando deixou o hospital 15 minutos depois, se viu
desejando que Grace Brookstein tivesse acabado com
o serviço. Tommy Burns era tão agradável quanto um
caso grave de hemorróida. E também era um
mentiroso safado.
— Jesus, detetive, eu já falei. Eu fui o bom
samaritano, TÁ bem? Vi uma moça em apuros e fiz a
coisa certa. Um minuto, nós estávamos seguindo pela
estrada, ouvindo rádio, tudo tranquilo. No minuto
seguinte, HAM! A vadia estava com uma faca no meu
pescoço. Eu não tive a menor chance.
Mitch queria acreditar nele. Muito. Naquele
momento, Tommy Burns era a única testemunha que
tinha. Mas não acreditava. Alguma coisa no cara não
estava certa.
— Vamos voltar para quando você a pegou. Certo, Sr.
Burns? Você disse que parecia que estava em apuros?
— Ela estava com pouca roupa. Estava muito frio,
nevando até. Ela estava apenas com uma blusa fina.
Dava para ver através da blusa. — Um meio sorriso
apareceu no rosto dele com a lembrança. Logo em
seguida uma enfermeira bonita entrou para colocar
mais água na jarra. Mitch Connors observou enquanto
Tommy Burns a acompanhava com olhos lascivos
enquanto ela se virava e saía do quarto. Uma luz se
acendeu na cabeça de Mitch.
— O senhor não pensou em perguntar por que ela
estava vestida daquela forma em uma noite fria de
inverno?
— Não. Por que deveria? Não era da minha conta.
— Acho que não. Ainda assim, nem por curiosidade...
— Não sou uma pessoa curiosa.
— É, dá para perceber.
Tommy Burns estreitou os olhos. Alguma coisa no
tom de voz de Mitch o deixou com a impressão de
que estava zombando dele.
— O que o senhor está querendo dizer?
— Não quis dizer nada. Só estou concordando com o
senhor quando diz que não é curioso. Por exemplo, o
senhor parece não ter se perguntado por que, depois
de todo o esforço para tentar matá-lo, essa mulher
não terminou o serviço.
Tommy Burns ficou agitado.
— Ei, não me venha agora com essa de "essa mulher".
Era Grace Brookstein. Eu a vi na televisão. Se o
senhor a pegar, vou cobrar meus 200 mil dólares de
recompensa.
— Está certo — disse Mitch. — Digamos que FOI Grace
Brookstein que o atacou.
— Foi ela.
— Se fosse comigo, eu ainda estaria me perguntando a
mesma coisa: por que ela me deixou viver? Por que
não terminou o trabalho? Mas eu sou uma pessoa
curiosa. Detetives costumam ser.
Tommy Burns pensou a respeito.
— Acho que ela achou que tinha me matado.
Estávamos no meio do nada. Ela provavelmente
achou que eu morreria devagar.
Mitch partiu para o ataque:
— Mesmo? Por que o senhor acha que ela ia querer
que morresse devagar?
— Como?
— De acordo com o senhor, ela fez isso para roubá-lo.
Ela precisava de uma carona e precisava de dinheiro.
Sendo esse o caso, consigo entender que ela o
quisesse morto. Ela não ia querer testemunhas, certo?
— Certo.
— Mas qual razão ela teria para fazê-lo sofrer? Para
prolongar sua agonia?
— Qual razão? Que diabos, eu não sei. Ela é mulher,
não é? Elas são todas umas vadias safadas.
Mitch assentiu devagar.
— Você está certo. Quer dizer, se um HOMEM tivesse
feito isso, ele teria levado o caminhão. Não?
— Como?
— Depois que ele tivesse se livrado do SENHOR, ele
poderia ter usado o seu veículo para se afastar uns 60,
70 quilômetros da cena do crime antes de largá-lo em
algum lugar. Isso seria o mais inteligente a fazer, não
acha?
— Acho que sim.
— Mas as mulheres não são tão inteligentes quanto
nós, são?
— Não mesmo!
Mitch se inclinou de forma conspiratória.
— Nós dois sabemos no que as mulheres são boas,
não é, Tommy? E não é em pensar!
Tommy Burns sorriu estupidamente. AGORA, o policial
estava falando a língua dele...
— Tommy, me diga, você costuma dar carona sempre?
— Às vezes.
— Elas costumam ser tão atraentes quanto Grace
Brookstein?
— Não, senhor, não muitas.
— Ou tão boas de cama?
— Não, senhor! — Tommy Burns sorriu. — Ela era
bem diferente.
Demorou uns cinco segundos até que ele percebesse
seu erro. O sorriso sumiu.
— Ei, não coloque palavras na minha boca! Eu não...
Quero dizer... Eu sou a vítima aqui — gaguejou ele.
— Eu sou a maldita vítima!
JÁ era tarde quando Mitch chegou em casa naquela
noite. Se é que se podia chamar de "casa" a porcaria
do apartamento de dois quartos que era só o que ele
podia pagar desde que Helen o abandonara. Helen
ficara com tudo na separação: Celeste, a casa deles,
até o cachorro, Snoopy. MEU CACHORRO. Mitch
conseguia entender os motivos que levavam homens
a odiarem mulheres. Homens como Tommy Burns.
Era fácil seguir por esse caminho. Às vezes, precisava
tomar cuidado.
Aquele tinha sido um dia e tanto. A coletiva de
imprensa, o telefonema da própria Grace Brookstein
e, finalmente, Tommy Burns. Burns era a primeira
pista concreta, real, de Mitch. Sabia que deveria estar
feliz. Mas, em vez disso, se sentia desconfortável.
Depois do ato falho de Tommy Burns naquela tarde,
eles tinham chegado a um acordo: Mitch não
investigaria mais a respeito de um possível estupro.
Por sua vez, Tommy Burns esqueceria a recompensa
de 200 mil dólares e diria a Mitch tudo de que
conseguisse se lembrar daquela noite: as roupas de
Grace, seu comportamento, qualquer coisa que ela
possa ter feito ou dito que pudesse dar alguma pista
dos planos dela. O caminhão de Tommy tinha sido
levado para perícia. Quando Mitch falara com eles
horas antes, estavam esperançosos. Poderia ser um
achado de novas evidências.
ENTÃO, POR QUE EU ME SINTO UM MERDA?
Mitch fora para aquele hospital à tarde cheio de ódio
e raiva. Grace Brookstein era uma criminosa, uma
ladra sem coração e possível assassina que tinha
atacado violentamente um homem de família
inocente. Exceto que, se Tommy Burns era um
homem de família, Mitch Connors era o Papai Noel.
Finalmente, o e-mail chegou, depois da meia-noite.
Mitch tinha mandado checar a ficha policial de
Tommy Burns. É claro que ele tinha um histórico de
acusações de crimes sexuais de quase vinte anos. Duas
queixas de estupro tinham sido retiradas por falta de
provas. BOM SAMARITANO SIM.
Alguma coisa tinha acontecido naquele caminhão.
Burns era um predador sexual e Grace tinha se
defendido. Nesse caso pelo menos, ela era a vítima.
Mitch de repente percebeu: EU NÃO QUERO QUE ELA SEJA
A VÍTIMA. QUERO QUE ELA SEJA O VILÃO DA HISTÓRIA. Ele
geralmente não se equivocava em relação a seus casos
e às pessoas que entregava à justiça. Para Mitch, todos
eram versões mais pálidas de quem quer que tivesse
matado seu pai: homens maus, que mereciam ser
presos. Mas aquele caso já parecia diferente. Parte
dele odiava Grace por seus crimes. Sua ganância e
falta de remorso estavam bem documentadas. Mas
outra parte dele sentia pena dela. Pena por ela
precisar lidar com tipos como Tommy Burns. Pena
por ela ter duas irmãs sem coração.
Mitch fechou os olhos e tentou imaginar como Grace
Brookstein teria se sentido no caminhão de Tommy
Burns. Sozinha, fugindo, desesperada, e o primeiro
homem em quem confiou se revelou um pervertido
psicótico. Tommy Burns não era um homem grande,
mas era forte e, presumivelmente, determinado.
Grace devia ter sido muito corajosa para lutar com ele
daquela forma.
Qual seria o passo seguinte dela?
ELA NÃO PEGARIA OUTRA CARONA. NÃO SE BURNS A ESTUPROU.
ELA SEGUIU A PÉ. O QUE SIGNIFICA QUE NÃO PODE TER IDO
MUITO LONGE NAQUELA NOITE. UNS 5 QUILÔMETROS. OITO NO
MÁXIMO.
Pegando um mapa, Mitch colocou um alfinete no
ponto onde o caminhão de Burns ficara abandonado.
Com uma caneta vermelha, fez um círculo de 8
quilômetros de raio.
Só havia uma cidade no círculo.
O velho agitou os braços com empolgação. Mitch
Connors esforçou-se para não rir. ELE PARECE O YODA
TENDO CONVULSÕES.
— Eu disse pra eles! Eu disse que ela TEVE aqui
naquela noite, mas ninguém acreditou. Acharam que
um velho que nem eu não sabe o que vê. Ela apareceu
no meio da noite, NO MEIO DA NOITE. Sem mala! Eu disse
pra eles! Eu disse que ela NUM tinha mala. Isso NUM é
certo. Mas alguém me ESCUTÔ? Não, senhor.
Mitch acabou descobrindo que a cidade de
Richardsville só tinha um hotel. Quando ele ligou e
mencionou o nome de Grace Brookstein, o
proprietário do Up All Night ficou louco. SIM, GRACE
BROOKSTEIN ESTEVE AQUI, EU JÁ FALEI COM A POLÍCIA. VOCÊS
NÃO SE FALAM, SEUS IMBECIS?
— Espero que aquele oficial seja despedido. McInley.
Arrogante de merda. Desculpa a língua, detetive. Mas
eu falei pra eles.
Mitch chamou um técnico para procurar impressões
digitais no quarto. O técnico balançou a cabeça.
— Limpíssimo, chefe. Desculpe. Se ela esteve aqui,
fez um ótimo trabalho e não deixou pistas.
O velho parecia que ia explodir:
— SE ela TEVE aqui? NUM tem "se". Ela TEVE aqui!
Quantas vezes mais vou ter que repetir? Grace
Brookstein esteve aqui.
— Tenho certeza que sim — disse Mitch. MAS ELA NÃO
ESTÁ AQUI AGORA. Outro beco sem saída.
— E a minha recompensa? O moço na televisão disse
200 mil dólares.
— Entraremos em contato.
Havia recados esperando por Mitch na delegacia.
— Sua mulher ligou — disse a sargento para ele.
— Ex-mulher — corrigiu ele.
— Que seja. Ela estava gritando alguma coisa sobre a
apresentação no colégio da sua filha. Não estava nada
feliz.
Mitch resmungou. DROGA. A PEÇA DA ESCOLA DE CELESTE.
ERA HOJE? Mitch jurara que estaria lá, mas, com toda a
agitação das ultimas 48 horas, esquecera totalmente.
SOU O PIOR PAI DO MUNDO e O PIOR POLICIAL. ALGUÉM
DEVERIA ME DAR UMA MEDALHA. Sentindo-se culpado, ele
começou a discar o número de sua antiga casa quando
a sargento o interrompeu:
— Mais uma coisa, senhor. Um homem esteve aqui
mais cedo. Ele disse que tinha informações sobre
Grace Brookstein; disse que a conhecia. Queria falar
com o senhor, mas não podia esperar.
— Bem, você pegou as informações dele?
Ela balançou a cabeça.
— Ele não quis me dizer nada. Mas disse que o
esperaria nesse bar até as 18 horas. — Ela entregou
para Mitch um pedaço de papel sujo com um
endereço rabiscado ali.
Mitch suspirou. Provavelmente, era outro louco. Por
outro lado, o bar só ficava a dois quarteirões dali. E
qualquer coisa era preferível a ter de enfrentar a ira
de Helen, ou escutar a decepção na voz de Celeste.
Às 18 horas em ponto, Mitch entrou no bar, exatamente
quando um homem de boa aparência, de cabelo escuro e na-
riz aquilino, estava saindo. Quando Mitch viu que não havia
mais nenhum outro cliente, correu para a rua e o alcançou.
— Ei. Era você que queria me ver? Sou o detetive Mitch
Connors.
O homem de cabelo escuro olhou para o relógio.
— Você está atrasado.
Mitch ficou irritado. QUEM ESSE IMBECIL ACHA QUE É?
— Olhe, cara, não tenho tempo para joguetes, está bem?
Você tem informações para mim, ou não?
— Sabe, se eu fosse você, seria um pouco mais educado
comigo. Seu traseiro está na reta, Connors, e eu posso salvá-
lo. Por um preço, claro. Sei onde Grace Brookstein vai estar
amanhã ao meio-dia. Se você for legal comigo, legal mesmo,
eu te levo até ela.
Celeste Connors chorou até dormir naquela noite.
Seu pai não ligou.
Capítulo 20
Davey Buccola andava de um lado para o outro em seu
quarto de hotel como um tigre enjaulado. Sua suíte
no Paramount, na Times Square, era luxuosa. Lençóis
de linho, móveis modernos, cobertores de cashmere
de 500 dólares colocados casualmente sobre o
encosto da poltrona. Davey pensou: ESTE SERIA UM
ÓTIMO LUGAR PARA IMPRESSIONAR UMA MULHER.
Infelizmente, não estava com uma mulher. E sim com
um bando de policiais. E eles estavam começando a
deixá-lo nervoso.
— Fique parado, Sr. Buccola. Precisamos verificar seu
microfone.
Davey acendeu um cigarro, o terceiro em poucos
minutos.
— De novo?
— Sim, de novo. — Mitch Connors estava de mau
humor. — Se quer ver os 200 mil, Sr. Buccola, sugiro
que coopere.
Davey pensou: ELE PROVAVELMENTE TAMBÉM ESTÁ
NERVOSO. NÃO qUER QUE NADA DÊ ERRADO.
Davey se sentia mal, fazendo essa sujeira com Grace
Brookstein. Gostava dela. Mais que isso, estava
convencido de que ela era inocente dos crimes pelos
quais fora condenada. Mas 200 mil dólares... DUZENTOS
MIL... Tentou se convencer de sua decisão. Estava
protegendo Grace. Assim, ela poderia ser capturada
sem se machucar. Não contara para Mitch Connors
nem para nenhum outro policial o que tinha
descoberto. Mais tarde, quando Grace estivesse a
salvo, ele usaria essas informações para entrar com
um recurso contra a condenação dela e reabrir a
investigação sobre a morte de Lenny. OU ISSO OU
VENDER A INFORMAÇÃO. QUANTO A Vanity Fair NÃO
PAGARIA POR UM FURO DESSE? Se tivesse sorte, poderia
dobrar o dinheiro da recompensa!
Claro que, bem no fundo, Davey Buccola sabia a
verdade. Estava traindo uma mulher inocente por
dinheiro, da mesma forma que todas as outras pessoas
a traíram. Não eram 200 mil dólares. Eram as trinta
moedas de prata de Judas.
— Sr. Buccola, está ouvindo?
Davey levantou o olhar, assustado. Mitch Connors
estava gritando com ele de novo.
— Só temos mais uma hora. Vamos rever o plano
mais uma vez.
Grace mergulhou o donut no café puro e quente e deu
uma mordida generosa.
DELICIOSO.
Ela e Lenny costumavam ter os melhores chefs nas
cozinhas de suas casas, prontos para preparar uma
lagosta Thermidor ou um suflê de gruyère a qualquer
hora do dia ou da noite. Mas até aquela semana, Grace
nunca tinha experimentado um Dunkin' Donut. Não
conseguia imaginar como vivera tanto tempo sem
eles.
A semana tinha sido cheia de novas experiências. A
familiaridade que sentira assim que chegara em Nova
York fora substituída por um tipo de espanto
prazeroso. Era a mesma cidade em que morara, indo e
vindo, por toda a sua vida. Mas, mesmo assim,
completamente diferente. ESTA Nova York, a Nova
York das pessoas comuns, dos pobres, era como um
outro planeta para Grace, com seus metrôs, seus
ônibus sujos, suas lojas de donuts, seus prédios sem
elevador, com banheiros compartilhados e aparelhos
de televisão com palha de aço na ponta da antena.
Lenny sempre dissera a Grace que era horrível ser
pobre. "A pobreza é o estado mais degradante e
destruidor de alma a que um ser humano pode
chegar." Grace discordava. Verdade, nunca tinha sido
pobre, mas Lenny nunca tinha estado na cadeia.
Grace tinha. Sabia o que significava "alma destruída".
Sabia o que era ser degradada, privada de toda a sua
dignidade. A pobreza não chegava nem perto.
Em todos os padrões objetivos, o hotel no Queens
onde Grace estava hospedada era uma espelunca: sujo,
minúsculo, com paredes deprimentes cor de mostarda
e piso de linóleo. Mas ela passara a gostar do cheiro
de cebola frita que vinha da barraca de cachorro-
quente do lado de fora do hotel, e das discussões
ridículas de um casal que vinham do outro lado da pa-
rede. Fazia com que se sentisse menos sozinha. Como
se fosse parte de alguma coisa.
Ao se vestir naquela manhã para se encontrar com
Davey Buccola, ela chegou a pensar: VOU FICAR COM
PENA DE SAIR DAQUI. Mas sabia que não podia ficar.
Primeiro porque não era seguro. Precisava se mudar
sempre. E segundo, e mais importante, porque
chegara a hora de começar sua missão. Munida das in-
formações de Davey, ela poderia, finalmente,
começar sua jornada. Sua vingança levantaria vôo.
Estava usando uma roupa simples para o encontro.
Calça jeans, tênis, um suéter com gola pólo e um
casaco, o gorro puxado por cima de seu cabelo recém-
escurecido. A calça jeans já estava um pouco mais
apertada na cintura do que em Richardsville. Grace
estava engordando, um efeito colateral de seu novo
vício por donut. Tomando o resto de seu café, ela
olhou o relógio. ONZE HORAS. E se dirigiu para o metrô.
MITCH CONNORS não tinha dormido. O plano era
simples. Davey tinha um encontro marcado com
Grace exatamente ao meio-dia, na frente da Toys "R"
Us da Times Square. Àquela hora do dia, o marco de
Nova York devia estar cheio de compradores
procurando uma barganha da liquidação de inverno,
além das hordas de turistas carregados de sacolas.
Mitch colocara dois homens atrás de Davey, dentro
da loja, outros dois na entrada da estação de metrô e
outros seis espalhados pela multidão. Todos os dez
estariam à paisana, com escutas e armados. Mitch não
esperava nenhum problema, mas depois da forma
como Grace lidara com o cretino do Tommy Burns,
não queria correr nenhum risco. Assim que Davey
visse Grace na multidão, ele usaria um microfone
escondido para avisar os policiais, que a cercariam.
Quando ela se aproximasse de Davey e apertasse a
mão dele, seria o sinal para todos se moverem e
pegarem-na. FÁCIL.
Mitch ficaria no hotel Paramount observando a
operação. Seu rosto vinha aparecendo em todos os
jornais fazia semanas. Se Grace o visse, saberia que
algo estava para acontecer.
Davey Buccola acendeu outro cigarro. Eram 11h45.
Hora de descer. Olhou alarmado quando um dos
policiais checou sua arma antes de colocá-la no coldre
embaixo de seu paletó.
— Para quê isso? Vocês não vão machucá-la, vão?
O policial olhou para Davey como se ele tivesse
pisado no seu pé. Ele tinha dado uma boa informação
para eles, mas era um dedo-duro.
— Tenho certeza de que a Sra. Brookstein ficaria
comovida com a sua preocupação. Está pronto?
Davey assentiu. DUZENTOS MIL DÓLARES. MINHA CASA
PRÓPRIA.
— Estou pronto. Vamos.
11H50.
— Você já a viu?
Davey Buccola batia os pés no chão frio. Resistindo à
vontade de colocar a mão na orelha — detestava
microfones e escutas —, ele murmurou:
— Negativo. Ainda não.
A Times Square estava ainda mais cheia do que
esperara. A Toys "R" Us estava lotada. Metade de
Nova York estava desempregada, mas as pessoas
preferiam morrer de fome a ver seus filhos sem a
última boneca da Hannah Montana ou a lanterna do
agente especial Oso. TRISTE ISSO, refletiu Davey.
A MULHER SENTADA na frente de Grace estava
encarando-a. GRACE sentiu seu estômago revirar.
— Ei.
O trem estava lotado, mas ninguém falava. A voz da
mulher soou como uma buzina.
— Ei! Estou falando com você.
Grace levantou o olhar. O sangue subiu todo para seu
rosto. ELA ME RECONHECEU. MEU DEUS. ELA VAI DIZER
ALGUMA COISA. TODOS VÃO VIR PARA CIMA DE MIM. O TREM
INTEIRO VAI VIR PARA CIMA DE MIM, ELES VÃO ACABAR
COMIGO!
— Acabou de ler o jornal?
JORNAL? Grace abaixou a cabeça. Havia um NEW YORK
POST no seu colo. Não fazia idéia de como tinha ido
parar ali. Sem falar nada, entregou para a mulher.
— Obrigada.
De repente, o trem parou. As luzes piscaram, depois
apagaram. Todo mundo reclamou. As luzes
acenderam de novo. Grace olhou para o relógio.
11h55.
— Esqueça — disse o homem ao seu lado
cordialmente. — Aonde quer que você vá, vai chegar
atrasada.
Uma voz saiu dos alto-falantes:
— Pedimos desculpas pelo inconveniente. Devido a
problemas elétricos, teremos um pequeno atraso.
NÃO! HOJE NÃO. POR QUE HOJE?
Grace respirou fundo. Não podia chamar atenção para
si mesma parecendo nervosa. Além disso, tudo bem.
Eles disseram um pequeno atraso. Davey iria esperar.
Enquanto olhava pela janela, o coração de Mitch
estava disparado. ELA NÃO VEM.
Tivera tanta certeza de que daria certo. Estava tão
certo. O relógio na parede zombava dele. Meio-dia e
dez. O que poderia ter dado errado? Será que Davey
Buccola ficara com a consciência pesada e a avisara?
Será que Grace percebera que não podia confiar nele?
Ou talvez fosse pior do que isso. Talvez tivesse
acontecido alguma coisa com ela. Um acidente.
Alguém a reconhecera e resolvera fazer justiça com
as próprias mãos.
— Acho que estou vendo Grace.
A voz de Buccola soava crepitante na escuta de
Mitch.
— Você ACHA? Não tem certeza?
Buccola não respondeu.
— Bem, onde? — Mitch não conseguia esconder sua
agitação.
— Ela acabou de sair do metrô. Não consegui olhar
bem para o rosto. Pode não ser ela.
— Danny, Luca. Vocês viram alguma coisa?
Dois dos homens de Mitch estavam bem na saída da
estação do metrô, observando toda mulher que saía.
— Não.
— Nada. MEU DEUS.
— O que ela estava vestindo, Davey?
— Jeans. Casaco escuro. Um chapéu... acho. Merda.
— O quê?
— Eu a perdi.
— Você a PERDEU7. Bom, ela estava indo na sua
direção? Ela viu você?
— Esquece. Não era ela.
Grace saiu da estação do metrô para a rua. Estava
atrasada. Muito atrasada. Será que Davey havia
esperado por ela muito tempo? Deus, esperava que
sim. Ele estava correndo um grande risco ao aceitar se
encontrar com ela.
Ela penetrou na multidão, com a cabeça baixa. O
letreiro colorido da Toys "R" Us chamou sua atenção
do outro lado da rua. Grace foi na sua direção,
procurando na multidão o rosto familiar de seu amigo.
O policial Luca Bonnetti estava decepcionado. Fizera
tanto para participar do grande show. Mas era óbvio
que Grace Brookstein tinha outros planos.
De qualquer forma, ser pago para olhar mulheres não
era a pior forma de passar uma manhã. Uma morena
bonitinha passou correndo por ele.
— Ei, benzinho. Como vai?
Ele deu um tapinha no bumbum dela, mas ela não
parou.
— Qual é o seu problema, Bonnett? — O parceiro dele
estava aborrecido. — Nós estamos aqui para encontrar
a mulher mais procurada dos Estados Unidos e não
para molestar mulheres comuns.
— Ah, relaxa, Danny. Ela era gostosinha. E se você
ainda não percebeu, a Sra. Brookstein não vem.
O coração de Grace estava disparado. IDIOTA.
Depois do que aquele cretino do motorista de
caminhão fizera a ela, só de pensar em um homem a
tocando ou mesmo a olhando com intenções sexuais
lhe dava vontade de gritar o mais alto que podia. Mas
não podia gritar. Não podia parar e berrar para o cara
tirar as mãos fedorentas de cima dela. Precisava ser
invisível, se misturar à multidão.
CADÊ O DAVEY?
Assim que as palavras vieram à sua cabeça, ela o viu.
Estava parado a poucos metros da entrada da loja. Foi
na direção dele, sorrindo. Percebendo o sorriso dela,
Davey levantou o olhar. Foi quando Grace notou.
— É ela! Estou vendo. Está vindo para cá. Jeans,
casaco escuro. Gorro.
Mitch perguntou aos policiais na rua:
— Vocês estão vendo?
— Sim, senhor, estamos vendo. Vamos nos aproximar.
A cabeça de Grace estava a mil.
ELE DISSE QUE TERIA UM ARQUIVO COM ELE. AS PROVAS. POR
QUE NÃO TROUXE?
Tinha alguma coisa errada. E não era apenas o
arquivo. Era a expressão de Davey. Estava com cara
de culpado. Foi quando dois homens passaram
correndo por Grace, indo na direção da Toys "R" Us.
Seu sexto sentido fez com que diminuísse o passo.
POLICIAIS. É UMA ARMADILHA.
Não tinha tempo para pensar. Agindo por instinto, ela
arrancou o gorro e o enfiou no bolso do casaco. Um
grupo de crianças estrangeiras estava indo na direção
oposta, de volta à estação de metrô. Grace entrou no
meio deles, como um peixe em busca da segurança do
cardume.
Os homens colocavam a mão em suas escutas. Lá em
cima no quarto do hotel, Mitch Connors gritava como
um louco:
— Cadê ela? cadê ela?
— Não sei. — Davey Buccola estava confuso. — Ela
estava vindo bem na minha direção, mas aí... sumiu.
Mitch teve vontade de chorar.
— Espalhem-se, todos vocês. Continuem procurando.
Ela está na multidão.
Ele não conseguiu mais se conter. Saiu correndo do
quarto do hotel e foi para as escadas.
Do sexto andar do Paramount, Mitch tinha uma visão
privilegiada da rua abaixo. Agora, correndo na rua,
mal conseguia ver alguns centímetros à sua frente.
Havia pessoas por todos os lados, carregando suas
inchadas sacolas de compras, empurrando carrinhos
de bebê pelo caminho.
JEANS, CASACO ESCURO. GORRO. ELA ESTÁ AQUI. TEM QUE
ESTAR.
Ele saiu empurrando para conseguir entrar na
multidão de corpos.
Grace estava quase na estação do metrô. Os degraus
de pedra a chamavam, prometendo segurança, fuga.
APENAS MAIS ALGUNS SEGUNDOS. ALGUNS POUCOS PASSOS.
Olhou para a direita. Um homem com boné dos
Yankees estava olhando à sua volta freneticamente,
resmungando para si mesmo. UM DOS POLICIAIS. QUANTOS
ESTÃO ESPALHADOS POR AQUI? Um homem vinha
diretamente na direção do grupo de Grace. Agora
estava perguntando alguma coisa ao guia de turismo.
PRECISO ESCAPAR.
De repente, Grace viu o canalha que tinha passado a
mão na bunda dela pouco antes. Ele ainda estava na
entrada do metrô. Olhando melhor, viu que era um
jovem e atraente italiano, para quem gostava de
babacas. Não que ela ligasse se ele parecesse com o
Quasímodo. Foi na direção dele.
MITCH prendeu a respiração. LÁ ESTÁ ELA! A multidão
se movia quase imperceptivelmente e ele a viu, a
menos de 50 metros de onde ele estava. Era pequena,
media l,50m talvez, usando jeans e casaco escuro, e já
estava quase na estação de metrô. Mitch saiu
correndo.
— Ei, cara! Olhe por onde anda!
— Devagar, babaca.
Mitch corria às cegas, empurrando os pedestres para
saírem de seu caminho. Quando Grace chegou à
escada, Mitch se arremessou para cima dela, jogando-
a no chão, com o rosto para baixo. Ela gritou, mas era
tarde demais. Sangue jorrou do nariz dela. Mitch a
algemou. Estava acabado.
— Grace Brookstein, você está presa. Tem o direito
de permanecer calada. Tem direito a um advogado. —
Virando-a, ele tirou o gorro para ver melhor seu
rosto.
— Ah, meu Deus.
Uma loura assustada o encarava.
Mitch nunca a vira na vida.
Luca Bonnetti não podia acreditar na sua sorte.
— Ei, gostosa. Você voltou.
— Voltei. — A morena bonita ficou na ponta dos pés,
passou os braços em volta do pescoço dele e começou
a beijá-lo apaixonadamente. Luca retribuiu o agrado.
Agora com as duas mãos na bunda dela.
Pelo canto do olho, Grace viu o policial com o boné
dos Yankees, ainda falando com o guia de turismo.
ELE PROVAVELMENTE ESTÁ ME DESCREVENDO. Se parecesse
que eles eram um casal, ela conseguiria despistá-los.
Esse idiota seria seu disfarce até que chegasse em
segurança ao trem. Então, na estação seguinte sairia e
o deixaria para trás.
Ela interrompeu o beijo e sorriu para ele.
— Quer dar uma volta comigo?
Luca sorriu.
— Se quero!
— Ele está ocupado. — Outro homem, mais velho,
com bigode grisalho e grosso, tinha aparecido do nada
e olhou furioso para Grace. — Ele está ocupado.
Luca Bonnetti protestou:
— Não estou não, me dá um tempo, Danny.
— VOCÊ me dá um tempo. — O homem se virou para
Grace. — Olhe, moça, nós somos da polícia de Nova
York e estamos aqui a serviço. Então, saia daqui antes
que eu a acuse de obstrução.
Grace sentiu a bile subir pela garganta. ELE É UM DELES.
Suas pernas começaram a tremer. Ela saiu correndo.
MITCH levou alguns momentos para reagir.
Estava se desculpando com a moça cujo nariz ele
tinha quebrado quando uma garota passou correndo
por ele, descendo dois degraus por vez. Virando a
moça de costas, Mitch começou a tirar as algemas,
quando viu um gorro cinza saindo do bolso da garota.
— Pare! — gritou ele. — Polícia!
Grace estava na plataforma. Atrás dela, podia escutar a
gritaria.
— Polícia! Me deixem passar!
O carro estava lotado. Grace tentou forçar sua
entrada, mas um homem a empurrou.
— Não está vendo, moça? Não tem mais lugar aqui.
Saia.
— Polícia!
Os gritos estavam cada vez mais altos. Grace olhou
para trás. Detetive Connors. Ela reconheceu o rosto
dele das reportagens na televisão.
O carro seguinte também estava cheio. As pessoas
estavam se afastando, para esperar pelo trem seguinte.
Não havia lugar naquele também. As portas elétricas
se fecharam. Era tarde demais. O trem começou a se
mover.
— Grace Brookstein! Fique onde está. Você está
presa.
Grace escutou seu nome. Assim como todo mundo.
De repente, centenas de pares de olhos estavam
olhando em volta, procurando pela plataforma. GRACE
BROOKSTEIN? ONDE? ELA ESTÁ AQUI?
Mitch Connors estava correndo pela plataforma mais
rápido que o trem. Passou pelo primeiro carro. Pelo
segundo. Quando chegou ao terceiro, a multidão se
afastou. Mitch e Grace estavam cara a cara.
Grace olhou nos olhos de Mitch e ele olhou nos dela.
O caçador e a presa. Por um momento, alguma coisa
ocorreu entre eles. Respeito mútuo. Afeto, talvez.
Mas só por um momento.
O trem estava ganhando velocidade. Segura no calor
do carro, Grace se afastou da janela.
Mitch Connors estava na plataforma, vendo-a
desaparecer no túnel escuro.
De volta à estação, o tenente Dubray perdeu a
paciência.
— Que diabos? Como você pôde perdê-la assim?
COMO?
— Não sei, senhor. — Mitch suspirou.
Tentou ver o lado bom. Agora sabiam mais do que 48
horas antes. Sabiam que Grace ainda estava em Nova
York. Sabiam que agora ela estava morena e ganhara
peso. Amanhã, lançaria uma nova foto dela na mídia.
E, graças a Luca Bonnetti, a equipe da polícia de Nova
York tinha conseguido outra informação nova.
A mulher mais procurada dos Estados Unidos beijava
muito bem.
Capítulo 21
DURANTE TRÊS DIAS, Grace se escondeu. Encontrou
um novo lugar para ficar, outro estúdio, dessa vez no
Brooklyn. Enquanto o outro lugar era feio mas
aconchegante, o novo só podia ser descrito como
nojento. Ela não se importava. Fechou as Cortinas,
trancou a porta e ficou na cama. A depressão tomava
conta dela em ondas lentas.
ISTO É PIOR QUE A PRISÃO. É UM INFERNO. Na prisão, Grace
tinha Karen e Cora. Tinha a irmã Agnes e as crianças
do centro. Visitas de Davey Buccola. DAVEY. Grace já
deveria estar acostumada à traição, mas o que Davey
fizera a chocou. Realmente acreditara que ele estava
do seu lado. Mais importante, ele tinha a chave para
todas as suas esperanças de encontrar o assassino de
Lenny. Grace colocara toda a sua fé em outro ser
humano pela última vez. A ÚNICA PESSOA EM QUEM
CONFIEI SE FOI PARA SEMPRE, TRAÍDO E ASSASSINADO POR
CAUSA DE SEU DINHEIRO.
Como estava agora, Grace não confiava mais nem na
própria sombra.
Ela chorou. Quando não conseguia mais chorar, se
vestiu.
Pela primeira vez em três dias, ela saiu. Era um risco
maluco. Insano. Mas Grace não se importava.
O cemitério Cypress Hills, no Brooklyn, tinha vista
para a Jamaica Bay. Não tinha ligação com nenhuma
religião, mas a maior parte das reformas dos últimos
anos tinha sido feita por instituições de caridade
judaicas. Grace se lembrava dos gritos quando os
restos mortais de Lenny foram enterrados ali.
— Esse filho da puta traiu a comunidade judaica. Nós
confiamos nele porque ele era um de nós. Agora ele
quer descansar entre nós? De jeito nenhum.
Eli Silfen, presidente da fundação beneficente Beth
Olom, era o que falava mais alto.
— Um memorial para Lenny Brookstein? Em Cypress
Hills? Só por cima do meu cadáver.
Mas o rabino Geller se mantivera firme. Um homem
de fala mansa, profundamente espiritualizado. O
rabino Geller conhecia Lenny havia muito tempo.
— Na verdade, Eli, vai ser sobre o cadáver dele. A
nossa religião ensina o perdão. A misericórdia. É
Deus quem deve julgar, não o homem.
Grace nunca se esquecera da compaixão do rabino.
Gostaria que estivesse ali agora, enquanto caminhava
entre os túmulos e estátuas de anjos, sua respiração se
tornando fumaça no gelado ar do inverno. O
cemitério era enorme. Dezenas de milhares de
túmulos, talvez mais, se estendendo até onde os olhos
conseguiam ver. EU NUNCA VOU ENCONTRAR. NÃO SEM
AJUDA.
Um coveiro idoso estava cuidando de um túmulo a
poucos metros. Grace se aproximou dele.
— Com licença. Eu gostaria de saber se... Tem alguma
pessoa famosa enterrada aqui? — Parecia mais seguro
do que perguntar diretamente.
O senhor riu, revelando uma boca cheia de dentes
podres.
— Alguma? Quantas você quiser. Aqui até parece a
revista PEOPLE. — Ele bateu na terra congelada com a
enxada, rindo da própria piada. — Temos Mae West.
Jackie Robinson. Temos uns caras maus também. Bill
Lovett. Sabe quem é?
Grace não sabia.
— Ele era um gângster. Um assassino. Líder da Gangue
da Mão Branca.
— Desculpe, não sei muito sobre criminosos — disse
Grace, esquecendo que, pelo menos oficialmente, ela
era uma.
— Temos um criminoso aqui que eu aposto que você
conhece. Leonard Brookstein. Sr. Quorum. Já ouviu
falar dele, não ouviu?
Grace corou.
— Já, já sim. O senhor sabe onde ele está enterrado?
— Claro que sei.
Ele começou a andar. Grace o acompanhou por quase
dez minutos, como se fossem dois sargentos
inspecionando um desfile silencioso de mortos, as
lápides chamando atenção como se fossem soldados.
Acabaram chegando ao topo da colina. Grace estava
congelando. Uns 200 metros à frente, dois policiais
armados bocejavam ao lado de uma única pedra bran-
ca. Ou pelo menos tinha sido uma pedra branca.
Mesmo de onde estava, Grace podia ver que estava
coberta de pichações, mensagens vermelhas de ódio
que ninguém se importara de apagar. É CLARO QUE HÁ
POLICIAIS AQUI. PROVAVELMENTE ESTÃO ESPERANDO QUE EU
COMETA UM DESLIZE. COMO ESTE.
— Qual é o problema? — perguntou o senhor. — Não
chegamos ainda, sabe?
— Sei, eu... eu mudei de idéia. — O coração de Grace
estava disparado. — Não estou me sentindo bem.
Obrigada pela ajuda.
Ele a fitou de forma estranha, examinando seus traços
como se fosse a primeira vez. Na esperança de distraí-
lo, Grace colocou uma nota de 20 dólares na mão
dele, rígida pela artrite, depois se virou e desceu
correndo a colina.
Não parou de correr até chegar à estação de metrô,
entrando em um café para recuperar o fôlego e se
acalmar. Como as pessoas podiam pichar o túmulo de
um homem? Que tipo de pessoa fazia isso? Ela não
chegara perto o suficiente para ler o grafite, mas
podia imaginar as coisas horríveis que estavam
escritas. Seus olhos se encheram de lágrimas.
Nenhuma dessas pessoas conhecia Lenny. O homem
decente, generoso, carinhoso que ele era. Às vezes,
até Grace achava que esse homem estava se afastando
dela. Que a realidade de quem Lenny fora realmente
estava perdida, esmagada embaixo de uma montanha
de mentiras, inveja e ódio. As pessoas diziam que ele
era mau, mas isso era mentira.
VOCÊ NÃO ERA MAU, MEU AMOR. ESTE MUNDO É QUE É MAU.
MAU, GANANCIOSO E CORRUPTO.
Naquele momento, Grace percebeu que tinha uma
opção. Podia desistir, se entregar, aceitar sua sorte
desgraçada. Ou podia lutar.
Lembrou-se das palavras do rabino Geller: É DEUS
QUEM DEVE JULGAR, NÃO O HOMEM. Talvez Grace devesse
deixar que Deus cuidasse de seus inimigos. Deixar que
ele endireitasse as coisas erradas que o mundo fizera
com ela e com seu querido Lenny. Será?
TALVEZ NÃO.
Grace sabia exatamente qual deveria ser seu próximo
passo.
Davey Buccola estava atrapalhado com a chave do seu
quarto de hotel. Estava muito, muito bêbado.
Quando Grace escapou por entre seus dedos, o
dinheiro foi com ela. Ele a tinha traído, e ela sabia
disso, e tudo isso por nada. Deprimido demais para
voltar para a casa de sua mãe, Davey ficara andando
pela cidade, gastando o que restava de suas economias
com bebidas e strippers.
— Seu estúpido. — Ele tentou a chave mais duas
vezes, antes de perceber: ESTOU NO ANDAR ERRADO.
Enquanto cambaleava pelo corredor até o elevador, as
paredes vinham em sua direção, e o chão fazia ondas,
como se ele estivesse em um barco em alto-mar.
Davey lembrou-se do parque de diversões em
Atlantic City onde seu pai costumava levá-lo quando
era criança. Estava enjoado. Foi um alívio entrar no
elevador.
— Qual andar?
A mulher estava de costas para ele. Mesmo em seu
estado etílico, o investigador em Davey percebeu o
longo cabelo castanho-avermelhado e o brilhante
casaco preto comprido. Ou seriam dois casacos?
— Qual andar? — perguntou ela de novo. Davey não
conseguia se lembrar.
— Terceiro — chutou ele. A mulher apertou o botão.
Depois pressionou uma arma nas costas de Davey.
— Qualquer movimento e eu mato você.
EM SEU QUARTO no hotel, Davey estava sentado na
beira da cama, bem sóbrio.
— Sei o que parece, mas posso explicar.
Grace levantou a arma e apontou bem para a cabeça
dele.
— Estou escutando.
Conseguir uma arma fora bem mais fácil do que Grace
imaginava que seria. Ela achava que seria um processo
complicado, perigoso, mas descobriu que podia
comprar uma na rua. Como amendoim. Tinha notado
um homem vadiando na rua, trocando dinheiro com
meninos da vizinhança, e imaginara que fosse um
traficante de drogas. Na tarde anterior, se aproximara
dele.
— Preciso de uma arma. Conhece alguém que possa
me ajudar?
O cara havia olhado Grace de cima a baixo. Com o
cabelo bem curto e roupas largas e masculinas, ele
achou que ela fosse sapatão, que provavelmente
acabara de sair da cadeia. Não gostava de lésbicas, de
uma forma geral. Por outro lado, ela certamente não
era policial, e ele poderia usar o dinheiro.
— Isso depende. Quanto você está pagando?
Eles combinaram um preço que era o dobro do valor
da pistola. Na mesma hora, ele se arrependeu de não
ter pedido mais.
Enquanto Grace se afastava, ele perguntou:
— Você sabe usar isso?
Grace parou, pensou e balançou a cabeça.
— Cinquenta paus e eu te dou uma aula particular.
Dou até a munição.
— Vinte — Grace se surpreendeu dizendo.
— Trinta e cinco. Minha última oferta.
— Fechado.
— Ah, meu Deus, Grace, não atire!
Davey Buccola estava soluçando. Grace se sentia
estranhamente imparcial. Era quase desagradável
escutá-lo implorar pela própria vida; rios de lágrimas
e muco escorriam pelo rosto distorcido e assustado.
Como se qualquer palavra dele pudesse fazê-la mudar
de ideia.
— Eu quero o arquivo.
— Arquivo?
— As informações que você me prometeu. As
informações que você ia me dar na Times Square,
lembra? Antes de a ganância subir à sua cabeça e você
decidir me entregar por 200 mil dólares.
— Não foi bem assim, Grace. Eu estava tentando
proteger você.
Grace colocou o indicador no gatilho.
— Mais uma mentira e eu juro por Deus que estouro
seus miolos.
Davey chorou de medo. Ela estava falando sério.
Aquela não era a Grace Brookstein que conhecera em
Bedford Hills. Era uma pessoa totalmente diferente.
Fria. Cruel. Impulsiva.
— Existe um arquivo, não existe, Davey? Espero, pelo
seu próprio bem, que você não tenha mentido sobre
isso também.
— Não, não, está aqui. Eu tenho.
Perdera a recompensa, mas Davey ainda tinha
esperança de encontrar alguém disposto a pagar pelo
seu mapa da mina. Até agora, nenhum editor tinha
retornado suas ligações, mas estava tentando. Colocou
a mão embaixo da cama.
— Pare! — mandou Grace.
Davey congelou.
— Fique com as mãos onde eu possa vê-las. Na cabeça.
Davey fez o que ela mandou.
— Bom. Agora, vá até o meio do quarto e se ajoelhe
no chão.
Davey sentiu um nó no estômago. AH, MEU DEUS. A
CLÁSSICA POSE DE EXECUÇÃO. ELA VAI ATIRAR NA MINHA NUCA.
— Por favor, Grace...
— Fique quieto! — Com cuidado, mantendo a arma
apontada para Davey, Grace se abaixou e procurou
embaixo da cama. Tirou um envelope pardo.
— É isso?
Davey assentiu.
— Assim que você estivesse a salvo, eu ia levar isso
para um advogado. Juro por Deus. Eu teria ajudado
você a entrar com uma apelação.
Grace colocou o envelope sobre o peito como uma
pessoa apaixonada.
— Você mostrou isso para alguém? Para a polícia,
para a imprensa?
Davey balançou a cabeça veementemente.
— Ninguém. As únicas pessoas que sabem da
existência desse arquivo somos eu e você.
Era a resposta certa. Grace sorriu. Davey ficou
aliviado. ELA VAI ME DEIXAR VIVER.
Grace pegou um travesseiro na cama. Colocando-o na
frente da arma, ela disse friamente:
— Você me traiu. Sabe qual é o castigo para traidores,
não sabe, Davey?
Antes que ele pudesse responder, escutou o som
abafado do tiro, seguido por uma sensação quente em
seu corpo.
Depois disso, mais nada.
MITCH Connors analisou a cena. A camareira do hotel
que fizera a ligação tinha um inglês tão ruim e estava
tão assustada e histérica que ele não sabia exatamente
o que esperar. Mas, definitivamente, não era aquilo.
Sem querer, ele caiu na gargalhada.
— Isso não é engraçado.
Davey Buccola estava no meio do quarto, nu e
amarrado como uma galinha com a corda da persiana.
LITERALMENTE, como uma galinha. Depois que ele
desmaiou, alguém — Grace — tinha coberto ele de
penas. Penas do travesseiro do hotel estavam coladas
em seu corpo com gel de cabelo, e a palavra TRAIDOR
estava escrita na sua testa com marcador permanente.
O mesmo marcador, Mitch presumia, que agora estava
enfiado no traseiro de Davey como um termômetro.
— De onde eu estou, cara, é um pouco engraçado. —
Mitch estava começando a gostar cada vez mais de
Grace.
Uma única bala estava presa na parede ao lado da
janela. Embaixo dela, estavam as roupas molhadas de
Davey. Buccola devia ter ficado tão assustado quando
Grace atirara no travesseiro, que perdera o controle
intestinal.
— Ela é psicopata! — soluçou Davey. — Ela podia ter
me matado. Quero proteção da polícia.
— É, e eu quero que a Gisele Bündchen passe
chantilly em mim e depois lamba, mas isso não vai
acontecer — disse Mitch ironicamente. — Alguém
poderia desamarrá-lo? Se eu tiver que olhar para esse
traseiro mais uma vez, vou precisar de terapia. Talvez
eu nunca mais coma galinha.
— Não devemos tirar algumas fotos primeiro, chefe?
Para documentar a cena do crime?
— Para quem? — Mitch riu ainda mais. — O coronel
Sanders?
— Você não está levando isso a sério! — Davey
Buccola fez um enorme esforço para parecer
indignado, o que não era fácil com uma coisa enfiada
no traseiro. — Grace Brookstein me ameaçou com
uma arma. Isso é assalto a mão armada! Você não se
importa?
— Com você, Buccola? Não, eu não me importo. E o
que você quer dizer com "assalto a mão armada"? Ela
roubou alguma coisa?
Davey hesitou.
— Ou você me conta ou vou deixá-lo aqui assim.
— Se eu contar, você me dá proteção policial?
Mitch foi para a porta.
— Espere!—gritou Davey. — Tudo bem, eu conto.
Havia um arquivo. Informações sobre a morte do
marido dela. Nós achamos... nós acreditamos que
Lenny Brookstein foi assassinado.
— O QUÊ?
— Eu estava trabalhando para Grace. Investigando o
caso. Foi por isso que ela fugiu de Bedford Hills. Ela
não dá a mínima para o dinheiro. Só quer descobrir
quem matou o marido. Quem armou para ela. Ela quer
vingança.
Mitch entendia o fato de ela querer vingança. Pensou
no dia em que Grace telefonara para ele. "EU NÃO
ROUBEI DINHEIRO NENHUM, DETETIVE. ALGUÉM COLOCOU A
CULPA EM MIM E NO MEU MARIDO'' ISSO ERA POSSÍVEL?
— Por que você não me disse isso antes? — gritou
ele. Mas assim que fez a pergunta, soube a resposta.
— Você ia vender as informações, não ia, seu merda
ganancioso?
Davey Buccola ficou em silêncio.
— Então, você deu o arquivo para ela?
— Eu tive que dar! Ela estava com uma arma apontada
pra minha cabeça...
— Você tem uma cópia, não tem? Diga que você tem
uma cópia.
A menos de 5 quilômetros dali, Grace estava deitada
em uma banheira, relendo as informações de Davey
pela centésima vez.
De repente, ela sentou. Estava ali, preto no branco.
SEI QUEM MATOU LENNY.
Finalmente, a caçada tinha começado.
Capítulo 22
Andrew Preston estava andando por Wall Street com
um familiar aperto no peito. Maria estava às voltas
com um novo amante. Já conhecia os sinais. A gaveta
da mesinha de cabeceira cheia de recibos da La Perla.
A depilação que ela marcara depois que eles voltaram
de Hong Kong, não antes. Naquela manhã, até a
escutara cantando LA TRAVIATA no chuveiro.
SE PELO MENOS EU NÃO A AMASSE TANTO. NADA DISSO TERIA
ACONTECIDO.
Eram 17h30, e a rua já estava cheia de corretores e
funcionários indo para casa. Desde que começara no
seu novo emprego no departamento de fusões e
aquisições do Lazard, Andrew costumava trabalhar
até as 21 ou 22 horas. Mas hoje era quinta-feira, noite
em que fazia ginástica. O médico de Andrew fora
bem enfático sobre como era vital para ele se
exercitar regularmente.
— Nada combate melhor o estresse do que uma boa
partida de raquetebol. Não adianta nada ser um
poderoso em Wall Street se seu coração para aos 45,
entende o que estou dizendo?
Andrew entendia o que seu médico estava falando.
Embora não pudesse deixar de se questionar se
alguém via Andrew Preston como um "poderoso de
Wall Street". Maria certamente não via.
Independentemente do que conseguisse, por mais
dinheiro que ganhasse, nunca era suficiente. O Aston
Martin DB5 de Andrew estava estacionado em uma
garagem quatro prédios depois do seu escritório. Os
preços eram altíssimos, mas ir dirigindo para o
trabalho era um dos poucos luxos a que ainda se
permitia. Preocupado com o coração, pegou as
escadas para o G4 em vez do elevador, apertou o
botão para destrancar o carro em seu controle remoto
e sentou no banco do motorista.
— Olá, Andrew.
Ele levou um susto tão grande que quase gritou. Grace
Brookstein estava abaixada no banco de trás do carro.
Tinha uma arma na mão e um sorriso no rosto.
— Quanto tempo.
MITCH Connors não podia acreditar no que estava
ouvindo.
— Senhor, com o devido respeito, isso é bobagem.
Nós TEMOS que reabrir a investigação sobre a morte de
Leonard Brookstein. Se não fizermos isso e depois
vier à tona que escondemos provas...
Quando Mitch finalmente desamarrara Davey
Buccola, o detetive particular lhe entregara um pen
drive. O conteúdo que havia ali era tão explosivo que
Mitch imprimira e levara direto para seu chefe.
— Ninguém está escondendo nada. — O tenente
Dudray fechou o arquivo. — Francamente, Mitch,
não consigo entender por que você está tão afobado
para começar uma investigação quando ainda não
conseguiu resolver essa em que está trabalhando
agora. Grace Brookstein fez você de bobo. Ela fez o
departamento inteiro de bobo.
— Eu sei disso, senhor. Mas se o marido dela foi
assassinado, e o inquérito não foi bem conduzido,
houve um erro judicial grave.
Dubray zombou dele.
— Justiça? Dá um tempo, Mitch. Lenny Brookstein
era um canalha, está bem? Um canalha rico e
ganancioso que deu um golpe na cidade toda. Se
alguém acabou com o cara, fez um favor para a
humanidade. Ninguém se importa, muito menos eu.
Mitch ficou em silêncio. Dubray estava falando sério?
Toda a investigação sobre a morte de Lenny
Brookstein tinha sido uma simulação. O médico-
legista atestara suicídio porque os Estados Unidos já
tinham julgado seu antes tão amado filho. Lenny
Brookstein era um ladrão, um mentiroso ganancioso
que tirara dos pobres e roubara do seu próprio fundo.
Mas e se os Estados Unidos estivessem errados? Sobre
Lenny e Grace.
Desde o comecinho da investigação, Mitch tinha
sentimentos conflitantes por Grace Brookstein. O
ódio inicial que ele compartilhava com o restante do
país tinha sido rapidamente substituído por uma
combinação de pena e, precisava admitir, respeito.
Grace era corajosa, determinada e astuta, qualidades
que Mitch sempre vira como predominantemente
masculinas. Ainda assim, quando finalmente vira
Grace Brookstein em carne e osso, fugindo, no dia em
que o trem se afastara levando-a para longe da Times
Square, o rosto que o fitara era totalmente feminino:
vulnerável, misericordioso, generoso. Em outras
circunstâncias, em outra vida, Mitch poderia se
apaixonar por ela. EU PODERIA SALVÁ-LA. NÓS PODERÍAMOS
NOS SALVAR. Ele se forçou a voltar para a realidade.
— Suponha que Leonard Brookstein fosse inocente.
Dubray arregalou os olhos.
— Como?
— Eu disse suponha que ele fosse inocente. Suponha
que outra pessoa tenha ficado com aquele dinheiro.
— Quem, por exemplo? A fada do dente?
— Que tal Andrew Presten? Com todo o respeito,
senhor, mas leu o arquivo de Buccola? Presten vinha
roubando o fundo havia anos.
Dubray fez um gesto com a mão, sem dar
importância.
— Mixaria. Além disso, todos esses caras do Quorum
foram interrogados na época. Sei que os federais nem
sempre são os mais rápidos no gatilho, mas você
realmente acha que Harry Bain já não teria
descoberto se um deles tivesse ficado com o
dinheiro? Seu detetive particular está latindo para a
árvore errada.
— Talvez — admitiu Mitch. — Mas nós não
deveríamos, pelo menos, seguir as pistas de Buccola?
Quanto mais olho para o caso do Quorum, mais ele
fede.
— Então pare de pensar nisso. Faça o seu trabalho.
Encontre Grace Brookstein e a coloque atrás das
grades, que é o lugar dela.
De volta à sua sala, Mitch desligou o telefone e
fechou as portas. O lugar de Grace Brookstein era
atrás das grades? Não tinha mais tanta certeza. Tentou
parar de pensar nisso, esquecer o assunto. Mas essa
idéia não parava de crescer, se intrometendo em sua
consciência como uma erva daninha.
FOI UM NEGÓCIO ARMADO. O INQUÉRITO, O JULGAMENTO, A
COISA TODA. FOI TUDO ENCENADO, COMO UM REALITY SHOW
COM SCRIPT.
Dubray não estava interessado na verdade. Nem os
policias de Massachusetts que investigaram a morte
de Lenny Brookstein, nem o médico-legista, nem a
mídia, nem mesmo o FBI. A fraude do Quorum era
como um filme, e os Estados Unidos já tinham
escolhido os vilões: Grace e Lenny Brookstein.
Ninguém queria um final alternativo. Não agora que
já estavam bem sentados comendo suas pipocas.
Dubray tinha lhe dito para esquecer o arquivo de
Buccola: "Apague, rasgue, queime. Eu não ligo. Lenny
Brookstein está morto e enterrado." Mas Mitch sabia
que não podia fazer isso.
O arquivo o levaria até a verdade.
Com um pouco de sorte, também o levaria a Grace
Brookstein.
Andrew Preston trincou os dentes. Se estava na sua
hora de morrer, tentaria enfrentar isso com coragem.
— Tudo que eu fiz foi por Maria. Você tem que
acreditar em mim, Grace.
Ela apertou mais a corda em volta dos pulsos dele.
Ordenou que ele dirigisse até Nova Jersey; estavam
em um galpão abandonado na Freeway 2.87. Do lado
de fora, estava escuro e começando a chover. Uma
garoa fina entrava pelos buracos do telhado e molhava
a camisa de Andrew. O poste ao qual estava amarrado
machucava suas costas.
— Não me diga em que eu tenho que acreditar.
Apenas responda às minhas perguntas. Quanto você
roubou de Lenny?
— Eu não roubei de Lenny.
O cabo de metal da arma atingiu o nariz de Andrew.
Ele gritou de dor.
— Não minta para mim! Eu tenho provas. Mais uma
mentira e eu dou um tiro na sua cabeça. Acredita em
mim?
Andrew Preston assentiu. Acreditava nela. Se aquela
fosse a antiga Grace, ele apelaria para a compaixão
dela. Mas estava claro que a antiga Grace não existia
mais. Andrew Preston não tinha a menor dúvida de
que a mulher na sua frente enfiaria uma bala na sua
cabeça sem nem hesitar.
— Quanto?
— No total, uns 3 milhões. Durante muitos anos. Mas
eu não estava mentindo. Eu não roubei dinheiro do
Lenny, roubei do Quorum. Minha intenção sempre
foi a de devolver.
— Mas você não devolveu.
— Não, não devolvi. As dívidas de Maria... — Ele
começou a chorar. — Ela gastava tanto que começou
a pegar empréstimos com agiotas. É uma doença que
ela tem, Grace. Um vício. Ela não consegue evitar. Eu
não fazia idéia da gravidade da situação. Aí, um dia,
umas pessoas foram na nossa casa. Pessoas violentas.
Assassinos. Eu não me importava comigo, mas eles
ameaçaram machucar Maria. Eles me mostraram
fotos. — Ele estremeceu. — Nunca vou me esquecer
daquelas fotos.
Grace pensou no corpo inchado e sem cabeça de
Lenny deitado em uma maca no necrotério.
— Então, você roubou do fundo e Lenny descobriu?
Andrew balançou a cabeça.
— Sim, eu achei que tivesse apagado meu rastro. A
Comissão de Valores Mobiliários estava nos
investigando, mas não descobriram. Acho que Lenny
era mais esperto que todos eles.
— E foi por isso que você o matou? Para poder
continuar roubando e pagando esses bandidos?
Andrew a fitou realmente surpreso.
— MATAR? Eu não o matei, Grace. Eu roubei do
Quorum, isso foi errado. Mas eu nunca teria
machucado Lenny. Ele era meu amigo.
— Por favor! — Grace deu uma gargalhada amarga. —
Lenny sabia o que você tinha feito. Ele e John
estavam discutindo isso em Nantucket. Você estava
com medo que ele o demitisse ou o entregasse para as
autoridades, então você o matou. — Ela soltou a trava
de segurança da arma. Sua mão estava tremendo. —
Eu não acredito que você só tenha roubado 3
milhões. Você pegou tudo. Roubou todos aqueles
bilhões e fez parecer que foi Lenny.
— Isso não é verdade.
— Você o matou! Eu sei que foi você! — Grace estava
histérica.
Andrew Preston fechou os olhos. Pelo menos seria
uma morte rápida.
SERÁ QUE MARIA VAI SENTIR SAUDADES DE MIM?
MITCH Connors estava deitado em sua cama, lendo.
Davey Buccola era um oportunista, mas era um
oportunista meticuloso. O relatório dele era fruto de
uma investigação perfeita. É claro que muita
informação tinha sido obtida na base do "ouvi dizer"
em conversas não oficiais corn membros da equipe do
médico-legista ou da guarda costeira de Nantucket.
Menos da metade do arquivo serviria em um
julgamento. Mas o quadro geral que pintava, de um
homem rico cercado por amigos falsos, parasitas e
puxa-sacos, parecia terrivelmente verdadeiro.
Mitch imaginou Grace lendo o relatório. Se estava
deixando-o enojado, como ela se sentiria, vendo a
teia de meias verdades, ganância e farsa tecida à sua
volta pelas pessoas mais próximas e mais queridas?
Não era de admirar o fato de ela nao ter procurado
nenhum deles quando fugira de Bedford Hills. Com
amigos como os que os Brookstein tinham, quem
precisava de inimigos?
O maior problema com o relatório era que tinha
informações demais. Muitas pessoas tinham motivo e
tiveram oportunidade de se livrar de Lenny
Brookstein. Mitch pensou: GRACE ESTÁ SEGUINDO ESSAS
PISTAS, ASSIM COMO EU. PARA ONDE ELA IRIA PRIMEIRO?
Andrew Preston abriu os olhos. Estava esperando
Grace atirar nele, mas até aquele momento a bala não
tinha vindo. Ficou surpreso ao ver que o rosto dela
estava molhado de lágrimas.
— Quero que você admita — soluçou ela. — Quero
que diga que se arrependeu.
— Grace, eu me ARREPENDI do que fiz. Mas eu não
matei Lenny. É verdade. Eu estava em Nova York no
dia em que ele morreu. Lembra?
— Eu sei que você estava. E sei o que você estava
fazendo na cidade. Estava pagando um matador de
aluguel. — Grace tirou de sua mochila uma fotografia.
— Donald Anthony Le Dron. Imagino que vá me
dizer que não reconhece este homem.
A cor do rosto de Andrew se esvaiu.
— Não. Eu o reconheço. E você está certa. Ele é um
matador de aluguel. Ele trabalha para a gangue
dominicana conhecida como DNB, que significa
Dominicanos Não Brincam, o que descobri que é um
eufemismo. — Ele riu nervosamente. — E sim, eu
contratei Le Bron. Mas não para matar Lenny.
Grace hesitou.
— Continue.
— Eles se dizem cobradores de dívidas. "Homens de
negócios legítimos", é assim que se descrevem. Foram
até a minha casa e me mostraram fotos de mulheres
sendo estupradas e mutiladas. Disseram que Maria
seria a próxima. Então, um mês antes do Baile do
Quorum, um deles apareceu no escritório. Levou um
dedo arrancado enrolado em um pano de prato. —
Andrew fechou os olhos ao se lembrar. — Eu já tinha
pagado tudo que Maria devia para eles, mas eles
continuavam voltando e pedindo mais. Eles queriam
ações, centenas de milhares. Nunca acabaria. Eu não
podia procurar a polícia pois poderiam descobrir
sobre o dinheiro que tinha roubado do Quorum.
Então, entrei em contato com Le Bron. Ele e o
pessoal dele resolveram o problema.
Grace tentou compreender o que ele estava dizendo.
Quando lera no arquivo sobre a fraude de Andrew e
sobre seus contatos com a gangue de Nova York,
tivera certeza de que tinha encontrado quem estava
procurando. Tudo fazia sentido: os roubos que Lenny
descobrira eram a ponta do iceberg. Na realidade,
Andrew devia estar desviando bilhões dos cofres do
Quorum e registrando nos livros de forma a parecer
que Lenny era o ladrão. Então, contratara um matador
de aluguel para matar Lenny, e ficara quieto,
deixando Grace levar a culpa. Mas ao escutar Andrew
contar o que acontecera, ao ver o horror em seu rosto
ao se lembrar das ameaças a Maria, ela ficou con-
vencida de que ele estava falando a verdade.
Andrew Preston não era o assassino de Lenny.
Isso era uma verdade esmagadora.
— Lenny era como um pai para mim, Grace, e eu o
traí. Vou carregar essa culpa comigo enquanto eu
viver. Mas nunca quis vê-lo morto. Não como Jack
Warner.
Grace também lera as informações sobre Jack no
relatório. Sabia sobre as dívidas de jogo dele e da
recusa de Lenny em pagar. Mas não lhe parecia um
motivo para assassinato. Além disso, o álibi de Jack
era sólido. A guarda costeira o tinha resgatado a
quilômetros de onde o barco de Lenny fora
encontrado.
— Eu sei que Jack estava com raiva de Lenny.
— Raiva? — Andrew pareceu surpreso. — Ele o
ODIAVA. Lenny controlava Warner. Ele sabia de todos
os segredinhos sujos dele. Todo mundo no Senado
sabia que Jack Warner era a marionete do Quorum,
que ele votava de acordo com o que Lenny mandava.
Lenny fazia gato e sapato de Jack. O cara não tinha
sossego.
Grace parecia não acreditar.
— Tenho certeza de que não era assim. Lenny nunca
faria chantagem com Jack. Ele nunca faria isso com
ninguém.
Andrew Preston sorriu. Agora, parecia a antiga Grace.
Que nunca questionava, que adorava e tinha certeza
de que Lenny não fazia nada de errado. Não que ele a
culpasse. Andrew sabia melhor do que ninguém o que
era amar tanto alguém e defender essa pessoa acima
de qualquer razão.
— Grace — disse ele, gentilmente —, o que quer que
tenha acontecido com Lenny, aconteceu no mar no
dia da tempestade. Jack também estava no mar
naquele dia, lembra?
Grace se lembrava. Assim como Michael Gray, Jack
Warner era um excelente velejador. BOM O SUFICIENTE
PARA ENTRAR NO BARCO DE LENNY E O MATAR? PARA JOGÁ-LO
PARA FORA E FAZER PARECER UM ACIDENTE? Era possível.
— Tente encontrar uma mulher chamada Jasmine —
disse Andrew. — É o melhor conselho que posso lhe
dar. Talvez ela lhe mostre as coisas por um ângulo
diferente.
MITCH FORA AO apartamento dos Preston em um
impulso. Queria interrogar Andrew sobre o suposto
dinheiro que ele roubara do Quorum, mas, em vez
disso, encontrou uma Maria histérica. Já era quase
meia-noite e Andrew não tinha ligado. Ninguém o
tinha visto desde que saíra do escritório, às 17 horas.
Já ligara para a polícia, mas ninguém a levava a sério.
Mitch levou.
— Deixe-me servir-lhe um conhaque, Sra. Preston.
Será que Grace fizera justiça com as próprias mãos?
Àquela altura, ela já sabia que Andrew roubara de
Lenny. E se ela o tivesse sequestrado? Ou pior? Se
Grace colocara na cabeça que Andrew estava por trás
da morte de Lenny, não dava nem para prever o que
ela seria capaz de fazer.
Quando a porta do apartamento abriu e Andrew
Preston entrou, Mitch ficou tão aliviado quanto
Maria. A camisa dele estava suja de sangue e o nariz
muito machucado, mas ele parecia calmo. Bem
diferente de sua esposa, que se jogou em seus braços
em uma cena melodramática.
— Ah, Andy, Andy! O que aconteceu? Eu estava
morrendo de preocupação. Onde você estava?
— No hospital. Estou bem, Maria. Tive um acidente,
só isso.
— Que tipo de acidente?
— Um acidente ridículo. Escorreguei na calçada
molhada de chuva e caí de cara no chão. Eu teria
ligado, mas fiquei retido no pronto-socorro durante
horas. Você sabe como são esses lugares. Eu não
queria deixá-la preocupada, querida.
— Bem, você me deixou preocupada. A polícia está
aqui.
Maria apontou para Mitch Connors. Andrew Preston
o reconheceu das reportagens na televisão como o
policial que estava atrás de Grace. Fez o melhor que
pôde para parecer indiferente.
—- Meu Deus. Um marido atrasado causa tanto
transtorno assim hoje em dia? Desculpe pelo
inconveniente, detetive.
— De forma alguma, Sr. Preston. Na verdade, eu vim
conversar com o senhor sobre outro assunto, mas isso
pode esperar. Fico feliz em ver que está bem. Olhe,
sei que talvez pareça uma pergunta ridícula, mas
Grace Brookstein não tentou entrar em contato com o
senhor de alguma forma? Nas últimas 48 horas?
Andrew pareceu confuso.
— GRACE? ME procurar? Por que ela faria isso?
— Por nada — disse Mitch. — Conheço o caminho da
porta.
Mais tarde, na cama, Andrew observava a esposa
dormir. EU TE AMO TANTO, MEU ANJO. Ele ficara
emocionado com a preocupação de Maria quando
chegara em casa. Talvez as coisas fossem ficar bem
entre eles, afinal?
Pensou em contar ao detetive Connors a verdade
sobre Grace e o que tinha acontecido naquela tarde.
Mas apenas por um momento. Grace poupara sua vida
e perdoara seus pecados. O mínimo que podia fazer
era retribuir o favor.
Se Lenny realmente tinha sido assassinado, Andrew
desejava que Grace tivesse sorte em sua busca pelo
assassino. Independentemente do que o mundo
pudesse achar, Lenny Brookstein tinha sido um bom
homem. Esticando a mão até o outro lado da cama,
Andrew puxou Maria mais para perto, sentindo o
cheiro inebriante do corpo dela. O leve aroma de
loção pós-barba que também detectou trouxe lágrimas
aos seus olhos.
Andrew Prestou nunca usava loção pós-barba.
Capítulo 23
Jasmine Delevigne admirou seu corpo nu no espelho.
Tinha 24 anos, pele cor de café com leite, pernas
longas e esbeltas e um lindo e perfeito par de seios de
silicone novo em folha, presente de aniversário de
um cliente poderoso. Segurando-os com carinho nas
mãos, Jasmine pensou: NÃO. ELE É MAIS DO QUE UM
CLIENTE. É MEU AMANTE. EU O ADORO.
Não era comum Jasmine se afeiçoar aos homens que
pagavam para compartilhar sua cama. Filha de um
executivo francês com uma princesa persa, Jasmine
Delevigne não precisava do dinheiro que ganhava
como garota de programa. Fazia isso por prazer. O
simples fato de saber que homens ricos e poderosos,
homens que tinham esposas bonitas e amantes ainda
mais bonitas, achavam-na irresistível, a ponto de
pagarem pelo privilégio de irem para a cama com ela,
dava um prazer incrível a Jasmine. Fazia anos que não
tocava em seu fundo fiduciário. O apartamento na
Quinta Avenida, o conversível vintage MG, o armário
cheio de vestidos de alta-costura e de sapatos que
custavam mil dólares o par; tudo pago pelo seu corpo
perfeito. Muitas pessoas podiam chamá-la de
prostituta. Pessoas como seu pai, que desperdiçara
toda a sua atenção na mãe de Jasmine sem nunca
perceber os esforços da filha para agradá-lo. Mas
Jasmine não se importava com a opinião deles.
SOU FEMINISTA. TRANSO COM QUEM EU QUERO, QUANDO EU
QUERO E PORQUE GOSTO. NÃO DEVO EXPLICAÇÕES A NINGUÉM.
Andou por seu quarto de vestir e escolheu a lingerie
que usaria. Calcinha de seda cor de chocolate da La
Perla e camisola combinando. SOFISTICADO E FEMININO.
EXATAMENTE COMO ELE GOSTA. Fazia semanas que
Jasmine não o via, e estava excitada. Havia outros,
claro. Todos os seus clientes eram homens bonitos e
bem-sucedidos, e todos eram bons de cama. Jasmine
Delevigne era a melhor e só trabalhava com os
melhores. Mas nenhum dos outros homens a
conquistara como ele.
A campainha tocou.
ELE CHEGOU MAIS CEDO. ELE QUER TANTO QUANTO EU.
Jasmine abriu a porta impassível, como a princesa que
era.
— Olá, querido.
Ele a agarrou pelo pescoço.
— Tire a porra da roupa agora. Já.
As pupilas de Jasmine dilataram de excitação. COMO
SENTI SAUDADES DE VOCÊ.
— Por favor! Não!
Gavin Williams apertou os nós em volta dos pulsos de
Grace Brookstein. Então levantou o chicote e deu um
golpe na parte de trás das pernas dela. Dois sulcos
vermelhos vivos se juntaram a outros. Gavin sorriu.
— Vou perguntar de novo, Grace. Cadê o dinheiro?
Ela estava chorando. Implorando. A esposa de Lenny
Brookstein, seu bem mais precioso, estava implorando
para ele, Gavin Williams, por misericórdia. Mas Gavin
Williams não seria misericordioso.
DESAPAREÇAM DA TERRA OS PECADORES, E JÁ NÃO SUBSISTAM
OS PERVERSOS.
Ele sentiu o início de uma ereção. Levantou o chicote
novamente.
— Com licença, o senhor está bem?
A fantasia desapareceu. Estava de volta à sua mesa na
Biblioteca de Ciências, Indústria e Negócios, na
Madison Avenue. A bibliotecária estava parada ao seu
lado. QUE VADIA ESTÚPIDA. POR QUE NÃO CUIDA DA PRÓPRIA
VIDA?
— Estou bem.
— Tem certeza? O senhor está muito vermelho. Quer
que eu abra uma janela ou alguma coisa?
— Não — respondeu Gavin. A senhora entendeu o
recado e voltou para a sua mesa.
Era ridículo ser forçado a trabalhar em uma biblioteca
pública. Depois que Harry Bain o afastara
sumariamente da força-tarefa do Quorum, o chefe de
Gavin no FBI insistira que ele tirasse uma licença
remunerada.
— Você está muito estressado, agente Williams.
Precisa de um tempo para relaxar. Acontece com todo
mundo.
VOCÊ QUER DIZER QUE ACONTECE COM IMBECIS FRACOS COMO
VOCÊ. NÃO COMIGO.
— Eu estou bem. Pronto para trabalhar.
— Tire as férias, Gavin, está bem? Nós o chamaremos
de volta daqui a uns dois meses.
DOIS MESES? Gavin sabia o que estava acontecendo.
John Merrivale estava conspirando contra ele.
Envenenando o poço. ToDOS ACHAM QUE SOU MALUCO.
OBSESSIVO. MAS VOU MOSTRAR A ELES. QUANDO GRACE
BROOKSTEIN ME LEVAR ATÉ AQUELE DINHEIRO, ELES VÃO
ENGOLIR ESSAS PALAVRAS. ESTOU PERTO. POSSO SENTIR.
Gavin Williams tirou um lenço antisséptico da pasta e
começou a limpar o lugar em que a bibliotecária tinha
tocado a mesa. Então, fechou os olhos e tentou
resgatar sua fantasia: Grace Brookstein amarrada como
um animal, à sua mercê. Não adiantava mais. Ela já se
fora.
— Senhor, dê uma olhada nisso.
Mitch se debruçou sobre a tela do computador de um
jovem detetive.
— O senhor me pediu para fazer umas pesquisas
sobre o senador Warner. Este e-mail acabou de
chegar da Delegacia de Costumes.
Mitch leu o e-mail.
— Ninguém investigou isso?
— Parece que não, senhor. O senador Warner apóia
as causas da polícia de Nova York.
APOSTO QUE SIM.
— Isso tudo é extra-oficial. Meu amigo na Delegacia
de Costumes está me fazendo um favor. Eu prometi
que seria cuidadoso.
— Você tem o endereço da garota?
— Sim, senhor. É um endereço bem chique também.
— O detetive clicou em outra janela. — O senhor não
acha que seria melhor mandarmos primeiramente
uma policial mulher? Não queremos assustá-la.
Jack Warner recostou-se em sua limusine, sentindo a
adrenalina correndo em suas veias. Estar com
Jasmine, tocá-la, transar com ela, satisfazer-se em seu
corpo... Era a melhor sensação do mundo. Saber que
todo o país o idolatrava como um cristão
conservador, um símbolo vivo da moral e dos valores
de família, só aumentava o prazer. Jack lembrou-se do
conselho que Fred Farrel lhe dera sobre o vício em
jogo.
— Eu entendo. É excitante. Todo aquele risco. Mas é
tão excitante quanto ser o próximo presidente dos
Estados Unidos? É isso que você tem que se
perguntar, Jack. Você poderia perder tudo.
Ah, sim. Mas era isso que trazia a emoção, não era?
Saber que podia perder tudo. Fred Farrel sabia do
vício em jogo e dos casos extraconjugais. Mas não
sabia sobre Jasmine. Só uma pessoa sabia sobre
Jasmine.
E essa pessoa estava apodrecendo embaixo da terra e
respondia pelo nome de Lenny Brookstein.
Jasmine Delevigne serviu chá de seu bule de prata em
duas xícaras de porcelana. Entregou uma delas à
policial.
A jovem pálida, meio nerd, de cabelos pretos e curtos
e óculos grossos com armação de plástico, olhou o
apartamento suntuoso e pensou: ESTOU NA PROFISSÃO
ERRADA.
— Açúcar?
— Ah. Não, obrigada. Você tem um lindo
apartamento.
— Obrigada. Trabalhei muito por ele. — Jasmine
recostou-se no sofá de camurça Ralph Lauren e
cruzou as pernas discretamente. — Então, você quer
saber sobre o senador Warner?
Quando a policial aparecera sem avisar, fazendo
perguntas sobre Jack e o relacionamento dele com
Leonard Brookstein, a primeira reação de Jasmine
tinha sido entrar em pânico. A segunda, lealdade.
Jasmine amava Jack. Não podia traí-lo. Mas fora a sua
terceira reação, o interesse próprio, que ganhara a
batalha. Aquela poderia ser sua chance de afastar Jack
da esposa para sempre. Ele só ficava com Honor
porque ela era necessária para suas ambições políticas.
Isso a levava a concluir que se as ambições políticas
dele morressem, seu casamento teria o mesmo
destino.
— Há quanto tempo vocês dois se conhecem?
Jasmine tomou um gole de chá.
— Socialmente, há cinco anos. Somos amantes há
três. Biscoitos?
ESTA MOÇA É UMA OBRA DE ARTE.
— Não, obrigada. Você disse "amantes".
— Certo. Acho que devo esclarecer. O senador
Warner é meu cliente. Ele paga pelos meus serviços.
— Ela falou sem o menor resquício de vergonha. —
No entanto, eu caracterizaria o nosso relacionamento
como romântico. A gente se adora.
— Entendo. Então, o senador Warner faz confidências
a você?
— Com certeza.
— E alguma vez ele falou com você sobre Lenny
Brookstein?
— Falou. Lenny sabia sobre nós. Ele era a única pessoa
que sabia.
— Jack contou a ele?
— Não. Deus, não. Ele descobriu de alguma forma.
Lenny Brookstein estava chantageando Jack. Era um
homem mau, violento, e infernizava a vida de Jack.
Quando soube que ele tinha se matado, fiquei feliz.
Não poderia ter acontecido com alguém melhor.
A policial se endireitou no sofá, surpresa pela
sinceridade da moça. Jasmine percebeu sua reação.
— Sinto muito. — Ela deu de ombros. — Eu poderia
mentir, mas não vejo por quê. Eu odiava Lenny
Brookstein. Eu e Jack o odiávamos. Ele era
manipulador e falso.
— Srta. Delevigne, na sua opinião, o senador Warner
odiava Lenny Brookstein a ponto de mandar matá-lo?
Ou de matá-lo ele mesmo?
Jasmine sorriu. A policial pensou: ATÉ OS DENTES DELA
SÃO PERFEITOS.
— Se ele o odiava o suficiente para isso? Certamente.
Lenny estava ameaçando destruir tudo o que Jack
trabalhara para construir. Ele forçou Jack a conseguir
votos a favor do Quorum quando estavam
reescrevendo a legislação de fundos de hedge,
lembra? — A policial assentiu. — Lenny sempre dizia
para Jack: "É isso. Mais um voto e você está livre."
Mas ele sempre voltava pedindo mais, sugando cada
vez mais. — Jasmine balançou a cabeça com raiva. —
Jack odiava Lenny Brookstein e tinha bons motivos
para isso. Mas ele não o matou.
— Você parece ter certeza disso.
— Eu tenho certeza. Jack disse que estava velejando
naquele dia. No dia da tempestade em que Lenny
Brookstein desapareceu.
A policial olhou nas suas anotações.
— Isso mesmo. Ele saiu para velejar. A guarda costeira
de Nantucket o resgatou a 10 quilômetros de Sankaty
Head. Ele chegou à casa dos Brookstein por volta
das... 18 horas naquela noite.
— A guarda costeira não resgatou Jack. Pelo menos,
não da forma que você acha.
— Como assim? — A policial franziu a testa. — Não
entendi.
— Jack não saiu de barco naquele dia. Ele passou o dia
todo comigo, em um chalé à beira da praia em
Siasconset. A guarda costeira apenas forjou o resgate.
— Você está dizendo que a guarda costeira ajudou o
senador Warner a dar um falso álibi? Eles MENTIRAM?
Jasmine riu, tímida e sensualmente, trazendo vida a
todo o seu corpo.
— Não fique tão chocada. Isso acontece o tempo
todo. O senador Warner é um homem poderoso. As
pessoas passam a mão na cabeça dele para que um dia
ele retribua na mesma moeda. Eu achava que, na sua
profissão, você já estaria habituada a esse tipo de
coisa. Eu certamente já estou na minha.
Educadamente, Jasmine levou a policial até a porta.
Ao sair, Jasmine perguntou a ela:
— Então a polícia acha que Lenny Brookstein pode
ter sido assassinado? Tenho acompanhado o caso, mas
ainda não escutei nada sobre homicídio.
— É uma possibilidade que estamos considerando.
— Você acha que isso significa que as coisas virão à
tona agora? Sobre mim e Jack? — Jasmine inclinou a
cabeça para um lado, esperançosa. A policial pensou:
ENTÃO É ISSO. ELA QUER QUE AS PESSOAS SAIBAM. ELA ESTÁ
QUERENDO FAZER COM QUE O SENADOR LARGUE A ESPOSA.
— Não sei, Srta. Delevigne. Isso não é da minha
alçada.
Jasmine se inclinou para a frente de forma
conspiratória.
— Aposto na amante dele. A mulher não é fácil.
A policial sorriu.
— Acho que está errada. O Sr. Brookstein não tinha
amante.
— Claro que tinha. Connie Gray, a cunhada dele. Eles
eram amantes, até que Lenny a abandonou e voltou
de joelhos para a esposa. Você não sabia?
Capítulo 24
Polícia! Abra a porta, Srta. Jasmine Delevigne!
Jasmine suspirou. DE NOVO? O QUE ELES QUEREM DESTA
VEZ?
Ela abriu a porta.
— Ei, eu conheço você, não conheço?
No saguão, Grace trancou a porta do banheiro
feminino. Tirou a peruca preta e os óculos, depois o
uniforme de polícia, dobrou-o e colocou-o na
cisterna do vaso sanitário. Só depois que colocou a
tampa da cisterna no lugar e endireitou as roupas,
caiu no chão e começou a chorar.
NÃO. LENNY NÃO. NÃO O MEU LENNY.
COM A MINHA PRÓPRIA IRMÃ?
ELE NÃO PODERIA.
Começou a se lembrar. Lenny e Connie sempre
tinham se dado muito bem. Eram espíritos afins em
alguns aspectos, ambos eram ambiciosos. O CONTRÁRIO
DE MIM. Lembrou-se dos dois dançando no Baile do
Quorum, envolvidos em uma conversa. Connie
brigando com Lenny na praia em Nantucket, depois
se desfazendo em lágrimas. EU ACHEI QUE ELE A ESTIVESSE
CONFORTANDO POR CAUSA DE MICHAEL. POR CAUSA DE TODO O
DINHEIRO QUE TINHAM PERDIDO. COMO POSSO TER SIDO TÃO
CEGA?
Grace não se importava com Connie. Fazia muito
tempo que suas irmãs estavam mortas para ela. Mas
Lenny! As lembranças de Grace do dia de seu
casamento, do amor de Lenny por ela, eram a única
coisa verdadeira que tinha sobrado em seu mundo.
Sem isso, não havia esperança, nada tinha significado,
não tinha razão para nada disso. Sem aquele amor, a
angústia era insuportável. Ela perguntou aos céus em
voz alta:
— Ah, Lenny, me diga que não é verdade!
Mas Grace não escutou nada, apenas o eco de suas
próprias palavras no silêncio.
JASMINE SORRIU para o policial louro e atraente.
Geralmente, só se interessava por homens ricos. Mas
no caso do detetive Mitch Connors, ela poderia
perfeitamente abrir uma exceção.
— Gostaria de conversar sobre o seu relacionamento
com o senador Warner.
— Certamente. Mas não sei em que mais posso lhe
ajudar. JÁ contei À sua colega tudo o que eu sabia.
Mitch franziu a testa.
— Minha colega?
— Isso. Ela acabou de sair.
ELA?
— Ela me perguntou sobre Jack e sobre o que
aconteceu em Nantucket no final de semana em que
Lenny Brookstein desapareceu. Não foi você quem a
mandou?
A boca de Mitch ficou seca. Saiu correndo para o
elevador, apertando o botão impacientemente.
Pareceu levar uma eternidade.
DEVO ESPERAR OU PEGAR AS ESCADAS?
FODA-SE.
Ele abriu a porta da saída de emergência e desceu as
escadas, três degraus de cada vez. Chegando ao
saguão, olhou em volta. VAZIO. Correu para a rua,
olhando para os dois lados freneticamente. A Quinta
Avenida estava movimentada. A rua estava cheia de
carros, e as calçadas, lotadas de pessoas. Mitch se
meteu entre a multidão, mostrando seu distintivo
como um talismã, segurando todas as mulheres
pequenas por quem passava, analisando os traços de
todas elas.
Não adiantou.
Grace Brookstein já tinha ido embora.
Capítulo 25
ASSIM QUE PERCEBEU que Grace tinha conseguido
fugir, Mitch voltou ao apartamento de Jasmine.
— O que você disse a ela? Quero saber tudo, cada
palavra. Foi uma conversa e tanto. Mitch estava
acostumado a ouvir falar de Lenny Brookstein como
um fraudador e covarde. Mas em todos os perfis
traçados pela mídia, nunca escutara nenhuma menção
a amantes. Muito menos a um caso com a irmã da
esposa. Parecia tão estranho.
Não era de se admirar que "a policial" tivesse saído
com tanta pressa.
Mitch tentou imaginar qual seria o passo seguinte de
Grace. Após tantas semanas naquele caso, ele estava
começando a sentir como se estivesse na cabeça dela,
quase como se eles fossem fisicamente conectados de
alguma forma. Era estranho. Tecnicamente, eles mal
se conheciam. NÃO se conheciam. Ainda assim, havia
vezes em que Mitch se sentia mais próximo de Grace
do que de muitas de suas ex-namoradas, até mesmo
Helen.
O primeiro instinto dela, ele tinha certeza, seria ir
direto para a casa de Connie para confrontá-la. Mas, e
depois? O bom-senso a tomaria? Aparecer na casa da
irmã seria um risco insano. Por outro lado, Grace
tinha mantido Davey Buccola na mira de uma arma. O
apetite dela por risco parecia estar crescendo a cada
dia.
Mitch tinha interrogado as duas irmãs de Grace assim
que ela fugira de Bedford Hills. Era um procedimento
de rotina entrar em contato com a família, no caso de
o suspeito procurar alguém. Lembrava-se da forma
como Honor e Connie tinham lavado as mãos no caso
de Grace, como duas Lady Macbeths, abandonando-a
completamente quando ela mais precisava. Amigos
por interesse já eram ruins o suficiente. Mas Grace ti-
nha sido amaldiçoada com uma família movida a
interesse.
Se Lenny realmente havia trocado uma mulher linda
como Grace pela mulher de gelo que era Connie
Gray, ele devia ser louco. Mitch se lembrou de seu
encontro com Grace na estação de metrô da Times
Square. Tinha chegado tão perto de pegá-la naquele
dia, mas não foi de sua decepção que se lembrou. E
sim da expressão de Grace, da assombrosa combinação
de vulnerabilidade e força. Apesar do seu cansaço e
das roupas largas e masculinas que estava usando, ela
possuía um poder de atração singular. Em alguns
aspectos, fazia com que Mitch se lembrasse de Helen,
no feliz início de seu casamento. Ambas tinham uma
beleza interior, uma feminilidade inata que atraía os
homens para elas como abelhas para o mel. Connie
Gray era exatamente o oposto. As feições de Connie
podiam ser regulares e seu corpo podia ser esbelto e
estar em forma, mas ela era tão feminina quanto um
lutador de sumo. TALVEZ FOSSE ISSO QUE LENNY QUERIA.
UMA VERSÃO TRANSEXUAL DA PRÓPRIA ESPOSA? Isso
realmente seria doentio.
MICHAEL GRAY atendeu a porta.
— Detetive. Que surpresa.
Mitch pensou a mesma coisa que todo mundo pensava
quando via Michael. VOCÊ É UM HOMEM DECENTE,
ÍNTEGRO, À MODA MITIGA. É BOM DEMAIS PARA ESSA GENTE.
— Alguma novidade sobre Grace?
— Nada de concreto. Estamos seguindo novas linhas
de investigação. Será que eu poderia falar com de sua
esposa de novo?
— Claro. Vou ver se ela está.
— Tudo bem, Mike. Estou aqui.
Connie apareceu no vestíbulo. Mitch pensou: TALVEZ
EU TENHA EXAGERADO. Com um bonito vestido floral, o
cabelo louro sob um arco, ela estava bem mais
atraente do que ele se lembrava. Atrás dela, um
adorável menino louro empurrava um trem de
madeira pelo chão. Pelas portas duplas à direita de
MITCH, um menino mais velho e mais moreno tocava
piano. A cena toda parecia um comercial de televisão.
BOM DEMAIS PARA SER VERDADE?
Connie acompanhou Mitch até um escritório onde
pudessem ficar sozinhos. Ele viu duas primeiras
edições de livros de Steinbeck na estante e o que
parecia um Kandinsky do período inicial na parede de
madeira. Era evidente que os problemas financeiros
dos Gray tinham ficado para trás.
Connie o viu admirando o quadro.
— Foi um presente.
— Um presente muito generoso.
— Verdade. — Connie abriu um sorriso doce, mas
não continuou o assunto. — Em que posso ajudá-lo,
detetive?
Mitch decidiu ir direto ao assunto.
— Por quanto tempo você e Lenny Brookstein foram
amantes?
O sangue foi todo para o rosto de Connie, depois
sumiu. Ela chegou a considerar a possibilidade de
negar o caso, mas pensou melhor. É ÓBVIO QUE ELE SABE.
MENTIR AGORA SÓ VAI DEIXÁ-LO COM MAIS RAIVA.
— Não por muito tempo. Poucos meses. Acabou antes
de Nantucket. Antes de ele morrer.
— Quem terminou?
Connie pegou uma almofada de seda e cravou as
unhas no tecido.
— Foi ele.
— Isso a deixou chateada?
Uma veia latejava visivelmente na têmpora de
Connie.
— Um pouco. Na época. Como pode imaginar,
detetive, esse é um capítulo da minha vida do qual
não tenho muito orgulho. Michael não faz a menor
idéia. Nem Grace.
AGORA ELA FAZ.
— Você mentiu para a polícia sobre o relacionamento
de vocês.
— Eu não menti. Eu omiti. Não vi nenhuma razão para
desenterrar tudo isso. Ainda não vejo.
Mitch pensou no corpo de Lenny, ou no que sobrara
dele, tirado do fundo do mar. Será que Connie tinha
alguma participação na morte dele? A mulher
desprezada? Ela tinha um álibi incontestável para o
dia da tempestade. Várias pessoas viram as três irmãs
Knowles almoçando juntas no Cliffside Beach Club.
Mas ela poderia ter orquestrado tudo.
— De que a senhora não tem tanto orgulho,
exatamente? Do caso? Ou do fato de Lenny ter lhe
dado um fora e voltado correndo para Grace? —
Mitch estava tentando achar um ponto fraco em
Connie. Se conseguisse fazer com que ela perdesse
seu majestoso auto-controle, talvez ela deixasse
escapulir alguma coisa. — Deve ter sido humilhante
ser rejeitada em troca da caçula.
— Vou lhe dizer o que era humilhante, detetive. A
obsessão ridícula de Lenny por Grace. Isso era
humilhante. Um homem inteligente e dinâmico como
ele se deixar dominar por uma esposa que mais
parecia uma criança tola? Era absurdo. Patético. — A
língua de Connie jorrava veneno. — Todo mundo
achava isso, não era só eu. E todo mundo fingia
admirar o casal apaixonado. Mas aquele casamento era
uma piada contínua.
— A senhora o amava, não amava?
— Não.
— A senhora o amava, mas ELE amava sua irmã.
— Ele era obcecado pela minha irmã. É bem diferente.
— Besteira. Grace foi o amor da vida dele. Você não
conseguiu perdoar nenhum dos dois por isso, não foi,
Connie?
Pegando sua bolsa, Connie tirou um cigarro e o
acendeu. Deu uma tragada profunda e disse:
— Deixe-me lhe dizer uma coisa, detetive. O único
amor da vida de Lenny Brookstein foi Lenny
Brookstein. Se o senhor não sabe disso, então não o
conhece mesmo.
— Mas a senhora o conhecia. A senhora se humilhou,
se prostituiu para dar prazer a ele, depois foi jogada
fora como um trapo.
— Isso não é verdade.
— Admita. A senhora se jogava aos pés dele.
O maxilar de Connie se contraiu visivelmente. Por
um momento, Mitch achou que ela finalmente fosse
perder o controle. Mas conseguiu se controlar.
Apagando o cigarro, ela disse calmamente:
— O senhor está muito errado. Se quer saber, eu
odiava Lenny Brookstein. Eu o odiava.
— Foi por isso que a senhora o matou?
Connie caiu na gargalhada.
— Ah, meu Deus! Toda essa encenação para chegar a
isso, detetive? — Ela enxugou as lágrimas causadas
pelo riso. — O senhor descobriu sobre meu caso com
Lenny e, de repente, me transformei na amante
rejeitada que mata em um acesso de ódio? É um
pouco simplista demais, não acha?
Mitch ficou furioso.
— Vou lhe dizer o que eu acho. Acho que estava lá
naquele final de semana porque queria vingança.
— É verdade. E eu consegui a minha vingança. —
Levantando-se, Connie foi até o quadro que Mitch
admirara mais cedo, tirou-o da parede e o entregou a
ele. — Um presente de meu querido falecido
cunhado. Falso, como descobri depois. Como ele. Mas
dá um toque especial à sala. Tenho certeza de que
concorda. Eu queria o quadro, então fiz com que
Lenny me desse. Fiz com que Lenny me desse muitas
coisas.
— A senhora o estava chantageando? Ameaçando
contar a Grace sobre vocês dois?
— Chantageando? De forma alguma. — A idéia
pareceu surpreendê-la. — Simplesmente exigi o que
me pertencia. — Andando pela sala, admirando suas
estantes de livros raros e obras de arte, Connie sorriu,
orgulhosa de si própria. — Graças a Deus, Michael
acha que comprei esta casa com o dinheiro de uma
herança. Ele realmente acha que uma tia rica e velha
me deixou 15 milhões de dólares.
— Lenny lhe deu esse dinheiro?
— Quem mais me daria? Ele fez o cheque em
Nantucket, dois dias antes de morrer. Graças a Deus,
eu depositei logo. Mais duas semanas e o dinheiro
teria desaparecido juntamente com os bilhões do
Quorum. Mas do jeito que foi... — Ela sorriu de forma
presunçosa, deixando a frase inacabada no ar. —
Posso lhe dizer de todo coração, detetive, que a
morte de Lenny Brookstein foi um golpe terrível para
mim. Mas não porque eu o ADORAVA. Não sou
nenhuma vítima. Deixo esse papel para a minha irmã.
Ela é muito boa nisso.
Mais tarde naquela noite, Mitch não conseguia
dormir, pensando em Connie e Grace, e no homem
que as duas amaram. Lenny Brookstein era um
enigma. Ele não era a caricatura do mau que a
imprensa fizera, disso Mitch tinha certeza. Mas
também não era o santo que a esposa imaginava.
Parecia ser uma miscelânea de contradições.
Generoso e mau. Leal e vingativo. Dedicado e infiel.
Brilhante nos negócios mas incapaz de distinguir um
amigo de um inimigo.
Será que Lenny Brookstein havia realmente roubado
todo aquele dinheiro?
Ele era bem capaz disso. Mas será que o fizera?
Se sim, o cretino não tivera oportunidade de
aproveitar. Alguém acabara com sua festa usando uma
faca de açougueiro. Alguém que Lenny Brookstein
conhecia e em quem confiava.
Buccola conseguira algumas pistas atormentadoras,
mas nenhuma delas dera em nada: Andrew Preston,
Jack Warner e Connie Gray. Estava na hora de voltar
para John Merrivale.
Mitch pegou no sono com imagens de um mar
tempestuoso, quadros de Kandinsky e o rosto de
Grace Brookstein.
Capítulo 26
O enjôo vinha em ondas.
No início, Grace tentou ignorar. Estava muito
estressada. Não comia adequadamente. Depois que
Jasmine Delevigne lhe contara sobre Connie e Lenny,
ela voltara correndo para seu quarto miserável, se
jogara na cama e ali ficara por dois dias. Isso era pior
do que a traição de Davey Buccola, pior do que ser
mandada para Bedford Hills, pior do que ser
estuprada. Ela só saía da cama para ir ao banheiro e
vomitar. Os vômitos estavam piorando, ficando cada
vez mais frequentes e mais violentos. Ela estava
doente.
ISSO PROVAVELMENTE É UM VÍRUS. ESTOU DEPRIMIDA. MINHA
IMUNIDADE ESTÁ BAIXA.
Após 48 horas de enjôos insuportáveis, Grace
finalmente se arrastou até uma farmácia na esquina.
Com um boné de beisebol quase cobrindo seus olhos
e um cachecol sobre metade de seu rosto, ela contou
seus sintomas para o farmacêutico.
— Sei. Quando foi a sua última menstruação?
A pergunta pegou Grace de surpresa.
— Minha menstruação?
— Existe alguma chance de você estar grávida,
docinho?
Grace tentou bloquear todos os sons e imagens, mas
eles continuavam aparecendo: o rosto do motorista do
caminhão, seus olhos pretos e cruéis, a voz que a
atormentava. NÃO SE PREOCUPA, LIZZIE, TEMOS A NOITE
TODA.
— Não.
— Tem certeza absoluta?
— Tenho. Não tem a menor chance.
Grace comprou um teste de gravidez.
Dez minutos depois, sentada em um vaso sanitário
quebrado que dividia com outros três inquilinos, fez
xixi no palito por cinco segundos, como mandavam as
instruções, mentalmente se ridicularizando por
desperdiçar 15 dólares.
ISSO É RIDÍCULO. MINHA MENSTRUAÇÃO SÓ ESTÁ ATRASADA
PORQUE ESTOU ESGOTADA.
Duas linhas cor-de-rosa apareceram na janela do
resultado. As palmas de suas mãos começaram a suar.
DEVE SER UM FALSO POSITIVO. Correu de volta para a
farmácia e comprou outro teste. Depois outro. Todas
as vezes, o palito de plástico zombava dela com suas
duas linhas cor-de-rosa dançando bem debaixo de seu
nariz como os elefantes em DUMBO.
POSITIVO. POSITIVO. POSITIVO.
PARABÉNS! VOCÊ ESTÁ GRÁVIDA.
Grace ficou tonta. Jogou-se na cama e fechou os
olhos. De alguma forma, naquelas últimas três
semanas, ela conseguira bloquear o estupro. Como se,
instintivamente, soubesse que, se pensasse a respeito,
isso a destruiria. Mas agora não tinha mais como
esconder. Estava ali, dentro dela, crescendo, vivo
como um alienígena indesejado, um parasita que a
consumia de dentro para fora.
PRECISO ME LIVRAR DISSO. AGORA.
Um médico estava fora de questão. Grace já estava
usando a terceira carteira de motorista falsa que
Karen fizera para ela em Bedford Hills. Naquela
semana, Grace era Linda Reynolds, uma garçonete de
Illinois. Os cartões de crédito eram bons o suficiente
para enganar vendedores e recepcionistas de hotel,
que não olhavam para o cartão por mais de um
segundo. Mas ela não podia se arriscar a usar um deles
em um consultório médico, onde poderiam olhar com
mais atenção. VOU TER QUE RESOLVER ISSO SOZINHA.
Ouvira algumas das garotas em Bedford Hills falarem
sobre clínicas clandestinas de aborto, histórias
terríveis que envolviam cabides e hemorragias. Ao
lembrar-se delas, Grace começou a tremer.
NÃO POSSO. NÃO POSSO FAZER ISSO.
TEM QUE HAVER OUTRO JEITO.
EM uma biblioteca pública tranquila em uma esquina
no Queens, Grace se sentou à frente de um
computador. Uma rápida pesquisa no Google lhe
mostrou o que precisava fazer.
... A INGESTÃO PODE CAUSAR PROBLEMAS GASTROINTESTINAIS,
ABORTO ESPONTÂNEO, ATAQUES DE EPILEPSIA, COMA, COÁGULO
INTRAVASCULAR, INSUFICIÊNCIA RENAL E HEPÁTICA E MORTE.
ABORTO ESPONTÂNEO...
Havia uma loja de produtos naturais que vendia ervas
a poucas quadras dali.
Grace foi para lá
- Os romanos costumavam usar isso, sabe. — A
vendedora da loja estava a fim de papo. — Era uma
erva comum para cozinhar. Claro, o que você tem
aqui é um óleo essencial. — Ela entregou a Grace um
frasco do tamanho de um polegar. — Você não pode
usar isso para cozinhar. A não ser que seja uma poção
para a sua sogra e você esteja tentando matá-la! —
Grace forçou um sorriso. — Mas algumas gotas na
banheira? Fantástico. Os seus problemas vão
desaparecer.
TOMARA.
— Quanto é?
— São 15 dólares e 22 centavos. — A vendedora
colocou o frasco em um saco de papel e o entregou a
Grace. De repente, a expressão dela mudou. — Eu
conheço você de algum lugar? Seu rosto me parece
familiar.
Grace deu uma nota de 20 dólares para a vendedora.
— Acho que não.
— Não, conheço sim. Tenho certeza. Nunca esqueço
um rosto.
— Fique com o troco.
Grace pegou o saco de papel e saiu apressada da loja.
A vendedora a observou saindo. Era terrível a forma
como as pessoas dessa cidade viviam correndo. Ela
parecia uma boa moça. Esperava que o óleo a ajudasse
a relaxar.
TENHO CERTEZA DE QUE A CONHEÇO DE ALGUM LUGAR.
Mitch CONNORS encontrou John Merrivale para um
almoço em Manhattan.
— Obrigado por vir me encontrar.
John Merrivale se levantou e sorriu educadamente.
Mitch ficou surpreso em como ele era sem graça.
Tudo nele parecia apagado, desde sua pele sem cor e
seus olhos cinza aguados, até a voz aguda e o aperto
de mão fraco. ELE PARECE MAIS UM FANTASMA DO QUE UM
HOMEM.
— De-de forma alguma, detetive. Fico feliz em
ajudar, se puder. Suponho que seja sobre Gr-Grace?
— Na verdade, é sobre Lenny.
O sorriso simpático desapareceu.
— Ah?
— Eu gostaria de compreender melhor seu
relacionamento com ele.
— Meu relacionamento? Não entendo como o meu
relacionamento com ele pode ter alguma relevância.
Mitch pensou: ISSO TOCOU EM ALGUMA FERIDA. Em voz
alta, ele disse:
— Estamos tentando construir um cenário o mais
completo possível da vida dos Brookstein antes de
Grace ser presa. Esperamos, assim, conseguir prever
seus passos.
— Entendo. — John se sentou com cuidado.
— Podemos pedir?
Mitch escolheu bife e salada. John analisou o cardápio
por um tempo exagerado antes de se decidir por uma
quiche. FRACO E INSÍPIDO, COMO ELE, pensou Mitch. Mas
John Merrivale tinha de ser mais do que isso. Não se
chega ao topo de uma instituição como o Quorum sem
possuir um lado severo. Ou, pelo menos, sem uma
inteligência excepcional.
— O senhor conhecia os Brookstein melhor do que
qualquer outra pessoa — começou Mitch. — Grace
até ficou hospedada em sua casa durante o
julgamento, não?
— Está correto.
— E o senhor pagou pela defesa dela.
John Merrivale não parecia à vontade.
— Paguei. Lenny era meu me-melhor amigo. Ele teria
gostado que eu fizesse isso.
— Mas o senhor nunca a visitou na cadeia. Na
verdade, nunca mais entrou em contato com ela. Por
quê?
— Tente entender, detetive. Acreditei em Grace
enquanto eu pu-pude. Assim como acreditei em Le-
Lenny. Mas em certo momento, tive que encarar a
verdade. Os dois me pa-passaram para trás. Perdi tudo
com a falência do Quorum. O meu no-nome, minhas
economias, o tr-trabalho da minha vida toda. Sei que
outras pessoas sofreram mais do que eu. E estou de-
dedicando todo o meu tempo agora para tentar ajudá-
las.
— O senhor está falando sobre a investigação do FBI?
— Estou — disse John seriamente. — Estou tentando
en-entender o que aconteceu.
Mitch pensou: TUDO QUE ELE FALA FAZ SENTIDO. ENTÃO,
POR QUE NÃO CONSIGO ACREDITAR NELE?
A comida chegou. Mitch devorou seu bife
vorazmente. Observou John ciscar em volta da quiche
Lorraine, comendo pequenos pedaços, como um
passarinho. Quando terminaram de comer, Mitch
mudou de tática.
— Se o senhor tivesse que dar um palpite, para onde
acha que Grace iria?
— Não faço a menor idéia.
— Talvez Lenny tenha falado de algum lugar a que
costumava levá-la...
— Não. Nunca.
— Algum lugar romântico, que fosse significativo para
eles como casal...
— Já disse — respondeu John, de forma concisa. —
Lenny não conversava comigo sobre essas coisas.
— Mesmo? — Mitch fingiu surpresa. — Eu achei que
o senhor tivesse dito que ele era seu melhor amigo.
— E era.
— Seu melhor amigo nunca conversava com você
sobre o casamento dele? A coisa mais importante na
vida dele?
— Grace não era a coisa mais importante da vida de
Lenny — respondeu John. — EU era. — Vendo a
expressão no rosto de Mitch, ele ficou vermelho e
tentou voltar atrás: — Bem, não eu pe-pessoalmente.
O Quorum. Nosso trabalho ju-juntos. Era para isso
que Lenny vivia.
Tarde demais. O estrago estava feito. Mitch pensou:
ELE PARECE CONNIE GRAY. UMA AMANTE CIUMENTA. Ficou
arrepiado.
— Poderia fazer o favor de me lembrar, Sr. Merrivale,
onde o senhor estava no dia da tempestade em
Nantucket? No dia em que Lenny Brookstein
desapareceu.
John piscou duas vezes.
- Eu estava em Boston a trabalho. Uma viagem que já
estava programada. Peguei um vôo cedo e passei o dia
todo fora. Todos os meus depoimentos estão nos
arquivos, se quiser checá-los.
- Obrigado — disse Mitch. — Farei isso.
Foi só mais tarde, depois de pagar a conta e John
Merrivale ter voltado para o trabalho, que Mitch
percebeu.
ELE NÃO GAGUEJOU.
QUANDO PERGUNTEI SOBRE O ÁLIBI DELE NAQUELE DIA, ELE
FALOU PERFEITAMENTE.
GRACE DEITOU na cama, o pequeno frasco de óleo na
mão. O cheiro era inebriante e reconfortante, como
alecrim trazido em uma brisa de verão.
O rótulo dizia: CUIDADO: TÓXICO. NÃO INGERIR.
Ela pensou no cretino que a estuprara.
Pensou na vida inocente dentro dela.
Pensou em Lenny. Quando fechou os olhos,
conseguiu escutar sua voz:
E FILHOS? IMAGINO QUE VOCÊ VAI QUERER SER MÃE EM ALGUM
MOMENTO.
E a resposta dela. NÃO MUITO. ESTOU TÃO FELIZ COMO
ESTAMOS! Não HÁ NADA FALTANDO.
Deitada na cama, Grace percebeu que sacrificara a
maternidade por Lenny. Sacrificara tudo por ele, pelo
amor deles, e ainda estava sacrificando. Como ele
podia tê-la traído com Connie? COMO? Sentia-se
furiosa e humilhada. Tentava odiá-lo, esquecer as
lembranças dele, mas não conseguia.
NÃO ADIANTA. EU AINDA O AMO. SEMPRE O AMAREI.
Ela abriu o frasco e tomou o líquido amargo.
QUANTO TEMPO SERÁ QUE VAI LEVAR?
— VOCÊ ESTÁ bem aí dentro, moça?
O zelador estava batendo na porta do quarto de
Grace.
— Precisa de um médico?
Grace não conseguia escutá-lo. A dor rasgava seu
corpo como uma lâmina gigante, cortando sua carne,
seus nervos. Ela gritava. Sangue jorrava dela. Suas
pernas começaram a tremer e dançar enquanto uma
convulsão tomava conta de seu corpo, contorcendo
seus braços e pernas como um fantoche sádico.
O zelador destrancou a porta.
— Jesus Cristo. Vou chamar uma ambulância!
Grace não o escutou. Estava ensurdecida pelo som dos
próprios gritos.
Capítulo 27
ELA ESCUTOU VOZES.
— Linda? Linda!
— Ainda sem resposta. Ela está com parada cardíaca.
— Dê mais um choque.
Grace se perguntou: QUEM É LINDA? Sentiu um peso
sobre as suas costelas, então uma dor indescritível,
como um espeto de carne sendo enfiado em seu
coração.
Desmaiou.
ELA ESTAVA EM um quarto verde-claro com teto cinza.
Havia agulhas em seus braços. Alguém falava com ela.
Uma enfermeira.
— Linda?
Grace se lembrou. Tivera de abandonar Lizzie
Woolley e usar outra identidade falsa. Sou LINDA
REYNOLDS. TENHO 33 ANOS e SOU GARÇONETE EM CHICAGO.
— Bem-vinda de volta. — A enfermeira sorriu. —
Você sabe onde está, Linda?
— Hospital. — A garganta de Grace estava tão seca e
dolorida que a palavra era quase inaudível. — Água.
— Claro. — A enfermeira apertou um botão de
emergência. — Espere só mais uns minutinhos. O
médico vai dizer se você pode ou não beber água
agora. Ele já está vindo. Tem alguém que você queira
que eu avise? Um parente ou amigo?
Grace balançou a cabeça. NINGUÉM.
Voltou a dormir.
Ela estava em East Hampton na festa de 4 de julho.
Tinha 6 anos. Seu pai a levantara nos braços e a
colocara nos ombros. Ela se sentia como uma princesa
em seu vestido de festa azul com pregas, com fitas
vermelhas, brancas e azuis no cabelo louro. Um dos
amigos de seu pai os chamou:
— Ei, Cooper. Quem é esta linda menininha que está
com você?
— A menina mais linda de Nova York. — Cooper
Knowles sorriu. — Quando você se casar, Grace, será
com um rei. Você terá o mundo aos seus pés, meu
anjo. O mundo aos seus pés! — Ele puxou os sapatos
novos de festa dela, e Grace riu.
O riso se transformou no riso de Lenny. Eles estavam
na varanda de casa, em Palm Beach. Lenny lia o
jornal.
— Olhe isto, Grace. — Ele deu uma gargalhada. —
Olhe do que eles estão me chamando: "Leonard
Brookstein, o rei de Wall Street". Como é ser casada
com um rei?
— É maravilhoso, meu amor. Eu amo você.
— Eu também amo você.
— Linda. Linda.
O feitiço se quebrou.
— Este é o Dr. Brewer, da nossa equipe de
psiquiatria. Ele só quer conversar um pouquinho com
você, está bem?
OS DIAS FORAM passando. Médicos e psiquiatras iam
e vinham. Mulheres que abortavam sozinhas existia
aos montes, infelizmente, mas o caso de Linda
Reynolds era raro o suficiente para chamar atenção.
— Envenenamento por poejo? O que é isso?
— Alguma erva maluca. As mulheres a usavam para
abortar na Idade Média. Mas é pavoroso. Ingerir o
óleo essencial pode causar insuficiência renal,
hemorragia uterina grave. Convulsões.
Os médicos disseram a Grace que era um milagre ela
estar viva. O poejo fora eficiente em fazer seu
trabalho de matar o bebê, mas o fígado dela ficaria
danificado para sempre. Grace não ligava. Tentou
chorar pelo filho, sentir-se triste, mas nem isso
conseguia. Sabia que se olhasse para trás ia
desmoronar, tudo o que importava era estar viva, se
recuperando, se fortalecendo. Sentia isso em seu
corpo. Logo poderia sair dali. Seu trabalho ainda não
estava terminado.
No CORREDOR do hospital, Juan Benitez sussurrou
para seu amigo José Gallo:
— ES ELLA. ESTOY SEGURO.
José enfiou a cabeça para dentro do quarto de Grace.
— Não é mesmo.
Juan e José eram zeladores. Nada muito empolgante
costumava acontecer no trabalho, limpando os
corredores do hospital. Mas isso não era motivo para
Juan começar a inventar coisas.
— ELLA ES HORRIBLE. Feia — disse José. — Grace
Brookstein era HERMOSA.
Juan insistiu:
- LES DIGO QUE ES ELLA. QUIERES LA RECOMPESA O NO?
José pensou. QUERIA a recompensa. Muito. Mas ele e
sua família estavam ilegalmente nos Estados Unidos.
Não queria ligar para a polícia de Nova York e dar a
pista nessa perseguição.
Olhou para a paciente de novo. Com seu cabelo muito
curto, louro quase branco, o rosto marcado pela dor e
os olhos frios e apagados, ela não tinha o brilho da
jovem que vira na televisão. Ainda assim, havia uma
semelhança...
Os MÉDICOS tinham dito a Grace que ela podia andar
pelo quarto caso se sentisse disposta. Não estava mais
com agulhas no braço. Cuidadosamente, ela colocou
os pés no chão. Após uma semana na cama, suas
pernas pareciam gelatina. O poejo lhe causara
convulsões, e uma delas distendera um músculo na
sua panturrilha. Mancou até a janela.
No estacionamento abaixo, um jovem casal levava seu
bebê recém-nascido para casa. O pai tentava encaixar
a cadeirinha de bebê no banco de trás do carro, com
uma expressão no rosto que misturava ansiedade e
pavor, enquanto a esposa calmamente balançava o
bebê nos braços. Grace deu um sorriso triste.
QUE FAMÍLIA ADORÁVEL, FELIZ E NORMAL. NUNCA TEREI ISSO.
Não tinha tempo para ficar pensando em seus anseios.
Um carro de polícia parou no estacionamento, depois
outro, depois outro. De repente, havia policiais por
todo lado, invadindo o prédio como cupins. Grace
sentiu seu coração disparar. ESTÃO PROCURANDO POR
MIM?
Uma cabeça loura saiu de um dos carros da polícia.
Mesmo antes de ele olhar para cima, Grace
reconheceu o físico forte de jogador de futebol
americano. MITCH CONNORS. ENTÃO, ELES ESTÃO AQUI ATRÁS
DE MIM.
A adrenalina tomou conta de seu corpo.
PENSE! TEM QUE HAVER UMA SAÍDA!
MITCH CONNORS entrou no elevador. Estava tão
tenso que mal conseguia respirar. Como se a
perspectiva de finalmente pegar Grace já não fosse
opressora demais, ele passara os últimos três dias
investigando o álibi de John Merrivale para o dia em
que Lenny Brookstein desaparecera. Tinha tanta coisa
para contar a ela. Tanta coisa ainda por fazer.
— Fechem todas as saídas e entradas. Quero policiais
nas escadas de emergência, nas cozinhas, lavanderias,
em todos os lugares.
— Com licença! — Uma chefe dos residentes furiosa
colocou a mão entre as portas do elevador exatamente
na hora que estavam se fechando. Com uns 50 anos,
cabelo grisalho curto e uma expressão severa de "não
brinque comigo", passou um sermão em Mitch: — O
que está acontecendo aqui? Isto é um hospital. Quem
lhe deu permissão para invadir dessa forma?
Mitch mostrou seu distintivo e ao mesmo tempo
apertou o botão para o sexto andar. Deveria ter
alertado as autoridades hospitalares, mas, com uma
pista boa como essa, não havia tido tempo para as
amenidades.
— Desculpe, senhora. Temos uma informação de que
Grace Brookstein está no prédio. Se me dá licença...
— Não dou licença! Não me importo se Élvis Presley
está no prédio. Meu trabalho é salvar vidas. O senhor
não tem autoridade... Ei! Saiam daí! —Virando-se, a
médica viu quatro policiais abrindo as portas do
centro cirúrgico. Aproveitando a chance, Mitch
empurrou-a para fora do elevador. A última coisa que
viu antes de as portas do elevador se fecharem foi a
medica furiosa correndo em sua direção, sacudindo o
punho como um vilão de histórias em quadrinho.
Era melhor Grace estar ali. Senão, estaria encrencado.
— Linda Reynolds. Em que quarto ela está?
A enfermeira à mesa hesitou.
— Não podemos dar o número do quarto dos nossos
pacientes. O senhor é da família?
Mitch mostrou o distintivo.
— Sou sim. Tio Mitchell. Onde ela está?
— Quarto 605 — disse a enfermeira. — No final do
corredor à sua direita.
Mitch já estava correndo. Entrou no quarto, arma em
punho.
— Polícia! Você está presa!
Um faxineiro apavorado levantou as mãos.
— Meu Deus! O que eu fiz?
— Cadê ela? Grace. — O senhor não entendeu nada.
— Quer dizer, Linda. A paciente. Para onde ela foi,
droga?
— Ao banheiro — gaguejou o faxineiro. — Três portas
depois. Ela já volta.
Grace olhou para a grade da ventilação. Tinha 60
centímetros de cada lado. O MESMO TAMANHO DA CAIXA
EM QUE FUGI DA CADEIA.
Quando subiu no vaso sanitário, depois na cisterna,
lágrimas de dor encheram seus olhos. Sua panturrilha
esquerda estava latejando. Mordeu o lábio inferior
com força para não gritar e levantou os dois braços.
Tirar a grade foi fácil. Ao empurrá-la para o lado, uma
nuvem de poeira caiu em seus olhos, cegando-a
temporariamente, mas não tinha tempo de parar e se
recuperar. Enfiando as unhas no teto, Grace puxou
seu corpo minúsculo para cima, espremendo-se no
tubo de ventilação como massa em uma máquina de
fazer macarrão. Com cuidado, recolocou a grade
depois de entrar. À sua frente, não havia nada além
de escuridão. Centímetro a centímetro, ela se
arrastou pelo nada.
MITCH entrou no banheiro feminino. Havia três
cubículos, todos vazios.
Ele se virou para sair, depois parou. Indo até o
cubículo do meio, passou o dedo pela tampa do vaso.
A poeira era tão grossa quanto açúcar cristal. Mitch
desenhou uma letra G e olhou para cima. PODE UM SER
HUMANO CABER ALI?
De volta ao corredor, ele gritou em seu rádio:
— Preciso ver plantas do sistema de ventilação.
Projetos. Para onde esses túneis vão?
A chefe dos residentes saiu do elevador e apontou
para Mitch.
- Ali! De camisa azul. — Três seguranças fortes
correram na direção dele. Segundos depois, Mitch
estava sendo levado pela escada de emergência
enquanto a médica observava, de braços cruzados,
sorrindo de satisfação. MAS QUE VADIA.
- Pelo amor de Deus. Sou um oficial da polícia. Vocês
têm idéia do que eu poderia fazer com vocês por
causa disso? Deixem-me ir.
O maior dos guardas murmurou:
Está brincando, né? Tem idéia do que ELA pode fazer
com a gente se você escapar? Pode acreditar,
detetive, você não faz idéia.
A visão de Grace estava clareando. Viu luz, raios
fracos primeiramente, mas estavam gradualmente
ficando mais fortes. O túnel se dividia para a direita e
para a esquerda. A luz vinha da esquerda.
Foi em sua direção.
— Juro por Deus que se a perdermos por causa dessa
palhaçada, eu mesmo vou providenciar para que você
nunca mais chegue perto de um paciente com mais do
que um Band-Aid.
Levou 15 minutos para o chefe de Mitch, tenente
Dubray, enviar os faxes com os mandados e
consentimentos necessários para o hospital. Só
quando estava com todos em mãos a chefe dos
residentes permitiu que seus seguranças deixassem
Mitch sair de seu escritório.
— Não tente me amedrontar, detetive. — Ela riu. —
Já não causou constrangimentos demais para um dia?
Mitch ia responder quando um de seus subordinados
apareceu.
— As plantas — disse ele, ofegante, desenrolando o
papel em cima da mesa.
Grace olhou para baixo pela grade. A sala estava vazia.
Dessa vez, foi mais difícil tirar a grade. Apertada no
tubo de ventilação como uma salsicha em uma lata,
era complicado criar uma alavanca. Finalmente, com
suor escorrendo pelas costas e pelo peito, ela
conseguiu tirar a grade e sair pelo buraco. A luz era
tão forte que ela levou alguns segundos para se adap-
tar. Olhou em volta.
ESTOU EM UMA SALA DE RAIOS X.
Perguntou-se quanto tempo levaria até que o técnico
aparecesse com o próximo paciente. SERÁ QUE ELES
SEMPRE DEIXAM AS LUZES ACESAS OU ALGUÉM APENAS SAIU E JÁ
ESTÁ VOLTANDO? Vozes do lado de fora responderam à
sua pergunta. Dois homens estavam conversando.
Grace viu suas sombras ficarem maiores. ELES ESTÃO
ENTRANDO!
MITCH EXAMINOU as plantas. O tubo de ventilação
tinha nove grades no sexto andar, todas
representando uma saída em potencial. Mitch
mandou homens para cada uma delas. A má notícia é
que tinha perdido 15 minutos. A boa notícia era que
não havia como sair do prédio e nem tinha como
rastejar de um andar para o outro. Era um caso de
"tudo que sobe, tem que descer".
— Qual é a saída mais próxima do banheiro feminino?
O oficial traçou o túnel com o dedo.
— Seria... bem aqui. A sala de raios X e ressonância
magnética.
Mitch saiu correndo.
A GRADE DA SALA de raios X ainda estava pendurada.
Grace nem tinha se preocupado em apagar seu rastro.
ELA SABE QUE SEU TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO.
— Não entendo — disse o técnico. — Fiquei aqui o
tempo todo. Saí por uns trinta segundos. Mas se ela
entrou aqui enquanto eu estava fora, teria que ter
passado pela recepção, Liza a teria visto com certeza.
- Hum. Meus homens também — disse Mitch. Ele
coçou a cabeça. — Tem alguma outra forma de sair
daqui?
— Não.
— Algum elevador de serviço? Escada de incêndio?
Janela?
— Não. Olhe à sua volta, detetive. É só isso.
Mitch olhou em volta. O técnico estava certo. A sala
era uma caixa vazia, exceto pelo aparelho de raios X e
o tubo circular da ressonância magnética. NENHUM
LUGAR PARA FUGIR, NENHUM lugar para SE esconder. Então,
de repente ele viu. No canto. Um cesto de roupa suja,
cheio de panos usados.
Com o coração acelerado, Mitch mergulhou ali,
tirando todos os panos como um homem faminto em
busca de restos de comida no lixo. Em segundos, o
chão estava literalmente coberto por camisolas
hospitalares e máscaras. Mas nenhum sinal de Grace.
Ele tentou não deixar transparecer a decepção em seu
rosto. — Certo. Então, ela deve ter voltado para o
tubo de ventilação. Onde é a próxima saída?
Grace esperou até que eles saíssem. Então, relaxando
os músculos dos braços e das pernas, contraídos nos
pontos em que se prendera no topo da máquina de
ressonância magnética, ela caiu dentro do aparelho,
machucando as costelas. Conseguira despistar Mitch
Connors por enquanto. Mas quanto tempo ganhara
com isso? Um minuto? Três? Cinco? O desespero
tomou conta dela.
O HOSPITAL INTEIRO ESTÁ CERCADO. NUNCA VOU CONSEGUIR
SAIR DAQUI.
Pensou em desistir. Antes de saber sobre a traição de
Connie e Lenny, nunca teria se perguntado por que
estava fugindo, por que continuar lutando. Era tudo
por Lenny. Precisava limpar o nome dele, honrar a
memória dele. Agora, pela primeira vez, Grace
percebeu que isso não era mais suficiente. Precisava
de um motivo melhor. Precisava lutar por si mesma.
Precisava salvar a própria vida.
Saindo do aparelho, ela ficou de pé.
NÃO POSSO DESISTIR. NÃO VOU DESISTIR.
Pegou algumas roupas da pilha no chão e vestiu.
Grace foi andando devagar até a escada de incêndio,
tentando não mancar. PRECISO SAIR DESTE ANDAR. CHEGAR
AO TÉRREO E TENTAR DAR UM JEITO DE SAIR DAQUI.
A recepcionista do departamento de raios X viu
quando ela passou, mas não disse nada. Com sua touca
de papel azul e a máscara cirúrgica cobrindo o rosto,
poderia ser qualquer pessoa. Depois da recepção,
havia dois policiais na porta. Grace esperou, com o
coração na mão, que um deles pedisse uma
identificação sua, mas eles a deixaram passar. Estava
quase na porta da saída de emergência. Só mais
alguns passos.
— Ei. Ei, você! De azul!
Grace continuou andando.
— EI! — A voz ficou mais alta. — Pare!
CONTINUE ANDANDO. NÃO OLHE PARA TRÁS.
- Você não pode sair por aí. O alarme...
Grace abriu a porta.
—... está ativado.
Sirenes soaram. Sinos, agudos e ensurdecedores,
tocaram nos ouvidos de Grace. Por um momento, ela
entrou em pânico, congelou. Em poucos segundos, o
vão da escada estaria apinhado de policiais. NÃO VOU
CONSEGUIR DESCER SEIS ANDARES. NÃO DÁ TEMPO.
Ela levantou a cabeça e começou a correr.
O rádio de Mitch tocou.
Ela está na escada de incêndio a leste. Sexto andar.
O coração dele disparou.
- Fechem todas as saídas.
- Já estão fechadas, senhor.
- Diga para todas as unidades, vocês podem sacar as
armas, mas NÃO ATIREM. Entendido? Nada de tiros.
— Sim, senhor.
Não havia como sair do prédio. Do lado de fora do
hospital, a mídia já começara a chegar. Mitch sabia
que nenhum de seus homens vazaria a notícia para a
imprensa, mas era difícil mandar cem policiais para
um grande hospital de Nova York sem despertar
curiosidade. Equipes de televisão montavam seus
equipamentos, ansiosas para conseguir imagens do
drama em andamento. Mitch pensou: ELES
PROVAVELMENTE ESTÃO ESPERANDO UM TIROTEIO. QUANTO
VALERIAM AS PRIMEIRAS FOTOS DE GRACE BROOKSTEIN MORTA?
Esperava poder protegê-la. Poder impedir que ela
fugisse. Mantê-la a salvo. Com ele.
Correu para o telhado.
Grace olhou à sua volta. É ISSO. FIM DA LINHA.
Se pelo menos os arranha-céus de Nova York fossem
como no filme do Homem-Aranha, em que o edifício
seguinte ficava a apenas um pulo de distância... Na
vida real, o hospital de oito andares ficava espremido
entre duas torres de vinte andares. A única forma de
descer do telhado era pelas escadas de incêndio que
Grace acabara de usar para subir, ou pelas escadas
idênticas que havia do outro lado do prédio.
A não ser, claro, que você pulasse.
Deixando as escadas para trás, Grace engatinhou pelo
perímetro do telhado. Olhou para baixo. Em um
filme, haveria uma rede para amortecer sua queda. Ou
um caminhão cheio de travesseiros de pena
simplesmente estaria parado no sinal vermelho. Não
tinha essa sorte.
Ouviu um barulho na porta das escadas a leste.
Poucos segundos depois, escutou na outra porta
também. ELES ESTÃO VINDO.
Os olhos de Grace se encheram de lágrimas. Eles a
pegariam, a mandariam de volta para a cadeia. Ela
nunca saberia a verdade.
Naquele momento, enquanto as portas se abriam,
ficou claro. Ela não tinha mais por que viver.
A PORTA SE ABRIU, fazendo o metal bater na parede.
Mitch se arremessou sobre o telhado de concreto
como uma bala de caNHÃO. Levantou a cabeça na hora
que alguma coisa azul desaparecia na beirada do
telhado.
— Grace! Não!
Tinha chegado tarde demais.
LIVRO TRÊS
Capítulo 28
Mitch colocou a mão na boca. Escutou o público
embaixo prender a respiração, depois gritos.
EU ACABEI DE PERSEGUIR UMA MULHER INOCENTE ATÉ A
MORTE.
Por que Grace não tinha esperado? Se ele pelo menos
tivesse tido a chance de conversar com ela. De dizer
que acreditava nela. Que sabia que Lenny não tinha
se matado. Que sabia que ela era inocente. Que estava
começando a se apaixonar por ela.
Não podia suportar olhar, mas sabia que precisava.
Atrás dele, uma horda de policiais tinha se espalhado
pelo telhado, todos com armas nas mãos. Mitch
caminhou lentamente até o local em que o ponto azul
desaparecera. Ajoelhando-se, ele respirou fundo para
criar coragem e olhou para baixo, se preparando para
ver o corpo de Grace ensanguentado e quebrado.
A calçada estava vazia.
— Mas que...
O telhado se projetava uns 60 centímetros além das
paredes externas do hospital, como cobertura
escorrendo pelas bordas de um bolo de casamento.
Deitando-se de bruços, Mitch apalpou a saliência.
Seus dedos não encontraram nada. Foi um pouco mais
para a frente, como uma cobra, até que seu torso se
projetasse perigosamente para fora do prédio. A
multidão gritou novamente. De repente, Mitch sentiu
a mão fria na sua.
Encolhida na saliência de uma janela que não tinha
mais do que 20 centímetros, Grace olhou nos olhos
de Mitch e abriu um sorriso triste, derrotado.
— Detetive Connors, temos que parar de nos
encontrar assim.
A sensacional imagem da captura de Grace Brookstein
foi exibida no mundo todo. Da noite para o dia, Mitch
Connors, da polícia de Nova York, passou de policial
trapalhão para herói nacional. Havia muita
especulação sobre onde a fugitiva mais procurada dos
Estados Unidos estava presa. Mandariam Grace
Brookstein de volta para Bedford Hills? Ou para um
local diferente, mais secreto e seguro? Haveria outro
julgamento? A caçada por Grace Brookstein custara
aos contribuintes americanos milhões de dólares.
Certamente, aumentariam a pena original dela, não?
Nos bastidores, uma batalha entre as agências pegava
fogo. Todo mundo queria acesso a Grace. Do ponto de
vista de Mitch, o princípio da posse estava à seu
favor.
— Nós a pegamos e não vamos entregá-la ao FBI ou a
ninguém mais até que nós encerremos os
interrogatórios.
Mas Harry Bain, do FBI, não era o único na cola de
Mitch. Seus próprios superiores do departamento de
polícia pareciam ansiosos para se livrarem de Grace o
mais rápido possível. Seu chefe, tenente Dubray,
concordava.
— Ela não é mais problema nosso.
Mitch se manteve firme.
— Eu tenho o direito de interrogá-la por 48 horas.
— Não venha me ensinar quais são os seus "direitos",
Connors. E não seja tão ingênuo. Este caso é uma
dinamite política e você sabe disso. Grace Brookstein
é a encarnação viva de tudo que este país está
tentando esquecer. Isso se aplica até o topo. O
próprio presidente disse para seus conselheiros que o
rosto de Grace nos jornais é ruim para os negócios,
para os empregos, é ruim para a marca Estados
Unidos.
— "Marca Estados Unidos"? Qual é, senhor?
Mitch lutou pelo seu espaço, mas sabia que o tempo
estava passando. Logo Grace seria tirada dele, junto
com sua chance de ajudá-la. Quaisquer sentimentos
que tivesse por ela, ou achava que pudesse ter,
precisavam ser deixados de lado. Tudo o que
importava agora era a verdade. PRECISO FAZER COM QUE
ELA CONFIE EM MIM.
GRACE ANALISOU os traços de Mitch com atenção.
ELE PARECE SINCERO. MAS O MEU HISTÓRICO COMO JULGADORA
DE CARÁTER NÃO É NEM UM POUCO EXEMPLAR.
- Então, você está dizendo que quer me ajudar?
- Isso. Eu quero ajudá-la. Sou a única pessoa que pode
ajudá-la, Grace. Mas não vou poder fazer isso se não
falar comigo.
Grace o fitou, cética.
- Eu li o arquivo de Buccola — disse Mitch. —
Acredito que Lenny foi assassinado. Acredito que
armaram para vocês dois. Mas preciso que me ajude a
provar isso.
- Se você acredita que Lenny foi assassinado, por que
ainda não reabriu a investigação sobre a morte dele?
- Eu tentei. Mas me bloquearam. Meus superiores
estavam mais interessados em capturar você do que
em descobrir a verdade sobre o Quorum ou o que
pode ter acontecido naquele barco.
— Mas você é diferente. É nisso que você quer que eu
acredite, certo? Que você é um guerreiro solitário em
busca da verdade.
— Olhe, eu não culpo você por não confiar em mim.
Mas não tenho tempo para convencê-la. Em poucas
horas, vão tirar você daqui. Talvez nunca mais
tenhamos outra oportunidade de conversar. Esta é a
nossa última chance, a SUA última chance. Grace, me
conte o que você sabe.
— O que eu sei? — Grace riu com amargura. — Eu não
sei de mais nada. Tudo que eu achava que sabia se
provou mentira. Eu achava que era rica, mas não
tenho nada. Achava que os tribunais iam proteger os
inocentes, mas me mandaram para a cadeia. Achava
que meus amigos e minha família me amavam, mas
não passam de um bando de urubus. Achava que
Lenny tinha morrido em um acidente. Achava que
ele fosse um marido fiel. Achava... Achava que ele
me amava.
Lágrimas escorreram pelo rosto dela. Sem pensar,
Mitch deu a volta na mesa de interrogatório e
abraçou-a. Ela era tão pequena, tão vulnerável. Sentiu
uma necessidade enorme de protegê-la, resgatá-la.
— Tenho certeza de que Lenny amava você —
sussurrou ele, fazendo carinho no cabelo bem curto e
bem louro dela. — Pessoas têm casos. São fracas.
Cometem erros.
Ele contou a ela como esteve perto de pegá-la no
apartamento de Jasmine Delevigne.
— Foi por isso que você tentou se matar? Por causa de
Lenny e Connie?
— Não! — disse Grace, furiosa. — E eu não tentei me
matar. Eu... — Ela desmoronou. Queria contar a ele
sobre o aborto, sobre o estupro, sobre tudo, mas não
encontrava as palavras.
Mitch disse:
— Ele terminou com Connie, sabia? Antes de morrer. Sua
irmã estava chantageando Lenny, ameaçando contar para
você sobre o caso deles. Ele já tinha transferido para ela 15
milhões de dólares para uma conta no exterior, mas Connie
queria ainda mais.
— Queria? Como você sabe?
— Ela mesma me disse. E com muito orgulho, se quer
saber. O que eu quero dizer é: Lenny estava desesperado
para não magoar você, Grace. Para não perder você. Estava
arrependido do que tinha acontecido. Tenho certeza disso.
Grace fechou os olhos e se entregou ao conforto que os
braços de Mitch lhe ofereciam. Fazia tanto tempo que não
tinha um contato íntimo com outro ser humano. Tanto
tempo desde a última vez que sentira gentileza, carinho,
afeto. É SÓ O QUE ISTO É. Lembrou-se ela. AFETO. UMA PAUSA
NA BATALHA. Em outra vida, em outro mundo, as coisas
poderiam ter sido diferentes Mas como eram...
Bateram na porta.
- Desculpe, chefe. — O oficial estava hesitante. Gostava de
Mitch e odiava ter de trazer notícias ruins. — Dubray disse
que você só tem mais cinco minutos. Temos ordens diretas
de Washington. A detenta vai ser transferida para outro
estado.
Quando ele saiu, Mitch apertou a mão de Grace. Havia uma
conexão entre eles. Podia ver que ela também sentia.
— Fale comigo.
Grace contou a ele tudo o que sabia. Quando ela terminou,
Mitch disse:
- Você sabe quem sobrou, não é? Se Andrew Preston, Jack
Wainer e sua irmã Connie são inocentes?
Grace suspirou.
- John Merrivale. Mas não foi ele.
- Você parece ter muita certeza.
— Eu desconfiei de John desde o começo. Sei que ele
armou para mim no julgamento e, quem sabe, até
ficou com o dinheiro. Mas ele não pode ter matado
Lenny.
— Por que não?
— Ele estava em Boston no dia em que Lenny saiu de
barco. Davey verificou o álibi dele meses atrás.
— Eu também. — Mitch ficou pensativo. Lembrou-se
do dia em que almoçara com John Merrivale, e na
forma como, em um passe de mágica, a gagueira dele
desaparecera quando falara do dia em que Lenny
Brookstein desaparecera. — Ainda assim. Tem alguma
coisa errada com aquele cara.
Grace fitou a porta. Mitch pensou: ELA NÃO LIGA MAIS.
ELA DESISTIU. Quando ela falou, não havia nem medo
nem curiosidade na sua voz:
— Você sabe para onde vão me levar?
— Não. Mas vou descobrir. — Mais uma vez, Mitch
sentiu a necessidade de protegê-la. O que essa mulher
tinha que despertava o cavaleiro de armadura que
existia dentro dele? — Farei o máximo possível para
ajudá-la, Grace. Consiga um advogado decente,
comece um recurso.
— Não quero nada disso.
— Mas você precisa...
Ela o encarou.
— Se quer me ajudar, descubra quem matou meu
marido. Acho que você nunca vai conseguir limpar o
nome dele da fraude do Quorum. Mas gostaria que as
pessoas soubessem que Lenny não era um covarde.
Que não se matou.
— Vou tentar. Mas mesmo que eu consiga, Grace,
Lenny está morto. Você está viva. Tem a sua vida
toda pela frente. Você PRECISA arranjar um novo
advogado. Precisa entrar com um recurso.
O oficial voltou, junto com outros policiais armados e
um homem austero de terno e gravata. CIA? FBI?
— Hora de ir embora.
Grace se levantou e, em um impulso, deu um beijo no
rosto de Mitch.
— Detetive, me esqueça.
Mitch observou os homens levarem-na. Depois que
ela se foi, ele continuou na sala de interrogatório por
um longo tempo.
ESQUECER VOCÊ.
COMO SE EU CONSEGUISSE.
Capítulo 29
MARIA PRESTON JOGOU seu longo cabelo
castanho para trás e admirou sua imagem no espelho
retrovisor. Sua pele era de uma mulher dez anos mais
jovem, e ela sabia disso. Naquela larde, sua pele cor
de creme estava corada e brilhante, resultado das três
horas que acabara de passar na cama com seu amante.
Como era prazeroso estar com um homem que
realmente a apreciava! Maria já fora para a cama com
muitos homens, vários deles mais habilidosos na arte
do amor do que seu atual amante, e a maioria deles
mais atraente fisicamente. Mas uma mulher não vivia
apenas de abdómens definidos. Chega um ponto em
que ela precisa de mais. PODER. O amante de Maria
Preston era um homem poderoso, um homem
influente. Diferente de Andrew.
Pobre Andy. Ele não era um marido ruim. Nos
últimos dois a nos, ele finalmente começara a ganhar
a quantidade de dinheiro que poderia dar a Maria a
vida que ela merecia. Durante lodos esses anos,
achara que queria riqueza. Mas agora que finalmente
tinha, isso a entediava. ELE a entediava, sexual e inte-
lectualmente, e em todos os outros aspectos. Agora
ela percebia que, independentemente do dinheiro que
Andrew ganhasse, ele sempre seria um contador. E
enquanto ficasse com ele, ela seria esposa de um contador.
MARIA CARMINE! ESPOSA DE UM CONTADOR! A simples idéia
era absurda, uma afronta à natureza. Só se espantava em ter
demorado tanto tempo para perceber. Um espírito livre
como Maria não podia ficar preso a um casamento banal,
como os meros mortais. Era como tentar congelar um
vulcão ou causar uma enchente no deserto.
Retocando seu batom Dior vermelho, Maria refletiu sobre
seu destino. EU NASCI PARA SER A ESPOSA DE UM GRANDE
HOMEM. SUA MUSA.
Agora seria.
Finalmente, tinha um plano: um jeito de seu amante deixar a
esposa, para ficar livre de todas as pressões que pesavam
sobre seus ombros e fugir com ela. Maria, com seu brilhan-
tismo, resolvera todos os problemas deles. Largaria Andrew
e recomeçaria do zero. Seu amante ficara extasiado ao ouvir
o plano na semana anterior. Ele ainda estava entusiasmado
com a idéia quando se encontraram naquele dia, fez amor
com ela com uma paixão rara até para ele.
Maria sorriu para sua imagem no espelho retrovisor e
gargalhou.
— Você não é apenas um rostinho bonito!
Ela estava voltando de Sag Habor para a cidade. Era
complicado chegar lá, duas horas em um dia bom, três na
hora do rush, mas o amante de Maria não podia arriscar ser
visto com ela em Manhattan e, além disso, o American
Hotel, na Main Street, era tão singular e charmoso com sua
varanda branca e seu toldo listrado, que valia a viagem.
Virando-se para a Scuttle Hole Road, Maria viu a confeitaria
Nancy's logo à frente, uma de suas favoritas, com a vitrine
cheia de bolos tentadores de todas as cores e sabores. Todo
esse sexo a deixara com uma fome e tanto. POR QUE NÃO?
Ela parou e desligou o carro, cantarolando feliz para si
mesma enquanto abria a porta do motorista.
Nancy Robertson estava na cozinha nos fundos
quando escutou a explosão. Com o coração disparado,
correu para a loja. Graças a Deus ninguém estava LÁ! A
loja estava destruída. Todas as janelas quebradas,
cacos de vidro misturados com creme grudados nas
paredes. Do lado fora, na rua, tudo o que restou do
Bentley de Maria Preston foi metal queimado e
retorcido.
MITCH CONNORS estava em um parque com a filha.
Era o primeiro sábado que não trabalhava em meses.
Helen relutara em DEIXÁ-lo ficar com Celeste:
— Você não pode simplesmente entrar e sair da vida
dela quando bem entende, Mitch. Você faz idéia do
quanto ela ficou decepcionada porque você não
assistiu à peça da escola? Você nem ao menos ligou
para se explicar.
A culpa fez Mitch contra-atacar:
— Explicar o quê? Estou trabalhando, Helen. Sou eu
que pago pelo teto sobre as cabeças de vocês. Além
disso, não estou pedindo permissão para vê-la. É o
meu final de semana.
Agora, ao observar Celeste esticando as perninhas
finas enquanto ele a empurrava no balanço, ele se
arrependeu de ter perdido a cabeça. Não amava mais
Helen. Mas não havia como negar que ela era uma
mãe maravilhosa. Ele, por outro lado, era um péssimo
pai. Gostava de pensar que aproveitava bem o tempo
com a filha, mas sabia que era uma enganação. Mitch
amava Celeste, mas mal a conhecia. Mesmo agora,
depois de semanas sem vê-la, não conseguia se
desligar do trabalho. Seus pensamentos voltavam para
Grace Brookstein: onde ela estava presa e como ele
cumpriria a promessa que fizera a ela? Ninguém
queria saber de suas teorias de que a morte de Lenny
Brookstein tinha sido assassinato. Dois dias antes,
Dubray deixara tudo bem claro para ele.
— Esqueça isso, Mitch. Você é um bom detetive, mas
se envolveu demais nesse caso. Além disso, tenho um
novo caso para você. Homicídio de adolescente,
drogado, nenhuma pista. Bem a sua área.
— Pode dar para outra pessoa? Preciso de mais tempo
para investigar melhor essas coisas, no máximo
algumas semanas.
— Não, eu não posso DAR PARA UMA OUTRA PESSOA. Você
não pode escolher os seus casos, Mitch. Você está no
caso do homicídio de Brady desde já. E se eu pegar
você desperdiçando mais um minuto do tempo do
departamento no caso Brookstein, acredite em mim,
vou suspendê-lo tão rápido que você nem vai
entender o que aconteceu. Não vou falar de novo.
Esqueça.
ESQUEÇA. ME ESQUEÇA.
Talvez da próxima vez alguém o mandasse parar de
exalar gás carbônico ou de dormir com os olhos
fechados. O telefone tocou: era Carl, um colega de
trabalho.
— Você está perto de alguma televisão, cara?
— Não. Por quê?
— Um carro explodiu em Long Island. Parece trabalho
da máfia. A vítima é esposa de um daqueles caras do
Quorum de quem você ficava falando. Preston.
Mitch parou de empurrar o balanço.
— Maria Preston?
— Papai, mais alto!
— Ela está morta?
— Mortinha da silva. Parece que não sobrou nada
dela.
— Paiiiiiiiiii!
— Você tem que ver isso, cara, está em todos os
canais.
Mitch desligou o celular e começou a correr para seu
carro. Precisava encontrar uma televisão.
Uma mulher veio atrás dele:
— Senhor? Com licença. Senhor!
Mitch se virou.
A mulher apontou para Celeste, abandonada no
balanço parado. Mitch se esquecera completamente
dela.
JOHN MERRIVALE estava atrasado. Detestava chegar
atrasado. Entrando apressado em seu escritório, ele se
sentou e começou a abrir gavetas, procurando uns
papéis enquanto o computador ligava.
— Você está bem, John? — Harry Bain colocou a
cabeça na porta.
— B-bem, obrigado. Desculpe o atraso. A im-imprensa
fica nos importunando atrás de um depoimento sobre
Maria Preston.
— Coitada. Que coisa horrível. Esperamos carros-
bomba em Beirute ou Gaza, mas não em Sag Harbor.
Ela era amiga sua, não era?
John parecia irritado.
— Não, de forma alguma. O m-m-marido dela era um
colega de trabalho. Mas a mídia escuta a palavra
QUORUM e já começa a ligar para mim. Como eu
gostaria que eles me deixassem em paz.
Harry Bain franziu a testa. Parecia uma reação
estranhamente fria, imparcial, a uma tragédia tão
terrível. Mas nunca conseguira entender John
Merrivale. Deixou passar.
— Está tudo certo para Mustique?
— Claro.
A força-tarefa tinha descoberto que um dos fundos de
família de Lenny tinha feito vários pagamentos para
um financista chamado Jacob Rees. O FBI estava
interessado em saber o que tinha acontecido com o
dinheiro, mas até agora os administradores dos negócios do
Sr. Rees em Nova York não tinham cooperado muito. John
Merrivale estava planejando uma visita surpresa à casa do
homem em Mustique. A mansão de Jake Rees na orla ficava
a menos de 2 quilômetros da agora confiscada mansão de
Lenny, e os dois uma vez passaram as férias juntos.
— Acho que se você precisar passar anos atrás de rastros de
dinheiro, existem lugares bem piores, não é?
John forçou um sorriso.
— Acho que sim...
— Quanto tempo você acha que vai ficar afastado?
— Um dia, mais ou menos, espero. Pode demorar um pouco
mais se Jake não resolver c-cooperar imediatamente.
— Bem, se precisar de ajuda, sabe onde me encontrar. —
Harry Bain voltou para seu escritório. John Merrivale
respirou aliviado.
Você ESTÁ NA RETA FINAL AGORA. O PIOR JÁ PASSOU.
Finalmente, as coisas estavam se resolvendo. Grace estava de
volta à cadeia. Havia um boato correndo pelo escritório de
que o FBI estava ficando cansado de gastar dinheiro para
encontrar o dinheiro desaparecido e que a força-tarefa de
Harry Bain logo seria dispensada. John fora tomado pelo
pânico na semana anterior quando a possibilidade de
exposição surgira de um lado totalmente inesperado. Mas
agora isso também já estava resolvido.
Em poucos dias, ele estaria em um avião.
FINALMENTE.
O CASO DO ASSASSINATO de Maria Prestou foi dado a
um antigo rival de Mitch do próprio distrito, um
homem de família acima do peso, de uns 50 anos,
chamado Donald Falke. Com sua coroa de cabelo
branco, sua barriga redonda e sua barba cheia e
grisalha, o apelido do detetive Falke na delegacia era
Papai Noel. Não que os casos dele pudessem ser
definidos como brincadeira. Depois de uma vida
inteira na polícia de Nova York, a especialidade de
Falke eram assassinatos cometidos pela máfia. Ele
disse para Mitch:
— A mídia está falando em terrorismo. É ridículo. Se
isso for um ataque terrorista, eu sou Dolly Parton.
Isso não faz o estilo al-Qaeda. É estilo Al Capone.
Está na cara que é coisa da máfia.
— O que faz com que tenha tanta certeza?
Don Falke estreitou os olhos.
— Experiência. Por que você está tão interessado?
Esse caso não é seu, Connors.
— Mas e se não foi a máfia? E se Maria Preston sabia
de alguma coisa? Alguma coisa do Quorum, talvez.
Alguma coisa importante o suficiente para quererem
vê-la morta.
— Já investigamos isso — disse Don, descartando a
idéia. Isso não teve nada a ver com o Quorum, está
bem? Definitivamente. NINGUÉM matou essa mulher;
isso foi um sofisticado atentado à bomba, não com
faca ou arma. É o clássico MODUS OPERANDI Cosa
Nostra.
— Você sabe quem inventou o carro-bomba, Don?
Falke revirou os olhos.
- Não tenho tempo para aula de história, Connors.
Tenho um assassinato para resolver. Agora me dê
licença...
- Foi um cara chamado Buda. Mario Buda. Era um
anarquista italiano na década de 1920.
— O que eu disse? Italiano.
— Era um dia quente de setembro...
— Caramba, Mitch.
—... esse cara, Buda, parou o cavalo dele e a charrete
na esquina da Wall Street com a Broad, em frente ao
escritório de J. P. Morgan. Ele saiu e se misturou às
pessoas que estavam andando na rua. Meio-dia, todos
os bancários estão saindo para o almoço, certo? Os
sinos de Trinity Church tocavam.
— Muito poético.
— Então, BUM, o cavalo e a charrete explodiram. Foi
um caos, corpos espalhados por todos os lados,
escombros, estilhaços. Bem em Wall Street. 1920.
Duzentas pessoas ficaram feridas. Quarenta
morreram. MENOS o velho J.P., devo acrescentar. Ele
era o alvo, mas estava na Escócia na época.
Don Falke já tinha escutado demais.
— Aonde você está querendo chegar com isso,
Mitch?
— O carro-bomba foi inventado por um imigrante
solitário e ignorante que não gostava dos banqueiros
ricos de Wall Street.
— E daí?
— E daí que isso foi quase cem anos atrás, mas o
princípio é o mesmo. Por que tem que ser a máfia?
Qualquer idiota ressentido pode ter colado um
explosivo naquele carro. Algum maluco pode ter
associado Maria ao Quorum ou a Lenny Brookstein.
Don Falke riu.
— Dubray está certo. Você ESTÁ obcecado. Isso não
tem nada a ver com Lenny Brookstein, está bem?
Acho que você está precisando descansar.
— Quero interrogar Andrew Preston.
Donald Falke finalmente perdeu a paciência:
— Só sobre o meu cadáver. Agora, me escute,
Connors. Fique longe do meu caso. Estou falando
sério.
— Por quê, Don? Está preocupado que eu descubra
alguma coisa inconveniente?
— Se eu ficar sabendo que chegou a menos de 15
quilômetros de Andrew Preston, vou falar com
Dubray e ele vai te demitir. Esqueça.
ESQUEÇA. Mitch estava começando a se sentir como
um labrador desobediente pegando o osso de outro
cachorro. Saiu do escritório de Donald Falke e foi
direto para seu carro.
Fazia um mês desde a última visita de Mitch ao
apartamento dos Preston. Lembrava-se do
apartamento como um imóvel caro, um bloco de
cinco quartos em um prédio da moda. Mas o que mais
lhe chamara a atenção fora o fato de como o apar-
tamento chamara pouca atenção. Tudo na casa de
Andrew e Maria era insosso, desde a rua sem graça
até a decoração creme e marrom, devidamente de
bom gosto. Mitch não conseguia nem imaginar ter
tanto dinheiro para gastar e desperdiçar com algo tão
seguro. Maria Preston era uma mulher irritante.
Mitch detestava mulheres dramáticas. Mas, pelo
menos, ela tinha cor. Tinha vida. Ela devia se sentir
dentro de um caixão naquele apartamento. Como se
tivesse sido recortada de um catálogo da B&B Itália e
colada em um sofá creme da Pottery Barn e deixada
ali pela eternidade para apodrecer.
Ao entrar na rua dos Preston, Mitch diminuiu a
velocidade. Policiais uniformizados estavam cercando
a rua. Mitch parou ao mesmo tempo que duas
ambulâncias e vários carros.
— Qual é o circo? O que está acontecendo? — Ele
mostrou seu distintivo.
— É o marido de Maria Preston, senhor.
— O que tem ele?
— Parece que se enforcou, senhor. Cerca de uma
hora atrás. Estão tirando o corpo agora.
Capítulo 30
Lá em cima, paramédicos se inclinavam sobre o corpo
de Andrew Preston, massageando o coração. Na
mesma hora, Milch percebeu que seria inútil. Só
estavam seguindo os procedimentos.
— A perícia já chegou?
Um dos médicos balançou a cabeça.
— Você é o primeiro. O detetive Falke está à
caminho.
— Ele deixou algum bilhete?
— Deixou sim. Ali.
O médico apontou para a sala de estar. A janela estava
aberta. Em cima da bonita mesinha de carvalho
escuro, entre duas belas poltronas de camurça bege,
um pedaço de papel oscilava sob a brisa, preso por um
pesado cinzeiro de cristal. Sem nem se incomodar em
colocar luvas, Mitch levantou o cinzeiro e pegou o
bilhete. Com uma caligrafia cursiva e perfeita,
Andrew Preston escrevera sete palavras.
A CULPA FOI MINHA. MARIA, ME DESCULPE.
— Que merda você está fazendo?
Mitch deu um pulo, deixando o bilhete cair. A voz do
tenente detetive Dubray ecoou pelas paredes como a
de um gigante.
— Você perdeu o juízo?
Mitch abriu a boca para se explicar, depois fechou de
novo. O que poderia dizer? Sabia que não podia estar
ali. E muito menos violar a cena do crime de outro
detetive. Dubray estava vermelho de raiva.
— Isso é violação de evidências! Você sabe como isso
é sério? Eu poderia expulsá-lo da polícia. Eu deveria
expulsá-lo da polícia.
— Desculpe. Eu precisava falar com Andrew Preston.
— Chegou um pouco tarde.
— É, estou vendo. Olhe, senhor, eu teria esperado
Falke, mas eu sabia que ele não me deixaria entrar.
Provavelmente nem me mostraria o bilhete.
— Claro que não! E por que ele deveria? Este caso NÃO
É SEU, Mitch.
— Mas, senhor, ele nem está fazendo as perguntas
óbvias. Como o que Maria Preston estava fazendo em
Sag Harbor. E quem sabia que ela estaria lá?
— Don me ligou meia hora atrás. Disse que você
estava se intrometendo, falando sobre o maldito
Lenny Brookstein. Ele acha que você perdeu...
— Ah, senhor. Ele sempre teve uma cisma comigo.
— Eu também acho que você perdeu o juízo. Sinto
muito, Mitch. Mas você foi longe demais desta vez.
Está suspenso até segunda ordem.
— Senhor!
— Considere-se de licença por tempo indeterminado
até uma segunda ordem minha. E não fique tão
surpreso. Você tem sorte de não ser despedido. Se eu
não soubesse o quanto Helen e Celeste precisam do
seu salário, não pensaria duas vezes. Agora, saia daqui
antes que eu mude de idéia.
A CAMINHO DE CASA, Mitch passou pelo bar
onde se encontrara com Davey Buccola pela primeira
vez. Entrou e pediu um uísque.
— Continue trazendo — disse para o barman.
— Dia ruim?
Mitch deu de ombros. ANO RUIM. VIDA RUIM. Parte dele
desejava nunca ter conhecido Davey Buccola. Se não
fosse pela investigação de Davey sobre a morte de
Lenny Brookstein, nada disso teria acontecido. Mitch
teria prendido Grace e pronto. Seguido em frente para
o caso seguinte, como todo mundo queria que ele
fizesse. Talvez até tivesse sido promovido a capitão.
Em vez disso, ali estava ele, suspenso do trabalho,
tudo por causa do arquivo de Buccola e da promessa
que fizera a Grace. GRACE. Mitch se perguntou de
novo onde ela estava. Ninguém lhe dizia nada.
Imaginava Grace sendo interrogada, trancada em uma
solitária, sem dormir. Pensou nos olhos tristes dela,
na coragem, no surpreendente senso de humor,
mesmo nas piores situações, e torceu para sua alma
ainda não ter sido despedaçada.
Entre a neblina do uísque, lembrou-se das palavras de
Grace.
DETETIVE, ME ESQUEÇA.
Era tarde demais para isso. Mitch percebeu que nos
últimos dois meses, mal tinha pensado em Helen.
Grace tomara seu lugar no subconsciente, em seus
sonhos. Daquela vez, estava decepcionando Grace,
falhando com ela. Da mesma forma que falhara com
Helen e Celeste. Da mesma forma que falhara com
seu pai. DECEPCIONEI TODAS AS PESSOAS QUE AMEI. FALHEI
COM TODOS ELES.
Foda-se a suspensão. Não se importava em
desobedecer as ordens. Não ia desistir.
No dia seguinte, Mitch pegaria um avião para a ilha de
Nantucket.
A verdade não podia esperar.
Capítulo 31
Mitch não entendia.
Você tem todo o dinheiro do mundo. Pode ir para o lugar
que quiser... Miami Beach, Barbados, Havaí, Paris. Por que
diabos comprar uma casa neste lixo?
Estava claro que Lenny Brookstein não era uma pessoa com
muito bom-senso. Tinha uma esposa linda que o adorava,
mas preferia transar com uma amante feia que o detestava.
Seus ditos amigos eram tão confiáveis quanto um bando de
vendedores de carro. Mas essa superava todas. Na opinião de
Mitch, Nantucket não tinha nada de bom. Com suas casas
cinza revestidas de madeira e suas praias desertas e chuvosas,
era o tipo de lugar que deixaria qualquer um deprimido.
— O que as pessoas jazem aqui? — perguntou ele ao
atendente da farmácia Congdon, na Main Street, uma das
poucas lojas que ficavam com as portas abertas fora da
temporada.
— Algumas pessoas pintam. Escrevem.
Escrevem o quê? Bilhetes suicidas? Poemas líricos de
Leonard Cohen?
— Outras pescam. É bem tranquilo aqui em março.
Nem precisava dizer. A pousada onde Mitch estava era
silenciosa como um túmulo. O único som da noite era o
tique-taque do relógio do saguão. Duas semanas disso e
Mitch ficaria como o personagem de Jack Nicholson em O
iluminado.
Mas não levaria duas semanas. Depois de 24 horas, estava
espalhado o boato de que havia um estranho na cidade
fazendo perguntas sobre Lenny Brookstein. Instintiva e
coletivamente, os moradores da ilha se calaram. Felicia
Torrez, cozinheira de Grace e Lenny na casa, agora
trabalhava no Company of the Cauldron, o único restaurante
elegante que servia os moradores locais fora dos meses de
verão. Mitch foi até lá encontrá-la.
— Estou tentando entender melhor os eventos do dia que
antecederam à tempestade, no verão de 2009. A senhora
estava morando na casa dos Brookstein na época, não
estava?
Silêncio.
— Havia quanto tempo trabalhava para eles? Mais silêncio.
— Olhe, senhora, esta não é uma investigação oficial, está
bem? Não precisa ficar nervosa. A senhora notou alguma
tensão entre os hóspedes da casa naquele final de semana?
Primeiro, ele achou que ela não soubesse falar bem inglês.
Depois, imaginou se ela não seria surda ou muda, ou ambos.
O que quer que fosse, Felicia era tão tagarela quanto um
molusco depois de engolir cola. Mitch tentou a empregada, a
faxineira, o jardineiro. Era sempre a mesma história.
— Não me lembro.
— Não vi nada.
— Eu fazia meu trabalho e ia para casa.
No dia seguinte, ele iria ao cais para falar com os pescadores.
Alguns deles deviam estar na água naquele dia. Mas não
tinha mais tanta esperança. É como se todos eles fizessem
parte de um clube do silêncio. Mas não fazia sentido. Lenny
Brookstein já estava morto. Por que eles queriam protegê-lo?
Hanna Coffin chamou o marido.
— Tristram! Venha ver isso.
— Um minuto.
Os Coffin trabalhavam no hotel Wauwinet, uma pousada
cinco estrelas em uma das partes mais tranquilas e menos
populosas da ilha. Como todos os hotéis grandes, eles
ficavam fechados nos meses de primavera, mas mantinham
um quadro de pessoal mínimo para trabalhar na manutenção
e em reparos. Hannah e o marido eram zeladores, su-
pervisionavam o pessoal que trabalhava na baixa temporada.
Era um emprego com muito tempo livre, o qual Tristram
Coffin preenchia consertando sua moto Ducati e Hannah,
vendo televisão.
— Tristram!
— Estou ocupado, querida. — Tristram Coffin suspirou.
Compre os malditos brincos ou o superdescascador de
batatas, ou o CD de Neil Diamond, ou o que quer que
estejam vendendo! Você não precisa da minha opinião.
— É importante. Venha aqui.
Com relutância, ele largou o alicate e entrou na sala do
modesto apartamento no térreo. Como sempre, a televisão
estava ligada.
— Você se lembra desse cara?
Hannah apontou para a tela. Um homem estava sendo
entrevistado sobre a morte de Maria Preston. A história
estava fervendo. Agora parecia que o marido tinha feito isso,
contratado alguém da máfia para matar sua esposa porque
desconfiava que ela estava tendo um caso. Hannah Coffin
estava particularmente interessada no assassinato de Maria
Preston porque ela já ficara hospedada no Wauwinet uma
vez.
Tristram analisou o rosto do homem.
— Ele parece familiar.
— Ele é familiar — disse Hannah, triunfante. — Onde
aquele policial está hospedado? Aquele que está fazendo
perguntas sobre Lenny Brookstein?
— Union Street. Por quê?
— Vou ligar para ele, por isso.
Tristram pareceu não aprovar.
— Ah, querida. Você não quer se envolver.
— Ah, eu quero sim. — Levantando seus 90 quilos do sofá,
Hannah foi para o telefone. — Já sei onde eu vi aquele cara.
E quando.
—Tem certeza?
Mitch teve vontade de se beliscar. Se não estivesse com me-
do de dar um jeito nas costas, teria pego Hannah Coffm nos
braços e lhe dado um beijo.
— Certeza absoluta. Eles fizeram o check-in juntos. Foi no
dia da tempestade. Ele e Maria Preston.
— E eles ficaram...
— A tarde toda, como eu disse. Se quiser, posso escrever
para você. Dar uma declaração. Ele apareceu na televisão
agindo como se mal a conhecesse. Mas ele a conhecia muito
bem. Intimamente, se é que me entende.
Mitch entendia. Deveria estar no cais dali a meia hora, mas
aquela descoberta fez com que mudasse seus planos. Foi para
o aeroporto.
O aeroporto de Nantucket era um pouco maior do que um
galpão, uma estrutura única em forma de L, com cobertura
inclinada de telhas, metade da área designada para
"Embarque" e a outra para "Desembarque". Mono e
bimotores Cessna pousavam, passageiros saíam e ajudavam o
piloto a descarregar as malas na própria pista de decolagem.
No saguão de embarques, a "segurança" consistia de um
velho de barba grisalha chamado Joe que olhava as bolsas
dos moradores e deixava-os passar com um sorriso e um
"vejo você no Improv na sexta à noite. Igreja Batista, não se
atrase".
Mitch se dirigiu para o balcão da Cape Air.
— Gostaria de ver os registros de passageiros, por favor.
Estou interessado em todos os vôos que chegaram e saíram
no dia 12 de junho do ano passado.
A moça no balcão revirou os olhos.
— E você é...?
— Polícia.
— Darlene? — chamou ela por cima dos ombros. — Temos
mais um aqui. Ele quer os registros do dia 12 de junho. Pode
mostrar a ele?
Uma senhora com saia de tweed saiu do escritório. O cabelo
branco estava preso em um coque muito arrumado e
pequenos óculos de leitura pendiam de seu nariz; parecia a
vovó da Chapeuzinho Vermelho.
Mitch pareceu confuso.
— Mais um? Mais alguém esteve aqui pedindo para ver as
listas de passageiros daquele dia?
— Já estiveram aqui sim. Darlene Winter. — Ela estendeu a
mão pequena e enrugada e apertou a mão cabeluda e grande
de Mitch. — Vocês policiais são como ônibus. Nunca estão
lá quando precisamos, e então, de repente, todos aparecem
de uma só vez. Venha comigo.
Mitch seguiu Darlene para dentro de um escritório que era
tão organizado e limpo quanto ela. Havia um computador no
canto, mas ela o levou para uma mesa do outro lado da sala.
Um grande livro de couro marrom estava aberto. Parecia
uma Bíblia antiga ou um enorme livro de visitas de algum
castelo escocês antigo.
— Todos os registros estão no computador também, claro
— disse Darlene para Mitch. — A lei manda. Mas gostamos
de fazer as coisas aqui à moda antiga. Mantemos um diário
de bordo escrito a mão também. Acho que já sei o que está
procurando.
Ela apontou para um nome familiar, escrito com uma linda
caligrafia com tinta preta.
— Ele pegou o vôo de 6h10 para Boston, juntamente com
outros cinco passageiros. Aterrissaram às 6h58. O que quer
que ele fosse fazer naquele dia, mudou de idéia, porque às
7h25 — ela virou a página — ele embarcou junto com
outros oito passageiros de volta para a ilha. Aqui está o
registro de chegada dele: 12 de junho, 8h05. Vôo 27 de
Logan. John H. Merrivale.
Mitch passou o dedo pelo papel.
Então Hannah Coffin não estava fantasiando. John Merrivale
realmente pode ter estado no Wauwinet naquele dia, junto
com Maria Preston.
Segundo Hannah, os dois chegaram ao hotel no início da
tarde. Umas cinco horas depois de John ter voltado para a
ilha, depois de forjar um álibi. Tempo mais do que suficiente
para ir atrás de Lenny Brookstein e assassiná-lo em seu
barco.
— A senhora disse que mais alguém pediu para ver isso.
Outro policial?
— Isso mesmo. Acho que ele disse que era do FBI, mas
parecia mais um militar. Muito rígido, diria até rude. O
cabelo dele era bem curto, como de militares, sabe? Curto
demais.
— A senhora não se lembra do nome dele?
Darlene franziu o cenho.
— William — acabou dizendo. — William alguma coisa.
Veio direto para a mesma página: 12 de junho, John
Merrivale. Esse Sr. Merrivale está com algum tipo de
problema?
Ainda não, pensou Mitch. Depois pensou: Quem é William?
O agente olhou para o sedã respingado de lama e seu único
ocupante. Esperava um veículo blindado ou mesmo um
comboio. Não um homem de meia-idade em um carro sujo
de família. Esse cara parece ter vindo buscar a filha depois
de uma festa do pijama.
O acampamento nos arredores de Dillwyn, na zona rural da
Virgínia, era uma dependência ultrassecreta OGA, que
significa "Other Government Agency", que costuma
significar CIA, embora o acampamento de Dillwyn fosse um
"lar" temporário para vários tipos de prisioneiros militares
considerados inconvenientes ou perigosos demais para
voltarem para uma prisão comum. Alguns eram suspeitos de
terrorismo. Outros, de espionagem. Alguns eram
classificados como "presos políticos confidenciais". Mas
nenhum dos outros presidiários de Dillwyn era mais
"confidencial" do que o que aquele homem fora ver. O
prisioneiro seria transferido para uma prisão do FBI em
Fairfax. Em um sedã, aparentemente.
— Papéis, por favor.
O homem com barba grisalha entregou suas credenciais.
Houve alguns momentos de tensão enquanto o guarda os
examinava. Mas estava tudo em ordem, como ele sabia que
estaria.
— Tudo bem, pode passar. Estão esperando por você.
Grace estava no meio de uma cela de 2 metros quadrados,
abrindo as pernas e estendendo os braços para o lado, se
concentrando na respiração, enquanto se colocava na
posição do guerreiro 2.
Estava em Dillwyn havia quase duas semanas, trancada 22
horas por dia em uma caixa sem janelas. Sem ninguém com
quem conversar, nenhum tipo de interação humana, a ioga
era sua salvação. Passava horas fazendo uma série de poses,
energizando seu corpo e focando na mente e respirando,
afastando o desespero.
Estou viva. Estou forte. Não vou ficar aqui para sempre.
Mas será que ficaria? Horas, dias e noites já tinham se tor-
nado uma coisa só, uma extensão contínua do nada. As luzes
da cela de Grace ficavam acesas o tempo todo. As refeições
chegavam em bandejas a cada seis horas, mas nada distinguia
o café da manhã do almoço ou o almoço do jantar.
Eles estão tentando acabar comigo, me enlouquecer para
que possam me trancar em uma instituição mental e jogar a
chave fora.
Não estava funcionando. Ainda. Entre as sessões de ioga,
Grace deitava em sua cama, fechava os olhos e tentava
invocar a imagem do rosto de Lenny. Ele era a razão que a
mantinha viva, afinal, a razão que fazia com que continuasse
lutando. Em Bedford Hills e, depois, quando estava fugindo,
costumava achar fácil lembrar-se do rosto bondoso e
carinhoso dele sempre que desejava. Grace conversava com
Lenny da mesma forma que outros rezavam para Deus. A
presença dele era um grande conforto para ela. Mas ali,
naquele lugar monótono e horrível, ficou angustiada ao
perceber que a imagem dele estava desaparecendo. De
repente, não conseguia mais se lembrar exatamente do som
de sua voz ou do olhar dele quando faziam amor. Ele estava
se esvaindo. Grace não conseguia afastar a sensação de que,
uma vez que Lenny desaparecesse completamente, sua
sanidade desapareceria junto.
O único rosto que conseguia evocar, ironicamente, era o de
Mitch Connors. Algumas noites antes, pela primeira vez em
meses, tivera um sonho erótico, um no qual Mitch era o
protagonista. Acordou sentindo-se constrangida, culpada
até, mas se convenceu de que não tinha culpa. Você não
pode controlar o que sente quando está inconsciente. Além
disso, o sonho pelo menos prova que estou viva. Ainda sou
uma mulher, um ser humano.
A porta da cela se abriu. Grace levou um susto. Não estava
na hora do seu exercício diário. O guarda disse rudemente:
— Venha comigo. Você vai ser transferida.
Essas eram as primeiras palavras que alguém lhe dirigia em
uma semana. Grace precisou de alguns segundos para
desenterrar a própria voz.
— Para onde?
O guarda não respondeu. Em vez disso, algemou-a. Grace o
seguiu por um labirinto de corredores, sem falar nada,
tentando conter sua euforia.
É isso. Vou sair daqui. Sabia que eles não poderiam me
manter aqui para sempre.
Perguntou-se se Mitch Connors tinha algum dedo nisso e
estava curiosa para saber para onde iriam levá-la. Onde quer
que fosse, não podia ser pior do que aquele lugar. O guarda
digitou uma senha de sete dígitos para abrir uma pesada por-
ta de metal. Grace o seguiu para o pátio.
— Olá de novo, Grace. — Gavin Williams sorriu. — Temos
uma longa viagem pela frente. Podemos ir?
As estradas rurais eram ruins e esburacadas. Cada pulo ou
solavanco tinha o mesmo efeito de uma lâmina nos nervos
de
Grace. Williams era louco. Lembrou-se das últimas duas ve-
zes em que se encontraram: uma no necrotério, quando ele
a segurara como um animal, e outra na enfermaria em
Bedford Hills. Na segunda vez, tivera certeza de que ele
pretendia feri-la. O olhar de ódio selvagem... Ela nunca
esqueceria. É claro que estava muito sedada no dia.
— Para onde você está me levando?
Sem tirar os olhos da estrada, Gavin Williams tirou a mão
direita do volante e deu um tapa no rosto de Grace.
— Não fale, a não ser que eu mande.
Muda e chocada, Grace colocou a mão livre no rosto
latejante. Sua mão direita estava algemada à porta do
passageiro. As algemas roçavam dolorosamente em seu
pulso. Permanecia o mais imóvel possível, tentando não
roçar o pulso no metal. Gavin Williams começou a falar,
murmurando para si mesmo como um drogado:
— Achei que as coisas pudessem ser diferentes no FBI. Mas
é claro que não foram. O câncer está em todos os lugares:
ignorância, estupidez. Foi por isso que o Senhor me enviou.
Ele me abençoou com os dons da inteligência e da
sabedoria. Ele me deu coragem para agir.
Grace sentiu sua frequência cardíaca acelerar. Preciso sair
daqui. Desde que haviam deixado Dillwyn, pareciam estar se
embrenhando cada vez mais na floresta. Era uma paisagem
sinistra. Dos dois lados da estrada destruída havia fileiras de
sumagus-da-virgínia fedorentos, interrompidas por algumas
nogueiras quebradas. A escuridão estava aumentando.
— É claro que Bain confiava nele. Todos confiavam. Ele foi
mais inteligente que Bain. Mais inteligente que Brookstein
também. Mas não foi mais inteligente do que eu.
Preciso fazer com que ele continue falando até que eu
descubra o que fazer.
— Quem não foi inteligente suficiente? — Grace se preparou
para mais um tapa, mas agora Williams queria falar.
— Merrivale, claro — disse ele, com desdém. — Ele tentou
me humilhar em Genebra. Já estivera lá com Lenny. Fez
com que Bain me tirasse da força-tarefa. Mas o meu trabalho
ainda não estava terminado. Eu descobri o segredo dele. —
Gavin sorriu. Loucura brilhou em seus olhos.
— Qual era o segredo dele?
Gavin Williams deu uma gargalhada.
— Ele matou seu marido, minha querida. Você não sabia?
Grace ficou sentada em silêncio. Williams continuou
falando:
— John pegou um vôo para Boston no dia da tempestade.
Mas, claro, a polícia foi preguiçosa demais para verificar os
registros do aeroporto. Precisei fazer isso eu mesmo. Assim
que John Merrivale aterrissou, pegou o vôo seguinte de
volta. Foi de helicóptero até o barco de Lenny. Isso foi cedo,
sabe, antes de o tempo ficar ruim. Eles tomaram uns dois
drinques, seu marido foi drogado, claro, e então o querido
John cumpriu sua missão. Lenny foi decapitado, aliás. Mas
não de forma limpa. John Merrivale deve tê-lo atacado
insistentemente. Seu amigo investigador não lhe disse isso?
— Ele estava zombando dela, deleitando-se em seu terror
como um gato brincando com um rato antes de matá-lo.
Grace ficou tonta.
— Foi John quem ficou com o dinheiro, desviando todos os
fundos do Quorum. Depois que ele despachou o seu senhor,
ele tirou você do caminho, o que foi a parte mais fácil.
Depois ficou amiguinho daquele idiota do Harry Bain. —
Gavin imitou a voz grave de barítono de Harry Bain: —
"John é a chave da nossa investigação. Você tem que parar
de se indispor com ele, Gavin!" Idiota! Todo esse tempo a
verdade estava bem debaixo do nariz dele. Fedendo, como o
cadáver do seu marido. Mas Harry não conseguiu enxergar.
Grace tentou processar o que Gavin Williams acabara de lhe
dizer. Era claro que o homem estava doido. Mesmo assim,
ela sabia que ele estava falando a verdade sobre John. Ele
tinha verificado os registros dos vôos. Fora John quem
roubara o dinheiro, John quem matara Lenny, John
orquestrara seu julgamento e sabotara a investigação. Seus
instintos estavam certos o tempo todo. Por que não confiara
neles?
A boa notícia era que, se Williams sabia da verdade sobre
John, ele sabia que ela era inocente. Que ela e Lenny não
tinham roubado nada. Que eles eram vítimas. Ele não está
me sequestrando. Está me resgatando!
Ela abriu a boca para agradecer, mas não teve nem chance.
Gavin Williams lhe deu um soco tão forte que ela desmaiou.
ELA estava molhada. Encharcada. Gavin Williams despejava
uma garrafa de água muito gelada na sua cabeça. O ar-
condicionado estava no máximo. Grace tremia de frio.
Williams empurrou o banco dela o mais para trás possível,
depois subiu nela. Grace gritou e lutou, esperando o
inevitável, mas Williams não tentou estuprá-la. Em vez
disso, ele segurou as pernas dela para que não pudesse se
mexer, fechou os olhos e começou a recitar o que parecia
alguma forma de liturgia bizarra.
— Que o mal ranja seus dentes e desapareça... que o desejo
do mal pereça... que mesmo na escuridão, a luz ilumine e o
justo... Senhor, me afaste do mal...
— Eu sou inocente — suplicou Grace. — Você sabe que eu
sou.
— Você é culpada — rosnou Gavin, seu rosto grotesca-
mente retorcido por ódio e loucura. — Todos vocês, você,
seu marido nojento, John Merrivale. Vocês são farinha do
mesmo saco, seus parasitas ricos, banqueiros, se acham
melhores do que o resto de nós. Melhores que eu. Vocês são
uns vermes. Vermes depravados e doentes. Mas não se
desespere. Fui enviado para purificar você. — Estendendo a
mão para o banco do motorista, ele pegou uma segunda
garrafa de água, esvaziando-a sobre a cabeça de Grace. — Eu
a batizo com a água da penitência. — O líquido estava
congelando. Grace fechou os olhos, tentando respirar.
Quando os abriu, viu Gavin abrindo uma garrafa de gasolina.
Lentamente, ele começou a despejar uma trilha do líquido
viscoso sobre as roupas e o cabelo de Grace. — Mas um
segundo batismo está prestes a acontecer. O batismo de
fogo. É o Senhor quem separa o joio do trigo. Ele vai limpar
o solo impuro, reunindo o trigo em seu reino. — Gavin
começou a falar mais alto, com mais entusiasmo. Saiu de
cima de Grace, abrindo a porta do passageiro e saindo para
um lugar seguro. O pulso de Grace ainda estava algemado à
porta. Quando ela se abriu, Grace gritou de dor, sentindo seu
ombro deslocar. Williams ainda estava recitando: — Ele vai
queimar o joio com fogo insaciável. — Gavin colocou a mão
no bolso e tirou uma caixa de fósforo.
Grace não pensou. Por puro instinto, se jogou para a frente,
dando um chute na virilha de Williams. Ele urrou de dor,
soltando a caixa de fósforos.
— Sua vadia! — Ele se jogou nela como um búfalo
enlouquecido, lançando-se para dentro do carro, as mãos no
rosto dela, cravando as unhas, sulcos de sangue na pele.
Grace enterrou os dentes no braço dele. Gavin berrou e
soltou-a por um momento, mas a ira dele era mais forte do
que a dor. Preciso destruí-la. Preciso livrar o país do mal,
acabar com a calamidade da cobiça antes que ela devore a
todos nós.
— Arrependa-se! — As mãos dele seguravam o rosto de
Grace como um tomilho. Ele estava tentando pressionar
seus polegares nos olhos dela. Grace sentiu seu crânio se
encher de sangue. A dor em seu ombro era tão forte que ela
estava surpresa por não ter desmaiado. — Arrependa-se,
pecadora filha de Eva!
— Arrependa-se você, seu babaca!
Com toda a força que ainda lhe restava, Grace bateu com o
braço livre no pescoço de Gavin, como um golpe de caratê.
Ela escutou um estalo, como um galho se quebrando. As
mãos de Williams ficaram fracas, um robô de brinquedo
cujas pilhas acabaram. Quando ele deslizou para o chão do
carro, sua cabeça se afastou do torso em um ângulo absurdo,
como uma flor com um caule quebrado. Os olhos dele ainda
estavam abertos, congelados para a eternidade em uma
expressão não de ódio, mas de intensa surpresa.
Com o braço livre, Grace segurou a lapela do paletó dele e
puxou o corpo dele na sua direção. Foi um trabalho
demorado, até que ela conseguiu alcançar o bolso do paletó.
Ali dentro, brilhando como pepitas de ouro em um riacho,
estavam as chaves de suas algemas.
As algemas se abriram facilmente, mas mexer o braço foi
doloroso. Grace gritava ao cambalear para fora do carro,
lágrimas de dor escorrendo de seu rosto, se misturando com
sangue dos arranhões que Gavin lhe fizera. Ela já vira garotas
deslocarem os ombros na sua época de ginasta e sabia o que
tinha de fazer. Sentada na lama, encostada na lateral do
carro, ela cerrou os dentes.
Um. Dois... três.
A dor foi indescritível. Mas o alívio foi instantâneo e doce.
Grace se deliciou com ele. Depois riu, a gargalhada profunda
e verdadeira de um sobrevivente. Quando sua força voltou,
ela foi até o corpo de Williams, pegou a carteira dele e tudo
o que tinha de valor. Então, se levantou, acendeu um
fósforo e jogou-o no sedã. Assistiu às chamas envolverem o
corpo de Gavin Williams e ficou ali parada, se aquecendo no
calor delas. Foi uma sensação boa.
Estava viva.
Estava livre.
Mas sua missão não tinha acabado.
Capítulo 32
Caroline Merrivale sentou-se à sua penteadeira, prendeu o
cabelo, espalhou o hidratante Creme de La Mer por todo o
rosto. Aos 40 anos, ainda tinha a pele de uma mulher com a
metade de sua idade, o que a deixava feliz. Nunca fora uma
mulher bonita, no sentido clássico da palavra, não como as
Grace Brookstein do mundo. Mas tinha estilo e presença,
vestia-se bem e sabia como se cuidar.
Perguntou-se o que faria no resto do dia. John saíra cedo
para o aeroporto. Harry Bain tinha mandado seu marido para
Mustique em busca de uma peça do gigantesco quebra-
cabeça do Quorum. Mas, antes disso, Caroline o forçara a
fazer sexo com ela, fotografando-o em uma série de poses
humilhantes. Dominar John era sempre um prazer, mas hoje
ela gostara mais do que de costume. Nas últimas semanas,
Caroline notara uma mudança em seu marido patético e
covarde — uma confiança crescente que estava deixando-a
desconfortável. Ele praticamente saía saltitando de casa,
ansioso para ir trabalhar. Até contava para ela coisas do seu
dia — como se ela estivesse interessada! — "Harry Bain disse
isso, disse aquilo" ou "o FBI está encantado com o meu
trabalho e blá-blá-blá".
Caroline esperara deliberadamente até aquela manhã para
lhe ensinar uma lição. Ele estava animado com essa viagem
para Mustique a semana toda, e ela queria acabar com a ale-
gria dele com o máximo de impacto possível. Quando
chegasse em casa ela falaria diretamente com ele: tinha sido
escravo do FBI por tempo suficiente. Estava na hora de
voltar ao trabalho, começar um fundo dele e ganhar mais
dinheiro. A propriedade de Billy Joel em East Hampton
estava à venda depois do terceiro divórcio dele. Caroline
desejava aquela casa havia anos.
— Sra. Caroline? — Cecilia, a empregada dos Merrivale,
bateu nervosamente na porta do quarto dos patrões. — Tem
um cavalheiro lá embaixo querendo falar com a senhora.
Caroline se virou e lançou um olhar amedrontador para a
empregada. Nua da cintura para cima, com uma camada
grossa de creme no rosto, parecia uma guerreira Maori sem
as tatuagens.
— Pareço alguém que está pronta para receber visitas?
Cecilia tentou desviar o olhar dos mamilos nus, grandes,
escuros e nojentos, como dois champignons podres.
— Ele queria falar com o Sr. John. É da polícia. Ele disse
que vai esperar.
Enquanto isso, no andar de baixo, Mitch olhava a suntuosa
sala de estar dos Merrivale. O objeto mais surpreendente
provavelmente era um relógio de ouro Luis XV sobre a
lareira. A sala era vulgar e horrorosa, mas devia ter custado
uma fortuna. Tudo ali exalava dinheiro: as cortinas de seda
drapeada, os móveis franceses antigos, os tapetes persas, os
vasos chineses. Isso foi o que sobrou depois que a fraude do
Quorum acabou com eles? Quanto eles tinham antes?
Não importava mais. Armado com o testemunho de Hannah
Coffin e uma cópia dos registros dos voos, além das evidên-
cias que Buccola descobrira de violência no corpo de Lenny,
Mitch tinha o suficiente para prender John Merrivale. É
claro que a confissão dele selaria o acordo. De um caso
circunstancial para uma condenação garantida. Mitch
imaginou a cara de Dubray quando lhe contasse. As
desculpas humilhantes. Sua restituição triunfante e a
promoção a capitão. Melhor ainda seria o sorriso de Grace.
Como ele, Mitch Connors, a deixaria feliz, e como ela ficaria
agradecida. "Ah, Mitch, você foi incrível. Como posso
compensá-lo?" Ele entraria com um recurso e...
— É melhor que seja importante.
Em um quimono cinza, com o cabelo preto puxado para trás
e o rosto sem maquiagem, Caroline Merrivale parecia ainda
mais severa do que de costume. Fez com que ele se
lembrasse de uma carcereira. Uma mistura de Anna
Wintour com Cruela de Vil.
— Não gosto de visitas inesperadas às 8h30 da manhã.
— Preciso falar com seu marido. É urgente.
— Ele não está aqui. É só isso?
Cristo, como ela é insolente. Mitch endureceu:
— Não, não é tudo. Preciso saber onde ele está. Como já
disse, é urgente.
Caroline Merrivale bocejou.
— Não faço idéia de onde ele esteja. Gretchen, a secretária
de John, fica com a agenda dele. Acho que ela chega às 10.
Ou seria às 11? Agora, me dê licença.
— Mais um passo e está presa. — Mitch se levantou e se-
gurou Caroline pelo pulso. Ela se virou, rindo.
— Presa? Por quê? Me solte, seu idiota.
— Só quando me disser onde está o seu marido.
Caroline tentou se soltar, mas Mitch segurou-a com mais
força. Ao fazer isso, ele notou o queixo dela se levantar de
forma desafiadora e as pupilas dilatarem. Pensou: Isso a está
deixando excitada. Ela gosta de jogos de poder. Embora
fisicamente ela o empurrasse, ele puxou-a para mais perto,
falando em um sussurro:
— Não me faça machucá-la. Vou lhe dar uma última chan-
ce. Onde está John?
Caroline passou os olhos de forma lasciva pelo corpo
masculino e forte de Mitch. Ali estava um homem que podia
respeitar. Um homem para quem valia a pena ceder.
— No Aeroporto de Newark — disse ela, rouca. — Está
indo para Mustique.
MITCH DIRIGIU feito um louco. Saiu do carro, na entrada
da área de embarque, deixando o motor ligado. Um oficial
gritou para ele:
— Ei! Ei! Não pode deixar o carro aí, cara.
Ignorando-o, Mitch continuou correndo e não parou até
chegar ao balcão da Delta.
— Vôo 64 para Santa Lúcia — disse ele, ofegante.
— Sinto muito, senhor. O embarque está encerrado.
— Pois reinicie. — E colocou o distintivo em cima do
balcão.
— Vou chamar a supervisora.
Uma mulher mais velha, com óculos grossos em uma ar-
mação preta, saiu de um escritório nos fundos.
— Como posso ajudá-lo?
— Tem um passageiro no vôo 64, John Merrivale. Preciso
falar com ele. Preciso dele fora daquele avião.
— Sinto muito, senhor. O vôo 64 já saiu. Dois minutos atrás.
Mitch resmungou e colocou as mãos na cabeça.
— Mas vamos dar uma olhada. Qual era mesmo o nome do
passageiro?
— Merrivale, John.
A mulher digitou alguma coisa no computador.
— Se for necessário, podemos alertar a tripulação e o
pessoal do aeroporto. Eles podem segurá-lo lá até que... —
Ela parou.
— O quê? — perguntou Mitch.
— Tem certeza de que ele estava nesse vôo? Não tem
nenhum John Merrivale na lista de passageiros. — Ela virou
o monitor para que ele pudesse ver.
Ele teve um mau pressentimento.
- Como assim ele está morto?
O diretor do FBI perdeu a paciência.
— Como assim "como assim"? Ele está morto! Qual é a parte
de "morto" que você não entendeu, Harry?
Harry Bain tirou o telefone do ouvido e esperou algum
apresentador de TV pular de trás da mesa e dizer que era
uma pegadinha. Só podia ser.
— Mas, senhor, Gavin Williams está de licença há mais de
um mês.
— Bem, não foi isso que ele disse para o pessoal em Dillwyn.
Ele disse que tinha sido pessoalmente autorizado a transferir
Grace Brookstein para Fairfax. Eles me mandaram os
documentos por fax, Harry. Estou olhando para a sua
assinatura neste momento.
— Isso é loucura! Eu nunca autorizei nada. Williams estava
obcecado por Grace Brookstein. Tinha alguma coisa pessoal,
estranha, contra ela. Foi por isso que dei essa licença para
ele.
— Caramba! — berrou o diretor. — Você faz idéia da merda
que isso vai dar?
Harry Bain fazia idéia. O pessoal da prisão de OGA soltara
Grace Brookstein na noite anterior sob a custódia de Gavin
Williams. Os dois saíram de Dillwyn por volta das 17 horas.
Às 5, o que restava do carro queimado de Gavin Will tinha
sido descoberto em uma parte rural remota da Virgínia com
os restos mortais de Gavin Williams dentro. Ou como o
chefe de Harry Bain dissera, "o churrasquinho de Williams".
Grace Brookstein tinha desaparecido.
— E as buscas? Alguma coisa que a minha equipe possa fazer
para ajudar?
— Já estamos vasculhando tudo. Colocamos helicópteros,
cães rastreadores, tudo. Eu podia dizer que ela não vai longe,
mas depois da última vez...
— A mídia ainda não sabe, certo?
— Ninguém sabe. Vamos manter assim. Ninguém sabia que
ela estava em Dillwyn, graças a Deus.
Harry Bain pensou: Exceto Gavin Williams. Quanto tempo
levaria para um repórter persistente descobrir a verdade?
Tempo suficiente para encontrarem Grace? Lembrou-se da
famosa fala de Lady Bracknell em A importância de ser
prudente. Perder Grace Brookstein podia ser considerado
azar. Mas perdê-la duas vezes era descuido.
Desligou se perguntando como conseguiria salvar sua car-
reira. Estava procurando uma aspirina em sua mesa quando
um homem louro desgrenhado entrou na sala. Harry pegou
a arma.
— Calma. — Mitch levantou as mãos. — Estamos do mes-
mo lado, lembra?
Harry Bain não se lembrava. A polícia de Nova York
dificultara muito as coisas para seu pessoal quando Grace
fugira. Mesmo depois que a capturaram, Mitch Connors
fizera tudo para impedir o acesso deles a ela.
— O que você quer, Connors?
Mitch foi direto ao assunto:
— John Merrivale não pegou o vôo para Santa Lúcia esta
manhã.
— Como você sabe?
— Fui ao aeroporto. Chequei a lista de passageiros. Tenho
feito muito isso ultimamente.
Harry Bain deu de ombros.
— Ele perdeu o vôo.
— Não. Você não entendeu. Ele nunca teve a intenção de
pegar aquele vôo. Ele não vai para Mustique.
— Por que você acha isso?
— Porque eu acho que John Merrivale deixou o país para
não ser processado por homicídio.
— Homicídio? — A conversa estava começando a ficar
surreal. — De quem?
— Leonard Brookstein.
Harry Bain riu, depois parou. Connor estava falando sério.
— Acredito que John Merrivale foi o responsável pelo rou-
bo dos bilhões do Fundo de Hedge Quorum. Acredito que
ele sempre soube onde o dinheiro estava. Acho que ele está
indo pegá-lo neste momento.
Harry já escutara rumores de que o rapaz da polícia de Nova
York tinha enlouquecido. Havia noventa por cento de
chances de o garoto estar doido.
O que deixava dez por cento de chance de ele ter descober-
to alguma coisa.
Harry Bain apontou para a cadeira à sua frente.
— Sente-se. Você tem 15 minutos para me convencer.
Mitch nem respirou. Começando com as informações de
Davey Buccola, ele contou a Harry Bain tudo o que sabia
sobre o que tinha acontecido no dia em que o barco de
Lenny Brookstein desaparecera. Falou sobre as evidências de
violência do cadáver; sobre o caso de Lenny com a cunhada;
a relação conturbada com os supostos amigos e os vários
motivos que eles tinham para querer vê-lo morto. Falou
sobre as dívidas de Andrew Preston e o amor obsessivo pela
esposa adúltera, sobre o romance de Jack Warner com uma
garota de programa e sobre as tentativas de chantagem de
Connie Gray. Finalmente, falou sobre John Merrivale: a
desconfiança de Grace de que ele sabotara seu julgamento de
propósito; as mentiras que John contara à polícia; o álibi
forjado; o romance com Maria Preston, a quem ele dizia mal
conhecer.
Quinze minutos se passaram, vinte, trinta. Harry Bain
escutou e não disse nada. Quando Mitch terminou, ele fez
uma única pergunta:
— Quanto Grace Brookstein sabe de tudo isso?
— Até a parte de John Merrivale, ela sabe de tudo — disse
Mitch. — Eu só descobri nas últimas 48 horas.
Contou para Harry Bain como Grace passara a perna nele e
em seus homens na Times Square, como ela havia
humilhado Buccola depois que ele a traíra, falou sobre o
estupro e o aborto e a determinação dela em limpar o nome
do marido a qualquer custo.
— Vou lhe falar uma coisa sobre Grace Brookstein. Ela é
inteligente. Corajosa. E muito habilidosa.
— Parece que você a admira — disse Bain.
— E admiro.
— Gosta dela?
— Sim, eu gosto dela. — Mitch sorriu. Gosto mais do que
deveria. — Da verdadeira Grace, não do monstro que
pintaram na televisão. Mas, neste momento, fico feliz que
esteja trancada em algum lugar, está mais segura assim.
Harry Bain pareceu desconfortável. Mitch Connors arriscara
muito ao ir até uma agência rival, uma agência que
teoricamente apoiara John Merrivale, e colocara todas as
suas cartas na mesa. Por outro lado, ele era rebelde. Já
quebrara todas as regras para conseguir as informações que
tinha. O próprio departamento o suspendera. Posso
realmente me dar ao luxo de confiar nele?
Bain tomou uma decisão.
— Tem uma coisa que você precisa saber.
Mitch escutou boquiaberto. Era possível? Grace tinha
fugido? Tinha matado um homem? A primeira coisa que
pensou foi na segurança dela. Se esses helicópteros a
encontrassem, iam atirar primeiro para perguntar depois.
Tudo no caso de Grace Brookstein tinha sido mentira, então
por que não sua morte? Mitch até podia imaginar as
manchetes. Grace escorregou no chuveiro. Contraiu um
vírus raro. Quem saberia? Quem se importaria?
— O cara morto, o que forjou a sua assinatura nos papéis de
autorização. Qual era mesmo o nome dele?
— Gavin Williams.
Um sino tocou na cabeça de Mitch. Nantucket. A mulher do
aeroporto. William, ele disse que o nome dele era... Tinha o
cabelo bem curto, igual de militar... foi para a mesma página.
12 de junho. John Merrivale...
— Como era o cabelo dele?
Bain ficou confuso.
— Gavin Williams. Como era o cabelo dele? Comprido,
escuro, claro, careca?
— Ele estava grisalho. Sempre usava o cabelo bem curto.
Qual a importância disso?
Mitch ficou de pé.
— Ele sabia. Ele sabia sobre John Merrivale! Era ele que
estava em Nantucket um dia antes de mim fazendo
perguntas. Gavin Williams sabia que John tinha voltado para
a ilha, que mentira sobre o álibi. Ele deve ter desconfiado do
envolvimento de John na morte de Lenny.
Bain finalmente entendeu o significado disso.
— Você acha que ele contou para Grace?
— Não faço idéia — disse Mitch. — É você quem o conhe-
ce. Mas se ele contou, e os seus helicópteros não a encontra-
rem, pelo menos sabemos para onde ela vai.
— Sabemos?
— Claro. Encontre John Merrivale e encontrará Grace
Brookstein. Ela está atrás dele para matá-lo.
Capítulo 33
John Merrivale não gostava de viajar de avião. Fechando a
cortina, tentou prestar atenção no luxuoso interior do jato, e
não no fato de que estava a 30 mil pés sobre o oceano Pací-
fico em uma caixa de metal com asas.
Fitando os confortáveis sofás de couro com almofadas de
cashmere e a mesa de nogueira com um par de taças de
cristal em cima e um pote de prata de caviar, ele pensou:
Que desperdício isso tudo para mim. Talvez aquela fosse a
maior ironia de todas. John Merrivale não ligava para
dinheiro. Nunca tinha ligado. John Merrivale não estava
interessado em coisas. A verdade era que as coisas o
entediavam. Ternos feitos sob medida, carros esportivos,
jatinhos particulares, iates, mansões. Essas eram ambições
das mulheres, os símbolos de riqueza e status. Caroline
gostava de imóveis. Maria já era mais deslumbrada, uma
prostituta barata, que dava pulos de alegria ao ver qualquer
coisa que brilhasse.
Pobre Maria. Matá-la não fazia parte de seus planos. Mas ela
o colocara em uma situação impossível. Ao ameaçar contar
para Andrew sobre o romance deles, ela arriscara tudo.
Já fazia dois anos que o delicado equilíbrio de dependência
mútua entre John e Andrew Preston protegia os dois. Se
Lenny era o cérebro e o sistema nervoso do Quorum,
Andrew e John eram as mãos direita e esquerda do fundo.
John trazia o dinheiro. Andrew pagava os investidores.
Manter a Comissão de Valores Mobiliários e depois o FBI no
escuro tinha sido uma simples questão de um acobertar o
outro.
É claro que a escala dos respectivos crimes variava
enormemente. Sou como um hipopótamo ao lado de uma
formiga. Os roubos de Andrew — 600 mil aqui, 1 milhão ali
— eram pequenos. Quanto à engenharia reversa das
demonstrações financeiras — fazer com que as contas do
fundo parecessem mais lucrativas do que realmente eram —,
bem, todo fundo de hedge de Wall Street fazia isso.
Comparado com o que John tinha feito, os crimes de
Andrew eram insignificantemente engraçados.
A verdade era que Andrew poderia ter procurado Harry
Bain a qualquer momento e exposto os crimes de ambos em
troca de um acordo judicial. John Merrivale entendia muito
bem disso. Mas Andrew não o fez. Estava tão desesperado
em comprar quinquilharias para Maria a fim de mantê-la em
sua cama que o medo de se expor o manteve quieto. O
coitado era até agradecido a John por tê-lo acobertado para
Bain. "Nem sei como lhe agradecer", dizia ele, humilhado, e
John respondia gentilmente: "De-de nada, Andrew. Para
quê abrir velhas feridas?"
Era patético, mesmo. Andrew Preston não fazia idéia das
cartas que tinha na manga. Assim como não sabia do que
acontecia entre sua esposa melodramática e vadia e seu
amigo John Merrivale. A ignorância de Andrew tinha sido a
salvação de John. Até Maria ameaçar tudo.
— Vou contar ao Andrew sobre nós. Finalmente,
poderemos ficar juntos, querido. Se ele fizer um escarcéu,
digo a ele que vou denunciá-lo à polícia. Ele estava
roubando do Quorum havia anos, você sabe.
Foi uma pena. Após viver tanto de humilhação e inferno
com Caroline, Maria tinha salvado a sua vida. Ela havia feito
com que ele se sentisse homem de novo. Mais que isso,
havia feito com que se sentisse desejável. Poderoso. Se ela
tivesse continuado com a boca fechada e as pernas abertas,
ele nunca teria sido obrigado a tomar uma medida tão
drástica. Mas ela não lhe dera escolha. Se Andrew soubesse
que John o traíra, contaria tudo ao FBI. Sem Maria, ele não
teria mais nada a perder.
Garota tola. Será que ela realmente acreditou que eu queria
me casar com ela? Fugir com ela?
Em poucas horas, John Merrivale aterrissaria no paraíso,
reencontraria o amor de sua vida. E não era Maria Preston.
Seus planos não incluíam um final tão apressado. O plano
original era esperar até que o interesse público no Quorum
diminuísse, e então fugir tranquilamente. Mas os eventos o
surpreenderam. Primeiramente veio a fuga de Grace e sua
captura, o que colocou o Quorum de volta às manchetes.
Depois, a situação com Maria saiu do controle. John não
estava preparado para o interesse da mídia no assassinato
dela. Ficava nervoso com a imprensa xeretando à sua volta,
e, quando Andrew se matou, as coisas pioraram. Como era
previsível, a morte de Maria destruiu o pobre Andrew. Ele
ficou tão tomado de tristeza que pareceu se culpar pelo que
acontecera, por não tê-la protegido. Mais cedo ou mais
tarde, alguém — algum calouro no FBI ou um jornalista
intrometido — começaria a juntar dois e dois. Aquele psi-
copata do Gavin Williams já tinha chegado perigosamente
perto de descobrir a verdade. Essa ameaça tinha sido
neutralizada, mas haveria outras. Estava na hora de sair de
cena.
John pegou um pouco de caviar com uma colher de prata,
colocou sobre uma torrada e engoliu.
Nojento.
Só havia um luxo na vida: liberdade. Quando menino, John
era prisioneiro de sua feiura e da ambição dos pais. Já
homem, foi subjugado por sua esposa cruel e sádica. Agora,
pela primeira vez na vida, John Merrivale iria experimentar
a liberdade, com seu amor ao seu lado.
Fechou os olhos, perdido no prazer que sentia por
antecipação.
Capítulo 34
TRÊS SEMANAS DEPOIS
Grace se segurou na grade do barco pesqueiro se pergun-
tando se era fisicamente possível vomitar pela sétima vez.
As ondas da costa de Mombasa, no Quênia, eram enormes e
assustadoras. Ao longe, pareciam a boca de uma cobra
gigante, empinando-se com o maxilar aberto, pronta para
dar o bote. De perto, eram simplesmente muros de água,
cinza, furiosas e destrutivas, sacudindo sem misericórdia a
frágil traineira de madeira. Nas primeiras horas, Grace teve
medo de morrer. Depois, quando o enjôo realmente tomou
conta dela, teve medo de não morrer. Deitada exausta em
sua simples cama de madeira, perguntou-se o que fazia
pessoas entrarem em um barco por prazer.
O oceano acabou se acalmando. No deque, um sol escal-
dante africano brilhava em um céu tão azul e sem nuvens
que parecia saído de um desenho animado. Grace observou
os três jovens quenianos jogarem suas redes no mar. Havia
uma beleza simples na forma com que trabalhavam,
silenciosamente passando a rede pesada entre eles, os
músculos se contraindo com o esforço sob suas peles negras
lustrosas e suadas. Assim que zarparam, Grace os apressou.
Pagara 8 mil xelins por sua passagem, quase mil dólares, uma
fortuna para homens como esses, e esperara uma viagem
rápida. Agora, se não fosse por seus enjôos, teria quase
aproveitado a viagem.
Sentia-se como se estivesse fugindo para sempre. Depois que
deixou Gavin Williams em sua pira funeral automobilística,
conseguira uma carona até Portsmouth, Virgínia. Sabendo
que o dinheiro na carteira de Williams não duraria muito
tempo, assumira o risco de mandar um e-mail codificado
para o amigo de Karen, pedindo mais suprimentos, dinheiro
e uma identidade nova boa o suficiente para enganar o
pessoal do aeroporto local de Norfolk. Durante três dias,
Grace ficou no hotel, rezando para o pacote chegar e
ansiosamente trocando os canais da televisão para ver
notícias de sua fuga ou da morte de Gavin Williams. Nada
foi divulgado. As autoridades deviam estar esperando
conseguir capturá-la antes que ela causasse mais
constrangimentos a eles. No final do terceiro dia, já estava
começando a se desesperar achando que o e-mail tinha sido
interceptado quando o dono do hotel lhe avisou que tinha
chegado um pacote por FedEx.
— Linda Reynolds. É você, certo?
O coração de Grace acelerou. Um dia, quando tudo isso
acabasse, ela pagaria sua dívida com o amigo misterioso de
Karen, um estranho que se arriscava tanto para ajudá-la.
Naquele momento, porém, tinha muito trabalho a fazer. Sua
primeira ligação foi para Mitch Connors.
— Grace! Graças a Deus você está viva! Williams machucou
você? Onde você está?
O som da voz dele fez Grace sorrir.
— Desculpe, não posso dizer. Mas estou bem.
— Escute, Grace, sei tudo sobre John Merrivale.
— É verdade, então? John matou Lenny?
Mitch suspirou.
— Parece que sim. Achamos que ele está por trás da fraude
também. Ele enganou o FBI esse tempo todo. Mas, pelo
amor de Deus, não faça nenhuma besteira, certo? Todo
mundo já sabe... o FBI, a CIA. John vai ter o que merece
assim que conseguirem trazê-lo de volta.
— Trazê-lo de volta? Cadê ele?
No silêncio que se seguiu, Grace escutou Mitch se
penitenciando. Por que eu disse isso?
— Grace, querida, estou do seu lado. Você sabe disso.
Grace ficou vermelha. Lenny costumava chamá-la de
"querida". Não sabia se gostava de ser chamada assim por
Mitch ou se se ressentia.
— Mas você tem que deixar a Justiça agir. Entregue-se. Dei-
xe os federais cuidarem de John Merrivale. Grace... Grace?
Depois que desligou, Grace ficou sentada na cama do hotel
por um longo tempo, pensando.
Então, John está fugindo. Um fugitivo. Como eu.
Todo mundo estava atrás dele, era o que Mitch dissera. Mas
não porque ele matara Lenny. Ninguém dava a mínima para
isso. Mas porque pensavam que ele estava com o dinheiro.
Esse dinheiro estúpido era só o que importava ao FBI. Nem
certo nem errado. Nada de justiça. Os Estados Unidos
tinham se esquecido do significado dessa palavra. Se é que
algum dia souberam.
Grace fechou os olhos. Tentou se colocar no lugar de John
Merrivale.
Para onde eu iria? Com o mundo inteiro atrás de mim? Onde
eu me esconderia?
Alguns minutos depois, ela abriu os olhos. Claro. Pegou o
telefone.
— Quero um táxi, por favor. Para o aeroporto internacional
de Norfolk. Isso mesmo. O mais rápido possível.
De volta ao barco pesqueiro, escutando o som das ondas
quebrando e sentindo o sol queimar seu rosto, Grace sorriu
para si mesma, pensando na revelação que tivera naquele
sombrio quarto de hotel na Virgínia e em como essa
revelação a levara até ali, depois de viajar meio mundo.
Talvez a palavra revelação fosse a palavra errada. Lembrança.
Foi uma lembrança que lhe mostrou para onde John
Merrivale fugiria, uma lembrança que lhe dava certeza do
lugar onde ele estava agora. A lembrança era tão doce que
Grace fechou os olhos e a saboreou de novo...
FOI um mês antes de ela e Lenny se casarem. Estavam na
França, em uma charmosa bastide que Lenny tinha alugado
em uma cidade alta de Ramatuelle, a dez minutos de carro
de Saint-Tropez. Grace suspirou.
— Não quero sair daqui nunca mais. É encantador. Estavam
jantando com Marie La Classe, a corretora de imóveis
francesa de Lenny, e com John e Caroline Merrivale.
— Você não acha tranquilo demais? — perguntou Caroline.
Desde o início da viagem, vinha insistindo para se mudarem
para o Le Byblos, ou, melhor ainda, ir no iate de Lenny até a
Sardenha para que pudessem esnobar os barcos menores.
Qual era a graça de ir até Saint-Tropez e ficar a semana
inteira trancada em uma vila pequena e chata da qual
ninguém nunca tinha ouvido falar?
— A-algumas pessoas gostam de tranquilidade — arriscou-se
John, timidamente. Caroline lançou um olhar letal para o
marido.
— Eu me sinto uma princesa na torre — exclamou Grace,
sorrindo para Lenny, que retribuiu o sorriso. — Como se eu
estivesse presa na mais linda das ilhas e ninguém pudesse me
alcançar.
— Vocês já estiveram em Madagascar?
Todos se viraram para Marie.
— Toda a cultura da França combinada com a beleza natural
da África, dentro de uma única ilha intacta. Eu cresci lá.
— Parece mágico — disse Grace.
— E é. Você ia amar. A vida selvagem, a paisagem, a vista do
forte Dauphin é uma das maravilhas do mundo. Je vous
assure.
— Vou lhes dizer mais uma coisa sobre Madagascar. —
Lenny abriu aquele seu sorriso maroto, de menino,
espetando um pedaço de lagosta perfeitamente cozida com
seu garfo. — É o paraíso dos criminosos. O país não tem
tratado de extradição com os Estados Unidos. Sabia disso,
Marie?
Marie sorriu, educadamente.
— Não, eu não sabia.
Caroline disse:
— Bem, se John roubar um banco algum dia, podemos nos
mudar para lá. Mas, por enquanto, eu estou ávida por um
pouco de civilização. Quem está a fim de um passeio até Les
Caves depois do jantar?
A propriedade ficava em Antananarivo, em uma rua íngre-
me de paralelepípedos que fora construída pedra a pedra
desde Ramatuelle. Com seus muros de pedra de 60
centímetros de espessura e pequenas mas imponentes
torres, parecia mais um pequeno castelo do que uma casa.
Um refúgio, em todos os sentidos da palavra.
Lenny olhou para Grace.
— É esta?
Eles estavam em Madagascar havia menos de dois dias, com
Marie Le Classe como guia turística, e Grace já estava
apaixonada. Os dois estavam.
— É esta.
Lenny pegou o talão de cheques, fez um cheque com dez
por cento a mais do que o preço pedido e o entregou a
Marie. Virou-se para Grace e sorriu.
— Feliz aniversário de um mês, Gracie.
Grace ficou tão feliz que dançou na rua.
Eles deram à casa o nome de "Le Cocon", o casulo.
Planejavam morar ali quando ele parasse de trabalhar.
John Merrivale não estava bem. O médico prescrevera
antidepressivos e um mês de paz total.
— Tome. — Lenny colocou as chaves de Le Cocon na mão
dele. — Fique por quanto tempo precisar. Tem uma
empregada na casa, madame Thomas, que fica lá o tempo
todo. Ela pode lavar e cozinhar para você, e, tirando ela,
você estará sozinho.
John ficou comovido, mas a ideia não era prática.
— N-não posso simplesmente desaparecer em Madagascar. E
o Quorum?
— Ficaremos bem.
— C-Caroline nunca concordaria.
— Deixe Caroline comigo.
Quando voltou para Nova York, seis semanas depois, John
era um novo homem. Mostrou fotografias para Lenny e
Grace. Ele passeando sozinho pelas ruas de paralelepípedo
de Antananarivo, relaxando na quente primavera de
Antsirabe, caminhando pela floresta tropical de
Ranomafana.
É claro que a felicidade dele não durou. Caroline fez questão
de impedir isso. Mas Grace nunca se esqueceria do olhar
maravilhado, como o de uma criança, no rosto de John
quando falava de Madagascar. Ele até procurou Lenny, em
particular, sondando se ele não queria lhe vender Le Cocon.
— Dê um preço.
Lenny sorriu.
— Desculpe, amigo. Qualquer casa, menos aquela. A suíte
de hóspedes sempre será sua, mas ela não está à venda.
Grace chamou o pescador.
— Combien de temps encore?
— Environ deux heures. Trois peut-être. Vous allez bien?
Grace não estava bem. Mas ficaria assim que chegassem lá.
Pegando a mochila, da qual nunca tirava os olhos, passou o
dedo pela arma de Gavin Williams com carinho,
acariciando-a como uma criança faria com um urso de
pelúcia. Perguntou-se quanto tempo demoraria para rastrear
John quando chegassem à ilha. Le Cocon tinha sido vendida
quando o Quorum fora liquidado. O comprador era um
empreendedor holandês da internet chamado Jan Beerens.
Começarei com ele.
Capítulo 35
Harry Bain se virou para Mitch Connors.
— Odeio esta pocilga.
— É, todos odiamos.
Mombasa era uma pocilga. Quente, suja e sem identidade.
Tanto Mitch quanto Harry estavam cobertos de mordidas de
mosquito tão grandes quanto beija-flores, e a combinação da
coceira e do calor tornava dormir impossível. Não era de se
admirar que um estivesse irritado com o outro. Tinham
conseguido rastrear os passos de John Merrivale até o
Quênia, mas depois que ele chegou ao país, seus rastros
sumiram. Daquele jeito, poderiam ficar retidos ali por dias,
talvez até semanas.
Mitch pensou em Helen e Celeste, em Nova York. Era uma
vergonha o tempo há que não via sua filha. Não sentia mais
saudades de Helen, mas Celeste era outra história. Tentou
afastar a menina da cabeça, concentrar toda a sua energia
mental no caso, mas era difícil.
Sc Mitch e Harry Bain não encontrassem John Merrivale
antes de Grace, ela mataria o ex-amigo. Era de se entender,
ela tinha perdido toda a fé no sistema. A ideia de um recurso
lhe parecia ridícula. Pessoalmente, Mitch não podia se
importar menos se John Merrivale levasse uma bala entre os
olhos. Mas se Grace fosse acusada de homicídio, ninguém
poderia ajudá-la, nem ele.
Bateram na porta do quarto do hotel. Mitch olhou para
Harry com uma expressão que dizia: Quem pode ser? Já é
mais de meia-noite. Ambos pegaram suas armas.
— Quem é?
— Sou eu, Jonas. Nós nos conhecemos hoje de manhã no
aeroporto. Por favor, posso entrar?
Mitch riu. Os quenianos podem roubar você, mas dizem
"por favor" e "obrigado" ao fazer isso. Como uma nação, não
se podia acusá-los de falta de educação. Jonas Ndiaye era o
piloto que Mitch e Harry tinham interrogado mais cedo
naquele dia, depois de encontrarem uma pista indicando que
John Merrivale teria alugado um pequeno avião para ir para a
Tanzânia. Mas a viagem foi outra pista que não deu em nada.
Nenhum dos pilotos reconheceu a foto de John.
Mitch abriu a porta.
Jonas Ndiaye tinha 30 anos, mas parecia mais jovem. Tinha
um rosto ainda de moleque, sem nenhuma sombra de barba,
e o cabelo era usado para cima, preso com algum tipo de gel
ou spray. Para Mitch, parecia um Bart Simpson negro.
— Desculpem pela hora.
— Tudo bem — disse Harry Bain. — Não estávamos
dormindo. O que podemos fazer por você, Jonas?
— A pergunta é o que eu posso fazer por vocês. Depois que
foram embora hoje, fiquei pensando na fotografia. Sim, acho
que vocês vão ficar felizes em me dar alguns dólares pelas
coisas que sei, sim, eu acho que sim. — Ele olhou para
Harry e abriu um grande sorriso ansioso. Como se pedir uma
propina assim abertamente fosse a coisa mais normal do
mundo. — Hoje vamos fazer negócios, ah, vamos sim!
Minha memória está muito boa.
Exausto, Harry Bain destrancou a gaveta de sua mesinha de
cabeceira. Pegou um maço de notas de 20 dólares preso com
um elástico. Não se chegava a lugar nenhum no Quênia sem
subornar alguém. Jonas Ndiaye arregalou os olhos. Estendeu
a mão para pegar o dinheiro, mas Bain balançou a cabeça.
— O que você sabe?
— O homem da fotografia viajou no meu avião. Sim, é
verdade! Foi duas semanas atrás.
— Você o levou para a Tanzânia?
— Não. — Jonas estendeu a mão de novo.
Harry Bain pegou cinco notas do maço e entregou-as a ele.
— Para onde?
— O cavalheiro queria ir para Madagascar.
Harry olhou para Mitch. Sem tratado de extradição.
— Eu o levei para o aeroporto de Antananarivo. Ele falava
sobre a vida selvagem. Disse que ia para lá fazer um safári,
tirar muitas fotos e mergulhar. Agora que estou me
lembrando, posso dizer que ele era um senhor muito
agradável. Muito agradável, o cavalheiro da fotografia.
Mitch perguntou:
— Ele disse onde ia se hospedar? Ou por quanto tempo
pretendia ficar na ilha?
Jonas abriu um sorriso ansioso para Harry. Ganhou mais
dinheiro.
— Ele não disse.
— Ei, me devolva essa nota de 100, seu filho da puta.
Jonas pareceu magoado.
— Por favor, senhor, não fique nervoso. O cavalheiro não
me contou seus planos. Mas me pediu dicas de locais para
visitar.
— E?
Outro sorriso. Harry Bain estava perdendo a paciência.
— Não force a barra, garoto.
Mitch olhou diretamente para sua arma na mesinha de
cabeceira. O piloto decidiu não forçar a barra.
— Para mergulhar, só tem um lugar, e esse lugar é Nosy
Tanikely.
— Nosy o quê? O que é isso? Uma praia?
— É uma ilha — explicou Jonas, educadamente. — Um
santuário de vida marítima.
— Uma reserva marinha?
— É para onde os mergulhadores vão. Seu amigo, o
cavalheiro, estava viajando com equipamento de mergulho.
Harry Bain olhou para Mitch e sorriu.
— Obrigado, Jonas. Você ajudou muito.
— Sim, foi um prazer servi-los. Agora, poderia me dar mais
alguns dólares para a passagem e encerrar nosso negócio?
Grace ficou parada na frente de Le Cocon por um longo
tempo. Não imaginou que ficaria emocionada. Depois de
tudo o que tinha acontecido, acreditava que não era mais
capaz disso. Mas ali de pé na ladeira de paralelepípedos,
olhando para os grossos muros de pedra que em uma época
fizeram com que se sentisse tão protegida, lágrimas brotaram
de seus olhos.
Ficou surpresa ao saber que o Sr. Beerens estava na casa.
Acreditava que ele tivesse comprado a casa em um ímpeto,
assim como Lenny, uma casa de férias dentre várias outras
em que ele pensava de vez em quando, mas raramente
visitava. Ela disse que seu nome era Charlotte Le Clerc e
ficou ainda mais surpresa quando Beerens concordou em vê-
la.
— Aceita um drinque, Sra. Le Clerc?
Jan Beerens era um homem de meia-idade, gordo e agra-
dável, com cabelo louro-avermelhado escasso e olhos
castanhos que brilhavam quando sorria.
— Obrigada. Adoraria um copo d'água. — Grace estava se
esforçando para manter a compostura. Por dentro, a casa
não tinha mudado nada. Não tinha se tocado de que Beerens
a comprara com tudo dentro, incluindo os móveis e objetos
de arte dela e de Lenny. Ela até reconheceu os copos de
cristal que mandara trazer especialmente de Paris.
O cabelo de Grace tinha crescido um pouco desde que saíra
de Dillwyn e nas semanas que sucederam sua fuga. Em
Mombasa, cortara na altura do queixo e pintara de castanho.
Olhan-do-se no espelho da biblioteca, ela pensou: A única
coisa que não reconheço na casa é a mim mesma.
— O que a traz a Le Cocon? Ou melhor, a Madagascar? Está
de férias?
— Mais ou menos. Estive aqui uma vez, com um amigo.
Anos atrás.
— Foi hóspede dos Brookstein?
— Meu amigo foi. Na verdade, é um pouco estranho, esse
meu amigo está passando por um momento bem difícil.
Jen Beerens se mostrou solidário.
— Sinto muito.
— Obrigada. Ele sumiu há algumas semanas e ninguém sabe
dele. Sei que ele está aqui em Madagascar, então me per-
guntei se, talvez, por nostalgia ou qualquer outra coisa, ele
não tenha passado por aqui. — Ela pegou uma foto. — O
senhor não o teria visto?
Beerens analisou a fotografia por um longo tempo. As
esperanças de Grace cresceram, mas depois desmoronaram
quando ele lhe devolveu a foto.
— Sinto muito. Acho que eu o conheço de algum lugar. Mas
ele não esteve aqui.
— Tem certeza?
— Infelizmente, tenho. Você é a minha primeira visita em
um ano. Esse foi um dos motivos que me fizeram decidir
vender. Adoro a casa e a ilha, mas é muito isolado. Só estou
aqui agora para assinar os papéis e me despedir. Teve sorte
de me encontrar.
— Ah. — Sem saber por que, Grace ficou com pena de
aquele generoso e atencioso homem deixar Le Cocon. —
Desculpe perguntar, mas quem é o novo proprietário?
— Na verdade, é um mistério. Um advogado de Nova York
me procurou e foi ele quem cuidou de tudo, mas não divul-
gou o nome de seu cliente. Quem quer que seja conhece a
casa muito bem. O advogado fez várias exigências de móveis
em particular, tapetes, esse tipo de coisas. Acho que ele vai
se mudar na segunda-feira.
A respiração de Grace acelerou. Sentiu os pelos de seu braço
ficarem arrepiados. Quem quer que seja conhece a casa mui-
to bem.
Jan Beerens a acompanhou até a porta.
— Posso lhe dizer uma coisa sobre Lenny Brookstein: ele
podia ser um ladrão, mas fez um trabalho e tanto nesta casa.
Vou sentir saudades daqui. Quanto ao seu amigo, uma pena
não ter podido ajudar mais.
Grace apertou a mão dele.
— Na verdade, o senhor ajudou muito. Adeus, Sr. Beerens.
Boa sorte.
Harry Bain e Mitch Connors decidiram se separar.
Madagascar era do tamanho do Texas, e como pista só
tinham o que Jonas Ndiaye falara. Harry disse:
— Vou ficar em Antananarivo. Posso interrogar o pessoal
do aeroporto, motoristas de táxi, corretores de imóveis.
Falarei com os gerentes dos bons hotéis locais. Se ele esteve
aqui, alguém vai se lembrar, principalmente da gagueira.
Mitch pegou um avião pequeno para o norte da ilha. Nosy
Tanikely era um pequenino atol em um extenso arquipélago
a noroeste da costa de Madagascar. Para ter um teto sobre
suas cabeças, mergulhadores e turistas tinham de ir para a
vizinha Nosy Be. Mitch achou curioso o fato de a capital de
Nosy Be se chamar "Hellville". Se existia algum lugar
parecido com o paraíso, com praias de areia branca e águas
turquesa e calmas, era ali. Se alguém quisesse passar o resto
da vida fugindo das autoridades americanas, aquele era o
lugar. John Merrivale não era nem um pouco bobo.
Mitch foi a todos os hotéis cinco estrelas do lugar. Todos os
supermercados, bares e agências de aluguel de carro.
— Viu este homem? Tem certeza? Olhe de novo, estamos
oferecendo uma recompensa substancial.
Em Mombasa, essa técnica surtia algum efeito, mesmo que
não fosse a verdade. Ali, nada. Os habitantes não tinham
visto John Merrivale. Quanto aos mergulhadores, Mitch
ficou com a impressão de que eles se viam como uma co-
munidade e que protegeriam da polícia um dos seus mesmo
se soubessem de alguma coisa. De qualquer forma, depois de
três dias, o bronzeado de Mitch já tinha ido do dourado para
o marrom, mas não estava nem um pouco mais perto de
encontrar John, nem Grace. Harry Bain ligou.
— Alguma coisa?
— Não. E você?
— Pouco. Jonas não estava mentindo. Duas testemunhas no
aeroporto confirmaram terem visto John. Parece que ele
passou duas noites no hotel Sakamanga, depois saiu. Falou
em ir mergulhar. E disse que ia "encontrar um amigo".
— Ficarei aqui até segunda — disse Mitch. Harry Bain não
fez a pergunta óbvia: E depois?
Logo os dois teriam de voltar para Nova York. Era um mi-
lagre que nem a fuga de Grace nem o desaparecimento de
John Merrivale tivessem sido noticiados na mídia. Mas, em
algum momento, teriam de dar alguma declaração. Tinham a
realidade para enfrentar: enquanto Mitch tinha esperanças
de ser reincorporado à polícia de Nova York, Harry Bain
sabia que se voltasse para casa de mãos vazias, seria o fim de
sua carreira.
— Mitch, me mantenha informado. — E desligou.
O coração de Grace parou.
Saindo do mercado, ela o viu do outro lado da rua. O cara do
FBI! O chefe de Gavin Williams, aquele que trabalhava com
John. Voltou para dentro do mercado.
— Vous avez oublié quelque chose, madame?
Ele está procurando por John ou por mim?
— Madame?
— Eu? Ah, non, j'ai toutes mes affaires. Estou bem, obrigada.
Ela olhou pela janela.
O homem tinha ido embora.
Preciso ficar escondida. Só preciso sobreviver ao fim de
semana. Depois de segunda-feira, não me importo mais. Ele
pode me levar de volta para uma penitenciária de segurança
máxima acorrentada.
Harry Bain recebeu uma pista anônima. Deixaram um re-
cado em seu hotel.
O homem por quem está procurando não está mais nesta
província. Ele está em Toliara. Fale com os guardas-florestais
no Parque Nacional Isalo.
Harry tentou falar com Mitch pelo celular, mas não
conseguiu.
Vou para lá amanhã.
Quando Mitch acordou na segunda-feira de manhã achou
que sua cabeça fosse explodir. Não sabia se a culpa era do
uísque ou do fato de alguém, durante a noite, ter implantado
cirurgicamente um sino de igreja dentro de seu crânio e que
agora tocava a 100 decibéis.
Levantou-se, foi tropeçando até o banheiro, vomitou, se
sentiu melhor. Ao abrir um pouco a persiana de madeira do
quarto, encheu o ambiente de luz. Deve ser mais tarde do
que imaginei. Ele piscou, fechou a persiana e voltou para a
cama.
Aquele seria seu último dia no arquipélago. Precisava ter
levantado cedo, procurado embaixo de todas as pedras na es-
perança de encontrar John Merrivale. Mas sabia que seria
inútil.
Voltou a dormir, mas seus sonhos foram perturbadores e
entrecortados.
Sinos de igreja tocavam. Ele estava se casando com Helen.
— Você aceita esta mulher?
— Aceito.
Ele levantava o véu de Helen, mas não era Helen; era Grace
Brookstein:
— Detetive, me esqueça.
Ele estava em uma praia correndo atrás de John Merrivale.
John dobrava em uma esquina e desaparecia. Quando Mitch
chegava na esquina, o lugar se tornava a sala do detetive-
tenente Dubray A voz de Dubray:
— Este caso não é seu, Mitch. Se não fosse por Celeste e
por Helen...
Então, Harry Bain entrava:
— Ele passou duas noites no Sakamanga. Disse que ia
encontrar um amigo.
Mitch acordou sobressaltado.
Ele disse que ia encontrar um amigo.
Seria possível?
Pegou o telefone.
— Harry Bain, por favor. Quarto 16.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
— O Sr. Bain deixou o hotel esta manhã. Volta na terça-
feira para o mesmo quarto. Deseja deixar um recado?
Os sinos ainda estavam tocando na cabeça de Mitch, mas em
outro volume. Não eram mais sinos de igreja. Era um
alarme.
Preciso voltar para a cidade.
Grace já estava acordada quando o despertador tocou.
Quatro da manhã.
Abriu as cortinas do seu quarto de hotel barato e olhou para
a rua deserta. De acordo com o weather.com, o dia
amanheceria em menos de dez minutos. Naquele momento,
ainda estava escuro do lado de fora, os prédios brilhantes na
negritude da noite, como se tivessem sido cobertos de
piche.
Vestiu-se com pressa. A mochila estava leve, mas tinha tudo
de que precisava. Olhou-se no espelho.
Por você, Lenny, meu amor.
Tem sido tudo por você.
Em silêncio, ela saiu do hotel e entrou nas sombras.
Capítulo 36
As ruas estavam desertas. Antananarivo dormia. Em uma
semana, a estação seca começaria e ventos frios vindos das
montanhas tomariam a cidade. Naquela noite, porém, o ar
estava pesado, com a ameaça de trovões. Grace se movia
como um fantasma na cidade vazia, tão silenciosa e letal
quanto um vírus.
No dia anterior ela tinha entrado em pânico. E se ele não
estiver lá? Se não for ele o comprador misterioso? E se não
for John?
Mas agora, enquanto subia a ladeira para Le Cocón e os
primeiros raios do dia atravessavam o céu cheio de nuvens
de abril, suas dúvidas se dissiparam. Ele estava ali. John
Merrivale estava ali. Seu corpo todo sentia a presença dele,
como um xamã pressentindo um espírito do mal.
Grace colocou a mão dentro do casaco. Sentiu a arma. Tinha
chegado a hora.
- Desculpe, senhor. O vôo da manhã para Antananarivo foi
cancelado.
A moça do balcão deu de ombros, como se dissesse: O que
se pode fazer? Mitch se esforçou para não se debruçar por
cima do balcão e estrangulá-la. Com os dentes cerrados, ele
perguntou:
— Quando é o próximo?
Ela olhou na tela do computador.
— Às 9 horas. Mas tudo vai depender do tempo. Se essas
tempestades continuarem, talvez o aeroporto seja fechado.
E você precisa parecer tão feliz com isso?
Por que John Merrivale tinha ido para Madagascar? Mitch e
Harry supunham que era porque a ilha não tinha tratado de
extradição com os Estados Unidos e, assim, ele não estaria ao
alcance dos compridos braços da lei federal. Mas e se essa
não fosse a única razão? Ele dissera ao gerente do hotel que
ia encontrar um "amigo". Talvez John tivesse alguma ligação
pessoal com a ilha. E quem era esse amigo? A primeira coisa
que Mitch pensou é que poderia ser a própria Grace. Será
que ela entrara em contato com ele e o convencera a marcar
um encontro? Talvez, agora que os dois eram criminosos
procurados pela justiça dos Estados Unidos, ela tivesse
convencido John de que estava pronta para esquecer tudo.
Se fosse isso, Mitch tinha certeza de que ela o estava
atraindo para uma armadilha mortal.
Mitch ligou para Caroline Merrivale. Acordou-a.
— John já esteve em Madagascar? Ele conhece alguém na
ilha?
A resposta de Caroline transformou a dúvida de Mitch em
certeza. Sabia onde John estava. Sabia para onde Grace
estava indo. Mas conseguiria chegar lá a tempo de evitar o
inevitável?
— Quero uma passagem para esse vôo, o das 9 horas, por
favor.
Ela olhou para a tela de novo.
— Sinto muito, mas já está lotado. Quer entrar na fila caso
haja alguma desistência?
Respire fundo. Conte até 5.
— Claro.
Depois tentou ligar para Harry de novo.
No chão, perto do saco de dormir de Harry Bain, seu celular
vibrava em silêncio. Eram 5 horas no Parque Nacional Isalo.
Do lado de fora, andarilhos já estavam esquentando suas
canecas de café na mesa do acampamento e verificando as
configurações de suas câmeras. A atração de Isalo eram os
pássaros. Nunca era cedo demais para observá-los.
Diferentemente de seus companheiros de acampamento,
Harry não estava interessado em encontrar uma ave exótica
dando comida para o filhote. Fora até Toliara à procura de
John Merrivale, mas tinha sido outra pista sem fundamento.
Quem quer que tivesse deixado o bilhete para ele estava
querendo brincar ou mandá-lo para o lugar errado. Os
guardas-florestais de Isalo, juntos, tinham o QI de um
besouro. Nenhum deles tinha visto John.
Harry Bain queria ter voltado para Antananarivo na noite
anterior, mas saíra tarde demais. Com relutância, montara
acampamento no parque.
O telefone dele vibrou umas cinco ou seis vezes, como uma
vespa morrendo, depois ficou em silêncio. Graças aos
tampões no ouvido, Harry Bain continuou dormindo, sem
escutar nada.
Grace pegou sua mochila. Dentro havia uma corda, um
alicate, um pedaço de giz, um pedaço de pano preto e um
gravador.
Fazendo um nó corrediço simples em uma extremidade da
corda, ela arremessou-a na parte mais baixa do muro externo
de Le Cocon, mirando em uma haste de metal que ficava
embaixo de uma das janelas do banheiro. Acertar o laço era
mais difícil do que parecia. Grace levou mais de dez minutos
para acertar a haste, durante os quais olhava por cima dos
ombros ansiosa para ver se algum pedestre matinal estava se
aproximando. O dia começara a amanhecer devagar
primeiro, mas agora a luz parecia iluminar toda a rua,
revelando Grace de forma tão agressiva quanto a lanterna de
um policial. Passando giz na mão, ela segurou a corda e
começou a se içar para cima. O muro era tão liso quanto pele
recém-barbeada, além de escorregadio, por causa da
umidade do ar. Mesmo com seus tênis para escalada, era
difícil se manter firme. Cada vez que escorregava, que pisava
em falso, a força que colocava no tríceps aumentava cinco
vezes, até seus braços começarem a tremer. No meio do
caminho, ela pensou, desesperada: Não vou conseguir! Não
consigo me segurar! Podia sentir a corda deslizando pelas
palmas das mãos, o suor tirando o giz. Começou a
escorregar, imperceptivelmente primeiro, depois mais
rápido, direto rua abaixo.
Vozes. Vozes de meninas ou moças. Elas estavam rindo,
cochichando umas com as outras em francês. Grace não
conseguia entender o que diziam, mas isso não importava. A
conversa ficou mais alta. Elas vão aparecer a qualquer
segundo! Vão me ver!
Grace olhou para cima. Tinha mais uns 4 metros até o topo
do muro. Suas mãos ainda estavam escorregando, os pés
procuravam apoio. As vozes estavam ainda mais altas agora.
Agarrando a corda, Grace fez força para subir. Não tinha
mais energia, mas continuava tentando, buscando forças em
sua determinação. O que precisava não era se salvar. Era
destruir John Merrivale.
Do outro lado do muro está o homem que matou Lenny. O
homem que tirou tudo de você. Ele está morando na SUA
casa, escondido no SEU santuário, gastando o SEU dinheiro.
O ódio funcionou como combustível no peito de Grace,
ajudando-a a subir, puxando-a para cima. Suas mãos estavam
sangrando agora, o sangue se misturando ao suor nas palmas
das mãos enquanto a corda dilacerava sua pele, mas Grace
não sentia nada. Conseguia ver o topo agora. Conseguia
tocá-lo. Jogando as pernas para o outro lado do muro, puxou
a corda. As meninas estavam exatamente embaixo dela
agora, eram três. Vestindo uniformes de um supermercado,
estavam indo para o trabalho. Grace ficou esperando que
elas parassem e apontassem. A corda estava a meio metro
delas. Mas elas continuaram andando, rindo e brincando.
Felizes. Grace sentiu uma pontada de inveja misturada com
alívio ao vê-las desaparecendo.
Então, acabou de puxar a corda, virou-se e desceu para o
jardim dos fundos de Le Cocon.
MITCH OLHOU pela janela do avião. Não havia nada para
ver exceto nuvens, grossas, cinza e impenetráveis. Ao seu
lado, uma jovem chorava de medo enquanto a aeronave
sacudia como um búfalo enlouquecido, abrindo caminho
pelo céu turbulento.
Mitch tentou não pensar em Grace, nem em John
Merrivale, nem no que podia já ter acontecido em
Antananarivo. Se ali fosse Nova York, ele pediria reforços
pelo rádio, mandaria que fossem resolver o problema. Mas a
última coisa que queria era um bando de madasgascarenses
doidos para atirar em Le Cocon.
Onde estava Harry Bain quando mais precisava dele?
Grace deu a volta no jardim com as costas grudadas no
muro. Le Cocon era uma casa grande, um labirinto de
corredores e quartos e poucos jardins e varandas escondidos.
Começaria sua busca dentro da casa, mas primeiramente
precisava desarmar o alarme de segurança, as câmeras e a
linha de telefone.
Lenny costumava reclamar dos sistemas arcaicos de Le
Cocon. "Já viu aqueles fios? Parece que foram tirados de um
filme de ficção científica ruim da década de 1970." Mas
nunca mandara trocá-los. Grace estava contando com que
Jan Beerens também não tivesse feito isso.
Ao se aproximar da porta dos fundos da cozinha, ficou
aliviada ao ver que ele realmente não o fizera. Uma câmera
de circuito interno artrítica apontava para a mesma caixa de
fusíveis de sua época. Aproximando-se da câmera por trás,
cobriu-a com o pano preto que trouxera. Então, pegando o
alicate, dirigiu-se para a caixa de fusíveis.
O avião de MITCH atingiu o solo violentamente. A mulher
ao seu lado fez o sinal da cruz e uma oração de
agradecimento.
Mitch não era um homem religioso, mas também já tinha
começado a rezar.
Não me deixe chegar tarde demais.
Harry Bain esfregou os olhos. Por um momento, se
esqueceu de onde se encontrava. Em seu sono, estava no
meio de um sonho maravilhoso. Estava em Nova York, no
Sweetiepie, um de seus restaurantes preferidos, na
Greenwich Avenue, salivando em cima de um sundae de
chocolate, quando algum idiota começou a sacudi-lo pelos
ombros.
— Levantando acampamento. Se quer uma carona para o
aeroporto, é melhor levantar agora.
Madagascar. Isalo. Maldito John Merrivale.
De mau humor, pegou seu telefone celular. Uma luz
vermelha piscava, repreendendo-o. Abriu o aparelho e
apertou o botão de mensagem de voz.
— Você tem... sete novas mensagens.
Sete?
Sentou-se e escutou.
Grace se apoiou na porta da cozinha, que abriu
imediatamente.
John deve se sentir seguro aqui. Assim como nós nos
sentíamos.
Só havia dois lugares no mundo onde ela e Lenny deixavam
as portas destrancadas: Madagascar e Nantucket. John tinha
arruinado a lembrança de ambos, como se ele envenenasse
tudo em que tocava.
Abraçando-se ao seu ódio como a um cobertor de segu-
rança, ela atravessou o cômodo escuro. Era sinistro. Sobre a
sua cabeça, estavam penduradas panelas e frigideiras, imó-
veis como um conjunto de fantoches que ninguém queria.
À sua frente, brilhava o enorme fogão triplo, intacto. Ao
lado dele, em cima do balcão, Grace viu que alguém tinha
comprado um forno de micro-ondas. A caixa ainda estava
em cima da lata do lixo.
Típico. Um homem solteiro se muda para uma casa com
uma cozinha gourmet totalmente equipada e a primeira
coisa que faz é comprar um micro-ondas.
Grace se pegou imaginando se John já o usara, e se usara, o
que havia preparado. Esperava que estivesse uma delícia, o
que quer que fosse. Não era certo ter uma última refeição
horrível.
A porta de dentro da cozinha abria para uma despensa que,
por sua vez, levava às escadas. Originalmente, essas eram as
escadas de serviço que subiam do porão ao sótão pelo lado
oeste da casa. Grace pegou sua arma — era a arma de Gavin
Williams, mas a via como sua agora — e começou a subir.
A casa não estava apenas quieta. Estava silenciosa. Grace
podia ouvir a própria respiração, o farfalhar de suas roupas
enquanto se movia, o estalo de um cano. Fazia apenas alguns
dias que tinha estado ali e se sentado na biblioteca com o
gentil Jan Beerens, mas alguma coisa sísmica parecia ter
acontecido nesse meio-tempo. Era mais do que apenas a
ausência de móveis e pessoas. Os empregados de Beerens
tinham ido embora, e era óbvio que John tinha se mudado
sozinho. Era como se a casa tivesse morrido. Como se a
presença de John tivesse tirado toda a vida e alegria dela,
como um ovo quebrado do qual só resta a casca.
De repente, uma porta bateu. O barulho foi tão alto e
inesperado que Grace abriu a boca para gritar, mas conseguiu
se conter, abafando o som com as mãos. Estava quase no
segundo andar, mas o barulho viera de baixo, do térreo. O
mais silenciosamente possível, ela se virou.
No térreo, a porta de serviço dava para um grande átrio com
piso de mármore. Tinha a forma de um pentágono, com
cinco arcos que iam do chão ao teto e abriam espaço para
cinco cômodos. A biblioteca e o escritório davam em um
pequeno jardim interno central, mas as portas francesas das
salas de estar e de jantar se abriam para o jardim principal.
Grace entrou com cuidado no átrio, olhando à sua volta,
esperando escutar um segundo som, algum sinal para guiá-la.
Sentiu uma leve brisa no rosto. As portas da sala de estar
estavam abertas para o jardim. Ela deu um passo naquela
direção, e então parou.
Lá estava ele.
Ela o viu por trás, indo para o jardim ainda de pijama. Estava
com uma caneca de café em uma das mãos e um livro na
outra, como um turista de férias. O cabelo vermelho estava
despenteado, formando ângulos estranhos onde ele tinha se
deitado. Grace ficou surpresa em ver como ele parecia
pequeno. Fraco. Normal. Se alguém quisesse formar uma
imagem mental de um assassino frio, não seria aquele
homem de meia-idade, cambaleante e inofensivo.
Não via John em carne e osso desde o julgamento. Sua úl-
tima lembrança era a expressão sofredora dele quando ela
fora levada do tribunal. Não se preocupe, dissera ele. Grace
se lembrou daqueles primeiros dias presa, a viagem para
Bedford Hills, ser espancada quase até a morte por Cora
Budds. Naquela época, ainda acreditava que John Merrivale a
salvaria. Ele era seu amigo, seu único amigo.
Ela soltou a trava de segurança da arma.
— John.
Ele não escutou. Ela se aproximou mais, primeiro andando,
depois correndo.
— John!
Ele se virou. Ao ver a arma, perdeu a cor. A caneca de café
caiu de sua mão, se estilhaçando no piso de pedra da
varanda. Instintivamente, ele deu um passo para o lado e
cobriu a cabeça com as mãos. Ao fazer isso, Grace viu que
ele não estava sozinho.
Atrás dele, havia outro homem estendido em uma
espreguiçadeira, que estava na diagonal, virada para o jardim,
não para a casa. Primeiro, ela só conseguia ver o topo de sua
cabeça e os pés em chinelos na sua frente; ainda assim,
sentiu uma familiaridade. Alguma coisa na postura dele, na
linguagem corporal... Eu conheço você.
Ela ficou parada, petrificada, enquanto o homem lentamente
se virava. Mesmo antes de ver seu rosto, já sabia. A forma
lânguida e despreocupada de se mexer, como se a comoção
atrás dele e o terror de John Merrivale não o perturbassem
nem um pouco. Grace só conhecera um homem com essa
autoconfiança. Com aquele sangue-frio total e inabalável.
— Olá, Gracie. — Lenny Brookstein sorriu. — Eu estava
esperando por você.
Capítulo 37
Grace viu sua vida passar diante de seus olhos. Isso era um
sonho? Ou um pesadelo? Parte dela queria tocar Lenny,
passar as mãos nele como São Tomé para provar que era real.
Mas algo fez com que hesitasse.
— Eu vi você! Vi seu corpo. — Ela estava tremendo. — Fui
ao necrotério, pelo amor de Deus.
— Por que você não abaixa a arma? — A voz de Lenny era
suave. Hipnótica. — Podemos conversar.
Grace estava prestes a fazer o que ele tinha pedido quando
John deu um passo na sua direção. Instintivamente, ela
virou a arma na direção dele e deu um passo para trás, o
dedo sobre o gatilho.
— Não se mexa! — gritou ela.
John deu um passo para trás.
— Sente-se naquela cadeira. Coloque as mãos onde eu possa
vê-las.
John fez o que ela mandou, sentando-se em uma
espreguiçadeira ao lado de Lenny.
Grace olhou para Lenny.
— Você também.
Lenny levantou uma sobrancelha, tanto de admiração quan-
to de surpresa. Também colocou as mãos no colo. Mantendo
a arma apontada para os dois, Grace tirou a mochila das
costas e pegou o gravador. Apertou o botão de gravar e o
colocou no chão entre eles.
— Pode falar — mandou ela.
Lenny não conseguia tirar os olhos do rosto de Grace. Tão
linda. Mas ela mudou. Ela teve que mudar, eu imagino. Está
mais forte. Aquela menina doce e crédula não conseguiria
sobreviver.
— O que você quer saber?
— Tudo. Quero saber tudo, Lenny. Quero saber a verdade.
Lenny Brookstein começou a falar.
Capítulo 38
— O que você deve lembrar, Grace, é que isso tudo come-
çou muito tempo atrás. Você era uma menininha quando
fundei o Quorum. Tinha talvez 5 anos. Eu tive alguns in-
vestimentos antes, fiz um pouco de dinheiro, mas sempre
soube que com o Quorum seria diferente. Eu queria dominar
o mundo e consegui.
Lenny olhou para John Merrivale e sorriu. John retribuiu o
sorriso, um olhar de adoração no rosto. Grace lembrou-se
desse olhar dos velhos tempos. Ele o ama. John sempre
amou Lenny. Como pude me esquecer disso?
Lenny continuou:
— No início do fundo, foi uma luta. Era o começo dos anos
1990, a economia estava mal, pessoas estavam perdendo
seus empregos e casas. Ninguém queria investir. Lembra, eu
tinha investido cada centavo meu no Quorum; se ele
afundasse, me levaria junto. Pobre de novo, com mais de 40
anos. Sem um centavo. — O rosto de Lenny ficou sombrio.
— Você não pode imaginar o medo que senti, Grace. Como
isso era assustador para uma pessoa que veio de onde eu
vim. A idéia de voltar para a imundície, para a violência,
para a fome. Não. Isso não ia acontecer comigo. — Ele disse
isso com fúria, quase como se Grace tivesse tentado tirar
tudo dele. — E graças a John aqui isso não aconteceu.
John Merrivale corou de prazer, como uma adolescente que
recebe um elogio do garoto mais popular da escola. Grace
escutava em silêncio.
— Eu tinha um grande modelo. Infalível, na verdade. Mas
naquela época, um cara como eu, sem educação formal, era
visto como um risco. Eu não conseguia vender 1 dólar por
90 centavos, mas este cara — ele apontou para John —, este
cara conseguiu fazer com que todos os diretores daqueles
bancos suíços comessem na sua mão, como carneirinhos.
Foi graças a esses investidores institucionais que
conseguimos atravessar a tempestade. Mas foram os
pequenos investidores que nos tornaram quem fomos. As
lojas de família, as pequenas instituições de caridade que nos
davam seu dinheiro. Sabe, Madoff e Sanford e todos aqueles
caras, eles eram um bando de esnobes. Se você não fizesse
parte do clube de golfe certo ou viesse da família certa,
aqueles cretinos não aceitavam seu dinheiro. Não aceitavam!
Isso me enojava. Quem eram eles para dizer para pessoas
simples que elas não podiam experimentar o lado bom da
vida? Que o Sonho Americano era exclusividade deles? O
Quorum não era assim. Nós adorávamos o cara simples, e
nós o deixamos rico, e ele nos deixou ricos, por muito,
muito tempo. As pessoas sempre esquecem essa parte.
A raiva de Lenny tinha voltado e estava aumentando. Grace
tinha escutado o suficiente de falsa moral.
— Aquelas pessoas, aqueles "caras simples". — Ela cuspiu as
palavras de volta, ainda sentindo como se estivesse falando
com um fantasma, mas não conseguindo se segurar mais. —
Eles perderam tudo por causa do Quorum. Tudo. Famílias
ficaram na miséria por causa do que você fez. Instituições de
caridade fecharam as portas. Pessoas, homens com famílias,
se mataram por causa...
— Covardes. — Lenny balançou a cabeça, enojado. —
Imagine se matar porque perdeu dinheiro? Isso não é
trágico. É patético. Sinto muito, Grace, mas é. Quando você
faz um investimento, assume um risco. Ninguém forçou
ninguém a me dar aquele maldito dinheiro.
Grace estava assustada com o tamanho da sua vontade de
atirar nele. Era só puxar o gatilho, ele pararia de falar e
pronto. Acabaria com essa aparição grosseira e cruel, com
esse fantasma que estava destruindo o Lenny de quem se
lembrava, o Lenny que amara, o Lenny em quem acreditara,
em quem precisara acreditar, durante toda a sua vida adulta.
Mas por mais que as palavras dele a ferissem, ela queria
escutar mais. Queria saber a verdade.
— De qualquer forma — continuou ele —, durante anos,
foi bom. Todo mundo estava feliz. Então, por volta do ano
2000, as coisas começaram a dar errado. Foi o boom da
tecnologia, a ascensão da internet, e foi uma época louca.
Muito louca. Da noite para o dia, todos os modelos de
negócios, todas as estratégias de investimento conhecidas
viraram de cabeça para baixo. Rapazes, alguns ainda na
faculdade, estavam fundando negócios que não faturavam
um centavo, recuperando-os e vendendo-os por bilhões de
dólares em 18 meses. Para onde se olhava, havia foguetes, e
todo mundo queria agarrar um. Todos os dinossauros velhos
como eu. Era só escolher o certo e segurar firme na subida.
— Os olhos de Lenny brilhavam de entusiasmo com a
lembrança. — Isso foi na época que conheci você, amor. A
época mais feliz da minha vida. Sabe, eu sempre amei você.
— Ele olhou para Grace, os olhos marejados de lágrimas.
Grace pensou: Ele está falando sério. É louco. Depois de
tudo que me fez, acha que pode falar de amor? Em voz alta,
ela disse:
— Continue.
Lenny deu de ombros.
— Depois disso foi bem simples. Fiz vários investimentos na
internet, comprei um monte de negócios especulativos e
afundei. Entre 2001 e 2003, devo ter perdido... — ele olhou
para John Merrivale para que o amigo confirmasse — ... não
sei. Muito. Uns 10 bilhões.
— Pelo menos — disse John.
— Como isso é possível? — interrompeu Grace.
— Como é possível? Você faz uma aposta e perde, é assim.
Mas as nossas apostas eram altas.
— Eu quero dizer... como ninguém sabia disso?
— Porque eu não contei — disse Lenny. — O que você acha
que sou, burro? Eu fui cauteloso, Grace. Não deixei rastros.
Éramos criativos em nossas demonstrações financeiras. Em
um negócio tão complexo e diversificado como o Quorum, é
mais fácil do que parece fazer seus ativos parecerem maiores
do que são e esconder seus passivos. Paramos de contabilizar
os negócios, destruímos muitos papéis e memórias de
computador. Mudávamos os fundos que tínhamos
constantemente, de uma jurisdição para outra. A Comissão
de Valores Mobiliários xeretou um pouco em 2003 e 2005,
mas nunca começou uma investigação oficial.
— Então você mentiu. Mentiu para os investidores, para os
"caras simples" que confiavam em você. Da mesma forma
que mentiu para mim.
— Eu estava protegendo todos eles! Você também! — gritou
Lenny.
— Protegendo a mim? — Se não estivesse acontecendo tudo
aquilo com ela, Grace teria rido.
— Claro. Você não vê? Se ninguém tivesse entrado em pâ-
nico, se todos tivessem ficado comigo, eu teria recuperado o
dinheiro. Já tinha começado a fazer isso, Grace. Essa é que é
a maldita ironia. Todas aquelas famílias miseráveis das quais
você quer que eu tenha pena, foram eles que nos colocaram
nessa enrascada, não eu! Se eles não tivessem tentado, todos
ao mesmo tempo, sacar o dinheiro, pegar o dinheiro de
volta como um bando de covardes, um atrás do outro se
jogando do penhasco... — Ele levantou as mãos em
desespero. — Eu poderia ter consertado as coisas. Eu
poderia. Mas não tive a chance. Depois da falência do Bear,
depois do Lehman, foi um caos. Aqueles cretinos destruíram
tudo pelo que trabalhei a minha vida inteira. Eles afundaram
o meu navio e eu não podia fazer nada para impedir. A única
coisa que eu podia fazer era garantir que não afundaria junto
com eles. Eu precisava sobreviver, Grace. Precisava
sobreviver.
"John teve a idéia do barco. Faríamos em Nantucket e teria
que parecer um suicídio. No início, achamos que eu poderia
simplesmente desaparecer, e acabariam achando que eu
estava morto. Mas eu não podia dar chance ao azar. Sabendo
da tempestade que varreria o Quorum, eu não queria
ninguém me procurando. Precisávamos de um corpo.
Grace começou a tremer. O tronco no necrotério. As fotos
de Davey Buccola. A cabeça mutilada... Ele não podia ter
feito isso!
— Você quer dizer que... matou alguém?
— Ele era um ninguém. Um vagabundo sem-teto da ilha,
um bêbado preguiçoso. Acredite em mim, ele estaria morto
em poucos meses da forma como tratava o próprio fígado.
Só apressei um pouco as coisas. Eu o levei para dar um
passeio de barco, dei uma garrafa de uísque e o deixei lá.
Quando desmaiou... eu fiz o que precisava ser feito.
Grace tampou a boca com as mãos. Sentiu o vômito subir
por sua garganta.
— É. Não foi bonito. — Lenny fez uma careta. — Mas,
como eu disse, precisava ser feito. Os policiais teriam que
achar que o corpo era meu, então, precisei... mudá-lo. O
mais difícil foi enfiar a minha aliança no dedo dele. Ele já
estava muito duro e muito gordo. Além disso, claro, houve a
tempestade. Não tínhamos imaginado isso. Algumas vezes,
eu quase caí do barco. Vou lhe dizer uma coisa, eu nunca
fiquei tão feliz de ver o Graydon na minha vida.
Graydon. Graydon Walker. Era um nome de outra vida. O
piloto de helicóptero de Lenny e Grace, Graydon Walker,
era um homem quieto e taciturno. Grace nunca gostara
muito dele. Mas, como muitos dos empregados que
trabalhavam para Lenny havia muito tempo, ele era leal ao
patrão.
— Graydon me levou para uma pista de pouso
tranquilamente no continente. Des estava me esperando
com o jatinho pronto e me trouxe direto para cá. —
Desmond Montalbano era o piloto do G5 deles, um ex-
piloto ambicioso que gostava de manobras perigosas. — Eu
sabia que Graydon guardaria o segredo, mas não tinha tanta
certeza sobre Des.
Grace prendeu a respiração.
— Você não matou Des, matou?
— Matá-lo? Claro que não. — Lenny pareceu ofendido pela
desconfiança. — Dei-lhe uma compensação para os
próximos trinta anos. Fiz com que valesse a pena manter a
boca fechada. Ele recebe de um fundo em Jersey. É
impossível rastrear esse dinheiro — acrescentou, com uma
ponta de orgulho.
— Tudo é impossível de rastrear — disse Grace, com
amargura. — Quem escondeu o resto do dinheiro? Você?
John?
Lenny sorriu.
— Grace, querida. Você ainda não entendeu? Não existe
resto do dinheiro. Nunca existiu.
Grace olhou para ele como quem não entende.
— Como assim?
— Estou falando desses 70 bilhões imaginários que todo
mundo está procurando. Eles não existem. Nunca existiram.
Grace esperou que ele explicasse.
— Ah, o Quorum estava fazendo dinheiro? Estávamos
fazendo negócios. Até os prejuízos com a internet, tudo
estava indo bem, talvez 20 bilhões no nosso auge, mas
nunca 70. De qualquer forma, em 2004, não havia mais
nada.
— Mais nada?
— Restavam algumas centenas de milhões. Eu estava usan-
do isso para pagar dividendos e cobrir eventuais resgates. E
para bancar o nosso estilo de vida, claro. Sempre quis que
você tivesse o melhor, Grace.
Grace pensou no pesadelo dos dois últimos anos de sua vida.
— Você queria que eu tivesse o melhor? — murmurou ela.
— Claro. As pessoas acham que o sucesso é medido em
riqueza, mas não é. Não em nosso país. Nos Estados Unidos,
é medido em percepção de riqueza. Se as pessoas me vissem
como rico e bem-sucedido, continuariam investindo em
mim. E foi o que fizeram. Até o colapso do Lehman. Depois
disso, todo mundo quis pular fora. As pessoas começaram a
fazer contas e perceberam que eu tinha que criar uma
estratégia de saída.
"Separei um pouco de dinheiro para mim e John. Não
precisávamos de muito. Sempre planejamos viver com
simplicidade, não é, John? — John assentiu. — Madagascar é
uma ilha simples, Grace, você sabe disso. Era por isso que eu
e você amávamos tanto este lugar. Estou tão feliz por você
estar aqui, querida. — Ele se levantou e abriu os braços,
como se esperando que ela o abraçasse. — Será como nos
velhos tempos, nós três juntos de novo. Senti saudades de
você, Gracie, mais do que imagina. Você não vai abaixar a
arma? Deixar o passado para trás?
Grace riu, uma gargalhada alta mas sem alegria. Riu até seu
corpo tremer e lágrimas escorrerem de seus olhos. Então se
recompôs e apontou a arma entre os olhos de Lenny.
— Deixar o passado para trás? Você perdeu o juízo? Você
armou para mim! Você roubou e matou e mentiu e traiu e
me deixou para pagar. Eu fui ao necrotério, Lenny! Eu vi
aquele cadáver, aquele monstro inchado do coitado do
homem que você matou, e eu chorei. Chorei porque achei
que era você. Eu amava você!
— E eu amava você, Grace.
— Pare com isso! Pare de dizer isso! Você me deixou para
trás para morrer. Pior do que morrer. Você mandou John
sabotar o meu julgamento! Eles me prenderam e jogaram a
chave fora, e você deixou isso acontecer. Você fez isso
acontecer. Meu Deus, eu acreditava em você, Lenny. Eu
achava que você era inocente. — Ela balançou a cabeça com
amargura. — Todo esse tempo, tudo pelo que passei, tudo
foi por você. Pela sua memória. A memória que eu achava
que você tinha. Você sabe por que vim aqui hoje?
Lenny balançou a cabeça.
— Para matar John. Isso mesmo. Eu ia atirar nele porque
achei que ele tivesse matado você. Achei que ele tivesse
roubado o dinheiro e colocado a culpa em você.
— John? Me trair? — Lenny pareceu achar a idéia engraçada.
— Minha menina. O mundo inteiro me traiu, e você es-
colhe o único homem, o único homem de quem nunca
duvidei? Isso é inestimável.
— E a minha lealdade, Lenny? O meu amor? Eu teria dado
qualquer coisa por você, arriscado qualquer coisa, sofrido
qualquer coisa. Por que não confiou em mim? Você poderia
ter conversado comigo quando as coisas começaram a ir mal
no Quorum.
— Conversado com você? Sobre negócios? Até parece,
Grace. Você nunca olhou o preço de nada na sua vida.
Era verdade. Grace se lembrou da pessoa ingênua e idiota
que fora e sentiu vergonha.
— Olhe, talvez eu devesse ter confiado em você, Grace.
Talvez eu devesse. — Pela primeira vez, uma expressão que
poderia ser culpa passou rapidamente pelo olhar de Lenny.
— Eu amava você. Mas como eu disse, eu precisava
sobreviver. As pessoas queriam um bode expiatório para a
própria burrice. Os investidores do Quorum, os Estados
Unidos, o mundo. Eles queriam sacrificar alguém para
reparar a própria ganância. E foi você, querida. — Ele deu de
ombros.
— E você me escolheu. — Grace passou o dedo pelo gatilho.
— Seu filho da puta sem coração.
John Merrivale choramingou de medo.
— Po-por favor, Grace.
Lenny perguntou:
— O que você quer que eu diga, Grace? Que me arrependo?
Grace pensou.
— É. Eu gostaria que você dissesse que se arrepende,
Lenny. Eu queria que dissesse que se arrepende por ter
esquartejado um homem. Que se arrepende por ter
destruído milhares de vidas. Que se arrepende por mim, do
que fez comigo. Diga que você se arrepende. Diga!
Ela estava gritando agora, histérica. Lenny olhou para ela
sem a menor piedade, como se olha para um animal no
zoológico.
— Não, eu não vou dizer. Por que deveria? Eu não me
arrependo, Grace. E se eu tivesse a chance, faria tudo de
novo, exatamente da mesma forma.
Grace procurou desesperadamente no rosto dele por algum
sinal do homem de quem se lembrava. Um pingo de
compaixão ou de remorso. Mas os olhos de Lenny
brilhavam de forma desafiadora.
— Sou um sobrevivente, Grace. É isso que eu sou. Meu pai
sobreviveu ao Holocausto. Foi para os Estados Unidos só
com a roupa do corpo. E sim, ele estragou a própria vida,
mas isso só aconteceu porque ele era pobre. Ele sobreviveu,
essa é a questão. Ele tinha uma vida, e ele me deu a minha
vida, que eu dediquei a fugir da pobreza. Eu não ia cometer
os mesmos erros que ele. Eu não ia ser um cidadão de
segunda categoria, outro menino judeu implorando para
entrar em algum maldito clube de golfe. Eu era dono no
meu próprio clube, OK? Eu era dono! Eu tinha todos aqueles
mauricinhos protestantes me implorando para serem aceitos.
Eu até casei com a filha de um deles.
Grace fez uma careta. Foi isso que eu sempre fui para você?
A filha de Cooper Knowles? Um símbolo de status?
— Você espera que eu me desculpe por sobreviver? Por
brigar até o fim? Nunca! Eu vim do nada, Grace, menos do
que nada. Eu construí o Quorum do nada. — Ele tremia de
raiva. — O que você sabe sobre trabalho duro? Sobre
preconceito? Sobre pobreza? Sobre sofrimento?
Grace se lembrou dos dias de tortura em Bedford Hills. Da
vida precária de fugitiva da justiça, sabendo que o mundo
inteiro tinha preconceito contra ela, que ninguém no
mundo sabia a verdade. Lembrou-se da luta com
estupradores, de sangrar quase até a morte depois de induzir
um aborto, de cortar os pulsos com o alfinete de um broche.
O que eu sei sobre sofrimento? Você ficaria surpreso.
Lenny continuou:
— Você era a princesa dos Estados Unidos. A vida lhe deu
tudo de bandeja e você aceitou como se fosse seu direito.
Você nunca perguntou de onde vinha. Você não se
importava! Então não fique aí tentando me dar lição de
moral. Sinto muito se você sofreu, Grace. Mas alguém tinha
que sofrer. Talvez fosse a sua vez.
Minha vez.
— Isso mesmo. E não fique tão horrorizada, querida. Você
conseguiu, não foi? Você aprendeu a sobreviver, sozinha.
Estou orgulhoso de você. Você está aqui, está viva, está
livre. Todos estamos. Você queria a verdade e agora
conseguiu. O que mais você quer?
E foi quando Grace teve certeza.
— Vingança, Lenny. Quero vingança.
O tiro ecoou, soou nos muros altos de pedra. Lenny colocou
a mão no peito. Sangue escorreu por entre seus dedos,
encharcando a camisa branca de linho. Olhou para Grace,
surpreso. John Merrivale gritou:
— Não!
Outro tiro. Depois outro.
— Grace!
Ela se virou. Mitch Connors estava correndo pela sala na
direção do jardim, o cabelo louro suado grudado na testa, a
arma na mão.
— Pare!
Mas ela não podia parar. John Merrivale tinha corrido para
dentro da casa. Grace se virou para encarar Lenny, mas ele
também tinha sumido. Não! Então ela o viu, engatinhando
para a casa de hóspedes, deixando uma trilha de sangue para
trás. Grace levantou a arma. Apontou para atirar de novo,
mas Mitch passou correndo por ela, abriu os braços
formando uma parede humana entre ela e Lenny.
— Acabou, querida. Pare, por favor. Abaixe a arma.
— Grace gritou:
— Saia da minha frente, Mitch. SAIA!
— Não, isso não é certo, Grace. Sei que você quer justiça,
mas não vai ser assim.
Lenny estava fugindo. Ela não podia suportar isso.
— Saia, Mitch. Juro por Deus, eu vou atirar.
Ela escutou uma comoção dentro da casa. Portas batendo.
Homens correndo. Por baixo das pernas de Mitch, viu que
Lenny estava quase na casa de hóspedes. Pelo canto do olho,
viu John Merrivale correndo pela casa gritando, sacudindo
uma arma. Os passos atrás ficaram mais altos.
— Polícia! Soltem suas armas!
Era agora ou nunca.
Grace disparou sua arma pela última vez. Observou
horrorizada enquanto Mitch rolava pelo gramado, a bala
rasgando sua carne. Mitch! Ela gritou, mas não saiu nenhum
som. Sentia sua pele, seus braços, suas pernas também
alvejados, a dor como lâminas a cortando. Ela estava na
grama, sangrando. O som sumiu. Grace abriu o olho e só viu
um balé silencioso de pés correndo. Mitch estava imóvel,
caído na relva. Procurou Lenny, mas não conseguiu vê-lo,
apenas a neblina vermelha de seu próprio sangue apagando o
sol, o céu e as árvores, caindo sobre ela como um veludo
pesado no palco de um teatro: sua última cortina.
Capítulo 39
NOVA YORK, UM MÊS DEPOIS
A mulher na sala de espera do hospital sussurrou
para a filha:
— É ela?
A filha balançou a cabeça.
— Acho que não. — Normalmente não teria hesitado tanto.
Estava sempre atenta a todas as fofocas que saíam nas re-
vistas e se orgulhava de conseguir detectar uma celebridade
a 50 metros de distância. Óculos escuros e cachecóis
cobrindo a cabeça não a enganavam. Mas naquele caso... A
mulher se parecia um pouco com ela. Parecia muito com
ela, se olhasse cada traço. Os lábios de cupido, a covinha no
queixo, os olhos grandes e a delicada linha do nariz. Ainda
assim, de alguma forma, quando juntava tudo, o rosto
parecia... menos. Menos bonito. Menos impressionante.
Menos especial. Combinado a isso, havia as roupas
desmazeladas, a saia de lã cinza e a camisa branca simples e...
não. Não era ela.
— Sra. Richards?
A mãe da menina olhou.
— Pode entrar agora. Seu marido está acordado.
Mãe e filha saíram da sala de espera. Ao passarem pela mu-
lher parecida, ambas olharam sorrateiramente. De perto, ela
parecia ainda menor. Era quase como se ela tivesse projetado
o anonimato, da mesma forma que outras pessoas, estrelas,
emitem carisma ou sensualidade.
— Pobrezinha — disse a mãe. — Parece um ratinho. Quem
será que ela está visitando?
Grace ficou feliz quando as mulheres foram embora. Ainda
eram 7 horas. Tivera esperanças de encontrar a sala de
espera vazia. Estava cada vez mais difícil ficar perto de
outras pessoas. De qualquer pessoa. Logo deixaria os Estados
Unidos para sempre. Encontraria algum lugar tranquilo, um
refúgio onde ninguém a conhecesse nem se importasse com
seu passado. Um mosteiro, talvez, na Espanha ou na Grécia,
se a aceitassem. Eles vão me aceitar. É isso que fazem, não é?
Oferecem um santuário aos pecadores, aos criminosos e aos
pobres. Eu me qualifico nas três opções. Segundo seu novo
advogado, ela logo teria direito a uma compensação federal.
— Será uma boa quantia em dinheiro. Não tanto quanto
você estava acostumada, mas certamente na casa dos sete
dígitos.
Grace não estava interessada. O que quer que o governo lhe
desse, mandaria diretamente para Karen Willis e Cora
Budds. Devia a elas sua liberdade, uma dívida que não tinha
preço. Além disso, Grace não tinha com que gastar o dinhei-
ro. Tudo que queria era ir embora. Mas não podia ainda. Não
antes de saber se ele estava bem. Não antes que tivesse uma
chance de se explicar.
Tocou a cicatriz em seu braço, onde a bala entrara. Ela mes-
ma tinha quatro cicatrizes parecidas, na perna, no quadril e
no ombro. Você tem sorte de estar viva, o médico dissera. E
Grace sorrira e se perguntara: Tenho sorte mesmo? Era
incrível como o corpo conseguia se recuperar rápido. Mas o
espírito não era assim tão resiliente.
Sem Lenny, Grace Brookstein não sabia mais qual era a
razão de sua vida.
A historia do tiroteio em Le Cocon, da morte sensacional de
John Merrivale e a prisão de Lenny Brookstein tinha sido
noticiada no mundo inteiro. As autoridades de Madagascar
fizeram um esforço simbólico para impedir que levassem
Lenny de volta para os Estados Unidos, mas uma ligação do
próprio presidente americano, além de algumas promessas
de investimento substancial em vários projetos de infra-
estrutura da ilha, logo fizeram com que mudassem de idéia.
Harry Bain avisou a polícia local.
— O Sr. Brookstein está voltando para seu país de livre e
espontânea vontade para receber tratamento médico
urgente. Assim que se recuperar, se isso acontecer, o futuro
dele será decidido pela Justiça dos Estados Unidos.
Foi Bain quem conseguiu entrar em contato com a polícia
local e mandar reforços para Le Cocon naquele dia. Assim
que escutou as mensagens de Mitch, ligou na mesma hora
para o chefe de polícia de Antananarivo e o colocou a par de
tudo.
— Teria sido mais fácil se vocês tivessem sido honestos
conosco sobre sua presença em Madagascar — disse o chefe
de polícia, sendo rígido. Harry Bain precisara bajular o
homem até que ele concordasse em mandar reforços para a
mansão. Mas, graças a Deus, ele mandara. Quando chegaram
lá, Lenny Brookstein já tinha levado um tiro no estômago e
um na virilha. Se Grace tivesse apontado um pouco mais
para cima, teria atingido a artéria coronária e poupado os
Estados Unidos de seu julgamento mais sensacionalista e
chocante desde... bem, desde o dela mesma. Após uma cara
cirurgia, Lenny sobreviveu. Antes que ele soubesse onde
estava, o FBI mandou que o mantivessem fortemente sedado
e o levou de volta para o país em um avião militar. Estava
tudo terminado antes que alguém pudesse dizer "violação
dos direitos humanos", muito menos "denegação de justiça".
Por duas semanas, ninguém sabia se Mitch Connors teria a
mesma sorte. A vida dele estava por um fio. Grace ficou
aterrorizada quando soube que uma bala sua tinha se alojado
na espinha dele, mas os policiais lhe asseguraram que havia
sido John Merrivale quem quase o matara. Quando a polícia
apareceu, eles gritaram para John soltar a arma, mas ele
continuou atirando indiscriminadamente, em Grace e neles.
Não tiveram alternativa a não ser atirar também.
Primeiro, Grace ficou feliz ao saber que John estava morto.
Mas conforme as semanas foram passando, sua felicidade foi
desaparecendo. O que isso importava? O que tudo isso
importava: a morte de John, o julgamento de Lenny (por
fraude e assassinato) e sentença de morte por injeção letal, e
o perdão presidencial a ela própria? Nada disso lhe traria sua
antiga vida de volta, ou ajudaria as pessoas cujas vidas foram
arruinadas pelo Quorum. Nada disso faria Mitch Connors
ficar bom, ou traria Maria Preston, ou Andrew, ou aquela
alma infeliz de Nantucket de volta. Tudo era completamente
inútil. Justiça tinha se tornado uma mera palavra, letras em
uma página, destituída de significado. Não haveria justiça,
encerramento, nem final satisfatório. A coisa toda era uma
farsa, um jogo. Grace mesmo tinha sido perdoada, não
porque fosse inocente, mas porque era um constrangimento
para as autoridades admitir que ela tinha fugido duas vezes e
que havia sido ela, não eles, que encontrara Lenny e
descobrira a verdade sobre a fraude do Quorum.
— Estou convencido de que Grace Brookstein foi uma
vítima da falsidade de seu marido tanto quanto às milhares
de outras pessoas que sofreram nas mãos dele — disse o
presidente.
E o país aplaudiu.
— É claro que ela foi. Pobrezinha.
Agora, tinham o seu vilão, seu pedaço de carne. Lenny
Brookstein seria mandado para a prisão de segurança máxima
do Colorado, a mais rígida do continente, casa dos mais
perigosos terroristas islâmicos e assassinos de crianças. A
peça estava em seu terceiro ato, e não havia uma heroína
trágica convincente. Quem melhor para assumir o papel de
Grace? Afinal, o show tem de continuar.
Uma enfermeira bateu no ombro de Grace.
— Boas notícias. Ele está acordado. Gostaria de entrar?
MITCH ESTAVA pálido e magro. Grace tentou não parecer
chocada. Ele deve ter perdido uns 20 quilos. Quando ele a
viu, sorriu.
— Olá, estranha.
— Olá.
Havia tanto para ser dito, mas, naquele momento, Grace não
conseguia pensar em uma única palavra. Então, pegou as
mãos de Mitch e as acariciou.
— Fiquei sabendo que você testemunhou contra Lenny no
julgamento.
— Verdade. Não precisei ir pessoalmente. Deixaram que
fizesse uma declaração.
— Ele foi condenado à morte?
Ela assentiu.
— Então, seu testemunho deve ter ajudado
— Duvido. Ele admitiu tudo. Depois que souberam do
assassinato, a farsa chegou ao fim. Mas acho que ele queria
que todos soubessem como tinha sido esperto. Ele não
parecia chateado no julgamento. Era quase como se estivesse
se divertindo.
Mitch balançou a cabeça, incrédulo.
— Ele ainda não se considera culpado, não é?
— Nem um pouco. — Ela fez uma pausa. — Vai ser execu-
tado hoje. Abriu mão de entrar com qualquer apelação.
Por alguns minutos, ambos ficaram em silêncio. Então,
Mitch disse:
— Sei que vai parecer uma pergunta ridícula. Mas você ainda
sente alguma coisa por ele? Saber que ele vai morrer. Isso
não a deixa triste?
— Não. — Grace ficou pensativa. — Não é que eu não tenha
sentimentos por ele. O mais certo seria dizer que não tenho
sentimentos, ponto. Estou entorpecida.
Mitch apertou a mão dela.
— Leva tempo, só isso. Você passou por muita coisa.
— Para ser franca, eu não sei se quero voltar a sentir alguma
coisa. Quero paz.
Ela olhou pela janela. Era final de maio, e a primavera se
espalhava pelas árvores na calçada, explodindo em flores, o
céu azul vivo com pássaros e alegria. Grace pensou: Fico
feliz que a vida continue, que seja linda. Mas não posso mais
fazer parte dela.
— Sabe quem me ligou um dia desses?
Mitch balançou a cabeça.
— Quem?
— Honor. O FBI contou a ela sobre Jack e Jasmine. Ele
decidiu não concorrer de novo ao Senado. Eles vão se
divorciar.
— Ela ligou para você para contar isso?
Grace riu.
— Eu sei. Como se nós pudéssemos continuar de onde
paramos. Na verdade, foi exatamente o que ela disse: "Não
podemos ser irmãs de novo?" Connie e Mike se mudaram
para a Europa, então acho que ela está se sentindo sozinha.
Lenny disse algo parecido em Le Cocon. Ele achou que eu
fosse ficar lá com ele e John. Que nós três podíamos ficar
escondidos em Madagascar juntos e viver felizes para
sempre. "Como nos velhos tempos", foi o que ele disse.
— Está brincando? — Mitch arregalou os olhos. — O que
você disse?
— Eu não disse nada. Atirei nele. — Grace sorriu, e Mitch se
lembrou de tudo que amava nela. Ela acha que está morta
por dentro, mas não está. Só está hibernando.
Grace se levantou e foi até a janela. Mitch observou-a, seus
passos graciosos e fluidos de bailarina. Enquanto ele era o
policial e ela a fugitiva, ele se forçara a esconder seus
sentimentos. Agora que estava tudo terminado, não podia
mais se segurar. Sentiu o desejo atingir-lhe como um soco
no estômago.
Eu a amo.
Eu a desejo.
Eu posso fazê-la feliz.
— O quê? — Grace se virou, como que o acusando.
Mitch corou. Será que tinha falado em voz alta? Devia ter
falado. Ele se levantou um pouco nos travesseiros.
— Estou apaixonado por você, Grace. Sinto muito se isso
complica as coisas. Mas eu estou.
O rosto de Grace amoleceu. Gostava de Mitch, no fim das
contas. E ele arriscara a própria vida para tentar salvar a dela.
Nao havia motivo para ficar com raiva dele. Mas amor? Não.
Não poderia amar de novo. Não depois de Lenny. Amor era
uma fantasia. Não existia.
Mitch disse:
— Acho que podíamos nos casar.
Grace soltou uma gargalhada.
— Casar?
— Isso. Por que não?
Por que não? Grace pensou em Lenny. Em seu lindo
casamento em Nantucket, sua felicidade como uma jovem
noiva, suas esperanças e sonhos. Eles não tinham sido
apenas destruídos, mas também incinerados, aniquilados,
virado cinzas junto com a garota feliz e crédula que ela fora
um dia.
Quando a noite caísse, Lenny já estaria morto.
As chances de Grace se casar de novo eram as mesmas de ir
para a Lua.
— Nunca mais vou me casar, Mitch. Nunca.
Ao escutá-la dizer as palavras, Mitch soube que ela falava
sério.
— Vou embora.
Mitch sentiu um aperto no peito. O pânico tomou conta
dele.
— Embora? Como assim? Para onde? Vai embora do
hospital?
— Vou embora do país.
— Não, não vai. Você não pode!
— Eu preciso.
— Mas por quê? Para onde você iria?
Inclinando-se, Grace lhe deu um beijo, somente um, na bo-
ca. Foi um beijo curto, não sexual, mas carinhoso, quase
maternal. Fez com que Mitch tivesse vontade de chorar.
— Não sei para onde eu vou. Algum lugar tranquilo e
afastado. Algum lugar onde eu possa viver de forma simples
e em paz.
— Isso é ridículo. Você pode viver de forma simples comi-
go. — Ele pegou o rosto dela nas mãos, desejando que ela o
escutasse, o amasse, que acreditasse que ele a amava. —
Posso viver de forma simples. Você quer uma coisa simples,
precisa ver meu apartamento. É tão simples que confiscaram
meus móveis.
Apesar de tudo, Grace sorriu. Foi uma pequena fresta na
armadura dela. Mitch mergulhou nela.
— Gostou? Meu Deus, se você quer simplicidade, eu sou a
pessoa certa. Posso até pedir falência. Pizza fria para o café
da manhã? Tenho. Com um pouco mais de esforço, posso
até fazer com que cortem a eletricidade em meu
apartamento. Podemos ficar no escuro, embaixo das
cobertas e cantarolar.
— Pare. — Grace riu.
Mitch levou a mão dela até seus lábios, beijando um dedo de
cada vez.
— Vou lhe dizer uma coisa. Esqueço essa história de
casamento se você esquecer essa de ir embora. Apenas...
diga que vai jantar comigo quando me derem alta daqui.
Grace hesitou.
— Por favor! Um jantar apenas! Você me deve pelo menos
isso.
Era verdade. Ela devia isso a ele.
— Tudo bem. Um jantar. Mas não posso prometer mais
nada.
Capítulo 40
Lenny Brookstein olhou as correias na
cama e sentiu o medo tomar conta dele. Disse a si mesmo
que não era a morte que o assustava. Era morrer assim,
segundo a vontade de outra pessoa. Mas agora que estava ali,
percebeu que estava enganando a si mesmo. Eu não quero
morrer. Quero viver.
— Não! — Ele entrou em pânico, tentando sair correndo do
quarto. — Eu... eu não posso! Alguém me ajude!
Mãos fortes e másculas o seguraram.
— Calma.
Esforçou-se para se acalmar. O quarto era limpo, branco e
higienizado, como um hospital. Os três homens que estavam
ali dentro pareciam médicos, com seus uniformes azuis e
suas máscaras e luvas de plástico. Mas não estavam ali para
cuidar dele.
Após todos os anos de luta, no final, tinha chegado a isso.
Teria entrado com um recurso se houvesse a mais remota
chance de sucesso, mas Lenny era inteligente o suficiente
para saber que não havia, e orgulhoso demais para jogar um
jogo que não podia vencer. Além do mais, para que lhe
serviriam mais dez anos de vida na cadeia? Já tinha perdido
uns 5 quilos e só estava ali fazia algumas semanas. Ele não
daria a comida da prisão nem para um cachorro.
Dois dos médicos se aproximaram para ajudá-lo a subir na
maca, mas ele os afastou, furioso.
— Faço isso sozinho.
Ele se deitou na maca. Os médicos amarraram as correias.
Lenny ficou constrangido ao perceber que suas pernas
estavam tremendo. Um dia, controlara um império que valia
mais do que o produto interno bruto de alguns países. Agora
não conseguia nem controlar o próprio corpo.
Virou-se para o lado e viu o rabino da penitenciária de pé
em um canto do quarto, constrangido.
— O que ele está fazendo aqui? Eu disse que não queria
ninguém.
O rabino deu um passo à frente.
— Eles vão sedá-lo logo, Lenny. Queria lhe dar a chance de
rezar comigo antes. Ou saber se há algo que você gostaria de
dizer.
— Não.
— Não é tarde demais para se arrepender de seus pecados. A
misericórdia do Senhor é infinita.
Lenny fechou os olhos.
— Não tenho nada a dizer.
Sentiu a agulha entrar em seu braço. Por um momento, o
terror tomou conta dele de novo. Queria vomitar, mas seu
estômago estava vazio. Seus intestinos também, graças a
Deus. Poucos segundos depois, os sedativos começaram a
fazer efeito. Lenny sentiu sua frequência cardíaca diminuir,
e uma sensação de sonolência o envolveu.
Pensou na mãe. Ela estava usando um bonito vestido floral,
e dançava pela cozinha, e seu pai estava bêbado de novo e
gritando com ela:
— Rachel! Venha aqui! — E então ele se aproximou dela,
cambaleante, e lhe deu um tapa, e Lenny quis matá-lo...
Pensou no Baile do Quorum. Era 1998 e ele era intocável,
um deus, assistindo aos meros mortais de Wall Street
competirem para ver quem conseguiria chegar perto dele,
tocar sua roupa ou ouvi-lo falar. Gostaria que sua mãe tivesse
visto isso...
Pensou em Grace, no seu rosto inocente e crédulo, seu lindo
corpo nu, que já fora sua fonte de prazer. Ela estava falando
com ele, cantando com sua vozinha infantil. Não quero
filhos, Lenny. Estou tão feliz como estamos. Não há nada
faltando, e ele abriu a boca para falar que a amava, que
também não lhe faltava nada, mas, então, o rosto dela
mudou e ela ficou velha, triste e furiosa, e estava apontando
uma arma para ele, não apenas apontando, mas atirando,
uma vez, e outra e outra, bang, bang, bang, e John Merrivale
estava gritando, NÃO!, mas os tiros continuavam vindo.
Estava no barco, exausto, a machadinha ainda na sua mão.
Tentava se levantar, mas não conseguia; estava
escorregando. O deque estava escorregadio de sangue e água
da tempestade, e o barco estava sacudindo, balançando
violentamente, e ele teve certeza de que seria jogado no
mar. Então escutou o helicóptero lutando contra o vento
como um inseto gigantesco, e Graydon abaixou a corda e ele
estava subindo, agarrando-se à própria vida, subindo para o
céu, e Graydon desapareceu, e sua mãe apareceu de novo.
Venha, Lenny, querido. Você pode fazer o que quiser... E
ele gritou:
— Estou indo, mãe! Estou indo. Espere por mim! — E os
braços dela o envolveram e ele nunca se sentiu mais feliz na
vida.
O Rabino olhou para os médicos.
— É isso?
— É isso — disse um. — Ele morreu.
— Isso não é justo — disse outro. — Um açougueiro cruel
como ele morrer com um sorriso nos lábios. Ele deveria ter
sofrido.
O rabino não respondeu, apenas saiu, triste.
EPÍLOGO
Grace saiu do hospital e desceu a rua. Era um maravilhoso
dia de primavera em Nova York, o sol brilhando, mais
vibrante e vivo do que ela se lembrava. As ruas estavam
cheias de gente, correndo para resolver os problemas de suas
vidas como se fossem muito importantes. Era ao mesmo
tempo familiar e estranho, como andar em um sonho que já
tivera muitas vezes.
Estava viva. Estava livre. Sabia que essas coisas deveriam
deixá-la feliz. Será que algum dia se sentiria feliz de novo?
Olhando para trás, na direção do hospital, pensou com
carinho em Mitch Connors. Mitch era um bom homem.
Generoso. Grace sentira isso desde o início. Em uma outra
vida, em um outro sonho, eu poderia tê-lo amado. Mas a
chance tinha passado, como uma pena ao vento. Ela sabia
que nunca mais voltaria.
Será que realmente sairia do país? Provavelmente. Ou, tal-
vez, simplesmente sumiria nele, como já fizera antes,
desaparecendo no reconfortante anonimato da cidade.
Virando a esquina, Grace Brookstein foi na direção da es-
tação de metrô. A multidão se abriu para deixá-la passar, de-
pois envolveu-a como um útero.
Ela desapareceu.
AGRADECIMENTOS
MAIS UMA VEZ, AGRADEÇO imensamente à família
Sheldon por confiar em mim, por me apoiar e por sua
generosidade. Também agradeço aos meus editores, May
Chen, Wayne Brookes e Sarah Ritherdon, e a todos na
HarperCollins que trabalharam tanto neste livro. Agradeço
aos meus agentes, Luke e Mort Janklow e Tif Loehnis, e a
todos da Janklow & Nesbit: vocês são os melhores. E por
último, mas não menos importante, agradeço à minha
família, principalmente meus filhos, Sefi, Zac e Theo, e ao
meu marido, Robin, que me apóia em tudo o que faço. Amo
vocês.
- TB, 2010
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Edgar Madruga
Salvador/BA
| Lançamento Gênesis do Conhecimento Depois da Escuridão - Sidney Sheldon links ao final da mensagem digitalização , formatação e revisão - Lucia Garcia Agradecimentos a Rose pela doação do livro para o Memorial do Conhecimento Sinopse: Frace Brookstein é a socialite mais querida dos Estados Unidos e leva uma vida de princesa. Até o dia em que o marido, gênio das finanças e administrador do fundo de hedge Quorum, sai para velejar e nunca mais volta. Enquanto lida com a tragédia, um escândalo envolvendo o Quorum irrompe: bilhões de dólares foram roubados de seus maiores investidores - trabalhadores americanos de classe média e baixa. Da noite para o dia, a vida de Grace se transforma. Todos os seus bens são confiscados e ela é acusada de fraude. determinada a provar sua inocência, Grace Brookstein parte em uma jornada que revelará que ninguém à sua volta é digno de confiança. LINKS: RAPIDSHARE: https://www.rapidshare.com/files/455847062/Depois_da_Escurid__o_-_Sidney_Sheldon.doc MEDIAFIRE: http://www.mediafire.com/download.php?r84q1lr9lpzp2cx PASTAS LANÇAMENTOS Genesis do Conhecimento: http://rapidshare.com/users/KPGYUD http://www.mediafire.com/?q6ebsi7j6b5cv Este e-book representa uma contribuição do grupo Genesis do Conhecimento para aqueles que necessitam de obras digitais como é o caso dos Deficientes Visuais e como forma de acesso e divulgação para todos. É vedado o uso deste arquivo para auferirdireta ou indiretamentebenefícios financeiros. Lembre-se de valorizar e reconhecer o trabalho do autoradquirindo suas obras INFORMAÇÃO: o Grupo Genesis do Conhecimento está de volta ao Google Groups * Página inicial do grupo: http://groups.google.com.br/group/genesis_do_conhecimento * Endereço de e-mail do grupo: genesis_do_conhecimento@googlegroups.com | |||
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