Ceneide Maria de Oliveira Cerveny
A fAMÚLW COMO MO'D'ELO - (Desconstruindo apatobßia
f edição
SUPERO -BIBLIOTECA * 1
Sociedade Unificada Ptiiüsta da Ensino Renovado Objetivo - SUPERO
Data
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N." de Volume
S Kagistrado por
I
Editora Livro Pleno 2001
A FAMÍLIA COMO MODELO - DESCONSTRU.NDO A PATOLOGIA
2001 Ia edição
Conselho editorial Douglas Marcondes Cesar Glauci Estela Sanchez
Coordenação editorial Douglas Marcondes Cesar Glauci Estela Sanchez
Capa Osny Marino
Ilustração da capa Alex Cerveny
Composição Micro Laser Comi. Lida. - ME
ISBN: 85-87622-08-0 Todos os direitos reservados para língua portuguesa
Editora Livro Pleno Rua Dr. Cândido Gomide, 584 - Jd. Chapadao CEP- 13070-200 - Campinas - SP - Brasil Telefax: (OXX) 19 243-2275 e-mail edlivropleno@uol.com.br
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Agradecimentos
O trabalho de tese tem uma dupla descrição: de um lado é extremamente solitário e de outro tem muita participação e envolvimento. O autor é um sistema e ao mesmo
tempo subsistema de vários outros aos quais pertence, relacionando-se, por outro lado, com uma variada gama de outros sistemas numa circularidade que vai construindo
sua realidade.
Este trabalho foi assim, e os elementos que fizeram parte desses sistemas foram muitos:
nossa própria família,
as famílias consultantes,
os terapeutas-supervisionandos,
os alunos do Curso de Especialização, colegas, amigos, parentes, a Banca Examinadora, a Instituição, o Orientador.
A eles todos, minha gratidão!
Para
José, Nair, suas famílias de origem e meus irmãos, com qucrn comecei a aprender.
Freddy, Máx, Gisa, Alex e Eve, com os quais continuo aprendendo.
André, Thlago e Roberta, e outros que virão, com os quais recomeça o aprendizado.
Apresentação
Apresentar um livro é sempre algo muito prazeroso, na medida em que se vê concretizada parte da tarefa que nos temos proposto há anos, qual seja: produzir conhecimento
e sua divulgação na área da Terapia Familiar.
Este livro, entretanto, tem algo de especial pelo fato de ter sido o resultado de uma pesquisa cuidadosa e muito bem condu zida, cuja realização acompanhamos no
curso de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, onde a autora obteve seu título de doutora como nossa orientanda.
Além disso, trata de um tema ao mesmo tempo difícil, delicado e, por assim dizer, comum, não no sentido do banal mas do muito freqüente. Nem por isso ele se torna
corriqueiro, pois, embora ocorra na vida de todas as pessoas e suas famílias, raramente alguém lhe dá a devida importância, sobretudo pelo fato de não se dar conta
do quanto existe de padrões interacionais repetitivos no ciclo vital de uma família, e mesmo de gerações de uma mesma família.
Embora o cancioneiro popular nos chame a atenção para
0 quanto ainda somos "como nossos pais" apesar de todo o esforço consciente ou inconsciente que fazemos para nos diferenciarmos e sermos "nós mesmos", adquirindo
uma "identidade própria" que represente para nós algo original, uma análise atenta nos mostrará a marca do "jeito de ser" e alguns comportamentos "típicos" de membros
de nossa família extensa de origem.
Por outro lado, não é incomum que, tanto pessoas que conheceram bem nossos ascendentes, quanto nossos pais e tias mais velhas ou avós, nos digam como somos ou fazemos
coisas
1 nino este ou aquele membro de nossa família.
A questão, porém, é que freqüentemente essas observações assumem apenas as características de elogio ou crítica pela posição ou conceitos que tais membros gozam
no grupo familiar. Raramente nos preocupamos em saber exatamente o que estamos repetindo e muito menos como tais padrões chegaram até nós e nos influenciam se, muitas
vezes, nem conhecemos a pessoa que nos serviu de modelo.
Esse é o ponto que este livro pretende discutir, tratando dos padrões de comunicação, afetivos, dos mitos, das crenças e dos compromissos de lealdade, entre outros,
e demonstrar, por meio de exemplos de casos, o processo complexo de transmissão que se dá, repercutindo de forma insuspeitada na problemática de casais e famílias
que procuram a Terapia Familiar.
É evidente que tal fenômeno não implica apenas problemas; as chances de facilitação para enfrentar e resolver situações são as mesmas, dependendo do tipo de padrão
em questão.
Para concluir, gostaríamos de dizer que se trata de excelente contribuição não só para psicólogos e terapeutas familiares, mas para todos aqueles que têm interesse
em conhecer melhor o processo interacional e suas conseqüências no contexto da família.
De estilo claro, conciso e elegante, sua leitura é altamente recomendada na medida em que, a nosso ver, constitui obra básica para o trabalho com famílias e casais.
fará predizer o que vai acontecer é preciso entender o que já aconteceu.
Nicolau Maquiavel (1469-1527)
Professora Doutora Rosa Maria Stefaiúni de Macedo Coordenadora do Núcleo de Família e Comunidade do Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP.
Sumário
Introdução...................................................................... 15
CAPÍTULO I
família e sistema............................................................ 19
CAPÍTULO II
família e repetipão.......................................................... 33
CAPÍTULO III È repetipão de padrões inter acionais e
interface terapêutica....................................................... 75
CAPÍTULO IV
Objetivos de estudo......................................................... 83
CAPÍTULO V
Método............................................................................ 87
CAPÍTULO VI
'•I //álise dos casos estudados............................................ 105
CAPÍTULO VII ( onclusões....................................................................... 129
bibliografia..................................................................... 131
Introdução
Provavelmente, muitas pessoas, que como eu, a partir do trabalho e experiência clínica, deparam-se com fatos que gostariam de pesquisar, percebem como é difícil
essa interface do trabalho acadêmico de pesquisa com a prática clínica.
Embasamos nossa prática clínica numa teoria condizente com nosso sistema de crenças, e quanto mais experimentados ficamos, mais incorporamos a técnica e mais essa
técnica fica impregnada de especificidades nossas.
Da eficácia dessas técnicas, passamos a uma sistematização das mesmas e, ao nos voltai-mos para o trabalho teórico, oportuno é retomar a explicação dos pressupostos
que nos norteiam e a nossa fundamentação teórica.
Bateson (1951) enfatizou a epistemologia recursiva própria da relação existente entre a teoria e a prática clínica quando disse: "O teórico só pode construir suas
teorias referindo-as ao que o clínico realizou ontem; amanhã o clínico fará algo diferente na l>ase dessas mesmas teorias" (p. 272).
Na área da Terapia Familiar Sistêmica (TFS), com a qual nos propusemos a trabalhar, é comum que os modelos teóricos rstejam sobrepostos a nomes: falamos do modelo
de Minuchin quando nos referimos à Teoria Estrutural; de Haley significando a ICstratégia; de Bowen para exemplificar o intergeracional e assim por diante. Todos
eles têm ou tiveram em comum a adoção de um pensamento sistêmico, podendo compartilhar conceitos básicos, Rias enfatizando pontos que os definiram em um ou outro
modelo.
Sluzki (1983) tentou classificar os modelos que comparti-lham uma origem sistêmica em três categorias: os que se centram l'iliiripalmente no processo, na estrutura
ou na visão do mundo, vlriiindo uma maior compreensão dentro dessa diversificação.
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Ceneide M. de O. Cerveny
Como um novo campo na área do conhecimento, a Terapia Familiar Sistêmica ainda está descobrindo e reformulando conceitos valendo-se de talentos pessoais, o que dificulta
a universalidade e o consenso. As revisões dos posicionamentos teóricos acontecem com freqüência e podem assim acontecer porque a maioria dos seus autores estão
trabalhando e produzindo conhecimento. O que vemos hoje, então, são mudanças de posições assumidas há 10, 20, 30 anos, mesmo porque, a Família, nosso objeto de estudo,
como entidade dinâmica que é, tem sofrido nas últimas décadas intensas modificações relacionadas com o social, o econômico, o cultural e com outros contextos. No
entanto, apesar dessa contínua evolução, a TFS já tem uma regularidade tal que permite a definição de um território próprio, em torno do qual muito já se pensou
e escreveu, mas ainda há muito por descobrir, reelaborar e reestruturar.
É nesse emaranhado e nessa reestruturação que nos propusemos a estudar, refletir e pesquisar sobre a repetição dos padrões interacionais da família nas diferentes
gerações, tema esse que com muita frequência aparece no nosso trabalho clínico.
Haley (1976) disse: "Os pesquisadores exigem teorias complexas; os clínicos necessitam de teorias simples. O pesquisador deverá levar em consideração e refletir
sobre as inúmeras variáveis. O clínico tem que escolher variáveis cruciais e agir... Felizmente os clínicos são mais livres para simplificar" (p. 100). Não nos colocamos
na posição de Haley (1976) nessa interface de pesquisador e clínico, mas pretendemos transformar a experiência clínica em conhecimento que possa ser transmitido
e discutido e, nessa seqüência, tomar-se novamente experiência. A prática clínica enriquece a teoria e as contribuições e reflexões acerca do trabalho clínico podem
levar a um maior desenvolvimento dos modelos sistêmicos.
Nesse sentido, concordamos com Figueiredo (1988) quando fala da história da Metodologia Científica afirmando que todos têm, em princípio, o direito e a obrigação
de produzir não só novos conhecimentos, mas novas formas socialmente aceitáveis de produção do conhecimento.
Lynn Hoffman diz em um artigo de 1989 que, ao terminar seu livro, Foundations qfjamily therapy, em 1981, já estava num processo pessoal de revisão de conceitos básicos,
o que a levou a
\ família como modelo
17
< Bi rever um epílogo delineando sua nova posição, perspectiva e Orença dentro da Terapia Familiar.
Nesse campo dinâmico e mutável, o trabalho de investigação, estudo e formação é extremamente dinâmico e, às vezes, temos a sensação de que, no meio do caminho, deveríamos
recomeçar ou estar sempre encaixando prólogos e adendos em nossos trabalhos.
Talvez fique a impressão de que os autores e teóricos desse campo sejam inconsistentes ou volúveis. Convém frisar que essa não é, absolutamente, a nossa colocação.
Os autores reformulam suas próprias teorias porque, como já dissemos, têm a oportunidade de efetuar essas mudanças e continuar a transformação da experiência e vivência
em conhecimento.
Contudo, em meio a essas constantes mudanças, o tema da repetição continua para nós instigante e persistente.
No capítulo I desse trabalho, procuramos conceituar a família enfocando mais a brasileira e a disponível para a Terapia Familiar. Definimos os tipos de família que
usaremos em nosso trabalho como Famílias de Origem, Família Extensa, Família Nuclear, Família Atual e Família Substituta.
Ainda nesse capítulo, na parte 2, procuramos conceituar a família como sistema, partindo da definição e princípios que regem os sistemas gerais e aplicando-os à
família como sistema.
A terceira parte do capítulo I é uma rápida revisão da Terapia Familiar Sistêmica desde o seu início até os nossos dias. revisão esta que, com certeza, não conterá
toda a história, mas apenas situara algumas etapas.
O capítulo II é dedicado à repetição. Nele procuramos conceituar o que entendemos por repetição e os subsídios que a literatura de Terapia Familiar Sistêmica fornece
a respeito do assunto. Damos também algumas referências de outras teorias a respeito do tema. Definimos ainda nesse capítulo as formas sob as (üiais a repetição
pode ser observada na prática clínica.
A seguir, fazemos referência a cada um dos padrões interacionais, por meio dos quais podemos perceber a repetição no nível intergeracional que são: a comunicação,
as regras familiares, os mitos, as seqüências, as triangulações, os padrões de afetivida-de e a hierarquia.
O capítulo m é dedicado à repetição de padrões interacionais familiares e à interface terapêutica. Os terapeutas de família 13
Ceneide M. de O. Cerverqj
enfrentam nos atendimentos clínicos situações que podem ser modelos ou antimodelos de suas próprias famílias de origem ou atual. Essas interfaces facilitam ou impedem
o bom funcionamento do Sistema Terapêutico e são esses os aspectos tratados nesse capítulo.
A seguir, fazemos a análise dos casos estudados para chegar ao último capítulo onde apresentamos nossas conclusões.
Este trabalho foi originalmente uma tese apresentada no Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP como exigência para obtenção do título de doutor
em psicologia clínica. Trata-se então de um trabalho feito dentro dos critérios definidos pela Universidade, que esperamos seja, mesmo com essa configuração, útil
e agradável àqueles que se interessam e militam no campo da Psicoterapia, principalmente a familiar.
CAPÍTULO I
?'omitia e, sistema
"A família é um modelo universal para o viver. Ela é a unidade de crescimento; de experiência; de sucesso e fracasso; ela é lambem a unidade da saúde e da doença."
Nathan W. Ackcnnan
1. A FAMÍLIA
As contribuições que recolhemos nesse capítulo justificam-se pela preocupação em chegar a uma maior compreensão do que denominamos família, grupo familiar, conceito
de fundamental importância neste trabalho, porque é nesse grupo específico que nos propusemos a investigar os padrões interacionais que se repetem intergeracionalmente.
Medina (1974) afirma, em sua obra. que conhecemos mui-lo pouco a respeito do fenômeno que denominamos família, fenômeno esse que sabemos ter uma existência real
apesar de todas as dificuldades de enfocá-lo.
Poster (1978) também diz que. apesar do atual interesse ipic existe em relação à família, sobre sua evolução no passado e para o futuro, "a ciência social não possui
ainda uma definição ndequada de família, ou um conjunto coerente de categorias que
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Ceneide M. de O. Cerveny
sirva de base para analisá-la, ou um rigoroso esquema conceptual para especificar o que há de significativo nela" (p. 9).
A pesquisa do termo família proporcionou-nos algumas visões diferentes da mesma. Entre as definições encontradas, temos: "pessoas aparentadas, que vivem em geral
na mesma casa, particularmente o pai, a mãe e os filhos" (Aurélio, 1986); "pessoas do mesmo sangue", e ainda uma terceira: "ascendência, linhagem, estirpe" (Aurélio,
1986). Selecionamos essas definições, porque, de certa maneira, elas representam as três dimensões de família a que vamos nos referir nesse trabalho.
Tais definições reproduzem, também, de certa maneira, a própria dificuldade de conceituar a família brasileira, visto que os estudos históricos sobre o assunto mostram
que, sob a denominação de família, existe uma pluralidade de composições que incluem: laços sangüíneos, relações não formalizadas por parentesco, família conjugal
e extensa, núcleo doméstico e família não legitimada juridicamente, entre outras.
Os estudos sobre a família brasileira mostram que a rede familiar no período colonial era uma instituição vertical, baseada no parentesco, lealdades pessoais e territorialidade.
A base dessa estrutura, segundo Kuznesof (1988). era o parentesco, o parentesco ritual, a ajuda mútua, a troca e o clientelismo. Os casamentos endogâmicos, tanto
da elite como das classes populares, preservavam a propriedade e consolidavam as posses.
No fim do século XIX. tornaram-se mais comum no Brasil os casamentos exogâmicos até como resposta às transformações socioeconómicas que ocorriam nessa época. Tomaram-se
as famílias mais horizontais e menos verticais.
Os estudos sobre a família no Brasil têm como marco referencial básico o trabalho realizado por Gilberto Freyre em 1933, sobre a mesma no período colonial. Durante
muito tempo, família brasileira foi sinônimo de família patriarcal e esta sinônimo de família extensa (Correa, 1982). Tal rótulo não era representativo de uma família
denominada brasileira, pois existiam outras formas de composição familiar no Brasil mesmo no século XIX (Samara, 1983).
Pesquisas mais recentes ressaltam a imensa diversidade de composições familiares no nosso país, que colocam a necessidade de estudo e revisão da família brasileira.
Essa revisão teve
njwruLia como modelo
21
um marco importante na década de 70, quando houve o aparecimento de novas pesquisas sobre o assunto.
Da Matta (1987) diz que "uma reflexão mais crítica sobre a família permite descobrir que, entre nós, ela não é apenas uma Instituição social capaz de ser individualizada,
mas constitui também e principalmente um valor. Há uma escolha por parte da sociedade brasileira, que valoriza e institucionaliza a família como uma instituição
fundamental à própria vida social. Assim, a família é um grupo social, bem como uma rede de relações. Funda-se na genealogia e nos elos jurídicos, mas também se
faz na convivência social intensa e longa. É um dado de fato da existência social e também constitui um valor, um ponto do sistema para o qual tudo deve tender"
(p. 125).
Figueira (1986) referindo-se à dimensão invisível da mudança social com relação à família brasileira, ao que significa ser moderno e acompanhar transformações diz:
"no momento, o moderno convive com o arcaico na família brasileira de modos sutis e complexos que só recentemente começam a ser estudados" (p. 13).
Todos os estudos recentes sobre o assunto mostram, de alguma maneira, a dificuldade para a utilização consensual do termo família na nossa realidade e a conseqüente
necessidade de delimitar e definir esse grupo em nossos trabalhos de investigação e também na prática clínica da terapia familiar.
Famílias foram e são estudadas por vários segmentos da ciência em diferentes dimensões espaço-temporais e, possivelmente, nenhum estudo vai esgotar o assunto e fornecer
resposta para Iodos os questionamentos.
No nosso caso específico, tentaremos definir e deixar claro o que entendemos pelas categorias de família que usamos, que são: Família de Origem (FO), Família Extensa
(FE). Família Nuclear (FN). Família Atual (FA) e Família Subsütuta (FS).
A Família de Origem (FO) está ligada aos conceitos de ascendência e descendência, pressupondo laços sangüíneos. Assim ii Família de Origem de um indivíduo inclui
seus pais e os pais desses, numa ascendência progressiva.
Uma outra visão que temos da família, principalmente quando estamos dentro da prática clínica, é a de Família Extensa (FE). Para Goode (1964) a família extensa pode
ser vertical com Ires ou mais gerações, ou lateral: pela adoção de outras unidades nucleares.
22
Ceneide M. de O. Cerveruj
Nossa definição de família extensa pressupõe parentesco sangüíneo ou por afinidade de pessoas ligadas entre si no tempo e no espaço e que se articulam com o presente.
Bell (1975), em uma de suas maneiras de enfocar a família, diz que esta é uma unidade coletiva composta de pais e filhos, desenvolvida a partir de um relacionamento
biológico, recebendo comu mente a designação de família nuclear.
O mesmo autor exclui de sua definição o espaço físico como característica da família nuclear, o que é uma realidade devido às modificações exigidas atualmente na
estrutura familiar.
McGoldrick e Gerson (1985) falam em família nuclear inta-ta formada por cônjuges em um primeiro casamento com seus filhos biológicos.
Assumimos como Família Nuclear (FN) a definição proposta por Bell (1975) já citada anteriormente.
Outro tipo de família a que nos referimos é a Família Substituta (FS). Para nós, o termo refere-se a uma família que assume a criação de uma ou mais pessoas com
as quais não tem laços de parentesco.
Ackerman (1974) diz que a família é um grupo dotado de dinâmica e especificidade próprias e que, mais do que qualquer grupo, só pode ser compreendido dentro de contextos
maiores que incluem o seu próprio observador.
Wynne (1980) apresenta uma definição de família baseada na prática da terapia familiar e diz que a constelação familiar disponível para uma terapia familiar exploratória
é aquela em que, entre os seus elementos, há uma ordem de relações contínuas e significativas emocionalmente.
Revendo a definição de família por nós proposta em outro trabalho, em 1982, considerávamos então a família como um sistema dentro do qual pessoas vivem no mesmo
espaço físico e mantêm relações significativas. Chamávamos relações significativas às relações de interdependência entre os vários subsistemas da família.
Se nossa preocupação naquela época era a utilização de um instrumento para avaliar relações familiares no processo de diagnóstico com crianças e adolescentes, a
circunscrição espacial era uma forma de estabelecer limites para a pesquisa e melhor controle dos resultados. Após mais 10 anos trabalhando com famílias, talvez
no mesmo experimento não continuaríamos estabe-
¦ \ famuia como modelo
23
Iriondo o conceito de família aliado a viver "no mesmo espaço físico", mas continuamos vendo o grupo familiar como um sistema de relações que são significativas
mesmo que não haja interdependência entre os vários subsistemas. Nossa preocupação com a repetição de padrões interacionais no grupo familiar e o intenso trabalho
clínico na área da terapia familiar ampliaram inclusive nossa visão sobre o çue seriam relações significativas.
Exemplo disso é a família trigeracional que é a que tem se prestado mais. na prática, para a observação da transmissão e repetição de padrões interacionais. Na maioria
das vezes, não há convivência no mesmo espaço, mas as relações continuam sendo significativas. Já constatamos esse tipo de relação significativa com parentes que
estão mortos, o que pode significar inclusive a relação perpetuada por meio dos mitos.
Nossa prática clínica tem demonstrado que a "família" atendida numa Terapia Familiar pode ser de qualquer tipo. como as referidas anteriormente, ou ainda composições
familiares que não são usualmente descritas.
Poster (1978) argumenta que uma teoria sobre família deve levar em consideração sua análise num nível psicológico, no nível da vida cotidiana e. por último, na relação
entre a família e a sociedade.
O primeiro nível pressupõe uma estrutura emocional, com hierarquias de idade e sexo em formas psicológicas, um processo de interação com um padrão de autoridade
e amor instruído pelos adultos e um padrão de identificação que consolida vínculos entre iidultos e crianças. O segundo nível é derivado do estudo da rotina de atividade
familiar e dá indicações do tipo de habitação da família, das relações que existem entre os membros, as funções da Vida cotidiana e outros. O terceiro nível define
como as instituições políticas, econômicas, religiosas e urbanas influem na família <• o grau de equilíbrio ou conflito entre a família e a sociedade.
Provavelmente, o que Poster critica é o enfoque da família Nob apenas um ponto de vista seja ele o antropológico, o social ou 0 psicológico, que foi durante muito
tempo o usual nos estudos nobre o assunto.
Em sua teoria crítica de Família, Poster faz referência aos primórdios da Terapia Familiar Sistêmica, quando Bateson (1951), Wynne (1956), Watzlawick (1967), Jackson
(1967) e outros esta-Mii mudando o enfoque do tratamento dos esquizofrênicos emba
2^
Ceneide M. de O. Ceweny
sados nas descobertas da teoria da Comunicação e Terapia Familiar.
Se Poster tivesse avançado mais em sua análise, provavelmente, teria a satisfação de ver concretizadas suas recomendações sobre teoria de família na concepção mais
atual de família como sistema.
2. A FAMÍLIA COMO UM SISTEMA
A partir dos estudos com esquizofrênicos e suas famílias, cientistas, clínicos e pesquisadores (Bateson, 1951; Lidz, 1957; Wynne, 1958; Watzlawick, 1967; Jackson,
1967 e Beavin, 1967, entre outros) começaram a ver o grupo familiar sob uma nova ótica de forma interacional: não só como um conjunto de indivíduos, mas como uma
entidade, uma totalidade que tinha uma estrutura específica.
Quando Von Bertalanffy, na década de 50, falava de sistema, dizendo ser "aparentemente, um conceito pálido, abstrato e vazio, mas repleto de um significado oculto,
de possibilidades de fermentação e explosão" (p. 61). não poderia prever como suas palavras eram adequadas ao campo da terapia familiar.
O que é um sistema?
Para Von Bertalanffy (1968), "sistema é um complexo de elementos em interação" (p. 84), um todo organizado ou, ainda, partes que interagem formando esse todo unitário
e complexo.
Entre as várias definições de sistema, temos a de Hall e Fagen (1956) que o definem como um conjunto de objetos, com as relações entre os objetos e os atributos,
sendo que os objetos são componentes ou partes do sistema, os atributos são as propriedades dos objetos e as relações dão coesão ao sistema todo.
Katz e Kahn (1970) definem qualquer sistema como uma entidade conceituai ou física, integrada por partes relacionadas, interatuantes e interdependentes.
Pensando nas relações do grupo familiar, segundo a teoria de sistemas, podemos dizer que neste o comportamento de cada um dos membros é interdependente do comportamento
dos outros. O grupo familiar pode, então, ser visto como um conjunto que funciona como uma totalidade e no qual as particularidades dos membros não bastam para explicar
o comportamento de todos
A família como modelo
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os outros membros. Assim, a análise de uma família não é a soma das análises de seus membros individuais. Os sistemas interpessoais como a família, podem ser encarados
como circuitos de retroalimentação, dado que o comportamento de cada pessoa afeta e é afetado pelo comportamento de cada uma das outras pessoas.
Se o grupo é uma entidade que adquire um sistema de crenças e tradições, por mais breve que seja a convivência grupai, então o grupo familiar, pela sua longa duração
e nível de inter-re-leção, é um agrupamento com muita especificidade e que deve ser visto, antes de tudo, como um sistema de relações.
Em 1948, Lewin diz que a família - como um sistema - é mais do que a soma das suas partes, sendo que as características da família não podem ser entendidas pelo
simples somatório dos valores, personalidades e características de seus membros, considerando que a família - como sistema - desenvolve padrões e modelos próprios
de respostas.
Existem alguns princípios teóricos que se aplicam a todos os sistemas vivos. Tais sistemas possuem limites, mas são abertos e têm constante relacionamento de trocas
com o meio.
A unidade familiar é um sistema composto por indivíduos que podem também ser considerados sistemas por si sós e ainda uma parte de um sistema, ou seja, um subsistema.
Essa unidade familiar também faz parte de um sistema familiar maior que também se inclui em outros sistemas mais amplos, como o sociocul-lural e assim por diante.
Como qualquer outro sistema, a família opera de acordo com certos princípios como homeostase, morfogênese, feedback, causalidade circular e não-somatividade.
A homeostase é um processo auto-regulador que mantém a estabilidade no sistema e protege-o de desvios e mudanças. Em termos familiares, refere-se à tendência da
família em manter um certo padrão de relacionamento e empreender operações para impedir que haja mudanças nesse padrão de relacionamento já estabelecido.
Outro princípio, sob o qual a família como sistema opera, é a morfogênese. Por sua grande adaptabilidade e flexibilidade, os nlstemas têm a capacidade da autotransformação
de forma criativa. A família tem potencial para mudança e a morfogênese designa uma mudança dentro da ordem estrutural e funcional do sistema, de modo que este adquire
nova configuração qualitativamente 111li rente da anterior.
26
Ceneide M. de O. Cerveny
Similar ã homeostase, o princípio da morfostase designa a capacidade do sistema de manter a sua estrutura em um ambiente mutante, por meio dos circuitos de retroalimentação
negativa.
O feedback positivo aumenta a atividade do sistema enquanto os negativos revertem-no ou pedem correção.
Nos sistemas humanos, o mecanismo de feedback tem duas funções primordiais: a primeira é fornecer informações e a segunda é definir o relacionamento entre os membros
do sistema.
A causalidade circular, outro princípio, sugere que mudanças em um elemento do sistema afeta todos os outros, bem como o sistema como um todo. É um processo dinâmico
que se repete sempre de maneira circular. Segundo Macedo (1991), "a característica do padrão de interação de um sistema é a circularidade, significando que a interação
envolve uma espiral de feedbacks recursivos, ao contrário da relação linear" (p. 58).
No sistema familiar, isto significa que cada membro do sistema influencia os outros, sendo ao mesmo tempo influenciado por eles. Essas influências mútuas são o cotidiano
da vida familiar.
Um sistema não pode ser considerado como a soma de suas partes. Este é o princípio da não-somatividade que evidencia ser impossível ver partes do todo como entidades
isoladas ou somar características das partes para entender o todo. As conseqüências desse princípio no sistema familiar são que os indivíduos só podem ser compreendidos
dentro dos contextos interaoionais nos quais funcionam. Para compreender o sistema familiar devemos vê-lo como um todo.
Quando em nosso trabalho de pesquisar os padrões inte-racionais que se repetem através das gerações, assumimos considerar a família como um sistema, vimos que tais
princípios, já citados, estão em estreita ligação com a repetição daqueles padrões interacionais.
Assim, por exemplo, a família quebra padrões interacionais do passado e pode fazer reformulações no presente. As rotinas, regras e rituais que fazem parte do cotidiano
de um Sistema Familiar protegem-no e asseguram uma continuidade de uma geração para outra, em meio às mudanças externas.
Taylor (1983), referindo-se à vida em família e à parentali-zação, diz que a flexibilidade e elasticidade são atributos importantes da família, exercitados por meio
da conservação e mudança dos padrões multigeracionais. "O potencial para a mudança e a
A família como modelo
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habilidade para criar novos valores capacita os pais a dividir com seus filhos um sentido de passado duradouro que é de certa forma conectado com o potencial para
mudança no futuro" (p. 344).
Sluzky (1984) chama atenção para a facilidade com que fomos sobrepondo o conceito de sistema e família, chegando à produção de uma literatura onde, às vezes, família
e sistema costumam aparecer como se fossem sinônimos. Diz ele: "A família não é um sistema. Urna família é o que uma família é. Podemos pensar acerca de uma família
através de uma perspectiva sistêmica, sob uma óüca sistêmica, utilizando um modelo sistêmico e deste modo dizer: a família, se a pensarmos como um sistema..."
E procedente a preocupação de Sluzky e achamos que podemos pensar a família como um sistema de relações, utilizando o modelo sistêmico para entender a repetição
de padrões interacio-uais em nível intergeracional.
Desde os anos 60, quando Bertalanffy estabeleceu as bases teóricas para a compreensão dos sistemas abertos, até os nossos dias, muitos terapeutas valeram-se de práticas
clínicas baseadas na teoria dos sistemas, usando noções particularizadas de sistema, dependendo do enfoque terapêutico também particular, (juando nos deparamos com
a necessidade de definir e buscar significados, é que percebemos a dificuldade, já mencionada, da l influência do trabalho clínico e da investigação acadêmica.
A noção de sistema em terapia familiar é algo que merece iMissa atenção. É evidente que a teoria de sistemas deu um impul-rto muito grande à terapia familiar nessas
últimas décadas, mas,
i orno explica muito bem Papp (1983). "a palavra sistema conver-leu se em um clichê da Terapia Familiar e perdeu grande parte do
CU significado por causa do uso excessivo, da generalização e da ri l urica acadêmica" (p. 20).
E justamente sistema e Terapia Familiar que abordaremos a seguir, numa tentativa de buscar o significado da Terapia Fami-
ii ii Sistêmica.
I A TERAPIA FAMILIAR SISTÊMICA
A Teoria Geral de Sistemas proposta por Von Bertalanffy ii igra. no mundo da ciência, uma nova perspectiva para a com-......••ião dos fenômenos humanos.
28
Ceneide M. de O. Cerueny
Paralelamente, em 1948, Wiener propõe a Cibernética para a investigação científica dos processos sistêmicos, na qual Bateson apóia-se para a compreensão das relações
humanas.
Bateson (1967) trabalha com a teoria dos Tipos Lógicos de Whitehead e Russel, nas pesquisas com pacientes esquizofrênicos, e Watzlawick, Beavin e Jackson, a partir
da teoria da Informação, propõem a pragmática da Comunicação Humana.
A confluência desses diferentes campos foi fundamental para o desenvolvimento posterior da Terapia Familiar Sistêmica.
Guerin (1976), no capítulo I de seu livro, Family therapy: tlieory and practice, faz uma revisão dos 25 primeiros anos da Terapia Familiar nos Estados Unidos, a
partir de 1950, e mostra que, ao mesmo tempo, desenvolviam-se pesquisas com esquizofrênicos e suas famílias em diferentes regiões: na Califórnia (Bateson. Jackson,
Weakland e Haley), em Topeka e Washington (Bowen e alunos), em Baltimore (Lidz), em Atlanta (Whitacker e Malone) e na Filadélfia (Scheflen e Birdwhistle). Outros
pesquisadores trabalhavam, na mesma época, em outras partes do país em pesquisas que não se relacionavam com esquizofrenia, mas enfocavam a família em diferentes
contextos.
Troya (1986) observa que, enquanto nos Estados Unidos nota-se uma predominância na pragmática e ênfase na utilização da Ciência Aplicada, na Europa predomina uma
tendência à especulação teórica e à relação entre os diferentes campos do saber. Na Terapia Familiar Sistêmica, é possível perceber os resultados positivos dessa
complementaridade por meio dos seus avanços nas últimas décadas e com as contribuições teórico-práticas advindas dessas duas culturas.
Karrer (1989). citando as fases da Terapia Familiar Sistêmica, divide-as em três: numa primeira fase, a essencialista, a TFS fechou-se em um pequeno círculo, tentando
preservar a sua verdade com um pequeno número de seguidores que formavam o grupo que propunha algo insólito, diferente, uma maneira curiosa de ver os sintomas e
as relações dentro de uma família.
Na fase seguinte, a transacional, a TFS começa a perceber sua limitações e a procurar, em outros campos, mais embasamento, a reunir posturas diferentes em busca
de um posicionamento mais sólido.
Na terceira fase, a do relativismo, a teoria já está em meio a um caleidoscópio, com contribuições, críticas e inovações que
AJamília como modelo
20
aparecem de todos os lados. Nesse ponto, tendo a teoria um crédito e um lugar que, dificilmente, lhe será tirado, consegue absorver diferentes tendências.
Stierlin, Simon e Wynne (1984) dizem que, na medida em que a TFS vai alcançando a maioridade, existe uma tentativa cada vez maior de alcançar a integração clínica
e conceituai dos diferentes modelos ou, ao menos, certa compreensão de suas diferenças e similaridades.
Três anos antes da afirmação dos autores acima, Hoffman (1981) fez um empenho em reconstruir, assim como outros autores, uma viagem pela Terapia Familiar Sistêmica,
explicando de onde provêm os conceitos que fluem nos vários modelos. Diz ela: "A terapia familiar era e continua sendo uma maravilhosa Torre de Babel; nela as pessoas
falam muitas línguas" (p. 20).
Poderíamos dizer que as pessoas, em Terapia Familiar Sistêmica, falam uma mesma língua que tem inúmeros dialetos, pois elas têm uma raiz comum que é o pensar a família
como um sistema, porém, sob a ótica particular de cada autor.
Dissemos, anteriormente, que nos primórdios da TFS existiu uma fusão muito grande entre a prática clínica, o talento do terapeuta e a teoria. Assim, um Salvador
Minuchin, clínico talentoso, com intervenções terapêuticas que visavam o equilíbrio da família, principalmente, por meio do trabalho com os limites, regras e hierarquia,
acabou por contribuir com uma teoria mais voltada para o estrutural na Terapia Familiar Sistêmica. Haley, trabalhando com os esquemas disfuncionais da família nos
vários ciclos vitais e planejando estratégias cuidadosas para atingir com a família as metas propostas, proporcionou uma terapia familiar diretiva que se denomina
Terapia Familiar Sistêmica Estratégica. Bowen (1976) e Boszormenyi-Nagy (1974) contribuíram com a perspectiva multigeracional na Terapia Familiar, pressupondo que
os padrões interacionais de uma família nuclear estabelecem-se nas suas famílias de origem.
Papp (1983) diz que "no trabalho clínico as definições da maioria dos terapeutas, do que é um sistema, se baseiam no que eles crêem que está ocasionando o problema
e no como se propõem a intervir" (p. 20).
Sluzki (1983), no seu artigo, "Process, structure and world views: toward an integrated view of systemic models in family therapy", fala em construetos intermediários
situados entre os para-
iSU
( eneiae m. ae u. uerueny
digmas gerais e técnicas aplicadas, quando se refere aos múltiplos modelos de origem sistêmica. Diz ele: "A questão no campo da terapia familiar de orientação sistêmica
pode ser descrita, então, em termos de várias coleções, não exclusivas de variáveis e construc-tos, quer dizer, uma série finita de modelos intermediários todos
entroncados na cibernética, o que lhes confere uma articulação potencial de uns com os outros" (p. 360).
Nesse mesmo artigo, Sluzki classifica os modelos que compartilham uma raiz sistêmica a partir de sua centralização no processo, na estrutura ou nas visões do murado.
Os modelos centrados no processo, segundo Sluzki, são aqueles em que o sintoma é mantido por meio de seqüências recursivas que contêm a conduta sintomática ou problemática.
Os padrões de autoperpetuação que aumentam a probabilidade dessas seqüências recebem o nome de regras familiares. Assim a finalidade da terapia familiar é mudar
as regras para que a família possa recuperar seu potencial alternativo de lidar com os conflitos. As noções fundamentais para esse modelo são: a noção de padrão,
de pontuação das seqüências e de regras familiares.
O modelo orientado para a estrutura, segundo Sluzky, está fundamentado em termos de variáveis estruturais específicas do tipo limite (que definem as regras de participação)
e do tipo hierarquia (que definem as regras de poder). Esse modelo preocupa-se com a qualidade normativa das transações, tanto entre os grupos dentro da família,
como entre a família e o exogrupo.
O modelo orientado para as visões do mundo apóia-se no pressuposto de que cada indivíduo tem um sistema de crenças particular que organiza a sua realidade e determina
sua conduta e ideologia. Essa realidade define o acoplamento entre o indivíduo e seu meio.
A família também constrói a sua realidade a partir da história compartilhada por seus membros. As condutas sintomáticas incorporam-se como parte da organização dessa
realidade familiar e a terapia baseia-se na construção de realidades alternativas.
A idéia de que a realidade se constrói e de que os sistemas podem ser programados ou se autoprogramam fizeram uma distinção entre os sistemas cibernéticos que acabaram
por serem enquadrados em Ia ou 2a cibernética.
A Ia cibernética, cujo estudo se iniciou com a comunicação nos sistemas, preocupava-se com a manutenção da estabili
AJamilia corno modelo 31
dade do sistema e punha ênfase no processo de homeostase. Outros conceitos fundamentais da Ia cibernética seriam a circularidade, a continuidade, o propósito e o
"sistema observado". Este último, segundo Hoffman (1990), corresponderia à noção de que se pode apreender objetivamente uma verdade sobre os outros e o mundo.
A 2a cibernética amplia o conceito de circularidade para incluir o obseivador como participante, num "sistema observante" que corresponderia, também segundo Hoffman,
à noção que só podemos conhecer nossas próprias construções sobre os outros e sobre o mundo. O "sistema observante" é proposta de uma posição construtivista (Von
Glasersfeld, 1984).
O modelo orientado para a visão de mundo, segundo Sluzki, estaria mais próximo de uma perspectiva construtivista. No entanto, o mesmo autor defende que tanto o processo
e a estrutura como as visões de mundo são níveis não mutuamente exclusivos, mas sim níveis de análise do fenômeno interpessoal relacionados dialeticamente.
Papp (1983) exprime isso de outra forma, dizendo que "no pensamento de sistemas não há termos absolutos nem certezas: a realidade e a verdade são circulares" (p.
23).
Desde a adoção da perspectiva da família como sistema, com todas as características deste já descritas há algumas décadas, até chegarmos hoje ao paradigma construtivista
ou constru-i ionista na Terapia Familiar, vimos que um longo caminho foi per-corrido. A semente sistêmica, porém, continua, na perspectiva da terapia Familiar, a
considerar o indivíduo como parte de um sis-tema maior que é a família, que ainda faz parte como microssiste-ina de sistemas maiores e, nessa visão, o comportamento
não é simplesmente o produto de processos intrapsíquicos, mas o resul-i.ulo de interações dentro de um sistema.
Quando afirmamos que nossa proposta é a de estudar a 11 petição de padrões interacionais na família do ponto de vista ou Oom base em pressupostos sistêmicos, estamos
usando esse modelo como uma lente através da qual percebemos essa realidade, i i.ilialhar num modelo sistêmico significa, para nós, pensar, pesquisar e clinicar
sistemicamente. Uma das coisas importantes que i lente oferece é a possibilidade de não estarmos preocupados ¦ Mi os porquês, mas tentarmos responder o como. Indagar
por i"< o indivíduo repete não faz parte do pensar sistêmico, mas
32
M. de O. Cerveriy
pesquisar como isso acontece vai nos permitir formular e observar as condições em que pode haver a repetição.
Quando nos definimos dentro de um pensar sistémico e atuamos na clínica com um modelo sistêmico, estamos falando de um conjunto de práticas não excludentes em contínuo
crescimento, apesar de sua diversidade, mas que permitem uma contínua evolução dentro do campo.
Independentemente da posição assumida por nós na prática terapêutica, de nossa percepção da família e da realidade que se nos apresenta, se tratamos com um problema
determinado ou não pelo sistema de relações, percebemos a repetição de padrões interacionais no intergeracional e o modelo que seguimos é usado como lente para visualizar
essa realidade.
Von Glasersfeld (1984) inicia seu artigo. "An introduction to radical constructivism", no livro, The invented reality, citando Alcmeón: "Os deuses possuem a certeza,
mas nós, como homens, só podemos conjecturar" (p. 20).
Dessa posição construtivista depreende-se que jamais se poderá conhecer verdadeiramente o que é alguma coisa, mas sim o que se conjectura sobre ela. Nesse trabalho
conjecturamos sobre a repetição de modelos que acontece dentro dessa entidade a que denominamos família.
"Tudo já foi pensado antes, o difícil é pensá-lo dc novo na sua*própria linguagem e contexto."
Goethe
CAPÍTULO II
família e repetirão ----¦
1. A REPETIÇÃO
- Tem outro jeito?
Essa pergunta foi formulada por um pai, durante uma sessão de terapia familiar, quando o terapeuta lhe mostra, num determinado momento, que ele estava repetindo
um padrão inte-racional trazido de sua família de origem, e que já havia sido percebido muitas vezes, em diferentes situações.
Quando nos comprometemos com o estudo, a pesquisa e o atendimento às famílias, um dos fatos que emergem mais freqüentemente são os padrões interacionais familiares
que tendem a se repetir ao longo das gerações.
Em algumas famílias, certos padrões são facilmente percebidos nas relações do cotidiano, enquanto que outros vêm de maneira camuflada e são mais difíceis de detectar.
As gerações subseqüentes, pela conquista de maiores informações, por meio do acesso à comunicação, pelo desenvolvimento sociocultural. com mudanças significativas
na família, podem dispor de outros recursos que possibilitam lidar com as situações de maneira diferente de como lidaram seus antepassados. Isso resulta tanto em
uma maior percepção das repetições dos padrões interacionais. como em uma melhor maneira de lidar com as mesmas. Por outro lado, existem também, como na frase dita
pelo pai no início desse capítulo, uma impotência e uma paralisia
34
Ceneide M. de O. Cerveny
em relação aos padrões repetitivos levando a um determinismo que não pode sequer ser pensado.
Em uma sessão de casal, a esposa relata que, quando era pequena, seus pais brigavam muito e certo dia, durante uma das brigas, seu pai atirou um objeto sobre a mãe
com tal força, que além de machucá-la, amassou o objeto. A mãe recolheu o objeto e durante muito tempo ele aparecia em lugares onde o pai pudesse encontrá-lo. Esse,
por sua vez, não conseguia jogar o objeto no lixo e o casal continuou se comunicando por meio do objeto. Mais adiante, essa cliente lembra-se de que, no dia anterior,
ela recortara do jornal uma tira humorística onde o autor retratava uma situação conjugal na qual o marido mal-humorado rebatia todas as tentativas de sua esposa
para mostrar-lhe as vantagens de estarem numa praia num dia bonito e colocou, sem dizer palavra, na mesa de trabalho do marido. A cliente fica muito aflita porque,
naquele momento, percebeu o significado de seu gesto, repetindo o que acontecia na relação de seus pais. Nesse caso, trinta anos se passaram e o padrão de interação
visto na família de origem continua; se bem que de uma maneira mais sofisticada, sutil, intelectualizada, o padrão de comunicação é o mesmo.
McGoldrick e Gerson (1985) afirmam que as famílias repetem-se a si mesmas. Questões que aparecem numa geração podem passar à geração seguinte sob outra forma.
Repetição vem do latim, repetitione, que significa ato ou efeito de repetir, tornar a fazer, usar. executar, acontecer de novo, suceder novamente. Os significados
grifados indicam como encaramos a repetição dos padrões interacionais, sendo que o acontecer e o suceder ocorrem em gerações diferentes.
Elkaim (1989) diz que, independente da singularidade ou especificidade de cada família em como transmitir e elaborar seus modelos, não existe dúvida na transmissão
dos mesmos. Seria possível afirmar categoricamente que toda família transmite o seu modelo, mesmo aquelas que cuidam muito para não o fazer.
Concordamos com Elkaim e é por causa dessa certeza, que também é nossa, que o estudo da repetição dos padrões interacionais e suas possíveis premissas tomam-se tão
importantes.
É comum a queixa entre casais de que, quando da escolha do parceiro, o homem e/ou a mulher elegeram pessoas diferentes de seus próprios pais ou mães e depois de
muitos anos se dão conta de que o marido é igual ao pai e a esposa é semelhante à mãe...
A família corno modelo
35
A Folha de S. Paulo de 1/2/92 publica em sua página 2.2 que o The New York Times divulgou um estudo do Departamento de Justiça dos Estados Unidos sobre a criminalidade,
afirmando que esta pode ter sua origem na família. Dizem os dados que mais da metade de todos os delinqüentes juvenis presos nos reforrnató-rios estaduais e mais
de um terço dos criminosos adultos detidos em prisões estaduais têm algum membro próximo da família que também já esteve encarcerado.
No mesmo artigo. Terrie Moffitt, professora de Psicologia da Universidade de Wiscosin, declara ao Times que as estatísticas contradizem a tese de que os jovens se
tornam delinqüentes por influência de amigos. Para ela, os jovens "aprendem a ser criminosos com suas próprias famílias. As crianças crescem sabendo que seus pais
ou irmãos são criminosos".
Jackson (1965) diz que a capacidade do adulto para inte-ratuar em diferentes tipos de relação pode estar determinada pelas múltiplas maneiras que sua própria família
promoveu ou impediu suas manobras durante a infância. "A criança não só aprende a responder à atitude de seus pais, como aprende também a utilizá-los como modelo
da maneira de como se deve responder" (p. 175).
Seria muito restrito de nossa parte aceitar a repetição apenas como resultado de modelos somente paternos. O sistema familiar, como um todo muito mais amplo, incluindo
as gerações passadas, é o contexto onde ocorre a transmissão dos padrões interacionais que, às vezes, pode não passar de uma geração à subseqüente, mas até pular
gerações.
Macedo (1990) diz que "repetições que aparecem nas relações das famílias com jovens e a alternância dessas repetições tri-geracionais. por exemplo, entre avós e
netos, são elementos muito esclarecedores de alguns comportamentos de jovens, tidos como inexplicáveis, incompreensíveis pela família nuclear" (p. 62).
*É corno se fosse uma compulsão. Não posso ver acontecer Isso. Tenho que intervir mesmo não querendo..."
(M falando de um comportamento seu em relação ao modo como a empregada retira a comida da panela para servir à mesa. E uma repetição do comportamento de sua mãe
e que a irritava muito na infância.)
36
Ceneide M. de O. Cerveny
Watzlawick (1967) afirma que "um fenômeno, uma ação, parece inexplicável enquanto o âmbito de observação não for suficientemente ampliado para incluir o contexto
em que esse fenômeno ocorre" (p. 18).
Concordamos com essa afirmação e acreditamos que. quando trabalhamos numa visão sistêmica com família, ao analisarmos um fato, estamos incluindo o contexto maior
para compreender o que se passa nessa família.
Durante anos, M assistiu à mãe que raspava a panela até o fundo quando ia colocar a comida na mesa. As empregadas eram instruídas a seguirem também esse procedimento.
Quando adolescente, M lembra-se de ter feito críticas severas à mãe, pela "mania" que esta tinha em relação às panelas. Depois de casada, M cuidava para que o hábito
da sua mãe não entrasse em sua cozinha. Depois de muitos anos, percebe-se com o mesmo comportamento, ocasião em que deu o depoimento acima.
Dessa forma, uma repetição pode parecer inexplicável, enquanto não ampliaimos a observação da história geracional dos indivíduos que repetem, como no caso de M.
Uma das contribuições que nos parece importante nesse estudo é trazer para a Terapia Familiar Sistêmica as possibilidades de detectar as repetições por meio dos
padrões interacionais. Transformar a experiência de repetir num processo de conhecimento pode levar a mudanças significativas em um tempo menor dentro da terapia.
Muitas vezes, em uma sessão de casal ou família, quando os indivíduos se dão conta de suas repetições, já começa um processo de mudança.
Alguns autores abordam o problema da repetição de uma maneira mais restrita, analisando-a devido ao seu aporte teórico mais específico. Assim, Watzlawick pressupõe
a repetição a partir da comunicação, usando o conceito de feedback. Bowen (1976) refere-se à transmissão multigeracional de pautas familiares que para ele tem uma
força muito grande na vida emocional das famílias.
Minuchin (1974), quando fala do esquema referencial usado na sua teoria Estrutural em relação a conceitualizar o homem em suas circunstâncias, faz uma diferenciação
entre a matriz familiar e o indivíduo dizendo: "O homem tem memória; é o produto do seu passado. Ao mesmo tempo, suas interações com as cir
n jamuia como moaeio
37
cunstâncias presentes apoiam, qualificam ou modificam suas experiências" (p. 23).
Concordamos com Minuchin e de alguma forma já dissemos, no início desse capítulo, que os indivíduos, pelo próprio desenvolvimento da família nas últimas décadas,
têm capacidade de viver suas experiências de uma maneira diferente de seus antepassados. No entanto, a força da matriz familiar está presente na repetição dos padrões
interacionais, de tal forma que nos faz pensar na força da memória referida por Minuchin. . Boszormenyi-Nagy e Spark (1973), referindo-se às pautas
do conflito de lealdades no casamento, dizem que quando um homem e uma mulher se unem, um dos componentes motivacionais para o novo compromisso é a fantasia de criar
uma unidade familiar melhor do que a família de origem.
O novo casal pode ter críticas em relação aos padrões que eram seguidos em suas famílias de origem, fazem pacto de mudá-los e, muitas vezes, apesar de tudo. continuam
repetindo-os.
Repetições já foram estudadas: do ponto de vista psicanalítico, em 1914, Freud referiu-se à "compulsão à repetição"; Thorndike. quando formulou a lei do efeito,
de certa forma estava falando em repetição; outros teóricos, em outras linhas, referiram-se à repetição de modelos.
Numa das primeiras vezes em que apresentamos este projeto, no Programa de Doutoramento de Psicologia Clínica da PUC-SP, alguém perguntou: Mas o que existe de diferente
no seu projeto? Repetição já é estudada há muito tempo!
A diferença, naquela época, era para nós a repetição dos padrões interacionais estudados de um ponto de vista ou pensamento sistêmico em Terapia Familiar. Porém,
o levantamento bibliográfico e a pesquisa na área mostraram-nos que alguns teóricos sistêmicos já haviam observado e pontuado a repetição de certos padrões de interação
dentro da família. Muitos terapeutas de família percebiam a repetição nas manobras das famílias em consulta, nos padrões relacionais, nas escolhas de parceiros e
assim por diante.
Nossa proposta ampliou-se para ver a repetição em quase todos os padrões de interação, já que cada autor privilegiava a descrição da repetição no padrão ou padrões
mais envolvidos com seus pressupostos teóricos, sendo a repetição enfocada só sob esses aspectos. Assim, para Haley (1976). repetições foram anotadas
38
Ceneide M. de O. Cerveny
na forma de padrões do tipo hierarquia e poder dentro da família; Ferreira (1963) e Andolfi (1987) descrevem mitos que se perpetuam através das gerações; outros
autores pontuam seqüências repetitivas entre as gerações e assim por diante.
Ficaria um bonito trabalho de compilação juntar, sob os "modelos repetidos de padrões interacionais". todas as referências sistêmicas sobre ele, mas isso não nos
satisfaria.
Ampliar os modelos de repetição para o máximo de padrões de interação, ver as possibilidades de como se faz a transmissão dessa repetição, poder trabalhar preventivamente
e não só curativamente, assumir que existem boas repetições e que elas devem ser conservadas na identidade de cada família tamhén fazem parte desse trabalho.
Mas. sobretudo, o que explicamos é sempre uma experiência (Maturana, 1983) e. quando tentamos explicar a repetição de padrões interacionais, o que queremos explicar
é a nossa experiência de ver essa repetição e essa é a diferença que sempre fará a diferença (Bateson, 1972).
Outras teorias levantaram aspectos relativos à repetição. Na teoria psicanalítica, como já mencionamos, a primeira referência de Freud sobre o assunto é de 1914,
e aparece no texto, Recordação, repetição e elaboração. Diz Freud: "O analisado não recorda nada do esquecido ou reprimido, senão que o vive de novo. Não o reproduz
como recordação, lembrança, senão como ato. Repete sem saber, naturalmente, que repete e enquanto o sujeito permanece submetido ao tratamento não se libera dessa
compulsão de repetir e acaba-se por compreender que este fenômeno constituí sua maneira especial de recordar" (p. 1.684). Freud considera aqui a repetição como um
aspecto da resistência, onde o indivíduo tende a repetir a experiência passada por meio da ação ao invés de recordar. Chama atenção também para o fato de que a repetição
não se dá apenas na relação médico x paciente, mas também em todas as outras atividades e relações simultâneas do seu cotidiano durante o tratamento. Como é ligada
à resistência, a repetição será tanto maior quanto mais intensa for essa resistência.
Para Freud (1914), o indivíduo repete tudo o que se incorporou ao ser, partindo da fonte do reprimido: suas inibições, suas tendências inutilizadas e seus traços
de caráter patológico. O objetivo do tratamento seria refrear a compulsão repetidora e convertê-la em um motivo de recordação.
A família como modelo
39
Em 1926, no texto. Inibições, sintoma e angústia, Freud diz: "O reprimido fica excluído da grande organização do ego como se fosse um proscrito e somente submetido
às leis que regem o domínio do inconsciente. Quando a situação de perigo modificar-se de modo que o ego não tenha um motivo para empreender uma defesa contra um
novo impulso instintual análogo ao reprimido, as conseqüências da restrição do ego que ocorreram tomar-se-ão manifestas. O novo curso do instinto se desenvolve sob
a influência do automatismo ou. como preferiríamos dizer, sob a influência ^da compulsão à repetição... O fator que provoca a fixação é pois, na repressão, a compulsão
da repetição inconsciente do id, a qual normalmente só é suprimida pela função livremente móvel do ego" (pp. 2.871-2.872).
Para Freud, a compulsão à repetição, de acordo com as fontes de que surge, estaria nas resistências do id.
Greenson (1981) afirma que essa resistência também age por meio do ego porque "a atividade instintual especial se repete e continua se voltando contra a compreensão
interna, unicamente se ela atraiu a ajuda das funções defensivas do ego" (p. 92).
O ponto teórico levantado por Freud de que a compulsão à repetição é, em última instância, resultante de um instinto de morte primitivo, foi muito discutido nos
círculos psicanalíticos (Fenichel, 1945 e Gifford, 1964). O próprio Greenson (1981) afirma que. de acordo com sua experiência, jamais achou necessário entender ou
interpretar a compulsão à repetição como uma mani-festação do instinto de morte e que do ponto de vista clínico, sempre lhe pareceu possível explicar a repeütividade
dentro dos limites do princípio dor/prazer.
A repetição, para Greenson, pode ser uma cópia exata do passado, uma réplica, uma recordação ou pode ser uma edição (lova, uma versão modificada, uma representação
distorcida do i lassado. Um exemplo disso ele dá em seu livro. The technique and the practice of the psychoanalysis (1967): "Uma paciente jovem reage porque a fiz
esperar dois ou três minutos; fica cheia de lágrimas e furiosa, fantasiando que devo ter dado tempo extra para minha paciente feminina predileta. Essa é uma reação
inadequada muna mulher inteligente e culta nos seus trinta e cinco anos de Idade mas, suas associações levam para uma situação passada I m que esta série de sentimentos
e fantasias se encaixava bem. i la se recorda de suas reações quando tinha cinco anos esperan
40
Cerieide M. de O. Cerueny
do que o pai viesse ao seu quarto lhe dar o beijo de boa noite. Sempre tinha que esperar alguns minutos porque para ele era imperioso beijar primeiro sua irmã mais
nova. Ela então reagia com lágrimas, raiva e fantasias de ciúme - exatamente o que agora está vivenciando comigo. Suas reações são adequadas para uma menina de cinco
anos mas, obviamente, não combinam com uma mulher de trinta e cinco anos. A chave para entender este comportamento é perceber que isso é uma repetição do passado,
isso é uma reação transferencial." Esse exemplo está de acordo com o que Greenson (1981) define como reações transferenciais, ou seja, essencialmente repetições
de um relacionamento objetai do passado.
O exemplo clínico de Greenson e as considerações sobre a repetição na situação transferencial nos remetem, de certa forma e ainda que em parte, ao tempo e espaço
onde para nós a repetição de padrões se dá: na matriz familiar e ao longo dos anos de um interjogo de relações entre os membros dessa matriz familiar.
Lacan (1938), em seu texto, "A família", refere-se ao papel de formação familiar da família conjugal e diz que: "Para encarnar a autoridade na geração mais próxima
e sob uma figura familiar, a família conjugal põe esta autoridade ao alcance imediato da subversão criadora. É o que traduzem já para a observação mais comum as
investigações que a criança imagina na ordem das gerações onde ela própria se substitui ao pai ou ao avô. Por outro lado o psiquismo não é menos formado pela imagem
do adulto do que contra a coação que esta imagem sobre ele exerce; este efeito opera-se pela transmissão do ideal do eu. e mais propriamente, dissemo-lo, do pai
ao filho; ele comporta uma seleção positiva das tendências e de dons. uma progressiva realização do ideal no caráter. É a este processo psicológico que é devido
o fato das famílias dos homens eminentes, e não à pretendida hereditariedade que seria preciso reconhecer às capacidades essencialmente relacionais" (p. 71).
Lacan (1938) coloca, portanto, mais ênfase num processo psicológico na transmissão de modelos do que na hereditariedade.
Mannoni (1970), da Escola Lacaniana, quando fala do Complexo de Édipo, diz que ele é sobretudo a expressão de um problema não resolvido dos pais a respeito de seus
próprios pais, do qual a criança, pelo seu sintoma, tornou-se o significante representativo.
A jarriiLLa couto modek)
41
Laing (1968). numa conferência feita na Association of Family Caseworkers. cita a história dos Clark, um drama familiar que se perpetua por três gerações. David
Clark repete sua mãe, que por sua vez, repete seu próprio pai. O sistema perpetua-se a si mesmo através das gerações.
Diz Laing: "Os jovens são familiarizados com os papéis que em um momento foi desempenhado pelos mortos. Por conseguinte, a representação continua" (p. 43).
Em outra ocasião, Laing (1969) afirma que o que se inter-naliza nos indivíduos não são objetos como tais, mas sim, padrões de relação, por meio de operações internas,
a partir das quais uma pessoa desenvolve uma estrutura grupai personificada. Segundo ele. "cada geração projeta na seguinte elementos derivados do produto de pelo
menos três fatores: primeiro, o que foi projetado nela por gerações anteriores; segundo, o que foi induzido nela por gerações anteriores e terceiro, o que foi sua
resposta a essa projeção e a essa indução" (p. 93).
A posição de Laing é similar à de Sartre quando afirma que somos aquilo que fazemos com o que fizeram conosco.
O que se projeta, então, para Laing. é sempre um conjunto de relações em outro conjunto de relações, o que, na maioria das vezes, é ignorado pelas pessoas envolvidas
no processo.
A síntese que fizemos a respeito da repetição à luz de diferentes teorias não pretendeu ser uma extensa revisão teórica do assunto, mas. sim. mostrar que a preocupação
com a repetição, no âmbito do intergeracional familiar, é antigo e difundido por várias teorias.
Toda família repete e há repetições que mantêm a família como um sistema, podendo, inclusive, prover esse sistema de uma identidade específica que o diferencia de
outros. A repetição dos padrões interacionais muItigeracionalmente toma outra dimensão quando impede o sistema familiar de mudar e crescer ou quando mantém uma família
num nível tão disfuncional que a intervenção terapêutica se faz necessária.
2. FORMAS DE REPETIÇÃO
Quando nos referimos à repetição de padrões interacio-uais de uma geração para outra subseqüente, não nos colocamos
42
Ceneide M. de O. Cerveny
na posição de que o passado determina ao sistema atual o que deve ser repetido. Nossa posição é que o sistema seleciona do passado o padrão repetitivo que vai incluir
na sua própria história.
Existem sistemas familiares em que os padrões são repetidos exatamente como se deram no passado, podendo ainda assim, em muitos casos, não haver a percepção da repetição.
Em outros sistemas, as repetições aparecem de forma camuflada e quase que irreconhecíveis para o sistema atual. Macedo (1990) propôs um modelo de leitura do sistema
familiar de um ponto de vista trige-racional, por meio de um eixo vertical que inclui os padrões inte-racionais transmitidos de uma geração à outra. "São os tabus,
os segredos, os mitos, as expectativas, os rótulos existentes em todas as famílias. (Ele é teimoso como o avô. Mulheres nessa família têm que abaixar a cabeça.)
Se as mudanças numa geração são difíceis, sempre causam certo estresse, tomam-se potencializadas quando se cruzam com aspectos do eixo vertical. Haverá muito mais
estresse numa família em que há um antepassado alcoólatra, com relação ao comportamento de beber de seus jovens e que, na preocupação de manter o segredo e combater
o álcool entre os filhos, pode conseguir justamente um resultado paradoxal: a realização da profecia temida!" (Watzlawick, 1984, p. 61).
A repetição dos modelos familiares e as profecias auto-cumpridas muitas vezes caminham em paralelo. Em famílias onde. por exemplo, o suicídio aparece como um padrão
de resolução de conflitos, existe toda uma maneira especial de lidar com estresses.
Na maioria das vezes isso não é discutido no grupo familiar e acreditamos que em alguns casos nem pensado. No entanto o padrão está ali e em cada cabeça a profecia
está presente.
Na prática clínica com famílias, percebemos como os padrões interacionais se manifestam de diferentes formas. Mesmo padrões que foram vistos e trabalhados terapeuticamente
conseguem retomar e impedir o crescimento e bom funcionamento do sistema, o que nos mostra a força que as repetições têm no sistema familiar.
Mudando o padrão e repetindo
A família Freire procurou terapia há quatro anos por causa de Carlos. A queixa era que Carlos tinha dificuldades de rela
A família como modelo
43
cionamento, não tinha amigos na escola, era "esquisito", não gostava de fazer esporte e também não tinha amigos no prédio onde moravam. Carlos já havia feito uma
avaliação psicológica há alguns anos. mas os pais não tinham muita informação sobre o que havia sido investigado. Sabiam que Carlos tinha dificuldades motoras e
que era um menino inteligente. Após uma rápida entrevista com Carlos, perguntamos a ele o que achava de vir com toda a família para conversarmos. Ficou patente a
satisfação de Carlos, bem como a da mãe, com a proposta, quando comunicamos o \convite.
Quando vimos a família, o quadro era o seguinte: além de Carlos, havia um irmão dois anos mais novo, Fernando, com peso acima da média, "gordinho", afável com muitos
amigos no condomínio onde moravam, descrito como bonzinho e que tinha crises de bronquite asmática. Daniela, a irmã mais nova, uma menina muito viva, assertiva bastante
para a pouca idade, com muitas atividades e muito bom relacionamento com amigos tanto do condomínio como da escola. Vitor. o pai. um engenheiro preocupado com o
filho mais velho, sempre valorizando muito a família, o estar juntos. Nora, a mãe, naquela época fazia terapia individual e tinha várias somatizações que se davam
em épocas específicas de cada ano (no 22 semestre). Agia como "supermãe" decidindo tudo a respeito da família e montando estratégias para o lazer, estudo, viagens
e assim por diante. O pai havia saído da casa de seus pais com 16 anos para estudar e depois trabalhar. Quando a mãe tinha 18 anos, seus pais mudaram de cidade e
ela permaneceu morando sozinha, trabalhando e estudando em São Paulo.
Uma tônica do trabalho com essa família foi mudar a teoria do mito do "Paraíso Familiar", que fazia com que não pudessem se separar, tinham que agir em bloco, só
estavam em segurança juntos. Essa família havia morado durante três anos no Exterior e todos tiveram muita dificuldade de adaptação, porém, à noite, quando se reuniam
e contavam as experiências do dia, os filhos não comentavam as agressões, as frustrações, o medo, a insegurança. Todos fingiam que estavam muito bem. Só no decorrer
da terapia é que os filhos puderam relatar os castigos sofridos na escola, as brigas com os colegas por serem estrangeiros e todos os acontecimentos não agradáveis
de sua experiência no Exterior.
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Ceneide M. de O. Cerveny
Quando voltaram ao Brasil e até a época da terapia, o "bloco" incluía a família extensa da mãe, que após alguns anos retornara a São Paulo e agora habitava mais
ou menos próximo.
Uma das "esquisitices" atribuídas a Carlos, naquela época, era que ele não gostava e não deixava que o resto da família mexesse em seus pertences. Lutava ferozmente
pelo seu espaço, às vezes, até com "má educação". O resto da família, ao contrário, dividia tudo e era extremamente emaranhada. Os limites e as regras ficavam depositadas
em Carlos e eram individualizados.
Em uma das sessões, Nora reclama da invasão de sua própria mãe, que entrava a qualquer hora em sua casa, olhava dentro das panelas para saber o que Nora estava cozinhando,
o que a perturbava muito.
Nesse momento, os limites e as regras de Carlos puderam ser transmitidos ao resto da família, não como esquisitice, mas como preservação de espaço e individualidade.
Carlos "ensina" a família e principalmente a mãe a dizer não, a fechar a porta da casa com a chave (eles não usavam chave na porta de entrada e de serviço, porque
moravam em um condomínio de alta segurança e achavam que não era necessário esse cuidado).
Muitas coisas foram trabalhadas com essa família, mas no momento queremos nos deter nesse flash. Carlos fica mais integrado no sistema familiar e escolar; Fernando
e o pai fazem um regime juntos, emagrecem; Daniela já consegue não deixar todo o seu material escolar e pessoal espalhado por toda casa e a mãe divide com o marido
as decisões e consegue ver Carlos de outra maneira.
Quatro anos após...
A família retorna para uma sessão com o pai, a mãe, Carlos e Daniela. A ausência de Fernando foi explicada porque ele não quis faltar a um treino esportivo que era
naquele mesmo horário. A família relata que quiseram voltar para acertar umas arestas e a queixa mais acentuada está no relacionamento da mãe com Daniela, a preocupação
com o momento difícil de Carlos (exército, vestibular, 18 anos...).
No decorrer da sessão, outros fatos importantes vão surgindo: o pai vai solicitar sua aposentadoria dentro de um mês, a mãe não está trabalhando e diz querer se
envolver em algo que realmente que lhe traga satisfação, contando também que seu pai
A Jamdia como modelo
45
está com problemas de saúde e chantageando toda a família, mas que ela está conseguindo não se envolver muito.
Daniela exprime, na sessão, todos os desejos de uma menina de 12 anos, inserida na cultura e extrato social a que pertence: roupas de gríjje, idas a lanchonetes
e shoppings. Quer fazer teatro e aprender música. A mãe mostra-se preocupada porque Daniela não tem amigas e não quer que a procurem. Ela é muito solicitada pela
turma mas não quer sair de casa, preferindo ler e ver TV. Essa sessão acontece em fevereiro e uma das queixas é Yme Cai-los e Daniela "passaram as férias em frente
à televisão". Para os pais e, principalmente, para a mãe, essa "apatia" é muito ruim e patológica.
Daniela diz que estuda o ano todo e que seu conceito de férias é "não fazer nada" e Carlos também. Daniela reclama da menina, que a mãe chama sua melhor amiga, que
gosta de sair, enquanto ela gosta de ler, e que vai a sua casa sem interfonar, chegando, invariavelmente, na hora do almoço ou jantar quando Daniela está prestes
a saborear a comida gostosa que sua mãe fez. Carlos reclama que estudou demais para o vestibular, mas que não obteve o resultado que gostaria. O pai diz nesse momento
que tentou ajudar Carlos comprando um livro que supostamente dava dicas de como estudar e aproveitar melhor o tempo.
Comentário
O padrão de interação por meio das regras e limites mudou. Vemos que Nora consegue com sua família de origem "trancar a porta" e não permitir a invasão.
Carlos, Daniela e Fernando também se diferenciaram. Fernando não comparece à sessão porque o esporte naquele horário era sua prioridade. Daniela quer que as amigas
interfonem antes de invadir seu espaço e está dizendo claramente à mãe que não cede no seu limite e individualidade. Carlos está num momento de transição e tentando
também manter sua diferenciação. Apesar de estar há uma semana no exército, seus cabelos estão compridos e caídos no rosto. Indagamos a respeito e ele diz que os
cabelos estão estrategicamente cortados rente dos lados e quando penteados para trás dão a impressão de estarem curtos (para satisfazer o exército).
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Ceneide M. de O. Cerveny
Nora conseguiu a diferenciação, impor regras e limites com a sua família de origem. Com os fdhos, no entanto, Nora está tentando "olhar dentro das panelas" para
ver o que ali está e, eles, filhos, estão reagindo e estabelecendo seus próprios limites.
Talvez seja difícil a situação da geração de pais que têm de mudar em relação à família de origem e também em relação aos filhos que estão em outro momento e são
outra geração. Ao mesmo tempo em que se exige deles flexibilidade para com os adolescentes, seus próprios pais estão envelhecendo e exigem revisões nos padrões de
interação. Importante assimilar, contudo, o quanto Nora fica surpresa com a repetição...
A descrença dos indivíduos acerca da impossibilidade da mudança quando se pensa nos modelos repetitivos é muito grande. Comumente ouvimos frases do tipo: "É impossível,
depois de tanto tempo..." "Não dá para pensar de outro jeito..." 'Tenho tentado, mas chega uma hora em que volto a fazer exatamente como...".
Esses depoimentos demonstram a força que tem o tempo de convivência com a família e também a força dos padrões de interação na repetição. A comunicação, os rituais,
as regras, mitos e seqüências permeiam as relações familiares e estabelecem maneiras de repetir.
Boszormenyi-Nagy (1973), em seu livro. Lealdades invisíveis, diz que "por mais que queiramos desprender-nos da carga do passado, a estrutura básica de nossa existência
e a de nossos filhos está determinada, pelo menos parcialmente, pelas contas não saldadas das gerações passadas" (p. 40).
Koestler (1954) afirma que "as relações de família pertencem a um plano onde as regras comuns de raciocínio e conduta não se aplicam. São um labirinto de tensões,
ataques e reconciliações, cuja lógica é autocontraditória; cuja ética provém de uma confortável selva e cujos valores e critérios são distorcidos como o espaço curvo
de um universo contido em si mesmo. E um universo saturado de recordações, mas recordações das quais não são extraídas lições; saturadas de um passado que não oferece
orientação para o futuro. Pois. nesse universo, depois de cada crise e reconciliação, o tempo sempre começa de novo, e a história sempre está no ano zero" (p. 86).
Trabalhando terapeuticamente com famílias e casais há muitos anos, discordamos de Koestler pois acreditamos que o passado oferece, sim, orientação para o futuro,
desde que os indiví
i i ;i li f min K^JIIUJ 11 UJLUZUJ
4 7
duos transformem suas experiências em conhecimento. Só desta maneira a história não retorna sempre ao ano zero.
Acreditamos, inclusive, que muitas famílias têm o potencial para escrever suas histórias de maneira diferente dos seus antepassados desde que usem esse conhecimento
adquirido pela experiência.
Uma paciente nos procura para "mudar". Aos 49 anos e casada há 26, com 3 filhos, sofre porque quer realizar algumas aspirações no nível individual: quer ganhar dinheiro
com um trabalhou próprio (é totalmente dependente do marido financeiramente), mudar sua relação com os filhos (preocupação, supermãe) e também com o marido.
Em alguns meses de trabalho grupai terapêutico, S consegue poucas mudanças. Passa a ser atendida individualmente e aprofundando a leitura, por meio do genograma
e da Linha de Tempo Familiar (Cap. V, pp. 90 e 96) das famílias de origem, percebemos que sua família atual tem a mesma estrutura da família de origem do marido.
S coloca que o marido deseja intensamente que sua família seja "igual" à sua de origem e que cultive os mesmos hábitos, rituais, estrutura, forma de comunicação
e assim por diante.
S "olha" a família do marido e vê sua sogra na faixa dos setenta e poucos anos, tendo vivido uma vida dedicada ao marido sempre junto dos filhos, enfim, uma família
que privilegia viver como um grande sistema, onde sair do padrão pode ser considerado traição.
S abandona a terapia porque vai tentar fazer uma atividade em sociedade com uma amiga e não conseguiria mais um horário para as sessões...
Dois anos depois, S é uma avó dedicada, continua cuidando da família com as três gerações convivendo no modelo conhecido e seguro de outrora.
O antímodelo como forma de repetição
Dissemos, anteriormente, que o sistema familiar atual, muitas vezes, preserva e valoriza os modelos e padrões interacionais de suas famílias de origem e, às vezes,
tenta até melhorá-los. Quanto aos modelos rejeitados, haverá tentativas de não serem repetidos e, nesse momento, pode-se partir para a adoção do antimodelo.
48
Ceneide M. de U. Cervenij
Muitas vezes, então, a repetição dos modelos, por meio dos padrões de interação, se faz pelo seu oposto, ou seja, pelo an-timodelo daquele proposto pelo sistema
familiar.
A adoção do antimodelo é tão forte como a adoção do próprio modelo, pois, de qualquer forma, este continua sendo a referência. Freqüentemente, podemos observar que,
no decorrer das fases do ciclo vital, aquilo que era antimodelo pode ser deixado de lado e trocado pelos modelos aprendidos originalmente.
Um casal pode, no início do casamento, viver o antimodelo do relacionamento de seus pais, ou adotar regras e limites diferentes das de suas famílias de origem. Numa
outra fase do ciclo vital, com filhos adolescentes, por exemplo, o casal pode retomar aos modelos de suas famílias de origem.
A forma de repetição do antimodelo é tão rígida e determinante como a do próprio modelo e, não raro, de uma simetria que acaba lembrando o que se queria anular.
Indivíduos que são provenientes de famílias com regras rígidas podem assumir, quando constituem sua família nuclear, por exemplo, regras flexíveis ao extremo.
Nesse ponto, lembramo-nos de Watzlawick quando diz que persistência e mudança têm de ser consideradas em conjunto, apesar de sua natureza aparentemente oposta. Adotar
o modelo ou o antimodelo pode ser visto numa relação de complementaridade muito mais do que num comportamento puro e simples de oposição.
Se considerarmos essa complementaridade e a persistência e mudança como um conjunto, entenderemos melhor o exemplo abaixo:
F é a filha do meio de uma família assim constituída: (ver genograma na página seguinte).
F relata que seu pai é um homem "chato", que sempre fez questão dos detalhes, que guardava todos os papéis e era um estrito cumpridor das leis e regras. F tem 45
anos, casada há 15 com M, e reclama muito do marido que é desorganizado com os negócios, não tem comprovantes de pagamentos importantes que foram efetuados como.
por exemplo, prestação de imóvel. Seu carro não tem documentação ou título de propriedade. Na terapia, F reclama e diz que vem de uma família que gostava das coisas
em ordem e que não sabe como consegue conviver com o marido e sua desorganização. F trabalha no setor administrativo de uma empresa e seu trabalho é impecável, tendo
tudo sob controle nes
A família corno modelo
49
sa organização. Numa sessão de casal, quando o assunto foi trazido novamente, o marido relata que F, desde antes dos dezoito anos. dirige automóvel e nunca se preocupou
em tirar a carteira de habilitação, sendo que em uma colisão que teve no trânsito, alguém assumiu por ela estar na direção do veículo.
F mostra como modelo e antimodelo podem conviver e aparecer na escolha do parceiro, na relação com o trabalho e em outros sistemas de interação, com a mesma força.
P 0
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Os padrões de interação familiar são muito complexos e para que possamos trabalhar de maneira mais efetiva é importante que se detecte que tipo de repetição está
acontecendo num determinado grupo familiar e por meio de qual aspecto, desse complexo interacional, a repetição se apresenta.
3. OS PADRÕES INTERACIONAIS E A REPETIÇÃO
Um grande estímulo ao nosso trabalho são as idéias de Bowen 1978) sobre o que ele denominou "Processo de tZslt sao multigeracional de modelos familiares". Para ele,
as famílias
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Ceneide M. de O. Cerveruj
repetem-se a si mesmas e o que sucedeu numa geração tenderá a aparecer nas gerações subseqüentes ainda que de forma diferente. Sua hipótese é que os modelos interacionais
e vinculares em uma geração podem fornecer modelos implícitos para o funcionamento familiar na geração posterior. Bowen referiu-se principalmente à fusão e diferenciação
do indivíduo com sua família de origem e à triangulação, que ele considera a unidade básica de um sistema emocional.
Boszormenyi-Nagy (1973). outro teórico que nos influenciou, preocupou-se em estudar os elementos que determinam certos tipos de organizações repetitivas nas relações
familiares. Para ele, existe um conjunto de pautas inter-relacionadas que caracteriza o sistema manifesto de relações na família, num determinado momento. Para ele
essas pautas são modelos de reações aprendidas, enquanto que o código familiar não escrito se apoia em uma vinculação genética e histórica (p. 15).
Percebemos em nosso trabalho que as gerações anteriores oferecem modelos de padrões interacionais para as gerações subseqüentes não só no nível da fusão/diferenciação
e triangulação mas também por meio da comunicação, dos mitos, das regras, da hierarquia, das seqüências e da afetividade.
São esses níveis que passaremos a analisar nas páginas
seguintes.
3.1. A COMUNICAÇÃO
Quando pensamos no intergeracional como um sistema maior onde se dá a repetição, fica a questão sobre quais meios propiciam essa repetição ou "por meio de" quais
circunstâncias ela aparece.
Já dissemos que os fenômenos podem parecer inexplicáveis, quando não ampliamos o âmbito da observação e incluímos o contexto todo. No caso da repetição, fica impossível
qualquer entendimento se não ampliamos o sistema da família nuclear para um contexto geracional.
Quando fazemos essa ampliação, o comportamento humano, por meio da relação entre os fatos, pode ser apreendido em suas características e, sem dúvida, o veículo que
permite essa compreensão é a comunicação.
¦ \ família como modelo
51
Watzlawick e outros (1973), citando Morris e Carnap, mostram que o estudo da comunicação abrange três áreas: uma primeira área que é a da transmissão de informação
e inclui código, canal, redundância, capacidade, ou seja, todos os elementos que estão a serviço da transmissão da mensagem; uma segunda área seria a transmissão
do significado na comunicação, da semântica, do entendimento entre o emissor e receptor; a terceira área diz respeito a como a comunicação afeta o comportamento
dos indivíduos nela envolvidos, ou seja, trabalha na relação emissor/ receptor.
E evidente que as três áreas estão intimamente relacionadas e as divisões são principalmente para fins de entendimento.
Quando nos referimos à comunicação como um instrumento que está a serviço da repetição de padrões interacionais, estamos lidando com as três áreas, embora a ênfase
para o nosso estudo esteja na pragmática, ou seja, na terceira área, já que para nós a comunicação não só transmite infonnação mas também define a relação.
Uma das grandes conquistas que o comportamento humano obteve com o enfoque sistêmico foi, sem dúvida, a ênfase num sistema circular de retroalimentação da informação
e comportamento, ao invés do tradicional sistema linear de percepção dos fatos.
Na comunicação isso se torna importante e no nosso trabalho assume uma preponderância capital. Isso porque, se pensamos na família como um sistema interpessoal,
ela pode ser vista como um circuito de retroalimentação, onde o comportamento e a comunicação de cada indivíduo afetam e são afetados pelo comportamento de cada
uma das outras pessoas.
Ampliando esse pensamento para circuitos intergeracio-nais, de alguma forma e pela comunicação principalmente, essa retroalimentação possibilita que as repetições
apareçam de diferentes formas.
Como diz Haley (1971), "a descrição final das relações sempre se dará em termos de pautas de comunicação em uma leoria de sistemas circulares" (p. 5).
Uma das premissas mais importantes que encontramos cm Watzlawick (1973) é a impossibilidade da não-comunicação ou "uáo se poder não comunicar". Diz ele: "Em primeiro
lugar, temos uma propriedade do comportamento que dificilmente poderia ser
52
Ceneide M. de O. Cerveruj
mais básica e que no entanto é freqüentemente menosprezada: o comportamento não tem oposto. Por outras palavras, não existe um não-comportamento ou ainda, em termos
mais simples, um individuo não pode não se comportar. Ora, se está aceito que todo comportamento numa situação interacional tem valor de mensagem, isto é comunicação,
deduz-se que por muito que o indivíduo| se esforce é-lhe impossível não comunicar" (p. 44).
Watzlawick continua: "Atividade ou inatividade, palavras ou silêncio, tudo possui um valor de mensagem, influencia outros e estes outros que. por sua vez, não podem
não responder a essas comunicações estão, portanto, comunicando também. Deve ficar claramente entendido que a mera ausência de falar ou de observar não constitui
exceção ao que acabamos de dizer. Tampouco podemos afirmar que a comunicação só acontece quando é intencional, consciente ou bem-sucedida, isto é, quando ocorre
uma compreensão mútua" (p. 45).
Quando vemos uma família em funcionamento, fica muito clara a premissa de Watzlawick. O grupo familiar se comunica por meio do espaço, do olhar, do silêncio, do
movimento etc.
Precisamos então pensar em comunicação como a transmissão formal por meio de canal, código, redundância, mas também em comunicação por meio do silêncio, do não-dito.
dos mitos, das lealdades, dos segredos, principalmente, quando estamos lidando com um grupo como a família que está "aperfeiçoando" seu sistema particular de comunicação,
através das gerações.
Nossas aspas em aperfeiçoamento são baseadas na experiência clínica com muitas famílias, onde vemos quão sofisticado é o código particular da comunicação familiar,
ao ponto de, em algumas famílias, num primeiro momento, não conseguirmos decifrá-lo.
Quando duas ou mais pessoas se encontram e iniciam uma relação, vão definindo essa relação e decidindo o tipo de conduta comunicativa que vão adotar. Não existe
possibilidade de não qualificar as nossas mensagens e os nossos padrões interacionais.
A adoção dos conceitos de comunicação propostos por Watzlawick (1973) justifica-se, em nosso trabalho, por considerai-mos que suas premissas sobre comunicação são
amplas o bastan te para analisarmos a repetição dos padrões interacionais que passam de uma geração à outra. Ele denomina mensagem, uma
A família, como modelo
53
unidade comunicacional isolada e. interação, uma série de mensagens trocadas entre as pessoas.
Assumindo a comunicação como algo que ocorre na interação entre os indivíduos, usamos, no nosso trabalho clínico com famílias, as seguintes categorias propostas
por Watzlawick:
Aceitação da comunicação: o receptor aceita a comunicação do emissor e dá início à interação.
Rejeição da comunicação: o receptor deixa explícito ao emissor, verbal ou não verbalmente que não aceita a interação.
Desqualificação da comunicação: o receptor aceita a interação com o emissor, mas tenta invalidar as mensagens. Essa desqualificação pode ser efetuada por meio de
mensagens contraditórias, incoerentes, com mudança de assunto, frases incompletas, descrédito em relação ao emissor em nível verbal. No nível não-verbal. poderá
ser por meio de não-contato visual com o emissor, posturas, gestos, risos.
A comunicação dentro de um sistema, segundo Birdwhis-tell (1959). não pode ser, como já dissemos, compreendida apenas como ação e reação, mas também num nível de
transação.
Aceitando a posição da comunicação como um sistema de transações, adotamos o axioma de Watzlawick de que "todas as permutas comunicacionais ou são simétricas ou
complementares, segundo se baseiem na igualdade ou na diferença".
Usamos ainda, duas categorias propostas por Watzlawick (1973) que são: a metacomplemen.tcu~idade (quando o emissor permite ou obriga o receptor a estar no controle
da situação) e a pseudo-simetria (quando o emissor e o receptor obrigam ou permitem ao outro uma relação comunicacional de simetria).
3.2. REGRAS FAMILIARES
Regra, segundo Aurélio (1986), é:
1 - aquilo que regula, dirige, rege ou governa:
2 - fórmula que indica ou prescreve o modo correto de falar, pensar, raciocinar, agir, num caso determinado:
3 - aquilo que está determinado pela razão, pela lei ou /•"•/opreceito; costume, princípio, norma.
De certa forma, as três definições de regra dadas por Au-i' lio na língua portuguesa aplicam-se às regras familiares. Pode
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Ceneiãe M. de O. Cerveruj
ser algo que regule o grupo familiar, uma fórmula que prescreva o modo adotado pela família para agir em determinada situação ou mesmo aquilo que está determinado
pelo costume, princípio.
Jackson (1965) refere-se às regras da relação familiar, chamando-as de normas que prescrevem e delimitam as condutas dos membros da família, organizando a sua interação
em um sistema razoavelmente estável. Segundo ele, a família é um sistema governado por regras.
Laing. em 1969. falando das regras na família, afirma Cjue elas regem todos os aspectos da nossa experiência. São as regras, segundo ele, "que determinam o que devemos
ou não experimentar, que operações devemos levar a cabo para formarmos uma imagem permitida de nós mesmos e dos demais no mundo" (p. 125). Para ele. submetemos as
regras a experiências com o propósito de acatá-las, e interpretamos os dados em razáo de distinções conforme as regras.
Dell (1982) chama a atenção para que não consideremos as regras como uma realidade fixa, mas sim como descrições, que um observador pontua, uma seqüência de fatos
que se repetem na interação familiar e que pode ser chamada de regra.
Ford e Herrick (1974) aplicaram o conceito de regras familiares de Jackson aos dados de avaliação da família e distinguem dois tipos de regras: maiores e menores.
Embora de uma simplicidade enorme, tais regras, que podem ser enunciadas como: prioridade para as crianças: o casal unido contra o mundo; o até que a morte nos separe;
cada um por si e compartilhar e participar igualmente, constituem a base de uma tipologia familiar caracterizada por maior ou menor funcionalidade, largamente citada.
Para Satir (1972), o comportamento de qualquer indivíduo é uma resposta ao complexo conjunto de regras possíveis e regulares que governa seu grupo familiar, muito
embora ele ou sua família possam não ter conhecimento consciente da existência dos mesmos.
Minuchin (1981) fala de regras universais que governam a organização familiar e regras mais específicas que definem quem participa e como participa do sistema.
Para Umbarger (1983). uma configuração persistente, em interações familiares, pode adquirir o status de uma regra. Afirma ele que existem regras familiares que se
anunciam e se seguem in tencionalmente, mas que as regras mais importantes podem pas
A família como modelo
55
sar despercebidas pela família e são aquelas condutas repetitivas que constituem a rotina da vida cotidiana da família.
Carneiro, em uma pesquisa de 1975, diz que as regras familiares referem-se aos tipos de interações permitidas entre os membros de uma família e devem ser compartilhadas
por pelo menos dois membros.
Acrescentaríamos que a regra, mesmo não sendo compartilhada por pelo menos dois membros, é implicitamente do conhecimento do grupo familiar, que nesse sentido pode
ou não compartilhar, conclusão essa também encontrada em estudo posterior de Carneiro (1981).
Regras familiares são discutidas, vivenciadas e fazem parte do cotiadiano de todos os profissionais que trabalham com o grupo familiar.
Nós consideramos regras familiares, o conjunto de acordos explícitos e implícitos que é compartilliado e conhecido por um grupo familiar, que faz parte da história
da família e se mantém por meio do uso.
Em todo grupo familiar encontramos um conjunto de regras que - inclusive - toma possível o seu funcionamento. Algumas dessas regras são mais explícitas e fazem parte
de um sistema mais geral, que envolve regras quase universais de organização familiar. Essas regras, apesar de sua universalidade, têm características específicas
que dependem da cultura própria em que a família se insere. Outras regras são ainda mais pertinentes a cada grupo familiar e formam-se através de anos de implícitas
negociações entre os membros, sobre acontecimentos cotidianos.
Bucher (1985) diz que a linguagem que a família utiliza dá informações sobre as regras desse grupo. Muitas vezes, a família tem palavras particulares para designar
objetos. Numa família que atendemos, a expressão "puto" para designar a chupeta já era usado por três gerações. Era uma família de descendência italiana e "puto",
nessa cultura, denomina os anjinhos que aparecem nas pinturas religiosas. Isso nos mostra que as regras necessitam ser compreendidas num contexto maior que inclui
a comunicação, os mitos, lealdades etc.
Um grupo familiar que tem um passado, que vive um presente, tem regras que certamente passarão para o futuro.
Whitacker (1990) diz que "nas famílias as regras estão praticamente encobertas e desarticuladas, freqüentemente sequer
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Ceneide M. de O. Cerveiuj
conscientes, mas, apesar disto, são potentes. Em famílias sadias estas regras servem de guias e estão a serviço dos esforços de crescimento. Em famílias patológicas
as regras são usadas para inibir a mudança e para manter o status quo" (p. 136).
Não temos dúvida de que as regras protegem as famílias corno um sistema, mesmo que estejam a serviço de um "mau" funcionamento. Temos vários exemplos disso e na
prática clínica, quando se discutem as regras antigas ou quando uma nova regra é formulada, existe muita oposição dentro do sistema, mesmo porque, pelo princípio
da homeostase já definido por nós anteriormente, a família tende a manter um padrão já conhecido, reagindo às mudanças.
3.3. MI1X)S
Ferreira (1963) define mito familiar como "um número de crenças bem sistematizadas e compartilhadas por todos os membros da família a respeito de seus papéis e natureza
da sua relação" (p. 156).
Para ele, esses mitos contêm muitas das regras secretas da relação, as quais se mantêm ocultas, submersas na trivialidade dos clichês e nas rotinas da família.
Já Andolfi (1987) coloca os mitos como estruturas móveis que se constroem e se modificam com o tempo. Para ele. o mito familiar é um conjunto de leituras da realidade
(em que coexistem elementos reais e elementos da fantasia), em parte "herdado" pela família de origem, em parte construído pela família atual, de acordo com suas
necessidades emotivas.
Para Boszormenyi-Nagy e Spark (1973). "o sistema de valores de uma família pode caracterizar-se por determinados mitos que os membros compartilham durante gerações
inteiras" (p. 107).
Uma das definições de dicionário para o vocábulo mito é "a representação de fatos exagerada pela tradição" (Aurélio. 1986).
Entendemos tradição nessa definição de um modo que se aproxima de Andolfi (1987). o qual mescla a tradição ou família de origem com o que é construído pela família
atual. Considerar o mito como algo de que a família necessita para ler a realidade também nos parece mais adequado. A definição de Ferreira (1963)
A Jiimüia como modelo
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iissemelha-se mais ao conceito de regras familiares e Andolfi aproxima-se mais daquilo que entendemos como mito.
Os mitos familiares são, na maioria das vezes, sustentados pelos segredos familiares.
Para Framo (1965), os segredos familiares tratam de acontecimentos e ações que a sociedade geralmente considera vergonhosos e cuja revelação teria conseqüências
ruins para a auto-es-tima das pessoas da família.
No nosso entender, os segredos familiares podem também se referir a ações e acontecimentos não vergonhosos, que inclusive servem para criar união em um nível intrafamiliar,
servindo até para diferenciar aquele grupo familiar de outros, dando-lhe uma identidade familiar específica.
Assim, acontecimentos ocorridos com gerações passadas ou com outros membros da família atual são "guardados" no livro da história da família como subsídio para os
mitos, tomando-se algo específico e característico daquele grupo familiar: aquilo que o diferencia dos outros.
Tal posição está mais perto de Andolfi (1987), quando diz que a elaboração do mito, na terapia, "ajuda cada membro da família a se distanciar do que é prescrito
por esse mito e, ao mesmo tempo, a aceitar e a aproveitar os aspectos coerentes com a pesquisa de sua identidade pessoal" (p. 17).
Qual é, pois, a relação entre o mito e o segredo no mundo das relações familiares?
Se tomarmos algumas definições de segredo - aquilo que se oculta à vista, ao conhecimento; ou assunto, problema conhecido apenas de uns poucos - o segredo familiar
seria algo compartilhado por alguns membros do mesmo grupo e que. possivelmente, teria diferentes finalidades para o grupo.
Uma delas poderia ser a proteção desse determinado grupo de outros grupos ou de um sistema maior (parentes, vizinhos, amigos e colegas). Outra seria a diferenciação
desse grupo em relação a outros grupos.
Poderíamos pensar nesses fatores dentro do próprio grupo familiar, sendo que os segredos permitiriam que um ou outro subsistema (pais. irmãos, homens, mulheres)
também se protegesse e se diferenciasse, tivesse mais coesão, poder e assim por diante.
58
CeneideM. de O. Cerveny
Observando processualmente o segredo familiar e nos per guntando: o quê? como? por quê?, poderíamos clarificar melhor o que estamos tentando transmitir:
- o que se guarda? (o segredo em si});
- por quê? (a serviço de que está o segredo);
- como? (regras, pessoas).
Nesse ponto, entramos na estreita relação que existe entre os segredos, mitos e a comunicação e, reforçamos a idéia de que a comunicação é o meio através do qual
se processa a transmissão e a manutenção dos segredos e mitos.
Segundo Bucher (1985). "os segredos surgem da irrealidade do mito contrapondo-se à convicção compartilhada de sua veracidade e têm o propósito de preservar os mitos
da harmonia, da unidade, da união familiar; impedindo sua desestabilização".
Voltando à relação entre segredo e mito, pensamos que, por meio da comunicação, tanto verbal como não-verbal, alguns segredos familiares vão se transformando em
mitos, quando já se estabelece em tomo do mesmo um sistema de crenças compartilhado e transmitido intergeracionalmente.
Essa é nossa posição em relação aos mitos, reforçando que esses ainda têm a função de identificação e diferenciação de um sistema familiar em relação aos demais,
bem como de manter padrões interacionais.
Muitas famílias não se dão conta de seus mitos. Eles foram se incorporando ao cotidiano e fazendo parte da vida da família como uma coisa natural daquele grupo.
Para Campbell (1998). os mitos estão intimamente ligados à cultura, ao tempo e ao espaço e, na família, isto é muito evidente.
Às vezes, na terapia familiar, quando mostramos à família a existência do mito ou quando essa descoberta é feita por um dos seus membros, vemos as mais variadas
reações de surpresa, incredulidade e negação.
Outro aspecto que observamos é que os mitos mantêm os padrões interacionais, mantendo-se a despeito das lutas internas e dos conflitos familiares. Percebendo ou
não a sua existência, achamos que a família protege o mito assim como o mito protege a família.
Trabalhamos com uma família em terapia em que a queixa principal em a falta de comunicação entre seus membros: um não
A família como modelo
59
sabia o que o outro pensava, de que gostava e onde as idéias, segundo eles, não eram compartilhadas. Durante a terapia, percebe-se que crenças como fidelidade, papéis
masculinos e femininos, machismo eram compartilhadas por toda a família, apesar de os filhos adolescentes tentarem exteriorizar clichês liberais mais pertinentes
a seu grupo etário.
No exemplo anterior, observamos mais explicitamente o que comentamos em relação à impossibilidade de não comunicar aludida por Watzlawick (1973) e a proposta de
Campbell (1988) de considerar o mito como um canal de comunicação que está além do próprio conceito de realidade e que transcende todo pensamento.
Essa família não se comunicava, mas os mitos estavam ali firmemente arraigados, já presente na geração dos filhos adolescentes.
Nossa experiência clínica com famílias, as mais variadas, tem mostrado que o mito é um padrão que persiste e é transmitido através de muitas gerações.
As vezes, mitos e valores sustentados pela cultura são antagônicos aos do grupo familiar e, quando isso acontece, o sistema pode se fortalecer por meio do mito.
O caso 4 que está relatado neste trabalho exemplifica a repetição dos padrões familiares por meio dos mitos.
3.4. SEQÜÊNCIAS
O exemplo que demos na primeira parte desse capítulo (da tira humorística, p. 34) aplica-se bem a esse conceito que vamos tratar agora: as seqüências.
As seqüências, com outras denominações, já foram descritas por muitos teóricos da Terapia Familiar e vividas por muitos clínicos no atendimento de famílias.
Para Umbarger (1983), seqüência designa um ciclo repetitivo de condutas encadeadas ou descreve um desdobramento circular e repetitivo dessas condutas encadeadas.
Um denominador comum que se pode deduzir de todos os autores que relataram esse tipo de padrão interacional é, segundo Breulin e Schwartz (1986), o conceito de que
"as famílias estão modeladas e assim repetem no tempo a mesma classe de interações" (p. 68).
80
Ceneide M. de O. Cervenij
Os termos levantados por Breulin e Schwartz que tentam definir aquilo que chamaram de seqüência foram: ciclo homeostá-tico (Hoffman), sistemas de interação (Madanes).
repetição (Kee-ney), conduta mantenedora de problemas (Fisch e Watzlawick), processos morfos táticos e morfogênicos (Maturana). Não há dúvida pois, que a repetição
de modelos, por meio das seqüências, é observada pela maioria dos teóricos da Terapia Familiar e a contribuição de Breulin e Schwartz para a sistematização dessas
seqüências propicia um estudo e uma visão mais clara das mesmas.
Breulin e Schwartz apresentaram, ainda, uma estrutura conceituai que, segundo eles, ajudaria os clínicos e investigadores a estudarem a complexa rede de seqüências
interconectadas do comportamento e pensamento que constituem as relações familiares, baseadas numa perspectiva temporal.
Essa estrutura pressupõe quatro classes de seqüências: as SI que seriam os padrões de interação que durariam de segundos até uma hora; as S2 que se dão entre um
dia ou até uma semana; as S3 que variam desde algumas semanas até um ano e as S4 que seriam aqueles padrões de interação e pensamentos que se repetem de geração
em geração.
Cooklin também estudou seqüências e seu interesse principal eram as seqüências mais longas como as intergeracionais.
Os padrões de interação repetitivos também já haviam sido apontados por Minuchin e Fishman. quando se referiram à família como um grupo que, no decorrer do tempo,
desenvolve padrões próprios de interação.
Os modelos de repetição de padrões interacionais que estamos estudando são exatamente aqueles que se dão no intergera-cional e portanto na S4.
Freqüentemente, a S4 aparece de forma cíclica, ou seja, apresenta-se numa geração, "apaga-se" na outra e reaparece na terceira.
A visualização das S4 é facilmente obtida por meio do ge-nograma e da linha de tempo familiar que estão descritos no capítulo V.
"O mérito principal da teoria de sistemas c que permite ao terapeuta reconhecer seqüências repetitivas e assim fazer previsões."
Ilalcij (1980, p. 24) "O terapeuta não pode pretender ter uma visão objetiva das estruturas ou seqüências familiares que necessitariam mudar. E ele leria que respeitar
o fato de que jamais se poderá /conhecer verdadeiramente o que é outra entidade viva ou o que deve ser."
Hoffman (1989, p. 33)
Os nove anos que separam as afirmações de Haley e Hoffman fazem parte das mudanças e da dinâmica existente na terapia familiar. Já dissemos que a história da terapia
familiar confunde-se com a de seus pressupostos teóricos. Desse modo, enquanto Haley, em 1980. assume a posição de que ao terapeuta cabe a responsabilidade das previsões
e intervenções, Hoffman, em 1989, já está numa posição epistemológica diferente, passando ao construtivismo, em que se prega a total imprevisibilidade dos sistemas
vivos e a abordagem dialógica na terapia.
Independentemente da posição epistemológica de como observamos e lidamos terapeuticamente com a família, existe a concordância de que a família repete os padrões
interacionais e uma das formas em que essa repetição aparece é por meio de seqüências do tipo S4 (intergeracionais).
3.5. TRIANGULAÇÕES
"Pedra fundamental de lodo sistema emocional, que se encontra na família ou em qualquer outro grupo."
Boivcn (1976)
"Uma família saudável pode viver com triângulos cambiantes e coallsões flutuantes, sem dar margem à insegurança e ao ciúme. De fato, ter a liberdade de experienciar
todas as possíveis combinações triangulares e permutações é uma experiência enriquecedora. Ser livre para formar uma equipe, dai desengajar-sc e trocar de parceiros,
é vital para o estabelecimento de fronteiras sadias. Isto também inclui a necessidade de separar-se realmente, de sair e de ser um individuo sem sentir-se culpado
de deixar a família. JÍ apenas quando você é livre para não pertencer, que juntar-se a alguém tem algum sentido. O agrupamento é então claramente volitivo, uma questão
de escolha e não de obrigação."
WhÜacker (1988, p.137)
1379
62 i^enevae ivi. ae u. ferveiuj
Haley (1977), para demonstrar a importância das triangu lações no Sistema Familiar, lembra que, em uma família que tenha a estrutura abaixo, qualquer membro da mesma
pode participar de 21 triangulações diferentes.
i-1-1 i-1-
Quando nos detemos para pensar nessa imensa gama de triângulos que o Sistema Familiar nos oferece, damos conta também por que triângulos, como forma de interação,
são descritos por quase todos os autores da terapia familiar.
Os estudiosos da comunicação, dentro da teoria de sistemas, e aqueles que pesquisaram famílias com esquizofrênicos (Bate-son. Haley. Weakland) enfocaram as triangulações,
principalmente do ponto de vista da dupla vinculação, e contribuíram para o entendimento da mesma também do ponto de vista mais estrutural.
Haley (1977) afirma que "uma estrutura triádica sempre causará tensões em um sistema social" (p. 37). denominando essa triangulação de triangulo perverso. Para ele.
as características desse triângulo são:
Ia) Deve incluir duas pessoas do mesmo nível em uma hierarquia de status e uma outra pessoa de nível diferente. Na família, isso significa dois membros de uma mesma
geração e um outro de outra geração;
2a) Deve conter uma coalisão de duas pessoas que se encontram em níveis distintos contra um que ficou de fora;
3a) A coalisão contra a terceira pessoa deve manter-se oculta ou encoberta, ou seja: o comportamento que indica a existência da coalisão será negado num nível metacomunicativo.
A família como modelo 63
Haley faz ainda distinção entre uma aliança que pode basear-se em interesses comuns e uma coalização em que duas pessoas se unem contra ou com a exclusão de um terceiro.
Hoffman (1981) chama-nos a atenção para o fato de como o triângulo perverso pode depender do contexto cultural da tríade envolvida. Na cultura ocidental, onde se
privilegia a união da día-de parental, a triangulação pode se configurar de uma maneira, mas, em outras culturas, onde se privilegia a díade mãe/filho ou filho/filho,
a triangulação tomaria um outro significado.
Para Minuchin (1982), a triangulação é conseqüente a um problema de fronteira. Na família funcional, onde as fronteiras são nítidas mas flexíveis, há negociação
entre os subsistemas impedindo desse modo a formação de tríades rígidas. Nas famílias disfuncionais, as fronteiras entre os subsistemas parental e filial ficam difusas
e a fronteira em tomo da tríade pais/filhos passa a ser inadequadamente rígida.
Ainda para Minuchin (1982), a utilização do subsistema filhos, na triangulação, pode assumir tanto o aspecto de aliança (proteção), como de coalização estável (contra
alguém), mas sempre estará a serviço de uma disfunção do sistema conjugal.
Whitacker (1988) chama a atenção para o problema da hierarquia na triangulação pais/filho. Segundo ele, sempre que o filho é colocado na triangulação, ele sobe na
hierarquia e divide o poder com o pai e a mãe.
Andolfi (1987) explora aspectos muito especiais da triangulação como a influência da mesma, principalmente, no processo de individuação. Assim, para ele, a não existência
da tríade pais/filho, por exemplo, colocaria o terceiro em situação de isolamento e fora da função importante que é a mediação de conflitos. Uma outra vantagem da
tríade para Andolfi seria a possibilidade de maior conhecimento entre seus integrantes, enquanto numa posição de observador, onde o terceiro pode captar informações
importantes a respeito da interação dos outros dois. Diz Andolfi: "Em circunstâncias particulares, ou em períodos críticos da evolução familiar, cada membro da tríade
pode assumir a função de modelo na contenção e mediação de tensões existentes entre os outros dois. Em tal perspectiva, a presença do "terceiro" facilita a construção,
manutenção e evolução da ligação, fornecendo o suporte necessário ao desenvolvimento e à integração de sentimentos recíprocos" (p. 34).
64
Cerieide M. de O. Cerveny
O mesmo autor considera que a triangulação é útil também para a elaboração da separação e perda.
Whitacker. Napier e Bumbeny (1988) citam o caso típico de dois progenitores separados um do outro emocionalmente e que, em sua solidão, envolvem excessivamente os
filhos em seus respectivos transtornos. Dizem eles que esses filhos crescem perturbados e repetem o mesmo modelo em suas próprias famílias futuras.
Parece que os autores acima sintetizam o funcionamento da clássica tríade nos sistemas familiares e tocam naquilo, que para nós, é o aspecto importante da triangulação:
a repetição desse padrão interacional no sistema intergeracional.
Seja a triangulação vista, pela maioria dos autores, como causadora de desequilíbrios familiares ou, na visão muito especial de Andolfi, como um processo que propiciaria
informação e instrumentação para resolução de situações conflitivas, a triangulação é um padrão de interação, cujo modelo tendera a se repetir nas gerações subseqüentes
e é esse o nosso interesse em relação a ela.
Na prática clínica da Terapia de Casal e Família, a triangulação é um padrão trazido com muita freqüência. Sem dúvida o triângulo clássico, pai, mãe e filho, é o
mais comum, mas outros também estão presentes como filhos e mãe, filhos e pai, casal e o terceiro e outros menos comuns. Quando, durante a terapia, se aprofunda
o conhecimento das interações familiares no passado, não raro encontramos o padrão triangulação já tendo causado problemas nas gerações anteriores.
3.6. PADRÕES DE AFE1TVIDADE NA FAMÍLIA
Já dissemos que existe uma estreita relação ente a história da Terapia Familiar e a pesquisa com pacientes esquizofrênicos e quando buscamos na literatura referência
à afetividade na família, deparamo-nos com uma imensa quantidade de material proveniente de estudos com famílias de esquizofrênicos. De certa maneira, quando Bowen,
Lidz. Jackson e outros teóricos ampliaram a visão da esquizofrenia, além do conceito da mãe esquizofre-nogênica para o estudo do meio intrafamiliar como um todo.
deram um grande impulso nos estudos da afetividade nas relações familiares.
A família como modelo
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Aries (1978), referindo-se à família da época pré-indus-trial, diz que esta tinha funções de conservação dos bens, da ajuda mútua cotidiana, da prática comum e passagem
de um ofício, mas não tinha a função afetiva. Segundo ele, as trocas afetivas e a interação social eram realizadas fora da família, num meio coletivo composto de
vizinhos, amigos, crianças e velhos, amos e criados, mulheres e homens, onde a tendência afetiva podia se manifestar livremente.
Montagna (1981), estudando as emoções expressas no ambiente familiar e a evolução da esquizofrenia, comenta a respeito da passagem da função afetiva para a família
nuclear por fatores ligados à industrialização e a conseqüente urbanização que teriam feito as famílias se tornarem cada vez mais nucleares e também cada vez mais
com a função afetiva (ou seja. as trocas de manifestações afetivas passam a ser efetuadas dentro da família e não. por exemplo, dentro do local de trabalho, onde
tal evento poderia perturbar a produção e o lucro conseqüente). Para Montagna, isso poderia "densificar" as cargas afetivas dirigidas ao esquizofrênico.
Lidz (1980), um dos autores que estudou a influência das relações familiares na gênese da esquizofrenia, confirma que a relação mãe/filho leva ao estabelecimento
de um contexto para o desenvolvimento não só da esquizofrenia, como de outros transtornos psiquiátricos e psicossomáticos, mas que existem determinantes específicos
nas dificuldades posteriores das relações interpessoais. O autor parte de modelos de interação na família como um todo para pesquisar a esquizofrenia e afirma que
a família seria a mestra original da interação social e da reatividade emocional que ensina, através de seu meio e da comunicação não-verbal, mais do que por meio
da educação formal.
Lidz e seus colaboradores, pesquisando famílias de esquizofrênicos, chegaram à conclusão de que. em nenhuma das famílias, havia o que chamaram de "casamento bem-sucedido"
(que segundo eles seria caracterizado pela confiança mútua, hierarquia bem definida entre as gerações, reciprocidade nos papéis parentais e clareza dessa reciprocidade
para os filhos). Essa pesquisa resultou em duas caracterizações de famílias com pacientes esquizofrênicos: famílias com "cisma conjugal" e com "viés conjugal".
O cisma conjugal caracteriza-se pela divisão do sistema marital, com competição, brigas e rivalidade, desconsideração en
68
66
Ceneide M. de O. Ceweny
tre os cônjuges, insuficiente diferenciação das famílias de origem, clima de desconfiança e os filhos tendo de escolher entre um dos pais.
O viés conjugai caracteriza-se por um tipo de desequilíbrio onde não existe propriamente o cisma, podendo haver até uma certa harmonia. No entanto, um dos cônjuges
sempre tem um quadro psicopatológico e o casal funciona em complementaridade. Os conflitos são disfarçados sob uma atmosfera irreal. Lidz chama o viés conjugal,
de folie à famille em comparação ao folie à deux.
Jackson (1980), teórico que conceitualizou a família em termos de sistema interacional e que priorizou a teoria da comunicação para suas investigações, parte dos
pressupostos de que: a) nenhum membro de uma família é totalmente independente e, admitindo ou não, sempre responde à avaliação de outros membros da família; b)
a estereotipia na interação familiar pode estar indicada pela ausência de comportamento em certas áreas, assim como por transações características que são inflexíveis
e inexoráveis. Segundo ele, a ausência de discussão numa família, por exemplo, pode ser um sinal de patologia e não uma questão de boa adaptação.
Em seus estudos sobre a definição e natureza das relações. Jackson classificou as famílias em quatro tipos, baseando-se nos modelos de transações empregados para
definir a natureza da relação. As categorias a que Jackson chegou são: 1) relação satisfatória estável; 2) relação satisfatória instável 3) relação insatisfatória
estável; 4) relação insatisfatória instável.
A relação satisfatória estável é definida por ele como uma relação onde as partes chegam a um acordo explícito de quem controla a relação ou as áreas dentro dessa
relação. Por controle da relação, Jackson refere-se a quem inicia a ação, que tipo de ação e estabelece que áreas dentro da relação, serão controladas pela outra
pessoa. É uma relação estável, não significando um funcionamento perfeito, mas sim uma relação com pequenos períodos de instabilidade, onde se pode conversar sobre
a relação.
A relação satisfatória instável diferencia-se da primeira pela duração dos períodos de instabilidade, que são mais freqüentes, embora os períodos de estabilidade,
quando acontecem, sejam satisfatórios. Para Jackson, esse tipo de relação é característico de qualquer relação nova ou modificada (recém-casados, famílias em que
filhos estão entrando na adolescência, aposentadorias).
A família como modelo
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^ A relação insatisfatória estável é uma relação que se caracteriza, segundo o autor, por uma grande inflexibilidade e com-pulsividade. As partes envolvidas têm
um acordo tácito de não discutir jamais de quem é a responsabilidade da relação ou de áreas dentro da mesma. Os envolvidos não manifestam insatisfação e a relação
é estável porque se evitam os problemas que poderiam desestabilizá-la. Nesse sentido, as normas culturais, religiosas e as crenças assumem grande importância porque
passam a ser a autoridade externa que libera a família de decidir quem seria o determinador na relação. Esse tipo de família é distante e retraída nas relações ainda
que possa "enganar". A relação é estável porque se evitam os problemas, mas insatisfatória porque existe muito pouca troca entre os membros.
A relação insatisfatória instável define-se por não haver acordos implícitos ou explícitos sobre quem controla a relação ou parte dela. Os períodos estáveis são
curtos e os instáveis prolongados. Nessa família raramente se chega a acordos, não há definições e as transações baseiam-se em manobras complementares que se redefinem
em virtude da aceitação do outro. Jackson diz que o membros dessa família utilizam-se de sintomas psicossomáticos ou histéricos como meio de definir as relações
e têm muita dificuldade em iniciar ou continuar uma terapia familiar.
Wynne (1980), também como tantos outros, trabalhou com pesquisa na área da esquizofrenia na década de 50 e seus estudos foram feitos no National Institute of Mental
Health, Washington. Para ele, existe o pressuposto básico de que a tendência para se relacionar com outros seres humanos constitui um princípio ou uma necessidade
fundamental da existência humana, assim como todo ser humano também tende, consciente ou inconscientemente, a desenvolver um sentimento de identidade pessoal. Wynne
entende ainda que essa necessidade universal de resolver os dois problemas citados, o de relação e o de identidade, levam a três tipos de soluções principais que
são resultantes da relação e da complementaridade. Essas soluções seriam: a mutualidade, a não-mutualidade e a pseudomutualidade.
Em 1984, Wynne aprofundou o conceito de mutualidade como fase do desenvolvimento, trabalhando processos relacionais de apego/proteção, comunicação e solução de problemas.
Seu conceito de mutualidade aproxima-se da mutualidade positiva de Süerlin (1969) e a pseudomutualidade do conceito de
68
Ceneide M. de O. Ceweruj
mutualidade negativa de Stierlin (1969) e da relação insatisfatória estável de Jackson (1965) à que já nos referimos.
Na mutualidade, os indivíduos têm sua identidade positiva e valorizada significativamente e, a partir da experiência e da valorização, desenvolve-se o reconhecimento
mútuo da identidade que inclui o reconhecimento das qualidades do outro.
A não-mutualidade caracteriza-se pela não-existência dos aspectos levantados na mutualidade e a pseudomutualidade tem o caráter ilusório de que se está correspondendo
às expectativas do outro. O esforço de adequação ao outro na relação é conseguido às custas da diferenciação da própria identidade. Na pseudomu-tualidade, segundo
Wynne, não se exploram novas expectativas e os papéis e expectativas antigas, mesmo sendo percebidos como inadequados, continuam servindo como estrutura para a relação.
Essa relação, na pseudomutualidade, é vazia, estéril e não dá possibilidade de explorar e ampliar os seus aspectos positivos.
Talvez Whitacker (1981). com sua sensibilidade e às vezes, com sua irreverência, seja aquele que defina com mais clareza a pseudomutualidade com este exemplo: quando
a mãe numa família pseudomútua declara que sua vida sexual é "simplesmente adorável", o terapeuta poderia pensar num comparecimento a um funeral onde a senhora estaria
dizendo que o cadáver é "simplesmente adorável".
Minuchin (1982) não se refere especificamente à afetivida-de na família, mas, nos seus conceitos de família emaranhada e desligada, fica claro que elas estão embasadas
na preferência por um tipo especial de interação entre os membros. Na família emaranhada, por exemplo, o sentimento de pertinência exige uma renúncia muito grande
da autonomia e isso faz com que as habilidades cognitivo-afetivas sejam inibidas. As famílias desligadas, ao contrário, dão uma grande liberdade ao individual de
seus membros, mas também dão pouco apoio, apoio esse que só é conseguido em situações de estresse máximo.
Alguns autores definem como família saudável, do ponto de vista da interação, aquela que tem um mútuo acordo sobre certas crenças, valores, perspectivas e diálogo,
o que se aproximaria da mutualidade positiva citada anteriormente.
Nesse sentido, a posição de Whitacker (1990) é de que "um indicador de saúde familiar é o espaço para a intimidade do amor. bem como para o transtorno do ódio. Todos
estão livres
A família como modelo
69
para se engajarem numa troca intensa, com base no amor tanto quanto no ódio" (p. 138).
Esse autor parte do princípio de que a família saudável consegue usar as crises para promover o crescimento e, nesse sentido, o conflito é crucial para seu desenvolvimento.
Também, ao contrário de Minuchin, Whitacker diz que, numa família saudável, uma gama muito grande de níveis de intimidade e separação são encontrados e esses níveis
são móveis, sem necessariamente induzir ao pânico.
Com relação à família saudável, a posição de Lidz e Whitacker são similares quando enfatizam que o processo afetivo familiar é implícito e não verbal; para Whitacker
a "expressão afetiva é um processo natural que é permitido ao invés de ser ensinado".
Satir (1972) não se refere propriamente a padrões afetivos na família, mas relaciona doença e saúde emocional da família com a alta ou baixa estima de seus membros.
Para Satir, o fator que determina o tipo de interação que se estabelece na família é a comunicação e, assim, a família funcional é aquela onde os membros podem expressar
claramente o que pensam e sentem por meio de uma comunicação aberta.
Ao contrário é a família disfuncional, onde a comunicação não pode fluir abertamente, onde os conflitos e as diferenças não podem ser discutidos e levam a um padrão
não-facilitador para a saúde emocional e alta estima de seus membros. Apesar de não estar claramente citado por Satir, podemos deduzir que a afetivi-dade pode estar
pouco desenvolvida nessas famílias.
Boszormenyi-Nagy e Spark (1973), em cuja teoria confluem a Psicologia dinâmica, a fenomenologia existencial e a teoria de sistemas, dizem que "todos os indivíduos
experimentam às vezes atitudes ambivalentes, porém o aspecto mais importante da ambivalência não é só a freqüência e a intensidade dessas respostas, mas sim as reações
contínuas e fundamentais nessas relações estreitas. Podem mudar as amizades, os padrões, porém dentro do próprio si-mesmo sempre segue presente uma sensação básica:
de que a pessoa tenha recebido uma adequada dose de amor, aceitação e reconhecimento do próprio valor por parte dos membros atuais e passados da família" (p. 260).
Nesse corte revisional, a respeito da afetividade na família, pudemos constatar a diversidade de aspectos que os vários autores consideram ligados a esse padrão
interacional. Assim, temos a
4026
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Ceneide M. de O. Cerveruj
afetividade associada à confiança mútua, à reciprocidade de papéis, à competição e à cooperação, à consideração e à desconsideração, à qualificação e à desqualificação,
à inflexibilidade nas transações, à instabilidade no relacionamento, ao apego, à proteção, ao acordo quanto a crenças e valores, ao diálogo, à agressividade, à comunicação
aberta ou bloqueada, aos conflitos abertos ou disfarçados e a outros que deixamos de citar.
Ainda com respeito à revisão bibliográfica sobre afetividade e família, constatamos que a maioria dos estudos derivam-se de famílias com membros esquizofrênicos
e outras patologias. Uma pesquisa abrangente sobre esse tema se faz necessária inclusive com comparações socioculturais.
Nesse trabalho, não vamos definir o que seria um padrão afetivo funcional ou disfuncional, mesmo porque, para chegar a essas categorias, necessitaríamos de uma pesquisa
maior e mais direcionada a esse tipo de padrão interacional.
Nossa posição diante da afetividade na família é que ela é um padrão de interação, fundamentado na convicção de que nenhum membro do sistema familiar deixa de ser
influenciado pelo modelo afetivo proposto pelo sistema familiar. Os padrões de afetividade estão embasados na relação e, nesse particular, assumimos a posição proposta
por Bateson (1972) de que o relacionamento é sempre um produto de dupla descrição ou dupla visão. Isso porque, para nós, também o relacionamento não é um fator interno
de um indivíduo, mas o produto de uma interação, e a dupla visão, a que Bateson se refere, é como se pensássemos em cada olho fornecendo uma visão de cada parte
da relação.
Não sendo o relacionamento um fator interno, inerente ao indivíduo como um fator de personalidade mas, um produto de interação, é na matriz familiar que ele se inicia,
se desenvolve e é ü-ansrnitido.
3.7. HIERARQUIAS
"Ser organizado significa seguir um padrão, comportar-se de maneira redundante e existir numa hierarquia.
Haley (1976)
\ I omitia como modelo
7]
Pensando a família como um sistema, e como discutimos anteriormente, não podemos deixar de percebê-la como tendo uma organização, nem ignorar que. em todo grupo
familiar, existe ii hierarquia que para nós também define as relações de poder. I 'ensar em hierarquia sem pensar em poder é deixar de lado o aspecto organizacional
da família.
Hoffman (1987), discutindo o poder como questão familiar, diz que "as questões de poder permeiam em muitas teorias as bases dos conflitos familiares, estando, por
exemplo, na base das desqualificações, das discórdias na família" (p. 184). A mesma autora defende também que o poder nunca é uma questão absoluta: necessita-se
encarar o "poder para quê". Relacionando o poder à competição, Hoffman diz que o mesmo está relacionado ao ganho, mas na família, pondera Hoffman, independentemente
da diferenciação que pode existir nas várias culturas, o objetivo familiar pressupõe o bem-estar de todos os seus membros e, nesse sentido, supõe-se que a família
tem um "bem" particular de que todos querem ser parte ou, ainda, um produto que nenhuma outra instituição pode substituir. Para Hoffman, esse "bem" seria um "acesso
ordenado à intimidade" e um invisível sistema de conectar e retirar que é compartilhado por todos os seres sociais. Esse conceito de Hoffman é similar, segundo ela,
à "envoltura social" de Kay Erikson (1978) que é indispensável a todos os homens.
A maioria dos autores que trataram sobre o poder na família, como Haley (1979). Madanes (1981), Minuchin (1982), Um-barger (1983), associa-o à hierarquia, como uma
função, dentro de um aspecto da diferenciação de papéis entre pais e filhos e das fronteiras entre gerações. É dessa maneira que vamos encarar a hierarquia: como
um padrão de interação que influi na repetição de modelos.
Umbarger (1983) afirma que a hierarquia, em sua acepção dentro da teoria geral de sistemas, designa uma regra de ordenação que subordina elementos de um sistema
a outros elementos. Para ele, todos os sistemas vivos organizam-se numa hierarquia para realizar a diferenciação das partes do sistema e da complexidade do todo.
É essa ordenação hierárquica que faz com que os elementos do sistema possam, ao mesmo tempo, ser um todo abrangente de partes subordinadas e uma parte de um todo
su-pra-ordenado.
72
Ceneide M. de O. Cervcnii
Haley (1979) diz que, quando os indivíduos se organizam juntos, têm uma constituição de status e poder e, conseqüente mente, uma hierarquia. Afirma também que "apesar
dos grupos apresentarem mais de uma hierarquia porque têm diferentes fun ções, a existência da hierarquia é inevitável, desde que ela está na própria natureza da
organização, que é hierárquica" (p. 101).
A crítica que se pode fazer a essa afirmação de Haley é que podem existir outras formas de descrever uma organização.
Haley (1979) ainda nos chama a atenção para o fato de que a hierarquia é mantida por todos os participantes de um grupo organizado. "Quando animais ou seres humanos
mudam a ordem das coisas, o restabelecimento da hierarquia é um esforço do grupo, onde aqueles que se situam abaixo agem tão ativamente quanto aqueles que se situam
acima" (p. 102). A hierarquia, para Haley, esta claramente ligada às funções dentro da família, sendo que a organização hierárquica mais elementar envolve a linha
ge-racional. A cultura pode determinar diferentes organizações hierárquicas a partir da linha geracional. Existem culturas que privilegiam a função dos avós mais
que a dos pais e culturas onde esses mesmos avós já ocupam uma posição de menos poder. Esse autor considera que o estrangulamento do poder, em conseqüência de uma
hierarquia confusa ou ambígua, faz com que os membros da família possam apresentar sintomas.
Essa posição é muito parecida com a de Minuchin (1974), quando descreve a patologia de hierarquia, em que a inversão de hierarquia é, segundo ele, a grande força
destruidora da estrutura familiar. Reordenar hierarquias confusas é uma das metas da Terapia Familiar Estrutural e para isso o terapeuta usa seu próprio poder dentro
da hierarquia para fazer a mudança.
Whitaker (1990) coloca-se em relação à hierarquia dizendo que "uma saudável separação de gerações não deve ser confundida com uma estrutura hierárquica rígida" (p.
137). Para ele a separação de gerações é importante na estrutura das famílias que querem um bom funcionamento. Ao invés de dominação entre as gerações, Whitaker
fala da "idéia de que a força provê segurança e proteção". Para o autor, o "como se" ou brincadeira de trocas de funções e papéis pode perfeitamente se dar em uma
estrutura com sólida segurança.
A vivência em uma organização familiar onde está presente uma hierarquia rígida ou confusa pode, para nós, levar à repeti
A família como modelo
73
ção de padrões interacionais hierárquicos iguais nas gerações subseqüentes ou, então, pelo "antimodelo" assumir posições con-(i-árias ao modelo "proposto" pela família
de origem. Acreditamos, também, que a desorganização hierárquica dentro da família pode ter como conseqüência alterações em outros padrões de interação como nas
triangulações, na afetividade, na comunicação e assim por diante.
Assumimos como organização hierárquica uma clara divisão de gerações, com o poder centrado na família nuclear, no par parental. Desorganização hierárquica seria,
para nós, a não-deli-mitação clara entre as gerações e o poder distribuído entre os vários membros do sistema.
Quando o par parental não é congruente, em termos das decisões, denominamos também desorganização hierárquica.
Vivemos nesses últimos tempos muitos conflitos baseados na hierarquia, conflitos esses, na área social, econômica, organizacional etc., talvez por conta das mudanças
e transformações havidas.
Na família, o problema de hierarquia trouxe à clínica pais que se sentiam culpados em dizer não aos filhos, filhos que, numa posição de custosa inversão, comandavam
a família, conflitos de lealdade entre grupos familiares onde havia convivência com avós e outros.
CAPÍTULO III
A repetição de padrões interacionais e a interface terapêutica
Todos crescemos com a experiência vivida: a família, os terapeutas, a equipe de supervisão, quando na interface o passado consegue dialogar com o presente para não
repelir em vão...
A inclusão deste capítulo em nosso trabalho deve-se ao fato de. nos dois últimos anos, na supervisão de terapeutas-alu-nos do Curso de Especialização em Terapia
de Casal e Família da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), termos observado casos de interface de padrões interacionais dos terapeutas e da família
consultante, durante o atendimento clínico.
Talvez possamos dizer, sem cair no exagero, que todo terapeuta de família deparou-se com pelo menos uma repetição de padrões interacionais de sua família de origem
(FO), durante seus atendimentos clínicos.
Framo (1982), num trabalho que denominou "Reflexões pessoais de um terapeuta de família", diz que "tratar famílias não somente revive os espectros da vida de família
do passado, mas lambem tem efeitos sutis nos relacionamentos da família atual do terapeuta" (p. 254).
76
CeneideM. de O. Ceweruj
O mesmo autor continua: "Uma ampla gama de sistemas suportivos, pessoal e profissional é vital para fazer este trabalho e. quando estes sistemas suportivos não estão
funcionando, paga-se um preço (Whitacker, Felder e Warkentin, 1965). Quando o seu próprio casamento está com problemas, ou você está tendo difi culdades com seus
filhos, ou você não trabalhou uma diferencia ção com sua família de origem, ou se o seu sistema de trabalho é adverso à abordagem de sistemas, ficará especialmente
difícil con duzir as sessões de terapia familiar e de casal" (p. 256).
Se de um lado, como já dissemos anteriormente, temos repetições de padrões interacionais da FO que acrescentam e enriquecem nossa experiência, podemos por outro
lado, ter repetições que impedem o crescimento e acabam conflitando no nosso sistema familiar atual e, também, em outros setores de atuação, entre os quais se coloca
o exercício da Terapia Familiar.
Como parte do programa do Curso de Especialização em Casal e Família, realizamos um trabalho de preparação do tera-peuta-aluno para o atendimento clínico em que
se dá ênfase à família de origem (FO) do mesmo.
Durante a realização desse trabalho em 1991, quando solicitamos aos alunos que representassem graficamente suas famílias, surgiram espontaneamente tanto alunos que
trouxeram sua família de origem (FO). como outros trazendo a sua família atual (FA). Esse fato fez com que repensássemos o trabalho e buscássemos a ampliação do
mesmo para incluir a FA.
Na abordagem sistêmica de Terapia Familiar, Minuchin (1982) chama de sistema terapêutico o sistema formado pela família e terapeuta(s), e de sistema terapêutico
total o sistema que é formado pelo Sistema Terapêutico e a equipe de Supervisão.
A supervisão ao vivo, por meio do espelho unidirecional, que teve seu auge na década de 60, sofreu críticas e um certo declínio nos últimos anos. Em nosso curso
de formação, continuamos a prática da supervisão direta porque achamos que ela permite detectar carências teóricas e práticas dos terapeutas-alunos, e perceber mais
facilmente as interfaces que são o tema deste capítulo.
Kramer (1985) referindo-se à Interface Familiar, enfatiza e explica muito bem o sistema formado na Terapia Familiar pelo Terapeuta, Família Consultante e respectivas
Famílias de Origem (FO), dizendo que quando terapeuta e família encontram-se na
A liuiiüia como modelo 77
sessão terapêutica, ambos trazem suas experiências, padrões, preconceitos que constituem um filtro que determina a realidade terapêutica. Diz ainda que o conceito
de interface é mais amplo que o conceito de transferência e contratransferência, porque estes são mais diádicos, enquanto que a interface envolve mais pessoas.
Williamson (1981) também valoriza a importância da família de origem (FO) do terapeuta, chamando a nossa atenção para o quanto ela pode afetá-lo e o contexto da
terapia, dizendo, inclusive, que, em princípio, existem pelo menos três famílias no consultório numa sessão de Terapia Familiar: a Família Consultante, a Família
de Origem da Família Consultante e a Família de Origem do Terapeuta.
No quadro abaixo, de Kramer (1985). podemos visualizai- a interface terapêutica com a intersecção formada pela família consultante, seus membros, sua família de
origem (FO) e o terapeuta (T) e sua própria família de origem (FO).
M F - membros da família
T- terapeuta
F O - Família de Origem
FC - Família Consultante
Fronteiras físicas c emocionais
interface da família dos MF interface da família de T
Kramer - 1985
Quando citamos anteriormente o trabalho desenvolvido com os alunos do Curso de Terapia Familiar e de Casal da PUC-SP e o fato de que, enquanto alguns trouxeram a
representação de suas famílias de origem, outros se detiveram em sua família atual, ressaltou para nós a importância dessa face: a família atual do terapeuta (FA).
78
Ceneide M. de O. Cerveni)
É importante notar que não houve nesse trabalho, com 18 pessoas, a correlação: solteiros trazendo famílias de origem (FO) e casados, a família atual (FA), porque
entre os casados alguns trouxeram a FA e outros a FO.
Isso nos levou a ampliar a interface terapêutica para incluir também a família atual (FA) nesse sistema terapêutico, que então seria formado por:
1) Família consultante;
2) Terapeuta;
3) Família de origem da família consultante;
4) Família de origem do terapeuta;
5) Família atual dos membros da família consultante;
6) Famüía atual do terapeuta.
Para nós, o gráfico da interface seria então:
F O - família de origem
M F - membros da família consultante
FA - família atual
T - terapeuta
F AT - família atual do terapeuta
interface terapêutica
interface da F A,FO e M F interface da F A ,F O eT
Cerveny ¦ 1991
Por outro lado, não podemos esquecer que o estágio do ciclo vital do Terapeuta, constitui um fator importante nessa interface. Quando supervisionamos casos conduzidos
por co-terapeu-tas, que estão em estágios diferentes do ciclo vital, percebemos -com mais nitidez - a influência dessa face que, se bem trabalhada, pode enriquecer
o trabalho terapêutico.
A família como modelo
79
O depoimento abaixo, de um terapeuta-aluno trabalhando em co-terapia, mostra isso:
"...trabalhar com F. tem sido bom, tenho segurança c percebo que nossas diferenças têm enriquecido o trabalho. Estamos em ciclos de vida diferentes e nossas interfaces
também são diferentes. O que me paralisa, para ela já está mais resolvido e sinto que a família consultante ganha corri Isso. Ela é casada, tem três filhos c cu
ainda não me casei; ela vê mais as partes e cu mais o todo, e tantas outras coisas que estamos descobrindo..."
Um fator para o qual é necessário chamar atenção seria que a percepção da interface na sessão de Terapia Familiar não está restrita aos profissionais mais jovens
ou iniciantes. Mesmo os terapeutas mais competentes e experimentados podem, em algum momento, não discriminar o que acontece nas interfaces.
Estudando a família, por meio do intergeracional, pode mos dizer que essa repetição se dá principalmente por meio dos padrões de interação e, nesse sentido, o terapeuta
trás da sua Família de Origem (FO) mitos, regras, padrões afetivos, valores, crenças, regras, expectativas, nível de rigidez ou permeabilidade, maneiras de lidar
com a lealdade, dívidas com a família, triangulações, seqüências repetitivas, problemas de poder e hierarquia, cultura familiar e assim por diante.
Da Família Atual (FA), dependendo então do estágio do ciclo vital, o terapeuta trás a relação com o econômico, com o social, com o casamento, com filhos, com os
papéis parentais e também filiais, a forma de lidar com doenças e perdas, ente tudo o mais que faz parte do complexo de vida cotidiana.
Não podemos esquecer ainda que o terapeuta, na relação com a sua profissão, pode lidar com problemas de expectativa, competência, onipotência, impotência, que não
são privativos dos terapeutas familiares e ocupam também um papel importante na interface.
Os sintomas mais comuns que aparecem quando estamos diante de problemas de interface são, segundo Kramer (1985), ansiedade, confusão, falar muito, falar pouco, paralisia
("branco"), atitude autoritária atípica, raiva e sintomas físicos. A comunica
80
Cerieide M. de U. Uerveny
ção não-verbal desses problemas pode ser traduzida de diferentes maneiras na sessão terapêutica com a família.
Diante de um impasse terapêutico. Kramer (1985) sugere que se indague: Ia) O terapeuta está com pouca experiência para clarear a estrutura? 2a) O terapeuta está
com falta de habilidade para compreender o problema? 3a) Falta ao terapeuta técnica apropriada ao momento? Se não está acontecendo uma dessas coisas, é provável
que estejamos diante de um problema de interface.
Para encerrar, gostaria de justificar por que a questão da interface é preponderante na Terapia Familiar.
Independentemente das múltiplas variações que hoje existem e dos diferentes modelos que surgiram na Terapia Familiar Sistêmica, em relação ao terapeuta, existe a
concordância de que ele é muito mais ativo do que nas outras terapias. Não há, na Terapia Familiar Sistêmica, a postura clássica de neutralidade, de observador de
fora do sistema. Para algumas linhas de Terapia Familiar, o terapeuta não usa só a sua habilidade e competência (técnica) na sessão, mas também sua própria pessoa
para trabalhar a família consultante. A neutralidade, nesse caso, seria a possibilidade de o terapeuta entrar e sair das alianças e envolvimentos dentro do sistema
terapêutico, e uma das maneiras de diminuir esse risco é. sem dúvida, o conhecimento das interfaces a que estamos sujeitos.
Desenvolvemos atualmente um estudo da interface na co-terapia. porque quando dois terapeutas atendem a família, além das interfaces citadas, temos que considerar
as que existem entre os dois terapeutas.
Relatamos a seguir um exemplo vivido daquilo que tentamos transmitir na nossa comunicação:
Depoimento de um terapeuta-supervisionando:
"A família atual consultante: a mãe (D), a filha (A) c uma ligação com o avô materno (O). Uma ligação muito fechada que impede a aproximação e convivência com outras
pessoas. A mãe (D) e sua grande companhia: os jornais.
A família conxo modek)
81
A família do passado da família consultante: a mãe (R), o pai (O) e a lllha (D). Urna casa vazia de coisas e pessoas. Urn pai com seu jornal...
Com 17 anos de casamento, (R) busca urna nova relação. A filha (D) não sabe corn detalhes os motivos da separação dos pais. (D) já tem dois casamentos, duas separações
e a solidão. A partir do casamento da rnãc, rompe definitivamente corn esta e liga-se ao pai (O). Isola-se c Isola atualmente a filha (A) de outros relacionamentos.
(A) também não sabe o motivo da separação de seus pais. (D) diz que sua mãe era multo fria e não Unham nenhuma Intimidade. Atualmente, como mãe é super protetora,
carinhosa, rnas a lllha lhe diz que parece que ela usa uma máscara, atrás da qual tem um outro rosto. (D) projeta para sl própria uma velhice solitária, repetindo
a velhice de seu pai (O).
(D) ignora totalmente dados da família de seu pai (O) c (A), sua filha, até o Início da terapia, não linha também dados da família de seu pai.
Somos três Ilibas únicas: (D), (A) e eu, a !era])cuta. Ora me identificava com (D) ora corn (A). Com (A), achando que minha mãe também sempre usara uma máscara,
só lia jornais, não me ensinara a conhecer e conviver com a família de meu pai. Também (ivc urna casa vazia, como (D), sem móveis, sem enfeites, sem visilas, sentada
na poltrona assistindo à TV. Como (A), também achava que eu não sabia nada. que minha rnãc sempre sabia e devia decidir tudo. Como (D), tarntxhn me vejo superprotegendo
meus filhos e dando mais carinho do que posso, acabando por rne sentir sobrecarregada e me vendo perdida. Como (A), sempre tive medo de crescer e, como (D), fico
com medo de envelhecer c, às vezes, rne pego Impedindo meus filhos de crescerem...
Perceber as minhas Interfaces com a da família consultante, transformar a experiência em conhecimento, reviver, poder sair do sistema e percelx:r, fez parte da minha
formação como terapeuta de família e da minha terapia pessoal..."
CAPÍTULO IV
Objetivos de estudo
"Fazer ciência c explicar."
Maturana (1983)
Por ocasião da nossa introdução, quando citamos Haley, dizendo que os pesquisadores exigem teorias complexas e os clínicos necessitam de teorias simples, e como
Figueiredo, preconizando a obrigação e o direito da produção de novos conhecimentos, a nossa preocupação era como colocar o cotidiano e a experiência clínica numa
forma aceitável de conhecimento para a comunidade científica e, ao mesmo tempo, dar conta da problemática que tentamos explicar.
Maturana (1983) vem em nosso auxílio, quando em uma conferência, cujo tema era "Fenomenologia do conhecer", diz que a "a tarefa da ciência, do científico, é explicar
e que o critério de validação das explicações científicas tem a ver com a vida cotidiana, sendo uma sistematização rigorosa do modo de validar nossa existência na
vida cotidiana, através do mero viver".
A explicação científica para ele tem de satisfazer a quatro condições:
a) o fenômeno por explicar,
b) a hipótese explicativa;
c) a dedução de outros fenômenos a partir de (b) e indicando suas condições de observação;
d) realização de (c).
.U
84
Ceneide M. de O. Cerveny
O nosso fenômeno a explicar neste trabalho é a repetição de padrões interacionais familiares, principalmente, numa dipien-são intergeracional. A observação desse
fenômeno se faz no âmbito da nossa experiência clínica como terapeuta de família.
A hipótese explicativa, em virtude da concepção sistêmica de família e da recursividade dos padrões de interação, inclusive da circularidade causal, leva-nos a deduzir
que esses padrões interacionais, adquiridos em anos de longo convívio dentro de um sistema, vão se repetir através das gerações e o nosso estudo refere-se à análise
de repetições de padrões interacionais das gerações passadas no sistema consultante do presente.
Do que foi colocado por nós até agora, com respeito à repetição dos padrões interacionais, podemos facilmente deduzir que a repetição pode tornar um sistema familiar
disfuncional na medida em que padrões repetitivos, às vezes, tornam rígido o sistema, impedindo mudanças e crescimento. Dependendo do grau dessa disfunção podemos
ter um sistema familiar patológico.
Muitas vezes, existe a naturalização de tais padrões interativos presentes na família durante gerações, que se tomam parte do cotidiano, ficando, portanto, profundamente
incorporados ao sistema familiar, que sequer o percebem como disfuncionais ou bloqueadores de crescimento.
Se estamos convictos de que os padrões se repetem, temos como objetivo:
- Saber que padrões estão sendo repetidos;
- Qual o processo de interação familiar que propicia a repetição;
- Que implicações tem a repetição de alguns padrões no funcionamento de uma família que procura terapia;
- O quanto os membros do sistema familiar se dão conta dessa repetição;
- O quanto essa repetição é camuflada ou aparece com diferenças sutis.
Procuraremos, portanto, identificar que repetições interge-racionais, por meio de padrões interativos como comunicação, regras, mitos, seqüências, triangulações,
afetividade e hierarquia, tomam a família consultante atual disfuncional e sintomática e como elas aparecem; o quanto os sujeitos envolvidos têm conhecimento delas;
e quais são suas reações ao perceberem sua existência e influência.
A família como modelo
85
Para atingir tal objetivo, dada a complexidade dos padrões interacionais, procuramos analisar cada um dos padrões em separado, embora todos eles estejam presentes
no sistema de forma interconectada. Nesse sentido, não perdemos de vista o sistema como um todo, mas em virtude de aspectos específicos que funcionam como hólon
(que descreve as partes componentes do sistema de modo que elas possam se considerar ao mesmo tempo um todo por si mesmas, mas também partes de uma entidade mais
ampla - Minuchin, 1981), tomamos os padrões separadamente.
Para maior clareza da identificação do padrão de interação que nos interessa num determinado momento, poderemos priorizá-lo na análise dos casos, não esquecendo
a implicação dos demais segundo a concepção sistêmica da família.
Assim, usaremos como categorias de análise, os padrões de interação como comunicação, seqüências, hierarquias, regras, mitos e afetividade, identificando como ou
quando se dá repetição em cada um deles, priorizando o aspecto mais significativo para a situação, porém, cientes de que a maioria dos padrões, senão todos, podem
ser analisados do ponto de vista de cada uma dessas categorias.
Lidar com a impotência de não conseguir "não repetir" e sair simplesmente da crítica da repetição para um entendimento significativo da mesma também é nossa proposta.
A repetição de padrões interacionais, não sendo lida só do ponto de vista do conteúdo atual, mas em um processo intergeracional, pode proporcionar novas avaliações
e promover mudanças.
Entender que o antimodelo pode ser o modelo de uma geração ainda mais anterior remete-nos à origem do nosso grupo familiar para entender o que aconteceu.
E necessário entender o que aconteceu para passá-lo à outra geração como conhecimento e não só como experiência repetida.
CAPÍTULO V
Método
"Não sc pode chegar a urna ciência do ho-rnein, sem o homem. Sem o homem estudado c o homem que estuda."
Bieger (1977)
1. A PESQUISA
Este trabalho fundamentou-se numa pesquisa qualitativa baseada no estudo de casos.
Um caso clínico, atendido em 17 sessões de Terapia Familiar, durante 13 meses, serviu como base para a aplicação do modelo teórico, por nós construído, a respeito
da transmissão de padrões interacionais familiares principalmente no nível intergera-cional.
Outros casos clínicos serão apresentados como exemplo da transmissão de padrões interacionais específicos.
Sempre que trabalhamos com o estudo de restrito número de casos, temos a convicção de que não haverá a abrangência universal em termos de objeto. Em nosso caso,
algumas famílias-su-jeito não representariam a imensa gama de modelos de sistemas familiares que atendemos na prática clínica.
Assim, também, o estudo de três gerações é um pequeno corte na história de uma família e o ideal seria uma pesquisa que envolvesse uma escala intergeracional maior.
Nesse caso, deveria-
o o
Cer\eide M. de O. Cervenii "
mos contar com outro tipo de registro familiar como fotos, doeu mentos e as histórias mais antigas que circulam na família. Nossa experiência clínica, porém, (dadas
as características de nossa cultura, mosaico de correntes imigratórias) limitou nossa expectativa até a geração dos avós. que em geral marca a extensão da memória
das famílias - com raras exceções - sobretudo num determinado extrato social (assim chamados quatrocentões) que tem no nome uma herança e cultivam mais as tradições.
E importante, nesse momento, determo-nos em aspectos da observação do atendimento clínico. É corrente na Terapia Familiar Sistêmica a impossibilidade de o terapeuta
colocar-se fora do sistema com o qual está trabalhando. Por isso, como dissemos, trabalhamos com o Sistema Terapêutico (Minuchin, 1982) que é o sistema integrado
pelo terapeuta e pelo Sistema Familiar.
Essa impossibilidade de separar o sistema observado preconizado pela totalidade dos teóricos de família não é algo de propriedade dos sistêmicos. Assim, sobre a
observação científica, Bleger (1977) assume a seguinte posição: "Na observação científica é onde confluem as antinomias e os equívocos mais seculares sobre o método
científico. Toda ciência parte da observação de fatos, sobre os quais se elabora uma hipótese que logo pode ser verificada, manejando os ditos fatos. O processo
de investigação, assim tão simples e claramente exposto, só se dá lamentavelmente no papel. É a metodologia do psicólogo puro, do que não investiga mas conhece as
normas com as quais quer que os outros investiguem" (p. 227).
Questiona, pois, Bleger, a observação pura, a qual seria uma utopia pois, sempre que observamos, estamos em uma função ativa e participante em relação àquilo que
investigamos. Os fatos que observamos não são isolados, mas pertencem a um sistema maior; os dados dos quais partimos não são fatos em si, independentes dos seres
humanos, mas estruturados por causa deles. Mesmo a escolha dos fatos e dos processos de investigá-los implicam a adoção de uma concepção de mundo que também influi
na nossa investigação.
A observação não é, pois, nesse sentido, apenas a percepção de um fenômeno externo ao observador, mas uma profunda relação do homem com o observado.
Bridgman (em Argyris, 1969) diz que a fim de refletir sobre um sistema ou situação, sempre temos, aparentemente, que nos imaginar como um observador situado externamente,
consideran
A família como modelo
89
do que, quando agimos dessa maneira, chegamos à conclusão de que sempre terminamos absorvidos pelo sistema do qual tentávamos nos excluir.
De certa maneira, foi a essa conclusão que os terapeutas de família, que pensam a família como um sistema, chegaram em suas observações.
Quando Anzieu e Martin (1968) disseram que, na observação de grupos, é necessário pensar que os mesmos não são realidades fixas, mas evoluem de acordo com o seu
dinamismo interno e com o contexto exterior e que a própria observação podia ser um desses fatores, não estavam se referindo propriamente ao grupo familiar. No entanto,
esse princípio básico da investigação ativa é o mesmo daquele que chamamos de observação participante.
Esse é o cunho especial a que nos referimos anteriormente a respeito da observação em nossa investigação, ou seja, uma observação participante, ativa; a explicação
dessa observação também é parte de nossa inserção no problema que propusemos estudar, a partir de nossa experiência.
Keeney. em Aesmetic of cliange (1983). fala no uso do termo epistemologia com um duplo sentido: para indicar como pensa, percebe e decide uma pessoa e para indicar
o que pensa, percebe e decide essa pessoa.
Para saber qual é a nossa epistemologia no primeiro sentido indicado por Keeney. tomamos como fato que o nosso pensamento se dá dentro de um pressuposto sistêmico
e o que pensamos é na repetição de padrões interacionais os quais estão dentro dessa perspectiva e com a nossa experiência peculiar de perceber esse fenômeno. Aliás,
Keeney remete-nos a um aspecto que pode ser uma característica nossa ou. talvez, seja algo comum a outros clínicos que militam dentro da terapia familiar de base
sistêmica, que é a pregnância do modelo na prática e a dificuldade de separar a epistemologia dessa mesma prática. Escrever sobre a epistemologia é, para nós. escrever
a prática.
Keeney ainda nos diz que "o observador primeiro distingue e logo descreve e que toda pergunta, ao propor uma distinção, constrói sua própria resposta". Cita também
Laing que afirma: "Aquilo que a ciência empírica denomina fatos, para ser mais honesto, deveríamos chamá-los captas" (no sentido do que é captado).
30
Ceneide M. de O. Cerveny
Usando tais afirmações, podemos dizer que a forma pela qual os dados são captados na prática clínica ocorre dentro de uma visão sistêmica, por meio da qual essa
prática também se dá.
Isso pode ser aquilo que Bateson (1968) chama de epistemologia recursiva própria da relação entre a teoria e a prática clínica, e pertence ao mundo da cibernética,
onde, segundo Keeney, a ação e a percepção, a descrição e a prescrição, a representação e a construção estão entrelaçadas.
2. INSTRUMENTOS
Além da análise das sessões de Terapia Familiar, usaremos, para detectar os padrões interacionais que se repetem inter-geracionalmente, o genograma e a linha de
tempo familiar (LTF).
2.1. O GENOGRAMA
O genograma é hoje largamente usado na prática da Terapia de Casal e Família e tem-se mostrado um instrumento eficiente para o entendimento das relações, vínculos,
mitos, padrões das famílias de origens.
O genograma evoluiu da Teoria dos Sistemas Familiares de Bowen (1978), autor que priorizou uma abordagem multigera-cional de família e a estrutura conceituai usada
pela grande maioria dos autores que trabalham com genogramas (McGoldrick, 1977; Guerin e Pendagast, 1976; Cárter, 1976; Lieberman, 1979) foram baseadas em suas idéias.
O genograma é uma representação gráfica multigeracional da família que vai além da simples genealogia, pois inclui também as relações e interações familiares.
Nosso primeiro contato com este instrumento foi a elaboração do nosso próprio genograma e sem dúvida uma das mais ricas experiências pessoais. As coincidências,
as repetições, alianças, e todos os processos que cada um de nós sabe existir no con texto familiar surgem e se concretizam no desenho do genograma. A história reaparece
e podemos fazer sua leitura ou releitura.
Um dos fatos marcantes do nosso próprio genograma foi o fato de que no dia em que fazia 15 anos, minha avó paterna faleceu. Apesar de morarmos distantes (600 km)
havia muita ligação entre nós por ser a neta mais velha, ter morado dos 7 aos 8 ano:, com ela etc. Havia sido programada uma festa de comemoração e
A família como modelo
91
meus pais assumiram continuar com a programação. Quando a festa terminou meu pai me comunicou a perda e viajamos para o enterro.
Dezenove anos após, minha primeira filha faz 15 anos e meu pai tem um infarto nesse dia, sendo internado no interior do Estado onde residia. Repetimos o padrão:
a festa continuou e só depois de terminada comunicamos o acontecido e rumamos para o interior. Coincidência? Podemos até tomar o fato como uma infeliz coincidência,
mas o padrão familiar que se repetiu, o funcionamento do sistema nessas ocasiões permaneceu.
Guerin e Pendagast (1976) chamaram o genograma de "mapa viário" do sistema de relações familiares. McGoldrick e Gerson (1985) dizem que o genograma é "uma forma
para desenhar a árvore familiar que registra informações sobre os membros de uma família e suas relações pelo menos durante três gerações" (p. 17).
Kramer (1985) substitui o termo genograma por diagrama e diz que o processo de fazer o diagrama é uma exploração mútua de questões transgeracionais.
O genograma recolhe informações estruturais vinculares e funcionais de um sistema familiar que pode ser analisado horizontalmente, por meio do contexto familiar
atual e verticalmente, através das gerações.
McGoldrick e Gerson (1985) afirmam que elaborar um genograma pressupõe três níveis: um primeiro que é o traçado da estrutura familiar, o segundo que é o registro
informativo da família e o terceiro que é a representação das relações familiares.
Para McGoldrick e Cárter (1980) a família é o sistema primário e, com raras exceções, o mais poderoso ao qual o indivíduo pertence. Para eles, o funcionamento emocional,
físico e social dos membros de um sistema familiar são interdependentes. Assim, as Interações e relações familiares tendem a ser altamente recíprocas, pautadas e
reiterativas, e essas pautas permitem realizar ten-la Uvas de previsões a partir dos genogramas.
Dentro do propósito do nosso trabalho que é a de pesquisar os padrões interacionais que se repetem intergeracionalmente, d genograma evidencia-se como um instrumento
fundamental e preponderante.
Em nossa prática clínica, o genograma é elaborado em di-1 pentes fases da terapia, dependendo do momento de cada família
92
M. de u. i^erveiii)
em particular, ao contrário do que é proposto por McGoldrick que recomenda a feitura do genograma nas primeiras sessões.
Às vezes, recebemos uma família com uma queixa muito específica que, naquele determinado momento, está causando muito estresse. Para esta família, envolver-se na
exploração do transgeracional, por meio do genograma, pode ser, naquele momento, inadequado e em outro grupo familiar, até necessário para desviar o foco da situação
estressante.
A hora de usar essa ferramenta poderosa na Terapia Familiar tem, de acordo com nossa experiência, que ser bem escolhida pelo terapeuta, para que haja uma resposta
eficiente ao instrumento.
As vezes, começamos a elaboração do genograma com a família numa sessão e na seguinte surge algum assunto ou tema emergencial. Podemos suspender o trabalho com o
genograma e retomá-lo em outra sessão posterior, sem que isso acarrete quebra ou problema na sua elaboração.
Costumamos fazer o genograma em cartolina ou outro tipo de papel encorpado usando pincéis atômicos. A cartolina é fixada na parede ou num quadro de forma que fique
visível a todo grupo familiar.
O genograma, sendo peça fundamental para o diagnóstico do grupo familiar, quanto maior o número de pessoas envolvidas na sua elaboração, melhor.
Os símbolos que usamos no genograma são os propostos por McGoldrick e Gerson.
Começamos a elaboração do genograma sempre pela família nuclear que é, geralmente, a família consultante. Colocamos então o símbolo EU para designar o homem,
O
para designar a
mulher e o traço de união - ligando, os dois, conforme modelo
abaixo.
Dentro das figuras, colocamos a idade de cada um e abaixo o nome ou a inicial do mesmo, como se segue.
42
'ífi
como modelo
93
Aqui já podemos perguntar sobre apelidos ou como as pessoas são chamadas em casa, o porquê disto e quem deu o apelido e assim por diante.
No traço de união - colocamos o número indicativo do tempo que o casal vive junto.
42
(36,
A
16
|B
Da linha horizontal de união, conforme modelo abaixo, saem linhas verticais correspondentes aos filhos, usando-se a mesma sistemática para anotar sexo e idade, nome,
apelidos etc.
C
Neste ponto nos detemos e exploramos as relações existentes nesse primeiro grupo familiar, os fatos significativos, as alianças, os aspectos físicos e assim por
diante.
Indagamos a cada um dos membros sobre si mesmo e também usamos questões circulares, perguntando para D sobre C, por exemplo.
O genograma funciona para nós, em nível de diagnóstico, como o desenho da família e, nesse sentido, seguimos a mesma técnica: durante o desenho da família, vamos
perguntando ao sujeito como é a pessoa que ele está desenhando com perguntas do tipo: como ela é? do que gosta? o que faz? do que não gosta? quem se parece com quem?
quem se dá melhor com quem? e assim por diante. Durante o genograma. detemo-nos em cada um dos representados simbolicamente e fazemos perguntas semelhantes, adequando-as
à idade, à intimidade e ao conhecimento dos envolvidos na elaboração do genograma.
y4
ueneiae m. ae u. server iy
Nossa experiência mostra que, na maioria das vezes, a família entra nessa tarefa com muita espontaneidade.
Um dos cuidados importantes que se deve tomar é que a sessão de genograma não se tome uma sessão de queixas e acusações entre os membros da família. Nesse sentido,
o terapeuta deve estar habilitado para construir apropriadamente o genograma com a família, sem deixar que tais distorções aconteçam.
Quando o diagrama da família nuclear está pronto, o terapeuta pode perguntar a respeito do funcionamento da família. Assim, por exemplo: como são estabelecidas as
regras? quais os limites e como eles são respeitados? como agem diante de determinadas situações? o lema da família; as características principais do grupo familiar
e outras questões pertinentes a cada sistema em particular.
Em alguns casos, quando existem crianças menores e, às vezes, com famílias que necessitam de maior concretização, costumamos substituir oD eO por desenhos esquematizados
do tipo Üf* e Ur5" procurando, quando da descrição das pessoas, colocar alguma característica importante. Numa família, por exemplo, o pai foi descrito por todos
os membros como sempre "carregando uma mala" e o fato de colocar essa mala na figura esquematizada proporcionou mais tarde, quando desenhávamos a família de origem
do pai, encontrar "malas" no avô e em outras figuras masculinas.
O genograma constitui, para a grande maioria das pes: soas, um reencontro importante com o passado.
O uso do genograma tanto com famílias como com pacientes individuais, em nossa prática clínica, demonstrou ser um instrumento de grande eficácia que pode, ao mesmo
tempo, ser uma descoberta agradável, satisfatória e instigante. mas também revelar repetições e acontecimentos de grande impacto emocional.
Muitas vezes o impacto causado pelo genograma numa sessão é tão intenso que a família, casal ou mesmo o paciente individual, na outra sessão, traz uma demanda diferente.
Quando isso acontece aceitamos e deixamos a continuação do genograma para sessões futuras.
Voltando à elaboração do genograma com a família, dete-mo-nos na família nuclear o tempo que for necessário, enquanto a
A família como modelo
95
família estiver envolvida, interessada e fornecendo dados que são relevantes para a terapia.
Em famílias com filhos casados, como no exemplo abaixo:
o genograma é feito primeiro com os filhos antes de passar para as famílias de origem.
Passamos, a seguir, para a família de origem dos cônjuges. A escolha de qual família se representará primeiro, em nossa experiência, faz parte do processo terapêutico
e transmite informações do tipo:
- competitividade entre o casal;
- qual a família de origem que está mais próxima da família nuclear;
- qual a família de origem mais considerada;
- qual a família de origem designada como mais problemática;
- qual a família de origem mais fácil ou difícil de lidar e assim por diante.
Se houver o desejo voluntário de um dos cônjuges em iniciar pela sua própria família, indagamos dos outros membros presentes o que acham e iniciamos, então, pela
do voluntário.
Chegamos, na pesquisa geracional, até onde pudermos colher informações, o que geralmente fica na terceira geração e, em casos mais especiais, na quarta.
Em muitas ocasiões, completar o genograma é uma tarefa para fora da sessão, onde a família e/ou o membro mais envolvido
96
Cenciae ívi. cie u. i^eim-mi
vai buscar com a família extensa os dados que faltam no geno grama; nesse sentido, pode haver mudanças nas relações famihi res, como no caso de parentes que não
se vêem há muito tempo e se reencontram, ou quando os álbuns familiares são "desenterra dos".
Na família S, por exemplo, constituída de uma mãe e filha de 10 anos cujos pais eram separados, a menina só tivera raríssi mos contatos com a família do pai, e o
genograma propiciou um encontro com a avó paterna que lhe era totalmente desconhecida. O reencontro com a "metade perdida" do pai constituiu um elemento de grande
ajuda para a terapia da díade mãe/filha e pode esclarecer pontos importantes na terapia.
Uma das observações marcantes que podemos fazer com o uso do genograma é que o interesse e a curiosidade dos membros da família por essa forma de representação é
muito grande, com raríssimas exceções. O envolvimento é de toda família e, um dado relevante é que as famílias que atendemos sabem, em geral, muito pouco a respeito
de suas origens, principalmente, a última geração.
Quando o genograma está pronto, ele é discutido com toda a família da mesma maneira como foi feito com a parte da família nuclear e, nesse momento, colhemos o maior
número possível de informações referentes às repetições dos padrões interacio-nais familiares.
A descoberta pela família das repetições de padrões que vieram num processo transgeracional toma-se, por si só, um fator de mudança significativa para algumas famílias.
Em outros casos, é aí que começa o trabalho de terapia e em outros ainda, a família não consegue sair do sistema e sequer perceber o que acontece em termos de repetição.
2.2. A UNHA DE TEMPO FAMILIAR (LTF)
Quando dissemos que usamos a "Linha de Tempo Familiar" (LTF) (Cerveny, 1992) junto com o genograma. significa que, além do genograma, fazemos uma linha horizontal
com a família nuclear, onde colocamos as datas e fatos mais importantes. A linha de tempo familiar baseia-se em estratégia usada no ensino de História, com a finalidade
de mostrar ao aluno a ocorrência dos
AjarnUia corno modelo
97
fatos, numa seqüência de tempo. Muitos terapeutas familiares retiram do próprio genograma datas e fatos significativos, mas nossa experiência tem mostrado que ressaltar
essas datas e acontecimentos, em uma linha de tempo, faz com que se obtenha muito mais informação e sirva também como parte do diagnóstico da família.
Traçamos uma linha e dizemos ao grupo familiar que vamos fazer a linha de tempo da família. Perguntamos, então: Em que ano começa esta família? Em que data começa
a história de vocês? A resposta mais comum é começar pela data do casamento dos pais, mas outras respostas também podem aparecer, do tipo: a família começar com
o nascimento do primeiro filho, com o namoro dos pais, ou quando o casal se conheceu. Numa família que, após o casamento, o casal continuou morando na casa de um
dos pais, a resposta foi que a família começou quando passaram a morar sozinhos. Continuamos colocando as datas e os fatos, observando se há concordância entre o
casal de que datas foram importantes, ou se alguma data ou fato foi importante para um, mas não foi para o outro e assim por diante.
Exemplo de LTF da Família S
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98
Ceneide M. de O. Cerveruj
significativa e que mais abalou a família, menos pelo próprio pai. Porém, mais tarde, durante a terapia, pudemos verificar que, realmente, o acidente, que havia
sido gravíssimo e que fora responsável por grandes mudanças na estrutura da família, nunca havia sido discutido pelos membros.
Com algumas famílias, fazemos a linha de tempo da família nuclear e também a linha de tempo das famílias de origem. Existem, às vezes, coincidências na linha de
tempo que são importantes para o diagnóstico e para as repetições dos padrões inter-geracionais. Em uma outra família, pudemos, por exemplo, observar que uma data
apontada como significativa da família nuclear (doença e hospitalização do pai) coincidiu, na linha do tempo da família de origem do pai, com a hospitalização do
avô para colocação de ponte de safena.
Voltamos a afirmar que, apesar de autores explorarem no próprio genograma as relações e coincidências de datas, a sua organização, numa linha específica de tempo,
tem mostrado que existe uma maior riqueza na cronologia dos fatos e a identificação mais fácil por parte da família dos momentos de estresse e de grandes acontecimentos.
McGoldrick e Gerson (1985) enfatizaram o que chamaram de cronologia da família que elaboram junto com o genograma. A cronologia familiar, para eles. consiste uma
relação ordenada de fatos importantes na história da família que poderia ter afetado o indivíduo. Outras vezes, os mesmos autores fazem a cronologia de um período
de tempo que foi mais crítico para a família, ou mesmo a cronologia de um só indivíduo da família.
Berenstein (1979) diz que "cada família ordena seus acontecimentos vividos num tempo que retém todas as características da estrutura familiar. Quando os membros
de uma família relatam sua história como grupo, eles lembram conscientemente alguns acontecimentos passados, certamente importantes e gravados por eles na memória,
mas esquecem também alguns episódios e ocultam outros possivelmente não menos importantes. Os acontecimentos lembrados são ordenados a partir da organização atual
da família e muitas vezes contribuem para explicar algumas de suas contradições. O tempo se transforma num marco onde se colocam não só os acontecimentos vividos,
mas também a relação entre todos eles" (p. 187).
/\ jarniUa corno modelo
99
Berenstein trabalha numa epistemologia baseada na psicanálise e, para ele, o estudo do tempo recupera uma estrutura anacrônica na família consultante. Seu trabalho
sobre o tempo familiar, que ocupa o capítulo 6 do seu livro, Família e doença mental, leva-nos a refletir sobre a importância desse dado da história familiar que
é o tempo e que, às vezes, não é devidamente explorado nas terapias.
Nas terapias sistêmicas, o uso do genograma ou do diagrama de família mostra bem sua estrutura e suas relações, mas não explora exaustivamente a questão da temporalidade.
Friedman, Rohrbaugh e Krakauer (1988) desenvolveram uma forma de genograma modificado no qual o tempo é marcado em linha vertical, de maneira que os acontecimentos
possam ter sua correspondência em nível de data. Eles chamaram essa forma de genograma de Genograma Linha de Tempo (GLT) e dizem que, no GLT, indivíduos e acontecimentos
podem ser mostrados em um relacionamento temporal próprio. Eles adaptaram os símbolos do genograma standard de McGoldrick e Gerson (1985) com acréscimos e modificações.
Segundo eles, um acréscimo importante é a linha de vida individual, que se estende do nascimento até a morte, ao longo da qual os acontecimentos e fatos relacionais
são indicados. O GLT teria então duas leituras: uma horizontal e outra vertical.
Apesar de suas vantagens, o GLT apresenta, segundo seus autores, algumas desvantagens. Uma delas é a dificuldade de sua construção e a pouca flexibilidade para colocar
as pessoas ou distribuir os acontecimentos.
A grande vantagem do genograma tradicional, como instrumento para registro da estrutura e dos padrões de relacionamento das famílias, é a possibilidade de ser construído
junto com as famílias, durante as sessões ou mesmo fora dela e a facilidade de leitura relacional. O GLT, embora tenha a vantagem de dar a relação temporal, pode
dificultar esses dois aspectos que foram citados.
Quando propomos a construção da Linha de Tempo Familiar, separada do genograma, nossa intenção era, além de definir aspectos da temporalidade da família, obter dados
diagnósticos e também relacionais. Quando indagamos para família ou casal: "Quando esta família começou?", estamos cientes de que o tempo e as datas são aspectos
importantes mas náo são os
100
Ceneiae m. ae u. uervciui
únicos que investigamos. A Linha de Tempo Familiar, como a apresentamos, dá a possibilidade ainda de comparar, quando fei tas as linhas de tempo das famílias de
origem, e perceber as coin cidências e repetições.
A Linha de Tempo Familiar, como a concebemos e usamos no contexto terapêutico, tem-se mostrado um instrumento sim pies, prático, de fácil elaboração, que complementa
o genograma e sobretudo tem função diagnostica e terapêutica.
Em uma família atendida, quando ambos os pais disseram, na elaboração da LTF, que a família começou com o nascimento da filha mais velha, observamos que houve uma
mudança qualitativa das relações entre esses pais e a fdha. Ela é portadora de um problema congênito e sempre colocava em dúvida se podia ser querida e aceita por
esses pais.
Quando construímos a LTF com a família, pode acontecer de a família omitir um determinado período de tempo ou, simplesmente, dizer que foi um "período ruim". Nesse
momento, não insistimos com a família na investigação, tentando voltar numa ocasião mais propícia.
É muito difícil estabelecer um procedimento estanque para a aplicação da LTF. Assim como acontece no genograma, o terapeuta devera eleger o melhor momento para a
aplicação da técnica, bem como da conveniência ou não de insistir em esclarecer períodos de tempo conflituosos para a família.
Para um casal que atendemos, o marido dizia que 1983 havia sido horrível e a esposa afirmava que 1984 havia sido pior. O número de acontecimentos nesses dois anos
eram tão intensos que, nesse caso. indagamos se eles não queriam separar 83 e 84 em meses para que pudéssemos ver essa cronologia mais detalhadamente.
Nesse caso, separamos da LTF esses dois anos e fazemos uma outra linha só desse período.
Estamos usando a LTF desde 1990 e algumas modificações foram introduzidas por nós na técnica de aplicação que facilitam a leitura da LTF
Assim, atualmente, quando fazemos a LTF com um casal, colocamos as respostas do homem na parte superior da linha e as da mulher na parte inferior da mesma linha,
como no exemplo a seguir:
A família como modelo
101
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Essa modificação permite observarmos que S concorre com um número muito maior de dados sobre a família do que F e, inclusive, guarda fatos que são pertinentes à
família de origem de F.
Também usamos a linha na vertical quando é mais conveniente para a anotação.
O genograma e a LTF constituem, para nós, além da análise das sessões clínicas com as famílias, instrumentos fundamentais para o estudo da repetição dos padrões
interacionais horizontal e verticalmente.
Na aplicação tanto do Genograma como da LTF, os recursos que o terapeuta usa para a montagem são todos os que usamos durante a terapia. Fazemos questionamento circular,
usamos
102
Ceneide M. de O. Cerveruj
as perguntas reflexivas, elaboramos a releitura dos dados com as famílias, conotamos positivamente, enfim, tanto o genograma como a LTF ajudam-nos a construir novas
realidades com as famílias* atendidas.
Símbolos usados no genograma
52 A
Homem: colocado à esquerda da representação, idade dentro e nome ou inicial fora.
Ligação, casamento. -//-
Indica separação, divórcio, rompimento.
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O número acima indicando o número de anos de casamento.
Os filhos são colocados obedecendo à seguinte ordem: + velho à esquerda e + novo à direita.
Indica gêmeos.
A família como modelo
103
Indica gêmeos idênticos.
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Significa adotado.
O
Significa aborto espontâneo.
Gravidez.
O
Significa aborto provocado.
Qualquer símbolo cruzado significa que a pessoa morreu. Acresce-se acima a data de morte e causa.
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(A) teria hoje 72 anos. Morreu em 1980 do coração.
104
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Aliança Intergeraclonal.
Relac íonamentos:
Aliança intrageraclonal.
Biológico c normal.
-/A
Rompimento.
Conflito.
-u-
Separação.
Pouco relacionamento.
Relacionamento fusionado.
\/\/\/
Relacionamento fusionado e conflltivo.
CAPÍTULO VI
Anáíisc dos casos estudados
CASO 1
Este caso foi atendido na Clínica Psicológica da PUC por dois terapeutas-alunos do Curso de Especialização em Terapia de Casa e Família, do Núcleo de Família e Comunidade
do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, com supervisão em sala de espelho unidirecional. O atendimento constou de 16 sessões, em 1991, com
intervalo de 15 dias entre as sessões e uma sessão em 1992 com intervalo de dois meses.
O sistema atendido compunha-se da mãe (Diná), de 43 anos, e a filha (Ana), de 10 anos. A queixa resumia-se em problemas escolares com Ana e alguns problemas de relacionamento
entre Diná e Ana que ocorriam, principalmente, pela "desorganização" de Ana.
Diná trabalha como assessora de marketing e não tem um horário definido ficando, às vezes, o tempo todo em casa e, outras vezes, trabalhando fora até muito tarde.
Diná está separada do pai de Ana há nove anos. Ele (Júlio) é descrito como ausente, não aparecendo nem em datas especiais, como aniversário de Ana, Natal etc. Diná
sempre se refere ao ex-marido como "o falecido". Na primeira sessão, os terapeutas (Ts) tentam fazer com que Ana expresse seus sentimentos em relação à ausência
do pai e, na 2a sessão, a mãe Diná aparece sozi-
106
Cerieide M. de O. Cerveny
nha. Reclama com as Ts que ter falado sobre o pai de Ana na sessão anterior foi "pesado" e que havia "mexido" com Ana, pois essa expressam desejo de falar com o
pai e telefonara para ele. Contou que Ana não encontrou o pai (Júlio), mas que ele tornara a ligar no dia seguinte. Diná queria garantias de que o assunto do "falecido"
não retornaria à terapia e as Ts explicaram a necessidade de Ana conhecer a outra metade da sua história.
A mãe diz que entre ela e Ana não há segredos, que conversam sobre tudo apenas usando cautela. Cita o caso da terapia de Ana que havia sido levantado na sessão,
exemplificando que nunca diz a Ana "que ela vai para a terapia", mas sim "conversar com a tia".
Na 3a sessão com essa família, foi aplicado o Scenotest para ampliar o diagnóstico das relações familiares (Cerveny, 1982).
Ana faz a montagem de sua casa como se fosse dia de Natal e coloca, além dela e Diná, o avô Osmar (pai de Diná) e uma tia-avó (irmã de Rita, a avó materna).
Diná, a mãe, por várias vezes, quis participar da montagem e as Ts convidam-na para fazer a sua casa quando tinha a idade da filha, ou seja, quando Diná tinha 11
anos. A casa feita por Diná tem poucos móveis, nenhum enfeite. Sua rnãe (Rita) é colocada num canto da casa, seu pai (Osmar) sentado lendo jornal na outra extremidade
e ela, Diná, em frente da TV.
Na 4 a sessão, as Ts dão início à confecção do genograma e Ana comenta que está fazendo também um trabalho na escola que é o levantamento da sua família.
O genograma inicia-se com a família do pai. por sugestão de Ana. O pai (Júlio) tinha tido um primeiro casamento com dois filhos (uma menina, que está atualmente
com 15 anos, e um menino com 13). Casou-se depois com Diná, separaram-se quando Ana tinha dois anos, e Osmar está no 3- casamento. Tanto Ana como Diná tinham poucas
informações a respeito do número de filhos dessa união.
Passou-se, a seguir, para a família de Diná. Seus pais separaram-se e a mãe casou-se novamente com um homem muito mais novo do que ela e Diná relata que sua mãe
mora perto de sua casa, mas estão rompidas há muitos anos. Com o pai, Diná diz que se comunicam sempre por telefone e se vêem todos os do
A família como modelo
107
mingos. Diná e Ana moram em um apartamento cedido por Osmar.
As Ts solicitam a Diná e Ana que pesquisassem mais dados sobre as famílias para a construção do genograma.
Na 5a sessão, Ana, logo na entrada, coloca algumas folhas na mão de um dos terapeutas e diz que é a "tarefa". Acrescenta ainda: Tenho quatro irmãos! Ana conseguiu
os dados da família de seu pai, telefonando para a avó paterna, Tereza, que também mora no mesmo bairro, a poucas quadras de Ana e Diná. O avô paterno é falecido
e Júlio tem uma irmã mais velha que é viúva. Ana descobre que, além dos dois irmãos que já conhecia, tem mais dois do último casamento de seu pai Júlio, respectivamente
com quatro e um ano.
Da família de seú pai Osmar, Diná tem pouca informação. Diz que ele tem quatro irmãos mais velhos, os quais ela nunca viu, e uma irmã mais nova que ela também não
conhece.
Da família de sua mãe Rita, Diná cita duas tias: uma mais velha que as visita duas ou três vezes por ano (que apareceu no Scenotest, na 3a sessão) e uma mais nova
que ela não vê há muitos anos.
Diná fala do atual marido da mãe dizendo que, antes da separação, ela via sempre este homem na sua casa. Diz ainda que nunca procurou saber qual tinha sido a causa
da separação de seus pais e nunca tinha conversado sobre o assunto com ninguém.
As Ts mostraram a diferença existente entre a família de Diná e a de Júlio: uma com muitos rompimentos e solidão e a outra com muitos filhos, casamentos e as pessoas
mais próximas. Diná diz, ironicamente, que a família do ex-marido é muito divertida e que Ana tem muito deles: adora a casa cheia de gente. Acrescenta ainda que
de dois meses para cá, Ana "está muito cheia de movimento, de perguntas" (stc).
Quando um dos terapeutas aponta no genograma o triângulo formado por Diná, Osmar e Ana, Diná diz que é o 'Triângulo das Bermudas".
Na 6a sessão. Diná e Ana trazem as fotos de seus pais e os Ts trabalham a importância do conhecimento da família para Ana, uma vez que a decisão do isolamento e
rompimentos não havia sido dela e que a busca da família e o preenchimento dos espaços vazios estavam sendo importantes para a menina.
108
Ceneide M. de O. Cerveny
Nessa sessão, Diná diz que seu pai Osmar, não admitia que se procurasse ajuda para resolver os problemas e que, se ele soubesse que elas estavam fazendo terapia,
diria que Diná não tinha vergonha porque o lema da família era: "Não se deve pedir ajuda a estranhos."
Na 1- sessão, A tem novidades: tivera um encontro com a avó paterna e diz: "Eu vou resolver o meu vazio e minha mãe que resolva o dela" (sic). Conta que havia almoçado
com a avó Tereza e, embora o almoço estivesse marcado também com o pai Júlio, este atrasara-se e as duas saíram sozinhas. Ana descreve a avó como engraçada e ressalta
o fato de poder ter feito muitas perguntas à avó sobre a família do pai.
A equipe parabeniza Diná por, apesar das divergências com a família do ex-marido, permitir que Ana preenchesse seus vazios.
A 8a sessão foi realizada após as férias escolares e Diná faz elogios a Ana, dizendo que ela está mais ativa, colocando-se mais e que a escola também a elogiou nesse
sentido.
Diná relata que nas férias foi a um show com amigos e Ana dormiu na casa da avó paterna e que ela e a avó fizeram um colar para dar de presente a Diná.
Os Ts usam com Diná a imagem de mágico que tira surpresas da cartola e Ana rapidamente diz que é a "ajudante" do mágico. Nesse momento, Diná relata que um dia, quando
Ana era pequena, ela disse que parecia que ela, a mãe, usava uma máscara, e que atrás dessa máscara teria outro rosto.
Os Ts apontam que Ana quer saber mais sobre Diná, conhecê-la mais intimamente e passam a Ana uma tarefa: trazer uma lista de perguntas que ela gostaria de fazer
para a mãe.
Na sessão seguinte, Ana conta que não conseguiu realizar a tarefa e Diná vai em auxílio da menina, dizendo acreditar que a filha deseja saber o motivo de sua separação
de Júlio. A menina concorda e Diná repete as razões dadas anteriormente e diz que, na verdade, não se lembra como e por que foi a separação.
Nessa sessão, trabalhou-se a ligação Diná e Ana, que não estava permitindo o crescimento de Ana (ela dorme com a mãe, pede para tomar refrigerante na mamadeira),
assim como a ligação de Diná com seu pai Osmar.
A família como modelo
109
Na 10a sessão, os Ts propuseram a Diná e Ana que fizessem a escultura da família (essa proposta havia surgido durante a supervisão da sessão anterior).
Ana quer fazer primeiro sua escultura: coloca-se numa parede, Diná na parede oposta e, no meio das duas, Osmar, o avô materno, como se estivesse morto.
Diná faz a sua: coloca-se frente a frente com Ana e simula estar "dando bronca" na filha. Ana, reage e mostra a língua para Diná.
Os Ts solicitam a Ana que faça outra escultura como seja tivessem passado 10 anos. Ana coloca duas cadeiras, uma ao lado da outra. Senta-se em uma e pede à mãe que
se sente na outra e diz que as duas estão rezando pelo avô Osmar morto.
Em seguida, Diná faz a sua escultura dos 10 anos depois e diz que cada uma delas estaria em sua própria casa. Ana coloca-se num canto, pega a agenda da mãe e abaixa
a cabeça como se estivesse lendo. Diná fica no outro canto em pé.
Os Ts comentam com Diná e Ana as esculturas e estas verbalizam que as montagens transmitiam tristeza, isolamento e solidão, e esses temas foram trabalhados.
Na sessão seguinte, Diná vem se queixando muito de Ana, de sua desordem e desobediência. Diz que chegou um dia a fotografar o quarto de Ana para "registrar" o tamanho
da desordem. Em seguida, Diná fala de um incidente que acontecera durante a semana: num determinado dia, atrasara-se muito para pegar Ana na escola e quando chegou
a filha estava muito nervosa, irritada.
Um dos terapeutas pergunta a Ana se ela pensa, quando a mãe se atrasa, que algo de ruim possa ter acontecido, que ela possa estar morta, por exemplo. A menina confirma,
fica muito emocionada e o outro terapeuta tenta amenizai- e aliviar a tensão.
O supervisor pede licença para entrar na sala e diz a Ana que este medo não era só dela, mas de todas as crianças e que era muito bom que ela pudesse falar, na sessão,
sobre isso.
Os Ts continuam e sessão e fala-se do medo de Ana, da solidão e isolamento em que esse sistema familiar vive.
No final da sessão, Diná diz aos Ts que a professora de Ana solicitou que os mesmos entrassem em contato telefónico com ela.
Antes da próxima sessão, um dos Ts liga para a professora e ela comenta as mudanças de Ana. Quanto ao comportamento:
110
Cerieide M. de O. Cerveiuj
que estava brigando muito e fazendo bagunça e como soubera do trabalho terapêutico, queria saber como agir com a menina. Foi orientada a seguir o mesmo procedimento
que teria com qualquer outro aluno. Quanto ao rendimento escolar, a professora diz que Ana, antes, quando não sabia alguma resposta, respondia qualquer coisa, e
agora ela procurava responder o que sabia e quando não, deixava a questão em branco. Tendo em vista esse progresso, Ana seria aprovada, apesar de ter algumas dificuldades.
No dia da sessão, foi colocado a Ana o que o terapeuta havia conversado com sua professora, omitindo-se a questão da aprovação (a pedido da professora).
Diná continua a reclamar das coisas que Ana não faz e coloca suas preocupações em relação a isso. Os Ts solicitam que Diná se dirija diretamente a Ana e fale com
ela sobre essas preocupações.
Os Ts pedem a Ana que selecione duas tarefas, uma em relação à escola e outra à casa, que ela vai procurar fazer nos próximos 15 dias.
Na supervisão, após essa sessão, foi discutido o porquê de Diná estar retornando à queixa inicial, apesar dos indícios de que Ana está bem, esforçando-se e procurando
crescer. Diná também tem mostrado visíveis mudanças, tanto em sua aparência física (mais solta, mais alegre, elegante) como na vida social (tem saído com amigos,
viajado), e também na relação com Ana.
Um dos pontos levantados na supervisão foi que Diná e Ana poderiam estar querendo prolongar o trabalho terapêutico.
A 13a sessão foi realizada sem a equipe de supervisão por ter sido marcada em outro dia e horário.
Ana inicia dizendo não ter conseguido fazer as tarefas propostas e reclamando do pai, com quem tivera um contato telefônico. Diz que ele estragara a surpresa da
avó, contando o que Ana iria ganhar da mesma no Dia das Crianças: "Ele é um bobo; que não sabe de nada, no telefone nem sabia o que falar" (sic).
Diná diz que nos próximos cinco dias estaria envolvida em um trabalho que a obrigaria ficar fora de casa o dia todo até as 20 horas. Combinaram que Ana voltaria
sozinha da escola e que já haviam esquematizado tudo.
Os Ts apontam o progresso de Ana, seu amadurecimento e Diná interfere imediatamente, dizendo que a menina havia escri
/i jarnuia como modelo
111
to um bilhete onde dizia que não queria ter 10 anos mas sim 8. Ana estaria fazendo 11 anos dali a duas semanas.
Os Ts colocam para Ana que esse medo era comum nas crianças e ela estava numa idade difícil que ficava entre o ser criança e o ser uma mocinha e que crescer era
difícil, exigia responsabilidade, mas também tinha muitos ganhos.
Na 14a sessão, Diná e Ana entram com jeito de cansadas e Diná conta que, no dia anterior, havia ficado trabalhando o dia todo e que um imprevisto a retivera até
tarde na empresa. Relata ainda que telefonara várias vezes para casa e Ana não atendera, tentara a casa de várias colegas e não a achara. Esta disse que havia ido
à casa de uma colega onde não tinha telefone e que perdera a hora, entretida em brincadeiras.
Os Ts trabalharam o fato de Diná e Ana estarem funcionando independentes e ao mesmo tempo estarem unidas e como isso poderia ser ampliado e organizado.
Como já havíamos dito anteriormente, percebíamos Diná como uma mulher que, além de ter uma aparência bonita e muito jovem, gostava de vestir-se bem, e isso indicava
a presença de uma sexualidade, que durante todo o tempo, ela vinha negando.
Notávamos também que, de umas quatro sessões até esta, o estilo de roupa mudara. Vinha com roupas mais jovens, que delineavam o corpo.
Na sessão seguinte, Diná diz que estava ficando velha, e que isto causava-lhe preocupação, uma vez que as pessoas não gostam de ficar perto de gente feia, e a velhice
deixava as pessoas feias. Os Ts conversam sobre isso, mostrando que essa era a impressão que ela tinha, e que, na verdade, além de haver muitas pessoas que não pensavam
assim, também havia o dado de que ela ainda tinha muito tempo para envelhecer.
Parecia que a chegada das férias (estávamos no final do ano) estava mexendo com seus conteúdos mais profundos e. como ela mesmo disse nesta sessão, precisava trazer
mais coisas para nos contar.
Os Ts apontaram que o que parecia era que Ana estava podendo crescer e que isto dava, para Diná, uma sensação de envelhecimento. Além disso, ela, Diná, nunca havia
trazido uma preocupação de buscar amigos, de ter alguém e a idéia da velhice, pela sua própria experiência de vida, era a de ficar sozinha, com seus jornais. Os
Ts pediram para Diná pensar a respeito.
112 (Jeneiae m. ae u. uerveny
Durante essa sessão, os Ts tentaram, por várias vezes, fa zer uma avaliação do trabalho feito até então e Diná procurava sempre desviar o assunto e comentar outras
coisas.
Nessa supervisão foi trabalhado o fato de os Ts sentirem se abandonados porque a equipe de supervisão em nenhum mo mento intervirá na sessão e como esse sentimento
estava próximo ao da família consultante.
Na 16a sessão, a última do ano, Diná e Ana entram com caixas de presente para os Ts e para a pessoa que as havia enca minhado à terapia. Diná diz que não trouxera
presente para toda equipe porque não sabia quantas pessoas eram: "Elas não apareceram, bem-feito, ficaram sem presentes" (sic).
Os Ts agradecem e perguntam sobre a família. Ana começa a falar que estava feliz porque havia percebido, por uma dica da professora, que seria promovida na escola.
Os Ts apontam como Ana está diferente. Na verdade, sua aparência era de uma menina mais velha, maior, quase uma ado lescente.
Diná comenta sobre os Ts. as diferenças entre eles na forma de abordar. Os Ts pontuam que as diferenças, ao invés de separar, podem unir e resultar num bom relacionamento,
num bom trabalho.
No final dessa sessão, a equipe manda um bilhete para ser entregue à família. Ana pede para ler primeiro e depois entrega para Diná. O bilhete diz: "Separações também
podem ser festivas, como esta."
Foi marcada uma nova sessão para o início do próximo ano, dentro de dois meses.
Nessa última sessão, Diná e Ana relatam estar bem, conseguindo dividir algumas tarefas, fazendo coisas juntas e, ao mesmo tempo, tendo atividades independentes.
Diná diz aos Ts que, durante as férias, havia encontrado com uma senhora muito aflita, que chorava por causa de um fi lho, que. segundo ela. causava-lhe muitos problemas
e que Diná a havia encaminhado à Clínica para Terapia Familiar.
ANÁLISE DO CASO 1
Nesse caso. podemos verificar a existência de uma S4: Os mar (avô) não sabe dados de sua família, esquece de citar uma
A família como modelo
113
GENOGRAMA DO CASO 1
irmã, e não tem contato com nenhum dos irmãos vivos. Diná não sabe de sua mãe há muitos anos e não tem contato com a família da mesma, com exceção de uma tia (dois
a três contatos por ano). Ana chega à terapia sem conhecer o pai e sua família.
A S4 mostra nessa família o padrão repetitivo, que vem desde o avô Osmar, de cortes familiares que se faz por meio da ausência de comunicação e afetividade.
A comunicação é rejeitada para determinados assuntos e existe uma acordo tácito de não fazer perguntas comprometedoras desde a geração do Osmar. Este não faz perguntas
sobre a família, a filha Diná também procede dessa maneira e Ana, até chegar a terapia, também agia assim.
A afetividade que existe no sistema é vivida por meio dos cuidados materiais: Osmar cede apartamento para Diná e Ana morarem; Diná procura atender as necessidades
de Ana e não existe nenhuma ajuda financeira de Júlio para Ana (que é colocado por Diná como falta de amor e preocupação).
As separações nesta família, desde o pai Osmar até chegar em Ana, são radicais e causam solidão que acabam por consolidar
114
CeneideM. de O. Cerveny
o mito de que não pode haver vinculações, pois essas podem se transformar em separações drásticas.
Os lemas da família, que são: "Não peça ajuda. Faça sozi nho" e "O que não tem solução, solucionado está", confirmam o mito.
A referência de Diná ao 'Triângulo das Bermudas", forma do por ela, Osmar e Ana, durante a sessão de genograma, foi muito importante para a percepção do isolamento
do sistema porque a visualização do triângulo, dos cortes e rompimentos proporcionaram mudanças nesse sistema.
Essa mudança foi de baixo para cima. tendo iniciado com Ana que rompe com o padrão e vai em busca da resolução dos seus vazios.
CASO 2
Fátima procurou a Clínica há um ano. Relatou que se casou grávida por pressão da sua família, mas não amava Milton. Viveram um ano sem problemas, até que Milton
foi ficando muito ciumento e passando a fazer cada vez mais uso do álcool. Milton bebe desde os 13 ou 14 anos e Fátima sabia, porém, acreditava que Milton fazia
uso da bebida, naquela época, por causa dos maus tratos que recebia do pai Vicente. Este, quando bebia, tornava-se violento com a mulher e os filhos.
Fátima acreditava que, após o casamento, Milton pararia de beber. Após um ano de casamento, Milton passa a ingerir cada vez mais álcool e começa a ficar violento,
espancando Fátima e obrigando-a a manter relações sexuais com ele. Têm atualmente dois filhos: Rodrigo, que nasceu logo após o casamento e Sílvio, que nasceu dois
anos depois. Milton continuou a beber e há alguns meses parou de trabalhar como ambulante; Fátima, que trabalha como operária, é que sustenta a casa.
Fátima diz que está preocupada, pois anda agressiva com Milton. Quando este chega em casa bêbado e "cai na cama". Fátima agride-o fisicamente. Já o queimou duas
vezes, sendo uma vez com gordura quente e em outra com água fervendo. Relata, ainda, que também o furou com uma faca. Em todos esses episódios Milton nunca a denunciou
e nem procurou atendimento médico. No episódio da queimadura com óleo, Fátima pediu a Milton que fosse ao médico. Diante da recusa de Milton, Fátima procurou o Cen
A família como modelo
115
tro de Saúde e solicitou uma visita médica domiciliar, porém, Milton não deixou o médico tocá-lo.
Na época desse relato fazia três meses que ela havia queimado Milton e até agora as feridas não cicatrizaram por completo.
Fátima relata estar desesperada e não quer se separar de Milton, pois acha que ele vai ficar "largado" e pode morrer, mas se ficar junto dele, tem medo também de
acabar matando-o.
Já estiveram uma vez diante do juiz para se separarem, mas Fátima não teve coragem.
Fátima foi orientada a procurar internação para Milton, com a finalidade de cuidar da desintoxicação e da debilidade física. Foi orientada também para pedir ajuda
de familiares, tanto seus como de Milton e ela alegou não ter ninguém.
Pesquisando a história familiar, Fátima diz que é filha de pai alcoólatra que morreu de cirrose. Dos seus três irmãos, só um de 32 anos está vivo e também é alcoólatra.
Os outros dois morreram em conseqüência do uso de álcool, um aos 19 anos e outro, recentemente, aos 38 anos, a quem Fátima era muito ligada. Fátima relata que assistiu
à muita violência do pai contra a mãe, os irmãos e que ela também apanhou muito.
Da parte de Milton, tanto o pai quanto a mãe bebiam. A mãe de Milton morreu quando ele tinha 10 anos e o pai espalhou os filhos em orfanatos e casa de parentes.
Milton viveu com duas tias até os 13 anos e depois foi "viver a vida". Hoje Milton não tem notícias do pai e dos irmãos, mas diz que até quando tiveram notícias,
todos se "deram mal", bebiam e um dos irmãos está preso por ter matado a companheira.
Fátima acabou conseguindo um atendimento e internação para Milton. Quando Milton saiu da internação, foi proposta a terapia de casal para trabalhar a separação dos
dois, pois Fátima havia entrado com um novo pedido na justiça. Milton não aceitou e foi encaminhado para um grupo de alcoolistas.
Estão aguardando audiência judicial e Fátima foi encaminhada para atendimento com os dois filhos.
ANÁLISE DO CASO 2
O caso 2 mostra um padrão de repetição que envolve o problema de alcoolismo. Na escolha do seu parceiro, Fátima, apesar de ter vivido as conseqüências do alcoolismo,
na família de
116
Ceneid.e M. de U. uerveriy
origem, escolhe Milton que bebe desde a adolescência. Poder-se-ia perguntar se Fátima não está escolhendo um padrão conhecido.
Existe uma disfunção no padrão de afetividade em ambas as famílias. Milton sofreu violência de seu pai, e também é violeii to com seus filhos, Rodrigo e Sílvio.
Na família de Fátima, ela e sua mãe não são usuárias de álcool, e ambas são agredidas pelos maridos.
Rodrigo e Sílvio já presenciam agressões de Fátima para Milton e vice-versa e também sofrem violência por parte do pai.
Este caso tem características especiais pois estamos dian te de uma família que tem a tendência a organizar-se como alcoó Uca. ou seja. deixando que o alcoolismo
invada o sistema como organizador central do comportamento familiar. Quando isto aconte ce, dificuldades adaptativas do próprio sistema familiar e dos indivíduos
que o compõem, como desemprego, doenças, mudanças impostas pela evolução do Ciclo Vital, levam ao maior consumo de álcool. Nesse caso, quando o alcoolismo já fez
parte da história de vida anterior, os indivíduos recorrem a ele como um recurso para a retomada da estabilidade.
Quando o alcoolismo faz parte das famílias de origem, percebemos a tendência à repetição do modelo ou antimodelo. Linda Bennet e outros (1987) concluíram em uma
pesquisa realizada com 68 casais (em que pelo menos um dos parceiros era filho de alcoolista). que o alcoolismo continuava no curso familiar e que as crianças que
se desenvolvem em famílias que tiveram um membro alcoólico estão em risco relativamente grande de desenvolver problemas de alcoolismo.
Outro aspecto que chama a atenção para a repetição dos modelos relacionais da família alcoólica é a freqüência com que um indivíduo que provêm de uma família alcoólica
e não se torna alcoólico, escolhe parceiros alcoólicos. Encontramos aqui um outro aspecto que potencializa o risco da transmissão do alcoolismo, pois ambos os cônjuges
trazem, como herança de suas famílias de origem, modelos que incluem o alcoolismo.
Indivíduos provenientes de famílias alcoólicas podem estai' mais protegidos de repetir o alcoolismo se escolherem um parceiro que possa ajudá-lo a construir um modelo
de relações familiares diferente do modelo alcoólico. Porém a habilidade em escolher um parceiro que não traga a herança do álcool está diretamente ligada à habilidade
de desengajar-se da própria família, assim como de
AjarnUia corno modelo 117
selecionar do passado o padrão repetitivo que vai incluir na sua própria história.
Diante desse panorama, onde além da predisposição bio-genética fica clara a predisposição pela repetição dos padrões de interação, sentimo-nos estimuladas a trabalhar
preventivamente, dentro de uma abordagem sistêmica, focalizando este segundo aspecto (predisposição biogenética) e que é passível de intervenção.
Lembrando que nem todas as famílias com alcoolismo o colocam como organizador central de seu funcionamento, é importante ressaltar que a indicação deste modelo terapêutico
é mais voltada para famílias onde o uso do álcool desempenha um papel importante na dinâmica familiar e muitas vezes funciona como organizador central em torno do
qual os padrões de relacionamento familiar são moldados. Temos claro também que além do todo familiar devemos considerar cada indivíduo, que compõe este sistema,
e o grau de comprometimento tanto do grupo familiar como do indivíduo, e que apesar da abrangência da terapia familiar, nos casos onde o grau de comprometimento
individual é importante, torna-se indispensável o tratamento do alcoolismo em si e o trabalho familiar entra como técnica coadjuvante.
O trabalho com a família onde o alcoolismo assume um papel central, é de primordial importância, pois se o sistema familiar precisa daquele sintoma para manter-se
em equilíbrio, exercerá um movimento contrário ao tratamento do membro alcoolista. O sistema familiar precisa tomar consciência do próprio envolvimento com o alcoolismo
e de sua função para si, de forma que possa seguir seu ciclo vital encontrando o equilíbrio sem necessitar para isto daquele organizador.
Cabe aqui esclarecer que a repetição é uma escolha da família para a manutenção do equilíbrio, assim como a família do alcoolista escolhe repetir padrões inter-relacionais
ligados ao alcoolismo, também pode escolher outras repetições, funcionais ou não. A intervenção terapêutica se faz necessária apenas quando a família escolhe padrões
disfuncionais que impedem seu desenvolvimento normal. Outras escolhas disfuncionais comuns são: doenças crônicas de um dos membros, a impulsividade ou violência
de um dos elementos do sistema. Devemos lembrar também que existem repetições saudáveis, funcionais que muitas vezes até favorecem o crescimento do sistema.
Ceneide M. de O. Cerveny GENOGRAMA DO CASO 2
Outro ponto importante a salientar é que nem sempre a repetição ocorre na presença do "sintoma". Muitas vezes temos famílias onde o sintoma aparentemente está ausente,
no caso o alcoolismo, e ela se organiza de forma a proteger-se do mesmo; o que acaba sendo uma forma paradoxal de organizar-se em torno do sintoma. É o caso de combatedores
fervorosos do alcoolismo, quando a participação de eventos, em que o álcool esteja incluído, é proibida para toda a família, como é proibida a entrada de qualquer
bebida alcoólica na casa. Existem ainda as famílias que se vinculam a religiões onde o álcool é proibido. É a este tipo de repetição que chamamos de antímodelo.
Esta forma de funcionar não representa uma proteção real contra a repetição do alcoolismo. A forma de repetição do antímodelo, como já dissemos anteriormente, é
tão rígida e determinante como a do próprio modelo e, não raro, de uma simetria que acaba lembrando o que se queria anular.
A proposta da terapia familiar aqui, é ajudar a família a encontrar outras formas de romper com o modelo, que não seja por meio do antímodelo e encontrar novas alternativas
de interação familiar e equilíbrio.
Para que isto seja possível, a família precisa inicialmente ter clareza da repetição, o que raramente acontece. Para isso lançamos mão do Genograma Familiar que
representa um retrato vivo intergeracional da família. Ele fornece uma imagem visual que aponta os focos onde o alcoolismo esteve presente no passado e qual o cenário
a seu redor, imagem esta da qual. na nossa experiência clínica, os membros da família não têm noção real.
A família como modelo
119
A Linha de Tempo Familiar é o outro instrumento que enriquece consideravelmente o trabalho clínico. Esta técnica permite à família identificar facilmente os momentos
de estresse e de grandes acontecimentos ao longo da sua história, como também dos recursos que lançou mão para tentar recuperar o equilíbrio.
E importante, nesse sistema familiar composto agora por Fátima e seus dois filhos, um trabalho preventivo, pois, como já vimos, o estresse na família com antepassados
alcoólatras (Macedo, 1990) também pode ser potencializado e acabar numa repetição, por meio da própria preocupação em não seguir os modelos.
CASO 3
A família procura terapia por causa do filho Geraldo de 10 anos, que é descrito como desorganizado, com dificuldades de aprendizagem, problemas de dispersão e desatenção,
apresentando, ocasionalmente, ecoprese.
Na primeira entrevista, Judith descreve-se como a mãe que briga, fala muito, mas obtém pouco resultado com a disciplina na casa e com as dificuldades de Geraldo.
O pai Roberto relata que trabalha o dia todo, estuda à noite, mas, nos momentos em que está com os filhos, consegue se fazer obedecer com facilidade.
Nesse primeiro contato, é possível observar que o casal é bastante cuidadoso no que e como colocar os fatos que pudessem identificar os pontos de conflito entre
eles.
O filho Geraldo participou ativamente da conversa e era consultado ora pelo pai, ora pela mãe, acrescentando dados, corrigindo datas. Em muitos momentos, os pais
delegavam a ele a tarefa de concluir ou opinar quando lhes faltavam argumentos.
A filha Fernanda, de quatro anos, brincou com o material disponível na sala, mas interrompia e pedia atenção sempre que o tom de voz dos pais se elevava ou ocorria
alguma discordância na família.
Foi possível observar que o casal procura minimizar os momentos sofridos do casamento, relatando-os de uma forma jocosa, como se estivessem contando uma história
que nada tivesse a ver com eles.
12u
ueneíde M. ae u. (jervei u /
Durante as sessões seguintes, pudemos levantar os seguintes dados entre outros: Roberto tem 28 anos, faz faculdade à noite e trabalha em uma estatal. É o filho mais
velho de uma famí lia de três filhos, cujos pais se separaram aos 25 anos de casados.
Judith tem também 28 anos, é professora e dá aulas numa escola estatal. Ela é a penúltima filha de uma família com sete filhos, cujos pais também se separaram com
38 anos de casados.
Roberto e Judith são casados há 10 anos. Ambos tinham 18 anos quando Judith engravidou e decidiram se casar, apesar de protestos e criticas muito fortes por parte
das respectivas famílias.
No início do casamento, foram morar na casa dos pais de Roberto (Kátia e Manoel), situação esta que trouxe muitos conflitos de relacionamento entre as duas gerações,
por causa do espaço, da diferença de opiniões, da falta de credibilidade dos pais de Roberto na competência do casal.
Relatam ainda que, desde o início, foi "ponto de honra" para Judith e Roberto manterem o casamento porque se gostavam muito, mas também para mostrar às famílias
que eram capazes e auto-suficientes. Tiveram, além dos problemas de espaço e relacionamento com os pais de Roberto, problemas de saúde de Judith, algumas divergências
entre o casal e de ambos com as famílias de origem, de alimentação, pois não tinham liberdade de fazer a própria comida e outras coisas.
Durante o relato da experiência dos primeiros meses de casados, é possível notar em Roberto e Judith um paradoxo entre a forma corajosa com que eles demonstram ter
enfrentado a situação contra as famílias e a dificuldade em encarar os problemas que existem hoje entre eles e em relação a Geraldo. Minimizam suas diferenças em
relação aos pontos discordantes, como educação de filhos, relação com os familiares, conflitos conjugais, colocando como importante apenas o fato de Geraldo não
"ir bem" na escola, pois ambos temem o julgamento dos familiares de que não são capazes de criar "bem" os filhos.
Na 4 a sessão, foi feito o genograma. A família participou de forma ativa e interessada, lembrando os fatos, tentando identificar as idades dos familiares, surpreendendo-se
com as imagens que iam se formando a respeito das pessoas, redescobrindo as ligações afetivas mais próximas e as mais conflitivas entre os membros. Foram identificadas
as preferências dos pais de Judith e Roberto
A família como modelo
121
por este ou aquele filho, o tipo de relacionamento que havia entre os pais de Judith e de Roberto e, sobretudo, ficaram muito marcadas as separações desses pais
e a forma traumática como ocorreram. A partir desse momento, a família muda completamente e, num tácito acordo, as sessões subseqüentes giram em torno das dificuldades
de Geraldo. Os pais reclamavam o tempo todo da dispersão, da bagunça que Geraldo fazia, dizendo que não sabiam o que fazer e o quanto era sofrida a situação tanto
para Roberto como para Judith que acabavam agredindo Geraldo. Este chegava às sessões com aparência triste e preocupada. Não parecia uma criança de 10 anos e ficava
preso ao relato dos fatos, assumindo a responsabilidade pelo sofrimento do casal. Não brincava mais com a irmã, não usava os brinquedos nem os jogos que estavam
à disposição na sala de consulta.
O trabalho terapêutico das sessões seguintes foi no sentido de reverter a situação, conotando positivamente a força desses jovens pais e do próprio Geraldo que,
para cuidar dos pais, deixava de cuidar de si próprio, de brincar, de estudar, enfim, apontando a relação de ajuda mútua que existia nesse sistema familiar.
Nesse momento foi proposta a construção da LTF com a
família.
Ao serem questionados sobre quando começou a família, tanto Roberto como Judith concordam que foi com o casamento de ambos em 1981, e a LTF proporcionou a volta
a pontos que ficaram pouco claros no genograma, principalmente em relação às separações e crises nas famílias de origem.
ANÁLISE DO CASO 3
Nas famílias de origem, tanto de Roberto como de Judith, não falar sobre os conflitos vividos ou não admitir a existência das crises poderia anular a sua ameaça.
Poderíamos pensar no mito girando em tomo do: "Se não admito que existe é porque não existe."
Na separação dos pais de Roberto, o casamento já estava abalado há anos e quando o pai resolveu oficializai- a separação "foi terrível", "ninguém esperava". Quando
Roberto percebe que seu pai tinha uma outra mulher, ficou "muito chocado" porque, novamente, aquilo do qual não se falava não existia.
122
Ceneide M. de O. Cerveruj
Linha de Tempo Familiar (LTF) do Caso 3
gravidez de J e casamento
J c R passam a morar com K e M
nascimento de G
J se forma e começa a trabalhar e R faz trabalho de free-lance
o casal aluga uma casa
R arruma um emprego regular
o casal pensa na possibilidade de ter mais um filho
período descrito com preocupações profissionais de R c J e com a criação de G
mudam novamente de casa cl fiai grávida passam a morar na casa de uns amigos que estão em viagem
nascimento de F R inicia a faculdade
R compra um terreno c não conta para J
separação oficial ele KcMcKsc liga a outra mulher R e J ficam mais próximos da família de R Início da construção da casa
param a construção, R perde o emprego e voltam para a casa dos pais de R por 10 meses G muda de escola
J é removida e o novo horário de trabalho faz com que fique mais tempo fora de casa G c F ficam aos cuidados de M
período difícil, horários complicados e aparece a dificuldade escolar de. G
R arruma outro emprego no meio do ano, mudam para a casa Inacabada c compram um carro
dificuldades escolares de G aumentam e iniciam a terapia
A família como modelo
123
GENOGRAMA DO CASO 3
Na família de Judith, o pai passava pouco tempo em casa, estava sempre viajando, todos sabiam que ele tinha outra mulher, mas nem a esposa nem os sete filhos falavam
sobre isso. Judith lembra-se de situações confusas na família, de queixas não-verba-lizadas, do gradual afastamento dos pais e da vida correndo como se tudo fosse
natural. Não trazer à tona a verdade, não verbalizar a realidade percebida era como se pudesse anular seus efeitos. Quando Judith tinha 12 anos. o pai, "sem mais
nem menos", decidiu sair de casa e foi um abalo, uma vergonha para a família.
No sistema atual, Roberto e Judith não conseguem definir com clareza suas diferenças, não conseguem conversar sobre elas, não admitem crises conjugais, fixando-se
só nos seus papéis parentais, pois, para ambos, o padrão conhecido é: "O que não é definido ou falado não existe!"
Nesse caso específico, a intenção era mostrar a repetição do mito familiar que é similar em ambas as famílias de origem e que se mantém por meio da ausência da comunicação,
sendo que o próprio mito apóia-se nessa ausência.
Como o mito é baseado no sistema de crenças, ele molda a percepção da realidade de forma a não admitir o que é considerado negativo ou vergonhoso para o sistema
familiar.
Roberto e Judith podem admitir problemas escolares do filho Geraldo e lutar para que o que eles definiram como "ponto de honra" (a educação dos filhos) seja cumprido,
porém, as dificuldades de comunicação do casal, as diferenças que se tornam conflitos não podem sequer ser percebidas.
124
Ceneide M. de O. Uerveni)
CASO 4
A família procurou a Clínica Psicológica da Universidade por causa de Antônio (21 anos). Este, segundo a mãe, apresentava um comportamento altamente agressivo e
é também portador de epilepsia.
Antônio morava com a mãe Maria e o irmão Alberto de 20 anos. O pai, senhor Bento, também era epiléptico e faleceu em conseqüência de uma de suas crises convulsivas,
quando Antônio estava com seis anos.
Nesse sistema, naquela época, só a mãe trabalhava e os filhos não tinham nenhuma atividade profissional ou de lazer pertinentes à sua faixa etária.
Durante as "crises de agressividade", Antônio destruía objetos da casa, aparelhos domésticos e principalmente o material de trabalho da mãe, que fazia doces e bolos
para festas.
Nas primeiras sessões verificou -se que esta família apresentava disfunções na hierarquia, falta das funções executivas, confusão nos papéis, problemas de limites
e uma conseqüente dificuldade de diferenciação.
Observou-se também uma maior proximidade na díade Maria e António, sendo que Alberto demonstrava um pouco mais de capacidade de diferenciar-se dentro do sistema
familiar.
Pesquisando a história familiar, por meio do genograma, obtivemos as seguintes informações: a mãe, Maria, é a oitava filha entre nove filhos naturais e um adotivo.
São três homens e seis mulheres. Maria nasceu com uma pequena deficiência física na mão direita, o que a limita na execução de algumas tarefas. Existe na família
uma alta incidência de diabetes e todos os portadores conseguem um bom controle da mesma com cuidados adequados.
Na família de Maria, todos os irmãos começaram a trabalhar muito cedo. no início da adolescência, enquanto à Maria cabia os afazeres domésticos e cuidar da mãe enferma.
Os irmãos lhe davam uma mesada como remuneração pelo trabalho e a estimulavam muito para que estudasse.
Observamos nesta família modelos de mulheres fortes, decididas e que mantêm um alto grau de união e lealdade entre elas.
Os homens, ao contrário, são considerados frágeis e portanto desvalorizados.
A família, corno modelo
125
-a
GENOGRAMA DO CASO 4
126
Ceneide M. de O. Cerveny
Da família de origem de Bento, o pai, há pouca informação. Ele é o terceiro de 11 filhos, sendo seis do sexo feminino e cinco do masculino. Sua avó, a sra. Clara,
é descrita como figura autoritária e diligente.
Maria conta que quando foi apresentada à família de Bento, essa avó Clara não a aceitou por causa de sua deficiência física.
Durante o namoro Maria observou que Bento apresentava crises epilépticas. Nesta fase. procurou a família do namorado para pedir maiores esclarecimentos e surpreendeu-se
com a total negação da doença por parte da família de Bento. A mãe, inclusive, atribuiu o aparecimento da doença com o início do namoro de Bento com Maria, além
de negar qualquer herança genética.
Maria engravidou e casou-se com Bento. O novo casal obteve aceitação da família de Maria e foram residir com ela.
Na família de Maria existia uma grande expectativa de que os filhos dela fossem do sexo feminino, especialmente o primeiro, tanto que Maria fez o enxoval do bebê,
preparando-se para dar à luz a uma filha.
Após o casamento, Maria tomou a iniciativa e conduziu o tratamento médico do marido que consistiu em atendimento am-bulatorial e uma internação.
Quando os filhos Alberto e Antônio estavam com um e dois anos, respectivamente, o casal passou a morar sozinho. A partir daí Bento passou a apresentar "crises de
ciúmes" (síc) ocasiões em que quebrava os objetos domésticos. Após quatro anos da mudança. Bento faleceu.
Nessa ocasião Maria e os filhos voltaram a morar com a família de Maria e os filhos ficavam aos cuidados dos avós enquanto Maria saia para trabalhar. Passado apenas
um ano, o pai de Maria também faleceu e logo em seguida a mãe.
Maria nesse momento, voltou a morar sozinha com os filhos, acumulando todas as tarefas da casa e o sustento da mesma. Eventualmente contava com a ajuda de duas de
suas irmãs.
Antônio nasceu portador de epilepsia e Alberto não, e ambos não conseguiram freqüentar a escola. Foram apenas alfabetizados, repitiram o ano e abandonaram a escola
Atualmente Maria trabalha em uma creche onde desenvolve atividades recreativas e de cuidados com as crianças.
A família como modelo
127
Logo após o início da terapia, Alberto começou a trabalhar em atividades autônomas, sem as garantias trabalhistas.
Antônio, quando veio para a terapia, havia sido internado duas vezes e após o início da terapia teve mais duas internações sendo uma em Hospital-dia.
No decorrer do atendimento, a equipe (terapeuta familiar, psiquiatra e assistente social) observou que Maria atuava no sentido de mobilizar a equipe para que a mesma
se responsabilizasse com os cuidados e vinculação de Antônio. Isto ocorria da mesma forma quando, nas crises de agressividade de Antônio, Maria mobilizava sua família,
especialmente a irmã mais nova, Rita, para ajudar a contê-lo.
Como este padrão disfuncional tendia a se repetir de tempos em tempos, a equipe terapêutica vem trabalhando no sentido de promover uma autonomia maior em Antônio,
mobilizando-o a procurar emprego e outros vínculos.
Durante a experiência de internação no Hospital-dia, Antônio desenvolvia atividades de cuidados para com os outros pacientes, mostrando capacidade na execução de
muitas tarefas.
A orientação terapêutica atualmente está voltada para o estabelecimento de novas formas de vinculação para a família, e para a ênfase na capacidade de Antônio em
conseguir autonomia na área profissional e de relacionamento com grupos de sua faixa etária.
ANÁLISE DO CASO 4
O comportamento agressivo de Antônio, que trouxe esta família para a Terapia, parece estar associado a modelos e mitos familiares repetitivos e disfuncionais.
Quanto ao mito, que em geral se associa a segredos, como já vimos anteriormente, observamos que na família de origem de Bento, a epilepsia é desconsiderada como
herança genética, passando a ser uma doença relacional, atribuída a Maria.
Este mito associa-se com a dificuldade de diferenciação da família atual e também à dificuldade de Antônio em lidar com a própria doença, pois lhe são negados modelos
sadios para que possa incorporar e administrar suas crises. O modelo que Antônio tem é do pai Bento que "quebrava as coisas" e não conseguia ficar longe da mãe.
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CeneideM. de O. Cerva ni
A confusão na hierarquia da família de Maria com irmão:, parentais, e o seu trânsito difícil entre o papel de esposa, mãe e 11 lha, faz com que a mesma não consiga
uma assertividade dura doura para lidar com esses filhos.
Esse fato refletiu também na mudança da orientação tera pêutica quando a equipe percebe que o assistencialismo vinha re forçando a cadeia repetitiva onde os "homens
são dependentes", Maria é dependente e os outros são capazes e executivos.
Nas famílias de origem de Maria e Bento identificamos o padrão de mulheres fortes, capazes de cuidados com a família e provedoras.
A família de Maria sempre cuidou adequadamente da diabetes de seus membros, mas não soube administrar a limitação física de Maria, que poderia ter sido ajudada na
época por uma fisioterapia. Em contrapartida atribuíram a Maria funções domésticas onde. de certa forma, era protegida.
Maria transita então no modelo e antimodelo. Consegue seguir o padrão das mulheres de sua família quando assume casar com Bento, cuidar de sua doença, morar sozinha,
trabalhar e ser provedora após a morte do marido. O antimodelo aparece na sua dificuldade de dar limites aos filhos, de querer que a equipe terapêutica "assuma"
sua família, de proporcionar espaço para a diferenciação dos filhos.
CAPÍTULO VII
Conclusões
Gostaríamos de finalizar este trabalho apresentando algumas conclusões, baseadas não só no estudo dos casos descritos anteriormente mas na nossa prática clínica
de muitos anos com famílias. O problema da repetição dos padrões das famílias de origem continua para nós instigante, inesgotável e cada vez mais importante.
- Detectar essa repetição ajuda o trabalho terapêutico, revela à família aspectos do seu funcionamento que são importantes;
- A compreensão do sistema familiar não pode ser isolada da história da sociedade onde ele está inserido, portanto, da dimensão espaço-temporal;
- Os padrões interacionais refletem e contêm a maneira como os indivíduos experienciam a realidade. E para mudar essa visão da realidade faz-se necessário promover
novos modelos de padrões interacionais dentro da família;
- Existe uma responsabilidade da geração atual em relação às futuras a respeito da repetição dos padrões interacionais que são geradores de problemas;
- Devemos pensar na repetição também como fazendo parte da singularidade de uma família, de sua identidade e conservação como grupo. Nesse sentido, é importante
a valorização
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Ceneide M. de O. Cerveny
dos padrões interacionals positivos que permitem o crescimento e o melhor funcionamento do grupo familiar;
- Não existe uma literatura abrangente e específica sobre padrões repetitivos. Seu estudo aparece vinculado a problemáticas mais particulares como esquizofrenia,
violência, drogadição, doenças e outros;
- A percepção e o descobrimento da repetição de padrões interacionais, intergeracionalmente, podem levar a mudanças significativas e também a paralisações angustiantes
mas, sobretudo, tende a transformar a experiência em conhecimento;
- A cadeia seqüencial de tempo é irreversível, mas não intocável e mudanças podem ocorrer por meio do processo terapêutico e da prevenção, mesmo em padrões estabelecidos
há muitas gerações;
- É importante voltar às famílias de origem por meio da terapia, genograma e linha de tempo familiar para mudar a natureza das transações do passado no presente;
- No universo de nossos sujeitos, percebemos que as famílias de origem são pouco conhecidas e que as histórias das famílias se perdem, não existindo a preservação
da memória familiar. Isso tem como resultado o enfraquecimento da identidade das famílias, com rupturas e distanciamentos;
- É importante alertar para um trabalho preventivo com as famílias, onde se consiga, por meio da identificação e percepção da repetição, evitar os padrões interacionais
que se tornam disfuncionais ou patológicos;
- O trabalho terapêutico com as famílias que atendemos deve ser ético no sentido de que, se interferimos nos padrões de uma família hoje, estamos interferindo nos
padrões das famílias futuras e é importante que tenhamos beneficiários e não vítimas nesse futuro;
- Gostaríamos que este trabalho não fosse um desenho ou modelo pré-fixado por sua autora ,mas que os leitores possam colocar seus próprios desenhos e modelos para
a sua leitura.
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Autor: Umberto Ferreira
Amor, diálogo e liberdade no relacionamento entre pais e filhos
O relacionamento pais e filhos deve ser fundamentado no amor e no diálogo. Estes recursos são indispensáveis ao entendimento, à paz e à harmonia dos membros da família.
Outros recursos são importantes, mas estes não podem faltar nunca sob pena do relacionamento se degenerar em desentendimento.
É indispensável que pais e filhos cultivem o amor. Com ele no coração, as pessoas se tornam mais compreensivas, pacientes e indulgentes para com as imperfeições
e faltas dos outros.
O diálogo deve ser uma prática constante em família. A rigor, deve começar antes da reencarnação dos filhos, quando os espíritos que virão na condição de filhos
se aproximam dos futuros pais. Deve continuar durante a infância, quando os pais, esforçando-se para descer ao nível das crianças, fala sua linguagem e se fazem
compreendidos.
Na adolescência, o diálogo tem importância capital, não podendo ser negligenciado de maneira alguma.
Nesta fase, é necessário agir com muito tato e tolerância, porque os adolescentes costumam ser mais sensíveis e emocionalmente instáveis e inseguros. E os adultos
têm mais condições de compreendê-los.
Após a adolescência, é ideal que o tratamento, que era de pais para filhos adolescentes, passe a ser de adultos para adultos, porquanto os jovens já sabem discernir
bem o certo do errado e já têm condições de escolher o seu caminho, embora não devam dispensar as orientações e experiência dos pais.
A liberdade é um dos direitos da criatura e deve ser proporcional à maturidade e responsabilidade de cada uma. É ideal que a liberdade seja concedida aos filhos
de acordo com a responsabilidade. Mais do que uma concessão, deve ser uma conquista dos filhos que, para isto, devem procurar agir com muita responsabilidade. Quanto
mais maduros e responsáveis, mais liberdade conquistam.
Perguntas & respostas
01 - Frente à atual liberdade pregada pela mídia e pela psicologia moderna, como os pais devem desenvolver a educação dos filhos?
Apesar das grandes mudanças no comportamento do homem moderno e da liberdade defendida na atualidade, os pais devem continuar desenvolvendo a educação dos filhos
de acordo com as diretrizes estabelecidas pelo Evangelho de Jesus, cuja moral tem caráter de eternidade. Quem tem acesso às obras espíritas, dispõe dos ensinamentos
dos Espíritos que nos oferecem sábias orientações neste campo.
02 - Mas como explicar à criança ou ao adolescente que a educação liberal que ele vê o amiguinho receber não pode ser a mesma para ele?
Os pais devem conscientizar os filhos de que a sua preocupação é a de preparar o espírito para a vida na Terra e no plano espiritual. Para atingir estes objetivos,
precisa desenvolver nos filhos as qualidades do coração, as virtudes, os valores internos. E isto não se consegue sem um comportamento diferente do homem que vive
de forma materialista.
03 - Como deve ser o ensinamento religioso para os filhos?
Os pais devem cuidar do ensino religioso para os filhos desde a mais tenra idade, tanto no lar, como no templo religioso. Os pais espíritas não devem deixar de levar
os filhos às aulas de doutrina dentro do centro espírita.
04 - Se um filho não quiser seguir a Doutrina Espírita, o que fazer?
Os filhos têm a liberdade de escolher a religião que desejarem, o que não impede aos pais espíritas de envidarem esforços para fazê-los seguir o espiritismo. Para
convencê-los, os pais devem mostrar a fundamentação lógica da Doutrina Espírita, o que a torna uma doutrina ímpar no mundo.
Às vezes, um filho recusa-se a ir ao centro, por preguiça ou outros motivos. Neste caso, os pais podem utilizar de mecanismos que o forcem a ir, como fazem quando
ele recusa-se a ir à escola. Naturalmente que estes recursos devem ser de natureza mais pedagógica e adequados ao grau de desenvolvimento do filho.
05 - Quando e como começar a falar sobre sexo com os filhos?
Os pais devem aproveitar todas as oportunidades para passar aos filhos noções de sexo equilibrado. Isto desde a infância. No início, irão passando os conhecimentos
sobre reprodução. Posteriormente, falarão de sexo equilibrado.
O ideal é que estas informações sejam dadas de forma gradativa, de acordo com a compreensão dos filhos. A abordagem deve ser feita de forma natural, sem constrangimentos.
Para isto, os pais precisam preparar-se, sobretudo libertando-se dos tabus que cercam esta questão.
Muitos pais alegam que não se sentem à vontade para chamar os filhos para conversar sobre sexo. Esta dificuldade pode ser superada, elaborando-se um programa de
esclarecimentos e estudos que contenham, ao lado de outros conteúdos, o assunto sexo.
06 - É correta a regra que diz que, em matéria de educação sexual, o pai deve só falar com o filho e a mãe só com a filha?
A educação dos filhos é tarefa dos pais. Ambos podem abordar a questão com filhos e filhas. Podem, inclusive, transmitir os esclarecimentos juntos. Isto não impede
que a mãe tenha colóquios mais íntimos com a filha e o pai com o filho, para aprofundar em alguns detalhes. É importante salientar que a regra que estabelece que
o pai fale com o filho e a mãe com a filha é uma das conseqüências dos tabus. Quem se liberta desses tabus, naturalmente deixa de seguir esta regra, por que descobre
que o sexo é belo e sublime, podendo ser abordado com toda naturalidade.
07 - Se os filhos começam a conviver com colegas que os influenciam em vícios, com tóxicos, álcool e fumo, como devem agir os pais?
O ideal que os pais acompanhem os filhos de perto, influenciando na escolha de suas amizades, desestimulando as inconvenientes e reforçando as boas. Se, apesar destes
cuidados, os filhos começarem a conviver com colegas que tenham costumes inadequados e vícios, os pais dispõem do recurso de fazer um trabalho educativo e preventivo,
conscientizando os filhos quanto à nocividade destes vícios e costumes, tanto para o corpo, como para o espírito. É muito importante também conservar um ambiente
harmonioso em casa, procurando fazer com que os filhos sejam felizes e não precisem destes estimulantes para sentirem-se bem.
08 - E se o filho já estiver com algum vício, como os pais devem ajudá-lo?
Os pais devem se aproximar, o máximo possível, do filho e sondar-lhe o íntimo, tentando identificar as razões que o levaram a se envolver no vício e procurar resolver
o problema, atacando a causa. Não adianta desesperar ou ameaçar o filho. É importante sondar se existe alguma influência espiritual e adotar as medidas adequadas.
Também não pode exigir resultados imediatos. De modo geral, a solução definitiva de problemas desta natureza demanda tempo e paciência.
09 - Como deve ser a convivência dos pais frente aos filhos? Devem evitar as costumeiras discussões na frente das crianças? E os exemplos?
Um ambiente harmonioso é extremamente importante para a boa educação dos filhos. Os pais devem procurar resolver os seus problemas conversando com serenidade e evitando
discussões agressivas. Agindo assim, estarão dando bons exemplos para os filhos. Se não conseguem proceder desta maneira, é melhor acertar as suas diferenças longe
deles, sobretudo se costumam discutir sem a devida serenidade.
10 - Em caso de pais separados, como conseguir dar uma boa educação para os filhos, sem deixá-los complexados pela situação de desunião?
Quando os pais são separados, para que a educação dos filhos não fique muito prejudicada, o pai (ou a mãe) que estiver morando longe dos filhos deve procurar conviver
com eles com a maior freqüência possível e procurar agir com a máxima atenção e aproveitar todas as oportunidades para cuidar da sua educação e amenizar os efeitos
negativos da separação. É importante também não envolver os filhos nos problemas da separação e orientá-los no sentido de evitar tomar partido.
11 - Como agir com o filho problema? Aquele ser cheio de complexos, introvertido, arredio, difícil de lidar?
Os resultados melhores na solução deste tipo de problema têm sido obtidos com o trabalho conjunto de pais e psicólogos especializados em atender adolescentes. Muitos
pais, entretanto, não têm condições de contratar os serviços de um psicólogo. Neste caso, terão de agir sozinhos. Entre os recursos que poderão utilizar está o diálogo,
que deve ser empregado com insistência. Os pais devem estimular o filho portador deste tipo de problema a dar respostas em frases completas. Cuidarão igualmente
para que converse olhando nos olhos do interlocutor. Outra medida consiste em ajudá-lo a fazer amizade e conviver com crianças ou jovens da sua idade. É importante
utilizar recursos psicológicos que reforcem a comunicação e enfraqueça a timidez, os complexos, o medo, o sentimento de inferioridade. Os pais podem se valer destes
conhecimentos para libertar os filhos deste tipo de problema.
12 - Quando o pai deve optar pela repreensão física (moderada), ao invés do diálogo?
Nem sempre os pais conseguem resolver todos os problemas de comportamento dos filhos com o amor, o diálogo e os diversos recursos pedagógicos que se utilizam na
educação dos filhos. Nesta situação, a utilização da repreensão física moderada pode evitar males maiores, sendo, portanto, medida compreensível.
13 - Até quando deve haver cuidados dos pais para com os filhos? Quando devemos deixá-los "andar com as próprias pernas"?
Após a adolescência, os jovens já têm condições de saber separar o certo do errado e podem escolher seu próprio caminho. Nesta fase da vida, o tratamento entre pais
e filhos deve passar a ser de adultos para adultos.
Grupo Espírita de Atendimento Os Samaritanos de Jesus
Rua Antônio Gomes de Araújo, s/nº - Jardim Morumbi - CEP: 12060-340 - Taubaté - SP
Tel. (12) 222-9101 - 221-4807 - www.samaritanos.com.br - atendimento@samaritanos.com.br
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Piszezman, Maria Luiza R. Meijome
Terapia familiar breve : uma nova abordagem terapêutica em instituições / Maria Luiza R. Meijome Piszezman. - São Paulo : Casa do Psicólogo, 1999.
Bibliografia. ISBN 85 - 7396-
1. Família - Aspectos psicológicos 2. Psicoterapia de família I. Título.
CDD-616.89156 99-3024 NLM-WM 430
índices para catálogo sistemático:
1. Família : Técnicas de psicoterapia 616.89156
2. Terapia familiar breve 616.89156
Editor
Anna Elisa de Villemor Amaral Günthrt
Editor-assistente Sergio Poato
Revisão Sandra Rodrigues Garcia
Capa Yvoty Macambira
Diagramação e composição Arte Graphic
MARIA LUIZA R. MEIJOME
PISZEZMAN
TERAPIA FAMILIAR BREVE
UMA NOVA ABORDAGEM TERAPÊUTICA EM INSTITUIÇÕES
Casa do Psicólogo(r)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Piszezman, Maria Luiza R. Meijome
Terapia familiar breve : uma nova abordagem terapêutica em instituições / Maria Luiza R. Meijome Piszezman. - São Paulo : Casa do Psicólogo, 1999.
Bibliografia. ISBN 85 - 7396-
1. Família - Aspectos psicológicos 2. Psicoterapia de família I. Título.
CDD-616.89156 99-3024 NLM-WM 430
índices para catálogo sistemático:
1. Família : Técnicas de psicoterapia 616.89156
2. Terapia familiar breve 616.89156
Editor
Anna Elisa de Villemor Amaral Güntert
Editor-assistente Sergio Poato
RevisAo Sandra Rodrigues Garcia
Capa Yvoty Macambira
DlAGRAMAÇÃO e COMPOSIÇÃO
Arte Graphic
MARIA LUIZA R. MEIJOME PISZEZMAN
TERAPIA FAMILIAR BREVE
UMA NOVA ABORDAGEM TERAPÊUTICA EM INSTITUIÇÕES
Casa do Psicólogo'
Todos os direitos de publicação em língua portuguesa reservados à Casa do Psicólogo(r) Livraria e Editora Ltda. Proibida a reprodução de qualquer parte desta obra
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Impresso no Brasil / Printed in Brazil
Aos meus pais Raul e Virtude, pelo grande amor e dedicação que tiveram ao introduzir-me em seu próprio mundo.
Ao Isaac, homem muito especial com quem tenho o privilégio de construir uma nova vida.
Aos meus filhos Laila e Wolf, que com sua existência iluminaram o meu caminho.
Agradecimentos
Aos meus colegas do Instituto de Psicologia Aplicada Senador Fláquer, Santo André, pelo apoio a este trabalho,
Aos estagiários de ICP período, em especial aos do ano de 1995, pela dedicação e empenho devotados às famílias e pela atenção a mim dedicada.
Às famílias que, anonimamente, participaram do trabalho.
À Professora Doutora Rosa Maria S. de Macedo, mão amiga, afável e segura, que me orientou.
Às amigas Cláudia Beatriz Bruscagin, Nizha Francis Soriano, Clara Brochztaim e Rosa Eugênia de Freitas Pinto, pelo incentivo e encorajamento.
Ao professor e amigo José Aranha Filho, que cuidou dos aspectos formais do texto, dando-me a confiança de que este seria em breve uma realização.
Aos meus irmãos Alberto, Carlos e Eliete e cunhados Antônio Carlos, Nice e Lídia, pelo apoio e incentivo.
À minha sogra, Gitla, pela confiança e apoio ao meu trabalho.
Ao meu sogro Zelman (em memória) que sempre admirou meu trabalho,
Às minhas sobrinhas Natalia, Mariana, Giovana e Daniele, que com sua presença e carinho me transmitiram muito conforto.
Aos meus alunos e pacientes, com quem tenho o prazer de compartilhar os muitos momentos, em que sempre aprendo e cresço.
À Lucileine que muito mais que uma secretária é uma amiga que me ajuda a contornar muitas dificuldades que aparecem em nosso dia-a-dia.
A todos, muita gratidão.
ÍNDICE
APRESENTAÇÃO:..............................................................13
INTRODUÇÃO:....................................................................15
CAPÍTULO I:
PRESSUPOSTOS TEÓRICOS...........................................21
1. HISTÓRICO.......................................................................21
2. ABORDAGEM ESTRATÉGICA.......................................25
3. ABORDAGEM ESTRUTURAL........................................28
4. CONCEITOS TEÓRICOS BÁSICOS...............................31
4.1. A Teoria da Comunicação...........................................31
4.2. O Conceito de Disfunção.............................................34
4.2.1. O ciclo de desenvolvimento familiar................35
4.2.2. Função e disfunção............................................36
4.3. A Formação do Sintoma..............................................41
4.4. A Função do Dignóstico..............................................43
4.5. Como Ocorre a Mudança............................................46
4.6. Como é Pensado o Papel do Terapeuta.......................47
5. QUADRO COMPARATIVO..............................................52
CAPÍTULO H:
PROCEDIMENTOS TÉCNICOS.......................................55
1. TÉCNICAS.........................................................................56
2. SUPERVISÃO....................................................................64
CAPÍTULO III: A PREPARAÇÃO PARA O ATENDIMENTO..................................................................69
1. A INSTITUIÇÃO................................................................69
2. COMPOSIÇÃO DO SISTEMA TERAPÊUTICO............71
3. AS BASES DO ATENDIMENTO......................................73
3.1. Co-terapia....................................................................73
3.2. Tarefa...........................................................................75
3.3. Mapa Estrutural..........................................................76
3.4. Genograma..................................................................77
4. A ATUAÇÃO DAS EQUIPES TERAPÊUTICAS............78
5. AS AÇÕES DA SUPERVISÃO........................................79
5.1. Preparação dos Terapeutas........................................79
5.2. Avaliação do Trabalho Realizado..............................80
CAPÍTULO IV: DESCRIÇÃO E ANÁLISE DE FAMÍLIAS ATENDIDAS.....................................................81
01. Família na 01: "Cardoso".................................................84
02. Família n2 02: "Miranda"...............................................125
03. Família na 03: "Rondon"................................................156
CONCLUSÃO......................................................207
BIBLIOGRAFIA................................................................213
APRESENTAÇÃO
Este livro apresenta o resultado de uma empreitada muito bem-sucedida, tanto na área do ensino da Psicologia, como na área da Terapia Familiar.
Partindo da necessidade de ampliação das práticas psicote-rápicas na formação do psicólogo, a autora, especialista em Terapia Familiar pelo Programa de Psicologia
Clínica da PUC-SP, constrói um modelo de atendimento psicoterapêutico às famílias na Clínica-Escola do Curso de Psicologia da PUC-SP.
Esse modelo, como mostra o livro, em detalhes e de maneira muito bem fundamentada, ajusta os princípios da Terapia Breve à Terapia Familiar, segundo os cânones da
Teoria Sistêmica, tendo como finalidade o atendimento da demanda das famílias (de baixa renda) que buscavam a Clínica-Escola para soluções dos problemas com seus
filhos.
A necessidade desse modelo, que fornece um roteiro seguro para o trabalho psicoterapêutico supervisionado, deve-se ao fato de que a Terapia Familiar é tarefa complexa
e os alunos, no último ano de Psicologia, só teriam condição de realizá-la com . respaldo teórico e técnico muito bem definido em todos os seus passos.
Esse é o grande mérito da autora: ela conseguiu organizar uma série de conceitos congruentes e consistentes, que tornam acessível ao psicólogo principiante a compreensão
do funciona- Pro" mento familiar, dentro de uma visão Sistêmica, inter-relacional, 'nío.' de causalidade circular que desfaz a visão de "bode expiatório", ' Pn~
"causas", do problema da família. Ao contrário, pela articulação dos conceitos apresentados com as técnicas adequadas e a super- Paci-visão competente do terapeuta
mais experiente, a família vai am- t0 pliando sua visão do "problema", percebendo as implicações mútuas de todos os membros que são parte do sistema, e, livre da
busca de culpados, torna-se capaz de encontrar novas alternativas para resolver suas dificuldades, seus impasses.
A autora apresenta um esquema simplificado ao alcance do terapeuta iniciante; não se trata, no entanto, de um esquema simplista, superficial e insuficiente para
atingir as mudanças passíveis de favorecer as soluções buscadas pelas famílias.
Por essa razão, considero este livro de extrema utilidade para professores e alunos dos cursos de Psicologia, bem como para todos os profissionais interessados em
Terapia Familiar, além de ser também muito indicado para o trabalho com famílias em instituições tanto de saúde, como educacionais e de justiça, entre outras, pela
eficiência, eficácia e rapidez com que produz seus efeitos benéficos.
Profa. Dra. Rosa Maria S. Macedo
Coordenadora do Núcleo de Família e Comunidade Programa de Psicologia Clínica da PUC-SP.
INTRODUÇÃO
"Há uma tendência das coisas vivas a se unirem, a estabelecerem vínculos, a viverem umas dentro das outras, a retornarem a arranjos anteriores, a coexistirem enquanto
é possível. Este é o caminho do mundo."
Lewis Thomas
Da atenção dedicada à demanda da comunidade pelos serviços prestados pelas diversas instituições no campo da saúde mental; da busca de clareza e definição dos serviços
oferecidos; do anseio pela melhoria da qualidade desses serviços e da necessidade de encontrar alternativas de atendimento que resultassem no melhor aproveitamento
do tempo e do empenho das equipes terapêuticas dessas instituições traduzidos em resultados positivos e duradouros, obtidos de maneira rápida e eficaz, resultaram
na experiência que nos propomos descrever nas páginas que se seguem.
O conteúdo central dessa experiência repousa na maneira de atender famílias. Trata-se de um modelo simplificado de terapia familiar que facilita tanto a assimilação
do embasamento teórico-técnico quanto sua aplicação e que apresenta resultados cuja abrangência, no tempo e no espaço, é considerável, uma vez que evita a cristalização
de comportamentos motivada por diagnósticos mais fechados.
Além disso, oferece à família do paciente "portador de problema" a oportunidade de conhecer seu próprio funcionamento. Em vez de ficar fora do tratamento, este torna-se
o elemento primordial na eliminação do sintoma.
A Terapia Familiar Breve trabalha com o conceito de Paciente Identificado (P.I.), segundo o qual, o sintoma é produto de uma falha de interação no interior da própria
família.
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Este modelo de atendimento é familiar e é breve, lí familiar: seu objetivo é provocar mudanças positivas na maneira como a família interage de forma a eliminar o
sintoma, ou seja, aquilo que a família julga ser o problema. Busca, portan-lo, na própria família, os recursos para lidar com o sintoma.
É breve: no momento em que a equipe terapêutica, bem como a família, têm, conjuntamente, a percepção de que o sintoma foi eliminado ou significativamente minimizado
e que a família evoluiu a ponto de resolver, por si mesma, seus próprios problemas, a terapia está terminada.
Um investimento na preparação das equipes terapêuticas, geralmente multidisciplinares, que compõem as instituições, seria muito vantajoso, não só para as comunidades
como para as
próprias instituições.
Se públicas, os resultados positivos em termos de eficácia e economia de tempo lhes permitiria suportar com menos desgaste as tremendas pressões exercidas pela volumosa
demanda.
Se privadas, esses mesmos resultados positivos contribuiriam significativamente para melhorar a imagem da instituição
perante sua clientela.
Num e noutro caso, o retorno compensaria, amplamente, o investimento, pois o aprendizado pode abranger toda a equipe das instituições que, dependendo de seu campo
de atuação, inclui profissionais como psicólogos, médicos, enfermeiras, assistentes sociais, religiosos, educadores e pode ser realizado em curto espaço de tempo,
o que contribui para minimizar o custo.
Para as comunidades, seu valor é inconteste. A própria compreensão do funcionamento familiar pela equipe da instituição já é um fator muito vantajoso para a família
mesmo quando se trata de outros tipos de tratamento, tais como neurologia, psiquiatria, fonoaudiologia e outros, porque passa a interagir com a família de maneira
mais positiva e objetiva, evitando os sentimentos protecionistas ou acusatórios para com um ou mais membros desta, uma vez que compreende que a família como um todo
necessita de orientação quanto à maneira de compreender o problema e de lidar com ele.
Por outro lado, a compreensão que a família passa a ter de seu próprio modo de interagir faz com que ela se sinta mais valo
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rizada c apta a enfrentar os problemas que porventura o futuro lhe reserve, com cada membro assumindo as responsabilidades compatíveis com sua posição no seio da
família.
Sendo a família a célula básica da sociedade, um programa de terapia familiar pode vir a ser uma verdadeira política de saúde pública. Ele pode ter lugar nos centros
de saúde, hospitais, fórum, igrejas, escolas, fábricas, associações de bairro, creches e outras.
Já há algum tempo vínhamos acompanhando o atendimento que as instituições costumam prestar às comunidades com o propósito de encontrarmos meios adequados para um
atendimento mais efetivo à clientela que as procura.
Essa preocupação nos levou a realizar um estudo na instituição onde atuamos como docente e como supervisor de estágios, com o objetivo de estabelecer um suporte
teórico-técnico que pudesse contribuir para a implantação de um novo procedimento clínico para o atendimento às crianças e suas famílias, nessa e em outras instituições
semelhantes.
Vários terapeutas têm se preocupado com a melhoria dos serviços oferecidos pelas clínicas-escola dentre os quais podemos citar os trabalhos de Ancona-Lopez (1981),
Larrabure (1982), Macedo [Coord.] (1986).
Optamos pela Terapia Familiar Breve, uma modalidade de terapia familiar sistêmica, cuja principal característica é a solução do problema apresentado por meio de
mudanças no processo de interação da família, porque acreditávamos ser ela um instrumento capaz de minimizar o fenômeno, já apontado por Ancona-Lopez com relação
às clínicas-escola em geral, de que, em virtude de um atendimento insatisfatório, "grande parte da população que procura a clínica desiste do atendimento com freqüência
e silenciosamente". (Psicodiagnóstico: Processo de Intervenção, 1995, pág. 66).
Nosso trabalho foi desenvolvido com estagiários do lO^se-mestre do Curso de Psicologia das Faculdades Integradas Senador Fláquer, em Santo André, São Paulo, o qual,
em seu Instituto de Psicologia Aplicada, oferece atendimento gratuito à comunidade, por intermédio dos estudantes do 9a e do 10a semestres.
Planejamos cada ação levando em conta o acompanhamento
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da evolução da família, ou seja, como as mudanças ocorridas contribuiriam para resolver a queixa apresentada.
Como a terapia familiar sistêmica é relativamente nova no Brasil, a decisão de realizarmos essa experiência exigiu de nossa parte uma análise cuidadosa e criteriosa,
especialmente, de possíveis implicações negativas, tais como a resistência dos alunos e das próprias famílias e o uso que os futuros terapeutas pudessem fazer das
técnicas aprendidas.
Justificamos nossa proposta por entendermos que a Terapia Familiar Breve é adequada ao tipo de atendimento oferecido pelas clínicas-escola, porque, além de possibilitar
um atendimento efetivo às famílias, requer, em média, dez sessões para a solução da queixa, cabendo, portanto, perfeitamente, em um semestre letivo.
As outras demandas típicas podem ser expressas por: Ia) "Eu não tinha uma idéia real, o Dr. A quis que nós viéssemos". 2a) "Nós queríamos ouvir o que vocês têm a
dizer, nós queremos sua opinião sobre o que está errado com ela/ele/nós". 3a) "Nós queríamos que vocês nos dessem algum conselho sobre o que devemos fazer ou como
devemos agir com este problema". 4a) "Nós queremos saber qual a razão de ele/ela estar se comportando desta maneira, nós pensamos que vocês conversariam com ela/ele,
encontrassem a razão e nos dissessem". 5a) "Nós esperávamos que na conversa com vocês encontraríamos o melhor caminho para resolver este problema."
É nesse contexto que nos propusemos apresentar uma forma de responder à necessidade de melhorar as condições que afetam a prática profissional no serviço de atendimento
à Saúde Mental oferecido por essa entidade, tanto no aspecto quantitativo quanto no qualitativo, em benefício dos estagiários e das famílias.
No aspecto quantitativo podemos facilmente verificar as vantagens da Terapia Familiar Breve. A entrevista familiar já é um diagnóstico e uma intervenção. Pela interação
com a família o estudante pode trabalhar o problema, trabalhando a queixa, eliminando, assim, a necessidade de passar por um processo para precisar a queixa, para
a fundamentação da queixa. Diante de um caso, oriundo da triagem com uma queixa explicitada, seja de distúrbio de comportamento, de aprendizagem, de conduta, seja
outro tipo de distúrbio, em vez de passar por todo um processo de
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testagem, passa, já, por um processo de terapia. Desse modo, no fim do semestre letivo, essa família terá saído da fila de espera. Terá deixado de ser um cliente
inscrito para se tornar um cliente atendido.
Por outro lado, a Terapia Familiar Breve admite que o atendimento seja realizado por uma equipe terapêutica. Permite, portanto, a mobilização de vários estagiários
no atendimento, conseqüentemente, um maior número de pessoas atendidas.
Quanto à qualidade há também um ganho em ambos os subsistemas: a família recebe um atendimento efetivo enquanto o estudante tem a oportunidade de praticar intervenções
terapêuticas em vez de Umitar-se à observação.
A literatura sobre terapia sistêmica nos dá conta dos excelentes resultados no tratamento de problemas específicos em tempo extremamente curto, se comparados com
outras abordagens.
CAPÍTULO I PRESSUPOSTOS TEÓRICOS
1. HISTÓRICO
A terapia sistêmica nasceu de uma nova concepção sobre a doença mental em oposição, hoje bastante atenuada, às chamadas psicologias psicodinâmicas baseadas no intrapsíquico
e, rapidamente, se tornou uma forma de psicoterapia que apresentava resultados satisfatórios em curto espaço de tempo, porém sem que houvesse um programa específico
nesse sentido. A Terapia Familiar Breve é fruto de um esforço consciente para encontrar uma forma de terapia possível de ser realizada em curtíssimo tempo. O Instituto
de Pesquisa Mental, um departamento da Palo Alto Medicai Research Foundation conhecido pela sigla MRI (Mental Research Institute), criou um programa com o objetivo
de realizar tratamentos em dez sessões.
A grande maioria da procura pelos serviços da clínica se enquadra na situação típica da família que traz suas crianças para que sejam "tratadas", porém, de acordo
com a abordagem sistêmica, o "distúrbio" apresentado pela criança encaminhada é visto como reflexo da estrutura do desenvolvimento de sistema familiar.
Casabianca e Hirsch (1979) apresentam as premissas do modelo sistêmico em cinco pontos essenciais:
"1. A conduta de todo indivíduo é função da conduta de outros indivíduos com os quais mantém relações. Por conseguinte, se o comportamento de um deles se altera,
também se alterará o [comportamento] do primeiro (sempre dentro dos limites de seu potencial pessoal).
2. Os indivíduos que mantêm relações mais ou menos estáveis podem ser vistos como membros de um sistema.
3. Os membros de um sistema significam suas condutas.
4. As condutas em um sistema se organizam em torno de dois eixos: interdependência e hierarquia.
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5.Todo sistema pode ser visto sob a ótica do inter jogo de duas tendências opostas: uma que favorece a mudança e uma que favorece a estabilidade."
A interação e o comportamento são elementos determinados pelos significados que os membros da família dão aos acontecimentos. A descrição do processo familiar nos
mostra que a família interage segundo um padrão único próprio (Maturana e Varella, 1980; Leyland, 1988).
As escolas de terapia familiar sistêmica encorajam o terapeuta a reunir-se com a família e trabalhar com seus membros diretamente sobre as disfunções evidenciadas.
Esse procedimento propicia resultados efetivos em curto espaço de tempo.
Tendo em vista nossa realidade e o tipo de população a ser atendida julgamos oportuno aproveitar certos aspectos da abordagem estratégica e da estrutural. Da abordagem
estrutural julgamos importante o mapa familiar, no sentido de ajudá-la a perceber, por exemplo, a inexistência de regras ou problemas de comunicação. O trabalho
concreto com estes aspectos já oferece uma possibilidade de progresso para a relação familiar. Da abordagem estratégica aproveitamos, sobretudo, os procedimentos
do foco centrado no problema e da diretividade.
Em outras palavras, a postura mais interventiva, a preocupação com o foco, com a solução do problema é uma preocupação mais ligada à abordagem estratégica. A mudança,
a ordem, ou seja, o estabelecimento de fronteiras, de hierarquia, de regras dizem respeito à abordagem estrutural e constituem um instrumento muito valioso para
a organização da estrutura familiar e se faz necessário, sobretudo, para famílias de baixa renda ou famílias que têm um estilo de vida muito promíscuo, com muitas
pessoas morando na mesma casa, muitos membros da família procurando afirmar sua autoridade, ou deixando-se dominar por um ou mais membros dessa família.
Assim, embora esses modelos tenham suas diferenças e apresentem-se como modelos distintos em função da predominância de determinados aspectos na maneira de atender
à família e nas técnicas utilizadas, têm também muito em comum, muitas semelhanças. Do ponto de vista epistemológico não diferem: ambos são sistêmicos. Cada terapeuta,
afinal, constrói seu pró
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prio modelo em função de sua formação, das condições de trabalho e da população que atende.
Não é nosso propósito propor uma integração dos dois modelos. Nossa busca vai em direção da construção de um modelo mais simples, prático e adequado ao nível dos
alunos e à clientela a que se destina.
A Terapia Familiar Estrutural, conforme proposta por Salvador Minuchin, é uma abordagem terapêutica naturalista no sentido de que tende a ver como essencial que
o terapeuta, ao praticar o diagnóstico e a intervenção, tenha em vista o ecossistema no qual o problema existe. A Terapia Familiar Estratégica tem em Jay Haley um
de seus maiores expoentes. Haley propõe uma terapia voltada para a solução do problema apresentado pela família. Pensando em aproveitar essas duas características
básicas dessas abordagens, optamos por nos apoiar em seus pressupostos teóricos, especialmente no trabalho de Haley e de Minuchin, visto ambos considerarem que o
comportamento emana do contexto no qual ocorre, ou seja, no sistema de relações familiares e sua interação com outros sistemas.
Minuchin (1974) e Haley (1979) fazem referência ao fato de que as famílias não trazem as suas disfunções, mas sim de que há um pedido para que o terapeuta comprometa-se
com um membro em particular da família, o paciente identificado (PI), que acreditam ser o portador de problema e, conseqüentemente, pensam que seja o único que deve
receber ajuda, a ser "tratado ".
Para Minuchin (1980), a família é um sistema governado por regras compreendendo subsistemas que interagem mutuamente e afetam uns aos outros. Assim há o subsistema
parental, ou seja, do casal enquanto pais; subsistema do casal, isto é, a interação entre os esposos; o subsistema dos filhos, subsistema constituído por pessoas
do mesmo sexo (não só da mesma geração, mas incluindo duas ou mais gerações); subsistema constituído por um único indivíduo. Em suma, os subsistemas se formam em
consonância com a maneira como as interações se processam no interior da família.
Haley (1979) diz que "a primeira obrigação de um terapeuta é mudar o problema apresentado pelo cliente" {Psicoterapia Familiar, pág. 126). Para ele o problema pertence
à família e
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não apenas ao paciente identificado porém é inútil tentar convencer a família. Propõe duas opções: que o terapeuta induza uma crise de modo que todo o sistema tenha
que se reorganizar ou que inicie uma pequena mudança e vá impulsionando persistentemente a família em direção a essa mudança até que ela esteja tão ampliada que
o sistema tenha que mudar para adaptar-se a ela.
E nesse contexto que se insere a Terapia Familiar Breve. Ela tem sua origem em uma seção do MRI, o Brief Therapy Center (BTC), fundado em 1967, nos EUA, com a finalidade
de verificar as possibilidades oferecidas por uma terapia breve, sistêmica e pragmaticamente orientada, estabelecida para dez sessões a serem realizadas semanalmente,
com duração de cerca de dois meses e meio.
Igualmente a abordagem estrutural, em sua origem, destinava-se a ser uma terapia breve. Na década de 60 Minuchin e outros trabalhavam com garotos negros e porto-riquenhos
dos guetos de Nova York na Wiltwyick School for Boys. As necessidades que esses adolescentes traziam requeriam uma terapia que apresentasse resultados práticos e
imediatos. A solução encontrada foi fazer um atendimento que levasse em conta as famílias deles e o seu meio ambiente.
Nas páginas seguintes, situaremos, em linhas gerais, histórica e conceitualmente, a Terapia Familiar Breve no contexto da terapia sistêmica e das duas abordagens
que mais se ocuparam dela, a Terapia Familiar Estratégica e a Terapia Familiar Estrutural.
Os diversos autores que se propuseram organizar a história, os conceitos básicos, os procedimentos e as técnicas da terapia familiar sistêmica têm utilizado os mais
diferentes critérios, deixando a impressão, ora de que estão tratando de coisas muito distintas, ora de que tratam do mesmo assunto diferindo apenas na abordagem
e na terminologia.
Cerveny (1992) diz que, sendo um "campo novo na área do conhecimento", é natural que a terapia familiar sistêmica esteja "se descobrindo e reformulando conceitos,
valendo-se de talentos pessoais, o que dificulta a universalidade e o consenso". Assim, Bodin (1981) descreve as atividades do MRI (Mental Research Institute) sob
a égide da Visão Interacional sem distin
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guir entre Abordagem Estratégica e Abordagem Estrutural, enquanto Stanton sugere uma integração entre essas duas abordagens sugerindo uma ligação mais próxima entre
a Abordagem Estratégica e o MRI.
A abordagem Estrutural é sempre ligada ao nome de Minuchin pelos vários autores.
Guerin (1976) dá a década de 50 como aquela em que a terapia familiar começa a ser estruturada. Ela toma impulso na década seguinte, estende suas raízes mais profundamente
no passado, à teoria dos tipos lógicos de Whitehead e Russel (1910-13), fonte na qual Gregory Bateson embasou sua pesquisa, iniciada em 1952, sobre os paradoxos
da abstração na comunicação humana. Outra influência foi o trabalho de Norbert Weiner (1948) sobre cibernética enfocando o desenvolvimento da ciência da comunicação
e o controle no interior dos sistemas.
2. ABORDAGEM ESTRATÉGICA
A Terapia Familiar Estratégica está ligada ao MRI. Bodin (1981) descreve as atividades do MRI nas décadas de 60 e 70 reunindo as principais influências desse período
para a terapia familiar. Divide seu relato em pré-história, os primeiros dez anos e os segundos dez anos do MRI. Segundo ele, é impróprio falar de uma escola MRI,
visto seus membros serem pensadores independentes e várias abordagens familiares terem sido desenvolvidas por seus membros, assim como é impróprio associar o MRI
ao grupo de Palo Alto. Essa mesma atitude é assumida por Jay Haley (1976) que enfatiza a existência de dois grupos de Palo Alto com idéias bastante diferentes: um
composto por membros que se dedicaram em tempo integral ao projeto dirigido por Gregory Bateson, que desenvolveu a teoria do duplo vínculo do qual participaram o
próprio Haley e John Weakland; o outro, formado pela equipe de Don Jackson, que, como consultor psiquiátrico, dedicava tempo parcial ao projeto.
Bodin remonta a história do MRI ao ano de 1950 quando o antropólogo Gregory Bateson estudava os diferentes níveis e diferentes canais da comunicação bem como a maneira
como
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uma mensagem modifica o outro e é significante na compreensão do outro. Junto com Jay Haley, William Fray e John Weakland, Bateson desenvolveu um projeto de comunicação
no VeteransAdministration Hospital, em Menlo Park, Califórnia. O grupo escolheu as "comunicações esquisitas " que havia no hospital e a linguagem "ilógica" dos esquizofrênicos.
Em 1954 Bateson assistiu a uma palestra de Don D. Jackson sobre "homeostase familiar". Entusiasmado, Bateson entrou em contato com Jackson e passaram a trabalhar
em colaboração.
Em 1959 surgiu o grupo do MRI, um departamento da Palo Alto Medicai Research Foundation (PAMRF) em Palo Alto, Califórnia. Seus objetos de estudo eram a esquizofrenia
e a família. A ele se juntaram Virgínia Satir e Jules Riskin e no mesmo ano o projeto de Bateson foi admitido no National Institute of Mental Health. Esse projeto,
separado do MRI, foi desenvolvido, também através da fundação de Palo Alto (PAMRF)
Compreendendo a família como um sistema em evolução no qual os princípios da teoria geral de sistemas operam mais plena e poderosamente o MRI centraliza-se no comportamento,
porém, os princípios de modificação do comportamento e a teoria da aprendizagem social não são prioritários para sua abordagem. Aconselhar um pai de família desesperado
porque seu filho gasta dinheiro excessivamente a dar-lhe, de boa vontade, mais dinheiro, seria considerado um reforço pelos behavioristas, mas os terapeutas familiares
praticam intervenções desse tipo com o propósito paradoxal de causar perplexidade no adolescente e interromper o padrão de comportamento.
O MRI ocupou-se inicialmente com a esquizofrenia. Weakland interessou-se pelo paralelismo entre esquizofrenia e hipnose. Bateson, Jackson, Haley e Weakland (1956)
produziram escritos que culminaram na revisão da teoria do duplo vínculo baseados na análise das comunicações, derivada da Teoria das Categorias Lógicas (Whitehead
e Russel, 1910-13). Para eles o comportamento esquizofrênico seria uma resposta do indivíduo a uma situação atual existente na família.
Na década de 60, houve uma expansão no atendimento da terapia familiar que passou do tratamento das famílias esquizofrênicas para famílias com outros tipos de problemas:
de
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linqüência, fracasso escolar, ansiedade neurótica, asma, borderline, colite ulcerativa e conflito de casais.
Selecionamos alguns dados que demonstram os avanços da terapia familiar no tocante a pesquisas, publicações, desenvolvimento de técnicas e treinamento de terapeutas,
graças ao trabalho do MRI:
a. Em 1960 Haley experimentava meios de medir as comunicações em família.
b. Em 1961 Paul Watzlawick e Janet Beavin elaboraram uma antologia gravada de comunicação verbal tirada de tapes das sessões de terapia familiar.
c. Em 1963 o MRI, em seu conjunto, conceitualizou a família como um sistema de interação social. Do enfoque inicial sobre a esquizofrenia houve uma expansão para
a maneira como as interações da família afetava diversos fenômenos tais como colite infantil, asma e potencial acadêmico de crianças pré-escolares.
d. Em 1966 Satir e Elaine Sorenson envolveram-se no treinamento de terapeutas de família.
e. Em 1967 foi fundado o Brief Therapy Center (BTC) do MRI com o objetivo de verificar o aproveitamento terapêutico em um tempo breve aplicado a um problema específico.
O tratamento durava dez sessões.
f. Nos anos 60 Weakland estudou filmes da China Comunista para compreender os padrões sociais das famílias chinesas.
O início dos anos 70 foi marcado por duas grandes perdas: o carisma do diretor Don Jackson, em virtude de seu falecimento, e a limitação das verbas federais forçando
o MRI a buscar subsídios de fundações privadas.
O MRI obteve um patrocínio da Administration on Aging (governamental) e criou o Family Futures Center, destinado ao aconselhamento de idosos e suas famílias./7
Outro programa desenvolvido nessa época foi o projeto para reintegrar na família os pacientes internados com doenças físicas na Stanford University School of Medicine.
Na década de 70 surge a concepção de que a esquizofrenia derivava de uma crise de desenvolvimento em vez de ser "doença mental". Esse conceito se coadunava com as
teorias da interação familiar desenvolvidas pelo MRI. Os trabalhos do MRI sobre as
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dimensões da comunicação, sistemas familiares e sistemas sociais foram intensificados e ampliados, sendo, o MRI, segundo Bodin, o único a combinar pesquisa, clínica
e atividades educacionais. Outra iniciativa dessa época foi a criação da Soteria House, onde se estabeleceu o sistema de residência para o tratamento da esquizofrenia
(sem uso de drogas). Comparado com as internações, este procedimento apresentava os mesmos resultados, porém, com um custo bem menor.
Em 1978 o MRI iniciou um programa de clínica terapêutica de pacientes internados. Além disso mantinha um programa regular trimestral de treinamento sob a forma de
workshops. Workshops e seminários eram apresentados constantemente nas Américas e na Europa. Carlos Sluski e Watzlawick deram início a programas de treinamento em
terapia familiar e programas intensivos para falantes de língua espanhola em visita aos EUA.
A partir de 1979 novas direções foram concebidas tais como a Soteria Alternatives for Education (SAFE) destinada a facilitar a transição do esquizofrênico de volta
à comunidade. Sob a direção de Carlos E. Sluzki o MRI ampliou suas atividades de treinamento e enfatizou as múltiplas linhas de intervenção do paradigma de sistemas
interacionais pela exploração das relações conceituais entre os modelos desenvolvidos no MRI e outros centros de pesquisa e treinamento.
O MRI foi um pioneiro na pesquisa e treinamento sobre família e comunicação e no desenvolvimento da terapia familiar, terapia familiar breve e tratamento de emergência.
Da diversidade de procedimentos do MRI brotou o conceito de estrutura e uma nova forma de terapia sistêmica, a abordagem estrutural, que examinaremos a seguir.
3. ABORDAGEM ESTRUTURAL
Segundo Aponte (1981) a primeira tentativa de exposição de terapia familiar estrutural foi Famílias dos guetos (Minuchin, Montalvo, Guerney, Rosman e Schumer, 1967).
Nos anos 60 havia uma revolução social em andamento nos EUA e a terapia familiar estava começando a ganhar larga aceitação. Nessa ocasião, Minuchin e seus colaboradores
estavam trabalhando na Wiltwyck
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School for Boys, uma instituição dedicada principalmente aos negros e porto-riquenhos jovens dos guetos de Nova York. Era uma instituição para rapazes, que se transformou
em instituição para tratamento de família.
Tratava-se de famílias pobres, cuja preocupação básica era a sobrevivência diária, a busca de soluções reais para os problemas reais em suas vidas. A urgência gerada
pela pobreza na obtenção das coisas necessárias à vida fazia com que essas pessoas encarassem a abordagem psicoterapêutica como um meio prático para vencer suas
dificuldades, procurando ver se o que estava sendo oferecido guardava alguma relação com seus problemas e que resultados poderiam ser colhidos de seus esforços.
Minuchin e sua equipe perceberam que as terapias, centradas no discurso direcionado para o insight em vez de ser direcionado para a ação, que buscam a expressão
dos sentimentos em vez da integração dos sentimentos com o comportamento e a mudança de atitudes sobre a vida e não sobre as condições da vida, estavam tão afastadas
das pressões cotidianas das pessoas pobres que não se mostravam úteis para elas. Desenvolveu, então, uma abordagem terapêutica fundada no imediatismo da realidade
presente, orientada para a solução de problemas e sobretudo contextual, tendo como referência o desenvolvimento social, que é tanto uma parte do setting quanto um
evento. A própria orientação estrutural foi lapidada pelas exigências das condições sociais dos adolescentes da Wiltwyck School.
Foi muito importante para o desenvolvimento da terapia estrutural a contribuição de Haley que, em 1965, associou-se a Minuchin e trabalhou com ele por vários anos
na Philadelphia Child Guidance Clinic, para a qual Minuchin e alguns colaboradores tinham se transferido nesse mesmo ano. Embora Haley seja visto como um terapeuta
estratégico, contribuiu signicativamente para o desenvolvimento de ambas as teorias (a estratégica e a estrutural) e para o repertório das técnicas estruturais.
Sua abordagem de solução de problemas e técnicas estratégicas é evidente na terapia familiar estrutural.
Durante os anos 70 e continuando nos anos 80, algumas das escolas estruturais mantiveram a atenção sobre os pobres e expandiram a abordagem para incrementar a inclusão
da comuni
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dade nos diagnósticos e intervenções familiares com estas famílias. Durante esse tempo, um número de terapeutas estruturais envolveu-se com o tratamento e a pesquisa
das chamadas famílias psicossomáticas. Segundo Aponte, enquanto muitas terapias atuantes na classe média foram adaptadas para trabalhar com pacientes das classes
pobres, a terapia familiar estrutural fez o caminho inverso: originou-se do trabalho com os pobres e subseqüentemente expandiu-se para outros estratos sociais e
econômicos como uma resposta terapêutica oportuna para a população, pois apresentava uma perspectiva prática e se firmava como uma teoria terapêutica com aplicação
universal.
Segundo James e Mackinnon (1981) foi a partir do exame da estrutura e dinâmica da produção delinqüente, das inconveniências e desordens familiares e do desenvolvimento
de abordagens teóricas que chegassem a essas famílias que se elaborou a construção teórica da Terapia Familiar Estrutural. Durante a década de 70 Jay Haley, Bráulio
Montalvo, Harry Aponte e outros trabalharam com Minuchin desenvolvendo sua concepção do funcionamento familiar usando conceitos de organização, de regras e de estruturas.
Na passagem da década de 60 para 70, Minuchin começou a focar as famílias de anoréxicos. Essas famílias diferiam daquelas de Wiltwyck porque eram de condição socioeconómica
elevada, estruturadas e com extremo superenvolvimento. Com esse estudo, os conceitos organizacionais se tornaram mais claros e permitiram a distinção entre famílias
funcionais e disfuncionais.
Os problemas estruturais são mantidos pelas interações correntes no sistema e freqüentemente emergem quando a família se defronta com um importante estágio de transição
que requer a reorganização da família. As abordagens tendem a ser breves, comumente menos de dez sessões, e buscam criar uma pequena unidade de mudança que se espalha
pelo sistema familiar levando à sua transformação e reorganização. A Terapia Familiar Estrutural foi um dos primeiros modelos de terapia familiar a incrementar a
demanda pelo rigor teórico e pela competência clínica. Minuchin (1974) em Families and Family Therapy delineou este contexto associando os conceitos teóricos com
as técnicas práticas.
A Terapia Familiar Estrutural tem em comum com as abordagens estratégicas a visão de que o comportamento emana do
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contexto no qual ocorre, ou seja, o sistema de relações familiares e sua interação com outros sistemas.
4. CONCEITOS TEÓRICOS BÁSICOS
Os terapeutas ligados ao MRJ desenvolveram os principais conceitos básicos utilizados pela terapia familiar sistêmica. Bodin (1981) nos oferece uma síntese dos principais
conceitos desenvolvidos pelos pioneiros:
^ Segundo Bodin, os primeiros desenvolvimentos teóricos e terapêuticos foram publicados por Jackson ou com sua participação e essas publicações foram examinadas
e descritas por Greenberg1 em 1977 podendo ser resumidas da seguinte maneira:
a. Homeostase familiar.
b. Feedback negativo e positivo.
c. Hipótese de regras (na família).
d. Regras descritivas e prescritivas.
e. Desenvolvimento de um novo ou mais abrangente conjunto de regras que impliquem em mudança efetiva nos relacionamentos.
f. O quidpro quo (tomar uma coisa pela outra) como uma regra familiar consciente ou inconsciente.
g. Pontuação - como estratagema de resgate para casais em conflito por terem diferentes perspectivas da realidade.
h. Causalidade circular (versus causalidade linear) ou negação do paradigma S-R do comportamento.
4.1. A Teoria da Comunicação
A hipótese do duplo vínculo foi desenvolvida por pesquisadores que mais tarde se agregaram ao MRI. Trata-se de uma redefinição da situação terapêutica, baseada na
comunicação: considera as interações entre 'outros significantes' em vez de fazê-lo em termos de transferência e contratransferência.
As contribuições da Teoria da Comunicação para a patogênese foram organizadas por Watzlawick, Beavin e Jackson
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(1967). Os autores emitem conceitos tais como: a negação da comunicação, a rejeição da comunicação, a desqualificação da comunicação. Tudo isto é subscrito pelo
axioma: a impossibilidade de não se comunicar.
Ao todo são cinco axiomas:
1.0 indivíduo não consegue não se comunicar.
2. Toda comunicação tem um conteúdo e um aspecto relacional. O aspecto relacional caracteriza a forma e é uma meta-comunicação.
3. A natureza da relação diz respeito à pontuação das seqüências entre os comunicantes.
4. Os seres humanos se comunicam pelas formas digital e analógica.
5. Qualquer comunicação pode ser simétrica ou complementar dependendo de ser baseada na igualdade ou na diferença.
Quanto ao primeiro axioma, os autores argumentam que todo comportamento é uma comunicação: tanto a atividade como a inati-vidade, as palavras ou o silêncio influenciam
os outros; o comportamento não tem oposto, ou seja, não existe um não comportamento. Conseqüentemente, por mais que o indivíduo se esforce, é-lhe impossível não
comunicar, assim como é impossível ao outro não responder a essa comunicação.
O segundo axioma, aspectos de conteúdo e de relação, implica que uma comunicação, ao mesmo tempo que transmite uma informação, impõe um comportamento. A produção
de disfunção derivada desse axioma consistem em:
a) a confusão dos níveis: o interlocutor não distingue se a mensagem prende-se ao conteúdo ou à relação;
b) discordância em cada um dos dois níveis;
c) uma rejeição da definição dada pelo outro;
d) um não confirma ou ignora a mensagem;
e) imprevidência em reorientar o feedback por ignorá-lo ou por interpretá-lo erroneamente e, no segundo nível, falhando na percepção de que o feedback não foi recebido
e compreendido e por isso falha em não repeti-lo.
Terceiro axioma: a pontuação de seqüências de eventos diz respeito à interação entre comunicantes. A melhor maneira que encontramos para expor a pontuação foi reproduzir
o gráfico fornecido pelos autores à página 52.
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O gráfico mostra a interação de um casal com um problema marital em que o marido reage com um retraimento passivo, enquanto a esposa o critica e censura irritantemente.
O marido dirá que o retraimento é sua única arma contra a censura dela enquanto a esposa dirá que o critica por causa de sua passividade.
Ele percebe apenas as tríades 2-3-4,4-5-6, 6-7-8, etc, em que o seu comportamento (setas contínuas) é 'meramente' uma resposta ao comportamento dela (setas tracejadas).
Ela pontua a seqüência de eventos nas tríades 1-2-3,3-4-5,5-6-7, etc. Não suspeita que determina o comportamento do marido. Pensa que apenas reage a esse comportamento.
Quarto axioma: A linguagem analógica guarda uma estreita relação entre o símbolo e a coisa simbolizada. Por exemplo, o desenho é uma linguagem analógica. O desenho
de um gato representará, para um receptor, um gato, independentemente da língua que ele fale. A linguagem digital, por sua vez, depende da convenção linguística.
A palavra gato evocará a imagem desse animal somente para um falante da língua portuguesa. Não terá nenhum significado para um chinês (que não tenha aprendido seu
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significado na língua portuguesa, evidentemente). A comunicação analógica seria, então, virtualmente, toda comunicação não verbal, incluindo postura, gestos, expressão
facial, inflexão de voz, seqüência, ritmo e cadência das próprias palavras. Isso nos leva a concluir que o aspecto de conteúdo da comunicação (segundo axioma) é
expresso pela comunicação digital enquanto o aspecto relacional é expresso pela comunicação analógica.
As disfunções relacionadas com este axioma derivam do fato de essas duas linguagens coexistirem e se complementarem na comunicação e da dificuldade que sentem, tanto
o emissor, quanto o receptor, de combiná-las e de traduzir uma para a outra.
A linguagem digital apresenta uma sintaxe altamente complexa e lógica poderosa mas falha semanticamente no campo das relações. A linguagem analógica é semanticamente
adequada, mas falha na sintaxe que não é apropriada para eliminar a ambigüidade da natureza da relação. Quando alguém diz, por exemplo, concordo, esse termo deverá
vir acompanhado de todos os aspectos nãoverbais da comunicação que confirmem sua emissão, como mover a cabeça para cima e para baixo, por exemplo. Cabe ao receptor
decodificar esses elementos.
As disfunções relativas ao quinto axioma podem ser descritas da seguinte maneira:
Simetria e complementaridade:
a) escalada simétrica - ocorre a competitividade em que cada um deseja, pelo menos, colocar-se em pé de igualdade com o outro;
b) complementaridade rígida - ambos seguem regras não verbalizadas diferentes, tais como tradições culturais;
c) relações metacomplementares não resolvidas - cada um dos participantes permite ou tenta forçar o outro a protegê-lo, a tomar conta ou a ser simétrico.
4.2. O Conceito de Disfunção
Em O mito da normalidade, Jackson (1967) expressa seu ceticismo sobre o conceito de família normal. Para ele não há um modelo único de normalidade nas famílias ou
nos casamentos e
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qualquer tentativa de encontrar tal padrão esbarra em problemas etnopolíticos que a conduzem à idéia do 'convencional'.
No entanto, o conceito de funcionalidade e disfuncionalidade mostra-se bastante útil para as finalidades terapêuticas porque permite a inclusão da noção de problemas
e dificuldades.
O MRI opõe-se à noção de que a família normal resolve seus problemas. Para os terapeutas do MRI, numa família de bom funcionamento, os problemas persistem, mas não
paralisam. Os problemas podem ser solucionados em famílias que usam 'bons argumentos', ou seja, argumentos que congregam os membros, em vez de afastá-los uns dos
outros.
O Brief Therapy Center do MRI trabalha com o conceito de que problemas derivam de dificuldades como resultado da persistência em desenvolver esforços com as mesmas
abordagens que provaram ser inadequadas para tais dificuldades. Esses problemas são a negação das dificuldades, ênfase excessiva e esforços bem intencionados (tentar
animar o depressivo, por exemplo).
4.2.1. O ciclo de desenvolvimento familiar.
Famílias disfuncionais desenvolvem problemas porque não são capazes de ajustar-se às transições que ocorrem no ciclo vital familiar. Tornam-se rígidas em determinados
pontos. Por exemplo, a dificuldade das famílias de jovens esquizofrênicos em permitir que eles deixem o lar. Pode-se falar, então, em topologia familiar ou sintomatologia
familiar: o problema não é o jovem, mas a maneira como a família reage, interage e tenta adaptar-se ao período de crise.
O ciclo de desenvolvimento familiar (Haley, 1973) pode ser: Previsível: a) Esperado - casamento, nascimento de filho, início na escola, abandono do ninho, casamento
do jovem, divórcio, tornar-se avô, aposentadoria, doenças, morte.
b) Não esperado - divórcio, morte (incluem-se em ambos). Imprevisível: a) Esperado - retorno da mulher ao trabalho após os filhos estarem crescidos.
b) Não esperado - 1) doença grave, acidente grave, fracasso ou sucesso muito grandes; 2) roubo, rapto, assassinato.
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4.2.2. Função e disfunção
As categorias de famílias disfuncionais são designadas pelo nome da queixa apresentada. Por razões semânticas temos: famílias esquizofrênicas, famílias psicossomáticas,
famílias asmáticas, famílias com colite ulcerativa, famílias delinqüentes, etc. Segundo Bodin (1981), esta nomenclatura causa certo embaraço porque presume que a
família que apresenta determinada queixa agirá de acordo com certos padrões de interação sem levar em conta os princípios de equifmalidade (muitas origens diferentes
podem conduzir aos mesmos resultados) e equipotencialidade (a mesma origem pode conduzir a resultados diferentes).
Bodin (1981) reúne os estudos das relações interpessoais realizados por vários autores:
a) Os conceitos de simetria e complementaridade proposto por Bateson em 1936, segundo o qual pessoas assertivas interagindo com pessoas submissas tenderiam a polarizar-se
uma na outra, processo que ele chamou esquismogênese complementar. No caso de pessoas assertivas interagindo com outras pessoas assertivas a tendência é manter uma
igualdade uma com a outra, processo que ele denominou esquismogênese simétrica.
b) As noções de meta-complementaridade (A força B a tomar conta dele) e metasimetria (A força B a ser igual a ele) de Watzlawick, Beavin e Jackson em 1967.
c) Conceito de relações paralelas, de Lederer e Jackson em 1968, nas quais os esposos, de maneira suave, alternam entre relações simétricas e complementares enquanto
se adaptam às mudanças de situação.
d) A tipologia diádica de Sluzki e Beavin em 1965, descrita a seguir: I. Simetria estável - cada um dos discursos sucessivos de A e B define as relações simétricas.
II. Complementaridade estável - os discursos sucessivos de A e B concorrem para definir um deles como dominante e o outro como submisso.
III. Competição simétrica pela supremacia - os discursos sucessivos de A e B entram em conflito, cada qual querendo sobrepujar o outro.
IV. Competição simétrica pela dependência - os discur
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sos sucessivos de A e B entram em conflito, cada qual querendo ser dependente do outro.
V. Competição assimétrica pela supremacia e simetria - os discursos sucessivos de A e B entram em conflito, um querendo a supremacia e o outro querendo a simetria.
VI. Competição assimétrica pela dependência e simetria -os discursos sucessivos de A e B entram em conflito, um querendo ser dependente e o outro querendo a simetria.
VIL Fluidez - os discursos sucessivos de A e B não são predominantes em nenhuma das seis configurações, mas flutuam por elas todas.
A fluidez e o paralelismo se assemelham, porém no paralelismo o par alterna as configurações para adaptar-se às mudanças das circunstâncias.
Para a abordagem estrutural, os níveis funcional e disfuncional são determinados pela adequação da adaptação à organização estrutural do sistema, às solicitações
de uma operação e um conjunto de circunstâncias. A organização estrutural de famílias refere-se aos padrões de relação comuns a todas as famílias. Função designa
as áreas de atividade social humana. As circunstâncias dizem respeito ao contexto (tempo, lugar e parâmetros sociais em que a família realiza uma função).
Aponte (1981) diz que a abordagem estrutural é construída sobre a concepção de Lane (1970) de que "há no homem um mecanismo inato, transmitido geneticamente, que
age como uma força estruturante" (diátese). Assim a natureza do ser humano e da sociedade seriam vistas como contendo em si certas dinâmicas predeterminadas que
influenciam fortemente as direções e as extensões de regras que governam as relações humanas; a explicação dessas regras permaneceria no campo das crenças e dos
valores tais como representados na religião, filosofia e ideologia política, inclusive nas várias abordagens psicológicas, com seus valores implícitos e não implícitos
sobre normalidade e anormalidade.
A família é um sistema governado por regras compreendendo subsistemas que interagem mutuamente e afetam uns aos outros. Há um subsistema composto pelos pais, outro
pelos filhos, pelo sexo feminino, pelo sexo masculino, por um indivíduo, etc. As mudanças ocorridas em um subsistema afetarão a família
38
toda. O funcionamento de cada membro é determinado pela organização familiar e depende da posição desse mesmo membro na estrutura familiar (Minuchin, 1980).
O sistema familiar é considerado funcional ou disfuncional dentro de seu contexto social. 'Bom' e 'mau' funcionamento podem ser descritos como realização social
mais estrutura familiar. A estrutura psicológica do indivíduo é vista como interdependente com a estrutura social da pessoa e a estrutura social é tratada como um
meio pelo qual o indivíduo funciona e se expressa. É consenso geral que a família é o sistema social que mais concorre para formar as bases da socialização individual.
Os códigos reguladores do sistema são conhecidos pelos seus padrões manifestos. Podemos saber o que é disfuncional quando compreendemos o que é funcional. Minuchin
(1980) diz que não é a ausência de problemas que distingue uma família normal de uma família anormal e que por esse motivo o terapeuta necessita de um "esquema conceituai
do funcionamento familiar para analisar uma família". Ele propõe que a família seja compreendida como uma estrutura que passa por um desenvolvimento e por um processo
de adaptação.
A consideração de dois aspectos fundamentais sustentam a discussão sobre funcionalidade e disfuncionalidade:
1. As estruturas não são deterministas. Elas viabilizam o funcionamento com maiores ou menores possibilidades. A habilidade de uma família de funcionar adequadamente
depende do grau em que a estrutura familiar é bem definida, elaborada, flexível e coesa.
2. Estruturas disfuncionais não são o mesmo que o sintoma, pois o que determina a presença ou ausência de problema é a maneira pela qual a família se adapta às solicitações
da função em certas circunstâncias. Por exemplo, se um garoto cabula aula, a constatação de que ele e sua mãe formaram uma coalizão contra o pai não explica a cabulação.
É preciso compreender os padrões estruturais vigentes bem como as funções destes para a família e para os contextos sociais. Quando dizemos que um padrão relacional
é uma disfunção estamos atendendo a uma finalidade prática de comunicação, pois na verdade tanto a família quanto o indivíduo são constituídos de muitas estruturas
complexamente
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inter-relacionadas. Da mesma maneira não é apropriado dizer que uma estrutura é, por si mesma, funcional ou disfuncional. O emaranhamento de uma família é que, estruturalmente,
serve de base para o comportamento sintomático da família. Com essa compreensão podemos falar de estruturas disfuncionais, de sintomas e tipos de problemas relacionados
com os padrões.
Por estrutura entendemos os padrões de comportamento através dos quais as pessoas remetem umas às outras com a finalidade de levar a cabo determinadas funções. Estas
funções são modos de ação pelos quais o sistema preenche seu propósito e as operações são aquelas funções realizadas em operações específicas. Os membros do sistema
estruturam seus relacionamentos de acordo com os imperativos de cada operação. A função parental de estabelecer a disciplina é realizada, por exemplo, em operações
específicas tais como a mãe dizer à filha a que horas deve voltar para casa.
A estrutura de uma família é única, assim como a personalidade de cada indivíduo. Podemos distinguir entre estruturas dominantes e estruturas subordinadas. Estruturas
dominantes são aquelas sob as quais a maioria das operações familiares se baseiam. Estruturas subordinadas são menos solicitadas embora sejam o suporte das dominantes.
O pai, que solicita a opinião de sua esposa para tomar uma decisão com relação aos filhos, está formando uma estrutura subordinada com relação ao cuidado dos filhos,
sendo que a mãe, se assumiu a educação dos filhos, forma uma estrutura dominante.
A estrutura compreende três principais dimensões: fronteira, alinhamento e poder. Por exemplo, se à mãe é atribuído o papel de ditar as regras para seus filhos,
isso diz respeito a fronteiras; se o pai concorda ou discorda, diz respeito ao alinhamento. As fronteiras determinam quem está dentro e quem está fora de um subsistema
e definem o papel de cada um dentro dele. Os pais, por exemplo, assumem, perante seus filhos, papéis escolhidos por eles mesmos e também definidos pela sociedade.
O alinhamento diz respeito à possibilidade de membros de um sistema se unirem ou se oporem para levar a cabo uma operação (Aponte, 1976). Nesse processo se incluem
os conceitos de coalizão e de aliança. A coalizão se dá quando dois membros se unem contra
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um terceiro. Na aliança dois membros se unem para alcançar um objetivo comum. Poder se refere à influência de cada membro no resultado de uma atividade. O poder
é relativo. Primeiro porque, estruturalmente, se restringe à operação. (A mãe pode exercer forte influência sobre os filhos em casa, mas quase nada quando eles estão
fora) e segundo porque é gerado pelo modo como a família interage. (A autoridade da mãe depende do apoio do pai e da aquiescência dos filhos).
Umbarger (1983) define os conceitos de fronteira, alinhamento e poder proposto por Minuchin:
Fronteira. Uma fronteira pode ser experimentada como interações governadas por regras produzidas regularmente pelas pessoas durante largos períodos de tempo. Nos
grupos familiares as fronteiras são fenômenos interativos que acontecem no tempo. Elas concorrem para consumar e definir a separação entre os subsistemas e podem
ser observadas através das condutas verbais e não verbais que permitem ou que proíbem a discussão de assuntos vitais. As fronteiras podem ser abertas ou fechadas.
Por exemplo, o casal pode interditar seus filhos de tomar conhecimento de certas particularidades a respeito de seu casamento. Por outro lado, pode ocorrer que uma
família, rotineiramente, admita seus parentes e amigos na discussão de seus problemas.
Nas famílias disfuncionais, as fronteiras tanto podem apresentar uma tal rigidez que torna fácil sua identificação como serem completamente frouxas (difusas). As
interações são marcadas pelo emaranhamento e pelo desligamento. No emaranhamento não se distinguem os espaços próprios de cada indivíduo. As pessoas são de tal modo
envolvidas que uma parece ser parte da outra. No desligamento, ao contrário, as fronteiras são tão rigidamente delimitadas que um membro da família parece nada ter
a ver com o outro. Um terceiro tipo de disfunção relacionado com fronteiras é a violação das Junções das fronteiras, que consiste na intrusão de membros da família
nas funções de outro membro. (Um filho que dita regras ao irmão, em lugar do pai, por exemplo).
Alinhamento. Por alinhamento compreendemos as condutas de coalizão, que pode ser estável ou circular, e aliança (Minuchin, Rosman e Baker, 1978). Na coalizão estável
os membros de uma família se unem com um terceiro membro. A coalizão circular é,
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na verdade, uma coalizão estável, com a particularidade de alguns membros da família procurarem distribuir a tensão entre si designando um terceiro como fonte de
seus problemas e dando origem à triangulação (cada uma das partes em oposição elege um terceiro como aliado, de modo que este se vê na contingência de cooperar ora
com uma das partes, ora com a outra).
Poder. Os problemas estruturais relacionadas com poder são definidos em termos de quem tem poder em relação a quem e sobre o quê. Nas relações de poder entram em
jogo a atividade ou passividade, a concordância ou discordância adaptadas a quem tenta exercer sua influência na área em que o funcionamento está envolvido. Por
exemplo, a mãe pode ser capaz de impedir o filho de brincar com seus amigos, mas não consegue impedi-lo de ver televisão até tarde.
O problema estrutural básico na relação de poder é a falta de poder funcional no sistema. Duas situações comuns nesse tipo de problema são o funcionamento executivo
fraco e a inibição do desenvolvimento potencial. No funcionamento executivo fraco, os pais não têm a autoridade suficiente para dirigir seus filhos. Na inibição
do desenvolvimento potencial, o indivíduo não consegue ter atitudes próprias de sua idade (em virtude da organização familiar ser deficiente).
Os problemas clínicos relacionam-se com esses três princípios. Há, ainda, um outro problema estrutural que as perpassa. E a suborganização, mais comum nas famílias
pobres. A sub-or-ganização é um termo aplicado às famílias cujo repertório de formas de organização é muito limitado. São famílias rígidas e inconsistentes no emprego
de suas estruturas.
4.3. A Formação do Sintoma
Weakland, Fisch, Watzlawick e Bodin (1974) expressaram o conceito de que a formação do problema deriva do exagero ou da negação dos problemas cotidianos transformados
em Problema com "P" maiúsculo. A principal causa da formação do problema decorre de os participantes continuarem tentando uma determinada solução a despeito da evidência
de que esta não funciona. Essa conduta de mais da mesma coisa transforma a solução no
42
próprio problema, pois cria um emaranhado sobre o que a princípio era uma simples dificuldade. Essa imperícia em lidar com a dificuldade apresenta-se de três maneiras:
1. A ação é necessária, mas não é efetivada. Há negação da dificuldade.
2. Ações são efetivadas quando não deviam. Há negação ou exagero da dificuldade.
3. A ação é efetivada em nível errado.
Sem entrar no mérito da diátese (teoria da hereditariedade), o fato é que os indivíduos apresentam graus diferentes de predisposição ao stress, tanto qualitativa
quanto quantitativamente. Embora todos os membros da família sejam afetados pela sintomatologia de qualquer um dos membros, de acordo com a teoria geral de sistemas
cada um é afetado em graus diferentes e em diferentes direções. Um membro da família pode ser identificado como paciente por um desses motivos:
a. utilidade - a criança é o único elo de um casamento fracassado,
b. semelhança - resultado de sanção de script ou profecia auto-realizadora,
c. bode expiatório - a família responsabiliza um de seus membros pela confusão ou mau funcionamento do sistema familiar em sua totalidade.
A terapia familiar estrutural vê os sintomas ou os problemas como resultado de um problema na estrutura familiar. Os subsistemas são inadequadamente desarticulados
ou vinculados enquanto as hierarquias no interior dos subsistemas ou entre eles são difusas. Segundo James e Mackinnon, os sintomas são sistemas mantidos mais do
que sistemas mantenedores, ou seja, sua função (aparente) não é relevante.
Na terapia familiar estrutural o terapeuta concentra-se na definição do problema a ser resolvido e, tendo em mente que este provém das estruturas de sua base sistêmica,
provoca mudanças nessas estruturas.
O impacto da terapia pode ser maximizado pelo seu comportamento que reforça continuamente as metas estruturais. Cada operação em torno da qual o terapeuta e as pessoas
em tratamento se envolvem constitui uma nova oportunidade de afetar as estruturas geradoras de problemas ou outros padrões estruturais relacionados com as estruturas
visadas.
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Sintoma é o ato de comunicação com mensagens qualitativas que desempenham o papel de um contrato entre dois ou mais membros da família e tem uma função no interior
da rede interpessoal. Quando uma pessoa está "em uma situação insustentável e tenta sair dela" (Haley, 1973), não encontrando o meio apropriado, desenvolve um sintoma.
A família é um sistema interpessoal de tipo não-linear com complexos mecanismos de feedbacks padrões de comportamento que se repetem em seqüência. Por exemplo, pai,
mãe e filho estão viajando de carro. A esposa manifesta pressa em chegar. O marido acelera em um sinal amarelo. A esposa o critica. Ele acelera ainda mais. Ela protesta
mais alto. Ele grita com ela. A criança começa a chorar. A esposa se ocupa da criança e ele desacelera. O comportamento da criança tornou-se um elemento em um processo
de feedback. Há toda probabilidade de que esse padrão tenha ocorrido no passado e que reapareça no futuro. Provavelmente o garoto seja encaminhado à terapia porque
'chora demais'. Ele tornou-se, então, o paciente identificado da família.
4.4. A Função do Diagnóstico
Os membros do MRI fazem uma distinção entre o diagnóstico dos sistemas familiares conduzido no contexto da pesquisa e o da terapia. Enquanto na pesquisa o interesse
se volta para os aspectos funcionais ou disfuncionais do sistema familiar, na terapia familiar é importante conhecer o funcionamento da família 'normal' para obter
esclarecimento sobre a resistência como encobridora de disfunções específicas. Portanto, o diagnóstico do funcionamento da família é separado do tratamento somente
quando o objetivo é a pesquisa.
O objetivo é conduzir o diagnóstico até o ponto de equilíbrio entre o indivíduo e os fatores interacionais. O diagnóstico em terapia estratégica é feito por meio
de uma intervenção e observação da resposta. Por exemplo, o terapeuta pode solicitar que pai e filho discutam um assunto qualquer para saber até que ponto eles se
sentem à vontade na presença da mãe. Assim, cada
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ato terapêutico vale como diagnóstico e cada diagnóstico é uma intervenção terapêutica em potencial, pois a meta fundamental é mudar a seqüência disfuncional de
comportamentos da família. A entrevista diagnostica se dá em várias etapas. O primeiro passo consiste em estabelecer um contato 'social' em que o terapeuta questiona
sobre o problema tal qual ele é definido pela família, mesmo que o foco recaia sobre o paciente identificado, pois a ênfase no problema apresentado aumenta a motivação
da família para mudar e, ao mesmo tempo, permite o controle da situação. Outro motivo para essa conduta é manter a família em tratamento. Os primeiros terapeutas
tinham como preceito 'distribuir o problema', isto é, assumir que todos os filhos tinham problema (e não apenas o PI). Essa conduta piorava a situação dos pais que
se sentiam acusados de prejudicar cada um de seus filhos, abandonando a terapia.
Na terapia estrutural o diagnóstico e a atividade terapêutica constituem facetas de um mesmo ato: a intervenção terapêutica. Tendo em mente que o problema é sustentado
pela estrutura familiar e pelo seu ecossistema, compete ao terapeuta compreendê-la, examiná-la e experimentá-la em ação na sessão, investigando o que ela pode e
o que não pode produzir. A maneira de levar a cabo essas metas é intervir diretamente nas transações da família com vistas a provocar mudanças nos padrões estruturais
de suas seqüências. Trata-se, portanto, de identificar o problema, determinar o seu locus no ecossistema e definir as estruturas do sistema que sustentam o problema.
Identificar o problema significa localizar onde a estrutura do sistema falha em realizar sua função, bem como verificar sua relação com outros problemas. Para os
propósitos terapêuticos, o problema não é a insegurança de uma mulher, mas o fato de ela evitar pessoas. Um problema é, ao mesmo tempo, autônomo, ou seja, permanece
livre de outros problemas e dependente, isto é, mantém com outro problema uma relação de reforço mútuo, embora tenham bases estruturais diferentes, ou quando deriva
de outro, sendo que também neste caso ambos se influenciam mutuamente.
Determinar o locus implica em saber para quem o problema é uma preocupação no presente. Não se busca identificar sua origem. A terapia familiar estrutural distingue
um locus primá
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rio, um locus secundário e um locus terciário. O Locus primário é originado nos sistemas cuja relação gera um problema que envolve a todos ou somente alguns dos
subsistemas. Locus secundário é o envolvimento ativo do problema. Refere-se à estrutura de sistemas que dá origem e mantém o problema, porém não é essencial para
o problema. Locus terciário é o envolvimento passivo do problema. Tomemos como exemplo uma família composta de pai, mãe e filho, em que o pai e a mãe mantêm um conflito
crônico. Se o filho costumeiramente se alia à mãe contra o pai, ele faz parte do locus primário. Se ele sempre toma parte nas discussões, contribuindo para elevar
o nível do conflito, porém de maneira incidental, ele estará no locus secundário (envolvimento ativo). Se ele ficar à margem das discussões fará parte do locus terciário
(envolvimento passivo).
Definir as estruturas implica na investigação das conexões das estruturas relacionais entre os membros da família em termos de fronteiras, alinhamento e poder e
distingue entre estruturas dominantes e estruturas subordinadas. As estruturas serão consideradas em termos de riqueza/pobreza, flexibilidade/rigidez, coerência/incoerência,
entendendo-se por riqueza as variedades de estruturas que o sistema leva em conta para realizar suas funções, por flexibilidade a habilidade do sistema em alterar
sua organização para conseguir seus objetivos e criar novas estruturas e por coerência a consistência e a continuidade relativas da identidade e relacionamento do
sistema com seu ecossistema já que sua estrutura envolve a mudança de circunstâncias e a passagem do tempo, modificando-se por meio deles.
As ações do terapeuta são orientadas pela construção de hipóteses sobre o problema e suas soluções. Aponte (1979) descreve as várias etapas de uma sessão:
1. Problema.
2. Coleta de dados.
3. Hipótese.
4. Metas.
5. Intervenção:
a. para promover mudança,
b. para controlar as variáveis na transação.
6. Feedback. O processo de identificar o problema, levan-
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tar dados, formular hipóteses, estabelecer metas e intervenções é inerente às ações como um todo e a cada ação em particular na terapia familiar estrutural durante
o tratamento.
O terapeuta estrutural baseia seu diagnóstico da família na maneira como os membros da família respondem às perguntas, estabelecem regras e nas informações obtidas
a respeito do problema apresentado. Por exemplo, se o filho mais velho tenta responder a todas as perguntas do terapeuta, este pode começar a formular um mapa estrutural
no qual esta criança aparece ocupando uma posição elevada na hierarquia. Isso mais tarde será verificado pela observação da reação da criança quando o terapeuta
contesta as regras não permitindo que a criança responda.
4.5. Como Ocorre a Mudança
A abordagem estratégica leva em consideração a teoria da mudança, cujas principais características levantadas por Stanton (1981) são as seguintes:
a. A mudança terapêutica se dá por intermédio do processo interacional quando o terapeuta intervém ativamente e diretivamente.
b. O terapeuta trabalha para incrementar novos padrões de comportamento desestruturando o sistema familiar vicioso.
c. O tratamento não será considerado bem-sucedido se não houver mudança benéfica no problema apresentado.
O Grupo MRI contribuiu com o conceito de níveis e natureza da mudança. Ele identifica dois tipos de mudança.
1. Mudança de primeira ordem - o PI muda, mas o sistema não se altera. Ex.: O filho melhora na escola, mas uma filha começa a apresentar problemas escolares (em
seu lugar). O sistema familiar não mudou (mudança isomórfica).
2. Mudança de segunda ordem - a mudança de um comportamento altera todo o sistema.
Para (Haley, 1976) é mais eficaz obter mudança iniciando-se o trabalho com o sintoma expresso pela família e estabelecen-do-se metas intermediárias, cuidando-se
de "uma coisa de cada vez", ou seja, mantendo-se o foco no PI. Problemas de outros membros podem ser objeto de um segundo contrato, após terminar a terapia do primeiro.
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Para a terapia familiar estrutural, as mudanças na estrutura produzem mudanças no funcionamento. Esta concepção básica repousa sobre a premissa de que todo funcionamento
é produto da estrutura do sistema no qual se origina, portanto, a expectativa é de que o terapeuta intervenha nas transações que se apresentam como manifestações
da estrutura geradora de problema, de tal maneira que o sistema internalize as mudanças estruturais e, em conseqüência, passe a funcionar diferentemente. A operação
deve trazer consigo investimento suficiente por parte das pessoas do sistema ou tornar-se tão investida por meio da aplicação técnica que uma alteração na estrutura
das transações na operação reverbere profundamente nas estruturas geradoras de problema.
4.6. Como é Pensado o Papel do Terapeuta
Para a terapia familiar sistêmica, qualquer que seja sua abordagem, compete ao terapeuta controlar a sessão, de maneira suave e discreta. A terapia se desenvolve
em fases com procedimentos específicos. Na fase inicial o terapeuta introduz o formato da terapia, coleta informações que definam o problema, aventa hipóteses sobre
quais comportamentos o sustentam, toma conhecimento acerca dos desejos dos participantes e estabelece as metas do tratamento. Na fase intermediária, basicamente,
concebe e conduz intervenções comportamentais específicas, especialmente aquelas destinadas a produzir mudança de segunda ordem (i.e., a mudança de um comportamento
altera todo o sistema). Na fase final, o terapeuta lembra aos pacientes que o objetivo do tratamento era a mudança de comportamento que, espera-se, continue sendo
ampliada. Para pacientes mais negativistas expressa pessimismo quanto a qualquer progresso futuro e ceticismo quanto à permanência do progresso já alcançado.
Os terapeutas estratégicos são pragmáticos. Sua abordagem é dirigida para provocar mudanças de comportamento, isto é, alterar as seqüências repetitivas apresentadas,
através de uma intervenção e não provocando insight ou tomada de consciência, pois estes, por um lado, não são necessários para que as mudanças ocorram e, por outro,
incrementam a resistência. Para alterar as seqüências repetitivas apresentadas pela família no presente é
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necessário uma intervenção. Tornar a família consciente disso resulta no incremento de sua resistência.
Para obter a alteração das seqüências repetitivas que sustentam o sintoma utilizam-se a tarefa e a diretividade, porém tomando o cuidado de evitar o confronto, tratando
o problema como a família o define para evitar a resistência. O Grupo de Milão minimiza a resistência pedindo a um membro da família que descreva a interação de
outros dois. Desse modo estes não têm que defender suas ações. Quando há desacordo sobre o que um problema é, a tendência é enfatizar o ponto de vista de um parente.
A abordagem estratégica preconiza o envolvimento de todo o sistema afim (avós, escola, colegas de trabalho, etc.) de interesse para o tratamento, e não apenas da
família imediata. Se julgar oportuno, o terapeuta pode decidir entrevistar indivíduos, pais ou casais, porém, envolvendo no mínimo duas pessoas.
Na entrevista são considerados os processos de união, concorrência e seqüência. Com os envolvidos no problema reunidos em uma sala, cria-se a oportunidade para que
todos se unam no trabalho de seus relacionamentos com mútua consciência, consentimento e esforço. A primeira sessão começa com um processo de união.
A prática da terapia familiar estrutural é caracterizada por uma atenção sobre o processo e pela atuação durante a sessão. A atenção não se volta necessariamente
para o problema apontado pela família, mas para a seqüência comportamental. O importante é identificar o subsistema que concorre mais fortemente para a manutenção
do problema.
O terapeuta estrutural observa os processos de transação isomórficos na estrutura familiar. Uma interação na sessão em que o pai admoesta o filho e é recriminado
pela esposa, que o critica por sua severidade, pode constituir um isomorfismo para a estrutura familiar na qual o pai é desligado e a mãe envolvida com a criança.
As informações obtidas pelo terapeuta por meio do discurso da família são restringidas ao necessário para recolocar o problema de maneira a facilitar a mudança de
comportamento e solução do problema. Superatividade descrita como desobediência, depressão como preguiça, enurese como comportamento infantil são algumas das recolocações
mais freqüentes. Isso cria
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uma 'realidade funcional' semelhante à 'reestruturação' do problema da abordagem estratégica. Isso tanto muda o ponto de vista da família quanto indica as direções
possíveis para a ação.
O objetivo dos terapeutas estruturais é mudar o funcionamento dos subsistemas alterando as fronteiras e as hierarquias no interior da família. A mudança se dá de
duas maneiras: primeiro o terapeuta altera a composição dos subsistemas clarificando e refazendo as fronteiras. Em seguida, altera a hierarquia nos subsistemas mudando
a posição dos membros. Isso alivia o indivíduo de restrições severas ao seu funcionamento. As mudanças ocorridas na sessão podem ser reforçadas por tarefas no intervalo
entre as sessões.
O terapeuta estrutural deve ser capaz de manter um delicado equilíbrio nos movimentos de unir-se e afastar-se da família enquanto desafia e muda seu modo de interação:
ter a habilidade de criar intensidade, promover conflito, tomar o partido de uma pessoa contra outra e usar sua posição privilegiada para influenciar outras pessoas
em direção a mudanças e manter uma certa distância para evitar ser envolvido nas regras disfuncionais da família.
Deve, ainda, ser capaz de dirigir a família para certas tarefas, ser atuante dentro e fora das coalizões, observar o processo das interações espontâneas ocorridas
na sessão e direcionar a família para interações mais 'funcionais', produzindo mudanças na família através da aliança, da avaliação da organização estrutural do
sistema familiar e do tratamento das disfunções.
Ao estabelecer aliança com os membros da família no começo de cada sessão o terapeuta tem o objetivo de estabelecer uma relação eficiente na família no menor espaço
de tempo possível. Pode aliar-se com cada uma das pessoas ou manter uma atitude fechada, conversando mais tempo com um membro que pareça estar diminuído na sessão.
Para empregar esta habilidade com eficiência, o terapeuta deve contar com suas qualidades pessoais, tais como honra, empatia e espontaneidade.
Durante o processo o terapeuta usa a linguagem da família e fica atento às oportunidades de criar uma 'realidade funcionar, uma nova maneira de ver o problema que
permita a emergência de novas soluções. O sucesso em conseguir uma realidade funcional é crucial, pois sem uma mudança na maneira como os mem-
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bros da família vêem o problema eles continuarão a acreditar que este é imutável.
Ao apresentar uma maneira diferente de compreender o problema o terapeuta facilita aos membros da família manejarem com eficiência os problemas apresentados ou um
problema afim surgido na sessão. Por exemplo, se o problema apresentado é o molhar a cama por uma criança de 8 anos, a constelação de comportamentos 'infantis' pode
incluir chupar o dedo. Para mobilizar a mudança o terapeuta terá mais facilidade em focar o chupar o dedo quando ele ocorre na sessão do que sobre o molhar a cama.
Primeiro o terapeuta reafirma a responsabilidade usual da família sobre o comportamento. Depois intervém, introduzindo uma nova realidade e dirigindo os membros
da família a responder de uma maneira diferente. Por exemplo, o comportamento de uma criança pode ser recolocado como 'desrespeitoso', e o terapeuta pode solicitar
ao pai (ou à mãe) desligado que lide com a criança durante a sessão. Os atos iniciais são desajeitados, mas melhoram à medida que o terapeuta aumenta a intensidade
da interação pai/criança, mantendo o foco sobre o comportamento 'desrespeitoso' da criança e apoiando a demanda por respeito que o pai manifesta.
O terapeuta não permite que outros subsistemas intervenham. Isso se chama 'estabelecer fronteiras'.
Para alterar a hierarquia de um subsistema, o terapeuta o desequilibra, aliando-se com uma pessoa e desafiando as regras que dão sustentação à ordem hierárquica.
Consideremos, por exemplo, um casal assimétrico sendo que o marido detém a supremacia.
- Ambos acreditam que ela seja incompetente e necessite da proteção do marido.
- O terapeuta alia-se a ela conversando sobre algo em que ela é competente.
- Esta aliança leva a esposa a colocar-se perante o marido de uma maneira mais igualitária.
- Isso coloca em cheque as regras de suas relações.
Tendo como guia as metas estruturais, o terapeuta encadeia as sessões de modo que haja uma continuidade do trabalho. A realidade funcional criada pela recolocação
do comportamento é mantida em cada sessão. Tarefas diretivas podem ser usadas
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para manter as mudanças ocorridas na sessão.
Se, por exemplo, uma sessão se desenvolveu em torno do envolvimento de um pai desligado do filho, pode-se incumbi-lo de tomar todas as decisões relativas ao comportamento
da criança durante a semana seguinte.
Ao aproximar-se mais do filho, a comunicação entre eles certamente melhora.
A terapia é considerada concluída quando as metas forem alcançadas.
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5. QUADRO COMPARATIVO
Transcrevemos a seguir um quadro comparativo entre os procedimentos da abordagem estratégica (Palo Alto) e a abordagem estrutural elaborado por Casabianca e Hirsch
(1979) p.27.
QUADRO COMPARATIVO
Palo Alto
Estrutura)
Foco de análise
Processo de interação
Como se organizam: interdependência e hierarquia
Objeto de mudança
Seqüências que
mantêm
o problema
Estrutura
Foco de intervenção
Seguimento mais motivado para a mudança
Subsistemas
Local da mudança
Fora da sessão
Na sessão
Intervenções
Redefinições Diretivas Prescrições (diretas ou paradoxais)
Redefinições Ações
Desequilíbrio Diretivas ou prescrições (diretas)
Tipo de comunicação
Verbal
Não-verbal (espaço e movimento)
Distribuição das sessões
Dez no máximo (Geralmente uma por semana ou ou quinzena)
Quantidade não especificada; espaçadas entre si (três ou mais semanas)
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Foco de análise. Diz respeito ao objetivo de cada um dos modelos. Ao Grupo de Palo Alto interessam os processos, as seqüências repetitivas de condutas que contem
a disfunção. Busca localizar o comportamento que desencadeia a conduta-problema e quem a manifesta, bem como os comportamentos de quem a acompanha na tentativa de
solucioná-la. Trata-se de identificar o ciclo perpetuante.
Ao modelo estrutural interessa saber como esses processos se organizam em relação à interdependência e à hierarquia: quem faz o que com quem e quem decide o que
no sistema. O terapeuta procura conhecer as regras do sistema para construir o mapa estrutural.
Objetivo da mudança. Diz respeito ao funcionamento do sistema que se quer modificar. Relaciona-se com a hipótese formulada pelo terapeuta sobre qual é o 'verdadeiro'
problema.
O modelo de Palo Alto busca solucionar o problema modificando a seqüência de condutas que se reforçam mutuamente, com a compreensão de que uma interação específica
deve ser mudada, não porque haja alguma maneira de determinar que seja disfuncional em si mesma, mas porque mantém o problema.
Para o modelo estrutural o que importa é modificar a organização do sistema, o que implica modificar a relação dos diversos subsistemas, as regras que regem a interdependência
e a hierarquia.
Foco de intervenção. A quais membros do sistema o terapeuta dirigirá suas intervenções.
O Grupo de Palo Alto dirige-se aos membros que pareçam estar mais motivados para resolver o problema, baseando-se no pressuposto de que a mudança em um dos membros
provocará mudanças nos demais com relação ao problema.
O modelo estrutural procura mudar aspectos da organização do sistema com cada um dos subsistemas.
Local da mudança. Refere-se à expectativa do terapeuta do lugar em que as mudanças ocorram. A abordagem estrutural preconiza mudanças na própria sessão pressupondo
que essas mudanças serão transferidas para o cotidiano da família.
Intervenções. São as condutas do terapeuta planejadas especificamente para a obtenção da mudança. Embora muitas intervenções sejam comuns aos vários modelos, há
algumas que são enfatizadas ou adequadas aos objetivos de cada modelo. Assim as
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redefinições, para o Grupo de Palo Alto, são recursos que possibilitam extinguir condutas inoperantes com relação ao problema e, se for o caso, estimulam-se novas
condutas por meio das prescrições diretivas ou paradoxais, enquanto a abordagem estrutural intensifica as redefinições através da vivência e experiência de diferentes
condutas manifestas incluídas pelo terapeuta, tais como o desequilíbrio e sugestões ou prescrições de novas pautas
organizacionais.
Tipo de comunicação. Os terapeutas de Palo Alto privilegiam a comunicação verbal, tanto no sentido de centrar sua atenção quase exclusivamente no discurso da família,
quanto no cuidado sobre o que e como dizer, ao fazer uma intervenção enquanto os estruturais observam a maneira como a família se compõe e como se movimenta (espacial
e corporalmente) e utilizam suas próprias atitudes nas intervenções.
Distribuição das sessões. Baseado na premissa do 'mínimo esforço para um máximo de mudança' em que o máximo significa o mínimo indispensável para pôr em ação uma
seqüência benéfica de novas interações, o modelo de Palo Alto realiza no máximo dez sessões, distribuídas semanalmente ou quinzenalmente, dependendo do tipo de prescrição
que o terapeuta deseja usar e da flexibilidade dos pacientes. O conceito de Terapia Familiar Breve prende-se mais a este modelo. A abordagem estrutural não especifica
limite no número de sessões. Este depende da capacidade do terapeuta e da família em obter progresso na interação mútua concreta. As mudanças no problema devem aparecer
no contexto terapêutico e ser reconfirmadas nos contextos habituais da família.
CAPÍTULO II PROCEDIMENTOS TÉCNICOS
Nesta seção apresentamos as bases teóricas que nortearam a preparação dos estagiários para o atendimento às famílias, pois a preparação do terapeuta pressupõe conhecimento
teórico, prática e o domínio de técnicas. O aprendizado se dá pela prática sob a supervisão de um terapeuta experiente.
Com relação à teoria e à prática diz Haley (1976), em Psicoterapia Familiar, p.169: "O tipo de terapia enfatizado neste livro não pode ser aprendido apenas lendo-se
sobre ela, ou ou-vindo-se conferências, ou ainda, discutindo-se a seu respeito. Ela não pode nem mesmo ser aprendida observando-se outras pessoas fazê-la, ainda
que a observação seja valiosa em certos momentos de treinamento. A terapia é encontro pessoal, e o terapeuta somente pode aprender a fazê-la, fazendo-a. Todas as
outras atividades de treinamento são periféricas, se não irrelevantes. Idealmente, ele aprende a fazer terapia fazendo-a enquanto é ao mesmo tempo orientado, por
um supervisor, no momento em que a terapia está tendo lugar ".
Portanto, os terapeutas devem ser estimulados a adquirir conhecimentos teóricos e técnicos, ficando claro que o mero conhecimento das técnicas não faz de ninguém
um bom terapeuta; é necessário que ele desenvolva certas habilidades. A teoria versa sobre as estruturas dos sistemas sociais e as formas pelas quais essas estruturas
operam no indivíduo, na família e no seu contexto social, tanto do ponto de vista ecológico como do desenvolvimento. As habilidades que um terapeuta deve possuir
consistem em ver a estrutura do todo na estrutura da transação corrente e agir nela de modo a afetá-la bem como ao sistema que ela representa.
Ao cumprir estas exigências o terapeuta participa de um processo de treinamento voltado mais para a experimentação e relacionado com tarefas e circunstâncias nas
quais atua. Nesse sentido o treinamento e a terapia caminham lado a lado.
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1. TÉCNICAS
Para Minuchin e Fishman (1990, Técnicas de Terapia Familiar, p. 11): "A palavra técnica implica uma certa habilidade artesanal: atenção ao detalhe, atendimento à
função e investimento em resultados.(...) Mas a expressão técnicas de terapia familiar suscita problemas. Traz imagens de pessoas manipulando outras pessoas. Pairam
no ar aspectos de lavagem cerebral ou controle no interesse de poder pessoal. A preocupação moral está absolutamente justificada. Além disso, a técnica por si só
não assegura eficácia, se o terapeuta permanece apegado à técnica, limitando-se a ser um artesão, seu contato com os pacientes será objetivo, desprendido e limpo,
mas também superficial, manipulativo em beneficio do poder epor último não muito efetivo" [grifo nosso].
Quanto ao seu uso não são estabelecidos limites nem restrições: podem ser empregadas somente algumas ou muitas delas. Mais importante que a quantidade ou a procedência
é o objetivo do uso de determinada técnica, ou seja, ela deve visar ao desenvolvimento do processo transacional.
O Grupo do MRI propõe que o terapeuta seja ativo ou diretivo, usando grande variedade de técnicas, desde a mais branda sugestão, tal como parecer manter o paciente
na mesma pedindo-lhe para não mudar por enquanto, para que ele continue na terapia e aceite as tarefas propostas pelo terapeuta, até a explicitação, ou seja, explicitar
em vez de ocultar, por exemplo, chamando a atenção para características que o paciente teme que os outros notem, por exemplo, uma leve claudicação.
Prescrição do sintoma. Esta técnica é aplicada como preparação para a intervenção paradoxal objetivando uma mudança futura. O terapeuta pede ao paciente que mantenha
o sintoma por mais algum tempo até que se encontre um meio de demovê-lo. Por exemplo, pede a uma mulher que se queixa de dificuldades com o orgasmo, que na semana
seguinte não tenha orgasmo de maneira alguma, mas que estude e note mentalmente o que acontece e que, se acontecer de ela ter algum orgasmo nessa semana não o conte,
absolutamente, ao seu marido. Espera-se que, alivi-ando-a da ansiedade perante o marido, o sintoma desapareça.
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Aproveitamento das profecias auto-realizadoras. Levar uma pessoa a compreender que a outra faz aquilo que se espera dela. Por exemplo, se é esperado que um adolescente
sempre deixe as luzes acesas, ele o fará. Então aconselha-se ao pai que anote a freqüência com que as luzes são deixadas acesas. Espera-se que o pai constate que
não é tanto assim. Conseqüentemente os 'esquecimentos' de luz acesa irão diminuir ou se extinguir.
Recolocação. Recolocar o comportamento incompreensível. A um jovem esquizofrênico cujos pais se desesperam com seu comportamento desajustado pode-se dizer que ele,
em vez de 'louco' deve ser cumprimentado pela esperteza, pois com seu comportamento desajustado tenta atrair sobre si a atenção, desviando-a de seus pais, por julgar
que eles estão em perigo de serem molestados pelos argumentos (do terapeuta).
Sabotagem benevolente. Aconselhar aos pais que tranquem as portas e mantenham as luzes apagadas para sua filha adolescente que chega em casa fora de hora e que demorem
um bom tempo antes de abrir, desculpando-se pelo 'descuido', mas deixando evidente que isso pode ocorrer novamente.
Intervenção paradoxal. Parece absurda porque exibe uma natureza aparentemente contraditória, tal como "solicitar aos clientes que façam aquilo que eles, de fato,
já vêm fazendo, em vez de solicitar-lhes que mudem, que é o que qualquer um esperava" (Hare-mustin, 1976, citado por Stanton, 1981). Ela é, às vezes, chamada de
'prescrição do sintoma'. Como é difícil vencer a resistência, ao prescrever o sintoma o terapeuta assume o controle sobre ele (sintoma). Se os pacientes resistem
à prescrição do sintoma, estarão, afinal, fazendo a coisa certa. Solicita-se aos clientes que 'assumam o controle' do sintoma: "Se você puder acionar o sintoma voluntariamente,
você será capaz de controlá-lo". Se o cliente muda muito depressa ou se o terapeuta tem outros motivos, ele recomenda uma 'recaída'. Pede ao paciente que se torne
tão 'doente' como era no início. Isso fará emergir algo daquela época que o cliente desejava conservar.
Haley em 1976 citado por Bodin (1981) aponta oito passos para que a intervenção paradoxal possa ser desenvolvida:
1. Uma relação paciente-terapeuta definida como persuasão à mudança.
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2. Um problema claramente definido.
3. Metas claramente definidas.
4. O terapeuta oferece um plano, geralmente racional.
5. O terapeuta afavelmente desqualifica a autoridade corrente (do marido ou da esposa; do pai ou da mãe).
6. Uma diretiva paradoxal é dada.
7. A resposta é observada e o terapeuta continua encorajando o comportamento (usual)-nenhum 'progresso rebelde' é permitido.
8. Encorajamento ao sintoma de tal modo que ele se torne tão incômodo que o paciente desista dele.
Interpretação positiva. O terapeuta deve evitar o uso de termos que impliquem acusação, crítica ou apontem para aspectos negativos. Em vez de interpretar um comportamento
hostil, manifestará a intenção de fazer o melhor possível pelo PI. A família terá, então, um redirecionamento de seus esforços, verá que estão 'todos no mesmo barco'.
Atribuir uma intenção nobre. Consiste em atribuir a um comportamento destrutivo uma motivação nobre por compreender que os sintomas são comportamentos adaptativos.
Tudo o que uma pessoa faz é sempre por uma boa razão.
Conotação positiva. Esta técnica tem o mérito de permitir o acesso ao sistema familiar. Por exemplo, manifestar apreciação por um descendente que assume o papel
de avô para manter o equilíbrio entre sexos numa família dominada por mulheres. A total aceitação do sistema familiar capacita o terapeuta a ser aceito no jogo familiar,
uma etapa necessária para mudar o jogo por meio do paradoxo.
O terapeuta deve se precaver contra os descuidos e erros seguintes:
1. Ser indeciso na diretividade.
2. Ser demasiado mecanicista, negligenciando os aspectos afetivos emergentes.
3. Deixar-se envolver pelo conteúdo verbal.
4. Não perceber as influências que atuam sobre a família fora do setting terapêutico.
5. Prescrever o sintoma sem relacioná-lo com o sistema.
6. Fazer uma prescrição paradoxal sem convicção ou rin
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do ou sorrindo. A família poderá achar o terapeuta insincero ou sarcástico.
7. Voltar atrás após ter feito una prescrição.
8. Aplicar as estratégias paradoxais em situação de crise ou extrema instabilidade (descompensação aguda, reução de sofrimento agudo, violência, tentativa de srai-idio,
perdi.", de emprego, gravidez indesejada).
9. Ver a estratégia paradoxal corno uma espécie de magica e abusar de seu uso.
10. Usar a estratégia paradoxal para exercer poder sobre a famí lia em vez de ter como meta o crescimento desta.
As técnicas da terapia estratégica sáo compatíveis com o modelo estrutural. Essas técnicas são úteis para reorganizar as 1 ransações entre o terapeuta e a pessoa
em tratamento ou os men t-bros da família.
Algumas técnicas estruturais se relacionam com a criação da transação, outras com a aliança com as transações e ainda outras, com a reestruturação das transações.
Fura criar toiiisaçifc-s oíerapeuiarecorreàesn aturai szação. à indução à aliança e ao estabelecimento de tu roías para a lamília.
a. Estruiuralizaçáo é a organização sistemática terapeuta de sua participação nus seqüências de unia transação com a família paia influenciar os padrões de sua interação,
b. Indução à aliança é o processo através do qual o terapeuta leva os membros da lamília a desempenhar, na sessão, seus padrões habituais de relacionamento.
c. Estabek cimento de tarefas para família é a designação aos membros da làmiüa de realizarem entre eles mesmos operações dentro de parâmetros transacionais prescritos.
Estruluralização, ligs mento e deterroinação de tareias para a família são maneiras de criar uma transação entre os membros da família com ou sem a participação
do terapeuta. Essas intervenções podem servir como técnicas de aliança para o terapeuta familiar com a família, e como técnicas de reestruturação para concluir a
reorgaruMiçáo estrutural pretendida.
Aliança com a transação é relevante em todos os aspectos do trabalho terapêutico, sem que este assuma ura papei facili ou centralizador, e sem que ele esieje trabalhando
de dentro ou de
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fora da transação da família. Aliança refere-se a relacionar pessoalmente para propósitos profissionais. Analisando este aspecto da relação profissional, estamos
dissecando uma interação humana tão particularmente que pode tomar-se mecânica ou manipuladora. Com efeito, na terapia familiar estrutural a oportunidade para agir
artificialmente existe por causa da demanda constante de responder positivamente à família para influir nas reações de seus membros.
Isso levanta um problema ético sobre se do terapeuta é esperado que 'realmente' cuide quando diz 'Estou agindo' e se o terapeuta precisa 'realmente' estar zangado
quando diz 'Isso me ofende'. Do ponto de vista técnico o problema com a ação ou resposta artificiais é que aquilo que o terapeuta está oferecendo de seu pode não
ser profundo o suficiente para liberar completamente suas energias e convicções de modo a comunicar efetivamente a mensagem pretendida.
A maneira como o terapeuta se associa com a família profissional e pessoalmente é uma relação humana complexa. Nossa posição é que o terapeuta deve oferecer à família
genuíno interesse pessoal, atenção e responsabilidade.
Todavia há habilidades técnicas identificadas por Minuchin (1974) que podem ser evocadas nos esforços do terapeuta para juntar-se à família: rastreamento, acomodação
e mimesis.
Rastreamento. Técnica em que o terapeuta adota símbolos da vida familiar através dos quais se comunica com a família e em torno dos quais constrói relacionamentos.
A linguagem, temas da vida, história, valores da família, tudo vem representar aspectos da identidade familiar. A estrutura relacional familiar é embalada com símbolos
do que a família é. Em outras palavras, para a família cada símbolo é carregado com associações sobre o que a família é e como funciona. Esses símbolos são usualmente
encontrados no conteúdo das comunicações da família. Apreendendo esses símbolos e usando-os para comunicar-se com a família, o terapeuta associa-se com ela usando
o instrumento de comunicação dos membros da família e influencia seus padrões transacionais através deles.
Acomodação. O terapeuta associa-se com a família em congruência com os padrões transacionais dela. Respeita as re
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gras que governam seus relacionamentos e o demonstra através de uma aceitação geral dos canais de comunicação desta, tentando, por esse meio, entrar na rede familiar
e fortificar a base da qual impulsiona as mudanças.
Mimesis. O terapeuta associa-se à família como se fosse um membro dela nos modos ou conteúdo de sua comunicação. O terapeuta se parece com a família ou com um dos
seus membros adotando sua maneira de falar, expressão corporal, ou outros modos comportamentais, modos de comunicação, relatando experiências pessoais, particularidades
ou interesses semelhantes aos da família. Seu esforço posterior se torna uma forma de revelar-se cujo objetivo é ajudar a família a identificar-se consigo mesma.
Como o rastreamento e a acomodação este tipo de associação se constitui numa base comum com a família da qual o terapeuta pode intervir.
Reestruturação. A terceira categoria de técnicas prevê que existam primariamente mudanças de estrutura de transações da família ou outros problemas, derivados do
conflito sistêmico e da insuficiência estrutural.
Conflito sistêmico refere-se aos problemas que surgem nas necessidades de competição dos componentes de um sistema ou ecossistemas. Esses problemas são produtos
de contrademandas de funções do indivíduo e/ou entre pessoas nas quais o conflito não pode ser resolvido com satisfação dos componentes envolvidos sem um compromisso
disfuncional por um ou mais deles. Atrás da manifestação do conflito há, por sua própria natureza, uma qualidade que direciona para o comportamento sintomático ou
problemático uma vez que há necessidades funcionais a serem satisfeitas.
Insuficiência estrutural refere-se aos problemas que resultam de uma falta de reservas estruturais na família ou outro sistema social para encontrar as demandas
funcionais do sistema. Com esses problemas, o indivíduo ou entidade social não consegue levar a cabo a função porque não tem recursos ou organização estrutural para
fazer o que é necessário. Essa inabilidade de função pode resultar de uma falta de oportunidade em seu desenvolvimento devido a uma ausência da família e suporte
social ou de um conflito situacional no ecossistema.
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Há técnicas distintas para os conflitos sistêmicos e para as insuficiências estruturais.
Aquelas aplicadas aos conflitos sistêmicos destinam-se a:
a) interromper estruturas e consistem em exagerar o sintoma, interromper os padrões de comportamento ou desenvolver conflitos implícitos e
b) reorganizar estruturas.
As técnicas aplicadas às insuficiências estruturais destinam-se a:
a) construir novas estruturas: são técnicas que ajudam as pessoas a aprender novas maneiras de agir e
b) reforçar estruturas existentes.
Essas técnicas, porém, não são exclusivas de um ou outro tipo de problema, ou seja, às vezes é necessário aplicar, por exemplo, técnicas para interromper estruturas
(conflitos sistêmicos) numa família que, basicamente, apresenta insuficiências estruturais. Não só as técnicas, mas também a abordagem deve ser diferente em cada
tipo de problema. Nos conflitos o terapeuta utiliza técnicas de confronto, enquanto nas insuficiências a abordagem se reveste mais de um caráter de apoio.
Há três tipos básicos de técnicas: recomposição do sistema, atenção centrada no sintoma e mudança estrutural.
Recomposição do sistema. São técnicas destinadas a promover mudanças estruturais pela introdução dos sistemas em outros sistemas que contribuem para a produção ou
manutenção do problema ou proceder exatamente ao contrário, ou seja, afastar os sistemas destes outros sistemas.
Atenção centrada no sintoma. Técnicas que atuam diretamente no sintoma. São técnicas tomadas por empréstimo à terapia estratégica. Foram identificadas por Minuchin
(1974) e consistem em exagerar o sintoma, desenfatizá-lo, substituir um sintoma por outro, prescrever um sintoma e reenquadrar o sintoma.
a. Exagerar o sintoma. Este é expandido a um ponto tal que já não possa servir aos seus propósitos.
b. Desenfatizar o sintoma. Consiste em retirar do comportamento sintomático o investimento de energia que lhe permite ser bem-sucedido em sua função compensatória.
A aplicação desta técnica se associa à técnica de mudança para um novo sin
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toma, porque enfatizar o novo sintoma ajuda a 'esvaziar' o antigo.
c. Reenquadrar o sintoma. Significa redefinir os sintomas dando-lhes um novo significado para a família, abrindo, desse modo, novas possibilidades para a família
alterar suas condutas estruturais e interagir uns com os outros em novas bases.
d. Alteração do afeto do sintoma. Ocorre em conexão com o reenquadramento do sintoma. O significado afetivo do sintoma é alterado.
Modificação estrutural. São técnicas dirigidas para os problemas relativos ao focus primário na composição estrutural do ecossistema. Elas se destinam a desmontar,
construir, reforçar e reorganizar as estruturas. Desmontar um padrão estrutural significa simplesmente destruí-lo. Construir um padrão estrutural implica criar estruturas
novas ou reforçar estruturas pouco desenvolvidas. Reforçar estruturas é manter o que já existe ou ampliar sua extensão. Organizar as relações estruturais significa
intervir nos problemas de uma área utilizando dados já conhecidos do sistema, normalmente em outras áreas de funcionamento. Estas técnicas são empregadas para atingir
diretamente as estruturas de alinhamento, fronteira e poder.
A terapia familiar estrutural distingue-se tecnicamente de outras terapias por concentrar-se explicitamente em modificar estruturas. Uma das condutas que merecem
atenção por sua aplicação constante é a corografia (modo como as pessoas se agrupam ) que pode ser empregada tanto com o terapeuta fora como dentro do grupo social.
O terapeuta pode ir sentar-se próximo a um membro que se sentou retirado por se sentir rejeitado (alinhamento corográfico com o terapeuta incluído) ou pedir a uma
irmã deste para ir sentar-se perto dele (alinhamento corográfico com o terapeuta excluído).
a. Desmontagem. Parte necessária de toda modificação estrutural já que introduzir o novo implica alterar ou eliminar o antigo porque as famílias resistem a abandoná-lo,
visto ser ele um hábito entranhado que representou, até o presente, uma solução para o problema. Ela se dá através de técnicas que enfatizam as diferenças e as que
desenvolvem conflitos implícitos. As diferenças são enfatizadas pela explicitação das distinções que os membros da família mantiveram ocultos para se manter unidos.
O desen
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volvimento de conflitos implícitos evidencia as diferenças bem como suprime os motivos da oposição mútua. Por exemplo, se um casal diz concordar plenamente a respeito
da disciplina de sua filha delinqüente e o terapeuta se convence de que há discórdia entre eles, agirá de modo que esse conflito se torne explícito, pedindo-lhes
que decidam em comum acordo sobre de quem serão os critérios que prevalecerão.
b. Construção de padrões. Esta categoria de mudança estrutural tem sua aplicação com famílias que agem sempre da mesma maneira, por não ter aprendido ou por não
ser capaz de lidar com situações de conflito. Por exemplo, uma mulher deixada sozinha com seu filho tem dificuldades em controlá-lo porque recorre excessivamente
ao castigo físico. Ela pode fazer isso porque aprendeu de sua mãe ou para compensar seu sentimento de fraqueza. Ela precisa aprender outras maneiras de lidar com
o problema, qualquer que seja a origem deste. Por isso as técnicas utilizadas incluem muitas das intervenções instrucionais incluindo as da teoria da aprendizagem.
c Refòrçamento dos padrões. Aqui o objetivo é fortalecer um padrão para alcançar a mudança em outro. Por exemplo, apoiar uma mãe na atenção que ela dedica ao filho
enquanto ela desenvolve uma maneira educacional nova e mais firme.
d. Reorganização de padrões. Trata-se de remover obstáculos para que estruturas existentes, porém bloqueadas, sejam liberadas. Tomemos como exemplo um homem que
mantenha controle sobre toda a família porque teme perder o respeito dela, porém esse temor não é manifestado externamente. A família fica descontente, mas também
dependente dele. É-lhe dada uma tarefa na qual ele não dirija a família ou solicite coisa alguma dela. Isso, a principio o deixa desesperadamente só e depois o senso
de auto-suficiência em relação à família o leva a aproximar-se mais responsavelmente dela.
2. SUPERVISÃO
Haley tinha muito interesse na questão da formação do terapeuta. Estabeleceu critérios rigorosos e detalhados para a admissão do candidato e para a supervisão em
virtude da questão
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ética envolvida na prática da psicoterapia. Discute, por exemplo, a questão do terapeuta como agente de controle social, de sua conduta perante a pessoa psicótica;
se ele vai ou não colocar-se ao lado da instituição em prejuízo do paciente, pois o aprendizado das técnicas pode prestar-se a essa manipulação. (Haley, 1979, Psicoterapia
Familiar).
Ainda segundo Haley, o objetivo específico do terapeuta familiar é resolver o problema da família. Recomenda que as metas sejam concretamente definidas e exeqüíveis.
Portanto, devem-se evitar as metas difusas ou grandiosas.
Suas regras de procedimentos incluem que o terapeuta deve evitar abstrações; evitar estabelecer coalizões; evitar debates sobre a vida; ter em mente o aqui agora
da situação terapêutica, ou seja, não se envolver com as questões do passado; ao terapeuta jovem aconselha que não pretenda parecer mais experiente; evitar deixar
objetivos não formulados; evitar cristalizar a luta pelo poder e evitar tomar posições irreversíveis.
Quanto às orientações para a elaboração de um programa de treinamento:
1. Observar a sessão através de vidro espelhado.
2. Intervir na sessão.
3. Gravar a sessão em vídeo ou fita K7 para posterior discussão.
4 Enfatizar o problema apresentado.
5. Enfatizar o resultado.
6. Discutir com a equipe o desenvolvimento do trabalho terapêutico.
Assim como os terapeutas devem buscar soluções de problemas na realidade social corrente o treinamento se realiza através de meios que são mais próximos da experiência
do terapeuta interagindo com a família.
No início do treinamento, o terapeuta aprende sobre o desenvolvimento e a organização familiar ao mesmo tempo em que observa e conduz entrevistas informativas com
pacientes e não pacientes. Nessas entrevistas, seja com famílias, seja com indivíduos, são abordados os interesses, atividades e funcionamentos correntes.
No treinamento clínico o terapeuta aprende a ver a estrutu
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ra das interações e agir para alterar essas estruturas por meio de: observação de entrevistas-modelo, role-playing, supervisão ao vivo e supervisão por videoteipe.
Observação de entrevistas-modelo. Os iniciantes espelham-se em modelos para auto-avaliação e aprendizagem com terapeutas experientes e habilidosos.
Role- playing. É um procedimento em treinamento que não envolve uma família real. Uma de suas variantes é colocar uma família simulada, identificar suas regras,
mas não os problemas nem sua dinâmica. A família se põe a agir sem que o terapeuta tenha qualquer conhecimento prévio. As caracterizações e as circunstâncias são
criadas espontaneamente entre o terapeuta e a família. Nestas oportunidades o orientador faz observações a respeito das seqüências interacionais ocorridas e detalha
suas reações pessoais. Outra vantagem da simulação é permitir ao iniciante compreender como a família funciona, como se distribui e como se relaciona.
Depois que os iniciantes tiverem observado um certo número de modelos e a oportunidade de praticar, começam a receber famílias em entrevistas com supervisão ao vivo.
Supervisão ao vivo. É iniciada mais ou menos no fim do primeiro quarto do treinamento. A família é real e a situação clínica é real. A entrevista é observada pelo
supervisor através do espelho. O iniciante recebe observações sobre si mesmo e sobre a família e é orientado sobre o que fazer no decorrer da sessão. Não se trata
de mera especulação. Os feedbacks mútuos entre família, terapeuta e supervisor concorrem para o desenvolvimento das habilidades do iniciante. As dificuldades implícitas
na supervisão ao vivo são a falta de tempo para pensar e planejar, bem como a falta de liberdade para explorar áreas de interesse do iniciante uma vez que é preciso
ater-se às atividades ditadas pelas necessidades da família no momento. A intervenção pessoal do supervisor, quando necessária, tanto pode encabular o iniciante
como ser instrutiva, dependendo do respeito demonstrado pelo supervisor ao iniciante e à família. É necessário reservar um tempo após a sessão para discutir as relações
entre o terapeuta e a família e entre o terapeuta e o supervisor.
Supervisão através de videoteipe. É a melhor oportuni
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dade que o iniciante tem para analisar e especular sobre sua atuação com o supervisor. Ao ver o teipe o iniciante aprende a observar e formular hipóteses, embora
não possa agir porque uma circunstância jamais se repete e não se pode realizar uma intervenção especulativa. A pressuposição é de que o iniciante e o supervisor
adquiriram a mesma linguagem teórica e a mesma estrutura experimental no trabalho conjunto de supervisão ao vivo.
Muitos treinamentos são feitos em grupos. É útil ao iniciante observar outro em supervisão ao vivo e discutir com seu supervisor além de observar diferentes famílias,
diferentes intervenções dos colegas iniciantes, diferentes supervisões. Além disso o grupo, potencialmente, se constitui em um apoio que reforça certos tipos de
aprendizagem e oferece uma grande variedade de canais pelos quais as idéias podem ser discutidas e assimiladas.
Tanto na terapia familiar estrutural como na estratégica o autodesenvolvimento do terapeuta é visto no interior do treinamento. O tratamento pessoal ou experiências
que induzem ao crescimento são circunstanciais nos programas de treinamento. Ajudar o iniciante a conhecer-se no contexto clínico e a desenvolver o uso total de
seu self para a terapia é um procedimento que perpassa todos os segmentos do treinamento da simulação em diante. A experiência de treinamento em grupo também contribui
para esse desiderato. Compete ao supervisor planejar sistematicamente o incremento da compreensão e habilidades para cada iniciante.
O objetivo do treinamento é produzir um terapeuta que integre teoria e técnica, de modo a envolver-se adequadamente de maneira livre e disciplinada com as famílias
em terapia.
CAPÍTULO III A PREPARAÇÃO PARA O ATENDIMENTO
Considerando que nosso objetivo foi estabelecer uma base teórico-técnica com vistas à vivência de uma nova abordagem terapêutica em instituições dirigimos nosso
enfoque para o desenvolvimento da terapia familiar, de modo a poder, através da supervisão, orientar os estagiários na qualidade de terapeutas familiares e, simultaneamente,
observar se, e como, essa abordagem conseguiria equacionar os interesses dos vários segmentos envolvidos no processo: a instituição, a clientela, os estagiários
e a supervisão dos diversos núcleos.
Ao elaborarmos os objetivos, notamos a necessidade de verificar a maneira como os alunos assimilariam a teoria da Terapia Familiar Breve e como a colocariam em prática:
os sucessos, as dificuldades e a interface terapêutica. Em vista disso, deliberamos centrar nossa atenção no trabalho terapêutico, por considerarmos ser importante
a passagem gradativa do aluno do campo teórico para o prático. O acompanhamento do desenvolvimento de cada sessão nos permitiu avaliar o processo de interação de
cada equipe terapêutica com a família sob sua responsabilidade: as interfaces, as dificuldades encontradas.
Do ponto de vista metodológico usamos os seguintes procedimentos: descrição sucinta da queixa, apresentação do que acontecia com a família, análise do trabalho realizado
com a família e a posição de cada membro da família ao término da terapia.
1.A INSTITUIÇÃO
Faremos aqui um exame do quadro geral em que nos situamos e das condições necessárias para o desenvolvimento do trabalho.
Embora o estatuto da Instituição preveja a realização do estágio em outro local, esta criou o Instituto de Psicologia Apli-
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cada, destinado a se tornar clínica-escola, com vantagens tanto para o aluno, que prefere realizar seu estágio no próprio Instituto, quanto para a supervisão dos
núcleos, bem como para a clientela que se apresenta à clínica.
A estrutura atual da Área Clínica inclui cinco núcleos: Triagem, Psicodiagnóstico, Psicomotricidade, Atendimento Breve Individual e Grupos, sendo que o Psicodiagnóstico
é oferecido a estudantes do 9a e 10a semestres.
Para os propósitos de nosso trabalho interessam mais de perto os núcleos de Triagem e Psicodiagnóstico.
O Núcleo de Triagem é a porta de entrada para a Clínica, tanto para o aluno como para o paciente. Em um primeiro momento o cliente se inscreve na clínica, recebe
uma ficha de inscrição numerada e entra para a fila de espera. A chamada se dá por ordem numérica. Quando chega sua vez esse paciente é atendido por um estudante
do 9a período que está fazendo seu primeiro atendimento clínico: a triagem.
Todos os alunos atendem nesse núcleo. Seu objetivo é, em no máximo três entrevistas, encaminhar o cliente para o atendimento apropriado.
De posse desse encaminhamento o paciente entra em uma fila de espera, específica para o núcleo que oferece o atendimento de que ele necessita.
O problema que se nos apresentava era a análise das implicações da aplicação da Terapia Familiar Breve em clínicas-escola através do estágio supervisionado. O exame
desse problema nos levou a fazer um levantamento daquilo que o momento nos oferecia, ou seja, qual a situação atual dessa clínica-escola em particular, quais as
nossas expectativas com relação ao trabalho que pretendíamos desenvolver, quais as, possibilidades efetivas oferecidas pelo suporte teórico em que nos baseamos e,
finalmente, quais as condições materiais e humanas com que poderíamos contar, no âmbito da instituição.
Trabalhamos com a hrpótese de que a Terapia Familiar Breve pode trazer benefícios a:os vários segmentos no âmbito da instituição, na medida em qu.e permite um atendimento
às pessoas encaminhadas, mais rápida e eficazmente.
Outra possibilidade seria o envolvimento, no processo, de
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todos os demais núcleos, que passariam a ter uma nova visão sobre o problema apresentado. A Triagem, por exemplo, em vez de encaminhar certos casos para o Psicodiagnóstico,
encaminharia, já, para a Terapia Familiar Breve. Da mesma forma o Psicodiagnóstico, ao detectar um problema familiar que estivesse relacionado com o paciente, faria
o encaminhamento. Assim também procederiam os demais núcleos: o de Grupos, o de Terapia Breve Individual e até mesmo a Área Educacional. Caso o terapeuta percebesse
a necessidade de um tratamento familiar, faria o encaminhamento.
Além da economia no tempo de espera uma outra questão seria resolvida: o atendimento de vários tipos de queixas não atendidos na instituição por falta de instrumento
técnico. Na Terapia Familiar Breve, o foco é centrado no problema, a 'função' deste para a família e a maneira como a família lida com ele.
Este seria um procedimento novo na clínica, não só na maneira de ouvir a queixa como também de tratá-la, uma passagem da abordagem linear para uma abordagem sistêmica,
em que interação é privilegiada.
Dessa forma, a instituição prestaria, tanto ao seu aluno como à clientela, um serviço mais amplo e mais eficiente. O estudante-estagiário ampliaria suas possibilidades
de aprendizagem, conhecendo mais um modelo terapêutico e praticando efetivamente nesse modelo, pois o trabalho em co-terapia possibilita que todos os alunos façam
atendimento. A clientela se beneficiaria recebendo um atendimento, efetivo, amplo (todos os envolvidos no problema apresentado), imediato e rápido.
2. COMPOSIÇÃO DO SISTEMA TERAPÊUTICO.
Compreendemos como sistema terapêutico o conjunto formado pela família, pelos terapeutas e, quando existem, pelos observadores.
Para a consecução de nosso trabalho, algumas providências preliminares se fizeram necessárias: selecionar as famílias e formar as equipes terapêuticas.
A seleção das famílias se fez por meio de psicodiagnóstico e de triagem. A experiência foi realizada no primeiro semestre de
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1995, quando já estavam esperando atendimento em Terapia Familiar Breve, seis casos oriundos do psicodiagnóstico realizado no semestre anterior. Como havia 12 equipes
interessadas em participar do atendimento, realizamos, em fevereiro, um trabalho de triagem para incluir mais seis famílias no projeto.
A turma do 10a período para o primeiro semestre de 1995 era constituída por 48 estagiários, os mesmos que tinham freqüentado o 9a período no semestre anterior, os
quais, divididos em 4 grupos, A, B, C e D, formaram equipes em número desigual em cada grupo, resultando um total de 12 equipes terapêuticas, também com número desigual
de participantes. Formaram-se sete equipes com dois terapeutas e cinco equipes com três terapeutas, isso porque cada aluno teve liberdade de escolha para a participação
ativa no atendimento ou para o acompanhamento do trabalho dos colegas.
Os critérios para a formação das equipes foram o produto de uma reunião entre o supervisor e a turma de estagiários, em que se procurou estabelecer um equilíbrio
entre as características dos grupos e os imperativos operacionais e administrativos. Deliberou-se, então, que:
- O atendimento seria realizado, necessariamente, por intermédio de equipes.
- Para formar as equipes, cada grupo levaria em conta a necessidade prática de serem constituídas quantas equipes terapêuticas resultassem do equacionamento entre
o número de alunos que desejassem atender e o número de famílias a serem atendidas.
- Cada equipe seria composta por, no máximo, três terapeutas.
- As equipes atuariam sempre em co-terapia e, nas equipes compostas por três membros, um atuaria como observador. A decisão sobre a distribuição dessas funções ficaria
a cargo da própria equipe.
- Os alunos que assim o desejassem poderiam eximir-se de participar, diretamente, do atendimento, sem outra formalidade que o seu expresso desejo.
- Os alunos que assim o desejassem poderiam participar de mais de uma equipe.
- A constituição da equipe seria orientada pelas prefe
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rências pessoais dos alunos, sua identificação com o colega, com o trabalho a ser realizado e com o supervisor.
- Os alunos que não desejassem participar, diretamente, do atendimento assumiriam o compromisso de acompanhar o processo através das reuniões do grupo e do comparecimento
às sessões de supervisão bem como de auxiliar na elaboração dos relatórios das sessões, transcrição das fitas K7 e de oferecer sua contribuição na análise das sessões
e preparação da sessão seguinte.
Nossa intenção inicial era estabelecer um formato padrão para as equipes. Cada uma seria constituída por três terapeutas, sendo que dois trabalhariam em co-terapia
e um assumiria a função de observador, porém, alguns alunos desejaram manter-se em dupla e continuar com as famílias que haviam atendido em psicodiagnóstico no semestre
anterior, quando cursavam o 9a período.
Embora não tivéssemos previsto esta diversificação, julgamos oportuno aproveitar a proposta dos alunos e trabalhar com esse dado adicional.
Seria desejável que as equipes fossem formadas por terapeutas de ambos os sexos, porém, a maioria delas é constituída exclusivamente pelo sexo feminino.
3. AS BASES DO ATENDIMENTO
Nosso trabalho foi desenvolvido, basicamente, sobre a adoção da co-terapia, no emprego da tarefa e na elaboração do mapa estrutural e do genograma.
3.1. Co-terapia
Miermont (1994) define co-terapia baseado nos trabalhos de Bowen (1978) e Walrond-Skinner (1976): "A co-terapia habitualmente é um elemento central do quadro da
terapia familiar. Ela institui uma "relação inter-sistêmica (sistema familiar e sistema terapêutico), preferindo-a a uma relação diádica paciente terapeuta. Esta
atitude inscreve-se em um protocolo terapêutico que visa apreender a inter-relação entre indivíduos mais do que a levar em conta a dinâmica psíquica dos próprios
indivíduos. A relação terapêutica significa muito mais que a utilização de vários 74
74
terapeutas em vez de um só: assim como foi descrito para o grupo familiar, a relação entre os terapeutas representa mais que uma intervenção monoterapêutica e mais
do que a somatória de intervenções separadas. Ela constitui, em si, uma entidade dinâmica que, ao superar as intervenções de cada um dos parceiros da ação terapêutica,
favorece as mudanças e o estabelecimento de estratégias adaptadas para cada grupo familiar ". (Dicionário de Terapias Familiares, p. 115)
A co-terapia pode incluir formações profissionais diferentes como terapeutas familiares, psiquiatras, clínico-geral e equipes institucionais. No presente trabalho,
a co-terapia refere-se, exclusivamente, a terapeutas familiares, melhor dizendo, estudantes de psicologia treinando em terapia familiar. As equipes podem ser compostas
por dois ou mais terapeutas, do mesmo sexo ou de sexo oposto.
O emprego da co-terapia em tratamento de família traz vantagens quanto à divisão de tarefas e quanto à diversidade de oportunidades oferecidas à família em termos
de aliança ou oposição.
As famílias, geralmente tendem a envolver o terapeuta. A necessidade prática da formação das equipes foi aproveitada para prevenir essa ocorrência, pois é mais raro
que toda a equipe fique mobilizada pelo mesmo assunto no mesmo momento. Diante da possibilidade de um terapeuta estar sendo 'engolido' pelo sistema espera-se que
o outro perceba e dê um suporte ao colega, que faça uma ponte naquilo que está percebendo, que intervenha para restabelecer a integridade do processo. A entrevista,
assim, sofre modificações no sentido de uma maior flexibilidade e de uma melhor adequação às dificuldades. A co-terapia tem, então, a função de estabelecer o equilíbrio
da sessão.
No caso de haver um terapeuta designado como observador, compreende-se que este será um observador participante. A responsabilidade pela condução de toda uma sessão,
ou partes dela, depende de sua própria dinâmica, de o terapeuta estar mais identificado com a problemática da família, com a interação no momento mesmo em que esta
ocorre, ou, ainda, com um determinado membro da família, quando, então, este se sente mais à vontade para falar, e fala.
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3.2. Tarefa
A ênfase na diretividade é a pedra angular da abordagem estratégica. Segundo Andolf, a maneira como o terapeuta utiliza o espaço e o movimento e prescreve tarefas
nas sessões é um fator indicativo de que ele é a pessoa que conduz o processo terapêutico. Desde o início o terapeuta deve demonstrar à família que é suficientemente
forte para controlá-la, conduzi-la e impor as regras da relação. Andolfi justifica essa explicitação de poder porque compete ao terapeuta libertar a família dos
modelos habituais de pensamento e comportamento que a impedem de mudar, de sair das situações difíceis em que se encontra. (Andolfi, A Terapia Familiar, pp. 140-141).
Segundo Haley (1979) as diretivas ou tarefas têm três finalidades principais: promover mudanças, intensificar o relacionamento da família com o terapeuta e obter
informações. O terapeuta obtém informações a partir da prescrição de uma tarefa pela observação das reações dos membros da família: se fazem a tarefa, se não a fazem,
se a esquecem, se tentam ou se fracassam são fatores indicativos sobre as pessoas e como elas responderão às mudanças desejadas.
Para Haley (1979) tarefas devem ser dadas claramente e não apenas sugeridas. Ele prevê uma fase inicial de motivação da família para que cumpra ou para que não cumpra
a tarefa proposta. Em quaisquer dos casos, a família estará fazendo o que o terapeuta deseja que faça, pois, quando prescreve uma tarefa com a intenção de que não
seja cumprida, pretende que a família mude pela rebeldia. As tarefas devem ser explicadas com clareza para evitar que a família não deixe de cumpri-la simplesmente
porque não a compreendeu. Todos devem ser envolvidos na tarefa e participar de seu planejamento: quem vai executar, quem vai planejar, quem vai ajudar, quem vai
supervisionar, etc. Por exemplo, se a tarefa consiste em que o pai e a mãe concordem sobre um determinado assunto durante a semana, devem ser discutidos a hora e
os aspectos que o assunto deverá ser discutido. O papel de um dos filhos pode ser o de lembrar aos pais a hora da execução da tarefa e o papel de outro filho pode
ser o de relatar ao terapeuta como a tarefa foi executada.
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3.3. Mapa Estrutural
O mapa estrutural, conforme proposto por Minuchin (1982, p. 59), tem a seguinte nomenclatura:
.............. fronteira nítida
------- fronteira difusa
- fronteira rígida
E= associação
- superenvolvimento
_ JI _ conflito
\ coalizão
-^> desvio
O mapa estrutural ou mapeamento liga-se ao conceito de fronteiras. Fronteiras bem definidas protegem a diferenciação do sistema e facilitam o funcionamento adequado
da família; há famílias em que um ou mais membros estão muitos distanciados, as fronteiras são muito rígidas (famílias desligadas) e outras em que esse distanciamento
é minimizado, as fronteiras são difusas (famílias aglutinadas).
Diante de ambas as situações a função do terapeuta será definir as fronteiras para a família. Enquanto responde aos acontecimentos no momento em que ocorrem na sessão,
observa as transações e levanta hipóteses a respeito de quais padrões são funcionais ou disfuncionais; está obtendo o mapa estrutural da família. Esse é um esquema
organizacional, um poderoso recurso de simplificação que lhe permite organizar a diversidade do material que está obtendo e estabelecer os objetivos terapêuticos.
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Exemplo de mapa estrutural de uma sessão terapêutica adap-lado da obra citada acima à p. 99, em que o casal, para proteger o subsistema conjugal, estabelece fronteiras
rígidas para o filho.
Criança
3.4. Genograma
Embora o genograma não seja uma técnica ligada à Terapia Familiar Breve, a experiência nos mostrou que ele é um recurso muito útil por permitir a coleta de uma série
de dados que demandariam várias sessões terapêuticas.
Assim, dada a natureza do atendimento que pretendíamos realizar, limitamos seu uso a duas, ou no máximo três gerações, para ter, rapidamente, uma visão geral do
funcionamento da família, sem, contudo, nos aprofundarmos nas implicações de sua utilização como procedimento terapêutico.
Cerveny (1994) descreve o genograma como "uma representação gráfica multigeracional da família que vai além da simples genealogia, pois inclui também as relações
e interações familiares" {A Família como Modelo, p. 91). Assim as relações, os vínculos, os mitos e os padrões das famílias podem ser compreendidos através do genograma.
O pressuposto é que as famílias tendem a repetir os padrões de comportamento das gerações anteriores. O genograma se constitui em um guia para o conhecimento desses
padrões e oferece subsídios para interrompê-los, quando são destrutivos.
Pendgast e Sherman (1978) elaboraram um guia para a realização do genograma que compreende:
1. Primeiros nomes e apelidos.
2. Idade e data de nascimento, morte, doenças graves, casamentos, separações, divórcios, ritos de passagem (inauguração de residências, promoções, graduações).
3. Lugares físicos.
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4. Freqüência do contato entre vários membros da família extensa.
5. Tipo ou tipos de contato (correio, telefone, áudio-casse-tes, visitas).
6. Sistema de representação primária de cada pessoa.
7. Relacionamento mais íntimo em cada nível de geração.
8. Filhos mais velhos devem ser colocados à esquerda.
9. Características do relacionamento que o paciente forma com cada pessoa do genograma.
10. Separações emocionais: qual foi o evento? Quando ocorreu?
Influências gerais situacionais:
11. Etnicidade e apresentação étnica de cada núcleo doméstico da família.
12. Filiação religiosa e participação de cada núcleo familiar.
13. Nível socioeconómico de cada núcleo familiar.
14. Questões com intensa carga emocional para cada núcleo familiar (ocupações, sexo, religião, dinheiro, mortes, alcoolismo).
Geralmente estes dados são colocados em cartolina à medida que vão sendo expressados pela família.
4. A ATUAÇÃO DAS EQUIPES TERAPÊUTICAS
Cada sala de atendimento era provida de cadeiras comuns e uma mesa. No início de cada sessão os membros da família escolhiam livremente a cadeira onde desejavam
sentar-se. A escolha de cada um era cuidadosamente observada pelos terapeutas porque a maneira como a família se dispõe é um forte indicador da maneira como seus
membros interagem.
As salas não eram dotadas de espelho unidirecional impossibilitando a observação do grupo. Embora a experiência demonstre que a família não se sente incomodada com
a equipe atrás do espelho e que essa equipe pode ser de grande valor para o progresso da terapia com suas observações, intervenções e mensagens, assumimos que todos
os presentes a uma sessão terapêutica constituem um sistema do qual a equipe terapêutica e a família
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são subsistemas (De Shazer, 1982), não justificando, portanto, a utilização dessa estratégia.
As sessões foram gravadas em fita K7 e transcritas.
Gravações em vídeo não foram utilizadas por motivos técnicos: dificuldades de acesso e, principalmente, operação do equipamento.
As sessões tiveram a duração de uma hora e trinta minutos. O atendimento foi semanal, com previsão para dez sessões distribuídas pelo período de um semestre letivo.
Os grupos dedicaram a este projeto seis horas semanais: duas destinadas ao atendimento, duas às discussões do grupo e duas à supervisão.
Os intrumentos utilizados foram a entrevista interventiva, o genograma, o mapa estrutural e a tarefa.
O grupo se reunia após o atendimento de cada uma de suas equipes naquela semana para a transcrição da gravação, análise da sessão, levantamento de hipóteses e formulação
das ações para a sessão seguinte.
Somente após essas providências, o grupo comparecia à sessão de supervisão munido das gravações e das transcrições das fitas.
5. AS AÇÕES DA SUPERVISÃO
5.1. Preparação dos Terapeutas
A preparação inicial dos alunos foi feita através de: leitura e discussão de textos teóricos, especialmente de Minuchin e Haley; treinamento com a utilização da
técnica role-playing, para se trabalharem as dúvidas e ansiedades dos terapeutas; orientações quanto ao trabalho em co-terapia e quanto ao uso do genograma.
As equipes foram orientadas no sentido de realizar as sessões tendo em mente os termos do contrato terapêutico e esclarecer a família quanto a:
- assiduidade e pontualidade;
- duração do tratamento;
- o foco (centrado no problema);
- o sigilo profissional;
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- a existência do grupo terapêutico;
- a existência da supervisão;
- a indicação de tarefas na sessão ou fora dela;
- a gravação das sessões em fita K7.
Como as tarefas não podem ser aprendidas previamente sua orientação e acompanhamento se deram no decorrer das sessões de supervisão.
5.2. Avaliação do Trabalho Realizado
Foram considerados os progressos alcançados (ou não) pelas famílias.
A avaliação dos progressos alcançados pela família teve por base as descrições contidas no capítulo IV compreendendo a queixa inicial, como a família vivia essa
queixa, como se estruturava, o que poderia ser trabalhado no processo terapêutico, como ela era antes e qual a sua estrutura ao final da Terapia Familiar Breve.
CAPÍTULO IV
DESCRIÇÃO E ANÁLISE DE FAMÍLIAS ATENDIDAS
Optamos por uma forma de apresentação que nos pareceu suficiente para conter a abrangência dos procedimentos da Terapia Familiar Breve e ao mesmo tempo facilitar
a apreensão dos dados obtidos por meio das observações das equipes terapêuticas e do depoimento das famílias atendidas.
Elaboramos quatro quadros.
O primeiro, com o título: I. Histórico, contém o histórico da família.
O segundo, II. O que está acontecendo com a família,
apresenta uma visão geral de como se dava toda a organização familiar no início do tratamento e como este evoluiu no decorrer das sessões.
O terceiro, III. O que se trabalhou com a família, apresenta os temas trabalhados durante cada sessão, possibilitando que se perceba a organização da família, pois
permite acompanhar todo o processo terapêutico, uma vez que mostra o discurso da família, as hipóteses levantadas e os objetivos terapêuticos. As hipóteses, baseadas
no discurso da família, possibilitam a orientação das intervenções terapêuticas, que visam o favorecimento de mudanças. Estas, por sua vez, levam a uma reorganização
da estrutura familiar.
O quarto quadro tem título auto-explicativo: IV. Posição de cada membro da família ao final da Terapia Familiar Breve.
Em cada família examinou-se a queixa inicial apresentada, pois todas elas procuraram tratamento para um membro específico da família, que chamamos de paciente identificado
(PI), geralmente uma criança ou um adolescente.
A queixa inicial constava de um problema específico, como enurese, agressividade, dificuldades de aprendizagem, fobia e delinqüência.
A partir dessa queixa específica, a equipe terapêutica trabalhava, em um primeiro momento, para integrar toda a família no
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processo terapêutico, pois a presença de todos os envolvidos no problema permitia verificar o que estava acontecendo com a família, como ela estava estruturada.
Essa verificação permitia a formulação de uma hipótese de como essa estrutura afetava o PI e todo o sistema familiar e tinha como objetivo redefinir o sintoma, de
modo que se evidenciassem, no contexto familiar, todas as disfunções existentes em sua estrutura.
Esse trabalho consistiu, basicamente, em verificar como se organizava a estrutura familiar, percebendo como se estabelecia a hierarquia, quem detinha o poder sobre
os demais membros da família; como eram exercidas as funções parentais; como se davam as seqüências de interação; como eram tratados ou respeitados os limites de
cada subsistema; como ocorriam as lealdades, as alianças, as triangulações, as coalizões, a complementaridade ou mesmo a diferenciação entre seus membros e como
era a comunicação dentro do contexto familiar.
A compreensão da estrutura familiar permitiu à equipe terapêutica trabalhar dentro do contexto familiar a maneira como os temas eram percebidos pela família.
Há vários temas comuns às famílias. Um deles era a dificuldade do casal de discriminar entre suas funções parentais e funções maritais. Por exemplo, em uma família,
o pai assumia sozinho as funções parentais, a mãe aliava-se com três de seus filhos permanecendo no subsistema fraternal, enquanto que o filho mais velho estava
distanciado da família.
Outro tema recorrente foi a influência da família de origem do casal na estrutura da família atual. Uma família, por exemplo, se desestruturou logo após o falecimento
dos pais do esposo e do pai da esposa, ocorridos em curto espaço de tempo entre um e outro. Outra forma de a família de origem influenciar a organização da família
atual é cada um dos componentes do novo casal trazer, como modelo, a sua própria família de origem. Em conseqüência, estranha os comportamentos de seu par, tenta
impor-lhe seus próprios valores, frustra-se por não conseguir esse intento e alimenta ressentimentos contra o parceiro, por acreditar que seus atos são praticados
de maneira intencional e ostensiva.
Outras constantes observadas na estrutura familiar são a presença do filho parental, a comunicação do casal por intermé
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dio do sintoma do filho e a dificuldade dos pais para reconhecer as diferenças individuais de seus filhos ou de seu par, o que os leva a um desejo de similaridade.
Nas páginas seguintes, descreveremos três famílias e faremos a análise do atendimento realizado. Para salvaguardar a identidade, tanto dos membros das famílias quanto
dos terapeutas, todos os nomes foram substituídos por nomes fictícios.
Embora tenhamos feito este trabalho de descrição minuciosa para cada uma das 12 famílias e reconheçamos que não há dois atendimentos iguais, visto que não há duas
famílias iguais, para não mencionar o contexto no momento mesmo do atendimento, algumas queixas se repetem. Por esse motivo, selecionamos três modelos de queixa,
com a convicção de que essas descrições constituem um referencial suficiente para aqueles que pretenderem, porventura, repetir nossa experiência.
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Família nfl 1 - "Cardoso"
I - Histórico 1. Genograma
61 anos
[j]335 anos(p? [j]_
40 anos
9
? O ? ?
anos 15 anos 11 anos
8 7
A família é composta por seis pessoas: o casal e quatro filhos. O casamento se deu há 22 anos. O pai, Josimar, é viúvo. Casou-se com Lindalva, em segundas núpcias,
sendo que ela, na ocasião, era solteira. Ele tem 61 anos e é feirante. Ela tem 40 anos e exerce a profissão de cozinheira.
Os filhos, pela ordem de idade, são Ivo, o mais velho, com 21 anos, não trabalha e parou de estudar; Márcia, 17 anos, estuda magistério e trabalha na feira com o
pai; Márcio, 15 anos, e Eraldo, 11 anos, ambos estudantes de lfl grau.
De seu primeiro casamento, o pai tem dois filhos: Wilson Ricardo, de 35 anos, e Neide, de 32 anos, ambos casados, não moram com a família.
Ricardo tem três filhos com as idades de 10, 7 e 6 anos, e um quarto filho que morreu logo após o nascimento. A Neide é mãe de uma menina de 8 anos e de um menino
de 7 anos.
85
2, Queixa
• A família procurou a Clínica, na pessoa da mãe, com a queixa de que seu filho caçula, Eraldo, estava tendo problemas de cnurese. Não conseguia controlar a urina
em nenhum local em que estivesse e esse fato já estava trazendo transtorno tanto para a família, como para ele próprio, pois, além de ficar muito constrangido, em
alguns momentos estava ficando agressivo, tanto em casa, com os irmãos, como na escola, com os amigos, que faziam caçoada e apelidando-o de 'fedido'.
II - O que está acontecendo com a família
• O pai culpa a mãe por não estar em casa e não orientar nem tentar auxiliar o filho em seu problema.
• A mãe discorda e discute com o pai. Márcia toma o lugar da mãe e se responsabiliza pela casa e pelo cuidado dos irmãos, sendo supervalorizada por isso.
• A mãe passa a trabalhar fora e não quer fazer nada em casa, principalmente comida, fato relevante, visto ela ser cozinheira por profissão.
• Márcio não quer aceitar ordens de ninguém nem prestar qualquer auxílio em casa. Toma-se extravagante, vestindo-se como Punk.
• Ivo torna-se revoltado tanto com o pai como com a mãe, sente-se rejeitado, distancia-se da família. Não trabalha nem estuda.
• Eraldo vive angustiado com seu problema. E alvo de zombaria, não só na escola, como em todos os lugares que freqüenta. Não agüenta ficar em casa, saindo sempre
para a rua, principalmente quando a mãe chega.
• Foram realizadas dez sessões, sendo que o pai faltou na quarta, juntamente com Ivo, e a mãe faltou na nona sessão, juntamente com o filho Ivo, também.
86
1. Hierarquia
• Em um primeiro momento, temos Josimar ocupando a posição parental tendo a mãe um papel desqualificado, ficando na posição mais de filha do que de mãe. O filho
Ivo distanciado da família e os filhos Márcio, Márcia e Eraldo na p osição fraterna.
Pai
Mãe, Márcia, Márcio, Eraldo
Ivo
• Em um segundo momento temos ainda Josimar ocupando a posição parental, elevando a filha Márcia a uma posição parental, tendo os filhos Márcio e Eraldo em posição
fraterna e a mãe distanciada da família, bem como o filho Ivo, que está mais unido à mãe.
Pai -Márcia
Márcio, Eraldo
Mãe-Ivo
• Em um terceiro momento, temos o pai e a mãe em conflito, mas ambos mantendo a posição parental e os filhos Márcia, Márcio e Eraldo na posição fraterna e Ivo continuando
afastado da família.
Pai - I I -Mãe
--¦--Ivo
Márcia, Márcio, Eraldo
• Em um quarto momento, temos a mãe ainda em conflito com o pai, mas ainda se mantendo em posição parental. Os filhos Márcia, Márcio e Eraldo continuam na posição
fraternal e Ivo unindo-se a eles, também em uma posição fraternal.
Pai - I I -Mãe
Ivo, Márcia, Márcio, Eraldo
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• Em um quinto momento, temos os pais relacionando-se melhor na função parental e os filhos na posição fraterna, podendo respeitar-se e sendo respeitados pelos pais.
Pai - Mãe
Ivo, Márcia, Márcio, Eraldo
2. Seqüências de Interações
• Márcia pensa e fala por todo o grupo familiar.
• O pai permite que Márcia fique na posição parental, e aceita todas as suas opiniões. Trabalha intensamente e dorme todas as tardes para recuperar forças.
• A mãe mostra-se extremamente submissa, fica à margem da família.
• Não existe interação com o Ivo que se sente rejeitado pela família.
• Quando os sintomas de Eraldo ficam mais evidentes, o pai passa a culpar a mãe por não ficar em casa e não cuidar dele o suficiente. Critica-a e diz que em sua
casa não tem ordem por causa da mulher, que trabalha fora e não cuida da casa.
• O conflito parental não aparece explicitamente, pois, quando o casal vai ficar frente a frente, sempre um dos filhos aparece para intermediar a situação e formse
uma triangulação.
• A mãe é muito invadida pelos filhos e pelo marido que a criticam muito, e não consegue defender-se.
• O pai está se distanciando da mãe e unindo-se aos filhos, para poder manter uma relação de poder e controle sobre a mãe.
• Nessas seqüências de interação, sempre que há uma emoção forte, alguém falta na sessão seguinte, como uma forma de amenizar essa tensão.
3. Limites
• Esta é uma família aglutinada. Há uma invasão do subsistema fraternal e vice-versa. Márcia assume a posição de mãe e esta assume a posição de filha. Conservam
certa privacida
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de, procurando não mexer, pegar ou usar roupas ou objetos uns dos outros mas acabam contando coisas íntimas em relação aos namorados de Márcia, Ivo, Márcio e Eraldo.
• Tentam manter-se aglutinados para evitar uma diferenciação, em que poderiam surgir outros elementos com problemas maiores que os de Eraldo, ou mesmo que pudessem
ser discriminados alguns elementos colocando em evidência outros. Nesse processo de separação qualquer diferenciação é sentida pela família como uma traição, como
um abandono. O sentimento de pertencimento é forte.
• Permanecendo indiferenciados é uma forma de mascarar o conflito no subsistema parental, o que resulta no aparecimento do sintoma de Eraldo.
4. Alianças
Pai - Márcia
• O pai a supervaloriza nos trabalhos que faz e por ser boa estudante e atribui funções parentais a ela, que tem que cuidar da casa, dos irmãos e ainda ajudá-lo
na feira.
• Ela faz com que os irmãos façam o que o pai quer, o apoia em seu trabalho, ajuda-o a criticar o trabalho da mãe e acompanha o desenvolvimento escolar dos irmãos.
Pai - Márcio
• Protegendo-o.
• Desculpando seus erros.
• Permitindo que o ajude na feira.
• Afastando-o dos afazeres domésticos.
• Não fazendo cobranças em relação às suas dificuldades escolares (duas reprovações).
Mãe - Ivo
• Apoiando Ivo em suas dificuldades.
• Defendendo Ivo das críticas dos familiares.
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• Acreditando que o filho sofre muito por maus-tratos causados na infância pelo pai que o rejeitou.
• Sentindo-se como ele, distanciada da família.
Mãe - Eraldo
• Apoiando-o em suas dificuldades.
• Falando com a professora sobre suas dificuldades.
• Levando-o para tratamento.
• Não cobrando dele tarefa doméstica, mas dizendo que ele a ajuda bastante.
Márcio - Márcia
• Márcio sempre concordando com tudo que Márcia diz e apoiando-a em suas funções parentais.
• Sendo cúmplices e protegendo-se um ao outro.
Márcio - Eraldo
• Márcio tratando Eraldo como um irmão caçula, preocupando-se com ele e querendo controlar suas atividades para que não perca aulas nem fique na rua à toa.
• Coloca-se na posição de irmão mais velho que cuida do menor.
• Fala por ele e pede para que realize coisas em casa.
• Incumbe-se de acordá-lo para ir à escola, fazendo-o antes de ir para a sua escola.
5. Complementaridade
• O pai desqualifica a mãe perante os filhos, dizendo que ela mesma não cuida da casa, que não tem facilidade para aprender as coisas.
• A filha Márcia, para manter-se na posição de competente e qualificada, une-se ao pai e desqualifica a mãe.
• A mãe, para manter o pai em uma posição privilegiada e competente, acaba aceitando seu rebaixamento, não se defende e
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se mantém afastada da família.
• Eraldo e Ivo, para elevarem a mãe a uma posição mais qualificada, unem-se a ela e tentam manter-se dependentes dela.
6. Flexibilidade-Rigidez
• A família mostrou-se flexível e se mostrou aberta para mudanças. Em muitos momentos demonstraram compreender tudo o que foi discutido e proposto nas sessões em
benefício de Eraldo e de todos e puderam colocar em prática as sugestões dadas.
7. Comunicação
• A comunicação da família em determinados aspectos mostrou-se fácil e aberta, porém existem alguns assuntos que são mais ou menos evitados. Por exemplo, assuntos
sobre sexo e alguns acontecimentos do passado na vida afetiva do pai e da mãe, principalmente sobre o primeiro casamento do pai.
• A relação marital não é discutida nem se permite falar sobre seus conflitos íntimos. Fica sempre num nível indireto, através de algumas insinuações do pai, principalmente
quando se refere a saídas da mãe e da mãe, quando se refere ao pai querendo controlar suas roupas, suas saídas e seu trabalho.
• Os filhos reclamam da frieza do pai em relação à mãe.
• Na família é permitida a expressão de emoção agressiva e hostil, ficando mais difícil a expressão de carinho e afeto.
• A mãe demonstra descarregar suas emoções, dedicando-se intensamente ao trabalho.
8. Ciclo vital
• A família parece estar presa na fase da adolescência. Os filhos não conseguem sair de casa. Não conseguem sua independência, nem economicamente (trabalham com
o pai), nem emocionalmente.
• A mãe coloca-se numa posição de adolescente displicente, em que o marido é o pai que tem que cuidar de todos os filhos, incluindo a ela, que não consegue assumir
o seu papel de mãe
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responsável por essa família.
• Os filhos não conseguem se individualizar, e o que tenta é agredido pelos demais.
• Pais com dificuldades para conviver com a entrada dos filhos na vida adulta.
9. Coalizões
• Pai e mãe brigam através dos filhos. A mãe demonstra ciúmes da filha Márcia que compete pela autoridade parental.
• O pai, Márcio e Márcia se unem para criticar a mãe por trabalhar e ausentar-se da casa.
• Márcia e Márcio se unem para criticar o pai em sua rigidez afetiva para com eles.
• Pai e mãe brigam através dos filhos, desviando a agressividade, protegendo-se para que não apareça diretamente na relação marido e esposa ou mesmo na relação homem-mulher.
10. Triangulações
• O pai em conflito com a mãe e superenvolvido com Márcia, colocando-a em uma posição de filha parental, encarregada de cuidar dos irmãos e arrumar a casa. A mãe
em conflito com ela por não aprovar o seu namoro.
• O pai em conflito com o filho Ivo por achar que a mãe não liga para a casa, que o abandona e que o filho é vagabundo e não quer trabalhar A mãe superenvolvida
com Ivo e achando que ele tem problemas, pois sofreu muito com os maus-tratos que o pai lhe causou na infância, bem como a ela, pois não o queria. Queria que ela
abortasse ou desse o filho.
92
M
\
•Pai em conflito constante com a mãe. Mãe em conflito com Marão que não a respeita como mãe. O pa, sunerenvlido com ele, pois o ajuda muito na feira e é respoEsávT
M
Mo
• Pai em conflito com a mãe que se superenvolveu mm
• Os irmãos Márcia e Márcio superenvolvidos e se ajudando mutuamente, enquanto os dois ficam em conflito com Ivo por ele não trabalhar nem estudar.
~\/_
• Márcia e Márcio superenvolvidos e Márcia sendo super-protetora de Eraldo querendo colocar-se na posição de mãe. Márcio também dando-se bem com ele e se incumbindo
de acordá-lo para ir para a escola
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Ma ===== Mo
//. Tarefas
•Foi indicado (Ia sessão) à mãe que falasse com a professora de Eraldo para que permitisse que ele saísse para ir ao banheiro quando necessitasse.
• Foi indicado (2a sessão) que se alguém xingasse Eraldo de 'mijão', esta pessoa receberia um apelido colocado pela família durante a sessão seguinte.
• Foi trabalhado (6a sessão) para que Eraldo pudesse ajudar o pai na feira, para não ficar tanto tempo ocioso.
• Foi pedido (7a sessão) para que a família fizesse uma divisão dos serviços caseiros. A mãe faria uma lista e depois supervisionaria o trabalho realizado.
• Foi indicado (9a sessão) para a última sessão que se daria uma 'festinha' e que cada um faria um prato para trazer a essa festinha.
III - O que se trabalhou com a família
/. Temas trabalhados durante a Terapia Familiar Breve
• Trabalhou-se para se redistribuir o sintoma para que não se precisasse manter Eraldo na posição de paciente identificado (PI).
• Trabalhou-se para que a família pudesse respeitar as diferenças individuais, não tendo expectativa de similaridade.
• Trabalharam-se os limites da família, que deveriam ser criados e respeitados para que cada um pudesse assumir suas responsabilidades sem invadir os limites do
outro.
• Trabalhou-se para elevar-se a mãe na hierarquia familiar a fim de elevar sua competência.
• Trabalhou-se para tirar a filha Márcia da posição parental.
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• Trabalharam-se as fantasias de idealização da família.
• Trabalharam-se os mitos familiares.
• Trabalhou-se a dificuldade de comunicação dentro da família para que todos pudessem falar diretamente com o outro sem necessidade de intermediário nem de somatizações.
• Trabalhou-se para que a família permitisse que as emoções pudessem ser explicitadas, sem precisar desviá-las através de comportamentos agressivos e violentos.
• Trabalharam-se os afetos dentro da família.
• Trabalhou-se para o fortalecimento do subsistema fraternal, a fim de que pudessem aflorar, naturalmente, suas potencialidades, sem que se sentissem ameaçados com
isso.
• Trabalhou-se para ajudar os filhos em seu processo de independência e individualização dentro do contexto familiar.
• Trabalhou-se para que os filhos pudessem compreender suas dificuldades e limitações, mas que percebessem também suas qualidades e possibilidades.
• Trabalhou-se para ajudar os pais a relacionarem-se mais diretamente com seus filhos. Que pudessem compreendê-los e respeitá-los em sua individualidade.
• Trabalharam-se as dificuldades dos pais em lidar com o crescimento dos filhos.
• Trabalhou-se para unir o casal em suas funções parentais, para elevá-los em sua competência na hierarquia familiar.
• Trabalhou-se para que o casal discriminasse a relação entre as funções parental e marital.
• Trabalhou-se a dificuldade da relação marital.
• Trabalhou-se para ajudar o casal, principalmente a mãe, tomar-se independente de sua família de origem.
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2. Trabalho realizado durante cada sessão
DISCURSO DA HIPÓTESE OBJETIVOS
üíivifT ta TERAPÊUTICOS KAMI LI A
rSESSÃO
OBS. A mãe comparece sozinha.
• Lindalva: Os exames do Eraldo não ficaram prontos (exames neurológicos solicitados na Triagem). Eraldo faz "cocô" e "xixi" na escola e suja a roupa. E tudo que
acontece lá na escola ele é logo "culpado". Ele toca em um conjunto de samba e não agüenta chegar o fim do número, já fica todo molhado. Também à noite ele acorda
e parece que vai "subir pelas paredes" tem que "chacoalhar ele para acordar". Eleja teve pneumonia e bronquite.
• Eraldo é o paciente identificado dessa família (PI).
• Trabalhar a mãe para integrar toda a família para o tratamento em Terapia Familiar Breve. Colher dados da situação geral da queixa e da família, a fim de ajudar
Eraldo para não precisar ser o paciente identificado (PI) da família.
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DISCURSO DA FAMÍLIA
•As terapeutas questionaram sobre os outros elementos da família para que as inte-rações pudessem aparecer. A mãe comenta que o marido trabalha na feira e leva os
filhos com ele para ajudá-lo. Ivo não estuda e parou de trabalhar. Gosta de fazer esportes. Também está inscrito aqui na Clínica para fazer Terapia Breve Individual.
A Márcia é inteligente, trabalha com o pai na feira, estuda no terceiro colegial magistério. Está namorando, mas a mãe não aprova por ela ser jovem e ele pobre.
Desqualifica-o comparando-o com o próprio marido que não tem nada e que Márcia não deveria imitá-la. Márcio está na 5a- série. Parou de trabalhar. Também fazia "xixi"
na cama e parou quando arranjou uma namorada.
HIPÓTESE
• Se o sintoma for redefinido, aparecerão outras formas de dificuldades vividas no contexto familiar e poderemos entender como se organiza a estrutura familiar.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
•Redefinir o sintoma, para que este possa circular liberando Eraldo da posição de paciente identificado (PI) e possibilitando que as dificuldades dos outros elementos
da família possam a-parecer de forma que eles também possam ser ajudados.
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DISCURSO DA FAMÍLIA
2a-SESSÃO
•Lindalva: Eu venho para a terapia para ajudar o Eraldo. Márcia: É. O Eraldo é um problema e a escola mandou uma carta. Márcio: É! A gente pode ajudá-lo. Eraldo:
Eu sou muito bagunceiro e a professora reclamou. Ivo: É. A professora reclamou do horário e que ele não faz as lições. Josimar: O problema é que estas crianças não
têm quem cuide delas nem dê ordens. Ela (mãe) trabalha o dia todo e não tem quem cobre nada. Acho que criança tem que ter ordem.
HIPÓTESE OBJETIVOS
TERAPÊUTICOS
• Há dificuldades de relacionamento entre o casal e o sintoma de Eraldo é usado para encobrir essas dificuldades.
• Redefinir o problema, para que as relações entre os membros da família possam ser trabalhadas, sem que se precise de Eraldo como paciente identificado. Trabalhar
para que se percebam as divergências do sistema parental em relação à percepção dos problemas do filho e de seus próprios conflitos maritais.
98
DISCURSO DA FAMÍLIA
•Márcia: É.A minha mãe sempre trabalhou. Quando precisamos dela, ela trabalhava. Agora é o Eraldo que precisa. Ela deveria ficar em casa. Márcio: É. O Eraldo não
tem ninguém que o acorde de manhã. Aí ele acorda tarde e mesmo que a gente coloque o relógio ele não acorda. Ele precisa de alguém para chamá-lo. Ivo: Eu chamo antes
de ir trabalhar, ou mesmo agora que tô em casa. Ele levanta e vai para a rua brincar e vai para a escola atrasado. Aí a professora reclama. Acho que se minha mãe
estivesse em casa as coisas seriam diferentes.
•Eraldo: Eu não posso nem falar nada, não sei qual o problema dela, ela é quem tem que resolver.
HIPÓTESE
• As dificuldades de relacionamento entre a família, principalmente entre o casal, desequilibram e desar-monizam o ambiente familiar, fazendo com que a ausência
da mãe em horário de trabalho seja sentida pelos filhos como um abandono.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-los a perceber as dificuldades e as necessidades da família, para que possam expressar e reconhecer seus sentimentos de "rancor" em relação à mãe, sem que
precisem fazê-lo através de Eraldo.
• Eraldo parece compreender as dificuldades de relacionamento que há entre o casal e não desqualifica a mãe, como fazem seus irmãos.
• Poder elevar a mãe na hierarquia e competência dentro da família.
99
i(is< URSO DA
i \ m 11 i v
• Ivo: Eu tenho Minorada, mas não é U i lo A gente está ii.ikillumdo e elas .1 .mi por aí "chi-ii.iiido" a gente. Márcia: Meu namoro l i.i indo (rindo). I i.ildo:
Eu não tenho immorada nem i Minorado.
HD7ÓTESE
•Há uma tentativa de diferenciação entre os membros da família e o aspecto da sexualidade parece ser uma preocupação deles.
• Márcia quer tornar-se independente e tem dificuldades, pois está ocupando a posição de filha parental.
nheço que sua contribuição para fazer face às despesas c essencial, pois o pai trabalha para pôr comida em casa e as outras coisas é a mãe quem dá. Se ela parar
não dá para fazer nada.
• Márcia: Eu trabalho (iam o meu pai, mas I referia trabalhar em nina loja ou escritório ile maneira que iiunha mãe pudesse Bear em casa. Seria mais vantajoso para
a lamília se ela ficasse cm casa, mas reco-
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
•Ajudá-los a expressar-se afetivamente para que possam ser ajudados em sua diferenciação e crescimento pessoal. Ajudá-los a ver sua própria relação com o sexo oposto
e de como esse aspecto da sexualidade está sendo lidado dentro da família.
• Ajudar Márcia a poder tornar-se independente, a sair da posição de filha parental e a perceber sua ambi- valência em relação à mãe trabalhar, pois quer que ela
fique em casa e por outro lado diz que se ela não trabalhar não terão outras coisas.
100
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Lindalva: Eu sempre trabalhei fora quando eles eram pequenos. Eles ficavam na creche sem problemas. Márcio: É. Mas nós fomos expulsos daquela creche. Márcia: Verdade.
Nós não pudemos continuar lá. Lindalva: Não é bem assim. Não é que vocês foram expulsos. É que lá tinha um limite de idade, só pegavam crianças até a idade de 6
anos e você já iria fazer mais. Então para não ter que levar um para uma creche e outro para outra eu tirei os dois.
• Márcia: Lá em casa eu tenho que resolver tudo.
HIPÓTESE
• Márcio e Márcia se unem para desqualificar a mãe na sua função parental.
• Márcia assume a posição de filha parental.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS • Ajudar a mãe a elevar-se em suas funções parentais. Ajudar o casal a perceber o desenvolvimento dos filhos, sem que ninguém precise se sentir
ameaçado ou culpado por essa maior independência, de maneira que os filhos possam perceber seus conflitos com a mãe e resolvê-los.
• Ajudá-la a sair da posição de filha parental, para que sua mãe possa assumir suas funções parentais mais adequadamente e Márcia possa fazer parte do subsistema
fraternal.
• Eraldo: Eu quero ir ao banheiro, posso?
• Eraldo tem receio de não conseguir controlar seu "xixi".
• Conotá-lo positivamente, mostrando que ele pode ter controle da situação quando for necessário.
101
ih •< i USO DA l WllllA
i ruído: Na escola .....iti consigo
lutoi Izaçâo da i>i> dessora para ir ao b inheiro. Minha |m<dessora acha que 111 unem bagunçar e lllo deixa, então não dá para esperar. Em ' lambem, todos III
nu gozando e me ' ii.miando de
mijão".
HIPÓTESE
• Eraldo tem dificuldades para dizer clara e objetivamente para a professora o que está acontecendo com ele.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-lo a poder expressar-se objetivamente, elevando-o na sua competência.
l iiapcutas fazem Nin.i aliança com i M lilo c propõem i'.n;i a família: se o l li.miarem de mljâb" ele vai nos > iinlar na próxima NfNsâo. Aí iremos procurar um
apelido pura quem não n peitar esse acordo, 1'Nta bem?
• Eraldo está se desenvolvendo c teme tomar-se independente.
• Ajudá-lo na sua integração, para que possa ser elevado perante eles e possa caminhar para uma maior independência mais satisfatoriamente.
i" SKSSÃO
• Terapeuta questiona •< respeitaram o II urdo. Eraldo: Sim, ninguém me xingou de "mijão".
• Eraldo é xingado, pois está sendo colocado na posição de paciente identificado (PI).
• Conotá-los positivamente cm sua atitude, mostrando que podem se respeitar, sem precisar colocar ninguém na posição de paciente identificado (PI).
102
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Márcia: Ivo é quem mais chamava Eraldo de "mijão" e brigava com ele. Márcio: É mesmo, o Ivo é quem mais fala. Eraldo: Ah! Vou ter que arrumar um apelido para ele.
Bom! Não, dessa vez vou perdoá-lo.
• Márcia: Em casa temos apelidos. Márcia: brinquinho, Ivo: bolinha, Eraldo: coquinho.
• Ivo: Eu pensei na sessão passada. Estou trabalhando perto de casa, quero voltar a estudar. Já fiz várias tentativas para ser ciclista, mas minha família acha que
esporte não é profissão e tentam me desmotivar.
HIPÓTESE
• Está havendo uma maior integração no subsistema fraternal.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as alianças dos irmãos dentro do subsistema fraternal e sua influência nas inter-relações familiares.
• Colocar apelidos é uma forma de expressão afetiva que há dentro do relacionamento dessa família.
• Trabalhar as formas de a família se relacionar e se comunicar. Ver como demonstram seus sentimentos afetivos, tanto amorosos como hostis.
• Ivo tenta se tomar independente de sua família e encontra resistência por parte dela.
• Conotá-lo positivamente incentivando-o em suas realizações tanto pessoais como profissionais, dando também conotação positiva para sua "aptidão" esportiva mostrando
que com dedicação e esforço ele pode ser um profissional do esporte e ter prazer com o que realiza, sem precisar ser desmotivado pela família.
103
IH.S< HKSODA i tMÍLIA
- i ira Ido: liu não fiz "in. "xixi" na i ¦ ola. Só em casa.
HIPÓTESE
• Eraldo está podendo ter um maior controle sobre suas dificuldades.
- i u Ido: Na Páscoa • É importante para eu nó vou ganhar ovo Eraldo ser lembrado pintado e ovo de em seu aniversário.
I booolate e vou ranhar também os parabéns, pois é o meu aniversário.
• Márcia: Eu ensaiei pari me apresentar nu conjunto de ..iinha.
• A família se une para desempenhar uma atividade profissional que lhe traz satisfação e propicia momentos de lazer.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Apoiá-lo em sua conquista e valorizar suas potencialidades. Podendo mostrar que ele tem o poder de controlar e resolver a situação quando for preciso.
•Ver como é que a família comemora os dias festivos. Como costumam fazer os aniversários, como se presenteiam... que valor dão a essas datas.
• Ver como a família se organiza profissionalmente e afetivamente para se apresentarem em conjunto de samba e como sentem e vivenciam esse conjunto.
104
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Josimar: Com 11 anos eu já trabalhava e com 15-16 anos já estava pronto para casar. Para estudar não tinha opção, tinha que andar dez quilômetros e aí quando chegava
do trabalho tava escuro, os outros já tinham ido embora, dava medo. Eu tive muitas dificuldades para aprender a ler e escrever. Eu trabalhei como segurança e depois
comprei uma "kombi" e fui trabalhar como autônomo em feiras livres vendendo temperos. Tive que me aperfeiçoar em contas para poder dar conta do recado.
• Josimar: Eu aprendi a tocar de ouvido, espero que meus filhos também aprendam. Eu compro os instrumentos musicais juntamente com o manual, e eles têm que saber.
Márcio: Eu acho difícil, não consigo. Márcia: Meu pai só esculacha, porque a gente não sabe fazer como ele.
HIPÓTESE
• O pai quer que os filhos percebam as dificuldades que ele encontrou em sua vida e como as superou, para que eles o tenham como um exemplo e possam esforçar-se
para se desenvolver.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Elevar o pai em sua competência parental. Trabalhar suas expectativas quanto ao desenvolvimento dos filhos, e poder ajudá-los a perceber e compreender o empenho
do pai em auxiliá-los.
• O pai tem expectativas quanto à produção artística dos filhos, pois espera que sejam capazes de aprender a tocar os instrumentos musicais sozinhos como cie fez.
• Conotá-lo positivamente em suas realizações, mas trabalhar as suas expectativas, para que perceba as diferenças individuais das pessoas e que não espere uma similaridade
consigo, que não é possível, para que dessa forma ele possa compreender as diferenças de cada um e respeitar os seus limites.
105
i"is< URSO DA FAMÍLIA
• i Indalva: O Márcio nrto queria vir para a ti rama hoje. Ele está ii-mio dificuldades de .itlapiação na escola e i.inibem costuma mentir para a gente.
HIPÓTESE
• A terapia familiar breve está possibilitando que haja uma circularidade do sintoma e o paciente identificado nesse momento pode ser o Márcio.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades de Márcio, podendo dessa forma ajudá-lo, permitindo que haja uma circularidade do sintoma.
• Terapeuta pergunta se I vo é bom aluno. A mãe diz que não. ()uc bate nas outras crianças.
• Há necessidade de que se faça o sintoma circular dentro do contexto familiar, a fim de que a família possa percebê-lo e não mais necessitar de um paciente identificado
(PI) e possa compreender as necessidades, as dificuldades e as possibilidades de cada um.
• Tentativa de mostrar a circularidade do sintoma e que ele pode estar com cada filho e que cada um pode ser ajudado em suas dificuldades.
• Lindalva: Quando o I vo nasceu nós já éramos casados, morávamos juntos, mas os filhos do primeiro casamento dele pensavam que eu era a empregada da casa, não sabiam
que nós éramos casados. Só descobriram quando eu engravidei do Ivo. Aí o Ivo nasceu e eles não gostavam do Ivo.
• Houve dificuldades de relacionamento do casal, que interferem ainda hoje em seus relacionamentos.
• Ampliar as queixas implícitas na relação pai-mãe-Ivo. Que elas possam ser explicitadas e que as dificuldades do relacionamento pai-mãe possam aparecer tanto no
sentido parental como no marital.
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DISCURSO DA FAMÍLIA
• Ivo: Eu tive muitos maus-tratos lá na creche que eu estava. Eles me batiam, me deixavam sem roupa, sem comida, tanto que eu não queria mais ir.
HIPÓTESE
• Ivo parece sentir que suas dificuldades atuais estão ligadas às necessidades e dificuldades que viveu em sua infância.
• Márcia: Ah, Ivo, hoje não é mais assim... (Márcia fala por Ivo como se fosse sua mãe).
• Márcia exerce a função de filha parental junto dos irmãos.
4" SESSÃO
• Eraldo: Eu ganhei um ovo. Todos ganharam, menos minha mãe, mas a gente dividiu com ela, para não ficar sem nenhum.
• Eraldo é solidário com a mãe e se recente ao vê-la desqualificada em sua função parental
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Apoiá-lo em suas dificuldades, conotando positivamente suas conquistas, possibilitando, dessa forma, uma maior integração de Ivo com seu meio social, bem como
ajudá-lo a desenvolver-se mais adequadamente no momento atual.
• Dar condições a Márcia para que possa desligar-se dc sua posição parental, não no sentido de um rompimento com a família, mas sim no sentido dc uma individualização,
para que possa sair da posição de mãe, que não é sua função e possa ser filha e irmã, de modo que a mãe possa assumir o seu papel parental junto à família.
• Conotá-lo positivamente em suas tentativas de unir a família, para que a mãe possa ser elevada em sua competência parental.
107
"i < IfKSODA i v Mil.IA
i liulnlvu: O Ivo
i ll...... porque
i umeçou a trabalhar
• ih iimu agencia. Não
• 0 Ojuc ele queria, mi está tentando.
HIPÓTESE
• A mãe percebe o esforço de Ivo na tentativa de se desenvolver profissionalmente e o apoia.
• li aldo: Eu pedi iniiii a professora paia ir ao banheiro i|iiaiido cu precisei lá M l .cola e agora não Urino mais na roupa na escola.
• Eraldo pode se sentir seguro, pode relacionar-se clara e objetivamente com a professora e pode ter um maior controle da situação como um todo.
• Márcia: O meu pai implica com o meu ii.imorado porque ele nao trabalha, mas ele I .i.i operado e depois .11i.iitdo melhorar ele vai tentar ver se Blbalha separado
da liunília. Pelo menos é D que eu espero.
• Márcia é insegura na relação com o namorado e se incomoda com a opinião que sua família tem dele, pois percebe suas dificuldades.
• Márcia: Eu sei que tem diferenças entre meu namorado e eu, mas cu só estou curtindo, não estou penando em me casar .inida. Márcio: É. O namorado da Márcia não
quer saber de nada líle se une com a lainília dele e fica
sempre na mesma. • O namorado de Márcia é desqualificado por ela c por
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Conotar positivamente a realização de Ivo e trabalhar junto a família para que possa reforçá-lo e apoiá-lo em suas realizações na tentativa de um crescimento.
• Conotá-lo positivamente, fazendo com que perceba como ele, agora, tem o poder de controlar suas necessidades fisiológicas.
• Trabalhar para que Márcia discrimine seus próprios sentimentos sem precisar "julgar" o namorado pelas opiniões de outras pessoas, de modo que possa ser responsável
pelos seus atos.
seu irmão.
• Trabalhar para que Márcia possa entender o que realmente sente e qual o "uso" que faz desse namoro dentro da família, uma vez
108
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Márcia: É. Já dá até para levar a namorada para sair com o dinheiro que o Ivo tá ganhando. Márcio: E. Nos motéis. Lindalva: Também, essas meninas de hoje só pensam
nisso. Márcia: Aí depende. Vai quem quer. Lindalva: Você, se o seu namorado falasse, você iria? Márcia: Não, pois acho que não vale a pena.
• Eraldo: Não tenho nenhuma namorada. Márcia: Ele tem namorada sim. Lindalva: É. Ele pediu para "ficar" com a menina. Márcia: A menina é cabeça fraca. Lindalva:
É. Meus sobrinhos só pensam em sexo.
• Márcio: Minha tia sabe criticar os filhos dos outros e deixa seus filhos fazer o que quiserem. Márcia: Ela acha que o filho tem que ser igual ao pai.
HIPÓTESE OBJETIVOS
TERAPÊUTICOS
• Há na família uma • Conotar positiva-preocupação com o mente a realização de envolvimento sexual Ivo e de como todos de seus membros. os outros
elementos da família podem também desenvolver-se. • Trabalhar as expectativas da família quanto ao papel da sexualidade de cada um e de como isso é visto no contexto
familiar.
• As disputas das relações extrafami-liares, com a possibilidade de desenvolvimento da sexualidade dos membros da família, parece afetar a família como um todo,
pois estão sempre preocupados e falando da sexualidade uns dos outros.
• Trabalhar como a família lida com a sexualidade de cada um de seus membros e de como esse despertar dos relacionamentos extrafamiliares afetam os membros de toda
a família, pois eles sempre precisam desqualificar outras pessoas.
• A família é crítica com outras pessoas, mas não aceita críticas.
• Trabalhar a dificuldade que toda a família tem de perceber como também são críticos em relação aos outros e mesmo entre si.
109
ihs( urso da iamIija
¦ Márcio: Ela critica minha mãe que me dtixou sair quando N fui operado. Márcia: Essa minha n.i nós chamamos de I iirdinha Figueroa", I muito metida. Não vive com
ninguém.
• I indalva: Essa tia unha inveja de mim, porque o Josimar me libera.
• Márcia: O Ivo mudou. Agora ele até brinca com a gente.
HIPÓTESE
• Há dificuldades de diferenciação dentro da família.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar a dificuldade de se diferenciarem uns dos outros (fora e dentro da família). Trabalhar a relação entre pai e filhos e entre os irmãos.
• Lindalva sente que o marido não impõe obstáculos às suas realizações, pois tem autonomia para sair e fazer o que quiser.
• Trabalhar a relação marital.
• O relacionamento entre Ivo e seus familiares está sendo mais satisfatório.
• Conotar positivamente essa mudança e essa percepção da família em relação ao Ivo.
110
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Lindalva: Ivo acha que ninguém gosta dele. Só que ele aprontou muito quando trabalhou com o pai. E que o Ivo, também, já sofreu muito. A filha do primeiro casamento
do meu marido maltratava muito ele, e o pai também o rejeitou. Quando o Josimar soube que eu estava grávida ele quis que eu abortasse para que seus filhos não descobrissem
que nós já estávamos casados. Depois, como eu não abortei, ele quis que eu o desse quando ele nasceu, mas eu não aceitei, mesmo ele brigando. Por isso ele desprezava
o filho e o maltratava.
• Lindalva: A Neusa, primeira filha do meu marido, é muito revoltada, pois descobriu em que circunstâncias a mãe morreu. Ela foi morta por um tiro acidental disparado
por seu filho. E depois pelo casamento de seu pai comigo, que ela pensava ser a empregada.
HIPÓTESE
• Há dificuldades no relacionamento do casal entre si e entre o pai e o filho Ivo. Lindalva culpa a atitude do marido, em relação ao filho, como sendo responsável
pelas dificuldades que Ivo tem encontrado em sua vida.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades de relacionamento entre pai e filho e a relação marital que aparece envolvida nessa triangulação (pai-mãe-filho). Trabalhar a dificuldade
da mãe em lidar com essa situação e como ainda se sente magoada em relação ao marido e como o culpa pela situação atual de Ivo.
• Foi difícil para Josimar e Lindalva assumir o casamento perante os filhos de Josimar, e essa dificuldade trouxe vários transtornos que se mantêm até hoje.
• Trabalhar as dificuldades do casal em assumir o casamento e a lidar com os filhos do primeiro casamento, em integrá-los à nova situação.
111
DiNCURSODA
i \ Mil IA
• i Indalva: No início ilii nosso casamento
ii < ml eceram várias n ii., Ses por parte il' Ir e por várias
i . nós quase nos li paramos.
HIPÓTESE
• O casal viveu crises em seu relacionamento marital, que não foram totalmente solucionadas e interferem no relacionamento familiar atual.
¦ I indalva: Eu quero
¦ n icer como pessoa, l>"i isso no início do uno que vem eu quero voltar a
ludar. Quem sabe iiNNim eu posso Unhar mais e mi lliorar de vida.
• Lindalva tem expectativas quanto ao seu desempenho profissional e tem demonstrado interesse em progredir.
V SKSSÃO
• I oi realizado o ¦ imgrama da
Inmília.
• Como existiram muitas dificuldades no início do casamento de Josimar e Lindalva, devido ao casamento anterior de Josimar, fazendo o genograma poderíamos encontrar
alguma ligação com essas dificuldades vividas com sua família de origem que pudesse estar prejudicando a formação da nova família.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar a relação marital e como a mãe ainda se ressente das atitudes do pai em relação ao casamento e como isso tem influenciado na família até hoje.
• Incentivá-la em suas aspirações profissionais para que possa se desenvolver mais adequadamente.
• Ao usar o genograma poderíamos encontrar as inter-relações com a família de origem e observar a presença de muitos acontecimentos importantes, identificações,
nomes, datas, enfim, tudo que nos desse uma visão geral da estrutura dessa família.
112
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Ivo: No meu trabalho tudo está indo bem. Não estou gostando muito, mas tenho que me conformar, pois é um início. Eraldo: Eu não estou mais fazendo "xixi" na roupa,
e esta semana não precisei ir ao banheiro da escola durante as aulas nenhuma vez. Ah! Eu fiz aniversário e queria bolo.
HIPÓTESE
• Ivo e Eraldo estão podendo resolver suas dificuldades e estão podendo ampliar seu campo de relacionamento e ação.
• Lindalva: Como estou de férias levei o Eraldo ao neurologista, que o medicou por um mês com calmantes devido ao seu nervosismo, roer unhas e chupar o dedo. Mesmo
o remédio dando sono ele está conseguindo acordar cedo e ainda está fazendo os serviços de casa para mim, bem como arrumando seu almoço. Márcio: É. O Eraldo está
ajudando muito em casa.
• Lindalva está podendo ter um melhor desempenho em suas funções parentais.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Apoiar Ivo a continuar investindo em seu crescimento e aproveitar a experiência para poder ampliá-la no futuro. Que Eraldo possa continuar em sua evolução, rumo
à independência, podendo ter um controle cada vez maior sobre a situação. Trabalhar junto a família para verificar como organizam os aniversários de seus membros
e qual a importância desse fato para Eraldo.
• Apoiar a mãe em suas funções maternas e em sua preocupação com a problemática de Eraldo c como tem agido para apoiá-lo.
I13
l"IS( URSO DA i v Mll.IA
i i.ililo: Eu tenho muitas dificuldades I iN leitura, pois não i' nho vontade nem uimio de estudar. Minhas notas estão iimIiis com C. Márcio: l ii lambem vou mal
ii.i escola, já reprovei iIiiü.h vezes: uma na 2â I ouirana5asérie. i. iilio dificuldades.
I i.ildo: Eu tenho Ml gatos e püitei o micho de cor-de-i" ia. Lindalva: Eu iiflo gosto nada disso, cnncs desvios Ncxuais. Eu não ai cito a homossexualidade. Acho
muito i nado esse tipo de
• (iinportamento.
• Márcio: Existem pessoas que são homossexuais por eonveniência, como dois vizinhos nossos que foram tratados como meninas. Márcia: É isso mesmo. Lindalva: A mãe
desse menino é que não soube educá-lo. Ela é muito bobona e não sabe corrigir.
HIPÓTESE
• Eraldo e Márcio apresentam dificuldades em seu desempenho escolar.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar para poder ajudar Eraldo e Márcio a ter um desempenho escolar mais satisfatório.
• Lindalva tem expectativas quanto ao desenvolvimento sexual de seus filhos e teme que possa haver algum desvio sexual entre eles.
• Ajudá-la a entender seus receios para que possa compreender o que acontece com seus filhos e possa ajudá-los em seu desenvolvimento biopsicossexual, sem antecipar
resultados que a preocupem.
• Há, na família, preocupações quanto ao desempenho sexual de seus membros.
• Trabalhar os preconceitos que todos os membros da família possuem sobre sexualidade. Trabalhar as atitudes que a mãe considera positivas para que ela possa orientar
seus filhos, para que possa sentir-se qualificada a elevada na hierarquia familiar.
114
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Lindalva: Hoje em dia vêm ocorrendo muitos problemas com drogas e eu fico muito feliz por nenhum dos meus filhos ter tido esse tipo de problema. Eles nem fumar,
fumam.
HIPÓTESE
• Lindalva mostra-se preocupada com o desenvolvimento de seus filhos, pois teme que algo possa dar errado.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar a mãe a compreender o desenvolvimento positivo de sua família. Ajudá-la a perceber a nova fase de evolução dos filhos adolescentes para que possa auxiliá-los
em seu processo de independência e maturação.
• Lindalva: Em casa há diferenças religiosas. Nós somos católicos e os filhos do primeiro casamento de Josimar são crentes. Isso os distanciou ainda mais lá de casa.
Eles não aceitam o casamento do pai. Josimar: No meu primeiro casamento eu casei na igreja. Eu tinha 20 anos e ela tinha 17 anos. Eu a roubei de casa. Levou oito
anos para voltarmos a ver nossa família. No segundo casamento só cumpri a parte legal. Eu tenho problemas com meus dois primeiros filhos. Até hoje, eles não me aceitam
bem.
• Há dificuldades na família para conviver com as diferenças individuais.
• Que possam perceber e respeitar as diferenças individuais, sem encará-las como agressões a eles. Trabalhar as crenças e os mitos que existem na família. Trabalhar
a dificuldade de adaptação que existe entre as duas famílias.
115
m\< 1 uso da
i \ mIiia
tf SKSSÂO
I >l>, l indalva
c Ivo faltam à sessão.
• I i.iUIo: Eu não
¦ ihu mais fazendo mi >" nem "xixi" Ibrtde hora. Estou ii< meio ressecado.
¦ Eraldo: O meu pai BM (liama de Márcio. Márcio: E. E por isso I ii icabo sobrecarregado. Eu sei que a Ooita não é comigo, Bll como o pai 11>iiliinde os nomes o
Eraldo se aproveita ilisso e não faz nada. i osi mar: A Lindalva
inprc escolheu os nomes. Eu não (•"-lava do nome
Ivo" queria
Dárcio". Eraldo: Ah! Eu já gosto do nome Ivo, porque i >.ii cio ficaria muito parecido com Márcio.
HIPÓTESE OBJETWOS
TERAPÊUTICOS
• Eraldo está tendo um controle maior sobre si, não está mais na posição de paciente identificado (PI).
• Terapeutas o apoiam, conotando positivamente seu autocontrole, de modo que possa tornar-se cada vez mais auto-suficiente.
• Há dificuldades na família de diferenciação entre seus membros.
• Trabalhar para que Eraldo não responda quando for chamado de Márcio, pois realmente não é o Márcio e ao responder por ele está se enganando. Que ele ajude o pai
a diferenciá-los e a se acostumar a chamá-lo de Eraldo.
116
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Márcio: O pai fica sempre afastado da gente, ele não se interessa por nossos problemas.
HIPÓTESE
• Há dificuldade do pai em se relacionar afetivamente com seus filhos.
• Josimar: Ela se afastou de mim, e eu também, acabei me afastando dela e de meus filhos. Dos meus parentes eu também estou distanciado. Já a Lindalva é o contrário
de mim. Ela é muito ligada em seus parentes. Vai muito na casa deles. Mesmo eu não indo ela vai sozinha. No início isso me incomodava, mas depois acabei deixando
de lado e vendo se ela se tocava.
• As dificuldades de relacionamento entre o casal os distanciaram em suas funções maritais bem como em suas funções parentais.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar para aproximar o pai afetivamente de seus filhos. Que o pai possa perceber sua qualificação para realizar mais adequadamente suas funções parentais.
• Trabalhar com o casal o seu distanciamento marital e mostrar como o pai se ressente desse fato. Que o pai possa perceber as diferenças pessoais entre ele e a mulher
e como ele se retrai socialmente e como fica incomodado com a maior facilidade de relacionamentos sociais e afetivos que a esposa demonstra ter.
117
ms< liKSODA i vmIi ia
• li '.miar: Eu ando dotnte. .lá venho me trttando de três anos para cá. Até em
macumba cu já me
tratei, mas não gOitei, pois percebi (|iic as pessoas que trabalham lá no i entro são muito "trambiqueiras", até parecem com os parentes da Lindalva i|iie também
são uns "Irambiqueiros". Não gosto disso.
• Josimar: Tem muitas festas lá na l.miília da Lindalva. Hia sempre foi com us crianças e pernoi-tuva c isso me desagradava muito.
HIPÓTESE
• Josimar tem dificuldades em lidar com seus sintomas. Demonstra ter dificuldades de se relacionar afetivamente com a esposa e dizer o que o incomoda em seu relacionamento.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-lo a lidar com suas dificuldades, elevando-o em sua competência. Ajudá-lo a ver aspectos mais positivos em sua vida.
• Josimar demonstra ter dificuldades de relacionar-se socialmente com a família de origem de Lindalva.
• Ajudá-lo a compreender as diferenças pessoais da esposa, sem precisar de similaridade por parte dela. Que ele possa perceber que ser diferente não é errado. Que
ele possa compreender esse fato até que perceba suas dificuldades de relacionamentos sociais.
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DISCURSO DA FAMÍLIA
7" SESSÃO
• Márcio: Nós queremos fazer um teste vocacional. Eraldo: Seria bom ver pra que é que a gente serve. Márcia: Não sei ao certo que faculdade fazer. Lindalva: Até
eu quero estudar.
HIPÓTESE
• Há interesse por parte da família em evoluir e progredir tanto no aspecto pessoal como profissional.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-los a se integrar e a se definir profissionalmente, trabalhando suas expectativas escolares e profissionais.
• Lindalva: O Eraldo recebeu elogios da professora. Ele realmente melhorou depois que começou a fazer a Terapia Familiar Breve.
• A família pôde evoluir e solucionar os sintomas de Eraldo que era o paciente identificado (PI).
• Reforçar positivamente o envolvimento de toda a família na intenção de ajudar Eraldo dc modo que também perceba que todos foram beneficiados com esse atendimento
familiar.
• Lindalva: Ninguém está querendo me ajudar nas tarefas domésticas e com isso eu tenho ficado sobrecarregada.
• Que Lindalva possa distribuir as tarefas domésticas entre seus filhos de maneira equilibrada, para que todos possam realizá-las sem que ninguém fique sobrecarregado.
• Trabalhar para que a família possa fazer uma lista com atribuições para que todos dentro dos seus limites e possibilidades possam realizar a sua parte da tarefa.
• Márcia: Eu vou fazer a lista para distribuir as tarefas para todo mundo.
• Márcia tenta organizar as tarefas da família, ocupando o lugar da mãe.
• Que Lindalva possa assumir suas funções parentais sem atribuí-las à filha Márcia.
119
DISCURSO DA FAMÍLIA
8" SESSÃO
• Márcia: Eu fiz a lista. Não incluí o Ivo porque ele está trabalhando fora o dia inteiro. Lindalva: Todos concordaram e vão fazer. O Eraldo melhorou muito na escola
c o Ivo está Indo muito bem no trabalho.
HIPÓTESE
• Os membros da família estão mais tranqüilos e integrados, podendo melhorar o relacionamento entre si.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar como cada um pode ajudar o outro e como pode conservar a sua individualidade, sendo responsável por ela. Que eles possam perceber que esse tipo de ação
traz um maior equilíbrio e entrosamento dentro da estrutura familiar. Conotá-los positivamente para que percebam como estão podendo tornar-se mais independentes
c responsáveis por suas ações.
Terapia familiar breve
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Conotá-los positivamente e incentivá-los em sua independência e individualização. Que eles possam, individualmente ou como um todo, coordenar o trabalho da casa
e as suas necessidades pessoais.
o Márcio a terminar o dele. Márcio: Tem coisa que é difícil porque a gente não tava acostumado. Josimar: Eles fizeram tudo, ninguém precisou cobrar. O Eraldo melhorou
muito. Está outro. Mas esses aí também estão bem melhores. Já não brigam mais. Conseguem falar com a gente sem gritar. Tudo está bem melhor. Até a Lindalva está
mais calma.
120
DISCURSO DA FAMÍLIA
9" SESSÃO
• Márcia: A mãe faltou hoje, porque teve que fazer uma feijoada lá onde ela trabalha. Terapeuta: Como foram as realizações das tarefas? Eraldo: Foram bem. Eu fiz
tudo o que combinei e depois ainda ajudei
HIPÓTESE
• Está havendo uma diferenciação entre os membros da família de forma que eles mesmos estão conseguindo se organizar e podendo criar seus próprios limites e espaços.
121
msriJRSODA família
• Terapeutas: A
l mana que vem é a nossa última sessão. " orno vocês gostariam que ela fosse? Márcia: Poderíamos liizcr uma brincadeira de amigo secreto. Márcio: E mesmo. É uma
boa idéia. Eraldo: Nós podíamos fazer uma festinha, onde cada um prepararia seu próprio prato para trazer aqui. Josimar: Ótima idéia. Vocês estão me saindo melhor
que a encomenda.
10" SESSÃO
• Todos compareceram e trouxeram seus "pratinhos". Comentaram como foi para realizarem essa "atividade" e como estavam satisfeitos com a Terapia Familiar Breve.
HIPÓTESE
• Os membros da família estão se sentido mais seguros e independentes, por isso estão tendo maior facilidade em decidir o que querem, respeitando a opinião de cada
um
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Permitir que cada um possa exprimir livremente o que sente e pensa. Que possam respeitar-se e respeitar o outro, havendo uma maior integração e harmonia no ambiente
familiar.
• A família pôde evoluir como um todo durante a Terapia Familiar Breve.
• Conotar positivamente seu empenho para que pudessem ver o quanto eles investiram e acreditaram em suas possibilidades. Foram parabenizados e incentivados a prosseguir
no desenvolvimento de suas próprias vidas. Foi dada como encerrada a Terapia Familiar Breve.
122
IV - Posição de cada membro da família ao final da Terapia Familiar Breve
Pai
• Mais integrado na família, fazendo com que os filhos pensem em trabalhar.
• Pensando em ampliar o seu trabalho como autônomo.
• Querendo que os filhos assumam responsabilidades por tarefas familiares sem necessitar lembrá-los ou cobrá-los.
• Entendendo melhor o trabalho da mãe e não mais a culpando pelas dificuldades dos filhos, principalmente do Eraldo.
• Pensando em integrar o Eraldo em seu trabalho na feira.
• O relacionamento com os filhos melhorou muito. Ele tornou-se mais afetivo e companheiro, principalmente de Ivo.
• Pensando em apoiar os filhos maiores (Ivo e Márcio) em seu propósito de obterem carta de habilitação).
Mãe
• Continuando a trabalhar fora.
• Pensando em voltar a estudar para ampliar suas possibilidades profissionais.
• Atribuindo algumas funções para os filhos (como cuidar das tarefas domésticas e preparar o almoço e o jantar).
• Apoiando o filho Eraldo na sua melhora.
• Apoiando Ivo em sua volta à escola e em seu novo trabalho.
• Com dificuldades com Márcia em relação a seu namoro, pois não o aceita.
• Passa a acompanhar mais de perto o desenvolvimento escolar dos filhos, ajudando, dando idéias e interessando-se pelos conteúdos das disciplinas que
123
cies estão cursando. Ivo
• Voltando a trabalhar.
• Voltando a estudar.
• Podendo relacionar-se mais afetivamente com os irmãos. Preocupando-se com a adaptação de liraldo.
• Conversando mais em casa com a família e podendo sair com os amigos.
• Está começando um namoro e isso o incentiva. •Relacionando-se melhor com o pai, podendo conversar sem sentir-se agredido nem agredir.
• Mais crítico, tendo um bom contato com a realidade à sua volta.
Márcia
• Continuando o seu namoro (mesmo sem a aprovação da mãe).
• Continua a trabalhar com o pai.
• Pensando em prestar vestibular (em Pedagogia).
• Querendo arrumar outro emprego que seja mais condizente com a sua perspectiva profissional.
• Pensando em tornar-se independente economicamente.
• Podendo valorizar mais o trabalho da mãe e do pai sem criticá-los.
• Podendo relacionar-se melhor com os irmãos e ajudando nas distribuições das tarefas domésticas.
Márcio
• Estudando na 5a série.
• Trabalhando com o pai.
• Com uma ligação mais intensa com a sua família.
• Mais compreensivo com Eraldo não lhe cobrando tanto as coisas.
• Muito ligado à irmã Márcia, demonstrando
Terapia familiar breve
ciúme de seu namorado.
• Podendo aparecer as suas dificuldades escolares.
• Pensando em namorar.
Eraldo
• Desaparecendo o problema da enurese.
• Tendo maior controle em seus problemas com a urina, podendo pedir para a professora quando sente necessidade de sair da aula.
• Tomando medicação neurológica para resolver seus problemas quanto ao sono agitado, enurese, roer unhas, chupar o dedo e nervosismo.
• Podendo desenvolver atividades domésticas para auxiliar a mãe e a família como um todo e relacio-nando-se melhor com os irmãos.
• Pensando em trabalhar com o pai na feira.
• Melhorando suas notas na escola, conseguindo recuperar-se.
• Passando a ler um maior número de revistas para desenvolver-se e melhorar suas dificuldades de leitura.
Em suma, diante desse quadro de evolução, concluímos que a família estava conseguindo manter um bom nível de comunicação entre si. Estavam bem integrados, de forma
mais equilibrada. Trabalhamos esse desenvolvimento e finalizamos a Terapia Familiar Breve.
lamília na
- "Miranda''
I - Histórico I. Geinograma
p
/ ano.'
?
6 "nau
.9 P
i 1 anus o an
A família é composta pela mãe, Laura, com 33 anos, que trabalha como auxiliar contábil, pelo pai, falecido há cinco anos, pelas filhas Carina, de 11 anos, estudando
a 5a série do primeiro grau e Denise, de 8 anos, estudando a 2a série do primeiro grau. Fazia já três anos que o casal estava separado quando o pai veio a falecer.
Este havia constituído nova família c tinha outros filhos: uma menina de 7 anos e um menino de 6.
2. Queixa
• A família foi encaminhada para Terapia Familiar Breve upós a filha Carina ter passado por psicodiagnóstico.
• A queixa inicial foi a enurese de Carina e o fato de ela chorar muito e ficar depressiva em virtude de constantes brigas da avó com a mãe e com ela própria.
• O motivo do encaminhamento para a terapia familiar foi u necessidade de ser trabalhada a dificuldade da mãe em lidar com sua própria mãe, de diferenciar-se dela,
tornar-se independente e poder assumir o papel de mãe perante as filhas, com as quais tinha dificuldades de relacionar-se.
• O objetivo da psicoterapia seria então trabalhar, nessa
126
nova família composta por 3 pessoas, a relação que a mãe estava tendo com as filhas e com sua própria mãe. A mãe concordou e aceitou e a terapia iniciou-se a partir
daí.
II - O que está acontecendo com a família
• Foram realizadas 12 sessões, nas quais houve apenas uma falta, comunicada com antecedência.
• A família morava na casa da avó materna, para onde havia se mudado após a separação do casal.
• Havia dificuldades de relacionamento entre eles. A avó discutia muito com a mãe e com Carina.
• A mãe sentia-se desacatada por sua própria mãe que não a respeitava em seu papel de mãe e chefe da família e a culpava de inconseqüente porque ela não aceitava
seu namoro com Sílvio, dez anos mais novo do que ela.
• A situação piorou quando a avó trouxe uma amiga sua para morar com a família sem consultar ninguém. As tensões se intensificaram e Laura começou a pensar em uma
possível mudança.
• Essa expectativa acaba causando muita ansiedade nas filhas, principalmente em Carina, que tem seus sintomas intensificados.
/. Hierarquia
• Em um primeiro momento quando a família passa a residir com a avó materna, o sistema parental passa a ter a avó como líder, ficando a mãe e as filhas na posição
de subsistema fraternal.
Exemplo: A avó cuidava integralmente das crianças enquanto Laura trabalhava e estudava.
Avó
Mãe, Carina, Denise
• Em um segundo momento começa a aparecer o conflito entre a avó e Laura que tenta assumir a posição parental e voltar a cuidar de suas filhas.
Exemplo: Tirando a responsabilidade de sua mãe olhar as filhas e colocando-as em uma creche.
127
Exemplo: Comprando um apartamento. Exemplo: Voltando a cozinhar.
Mãe - I [-Avó
Carina, Denise
• Em um terceiro momento, temos Laura em conflito com Nua mãe, ambas ocupando a posição parental e cuidando de Carina, mantendo Denise distanciada da família.
Mãe- -Avó
Carina
Denise
• Em um quarto momento, temos Laura afastando a sua mãe do relacionamento familiar, mantendo com Carina uma porção parental e ambas cuidando de Denise na sua posição
de lilha.
Exemplo: A mãe desabafando com Carina e pedindo conselhos a ela.
Mãe IZZZZZZ^ZZZZ Carina
Denise
Avó
• Em um quinto momento, após a mudança de residência de Laura e das filhas para o apartamento, há a tentativa de Laura de unir-se a Sílvio em uma posição parental,
cuidando de Carina c de Denise como filhas, enquanto a avó permanece distanciada do relacionamento familiar.
Sílvio - Laura
Carina, Denise
Avó
• Em um sexto momento, temos Sílvio não conseguindo se manter em uma posição parental e acaba se distanciando de Laura.
128
Esta por sua vez cuidando das filhas sozinhas.
Laura i
Sílvio
Carina, Denise
• Em um sétimo momento, já no término da terapia, Laura percebe mais claramente suas responsabilidades em relação às filhas. Enquanto mãe, pode reclamar a falta
que o marido faz enquanto pai de suas filhas e mostra como ainda sente sua falta, não conseguindo relacionar-se mais profundamente com Sílvio por esse motivo.
Laura Sílvio
Carina, Denise
2. Seqüências de interações
• A avó pensa e fala por todos, entra em conflito com sua filha Laura quando esta quer impor determinadas regras em relação aos cuidados dispensados às filhas Carina
e Denise.
• Quando Carina faz "xixi" na cama tem que acordar 15 minutos mais cedo para tomar banho e quando não o faz pode acordar no horário.
• Laura coloca mamadeira todos os dias às 4 horas da manhã na boca de Denise.
• Carina tem que ir todas as quartas-feiras ao catecismo,
mesmo sem querer.
• Todos têm que ir à missa uma vez por semana.
• Quando os sintomas de Carina se intensificam, a avó culpa a mãe por achar que ela não sabe cuidar da filha. Laura sente-se realmente culpada e sem saber o que
fazer.
• A avó não aceita o namoro da filha e briga com ela. O ambiente familiar fica tenso, elas deixam de se conversar e a avó passa a agredir também a neta Carina.
• A avó traz uma amiga para morar junto com elas. Sua filha não aceita e sai de casa com Carina e Denise: passam a morar sozinhas. A avó se sente abandonada e reclama
na justiça essa
129
atitude da filha.
• A filha Carina fica muito angustiada com a situação e tenta ajudar a mãe nos cuidados com Denise.
• Laura aos poucos consegue se equilibrar e passa a cuidar das filhas, que estão mais tranqüilas e se relacionando bem entre si.
3. Limites
• E uma família aglutinada, em que ninguém assume o seu papel. Não respeitam a privacidade uns dos outros.
Exemplos:
A avó não permitindo que os amigos da mãe e das netas entrem em sua casa.
A avó não permitindo que Sílvio vá à sua casa para namorar Laura.
A avó não permitindo que a mãe cuide da casa. A mãe não permitindo que as filhas digam clara e abertamente o que sentem na relação familiar.
4. Alianças
Denise-Avó
• Quando Denise não quer que briguem com a avó.
• Quando a mãe insiste em que Denise pode falar que gosta da avó, que ela não vai ficar chateada com isso.
• Quando Denise quer que a avó more junto, ficando preocupada por ela ficar sozinha.
Mãe - Carina
• Quando a mãe pede conselhos a Carina.
• Quando desabafa com a filha Carina.
• Quando pede para Carina que guarde segredo de certos assuntos de Denise e da avó.
• Quando Laura é solidária e compreensiva com o problema de enurese da filha Carina.
• Quando pede a Carina que cuide de Denise e a busque na escola.
130
Denise - Carina
• Quando Denise a apoia em seus inter-relacionamentos e quer ensiná-la a fazer amigos.
• Quando Carina leva Denise para a escola e a busca na saída, arrumando almoço e janta para ela.
• Quando ambas saem para brincar com as amigas de Carina.
• Quando Carina atrasa o relógio para as amigas não irem embora e Denise a encobre.
5. Complementaridade
• A avó se mantendo em uma posição de competente na hierarquia familiar e a filha se desqualificando em sua posição parental para permitir que a sua mãe se mantenha
competente.
6. Flexibilidade - Rigidez
• Dificuldades de Laura de tornar-se independente da relação que mantinha com a mãe, não conseguindo conversar com ela, nem colocar seus limites, nem falar de seus
ideais.
• Necessidade de diferenciar-se da mãe.
• Necessidade de criar seu espaço, ter seu próprio apartamento.
• Não conseguindo contar sobre suas intenções de mudar-se de residência, faz essa mudança às escondidas, sem avisar a mãe.
7. Comunicação
• Dificuldade de Laura em falar claramente o que quer com as filhas ou mesmo com a mãe, comunicando-se com as crianças através de recados e não permitindo a expressão
verbal delas. Com relação à mãe, cala-se e age às escondidas.
• Evitando falar dos conflitos em casa e usando a sessão para comunicar decisões. Ex: Aproveitou uma das sessões para comunicar à filha Carina que iria mudar naquele
fim de semana, mas que Denise não deveria saber, pois poderia contar à avó.
• Não conseguindo falar com Sílvio sobre suas intenções de esconder da mãe o fato de que vai mudar-se.
• Escondendo de Sílvio que a mãe movia um processo con
131
lia cia e, quando, por fim, ele soube, impedindo-o de participar ( a avó estava exigindo de Laura uma pensão alimentícia, alegando que não tinha recursos para manter-se).
H. Ciclo Vital
• Laura está tendo dificuldades em assumir que suas filhas estão crescendo. Não consegue colocar-se na posição parental. Sente dificuldades para diferenciar-se de
sua própria mãe e nessa tentativa acaba agredindo-a e rompendo com ela.
• Laura tem dificuldades em posicionar-se como "mãe-adul-ta", não conseguindo individualizar-se adequadamente e acaba < o locando a filha mais velha em posição de
igual, fazendo uma 11 uinça prejudicial à filha, que acaba apresentando conflitos como uma forma de também se identificar.
V. Coalizões
• Laura rompe com sua mãe, trazendo discórdias e dis-ianciando as netas da avó, principalmente Denise, pois não permite que ela expresse seu afeto pela avó.
10. Triangulações
• Laura em conflito com a mãe e ligada às filhas.
L- I I -A
• Avó superenvolvida com Denise, em conflito com ( urina e Carma ligada a Denise.
132
• Laura superenvolvida com Carina, ligada a Denise e Denise superenvolvida com a avó e superenvolvida com Carina.
A
11. Tarefas
• Foi pedido (3a sessão) à família que durante a sessão desenhasse a "planta de sua casa" a fim de verificarem-se os limites dentro da família, a posição que cada
um tinha dentro da casa, como eram usados os espaços, como se dava a liderança e como era vivida a hierarquia dentro dessa família.
• Foi pedido à família que durante a sessão (5a sessão) desenhasse três portas e as numerasse de 1 a 3 e depois imaginassem o que encontrariam ao abrir cada porta.
Depois que as pessoas imaginassem que as portas representavam o passado, o presente e o futuro, e de que forma essas coisas poderiam estar relacionadas com suas
vidas. Com essa tarefa, tinha-se o objetivo de fazer com que a família pudesse recordar situações passadas, posicionando-se no presente e levantando suas expectativas
futuras. Pensamos em trabalhar as situações conflituosas de maneira mais adequada, que possibilitasse uma independência maior de todos os membros da família sem
necessitar de rompimentos diádicos. Que Laura pudesse trabalhar suas dificuldades, tanto no papel de mãe, como no papel de filha.
• Foi realizada durante a sessão (7a sessão) uma dramatização com a família, de forma que Carina pudesse ampliar o seu inter-relacionamento com futuras amizades,
já que se queixava de não conseguir relacionar-se e Denise dizia saber fazer amigos. Os terapeutas pediram, então, a Denise e à mãe que mostrassem para Carina como
é que ela poderia fazer para apresentar-se a novos amigos.
• Foi solicitado (9a sessão) para que cada um realizasse um presente para a mãe, com a intenção de fazê-las perceber o relacionamento que tinham com a sua mãe e
vice-versa.
• Foi pedido (12a sessão) à família que imaginassem que teriam que fazer uma viagem e pensassem "o que iriam levar?"
133
para que pudessem trabalhar e perceber as mudanças ocorridas no período da terapia familiar. Uma forma de verificarmos o de-• nvolvimento da terapia.
111. O que se trabalhou com a família
I. Temas trabalhados durante a Terapia Familiar Breve
• Trabalhou-se a dificuldade de Laura em relacionar-se com nas filhas em assumir uma posição parental.
• Trabalhou-se a dificuldade de Laura em relacionar-se com sua mãe e independer-se como pessoa adulta, mãe de suas filhas, sem precisar romper o relacionamento com
sua mãe ou mesmo agredi-la.
• Trabalhou-se para que Laura pudesse ser elevada na hierarquia familiar.
• Trabalhou-se a dificuldade de comunicação na família, para que seus integrantes pudessem falar diretamente sobre os conflitos, sem necessitarem de intermediários
ou de formarem sintomas.
• Trabalhou-se para que a família pudesse se expressar afetivamente.
• Trabalhou-se a função do sintoma de Carina e a necessidade que a família tinha de ter um paciente identificado (PI).
• Trabalhou-se para tirar Carina da posição de filha parental.
• Trabalhou-se a possibilidade de mudanças da família (mudar de residência), que pudessem ser algo que a levasse para uma independência e não uma fuga.
• Trabalhou-se a dificuldade de separação que estava existindo para a família como um todo.
• Trabalhou-se com Laura a dificuldade que estava apresentando em permitir que suas filhas ficassem independentes e se diferenciassem. Que ela percebesse que não
havia necessidade de similaridade.
• Trabalhou-se para que a família pudesse respeitar os limites e as possibilidades de cada um.
• Trabalhou-se para que Laura pudesse entender sua dificuldade de tomar-se independente de sua mãe sem necessitar abandoná-la por isso. Que percebesse que abandono
não é independência e que ajuda não é dependência.
134
2. Trabalho realizado durante cada sessão
DISCURSO DA FAMÍLIA
HIPÓTESE
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
Ia SESSÃO • Laura: Como você sabe, eu sou viúva, tenho duas filhas c moro com a minha mãe. Ela toma conta das meninas porque eu trabalho o dia todo e estudo à noite.
Tenho aula de sábado tenho que cuidar da roupa. É uma correria. Bem dizer, minha mãe faz tudo. Só que ela tem um gênio difícil e ultimamente só para me pressionar
ela não fala comigo, não pergunta do apartamento que eu estou comprando e além disso colocou uma estranha para morar lá em casa sem falar nada conosco. Simplesmente
chegou uma tarde e falou: "Esta é minha amiga Antónia e ela vai morar aqui com a gente. Vai ficar no meu quarto".
• Laura mantém uma relação dc dependência com sua mãe e tem dificuldades para assumir suas funções parentais deixando que sua mãe as assuma por ela.
• Ajudar Laura a ser mais independente e a poder assumir suas funções parentais cuidando de suas filhas.
135
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Carina: Eu vou lalar bastante aqui, agora. Laura: A vida ó tão corrida que não dá tempo nem da gente conversar. Eu antes de sair para trabalhar costumo deixar
bilhetes para orientá-las para as atividades do dia.
HIPÓTESE
• Laura tem dificuldades para exercer suas funções parentais, bem como para ter uma comunicação direta com suas filhas.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar Laura para que ela possa aprender a se comunicar direta e francamente com as filhas, de modo que os bilhetes passem a ser utilizados como um recurso suplementar
e não um substituto da comunicação verbal entre ela e as filhas.
• Carina: Antes eu fazia "xixi" na cama. Aí quando eu vim aqui, parei. Fico esse tempo todo sem fazer. Eu estou mesmo parando. Começou um pouco depois do dia 21
de fevereiro, mas eu percebo que agora está diminuindo de novo.
• Quando as tensões na casa de Carina ficam intensificadas por causa das brigas entre sua mãe e sua avó, o sintoma da enurese retoma.
• Trabalhar com a família a função do sintoma de Carina para poder ajudá-la e permitir que outras dificuldades que a família está vivendo possam aparecer mais abertamente
e possam ser discutidas e solucionadas.
• Carina: Eu parei de mamar. Agora estou comendo com garfo c faca. Denise: Eu também estou comendo mais. Deixei a mamadeira, já como coisas mais salgadas e com a
colher.
• Carina e Denise estavam mantendo um comportamento abaixo do esperado para a sua idade. Mostravam-se regredidas e dependentes.
• Conotar positivamente essas mudanças pois rumam para uma maior independência e diferenciação.
136
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Denise come muito pouco. Por isso costumo dar-lhe uma mamadeira às 4:30 da manhã antes de ir trabalhar, enquanto ela está dormindo. Assim ajuda a fortalecê-la.
• Laura: O apartamento que comprei já está pronto. Ele é superbonitinho, mas dá uma angústia pensar em mudar. Não quero nem pensar como vai ser quando eu for sair
lá de casa. Mas no apartamento novo tudo vai melhorar. Carina: A gente passa aí pela rua e já vê as pessoas todas se mudando.
2" SESSÃO
• Carina: Todos os dias que tem aula de educação física de Denise sou eu que a levo. Aí eu fico esperando ela sair e quando chega em casa eu dou comida para ela.
O café da manhã quem dá para Denise sempre sou eu.
HIPÓTESE
• Com sua atitude Laura demonstra querer manter a filha em uma posição de dependência, pois a mantém em um comportamento muito aquém daquele próprio de sua idade.
• A família está cm conflito perante a perspectiva de mudança para o novo apartamento ao mesmo tempo em que idealiza essa mudança como solução para todos os seus
problemas. Laura teme assumir sua posição parental perante filhas.
• Carina assumiu o papel de filha parental cuidando da irmã.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar Laura a modificar sua atitude manipuladora, encorajando-a a facilitar o processo de independência e diferenciação de suas filhas.
• Discutir com a família sobre a mudança dc modo que todos percebam os benefícios e as dificuldades que surgirão. Que Laura c as filhas possam pensar na mudança
sem o significado dc um rompimento afetivo com a avó.
• Elevar Laura à posição parental tirando-a da posição fraternal na qual se colocou, de modo que ela possa recolocar Carina em sua função fraternal, tirando-a da
função parental que não lhe é devida.
137
DIS< URSO DA
i \ vi ÍLIA
• I >enise: Minha irmã
ii ir faz companhia, ni,is cu também ii<|iici com minhas Miiigas. Carina:
• Miando minhas iinigas vão lá em eitsa cia rouba as minhas amigas porque as minhas nmigas conversam mais com ela do que I oniigo e quando cias estão lá e eu l>ngo
com a minha
ii n iã elas sempre dl fendem a Denise. I .empre assim. Ela lá/ minhas amigas lu arem com pena dela. Aí elas a de tendem e me ignoram.
• ( arina: Tem dias tine faço o jantar, tem dias que só as duas (avó c mãe), tem dias i|ue nós três. A I >enise: também anula porque assim a ¦ente faz a sopa de
legumes, né? O suco 6 a Denise que faz e 0 meu é sem açúcar.
HIPÓTESE
• Carina sente-se roubada pela irmã, pois acredita que ela receba mais afeto e atenção do que ela própria.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar Carina a sentir-se mais segura de seus relacionamentos para não precisar disputar com a irmã a amizade das amigas.
• Há uma tentativa de organização familiar quando a avó, mãe e filhas se dividem para preparar as refeições.
• Ajudá-las a organizar a divisão das tarefas domésticas a fim de que estas possam proporcionar uma maior integração entre a avó, a mãe e as filhas.
'138
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Me sinto tão elétrica. Eu durmo pouco. Só quatro horas por dia. Normalmente chego da escola à noite e vou passar roupa ou adiantar alguma coisa para o dia
seguinte. Só de terça-feira quando meu namorado vem que eu não faço nada. Só fico com ele.
HIPÓTESE
• Ao sentir-se e ficar elétrica Laura compensa suas dificuldades de relacionamento familiar.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-la a ter uma forma mais tranqüila e adequada de relacionamento familiar sem precisar de tanta tensão.
3" SESSÃO
• Os terapeutas propõem uma tarefa dentro da sessão. As crianças terão que desenhar a "planta de sua casa".
• Os membros da família têm dificuldades para discriminar suas funções e competências dentro da estrutura familiar.
• Trabalhar para que a família possa perceber a função c o espaço que seus integrantes ocupam. Que eles pudessem perceber, também, os limites, os poderes c as hierarquias
de cada um dentro do contexto familiar para que possam diferenciar-se.
• Laura: Hoje eu vou ficar vendo vocês fazendo 'arte'. Carina: Olha! Tá bom, mãe, o que eu desenhei? Denise: Mãe! Assim tá certo?
• As filhas mostram-se dependentes da mãe para poder produzir.
• Ajudá-las a tornar-se mais independentes de modo que possam ser ajudadas a diferenciar-se dentro do contexto familiar.
139
discurso da iam ília
• Carina: Não pode I .quecer a avó. I )cnise: Aqui vão Mtar os dois cachor-ios c os dois gatos. Vou colocar a ' Madona' dentro de Casa e o 'Costelinha' lá no quintal.
Laura: Você sabe que eu não gosto que a ' Madona' fique ilcntro de casa. ( urina: Fala a verdade.
? SESSÃO
• I .aura: Eu não gosto da casa da minha mãe. A gente nâo tem nenhuma liberdade. Minha mãe não permite que eu faça o que quero. Se intromete nas minhas coisas, critica
meus relacionamentos c ainda quer colocar minhas filhas contra mim. Ela me incomoda bastante, mas para as minhas filhas não é assim. Hia cuida muito bem.
HIPÓTESE
• A comunicação verbal da família é muito frágil.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-las para que toda a família possa expressar seus sentimentos.
• Laura sente-sc incomodada, pois percebe que é dependente da mãe em muitos aspectos. Sente-se insegura em desempenhar suas funções parentais e acaba atrib uindo-as
a sua mãe.
• Ajudá-la a perceber suas dificuldades de relacionamento com a mãe para que possa atuar de forma mais adequada, sem necessitar de desvios, podendo fortalecer-se
para elevar-se em sua competência dentro da hierarquia familiar de modo que possa desenvolver suas funções parentais.
140
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Ah! Eu pensei. Assim é hiper-estranho. De repente não dá para fazer parte de uma terapia sem participar, ficar só pelo meio, sem se envolver. Não dá certo.
Não dá para participar de um grupo sem estar envolvida inteiramente. Então eu estava querendo me manter não totalmente integrada (chora). Queria manter uma certa
posição mais distanciada, mais de observadora, mais passiva do que integrante do grupo. Não sei se está dando para perceber. Estou sendo confusa, mas não dá para
estar na terapia pela metade como eu pensei. Algumas coisas acabaram me pegando e eu choro e quando vejo eu estou nisso.
HIPÓTESE
• Laura sente dificuldade em integrar-se à terapia familiar, pois tem dificuldades em desenvolver suas funções parentais.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-la a perceber suas dificuldades para que possa desenvolver-se de forma mais adequada, sem necessitar de desvios.
141
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Minha mãe nunca me deu apoio. Ela nunca gostou de mim. Sempre foi negativa comigo. Tudo o que eu ia falar para ela, já achava que não ia dar certo. Desde
que eu tinha 15 para 16 anos e quis fazer uma cirurgia plástica nos seios eu tive que me virar sozinha, pois cia não foi comigo nem se importou.
• Laura: A minha mãe levou aquela amiga dela lá para morar junto com a gente. Mas... e aí, Denise, o que você ucha? Denise: Deixa cia lá. Carina: Deixa cia lá. Ela
nem conversa com a
HIPÓTESE
• Há dificuldades de relacionamento entre Laura e sua mãe mas embora viva em conflito com ela, Laura é dependente dela e fica confusa entre sua posição de filha
e sua posição de mãe.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-la a compreender essas dificuldades de relacionamento com sua mãe a fim de que possa tornar-se independente e diferenciar-se, podendo discriminar as diferenças
entre as funções de mãe e de filha.
gente.
• Laura não percebe nem respeita os limites hierárquicos de sua família, pois quer que suas filhas decidam o que fazer em relação à atitude de sua avó de convidar
a amiga para morar em sua
casa.
• Ajudar Laura a resolver suas dificuldades com sua mãe eximindo filhas de responsabilidades inadequadas à sua idade. Que Laura possa perceber e respeitar os limites
142
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Minha mãe anda irritada. Só vive brigando com as crianças. Vive sem paciência. Carina: E briga mesmo com a gente. Denise: Vive brigando, né? Laura: Eu pensei
que pode ser por causa da nossa mudança. Mas eu tentei tanto viver bem com ela. Ah, como eu tentei. Mas agora sou obrigada a decidir: ou ela ou eu. Carina: É. Acho
que é pela mudança mesmo.
HIPÓTESE
• Carina e Denise acabam assimilando os sentimentos de sua mãe em relação à avó.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Reforçar os limites dessa família de maneira que cada subsistema possa agir independentemente um do outro, de modo que Laura possa perceber que suas dificuldades
de relacionamento com sua mãe são exclusivamente seus, de forma que não permita que as crianças fiquem envolvidas por seus sentimentos pessoais.
• Laura: Carina está ficando mocinha. Já quer até usar sutiã.
• Laura sente-se insegura com o crescimento da filha.
• Ajudar Laura a compreender seus receios para que possa ajudar Carina nesta fase de crescimento rumo à individualização.
• Laura: Eu já pensei. Já pensou se eu realmente me casar ou vir a morar junto com o Sílvio e ficar grávida? E engravidar de um menininho, quem sabe?
• Laura tem expectativas quanto a seu futuro afetivo.
• Ajudá-la a perceber seus desejos dc forma que possa realizá-los adequadamente.
nrserição e análise de famílias atendidas 143
DISCURSO DA IAM ÍLIA
5* SESSÃO
• Os terapeutas deram uma tarefa dentro da sessão, lodos os membros da família deveriam desenhar três portas, numerá-las dc 1 a 3 e depois imaginar o que encontrariam
ao abrir cada porta. Depois disso, os terapeutas disseram para que elas pensassem que a porta nfl 1 seria o passado, a n" 2 seria o presente c a n" 3 seria o futuro
c o que isso teria a ver com a vida delas.
Laura: Esta semana saiu a chave do apartamento e eu fiquei sem saber o que fazer. Não contei nem para as meninas.
HIPÓTESE
• A família tem dificuldades para enfrentar seus conflitos. Não consegue demonstrar seus sentimentos nem colocar suas expectativas em relação ao futuro.
• Laura demonstra ter dificuldades em contar para as filhas sobre o apartamento, pois está tendo dificuldades em pensar na separação que vai haver entre ela e sua
mãe.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar para que pudessem aparecer na família as dificuldades atuais. Que pudessem aparecer situações difíceis do passado e aparecessem, também, as expectativas
quanto ao futuro e como todos esses aspectos estavam interferindo na família como um todo.
• Trabalhar a dificuldade de separação que está existindo em Laura.
144
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: A Carina está tendo muitas dificuldades esses tempos. Está triste, só chora. As vezes faz "xixi" na cama e até na escola ela andou decaindo. Também não
é para menos... o que essa menina já viveu. Primeiro a minha separação com o pai dela. Depois a morte dele. Depois ver minha mãe brigando comigo. Depois eu arranjando
um namorado. Depois nós mudarmos de casa e eu até poder me casar de novo... Coitada, não é para menos.
HIPÓTESE
• Laura pôde perceber que todas as dificuldades que sua filha está vivendo estão relacionadas às dificuldades que toda a família tem vivido nos últimos tempos.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar Carina a perceber a implicação de cada um desses fatos e a solucioná-los sem necessidade de expressá-los através de sintomas.
6" SESSÃO
• Laura: A Carina tem muitas dificuldades em falar de seu "xixi". Ela ficou duas semanas e meia sem fazer "xixi" na cama e agora três dias na nova casa e cia já
fez duas vezes.
• Sempre que Carina se sente angustiada e tensa seus sintomas aparecem, pois essa é a forma que ela está encontrando de comunicar-se.
• Ajudar Carina a lidar com suas emoções sem necessitar desviá-las para o sintoma. Que Laura possa perceber a ansiedade que a filha está vivendo por causa da mudança
de casa.
145
l"IS< URSO DA i \ Mil IA
• i lura: Houve muito desentendi-iM, nto entre eu e minha mãe por t miNii da nossa "iii.lança. Eu não ii.i\ la contado para I la (|iie nós já
iivamoscoma I luve do apartamento nem que já estava I ORl a mudança marcada, pois eu
ibia que quando ela loubesse disso I "ineçariaacriar eiiNo comigo. Ficaria nu is agressiva do BUejá estava. Por (¦¦O fiquei quieta e deixei que ela •loubesse só
na a li una hora, quando Mciii tinha mais jeito.
• I aura: Se elas i|uiserem eu levo elas para visitar a avó, mas por enquanto, é nó isso que eu posso lazer.
HIPÓTESE
• Laura sente dificuldades em falar sobre a mudança com sua mãe, pois está com dificuldades em separar-se dela, mas não admite esse fato.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar Laura em seu processo de independência para que se conscientize do que está ocorrendo com ela. Que perceba as suas dificuldades em mudar-se e como envolveu
suas filhas nesse processo.
• Laura exerce pressão sobre as filhas para que elas não tomem o partido da avó.
• Ajudá-la a perceber suas atitudes em relação à sua própria mãe e às suas filhas para que ela possa trabalhar adequadamente a diferenciação de cada uma e possa
respeitar suas opiniões.
146
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Agora estabelecemos algumas regras para ver se facilita um pouco a vida da gente. Eu estava sobrecarregada c elas folgadas, tanto que está na hora de cias
começarem a ter responsabilidades com a própria casa. Um dia eu lavo a louça, enxugo c guardo. Outro dia elas fazem e assim por diante. O jantar eu faço. Tudo vai
ficar perfeito.
• Laura: Ai, eu vejo minha vida em ordem. É muito mais do que mudar de casa. E outra opção de vida mesmo. Colocar as coisas,nos devidos lugares. E emocionante. Deixar
de ser filha para ser eu mesmo, para assumir definitivamente assim e colocar o meu espaço e todo o que pode o tempo exato. E legal porque tenho uma perspectiva grande
de fazer as coisas.
HIPÓTESE
• Laura está tentando assumir suas funções parentais colocando algumas regras e limites em sua casa.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-la a continuar se desenvolvendo em suas funções parentais para que possa tomar-se cada vez mais competente, assumindo o papel de autoridade, delimitando
espaços, direitos e responsabilidades.
• Laura sente-se mais livre c independente com a mudança. Pretende com essa mudança poder assumir as responsabilidades por sua própria vida.
• Ajudar Laura cm seu processo dc individualização para que possa trabalhar sua 'independência' como um fato real dc forma mais adulta e responsável.
147
DISCURSO DA FAMÍLIA
7' SESSÃO
• Carina Eu não lenho amigas nesse prédio. Não sei como fazer para conseguir. I )enise: Olha! Você liiz assim. Quando as meninas estiverem brincando você chega e
diz: Oi, tudo bem? Eu sou Carina. Mudei para cá a ¦emana passada. E vocês, quem são?... Posso brincar com vocês?
HIPÓTESE
• Carina tem dificuldades em fazer novos relacionamentos.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-la a poder expandir-se e a integrar-se em seu novo ambiente. Conotar positivamente a iniciativa de Denise em auxiliar a irmã a fazer novos amigos.
• I .aura: Lá cm casa lá todo mundo unido. Carina: É, mas eu uuis ajudar você a I.i/cr as coisas para receber nossos amigos e você não deixou. Laura: Você nilo sabe
cozinhar direito. Carina: Eu podia limpar a casa.
• Laura não percebeu a necessidade da filha ajudá-la como uma forma de estar mais próxima e integrada à família.
• Que Laura possa perceber as necessidades da filha a fim de que possa auxiliá-la a se desenvolver adequadamente.
H* SESSÃO
• Carina: Sabe, untem eu fiz como a I )enise falou outro dia. Vi umas meninas brincando, cheguei perto e me apresentei Depois ficamos Ih meando juntas um tempão.
• Carina está conseguindo desvencilhar-se, podendo ampliar seus relacionamentos pessoais.
• Apoiá-la em sua iniciativa para que continue ampliando suas possibilidades de crescimento.
148
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Essas duas aí são cúmplices. Eu não admito que elas cometam erros. Acho um absurdo ficar fazendo coisas que não devem como por exemplo, outro dia elas atrasaram
o relógio da sala, só para que as amigas que as visitavam não fossem embora. E eu só percebi porque a mãe de uma delas ligou preocupada, pois havia colocado um horário
para a fdha chegar e ela já estava atrasada uma hora. Vê se isso pode ser. Eu não admito, viu? Vocês não façam mais isso enquanto estiverem em minha casa.
• Laura: Outro dia Carina saiu para fazer trabalho escolar na casa de uma amiga e voltou muito tarde. Eu perguntei o que aconteceu mas ela não falou nada.
HIPÓTESE
• Carina e Denise têm necessidade de relacionar-se com crianças de sua idade, pois sentem-se muito sozinhas.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que Laura possa compreender a atitude das filhas entendendo sua necessidade de amizades. Que ela possa perceber que aquilo que está chamando de cumplicidade entre
as irmãs na realidade c uma aliança entre cias para se protegerem de situações angustiantes. Que Laura possa perceber como não permite que as filhas desfrutem da
casa como sendo delas também.
• Carina tem dificuldades em comunicar-se abertamente com sua mãe.
• Ajudar Laura a poder dar segurança a Carina para que possa comunicar-se mais abertamente com a mãe.
149
DISCURSO DA i IMÍLIA
• I aura: Carina fala muito alto. Parece MC está sempre ii Itando. Isso tem me preocupado.
HIPÓTESE
• Laura tem receio de que sua filha tenha alguma dificuldade auditiva.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar com Laura o que significa para ela esse 'falar alto' da Carina, a fim de que possa verificar se Carina tem alguma dificuldade específica ou se é a sua
maneira de expressar-se.
P SFSSÃO
• < 'arina: É difícil dar presente para minha mie. Ela se interessa [mm coisas. Laura: Mmlia mãe é que é difícil. A gente nunca .abe do que ela posta. Eu nunca sei
o que dou de presente r na ela. No fundo mesmo acho que ela ò muito materialista, Me só pensa em milheiro. O que ela fosiaria mesmo era oc ganhar uma casa, um carro,
milhões de ilólares... coisas ' mi. Essa é a única linguagem que ela entenderia.
• Há dificuldades na família em demonstrar afetos que ficam intensificados pelas dificuldades dc relacionamento que há entre Laura e sua mãe.
• Que Laura possa perceber que sua filha está tendo a mesma dificuldade que ela tem com sua mãe na questão de dar e receber afeto.
150
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Sabe o que aconteceu? Minha mãe deu 'parte' de mim na polícia. Ela foi semana passada na delegacia e fez uma queixa-denúncia contra mim alegando que cu
a abandonei e que ela era dependente de mim e que não tem condições de se manter. Quer que eu lhe pague uma pensão alimentícia. E agora tem essa lei que o filho
tem que cuidar do pai e ela aproveitou isso. Vê que injustiça ela está fazendo comigo. Agora eu fui chamada e vou ter que ir depor.
HIPÓTESE
• Laura não sabe o que é ser independente. Na busca por autonomia iniciou um processo de abandono de sua mãe. Ela não percebe que abandono não c independência e
que ajuda não é dependência.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que Laura possa entender suas limitações e dificuldades, pois na realidade cia não mudou-se. Ela 'fugiu'.
• Laura: Minha mãe é uma excelente cozinheira. Bem melhor que eu.
• Laura consegue perceber aspectos positivos em sua mãe.
• Ajudá-la a ampliar sua percepção rumo à individualização.
10 SESSÃO
• Laura: Eu sempre tive dificuldades em me relacionar com pessoas como diretor, chefe, professores. Pessoas que sejam muito diferentes de mim.
• Laura sente dificuldades em relacionar-se com pessoas que tenham funções de autoridade, pois não se sente igual a elas. Sente-se inferiorizada.
• Ajudar Laura a perceber que as pessoas podem ser diferentes. Que não há necessidade de similaridade. Que ser diferente não é sinônimo de abandono, desagrado, desinteresse,
etc.
Descrição e análise de famílias atendidas
LSI
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Laura: Elas não estão me ajudando. O serviço sobra todo para mim.
HIPÓTESE
• Laura tem dificuldade em delegar poderes às filhas. Depois acaba se sentindo sobrecarregada.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que Laura seja capaz de ver suas possibilidades e seus limites, bem como os de suas filhas.
• Laura: Quando minha mãe gritava eu já tremia nas pernas. Ela espera que a gente sempre dê. E eu sempre perseguia esse objetivo. Queria dar. Agora eu já tenho mais
paciência com minhas filhas. Converso, explico. Bato só em último caso. Bem, eu penso que é assim. Não sei se elas percebem.
• Laura sempre teve dificuldades de relacionamento com sua mãe e teme que suas filhas também tenham essas mesmas dificuldades com cia.
• Que Laura possa ampliar as possibilidades de relacionamento, tanto com suas filhas como com sua mãe, podendo haver uma comunicação mais adequada entre elas e respeito
pela individualidade de cada uma delas. Que as emoções possam ser expressadas.
• Carina: A mãe briga comigo só porque eu gosto de usar roupas amassadas.
discriminação. Ajudá-la a relembrar sua própria adolescência para conseguir estabelecer similaridade entre ela e sua filha e entre os 'adolescentes' em geral.
• Dificuldade de Laura em aceitar as atitudes da filha adolescente.
• Ajudá-la a respeitar a filha, incentivando-a no seu processo de individualização e
152
discurso da família
hipótese
11* SESSÃO
• Carina: A terapia está acabando... Laura: A terapia está acabando. Está chegando ao fim e eu tenho medo da responsabilidade que é ser mãe de família.
• Laura tem medo de não conseguir desempenhar adequadamente suas funções parentais.
• Laura: Acho muito difícil suprir o pai dc minhas filhas. Acho que namorado algum vai conseguir substituir a falta que ele nos faz.
• Laura ainda encontra dificuldades em lidar com a perda de seu marido. Compara-o com seu namorado.
• Laura: Eu fico muito angustiada quando vejo Carina chorar desesperadamente como fez ontem sem dizer o que está acontecendo.
• Carina tem dificuldades em expressar verbalmente suas emoções e o faz através do choro, mobilizando a família.
objetivos terapêuticos
• Ajudá-la a elevar-se em sua competência dentro da hierarquia familiar para que possa desempenhar adequadamente suas funções parentais.
• Ajudá-la a elaborar a perda do marido. Que ela possa ver as diferenças entre as pessoas sem precisar desqualificá-las. Que cia possa compreender que ser diferente
não é o mesmo que ser errado. Que ela perceba as possibilidades e os limites de sua relação com o seu namorado e da relação dele com suas filhas.
• Ajudá-la a poder expressar-se verbalmente para ajudá-la a estar mais integrada à família, dc modo que as suas necessidades possam ser atendidas.
153
imscurso da iam ília
12" SESSÃO
• Laura: Eu vejo as I.lisas à minha ma-iH na... para mim o que realmente pesa é a falta que o pai delas faz. Eu acho que 0 Sílvio, meu namo-ntdo não vai conseguir
substituí-lo.
• l aura: Quando eu mprei o apartamen-com o Sílvio, tinha lieza de que íamos orar juntos. Hoje já 'o tenho tanta rteza e acho melhor
esperar mais um
hipótese objetivos
terapêuticos
• Laura sente dificuldade em administrar a falta do marido que faleceu.
• Que ela possa assimilar essa falta e possa assumir o papel de autoridade parental que é necessário para o desenvolvimento de sua família.
• Laura sente-se insegura em sua relação com o namorado, Sílvio. Teme que ela não seja tão sólida como imaginava que fosse.
• Ajudá-la a sentir-se segura para poder avaliar o grau de profundidade de sua relação com Sílvio, para que possa tomar decisões com maior segurança.
154
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Terapeutas questionam 'o que vão levar' da Terapia Familiar Breve. Laura: Eu aprendi muito. A questão de se comunicar, de falar o que incomoda. Eu aprendi muito
mesmo. Hoje eu entendo melhor as minhas filhas. Sei que elas são crianças e ainda precisam de mim. Estou podendo pensar em nós como uma família. Carina: Eu melhorei.
Não faço mais "xixi" na cama, não choro tanto e tenho mais amigas. Denise: Eu brinco mais com a Carina. Tenho mais amigas também e já não uso mais a mamadeira.
HIPÓTESE
• A família evoluiu. Os sintomas que faziam parte da queixa inicial desapareceram. Carina não é mais PI
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que a família possa continuar a se desenvolver. Que haja maior interação entre seus membros. Que possam resolver as dificuldades que aparecem por meio do diálogo
sem necessidade mais de um paciente identificado.
155
V - Posição de cada membro da família no final da Terapia KamiliarBreve
Mãe
• Podendo relacionar-se mais adequadamente com suas
filhas.
• Podendo assumir a posição parental.
• Podendo perceber com maior clareza as dificuldades com sua mãe, embora ainda esteja afastada dela.
• Podendo permitir que suas filhas visitem a avó. •Podendo perceber mais claramente seu relacionamento afetivo com Sílvio.
• Pensando em fazer uma psicoterapia.
Carina
• Desaparecendo seus sintomas de enurese.
• Podendo relacionar-se com a avó.
• Saindo da posição parental.
• Tendo mais amigas, podendo ir dormir em suas casas.
• Tendo um bom relacionamento com a mãe e com a irmã.
• Não apresentando mais comportamentos depressivos nem chorando à toa.
Denise
• Tornando-se mais independente.
• Podendo relacionar-se melhor com a mãe e com a irmã.
• Podendo ir à casa da avó visitá-la.
• Deixando a mamadeira, passando a comer com garfo e faca, largando a colher.
• Tendo maior número de amigas.
• Querendo brincar e organizar seus horários de tarefas.
Família nfl 03
Equipe: Terapeutas
I - Histórico
1. Genograma
37 anos
-"Rondon"
- Carla e Claudenir
39 anos
9
ü ú
11 anos lOmeses 6 anos 9meses
A família é composta pelo pai, Valdemar, com 37 anos, que trabalha como trocador de moldes, formou-se no colegial e passou no vestibular de Engenharia Mecânica,
mas teve que trancar a matrícula, por causa de incompatibilidade de horários do serviço com a faculdade, pois trabalha em três turnos. A mãe, Soraia, com 39 anos
de idade, estudou até o lfl grau, dedicando-se atualmente só ao lar e aos filhos.
O filho Ricardo, com 11 anos e 10 meses, freqüenta a 5a série. E o filho Renato, com 6 anos elO meses, estuda na Ia série do lfl grau.
2. Queixa
• A família procurou a clínica a pedido da professora de Ricardo, que o considera uma criança problemática.
• A mãe se queixa de que ele é uma criança hiperativa, com grande dificuldade de concentração na escola, sendo que repetiu a 5a série e corre o risco de ser reprovado
novamente. Diz que Ricardo se dispersa facilmente, não prestando atenção às aulas e não fazendo lições de casa.
157
• A mãe coloca sua preocupação e não sabe mais o que liizer para ajudá-lo, por vezes se desespera e tem vontade de largar tudo, indo embora de casa. S ente o marido
ausente em relação a ela e aos filhos. O marido assume esse distanciamento e o justifica pelo trabalho que tem três horários de revezamento e confessa a falta de
paciência com os filhos.
• Foram encaminhados então para Terapia Familiar Breve, para que se pudesse trabalhar a dificuldade de comunicação entre os membros da família, a relação entre eles
e a dificuldade centralizada no filho Ricardo.
11 - O que está acontecendo com a família
• Foram realizadas 11 sessões sendo que a família não faltou a nenhuma sessão. Os pais sempre estavam atentos a tudo o que se passava com os filhos durante a sessão
dando 'bronca' e chamando a atenção quando julgavam necessário.
• Por várias vezes a mãe enfiou em discussão com o pai reclamando que ele não dava atenção aos filhos nem a ajudava cm casa.
• Ricardo mostrou-se sempre na defensiva em relação às ucusações recebidas dos pais e Renato ficava desobediente e irre-i|iiieto durante as sessões.
I. Hierarquia
• Em um primeiro momento, a mãe sente o pai ausente e distanciado da família. Sente-se sozinha para cuidar da casa e dos li lhos.
Mãe
Filhos
Pai
• Em um segundo momento, a mãe sente-se em conflito com o marido em relação ao modo de como cuidar dos filhos. Sente-se descartada por ele e pelos filhos.
158
Pai- I I - Mãe
Filhos
• Em um terceiro momento, a mãe sente-se mais tranqüila, consegue conversar com o pai e este a ajuda nos cuidados com os filhos. Podendo sair para jogar bola com
Ricardo, auxiliando-o em suas atividades escolares e pensando em fazer um curso com ele.
Pai - Mãe
-
Filhos
2. Seqüências de interações
• A mãe fala por todos, que em sua maioria permitem que ela fale.
• Mãe reclama com o pai sobre o comportamento opressivo com os filhos, quando ele os repreende e dá castigo ela briga com o pai.
• O pai reclama que a mãe tem medo e o deixa preocupado todas as vezes que ele trabalha à noite, pois tem que encostar o armário da cozinha na porta, além de colocar
cadeado no portão devido ao medo de assalto que a mãe tem.
• Os filhos sempre esperam o pai chegar do serviço, dormindo na sala quando ele está no horário das 14 horas às 22 horas.
• Quando as tensões aumentam durante a sessão e Ricardo sente-se agredido, sai da sala para ir ao banheiro. Algumas vezes ficou parado atrás da porta chorando. O
pai também ameaça sair, mas nunca o fez.
• O conflito parental aparece nas queixas da mãe, mas o pai se defende dizendo que trabalha intensamente e que esse trabalho o consome muito por causa do horário
de revezamento.
3. Limites
• Esta é uma família em que o pai aparece desligado. Há uma divisão nas funções parentais. O pai se encarrega do dinhei
159
ro e a mãe de olhar e cuidar dos filhos, mas confunde-se com isso. Fica tensa e acaba superenvolvida com os filhos.
• Há uma certa dificuldade para respeitar os limites e os problemas de cada um, principalmente da mãe e do pai. Depois acabam culpando-se mutuamente pelos "fracassos"
dos filhos, bem como sentindo-se fracassados em suas funções parentais.
• O pai acusa a mãe de superenvolvimento com os filhos e de falta de paciência para com eles. A mãe acusa o pai de ser omisso e se distanciar deles, deixando-a sobrecarregada.
4. Alianças
Pai - Mãe
• Quando pensam em sair juntos para "namorar".
• Para tentar resolver os problemas de Ricardo (procurando uma nova escola e vários tratamentos: neurológico, psicológico e pedagógico).
• Quando o pai diz que a mãe se preocupa muito com os li lhos e eles não reconhecem.
• Para fazer o pai sair mais com o Ricardo.
• Quando o pai diz que tudo o que a família possui é graças à mãe e ela diz que é graças ao desempenho profissional dele que é muito bom.
Mãe - Ricardo
• Aliam-se na tentativa de fazer com que o pai se una mais com a família.
• Quando o protege, falando por ele.
• Para ajudar Ricardo em sua dificuldades escolares.
• Quando Ricardo a procura para dormir junto por estar com medo à noite.
• Quando ele olha para ela antes de comentar alguma coi-"a, buscando sua aprovação.
• Quando a mãe diz que Ricardo é muito inteligente e desempenha bem todas as atividades extra-escolares que realiza e ele reconhece que sua mãe o estimula para estudar
computação e jogar futebol.
160
Pai - Ricardo
• Para incentivar Ricardo a estudar, indo estudar computação com ele.
• Saindo com o filho para jogar bola.
• Ensinando-lhe inglês e a utilizar o dicionário.
Ricardo - Renato
• Quando saem para brincar juntos.
• Quando fogem das broncas da mãe.
5. Complementaridade
• A mãe para manter-se numa posição competente desqualifica o pai.
• O pai, para manter a mãe em uma posição privilegiada e competente, acaba rebaixando-se (vai trabalhar e torna-se ausente e omisso).
• Ricardo, para manter a mãe em uma posição qualificada, tenta manter-se dependente e problemático.
6. Flexibilidade - Rigidez
• Esta é uma família que se mostrou flexível, com capacidade para aceitar os seus problemas e corrigi-los na medida do possível.
7. Comunicação
• A comunicação da família se dá através da mãe, que aponta os conflitos, principalmente de Ricardo, para os demais.
Exemplo: A mãe se queixa de Ricardo para o pai, e este o manda para o seu quarto de castigo. A mãe se queixa dessa atitude, dizendo que o pai deveria conversar mais
com os filhos. E acaba criticando a atitude do pai.
• O pai se queixa várias vezes de que a mãe lhe tira a autoridade, pois os filhos lhe pedem algo e ele não permite, aí eles pedem para a mãe e ela permite. A mãe
faz a mesma queixa em relação a ele.
161
• Pais dizem que Renato só obedece se gritarem com ele.
• Mãe reclama que o pai evita conversar, que não fala, que In a quieto e que vai para o quarto.
• Os filhos reclamam da frieza e do distanciamento do pai RD relação a eles. Dizem que não conseguem falar com ele.
• Mãe tenta esconder suas dificuldades dos parentes, tanto os dela como os dele. Procura não comentar nada com ninguém.
• Na família é permitida a expressão da emoção agressiva, ficando mais difícil a expressão de carinho e afeto, que pareciam ser mais fáceis de serem expressas quando
as crianças eram menores.
• Durante uma sessão o pai consegue conversar intensamente com Ricardo sobre a advertência que ele teve na escola, podendo orientá-lo. No fim da conversa percebe
que não foi difícil e que deveria fazer isso mais vezes. Afirmou por diversas vezes, em sessões posteriores, que estava conseguindo falar com o filho.
8. Ciclo Vital
• A família parece estar presa na fase da adolescência. Os pais não conseguem permitir o crescimento dos filhos, pois ficam pensando constantemente nas suas próprias
dificuldades enquan-lo crianças.
Exemplo: Quando o pai fala que ficava preso em casa, que não tinha brinquedos e que só pôde sair para a rua depois dos 17 anos.
Exemplo: A mãe dizendo que seu próprio pai era alcoólatra e que batia na esposa e nos filhos. E que ela temia que a mãe morresse devido aos maus-tratos.
Para essa família, crescer significa sofrimento.
• Há dificuldades dos membros em se individualizar e os que tentam são agredidos pelos demais.
Exemplo: Ricardo querendo ir jogar bola.
• Pais temendo a velhice. Consideram a aposentadoria como algo destrutivo: o fim de tudo, a morte. Temem a solidão c o abandono.
Exemplo: Quando a mãe diz que vai ficar sozinha, que 08 filhos vão crescer.
162
Exemplo: Quando o pai diz que os filhos o colocarão em um asilo.
• Os filhos não podem crescer para que eles não envelheçam e morram.
9. Coalizões
• Pai e mãe brigam por intermédio dos filhos, principalmente de Ricardo. É uma forma de desviar a agressividade; protegem-se para que não apareça diretamente a relação
conflituosa do marido e da esposa, ou mesmo a relação homem e mulher.
• Mãe agride Ricardo. Critica-o e o culpa pela desestruturação da família.
Exemplo: Quando a mãe diz que se sente fracassada como mãe e o pai também em sua função paterna.
• Mãe e Ricardo se unem para criticar o distanciamento do pai.
• Quando pai e mãe discutem durante a sessão, Ricardo os critica comparando seu comportamento a comportamentos infantis.
10. Triangulações
• Pais em conflito entre si. E em conflito com Ricardo por causa de suas dificuldades escolares.
\
-M
• Pais em conflito entre si. Pai envolvido com Renato e mãe em conflito com ele que, por causa de sua agressividade, só realiza o que eles pedem se gritarem com
ele.
M
163
• Pai em conflito com a mãe, em conflito com Ricardo e cie envolvido com a mãe, na tentativa de trazer o pai mais para a família e se sentindo igual à mãe em suas
condutas de medo e insegurança.
\
I I
M
\ Ri
• Pai e mãe tendo um bom relacionamento entre si e com os filhos, tentando manter os problemas familiares sob controle.
M
Filhos 11. Tarefas
• Foi pedido (3a sessão) a Ricardo que criasse o hábito de estudar pelo menos 30 minutos por dia e que começasse sempre pela coisa mais fácil.
• Foram incentivado passeios da família, para estarem mais juntos afetivamente em momentos de lazer.
• Incentivou-se o namoro do casal.
• Incentivou-se a mãe a ter um trabalho seu e a poder voltar a estudar.
Exemplo: culinária, já que gostaria de fazer bolos
para festas.
• Deu-se a tarefa dentro da sessão (5a sessão), para que a família fizesse a "planta de sua casa" com o objetivo de trabalhar a percepção da família quanto à função
de espaço, limites, poderes e hierarquias vividos dentro do contexto familiar.
• Deu-se a tarefa dentro da sessão (6a sessão), para que a família desenhasse três portas e as numerassem de 1 a 3, depois imaginasse o que encontraria ao abrir
cada porta. Depois foi colocado que imaginassem que as portas representavam o passado, o presente e o futuro e pensassem o que isso teria a ver com a vida deles.
164
Essa tarefa foi realizada para que pudessem aparecer na família as dificuldades atuais, as dificuldades do passado, bem como as expectativas quanto ao futuro e como
todos esses aspectos estavam interferindo na família como um todo.
• Tarefa na (7a sessão) sessão: Dar atributos a uma série dc animais, escolhidos por eles para mostrar à família como para eles é mais fácil falar por intermediários
e que a comunicação direta de emoções, afetos e sentimentos fica bloqueada.
• Tarefa que foi dada a Ricardo (7a sessão) de forma que pudesse controlar suas atividades escolares e a forma de estudar, de modo que pudesse ampliar o hábito e
a responsabilidade em relação aos seus estudos.
• Tarefa dada dentro da sessão (8a sessão) para que o pai, a mãe e Renato fizessem um presente para Ricardo. Foi dada essa tarefa, como uma forma de elevar a competência
de Ricardo dentro da família, de forma que pudesse ser valorizado por todos.
III. O que se trabalhou com a família
1. Temas trabalhados durante a Terapia Familiar Breve
• Trabalhou-se a dificuldade de comunicação da família, a fim de que pudesse encontrar outras formas de comunicar-se sem necessida de se agredirem.
• Trabalharam-se as dificuldades de relacionamento entre o casal para que pudessem ter uma comunicação mais direta sem que precisassem usar os filhos como intermediários.
• Trabalhou-se para ajudar o casal a discriminar suas funções parental e marital.
• Trabalhou-se para ajudar o casal a se tornar independente de sua família de origem.
• Trabalhou-se para que o casal pudesse manter-se unido e competente na função parental, mantendo-se elevado dentro da hierarquia familiar.
• Trabalhou-se para ajudá-los a se organizarem em suas funções parentais, de modo que pudessem dar apoio aos filhos para perceber e vencer suas dificuldades.
• Trabalhou-se para ajudar aos filhos em seu processo de independência e individualização dentro do contexto familiar.
165
• Trabalhou-se para ajudar os filhos a compreender suas • liliiuldades e limitações, de modo que pudessem perceber também suas qualidades e possibilidades.
• Trabalhou-se para ajudar os pais a se relacionar mais di-m lamente com seus filhos. Que pudessem compreendê-los e lespcitá-los em sua individualidade.
• Trabalhou-se para ajudar os pais a perceber o crescimen-dos filhos, para que percebessem suas dificuldades em lidar
eoiii esse crescimento e a tentativa que faziam em mantê-los em 'ima posição dependente e desqualificada.
• Trabalhou-se para ajudar os membros da família a falar por si, ajudando-os a se diferenciarem.
• Trabalharam-se as fantasias e expectativas dos pais em felação ao desenvolvimento psicossexual dos filhos.
• Trabalhou-se a sobrecarga de trabalho da mãe dentro de casa, para que pudessem ser melhor distribuídas as atribuições da liimília de modo que todos tivessem responsabilidade
dentro de "cus limites e possibilidades
• Trabalharam-se com os pais as dificuldades em lidar com o envelhecimento, pois eles encaram o crescimento e amadurecimento dos filhos como algo assustador e problemático.
Que pudessem ter uma atitude mais positiva com relação ao amadurecimento e às novas fases da vida.
166
2. Trabalho realizado durante cada sessão
DISCURSO DA HIPÓTESE FAMÍLIA
Ia SESSÃO
• Mãe: Ninguém en- • Há uma dificuldade
tende ninguém, ti uma de comunicação en-
gritaria, muita briga, tre os membros da fa-
muita confusão. mília.
• Mãe: Ele (o pai) é nervoso. A gente não está conseguindo se entender; estamos brigando muito.
• Há dificuldades dc relacionamento entre o casal.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar essas dificuldades para possibilitar outras formas de comunicação sem que tenham que passar pela agressão.
• Ajudá-los a sc manter na hierarquia e competência em suas funções parentais. Ajudá-los a perceber as diferenças entre as funções parental e marital.
• Renato: Eu sou Renato, irmão do Ricardo.
• Há dificuldade de diferenciação dos filhos.
• Ajudar Renato no seu processo dc individualização dentro da família.
• Pai: Sabe o que é? A gente tem uma vida agitada, uma correria. O meu serviço é em três turnos. Terminei o colégio agora no fim de 94 e realmente não há tempo hábil
para brincadeiras entre pai e filho...
• O pai acredita que o seu horário de trabalho impede seu relacionamento com a família.
• Ajudar o pai a perceber a necessidade dc equilibrar suas funções profissionais, como provedor da família, e suas funções parentais.
167
DISCURSO DA HIPÓTESE FAMÍLIA
• Mãe: Pensei em pôr Ricardo em uma escola mais forte. Agora coloquei ele em uma escola paga, mas pelo jeito não vai bem também.
• Há dificuldades da mãe em perceber as possibilidades e os limites do filho, visto que procura uma escola mais forte e não uma escola especial.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as expectativas da mãe quanto à escolaridade de seu filho.
• Ricardo: Fico nervoso. Fico tremendo quando tenho prova. Fico até doente.
• O medo de não corresponder às expectativas da mãe e às suas próprias contribui para seu fracasso escolar.
• Ajudá-lo na compreensão e elaboração dessa situação, de modo que possa exprimir suas emoções e anseios sem precisar desviá-las em somatizações.
• Mãe: Eu acho e começo a analisar que somos nós que passamos tudo isso para eles, essa insegurança. Eu venho de uma família de problemas c ele (o marido) também...
• O casal tem dificuldades em diferenciar-se de sua família de origem.
• Ajudá-los a elevar-se na sua competência como par parental para que possam ajudar seus filhos no processo de desenvolvimento.
168
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Meu pai era alcoólatra e minha mãe era pai e mãe ao mesmo tempo e na casa dele (pai) era a mãe e o pai dele que nãoconversavam com ele e ele, como o pai dele,
não consegue passar para o filho. Eu como mulher passo, mas ele não consegue.
• Mãe: O Ricardo está na idade de perguntar as coisas para o pai: eu falo o que acho que é certo, mas ele que é homem, não consegue falar... Ricardo perguntou o
que é camisinha ele não quis explicar eu vou falar e ele (pai) acha um absurdo.
• Mãe: O pai não admite que o Ricardo ande de zorba ou que fique nu na minha frente. Outro dia o Ricardo me viu em uma roupa e falou "mãe, você está mostrando tudo".
Então ele (pai) vai bloqueando tudo na cabeça deles.
HIPÓTESE
• O casal continua com dificuldade de diferenciação da família de origem. A mãe desqualifica o pai no seu papel parental.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-los a se tornar independente de sua família de origem para assumirem suas funções parentais. Elevar o pai em sua competência na hierarquia familiar, de modo
que possa ser respeitado pela esposa.
• Dificuldade do casal de falar sobre sexualidade. Dificuldade para lidar com aspectos afetivos dentro do contexto familiar.
• Ajudar os membros da família para facilitar a comunicação entre eles para que esta fique menos fragmentada. Que os pais possam dar orientação sexual aos filhos.
Que os afetos possam ser explicitados na família.
• Dificuldade do pai e da família em lidar com a intimidade pessoal dentro de casa.
• Trabalhar as fantasias e as expectativas dos pais em relação ao desenvolvimento psicossexual dos filhos.
169
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Quando eu falo para ele as dúvidas do Ricardo, a gente acaba discutindo. Se não der certo aqui, vou acabar me separando dele... Problemas nossos não existem.
(i com pessoas da família.
HIPÓTESE
• O casal discute através dos filhos. Dificuldades por parte do casal de discriminar as funções parentais das funções maritais. Há dificuldades no relacionamento
marital.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Facilitar a comunicação direta entre eles para que não precisem usar os filhos como intermediários. Que percebam suas dificuldades como marido e mulher e que saibam
separá-las de suas funções parentais. Que o casal possa perceber, na ameaça de separação da mãe, um pedido de ajuda por parte dela.
• Mãe: Os nossos problemas nós não discutimos. Nunca eu eheguei para ele e lalei: "Isso que você fez me magoou, eu não gostei", nem ele para mim. Nossas ihseussões
são
• jtfiipre por não lermos gostado do |ue os outros h/eram.
• Dificuldade do casal em falar sobre seus problemas maritais diretamente, necessitando sempre de intermediários.
• Trabalhar a dificuldade do casal em lidar com seus conflitos maritais.
¦ Kicardo: Quando i" igunto alguma
i oisa o pai fala "cala I boca". Eu fico quieto, mas o Renato responde, aí o pai vai
¦ fala para a mãe:
\ i >eê viu o que ele h pondeu?'.
• O pai está tendo dificuldade para comunicar-se com seus filhos, acaba culpando a mãe por essa dificuldade.
• Que ele possa entender as diferenças individuais dos filhos e possa relacionar-se diretamente com eles, sem necessitar de intermediações da mãe.
170
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Eu acho que não tem nada de mais subir no muro, jogar bola. O pai bloqueia tudo. Ricardo: Eu peço para meu pai e ele não deixa, aí eu peço para minha mãe
e ela deixa. Pai: Eu acho melhor não sair na rua. Se sua mãe deixar faça o que quiser, mas não quero nem saber, se vira com ela.
HIPÓTESE
• O casal demonstra divergências em como orientar os filhos, manda mensagens duplas. A mãe desqualifica o pai.
• Mãe: Não é só trabalhar e trazer dinheiro para dentro de casa. Ele dá dinheiro e não quer responsabilidade.
• Dificuldade do casal em dividir as funções parentais.
- Pai: Eu chego cansado do serviço. O Ricardo cobra um joguinho de bola, eu não consigo, eu sei que estou bloqueando ele.. Ricardo: O senhor não vai estar bloqueando
nada, se o senhor fala que está cansado e não dá para jogar bola, eu sei que o senhor está mesmo cansado e não vai me bloquear nada por causa disso.
• O pai tem dificuldade em dizer ao filho o que realmente está sentindo. Tem expectativas sobre seu desempenho como pai e acredita estar bloqueando o filho em seu
desenvolvimento.
OBJETWOS TERAPÊUTICOS
• Que a mãe possa respeitar o pai em sua competência na hierarquia familiar. Que cada um possa falar e perceber diretamente suas opiniões e seus desejos sem se sentirem
ameaçados em suas funções parentais.
• Que o casal possa perceber e respeitar suas diferenças individuais e possa assumir sua responsabilidade no comando de suas funções parentais.
• Ajudar o pai a ter uma comunicação mais direta com o filho e a poder demonstrar seus sentimentos e afeto por ele sem precisar sentir-se culpado por isso.
171
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai: Até os 17 anos eu fiquei trancado no "Hiintal cercado e com cadeado no portão. Eu tinha um irmão muito mais velho e um muito mais novo. Não brincava. Só com
17 unos é que comecei a sair e até hoje não tenho amizade com meus irmãos. Não fazemos visitas.
HIPÓTESE
• Pai com dificuldade em diferenciar-se de sua família de origem.
OBJETTVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-lo a diferenciar-se de sua família de origem, de modo que possa perceber o que ocorre com sua família atual e possa ajudar os filhos em seu desenvolvimento.
• Mãe: E hoje ele (pai) é assim. Se quer assistir o jornal grita e quer silêncio. Fica sozinho. Não gosta de conversar. Se o menino fala alguma besteira acha mim.
Mas eu sei que para o menino não é besteira. E com isso o Ricardo está um menino inseguro, medroso, principalmente na escola. Às vezes tem que ficar de castigo por
causa das notas.
• A mãe desqualifica o pai e o culpa pelo mal desempenho escolar do filho e por seus problemas emocionais.
• Ajudar a mãe a perceber a relação entre o pai e o filho e que não precisa desqualificar o pai. Que ela possa respeitá-lo em sua hierarquia na função parental.
• Ricardo: Quando tenho dúvidas na escola, tenho medo de perguntar e a professora brigar.
• Ricardo tem medo de expor-se e ser criticado por isso.
• Ajudá-lo a ter segurança para poder expor-se sem recear castigos
172
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Ricardo: Eu sei que levo castigos porque não estudo e tiro notas baixas. Aí eu falo para minha mãe "não, mãe, por favor não faz eu subir não, mãe". Aí ela fala
que eu tenho que subir para o meu quarto, aí eu fico falando para mim mesmo: Tá vendo, Ricardo, c bem-feito pra você. Quem manda não estudar. Você deveria ter estudado,
prestado atenção na professora. Mas é bem-feito. Você merece. Vê se agora você aprende.
• Pai: Ele entrou na escolinha de futebol da firma em que eu trabalho, mas ficou bravo porque não era escalado. Era reserva. Ele não entende que ainda está estudando.
Mãe: Uma vez deixamos ele ir sozinha ao treino. Ele ia de ônibus. O treino terminava às 11 horas. Às 1 lh30 ele já estaria em casa, mas chegou às 14 horas. Já estávamos
loucos, preocupados.
HIPÓTESE
• Ricardo percebe suas dificuldades de aprendizagem e não consegue lidar adequadamente com elas. Sente-se inseguro c não consegue encontrar apoio cm seu ambiente
familiar.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudá-lo a perceber suas dificuldades e aprender a lidar com elas de maneira que possa perceber tanto os seus limites como também suas possibilidades.
• Ricardo tem dificuldades em diferenciar as suas prioridades de suas necessidades escola-
res e familiares. • Ajudá-lo a integrar o esporte em suas atividades, vendo-o como uma atividade recreativa, prazerosa e cultural, mas que possa respeitar os seus
limtes quanto ao horário e intensidade de realização de forma que possa atender aos seus horários e às suas obrigações escolares
173
imscurso da l w1ília
• Mãe: O Ricardo é medroso, não tem opinião. Eu tenho i|iie decidir se ele põe ONsa roupa ou aquela. Ai aba fazendo H nipre o que os OOtros querem que liiça. Acho
que não MU de ficar bajulando. A única coisa i|ne cu acho é que ele penou minha insegu-i .mça, o meu medo, pois tenho medo de indo: de assalto, de estupro, de briga...
I ii passo esse medo para eles, não deixo Bem abrir aporta. Só iliinno com calmantes que o psiquiatra receitou. Pai: Esse medo acaba passando para a gente, lambem
fico nervo-•0. Saio super preocupado para trabalhar quando estou no loi no da noite. A porta é trancada e atrás da porta ela puxa um armário da cozinha. Tem cadeado
no portão e mesmo assim elaé insegura.
HIPÓTESE
• O casal tem dificuldade em discriminar suas funções parentais e funções maritais.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar o casal a trabalhar seus conflitos maritais que acabam interferindo em suas funções parentais. Ajudá-los a compreender as diferenças individuais e o quanto
podem contribuir para ajudarem-se mutuamente.
34
174
discurso da família
2" SESSÃO
• Mãe: A professora tinha dito que deveríamos colocar ele (Ricardo) em algum esporte: natação, futebol. Mas quando ele começou a professora disse para tirarmos porque
não tinha dado certo. Ele não fazia mais lição, não prestava atenção. Só ficava falando sobre os amiguinhos. O esporte estava atrapalhando a escola, nem lição de
casa fazia por isso. Ele não se preocupa com nada. Sai para jogar, não avisa, se atrasa, volta tarde e não quer estudar.
• Pai: Ricardo não tem capacidade, ele não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo. Estudar e fazer esportes não dá.
hipótese
• Há dificuldades entre o casal para lidar com suas funções parentais.
• Os pais desqualificam o filho e não conseguem perceber suas dificuldades.
objetivos terapêuticos
• Ajudá-los a se organizarem em suas funções parentais de modo que possam dar apoio para que o filho perceba suas dificuldades e possa vencê-las.
• Ajudar Ricardo a elevar-se em sua competência. Ajudar os pais a perceber as dificuldades de Ricardo, para que possam auxiliá-lo, sem precisar desqualificá-lo.
175
discurso da ia mília
• Pai: O Ricardo tem boras que faz perguntas como iduTto, outras vezes
><Hlio um bebê. Hoje mesmo temos um exemplo: ele ficou bravo por causa de bala. Temos um "aquinho aqui na bolsa, ele pode pegar quantas quiser. Mas
• i mio demos duas wira o irmão ele já irigou, não quer mais e diz que não gostamos dele.
• Mãe: Aí ele tem que ser adulto e é
11 lança, mas quando ele pergunta sobre "cxo ele é tratado como criança. Eu a mda respondo, mas I i pai, não. Ele hoje perguntou se o pipi-/inho dele vai ¦ i cscer.
Eu respondi que vai crescer... mas I pai acha que ainda não está na hora de nabcr.
hipótese
• Pais mostram-se confusos e têm dificuldades em relacionar-se com os filhos tendo dificuldades em perceber suas necessidades.
objetivos terapêuticos
• Ajudá-los a se elevar em suas funções e competências parentais.
• Pais mostram-se confusos e em conflito entre si, tendo dificuldades em se perceber e em perceber as dificuldades do filho.
• Ajudá-los para que possam perceber suas próprias dificuldades. Que possam diferenciar-se enquanto pessoas e que possam perceber seus limites e suas possibilidades,
bem como de seus filhos.
176
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Passeio não tem, né. Isso não existe. Pai: Quanto ao dinheiro, resolvemos tudo juntos. A gente discute juntos. Se alguma coisa que eu deixo para ela,
dou o dinheiro e ela faz o que for preciso. Mãe: Ele dá o dinheiro cm casa, nos sustenta, e quem fica mais com eles sou eu.
• Pai: Quando eu era pequeno não tinha ninguém para brincar. Ficava fechado e só comecei a sair quando entrei na escola. Tinha poucos brinquedos, que tenho, guardado
até hoje. É por isso que eu falo para os meninos para que conservem o que têm. Nunca tive quase nada, e quando tinha não quebrava, se não não teria com o que brincar.
Mas eles têm uma enorme capacidade de destruir tudo.
HIPÓTESE
• Os pais dividem as tarefas familiares (pai dá dinheiro, mãe cuida dos filhos e da casa). E essa divisão faz com que a mãe sc sinta sobrecarregada, fica insegura
e sc sente sem apoio em relação aos cuidados dos filhos.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que as responsabilidades das atividades parentais possam ser divididas, que possam ser compartilhadas, para que nenhum dos dois se sinta "sobrecarregado".
• O pai está com dificuldades de diferenciar-sc de sua família de origem. O pai fica confuso em seu papel de pai e de filho. Tem dificuldades em discriminar o momento
atual, cm que ele é pai, do passado quando ele era o filho.
• Ajudar o pai a compreender as diferenças individuais (dos filhos c dele). E que possa trabalhar para desligar-sc de seus conflitos com sua família dc origem.
177
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Eu falo para ele deixar os meninos brincar. Pai: É, eu sei que não deixando é mais uma maneira de bloquear a infância deles, mas eu fui criado assim. E difícil
mudar.
HIPÓTESE
• Pai tem dificuldades de se diferenciar de sua família de origem. Trata os filhos como foi tratado.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que ele perceba as diferenças do momento atual com os de sua família de origem. E que possa respeitar e compreender essas diferenças, permitindo que os filhos
se individualizem.
• Mãe: Eu não tive infância. Meu pai bebia e eu vivia vendo ele bater na minha mãe. Ele chegava bêbado e nós corríamos para a casa dos vizinhos, de medo. Mas, às
vezes, ele ia dentro da casa dos vizinhos atrás dc nós e batia do mesmo jeito.
• Mãe com dificuldades em diferenciar-se de sua família de origem.
• Ajudar a mãe para que possa compreender suas dificuldades com sua família de origem para que não busque uma similaridade nessa sua família atual.
• Mãe: Minha mãe foi pai e mãe. Ela conversava comigo. A gente se dava bem. Com meu pai não existiu nenhum relacionamento.
• Mãe em conflito com sua família de origem. Com dificuldades em discriminar-se como pessoa.
• Que a mãe perceba as individualidades das pessoas. Que não necessite repetir essas dificuldades que viveu em sua família de origem com sua família atual. Que ela
possa elaborar essas dificuldades que viveu no passado.
178
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai: Eu também não tinha diálogo com meu pai. Às vezes eu passava na rua e ele nem me via. Um dia ele passou e não me viu. Eu fui atrás dele e falei: "Oi, pai!
Eu estava aqui. Me arruma dinheiro para o cinema?" Ele me arrumou o dinheiro e eu fui embora. Eu até falei para a minha mãe e ela falou que esse era o jeito dele.
Então eu não conversava com ele também.
HIPÓTESE
• Dificuldade dos pais em se diferenciar de suas famílias de origem.
OBJETLVOS TERAPÊUTICOS
• Que os pais possam perceber as dificuldades de relacionamento com suas famílias de origem e como esses assuntos não resolvidos estão influindo em seu comportamento
com os seus filhos. Que eles possam perceber as diferenças das situações a fim de poderem desenvolver mais adequadamente suas funções parentais amais.
179
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Eu cresci com medo, insegurança, passo hoje isso para eles. Eu tinha medo de perder minha mãe, cu só tinha a ela, esse medo me acompanhou a vida inteira,
por isso passei para eles (os filhos). Pai: Mas para o Ricardo você pode ter passado na gravidez. Você ficou nervosa quando meu pai arrumou aquela mulher lá, lembra?
Mãe: Eu passei muito nervoso na gravidez do Renato. Na gravidez do Ricardo meu nervoso era assim normal por eu ser uma pessoa nervosa. Pode ser até por isso que
eles são hipe-rativos.
HIPÓTESE
• A mãe tem dificuldades em perceber as diferenças individuais de seus filhos. A mãe sente as tentativas de individualização de seus filhos como uma atitude agressiva
e hostil.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que a mãe possa perceber as diferenças individuais dos filhos sem necessitar culpar-se por isso. Que a mãe possa perceber as influências que o comportamento de
cada um pode ter em seu desenvolvimento pessoal, escolar, profissional, etc. E que possa encontrar formas alternativas que os auxiliarão, sem que ela precise sentir
essas diferenças como algo destrutivo e agressivo.
180
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: É por isso que o cérebro dele funciona tão rápido, que ele não se concentra na escola. Está indo muito mal, até levou uma advertência. Ricardo: Mas eu só
tinha duas assinaturas azuis e quando levei a primeira vermelha já levei advertência... A menina da minha sala tinha igual e não levou, isso é injusto. Pai: E você
perguntou para a professora por que você levou e ela, não? Ricardo: Não, pai, nem pensei em perguntar na hora. Pai: Olha! Eu não sei que critérios eles usam para
dar advertência, mas ainda está em tempo de você perguntar. Ricardo: É, eu vou falar com ela. Pai: Não precisa brigar. Pergunta numa boa, quais os critérios que
eles usam para dar a advertência. Aí você vai ter certeza se foi injustiça ou não. E tenta conversar com ela, explicar que ficou com dúvidas...
HIPÓTESE
• Dificuldades dos pais em dialogar com o filho. A mãe tentanto encontrar uma explicação para o comportamento do filho.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que o pai, a mãe e o filho possam continuar dialogando diretamente, sem necessitar de intermediários. Que o pai auxilie o filho em suas dificuldades e se interesse
por seus problemas, respeitando suas individualidades, seus limites e suas possibilidades.
181
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai: Tá vendo. Em casa não é assim. Ele disse que teve uma advertência e eu já comecei a dar bronca sem saber o porquê da advertência. A gente nunca conversa como
acabou de conversar aqui e agora. Mãe: Em casa ninguém ouve ninguém. E nós já estamos sentindo que vindo aqui está melhorando, apesar de ser a segunda vez. Pai:
É bom ter um lugar para a gente ser ouvido.
HIPÓTESE
• Dificuldade de comunicação dentro da família.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que a família possa ampliar as suas possibilidades de comunicação. E possa colocá-la em prática em qualquer situação e em qualquer lugar.
3a SESSÃO
• Foi realizado o genograma da família.
• Os pais estão presos a conflitos ligados à sua família de origem, e acabam repetindo essas dificuldades com sua família atual.
• Ao usar o genograma poderíamos encontrar as inter-relações com a família de origem e observar a presença de muitos acontecimentos importantes, identificações,
nomes, datas, enfim, tudo que nos desse uma visão geral da estrutura dessa família.
182
DISCURSO DA FAMÍLIA
• No genograma apareceram dados importantes, como o alcoolismo da mãe do pai. O afeto do pai por um sobrinho, em especial, por ser bem pequeno e "caber" na palma
da sua mão. O pai tendo duas tias com o mesmo nome. Uma do primeiro e outra do segundo casamento do avô. A mãe se dando melhor com o irmão mais novo. A mãe considerando-se
a mais festeira da família. A mãe sendo muito ligada afetivamente a uma ex-noiva de seu irmão. Os pais não gostando de duas cunhadas em particular. E os filhos,
sem saber, também demonstrando-se insatisfeitos com o comportamento dessas tias. Pais e filhos valorizando e considerando mais a amigos do que a parentes. Fantasia
de Ricardo em pensar que na gravidez dele a mãe preferisse uma menina e não um menino. Fantasia do pai em pensar que no futuro os filhos o
HIPÓTESE
• O casal é influenciado pelos relacionamentos que mantém com sua família de origem, repetem alguns comportamentos conflitivos que mantêm com eles e não se dão conta
dessa situação.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar para ajudá-los a compreender como todos esses aspectos levantados pelo genograma estão interferindo em sua vida amai, sem que eles percebam sua importância.
Possibilitar aos pais diferenciar-se de suas famílias de origem e poder tomar-se mais competentes em suas funções parentais atoais.
183
DISCURSO DA HIPÓTESE OBJETIVOS
FAMÍLIA TERAPÊUTICOS
colocarão em um asilo quando ele for velho. Doenças na família, como convulsão de Ricardo, quando ele tinha 2 anos, por causa de febre alta; acidente que a mãe sofreu
em seu serviço, ficou desorientada, cem dor de cabeça e ficando seis meses sem poder escrever.
• Os pais criticam as notas baixas de Ricardo e ele comenta suas dificuldades em estudar e o medo que tem de perguntar suas dúvidas para a professora.
• Ricardo sente-se inseguro perante suas dificuldades e não sabe como enfrentá-las. Seus pais também ficam angustiados e não conseguem auxiliá-lo adequadamente.
• Trabalhar com Ricardo as possibilidades que ele tem em lidar com suas dificuldades. Ajudá-lo ater segurança para questionar e poder elucidar suas dúvidas. Trabalhar
o seu medo de levar bronca da professora como leva dos pais quando demonstra ter dúvidas, para que possa sentir-se mais seguro. Para poder trabalhar essas dificuldades
as terapeutas dão-lhe uma tarefa que o ajudarão: Ia-começar a estudar sempre pelas coisas mais fáceis; 2a- adquirir o hábito de estudar, criando um tempo diário
de no mínimo 30 minutos e no máximo duas horas para fazê-lo.
184
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe querendo que a terapeuta lhe dê um feedback de como ela está se saindo na Terapia Familiar Breve.
HIPÓTESE
• Mãe sente-se insegura em suas funções parentais.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades e inseguranças da mãe em sua posição parental. Que a mãe possa ser ajudada a elevar-se nessas funções para poder sentir-se mais competente.
• Ricardo não consegue falar sobre suas coisas. Diz que tira nota baixa, mas só consegue contar em terapia, pois se o fizer em casa tem medo de levar bronca dos
pais.
• Ricardo tem dificuldade em comunicar-se diretamente com os pais, pois teme sua reação, tem receio de ser agredido.
• Ajudá-lo a sentir-se mais seguro e poder ter uma comunicação mais direta com os pais. Ajudar os pais a perceber essas dificuldades de contato e dc comunicação
que o filho tem em relação a eles e poder ajudá-los a superá-las.
185
DISCURSO DA FAMÍLIA
4" SESSÃO
• Mãe: Foi péssima a semana inteira. Eu já falei para eles que viria aqui e falaria que já estou decidida e vou embora de casa. Desse jeito não dá! Não há colaboração
deles em nada. Sobra tudo para mim. Esta semana com o Renato doente, ele fica choramingando no meu ouvido. O Ricardo grita comigo, nem escuta o que eu falo. O Valdemar
que não está nem aí com as crianças, não conversa com elas. Eles querem me enlouquecer, me ver internada. Minha hérnia de disco está terrível. Eu não agüento mais.
HIPÓTESE
• A mãe tem dificuldades para desenvolver suas funções parentais. Sente-se sobrecarregada, mas não consegue delegar funções nem atribuir responsabilidades para os
demais membros da família.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar a mãe a trabalhar sua "sobrecarga", de modo que possa distribuir melhor as atribuições das tarefas na família, de forma que todos possam ter responsabilidades
dentro de seus limites e de suas possibilidades.
• Pai: Eu chego do serviço cansado. Tem dias que lá de baixo, da ma, eu escuto os gritos dela com as crianças. Então já chego nervoso. Ela começa a falar e eu já
mando os meninos subir e ficar no quarto.
• Dificuldade de comunicação entre os membros da família. A mãe acaba usando o pai como um intermediário para dar bronca nos filhos.
• Trabalhar a dificuldade de comunicação entre os membros da família. Que a mãe possa conversar com os filhos sem precisar usar o pai como intermediário.
186
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai: Eu não gosto do jeito como ela fala com as crianças, mas não falo nada. Mãe: Ele não conversa com as crianças. É bem ignorante. Eu converso, mas eles nem
me ouvem. Eu falo umas duas vezes, e eles não fazem conta. Eu começo a gritar porque parece que eles não ouvem. Porque fui criada assim. Eu ajudava, mas hoje eles
não querem nem saber, não querem fazer nada... Eu não tenho a colaboração deles.
HIPÓTESE
• O casal tem dificuldades de comunicação com os filhos e se relacionar entre si. Não consegue dividir adequadamente as funções parentais e acaba agredindo-se mutuamente.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades de relacionamento do casal. Trabalhar as dificuldades e inseguranças no desempenho de suas funções parentais, de modo que possam dividir
as funções parentais, tanto entre si, como entre os filhos, sem precisar culparem-se ou sentirem-se agredidos por isso.
• Mãe: Logo que casamos, ele estava passando enceradeira em casa e o meu cunhado chegou e viu ele me ajudando e foi contar para a minha sogra que ele era "mariquinha",
que estava ajudando a fazer o serviço de casa. Quando chegamos na casa dos pais dele, a mãe dele disse: "Ah! Então quer dizer que meu filho é 'mariquinha", fazendo
serviço de mulher?' E daquele dia em diante ele não fez mais nem um café.
• O casal tem dificuldade em separar-se de suas famílias de origem. Demonstra dificuldades em se individualizar, dificuldades dc sair da posição de filho e assumir
a posição de pais.
• Trabalhar a dificuldade do casal em separar-se de suas famílias de origem. Demonstram dificuldades de impor limites a eles e de se individualizarem saindo da posição
de filhos para poderem desenvolver-se nas funções de pais.
187
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai: Eu trabalho de sábado e muitas vezes, até de domingo. Chego em casa cansado e muitas veze ela está na vizinha, conversando. Fica o tempo todo lá. Mãe: Ele
tem ciúmes dela. Não gosta que eu fique lá. Mas é a pessoa com quem converso e me distraio bastante.
• Mãe: Ricardo está muito respondão, mas não faz nada sem que o acompanhe. Precisa de mim para tudo. Arrumou até uma namorada, mas não quer que eu conte para o pai.
• Mãe: Outro dia Ricardo perguntou porque ele não tinha pêlo no corpo ainda. Expliquei que ainda teria, que ele ainda não tem, mas vai ter. Quando o primo dele veio
em casa e disse que já tinha pêlo no corpo, ele quis ver, e tiveram que ir ao banheiro para o primo mostrar que já tinha pêlo.
HIPÓTESE
• O casal não consegue falar sobre seus conflitos claramente.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que o casal possa expressar-se clara e objetivamente um com o outro. Que possam falar o que sentem sem se agredirem.
• Ricardo é muito dependente da figura materna. Demonstra dificuldade de se tomar independente de comunicar-se diretamente com o pai, necessitando que a mãe o faça
por ele.
• Que a mãe possa perceber a relação de dependência do filho e que possa auxiliá-lo a ser mais independente e a relacionar-se mais diretamente com o pai, sem necessitar
de intermediações.
• Ricardo está tendo • Reforçá-lo em seu
dificuldades em crescimento e ajudá-
individualizar-se de lo a ir se individuali-
sua família. Está zando dc sua família,
vivendo ansiedades A poder tornar-se
em relação a seu mais independente, desenvolvimento físico.
188
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Ricardo, você só tem tamanho. É uma criança ainda. Esses dias ele foi tomar banho. Já fazia uns dez minutos que o chuveiro estava ligado. Eu abri a porta
e ele estava debaixo do chuveiro só deixando a água cair. Não tinha nem se ensaboado ainda. Eu olhei e ele estava até com cascão. Tive que esfregá-lo. Às vezes ele
se enxuga sujo mesmo. Para não cheirar mal e não passar vergonha na escola, pelo menos uma vez por semana, tenho que esfregá-lo. Até os 7 anos de idade eu dava banho
todos os dias nele. Agora, só uma vez por semana...
• Mãe conta a tentativa da família de ter um status melhor, por isso pagam escola particular para o filho Ricardo. Pagam consórcio de um carro novo e estão comprando
telefone. Com essas aquisições Ricardo pensa que os pais estão "ricos".
HIPÓTESE
• A mãe tem dificuldades em perceber o crescimento do filho e tenta mantê-lo em uma posição mais infantilizada e dependente.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar a mãe a perceber o crescimento do filho, pois não percebe que querendo lhe dar banho, está tentando mantê-lo em uma posição dependente e desqualificada.
* A família acredita que tendo mais status estará em melhores condições de desenvolvimento e independência familiar.
• Reforçar a família em suas produções positivas e em suas tentativas decrescimento. E poder verificar a influência desses aspectos na família como um todo.
189
DISCURSO DA FAMÍLIA
HIPÓTESE
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Mãe: Ele tem ciúmes dos filhos. Quer que eu só dê atenção a ele. Pai: Eu não posso falar nada mesmo. Não tem jeito mesmo. O melhor é eu não falar mais nada. Deixar
que você faça o que quiser.
• Os pais apresentam dificuldades em se comunicar entre si e em desenvolver suas funções parentais adequadamente, sem confundi-las com as funções maritais.
• Trabalhar a dificuldade do casal em lidar e discriminar suas funções parental e marital.
• Mãe: Quando o Ricardo c contrariado fica gritando c dando escândalos, e o pai fica sempre ausente.
• Dificuldades do casal em lidar com a função parental.
• Trabalhar a dificuldade do casal em lidar com seus filhos, ao executarem suas funções parentais e como essas dificuldades repercutem em cada um deles.
• Pai: O Renato sempre briga porque o Ricardo não deixa ele brincar com seus amigos. Ricardo: Eu não vou brincar de casinha com ele. Não dá para brincar. Eu sou
bem maior que ele.
• Os pais têm dificuldades em perceber e respeitar as diferenças individuais de seus filhos.
* Que os pais possam perceber as diferenças de idade entre eles e possam respeitar a tentativa de individualidade de Ricardo.
• Pai: Ricardo deu-se muito bem em computação. Melhor que seu próprio irmão e tirou dez.
• Pais com dificuldades em discriminar as diferenças individuais de seus filhos.
• Que os pais possam respeitar as possibilidades dos filhos e valorizem suas produções positivas, respeitando sua individualidade.
190
DISCURSO DA FAMÍLIA
5" SESSÃO
• Os terapeutas propõem uma tarefa dentro da sessão: A família terá que desenhar a "planta" de sua casa.
HIPÓTESE
• Os membros da família têm dificuldade em discriminar suas funções e competências dentro da estratura familiar.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar para que a família possa perceber a função e o espaço ocupado por cada um. Que possam perceber os limites, os poderes e as hierarquias de cada um dentro
da família para que possam diferenciar-se e perceberem a posição de cada um dentro da estrutura familiar.
• Mãe: Nós temos dificuldades em "namorar". Primeiro porque ele sempre chega muito cansado e depois por falta de espaço, pois só temos um quarto. E namorar mesmo
só à noite, quando as crianças já foram dormir. Namoramos só no quarto. Ricardo: Ah! Não vou mais dormir. Terapeuta: Por que, Ricardo? Ricardo: Para eles não namorarem.
• O casal tem dificuldades em desenvolver suas funções maritais.
• Que o casal possa ampliar e fortalecer sua relação marital criando espaços para poderem relacionar-se mais intimamente como marido e mulher.
• O casal demonstra interesse e necessidades de atividades exclusivas do casal, como sair para jantar só ou mesmo viajar em férias.
• O casal percebe suas dificuldades de relacionamento marital e está tentando resolvê-las.
• Reforçá-los nessa necessidade e ajudá-los a criar situações em que esses momentos possam ser ampliados.
191
DISCURSO DA HIPÓTESE FAMÍLIA
6* SESSÃO
• Os terapeutas deram uma tarefa dentro da sessão: Todos os membros da família deveriam desenhar três portas, numerá-las de 1 a 3 e depois imaginarem o que encontrariam
ao abrir cada porta. Depois disso, os terapeutas disseram para que eles pensassem que a porta n" 1 seria o passado, a nfl 2 o presente e anfl3, o futuro, e o que
isso teria a ver com a vida deles.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• A família tem dificuldades em enfrentar seus conflitos. Não consegue demonstrar seus sentimentos nem coloca suas expectativas em relação a suas vidas.
• Trabalhar para que possam aparecer na família as dificuldades atuais. Que possam aparecer situações difíceis do passado e apareçam, também, as expectativas quanto
ao futuro. E de como todos esses aspectos estava interferindo na família como um todo.
• Pai: Eu tenho conversado mais com os meninos. Estamos até saindo para jogar bola. Mãe: Ah! Mas ainda falta muito para ficar bom. Pai: Ela não entende que não é
fácil mudar de uma hora para outra. Puxa! Eu tô tentando e acho que estou
melhorando. • O pai tem dificuldades em relacionar-se diretamente com os filhos. A comunicação entre eles é difícil e ocorre por
intermédio da mãe. ¦ Conotar positivamente a atitude do pai e incentivá-lo a continuar ampliando seu relacionamento com o filho valorizando essa interação e elevando
o pai na hierarquia da família. Trabalhar as expectativas da mãe e fazê-la perceber como desqualifica as tentativas de melhora
192
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Ricardo: Os meninos da escola não gostam de mim... Eu quero cortar o cabelo arrepiado e colocar brinquinho. Pai: Que é isso Ricardo? Estou te estranhando... Mãe:
É? Mas você esqueceu da época em que você usava cabelos compridos, óculos redondinhos e usava bolsa tiracolo?
• Ricardo: Mãe, você precisa ir lá na escola. A professora mandou. Mãe: Por que você não contou lá em casa? Tem medo que vamos te bater? Ricardo: Não! Aqui é psicóloga.
Tem que falar a verdade.
• Ricardo: Eu gosto que minha mãe arrume minhas coisas para ir para a escola. Terapeuta: Você gosta que ela te trate como um bebê? Ricardo: Ah! Não! Eu não gosto
desse negócio de ela me dar banho.
HIPÓTESE
• Ricardo tem dificuldades em individualizar-se como pessoa. Encontra-se ainda em uma posição de dependência, principalmente da mãe.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar o filho na sua tentativa de individualização conotando essas atitudes como uma possibilidade de crescimento de escolha e não pejorativamente como desqualificação,
agressividade e rebeldia.
• Ricardo tem dificuldades em comunicar-se abertamente e diretamente com os pais. Acaba fazendo-o muitas vezes por intermediários (professora, amigos, psicólogas).
• Trabalhar a dificuldade do filho Ricardo em comunicar-se diretamente com a mãe, para que possa fazê-lo sem necessitar de intermediários.
• Ricardo está tentando individualizar-se como pessoa e em muitos momentos fica confuso, tendo comportamentos oscilantes entre permanecer infantil ou tornar-se adulto.
• Trabalhar a luta de Ricardo no sentido da sua individualização e de como ainda se sente inseguro. Tendo comportamentos, ora mais independentes, ora mais dependentes.
193
DISCURSO DA FAMÍLIA
HIPÓTESE
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ricardo: A próxima vez que vienrios aqui, é meu aniversário. Mãe: Ainda não. E daqui a duas semanas. Ricardo: Quero comemorá-lo aqui. Pai: Fazer a festa aqui?
Ricardo: É.
• Necessidade de Ricardo de individualizar-se tendo a exclusividade de seu aniversário.
• Trabalhar como a família lida com ocasiões de comemorações, como as valorizam e como se relaciona com elas. Como percebe a necessidade de Ricardo de marcar seu
aniversário.
7" SESSÃO
• As terapeutas dão uma tarefa dentro da sessão para que cada membro da família escolha uma série de animais e lhes dê vários atributos.
• Os membros da família têm dificuldades em demonstrar emoções e sentimentos. Conseguem fazê-lo através de intermediários (terapeutas). A expressão de seus afetos
fica bloqueada.
• Que a família perceba sua dificuldade em comunicar-se abertamente, no que diz respeito às suas emoções e a seus sentimentos. Que possa ampliar esse tipo de comunicação
e relacionamento no seu dia-a-dia.
• Mãe: O Ricardo não está cumprindo a tarefa que vocês deram para que ele estudasse um pouco cada dia.
• Há dificuldades na família em colocar limites claros, por isso é difícil que hábitos, como o de estudar, sejam criados.
• Trabalhar as dificuldades que Ricardo tem em criar hábitos de estudos. E como pode realizar essa tarefa de maneira prazerosa e satisfatória. Trabalhar a dificuldade
dos pais em ajudar Ricardo a criar esses hábitos de estudo.
194
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Ricardo: Eu quero mudar de escola. Quero voltar à anterior. Lá eu tinha um grande amigo. Se eu voltar para lá, prometo que vou estudar todos os dias. Você vai
ver, mãe. (Terapeutas dão uma tarefa para Ricardo realizar em casa. Pegar uma folha de sulfite e escrever os dias da semana e marcar com um tracinho o dia em que
estudou. Depois trazê-lo na próxima semana para mostrar aos terapeutas.)
HIPÓTESE
• Ricardo tem dificuldades em relacionar-se. Fica inseguro ao ter que conviver em um novo ambiente. Esse problema acaba intensificando sua dificuldade escolar, pois
fica tenso e não consegue concentrar-se nem ter a atenção necessária para estudar.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades de Ricardo em relação a fazer novos amigos e ao envelhecimento que o casal demonstrou sentir.
• Mãe: Eu gostaria de ter um comércio que fosse só meu. Gostaria de voltar a estudar, mas me sinto velha para isso. Na minha idade já não dá mais. Pai: Aqui no nosso
país infelizmente com 40 anos você é considerado velho... Não me pegam em algumas firmas com horários fixos porque sou velho.
• O casal demonstra sentir necessidade de ampliar seu campo profissional, mas sentem-se inseguros quanto à sua capacidade de consegui-lo. Ele tem preocupações quanto
à velhice e como pode ficar prejudicado profissionalmente com o passar do tempo.
• Incentivar a mãe em suas expectativas positivas de produzir algo valorizando e fazendo com que perceba sua capacidade para realizá-lo. Trabalhar as expectativas
negativas e pessimistas do pai em relação ao futuro
195
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Já tive até depressão ao perceber que estou ficando velha e não consegui nada na vida. Os filhos crescendo... Quando chegar a velhice vou ficar sozinha. Pai:
Vamos ser dois caducos juntos.
HIPÓTESE
• A mãe teme que com o crescimento dos filhos ela fique velha e abandonada. Exclui o marido da relação, mas ele se faz presente.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar a mãe a sair dessa posição pessimista e perceber como exclui o marido. Ajudar os pais a ver aspectos mais positivos no envelhecimento. Que possam pensá-lo
como algo prazeroso e não destrutivo. Que possam pensar em algo que poderiam realizar depois de aposentados, incenti-vando-os a continuar produzindo.
8" SESSÃO
• A família comenta sobre o aniversário de Ricardo que é naquele dia. Ricardo: Eu fui até jogar bola hoje.
• A família tem determinadas expectativas quanto a datas comemorativas. O aniversário de Ricardo tem a ver com aspectos de sua maior independência e sua tentativa
de individualizar-se.
• Trabalhar com a família comemora os dias marcantes. Qual é a importância que dão a esses dias comemorativos. Como os percebem.
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DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: O Ricardo não cumpre a tarefa de estudar todos os dias como vocês disseram. Terapeutas: Nós exageramos. Duas horas eram muito. Meia hora também é difícil,
você não consegue... O ideal seriam cinco minutos.
HIPÓTESE
• A mãe usa a autoridade do terapeuta em relação a Ricardo, pois não se sente em condições de exercer sua própria autoridade.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades de Ricardo em sua organização para as atividades escolares. Desafiá-lo em sua competência para que possa superar-se. Trabalhar a dificuldade
da mãe em ajudá-lo nessas dificuldades escolares diretamente, sem que precise de intermediários.
• Pai: Ela não tem mais paciência para estudar com Ricardo, mas esta semana eu consegui ajudá-lo em suas dificuldades com o inglês, inclusive o ensinei a usar o
dicionário.
• O pai sente-sc incapaz de auxiliar o filho em suas dificuldades.
• Valorizar o interesse do pai em auxiliar o filho e incentivá-lo a ampliar seu relacionamento com o filho.
• Mãe: Eu pensei em levá-lo (Ricardo) ao neurologista para fazer uma tomografia para ver se tem algo a mais na cabeça dele. Um eletro que ele fez deu hiperatividade.
• A mãe se sente insegura com as dificuldades do rilho e procura uma justificativa, mesmo que orgânica, para explicar essas dificuldades.
• Que a mãe possa ver e compreender as reais necessidades de seu filho, sem precisar ampliá-las demasiadamente.
197
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: O Renato é ótimo aluno. Só tira notas boas. Não dá trabalho. O Ricardo tinha que ser igual a ele.
• As terapeutas dão uma tarefa para a família: mãe, pai e Renato. Eles terão que fazer um presente de aniversário para dá-lo a Ricardo no final da sessão, já que
é seu aniversário (pirografar um porta-retrato dc madeira).
• Ricardo: Agora estou com 12 anos. Muitas coisas vão mudar.
9" SESSÃO
• Mãe: Nós faltamos à sessão passada porque o Valdemar teve um ataque de úlcera.
HIPÓTESE
• A mãe procura uma similaridade entre os filhos, pois se isso acontecesse ela ficaria mais segura em lidar com as dificuldades.
• A família, principalmente os pais, desqualificam Ricardo. São muito críticos e intransigentes com ele.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Que a mãe possa perceber e respeitar as diferenças dos filhos. Que não procure uma similaridade entre eles, que não é possível nem positivo.
• Trabalhar junto à família para que eles possam valorizar Ricardo, elevando-o em sua competência e colocá-lo em uma posição em que possa receber coisas boas da
família.
• Ricardo quer ter maior independência em seu ambiente, embora às vezes fique muito confuso com isso e tente manter-se em uma posição de dependência.
• Trabalhar suas expectativas, bem como as de toda a família em relação ao desenvolvimento dos filhos. Trabalhar sua evolução e o caminho para uma maior independência.
• A família parece usar de somatizações para lidar com situações difíceis.
• Ver como é que a família trabalha com as dificuldades orgânicas que aparecem dentro da família. Que importância dão a elas.
198
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: No início do casamento eu tive muitas dificuldades em fazer comida. E tive dificuldade para me adaptar à família dele, pois eles não eram muito unidos, enquanto
que a minha era muito. Pai: Eu também tive dificuldades, pois a família dela era muito próxima e eu era acostumado a resolver tudo sozinho. Mãe: Eu queria ter filhos
logo, ele não. Hoje vejo que ele tinha razão e invejo quem esperou de cinco a seis anos para ter filhos. Ele tinha ciúmes no nascimento dos filhos, principalmente
de Ricardo. E Ricardo teve ciúmes do irmão, pois queria uma menina. Quando Ricardo entrou na escola eu trabalhava e foi muito angustiante para mim a sua entrada
na escola. Ricardo foi expulso do maternal. Era hiperativo. Foi medicado, mas ficou largadinho, por isso parei o tratamento.
HIPÓTESE
• O casal teve dificuldades para se adaptarem ao casamento. Ambos estavam muito ligados a suas família de origem. O casal teve dificuldades em separar a função parental
da função marital. Ficavam confusos e não conversavam a respeito.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as diferenças das suas famílias de origem. As expectativas que tinham em relação à formação da própria família. Que possam perceber as fases pelas quais
já passaram desde o início do casamento e o que ainda podem passar, como algo comum e esperado dentro do ciclo de vida familiar.
Descrição e análise de famílias atendidas
199
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Ricardo: Ah! Quero ver quando eu tiver 18 anos. Pai: Quando a gente começa a pensar que logo, logo, ele vai se tornar independente, que não teremos mais controle
sobre ele, dá um medinho. Mãe: Dá um pavor. E pelo jeito que ele fala, que sempre falou, dá para perceber que ele quer ser mesmo bastante independente. Então assusta
um pouco.
HIPÓTESE
• Os pais têm dificuldades em lidar com o crescimento dos filhos. Parecem estar fixados a fases anteriores de desenvolvimento dos filhos, como a primeira infância,
em que tinham um maior controle sobre eles.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades dos pais em lidar com o envelhecimento, pois encaram o crescimento e o amadurecimento dos filhos como algo assustador e problemático.
Os pais temem perder o controle sobre os filhos.
• Mãe: Nós costumamos conviver com os amigos de nossos filhos. Nós os incentivamos a virem fazer trabalhos em casa e sempre os recebemos bem. Ricardo: Eles adoram
vocês. Acham você superlegal.
• Os pais incentivam a vinda dos amigos dos filhos a sua casa como uma forma de controlá-los. Têm dificuldades em apoiar a independência deles.
• Que os pais possam perceber e apoiar as tentativas de independência dos filhos, ao ampliarem seus relacionamentos sociais, sem sentirem-se ameaçados ou abandonados
por essa atitude deles. Que essa atitude dos pais seja uma forma de crescimento e não de controle.
200
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai: Eu me preocupo com as drogas.
HIPÓTESE
• O pai teme que seu filho tenha problemas e que ele não tenha controle ou mesmo desconheça a situação.
• Pai e mãe falam como se sentem melhor para investir em uma nova carreira profissional para eles. Pai: Hoje em dia, com 40 anos já somos velhos. Mãe: Se eu fosse
nova poderia voltar a estudar.
• Os pais estão tendo dificuldades cm lidar com a nova fase de desenvolvimento do ciclo vital pelo qual estão passando. Têm expectativas angustiantes e pessimistas
sobre o seu futuro próximo.
• Pai: Ela quer que eu seja igualzinho a ela. Que lhe conte tudo o que acontece comigo, tintim por tintim.
• A mãe sente-se insegura com o comportamento do marido que é diferente do seu.
• Mãe: Eu tenho vontade de trabalhar em casa e depois que eu 'crescesse' poderia abrir um comércio só meu.
• A mãe tem expectativas quanto às suas possibilidades produtivas, mas sente-se insegura para realizá-las.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar essas preocupações como gerais que qualquer pai deve ter para que se possibilite uma boa relação entre pais e filhos. Que eles possam realmente orientá-los
em suas dúvidas e dificuldades.
• Trabalhar as dificuldades do casal em lidar com o aspecto dc crescimento e envelhecimento. Que possam ter uma atitude mais positiva em relação ao amadurecimento
e às novas fases da vida pelas quais todos passamos.
• Trabalhar as dificuldades do casal em aceitar as diferenças individuais, sem sentirem-se ameaçados com isso.
• Incentivá-los em suas expectativas e trabalhar para que possam concretizar suas intenções.
201
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Pai e mãe falam das expectativas em relação às escolhas profissionais dos filhos. De sua independência e de como isso os assusta.
HIPÓTESE
• Os pais sentem-se inseguros e angustiados em relação à possibilidade de independência dos filhos. Tentam mantê-los em uma posição de dependência sem perceber o
que fazem.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades do casal em enfrentar essa fase de desenvolvimento e maior independência dos filhos. De como se sentem sozinhos e desprotegidos para
enfrentar as exigências que essa nova fase trará.
• Ricardo: Eu e meu pai vamos fazer um curso de computação juntos. Pai: Agora ele vai ter que me ensinar, porque ele já começou o curso e eu ainda não.
• O pai tenta aproximar-se do filho em uma atitude mais positiva e afetiva.
• Incentivá-lo e valorizar a relação mais íntima e estreita entre eles, e como um pode auxiliar o outro, cada um a seu modo.
10" SESSÃO • Ricardo: Eu queria ter uma sessão só com meu pai. Mãe: Assim vocês poderiam falar mal de mim. Eu sei que sou muito nervosa e brigo muito, principalmente
com o Ricardo.
• A mãe sente-se ameaçada e abandonada com a proximidade do filho com o pai, pois sente-se excluída dessa relação.
• Ajudar a mãe a não se sentir ameaçada com essa aliança do filho com o pai, e sim que possa valorizá-la.
202
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Eu não consigo controlar a eles. Não me obedecem, não me respeitam. Gritam e são mal-educados. Fracassei como mãe. Pai: Também me sinto um fracasso.
• Ricardo: Todos estão contra mim, não adianta eu falar nada... Eu não gosto da amiga da minha mãe nem do meu tio que só sabe falar mal de nós. Mãe: Eu me afastei
dela por você, mas você não merece. Não faz nada para melhorar.
• O casal discute por problemas ocorridos em suas famílias de origem... Ricardo: Vocês parecem criança... vão acabar se separando por causa dessas brigas e eu não
vou querer ficar com nenhum de vocês. E vocês, mesmo separados, ainda vão continuar brigando por telefone.
HIPÓTESE
• Os pais sentem-se ameaçados com a maior independência dos filhos. Sentem-se fracassados com a possibilidade de perderem o controle sobre o comportamento deles.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Trabalhar as dificuldades do casal em lidar com os filhos. Como se sentem desvalorizados perante essas dificuldades, devem trabalhar para que possam superá-las
e se tornarem mais competentes.
• Ricardo sente-se excluído do relacionamento de amizade da mãe com outras pessoas, sente-se abandonado por ela, ficando inseguro sobre o afeto dela por ele.
• Trabalhar com Ricardo essa sensação de punição e abandono. Que possa perceber o uso que ele e a mãe fazem dessa situação.
• O casal apresenta conflitos entre si devido a problemas não resolvidos com sua família de origem. Ricardo percebe a situação e sente-se angustiado com isso.
• Que o casal possa perceber a dificuldade em se desvincular de suas famílias de origem e assumirem totalmente a família atual como sendo de responsabilidade única
e exclusiva deles.
203
DISCURSO DA FAMÍLIA
• Mãe: Eu sou mesmo um fracasso como mãe. Pai: Não é isso. É que as pessoas vão perdendo a paciência mesmo.
HIPÓTESE
• A mãe fica insegura quanto a seu papel parental. O marido a apoia, pois também é inseguro em sua função parental e pode compreender a angústia da mãe.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Ajudar a mãe a sentir-se mais competente e perceber que pode contar com o apoio do marido.
• Mãe: Quando eu era criança tinha medo de perder a minha mãe. Quando ela ficava quieta, dormindo, eu tinha a impressão de que ela havia morrido. Acho que passei
esse medo para o Ricardo e acho que ele tem medo por isso. Eu tive dificuldade em estudar depois que o Ricardo nasceu.
• A mãe sente-se insegura em sua função parental, pois ainda está muito ligada a conflitos com sua família de origem.
• Que a mãe possa continuar trabalhando suas dificuldades com sua família de origem para que possa individualizar-se cada vez mais e possa elevar-se em sua competência
e hierarquia dentro da família nuclear (marido e filhos).
• Pai: É. O Ricardo não quer estudar e se ele não estudar terá dificuldades como eu tenho agora para arrumar bons trabalhos por não ter estudado.
• O pai sente-se inseguro, incompetente e insatisfeito em suas funções profissionais.
• Que os pais possam discriminar as dificuldades que tiveram na infância das que seus filhos estão tendo agora para poder ajudá-los em seu crescimento e mesmo a
ajudar-se, podendo elevar a sua auto-estima, que anda baixa, tanto em relação às funções parentais quanto às funções maritais.
204
DISCURSO DA FAMÍLIA
11* SESSÃO
• Terapeutas trabalham o que cada um 'levou' da Terapia Familiar Breve. Mãe: Eu vou levar o estar junto, me descobrindo. O carinho que vocês nos deram, as orientações
de como agir com o Ricardo. Pai: Eu vou levar a compreensão, a atenção, o carinho e a paciência que vocês tiveram para nos escutar. Com isso aprendi a ter mais paciência
com eles. Ricardo: Estou levando que aprendi a não ser mentiroso. Aprendi que tenho que estudar, obedecer a meus pais, conversar com eles e, se pudesse, levaria
as terapeutas para minha casa. Renato: Vou levar as brincadeiras, a alegria, a conversa e que minha mãe chorou.
HIPÓTESE
• Os pais puderam perceber suas dificuldades em se relacionar com seus filhos. Perceberam suas inseguranças como pais e como marido e mulher. Os filhos perceberam
os conflitos dos pais e puderam perceber seu relacionamento com eles.
OBJETIVOS TERAPÊUTICOS
• Verificar se a família pôde se ver de forma diferente, se pôde perceber suas mudanças e evoluções dentro do processo terapêutico.
205
IV - Posição de cada membro da família ao final da Terapia Familiar Breve
Pai
• Mostrando-se mais competente em lidar com os filhos.
• Conseguindo sair para jogar bola com Ricardo.
• Pensando em fazer um curso de computação junto com o filho Ricardo.
• Percebendo que critica muito o Ricardo e que reclama com Renato achando que ele é igual ao Ricardo, percebe como isso pode prejudicá-los e que não é justo criticá-los
dessa maneira nem compará-los.
• Conversando mais com todos e tendo mais paciência no ambiente familiar.
• Tendo melhor relacionamento com a esposa e a entendendo melhor.
• Apoiando a esposa a voltar a estudar.
•Apoiando a ter um trabalho autônomo, montando um comércio (fazer bolos para fora).
• Pensando em negociar com a firma para poder dar continuidade a seus estudos na faculdade de Engenharia.
Mãe
• Tendo maior compreensão das dificuldades de Ricardo e podendo ajudá-lo mais adequadamente.
• Podendo auxiliar Ricardo em seus estudos sem irritar-se. Pensando em colocar-lhe um professor particular.
• Podendo também auxiliar Renato em suas dúvidas escolares.
• Conversando mais com os filhos, evitando gritar.
• Pensando em voltar a estudar.
• Pensando em montar um comércio, como autônoma, podendo trabalhar em casa (fazer bolo), para futuramente expandir.
• Conversando mais com o marido sem criticá-lo nem culpá-lo pelas dificuldades de relacionamento com os filhos.
• Tendo maior compreensão em relação à família de origem do marido, não se sentindo invadida por eles.
• Pensando em ter maior número de saídas com o marido
206
para se relacionarem melhor a dois, sem se preocupar com os filhos.
Ricardo
• Conseguindo lidar um pouco melhor com suas dificuldades escolares. Recebendo ajuda da mãe sem ser agredido por ela.
• Organizando seus horários para poder estudar, poder jogar bola e fazer um curso de computação junto com o pai.
• Continuando com sua medicação e tratamento neurológico, sem sentir-se ameaçado por ele e compreendendo que isso o ajudará a desenvolver-se.
• Podendo aceitar um professor particular para auxiliá-lo
em suas dificuldades escolares.
• Podendo relacionar-se melhor com o irmão, brincando
mais com ele. Renato
• Relacionando-se melhor com o irmão.
• Relacionando-se melhor com a mãe, percebendo que ela fica triste e chora quando está com problemas.
• Querendo brincar mais e ficar mais alegre em sua vida.
CONCLUSÃO
Visto que nosso objetivo era estabelecer uma base teórico-técnica com vistas a uma nova abordagem terapêutica em clíni-cas-escola construímos um modelo mais simples,
prático e adequado ao nível dos terapeutas-estagiários e da clientela, com implicações de uma avaliação dos efeitos dessa abordagem sobre as famílias atendidas no
sentido de estabelecer em que medida o tratamento favoreceria sua evolução e/ou quais mudanças ocorreriam e como ocorreriam, examinaremos as condições em que o trabalho
se realizou; de que maneira os terapeutas-estagiários desempenharam suas funções e como se deu o processo de supervisão, o acompanhamento de todo o desenvolvimento
da terapia e, finalmente, as implicações da implantação desse trabalho em clí-nicas-escolas e outras instituições dedicadas à saúde mental.
Podemos considerar que o trabalho atingiu plenamente seus objetivos, pois em todas as famílias ocorreram mudanças significativas, das quais enfatizamos o desaparecimento
da queixa e da figura do paciente identificado (PI).
O desaparecimento da figura do PI ocorreu em todas as famílias, mesmo naqueles casos em que se evidenciaram problemas orgânicos, como lesão cerebral ou nas famílias
que não puderam concluir as dez sessões. A família de um paciente com lesão cerebral, por exemplo, pôde conhecer a extensão do problema desse paciente e passou a
tratá-lo de maneira adequada, ou seja, não exigindo dele desempenhos superiores às suas possibilidades. Outra família compareceu a cinco sessões e pôde perceber
a existência do conflito marital que viviam. O casal deixou de usar o filho como intermediário de sua disfunção e decidiu inscrever-se em terapia de casal.
Quanto à queixa, em algumas famílias, aconteceu de, ao desaparecimento da queixa inicial suceder uma outra e, desaparecendo esta, surgir uma terceira. A queixa inicial
desaparecia, freqüentemente, já nas primeiras sessões. Todas as 'novas' queixas, trabalhadas desde o início, desapareceram no decorrer das
208
sessões. Portanto, foram resolvidas, tanto a queixa inicial quanto aquelas que foram aparecendo.
Além dessas, várias outras mudanças ocorreram no sistema familiar como um todo.
Os pais passaram a desempenhar adequadamente as funções parentais e a discriminá-las das funções maritais. Essa discriminação possibilitou que a maioria dos casais
tivesse, entre si, um convívio mais harmonioso. Outros compreenderam a necessidade de uma terapia de casal. Houve, ainda, um casal que achou melhor não tentar uma
reconciliação, mas compreendeu que a separação não implicava em abdicar das funções parentais.
Chamou-nos a atenção o fato de que algumas ocorrências foram comuns a quase todas as famílias.
Uma dessas ocorrências diz respeito à constituição das famílias. Das doze famílias, dez eram do tipo tradicional, ou seja, constituída pelo casal e filhos. As outras
duas apresentavam constituições diferentes: uma era trigeracional, compreendendo a avó, a mãe, viúva, e suas duas filhas; a outra era constituída por uma mãe solteira
e seu filho, sendo que o pai do menino compareceu às sessões.
Outras ocorrências comuns observadas foram: a influência da família de origem sobre a família atual, cada um dos cônjuges tinha dificuldade de separar-se de sua
família de origem, ou discriminar entre as funções parentais e maritais, com maior prejuízo para as funções parentais (todas as famílias); o desaparecimento da figura
de paciente identificado (PI) no decorrer da terapia (todas as famílias); a assiduidade às sessões, com faltas ocasionais de algum membro, geralmente por imposições
de suas atribuições cotidianas, e uma ou outra falta em virtude da mobilização provocada pela sessão anterior (todas as famílias); a comunicação adequada de todos
os membros durante as sessões (todas as famílias).
Julgamos oportuno apontar algumas peculiaridades dos procedimentos, compatíveis com as premissas da Terapia Familiar Breve.
Houve casos que requereram intervenções instrutivas para que se pudesse orientar a família a procurar procedimentos diagnósticos mais adequados. Trata-se de famílias
cujos membros
209
apresentavam problemas evolutivos, com acentuadas lesões cerebrais, para os quais, naquele momento, o mais adequado seria buscar um recurso mais específico, como
foi o caso de uma família em que todos os membros estavam intelectualmente prejudicados e esse atendimento específico poderia oferecer-lhes ajuda mais eficiente
para os problemas apresentados possibilitando-lhes encontrar meios mais eficazes para fazer frente às vicissitudes e, mais confiantes, tivessem uma integração social
mais adequada, um futuro mais promissor. As intervenções instrutivas objetivaram obter que a família compreendesse a necessidade e soubesse como utilizar os recursos
oferecidos pela comunidade para os quais foram encaminhados, de acordo com as especificidades de cada membro ou subsistema: terapia de casal, neurologia, tratamento
psicomotor, fonoaudiologia e classe de educação especial.
No atendimento de duas famílias houve a necessidade de se separar o casal dos filhos e fazer sessões só com o casal, porque ficou claro, para a equipe terapêutica,
que muitos assuntos ligados às funções maritais estavam prejudicando o relacionamento de toda a família e que na discussão desses assuntos, não cabia a presença
das crianças.
Quanto à supervisão, a Terapia Familiar Breve permite que o acompanhamento do atendimento seja feito passo a passo. Foi mantido um esquema, que implicava em retomar
pontos essenciais da estrutura familiar, suficientes para que o estudante desse nível de aprendizagem pudesse realizar um bom trabalho. Nesse ponto, cabe lembrar
que o enquadre e a maneira de proceder da Terapia Familiar Breve equipara-a com qualquer outra atividade de estágio de terapia já existente nas clínicas-escola,
tais como psicoterapia de crianças, de adolescentes, de adultos, de grupos e outras.
Vários aspectos puderam ser observados a partir da supervisão: os estudantes de psicologia com o mesmo grau de escolaridade dos que participaram desta experiência
serão capazes, como estes foram, de realizar um bom trabalho, pois a Terapia Familiar Breve possibilita que sejam instrumentalizados com premissas básicas claras
e objetivas, acompanhados proximamente pela supervisão e orientados, tanto para a análise dos pontos estruturais quanto para a manutenção do foco no problema, como
convém a qualquer terapia breve.
210
Uma análise detalhada das implicações da Terapia Familiar Breve para o estudante-estagiário demandaria um estudo em profundidade, não cabendo, portanto, no presente
trabalho. Contudo, embora o exame do desempenho do estagiário não fosse objeto de nosso trabalho, consideramos oportuno tecer alguns comentários a esse respeito.
De início havia alguns receios quanto à possibilidade de surgirem algumas dificuldades. Receávamos que a crença de alguns estagiários de que é mais difícil atender
uma família do que atender uma pessoa, individualmente, viesse a criar embaraços para o progresso da psicoterapia. Esse receio não se concretizou. Outro motivo de
receio, que mostrou ter seu fundamento em pelo menos duas oportunidades, era que alguns casos pudessem trazer ressonância para alguns terapeutas. Houve ressonância
com uma das terapeutas que atendia a uma família em que o PI era fóbico e se recusava a ir para a escola. Acontece que a terapeuta tinha passado por experiência
semelhante em sua vida pessoal. Certa ocasião coube-lhe levar, diariamente, sua sobrinha para a escola. A menina recusava-se a entrar, chorava e ficava muito triste.
Nessa oportunidade a terapeuta sentira-se triste e impotente. Ao atender a família, as lembranças da situação de tristeza e constrangimento que vivera vinham-lhe,
tão fortemente, que lhe criavam dificuldades em lidar com a queixa.
Um outro caso de ressonância ocorreu com a parte masculina do casal de terapeutas. Nessa família, o pai era um metalúrgico, especiliazado em mecânica e o terapeuta-estagiário,
também um mecânico especializado, sentia dificuldade em manter o suficiente distanciamento terapêutico por ter vivido as mesmas dificuldades profissionais que o
paciente expunha. Essas ressonâncias, e outras menos notórias, foram discutidas na própria supervisão, visto que não apresentavam maiores complicações.
Consideramos que, para a clínica, o trabalho foi, também, proveitoso, pois como esse permite atender várias famílias em cada semestre com a participação de todos
os alunos nesse atendimento, ela pode oferecer um recurso a mais, tanto para a comunidade como para o aluno, na forma de uma modalidade de atendimento que se mostrou
eficaz.
Parece-nos, portanto, relevante para a conclusão deste tra
211
balho registrar nossa convicção de que a Terapia Familiar Breve, praticada pelos procedimentos que adotamos, pode ser realizada,' sistematicamente, nos estágios
supervisionados da clínica-escola desta instituição ou de qualquer outra semelhante; ou, até mesmo, em outros tipos de instituição que trabalham com saúde mental.
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títulos publicados pela
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Vols. I e II - Flávio Ferraz e Rubens Marcelo Volich OS SENTIMENTOS OCULTOS em... - Luis A. Chiozza O SINTOMA e A DISSOCIAÇÃO PSICO-SOMÁTICA Ricardo Prado Pupo Nogueira
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Edgar Madruga
http://groups.google.com.br/group/bons_amigos
Salvador/BA
5 arquivos anexados:
A família como modelo.txt
Daniel Sampaio e José Gameiro - terapia familiar.rar
relacionamento pais e filhos.txt
Técnicas de terapia familiar.doc
Terapia familiar breve.txt
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